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DOR E VONTADE

POR VIVIANE MOSÉ

Vivemos em excesso de vida. Vida sobre vida. Eu acho que falta um pouco de falta de ação, uma coisa da contrição, da observação”, diz o monge budista Daju Sam. O mosteiro zen budista Morro da Vargem, nas montanhas de Ibiraçú, Espírito Santo, é um lugar onde a disciplina rigorosa se transforma no caminho para o alto conhecimento e o equilíbrio entre a mente e o corpo. Lá, os monges exercitam a não ação. Tentam atingir um estado de contemplação diante dos desejos e paixões do mundo. Mas o que será que o zen budismo tem a ver com o pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer? Muitas coisas. Uma delas pode ser resumida em uma pergunta. Querer ou não querer? Para Schopenhauer, os homens são como marionetes, comandadas por fios invisíveis. Esses fios estão dentro de nós e se chamam vontade. A vontade, segundo o filósofo, é o princípio fundamental da natureza, a força cega e incontrolável que move o mundo. Uma força que se manifesta não só na natureza, mas no homem, desde os primeiros dias de vida. O bebbê quer a mãe, o colo, sugar. Cristina é a enfermeira-chefe de uma maternidade no Rio. Ela tem a tarefa de administrar as vontades de bebês que acabaram de nascer. Além disso, ela tem de lidar com suas próprias vontades: conciliar o trabalho, com o casamento e três filhos. Cristina quer sempre mais. “Quero que meus filhos dêem certo, como já estão dando. Quero fazer meu mestrado. Quero emagrecer até o ano que vem. Quero trocar de carro”, conta. Para Schopenhauer, o homem, como tudo na natureza, está sujeito à força universal da vontade. Pensamos que dirigimos nossa vontade, mas ela é uma fome insaciável, um querer irracional e inconsciente, sem ordem, nem objetivo, que nos domina. Schopenhauer dizia que essa força incontrolável transforma o mundo num absurdo cruel e doloroso. A vida é sofrimento, ele diz, porque é um constante

querer, eternamente insatisfeito. Toda a realização é o ponto de partida de novos desejos. E assim por diante. Na visão pessimista de Schopenhauer, a vida é uma queda perpétua em direção à morte. O prazer é apenas a ausência de dor. Não existe satisfação que dure para sempre. Neste mundo, onde o homem é marionete da vontade, a única liberdade viria da negação do querer, em não querer. Esta é uma forma de pensar que encontra, de certa forma, paralelo no budismo. “Quando é o desejo sobre o desejo, eu acho que isso atrapalha o homem. O excesso de vida vai acabar levando a uma grande morte”, diz o monge budista. Quando o homem nega o querer, o desejo, ele alcança uma paz imperturbável, uma calma profunda. A vontade, quando se desliga da vida, também se desliga da dor. Era o que Schopenhauer pensava. “Está faltando um pouco de silêncio, de plena observação. A sabedoria é a prontidão da mente. Esse mundo é impermanente. As coisas são transitórias. Você tem que estar sempre pronto para essa transitoriedade e para essa impermanência das coisas”, ensina o monge. Sofrer pode ser resistir a uma mudança constante que é necessária. E você pode atingir a alegria quando você entende a mudança e está nesse estado de prontidão. A individualidade, segundo Schopenhauer, também é uma grande fonte de dor. Nós sofremos porque o nosso querer particular entre em choque com o querer do mundo. Para o filósofo, o homem precisa se libertar da vontade individual e se reconhecer como parte de um todo, compartilhar com os outros o sofrimento de viver. É o caminho da compaixão. A filosofia do zen budismo está resumida na placa que se vê na frente do mosteiro. Ela diz: estudar budismo é estudar a si próprio. Estudar a si próprio é esquecer de si próprio. Esquecer de si próprio é estar uno com todas as coisas.

Na música. Isso proporciona um grande prazer. idade. o homem é capaz de contemplar essa força que o domina. na alma.00. Roberto Minczuk. o ar”. MOSÉ. realmente. Ela permite ao homem olhar a vida de fora. Ela não precisa ser explicada. ele consegue se distanciar do sofrimento. independente de raça. “Como se fossem moléculas.com/Jornalismo/FANT/0. Viviane.. Série exibida no fantástico da Rede Globo de Televisão em 25/09/2005. 2011. “A música é algo que se sente.Mas o pensamento de Schopenhauer encontra outra forma de se afastar da vontade: a arte. átomos. combinado. O filósofo chegou a dizer que a música é a explicação do mundo.globo. . explica Minczuk. Ser ou não ser: dor e vontade. em vez de ser arrastado por ela.html>. que.MUL696146-15607157. Disponível em: <http://fantastico. formam a água. que ele chama de vontade. entende a música”. Para Schopenhauer. idioma. a música é a mais importante das artes. Acesso em: 14 mar. diz o maestro e diretor artístico da Orquestra Sinfônica Brasileira. Assim. contemplar a unidade do mundo sem ser afetado pelas paixões individuais. ao menos por um instante. porque ela manifesta diretamente a essência íntima da vida. Ela é entendida de uma forma muito natural e qualquer pessoa.