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O MUNDO DE CÂNDIDO A literatura se caracteriza pela utilização de uma linguagem simbólica, ou seja, o autor nunca diz o que quer

dizer de forma direta, clara, objetiva. A metáfora, os exemplos, etc., são meios de se utilizar tal linguagem. Por isto, não se pode ler uma obra literária como se fosse um tratado político ou científico e não se deve tomar tudo ao pé da letra. O autor quer sempre transmitir uma mensagem e descobrir qual é a mensagem que Voltaire busca transmitir em Cândido ou o Otimismo é o nosso objetivo. É evidente que Voltaire usa a literatura para criticar os filósofos e artistas que ele repudia. A ridicularização da ideologia do “melhor dos mundos possíveis” de Leibniz é bastante fácil de se perceber. O filósofo Pangloss é a corporificação de Leibniz. Ele “lecionava metafísico-teólogo-cosmolonigologia” e era o preceptor dos filhos do Barão e do bastardo Cândido. Pangloss “provava admiravelmente que sem causa não há efeito, e que, neste melhor dos mundos possíveis, o castelo de monsenhor o Barão era o mais belo dos castelos, e a senhora baronesa a melhor das baronesas possíveis” (Voltaire, 1984, p. 26). Voltaire ironiza Pangloss: para este, as coisas não poderiam ser de outra maneira e tudo foi feito para um determinado fim. Os narizes foram feitos para apoio dos óculos, as pernas para o uso dos calções, os porcos para serem comidos, etc. Certo dia, a Srta. Cunegundes, filha do Barão, viu “o maior filósofo da província” (Pangloss) “entregue a uma lição de física experimental com a criada-grave de sua mãe” e “como tivesse acentuada propensão para as ciências, observou, de fôlego suspenso, as experiências reiteradas de que se fizera testemunha; percebeu muito às claras a razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e afastou-se agitada, toda pensativa, toda cheia de desejo de ser sábia, calculando bem poder, também ela, ser a razão suficiente do pequeno Cândido, que poderia, por seu turno, ser a sua” (Voltaire, 1984, p. 27-28). O resultado disso é previsível: Cunegundes “encontrou-se com Cândido, ao voltar para o castelo, e enrubesceu: Cândido enrubesceu também. Deu-lhe bom-dia com voz entrecortada; Cândido respondeu-lhe sem saber o que dizia. No dia seguinte, depois do jantar, ao saírem da mesa, Cunegundes e Cândido se encontraram atrás de um biombo; Cunegundes deixou cair o lenço, Cândido apanhou; ela, inocentemente, segurou-lhe a mão, ao passo que, inocentemente, ele beijava a sua, com uma vivacidade, uma sensibilidade, uma graça toda particular; seus lábios se encontraram, seus olhos se incendiaram, os joelhos lhes tremeram, suas mãos perderam o rumo. O senhor Barão

Pangloss. ordenaram. através de Cândido. 28). etc. Por isso. 1984. a idade das trevas. p. etc. onde se despreza o ouro e não tem igreja e monges. Entretanto. No decorrer da narrativa se desenrola uma série de catástrofes que se abate sobre os indivíduos (Cândido. Cândido foi expulso do castelo. Mas a viagem ao novo mundo significa que. portugueses. e. Ah! Que diria mestre Pangloss.(. ao mesmo tempo.) e sobre as sociedades (guerras.) e não existe mais nenhum “estado de natureza” no continente americano. o homem em seu estado natural não é necessariamente bom. Voltaire critica. depois de retemperada. O objeto da crítica passa a ser Rosseau. Cunegundes desmaiou. O “homem selvagem”.. O “mito do bom selvagem” é destruído através de duas constatações: em primeiro lugar. bom por natureza. como demonstra os selvagens chamados “orelhões”. esbofeteou-a a senhora baronesa. a injustiça que reina no castelo e a ideologia que afirma ser este o “melhor dos mundos possíveis”. emerge no interior do novo mundo um lugar onde os selvagens (os não-europeus) são bons e civilizados: o Eldorado. o mundo novo já foi corrompido pelos europeus (espanhóis. Os príncipes. Porém.. É através da razão que ele se humaniza. o otimismo. em segundo lugar. vive-se na harmonia e na paz. com o consentimento da . torna-se questionável a filosofia de Pangloss. expulsou Cândido do castelo a violentos pontapés no traseiro. Eles confundem Cândido e seu companheiro Cacambo com jesuítas e querem comê-los. O homem não é bom e nem mau por natureza. 76). terremotos). é questionado. Cândido e Cacambo chegam neste lugar por acaso e levados pela correnteza incontrolável de um rio. se visse a pura natureza?” (Voltaire. o principal argumento existente contra a bondade natural dos selvagens. Mas a sociedade de transição que cerca o castelo também não é o melhor dos mundos possíveis. O que significa o castelo? Ele significa o mundo feudal. Cândido afirma: “vamos certamente ser assados ou cozidos.) passou perto do biombo. p. Voltaire muda o foco de sua crítica. A relação de vassalagem está presente e a separação entre nobres e plebeus proíbe a união entre Cunegundes e Cândido. 1984. no passado. e tudo foi consternação no mais belo e no mais agradável dos castelos possíveis” (Voltaire. Assim. jesuítas. um filósofo das luzes não poderia sustentar que o homem no seu estado natural seja mal. Neste país estranho. O Barão “era um dos mais poderosos suseranos da Vestfália”. Assim. A “pura natureza” convive com o canibalismo. ao ver aquela causa e tal efeito. Cunegundes.

Segundo o rei: “é impossível subir a correnteza que aqui vos trouxe por milagre. Lá estão juntos Cândido. mesmo assim. a concluir sua promessa. Aqui. pois. todavia. Isto significa. a saída é bastante difícil. O Eldorado só continua existindo graças ao seu isolamento. ele encontraria a oposição do filho do Barão e irmão de Cunegundes. não se pode descer senão por precipícios” (Voltaire. Lá encontram seis reis destronados. da burguesia nascente. novamente. . seis reis destronados com quem vimos de cear! E ainda entre eles há um a quem dei esmola. cada uma.nação. significa. e são retas como muralhas: elas ocupam. p. devido a impertinência do Barão. um retorno ao “paraíso celeste”. É difícil para um estrangeiro viver em tal lugar. O reencontro com Cunegundes é surpreendente. 1984. 124). ao mesmo tempo. do “terceiro estado”. Mesmo se quisessem. p. Entretanto. Passam pela França. retorno impossível após se comer o fruto da árvore do conhecimento. Cândido estava determinado. é o último que dá esmola ao primeiro. de largura. p. se vê a oposição entre a nobreza (e o mundo feudal e das trevas que ela representa) e o mundo dos plebeus. apesar de suas vantagens. As montanhas que circundam meu reino têm de altura dez mil pés. pois ela havia perdido sua beleza. o bondoso rei manda construir uma máquina engenhosa para transportar os dois estrangeiros. Inglaterra e chegam à Veneza. a decadência da nobreza provocada pela artificialidade da forma como ela conquista suas riquezas e a mudança na relação entre um nobre e um plebeu. mas. 86). um espaço de mais de dez léguas. chegar em Eldorado é quase impossível e tal reino se mantém puro porque os estrangeiros não conseguem chegar até lá e os habitantes não querem sair de lá. Cândido e Cacambo resolvem partir e isto significa que o Eldorado não é o nosso mundo e nem foi feito para nós. Apesar de não ter o mínimo desejo de casar. Cândido acaba chegando a Constantinopla. Cândido retorna à Europa. Pangloss. 1984. que nenhum habitante pudesse sair do reino. Por isto. hoje. 83). 1984. Logo se desfizeram do Barão e assim puniram “o orgulho de um Barão alemão”. Depois de muitas outras catástrofes. sob arcadas de rochedos. Entretanto. Portanto. Cândido afirma: “eis aí. portanto. O “paraíso terrestre” é um lugar que nos impede de amar (Cândido) e de aventurar-se pelo mundo (Cacambo). Cândido manteria sua promessa de casamento. Cunegundes e outros companheiros de aventuras. Segundo o rei: “foi isto que nos conservou a inocência e a felicidade” (Voltaire. É possível existirem muitos outros príncipes ainda mais desventurados”(Voltaire.

A concepção de Voltaire é parecida com a de Locke (1978): o “estado de natureza” não era tão ruim como Hobbes supunha. se não tivésseis perdidos vossos carneiros da boa terra de Eldorado. O filósofo Pangloss diz: “todos os acontecimentos se encadeiam no melhor dos mundos possíveis. concordava com este na relação que ele via entre propriedade e trabalho. se não tivésseis assestado uma boa espadada no Barão. não estaríeis agora comendo confeitos de cidra e pistachas” (Voltaire. uma ideologia (inversão da realidade) burguesa. se não tivésseis sido expulso de um belo castelo a grandes pontapés no traseiro. Cândido respondia que é preciso trabalhar. Em síntese. p. O primeiro Pangloss é um ideólogo da nobreza e o segundo é o ideólogo da burguesia. Leibniz é o Pangloss do feudalismo e Voltaire é o Pangloss do capitalismo. porque. p. mais uma vez se opõe nobreza e burguesia. afinal. se não tivésseis ido parar em mãos da inquisição. todos se colocam a trabalhar na granja de Cândido e a “fazendola rendeu muito”. Aliás. No seu lugar instaura o otimismo das luzes. 1984. mas uma crítica ao otimismo da nobreza. Vê-se. pois a instituição do “estado social” e da propriedade burguesa é realizada para vivermos “melhor”[2]. Segundo o velho: “o trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio. 137). O trabalho é que justifica a propriedade. leitor e admirador de Locke. por amor da senhorinha Cunegundes. a pé. vemos uma inversão: é o mundo da granja. Voltaire abandona a crítica da nobreza para fazer a apologia da burguesia. No final da narrativa. Cândido e seus amigos resolvem fazer o mesmo. portanto. O mundo burguês torna-se o “melhor dos mundos possíveis”. o vício e a necessidade” (Voltaire. o mundo das luzes e da burguesia. que a granja e o trabalho representam a propriedade burguesa. A granja não significa retorno à pequena propriedade (pois ela é símbolo da propriedade burguesa) e nem é uma “utopia pequeno-burguesa”. Voltaire. na verdade. O objetivo de Voltaire é contrapor o século das luzes à idade das trevas e . no final da narrativa de Cândido ou o Otimismo. Cândido diz que o velho conseguiu uma vida preferível à dos seis reis destronados. não expressa nenhuma “utopia pequenoburguesa”[1]. 136).O final da obra é um elogio a vida burguesa. Assim. portanto. 1984. se não tivésseis percorrido a América. A granja é apenas um símbolo da propriedade burguesa e. que é o “melhor dos mundos possíveis”. Depois de se encontrarem com um velho que cultivava o seu jardim e produzia sua própria riqueza através do trabalho. ou seja. podemos dizer que Cândido ou o Otimismo não é uma crítica ao otimismo. sendo.

Quando Candido entra em Eldorado ele encontra um mundo muito melhor.demonstrar a superioridade do primeiro. Candido é uma das sátiras mais famosas que existem. aqui está a tradução: -> Como trazia ao dedo um enorme diamante. O jovem Candido foi criado pelo filósofo Pangloss que sempre o disse que tudo sempre acontece para o melhor e que eles vivem no melhor mundo possível. E nós. Embora Voltaire nos dá inúmeros casos de hipocrisia e imoralidade nos líderes religiosos. vendo isso o Rei o perdoa e o manda para a guerra…A história é super melodrámatica e irrealista. teve em seguida junto a si dois médicos que não . et deux dévotes qui faisaient chauffer ses bouillons. depois de rico de repente todos viraram seus amigos. Porém ele acha que se ele voltar para o “mundo real” com uma grande fortuna todos seus problemas irão acabar. De qualquer forma. ele não condena o simples religioso. depois ele é forçado a ir para o exército onde ele apanha e uma hora é dado a escolha entre morrer e sofrer tortura. e como haviam notado na sua bagagem um cofre extraordinariamente pesado. e todos eles eram os mais cruéis quando Candido não mantinha a mesma opinião que eles. já o Kierkegaard me deixou até meio pra baixo (minha mãe me obrigou a ler outro livro na época que estava lendo um dele (rs)). praticamente perfeito. e em cada fracasso Candido começa a repensar na filosofia do seu adorável Panglos. há um livro que crítica e tira um sarro dos otimistas e conformistas demais: Candido ou o Otimismo do Voltaire. que eram otimistas e conformistas ao ponto de achar que tudo está nas mãos de Deus. continuamos otimistas e vivendo no “melhor dos mundos possíveis”. onde não há tanta ganancia e hipocrisia. Jacques por exemplo é um protestante mas é um dos personagens mais generosos e humanos da história. et qu’on avait aperçu dans son équipage une cassette prodigieusement pesante. Primeiro ele é expulso do castelo onde vive por beijar sua amada. quando ele era pobre ele não tinha ninguém para o ajudar. Em Candido Voltaire também satiriza a hipocrisia da religião fazendo com que vários líderes religiosos sejam falsos e corruptos. O que é um pensamento errado pois ele fica ainda mais infeliz com tanto dinheiro e tem que assistir a todo instante ladrões roubando-o. Porém o que o Candido passa é só desastre. quelques amis intimes qui ne le quittèrent pas.” (XXII) Essa parte simplifica o que eu disse antes. Muitas vezes filósofos são criticados por serem pessimistas demais. Não são todos os filósofos que são pessimistas. Depois de levar tanta chicotada sua pele quase sai do corpo. Seu dinheiro prova mais ainda que com ele ele atrai vários amigos falsos. Por exemplo a Inquisição que “mata” Pangloss por exprimir sua opinião e torturam Candido por simplesmente o escutar. eu não considero Nietzsche um pessimista por exemplo. herdeiros do iluminismo. que nós vivemos num mundo maravilhoso e que tudo é sempre para o melhor da humanidade. Voltaire escreveu essa história numa época na qual havia muitos filósofos assim. il eut aussitôt auprès de lui deux médecins qu’il n’avait pas mandés. De acordo com esses filósofos pessoas como Voltaire não conseguem ver o “grande plano” de Deus. “Comme il avait au doigt un diamant énorme.

fora do jardim as pessoas sofrem e são recompensadas por nenhuma razão lógica. apesar todas suas misérias. na qual. causa e efeito é fácil de discernir. No jardim. alguns amigos íntimos que não o deixavam. daí tem uma das mais famosas frases do Voltaire. os personagens decidem agarrar. que é “mas devemos cultivar nosso jardim”. No final Candido e seus amigos se tornam fazendeiros e acham que essa vida é a melhor que eles poderiam ter. porém. Finalmente o jardim representa a cultivação e propagação da vida.mandara chamar. . Jardim é um grande símbolo nesse livro. e duas devotas que lhe preparavam os caldos.