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Coleção Antônio de Morais Silva

ESTUDOS
DE

LÍNGUA PORTUGUESA

Academia Brasileira de Letras

Linguagem e Estilo de Machado de Assis, Eça de Queirós e Simões Lopes Neto

Academia Brasileira de Letras

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira

Coleção Antônio de Morais Silva
ESTUDOS
DE

LÍNGUA PORTUGUESA

Linguagem e Estilo de Machado de Assis, Eça de Queirós e Simões Lopes Neto

Rio de Janeiro

2007

COLEÇÃO ANTÔNIO DE MORAIS SILVA Diretor: Evanildo Bechara ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS Diretoria de 2007 Presidente: Marcos Vinicios Vilaça Secretário-Geral: Cícero Sandroni Primeira-Secretária: Ana Maria Machado Segundo-Secretário: Domício Proença Filho Diretor Tesoureiro: Evanildo Cavalcante Bechara PUBLICAÇÕES DA ABL Produção editorial Monique Mendes Projeto gráfico Victor Burton Editoração eletrônica Estúdio Castellani Catalogação na fonte: Biblioteca da Academia Brasileira de Letras B869.3 F383l Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda, 1910-1989. Linguagem e estilo de Machado de Assis, Eça de Queirós e Simões Lopes Neto / Aurélio Buarque de Holanda Ferreira ; prefácio Evanildo Cavalcante Bechara. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2007. 344 p. ; 21 cm. – (Coleção Antônio de Morais Silva. Estudos de Língua Portuguesa ; 5) ISBN: 978-85-7440-100-3 1. Assis, Machado de, 1839-1908. 2. Queirós, Eça de, 1845-1900. 3. Lopes Neto, Simões, 1865-1916. 4. Linguagem. 5. Estilo literário. I. Bechara, Evanildo Cavalcante, 1928II. Título. III. Série.

COMISSÃO DE LEXICOGRAFIA DA ABL Eduardo Portella (Presidente) Alfredo Bosi Evanildo Bechara

REVISÃO Roberto Cortes de Lacerda João Luiz Lisboa Pacheco Sandra Pássaro Paulo Teixeira Pinto Filho

DIGITAÇÃO João Barcellos

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. . . . . 239 Glossário . . . . . . . . XI MACHADO DE ASSIS Linguagem e Estilo de Machado de Assis . . . . 3 EÇA DE QUEIRÓS Linguagem e Estilo de Eça de Queirós. . . . . . . . . . . . 257 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121 Bibliografia . . . . . . 63 SIMÕES LOPES NETO Linguagem e Estilo de Simões Lopes Neto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Sumário Prefácio . . . . . . . . . . . . . .

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira .

Prefácio R eunindo num só volume estes três ensaios de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. com o aval prestimoso de Marina Baird Ferreira. foram decisivos para revelar ao público especializado e às pessoas preocupadas com a correção gramatical o talento promissor . perceber-se-á o aprofundamento gradativo da cultura filológica. Suas fontes boas eram Mário Barreto. Lidos na seqüência cronológica em que foram estes ensaios publicados. as incursões do saudoso confrade no domínio da língua e do estilo de três grandes autores da nossa literatura. acontecia com Cândido de Figueiredo. Antenor Nascentes. Aurélio tinha ainda suas atenções voltadas para os aspectos normativos que dominavam entre nós os estudos do idioma até a década de 1940. Isto sem que ficasse atrelado a uma visão estreita de puristas. aliados a um fino gosto estético. como. José Oiticica e Heráclito Graça. põe a sua Academia ao alcance do leitor de hoje. A extensão e os conhecimentos da língua. por exemplo. Nas páginas dedicadas a Machado de Assis. vernacular e estilística do autor. nem sempre bem apetrechados para essas incursões.

no ensaio sobre Eça. na ótica da influência lusitanizante em Machado de Assis. Examina a adjetivação eciana e a técnica de seleção vocabular e a estruturação dos períodos. Agora.XII Prefác i o daquele jovem estreante nas sutilezas e potencialidades do idioma português trabalhado sob a régua e o compasso do criador de Memórias Póstumas de Brás Cubas. mas a verdade é que não conseguiram empanar o brilho e a competência que animaram estes ensaios e. As considerações sobre os galicismos e neologismos levam nosso autor à seara do léxico. por isso. principalmente. E toda essa renovação leva-o a discutir o problema do regionalismo em Simões Lopes Neto (1949). ao lado de correções a algumas outras. e nos desvios reclamados pelos puristas. os progressos experimentados pelas ciências da linguagem vieram confirmar muitas das asserções exaradas nestes três ensaios. para ser também um reflexo de um ato estético e cultural. A língua deixa de ser vista como apenas ancila da filosofia que a instrumentalizou pelo modelo da tradição gramatical greco-latina. quer por empréstimos platinos. uso da crase e colocação de pronomes. Passados tantos anos as densas produções. quer por herança vernácula. Aurélio espraiar suas reflexões e comentários mais no campo da estilística do que nos dogmas da gramática normativa. Já no ensaio sobre Eça de Queirós (1945) suas lentes de observador não se limitavam a pormenores de fatos gramaticais. preparando-o para o domínio em que se vai consagrar como autoridade incontestável. Daí. oferecendo-nos o mais completo levantamento lexical dos termos usados no Sul do país. nosso autor discute a presença dos galicismos em Eça à luz da influência avassaladora da cultura e da ação civilizatória da sociedade francesa. os fazem merecedores desta oportuna e proveitosa reedição. E VANILDO C AVALCANTE B ECHARA . como concordância.

Machado de Assis .

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Tudo isso a serviço de um dos melhores estilos que já houve em português. Coisas do Tempo. aliado ao espírito da língua do seu tempo. e neles se adivinha algo de novo para a época. o Sr. reflete-se neles. Se.Linguagem e estilo de Machado de Assis I – Linguagem Com aquele seu jeito de dizer muito em poucas palavras. e com ligeiros toques de alguma coisa que parecia transcender do momento. por outro. em seus livros se nos deparam expressões caídas em desuso. a linguagem da época. arcaísmos da gema. Sentem-se na sua prosa os tesouros do passado.”1 Realmente: não é preciso um contacto íntimo com o escritor para notar-se como ele soube fixar muito do que a boa tradição lingüística lhe forneceu. projetar-se um pouco além. por um lado. Tristão da Cunha escreveu uma grande verdade a respeito de Machado de Assis: “Ele era sutil e opulento. que nem sempre lhe foi dado renovar. Rio. . 1 Tristão da Cunha. através de aturada leitura dos clássicos. do presente e do futuro.

que. Achava que se devia estudá-los. amando a or2 Machado de Assis. Rio). a sua sintaxe apresenta-se. aquele amável tom de simplicidade e harmonia. . compreendia. E o que lhe transmite à prosa. Não irei ao extremo de.”2 Não sou dos que. sem nunca transgredir. mais leve. Nem tanto assim. Crítica. porém. editor. Espírito conservador como sempre foi o seu. apologistas incondicionais do velho mestre. a revelar-se em tudo que lhe saiu da pena. que “cada tempo tem o seu estilo”. de ordinário. ou dar a entender. Rio. e não raro ao verso. que ele realizou mais do que Alencar em favor do abrasileiramento do português. Mesmo porque – analisemos friamente o caso – a Machado faltariam virtudes substanciais para executor de uma renovação lingüística. à força de velhas. Novas Relíquias (Editora Guanabara. I (Jackson. Espanada de algumas grossas teias de aranha do falar lusitano. com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum. O que ele teve foi o segredo de conciliar – e nem sempre – as exigências da sintaxe de além-mar com a mais corrente entre nós. Rui). “Nem tudo tinham os antigos. como que mais transparente. com os seus princípios de cultor extremado do idioma. Rio) e Correspondência de Machado de Assis (Américo Bedeschi.4 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Ferr e i r a Amando os clássicos. mas o disfarce não é tão perfeito que por trás das cortinas não estejamos a ver agindo a mão de Frei Luís de Sousa. 27. como se tem feito. sobretudo no sentido de a ela haver imprimido um cunho brasileiro. se fazem novas”. lhe exageram o papel de renovador da língua. exceto Crônicas. afirmar. para “desentranhar deles mil riquezas. no entanto. Livraria Garnier. Manuel Bernardes ou Castilho Antônio. Não me parece justo superpor à de Alencar a sua influência nesse ponto. o feitio harmonioso e simples do seu espírito. p. – Todos os livros de Machado de Assis citados neste artigo são edições Garnier. não será tanto o efeito dessa conciliação como as suas qualidades intrínsecas de escritor. nem tudo têm os modernos.

bem pesadas as coisas. Paulo. cenas de execução de negros. 1. sentimento mais profundo de simpatia humana. regionalismo.a ed. S. de amor à terra. esses escassos 3 João Ribeiro. à sua paisagem e à sua gente.. E o espírito brasileiro. o instinto de nacionalidade – para usar de expressão sua – não era bastante vivo em Machado. . de onde se originou. que são – como. Matacavalos – e até retalhos de paisagens. Não o era. particularmente do meio carioca: mucamas. chora. espírito isento de compromissos com a tradição. empregou-os o romancista como o fizeram. pretos escravos que povoam as suas páginas. Os raros brasileirismos sintáticos figuram sempre na boca de personagens – homens do povo. não fez mais que introduzir nas suas páginas alguns brasileirismos.. mais força de poesia e impulso mais forte de solidariedade com o povo humilde. pegadores de escravos fugidos. e fazem. breves. Há nela muita coisa da nossa terra. uma tarefa que requeria extrema audácia. menina. quase todos léxicos. pretos velhos. Não. que tivesse força para realizar aqui.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 5 dem. 16. como aquele “Chora. E grande parte dos próprios brasileirismos léxicos. Machado. muitos outros escritores – pela necessidade elementar de fixar tipos.” do D. com seus nomes antigos – da GuardaVelha. pelo menos. Isso. Valongo. gente simples. A Língua Nacional. metódico. costumes do nosso meio. por aquilo a que João Ribeiro chama a língua nacional3. p. por condições resultantes do próprio temperamento do escritor: faltava-lhe para tanto maior vibração de vida. ao fundo de casas modernas. não seria o funcionário que só aceitava a revogação de uma portaria por outra portaria. disciplinado. ruas antigas. cenas. rebeldia.. Ao meu ver. 1921. além de desossar um pouco o português de Portugal. não importa negar nacionalismo à obra de Machado de Assis. em tão alto grau como se afigura a alguns dos seus críticos. fugidios. Casmurro. está claro. pregões melancólicos. Ou.

. a ouvir deturpada pela gente do seu meio. o feitio de Machado era de molde a não o afastar dessa regra. um que quer que seja de frio. criança. ninguém. um tudo-nada de artificial. de meio morto.. Nada de morro. de Maria Inês. esforçados. A ele.. às vezes. Nesse particular. em tudo isso. teve o orgulho – sentimento que a sua timidez antes sedimentou que enfraqueceu – de escrever com a maior correção a língua que se acostumou.. Leitura assídua dos clássicos. Teria de ser correto na linguagem. ou de um Lima Barreto. passo a passo. Refugiava-se. dos dias da meninice. em um passado. com tamanho desapego ao passado. estudiosos. Saberia manter-se à distância. da lembrança pouco amável de outro passado. É uma luta para se elevarem acima do seu nível. em que se percebe um tanto ausente o humano. Águas passadas não movem engenho. Mas há. chegou à situação de primeiro escritor do seu país. quase sempre. tão esquecido. do croinha. como ele.. em Machado de Assis. Para longe o linguajar estropiado do Livramento. Parece que ainda foi este um recurso que encontrou o mestiço Joaquim Maria de fazer esquecer a própria origem. à custa de esforços tenazes. para sentir-se bem a verdade do que afirmo. de Machadinho.6 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Ferr e i r a palmos de chão cimentado – miniaturas de quintal nessa “vasta casa sem quintal”. Ora. A minha experiência do magistério permitiu-me observar que é nos indivíduos pobres. O desamor a quanto se ligava aos tempos idos havia de encontrar.. Aquele que saiu do morro pobre e.. mais essa maneira de manifestar-se. Nada como a leitura atenta de um Manuel Antônio de Almeida. que não sabia falar alto e . deixando nela refletidos os seus labores de autodidata manuseador de veneráveis in-fólios quinhentistas. que ordinariamente se encontra mais vivo o gosto da correção da linguagem..

da conversão de uma língua dura. brasileirismos e estrangeirismos. o gosto do clássico. para efeito literário. decerto. as qualidades substanciais do escritor. estudemos. as liberdades de estilista. mas um trabalho maneiro. sim. Feitas estas considerações iniciais. as repetições. o amor da metáfora. Depois. em contraste com a aparente pobreza. os arcaísmos. neologismos... em primeiro lugar. a riqueza real de expressão. passemos a estudar. hirta. a que me referi. rarissimamente incorreta. o ímpeto. Apreciemos. Machado já encontrou a mata batida. fez um trabalho de mouro. o gosto de alterar. ossuda. os tiques. a regência dos verbos. Este. E andou por ela tranqüilo. a sintaxe. em um instrumento de expressão harmonioso e plástico – nessa tarefa já o precedera – dentro de Portugal – o velho Eça de Queirós. trabalhando sempre. Depois. o hábito da negação. alguns aspectos da linguagem e do estilo de Machado de Assis. faltar-lhe-ia. intencionais ou viciosas. separadamente. na obra de adoçamento do português. lembremo-nos que. procurando explicá-las em alguns casos. sem suor – trocando por bons espécimes portugueses alguns estrangeiros que encontrou nessa flora. o apego mórbido a certas palavras e expressões. O comum é repelirem-se essas duas criatu- . a força necessária para romper com uma larga tradição. o vocabulário.Li ngu agem e esti lo de Mach a do de A s s i s 7 era tão cerimonioso com os homens. a pureza de sua língua. a coragem. Machado de Assis tem a grande virtude de ser um dos raros homens de letras brasileiros em quem se realiza uma sábia harmonia do gramático com o escritor. abrasileirando-a um pouco com espécimes nossos.

hurlent de se trouver ensemble.a ed. parece. Procurou.. áspero.a ed. quando o primeiro andou por aqui.4 Em contacto com o passado da língua. conversando os clássicos. Machado representa. 1939. . se alcança a clareza e a simplicidade.5 AL: Poesias. como na vida. a frase comprimida dentro das regras como em camisa-de-força. conseguiu casar tão harmoniosamente os dois seres que. Lúcia Miguel Pereira. por via de regra. Paulo. Ambos eram Josés.. S. Mário Barreto e Lima Barreto no Brasil – para citar apenas dois pares de casos. Nem tanto ao mar. 7. Qualidade que ainda lhe é. O gramaticógrafo. Creio ter sido ele quem afirmou que o arcaísmo que se ressuscita é um neologismo. Comecemos pelos arcaísmos léxicos. 267. Dificílimo encontrar-se a perfeição da língua aliada à elegância sóbria do estilo. a convite do imperador. nem tanto à terra..8 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Ferr e i r a ras. 1932. a política do meio-termo. e sem sair da língua portuguesa. do amor à medida. entre nós. à ordem. aliás. que soube defender-se admiravelmente. um reflexo do equilíbrio. Paulo. metendo a lenha no brasileirismo do autor do Guarani. como lhes chama Eduardo Carlos Pereira. ou antes ou depois dele. Eduardo Carlos Pereira. os preceitos da boa linguagem. 2. Nem de todo com José Feliciano de Castilho. p. Machado de Assis.. e horror visceral aos excessos. ressuscitar alguns. Ninguém. 4 5 V. à disciplina. o escritor. o exemplo mais feliz dessa conciliação. assim. nem inteiramente com José de Alencar. S. Realizou na linguagem e no estilo. nem sempre com bom resultado. escreve duro. barbaramente às vezes. 154. sacrifica. ou semânticos. de certo modo. Ficou entre os dois. Castilho e Eça de Queirós em Portugal. em seu tempo. olhava mais para o presente. Gramática Histórica.

Q. e nos Relógios Falantes “discurso feitiço. AMBOS OS DOIS: D. GOSTAR = provar: B. Várias Histórias. somente o de Morais6 dá o termo. p..” (Id. Papéis Avulsos. Dicionário da Língua Portuguesa. ALONGADO = distante. 1842. 70. Q. 67. 8 Do velho Francisco José Freire. C. D. que Bréal condena. até o tempo de D. Vasconcelos a caminho de bispar. 79. e J. 195.. 48). C. olhar com curiosidade): “Veloso cônego e pregador. Aceito. 134). 186). C. pp. 319. abonado por escritores muito antigos..” . AVOAÇAR: D. C. lindo e audaz” (Brás Cubas. ORELHAS = ouvidos: Relíquias de Casa Velha. 96. a ex7 pressão tendências de palavras (tendências melhorativa e pejorativa).. 232.. B.. 145. fisionomia: D. 138. – Dos vários dicionários que consultei. 215. e J.... Esaú e Jacó. E.. Lisboa. E. 15. 1903. em seu Essai de Sémantique. 68.” (Histórias sem Data. que disse nas suas cartas “bulha feitiça”. em virtude da chamada tendência pejorativa7. Poes. HEIS = haveis. B. etc. fotografia da 2.a ed. GARÇÃO: “era um lindo garção. 291. com Pacheco Júnior (Noções de Semântica. 1922. 6 Morais.. 15-16). afastado: “Assim andou por alongados climas. 22: “Feitiça por cousa fingida é termo usado por todos os clássicos. nas suas Reflexões sobre a Língua Portuguesa. 6. 254). Casmurro. 62. Rio... QUANTIA = quantidade (sentido genérico): D.. Memorial de Aires. C. GESTO = rosto. 104. 109 (2 vezes).. 167. ARDIDO = ousado: Poes. C.Li ngu agem e esti lo de Mach a do de A s s i s 9 ALFIM: Id.. 12.. Francisco Manuel. significa observar. Rio. BISPAR = exercer a dignidade de bispo (hoje a palavra.. FEITIÇO = falso. Soares com uma grande vigararia. B.. artificial8: “Diadema de pérolas feitiças” (Quincas Borba. 38. 38.

C. são. VENDER-SE POR (dizer-se. dando também vender-se por donzela. 189.. Vamos aos arcaísmos sintáticos: “De quando em quando colhia o alento. Lisboa. V. que o primeiro abona com a Eufrósina. todos citando a expressão vender-se por douto. caio (caiadela) – Q.” (Ressurreição. a pátria/Reviu após a suspirar por ela. 9 10 11 12 Figueiredo.. 1. inculcar-se por): “Outro da mesma espécie era um escrivão. 1854. de C. 240 do mesmo livro. com o abono de Duarte Nunes de Leão. VESTIDO = veste masculina: Poes.. 61. sem D. 268. 237). de Jorge Ferreira. 128. aproximadamente: “Sobre tarde descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público” (D. 306). SOBRE = perto de.10 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a SER = estar: “Quatro vultos na câmera paterna/Eram. 1878. 10). conversar = tratar intimamente (empregado como transitivo direto) – P. B. Também à p. 201.. na verdade. Lacerda11 e Constâncio12 trazem.. 182..” (P.” (Poes.... 66.. SOIDÃO: Poes. 255). C. por = para – D. . Lacerda. de uso muito raro. Novo Dicionário Crítico e Etimológico. R.. Outros exemplos: Id. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 25. Paris.. com a expressão de quem lhe custa [daquele a quem custa] respirar.. se não constituem arcaísmos. A. “. algumas no sentido em que estão empregadas: à laia de (ao modo de) – Páginas Recolhidas.” (Poes. 1. Morais...a ed.a ed. Lisboa.a ed.a ed. R. quinhentista. 5. H. Dicionário Enciclopédico.. que se vendia por mordomo do rei.. Lisboa. 220). 254. – Figueiredo9 e Aulete10 não registram. Outras palavras e locuções.. Caldas Aulete. 165.... 5. Dicionário Contemporâneo. Constâncio..

e conhecia algumas que tinham só o seu moço delas” (Id. de A. e de sentido ou semânticos. 1913. a gente: “Na verdade jamais homem há visto.” (Outras Relíquias. Neologismos de palavra. por uma natural associação de idéias. agora..” (H. “torcia a rédea da conversa para o seu assunto dele” (B.” 13 Michel Bréal. de raríssimo uso. estes não menos importantes que os primeiros. V. C. “mas vi também que..Li ngu agem e esti lo de Mach a do de A s s i s 11 “Que ele também há eleições no Amazonas. a menos de lhes pegar nas mãos e mandar que se amassem. pois. quando queria alguma coisa. Como Rodrigues Lobo naquele conhecido trecho: “Comerás do leite. ainda subsiste na falada. esse emprego do ele como pronome neutro. Neologismos. ouvirás dos contos. “Une nouvelle acception équivaut à un mot nouveau.. Paris. 10). se não arcaica.. 6. Há muitos na obra de Machado.” (M. – Expressão. . como observa Bréal13.. 192). à maneira do il francês. – Banido da linguagem escrita corrente...” (Poes.. de gosto clássico. Empregou o partitivo. sem D.. 8). 201).. “. 139). 302). p. em certas regiões de Portugal. Usou homem no sentido de alguém. Essai de Sémantique..... de C.” (R. o it inglês e o es alemão.” Tinha as suas simpatias pela forma pleonástica do possessivo – seu dele: “Já meu cunhado dizia que era seu costume dela... apesar de lembrar o francês: “Comerás do nosso leite e beberás do nosso vinho. 146.a ed. 145)..

A alguns. O Exame de Português. desgraçado. 100). loc. dá. 112). Figueiredo registra o termo. EMPULHAÇÃO: (B. C. espairecendo as suas borboletices” (B.. desmortifica-os depois” (B.. A. C. ENCARNA = pequena escavação: “Os sinais (da bexiga). grandes e muitos. nem o neologismo substitutivo – daqueles em que foi fértil Castro Lopes – “formações moldadas nas línguas clássicas para eliminar palavras alienígenas.. B. 5. – Fig. sem dizer uma só palavra a D. citando a passagem.a ed.. 12).. 117). que deviam ser usados na conversa. cit.. DE UM CABO A OUTRO: “E ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar. citando o trecho.. Evarista” (P. – O autor refere-se a uma borboleta. – Fig. DESMORTIFICAR: “Mortifica os pés. – Os dicionários dão descarrilar e desencarrilhar. . C. 42). – Morais e Aulete registram de cabo a cabo. citando Machado. 335).. seguindo o processo da derivação. DESCARRILHAR: (Q. faziam saliências e encarnas. ibid.12 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Os neologismos de palavra. declives e aclives” (B. mas o eram no tempo de Machado. – Nenhum dos dicionários que consultei. registra o termo..”15 Cumpre observar que da lista seguinte muitos termos já hoje não serão neologismos. “palavras de todo estranhas à índole da língua e às suas necessidades”14. modesta e negra. deu ele curso nos seus livros. – Fig. 14 15 Júlio Nogueira. p. C. Id. inclusive o de Figueiredo. ACONCHEAR: “Aconcheava a mão atrás da orelha”(B. 52. Nunca emprega os neologismos de estilo. Rio. C. forma-os sempre Machado por analogia. dá. traz. 100). e cita o trecho. BORBOLETICE: “Viera por ali fora. antes de qualquer outro escritor. 1933..

citando o passo. entretanto. 210). C. aparecia-me agora amarela. como o fiz sumariamente para meu próprio uso.. FRESTA = oportunidade: “Ele aproveita a fresta para puxá-la à conversação” (H. ESTIGMADO: “As bexigas tinham-lhe comido o rosto. de C. 83). que devastara o rosto da espanhola” (B. com o balcão permeio. dá o termo precedido de asterisco. O termo é formado por analogia com impacientar-se.. – Fig. Constâncio e Morais silenciam. 117). – Fig. A. – Nenhum dicionário dá o termo nessa acepção..Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 13 ESTACADO: “O rumor cessara de súbito.. e. É preciso muito cuidado com os asteriscos de Figueiredo. a pele . PERMEIO (sem a preposição de): “Deu-me uma cadeira.. fazendo crer que é o primeiro a consigná-lo. e Aulete só dão eterizar. não está em Caldas Aulete.. com a citação. 43). Lacerda consigna apenas a primeira acepção. e com as significações de misturar com éter e insensibilizar por meio de éter. como um estacado de orquestra” (B. 124). OCULARISTA: “Subiu a rua do Hospício. – Fig. Figueiredo traz. uma língua que estou gramaticando para uso das academias. registra... dá. C. 140). V. desvincula-se da terra.. que. mas todos com o sentido de ensinar gramática ou tratar de questões gramaticais – que não é aquele em que a usa Machado de Assis.. C. – Os dicionários de Fig. Lacerda e até o velho Morais registram a palavra. citando o passo. falou-me longamente de si” (B. ETERIZAR-SE = perder-se no ar. 42). apreende o impalpável. PACIENTAR: “Pacientei quanto pude” (B. sem D. . dissipar-se: “Embeleza-Se no invisível.. eteriza-se” (B. dissolve-se. quando já o registra o secular Morais. – Aqui se reflete o seu gosto vivo da metáfora. C. GRAMATICAR: “.. Entre parêntesis: Fig.” (P.. – Muito bem formado. C.. até uma oficina de ocularista” (R.. 24). estigmada pelo mesmo flagelo. Constâncio.

). B. toucar. 133. 32. Entre os que vou apontar é possível que figure mais de um arcaísmo. Constâncio. C.. e de um sabor. p. TOUCADO: “Era a flor dos cabeleireiros. pois escreve a respeito do mesmo verbo: “Hoje só se diz de quem concerta o cabelo de mulher ou lhe põe toucado. B. aliás. C. neste verbete. por mais demorada que fosse a operação do toucado. Lacerda e Aulete. . cita um exemplo de Jorge Ferreira. rodopelo.. – Fig. – Fig. e... C. com asterisco. e alhures). traz a expressão “redemoinho de dois ventos opostos”. mais ou menos a mesma coisa. valeu-se Machado de uma das acepções do verbo cognato.. ou – o que é mais provável – por analogia com palavras em que entra roda: rodopio. para adiante dar a locução “redomoinho de cabelos”.” VALSISTA: (Q. C. o leitor para redemoinho. 123. com asterisco.. diz João Ribeiro16.” 16 João Ribeiro... cheios de um pico. 144). acepção. em que se vê redemoinhos. Rodomoinho.14 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a PRATARIA: (B. registra. op. que nenhum dicionário consigna. cit. – Fig. por assimilação regressiva do e. pois. 80). a de “pentear e dispor convenientemente o cabelo de” (Fig. que remete. Os brasileirismos léxicos são quase os únicos existentes nos livros de Machado de Assis.” Morais. a não ser Morais. 133). aliás. assim define toucado: “Conjunto dos ornatos de cabeça das mulheres. Também teremos de incluir-lhe entre os neologismos – os de palavras – o rodomoinhar (B..” (B. “Muitos dos nossos brasileirismos e muito da nossa gramática não passam de arcaísmos preservados na América. parece que Machado o formou de redomoinho. não enfadava nunca. Empregando a palavra com relação a homem. que Lacerda não conhecia. ele intercalava as penteadelas com muitos motes e pulhas.. registra.

CALUNDU: D. 1915. H.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 15 ALUÁ: B. EMBIRA: Poes. H.. CAPOEIRA: “Foi uma malta de capoeiras” (V.. 275). 139.. Poes.. .. 130. 38. 58. Rio. Também à p. C. H.. de C. Fig. 36.. H. só anota. A. 28 (duas vezes).. sem D. 94. H. 44). V... 144. 124). figurado.. Dicionário de Brasileirismos. H. B. V. 35. sem D. BOA-VIDA: “Rejeitou tio Cosme. APAULISTADO: V.... R. B. A Sem. C. quando o termo é usado também no Norte. C. 230). AMOLAÇÃO = maçada: Q.. 279. 57). 208. eu é que coso. dou feição aos babados.” (V. CAIPORISMO: R. COCHILO: A Sem... 48. P. ESTOURO: “Foi um estouro esta minha palavra” (B. 35. 257. era um boa-vida” (D. V.. 27. R. 103. 9. R.... e J. BELCHIOR: P.. 190.. H... 196. 104). 66. 302. CLAVINOTEIRO: P. C.. 55. BODOQUE: P. 26. e talvez em todo o Brasil. E. COCHILAR: D. – Não encontrei em nenhum dicionário. 142. 91. CAIPORA: Q. e Rodolfo Garcia17. CAPANGA: P. nada mais.. C. R. CAIPIRA: P. “peculiaridades pernambucanas”. prendo um pedaço ao outro.. – Em nenhum dicionário encontro o termo neste sentido. EMPACAR: “Falei do cavalo que empacara” (B. conforme está no subtítulo. 83. 17 Rodolfo Garcia. registra. ENGENHO: “Senhora de engenho” (Poes. 300.. 98 (duas vezes). B. O Dicionário de Brasileirismos de Garcia. A.... 92. 91. 5. que o consigna. 21 (duas vezes). dá como brasileirismo de Minas. citando o autor. C. R. de C. 68. – Registrado por Fig.. P. R.. BABADO: “Você fura o pano. 142. BOCAIÚVA: Poes. Q. – Fig. V.

118. MUCAMA: V. – Fig. – Fig. 190. R. GUASCA: Q. de C. 191.. elegante. PALEJAR: “Os morros palejavam de luar” (D.. 267. 43.16 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a FACEIRA (adj.. 224... Não é somente do Norte. B.. sem D. 251. Poes. MUXOXO: Q.. pp. op.18 GIRA = maluco: Q.. 83. proposto por Alencar. 40. Será mesmo? O termo é formado do mesmo modo que toleirão e asneirão. petimetre. MOLEIRÃO: (P. achando-o malformado. cit. IAIÁ: H.) .” (João Ribeiro. pelintra. POCEMA: Poes. como brasileirismo do Norte. 26.. IGARA: Poes. sem D.. H.. sem D.. B. erradamente. 34. SINHÔ: H. NHONHÔ: Q. QUITANDA: B. 118). 202 (duas vezes).. QUITANDAR: R. Faceira no século XVIII era sinônimo de casquilho. H. C. dá. 189. 32-3. JURURU: B. pouco conhecedores da história da sua mesma língua. R. 3). Um dos seus romances tem o nome de Iaiá Garcia.. B.. 72... NHANHÃ: H. 392..): V. dá como brasileirismo.. PENCA: “Uma penca de lembranças” (P. 4. B. a palavra tornou-se obsoleta em Portugal mas conservou-se no Brasil ainda que só aplicada exclusivamente à elegância feminina. registra o termo. H. Chagas e outros. PETECA: P. R. C. QUITANDEIRA: P... 191). SINHÁ: H. sem D. A. 330.. V. C. 8. 27. Poes. – Fig. 18 “FACEIRA – (coquete) é um brasileirismo que estranharam e censuraram mais tarde alguns críticos portugueses. 232. 165. V. P...

Rio. – Muitos dos trechos citados de Machado de Assis acham-se neste preciosíssimo livro. p. Vejamos este exemplo: “É um vadio e um bêbado muito grande.. como tão bem mostrou João Ribeiro. 15: “Me solte. da boa praxe lusitana. Os seus brasileirismos sintáticos estão na boca de personagens. p. É de estranhar não tenha feito com maior cuidado a sua reeducação pronominal.. cit. 20 Júlio Nogueira. etc. e sim por ignorância. 302.” O peço-lhe ainda passa. japu. guará.19 E nas Relíquias de Casa Velha. Machado coloca muitas vezes os pronomes à brasileira. op. Lições de Português.. 21 .. eu serei sua escrava. nesse ponto.Li ngu agem e esti lo de Mac ha do de A s s i s 17 Nas Americanas (Poesias) aparecem numerosos nomes de plantas e animais do Brasil. e de objetos. enquanto eu ia lá embaixo na cidade. p. meu senhor moço!” Na mesma página: “– Me solte!” Mas a mulata escrava que assim fala é a mesma que diz na sua súplica: “Se Vossa Senhoria tem algum filho.. Como se sabe.. anum. peço-lhe por amor dele que me solte. 10 e segs.. tangapema (que quase sempre vem sob a forma tagapema). vou servi-lo pelo tempo que quiser. 3. C. Iramaia. inúbia. próprios dos índios: anajê. muçurana. costumes. igaçaba. op. Mas esse outro dia foi ainda na segunda metade do século XIX. guiado apenas pela língua viva do seu meio. mas confesso que os colhi do original. 1937. caititu. pode-se dizer. João Ribeiro. 191). Ainda hoje deixei ele na quitanda. juriti. os melhores escritores brasileiros sempre colocaram mal os pronomes: a questão da topologia pronominal foi resolvida outro dia. guanumbi. cauim..a ed. Júlio Nogueira lamenta que “o terror pânico do pronome mal colocado” fizesse o brasileiro desviar-se do “caminho que ia seguindo naturalmente. 31. Machado ainda estava moço. jaguar. e ele deixou a quitanda para ir na venda beber” (B. cit. mas parece que não propositadamente. guau.”20 Por tendências psicológicas.21 19 Apud Sousa da Silveira.. jerema. mas a mulata diria fatalmente: vou lhe servir.

18 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Machado foi um dos que se desviaram. 63. Outras Relíquias. 139. em coisas de linguagem. no sentido de dinheiro. 17. 45. como A Mão e a Luva. o vocábulo vem sem explicação. lá está nos Contos Fluminenses. o purista não se pode conter: “A última hipótese trouxe à fisionomia do Palha um elemento novo. e nem por ser inglês o desprezava. Q. 7..” É o medo do peregrinismo. talvez. 46. . Apontaremos mais adiante os seus pronomes fora de forma. e Silva Túlio inclui na lista dos seus Galicismos22. e até em livros bem antigos. que alguns puristas condenam. 37. 68. acaso. que não sei como diga.. Dos brasileirismos vamos aos estrangeirismos. mas nas Crônicas. C. Machado tinha-lhes horror. 80. e apadrinhando-se com Garrett. B. in Aprendei a Língua Vernácula. Lisboa. É desapontamento. Era bem português. destino: D. emprega-o desculpando-se. bens materiais. em Quincas Borba. O único anglicismo. Mas são inumeráveis os exemplos de emprego do termo no sentido bem vernáculo de sorte. com umas tinturas de brasileiro. e Ressurreição. Nas Histórias da MeiaNoite. 22 Silva Túlio. porém. 43 – trabalho dos vinte anos – num período. Galicismos. por sinal. 9. e a vaidadezinha de mostrar que está na boa companhia do “elegante Garrett”. Vá desapontamento. uma das vezes. 24. que constitui lastimável exceção na sua obra de estilista tão apurado: “O capitão em questão lá está nessa labutação”. e nos Contos Fluminenses. 62. Desapontamento? Já o elegante Garrett não achava outro termo para tais sensações. 14. p. Procurou corrigir-se. Também usou em questão. Fortuna. tão condenado pelo mesmo Silva Túlio e outros puristas. I. que emprega em sua obra. embora não chegasse a consegui-lo de todo.

embora de ordinário os seus diálogos sejam muito corretos).. e J. O major Siqueira. 89. quando a quando. encontro ao demais: 330. em casos tais.. 183-6. 11. emoção. Não usa. 100 (e num diálogo. certas variantes. Casmurro. escapar veneração por no seguinte passo: “O que é a veneração da posteridade pelos artistas de teatro?” (N. Fr. falsos galicismos.Li ngu agem e esti lo de Mac ha do de A s s i s 19 Usou o assassinato (Q. quando em quando. 113. como de quando a quando. Se um ou outro lhe escapou. 68). O comum é o de quando em quando. Aclimatar. Rio. contudo. V. 23 Heráclito Graça.. de C. Sempre puríssimo no emprego das preposições. 90. que Figueiredo considera injustamente galicismo. o lugar do que.. Luís e Figueiredo. C. Fala-se comumente um português de primeira nos seus livros. 80). Francisco de S. não usando nunca expressões como ter amor por alguma coisa.. C. B. aos 24 anos. No Q. Usa de resto (D. pp. 6. Rel. mas a verdade é que talvez só em Esaú e Jacó. por envelope. e Várias Hist. Sempre demais pelo detestável ademais: D. p. . Q. 89. portanto. R. Fatos da Linguagem. etc. 1904. no Q.. “– Tenho umas compras que fazer”. deixou. 10. E. considere-se que o mesmo aconteceu aos puristas mais intransigentes. mas que Heráclito Graça23 mostra ser usado por gente de boa reputação no mundo dos clássicos. Evitou quanto pôde o galicismo. B. diz José Dias. diz para o Rubião: “– Sabe que tenho uma grande notícia que lhe dar?” E assim sempre. B. e alhures) que Silva Túlio. legenda por lenda. sequer. condenam.. 12 e 29.. como se vê... entre outros. B. empregou-os Machado. Não sei se considerava francesismo o de vez em quando. como em Relíquias de Casa Velha. 45. 70. nunca o a tomando. aparece a expressão. em D. Usa sempre sobrescrito ou sobrecarta.. Mas a frase pertence a um trabalho escrito em 1863.

” (D. pôr o verbo no modo indicativo nas frases onde aparecem conjunções concessivas... Usou sempre corretamente o infinito.. um criado de Rubião. C. C.. com sujeito diferente: “viu passar muitas coisas” (Q. à p.. costumava deixar no singular o verbo estando o sujeito no plural. Rio. .. com os seus botões. 91). 171). não emprega o mais em lugar do já. 31: “Estêvão.” (Poes.... Sintaxe de Concordância. C. Não encontrei nunca.. o último dos quais. “Talvez abuso um pouco das reminiscências escolares..” Até esse criado.. 73).. B. Já não chora.. “Até fazer calar as suspeitas” (R.... de C. “. Por aí se vê quanto é lusitana a sintaxe de Machado. 97). B. 250)... 18). referindo-se ao cachorro: “Eu tranquei ele no quarto. Seguindo boa lição. B. e ainda que a composição era extensa. 9). “O povo queria ver entrar as grandes senhoras” (Q. ceder a custo” (Poes.... 71). 213). nos livros seus que li.” (Crítica. 348 do Q.. aliás. 30). na forma infinitiva... posto que a farda de aspirante foi a primeira coisa. 105). V.. e um homem de 24 Carlos Góis. posto que. muitos vaga-lumes côr de leite.. Carlos Góis24 dá bons exemplos: “Vi as tribos fugir.. 183). B. para não fugir. “Talvez alguma lhe pareceu “boa figura e bonita de corpo” (Q. ou advérbios de dúvida antepostos ao verbo: “.. que vi correr meus dias.. observava entre si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturais”. que a maior parte do tempo ficara a ouvi-la. era demasiado comprido.. 274)... quando viam subir. sonhador.” Gostava muito de. Raimundo. 107).20 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Empregou o entre si = consigo mesmo. “Também eu... B. em casos assim: “. Nas Poesias. Até com o verbo na forma infinitiva posposto ao sujeito – do que..” (D. “deixava cair as pálpebras” (B... que faz do ele objeto direto.” (Q.” (H. “A mãe via partir sem pranto os filhos” (Poes. à maneira clássica. diz. “.. 240: “Dizia acaso/Entre si mesma uma oração. através da noite. C. não diz “não chora mais”. senão o já. “Talvez esta circunstância lhe diminuía um pouco da graça virginal” (B. sempre que concorriam dois ou mais verbos. sem D. “As estrelas.. como é tão nosso. Já vem no A Mão e a Luva...

270. Machado escreveu: “Avisou a um barbeiro e cabeleireiro que o mandasse barbear. Até José Dias (aliás o agregado tinha as suas letras) usa corretamente o verbo avisar: “– Já. 14. “Um silêncio de morte entrou no seio às selvas” (Poes. 120 de D. Entretanto. e até travar. Casm. de Casa Velha.. H. Esaú e Jacó. Costuma reger da preposição de os verbos sacar. Rel. lê-se à p. O travar de vem. 11. Quase nunca.. 204) . seguir a vizinha corredor fora”. “Tinham esquecido de fechar os olhos ao cadáver” (V. 39: “Todo eu era olhos e coração. Numerosíssimos os exemplos em todos os seus livros.. exemplos semelhantes: Id.”. No mesmo livro. 10. “tomava o pulso à doente” (Id.. que já não tinha que roer”. de C. ou pegar de. “mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas” (D. 146. Id. Começar de encontramos várias vezes em seus livros. Dispensava a preposição a. com certeza. 7). nas Poesias. H. Casmurro.. não. no Q. 9. Para só dar quatro exemplos. 38).” A preposição passa. 9. 94. mas esse avisar que mandasse barbear não soa muito bem. C.. 105: “Trava da lira e invoca o deus inspirador.. em Brás Cubas. D.. 89. B. puxar. 42. (Q.. o que é muito estranho.Li ngu agem e esti lo de Mach a do de A s s i s 21 quarenta e quatro ou quarenta e seis (anos). e vice-versa. 24.. . B.). v. emprega o verbo pegar como transitivo direto: é sempre pegar em. por exemplo. Muitos casos de emprego de verbos intransitivos com a forma transitiva. 32.. ou nunca. Hist. 103: “Travou de conversa comigo” (aqui o emprego é mais estranho ainda). V. Pág.. sem Data...... Rec. 86. serão estudados na parte relativa ao estilo. um coração que desta vez ia sair. V. pela boca fora. C. em expressões como rua a fora: “.. Esaú e Jacó. e 289 (“pelo corredor dentro”)... já.. 8. 223. B. admite-se aí um caso de objeto direto esporadicamente preposicional.. R..” Semelhantemente em: Q.. 41). Usa e abusa do dativo pelo genitivo. 211. 44). mas eu hei de avisar você para tossir” (D..

tenho visto os pequenos brincando. Não são muito raros os casos em que.a ed. “Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas: – lê-se à p. “Lembrou-se que o seu procedimento. não repete a disjuntiva nem. Leoni..25 Sempre usava o infinito preposicionado pelo gerúndio. “Eu nada achei extraordinário” (D. 264). 8 do D. Casm. pp. Contrariando alguns puristas mais realistas que o rei. 12). “não lhe quero mal do furto nem dos nomes” – isto se lê. Casmurro. o verbo chamar. ordinariamente. Gênio da Língua Portuguesa.. Maranhão.. entre numerosíssimos outros. “castigados do céu por seus pecados”. vol. indiferentemente. Sr. em casos assim. 167. 1858. à maneira clássica: “tocado do vento”. 117. regido ou não da preposição a. como neste. da MeiaNoite: “Lembrou-se. 392 de D.. É certo que D. e nunca vi nada que faça desconfiar.. que usa – caso raro – em Quincas Borba. Lisboa. José Dias. Empregou o particípio passivo do futuro. como. a velha nem Rubião entenderam o grito” (Q. Postilas de Gramática Geral. 274.. respectivamente. como lhe chama Leo26 ni – do qual há poucos exemplos de uso corrente. 124. mesmo nos diálogos.. O gerúndio posposto ao sujeito. Casmurro: “– Mas.. é a brincar.. “. “levado de um ímpeto irresistível”.” (p. p. em D. H.” Mas o comum. segundo obser25 V. 26 . de Aires.22 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Gostava muito de usar de em lugar de por. Sotero dos Reis. “descontemos o que há nele ruim” (V. Empregou. 296 – “porque a chuva continuando a cair. Poes. nestes exemplos colhidos nas Hist... Q.” (p. porém.... à p. a preposição de. que Santa Luzia. 2. 28): em casos semelhantes dispensava. 1868. 248. no sentido de apelidar. porque sabia serem corretas ambas as sintaxes.. 15). 110-11. o céu e o mar estavam ainda unidos pela mesma cerração – empregaram-no escritores modelares pela correção. B. Glória diz. B. C. omitia muitas vezes o de na regência de certos verbos ou locuções verbais. 96). e Mem. I.

.. 302). se alguma convém melhor. Casmurro. da M. (Poes.” (Id. gritava-se. formas passivas. nas Rel.” (H. Ou o hífen ligando o pronome ao verbo auxiliar.. 140.. 84. salvo. 73). condena e Heráclito Graça defende.. e neste passo. O seu purismo não o levou a evitar o se como índice ou símbolo de indeterminação do sujeito em trechos como este.” (H.. vencia-se. como Elle está se fazendo de besta. Nunca usa os gostosos brasileirismos de colocação de pronomes. 16). 279. 198). que Fig... 35. em que quase produz ambigüidade a colocação do as pleonástico: “Pulseiras de finas contas/Todas as veio a romper” (210).. Nunca emprega a sínquise. Quando é facultativa a próclise ou a ênclise. como é da índole da língua cá pelo Brasil. com carradas de razão. 15). uma vez que outra. Usa o a miúdo. 79. jantado e digerido” (Id. e levantados.-N.. “Almoçado. guarda alvas capelas/De não-murchandas e cheirosas flores” (Poes. 4). Apesar de ter colocado muitas vezes mal os pronomes. Raramente fazia o pronome do caso reto atrair a variação. descia a passo lento.. Até em diálogos encontramos o pronome do caso oblíquo anteposto à negativa... melhor convém ao período.. 39: “Matava-se. na poesia: “Sabes se te eu amei... 47) (aqui por necessidade de métrica). – em que João Ribeiro enxerga um delicado matiz da nossa fala que o português da Europa não possui. mas de significação ativa: “Depois de ajoelhados. sem D. pela harmonia. como em D.. na maioria dos casos é certo que os colocou muito bem – sempre à lusitana. persignados. citado por este autor: “. tem sempre a arte de usar a que.” E andou muito acertado.. . “Vendo que o pássaro entendia/As perguntas que lhe eu fazia.. Nunca usa a variação em começo de frase.. Gostava das formas verbais depoentes.” (Iaiá Garcia. Eu não quero me alongar. “ia para lá às 6 da madrugada. ou aquele anteposto a este. de Casa Velha. em pouco ficamos senhores do campo. “Camilo ia-se dispondo a sair.Li ngu agem e esti lo de Mac ha do de A s s i s 23 va Sousa da Silveira. – no seguinte passo. rezados.

Não desdenhava o outro por diferente: tão outro se mostrava do que fora até então. Novíssimos Estudos da Língua Portuguesa. 25.. Em D. antepôs o pronome ao verbo em orações no modo imperativo: “Tu... 223).. Rio. tu.. B. 195. Estranho.... 333. no singular.” É mais inclinado a deixar no singular que a levar ao plural o verbo nas orações em que a este se pospõe o sujeito composto com o primeiro elemento.. “Ele ficou a olhar para ela. 31.. pelo menos. I...” (Res. Vejamos: “Para rematar a obra. de C. tão fixos e tão profundos. C. p. também.º milh. Cr.” Seguindo a melhor tradição clássica. R. “meia caída para trás” 27 28 Mário Barreto. 42). e chega a afirmar: “. B. – Mário Barreto defende esta sintaxe. Pratica largamente a concordância por atração..”27 Carlos Góis acha-a mais de acordo com a índole da nossa língua. Casmurro. Calíope.. V.. acode-me uma idéia e um escrúpulo.. .28 Também costuma fazer o adjetivo concordar com o substantivo mais próximo.24 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Como Camões (“Agora. de C.. 2. quando o verbo precede vários sujeitos. de D. concorda de ordinário com o primeiro... C. 83: “Os dois Quincas Borbas. entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana” (H. B.. encontra-se: “Relendo o capítulo passado. 186: “Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria de Capitu. Nada comum o emprego do mais no seguinto passo: “. me ensina”). 190. e ela para ele. Carlos Góis. quando na frase ocorre mais de um: “Galga o espaço e o tempo perdido” (Q. o uso de perguntar (lembra o demander francês essa confusão) no trecho que se segue. nem por isso deixaria de ir mais à janela” (D. 188). sem D. 63). 9). como no Quincas Borba.” Semelhantemente em: Q. V. op. usa sempre a flexão do plural para os nomes próprios. Novas Relíquias.. escolhe a outra” (R.” (Q. 348-9). 30. 1913. cit.

que já sou meia moça” (D.a ed. p. op. 16-28. usa-o ora acompanhado de artigo. 3). in Aprendei a língua vernácula. que participa dos dois outros. cit. como reconhece Sousa da Silveira. Mário Barreto. op. já citado. 2. 19.. H.. Fez a concordância por atração. 1921.. com menor freqüência. 112). Tudo também aparece com o pronome o ou sem ele.. dentro de. 97). no sentido de cada. 1919.. Heráclito Graça. Mário Barreto32. Sousa da Silveira. sempre parecem ser.. ora não. 299). Dificuldades da Língua Port. 140 de Brás Cubas. pp. parece serem. Heráclito Graça. C. Nunca emprega dentro em. Novos Esudos da Língua Port. op. 140) . Heráclito Graça31.30 E contra Silva Túlio estão. Epifânio Dias33 e muitos mais. Rio. Exemplos de silepse encontramos vários em sua obra – quase sempre silepse de pessoa: “Quando andávamos os três” (Q. não cuidou dessa distinção. 129. indiferentemente.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 25 (Id. 262 e segs. porém. em seus escritos. além do autor das Lições de Português. pp. Rio. como os clássicos em geral..a ed. que Heráclito Graça34 e Said Ali35 defendem valentemente. – Apesar do que diz Silva Túlio29.. B. ou qualquer. Machado. 209) – de costumavam nascer e tinham o costume de 29 30 31 32 33 34 35 Silva Túlio. p. 1933.. fenômeno a que alguns gramáticos chamam de quiasma. Lisboa. “casou meia defunta” (V.. “Eu não.. (O cruzamento de dois tipos sintáticos – lembro-me de ver e lembra-me ver – produziu um terceiro.. pura anomalia sintática. querendo estabelecer distinção entre casa meia feita e meio feita.. “a cabeça do Rubião meia inclinada” (Id. Nas orações interrogativas usa... Sintaxe Histórica Portuguesa.. 367-83. Estudinhos. que ou o que. p. Todo.) Assim: “Costumavam de nascer” (Poes. 67). os casos de cruzamento ou contaminação sintática. 2. . “Lembra-me de o ver erguer-se” – está na p. “Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins públicos” (Crít. 65. p. Said Ali. – Figueiredo levou a vida a combater o o que interrogativo. cit. pp. Epifânio Dias. cit. este. São constantes. 346-50.

. Novíssimos Estudos. Tem uma simpatia mórbida por certas expressões. colhidos em Novas Relíquias.. “Os que a vêem naquela mágoa/Nem ousam de a consolar” (Id. cuja última palavra não encontrei em nenhum dicionário em tal acepção. de ao longe.. Veja-se este caso: “Deixava-se ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias” (B. C. 235). pp.. e mais ao cachorro” (Só faltou escrever – e mailo cachorro.” – Do cruzamento de tanto mais quanto e tanto mais que resultou.. . “ao perto” (Poes. é. de a meio caminho.. que não acha rigorosamente correta a construção. – Não me lembra haver visto em outro autor estas expressões. 355). à p. B. O quiasma é um efeito da analogia. contudo. de A. pois.. Nos casos de sincretismo vocabular. procura explicá-la por dois motivos. e parece-me que nunca pinturesco ou pitoresco. pp. a criar palavras e expressões. Escreve sempre pintoresco.26 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a nascer. 137) – em que a influência de fluxo e refluxo parece ter originado a locução curso e recurso. e empobrece-lhe um pouco o vocabulário. Isto 36 Mário Barreto.). Esta leva o escritor. Mário Barreto36. que o faz esquecer outras. 357 do Quincas Borba: “Foi a comadre de Rubião que o agasalhou. às vezes. “Já lá vão dias” (M. e o que se acha nesta passagem. e quase não se utiliza de outra. o tipo sintático empregado por Machado de Assis. não raro. Usa quanto seguido de que depois de tanto mais. 56). 150-2. O a modo que. 213).. Entre os seus lusitanismos – já apontei os de colocação de pronomes – figura o a modo que (D.. a uma das formas. C. apega-se. 39 e 62: “Tanto mais insuspeito quanto que é um dos crentes” e “O desfecho é tanto mais precipitado quanto que a ação só começa no terceiro ato. desusado na nossa linguagem culta. Também: “A meia rua” (Q. 191). etc. Aos exemplos citados pelo filólogo aduzirei dois outros. corrompido em mode que.. de emprego comum entre a gente ignorante – pelo menos a do Nordeste –. sinônimas. um dos quais é a influência da locução tanto mais que.

A Semana. em Esaú e Jacó. 136.. H. 204. 23: “Tanto que a pessoa pediu-lhes que falasse cada um por sua vez”. 165: “Sonhei que o Diabo . B.. também. R. A.. O mesmo em relação à frase ao pé de: contam-se pelos dedos – poder-se-á dizer com algum exagero – os casos de junto. a sua preferência pelas formas ao gosto clássico. C. em H. Comumente usa. 231: “Nota que tratava-se justamente de um crédito. na extensa obra do escritor. sem D. 225. B. V. E Machado. como em Helena. Masculino: Q. 65). 10. mas de um homem culto.. B. sem D. Casmurro. que não raro substitui os dois-pontos. é ser obrigado a viver separado de minha mãe”(R. 67. Q. 26. Nada obstante a sua preocupação de escrever correto – preocupação que veio a fazer dele um dos clássicos da língua portuguesa – era natural cometesse numerosos deslizes. A erro de revisão atribuo a crase que aparece algumas vezes na última locução. 277: “Sucedeu que as caras encontraram-se no ar”. São muitíssimos os exemplos.” É num diálogo. P. B. era sempre correto nos diálogos. Não a usa nas expressões a distância (sem complemento) e a casa (quando se trata da casa do indivíduo que é sujeito da oração). em D. Personagem aparece ora no masculino. como neste trecho: “Tenho uma pena.. R. mais raro o embora e o apesar de. F. V. p. Em Q. 49: H.. Abusa do ponto-e-vírgula. 51. por exemplo.. entretanto. 218-219: “Até que tio Cosme ergueu-se”. perto de. mais uma vez.. de C. É ordinariamente correto no empregar a crase. N. 19. Atentei bem nesse fato.. os exemplos contam-se às centenas. 118. Muito pessoal a sua pontuação. C. Até nos seus livros mais recentes se encontram pronomes mal colocados. No capítulo relativo ao estilo será isso estudado mais detidamente. V. que pouco avultam. Há na mesma obra. de C. 143. 101. a vírgula por dois pontos...Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 27 se dá. como já fiz ver. ora no feminino. Feminino: A Mão e a Luva.. com o posto que: muito raramente o ainda que. Vê-se por aí...

” Mas não só neste livro: à p. A verdade é que lemos nas Poesias: “Onde vás (sic) tu?” (160). aonde.” E passim. à p. 166: “Onde vão?”. que confundem o sujeito com o seu complemento: “A vista das graças da esposa novamente o comoveram” (R.. “Certo que ele suspirava há muito” (Q. e a minha imaginação./Onde vás. e logo no outro. 89).” Em H.. No segundo exemplo citado. Vejam esta concordância. B...-N.. emprega.28 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a lia-me o Evangelho”. Desculpar-se-ia. 207: “Não havia dúvida que o marido demorava-se fora”.. Estudinhos. “Não se livrou dos solecismos. num verso. p. V. 210 de Poesias: “Os que outrora a desejavam/Antes dela mal haver. e vice-versa. da M. sem D. 37 Silva Túlio. descuido muito freqüente entre os escritores menos avisados. “Que diabo de teima por causa de um chapéu que o marido usara há tantos anos?”(H... criticando a confusão feita por alguns clássicos. “Mas aonde te vás (sic) agora. contra a boa praxe lingüística. esposo meu” (207). Já Silva Túlio37 dizia que “onde e aonde são vocábulos diversos”. 38. Empregou freqüentemente há por havia: “A imagem de Capitu ia comigo. sem D. Note-se que é em um dos seus últimos livros.. está claro. há pouco.. 89). onde. 27). Naturalmente a leitura assídua destes levou Machado à prática incorreta. “Quem assim se morre de amores/Aonde habita o jaguar” (213). a preposição reger frase algumas vezes. 102). 97 – obra antiga – encontra-se uma regência defeituosa: “Sentia morder-lhe um piedoso remorso. por certo. E em Teatro se lê.. “Morrem dele nas florestas/Aonde habita o jaguar” (205). assim lhe encheu a boca de risos agora” (D. corretamente. 55: Muitas festas têm havido. Lê-se em A Mão e a Luva. de C. decerto: errava com os mestres. assim como lhe atribuíra lágrimas. 31: “São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara. fruto de um descuido.. Fê-lo propositadamente.” Empregou onde por aonde. C. em H. Em Ressurreição. Fez. .

a Mário de Alencar: “Abraços para as crianças e para si. como neste passo do Q. à rua da Alfândega. aparece em Brás Cubas.” Será caso único. enzinhavrado por azinhavrado (confusão do a inicial da .” Noutra. Paulo. etc. mas pouco importa: “Escolhe. 211 do Q. anda..” – É condenado por muitos o emprego da preposição a para reger os verbos morar. 185).. “.. e para si também. sob a firma Palha e Comp.. consigo. referindo-se à segunda pessoa. p.” Nos seus diálogos. na página seguinte. 48: “V. este. em uma casa de importação. do M. já os apreciou consigo. Peço pouco: a vossa vida custou-me muito.. é freqüente a falta de uniformidade no tratamento: “. até que se lê na p. Anda.. colhido em Crítica. ibid. entre outros exemplos. Encontro pluralizado o haver impessoal... em Contos Fluminenses. de A. 231. vem o para si. no imperativo. Em outra..” Mau-estar. coligida e anotada por Fernando Néri): “Abraços a todos. Do consigo temos. por dize. ao mesmo.” Não sei como justificar-se o infinito pessoal neste passo. I das Crônicas.. 62: “. à rua dos Inválidos. e ela de se deixar roubar por eles. um diálogo.. jurem que serão amigos. em vez de mal-estar. Não acho jeito nesse entre.: “Há um abismo entre a primeira frase de que Rubião era co-autor até a autoria de todas as obras lidas por ele. Em carta a José Veríssimo (Correspondência de Machado de Assis. 228). Vocês vão ser amigos. Usou as formas oblíquas si.. situar (que se subentende nos casos apontados). B. simples aluna-professora no colégio de uma tia do nosso estudante. B. Exa. ainda.) Empregou diz.” (O anda tem uma explicação especial. e diz no nosso primeiro encontro” (p. Pedro. talvez. mas este artigo já vai muito longo.. 58.a”..: “São capazes de me roubarem a sobrinha. que morrera haviam dez anos.” (Id.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 29 “Rubião é sócio do marido de Sofia. No vol.. 10.. residir. Sua mãe padecerá no outro mundo..

De ordinário bastante simples. em parte. ind. e sabe-se que Camilo – para não citar mais que um exemplo – escrevia alfange. não poderiam estar muito abertos ao influxo do ambiente físico. e outras muitas belezas assim. os brasileirismos. . Cheira um tanto a arquivo. antes o fazem ressaltar.30 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a forma correta com um prefixo). pres. expetáculo. e. os poros do espírito de uma criatura que tanto desprezou o homem e odiou a natureza. Tudo isto. que nela se nos deparam. fiquem aqui registrados alguns dos erros de grafia do velho mestre. do social. Sempre correta. pois nenhum clássico. iria de encontro a alguma coisa de fundamental em seu temperamento: o orgulho de escrever à portuguesa não abandonaria o moleque do morro do Livramento. nem mesmo do social. deixou de as cometer. deixando transparecer. Já que estamos com a mão na massa. A nota lusitana tem uma grande predominância na linguagem de Machado de Assis. relativamente mui raros.). sing. do meio cósmico. um cheiro vivo e um vivo sabor do nosso meio. ilucidar. quase não lhe diminuem o caráter nitidamente português. talvez. impertigar-se. E que tivesse o espírito mais sensível à influência da terra. Bastava que Machado houvesse cedido menos à tentação de mostrar a sua intimidade com os puristas de além-mar. vás (seg. explêndido. a essa linguagem falta. pess. como veremos no outro capítulo – e na sua sintaxe pouco retorcida. a cada momento. espalhados por toda a sua obra: exforço.. o enteado ingrato da preta Maria Inês. da natureza. São numerosas as suas cacografias: não espanta. por contraste. Poderia ter sido muito mais brasileira. no seu reduzido vocabulário – de que soube tirar tanto efeito. expontâneo.. e tem mais um gosto de sal ático. mesmo sem sacrifício da correção. contudo. porém. em lugar de vais. profunda influência dos clássicos.

até oferecê-lo nítido e impecável no Memorial de Aires. a sua dúvida. sobre o qual se tem dito. de Buffon. o tímido. La pensée est l’homme même” – que conclui: “Le style est la pensée mesme. 38 Remy de Gourmont. a sua inquietação. obstinadamente se recusou a fornecer à curiosidade mesmo dos mais íntimos. e que. o seu receio de afirmar. que ouvi com agrado. o retrato perfeito – mais do que a simples fotografia –. Não diria isto a ninguém cara a cara. ainda que me custe. Não sei de escritor em quem o estilo seja mais vivo reflexo da personalidade do que nesse estranho. pois é depois de afirmar – “Le signe de l’homme dans l’œuvre intellectuelle. São dele estas palavras. . 1907.. mas a ti. a ti. como homem. nos últimos tempos. e alguma vez com satisfação. Casmurro. papel. p. levou a vida a compor e retocar.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 31 II – Estilo A ninguém melhor do que a Machado de Assis se ajustará a conhecida sentença de Buffon a respeito do estilo.” O Conselheiro Aires é admirável intérprete de Machado de Assis. e não me custa nada. o indeciso.”38 Por uma fácil dedução silogística chega-se à evidência de que há perfeita identidade entre este último conceito e o citadíssimo “o estilo é o homem”. à página 190 do Memorial: “Como esses.. o sem arrebatamentos que ele foi. inconscientemente talvez. 154. Não seriam grandemente interessantes. como escritor. sentiremos. a cada passo. o descrente. referiu Aguiar outros hábitos caseiros da consorte. Os livros constituem-lhe o retrato em tamanho natural. ele. a ti digo e direi. mas eu tenho a alma feita em maneira que dou apreço ao mínimo. Le Problème du Style. o retrato que. c’est la pensée. a ti que me recebes com paciência. amigo velho. o seu desencanto dos homens e das coisas. tanta verdade e tantíssimas heresias. no entanto. Procurando auscultá-lo através de sua obra. uma vez que seja sincero. Paris. o hesitante. Sentença que Remy de Gourmont modifica na forma sem alterar na essência. nesse raro criador do D.

reconstituir. deixando de parte a vida. e vai-se aperfeiçoando tal análise. À visão das gerações de hoje revelam-se fatos. quando Machado de Assis uma e outro fixou nas páginas de seus livros. os mais antigos. considerada quase um capítulo em branco. e algumas vezes para o seu purismo. até há pouco. de maneira tão nítida quanto possível. o da última etapa. e evitando largas sondagens no campo incerto da alma. nem pela palavra escrita. com precisão sempre crescente. não impede – tal como se dá com relação aos palimpsestos – que à custa de esforço se distingam. não confessada de viva voz. com ser o mais fiel. que Machado principia a distanciar-se de nós. Lúcia Miguel Pereira foi o primeiro olhar agudo que. D. É que foi necessária a ação do tempo para fazer-se a história dessa existência e completar a análise dessa alma. os retratos anteriores. Agora. que escaparam. e de origem obscura. os estudiosos de Machado voltavam-se para o seu humour. que só muito recentemente se tenha começado a conhecer de maneira segura o homem. graças a minucioso estudo da obra machadiana. de várias fases. de psicologia impenetrável nos seus pormenores. e principalmente a vida. conseguiu. tomando esse ponto de partida. como um tímido desencantado.. e aquele cuja similitude com o original é mais facilmente comprovável. aos contemporâneos do mestre. esbatidos embora. que. a misteriosa existência . acreditava-se que muito pouco do autor estava nela. e. vislumbrar. indecifrável. uns superpondo-se aos outros. E. sob retratos mais recentes. por motivos diversos. até chegar ao primeiro. verdades. por assim dizer. por tudo isso. é que tal história se vai fazendo. aquele homem fechado e difícil não iria andar-se expondo assim..32 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Além do retrato psicológico. trataram-no. a sua obra nos apresenta. Quase tudo seria imaginação. até o definitivo. Ninguém queria ver na obra do esquisitão o seu grande confessionário. Admira. pacientemente. retratos autobiográficos. e com rara intuição. Falou-se longamente de Machado de Assis como de um enigma.

Li ngu agem e esti lo de Mach a do de A s s i s 33 de Joaquim Maria. 19. Depois veio o ensaio de Augusto Meyer. E transmitiu-nos. o trabalho do Sr.o 2. 219. principal. E Machado de Assis continua a oferecer campo vastíssimo para estudos e pesquisas. E tratando-se de um caso como o de Machado de Assis. nada mais interessante do que buscar no estudo acurado da moléstia a razão de muitas das suas virtudes e defeitos como homem de letras. p. ibid. como diz Remy de Gourmont. Peregrino Júnior sobre a doença e constituição do escritor. “Não podemos hoje compreender uma obra ou um estilo. de sua personalidade. como tanto se tem feito por aqui. Peregrino Júnior. Para Machado.”40 Frio. não se modificava ao influxo do tema. n. a interpretação mais profunda que ainda se fez do grande escritor. curiosas revelações do seu retrato psicológico. Dando de barato que haja – e há – algum exagero na afirmação do grande prosador francês. “Livros”.. Almir de Andrade. impregnado de uma viva marca. inexcedivelmente viva. era ele um impassível diante dos assuntos. Daí o não condenar eu. tachando-o de desumano e irreverente. na sua organização mórbida – nem há novidade nesta conclusão – a explicação. nem por isso deixa ela de ter seu fundo de verdade. . sereno. A sua singular individualidade desperta cada dia maior interesse da parte dos nossos ensaístas. também. sem arrebatamentos. teremos na doença de Machado. Também deve ser aqui citado o interessantíssimo estudo do Sr. in Revista do Brasil. sem lhe sondarmos as raízes psicológicas no temperamento e na constituição mental. p. Se é certo. e um dos mais constantes”. agosto de 1938. que encarou Machado de Assis do ângulo da endocrinologia.. O estilo.39 que “o estilo é um produto fisiológico. das qualidades personalíssimas que o situam num lugar à parte em nossas letras. como que não existia a classificação de estilos 39 40 Id. pelo menos.

certas ousadias. “desnudo. poder-se-ia dizer.) La manière dé41 42 Aníbal Machado. como em obediência ao desejo polido do escritor de não incomodar a ninguém. 10. Se não vibrava diante dos acontecimentos. e delas daremos exemplos no correr deste estudo. porque não excluía os tons mais quentes.. mas muito velada. Machado de Assis. 1935. era sempre aquele escritor simples e correto. da sua paixão. ou discursos. Diário de Notícias. Nela se sentiria por vezes o cheiro de mofo próprio das habitações fechadas se a luz do espírito machadiano não se lhe irradiasse por todas as dependências. maravilhosamente límpido”41. agressivement errupée (sic) ou laborieusement poétique. mas de um vegetarianismo com leite e ovos. gracioso. Estilo vegetariano. o vivo contraste. medido. p. Luz de um espírito em que há “uma letargia indefinível... exato. se a vida não lhe oferecia aspectos dignos do seu entusiasmo. in “Machado de Assis”. Curioso o contraste. gozando até com lucidez a própria agonia”42. Jean Fretet: “La même mesure manque à son style. Nada disso. 25 de junho de 1939. as cores mais vivas. tendo sabido reagir contra os excessos do romantismo.) Não podia haver excesso de claridade numa casa cujas portas não se abriam ao largo sol. Escrevendo cartas. temperado e sublime. . Luz intensa. sa phrase ne traduit jamais qu’un seul goût: celui de l’excès.. romances. incapaz de reagir contra o espetáculo da sua vontade paralisada. ambos epilépticos: enquanto o primeiro é tão disciplinado. (. algumas vezes. de uma sobriedade quase frugal – quase. Porto Alegre. ao sabor dos assuntos. a sonolência do homem trancado em si mesmo. entre os estilos de Machado e Flaubert. que não dói na vista. ele que nasceu dentro do romantismo – do segundo afirma o Dr. (As exceções serão raríssimas.34 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a feita pelos velhos retóricos – que todavia tanto deveria ler – em estilo simples. Augusto Meyer. era natural que o estilo se comportasse sempre com essa imperturbável serenidade.

“O Ouro das Horas”. e cada um deles sempre monotonamente muito igual a si próprio – um extremado na ponderação. Daí. art.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 35 chaînée. aquele delicioso clima temperado de um Joaquim Nabuco. qui est la manière romantique répond exactement à ses besoins. talvez dos mais ricos do nosso idioma. posto que a um exame superficial pareça de uma pobreza franciscana. se tais recursos estão a serviço de um estilo muito fortemente pessoal. exagérée. tão igual a si mesmo. gesticulante. Tristão da Cunha. O leitor sai de qualquer dos dois suspirando – se desejar ficar em letras brasileiras – por aquele admirável meio-tom. p. que emprega o estilo “qui est réclamé par une intime nécessité dans chaque cas particulier”. São temperamentos muito extremados. “não se limita a maneira nenhuma. apud Tristão da Cunha. no bom sentido. 126. o cansaço que nos provoca Machado de Assis. E poucos 43 Dr. Podem ser muito amplos os recursos de um escritor: este terminará fatigando o mais encantado leitor. 466. n. que. mais numeroso. aliás. Jean Fretet. tão invariavelmente Machado de Assis. 45 .o cit.o 196.. imutável. in Europe. do que o de Eça de Queirós. que “a le style qu’il faut. o outro no arrebatamento. 15 de abril de 1939. n. De vocabulário reduzido Machado soube tirar estranhos efeitos. na realidade. Gabriel Brunet. como Euclides da Cunha. ao cabo de demorada leitura. policiado. por ser bem o oposto do “livre artista”. ser levado a sério quem confunda riqueza de estilo com riqueza vocabular. p.44 o oposto de Bossuet. em língua portuguesa. Tristão da Cunha. où il faut e quand il faut”45 – por isso é que Machado nos cansa. friamente medido. mais variado. sempre o mesmo ao longo de toda a obra.”43 Por ser tão homogêneo. Esse estilo assim ponderado. é. segundo o Sr. p. Nenhum estilo mais rico. nem mesmo sua”. cit.. 44 127. in Revista do Brasil. Não poderá. pois. “Flaubert: l’épilepsie et le style”.

Um estilo. dentro da classificação feita por José Lins do Rego. vistosa inutilidade – essa noção estreita prender-se-á. dentro de tal “miséria”! A Camilo chamava ele. Essa aparente pobreza escondendo uma riqueza real reflete a “singular conjunção de contrastes” que Machado realizou na obra. riqueza só de encher a vista. espécie de pluma de chapéu. ainda que fosse tanto assim. entre as quais. fala na “miséria profunda do vocabulário repisado”.36 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a com vocabulário tão modesto. não lhe falta carne e músculo. dos mais ricos da língua. São realidades que se repelem. Mas. Não é precisamente riqueza: é brilho apenas. Fialho de Almeida. os enfeites ao vestuário. Já se tem largamente repetido que não há obra bem pensada e mal escrita. de resíduos de concepções comuns às civilizações primitivas. Não se pode falar de estilo rico onde não haja profundeza ou originalidade de pensamento. Essa idéia do estilo como algo de acessório.. como . em colorir. como fazem os fabricantes a respeito de certas manteigas. a existência de 80% em tantos dos nossos escritores. e realidade. “o homem que em Portugal conhece mais palavras do dicionário”. que não resiste ao tempo. Pensa-se. ou vice-versa. em velho e excelente artigo de jornal. Não é um estilo de ossos à mostra. Carece de gordura. Há uma falsa riqueza de estilo. o de Machado. efêmero. em estudo infeliz acerca do notável romancista. a sua vestimenta. ironicamente. possivelmente. que inexcedíveis recursos de expressão soube Eça encontrar. Apesar de dever-se incluir o autor entre os magros. o supérfluo precede ao útil. Não é simples adorno do pensamento: é a sua roupagem. sem a qual ele não teria forma. destarte. antes de cuidar em dar-lhe forma. em ornar o pensamento.. dizia eu. isto sim – dessa gordura de que se pode garantir. segundo observa Spencer. verniz superficial.. à permanência. riqueza de jóia da Sloper. e expressão.. “Le style est la pensée même”. que mal encobre a triste indigência das idéias. em certos indivíduos.

freqüentemente. Reagia bravamente contra o lugar-comum.. empregava algum deles. usar.47 Tímido.46 Labieno já dizia que a sua frase era “às vezes notável pela força da expressão. ele sabia decidir-se. substantivos. faz. E.. ou no restrito. 4. Vindiciae. mas quando conseguia transpor a barreira da inibição. está escrito. quase sempre nos mais oportunos. no sentido amplo que alguns autores dão a esta figura. no terreno da linguagem. hesitava. fê-lo transitivar verbos intransitivos. 46 Astrogildo Pereira. p. o autor de Quincas Borba hesitava. no campo do estilo. apud Astrogildo Pereira. Como os namorados tímidos em relação às suas amadas. 3. troça das próprias hipérboles e metáforas. Sem falar no emprego amplo que fez da metáfora – de ordinário com muito bom gosto. e. não tanto pela imagem. de emprego de um modo ou tempo verbal por outro. E essa decisão levou-o.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 37 na vida.o 12. curioso. nem sempre com muita sinceridade. por não encontrar melhor expressão. art. um ato de contrição. “Machado de Assis. 47 . particularmente os últimos.. Rio. n. ia longe. 1899. o que não é nada comum – e até no da hipérbole.. como os namorados tímidos. in Revista do Brasil. segundo a feliz observação de Astrogildo Pereira. praticar largamente a enálage. e vice-versa.. em certos momentos. verbos e adjetivos. junho de 1939. à criação de vários neologismos e à ressurreição de arcaísmos não raro tão insolentes como os termos novos. quando. Romancista do Segundo Reinado”. com rara originalidade. mas vai andando: o que está escrito. como pela aliança insólita ou pelo contraste das palavras”. Labieno. às vezes pede desculpas ao leitor.. p. censurando-se. até que se decidisse a tomar certas liberdades com as palavras.. cit. muitas vezes. – dando-lhe tudo isso aquela força de expressão que reconhece Labieno. 34. da atitude ousada. p.

. “. Sobretudo o senhor. à p. No mesmo livro. “passou a falar pausado”..38 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Usou largamente o adjetivo e o verbo com função de substantivo.” (D. chega a ser insólito. que não se casaria bem à sólida imponência endinheirada do Rubião. C. não pedir. De maior efeito é o emprego. “Capitu ergueu-se. 13. 67: “o trabalhar para os seus”. A sobriedade de Machado de Assis levava-o a grande economia de superlativos. uma sobrecasaca bem justa. É bem conhecida a sátira a José Dias. rápida”. Várias Histórias.” Em Poesias.” “Um dever amaríssimo!” é mes- . não as havendo. “Não tinha as maneiras súditas. algo de gracioso e leve. do substantivo com função adjetiva: “As pernas. até na própria contextura do vocábulo.. pp. – um ricaço de Minas” (Id. 208. 246: “ria largo”. pouco simpático à sua índole. “Era um modo de dar feição monumental às idéias. que os léxicos consignam somente como substantivos. Em D. 38). um andar firme e senhor. servia a prolongar as frases. pp. 4.. O superlativo supõe o exagero.. Em D. Que arte sutil a desse velho Machado de Assis! Sentia. Mais insólito é o de andarilho e senhor.. façamos aqui uma observação. e “o sussurrar”. 52. pp. de tão raro. 72). 254). nem as curvas reverentes dos outros rapazes” (Quincas Borba. respectivamente. “Lia cantado e compassado”. Infante e súdito como adjetivos figuram em dicionários. à p. 23: “o acender das luzes”.. “Quando apareciam as barbas e o par de bigodes longos. à p. 101. não hesitar. lê-se: “o encardido do tempo” e “pelo apertado dos olhos”. C. Poesias. e o não interrogar. 15. 210 e 270: “um contínuo morrer”. dizia-se logo que era o Rubião.. 15. exemplos semelhantes em Esaú e Jacó. decerto. “E rápido saí”. que há qualquer coisa de feminino no senhoril. em certos casos.. 134).. 69: “. 82.. recebeu-me com o seu grande riso infante” (Relíquias de Casa Velha. e o adjetivo com função adverbial.. bengala de unicórnio. que “amava os superlativos”. Casmurro. 69. “jurava muito e rijo”.. mas o uso.. “X. um peito largo.” Que força! que sensação de completo domínio isto nos deixa! Uma vez que estamos falando em adjetivos. 22 e 55.. e um andar firme e senhor. há pouco tão andarilhas.

... a originalidade com que Machado sabia muita vez usá-los. “feições duras e frias” (Helena. o que é o seu tanto estranho. 6). um dizer calado. C. depois do deleitosíssimo: “. não raro. 175). Note-se que em nenhum dos exemplos deixa de figurar o conectivo e. cheio de uma glória pia e risonha”. à p. espraiado e fundido”.. Não foi este o próprio vocábulo empregado por ela. uma questão grave e gravíssima os fez concordar também” (Esaú e Jacó. “Não esqueça dizer que. já lá disse algures que D.: “Era alto e seco.. R. à p. Usa com muita sobriedade o superlativo isolado. porque era verdade que estava tonto e tontíssimo” (Outras Relíquias. B. 7). umas finezas namoradas que o alienista outrora dirigira à prima do Costa”. C. R.” Observemos ainda. Atenuava o efeito. fisionomia dura e gelada”. 199). 27 de Papéis Avulsos: “Edificou-se um romance. 53). Originalidade chocante em alguns casos. Carmo não possui o estilo enfático.. 29 de Crônicas. 190: “noite moça”. Veja-se o que escreve no Memorial de Aires. Dir-se-ia que era um modo seu de não chocar o leitor com a exibição fulminante do superlativo.: “Foi ele mesmo que me contou e explicou isto.. Pois dessa antipatia ao superlativo resultava. À p. 47). porém. 258-9. “podia ser algum negócio grave e gravíssimo” (Várias Histórias. 8). O melhor.. e ouvi mais que a velha e os moços passaram um dia deleitosíssimo.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 39 mo o nome do capítulo em que Machado mete a ridículo o mau gosto do agregado. em 1888. e a voz ia saindo meditada e colorida” (P. “João Carneiro estava com a pupila desvairada” (Id. 129 de V. 88 de D. Alguns exemplos: “Era certo e certíssimo que Carlos Maria não correspondera às primeiras esperanças” (Q. 113).. “. H. à p. “deixava-me agora com os braços atados e medrosos” (D. I: “uma conversa árida e suada”. é a sua adjetivação de atributos físicos – sobretudo os olhos: “boca fina e interrogativa” (V. à p.. 17). 262 de Memorial de Aires: “Entrou a dizer de si mesmo.. H. à p. “. “as longas barbas grisalhas e sérias” (P.. a propósito de adjetivos. “pupilas . 171). o emprego do mesmo – quando se fazia absolutamente necessário – precedido do adjetivo no grau normal.

C. com longos olhos ávidos e felizes” (P. 157).. “olhos meigos e submissos” (Id. Em D.” A mesma originalidade se lhe nota quanto ao emprego de certos verbos.. 184: “E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta... 7).” Em O.. C. 118 do B. “E ficou a rir e a olhar.. 87).. eram direitos. nem de ressaca. 222).” À p. C. 34: “Uma cigarra que ensaiava o estio. “Uns olhos tão lúcidos. lendo gazetas ou cochilando a vigília de uma noite sem cama” (E.” (Id.: “Era agora pouco buscada a loja. 315). “Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos” (Id. 12: “desamparou tudo. 144).” Notemos agora o efeito que dá ao seu estilo o hábito de transitivar certos verbos intransitivos: “A verdade não saiu. “. à p. “olhos derramados” (Id.. “olhos teimosos” (V. 28). “olhos dorminhocos” (Id. Quarentona..” (Id.. solteirona.. 124). grunhiu algumas zangas” (B... C. e J. “os dois seguiam com os olhos espraiados e a cabeça alta” (Id..” Nas Histórias sem Data. fizeram-se murchos” (Id.. logo de manhã.. 11 de Outras Relíquias: “Eram robustas e descaradas.. Gemeu-os consigo. 97). quando recebeu o mimo. 356). “olhos pedintes” (Outras Relíquias... 108).40 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a vagas e surdas” (D. costeando a fome.. 186: “Vivia miseravelmente. R. “olhos perscrutadores e sagazes” (Helena.” (D. 7). ficou em casa. “olhos tímidos” (E. “Os olhos.. B.. no coração de Capitu. constantes” (D.. 62). “olhos amotinados” – que maravilha! – (Q. não se descrevem.. 105).. 189). C. 17). C. 194). um pajem que nos deixava gazear a . não eram oblíquos. 180).. 21). como se vê na p. lúcidos. 52).. R. “olhos cuidosos” (Id. 31). “grandes olhos sonsos e agudos” (Id. “Os olhos de Capitu. C. Abra-se o D. B. “os meus olhos longos. 106). cochilando o seu arrependimento... casa e marido”. Outras vezes faz um desconcertante casamento de adjetivos. “A filha estava ainda qual a deixamos no capítulo XLIII. e J.. “olhos senhoris” (Poesias. “o cão trepava-lhe às pernas para dormir a fome” (Q.. que eram travessos. olhando à toa.. C.” (B.. com a diferença que os quarenta anos vieram. 15). 151). “A Sandice ainda gemeu algumas súplicas... 150). “lindos olhos redondos e namorados” (Id. H. claros. “.

sentava-se horas e horas bocejando o espírito” (H. que é. D. raríssimo encontrar-se em seus livros um destes últimos verbos. emprega-o com tanta freqüência. 47). como observei atrás. B.. B.: “Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade!” Uma das razões por que. De tal modo que.” (Id.. 102 de V. por exemplo. “. E. O.. 101. Vejamos outras provas.. Q.. que para fazê-lo entender. C. 54. H. é preciso remontar a origem da situação”. 48.?” (Poes. “Íamos a pé. B. Mas não quero tirar conclusões.. 215. e J. 16. 140. plácido e cálido. C. e à p... D. naturalmente. É notório o apego de Machado a certas palavras e expressões. R. de A. o herói do conto Viagem à roda de Mim Mesmo. 34). “Rufina.. a sua pouca simpatia aos proparoxítonos. 41. sem D. 162 de D. buscava evitar o superlativo absoluto sintético seria. 96.. 6. Plácida chama-se uma personagem do Brás Cubas.. 283. “. 12 de Relíquias de Casa Velha aparece três vezes: “. tem o nome de Plácido. e J. 226.. 271. 146. C. 108).. lendo-o. 218. H. desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. C. 131... filosofando as cousas” (Id. V. C. 256). Lépido aparece. ‘Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três” (linhas 19-20). de Outras Relíquias.: “Em verdade o que se passou foi de tal natureza... Cálido: E. no intervalo das ordens que dava. Alcançar no sentido de conseguir. desperta a nossa atenção o emprego relativamente freqüente de três palavras esdrúxulas: os adjetivos lépido. em D.. por exemplo. se era doce/Morrê-la à sombra deliciosa e amiga/ Dos coqueiros da terra. 344)... contêm um l e terminam em ido.. sem D... obter. H. há um Plácido no Esaú e Jacó. 178.. 49.. relativamente. Interessante notar que os três vocábulos são todos trissílabos.Li ngu agem e esti lo de Mac ha do de A s s i s 41 escola” (Id. 240.. H.. à p. 56. “Mas que importava a morte.. e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de ... Estranho é o uso do verbo remontar como transitivo direto na acepção em que se encontra.. B. 13. M. 211. 185. V.. Q. Plácido: Poes... Na p.. Usava-os Machado com muita moderação. não alcançando mais que a ordem de mudança” (linha 16). 13.

11-12). e o insinuativo. três inventos do padre Zeus. vem às pp. B.. mas um vagar calculado.. Abramos o D. 42).. C. lê-se: “Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela.. 51. todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos” (p. 31. aí ficam trocados no cavalo e no asno. 150. Q. C. B. como no mesmo livro. Para não ser . 160. “Pádua roía a tocha amargamente” (p. 348. C. Advertir. 1. 55). 4). “Conhecia as regras do escrever. de ressaca. que. mas o asno da paciência. 67. 72. na acepção de notar. pegar em si – são outros tantos lugares-comuns de Machado de Assis. Três vezes em 11 linhas! Diante disto nem interessam outros exemplos. a conseqüência antes da conclusão” (pp. O leitor há de ter notado a metáfora contida no trecho acima. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico. A. a premissa antes da conseqüência. há dois meios de granjear a vontade das mulheres: o violento. Numerosíssimas – sem hipérbole. 79. não já cavalgando o corcel do cego desejo. 20). É o que me dá idéia daquela feição nova... tinha orgias de latim e era virgem de mulheres” (p.42 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a obter dinheiro” (linha 26). não aquele vagar arrastado dos preguiçosos. deduzido. 64. B. Metido em si mesmo: só em Q. H. por estarem fora da moda. 347. H. de A. de que tanto se fez praça aqui até há tão pouco tempo. um silogismo completo. sem suspeitar as do amor. C. como o touro de Europa. Por falar em lugar-comum: já foi dito que Machado desprezava esse cômodo recurso. Em B. V. 16. “Olhos de ressaca? Vá. Que. nos dias de ressaca. 41. “depois a conversa entrou a cochilar e dormir” (p.. sem D.. 89). M. “Levantou-se com o passo vagaroso do costume. As metáforas e as imagens são numerosas na obra de Machado. a um tempo manhoso e teimoso. ao pé de.” Já compreendia o ridículo das citações de coisas da mitologia.. em verdade. dar por si.. 96. 112.. como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Dânae. em D.: “Os amigos que me restam são de data recente. como a vaga que se retira da praia. uma força que arrastava para dentro. 345.. P... “teimava em esconder os saldos da juventude” (p. e outras. posto que.

tu amas a narração direita e nutrida. e passim. cava e escura. Ventilai as consciências! não vos digo mais nada” (p. ou com poucas e gradeadas. “Podiam ser mentira ou ilusão.. agarrei-me às outras partes vizinhas.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 43 arrastado. 147). aos braços. 122). não raro com janelas para todos os lados. “Neste particular. a menor brisa lhe dava um potro. eram os ossos da verdade. Também as há fechadas e escuras. 97). não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu vizinho. sem janelas.. “Tu tens pressa de envelhecer. “Escobar veio abrindo a alma toda. – Na p. entrou uma onda de ar puro. capelas e bazares. que saía logo cavalo de Alexandre” (p. ameaçando envolver-me. levava uma tocha em vez de vara. quebrou nessa ocasião o ovo. pela pena de Machado: “. que chegou a ficar sufocada. é uma casa assim disposta. depois de – para significar o desespero de Pádua.” (p. desde a porta da rua até ao fundo do quintal. simples alpendres ou paços suntuosos. A alma da gente. mas deixemos metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos. 70). a minha imaginação era uma grande égua ibera. dado que fosse águia. à semelhança de conventos e prisões. e vê sair branco o maldito número – um número tão bonito!” (p. mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral. mas tão depressa buscava as pupilas. às orelhas. e a pobre dama respirou à larga. Bentinho diz. 170). “Minha consciência valsara tanto na véspera. e o livro anda devagar. depois de comparar a sua imaginação a uma grande égua ibera. puxar-me e tragar-me” (p. muita luz e ar puro. 22. o estilo re- .” E à p. como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias e esperanças. 89. 156). e desvendou a pupila fulva e penetrante” (p.” – Passemos ao B. a onda que saía delas vinha crescendo. 104). Outrossim. que.: “A ambição. C. não era a carne e o sangue dela” (p. aos cabelos espalhados pelos ombros. acompanhando o Santíssimo. “Tinha os olhos úmidos deveras. Sendo verdade. levava a cara dos desenganados. como desejaria – empregar a metáfora – “Pádua roía a tocha amargamente” – pede desculpa: “É uma metáfora. como sabes.

as mulheres. olhava e andava. “A alma do Rubião bracejava debaixo deste aguaceiro de palavras. não são os mesmos da estrada de ferro. nenhum corredor. inquietos. os homens. 25). mas viram os nomes no cartão... e este livro e o meu estilo são como os ébrios. ameaçam o céu. e a chuva a cair. 55).. 132)... 144). olho aberto.” Vamos ao Q. e o major chovia a cântaros. e já não sublinham nada. 125).. gargalham. A lanterna fazia parar toda a gente. “Cada gloriazinha oculta picava o ovo.: “Herdeiro já era muito. sem penas. afrouxou a rédea aos olhos. escorregam e caem. mas estava num beco sem saída por um lado nem por outro. parava. quando o nosso Rubião falava com o Palha. “Sofia não interveio. nenhum malogro. Para que escancarar as janelas?” (p. que eram ridentes. corteja-o agora rasgadamente. e eles iam sublinhando a conversação. 58). e estirou-se todo num banho de inveja e admiração” (p. guinam à direita e à esquerda. “Viu de memória a sala. a ver se recobrava as cores e as carnes primitivas” (p. cosida de gozo. porém. 35). um riso azul-claro” (Id. B. e cumprimentaram-se” (pp. bastavam-lhe os olhos. “Oh! esse olhar foi como um bilhete de visita trocado entre as duas consciências. Agora. 108-9). tal era a lindeza da cor. que se deixaram ir ao sabor de si mesmos” (p. Nenhuma porta aberta. e punha a cabeça de fora. Freitas. mas universal... Tudo muralhas. “Nenhum revés. 56). andam e param.” (p. Nenhuma disse o seu segredo. compõem logo as cousas por si mesmos. escutava.. e não é uma linha nem duas.. resmungam. os leques impacientes. os bigodes despeitados. Esta palavra inchava as bochechas à herança” (p.. “o capital precisava do regímen do bom juro e alguma poupança.). na conversa. urram. e só convitativos: podemos compará-los à lanterna de uma hospedaria em que não houvesse cômodos para hóspedes. com rendas de supérfluo” (p. “Na boca. “Para as despesas da vaidade. convidativos.. e a originalidade dos emblemas. em letra vistosa e gorda. – vida plácida. nenhuma pobreza. . são capítulos inteiros” (p. parecem mais negros. com grandes . em volta da glória máxima do Rubião” (p.44 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a gular e fluente. 271). “Os olhos.

à p. não te coube/Na terra em que primeiro houveste o lume/ Do nosso sol.. . Inclusive do anacoluto pleonástico. sempre que possível. e J. 19). era capaz de não comer um dia inteiro. e as orelhas da gente andam já tão entupidas que só à força de muita retórica se pode meter por elas um sopro de verdade” (E. sem D. – hipérbole permitida para dizer que em ambos nós. Como este.”. 26.. muitos exemplos de anacoluto oferece-nos a obra de Machado. que faz uso do hipérbaton: “Ângela os lindos braços sobre os ombros/Trava do austero pai” (p.. 212). 239).. mas a hipérbole é deste mundo. repercutia a felicidade daqueles vinte e cinco anos de paz e consolação” (M. que chupa o corpo todo.. deixando um bagaço de ossos. e o autor morre com as folhas em branco. e a filha da floresta/Há de a história guardar das velhas tabas” (p. 199.. Há aí o seu tanto de exagerado. achar o último leito!” (Id. 201 de H. outros exemplos às pp.” Em Papéis Avulsos. e mais do piano que do canto. que usa com freqüência maior. 255).. p. de A. em mim. Mais um caso do não pleonástico: “Mas tu.. Evitando. 282). 47). “Gostava de música. quando a emprega. 34. 18: “Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio. às vezes.. “Guaicuru dói-lhe no peito/Tristeza de envergonhar” (Poes.. 24-5. a hipérbole. Ao piano. uma alegria abotoada de circunspecção até o pescoço”. À p. 96). roubado/Tão cedo ao nosso orgulho. há vidas que só têm prólogo. 259).: “Com efeito. 201). 105: “uma algazarra infinita de cousas. p. ao menos. e de que me limitarei a um exemplo: “Teu arco de guerreiro. mas toda a gente fala do grande livro que se lhe segue. Em Páginas Recolhidas encontramos. É sobretudo nas Poes. “. Vejam-se os dois trechos seguintes: “Desta maneira pudemos ouvir palpitar o coração aos dois.” Em V. velha dama insaciável. procura justificar-se. entregue a si mesma. H.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 45 aleluias íntimas” (p. / Em que deserta praia o abandonaste?” (Id. 116: “Era a tísica. “Na noite entrou dos imortais pesares” (p. cantor da América.

e as mudas. H.. geral. nos outros” (B. nenhuma expressão de ódio ou ferocidade. 8). “Que abismo que há entre o espírito e o coração!” (Q. e voava. B.. e o homem a cingia ao peito. 332).. Alguns casos de assíndeton: “Sr. 186). mais numerosos..... era a da impassibilidade egoísta. e zumbia” (Id. especialmente o coche de Sua Majestade.. C. B. H. nas sedas. a da eterna surdez.. 46). e voava.. “Eu. “galerias cheias que não cabia um alfinete” (Q.... tudo sentiu de mistura” (V. “nunca me acudiu que havia peraltas na vizinhança. 196). como uma ilusão” (Id.. como um escárnio. 122)... 25). 22). e as expirantes. Se uma ou outra vez incorreu no eco – o pior exemplo é o desta frase à p. e as mais ardentes também. e então ela ria.46 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a São em grande número os exemplos de elipse que seus livros nos fornecem.. nas luzes. “E aí vieram as palavras mais doces que jamais disseram lábios de homem nem de mulher. “E zumbia. “Que suplício que foi o jantar!” (B. E repetir aos namorados ecos/Quanto vive e reluz no pensamento” (Poes.. I: “O capitão em questão lá está nessa labutação” – . Outros. 258).. C. 38). – enfim. 155). e cousa nenhuma” (B. “Chega-se à pobre da moça” (Poes.. finas e velhas pinturas” (Q. “. Brás Cubas. 154). e as de perdão” (V.. C. e as de ciúme. fortes molas. C... e pedra. Bastam os seguintes: “. “. eu descia à imobilidade física e moral. 211). 314). B. sustos.. C. 2). sinto a dor mal sofrida/Da saudade que punge e do amor que lacera/E palpita e soluça e sangra e desespera” (Poes. e sumia-se. “Que lindos que são!” (Id.. 8). “Nada mais quieto. “Vexame. grandes passeadores das tardes” (D. 250). de polissíndeton: “Esvaía-se-me a consciência. completa.. e eis me surge o passado” (B. nenhuma contorção violenta.. C. “. desejos. 43 de Crônicas. e lodo. usou do expletivo: “Bentinho quase que não sai de lá” (D. a feição única. e as tresloucadas. vastas proporções. 3).. nos cristais. “Era quase que exclusivamente nossa” (Id. a da vontade imóvel” (Id. Por outro lado. a rejuvenescência está na sala. remorsos. e o corpo fazia-se-me planta.. vária idade e feitio. 106).

confusão e profusão de seres e de cousas” (H. e eis-te de novo namorado. e dava arrepios aos dois vagabundos. Foram citados atrás alguns exemplos de hipérbaton. de preferência. 297-8). “. não já cavalgando o corcel do cego desejo... que parecia faca. a um tempo manhoso e teimoso” (B. refeita e perfeita” (C. de rara energia. breves e leves” (Q. e a anteposição do adjetivo. difusão. 2). longa e cruel” (B.” (Id. 59).. como o próprio puxar instantâneo de uma faca – tudo isso faz que ele nos dei- . 78). se o viu.. por expressões. 22). mas o asno da paciência. períodos. F. “Soprava um triste vento. “Era uma criaturinha leve e breve” (E. a adjetivação dada ao vento. incisiva. 55). transfusão.” (Id. no silêncio da noite alta. o que na realidade fazia era usar. a desgraça do Rubião.. através deste livro. C. Por eufonia. parecendo cometê-lo... “mulher feita. Veja-se a força de frases como estas: “Longa foi a agonia. frases. 29 de Brás Cubas: Virgília foi o meu grão pecado da juventude.” – lê-se na p. de A. e J. “Já agora tinha a alma tão confusa e difusa como o espetáculo exterior. A combinação das vogais – o a de soprava e faca. pelas ruas de Barbacena.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 47 quase sempre. para abençoar o casamento de duas pessoas lustrosas e vistosas” (M. no entanto. se as tinha. “. Vejamos: “Subindo os degraus com os seus sapatinhos de cetim. “. conscientemente. “Fusão. de uma vivacidade impressionante. 51). de que tanto gostava Eça de Queirós. ficavam encerradas no coração. B.. 253).. o tom chocante da segunda oração – “que parecia faca” – com essa sílaba fa surgindo... alterná-la de maneira admirável com a construção inversa. “Raivas. Se o leitor sentiu. às vezes. “era obra de um egoísmo idoso e melindroso” (Id. sabe.. o homeotelêuton. A conjunção dos contrastes. e o i de triste. parecia e arrepios.. sem D. 4). C. 120).. à p. a ordem direta. acompanhado do cão. confiado e arriscado” (Ressurreição. usa a apócope no seguinte passo..” Adotando. no seu vagamundear sem destino.. devorado da fome e tiritando de frio – nunca mais esquecerá esse período. como que de repente.. A placidez do seu estilo é golpeada.. 196). 359 do Quincas Borba.

mas cedia à indiferença. nem rútilo. flagelado e rebelde. um retalho de impalpável. feita de retalhos. como um chocalho. que há de espantar a quem faz de Machado a idéia de um escritor sempre “plácido e igual. como um farrapo. Rio. e então ela ria. 82. escritor que. a cólera que inflama. e o homem a cingia ao peito.48 Encontro dificuldade na escolha de trecho para citar. e todos agitavam o homem. não é vivace. de uma vibração. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara. que não emagrecem nunca. “correto e maneiroso. – Observemos como nos fala de uma bela e silenciosa noite de luar: “Estava deliciosamente bela. e essa figura. de um movimento. De mim. 24-5): “Aí vinham a cobiça que devora. que era um sono sem sonhos.” O capítulo O Delírio. por vezes. C. a melancolia. o amor. Vamos à p.48 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a xe uma impressão eterna. ora mordia o pensamento. sobre o qual a morte batia a asa eterna. que ora mordia a víscera.: “A dor suspendeu por um pouco as tenazes. C. – ou lhe fugia perpetuamente. ou deixava-se apanhar pela fralda. a vaidade. como um escárnio. Eram as formas várias de um mal. é quase todo ele de uma eloqüência. e a ambição.. outro de invisível. do mesmo livro. e a enxada e a pena. A dor cedia alguma vez. cosidos todos a ponto precário. a inveja que baba. Machado de Assis. em derredor da espécie humana. e sumia-se. restavam os ossos. 1897. os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio” (D. nem grandioso. como um dia brilhante. que era uma dor bastarda. até destruí-lo. 191). um sorriso alumiou o rosto da enferma. de uma vida. Então o homem. corria diante da fatalidade das cousas.” 48 Sílvio Romero. a riqueza. – nada menos que a quimera da felicidade. nem eloqüente” – como afirma Sílvio Romero. como uma ilusão. 78 de B. com a agulha da imaginação. de um arrebatamento. atrás de uma figura nebulosa e esquiva. . uniforme e compassado”. e passeava eternamente as suas vestes de arlequim. ou ao prazer. outro de improvável. a fome. Vai este (pp. p. confesso que não me sairá jamais da memória. úmidas de suor.

quase ria. ir falar-lhe sem ser chamada. falem!’ Não confiaria de homem aquele passado.. às portas gretadas. que eu não trabalho para a desgraça dos outros. tenta explicar-se. O ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras. diabos. o melhor é ficar. O tímido. pedir outra cousa. às grades velhas. é ele mesmo. realmente. 90). se não gosta. aos lampiões antigos. não peço. um pouco de artifício. contar-lhes a vida. por exceção.. Há neles. Mas. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a chácara. pareciam reconhecê-lo. e valem de si mesmas. se ele gosta de ser padre. manas. entre eles se encontram coisas assim: “Lá avivar-lhe a memória.’ É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia.” (Q. B. “Mas nunca esperei que um homem tão pacato.’ Passava por elas. interrogava-as. “Não me pude ter. se ela me dissesse: ‘Prima Justina. e J. não faço” (D. Só as casas. apenas inferiores aos braços. Se ela me consultasse. tudo o que fosse discreto. ouvir-se admirar delas. 66). mas às paredes mudas.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 49 Nem falta poesia a algumas de suas páginas. tem os seus momentos de poético abandono. a tudo quisera dar olhos. que eram as mesmas. mas. Era costume delas. tão não sei como. e caminharam para o quintal vizinho. As minhas chegaram ao pé do muro” . Sílvio Romero censura a falta de naturalidade nos diálogos de Machado de Assis. Agora. obrigá-las a comparar o modesto de outrora com o garrido de hoje.. pode ir.. se os havia ainda. não. você que acha?’ a minha resposta era: ‘Prima Glória. às tardes. uma boca que só ele escutasse.. e às manhãs também. fitava-as. como se vê no seguinte trecho: “Voltou mais vezes. Não é poesia. Fiel ao seu feitio. eu penso que. quase as tocava para sacudi-las com força: ‘Falem. o esquisitão. Que as pernas também são pessoas. quando a cabeça não as rege por meio de idéias. e escutar-lhes as palavras mudas: ‘Vejam. C. 233). às vezes. e que proclamasse a prosperidade daquele velho andador” (E. ouvidos e boca. e algumas quase que lhe falavam. mas também. bem. o fechado. se tirasse dos seus cuidados para vir dizer-me cousas esquisitas.

enquanto eu pensava naquela gente. elas é que o levaram por si mesmas. C. as mãos não agem. que a fizeram. Machado de Assis. enquanto o espírito trabalhava a idéia do casamento. fundindo-se. 81. B.. apertando-se. E logo no parágrafo seguinte: “Santas pernas! Elas o levaram ainda ao canapé. (p. para que ficasse à cabeça tão-somente a tarefa de pensar. B. lutaram alguns instantes. pegando-se. deixou-se estar. . Abençoadas pernas!”. 228.” É muito de Machado de Assis o insistir em certos termos. essas voltas ao mesmo tema. São Paulo. devagarinho. reproduzindo o estado da consciência.. um processo. H. “no monólogo caprichoso que é o maior encanto dos seus livros..” Vamos à p. se não fosse muito repetido. levava anos a trabalhar a mesma idéia. estenderam-se com ele. mas o esquerdo.: “Não nos movemos. 1939. obedecendo a um sentimento de regresso. C..a ed.. e sim às pernas. metáforas e assuntos. 152). hesitam: “As mãos hesitavam. Em V. sem tropeço. mas. As pernas queriam descer e entrar. B. mas vão alguns mais: “As pernas tinham feito tudo. 183. lemos: “Foi aqui que o pé direito de Rubião descreveu uma curva na direção exterior.50 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a (D..” Em Q..”49 Dá diversos exemplos. 13-14: “A casa olhava para ele. 185) tem mesmo por título As pernas: “Ora. como tantos outros recursos de Machado. 41 de D. as mãos é que se estenderam pouco a pouco.” O capítulo LXVI de B.. direitas. – Esse automatismo de movimentos daria grande efeito ao estilo. 37). Boas pernas! pernas amigas! muletas naturais do espírito!” (Q. Infelizmente não me é possível dar muitos exemplos. todas quatro.. nenhum merecimento da ação me cabe. se não constituísse.. C.. de modo que insensivelmente me achei à porta do hotel Pharoux.” Em Q.. um lugar-comum do escritor. iam-me as pernas levando. Lúcia Miguel Pereira observa com razão que são freqüentes. De costume jantava aí. não tendo deliberadamente andado. lúcidas. ruas abaixo. 2. p. tomado de sentimento contrário. por assim dizer. como o faz também – mais largamen49 Lúcia Miguel Pereira.

pois o pleonasmo. aqui está o silêncio.. 118. 116-18. nem amamos ou detestamos o que roemos.: 50 51 Peregrino Júnior. 233: “A igreja era a mesma. supõe a repetição de idéia: “Mas o silêncio amplo e calado/Calado fica.” Em E. era um elogio. aqui está a solidão. 273: “. C. ibid. aqui estão os altares. nós roemos. A.... posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio. não pedia riquezas. em inúmeras repetições..” Id. à p. 50. mais abundantes que as primeiras..”50 Fruto de sua gliscroidia. para mostrar aos outros as suas venturas particulares.” E logo à página seguinte: “Talvez este discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído. 59: “Rico era ainda muito mais do que ela pedia. 72: “Eu. 57-8: “decotava a mulher sempre que podia. 16 de P. pedia um esposo. a cuja obra pertence o seguinte trecho: “Machado de Assis parecia descrever movimentos concêntricos.. a investidura eras tu.” Em V. a quietação quieta. e J. 6 de H. sem D. p. a repetição existe não só na forma como no sentido.” Em Q. lemos: “– Meu senhor. H.. certas palavras. e só de ciência. 153: “Mas a vocação eras tu. interminavelmente..” Ainda no mesmo.: “Homem de ciência. por assim convir à natureza do seu estudo – o Sr. 35: “Para onde quer que virasse os olhos. 301.” No mesmo livro. Rio. certas imagens. Em Poes. nada o consternava fora da ciência.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 51 te. girando. levantou nada e cingiu nada. nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos. essa tendência se reflete. aborrecidamente”. Peregrino Júnior. Id. Abramos o Q. lentamente. quase todos de viciosas. via a moeda girando. em volta de certos assuntos..” À p.” No D. 1938. pp.. respondeu-me um longo verme gordo. . Peregrino Júnior51 apresenta dezenas de casos.. gostava do elogio.” À p. amigamente. nem escolhemos o que roemos. Doença e Constituição de Machado de Assis. no estilo. B. Vamos a estas. como observam os dois autores. p. 359: “Não senhor. p. intencionais ou viciosas. B. usado no trecho. p.. e até onde não podia. O Sr. e escanhoou à vontade.. ele pegou em nada. girando.” Id.

. às obras da primeira fase... “mais galante e mais novo.” Em B.. foi assim que me encaminhei. pp. apenas. já. com uma ou outra montanha de neve. silenciando discretamente quanto ao primeiro. Não basta..” Estudando o ritmo de repetição em Machado de Assis. “não. A cada página se encontram. vegetação de neve. “não a pôs no intróito. que. não me arrependo. 1 se me deparam os seguintes: “pelo princípio ou pelo fim”. “sem as ânsias nem as dúvidas”. não raro. ao fim... tudo.”52 Não quero dar palpite em assunto tão elevado.. e eu vos darei tudo. nem anúncios”.. 3: “Não digo que se carpisse. Tudo neve. p. talvez. não digo que se deixasse ro52 53 Id. mas ao cabo”.. Peregrino. Abro as Memórias Póstumas de Brás Cubas. a convulsão. “o meu nascimento ou a minha morte”. “pausado e trôpego”. “não houve cartas. muitas vezes na mesma página. aventar a hipótese de que esse ritmo ternário “simbolizaria talvez as três fases típicas da crise epiléptica: a aura. mas desejaria lembrar o seguinte: se. 146. Passemos à p. C. chegava a gelar-nos um sol de neve. não deu exemplos. nas outras. abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície branca de neve. tudo. adverte o Sr.52 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a “. “bom e fiel”. Peregrino que era tal ritmo em geral binário nos livros da primeira fase. tudo. Id. para. tudo.. e vários animais grandes e de neve. não ficará prejudicada a interpretação do ilustre escritor? Depois.. tudo. “E foi assim que cheguei.. Dá vários exemplos do último.. nota. A cada página. de que. 2: “rijos e prósperos”.. e logo à p. 19-20: “Com efeito. só? Não me parece acertado que o ritmo binário seja peculiar.53 alguns autores dividem a crise epiléptica “em quatro etapas”.”. ibid. p. ibid. como disse. . é ele mesmo quem fala do ritmo binário. exemplos de tal ritmo. e. sendo ternário nas obras posteriores..”. reconhece que não basta. À p. o íctus. felizmente. 146. como afirma o próprio Sr.. no seu sôfrego interesse de chegar à explicação científica. “crua e má”..

6: “uma virada para o público... “decifra-me ou devoro-te”. “três ou quatro vezes”.. bem pesadas as coisas. O ternário será menos freqüente. “reclusos e calados”.. metodicamente”.”.. estendeu os braços e as pernas”.. “Que lhe importa a canoa nem o canoeiro. em parte..) À p. “homem calado e metido consigo (p.. 1). Repito que não quero meter-me em assuntos tão elevados. “Os braços também. “tão lisos! tão brancos!”. À p. a boca entreaberta”.?”. “tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso”. “. uma pergunta: ao Sr. Que ombros!”. “Prata. darei aqui alguns exemplos: “Não havia lua. mas. buscou outro assunto”. execução fina e acabada. eram os metais que amava do coração”.. “de tamanhos e tão profundos efeitos”. tudo entra na mesma sensação de propriedade” (p.. “quero morrer tranqüilamente. (Esta página só tem 6 linhas. convulsa.”. “falou da lua e dos ministros”. “um Mefistófeles e um Fausto (p. “De um lado. 2). que eu conheço de vista e de chapéu”.. de outro lado. “primor de argentaria. Vamos ao Dom Casmurro: “. nesses como nos outros livros da segunda fase de Machado de Assis. No Quincas Borba lê-se: “Que era há um ano? Professor.. 5: “deu um grande salto. ouro. “grandiosa e útil”. “arrepiou caminho. “Morto! Morto!”.. não lhe parece que. 2). mas se lhe disser que foi menos a pneumonia. teso e sério”. mas a nossa amiga . “com os olhos estúpidos. e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus”. “um medicamento sublime.. Quarenta e seis exemplos em 11 páginas! O difícil é encontrar página em que só haja um caso de ritmo binário.”. À p..... “A viagem era curta.. mas não passou do gesto” (p.”. Que é agora? Capitalista”. sede de nomeada”. esteja. filantropia e lucro. resultado da ambivalência. “. a outra para mim”. 4: “Morri de uma pneumonia. 1): “o espírito e o coração”. oh! os braços!” (p. um emplasto anti-hipocondríaco”. nessa ambivalência a origem do ritmo binário – que. na realidade. que tão bem estuda a ambivalência no velho escritor. 3). são os ombros. “um filho ou uma filha. é mais freqüente do que o outro? Da hesitação no estilo de Machado de Assis. “o militar e o cônego”.. e tudo.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 53 lar pelo chão. Peregrino Júnior.. “Vi-lhe fazer um gesto.

É tal hesitação uma das causas mais importantes da sensação de monotonia que às vezes nos dá a leitura de Machado.. 25. Com certeza. tantos tropeços.. – Dessa hesitação constante vem o abuso de certas palavras e expressões – mas. cit. 53. – ou porque brilha de empréstimo. – não se sabe bem por quê. p. C... “muita preguiça e alguma devoção. do crítico 54 Sílvio Romero. Se não foi ele. – digo mal. “mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu. nem singela sem elegância. “a cousa é divertida e vale a pena. Alcides Maia.54 Aurél io Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a aborrecia a lua. pode ser. . mas lembrava-se que sorriu. op. se é que não fingiu uma dessas cousas”. 166). 69. ou talvez medo. creio que medo”. se é que. contaria vinte e cinco anos” (Q. a verdade é que. mas fresca de feições. 83. Talvez contente. B.. “Capitu obedecia e jogava com facilidade. creio que. C. mas sorriu”. 19. 133). Curioso é que o Sr. Este pode ser que não fosse. e não sei até se contente. discordando.” (D.54 atribuindo a outrem a expressão. 92 e 95).. 91. não sei se diga com amor”.... foi o pé. talvez. etc. Um ou outro. “A luz do fósforo deu à cara do major uma expressão de escárnio. ou de outra cousa menos dura. Sílvio Romero acha “que ele apalpa e tropeça. – devoção. pp. “Rente com ele. ou porque toda a gente a admira. sobre a gaguez do romancista. ou. 89. H. tantas paradas. – talvez monótona – mas vale a pena”. não bonita.. São tantos avanços e recuos. passou uma mulher. beijando o nome”. impassível” (B. mas não menos adversa”. e deu por si beijando o papel. não. “Achara-lhe um modo esquisito. e pode ser que por ambas as razões” (V.. “parecia resignado aos golpes da fortuna. com atenção. nem. “. que a gente nota que o mestre não exagerou muito comparando o seu próprio estilo ao caminhar dos ébrios. antes pobre que remediada. indiretamente. hoje célebre. mas ou o pé ou o espelho traiume. “Fui devagar. – pouco. 117 e 165). que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da palavra”. “A moça não era formosa. talvez não tivesse graça”. se.

esfrega-as no joelho. a ver se lhe descobre o despropósito. “Já a oração era morna. quase sempre muito curtos. Rio.. até. 48) é formado de cinco pentassílabos: “Ao cabo. 18) contém nada menos de seis septissílabos e um hexassílabo: “Primeiramente tomei/a figura de um barbeiro/chinês. outras frívolas.. examina-as por dentro e por fora. por exemplo. desengonça as palavras. de conduzir a ação cômica. Estudando-a. na frase.. espaneja-as. C. lava-as. um período que dá a idéia mais exata possível da gagueira: “Olhai: daqui a setenta anos.” Há muitos outros períodos assim na obra de Machado de Assis. de B. era um lindo/garção. depois inconsciente. tive o cuidado de observar. amarelo. e as restantes. que eu espiava cá de cima. “E ia ficando e 55 Alcides Maia. os lábios afeitos à reza. A título de curiosidade. C./que entrava na vida/de botas e esporas. a proporção dos elementos. em Eça de Queirós. assim úteis como inúteis. têm.. gostava de saber tudo” (D. treslê. H. 92). mas a alma. iam rezando. de vários versos seguidos – como já se notou. essa já não estava aqui...”55 A explicação é bem pouco razoável. em certos trechos seus./escanhoando um mandarim.” Este outro (Id. relê. e nada. 1912. p. O período seguinte (B.” Vejamos agora outros períodos: “Eram de vária espécie. diversas vezes. um sujeito magro. iguais. depois outra. Machado de Assis. destro. 117. saca uma sílaba. contra a luz. 29).. não acha o despropósito./chicote na mão/e sangue nas veias.Li ngu agem e esti lo de Mac h a do de A s s i s 55 sergipano. grisalho. lê.. mais outra. Donde a existência. estava com o outro” (V. Estes./que me pagava o trabalho/com beliscões e confeitos:/caprichos de mandarim. transcrevo aqui. bojudo. dimensões bastante aproximadas entre si. depois fria. inclina-se sobre a página anterior. C. aponta-lhe uma causa voluntária: “É um meio seguro. na maioria dos casos.. umas graves. . diz. 196. por todos os lados. que leva o defeito à conta de deficiência de vocabulário e de frases. que não ama nenhuma outra cousa além dos livros. lindo e audaz. explicáveis e inexplicáveis.

“Não. é.. se nunca jamais ninguém não viu estarem os homens a contemplar o seu próprio nariz?” (B. É muito do seu estilo o começar período com a negativa repetida: “Não. assim reduzido. antes de me recitar nada. Machado de Assis gaguejava. como neste passo. colhido à p. E negava também. 73. o emprego desse jamais seguido de não. Nunca jamais lê-se.56 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a olhando. sem deduzir.. 68). não se descreve a consternação. Não sei de outro escritor que – pelo menos antes dele – tenha feito uso de nunca dos nuncas e nada dos nadas.. C. a diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios.” Arcaico. Constitui exceção a existência de um ou mais elementos muito longos. em flagrante desproporção com os outros. Ambas se encontram no D... Nenhum por algum.. metida em si mesma. “. “proibia receber nenhum salário” (H. aliás.” (B. duvidava muito. 56). Machado criou locuções negativas.. cujo uso corrente.” Mas o melhor é o nunca jamais ninguém não. 9). por exemplo. o segundo elemento. tranqüilo e constante.. não direi que assisti às alvoradas do romantismo” (B.... condenado por certos puristas: “Era incapaz de inventar nada” (Q. 75). Freqüentemente emprega o nada por alguma coisa. sem D.. C. esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto” (Id. ainda destoará sensivelmente dos outros.. 91 de H. Não satisfeito com os recursos de negar que a língua lhe oferecia. 6). 57). B. em B. sem D.. 141).” (H. 79. C. E à p.. 14). 263: “E entra no mundo que jamais não mente. como não se utiliza quase nunca de coisa alguma. estas... B. 53. qualquer coisa. C. não reproduzo este telegrama” (A Semana. de que pouco se utiliza. à p. qualquer: “.. “Não.. sem pensar.: “Nunca jamais ninguém acreditará que o sangue de rato. C. “. claramente intencional: “Como pode ser assim..” Mesmo com a vírgula respiratória que se há de pôr na palavra dias. Nas Poes... expressões. hesitava. dolente e muda” (Q. no sentido negativo.... 189: “Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar . como nos casamentos. sem D. 347). 207 de Brás Cubas: “A intensidade do amor era a mesma.

107. et pas du tout le comment! Rougir d’être la Pythie..”57 Escritor consciente de sua arte. em quem o talento literário se juntava ao conhecimento perfeito da língua e da técnica do escrever.. inalterável: a do tímido. on la voit. cit. on ne verrait pas sa banalité. do homem sem vibrações. s’il l’était. nem bilhetes de loteria. – nada dos nadas veio ter comigo.”58 Formou-se de Machado de Assis uma imagem fixa. é ele “mestre em estilo”. mas então nem peraltas.”. o qualificativo esmerilhado com especial apuro”. “. sans savoir ce que sont langage.. verbe. cadenciada. Paris. do frio. cit. esquecer tudo para dormir. digo. . mas não dormia. Para Sílvio Romero. p. apertá-los bem.” Muitos dos mesmos acusadores de Machado de Assis reconhecem-lhe a grandeza do estilista. Remy de Gourmont. “artista da frase média. op. nem sortes grandes ou pequenas. à peine le pourquoi. ni les conditions de sa fin. ni concevoir la structure de la durée de l’ouvrage. Machado de Assis. mas não todo o Machado de Assis. 1930. decerto. Littérature. Paul Valéry. o aspecto dominante do autor de Brás Cubas. sem dúvida. 148. poderia proclamar. medida. pp. talvez de todos o mais violento. porque o que mais impressiona à primeira vista. do caramujo. o dominante... “L’homme banal et vulgaire – escreve Remy de Gourmont – n’est jamais simple. Este será.56 É simples. Nele está. sem ser vulgar. Talvez justamente por não ser vulgar. de ton. onde a palavra é catada com peculiar interesse. op. com Paul Valéry: “Quelle honte d’écrire. da água parada. changements d’idées. p. métaphores.Li ngu agem e esti lo de Mac ha do de A s s i s 57 os olhos. 32-3. 56 57 58 Sílvio Romero. donc il se guinde..

deixar-se infiltrar por ela. não possuía um só argumento. de descrer sem poder expandir largamente a descrença. algumas vezes. no seio da massa líquida. Se a serenidade não era real. diante do mistério. céptico atento e amável. sondá-lo intimamente. de origem. E. Duvidou. uma segunda natureza. Cumpre mergulhar. cit. e ele não formulava a incredulidade. como é proverbial. Só perceberemos. esse vago arrepiar-se. p. quase anatoliano. Na mansidão dessa água parada. realmente sereno.. e estua. o que é.. contentou-se em encolher os ombros. Por quê? Não poderia dizê-lo. para conhecer o reverso da medalha. Outro não é. Mas talvez essa atitude seja uma simples aparência. de maneira indireta.58 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a É preciso tratá-lo de mais perto. ao longo da sua obra. A verdade é que. o hábito de comportar-se serenamente havia de fazê-lo. limitava-se a negar tudo. Augusto Meyer quase tem razão: “Estamos familiarizados com um Machado de Assis mais sereno. 15. quando muito. mas sê-lo-ia não raro: o tímido se recalcava.” Sofreria muito de ser assim. E na arte procurou derivativo a esse silencioso martírio. sendo o hábito. o Camilo da Cartomante: “Camilo não acreditava em nada. senão ele. ditada pela timidez. 59 Augusto Meyer. de duvidar sempre.. . e foi andando. misturar-se com a água. para observar e sentir a vida que lá dentro palpita. sob essa capa. se nos mantivermos na situação de espectadores distantes. amigo do equilíbrio e da moderação. uma negação de serenidade. Machado foi um inquieto. Não há dúvida serena. ligeiros estremecimentos da superfície mal acusam a intensa fermentação de vida que se lhe opera no seio. confessando-se. E digo mal. porque negar é ainda afirmar.”59 Nem sempre seria mera aparência. op. ouvi-lo com paciente vagar e refletida atenção. nem por isso deixava de haver sinceridade na atitude.

sempre inclinado à negação. Sem poder libertar-se da dúvida.. Temo cair em contradição falando muito de Machado de Assis. duvidava: sofria. A face oposta é essa tranqüilidade repousante do seu estilo. mas sem ânimo de negar. à flor da água. ao desespero: encolheu os ombros e foi andando. .. Era a calma aparente dos resignados. em vagos arrepios. É que é sempre perigoso estar a gente a afirmar sobre quem duvidava tanto. a agitação íntima anuncia-se. que não deixam transparecer a própria angústia.Li ngu agem e esti lo de Mac ha do de A s s i s 59 Hesitava. tateava. Uma ou outra vez. não chegou. todavia. e às vezes – quando negava – negando que houvesse negado. Na essência dos seus livros está essa luta interior – a fisionomia moral de Machado de Assis. porém. Perigoso afirmar – seguir um caminho – acerca de quem levou a vida na encruzilhada.

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Eça de Queirós .

Eça de Queirós .

1926. um João de Barros. 4.. Cartas Inéditas de Fradique Mendes e mais Páginas Esquecidas.. O Mandarim.. Cartas de Inglaterra. Notas Contemporâneas. 1901.a ed. Cartas Familiares e Bilhetes de Paris. de 1944. 1928. 2. 1919. 1924.a ed.a ed.a ed. 12. 1. 1924. de 1940.a ed.a ed. O Egito. 5... 1926 (todas da Livraria Chardron. na poesia dos trovadores. d. A Ilustre Casa de Ramires.. 1926. 2.. citadas neste ensaio. 1922.a ed. Ecos de Paris. Contos. 2. 1917. de 1944. 1.a ed..Linguagem e Estilo de Eça de Queirós 1 A quele menino nascido há cem anos entre os POVERINHOS! MEUS VELHOS PESCADORES! que Antônio Nobre tão enternecidamente cantou. um Camões. e Crônicas de Londres. Últimas Páginas...a ed.a.a ed.. A Relíquia. e mais: Cartas de Eça de Queirós. 3. Adquirira assinalado vigor pictural na prosa de um Fernão Lopes. no começo da existência como idioma literário. 8.. Alves & C. 3.. 7. A Capital. 2. A língua destinada a instrumento de sua tarefa vivera. O Conde d’Abranhos.a ed. Lisboa). 1944. 4. seria o maior romancista português e exerceria na literatura do seu país extraordinária ação renovadora. 5. 1944 (ambas da Editorial Avis. s.. 1945. O Primo Basílio. 1. 1926. .a ed. Bernardes.a ed. 4.a ed.a ed. Porto).. 3. Os Maias. 1922.. para ter o seu grande período no século XVI – com um Gil Vicente. são: O Crime do Padre Amaro.a ed.. 1 As obras de Eça de Queirós. ed. 1923. 1920.. 9. Correspondência.a ed. 1913. 5. ed.a ed... ed. Prosas Bárbaras. e respectivas edições. 1943.a ed. Vieira. A Cidade e as Serras. dias de brilho e graça. Luís de Sousa. A Correspondência de Fradique Mendes.a ed.. depois Lelo & Irmão.

pela ação de Filinto Elísio e seus adeptos. na adjetivação convencional. mas depois. (Viagens na Minha Terra. comprazia-se na ostentação dos seus saberes lingüísticos. nos moldes do passado. o que exerceu verdadeiro papel de renovador. 1904. Rio – Lisboa. substancialmente um árcade – como lhe chamou Antero de Quental – aferrado aos clássicos. no Volume II das Obras Completas de Almeida Garrett. uma feição algum tanto épica – determinada pelo caráter de sua obra. expondo-o largamente ao sol em salutares viagens pela sua terra. essas convenções. de tão pesada crosta. na larga solidão e no vasto silêncio do vale distintamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joaninha. graças a Bocage e a outros antifilintistas – que o romantismo herdou. Trouxe para o contacto da vida o idioma empoeirado dos in-fólios.64 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Dom Francisco Manuel. foi Garrett. imprimiu à língua um ritmo severo. ela perde em maleabilidade e cor o que ganha em rigidez e afetação. de que no ponto alto de sua carreira tantas vezes Garrett caçoa. passando às mãos dos árcades. Espírito mais aberto. Aligeirou o instrumento rude e pesado. quebrando a rigidez do preconceito purista. Mas as convenções românticas. 2 Veja-se este período: “As estrelas luziam no céu azul e diáfano. Castilho. reveladas no peso da retórica. não só portugueses mas gregos e latinos. sustentaram-na durante a fase seiscentista. no tom sentimentalmente vago – aqui e ali faziam sentir o seu influxo no âmbito do fino artista. alijando-lhe muito da sobrecarga retórica. mais simples. Foi essa língua hirta – aliviada. tolhendo-lhe a ousadia dos passos2.) . mais ágil. Herculano. a brisa temperada da primavera suspirava brandamente. nas convencionais descrições da natureza e dos tipos. no culto dos velhos moldes. tornando-a impermeável às novas influências de meio e tempo. claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ela levava pela mão e que maquinalmente a seguia como sem vontade própria. agravando os requintes de purismo. obedecendo ao poder de um magnetismo superior e irresistível”. que passou boa parte da vida a traduzir. dos membros da famosa trindade romântica. embora mais natural. É a França o espantalho que a enclausura. é certo.

a restaurar costumes e ideais da Idade Média.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 65 Eça de Queirós é que terá de exercer a grande renovação. p. e os seus lapsos de regime – alguns resultantes 3 “Não foi por ignorância.. inquieta e original. ibid. capaz de traduzir em todos os matizes as novas realidades que ele intimamente se sentia chamado a exprimir3. dos seres de carne e osso. (História Literária de Eça de Queirós. (Id. Eça precisava de uma língua de maior poder objetivo. 252. do seu meio social.o que prova que Eça não cometeu atentados mortais é que a língua se modificou tanto depois dele que muitas das suas páginas vão ficando clássicas.. levando-o bem cedo à escola realista. arraigada no tumulto da vida corrente. recebido o seu batismo de sol. a pintar figuras e emoções de um mundo mitológico. o idioma que andara tão longamente a serviço dos clássicos. A sua concordância e a sua regência não deixam de ser. lutando embora com as tendências de um fundo romântico. haviam de afastá-lo dos moldes cediços do romantismo. que geralmente se lhe dá. como a tantos parece4.. E teria de adaptá-la à expressão de uma característica do seu temperamento a bem dizer inédita em letras portuguesas: a ironia. mais viva.. 254. Rio. Os seus galicismos já parecem muito prudentes e muito puros diante do escândalo dos nossos”. – “Esta renovação.) 4 “. Cumpre tomar com muita reserva a designação.. foi uma exigência da sua arte. vernáculas. só tendo através de Garrett. que.) . mais dúctil. essencialmente. p. como já se disse. A revolução operada por ele no idioma não constitui uma profunda subversão da sintaxe. de “escritor incorreto”.. O desejo consciente de fazê-lo revela-se já nos primeiros trabalhos – os folhetins da Gazeta de Portugal – que viriam a constituir as Prosas Bárbaras. Encaminhou-o para essa tarefa a aguda sensibilidade artística. a exprimir a fé religiosa. nem pelo propósito de escandalizar que Eça renovou a língua portuguesa” – escreve Álvaro Lins. Teve Eça de aproximar do século. mais límpida.

Ele trouxe do francês para o português o predomínio intenso da ordem direta – o que não implica um desprezo quase absoluto da ordem inversa na maioria dos casos em que ela era mais conveniente. pode-se dizer que apenas um foi largamente afetado por sua ação de renovador: a colocação. aliada às circunstâncias de ter lido muito francês e vivido longos anos fora da sua pátria. E que a ordem direta constitui uma tendência normal do português pode-se observar mediante a leitura de autores de períodos diversos.) . da tradição clássica. Essa violação de um tabu é um dos aspectos mais salientes da maneira literária de Eça. que tanto o ligava ao espírito francês. e vários outros. p. aliás. Nos teatros – só comédias francesas. nos hotéis – só comidas francesas. LVI. nas lojas – só vestidos franceses. que o romancista sem dúvida leu – continuadores. tudo isso aliado a um espírito profundamente assimilador como era o seu6 – na realidade são muito poucos. Antologia Portuguesa – Eça de Queirós.. resumo de toda a vida portuguesa. nos homens – só livros franceses. da construção inversa. Se nesta capital do Reino. ou comer um arroz de forno. do seu artigo O Francesismo: “Começou então a minha carreira social em Lisboa. traduzindo-os à letra. em Portugal e no Brasil. Dos processos sintáticos. ou comprar uma vara de briche – não podia”.66 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a da formação intensamente francesa5.) 6 “A aguda sensibilidade de Queirós para as formas de expressão. na maioria. (Últimas Páginas. no velho português. particularmente o segundo. p. levou-o naturalmente a assimilar muitos modismos franceses. Não seria. Mas era realmente como se eu habitasse Marselha. 5 Veja-se o trecho seguinte.” (Agostinho de Campos. e terminarão. Foram do seu século Camilo e Castilho. por fazer regra. da longa permanência na França. um patriota quisesse aplaudir uma comédia de Garrett. Resultou da necessidade íntima de clareza. a falta de amplo conhecimento dos clássicos que faria Eça ignorar a preponderância. II. e pela considerável influência que esse aspecto – como aliás tantos outros – da ação renovadora de Eça exerceu nas gerações que vieram depois dele. 369.. do profundo conhecimento do francês. em lugar de empregar correspondentes portugueses. 1923.

pela convicção de que elas eram indispensáveis à tonificação da língua cheia de vocábulos gastos – tanto que muitas vieram a tornar-se usuais. da obra de renovação que ele queria realizar. com os seus próprios recursos. Garção. Outra coisa que ele trouxe do francês: certas palavras e expressões – transplantadas diretamente ou adaptadas. deles extraindo novos efeitos. não os ignorou de todo. no século passado e no atual. por gosto. ao casamen- . os achou enfadonhos – perturbadores. lendo-os um pouco na mocidade. Fugia-se do francês como de elemento perturbador da língua. refletindo bem: não são muito numerosos. O ter desprezado alguns – “Filinto Elísio. em vez de auxiliares. Depois. graças à sua maneira pessoal de construir. com palavras simples. decerto. os homens de letras notáveis que sejam grandes conhecedores dos clássicos. talvez inconscientemente. outras. Eça foi ao encontro dele. E essa língua já se achava tão impregnada do espírito francês. combinações novas. que nenhum dos clássicos – pode-se dizer – escapou à influência do galicismo: o mesmo combate aceso que lhe fazem é prova desse influxo. tão perto estava ele do francês. incapaz de se reerguer por si só. Umas. Estes. Assim. em Portugal e no Brasil. o escritor procurou utilizá-los da maneira mais inteligente. Foi sobretudo à língua de seu tempo que ele buscou o material básico para a elaboração do seu estilo. tirando-lhe elementos de revitalização para um idioma que se gastara. outras. para o fim de fixar melhor certos meios sociais onde elas circulam intensamente. certos tipos que muitas vezes por elas se definem.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 67 Se não conhecia bem os autores antigos. como a tanta gente se afigura – e até nos últimos anos se interessou vivamente por eles. Eça fez virtude – menos em alguns casos – daquilo que era geralmente considerado motivo de vergonha. ou qualquer desses mazorros sensaborões” – não significa desconhecimento: parece mostrar que Eça. realizando. ainda.

a beleza inédita e rara da Forma. Dentro dos moldes dessa arte útil e fina. e notas de Amado Alonso e Raimundo Lida. um sensível poder de fantasia. “só o artista de intensa fantasia é capaz de criar a expressão que traduza. Por isto se emancipa.”. que poderia ser esse algo nuevo senão o luxo novo das formas novas? A forma. poucos artistas a possuíram tão viva e tão alta como Eça de Queirós. em Literatura e Poesia.” (A Correspondência de Fradique Mendes. Buenos Aires. trad. Pois essa qualidade.) Para a criação de tal estilo seria necessário. pp. e aponta como uma das duas feições fundamentais do temperamento literário de Eça “a imaginação desenfreada até à fantasia”. Ensaios de Crítica. 215. plasticamente. Como afirma Vossler8. de aveludado. pp. amando sobretudo a Cor e o Som na plenitude da sua riqueza. naturalmente. com a colaboração do autor. realizasse uma absoluta beleza – e que expressionalmente. 238 e 241. eu só procurava. mostrou-se cheio de extravagâncias. como verbo. tudo pudesse traduzir. melodias. 124-125.. 1943. Com razão se refere Moniz Barreto9 à “fantasia dolorosa e radiante” dos folhetins ecianos da Gazeta de Portugal.68 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a to estranho de certos adjetivos com certos substantivos. algo nuevo que mirar. desde os mais fugidios tons de luz até os mais subtis estados de alma. de marmóreo. p. passa por cima ou por baixo das palavras. A princípio amando quase só a forma pela Forma7. quando necessário. E até – ao con7 “De resto. visou desde cedo a um estilo original. 174. 11. E para um meridional de vinte anos. todo o meu interesse e todo o meu cuidado!” (A Correspondência de Fradique Mendes.. etc. mediante notas. 9 . gestos. de sua comunidade lingüística. p. Lisboa. linhas. à valorização de vícios de linguagem. eis realmente. danças. exatamente como Ponce de Leon. mas nunca perdeu de vista a originalidade: queria em prosa “alguma coisa de cristalino. que só por si. 1944. imagens. de ondeante. nesses tempos de delicado sensualismo. com o tempo eliminou os excessos. etc.) 8 Filosofía del lenguaje. cores. a originalidade de sua “menção” psíquica. sem falseá-la.

a grossa pitada de simonte que ele respeitosamente colheu na caixa de Curvo Semedo!” (Cartas Inéditas de Fradique Mendes. p. . 42. a face chupada pelas ansiedades da prosódia. as meias engelhadas nos pernis escanifrados. sobre uma página. embora deles.. o capelo cor de vinho com o cabeção erguido.) “Folheia (o Purista) um grande e largo livro de História. nenhum clássico . os óculos de aro de latão na ponta do nariz. pobre de imaginação. As qualidades aqui apontadas. serão examinadas nos capítulos seguintes. bem bicudo para picar os galicismos.. por se tratar de um artigo. embora. numa voz cavernosa: “– “Massacre em vez de matança – “livro funesto!” (Ibid. 44). Talvez a censura maior e mais freqüente a Eça de Queirós é pelo abuso dos galicismos.. sem a demora e minúcia necessária. ao fim de longa investigação.. e dá este resumo final. e nas ventas. põe o dedo. Moniz Barreto louva-lhe o sacrifício – feito em favor do realismo – das “qualidades brilhantes da sua imaginação à experimentação desinteressada das coisas”. os braços atravancados de in-fólios clássicos e de dicionários.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 69 trário de certa corrente que vê no grande romancista um poderoso observador. LINGUAGEM 1 – Galicismos “. e outras da linguagem e do estilo de Eça de Queirós.. com a cabeleira sórdida a que ainda estão pegados bocados de palha. como já foi dito. p. ainda. o Purista. e ignorando mesmo se a História é a de Portugal ou a da China.

Revista de História. e de outros escritores afrancesados. entrevistos e amados com o inocente atrativo do beijo aéreo na flor a desatar-se e a enrubescer na tige. em carta a Mariano Pina: “Eu não conheço esse rapaz [Abel Botelho]. e.” Parece-me desnecessário fazer aqui novas considerações gerais sobre o assunto. 1943. p. Uma dessas recriminações foi assim comentada pelo romancista: “O Carlos Valbom acusa-me de escrever à francesa.” (O grifo é meu. o que é curioso. não em bom português. A. 1923. até. 45 do Amor de Salvação (2. mas em mau francês! É das coisas mais cômicas que eu tenho visto”. na verdade. e. Em livro que pouco adiante será citado. falando em “língua grossa da regurgitação francesa. tige (em vez de “haste”). Tenório de Albuquerque reuniu e comentou uns 60 de Camilo – e lá não figura.o milhar.) 11 Figuras de Destaque. 143. em suma”).) E aludindo a outra. indigerida”. cit. o Sr. 14. chefe-d’obra. E diz isto em períodos absolutamente construídos à francesa. p. breve (= “enfim. entre os quais esquissa. II. Filinto Elísio deles não se livrou.. portanto. 203.) É. 12 . com justa razão que. Vasco Botelho de Amaral: “A respeito da linguagem de Eça. p. a julgar pela carta. Porto. (Correspondência. e com galicismos que o arrepiam. A bem da Língua Portuguesa. é que esse patriota que pede com violência que se não escrevam estrangeirices – escreve ele próprio. 1874): “As mães destes dous meninos. não são tal. que se encontra na p. mas inquestionavelmente o patriotismo dele é simpático e o seu grito em pró da língua portuguesa muito justo.o 9. e metendo em cada dez palavras cinco galicismos!” (Carta a Fialho de Almeida. Eça de Queirós. tinham sido condiscípulos na educação dum convento. Sómente.70 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a tenha escapado10. em estudo sobre A Prosa de Eça de Quei12 rós – aliás abundante em restrições – . critica os de Eça. Até um escritor como Fialho de Almeida11. Lisboa. 1914 – apud Agostinho de Campos. p. Vejamos. n. 93. diz o Sr. alguns dos galicismos de Eça criti10 “Com todo o seu purismo. pois. cuja prosa é rica dos mais disparatados francesismos.a ed. ter lugar. se exagera por vezes a crítica a algumas formas e construções que se imaginam galicismos.. deboche. Garrett incorreu em muitos. Lisboa. 5. por exemplo.

p. “grande idade”.”14 13 14 Lisboa. Pois no seu ensaio ainda há pouco mencionado o Sr. pp. “pintando com fuga”. toda uma primavera sagrada!” –. No seu livro Glória e Sombras de Eça de Queirós13 o Sr. no sentido de “desajeitado”. o “abrir toda larga a janela” (O Mandarim. XIV e não XVI). “TODO UM ANHO” (A Ilustre Casa de Ramires. d. 35). I. poucos verdadeiramente o serão: “gôche” (Os Maias. por “liso”. coisa realmente abominável. depois de transcrever.. Cabral. ou com entusiasmo”. I. p. 33. 215 e segs. 187). Agostinho de Campos e Antônio Cabral. quanto é por vezes exagerado o zelo dos puristas – desses puristas que o escritor soube caricaturar com tanta graça. do volume Cartas Inéditas de Fradique Mendes e mais Páginas Esquecidas. como se lê no Sr. “fazia longas conversações com Mariana” (O Primo Basílio. Vasco Botelho de Amaral. 31). 369.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 71 cados por três autores: Rui Barbosa. o trecho – “toda uma mocidade triste e enervada. “canhestro”. cit. em lugar de “idade avançada”. Cabral. p. Os francesismos de construção ficam para o capítulo relativo ao estilo. Verificar-se-á melhor. vejamos. . em vez de “pintando com ardor. p. A bem da Língua Portuguesa.” Desse extenso rol de “crimes”. s. “unido”. escreve: “Galicismo o toda uma? Não. como já demonstrei no Dicionário de Dificuldades. 230. Antônio Cabral arrola “galicismos e frases de tom francês” encontrados na obra do grande escritor: “Amostras de nódoas caídas em riquíssimo pano. e poucos outros. p. 501 – cap. “debute”. então. Quanto ao resto. “TODO UM PIPO”. p. “grande ar”.. II vol. 264). 75. – “Medonhas frases afrancesadas”. assim lhes chama o Sr. por “estréia”. por “ar livre” (Os Maias.

causa do arrepio do censor. 160).. “fazer o – de um cerco.. Mas para quê? Não existe erro ali. Cabral. – Por mais que dê tratos à bola. p. as particularidades. “DETALHE”.72 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a “E QUE ME SUBAM AO QUARTO ÁGUA QUENTE” (Ibid. 54). VI. – “Inda mais bárbara” que as duas anteriores parece esta frase ao Sr. como se vê. se preciso. “reformada. não descubro aí galicismo nem qualquer outro vício de linguagem. ou por miúdo de alguma ação ou sucesso. negócio ou assunto: “esperam-se 15 16 Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa. individual. s. emendada. I. Subir está por “transportar a um lugar mais alto.a edição do dicionário de Morais (1831). Eça o põe na boca de Gonçalo Ramires – diretamente no primeiro e no último caso. de uma batalha. “E esse animal do Bento que me suba água quente!”. acompanhada de uma abonação de Camões: “Do céu a terra enfim desceu [Jesus] por subir os mortais da terra ao céu” (Os Lusíadas.a ed. – Já a 4. ao argumento de que esse emprego de subir. consigna a palavra. e indiretamente no segundo. Rio. de Campos15 e no de Francisco Fernandes16. Poder-se-ia recorrer. É necessário mais? “SUBÍAMOS. para gritar ao Bento ou a Rosa que lhe subissem uma limonada”. correta.” § Detalhes plur. 30 e 35 do mesmo livro: “Arrastava os passos no corredor. 1943. 333). p. . 65) e outra de Vieira: “Para subir esta pedra ao mesmo lugar do monte donde tinha descido” (Sermões. L. Veja-se esta acepção no dicionário de Laudelino Freire e J. AO TROTE NOBRE DAS SUAS ÉGUAS” (A Cidade e as Serras. “Barbaridades” semelhantes podem também ser encontradas nas pp. etc. circunstâncias. Dicionário de Verbos e Regimes. 3. d. (cerca de 1940). fazer subir”. e o erro ficaria então por conta da personagem. minudências e individuações de um caso. como “termo novo”: “Narração circunstaciada. Porto Alegre. e enriquecida de grande número de artigos novos e dos sinônimos por Teotônio José de Oliveira Velho”. e muito acrescentada pelo mesmo autor: posta em ordem.

artigo fato: “Os bens móveis.. § Os vestidos. A 4. (Hoje se diria “os detalhes”.a ed. e outros. refere-se à extensão do emprego desses vocábulos. 2.a ed. avalanche. citados por Heráclito Graça17. 1904.a ed. 2.. retalhar. c.l. 128.) “Hoje se diria. costume: Morais. 225-228.. entalhar. “Pois não é despropositado ciúme” – escreve José Oiticica – “condenar termos como agir. afrontar.. e aponta-lhes a analogia com outros. p. (é a comédia Ulissipo. só por acaso lhe encontramos um pormenor. de modo que já no tempo de Eça o termo era de uso amplo e o foi sendo cada vez mais. e roupas do corpo”. aléia. Agora.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 73 as particularidades no correio seguinte” Vieira. como roupas. “COSTUME” (em lugar de fato). que os tem tantos e tão bons. abona essa definição com o seguinte exemplo: “ele cortesão parece pelo costume dos trajos” Ulissipo. pp. e II. O Vocabulário da Academia de Lisboa enxotou-o sem dó. aguerrido. Nem vale a pena aqui transcrever os exemplos – e menos adicionar-lhes outros – de Garrett. entalhe. Latino Coelho e mais alguns. 1933. – Abramos o dicionário de Morais. Censurável será – isto sim – que Eça não tenha quase utilizado sinônimos daqueles termos.: “Uso no trajar”. vestuário”. detalhe. talho. Rio. . 17. como nos Maias (I. mas o da nossa deu-lhe sensata acolhida – como a detalhar – como “adaptações” das respectivas formas francesas. e centenas de outros indispensáveis ou belíssimos? Que desfalque lamentável na língua se fôramos aspar todos os termos condenados pelos puristas!”18. retalho. detalhe é insubstituível. correntes.. Rio. na defesa que faz daquelas duas palavras. da língua: talha. Frei Francisco de São Luís. entalho.. de pintura. de arquitetura. de 17 18 Fatos da Linguagem. Como termo de técnica militar. 2. O de Figueiredo: “Roupa (não sendo roupa branca). 313). refundida por Teotônio Velho. incluindo-os no seu Glossário. Manual de Estilo. abandonar. adiar. que já apareciam em alvará de 7 de janeiro de 1797. O de Aulete: “roupa de vestir exteriormente”.” E continuou-se a dizer.

A antiguidade do termo na língua e amplitude do seu emprego – pelo menos entre nós – parecem mostrar que o que se deu foi um caso normal de evolução semântica: de 19 Ver Aubrey Bell – A Literatura Portuguesa (trad. com aquele de Morais.. Dos modernos.”.. composto de paletó. – caiu de uso em Portugal. em geral. o galicismo seria tão velho que nem sei como se pode censurá-lo..74 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Jorge Ferreira de Vasconcelos. traz: “roupa (duas peças: calça e paletó). em parte. dá outra. 20 . Ou a acepção desenvolvida da que já registrou Morais – 4. timidamente: “Moda”. e a ela acrescenta a seguinte: “roupas que pola lei devem trazer certos oficiais. g. trajo próprio ou característico: Costume de baile. colete. uso”. capa e volta.. p. Rio.a ed. de Agostinho de Campos e J. v. fantasia (vestimenta)”..a ed. uniforme militar. 1944. ou o purismo dos lexicógrafos a desterrou dos léxicos. esse dá. a julgar pela antiguidade dos exemplos recolhidos por Morais (de 1550 e 1624). e quase de todo com o sentido da palavra francesa costume (ver o Petit Larousse Illustré). No de Laudelino Freire. etc. com certa ampliação de sentido: “Modo de vestir. Vestuário de mulher composto de casaco e saia. escrita aproximadamente em 1550)19. Dessa aproximação virá o horror: galicismo! Entretanto. com feição e feitio próprios. vestuário de teatro. às vezes. beca. explicando que é acepção “moderna e mal aceita pelos puristas”. 4. 1931. Figueiredo. além de “moda”. Vamos a Aulete: repete a primeira acepção de Morais – sob a forma “moda. Discursos Políticos. 5. Coimbra. O Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa20. 222. [Manuel] Severim [de Faria].” Estes últimos significados coincidem. além de “moda”. Jaime de Séguier e os dicionaristas portugueses modernos. calça e. que não é mais que a segunda do nosso velho lexicógrafo. de Barros e Cunha). E assim fazem Augusto Moreno. C.” (obra aparecida em 1624). só os nossos a consignam. Vestuário de homem. lê-se: “Trajo adequado ou característico: Costume de baile”.

. uma fantasia. Daí para o vestuário moderno de homem. Primeiro. do lugar (“habillement suivant les lieux.” “ADRESSE”. de déguisement”). Três linhas adiante.) E nas duas páginas seguintes. que não é coisa sempre normal empregar fato por costume. (Fato para o baile não indicaria de maneira precisa um traje característico. Aqui o complemento especifica a natureza do fato: um fato “de máscara” é. um costume. Também Rui Barbosa21 condenou em Eça o costume (Os Maias. 385. veja-se. observando que o escritor “bem conhece e. Cabral. O complemento – “de Satanás” – frisa a natureza da veste. como quer o zelo do Sr. 559. só na véspera lhe dera o costume para o baile”. – Termo encontradiço em Eça de Queirós talvez sobretudo nos Maias. pois endereço é palavra nossa. Rio. flutuava entre os cortinados. 361 e 384. o uso do tempo. 384). fantasia” (fr. 1904. II. ou o vestuário de mulher constituído de duas peças – é um pulo. uma personagem fala em “fato de máscara”. referindo-se Eça a uma roupa comum: “Aquele aroma que a envolvia. vê-se. I. de tudo isto. Exa. Finalmente. Mas. À p. p. e corrente.: “habit de théâtre. a roupa “com feição e feitios próprios. no volume II. até. e menciona três lugares daquele romance onde se vê esta palavra: I. conforme o costume. 386. diz uma das figuras: “Veja V. naturalmente. lhe ficava a ele na pele e no fato. 419: “o fato de Satanás”. isto. lê-se: “O Matos. um fato típico. Além do mais. um sabre da guarda municipal! E é [o Matos] quem faz aí os fatos para todos os teatros!” – e depois outra: “O costumier com um fato do século XIV manda um sabre da guarda municipal!”. costume teria vindo a significar “o trajo” – a princípio o “trajo próprio ou característico”. emprega o seu sucedâneo português fato”. falando desse traje. 419 (poderia ter ainda citado I. Que hoje um autor o empregue é coisa estranhável. 489). uso no trajar” (“manière de se vêtir” – Petit Larousse). enquanto a outra não tem a jus21 Réplica. les temps” – Petit Larousse) e do ofício: “vestuário de teatro. aquele animal.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 75 “moda.

p. que não encontro neste sentido em nenhum dicionário. porque não temos outra equivalente para o francês adresse.a ed. azeite.. p.a ed. embora não faça tal observação Frei Domingos Vieira (1873). 1854)....” “Realmente. o pepino e a batata. 391). A passagem deste foi transcrita do Bobo: “Não vos contei ainda de uma profecia que há tempos me fez mestre Guedelha. vinagre e pimenta. 1878). plantar saladas é de estarrecer!. mas plantar tudo isto. Pois direção. salada também é “qualquer planta. – É na regên- cia que ele vê o novo “crime”. Para evitar-se o adresse. e merece sê-lo.76 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a tificá-la nem a necessidade nem o prestígio do uso. 200). Cabral.. protestariam. plantam-se agriões. e é de uso restrito. plantam-se chicórias. verdadeiros crimes de mão cortada”.. E protestariam também a lagosta e o camarão. p.. CONSISTE EM PLANTAR QUIETAS SALADAS NUM MURADO E (Notas Contemporâneas.. não tem um cheiro forte de espanholismo? No juízo deste Sr. Vamos a novos “galicismos” por ele apontados: “QUANTAS VEZES ANTERO ME CONTAVA DESSA PIEDOSA E SUAVE CIDADE. já temperado com sal.. – Escreve o censor. se soubessem. do dicionário de Morais (1831) ainda não registra endereço. 387). faz a seguinte observação: “É pouco usado.. A ÚNICA QUE NÃO RESULTA EM LOGRO.” Também o dá como “pouco usado” Lacerda (5. E DO LONGO APETITE QUE ELA REPENTINAMENTE LHE DERA DE QUIETAÇÃO ETERNA!” (Notas Contemporâneas. Basta ver que a 4. neste sentido. “NO MUNDO A MELHOR OCUPAÇÃO. e Constâncio (5. o físico judeu?” (IIa ed. Mas no tempo de Eça de Queirós adresse deveria ter largo emprego.” Ora. em saladas.a ed. Cabral lembra endereço ou direção. consignando-o. as palavras e frases já mencionadas “são. o Sr. são de comer e chorar por mais. com abonações de Camilo e Herculano. em matéria de linguagem. de que se faz salada: plantar um canteiro de saladas” (dicioFRONDOSO QUINTAL” . Pois lá está ela no dicionário de Laudelino Freire e no Dicionário de Verbos e Regimes. Plantam-se alfaces. é que me não entra cá.. que.. muito fino: “A alface.

Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 77 nário de Jaime de Séguier). é “vivacidade de imaginação que anima o orador. “MASSACRE”. morticínio. carnificina. Nenhum dos dois chega a registrar o sentido mais vulgar. embora com a declaração de que é francês. geralmente. e não como simples galicismo – tendo vindo do latim vermina. depois de migadas. é impreciso. verve não é propriamente “graça”. etc. “VERMINA” (por bicharia). etc. tão cheio de pudores. segundo alguns. a graça. que. – Antes de tudo. Como esta acepção é comum ao francês. – Com a forma recomendada desde Gonçalves Viana – vérmina – esta palavra figura em quase todos os léxicos modernos. o termo. O mesmo que alface”. algo onomatopéico. Mas – observe-se – Figueiredo até define assim o termo: “Planta ou plantas hortenses. embora tenha ótimos sinônimos. –. parece que pegou para sempre em nossa língua. rude. é que se recorre a verve. e a definição dada por Augusto Moreno não inclui o provincianismo. Cabral fisgou o plantar saladas como um belo galicismo. Um clássico em favor dele? Camilo: “Nem a história cruelíssima dos massacres sediosos. e vivacidade. Prov. se temperam com sal e outras especiarias e se comem cruas. no caso. “VERVE” (em vez de graça). massacre mereceu acolhida no da nossa Academia. e não muito corrente. E justamente porque o vocábulo graça é. O Vocabulário da Academia de Lisboa. que seria melhor. Forte. vérmina ou verminose. como adaptação do francês vermine. – Banido do Vocabulário da Academia de Lisboa. Diz-se.”. a elegância do estilo. será conseqüência disto. apenas dando margem a que se possa deduzi-lo. A quem trata de linguagem é recomendável maior contacto com a língua do seu tempo e freqüência mais assídua aos dicionários. porém no mais é bem semelhante à de Figueiredo. registra-a sem considerá-la francesismo. e será talvez impossível banir esse ótimo francesismo. o conversador. Bicharia é vago. logo o Sr. incompleto e impreciso. bastante usados – matança. também não serve bem. nem as graves razões da parcialidade política” (Dispersos de .

ofender como choque das bolas”). o lastimável é o abuso. Neste caso. “CONFECÇÃO” (por vestuário. “DE RESTO”. II. ou ferir). Vejam-se no li22 23 Apud A. Das abonações que ele dá para a expressão – copiadas de Herculano. Outro clássico em abono de massacrar? Herculano: “Repetirão o que o imortal marido de Lady Byron dizia de nós. O fenômeno semântico de que se originou para o verbo aquele sentido francês é coisa normalíssima. Rio. I. p.. p. (Nos Fatos da Linguagem está: “com oportunidade”). – Em primeiro lugar. e seu uso é larguíssimo. mas sim – “peça ou peças de vestuário que não foram feitas por medida”. A Linguagem Camiliana – Galicismos. O termo não tem outro que o substitua com precisão. quanto ao resto.a edição de Morais registra-a como de “moderno uso”. 351)22.78 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Camilo. não há desespero de purista que consiga matá-lo. Casmurro. tratavam-se com aparente cordialidade” (Lendas e Narrativas. Fatos da Linguagem. – Embora recebida imediatamente do francês – observa Heráclito Graça23 –. a propósito de uns cachações com que o massacraram certa noite” (Lendas e Narrativas. “CHOCAR” (por desagradar. Camilo e outros – transcrevo aqui apenas a de Herculano. confecção (mais usado no plural) não é o que diz o Sr. 189). em Eça. fazer impressão. esta locução é perfeitamente justificável pelo latim de reliquo. Um exemplo de Machado de Assis pode-se ver em D. 252). . na acepção de quanto ao mais. p. demais. 183. “empregado especialmente por Cícero. Cabral. Dispenso-me de repetir os argumentos daquele filólogo. – Esta acepção do verbo chocar existe no português há mais de um século: a 4. II. 184. 89. Daí por diante ela aparece quase em todos os dicionários (dos vários que consultei. Cito aqui a definição de Morais: “ferir. cit. ou roupa). só em João de Deus não a vi) e apenas os de Constâncio e Augusto Moreno a dão como galicismo. como em tantos outros. retificando-lhe um descuido: “De resto. de uma expressão tão rica de sinônimos. Tenório de Albuquerque.

363-366). 218. imagine-se que maçada seria ter-se de recorrer àquele circunlóquio para enunciar uma idéia tão expressivamente enunciável num vocábulo só. De rastacuero (ou rastracuero) é que o francês tirou o seu rastaquouère. que a defende magistralmente. usava-se a forma francesa ou rastacuero e rastacuera (como se vê no dicionário de Laudelino Freire. “elaboração”. – Engano: no fundo significa “na substância. “NO FUNDO” (por em suma. E é esta forma. aparece alguém para propor-lhe a eliminação e censurar o escritor pelo seu uso? De tal jeito a palavra pegou em nossa língua. ou não. Cabral. Cartas Familiares. o atual Vocabulário da Academia só admite rastaqüera. remeto o leitor para os Fatos de Linguagem. duas vezes).. na mesma página. de confecção naquele sentido. Rastaqüera ou rastaqüero não é bem o que diz o Sr. a sua riqueza). A. como hoje. ou resumidamente). Laudelino Freire registra a expressão sem a dar como galicismo. e se aportuguesou. pp. no próprio Dicionário da Academia Espanhola ela não teve acolhida. 116 (duas vezes) – também rastaquouèrismo. na essência. Aqui no Brasil. que é também do francês. de circulação internacional. cit. Se já no tempo de Eça de Queirós ele sentia a necessidade do termo. “RASTACUERO” (por estrangeiro duvidosamente rico). O da Academia das Ciências de Lisboa não toma conhecimento da palavra. 58-59. é o indivíduo (estrangeiro ou não) que tem a preocupação de ostentar luxo (sendo duvidosa. que este se espalhou extraordinariamente. até antes do último dos numerosos decretos sobre ortografia. e não aquela.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 79 vro do Sr. II. que dela já temos vários derivados – 24 A Linguagem Camiliana – Galicismos. e no de “organização”. Cabral servisse com justeza. – Não é galicismo. . Ainda agora. é espanholismo. editado há cerca de quatro anos). de Heráclito Graça (pp. Tenório de Albuquerque24 exemplos colhidos em Camilo. 418. na realidade”. que encontro em Eça de Queirós (Os Maias. pp. 117. Ainda que a definição do Sr.

De uma e outra palavra deve haver outros exemplos. no Brasil. 217. 393. 127. cit. demonstrada nas páginas de Eça. ao longo das obras de Eça. – Já Rui Barbosa25 se refere com censura ao boudoir. 122. do II vol. e II. uma só página em que figura o francesismo. dos Maias. rastaqüérico. a 56 do I vol. empregarão quarto de vestir.. E verifica-se a tendência geral ao emprego de boudoir para designar o aposento. para o móvel. 89. Se não disserem boudoir. “BOUDOIR” (por toucador). De toucador aponta quatro casos (I. 445. reservando-se toucador. rastaqüeresco. rastaqüerar. espalhou o boudoir por tantas de suas obras. Podem-se mencionar várias outras. vestiário. também muito usado em Portugal e no Brasil. “FAZER O CONHECIMENTO” (em vez de travar relações). 121.: 65. Rastaqüeresco tem a seu favor a autoridade de Rui Barbosa. e sem a força que vem do uso. Boudoir está sempre na acepção francesa: “pequeno salão ou quarto de senhora ornado com elegância”. antecâmara – que aliás não são rigorosamente a mesma coisa. p.80 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a rastaqüerismo. Rui não quis observar que o grande romancista as empregou em sentidos diferentes. rastaqüeramente – dos quais talvez só alguns o espanhol possua. 560. 88. II. toilette ou. Encontro mais um: II. Cita. . 482). penteadeira. Inutilmente o zelo purista de muitos bate-se pela extensão do uso de toucador ao primeiro caso: a realidade da língua. – Outra censura transportada da Réplica. Não é justa. é posta por Eça na boca de personagens suas (Os Maias. Por isso Camilo. realmente contrária à índole do português. o próprio Eça várias vezes utiliza”. A frase. “cuja equivalência portuguesa. toucador. Bem raras pessoas dirão ou escreverão toucador referindo-se ao aposento. 213). e toucador no sentido correspondente ao do vocábulo brasileiro penteadeira ou a um dos sentidos do francês toilette. 126. mal se acomoda a isto... 472. Nada mais natural que o galicismo na conversa de pessoas destas – um tipo de ras25 Réplica. com todo o classicismo. I. 447.

p.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 81 taqüera como Castro Gomes e o ignorante mas afetado Conde de Gouvarinho. “ATRAVÉS” (por através de). É impossível. Se para ser bastante vivo. II. e censurado pelo Sr. com maior freqüência. não é só isto. escreve Eça: “através ultrajes imundos”. Afrânio Peixoto. (mas comumente precedido da conjunção e). – Creio não ter ainda ouvido de brasileiro esse mas há mais. o gosto do estrangeirismo. é certo. “SEM CONTAR QUE” (em lugar de além disto). foi empregada depois por outros autores – Alencar. 434: “através do mato”. 26 Antologia Portuguesa – Eça de Queirós. falando a linguagem do seu tempo. encontra-se. – A palavra. em princípio. Campos tira o exemplo. ou. E logo no começo da p. – e já figura em dicionários modernos. Agostinho de Campos26: “Através a folhagem copada.. censurar um autor pela linguagem dos diálogos de seus romances. à p. Aqui se diz [mas] ainda há mais.. Sobretudo um autor como Eça.. se confunde com a expressão de mais a mais. fim da p. é natural que o faça mais largamente nos diálogos. por conta própria. “ELANCE” (por ímpeto).. São relativamente muito poucos os casos de através. colhido nas Cartas Familiares (p. que. – Na Ilustre Casa de Ramires. em que ela é uma das marcas mais vivas da sua maneira de ficcionista. – Embora desnecessária. serviu-se de tantas palavras e expressões francesas ou afrancesadas.. põem às vezes melhor de pé um tipo do que uma longa descrição à maneira antiga. LIX. 175. Não me parece que a expressão tenha vindo do francês. “NÃO É TUDO” (por mas há mais). . pronunciado à nossa maneira. onde um tique de fala. é expressão corrente.. 432. 189). Ao já citado acrescentarei este. cit. e – até – não é tudo. ainda não disse tudo. em grande parte por influência de leituras –. Pois no mesmo artigo – acerca das Festas Russas – de que o Sr. a preferência por determinadas expressões. corrente nos meios que fixou – embora.. que talvez Eça tenha sido o primeiro a usar. não logrei perceber”. que promete resistir às investidas dos puristas.

11. 23. 18. A respeito de ancestral. “ANCESTRAL” (por avoengo ou avito). Segundo Augusto Moreno. note-se – nem um é de através sem o de. que até se poderia atribuir a erro de revisão. 288 – e naturalmente em outras. cit. 215. É tão comum no autor a forma correta. que não obedece a rogo” (Antônio Ferreira. leia-se o que diz José Oiticica: “Os puristas condenam a palavra. Alguns exemplos. 215. 100 (duas vezes). pois não percorri demoradamente para este fim o volume inteiro. Do doce ardor. 70. Ela ainda aparece nas pp. E também no mesmo livro. 9. – O termo já é usadíssimo. 9 (duas vezes). 5. II. 3. 253. 107 e 146 das Cartas Inéditas de Fradique Mendes. que poderiam ser indefinidamente multiplicados: “mas é vencida. no português atual. 20. 101. Desses dezenove casos. estes e alguns daqueles não o dão como galicismo. ao seu ver. 27 28 A bem da Língua Portuguesa. 43. 15. folheando ao acaso o vol. ele veio ao francês pela forma inglesa homônima. 38. Gonçalves Viana julga-a barbarismo e de adoção absurda. cit. Vasco Botelho de Amaral27 cita passagens tiradas das pp.”28 “ABANDONADO DO COMÉRCIO” (em vez de abandonado pelo comércio). 192. 201. que faz Eça daquela expressão. embora menos comum. 491. 212. 23. 496 – e nem um simples através. os antropóides ancestrais. muitas vezes impróprio. – O emprego da preposição de em casos destes é corretíssimo.. vejo através de às pp. . Nos Maias. antigos e modernos. às pp. É todavia indispensável para designar acidentes evolutivos que vão além da espécie: uma forma ancestral. 124.82 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a através de. 150. Por extensão de sentido passou a designar antepassados e antiqüíssimo.. os ancestrais do cavalo tinham cascos tripartidos. Apud Dicionário de Laudelino Freire. ou perdoável descuido. que o da preposição por. Poemas Lusitanos. Coleção de Clássicos Sá da Costa. Mostrando o emprego exagerado e. a presença da outra forma. está em todos os dicionários modernos e nos Vocabulários da Academia Portuguesa e da Brasileira. 75.

não atentou bem no resto. São Luís do Maranhão. com a significação. 1857. encontro a palavra com a acepção que condenam Rui e Figueiredo. 274). é naturalmente nele que o Sr. que a substituem por participar de. Antônio Cabral – não sei se o disse antes – já os apontara Rui Barbosa na Réplica.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 83 Lisboa. 388-392) – livro para o qual ainda uma vez o remeto. 10). e Machado de Assis. p. 2. 68). e. a partir do de Aulete. Vida de D. ed. O faire des armes . que o nosso idioma lhe recusa. juntou o vocábulo ao seu rol. Poesias. Bartolomeu dos Mártires. p. a certa altura: “ora o partager. – Embora não inclua esta frase no seu grupo dos galicismos. Obras. vol. mencionando os francesismos de Eça. Cabral viu partager. – Quase todos os galicismos da lista do Sr. Rolandiana. Fr. mal disfarçado em partilhar. Camilo. chamando-a “horrível”.. Amor de Salvação. p. evitando repetir as excelentes razões de Heráclito Graça em favor de partilhar. pelo não ajudar a memória. compartir” – e cita algumas páginas: I. O Sr. 192). Lisboa. Porto. p. 8). “PARTAGER” (em lugar de compartir). e Rui também se enganou condenando o partilhar: guiou-se por Figueiredo – guia muito inseguro – como inexplicavelmente tantas vezes o faz. Em todos os dicionários. II. e como toldada de espessa nuvem” (João Francisco Lisboa. rude e pesada. de participar. além dos de Garrett e Latino Coelho nos Fatos da Linguagem (pp. Cabral pretende metê-la. só no dicionário deste autor é que leio. “perseguida de velhas conselheiras” (Camilo. “tocado do vento” (Machado de Assis. p. 92 e 427. 207.. 1874. depois de: “Tomar parte em” – a observação: “Esta última acepção é rejeitada pelos mestres. “terra fresca e fértil. “FAZEMOS ARMAS” (em vez de jogamos as armas). “castigados do céu por seus pecados” (Id. IV. 1865. na sua ansiada pressa de filólogo improvisado. escreve. talhada de muitos rios” (Frei Luís de Sousa. 117).a ed. “não pudera fazer grandes progressos.” Rejeitada pelos mestres? Veja o leitor no Dicionário de Verbos e Regimes exemplos de Garrett. Com o partager parece ter-se dado um caso curioso: Rui. Enganou-se. Dom Casmurro. tomo I.

Armas tem. quase repete o que aí está e cita de Azurara.84 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a perturbou o crítico. [Ordenação Filipina]. nessa frase. Se já eram galicismos aceitos e correntes antes de Eça. 134 e 129. um guia (de viajante). torneios. os quais. § 2. 2. ter duelo. L. Os dois últimos figuram também na . produção”. elance. Quanto às outras palavras. por “minúcia. Agostinho de Campos menciona uns galicismos do escritor da Relíquia. 1. Cron. Justar. 26. de resto. c. 96. detalhe. it. 2. dar lugar a se fazerem armas de jogo (são justas. que fazer contra eles? Outros dos galicismos também apontados por esse lingüista vêm na série do Sr. De chocar. ter duelos”. justa. por “procedimento”. Figueiredo. chaminé. Cabral: senhora de grande idade. Agora no verbete arma: “Fazer armas: militar. legendária. (II. detalhe. através o. Na sua Antologia de Eça de Queirós. não é tudo. I. sem dar a expressão por afrancesada. – em que aparece no tão conhecido primeiro verso dos Lusíadas.)”. obra (de um escritor). Agostinho de Campos. com sentido adversativo. por bicharia. Assim também Laudelino Freire – menos a observação quanto ao desuso. por “uma guia”. T. além de mencionar várias outras fontes. LV). ou batalha. correr canas por jogo. Tem a palavra Morais: “Fazer armas. Tomada de Ceuta. por “impressionar desagradavelmente”. somente. declara. vermina. chocar. o sentido de “façanhas militares. combates” – de origem latina. Isto no artigo fazer.” E depois de remeter o leitor para fazer. já citada. por “obras. grande ar. e divertimento.. em virtude da própria declaração do Sr. c. sem contar que. 96: “irem a França fazer armas”. pulguedo”. pormenor”. parecem-me desnecessárias quaisquer considerações. J. já me ocupei atrás. c. vermina. posto que tão aceso no seu antifrancesismo. “já tinham invadido a língua antes de Queirós a estragar”: avenida.. para lhe dar licença de irem fazer armas por Reinos estranhos. conduta. Item. [Palmeirim de Inglaterra] P. registra. por “fogão”. Palm. que fizessem sobre isso armas: daqui se entende a Ordem. como “desusado”: “Fazer armas. por “alameda”. por “lendária”.

Rio. a repetição. Para não me alongar. e a força que prepara para o trabalho.) Ora. Quando estás entorpecido na doença. Fernando pela mulher de João Lourenço da Cunha. amor. 1918. aqui. desprezo. pp. – Sabe-se que a tradição da língua é em favor da preposição de. Há outros ainda. dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação.a ed. etc. para reger palavras como desprezo. 170. dou-te as visões que são a poesia do movimento na alma. Deles já tratei. Lendas e Narrativas. ou sagrados. como se viu. p. – e da preposição a quando tais palavras vêm precedidas de um verbo como ter ou sentir. Ao contrário. mas de boa fonte: O amor cego del-rei D. a fortaleza. ou materiais. ocupa-se do fato. amizade. “SENTI UM IMENSO DESPREZO PELA VIDA” (O Mistério da Estrada de Sintra). amizade. Mas a tendência já de há muito observada é para o uso também. Eu sou completo. dou-te a sensualidade sonolenta que exala amor. no prefácio do seu livro. ou a. nestes casos. 13. eu sou junto das praias o grito de luz que te chama” (Prosas Bárbaras. vejamos alguns. “ABUSO DO PRONOME PESSOAL SUJEITO”. Quando andas no mar. do mal natural. é de excelente 29 O Problema da Regência. inteligente e boa. havia muito que era o pasto saboroso da maledicência do povo” (Herculano. Eu alumio-te nas vigílias dolorosas.. Eu sou a cura. sem lhe fazer nenhuma censura. eu alumio-lhe o caminho de Deus. E Antenor Nascentes29 abona a regência por para amor. – Dos três exemplos desse defeito apontados por Agostinho de Campos ponho apenas o último sob os olhos do leitor: “Vem para junto de mim. pequenino e encolhido. tremo ao pé de ti. I. Eu cerco Cristo nos altares para que tu o vejas bem. justificando-o plenamente. Quando morres e a tua alma vai partir. Eu dou-te o pão. e não por. eu. ou lascivos. 1944. citarei aqui apenas um exemplo. 63-64). o calor. . de por.. ódio.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 85 coleção de Rui Barbosa. Correspondo a todos os teus instintos luminosos..

a não ser o primeiro. Ei-lo. a menos que se sacrifique a naturalidade ou o próprio conteúdo da expressão... um doce e humilde gesto. cujo alto império o Sol logo em nascendo vê primeiro: Vós.. perguntando ao homem: “E o que fazes tu em paga deste amor que se dá. ele põe em relevo o contraste. um detestável parequema. e vitupério.. assim.. Vós. Vós. que pertence à fantasia O Lume.. Quase forçado. poderoso Rei. que cria. Tanto mais quanto.. p. por que tão vivo horror ao indefinido? Transcrevo um soneto de Camões.. o Pai dos Ursos. mostrando-lhe todos os serviços que lhe presta. Não me parece fácil evitar aqui os indefinidos. assim. Rio. que esperamos jugo. 3. Demais. a seguinte passagem de Eça de Queirós: “Mas uma tarde. no princípio do seu poema ao rei D.” (Contos... e que purifica? Esmagas-me. entre outras. citado por Sousa da Silveira31 em abono do uso amplo daquele artigo em certos casos. e é clara.. e a ausência dela é que seria lamentável30. . pp... menos o último terceto: “Um mover de olhos. 1937. ó bem nascida segurança da Lusitana antígua liberdade. logo a seguir.86 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a efeito. – Cita Agostinho de Campos. saindo Adão e Eva da espessura de um bosque. Vós. 253-254. O lume fala ao homem.” “ABUSO DO INDEFINIDO ‘UM’”. um riso brando e honesto. Sebastião: “E vós. ó novo temor da Maura lança. 180). Observe-se o caráter eloqüente do trecho. que se poderia substituir por certa.. Sem ver de quê.. Lições de Português. um urso enorme. De qualquer alegria duvidoso. condenando-as todas. a importância desse eu repetido. brando e piedoso. gerando-se porém.” Caso semelhante a este é – para referir apenas um – o daquela invocação que faz o poeta dos Lusíadas. tenro e novo ramo florescente.a ed. Fazes-me o escravo das máquinas. 30 31 É o tipo de repetição a que os velhos retóricos chamam anáfora.

uma brandura. “atirar-se como um tigre”33. importante. cit. atirar-se.”32 87 Poder-se-iam acrescentar inúmeros exemplos. e vereis esse engenho.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s Um despejo quieto e vergonhoso. Um longo e obediente sofrimento. é que se faz a comparação”34. como tigre. este comentário com a seguinte observação. Encerro. e que fica sendo uma coisa mais vaga. está. pois. Um medo sem ter culpa. concretamente. Um encolhido ousar. Lições de Português. as proporções deste trabalho. um tigre que se atira com toda a sua ferocidade. que. expressão de muito mais força evocativa. 32 Transcrevo da edição crítica da Lírica de Camões por José Maria Rodrigues e Afonso Lopes Vieira. p. um ar sereno. manifesto Indício da alma. porém. limpo e gracioso. Um repouso gravíssimo e modesto. 34 . assim destacado dos mais pelo artigo. 33 Assim também na 13. daquele filólogo: “O artigo salienta com maior vigor. individua mais energicamente aquilo que o substantivo designa. Mas.” Há aí uma simples e apagada comparação.. 254. Uma pura bondade. segundo me informa Said Ali. e com esse tigre. na edição de 1859. alongariam demasiado. cit. e sem grande vantagem. porque o espírito como que vê. II. mais desbotada e mais abstrata quando falta o artigo. 114.. a páginas 110 do tomo II: “Dizei-lhe isto. Na transcrição de Sousa da Silveira há ligeiras diferenças de pontuação e está despeito em vez de despejo. Na edição de 1877 das Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano lê-se. que credes moribundo. ao meio dos juízes.a ed.

indiretamente. Bocage. – Pensa o juiz que Eça devia ter empregado de. LVIII e segs. que o Sr.88 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Não há espaço para tratar de outros “galicismos”. Cabral. é português de lei. Na p. p. por exemplo: em amizade (a que o Sr. III). dele se encontrando exemplos em Camões. “PREPARAVA-SE A REPELIR O CARLINHOS” (Os Maias. Agora os 2 – Solecismos Examinemos alguns dos apontados por Agostinho de Campos36: “ADORMECE NA IMENSA PAZ DE DEUS” – DE DEUS QUE ELE NUNCA SE CANSOU EM COMENTAR. II. NEM SEQUER EM NEGAR” (Contos. Pois nos dicionários de Constâncio. 193). ou a. . de que Eça é acusado pelo Sr.. que. na boca de Palma Cavalão. em amizade. Pois o regime usado por Eça de Queirós conta exemplos de Filinto Elísio e de Garrett (ver o Dicionário de Laudelino Freire). diretamente. embora censurado por ambos. 35 Eça também se utiliza desta expressão: “explicou com amizade. respectivamente. Laudelino Freire e Francisco Fernandes se encontra a regência condenada – nos dois últimos com abonações de João Francisco Lisboa e Vieira. 302 põe na boca de João da Ega. Passo agora a comentar alguns dos “golpes despedidos” por Eça “contra a gramática”. diz não só Agostinho de Campos como o Sr. I. pp. Cabral contrapõe com amizade35. e não em. Cabral. 329). cit. o abuso do possessivo (muito menor do que parece a Campos. 36 Antologia Portuguesa – Eça de Queirós. com bonomia” (Os Maias. e linhas depois. por Agostinho de Campos ou pelos dois. II. mas que é corretíssimo). Dom Francisco Manuel de Melo. Castilho Antônio e Camilo Castelo Branco. a outra forma. pois incontáveis são as vezes em que Eça elegantemente o omite ou o substitui pela variação pronominal) e o emprego do mesmo como advérbio (= “até”). Cabral enfileira no seu livro. – O certo é preparar para.

um clássico moderno: “A saudade. 143).” “E SÓ COM A EMPURRAR.. 1905. estrofe XXXVIII.. p. DERRUBARA A TORRE CONSTRUÍDA PELO DIABO PARA ROBERTO DA NORMANDIA.. p. Às vezes. resplandecia no meio de todas as sombras que lha obscurecessem. Quem não conhece aqueles versos do Canto V. outro mais em João Ribeiro (Páginas de Estética. sobreluzia no meio de qualquer fogo que lha alumiasse” (Garrett. a concordância menos comum. Antônio Cabral sublinha com a empurrar.”. a memória de Joaninha. sem erro. a quem!!” – exclama o juiz. IV./Que mor cousa parece que tormenta?” É. bem se vê. quando o sujeito composto é formado de palavras sinônimas. basta que o autor empreste maior significação à palavra mais próxima de verbo. Lisboa. A QUEM A LENTIDÃO SOPEADA. 117). 11). Mas também decerto não ignorava que. Na segunda daquelas frases o Sr. ou com outra tem relação de semelhança. suavemente impressa no mais puro e no mais santo da sua alma. sublimada!/Que ameaço divino ou que segredo/Este clima e este mar nos apresenta. Coleção de Clássicos Sá da Costa. 56) este “golpe”: “UMA FUGA ARDENTE DAS ÉGUAS. cit. ou haviam crestado”. Eça de Queirós não podia ignorar que geralmente o sujeito composto leva o verbo ao plural. diz o crítico: “Crestaram é que deve ser. pode o verbo ficar no singular. Errado? Mas por quê? Está na Cidade e as Serras (p. p. Ora. 207). um caso perfeitamente análogo ao da frase de Eça.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 89 Encontram-se nas Últimas Páginas os seguintes: “NA LINDA FACE QUE O SOL E O AR DA SERRA CRESTARA. Viagens na Minha Terra. até. dos Lusíadas: “Ó Potestade. A razão única de certa surpresa . p.” Quanto à primeira destas frases. Agora. Mais um exemplo.. cit. Pode-se ver outro exemplo em João Francisco Lisboa (Obras. e este de João de Barros: “A cobiça e desordem dos romãos destruiu Roma e deu dela vingança ao mundo” (Panegíricos. para se fazer.. ou das quais a idéia de uma ou algumas se inclui noutra. 1937.. disse. Lisboa. – “As éguas.

cit.” (Diogo Bernardes. . escreve Fialho de Almeida37 a respeito do estilo de Eça de Queirós: “Comparando trabalhos de maturidade. O Monge de Cister. II. 1857). 125)./Que arrenego da fazenda. Frei Bartolomeu dos Mártires. Lendas e Narrativas. I. É corretíssimo. e que a abundância e finura dos motivos pitorescos. Agora os modernos: “Não era a embriaguez quem lhe tornava tardo e vacilante o andar” (Herculano. p. p. Coleção de Clássicos Sá da Costa. que incorreto não é. 1928. nunca. “& foi Braga ua das cidades do Reino em quem a peste menos crueza executou” (Frei Luís de Sousa.. Poemas Lusitanos. Principiemos pelos antigos: “Dos olhos por quem perdi a liberdade.. o antiquado desse uso. porém.. realçados nestes primeiros escritos. Lisboa.90 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a seria. uma prosa como não pode haver! “– Não. cit. 12). cit. “Olhos por quem mais claro nasce o dia. gritou Fradique. II. Com a mais dura das injustiças.). com ser antiquado./Por quem são os meus olhos tão ditosos/Que de chorar por vós lhes coube em sorte!” (Antônio Ferreira. não progrediu. em autor de linguagem tão moderna. ESTILO “ – Enfim. p. uma prosa como ainda não há! (A Correspondência de Fradique Mendes. Rimas Várias. Flores do Lima. 1770. Coimbra. neste campo. a incorreção dele. e edição primitiva do Padre Amaro. “Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alão a quem muito queria” (Id. 1859. à 37 Figuras de Destaque. mas sem contenda.. 3). Lisboa. I. não foram supridas. 2.a ed. 140. sente-se que o escritor. Éclogas. p. exclamei. e. com os primeiros ensaios da Gazeta de Portugal. 17).. 1939./Por quem se vende a vontade” (Rodrigues Lobo. 63. não lhe faltam abonações de autores modernos... declinou. p. Vida de D. ou melhor talvez. 361). “Grande cousa é liberdade/Ter pouco.

desde os escritos que hoje figuram nas Prosas Bárbaras. Você nasceu com um estilo feito e escrevia tão bem há vinte anos. Como acontecia a Balzac. e os adjetivos se amontoam. que tinham para ele o valor de princípios – quase alcança a perfeição39.” Já hoje se sabe que Eça de Queirós escrevia sem torturas. catar. 41 . Cartas de Eça de Queirós. por outro lado. e a respeito de um conto que pretende remeter para a Revista de Portu38 Não obstante. Eça levou a vida a trabalhar o seu estilo. a jóia do vocábulo. já nesses trabalhos estão nitidamente lançados os fundamentos da prosa eciana. até às obras da última fase. Do que foi o seu esforço neste sentido pode-se julgar por esta declaração. 279. 40 Cartas de Eça de Queirós. e endireitar muito o estilo. onde por vezes se sucedem períodos empolados. areja e precisa. No tempo das Farpas estava ainda no período bárbaro da forma. datada de 18 de setembro de 189141. a Luís de Magalhães.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 91 proporção que iam murchando. tantas maravilhas. daí o poder reimprimir os seus artigos sem lhes tocar. a ânsia do perfeito o levava a emendas que martirizavam os tipógrafos. porém. que enriquece o ritmo. já senhor dos recursos da língua – ainda que sem renegar a maioria das características da sua maneira. Eu tive de fazer o meu estilo à custa de esforços e de tâtonnements. p. sobretudo já pelo fim da vida. variadora infinita das cadências. por nenhuma dessoutras qualidades de fatura que traz a prática de escrever. relendo-se. Em outra carta. nas suas arestas de rosa. repetindo-se muitos deles com uma constância desorientadora38. O que não exclui. E esse labor parece que ele o teve durante toda a carreira. em que. pp. certa pobreza de calor de algumas páginas das suas 39 vidas de santos – onde há. como escreve hoje.” Não é possível maior exemplo de má-fé ou de incompreensão. em carta a Ramalho40: “Das Farpas verá que fui forçado a limpar. o seu grande trabalho era por ocasião das provas. 305-306. quando. lapidadora da forma.

as mãos cruzadas por trás da cabeça. Lisboa. 5. em cada uma das três primeiras edições do Crime do Padre Amaro – livro de que. tomos I e II. como se sabe.” Mas é lícito pôr em dúvida esta declaração em face do que ele diz. . tinha apagado a luz. 311-312.a ed. feita de idéias.” Num de seus livros43. e grandes tosses que tinha. Crónicas Imorais. Em cima da cômoda.. Eu já não emendo tão atormentadamente. e que terminavam 42 43 Cartas de Eça de Queirós. Eça. d. dormindo. Para dizer bons-dias preciso volumes. num largo coxim acamado sobre esteiras. a primeira parte. e a luz monótona e velada um pouco do espelho reluzia. ao pé dela num colchão. estava a lamparina.92 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a gal. O quarto da idiota era ao pé e atrás da porta cerrada. cerca de um mês depois.a edição. e de costas. no chão. as provas vão sempre limpas. em cima.” – Escreve: “Não receie as provas. de recordações. não dormia também. de planos. pp. 1. pp. com tons de aço. 259-260. no seu quarto.a ed. dentro duma bacia. Nas cartas de Fradique. entregava-se a uma grande abstração viva. (na Revista Ocidental. Amélia sentia o seu ressonar catarroso. Albino Forjaz de Sampaio faz um cotejo entre as diferentes maneiras como a figura do Cônego Dias vem descrita. se Deus quiser. 1875): “Amélia. O quarto era pequeno: a mãe tinha cedido os seus quartos embaixo ao padre Amaro e dormia. de sensibilidades. É quase uma recomposição.o ano. Espero poder remeter amanhã. Eça de Queirós só considerou definitiva a 3. depois de explicar que não pôde fazê-lo mais curto – “Cada vez possuo menos aquela arte de concisão que caracteriza o verdadeiro escritor. s. Transcrevo aqui as diferentes versões de outra passagem: 1.. a respeito do mesmo trabalho42: “Tenho andado a rever o Conto – operação que é sempre para mim longa e laboriosa.

O gato. abafada e espessa: brancuras de saias caídas no chão. p. brancuras de saias caídas no chão destacavam. 1880): “Ela. o espelho tinha um vago reflexo lívido. O quarto era pequeno. A lamparina estava a extinguir-se. em cima. 3. destacavam. tremia violentamente. Sobre a cômoda. 2. que ficava no quarto às vezes. as saias e vestidos pendurados. não dormia também. punha na roupa um grande relevo. e na sua cama. com as suas passadas moles e fofas. com o seu lenço branco amarrado. A mãe. (Lisboa. o espelho tinha um vago reflexo lívido. havia uma penumbra abafada e espessa. ao pé. e o quarto estava numa penumbra. não dormia também. os seus olhos luzindo com uma claridade fosfórica e esverdeada” (Tomo I.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 93 num arquejar prolongado. a lamparina extinguia-se. Em cima da cômoda. e cheio de cansaço. deitada. e fazia ver. O quarto era pequeno. ressonava roncando. (Porto e Braga. 71). o ar espessava-se: estava espalhado um vago cheiro de morrão de azeite. que ficava no quarto às vezes. a corpulência da S. e Amélia olhava abstratamente uma claridade redonda. e na escuridão os seus olhos luziam com uma claridade fosfórica e esverdeada” (p. na escuridão do chão. a mãe tinha a sua cama ao pé dela num colchão. em cima. e com a respiração. “Amélia não podia adormecer. caminhava com as suas passadas moles e fofas. no soalho. as roupas. dentro de uma bacia. a lamparina extinguia-se. os móveis. faziam calor e abafavam. e o gato. sobre esteiras. com um mau cheiro de morrão de .a ed.a ed. dava um mau cheiro de morrão de azeite. que no teto. 209). Joaneira. dentro de uma bacia. caminhava. 1876): “Nessa noite Amélia. por cima da lamparina.

e a ironia. mas ironia que é antes mal dissimulada ternura. extremando-se em sensualidade. E eis a razão por que a ironia eciana poucas vezes se mostra cruel. que. poderia. 83). ao pintar uma figura cômica de sujeito muito gordo e vermelho. mas este perigo era conjurado pela ironia. se por um lado lhe aguçava o dom de observação. sentimos. brancuras de saias caídas no chão destacavam. Quando. Ela representa apenas um meio de defesa. Assim. a linha média dos outros fatores. e. Eça nos fala da “massa rotunda e rubicunda do Pimentinha”. como receando que esse prazer o conduza a um excesso de sensibilidade – numa espécie de gratidão ao mundo que lho proporcionou –. Não há espaço para mais comentários. junta à primeira das qualidades apontadas. e os olhos do gato. Ele é um homem que absorve o mundo num vivo prazer de todos os sentidos. encaminhava Eça para o pitoresco. o pitoresco é o centro. Compare-se a extraordinária evolução estilística revelada nessas variantes de um mesmo trecho – e veja-se a monstruosidade da acusação de Fialho. O requinte de sensitividade. a ironia do escritor. através do intenso pitoresco da frase – acusado sobretudo no efeito musical da rima e da aliteração –. para que a sensitividade não degenere em fuga ao real ou em sentimentalismo. As qualidades dominantes do estilo de Eça parecem-me o resultado destes três fatores: uma requintadíssima percepção sensorial.94 Aurél i o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a azeite. que ia quase à volúpia. favorecer ao extremo o pendor para o sonho. . reluziam pela escuridão do quarto com uma claridade fosfórica e verde” (p. exercita a sua visão crítica para temperar os desmandos do sentimento. que não sossegava. que lhe estava na raiz do temperamento inquieto e inconformado. um agudo senso do pitoresco.

usuais. pp.” (Cartas Inéditas de Fradique Mendes. O homem. em resumo e com simplicidade. valores: para produzir. o vocabulário de Eça de Queirós seja miserável. como se diz em pintura. Será pequeno em relação ao de um Camilo ou ao de um Fialho. por isso mesmo que a linguagem literária envelhece e só a humana perdura. um certo efeito de força ou de graça. Essa a verdadeira riqueza – a qualitativa – sob a aparência de pobreza: caso perfeitamente idêntico ao de Machado de Assis. o caso não está em ter muitos valores. mesmo sob o aspecto quantitativo. isto sim. lhe censuravam “a miséria profunda do vocabulário repisado”. como Fialho. ao sentimento.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 95 VOCABULÁRIO “As palavras são. “Só os termos simples. Não. banais. não o era tanto. desvendar-lhes até as mínimas cambiantes de luz e som que eles encerram. à modalidade simples. Para que muitos valores? “Bem-aventurados os pobres de léxicon. nos termos mais banais e usuais. 52-55) Eis aí. um ponto fundamental da estética de Eça de Queirós. Além de ter sido suficiente para exprimir com a máxima justeza as mais variadas notações da vida exterior e interior. porque deles é o reino da Glória!” Saber usá-los com oportunidade. pensa. correspondendo às coisas. pois. as mais diluídas meias-tintas. Mas. Saber agrupar bem os poucos valores é que foi a sua grande arte. Assim respondeu ele aos que. e que tantas vezes escapam aos capitalistas do vocabulário. mas em saber agrupar bem os três ou quatro que são necessários. O que. vaidosos latifundiários de palavras. mentalmente. não envelhecem. não equivale a dizer que. desde os tons mais positivos e fortes até – sobretudo – os mais vagos e fugidios. de um modo absoluto. esse vocabulário (que no fim da vida do es- . definido por ele próprio. Termos complicados são já um esforço de literatura – e quanto menos literatura se puser numa obra de arte. ainda assim. mais ela durará.

L). p. “Notas breves sobre alguns processos estilísticos de Eça de Queirós”. 46 Na revista Brotéria – número de novembro de 1939 – . p. escreve: “Não seria a primeira vez que se diria ser feminina a sensibilidade imaginativa de Eça de Queirós”. ano III. reumatizante (Ibid. p. Ele não queria sacrificar. 374). Da grande valorização que Eça fazia da palavra terá vindo a sua relativa indiferença à repetição.96 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a critor se viria a mostrar até muito abundante. – quase o mesmo gênero de necessidade de som e ritmo que o fazia com freqüência cantarolar. do seu estilo. 45 Escrevendo acerca de Eça nos seus primeiros tempos. 250). p.. afinal.1940. p. 375). pacientar (Ibid. 84).3. p. 32). p. em nome de uma falsa. pensadouro (Fradique Mendes. p. a sua in44 Cito aqui alguns deles – uns consignados pela primeira vez no dicionário de Figueiredo ou no de Laudelino Freire. 31. 222). João Mendes. apud Manuel de Paiva Boléo. p. fragmental (Ibid. . e Cartas de Eça de Queirós. ainda não dicionarizados: apilhar (“empilhar”) – (Últimas Páginas. 205). cuspilhar (O Mandarim. iconografista (Ibid. bigodoso (A Correspondência de Fradique Mendes. falando no caráter “extraordinariamente atraente e sedutor. 223). lexiconista (Cartas Inéditas de Fradique Mendes. p.. digamos”. 152). p. I. 109. fendilhado (Fradique Mendes. que melhor correspondesse ao seu pensamento e ao seu sentir. em Novidades. outros. p. pequenas frases musicais. inútil riqueza de vocabulário – o termo natural e preciso. feminino. emprateleirar (O Primo Basílio. diversos termos que através dele é que vieram a ser incorporados à língua44. em voz baixa.. sempre erradas. conselheirífero (Fradique Mendes. sempre fora de tom. blagueador (Últimas Páginas. 149). 143). 132). 51). mas não no sentido em que Eça os empregou. chuviscoso (Os Maias. p. mas sempre impregnadas das mais patéticas inflexões” (Introdução das Prosas Bárbaras. p.. 146). Lisboa. com a incorporação de numerosos termos arcaicos ou antiquados) apresenta diversas criações do próprio Eça. Seria indispensável buscar compreender as estranhezas de sensibilidade desse escritor. outros de uso corrente. diz Jaime Batalha Reis que ele “sentia muitas vezes a necessidade de metrificar. a feminilidade do seu temperamento46. embora procurasse conciliar sempre esse empenho com as fundas exigências – mais do que isto: com a sua íntima e profunda necessidade – de ritmo45. p.

Leia-se a descrição na íntegra. – a morte. de que se pode ter uma idéia – embora ainda não muito precisa – pelo trecho adiante reproduzido. imenso. estudar-lhe a organização doentia. lento.” (Moniz Barreto. 50 Não haverá novidade em afirmar-se que há no estilo de Eça um reflexo do seu dandismo: caso idêntico ao de Garrett. dizendo. se não definem. . resplandecer. branco. p. . ou pressente. negro. Página vivamente característica desse aspecto é. e dos mais curiosos.. doce. a congestão pulmonar fulminante.. aliás.. a vontade é um grande instrumento. menino!” (Introdução às Prosas Bárbaras. Batalha Reis conta que Eça de Queirós só entrava no quarto com o pé direito. Grande. Enfim. 49 Bastante conhecidas. macio. várias vezes. fosse necessário distingui-lo por uma dessas designações que. resplandecente. que mereço auxílio como cônsul e como artista” (Ibid. 41). poderíamos chamar-lhe artista.. decisiva influência dos sentidos na formação das suas idéias.. “Como artista. e aquela atmosfera de esperança e desejo que azula o futuro. “Se houvesse aí um homem que quisesse salvar a tranqüilidade de um homem de bem e a paz de um artista – esse homem faria uma boa ação – ganhando 6 ou 7 por cento” (Cartas de Eça de Queirós. p. já. Em carta sua a Ramalho Ortigão. e possa Deus conservar-mo forte e firme na mão” (Cartas de Eça de Queirós. deve ter um regime: e você sabe. lânguido. A nevrose está comigo. lívido. pelo menos restringem. mole. creio eu. 52 “Se. as suas superstições49. O tempo chegou em que a vida para mim. 237. pp. é a saúde. O que me incomoda mais é uma falta de alegria.) – Aliás. que estou pobre. o amor a certas palavras. Enfim. claro. quanto é triste entrar-se tarde dentro de um regime. para julgar melhor de certos fenômenos do seu estilo. escrita 51 aos 37 anos. má condição para trabalhar. a sua natureza essencialmente de artista52. “artista” chama-se ele a si próprio. pálido. há esta passagem: “O que não vai bem. Mais de um crítico. 101-102). doçura. p.. lhe arranjasse (à Holanda) outro final”. se refere à sensibilidade de Eça. sente-se que a denominação é grata a Eça de Queirós. pesado.. brancura. vejo tudo pardo. esta questão de saúde é longa. a sua sensualidade48.. Ensaio de Crítica. 110). cit. (Correspondência. e temia as correntes de ar: “É a pneumonia. dormente. o seu dandismo50. Um destes. p. XV). 33). e eu não tenho tempo para queixumes. só podia escrever em certo almaço que ele próprio comprava. É muito sabido que Eça foi um doente. escarlate. “vá lá. a não ser que eu a queira estragar de todo. O Banho 48 Turco. silêncio. desejaria que V. 47 O caso de Eça parece justificar a doutrina do sensualismo: tem-se a impressão de uma profunda. de espaço e de ar diante de mim. vago. mórbida51. entre várias outras.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 97 tensa vida sensitiva47.

mal disfarçado pendor para o sinistro. raramente estes eram de mais de três. Não. azul. Numa das Crônicas de Londres (p. de entre numerosos exemplos. ADJETIVAÇÃO Um dos segredos mais impressionantes do estilo queirosiano reside. e meiga. Não seria preciso. pode-se dizer que. Esse fato decorre. 64). consoladores e purificados” (p. e casta. turbulenta. É que Eça lhes tinha particular estima. doutrinário e grave” (I. em seu vocabulário. sem relevo. À sua intensa percepção sensorial não escapavam aspectos dos homens ou das coisas: assim. Basta ver.” . 88). quando os empregou em grupo. 5). Eça. constitucional. Em escritos da primeira fase. se quisesse evitar o abuso deles. 65). Em Uma Campanha Alegre: “Oficial. ardente. os seguintes: “carinhosa. Considerado o conjunto de sua obra. 5). vejo: “Aventureira. divinos” (p. datada de 1877. mais que a ação do dicionário para arranjar-lhes sinônimos. aquilino” (p. necessariamente. no uso do adjetivo. selvagem. com a sua paixão e natural instinto da originalidade. tão característico. ávida e viciosa. desse escritor. acusam-se. nas Prosas Bárbaras. do qualificativo. do vivo senso do pitoresco. fecundos. isto é comum. altivo. sagrados. Mas a partir do Crime do Padre Amaro o fato torna-se relativamente raro. eles deveriam corresponder excelentemente a determinadas exigências do seu fino sentir. burguês. teria a sua adjetivação de ser abundante. “negros. já assinalado. Parece pouco provável que ao seu labor de revisão escapasse a notável repetição daqueles vocábulos. luminosos. Preferências de gosto.98 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a ouro. e para que não fosse vulgar. e consoladora” (p. eram termos vitais para Eça. louro. e doce. nítidos. tendências voluptuosas. 205). “serenos. bestiais. como se sabe. um quase apego. foi levado àquele manejo tão pessoal. E no Egito: “Rugoso. talvez se possa dizer – de mais de dois. sim.

É muito da maneira eciana colocar dois adjetivos num fim de frase. pp. p. torna este de uma força e ritmo invulgares.” O último caso é de uma originalidade impressionante. De Alves & Ca: “Voz mordente. A adjetivação audaciosa. “curvada sobre a costura. 64). particularmente no primeiro caso. erudita. imensa e clamorosa” (Ecos de Paris. p. separados por uma vírgula do resto do período. 103). pachorrenta. fresco. E nos Contos: “Asseado. com o melhor resultado. assim: “Um candeeiro de latão ficou dando a sua luzinha de capela. tombado e musgoso” (Contos. é também característica do estilo de Eça: “Agonia flamejante” (Prosas Bárbaras. cultivado” (p. no segundo caso. como este. porém. que vibrava” (p. 95): “E sobre o seio a cruz pesou. 16). fumarenta e mortal” (A Relíquia. “seios rijos.. Sabe tirar vivo efeito da aliança de um adjetivo com um particípio passado ou com outro adjetivo de natureza diversa: “Jazia um velho pilar de granito. “E a manifestação dos vinte mil operários já vem na rua. “inverno escuro e pessimista” (A Cidade e as Serras. Veja-se.” Também é muito inclinado a juntar. 17). caritativo. “alegrias alumiadas e sonoras” (Ibid.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 99 Outro exemplo. 59-60). 116). p. p. ciumenta e de ferro. “cuspia-lhe injúrias em árabe. “a sua cantiga costumada e dolente” (Ibid. rudes e chocando-se como calhaus que se despenham num vale”. p. Normalmente se diria: “Jazia tombado um velho e musgoso pilar de granito. 240). a originalidade dessa junção. perfeitos e de ébano” (A Relíquia. . flexível e tenro” (p. recolhida e séria” (Contos. escrito em 1894: “Afável. e até mais de uma: “literária. 155).). p. o efeito da transposição daquele de ébano. p. 9). clemente. requintada e toda cheia de musas” (Contos. ou a uma oração qualquer. leal. 122). colhido na mesma obra (p. o comum seria: “Seios de ébano. Note-se. o de ferro deslocado junto da palavra cruz para o fim do período. p. moço. um ou mais adjetivos a uma locução ou oração adjetiva. Não tanto. vestida de preto. decidida. inesperada. de um dos Ecos de Paris. a combinação é um extraordinário achado de estilo. 4). rijos e perfeitos.” Aqui.

p. “voz rotunda” (Os Maias. “Do outro lado do tabique sentíamos ranger as camas dos eclesiásticos. fazendo-o. I. p. “luzinhas sedentárias” (A Capital. onde me era doce fumar um pensativo cigarro”. 28).” Ainda outros exemplos: “As moles condescendências” (O Conde d’Abranhos. 121). transformado em advérbio. como neste passo dos Contos: “O monstro. escreve o Sr.. p. Eça de Queirós “deu vida nova”. 97). p. 9). ou vice-versa. 214). mas é mais concentrada e expressiva do que estoutra que lhe corresponde na linguagem intelectual: “F. “amplidão pançuda (Ibid. como observa um crítico.. “o côncavo silêncio noturno” (Ibid. p. plantado enormemente a uma esquina.100 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a 164). p. 55). 22): “Fumava um cigarro lânguido”. 45). 34. Manuel de Paiva Boléu53: “A frase ‘fumar um pensativo cigarro’. pode ser ilógica. “empertigadas sobrecasacas” (A Cidade e as Serras. Algumas vezes Eça desloca o adjetivo. “escuridão aparatosa” (Contos. I.” 53 O Realismo de Eça de Queirós e a Sua Expressão Artística. p. o raspar espavorido de fósforos” (A Correspondência de Fradique Mendes. 351). “curiosidade divertida e arregalada” (Ecos de Paris. plantado a uma esquina. modificar outra palavra. Normalmente se escreveria: “O monstro enorme. p. na qual se transmite a este a atitude de espírito do fumador. 39).). p. “olhar necessitado” (O Primo Basílio. 52). Veja-se na Relíquia (p. . 1942. p. fumava pensativo (ou pensativamente) um cigarro. “cabelos violentos” (Ibid. 2). 21). 57-58). “voz faminta” (Contos. mas ao qual. p. recebe em silêncio o copo” (pp. nos Ecos de Paris: “Puxou risonhamente a charuteira e acendeu um paciente charuto” (p. 32). à p. p. É a figura chamada hipálage: fenômeno lingüístico já encontrado entre os latinos. 99 da Cidade e as Serras: “Nos silenciosos corredores. Comentando a segunda destas passagens. p. 8). “o suor ansiado que o alagava” (A Ilustre Casa de Ramires. “pança ricaça” (Uma Campanha Alegre. p. Coimbra. Essa ousadia resulta muitas vezes da transposição da qualidade de uma pessoa para uma coisa.

Eça de Queirós apresenta muitas vezes o toque vivo de sua personalidade. se torna semelhante àquele vago torpor. Não se tem a consciência de ser livre. como também o adjetivo. p.. fundamentais até da oração. e que a nossa vontade. se atenua. e sempre uma precisão. se desfazem no vapor espesso e aromático. convencido e digno: – Droga muito medíocre.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 101 Novo aspecto da sua adjetivação: o tom irônico ou satírico. perde-se o sentimento dos contornos nítidos. só por si. SUBSTANTIVOS E VERBOS Também no uso de substantivos e verbos – elementos igualmente importantes. 306). p.. dissolvente. desprezado pelo autor: “Ali o vapor d’água aumenta. garantindo como autêntica e sem mistura a água do rio baptismal. “Não! nas entranhas do digno capataz decerto havia melhor misericórdia” (A Correspondência de Fradique Mendes. p. “ensinou-lhe o latim. um longo ensaio. “Estendi-lhe a certidão do frade franciscano. a doutrina. Nos Ecos de Paris: “O criado volveu. O estudo da adjetivação de Eça daria. e outros princípios sólidos” (Ibid. o calor é forte. o nosso eu. parece que o corpo se dissipa.. Ele saboreou o venerando papel” (A Relíquia. o nosso ser. para escarnecer de alguém ou de alguma coisa. 216). amolecedor. 181). o horror à maçonaria.” (p. mais graves. na seguinte passagem do Egito. livro ainda de mocidade. 15). derrete a iniciativa e a individualidade. 163-164) citado pouco além. Veja-se com que propriedade e força ele usa não só essas duas categorias gramaticais (muito principalmente o verbo). uma segurança de mestre. se dilui. Essa mestria atinge o ponto culminante em trechos como o da Ilustre Casa de Ramires (pp. 261). dando-nos uma transparência azulada” (p. uma transpiração abundante cobre o corpo: parece que aquele meio quente. . liquidificante. Eça usa qualificativos os mais sérios.

p. a serena simplicidade desses costumes. Quem dirá que – “pesou um embaraçado silêncio”. Veja-se como a vida quotidiana de uma quinta. a sucessão invariável dos fatos e afazeres de cada dia. traduz melhor. 224). Mas. e não da parte referente à linguagem. “caiu um silêncio”. p.102 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a CONSTRUÇÃO A construção de Eça de Queirós é. uma das suas marcas mais vivas de renovador. estão admiravelmente pintados neste período: “De madrugada os galos cantam. 237). o pegureiro atira o seu cajado ao ombro. p. Tudo caminha natural para um fim. o fato por ele indicado ganha consideravelmente em relevo. como naquele não há “nem dureza nem arranque”. um aspecto dos mais característicos do seu estilo: razão por que dela se trata aqui. p. A construção direta exprime com a mais nítida justeza a sucessão normal e sem pressa dos fatos. “E um embaraçado silêncio. Qualquer desvio dessa ordem gramatical equivaleria a uma quebra da ordem em que se realizam os acontecimentos entre os quais decorre essa existência igual. pesou – como se entre eles surgisse a imagem entristecida da antiga quinta” (A Ilustre Casa de Ramires. “um silêncio caiu. conseguiu com isto novos efeitos. esse trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa sempre incansável. “estrugiu um grito” – teriam a mesma intensidade? Com o verbo posposto. sem dúvida. desesperado” (A Relíquia. Observe-se ainda: “Um grito estrugiu. tão atento. a quinta acorda. que se ouviam as buzinas tocando ao longe na Torre Mariana” (Ibid. os cães de fila são acorrentados.. a moça vai mungir as vacas. pressa nem inversões. 200). neste. Sendo a mais natural. a mais simples. porque é todo feito a cantar” (A Correspondência de Fradique Mendes. 184). É comum dizer-se que ele abusou da ordem direta. inacidentada. a fila dos jornaleiros mete-se à terra – e o trabalho principia. no labor da quinta como no período que a descreve: não há. como já foi visto. . despida de imprevistos. por isso mesmo.

inúmeras vezes. ia a vésperas. em longas filas. ou isolada. Jamais falhei a igreja ou ermida onde se fizesse a adoração ao Sagrado Coração de Jesus. como nos seguintes passos: “E através desta imensa desgraça do mundo que decerto ia findar. p. pp. com os chuços altos. 514). os trapos em sangue. “Lentamente caminhei pelo pátio. “Cruéis e cheios de presságios caíam os seus brados do alto das rochas: e. O mesmo adiante: 55 “negros dormitavam”. 143). rompia do lado dos jar54 Este trecho serve também para mostrar que Eça tinha a ciência perfeita do período curto. como sob uma saraiva inclemente” (A Relíquia. “Prodigiosa foi então a minha atividade devota! Ia a matinas. É necessário frisar que Eça de Queirós soube também. Novenas em que eu rezei contam-se pelos lumes do céu. fazer mais submisso e respeitoso o ruído das minhas solas. 44). as fêmeas fortes e brancas apinhadas nos carros estridentes. fétidos. É para notar-se. Um grande silêncio caía do céu rutilante55: só. magistralmente. essa posposição. Partilhava sofregamente de todos os desagravos ao Sacramento. ou combinada com a ordem direta. pelo contrário. como num templo. A ordem inversa não faria sentir tão bem o correr das lágrimas. . retardado pelos passos lentos da égua. p. por vezes. p. 329-330). como que anima. Tópsius encolhia-se na capa. conseguindo resultados esplêndidos. – hirsutos. sempre pelos vales assolados. usar da ordem inversa. a força da construção direta.. de rojo. personifica o sujeito.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 103 sem que todavia o sujeito se dilua. Mais: “E fios de lágrimas corriam-lhe pelo rosto” (O Primo Basílio. ainda aqui. passavam e repassavam os Bárbaros” (Notas Contemporâneas. Em todas as exposições do Santíssimo eu lá estava. E o Setenário das Dores era um dos meus doces cuidados”54 (Ibid. os molossos latindo. procurando.

“branca cabeça” (Ecos de Paris. p. postos contra uma coluna. p. 198). com um divã e uma mesa de limoeiro. acocorada diante do seu gigo de fruta. “mascarado d’urso” (A Relíquia. soube usar dela com a mesma segurança de mão com que utilizou a ordem direta. Jacinto aconchegara aí um recanto. um prato de damascos secos do Japão. “pouco curvada” (Contos. . p. VÍCIOS E VIRTUDES ESTILÍSTICAS A despeito da sua fina percepção auditiva. 2). 62). 369). “idêntica àquela” (Fradique Mendes. 105). 178). “mundo duro” (O Mandarim. jogavam com discos de ferro que tiniam de leve nas lajes” (Ibid. p. havia trabalhadores compondo o telhado. “toca a cabra” (Notas Contemporâneas. em hiatos: “aí incessantemente” (O Mandarim. o gritar dos pavões. 3). mais lustrosa que um fino esmalte. 68). Sobre um cofre de madeira lisa pousava ainda. Eça de Queirós. p. Como um repouso para o espírito esfalfado de todo aquele saber positivo. I. p. 35). “Mas depois rebrilhava. junto à balaustrada do claustro.. “titi tinha” (A Relíquia. que ainda hoje muita gente considera indignos da linguagem literária. 153). desprezando em parte a ordem inversa. a estante amável dos Poetas. em aliterações viciosas: “Tinham passado para o polido padre Gusmão” (O Crime do Padre Amaro. Em andaimes. p. Na realidade. 56 Note-se como Eça não receava o emprego de termos como este. coberta de charutos. de cigarros do Oriente. E crianças. Eça incorreu em numerosos parequemas e cacofonias: “pela lama” (Os Maias. áspero e triste. esquecido. p. Estendidos no chão. em marroquins claros. p. Cedi à sedução das almofadas” (A Cidade e as Serras. 70). p. 105). negros dormitavam com a barriga56 ao sol. p. de tabaqueiras do século XVIII.104 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a dins. p. a um canto. Uma velha contava moedas de cobre.

379). p. 150). 79). pp. 327) “A água sobe onde o torrão tem sede. balbuciou” (O Mandarim. “um homem barbudo. rindo com os seixos. atulhava a região” (A Cidade e as Serras. . p. pp. corri ao vasto fogão do peristilo” (Contos. 224-225). p. recomeçou a rolar retumbante” (Ibid. 110). 436). lânguido banho” (A Relíquia. dá pelo nome cavalheiresco e espanholesco de Álvarez” (Ecos de Paris. p. “Pigarreou. 14)... p. “Persuadido que era um dever espiritual e doutoral. p. 32). “Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha” (Contos. alto e rústico como um campanário” (Ibid. 385).Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 105 em ecos: “Não deu atenção à escrituração” (Contos. cuspilhou. Da aliteração tirou. de mais interesse. “de pé. 120). p. Eis alguns desses exemplos de homeoteleuto: “Apenas entrei no hotel. como elemento de valor artístico.. os melhores resultados: “Um longo. grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra” (A Cidade e as Serras. como nos dias patéticos da Convenção” (Ecos de Paris. 366). esvaziado” (A Ilustre Casa de Ramires. Entretanto. p. e corre para lá. p. 30). numa aclamação. “na tão famosa e verbosa questão Coimbrã” (Notas Contemporâneas.. gralhando e refulgindo” (Fradique Mendes.. “e. p. engelhado. p. “atravessando lentamente com as minhas sebentas na algibeira o Largo da Feira” (Notas Contemporâneas. em que se verifica a intenção irônica ou burlesca: “O Ministro. lento.. 199). 72).. 13). “No terror e esplendor da emoção” (Ibid. 353). 198). “Espertos regatinhos fugiam. p. em várias passagens. chupado. esse.. Não raro empregou o eco intencionalmente. . p. p. p. como poucos. rápido. p. “E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha dominava. “o corpo escorregava. “eu pusera-lhe o nome galante e cacarejante de Maricoquinhas” (Ibid. 125). p. Outros casos.. 41-42). “um céu de poente revolto e rubro” (Os Maias. medir os monumentos da antiguidade” (A Relíquia.. carrancudo. atroou a noite negra” (Ibid. gelado e estremunhado. I. p. ele soube de alguns desses vícios fazer virtudes. Com ela conseguiu excelentes efeitos de harmonia imitativa: “Um rude trovão rolou.

de dardos que se cravam. NOTAS SOLTAS ORIGINALIDADE. permitiu-lhe alcançar a grandeza máxima de uma página como esta. com um baque de ferragens sobre a terra mole” (A Ilustre Casa de Ramires. revolto. desaba algum hirto e chapeado senhor. Um exemplo típico se vê na Relíquia (p.. 41). as lisas pranchas dos montantes lampejam. carregam. De “O homem põe e Deus dispõe”.106 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a O poder da harmonia imitativa. almograves da Hoste Real. 5).” . Almograves de Santa Irenéia. arfando ao peso das coberturas de malha. e ambas logo refogem. faz: “O homem propõe e a ocasião dispõe” (Correspondência. p. DRAMATICIDADE. e os atordoados cambaleando buscam. p. no embate mais nobre da peleja. p. com baralhado arremesso. refluem – enquanto. . as rudes balas de barro despedidas das fundas. embebidas nas chapas de broquéis: – e já. sob o abrigo do arvoredo. Vejam-se estes dois exemplos: O conceito “A história se repete”. em perigo de vida: “E outra vez. em Eça.. quando Teodorico diz haver contado à titi a situação de um seu imaginário colega. ele o transforma nisto: “A História é uma velhota que se repete sem cessar” (Cartas de Inglaterra. dos altos arções de couro vermelho. muito pobre. a fresquidão do riacho. em turmas ligeiras. 50). por cima dos corcéis que se empinam. Ao meio. de ascumas que se partem. estirei a carcaça dum condiscípulo sobre a podridão duma enxerga. – Curiosa manifestação de originalidade de Eça de Queirós está no seu jeito humorístico de dar nova forma a certos provérbios. algum malferido estrebucha aos urros. retinem. topam. no chão. – Tem-se falado acerca do poder dramático do autor dos Maias. que nos recorda a energia épica de um Fernão Lopes: “Através da grossa poeirada e do alevanto zunem os garruchões. certas frases muito repetidas. 134).

a tremer todo. mas darei apenas um.” (Os Maias. para efeitos de contraste.. iluminando-lhe a carnação ebúrnea. e estes tons de seara madura batida do sol. p. com duas rosas amarelas e uma espiga nas tranças. o poeta romântico. 34). fundindo-se com o ouro dos cabelos. 525) A ESCOLHA DAS VOGAIS. Seria fácil reunir aqui muitos exemplos. não tenho medo dele. 322). da sua ciência da expressão viva. – Era profundo em Eça o instinto poético. POESIA. põe de pé um tipo. própria da linguagem falada: um trecho da conversa entre Ega e Dâmaso.. referindo-se à morte de Luísa: “Que profundo desgosto de família!” (O Primo Basílio. “– Dâmaso cambaleou para trás.” (I. Seus livros estão cheios de páginas que o atestam. desafiar o outro para um duelo: “– Em resumo. Ou a do Conselheiro Acácio. I.. a maneira como repete algumas para traduzir uma mesma impressão. E de quê? Ora essa! É boa! Eu sou lá homem que me desdiga! “– Perfeitamente. desdiz-se ou bate-se? “– Desdizer-me? tartamudeou o outro. natural.. opalas sobre o colo e nos braços. – Exemplo do seu poder de dialogador. 39).. do segundo: “Estava de seda cor de trigo. arrombo-o.. p. desvairado: “– Qual bater-me! Eu sou lá homem que me bata! Eu cá é a soco. empertigando-se num penoso esforço de dignidade. banhando as suas formas de estátua. então bate-se. davam-lhe o esplendor duma Ceres” (Os Maias. Que venha para cá. tanto de um como de outro caso.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 107 DIÁLOGO. É o caso da conhecida frase do Alencar. quando aquele vai. jogando com todos os seus timbres. numa curta fala. Veja-se isto: “Não pode agora . p. ou como as varia. II. às vezes agrupando-as em ditongos. em nome de Carlos da Maia. – Em muitos dos trechos de Eça já transcritos pode-se observar uma das qualidades mais preciosas do estilo desse escritor: a sua mestria na escolha das vogais. p. de meia dúzia de palavras. Dâmaso. nos Maias: “Por uma dourada tarde de outono. Às vezes.

71-72). livre. entre fardos de lã. pela morte-cor das palavras que sugerem prodigiosamente. o barracão da Alfândega. imóveis num recolhimento religioso. p. Cercado de severas palmeiras. esta passagem. – Encontro na Relíquia um trecho dos que melhor podem documentar o raro poder descritivo de Eça.108 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a um honesto melro gorjear pacificamente as suas reflexões da alvorada. e ao longe perdiam-se os areais da antiga Líbia. leva a alma insensivelmente para alguma coisa de muito alto e muito puro: há um silêncio de extraordinária limpidez. p. o olfato e o ouvido – e os dois primeiros sob tão diversos aspectos: “Através deste zumbido científico [a saudação que faz ao Egito o sábio Tópsius] eu sentia-me envolvido num bafo morno como o duma estufa. de um enternecimento quase magoado. uma atmosfera de sonho e de quase misticismo: “Caminha-se numa luz ligeira. estirava-se. esbatidos numa poeirada quente. e da cor dum leão” (pp. o céu deslumbrava. 32). sem que o venha interromper uma velha caleche a trote” (Ecos de Paris. o verde das relvas sem fim que se pisam. . de um dourado triste. a sua acuidade sensitiva. Em poucas linhas ele faz sentir a presença de nada menos de três sentidos: a vista. OS SENTIDOS NO ESTILO DE EÇA. banal e sujo. no seu imponderável. isoladas. pela intensa musicalidade. um lânguido palácio dormia à beira d’água. E agora. da mais fina poesia. um silêncio que pousa no espírito com a influência de uma carícia” (Cartas de Inglaterra. onde o labor incessante das seivas muito forte parece fazer um vago rumorido. um silêncio que não existe na paisagem dos climas quentes. No cais faiscante. solenes. Mas além as pombas brancas voavam em torno aos minaretes brancos. amolecedoramente tocado de aromas de sândalo e rosa. como o que deve haver por sobre as nuvens. 24). a força extraordinária no transmitir-nos em cheio a realidade do espetáculo que o impressionou. verde repousado e adormecido sob as grandes ramagens das árvores seculares e aristocráticas. na sua fluidez lírica.

Logo a seguir. “amolecedoramente”. que logo sugere o clima da região. “aromas de sândalo e rosa”. e a brancura. ainda mais rude. “banal e sujo” (que reforçam admiravelmente o efeito do contraste com a impressão deliciosa – a olfativa – do período anterior. distância no tempo). e o deslumbramento. todo ele também de aspectos visuais: as “palmeiras”. “o barracão da Alfândega”.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 109 Observe-se enquanto os ouvidos de Teodorico são impressionados com o “zumbido científico” de Tópsius. serve também. o vôo. a nota visual. chega-lhe a impressão olfativa – de sensualidade – transmitida em palavras e expressões do mais intenso conteúdo sensual: “envolvido”. “livre”. para realçar este efeito: a luz intensa faz ver melhor a sujeira. Para completá-la. cruamente prosaica: “cais”. mas que atenua o efeito. “a Líbia”. porque a região é deserta. que reforça a idéia de extensão do deserto. “bafo morno”. “perdiam-se” (fuga. que foge – transição da realidade para o sonho). distância. o “palácio”. “estufa”. a “poeirada” (impressões fortes). que vem prolongar a atmosfera de encantamento do primeiro período: “pombas”. os qualificativos: “faiscante” (que sugere a idéia de luz). “minaretes”. dos areais da antiga Líbia). “antiga” (fuga. “fardos de lã”. a “poeirada” (nota realista. Impressão que se prolonga até o outro período – o último. não lhe oferece obstáculos. “da cor dum leão”. que em si não traduz idéia prosaica. que logo evoca o leão africano. para intensificação desse poder de tudo traduzir indireta- . Depois. “esbatido” (impressão de coisa que se dissipa. O próprio “faiscante”. sonho). já sugerida pelo verbo – “perdiam-se”: a poeirada corre livre. “dormia” (sono: indolência. para melhor pôr em relevo a “languidez” sonhadora do palácio. aí. o contraste desta visão desagradável com uma visão poética. “o céu”. “os areais”. Ainda mais. sonho). e o “além” (pureza. Observe-se ainda como há em tudo uma atmosfera de sugestão: a “poeirada quente”. distância no espaço). em contraste. “ao longe”. a “água” (impressões suaves). a severidade das “palmeiras”.

como já se viu. igual capacidade de associação de várias impressões. pois. talvez. práticas. Quase vinte anos decorreram sobre a minha primeira leitura daquele romance – e a impressão do trecho nunca me saiu da memória. Eça transfere. 72). pelo sol faiscante. para colocar melhor em evidência a vulgaridade e a sordidez. São precisamente estas as impressões que o trecho nos comunica. em torno dos minaretes brancos. além. Assim também. produzida pelo barracão da Alfândega. não merecem cuidado nem apreço onde há indolência e sonho: são. Apresenta-nos o escritor a qualidade de um objeto como efeito de outra qualidade de outro objeto. o céu deslumbrante (luz). como a Alfândega. não é para sobrepor-se ou acrescentar-se àquelas outras. pelo vôo das pombas brancas. além de sugerir-nos a presença do animal. em vez disso: “poeirada livre”. banais e sujas. É ele prova eloqüente da aguda sensibilidade de artista que.110 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a mente: escrevendo “poeirada livre”. depois: “Amei logo esta terra de indolência. e os areais ao longe (distância. Escreve Eça. A impressão de sujeira e vulgaridade. e a última – luz – serve. na observação de um crítico57 – aliás. Quero ainda citar da Relíquia outra passagem na qual se observa esse mesmo vigor descritivo. ele. . de sonho e de luz” (p. com o “da cor de leão”. Não: é uma decorrência e prolongamento das duas primeiras – indolência e sonho. faz que. sonho). não original – “muitas das cenas que Eça des57 Manuel de Paiva Boléu – em Novidades. E note-se como o período fica no centro – o sujo e o banal cercados e anulados pela mole sensualidade que se destila do primeiro período e da primeira parte do quarto (indolência). As coisas reais. modificando-a. evita a monotonia de muitos adjetivos enfileirados. a adjetivação que daria a “deserto” – palavra inexistente no período – para “poeirada”: normalmente se diria: “deserto vasto (ou imenso). unida ao “seu dom de percepção da realidade”. que sugere a mesma coisa com originalidade e maior vigor. cit.

representativas de idéias destinadas a fixar-se mais ao vivo na memória do leitor. da olfativa. s. As palavras ou frases de mais importância. colocar os termos ou expressões mais significativas nos pontos em que ocorrem as pausas – principais ou secundárias – do período. ARTE NA DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS.a ed. em que se possa melhor apreciar o fato descrito. acaçapada entre muralhas cor de lodo. d. 44. como raros escritores. A síntese do período e a escolha e disposição das palavras dão-lhe um vigor pictural dificilmente igualável. “Jerusalém é uma vila turca. p. de passagens mais longas. 9. costuma Eça deixá-las exatamente onde se fazem os estacionamentos. Vejamos outros. aquele inesquecível “badalar de sinos tristes”. e fedendo sob o sol ao badalar dos sinos tristes” (p. muito cortados de inci58 Le Problème du Style. – Nessa disposição das palavras está um dos segredos mais finos do estilo queirosiano. VII). Paris. Aí se casam três impressões sensoriais: a visual. e.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 111 creve podem ser facilmente imaginadas. do discurso. representadas ao vivo no nosso espírito. reforçado pelo contraste de “sob o sol”. depois.. mais ou menos longos. Prova da verdade daquela afirmação de Remy de Gourmont – que “il y a des hommes en qui tout mot suscite une vision et qui n’ont jamais rédigé la plus imaginaire description sans en avoir le modèle exact sous leur regard intérieur”58. traduzida no “fedendo”.. Os exemplos da Relíquia são. também sob esse aspecto. os acentos ou subacentos oracionais. De todas se deduz a miséria: da visual indicada naquele “vielas andrajosas” e nas “muralhas cor de lodo”. bem significativos. junta ao seu inseparável senso melódico. à sua sábia combinação de ritmos. aquelas de maior conteúdo pictórico. isto é. . com vielas andrajosas. Graças a essa qualidade do estilo de Eça. a olfativa e a auditiva. Ele sabe. até os períodos muito compridos.

delicada de saúde. Comecemos por um trecho das Prosas Bárbaras: “Os que morreram sobre as águas do mar. sobretudo às luzes.112 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a dentes. numa massa meia solta sobre as costas. e. observe-se esta apresentação das três personagens do conto O Tesoiro: “Os três irmãos de Medranhos./acalentar o povo dos pescadores. I. com um quebranto nos olhos pisados. 3). ondeados. muito pesados./os rochedos./as conchas. ou podem deixar de existir: o que não importa. que rijamente trabalhara no souto desde o cantar da calhandra. uma infinita languidez em toda a sua pessoa. geralmente nada têm de cansativos./entre as areias./embalar-se serenos ao sol. ao castelo do seu Senhor” (Últimas Páginas. A sua maior beleza estava nos cabelos magnificamente negros. e que ela deixava habilmente cair. a maravilha do período com que se inicia a lenda de São Cristóvão: “Um dia. pp. Rui. ao entardecer. prendeu a machada ao cinto de couro. um ar de romance e de lírio meio murcho. segundo a maneira de ler de cada um. numa floresta./ou de noite estirar-se//ao peso da moleza//que escorre dos astros./os corais. não raro são do mais singular encanto. Agora. com a sua égua carregada de lenha./e vêm depois./sob a forma de ondas.) Veja-se agora este retrato de mulher: “Era alta. recolheu./silencioso. Finalmente./cantando com barbaridades de rainhas//e doçuras de santas. muito pálida. rebeldes aos ganchos. trigueiro” (p. indicando o primeiro por um traço oblíquo e o segundo por dois. como num desalinho de nudez” (Os Maias. 196-197). e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam as gralhas. p. pelos caminhos da aldeia. (Naturalmente os subacentos podem ocorrer em pontos diversos. quando por sob as frondes ressoavam as buzinas dos porqueiros./ou de madrugada./desfazem-se entre as verdes profundidades. Pus em itálico os vocábulos ou locuções que coincidem com o acento ou o subacento oracional. de surrão de estamenha. um servo. um lenhador. 64). Guanes e Rosta- .

Então é que volta o nome de Guanes. – Poder-se-á incluir no seu processo de estilista a maneira como. Ouvem “a cantiga dolente e rouca. cuja morte já têm premeditada. a arte da repetição do os: “Os fidalgos mais famintos e os mais remendados. o dissilábico. Rui e Rostabal esperam que de Retortilho volte Guanes. e de efeito intensificado pelo l seguinte). no fim do período: remendados. com o ditongo tão expressivo. 124-125): Emboscados. em todo o Reino das Astúrias. até dado momento. uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas” (a pluma é do sombrero de Guanes). e cujo efeito se completa com o da outra. Guanes e Rostabal (note-se. serve para salientar mais vivamente o resultado que o escritor procurou atingir. com a vogal tônica nasal e o s final. . atirada aos ramos” (é a cantiga de Guanes). no mesmo conto (pp. eram então. e o trissilábico. Veja-se. paroxítono. aqui. p. bem claro.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 113 bal. Depois: a série – Rui. aliás. TAMBÉM NO TESOIRO. em alguns casos. com os aa – sobretudo o último. como é feliz a escolha dos nomes e a sucessão deles – o monossilábico. Observe-se também. bem aberto. já enunciada. em que acontece um fato culminante relativo a ela. referindo-se apenas a seres ou atributos com ela relacionados. Exatamente porque não é muito normal. “Rui murmurou: ‘– Na ilharga!’ – O chouto da égua bateu o cascalho. No subacento está a palavra famintos. Eça evita falar de determinada figura ou coisa. Rostabal pensa nos empadões e no vinho que “o outro” trazia.” Essa repetição traz melhor ao espírito a idéia de fidalgos. fere o irmão. tanto mais expressiva quanto forma com fidalgos uma aliteração. Rostabal sai do esconderijo. No quarto acento fixa-se o lugar. os fidalgos mais famintos e os mais remendados” (Contos. Terceiro acento: então (e fixa-se o tempo). O primeiro acento oracional cai na palavra Medranhos – e já nos fica na memória o nome dos Paços onde viviam os fidalgos arruinados. elemento reforçador. “Enfim! Alerta!”. então. Não aparece a palavra “Guanes”. por exemplo. 119).

A última sentença teria a seguinte feição: “Toda a lâmina [ou: ‘e toda a lâmina’] se embebeu na sua ilharga. – e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes. na cena da morte de Rostabal. evitando assim uma das vírgulas. para mais vivo efeito: “Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha.” – O termo Guanes ficaria na oração anterior. evitando a monotonia de muitas orações sucessivas num só tempo verbal. a ação central. deixando o esconderijo. – A estocada é contada num jacto. NO TESOIRO. Aqui. Ainda mais: se as duas últimas orações estivessem invertidas – ligadas por subordinação. como ali se acham. Esta a ordem normal dos fatos. atirou o braço. Com isto o escritor dá mais vida à narração. Porém. bruscamente. sem vírgula – coisa não muito freqüente no autor: “E toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes. Note-se. Poderia o autor haver escrito: “Então. no Tesoiro: Rostabal.” O fato central vem narrado antes do incidente. no caso. o advérbio – lentamente – não as dispensa. . com maior vantagem. Depois de referida esta (no perfeito) é que se menciona o fato secundário (no mais-que-perfeito). em uma única oração de linha e meia. ele se virara na sela. lentamente. – Outro fato de interesse: certo uso do maisque-perfeito depois do perfeito a fim de precipitar. quanto maior o número de pausas. a longa espada. Agora. e a lâmina da espada se enterrou na sua ilharga. em que é contado o fato secundário. A ação é demorada. a sua larga navalha”. O período é todo picado de vírgulas. o contrário. também. O que seria um desastre para o período.” O molemente não vem entre vírgulas. quando ao rumor. Rui tirou do cinto. com o que melhor se sugere a rapidez da ação. ou por coordenação – a palavra Guanes não apareceria na oração que registra o fato culminante: a morte do rapaz. lançou a estocada. Guanes voltou-se na sela. cautelosa. tirando-lhe muito da energia que o anima.114 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a AINDA NO TESOIRO. Pois Eça a inverte. MAIS UMA VEZ.

que conduzem ao relaxamento da construção oracional e ao abandono da gramática. Enquanto a navalha faz o trajeto. Eça faz uma comparação. o ponto máximo da ação.Li ngu agem e Esti lo de Eça de Q u e i r ó s 115 tanto melhor: “Então. no qual – diz Vossler – o escritor “se envolve no seu objeto. 154). – Curiosa anomalia de regência produz. Rui tirou. . lentamente. deslizou até Rostabal.. cit. 155). Eis o período em que figura tal regência: “Então invadiu-me a alma uma melancolia. o alpendre do ferrador. com as longas barbas pingando. numa oração bem larga. como se pregasse uma estaca num canteiro. serenamente. absorvido naquele mundo duro e bárbaro: lembrei-me. a venda com um ramo de louro à porta. de andamento mais apressado ainda: “Enterrou a folha toda no largo dorso dobrado. envolvendo Pequim. certeira sobre o coração. a sua larga navalha. já num andamento mais célere: “Como se pregasse uma estaca num canteiro”. com os olhos umedecidos. e como cronista de uma casa de doentes. p. que resfolgava. em certo trecho de Eça de Queirós (O Mandarim. da minha aldeia do Minho. Desfere o golpe: “E..” CASO ESTRANHO DE REGÊNCIA. enterrou a folha toda no largo dorso dobrado. 59 Filosofía del Lenguaje..” – É ainda muito cortado de vírgulas – embora menos que o anterior: o ritmo da ação acelerou-se um pouco.. que o silêncio daquelas alturas. Mas chega o momento decisivo.” O período subseqüente – “Sem um rumor na relva espessa. há um ligeiro retardamento de ritmo: cautela. um longo pesar de me sentir ali isolado. 154-156. um dos mais admiráveis espécimes de linguagem psicológica. tornava dum vago mais desolado: era como uma saudade de mim mesmo. por fim.” Aqui está o período inteiro. sem interrupções: “E.”. se torna ele também uma alma doente” (p. Conseqüência do estilo impressionista. pp. Nota-se aí um fato semelhante àqueles apontados por Vossler59. do cinto. serenamente”.. do seu adro assombreado de carvalheiras. e os ribeiros tão frescos quando verdejam os linhos.

que se perdeu a consciência do presente e da gramática. surgem diretas. por assim dizer. Repare-se em que as primeiras coisas lembradas. que. vivendo só para a evocação – e a memória entra a particularizar miudamente as coisas. e os ribeiros. naturalmente. a esta soma-se a outra. já esse processo de evasão vai tão adiantado. por exemplo. desprendidas de qualquer conectivo. encarnado na pessoa de Eça. As evocações vão-se fazendo cada vez mais vivas.. depois. são lembranças. de modo que as coisas principiam a mostrar-se por si mesmas. “o seu adro” (poderia. não se interessaria em calar uma preposição monossilábica. estão modificadas pelo possessivo: “a minha aldeia”. Há o possessivo para determinar esses substantivos.. depois o adro (ponto de convergência da população). a quebra da própria relação gramatical. Normalmente essa preposição deveria repetir-se nos casos seguintes. aquelas a que se antepõe o de. como substantivos. ser dispensado o artigo). como seria se se tratasse de com. que punha aos olhos de Teodorico. se ele repetia tanto palavras de outras categorias. satisfeita a princípio a lógica da gramática. “o alpendre do ferrador”. fugindo ao mundo circunstante. antes. primeiro regido de preposição: “da minha aldeia”. Não é normal a omissão dela. desenterrando as mais pequenas e escondidas. aí. e o alpendre. com as expressões por que outrora eram tratadas: “a venda”. todas aquelas coisas remotas e tão gratas ao coração. Foi. fugir-lhe em seguida. aliás. Esse hiato da vida de relação implica. adjetivos e verbos. . em bruto: primeiro. portanto. indicada pela preposição. Teodoro vai-se engolfando no passado. e quando chega à venda. guiando-se mais pelo poder da evocação. É de notar que em começo a memória vai incidindo sobre as coisas mais gerais.116 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Lembrei-me aparece. a aldeia (todo o conjunto). “do seu adro”. “os ribeiros frescos”. a necessidade íntima – inconsciente talvez – de. já aparecem com uma relação de dependência. Inclino-me a crer que não foi o desejo de evitar a repetição que levou Eça de Queirós a omiti-la nos três últimos casos.

”.. Não é isso um traço de super-realismo? . É um estado de transporte: retorna ao seu mundo perdido. O pesar do isolamento. Nesse tipo de linguagem a rigidez sintática se afrouxa para atender determinados estados de fluidez. de estar “absorvido naquele mundo duro e bárbaro. tem ante os olhos “a venda com um ramo de louro à porta. leva Teodorico a refugiar-se a todo o transe nas recordações. vê as coisas. Os olhos umedecem-se-lhe. de sonho. e ele perde a consciência da lembrança. de abandono. um longo pesar de me sentir ali isolado”. “era como uma saudade de mim mesmo.Li ngu agem e Esti lo de Eç a de Q u e i r ó s 117 Atente-se no começo do período: a melancolia torna-se vaga e pungente. o alpendre do ferrador e os ribeiros tão frescos quando verdejam os linhos.. já não se lembra das coisas.

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Simões Lopes Neto .

Simões Lopes Neto .

Linguagem e Estilo de Simões Lopes Neto
pintura, e não fotografia

INTRODUÇÃO
Característica fundamental da língua de Simões Lopes Neto, já salientada por Augusto Meyer,1 é a feliz combinação da maneira literária com a linguagem oral – a fala espontânea e viva dos seus heróis. O comum entre escritores regionalistas é portarem-se ante o homem do povo como o espectador fino e sutil que se delicia com as “tolices” do linguajar errado, caprichando ele o máximo na sua linguagem – como para guardar distância. Ele observa o pitoresco, lá da platéia; mas longe de querer para si mesmo alguma coisa daquele pitoresco; nada de confundir-se com o ator. Uma observação de Mário de Andrade a respeito de Castro Alves fornece-nos um símile perfeito para o caso: em sua poesia social, Castro Alves, segundo Mário,2 não procurou elevar o negro, o escravo, até onde se achava ele, o branco; o que fez foi “descer” até o irmão inferior.
1 Ver o seu Prefácio a J. Simões Lopes Neto – Contos Gauchescos e Lendas do Sul. Edição crítica. 1.a ed., 1.a impressão, Porto Alegre, Editora Globo S.A. Aspectos da Literatura Brasileira, p. 148. 2

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Parece-me este, exatamente, o caso de tais regionalistas. Estropiam sem dó nem piedade os vocábulos, no falar caipira, a pretexto de caracterizá-lo bem nitidamente; guindam-se a valer, capricham à larga na correção sintática, no retorcido da frase, quando estão com a palavra. Essa contínua e violenta desigualdade de nível, quebrando a unidade da composição literária, choca-nos. O excessivo caipirismo revelado na transcrição servil da fala matuta não parece de boa praxe. Prende-se a um conceito fotográfico de arte, inaceitável. Admite-se que, para assinalar bem um tipo, em uma ou algumas frases breves se lhe reproduza a fala com todas as deformações; mas o abuso desta prática desperta uma incômoda sensação de antiliterário. Note-se que Afonso Arinos não fazia assim. Ele mais sugeria do que reproduzia; retratava, não como fotógrafo, mas como pintor, bom pintor, que realiza uma interpretação psicológica do modelo. Vejam este passo do Joaquim Mironga, história, aliás, posta na boca do próprio matuto: “O sol estava querendo sumir, quando eu encostei a porteira. Pulei da sela e amarrei no moirão o ruço pedrês – bicho malcriado, reparador, mas de espírito. No lombo desse pagão eu comia doze léguas, de uma assentada. Olhei a frente da casa, pus a mira no alpendre e não vi ninguém. – Uai, Joaquim, aí tem cousa! – Entrei bem sutil, reparando duma banda e outra. “Patrão velho, na hora em que eu estava arreando o pedrês, tinha chegado perto de mim, dizendo: – Olha lá, Mironga, não me vás sair um perrengue! “– Perrengando, perrengando, meu branco, eu entrei lá dentro. Vossemecê há de ver, com o favor de Deus.”3 Aí temos a fala do nosso homem do campo admiravelmente fixada – todavia não há uma deturpação gráfica, nem sequer sintática. O tom da narrativa, o seu andamento, a escolha das palavras, aquele “bicho
3 Afonso Arinos – Pelo Sertão, p. 159.

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malcriado, reparador, mas de espírito”, aquele “Uai, Joaquim...”, aquele “patrão velho”, denunciam perfeitamente o falar caipira. Por outro lado, quando Arinos fala por conta própria, tira excelente efeito da fusão da linguagem culta com esse tom popular, salvo quando se lembra muito de que é autor e brilha de mais, como em algumas páginas do seu no entanto admirável Assombramento. Dos bons regionalistas modernos, no conto e no romance, raros são aqueles que procedem de outro modo. É certo que um Jorge Amado costuma reproduzir fotograficamente a fala de suas personagens, tornando por vezes quase impossível, de tediosa, a leitura. Mas por outro lado temos – maioria – um Monteiro Lobato, um José Lins do Rego, uma Raquel de Queirós, um Luís Jardim, um José Américo de Almeida, um Guimarães Rosa, que mantêm a verdade essencial da fala de seus tipos sem descer ao servilismo da fotografia. Também o faz Graciliano Ramos; mas – defeito oposto – às vezes o grande escritor não foge a certa rigidez de correção sintática, a certo apuro excessivo – e o tabaréu Alexandre das suas Histórias tem, assim, muito de Alexandre Herculano. Na ânsia de copiar com a máxima fidelidade a linguagem dos ignorantes, caem certos autores em excessos deploráveis. Não se restringem a alterar a grafia das palavras naquilo em que a pronúncia caipira diverge da pronúncia culta; vão além: alteram-na ainda quando tal divergência não existe. Não contentes de fazer do linguajar inculto uma caricatura do falar civilizado, ainda por cima fazem uma caricatura dessa caricatura. Basta citar aqui um exemplo: “É, ocês pensa qu’a genti não tem mais qui fazê sinão andá atrás du chêro di saia, cumu cachorru nu rastu di cutia. Aminhã, cedinho, si Deus quisé, tô no Cabuçu vendo umas rês nova...”4 Por que razão isso de genti, qui, cumu, cachorru, nu rastu, di? Acaso uma pessoa culta – a não ser em certos lugares do Brasil, e em certas classes,
4 Coelho Neto – Sertão, p. 259.

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por afetação – deixa de dar ao e e o postônicos finais, respectivamente, valores mais ou menos iguais aos de i e de u? É a boa norma; veja-se o dicionário de Aulete, ou outro prosódico. Apenas, o ignorante fará sentir mais nítidos o i e o u.5 E cheiro, por que sem o i? Esse fenômeno de redução do ditongo, em certos casos, é comum às classes instruídas; só pessoas muito cuidadosas no falar, ou afetadas, fazem sentir bem nitidamente aquele i.6 Poetas nossos, e portugueses, dos melhores, rimam, por exemplo, beijo com desejo.7 O velho português oferece muitos exemplos dessa redução.8
5 Da identidade, absoluta ou quase absoluta, entre a pronúncia do e e a do i, bem como do o e do u, átonos, é prova a grande oscilação na grafia de tantas palavras onde ocorrem os sons representados por aquelas vogais. Oscilação muito mais viva, é certo, na língua antiga: menino e minino, pequeno e piqueno, direito e dereito, inveja e enveja, vizinho e vezinho, melhor e milhor, mulher e molher, sujeito e sojeito, costume e custume, fugir e fogir, mas que está longe de haver desaparecido. Em Camões se lê reguroso (Os Lusíadas, c. III, f. 60, v.). Piqueno, até autores modernos teimam em escrever; assim está, por exemplo, nos Versos de Afonso Lopes Vieira, muitas vezes. Os fabricantes de sistemas ortográficos andaram, ou ainda andam, às voltas com a fixação de escritas dubitativas, como tilintar ou telintar, tijuco ou tejuco, curumba ou corumba. Os vocabulários da Academia de Lisboa (1940) e da Brasileira (1943) mandam escrever burburinho, forma dantes inteiramente desconhecida. O primeiro dá caboré e caburé; o segundo só aceita caburé. Na prosódia popular subsistem inúmeras formas, de bom uso clássico: dereito, deferente... 6 No capítulo “A língua portuguesa no Brasil”, das suas Lições de Português, nota Sousa da Silveira: “Não lemos âi [como os portugueses] o ditongo que se escreve ei: beijo (e também bêjo), e não bâijo.” 7 Em João de Deus: “Que custa um beijo? / Não tenha pejo” (Campo de Flores, I, 24). Até em parnasianos encontramos rimas assim; haja vista Bilac: beijo com desejo (Poesias, p. 119); com pejo e desejo (Ibid., p. 173). Também se acha em João de Deus fecham rimando com deixam (Ibid., I, 27). 8 Abaxar escreve Bernardim Ribeiro (Menina e Moça, II, 118). Em Camões encontra-se baxo (Os Lusíadas, c. III, est. 139; IV, 54; X, 22, 23, 128, 154); abaxar (Ibid., IV, 56; VI, 63; VIII, 11, e quatro vezes no c.X); debaxo (Ibid., II, 77, e noutros lugares); pexe (Ibid., I, 42; VI, 24; X, 147). Baxo pode-se ainda ler em Vieira (Sermões, II, 15); e pexe nos Diálogos de Amador Arrais, p. 13. “Levou Menalca os quejos a vender” está nas Éclogas de Rodrigues Lobo, p. 236.

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Ainda: por que razão aquele tô, sem o u? É tão raro ouvir-se o u do ditongo ou, que Antenor Nascentes,9 enumerando os ditongos do português do Brasil, não inclui entre eles o ou, “porque no Brasil este conjunto de fonemas soa como o fechado”. E, desprezando casos em que se verificou muito remotamente a queda desse u na escrita, podemos verificar essa queda em autores até do século XVIII.10 As próprias grafias fazê, andá, quisé, não configuram particularmente a prosódia matuta, nem sequer popular, mas a de grande parte das pessoas cultas de muitas regiões do Nordeste – pelo menos – com exceção das mais caprichosas na dição.11 Assim, ou o escritor, por fidelidade – direi mesmo: por honestidade – representa sempre (com sacrifício do bom gosto, é claro) a pronúncia exata de suas personagens, sejam elas de que classe fo9 O Idioma Nacional, p. 175. Filinto Elísio, por exemplo: numa seleção de Poesias suas encontro chopos, em 10 vez de choupos (p. 171); também Amador Arrais: locuras (Diálogos, p. 12). Por outro lado, apousento em lugar de aposento (Camões, Os Lusíadas, c. I, est. 41, 60, 72). Em João de Deus (Campo de Flores, I, 25) rimam doce e trouxe. Augusto dos Anjos rima douda com toda (Eu, p. 108). 11 Alguns autores chegam ao ponto de escrever nóis, arrôis, para indicar a pronúncia inculta. Exagero. Estudando as características da língua portuguesa no Brasil, escreve Sousa da Silveira: “Alargamos em ditongo, por meio da adjunção do i, as vogais tônicas finais seguidas de -z ou -s: capaz (capais), pés (péis), giz (gíis), feroz (feróis), luz (luis), bem como a terminação -ãs: irmãs (irmãis), alemãs (alemãis), etc. E depois de citar dois exemplos da rima de luz com azuis (um deles o de Casimiro de Abreu, acima referido), lembra a rima de vãs e mães em Castro Alves (Navio Negreiro) e jamais e voraz em Gonçalves Dias (Lições de Português, p. 350). Convém notar que o fato se prende ao antigo português: péis encontra-se, por exemplo, em Diogo do Couto (O Soldado Prático, p. 128), em Fernão Mendes Pinto (Peregrinação, I, 65, 156, e passim): é uma evolução do hiato ee de pees para ditongo; pode-se ler dões no mesmo Couto (Ibid., p. 191), em Antônio Ferreira (Poemas Lusitanos, I, 80, 109, 110), em Amador Arrais (Diálogos, pp. 9, 12), em Frei Heitor Pinto (Imagem da Vida Cristã, IV, 125), em Rodrigues Lobo (Éclogas, p. 20), etc.; em Garcia de Resende deparamos com vintêis (Crônica de D. João II, p. 89, duas vezes).

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rem,12 ou então, sensato, abstém-se desse luxo de gosto duvidoso, fugindo a atribuir aos analfabetos hábitos prosódicos – e de outra natureza – extensivos a classes letradas. É interessante, isto sim, a indicação gráfica – sem insistência, porém – de algumas formas verdadeiramente características do homem ignorante, a maioria delas com raízes na boa antiga língua portuguesa – arcaísmos que desapareceram de Portugal, ou são lá hoje regionalismos, e persistem em meios incultos do Brasil. O registro dessas formas, em vez de me parecer defeito, até se me afigura maneira útil de documentar a resistência de muitas variantes antigas que possivelmente em futuro próximo estarão mortas, com a crescente alfabetização, a mais fácil aproximação dos centros cultos, a disseminação do rádio, e outros fatores. O aminhã, do exemplo citado de Coelho Neto, está nesse caso. Constitui alteração de amenhã, forma esta de uso antigo ao lado de menhã, nos melhores autores portugueses,13 e de largo curso entre a gente do povo. Outros muitos casos: inté, entonce (ou entonces), despois, saluço, premeiro, dereito, proguntar, malenconia, malino, sino-samão (“signosalomão”), sugigar, Anrique, escuitar, contino, corgo, esprital (“hospital”), ingrês (donde ingresia), fermoso ou fremoso, fruita, frol, ingüento, maginar, malmente (“malamente”), piadade, polo (“pelo”), sururgião, treição, trouve (“trouxe”), etc. Ao lado de tais formas, outras, com raízes antigas ou não, são aceitáveis. Assim, o caso das variantes prostéticas (arreceber, arruído), epentéticas (barandão), aferéticas (té, ’tou, ’tava – tão comuns, mesmo as duas últimas, na linguagem culta descuidada), sincopadas (croa, tramela) –

12 Essa honestidade levaria o escritor a fazer, geralmente, um nordestino pronunciar sòldado, sèrviço, um paulista dizer Pinhar, um gaúcho sule, etc. “Quando eu vejo surgir a menhã clara” (Antônio Ferreira, Poemas Lusitanos, I, 13 41). Mais exemplos do mesmo autor (Ibid., I, 157, 158, 204) e em numerosos outros.

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para não falar em casos de assimilação ou dissimilação, como tantos dos apontados na lista anterior. Também certas pronúncias populares, nas quais a deslocação do acento tem sua razão de ser na tradição da língua: benção, livel, pantano. 14 Igualmente – sempre sem insistência, apenas uma vez ou outra – prosódias como leis, reis, filhós, e os respectivos plurais: leses, reses, filhoses.15 Quanto à sintaxe, parece-me necessária maior fidelidade em sua fixação: ela caracteriza o próprio modo de pensar do homem. Não só a sintaxe, mas a índole do estilo, os cacoetes mais típicos. Valdomiro Silveira realiza, até certo ponto, este ideal em matéria de registro da linguagem matuta. Acontece, porém, que a sua preocupação erudita se revela a cada instante – por exemplo, num excessivo cuidado em encher de apóstrofos palavras de seus personagens, sempre que nelas se opera uma desnasalação normal, como no caso de nuve por nuvem,16 uma aférese – garrei por agarrei – uma síncope – expriente por experiente – etc. Parece temer que o leitor suponha tratar-se de erro seu. Ora, uma vez que tais fenômenos se operaram em tantas palavras da língua – tendo-se verificado antigamente em muitas daquelas que Valdomiro enfeita com o apóstrofo – e constituem fato corrente no
14 Comentando a pronúncia pantano (paroxítono), de uma das personagens de Inocência, Visconde de Taunay observa que no interior a palavra é grave e não esdrúxula, “mais conforme assim com a etimologia” (Inocência, p. 11). A forma filhós, consignada, como popular, em vários dicionários, creio que a 15 partir do de Cândido de Figueiredo, não foi admitida pelo Vocabulário da nossa Academia, mas o foi, inteligentemente, pelo da de Lisboa. Filhoses, no plural, está em Filinto Elísio: “Um dia de comadres, sem filhoses!” (Poesias, p. 185). Dois dos lugares onde se vê nuve: p. 248 das Obras de Domingos dos Reis Qui16 ta, I, e p. 187 das Obras de Bernardim Ribeiro e Cristóvão Falcão, II. Em Filinto Elísio (Poesias): linguage (p. 90), folhage (p. 174).

na fala popular. bastante razoável – ao contrário do que pode parecer a observadores apressados – raramente o leva a arrepiar-se num estudado rigor de correção e brilho de encontro ao qual se choque a singeleza 17 Nessa ânsia de fixar um marco bem nítido entre o falar dos civilizados e o do caipira. ao lado de arage’. um munarca. O seu conhecimento da língua. com apóstrofo a indicar a omissão do s. como esquecido de que reposta é excelente forma antiga (do lat. note-se bem: porque a simplicidade verdadeira não era da natureza do autor dos Caboclos. um aparato de estilo que logo à primeira vista se acusa. dante’. que não ante”. um sinal indicativo de acréscimos. grafa re’posta. um adimira. então. pelos próprios caipiras. não há motivo para indicá-las por meio daquele sinal. que. E note-se que os exemplos apontados foram colhidos em Leréias “histórias contadas por eles mesmos”. Valdomiro Silveira cai por vezes em erros que brigam com os seus conhecimentos da língua: escreve ante’. é que talvez resida a maior força e encanto do estilo de Simões Lopes. por que não adotava. Relativamente simples. como antediluviano. como quem não admite a persistência. exatamente nesse aspecto. e no provérbio português – “Em janeiro mete obreiro. de fonemas. definindo-a o de Figueiredo como “o mesmo ou melhor que resposta”. era. reposita). arv’e. . um assucedeu. Há nele um bem-feito excessivo. e nunca sobrevivências de formas do velho português. isto é.128 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a linguajar caipira e até no de muitas pessoas alfabetizadas. um troceu. em que estará porventura a maior falha de Valdomiro Silveira.17 Por outro lado. não sendo. Ainda: se o escritor paulista se empenhava de tal maneira em assinalar as supressões. ainda subsistente em certas palavras compostas. pelo menos. reais ou supostas. que está em todos os dicionários. O autor de Mixuangos penso que enxergava sempre nas formas populares alterações da pronúncia atual culta. tão seguro quanto o de um Valdomiro. muitas com o melhor apoio etimológico. Sua prosa realiza o mais feliz dos compromissos entre o à-vontade da fala do homem do campo e a melhor maneira literária. em flagrante desacordo com a fala relativamente simples dos seus heróis. um travo de rigidez clássica da sua prosa aviva muito o contraste com a fala das personagens. certamente. Ora. da velha forma etimológica ante. mês meante. trocas ou transposições? É estranho ver-se.

impermeável a essa influência. com ares mal dissimulados de certos democratas em vésperas de eleição. lá está o homem “lido e corrido”. Já Alcides Maia. com muito jeito. na sua ficção. e. aventura uma correção. o capitão João Simões Lopes Neto. vai desdobrando as suas recordações. roupas guardadas no fundo de uma arca”. metido nas suas roupas finas. como quem “estende ao sol. irmanado com aquele homem sem letras que. Entretanto soube manter-se. Lá uma vez ou outra. O senhor da fazenda não vai. não escapou a certa inchação de estilo bem netiana – o que me parece acaso a maior fraqueza da sua obra. .Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 129 da conversa da sua gente. vai contando os seus “causos”. conversar com o negro na calçada. Ele ignora essa familiaridade que ouve o “inferior”. fingindo prestar-lhe muita atenção.18 e vai adotando muita coisa da linguagem do seu interlocutor. sem trazê-lo para a sala de visitas. este. para arejar. que era por então o paxá literário do Brasil. Dedicou-lhe O Negrinho do Pastoreio e nas LENDAS DO SUL transcreve-lhe duas cartas a propósito desse conto e da Mboitatá. a quem tanto admirava. esquece quase de todo certas construções arrevesadas e algum termo mais endomingado que lhe veio da leitura fresca de um Coelho Neto. conversam familiarmente os dois. de naco bem acochado. cheio de um respeito sem constrangimento. entre boas tragadas de um baio crioulo. fogem-lhe de pronto. 18 Curioso: Simões Lopes admirava largamente Coelho Neto. Não. Na palestra. vestido quase como ele. Resíduos de helenismos que lhe dançavam na memória. Simões Lopes Neto recebe no melhor aposento de sua casa de campo o gaúcho simplório. Com pouco. porque ela não violenta a índole do seu falar. que de bom grado o campeiro aceita. mas ferindo-o pelo agressivo contraste das roupas e das maneiras.

entretanto. e. Com uma delas – eguariço – dá-se este fato: Simões Lopes. e – quase sempre – ao fundo latino comum. miles e mais umas poucas. uma vez. estranha ao nosso idioma e a ele dificilmente adaptável. – têm certo ar de gente do nosso meio. oigalé. bueno. tendo vindo diretamente do latim. sonar. desnecessariamente. peleia. platina. a similitude com os naturais da terra é tão grande que não será pelo aspecto em si. Outras ainda. a la cria. que alguém – de outras regiões do Brasil – poderá desconfiar. do eh-pucha. de a la fresca. graças à profunda semelhança da língua através da qual as recebemos. aquele que a um simples lance de vista ressalta. sem que a gente se lembre de lhes pedir carteira de identidade: envite. criando-se a natural tendência para uma adaptação delas às nossas exigências fonéticas.. mais particularmente. pelas suas fáceis possibilidades gráficas e fonéticas de livre curso em português. e cujo uso no Rio Grande do Sul é resultado da influência platina. no vocabulário de Simões Lopes Neto. A maioria delas. cajetilha. vindos pela correspondente forma espanhola. já figuram em dicionários nossos. maleva. grafa-a. quando a palavra está nos dicionários. É o caso do arreglar. Umas dessas palavras e expressões ainda conservam intacta a vestimenta originária. . embora os glossários nos informem de que são pronunciadas à castelhana. sofrenaço. Ainda quando os dicionários não tenham acolhido algumas. pulperia. guardando embora uma fisionomia de gauchismos ainda meio xucros – é o caso de empeçar – são na realidade da língua portuguesa: regionalismos de Portugal... à plata. tranqüilas de seu.130 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a LINGUAGEM Vocabulário O primeiro aspecto. e não através do castelhano. Outras – pajonal. de um modo geral. é certamente a contribuição espanhola. e. ferindo-nos a vista com um jeito impertinente de intrusas. haragano. entrevero.. à moda espanhola (eguarizo). mas pela raridade da sua presença. passeiam livremente pelos textos. alce.

solito. Esta forma apocopada de muito foi. arrolhadito. Sonar está na Crônica da Ordem dos Frades Menores.. a prosa de Simões Lopes nos oferece espanholismos que possuem a forma correspondente portuguesa quase igual. sem dificuldade. mas o seu uso hoje é. em nossa língua usado com muita parcimônia: buenaço. Uns deles até já andam pelos dicionários: sofrenar. relativamente.20 Caso de particular interesse é o da palavra mui. II. tão mais do nosso gosto: alcezito. asy como peligrossas e que sonavam maall. relegando o muito a segundo plano. o largo consumo do le. talvez pelo menos tão usada quanto a forma integral.19 Ainda outras vezes. e já pelo menos um dicionário – o de Laudelino Freire – a registra. o abuso do sufixo -ito. Desse influxo provém igualmente. Outros – como sonar (português soar) – ainda não foram aceitos. lindaço. sem dúvida.” . 268: “Os quaaes em huua 20 concordia. de manhãzita. pequeno. uma das mais curiosas é d’espacito. É espanhol puro – despacito. Nas páginas dos CONTOS GAUCHESCOS e das LENDAS DO SUL o -ito desbanca ostensivamente o -inho. mas como o seu sentido se relaciona com o da palavra espaço (esp. com um inexplicável s em vez do c. Cumpre também registrar. relativamente raro no português. e o sufixo -ito é tão espanhol como da nossa língua – além do que existe em português a locução de espaço – a palavra conformou-se à índole do português. Daí deduzir-se. espacio). reprovarom alguuas dellas. outrora. neste capítulo. avida primeiramente madura deliberaçam sobre as ditas cousas. Também é de fundo espanhol o intenso emprego do sufixo -aço. que a freqüência com que o mui aparece em Simões Lopes. vindo por influência espanhola.. de Darci Azambuja. embora seja forma arcaica de nossa 19 No glossário do livro No Galpão. grafada d’espasito. também ela aparece. é influxo do espanhol. por exemplo (português sofrear). mas com os quais facilmente nos habituamos.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 131 Das que se adaptaram para conseguir naturalização. sobretudo no português do Brasil. sob a forma de espacito.

ou sobre no sentido de “após”. estrumento. viajar – no sentido de “por seus próprios pés. Haurido fundamentalmente nas camadas populares. O fato pode explicar-se por influência do espanhol. a cada passo. de a pé (No Manantial. a pé. tamanho é o parentesco entre a linguagem do povo e a língua antiga. a pronúncia corrente do lhe entre incultos. todas arraigadas no velho português. . apresentar palavras e expressões de sabor antiquado. deve também ter existido antigamente: cf.. monteiros. não a cavalo ou em qualquer veículo” (em português: a pé). e que só em poucas regiões serão empregadas. se encontra abundantemente nos textos antigos. ou que não está de cama por causa dela (em português: de pé ou a pé). de pé – e produzem de a cavalo (Os Cabelos da China. locuções de uso antigo. alimal. o vocabulário de Simões Lopes Neto não podia deixar de. Obras. O Anjo da Vitória. que se pode ver em Bernardim Ribeiro. restabelecida de uma doença. sancristão. a mais rara é somentes. falada e mesmo escrita. com sobrecarga de preposições.132 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a língua e. II. Esse fato apresenta vários aspectos: 1. que para o desempenho de suas obrigações não usam cavalo. pro via de (“por via de”). em contraposição aos que usam (em portu21 Qualquer delas. seja le (caso de despalatalização). surgião. etc. Ora se trata de simples variantes. ou será de origem portuguesa. alimária < animalia. Em espanhol. e até entre muitas pessoas de certa cultura. Expressões como a cavalo. ainda hoje. O Boi Velho). estar. Notam-se-lhe ainda.21 Ora são termos ou acepções de uso quase unicamente literário. A Salamanca do Jarau). usa-se a pie – com os verbos andar. de pie – e também de pies ou en pies – com os verbos andar. dicionarizada apenas como popular. como bautizar. mesmo entre o povo. Jesu-Cristo. com referência à pessoa que se levantou da cama. e emprega-se de a pie para designar os soldados. guardas. cruzam-se com outras – de cavalo. Alimal. somente (uma única vez). escuitar. menos alimal. É o caso de à sorrelfa. de quando em quando.

O seu uso pode ter vindo ao Rio Grande por via espanhola (de a caballo) ou ser de fundo unicamente português. A segunda locução – de a pé – não registrada nos léxicos. II. Encontro-a nos Ermos e Gerais. comendo paçoca de carne-seca com rapadura” (p. Vejamo-la em Morais: “Homem de pé. Por aí se vê que tanto existe em castelhano de a pie. . – Na citação de Mário Barreto está “de a cava23 lo”.” Mário Barreto23 cita a passagem. de a pé). o uso da expressão de a pé no Rio Grande do Sul pode ser devido ao influxo de qualquer dos dois idiomas. deram ua noite nas casas onde o Turbão estava” (Fernão Mendes Pinto. e vem a toda a pressa. Note-se que no trecho de Vieira.. p.”22 Um exemplo do seu emprego: “A mãi. embora com menor freqüência que a outra. 669) encontra-se a expressão: “Senhor. ou anda a cavalo. & o Silau com que era casada. com mais dez companheiros. Em Garrett (Obras. pp. só a primeira está dicionarizada. também. 3-4). um porteiro d’acavalo que chega do paço. encontra-se. armados até a alma. No Rio Grande. senhor. I.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 133 guês: de pé ou.. Caso mais ou menos igual ocorre com a locução de a cavalo. tanto cavalo (que os de apé não fazem conto. 143-147. contudo. ajuntando secretamente algus dos que eram da sua parte. O Dialeto Caipira. O Dialeto Caipira. 13). e talvez em São Paulo. que segundo se conta foram trinta de cavalo & oitenta de pé. e vê no caso um cruzamento sintático do complemento a cavalo (“ia a cavalo”) 22 Dicionário da Língua Portuguesa. p. ... “contos goianos” de Bernardo Élis: “Viajava de a pé.. Peregrinação. 183). oposta à que vai. está “de apé”.. onde existe na linguagem matuta: “A eigreja é perto.. Destas duas expressões sinônimas. bamo lá de apé” (Amadeu Amaral. tanta liteira. nos autores. gente de pé. nem deles se faz conta)” (apud Amadeu Amaral. 183). Mas em Goiás também existe a locução. quanto no português de a pé. Veja-se este passo de Vieira: “Tanto coche. ou embarcada. Novíssimos Estudos. Assim. de nossa língua. Preferi transcrever de acordo com o original da edição que consultei. atrás citado.

sem saber como.134 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a com as expressões homem de pé. que tinham vindo de a pé” (Manantial). a explicação também serve para de a pé. sujeito] de a cavalo atravessou-o no lombilho e fomos retirando. . 24 Lembre-se que no exemplo caipira registrado por Amadeu Amaral a expressão é adverbial também. “um porteiro de a cavalo”.. segundo este filólogo. Em Simões Lopes Neto. E depois de alguns comentários menciona a explicação que Diez dá para o fato. assim. “pode considerar-se como formando com o nome que a acompanha uma expressão única. 2.” (Anjo). Em certos casos uma locução adverbial cruzando-se com um advérbio produz outra locução que participa da natureza dos dois. já de a cavalo.. Claro. porteiro. assim: “Foi então que. onde concorrem de novo e novamente. que é então suscetível de ser regida no seu conjunto como se fora uma palavra isolada”.. porém. os olhos se me plantaram sobre o tordilho salino. Nada mais natural. numa das quais a segunda palavra é cognata da segunda palavra da outra. por segurança + de seguro dão por de seguro. A Salamanca do Jarau). “ouvimos então a gritaria das mulheres... do que vir da adjetiva a adverbial. o de a cavalo e o de a pé estão quase sempre como locuções adverbiais. por exemplo: de novamente (Penar de Velhos. Uma preposição. Note-se que nos exemplos de Vieira e Garrett o cruzamento produziu a locução adjetiva: “os [homens] de a pé”. tiroteando sempre” (Cabelos). Em ambos os casos a expressão modifica um substantivo – homens. . de cavalo. 3. Ou o cruzamento é de duas locuções.24 Só uma vez uma daquelas expressões é adjetiva: “Um [homem.

Haja vista o estranho ao para cima que Miguel Torga emprega na página 47 do seu Diário. enquanto no caso anterior predominou o advérbio (novamente). 4. Apólogos Dialogais. recebe desta a preposição que a in- . Ainda acontece que é uma expressão – em cheio. e que Amando Mendes registra em seu Vocabulário Amazônico. um advérbio ou preposição. em relação ao cruzamento. 321). de em pêlo (Manantial. bispo sem mitra. Outras vezes. Francisco Manuel de Melo. expressões formadas à semelhança de nesse ínterim e por esse tempo. Melancia. por entretanto. em pêlo – à qual. I: “Vejam lá se há compositor sem guedelha. por influência de outras onde se vê a preposição de. de uso popular. que um advérbio se transforma em locução adverbial por efeito de outras congêneres. e aparece em José Américo de Almeida na fala de uma personagem da Bagaceira: “Arrochei-lhe a goela de com força” (p. Aqui se podem cruzar com força e outra qualquer locução iniciada por de. O Negrinho do Pastoreio). onde ao entre já ligado ao segundo elemento se associa o por: “Aceito a repreensão. por influxo de uma locução adverbial ou prepositiva. 5. 80). pelo menos em grande parte do Brasil. apóstolo sem barbas. palhaço sem uma sobrancelha ao para cima!” Naturalmente entram nessa composição para cima e ao alto. que vos não trago à memória as befas da Itália” (D. talvez até de força. Sucede também. uma ou outra vez.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 135 Neste último caso se vê que prevaleceu. Também na língua culta se vêem reforços assim. 6. Coisa semelhante não falta na linguagem do povo. Correr Eguada. donde de em cheio (Melancia – Coco Verde). Parecido com isso é o por entretanto. Lembre-se de com força. p. Assim: neste entrementes (Manantial) e por esse entrementes (Duelo de Farrapos). se agrega esta partícula. o adjetivo (seguro).

Cantigas d’Amigo. que uma preposição já incorporada num advérbio se repete./rogo-vos que mi digades:/por que non vivedes migo. cruzamento de dantes (“de antes”) com em antes. II. tigo. vemos não só o em antes (22. em poucos dias. 114. 53. de Sílvio Romero. Um caso destes: em antes (Contrabandista). Pleonasmo cru. se ben ajades. Ver José Joaquim Nunes. tão assíduos nos cancioneiros: “Amigo. – Nem é preciso lembrar 26 casos como o de “o Alcorão”./meu conselho e meu amigo:/por que non vivedes migo?”26 Essa tendência para o reforço de advérbios e preposições é muito da velha língua portuguesa e ainda está particularmente viva na fala do povo. fazem dessa prática uma das ca25 Fatos da Língua Portuguesa. Em antes é expressão conhecida tanto em Portugal como no Brasil. 95). por sem dúvida – são de uso bastante generalizado. pp. no Romanceiro de Garrett. 71. de Guimarães Rosa. mas ainda de uso popular. 318). não muito comum. em um momento. em vez dos simples e primitivos migo. . produzindo locução adverbial: a arriba (Penar de Velhos). onde o o já está representado na sílaba Al. cita exemplos do seu uso. contigo. finalmente. em Júlio Dinis e nos Contos Populares do Brasil. 7. 302. Nas páginas de Sagarana. Mário Barreto. onde o com está duplicado. como no caso de comigo. de que há no espanhol enantes. 96-99. em saindo a Lua. 63. porém. mais ou menos privativas de certos autores.25 ocupando-se dela. mas facilmente explicável: perdeu-se a consciência da partícula aglutinada. conosco. o em supérfluo explica-se pela existência de muitas frases relativas a tempo nas quais ele figura: em se pondo o Sol. gerando-se desta maneira nova locução. outras são menos conhecidas. etc. como também de em antes (41. no entretanto. algumas vezes. nosco. Lembre-se.136 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a troduz. Frei Luís de Sousa em plano de relevo. Alguns. Para o autor dos Novos Estudos. forma antiga.. Dá-se. Efeito da analogia. Algumas das locuções assim formadas – como ao depois.

de à noite para pela manhã. p. e pura como as estrelas do céu. trabalhadeira. 46). 6). p. João III. tornou o lionês. Pera entre lê-se na História de São Domingos (I. mais de uma vez. ele tornava a alcançar-me” (Trezentas Onças). I. Veja-se este período./Eu irei visitar a forte armada. Éclogas. p. e eu resolvi-me. “Mas como eu ia. Novíssimos Estudos. em minhas almadias. II. 335.” E mais este: “Não há dúvida que foi isto pera em tal tempo muito descuido ou mais confiança do necessário” (Ibid. II. O mesmo sentido em que o encontramos nos seguintes exemplos. 26. vejamos mais. clássico. Transcrevamos algumas frases suas: “Mas como chegaram. 93). Cabeça e Estômago (apud Mário Barreto. cada um despiu a farda” (Duelo). logo que”. preposições e conjunções a linguagem de Simões Lopes Neto oferece margem a muitos comentários.)./Não podes dela prezar-te” (Rodrigues Lobo. Na fala popular encontra-se até um em desde./Ao mundo for. Imagem da Vida Cristã.. há tantos dias” (Os Lusíadas. e desponta-se com qualquer cousa. “A agudeza do engenho. que seria bem fácil multiplicar: “Porém como a luz crástina chegada. “Como a cousa não se estima. 33. 18). do seu estilo. c. de “quando. porque ela era virtuosa. 14). já um pouco antiquado em português. como carece do lume da graça” (Frei Heitor Pinto. “e como chegou.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 137 racterísticas./Que ver tanto desejo. no que diz respeito a advérbios. como tu. bota-se. Vemos aí o como no sentido. . do mesmo autor. transcrito nos Anais de D. atropelou-a” (Manantial). donde terá passado ao Rio Grande do Sul. corrente pelo menos em Minas Gerais. que lhe fez esquecer todo o cuidado de procurar edifício grandioso. em Sagarana: pp. “Soube-o na véspera do dia. 146). 27 Em Sá de Miranda: “por de fora” (Obras Completas. I. mas ainda vigente no espanhol. que na verdade também não convinha pera em charneca.” – escreve Camilo no Coração. I. já por mais de um salientadas. pois aparece. Além dos já feitos.27 Aliás. 13: “Tal era o desejo de ver a obra feita. v. 207.

pela maior parte Portugueses” (Itinerário da Terra Santa. nesta passagem de Alarcón: “Como a unos mil pasos de ella [la ciudad]. Simões Lopes usa o como. se paró Manuel” (Historietas Nacionales..). . pelo seu caráter pleonástico e ilógico: a idéia de indeterminação da quantidade.. “Havia como dez mil baguais” (Correr Eguada).138 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Mais curiosa é a acepção de “cerca de” em que. 83). por exemplo. já traduzida pelo “como”. “tinha-se conseguido tocar como umas pra mais de três reses” (Penar). sendo que esta locução não indica. no “pra mais”. indeterminação absoluta. p.. “arranjou tirar para ele e para os filhos . como umas três quadras. os quais dão uma idéia aproximada para mais ou para menos. 28 Frei Pantaleão de Aveiro. Tal acepção do como também existe no castelhano. Apresenta particular interesse este último exemplo. y en la orilla misma del Francolí. embora o Dicionário da Academia Espanhola dela não tome conhecimento. “mais para baixo. há uns olhos-d’água” (Manantial). como quatro sesmarias de campo” (Melancia). “como umas oito ou dez” (Deve um Queijo!. vimos o mesmo que os negros contavam” (Manantial). acepção não registrada ainda em nenhum dicionário – pelo menos dos muitos que consultei – embora não seja estranha à linguagem corrente e se encontre em alguns clássicos:28 “andei como três léguas” (Trezentas Onças). por exemplo: “Haverá na Cidade como dous mil Judeus.. 531). aí. p. ainda. reforça-se no “umas” e. e conforme boleamos a perna. Está. O “pra mais” anula o “como” e o “umas”. noutros passos.. se não determina a quantidade exata das reses. Também é muito do gosto de Simões Lopes Neto o uso do conforme no sentido de “logo que”: “Chegamos como um pé-de-vento. mostra que não seriam mais de três.

de Eça de Queirós. I. qual se vê nesta passagem do Crisfal: “Isto que Crisfal dezia / assi como o ~ contava / u a ninfa o escrevia / num Álemo que ali estava” (Bernardim Ribeiro e Cristóvão Falcão. no Tesoiro. 29 Os dicionários são ainda muito incompletos no registro dos significados de certas palavras e locuções. Encontra-se nos dicionários segundo como sinônimo de conforme. Nenhum léxico registra o advérbio conjuntivo conforme neste sentido. “identidade”. p. 125). e pelas outras acepções. que. em oposição ao prolongamento da ação verificado no exemplo que formulei. É um caso de que há exemplos numerosos na língua. assim como no sentido de “à medida que”. contida na acepção em que está o conforme nos exemplos de Simões Lopes Neto. embora de feição um pouco antiquada. sem violenta translação semântica. “E conforme apeou-se. à idéia de “simultaneidade”. Lembre-se o “Mal que passe!”. expressão onde o que exerce função expletiva. Obras. ao passo que”: Ele dava explicações. e um dos sentidos de segundo é “à medida que. chega-se. e as explicações se sucedem.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 139 “conforme chegar. e não se repete. Rui murmura para Rostabal (Contos.29 Outro desses cacoetes é o mal que. Nenhum deles dá. “concordância”. por exemplo. II. carrego” (Cabelos). da mesma vereda mandou amarrar o negrinho” (Negrinho). ou “quase simultaneidade”. 293). “acordo”. Mas pela acepção de “segundo. . repetida – enquanto naqueles períodos de Simões Lopes é rápida. Há neste caso uma concordância entre o tempo em que se vai realizando uma e outra ação – a explicação e a leitura. 226). todas elas reveladoras da idéia de “harmonia”. como”. E em João de Deus: “Quando eu nasci o sol cobriu o rosto. a leitura vai-se desenrolando. Do mal que encontram-se vários exemplos em Simões Lopes: “mal que os miúdos davam com eles” (Boi). A única diferença reside na instantaneidade existente nas frases do escritor gaúcho. Apenas. “segundo” os alunos iam lendo./Mal que eu o vi” (Campo de Flores. A ação aqui é prolongada.

pipocando o quanto-quanto sobre areão solto” (Salamanca). apontar vários termos que não encontro em nossos léxicos. Também é muito grata ao escritor a expressão uns quantos: “umas quantas vezes (Trezentas Onças).. a locução o quanto-quanto. nem vejo consignada em nenhum dicionário. graciosas. ainda de largo uso entre o povo e pouco empregada nas outras classes. “o quanto baste”: “no lusco-fusco da madrugada. tiradas quase sempre à língua do povo. 30 Fatos da Língua Portuguesa. quero ainda.” (O Mate do João Cardoso). e alguns dos quais parecem criações do autor: arroucado (Manantial). que saía em toalha e corria em riachinho. “Havia uns quantos cantadores” (Melancia). cujo sentido equivale ao de “mais ou menos”.. Nunca vi em nenhum outro autor. pp. 222-223. “uns quantos vinham de balandrau enfiado” (Ibid. com uma cerraçãozita o quanto-quanto” (Anjo). ..). “e mal que respirava um descanso. “um olho-d’água. Obra de é expressão de sabor clássico. que matizam a maneira literária de Simões Lopes Neto. exemplos: “obra de duas léguas. “E mal que cerrou o rodeio a gente mudou de cavalos” (Penar). pitorescas..140 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a “E mal que apertou os pelegos. Em um dos livros de Mário Barreto30 encontram-se várias abonações clássicas dessa locução. “uns quantos ligares” (Correr Eguada). Encontra-se algumas vezes em Simões Lopes. pegava a contar” (Salamanca). “obra de um quarto de légua” (Manantial). Deixando para o capítulo relativo ao estilo o registro e comentário das numerosas expressões vivas. no terreno do vocabulário. montou” (Melancia).

parece estar com o simbolista: “Pas la couleur. nuvear (Ibid. E diversos outros. caturritar (O Negro Bonifácio). hospe. sup’riores. usa-as muito raro: ansim.). espumento (Boi). mas ainda não averbadas em nenhum dicionário. imperadorice (Chasque do Imperador). – Não é espanholismo. Às vezes trata-se de palavras ou locuções conhecidas. ermão. of’recer. Às vezes emprega certas formas sincopadas: acoc’rar. bobage. frentear (Manantial). São traços vivos e rápidos com que o autor sugere a realidade da pronúncia de sua gente. solferim (Contrabandista). que vão consignados no Glossário. – A forma dicionarizada é solferino. cuidadeira (Mãe do Ouro). guasqueio (Manantial). inté. . na língua antiga. Apenas sugere. fala-verdade (Jogo do Osso).” 31 No Glossário a definição de muitas destas palavras e locuções vem seguida de comentário.. cernoso (Apresentação de Blau Nunes). em espanhol diz-se colecturía. coletaria (Contrabandista). Assim: num vá num vu num redepente.31 Formas populares sem apoio. retrovir (Apresentação de Blau).. roubada (Melancia).Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 141 carretame (Anjo). ou quase sem apoio.

porém. Influência do espanhol: em português se diz. e assim está não só. Diz-se geralmente. é no feminino que o emprega o escritor. Mais interessante é o caso de “o confiança”. 20) e “o confiança” (p.142 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Gênero Caso muito comum é dar-se o gênero masculino a palavras femininas quando com elas se designa o indivíduo que exerce determinadas funções. no Melancia. Simões Lopes Neto em mais de um de seus contos emprega “o ordenança” (Duelo e Anjo). Nada mais normal: trata-se do homem que é o empregado de confiança. Os léxicos. era uma pampa aberta” (Manantial). é um exemplo. por “aquele que toca corneta”. mas hoje muito usado no outro gênero. Em No Galpão. Já sentinela. que abona o gênero masculino do vocábulo com um exemplo de Camilo. em gênero nenhum. 32 Ver Mário Barreto (Últimos Estudos. 157). de Darci Azambuja. “o ordenança”. neste sentido. É este o gênero em que se acha o vocábulo. entre nós. nos Cabelos da China. No Glossário deste ensaio acham-se alguns exemplos do vocábulo no gênero feminino. para significar o soldado que está sob as ordens de um superior. Com a palavra ordenança verifica-se o mesmo fenômeno – pelo menos no Brasil. Darci Azambuja. lê-se “a confiança” (p. dicionarizado apenas como feminino. em Alencar.32 Encontro a palavra pampa no feminino: “Estes campos eram meio sem dono. geralmente. Clemenciano Barnasque. 213). Não encontro nos dicionários a palavra neste gênero – embora ele seja de uso geral. etc. como nos próprios escritores gaúchos – Alcides Maia. por exemplo. “o pampa”. não registram a palavra. . p. É uma das modalidades da sinédoque: o corneta.

. E a afirmação será tanto mais perigosa quanto mais serenamente considerarmos o conhecimento da língua que Simões Lopes Neto revela em coisas bem mais complexas. Cabelos – duas vezes –. sobretudo a do primeiro. a expressão vem cinco vezes correta (Salamanca) e só uma sem o acento no a (Mãe do Ouro). Boi – duas vezes –. “À toda” está no Manantial. mais bem revisto que o outro. levando-se em conta o predomínio da forma correta e. Em circunstâncias idênticas. ou muito semelhantes. Penar. a locução aparece com o seu a acentuado nada menos de onze vezes (Negro. Mate. com o a craseado. porém cinco vezes “a meia rédea”. ora não figura o acento. Negrinho). Melancia. Observe-se que nas LENDAS DO SUL. . Cabelos.. Anjo. Salamanca – cinco vezes).Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 143 Crase Nas páginas de CONTOS GAUCHESCOS e LENDAS DO SUL observa-se. No Deve um Queijo!. “a meia espalda” (Melancia.. corretamente (Negro. lê-se “às cansadas” e “às talhaditas”.. Se encontramos quatorze casos de “as vezes” (Trezentas Onças. Mas. torna-se difícil afirmar categoricamente a existência de erro por parte do autor nessa matéria. Mãe do Ouro). No Manantial. expressões semelhantes estão sempre certas. mas “a toda pressa” em Melancia. Contrabandistas – três vezes –. Jogo. Correr Eguada – duas vezes –. o fato de não ser boa a revisão daqueles dois livros. como já disse. por outro lado. No Chasque e em Trezentas Onças: “a esquerda”. quanto ao uso da crase. grande oscilação. livro. Além de tudo. afora os casos onde se verifica a oscilação. E com exceção de “à meia cara” (Salamanca). como “a meia costela” (Correr Eguada). duas vezes na Melancia.. Deve um Queijo!. sem a crase. porém na Salamanca: “à direita”. ora se vê o acento sobre o a. Anjo. Vejamos: Duas vezes se lê “à meia rédea” (Trezentas Onças e Contrabandistas). Correr Eguada). outros se nos deparam em que o escritor sempre acerta.

Que vale um “à relho” em face de “a cabresto”. “cara à cara”. a tiro e a cachorro”? A que fica reduzido um “à valer”. uma tigela de coalhada”. “a dentro”. não só ante o número de casos já indicados em que o escritor acerta no uso da crase. aos quais não se podem contrapor exemplos semelhantes em que se observe incorreção: “chegava às janelas”. dê-se a responsabilidade de todos eles a Simões Lopes Neto. parece-me arriscado afirmar que tais descuidos tenham saído da pena do autor. “veio à porta”. “fazendo visitas às formigas”. “a galopito”. encontrável no mesmo conto. “da paleta à virilha”. “a cavalo”. E mesmo que tenham. “chegou à reboleira”. “de a três”. . não apresentam expressões corretas iguais ou semelhantes que lhes sirvam de contraste. “foram-se à ramada”. “a pino”. é coisa de importância mínima. com três “de a cavalo”. faz contraponto a “de uma a uma”. “dando lance à carga”. “veio à fala”. “à bem boas assisti”. “a galope”. “com os arreios às costas”. “a levantar”. mas na página imediata: “a um palanque”. e ainda mais com “de a dois”. Para “à algum dito”. encontramos em duas páginas seguidas: “à um palanque”. Mas – tire-se da revisão a culpa dos erros de crase apontados. “todo dado à teiniaguá”.. “chegando à barranca”. “parada à parada”. “a passo”. “a morrer”. O Negrinho. “a contradançar”. “chorei uma lágrima de adeus à teiniaguá”. “a reunir”? Num mesmo conto. a não ser. É certo que “à patadas”. mas ainda assim. “chegavam-lhe à boca caramujos estrambóticos”. “vinha à estância”. ou “à riscar”. “pedir à mãe” . “a esse”.. que se acha na Salamanca.144 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a “Uma à uma”.. e desta frase inteira – “a gritos. talvez só. quando lhes opomos “a apartar”. Ainda assim. Um arrepiante “de à pé” anula-se com um certíssimo “de a pé”. “a ninguém”. “a trote”. como – entre outros – ante os seguintes. “a vancê”. “a cair”. diante do que se tem visto. “foi-se à panela”. “frente a frente”. pouco antes da forma incorreta. temos “a um cupim”.

360. 174). 263 – duas vezes).Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 145 isto não bastaria para se lhe passar atestado de ignorância da língua. “bate as portas do infinito” (II. Abramos a edição crítica de suas Obras Poéticas feita por Manuel Bandeira: “A aqueles pobres. Erros de crase. 275). “junto a corrente/Do regato” (II. 290. 222)./ . 308).. “O modesto pastor que a dura calma/Passou a sombra da frondosa copa” (I.. “à medo” (II. e com toda a razão. “Não ministro cauim as vossas festas” (II. 244). dos seus co33 Manuel Bandeira faz sempre a correção. cometeu-os Gonçalves Dias em abundância. 224).. . Vejam: Num seu diário de viagem lê-se “à bordo”. Aponto ainda os seguintes lugares. seus filhos. 210. 115). II. em parte. “Sentei-me a sombra das florestas virgens” (I. 260. entre mais outros: I.. e nem por isso deixa de ser tido. “Vai com ele a lisonja a sepultura” (I. “D’encontro as alas densas” (II. 321). quando ele em tantas outras mostra conhecê-la bem regularmente. e em comentários. 263). ou sem o acento a que têm direito. 407. “à prumo” (II. como autoridade em matéria de correção de linguagem. 292). “Minha alma./Em vida seus bens legou!” (I. indica a forma do original.” (I. 154. 444). 263). “Se tento as gentes redizer seu nome” (I. 211. 211). além dos sóis voando afoita. Por outro lado: “as vezes” (I. 265). beijar-te as plantas. no fim de cada poema. “à jeito”. 155). “à par” (II. /E a luz do teu fulgor. 293). 317). do teu conspecto/Derramar-se queixosa e aflita. das suas leituras. “De um regato sentada a branda margem” (II.. “Estranhos a existência já vivida” (I.33 Concordância A sintaxe do autor dos CONTOS GAUCHESCOS ora obedece à tradição portuguesa – fruto. 34./Irá. “à espaço” (II. “à cujas gotas” (II. Senhor meu Deus. e nas suas poesias encontram-se vários aa indebitamente acentuados. 332.

são. “Uns coriscos tirante a roxo” – leio em Trezentas Onças. Vejamos primeiramente a concordância. A fusão da linguagem literária com a linguagem oral. E as situações em que ele joga com os dois tipos de construção. corrigiu para “pelearam”.146 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a nhecimentos – ora se filia às tendências brasileiras que com o tempo e o poder do uso foram conquistando terreno e se impuseram ou se vão impondo com força de lei. Aí se há de subentender. e de acordo com a natureza do contexto. predomina sobre a do indivíduo. do um. as palavras de cor. nos cause estranheza ou choque. e “tirante” concordará com esta última. Embora a lógica rigorosa a estranhe à primeira vista. 1. mas. poderiam acender vivos arrepios. o fato de não raro ser o escolhido o preferível. porém. um regular conhecimento da língua. está bem viva e predominante a idéia do indivíduo. depois de “coriscos”. então se prefere o singular. tem a seu favor a maioria dos bons filólogos e a tradição clássica. é mais um argumento para a minha crença de que não andaria nisso apenas o dedo do instinto. A explicação é sabida: se no espírito de quem fala. se. indebitamente. Caso de elipse. servindo a este de alicerce. e autores como João Ribeiro a repilam. do grupo. a idéia do plural. característica dominante – já apontado – de seu estilo. à luz da boa gramática. que já tem feito correr muita tinta. normais: . é plenamente justificável. em geral. perfeitamente explicáveis. então o verbo irá obrigatoriamente para o plural: foi um dos que pelearam. Certas construções que à primeira vista. A concordância.” A segunda edição. naqueles que estejam menos em casa com os fatos lingüísticos. permite que as duas correntes se harmonizem de sorte que nenhuma delas. semelhante a muitos outros. Essa concordância terá nascido do cruzamento de duas outras. No Contrabandista lê-se: “foi um dos que peleou na batalha de Ituzaingo.

174) No primeiro. assume a primeira. escreve: “Essas construções. Rui Barbosa. nestes dois tópicos de Alexandre Herculano: ‘Fui eu o primeiro que falei’ (O Monást. verbi gratia. devendo concordar regularmente com um sujeito da terceira pessoa do singular. p. ele é um que pelejou com muita bravura”). II. o fenômeno da atração do verbo de uma sentença pelo sujeito de outra.. sois vós.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 147 aquela em que se põe o verbo no plural e aquela em que. a rigor. a meu sentir.34 depois de citar numerosos exemplos de tal construção. ele deve estar no singular. p. mas de todo aceitável pela maneira viva como põe em relevo a ação de um indivíduo em meio à de muitos outros. 29). o que exprimem é. segundo a ação exprimida pelo verbo é feita por um só indivíduo ou por muitos”. por cruzamento sintático. Repare-se. mas com iguais característicos. quando se liga à principal mediante a ex34 Réplica. que pelejou com muita bravura (= “Dos homens. com os verbos de recusar. nobre herdeira dos Bravais. v. A frase é exatamente do tipo daquela bem conhecida de Frei Luís de Sousa: “Esta cidade foi ua das que mais se corrompeu de heregia” (Vida do Arcebispo. por outro lado: Ele é um dos homens. ‘Ah. Pois a irregularidade que aí se manifesta com o verbo da subordinada. pp. fato análogo se dá. chocante sem dúvida à primeira vista. 191). nasceu uma terceira: Ele é um dos que pelejou com muita bravura. I. No segundo. Naturalmente. indiscutivelmente corretas e normais. de salientar que os franceses a conhecem e condenar a opinião de Carneiro Ribeiro de que nestas circunstâncias se põe o verbo “no singular ou no plural. Exemplo: Ele é um dos homens que pelejaram com muita bravura (= “Dos homens que pelejaram com muita bravura ele é um”) e. o verbo falar. dessas duas construções. sob outro aspecto. no plural. 247-248. obedecendo ao agente da oração principal. . vós a que não tendes nenhum préstimo de minhas mãos! Sois vós a que recusais obedecer-me!’ (O Bobo.

Gram. 151). tem um agente elíptico. comentando um passo de Vieira – “uma das cousas que se vê”. ou uma das que. Nem é outra a idéia do autor: veja-se. do alto. Do Contrabandista: “ainda que chovesse reiúnos acolherados ou que ventasse como por alma de padre. “Chovessem reiúnos” faria antes pensar em reiúnos a cair em grande quantidade. nunca errou vau”. Curiosa concordância. Seria impossível. com o sentido de “cair em abundância”. no mesmo período. Mas não se poderá admitir a elipse deste? Se o verbo. Reconhecendo embora que o plural é mais comum. mostra excelentemente Heráclito Graça35 que as duas sintaxes são perfeitamente autorizadas. E se numa hipótese não se contesta a legitimidade a essa forma. deixando-o no singular. indeterminado. usado intransitivamente. por exemplo). o “ventasse”. em sua Seleta Clássica. sendo “reiúnos” então o sujeito. enquanto no singular pinta a chuva mesma.” 2. como já disse. ou. . condenou a expressão. ou se empregaria o verbo no plural. pp. ali. página 195. se lhe daria outro sujeito (o céu. Normalmente. igualmente se opera com o verbo da cláusula regida. veio a justificá-la depois. a coexistência do sentido direto de um dos verbos com o sentido figurado do outro.148 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a pressão que. 318-326. pg. que.a ed. quando se liga à regente pelas expressões um dos que. naqueloutros casos. nada impede que continue indeterminado esse agente quando o verbo se torna transitivo. confessa: “Contra a opinião de Cândido de Figueiredo (e minha também. “chovesse reiúnos” precisa de modo perfeito a idéia da própria chuva. 11. O verbo no plural – observe-se – toma a acepção figurada. 35 Nos Fatos da Linguagem. à maneira de chuva. como se há de contestar na outra?” E o próprio João Ribeiro.

Memorial dos Cavaleiros da Távola Redonda. a propósito de “falta à lira cordas”. estes outros. de um poeta do século passado: “Ledo caminha o festival Timbira. 21. p. As Geórgicas. freqüente no português arcaico. 19). cita três novos exemplos de João de Deus./E o furacão que fez./Emília! até dá mágoa/Tantos estragos: vês?” (João de Deus. 164). mas não é um preceito intangível. para evitar os efeitos do mau gosto. e conclui: “Quem trata com os bons textos da língua sabe que a concordância do verbo com o sujeito é uma regra que o comum das pessoas deve respeitar. apud S. da S. desse poeta. Trabalhos de Jesus. 327-329. pp. de escritor do período medieval: “E acabado os quinze dias o gado todo se levou” (Garcia de Resende. Campo de Flores.) .Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 149 Pode-se dar ao fato ainda outra explicação: como o sujeito vem posposto ao verbo./A quem do sacrifício cabe as honras” (Gonçalves Dias. Como o prova o mesmo autor com vários exemplos. ainda se observa na língua moderna: “É de ver as festas” (Castilho. e ainda este.. O autor das Lições de Português estuda também o fenômeno em sua edição das Obras de Casimiro de Abreu. apud Sousa da Silveira. Os poetas como Casimiro de Abreu e João de Deus conhecem perfeitamente quando podem infringi-la. p. de seiscentistas: “E lembrando-me muitas obrigações. Depois de agudíssima explicação de tal concordância. XXVII). essa concordância irregular.).). I. cit. cit. admitir-se-á – à maneira do que faz Sousa da Silveira em casos semelhantes – que o verbo fica no singular por não se ter ainda pensado em que número se vai dizer o sujeito. Aos diversos exemplos de Sousa da Silveira poderíamos acrescentar este. II. loc. veio a minha notícia os muitos trabalhos com que Deus (meus portugueses) foi servido de vos humilhar” (Frei Tomé de Jesus. “não lhe vinha recados” (Jorge Ferreira de Vasconcelos. loc. “Foi um dilúvio de água. Obras Poéticas. Crônica del-Rei Dom João II.” Também o conhecem os escritores como Simões Lopes Neto.

tourada e potrilhos. aí. poderia explicar-se por uma razão semelhante à invocada por Sousa da Silveira para casos como o da frase anteriormente comentada: admitir-se-á. ao se reservando-se o papel de índice de tal indeterminação. Esse “era”. mas o seguinte: “via-se [isto. há os que admitem esta em todos os casos. Isto dizem gramáticos. tudo amigo. também naqueles em que a maioria se apega ao “ídolo a que chamam se apassivante”. causará talvez espanto. que.. de puro medo”. O interesse central do período não está. no singular. por outro lado. aí. este fato:] terneiros e pumas. ali. ao enunciar o verbo. Mas é preciso atentar bem no período para ver que o predicativo não é representado. de puro medo”. nos animais. perdizes e guaraxains”. quando empregado como impessoal. enquanto outros. Mas. isto é.. perdizes e guaraxains. tourada e potrilhos. O caso. propriamente.. “E era terneiros e pumas. Antes de tudo. mas no fato de. o verbo ser concorda obrigatoriamente com o predicativo. por efeito do medo. na expressão de Said Ali. tourada e potrilhos.150 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a 3. Num importantíssimo estudo . a “via-se”. mas a de Simões Lopes se ajusta melhor à realidade do pensamento. A impossibilidade de admitir o pronome como partícula apassivante em frases como Só se é feliz quando Deus quer levou alguns puristas exaltados a recusarem a vernaculidade delas. por “terneiros e pumas. O “era” equivale. porém. o singular. tourada e potrilhos. então. admitiram. apenas a vantagem de ser mais eufônica. . o pensamento não é este: “viam-se terneiros e pumas. perdizes e guaraxains”. assim. 4. entre os quais Epifânio Dias. todos eles se tornarem amigos. de puro medo” (Mboitatá). O problema da subjetividade ou não subjetividade do se tem queimado as pestanas a muita gente. merece particular atenção. A concordância com o verbo no plural terá. aceitando-as. a pessoa ainda não pensou em que número vai usar o complemento predicativo. aí. tudo amigo. mas por tudo isso e o restante: “tudo amigo. a meu ver. um sujeito indeterminado.

o pronome se sugere. de alguém que morre. afirmar que “em compra-se o palácio.” (Anjo). gemidos. que não se dá duas ao mesmo tempo” (Salamanca). por falsa concordância. Se porém o regímen direto não tiver preposição e se achar no plural. temos um caso de “oração sem sujeito gramatical”.. depois de. a verdadeira: “só se ouvia os soluços da mãe do Chicão” (Manantial). esse grande lingüista.). cinco fletes” (Correr Eguada)..a Quando não queremos ou não podemos mencionar quem pratica a ação. quer de objeto direto precedido da preposição a.a O verbo é usado na 3.” Ora. pp. “arrematava-se três. colocando-o no princípio da oração. temos essa falsa concordância nas seguintes passagens de Simões Lopes Neto: “armava umas carreiritas que se corriam numa cancha dumas três quadras” (Jogo). forçando-me a uma série de subterfúgios. . “ouve-se ruídos.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 151 sobre o assunto. servimo-nos do verbo na forma reflexiva. entre muitas outras coisas. “Adelgaçava-se os fletes com água a meia costela” (Ibid.a pessoa do singular. “tinha de ser como martelada. 36 Ver Dificuldades da Língua Portuguesa. a idéia de alguém que compra.. “Decerto” – diz ele – “não posso admitir como sujeito da primeira frase o palá37 cio. 141-167. mas que não conhecemos ou não queremos nomear”. na consciência de todo o mundo. Porém a que ele usa bem mais freqüentemente é a outra.36 para o qual remeto o leitor. o verbo irá igualmente para o plural. morre-se de fome. quatro. dos Lusíadas. quando na segunda brigaria com a gramática o sujeito de fome. A incongruência seria flagrante”. formula quatro “regras práticas”. “Já se apostavam aperos” (Negrinho). quer esteja acompanhado de objeto indireto. pancadas.” (Lenda).37 e que em “se soa os grandes feitos”. “ouviu-se cornetas e clarins e rufos de caixa. 2.. das quais as duas primeiras são estas: “1.

estivesse “o terem feito grandes feitos” (I.38 e de mais três de João de Barros. 36). Éclogas. Além do exemplo de Camões. assim comenta Epifânio Dias essa concordância: “ser soada. “– Come-se ou joga-se os sisudos?” (Camilo. Em “se soa. p. “seria preciso colhê-lo desapercebido. aí... “nem o céu nem as barras do dia se enxergava” (Negrinho).152 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a “uma tora. p. muito embora dela não faltem exemplos de bons autores – entre eles os clássicos – e haja entre os modernos escritores brasileiros uma viva tendência para segui-la. é sempre corretíssima. para se apreciar devidamente os tesouros encobertos daquela vasta erudição e os prodígios de uma memória em verdade rara” (Rebelo da Silva. mas a linguagem desta.. 234).. 53). 122-123). 283. da boa arte./Quando nela ganharam a coroa/Do Reino. II. há rigorosamente incorreção de concordância. Memórias do Cárcere. referido há pouco.. também apontados por Said Ali. dessas que não se tira duas vezes entre os mesmos ferros./Não se usa em toda a parte. 136). como é bem mais expressivo. “Entrevê-se os vestidos luzentes” (Id. 16). Note-se. “onde bem longe se escuta/As vozes que vão cantando!” (Gonçalves Dias. f. “teu irmão e eu fizemos melhor negócio e é que sabemos como se há de levar os homens” (João Ribeiro.. Contos e Lendas. 39 Lições de Português.” (Duelo). os grandes feitos” por “se soam” .. I. p. ibid. os grandes feitos que fizeram. mas” – e aqui vem a explicação psicológica – “Cam pensou que poderia dizer assim. p. 139).40 “Empregados a 38 Citemo-lo mais desenvolvidamente: “E como por toda África se soa. “Correu logo por todas as bocas .. 19). Obras Poéticas. p./Que é na terra aonde nacemos” (Rodrigues Lobo. Como se sabe. Amor de Salvação.. aliás. como a 40 de todas as personagens dos contos do Crepúsculo. vejam-se outros em Sousa da Silveira. o singular do que o seria o plural. Esse exemplo está na fala de uma personagem. .39 e ainda mais: “Que estes desprezos que vemos/Do bom saber.. ./Lhe diz.... Na sua edição do poema. como se em vez de “os grandes feitos que fizeram”.. 143). o estar-se fazendo roupinhas e saiotes” (Id. II. Crepúsculo dos Deuses.. onde as Hespéridas viveram” (Os Lusíadas. é precisamente essa concordância verdadeira que a gramática tem por falsa.. ter fama” é do português antigo. c. I. soar-se uma cousa” por “ser celebrada.

falando pela boca de Blau Nunes.. vai falando. e o seu falar é tão vivo. lembrada a propósito de “chovesse reiúnos”. p. está claro. tão comum até entre os chamados bem-falantes. 41 Vejam-se outros casos de concordância na parte relativa ao estilo. Seja como for. tão espontâneo. Acontece. p. . arcaizado em Portugal e sobrevivente aqui. e se não a usou sempre.” (José Régio. Aliás. o certo é que o autor das LENDAS DO SUL conhecia.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 153 quem se dá gorjetas/Nem sequer se atreviam a tossir. como em outros casos já vimos. a não ser mortos” (Id. em favor da segunda concordância usada por Simões Lopes Neto – salvo. Biografia.. foi porque.41 Regência Assim como na concordância. Isto se diz assim. aqui e ali julgou melhor não intervir na fala do contador de casos quando viu que ela representava uma tendência muito caracterizada da fala geral. 72). Para os que admitem o se como partícula apassivadora. podia-se invocar. a sintaxe exigida pela gramática.. é natural que por vezes se verifiquem tais flutuações. de que tão freqüentemente se aproxima a fala popular. aquele a que chamamos brasileiro não é raro seja português de lei. nos dois últimos passos – aquela mesma explicação de Sousa da Silveira. também na regência do grande contista prevalece a obediência aos modelos tradicionais da língua. que Simões Lopes Neto nem se lembra da disciplina gramatical. mas Blau Nunes vai falando. 29). “Não sou dos que se aceita... que em situações idênticas adota ele o padrão sintático lusitano ou o brasileiro. Blau – emenda agora o escritor. No compromisso entre a linguagem de um e a do outro. com fácil explicação psicológica. como se viu nos exemplos do primeiro grupo. ibid.. Por vezes até se lhe observa um pendor para construções cujas raízes mergulham no uso clássico.

mas em casos como os que citei.” E no Juca: “e entreparado. observar”. por vezes. pelo lado de laçar.” Embora gramáticas e dicionários digam todos que se pode “também”. Observe-se. quando. longe da calçada até. grande segurança no uso das preposições.. precisando melhor a idéia de que se acha em início de execução. quem “vai a entrar” – em frases como aquela – já tem o pé na soleira da porta. Atentando-se bem. na linguagem falada como na escrita. no caso... Simões Lopes Neto revela. em casos assim. não será porventura exagerado admitir que o infini42 Ver adiante caso idêntico em relação a outros verbos. “ia a levantar a guampada” pinta-nos mais precisamente a ação em começo.154 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a 1.42 Mas Simões Lopes usou a sintaxe lusitana. 2.. irrefreável tendência para transitivar o verbo assistir. verbos transitivos todos estes. “Ia levantar a guampada” poderia indicar simplesmente que o touro se preparava para a ação. . como fica bem na frase aquele a. Assim. saiu-lhe o castelhano. Fenômeno facilmente explicável: assistir. equivale a “ver. a coisa talvez muda de figura. Quem “vai entrar” pode ainda estar do lado de fora. no Deve um Queijo!. No Brasil verifica-se nas próprias classes cultas. escreve: “Quando ia a entrar na venda. “E a bem boas assisti” – lê-se no Chasque. o bagual planchou-se. [o touro] baixou a cabeça. e não apenas em pensamento. parece-me que ela comunica ao período um matiz especial. usar a preposição. retesando o cogote largo e ia a levantar a guampada. meio maneado no laço e ladeado por um sofrenaço de pulso. de passagem. presenciar.. a ação expressa pelo verbo. Certo que em circunstâncias comuns o uso da partícula é perfeitamente facultativo.. pode mesmo deixar de entrar.

no Negrinho encontramos: “quando chegou no alto da coxilha”. Com o verbo vir. porém. e só uma vez em: Se lemos em Trezentas Onças: “chegando à estância”. Penso que ainda não se fez um estudo sobre isto. 3.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 155 tivo regido da preposição estará empregado. como em frases do tipo João está a brincar = “João está brincando”. Simões Lopes Neto usa sempre a regência a. aí. na Salamanca: “chegava às janelas”. “chegavam-lhe à boca”. pertence à fala de outra personagem. Também com o verbo ir: “foi ao povo” (Manantial) “já não ia ao rodeio” (Penar) “foi ao oratório” (Negrinho). nos dois períodos mencionados. Com o verbo chegar. Então. Este último exemplo. “ia eu chegando à barranca do Uruguai”. só a regência a: “vinha à estância” (Melancia). E por outro lado: “vai direito lá em casa” (Melancia). não à de Blau Nunes. “Chegou ao posto”. se entenderá. “ia entrando” e “ia levantando a guampada”. . “chegou à reboleira”. pelo gerúndio. no Penar: “quando ele chegou ao rincão”. em Melancia: “o capataz da estância chegou à porta”.

daqui – situação interior. etc. que denota tendência a um ponto interior. de Jorge de Vasconcelos: “segundo se mostra per outros versos que estavam cortados no grosso tronco de uma faia: que crecendo pretendia sobi-los nas nuvens” (Memorial. entre alguns outros de outros autores: “Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa/Vai buscar os abraços de Aretusa” (Os Lusíadas. Palmeirim de Inglaterra: “Sendo já alongado da cidade de Londres. A idéia de tendência a um ponto interior traz a desse mesmo ponto. 55). – e esta a de – destinação. exemplifica-a Leoni com o seguinte passo de Camões. a fim. foi ter em um vale despovoado. – e – lugar onde. 91). 42. I. buscar pólvora e balas”. são comuníssimas – e não tidas por incorretas – expressões como de porta em porta. p.. provém da latina in. 347). 76 do 2. de que se tira a de – direção a um ponto. .” Da mesma preposição com a idéia de “direção a um ponto” dá meia dúzia de exemplos.º vol. p. e este outro. entre os quais este. dentro. II. – que dá a de – lugar para onde. nos espanhóis. c. Quem abrir à p. de minha colheita.. 176).. 179). p. este exemplo de Francisco de Morais. De Azurara: “E viindo em Castela.. de Sá de Miranda: “de pastores em pastores” (Obras Completas. para. de Frei Luís de Sousa: “fazendo-lhe sinal com uma mão e com outra apontando em uma mulher” (Vida do Arcebispo.. E a significação de “lugar para onde”.. 153).” Do em com o sentido de “movimento de fora para dentro” cita Leoni.156 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a Numa mesma frase vê-se – no Contrabandista – o verbo mandar regido das preposições a e em: “mandavam ao outro lado. . Muita gente ainda faz um cavalo de batalha em torno do fato de a preposição em reger verbos de movimento. idéia que equivale à de – movimento de fora para dentro. IV. Tanto na linguagem falada como na escrita. p. 74). de Leoni. f.43 43 Vejam-se novos exemplos em Sousa da Silveira. Trechos Seletos. “Brasileirismo” imperdoável! Engano. vão aqui algumas. I. no entanto. entre vários outros. de João de Barros: “de mal em pior” (Panegíricos. de casa em casa. houve navios e mais gente da que trazia” (Guiné. terá ocasião de ler que “A preposição portuguesa em . de Fernão Mendes Pinto: “costeamos a terra com ventos ponteiros de um bordo no outro” (Peregrinação. o Gênio da Língua Portuguesa. – Parece-me excessivo aditar a tantas abonações ainda outras. numerosas.

Observe-se o espírito científico admirável com que o ilustre filólogo estuda o fenômeno. Baste aqui um exemplo: “Chega na beira da praia. de Sílvio Romero. “ir em casa”. 81-82). “mas o estado que se segue àquele movimento” (Sintaxe Histórica Portuguesa. p. por exemplo. pp. pp. segundo outra. na opinião de Epifânio Dias o termo do movimento. etc. explicando-o historicamente.. ficando subentendida a direção” (O Linguajar Carioca.. Enquanto Júlio Moreira vê neste uso do em a continuação do emprego do in la45 tino para exprimir o termo do movimento.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 157 Tratando do caso. tanto na língua literária como na do povo. se o primeiro desses tipos regenciais prevaleceu em Portugal.” (Vicente de Carvalho. Como Epifânio pensa Antenor Nascentes. 44 Estudos da Língua Portuguesa. em casos assim. p. . mas com o verbo chegar a dificuldade é bem menor. “designa-se não como tal. Poemas e Canções. para quem “O caso se explica do seguinte modo: o verbo indica o ponto terminal deste movimento. se exprime ou pelas preposições a e para. segundo uma corrente. transcrita do argumento de Filodemo: “indo dar em uma fonte”. sendo que se considera prolepticamente. 143). o segundo “permanece no português do Brasil. Júlio Moreira44 escreve que o lugar “para onde”. entre elas uma de Camões. nas quais figura a construção tornar em si. salvo em expressões como ir ou vir de casa em casa. em português.45 E documenta esta afirmação com diversos trechos dos Contos Populares do Brasil. que diz. pela preposição em. vir e alguns outros. não o movimento”. ou. Entre os nossos escritores que timbram em seguir rigorosamente a sintaxe portuguesa será bem difícil encontrar o regime em com os verbos ir. 87). Acrescenta que. 129-132. e mais uma do mesmo poeta e outra de Camilo. mas como lugar onde. Cita numerosas passagens em que se vê esta última regência. sem nenhuma preocupação de dar por mais correta que a nossa a sintaxe hoje de uso geral em seu país.. a que se referem os verbos regidos pelo em.

o autor omite a preposição a. como em Alcides Maia. nem a contração. como Simões Lopes. 199 e 201 da mesma obra: “Chegando à casa atrasado”. Mais estranho. Darci Azambuja.158 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a O poeta paulista. Sempre assim – e não “campo afora” – é que se lê no autor dos CONTOS GAUCHESCOS. No mesmo conto lê-se: “tocou picada fora”. a pp. em casos tais. tão correta quanto a outra. afinal. e entre brasileiros pode-se dizer que só de uso – e não muito freqüente – na linguagem escrita. é este “chega afogar-se” – que aparece na Uiara. por exemplo. não desprezou a construção que sentia bem mais natural. mais ou menos normal. mas. 4. A omissão do pelo é. “Corredor dentro”. mais própria do seu meio. em nossos dias. Elipse da preposição a emprega Simões Lopes Neto nos Cabelos da China: “disparou mato dentro”. e que possivelmente ambos sabiam ser. de expressão feita. conhece bem a outra regência. conhecedor seguro do português. lá. mato dentro”. “Para chegar à costeira”. assim. não assim a do a. porém. e dela se serve. Já na expressão campo fora Simões Lopes creio que segue uma tendência muito generalizada no Rio Grande do Sul. “corredor fora”. tão lusitana. Deve tratar-se. . “pela boca fora” – construções assim são uma das características do meio-lusitanismo sintático de Machado de Assis. Nem sempre. Ciro Martins e outros. “e lá íamos. no Manantial escreve: “entrava pela morte a dentro”. para nós. 5.

e não faltam autores que a abonem. 117). Mas é também possível que a construção tenha saído da pena de Simões Lopes. Outro é Sá de Miranda: “Rei de muitos reis. autor ainda vivo (Fado. 95): “Um pastor de terra estranha/Ventureiro/Se atreveu ser o primeiro/A falar de seus louvores”. Aliás. p. II. se um dia. 123). II. 118). 30). ua légua de Lixboa” (Guiné. . Jorge de Vasconcelos é outro: “correram encontrar-se” (Memorial. o que se vê neste exemplo de Manuel Godinho. p. 31). O “daí dois anos” que se lê no Duelo não é coisa estranha ao uso popular e está na tradição da língua. pode ser – como nos passos apontados – no tempo ou no espaço. E Azurara: “mandou fazer aa sua honra ua mui devota casa de oraçom. escreve Leoni46 que ela “pode elegantemente suprimir-se” quando denota distância. p.” Na última abonação vê-se o mesmo verbo chegar do exemplo de Simões Lopes Neto./se ua hora só. às vezes as duas relações se confundem. II. Um destes é Bernardim Ribeiro: “tornava ele dizer-lhe outra” (Obras. e José Régio. por Leoni: “Três dias de jornada de Ispaã fica um alto monte chamado Albecoura. p. 29). tratando da preposição a.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 159 Os conhecimentos lingüísticos do autor não nos autorizam a admitir a hipótese de uma elipse involuntária. 6. “Daí um pouco” – escreveu Bernardim Ribeiro (Obras. Também Damião de Góis: “são forçados saírem” (Crônica de D. mal faria” (Obras Completas. A distância. naturalmente. em virtude da elisão da preposição a por efeito da ligação dela com os outros dois aa. E mais o seiscentista Rodrigues Lobo (Poesias. mal me atrevo/ocupar-vos. juntamente com dois mais de outros autores. Pode-se pensar em erro de revisão. 9.” 46 Gênio da Língua Portuguesa. citado. João. II. 33): “E o meu gosto de a sondar/Chegava fazer-me mal.

que está no episódio 47 O Problema da Regência. E no Negro: “os lábios da morocha deviam de ser macios como treval”. com a qual se precisa a utilização daquilo que se puxa. 8. p. . Aí se nota a preposição de indicando probabilidade. observável na linguagem popular. A mesma regência com os verbos pegar e agarrar. já passou à língua literária. Não ignorando o matiz de significação que traz a verbos como puxar a partícula de.47 Mas entre o povo. Também para indicar obrigação. “devia de estar um gambelo”. “O uso dela está caindo” – diz Antenor Nascentes. Coisas semelhantes são freqüentíssimas e aparecem não raro na língua dos nossos dias. ela aparece em alguns autores.160 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a 7. Mas. Essa flutuação. Em “não vale a pena de falar nestes chicos pleitos de namoriscos” (Manantial) – temos um caso de cruzamento sintático: não vale a pena falar nestes chicos pleitos e estes chicos pleitos não valem a pena de se falar neles produziram a frase de Simões Lopes Neto. caso em que é de rigor a ausência da preposição. na Salamanca: “o maldoso pegou do condão mágico”. escreve no Boi Velho: “puxou da faca”. “foi o quanto agarrei dela [a guampa] e enchi-a na lagoa”. sem o de: “Trazia para o brigadeiro uma carta que devia ser de gente pesada”. em circunstância idêntica. 9. 164. Quem desconhece o “Se não temera de chamar senhora/A vil Paraguaçu”. pelo menos aqui no Brasil – afora no Nordeste e em algumas outras regiões talvez – ouve-se freqüentemente a partícula. inevitabilidade. Isto se vê no Chasque.

231-232. o seguinte.” 49 Novíssimos Estudos. 12). p. Vemos nos Cabelos: “eu tive e me servi muito tempo dum buçalete”.. p. a concatená-las em livro” (Páginas de Estética. 213 e 210). copiados de Frei Luís de Sousa. como aquele doente que muda de travesseiro. e disto de Monteiro Lobato: “esqueceu de levar consigo aquele isolador de fios telefônicos. pp. No primeiro dos lugares apontados encontra-se. 50 . pp.. o coração de tudo esquece” (Poesias. Cruzaram-se esqueci-me de dizer-lhe com esqueci dizer-lhe. Novíssimos Estudos. 244-246. pp. O mesmo caso deste verso de Alphonsus de Guimaraens: “Certo. e outros lugares. como de lembrar..48 10. do Caramuru.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 161 da morte de Moema. pp. de Garrett: “Senhor Luís de Mello. O Pensamento e a Expressão em Machado de Assis. Prólogo). XXXV). 11. pois. Mário Barreto. 31-32. eu tenho por princípio de me não intrometer. podem-se ver em Mário Barreto49 e Cândido Jucá Filho. 7). 203-210. Garrett. Exemplos análogos de cruzamento de esquecer. de Santa Rita Durão? E o “Não teme da morte” da Canção do Tamoio. f.. de Gil Vicente: “pois te dou molher tam forte/que te castigue de sorte/que nam ouses de falar” (Obras Completas. Camilo e Machado de Assis. Ocorre ainda a contaminação sintática nesta passagem das Trezentas Onças: “esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino”.” (Cidades Mortas. pp. e de Machado de Assis: “Os que a vêem naquela mágoa/Nem ousam de a consolar” (Poesias. 105-106. e também Fatos da Língua Portuguesa. de Gonçalves Dias? Veja-se também. E na Salamanca: “onde entrava e saía” 48 Cf.50 Coteje-se ainda com o de Simões Lopes este passo de João Ribeiro: “Resolvi. entre vários exemplos.

51 Aos inúmeros exemplos de clássicos antigos e modernos que ele cita parece-me desnecessário acrescentar outros. pelo tom especial deste conto. Crônica de Dom João. está: “Se era linda a beldade!. p. Sim.” Na Salamanca: “e a terra tremeu. 235). 86. ou aspirava ao primeiro. quem merecia. vá um. Mário Barreto. “a sos51 Novos Estudos da Língua Portuguesa. 1. de Vieira: “Porque o não poderá sofrer sem a maior de todas as dores. dum gaúcho de gosto alçar na garupa e depois jurar que era Deus na terra!.” (Sermões.. O preceito da não contração em casos tais é um dos mais desmentidos não só pelo uso corrente. Crônica del-Rei Dom João II. de os animais estaquearem-se medrosos. estão quase geralmente aceitas. que é o ver-se preferido no lugar. pp. “antes dele ser mui arriscado cavaleiro” (Damião de Góis. de as árvores desprenderem seus frutos...” De mim. 169). preferia que o escritor não tivesse cedido aos rigores gramaticais. tanto. . geralmente não deixa a preposição contrair-se com o artigo quando ela rege não um substantivo mas uma frase. Elas ganham em concisão e vigor o que perdem em correção lógica. e não há combatê-las. mas também pela prática de escritores dos mais autorizados: “antes dela entrar na Cidade” (Garcia de Resende. talvez. coisa de que mais tarde se tratará. em que uma mesma preposição rege verbos que têm regimes diversos... a respeito do assunto. e de os homens caírem de cóc’ras”. salvo. p. 233-241. no caso da Salamanca. sacudida. No Duelo. 11).a col. porém. p. senhor.. no Penar: “E quando foi a hora de o corpo cair na cova. Em todo caso. ibid.). Dentro da mais rigorosa sintaxe. “antes da Igreja se acabar” (Id.162 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Construções como estas. Assim. 12. III. Leia-se.

corretamente. que alguns tinham da Infanta Dona Joana não ser sua filha” (Id. 125. em Zaoris. 88. sem o de. Anais de D. 74-77. nada mais igual à complicação do que a simplicidade” (João Ribeiro. De Rodrigues Lobo: “Não estava a cousa nos epítetos serem próprios ou necessários” (Corte na Aldeia. 284). 280). Cartas De52 53 Fatos da Linguagem. p. O Soldado Prático. deveria. 210. Mais exemplos deste último autor às pp. muito bem tratado por Heráclito Graça52 e Mário Barreto. três vezes. II. 83). p. 392). ibid.. II. 14. “Depois é que vim ao conhecimento que aquela figurona tinha vindo de emissária” (Duelo). 13. 105-117. . I. p.. Novíssimos Estudos. 193). mas emprega através. p. 210. 55).Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 163 peita. II. na Apresentação de Blau Nunes. Outros exemplos em: Camilo. Mas que adianta o brado dos caturras? Estamos ante um fato de linguagem. 100. I. p. Ainda hoje há quem brade contra a falta da preposição de.. E de Bernardim Ribeiro: “Que é tempo do gado ir a água” (Obras. Usa através de. “Todavia andando o tempo se veo a persuadir que lhe estaria bem fazer com ele amizade e pazes” (Frei Luís de Sousa. quando se determinou a servir a el-rei Lisímaco. estes penso que bastam: “O filósofo Filípides. “Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas” (Machado de Assis. De Cristóvão Falcão: “antes da vida perder” (Ibid. pp. Campo de Flores. foi com condição que lhe não descobriria segredo algum” (Diogo do Couto. Memórias do Cárcere. Dom Casmurro. Machado de Assis. 204. Poesias. pp. preceder o que integrante. João III. “Deste poeta tiro a lição que se tivermos de esperar pela morte de todos os rumores e estrondos. que. II. João de Deus. 10). “ora julga se é rezão/das minhas lágrimas serem/menos daquestas que são” (Ibid. em casos assim. logicamente. 96).53 Às dezenas de exemplos que dão estes autores poderão juntar-se muitos e muitos outros..

Estará elíptica. 10). domingo passado. 18). depois de transcrever dois exemplos semelhantes. O mesmo caso pode-se admitir que seja o destas construções: “repararam que só estava amarrado um cavalo” (Manantial). que lhe parecem – e com razão – decisivas: “Coisa é muito digna de reparar. pp. hoje não tem nenhum”. Também expressões como “ao tempo que dava as boas-tardes” (Trezentas Onças). D. não é preciso em tais casos subentender a partícula: “O complemento verbal é francamente direto. p. Mas. Frei Luís de Sousa (História de São Domingos. 15. que aí “denota tempo e ocasião em que alguma coisa se faz etc. segundo observa Francisco Fernandes. 33. “ficar certo que”.” – declara Leoni – “permite a língua que possa elegantemente suprimir-se”. 91. 253). observar. 183). a preposição em.164 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a volvidas. A preposição em. “persuadir-se que” – respectivamente em Diogo do Couto (O Soldado Prático. Francisco Manuel de Melo (Cartas Familiares. .54 54 Gênio da Língua Portuguesa. quinta-feira. etc. 16. cita duas de Vieira. aí. “bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada” (Trezentas Onças). – estão perfeitamente dentro do gênio da língua e têm a seu favor.” E após submeter ao confronto do leitor passagens de vários autores. além do uso comum. p. no seu Dicionário de Verbos e Regimes. o dos melhores escritores de todos os tempos. Pode-se ver ainda: “lembrar-se que”. e o uso em muitos casos até requer “que se omita” aquela partícula. em que fora solecismo exprimir a preposição”. e reparar aí vale o mesmo que ver. notar. “como quando dizemos: este ano. “Mas é muito de reparar o tempo e a circunstância em que Cristo efetivamente socorreu aos Apóstolos”. II. Latino Coelho (Tipos Nacionais. que tendo Castela há poucos anos dois infantes varões. atentar em. p. “ser ameaçado que”. I. 4).

II. Cantigas d’Amigo. 19. de tudo... II. 175): “O dia que ali ficou / com seu gado e com seu fato/com tudo se agasalhou/em ua bicada de um mato. pelo miúdo” (Melancia). de repente sentiu como um estalo” (Obras. .. em lugar de “aquentar-se”: “Pertinho. Um tanto insólito é este emprego do verbo dar como intransitivo em vez de pronominal: . I.. outro fogão./louçãa” (J. nem sempre em casos assim omite Simões Lopes a preposição. Nunes. 10). Vamos depois a Bernardim Ribeiro (Obras.” 17. Dinis: “Bon dia vi amigo. p. ../pois seu mandado ei migo. o aquentar intransitivo que se vê nesta passagem. 83). No trecho seguinte a sua regência se apresenta artisticamente variada. uma chaleira aquentando e uma panela cozinhando algum fervido. passemos a João Francisco Lisboa: “E um dia que.. embora seja de uso comum. 75): “Desde o dia que o Arcebispo se viu encarregado das obrigações de Pastor desejou trazer sempre diante dos olhos um retrato de algu perfeito Prelado. Aliás. do dia certo.” A Camões (Lírica.. 18. 16).” (Cabelos). J. “A vez primeira que eu fitei Teresa” – assim começa uma das poesias de Castro Alves (Obras Completas. I. também com churrasco.” A Frei Luís de Sousa (Vida do Arcebispo. ajoelhado ante a sua imagem. passando a relativo o verbo saber. 342): “Era no tempo que a fresca verdura/Aos campos torna. No Manantial lê-se: “boiava a rosa que se soltara dos cabelos da cobiçada no momento em que ela entrava pela morte a dentro. IV.. primeiro usado como transitivo: “pela gente da casa soube a nova do casamento. Não está dicionarizado. dos preparos da jantarola.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 165 Às abonações que se encontram em Leoni juntem-se aqui algumas.. Comecemos pelo rei trovador D. enfim..” Dando um grande pulo. tudo. a implorava em fervorosa oração. dentro do lodaçal.

não é coisa rara pronominarem-se verbos intransitivos. e no mesmo sentido daquele dar vê-se em Heitor Pinto o verbo acontecer como pronominal: “Acontece-se às vezes que a virtude dum justo atrai a si um vicioso” (Imagem. escutou conversa de que o outro estava na Vista Alegre” (p. 118-119). Veja-se o caso de sumir. toda a gente diz e muita vez escreve: Ele sumiu. e tanto se lê no gaúcho Simões Lopes Neto como no paraibano José Lins 55 Aliás. já registrado em dicionários. O acordar-se que se ouve de Norte a Sul. como certíssimo está o reunir (A assembléia reuniu) dos portugueses.166 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a “E deu o caso que os quatro embeiçados também vieram” (Negro). de que nós aqui não nos servimos. O dar intransitivo pode-se ler também num dos contos de Sagarana. a mesma em que se vê o dar nos trechos citados de Simões Lopes e Guimarães Rosa. que quando eu pousei. mas em terceira pessoa: “Mas. onde ele tem a acepção de “sobrevir. de uso porventura mais generalizado que o daquele dar. Insólito é. foi justo pelas vésperas do casamento” (Melancia). deu que um dia Cassiano. o emprego. III. e não Ele sumiu-se. nesse depois. cf. 140). No Sul e pelo menos em parte do Centro.55 20. é que nestes autores o verbo aparece como intransitivo. Esta acepção é. Por outro lado. E está certíssimo. o seu uso é apenas como transitivo ou pronominal. narrado não em primeira. Pois no Brasil ele talvez nunca se usa como transitivo. Segundo a tradição portuguesa. . do verbo dar em frases como “deu a peste na cidade”. e não relativo. Já neste “o Menino Jesus acordou-se” (Mãe Mulita). manifestar-se. de Guimarães Rosa. como nos outros casos. aproximadamente. sem dúvida. “E deu o caso. A diferença. mas não injustificável. acontecer”. “deu-lhe a maleita”. tão facilmente explicável. e como pronominal só é empregado lá para as bandas do Norte. Há franca tendência para intransitivar os verbos pronominais. – vemos o brasileiríssimo acordar-se. surgindo nas Traíras.

99). Muito natural. ganhou no paiol”. Lembre-se a observação de Francisco Fernandes a respeito de reparar. na realidade é português de primeira. quando pela manhã me acordei com um enorme barulho na casa toda” (Menino de Engenho. . propender. e no entanto mestres como José Oiticica e Otoniel Mota empregam-no como transitivo. o verbo carecer. p. ou no pernambucano Luís Jardim: “Acordei-me com o barulho de pancadas enormes na minha porta” (Maria Perigosa. 9). Carecer tem. verbos esses que tanto podem ser relativos como transitivos. poema de nosso clássico Manuel Bandeira: “E o meu olhar se desmaia/Transido de te buscar. Ver os exemplos. No Jogo: “E a gente foi ganhando na venda. Que. não figurando (em tal sentido. de outros autores. a dada altura da Salamanca.”56 21.” O comum é usar-se o ganhar. 41. tanto quanto o desmaiar-se que se lê em portugueses como Rebelo da Silva e no Solau do Desamado. e sendo um brasileirismo. é evidente) em nenhum dicionário da língua.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 167 do Rego: “Dormia no meu quarto.57 22. o sentido de “precisar. em casos assim. p. p. com objeto direto. Também visar. É fato comum este de um verbo assumir o regime de outro de que é sinônimo. juntamente com outros. Lê-se isto no Manantial: “quando sentiu a desgraceira. no Dicionário de 57 Francisco Fernandes. propor-se”. Com objeto direto – “nas cousas que carecia” – aparece. mas não há razão para se rejeitar esse regime do em. naturalmente de 56 Poesias Completas. necessitar”. ali. é de regra regido da preposição a. na acepção de “mirar. que os dicionários registram unicamente como relativo.

E não deve ter sido senão pelo sentimento. Pp. e pode. pp. na parte referente ao estilo. em que se vê a construção injustificadamente repelida: Joam Roiz de Castel Branco. de Heráclito Graça. 80. Há quem se tenha levantado contra semelhante uso. 85-92. o sentido de “entrar”. “abrigar-se. Não é raro o escritor iniciar períodos com o porém.168 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a fonte popular.59 onde Rui Barbosa. assumir a regência destes verbos. refugiar-se”. Crônica do Descobrimento e Conquista de Guiné. 592-593. fulminam a condenação. de que não é “bem portuguesa” a colocação do porém no começo de uma oração. do que ainda não tomaram conhecimento os léxicos. cita ou indica cerca de centena e meia de exemplos dos melhores autores. 1. 122. aproximadamente.58 Colocação Observemos agora alguns aspectos da colocação em Simões Lopes Neto. . e respectivos lugares. consulte-se a Réplica. de D. contrariando a fantasia de Cândido de Figueiredo. sem a menor razão: a prática de todos os autores. Azurara. Afonso 58 59 Ver adiante. e a língua falada. como nestes casos: “Porém o outro já dava de rédea. 70. Duarte a Alexandre Herculano. III. Parece-me ocioso gastar muito espaço e tempo com o assunto. desta verdade. ou. embora obscuro. 38. dos mais antigos aos mais modernos. resolvido à retirada” (Mate). em frases tais o verbo ganhar tem. Porém injustamente. Em vez de “chegar a. assim. melhor. E os Fatos da Linguagem. atingir”. 3. in Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. que se deu ao ganhar aquela preposição. “Porém logo outra força acalmou tudo” (Salamanca). como dizem os dicionários. outros casos de regência. Podem ser aqui indicados alguns outros autores.

de Miguel Torga. Quanto aos pronomes. ó minha vívida quimera”.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 169 de Albuquerque. D. p. . Em qualquer destes exemplos a exigência gramatical e a naturalidade brasileira da expressão se conciliam perfeitamente. Cartas Familiares. Éclogas. ao Diário. “que não me palpitava confessar” (A Salamanca). II. Cartas Espirituais. do soneto Solemnia Verba). a Guimarães Passos (“Porém. Manuel. 30. p. de João de Deus. Mas a ênclise é da preferência do autor. e entre nós como em Portugal se colocaria o pronome assim com a maior naturalidade.). do conhecidíssimo Teu Lenço). 95. como sempre aqui se fez até perto do fim do século passado. Francisco Manuel de Melo. Apólogos. 96. “que se encrespava” (Ibid. Corte na Aldeia. feito valente”. 37. em casos tais: “das [cousas] que eram-lhe vedadas ao singelo entendimento” (Apresentação de Blau Nunes). 722. poderá ir a Antero de Quental (“Porém o coração. 19. Simões Lopes Neto ora obedece. 37. III. na colocação deles. à ditadura da gramática portuguesa. ora os situa de acordo com o uso brasileiro. Obras Poéticas. Gonçalves Dias. Não muito raro emprega portuguesmente a próclise: “Depois que o furriel se foi” (Manantial). João Francisco Lisboa. “bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada” (Trezentas Onças). pp. Novo Dicionário de Dificuldades. 119. 84. 60 Ver ainda Vasco Botelho de Amaral.60 2. 14. antes que viessem de além-mar umas camisas-de-força a que a maioria docilmente se submeteu. 39. 93. p. 400. 166. Obras. p. p. pp. Frei Antônio das Chagas. pp. 11. Rodrigues Lobo. e a numerosos outros poetas e prosadores. ao Campo de Flores. Cartas para El-Rei D. Poesias. E quem quiser abonações de bons autores fora do mundo fechado dos clássicos.

Filólogos nossos. a sua 61 Nas Dificuldades da Língua Portuguesa. 49-84. depois de reconhecer que os fenômenos lingüísticos têm o seu histórico. “quando a força apresentou-se” (Chasque). “de forma que a sua forma saiu-lhe do corpo” (O Anjo da Vitória). si.. o e final em me. mais ou menos. pronunciando-se. mi. Talvez Simões Lopes Neto não ignorasse que a tradição da língua de Portugal não é lá muito favorável ao rigor dos gramáticos lusitanos.61 lembra Said Ali que em Portugal os pronomes são átonos. “quando no rancho do Chico Triste botei-lhe os versos. “salvo” – acrescenta – “se a gramática. . “forçosamente diversa da de Portugal”. no Brasil pronuncia-se mais pausada e mais claramente. Tendência tão respeitável quanto a portuguesa. Em suma. “E logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar” (Trezentas Onças). a ligação das palavras é fato muito comum. “quando inteirou-se de tudo” (Melancia). Declara não ser errada a nossa maneira de colocar os pronomes. mal se ouvindo.” (Manantial). se. Estudando o assunto. “os negociantes nada compravam-lhe” (A Salamanca). tanto em Portugal como no Brasil. “já o velho apresentava-lhe outra fatia” (Deve um Queijo!.. te.).. não existindo aqui as razões de ordem fonética determinantes da topologia pronominal lusitana. ti.). “que caía-lhe em cima” (Penar de Velhos). Muito já se tem escrito a respeito da colocação dos pronomes. é natural se respeite a nossa tendência na matéria. de tão abafado.170 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a “é que sucedeu-me uma desgraça” (Ibid. enquanto no Brasil é costume dar certa acentuação ao pronome quando anteposto ao verbo. depois de anunciar que observa e registra fatos. “Em Portugal” – diz ele – “fala-se mais depressa.. a fonética brasileira é em geral diversa da fonética lusitana”. dos maiores – entre eles um Said Ali. pp. um João Ribeiro – mostraram que. “que o vento assobiava-lhe nas crinas” (Negrinho).

. ainda se julga com o direito de atirar. “Digo que benza-vos Deus” (Ibid. e há de ser. diverso da linguagem lusitana. Vão aqui várias dezenas de exemplos – só da ênclise pela próclise. f. tendo tido a fortuna de nascer na Beira ou em Trás-os-Montes. XXIX). IV. De D. Pouco mais de meia dúzia deles se encontra já nos dois lingüistas citados. porém muitas vezes violada pelos próprios lusitanos. em muitos pontos./e ele falava-lhe em al” (Obras Completas. E essa mesma regularidade lusitana – como o próprio Said Ali demonstra./correge essas crenchas filha/e viste-te essoitra fraldilha/que essa vem-te pequenina” (Ibid. João de Meneses: “que quem morre de cuidado/é-lhe vida suspirar” (in Garcia de Resende. I. fac-similada. Não é caso para eternamente nos julgarmos inferiores aos nossos ‘maiores’. pronuncia átonos os pronomes e. Cancioneiro Geral. De Gil Vicente: “Eu vos direi. e mais profundo do que o mais culto brasileiro. por influência do meio. 188). por cima do nosso idioma. 361). qu’eu . os coloca bem à portuguesa. CCXV). já “sancionada na linguagem literária pelos escritores brasileiros”. o camponês analfabeto que.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 171 evolução. “Fica-te. ed. ciosa e receosa da mutabilidade. f. o nosso falar é. a túnica de Néssus das regras arbitrárias e inflexíveis”.” E insiste em que é tão correta em Portugal a regularidade lusitana quanto é correta no Brasil a liberdade de colocação. p. escreve ainda: “Muitas são já as diferenças atuais. De raciocínio em raciocínio chegaríamos ao absurdo de considerar extraordinário conhecedor da nossa língua.. os mais encontradiços e os que mais interessam no caso. fazendo-o também Sousa da Silveira – não passa de uma tendência. muito forte./que a filha de Janafonso/foi-lhe pedir um responso. De Dom Duarte: “porque os amigos amam-se incrinados per razom e boo juízo de entender” (Leal Conselheiro. conseqüentemente. que passam despercebidas por não haver um estudo feito neste sentido. CCXL). Salientando que. é ele tal.. f. é certo. De Luís da Silveira: “Eu já dou-vos um conselho” (Ibid. 9). “Ledicina.

f. 43). v. II.. II.. e prega/As almas. “que o mundo quer-se finar/e não há i quem no chore. ed. I. f. “Porque vai-se-me aas figueiras. “não posso falar contigo/que a mim pesa-me comigo/comigo quero pesares” (Ibid. onde Amor se esconde. 225.. se retira!” (Poemas Lusitanos.. 17). “Vendo-a Franco alvoroçou-se/e foi correndo ao cão/que nos pees alevantou-se/e deu-lhe a frauta na mão/e após aquilo espojou-se” (Ibid. 3)... “Jano em vendo-a foi pasmado” (Ibid. II.... II. De Bernardim Ribeiro: “que isto vai assi como quem é doente de ua peçonha e cura-se com outra” (Obras. II. “já agora quero-lhe mal/por me ter em tal estado” (Ibid. 11). CCXLIII. I. “ordenam o que faça antes que vão-se” (Ibid. & escova-se muito quando a vai ver” (Ibid. pp. 253). 248).). “que conta-se que atee no estar andar infim em tôdolos outros autos a tinha tam suavemente posta que bem parecia que naquele lugar estava soo” (Ibid. “restituí-me a mim..172 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a quero-me ir” (Ibid. VI. “que ele enfeita-se. o meu tesouro” (Ibid. 19). De Jorge de Vasconcelos: “& agora acha-se direito para poder roubar. que Bimarder contou-lhe todo o começo” (Ibid.). onde perdi-me. “porque os paços de Lamentor acabarõ-se” (Ibid.. & fazer tudo o que a vontade requere aos poderosos” (Eufrósina. 169. II. II. p. no mesmo volume. .. 168). “Ora escutade lá/seredes João de Tomar/que depois de morto já/diz que punha-se a mijar?” (Ibid./e come verde e maduro” (Ibid.. p. Vejam-se ainda. CCXLVII). 201): “que a mim pôs-se-me o sol/onde eu soo temia a noute” (Ibid. 134). 118). “Enfim vê-o no fogo” (Ibid. De Antônio Ferreira: “Ó olhos. CCXLII.. 104). 135./antes do fim.... p. 189). “Achei. II. v. 100). II. Sá da Costa. “aqui calou-se como muito maravilhada” (Ibid. e em pregando-as. I. XXXV). 82). II. De Sá de Miranda: “e os meus [olhos]. “despois ali esteverõ ambos u grande pedaço de tempo. 152). 312). f. que o sol vai-se e trasmonta” (Ibid. que já também punham-se a monte” (Obras Completas. II. 175). f. 261).” (Ibid. I. “Porque ela nunca bradou/nem dixe-me “tirai-vos d’i” (Obras Completas..

De Rebelo da Silva: “o pacto. M. II. De Filinto Elísio: “E a voz ali desmaia-lhe” (Poesias. I. VI)..Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 173 De Frei Heitor Pinto: “porque os anos vão-se” (Imagem da Vida Cristã. escreve-se em poucas páginas” (Amor de Salvação. Velho Testamento. p. 14). p. “de sorte que o nemo refere-se ao formabuntur” (Ibid. p. “com a diferença. 275). De Camilo Castelo Branco: “tão engenhosamente o fizeram. p. e perde a cabeça” (O Romance dum Rapaz Pobre – apud Mário Barre- . quando o amor estava-o chamando tão meigo e desejado?” (Ibid. 274. que em vendo-a ceguei. Lourenço” (Ibid. 120). 109).). foi tão negro.. 26). II. IV. 57. 265. mas bem sabes que a gente zanga-se. 2. I. III. I. a levar bem tudo o que lhe vier de mal” (Cartas Espirituais. “Que motivo demorava pois o mancebo. que a lua tornou-se cor de sangue” (Contos e Lendas. ele me convencerá de culpado” (Bíblia Sagrada. pude ainda ver. “um vulto surgiu. 295. De Antônio Feliciano de Castilho: “Aqui morreu-lhe a voz” (A Noite do Castelo. II. O Monge. 164).. p. “Além de que a felicidade. “porque os franceses virtuosos são-no por amor de Deus” (Ibid./Uma cor vi” (Poesias. de que o período de renovação do gênero humano conta-se por anos” (O Monge de Cister. 78).a col. De Antônio Pereira de Figueiredo: “Se mostrar-me inocente. De Francisco Rodrigues Lobo: “Se eu. III. De Alexandre Herculano: “hoje contam-se noventa e cinco anos” (Lendas e Narrativas. II. 35). p. que o fidalgo achou-os a eles proprietários” (Estrelas Propícias. que ali firmou.a col. 226). 575). De Frei Antônio das Chagas: “e assim resolva-se V. p. porém. “Era que o céu ia-se afogueando já com os primeiros fulgores de uma bela madrugada” (Ibid. Veja-se ainda: Lendas. como história. p. I. 222. p. “No começo nada era. “Isto era dito com tanta brandura e unção.. De Vieira: “que os dous primeiros escusaram-se” (Sermões.. Outros exemplos: Ibid. 248). I. que tomou-lhe as rédeas” (Ibid. 313. 2. – 2 vezes).. 8). 4).. que o moço cisterciense atirou-se a chorar aos braços de Fr. p. 81). 104).

174 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a to.. p. 262). De João de Deus: “A boca é tão vermelha que em te rindo/Lembra-me uma romã aberta ao meio/Quando já de madura está caindo!” (Campo de Flores.. p.. 53. o ziguezague da mania ou da loucura” (Lisboa Galante. e Lisboa Galante. “atirava-lhe ditos tão cruéis . 288-289).” (Gente Singular..” (Poesias Completas. 47). 180). 58). como um pirilampo na sombra. pp. . 316). De Fernando Pessoa: “Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos. – que o dândi. I. tão triste. 71. p.. 276). 49). p. De Raul Brandão: “até que uma noite a mulher viu-o entrar” (Os Pobres. “que dir-se-iam peneiradas d’alto” (O País das Uvas. ama-se o próximo como num baile” (Tipos Nacionais. “tudo isto que dir-se-ia casual” (Aves Migradoras. que no Chiado afirmava-se ser um personagem da história romana – empalhado!” (Uma Campanha Alegre. p. Crônicas de Londres. p. na semana santa. “e o curioso é que você tornou-se brigadeiro .. p. com as intenções mais belas e mais generosas” (Ibid. 146. embrulhado na tempestade. De Fialho de Almeida: “quando uma noite Ferraz de Macedo entra-me em casa” (Figuras de Destaque. “onde dir-se-ia já noctiluzir. p. Notas Contemporâneas.. De M. 36). 17. p.. 124). Novos Estudos da Língua Portuguesa. p. 431. p. “O pior foi que ele botou-me ao desprezo” (Ibid. “A sua voz tinha tanta angústia que Juliana calou-se” (Ibid.. Ver ainda: O Primo Basílio.. pp.. 179). Teixeira Gomes: “É que eu chamo-me Celestino. 55).. Outros exemplos de “que dir-se-ia”: em O País das Uvas. I. 81. pp. p. “Apresentava-se tão grave. 364). II. sumia-se como um diabo de mágica” (Notas Contemporâneas. 65). p. 32). De José Régio: “Quase que vou-me a dizê-la” (Fado. De Latino Coelho: “de modo que nas igrejas. p. Ver também: Amor de Salvação. 97. 218.. 33). p. p. p. 251). De Eça de Queirós: “porque a doença deixara-lhe um vago medo dos pesadelos da febre” (O Primo Basílio.

e um Antônio Pedro e um Jorge de Sena. 35. De Miguel Torga: “Olha que eu atiro-te o cesto ao focinho!” (Novos Contos da Montanha. notáveis prosadores e poetas. Ao lado deles. deixá-las/Que eu fico-me assim.. 110). “Aqui sonha-se!” (Ibid. de Sousa da Silveira e Said Ali. muitos outros exemplos dessa colocação irregular. mais vivos do que alguns daqueles “mestres consagrados” – de Eça de Queirós e João de Deus. 56). 176. I. p. esse admirável José Régio. I. 93). Aí está perto de uma centena de exemplos de autores portugueses de todas as épocas. 25).. ao pensar nele. vários dos quais na realidade mais importantes.” (Ibid. 95). “à brasileira”.” (apud Cecília Meireles. “estou de tal maneira que as pernas pesam-me arrobas” (Diário. ainda não há como os irlandeses!” (Onde a Noite Se Acaba. vozes das mais significativas da moderna poesia portuguesa. Exem- . I. Poetas Novos de Portugal. II. De João Gaspar Simões: “Deus era para mim uma realidade tão completa e absorvente que.. p. ou pelo menos a sua meia dúzia. 296). e Miguel Torga.. p. nos livros. A maioria dos grandes clássicos da língua. p. De Manuel da Fonseca: “– Tem graça que hoje meu marido disse-me que há muito o não vê” (Aldeia Nova.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 175 De José Rodrigues Miguéis: “Que a verdade deve-se dizer: para a boa chalaça inglesa. De Antônio Pedro: “Deixá-las. antigos e modernos. ibid. sentia-me suspenso no espaço e no tempo” (A Unha Quebrada.. aí figura – alguns deles com a sua dezena. 253). de construções em que aparece a variação pronominal “erroneamente” colocada. tão bem conhecidos. “Não que ele custou-me a parir e a criar!. Ver também: Ibid. 82). Podem-se ver ainda. 244). excelente poeta e talvez o maior prosador vivo de Portugal.... De Jorge de Sena: “– é que eu conheço-me e adivinho os outros” (apud Cecília Meireles. p. já citados. p. desde a fase arcaica ao século XX. p. até esse extraordinário Fernando Pessoa. 183.

até esses nem sempre levam a sério as tais leis. de Frei Luís de Sousa: “É que primitivamente. esse. escreve: “Se os portugueses dão-lhe agora de preferência o sentido de – entrave – . João III. às quais tantos se apegam com unhas e dentes. Trechos Seletos. Os estudiosos da língua. escreve o seguinte: “Que um vento propício leva-me a dizer mais. é que os próprios filólogos portugueses.. lê-se: “Pois que o pensamento suspende-se depois de Moniz. entre os maiores escritores. filólogo e escritor admirável. Júlio Dinis. p. Coelho de Carvalho. E coisa idêntica na p. sobre a qual veja-se § 49” (apud Sousa da Silveira. tão conhecida e 63 proclamada é a nossa tendência para colocar “mal” os pronomes. os professores. antes de ‘Esteve’ lia-se logo ‘20 de outubro’” (II. 34). e dos mais autorizados. alguns que conscientemente as desrespeitam. 113 das Páginas de Estética.” E numa de suas notas aos Anais de D. Herculano. p. Mesmo em nossos dias. é freqüente a resultante de dissimilação. toparemos com isto: “Note-se ainda que por vezes deu-se até confusão entre -ão e -om”. 97. 47).63 62 Deste. como sejam Mário de Andrade.62 Castilho. Eça – ou de outros. 158). Comentando uma das Cantigas d’Amor dos Trovadores Galeco-Portugueses. de Antenor Nascentes (p. 9). como Bernardes. Se corrermos a vista pela p. Filinto. 234. 13 da Gramática Histórica Portuguesa de Epifânio Dias. p. Parece-me dispensável citar exemplos de autores brasileiros.” Rodrigues Lapa. O mais curioso.. está no Idioma Nacional. diz a certa altura José Joaquim Nunes: “lição que excede a medida e parece-me não satisfazer ao sentido” (p. “Sabemos desde o curso primário que os vocábulos acentuados na última sílaba chamam-se átonos”. Indo à p. . nem sempre significou colisão ou choque” (A Língua Nacional. dão a sua contribuição para o caso. p. 41. 9 das Curiosidades Verbais e à p. lá encontraremos: “Afora essa [troca]. Nos seus Textos Arcaicos. interpretando um verso das Obras Completas de Sá de Miranda. não faltam. cerca de uma dúzia de citações. João Ribeiro. quando já se acham tão divulgadas as “leis” lusitanas neste sentido. É o caso de um Gilberto Freire – para não falar dos extremados. Agora vamos a Leite de Vasconcelos. Antônio de Alcântara Machado e alguns outros.176 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a plos ou de autores mencionados aqui – Vieira.. porém. 143).

no seu livro sobre colocação de pronomes. pp. conforme o critério de cada um. Muitos dos autores advertem que as conjunções porque (causal) e que (integrante e consecutiva) não “atraem” obrigatoriamente o pronome. p. lho. devem vir ambos sempre conjugados. portanto. Trechos Seletos. ali. Antenor Nascentes65 vai mais longe: “Os pronomes pessoais oblíquos colocam-se onde o escritor quiser.” 64 65 66 Lições de Português. 151-152. gramaticalmente. muito diferente no português de aquém e no de além-mar”. o advérbio de lugar aqui (e. todos. tudo (e conseqüentemente todo. para Sousa da Silveira. cita como erros de construção que os jornais vulgarizam a cada passo os seguintes trechos: “Todos os eleitores juntaram-se às portas da igreja. to. Há colocações elegantes ou deselegantes. etc. estão os indefinidos cada.º – Quando figurarem na oração os dois pronomes direto e indireto.)”. Apud Sousa da Silveira.66 sempre tão lúcido. assim se refere ao assunto: “Estou convencido de que existem dois únicos princípios iniludíveis. sobretudo se entre a conjunção e este se acha intercalada uma ou mais palavras. antecedendo este àquele deste modo: mo. em que não podem deixar de estar de acordo o Brasil e Portugal: 1. toda.” “Não há colocações erradas.” E acrescenta que em tudo mais a colocação depende “exclusivamente da modulação da frase. Entre as palavras com as quais. 152. 324-325. exceto as que raiarem pelo absurdo. Curioso lembrar que Figueiredo.º – É necessário que aqueles elementos [os pronomes átonos] se achem dispostos por maneira que não resulte obscuridade no sentido. arbitrária a próclise ou a ênclise. antes ou depois do verbo. acolá. vo-lo. no-lo. 2.” E Silva Ramos.64 “é. O Idioma Nacional – Gramática para as quatro séries ginasiais – pp. todas). .Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 177 As regras que se tem procurado formular a respeito de colocação de pronomes são em boa parte tão sujeitas a exceções que se pode dizer não existem.

parece mais que bastante para mostrar a inanidade das suas afirmações. na primeira das passagens que citei de Jorge de Vasconcelos está: “agora acha-se”. fazia-lhe muita conta”.” Já vimos que Sousa da Silveira julga facultativa a próclise ou a ênclise depois de tudo (e. Aliás. E. veja-se que.” “E logo envolveram-se em desordem. numa das de Bernardim Ribeiro: “já quero-lhe mal”. a primeira das quais lavrou-se em 25 de junho de 1773”. e esperdiçado o papel que se gastasse com ela. o se pertence a outra oração. etc. por que será para alguém? Depois. “pela má colocação dos pronomes. são inauditas. 131-132. neste julgamento ele tem por companheiro um filólogo de verdade: nada menos que Gonçalves Viana. “duas escrituras. segundo ele dizia. e na de Luís da Silveira: “já dou-vos”. pp. Claro que não será difícil argumentar mais fortemente contra o falso filólogo lusitano. ao lado de outras duas. . junto à soma de exemplos e opiniões sobre o assunto. Finalmente: que maior força “atrativa” do que o logo poderá ter o agora. provando-o. Comentando. incompreensíveis: toda a discussão a tal respeito seria fútil. Porém há mais. ou o já? Entretanto. escreve este:67 “No português do reino essas construções são piores que defeituosas. não têm construção portuguesa”.” Se não é de rigor a próclise para o pronome indefinido tudo. mas o que fica dito por último. dá um exemplo de Herculano. que transcrevo aqui. que. pois. de todo. as seguintes: “a quinta de Vila Velha do Ródao. além de estar razoavelmente longe do alguém.178 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a “Alguém murmurou e dirigiu-se ao chefe. Figueiredo cita como expressões que. a construção “O homem que viu-me”. reduzido: “E tudo isto vê-se para se ter mais fome. porque não há pessoa al67 Palestras Filológicas.).

Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 179 guma em Portugal e nas suas atuais dependências. nos quais aparece a ênclise em orações do relativo: “que negavam-lhe”. A esta não compete se68 De um modo geral” – isto se lê em Said Ali – “pode-se dizer que o pronome relativo e a conjunção subordinativa determinam a deslocação do pronome átono.. a regra deixa de ser aplicada” (Dificuldades da Língua Portuguesa. coisas que figuram nas transcrições desses autores feitas um pouco atrás. o “que nos pés alevantou-se” (Bernardim Ribeiro). as duas frases apresentadas por Figueiredo não são de um crioulo. quer literária. seja ela o mais boçal analfabeto.” Ora. em Portugal. mas de “um publicista [português]. o “que já também punham-se” (Sá de Miranda) e o “que tomou-lhe as rédeas” (Rebelo da Silva). aí está. Releia-se também o “sobre a qual veja-se”. que construa de semelhante modo aquelas frases. mas de escritores mais ou menos “primorosos”. Veja-se mais entre os exemplos apontados de Fialho de Almeida. Epifânio Dias. O julgamento é severo demais. mas de “primorosos escritores”. compadecia-se”. p. a malsinada construção. . “que . Nem o mais boçal analfabeto português praticaria a ênclise em orações do relativo.. quer popular. São todos. E ainda lá se verão exemplos da mesma coisa em Coelho de Carvalho (“que busca-lhe”) e Teófilo Braga (“que determinaram-lhe”). muito ilustrado. como se vê. e errado e falho na sua severidade. e bem conceituado”.. exemplos não de crioulos. isso é coisa de crioulos. 50). Essas construções sintáticas não são nem foram nunca portuguesas. perto de uma dezena de trechos de Filinto Elísio. mas” – acrescenta – “não se devem desprezar os casos particulares em que na linguagem lusitana. No entanto. “primoroso escritor”. talvez só entre “os mais boçais analfabetos” é que não se encontre. de um mestre da língua.68 A rigor. Observe-se. a questão da colocação de pronomes tem de ser estudada antes como questão de estilo que de gramática. ou o mais primoroso escritor. etc. E – o que é mais – também não são de crioulos. como declara o próprio Figueiredo. ainda. são crioulas. em Sousa da Silveira.

305). pelo menos algumas vezes. 69 Ver Sousa da Silveira. 356. “Vou me sentindo mais forte” (Ibid. Veja-se Gilberto Freire: “Estava se acabando de fraca” (Casa-Grande & Senzala. p.. outros casos às pp. pretendendo simplificar o assunto. se esboçando. e não formular regras que. constitui um fato da língua portuguesa falada e escrita no Brasil. a reação contra esse estado de coisas” (José Bonifácio. E Álvaro Lins: “não poderia me manifestar” (Jornal de Crítica. 116). bem de acordo com os nossos hábitos. 527). sabe-se. II. 147. p. III.69 mas. 5. ia se erguendo a lua . E Otávio Tarqüínio de Sousa: “Já vinha. muita gente se encheu de horror contra ela.. Outro ponto de interesse. Seria fácil acrescentar centenas de exemplos. neste assunto. 47. e tem de ser respeitado.. . 110).” (Poesias.. 22. E Carlos Drummond de Andrade: “Os elementos . Entretanto. continuaram a deixar. muitas delas dignas de serem interpretadas psicologicamente – vêm a torná-lo muito mais complicado. p. submetendo-se – sempre ou quase sempre – às normas lusitanas nos outros casos. 28. Veja-se Alberto de Oliveira: “Posso a ti me entregar. I. porém. É coisa de origem bem portuguesa. é a colocação do pronome entre dois verbos no caso da conjugação perifrástica. como hoje não se usa em Portugal. 524 e 577. p. Veja-se Raimundo Correia: “Por trás da serra. I. prosadores e poetas nossos. doce Poesia” (Poesias.ª série. 22).. vêm a torná-lo – com as numerosas exceções colhidas no uso dos bons autores. o seu pronome solto entre dois verbos. outros exemplos em Poesias.180 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a não apontar as tendências para o uso mais freqüente da próclise ou da ênclise nestes ou naqueles casos. Esta construção é bastante freqüente em Simões Lopes Neto: “os lotes de eguariços iam se encontrando” (Correr Eguada). dos melhores. 52). Trechos Seletos. desde o começo do século XVIII. acabam se impondo ao leitor” (Confissões de Minas.. p. 70). outro caso à p. Ainda depois de se ter espalhado entre nós a mania da imitação portuguesa em matéria de sinclitismo pronominal.

era de propósito. Mas a construção portuguesa: “Tudo se foi arreglando em ordem” (Negro) “Vou mostrar-lhe” (Manantial) “Parecia que nada se havia dado” (Ibid. no fim do Penar de Velhos. se não estou a criar uma utilidade nova e um delicado matiz que a língua européia não possui! Expressões diferentes envolvem ou traduzem estados d’alma diversos. Corrigi-las pode ser um abuso que afete e comprometa a sensibilidade imanente a todas elas”.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 181 “Esteve muito tempo me olhando” (Cabelos). quem sabe. E ainda uma vez neste último conto. sacrificar a consciência das nossas próprias expressões..71 Um traço da influência gauchesca bem vivo na colocação de Simões Lopes: o uso do demonstrativo posposto ao substantivo – vindo este precedido de artigo: 70 Tanto a conhecia. nada brasileiro: “Que sumanta o guri lhe não havia de encostar!. Por aí se vê que Simões Lopes conhecia bem a sintaxe portuguesa. compreendendo ainda melhor..70 e se dela se afastava. – Perdão! Não ‘me’ quero alongar.” 71 A Língua Nacional. – Na mesma página desse livro: “– Não quero me alongar. um “lhe não”. sem mentira e sem mutilação perniciosa. 10. neste como em tantos outros pontos.” E na Salamanca (mas convém recordar o caso especial deste conto) vê-se nada menos que uma sínquise pronominal: “E me bem trataste pondo água na guampa e trazendo mel fino para o meu sustento.. na Mboitatá. na Salamanca. com João Ribeiro. muito consciente do que fazia..) “E foram-se estendendo e alargando campos sem fim” – aparece muito mais nas páginas dos CONTOS e das LENDAS. – Não há dúvida.. não quero alongar-‘me’. e no Anjo.). e.. Se alguma coisa há que lamentar – também nesta matéria – é que ele não se haja inclinado ainda mais à tendência brasileira. p. mas eu digo por um terceiro modo. ou então. “não quis se desmoralizar” (Ibid. “Uma negra que havia lhe dado de mamar” (Melancia). que “não podemos. que põe na boca de Blau Nunes.” .

o verbo fazer no singular nesta passagem da Salamanca: “Faz duzentos anos que aqui estou. Andrés Bello e Rufino Cuervo72 a ela se referem.” É de notar-se a propriedade do uso da preposição a no seguinte trecho. pra disfarçar dos caramurus o chasque. E também a maneira correta como rege o preferir: “Prefiro a minha pobreza dantes à riqueza desta onça” (Salamanca).” 72 73 Gramática de la Lengua Castellana.).73 Observações diversas Deve-se notar. 230. posta na boca de uma personagem: “En fin. aquela. Sabe fugir a ambigüidades resultantes de má colocação. corretamente. Deixa. como atestado do seu conhecimento da língua. Essa construção é própria do espanhol. entre outras coisas. como se vê neste passo: “Agora. mandou. em vez dum homem aquela vivaracha. e várias vezes em El Espejo de la Muerte. na parte relativa ao estilo.” Encontro-a nas Historietas Nacionales. da Apresentação de Blau Nunes: “dos fogões a que se aqueceu. dos ranchos em que cantou. qual dos dois. abonando-a com um exemplo de Quintana: “El pajarillo aquel que dulcemente/Canta y lascivo vuela.. que era o condão. el polaco aquél servía a las órdenes de Napoléon” (p. Outros casos de colocação podem-se ver adiante. não pude sondar. de Alarcón. dos povoados que atravessou”. de Unamuno. aquele” (Salamanca). “encravou então no novo corpo da encantada a pedra. p. qual dos dois foi.182 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a “Pois para a carreira essa. tinha acudido um povaréu imenso” (Negro). “o praça aquele teve baixa” (Batendo Orelha!.. o fato de não incorrer em certos erros de sintaxe muito comuns. 67). .

seria antes por se ter inclinado mais ao uso gramaticalíssimo do havia. Quero insistir em que deve na realidade existir desprezo. como tinha escapado das outras que há seis meses se tinham repetido tão freqüentes” (Obras Completas. infringida por autores dos melhores. Agora. Simões Lopes Neto. 127). tem sido. havia muito tempo que estavam encostados no cabeçalho”... de Melancia: “andava campeando umas tambeiras. na realidade. “correu a chamar o capelão que . começando por uma do Boi Velho: “já os bois. não raro. inclusive diversos apontados como clássicos. Mas já em outros passos. aí está o respeito a uma norma que. havia dois dias!. Ora. II. ter posto ali pra disfarçar o chasque dos caramurus – quando. ninguém diria “faz” por “fazia”. Nada mais fácil que a explicação do caso. Citemos algumas passagens suas. O há encontra-se em Garrett: “E ainda havia de escapar desta crise. em casos idênticos. Já se tem visto que Simões Lopes Neto oscila entre a correção rigorosa e o desprezo ou alheamento a certas exigências gramaticais. usando a ordem direta. dormia quieta”. e uma vaca mocha.. empregando no mesmo sentido o verbo fazer. atendendo à influência do uso comum.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 183 Um escritor menos experiente poderia.” E de Mboitatá: “havia já muitas mãos de luas. tanto assim que..” (Trezentas Onças). fundada embora na lógica. emprega há: “Há que tempo eu não chorava!... aquele não está em missão destes. A verdade é que temos aqui um fato de linguagem. A homofonia entre o há e a preposição a determinou uma estereotipação daquela linguagem verbal. nos casos – ou pelo menos na maioria deles – em que o escritor deixa de obedecer à chamada “língua dos nossos maiores”. muito menos numerosos. e se o autor dos CONTOS GAUCHESCOS merece alguma censura. na língua falada. e não ignorância. que não apareciam no gado manso.

no Quincas Borba.74 Um brasileirismo. p.. no Dom Casmurro. Vê-se em Raimundo Correia: Versos e Versões. assim como lhe atribuíra lágrimas. 128. em lugar de havia. 102: “Certo que ele suspirava há muito”. 266. II. e a minha imaginação. 133). há pouco. 123). mas 74 Crítica. que não é só de vocabulário e de sintaxe. no prefácio da sua edição das Cartas do Cavaleiro de Oliveira. I. p. Em Aquilino Ribeiro. 74. aqui. leia-se este período de Antenor Nascentes: “Foi depois a Moçambique. p. 99. p. p.184 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a há muito estava de sobreaviso” (Ibid. 68. 182). 111. 23. donde voltou a Portugal que há dezesseis anos não via” (O Idioma Nacional – Gramática para o Colégio. Cartas Inéditas de Fradique Mendes. porque não há no autor dos CONTOS GAUCHESCOS apenas aquela “nacionalidade de vocabulário e nada mais”. p. lá está o há por havia: “O Cavaleiro faleceu em Londres a dezoito de outubro de 1783 de doença que padecia há anos” (p.. o tom brasileiro da linguagem de Simões Lopes Neto. Crônicas de Londres. . 89: “Que diabo de teima por causa de um chapéu que o marido usara há tantos anos?”. nas Histórias sem Data. também no Amor de Salvação. de que fala Machado de Assis. p. p. p. 89: “A imagem de Capitu ia comigo. 53. XXXI). 45). Brasileiro substancialmente. Está em Machado de Assis. até em gramáticos e filólogos. 438. 296. “Há poucos anos que ela vivia numa cidade do Minho” (Ibid. Tom brasileiro Mais de uma vez já se terá notado. Vê-se em Camilo: “O morgado caíra em extrema pobreza há dois anos” (Memórias do Cárcere. e II. assim lhe encheu a boca de risos agora”. II. Ecos de Paris. Os Maias. p. 80. etc. p. o seu. Não é pouco freqüente em Eça de Queirós: consulte-se O Crime do Padre Amaro. 269. Para que multiplicar citações ou indicações? O há se encontra.

por sua vez. e voava. e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso.75 Vejamos agora outros pontos em que a sua linguagem revela influência da fala de nossa gente. 2.. Nos Cabelos da China: “aí tem outra sentinela”.e M. e não é plebeísmo. por exemplo. tem sabor deliciosamente popular.. e também aparece na Mboitatá. que nem uma bandeira cinzenta. Pelo contrário.” 75 Ibid. tradutor de Homero. “tem é que dobrei a prenda”. embora essa fala. tenha raízes lusitanas: 1. depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão”. de Frei Heitor Pinto. e no P. 83. . I.. à p. 27. é que não atavam nem desatavam.. Esse que nem... batia aberto. Em Melancia – Coco Verde: “tem. 126. “O meu bicharazito . Está. Alves Correia. enchia-se de vento. p. que aí se vê. embora esteja longe de ser um plebeísmo brasileiro. reconhecendo que “a influência popular tem um limite. É coisa portuguesa. XXXV do seu Prefácio à Imagem da Vida Cristã.. ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito. De modo que ele é tão brasileiro quando aceita certos fatos da linguagem do povo.” (Anjo). como quando se opõe a outros. No Boi Velho encontra-se: “tinha um sarandizal”.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 185 de características mais fundas. Contos e Lendas. p. em Camilo. como pensam alguns requintados. pois que resulta de uma íntima identificação do escritor com o meio. Memórias do Cárcere.. em Rebelo da Silva. o capricho e a moda inventam e fazem correr.

. todo torneado com muitas torres” (p. que trabalham. & muito compridas.76 Registrando o fato.. 76 Guimarães Rosa.77 Antenor Nascentes declara que isso “nada tem de espantoso.” Vê-se nestas passagens o verbo ter pelo haver. porque para cada hom? tem junto o que lhe convém para se armar. nas linguagens compostas haver foi substituído por ter. em geral.. coisa comuníssima na fala brasileira de todas as classes. entre muitos exemplos assim duvidosos. p. com os cochos.186 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a No Negro: “Um cajetilha da cidade . & a ponto.” Aí parece-me perfeitamente possível subentender-se a Câmara. ao qual eles chamam Arsenal. Cf. “Também há neste Arsenal alguas salas grandes. 77. chinoca airosa’. tem o pátio. portuguesmente correto. na fazenda” (Sagarana. como se estivessem de hora em hora esperando pelos inimigos. ainda pp. um Antônio de Alcântara Machado. apresenta estes. . 4). assim para gente de cavalo.. onde é incontestável o sentido de haver atribuído ao ter: “Dentro na Cidade tem um almazém. em vez de TENHO JANTADO muitas vezes em sua casa?” Transcreve um exemplo da Arte de Furtar. escreve: “No fim de tudo. cheas de toda a sorte de armas. 77 No Linguajar Carioca. & em cada casa aonde há oficiais.. quer de pé. e que muitos escritores mais corajosos já transpuseram para a literatura – um Mário de Andrade. uma Raquel de Queirós. citado por Eduardo Pereira: “A um mestre de Lisboa ouvi dizer que bastava numa Câmara três vereadores e tinha sete. cada um duas vezes. quer seja de cavalo. 93 e 115. quem sem afetação dirá HEI JANTADO muitas vezes em sua casa. mostrando-se embora. no seu Itinerário.. tem no meio ua tina. p.. que pode levar até doze almudes. entre vários outros. Neste último período veja-se o emprego alternado do há e do tem. 5-6). 63). cercado de alto muro. A significação etimológica de haver (do latim habere) é ter. como para de pé: & tudo tão perfeitamente. botou-lhe uns versos mui lindos – pro caso que tinha um que dizia que ela era uma ‘. mas. Frei Pantaleão de Aveiro. muito milho. chea de vinho bem aguado para os que têm necessidade de beber” (pp.

. 954. O estilo.. nem se destemperando num desadorado populismo que relegaria os seus contos ao 78 Novo Dicionário de Dificuldades. e no Manantial (umas três vezes). “A Tudinha era a chinoca mais candongueira que havia por aqueles pagos” (Negro)..78 Note-se bem: “hoje”. para um estilista caprichado: – . além do tinha.. .. o escritor cedeu à influência da língua de Blau Nunes.. em Correr Eguada (umas três). e. p. enfim.”79 Essas e outras modalidades da fala brasileira na sintaxe de Simões Lopes Neto coexistem. no Mate. que dizia ser ela . – ou. Ponha-se isto em confronto com o mesmo trecho à portuguesa: – uns versos . o ter por haver. a sua preferência é pelo haver: “Debaixo da barranca havia um fundão” (Trezentas Onças). Mas Simões Lopes. Note-se. mas a personagem de quem ele escreve” (Gustave Flaubert. Este é um dos casos em que.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 187 “A frase “tinha lá muita gente” por “havia lá muita gente” representa hoje brasileirismo.. aquele em que o campeiro se refere ao cajetilha são vivos e expressivos de mais para que o contista lhes procurasse imolar a graça espontânea à dura exigência da gramática portuguesa: “uns versos . E ainda neste mesmo conto.. e da suces79 são dos quês. que tinha um que dizia que ela era. deixou-se levar pela corrente da expressão do seu contador de histórias. e em várias das LENDAS DO SUL... os interesses do velho Blau prevaleceram. p. E é muito para notar que essa aliança não produz arrepios: efeito da feliz dosagem que o escritor sabe fazer das duas tendências.. em Boi Velho (duas vezes).. com o respeito às normas gramaticais.. o encanto dessa irregularidade de regência.” – diz Vasco Botelho de Amaral. 312). no compromisso entre a linguagem de um e a do outro.. nem mutilando-se numa correção hirta e fria. entre os quais havia um que dizia que ela era . pois. Flagrantes como.... sobretudo. – e imagine-se tal coisa na boca do campeiro.. no Deve um Queijo!. Usando.. em quase todos os CONTOS GAUCHESCOS.. ali – utilizo uma observação de Thibaudet a propósito de Flaubert – “não é somente o homem que escreve. diga-se ainda uma vez.

. Parece-me.188 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a plano da literatura oral. 80 Nos Cabelos da China vê-se um a por há: “Já andamos aqui a uns quantos dias. melhor. pois.81 E esse húmus. o autor emprega o verbo. impotente escritor aquele que exigisse. ou. restituídas à sua dignidade essencial. do original que ele retratou. “há dois dias” (Cabelos). carregado de todo o húmus que fecunda as árvores lá no mundo calado e laborioso das raízes. todo esse enredo quotidiano das fainas rumorosas dos campos” (Símbolos Bárbaros. das fazendas. uma visão pessoal de tais realidades. indiretamente. roubando-lhes o sabor e força literária – com que hão de vencer o tempo. da parte dos leitores. A palavra que logo se impõe. dos postos e dos ranchos. de tão mal e exaustivamente aplicadas. Faz-nos sentir – de verdade – a campanha gaúcha. Ora. sido feitas.” Seguramente é erro de revisão. que recriou artisticamente! . em casos assim. sabe-se. “há poucos anos – coitado! – pousei no arranchamento dele” (Contrabandista).80 Estilo Linguagem e estilo. Cumpre não temer as palavras que se aviltaram em lugar-comum. são coisas que não raro se interpenetram: assim. ao considerar-se o estilo de Simões Lopes: telúrico. Pobre. 81 Em mim – deixem passar a confissão – este sentimento é tão vivo que. o mérito de Simões Lopes Neto – como de todos os grandes criadores de ambientes e vidas – está precisamente em dispensar. 38). p. e não a partícula: “Há que tempos eu não chorava!. contudo. antes de conhecê-lo – o que só se deu há pouco tempo – eu tinha por vezes (sem literatura) a impressão de já haver percorrido os campos gaúchos. que interpretou.. abundante. é necessário conhecer-se a fundo a vida íntima dos galpões. conversando longamente com os guascas. de passagem. mais de uma das notas deste capítulo se relacionará estreitamente com assunto de linguagem. por outro lado. Seu estilo é telúrico. Manuelito de Ornelas: “Para se iniciar na beleza imanente da ficção de Simões Lopes Neto.” (Trezentas Onças). filho de região quase oposta geograficamente ao Rio Grande do Sul. inaceitável esta afirmação do Sr. para uma iniciação na beleza do seu mundo. o conhecimento de visu das realidades que ele pinta. um prévio conhecimento do original deste. pela força e prestígio da arte. em suscitar-lhes. não temê-las quando indispensáveis. pois sempre. vem das entranhas da terra. no capítulo anterior. eu tinha. muitas observações sobre o estilo de Simões Lopes Neto deixam de ser feitas aqui por já haverem.

. pois aquela “morte da natureza” dizia bem com o fim de uma vida humana. ele todavia quase não faz paisagem. esta funcionava perfeitamente. à sombra dos umbus. era uma peça sobreposta ao conto ou ao romance. fazia-se a paisagem pela paisagem – não se compreendia uma “casa sem quintal” como a de Machado de Assis. A paisagem. pelas reboleiras. Em dada altura. deixava a personagem pelando a faca homicida e combinava o melhor das suas tintas para um crepúsculo. para descarregar poeticamente a emoção de um entardecer. Como no vegetal sadio. por todas as linhas. pedindo licença a Blau Nunes. Fora disso. aliás. 82 Ver nota 1 à p. o escritor suspendia a pena.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 189 se acha tão harmoniosamente difundido por todas as páginas. pelas coxilhas. no sentido clássico. para fazê-lo melhor compreendido de seus ouvintes. nelas a vida se distribui por igual: muito raro se notarão enlanguescimentos aqui a contrastar com transbordamentos de energia além. e Augusto Meyer82 ressalta a circunstância de só no conto das Trezentas Onças haver um traço de paisagem – extraordinariamente belo. 121. movimentando gente ao ar livre. Por essa razão é que. o que na boca do velho campeiro lhe pareceria muito literário. na literatura do tempo de Simões Lopes. Não fazia com eles um todo. toma a palavra por um instante. Depois. que não é fácil apontar-lhes os trechos de maior plenitude de vida. contando os “casos” – e toda a intervenção do autor se opera da maneira discreta de quem procurasse suprir uma ou outra deficiência de expressão do homem rude. que acabara de fazer a poética apresentação do seu herói. com os olhos a se iluminarem da luz de poentes e madrugadas. tratando continuamente do campo. Blau Nunes está mesmo com a palavra. E não é para se desprezar o fato de aparecer essa nota paisagística justamente no primeiro dos CONTOS GAUCHESCOS – como se o escritor. ainda estivesse muito lembrado da função de introdutor. Tem-se a impressão de que Simões Lopes. Retirada da história.

O homem simples quando narra está preocupado apenas com os fatos. De como as longas descrições – de paisagem ou quaisquer outras – enfadam o leitor comum. mais ou menos. e fui-me à água que nem capincho! . conhece os pagos. O que há é que a sua paisagem é assimilada. é prova o costume seu de. ou se refrigerou nas águas do arroio. até para quebrar a lombeira. um bloco. ouvindo o ruído manso da água tão limpa e tão fresca rolando sobre o pedregulho. uma das manifestações mais finas da arte de Simões Lopes Neto. uma sanga ou um fim de tarde: no período em que fala do cansaço de uma troteada. e não douradura vistosamente inútil. ali. à sombra daquela mesma reboleira de mato. Coisa quase inteiramente desconhecida em seu tempo: ele sabia fundir as notas descritivas do ambiente no próprio corpo da narração. desencilhei” (Trezentas Onças).190 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Simões Lopes Neto foi um paisagista. a qual. mas no conjunto – assim a paisagem no contista gaúcho se apresenta constituindo. “– Olhe. Como a verdadeira elegância. Blau Nunes não se detém a derramar períodos sobre uma árvore ou um rio. Não quer diminuir o interesse do conto com a intromissão de acessórios. tive ganas de me banhar. em períodos por onde vai fluindo a ação do conto. diz-nos que descansou à sombra de uma árvore. aquela que não impressiona em minúcias. Do ambiente ele dá só as notações essenciais. Aliás. Sobretudo no caso de Blau Nunes. Semelhantemente nesta outra passagem do mesmo conto: “Despertando. Observe-se que o vago traço de paisagem vem aí como incidente: o que domina é o fato. contadas por um campeiro como são as histórias de Simões Lopes Neto. quando as encontra. seria nelas impertinente o exagero de paisagem. que está nos vendo. na beira do passo. que fala para gente do seu meio. A frugalidade paisagística é... É impregnação sutil. na restinga. a ação: “desencilhei”. pois. com a história. saltar páginas do livro. com o movimento da narrativa.

E no conto seguinte. que parece merecer um lugar ao lado das figuras de carne e osso – Blau.. [a Tudinha] parecia assim um jerivá ainda novinho. lá os pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo. o das guabirobas rasteiras. o areão.. estava como um espinilho ao sol. o João Cardoso do mate.” Em períodos assim. e assim vai fixando hábitos.” Isto se lê nas Trezentas Onças. sobretudo animais e plantas. adiante. num hábito muito do homem do campo. porque sabia onde estavam águas salobres e águas leves.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 191 “Debaixo da barranca havia um fundão onde mergulhei umas quantas vezes. naquela hora. Vejamos logo as comparações com vegetais: “O meu [coração]. animada. o contrabandista Jango Jorge. quando balança a copa verde tocada de leve por um vento pouco. como uma cunha de nhanduvaí abrindo em dois um moirão grosso de guajuvira” (Anjo). noutro ponto. com sabor de barro ou sabendo a limo” (Contrabandista). .. peculiaridades dos bichos. num descampado. várias manchas impressionistas de paisagem: “Conhecia as querências. O Negro Bonifácio: “Alta e delgada.” E noutras histórias: “afundou-se e entranhou-se na massa cerrada do inimigo. indiretamente integradas na ação. estou quase a dizer humana. da tarde. cancha de graxains. faz comparações disto e daquilo com as coisas do seu meio. características e propriedades dos vegetais. no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!. E o conjunto de todas essas notações salpicadas ao longo das histórias – é paisagem: e uma paisagem viva. pelo ouvido: aqui. dentro do peito. acaso involuntária – Blau Nunes. do capim-limão. o velho Leça. o espanhol clinudo. o negro Bonifácio. Outras vezes – e nisso está uma originalidade.. lá o dos trevais. o índio Reduzo. pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo florescido. Até pelo gosto ele dizia a parada. o chape-chape. ocorre surgirem reunidas.

“a mão do Juca Picumã fechou-lhe o braço.). “arrepiado como um lombo de jaguar no cio” (Salamanca).. como cachorro chimarrão (Penar)... de gaudério e teatino. estava a minha guaiaca. “renitente como mosca de ramada” (Mate). ouvindo mais... barriguda” (Trezentas Onças). com luz dentro... “Enredada como os caminhos dum cupim era a furna” (Ibid.” (Manantial).” (Negro). dentro da gente. “frescos e sumarentos como polpa de guabiju colhido ao nascer do sol” (Ibid. trepa. que vendo.).192 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a “muito rico. mas de onça em onça. como pinhão da serra. que só cai uma de cada vez.).. “andava por esse mundo.... o mesmo que jaguatirica por uma árvore acima!..” Em outros: “batendo os dentes. No mesmo conto: “a mais santinha [das mulheres] tem mais malícia que sorro velho!...” (Ibid. de beleza ainda mais estranha: “Os olhos da Tudinha eram assim a modo olhos de veado-virá... “castelhano se desguaritava por essas coxilhas. o mesmo que bandada de nhandu. como tala de jerivá. e ao lado dela. . Viram há pouco a Tudinha comparada ao jerivá. assustado: pretos. corrida a tiro de bolas!. comparações com animais: “em cima da mesa a chaleira.. enroscada como uma jararaca na ressolana. Agora.. que só se descasca de um a um!. como porco queixada... grandes. tímidos e ao mesmo tempo haraganos.” (Anjo). “o coração. Observem nova comparação. como uma garra de tamanduá” (Cabelos). às vezes.. pareciam olhos que estavam sempre ouvindo.” (Salamanca)..

ficou “todo esfuracado: a cara. como uma casca de carumbé” (A Casa de Mbororé). Quando a velha Fermina lhe varejou uma chocolateira de água fervendo.” (Manantial). mal comparando. Outra vez no Negro: “ela ficou como cobra que perdeu o veneno”.. a camisa.. sobretudo.. “era. os braços.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 193 “Dentro desse mato. e mais cheio de cortados do que manchas tem um boi salino”. . a língua pontuda. tinham mais lanhos que a picanha de um reiúno empacador”.. No Angüera: “e foi como cobra que deixa a casca. como boi desnucado.. Justamente porque o boi e. “o negro caiu. há uma lombada redonda. miúdo.. o cavalo são os animais que se acham mais intimamente ligados à vida do campeiro gaúcho. o tirador. . como se vê. as comparações com eles são as mais numerosas: O negro Bonifácio (do conto do mesmo nome) trazia “na cintura um tirador de couro de lontra debruado de tafetá azul. no seu libidinoso entusiasmo pela Maria Altina.” O Chicão. as pernas. de boca aberta. como um pastor no faro de uma guincha.. onde a roseta da chilena tinia. mexendo em tremura uma perna. “O negro urrou como um touro na capa. valente como quê..” Neste último trecho..” Com um bolaço na cabeça.... Simões Lopes Neto refere-se a boi chimarrão.” Novamente nos Cabelos: “Comia como um chimarrão. dormia como um lagarto. Numa briga por causa da Tudinha..” De novo na Salamanca: “que se estendia planchado como um corpo de cascavel em fúria.

um vegetal.” (Contrabandista). como bagual com couro na cola” (Ibid. Não é raro que num mesmo período. indiretamente. “Passados dois dias chegava o Costinha. e os lábios da morocha deviam ser macios como treval.. frescos como polpa de guabiju. lhes sirvam de objeto animais... estejam representados o mundo animal e o vegetal: “toda a alvura daquelas cousas bonitas como que bordada de colorado. – A comparação repete-se em Melancia. “Olhe.194 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a O Mariano. Ou que a comparação tenha o animal como ponto de partida: 83 Ainda é uma descrição da Tudinha. também. “como um parelheiro largado de tronco. e ainda. . Até faz lembrar o Cântico dos Cânticos. “duas presas recurvas. numa série de comparações. e ficará té eu morrer.. de feitios estrambólicos. nunca me esqueço” – dizia Blau Nunes – “dum caso que vi e que me ficou cá na lembrança. dormia como quero-quero. até na mesma comparação. “o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda” (Negrinho). num padrão esquisito... que..). saltou pra diante e de vereda atirou-se no manantial..).. como flores de cardo solferim esmagadas a casco de bagual!.” (Negro). A rudeza ingênua dessa comparação dos seus dentes com os de cachorro novo é de incontestável graça poética.. coisas – um elemento da natureza.. doces como mirim. farejava como cervo e rastreava como índio. abrindo claros num matagal” (Anjo).. grandes como as aspas de um tourito de sobreano” (Salamanca). era como um ventarrão. Por exemplo: “Esse. como unheiro em lombo de matungo de mulher” (Boi).. os dentes brancos e lustrosos como dente de cachorro novo. seres humanos. “Face cor de pêssego maduro.” (Ibid.83 Acontece. a poesia oriental. quando carregava. esse.

e miúdo. É um dos encantos mais puros da fala que Simões Lopes Neto põe na boca do tapejara Blau Nunes. Há também comparações com outras coisas do ambiente.” (Duelo). “era um colmilhudo. Agora. com uma trouxinha na mão apareceu no acampamento uma velha que já tinha os olhos como retovo de bola” (Chasque)... como goela de gringo!. as comparações não raro transbordam do mais vivo pitoresco: “quatro sesmarias de campo.. porém com certas coisas a eles relativas: “e mais conversas por este teor e com mais voltas que um laço grande enrodilhado. “E o tempo ia correndo... estreita ou longínqua.” (Melancia). numa fervura. “A água da lagoa borbulhava toda.).” (Trezentas Onças)... com cada dente como uma estaca. ou com acidentes geográficos – sugestões da vida rural – mais próximos ou mais remotos de paisagem: “Daí a pouco. “derrubou-lhe o facão . e com umas divisas largas.. a presença de imagens assim tocadas de poesia.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 195 “alvejava a brancura de um joão-grande. pegadas umas nas outras... sereno. velho como o cerro do Batovi” (Correr Eguada). .. quase sem mover as asas. como numa despedida triste. ronquejando tal e qual como uma marmita no borralho” (Salamanca). em que a gente não sacode os braços. seguido. “media mais braças que três laços de conta” (Mboitatá). Pitoresco Fora de qualquer relação. vejam-se as comparações não feitas com animais.. com o meio ambiente... como quem empapa d’água um couro lanudo” (Deve um Queijo!.. como água de sanga cheia” (Mate). voando. Atente-se no sentido poético do símile.

Sia Fermina (Negro) não era velha propriamente: “Velha. como o sol olha pra água: atravessando!” (Duelo). é um dizer. Sem faltar. velho de guerra” – pede ao andante que espere pelo mate. ainda. apaixonado.). expressivos e saborosos... porém... “E mal que apertou os pelegos. o negro! No Manantial: “ainda hoje os marmeleiros carregam que é uma temeridade!” Na mesma história há um sujeito que “tinha o estômago frio” e outro.. João Cardoso – “o João Cardoso.” Ante a insolência do castelhano gadelhudo (Deve um Queijo!. exclama Blau Nunes: “Era um governo. . A todo instante ele se acusa..” (Melancia). que vem já: é só “enquanto a galinha lambe a orelha!.. – e foi – que o rei manda marchar. no ar”.” (Mate). a nota poética: “olhava pra gente. não está só nas comparações. no uso de certos modismos populares.. de padre gordo!.” (Contrabandista). “A estrangeirada foi quem ensinou a gente de cá a mergulhar e ficar de cabeça enxuta..” (Ibid. montou. o ar importante do preto Bonifácio. E há mais ainda: “com um olho no padre.196 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a “uma carta grande. fechada com mais obreias do que tragos de vinho tem um copo de missa... Esse pitoresco. de rédea no chão”. porque sia Fermina ainda fazia um fachadão.).. Para traduzir bem a superioridade. não manda chover” (Melancia). outro na missa” (Duelo). “O sorro entrou no galinheiro. o vendeiro “farejou catinga agourenta. que “estava entregue.

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Concordância Silepse
Algumas vezes Simões Lopes Neto emprega a silepse, como neste exemplo: “E que torunas! Cada bicho pesado, criado na pura grama vermelha, ligeiros como gatos, e malevas, de acompanharem o laço, quase cabresteando!...” (Juca Guerra). E nesta outra passagem, com que principia o Artigos de Fé do Gaúcho: “Muita gente anda no mundo sem saber pra quê: vivem, porque vêem os outros viverem.” É a silepse de número, a mesma que se vê nos versos de Camões: “Que gente será esta, em si deziam,/Que costumes, que lei, que Rei teriam?” A mesma que se vê neste passo de Herculano: “Misericórdia!” – bradou toda aquela multidão, ao passar por el-rei: e caíram de bruços sobre as lájeas do pavimento” (Lendas, I, 302.)

Infinitivo
Leia-se O Lobisomem: “Diziam que eram homens que havendo tido relações impuras com as suas comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de suas casas transformados em cachorro ou em porco, e mordiam as pessoas que a tais desoras encontravam; estas, por sua vez, ficavam sujeitas a transformarem-se em lobisomens...” Na Salamanca: “Num mês de quaresma os mouros escarneceram muito do jejum dos batizados, e logo perderam uma batalha muito pelejada; e vencidos foram obrigados a ajoelharem-se ao pé da Cruz Bendita... e a baterem nos peitos, pedindo perdão...” Não faltará quem aponte nos dois casos tremendo solecismo: impessoal é que devia ser ali o infinitivo, dirão.

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Há muita gente simples que ainda se apega com unhas e dentes às regras de Soares Barbosa sobre infinito como a coisas infalíveis. Mas quem lida com assuntos de linguagem sabe que na prática dos bons autores nem elas nem regra nenhuma acerca da matéria fica de pé. E é que essa questão, como tantas outras, estando, como está, sujeita a certas causas de ordem psicológica, transborda, muitas vezes, do puro domínio gramatical, invadindo o terreno da estilística. Assim, é preciso examinar a natureza do contexto em que figura um verbo no infinito pessoal ou impessoal para depois dizer alguma coisa sobre o caso. Said Ali,84 estudando o assunto com a lucidez habitual, afirma que se deve ter em vista “a intenção, o elemento subjetivo”, e que “neste ponto o gramático, não podendo colaborar no pensamento do autor, fica impossibilitado de decretar leis”. Também Sousa da Silveira,85 depois de escrever que, referindo-se o infinitivo a um verbo subordinante (caso dos dois exemplos citados), são preferidas as formas impessoais – note-se bem: preferidas – sustenta que a clareza, a ênfase e a harmonia são de grande influência na escolha de umas e outras de tais formas.86 “O infinitivo impessoal” – diz ele – “é mais vago, mais abstrato; o outro é mais preciso, mais concreto, mais enérgico. Compare-se a vigorosa nitidez, o poder de individuação da frase de Camões: “E folgarás de veres a polícia portuguesa” com o pouco relevo de expressão que teria se fosse feita com o infinitivo impessoal: “E folgarás de ver a polícia portuguesa.”
84 Dificuldades da Língua Portuguesa, p. 103. Lições de Português, p. 338. 85 Vai mais longe Antenor Nascentes, para quem “o emprego do infinitivo pessoal 86 é regulado pela clareza e pela eufonia. Sempre que sem ele o sentido ficar obscuro e sempre que a harmonia da frase o exigir, embora a clareza não o reclame, seu emprego é de rigor” (O Idioma Nacional – Gramática para as quatro séries ginasiais, p. 141). E pouco adiante firma: “Os gramáticos inventaram numerosas regras para disciplinar o emprego do infinitivo pessoal, mas toda essa multiplicidade só serve para fazer confusão.”

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Ora, analisemos os dois trechos de Simões Lopes. No primeiro não é tão fácil enxergar a necessidade de ênfase; contudo, é possível: o autor quer salientar bem as pessoas vítimas da desagradável metamorfose. Se elas se transformassem em qualquer coisa mais comum e menos incômoda, provavelmente não teria aparecido o infinitivo pessoal. No segundo, então, a explicação psicológica me parece facílima. O escritor pretende pôr em relevo as pessoas das vítimas, para assim melhor frisar a gravidade do castigo. Este seria menos forte se aplicado a outrem que não fosse, como os mouros, inimigo tão feroz da religião cristã. É necessário deixar bem claro, o mais claro possível, que foram eles, os mouros, os castigados. Foram obrigados a ajoelhar-se e a bater nos peitos não exprimiria tão vivamente as duas ações. A pessoalização do infinitivo põe-nos mais dramaticamente sob os olhos a cena de humilhação. Quem há que, imaginando ao vivo o desespero daquele velho tupi do I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, quando maldiz o próprio filho a quem suspeita de covarde, não sente que é muito mais intenso, mais expressivo, o “possas seres” do que o normal e sereno “possas ser”: “Possas tu, descendente maldito/De uma tribo de nobres guerreiros,/Implorando cruéis forasteiros,/Seres presa de vis Aimorés.?”87 Para exemplos, remeto o leitor aos livros daqueles dois autores; aqui darei apenas uma meia dúzia: “No que estes quatro notáveis varões mostraram serem mais circunspectos” (Damião de Góis, Crônica de D. João, p. 84); “desta maneira costumam a se tratarem” (Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, II, 381); “o pouco gosto que tinham de se acharem nesta santa junta” (Frei Luís de Sousa, Vida do Arcebispo, I, 195); “que levam jeito de me fazerem hoje meu cadafalso” (D. Francisco Manuel, Apólogos, 137); “pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas lhes imprimira o escultor, escarnecerem da cólera popular” (Herculano, Len87 Não se esqueça que, uma vez atingido esse efeito, o poeta, logo na estrofe seguinte, emprega a concordância comum, estando, contudo, o primeiro verbo bem mais longe do segundo que no primeiro caso.

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das, I, 100);88 “todas as antinomias como que apostam a se conciliarem” (João Ribeiro, Páginas de Estética, p. 65). E mais em: Jorge de Vasconcelos, Memorial, p. 215; Frei Pantaleão de Aveiro, Itinerário, p. 270; Frei Heitor Pinto, Imagem, II, 16, 58; Rebelo da Silva, Contos e Lendas, p. 18; Camilo, Memórias do Cárcere, I, 7; etc.

Regência
A sua regência, não raro, é inteiramente pessoal – mas geralmente apoiada na analogia e dentro do gênio da língua. Muitos verbos aparecem nas páginas dos CONTOS e das LENDAS com regimes que não figuram – mas podem ou devem figurar – nos dicionários. Vejamos alguns deles: “E tais cuidados deu-lhe que a planta pegou, botando raízes firmes e espigando ramos e folhas” (Manantial). Não se encontra nos léxicos espigar, nesta acepção, a não ser como intransitivo. “– Ora, pra quê?... Pra escaramuçar os farrapos!...” (Cabelos). Neste sentido, não está dicionarizado como transitivo o escaramuçar: apenas como intransitivo e relativo. Tanto no Correr Eguada como no Penar de Velhos vemos pronominado o entreparar, que os dicionaristas só dão como intransitivo. No Manantial: “Mas, onde quero chegar” (2 vezes). “de passagem para um destacamento onde ia levar ofícios”. Na Salamanca: “E me levarás onde eu te encaminhar.”
88 Bem mais expressivo é este exemplo, do mesmo livro, e citado por Sousa da Silveira: “Pelas frestas e portas dessa multidão de casas que, apinhadas à roda do castelo e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cinta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nelas, viam-se fulgurar, aqui e acolá, as luzes interiores.”

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Gramáticos ferozes, empunhando os Estudinhos, de Silva Túlio, e uns quantos outros estudinhos, bradam, com esse autor, que “onde e aonde são vocábulos diversos”, criticando a “confusão” feita pelos clássicos. Mas a distinção lógica entre os dois advérbios será coisa tão-só à altura da inteligência dos gramáticos, que somente eles se salvem da confusão? Não me parece. Creio que, uma vez que o emprego de um dos dois com o sentido do outro não se opõe à clareza da expressão, e onde por aonde facilmente se explica por aférese, e o contrário por prótese – figuras de tão largo uso na língua – os velhos clássicos foram empregando os dois advérbios indistintamente, guiando-se, por vezes, pelo efeito que ao estilo pode dar aquele, precisamente aquele, que a rigidez lógica teria de condenar. Dos antigos autores a praxe foi passando aos novos, chegou aos clássicos do século passado, e deles veio para outros escritores, não “clássicos”, porém tão corretos quanto a maioria destes, até os nossos dias. E continua a “confusão”, a que inutilmente se opõem gramáticos ou escritores mais realistas do que o rei. É um fato de linguagem, inelutável. Citem-se alguns exemplos, que poderiam ser multiplicados: “veo ao rio do Ouro, pelo qual sobiu até o porto em que no outro ano forom ele, e Antam Gonçalves, e Diegafonso; onde logo chegarom os Mouros” (Azurara, Guiné, p. 307); “saí logo após ele por ver onde ia” (Bernardim Ribeiro, Obras, II, 83); “Perdido e desterrado/que farei onde me irei?” (Id., ibid., II, 191); “partiu-se o governador pera a porta do estreito, onde chegado, saiu na ilha de Mium” (Castanheda, História do Descobrimento e Conquista da Índia, II, 278); “Onde chegado e vendo Trisbéia a hora foi o coração d’ambos traspassado do seu amor” (Jorge de Vasconcelos, Memorial, p. 140); “mas pode ser que por ir à casa de Bertrando, onde já não vou” (Sá de Miranda, Obras Completas, II, 131); “e chegou onde nunca os exércitos do grande Alexandre, nem nenhuns dos antigos chegaram” (Frei Heitor Pinto, Imagem, II, 136); “Onde, onde assi cruéis/Correis tão furiosos...?” (Antônio Ferreira, Poemas Lusitanos, I, 121); “s’asas tivesse,/

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Com que chegasse onde me tu levantas” (Ibid., II, 104); “pera acudir onde o chamasse a necessidade.” (Frei Luís de Sousa, Anais de D. João III, I, 239); “Vai, filha da ambição, onde te levam/O vento, e os mares” (O Uraguai, pp. 64-65); “Vai onde a levam” (Garrett, Obras Completas, I, 268); “o seu palaciozinho às abas da serra da Tranqueira, onde eu, em criança, tantas vezes subi” (Camilo, Estrelas Propícias, p. 91); “Onde vais tu?” (Machado de Assis, Poesias, p. 160); “Para ir onde ela mora/São caminhos e caminhos/E um dia inteiro a viajar!” (Alberto de Oliveira, Poesias, II, 252); “Ah! se eu tornasse onde estava/Com o luar que então fazia!” (Id., ibid., IV, 69); “Espiando-a no pendor dos boqueirões profundos,/Onde vinham ruir com fragor as cascatas” (Bilac, Poesias, p. 267); “Sem indagar onde me leva o amor” (Vicente de Carvalho, Poemas e Canções, p. 262); “Onde ides a correr, melancolias?” (Camilo Pessanha, Clépsidra, p. 74); “Chegamos onde devíamos chegar” (Miguel Torga, Diário, I, 195). Podem ainda ser vistas novas abonações nas obras citadas de alguns desses autores: Bernardim Ribeiro, II, 87, 159, 177, 191; Antônio Ferreira, I, 140; Camilo, p. 149; Vicente de Carvalho, pp. 86, 280; Torga, p. 9. E mais em: Sá de Miranda, Obras Completas, I, 287; Diogo Bernardes, Obras Completas, II, 177... Por outro lado, não são menos abundantes os casos de aonde por onde. Consulte-se, por exemplo, Frei Pantaleão de Aveiro, Itinerário, pp. 1, 4, 9, 12, 16, 18 e passim; Rodrigues Lobo, Éclogas, pp. 6 (4 vezes), 19, 32, 50, 66, 228 (3 vezes), 231 (4 vezes), 236 (2 vezes), e Corte na Aldeia, p. 233; Frei Luís de Sousa, Anais, p. 234; Antônio de Sousa de Macedo, Arte de Furtar, p. 276; D. Francisco Manuel de Melo, Apólogos, p. 318; Tomás Antônio Gonzaga, Obras Completas, pp. 12, 13 (2 vezes), 157; Basílio da Gama, O Uraguai, pp. 58, 92; Rebelo da Silva, Contos e Lendas, pp. 10, 11, 20, 27, 28 e passim, Latino Coelho, Elogio Histórico de José Bonifácio, p. 187; Machado de Assis, Poesias, p. 205; Gomes Leal, Claridades do Sul, p. 57; Antero de Quental, Os Sonetos Completos, p. 90; Antônio Nobre, Só, p. 44; José Régio, Poemas de Deus e do Diabo, p. 30.

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Às vezes, tanto em autores antigos quanto em modernos, vemos empregados onde e aonde num único e mesmo sentido, em um só período ou em períodos juntos ou muito próximos. É o caso deste passo de Sá de Miranda (Obras Completas, I, 287): “Por estas verdes florestas/onde correm águas suaves,/por aquelas partes e estas/aonde cantam as aves/suas e minhas requestas,/fugindo do povoado/me acolhi para esta serra.” E deste de Domingos dos Reis Quita (Obras, I, 136): “Ah Fido! amado Fido! Céus piedosos!/Aonde, em que lugar chamarei Fido,/Que aos tristes ecos de meus ais responda?/Ah Pastores da Arcádia, dizei onde/Fido dos tristes olhos meus se esconde?/Mas que mágoa, que dor vos emudece! Dizei onde, ai de mim! ..../ ....................../Ah Fido! amado Fido! Céus piedosos!/Aonde, em que lugar ....” E deste, ainda, de Cláudio Manuel da Costa (Obras Poéticas): “Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?” (I, 109). E deste, finalmente, de Machado de Assis (Poesias, p. 207): “Mas aonde te vais agora,/Onde vais, esposo meu?” Note-se: no exemplo de Machado, nem se poderia pensar em recurso de metrificação: tanto aonde como onde estão contados como duas sílabas; logo, se o poeta considerasse aonde a única forma correta, nada mais fácil do que repeti-la. Porém não: Machado, lido nos clássicos e dotado de agudo sentimento da língua viva, sabia bem que ambos os advérbios eram ali aplicáveis, e utilizou conscientemente um processo de variedade dentro da repetição. Nem há de ter sido ditado por simples necessidade métrica o aonde de Reis Quita e Cláudio Manuel. O caso funda-se em razões de ordem estilística, bem mais importantes. A condição de dissílabo paroxítono tira ao onde muito da sua força expressiva quando ele se acha metido entre duas pausas, em orações interrogativas, ou quando a ele se reduz toda a interrogação. O efeito da sílaba tônica inicial, brevíssima – uma simples vogal nasal – é repentino, e dilui-se bastante em conseqüência da sílaba átona final seguinte. Ora, em determinadas circunstâncias – e

entregue a essa preocupação. depois do onde que inicia período ou subseqüente a uma pausa. um ou mais vocábulos. Então o onde firma-se no a. Nesse cuidado com o ser ausente. e o próprio andar do pensamento do namorado à procura dela. ou para a última delas. o poeta. Se vem depois do onde. Cláudio pergunta a Nise: “onde estás?”. Se. apresentando-se. A idéia do partir. deslocando-se a pausa do período. O a como que sugere um pouco do errar do pensamento. angústia que cresce de ponto no on tristonho da sílaba tônica. alguma palavra. através desse a. Nessa dilatação do . ao espírito. predominando sobre esta. a fraqueza do onde arrima-se neste ou nestes vocábulos. daquela indagação aflita. nessa procura ansiosa. permanece viva no espírito.204 Auréli o Bu arqu e de Ho landa F e r r e i r a é bem o caso dos versos desses dois poetas – há uma singular inquietação. e coexiste com a do lugar onde ele se encontra. existe outra pausa – sobretudo se esta constitui o fim da interrogação – o onde mostra-se fraco para exprimir aquele estado angustioso de que há pouco se falou. da viagem do ser amado. viaja na direção desse impreciso além. inesperada. e reforça-se por meio dela. assim. e parece atenuar-se em mágoa resignada no de átono final. para aquela única palavra seguinte ao onde. com intensidade bem maior. o chamado acento oracional. Onde está? Aonde foi? O pensamento espraia-se. o onde recosta-se ao vocábulo vizinho. nele se apóia. a regiões longínquas. para condensar a forte onda súbita. Mas logo depois. aonde ou para onde ele foi. a alma viaja a distâncias. não precedido de pausa. quando houver mais de uma. a ida de Nise. no espírito de quem debalde pergunta pelo ser querido e ausente. a esta ele se acosta. ânsia. porém. no qual repousa o acento oracional. que encerram a interrogação. não antecedida de pausa. aí. pensa mais no lugar onde ela se encontra. angústia. da angústia da procura. seguinte. e o onde é fraco para receber a repentina carga do acento oracional. Assim. Também se antes do onde vem. como que se lhe representa a viagem de Nise para longe: aonde foi Nise? – e a interrogação que se segue – “aonde? aonde?” – sugere bem.

até. a direta seria preferível.. sobretudo talvez os brasileiros. colhidas na Salamanca do Jarau: “E no tranquito andava. como nestas passagens. condenado fui. que vê sem resposta as suas interrogações lamentosas. E nos versos de Reis Quita: Fido é morto.” “Talvez deitado estivesse entre as carquejas. e o poeta. À idéia. Mas em alguns casos o escritor tira da construção inversa os mais belos efeitos. traduzindo matizes psicológicos infinitamente mais importantes que as acanhadas convenções muito rigidamente gramaticais. sem maior explicação. em Simões Lopes predomina nitidamente a ordem direta. Cruzam-se duas idéias: Onde chamarei Fido? e Aonde irei chamar Fido?. como essa idéia de deslocamento já está suficientemente expressa. Mas depois. Isto não quer dizer. sem maior significação. que não use freqüentemente a inversa quando qualquer das duas ficaria bem ou.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 205 onde em aonde como que vemos dilatar-se a própria aflição do poeta. pergunta aos Céus “em que lugar” – onde – deverá chamá-lo de modo que o seu apelo tenha resposta. Desta maneira se varia admiravelmente o estilo. Citados assim.. No Penar de Velhos encontra-se: “nas lágrimas que dos olhos lhes caíam”. esses trechos não podem dar idéia do valor da ordem inversa.” “Fui sentenciado. Poder-se-iam apontar outros exemplos assim. do lugar onde o poeta deverá chamar o amigo associa-se logo o pensamento de ir a este lugar. mas no conjunto assumem singular im- . daí o “Dizei onde”. e o onde pode acostar-se à palavra anterior. já não é necessário o aonde. porém.” “outro mais ruído nenhum”. olhando. porém.. prevalecendo a última. Colocação Como em geral nos modernos escritores. que em vão clama por ele.

e a combinação dele com as duas palavras anteriores. Já não é tão comum. vista aguda e ouvido fino”? Aqui é o próprio Simões Lopes Neto quem fala. descabido e excrescente. Esse uso do haver auxiliar sem o regime do de enraíza-se na língua antiga. Vê-se na Salamanca: “esbravejando se soltasse o padecente”. desempenado arcabouço de oitenta e tantos anos. Elipse Nas páginas de Simões Lopes Neto aparecem constantes as elipses. Será do próprio Simões Lopes – influência de leituras – ou apanhado na conversa do guasca. procurando o autor com a primeira firmar vivamente no espírito do leitor certos fatos centrais. de mistério. nos CONTOS GAUCHESCOS. Nenhuma novidade na ausência do que. e este defeito agrava-se com a presença do como. ou colhidas na língua viva do povo.” Aqui.206 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a portância. A elegância da elipse nos . que dá em resultado o “mais que como”. na fala do “benquisto tapejara Blau Nunes. a falta de preposição de neste passo: “havia se ver o jeito a dar”. A técnica da Salamanca funda-se muito nos recursos da repetição e da inversão. é por de mais forçada. mais que como num temporal desfeito das nuvens carregadas cairia. ou puramente literárias. todos os dentes. apresentando o seu herói. Sobretudo o começo é uma estupenda preparação do espírito de quem lê para o clima que vai respirar. com a segunda imprimir à narrativa um certo tom coleante. Só uma vez na Salamanca a inversão é de mau efeito – no período seguinte: “O cordão coriscou por sobre ela uma chuva de raios. tão característica daquela história. porém. e é pouco freqüente na moderna – sobretudo na falada. e com ambas adensar a zona de sombra.

o que já é muito significativo./encostado no braço de um tenente. 129. & a postura/Medonha e maa. Obras. capuz branco. IV.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 207 recorda aquilo de Camões na apresentação de Adamastor: “O rosto carregado.. 276. pp. 54./A boca negra. ibid. 587. corda ao pescoço”). em grande uniforme. 235. em Bernardim Ribeiro e em Antônio Prestes. lá os diviso. os dentes amarelos.”94 – e chega aos nossos dias. alva longa./cercado de infeliz. mãos amarradas.90 Continua pelo tempo afora: aparece num Frei Luís de Sousa. 277. 6.91 em Nicolau Tolentino: “A longa cabeleira branquejando. 54. E vem de mais longe: está. p. 89 Os Lusíadas. f. os cinqüenta fuzilados de Cuba. 221. e sim uma tendência sintática não menos própria da nossa língua que da francesa. Ver Epifânio Dias. 90 Id.. Nada importaria que se tratasse realmente de francesismo. c. Narciso Lopes./ia passando o velho venerando. 86. & a cor terrena e pálida./Quando. Sintaxe Históri92 ca Portuguesa.. p. sequinho. Viram que ela se apresenta em Camões. p.93 Antônio Nobre (“Pudessem suas mãos cobrir meu rosto. mas.92 em vários outros autores contemporâneos desses. tão bom é o efeito que transmite ao estilo a omissão da preposição em casos tais. 94 . chorosa gente. a barba esquálida:/Os olhos encovados.”89 Farejadores incansáveis de galicismos têm encontrado jeito francês nesse tipo de elipse. por exemplo. Sintaxe Histórica Portuguesa./Eu me for viajar para o Sol-posto. V. – Ver outro exemplo desse autor em Epifânio Dias. Um dos autores deste século que mais a usam é Euclides da Cunha: vejam-se Os Sertões./Fechar-me os olhos e compor-me o leito.”.. 93 Despedidas. 91 Sátiras. as mãos em cruz no peito. p. sob o comando de D. na verdade. não existe aí galicismo./Cheos de terra & crespos os cabelos. 16. em escritores do século XIX – João Francisco Lisboa (“Na vanguarda dos mortos.

34 (2 vezes). o sentido apresenta obscuridade.100 Escreve Said Ali101 que a omissão de uma palavra necessária ao sentido da frase “é comum em nosso idioma quando se descrevem partes do corpo. por exemplo.. p. 240-323. não pode proscrever-se de modo absoluto a construção com a partícula omitida. Poesias Completas. p. E abona a afirmação com uma passagem do episódio de Inês de Castro (Os Lusíadas): “Mas ela os olhos com que o ar serena/.” E lembra o exemplo já citado dos Lusíadas.95 Empregam-na poetas como Bilac. 39. porque. Poesias. outra de Frei Luís de Sousa – a mesma citada por Epifânio Dias – e mais duas. pois bons autores praticam a supressão em casos semelhantes.97 Alphonsus de Guimaraens.. Poemas e Canções. Angústia. /Na mísera mãe postos”. mas também noutros casos – como se viu. 95. 189 (2 vezes). pp. Evidentemente é galicismo traduzir. pp. 155. 92.208 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a e as suas outras obras. Não somente quando se descrevem partes do corpo. “il resta les yeux bas” por: “ele ficou os olhos baixos”. p. 64. 190.96 Vicente de Carvalho.98 Empregam-na. 85. de Herculano e Antero de Figueiredo. pp. afora o mais. 52. Poesias. 69. A pessoa que fala conta naturalmente com a inteligência do ouvinte para suprir o que falta. autores da importância de um Manuel Bandeira99 e de um Graciliano Ramos. o seguinte trecho. acrescente-se. Novo Dicionário de Dificuldades. entre os vivos. Mais significativo ainda me parece.. pp. copiado das Trezentas Onças: 95 96 97 98 99 100 101 102 Crepúsculo dos Deuses. . Meios de Expressão e Alterações Semânticas. 47. E Vasco Botelho de Amaral:102 “Com (sua omissão). p. Todavia. como caso de elipse. Serve-se dela um grande conhecedor da língua como João Ribeiro.

põe a segunda em maior relevo. em tudo.” À primeira vista. ele é tudo. e esse vago. separando mais fortemente que a vírgula as duas orações do período... é sujeito e é verbo. seu rival: “– Mata! Eu não pude!. o silêncio. em tudo. como senhor sem contraste. porém.” Advirta-se.103 Bem curiosa a elipse em passagens como esta: “de meio assombrado [que eu estava] me fui repondo” (Trezentas Onças). o efeito do ponto-e-vírgula. este “silêncio grande” invade livre a estrada deserta e a nossa imaginação. ocupando uma zona que a dura lógica da gramática não chegou a preencher. . no conjunto da narração. parece tratar-se.” (Manantial).. E ainda mais no trecho seguinte. as elipses que mais me agradam em Simões Lopes Neto são algumas bastante características do linguajar do 103 Note-se também. já de si tão misterioso. em que o Chicão se consola de não ter conseguido possuir a Maria Altina. pela certeza de que isso também não será dado ao furriel. Apodera-se da frase onde não há verbo. mas espraiando-se nos longes daquela indeterminação. Tratar-se-á de elipse do verbo haver ou. e um silêncio grande. Ele. mas o furriel também não há de!. que o autor descreve. ou de outro parecido: “E [reinou] um silêncio grande. vê-se que talvez não seja isto. de um modo geral. que neste caso a elipse é de uma palavra indeterminada (reinar ou outra de sentido semelhante. Aparentemente apertado no reduzido espaço real das palavras. aqui. essa flutuação. como já disse).. de reinar. Até a vírgula após o “grande” concorre para esse resultado. Porém. mais provavelmente. estudando atentamente o período.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 209 “Foi caindo uma aragem fresca. Mas. de zeugma: subentender-se-ia a repetição do “foi caindo” em seguida ao e. de passagem. como que dá maior majestade ao silêncio. cria sem dúvida um halo de mistério em torno do silêncio de boquinha da noite.

. de bom fundo clássico: “Com o muito cansaço e sofrimentos” (Mãe Mulita). 157. olhos. está no mesmo caso daquele “Se a tanto me ajudar o engenho e arte”. muito elegante. 192. de pressa. de Alberto de Oliveira105 para evitar uma enfiada inútil de exemplos. do seu nariz e ouvidos” (A Mãe do Ouro). Foi o quanto eu me atirei pra trás e me acoc’rei perto dos cavalos” (Duelo)./teu porte e aspecto”. fez uma inclinação de cabeça ao coronel e caminhou pra cá. do “corria pelo sacratíssimo rosto. A omissão do fazia depois de “mal” aviva extraordinariamente o sentido de rapidez. a tua majestade. O “mal isto” parece trair a pressa nervosa do bagual.104 ou deste “teu ar. “olhos” e “ouvidos”. Poesias. haja vista a seguinte: “então o gaúcho desenredava as boleadeiras e assinalava e mal isto. e do possessivo antes de “caminho”. num abrir e fechar de olhos. Como que se vê muito mais nítido o gaúcho acabando de desenredar as boleadeiras e assinalar – e. 104 105 Trabalhos de Jesus. e pescoço do Senhor”. “em sua frente e caminho” (Salamanca). Veja-se esta maneira de empregar o quanto: “Depois o general tornou a pegar da espada. orelhas. “do seu corpo.. da sua boca e olhos. II. embora de legítima feição literária e gramatical. já o bagual se aprumava” (Correr Eguada). É bem do gosto de Simões Lopes Neto – geralmente nas LENDAS DO SUL – certo tipo de zeugma. A ausência do “muito” antes de “sofrimentos”. I. o bagual aprumando-se. na transição entre as ações do gaúcho e a do bagual.. de Frei Tomé de Jesus.210 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a homem do povo. de Camões.

E em outros contos. imediatamente.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 211 Esse uso imprime à frase uma grande condensação. a omissão do verbo não diminui a clareza. a explicação do fato é a seguinte: como. no adagiário. etc. na Salamanca.106 A certa altura do Boi Velho se lê: “tal e qual como uma pessoa penarosa”. por exemplo. Pleonasmo Numa associação de idéias por contraste. este se atira para trás e se acocora perto dos cavalos. a frase se encurta. É um dos traços reveladores do fundo ao mesmo tempo clássico e popular da sua prosa: a tendência ao pleonasmo é muito da língua antiga e persiste viva na linguagem do povo. a instantaneidade destas duas últimas ações. Normalmente se diria talvez assim: Foi o quanto bastou para que eu me atirasse para trás. alguns de sabor claramente popular. assumindo a que devia ser a principal o papel de simples complemento circunstancial de tempo: “foi o quanto” = logo. . outros resultantes de influência literária. e aumenta a vivacidade. Já o pleonasmo-figura anda abundante pelas suas páginas. Uma vez que a expressão foi o quanto bastou é bem conhecida – pode-se dizer: uma frase feita – e o sentido é fácil de perceber pelo conjunto. em expressões jurídicas estereotipadas. também. quebra-se o nexo lógico do período. logo que o general inclina a cabeça e caminha em direção ao contador da história. Desaparecido o verbo. 106 Uma destas: írrito e nulo. para melhor pintar a rapidez. faz-se rápida. Ao que me parece. some-se o conectivo – para que – e o que devia ser uma oração subordinada passa a oração absoluta. da elipse chega-se ao pleonasmo. O período ganha extraordinariamente em dramaticidade o que perde em rigidez gramatical. O pleonasmo vicioso praticamente não existe em Simões Lopes Neto.

usado por Gil Vicente: “seus olhos resplandeciam/como estrelas igual” (Obras Completas. sem o emprego do “não”. I.” (Salamanca). CCLV. 57. defendendo [= proibindo] que se não sacrificasse mais nele. em sentença afirmativa. nem os próprios santos que vinham. Experimente-se a supressão da negativa.. v. o valente Dargo. o qual./Nem casar nam vejo eu/por virtudes a ninguém. f./Ninguém nunca jamais não viu as costas” (Obras Completas.). assim. v.” . 143). f. “Porque no nosso lugar/nam dam por virtudes pam. e Garrett chegou a escrever isto: “Dargo. a força negativa do nem distante. E por quê? Vê-se bem: porque entre o sujeito – “santos” – e o verbo – “sentiram” – medeia uma oração – a subordinada “que vinham”.” (Obras Completas. determina uma pausa antes deste. desse redobro da negação: “E a mesa de meu senhor/iraa sem ave de pena? – Quem? e vós sois comprador?/pois nem grande nem pequena/nam matou o caçador.). XXXVI.” (Ibid. v. só no último. tende a apagar um tanto o caráter negativo deste verbo. f. lê-se (p. no que parece ter sido imitado por Machado de Assis no Brás Cubas: “Se nunca jamais ninguém não viu estarem os homens a contemplar o seu próprio nariz?” (p.212 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Coisa semelhante a isso é o igual como. de Barros. nem os frades de bordo desconfiaram.). Nos Panegíricos. sobretudo. porque nem os navios se afundaram. A interferência do “vinham”. 157): “Mandou cerrar o Templo de Salamão.. Agora o reforço da negativa: “E devia ter mesmo muita força o condão.107 107 Nunca jamais é correntíssimo em clássicos antigos e modernos. Dois exemplos. v. E um de João de Barros: “nem todos que insinam ler e escrever nam sam para o ofício que tem” (Diálogo da Viciosa Vergonha. em Gil Vicente. 141). Considere-se a arte desse reforço. quebrando um pouco o andamento da oração principal e amortecendo.). como. A presença dela não somente separa muito o sujeito do predicado. e veja-se o resultado.. XXXVII. a quem na guerra. f. O autor não se serve dele nos dois primeiros casos. não sentiram. ficaria encostado ao “sentiram”.

Scriptores. e lágrimas” (Poemas Lusitanos. 32). de Frei Heitor Pinto (I. e pranto!” – encontra-se nas Obras Completas de Diogo Bernardes (II. 19): “Em cada parte eram ouvidos choros. apenas através da grande janela que a alumia entrava uma luz frouxa” (Herculano. Simões Lopes Neto deve ter ouvido isto. Historica.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 213 Leio na Salamanca: “E aquela saudade parece que saiu para fora do meu peito. E tenham-se em vista estes exemplos: “Torná-la-ei a afogar/despois que ela sair fora/da igreja” (Gil Vicente. . lágrimas e choros das mulheres. 13. João de Barros. Obras Completas. 149. e nos Contos Populares Brasileiros.” E Antônio Ferreira: “Não se ria em ti nunca. I. que era piedosa e mui triste cousa pera ver” (p. 108 Apud José Joaquim Nunes. 77-78. “Quando el-rei entrou dentro daquela espantosa casa. A expressão também aparece na fala de um homem rústico. XLI. e pranto em todos.” Lembre-se bem o que já ficou dito sobre a Salamanca. 100). nem s’ouça/Senão prantos. minha nega!” (p. p. f. Lendas. Crestomatia Arcaica. como tantas outras coisas. 255). João: “E sobretudo cos prantos. à p. de Lindolfo Gomes (p.” Damião de Góis. prantos e lamentações. pp. Cruz de Coimbra”. na Imagem. 11). e IV. personagem de um dos contos dos Ermos e Gerais. Na “Vida de Telo e Notícia da Fundação do Mosteiro de S. escreve Garcia de Resende: “Levantou-se tamanho choro. 19). v. Na Crônica de Dom João II. Que “as mulheres desataram num pranto de choro” – lê-se no Penar.108 está: “Oo quanto seria longo de contar o planto e choro dos religiosos e irmãos e dos cônigos por dom Telo”. 30 da Crônica do Príncipe D. E mais: “sobe(m) para cima”. 200). nos Panegíricos (p. 300).). II. “Que nos deixaste cá em choro. in Portugali Mon. na boca do povo. de Bernardo Élis: “Largue desse pranto de choro.

ouvi bem ouvido.). e chorar. inteiro e todo!” 109 Sabe-se que são formas clássicas ambos de dois (Camões. se do seu amor. o Anjo da Vitória. 110 C. escreve Lacerda: “Chorar é derramar lágrimas: ‘Também nascem chorando os reis’. f. c. e o tornaram a despir nu. 318). e golpes no peito” (Magnum Lexicon). 102). patentemente. dos Lusíadas. etc. de D. – Prantear é soltar vozes queixosas. 82. “Prantear significa palavras. na parte de Sinônimos do seu Dicionário. II. 74). “Pranteou o morto com tantas mágoas”. O Monge de Cister. V. ambos os dois (Herculano. II. escreve João Ribeiro: “Quaresma póstuma. como de antes” (Trabalhos de Jesus. E notem-se estes sentidos latinos de planctus: “o bater no peito em sinal de grande aflição. chorar significa lágrimas. Lê-se em Frei Tomé de Jesus: “Por isso arremeteram a ele em se começando a vestir. dirás. “soltar vozes queixosas”. IV. parece bem clara no seguinte passo de Diogo Bernardes: “Os dous tristes pastores sospirando/A língua ao prãto dando. 99. VI. Essa distinção entre prantear. 127). “derramar lágrimas”./Querem pagar o foro em mágoa. Em sua História de São Domingos (I. Francisco Manuel (p. gritar ainda e forte – Viva o Imperador! Carrega!”? Na Salamanca: “E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se das riquezas. aliás. que nestes casos talvez nem sempre se trate de pleonasmo.”. dó. e muitas outras. 9).214 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Lembre-se. c. o velho macota. mas porém (Camões. I. acaso acompanhadas de choro. e perene”.” Bernardim Ribeiro nos depara um “e porém contudo” (Obras. 13). morto como estava. fala-nos Frei Luís de Sousa de “milagre perpétuo. que eu queria só para mim. em dor/À vida que na flor viram cortada” (Obras Completas. que eu não queria que fosse senão meu. olhos ao choro. “Mas os médicos todavia são mais cruéis para mim. mas entretanto quaresma devida e paga. . “o pranto com gritos. v. Nas Cartas Devolvidas (p.” Vieira. “Agora est’hora” acha-se em Gil Vicente (Obras Completas. v. f.109 Quem não se lembrará daquele “Vi claramente visto o lume vivo/Que a marítima gente tem por santo”. f. 156). 300).110 ao ler no fim do Anjo: “e ouvi. & para o mundo todo”: isto é dos Apólogos Dialogais. p.” Vieira. Os Lusíadas. Os Lusíadas. XC). Couto.

Falando pela boca de Blau Nunes. “e lá vinha.. e ela.. Dele se observam nos CONTOS GAUCHESCOS os seguintes exemplos. uma cabeça de vaquilhona. e a vela que um crioulo trazia apagou-se. entre vários outros: “ele era um perdidaço pela cachaça e pelo truco e pela taba” (Negro).. no mesmo lugar.. Estreitando a relação entre as partes do todo sintático e comunicando ao discurso maior vivacidade.. com o mesmo sentido da primeira parte em itálico. e uns beijus e umas manapanças.. de tirão seco... Simões Lopes Neto o emprega com regular freqüência e muita segurança...Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 215 O período é de natureza singularmente enfática. e ela veio acompanhá-lo até a porta.. e para rebater tudo.. dão vida e graça ao discurso – é o polissíndeto.. bem mais que as riquezas.” (Manantial). “tudo aquilo treme e bufa e borbulha..” (Boi). e mogango e canjica e coalhada. calada. de naco bem cochado e forte. vê-se o “eu não queria que fosse senão meu”. Além do pleonasmo “inteiro e todo”. calado.. e como ventava forte... As . Espécie de pleonasmo – e dos que. mas reforçando-a.. A sucessão de coordenações é ditada pela natureza mesma do período. para mostrar que.” (Melancia). o e assim repetido solicita melhor a atenção do leitor para o desfecho..” (Contrabandista). “E ajoelhou. “Um churrasco escorrendo sangue e gordura e salmoura. onde ele montou a cavalo.... umas tragadas dum baio. até a ramada. uma paleta de ovelha.. o caso mais expressivo: “E como a despedida foi de noite. porque ele tocou a trotezito.... e um trago de cana e um chimarrão por cima.” Aqui o polissíndeto nada ou quase nada tem de simplesmente ornamental.. parece que houve a roubada de uma boquinha. o herói da história queria o amor da teiniaguá. uma tripa grossa assada nas brasas. no mesmo conto. E agora.. e caiu. toda a traquitanda dos pratos e copos e garrafas e restos de comidas e caldas dos doces!... intensificando-a. para o roubo do beijo.... ou pela sua própria.. e morreu. ficou como entecada. bem usados.

feitos com a cera virgem das abelheiras da serra.” Como o tremor do padre se prolonga através desses tês e erres assim reiterados! Temos aí a harmonia imitativa. e dizia as palavras do missal. e bem balançar o turíbulo.. e dobrar a finados. na quina do altar. que acendem frêmitos de curiosidade. Aliteração É para notar o efeito da aliteração no trecho seguinte. e. Porque se a língua escrita não é nem deve ou pode ser. lomba acima. e bem tocar a santos.216 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a reticências servem à maravilha para contrastar a marcha natural do período. sugere admiravelmente o coxear da personagem. apurando o passo. A cadência do período seguinte. determinando breves paradas maliciosas. sincopada e igual. estradinha afora. à direita do padre. e nos dias de festa sabia repicar o sino e bater as horas.” (Salamanca).. conseqüentemente. dois degraus abaixo. Das LENDAS DO SUL limitar-me-ei a citar um caso de polissíndeto: “Sabia bem acender os círios. um pouco renga” (Manantial). da Salamanca: “O padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e trôpego marchou para o povoado. por outro lado o empenho em fugir dela a todo custo pode induzir a defeito pior: à quebra da naturalidade e fluidez. uma velha: “E foi andando. Repetição A repetição é um dos muitos problemas do homem de letras consciente do seu ofício. a uma hirta desumanidade da expressão. fazendo ondear a fumaça cheirosa do rito. a reprodução da . Se a despreocupação de evitá-la acarreta ao estilo monotonia e frouxidão.

na cintura um tirador de couro de lontra debruado de tafetá azul e mais cheio de cortados do que manchas tem um boi salino! “E na cintura. Escritor modelar neste ponto – como em tantos outros – é o nosso Machado de Assis. aqui. com o nó republicano. então o livro estaria cheio de coisas semelhantes – e. Ele em geral sabe quando e por que repete. tem mão segura no dosar a repetição – homeopaticamente ou em grandes porções. mesmo em casos normais. . Este. A repetição viciosa é quase inexistente em Simões Lopes Neto. um pobre campeiro. se faz a aproximação de dois escritores de índoles tão diversas como o autor de Brás Cubas e o dos Contos Gauchescos. Cito um exemplo – e talvez seja impossível acrescentar-lhe meia dúzia. Ainda não se tratando da repetição enfática (isso é outra coisa). como aquele. Há quem o tenha censurado de repetir abusivamente.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 217 linguagem falada. depois de percorridos os seus dois volumes de ficção: “no pescoço um lenço colorado. que não deve ser violada sem mais nem menos. atravessado com entono. E a tendência de uma à riqueza de sinônimos não deve distanciá-la muito sensivelmente da inclinação da outra para insistir demasiado nos mesmos termos. esta serve àquela de fundamento. de conta” (Negro). Vê-se logo que o segundo “na cintura” é perfeitamente ocioso. E se houvesse intenção em casos como o do último trecho citado. Ora – poderá lembrar alguém – nisso não há defeito. E mais uma vez. de ponto de apoio. sobretudo na ficção ou na linguagem didática. Mas já foi assinalado – e os numerosos passos transcritos o confirmam plenamente – o perfeito acordo. ao acaso das circunstâncias. como disse. um facão de três palmos. que constitui a prosa de Simões Lopes Neto. Tolice. pois a história é posta na boca de Blau Nunes. verifica-se não raro uma tendência à reiteração de certas palavras. o feliz compromisso entre a linguagem popular e a literária. é precisamente o contrário que se dá.

pois o pai estava chegando e o seu vestido branco.. pois com ela se acende a atmosfera trágica do conto. sem saber por quê. que o riso não alcançava sufocar.). começou a rir.. decerto. pra mostrar que estava contente. lhe trouxera as lágrimas. olhou. com uma ilha de palmital.218 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Intencional é.. o contrabandista Jango Jorge. que carregava os papéis dele e as armas dele” (Ibid. rindo e chorando. quando alguém gritou do terreiro: “– Aí vem o Jango Jorge. no meio. como estava. com mais gente!.” (Salamanca). sim. e ficou calado. Ressoavam cordeonas e violas e uma caixa de música. “A rir. “Foi um vozerio geral. rindo na boca. E a repetição traduz magistralmente essa alternativa de riso e pranto..” (Contrabandista). a moça porém ficou. A moça ia casar-se nesse dia. Um vago pressentimento. pronta para dançar três dias seguidos. “E calado saiu” (Chasque). as suas flores de noiva. agouro do desenlace trágico. larga e funda.. isto sim. Outro caso: “No cortado da cidade onde eu vivia havia uma lagoa. . a repetição artística.. rindo e chorando. que rolavam devagar dos olhos pestanudos. O noivo saiu do quarto. A noiva é que não aparecia. É um dos processos mais evidentes e fecundos da sua arte: “Pois o velho olhou. “E rindo e chorando estava. e ela. “todo no trinque”.. e não se perdia tempo – consumia-se vastamente o amargo e o licor de butiá. no quadro da porta.. mas também a chorar lágrimas grandes.. “era eu que encilhava-lhe o cavalo. para dar mostra de alegria.. tão abundante no grande escritor.. a multidão de convidados enchia a casa.. Havia uma lagoa. que dormia atravessado na porta do quarto dele. pois o pai. como se viu. Esta repetição é excelente... cada vez menos sem saber por quê. “[a noiva] pôs-se a rir pra nós.. sem saber por quê.. o seu véu. nada de chegar com o seu vestido e demais aprestos do casório. Foi quando correu que ela estava chorando.

“A lua ia recém-saindo...... ali na entrada do rincão. que por só pabulagem gostava de paletear.. “Gaúcho valente que era dantes. mas que só tinha de seu um cavalo gordo.. “De mão feliz para plantar. ao comprido das canhadas........ muito longe. mas......... olhando. quando cruzava o facão com qualquer paisano. pois então!... o facão afiado e as estradas reais. . agora.. no Butucaraí..... agora..... ainda era valente... mas. “No atraso das suas cousas.... quando gineteava mais folheiro. “E no tranquito andava...... “Hora de agouro........ olhando para o fundo das sangas.. que lhe não chochava semente nem muda de raiz se perdia. num redepente... e Blau ia campeando... para o alto das coxilhas.. um gaúcho pobre. às vezes. e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal floria.. era mixe e era azeda. firmava mais a vista em torno.. o ferro da sua mão ia mermando e o do contrário o lanhava... por isso o campeiro às vezes alçava-se nos estribos e...... mas.. e foi à boquinha da noite....... dava a praga em toda..... ainda era plantador.. um dia.. estava conchavado de posteiro........ “No tranquito ia.. onde a arte de repetir se revela da maneira mais perfeita é logo no início: “Era um dia.... que benzedura não vencia. não aparecia. nele.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 219 Repetições assim há muitas nesse conto...... quando a semeadura ia apontando da terra.. no atraso das suas cousas.. de nome.. “Campeando e cantando: ... pra lá.. de mão em pala sobre os olhos. campeando.. cantando... guasca de bom porte..... “Domador destorcido e parador.......... agora. porém.......... e nesse dia andava campeando um boi barroso.. talvez deitado estivesse entre as carquejas – a carqueja é sinal de campo bom –... crioulo daquela querência. tanta. desde o dia em que topou – cara a cara! – com o Caipora num campestre da serra grande. Blau...... era volteado.... mas o boi barroso. e pensando na sua pobreza. ainda era domador.. e quando dava fruta.....

.. mas no tom dos três períodos que precedem o último: “Gaúcho valente . Reticências Não há como fugir a esta verdade: o autor dos CONTOS GAUCHESCOS abusa das reticências.220 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a “E assim.”. com vantagem para o estilo. as cousas corriam-lhe mal.. por esse teor... O efeito que o autor pretende atingir com eles deve antes resultar do conjunto da composição. esse raramente me parece indispensável. nesse mesmo passo. podem muitas vezes ser dispensados. ainda era domador. agora. Do ponto-e-vírgula ora elas vêm à frente. Campeando e cantando”. Creio que tais sinais. da sua arte literária.. sendo. do que se impor à custa daquele artifício. sobretudo ponto-e-vírgula ou ponto exclamativo. Outro aspecto da repetição.” Aqui a repetição serve admiravelmente para suscitar aquela atmosfera misteriosa da lenda. de nome. não se impondo como necessidade da respiração... Por que tantas suspensões de pensamento ou tantas admirações? Então o emprego conjugado dos dois sinais.. agora. encontra-se naquele eco de tão belo efeito – “campeando.. Se o escritor os distribui com .. Note-se que a repetição existe não só nas palavras sublinhadas. campeando. mas. agora. campeando. O abuso deles desvaloriza-os.. mas. mas.. ora – o que é menos comum – atrás. Mas há que limitar o seu uso aos casos estritamente necessários.”. “De mão feliz para plantar . como são. Não sou dos que têm o tolo preconceito contra as reticências ou a exclamação. Blau. ainda era valente... psicológicos.. e pensando nelas o gaúcho pobre.”.. “Domador destorcido e parador . Contam-se pelos dedos as páginas de seus livros em que elas não aparecem – e quase sempre mais de uma vez numa mesma página – sozinhas ou em companhia de outro sinal de pontuação. sem topar coo boi barroso. ia. ainda era plantador. ao tranquito....

. muito longe... tremiam sobre as pestanas. que o leitor se reporte ao conto a que eles pertencem para. como um pingo d’água perdido. e o marco da exclamação impõe ao espírito uma ligeira trégua para o êxtase ou o assombro. o sol subindo sempre. na barranca do riacho.” (Trezentas Onças). momentos em que o contista gaúcho alcança grande resultado com o largo uso das reticências.... Há. ao meu lado.. olhei para diante e vi. E no Manantial: “Depois desse estropício.” É de vantagem.. Pois me vieram lágrimas. tudo ficou como estava: tudo no sossego. dilatando pelo casamento dos dois processos a intensidade dramática da narrativa: . o zaino relinchou lá em cima. “No refilão daquele tormento.. a presença dos três pontos logo sugere a intenção velada. o descomedimento. ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto. que nem mosca nem formiga daria com ele!. Assim notará melhor quanto ficam bem ali as reticências e como já não são de tanto efeito quando combinadas com a exclamação – no fim de cada um dos períodos citados.. algum inhé de sapo ali perto. nuvens brancas correndo no céu. Agora. veja-se que partido sabe tirar Simões Lopes Neto do emprego simultâneo das reticências e da repetição... pios de perdiz..” (Ibid. uns latidos. no caso destes como no de vários outros passos transcritos.. e logo. como gateando. no arranco do galope lá caíam elas na polvadeira da estrada. as Três-Marias luzindo na água.. melhor sentir a possível verdade do que se afirma. num oco de pau!.. o cusco encarapitado na pedra... e ainda quentes.. subiam. Mas o diabo é a prodigalidade. Veja-se: “– Há que tempos eu não chorava!. passarinhos cruzando para um lado e outro.. lido o conjunto ou uma boa parte. porém. devagarinho...Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 221 parcimônia e medida... estava me lambendo a mão.. luziam um tempinho.... logo.).. os galos cantando lá em cima. o pensamento que esbarra e entre eles erra um instante.

quando as senhoras-donas. e logo adiante. nesse trecho.. a rosa colorada boiando.. passei. no barro revolvido. que é isto?. porque.. gritou-lhe – cachorro desavergonhado! – foi que a mãe dele. . por causa do Chicão?. porque. sem alcançar meio de concluir. sugerem precisamente o estado psicológico de quem não acredita no espetáculo horrível que os olhos lhe oferecem. e truncado. depois observa bem. perguntou: “– Chicão. a rosa boiando. e repete para si mesmo. meu filho. fazia cara-volta. O espírito acha-se ferido de espanto. Observe-se... sufocando os soluços. por outro lado. a verdade dolorosa. jungindo as lágrimas para não saltarem. viram aquele condenado. fulminada pelo espetáculo. e o período. uma e várias vezes. mais animosa. atônito – e o raciocínio é lento. que queria abusar dela?.” Variedade Algumas vezes Simões Lopes Neto concilia a variedade com a natural monotonia da repetição: “Por onde ele andou.. fica suspenso por um instante. eu carregava.. espremer da garganta a pergunta desesperada. o Chicão atolado. custando-nos chegar ao termo da reflexão... afogada. por medo dele. pára de contínuo. todas caladas. que até então vem todo picado de reticências – além das vírgulas – ganha um andamento mais vivo (a desgraça é evidente) e caminha num crescendo para o desenlace: “– Chicão. estaca. a força do patético a partir do segundo “quando”: a mãe do Chicão. viu o Chicão atolado. violenta de mais para os olhos e o espírito.” (Manantial). passou..222 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a “E quando a ranchada das donas chegou perto e viu. e uma. As reticências e repetições. porque a moça estava no fundo. eu também” (Anjo). e fica depois embaraçado nela. andei eu.. e a gente repete o já dito.. carregava. conseguiu afinal. meu filho...

mas há variedade. Neste outro passo. velho de guerra” (Mate). ainda às vezes parece-me escutar o João Cardoso. e demonstram – no caso dos CONTOS GAUCHESCOS – o cuidado com que Simões Lopes pentearia. certamente às vezes um tanto desgrenha- . andei eu. para contrastar com esse hábil jogo de reiterações.ª pessoa.. aqui e ali. bem como o pronome eu. Todos os verbos. alternando-se elegantemente: “A verdade é que em muita casa e por muitos motivos. posposto. os dois números aparecem. visto que ambas têm a mesma forma verbal. Depois: “passou. Ao contrário de tantos escritores influenciados pela sintaxe francesa. o pronome anteposto. pela mudança de posição do pronome em relação ao verbo.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 223 Observe-se detidamente a maneira como aí se realiza o processo da repetição. Estão vendo o efeito desse gerúndio em combinação com o particípio presente adjetivado? Usa a sinédoque. Primeiro: “Ele andou.” É de notar-se como a presença do fazia – eu também fazia – diminuiria o efeito.ª pessoa da terceira. na 2. suprimindo-o ou substituindo-o pela variação pronominal correspondente. Apontar-se-ão aqui. menos o fazer. eu carregava”: o “eu” empregado para diferençar a 1. por menos abundantes.. Leio no Penar: “ao lado do touro arquejando e do cavalo gemente”. a prosa.” (Duelo). eu também. Simões Lopes Neto sabe evitar o abuso do possessivo.” Na 3. passei”: omissão total dos pronomes.ª. Alguns serão tão literários quanto populares. e uma das modalidades desta figura que se encontram nas suas páginas consiste no emprego do singular pelo plural: “Pois faz tanto ano!. Finalmente. apenas exemplos de substituição. mas a maioria deles têm apenas sabor literário. se repetem. é certo. Depois ainda: “carregava. ou pela omissão do pronome aqui e o seu aparecimento além. a ausência do verbo no último caso: “Fazia cara-volta.

“porque lhe morrera a mulher” (Manantial). Sabor clássico Já se terá falado. que não iria ao arrepio da direção natural dos cabelos. “os olhos se me plantaram sobre o tordilho salino. Uma das características desse fato é o emprego do que em vez do ou: “uma que outra perdiz” (Trezentas Onças).). de Blau Nunes – penteado discreto.. ordenava os trechos emaranhados: “indo a bala. sutilmente realizada. “eu lhes hei escapado das mãos ambicioneiras” (Ibid. mas sobre o fundo simples da sua fala de campeiro soube Simões Lopes Neto lançar essas meias-tintas de preciosismo – e dessa fusão. devia encher-lhe o peito todo” (Juca Guerra). “os olhos comidos encheram-lhe o corpo” (Mboitatá). de refilão. “um que outro estancieiro” (Correr Eguada). lanhar-lhe uma perna” (Negro). “que se lhes ouvia o esfregar das penas” (Ibid. em certo ponto. Não me parece muito provável que Blau Nunes dissesse coisas como “os olhos se me plantaram”.” (Anjo).). Outra é o uso do sobre que se vê nestas passagens. “os pés se me enraizaram” (Salamanca). do Contrabandista e da Salamanca: .224 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a da. “o coração devia ser-lhe mui grande. de certo sabor clássico do estilo de Simões Lopes Neto. das próprias LENDAS DO SUL. “já se lhe veio em cima” (Penar).. resulta a originalidade da maneira dos CONTOS GAUCHESCOS e. mas. respeitando-a.). “mas não se lhe viam as patas baterem no chão” (Ibid. dessa química lingüística. “o vento assobiava-lhe nas crinas” (Negrinho). neste ensaio.

: “tão infinito. . excelentemente garantido para escrever. no eco.º vol. p. e logo na seguinte.” Tido como disparatado e errôneo é..” “E como já era sobre a madrugada. também. pp. quantas ninguém poderá imaginar. Eco Mas a arte. VI. puxava por uma ponta da toalha. por exemplo. Certo.. “Mais principal” – escreve D.. 30). já excelentemente tratado por muitos. como escreve. e no 3. entre os quais Heráclito Graça. Não vale a pena levar tempo com este caso. o empregarem-se no comparativo ou no superlativo certos adjetivos que já por si encerram idéia superlativa: ínfimo. 132). supremo.. tanto.” Simões Lopes Neto acha-se. etc. 442. Coisas destas se vêem a cada passo nos Trabalhos. de Frei Tomé de Jesus: “muito vilíssima” está no 2. do sol vermelho que ia querendo romper dos confins por sobre o mar.111 Esse uso é dos melhores autores.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 225 “Outras vezes dava-lhe para armar uma jantarola.. e perfeitamente justificável desde que ditado pela ênfase. 341-345. embora pouco transparente. em Gil Vicente (Obras Completas. tão imenso.ª col. p. por isso a cabeça de pedra transparente ficou vermelha como brasa. 1. que pasmou”. e vê-se. no crescimento da primeira luz do dia. na Salamanca: “era tão mínima a despesa e o câmbio que veio. de Simões Lopes Neto. pois. não o fez fugir de todo a certos descuidos que teria facilmente evitado. p. Não raro incorreu. e tão imensíssimas. 156. e cruéis dores. & tão Deus como o próprio Pai”. em conciliar a simplicidade com a elegância de estilo. Vieira usa “tão imensa” nos seus Sermões (II. .º vol. Duarte no Leal Conselheiro. nenhum escritor se livra destas cila111 Fatos da Língua Portuguesa. e sobre o fim do festo. íntimo. por alguns. coisa muito mais séria: “Com tantas. 131.

O velho Simões poderia argumentar que Blau Nunes não tem requintes de estilo. em português. no começo de um período. também não é muito raro que o excessivo apuro no ritmo leve à sucessão de versos da mesma medida. sorrateira. 17-19. pp. . com esta consonância: “Acabada a devoção e marchando como uma procissão. diga que o Mariano.” Versos Se a rima costuma. ponteiros. insinuar-se na prosa.226 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a das. e já se tem citado largamente. tinham começado a acuar. não é nenhum Flaubert. rabugento. De 112 Páginas de Estética. “fosse como fosse. mas o pior deles será este – com a agravante de pertencer ao Saci. a propósito. De acordo. Também não me parece bom isto aqui: “já os cuscos. onde Simões Lopes Neto não está metido na pele de Blau Nunes: “Gostava das picadas e das encruzilhadas das estradas sombreadas. Há muitos outros casos semelhantes. nem é justo vir de palmatória em punho. nos surja. João Ribeiro112 aponta diversos de Frei Luís de Sousa. chegou e arranchou-se”. exemplos de Eça de Queirós. Com araçás em vez daquele seu derivado. Mas que. mas então. pedir-lhe contas por umas rimas que de impertinentes se lhe entremetem na prosa. Sabe-se quantas vezes isso tem acontecido. e com pouco esforço teria sido atalhado. tudo teria ficado em ordem.” – lá isto não é bom. – vá lá: a rima aí parece até que ajuda a gravar na memória o que ele vai narrando. por debaixo dos araçazeiros” (Manantial). como justificar no campeiro outros requintes? Que Blau. lá para o fim do mesmo conto. no aceso da história do Manantial.

” Pois com Simões Lopes Neto também se dá o mesmo de vez em quando. tão finamente trabalhada. como na seguinte passagem. p../que entrava na vida/de botas e esporas. nem cavalo se mexeu.. Preciosismo Tão perfeita por vezes é a construção. Agora.” (Salamanca). . da sua elegante riqueza de expressão. também colhida na Salamanca: 113 Memórias Póstumas de Brás Cubas. piso torrões de ouro em pó. dão testemunho trechos como o seguinte: “Afrontei o arrocho da tortura. entre ossos e carnes amachucadas e unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia gritos nem palavras grossas.. que deixa transparecer um tudo-nada de preciosismo. Precisão. os padres remordiam a minha alma.”. Mais que propriedade e riqueza. da sua precisão de vocabulário. sobretudo no “espremiam o meu arquejo decifrando uma confissão. piso com pés vagarosos. lindo e audaz. vigor e originalidade Do seu conhecimento e sentimento da língua. 48. Eis aqui três setissílabos acolherados – para falar na linguagem do autor: “nem um cachorro latiu.” (Manantial). era um lindo/garção./chicote na mão/e sangue nas veias.. depois de uma trinca de heptassílabos vem um decassílabo (Salamanca): “sem parar e sem cansaço. prometendo o inferno eterno e espremiam o meu arquejo decifrando uma confissão. nem passarinho piou.. que se desfazem como terra fofa”.. existe aí vigor e originalidade.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 227 Machado de Assis113 tenho este de cor – uma longa enfiada de pentassílabos: “Ao cabo.

O apelo à imaginação persiste. muitas vezes. tudo isto..” Mas – e já de leve o mostrei – A Salamanca.. como uma raiz que não quer morrer!. nem lhe entrefecha os olhos. para insinuar melhor a atmosfera de estonteante irregularidade que se respira nestas páginas. que era grande e sozinho cada um enchia e sobrava para os olhos limpos dum homem. por um instante. sente-se que muito de propósito. poder-se-iam encontrar mais alguns. se pode assinalar nas composições das LENDAS DO SUL comparadas com as dos CONTOS GAUCHESCOS. aviva-se naquela história.. para ampliar a zona de mistério. Nas lentas sinuosidades do seu ritmo a realidade ora se deixa vislumbrar. tira partido. o interesse do leitor não lhe escancara a boca em bocejos entediados. espelhando-se na lágrima suspensa.228 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a “A lágrima do adeus ficou suspensa. Um tudo-nada de preciosismo. com ser menos viva. Mais do que em qualquer outra das LENDAS. como em rocha dura serpenteia às vezes um fio de ouro alastrado e firme. misterioso e fantástico. há um aguçamento dos sentidos.” O andamento do período. fazendo franjas entre as pestanas balançantes dos meus olhos de condenado sem perdão... de modo geral. de recursos que normalmente seriam de mau gosto. tudo isso eu enxergava junto. que ao contrário se mantêm vigilantes e fixos. o boleado das coxilhas. o fundo clássico da linguagem de Simões Lopes Neto vem aqui à tona.. Veja-se este: “dentro do meu sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu cativo e soberano amor. lembram Eça de Queirós. o recorte da serra. na ansiosa expectativa do desfecho. menos direta. distanciando-se mais da realidade quotidiana. a maneira de se desdobrar sem gerar o tédio. A língua menos moderna. donde veio aquele exemplo. . para esconder-se na próxima curva... o seu colorido. sempre vivo. como uma cortina que embacia o claro ver: e o palmital da lagoa.. pelo seu tom especial. que se encrespava e adelgaçava. sugere melhor a “realidade” do sobrenatural. A diferença de tom que. Na mesma Salamanca. empastalhado e pouco.

de exato sentimento da literatura. do poeta. não dá a palavra a Blau Nunes. os traços mais vivos da força do criador.114 Muito bom gosto. Não somente naquilo em que este é o resultado de uma aprendizagem. à direita. seria possível apontar em outras páginas das LENDAS – poucas. que foi o seu caso. mas também no que depende unicamente da feição individual do escritor. apesar do tom sereno e simples de algumas de suas páginas. nesse volume. vermelho-dourado. “Nos atoleiros. . e longe. aliás – a presença daquele preciosismo. secos. à esquerda os campos desdobravam-se a perder de vista. na sua linguagem como no seu estilo. desforrar-se das perdas que sofreu com o resistir à tentação de algumas tiradas retóricas. Comecemos pela famosa página de paisagem das Trezentas Onças. É que Simões Lopes Neto. Qualidades estilísticas mais pessoais Porém já é tempo de sair do registro das qualidades mais de ordem geral desse estilo para apontar-lhe as marcas mais nitidamente pessoais. o sol. entrando em massa de nuvens de beiradas luminosas. da agudeza certeira do seu instinto literário. Em tudo essa qualidade se revela. sorrateira. da Salamanca. nem um quero-quero: uma que outra perdiz. piava de manso por entre os pastos maduros. uma das mais citadas: “A estrada estendia-se deserta. sem dúvida. entre 114 Exibições a que tantas vezes cedeu Alcides Maia.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 229 Fora. porém. pois. verdes. como nos CONTOS GAUCHESCOS: e precisa. manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite. serenos. muito baixo. E só o milagre de bom gosto. clareados pela luz macia do sol morrente. permitiu a esse admirador de um Coelho Neto não se destemperar em exibições contínuas de escrever bonito.

sem dúvida mais original. do movimento. Não é coisa vulgar entre nós que um homem de letras. sereno. Elas são as que convêm. a melancolia da natureza casando-se à tristeza de Blau Nunes pelas onças perdidas. Vamos ao Negro Bonifácio: . Um escritor qualquer. não dispensaria aí a nota sentimental bem descarada.. E no fim aquela comparação de tamanho sabor poético.” Sem dúvida que é uma das mais belas descrições de paisagem da língua portuguesa. a não ser dos modernos. E há nos dois períodos uma grave serenidade de andamento. Riqueza de incidentes e vivacidade Uma viagem ao longo desse estilo nos mostra. E de que perigo escapou Simões Lopes Neto! Descrição de um crepúsculo – coisa batida e rebatida como poucas. em que a gente também não sacode os braços. Sente-se. Mas o velho Simões Lopes o sabe como gente grande. Pela amostra se vê o que Simões Lopes faria. estas duas características: a riqueza de incidentes e a vivacidade. a cada passo. peneirada. se não a estrangula. que. que se harmoniza bem com a lentidão do entardecer. já apontado. túmido e fofo. alvejava a brancura de um joão-grande. vai dosando-a com segurança. e só as que convêm. quase sem mover as asas. um ritmo o seu tanto arrastado. otimamente conformadas ao sentido real do painel. do profundo senso realístico das proporções. Há uma precisão bem sensível na escolha e distribuição das palavras. como numa despedida triste. se não preferisse o processo indireto. conciliando a sua originalidade com o tom tradicional do gênero. entre as suas virtudes essenciais. saiba portar-se discreto ante um pôr-de-sol. voando. em matéria de paisagem. postas nos seus lugares.230 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a o resto da luz que fugia de um lado e a noite que vinha. além do vigor descritivo.. a emoção dominada. sustada nos seus ímpetos pela razão inteligente. do outro. a nostalgia da “hora em que os pensamentos se elevam ao Criador”. ali.. sinuoso..

entre o Nadico. de ponta e de corte. zunindo. – e uma. e quando ia a soltá-las. nesse mesmo momento e instante a velha Fermina entrou na roda. puxando a respiração em assobios grossos... e o Chicão atolado até o peito..... “O cavalo dele. de facão pronto pra cortar as sogas. como quem quer estraçalhar uma cousa nojenta.” . dez.” Ainda mais vivo. e ligeira como um gato. mais conciso dentro da minúcia.. como quem quer reduzir a miangos uma prenda que foi querida e na hora é odiada!.. varejou no Bonifácio uma chocolateira de água fervendo. E a cada sacudida feita naquele reduto todo o manantial bufava e borbulhava. suava em cordas. não podendo desprender-se das malditas esporas. mal podia agüentar fora da água o focinho e ressolhava. como quem espicaça uma cruzeira numa toca. que ia se afundando.. e que o negro estava cocando o tiro. cada vez mais ansiado. retalhou-lhe a cara. com a cabeça alinhada. do mesmo conto: “A Tudinha já não chorava. sempre! –. duas. saltou em cima do Bonifácio.. mais realista.. desatinada – bonita.. cinqüenta vezes cravou o ferro afiado. canhoto... mui alto.. o pobre. e o dono. morto. e a velha Fermina estrebuchando.. a morocha mais linda que tenho visto. que trazia na mão. e por fim. lá. tateou no negro sobre a bexiga.. vinte...” Note-se ainda (agora é no Manantial) a força desta descrição: “Parecia que nada se havia dado: se não fosse a rosa colorada boiando. mais poderosamente dramático. afundando. não. ajoelhou-se ao lado do corpo e pegando o facão como quem finca uma estaca. afundando.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 231 “Foi então que um gaúcho gadelhudo. mais pra cá. do chimarrão que estava chupando. se me afigura o trecho seguinte. espumando e rindo-se. que o sujeitavam em cima do bagual. com força pra rebentar as costelas dum boi manso.. tirou-lhe da mão sem força o facão e vazou os olhos do negro. pra baixo um pouco – vancê compreende?. todo salpicado de barro..... desprendeu da cintura as boleadeiras e fê-las roncar por cima da cabeça..

o trecho em que esse poder de movimento e de realidade chega ao cúmulo é o seguinte. e “como um parelheiro largado de tronco”.. posto que dolorosa. também do Manantial: “Mas nisto a mãe dele abraçou-se nos joelhos do Mariano. súbito.. surdindo” – embora não menos vivo. até que. nesse jeito sossegado de resignação. porém. caindo. para trás. e o Mariano foi baixando o braço. de perdão: a mãe do Chicão abraça-se aos joelhos do Mariano. o homem é como o parelheiro preso ao tronco: a piedade cristã abafa-lhe os ímpetos de represália.. Vem tudo nesse andar. Extraordinariamente feliz o símile. espremendo.232 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Talvez. porém. um pé do Chicão... mas de repente. afundando-se.”. todo ele numa plasta de barro reluzente.. De repente. surdindo. saltou pra diante e de vereda atirou-se no manantial. ele quer explodir. a sede de vingança. e calado varejou a arma para o lameiro. e o sentimento religioso neutraliza no Mariano.. e foi calcando.. ele não se contém. afundando-se. meteu o Nosso Senhor Crucificado na boca do cano da pistola. mas a raiva. numa atmosfera suave. e prende-o. Até esse momento.. Até “lameiro” ele vai serenamente. meio de gatinhas. bracejando..... – livre da espora – e tudo sumiu-se na fervura que gorgolejou logo por cima!. como um parelheiro largado de tronco.. por instantes.. e meio de pé. com as duas mãos escorrendo lodo apertou-lhe o gasganete. mas alguma coisa lhe resiste. cortou o ar uma perna. e assim prossegue até que. . o desespero ferve lá por dentro do Mariano – e. num – vá! – aqueles abraçados escorregaram. e o padre missioneiro levantou a cruzinha do rosário. bracejando. depois a arremetida feroz da vindita tropeça ante os obstáculos.... empurrando para trás. o período se torna sincopado – “caindo. botou-se ao desgraçado. a resistência se afrouxa – e a vivacidade do impulso do “parelheiro” faz prodigioso contraste com a serenidade anterior do período: “saltou pra diante e de vereda atirou-se no manantial.” Repare-se nos dois tons deste período.. alcançou o Chicão. baixando. e – por certo – firmando-se no corpo do cavalo morto... dá-se a intercessão do padre.

ante os meus olhos – ficará sempre aquela perna.. Poeta. uma gata brasina e a sua ninhada” (Ibid. o Mariano – “com as duas mãos escorrendo lodo apertou-lhe o gasganete.). e esse esganar. e a perna e o braço riscando o ar como um raio. e esse abraço medonho. dos Sete Enforcados. sensação tamanha de realidade.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 233 após um furioso anular de todos os empecilhos. sem dúvida. sim. e esse bracear e afundar-se e emergir.. negra na brancura do caminho. que não se perde em palavras: “Nas paradas da reza só se ouvia os soluços da mãe do Chicão e um leve guasqueio do vento nas talas dos jerivás” (Ibid. Há em Simões Lopes Neto. mas muito poderosa também na sua simplicidade: “Lá estava a senhora. sensibilidade fina e tensa. dormindo na saia da morta. com papel e tinta.. O fogo apagado. e mui a seu gosto. de Andreiev. e o pântano a estuar sobre as duas vidas sepultadas em seu ventre. alcançando solução em que há um toque de lirismo. sem dúvida mais simples.. a banha coalhada. um poeta. Na minha imaginação – diria melhor. de papo para o ar. Lirismo Por vezes.. mas lirismo real. de intensidade trágica. o escritor sabe diluir as tintas. Realismo na simplicidade Agora esta nota realista. muitas vezes um poeta romântico. com a cabeça arrebentada a olho de machado. A mim – se interessa a confissão – a própria vista do espetáculo creio que não me poderia dar impressão mais funda e pungente. capaz de es- . Eu vejo – positivamente vejo – esse pulo repentino do Chicão.).” Difícil alcançar. tão poderosamente como ficou a galocha perdida de Sérgio. aquele pé rasgando o ar. como para conjurar os possíveis arrepelamentos da tragédia.. os beijus frios.

onde está quem me plantou?.. o gravatá lastrou. É de ver esta passagem.. Quanto. dos seres ditos inanimados. ao dos vegetais. que a coisa descrita a bem dizer nos fere – fere e dói nos sentidos.. á. ó – e da presença dos dois grupos consonantais próximos – dr e tr.234 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a tremecer não apenas aos sofrimentos do bicho homem. em que se descreve a situação do arranchamento do Mariano após a catástrofe: “O arranchamento ficou abandonado. o gado fez paradeiro na quinta. tudo foi minguando. os cachorros gaudérios já dormiam lá dentro. as carquejas e as embiras invadiram. o feitio da mão de gente foi-se gastando. peneirada no ar parado.. e a luz parecia que tremia.... É o caso deste passo. ainda do Manantial. que é sempre um lugar tristonho onde parece que a gente vê gente que nunca viu. e foi chovendo dentro.. caiu uma porta. só o umbu foi guapeando.. sem uma viração. mas abichornado..” Curioso notar: a primeira oração – “O sol faiscava nos pedregulhos lustrosos” – quase beira o lugar-comum. onde parece que até as árvores perguntam a quem chega: – onde está quem me plantou?... –” Poder de impressionar os sentidos Algumas vezes a pintura é tão viva.. po- . foi ficando tapera. como viúvo que se deu bem em casado. transpira tão intensa realidade. arrancado à Salamanca: “O sol faiscava nos pedregulhos lustrosos.. mas cuja alma ele sabia conversar e entender como poucos. u. a tapera. os ventos derrubaram os galpões. e até ao das coisas inertes. O arranchamento alegre e farto foi desaparecendo. tão perfeita. Debaixo dos caibros havia ninhos de morcegos e no copiar pousavam as corujas.. tem só o especial valor pictórico e musical resultante daquele vivo jogo de vogais – ó. desabou um canto de parede. os andantes queimaram as cercas. mas também ao dos outros bichos.

O ritmo do trecho (“parecia que tremia. ao tom.” (Contrabandista). a dança da luz no ar. aí tem o leitor um desses muitos casos em que certo falso apuro estilístico pode estragar um texto. a continuidade desse tremor. ganha notável relevo.115 Animismo Veja-se com que beleza e força ele transmite às coisas abstratas os atributos dos seres vivos: “O mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos os olhos. a respeito. e. nesse resto. mas. Ora. a seguir. a permanência. é trivial. como nenhum outro recurso o conseguiria. o próprio tremor da luz. de maneira rara. “tremia” – a assonância – “peneirada”. tudo contribui ali. Se o velho Simões Lopes fosse dos tais que fogem do que como o Diabo da cruz. republicado neste volume. peneirada no ar parado” são dois setissílabos). O grupo consonantal – tr – em combinação com os anteriores. primeiramente. Tão melhor! tão mais eufônico! Nada do que deselegante. . o meu estudo “Linguagem e Estilo de Eça de Queirós”. podem ser virtudes. E isto porque tudo. em combinação com o resto do período. e nada de eco. tudo se acha disposto da melhor maneira para nos transmitir a impressão mais funda. e devia saber também que em certos casos os chamados vícios de linguagem. para frisar. como o eco. o eco – “parecia”. Muito escritor guiado por estreitas noções de estilo bradaria: – “Excelente!” Mas Simões Lopes Neto perdeu estes aplausos: ele devia saber quanto o modo verbal finito transmite à frase uma força que o infinitivo não possui. em si mesmo. a oscilação. “parado” – a aliteração dos pês. 115 Quem ignora os efeitos que Eça de Queirós soube tirar do eco! Veja-se. auxiliado pelas rimas de cada verso. que excelente oportunidade para jogar fora o importuno! Em vez de “parecia que tremia” – punha: “parecia tremer”.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 235 rém. sugere.

e o Sol. Haveria muito ainda que dizer da linguagem e estilo desse escritor “municipal” – no bom sentido em que.236 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a E na Salamanca: “Depois um grande silêncio balançou no ar. como homem. asas de pássaros – e a manhã. e quase todas sindéticas. e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho” (Negrinho). do capitão João Simões Lopes Neto. cascas de frutas.” Certo que não é criação do autor esse animismo estilístico. e com o paralelismo do último período.. taciturno. com tanta felicidade. Frases assim são de alguém que tem sangue e nervos de verdadeiro escritor. Tom bíblico Outro aspecto desse estilo? Leiam: “Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos. O estilo. nascem de um frêmito de sensibilidade inteligente. e a noite. como esperando. todo em orações coordenadas. assim o qualificou o Sr. “Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. acusa uma religiosa gravidade de ritmo.. “E três dias houve cerração forte. dos seus sonhos sempre afinal desfeitos pela realidade fria que lhe foi a vida. mas Simões Lopes Neto tira do processo efeitos verdadeiramente incomuns. e há um grave toque de poesia cósmica nesse rápido desfilar da Criação: as coisas que a serenada molha – pastos. Há nisto uma beleza e uma grandeza bíblica. “a noite de Deus”. de seus planos fantasistas. Carlos Reverbel – desse escritor que. meio escondido do mundo no outro mundo de seus projetos. era fechado. conhecido e respeitado na sua terra como um homem sé- . as asas dos pássaros e a casca das frutas.

estudá-la tomando em conta o meio.. as inúmeras falhas de que se poderia ressentir se não fora a inteligência fina e vigilante. volte bem jovem à sua terra e a ela se agarre com unhas e dentes para o resto da vida. É só a gente sobre ela debruçar-se com simpatia e compreensão abertas. essa espécie de transfusão do sangue dos outros homens no seu próprio sangue. a do autor pelotense é extraordinariamente fértil em sugestões para o crítico e o ensaísta. de indefinível. . meta-se em coisas de comércio. patriota e de sete instrumentos – entre os quais. ante os defeitos que possa aqui e ali deparar. o diabo de um sexto sentido que fez a glória de Shakespeare e Molière.. quase desconhecidas hoje. para a maioria. venham afinal – como creio que hão de fatalmente vir – venham a figurar entre as mais altas páginas de ficção da língua portuguesa. o gosto apuradíssimo – enfim. não figurava a literatura. a capacidade de incorporar em sua própria vida a vida de outros seres. e nela faça jornalismo. também negadas por outros. e que faz que uma pessoa nasça em Pelotas. o tempo e as circunstâncias em que foi realizada. coma o pão que o Diabo amassou – e em meio a todo esse aperto publique em jornais do seu município umas páginas de “folclore regional”. de José Hernández e de Machado de Assis. que nunca se desmandava em pieguismos fáceis. de “populário”. e não esquecer nunca. a sensibilidade temperada. algo de imponderável. o senso exato das proporções. elogiadas meio friamente amanhã por uns. Como todas as grandes obras.Lingu agem e Esti lo de Si mõ es Lo p e s N e to 237 rio. passe algum tempo no Rio. que.

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Estilística da Língua Portuguesa – “Seara Nova”. Autores Contemporâneos – 25. Garcia de Cancioneiro Geral de Garcia de Resende – ed. prefácio e notas de Afonso Lopes Vieira – Livraria Sá da Costa. Curiosidades Verbais – Cia. Páginas de Estética – Livraria Clássica Editora. 1928.a ed. – Livraria Francisco Alves. d. RIBEIRO. Lisboa. conforme a de Ferrara. conforme a príncipe. 1923. Lisboa.a ed. e Insignes Feitos del-Rei Dom João II de Gloriosa Memória – Real Oficina da Universidade de Coimbra.252 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a RESENDE. Bernardim – e Cristóvão Falcão Obras – nova ed. de A. Poesias – seleção. Cartas Devolvidas – Livraria Chardron. s. São Paulo. organizada por Anselmo Brancamp Freire e prefaciada por Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Seleta Clássica – 4. 1932. com introdução e notas de José Pereira Tavares – Imprensa da Universidade de Coimbra. s.) – Livraria Clássica Editora. 1931. . Francisco Corte na Aldeia – prefácio e notas de Afonso Lopes Vieira – Livraria Sá da Costa. o 2. São Paulo. 1937. Lisboa. Lisboa. 5 vols. 1945. João A Língua Nacional – Monteiro Lobato & Cia. s. Crônica dos Valerosos. – Imprensa da Universidade de Coimbra. M. Rio. RODRIGUES LOBO. 1905. Porto. Melhoramentos de São Paulo. Rio. J. – Imprensa da Universidade de Coimbra.º em 2. RODRIGUES LAPA. RIBEIRO. 1910 (os 2 primeiros). d. 1798. Gonçalves Guimarães.. 1917. s... 1915. Lisboa. Crepúsculo dos Deuses (trad. – Livraria Francisco Alves.a ed. 1913. 2 vols. d. 1905. 1926. d. Éclogas – ed.

M.a ed. Antônio Vieira.a ed. Dificuldades da Língua Portuguesa – 2. 1926. Meios de Expressão e Alterações Semânticas – Livraria Francisco Alves. Antônio de Arte de Furtar – ed. 2. 3 vols. Lisboa. s. Mário Pereira de Gramática Portuguesa – para o curso ginasial – Livraria José Olímpio. d. SOUSA. SOUSA LIMA.B i bl i o g r a f i a 253 SÁ DE MIRANDA. Otávio Tarqüínio de José Bonifácio – Livraria José Olímpio. Francisco de Obras Completas – prefácio e notas de M. Rio. 1930. Lisboa. s. dá como autor Pe. Augusto Epifânio da Sintaxe Histórica Portuguesa – 2. do Panorama. – Tipografia Rolandiana. Rio. 1866. Lisboa. Lisboa. SILVA DIAS.a ed. 1933. Besnard Frères. Rodrigues Lapa. 1919. São Paulo. SAID ALI.. Rio. da Cia. – Tip. Melhoramentos de São Paulo.. Luís de Anais de D. 1945. 6 vols. Rodrigues Lapa.) SOUSA. Vida de D. 1857. – Livraria Sá da Costa. d. Rio. (A ed. – Livraria Clássica Editora. Fr. SOUSA DE MACEDO. . História de São Domingos – 3. Fr. – Tip. João III – prefácio e notas de M. Bertolameu dos Mártires [Vida do Arcebispo] – 2 vols. 1945. Lisboa. – Livraria Sá da Costa. 2 vols.a ed.

Nicolau Sátiras – seleção. Melhoramentos de São Paulo. Miguel de El Espejo de la Muerte – Espasa-Calpe Argentina. d. s. Rua – Coimbra.a ed. Visconde de Inocência – 17. Paris. 1943.a ed. S. Miguel Bichos – 3. Novos Contos da Montanha – Coimbra. . TOLENTINO. 1931. 1943. – Civilização Brasileira.a ed. TORGA. Afonso Lopes Os Versos de Afonso Lopes Vieira – Sociedade Editora Portugal – Brasil. Trechos Seletos – 5. 1942. VIEIRA. Diário – 2. São Paulo. – “Seara Nova”. M. Antônio Vieira – Vols.254 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a SOUSA DA SILVEIRA Lições de Português – 3. Editora Nacional. d. THIBAUDET. Pe. Gente Singular – 2. brasileira – Cia.a ed.a ed. 1941. 1937. UNAMUNO. comemorativa do Centenário do Poeta (1939) – Cia. I a XII – Na Oficina de João da Costa o 1. TEIXEIRA-GOMES.a ed. Buenos Aires – México. 1941. Editora Nacional. s.º (Lisboa. TAUNAY. Antônio Sermões do Pe. – Coimbra. – Cia. VIEIRA. – Coimbra. A. d. 1940. I e II vols. s. 1942. Lisboa. 1942. prefácio e notas de Rodrigues Lapa – Lisboa.. Lisboa. na Oficina de Miguel Deslandes o 2. São Paulo. 1944.. Albert Gustave Flaubert – Librairie Plon. Obras de Casimiro de Abreu – ed. Rio.º. 1679).

1692. o 6. 1696.º. o 8. 1689. e notas de Amado Alonso e Raimundo Lida. 1690. 1682.º. Buenos Aires.a ed. 1688).º (Lisboa. VOSSLER. 1683. 1695. VOSSLER. o 7.º. o 5. s. 1699). Karl Filosofía del Lenguaje – trad. 1685. Helmut Hatzfeld Introducción a la Estilística Romance – trad. – Facultad de Filosofía e Letras de la Universidad de Buenos Aires.º. . o 4.º (Lisboa. o 9.º. 1942. Karl – Leo Spitzer. e notas de Amado Alonso e Raimundo Lida – Editorial Losada.B i bl i o g r a f i a 255 o 3.º. o 11. 1694.º. d. 2.º e o 12. na Impressão Craesbeeckiana o 10.

.

atravessam o tempo num passo decidido. Vozes que nascem. silabadas e modismos em que a força do sentimento gravou a sua marca. Outras dizem de campos abertos ao galope. salta do texto um termo vivo. enquadradas na moldura da história. sopros de gerações repetindo a mesma eufonia incerta. e da peleia. aquela abre .Glossário “Consultar o vocabulário gaúcho é rasgar à visão interior paisagens retrospectivas. Enquanto a fumaça escreve no ar a garatuja indecifrável. O vocábulo então não é apenas a carniça magra ou polpuda em que a etimologia vem dar a sua bicada. vestígios do espírito moldados no barro às vezes simples sobrevivência da vida rude nos trabalhos e dias. amigo da pachorra que devaneia e do fumo crioulo bem palmeado. transbordando de bocas duras ou carinhosas. Esta sabe a galpão. buscando o seu eco no poço da memória. Algumas ainda arrastam a espora. da cancha reta ou da longa viajada. Na perna de cada letra estão entecidas sugestões e sugestões para o leitor fantasista. carreando outras vozes. que os olhos apalpam e o ouvido reproduz.

loc. ACHADIO.258 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a no fundo da lembrança uma várzea ao sol-entrar. Desanimado. Acovardado. 1. Ir-se embora. verb. o sufixo -io concorre com -iço em muitas palavras: corredio e corrediço. escorregadio e escorregadiço. [De origem espanhola. perfeitamente normal. quinhentismos retovados ou conservados na província.” (Augusto Meyer. ABICHORNADO. pagos.] A BOCHE. // 3. Platinismo. impondo silêncio: querência. pessoa). [Usado em São Paulo também. Em grande quantidade.. E há também palavras de dedo no lábio. surdindo improvisadamente na boca de um peão. arquejante (animal ou.] ABOMBADO. adj. Talvez seja criação do autor. muito. abatido. Vexado. rincão. loc. 1. fugir.) A ABERTA. [Achadio não está em nenhum dicionário. palavras que parecem a toda hora cobrar um queijo. adv.. Impossibilitado de continuar viagem por cansaço devido ao calor (diz-se do cavalo). aniquilado. por extensão.] ABRIR OS PANOS. topar qualquer parada. resvaladio e resvaladiço.] . Há os falsos castelhanismos de muito bom português. e. quando o cheiro dos pastos verdes é mais ativo e os banhados refletem uma nesga de céu mais profunda. Clareira. Não faltam as que sugerem as finais das nossas toadas. “adoentado”. etc. // 2. abochornado = “quente. adj. Prosa dos Pagos. abrir-se. envergonhado. Achadiço. abrir nos paus. adj. // 2. s. exausto. embebidas na lonjura. Há os castelhanismos petulantes. Esfalfado. fugidio e fugidiço. abafadiço”. f. no Minho. [Cf.

com uma legra ou uma faca. Dispor-se.] AÇOUTA-CAVALO(S). t. de “amador de uma arte.m. f. 1. de uso na Argentina e no Chile nessas acepções. Transformado em cimento. Alusão agressiva dirigida a alguém para provocar assunto que lhe é desagradável. [Var. revelar (segredo). Atrelar ou ajoujar (animais) por meio de colhera. // 3. // 4. [Não dicionarizado. s. v. s. acollarar. p. definindo-o assim: “Entusiasta por corridas de toiros. [A acepção é. t. esporte. no Sul do Brasil. f. t. Inquietar. [Do esp. v. T. e p. [Não dicionarizada esta acepção. do teatro. interpelação inopinada. ao que parece. [Platinismo. do futebol.Glossário 259 ACIMENTADO. O Vocabulário da Academia Brasileira só registra açoita-cavalos ou açouta-cavalos. Deixar escapar. que é onde a palavra tem curso. 353. Múcio Teixeira. e p.] AGACHAR-SE.” – Poesias de Múcio Teixeira. s. [Platinismo agarradera. v. principiar. importunar.] AFICIONADO.] ACOLHERAR-SE. remoque. Unir. nas Flores do Pampa. s. Árvore tiliácea (Luehea divaricata). aborrecer. juntar. Piada. t.”: aficionado da música. Apressar. jogo. de carreiras. É de grande uso aferventado = “impaciente. ou melhor. de todo o Brasil. v. Amedrontar. etc. começar (a fazer uma coisa). m. // 2. adj. Figueiredo é o primeiro dicionarista que consigna este espanholismo. ela é aplicada em sentido mais amplo. usa a forma gachar-se.: açoita-cavalo(s).] ACOQUINAR. v. Disparate. amofinar. alvoroçado. arremetida. Investida. aferética: “Espojou-se na relva úmida e verde / E gachou-se a pastar pelas campinas. assustar. I. [Platinismo.] AGARRADEIRA. e de emprego geral na língua em sentidos análogos. AFROUXAR.] . [Espanholismo. Saliência que se faz na planta do casco do cavalo. apressado”. a fim de que o animal tenha maior firmeza em terrenos úmidos ou escorregadios.] AGACHADA. // 2. saída.] AFERVENTAR.” No Brasil. 1.

Designa espanto. Acepção platina. Resistência física.: alarifaço. s. // 2. folga. AGUAXADO. Ato de alçar ou levantar o cavalo por meio das rédeas. trapaceiro.. v. 133. ALARIFE. [Usado no Paraná. Diz-se do indivíduo destreinado para certos esforços. fica tão gordo que não pode fazer marcha longa sem transpirar excessivamente. 61 de Quem Conta um Conto. [Espanholismo. p. Faixa de terra que se ergue entre lagunas. formando-se uma espuma branca. uma direção). de alarife. [Também de uso em São Paulo: consulte-se o vocabulário de Conversas ao pé do Fogo. s. sobretudo na tábua do pescoço e no lombo. [Do platinismo aguante. [Também usado no Paraná e em São Paulo. Desordeiro.] ALÇADO. também: ver Silva Murici. Lugar onde vão beber os animais. 1. [Do esp. Tomar (um caminho. No Galpão.. albardón. à p.] ALARIFAÇO. Trégua.] // 2. // Esperteza. Vivo. m.] AGÜENTE.] ALCE. adj.] A LA CRIA. que trata longamente da etimologia da palavra. que traz “Agarrar ou Garrar”. venta-furada. ALARIFAGEM. m. banhados ou charcos. velhaco. Usada com o verbo ir (ou vir): ir-se embora. alzado.. Do esp. f. [Aplica-se ao cavalo que. Neste . 1. interj. Argentinismo.260 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a AGARRAR. descanso. bebedouro. loc. ir ao deus-dará. 1. A LA FRESCA!. adj. Ação própria de alarife. descrença. cair no mundo. pelo menos em referência ao animal: ver Silva Murici. e veja-se. em razão de muito tempo de descanso. [Superl. m.. s. Algumas Vozes Regionais do Paraná. adv. adj. Saturado de água.] Fig. 72. e O Dialeto Caipira. 50. s. de Cornélio Pires. Do árabe alarif.. Superl. f. [Platinismo. do mesmo autor: “Garrei o mato. surpresa. t. Algumas Vozes Regionais do Paraná. esperto. de Amadeu Amaral. loc. pp.] ALBARDÃO. Diz-se do gado que se tornou bravio por haver fugido para o mato ou por ter sido deixado ao abandono. [Também se usa simplesmente la fresca: ver Darci Azambuja. s. trapaça.”] AGUADA. adj.

] AMANUSEAR. s. 65. alongar-se. chimarrão.] . adj. Ambicioso.] ALDRAGANTE. Amansar (um animal) sem montá-lo. tirar-lhe as manhas. Nas Serras e nas Furnas.] ALEVIANADO. p. AMARGO. pois. os baguais se entregavam pouco a pouco. Afastar-se. No “Menininho” do Presépio.Glossário 261 segundo sentido. t. p. Tratante. [Não dicionarizado. t.” – p. Engatilhar. adj. quando a cavalo. v. AMARTILHAR. Esta última é a forma que usa Ivan Pedro de Martins no seu Fronteira Agreste: “Valderedo domava. AMBICIONEIRO. v. Levar (o corpo) para a frente. Tornado mais leve. Ciro Martins. vagabundo.] AMAGAR. p. emartilhar. e ele passava horas manuseando-os. Cf. mais leviano. Saubidet define manosear da seguinte maneira: “Ação de fazer carinhos com as mãos aos potros que estão sendo domados para lhes tirar as cócegas. p. v. Ver Amanonsiar. Mate sem açúcar. m. Algumas Vozes Regionais do Paraná. adj.] AMANONSIAR. martilhar. ALONJAR-SE. manosear. v. v. 68 – vê-se amanunciar. p. Em Darci Azambuja – No Galpão. [Espanholismo.” Trata-se. 219. 98 – e em Vargas Neto – Tropilha Crioula. t. [Também usado em Minas – ver o Dicionário de Figueiredo – e em São Paulo – ver Valdomiro Silveira. [Está em Laf (Luís Araújo Filho). a fim de dar impulso ao animal. a par de amanosear. m. 103. o termo corre também no Paraná: ver Silva Murici. [Do esp. e s. Luís Carlos de Morais e Laudelino Freire registram a forma aldagrante. ou especialmente platina – o Dicionário da Academia Espanhola não a registra – do verbo castelhano correspondente ao nosso manusear. t. Simões Lopes usa amanusear. p. Recordações Gaúchas. Campo Fora. trabalhando-os para ficarem mansos. Luís Carlos de Morais consigna esta última palavra. 14. de acepção hispano-americana.

pelo peito e por um dos membros dianteiros.. Confusão. m..262 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a A MEIA ESPALDA.. [Também se emprega em São Paulo: ver Valdomiro Silveira.. pôr de parte. [Não registrada a última acepção. a esta voz todos se davam as mãos e ao dito do mesmo marcante: tudo cerra. Viajante. // 2. Água Funda. s. Acabado isto cantava o tocador da viola: O anu é pássaro preto.. à voz de cadena faziam os dançantes mão direita de dama como na quadrilha...... Transeunte. barulho.] ANU.. Diz-se do animal alimentado com milho. em Goiás e noutros Estados. m. “dizia o marcante: roda grande.. [Também empregado em São Paulo. Ato ou efeito de apartar. [Não dicionarizado.)] APARTE. s.... folgue. adv.. Folgue. minha gente. para venda ou outro fim. s. separar.] AMILHADO. (Cezimbra Jacques.. p. Quando canta à meia-noite Dá uma dor no coração. pp. m. adj.. Aplica-se a um modo de laçar que consiste em prender o animal pela cernelha..] ANDANTE.... a um tempo cerravam a sapateada de mãos dadas.. também.. [De uso talvez em todo o Brasil. loc. Ato de apartar ou separar o gado... [No anu... arranca-rabo.. 1. Se não dormires agora Dormirás de madrugada.. 14. Que uma noite não é nada.. depois da roda feita..” . Passarinho do verão.. [Usa-se. p. Grande número de animais cavalares. s.] ANIMALADA. s.. Nas Serras e nas Furnas. Costumes do Rio Grande do Sul. em São Paulo: ver Rute Guimarães.] ANGU. 93-94. f. 115. m.. Nome de uma dança (ver Fandango)..] .

Que tem manhas de potro. Passagem apertada entre dois precipícios. perder as forças. P. Os preparos necessários para encilhar um cavalo. s. impaciente. esmorecido. Tornar aplastado. Cansado por efeito de certo esforço. [Não dicionarizado como substantivo. v. também: ver Silva Murici. tirar as forças a. p. zangar-se. v. arreios. APINHADO. Aplica-se ao cavalo que o domador não conseguiu amansar. no sentido de “instrumentos de caça”. APORREADO. 1. [Diz-se do animal e. Nesta última. APOTRAR-SE. Laudelino Freire consigna apinhocar. s. t. s. A palavra corre igualmente em São Paulo. m. 1. mas existe a forma portuguesa apeiro. m. [O mesmo que preparos. O Dialeto Caipira. v. ajaezado (cavalo). // Lugar estreito de rio ou caminho.] APLASTAR. Irascível. adj.] APLASTADO. [Parece que só é registrado por Luís Carlos de Morais.Glossário 263 APERADO. adj. Apressado. // 2. com sentido menos lato que o de apinhoscar. Encilhado com esmero. p. APURADO. Cf. Tornar aporreado. t. v. // 2. m. Ficar (o animal) bravio como o potro. aglomerado. pl. adj.] APERTADO. Porção de coisas apinhadas. Amadeu Amaral. É tomada do espanhol. enfeite. Algumas Vozes Regionais do Paraná. e p.] APEROS.] APORREAR. s. por extensão. Fig. APRONTAMENTO. m. Fig. Bem-vestido. Também se usa no singular. apinhar-se. APOTRADO. abatido. 77. Fig. [De apero. // 2. aglomeração. Tornar-se aplastado. Embravecer. adj. que cita um trecho de Simões Lopes (do Jogo do Osso). p. Desfiladeiro.] APINHOSCAR-SE. das pessoas. Juntar-se. 1. grosseiro. agrupar-se. [Usado no Paraná. e na significação corrente em São Paulo. o termo é antiquado em Portugal. adj. Aparelhamento. com sentidos análogos àqueles em que usa aperos Simões Lopes Neto. .

Diz-se do animal acostumado a um lugar certo. prevenido. fora melhor “esquivar-se. às pessoas. em tempo de calor intenso. 1. depois de marcha imoderada. havendo bebido pouco. briga. Apressar. // 2.264 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a APURAR. em cada caso. // 2.] ARPISTAR-SE. provavelmente. [Também se usa alpista. Barulho. esquivo. e como pronominal: “ser arisco”.] ARISCAR-SE. bate-boca.] ARPISTA. ARRANCHAMENTO.] ARREGANHADO. figuradamente. que é o primeiro a registrar este verbo. p. te ariscas” – não se harmoniza bem com a definição. No segundo caso. Relho comprido com que o campeiro toca os animais. [Cândido de Figueiredo. Também usado em Minas – ver J. galpões. Cloé. arisco. Aplica-se. Discussão. Taunay – Léxico de Lacunas – consigna o verbo como transitivo. Roda que se faz com o laço quando se pretende atirá-lo para prender a rês. s. assustadiço. um exemplo de Filinto Elísio. – ou sem eles. etc. m. é acometido de uma espécie de espasmo que se caracteriza pela contração dos maxilares e das narinas e o faz perder muito em resistência. que coincide com a acepção dada à palavra por Simões Lopes Neto.] ARRANCA-RABO. Aplica-se ao cavalo que. usado na Argentina. Ver Querência. p. t. AQUERENCIADO. Guimarães Rosa. m. s. define-o como transitivo: “recusar”. Mostrar-se arpista. fugir” (ação própria de pessoa ou animal arisco). [O mesmo que alpistar-se. v. ARREADOR. m. [Espanholismo.] ARMADA. adj. v. [No . na Colômbia e no Peru. conflito. espantar”. Tornar-se arisco. e p. assustar-se. [Americanismo. v. ou a andar junto com outros animais. Casa de moradia no campo. 1. citando. Sagarana. s. o exemplo – “de mim. em vez de “ser arisco”. com seus acessórios – currais. adj. em São Paulo. f. espantar-se. [Americanismo. com o sentido de “tornar arisco. s. p. 140 – e. Desconfiado. adj.

ventana. Combinação. s.] ARREGLAR. ou o animal que.] ASPAS. ARRODILHAR-SE. e p. [O verbo aparece em dicionários. ASSOLEADO. [De uso em grande parte do Brasil. ARRISCADA. guampas (quando ainda estão no animal). [Do espanhol arrollarse. // 3. Cansado. [Espanholismo – de arrodillarse – ainda não dicionarizado. adj. Ajustar alguma coisa com alguém. Aventura muito perigosa. pl. e s. ajuste. p. s. Destruir. [Espanholismo. Enrouquecido.] ARUÁ. v. Diz-se do. T. Don Segundo Sombra. [Do esp.Glossário 265 conto Penar de Velhos. t. Combinar. De uso no Paraná. Chifres. f. // 2. t. desmoronar. Reunir-se (pessoas). esfalfado. v. arranjo. [Espanholismo. ÀS CANSADAS. asoleado. intimidado. t. amedrontado. Reunir-se. m. s. s. Prender com atilho. 1. m. v. arranjar.] ARROUCADO. v. que se pode ver em Güiraldes. acantonar. Depois de muita demora. m. p. no mesmo sentido de ruir. exausto. Arrincoar. puava. t.-rel. em que aparece a palavra. também: ver Silva Murici. Ato de arreglar. juntar-se em grupo (animais que vão em marcha ou se acham espalhados). Fugir derrotado.] ARROLHAR-SE. loc. com muito esforço. e p. Ajoelhar-se. Algumas Vozes Regionais do Paraná. [Não dicionarizado. v. pôr (as coisas) em ordem. f. m. [Não dicionarizado. por haver andado muito ao sol quente. ARRINCONAR. ATILHAR. 251. contratar (carreira). Indivíduo turbulento. concertar.] ARREMATADO. v. adv. desordeiro. adj. p.] ARRUIR. [Do americanismo a las cansadas. tornando-se facilmente cansável. s.] . Ajustar. fica doente do aparelho respiratório. mas como intransitivo. Indivíduo brigão. valentão. t. v. o cavalo “morreu arreganhado”.] ASPA-TORTA. adj.] ATAR.] ARREGLO.

torar. a bomba e a erva.] BAGUALADA. e adj. 1. cite-se esta abonação: “O Antônio Rego. f. p. procurava a gente que nem um cachorro e. Os Caboclos. partira dous laços só de um tirão!. s.: baguala. avios de carpinteiro. Cf. p. Os baguais em geral. m. segundo diziam. t. [Usado também no Paraná. em relação a animal. O conjunto de objetos necessários para determinados fins: avios de fogo – o isqueiro. era um bagual.. Manada de baguais. Mares e Campos. Cavalo novo e arisco. o americanismo azulejo. Algumas Vozes Regionais do Paraná. avios de caça. entremeado de pintas brancas. o raio..266 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a ATORAR. ATOSSICAR. em Santa Catarina. [Também de uso em Minas: ver Afonso Arinos.] AZULEGO. Pelo Sertão.. v. produzindo um reflexo azulado. 95. Do emprego do termo com referência a boi. as iscas. adj. // 3. [Não dicionarizado. Diz-se de. Que balança. s. v.. e na mesma forma. AZONZADO. // 2. p. 1. em São Paulo: ver Valdomiro Silveira.. [Não dicionarizado. Potro recém-domado. Adj. Conversando ao pé do Fogo. Meio zonzo. 1. na forma baguá. p.. rústico. Cornélio Pires.] B BAGUAL. Cf. Cortar. adj. a pederneira. que viera dos Ratones com uma tropa de bois xucros: o Justino já tinha apartado um para a vara. Cigarro feito de fumo crioulo e palha de milho. na Cachoeira. m.] BAIO. Arisco. 42. 13. Grosseiro. 68. Fem. avios de pescaria – o anzol. s. etc. adj. m. // 2. dar mau conselho a. menos no último sentido: ver Silva Murici. meio tonto. [Também usado em São Paulo. AVIOS. avios de mate – a cuia. Instigar para o mal. m.] . t. s.” – Virgílio Várzea. etc. espantadiço. pl. ou cavalar ou muar cujo pêlo é de um azul quase preto. Muito grande. BALANÇANTE. // 2. e s.

Montar. P. [Não dicionarizado nesta acepção. e aquesto se for de seda ou chapada. Exprime espanto. Na acepção de certa espécie de opa. Cordão ou couro entrançado que. BAMBURRAL. admiração. BANHADO. BANCAR-SE. pântano. traspassar.] BALASTRACA. 175 – e em . s. m. Patacão argentino ou uruguaio. 87. [Vai registrada aqui a acepção. não só por não ser portuguesa como porque difere um pouco da que geralmente damos à palavra no Brasil. p. s. v. encontra-se. t. BARBICACHO. ou se a manga do gibom for apertada.] BANDEAR. [Também usado em Santa Catarina – veja-se Virgílio Várzea. p. interj. como a opa. m. f.] BARBARIDADE!. segundo Callage. [“Vocábulo já em desuso”. e noutras acepções ligadas à idéia de vestimenta. v. s. escritor da primeira metade do século XV: “E sse alguu quiser reger sobre roupa. é. passa por baixo do queixo. s. Lugar onde se toma banho. m. é velhíssimo no português. p. uma abertura por onde é enfiado no pescoço. Duarte. Terreno alagadiço. em D. por que nom se rege bem sobr’ela. tendo as extremidades presas ao chapéu. m. ou a manga do balandrau assi feita que nom leixe bem meter a lança de sso-braço. m. o qual tem no meio. segurando aquele à cabeça. o recinto de banho. [Também se usa o termo em outros Estados.Glossário 267 BALANDRAU. s. p. 81. o seu emprego em São Paulo. enquanto no trecho de Simões Lopes Neto é o lugar – o arroio – onde se toma banho. Vegetação arbustiva que viceja nos lugares úmidos e nas roças ou cercados abandonados. 28 – e em São Paulo – ver Amadeu Amaral. ou curta. p. Mares e Campos.] BANHEIRO. de ordinário. brejo. Atravessar. Passar-se para o outro lado. o quarto. Nome dado ao poncho de pala. sentar-se. O Dialeto Caipira. s. deve resguardar se é de tal guisa que torvar o possa. por exemplo. é documentado por Valdomiro Silveira – Os Caboclos. onde é talvez mais corrente o sinônimo barbela. Banheiro.” – Livro da Ensinança de bem Cavalgar Toda Sela. entre nós. ou pala simplesmente.

// 2. v. beijo. [Não dicionarizado. Esta palavra está em Simões Lopes Neto no sentido de boliche.] BASTEIRA. boquinha. 1. f. Fazer barulho ou bulha com. Tumulto. Cair no chão. Pagodeira. s. f. 1. briga. [Não registrado como transitivo nesta acepção. t. [Termo conhecido talvez em todo o Brasil. barroso fumaça.] BARROSO. s. Bicharada. Diz-se do boi de cor branca amarelada. s. Ferida produzida no lombo do animal por defeito ou mau estado do lombilho. f. BOCHINCHADA. [Não dicionarizado neste sentido. gangolina. barroso amarelo. bate-boca.] BATE-BARBAS. m. m. s. [Não está dicionarizado na última acepção. s. Erro de revisão. briga”. isto é. verb. m. galão. bicharia. Beijoca. dando-lhe o significado de “morrer”. Ave aquática de cor preta. p. BICHAREDO (ê). Erva da família das iridáceas (Cypella plumbea). Callage consigna a expressão. m. s. s. por Guimarães Rosa – Sagarana. BIBI. Discussão acalorada. da mesma força. aliás. de Silva Murici. balbúrdia. s. loc. adj.] BICOTA. 199. cuja raiz é comestível. “taverninha. barroso vermelho.268 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Minas.] BERZABUM. da família dos carbonídeos (Carbo vigua). verb.] BOCHINCHE. certamente: bochinche é “baile reles” e “desordem. Ato de promover bochinche ou conflito. Há no Paraná o sinônimo queixinho: ver Silva Murici. Divisa. s. m. f. // 2. [Figura entre Algumas Vozes Regionais do Paraná. Algumas Vozes Regionais do Paraná. bodega”. s. Há diversas tonalidades: barroso claro. pândega. Tenha-se. BIGUÁ. [Não dicionarizado este sentido. bafafá. em vis- . BICHARÁ. Ter destino igual ao de outro. Poncho feito de tecido grosseiro de lã. loc. f.] BATER ORELHA. Ser igual a outro. s. BATATA. m.] BARULHAR.] BATER A ALCATRA NA TERRA INGRATA. bate-barba. [O mesmo que bater orelhas.

Glossário 269 ta o seguinte: no conto Jogo do Osso. s. [Também usado em Minas. e cininga. consigna. Cobra grande. intitulado “O Gringo das Lingüiças”. trampolinada. adj. desertor. pl. de um dos contos. Agitação. f. e s. f. atrapalhação: azáfama. Golpe dado com as bolas. Trapalhada. vale dizer boliche. m. ver Afonso Arinos. e pouco depois escreve: “Verdade que eu não estava almoçando na mesa do boliche e sim na da família do gringo. Aparelho que serve para prender o animal em campo aberto. o autor se refere a “um bochinche meio arrebentado”. torto. p. acriançado.] BOICININGA. “o qual tinha um boliche mui arrebentado”.] BOLEADEIRAS. 13. (Através dos naturais disfarces da ficção é possível – observe-se de passagem – reconhecer no “gringo ruivo. de Freitas. talvez. torto”. BOCÓ1. a de “pulpería o taberna de pobre aspecto”. BOLAS. // 2. não dicionarizada. [Também usado em São Paulo e outros Estados. pois num dos Casos do Romualdo. pl. ainda com o pêlo do animal. soante. s. f. chocalhante”: ver Afonso A. [A palavra é formada “de Mboi. Ver Boleadeiras. m. f. Tiro de bolas. bolandas. meio gringo”. 1. BOLANDINA. cá pra mim.” É de notar que o qualificativo dado ao boliche é o mesmo nas duas histórias: “meio arrebentado”.) No entanto o Diccionario de Americanismos. e que na segunda aparece a palavra boliche duas vezes. entre as acepções de bochinche. pateta. o mesmo “sujeito alarifaço”. f. Nome tupi da cobra cascavel (Crotalus terrificus).] BOLAÇO. “meio espanhol. meio gringo”. s. s.] BOIGUAÇU. s. 1. e f. É formado por três esferas de pedra ou de ferro envol- . // 2. m. s. do outro. cobra. Pelo Sertão. cujo dono “era um sujeito alarifaço. [Palavra de origem tupi. s. meio espanhol. de cabelo à escovinha”. Tolo. de Augusto Malaret.] BOCÓ2. onde aparece bochinche por boliche. Alforje ou bolsa de couro não curtido. Simões Lopes nos dá a conhecer “um gringo ruivo. [Usado em todo o Brasil. Vocabulário Nheengatu.

menor.] BOTEIRO. Superfície boleada. Duas das bolas são de igual tamanho. verb. vigiar. BOLICHE. carioca. taberninha. Aquele que governa um bote. fora da calçada. arredondada. bodega. e int.. [Usado talvez em todo o Brasil. BOLEAR. s. esculca. Estas esferas ligam-se entre si por meio de cordas de couro. m. s. para apanhá-lo.] BOLEADOR (ô). m. t.. p. observar. que por aqui esteve em 1817. f. v. feita [na obra Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul] por Nicolau Dreis. Pequenina casa de negócio. . é antiga na língua. espreitar. marinheiros. s. no mesmo envoltório. s. m. lê-se: “Fuzileiros navais ébrios. Moeda boliviana de prata. No Rio Grande do Sul as bombachas são “de uso relativamente moderno” – escreve Luís Carlos de Morais – “pois. BOLEAR A PERNA. apertadas acima dos tornozelos por meio de botões.] BOMBEAR. muito usadas pelos campeiros. na descrição da indumentária gaúcha.. Atirar as bolas ou boleadeiras a (o animal). loc. e designava “calções largos. BOMBACHA. BOLICHEIRO. 178. s. que se emprega mais no plural. denominadas soga das boleadeiras. [A palavra. pedras e três-marias. Espião ou observador do campo inimigo. torneada. Tropas e Boiadas. [Não registrado como substantivo nesta acepção. s. chamada manicla ou manica. p. malandros de calça bombacha. BOLIVIANO. 800 réis. que tinha curso no Rio Grande do Sul e valia. formavam grupos perigosos. Em João do Rio. que se atavam por baixo dos joelhos” – Figueiredo. s. m. Calças muito largas.] BOLEADO. não se encontra esta vestimenta”. ainda. BOQUINHA. s. Usa-se também o termo em Goiás: ver Carvalho Ramos. t. por pequenos cacos de panela de ferro que. [O mesmo que bolas. f. é a que o boleador empunha para manejar o conjunto. Beijo. m. bicota.” – Dentro da Noite. e a terceira. BOMBEIRO. Proprietário de boliche. tomam forma arredondada. 265. Espionar. m. v. Aquele que atira as bolas ou boleadeiras. Apear-se do cavalo. m. aproximadamente. s.270 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a vidas num couro espesso – retovo – ou.

feita de couro. adj. // 2. [O termo está registrado em Algumas Vozes Regionais do Paraná. BUTIÁ. BRASINO. 1. porém menor do que este. [Também usado em São Paulo. e menos grosseira. loc. 1. excelente. // 2.Glossário 271 BRAÇADA. s. bondoso. muito complexa. [Também existe em outros Estados. semelhante ao buçal. naturalmente como indicação de que se trata de pronúncia popular. está entre aspas. verb. adj. 16 – vê-se a forma buçá. fiador e cedeira. BUÇALETE. s.] BURACAMA. m. ou animal vacum ou cavalar que tem grandes manchas brancas pela barriga. adj. Enganar. sem pudor.. [Do americanismo bozal. Fruto do butiazeiro. [Também se diz buenacho. Raivoso. m.. Diz-se de. f. Série de buracos. Os Caboclos. [Existe também noutros Estados. adj. afável.] BUZINA. s. s.] BUENO. [Palavra espanhola.] PASSAR O BUÇAL EM. s.] . Movimento ou gesto do braço. como “indivíduo estróina. Peça do arreio.. Compõe-se de cabeçada. Espécie de palmeira (Cocos capitata). e s. e que se põe na cabeça e pescoço do cavalo.] BRUACA. // 2. Simões Lopes Neto estende aos gatos o uso do adjetivo. Bom. perfeitamente.] BUENAÇO. f. m. Está bem. muito bem. Superl. s. s. No paulista Cornélio Pires – Quem Conta um Conto. de bueno. Muito bom ou bondoso. Adv. se faz licor. adj. 153. 1. Maleta de couro para transporte de objetos sobre animais. de Silva Murici. m. p. comestível.] BUÇAL. Butiazeiro. Fig.] BUTIAZEIRO. BRAGADO. colérico. [Também conhecido em São Paulo: ver Valdomiro Silveira. lograr. f. generoso. Diz-se do animal bovino ou do cão cujo pêlo é vermelho com listras pretas ou quase pretas. Mulher ordinária. rameira. endiabrado”. focinheira. Porção de buracos (nas estradas). de cujo fruto. [Também se usa em São Paulo. p. m. Peça do arreio.

[Nome dado pela gente do campo aos rapazes da cidade. ou correntes de metal.272 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a C CABELAMA. Conversas ao pé do Fogo. janota. calhambora. Do platinismo cajetilla. adj. CAFIFE. O conjunto dos cabelos ou pêlos de um animal. canhambola. loc.] CALAVERA (ê). Andar conduzido pelo cabresto. CALIFÓRNIA DE CHICO PEDRO. s. s. Obedecer facilmente à tração do laço. m. Cálice (de flor). arisco.] CALIFÓRNIA. ou bandeja. s. 14. Aplica-se à pessoa velhaca. 1. O barato. quilombola. que prendem a espora ao pé.] CAJETILHA. Sujeito presumido. Diz-se do cavalo manhoso. // 2. pelo fato de haver o governo desse país confiscado. Fig. adj. em que se recolhe o barato nos jogos de cartas ou no de víspora. Pequeno cofre. [Não registrado nesta acepção. caborteiro. v. int. s. 1. pl. ext. [Há em São Paulo caborteiro – ver O Dialeto Caipira. p. f. Escravo que andava fugido. ou onerado com pesadíssimos impostos. Nome por que é conhecida a luta que. Correias estreitas de couro.] CABORTEIRO. que não merece confiança. CABRESTEAR. m. p. Indivíduo velhaco. em que tomam parte mais de dois. s. // 2. as propriedades dos brasileiros ali resi- . s. 99 – e cavorteiro – ver Cornélio Pires. m. canhambora. s. Aplica-se ao cavalo baio ou gateado que tem os quatro pés. velhaco. m. f. P. caloteiro. a clina e a cauda pretos. s. [Também se usa no singular. [Espanholismo. travou o Coronel Francisco Pedro de Abreu (mais tarde general e Barão do Jacuí) contra as forças da República Oriental (Uruguai). Corrida de cavalos.] CACHIMBO. tratante. // 2. CABRESTILHOS. m. e que muitas vezes se acoitava em quilombos. O j é aspirado. f. infiel. pelame. CAIAMBOLA.] CABOS-NEGROS. 1. muito usada outrora no Rio Grande. de fins de 1849 a 1850. almofadinha. m. s. [O mesmo que canhembora.

s. em outros tempos. f. q. CAMELO. onde ficavam garantidos. Ver Caramuru. “batata”. Arona – Diccionario de Peruanismos – dá como “batata-doce ou de Málaga”. com uma saliência volumosa (calombo) na parte anterior. v. assim também se explica o emprego dessa palavra para indicar essa luta acima referida. do fato de. s. que al asarlo al rescoldo. além de outros sentimentos. se resquebraja y chorrea miel por todos lados. volviéndose empalagoso de puro dulce”. Espécime de uma raça bovina outrora abundante no Rio Grande do Sul e hoje desaparecida. talvez daí. Exposto ao sol. Estes aproveitaram a ocasião para de lá conduzir os seus gados ao Rio Grande do Sul. [Camote vem do mexicano camotli. O namorado. [Simões Lopes emprega a palavra em sentido figurado. [“Este vocábulo” – escreve Romaguera Correia – “tira sua origem. facilmente compreensível pelo conjunto.. os camelos. picar-se. CAMBUIM (ím). como nessas corridas (califórnia) são muitos os competidores e todos – com a sede de ganhar.”] CALOMBO. das verbenáceas e outras. Grupo de camelos. dirigir-se muita gente à Califórnia em busca de ouro que naquele Estado abundava. s. a cobiça de lucros.] CAMBARÁ. m. não dicionarizada. sem dúvida. f. m. s. // 2. m. 1. Muitas extorsões e abusos se praticaram durante essa peleja. Var. m. na qual os touros apresentavam pescoço muito curto. m. CAMOTE. e de que há muitas variedades.Glossário 273 dentes. s. E três linhas adiante: “Tener un camote o estar encamotado” . Árvore mirtácea (Myrcia sphaerocarpa). tenha-se-lhes dado aquela denominação. verb. loc. s. s. na qual foi derrotado Chico Pedro. COMPRAR A CAMORRA. desafio. algumas tidas como de valor medicinal. CAMORRA. analogicamente. Reagir a uma provocação. e. indireta. Provocação. Nome comum a várias árvores ou arbustos da família das compostas. em que também predominava. Namoro.] CAMELADA. de cambuí. o camote – escreve o mesmo Arona – “se recuece tanto.

// 2. p.] CAMPESTRE. CANA DE RÉDEA. p. depois de seca.] CANDONGUEIRO. e int. // 2. p. talvez. CAMPEIRADA. 104. O Dialeto Caipira. s. adj. Lugar onde se realizam jogos. Fig. Campo no meio da mata. Pista de carreira de cavalos. arteira.] CAMPEAR. lugar predileto. [Não dicionarizado nesta última acepção. adj. S. Paradeiro habitual. dá-o como da ilha da Madeira. 1. Seu emprego em São Paulo. de mel. lugar. 37. [Figueiredo. que foge com a cabeça quando se lhe quer pôr o freio ou o buçal. // 2. Aplica-se ao animal manhoso. p.] CAMPEIRAÇO. Tropas e Boiadas. CANCHEAR. s. [No sentido figurado. CANARINHO. profundo conhecedor dos segredos de seu ofício. Aquele que sabe trabalhar no campo. s. Os campeiros. na Paraíba. [O termo é de uso. t. f. 111. v. documenta-o José Américo de Almeida – A Bagaceira. reduzindo-a a pedacinhos. CAMPEIREAR. Diz-se de pessoa manhosa. Empregado que cuida das canchas. triturar (a erva-mate). 1. int. Diz-se de. Uma das correias com que se fazem as rédeas. f. Espaço. Campeiro muito experimentado. 165. Procurar.] . m. que o camote desperta. // 3. [Também de uso em Goiás: ver Carvalho Ramos.274 Auréli o Bu arqu e de Ho landa F e r r e i r a es muy corriente por “estar enamorado”. f. m. Bater as folhas de (a erva-mate). documenta-o Valdomiro Silveira – Nas Serras e nas Furnas. Aquele que trabalha no campo com o gado. 1. // 2. loc. Espécie de canário. 1. t. 1. s. 1. m. Procurar gado pelos campos. // Clareira gramada. mas a relação parece bem clara. Trabalhar no campo com o gado. esquadrinhar. ou cavalo habituado a correr na cancha. Porção de campeiros. m. também circula em São Paulo: ver Amadeu Amaral. v. esquiva. // 2. m. CANCHEIRO. s. s. Moer. v. que é o primeiro a registrar o termo. m.] CANCHA. 1. // 4. e s. em todo o Brasil. CAMPEIRO. // 2. s.” O dicionarista não estabelece relação entre o sentido dessas expressões e a idéia de doçura.

[O mesmo que camelo e galego. v. quando vão envelhecendo. Dinheiro miúdo. Fig. s. Espécie de sopa de milho quebrado ou pilado. m.] CANJICA. pusilânime. int. s. m. pouco. f.] CANHADA. CAPINCHO. [Do esp. leite e. Arreios velhos e quase sem préstimo. CARACA. // 2. s. Objetos de pouco valor. // 2. Fig. Filhote de capivara. Meia-volta. s. com a acepção de “dinheiro”. m. f.] CARCHEAR. [A primeira acepção. Aguardente de cana. [Não dicionarizado este sentido. .] CAPIM-LIMÃO. Denominação que os republicanos de 1835 (Revolução Farroupilha) davam aos legalistas.] CARAMURU. Vocabulário Amazônico. s. caña. Vale profundo. cachaça. // 3. furtar. canela. sob falso pretexto de necessidades militares. m. Os dentes.Glossário 275 CANHA. f. a qual no Brasil habita apenas o Rio Grande do Sul. às vezes. s. cana. cacarecos. está dicionarizada. CANHONAÇO. // 2. Rugas que surgem na base dos chifres dos vacuns. f. no singular – em seu O Linguajar Carioca em 1922 –. [Do platinismo cara-vuelta. É um tipo de cisne. Apoderar-se indevidamente de animais e coisas. s.] Pl. a segunda. 1. Antenor Nascentes dá o termo. e t. Indivíduo fraco. 1. f. s. // 2. pl. comum a Portugal e ao Brasil. 1. No Rio Grande do Sul. Fato ou notícia que provoca extraordinário abalo. vil. também se usa sem açúcar ou sem leite. [Também conhecido na Amazônia: ver Amando Mendes. Tiro de canhão. f. s. por ocasião das revoluções. volta instantânea para trás. badulaques. O macho da capivara. Erva gramínea (Elionurus candidus). m.] CARA-VOLTA. CAPOROROCA. Roubar. [Diz-se também craca. m. s. 1. não.] CARAMINGUÁS. ao qual se adiciona açúcar. s. Designação onomatópica de uma ave da família dos anatídeos (Coscoroba coscoroba). ou pode o milho ser cozido com o charque. grande depressão. CAPÃO. de corpo inteiramente branco. s. baixada.

ajustá-la. s. Pano que cobre a mesa do jogo. CARGOSEAR. renitente. Grande número de carretas. Contratá-la. m. trocando a primeira forma pela segunda.] CARRETAME. fila. CARNEAR. como observa Luís Carlos de Morais. e puxada por uma só junta de bois. impertinente.] CARREIRA. CARGUEIREAR. Esfolar a rês. f. [“A carreira grande. s. adj. Ver Parada e Luz. [Alguns dicionários dão. [Em Portugal. fazer corte insistente a. CARGOSO (ô). loc. m. T. v. s. // 2. o de Luís Carlos de Morais. que se põe por baixo do lombilho.] CARREIRO. é provincianismo. CARONA. carguincha. Transportar em animais cargueiros.] CARRETÃO. perseguir. s. CARQUINCHO. Trabalhar com animais cargueiros. loc. IR OU ESTAR PELAS CARONAS. Um deles. pois. carreira. encarquilhado. cita Simões Lopes Neto erradamente. realiza-se sempre às duas horas da tarde. A carreira principal. por um costume antiqüíssimo. [Não dicionarizado. Estar em situação difícil. numa reunião para carreiras. Esfolar. v. CARREIRA GRANDE. loc. nesta acepção. nas estâncias. Peça do arreamento: manta de couro. f. Carro de bois.] CARRETA. Carreta pequena. m. adj. f. usada para serviços leves. modo sumário como o roubo (o jogo. [O mesmo que carreiramento. int. T. enrugado. só se usa no Rio Grande do Sul. s. 1. // 2. de Luís Carlos de Morais.276 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a CARCHEIO. por exemplo) de apossar-se dos bens alheios. 1. int. Esfolar (a rês). Disputa entre animais de corrida em campo raso. Roubo. m. Fig. [Não dicionarizada esta acepção. e no Brasil também. t. s. f. . Importunar. s. s. v. Antes dela nenhuma é corrida” – lê-se no Vocabulário Sul-Rio-Grandense. Importuno. Ato de carchear.] ATAR CARREIRA. carretama. verb. Fileira. verb. CARPETA (ê). com o mesmo sentido. Seco. s. penosa. f.

v. diga-se de passagem. v.] CHAIRAR. Surra de relho. Condutor de carreta. Que tem cerne espesso. terreno seco e áspero. Diz-se de. Sertão Alegre. adj. s. CAÚNA.: changueirito. Grupo de castelhanos (filhos do Uruguai ou da República Argentina). [Também usado no Ceará: ver Leonardo Mota. PRO CASO. CAVALEIRADA.] CHAPE-CHAPE. Afiar a faca num afiador de aço denominado chaira. 246. Platinismo cerdear ou cerdiar: te he de quitar la costumbre / de cerdiar yeguas agenas” – Martín Fierro. tribo de índios que outrora habitava o Rio Grande. v. f. bem como em Portugal. s. int. adj. [Cf.] CARUMBÉ. dominando o extremo sul do Estado. tosquiar. [O mesmo a que nos Estados do Norte e outros do Brasil. [Mais usado no pl. Os maxilares. ou cavalo de cancha. [Não dicionarizada a locução neste sentido. m. Cativante. m. palrar. p. proeza. adj. [Não dicionarizado. v. para pequenas corridas.] CATURRITAR. s. e t. m. m. Aliás. tagarelar. CATIVO. e f. Parelheiro.] CHARQUEADOR (ô). [Não dicionarizado.] CHÁ-DE-CASCA-DE-VACA. m. adv. loc. s. m.] CASTELHANADA. cavalaria. ou indivíduo dos charruas. p. [Não dicionarizado. e int. s. Recordações Gaúchas. s. por sinal. f. s. Erva-caúna. int. Jabuti macho. [Não dicionarizado nesta acepção. Saubidet – Vocabulario y Refranero Criollo – registra as duas formas.Glossário 277 CARRETEIRO. narração. s. em pleno desenvolvimento. s. Cortar as cerdas do animal. CHARRUA. Ação irregular. parelheiro medíocre. Não dicionarizado. 92. CASO. m. 173. t. se dá o nome de carreiro. CHAPULHAR. [Dimin. Chão duro. sedutor.] CARRINHO. p. CHANGUEIRO. s. m. Chapinhar. conto. de Laf (Luís Araújo Filho). f. s. . int. Proprietário de charqueada. História.] CERDEAR. Falar muito. m. e s.] CERNOSO (ô).

de rosetas muito grandes.] CHINAREDO (ê). // 2. e serve também para chamar a atenção da pessoa a quem se fala. [Também se diz chirca. // 2. f. m. p. [O mesmo que piguancha. [Também de uso em São Paulo – ver Valdomiro Silveira. m. amargo. [Espanholismo usado também em Portugal. m. Os Caboclos.] CHILENAS. Algumas Vozes Regionais do Paraná. Arbusto daninho. interj. Saubidet de ambas as formas. da família das compostas (Eupatorium Virgatum). Diz-se de. Diz-se de.] CHICO. [Do platinismo ché. Vocabulario Rioplatense. Também se usa chininha. e s. 1. s. Grande número de chinas. adj. Chinaredo. Quanto à grafia e à significação. CHIRIPÁ. cabocla. Granada e Arona com e. Grandes esporas.] CHÊ!. [De uso também no Paraná.] CHIMARRÃO. de china. próprio.278 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a CHASQUE. m. estafeta. passando . s. pl. Mensageiro. f. Platinismo. f. s. fornida.] CHINOCÃO. m. vistosa. caboclinha. 37 – e em Goiás – ver Carvalho Ramos. f. // 3. s. 17. Descendente ou mulher de índio. s. Mulher morena de aspecto semelhante ao das chinas.] CHINA. as chinas. [O mesmo que chinerio. s. ou zombaria. chinoquinha.] CHILCA. bravio. ou animal doméstico que se tornou selvagem. Dimin. [Do quíchua chasqui. CHINOCA. mate amargo. que se toma em cuia. Pequeno. pronuncia-se tchê. s. alçado. p. Tropas e Boiadas.] CHINERIO. usada outrora pelos homens do campo: constava de um metro e meio de fazenda. 101. adj. que o Dicionário da Academia Espanhola grafa com i final. m. s. [No paulista Valdomiro Silveira vê-se a palavra na segunda acepção: Os Caboclos. p. s. que. ou mate sem açúcar. 1. Chinoca bonita. Indica espanto. ver Granada. Vestimenta sem costura. e que parece só estar registrado em Augusto Moreno. Mulher de vida fácil. no primeiro sentido: ver Silva Murici.

Que o chiripá está hoje em desuso. Nas Serras e nas Furnas. Luís Carlos de Morais.Glossário 279 por entre as pernas. s. 49 – e em Goiás – ver Carvalho Ramos. Assim também a de Tito Saubidet: “Asado hecho sobre las brasas o cenizas calientes. A moda o uso campeiro. e ppacha. Tomar refeição ligeira. m. nas extremidades. era presa à cintura. Vocabulário Gaúcho: “A gaita matou a viola. Tropas e Boiadas. ou quase. . isso que por aí se diz erroneamente churrasco. Uma das peças do arreamento: a que aperta o lombilho. “roupa ou veste” – Malaret. chuvisco. ou outras coisas. // 3. s. caboclo. [Do quíchua chiri. O fósforo matou o isqueiro. m. s. no qual é a carne espetada e assim levada ao fogo.” A definição de Romaguera Correia – “pedaço de carne sangrenta e mal assada sobre as brasas ou labaredas” – confirma a de L. Comer. v. CHURRASCO. “frio”. Índio. jogando-se o pedaço de carne fresca diretamente sobre as brasas. isto é. p. Não dicionarizado. C. prova-o a seguinte quadra popular – apud Callage. ou de pano. de Morais. para guardar dinheiro.] CINCHA. // 2. ao passo que o assado propriamente dito. Chuva miúda.” (Callage). int. porém. 1. por uma cinta de couro ou pelo tirador. Churrasco pode ser feito com a carne com o couro ou sem ele. m.”] CHIRU. [Também se emprega em São Paulo – ver Valdomiro Silveira. sem nunca tocá-lo diretamente. é feito recorrendo-se ao auxílio do espeto. Comer. fumo e papel de cigarro.” CHURRASQUEAR. CHUSPA. sem auxílio de espeto. s. A bombacha o chiripá. f. T. p. Do quíchua chchuspa. f. ou de outro couro. 170. [Americanismo. Bolsinha feita com a pele do papo da avestruz. s. “Carne sangrenta assada no espeto. Comer churrasco.] CHUVISQUEIRO. escreve: “Dá-se este nome ao assado feito sobre as brasas. Diccionario de Americanismos.

Os cinco dedos da mão. também. Fig. f. [O próprio autor define o termo (p. Leal Conselheiro.] CLINUDO. 1. Fig. [A palavra é do antigo português. s. s. em São Paulo: ver Valdomiro Silveira. ou cavalo não castrado. da parada. Guiné. 1. sob a influência de vocábulos terminados em -aria. m. COGOTILHO. Peça de couro ou de metal com que se prende um animal a outro. e em D.] COLA. adj. Cauda de animal. que andam sempre juntas. loc. // 2. 1. // 2. 176. ou animal de clinas grandes. Fig. m. // 3. e s. [Não dicionarizado. pescoçudo. m. p. Tosadura que se faz nas crinas do cavalo acompanhando a volta do pescoço. Mercadaria também não aparece nos dicionários. pl. O conjunto dos dois animais presos pela colhera. Coletoria. // 2. adj. Assim.] COLHERA. Em nota à palavra. m. isto é. O depositário da coima. ou ser uma alteração de coletoria. e s. portanto. neste último livro. no jogo do osso. Os Caboclos. velho. Diz-se de. s. COLHUDO. s. coletaria poderá ser formada de coleta + -aria.280 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a CINCO MANDAMENTOS. mercadaria em Azurara. e. Qualificativo do. Aplica-se ao indivíduo cabeludo. Piel: “Temos aqui o sufixo -aria. m. s. Duarte. O que vai só até a metade do pescoço. ou cavalo de grandes colmilhos e. p. 213). m. de influência castelhana. Que tem o cogote ou cangote proeminente. imprestável. A mão. p. MEIO COGOTILHO. adj. Emprega-se. // 2. f. 174. A forma atual mercadoria baseia-se em mercador”. . s. Diz-se de. COGOTUDO. m. 1. certamente. COLMILHUDO.] COLETARIA. loc. mas seu uso no Rio Grande do Sul resulta. escreve Joseph M. Aplica-se também às pessoas de idade avançada. f. 130. s. adj. pelo pescoço. [Também se usa em Portugal. Erro de revisão? Cf. como em mercearia. COIMEIRO. s. Aplica-se a duas pessoas muito ligadas.

com que se pode contar em qualquer situação. conj.] COLOREAR. a largada. s. seja como for. s. Empregado (ou animal) de confiança. volteio. dos farroupilhas. intr. v. ter desinteligência. fanfarronada. de qualquer modo. CONVIDANTE. em sua cor vermelha. aparecer. [Não dicionarizado neste sentido e gênero. em geral. [Não dicionarizado nesta acepção.] CONTRATAR. v. COLOREADO. Conj. adj. [Os dicionários. f. Vermelho. Nome dado ao Rio Grande do Sul desde os tempos coloniais até à Revolução de 1835. Antiga designação dos habitantes do Rio Grande do Sul (Continente. Bazófia. Animal cavalar ou muar de cor vermelha. Cor vermelha. COMO QUERA (é).] CONTINENTE. adv. [Em Darci Azambuja vê-se. especialmente. m. conj. Volta. Combinar (os corredores. giro em sentido contrário ao do anterior. COMPANHA. CONTRAPONTEAR-SE. gauchada. t. [Não dicionarizado neste sentido. s. . À medida que. m. Mostrar-se. Contratar os serviços de. s.] CONCHAVAR. entre si) o começo da corrida. adj. p. m.] CONVIDAR-SE. apesar disso. CONTINENTISTA. f.] CONFORME. s. s. 19.] COMPADRADA. Logo que. Como quer que seja. f. [Não dicionarizado. Altercar. alugar-se.) e. Entrar para o serviço de uma estância ou de uma casa qualquer. nesta acepção. p. t. v. p. com o mesmo sentido. Companhia. [Não dicionarizado. [Não dicionarizado nestas acepções. Fazer contrato ou pacto com. v.Glossário 281 COLORADO. loc. registram a palavra como desusada ou antiga. S. gabolice. v. como quer: No Galpão.] CONTRAVOLTA. s. Que convida: convidativo. Possivelmente será por influência do espanhol compaña que Simões Lopes lhe terá dado tal sentido. m. CONFIANÇA. P. q. ainda assim. m.

s. é empregada em mourões. COXILHA. e onde se desenvolve a indústria pastoril. com a arrogância (de alguém) – equivalente à frase nortista quebrar a castanha. s. [Não está dicionarizada a última acepção. pois.] CORTAR-SE. s. s. Indivíduo forte. Que se melindra facilmente. [Do esp. acordeão.] CORONILHA. Tirar o couro de animal que morreu no campo. COVA-DE-TOURO. corazonada. S. de grande densidade e extraordinária resistência. e t. Escavação que faz o touro com os chifres e as patas quando se prepara para a luta. Lavor que se faz. para fazer assado. v. coceguento. de peste. cuchilla. palpite. suscetível. [Usa-se em geral na expressão QUEBRAR O CORINCHO = acabar com a bazófia. s. em partes diversas do Brasil. [Do esp. sua madeira. f. carriça. magreza ou desastre. também conhecida por espinho-de-touro (Scutia buxifolia). // 3. A boa grafia. 1. resistente. p. CORINCHO. // 2. também chamado. int. ou cuchi- . Campina com pequenas e grandes elevações. Separar-se. garriço. cambaxirra.] COSTILHAR. como usa Sousa da Silveira – Lições de Português. Gaita de foles. s. // 2. e adj. juntamente com as costelas. 26 –. m. Aquilo que o coração diz. pressentimento. valente. Fig. f. espécie de colina geralmente coberta de pastagem. f. garrincha. f. fanfarronada. Muito sensível às cócegas. f. proa. afastar-se. disposto. sanfona. COUREAR. m. O assado feito dessa carne.282 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a CORAÇONADA. s. 4ª ed. 1. deveria ser cochilha. topete. s. Pássaro trogloditídeo (Troglodytes aedon). Fig. Arrogância. m. m.. s. recorte. Árvore ramnácea. v. p. CORRUÍRA. cortando. A carne que se tira dessa região. etc. A região das costelas do vacum. f. COSQUILHOSO (ô). adj. garriça. [Não dicionarizado neste sentido. CORTADO.] CORDEONA.

procede do americanismo aijuna. que já é contração de ah! hijo de una! Não dicionarizado. Fig. s. CULATREAR. [Não dicionarizado na acepção figurada. perseguir. s. Produto de cruzamento (de raças). [Não dicionarizado nestas acepções. p. CUÊ-PUCHA!. encruzada. muito venenosa. 1. // 2. f. Que tem cuera ou cueras.] CULATRA. f. s. m. Virgílio Várzea. espanto. Está excelentemente definido pelo próprio autor (p. A primeira é do espanhol. 213). adj. cruzeiro. e s. CRUZA.Glossário 283 lha. 1. em outras partes do Brasil. Variedade de cobra jararaca (Bothrops alternatus). . Seguir na culatra de (o gado).] CULO. esta. Ver Cuê-pucha! [Forma reduzida da ai-cuna. Esse contacto pode sempre ocasionar a reabertura da chaga. f. CUNA!. Ato de cruzar. [Cueras são cicatrizes no lombo do animal. urutu-cruzeiro. m. a qual. por sua vez. como está no Dicionário de Laudelino Freire – obras escritas. ambas. f. v. Qualificativo de. m. m. interj. A palavra também corre em Santa Catarina: cf. m. Exprime admiração. como a de 1942. Originário do país. adj. fixou a escrita coxilha. também chamada.] CRIOULO. da região.] CRUZEIRA.] CUPINUDO. s. s. 26. // 2. t. [O mesmo que cuê-puna! e cuna!] CUERUDO. Ir no encalço de. tangendo-o.] COXILHÃO. resultantes de feridas causadas pelo contacto dos arreios. Mares e Campos. A retaguarda de um rebanho. etc. s. ou touro que tem grande cupim ou giba. cruzamento. Onomatopéia designativa da voz da coruja. s. urutu. interj. [Não dicionarizado. s. do lugar onde vive. Coxilha muito extensa. CRUZADA. CRACRÁ. Encruzilhada. na ortografia simplificada de 1931.

] DEBOCHEIRA. adv. Porção de cuscos. Fig. de cacaracá. loc. dança. – o que é impossível depreender do contexto do parágrafo”. Forte. mostrando-se tão fervorosos.] DE CHAROLA. f. valente. os cuscos.] CUSCO. a palavra charola. aí. de lado. f. de charola. de raça ordinária. disposto. s. e s. ora andando (por estar cheio o rio. [Não dicionarizado. vistoso. admirável. [O mesmo que a bolapé. [Não dicionarizado.] CUTUBA. forte. adv. “E a Tudinha lá foi. deboche. loc. “que significa – andor. a que . João Ribeiro diz que se lhe afigura “pouco clara”. de esguelha. s. [Não dicionarizada esta acepção. s. m. adj. imprestável. torena ou turuna. Diz-se de. Comentando esta passagem das Memórias de um Sargento de Milícias: “Caminhavam eles [os meninos] em charola atrás da procissão”. adv. audaz”. Cão pequeno.] D DANÇAROLA. [O mesmo que taura. adj. não permitindo que se tome pé durante toda a travessia). fraca. ou se tomará mais figuradamente a expressão. Grande troça ou deboche. Do esp.] DE ATRAVESSADO. loc. guaipeca ou guaipé. Gente ordinária. adv. destemido. s. 1.] DE CARACARÁ.284 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a CUSCADA. a volapié. DE BOLAPÉ. De través. Ora nadando. loc. m. f. e adiante escreve: “Alguns dos meninos. zombaria. como o santo que vai de charola ou em charola (no andor).” Poder-se-á entender “carregada”. Alguns léxicos registram agalhudo = “esforçado.] DE AGALHAS. entendendo-se que a Tudinha seguiu acompanhada de perto pelos seus admiradores. // 2. [Não dicionarizado. [Não dicionarizado. Bailarico. que a cortejavam tanto. [Também se chama guaipeva. que parecia estarem levando uma santa no andor. ou indivíduo forte. loc. De pouco ou nenhum valor.

loc. e adj. Destemido. valentão. audacioso.) = “morrer”. quebra. Fig. Oportuno. 64. Há pouco. isto é. [Também circula em São Paulo: ver Valdomiro Silveira. juntos. [Não dicionarizado. José Hernandez. t. DE ESCOTEIRO. porém.] DE CORPO QUADRADO. adv. DESABOTINADO. significado que.] . [Cf.] DE MÃOS ABERTAS. adj. adv. [Não dicionarizado.” – Autores Contemporâneos. nada tem de depreciativo. não apegado ao dinheiro. Também se usa sem o de. Liberal. ir em charola quer dizer ir em multidão ou com acompanhamento numeroso. Nas Serras e nas Furnas. [Não dicionarizado. podiam ir nos ombros de outros. Estouvado. Parece. no mesmo sentido. adj. sem impedimento. p. sem embaraço. adj. adv. excelente. loc. pela primeira vez no Pequeno Dicionário. O melhor possível.] DEFUNTEAR.] DE JÁ HOJE. propício. estourado. creio. De charola não está dicionarizado. A cavalo. sempre em sentido depreciativo. Submisso a outrem. Martín Fierro: “Ni los mirones salvaron / de esa arriada de mi flor” – p. sem conduzir animais ou sem ser acompanhado de viaturas: viajar de escoteiro. apaixonado. Matar. loc. ainda há pouco. DE RÉDEA NO CHÃO. e em charola aparece. adj. Luís Carlos de Morais consigna dar no jeito = “vir a calhar”. p. Em companhia. fiel (cavalo). 38. loc. v.] DE COMPANHEIROS. e s. DE JEITO. valente. Ver Quadrar. generoso. vencido. loc. adv. adj. que. adv. m. Inteiramente manso. Alguns léxicos registram defuntar (intr. loc. [Não dicionarizado. no Rio de Janeiro.] DENTE-SECO. loc. é provável que ambas as locuções sejam conhecidas apenas no Brasil. como se vê. 1. DE MI FLOR. 71 [O Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa registra a expressão levar em charola = “levar alguém carregado por ocasião de uma manifestação de apreço”. // 2.Glossário 285 se refere o romancista.

desembaraçado. v. DESMUNHECAR. decidido.] D´ESPACITO. [Corre em São Paulo também: ver Valdomiro Silveira. do dinheiro ou jóias. etc. – ou que delas se desfez.286 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a DESAPRESILHAR. despassito. Adaptações aceitáveis. 112. ou aquele que não tem pilchas. mais fácil é a passagem. Revelar. pois o português tem a locução adverbial de espaço e o sufixo -ito é também da nossa língua. adj. de espacito. dela diferem bastante. extraviar-se. DESTORCIDO. e Darci Azambuja. DESPONTAR. Ver Pelar. Extenuar-se. Atravessar (um curso de água) pelas nascentes ou pontas. também. Falta de governo. d’espasito. DESGOVERNO. Desprender (o que estava apresilhado). p. Tirar a maneia de (animal). v. decepar ou quebrar a mão de. s. de orientação. t. Esparramar-se. m. Callage grafa. Ágil. v. DESOVAR. desnorteamento.] DESCASCAR. ou aquele a quem despojaram das pilchas – isto é. m. v.] DESGUARITAR-SE. v. e em acepções que. Devagar. destro. t. 125 – . adv. t. [De espacito – como registram Luís Carlos de Morais e Laudelino Freire – e d’espacito são adaptações portuguesas do espanhol despacito. desorientação. em São Paulo – ver Valdomiro Silveira.] DESPARRAMAR-SE. embora aparentadas com a de Simões Lopes Neto. p. Desgarrar-se do rebanho ou do bando. DESPILCHADO. Nas Serras e nas Furnas. [Usa-se. t. [Os dicionários só registram apresilhar. p. sendo menor o volume do líquido. e s. Os Caboclos. [Não dicionarizado neste sentido.] DESMANEAR. exaurindo-se. t. t. // 2. Diz-se de. v. Cortar a munheca a. pobre. perder-se. [Não dicionarizado nesta acepção. injustificavelmente. pouco a pouco. [Os dicionários dão o verbo somente como transitivo. v. p. v. desembuchar.] DESLOMBAR-SE. Que. arreios. v. adj. 1. p. onde.

talvez em todo o Brasil. em sua comédia A Família e a Festa da Roça. p. loc. procedente do espanhol doblón. 85 – e em outros Estados. adj. para pagar duas doblas no fim de seis meses.] DOBLE E LUZ. Não dicionarizado. “dez mil duca- . s. m. loc.] DE UM TUDO.Glossário 287 em Goiás – ver Bernardo Élis.] DOBLA. ou que se pode imaginar. s. m. [Também se chama dorminhoco. [Não dicionarizado. Ermos e Gerais. e duas no fim de um ano. cem milhões”. “em pás. 31. monjas e pobres para que rogassem a Deus pela vitória das armas espanholas”. garça-dorminhoca. Eis aqui algumas de tais parcelas: “duzentos mil e setecentos e trinta e seis ducados e nove reais em frades. antiga moeda de ouro.” – Comédias. de bela plumagem (Nycticorax nycticorax). Dobra. antiga moeda portuguesa cujo valor e cunho variaram nos diversos reinados. DORME-DORME. ela aparece no carioca Martins Pena. verb. Ave ardeídea. em alusão às que Gonzalo Fernández de Córdoba. [Os dicionários não consignam a forma doblão. alcunhado “el Gran Capitán”. representada pela primeira vez em 1840: “No ano passado comprei um sítio a José Pinote por quatro doblas. loc. p. [Fem. p.: dormilona. Ver Luz. s. Tudo o que é necessário. “cem mil ducados em pólvora e balas”. m. Do espanhol dormilón. de tudo. socó.] E ECHAR CUENTAS DE GRAN CAPITÁN. Dorminhoco. o uso relativamente moderno dessa forma no Rio Grande será influência do espanhol.] DOBLÃO. f. e s. s.] DORMILÃO. Dobrão. apresentou. a pedido deste. [Os dicionários dão dobla como forma antiga. picaretas e alviões. Contudo. ao rei Fernando o Católico. Indica a exorbitância das parcelas de uma conta feita arbitrariamente e sem a devida justificação. depois de haver conquistado o reino de Nápoles.

f. Blau Nunes iria comprar “aperos e armas e roupas.] EGUADA. [Não dicionarizado. / Da china que deixei lá. adj. na manada.] EMBELECO (ê). Diz-se de. entenda-se: “pago-lhe na mesma moeda”. [No Diccionario de Refranes. “é olho por olho. o de “coisa que embeleca”. possivelmente. pastor. ÊH-PUCHA!.288 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a dos em luvas perfumadas para preservar as tropas contra o mau cheiro dos cadáveres de seus inimigos estendidos nos campos de batalha”. m. “e em- . loc. 51. garanhão. e s. de Lindolfo Gomes. ao que parece. adv. “cento e sessenta mil ducados em pôr e renovar sinos destruídos à força de tanto repicar todos os dias por novas vitórias alcançadas contra o inimigo”. s. m. deverá ser ampliada quando se tiver em vista o significado mais corrente da expressão. Uma coisa pela outra. adj. [Esta definição. interj. Cuê-pucha! cuna! [Também se diz la pucha: “Quando me lembro. s. “três milhões em missas pelos mortos”. isto é. Em frases como: “se se meter comigo. 137 dos Contos Populares Brasileiros. Embalador. Tropilha Crioula. / Sinto um repuxo por dentro / Que nem sei o que será. já sabe. ou cavalo que só acompanha éguas. é elas por elas”. À p. outro cavalo. EGUARIÇO. p. la pucha. que cativa. conveniente ao matiz de sentido em que o autor emprega elas por elas. de onde foram tirados estes apontamentos. de Sbarbi. que atrai – sentido que se pode deduzir do começo da definição dada por Figueiredo: “ato ou efeito de embelecar”. umas esporas” (coisas antes necessárias que de enfeite). dente por dente”. um lenço grande e umas botas. em todo o Brasil. está “echar las cuentas del Gran Capitán”. lê-se: “O homem refugou a conta que lhe pareceu de grão-capitão”. e – ao cabo de tudo – “cem milhões pela minha paciência ao ouvir ontem que o rei pedia contas a quem lhe presenteou um reino”.] EMBALANTE. Manada de éguas.” – Vargas Neto. O sentido em que usa Simões Lopes este vocábulo será.] ELAS POR ELAS. usual.

v. Metido em lugar apertado. particularmente na Salamanca. p. Embravecer.] EMULITAR-SE. que no Brasil só é usado no Rio Grande do Sul. // 2. corredor que fica junto ao curral ou ao banheiro carrapaticida. EMPANTUFAR-SE. onde aparece embeleco. trajado como um pachola. complicado. Em empantufar-se. e p. “coisas que embelezam” (Morais. enfunar-se. e pelo qual o gado passa. atrapalhado. embelezo é termo desusado. já figurada. ocultar-se. objetos de adorno. Encher-se. [Fem. p. t. “mostrar-se orgulhoso”. Desaparecer. adj. s.. encher-se”. enfurecer-se. Vem do espanhol embrollón. enrascada. como lembra Luís Carlos de Morais. Metido a pachola.ª ed. p. v. Enganar. EMPASTALHADO. [O termo. v.Glossário 289 belecos” (coisas supérfluas. int. EMBRETADA. v. encantar-se (como a mulita ao entrar na toca). int. Empastado. adj. apuros. Encerrado no brete. Reunir-se em pandilha. Embrulhado. f. 4. a de “enfunar-se”.] EMPEÇAR. Começar. figuradamente. lograr. Observe-se que enfunar-se tem a significação de “retesar-se. pass. 1. confuso. [Este sentido. [Não dicionarizado. Simões Lopes tira da acepção. v.] EMBUÇALAR. EMPACHOLADO. e. t.] EMPANDILHAR-SE. que agradam à vista). EMBRETADO. [Segundo os lexicógrafos. de onde dificilmente poderá sair. Emaranhado. v.] . para ser pegado.: embrulhona. e rel. [Não dicionarizado. “talvez por influência platina”. figurado. iludir com boas maneiras. adj. não vem em nenhum dicionário.). // 3. Situação difícil. é também provincianismo trasmontano e minhoto.] EMBRABECER. part. [Não vem nos dicionários. Não registrado nos dicionários. EMBRULHÃO. Talvez não seja fantasia admitir a hipótese de erro de revisão: embelecos estará por embelezos. As palavras de pouco ou nenhum curso não são muito raras nas Lendas do Sul. de “mostrar-se orgulhoso”.

mas tal manha se deu com eles que derribou um com a lança e outro com o encontro do cavalo” – Anais de D. [Não dicionarizado o s. seguidos. pessoas). s. Enganado capciosamente. “A serrania encordoada”. II. Conjunto de coisas encordoadas. ou foi. v. João III. isto é. Pôr o freio em (animal). m. Preso na forquilha. reforçado. 88. as cordas. figuradamente. alteração de agadanhar no sentido de “arranhar”.] . [O mesmo que encordoar marcha. não dicionarizado. e em outra acepção. Luís de Sousa. // 2. Parte do peito do animal entre as espáduas.] ENCORDOAMENTO. embora os dicionários a dêem como peculiar ao Rio Grande do Sul. Montado mal a cavalo. pl. onde ela aparece. s. deve ter sido formada sob a influência de agatanhar. nem o adj. nestas acepções. sem solução de continuidade. também conhecida em Portugal. com deselegância. part. é. m. m. O conjunto das cordas. v. adj. formando filas (animais e. [Os dicionários só registram como “ato de encordoar”. [A palavra. cujos montes se acham enfileirados. S. [Espanholismo.] ENCONTROS. v.] ENCORDOADO. int. foi recebido de três mouros de cavalo que acudiam ao rebate. Montar nas ancas (de animal). 1. 1. adj.] ENCORDOAR. [A palavra. na marcha. ENFRENAR. de compleição robusta. adj. Fig. engabelado. adj. veja-se este passo de Fr.] ENGAMBELADO. [Não dicionarizado neste sentido. Seguir um atrás de outro. [Dicionarizado apenas como adjetivo. Enfileirado. Indivíduo acorrentado. ENGATANHADO. que não figura nos dicionários..] ENFESTADO. m.] ENFORQUILHADO. e p. pass. encadeado. O peito do animal. enfrear. no singular: “Entrando pola tranqueira da aldea diante dos companheiros. s. t. // 2. Dobrado. Em forma de gadanho. p. nesta acepção. agadanhado.] ENCORRENTADO. [Americanismo.290 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a ENANCAR-SE.

ENTONADO. verb.] ENTROPIGAITADO. perturbar-se. forma não dicionarizada: “– Vais a ver.] ENTREVERAR-SE. se misturam. m. Enrediça. canto VI – no qual o vocábulo está em sentido quase de todo igual ao em que o emprega Simões Lopes Neto. ENREDIÇA. juntar-se. só apontam a acepção de “designação genérica das plantas trepadeiras ou sarmentosas” – acepção em que Simões Lopes não usa o termo. vê-se entrevelo.] ENQUARTADO. no ardor da luta. // 3. por extensão. se confundem. animais ou coisas. confusão de pessoas. pessoa). ENTECAR.] ENTECADO. Inerte. v. adj. 353. Mistura. Enfermar. Nas Serras e nas Furnas. adj.” – Poesias de Múcio Teixeira. sem viço. reunir a si. P. confuso. Embrulho. f. [Os dicionários. embrulhada. s.] ENTROPILHAR. [Não dicionarizado. Cf. [Nos combates. v. de Múcio Teixeira. I. s. em geral. Perturbado. entupigaitado. // 2. soberbo. embriagado. um deles de Araújo Porto Alegre – Colombo. Trama. trapaça. sem obedecer ao comando. s. enfezar-se. adj. s. Que tem entono. p. [Também se usa em São Paulo: ver Valdomiro Silveira. Que tem os quartos fortes e cheios (animal ou. 1. arrogante. confundir-se. int. enredar-se. adj. Atrapalhar-se. p. [Os dicionários não consignam. v. citando dois exemplos. // 2. ENREDADA. ENTREVERO (ê). tonto. diz-se que há entrevero quando os diversos beligerantes. Nesse entrevelo / Vi-me longe e sem cavalo. sem ação. entrançado. Misturar-se. rede. Trama. t. m.Glossário 291 ENGRÓLIO. loc. 204. Reunir-se. enrediça.] ENREDAR-SE NAS QUARTAS. Enfezado. enredo”. emaranhamento. Teschauer define: “ato ou efeito de enredar. . Nas Flores do Pampa. Reunir. f. Reunir (cavalos do mesmo pêlo) para viverem sempre juntos. [Não dicionarizado. num verdadeiro corpo-a-corpo. 1. imóvel. / Pois um pisou-me no calo / E o outro num tornozelo.

de Cornélio Pires: “Ao chegar à cidade.292 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a ENVIDAR. movimentos seguidos e repentinos de rédeas. Espumoso. jogar. [Não dicionarizado.] . [Nos dicionários a palavra aparece no sentido oposto. que tanto significa “pedir” como “dar esmola”. [Não dicionarizado. t. [Também usado em São Paulo: ver Cornélio Pires. f. Cf.] ESCARAMUÇAR.] ENXUGAR. 1. ora volvendo-se para a direita ou para a esquerda. adj. “o que pede esmola”. int. // 2. 39. m. esmolar.] ESCARCEAR.] ESSE. geralmente como demonstração de prazer.. 72. ESMOLEIRO. Fazer (o cavalo) esses movimentos para a frente e para trás. Fazer (o cão) movimentos análogos. adj. Árvore rutácea (Xantoxylon precox). [Em Fialho de Almeida vê-se “enxugar a fome” – O País das Uvas. e esmoler. s. isto é. Cenas e Paisagens da Minha Terra. s. a significação de “mendigo”. ora avançando. [Não dicionarizados os dois últimos empregos do verbo. v.. Matar. Baixar e levantar a cabeça. m. Grande tumulto. caso sério. v.] ESPINILHO. assassinar. [Não dicionarizado nesta acepção. arriscar ao jogo. v.] ESPUMENTO. s. // 3. int. t. e amargo (Ilex amara). Árvore leguminosa mimosoídea (Acacia farnesiana). Variedade de mate de qualidade inferior. que tem no Brasil. briosamente (o cavalo). ora recuando. 19. um deus-nos-acuda. v. // 2. Fazer escaramuças. com a forma de um s. Parte do facão entre o cabo e a lâmina.. s. [Também se diz simplesmente caúna. caritativo. o caboclo escaramuçava o pampa” – p. p. m. sobretudo na linguagem popular.] ERVA-CAÚNA. que dão lugar a que o cavalo mude continuamente de direção. isto é. o qual aparece como transitivo neste passo de Quem Conta um Conto. à direita e à esquerda. p. ao invés de “o que dá esmola”. Apostar. 1. esmoler.] ESTAFARÉU. Que dá esmolas. [Produzem uma flor amarela.

v.] . adj. Esfalfado. [Não dicionarizado na última acepção. p. esfalpado.] ESTICANTE. também. [Não dicionarizado nesta acepção. [Não dicionarizado. [Corrente. confuso. s. extenuado (cavalo e. esticar a canela. arrombar. Estabelecimento rural. [Não dicionarizado neste sentido. Estirar (o couro). v. [Figueiredo e alguns outros lexicógrafos consignam estransilhado somente como provincianismo português. ESTANQUEADO.] ESTIVADO. fazenda. muito magro” – sentido proximamente ligado ao que tem a palavra no Rio Grande do Sul. esticar. Falatório. de criação de gado. grande quantidade. f. verb. Garboso. 165. adj. figuradamente. abombado. Forma pop. s. ficar imóvel. 1. prendendo-o ao chão por meio de estacas. [Não dicionarizado.] F FACHUDO. t. Que se pode esticar. espalhada. noutros Estados. Cheio. adj.] ESTIVA. Estafado. Morrer.Glossário 293 ESTÂNCIA. parar de repente. para que seque. f. m. fazenda de criação. que estica. // 2. // 3. Romper. bastante usada. rasgar. no goiano Carvalho Ramos lê-se: “o solo estivava-se duma aluvião de pétalas lilases” – Tropas e Boiadas. FALARAZ. estrompado. s. ficando a vítima suspensa do chão e com o rosto voltado para cima (uso antigo). fazendeiro. t.] ESTAQUEAR. loc. pessoa). ESTANCIEIRO. [Relaciona-se com estrompar? Não dicionarizado. pelos quatro membros. adj. Grande quantidade. ESTRANSILHADO (z). Atar (alguém). s. Estacar. rebentado. no sentido de “muito acanaveado.] ESTICAR O MOLAMBO. [Não dicionarizado. repleto.] ESTROMBAR. elegante. de estrambótico.] ESTRAMBÓLICO. a estacas. distinto. m. adj. Proprietário de estância. P. adj.

cuja execução dependia de uma ginástica bem difícil. faca de ponta.” – Cenas e Paisagens da Minha Terra. [O mesmo que farrapo. Ensaio sobre os Costumes do Rio Grande do Sul. o feliz-amor. benfazejo. ou com a roseta da espora sem interromper a dança e no mesmo tempo faziam o puxado. m. batiam com o salto do botim. etc. o tatu. com duas músicas. 1. [Não dicionarizado. FAREJAR CATINGA AGOURENTA NO AR.” – Cezimbra Jacques. etc.] FANDANGO. e com outra significação. o cará. tocadas na viola: uma para se bailar e outra para se cantar. pp. nos pequenos intervalos da dança.] FARRAPO. a serrana. a chimarrita. a galinha-morta. e adj. s. m. Fig. [No paulista Cornélio Pires lê-se: “Porva. o balaio. m. FARROUPILHA. gangolina. s. 92-93. // 2. a quero-mana. a retorcida. p.] FAZEDOR (ô). [Parece esta a acepção – embora um pouco forçada – que se pode deduzir do contexto. barulho. espingarda e cutia. conforme a definição do glossário apenso a . Os dicionários registram a palavra somente como substantivo.294 Auréli o Bu arqu e de Ho landa F e r r e i r a FALA-VERDADE. o pega-fogo. s. Até 1840 eram divertimento da alta classe – os antigos estancieiros – descendo depois “até as senzalas dos peães”. e adj. o cerra-baile. Briga. Que faz o bem. Pressentir incidente desagradável. no sentido de “rebelde”. / e ua viola de harmunia / pra chorá minha sodade. pistola. pois que cerravam todos a um tempo a sapateada. verb. m. Arma de uso pessoal – facão. Apelido deprimente (tornou-se depois honroso) que os legalistas (caramurus) davam aos insurretos da revolução rio-grandense de 1835. loc. 26. de Dom Duarte. se limitando a imprimir ao corpo certos meneios assistidos de castanholas.” “Para dançar formavam os cavalheiros com seus pares uma grande roda. no Livro da Ensinança de bem Cavalgar Toda Sela. / um facão fala-verdade. aplicada ao cavalo. Designação genérica de antigas danças sapateadas (o anu. s. adj. Ver Farroupilha. a recortada. Como adjetivo aparece ela muitas vezes. a tirana. “Nas sapateadas do fandango havia certos puxados de pé.). as senhoras não sapateavam.

aparência”. árdego. o significado de fazer em altanaria: “perseguir a caça”. Fazer alguma coisa como ponto de partida para uma ação mais importante. s. [Não dicionarizado. Festa. velhacaria. pela beleza ou elegância. loc.Glossário 295 essa obra. loc. na qual se introduz a mão para empunhá-los. lhe cinge o pescoço.] FAZER-SE DE SANCHO RENGO. FIEL. loc. verb. 32. s. festejo. 1. isto é. Cf.] FERVIDO. m. passando pela região jugular do cavalo. m. um objeto direto do verbo fazer: manha. m. de bela aparência. Comer alguma coisa para que o vinho saiba melhor. adj. verb. [Não dicionarizado. Do platinismo hacerse el chancho rengo.” Fazer aparece no mesmo livro na acepção – também consignada no glossário – de “embravecer”. p. Fazer-se de tolo. m. s. verb. // 2. adj. fachudo e o sentido de “presença. FLACO. sejam taais que se nom abalem per de so as pernas”. Fazer ótima figura. FILA TESTA. [Não dicionarizado. Creio que se há de subentender. Semelhante a uma flecha ou seta. semblante. aí. Fig. 60: “Se [a] alguu dizem que cavalgue em alguu cavalo fazedor. veja-se: “E as spendas da sela. [Americanismo. FIADOR (ô). claramente mostra que nom tem naquele feito a voontade segura.] FLECHOSO (ô). Cf. receando perigoo ou vergonha. se ouver de cavalgar em besta que faça. Cavalo bom. cavalo fazedor será o “que faz manhas” e mãos fazedoras aquelas “que fazem o bem”. pela boa aparência.] . e el. Alça de couro no cabo do rebenque ou do relho. m. Assim. que tem a palavra fachada.. – p. [Não está nos dicionários o sentido figurado. da frente. GANHAR DE FIADOR: ganhar na carreira (o cavalo) só pela distância que vai da cabeça até a garganta.] FLETE. e s. s. Parte do buçal que. Fila da testa. ex. de desentendido. loc. [Também se diz puchero. da vanguarda. Fraco. [Espanholismo. baile. s. veja-se. s.] FAZER UM FACHADÃO.] FESTO. o nom ousa fazer. FAZER BOCA. m. Cozido (nome de um prato).

vigoroso.] GALÃO-LARGO. [Não dicionarizado. bruxaria. v. que pela velocidade se aproxima do galope. lançar de si (coisa semelhante a raios. rel. e landas de Holanda e Irlanda. v. 1.] FUSCO-FUSCO. s. [Não dicionarizado neste sentido. Mostrar-se em bando numeroso e mais ou menos compactado. s. De boa aparência. int. adj. Defrontar-se. de J. [Não dicionarizado nesta acepção. [Simões Lopes Neto usa a palavra em relação a um homem. espetar.] FOLHEIRO. // 2. FRENTEAR. As reses de uma estância. s. FORÇUDO. [Não dicionarizado. v. Agaloado. Que tem muita força. portanto – sentido não dicionarizado. bem-disposto. // 3. Guimarães Rosa. Semelhante ao galope. Alancear. f. furar. por ares de minha só posse.] FUEIRAR. t.] FUNGU. m.] G GADARIA. Alegre. com sentido depreciativo. como eram as cores que saíam da velha a que se refere o autor).] FOGUEAR. int. [Não dicionarizado. Irradiar. v. // 4. e fui.] GALOPEADO. encontra-se a palavra. Feitiço. deitar fogo. [Não dicionarizado. m. [Não dicionarizado nesta acepção. t. 1. Em Sagarana. adj. Militar de alta graduação.296 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a FOGACHAR. [Não dicionarizado. s. v.] .” – p. adj. // 2. Grande quantidade de gado. 189. robusto. s. [Não dicionarizado.] FUMACEAR. Desembaraçado. e marcas de Dinamarcas. [Não dicionarizado. Lusco-fusco. m. GAGINO. desempenado.] GALOADO. adj. Galo cuja plumagem se assemelha à da galinha. por inglas de Inglaterra. mas em outro sentido: “Meu espírito fumaceou. m. Garrido. despedir. deparar. Despedir fogachos.

briga. vê-se. e agrupados em torno do fogão mateiam e contam “casos”. 1. [Vêem-se nos léxicos as duas últimas palavras. etc. etc. do cruzamento de ganir com esganiçar. v. Rixa. f. neste sentido figurado. Treinar (o cavalo) para carreira // 2. Coisa boa.] GAMBELO (ê). [Nas Flores do Pampa. int. ao lado de afrouxar. murchar o garrão: “Quase murchei o garrão. GANGOLINA.] GARRÃO. agradável. Algumas Vozes Regionais do Paraná. v. Movimento desordenado que faz um animal com o corpo. perder o ânimo. s. GALPÃO. T. por extensão. gostosa. E no mesmo sentido se emprega. m. GANIÇAR. [Nele em geral se reúnem para as refeições e dormem os peães das estâncias. um saco. // 2. para escapar do seu perseguidor. presumido. Amansar (o potro). Galopar. Jarrete do animal (e. 1. usada por militares. GARGALEJADO. deliciosa. I. no Paraná. Fig.Glossário 297 GALOPEAR. v. 353. f. Fazer sair o conteúdo de (uma bolsa. verb. perdendo a força. t. GANDOLA.” – Poesias de Múcio Teixeira. AFLOXAR OU AFROUXAR O GARRÃO. s. Cujo ruído lembra o do gargarejo ou gargalejo. Fazer gambetas. Ganir. seguramente. nem gargarejado. das pessoas. ao subir uma lomba. s. Resulta. / Quando se abeira o vigia / E aponta-me outro rincão. [Não dicionarizado. [Taunay – Léxico de Lacunas – dá o verbo como usado em Goiás. f. Vaidoso. loc. virando-os. afrouxar. adj. o seu uso no Rio Grande do Sul e no Paraná terá vindo através do esp.] GANJENTO. conflito. aflojar. adj.). 1. Embora afloxar seja forma portuguesa antiga. enganjento. de Múcio Teixeira. mas nenhum deles dá gargalejado.] GARGANTEAR. int. / E já no tranco seguia. molear o garrão: ver Silva Murici. int. Construção destinada ao abrigo de homens e animais e à guarda de material. Peça que substitui o capote. GAMBETEAR. a segunda como forma popular. GAMBETA (ê). s. Dobrar as pernas.] . s. Acovardar-se ante o adversário. v. m. amedrontar-se. m. s.

Caçar. GINETEAR. s. // 2. f. irrefletidamente. GAUCHADA (a-u). Grande número de gaúchos ou guascas. Arreios. Diz-se do cão sem dono. m. Onça (moeda de ouro). int.] GAUCHÃO. para aproximar-se da caça.] GRAXAIM (a-ím). leviano. GUABIROBA. Soldado. de portugueses. [O mesmo que gauchagem. GOLA-DE-COURO. T. s. Latejar. m. Adj. s. Grande quantidade de gente. como cão gaudério. s. e de seus frutos. sem pouso certo. de homens do campo. Que toma resoluções de golpe. de ginete. adj. s. m. int. [Não dicionarizado. pl. cautelosamente. 1. // 2.] GOLPEAR. s. m. ou pessoa sem abrigo. [Não dicionarizado. Andar em cavalo arisco ou xucro. Arreios velhos e grosseiros. s. Aument.298 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a GARRAS. semelhante à jabuticaba. s. Designação do habitante do campo do Rio Grande do Sul. s. gauchada. GATEAR. GENTAMA. isto é. Nome comum a árvores das mirtáceas. m. Rústico. GAÚCHO. oriundo. s. 1. GATEADA. GINETE. Cavalgar bem. GUABIJU. // 3. GAUDÉRIO. f. // 2. adj. usando esse ardil. v. f. f. na maior parte dos casos. Ver Guaraxaim. f. e s. milico. adj. que anda errante. O fruto do guabiju (1). 1. Nome comum a várias árvores e arbustos mirtáceos. v. tonto. o que monta a cavalo com elegância e firmeza. dado geralmente à vida pastoril e notável pelo seu valor e agilidade. de fruto comestível.] GOLPEADO. Bom cavaleiro. . int. s. v. Diz-se de. [Não dicionarizado nesta acepção. Os gaúchos. m. Grande porção de gaúchos ou guascas. 1. inculto. m. impulsivo. [Não dicionarizado. multidão. apanhar. s. Andar de rastros.] GAUCHAGEM (a-u). espanhóis ou indígenas. Agüentar corcovos. 2. f. porém menor. GINETAÇO.

v. // 2. Inocência. // 2. m. Nas Flores do Pampa. igualmente. p. que dá excelente madeira de construção.] GUAPEAR.. Árvore borraginácea (Patagonula americana). Resistir à ação do tempo.” – Poesias de Múcio Teixeira.] GUAMPADA. de Múcio Teixeira. p. Chifre preparado para servir de copo ao viajante. vê-se também a palavra no paulista Iago Joé – Briguela. [Na segunda acepção. m. etc. Nas Serras e nas Furnas.Glossário 299 GUAIACA. f. em São Paulo. e. GUAMPUDO. como de objetos feitos de couro cru. e Carvalho Ramos. GUARAXAIM. Tropas e Boiadas. s. Golpe dado pelo animal com as guampas. Mamífero canídeo (Canis brasiliensis): é uma variedade de raposa. [O mesmo que graxaim. s. “talvez quíchua”. 35 do mesmo livro. Guapeca é de uso. f. 63. s. 1. Platinismo. int. p. [Formas paralelas: guaipeca. f. Cinto largo de couro – ordinariamente com bordados e às vezes enfeitado de moedas de prata e ouro – com bolsos para guardar dinheiro e pequenos objetos e uma parte em que se carregam armas. de origem quíchua segundo o Dicionário da Academia Espanhola. [Usado também no Paraná e em São Paulo. cordeirinhos. Resistir. Cusco. sorro e zorro. 1. de Valdomiro Silveira. O termo é também usado em São Paulo: ver Valdomiro Silveira. Chifre. ou de vasilha para guardar líquidos. adj. GUAMPA. s. Em Minas. na opinião de Granada. Pelo Sertão. guaipeva e guapeca. que dá cabo não só de aves domésticas.] GUAIPEVA. Algumas Vozes Regionais do Paraná. no Paraná: ver Silva Murici. 353. guaipé. guajuvira-branca. a última pode ver-se também à p. 166. encontra-se goiaca: “E para mais picardia / Achei-me nessa fundura / Sem meu facão na cintura / E de goiaca vazia. p. s. guampaço. Diz-se do marido de adúltera. 11: Visconde de Taunay. // 2. p. I.] GUAJUVIRA. s. 206. 1. [Do quíchua. Estas duas figuram no glossário dos Caboclos. Que tem grandes chifres. chifrudo. 11. chifrada. Mato Grosso e Goiás diz-se guampo: ver Afonso Arinos.] . durar. aspa. m.

Conversas ao pé do Fogo. H HARAGANEAR. 122 – no Paraná – Silva Murici. Algumas Vozes Regionais do Paraná – e em São Paulo – Cornélio Pires. agüentar. fugitivo. se torna arisco. 1. p. [Não dicionarizado. t. gaúcho. Aquele que trabalha em guascas. s. Do quíchua huasca. fustigar. GURNIR. Diccionario de Peruanismos. vadiar. Parte mais grossa do laço. em Santa Catarina – Virgílio Várzea.] GUASQUEIO. Açoitar. vivaracho. Homem do campo ou do interior. v. durante muito tempo. Ato de guasquear. [Usado em São Paulo também: ver Amadeu Amaral.300 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a GUASCA. sem prestar serviços. v. m. 89. // 2. t. Vocabulario Rioplatense.] GUASQUEIRO. espantadiço. m. int. s. p. // 2. tornando-se arisco. Aplica-se ao cavalo que. adj. Correada. Rio-grandense-do-sul. Quanto aos sentidos desse americanismo. m. [Do americanismo guascazo. Suportar. p. poldra. s. [Usado também. S. O Dialeto . curtir. HARAGANO. HOM! interj. s. por viver muito tempo solto. f. Égua. Andar solto (o animal). e huasca em Arona. Andar sem ocupação. s. ver guasca em Granada. 1. f. s. Fig. m. sem prestar serviço. f. GUINCHA. Tira de couro cru que tem muitas serventias nos misteres do campo. matreiro. 1. Mares e Campos.] GUASCAÇO. 1. gaúcho. // 2. Golpe de guasca. [Também usado em São Paulo: Ver Valdomiro Silveira. no primeiro sentido. cuja extremidade é presa à argola. Hum! [Não dicionarizado. 1. Mulher despudorada. Esperto. 167. // 2. Açoitar com uma guasca. // 2.] GUASQUEAR. Nas Serras e nas Furnas.] I ILHAPA. v. Fig.

do mineiro Guimarães Rosa.] IMPERADORICE.] JANTAROLA. Convite para jogar. farinha de mandioca.] . [Os dicionários não incluem o leite entre os ingredientes. ou animal vacum que tem o fio do lombo e o ventre brancos. f. m.Glossário 301 Caipira.] INVITE. [É também chamado maracajá. s. Inchação. “Era imundície”: existia em abundância. que é semelhante à do presente Glossário. através do americanismo llapa. [Não dicionarizado. etc. Onomatopéia designativa da voz do sapo e de outros anuros. p. f. s. interj. Grande quantidade de gaúchos ou guascas (homens do campo). INDIADA. s. f. adj. grupo. Indica ironia ou desdém. e s. [Também usado em Goiás – ver Carvalho Ramos. 1. // 2. e compara a sua definição com a de Romaguera Correia. abundância. m. que existe a par de yapa. INHÉ. Amadeu Amaral – Dialeto Caipira – define: “diz-se do boi malhado de certa maneira”. Condição ou posição de imperador. Argent. s. s. f. banquete. s. 1. Carnívoro felídeo (Felis pardalis). 152. Tropas e Boiadas. tumor. p. s. J JACUBA. INCHUME. // 2. e em São Paulo. gato-do-mato-grande. Diz-se de. Refresco que se prepara com água. Jantarão. s. s. e açúcar ou mel. Em Sagarana. cachaça ou leite. f. Grande quantidade. IXE!. e os lados de cor preta ou vermelha. Do quíchua. yaguané. m.] IMUNDÍCIE. [Não dicionarizado. m. Oferecimento de uma coisa. vê-se jaguanês.] JAGUANÉ. convite. f. Grande porção de pessoas. 68.] JAGUATIRICA. [Não dicionarizado.

m. [Não está dicionarizada esta expressão. Golpe dado com um açoite qualquer (laço. é de grande utilidade nos misteres do campo. rudemente. corda. de pequeno tamanho.] LADO DE LAÇAR. LAMÃO. de alemão. [O mesmo que jerivazeiro. s.302 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a JERIVÁ.] PELO LADO DE LAÇAR. Designação comum aos besouros coccinelídeos. LADEADO. guascaço. delicadamente. Abruptamente.] L LAÇAÇO. 1. adj.] JOANINHA. m. Ave furnariídea (Furnarius rufus). jeribá. s. Ponto terminal da cancha de corrida. f. jeribazeiro e baba-de-boi. chegando a ter quinze braças. m. Pendido para um lado. e compreende quatro partes distintas: a argola. O mesmo que taba ou tava. [Não dicionarizado neste sentido. m.] LAGOÃO. s. Palmeira solitária (Syagrus romanzoffiana). bastante comprida. adv. [Também é conhecida por socó-grande. vara. s. por onde eles são laçados. Corda feita de tiras de couro cru. maria-de-barro e amassa-barro – os dois últimos nomes usados. [O lado esquerdo é o lado de montar. [Também se diz simplesmente osso: ver Darci Azambuja. Lagoa grande e funda. s. s. inclinado. No Galpão. loc. m. mas apenas a antônima – pelo lado de montar = jeitosamente. m. Forma pop. s.). loc. a ilhapa. também chamada joão-de-barro. LAÇO. [Também se diz alamão. 213). forneiro. pedreiro. JOÃO-GRANDE. m. s. Está admiravelmente definido pelo próprio autor (p. Ave ardeídea (Ardea cocoi). respectivamente. que se forma no curso dos arroios e sangas. com muito tato. s.] . O lado direito do animal cavalar ou vacum. m. etc. // 2. o corpo do laço e a presilha. relhaço. s. que dá um coquinho amarelo e doce. m. 35. relho. sem rodeios. no Ceará e Mato Grosso.] JOGO DO OSSO. JOÃO-BARREIRO. p.

acepção bem próxima à de “risca”. vertente. Cenas e Paisagens da Minha Terra. m. Vespa social (Nectarina lecheguana). [Não dicionarizado. em amores ou em outra coisa). [Não dicionarizado neste sentido. Lista. Pelo Sertão. p.] LECHIGUANA. v. lamacento. m. Lamoso. muito bravia. f. a forma ligário. m. Nas Serras e nas Furnas. s. sorte (no jogo. loc. Os Caboclos. Qualificativo de animal cavalar ou vacum que tem o pêlo escuro. LIGA. Com a forma ligá. Traquinas. LIGAR. [Usado. golpe de lança. s. pron. pendente. em Goiás – ver Bernardo Élis. int. ao lado da acepção de “rol”.] LE. LISTAR. 165). s. Caderno ou livro pequeno para anotações ou contas. p. em Morais.] LANÇAÇO. adj. Riscar. adj. pess. Superl. tem a de “a esteira que deixa o navio”. t.] LOBUNO. Do espanhol libreta. de lindo. s. em São Paulo – ver o vocabulário de Nas Serras e nas Furnas. mas dão lista no sentido de “risca.Glossário 303 LAMENTO. de Valdomiro Silveira – e em Goiás – ver Carvalho Ramos. listra”. 36.] LAVORAR. desenvolver-se. 62. f. Lembre-se que listra se origina de lista. também. e que produz saboroso mel. 161. [Os dicionários não trazem listar. hoje só usada na fala popular. Tropas e Boiadas. ao menos no Rio Grande do Sul. adj. 74. tirante a cinzento. Lhe.] LINDAÇO.] LEVADO DA CASQUEIRA.] LIVRETA (ê). 86. listrar. 13. Existe ainda. s. [Platinismo. [Conhecido em São Paulo também: ver Valdomiro Silveira. p. LANÇANTE. f. Lançada. p. em São Paulo – ver Cornélio Pires. p. [Le é empregado por influência castelhana. adj. Terreno em declive. Ermos e Gerais. [Usado em Minas também: ver Afonso Arinos. Felicidade. alastrar-se. Lavrar. levado da breca. Sob a forma ligal.] . [Não dicionarizado neste sentido e como intransitivo. s. Há em São Paulo a variante libuno: ver Valdomiro Silveira. Está definido pelo próprio Simões Lopes Neto (p. v. mas é também forma do português arcaico. p.

No conto O Anjo da Vitória aparece. Fig.304 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a LOMBADA. // 4. p. em São Paulo: ver Amadeu Amaral. ao lado do governo ou contra este. Apelido que se tem dado a civis que tomaram parte em diversas revoluções. porém mais rija.] LONQUEAR. com o mesmo sentido. lomba. p. Do cast. Tropas e Boiadas. Ganhar todo o dinheiro a (alguém). Sapezais e Tigueras. Pequena elevação de terra. Torcer o corpo. desde a base do pescoço até às nádegas.] LOMBEAR-SE. 97. 164. p. Tirar. LUNANCO. ainda. t. [Usa-se. os pêlos de (o couro). Lança cuja extremidade tem a forma de meia-lua. muito parecida com o serigote. a locução lança de meia-lua.] LUNAR. f. 1. Nome dado a partes do couro do cavalar ou muar da região do flanco. [Não dicionarizado. [Também corre em São Paulo – ver Amando Caiubi. p. figuradamente. p. s. sob a variante lonanco – ver Silva Murici. O Dialeto Caipira. no jogo. o Vocabulário Sul-RioGrandense. 7.] . adj. ferir. Consulte-se. 88 – e em Goiás – ver Carvalho Ramos. // 2. v. deste autor. s. Courear. Algumas Vozes Regionais do Paraná – e em Minas na variante lionanco – ver Afonso Arinos. torcer-se (de dor ou por efeito de cócegas). baseada em Luís Carlos de Morais. Diz-se do animal e. substitui o selim e a sela. a propósito. [No levante de 1893 os governistas ou republicanos assim chamavam os rebeldes. no Paraná. Indivíduo desprezível. [Também usado em São Paulo: ver Amadeu Amaral. da pessoa. [Não registrado precisamente nesta acepção. 164. O termo corre. e estes àqueles. m.] // 2. // 5. Matar. 1. s. A peça principal dos arreios. no Rio Grande do Sul. v. Pelo Sertão. que tem depressão de uma das ancas. LOMBILHO. s. s. f. A definição de Amadeu Amaral difere da registrada aqui. p. f. Espancar.] LOMBO-SUJO. Fig. m. lonja. LONCA. também. // 3. O Dialeto Caipira. raspando com faca. resultante da desarticulação do osso do quadril.

malfazejo. 1. MACETA. Superl. Designativo do cavalar ou muar que tem nos membros locomotores protuberâncias ou inchações que lhe dificultam a marcha. adj. m. Mau. na chegada. como vantagem. LUZ E DOBLE: dar luz e doble quer dizer que o cavalo em que se joga deverá ganhar de luz e que. havendo bastante espaço livre entre os dois. desalmado. excelente. adj. s. MALOCA. s. S.Glossário 305 LUZ. s. Parte delgada da pata do cavalo. Arbusto rasteiro que geralmente cobre os campos de qualidade inferior.] MADURÁZIO. [Americanismo. de maleva. // 2. superior. de gente de má vida. Bando de malfeitores. Indivíduo poderoso.] M MACANUDO. f.] MACOTA. influente. adj. . se pagará o dobro da quantia apostada pelo adversário. m. que um dos cavalos saia na frente do outro ou que. Terreno coberto de muita macega.] MALEVAÇO. s. MACEGA. [Diz-se dar luz quando se estabelece. Superl. s. e a cabeça do que vai atrás. macota. [O mesmo que doble e luz. [Também usado no singular. macanudo. MALEVA. que pelo menor motivo corcoveia. que fica abaixo da junta da quartela. Bom. Bastante maduro ou idoso. Grande. pl. Espaço entre a cauda do cavalo que vai adiante.: malevaço. perdida a aposta. na corrida. MACHINHOS. f. [Usado em grande parte do Brasil. adj. [O termo é de uso também no Paraná: ver Silva Murici: Algumas Vozes Regionais do Paraná. m. Diz-se do cavalo infiel. MACEGAL. adj. Superior em qualquer sentido. Poderoso. adj. haja entre os dois uma distância facilmente apreciável.] GANHAR DE LUZ ABERTA: chegar ao fim da corrida (o cavalo vencedor) à frente do outro. f.

para morrer. imprestável ou quase imprestável. que o campeiro conduz sobre o lombilho. segurar para que não fuja. sem valor. que se dançava nos bailes do campo e era geralmente acompanhada de uma canção popular. Muito mal. adj. s.] MANCADA. para morrer. pântano. f.” MANCARRÃO. Prender. Diz-se de. ou cavalo velho. Na botica tem remédio Pra mancadinha beber.] MANAPANÇA. Tira de couro cru. s. tremedal. Forma espanhola. s. loc. A mancada está doente. Paul. PASSAR OS MANEADORES EM (alguém). para deixá-lo preso quando o põe a pastar durante a noite ou nas paradas em viagem. MANEADOR (ô). sovado. Não há frango nem galinha Para a mancada comer. [Estão dicionarizadas apenas as formas manampança e malampança. . s. m. Pessoa de grande influência. matungo.306 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a MANANTIAL. embaixo dos pelegos. s. O mesmo que polca mancada: antiga polca. Muito mal. f. verb. [Não dicionarizado. e s. Espécie de beiju espesso de farinha de mandioca. manda-chuva. A dita polca mancada Tem mau modo de falar: De dia corre com a gente. MANDA-TUDO. m. temperado com açúcar e erva-doce. À noite manda chamar. m. junto à cabeça do cavalo. da qual faziam parte estas quadras: “A mancada está doente. m.

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MANEAR, v. t. 1. Prender com a maneia. // 2. Prender com o laço ou qualquer corda. MANEIA, s. f. 1. Peça formada por dois pedaços de couro ligados por uma argola, e com a qual se prendem as patas do cavalo. // 2. Ato de manear. [Não dicionarizado na última acepção.] MANGANGÁ, s. m. Designação comum a abelhas bombíneas do gênero Bombus, que produzem pouco mel e de má qualidade; sua picada é muito dolorosa, porém passageira. [Também se diz mamangaba, mangangaba, mangangava.] MANGUEAR, v. int. Ir ao encontro de uma ponta de gado e conduzi-la em determinada direção – na direção do rodeio ou do grosso da tropa, na direção de uma parte do campo onde existe aguada, etc. MANGUEIRA, s. f. Curral de pau-a-pique, de tábua ou de pedra, etc., no qual se metem os animais para marcá-los, curá-los das bicheiras, e para outros fins. [É também de uso – com certa diferença de sentido – em São Paulo: ver Cornélio Pires, Cenas e Paisagens da Minha Terra, p. 63. Nesse Estado emprega-se, ainda, mangueiro, que Valdomiro Silveira – no vocabulário dos Caboclos – dá como “curral pequeno”; ver esse livro, p. 183, e Água Funda, de Rute Guimarães, p. 13. Mangueiro é conhecido, igualmente, em Goiás: veja-se Carvalho Ramos, Tropas e Boiadas, p. 165.] MANOTAÇO, s. m. 1. Pancada que o cavalo ou o muar dá com um ou os dois membros anteriores, quando tolhido ou perseguido. // 2. Fig. Pancada com a mão; bofetada. MANOTEAR, v. t. e rel. Pegar, segurar, agarrar. [Pela expressão “manoteando nas lágrimas” parece que se deve entender: “passando as mãos nas lágrimas para lhes apagar o vestígio no rosto, para enxugá-las”. Callage estende o sentido de manotear a “fazer qualquer movimento com as mãos”. A palavra, espanhola, provém, como se vê, de mano.] MARCA, s. f. 1. Instrumento de ferro ou de bronze para marcar ou ferrar animais. // 2. O sinal impresso no animal com a marca. BATER NA MARCA, loc. verb. Chicotear o cavalo, para fazê-lo apressar o passo;

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fazer o cavalo andar a toda a velocidade. ESTAR DE MARCA QUENTE, loc. verb. Estar ressabiado. Estar irritado, exasperado. [Não registrado nesta última acepção.] MARCAÇÃO, s. f. Ação de marcar ou ferrar os animais. MARREQUINHA, s. f. Flor de corticeira, como define o próprio autor (p. 355). [Nenhum dicionário registra a palavra neste sentido.] MATE AMARGO, loc. s. m. Mate chimarrão; amargo. MATEAR, v. int. Tomar o mate. [De uso no Paraná, também: ver Silva Murici, Algumas Vozes Regionais do Paraná.] MATREIRAÇO, adj. Superl. de matreiro. MATUNGO, adj. e s. m. 1. Qualificativo de, ou cavalo velho, muito manso ou quase imprestável; mancarrão. // 2. Diz-se de, ou cavalo manso em geral. [“Há uma pronunciada tendência” – escreve Luís Carlos de Morais – “para se generalizar este termo a todos os cavalos, embora de boas qualidades.”] MATURRANGO, adj. Diz-se daquele que monta mal a cavalo, que é mau cavaleiro. [Americanismo. Var.: maturrengo.] MAULA, adj. e s. m. Covarde, medroso, pusilânime. [O Vocabulário da Academia Brasileira de Letras dá, erroneamente, maúla.] MECHIFLARIAS, s. f. pl. Bugigangas; quinquilharias; coisas sem valor. [Não dicionarizado. Luís Carlos de Morais registra, com o mesmo sentido, mechinflório.] MEIA-DOBLA, s. f. Moeda cujo valor é de metade da dobla ou dobra. [Encontra-se a palavra no carioca Martins Pena – A Família e a Festa da Roça, p. 52.] MELAR, v. int. 1. Ir ao mato à procura de mel de abelha. // 2. Apanhar o mel da abelha silvestre. MEMÓRIA, s. f. Anel. [Usado, sobretudo na linguagem popular, em várias partes do Brasil: está, p. ex., no paulista Cornélio Pires – Conversas ao pé do Fogo, p. 21 – e no Meu Dicionário de Cousas da Amazônia, de Raimundo Morais; e foi de uso corrente em Minas, até não há muito tem-

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po, como se pode ver em P. A. Pinto, Vocábulos e Frases, pp. 130-131. A palavra tem o sentido português, que parece já meio antiquado, de “anel comemorativo”: “Anel para conservar-se a lembrança de alguma pessoa, fato, etc.”, segundo o Dicionário de Morais.] MENEAR, v. t. Dar (golpe) com a mão; executar com as mãos; manejar. [Não dicionarizado precisamente nesta acepção, bem próxima do étimo da palavra.] MERMAR, v. t. e int. Diminuir de peso, valor, quantidade, velocidade, etc.; diminuir, minguar. MIANGO, s. m. Pequena porção; pedacinho. [Do americanismo miñango.] MILES, s. m. pl. Milhares. [Pl. espanhol de mil; não dicionarizado.] MILICADA, s. f. 1. Porção de milicos. // 2. Os milicos. MILICO, s. m. Miliciano, soldado, de qualquer classe ou posto. MILONGAGEM, s. f. Dengue, requebro; pieguice. [Não dicionarizado neste sentido.] MILONGUEIRO, adj. e s. m. 1. Que ou aquele que canta milongas. // 2. Labioso, dengoso; piegas. MINIGÂNCIAS, s. f. pl. Miudezas, bugigangas, quinquilharias. MINISTRADA, s. f. Grupo de ministros; os ministros. MINUANO, s. m. Vento muito frio e seco, que sopra do sudoeste em meses de inverno e, eventualmente, no fim do outono e começo da primavera, e é, quase sempre, indício de bom tempo, pois costuma vir depois de muitas chuvas. MIRIM, s. f. Abelha que produz delicioso mel. // 2. O mel por ela fabricado. [Não dicionarizado na última acepção.] MISSIONEIRO, adj. e s. m. Diz-se de, ou aquele que realiza missões, que missiona; missionário. [Não dicionarizado neste sentido.] MISTURADA, s. f. Moça mestiça – morena, cabocla ou mulata. MITRADO, adj. Esperto, finório. MIUÇALHA, s. f. Criançada, miudagem.

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MIUDAGEM, s. f. Porção de miúdos, de meninos. MIÚDO, s. m. 1. Menino, criança. [Acepção também lusitana.] // 2. Animal pequeno, miúdo. [Não dicionarizado o segundo sentido.] MIXE, adj. 1. Pouco desenvolvido; apoucado. // 2. Insignificante; sem valor. // 3. Ruim. MOÇADA, s. f. Grupo de moços ou moças; os moços, as moças. [Usado igualmente em São Paulo – ver Rute Guimarães, Água Funda, p. 41 – e em Goiás – ver Bernardo Élis, Ermos e Gerais, p. 61. Também é regionalismo português.] MOGANGO, s. m. Fruto do mogangueiro (Cucurbita pepo), abóbora muito saborosa, e que se come, depois de cozida na água ou ao forno, com leite, carne, etc. MONEAR, v. int. Fazer monadas, trejeitos. [Espanholismo, não dicionarizado.] MORDAÇA, s. f. Aparelho para sovar ou amaciar tiras de couro. [É um pedaço de madeira, de forma cilíndrica, com uns 50 centímetros de comprido e uns 10 de diâmetro, e fendido longitudinalmente até cerca de 2/3 da sua extensão. Pela fenda se passa o couro para sová-lo. – Também se chama sovador.] MORMAÇO, s. m. Calor, quentura. [Não dicionarizada esta acepção.] MOROCHA, s. f. Moça morena; morena. [Espanholismo. De moro.] MORRUDO, adj. Grande; avultado; volumoso. [Também usado em São Paulo: ver Valdomiro Silveira, Os Caboclos, p. 131.] MOSQUEAR, v. int. Mover-se (a cauda de um animal) como para afugentar moscas. [Não dicionarizada esta acepção.] MOTA, s. f. 1. Aquilo que o vendedor dá de presente ao freguês. // 2. Presente. // 3. Esmola. MUCHACHO, s. m. Pedaço de pau em que descansa o cabeçalho da carreta, quando parada.

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MUÇUM, s. m. 1. Espécie de enguia do Brasil (Symbranchus marmoratus). // 2. Fig. Indivíduo de cor preta; negro. [Nenhum dicionário consigna o termo no sentido figurado.] MULHERENGO, adj. Próprio de mulher; mulheril. [Não dicionarizado neste sentido.] MULITA, s. f. Variedade de tatu muito pequeno, também chamado tatuíra (Dasypus hybridus); tatu-mulita. MUNHATA, s. f. Nome dado à batata-doce na região fronteiriça do Rio Grande do Sul e em alguns municípios centrais. MUQUIRANA, s. f. Piolho (Pediculus humanus), também chamado mucurana. MUSSITAR, v. int. Murmurar, cochichar, segredar. [É termo arcaizado no português, mas de uso ainda atual na língua espanhola, por influência da qual, provavelmente, o terá empregado o autor.]

N
NA ESTICA, loc. adv. Vestido com elegância; bem-vestido. NAMBI, adj. Aplica-se ao cavalo que tem uma ou as duas orelhas caídas, atrofiadas ou murchas. [No sentido de “sem orelhas” figura a palavra no vocabulário de Cenas e Paisagens da Minha Terra, de Cornélio Pires.] NÃO SER TRIGO LIMPO, loc. verb. 1. Não ser boa pessoa. // 2. Não ser de brincadeira, ser valente. NÃO VALER UM SABUGO, loc. verb. Não ter nenhum valor. [Não dicionarizado.] NEGAR O ESTRIBO, loc. verb. 1. Negar-se o cavalo a ser montado, afastando-se no momento em que o cavaleiro ergue o pé para alcançar o estribo. // 2. Fig. Mostrar-se esquivo, desdenhoso. NEGÓCIO, s. m. Casa de negócio. NHANDU, s. m. Ema (Rhea americana), que habita os campos.

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NHANDU-TATÁ, s. m. [Do tupi = ‘avestruz-de-fogo’.] Nhandu. NHANDUVAÍ, s. m. Árvore leguminosa mimosoídea (Prosopis juliflora) cuja madeira, de grande resistência ao tempo, serve para esteios, dormentes, etc. [O mesmo que inhanduvá e nhanduvá. Os dicionários consignam somente estas duas últimas formas. Do americanismo ñandubay.] NHANHÃ, s. f. Tratamento que os escravos davam às senhoras. [O mesmo que iaiá. Os dicionários dão uma definição restrita: “tratamento que os escravos davam às meninas e moças”.] NINHAR, v. int. Andar em busca de ninhos para lhes tirar os ovos. [Não dicionarizado nesta acepção.] NO MAIS, loc. adv. Não mais; simplesmente, unicamente, tão-somente. [Às vezes a locução assume caráter expletivo. Embora não mais exista no português antigo com aquele mesmo significado, o seu uso no Rio Grande do Sul vem, seguramente, do platinismo no más. Ver, quanto à expressão e seu emprego em São Paulo, Amadeu Amaral, O Dialeto Caipira, pp. 175-176, e Afonso A. de Freitas, Vocabulário Nheengatu, pp. 132-134. Precedido de aí, ali, o no mais adquire sentido temporal, equivalendo a “imediatamente, sem mais demora”. Com este sentido vê-se em Múcio Teixeira só no mais: “E já também só no mais, / Corre-se um laço comprido, / Lindaço como um vestido / Nas festas dos arraiais”. – Poesias de Múcio Teixeira, I, 354.] NOMBRADA, s. f. Heroísmo; rasgo. [Do esp. hombrada, certamente.] NO ORA-VEJA, loc. adv. Sem alcançar aquilo que esperava, ou a que tinha direito; decepcionado, desiludido, logrado. [Também se diz no ora-e-veja. Não dicionarizado.] NÓ REPUBLICANO, loc. s. m. Espécie de nó com que os revolucionários rio-grandenses de 1835 atavam o lenço ao pescoço, e que servia de distintivo. [“De ordinário essa laçada era feita nas pontas de um grande lenço de seda encarnada, de cor bem viva, cujo dono o conservava assim atado por muito tempo, enfiando o lenço pela cabeça, e dei-

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xando o respectivo nó, pendente do pescoço, quando o queria usar. Deste modo, duas pontas do lenço, soltas, pendiam sobre as costas, e as outras duas, atadas, pendiam sobre o peito, como se fosse a jóia de uma condecoração simbólica”. – José Teixeira, apud Luís Carlos de Morais, Vocabulário Sul-Rio-Grandense, p. 161.] NUM DE-REPENTE, loc. adv. Ver Num repente. [Não dicionarizado.] num pensamento, loc. adv. Muito rapidamente; num instante, num abrir e fechar de olhos. [Não dicionarizado.] NUM REPENTE, loc. adv. De repente; repentinamente. [De uso em Goiás também; ver Carvalho Ramos, Tropas e Boiadas, p. 204. Não dicionarizado. O mesmo que num de-repente e num redepente.] NUM VÁ, loc. adv. Num instante, num pensamento, num vu. [Não dicionarizado.] NUM VU, loc. adv. Num vá. [No Ceará usa-se num vupe: ver Leonardo Mota, Sertão Alegre, p. 267.]

O
OFICIALADA, s. f. Conjunto de oficiais; os oficiais. OIGALÉ!, interj. Exprime admiração, alegria, espanto. [Também se diz oigaté!] OMBRUDO, adj. Que tem ombros largos; espadaúdo. [Não dicionarizado.] ONDE CANTA O GALO, loc. adv. Muito em cima, bem no alto. [“E bem montado, vinha, num bagual lobuno rabicano, .... de cola atada, em três tranças, bem alto, onde canta o galo!...” (O Negro Bonifácio). O gaúcho costuma, por bazófia ou pacholice, atar a cauda do cavalo de montaria muito no alto, com um nó gracioso, deixando pendente uma ponta de cada lado. A isto se chama atar a cola – ou quebrar o cacho – a canta-galo, ou, como está em Simões Lopes Neto, onde canta o galo. Quebrar o cacho a canta galo vê-se em Vargas Neto: “Quebro o cacho, lá em cima, a can-

durante o rigor da canícula. [Algumas vezes aparece no singular. como provincianismo português.] OREAR. a querência. Forma alterada da interjeição oche! (ô). s. Como se vê.] OOCHE! (ô). Poderá parecer isso uma contradição. tumores moles. porque. interj. restolhal. o povoado. p. s. Viajando o seu portador a cavalo. mas contra o calor e o frio. Restolhada. em torno ao corpo do cavaleiro. o município donde se é natural e onde se reside. adj. 86.] PAJONAL. os dois sentidos não distam muito entre si. / E vou às pulperias no domingo. s. O j é aspirado. de feitio quadrilátero e com as extremidades franjadas. Poncho leve. Diz-se do animal que ainda não foi assinalado nem marcado.” – Tropilha Crioula. atar a cola lá onde a Maruca prega o grampo. adj. OVADO. lã. 1. abriga-se dos raios solares pelo pala. int. de brim. provenientes da dilatação de certas membranas entre a pele e os ossos ou cartilagens. / Onde as chinas cobiçam meu cavalo.314 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a tagalo. com o mesmo sentido. P PAGOS. o rincão. isto é. secar. Luís Carlos de Morais – Vocabulário Sul-Rio-Grandense – consigna também. [Espanholismo. santa-fé e outras gramíneas. ou até de seda. merinó. sob a ação do sol ou do vento. Qualificativo do cavalo que tem ovas.” . mas não.] PALA. A forma usada por Simões Lopes Neto não está dicionarizada. pl. [Figueiredo registra a palavra. Terreno coberto de palha-brava. como no castelhano. m. [“O pala” – escreve Luís Carlos de Morais – “não é abrigo contra a chuva. Lugar onde se nasceu. // 2. m. v. Enxugar. m. ORELHANO. conserva-se uma camada de ar relativamente mais fresca do que a exposta ao sol. usada para acalmar o boi que se deseja pegar. definindo-a: “Expressão usada para afagar os bois”.

Clemenciano Barnasque. v. observando: “O Visconde de . mas não ser tambeiro. 185. f. entre Algumas Vozes Regionais do Paraná. Bernardo Taveira Júnior. em geral. pl. Choque com a pá ou paleta dos animais. porém.] PAMPA. s. Ver Ter marca na paleta. Vieira Pires. t. arremetida. s. Cravar as esporas no animal. f. etc. t. isto é. Investida. das pessoas. 1. mosquear. para curá-lo de bicheira. Nas Serras e nas Furnas. em seu Vocabulário Sul-Rio-Grandense. ou PALETAS. Fig. // 2. [Incluído.Glossário 315 Pala também se usa em São Paulo – ver Valdomiro Silveira. Os Caboclos. Romaguera Correia. de 1898. v.] PALANQUE. p. e Múcio Teixeira. p. Tropas e Boiadas.] PALMEAR. Nome dado. a planícies cobertas de vegetação rasteira.] PALETADA. De ordinário. por extensão. Pereira Fortes. 146 – e em Goiás – ver Carvalho Ramos. ao que parece – no masculino: ver. Alcides Maia. registra-o como deste gênero. o termo figura como apenas do gênero masculino. e f. Augusto Meyer. no Rio Grande do Sul e nas repúblicas do Prata. entremear. e int. Salpicar. t. Homero Prates. m. Nos dicionários e vocabulários. s. na forma do plural. PALETEAR. para só citar autores gaúchos. 178 – em São Paulo dá-se o nome de pala ao que no Rio Grande do Sul se chama poncho-pala. Ver Poncho. por Silva Murici. p. v. Omoplata ou espádua do animal e. para domá-lo. ou ao qual se prende o mesmo animal pelo cabresto ou pelas rédeas. autor de Flores do Pampa. [Também de uso em São Paulo: ver Valdomiro Silveira. ela é empregada – sobretudo modernamente. Vargas Neto. Bater com a palma da mão em. s. [Não dicionarizado neste sentido. s. [Não dicionarizado. m. Darci Azambuja. f. Segundo Amadeu Amaral – Dialeto Caipira. Esteio grosso e rijo que se finca no chão e ao qual se ata o cavalo à soga. p. um poncho de tecido mais delicado.] PALETA. PALHETAR. 125. [Simões Lopes Neto usa a palavra no feminino.-rel.

como se perdesse a carreira. [De uso no Paraná. quando o cavalo roda. Lugar onde o gado manso costuma passar a noite. s.] PANGARÉ. Aplica-se à carreira em que se estabelece a cláusula de ficar obrigado ao pagamento da importância apostada.: parador. 17. Quantia pela qual se contrata uma carreira. Pertencente ou relativo ao pampa. mesmo doença. Grupo de animais. in “Anais do Primeiro Congresso da Língua Nacional Cantada”. adj. 283 e 301. Paradouro. ou de pessoas e. p. m. [Ordinariamente fica próximo da casa ou das mangueiras da estância. esta palavra. fem.] PAMPIANO. p.] PARADA. f. dos nossos dias – Dante de Laytano. quando cai para a frente. em vez de cair com ele. PANELA. Toca. f. 35 – e em Goiás – ver Carvalho Ramos. p. O vocábulo é de origem quíchua. Var. Diário Resumido – escrito de 1786 a 1787 – p. adj. f.” O gênero feminino pode-se também ver em José de Saldanha. também: ver Silva Murici. m. s. PARADOR. s. buraco. o apostante que por qualquer razão. particularmente. Aplica-se ao cavalo ou muar cujo pêlo é de um tom vermelho-escuro ou mais ou menos amarelado. PARADEIRO. isto é. e num autor moderno. [Não dicionarizado nesta acepção. s. no baixo-ventre e em algumas outras regiões.316 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Beaurepaire-Rohan dá como subs. adj. Notas de Linguagem Sul-Rio-Grandense. loc. Nas Serras e nas Furnas. cova. adj. [Também conhecido em São Paulo – ver Valdomiro Silveira. 359.] . mas nós temos ouvido pronunciá-la tanto como masculina (aliás mais freqüentemente) como também como feminina. loca. mostrando-se como que desbotado no focinho. PARADOURO.] DE PARADA MORTA. Algumas Vozes Regionais do Paraná. parador. não fizer correr o seu cavalo. PANDILHA. Tropas e Boiadas. de malfeitores. Diz-se do cavaleiro que. s. consegue sair de pé. valor da aposta.

[Não dicionarizado. Cortejar. p. Fig. [Também conhecido em São Paulo – ver Valdomiro Silveira. Nas Serras e nas Furnas. s. p. rufião. do valor de dois mil-réis. adj.Glossário 317 PARAR PATRULHA. vigiar (o gado) no pasto. m. f. em São Paulo: ver Cornélio Pires. interj. s. [Não dicionarizado nesta última acepção. Antiga moeda de prata. loc. a cavalo ou embarcado – nos rios ou nos arroios. // 2. parentela. m. ladroeira. Tropas e Boiadas. Transmitir a outrem um segredo.] PASTOR. 45. [Também usado em outros Estados do Brasil. m. 62 – e em Goiás – ver Carvalho Ramos. aborrecer-se. resistir. também. Forma de juramento: é a loc.] PASSO. f. Liso. PARTIDA. f. m. imediatamente antes da largada dos parelheiros. [Não dicionarizado precisamente nesta acepção.] PARELHO. [Não dicionarizado precisamente neste sentido. // 2. v. como ensaio. Os parentes. Associação de velhacos. 214 – em Minas – ver Afonso Arinos. Lugar em que há muito pasto. 172. [Do platinismo pastizal. verb. Nome dado a breves corridas que se realizam. Guardar. Zangar-se. Responder a uma agressão. s. Reprodutor eqüino. 1.] PASTOREJAR.] PARRANDA. loc. s. arrastar a asa a. m. s. f. garanhão. a uma ofensa. dar com a língua nos dentes.] PARENTALHA. Cavalo de corrida. PASTIÇAL. s.] PARELHEIRO. // 2. verb. Lugar onde se pastoreia ou pastoreja o gado. plano. [O mesmo que pastorar e pastorear.] PATACÃO. pastagem abundante. s. Cenas e Paisagens da Minha Terra. s. PARCERIA. Lugar por onde habitualmente se passa – de bolapé. p. Grupo de parceiros de jogo. Não dicionarizado na acepção figurada. O gado que se pastoreia. [Emprega-se. s. e no Alentejo. 1. POR DEUS E UM PATACÃO! loc. PASSAR LÍNGUA.] PASTOREIO. p. 1. m. Pelo Sertão. s. requestar. t. para burlar os incautos. por .

Espécie de alforje. s. p. isto é. que dá atenção a todos os galanteios”. Choque. // 2. PÉCORA. Pronto para dar um encontrão. [Fem. s.: peões ou peães. m. como se vê. de laçar o animal quando este se acha em movimento. [Não dicionarizada esta acepção. Aos encontrões. f. O laço.318 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a Deus! pitorescamente reforçada. m.] PATALEAR. Dar pechada. Ver Boleadeiras. não está. o que acompanha viajantes. DE PECHADA FEITA. longe do que Simões Lopes dá à palavra: apenas ele atenuou a rudeza da significação. PÉ-DE-AMIGO. em que o viajante conduz roupas e outras coisas. não está dicionarizado. pl. s. o que se dedica aos trabalhos de roça. o de “rapariga leviana. e “qualquer mulher” (em sentido pejorativo). Este último sentido. PECHAR-SE.] PEÃO. Sistema de peia do cavalar ou muar: passa-se-lhe pelo grosso do pescoço. Nome dado aos empregados de classe inferior das estâncias ou de estabelecimentos congêneres – o tropeiro. de Múcio Teixeira – Poesias de Múcio Teixeira. [Veja-se a expressão nas Flores do Pampa. conversar. I. s. PEDRAS. f. int. que é então puxado e preso ao pescoço. s. Agitar muito as patas ou os pés. corrente em Trás-os-Montes. imóvel e impossibilitado de escoicear. abalroar-se. em que se dá um nó. espernear. etc. maneador ou outra corda qualquer. movimentando-se. v. v. pl. Moça namorada. [Este último sentido. Entreter-se conversando. encontrar-se. portanto. ÀS PECHADAS. o em que Simões Lopes Neto emprega o termo. s. v. este introduz a pata no laço. repartido ao meio.] PECHADA. encontrão. ficando o paciente com o pé suspenso do solo e. loc. 1. adv. Encontra-se nos léxicos.] PECUELOS. s. PAUTEAR. chocar-se. 339. PEALO. junto às cruzes. rameira”. Ato de pealar. com vencimentos diários ou mensais. f.: peona ou peoa. loc. pelo qual corre uma laçada que vai ter a uma das patas traseiras do animal. adv. além dos significados de “mulher desprezível. . pl. int. m. um laço. m.

pelejar. p. s. Começar. s.] DAR O PELEGO ou JOGAR O PELEGO. 11. pesar. m. Não dicionarizada a acepção. int. os peões. [Não dicionarizado. [Não dicionarizado. 1. finório. Nas Serras e nas Furnas. pesaroso. s. s.] PENAROSO (ô). v.] PEIXE-DOURADO.] PENTE-FINO. Pele de lanígero que se costuma pôr sobre os arreios para tornar macio o assento do cavaleiro. de peão. Tomado de pena. Diz-se de. por longa que seja a viagem. s. int. Expor-se a um perigo. p. PELECHAR. / Paz a ninguém eu não peço” – Leonardo Mota. f. a vida. pelejador. Tropas e Boiadas. Pelo Sertão. adj. [Em São Paulo usa-se o termo no masculino: ver Valdomiro Silveira. PENDENTE. peleja. m. No Nordeste o povo usa o sinônimo desfolhar: “Eu desfoiando o facão. declive. Porção. [Não dicionarizado. que de tudo tira proveito. verb. [Também de uso em Minas: ver Afonso Arinos. Lidar contínuo e duro. Fem. [Também se diz peoa. m. m. PEONA. luta. Que causa pena. Vertente. pouco escrupuloso. Dourado (peixe).] PENCA. p. PÊLO-A-PÊLO. s. Briga. loc. s. t. caída. lutar. loc.] . adj. 169.Glossário 319 PEGAR O COMEÇO. de pesar. espada. f. s. ter começo. PELEIA. [Também usado em Goiás: ver Carvalho Ramos. p. // 2. f. ou aquele que é dado a brigas ou peleias. arriscar a pele. f. PELEGO (ê).) [O mesmo que descascar. Brigar. pesaroso. verb.] PELEADOR (ô). f. trato ininterrupto e rude. e s. grande quantidade. Uma porção de peões. combater. v. PELEAR. Mudar de pêlo (o animal). 198.] PELAR. Cantadores. Indivíduo espertalhão. facão. Prende-se à expressão viajar (ou andar) de pêlo a pêlo = sem mudar de cavalo.] PEONADA. s. Desembainhar (faca. v. 215. [Os dicionários registram a palavra como provincianismo português. m.

de cor branca. patelear. com a cara. poderoso. // 2. disse-me que tinha cinqüenta braças de testada e cem de fundo. v. portanto. m. [O termo é de uso em boa parte do Brasil. sinônimo de “criança”. [Não dicionarizada esta acepção. s. termo familiar.] PETIÇO. ou indivíduo de peso.: pucumã. é bem proporcionado. p. e s. Var. PICAÇO. Menino descendente de índio. Carvalho Ramos – Tropas e Boiadas. importante. porém eu man- . aliás. ou cavalo ou muar pequeno. guri. PICANHA. Qualificativo de. de Contos Gauchescos e Lendas do Sul está pequenitote.] PIÁ. s. Chinoca. adj. 83 – e em Goiás. de seu emprego em São Paulo dá testemunho Valdomiro Silveira – Os Caboclos. é natural: os léxicos não registram todos os diminutivos. 1. espernear. 75. que nas estâncias presta pequenos serviços. PESADO. Pernear. Anca do animal vacum ou cavalar. e por onde podem transitar cavaleiros e algumas viaturas rústicas. f. [Na segunda ed. Fuligem.320 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a PEQUENITATE. s. Também se diz pigarço. m. com o animal raquítico. s. PIGUANCHA. s. m. [Não dicionarizado – o que.] PICADA. Diz-se de. f. p. [Apesar de pequeno. Superl. auxiliar na ordenha das vacas e na ceva do mate. adj. Pequena pilha. PICUMÃ. e s. e s. Diz-se de. PILHOTE.] PERDIDAÇO. Aguilhada. f. m. int. Cf. adj. etc. Muito pequenino. m. s. o substantivo pequenitates. quando ele me vendeu o sítio. PICANA. PERNETEAR. Agrimensor. Caminho. de perdido. Martins Pena põe o termo na boca de uma personagem sua: “Ora. ou a cara e os pés.] PILOTO1. ou animal cavalar preto. s. m. como dar recados. adj. f. Menino. s. m. adj. e s. o petiço tem bons músculos. que se abre no mato. em geral estreito. m. [Esta função era geralmente desempenhada por pilotos de embarcações. não devendo ser confundido. Preferi guiar-me pela primeira. teias de aranha enegrecidas pela fuligem.

árdego. PINGO. e s. na parede. p. onde se recolhem os animais para os trabalhos diários. decerto figurada. Estalar. s. v. Tarefa de todos os dias. m. Diz-se de. Emprega-se. segundo esse autor. // 3. Plastada não está em nenhum dicionário. // 2. crepitar. etc. [Não dicionarizado nesta acepção.] PLANCHAR-SE. s.] . // 2. v. Cheio de pintas. de pingo. Calcar com os pés. [O mesmo que plasta. Superl. posta: plastada de barro. espécie de briche. v. segundo Malaret. s. Cordão. e este só achou quarenta de testada e oitenta de fundo. s. cavalo”. t. Animal que é mantido preso. int. m. Corda. adj. como que achatada. Fumar. int. Cavalo bom. f. f. no sentido apontado. m.] PISOTEAR. v. pronto para ser encilhado a qualquer momento e utilizado nas tarefas da estância. na roupa. espezinhar. [Do araucano piulu. PLASTADA.] PIPOQUEAR. espalhada. Escorregar com os quatro pés.] PINTADO. 1. [Também se usa em Goiás: ver Carvalho Ramos. de “pessoa moleirona. m. trabalho habitual. formado de plasta.] PILOTO2. PINGAÇO. naturalmente. [Não dicionarizado o último sentido. 70. mosqueado. mas registrada – apenas no Pequeno Dicionário e no de Laudelino Freire – unicamente na acepção. s. pipocar. adj.Glossário 321 dei medir pelo piloto. [Usado em todo o Brasil. em São Paulo – ver Valdomiro Silveira. Diccionario de Americanismos. Os Caboclos. Tropas e Boiadas. de sangue. “o fio delgado”. ainda. caindo de lado (o cavalo). Porção de qualquer coisa de consistência branda. 29 – mas no sentido de “matungo. palavra esta tomada ao espanhol e conhecida no Brasil. no chão. barbante. apesar de tão conhecida. ou uma variedade de pano. q. inútil. p. m.] PIOLA. p. etc. pp. no vocabulário da mesma obra. e s. É. PITAR.” – Comédias. 31-32. v. de catarro. vistoso.. 1. Pequeno potreiro. PIQUETE (ê).

e t. s. m. m. e secos. Espécie de capa grossa – geralmente de pano azul e forrada de baeta vermelha – cortada de modo arredondado e com pequena abertura no centro. para nelas se preparar e por elas se beber o mate. Golpe que se dá com a ponta de uma arma ou instrumento. PONCHO. int. etc.] POLVARIM. m. que se encontra nos léxicos.] PONTA. m. verb. Ir à frente. // 2. s. depois de vazios das sementes. f. cujo sentido figurado difere do de levantar poeira. Causar agitação. s. [Não dicionarizado. s. 192 – o ponche paulista difere. Pequena porção ou grupo de animais e. a pobreza. f. Segundo Amadeu Amaral – O Dialeto Caipira. do qual. f. Cenas e Paisagens da Minha Terra. que servem para depósitos de água. – Cornélio Pires.] POBRERIO. prata. e aplicável a pessoa – “o peão que marcha à frente do gado.] . [Os dicionários só dão a palavra como substantivo. para guiá-lo”. [Não dicionarizada a locução. pela qual se enfia o pescoço. Poeira. Fig. se fazem cuias.] PONCHADA. // 3. // 4. de pessoas. Porção de pobres. / o pala ao ombro – indispensável é – / o facão. Dinheiro. 1. de pessoas. s. loc. Cavalar porongudo. PONTEAR. PONTAÇO.322 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a PLATA. polvarinho. v. s. [Não dicionarizada a última acepção. por extensão. p. na marcha de gado ou. Planta da família das cucurbitáceas (Lagenaria vulgaris). a chilena ao pé. [Termo espanhol. 56. tomar a frente ou ponta. s. s. POLVADEIRA. pó. p. s. / o ponche na garupa pendurado. adj. por extensão.] PORONGO. do poncho gaúcho. O fruto dessa planta. Aplica-se ao animal que vai à frente da tropa. PONTEIRO. os pobres. [Em São Paulo usa-se ponche: “Laço nos tentos. intranqüilidade. Nome dado também a essas cuias. Polvorinho. m. pelo feitio. f. LEVANTAR POLVADEIRA. Grande quantidade (de dinheiro ou de objetos). a garrucha e a guampa ao lado”.

onde se mantêm animais destinados aos serviços quotidianos da estância. cujos pontos maiores são o flux. [“A primeira é um jogo ligeiro. s. Coisa nojenta. Empregado de uma estância. desprezível. porquería. que. s. [Não dicionarizado. e que. dando-lhe a posse de uma boa parada. de impressões rápidas e fortes. no dizer dos entendidos. nele não entra quase cálculo ou combinação. muitas vezes um palpite. adj. Do esp. Designativo do cavalar que tem nos membros uma grande exostose. no segundo caso. Animal cavalar de poucos dias de idade. s. p. os potros. 31. m. João. Potrilho só se usa no masculino.Glossário 323 PORONGUDO. PORQUERIA. ou durante todo o período de amamentação – desde que nasce até 2 anos. que diz insolências. mangueiras.] PREGAÇO. s. Uma porção de potros. s. s. O conjunto dessas peças.] POTRILHO. porcaria. m. m. ajuda nos rodeios e cuida do gado e das cercas. s. Local da estância – dotado de casas de moradia. m. o cinqüenta-e-cinco e a primeira. m. [Também usado em São Paulo: ver Amadeu de Queirós. Jóia. Ver Potrilho. PRENDISTA. Ferimento com instrumento perfurante. como dizem alguns. m. s. a qual dá a impressão de um porongo. PRENDA. s. [Sinônimo de potranco. Jogo de cartas. f. PREPARO. f. POTRADA. só tem graça quando é a dinheiro. m. um passe repentino. Campo cercado. s. os aperos. s. e o jogador calado. Fabricante de prendas ou jóias. pregada. PRIMEIRA. s. Pl. f.] POSTEIRO. POTREIRO. – onde mora o posteiro. Nome dado a cada uma das peças que constituem os arreios ou aperos. POSTO. o alegre que fuma e pede o seu trago de bebida. de chapéu nos . etc. faz melhorar a sorte do parceiro que está caipora. uma coraçonada. f. morando geralmente nos limites ou divisas da mesma. m. POTRANCO. Nas mesas há geralmente três espécies de jogadores: – o turbulento e provocante.

s.] Q QUADRA. lá do fundo. prep. Medida linear equivalente a 132 metros. Dar saltos súbitos ou priscos para não ser pegado.” – O Presbitério da Montanha. já ele estacava. f. puxando-a com a mão direita para cima e com a esquerda apertando-a para não deixá-la surgir. e vejo-a em Castilho.] PUAVA. pulpero. de um fundo imaginário. m. Para uns o jogo deve ser de relancina. ideal. de taberna ou pequena casa de negócio no campo. no seguinte passo: “O livro que apresento. se o classificá-lo pudesse por alguma via valer a pena. pp. s. fazendo passes. PRO VIA DE. de por via de – é locução corrente em todo o Brasil. v. estes gostam de orelhar a carta decisiva. e deixando oscilar o espírito entre o prazer de arrastar a parada e o descalabro de a perder. Alguns dicionários registram por via de. [Pro via de – alter. PULPEIRO. que rompe as cartas quando perde. I. motivo”. 1.” – Laf.324 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a olhos. desencontradas. Dono de pulperia. . int. loc. isto é. taberneiro. Bravio. 11. de uma só vez. Perfilar (o corpo). 333. assim é que o naipe sai como que arrancado à força. a predileta. QUADRAR. Por via de com a significação de “por causa de” tem abonação literária: “por via de um gavião casaco-de-couro cruzar-lhe a frente. corrido. entre as classes incultas. Perfilar-se. ficar em posição de sentido. 19-20. Sagarana. [Do americ. escolhido. produzindo comoções ligeiras. Por causa de. isto é. disparar. onde se debatem a boa e a má fortuna. // 2. arisco (cavalo). conforme os vaivéns da sorte. com o sentido de “por intermédio de”.] PRISCAR. P. isto é. havia de ser difícil de classificar. Fugir. Mas a acepção de “causa. t. adj. Os dicionários definem laconicamente. em concentrado prazo de irresolução” – Guimarães Rosa. para outros demorado. p. indócil. em que aí figura o termo via. está em alguns léxicos. Recordações Gaúchas. v.

e int. [Espanholismo. s. ao do espanholismo querência. vive à solta. Nas Serras e nas Furnas. QUINCHA. [Também de uso em São Paulo: ver Valdomiro Silveira. quando afastado. QUEBRA-LARGADO. adj. Desordeiro. etc. também conhecida por téu-téu. apaixonado. e o segundo idêntico. que acompanham a égua-madrinha. s. ou cavalo muito quebra. loc. feita de santa-fé ou de qualquer outro capim seco. tero-tero. muito velhaco. Diz-se de. nos queixos do potro que está sendo domado. 203. o primeiro destes significados é semelhante. . f. quebralhão. e ao qual procura sempre voltar. Pequeno lote de cavalos de pêlos diversos. Fig. m. turbulento. e s. isto é. também usado em São Paulo e em Minas. e. segundo Chermont de Miranda – Glossário Paraense – na ilha de Marajó. e s. para que fique doce de boca. // 2. f. quebra-largado. Ave caradriídea (Vanellus chilensis). Cobertura de casa ou de carreta. Ver Aquerenciado. Lugar onde um animal nasceu e se criou. obedeça facilmente às rédeas. valentão. v. s. t. tetéu.Glossário 325 QUADRILHA. bravio. terém-terém. QUINCHAR. Desordeiro.] QUERÊNCIA. isto é. adj. Lembre-se o uso do português querença nos sentidos de “o lugar onde os falcões criam os filhos” e “o sítio a que os animais se apegam por instinto” (Aulete). na primeira acepção. o que o torna mais insubmisso. isto é. Amoroso. verb. ou antes. ou onde se acostumou a viver. // 2. segundo Coruja. Mentir. nome dado a “pequenos pedaços de coberta de palha que se unem uns aos outros sobre o teto da casa. e s. Lugar onde nasceu. Diz-se de. m. // 2. ou cavalo que. 1.] QUERO-QUERO.] QUERENDÃO. Cobrir com quinchas. ou a tolda da carreta”. verb.] QUEIMAR CAMPO. muito arisco e traiçoeiro. p. m. m. s.: querendona. [O mesmo que quebrar o queixo. de velhaco. 1. Fig. 1. f. se criou ou mora alguém. loc. teréu-teréu. puxando fortemente pelas rédeas. namorado. QUEBRAR A BOCA. além de quebra. adj. QUEBRALHÃO. Dar tirões. os pagos. [Fem.

[Usa-se. f. de arrebanhá-lo. sem o pontear. s. 220 – e em Goiás – ver Carvalho Ramos. RABIOSCAS.] RECAU. à frente dos ranchos. s. dos boliches. Urupês. p. xingação. v. Descompostura. rabiscos. p. em São Paulo – ver Monteiro Lobato. Atar com muitas voltas. Fazer movimento circular com a armada do laço para atirá-lo. REBENQUEADOR. Aplica-se ao cavalo que tem na cauda fios de cabelos brancos. Toque de viola em que se arrastam as unhas pelas cordas do instrumento. Aquilo que rebenqueia. Nas Serras e nas Furnas. . t. dos galpões. v. atar bem. s. f. Ato de recolher o gado. m. 1. 173. [É também provincialismo português. Arreio de montaria. que fustiga com o rebenque. para resguardo de pessoas e animais contra os raios do Sol. m. s. f. REBOLEAR O LAÇO. Aquele que rebenqueia. Fazer que um objeto que se tem à mão descreva círculos no ar. s. [Também usado em São Paulo: ver Valdomiro Silveira. loc. Letras malfeitas. s. RANCHERIA. pl. s.326 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a R RABICANO. s. RASGADO. isto é. loc. f. Tropas e Boiadas. rebencada. pela qual se segura. s. RECOLHIDA.] RAMADA. t. s. REBENCAÇO DE LÍNGUA. s. Pancada com rebenque.] RABO-DE-TATU. Fig. de rancho. rancharia. REBOLEIRA. de trazê-lo para o curral ou a mangueira. arreatar. m. Porção de ranchos. Dimin. Espécie de caramanchão coberto de ramos verdes ou de capim. REBOLEAR. verb. // 2. RANCHOTE. também. REATAR. 178. m. Touceira de arbustos ou de ervas. m. s. que pelo seu grande encanto acende viva paixão. Relho grosseiro. m. f. garatujas. m. com argola de metal na extremidade. de couro trançado. p. adj.] REBENCAÇO. [Não dicionarizado neste sentido.

Repente. Bater repetidamente com os pés no chão. Tornar reiúno (o cavalo).-rel. 76 – a variante rodemão – Ibid. que ainda não está bem manso. REIUNAR. NUM REDEPENTE. v.] DE REFILÃO. furar (alguém). loc. quanto ao regime: Um estancieiro regalou-me com um pingo tordilho.] REIÚNO. ou cavalo recém-domado. ímpeto. do lado externo. Uma porção de cavalos reiúnos. nem como intransitivo. p. apertura. é próprio do espanhol. Repentinamente. serve para o lavrador dirigi-los quando presos ao arado ou à carreta de uma só junta de bois. ou animal sem dono. f. v. s.”] REDOMÃO. int. // 2. t. m. t. Ruim. velocidade. Fig. Corda – geralmente de couro torcido – que. com objeto direto de coisa e indireto de pessoa. É também de uso em São Paulo: ver Cornélio Pires. v. Diz-se de. com uma volta passada pela orelha. s. p. m. oferecer. e s. Rapidez. f. de través. adv. relance. [Não está nos dicionários o sentido figurado. REFOLHAR. de má qualidade. dando-lhe um corte numa das orelhas.] REFILÃO. presa à cabeça dos bois. adv.. Quem Conta um Conto. ligeiramen- . s. [“Um estancieiro regalou-me um pingo tordilho. Adj. adj. Diz-se de. adv. ordinário. Golpear. loc. Dar de presente. e que aparece nas estâncias.. m. m. rebollar. s. loc. [Do americanismo redomón.: redomona..] REGALAR.” Esse uso do verbo em tal sentido. s. [Tito Saubidet – Vocabulario y Refranero Criollo – dá redepente. No goiano Carvalho Ramos encontra-se. RELANCINA. ou cujo dono é desconhecido. 1. [Do esp.Glossário 327 REDEPENTE. REIUNADA. De raspão. Em português ele é empregado de maneira oposta. [Não dicionarizado. 233 e 234. Ver Num repente.. adj. adv. [Não dicionarizado precisamente nesta acepção. pp. f. agitação. Lance difícil. 16. Não dicionarizado nesta acepção. = “De repente. De relance. Fem.] REGEIRA.] DE RELANCINA. e s. a par de redomão – Tropas e Boiadas.

de manter o gado no pastoreio sob vigilância.. p. adj. ou da pessoa. v. d. 223. [Do esp.] RENGO. 203 – e em Goiás – ver Bernardo Élis. 203. Que costuma ressolhar. p. 109. que manqueja de uma perna. mas entroncado e forte. com intenção de a possuir. RESSOLHAR. v.] RESTINGA. v. RESSOLHADOR. soalheira. int. adj. [Não dicionarizado. 1.] RENGUEAR. p. Dialeto Caipira. Procurar insistentemente uma mulher. [Na primeira acepção. f.] RETACO. para cobri-las. à margem de uma sanga ou de qualquer outro curso de água de pouca importância. rufiar. [Também se usa em São Paulo – ver Amadeu Amaral. retaca. Fig. e uma cajazeira que oscila os brônquios verdes no alto das forquilhas superpostas. permanente ou não. [Não dicionarizado nestas acepções. 192. p. Resfolegar ruidosamente (o cavalo). 47. t. Tropas e Boiadas. s. sentinelas: um cangalheiro. corre em Goiás também: ver Carvalho Ramos. Ermos e Gerais. coxear. Diz-se do animal. passageiramente. No mineiro Guimarães Rosa a palavra aparece aplicada a coisa: “Duas árvores adiantadas. com o sentido – aproximadamente igual ao primeiro aqui registrado – de “tira de mato à beira de um rio”.” – Sagarana. adj.] RESVALONA. Diz-se de homem ou animal de pequena estatura. Soalheira forte. Claudicar.. // 2.. a fim de que não se desgarre. adj. atarracado. RESSOLANA. p. resollar. 1. requestá-la.328 Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a te. f. REPONTAR. Resvaladiça. f. [Ver Fazer-se de sancho rengo. p.] REPONTE. [A locução é também usada em São Paulo: ver Cornélio Pires. // 2. Ato de repontar. Mata de pequenas árvores ou de arbustos. m. de copa trapezoidal. s. Procurar as éguas. s.] . Sanga ou qualquer outro pequeno curso de água margeado por mata daquele tipo. e int. Quem Conta um Conto. Amadeu Amaral consigna o termo em seu Dialeto Caipira. int.

Couro com que se revestem as bolas ou boleadeiras. servindo apenas para trazê-las reunidas e despertar-lhes o cio. de fazer movimento rápido. Cobrir com o retovo. O mesmo que rinconada. m. como os do navalhista antes de dar o golpe. [Usado no Paraná. ou o do cavalo ao ser sofreado repentinamente quando vai a galope.] RINCÃO. Rincão. Recuar. s. disparar. m. [Não registrado nesta acepção. o que facilita o trabalho do reprodutor.] RETOVO. m.] RODADO. fica impossibilitado de fecundar as éguas. comparam-se com ele os olhos que têm rugas aos cantos.] RISCADA. [Não dicionarizado neste sentido. [Não dicionarizado. [Não dicionarizado. v. [Não dicionarizado. busca. barulho. Correr a galope. Dialeto Caipira.] RETOVAR. [Não dicionarizado neste sentido. recanto formado por acidente natural. [Como o retovo de bola tem as extremidades franzidas. s. int. Queda para a frente que o cavalo dá quando a trote ou a galope. ágil. Ato de riscar. s. ou cavalo inteiro que.] RODADA. f. voltar. barafunda. [Não dicionarizado. [Do americanismo retobar.] . t.] RISCAR. Algumas Vozes Regionais do Paraná. também: ver Silva Murici. Também o verbo riscar não figura nos léxicos com essa extensão de um dos seus significados. Também corre em São Paulo: ver Amadeu Amaral. algo semelhante. Laudelino Freire dá revira-vira. f. Queijo circular. em forma de roda.] RINCONADA.] REVIRA. s. v. adj. com o significado. lufa-lufa”. Trecho de campo onde há arroio. s. s. etc. v. Tumulto. em conseqüência de uma operação. [Está entre Algumas Vozes Regionais do Paraná. e rel. s.] RETROVIR. m. agitação. de “desordem. o cabo dos rebenques. capões ou qualquer mancha de mato. int. m. p. Diz-se de. montado ou não. f.Glossário 329 RETALHADO. 203. de Silva Murici. e s.

Mentira. // 2. RUFIAR. e adj. Rumar.] RUSSILHONAS. [Não dicionarizado. pastor. Ajuntamento de gado em campo aberto para apartar. s. adj. p. f. Fig. ou cavalo que. 1. Não dicionarizado. m. etc. Rumar.] RUMEAR. [Figueiredo registra a palavra como “neologismo de Lisboa”. rel. roubo. quando este é manejado. com um exemplo de Afrânio Peixoto. Ato de roubar. s. // 2.” – Obras Completas. Diz-se de. s. m. s. Indivíduo dado a namoros. f. e s. RODELA. Francisco Fernandes consigna-a no sentido em que a usa Simões Lopes. não dicionarizada. Encontra-se em Alcides Maia: “de espingarda a tiracolo e pistola à cinta. rel. 66. Fazer rusgas. Nome dado a pequenas voltas que se fazem junto à armada do laço. I. O conjunto de gado de um rodeio. e s. adj. ROUBADA.] RUANO. examinar e curar as reses porventura atacadas de peste ou de bicheira. v. de rodeio. . orelhas e focinho de um amarelo esbranquiçado. f. feitas de couro amarelo. [Do americanismo rumbear. rumear. int. é de uso no Paraná. Dimin. f. Cavalo destinado à reprodução. patranha. v. também: ver Silva Murici. [Esta acepção.330 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a RODEIO.. RUMBEAR. definindo-a: “fazer rusgas (a polícia)”. Neste mesmo sentido encontra-se rusgar em Castro Alves. 1. Algumas Vozes Regionais do Paraná. como relativo: “Rusgando com o direito. int. Procurar éguas para a cobertura (o reprodutor cavalar). v.] RUFIÃO. Diz-se de. RODEÍTO. v. s. 107. [Americanismo. s. v. m. brigar. RODILHA. garanhão. que tem um velho amigo. femeeiro. crinas. ou botas de cano alto. RUFAR. m. tem cauda. lá rumeava para as sangas” – Alma Bárbara. Fazer tropel. sendo geralmente mais claro do que o alazão.] RUSGAR. e rel. contar. int..

Pequeno arroio.] SAPECA. muito empregada em quinchas ou cobertura de ranchos. a que se refere Simões Lopes Neto. e de que há diversas variedades: o sarandi propriamente dito (Pyllanthus sellowianus) e o sarandi-de-espinho ou sarandi-de-gargarejo (Sebastiania hippophaifo- . Sova. surra. e o paulista Cornélio Pires no das Conversas ao pé do Fogo. rolo. Terreno onde cresce em abundância a gramínea chamada santa-fé. era a palmatória. adj. [A palmatória tinha. SALSEIRO. m. Pessoa que é muito querida.Glossário 331 S SALAMANCA s. 239. s. na sua parte circular. com os seus cinco olhos do diabo. s. m. Barulho. s. Planta gramínea (Panicum prionitis). f. Ver Fazer-se de sancho rengo.. m. s. Aument. sumanta. Não dicionarizado. s. cinco orifícios dispostos em cruz. Palmatória. s.-rel. m.] SANTO-ANTONINHO-ONDE-TE-POREI. SANTA-FÉ. s. p. t. Está definido pelo autor. SAMPAR. SANGÃO. briga. E essa lá estava. para nós. à direita. São os “olhos da santa-luzia”. s. f. Leia-se Machado de Assis: “O pior que ele podia ter. m. s. SANCHO RENGO. rel. f. não dicionarizado. Atirar. [Não dicionarizado. e t. conflito. Antenor Nascentes registra-o no vocabulário de seu O Linguajar Carioca em 1922. pendurada do portal da janela. SANTAFEZAL. s. Diz-se do boi ou do cavalo cujo pêlo é salpicado de pequeninas manchas brancas. Arbusto muito comum no Rio Grande do Sul. m. muito amimada. arremessar. Prestidigitador. comumente.] SALAMANQUEIRO. s. O termo é corrente ao menos em boa parte do Brasil. vermelhas ou pretas. de sanga.] SALINO. que seca facilmente. m. [O mesmo que santantoninho. SANTA-LUZIA. m. [Espanholismo.” – Várias Histórias. SANGA. SARANDI. v. f.

SESTEADA. s. s. Extensão de terreno coberta de sarandis. e não a “animal”. señuelo. palavra espanhola. complicada”. como se vê nesta passagem: “teve ele que ir à vila. No Galpão. das combretáceas. s. Chuva miúda e rápida. verb. s. a sua segunda pessoa. estacar (o cavalo que vai a galope).] SENTAR. [Do esp. xucros. ou 13. m. m. 323. I. Pelar mondongo é “coisa difícil. ronha cavalar. s. [Não dicionarizado neste sentido. Ato de sestear.] . v.] SERENADA. p. s. [Mondongo. Silvo. Parar de súbito.” – Darci Azambuja. muito dado a brigas. depor como testemunha acolá. m.. s. significa “pança de animal”. f. das rubiáceas. que sobeja.” – Poesias de Múcio Teixeira. [Não dicionarizado. SARANDIZAL. O mesmo que assentar. 35. SARNAGEM. SER MONDONGO MEIO DURO DE PELAR. // 2. f. em relação ao facão. p.. acalmando-os. m. Medida correspondente a uma légua de frente e três de fundo. loc. Que sobra. [Não dicionarizado. adj. e quarar uma tarde inteira. adj.] SINUELO. sibilo. f. Sereno. adj. no mesmo sentido de “parar de súbito”. loc. s. f. de Múcio Teixeira: “Eu sento o meu cavalo. Ser turbulento.068 hectares. Animal manso que serve de guia a outros. os faz seguir para onde se deseja.] SESMARIA DE CAMPO.332 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a lia). [No “Menininho” do Presépio o verbo está empregado. das euforbiáceas. e o sarandi-mole (Cephalanthus glabratus). [Não dicionarizado. [Não dicionarizado precisamente nesta acepção. 1.] SEGUNDO.] SEIÚDA. o sarandi-amarelo (Terminalia australis). relento. SILBIDO. e. Sarna. Aquele que é auxiliar ou companheiro de confiança de alguém. é pior que pelar mondongo. f. int. porque negócio com autoridade. Diz-se da mulher que tem seios grandes. Vê-se como transitivo nas Flores do Pampa. Não dicionarizada a acepção: os léxicos se referem a “ponta de animais” que se utiliza nesse fim.] SOBRANTE. No sentido acima Callage dá sinueleiro.

que se vê.] SOLITO. em Valdomiro Silveira. ressoar. s. De cor escarlate. [Talvez de uso em todo o Brasil. solferino. adj. int. o termo é de uso no Paraná. Idade de uma rês.] SOFRENAÇO. No SOFLAGRANTE. feita de uma tira de couro com uma fivela. SONAR. p. adj. sem companhia. Célula de penitenciária. 169. onde se isola o sentenciado turbulento ou perigoso. ocasião. onde o detento fica isolado. Corre em Goiás a variante sobrechincha: ver Carvalho Ramos. para fazê-lo parar ou recuar. SOGA. 1. m. Grande socava. com que se prendem os animais à estaca. s. No mesmo instante. com o mesmo sentido. Ato de sofrenar o cavalo. Momento. Tropas e Boiadas. sofreada. s. f. [Também se diz sofragante.. Peça dos arreios que serve para apertar os pelegos. p. f. esconderijo. v. SOFRENAR. Corda de couro torcido. m. 1.] SOBRECINCHA. ou entre escarlate e roxo. [De uso no Paraná. sofrear. Corda de couro ou de fibra vegetal. Algumas Vozes Regionais do Paraná. gruta. Soar. . loc. Puxar as rédeas de (o cavalo). t. m. e no sofragante. 6 – e em Minas – ver Afonso Arinos. p. s. Algumas Vozes Regionais do Paraná.Glossário 333 SOBREANO. p. [Também de uso em São Paulo – ver Valdomiro Silveira. 1. Sozinho. 97. Célula de qualquer prisão. f.] SOQUETE. SOFLAGRANTE. Pelo Sertão. v. também: ver Silva Murici. flagrante. s. e somente como substantivo.] SOLITÁRIA. que Figueiredo registra como brasileirismo e provincianismo beirão. quando são postos a pastar. f. Nas Serras e nas Furnas. adv. 123. Cozido. Os dicionários dão.] SOCAVÃO. p. que liga entre si as bolas das boleadeiras. m. s. s. s. lapa. [Não dicionarizado. Cozido acompanhado de pirão. [Não dicionarizado. // 2. de pouco mais de um ano até dois exclusive: a rês está de sobreano. ex. também: ver Silva Murici. Leréias. // 2.] SOLFERIM. [Na primeira acepção. // 2.

[Ver Ter marca na paleta. sapeca. f. mas não ser tambeiro. tantear. e s. Adj. 1. s. matreiro. m. m. Osso com que se faz esse jogo. 1. s. Boi ou touro filho de vaca da qual se tirava leite. v. no mesmo sentido. Var.] TANTEAR. s. Tatear. v. rel. f. Jogo do osso. como forma popular. de Cortesão. TAFONA. s. arisco. Laço muito forte. excelentemente definido pelo próprio autor (p. Montículo de terra fofa. 213). [Sorro correspondente à pronúncia do espanhol zorro. f. [Também se diz tava. astuto. tendo-se habituado ao contacto com as pessoas. m. tentear. Atoleiro profundo. feito com tiras de couro torcidas. m. TAFULONA. tocar. s. desprezível. garrida. Extensão coberta de tacurus. Fig. consignada apenas. se tornou manso. Não está nos dicionários o sentido figurado. Cavalo mau.] TAMBEIRO. [Var. Espanholismo. s. tafuleira. // 2.: sumidor. sova. Diz-se de. TACURUZAL. s. de tentear.] TACURU.] . s. T TABA. SOVÉU. e que. e s. que manda confrontar o esp. nos Subsídios. m.] SOTRETA. Fig. m. f. 1. SUMANTA. // 2. Atafona. // 2. Roubar. t. ou moça taful. m. Indivíduo ruim. SUMIDOURO. Surra. Zorro (ver Guaraxaim). m. s. dissimulado. f. SUERTE. [Não está dicionarizado nesta acepção. Raptar.334 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a SORRO. vil. [Também se usa. s. Manhoso. s. feito pelas térmites de preferência em lugares úmidos ou alagadiços. atinge por vezes mais de um metro de altura e tem forma cônica.] SUSPENDER. matreiro. furtar. adj.

TARCA. [No paulista Valdomiro Silveira encontra-se tapijara: Nas Serras e nas Furnas. Qualquer mestiço trigueiro e de cabelos lisos e pretos. usado na América do Sul e em Múrcia. Diz-se de cavalo. Do esp. TAPUIO. Aplica-se a pessoas que andam fora de sua terra. e s. Ver Cutuba. com o mesmo sentido. Duas tiras pequenas de lonca. s. apresenta uma bela copa e tem o cerne muito rijo. com pequenos cortes. TEATINO. dadas ora de um lado. m. s. (inf. s. embora não se desenvolva muito. tata. Cf. m. 231. ou de quaisquer animais ou objetos que estão sendo contados. Forasteiro. Bernardino José de Sousa. s.] TAURA. p. Dicionário da Terra e da Gente do Brasil. s. adj. por extensão. f. ed. TARUMÃ. tatá. m. [Não dicionarizado. adj. f. Casa ou estabelecimento rural abandonado. Ascasubi: “– Mamita acá está un dotor / que por fortuna ha llegado! aquí viene a ver a tata. Pedaço de tábua ou de couro onde se assinala. em Algumas Vozes Regionais . Árvore do campo (Vitex montevidensis). por meio de tapas. Guiar (o cavalo). quando sem freio. A palavra é “de uso geral no Brasil” – afirma. Vem nos léxicos. papai. que não se sabe a quem pertencem. m. TENTO. província espanhola. de coisas – sem dono. Algumas Vozes Regionais do Paraná. como o animal sem dono. Fig. TAPEJARA. Pl. Prudência. Vaqueano. s. boi. TATA. talvez com exagero. s. a qual. de Tiscornia. m. 143. Cuidado. [Do platinismo tiento. [De uso no Paraná. precaução. t.) Papá.] TENÊNCIA. ora de outro. Tira estreita de couro. cautela. / consuélesé.Glossário 335 TAPEAR. cão – e. Vê-se o termo. // 2. também: ver Silva Murici. tino. 1. com que se amarra o poncho ao lombilho ou se prende o laço na parte inferior deste. va a curarlo” – in Poetas Gauchescos. f. de sua querência. p. o número de reses marcadas durante o dia. s. m.] TAPERA. // 3. v. que serve para costurar ou para atar alguma coisa. no singular.

Terneiro muito novo. m. [Também usado no Paraná. pelo que se vê em Simões Lopes. novilho. p. f. no momento de prender com este o animal. TÉU-TÉU. s. faz o serviço de marcação do gado. e tem a cabeça preta. Arma de fogo usada pela cavalaria. também no Rio Grande do Sul se usa téu-téu. no paulista Cornélio Pires. Tropeçar.] TIMÃO. m. Cenas e Paisagens da Minha Terra. TERNEIRO. Casaco grosseiro. de Silva Murici.] TIRADOR (ô). p.] TER MARCA NA PALETA. int. Grupo de três peões que. s. [O homem do campo gosta de exibir o seu tirador – que às vezes é de luxo – mesmo fora de serviço. 56. e no plural. m. loc. curto. que o laçador usa a fim de proteger as calças ou as bombachas dos danos que poderia ocasionar o atrito do laço. Bezerro. não dicionarizada. ou de couro cru. Espécie de avental de sola macia. é de cor cinzenta nas costas e branca na região ventral. igualmente. outrora usado pelos escravos e crianças para se resguardarem do frio. MAS NÃO SER TAMBEIRO. s. e que é um terço menor do que a carabina. TESOURA. porém decidido nas ocasiões necessárias. com mancha amarela. v. [Palavra espanhola. denominação antes sulina”.] . de Amadeu Amaral. s. Ser manso na aparência. m. que trata. f. s. verb. Adj. 75. s. manso. ou bucho-de-piaba.336 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a do Paraná. s. Ser indiscreto. Ver Quero-quero. como substantivo: ver Silva Murici.] TERNEIROTE. também chamado tesoureiro. bezerrinho. [Também circula em São Paulo: ver O Dialeto Caipira. s. m. loc. TER O ESTÔMAGO FRIO.] TERCEROLA. ser bucho-furado. TESTAVILHAR. Mas. nos rodeios. m. TERNO. [Segundo Von Ihering – Dicionário dos Animais do Brasil – de São Paulo para o Norte o nome téu-téu “é talvez mais usado que “quero-quero”. Algumas Vozes Regionais do Paraná. Doce. Pássaro tiranídeo (Tyrannus savana). da etimologia e de outros sentidos da palavra.

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TIRANA, s. f. 1. Antiga dança acompanhada de canto, da qual havia muitas variedades: a tirana grande, diversas tiranas de dois, a tirana de ombro e a tirana tremida ou tirana dos farrapos. Ver Fandango. [Eis aqui, transcritas do Cancioneiro Guasca, de Simões Lopes Neto, algumas das quadras cantadas na tirana: “Eu amei uma tirana, E ela não me quis bem! (ai!) Agora vou desprezá-la, Vou ser tirano também (ai!). Todos gostam da tirana, Mas é só para dançar; Porque de uma tirania Ninguém deve de gostar. ....................................... Tirana, feliz tirana, Tirana, que bom fandango! De tudo vou me esquecendo, Só de ti vou-me lembrando. ............................................ Tirana, tira, tirana, Tirana, vou te deixar, Tirana, juraste falso, Tirana – pra me enganar! Tirana, bela tirana, Tirana do pé pequeno, Eu te levo nos meus braços E não te molha o sereno! .........................................

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Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fer r e i r a

A tirana quando puxa As pelancas da papada, Adeus, minhas encomendas! Vai roncar a trovoada!”] // 2. Descompostura, xingamento. [Não está nos dicionários esta última acepção. Usa-se a palavra em São Paulo, em sentido análogo a este, na locução botar a tirana em = “falar mal de”: “não gostou que botassem a tirana no outro” – Valdomiro Silveira, Os Caboclos, p. 15. Na primeira acepção, o termo é empregado em Santa Catarina – veja-se Virgílio Várzea, Mares e Campos, p. 122 – em São Paulo – veja-se Valdomiro Silveira, obra cit., p. 77 – e em Minas – ver Afonso Arinos, Pelo Sertão, p. 7.] TIRÃO, s. m. Puxão, repelão, sacão, safanão. Arranco. TIRÃO SECO, loc. s. m. 1. Golpe inesperado que leva o animal quando laçado ou pelo cabresto. // 2. Fig. Golpe repentino; choque, grande abalo moral. DE TIRÃO DECO, loc. adv. De golpe; de um ímpeto [Não dicionarizada esta última locução.] TIRAR UMA TORA, loc. verb. Brigar; travar luta. TIRO, s. m. Distância que o parelheiro corre na cancha. TIRONEADO, adj. 1. Part. pass. de tironear. // 2. Abalado. TIRONEAR, v. t. e int. 1. Dar tirões ou puxões ao laço quando a rês nele está presa. // 2. Puxar pela rédea o cavalo, para que obedeça; sofrenar. // 3. Dar tirão; puxar com violência. [Não registrada a última acepção.] TOBIANO, adj. e s. m. Diz-se de, ou cavalo cujo pêlo – preto, vermelho, baio, gateado, rosilho, etc. – tem grandes manchas. [“É termo criado pelos sorocabanos para designarem a montaria predileta do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, – um magnífico cavalo pampa. Por analogia passou-se a chamar – tobiano – a todo o cavalo manchado de duas cores, tendo, mercê do intercâmbio das feiras entre sorocabanos e orientais-

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corrientinos, tal denominação se estendido até as campanhas das repúblicas do Prata. Hoje, ainda se chama, na República Argentina, tobiano, ao cavalo ou égua pampa.” – Afonso A. de Freitas, Vocabulário Nheengatu, p. 192. No paulista Valdomiro Silveira: “inda of’reci a garupa do meu tobiano e o jirau do meu rancho” – Os Caboclos, p. 56.] TOCADA, s. f. Ação de tocar, de tanger (o gado). [Não dicionarizada esta acepção.] TOPAR, v. t. Aceitar (proposta, convite). TOPE, s. m. Espécie, qualidade, laia. TOPETUDO, adj. Qualificativo do cavalo de grande topete, isto é, que tem muito longas as crinas que lhe pendem sobre a testa. Adj. e s. m. Fig. Diz-se de, ou indivíduo rústico, grosseiro; valente, destemido; poderoso. TORCIDÃO, s. m. Ato de torcer; torção, torcedura. [Não dicionarizado.] TORENA, adj. e s. m. Ver Cutuba. TORENADA, s. f. 1. Grupo de indivíduos torenas. // 2. Os torenas. TOSO (ô), s. m. Tosadura do cavalo, a qual se faz de vários modos, donde: toso a cangotilho ou cogotilho – que abrange uns dois terços do pescoço; toso a meio congotilho – que é, aproximadamente, a metade daquele; o toso baixo, o toso de cola e crina, etc. TOUREAR, v. t. Provocar; afrontar; desconsiderar. TRABUZANA, s. m. Indivíduo destemido, valente, brigão; ventana, torena, taura. TRAGUEAR, v. int. Ingerir bebidas alcoólicas; beber. [Alcides Maia – Alma Bárbara, p. 83 – usa traguear-se.] TRAÍRA, s. f. Faca; facão. TRANÇAR, v. t. Contratar, ajustar, atar. TRANCO, s. m. Andadura natural, não apressada, do cavalo; trote. [Formam-se com este substantivo as locuções ao tranco, a tranco e no tranco.]

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Auré li o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a

TRANQUITO, s. m. 1. Trote curto; trote, tranco. // 2. Marcha ou andamento comum, normal, como o do tranco. [Formam-se com esse substantivo as locuções adverbiais ao tranquito, a tranquito e no tranquito. Em São Paulo se usa no tranquinho, ou no mesmo tranquinho, que, para Amadeu Amaral – Dialeto Caipira, p. 220 – equivale a “no ramerrão”.] TRAQUITANDA, s. f. Porção de coisas misturadas, em desordem. [Não dicionarizado neste sentido, que parece prender-se ao de “carro mais ou menos desconjuntado; veículo desengonçado”, que a palavra traquitana ou traquitanda tem, e está nos léxicos.] TRATISTA, s. m. Aquele que realiza ou trata negócios; contratante; tratante (no sentido antigo). TREPADA, s. f. Elevação de terreno; subida; lugar íngreme e alto. [O termo figura entre Algumas Vozes Regionais do Paraná, de Silva Murici.] TRÊS-MARIAS, s. f. pl. Ver Boleadeiras. TREVAL, s. m. Terreno coberto de trevo. TRIGO LIMPO, loc. s. Ver Não ser trigo limpo. TROCAR (A) ORELHA, loc. verb. Mover o cavalo as orelhas ora para diante ora para trás, por susto ou em razão de qualquer coisa estranha. TROMPAÇO, s. m. 1. Encontrão, esbarro, pechada, choque. // 2. Fig. Choque (no sentido moral); grande abalo. [Não vem nos dicionários a acepção figurada.] TROMPETA, s. m. Indivíduo ruim, ordinário, sem-vergonha. TRONAR, v. int. Troar, atroar, retumbar. TRONQUEIRA, s. f. Cada um dos esteios da porteira, em cujos buracos se introduzem as extremidades das varas com que ela se fecha. TROPEIRO, s. m. Aquele que conduz tropa, isto é, rebanho de animal vacum ou cavalar. TROPILHA, s. f. Certo número de cavalos de pêlo igual, que geralmente acompanham uma égua-madrinha. [De uso em Minas também: ver Afonso Arinos, Pelo Sertão, p. 62.]

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TROTEADA, s. f. 1. Ato de trotear. // 2. Viagem mais ou menos longa, a trote. [Usado em São Paulo também: ver Valdomiro Silveira, Nas Serras e nas Furnas, p. 220.] TRUCO, s. m. Jogo de cartas entre dois ou quatro parceiros, cada um dos quais recebe três cartas; truque. [Quando só entre duas pessoas, diz-se truco de mano.] TUCO-TUCO, s. m. Nome de um pequeno roedor (Ctenomys torquatus). [A denominação lhe vem do ruído que produz quando está escavando ou roendo, na toca. Faz grandes túneis horizontais, a pouca profundidade, acompanhando as raízes dos vegetais, que o alimentam. Verificam-se acidentes, por vezes, quando o cavalo pisa sobre a camada de terra que cobre esses túneis, abatendo-a.] TUPIDO, adj. Grosso, espesso, compacto, cerrado. S. m. Espessura. TURUNA, adj. e s. m. Ver Cutuba.

U
UAI, s. m. Onomatopéia designativa da voz do graxaim. [Não dicionarizado.] UMBU, s. m. Árvore fitolacácea (Pirennia dioica). [Cresce rapidamente, atingindo enormes dimensões. De folhagem espessa, que o sol quase não atravessa, serve de excelente abrigo contra ele. Não se deve confundir com o umbu ou imbu do Norte.] URUPUCA, s. f. Armadilha para apanhar passarinhos. [No Norte se diz arapuca.]

V
VAQUEANAGEM, s. f. Ato de vaqueanar, isto é, de proceder como vaqueano. VAQUEANO, s. m. Aquele que, conhecendo bem os caminhos e atalhos de um lugar ou região, serve de guia a quem precisa percorrê-los.

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Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a

[Também de uso em São Paulo – ver Valdomiro Silveira, Nas Serras e nas Furnas, p. 27 – em Minas – ver Afonso Arinos, Pelo Sertão, p. 128 – e em Goiás – ver Carvalho Ramos, Tropas e Boiadas, p. 122. Em alguns Estados do Norte se diz baqueano. A palavra vem – segundo Beaurepaire-Rohan, Dicionário de Vocábulos Brasileiros – “do radical Baquia, termo com que os espanhóis designaram, depois da conquista do México, os soldados velhos que haviam tomado parte nela. Tem o sentido de habilidade, destreza”. O mesmo que tapejara.] VAQUILHONA, s. f. Vaca nova, que ainda não pariu; novilha. VAREJO, s. m. 1. Ato de varejar, de rebuscar, de dar uma batida. // 2. Sova, surra. VAREJAR, v. t. e t.-rel. Atirar, arremessar, jogar fora. VASILHA, s. f. Indivíduo ruim, ordinário, imprestável, desprezível. [Não dicionarizado nesta acepção. Existe, embora também não se encontre nos léxicos, a expressão vasilha ruim, ou vasilha ordinária, com o mesmo sentido: F. é uma vasilha muito ordinária.] VASQUEIRO, adj. Raro; escasso; difícil de obter. VEADO-VIRÁ, s. m. Veado (Mazama gouazoubira) de cor pardo-escura, que vive no campo ou nas catingas, evitando sempre a mata. De extraordinária agilidade, retrocede subitamente pelo mesmo caminho que seguia, a fim de lograr o cão, na caça. [Também se chama virá, veado-catingueiro, ou catingueiro.] VELÓRIO, s. m. Ato de velar com outros um defunto, isto é, de passar a noite em claro na sala em que ele está exposto. [Usado, talvez, em todo o Sul do Brasil. O mesmo a que no Norte chamam quarto e sentinela.] VENTANA, adj. e s. m. Dizia-se de, ou indivíduo mau, turbulento, brigão; venta-furada. VERDEAR, v. t. Dar a (o cavalo) ração de capim verde. Int. 1. Pastar o capim verde. // 2. Fig. Tomar chimarrão. VERDEIO, s. m. 1. Ato de verdear. // 2. Ração de forragem verde que se dá ao cavalo.

Glossário

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VEREDA, s. f. 1. Ocasião; vez. // 2. Marcha; rumo. DE VEREDA, loc. adv. Imediatamente, de repente. [No paulista Iago Joé encontra-se de vereda = “de repente”: ver Briguela, p. 87. A locução vem definida, no vocabulário desse romance, como “seguidamente, sem interrupção”. Não é este, porém, o sentido conveniente ao texto do autor, e sim o que apontei.] VIAJADA, s. f. Viagem; caminhada; jornada. [Também se emprega em São Paulo: ver Cornélio Pires, Quem Conta um Conto..., p. 17.] VIRADO, adj. Turbulento, endiabrado, levado da breca. VISCACHA, s. m. Roedor semelhante à lebre, do mesmo tamanho e pêlo que ela, e de cauda tão comprida como a do gato; vive no Peru, na Bolívia, no Chile, na Argentina, no Uruguai e no Rio Grande do Sul. [Do americanismo vizcacha, que por sua vez procede do quíchua. Não dicionarizado.] VISPAR, v. t. Lobrigar, avistar, enxergar, bispar. [Var. deste último termo, não dicionarizada.] VIVARACHO, adj. e s. m. Que ou aquele que é muito vivo, sagaz, esperto, astuto. VIZINDÁRIO, s. m. 1. Conjunto dos que habitam as vizinhanças ou arredores de um lugar; a vizinhança. // 2. Os lugares circunvizinhos; as cercanias, os arredores. VOLTEADA, s. f. Ato de apanhar de surpresa o gado matreiro ou alçado. VOLTEAR, v. t. Derribar, atirar ao chão. VOZERIO, s. m. Vozearia, vozeria. [Não dicionarizado.]

X
XERETA (Ê), s. m. e f. Bisbilhoteiro; leva-e-traz. XERETEAR, v. t. Contar intrigando, como um xereta. [Não dicionarizado nesta acepção.]

interj. Mares e Campos.] . trazido à escoteira. para atalhar tropeços e incômodos de montar na necessidade lombo xucro de animal ruim ou passarinheiro. fixada pelo sistema ortográfico de 1943. esquivo. Exprime desprezo. [Do quíchua chucru. Água Funda. através do americanismo chúcaro. p. 68 – em São Paulo – veja-se Rute Guimarães. Também usado em Santa Catarina – veja-se Virgílio Várzea. p. como se vê. Diz-se de animal não domado. sempre à mão. qualifica uma parte do animal. daí a sem-razão da escrita xucro. Tropas e Boiadas. bravio. 80 – e em Goiás: “tanto mais que o macho mascarado. Nesta passagem.. em vez do próprio animal.344 Auréli o Bu arqu e de Ho landa Fe r r e i r a XÔ-MICO!. 1. adj. o adjetivo. 43. // 2. esquivo.. XUCRO. grosseiro. Rude. p. Fig.” – Carvalho Ramos. por uma conhecida figura de estilo. aguara dos cascos na subida da serra do Corumbá.

. 9/12 pt.Composto em Monotype Centaur 11/15 pt: notas.