CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O OBSERVADOR NO ESCRITÓRIO

EDITORA RECORD

DO AUTOR Prosa CONFISSÕES DE MINAS, crônicas e artigos, 1944 CONTOS DE APRENDIZ, 1951 PASSEIOS NA ILHA, crônicas e artigos, 1952 FALA, AMENDOEIRA, crônicas, 1957 A BOLSA & A VIDA, crônicas, 1962 CADEIRA DE BALANÇO, crônicas, 1966 CAMINHOS DE JOÃO BRANDÃO, crônicas, 1970 O PODER ULTRA JOVEM, crônicas, 1972 DE NOTÍCIAS E NÃO-NOTÍCIAS FAZ-SE A CRÔNICA, OS DIAS LINDOS, crônicas, 1977 70 HISTORINHAS, 1978 CONTOS PLAUSÍVEIS, 1981 BOCA DE LUAR, crônicas, 1984 O OBSERVADOR NO ESCRITÓRIO, 1985 Poesia ALGUMA POESIA, 1930 BREJO DAS ALMAS, 1934 SENTIMENTO DO MUNDO, 1940 POESIAS, 1942 A ROSA DO POVO, 1945 POESIA ATÉ AGORA, 1948 CLARO ENIGMA, 1951 VIOLA DE BOLSO, 1952 FAZENDEIRO DO AR, 1954 POEMAS, 1959 ANTOLOGIA POÉTICA, 1962 LIÇÃO DE COISAS, 1962 VERSIPROSA, 1967 BOITEMPO, 1968 REUNIÃO, 1969 AS IMPUREZAS DO BRANCO, 1973 MENINO ANTIGO, 1973 AMOR, AMORES, 1975 DISCURSOS DE PRIMAVERA, 1977 ESQUECER PARA LEMBRAR, 1979 A PAIXÃO MEDIDA, 1980 NOVA REUNIÃO, 1983 CORPO, 1984 AMAR SE APRENDE AMANDO, 1985 Infantil O ELEFANTE (Col. Abre-te Sésamo), 1983 HISTÓRIA DE DOIS AMORES, 1985

Copyright (C) 1985 by Carlos Drummond de Andrade

FICHA CATALOGRÁFICA

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Andrade, Carlos Drummond de, 1902A 5660 0 Observador no escritório: páginas de diário/Carlos Drummond de Andrade. - Rio de Janeiro: Record, 1985. 1. Crônicas brasileiras I. Título CDD - 869.935 84-0998 CDU-869.0(81)-94

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mas isto só se pode explicar pelo fato de que não influi no rumo das coisas. Ao lado dessa galeria em desfile. que não apenas observa do seu canto de escritório. O cético Drummond acreditou em idéias e nas possibilidades de modificação do cenário nacional sob a inspiração de princípios de liberdade e justiça social. e faz meditar sobre ilusões e paixões que marcaram a vida brasileira. A prosa ágil e matizada de Drummond confere atualidade ao que passou. e em Manuel Bandeira. notações de natureza individual registram as pulsações da sensibilidade de Drummond. Da probidade do "observador" não é necessário falar: um mentiroso não saberia refletir-se nestas anotações. Este é um livro que nos fala de figuras históricas como Luís Carlos Prestes. vai tornando um pouco esbatido na memória. aqui e ali. Eis um diário que não se detém no relato da vida pessoal do autor. antes a mostra identificada com as correntes de idéias em ebulição no seu tempo.Orelhas do Livro PÁGINAS DE DIÁRIO QUE RECORDAM O BRASIL FACILMENTE ESQUECIDO Carlos Drummond de Andrade condensa neste volume aspectos da vida política e literária do Brasil em anos passados. . Declara-se mero observador desses acontecimentos. Mas participou delas à sua maneira. mas também vibra e sofre com as coisas do tempo. devorados apressadamente pelos meios de comunicação social. poeta da particular devoção do autor. entrevistado por Drummond no presídio da Rua Frei Caneca. até com certa paixão. É um testemunho leal de fatos e figuras de um Brasil ainda recente. mas que a avalanche de acontecimentos. sem esquecer o espírito crítico que o acompanha como um dado característico da sua personalidade.

fatos políticos e literários que me interessassem. com freqüência irregular.google. acabei por abandoná-lo. Ao lado de anotações pessoais. D.com/group/digitalsource . em 1980-1981. acrescentei-lhes outros. http://groups. C. A.Durante anos. Se os leitores encontrarem nestas páginas o eco de um tempo abolido. Reunindo-os em livro. registrava nele. como tanta gente. mantive um diário e. terei resgatado a minha nostalgia e fornecido matéria para conversa de pessoas velhas e novas. como tanta gente. até agora inéditos. Uma seleção desses registros foi publicada no Jornal do Brasil.

Fui. Mas a própria destruição tem caprichos.. menos por mim do que pelas pessoas em volta. Animou-me a ingênua presunção de que possam dar ao leitor um reflexo do tempo vivido de 1943 a 1977. se escreve o diário. se tiverem em conta o julgamento histórico. de modo geral.O OBSERVADOR NO ESCRITÓRIO Por que se escrevem diários? Por que notadamente os escritores gostam de escrevê-los. A. O impulso de escrever para mim mesmo. dissipando o tempo que deveria ser consagrado a viver ou a produzir escritos públicos? Admite-se que o político e. Ninguém o obriga à anotação íntima.. . inerente à condição de escritor. o diário valerá como documento de arquivo. há de ser por força de motivação psicológica obscura. Não pensei nisto. em caráter autoconfessional. destruí. tia maior parte. que jamais pretendi viessem a ter importância documental. alheia à noção de utilidade profissional. a esse mirar-se no espelho do presente. fazendo lembrar coisas literárias e políticas daquele Brasil sacudido por ventos contrários. observador no escritório. Neste caso. a não ser pela obra. D. o homem de ação se empenhem em manter registro continuado de fatos e conversações que possam justificá-los no futuro. anos a fio. C. ao encher cadernos com anotações sobre o meu dia-a-dia. como não têm. depois de tê-las. Então. ditou os feixes de palavras que fui acumulando e que um dia. Do conjunto sacrificado salvaram-se algumas páginas que hoje reúno em livro. talvez. colocado em minha coluna no Caderno B do Jornal do Brasil. Mas o escritor não precisa justificar-se.

grandes janelas e portas. Restrições partidas do lado de cá. esboça em carta restrições a um poema que publiquei ultimamente: "Espero sua compreensão para este pequeno desabafo. doente.. e que outros fazem naturalmente. Mas a doença está no quarto. tão cruel mesmo quando motivada pelo interesse da amizade. mas essa minha maneira de visitar os enfermos não me permite verificação a fundo. anima-se quando lhe digo . andando pelo quarto. com o abatimento natural à doença. a porta com o retrato de Mozart. de coisas alheias à doença.1943 Maio. Largas escadas. Murilo diz-me que as visitas lhe fazem um grande bem. metade em francês metade em português. por mais que eu a ignorasse. o lado dos conservadores e reacionários. muito generoso para comigo. que não me interessa. em que eu procuro não reparar. 3 — Visita a Murilo Mendes. e procuro falar-lhe. com o pudor ou a timidez que quase me faz pedir desculpas ao doente por visitá-lo no momento de sua inferioridade física. em volta. Disseram-me que estava liquidado. mineiro de 21 anos. sem muito jeito. poeta dotado de senso crítico. de gente amiga e independente. O casarão tem aparência de sanatório (é a proprietária que o lembra). Fica entre árvores de um jardim malcuidado mas acolhedor. Junho." Compreendi e gostei." Murilo de pijama. Não é cabotinismo. ameaçavam comprometer meu autojulgamento. é que me aponta o caminho: "No fundo do corredor. pergunta se tenho feito versos. Precisa de companhia. Dou-lhe um papel a assinar — a decisão do concurso de poesia estudantil de guerra.. alertam o espírito e impõem mais rigor. Os ataques que me vinham — que me vêm sempre — eram todos do lado de lá. de contatos. e só depois de minucioso interrogatório. de que somos julgadores. muito silêncio. entrando aqui e ali na conversa. Tantos elogios de amigos. A velha dona da casa recebeme com reserva. 15 — Paulo Mendes Campos.

sobre a qual gerações inteiras de indígenas tinham vivido como eles vivem. ou antes." O sentimento de casta. e que isso aconteceria mesmo que o trancassem incomunicável numa prisão.. Mas também certa falta de nexo. vítima dos colaboracionistas: "A alimentação que me deram era igual à dos indígenas. Nada resolvido. começando por uma idéia ou um motivo que logo se perde. na redação da Revista do Brasil (edifício dos Diários Associados). Presentes Otávio Tarquínio de Sousa. José Lins do Rego. Astrojildo Pereira. Álvaro Lins. 7 — Artigo de Bernanos em O Jornal. de raça superior. sem esforço. Julho." Na prisão.. reponta a cada momento na confissão desse oficial que se dispõe a combater o mito racial do nazismo. É desses que são engraçados por si mesmos. a propósito do exemplar da sua Revista. Em nenhuma parte do artigo Bernanos dá a perceber que essa linguagem o surpreende ou pelo menos o molesta. de uma patética e desesperante monotonia: sempre a derrota e a humilhação da França. Junho. dormia numa "esteira imunda. 19 — Reunião de diretoria da Associação Brasileira de Escritores.que o julgo sempre participante da vida. Sempre corajoso. Um obcecado. José Lins faz piadas. já que o autor se compraz em seguir diferentes atalhos saídos da estrada principal. Marques Rebelo. Provoco uma discussão amena com ele sobre o seu namoro com a Academia. de uma coragem feroz. porém. em que Rebelo colabora e que ele tem nas mãos. e não é preciso muito para que todos riam. . integrado nela. de amargura incurável. sarcasmo e desprezo pelos partidários de Vichy. que me impressiona. de um único sentimento. A ressurreição da França virá curar-lhe ferida tão funda? No artigo de domingo. A conversa deriva para a Academia Brasileira. Estrada e atalhos. Dinah Silveira de Queirós. Sua vida gira em torno de um único pensamento. riscados no mesmo solo. Francisco de Assis Barbosa (de passagem pelo Rio) e eu. cita o testemunho de um oficial francês. Continua o exame da questão de como cobrar direitos autorais. proclamadas com irritação...

por ordem de idade. participante da reunião. e lanço a idéia: "Vamos redigir uma declaração afirmando o nosso propósito de não entrar jamais na Academia?" Tarquínio apóia com entusiasmo.Outros intervém. recusa-se a assinar. Outubro. secretário da Revista do Brasil. Jorge tratou de mim. o motorista intimou-os: "Não concordo com o que os senhores dizem. que todos assinamos. e ele mesmo escreve o compromisso. e dois deles começaram a comentar desfavoravelmente a poesia de Jorge de Lima. e eu tenho a maior admiração por ele. foi muito bom. e saímos. e mesmo não sendo candidato prefere abster-se. O Dr. Façam o favor de descer do meu carro. Aurélio Buarque de Holanda. já à noite. com a declaração no bolso de Tarquínio. dos 56 anos de Tarquínio aos 29 de Chico Barbosa. e com a declaração desta. Parando o carro. Tudo termina em risos. Acha legítimo aspirar à Academia. 20 — Álvaro Lins conta que ia num táxi em companhia de amigos." .

mudança do Gabinete do Ministro para o edifício do Ministro da Educação. 22 — Dia 5. reclinada." A sala em que me instalaram não provou bem. Ouvi a história da sua infância na fazenda do Ribeirão — infância refratária ao estudo. a estátua de mulher nua de Celso Antônio. andar do Edifício Rex. aos móveis padronizados (antes. que substitui as lâmpadas acesas durante o dia. em lugar de paredes. Das amplas vidraças do 10º. a octogenária tia Nhanhá. no jardim suspenso do Ministério. Utilidade imprevista das obras de arte. Deixamos afinal os estreitos compartimentos alugados no 16º. Novos hábitos são ensaiados. Forma-se depois como cirurgião-dentista e torna-se . Experiência fracassada e dolorosa no colégio do Caraça.. aonde fui em visita de pêsames pela morte de sua sogra.1944 Abril. natural. Da falta de conforto durante anos devemos passar a condições ideais de trabalho. Abgar Renault resmunga discretamente: "Prefiro o antigo. reagindo contra a pedagogia do bolo de palmatória e florescendo na simplicidade do convívio com burros e bezerros. às divisões baixas de madeira. Agosto. A conversa com ele é sempre agradável. Lá embaixo. e é uma graça a conversão do sexo de granito em fonte natural. andar descortina-se a baía vencendo a massa cinzenta dos edifícios.. cuja construção teve início em 24 de abril de 1937. Não conseguia aprender nada. conserva entre o ventre e as coxas um pouco de água da última chuva. 8 — Volto da casa do tio Elias. Dias de adaptação à luz intensa. Desde anteontem passei para outra onde as coisas têm melhor arrumação. ele mesmo era um animal entre os animais. O pai manda-o para Ouro Preto. com humour que aparenta ingenuidade e é sutileza. no Castelo. que os passarinhos vêm beber. onde em pouco mais de dois anos faz todos os preparatórios e se matricula em escola de farmácia. obedeciam à fantasia dos diretores ou ao acaso dos fornecimentos). pois sabe contar coisas.

do contrário. vimos os santos de Portinari na capelinha de N. Os episódios da escola primária são contados com um pitoresco irresistível. vence galhardamente concurso universitário para catedrático no Rio. casa. como os índios podem dar lição a muito artista civilizado! A composição reúne figuras humanas. e o notável tapete feito em líber. tapete. umas cadeiras. navio. inclusive tia Zizinha. que deslumbra. no Alto da Boa Vista. Durante todo o tempo. Portinari fala de pintura com a costumeira paixão. objetos variados do cotidiano. No frontal do altar. Ficamos à vontade. de sorte que a visita de pêsames perde o caráter convencional. peças de criação popular urbana espalham-se pela casa. A virgem resplandece entre São João da Cruz e São Simão Stock. 20 — Almoço em casa de Gastão Cruls. umas floridas. ora com amor ora com espírito satírico. em geral de humor concentrado. já maduro e sem proteção. com Portinari e Rodrigo (M. Agosto. podia parecer que as almas estavam simplesmente tomando banho de sol. O artista explica que os botou ali porque. em duas cores sóbrias. filha da falecida. além da Cascatinha. e rimos todos. bichos e aves. F. S. Gastão não tem apenas obras de arte indígena. com que as índias tapam suas vergonhas. Antes. de Andrade). . Parente mais velho que nos põe à vontade e aprende o lado alegre da vida é tão raro! Esse tio é dos bons. do Carmo. A casa de Gastão. pequena e alva. outras esperando vez. está cheia de orquídeas e plantas raras. de cunho decorativo tão refinado. a representação do purgatório. a não ser o crucifixo no altar. Na Capela Mayrink não há mais nada. máscaras de dança. A arte é sua vida. toda a sua vida. com diabos vermelhos e um espantoso dragão a atormentar as almas. para dar lugar ao magnificente tríptico de Portinari. vendo as tangas.o profissional acatado que. Ah. A própria imagem da Senhora do Carmo foi recolhida à pequena sacristia.

as traduções deviam ser proibidas. Mas haverá escritores a serem beneficiados? 99% são funcionários públicos. Para dizer a verdade. se o pensamento do autor. Eu também. se as palavras que o vestem. Não sei o que mais padece neste jogo. Assim se comemora duplamente o aniversário de uma guerra sui generis.. só o poderá ser pelo "enredo".. sobre a questão do moderno poema longo. fechada pela polícia na véspera de sua posse. na sua opinião.. Martins de Almeida. comércio fechado à tarde. trabalho que empreendi pelo suposto prazer de traduzir. como moeda falsa. Ele acha que algumas tentativas minhas. o "conteúdo intelectualmente concebido". indicando que o Governo pensa menos em ganhar a guerra do que em salvar-se. ultimamente. Ministro do Exterior e vice-presidente da Sociedade dos Amigos da América. O Poema Longo Novembro. E discorre: "A meu ver. sem encomenda de editor. Setembro. 23 — O Governo promoveu um comício para comemorar o segundo aniversário da entrada do Brasil na guerra. ou Seja. mas pertence à substância da . a inscrição "Ordem e disciplina". Tudo preparado meticulosamente.Agosto. convidado. 26 — Ainda às voltas com a tradução de Les Liaisons Dangereuses. de Laclos. 10 — Excelente carta de Otto Maria Carpeaux. não sendo mais apoiado pela métrica. Na grande faixa de pano erguida junto ao Teatro Municipal. a forma não é um enfeite delicioso nem uma quantité négligeable. Almeida faz parte do 1 % restante. se aproximam "do'máximo compatível com & verso livre". que.. Anuncia-se a saída de Osvaldo Aranha. escrever novamente um livro alheio! E que pretensão. do fascismo interno contra o fascismo externo. Agosto. apresenta um projeto de caixa beneficente da classe. e nenhuma vibração. 30 — Reunião da Diretoria da Associação Brasileira de Escritores. Que problema.

Os poemas de tamanho grande precisam dum apoio formal. Meu companheiro. então. Mas o meu gosto pessoal não é juiz." A meditar. convencido de que esse trend também pode produzir grandes obras. meio involuntária-inconsciente-emocional. latas velhas e paz de ambiente rural. à tarde. Os ingleses estão. Aqui uma entrada de vila humilde. mas a que estão ligadas lembranças. Tudo banal. reunião em casa de Aníbal . você nunca pode cair nisso. é meio voluntária-consciente-intelectual. eu reparo bem o trend para o poema de hálito épico no momento atual. para não se diluírem. E pequenos edifícios de apartamentos — dois. deixa pender a cauda. para achar detestável. pequenas vidas apagadas. a volta à métrica tradicional seria uma desgraça. Novembro. sem a emoção de outros tempos. roupas expostas à vista do transeunte. com o cachorrinho Puck. Uma sacada entreaberta. Novembro. todos ingleses) são poemas narrativos. ao fundo. num caso mais feliz: eles podem aplicar até a métrica tradicional (ultimamente vi sonetos de Auden. três andares. nisso. Agora. e a forma de você é e será o verso livre. Pequenas residências que gostariam de ser elegantes. é impossível. Num. porque a sua natureza é anti-retórica e antiloquaz. em que admiro sempre muito a primeira ou as primeiras linhas. A meu ver. porque a tradição poética da língua inglesa não é asfixiante. Então. é o caso de Walt Whitman. em língua portuguesa. dos quais gosto. 11 — Longo passeio por Ipanema. sem se tornarem pernósticos. retórico e loquaz o resto.poesia: como esta. e tenho que conformar-me. fazer poema longo"! São poucos os poemas longos. o verso livre se mantém em equilíbrio numa poesia de tamanho curto. cansado. Quer dizer. 29 — Sábado à tarde. lembro-me de que aqueles poucos poemas longos dos quais gosto (aliás. até médio. roupas secando ao sol. Mas como. sem ninguém para dar testemunho de vida. nesta vida presa de Ministério. não pode mudar. mais além um terreno baldio. na literatura inteira. o poeta não muda de forma. Ruas que há muito tempo não via. Spender e Barkerü).

todos se submetendo à decisão interna por maioria. sempre rigoroso e apaixonado. no ponto de vista comum: volta à liberdade. e o jeito é tocar para frente. vê mais os indivíduos do que as tendências. ou menos brilho. e a cada momento endurece numa atitude invencível. tem espírito de ordem e vontade de ajudar. E mais: que a existência do grupo permanecerá secreta. que redigi à última hora. Leio os temas de possíveis teses. um grupo . Entra e sai tanta gente. para concluir que já agora não poderiam ser sanadas. de meia confiança.Machado. Lia. Quem sabe se 25. para participar dos debates de maneira objetiva e politicamente segura. Com jeito. Eneida. mais inclinada à pilhéria do que ao exame dos problemas. Comparecem Lia Correia Dutra. intelectual e politicamente. Tema: a chapa de escritores que representarão o Rio de Janeiro no Congresso de São Paulo. secretária diligente. não vamos eleger ninguém. que com sua vocação de caudilho consegue extrair algum resultado da pequena assembléia.. escritores e artistas... Vamos nos empenhar por que haja uma boa representação carioca. consegue-se que os estranhos. A discussão é dirigida por Eneida. do Congresso. ferindo suscetibilidades? De resto. Dalcídio Jurandir. maioria saudável?. mais interessados em conversar fiado e traçar a batida de maracujá. E 15 assim-assim. Assumimos um vago e divertido ar de conspiradores. Escolher nomes e afastar outros: como evitar que a conversa transpire. Dezembro. Osório Borba. no desejo de tentar uma sistematização dos assuntos.. Passamos em revista falhas de organização. E decide-se que serão elaboradas várias chapas com 25 nomes fixos e outros variando ao gosto de cada um. como se vê. Moacir Werneck de Castro. 15 — Nova reunião do grupo em casa de Aníbal Machado. deixem o escritório. para tratar da organização do Congresso da Associação Brasileira de Escritores e firmar uma linha coerente de ação. Quarenta nomes? Difícil escolher. que fica difícil cuidar do assunto de maneira reservada. Borba. ainda tão vagos. Não somos. Ficou combinado que formaremos um grupo unido.

fazendo-se a escolha entre todos os indicados. Dezembro. a conversa mostra como é difícil. como piada. que no ônibus me conta episódios da escola técnica onde é professora. Generaliza-se a discussão. como em geral acontece na ABDE. Dezembro. 20 — Na última reunião da ABDE (diretoria e alguns sócios). Domingo — Eleição dos delegados da ABDE. Lia e Marques Rebelo são incumbidos de preparar uma chapa como ponto de partida. Rejeitado. que acha imperfeito. e Chico Barbosa e Astrojildo outra. muito ao seu feitio zombeteiro. ficou apenas o "lado"). 29 — Jantar em casa de Aníbal. Diz que. me conhecem como louco. As prisões dos últimos dias.unificado. senão impossível. Ao ser discutido o processo de eleição dos delegados do Rio. por obra e graça de alguns professores. todos. Rebelo. no escritório. coordenar escritores. elaborado em São Paulo. e intelectuais em geral. Seremos mesmo um grupo? Saio com Lia Correia Dutra. Vitória integral do nosso "lado" (o "grupo" dissolveu-se. a polícia o proibiu. Chega Eneida com o último boato: não haverá Congresso. Mas o macarrão preparado por Selma é bom. Nosso grupo sigiloso parece que não vai lá das pernas. mostra-se disposto a furar sua própria chapa. Astrojildo Pereira propõe que cada sócio indique 10 nomes. ouvinte paciente de todos que têm uma idéia ou pensam que a têm. Sabe-se que Rebelo organiza uma chapa sob critério muito pessoal. a maioria concorda em que se encaminhe a sugestão aos companheiros paulistas. As preferências pessoais de Rebelo não foram atendidas. 30. Seu espírito lúdico . e tudo acaba um pouco no ar. Depois do jantar. os alunos de literatura. Defendo a prerrogativa de voto para os escritores estrangeiros convidados a participar. Martins de Almeida suscita dúvidas sobre o regimento do Congresso. inclusive de políticos de tendência liberal. dão idéia da situação. ele conseguiu alguns votos para antigos integralistas. em torno de objetivos comuns.

.achou na eleição um meio de expandir-se.

cívico e resoluto. que preside a abertura do Congresso em São Paulo: "Não poderei estar presente ao Congresso. cede com o hábito de contemplar o seu objeto. como verifiquei. aguarda-se a lei eleitoral. 15 — Casa de Aníbal. Fala-se na pressão dos elementos ditos liberais para adiamento do Congresso. Falei com o único escritor brasileiro bastante honesto para confessar que não lê francês. Janeiro. 13 — Estabelecida nos jornais a censura prévia para o noticiário do Congresso. A diretoria da ABDE telegrafa ao Presidente da República pedindo suspensão da censura prévia. responde que "isto é provocação". Aníbal. Ameaçam não comparecer. tosquiado no último dia do ano. Aníbal perde um momento a calma.1945 Janeiro. mas. e que amassa com o garfo para ele. Janeiro. Seguirá amanhã à noite para São Paulo e de lá nos porá ao corrente do que se passa. novas liberdades. Senti remorso. Enquanto isto. envio minha fraterna solidariedade aos esforços e iniciativas dos escritores ora reunidos para exame dos problemas profissionais e afirmação da consciência literária na luta mundial pela reconquista dos direitos perdidos e pelo acesso a. Nem pode tocar na sobremesa de banana. prepara o discurso de instalação. ficou horrendo com a perda de seus longos complementos sedosos. Mas o remorso. Telefonam de São Paulo. que Maria Clara vem trazer-lhe na salinha de entrada. 7— Puck. que eles consideram inoportuno em face da situação geral. Janeiro. interrompido a cada momento por telefonemas. 21 — Telegrama para Aníbal. como delegado da ABDE do Rio e trabalhador intelectual." * .

— Mas Einstein assina qualquer papel que lhe puserem nas mãos — observa Carpeaux. qualquer concessão o infama. Janeiro. como eu. o artista.. E acrescenta: — Lá na Paraíba ninguém pensa em eleições nem se preocupa com isso. 24 — O Interventor na Paraíba. recém-chegada de Nova York. incendiando . infeliz com o que viu e ouviu no Congresso de Escritores em São Paulo. se duplicando na profissão de político. É da sua torre de marfim que ele deve combater. o desmoraliza. e nós podemos tudo. 16 — "Parece que ser mulher só é uma grande profissão em nossa terra" — observa Teresa. Guardar e meditar suas palavras: "O intelectual... Ele pensa. não se constroem mais escolas. pela sua natureza. Concluiu que o destino do escritor há de ser a torre de marfim dentro da qual trabalhe — o que não quer dizer não-me-importismo nem artepurismo. Ruy Carneiro. jogar desde o cuspe até o raio de Júpiter.. não pode perder a sua profissão. foi. abre-se comigo: — Já falei ao Getúlio: havendo eleições. Qualquer concessão interessada pra ele. Pois se agora. é irrecusável pra ele. pela sua definição mesma de não conformista. e qualquer combinação. é tão difícil fazer as coisas. Fevereiro. fizemos boas relações. hospitais e maternidades. não garanto que o Governo saia vencedor. quando não há Câmara de Deputados. * Carta de Mário de Andrade. Mas se forem realizadas. Chegando de João Pessoa. meu Deus! e a sua verdade .— A repercussão do telegrama de Einstein sobre o Congresso. chefe de gabinete de Ministro. pra sua posição política.

." No meio de tantas paixões fáceis e de tanta intelectualidade abdicante. no Catete. em Meca. não para escrevê-lo. Mas acha que do meio para o fim desandei a escrever em demasiada velocidade. um lento. e por isto acelerei e mutilei a ação. 21 novelinha (ou conto espichado?) O Gerente. E o espetáculo das lutas sociais na Europa não é de molde a incentivar que a luta se trave.. resumindo-a. até obter todo o resultado possível. mas para ter a tentação disso. com impacto sobre o Governo. que lhe dá mais força para exercer uma ação social que os intelectuais-políticos praticam de mau jeito e sem resultado. concebido para a situação inédita. Reunião do Ministério em Petrópolis. os ministros submetem a Getúlio um projeto de exposição de motivos em que se recomenda a reforma da Constituição fascista de 1937. Mário preserva o seu individualismo consciente. Opinião de Marques Rebelo: gostou. Já lhe acontecera a mesma coisa — acrescenta — porém. iniciando a campanha eleitoral (ou precipitando-a). os ministros assinam o papel e entregam-no." Sem dúvida. de Andrade. voltou para casa e trabalhou o texto com aplicação. aqui. virá a lei eleitoral. na Casa Branca. rápido. Rebelo insiste: acha que no fundo eu não gosto de escrever. de ação. em torno de meras figuras de chefes e visando objetivos estritos de . despertando da letargia de quase oito anos. Explico-lhe que procurei realmente escrever a história em dois tempos. Mas da sua torre. Gerou-se o Ato Adicional. esperarei a vida inteira. levando em conta uma observação de Rodrigo M. Mas sua torre não poderá ter nunca pontes nem subterrâneos. outro. o de apresentação do personagem e colocação dos elementos da história. Mas já começa a ferver o ambiente político. "Para o romance" — conclui — "você ainda tem de esperar um pouco. Dentro de 90 dias. Ele ouve a leitura e concorda. Ele pode sair da torre e ir botar uma bomba no Vaticano. — Distribuo os primeiros exemplares da Fevereiro.cidades. 23 — Entrevista-bomba de José Américo de Almeida. F. Fevereiro. Observando protocolo rigoroso.

brigados entre si mas fiéis à mesma ideologia conservadora. estava cheia de projetos de livros. pois só às 16 horas. espectador que sou e sempre fui de um espetáculo em que a ação verdadeira nunca é a apresentada no palco. hostil a todo progresso social. Bruno Giorgi e o próprio Murilo pudessem chegar a São Paulo a tempo de comparecer ao enterro. e depois de . Afinal. que não veio ou veio tarde. Bélgica. sinusite. Moacir Werneck de Castro. Guilherme Figueiredo. estou vagando e divagando em terreno que me é totalmente desconhecido.grupos. e durante o Congresso de Escritores era visto com amigos. O dia todo passado em telefonemas para Queirós Lima (oficial de gabinete da Presidência da República). mais do que qualquer outra. Que peut un homme? Morte de Mário de Andrade Fevereiro. Mário emergia de longa doença ou de um rosário de doenças: o obscuro câncer nunca operado (segundo diagnóstico sem confirmação). França há de chegar até nós e perturbar a luta elementar entre os velhos caciques brasileiros. Acabou-se. Iugoslávia. a pedido de Murilo Miranda. Um pouco desse ar de renovação que percorre Grécia. por maior que seja minha boa vontade em assumir um comportamento político. F. pelo telefone. 26 — Às 7:15 da manhã. além do projeto fundamental de viver o ano de 1945. Parecia mais forte. datada de 11 deste mês. e era necessária a sua autorização. de Andrade) dá-me a notícia: Mário de Andrade morreu ontem à noite em São Paulo. O enterro será hoje às 17 horas. mas este estava em Petrópolis. e implacável diante das reivindicações dos proletários e da classe média. pois se desenrola nos bastidores e com pouca luz. O Ministério da Aeronáutica teria prometido o avião do Ministro. amidalite. não-sei-oque no pé. Sua última carta para mim. bebendo sem restrições nos bares. de anginapectoris. para ver se ele conseguia um avião da FAB em que Aníbal Machado. Esta morte é estúpida. Rodrigo (M.

Marques Rebelo. o maestro Mignone. em face do presságio. havia embarcado. da noite de ontem para hoje. para o enterro. Todos mostram-se comovidos: Augusto Meyer. e deixando de lado o fato em si. Fevereiro. Um grupo de amigos seus. Rodrigo. Murilo Miranda. Obrigando Mário a extrair os dentes e a operar-se de amidalite. sentiremos remorso por não ter contado. 28 — Rodrigo acha que os médicos paulistas não chegaram a acertar com a verdadeira doença de Mário. Vinícius sente-se aliviado. Queirós ofereceu o avião. atribuídas a uma úlcera. está disposto a seguir de qualquer jeito. Como não há mais tempo. Ele foi então à casa de Aníbal. Luís Camilo me surpreende um pouco ao dizer: "Morreu na véspera da libertação". As dores que ele sentia. Está sentido porque não recebeu nenhum aviso mais cedo. que ia viajar de avião para São Paulo. . É quando Tati. o acorda. seriam antes de doença do coração. porém. Sonhara. Se acontecer alguma coisa com o avião. que o informa do projeto da ida de um grupo de amigos a São Paulo. entretanto. agravaram-lhe o estado de saúde. referindo-se ao desfecho político que se espera no país. já sem tempo de fazer a viagem e chegarem os amigos à casa da Rua Lopes Chaves. Vinícius de Morais trouxe ao dia uma nota estranha. e ele recebe a notícia: o avião caíra. contando-lhe a morte de Mário.é bom avisar aos pretendentes à viagem. Osvaldo Alves. todos mortos. Ninguém viaja. pelo sim pelo não . mas que por um motivo qualquer não pôde seguir. A autorização teria sido dada às 13:30.mandar dizer que não arranjara nada. de perdermos alguém que representa alguma coisa além das circunstâncias. Este aperta-me ao peito. Paulo Armando. acha que. mas só mais tarde chegara ao conhecimento de Queirós. Abgar Renault. O poeta quer dissuadi-los da viagem. O diagnóstico firmado em radiografia pode ser falho. sua mulher. olha para a foto de Mário num vespertino e mostra-se ao mesmo tempo incrédulo e inconformado. Mário poderia mesmo ter morrido no instante em que se submeteu a essas prescrições violentas. a quem ele fala neste sentido.

Março, 1 — Um rapaz recém-saído da Faculdade de Direito veio ao Ministério registrar o diploma e entrega-me uma carta de apresentação escrita por Mário, quatro dias antes de morrer. Está manchada, porque o moço, logo que a recebeu, não esperou que a tinta secasse e dobrou o papel. E me pede: "Eu desejaria conservar esta carta... Meu pai foi amigo dele desde a mocidade, quando Mário freqüentava a Congregação Mariana." Atendi. Curt Lange: "Três dias antes de Mário morrer, sonhei que isto havia acontecido."

*

Política. Um grupo de esquerdistas procura Virgílio de Melo Franco, signatário do Manifesto dos Mineiros e líder antigetulista, que lhes responde: "Não posso receber a colaboração dos senhores. Estou informado de que o Governo vai conceder anistia e soltar Prestes em troca do apoio dos comunistas. Os senhores seguirão Prestes e ficarão com o Dr. Getúlio." Maurício Brant retruca: "Vejo que viemos aqui enganados. Pensávamos que o senhor soubesse que o Dr. Getúlio é fascista e que, sendo assim, nem Prestes nem nós o apoiaríamos." O que se verá no futuro. Sente-se a dificuldade de articular a esquerda com o movimento antigetulista dos políticos liberais e descontentes. Da parte de esquerdistas não fanáticos, dizem ser impossível qualquer compromisso com Vargas, pois ele faltaria a todos que assumisse. Esta é a posição de Astrojildo Pereira: "A luta é entre o fascismo, representado por Getúlio, e a democracia, representada por Eduardo Gomes. Estou com a democracia." Visita de uma escritora mexicana a Luís Carlos Prestes, no presídio da Rua Frei Caneca. Especialista em assuntos penitenciários, ela obteve autorização para vê-lo, e foi acompanhada pelo Tenente

Canepa. Não contém a exclamação: "Mas como está acabado!" Prestes, vendo-a em companhia de Canepa, irrita-se: "Se você é minha amiga e veio me visitar, nãô toque sequer na mão desse carrasco! Isto é um bandido! Só não me mataram porque não puderam!" Ela avança e procura acalmá-lo: "Luís Carlos, tenha paciência..." (Foi o que me contaram.) Março, 2 — Carta de Luís Saia a Rodrigo (M. F. de Andrade), que o destinatário me dá a ler. Altera a versão da morte de Mário de Andrade, divulgada inicialmente. Ele sentia-se bem nos últimos dias, tanto que combinara com Saia ir no dia seguinte, às 14 horas, à sede do PHAN de São Paulo. E dois dias depois iriam ao sítio Santo Antônio, que ele comprara havia pouco, e que, pelo seu valor artístico e histórico, pensava em legar ao PHAN para depois de sua morte. Na conversa, o amigo referia-se aos artigos sobre traduções, que Mário vinha publicando no suplemento literário do Diário de Notícias. De repente, sentiu que falava perante uma pessoa imóvel, que não o escutava. Tomou-lhe o pulso, que não reagiu. Ficou de tal maneira perturbado, que, apesar da evidência da morte, tratou de chamar um médico, não para atestar o óbito, mas para receitar qualquer coisa.

*

Entrevista coletiva de Getúlio à imprensa. Finda a parte preparada, a parte de improviso consiste num jogo de deslizamento diante de perguntas bobas ou embaraçosas. À indagação: "O senhor é candidato?", responde que o Governo não tem candidatos, pois estes devem ser indicados pelos partidos políticos que se organizarem, e talvez saia daí um grande nome nacional, amortecedor de paixões... Impressão deste leitor de jornais: Ele é candidato à sucessão de si mesmo, no futuro período constitucional, depois de 14 anos e pouco de Governo, e conta com a indicação de seu nome pelo partido governista a

ser fabricado. Março, 12 — A agitação ficou sendo maneira normal de viver. Começa na Rua Araújo Porto Alegre, entre o Café Vermelhinho e a ABI, espaço estratégico onde se reúnem e se desfazem a todo momento grupos de jornalistas, escritores, artistas e vagos aspirantes a alguma dessas categorias. Fala-se e respira-se política. Hoje, sem que eu esperasse, tomou corpo minha idéia, esboçada junto a dois ou três amigos, da criação de uma entidade de escritores, de caráter político, para aliviar a ABDE da carga ativista que ameaça esmagá-la desviandoa de seus fins específicos. A idéia foi aceita e ampliada: em vez de simples sociedade de escritores, algo que reúna também artistas, cientistas, trabalhadores intelectuais em geral. Nome proposto: União dos Trabalhadores Intelectuais Livres (ÚTIL). Um projeto de programa foi elaborado para ser discutido amanhã à tarde na ABI, depois de algumas correções do texto, de que fui incumbido. Março, 14 — Deixei ontem meu posto no gabinete de Capanema. Desfecho natural da situação criada pela volta das atividades políticas no país. Meu chefe e amigo, cheio de compreensão e afeto, despede-se de mim oferecendo-me uma preciosidade bibliográfica: a edição das Memórias Póstumas de Brás Cubas, com sete águas-fortes originais de Portinari, feita para os Cem Bibliófilos-do Brasil. E quer que eu preste serviços ao PHAN, sob a direção do nosso Rodrigo. Também Augusto Meyer me oferece trabalho no Instituto Nacional do Livro. Saio do gabinete para comparecer à reunião inicial da UTI (desapareceu o L da sigla, demasiado enfático). Procuram aproximar-me do grupo político liderado pelo antigo Tenente Cascardo, mas sinto aversão

temperamental pelo que, nas esquerdas, é desorganização, agitação e ausência de certas delicadezas e sentimentos. È me vejo perplexo no entre-choque de tendências e grupos, todos querendo salvar o Brasil e não sabendo como, ou sabendo demais.

Março, 17— Anteontem, à noite, inútil reunião na UTI. Compareceram escritores, médicos, arquitetos, artistas de rádio. Estéril discussão sobre a maneira de se organizar a associação. Discorrem o Barão de Itararé, Dionélio Machado (este com ar de mestre) e outros, Deus sabe por que, sobre a natureza e a importância da pesquisa científica em geral. Dava impressão de que estávamos fundando, não uma entidade política de caráter militante, com objetivos de preparação eleitoral, e sim uma academia de altos estudos. Saio antes do fim, desanimado.

A Família Portinari
Jantar em casa de Portinari, no Cosme Velho. Depois da mesa, apresentação de seus últimos quadros. Uma enorme Água, com formas verdes, roxas em claro-escuro e vermelhas, indicando um rumo novo do artista. Interessam-me particularmente a tela das Lavadeiras e outra em que surgem um morto e um cachorro, entre figuras desoladas, de uma beleza trágica. Chegam os pintores Djanira e Milton Da-Costa e um funcionário falante do Banco do Brasil, vindo dos Estados Unidos. Depois, aparecem Marques Rebelo e Elza e o escritor espanhol Francisco Ayala. Portinari é um centro de atração e fascínio. Ele conta com graça os excessos de sua família em Brodósqui, no tocante a dinheiro. Compram tudo, e mais caro que os outros. A mesada que ele manda nunca chega para as despesas. Fim de mês, alguém da família faz as contas, enquanto a mãe, a um lado, faz tricô. Verifica-se que o dinheiro não deu. "Bota mais duas carroças de estéreo", diz a mãe, sem interromper o trabalho. Fazem-se novamente os cálculos, e ainda não dá. "Então põe mais cinco carroças de estéreo", a mãe recomenda. É preciso pôr tantas carroças de estéreo no rol de despesas que Portinari pagará, quantas forem necessárias para cobrir o déficit mensal, que ninguém sabe como subiu tanto. O pai pede a um trabalhador a conta do seu serviço: 150 mil-réis, diz ele. Seu Batista corrige: "Pede mais.

Meu filho é muito rico. Só com uma pincelada ele ganha um monte de dinheiro..." Rebelo lembra o irmão de Portinari, que, vindo ao Rio, comeu de uma só vez 18 maçãs. "Ele pensa que é feijão", diz o pintor. Março, 20 — Com Oswaldo Alves no Café Irapuru. Lá está Manuel Bandeira, que me diz: "A propósito do seu poema sobre o Mário (de Andrade)... A barba do cadáver cresce". Foi o seu único comentário aos meus versos. Pergunta se volto para Minas, por haver deixado o emprego no Ministério da Educação, e se oferece para me arranjar traduções do francês na Editora Civilização Brasileira. Março, 23 — Debulho a correspondência de Mário de Andrade com Rodrigo (M. F. de Andrade) para resumir tudo que se refere à elaboração da monografia sobre Frei Jesuíno do Monte Carmelo, Admiro mais uma vez a aguda consciência intelectual de Mário. Levou quatro anos para escrever este trabalho sobre um pintor religioso do século XVIII em São Paulo, de reduzida importância na história geral da pintura brasileira. Fez pesquisas que um Rafael mereceria, gastou dias e dias no confronto de fotos, desesperou muitas vezes e, ao morrer, ainda não estava satisfeito com o livro encomendado pelo PHAN.

*
À noite, visita à casa de X., que me mostra, descreve e avalia cada móvel, objeto, disco e ficha. Tudo custou a metade ou a terça parte do valor real; de uma velha porta fez-se armário; da cristaleira, discoteca; da varanda, escritório. As fechaduras do guarda-casaca são alemãs e valem uma fortuna; o colchão... Com pouco dinheiro e muita criatividade, a casa é um brinco, mas eu não ligo para essas coisas, que dão intenso prazer ao dono. Março, 26 — Com a supressão da censura e permissão de

visitas aos presos políticos, a figura de Luís Carlos Prestes desperta enorme interesse neste momento de procura de rumos democráticos. Como se pronunciará ele, depois de anos de silêncio forçado e de sofrimentos atrozes? Vou à Chefia de Polícia, lugar que sempre me desperta algo de estranho (aquele é um ponto especial da cidade, em que se esfuma a noção de que quem não deve não teme; todos temem). Inscrevo-me como candidato a visitá-lo. Um funcionário, anel vermelho no dedo, manda tirar-me da multidão para me apresentar ao chefe de gabinete. Distinção constrangedora, fico meio sem jeito (aliás, já estava). Dizem-me que preciso aguardar em casa o aviso marcando a data do encontro. Há fila e controle de fila.

Poema da Anistia
Agora à noite, escrevo a galope o Poema de Março de 45:

Mal foi amanhecendo no subúrbio as paredes gritaram: anistia. Rápidos trens chamando os operários em suas portas cruéis também gritavam: anistia, anistia.

Os bondes vinham cheios. Tabuletas já não diziam Muda, Méier, Barcas. Uma palavra só, neles gravada: anistia.

Os jornaleiros brandem um papel de dez metros de alto por cinqüenta. Nesse cartaz imenso, em tinta rubra: anistia.

As lojas já pararam de vender. Os vidros, os balcões, se rebelando, beijam teu nome, roçam tua imagem, anistia.

Se olho para as rosas: anistia. Para os bueiros da City, para os céus, para os montes em pé nas altas nuvens: anistia.

Anistia nos becos, nos quartéis, nas mesas burocráticas, nos fornos, na luz, na solidão: só anistia.

E bate um sino.

ouço os andaimes. Esta é a voz dos mortos sob o mármore. A viso-me: anistia. Março. sobre todas as coisas: anistia. último número. tua rosa rebelde nos cabelos. Astrojildo Pereira. é a voz dos vivos no batente. ouço tudo rangendo. vem trazer os irmãos para o sol puro e incendiar de amor os brasileiros. para se condensar. ó liberdade. sopro terníssimo. sem disfarce: anistia. Compro o bilhete. Otávio Tarquínio (de Sousa) e eu para cuidar da organização do setor de escritores da . Anistia: teu nome se dispersa no vento de Ipanema e do Leblon. Estes sinais querem dizer apenas. Vem pois. 28 — Reunimo-nos. reclamando: anistia. Alguém corre na praia. ouço os guarda-chuvas.Um remo corta a onda. ouço os insetos. E ouço as pedras na rua. Para decifrá-lo não preciso de códigos. A sorte corre hoje. Ouço mil bocas em silêncio murmurando: anistia. com teu fogo.

Samuel Wainer e Bíuma. Por proposta de Tarquínio e com o meu voto. Às 11:30. por encomenda de Álvaro Lins. portador de convite do diretor do Correio da Manhã. Pela manhã. redatorchefe tradicional. * Sexta-feira no apartamento de Paulo Bittencourt. o crítico Mário Pedrosa. onde minha filha a copiava. Acha que o jornal está politicamente fraco e deseja dar-lhe flama contratando Carlos Lacerda e Pedrosa. e em O Jornal (iniciativa da campanha pela decretação da medida). Resolvo fazer um conto com a narrativa de José Drummond e Fábio Andrada sobre a morte da avó deste. mas a idéia não se consumou. no Diário Carioca. pró-anistia. Abril. Antônio Rangel Bandeira para a mesma função junto aos jornalistas.UTI. A redação da mensagem aos escritores do país. João Cabral comenta que onde está "anistia" ficaria bem "melhorai" ou "aspirina". cogitara de licenciar Costa Rego. o mensageiro do jornal veio buscar a matéria. será redigida por Tarquínio. e prazo marcado até 12:30. para divulgação do noticiário. E assim se improvisa um contista. mas falta alguma coisa na . pretende fazer de mim jornalista político: editorial e tópicos. Paulo levame para a varanda. No salão. Paulo. sob a pressão do jornal — e da escassez de moeda no bolso. encontro Edmundo Muniz. Junto à colaboração literária. (Contou-me Samuel Wainer que ele. ainda na máquina. procuro sentir-me na pele de editorialista.) Meio atordoado. em algumas horas. levado por Augusto Frederico Schmidt. 1 — O poema da anistia apareceu simultaneamente no Correio da Manhã. recém-chegado dos Estados Unidos. Escolhemos Dalcídio Jurandir para elemento de ligação com os artistas plásticos. escolhido Astrojildo Pereira para presidente provisório. Otávio Dias Leite. a fim de conversar sobre o meu trabalho no Correio. nervosa elaboração de qualquer coisa para o suplemento literário do Correio da Manhã de domingo que vem.

já existente. é aceita com interesse. sua mulher. a paixão. Faremos assembléia-geral para homologação e escolha de nossos representantes junto ao Comitê. duas orientações distintas: o Correio entre conservador e liberal. que não pôde comparecer. no Lido. com vocação para a esquerda. e me quer para redator. à procura de nada. Estão também Lúcia. * Sábado à tarde. Impressão de que Prestes está . contra a minha natureza. para a arregimentação em torno da campanha de democratização. Samuel vai lançar Diretrizes como jornal. mantendo-me igual a mim mesmo? Começo a avaliar as dificuldades do jornalismo de opinião subordinado a orientações alheias. Veremos. Luís Werneck de Castro propõe declaração contra o "governo de coalizão". que deveria comunicar-me a data para a visita a Prestes na. Abril. Saio com o casal Wainer para um chope no bar do Luxor Hotel. Volto a pé para casa. Diretrizes. * Nenhum chamado de Trifino Correia. contra Getúlio. cadeia. é uma atitude intelectual. Como irei me equilibrar entre duas posições. idéia que circula por aí. fazendo entrevistas.minha vontade de atuar politicamente: falta precisamente a vontade. em nome da UTI. Dois jornais. com o slogan "Um jornal que diz o que os outros não dizem". a garra. e o netinho de Tarquínio. A idéia de cooperação com o Comitê Democrático de Trabalhadores. encontro com Otávio Tarquínio. na qual represento Astrojildo Pereira. 10 — Reunião da comissão organizadora da UTI. com um artigo diário e. de vez em quando. que me lê o apelo aos escritores.

Há uma contradição insolúvel entre minhas idéias ou o que suponho minhas idéias. senão impiedosa. se não me convenço a mim mesmo? Se a inexorabilidade.nas mãos de um grupo de esquerdistas que procuram subtraí-lo de contatos considerados inconvenientes em face de determinada e estranha linha política. isto eu já decidi. e minha inaptidão para o sacrifício do ser particular. como pretende a minha natureza. Célia Neves e Oswaldo Alves. Fala de Luís Carlos Prestes Abril. a malícia. três intelectuais sem militância política. O telegrama de Prestes sobre o reconhecimento da URSS pelo Governo brasileiro já seria resultado desses entendimentos sigilosos. no presídio. Estou preparado? Posso entrar na militância sem me engajar num partido? Minha suspeita é que o partido. conduzido por palavras de ordem. e talvez sejam apenas utopias consoladoras. um sectário. eu. João Alberto. quero ser um intelectual político sem experimentar as impurezas da ação política? Chega. vou dormir. como forma obrigatória de engajamento. Resta o problema da ação política em bases individualistas. Nunca pertencerei a um partido. crítico e sensível. Como posso convencer a outros. entrevista com Luís Carlos Prestes. o oportunismo da ação política me desagradam. mas desejosos de viver . chefe de polícia. 16 — Ontem. um passional ou um frio domesticado. teria procurado convencê-lo das possibilidades de sua colaboração política com Getúlio. e eu. a faculdade que tem o espírito de guiar-se por si mesmo e estabelecer ressalvas à orientação partidária. em proveito de uma verdade geral. 12 — Meditação entre quatro paredes: Sou um animal político ou apenas gostaria de ser? Esses anos todos alimentando o que julgava idéias políticas socialistas e eis que se abre o ensejo para defendê-las. anula a liberdade de movimentos. no fundo. Tomamos um táxi. a crueza. às vezes dura. Não quero ser um energúmeno. impessoal. Abril.

Um homenzinho baixo e sorridente. roupa de brim claro. como intelectuais." Mas só seremos atendidos depois. muito moço e com ar inofensivo. essa história de coalizão parece já estar afastada. com piso de ladrilho e dois grandes bancos pretos no centro. vem ao meu encontro. Digo-lhe que somos pessoas sem compromissos. a confusão é tanta. sapatos pretos reluzentes. Passamos ao parlatório. e que na véspera fora votado um pronunciamento contra o Governo de coalizão. aos quais eu não ataco. Prestes observa: — Verificaram Bem. Atravessamos duas salas.. sem pose de revolucionário." Mostra grande simplicidade. cita o Correio da Manhã. não o surpreendeu. O guarda que vigia a sala. Na terceira. desejamos colaborar na democratização do país e queremos orientar-nos. Os jornais são escritos por pobres sujeitos. sem romantismo. e morreriam de fome sé não fosse o salário mínimo que lhes deu o Sr. Entre os jornais que o atacam. Que nos dirá o velho guerreiro? Cá fora. que autorizou a entrevista: "Fomos atendidos. nas costas do cartão da Polícia Central. sobretudo. Getúlio Vargas. espécie de barracão comprido. que não dava certo. esse . Vamos. A reação despertada na grande imprensa pelo seu telegrama a Getúlio.politicamente os novos tempos que se anunciam. esperamos sentados. e vivê-los com seriedade. surgido das ruínas de velhas casas. sempre antecedidos pelo aviso de um guarda. aplaudindo o reconhecimento diplomático da União Soviética pelo Brasil.. empunhando o cartão e me diz: "Conheço de fotografia. A conversa orienta-se para a avaliação geral do panorama político. Eles precisam viver. Com displicência. em busca de informação. A prisão é um edifício novo. Vocês da UTI têm grande responsabilidade perante o povo. Acrescento que pertencemos à UTI. convida-nos a assinar. As grades são dissimuladas por ornamentos de aço e vidro. — A imprensa brasileira é simplesmente vergonhosa. junto de dois rapazes que iam visitar Agudo Barata. Diz que o nível do nosso jornalismo é baixíssimo.

era caso a ser resolvido pela própria Alemanha. eu e meus colegas. esta sim. tendo no ventre um filho que também não era brasileiro. Continua o prisioneiro: — Em 1922 e 1924. Aliás. porque foi capitulacionista mesmo). me convenceu de que nenhum deles tinha realmente preocupações patrióticas. conservam a mesma mentalidade. sem uso há tantos anos. Prestes. à sua própria proteção. todas as leis de segurança e opressão solicitadas por ele. tomamos atitude política apenas por sentimento de coleguismo e brio militar. Eles não evoluíram. em . Todos aspiravam. Meu telegrama serviu para que eles abrissem fogo. na mesma coluna editorial. antes de mais nada. no exílio em Buenos Aires. por tratar-se de uma comunista alemã. nosso entrevistado atribui sua autoria a Mário Pedrosa.mesmo Correio que em 1937. dispara incessantemente: — A Aliança Nacional Libertadora. Já o editorial de agora. Fico honrado por ser alvo desses ataques. diante da carta falsa atribuída a Artur Bernardes e fabricada por esse mesmo Correio da Manhã. Fizeram uma revolução completamente errada. e agora querem perturbar de novo a vida do país. simples cadetes da Escola Militar. através de um Congresso capitulacionista (sim. Conheci muitos daqueles no exílio. Naquela época eu não conhecia nada de política. desmascarando-se. a quem chama de "trotskista assalariado internacional". e entre eles os atuais "democratas". o contato com os nossos políticos. Segundo o jornal. sofreu o ataque desses elementos que. a de 1930. Mas em 1926 comecei a analisar melhor o movimento político. A metralhadora verbal de Prestes. Fala-se em Assis Chateaubriand. e o comentário é este: — São todos iguais. Foram esses mesmos homens que deram ao Governo. achava que Hitler não devia incomodar-nos com o caso da companheira dele. dos políticos brasileiros se pode dizer o mesmo que dos jornalistas. Finalmente. organização legitimamente democrata.

Quem prega isto está pregando o golpe. no decorrer da Segunda Guerra Mundial. à espreita de oportunidade. e não se pode exigir o seu sangue para a campanha política. ajudando a exterminá-la em 1935. Dutra seria ainda pior do que Getúlio. Não nos iludamos. se bem que sejam outras as circunstâncias. Para julgar corretamente a Aliança. é pela ordem. e depois? Nossos políticos preparam o golpe. São as circunstâncias históricas que determinam os homens. que em discursos pedem ao povo sacrifícios. o quinta-colunismo perdura. não . e a qualquer momento — quem sabe se no momento em que conversamos aqui ele esteja sendo dado? Contra ele é que precisamos nos precaver. Saiu no Diário Carioca. imitando Churchill em situação diferente da que o líder inglês enfrentou. A gente procura. Na sua opinião. A guerra não acabou. publicada por Maurício de Medeiros. suor e lágrimas. encaixar uma pergunta. explicando o movimento.face do "espantalho comunista" criado pelo Governo. estes. Prestes. Faltou a esta a força necessária para anular as manobras fascistas dos que agora. este é um apelo criminoso: o povo já sofreu demais. por si. todos falam nele. foram rotulados de quinta-colunas. Diz textualmente: — Não se iludam. conscientemente ou não. formular uma dúvida. O Sr. mas Prestes não dá tempo. O Governo sabe que ele. Acrescenta que o seu telegrama visou apenas preservar Getúlio de um possível golpe do General Dutra — outro golpista. [Nota do Visitante: Prestes não admite erro de direção propriamente dito. de vez em quando. recomendo a leitura da carta que escrevi ao Miguel Costa em 1935. Getúlio Vargas permitiu essas visitas porque conhece o meu pensamento. O malogro aliancista não resultou de erro propriamente dito da sua direção. Volta-se contra os políticos ditos liberais. e por isso abriu as portas para visitas e conversações. mas a superestimação da força não será um erro grave de direção?] Aliás. Lutar contra. fizeram causa comum com este. para a derrubada de Vargas. sangue. embora a nossa imprensa procure fazer acreditar no contrário. como Getúlio foi pior do que Bernardes.

Veio depois um período de reação. declara-se católico. avanço. Prestes ressaltara sua qualidade de comunista. subordinado por sua vez ao comandante-geral das forças brasileiras. diz que aguarda a anistia e a autorização legal para a fundação de partidos políticos. sendo que desta vez o avanço é mais acentuado. recuo. Sr. por certo. a substituição do chefe de polícia. . e resolveu mudá-la. Prova disto é. Prossegue: — O Sr. que marca os fatos políticos e a vida social. um como comunista. como era preciso que se soubesse. finalmente. para que ele respondesse também de público e assim todos soubessem que estavam em campos opostos. outro como elemento da situação dominante. no começo da conversa. pela consciência democrática popular. Getúlio Vargas compreendeu a impossibilidade de atravessar estes tempos com a.têm qualquer significação. Foi considerando esse caráter de comandante-geral e de chefe do Governo que Prestes lhe telegrafou a propósito do reconhecimento da URSS. como tal. volta o período de confiança. o que dificultará o recuo que alguns desejam. aliás de acordo com o movimento alternado de avanço. Dialeticamente. Quando vier esta última. Getúlio Vargas. Os dois estavam divididos em 1930. Como patriota. Agora pode estender-lhe a mão. e é preciso considerá-lo em toda a sua importância política. com Coriolano de Góis. atual chefe de polícia. e sim "na situação em que me encontro") seu lugar seria na Itália. Voltando a lembrar esta condição. Pouco importa que tenha sido reclamado pelo povo. sob o comando do General Mascarenhas de Morais. Já antes. por exemplo. e sua linha. será reorganizado o Partido Comunista. desta vez mais consolidado. Atacou-o publicamente. com a FEB. se estivesse em outra situação (não diz nunca "enquanto estou preso". Este reconhecimento tem enorme significação. não podia manifestar-se individualmente. Prestes refere-se nominalmente a João Alberto. é a que deverá ser seguida. Além de patriota.política que vinha fazendo. Tivemos um período de relativa tranqüilidade com Etchegoyen e Nelson de Mello na polícia.

sem cansaço. Faço política com as minhas idéias e com a realidade. Assim. tirando Getúlio pela violência. Vargas. sem pausa. Se o povo tivesse força. Agamenon Magalhães Ministro da Justiça. Só agora Agildo Barata veio da Ilha Grande. Marcondes Filho Ministro do Trabalho. agravao. ela não fez pressão para que o Brasil a reconhecesse. É forçoso reconhecer que o povo. o Sr. que impedido de ser votado para presidente conservou entretanto a sua tranqüilidade) nada sofreram na carne. José Américo. Insiste em que não quer pronunciar-se individualmente. o Sr. Ainda não teve contato com companheiros que ele mais preza. e o Sr. O reconhecimento é fruto da marcha . porém. Com a crescente pressão democrática. etc. Prestes fala sempre. quem assinou o ato. ouvimos. até chegar ao próprio Getúlio. Mas precipitar o processo. Assegura a seus três visitantes que a União Soviética não interfere na vida política de qualquer país. Outros continuam lá. não resolve o problema.quem o fez. e não outro. Acha possível que desse entendimento suas análises sejam alteradas. Não é possível exigir mais sofrimento do povo. pois o Governo os mantém separados e incomunicáveis há nove anos. O povo também reclama anistia. discutir. quem podia fazê-lo foi o Sr. Só os que não sofreram poderão exigir tal coisa. ou então que os outros cedam diante de seus argumentos. A fórmula disto? Será a saída gradual dos elementos antidemocráticos. suas correntes democráticas não têm ainda força suficiente para dar ao Brasil um Governo progressista. Vargas. Prestes quer conversar com eles. ou antes.. Etelvino Lins não seria mais Interventor Federal em Pernambuco nem o Sr.. Com realismo. porém ainda não a temos porque ele ainda não a decretou. se com eles não concordavam anteriormente. por exemplo. Ouvimos. Os políticos (como. e assim não têm experiência conseqüente: — Se existe alguém no Brasil que tem motivos para ficar pessoalmente contra o Sr. o Governo irá se transformando e se democratizando. sou eu. Mas não faço política com as minhas paixões. pois tal interferência daria margem a desentendimentos e explorações.

) Continua o expositor: — Estamos em fase preparatória do processo político. E mesmo se eles . condenado a ficar menos de 24 horas no Poder. Dentro das forças que apóiam sua candidatura há elementos que procuram sabotála. Se o golpe vier e conduzir o Brigadeiro Eduardo Gomes ao Poder. quando for definida a linha partidária. e se a situação não se modificar. (Não entendo bem como o PC apoiaria um Presidente eleito. com os quais não aprendeu a lidar. Mas essas coisas vêm e voam ao capricho da conversa. a mais democrática é evidentemente a deste último. e não há meio de esclarecê-las. a de Carlos Lacerda. E andam à cata desse pretexto. Em todo caso. em artigos de jornal e num comício do Catumbi.inevitável do mundo para a democracia. é uma candidatura que corre o risco de cair no ridículo — e isto seria o pretexto para a deserção. É possível que alguns elementos se afastem. a seu ver. e não tem razão de ser o pronunciamento em torno de candidatos antes de alcançarmos os objetivos imediatos da democratização. Foi bulir no nome do Brigadeiro. como o Sr. Vargas. mas hão de voltar ao verificarem que ela estava certa — diz Prestes. mas ingênuo. e perguntamos o que pensa dele. Alguns adeptos querem mesmo passar para o outro lado. mas se envergonhariam de fazê-lo sem qualquer pretexto. Nesta hipótese. Enfim. pois fez carreira puramente profissional. Está seguro de que as esquerdas se unificarão ao ser reorganizado o PC. em sua especialidade. Assis Chateaubriand. onde o General Ráwson não conseguiu ficar no Governo nem 24 horas. Limita-se a verberar atitudes pessoais golpistas. sendo logo substituído por Perón. perdurando as duas candidaturas já lançadas (Dutra e Eduardo). hoje tão falado. poderá repetir-se o que aconteceu na Argentina. e da pressão popular interna em nosso país. Ele confia na união das esquerdas e não faz críticas a qualquer corrente. como. Resposta: — É homem honesto. sorrindo. Quanto à oposição ao Sr. toda ela é golpista. de boas intenções. o futuro Partido Comunista poderia vir a apoiá-la. Está cercado de políticos.

não como arma para desmoralização do Governo — acentua ele. e só de longe em longe esboçamos uma objeção ou pedimos um esclarecimento. Quem nos vem dando e poderá dar outros atos positivos desta natureza não é a opinião liberal.forem alcançados em bases erradas. que ainda não foi bastante louvado entre nós. não interrompe o fio da exposição. Fico imaginando a dificuldade de uma atitude política de apoio a um Governo assim contraditório. o reconhecimento da URSS. Mas não formulo a dúvida. a declaração de guerra à Alemanha e à Itália. Tem muitas coisas a dizer. por exemplo. que adiantariam os candidatos? Será inútil. prefere ser ouvido. nem sequer o evita. não está conosco para ouvir. — E quais são os objetivos a que o senhor se refere? — São três: Combate a todas as formas de golpismo. A conversa dura uma hora. e evita perder-se nos atalhos da discussão. Feitura de uma boa lei eleitoral. Revela convicção firme e conhecimento da situação fora do presídio: seus amigos levam-lhe documentos e informações. a remessa do Corpo Expedicionário Brasileiro aos campos de batalha italianos. Prestes não dá margem a interrupções. Não trai a mínima parcela de ressentimento pessoal. E derrubar o Governo para obter novos atos seria insensatez. De resto. e criticar os seus atos de tendência oposta. ou antes. A anistia. de tal . mas repisa umas tantas para torná-las suficientemente claras. Decretação da anistia. a abertura do problema político. em outras. Não se queixa de nada. deve ser reclamada como gesto de pacificação política e construção democrática. nada de agitação improdutiva. que garanta um pleito livre e honesto. será mesmo perigoso nos fixarmos em nomes antes da hora certa. Enquanto não se conseguem estes avanços. e ele está em dia com a leitura dos jornais. Precisamos aplaudir os atos de tendência democrática que o Governo for praticando. Por atos de tendência democrática ele entende o rompimento de relações com o Eixo Nazi-Fascista. e sim o Governo. Prestes nos atende às vezes. Limitamo-nos a ouvi-lo. Evita falar de si.

sua mulher. As referências feitas à sua família surgem acidentalmente. os olhos brilham. Devo favores a esse homem que me acostumei a admirar por sua inteligência poderosa. absorvido totalmente pela idéia política. Como recusar a tarefa? Esquivo-me delicadamente. Então ficamos sabendo que desde 1941 ele não recebe cartas de Olga Benário. Há traços de sofrimento físico na pele. Se ainda estiver lá. será intimidado?" "Também não. Uma caneta-tinteiro no bolso do paletó. fixando-se no interlocutor. Ali está o chefe legendário da Coluna. amável. quando se empenha em ilustrar seu pensamento político ou documentar fatos. recolhida a um campo de concentração na Alemanha. Campos. pelo que o Poder deve ser entregue ao Supremo Tribunal. 15 — Sábado à noite." E eu: "Sendo assim. No rosto sereno. Abril. Olho para esse homenzinho comum. está cumprindo seu dever na retaguarda. em casa de Francisco Campos. porém marcado por experiências amargas. para garantia das eleições. vejo-o simples. Acho a idéia impraticável. A boca mostra uns dentes de ouro. Não se inquieta com este silêncio. e que é tão ligado a amigos meus. Eis aí um pedido que me deixa perturbado. e pergunto-lhe: "Getúlio se deixará convencer?" Ele responde: "Não." "Neste caso. Tese: o atual Governo do país é ilegal.maneira se deixa absorver pelo exame das condições políticas atuais. gravata preta. pois o rompimento de relações do Brasil com a Alemanha tornou impraticável a correspondência: — Minha companheira é alemã e é comunista. a seu chamado. como teria perdido os naturais? Roupa modesta. a me dizer que gosta de ler determinados poemas quando se vê necessitado de apoio moral: — É bom sentir que alguém soube exprimir o que sentimos. qual o objetivo da entrevista?" Resposta de Campos: "Propaganda para . Mostra-me o rascunho de uma entrevista a ser dada pelo Brigadeiro Eduardo Gomes e redigida por ele. desligado de seu drama pessoal. Campos deseja que eu dê forma jornalística mais adequada ao texto. Isso ajuda bastante em certas horas.

uma voz o interrompe. mas sempre enfático ou catastrófico. senhores. Miguel Costa Filho propõe telegrama de congratulações a Getúlio pela 1 Prudente de Morais. é um golpe branco. sem me convencer." "Mas o senhor não acha isto um golpe?" Ele sorri: "Sim. diz que este não quer dar golpes. pede a palavra para comunicar à UTI uma síntese do documento que acabara de ler. em tom dramático: — É O GOLPE! O brado partira do grande poeta que é a discrição em pessoa. Isto acende os debates. ao ouvir que o plano da oposição a Getúlio é transferir o Governo ao Presidente do Supremo Tribunal. A notícia da entrevista de Eduardo Gomes. por certo. o menos indicado. propagando-se como um eco. parodiando a conhecida anedota do telegrama que dizia: "Mande-me dinheiro". Saímos todos excitados. tive de me conter com todo o esforço para não pedir. E de todas as filas.1 Com isto cessa a bagunça. Ao aludir à solução do problema político pela entrega do Poder ao Judiciário. seria extremamente interessante a publicação. em livro.) "E Pompeu de Sousa. que sou o menos orador dos homens. Martins de Almeida propõe que se faça um comício "pela ordem e por Eduardo Gomes". Não é O GOLPE! É o golpe. que está com a preocupação da legitimidade do Poder.. Abril. em palavras.consumo do Exército.. em todos os tons. explode como bomba no momento em que Carlos Lacerda. e exaustos. Saio depois da meia-noite. presente à reunião. apenas". neto. tais são as reservas com que os elementos preponderantes consideram a candidatura do Brigadeiro. eu também. Surpreendo-me saindo do meu silêncio natural e berrando. narrou assim o episódio. o nosso esplêndido e exuberante Pompeu. das memórias do querido escritor e jornalista. "É o golpe!" A agitação na sala é tamanha que Luís Werneck de Castro propõe o encerramento da sessão. partidário do Brigadeiro. para lançá-lo aos ares. assembléia tumultuosa na UTI.. trazida por Pompeu de Sousa. a palavra e. proferir o seguinte discurso: — Não. 21 — A UTI continua fervendo. adiando-se os debates em vista de ter surgido um fato novo — a entrevista. que só amanhã será publicada. eu." Conversamos durante cerca de três horas. no Diário Carioca. (De passagem.. . 20 — Ontem. Abril. brotam repetições daquele grito: — É O GOLPE! — É O GOLPE! — É O GOLPE! Então. sob o pseudônimo de Pedro Dantas. em 10 de março do ano seguinte.

dividem-se as opiniões. e às vezes é presa de sonolência. Já ao amanhecer. o emaranhado das linhas políticas que parecem negar-se a si mesmas e no entanto obedecem a uma lógica fria! Tudo isso é muito complicado e tira a minha naturalidade. que está vivo e combatendo os alemães na Itália. (Eu mesmo não estarei dividido. Scliar chegou a fazer um desenho para ele. exausto. o poeta conversa a noite inteira com o pintor Carlos Scliar. A UTI. Vinícius Interroga os Espíritos Abril. O primeiro retira-se logo.. tem paciência.. com João Cabral e Vinícius de Morais. a minha verdade pessoal. no fundo? Deixei meu trabalho no Gabinete de Capanema para ter o gosto de militar contra Getúlio e seu continuísmo. fluidos do artista. em Porto Alegre. A tortuosidade. pois. quarentão inexperiente de política!) A maioria esquerdista cede ante a ameaça de cisão. Entenda-se. Não saio satisfeito. Mas anda lá." Mais tarde. todas serão delicadas.concessão da anistia. a UTI será uma ilusão ridícula. Levamos uma mesinha para a varanda. e eis que sou empurrado para o lado que não quer combatê-lo. portanto. com dedicatória. O poeta interceptara. os móveis do quarto de dormir trepidam e falam.. Com o auxílio de Tati. sua mulher. para viver. Vinícius implora: "Scliarzinho.. soube-se que a mãe de Scliar morrera naquela mesma noite. vai embora. proponho a Vinícius invocarmos o espírito de Mário de Andrade. E o desenho que a mão de Vinícius fizera durante a comunicação à distância é reconhecido por amigos: traço de Scliar. que registra os fenômenos num bloco de papel. Vinícius conta-nos suas experiências mediúnicas. Diante destes e de outros fatos. falecido há dois meses. no apartamento de Fernando Sabino. 26 — Domingo à noite. apagamos as luzes deixando acesa apenas . Como antes. Em sua casa. terá de evitar todas as questões políticas delicadas. o meu compromisso comigo mesmo. a fim de colher dividendos políticos antigetulianos.

Afinal. Glorinha. Vinícius cerra os olhos. sempre de olhos fechados." Todas as respostas são escritas pela mão de Vinícius. lhe perguntou se devia tratá-la de senhora ou de você. A essa altura já não se pode distinguir o que vem do espaço e o que é .uma." Fernando sugere que deve ser algum parente. com pancadinhas no chão. Então recorremos ao banco de banheiro. Fernando introduz uma folha escrita no bloco usado por Vinícius para recolher a mensagem dós espíritos. E há um momento em que ele interrompe a comunicação para degustar uma cerveja. e obtém esta informação: "Morais. O poeta conhece uma Glorinha. várias vezes. com o pensamento em Mário." E o repete. despedimo-nos dela. cerimonioso. Também provoco seus movimentos. e o espírito responde: "Avô. que se move e range penosamente sob nossas mãos. e o que se pode fazer para socorrê-la. Fernando retira a folha. morta há dois dias em conseqüência de choque elétrico. Não se apura se há alguém morrendo de fome. quem é esta pessoa. Surge finalmente um nome. será ela? O espírito manda-nos recados: Fernando está sob influências benéficas. que não esclarece. Há um intervalo. unindo os dedos. quanto ao poeta. eu sigo no caminho do dever. e concentramo-nos. As linhas não formam palavras nem desenhos perceptíveis. e o poeta continua escrevendo em outra. que se superpõem. Traços desconexos. Afirma a existência de Deus. Colocamos nossas mãos sobre a mesinha. começa a rabiscar a lápis na folha de um bloco que tem em frente. Meio chateados. o que não impede que este conserve sua personalidade: pergunta lúcido e responde invocado. depois que Vinícius. mas não acrescenta coisa com coisa. Tentamos a comunicação através do copo. Reitera a pergunta. que fracassa. findo o qual o espírito que atende é Norma Leuzinger. precisa vencer o demônio da carne. na sala de jantar. estremece. A conversa é naturalmente confusa." É Mário? O espírito responde: "Não. Que significa? Vinícius interroga 0 espírito. Não é difícil obter essas manifestações. ele escreve canhestramente: "Direito de morrer de fome. fazendo-o levantar-se ora de um ora de outro lado.

através de burla inconsciente. em demanda de uns bifes. diz que Tati. viu que ele estava morto. 27— A cozinheira Melca vem dar-me "uma notícia triste": ao limpar e abastecer a gaiola do canário. João Cabral. um pouco de alpiste e de alface. dado por tio Elias a Maria Julieta. limpar o minúsculo excremento. exigindo novo trabalho de recuperação. Para cantar pouco e mal. de perninha quebrada. formulados como sendo de um espírito. e fere-se mais. Só nos aproximamos para levar água e comida. Mais tarde. Fomos encontrá-lo quase morto. Vez ou outra me animo a levá-lo para a varanda. Um dia. Garante que Tati. Finalmente. põe-se a bicá-la. saímos para o Alcazar. vem presenciando tudo. uma gata foi surpreendida no momento em que ia abocanhá-lo. Palavras inventadas de um lado. Contra a expectativa. admite que resultem de pensamentos obscuros dele próprio. preta velha de Minas. materialista convicta. o aconselhou a deixar de besteiras e ir dormir. Um Canário Morto Abril. Nosso poeta insiste em não achar explicação racional para os fenômenos de que vem participando. e os dois conversam como sabem . parece que esse banho de luz e vegetação o põe alegre. em meio à folhagem. porém. Minha mulher cuidou dele com carinho: voltou a cantar.elaborado na Terra. que pensei em fazê-los confraternizar) ataca-lhe a perna. Vinícius. pios do outro. vive. e mal pode o coitado saltar de um poleiro a outro. a quem conto depois os sucessos da noite. que afastamos deixando de olhar para ele. Nascera em cativeiro e cantava muito. um periquito estúpido (não tão estúpido quanto eu. Era um passarinho sem sorte. Mas só a cozinheira. A miséria e doçura desse pequenino ser cativo são motivo de muita melancolia. sabe comunicar-se com ele. diante do estado de transe do marido. Já madrugada. deitado ignominiosamente no chão da gaiola. o vento derrubou sua gaiola. Mas desta vez a perna fica aleijada. A atadura incomoda-o.

E enterrado. não oferecem vantagens práticas. no mundo. e encontramos. apesar de inocente. 28 — Ontem à noite. à espera de que Maria Julieta chegue do colégio para ser enterrado. Trazidas por Melca — "para que ele reze por mim no céu". João Cabral e Lauro Escorei. é que eles não têm alunos porque não conferem diplomas profissionais. onde o rádio assinalava delírio nas ruas. movendo-se com lentidão. com Maria Julieta. a Escola pretende desempenhar papel ativo em nossa vida cultural. parece que sugerida por Rubens Borba de Morais. Ficamos no bar. Idéia cara a Ana Amélia. A experiente Melca declara-a filhote de cobra de duas cabeças. Por que se lembraram de mim para integrar o Conselho. no qual professores notáveis falam para as moscas. Assim o Colégio de França. Sem outro capital além de um belo desejo. Do chão revolvido sai uma forma rósea e coleante. Saí para a rua. É massacrada. A pureza de um cadáver de pássaro. o rádio anunciou a rendição incondicional da Alemanha. reunião do Conselho Deliberativo da nascente Escola Livre de Estudos Superiores. Mas não havia condução para a cidade. entre . com flores de manacá sobre a covinha. Mas fui lá." Abril. chegado de Paris: "Minha experiência dos cursos livres. diante do interesse suscitado pelos "cursos de inverno" que a Casa do Estudante do Brasil tem promovido. desejosos de participar das comemorações populares. 29 — Na noite passada. que não pesa nem incomoda ninguém. o mais ilustre de todos. que àquela hora deviam estar fervendo no centro. Cavo num palmo de terra dos fundos a sua cova. Ouvimos o depoimento de Paulo Carneiro. A menina chega e encerra o corpo numa caixinha de sabonete. O canarinho continua na gaiola. à entrada do Alcazar. em casa de Marcos e Ana Amélia Carneiro de Mendonça. não faço idéia.conversar entre si os bichos e as pessoas simples. Abril.

Novo Encontro com Prestes Maio. ocupa-se de Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior. 1 — Telefonema convidando-me para um encontro com Prestes. Para dar idéia do que deve ser a crítica exercida sob critério marxista. e pedem-lhe que exponha o projeto. Pergunta se há ordem do dia para a reunião. Será dirigido por quatro profissionais competentes: Pedro Mota Lima. Como a grande notícia não era verdadeira. Entramos num quarto onde há cama. pela Bahia. Veio. Dalcídio Jurandir e Aydano do Couto Ferraz. popular. Povo. ou se será apenas conversa informal. Na manhã de hoje. o desmentido. pois o de nenhum dos órgãos de imprensa atuais coincide inteiramente com ele. Respondem que o assunto é a criação do jornal de esquerda. esquina de Dias Ferreira com Ataulfo de Paiva. vem de outras regiões e se embola no centro. e opina sobre Álvaro Lins e Tristão de Ataíde. Lembra a passagem da sua Coluna pelo Piauí. pelo Brasil . maravilhosa de azul e finura de ar. Passando a discorrer sobre a nossa sociologia. que exponha com nitidez o ponto de vista da esquerda. Prestes chega minutos depois. e do estatuto canavieiro. afinal. com pessoas desconhecidas para mim. Prestes pergunta pelos nossos críticos. a conversa gira em torno de muitas questões que o jornal deverá abordar. Prestes assinala a necessidade de um jornal democrático. pouco adiante. lê para nós a análise que fez do livro de um coronel brasileiro sobre o fenômeno militar russo.gente não emocionada. eis-me no Leblon. no Rio. Alguns foguetes que espocaram em nosso bairro pouco participante não tiveram continuação. guarda-roupa e algumas cadeiras velhas. Literatura. com os corpos expostos em praça pública. Desenvolvendo-se. quando quer se manifestar. Aydano do Couto Ferraz me conduz ao prédio de apartamentos. e a maioria até o combate. por exemplo. o que o rádio confirma é a liquidação de Mussolini e seus asseclas pelo povo. Álvaro Moreyra.

.desconhecido de nós mesmos." Aceito.." — diz Prestes. O camponês que trabalhou na lavoura de fumo ganha 5 cruzeiros por dia. Meu contentamento tem origem intelectual. Assisto a um divertido comício improvisado nas escadarias do . reduziram a capacidade de sentir. Voltando ao jornal. Os plantadores de arroz transportam sua produção rio abaixo. ato final. as rendições parciais de tropas se vinham sucedendo com tal freqüência que pouco faltava para o. E acrescenta: "Os companheiros do Conselho ficarão satisfeitos. um momento feliz para o mundo. o nome escolhido. com as piores derrotas dos Aliados até 1941. As ruas do Castelo recobertas de papéis atirados dos edifícios. De resto. afetando a alegria desta hora. numa viagem de 15 dias. Maio. deu em serviço gratuito importância superior ao preço da terra em que trabalhou e que nunca será sua. trazendo o mísero resultado do trabalho de um ano inteiro. mas parece que o povo reage mais ou menos como eu. e assim ficou de certo modo comprometido o caráter espetacular do desfecho. A capacidade de vibração está gasta. A mesma notícia já fora espalhada há oito dias e logo se desmentiu. como a da queda de Berlim. reunião com os companheiros de O Popular — este. sem explosão. além de ser obrigado a ajudá-lo a qualquer hora em que for chamado. 7 — Segunda-Feira — Cerca de 10:00. Há alegria sem entusiasmo. Dia de festa. "Se ele aceitar. Tratam-me com grande cortesia. e dá um dia de trabalho por semana ao patrão. vou à cidade. para vendê-la por 40 ou 50 cruzeiros. celebrada com uma semana de antecedência. Aydano sugere que eu faça parte do Conselho Diretor. tenho de recorrer à reflexão. Para me capacitar de que esta é uma grande data. Nos últimos dias. e voltam a pé. No fim do ano. as inquietações e abalos de quase seis anos de guerra. À tarde. Depois do almoço. o rádio começa a noticiar a capitulação total da Alemanha. em balsa improvisada. mas sinto-me lamentavelmente desprovido de idéias e palavras.

mais uma vez.Teatro Municipal. alguns inencontráveis. um homem estendido no asfalto. Maio. Junho. O velho Joaquim Maria de Macedo. entre cético e irônico. 17 — Nem só de política vive o homem. e um automóvel matou-o. lenço ensangüentado tapando o rosto. Teria passado distraído. faço verbetes para o sonhado Dicionário de Literatura Brasileira. se não tem a data de falecimento de um autor. Entre Araújo Porto Alegre e Graça Aranha. Também me agrada a proximidade quase silenciosa de Vieira da Cunha. se é preciso consultar dez ou mais volumes. No empreguinho de ocasião no Instituto Nacional do Livro. sob as vistas de Américo Facó. velhinho calvo que foi amigo de Correia Dias e fez uma das melhores caricaturas de Rui Barbosa." Como fazer um verbete honesto. escreve: "Vamos imaginar que seja no dia tal. olhando a chuva de papeizinhos. que suponho jamais sairá. etc. sua morte aconteceu em 1718. para ouvi-lo quando ele deixa a preparação do seu Dicionário de Filosofia e discorre sobre todos os assuntos do mundo. Estou perplexo diante da confusão e incerteza das fontes de nossa história literária. 6 — Assisto a uma reunião do Comitê Popular de Ipanema e Leblon e verifico. se é que ela o deixa viver. * Na redação da Tribuna Popular (título que prevaleceu sobre O . Nuno Marques Pereira ora é baiano ora é português. com risco de não se chegar a uma conclusão qualquer? Mas é doce o trabalho no porão escuro da Biblioteca Nacional.. onde sempre há folga para a conversa com Órris Soares. 1728 ou depois de 1773. ou antes. como a conversa fiada se alimenta de si mesma. aquela em que a cabeça se transforma no "maior coco da Bahia". a primeira edição do seu livro tanto foi publicada em 1728 como antes. todas as pessoas. em seu Ano Biográfico. duas velas acesas.

corrigindo erros de cópia datilográfica feita em São Paulo. Sem troca de idéias. Dia seguinte. no restaurante do Mercado: o casal Neruda. parece que somente dois o são de fato. Astrojildo Pereira. de contornos vagos e desestimulantes. que Neruda foi visitar. onde os Neruda se hospedaram. Somos ao todo sete pessoas. e conquista a simpatia do garçom. Mas pode ser coisa dos primeiros tempos. Discurso de Vinícius. almoço da Associação Brasileira de Escritores. Pelo que vejo. diz Candinho. por falta de hotel. 30 — Enorme assistência em casa de Aníbal. as poucas coisas que redijo têm destino incerto. Finalmente. café sentado. Deseja ser fotografado comigo e com Vinícius de Morais. Prova-se cachacinha em pé. e convoca-nos para o almoço. achando que até poesia cansa. eu. Dos cinco diretores ostensivos. iniciativa de Vinícius. mas não consigo estabelecer contato positivo com eles. parece mais inclinado ao descanso do que à agitação política. O poeta é simpático sem transbordamento. Meio sonolento. Esperemos. responde-lhe Neruda. encontro de . Depois. Junho. Breve incidente a propósito do cartaz de propaganda eleitoral do Partido Comunista. Difícil me acostumar a uma situação como esta. Jorge Amado. 24 — Manhã no aeroporto.Popular) não me sinto à vontade. também jornal tem fase de criança. Junho. Saímos às 16:30. Sambistas cantando no gramado do jardim. "Mas não defendas tua liberdade quando ninguém a está atacando". que a comissão de recepção não providenciou. no Recreio. em Botafogo. para receber Pablo Neruda. sábado à noite. À noite. visita do poeta a Portinari. Saímos perambulando pelas ruas internas do Mercado. O poeta enfrenta bravamente três pratos regados a vinho branco. o poeta mostra-nos versos novos. e finalmente deixamos o casal no apartamento de Roberto Sisson. pessoalmente. sem orientação. também Álvaro Moreyra não se sente entusiasmado com a qualidade do jornal. com pouca esperança. "Faço questão de minha independência". Franklin de Oliveira e eu. Vinícius.

onde o poeta assiste a uma sessão infernal de bateria. escrevendo mais um capítulo do: romance? novela? que já tem 40 páginas datilografadas. A inclusão na chapa depende do meu assentimento. o desejo é formar equipe diversificada. Acho que jamais escrevi mais de dez páginas sobre o mesmo tema.escritores e partidários no Alcazar. Ufa! Agosto. mas que não tenho a mínima vocação para parlamentar. figura na chapa Monteiro Lobato. de índole progressista. Além do mais. entrará um fazendeiro de Uberaba. Vêm à baila minhas críticas à Tribuna. Vai-se pregar a união nacional em torno de um programa mínimo de reivindicações aceitáveis por todos os que sejam patriotas e progressistas. Assim. em conversa cordial. Admitem que sejam razoáveis e acham que eu devo voltar à co-direção. e incluíram meu nome na relação. e ele não está nem é esperado. 17 — Minha filha tranca-se no quarto. Vou à Rua da Glória. Respondo que me sinto muito honrado. entretanto se candidatam. mas não cedo. Trata-se do seguinte. Fico possuído de admiração pelo trabalho continuado. Só me mostrará depois de concluído. Elementos esquerdistas de Minas vieram ao Rio para cuidar da chapa de candidatos a deputado. Mas Arruda Câmara foi autorizado a falar em seu nome. que nunca fui capaz de conseguir. em São Paulo. 25 — Telefonam-me dizendo que Prestes deseja falar comigo. etc. e Pedro Pomar assiste à conversa. que também não é comunista. Agosto. não pertenço ao PC e não estou sujeito à sua disciplina. Em Minas. de que me afastei por absoluta . Os dois insistem. porque a Câmara comporta outros trabalhos em que poderão ser úteis. O PC tem seus oradores.. o que faria de mim um representante muito individualista. executada pelo dono da casa. 25. Arruda Câmara responde que também ele e Pomar não são homens de discurso. sob orientação geral. e passagem pelo apartamento de Fernando Sabino.

são essas coisas. Fiquei chocado com a mesquinhez. que equipara a Tribuna aos jornais burgueses que eliminam de suas colunas qualquer referência a pessoas não gratas à direção." Insisti: "Então ela prestou ou não prestou um serviço ao PC?" "Prestou.." Não elogiei a tradução nem a autora. Pois cortaram a última linha. ela publicou uma tradução do livro de Fréville. Dou mais uma vez minhas razões para não voltar. a experiência frustrada do jornal não me anima a outra tentativa. Pois. Serviço prestado. Sabendo que ela não está em cheiro de santidade perante os dirigentes. vive afastada da direção comunista. dizendo na última linha: "Eneida traduziu. refugieime nos assuntos literários. Textos Marxistas Sobre Literatura e Arte. achava inadmissível moralmente a aproximação com Getúlio. talvez.impossibilidade de participar da direção efetiva.. 5 — No apartamento de Manuel Bandeira. foram vários os pequenos fatos. as decepções que me fizeram deixar de comparecer à redação da Tribuna Popular. ativista corajosa que suportou cadeia e maus-tratos da polícia. Interpelei um dos diretores. você sabe. 27 — Recapitulando. Agora. na qual se falava de uma ." Outubro. iniciativa excelente. meu amigo pessoal: "Eneida traduziu ou não traduziu o livro?" Ele aquiesceu: "Traduziu. pois coloca ao alcance de nossos intelectuais uma conceituação teórica da literatura. porque. Sentindo a impossibilidade de abordar temas políticos. como outros companheiros. mesmo aí. limitei-me a fazer uma resenha da obra. Agosto." "E por que o nome dela não pode sair no final de uma notícia que nem sequer a elogia?" Resposta: "Bem. houve probleminhas. as dificuldades de adaptação a um sistema impreciso de fazer jornal. Conta-me que recebeu há dias carta de uma prima freira. mas já é tarde para mudar o jeito de viver." "O livro é ou não é proveitoso para orientação intelectual dos simpatizantes do PC?" Resposta: "É sim. Eneida. que faltava à maioria deles. Individualismo doentio. para pedirlhe autógrafo no álbum de uma amiga de Maria Julieta.

A palavra invocou-o. e se estrangula e muda permanece na impenetrável recordação? Deposição de Getúlio Outubro." Outubro.santa que teve o coração transverberado (atravessado de luz). desmontar. substância que raramente se derrama em nossos golpes e revoluções. "com uma pequena". 30 — Ontem. . os generais trouxeram para a rua suas metralhadoras e seus carros de assalto e mandaram dizer a Getúlio que desse o fora. 10 — Um leopardo vai de roxo claro pela rua. que cabe à poesia interpretar. e um carro o transporta. o poeta almoçou. mudando-lhe apenas. durante o qual compôs mentalmente um soneto. Veio-lhe a seguir o estado de modorra. uma estátua. É um navio. sem que entretanto lhe viesse à idéia fazer um poema de que ela fosse núcleo ou participante. talvez um pouco ridículo. pois tanto uns quanto outros adversários preferem conservá-lo nas veias. No dia seguinte. O "coração transverberado" aparece no fecho do soneto. Eis que. Ele tentou negociar. domingo. diluir. escreveu a peça. e que fazes tu. composto todo ele em estado de semiconsciência. Nota de 1980: 0 poeta narra o caso em seu Itinerário de Pasárgada. mas os homens foram inflexíveis. um espectro. são muitas coisas desencontradas e súbitas. e não sai. em todo caso único. a todas as vozes senão a que desejaria sair de ti. não como ato de inteligência. pequeno-burguês resignado. diz Bandeira. com título e tudo: "O lutador". surdo às vozes da cidade. Getúlio cedeu "para evitar derramamento de sangue". publicado em 1954: "Tanto esse soneto como Palinódia são coisas que tenho que interpretar como se fossem obra alheia. um sorriso breve. à voz das eleições de dezembro. e depois estiveram em intimidade. Um leopardo sem memória. um coração perverso.uma palavra.

que. no Ministério da Guerra. da parte do Catete. Notícias às vezes contraditórias.. em companhia de Enrico Bianco e Athos Bulcão. Calmo. apagada a sua estrela de 15 anos. mas em conjunto definidoras: fim da era getuliana. o General Paquet.De resto. Pela manhã. Interessou-se pelo trabalho dos artistas. enquanto Getúlio. o melhor a fazer é acompanhar a filhinha ao banho de mar. em seu gabinete de diretor do PHAN. que era o novo chefe de polícia e que Getúlio iria modificar novamente a lei eleitoral. Tudo isto veio pelo rádio e pelo telefone. como se nada de pessoal lhe houvesse acontecido. que se mostra indiferente à queda do homem. Também Rodrigo. Entra Augusto Meyer. e custou-me uma noite de sono. porque lhe falta companhia. esperando quem fosse substituí-lo para entregar a pasta. o intima a "passar o cargo". ia dormir. Visitei Capanema no Ministério da Educação. filosoficamente. já que não podia fazer outra coisa. Getúlio. Getúlio já não contava com ninguém. no Palácio da Guerra. Presidente do Supremo Tribunal Federal. de . está impassível. Era o golpe. a começar das 20:00. Bejo tomou posse às 15:00 e saiu para comunicar ao General Góis Monteiro. levou-me ao auditório. com o apoio da Marinha e da Aeronáutica. onde ele esvaziava gavetas. escolha doméstica que fazia prever evolução muito especial na política. Foi logo escolhido para substituí-lo o Ministro Linhares. denunciado e profetizado desde março por Prestes e longamente pregado pela UDN como única saída para a crise política. brincando. único elemento ainda fiel a Getúlio. sem que. desceria com suas tropas da Vila Militar para tomar o Ministério da Guerra e garantir as novas medidas getulianas. Enquanto isto (é o que se diz). O vento a levou. onde Portinari pinta dois grandes murais. Depois do almoço. Góis imediatamente se demitiu da pasta e se declarou investido no posto (?) de chefe supremo das Forças Armadas. O pretexto para a deposição foi a nomeação do seu mano Benjamin para chefe de polícia. que tomou posse de madrugada. esgotada sua capacidade de manobra (do que é prova a nomeação do mano para chefe de polícia). rendeu-se sem um tiro. Mais dois que provavelmente deixarão seus cargos. vou à cidade..

Será o caso do Brasil? O Governo deposto em 29 de outubro era legítimo. a prisão e o exílio de políticos oposicionistas. os danos foram verificados por uma redatora a quem a polícia permitiu o ingresso. após a deposição de Getúlio. Adeus à Tribuna Popular Novembro. serviu de pretexto para o fechamento do Congresso. Móveis da sede próxima do PC atirados à rua. resultou de voto popular? Não. entretanto. As máquinas de escrever estão quebradas. positivamente vai por água abaixo. A redação foi invadida por elementos que vieram do terraço do edifício vizinho. concedido há dias pela Justiça. pois a sede do jornal está interditada. Outubro. em 10 de novembro de 1937. brandido pelas autoridades com o maior despudor. Parece. Seu frágil "registro provisório". que lutava contra o anunciado golpe. e a implantação do Estado Novo. com um monte de papéis. Resultou também de golpe. 'Assim se puniu a atitude do Partido. e apreendida documentação a ser "examinada". a suspensão das eleições presidenciais em que se defrontariam os candidatos José Américo de Almeida e Armando Sales Oliveira. se manifesta regularmente por meio de eleições e da vida parlamentar. Sedes de Comitês do Partido foram varejadas. Golpe é alguma coisa inconcebível num país de organização política democrática. encontro Pedro Mota Lima e Aydano do Couto Ferraz. as gavetas arrombadas. disponham de outro trabalho. 31 — Na rua.momento. arrebentando vidraças. . que me contam o ocorrido com a Tribuna Popular. pretexto útil para a reação golpista. 6 — Sejamos sinceros. organizada em Partidos. que o propósito dos comunistas era precisamente evitar a greve. quando o falso Plano Cohen. em que a opinião pública. Fala-se também em apurar a responsabilidade dos comunistas na greve geral que os queremistas (partidários de Getúlio) estavam planejando e que não chegou a ser declarada. O jornal não pôde sair.

porque não desejava oferecer com o meu afastamento. a partir daquela data. Não as atendi. Portanto. me parecia impraticável. Prezado amigo Aydano do Couto Ferraz: A 22 de junho último.com Getúlio reinando até agora. Num entendimento direto com Prestes. Chega de contemporizar. E. Quero o meu nome fora do cabeçalho do jornal. entreguei-lhes a seguinte carta: "Rio de Janeiro. no qual figurava por honroso convite de Luís Carlos Prestes. portanto. Eles podiam resumir-se no fato. por mim verificado. deixei de comparecer com regularidade ao jornal. na qualidade de amigo e colaborador. Não obstante. passando a visitar esporadicamente sua redação. e que essa co-direção. e que tomou posição contra o afastamento de Vargas. filiado a esse ou a qualquer partido político. Fui ontem à redação e. segundo. comuniquei-lhe minha resolução de deixar o comitê de direção da Tribuna Popular. Se não é modelo a ser enaltecido. tive ensejo de reafirmar-lhe esses motivos. 5 de novembro de 1945. porque eu não tinha divergências doutrinárias com a Tribuna. embora eu não fosse. Passaram-se porém alguns meses. Os motivos que aleguei foram considerados justos por você e pelos demais companheiros a quem tive oportunidade de expô-los. De todas as vezes recebi solicitações para continuar no meu posto. como não sou. não vou chorar a queda de Getúlio nem aprovar a linha política do jornal de que sou um dos diretores fantasmas. juntamente com os dos demais diretores. definitiva. embora insignificante em si. quiseram os amigos da Tribuna manter o meu nome no cabeçalho. é pelo menos compreensível e justificável. reunidos os companheiros de direção. efetivamente. pretexto para explorações de inimigos da Tribuna ou do Partido Comunista. Não me opus a isso: primeiro. e perdura uma situação a . Golpe contra golpe. tal como fora planejada. portanto. porque minha resolução era amadurecida e. de que a co-direção da Tribuna estava sendo mais nominal do que efetiva.

como homem e como escritor." Sumiram. não há. O manifesto publicado domingo encerra uma análise. Acresce que. Explicação aos leitores. não é só o meu nome que desaparece. no momento. pedi aos companheiros da Tribuna Popular que tirassem o meu nome do conselho de direção do jornal. é o próprio conselho de direção que vai pelos ares. com o sincero apreço e a inalterável estima pessoal de Carlos Drummond de Andrade. e que a própria Tribuna terá interesse em normalizar. que do meu ponto de vista não é a mais justa. Dia 6. Não é meu intuito entrar em polêmica nesta carta." Novembro. Dia 5. Hoje. na terceira página. A todos os companheiros de direção e a você em particular. Gerente: Afonso Sérgio Ferreira Fortes. Redator-Chefe: Aydano do Couto Ferraz. o cabeçalho apareceu na mesma. das origens do golpe militar de 29 de outubro. e desejar-lhes o maior êxito na luta em defesa do povo e por uma ordem social mais justa. um abraço cordial. sinto-me à vontade para solidarizar-me com a Tribuna e com o PC diante dos brutais atentados sofridos ao ensejo do golpe. a posição assumida pelo PC e pelo jornal em face dos últimos acontecimentos políticos não corresponde inteiramente à apreciação que eu. Continuando eu com as idéias a que de há muito cheguei e de que tenho dado testemunho público. os nomes de Álvaro Moreyra e Dalcídio Jurandir. também a conclusão a que chega esse documento não me parece a mais conseqüente. faço desses mesmos acontecimentos.meu ver irregular. Ela é um motivo a mais para o pedido que ora faço a você: o de ser excluído o meu nome da lista de diretores da Tribuna Popular. da sua natureza e das responsabilidades que lhe estão ligadas. diante de um determinado momento político. simples particular. 7 — Esta eu não esperava. liberto de compromissos. e mantendo a independência de movimentos que mais bem se harmoniza com a minha maneira de ser. substituído por estas indicações: "Diretor: Pedro Mota Lima. com o meu nome. assinalo apenas a divergência de concepções. Nunca pensei que eu .

eleitores se torravam ao sol. a mim que não sou brigadeirista nem tenho candidato do meu gosto. em pé." Dezembro. ao que parece.fosse tão importante. mas que afinal ganhou ritmo normal. no Copacabana Palace. 28 — O requintado e puro Américo Facó. que no . lá fui informado de que a mesa fora transferida para o Bife de Ouro. a ordem era absoluta.. candidato de última hora do PC. bem ou mal. para Presidente da República. A democracia nunca será perfeita. e às 11:30 eu depositava na urna. exerci o sagrado direito de voto. 2 — Eleições! Há 15 anos que a gente não tinha o gostinho de votar. com sua biografia ruidosamente exposta no jornal de Carlos Lacerda. Hoje votamos de novo.. No salão estavam as cadeiras do restaurante grã-fino. como meu pai costumava dizer dos enfatuados: "Ele não é pouca-porcaria não. e muita moçada por aí. que não era urna. Prestes e Abel Chermont. que pela macieza amenizavam a espera. E aí. durante tantos anos. os mais velhos. e ledo Fiúza. dos pontos de ônibus e das repartições públicas. para senadores. Nas seções que percorri. Designado para votar na seção da Rua Rodolfo Dantas. a chapa de Prestes. mas sacola de lona. Contradição? Cabeça incoerente de pequeno-burguês enleado em vacilações eternas? Seja o que for. no bairro. entre Dutra. candidato do PSD conservador. O DNI e Seus Problemas Dezembro. pensados e cheios de reticências mentais. enquanto em outras seções menos aristocráticas. para deputados. como escolher? Um voto a mais no Brigadeiro representa um a menos em qualquer dos outros dois — e isso me basta. Eduardo Gomes. Ou. diante das mercearias. os meus três votinhos chorados. 138? entre 400 republicanos desejosos de restaurar o regime. com o auxílio da paciência educada nas filas. Votação a princípio lenta (pudera: quem tinha prática?). Para Presidente. não importa. na rua. com as armas da República ressuscitante.

. Facó quer deixar pronto. silêncios ardilosos — e haja paciência para suportar injúrias veladas ou não.. que importava em comprar brigas. cinema — a ação de Facó se faz sentir mediante providências que procuram tirar do DNI o caráter de clarim das glórias e benemerências oficiais. e eles estão concluindo um relatório estarrecedor sobre o modo de aplicação dos recursos da entidade. será que adianta? Facó pediu dois contadores ao Banco do Brasil. para convertê-lo em modesta agência de informações sem finalidade política.porão da Biblioteca Nacional cuidava de preparar a Enciclopédia Brasileira para o Instituto Nacional do Livro. Dura tarefa. Facó apelou para três amigos — Gastão Cruls. Não é fácil desentortar a boca habituada ao velho cachimbo. perder sono e. e não há tempo para nada daquilo que torna a vida agradável: chopinho no bar. logo que Dutra tomar posse. Aceitou.") e o sentimento de que o dever cumprido nem sempre dá prazer: o dever é triste. um projeto razoável que troca a pele de diabo do DNI pela de um órgão informativo isento o mais completamente possível da idéia de propaganda oficial. Surgem incidentes aqui e ali. rádio. Será que consegue o milagre? . reivindicações. antes da posse de Dutra. feio remanescente de um período de propaganda oficial delirante. as subvenções a empresas jornalísticas e a jornalistas individualmente. leitura vadia de livro ou jornal. e eu — convidando-nos a fazer um levantamento completo das condições de funcionamento do órgão e da natureza de suas atividades sigilosas. ameaças ("Vocês vão ver. denúncias. neto. Reclamações. Para se sentir à vontade em terreno escorregadio e cheio de armadilhas. Prudente de Morais. Estamos nesta cruzada burocrática desde a primeira quinzena de novembro. como. que era ao mesmo tempo vigoroso instrumento de censura à imprensa.. Em todas as seções e serviços — a imprensa. esquivanças. cometeu a imprudência de aceitar o convite de seu coestaduano Presidente Linhares para assumir a direção do DNI — o famigerado DIP do Estado Novo. por exemplo. com a incumbência de botar ordem naquilo.. caminhada a pé sem destino.

Certos artistas não deviam permitir-se essas facilidades: ou tudo ou nada. a princípio desejoso de extinguir o DNI. cheirada. o caro Facó propunha "facção". avaliada.1946 Janeiro. pois as de casa não inspiravam confiança. vivas e vaias ao General Dutra e ao Brigadeiro findaram com o estouro de uma bomba que uniu brigadeiristas e dutristas no mesmo pânico. resolve ir a Lindóia lavar o fígado. se Gastão Cruls. Os jornais dizem que esta é uma viagem sem volta. e quase sempre em seu lugar é posto um equivalente castiço. será nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal. O Governo desmente. Pouco depois voltaram a escuridão e o filme. "execução" ou "realização". Assim. laboriosamente datilografado por duas moças estranhas ao DNI. verificávamos qual a palavra que melhor convinha no caso. O Ministro. onde vimos um filme medíocre de Bette Davis. e eu. Janeiro. que é também purista. O projeto de regimento sofre a minuciosa revisão estilística de Américo Facó. e que terminara por concordar com a sua remodelação (ouvi de Facó). que encomendara o trabalho. A luz acendeu-se e uma mulher de voz fina começou a proferir um discurso incompreensível. e o tempo voa. Estamos chegando do Cinema Roxy. assinalando ser muito bom português. na sua ausência. 1 — 0:55 da madrugada. Cada palavra — não direi cada artigo — é medida. pesada. dizem mesmo que. pobre escrevinhador de jornal. Afinal o regimento foi feito. Facó. com indefectível certeza. Em seu lugar está o Ministro da Agricultura. já vê em funcionamento os . que não sabe da reforma. Durante o complemento nacional. 12 — Todo o princípio do ano absorvido pelo trabalho de reforma do DNI. e entregue ao Ministro Sampaio Dória. Não seria mau que a política ficasse fora dos cinemas.

transmitido por seu amigo. na de Imprensa e Divulgação. e nomeado por solicitação do grupo vencedor. Enquanto isso. distinguir entre papel público e papel particular com cara de público. saído da administração anterior.. pelos corredores do edifício onde o DNI alugara vários andares. Esta. a situação na manhã de ontem. Ao mesmo tempo. neto. sonhos e boas intenções que já não valiam de nada. e o que se sabe é que elementos à sua sombra não estão lá pensando em reforma: querem é o doce velho estilo getulista. eram a ilusão de uma ilusão. Eu enchia de papéis uma pasta. queria lá saber de reforma nenhuma. a serem encaminhados à sua residência — e vá lá alguém. Era tudo esperança recompensada de volta aos velhos tempos. Ainda não tínhamos saído e já se . Um ar de alegria acolchoava as paredes e lustrava os degraus. a clássica operação de limpar de papéis as mesas atochadas de projetos. que nela deviam permanecer. O Presidente deseja que você colabore com ele para que saia a reforma. pois ele nomeou outro diretor para o DNI. fazia a mesma coisa na Divisão de Cinema e Teatro. numa hora dessas. pois "Linhares quer a reforma". começava o burburinho que precede as posses festivas. tudo foi de um cômico especial. depois da lambada que parecia ter varrido do velho e desmoralizado DIP-DNI sua crosta de corrupção e cortesanismo. com a fleugma habitual. Porém Dutra foi eleito Presidente. Que reforma? Era evidente que o novo diretor.. cumpria separar da massa de papéis do arquivo da repartição. menos britânico. mas corretíssimo. Daí por diante.novos e ideais organismos. Eu tive de realizar — ou executar? — em poucos minutos. e Gastão Cruls. os documentos e anotações pessoais de Facó. quando Facó recebe pelo telefone este recado. — E quem é o novo diretor? — Joel Presídio. Prudente de Morais. Enquanto isso. e no terraço espocavam foguetes. escritor José Vieira: — O Presidente manda dizer-lhe que você tome posse do seu cargo no Senado.

às cerimônias com que será celebrada a grande data da posse do Sr. de tristicômica memória. no momento em que o Brasil entra num ansiado período de normalidade democrática: tocar bumbo e soltar fogos de artifício à passagem do vencedor. daí por diante. a música era outra. e para eles foi transferida a tralha imensa do DNI. para os quais não se encontrou cômodo conveniente no edifício de escritórios. Além disto. Janeiro." Eis todo o programa de ação do serviço de informações oficiais. por sinal remanescente da situação totalitária. General Dutra na Presidência da República para corresponder ao milhão e tanto de brasileiros que deram ao General Dutra a vitória nas urnas.celebrava a entrada dos velhos-novos usufrutuários da casa. Com as eleições de 15 de novembro do ano passado. Reformas? Fim das subvenções a empresas jornalísticas. era preciso restituir à Câmara sua sede. ou individualmente a jornalistas. empurrada pelo vagalhão humano dos contentes com a futura administração. O órgão de propaganda oficial funcionava no Palácio Tiradentes. Alugaram-se andares comerciais no Edifício Novo Mundo. E os encarregados de readaptar a sede parlamentar a seus fins naturais reclamando contra a . ouve-se a voz do novo diretor solene e compenetrada: "a razão desta escolha. suprimida a censura à imprensa desde a entrevista-bomba de José Américo. Mas a gente vai saindo. é que o Governo quer dar o maior realce. como me foi transmitido pela pessoa que me recebeu. de onde a Câmara Federal fora retirada para existir no éter. 13 — Ainda a passagem pelo DNI. se conseguia amainar furores oposicionistas de alguns setores? Estabelecimento de uma possível agência de notícias que desse vazão ao noticiário oficial sem sombra de propaganda ou veleidade de influir na opinião pública? Conversa fiada. Sobraram dois enormes pianos. Lá ficaram esquecidos os pianos na Câmara. com que. o maior brilhantismo. Toda ela? Não. Para isso era preciso que o Departamento estivesse entregue a um dos que fizeram a campanha com o General Dutra e colaboraram para sua vitória. com o golpe estadonovista de novembro de 1937.

Nunca lhe ouvi demasia de linguagem. na linguagem castiça que nele era tanto escrita quanto falada. E foi-se. Um poeta. em face de uma verdade superior. Os burocratas que Facó privara de gratificações indevidas e os jornais que perderam a subvenção mensal do DNI caíram em cima do diretor. Num jornal apareceu este anúncio: "O Sr. pois não possuía automóvel particular. Américo. Desencantado. Leitor constante de clássicos. Coube a Américo Facó tomar providências para removê-los. já livre destes). Facó não se deu por vencido. exigência de uma frase equilibrada ou para evitar maior mal. não explodiu em palavras crespas. mandou removê-los para a garagem de sua casa na Rua Rumânia. salvo naturalmente mentiras de brincadeira. Janeiro. Em gesto de total pureza. por .presença daqueles elefantes inúteis aos debates. desiludido mas com perfeita serenidade e com elegância recherchée um tanto vieux style (um gentleman entre malandros. tem pianos à venda. n° tantos. creio não ter dito uma só mentira. ou emitir opinião de cortesia a autores aspirantes de incenso: "Desde 1851. De instante a instante o telefone de sua casa tocava perguntando se o proprietário tinha pianos para vender. Ali ficariam a salvo de furto ou uso indevido. que incorporara ao seu patrimônio pessoal dois bens do Estado. não se animou a alugar mais espaço para abrigá-los. sem irritação. Respondia com dignidade. seu modo de ser. bem cuidados. Zeloso de dinheiro público. de pura eutrapelia. como o de apunhalar um literato. Um inferno. mentiras oficiosas." Apareceram compradores. 31 — Para me lembrar sempre que tiver de agradecer oferecimento de livros. e não pagariam aluguel. e ainda essas pequenas escapatórias literárias inevitáveis. ocupar o seu posto de redator de debates no Senado Federal. usava-os no varejo da vida. chocante num meio onde as liberalidades e maus costumes administrativos constituíam a coisa mais natural do mundo. residente na Rua Rumânia. E era de uma honestidade impecável.

Terminada a comissão. Em geral morrem ou de úlcera . me faz confidencias. enquanto maneja a tesoura. 8 — Ao entregar-me o cheque de . Abril. Souvenirs d'Enfance et de Jeunessé). e conta-as com doçura e humor filosófico de mineiro de Dores do Indaiá que vivesse à margem do Lago Lemano. 20 — Em Belo Horizonte. a vida está difícil no Brasil. pretendia fazer-me uma delicadeza. Alegria especial: quase uma noite inteira batendo papo com Emílio Moura. Desejo que me façam voltar à atividade.exemplo." (Traduzido de Renan. que tem tantas coisas para contar. Não há jeito senão dizer-lhe que são admiráveis. concedido pela Sociedade Felipe d'01iveira. afinal. mas não demitido. A maioria da classe — diz ele — esconde a verdade sobre a sua profissão. Murilo Rubião juntase ao pequeno complot a meu favor. Prestarei serviço à Rádio Inconfidência como correspondente no Rio. o prêmio é ao senhor mesmo e à sua poesia. O meu. me traz os seus versos. 6 — A verdade sobre os barbeiros. sempre prestimoso sob aparência de não levar nada a sério. Volto contente. Fevereiro. o presidente da Sociedade. desligado sem vencimentos. tem o cuidado de lembrar-me: — Olhe. aonde vim para conversar com os Altos Poderes sobre minha situação de redator do Minas Gerais. Fui atendido. que deixou de ser no ano passado.5 mil cruzeiros. país de muita saúva e pouco dinheiro.. e cometer injúria cruel a quem. mesmo com os "bicos" arranjados. no Palácio da Liberdade.. e não ao chefe de gabinete do Ministro da Educação. como poderia ter parecido. para servir no Ministério da Educação. Meu antigo colega Moacyr Andrade. correspondente ao Prêmio de Conjunto de Obra. prestando serviço jornalístico no Rio. Junho. qualquer outra coisa seria o mesmo que afirmar que não valem nada. com Capanema. João Daudt de Oliveira. conduz-me ao Interventor João Beraldo.

salvo um que nasceu com estrela na testa. Tudo por causa de um pedacinho de fio de cabelo. sem convicção. onde os padeiros. Ele sacode a cabeça. Mas o freguês pode. insiste: — Uma porcariinha de pedaço de fio de cabelo. pela vantagem do preço. Vê o freguês com a camisa de seda creme. segundo o Correio da Manhã de hoje: Fechadas as padarias em São Paulo. vai espetar o estômago ou o pulmão. se pudesse.. Afinal.. Crise no abastecimento de açúcar em Belém do Pará. Carrega cesta de verdura na cabeça e tem dinheiro no banco. Eu. ele desce. comprou uma quitanda. denunciam o câmbio negro da farinha. O barbeiro vive de uma ilusão." O resto fica de barriga vazia e ainda pensa que exerce profissão liberal. todas têm seu lado esquerdo. Aí ele gasta o que ganha para se apresentar bem. mas não desce toda vida não. O fim é no hospital. Caiu na realidade.. meias finas. aos gritos. Procuro consolá-lo.. sapato bicolor. que é só alegria e dinheiro fácil. O antigo dono deste salão é que fez bem. e aí. nenhuma profissão é um sonho. doutor. O Brasil em um Dia Julho. largou tudo. Produtores ameaçam suspender o fornecimento de leite se o . Aspirado insensivelmente.no estômago ou de tuberculose. 13 — A vida no Brasil. O Exército distribuiu o produto. e também quer usar tudo isso. o freguês simpatiza com ele e diz: "Pega estes cinqüenta contos e vai abrir um salão... e você sabe que ainda não se inventou o trabalho perfeito. De modo que nunca vai pra frente. Aí o doutor imagina o resto. ele não. Protestos. decidindo a vida da gente. Importadores de trigo querem descarregá-lo no Rio. A Justiça Militar é que vai julgar os grevistas da Sorocabana. e não em Santos.

constroem ponte que o Governo não quis fazer. Surge nova fila: a dos aposentados e pensionistas de Institutos. Iniciados os estudos para elevação das tarifas da Light. Está a 1.preço do litro não subir a 2. Material sem conservação é uma das causas dos últimos desastres aviatórios. em articulação. México resolve abater e incinerar gado brasileiro em quarentena ou devolvê-lo ao Brasil. Cogita-se de elevá-las. 20%. Escandaloso aumento nos preços de conserto de sapatos. nas Tesourarias. Moradores de Bento Ribeiro. Prisões e apreensões.30 no posto e 1. por falta de fiscalização. Comissão Central de Preços pede devassa na escrita de lavradores e usineiros. Intervenção no Pará: Electric Railways and Lighting. . cuja situação é irregular. Padarias burlam o tabelamento.60. Aluguéis ajustados entre 1934 e 1940 terão aumento de 10°/o. Carregado. Intervenção no Sindicato dos Bancários do Rio Grande do Sul.90 a domicílio. São Paulo. São Paulo e Minas. Poucas pessoas pagam as quantias devidas. e não a peso. para decidir sobre o aumento do preço do açúcar. Desapareceu um vagão de carne da Central. em mutirão. incapacitada para manter os serviços. Ministério da Agricultura decide que a carne será distribuída três vezes por semana no Rio. vendendo pão por unidade. Polícias do Rio. Os de anos anteriores. apuram o caso dos remédios falsificados. Maioria dos infratores da Lei do Inquilinato em São Paulo é constituída de mulheres. Estado do Rio. Minas e Estado do Rio. Nossas tarifas postais e telegráficas são as menores do mundo.

Chega!

Outubro, 6 — "Começo a achar que Calu não se casará", diz-me sua mãe. "É tão exigente!" Calu está nos 30, suponho. Seu último caso: ao anoitecer, um homem passa de carro, tira-a da fila, faz-lhe declarações. Marcam encontro numa confeitaria. Ela esperava um rapaz alto, louro, voz suave; chega um velhote gordinho, calvo, de voz antipática — nenhuma das impressões colhidas na véspera fora exata. O admirador comprou uma coleção de pratas. Oferece-lhe jóias. Quer casar. Calu faz-se de burra, desconversa. Seu ex-noivo (o último) procura-a de volta dos Estados Unidos. Calu não quer saber dele. A mãe do rapaz queixa-se de que ela chamou o filho de sem-caráter. Calu desmente: "Não o chamei de sem-caráter, por um sentimento universal de respeito aos mortos. Ele está morto. É o falecido Matias Pascal." O ex-noivo nos insiste livros em que freqüentá-la. escritores Põe a dedicatórias Calu; são suplementares oferecem

suplementos de humor duvidoso. Quando bebe, da rua atira pedras nas vidraças de Calu, num segundo andar. "É mesmo estranho", comenta a mãe de Calu. "Quando minha filha esteve na clínica, ele era todo carinho; bastou ela ficar boa e voltar para casa, ele deu o suíte. Agora está feito louco, querendo ficar noivo outra vez. Quem sabe, talvez desse certo, né? E talvez não. Calu vai ficar pra tia, meu Deus." Outubro, 8 — Se quereis o milagre de vossa folha corrida em três tempos, confiai-vos a Amabílio Alecrim, que, como os seus colegas da Avenida Mem de Sá, e por declaração expressa, "embora pertençam à polícia, é antifascista". Novembro, 6 — Mais uma reunião — infrutífera — do Ateneu Garcia Lorca. Ninguém lhe aceita a presidência que não é remunerada e

impõe deveres. E os secretários não secretariam. Fundado em julho, numa salinha da Avenida Rio Branco, é uma associação civil, cultural, que pretende "identificar-se com o sentimento democrático do povo espanhol", mas, pelo que se vê, carece de identidade própria. Os sócios proprietários têm direito a três votos, correspondentes a cada cota de Cr$ 3 mil 600 que subscreverem, o que não deixa de ser uma incursão à utopia — ou o convite a um comendador qualquer que pretenda comprar-nos a todos, desde os móveis às consciências. Novembro, 20 — Encontro com Otávio Brandão, comunista histórico e romântico. Assunto: as poesias de Laura Brandão, sua primeira mulher, que eu gostaria de conhecer melhor para incluir algumas na minha projetada antologia de poesia social brasileira. Ele parece ainda esmagado pela morte da companheira, ocorrida na Rússia em 1942. Cultuando-lhe a memória, deseja que os seus despojos sejam transportados para o Brasil. Os livros de Laura (quando solteira, Laura da Fonseca e Silva, freqüentadora das revistas cariocas de sábado) são "verdadeiras relíquias", e é impossível obtê-los da família dela. Dá-me a bibliografia datilografada de Laura, em que é chamada de humanista, e passa-me um poema da mulher, escrito durante o ataque nazista à URSS. Tenho dúvidas sobre qualidade literária misturada com fervor de convicções. Novembro, 21 — Afinal, nosso excelente Aníbal Machado concorda em ser eleito presidente do Ateneu Garcia Lorca, depois de longos e difíceis entendimentos. Haviam recusado o posto Manuel Bandeira, José Carlos Lisboa e Genolino Amado, convidados sucessivamente. Aníbal salva a situação com a sua boa vontade e também com a sua dificuldade de recusar chateações. Eu exercia uma vaga presidência efetiva, de circunstância, e, para que não se interprete mal a minha não confirmação no posto executivo, sou gratificado com a presidência honorária, em atenção aos serviços que não cheguei a prestar. No fundo, este Ateneu chega fora de hora, quando a sorte da

Espanha já foi decidida e a própria Guerra Mundial acabou. Somos uns candidatos retardatários. Brigamos com o General Franco à distância e encarregamos Unamuno de dizer por nós os desaforos que convertemos em versos. Novembro, 25 — Otávio Brandão confia-me suas poesias, não apenas datadas, mas com indicação do lugar, da situação e do estado de espírito em que foram concebidas: "Cadeia de Maceió — Alagoas — 13 de março de 1919 — preso pelo crime de ter idéias e ser solidário com um revolucionário encarcerado..." Outra: "Corpo de Segurança — Polícia Central do Rio de Janeiro — 25 de março de 1920 — preso por causa da greve da Leopoldina e por ser considerado prejudicial à tranqüilidade pública, isto é, à malandrice e à gatunagem burguesas..." Ao pé de um poema escrito em Buenos Aires, 1920: "Sentado num banco à sombra de uma leguminosa, diante do Penseur, de Rodin, confessando-me amesquinhado pelas ironias da Internacional

Comunista." Mas a confissão é riscada a lápis. Ainda em Buenos Aires, dias depois, num poema em que se despede da vida: "Meditando pela Calle Florida — Buenos Aires — à tarde de 25 de abril de 1930 — sob a impressão de que morrerei na próxima vaga revolucionária." [Nota de 1980: Otávio, sempre fiel a suas idéias, faleceu com 84 anos, em março de 1983. Era visto com seu boné, no hall da ABI, em dias de eleição.] Seus versos não são propriamente poéticos, e a custo seleciono um trecho para a minha antologia social. Mas fica-me a impressão do homem, de "antes quebrar que torcer". E puro. Dezembro, 8 — A natureza não me inspira emoção particular. E meu êxtase obrigatório é reduzido, mesmo do alto da Mesa do Imperador, a que nos conduziu o automóvel de Cyro dos Anjos, num sábado consagrado ao ar livre. Convém dizer: Que beleza! E eu digo: Que beleza! Presentes Marques Rebelo, Otto Maria Carpeaux, o poeta argentino Raul Navarro. No meio desse mundo de vegetação, e a

propósito de tudo, ou sem propósito, Rebelo faz rir às gargalhadas com suas invenções verbais, contra tudo e todos. Dezembro, 16 — Ontem à noite, visita a Portinari. Chegou encantado com a França, que antes não era objeto de sua simpatia. E lamenta como o receberam no Brasil. Um repórter atribui-lhe declarações falsas, e um anônimo, pelo Correio, chama-o de "judeu" e de "judia" a sua mulher: palavras escritas sobre a foto de jornal no desembarque dos dois. Dezembro, 19 — A jovem autora de A Busca chamada à Editora José Olympio para receber direitos autorais do seu livro. Sensação imprevista: uma coisa feita com prazer e por prazer (embora o fundo amargo do tema) e que rende dinheirinho apreciável para quem nunca pensou em tirar proveito das letras. O pagamento vem em boa hora: facilita a excursão acadêmica à Argentina, planejada entre suas colegas de Faculdade. E há também o espanto meio infantil do seu rosto, ao ler os artigos de jornal saudando sua estréia, as cartas e referências de louvor. Não esperava que sua historieta despertasse tanto barulho. Esta glória literária adolescente contamina o pai da autora, que não se sente assim tão orgulhoso pelos seus próprios livros. É ótimo ser pai de autora festejada. Dezembro, 29 — Esse diabo de Baudelaire, dizendo que a inspiração consiste em trabalhar todo dia. E onde fica a minha preguiça de intelectual, que se imagina produtora de grandes obras quando a inspiração for servida?

Queixou-se: 'Ele não é seu filho! Filho é que abre a porta para o pai. hoje à tarde. como costumava fazer antigamente. e cerca de precauções a identificação do recém-chegado. ao voltar do trabalho no Ministério. encontrado entre papéis soltos de uma pasta: "Todas as noites. Mas desta vez não foi. Conta que. seguravam-lhes as nádegas. 24 — Reflexão matinal: Mais de metade da vida normal já se escoou. para protegê-las. O povo assistindo. conclui o próprio poeta. Foi em sinal de ressentimento porque o primo tomara a iniciativa de me receber. * No começo do incêndio de A Exposição.1947 Janeiro. é minha filha que me abre a porta. Não queria ser substituída. nas vésperas de casar-se. Murilo Mendes procura adiar o ato e sugere que os amigos façam um abaixo-assinado pedindo-lhe que continue noivo. como antigamente. Então era isto? . aparece meu sobrinho Virgílio. para se divertir com a minha busca pelos móveis e quartos. A filhinha escondera-se debaixo da mesa do escritório. Os bombeiros. e o faz com ar solene. em seu lugar. 7— Apontamento de 1941. para descerem de costas pela escada Magyrus. 23 — Visita de Paulo Armando. que passa as férias conosco. as moças que trabalhavam no terceiro andar tiveram de vestir apressadamente calças de homem. "Mas Saudade indefere". Finge não me reconhecer. Janeiro. na Avenida Rio Branco.. Hoje.. com inveja.'" Janeiro.

como também paisagens. é das mais belas sensações da vida? Março. cara aos místicos. ou fadiga da visão. a rua que aparece num romance de Flaubert. se o fato emocional. Há 25 anos que somos . não. Acredita-se que um estado realmente novo fora experimentado anteriormente. etc. diante de paisagem contemplada pela primeira vez. de que já a víramos antes (as três árvores entrevistas por Mareei Proust no decorrer de um passeio de carro). 9 — Sensação. é aproveitada por este para xingar os poetas modernistas. Assim. A paisagem teria sido vista em existência anterior do mesmo observador. e agora é conferida ao vivo. Léon Daudet (Études et Milieux Littéraires) aventa outra hipótese: herdamos de nossos antepassados não só inclinações e estados de espírito. anterior à atual. Jean Pommier (La Mystique de Marcel Proust) sugere em primeiro lugar a explicação das vidas sucessivas que tivemos. Les Maladies de la Mémoiré). Vem depois a explicação do sonho. 15 — Centenário de Castro Alves. de sorte que parece repetir-se quando produzido pela primeira vez. A justa celebração geral. que duas ou três vezes na vida foram experimentadas por ancestrais de duas ou três gerações anteriores. que equivale a uma outra existência. mas alternando com esta. Última explicação proposta: a diplopia.A Paisagem Revista Fevereiro. como às vezes se vê em dobro no espaço (Ribot. As mesmas árvores poderiam ter sido vistas antes em sonho. Terceira explicação: a paisagem fora construída antes pela imaginação. ao chegar ao segundo time literário. O observador a compusera espontaneamente ou graças a repetida e poderosa sugestão — pela leitura. de alto a baixo. A memória hereditária pode transmitir a uma geração algumas dessas emoções mais intensas. Mas para que tantas explicações. do reconhecimento insólito. que faz ver em dobro no tempo. por exemplo. poético e perturbador. podemos reconhecer de repente a sala de jantar descrita no poema de Baudelaire.

Exprimindo-se. como queria Aristóteles. e que se lisonjeia. envenenando-lhe a mente. pondo de lado a parte condoreira que o tempo se incumbiu de converter em oratória. ela parece necessária. uma explicação judiciosa ainda mais a exacerba." (Essais). Mas vá alguém fazer a menor restrição ao poeta. de amar no poeta o autor de versos como "desce a tarde no carro vaporoso" ou "o vento do passado em mim suspira". (Moral a Nicômaco). Aristóteles mostra-se favorável à cólera moderada. Montaigne.. que costuma identificar-se com a prova de amor. preferia manifestar sua cólera a mantê-la recolhida. Já os rancorosos. o que é uma espécie de compensação. (Aparté). Por fim. que já . Mas em seguida mostra quanto é desmoralizadora do ser a crise de violência verbal ou gestual. Sua natureza e sua razão de ser. às vezes. que se manifeste em momento oportuno. E conclui: "Se a cólera é uma arma. 20 — Saio de um instante de cólera e procuro indagar de mim mesmo e de autores a natureza dessa quebra de ritmo vital.xingados! O que não impede. Montaigne entende que não devemos castigar o erro no instante em que a cólera nos domina. entretanto. num momento de irritação.. ela se dissolve. Por mais desatinada que seja. é ela que nos maneja. a verdade é que essa arma não se deixa manejar por nós. Os irascíveis logo se apaziguam. Abril. visita-me o romancista de 25 anos.. Que diríamos do juiz que. Março. condenasse alguém à morte? Quem tem fome serve-se de carne. e que me deixa aniquilado. de certo modo se mostra simpático a esse sentido furioso. quem castiga não deve ter fome nem sede. contida. quanto a mim. Não encontro nos livros a condenação formal da paixão a que me entreguei. aristotélica.. O moderno Jacques de Lacretelle enfileira em seu ensaio sobre a cólera razões intelectuais em favor de uma explosão ordenada. 10 — À noite. vira-se contra nós. Esta é uma paixão que se apraz a si mesma. E julga menos má a intemperanca na ira do que nos prazeres.

23 — A pobre mulher de Alfenas que me procura e. 29 — Com Maria Julieta e Paulo Mendes Campos. à saída. Junho. vou à Academia assistir à entrega do prêmio de romance a Cyro dos Anjos. com Marie Bell. extraem-lhe um osso. desejosos de aparecer em qualquer parte. no correr da conversa. 1 — Carta a Milton Campos: . 26 — Encontro com o poeta Schmidt. uma glândula.foi aviador e pára-quedista. calma e ordenadamente. estimula a autora da novela A Busca: — Vá mandando. Acorda sentindo vago mal-estar. e hoje é instrutor de pára-quedismo. frenologia e palmestria. Junho. por acaso. grafologia. Enquanto dorme. estuda psiquiatria. vá mandando os seus livros! Julho. Já escreveu 15 livros. O romancista deixa-me sempre a sensação de vida agônica e perturbadora. oito ou nove acadêmicos e uns gatos-pingados da literatura. pratica ilusionismo. Junho. no Municipal. Lá estão amigos e parentes dos diversos premiados. O autor de teatro me deixa frio. O Ministro-acadêmico Ataulfo de Paiva. que substituem por massa. agora nosso vizinho. e nada pode fazer. Pessoas de sua terra servem-se de "bruxas voadeiras" para destruí-la. mostra-se preocupado com a questão do petróleo brasileiro. Diz que anda muito triste e com vontade de morrer. 8 — Passage du Malin. me expõe as perseguições de que vem sendo vítima à distância. Voltar Para Minas Agosto. Depois. diz-se meu admirador e pergunta-me se já publiquei algum. embora tenha o dom de ver à distância os manejos de seus inimigos. de François Mauriac.

F. bastava para me encher de satisfação. mas fui adiando a carta. a meus olhos. e ao mesmo tempo sem ânimo para fazê-lo. Fiquei assim. meu caro Milton. E agora eis que há seu telefonema e a eleição para a Folha. Mas havia outro aspecto que. Aqui estou eu. e só à noite. por intermédio de um rapaz da sucursal da Folha de Minas. No meio daqueles chiados e zumbidos atmosféricos. sem saber ao certo o que estaria ocorrendo. bastante envergonhado pelo não cumprimento do meu propósito. pois significava a constância de uma velha amizade que se o tempo tornou menos ativa nem por isso enfraqueceu em seus fundamentos e em sua essência — e continua sendo um estímulo profundo para mim. A viagem se fez. Não preciso dizer o que este ato significa para mim. Resolvi escrever a você. ante a possibilidade de uma ida a Belo Horizonte. na posição pouco . deixando-me. ao deixar o fone. de Andrade ] vinha me falando do seu propósito de me convocar para as lides oficiais em nosso Estado. Isso mesmo disse ao nosso Rodrigo. mas chegando aí pareceu-me que você devia estar assoberbado em demasia com as obrigações do seu rude ofício para que eu ainda fosse tomar o seu tempo com a minha ilustre pessoa — e seu convite para jantar só me chegou tarde da noite. a quem simultaneamente expus o meu estado de espírito: desejoso de atender ao chamado que me honrava. tive conhecimento de que eu fora eleito diretor do jornal. onde melhor me explicaria. partindo de você. conversando. Já por várias vezes o Rodrigo [ M. aliás. tornava ainda mais relevante a sua intenção. A simples lembrança de meu nome. eu mal ouvi algumas palavras suas. mas também um dever. É que se iniciava um Governo de tal elevação e pureza que colaborar com ele devia constituir não apenas um orgulho. e creio que você não terá escutado melhor as minhas. quando ia preparar a maleta. pois."Meu caro Milton: O telefone conspirou para que a nossa conversa de segunda-feira fosse um tanto confusa. nesse sentido.

a Folha exigem sem dúvida uma atividade. diante do ensejo de renovação que você abre para Minas. Sua eleição para Governador foi um episódio que veio surpreender o meu ceticismo. com um tão grande heroísmo civil. em grande parte. E cheguei a uma conclusão negativa. Devo acrescentar. porém. mais de perto.confortável de amigo faltoso. naquele começo alvoroçado de 1945. agora. operou em minha sensibilidade um choque tão violento que me fez perder todo o interesse pela vida pública. para pôr em ordem nossa pobre terra. Diante destas tarefas. dessa mexida. estão procedendo de maneira deplorável. De sorte que a perspectiva de ter de tomar conhecimento. Eu. O amigo diligente não ruminaria o assunto. nesta confidencia. . Na primeira. você cogita de pôr um burocrata e um jornalista igualmente desencantados por uma tarimba de cerca de vinte e cinco anos. ao mesmo tempo que me faz admirar ainda mais a limpidez e o alcance do sacrifício que você vem realizando. parecendo nostálgicos do antigo cativeiro. na segunda. uma dedicação e um esforço para os quais não me sinto muito habilitado a esta altura da vida. que minha curta passagem pelos arraiais políticos. julguei necessário proceder a um exame rigoroso de minhas atuais condições a fim de apurar com segurança se elas eram as mais adequadas para a colaboração que você precisa e merece ter na sua grande tarefa. me deixa assustado. mesmo alheio à luta. é a direção de um jornal que precisa acompanhar também o dinamismo da imprensa de hoje. e com essa carência agravada pelo desenvolvimento de um processo psicológico de misantropia. acudiria sem perda de tempo. pois. mas para depois confirmá-lo. haveria a organização de um aparelho complexo e destinado a exercer uma atuação realmente viva no incremento às práticas artísticas e intelectuais. sem o entusiasmo criador que elas estão pedindo. na direção de um jornal. As duas excelentes oportunidades com que você me acenou: o Departamento de Cultura e. e assumir um papel na reconstrução geral da nossa Minas. os nossos políticos. que faz dele o homem menos apto para a multiplicidade de contatos que qualquer dessas funções exige.

que se aborrecem com a reação popular. venho pedir-lhe que escolha outra pessoa para a direção do jornal. mas acabam desistindo de reclamar contra o vozerio. perturbados apenas pela teatralidade da música e pelo furor das .A essas razões cumpre ajuntar uma última. Os gestos mais simples que praticamos adquirem uma violência que os torna grotescos. talvez mesquinha. mas como se estivessem mesmo representando. Estou certo de que você não verá nisto uma recusa de servir. só posso ter para você e para seu Governo o pensamento mais alto e fervoroso de sucesso. 2 — No Cinema Rian. de qualquer jeito. Eisenstein fez um poema plástico e musical. Ao meu agradecimento a você se junta o de Dolores. É a do problema que se abriria para mim com a mudança para Belo Horizonte." Agosto. Eu serviria mal a você se procedesse de outro modo. E em qualquer circunstância. eu. onde já não disponho de casa para morar. Não há. Esta carta é o resultado honesto de minha meditação sobre o caso — e principalmente sobre mim mesmo. a menor naturalidade. Confesso-lhe que o cortejo de complicações dessa natureza — depois de treze anos de Rio. Ivã. O melhor abraço do Carlos. Os olhos vogam em mar de delícias. que fiquei comovido com o seu gesto. e. não como se vivessem as personagens. de Eisenstein. e ambos estão envoltos no mesmo antigo e profundo afeto. a que a família. O público menos educado percebe isto antes que os espectadores intelectualizados. mas que não achei conveniente omitir numa conversa tão sem cerimônia. Nunca vi imagens mais belas em nenhum filme. perturbado por intensa e tonitruante declamação. é bem difícil descobrir uma. Belo e fatigante. a julgar pelas informações daí. Por tudo isso. acabou por se adaptar tão bem. intencionalmente. o Terrível. nobre e trágico. a princípio com sentimento de exílio. O tom é demasiado alto. Minha filha observa que os atores representam. meu caro Milton. sem perder o jeito nativo — é uma coisa que deixa meio perplexo este seu velho companheiro. pois vendi a da Floresta.

me parecia maior. Vejo sair da casinha em frente. poema em sonho. e fiz imediatamente um poema de três versos: sobre a rua da infância. e que pertence a ele. estreita. em face da minha idade madura. reunião em casa de Rodrigo (M. céu escuro. Acordei sem lembrança dos versos. 19 — Domingo à noite. mandou dizer-lhe. larga outra vez. Tendo-se zangado. em Itabira. Agora voltara a ser larga. Manuel Bandeira conta o seu desentendimento com Augusto Frederico Schmidt. perto da Câmara. A correlação entre a rua e minha idade apareceu-me então sob forma poética. a dá mocidade. de onde posso avaliar a largura da rua que. e chegam a penetrá-las de tal modo que passam de fundo musical a parte integrante e comovedora das cenas. Este não lhe escreveu uma linha. e concordo com minha filha: não voltaríamos ao cinema se todos os filmes fossem assim grandiosos. em comparação com a que lhe achei na mocidade. Bandeira pediu devolução do quadro de Portinari guardado em casa de Schmidt.palavras. quando fora do Brasil. que ficara zangado com a desatenção. quando garoto. Madrugada. Poema que me agradou muito. à proporção que eu me fazia homem? Não. F. uma negra vestida de azul. que com certeza acaba de passar a noite com um homem. Só então reparo que estou na sacada. Teria a rua ficado mais estreita. Mas. Schmidt formalizou-se "Não escrevi para ninguém!" — e aí Manuel zangou-se de verdade. por intermédio de João Conde. pois revelava secreta ligação entre o ser e as coisas. e a da madureza. Agosto. de brincadeira. Manuel. 15 — Sonho. de Andrade). Inesquecível imagem da procissão ondulando pela planície branca e dominada bruscamente por uma forma imprevista que se agiganta: a barba de Ivã em primeiro plano. Bandeira . lá se foi com ele. Agosto. Os coros de Prokofiev tecem um fundo admirável para as grandes cenas. Estou no sobrado de minha família. larga. Mas o conjunto cansa bastante. Silêncio total.

no quarto em que residia. Recebe-me de chambre vermelho com pintas amarelas. ela sentiu-se ofendida e não quis mais guardar o quadro. duas crianças. enquanto ele me informa que Unamuno. por sua vez aborrecido. Pirandello e Joyce nunca lhe negaram os louvores mais cálidos. Fala também no amigo Serge Lifar. que não tem paisagem e serve mal. pede-me que vá visitá-lo. duas histórias infantis. Tendo de deixar o Brasil. Muda-se hoje para o Glória. Mostra-me um seu livro para crianças. declamando-as. O poeta queixa-se de Portugal e dos escritores portugueses em geral. pois não? Conta-me. vivendo alternadamente as personagens que dialogam. Esse quadro fora entregue antes a Jaime Ovalle porque Bandeira não queria ver-se a si mesmo. o seu amigo Nijinski. Coube então a Schmidt mantê-lo em depósito. onde se hospedou. no quarto atulhado de malas e objetos.(é o seu retrato). em edição irlandesa. não quer falar no assunto. sem segunda intenção. A boca miúda faz o possível para dramatizar. brigado com Bandeira. fizesse um poema sobre um tal Leolino. Mantenho-me firme. constantemente. diz sorrindo — "e não mos deram". Assim brigam dois poetas. Ao chegar. olhar e mímica especiais. que cobra o mesmo preço e dá para o mar. Ovalle passou a tela à sua irmã Leolina. Queixa-se do hotel. Agora. Agosto. que amanhã ou depois farão as pazes. Agosto. ou para o Internacional. há muito tempo. Kipling. Os olhos claros movem-se entre rugas na pele fatigada. Pretende naturalizar-se brasileiro e quer um cantinho obscuro entre nós. Admirável explicação dos motivos que conduziram os líderes comunistas a se . 20 — O poeta Antônio Botto. Atribui a cada uma voz. e diz: — Vamos trocar um livro. este quer reaver o retrato. mas Schmidt. cachecol também de cor viva ao pescoço. Como Bandeira. dissera que "gostava de mamões" — "sou uma criança". 31 — Leitura de Le Zero et l'Infini de Koestler. hospedado em hotel de Copacabana.

e que se volta inexoravelmente contra ele. que o acompanha com doçura maternal. 8 — Visita de Oswald de Andrade e Maria Antonieta. sob as vistas da mulher. na noite de quinta-feira. tal a monstruosa subordinação a um fim que abstrai de qualquer consideração de ordem normal. Oswald mais parece um santo homem. Hoje. sua reincorporação gradativa do humano e contingente. Setembro. a lógica e implacável cadeia de raciocínios em que se deixa prender. Há uma desconcertante imparcialidade na obra. sacrificado por aquilo mesmo que enchera toda a sua vida. a tal ponto que. A desagregação da fibra do revolucionário Rubachov. de par com o interesse dramático que consegue manter (em mim. Levei meses a me aproximar deste livro. Às vezes. a tragédia do homem que se imola à política. mas qualquer nome ao acaso. não podemos deixar de considerá-la coerente consigo mesma e inspirada num interesse superior às razões da nossa moral comum. Koestler compôs uma das tragédias modernas. . que satirizava o mundo inteiro com um prazer de canibal saboreando as vísceras do adversário. diz ele) e distribui-se em amabilidades familiares. prevenido contra o seu sucesso mundial de obra de atualidade. que surgisse na conversa e desse ensejo a uma piada cortante. Sou forçado a reconhecer sua qualidade literária. nem eram mesmo adversários que ele devorava. Que diferença do homem de olhar aceso e inquieto. A figura de Ivanov não é odiosa. por mais que se coloque contra a do prisioneiro como alguém que não poderia agir de outro modo.confessar culpados. refletindo até o fim e consumando o sacrifício quando já não acreditava na utilidade desse sacrifício — tudo isso ressalta fortemente do livro e é realizado com recursos literários dignos de nota. mesmo sentindo horror pela mentalidade política que tritura desse modo a personalidade humana. nos processos de Moscou. o quase total desprendimento da coisa política era fator hostil a esse interesse). O leão está manso ("desta vez acertei a mão com o casamento".

resignados. Congresso de Escritores Outubro.* Na tarde de chegada do Presidente Truman. Em casa. com a minha resolução de lutar pelo caráter não político da Associação . o inevitável congestionamento de trânsito. eu não pretendia meter-me de modo algum nessa história. afinal. Sou ajudado quase exclusivamente por Francisco de Assis Barbosa. esperamos. Telefonando de manhã à noite. improvisando-me em executor quase solitário de breve e intensa campanha eleitoral. mas acabei arrastado por uma tendência obscura para a agitação. Como. mexendo — e tudo por um assunto que. Na fila do Castelo. 1 — Toda uma semana aplicada ao inútil esforço para conseguirmos uma boa delegação carioca ao 2º. que ao mesmo tempo me atrai e me desencanta. A princípio. Volto a transformar-me em político. chegado há muito e atacado de paralisia. Ela olhou com esperança para o carro e exclamou: — Oxalá! Palavra que não me lembro de ter ouvido nunca em minha vida. a chegada do ônibus 2. entregue ao preparo de cédulas. afinal. pedindo. Tive o prazer de causar pequenina apreensão aos comunas. contra o meu gosto. não me interessa muito. parecesse movimentar-se o ônibus. na área da literatura. julguei oportuno reconfortá-la com a notícia de que iríamos ter condução dali a pouco. e que supunha prisioneira dos livros. Uma senhora impacienta-se. que não aparece nunca. o que é sempre motivo para confraternização. a família acha-me outro. em Belo Horizonte. ao ajuste de nomes. negociando. Congresso de Escritores.

com um pouco mais de calma e de método. De qualquer modo. eu os teria derrotado. Tiveram de retroceder. Ou o dono da casa é que é um intruso. * Mietta Santiago. a delegação do Rio constitui uma vitória relativa do PC. isto é." Outubro. Minha impressão é que. por 5x4 votos. ante a ameaça de renúncia coletiva dos delegados eleitos pelo nosso grupo.Brasileira de Escritores. Divirto-me com as crianças que invadem a casa. expõe-me sua posição filosófica: "Do pescoço para baixo sou marxista. entre caretas. é de crer que eles ambicionavam representação ainda maior. dou-lhes a impressão de que sou um animal engraçadíssimo. tomando o lugar do palhaço nativo. Tal como foi organizada. bem diferente daquele senhor sério que é o dono da casa. de formação democrática. seria vazio e morto. ante a resistência encontrada. Contudo. e dispostos a impedir o desenvolvimento sectário dos debates. que congregue os intelectuais em torno de interesses até hoje não defendidos e até negados. visto roupas mirabolantes. que não tinha nenhum preconceito anticomunista: apenas. para convertê-la em órgão profissional. recolhido incomunicável ao quarto dos fundos? Se conquisto a confiança dos garotos e garotas. Resolveram. porém do pescoço para cima sou espiritualista e creio em Deus. e aos pulos e gritos. que . que eles não seriam apurados. 3 — Pequenas ocorrências que dariam prazer em outras circunstâncias (ou alguns anos antes) servem apenas para obturar um espaço que. sem elas. levaremos a Belo Horizonte um bom número de escritores independentes. os esquerdistas da atual diretoria foram derrotados. a escritora. que em 40 nomes conta com 18 ou 19. apurando-os. queremos ver a ABDE liberta do controle partidário. Na guerrinha dos votos por procuração. vendo-se afinal obrigados a moderar suas pretensões.

18 — Encerrou-se anteontem o 2? Congresso Brasileiro de Escritores. no aeroporto Santos Dumont. em Belo Horizonte. de opiniões divididas. Destacamse no debate Afonso Arinos. Ao Pingüim! Outubro. que se aproxima do socialismo. acrescento. instalação do Congresso. Que faço num baile? Chateio-me. A delegação carioca. clima de festa ambulante de intelectuais. pelo microfone. Xaroposa oração do ex-Ministro João Neves da Fontoura. baile no Automóvel Clube. agüentou três horas de espera de vôo. A luz abandona às vezes a parte do auditório ocupada pela Mesa. domingo à noite. Os trabalhos da Comissão foram facilitados por atitude recíproca de tolerância e cooperação. Meteram-me na Comissão de Assuntos Políticos. Dia seguinte. Mantenho o meu silêncio visceral. Os outros dias foram de trabalho diurno em comissões. "grande cidadão e amigo do povo". encontros de amigos. Aluísio Alves e Antônio Cândido. iniciado no dia 12. O letreiro da Associação Brasileira de Escritores. Palavras. Mas é coisa de uma tarde no ano. sinto-me vivendo outra via. filho. em madeira pintada de azul. Em Minas.passam a aceitar-me como um da corriola. Odylo Costa. pede uma salva de palmas para um ilustre componente da nossa delegação: o Barão de Itararé. Alguém. palavras. por indicação dos mineiros. que talvez fosse a minha natural e verdadeira. no fundo do salão. Nenhum debate menos cordial entre . aos quais. de Andrade). de que fiz parte. ou pouco mais do que isso: não deixa traço no tempo. Os dançarinos não se abalam com a revelação. e noturnas em plenário. depois de profligar os erros de nosso passado político. Alceu Marinho Rego. Lourival Gomes Machado. À noite. Seu presidente é Rodrigo (M. dera sua colaboração. onde Osório Borba dança com Eneida um samba amaxixado que faz arregalar os olhos às tímidas senhoras mineiras. ameaça desabar. F. passeios. só de longe em longe interrompido. Somos ao todo 24 membros.

estoura a bomba da moção do meu querido Aires da Mata Machado Filho. pois seus termos só se tornam . que prestigiaria o Congresso e a ABDE. na qual se esclareceu que. surpreendidos. deixaram a sala. A moção deixa estarrecidos os congressistas que participaram do trabalho da comissão política. amando a liberdade. No plenário. como na canção de Heitor dos Prazeres. os membros da Comissão. a ele não se subordinavam. e que importavam em unilateralidade de ponto de vista. anulando todo o trabalho de preparação para que o Congresso não se tornasse órgão de um Partido. Assim. levando a reboque os escritores que. Os elementos da Comissão. com deliberada ausência de ênfase. O primeiro. lê os dois documentos. Por ele. por Astrojildo Pereira. afastaram-se de discussão todos os pontos que pudessem extremar as correntes ali representadas. Como deixar de votar contra atos políticos atentatórios da liberdade de associação de mandatos populares? Mas a aprovação pura e simples de atitudes não consideradas antes pelo órgão competente. renunciavam a seus mandatos em caráter irrevogável. Alceu Marinho Rego vai ao microfone e. aprovando a moção Aires. Propõe que o Congresso de Escritores se dirija ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal — a este. ampliado com cerca de 70 assinaturas. tendo-se em mira a necessidade de chegar a resultado harmonioso. para que apresse o julgamento do caso do PC. na Mesa. Eis que. criou situação insustentável. nem ouvidos nem cheirados previamente a respeito do assunto. Define a atitude dos escritores contra o fechamento do Partido Comunista e a cassação dos mandatos parlamentares comunistas. onde nada se discutira a respeito. Outro documento foi redigido com a mesma presteza. deixa o plenário em suspenso. conservavam-se apenas fiéis à concepção democrática que implica a convivência normal de Partidos políticos. era tudo flores — flores naturais. e é aprovada por aclamação. para elaborar declaração conjunta. Os pontos de vista eram apresentados e defendidos habilmente. lida com voz grave. no penúltimo dia. nem por isso aceitavam os princípios e métodos do PC.escritores de esquerda e escritores democratas.

onde. antes do incidente. Lá não só se passavam horas tranqüilas e alegres como ainda. estimuladas pela presença da bancada paulista. depois das explicações de Nehme. à base de canções internacionais e imitação dos congressistas. Começa aí a agitação. Guilherme Figueiredo. presidente efetivo.conhecidos após a leitura dos nomes dos signatários. muitos deles altamente representativos. é também renunciante. e o ambiente. Oradores de um e de outro grupo se sucedem. A presidência vai ter às mãos de Astrojildo Pereira. passa a ser um pouco humorístico. renunciantes. Aluísio Alves declara que eles consideram finda sua missão. de um cômico irresistível. Antônio Cândido . que não chega a virar desordem mas que se vai prolongando e ameaça converter-se em crise comprometedora da própria continuação do Congresso. de pesado. procurando encaminhar soluções conciliatórias. Dir-seia que o Congresso acabou. Em torno da nossa mesa. impossível de obter em plenário. nós. presidente eventual dos trabalhos. esquecidos de servir a outros clientes. a gente vivia horas amenas. Palavras recebidas em silêncio. a que logo se agrupavam outras. Ele atende. depois das sessões normais do Congresso e mesmo antes delas. O Pingüim era realmente a solução para uma noite agitada de desentendimentos. por motivo especial: a questão de direitos autorais caminha para desfecho contrário ao seu ponto de vista conhecido. pelo alívio da tensão. mas qual! Um aparte de Mário Nehme. conseguíamos a confraternização de comunas e não comunas. Mas a renúncia dos elementos democratas da Comissão Política e seus adeptos. essa é mais dura de resolver. leva à renúncia o também paulista Paulo Mendes de Almeida. É constituída comissão para pedir a Paulo Mendes que volte. não reassume o lugar. tomamos a sábia resolução: — Ao Pingüim! Abandonamos o recinto e partimos para o bar da Rua Espírito Santo. Então. da delegação paulista. os próprios garçons se deixavam ficar. embora não se desinteressem do Congresso e desejem o seu êxito.

. pessoalmente. onde nos acolheu uma ridícula e constrangedora salva de palmas. noite emendando com madrugada. E bebíamos e cantávamos e esquecíamos o chato plenário. com os debates abertos a uma conclusão que exprimisse a média da opinião geral.. nessas ocasiões. dada a elegância com que ele se exprimia — mostrando que o incidente fora mais grave do que podia parecer. Otávio Tarquínio de Sousa. Mário de Andrade fez adaptação em português. de voltarem atrás. Lúcia Miguel Pereira e Júlio de Mesquita Filho traziam o compromisso dos comunas. quando uma comissão ilustre apareceu para solicitar nossa volta aos trabalhos. citando circunstâncias que evidenciavam premeditação e malícia. Sérgio Milliet atacava de Malbrough s'en va-t-en guerre. Tão melhor quedar ali. Décio de Almeida Prado introduzia uma canção de amigos-do-copo. e em automóveis fomos regressando ao Congresso. considerando nula a moção explosiva.entoava o caruru paulista. Mas era impossível resistir ao apelo sereno dos recém-chegados. em vez de debater no plenário tediosas questões de direito autoral ou. servir de instrumento aos comunas na defesa de princípios democráticos que eles nunca se lembram de pôr em prática nos países que governam. já aprovada. Nossos opositores presentes no bar. e Antônio Cândido fez uma espécie de discurso coloquial — que não chegou a ser absurdo no ambiente de bar. Tudo ficaria como dantes. Não faltava o PeixeVivo para consolidar a união extrapolítica dos congressistas. Recalcitramos ainda. paulista naturalizado. pela primeira vez escutado em Belo Horizonte. Orlando Carvalho corroborou a afirmação. se não me engano. Eu. . pois tinha elementos para afirmar que a moção fora elaborada sub-repticiamente pelos comunistas. Luís Martins. de que. por força de enredos maquiavélicos. e dela só não tiveram conhecimento prévio os congressistas alheios ao PC. reforçava a animação com imitações impagáveis de artistas e escritores conhecidos (coisa também da especialidade do múltiplo Antônio Cândido). iam-se aproximando pouco a pouco e aderindo ao coro.

entendendo-o. O plenário aprovou a declaração. A idéia de uma associação de escritores livres. partidários do mesmo ponto de vista. redigida por Arinos. Conosco. e tudo acabou em paz. mais do que os outros. Mesquita. De volta no avião da Panair. Nossa Comissão. exacerbada talvez sob os arranjos de ocasião. estávamos satisfeitos e insatisfeitos ao mesmo tempo. concluindo que o chope valia mais do que a estéril convivência com a minoria comunista. aprovou a tão esperada declaração de princípios. no dia seguinte. disposta a golpes daquela natureza. de maneira prática. e lá fui. Arnaldo Pedroso d'Horta e Pedro Mota Lima. Mas eles pouco entendiam o nosso ponto de vista. mas que Antônio Cândido reputou essencial. que é a maioria". Ressalva que a Mota Lima e Mário Schemberg parecia dispensável. Tudo acabou em paz. A luta doutrinária entre espírito democrático e espírito sectário prosseguia no mesmo ponto. sem direção . Ficaria sendo o único homem de convicções do nosso grupo. ponderou-me o Dr. Como é difícil aos escritores a escolha da palavra certa! Quem não é escritor acerta logo. além de cansados. em defesa dos direitos do escritor. Nenhum de nós queria impedir o direito de os comunistas se manterem organizados em Partido e exercendo atividade política renovadora. "O senhor nos colocaria a todos em situação constrangedora. Cedi aos argumentos de Júlio de Mesquita e Afonso Arinos — a renúncia de um dos membros da Comissão teria fatalmente de arrastar a dos demais. se é que. e nas outras ainda mais numerosas do nosso pensamento borboleteante de auto-objeções. é preciso atentar nas várias nuanças do vocábulo. preferissem fingir o contrário. Discutira-se muito e nada de positivo se resolvera. se assim lhe aprouver. reservas e sutilezas mil. ao qual se reconhecia o direito de manter-se dentro do domínio estético. Defendi a ressalva em proveito do escritor. Eu não pretendia tal coisa. e o repúdio "à ditadura de classe" adoçada e ampliada para "qualquer forma ou sistema de ditadura".relutei em voltar. como classe em embrião. de cara amarrada. com a fórmula "posição de combate do escritor" transformada em "posição de vigilância".

.00. ocorrerão no futuro. E o barraco foi demolido. em que os escritores. estão expostos no saguão da Câmara Municipal. Já ninguém pode morar ali.sectária. artistas e cientistas são parte mínima e desprestigiosa. sem proveito algum para a frágil.00 e o tal vereador ganha 15. que. Dezembro. fatalmente. 17 — A Prefeitura despejou do seu barraco na favela um vereador comunista. No mesmo jornal que dá a notícia. preferem assumir o domínio pleno da agremiação. Novos choques. leio que um deputado federal pela Bahia viajou de navio para sua terra levando o seu automovinho oficial. poucos e pobres.500. em vez de convivência pacífica. Os móveis. parece inconcebível para eles. mesmo que tenha renda (?) inferior a 1.000.500. imperfeita e Caricatural democracia brasileira.00. Motivo: na favela da Penha só pode morar quem ganhe menos de 1.

18 — Ontem à noite. "no meu colégio. o que me deixa bastante envergonhado. antigo secretário da Careta. Faz-me perguntas: "Quais os artistas de cinema que prefere?" E eu. nenhum." Junho. Helena agradece-me com o seu sorriso aberto. na Rádio Nacional. Renato aborreceu-se: estava fazendo algo sério. professor em estabelecimento oficial de ensino. procurando nomes que. no cartório do tabelião Leal de Sousa. Quando chegou a vez de "Vou-me embora pra Pasárgada". visita do jovem Renato Jobim. O melhor é que as perguntas me foram comunicadas com antecedência. em geral. faz-me autor de A Rosa dos Ventos e me declara colaborador do Diário de Notícias. O moço quis explicar: tratava-se de poesia. finda a amável conversa. aconteceu a crise. O diretor do colégio mandou-o calar-se. a gentil Helena Sangirardi converte-me em "cartão luminoso" do seu programa "Bazar Feminino". e as respostas também combinadas antes. 14 — Às 15:00. onde nunca escrevi uma linha. os assistentes riram. e poesia de Manuel Bandeira. cuja literatura parnasiana li muito em criança. e me surpreendia pelo rebuscado das frases. 18 — Às 11:30 da manhã.1948 Fevereiro. Uma das frases previstas é: "Estão telefonando para perguntar qual o primeiro poema que você publicou". na bobeira. retrucou o diretor. não. poeta amado e respeitado. não aparecem na hora. Ouvindo o tal da pedra no caminho. Fui servir de . "Qual o seu passatempo predileto?" Como se o tempo me desse folga para passatempos. Conta que foi recitar poemas modernistas em festa colegial. Março. "Que prato sabe fazer?" Desgraçadamente. Não admitia "prostitutas bonitas" nem alcalóides nem processos anticoncepcionais. "Nada disso". Citando títulos de livros.

O tabelião acrescentou que o testamento. leio que ela . Quando o filho de Leal de Sousa mencionou que o poeta "estava no pleno gozo de suas faculdades mentais". derrete o bastão de lacre na chama de uma vela e vai fechando as pontas do documento. sem avisar Lúcia. telefona-me à noite. A própria rotina pode tornar-se estranha. Como jornalista-amigo. à sua direita. Pompeu. O tabelião leu o termo da cerimônia.. Espeta um dedo. que se convertera ao espiritismo e redigia A Nota. que estava calmo e superior. Não me senti autorizado a resolver.testemunha ao testamento cerrado de Manuel Bandeira. 16 — Choque. em homenagem à poesia. consultando se pode "dar a notícia". Otávio (Tarquínio de Sousa). Por último. sobre o castiçal ensebado. com espírito jornalístico. Rodrigo e Tarquínio. oficial interino. com a esposa inquieta pela sua ausência não explicada. na Livraria Quaresma. Tarquínio contou-me que já fizera o dele. Ele não compareceu. Prudente (de Morais. e foi substituído pelo filho. começa a coser o testamento. O próprio tabelião lhe arranjara as testemunhas de praxe. de Andrade). a carimbada.. Chegando em casa às 13:00. num vespertino. tinha alguma coisa de estranho. compareceu Pompeu de Sousa. a importância do testamento'do poeta. o escrevente. que nada cobrou a Bandeira pelo serviço. levado talvez por Prudente. diante da mesa presidida por Bandeira. ao saber da morte de Eugênia Álvaro Moreyra. Conde. e a gota de sangue mancha as costas do papel. munido de agulha e de grossa linha vermelha. Junho. O ato não tivera. Bandeira teve uma expressão e um mover de rosto que despertaram sorriso nos presentes. Prudente e eu. Em seguida. Eu estava curioso de conhecer o poeta-tabelião. Pompeu. mas que não deixou de me impressionar. fora escrito "em língua nacional". à esquerda. no quarto andar comercial. Finda a leitura. F. comunicou-lhe o fato. que ele "tinha visto mas não lido". em Petrópolis. Aquela velinha acesa. Ato rotineiro. assim. jornal de Geraldo Rocha. neto) e João Conde. As outras foram Rodrigo (M. Logo depois.

18 — O poeta-boêmio Paulo Armando batizou-se recentemente. O autor é D. Guardo de Eugênia a imagem luminosa de há 20 anos ou mais. perante comunistas sectários. Mudando-me para o Rio. monge do mosteiro de São Bento. Junho. Foi mulher encantadora e brava. Nunca esmoreceu. Pagou caro por suas idéias. E Álvaro era meu ídolo literário. Junho. tão ligada ficou à minha sensibilidade. que recebe anualmente cerca de um milhão de percentagem sobre o faturamento da empresa. embora já agora eu considere criticamente a sua prosa. Grande Eugênia. e devo a ambos alguma coisa: a ele. Sente-se feliz com o ingresso no catolicismo e conta-me que no dia da cerimônia recebeu da senhora de Gustavo Corção um poema sem assinatura. E defesa de que só vim a saber mais tarde. a ela.será enterrada às 16:00. por um amigo comum. Junho. que adotou mais tarde. as botas. impugnou essa loucura. até zangada. a defesa intransigente. mas ficou a ternura que me liga até hoje à admiração da mocidade. diretor e proprietário do jornal. sem deixar de amá-la. mas o gerente. gravada em mim naqueles dias belorizontinos da breve passagem do casal Álvaro Moreyra por lá. palavras de simpatia por ocasião de minha infeliz passagem pela Tribuna Popular. Paulo Bittencourt. e a poesia era para ela um valor essencial. em intenção de minha alma. 24 — Missa de sétimo dia por alma da querida Eugênia . nas colaborações para o suplemento literário do Correio da Manhã — avisa-me Álvaro Lins. Um incidente bobo afastou-me dele em 1928. que conduziu Paulo para a religião. o esquerdismo político não deformaram a figura dessa bela mulher. O charuto. de meu comportamento intelectual. inclinava-se a aumentar 250 cruzeiros. dizia as verdades na cara. de quem eu copiava até as reticências. tive a alegria de reatar relações com o casal. Marcos. 20 — Fomos aumentados em 50 cruzeiros por matéria.

ao chegar de viagem ao estrangeiro. Religião sentimental. . 25 — Almoço no Albamar. Junho. José Lins lembra que. Estão ali como numa academia. Senhora francesa. À noite. como sempre. que torna sentimental e religioso o próprio comunismo. No fundo. em São Paulo. Maria Antonieta. — Não — respondeu ele. que estava repleto. repleta de jóias. o que deixa Oswald entusiasmadíssimo. E conta que no Congresso de Escritores. também num restaurante. Reparei como é bonita a igreja do Carmo. — Sou um monógamo em série. ditos de uma mesa vizinha. à procura de sua mulher atual. Oswald me telefona sobre a condessa: — Precisamos remover-lhe os preconceitos artísticos. juntamente com Aníbal Machado e José Lins do Rego. Mandada celebrar pela família. Ouvimos discursos e versos. para conhecermos a Condessa Penteado. Aníbal a Oswald: — Você é um polígamo espetacular.Álvaro Moreyra. a convite de Oswald de Andrade (há muito estamos reconciliados). mas por falta de sorte só divisou as cinco anteriores. Na conversa. investir 70 milhões na fundação de um museu de arte e de uma escola de belas-artes em São Paulo. boa criatura — é o que se pode dizer dela. Propôs pagar 70 mil. Vinte visitas por 350 mil cruzeiros — c'est trop fort. percorreu todo o recinto. São 70 milhões a aplicar. onde amigos se despedem do companheiro que vai viajar. loura. ou seja. e a música do órgão. e de sua intenção de cumprir a vontade do falecido Conde. no estilo brasileiro. Gilberto Freyre foi alvo de discurso que lhe pespegou Luís da Câmara Cascudo. O médico recusou: preferia não receber nada. A Condessa impressiona-se com a conta de honorários médicos pela assistência prestada ao marido. os dois sozinhos à mesa. mexeu comigo.

mas não sabe por onde andará. Respondi: "Não morei. Quando moço. Agora. teve uma filha natural no Engenho Pau-d'Arco. vivido. encontrando a empregada em conversa com um soldado de polícia. Sua mãe era uma senhora nervosa. aludi à tuberculose. você seria insuportável. Uma vez eu disse a ele: "Facó. Não admitem que ele tenha morrido tuberculoso. Certa vez. servi junto ao Ministério da Guerra." A propósito do seu e meu amigo Américo Facó: — Ele encontrou um elemento para encher a sua velhice: a poesia. que passava dias trancada no quarto. Outras reminiscências de Órris: — Quando eu era funcionário do Tribunal de Contas.. Que fim levou esse rapaz?" "Morreu. sua doença. amadurecido. o Ministro foi visitar a repartição.. foi parnasiano discutível.. na Livraria Civilização Brasileira: — A família de Augusto dos Anjos aborreceu-se porque. mas o antigo Capitão Dutra talvez se recorde de mim. aprofundando o mistério das palavras. Ao lhe ser apresentado. Ninguém poderia fazê-lo tão bem.. eu me lembro dele. se o fizesse bonito. Um dia. excelente conversador. a natureza foi sábia fazendo você feio. o poeta.. pois o autor é o próprio Narciso. General. pois quando o senhor morava numa pensão da Tijuca. Era o General Eurico Dutra." Órris conta que o poeta." E Dutra: "Ah.Lembranças de Órris Soares Órris Soares. Não o faço diretamente porque não ficaria bem a uma dama da minha categoria. achou a verdadeira poesia." ." "Ah. sim. o senhor também morou lá"? perguntou-me ele. chamou o filho Artur e recomendou-lhe: "Diga a este homem que se retire. quando mocinho. Ela deve ter hoje uns quarenta e tantos anos.. mas ia lá todos os dias visitar o meu amigo Augusto dos Anjos. ao prefaciar o Eu. Seu poema "Narciso" é admirável. falei assim: "O General Dutra não me conhece.

filhos do pouco saber. a saudade dos filhos distantes. aqui e ali. o choque com aqueles que.. a delicadeza de suas expressões. que também acabei por admirar. não se ajustam à sua extrema e refinada sensibilidade. nas cartas de seu marido." Tendo estudado apenas em modesto colégio do interior.1950 Cartas Maternas Janeiro. É a queixa da viuvez. a preocupação de todos os minutos com a saúde. em outra nuança. E não sobre si mesmo: sobre a areia em redor. acostumado como estava a encontrar nela apenas o ente sensível e romântico. em que eu ainda não atentara bem. estando perto. Estive relendo suas cartas. esta viril. o espírito bem-formado e seguro das razões morais de sua vida. "Perdoa os erros. depois de perder. a veemência afetiva de outras. e da criatura acometida pelos sofrimentos físicos mas encontrando na devoção religiosa o consolo e o remédio para todas as provações. Sem aspirar ao sol senão muito raramente. o culto minucioso da memória do marido. de 1925 a 1947 (a última escrita por sua mão é de 1º. o subentendido discreto de umas. . Há em todas um profundo lamento: do ser apegado à família por intenso amor. Fico observando. de fevereiro de 1947. 5 — Ganho de presente um pequeno cacto amarelo. 3 — Amar. Fevereiro. que pede só duas colherinhas d'água cada trinta dias. sabia entretanto dar ao pensamento a forma justa e impressiva. a felicidade e a salvação de cada um.. aguçado pela separação ou experimentado no desentendimento passageiro. o bem-estar. as demais foram ditadas).

todos os animais à espera da morte ou já mergulhados nela. Na tese de doutorado. * Contado por Prima Pitu (história dos velhos tempos mineiros): — O Dr.— Me deixem ficar aqui no meu canto — parece dizer-nos — dispenso carinho. Não houve missa. marido de D. porque Gilberto Freyre não . apesar de marcada. para botar lá sua irmã. os corpos depilados e abertos dos coelhos pendentes. em conversa com Paulo Mendes Campos: — Sabe que só agora descobri dois grandes escritores: Tristão de Ataíde e Mário de Andrade? O segundo. homem de iniciativas. no recinto de onde se desprende a fumaça do matadouro de aves. os porquinhos encurralados em caixote onde nem sequer podem virar-se. Explicação? Nenhuma. Médico de espírito humanitário. 2 — Olívio Montenegro. as rãs amontoadas umas sobre outras." Excelente homem. publicamente. assim agarrado à secura e ao isolamento voluntários. E assim miúdo. fundou uma escola agrícola e duas fábricas de tecidos. costumava queixar-se da mulher junto à sua cunhada D. preconizou o arrasamento do Morro do Castelo. Saio e passo pelo Mercado Municipal. o Dr. E não era feliz. como o grande exemplar de que fala Manuel Bandeira. para higienização do Rio de Janeiro. Fevereiro. Olímpia: — "Se o inferno não existisse era preciso inventá-lo. Se não é belo. Abril. executando movimentos lerdos e inúteis. e a querer dispensar-lhe atenções mortais. 8 — Levanto-me cedo. Leopoldina. onde me horroriza o grito das galinhas degoladas. Guerra. intratável". para ir à missa por alma de Rosa na igreja da Santa Casa. mostra-se pelo menos "áspero. Domingos Guerra. a gente já começa a sentir peninha dele.

no seu pequenino apartamento na casa de saúde. candidato do PSD à Presidência da República. com animação de teor característico. haveria uma enorme gelatina. 18 — Luís Martins. na sede do PSD. Depois deles. no dia seguinte. Sérgio Milliet. 25 — E vamos para a campanha presidencial de Cristiano. a Rodrigo (M. publicidade (Luís de Bessa). importado de Belo Horizonte. você acabou. 20 — Faria hoje 81 anos. Israel Pinheiro. vindo de S.me deixava conhecê-lo. 21 — Perspectiva de trabalhar com Cristiano Machado. Maio. Hoje à tarde. Expliquei-lhe que só disponho de poucas . o fino e silencioso Cristiano Martins. Chega depois. de Andrade) e a mim. F. que me diz: — Copiei a mão seus dois primeiros livros. cheia de gente que preliba o poder. É o que me consola. Maio. pois por sua causa deixei de fazer versos: tudo que eu pretendia dizer já estava dito por você. Entendeu? Entendi. A volta. Abril. Seria a última vez? Valia a pena viver longe dela? Faria 81 anos? Faz. Ciro Mendes. a moça loura que é cantora lírica e veio ajudar na burocracia. Eu que nada tenho com esse ou outro qualquer partido. Maria Eugênia Franco. Mas os deveres da amizade. que não eram encontrados nas livrarias. Um velho porteiro borgne. convida-nos. Ontem pela manhã. mandachuva do PSD. eu tomaria o avião para jantarmos juntos. Lá está a "bancada" paulista: Lourival Gomes Machado. este burro-cansado. — alguém me lembra. importava em despedida difícil. Maio. distribui o serviço em três setores: secretaria (Cristiano Martins).. em casa do candidato. oratória escrita. e sinto tédio da burocracia e da política.. Eles existem mais depois que se foram. De manhã. Entre os muitos pratos. Paulo. para um papo no Alcazar. A poesia fugiu de você. um secretário jovem com o seu próprio retrato na parede.

Israel. Sinto o interesse de ganhar a vida fora do círculo paternalista da burocracia. 4 — Almoço em casa dos Gondim de Oliveira. * A bela tarde. Junho. A primeira era um cavalo de raça. da revista Cruzeiro. grande executivo. cai docemente sobre os ombros maduros. para felicitá-lo pela sua palestra no rádio. 19 — Na Livraria José Olympio. Naquele ano passaram pelo Recife três celebridades a bordo de um navio que vinha da Europa e seguia para Buenos Aires. que custara 800 contos de réis. ainda sem . 27 — Tive a idéia gentil de telefonar a Marques Rebelo. Projeto de criação de uma revista infantil moderna. Maio.horas por dia e não quero prejudicar meu trabalho no PHAN. Pergunto-lhe se conheceu o poeta. parece não levar nada a sério. em Ipanema. Acho que não será propriamente do meu gênero fazer uma revista assim. presenciei uma cena que jamais contei a ele. A segunda era Sarah Bernhardt. e ele me diz que detesta rádio. falecido há pouco. Mas a dona da casa mantém comigo uma conversa de caráter moral e religioso que me deixa pensativo. a conversa com Órris Soares recai sobre Da Costa e Silva. e ele responde: — Fomos amigos e contemporâneos no Recife. dirigida por Lúcia Machado de Almeida. Em 1906 ou 7. e ri de qualquer objeção ou ressalva. Reações de Olavo Bilac Julho.

se por acaso você for partidário da Alemanha". Chega Bilac.. — Em 1917. eu e Heitor Lima conversávamos sobre Augusto dos Anjos. e o secretário dela foi inflexível." Disse mais duas ou três palavras e retirou-se. A Cisma. também de passagem pelo Recife. Detesto Goethe. e Paulo convida-o para sentar-se à nossa mesa. deixando o volume nas mãos dele. e Paulo interpela-o sobre a guerra. e não pude aproximar-me.. E a terceira era Olavo Bilac. Ele o recebe amavelmente e diz: "Vou ler este seu livro com o mesmo apreço e simpatia com que li os anteriores. você que arranha francês. levoume até ele. dizendo: "Poetas e bananas só produzem doenças no Brasil". "Seu Órris. pois a amputação se deu em 1915. Estávamos os três conversando quando chegou um rapaz de olhos divergentes e disse a Bilac:"Mestre.perna artificial. ergueu a mão e. disse-me o diretor do Jornal Pequeno.". estávamos Paulo da Silveira e eu na Lopes Fernandes — uma casa de refrescos que havia na Avenida Rio Branco. detesto chucrute. Mas ele também estava rodeado de admiradores e de cuidados. tentei ver o cavalo. plena guerra européia." Entrei no navio e barraram-me o acesso à atriz. Encontro Bilac na rua e entrego-lhe o volume. que acaba de aparecer. João do Rio. Bilac adiantou-se. Desanimado. Restava o poeta. retifico que o fato deve ter ocorrido em 1908. retruca o poeta. Última e implacável revelação de Órris sobre o Príncipe dos Poetas: — Um dia. ano de publicação de Sangue. Insisti. "Não me fale de guerra." "Pois não. . De passagem.. "Eu detesto a Alemanha. e a quem eu já conhecia do Rio de Janeiro. vá a bordo e procure entrevistar a divina Sarah. de cuja morte eu acabara de ter notícia por um telegrama. lançou o livro ao mar. detesto Wagner. Peguei alguns exemplares e fui oferecê-los aos grandes do tempo." Eu nunca tinha publicado nada antes. eis aqui o meu livro Sangue.. Então. Ele aceita. — Em 1915 — prossegue Órris — publiquei uma peça de teatro.

o empregado a quem incumbira de ajudá-lo começa a chorar no meio da rua (o escritório está situado em cômodo do andar térreo. Vou secundá-lo nessa tarefa. Bilac ouve e comenta: "Pois eu acho que ele devia ter morrido antes de escrever uma barbaridade dessas. e foi uma pena ter acabado esse encontro. Eu conversava naturalmente com o Velho. quando me acordam para o café. que me ouvia pacatamente. Atravesso a pequena multidão e entro no escritório.Aparece Bilac e pergunta sobre o que estávamos falando. Alberto. arregalou os olhos escandalizados: "Entre os grandes poetas brasileiros? Não é possível. Meu pai. em nossa casa de Itabira. isso. me sentia muito cordial. aventurei-me a dizer-lhe que achava Machado de Assis digno de figurar entre os grandes poetas brasileiros. Versos a Corina e Círculo Vicioso. Tão raro. Heitor contalhe que era sobre a morte do poeta Augusto dos Anjos. Entre os grandes prosadores. não!" Parecia sentir-se lesado pessoalmente com este juízo. Não sei por quê. sem responder. Digo a meu pai. Ele acaba de reformar o seu escritório. "E que poeta era esse?" indaga Bilac. 21 — Já pela manhã sonho com meu pai. Como resposta. Juntaram-se curiosos. Heitor diz um poema de Augusto." Finalmente. (Chegando em casa. e dispõe-se a arrumar as coisas. o senhor não acha? " Mas sinto que eu não soube exprimir bem a sensação de espaço amplo que o escritório me deu. 29 — Cyro dos Anjos e eu empenhados em ajudar a . entre os grandes poetas. Órris Soares lembra Alberto de Oliveira: — Certa ocasião. Julho. e vou começar a fazê-lo. na Livraria Garnier.) Julho. para agradar-lhe: "Ficou esplêndido! Parece que ficou maior. que dá para a Rua Municipal). vai à rua e logo volta carregando alguns objetos de que não me lembro bem. concordo. abro as Páginas de Ouro da Poesia Brasileira e vejo que Alberto de Oliveira não desdenhou de incluir nessa antologia três composições poéticas de Machado: A Mosca Azul.

Ou não deixa perceber as suas dúvidas. em 1934. Cristiano. me pediu para a revista (e deve ter . Nem sequer o vi algum dia na rua. Ouve-se dizer que políticos governistas mostram-se frios quanto à sorte do candidato oficial e inclinam-se para o lado de Getúlio. que vem despertando o interesse das massas. Carlos Outubro. com um poeminha que Elcias Lopes. gentil e ocupadíssimo com as conversações políticas e sigilosas articulações partidárias. em geral aprova nosso trabalho. Isso não aconteceu.candidatura de Cristiano Machado à Presidência da República. Parece confiar em sua estrela. J. Na década de 20. imperturbável. Já tenho seis discursos no papo e a campanha parece de resultado incerto. Os especialistas sobre temas econômicos são convidados a fornecer subsídios técnicos e nós preparamos e recheamos o empadão retórico. 2 — Senti a morte de J. Eis-nos fabricantes de discursos políticos sobre os mais variados assuntos. Só muito mais tarde isso aconteceu. Às vezes recusamos dados. Em Campos. era conhecê-lo. e na Ilustração Brasileira. pela insuficiência ou impropriedade deles. eu vivia esperando que ele ilustrasse uma dessas bobagens.. ao mudar-me para o Rio. introduzindo esse ou aquele traço de estilo pessoal. Carlos como se fosse a de um amigo. comecei a ler a Careta. O candidato. menino de calças curtas. redator do Fon-Fon e inspetor federal de ensino. desde a instrução pública até o cacau.. Há laços mineiros que anulam o nosso natural retraimento. desde que. faltou entusiasmo ao comício e jogaram uma bomba de fabricação caseira. Um de meus desejos. E ele foi das pessoas mais importantes para mim. quando Álvaro Moreyra publicava minhas coisas no Para Todos. vai seguindo o roteiro traçado. Tarefa divertida? Nem sempre. que produziu queimaduras numa perna de Cristiano. Nunca ilustrou. apesar de tudo. e temos que nos converter em entendidos de ommi re scibili et quibusdam aliis. por acaso.

Sente-se a total incapacidade da burguesia dominante em perceber o avanço das forças proletárias. a incrível desorganização do PSD e. com Getúlio no . por seu intermédio. inteiramente sob o fascínio de Getúlio. tenho certeza). e eu podia conseguir. Espécie de nostalgia do tipo de poder e de chefe a que estavam longamente habituados. contribuiu notavelmente para este resultado. merecia ser satisfeita nos dois desejos. pequena receptividade da campanha de Cristiano. abandonaram Cristiano e sufragaram Getúlio. Mas até a distância entre o Brigadeiro e Getúlio. nas urnas. Para se elegerem governadores. pelo Brasil afora (dizem que até os trabalhadores rurais). "pai dos pobres". todos apelidos simpáticos. Por último. menos conhecido no Brasil. a vergonhosa transferência de muitos de seus maiorais para o campo queremista ("queremos Getúlio").. Fenômeno impressionante de cristalização da fé popular no velho ditador derrubado em 1945 e agora ressurreto com uma força que antes não chegara a ter. Uma admiração de infância. no dia 3. Venho da casa de Cristiano Machado. Verdade seja que a inépcia do atual Governo. é considerável. 12 — Quase meia-noite. "barrigudinho". Além disto. Herman Lima era seu grande amigo. Fiz mal em não me mexer. em face dos outros disputantes: Getúlio e Brigadeiro Eduardo Gomes. senadores e deputados. de inspiração e origem oficiais (em 1945. que continua pela vida afora.. Viu-se a massa. que desejava a derrota de Getúlio. com o apoio dos supostos antiqueremistas do PSD. A própria cúpula do Partido Trabalhista. Coube-lhe um melancólico terceiro lugar na votação. Foi fragorosamente derrotado por Getúlio Vargas. por fim. "pequenininho". ser apresentado ao caricaturista da minha devoção. que em troca mandou votar nesses candidatos do partido adversário. Vitória total do queremismo. A Eleição Perdida Outubro.pedido a ele para ilustrar.

Rio Grande do Sul: Porto Alegre. mas não desanime. Guaratinguetá. você tem me ajudado muito. Minas: Belo Horizonte (dois). pedindo-me que leia os seus versos. Nosso candidato vencido manifesta excelente aspecto físico. Vejo que. Balanço de Uma Campanha Outubro. pendendo ora para um lado ora para outro. na correria. Itajaí. na parte de discursos — para devolver tudo ao nosso ex-candidato." E pondo-me a mão no ombro: — Como vê. almoço na Central do Brasil. Presidente Prudente.. Estão limpando a consciência. Bauru. perpetrei. O poeta me diz: — Quando me procura um desses "pardais novos" (poetas da nova geração). Sabará. São Paulo: comícios em Vila Queimada. levemente retocados pelo orador: Rio: convenções do PSD e do PST. Eu não escrevi nada que prestasse antes dos 27. E o Drummond também. Erexim. Santos e São Paulo ( o último. sem pronunciá-los. Barretos. Outubro. A resposta chega. Paraná: Curitiba. os seguintes discursos. Ribeirão Preto. costumo perguntar que idade ele tem. Corumbá. decerto não se dá conta de que o mito getulista só poderá resistir ao tempo mediante uma política social cada vez mais avançada. 15 — Conversa com Manuel Bandeira. Campo Grande. Seu apartamento estava cheio. Cyro dos Anjos observou-me que certas pessoas fazem questão de procurar o político malsucedido. Estado do Rio: comício de Campos. não pronunciado). Aí eu digo: "Pois olhe. Pelotas. Mato Grosso: Cuiabá. para ficarem pensando bem de si próprios.poder). Goiás: Goiânia. seus poemas são muito ruins. . a 23 anos. no máximo. Santa Catarina: Florianópolis. 16 — Continuo arrumando papéis — o dossiê da campanha política malograda. e não de simples compromisso entre reivindicações trabalhistas e interesses conservadores.

nos bastidores. sendo vários no gênero catatau.. exigidos pelas circunstâncias. Ajudou ainda Cristiano em diversas viagens. As piadas realçam-lhe a simpatia. Não posso fazer nada . Cristiano Martins. Sobre Eduardo Gomes. Bem merecido. E voltam-se contra os candidatos que o enfrentaram e que foram derrotados por ele. de despedida pelo rádio.Uberlândia. e quando este ia transpor a porta de saída do apartamento. Palavras. Ao todo. tão polido. Campinas (SP) e São Paulo. Como parlamentar experiente dotado de grande charme pessoal. o gesto definidor da Musa paradisíaca. paciente. Eu vi o próprio Cristiano. fez-lhe. Sergipe: Aracaju. Espírito Santo: Vitória. tão fino. Nossa Senhora não atende aos seus rogos: — Você sempre desprezou as mulheres. aliás. Uf! Que eu saiba. Conquista e Feira de Santana (este. que o traía. 18 — A vitória de Getúlio Vargas na eleição presidencial incentiva o folclore político que o envolve. Ceará: Fortaleza. porque discurso não ganha eleição. Ilhéus. Amazonas: Manaus. que lhe eram desfavoráveis. Pernambuco: Recife. palavras. está circulando esta anedota. a esperteza. Alagoas: Maceió. Araguari (MG). despedirse de um alto correligionário do PSD.. na cidade: Insatisfeito com os primeiros resultados da apuração. Mas tudo foi inútil. Pará: Belém. o carisma. Ubá. Os demais discursos proferidos foram improvisos do candidato. Bahia: Salvador. o Brigadeiro vai a uma igreja para apegar-se com a corte celeste. Maranhão: São Luís. Correspondeu ao abraço ritual do homem. não lhe foi difícil atender a essas situações. incumbido da formidável correspondência. o que as vence é algo misterioso. diretor de Secretaria da campanha. pelas costas. Natal (não pronunciados). Folclore Getuliano Outubro. quarenta. não aproveitado). também escreveu um discurso final. Cyro fez discursos para Teresina.

Por mim. em casa de Cristiano. depois da eleição.. recorre a São Sebastião: — Ah. sem qualquer preocupação ética. e deseja fixar alguns pontos comigo. visando a tripudiar sobre os vencidos. gritando: — Viva Getúlio! Viva Getúlio! Em parte. gostaria de sugerir-lhe que não declare nada. revela-se-me esta coisa Mas se você era contra os negros. Cristiano Machado pede-me que vá ao seu apartamento. muita roupa suja será lavada. Outubro. mas a sala está cheia de gente. É a primeira vez que conversamos a sós. — Por isso não — responde-lhe o Brigadeiro. uma coisa boa e bela em si. 21 — Ontem pela manhã. estou preso a este tronco de árvore. Ele volta-se para o altar de São Benedito: — ajudá-lo? Afinal. Pouco a pouco. a fim de que eu possa redigir o documento. Lá compareço à noite. como é que eu posso . 19 — Pelo telefone. Venceu. O santo. neste caso. O folclore getuliano dá às vezes a impressão de ser laboriosamente fabricado e distribuído.. tirando-lhe as setas. Não me dá uma impressão geral dos acontecimentos. e crivado de setas. uma vez terminada a apuração. e liberta-o da árvore. Pensa em fazer declarações sobre o pleito. põe-se a correr. as anedotas deste tipo.em seu favor. e as piadas políticas em geral. e a conversa oscila entre esse e aquele aspecto do quadro. a menos que esteja disposto a revelar a verdade das traições de que foi vítima — e. Outubro. Mas há também a parte calculada dos que desejam explorar o triunfo por todos os meios. vendo-se livre. para conversarmos "sobre algumas hipóteses". é o maior. meu filho. resultam do entusiasmo que o vencedor sempre desperta nos que consideram a vitória uma prova de grandeza. e a conversa é adiada para amanhã cedo.

que determinaram sua derrota. Pondero-lhe que a matéria a ser ventilada nesse texto será de natureza escandalosa. omitindo o fato de que fora padre. onde morava. foi a mais correta possível. Depois de admitir a hipótese de anulação do pleito. O mesmo Severiano tinha em casa um enorme sapo feito de couro. mas tenho os olhos no céu. A vitória de Getúlio foi esmagadora. E entrava sorrateiramente numa igreja. Cristiano. Apenas acha que é um assunto a ponderar — e saio depois de prometer-lhe que escreverei um esboço de declaração. Rabisquei hoje de manhã o tal papel e entreguei-o logo a Cristiano. a ditadura. E todas as manhãs. que devia estar completamente desiludido de tudo e de todos. a ser redigido. declaração ou que nome tenha. Estou plantado no chão. com esperança (e quase certeza) de que não será aproveitado. ainda admite a possibilidade de anulação do pleito. Se anulada. já que não poderia mais celebrá-la. E se não houver nova eleição. o excandidato fala no manifesto. 22 — Otávio Tarquínio de Sousa conta-me que o poeta Severiano de Resende se casou com uma francesa. em outra eleição será ainda mais estrondosa. Isto me parece totalmente fora da realidade. durante toda a campanha. nada tem a explicar nem por que justificar-se. saía de casa sem dizer à mulher o que ia fazer.surpreendente: o candidato. e costumava dizer: — Sou como este sapo. será a ilegalidade. Outubro. Há por aí um vago movimento visando a esse fim. Ouve-me sem dizer algo de positivo. com base na apuração feita em desobediência a certos dispositivos do Código Eleitoral. o caos. em Paris. Assim. . tais as manobras indignas de correligionários. para ouvir missa. valerá a pena expor tudo isto? A atitude dele.

Manuel Bandeira. Além de úlcera no estômago. porém. 22 — Tarde de chuva fina. Junto à livraria. seu mais íntimo amigo. F. A enfermeira dava de comer a Manuel. o poeta vem sofrendo dos rins. inspecionam por conta própria. mas no decorrer da visita foi-se animando e entrou a conversar. observo minuciosamente as ruínas do tempo. Talvez não sejam novidades para Rodrigo. Mas os novos se . Para não sofrer com o espetáculo.1951 Janeiro. Manuel Bandeira Enfermo Dezembro. máquina fotográfica a funcionar independente de mim. coisa que eu nunca lhe ouvira antes. Dir-se-ia que a idade o anima a essa abertura. no centro. às 11:00. ao entrar no quarto. A radiografia acusou um cálculo entre o ureter e a bexiga. A sonda o imobiliza. Apenas um grupo pequeno prestava atenção na gente. Finalmente. a conversa se desvia para os novos poetas. 29 — Rodrigo (M. chove na memória. preferia fechar os olhos. Ele se mostrava muito abatido. O tempo é o mais cruel dos escultores. Só depois dos 50 anos é que comecei a ganhar dinheiro com os meus livros. às vezes com um leve sorriso. que me sorriem. e desde anteontem sentia dores horríveis. Chove no passado. Ouço com discrição. foi má. e Pedro Nava tem influência na casa. e trabalha no barro. pondolhe a colher na boca. Manuel faz confidencias. E Manuel comenta: — Nós todos levamos muitos anos para ser conhecidos. Eles. para onde ele conduziu hoje. Minha primeira impressão. O radiologista inspira-lhe confiança. de Andrade) leva-me à casa de saúde da Rua Bambina.

Manuel conta que o urologista encontrou não um. 30 — Manuel com aspecto muito melhor. que pensa em avisar os sobrinhos de Bandeira. que me espanta. na visita que lhe fizemos hoje ao entardecer.apresentam com uma sede de glória imediata. Rodrigo. A hipótese é grave e preocupa Rodrigo. sempre atento. Saio com a impressão de que a visita levantou o tônus do poeta. acha insuficiente a sopa que lhe dão como alimento único. O poeta levanta-se sozinho para jantar na mesinha do quarto. mas três cálculos em descida pelo ureter. . Dezembro. Lá estava João Conde. O que ele não sabe é que talvez seja necessária uma cirurgia para eliminação deles.

. 11 — Nosso bardo deixou hoje a casa de saúde. que me rendeu oportunos 2 mil cruzeiros em direitos autorais. e diz: — Em 1922." Aprendemos muito com aqueles que jamais souberam de nossa existência. Que é que a gente diria se um camarada falasse numa semana de arte moderna realizada em Assunção? No Brasil. E outro. 28 — Saiu Viola de Bolso. * Leituras. E foi para a casa da Estrela Vésper. idem. Picasso já estava enjoado de modernismo e mergulhava na fase grega. Aí apareceram os nossos modernistas.1952 Janeiro. que o recebeu com carinho. Maio. ao contrário do que se receava. * . Não leva a sério a Semana de Arte Moderna.. depois de intervenção cirúrgica com anestesia geral. 16 — Portinari vem conosco de automóvel para casa. Março. Revelou espantosa capacidade respiratória. sobre pintura. o cara que aplica uma injeção em Uberaba vira logo Pasteur. Como sempre. Pinço em Victor Hugo um verso que parece me definir: Une immobilite faite d'inquietude. em Mário de SáCarneiro: "Fartam-me até as coisas que não tive. ele faz toda a despesa da conversação.

Tive ímpetos e descaídas. — sem sentir." Novembro. fotógrafo boêmio e hábil restaurador de livros e painéis. O tempo é contínuo. . não ele. ela deu o endereço: — Apareça lá. uma pessoa? Qual o número da cova? — perguntou-lhe Borgatti. que importância teria destacar um ano. Acabada. obrigado a retirar a promessa. Um rapaz que se diz meu admirador e é bancário induziu o banqueiro seu patrão a admirar-me também. achando graça." E queria ver a cara dele." Sorrio. Por que ter esperança no ano próximo e desacreditar o que passou? Eu é que passei. quase Moro na Rua General Polidoro. 31 — Escusa fazer balanço do ano. encontrou a antiga namorada. e você sabe que nesta situação a gente faz qualquer besteira. E seria preciso? Num conjunto colossal como o universo. uma vida. Ao despedir-se. Fiz cinquent´anos. 26 — Aldo Borgatti.. aquela rua do cemitério. num 21º. e a divisão em meses. Não me sinto habilitado a julgar a vida nem a mim mesmo. Dezembro. andar (redação).Coquetel de lançamento de Comício. mas devia ter respondido: "Topo. Repleto. dando-lhe um emprego de 15 mil lá no banco?. convencional. Talvez desse mesmo o emprego. depois de muitos anos sem se verem. Perdi um irmão discreto e simples.. ontem. a tal ponto que este me diz com ar promitente: "Será que a gente não poderia ajudar um pouco esse moço. O rapaz me chama de parte e explica: "Ele está muito infeliz de amores.

rico acervo de . Não entendendo de medicina nem pretendendo entender (no que me pareço com ele). três dias antes de morrer. "Não. do que sobrasse. viagem ao Ceará natal. por sua vez. passou-o numa casa de saúde da Rua Conde de Irajá. convocou os amigos Lavigne e Gastão para uma conversa. o médico Luís Lavigne e a portuguesa Josefa. ou pelo desejo inconsciente de ignorar a situação. instalado numa poltrona comprada alguns dias antes de internar-se. O primeiro mês. com pudor. do Rio. após quase cinco meses de doença. Contudo. sua empregada. Lavigne e Órris. publicação de um volume de ensaios. Facó alimentava projetos para este ano: segunda edição da Sinfonia Negra. ocultava as ocorrências inquietantes.1953 Morre Américo Facó Janeiro. Órris Soares. onde ficaria constituindo a Coleção Américo Facó. 2 de janeiro. no Ceará ela não poderá ser conservada. jamais se queixando ou perdendo o natural comedimento e cortesia para quantos o visitavam ou os que dele tratavam. em sua casa da Rua Rumânia. Dou minha biblioteca a vocês três: Gastão. 9 — Agonizante há três dias. meu amigo poeta Américo Facó expirou às 20:30 de sábado. Suportou estoicamente os sofrimentos e incômodos da moléstia. E mesmo a estes. como falara há tempos. fiava-se na palavra dos médicos e amigos. Facó. Os mais chegados eram Gastão Cruls. os demais. Sabia que seu estado era grave e tinha recomendações a fazer. Embora procurando animá-lo. Em dois envelopes guardados numa estante havia dinheiro a ser utilizado no enterro. seria dado um auxílio a Josefa e outro a uma irmã dele. Gastão aproveitou a deixa e perguntou-lhe pelo destino a dar à biblioteca: se pretendia mesmo oferecê-la a uma instituição do Ceará. doá-la à Faculdade Nacional de Filosofia." Os três decidiram.

pois sua saúde é precária. certo dia. para assistir sua irmã necessitada. — Leve isso daí — disse-lhe o poeta. Tudo foi simples. iam pouco a pouco se despedindo. às oito. que Rodrigo receava viesse a sofrer acidente cardíaco. podem fazê-lo. heróica em sua fragilidade. mas não faltou a encomendação do corpo. tentei comunicar-me pelo telefone com o pintor Enrique Castello. A notícia do falecimento. o grupo de amigos. trouxe uma estampa religiosa para junto de sua cama. submersa nas fartas edições de domingo. Fui. nessa ocasião: — Não tenho religião. então. saiu depois das cinco da manhã. mas se parentes quiserem celebrar alguma cerimônia religiosa por ocasião de minha morte. Também Jaime Adour da Câmara acabou se retirando. primos de Facó. derreados pelas noites de vigília. A dedicada Josefa.obras clássicas da Língua Portuguesa. ou eles só a leriam mais tarde. de Andrade). Rodrigo e eu fomos rendidos por Órris Soares. F. Avisado às 21:00 de sua morte. velar o corpo na capela da Rua Real Grandeza. marcado para as onze e efetuado ao meiodia. porém. A pintora Maria Margarida. ao que soube depois. em Belo Horizonte. Lélio Landucci. com Rodrigo.) Facó disse mais. Os mais íntimos. por um telefonema de Rodrigo (M. lá ficaram pouco tempo. (Nota de 1985: Os amigos de Facó nada puderam fazer. Voltei para o enterro. não pôde varar a noite. Mas esta doação ficará dependendo de aquiescência dos herdeiros — dois irmãos e duas irmãs residentes no Ceará. pois o ato foi de boca. não foi percebida por muitos amigos. Minha convivência com Facó vinha dos últimos anos do meu . não havendo testamento que o confirme. seu grande amigo. Dois generais reformados. Não consegui ligação. e a biblioteca foi vendida pela família. que Facó previa e autorizara por delicadeza ou ceticismo. continuando.

Fala-me longamente de sua experiência religiosa. contando as três noites seguidas. sem pressentir a qualidade da expressão mística. Na casa da Rua Rumânia. nem há outra maneira de concebê-la. Ela encontrou em São João da Cruz a "visão de paz". de tudo. mais preocupado com a linguagem e seus recursos estéticos do que com a fácil vida literária das modas e dos bares. Eu "convalescia" de amarga experiência política. contatos cerimoniosos. continua ela. A princípio. Facó passou um mínimo de nove horas. maior convívio. Depois. Vivemos na solidão. que. estendeu-se em confiança e amizade. havia escolhido para . Isabel da Trindade. de roupa. e não devemos esperar ajuda dos outros. e a Virgem do Carmo nossa maior intercessora junto a ele. correspondente da Agência Brasileira. que é cheia de poesia. confiei-lhe os originais do meu livro Claro Enigma e ouvi suas opiniões de exímio versificador. a aturar minhas dúvidas e indecisões. uma mulher que faz poesia e que é simples de aparência. e a cortesia.trabalho no gabinete de Capanema. Se não aceitei integralmente suas observações. Santa Teresa de Ávila. em Belo Horizonte. E me fizeram sentir a nobreza do seu espírito de autêntico homem de letras. para nós seres humanos. dirigida por ele. Descobriu São João da Cruz. Janeiro. Nas pinturas carmelitanas. E ambos exprimem uma união inefável. Paciente e gentil. mantendo-se. durante três noites. e desejava que meus versos se mantivessem o mais possível distantes de qualquer ressentimento ou temor de desagradar os passionais da "poesia social". Explica-me que a união da alma com Deus é tratada pelos místicos como verdadeiro casamento. 13 — Maria Isabel traz-me os originais do seu novo livro de versos. embora na década de 30 eu fosse. Pela primeira vez. embora de expressão mais refinada que este. São João da Cruz é tão vivo e ardente como o Salomão do Cântico dos Cânticos. nosso apoio é Deus. ela se diz encantada com a convivência no meio. a verdade é que as três vigílias me deram ânimo a prosseguir no rumo que me interessava. Irmã terceira do Carmelo (carmelita descalça). há sempre um anjo da poesia.

em nove volumes. Ao trocarmos cumprimentos. Lá uma hora sobrevém o período de secura espiritual. viu explicado na prática religiosa.. enquanto os mais íntimos da Casa formam seus grupos inseparáveis. E sabendo isso. cultivo a ilusão de que se torna mais fácil ser paciente: dou a mim mesmo um diploma de virtude valente. Mas — acrescenta — não podemos contar com o arrebatamento contínuo.. sem se explicar. ou pelo menos estabelecem armistício tácito. Eu sei que sua observância exige mais coragem do que a da revolta. vejo-me ao lado de Otávio Tarquínio de Sousa e Afonso Arinos. 18 badalando esta ordem. ao grande amigo da classe. Getúlio na José Olympio Janeiro. ou a simples impaciência. com que Deus experimenta a nossa felicidade. Tudo que sentia.. Todas as tendências intelectuais e políticas confraternizam em torno de J. alegre. Há muito tempo que não o vejo. Pois sim. Comenta o primeiro: . eleito mediante processo especial. Está repleto o seu escritório na Praça 15 de Novembro. Mas será válido esse diploma? Gostaria tanto de exercê-la na acepção do Pequeno Dicionário: "perseverança tranqüila".título do seu livro de poemas. como vai? Mais adiante. 23 — Homenagem dos escritores editados por José Olympio. Respondo com pouca imaginação: — E verdade. Sou mais uma vez apresentado ao escritor Getúlio Vargas. entre pessoas que raramente se encontram. — Paciência! Paciência! O sininho interior Janeiro. E o senhor. e membro da Academia Brasileira de Letras. o Drummond. Há um vozear descontraído. É o autor nominal de A Nova Política do Brasil. Presidente. que exerce novamente a Presidência da República. ele diz: — Ah. O.

para junto dos escritores. Não há conversa sobre livros. Se é verdade que nada recebo de direitos autorais pelos meus livros. coisas da vida de cada um. Ele confessava que as pombas lhe despertavam profunda atração. Todos riram. foi engraçado ao saudar José Olympio: — Na minha conta corrente com José Olympio estou sempre em débito. Fevereiro. . A cordialidade de Getúlio exprime-se em perguntas sobre parentes.. em Les Rayons et Les Ombres: Une colombe et moi longtemps nous nous aimâmes. viagens.— É de justiça reconhecer que o Getúlio não quis trazer o Gregório.. o compositor de Azulão... mas trouxe um capanga intelectual. Ao que Arinos retruca: — E. 28 — Um verso de Victor Hugo. seu capanga. o X. Fez-me lembrar antiga conversa com Jayme Ovalle. não o é menos que José Olympio arca com o prejuízo do encalhe. O escritor Vargas. por sua vez.

com a tua essência. sobretudo. e que mantenho tão abafada sob interesses imediatos. enquanto o velho em mim se confirma. na distância de tempo que nos separa do dia do teu nascimento. e nossas vidas se confundem. Por fim. Nesse espaço. apesar do muito que te esqueço. Pensei. Perdoa-me não amar-te como queria. torna-se órfã e se faz moça. de uma convivência mais íntima. uma criança vem ao mundo. sem a impureza do suposto presente? Vou-me aproximando de ti porque envelheço. ou transporta àquela hora remota o momento em que te falo. tanto mais quanto sou eu mesmo que me reduzo e me empobreço com esta falta. E se dentro de mim existes. és tu mesma que te retiras. porque sou sempre criança a teus olhos. enquanto um ramo de tua vida aqui está. 20 — Pouco pensei em ti. e poucos são os que te conhecem e sabem sequer que exististe. O que passou — não passou? Ou tudo que vivemos é simples passado. e minha vida volta às origens. os dois hoje integrados no mesmo pó que me espera. cada um no seu rumo. Tua lembrança caminhou algum tempo comigo. .1954 Maio. casa-se. mas a cadeia de fatos e sentimentos liga este dia à atualidade. mas era antes o desejo dela. nesta cidade que nunca viste. a maior parte deles morre cedo. há 85 anos. hoje. em ti também vou existindo. nas ruas. do muito que gostaria de pensar. outros crescem para ligar suas vidas com a tua e depois separá-las. Foi há 85 anos. os filhos vêm chegando. Um ramo a lembrar o curso humilde de tua vida caseira. à sombra do homem forte que também lá se foi antes de ti. repetida e tranqüila. Abençoa-me e acaricia-me.

está contra Salazar. Mas ele não resiste. de onde sai apenas para dar aulas." "Você não gosta?" E não acontece mais nada. porque Salazar lhe tirou toda consciência política. De José Régio. ele. Lemos. 3 — Na Livraria São José. minha filha. chamada à casa de Chiang-Sing. mas antes de estar contra Nehru. com a reação da visita pondo termo ao espetáculo. e bastante parecido com o meu irmão Altivo. com esse frio a gente não anda assim. Agosto. nunca fez uma conferência. para que este. que levou o seu Estado Novo até a Ásia. Nehru. nada tem de tímido. Falou quase o tempo todo. moça mineira que adotou esse pseudônimo. Rebelo aconselha Casais a não falar no Brasil em política portuguesa. Casais. Casais é um homem alto. não reage de modo algum diante das ameaças indianas. Quanto ao povo português. que é permitido pelo Governo. Isso mesmo Antônio Sérgio lhe recomendou que explicasse a Paulo Duarte. apenas tirou proveito. diz que é orgulhoso e tímido. Já Miguel Torga. cabelos começando a embranquecer. A comunidade em Goa é de maioria portuguesa. também orgulhoso. Eneida conta-me que. clausurado em sua casa de Portalegre. No caso de Goa. e Marques Rebelo. Refere-se a escritores portugueses.Com Adolfo Casais Monteiro Agosto. do erro de Salazar. . em trânsito para São Paulo. Lá estão também um rapaz português. em lugar de promover a independência crescente dos goeses. só discute futebol. etc. esta a recebe nua em pêlo. "Que é isto. ao tomar partido pelos portugueses em Goa. politicamente. não se solidarize involuntariamente com Salazar. 2 — De manhã. entende que toda a responsabilidade do que está acontecendo cabe ao ditador português. Manuel Bandeira me telefona convidando para ir ver em seu apartamento Adolfo Casais Monteiro. Salazar. confessando-se excitadíssimo por uma noite sem dormir. reivindicando o domínio sobre o território.

e em teu amor. Pois decerto nos lembras a todos: ao que te esqueceram e aos que dormem do teu mesmo sono. . em ti. 29 — Versos de um aniversário silencioso: Hoje que és menos que carne... Penso nessa mínima porção de fibras esvaecidas. perdura nossa lembrança. prisioneiro da urna.Dezembro. e espaço algum ocupas no ar. quisera eu saber onde.

. entretanto. no meu canto de trabalho no PHAN.1955 Janeiro. com entrada paga. A filha de um ano e poucos meses torna-o feliz. Lembra como declamou meu poema "José". E eu caprichava em detalhes. que a prisão o tornou mais humano. Fez sucesso na Bahia. despreocupado. Chegou a escrever três crônicas diárias. Dentes e olhos brilham quando sorri. No momento. procura levar a conversa para o seu caso. na sala do júri em Belo Horizonte. ele conta: — Sou muito grato ao meu advogado. Minha mulher. como os condenados cumprem pena. aludia aos costumes sexuais da vítima. visita do poeta Décio Escobar. e será uma sátira. No momento em que fica a sós comigo. é natural: todo mundo tem medo de solidarizar-se e comprometer-se. Sinto com ele a tristeza de escrever para jornal. 9 — Sexta-feira. certa vez. que tudo fez pela absolvição. Anda à procura de emprego. à procura de um assunto que depois aproveitaria em vinte minutos. a justiça apavora. e já lhe aconteceu ficar duas horas fumando angustiado. pois eu disse a todo mundo que fora eu o autor do homicídio. Pretende escrever mais tarde sobre sua experiência. Simpático. Reconhece. E comenta as dúvidas levantadas na cidade sobre se o poema era dele ou meu. . A bela barba negra e nazarena o envelhece. Janeiro. Trabalha barbaramente para viver. à noite. Conta que o casamento com Ana Maria o salvou da triste velhice reservada aos boêmios. E olhe que era difícil. seu projeto é casar com uma jovem da Bahia e ganhar a vida. bem educado. 17 — Visita breve de Luís Martins. após a sua absolvição. O seu lado "ator" não lhe tira a simpatia. Os amigos faltaram-lhe. ouviu-me contar isso a uns amigos.. dizendo poemas no escuro.

18 — Almoço com Gilberto Amado em seu apartamento da Rua General Glicério: Gastão Cruls. . de Andrade) e eu.Janeiro. Não que divergisse da opinião do mestre: apenas. Um Exército como o nosso. F. Chega Hermes Lima. Clóvis escrevia tão mal que os juizes davam preferência à prosa de Gilberto — afirmavam-lhe os clientes. acaba se tornando um pesadelo — diz Hermes. sem problemas internacionais por que se interessar. dava-lhe forma literária. e a conversa deriva para a incapacidade demonstrada pelas forças armadas no controle da política nacional. Conta-nos que já ganhou dinheiro dando pareceres jurídicos em questões antes examinadas pelo grande Clóvis Bevilacqua. Rodrigo (M. numeroso e caro.

a voz falou assim: "Dentro de 30 dias você virá para este cemitério. gerada pela história inventada. Logo depois. tomou posse da casa. e o nome lhe foi dado pelo pintor. Uma bolinha de papel. perseguida por telefonemas. no encontro dos dois. Outro. Uma noite. inspirado na trama. depois de assistir ao programa de circo. A princípio. Muito jovem (três meses de idade). acompanhei o seu drama. depois à vontade. Hoje. * Na TV Rio. telefone. Há sempre uma história real. presa ao abajur da mesa do escritório. tranquei-o no banheiro. serve para seu exercício e divertimento. tal como no meu conto: — Eu conheci a moça. pois a moça existiu realmente e morreu em 1938.1956 Janeiro. discretamente a princípio. O cachorro Puck recebeu-o com indiferença de senhor maduro. com listas brancas. moça" com Glauce Rocha. hein? Janeiro. É amarelo. que alegria. dignou-se brincar comigo. . na televisão: — Se a gente tivesse um elefante. Um. em face das deficiências materiais da estação." E ela foi. 1 — Meu neto Carlos Manuel. que fala da moça morta em conseqüência de um trote contínuo e implacável. A boa vontade do produtor do programa deve ser levada em conta. dois telefonemas anônimos. adaptação do meu conto "Flor. 3 — Inácio chegou ontem de manhã. surpreendente: a pessoa quer saber se eu inventei ou se ouvi a história contada por terceiros. ao passo que ele revelou. para que não fugisse. Napoleão Muniz Freire e outros. trazido pelo pintor Reis Júnior. esquivo e assustado. a correta agressividade da espécie. de trote. já à noite.

transformando pobreza imaginativa em rigor de criação. quando infinitos são os recursos da linguagem à disposição do verso. e um criador como Guimarães Rosa efetua. tal como esta foi realizada até agora. com benevolência brincalhona. 5 — Está na moda a poesia concreta.1957 Fevereiro. a reinvenção contínua do vocabulário português. Consideram-se esgotadas as possibilidades da poesia. Nunca vi tanto esforço de teoria para justificar essa nova forma de primitivismo. — Esses rapazes estão cuidando da sobrevivência antes de terem vivido — diz-me Cecília Meireles. com Mário Faustino personalizando o debate e exigindo dos poetas mais velhos que sejam também críticos de poesia. Um de nossos jovens talentos críticos (e poéticos) tem a mania . certamente informado por este a respeito de minha opinião. Acha os rapazes do grupo superiores aos de 45. que nada fizeram de novo e são. dá sinais de simpatia pelo movimento dos rapazes. em geral. que lhe parece interessante. paralelamente. que daqui a pouco rolará pelos Estados. que devia chamar-se concretista. Fevereiro. ofensiva concretista pelo suplemento do Jornal do Brasil. que não me convenceu. 16 — No dia seguinte ao de minha conversa com Tiago de Melo sobre os concretistas. Domingo. Bandeira animou-se a compor um poema concreto. Por que os poetas não tentam um esforço nesse rumo? Confesso o meu desinteresse pela onda concretista. malcriados. que lhe pagou 5 mil cruzeiros por ele. gerando um cacoete poético de fácil propagação. Manuel Bandeira. a ser publicado no Cruzeiro. Li (melhor: vi) o poema. pelo telefone. Manuel Bandeira procurou-me no PHAN e falou sobre o movimento.

refrigerante. calçado anatômico. mas um deles é o melhor de todos. . seu estado era lastimável. e espanto-me quando alguém procede a essa medição. Todos são melhores. 5 — Sacrifício (?) de Puck. que aconselhara esse final. Levei-o enrolado numa toalha de plástico e num lençol. comparando qualidades e temperamentos tão diversos. A ficção do "maior poeta" lembra anúncio do melhor produto — sabonete. Esse é maior do que aquele. Com quinze anos de vida. só a língua se mostrava ativa. Os últimos dias foram penosos. em companhia de Dolores. Agonizava quase imóvel. Deixamos o corpo na clínica. cada categoria tem os grandes e os pequenos.. estes dois são menores.de medir os poetas. ou a musicalidade de um terceiro. às 9:30 da manhã de hoje. Nunca vi metro para medir poeta. Amo em um poeta certa vibração que lhe é peculiar. e trago para casa. a secura vigorosa de um quarto. quando o suspendíamos para lhe dar um pouco de leite. sem análise e comprovação. o de ingratidão. Junho. sem inquirir se essa vibração vale mais do que a doçura particular que encontro em outro poeta. e não havia esperança de recuperação. com o sentimento de perda. Minha capacidade de admirar exclui o confronto.. Uma injeção — e mais nada. na clínica veterinária da Avenida Atlântica.

pede novamente desculpas e muda de assunto. Ainda na São José. a angústia da poesia.1958 Surge a primeira poetisa do ano. "Os seus livros são muito difíceis de ler". Maio. Órris Soares. Ela se esquiva. O diabo é que não se salva sequer um verso. Carro chiando. na papelada dos "poemas". mas sofre de uma angústia especial. Entrega-me poemas ("olhe que não tenho cópia. em Pernambuco. que lhe apresento. Quer que eu lhe diga se deve continuar a fazer versos — a "sofrer esse sofrimento diferente dos outros". Claro que o grêmio do colégio não existe. 3 — para ser recebida: pelo telefone. "Mas os colégios não estão em férias?" pergunto. Como este. ante a insistência de José Olympio. Respondo-lhe que não sei nada. Se há esperanças de realização pela poesia. ela pede desculpas pelo engano. não posso aconselhar-lhe nada. pede orientação para um trabalho que tem de apresentar numa reunião de colégio. Usa de ardil Janeiro. nem mesmo o colégio — confessa." Vai à tarde na repartição e encontra-me conversando com Gastão Cruls. deprimido: "Sou um defunto que anda. indicava gente de classe inferior. está murcho. diz a Gastão. Conta-me que os carros de boi. hein?") e virá buscá-los na semana que vem. Tem 19 anos. é noiva." Magoara-se quando a nova direção do Instituto Nacional do Livro suspendera a publicação do segundo volume do seu Dicionário de Filosofia. conversador inesgotável. surpreendido. "No meu. O outro nome de poesia é ilusão. que deseja editar a obra. o grêmio literário funciona independente do período de aulas. levando à cidade as famílias dos senhores de engenho. na Livraria São José. não tem coragem (ou gosto) . "Qual?". 8 — Conversa com Osório Borba. o romancista quer saber. não chiavam. Agora. lhe pergunta se já leu os seus contos ou algum romance. no seu caso. julgara-o sociólogo.

A filosofia não o consola. conversando comigo. . um vocabulário português subbásico". refere-se a um de nossos intelectuais: "Assim como há o inglês e o francês básicos. 17 — Aurélio Buarque de Holanda.de continuá-la. para ele. há também. Julho.

é uma outra perda para o coração da gente. mas nunca pude apurar isso. Creio que não tinha sentimento religioso. também não pratica nenhum credo religioso. o amigo mais devotado. A família trouxe um padre." . pois não tenho religião. — Há 20 anos que ele me telefonava diariamente. Rodrigo (M. e essa eu não sinto por nenhuma dessas moças. Junho. mas adere ao convite da missa. 7 — Gastão Cruls. mostra-se particularmente consternado. — Não. E uma vez por semana jantava conosco lá em casa. Otávio Tarquínio de Sousa me telefona.1959 Junho. uma delas mandada celebrar pelos amigos. Otávio diz que sua mulher. Só por uma amizade profunda. Mais tarde se interessou também por outras duas. de Andrade). convidando-me a participar da iniciativa. a discrição em pessoa. pois Gastãozinho sentia grande pudor de falar sobre este assunto. Fazia parte da minha vida moral e afetiva. mas Gastão respondeu-lhe: "Nunca me casaria por amor. esquivei-me a isso. Ainda sobre Gastão. Constrangido. Pergunto-lhe se Gastão pediu conforto religioso. ele não se opôs. e mesmo pesaroso de não atendê-lo. e eu não me animava a abordá-lo. Ele aceita a minha razão. Lúcia Miguel Pereira. Minha mãe chegou a tocar no assunto com ele. apesar de nossa amizade fraternal. e não me parece correto. à sua maneira sóbria. nessas condições. 14 — Missa de 7° dia em memória de Gastão. mandar rezar um ofício religioso a que não atribuo a significação dada pelos fiéis. ao sentir que ia morrer. F. conta-me Órris Soares: — Ele gostou muito de certa moça. Ou antes: missas.

a absurda transferência. porém. Assegura-me que não há qualquer declaração de acadêmico no sentido de promovê-la. e entra logo no assunto: a trasladação dos despojos de Machado de Assis e Carolina para o mausoléu da Academia Brasileira. perguntou a este como ia a sua eleição para Príncipe dos Poetas Brasileiros. não impedirá sua eleição. Manuel Bandeira pondera: — Pensando bem. devíamos ter votado em Cecília Meireles para Príncipe dos Poetas. A idéia seria colocar um monumento a Machado em lugar de honra do mausoléu coletivo. Agosto.. em testamento. 7 — Ontem. embora haja uma bandeira. na qual muitos de nós estamos empenhados. embora sem êxito. 25 — Monsenhor Primo Vieira. Quem estiver vivo comparecerá. qualquer . no concurso do Correio da Manhã. festivo.. e amigo de Guilherme de Almeida. encontro casual com Austregésilo de Athayde. Com um voto ele pode contar: o meu. Pedi a Monsenhor que tranqüilizasse Guilherme. Respondolhe citando a entrevista de Elmano Cardim ao Jornal do Comércio. 21 — Findo o concurso do Correio. Daqui a 30 anos. e marcar a transferência dos despojos para 21 de junho de 1989. O Jazigo de Machado de Assis Setembro. data do sesquicentenário do nascimento do escritor — diz-me Athayde. pois a linha aristocrática e o apuro estético de sua poesia condizem bem com a idéia de um principado literário. Mesmo esta. de Março. e eleito Guilherme de Almeida. Abraça-me. o que exclui. (Machado manifestou.Junho. Não há nenhuma pedra. na Rua 1º. — Há uma pedra no meio do caminho — respondeu ele. o desejo de ser sepultado no túmulo de Carolina. Certo? — pergunta ele. da Academia de Letras de Santos. naturalmente. contando sem dúvida com a esperança fundada de eu não estar vivo até lá para impugnar.

Todos os que nos cercam têm de morrer. Depois. barriga e pescoço brancos. sua doçura natural prevaleceu: acostumou-se. No momento. desde 25 de outubro. Nem Machado é propriedade da instituição que fundou. Mas Inácio era esquivo e seco. Ainda outro dia estive em Catas Altas. aos 3 meses e meio de idade. Só que nem sempre me deixa escrever. um lugarzinho tão bonito. Tenho hoje um grande amigo no escritório. focinho branco e preto. Andei pela rua principal. ao passo que nem todos têm de nascer. conversei com todo mundo. 20 — De Órris Soares: Quando Órris Soares disse a Américo Facó que Deus. sabia o que estava fazendo. o poeta respondeu-lhe: — É possível que você tenha razão. No primeiro dia. mostrou-se assustado e infeliz. e Crispim mostra-se disposto à confraternização. Setembro. protetora nacional dos gatos. estranhando tudo e todos. E nos faz boa companhia. I * Telefonema de mestre Afonso Pena Júnior: — Costumo viajar em Minas pela imaginação.veleidade de transferência de local. É preto. Foi-me oferecido por Béatrix Reynal. 12 — Crispim é o novo habitante do apartamento.) Despedimo-nos com risadas de paz. ele me acaricia o queixo. mas eu continuo disposto a topar esta briga pelo respeito à vontade final do nosso escritor máximo. Novembro. inclusive o vigário português. Esquecia-me de anotar a última conversa de Facó com os amigos: — Não receio a morte. Como Inácio anteriormente. ao fazê-lo nascer feio. e acho mesmo que ela é mais natural do que a vida. um . ameaçada de anulação pela fútil vaidade acadêmica.

Este de agora é mais ambicioso. esse nome de Pena foi dado à nossa família para ver se nos acostumamos a fazer uso dela. Também não preciso escrever cartas para me comunicar com os amigos de lá. Novembro. no Cinema Astória. monótono. Refere-se ao provérbio que inventei numa crônica. "Burro velhote não acerta o trote": — Lá em Santa Bárbara. De novo o Dr. pelo telefone. Afonso Pena. o adágio é: "Burro velhinho não acerta caminho. Longo. Hulot. É um gosto ouvi-lo." . Aliás. nem sempre atinge o alvo. 29 — Jacques Tati. tal a simpatia despertada por Les Vacances de M. Mon Onde. Assisto ao filme com desejo de gostar.bom homem que fez a população local plantar vinha. Mas a glória jornalística em redor de Tati é tão grande que a gente fica receoso de não ter compreendido o que haja de sutileza na obra. mais requintado e diverte menos. Não preciso comprar passagem de trem para ir a Minas.

" Março. visita-me no PHAN. tendo lutado em pura perda pelas aspirações da comunidade. Inês é morta. por haver tomado atitude contrária a ambos. 14 — Jorge de Sena. esclarecendo o autor. Morto Pessoa. Jorge é de opinião que Botto "apenas teve talento" quando Fernando Pessoa era vivo. Os sonetos dele não são sonetos. Agora é tarde. A verdade e que. em que se impunha um esforço coletivo para vencermos — o pessoal de lá votou em massa nos candidatos indiferentes ou contrários à causa de Itabira com relação à Vale (Juscelino e Jango). Poetas paulistas convidaram Jorge a escrever com eles um "rosário de sonetos" (sic). não me sinto animado a recomeçar.1960 Janeiro. para a irmã um pouco mais velha. que a acusa de egoísta porque não lhe quer emprestar uma boneca: — Egoísta. de passagem pelo Rio. o levava a compor melhor. Na ocasião em que poderíamos ter vencido — ou. com sua senhora. 2 — A filha pequena de Athos Pereira. que o afetou profundamente. 24 — Carta ao Presidente da Câmara Municipal de Itabira. dizendo-lhe que não tenho condições para defender os interesses de nossa terra junto ao Governo e à Companhia Vale do Rio Doce. eu? Você leu na minha alma para ver se lá está escrito que eu sou egoísta? Março. Não que este corrigisse propriamente os poemas do amigo. . desprezando os que nos eram favoráveis — Juarez e principalmente Milton Campos. pelo menos. onde apenas alguns versos se salvam. e depois veio a doença. entre eles o livro póstumo de Antônio Botto. Incompatibilizei-me. Ouviu a resposta: "O Drummond. sugeriu o meu nome como o de um possível colaborador. não. declinou a qualidade de poesia de Botto. Fala sobre vários assuntos. mas opinava sobre eles e. Sem aceitar.

) Homem de 62 anos. artigos. Foi um . por que não aplicá-la em proveito de nós mesmos? Qualquer coisa assim como uma pequena agência de publicidade intelectual. ela não chegue a passar de idéia. O corpo escapara de servir para estudo de acadêmicos de medicina. provavelmente. esperando efetivação que não lhe pôde ser concedida em face de sutilezas burocráticas. mas parece também interessado na minha idéia. ter idéias é mais do que suficiente. O Sacrifício de Max Grossman Abril. que o livrou da classificação de indigente. 11 — Morte do escultor Max Grossman. e ganhar dinheiro o nosso lado incompetente. contos. e eu lhe falo de um possível "rumo novo" para depois. com o suicídio da mulher. baqueado no coração. Salvou-o. Devemos aposentar-nos no fim do ano. calado. que fornecesse a interessados o de que eles necessitassem: discursos. Redigir é o nosso forte. domingo. mal falando português. para mim.. 27 — Meu compadre Cyro dos Anjos anuncia-me sua próxima partida para Brasília. e me acena com a possibilidade de eu participar de equipe que o executará. enviuvara há seis anos. teve notícia de que o aproveitamento legal era inviável. foi à praia de Ipanema. apesar do tempo chuvoso. Confesso que. Dá certa alegria ao espírito.. Temos tanta experiência acumulada em gerir interesses de outrem. morreu a caminho do hospital. ao regressar à praia. seco. graças às providências do PHAN.Março. no feio Instituto Anatômico da Santa Casa. e fica por isso mesmo. correu a salvá-lo. meu colega de trabalho no PHAN. mas. Compareci ao saimento do enterro. tímido. e quando a ambulância chegou para socorrê-lo. Ontem. Cyro tem o projeto de um manual enciclopédico de nível primário. Vendo que alguém se afogava. poemas. com Darcy Ribeiro. onde servia há quase 20 anos como desenhista. (Ainda na semana passada. dada sumariamente pela polícia. sentiu-se mal. Embora. cartas.

mas o sentimento carioca de quem vive há tanto tempo na cidade e. fazia precisamente o elogio da mudança. Uma das mulheres telefonara hoje para o PHAN.custo para o nosso diligente João Pacheco persuadir as autoridades que se tratava de pessoa qualificada. poucos automóveis acompanhando o carro fúnebre. interditado pela polícia (era só no mundo. e aquele ambiente de alegria artificial. 20 — Sinto no ar a tristeza da Cinelândia e da Avenida Rio Branco. Um detetive acompanhou os rapazes da repartição na ida. chuvinhenta. promovido pelo Governo para enganar e influenciar a população. A moça alta. aprendeu a amá-la. razão de calar. não deixou parentes e herdeiros). Um homem que dera sua vida para salvar a de um desconhecido acabava assim. continuando provinciano. Pobre Rio. ainda me punha menos confortado. para falar com o amigo. não perdi nada com a transferência da capital. junto à fila do lotação. merecia todas as honras do mundo. Eu pelo menos me senti deprimido. segurava as mãos de Max e beijou-as quando o caixão foi fechado.) . desolada. Para vesti-lo. e a coroa da repartição na mala de um deles. no mínimo. e quase tratado como um paria. Abril. (Um bêbado. Quatro mulheres estavam presentes ao velório. e que não precisava ser enterrado de short. como observou João Pacheco. Pessoalmente. ignorado pela cidade imensa. quando. Enterro na tarde melancólica. aviltado pelos interesses políticos que te espoliam e não te deixam senão esse ar de velha apalhaçada e bêbada. anônimo. e só então soube de sua morte. iluminadas e emperiquitadas para a festa da criação do Estado da Guanabara — que festa? que Estado? — quando a mudança da capital do país para Brasília seria antes motivo de mágoa geral. reage contra o despojamento e contra a tentativa de transformar em festa o que é. o corpo foi composto e coberto de flores. Afinal. era necessário buscar roupa em seu apartamento.

comovida com o seu cavalheirismo e benevolência. e o dinheiro vale tão pouco hoje em dia que talvez eu esteja escrevendo barato. concorda em acompanhá-la até certo ponto do percurso. explica. Outubro. Há muitos anos que não sou beijada. Rio amigo: O Governo vai-se? Vá-se! Tu ficarás. Saindo da redação do jornal pela madrugada. pede-lhe um último favor: — Queria que me beijasse na boca. depois.. que puxa conversa. por escritos igualmente sem importância. Por outro lado.Abril. Só não concorda em ser seu companheiro de cama.. — Sim. e eu contigo. apresentadas em concurso julgado . Senta-se à mesa com ela. neto. 20 — Recebo o primeiro pagamento pela colaboração semanal em Mundo Ilustrado. minha senhora — e Prudente beija-a. 1 — Luís Jardim. "Sou carioca e estou sentida". ele vai cear em restaurante modesto. e é abordado por uma velha mulher. São tantos cruzeiros para escritos tão fúteis. Rio eterno. conversador inigualável. até o endereço dela. conta-me com finura uma história chapliniana de Prudente de Morais. Pede o texto da minha "Canção do Fico". para dizê-lo na televisão paulista. publicada há meses no Correio da Manhã. que fico na dúvida se os mereci. despede-se. 22 — Tônia Carrero telefona-me de São Paulo. Maio. levando nos lábios um perfume também avelhentado. Maio. Então não fiquei sozinho. a velha. há colegas que ganham ainda mais do que eu. como a hora é tardia. 25 — Manuel Bandeira mostra-me poesias de alunos da Faculdade de Filosofia e Letras. ao declarar minha fidelidade ao Rio: Rio antigo. Rio-oceano. Finda a refeição. Ainda assim.

que aliás ele modificou expressamente para publicação. procurei na Rua Frei Caneca a sede da revista Careta. um preto velho me atendeu e conduziu-me a uma espécie de portaria. que só há pouco ele publicou no suplemento literário do Estado de São Paulo. a quem manifestei o desejo de adquirir números antigos da revista. quando criança. Contou-me que muito de indústria o conservou secreto até agora. Fim da "Careta" Novembro. É a seguinte: Se não queres que eu dê minh-alma Ao rei de todos os demônios Em troca da felicidade Da menina. porém o Estadão não consentiu: tinha de ser assinado pelo vero nome do poeta. — Estou convencido de que não é possível decidir com justiça nos concursos — observa ele. pelas caricaturas de J. onde dois empregados de mão no queixo meditavam no vazio da situação. Comento o poema altamente erótico. Afinal. e não havia placa indicadora. e que eu adorava. Pensa em suprimir a última estrofe. que acaba de desaparecer. De volta. Carlos. abanou a . na Penitenciária Lemos Brito. Andei longamente na triste e suja rua vizinha do presídio e da penitenciária. Um deles. tua filha única! No texto exato. moço. 10 — Fui levar livros a um preso. À porta da casa. o terceiro verso é "Em troca da infelicidade". só o publicando em São Paulo para evitar complicações que esses versos lhe trariam aqui no Rio. Ninguém sabia informar nada. — É muito mais fácil avaliar um poema quando o lemos sem intenção de julgá-lo. de 1935. Bandeira queria publicar o poema sob pseudônimo.por ele. seu ilustrador na fase áurea. Nossos julgamentos coincidem a respeito de um dos trabalhos. um sapateiro me orientou.

cabeça. onde a caricatura política e mundana teve o seu apogeu. o pensamento liberal brasileiro. teve prestígio popular comparável ao da antiga Revista Ilustrada. de Ângelo Agostini. Saí impressionado com o fim de Careta. . durante o Governo Hermes. e representou. Era a alegria de muita gente pelo Brasil afora. lançando mão da sátira para se afirmar contra os desmandos políticos. resmungando que não havia nenhum.

pois não há quem não goste dele nos meios de jornalismo e de literatura. que certamente será transmitida a Meyer. com essa divisão de horário? Pois sim. São duas fatias de tempo. a agredir-lhes o bolso vazio? Tenho observado que os da minha repartição. Fevereiro. Recebera mesmo do Ministro da Educação um pedido de aproveitamento de funcionário em seu futuro gabinete. obrigados a sair do serviço entre os dois horários. sem ter que fazer. Posse movimentadíssima. Passou a render menos. sala de lazer nem nada. em conseqüência do horário dos servidores federais. fez o Governo mudar de idéia. com intervalo para o almoço. ficam vagando na rua. e a ida e-volta à casa. Manda-os sair. Mas que almoço. encaminhando-lhe a pretensão do tal funcionário. e reconduzir Augusto Meyer à direção do Instituto. a notinha do Ministro. 21 — Pranto e ranger de dentes. redigido por João Neves da Fontoura. se os mais pobres não têm dinheiro para comê-lo em restaurante. dizendo a cada um: "Come!" O quê? Onde? Com que dinheiro? E o serviço público rende mais. Mas um editorial do Globo. 19 — Newton Freitas já estava com o decreto de sua nomeação para diretor do Instituto Nacional do Livro preparado para subir ao Presidente Jânio Quadros. O bom humor do quase nomeado anula qualquer decepção. Verdadeira multidão . mas o Governo quis aproveitá-lo como diretor da Agência Nacional. O Estado não lhes dá refeitório.1961 Fevereiro. em locais distantes. seria despesa extra. às gargalhadas. Março. estabelecido por Jânio Quadros. Os humoristas (e todos os cariocas o são) começam a dizer que Jânio vai estabelecer horário de fazer pipi. Newton mostra-me. 2 — Newton Freitas não chegou a ser diretor do Instituto Nacional do Livro.

mas logo deriva para o mistério de tudo. Serve de assunto para a coluna de jornal. nos edifícios da vizinhança que dispõem de bombas possantes e grandes depósitos. . tentando roubar água na esquina. 7 — Encontro casual com Guimarães Rosa. Esta é a crônica de uma rua do Posto 6. ainda se conserva por lá. Sorri." Sorrio também. é literatura. e eis-me explorando profissionalmente a nossa miséria urbana. que ele considera com um misto de gravidade e alegria. um bem mais precioso do que ouro." Vamos. para mim. em Copacabana-me-engana. É crônica. não tomo banho há uma semana. um sonho. Não conseguimos." "A comunidade que se dane. neto.. Março. Água ficou sendo uma aspiração. é mágica. na rua." "Crime contra a comunidade. Há reuniões cômicas de vizinhos. na calçada. conseguirá botar jeito naquilo? Março. ao que parece. Voltamos para nossas casas.nas salas de onde. quem arranja ferramenta? E se o fiscal aparece? Somos conspiradores. 13 — Falta d'água no bairro. há 16 anos. e não sei se devemos encará-la com resignação. e será mais uma noite sem dormir. A atriz Aurora Aboim adere ao pequeno grupo de revoltados. Prudente de Morais. O assunto." "Vamos lá. Dão-nos água de favor. Este simples encontro que estamos tendo agora não aconteceu por acaso. Américo Facó. vagamente subversivos." "Vamos abrir o registro?" "É perigoso. É noite alta. "Entrou água em sua casa essa noite?" "Muita?" "Ouvi o seu motor roncando. com sua risada monumental. solta água para os privilegiados. corpos sujos. ao dizer coisas assim: "A realidade. ignorante. Suamos para abrir o registro. já que desespero não resolve. Newton. dinheiro correndo pelo encanamento. no começo.. está cheio de significação." "Culpado é o manobreiro Delfim. Gastão Cruls e eu saímos debaixo de foguetes de regozijo lançados pelos piratas da casa — o grosso dos quais. almas derrotadas.

Mesmo se lhe concederem liberdade de movimentos. mesmo. em conversa com Arnaldo Pedroso d'Horta. interessado em soluções políticas. O Ministro é geralmente político. razão de viver. em um órgão como esse. Março. À tarde.Conselho Nacional de Cultura Março. E é com ar feliz que ele se despede com estas palavras: . rumino minhas dúvidas sobre se devia ou não aceitar a designação. Novo encontro com o vizinho Guimarães Rosa. 30 — À noite. obtida pela organização estadual. E em que consistirá a "política cultural" do Governo. ao lado de Alceu Amoroso Lima. não terá autoridade ou se chocará com a orientação governamental. feita em São Paulo. para não dizer inconveniente. à vista de experiência similar. que me diz: — Não quero ser classificado como escritor de determinado tipo. depois do jantar. 23 — Os jornais noticiam a escolha dos membros do Conselho Nacional de Cultura. resta a questão da eficácia do órgão. Procuro variar o mais possível de técnica e gênero. e há sempre o risco de que o excesso de preocupação do Governo em benefício da cultura dê resultados nocivos. Sente que seu experimentalismo sistemático lhe dá uma grande alegria e. que teve rendimento no campo do cinema e do teatro. este se manifesta esperançoso na ação do Conselho. passando da linguagem simples de um Vivaldo Coaracy ao emprego maciço de palavras não dicionarizadas. Acho o Conselho inútil. Antônio Cândido. Fui incluído na Comissão de Literatura. que incumbe ao Conselho propor? Esta expressão é suspeita e dá margem a equívocos. Durante o dia. desejoso de atuação descompromissada. Jorge Amado e Austregésilo de Athayde. O Ministério da Educação e Cultura já conta com vários órgãos incumbidos de atuar no processo cultural. passeio pelas ruas próximas de casa. graças à assistência financeira dos bancos.

— A língua portuguesa ficou completamente estragada pelo uso. que dois votos a favor. Nem sequer elegemos o presidente da comissão. brincando. numa comissão de cinco escritores. Reunião sem proveito. eu. encomendada por Celso Cunha para a . Por isso não posso mais usá-la como fazem os outros. 31 — Na Academia Brasileira de Letras. cabeça menor do que eu a imaginava. bastante diferente da imagem do poeta que eu me representava. Austregésilo de Athayde faz as honras da casa. mas não desejo a morte de ninguém — respondolhe rindo. Decidiu-se não fazer constar da ata o debate travado. aliás cordial. No porão. mas já integrado na Academia. Em telegrama ao Presidente da República. com duas abstenções. "Fui eleito pela minoria numa comissão de cinco". a recusei. Maio. Alceu Amoroso Lima não aceita a função. naturalmente. do nascente Conselho Nacional de Cultura. sempre tão individualistas. observa Ataíde. reunião da Comissão de Literatura. Jânio Quadros. Acho inútil minha presença lá. Junho. são um bom resultado. nariz aquilino que as fotos não deixavam perceber. pedi exoneração do Conselho. 13 — Nova reunião da Comissão de Literatura. e duvido da eficiência desse órgão. 31 — Ajudaram-me na tradução técnica de Oiseauxmouches Orthorynques du Brésil. Julho. na busca afanosa de um presidente. mostrando-nos as obras de superfície e de subsolo empreendidas por ele no Petit Trianon. Eleito Austregésilo de Athayde por dois votos. Ao sairmos. impressionou-me entre outras a máscara mortuária de Olavo Bilac. meu caro. Suas belezas se transformaram em lugares-comuns. — Obrigado. Respondo-lhe. Athayde: — Gostaria de ver você voltando a esta casa.

O porteiro do Pálus. por duas vezes. do Museu Nacional. do outro lado de nossa casa. que também me procurou uma vez. a olhar e miar. chamado. Garrincha não se conformou e. há tempos (destinada à passagem do seu gato Marta Rocha). O primeiro e o terceiro. Um dia desses. Além de sujar constantemente na sala de estar e em outros cômodos. velhinho que me recebeu com simplicidade.Biblioteca Nacional: o Dr. retirou a tábua. em nossa casa. Também foi . O vizinho Reis Júnior tem algumas. Helmuth Sick. que por duas vezes me procurou no PHAN (indicado por minha amiga Heloísa Alberto-Torres). e Eurico Santos. e no tocante a botânica. quando Reis. Garrincha acabou aproximando-se de suas desejadas. e de lá ele passou à casa de máquinas. ele saltara do telhado da casa vizinha do general para a varanda de um apartamento do segundo andar. 7 problema. obcecado. Garrincha postava-se no muro aqui de casa. tentando saltar sobre o abismo. caiu no pátio do edifício. autor de muitos livros sobre zoologia. da Fundação Brasil Central. separadas de nossa casa pelo vão entre o nosso terraço e o seu edifício. o Gato — Meu amigo Garrincha transformou-se em Agosto. ouvidos sobre dificuldades de tradução em matéria de zoologia. de onde foi retirado. escondendo-se no escuro. veio trazê-lo de volta. o segundo. Garrincha. Estava ainda no período de reconhecimento. Além de fazer isso. valendo-se da ponte (uma tábua estreita) que Reis Júnior colocara entre sua varanda e o muro do terraço. o Dr. para ele de grande altura. em seu quarto-escritório de Copacabana. entretanto. começou a procurar tensamente uma gata para amar. de uns dias para cá. Pela manhã. Na ânsia de abrir caminho até as fêmeas. Não se machucou. levou-o para a garagem. com evidente descontrole nervoso. de pijama. Luís Emídio de Melo Filho. já fora eu buscá-lo na casa de máquinas do Edifício Pálus.

como objeto incômodo. sem correspondência com a época de cio das gatas. agora entre nós? Gostaria de pelo menos vê-lo curado da micose. desde ontem. fazendo-me tão gentil companhia? Aconselham-me a deixá-lo no Passeio Público ou no Campo de Santana. Setembro. uma coisa está decidida: nunca voltarei a ter nenhum animal em casa. é para correr ao terraço e repetir os apelos angustiosos às gatas. onde vivem inúmeros gatos em estado de natureza. como se um animal doméstico só deva fazer-nos companhia enquanto não precisar de nós: enfeite ou brinquedo. Chamei o Dr. Estas. Uma empregada chegou a perguntar por que não o mandamos embora. Além de tudo isso. segundo afirma Reis Júnior. Nenhum sinal do meu amigo. não estando no cio. Se entra em casa. Do apartamento vizinho de Reis Júnior ouço miados fracos. 9 — Garrincha sumiu de novo. de gatas sonolentas. e é estranha sua obsessão sexual. a pelada se alastrou por grande parte do corpo. no andar térreo do Edifício Ciro. que já lhe atiraram um balde d'água. inquieto. Desta vez. o animalzinho que amo e que passou a gerar aborrecimentos e talvez contamine os moradores. Vive pelos telhados. Como desfazer-me de um animalzinho que veio novo para nossa casa e que tanto se afeiçoou a mim. Sua falta de higiene já não parece suscetível de reeducação. Dupont para examiná-lo. parece que é para sempre. entre eles o meu neto. A doença é contagiosa. De qualquer modo.parar no jardim do apartamento da polonesa. Saberia ele adaptar-se às duras condições de vida nesse estado? Como posso reclamar da Prefeitura o abandono a que parecem votados os burros das carroças da Limpeza Pública afastados do serviço por imprestáveis. Agosto. assistidos por pessoas generosas. se eu mesmo lanço fora. permanecem indiferentes aos apelos. 3 — O país agitado politicamente pela renúncia de . aborrecendo vizinhos. miando. antes de ser forçado a esse gesto descaridoso.

quarenta anos tinham passado por sua formosura sem destruí-la. 23 — Faltavam 15 minutos para a meia-noite quando Paulo Gomide me telefonou. de grande fôlego. pelo telefone. um tanto pesada. É precisamente o meu caso. eu que jamais me aproximei dela. ou que se atribuem essa qualidade. e muitas tolices se dizem e se escrevem. Lya Cavalcanti. Robusta e serena em sua madureza nobre. Concluo que o engajamento. perguntando se hélice é substantivo feminino e masculino ao mesmo tempo. seu substituto legal. facilita as coisas. mesmo do lado pior. Outubro. . Ficou. e a confirmar-se o gênero masculino estariam inutilizados muitos versos de um seu poema inédito. Outubro. a atitude dos militares indisciplinados e opressivos me revolta. infelizmente. Cada uma em Português. tentando puerilmente influir no rumo dos acontecimentos (quem inspirou esse documento? e quem lhe dará crédito?). pois ouvira isso de um brigadeiro-do-ar. Contemplei-a com a mais pura admiração. A idéia de um Governo presidido por Jango me provoca mal-estar intelectual e cívico. e perdeu o viço da idade festiva. O dicionário confirma que o hélice é o rebordo exterior do pavilhão da orelha. mas conservou a pureza de linhas. Ter razão contra todos é a pior forma de não ter razão. reconhece que é muito difícil escrever qualquer coisa quando não nos alinhamos em qualquer dos dois lados de uma questão. Circula um manifesto de intelectuais. a majestade do porte e uma tranqüila presença que o sorriso tornou mais grata a meus olhos. O poeta perdeu-os. E nenhum de nós dois sabia.Jânio Quadros e a impugnação dos ministros militares à posse de Jango.. uma bela mulher presente era a que venceu em 1922 um concurso de beleza. 25 — Na missa por alma de Zaíde Melo Franco Chermont. Muita paixão. naturalmente.. além de acariciar a nossa vaidade ou o nosso orgulho. no aeroporto.

A mestria técnica e a beleza das imagens servem a uma história que não chega a impressionar. Foi. a empregada doméstica. Inclusive a Afonso Arinos. A busca de Ana. engravidou e o namorado não quer saber de casamento. 12 — Em tom quase apaixonado a maçã no escuro disse que não gostar de Clarice é pior do que pecado. que os espectadores participem. 15 — Jovita. Gostava de conversar sobre temas de interesse público. Menos a João Agripino. de Antonioni. por Excelência. como se faltasse um elemento de vida autêntica às personagens ou ao diretor que as movimenta. Não obstante a extensão do filme e a monotonia de algumas cenas. em que me cabe assumir papel de defensor de mulheres desamparadas. mas. mantive-me interessado — não sei como consegui. a quem chamava de João. na ilha. ao mesmo tempo. Talvez nos sintamos obrigados a admirar um criador de arte mesmo quando ele não nos satisfaz plenamente. mas que nos deixa insatisfeitos. e . Novembro. por outras palavras. não é uma busca. em nenhum momento do filme tive a sensação de busca. aparentemente. nos despachos. Sem dúvida um filme excepcional. o que me disse hoje o moço admirador de Clarice Lispector. mas um ir e vir inconvincente. uma vez terminado o despacho. 29— L'Avventura. Antonioni descreve os movimentos do amor sem participar deles nem pretender. no Art-Palácio. 30 — Milton Campos. tinha infantilidades incríveis. Outubro. em visita a Rodrigo no PHAN. De resto. Novembro. na vida. É a terceira vez.Outubro. conta que Jânio Quadros tratava todos os Ministros.

distribuído como brinde da empresa. e ele me diz. no cumprimento inicial. O problema é que sugere a supressão do trecho final. Na galeria da Caixa Econômica. dentro do espírito dos donos da fábrica. Não. onde chamo os profetas de mineiros. então. 27 — O representante de uma indústria paulista combina comigo o aproveitamento de um texto meu sobre os Profetas do Aleijadinho. Sabendo de minha recente aposentadoria no serviço público. e sendo assim nada demais que eu considerasse mineiros os profetas judeus do Aleijadinho. O homem coca a cabeça e pergunta se em dez dias eu não poderia escrever outra coisa. que prende longamente minha mão à sua. o Oséas. Expliquei-lhe que o texto não podia ser mutilado nem alterado. que o complexo cultural (escultura-pintura-arquitetura-poesiamúsica-anseio de independência-afirmação localista e ao mesmo tempo geral) ocorrera na Minas colonial.. Era fenômeno historicamente verificado em Minas. que nem isso tenho? Os jornais não pagam .. indaga como é que me sinto: "É repousante mesmo?" Respondo-lhe que entre nós o aposentado tem de trabalhar duro para sobreviver. a sair no calendário de 1962.minha autoridade e prestígio não são dos maiores. que perderia o sentido se o fosse. E faço muito gosto em chamar de mineiros o Habacuc. sorrindo: — E eu. Dirigente da empresa acha que isso não ficaria bem num calendário de sentido nacional. como poderia ter ocorrido na Bahia ou em outro ponto do Brasil antigo. o Daniel e os outros compadres do Velho Testamento. Fico parafusando o que posso fazer na circunstância. encontro Otávio Brandão. Estou em férias e quero gozá-las não fazendo nada. quando ela me pergunta: — Em Copacabana não tem juiz de maiores? A Mineiridade dos Profetas Novembro.

mas no Brasil não é possível. puxando recordações.minha colaboração. e no Partido Comunista estou em ostracismo. 6 — Os industriais cederam. a ferida que só se cura pela ioga. Mudar de casa. A vantagem do hotel é que não tem lembranças na parede. a água chega ao . 3 — O Poeta Paulo Gomide está com a carga. Para confortá-lo. que nunca esmoreceu. nos alivia da carga de recordações. que se resgata pelo batismo.. a gente acaba sendo barqueiro do Volga. Quero e preciso fazer a minha ioga poética.. * Depois de tantos dias de seca total. Continuando a viver da mesma maneira. Dezembro. Renovei suas verdades. Paulo Gomide Setembro.. de mobília. e trouxe-a até a era dos jatos da Panair. isto é. outro poeta ainda não formulou. essas coisas que estão acontecendo. Despedimo-nos. A outra dor do homem é o vulnus. Admitem que as criações do Aleijadinho sejam mineiras. — Você mudou de casa. e vai dizendo: — — O Brasil ofende profundamente o meu ego. cheia de comunismo e de sonho.. invoco a sua fibra de velho lutador. Esse João Tenho uma mensagem a dizer ao mundo. mensagem que Goulart. não? Isso é bom. de quadros. sem que isto constitua ofensa à nacionalidade ou ao ponto de vista deles. mas eu creio no pecado original. aerodinâmica. pela ascese. do Gênese ao Apocalipse. sob forma nova. e trago na lembrança a cabeça já branca de sertanejo. Li muito a Bíblia. Você não crê.

. entoou um hino triunfal à vida. Passou mãos de seda em meu rosto. ou a doce amiga esquecida de nós e que pede desculpas pelo abandono a que nos votara. Por quanto tempo? . e é como se fosse a irmã que volta de viagem. mas a água sorriu e beijou-me.. Minha amante. cantou nas torneiras. Não minto. Talvez uma fada cristalina.encanamento da casa.

Guarda muito de moça. e até de menina. 8 — Entrevistado ao telefone por um repórter da Última Hora. Não gosta? — Troppo dolce! Dora. na ocasião. e sua presença é uma festa de meiguice e jovialidade. mas seu carinho pelo poeta dissipou a mágoa. sobre o atentado da extrema direita contra a sede da União Nacional de Estudantes.. publicado há 10 anos: — Grilo. Janeiro. Álvaro me telefona para contar o caso. no PHAN. e rimos bastante. que enviou a Dora e está em Opus 10.. sofreu com a brincadeira.. toca aí um solo de flauta. seu velho amigo. Logo depois chega Manuel Bandeira. Álvaro Moreyra respondeu: — Como dizia o meu amigo Remy de Gourmont. num poema de Dora. a estupidez é um estado de nascença. Um dia. Saiu no jornal. no dia seguinte: — Como dizia o meu amigo Carlos Drummond. e lembram o episódio do grilo que toca flauta. no rosto maduro. 30 — Visita de Dora Vasconcelos. — De flauta? Você me acha com cara de flautista? — A flauta é um belo instrumento. Manuel estranhou a musicalidade do inseto. Clarice Lispector mostrou-lhe .1962 Janeiro. e glosou o caso neste diálogo. Bandeira diz-me recear que suas opiniões literárias desestimulem a criação.

que teria sido a minha se algum dia eu me animasse a julgar alguém. mas no caso a decisão de um juiz tão diferente de mim pela psicologia. Seus olhos imensos. Mas isso nas situações realmente . que as domina. No trato com a firma. esse negócio esticado meses a fio! Volto para casa e sinto que não é mais a nossa casa. esfarela. claros e azuis. Fiquei satisfeito com a sentença do velho juiz Spencer Tracy. 16 — Esplêndido filme de Stanley Kramer. Julgamento em Nuremberg. por causa do seu julgamento. afinal? Abril. encontrou-se com Clarice e perguntou-lhe: — Como vai a poesia? — Nunca mais fiz versos. Agora o problema é: mudar. fazendo tudo por amizade. As coisas não nos pertencem. como é o juiz interpretado pelo ator.dois poemas que tinha escrito. Que "rocambole". Plínio Doyle foi inexcedível de zelo e competência. Nada é mais ilusório do que a propriedade. Alguma coisa. pela qual ocorrem tantas brigas e se travam tantas guerras. e em complicadas negociações com o proprietário da casa geminada à nossa. Dentro em breve estas paredes serão derrubadas. Às vezes me acuso de certa dureza na apreciação de fatos e pessoas. mas sensível. que ela diz ter ouvido na noite tranqüila de Petrópolis. Hábitos e cenários recomeçando aos 60 anos. Passado tempo. E tudo que era vivência durante mais de 20 anos desaparecerá. invisível. mudou. Dora é que não deixou de fazê-los. pelo simples efeito de uma escritura assinada há uma hora. para dar lugar a mais um edifício. Ele examinou-os e sugeriu à autora que reunisse os dois em um só poema. Abril. Pertencem a um papel. deve prevalecer sobre o impulso meramente sentimental. sorriam para o poetacrítico. apesar de Bandeira ter impugnado o seu grilo flautista. recria sob outras formas. Tem sentido? Que é que tem sentido. Já começou a desaparecer. 15 — Volto do escritório da empresa imobiliária que comprou a velha casa da Rua Joaquim Nabuco.

28 — O Ministério da Educação. Alega-se. a princípio belas. perdendo sucessivamente as letras. Dizem que é um poema cinematográfico. para justificá-la. Abril. "gás". A falação de Robbe Grillet é insuportável. acabam fatigando. como o diálogo eternamente repetido. Sacrifício. em geral. que envelheceu em pobreza digna. tem idéia de fazer uma antologia de literatura brasileira para uso escolar. na Editora José Olympio. pergunta-me: — Seus netinhos lambem prato? Sinto uma inveja danada . "ás" e "s" — letra sinuosa cantada por Alberto de Oliveira. "degas" (ou Dégas). 30 — Agripino Grieco. Os antologistas devem sacrificar um pouco os seus interesses pessoais. mas confesso que não achei nada de poesia nem de construção poética em sua estrutura. A remuneração proposta pelo MEC é inferior à que receberíamos de uma editora comercial pelo mesmo serviço. Para o varejo da vida.. que. e ele diz que fez também o seu poema concreto. inclusive de nós mesmos. Maio.graves. Junho. Nomes lembrados para a tarefa: Manuel Bandeira e eu. A conversa deriva para o concretismo. Com a palavra "nádegas". apesar de sua glória no país. faz piadas.. enquanto jovens bem-sucedidos circulam em carros luxuosos sem nada terem feito ainda de importante? Junho. e que aos 76 anos viaja em pé no ônibus. e o aprendizado continua. a baixo preço. 3 — L 'Année Dernière à Marienbad: droga pretensiosa e tediosa. Podemos exigi-lo de um Manuel Bandeira. se vai transformando em "adegas". acho cada dia mais preferível decidir pelo sentimento e ter pena de todos. como sempre. que se trata de projeto de interesse sócio-cultural: levar a literatura nacional à juventude. de onde já me afastei por aposentadoria. contista de Viola de Queluz e conversador à mineira. 12 — Antônio Versiani. descansado e tranqüilo. As imagens. Aprendi vivendo.

Primeiras Estórias. 9 — Apura-se a eleição de anteontem no Rio. Outubro. indecisa. 6 — Idéia de conto: A moça que tem medo de amar e se refugia na militância política. usando frases soltas do texto. oscila entre profissões. é a velha bonita que ela é. Novembro. Perdem os candidatos em quem eu votaria se confiasse neles. 22 — Entrevista de Lúcio Cardoso. Rosa reage: — Por que fazer prefácio para meus contos? O padeiro faz prefácio para o pão. Outubro. recém-chegado de Munique. no Correio da Manhã de sábado: — Qual o maior poema que leu em sua vida? — "Os bens e o sangue". 5 — Conto a Manuel Bandeira que encontrei em um número da Ilustração Brasileira. votei em branco. Frágil. ainda.quando vejo menino lamber prato. 8 — Guimarães Rosa. o espírito se transforma de instrumento em orquestra. Desencantado. ganham aqueles em quem eu jamais votaria. Ele me diz: — O mais extraordinário não é a moça bonita que ela foi. O jornalista. Outubro. Setembro. estudos. desse raro exemplar de falta de calor humano que se chama Carlos Drummond de Andrade. encarece a necessidade de o autor explicar seus escritos. reveladora de toda a sua beleza quando moça. dos anos 20. uma foto de Cecília Meireles. ao vendê-lo? A coca-cola tem prefácio? Depois. mostra-se aborrecido com uma nota na seção literária do Correio da Manhã sobre o seu novo livro. caminhos . com a deserção de Jânio Quadros. e eu sem poder fazer o mesmo. variando de assunto: — Quando a gente morre.

se me fiz atrasar. 16 — Debate sobre a revolução cubana. 8 — Diálogo de atraso: — Desculpe. tenho uma proposta a fazer a você e ao Manuel [Bandeira]. com voz calorosa e verbo mais cheio de recursos. embora nesse tipo de debate (como em qualquer outro. Por incrível que pareça. respondi-lhe alegremente que topava qualquer projeto com ele e Manuel.M. em confronto com o puro e fatigado Prestes. publicado há pouco no Cruzeiro! Há muito que eu tenho a idéia desse romance. Novembro. por exemplo. . tanto entre os debatedores como no público assistente. enquanto do lado oposto há. o poeta saiu-se melhor do que o líder comunista. com um herói-detetive especial. dominou o diálogo.) ninguém convença ninguém. Schmidt. transfere seus anseios. natural. Prometeu me telefonar de novo. Na ocasião. a repetir sempre os mesmos slogans de esquerda.. e as posições continuem as mesmas.diversos. Novembro. E. levando vantagem. a mesma análise rígida dos acontecimentos. improvisando um tipo de dedicação condenada a malogro. brasa sempre ardendo num fogo de inteligência. Despreparada. Melancólico: a esquerda brasileira é dirigida por homens pobres de expressão. apetites e exigências para a esfera propagandística. lembro (e não lhe digo) o telefonema que ele me deu no começo do ano.. tipo do palerma e inteligentíssimo. depois de convidar o Bardo. um Carlos Lacerda. entre Luís Carlos Prestes e Augusto Frederico Schmidt. 10 — Encontrando Vinícius de Morais. O amor chega assim mesmo. A verdade é que o hábil Schmidt. Novembro. daí a dias.. Vamos escrever juntos um romance policial. para dar uma lição aos autores do Mistério dos M. — Por quê? O pior é não ter a quem ou o que esperar. de Petrópolis: — Querido. envelhecido e sem vivacidade. nunca mais tocou no assunto. na televisão. Acaba sem amor e sem convicções.

o Político Dezembro. Está contente por não ter deixado de ser eleito. Ele ganhará. Campos acha que João Goulart fez uma jogada de classe. Faltam homens à política brasileira. Os homens públicos do Brasil só têm um hemisfério cerebral. e esse hemisfério não é o político. 17 — Capanema. tenente reformado da Marinha (estava no couraçado São Paulo. contar o seu período presidencial vigente a partir da data em que seus poderes forem restabelecidos. 12 — Numa rua do Centro. hoje inteiramente afastado da política. Diz. eleito por Minas Gerais. telefona de Brasília. Todas as ditaduras — sentencia Campos — começam pela consulta direta ao povo. Dezembro. não faz por menos: o prazer é seu alimento. e a Oposição não soube enfrentá-la.Novembro. Se houver condições de luta. Francisco de Assis Barbosa e eu nos aproximamos para cumprimentá-lo. encantado: — Seu Drummond. A Oposição não vale nada. dado pelo povo através de plebiscito.. e ainda há gente que não gosta de viver! Francisco Campos. como esta do plebiscito. está na revolução. de tal maneira o país anda mal — Governo e Partidos — e sem possibilidade de ser consertado pelos meios comuns. ficaria triste. — Mas nem para isso temos homens. que se revoltou contra Bernardes em 1924). a seu ver. . Não está contente com sua eleição. Chico puxa a conversa para os assuntos políticos. não sabe o que fazer do mandato parlamentar. Se perdesse.. vencendo. ele. mas não há quem a faça. e exigirá deste uma reforma constitucional que lhe permita candidatar-se à reeleição e. O remédio para a crise. passa Francisco Campos. mesmo. aquilo que o Congresso não lhe quis dar. Levará assim enorme vantagem sobre o novo Congresso. — Minha esperança é um terremoto político — diz ele. 3 — O Soares. E daí seguirá para a ditadura.

Comentário deste. Campos diz que a Revolução foi uma bobagem. o político juiz-de-forano de sua confiança. à sala onde Antônio Carlos o receberia. o velho Olegário voltou para Minas e desfechou a Revolução. se dispõe a lutar.) . em pleno regime discricionário.Campos. Olegário retribuiria a visita. com sua rigidez: não quis mandar visitar o Presidente eleito de Minas. colocaria Pedro Marques de Almeida. não chegou a acontecer. Antônio Carlos. (A declaração de estar disposto à luta foi provocada por Chico Barbosa. Ofendido. hospedado em hotel do Rio. Olegário chegou." Neste momento. Olegário seria sucedido por Marques. que deu novos rumos à política de Minas. na Presidência do Estado. Se o fizesse. como era de se esperar. queria ser sucedido por um político de Juiz de Fora. Diz o ex-Ministro estar em condições de indicar o exato momento em que Olegário foi escolhido para ser Presidente de Minas Gerais. Todos se acomodam. (O que. entretanto. diz Campos. o Andrada escolheu mentalmente o velho Senador para candidato à Presidência. com o elevador parado. quando faleceu Olegário. ofegante. criatura sua. Quem fez a Revolução foi Washington Luís. que antes ele não aceitava. Mas o PRM vetou a indicação. e os dois se entenderiam. Subindo a escadaria do Palácio da Liberdade. em 1933. a um íntimo: "O Olegário está por pouco. Morrendo no Governo. Olegário Maciel.) A conversa deriva para reminiscências de 1930. Getúlio não queria nada. mas não vê sinais disso. na Vice-Presidência.

diz ter sido ele quem deu a Patrícia Galvão o nome de guerra de Pagu. e não como opção política amadurecida. E a moça passou a ser Pagu para todos os efeitos. observou Jayme. Março. e não Goulart. Abril. Tinham a assinatura de Pa. misto de crônica e reportagem: — O senhor será o primeiro escritor brasileiro a colaborar em Life. volta o intermediário e retifica: "Ela é Galvão. anulando o voto. — Vou mandar imprimir isto em meu cartão de visita. Escrever "não". também não era do meu agrado. mas há ocasiões em que não votar nada ainda é a melhor maneira de exprimir um pensamento inconformado. Abril. me repugnaria. aprovando esse parlamentarismo improvisado e de mentirinha.1963 Janeiro. Triste. 5 — Convite para escrever um artigo em Life sobre o Rio de Janeiro. Era "diretor do mês" da Revista de Antropofagia. pedindo que os publicasse. e será lido por seis milhões de pessoas." "Agora fica assim mesmo". na Livraria São José. sistema desmoralizado pela prática republicana invariavelmente inclinada a abusos de poder. respondeu o sujeito. isto é. respondeu Jayme. "Isso é muito pouco. preferir a volta do presidencialismo. . Limitei-me a riscar a cédula com um X. quando alguém lhe levou desenhos de uma normalista. palmilhada sem vontade. que se ensaiou devido a circunstâncias especiais. exercer assim meus direitos políticos. Escrever "sim".. com receio de ferir pés alheios. 6 — De boas intenções está calçada a Rua da Reincidência. "Então será Pagu. Então. 8 — Votação tranqüila do referendo ao Ato Adicional. Como é que a moça se chama?" "Patrícia Goulart".. segunda fase." Dias depois. abstive-me. 4 — Jayme Adour da Câmara.

" Ainda Bandeira. que. Mas se as religiosas adoecem. Apenas. Encomendas avulsas de textos. no fim da vida. e o sentimento geral de pena procurava encontrar a maneira mais delicada de consolá-los.. e o dinheirinho certo da aposentadoria de funcionário e das crônicas no Correio da Manhã. são muito queridos.. pelo menos. Foram convidadas só as pessoas mais amigas da família. 9 — Missa de 30º. garantem. e o resultado foi este: "Sobre a neve a sombra das cerejeiras. sem compromisso. o cotidiano e certa paz. ia contando coisas. podem tratar-se em certas casas de saúde.. É em ocasiões dessas que costumo visitar minha prima. assassinado por pivetes ao defender a namorada. apontou-o. no caminho. Na despedida." Abril. . como está acontecendo conosco. em companhia de outros escritores. eu lhe digo: "Até a próxima operação. filho. favor esse deveras comovente. Abril. e se lá aprovarem.. A clausura é absoluta. que comentou: "Tem cerejeira demais. Passando pelo Convento de Santa Teresa. se não autorizam fantasias. e a igreja de Santa Teresa estava bastante cheia: Odylo e Nazaré. dizendo: — Tenho uma prima que é freira ali. Deliciou-se com a história que lhe contou Homero Icaza Sanchez: Um poeta japonês caprichou na feitura de um haicai. A Embaixada se comunicará com o Departamento de Estado." Mostrou-o ao seu mestre.Abril. 25 — Reflexão de Dolores: — É uma grande coisa a gente. trata-se de consulta prévia. Estranha gentileza condicional. 8 — Convite da Embaixada Americana: viagem de dois meses aos Estados Unidos. ter dinheiro para comprar o de que precisa no dia-a-dia. dia por alma do jovem Odylo Costa. que me faria duplamente agradecido: pela iniciativa do convite e pelo fato de Washington não vetar o meu nome. pais do rapaz. Levamos no carro Manuel Bandeira.

filosoficamente. lembra episódios em vida de Couto. Me deu uma tristeza. como velhos companheiros. chegou a embaixador do Brasil em Belgrado. No decorrer do tempo. de Andrade).Ribeiro Couto Junho. Quase brigou comigo por causa de Casimiro de Abreu. até os dias alegres e turbulentos do Modernismo. irritava-se. 25 — A morte de Ribeiro Couto me faz recuar no tempo. Austregésilo de Athayde.) Athayde recorda. que um dia lhe falou. Dante Milano. Chico Barbosa e uma filha. de camisa rasgada. da sua geração. de promotor de justiça em Pouso Alto. Dante Costa e senhora. Herman Lima. Um destes. entre círios acesos. Couto discutia com a gente. E agora morto. ali. que eu não tratava com o devido respeito. Eu era pobre. ao mesmo tempo era carinhoso. e dono de delicada expressão verbal. poucos mais.. (O que não impediu de ser um dos poetas mais sensíveis. mantinha um clima de agitação literária. Pouco depois chegavam a senhora de Peregrino. onde às 14:00 o velariam apenas Peregrino Júnior e um senhor meu desconhecido. Um servente descalço. decepções de candidato à Academia — ele próprio. onde era amigo do Marechal Tito. Suas cartas eram recebidas com avidez. não pude aprender essas coisas.. incompreendido e ridicularizado em Belo Horizonte. Sempre trocamos livros e cartõespostais. mas tinha um dom de simpatia irresistível. Rodrigo (M. Ele foi dos que mais depressa deram atenção ao pequeno grupo literário mineiro. Era às vezes implicante. varria o chão. Athayde. F. amigo de Athayde. a propósito da formação cultural dos dois: — Você teve oportunidade de estudar o seu grego e o seu latim. Um competidor organizou sociedade de mineração e ofereceu ações da empresa aos acadêmicos. no salão da Academia Brasileira de Letras. desculpou-se por não ter votado nele: tivera um filho . sentando-se a meu lado. enquanto no centro da sala se erguia o altíssimo caixão do poeta.

e os quadros não. E prossegue: — Este mundo é um manicômio e um lugar de passagem. todos se sentiam em casa. e nos damos ao luxo de possuir um Instituto Rio Branco e um Senai. que sou diplomata.nomeado para um cargo pelo Governador Ademar de Barros. No caso particular do Brasil. 25 — Guimarães Rosa. com a proficiência e gentileza de sempre. Melhor é eliminar tantas iniciativas e distribuir angu com rapadura. 11 — José Olympio ofereceu um almoço a Manuel Bandeira. Com a diferença de que as crianças protestam. devemos promover é o envolvimento. acha que o mal brasileiro é o excesso de gente fazendo coisas. e os convivas eram da escolha do homenageado. Critérios literários que o interesse vai impondo. Setembro. pelo telefone. e pudemos degustar sem literatura a deliciosa "moqueca à José Olympio . enquanto eu. como alimento geral. Julho. Assim.. para comemorar o lançamento de Estrela da Tarde. 5 — No ateliê de restauração de obras de arte. Não podemos nos engajar nele. . Fala-se no processo de limpeza de telas. onde Edson Motta. Em vez de desenvolvimento. se dispôs a cuidar de dois Portinari e um Ismailovitch aqui de casa. Foi no Rio Minho. usado por Di Cavalcanti: esfregar uma cebola na pintura. Tudo é mais agradável quando as letras são esquecidas à entrada.. há tantas coisas elementares faltando. que os outros países não têm. Outro amigo alegou necessidade de atender a pedido do Embaixador Orlando Leite Ribeiro.. Edson observa: — Costuma-se usar o mesmo processo para limpar crianças. estou proibido de fazê-lo.. Os metalúrgicos podem falar no Itamaraty sobre política internacional. Setembro. especialidade da casa. quese interessara por outro candidato. duas ou três vezes por semana.

crises e desequilíbrios entre os quais o ser humano se debate. deixo de assinar o apelo à generosidade do Presidente da República. 24 — Na Livraria São José. para que este nomeie funcionária federal a viúva de um escritor. se não fosse o tom de servilismo do texto. e de suas vítimas. a reforma sexual.1964 Março. bens e serviços oferecidos à comunidade. preferindo alcançá-lo através de processo que coloque aos pés do Presidente a classe dos escritores. Teria assinado. simultaneamente com as reformas econômicas e sociais pleiteadas hoje com tanta febre no país. de modo que o atendimento do pedido se converta em ato de munificência do soberano. presa de insegurança. não é tão difícil assim obter-se emprego nos Institutos. perderiam sua principal motivação. Março. mas universal. Fraqueza e malícia de certa mentalidade "política". e a este em particular. nestes termos: Copulai quanto quiserdes. embora me desagrade pedir a Presidentes. constrangido. é claro. não em escala nacional. que é o excesso de gente no planeta. seria conveniente promover. amigo do falecido. essa de não usar seu poder ou sua influência para conseguir um resultado justo. que são milhões. mas o que me espanta é que coisa tão óbvia não entre na cabeça dos senhores do mundo. falsa . em comparação com os recursos. Uma vez regulada a natalidade. ambição e ódio. em dificuldade para se manter." Ele então me conta que a iniciativa do abaixo-assinado partiu do próprio Ministro da Justiça. através de um Ministro ou do próprio Presidente do Instituto onde o marido trabalhava? Afinal. Digo isto a Carlos Ribeiro e pergunto-lhe: "Não seria mais fácil arranjar qualquer coisa para essa senhora. as lutas. mas não aumenteis sem medida o número de habitantes da Terra. Não pensei nada de novo. ressentimento. 20 — Veio-me a idéia de que.

Em menos de dois dias. até que se positivou. tão ruins quanto os homens. À tarde. O dia de ontem foi de tensão e boataria. Hoje. a notícia da sublevação da tropa federal em Minas. foi-se o Governo Goulart. eu sei. acabaram as notícias. me pôs a par dos acontecimentos. e não amar um pouco a si mesma. de repente. e reconhece que seu erro foi amar demais o próximo e os bichos. Admite que acabará tendo horror aos animais. O Forte estava ocupado por um . em defesa do primeiro cão ameaçado pela carrocinha. Março. fui conferir na praia. mostra-se exausta com a lida a que é obrigada para alimentar e abrigar 80 cães abandonados. entre tarde e noite. depois da fala de Lacerda pela Rádio Roquette Pinto. A adesão de São Paulo só foi conhecida pela madrugada. da boca para fora. 27 — Lya Cavalcanti. fugiu de avião para lugar ainda não sabido. informado de que alguma coisa se passava no Forte de Copacabana. enfadonha. Queda de Jango Abril. levando consigo o Comando Geral dos Trabalhadores. Não tinha a força que pensava — e que outros pensavam que ele tivesse. Tudo isso. que eu encontro na rua. Carlos Heitor Cony. salvo a propaganda contínua. Preocupava a situação no Palácio Guanabara: Carlos Lacerda entrincheirado mas também encurralado ali. com o Governador Magalhães Pinto chefiando o movimento. 1 — E. do Governo Jango em sua "cadeia nacional da legalidade". tão seguro de si ao falar aos "senhores sargentos". tudo se esfarelou. fornecidas pelo bem informado Otto Lara Resende. se for preciso. e pedindo e recebendo algumas vezes notícias telefônicas. meu colega no Correio da Manhã. Passei quase toda a noite colado ao radinho transistor. Ela se deixará matar. O Presidente da República.homenagem aos intelectuais e vinculação destes ao generoso senhor.

levado por um tira jovem. transmitida por Lacerda: Jango deu o fora. Maria leda Linhares. cai sobre o asfalto. oficiais da Marinha à paisana. desejoso de contar comigo no seu trabalho. Prisão de Carlos Ribeiro. segundo Cony) foram afastando os curiosos que se aglomeravam junto ao Forte.grupo militar contrário a Jango. Vamos ver o que será das liberdades públicas. que o iria acompanhar ao DOPS como amigo e pessoa insuspeita ao Governo. houve um corre-corre. já tão inexpressivo. naturalmente para fazer carga contra ela. Sensação geral de alívio. Atividades subversivas na Rádio. Queriam saber o motivo do meu afastamento da Rádio. o "bom mercador de livros". Abril. em torno de alegadas "atividades subversivas" da antiga diretora. até lençóis. que de tão atacada chegou ao quase desespero. Diretor do Serviço de Documentação do MEC. xingando Brizola em slogan improvisado. amigo de todos. O rádio espalhara a notícia. e por Ascendino Leite. esta de papel picado. 13 — Baixado Ato Institucional. Volto à praia. sob suspeita de quê? de tramar a derrubada do Marechal Castelo Branco? Encontro-o na Travessa do Ouvidor. Há poucas dúvidas sobre a derrota de Jango. Maio. enquanto outra chuva. O Congresso. Gente cantando o Hino Nacional. Soldados e civis (estes. Respondi que meu afastamento resultou de solicitação de Simeão Leal. . Os inquéritos desse tipo traduzem mais o espírito de vingança do que o de justiça. que atenta rudemente contra o sistema democrático. Junho. passa a ser uma pobre coisa tutelada. eu as ignorava completamente. 3 — Incrível. panos de prato. 22 — Desagradável chamada para depor no inquérito administrativo da Rádio Ministério da Educação. e eis que das janelas dos edifícios gente sacode lenços. que mais parece poeta debutante. Eu voltava para casa quando se ouviram estampidos.

vá aproveitando bastante as namoradas no céu. mas que ressurgiu em forma de carinho. a rua. com o morto ainda insepulto." . insinuações. Eu não saberia exprimir como suas pequenas coisas em prosa me tocavam. essa abordagem da sucessão. diretas ou por telefone. Dias maus. Não há imortalidade mais precária do que esta. 15 — Enterro de Álvaro Moreyra. pelo resto da vida. nunca tive com ela o menor incidente. Às mesmas perguntas dou as mesmas respostas." Ao mesmo tempo. falam-me na possibilidade de uma candidatura que jamais se concretizará.Julho. Mas o campo-santo não chega a ser o primeiro cenário onde se delineia a competição acadêmica. pelo contrário. um escritório. Álvaro Moreyra Setembro. falam de desejos. promessas. E agora eu o enterro. Curiosa. Álvaro foi para mim uma pessoa especial. preferências. já as conversas. Outubro. 21 — Pela segunda vez na sede do Ministério da Educação. palpites. Da influência nasceu a estima pessoal. Não sei de atividades subversivas da ex-diretora. meus camaradas. porque quando eu chegar lá não quero saber de concorrentes. viúva de Álvaro. uma espécie de adoração que certo incidente pareceu frustrar. alguns acadêmicos. escritor que exerceu a mais profunda influência em minha juventude literária. 8 — Cila Moreyra. Os cenários são os mais diversos: uma livraria. A graça do seu convívio não se desfez com o tempo. referindo-se ao marido: "Era um santinho de Deus. Quando o imortal se recolhe à casa de saúde. No São João Batista. uma semana depois de levar ao cemitério San Tiago Dantas. para depor no inquérito sobre a Rádio MEC. conta que costumava dizer-lhe: "Se você morrer antes de mim. sempre me distinguia em serviço.

Todos. interiormente. Na excelente conversa." De certa forma. Preferia ver. Manuel Bandeira. pessoa que podia fitar-me de igual para igual. É a poesia. Marcos de Mendonça.. É o sentimento de que o rosto imóvel nada significa em relação ao rosto anterior. plantei um jardim. Daniel Pereira me acompanhou na idéia. Rodrigo. 11 — Enterro de Cecília Meireles. aumenta o vazio em torno. na Rua Marquês de Olinda.. Milton Campos. reprova a cena do açougue em Irmã La Douce. traz no bolso alguns medicamentos para a situação. Não fui o único a propor. É demais! Vão-se as pessoas encantadoras. Cecília era a poesia. refere-se a Unamuno e Proudhon. sentindo que havíamos perdido mais do que uma criatura admirada. o terraço da Editora José Olympio. mesmo sem dizê-lo. Como sempre. Ana Amélia. e recebi de Daniel palmas-de-santa-rita e cravos colhidos em nosso jardim. Cecília Meireles Novembro. sombra. Isto é. Pequenas grandes alegrias do cotidiano. Hoje. incomparável Cecília. Não é propriamente medo de encarar a morte que me leva a afastar-me da essa (na qual eu poderia vislumbrar a antecipação do meu próprio fim). ou a gente se suicida ou se revolta. Os "antigos" presentes no saguão do MEC. mas ausente de nós. e conclui: "Neste mundo. Não quis ver-lhe o rosto. doçura. filme com Shirley MacLaine. 4 — O bom Dr. a belíssima fisionomia de sempre. sugeri que ele fosse plantado num terraço cuja nudez estava pedindo folhagem. à pessoa viva a quem eu queria bem e admirava. em torno de Cecília: Onestaldo de Pennafort. prevenido. está florido. Rodolfo Ferreira veio ver-me para debelar uma perturbação gástrica resultante de falta de moderação comemorativa. Alma Cunha de Miranda. eu.Novembro. . Dante Milano. em vez de submeter-se à contemplação passiva. a verdadeira.

Peregrino Júnior. desatou em pranto e teve de sentar-se sobre uma pilha de livros. acompanhado de Lúcia Olinto. da União Brasileira de Escritores. leu por ele o resto do discurso manuscrito. Acha que sou "um ateu de boa cepa". na Livraria São José. Não terminou o discurso de agradecimento: ao fazer referência a Cecília Meireles. 18 — Visita do padre poeta Armindo Trevisan. . o padre não desanima de fazer de mim um bom cristão. vai-se acalmando e a conversa chega até quase uma hora da madrugada de domingo. Abre a gorda pasta para mostrar os telegramas de felicitações que recebeu. Entrega do prêmio. e que na hora justa Deus me acertará o relógio do coração. e chega excitadíssimo com o triunfo. Ganhou o Prêmio Gonçalves Dias. a um canto da loja. presidente de UBE. sua cicerone. Com o tempo.Novembro. No mais.

14 — Na Editora José Olympio. O poeta não recebera nenhum tesouro mirabolante. na Churrascaria Gaúcha. Sento-me ao lado de Manuel Bandeira. A primeira já está pronta e custou-lhe muito trabalho. por um milhão. são obrigados a destruir os moldes da sintaxe e criar formas novas de expressão. Como eu lhe dissesse que não devia abrir mão dessa propriedade. e ele receberá 800 mil cruzeiros. O meu tradutor alemão. — Para me traduzirem. Concordaram. Os melhores críticos europeus surpreenderam-se com a renovação revolucionária da linguagem. [Nota de 1981: Em 1967. pelo que reivindicou aumento da importância combinada para seu pagamento. que fala das traduções de sua obra para o italiano e o alemão. e um deles se interroga: "Será que estamos à altura desta criação?" — Isto é muito importante — observa Rosa. Wilson Lousada.] Manuel trabalha todas as manhãs. pelo seu trabalho de versão do meu texto. Ele me conta que vendeu às Edições de Ouro. Um crítico chegou a chamá-lo de "novo Lutero". conquistou foros de grande escritor. A mesma editora encomendou-lhe uma antologia simbolista e outra modernista. 21 — Jantar de homenagem a Cassiano Ricardo. Curt-Meyer Clason. os direitos autorais de suas antologias romântica e parnasiana. o "cruzeiro novo" passou a valer mil cruzeiros anteriores: prodígios da inflação. Eduardo Cannabrava Barreiros e eu conversamos com Guimarães Rosa. depois do café. respondeu-me que o fizera por estar com 78 anos e ainda porque a venda dos direitos se refere apenas a edição do tipo livro de bolso.1965 Janeiro. Daniel Pereira. Janeiro. em que lhe é entregue o Prêmio Jorge de Lima. que seus livros impõem aos velhos idiomas. e tem as .

e gosta de fotografias. mesmo. com Manuel. Rodrigo atribui ao calor medonho a perturbação física. no Globo. por discrição alimentar. Ele não tinha outras condições para encantá-las. para o suplemento feminino de um jornal. para Manuel. Segundo esta. come menos do que o faria qualquer pessoa normal e. 26 — Adoeceu o poeta. Bandeira e Schmidt Junho. informa que a irmã de Augusto Frederico Schmidt estranhou não figurar no livro qualquer texto do poeta da . traduz o Rubaiyat para a mesma editora. Veio desacompanhado. permite-se extravagâncias à mesa. Mas o pior. Manuel considera que tem pouco tempo de vida pela frente. que iria ser fotografada a seu lado. Prefere exigir sempre de si mesmo. Podia descansar. pobre e doente como sempre foi. na noite de 17. Fizemos. Ao lado disto. por muitos anos. e deseja aproveitá-lo. Mas Rodrigo. uma antologia sobre o Rio de Janeiro. Susto geral de amigos. mas claro que gostaria (quem não gostaria) de tirar outros. todas as mulheres que passaram por sua vida o fizeram atraídas pelos seus versos. A coluna de Carlos Swann. a propósito do quarto centenário de fundação da cidade. 9 — Almoço na Editora José Olympio. jantando em sua casa. No momento. dá testemunho de que o poeta.tardes livres. o nosso poeta. e tem direito a isso. recusa certos pratos. pois me desagrada falar nessas coisas. Fevereiro. Já tirou retratos junto de Marta Rocha. Fico pasmo com a sua capacidade de trabalho no limiar dos 80 anos. O poeta ama a beleza em suas expressões humanas. Diz que sua poesia. e seu comportamento é mais solto. mas. não lhe rendeu nada materialmente. seu amigo n? 1. no dizer de sua amiga Lurdes. eu e ele. deve ter sido o cancelamento da visita de Marta Rocha. em compensação. e continua em tratamento. Não vou descrever a doença.

Mário Barreto Junho.Estrela Solitária. o "anjo moreno. de forma objetiva. 16 — Visita do jovem professor Daus e sua mulher. Bandeira lembra que o filólogo Mário Barreto queria casar-se com sua irmã Maria Cândida. muito amava a sua cidade e tanto escreveu sobre ela. O marido veio estudar poesia popular do Nordeste. Novembro. Ao contar em casa que transmitira a negativa. Simpático. conta que na Alemanha a geração que fez a guerra de 1939-1945 começa a vangloriar-se de tê-la feito. Mário Barreto casou-se com outra moça. ela e a mãe desandaram a rir. 23 — Com boa disposição para o almoço na José Olympio. apenas. além de carioca. pois nada fazia crer que Mário alimentasse tal propósito. e excelente memória. Em Pernambuco.. Os veteranos reúnem-se para celebrar a amizade que surgiu da luta em comum. a irmã de Manuel protestou: "Mas eu não disse que não queria casar com ele. Mas acaba concordando que a retificação seja feita pela editora. Ri. e morreu atropelado por bicicleta. falando um português razoável. violento e bom" de que fala em um de seus poemas. em certo município. Quando o pai comunicou à moça essa pretensão.. que. linda. Não admitem a culpa nacional nem se arrependem do extermínio de . não foi feliz. 80% das terras pertencem a um só proprietário. a paga diária é de cento e tantos cruzeiros. do ponto de vista sociológico. os rasgos heróicos da pátria. Casal alemão. e este não deixa cultivá-las. e dá testemunho da miséria em que vive o trabalhador do Nordeste e do Norte. Bandeira pensa em aconselhar à reclamante e ao Swann que consultem um oftalmologista. O Dr. Acontece que nossa antologia contém quatro peças schmidtianas. Bandeira interpretou o riso de Maria Cândida como negativa e informou ao pretendente que seu pedido fora recusado." Mas já era tarde. E iria pensar no assunto. Viajou pelo Brasil até o Amazonas.

repetindo várias vezes a operação. apesar de registrar sua notável atividade criadora. me põe triste: "Sentindo que a minha ração de vida está para acabar.alguns milhões de judeus. Os maiores de 60 anos. vinda de Roma. para oferecê-las a seus filhos. 20 — Carta de Murilo Mendes. Há homens que fogem do lado Oriental para o Ocidental e voltam àquele. escondeu discretamente nos bolsos do paletó algumas bananas. E há mesmo empresas criadas para facilitar a movimentação clandestina de um a outro lado. porque aos Governos das duas partes não interessa o pagamento de suas pensões. o diretor de uma fábrica de automóveis. meti este ano as unhas em três livros. deslocam-se facilmente de zona. parente do visitante. Com esta passagem que. em casa. a fim de obter vantagens. ao comparecer a um jantar numeroso. Novembro. aposentados. Na Alemanha Oriental. que às vezes provoca a morte do viajante. dois de verso e um de prosa." .

Alguém teria dito mesmo a Odylo Costa. da mesma maneira que os objetos de uso de Cecília. A seguir. que em determinado momento nos ocorre. Até para atravessar a rua você precisa estar inspirado. pois seria esta a primeira casa-museu na espécie (a de Rui Barbosa tem outro sentido mais geral. consagrada a um homem de intensa vida pública. 1 — Heitor Grillo. depois de ler poemas deste: "Estão bons. É pena que a idéia malograsse.. repartida entre várias formas de ação). mas recusou-as. Setembro. mais ligados à sua produção intelectual. Está indeciso entre dois títulos para os poemas que acaba de escrever: "Elogio da humildade" ou "Poemas da humildade". mas são inspirados. não realizado por falta de recursos do Governo estadual.1966 Julho. Seria instalado no casarão da Rua Smith de Vasconcelos. O museu de Cecília seria um museu fundamentalmente de poesia. 22 — Manuel Bandeira telefona. fala-me do projeto." . satisfeito: "Quer dizer que o octogenário está em forma?" "Absoluta". Heitor Grillo recebeu propostas altas de instituições americanas. para fazer uma coisa." "Ora" — diz Bandeira — "inspiração é coisa que não pode faltar em poesia e em tudo na vida. filho. revelado por algumas correntes literárias de hoje. no Cosme Velho. Chamo de inspiração a uma certa facilidade. respondo. de um museu dedicado à vida e a criação literária de sua mulher. Lê os versos para mim. por entender que o conjunto bibliográfico. e que está repleto de lembranças encantadoras de Cecília — inclusive mais de duzentos vestidos que ela usou e que guardava. habitado pelo casal. no Brasil e em Portugal. o poeta comenta o preconceito contra a inspiração.. viúvo de Cecília Meireles. Ele. e eu o cumprimento pela qualidade das produções. para venda da biblioteca de sua mulher. devem permanecer no Brasil.

para onde se transferiu e é tratado por Lurdes." Sorrio por minha vez. sobre Henriqueta Lisboa: — É uma malvinha. dei um presente a mim mesmo.1967 Janeiro. no living. Está criando sempre. compondo dois quartetos." Não quer mais saber da garotinha. O que me dá vontade de cultivar um pé de malva no apartamento. e admite: "O pijama torna mais acabadas as pessoas doentes. E a mesma decepção de Manuel. encontro o maestro Francisco Mignone. . De pijama. moradora no edifício. * De Celina Ferreira. 10 — Visita ao poeta. a quem o tempo não verga. Setembro. Que faz o meu poeta. o meu presente serão três sonatas. e me conta: — Quando eu fiz 60 anos. e não escutar o toque da campainha. pois tenho a mesma experiência de brincar com gente miúda. 1 — Na Rádio Ministério da Educação. Fala pouco. com as irmãs. mas sorri ao que lhe digo. por estar sozinho no momento. com a porta de entrada aberta. Agora que vou fazer 70. no apartamento da Rua Aires Saldanha. enquanto espera que chegue a sua amiga? Distrai-se decifrando problemas numa revistinha de palavras cruzadas. Alude ao seu vestuário. Anda na rua. antes estimula. com quem brincava: "Foi ela crescer um pouco e já não liga mais à gente.

1968
Abril, 15 — Chico Martins, em conversa, lembra episódios da vida do Dr. Afonso Pena Júnior, falecido há pouco. Há mais de 30 anos, viajou no mesmo carro que ele, em velho trem noturno da Central do Brasil. À hora do jantar, o passageiro sentado em frente olhava de maneira tão insistente para o Dr. Afonso, que este não se conteve e o interpelou: — Sou Afonso Pena Júnior. Por acaso o senhor deseja alguma coisa comigo? O outro, sorrindo: — Batista). Chico me conta ainda que, por minha causa, esteve detido por alguns momentos na Polícia. Foi no tempo de Getúlio Vargas, quando o Governo procurava defender-se dos adversários do Estado Novo mediante severa vigilância policial, e ao mesmo tempo manifestava simpatia pela Alemanha nazista. Chico veio de Belo Horizonte no avião da Panair, juntamente com Pedro Aleixo, um dos promotores do Manifesto dos Mineiros, e Manuel Ferreira Guimarães, líder das classes conservadoras, afeicoado a Getúlio. À saída do avião, no Rio, os passageiros faziam fila para a revista policial; seriam conspiradores? O próprio Manuel Guimarães foi recolhido a uma dependência do aeroporto, e de lá só conseguiu sair graças a telefonema para o genro, Geraldo Mascarenhas, oficial-degabinete de Getúlio. Motivo: trazia no bolso um boletim contrário ao ditador, que pretendia mostrar justamente a este, na qualidade de amigo. Chico, ao ser revistado, tinha uma cópia do meu poema "Carta a Stalingrado", de exaltação à resistência russa, em face do terrível ataque das tropas de Hitler. Esses versos circulavam então clandestinamente no país. Solto afinal, no dia seguinte Chico ainda foi Ah, eu logo vi que o senhor era filho do Batista Júnior! (Batista Júnior, artista cômico, ventríloquo, pai de Dircinha e Linda

procurado em casa por um policial, interessado em saber como ele obtivera a cópia. Abril, 21 — Pequenas coisas que dão pequenas alegrias. E não serão estas as melhores, no cotidiano banal? Meu amigo Ary de Andrade está feliz porque alguém, em Capivari, o presenteou com um tijolo que tem esta inscrição gravada: "1882". — É um tijolo tirado da casa onde passei a infância. Você sabe lá o que é isso? Abril, 23 — Eugênio Gomes, escritor que é modelo de discrição e correção intelectual, foi convidado a inscrever-se como candidato ao Prêmio Nacional de Literatura, concedido anualmente em Brasília. Esquivou-se. Disse que aceita prêmios literários, porém não os pleiteia. Abril, 25 — Ao sairmos da missa por alma de pessoa amiga, rápida conversa com Raquel de Queirós. Ela me conta a reação de Gustavo Corção, ao saber que D. Hélder Câmara teme ser vítima de atentado: — Deus nos livre. Vão dizer que fui eu que mandei matá-lo! Maio, 19 — Eneida sai à rua em companhia de um neto, rapaz de aparência atraente, e chama a atenção de homens e mulheres. Ela exclama: — Estão pensando o quê? Que ele é meu gigolô? Não é não, é meu neto. Junho, 4 — A grave situação vivida pelo meu amigo Y., segundo me contou ele, foi atravessada com a serenidade dos momentos supremos, como se a natureza se apiedasse, poupando-lhe o nervosismo inútil. Comportou-se como pôde, sabendo que estava à mercê dos acontecimentos, sem a mínima chance de escapar, fingir ou negar a evidência — e milagrosamente escapou, sem nada acontecer. Mas, terminada a prova, correu ao uísque puro, em dose maciça, com medo de não resistir ao depois-do-choque. Daria um conto, que não me

animo a escrever, para não comprometer a sua discrição. Junho, 16 — De Lya Cavalcanti, a infatigável amiga e protetora dos animais (duas qualidades que nem sempre andam juntas; há quem goste deles sem protegê-los): — Dizem que sou boa. Não é nada disso, apenas gosto mais de cães do que de brilhantes. Outubro, 17 — Converso com um candidato à Academia Brasileira de Letras, que me transmite suas observações: — Os acadêmicos são tão políticos que perto deles o Benedito Valadares é pinto. Os que mais me cumulam de agradinhos são os que não votarão em mim. Por ocasião da visita protocolar, eles retêm a gente e conversam, conversam... É comum a proposta de negociação: — Votarei em Fulano, por quem me interesso, mas se eu sentir que ele está fraco, vou propor-lhe que desista, e nesse caso o meu voto será de você. Com uma condição. — Qual? — Você se comprometer a votar nele, em vaga futura. Outro acadêmico sonda o candidato, para saber se determinado colega lhe prometeu voto. Certamente, duvida da lealdade dele, que teria prometido votar em outro competidor. Não há franqueza nesse jogo, como de resto em todos os jogos. Há "imortais" que chegam a promover candidaturas, em benefício (ou para o mal) de intelectuais que nem sonhavam em apresentar-se. Só para impedir que as candidaturas já lançadas prosperem. Um componente sádico não é alheio a essas manobras — concluo.

Todas as Mulheres do Mundo
Outubro, 25 — Uma empresa de São Paulo me convida a

produzir uns versinhos para o seu calendário-brinde de 1969, que desenvolverá o tema "Todas as mulheres do mundo são brasileiras", isto é, são muito variadas as raízes étnicas de que se vai formando o tipo feminino nacional. Somos doze colaboradores, um para cada mês e para cada tipo de mulher, representado por modelos de alegrar a vista. Entre os companheiros, ouvi falar em Fernando Sabino (a mulher saxônica), Di Cavalcanti (a nossa prezada negra), Antônio Callado (a índia), Millôr (a oriental). Um colega novo nas letras, Mário Andreazza, escreverá sobre a mulher brasileira em geral, resumo de todas. A mim tocou a escandinava, talvez pelo meu confessado amor a Greta Garbo. Estou tentando aviar a encomenda:

Rara, clara, cara. Altura de edifício de São Paulo. Azul porcelaníssimo nos olhos. Jeito de calar no conversar e gestos-silêncio, em nevoeiro a fluir da cabeleira linholúmen. Pés longos como alexandrinos caminham céleres e não pisam: foice-relâmpago. Garbo da Garbo: Miss Mistério que Cruz e Sousa havia de cercar de rutilâncias, mas chega tarde, após o simbolismo, e estuda qualquer coisa: Economia? Erótica? Eurística? Cibernética? Das 7 e 30 às 12. O mais é vela e vôlei. Mãe futura de louros icebergs, salvo se casar com nordestino (os astros é que sabem) usineiro.

para lançamento de livros de Chico Buarque de Holanda e Clarice Lispector. Era a família Rónai — Paulo. Chico foi detido ontem. 17 — Adiada até quando? — a festa da Editora Sabiá. em crises repetidas e nunca assimiladas como lição. Dezembro. que . o desprezo às normas éticas e jurídicas se manifestaram de maneira contundente. e não deu tempo. giram em torno do quatriênio presidencial do Marechal Hermes. Dito e feito. o navio Satélite despejando corpos no mar. remontando à infância. no Museu de Arte Moderna. a suspensão de jornais. 22 — Ouviu-se o ruído de elevador parando no andar. Norma. Cora e Laura — numa visita de Natal. a censura à imprensa. mas estava perdido o elemento de surpresa. Não há clima para festa. A melodia suave derramou-se no pequenino hall. Feliz Natal. fui abrir a porta... Laurinha queixou-se: — Atrapalhou tudo! Eu queria tanto me anunciar com um solo de flauta. Assisto com tristeza à repetição do fenômeno político crônico da vida pública brasileira. — Não seja por isso — tranqüilizei-a. A luz do hall acendeu-se. a Bahia bombardeada.. o Governo de outro marechal (e na minha velhice) golpeia a Constituição que ele mesmo mandou fazer e suprime. Recomeçam as prisões. intimado a não se afastar do Rio. jornalistas da Oposição presos. Intrigado. submetido a interrogatório grosseiro. e solto hoje. A garota já tirara o instrumento do estojo e preparava-se para iniciar a peça. e do meu Boitempo.Dezembro. 14 — Minhas mais antigas lembranças políticas. Quase 60 anos depois. E ninguém tocou a campainha. em que o estado de sítio suspendeu as liberdades do cidadão.. Renuncio à esperança de ver o meu país funcionando sob um regime de legalidade e tolerância. depois de tantos anos em que a violência oficial. por um "ato institucional". todos os direitos e garantias individuais e sociais. governadores de Estado foram depostos. — Eu fecho a porta e você começa a tocar. Dezembro.

impecavelmente executado. Laurinha e a flauta se entendem muito bem. .pela primeira vez tinha a honra de abrigar um miniconcerto. Foi a mais deliciosa visita de Natal em minha vida.

remo vendo-as para outro lugar qualquer. Um funcionário informou-o: — Ministro. Janeiro. — Mas eu já uso um. avisou certo dia aos fiéis: — O Evangelho de hoje é muito chato. 20 — O vigário da igreja da Saúde. doutor. Chegaram a propor a Costa e Silva a dissolução do Congresso. Fico sabendo que o AI-5 do mês passado iria ser ainda mais violento do que foi.1969 Abgar Renault Janeiro. Todos os novos Ministros recebem um carro zero quilômetro. à noite. Na missa. O bom conversador de sempre. Abgar passou a usar o automóvel do seu antecessor no cargo. das Assembléias Legislativas estaduais e das Câmaras Municipais. por isso vou falar de outro. — É a praxe. Ele não aceitou. Dada a sua situação em Brasília. está a par do que se passa e se diz nos bastidores. em Itabira. Deu "mau exemplo". Ele reagiu: — Isso seria desarrumar a casa demais. Ao ser nomeado Ministro do Tribunal de Contas da União. pretende instalar uma estação rodoviária e boxes para comerciantes. intimou os parentes de mortos com sepultura perpétua no cemitério anexo a exumarem as cinzas. No terreno. 6 — Visita de Abgar Renault. . chegou o carro novo para o senhor.

Há mesmo rumores de sua morte. Paulo Francis e o Embaixador Cyro de Freitas Vale. Encontrou-se comigo na rua e convidou-me a fundar com ela um jornaleco chamado O Atraso. no impedimento (a sinistra palavra) do Presidente . a conversa gira em torno de recordações de Belo Horizonte. deitou-se no chão. de uma família de favelados que sofreu despejo e que lhe pediu que a guardasse até arranjar moradia. Setembro. comunicado oficial anuncia a auto-atribuição do poder pelos três ministros militares. Franklin de Oliveira. Ficou 24 horas sentada num banco. de tanto pipi de cachorro que elegeu aquele ponto para se aliviar. e a todo momento amigos telefonam dando notícias da doença de Costa e Silva. A dona da casa oferece uísque. removeram-na para o hospital. em casa. Mas em seu apartamento a geladeira está enferrujada na parte baixa. Em lugar seguro. não pôde passar a noite no dormitório. 1 — Pequena reunião. Seu crime: ser diretora do Correio da Manhã. 6 — Lya Cavalcanti acha que ter um anel de brilhante no dedo não dá tanto prazer quanto ver um cachorrinho com sede bebendo água. ela conserva outra geladeira. e conta seu duelo verbal com o General Luís de França e um comissário de polícia. bolinhos e café. Com isso. Finalmente. Maio. pelo rádio.Niomar Moniz Sodré Fevereiro. em que combateríamos os males do progresso desumanizador. alegando que não é policial nem delatora. Finalmente. Lá estavam Moniz Viana e sua mulher. mas não se submeteu à ordem. que lhe impuseram na Penitenciária Feminina de Bangu. A situação política é tensa. Também não quis vestir o uniforme de presidiária. 1 — À tarde. Recusou-se a indicar nomes de autores de matérias do Correio. visitei Niomar Moniz Sodré em seu apartamento da Avenida Rui Barbosa. Por último. onde se acha em regime de prisão familiar.

que andava pelas imediações. 30 — Minha amiga Lya. Vice-Presidente. Pouco depois. por exemplo. saindo à rua já em boas condições de vestuário. pelos motivos conhecidos. Pedro Aleixo. Um banquete canino. o homem. queixando-se: — Sua empregada não me deixou falar com a senhora. e depois a injeção indolor. abordou-a de novo. O vendedor de sacolas bateu à sua porta e achou a dona da casa tão mal vestida que a tomou por empregada. idem. defensora intransigente dos animais. perdem o direito de viver: — Quero transformar o horror da morte em amor à morte. O Presidente do Supremo Tribunal e o da Gamara dos Deputados.da República. . dando ao animal um último instante de felicidade. Que país! Que tristeza! Novembro. afastado da substituição. desenvolve-me sua filosofia quanto ao sacrifício de bichos que.

15 — Eleições. não sei de quê. que ia passar um mês de férias nos Estados Unidos. para senadores e deputados federais e estaduais. Fui hoje ao colix-postaux. Entreguei-lhe alguns dólares para a aquisição. (E. Só na maciota. Prestimosa. afinal. Mas o maestro não pôde executar a composição até o fim.eu que nunca imaginei Frutuoso compondo maxixe. fim da pitoresca história do aspirador de pó para livros. Novembro. E chegou. mas de tamanho bastante avantajado para o fim a que se destinava. modelo norte-americano. que tem espírito jovial e conta coisas do mundo musical no tempo do modernismo. faz um barulho dos diabos. a fim de entrar na posse de um objeto que custara 45 cruzeiros e 60 centavos (10 dólares) em New Jersey e fora despachado por 12 dólares. Em casa do velho conselheiro Antônio Prado. o obséquio de comprar-me um. 3 — Hoje. ela atendeu ao meu pedido. Para não ser usado nos meus livros: é um aspirador dito portátil. porque da sala vizinha uma voz enérgica estrondou: "Pára.1970 Maio. Cobraram-me a taxa de 121 cruzeiros e 50 centavos. Ele morava em São Paulo e freqüentava os salões da burguesia. mas o objeto não pôde vir em sua bagagem. e há anos que a indústria brasileira produz modelo parecido com ele. pedi à amiga Clirian. mais 1 cruzeiro e 90. 16 — É agradável conversar com Frutuoso Viana. Frutuoso! Isso não é música!" A voz era de Villa-Lobos. na Avenida Rodrigues Alves. depois de uma campanha morna e tediosa pela . hoje. Vendo um funcionando bem na biblioteca de Plínio Doyle.) Quem pediu a música foi Graça Aranha. Agosto. Seria despachado depois. para retirar o bichinho. aventurou-se a tocar no piano um maxixe de sua autoria.

a diversão é fazer expurgo no papelório acumulado em anos e anos de arquivo. Convocar eleições. Damos importância a um acontecimento. 26 — Depois de um calmo Natal. Isso.televisão e pelo rádio. Depositei na urna. e o Congresso é hoje uma coisa insípida. chega a ser um ato de sadismo. foi a viagem. vidinha de cabotagem. reservando-se o direito de cassar os eleitos. Roda no quarto. guardamos os papéis que se referem a ele. mais ou menos durante a vida inteira. Prazer de rasgar. Dezembro. uma cédula com a pergunta: "Votar pra quê?" Os candidatos da Arena e do MDB se equivalem. sob controle do poder militar que vigora há seis anos. e cinco anos depois nada tem importância. Como se estivesse rasgando o passado sem interesse. Epitáfio: Vida. . que não é urna.

ao que parece. . Junho. já com boa clientela em Belo Horizonte. levava o livro para a mesa. estranhou o mau costume. em trinta contos de réis. como clínico e cirurgião. quase não dispunha de tempo para estudar. Mostrei-lhe o calcanhar dolorido e a alma. na ausência do meu querido Dr. E ela: "Estou fazendo como você. que eu não quero morrer virgem!" Abril. como candidato à cadeira de Higiene na Escola Normal. que fica lendo na mesma hora. e por sua vez levou a costura para a mesa de refeições. em casa. Quando estudante de medicina. vovô. Rodolfo Ferreira. 2 — O médico a quem recorri. e seu consultório. é uma ilha de paz. Dona Regina. fazia com os seus estudos." Diante disso. para resolver um probleminha de saúde. Rodolfo Ferreira está de volta. e é dois anos mais moço do que eu. 6 — Contado por prima Pitu. Alexandre anotava as despesas que seu pai. porque ele me interrogou sobre tudo. na penumbra do entardecer. Já homem feito. Ficaram. com quem é sempre agradável conversar: Seu pai. A certa altura. carinhosamente cortava o cabelo do pai. Ciriri). o Dr. o Dr. a garota exclamou: "Não corre tanto. o futuro Desembargador Carvalho Drumond (Dr. até a formatura. suponho que a fim de documentar-se para o livro que está escrevendo sobre psicologia sexual. me pareceu idoso. ele desistiu. Conta-me que dirigia com muita velocidade o carro em que também viajava uma neta de 15 anos. Então. "Que idéia é essa. de costurar na hora da comida?" — perguntou ele. Alexandre Drumond (com um só m). 14 — O Dr. sua mulher.1971 Fevereiro. à hora de almoçar e jantar. Imagino como ele me julgará velhíssimo.

meu caro. Como a vida vale pouco hoje em dia. uma morte destas. liquidado pela extraordinária quantia de 24 cruzeiros e 31 centavos. "forma de referência parcializante e indireta". O poeminha. Discurso de um senador: "Não poderíamos nunca ser pessimistas quanto às medidas a serem adotadas em benefício do Nordeste. "matriz barthesiana". eu gostaria de morrer depressa e suavemente. "núcleo sêmico". Depois de borboletear sobre assuntos de vida. sendo que 24 cruzeiros e 50 centavos desse total correspondem a prêmios pagos a mais. e agora honradamente devolvidos pela administração previdenciária. hein? Rir é a solução. como todo mundo. Lembra um desses filósofos do século XVIII francês. que me parecia simples. . Julho. um pouco sobre tudo. 27 — Seguro de vida de 30 contos de réis. leio no jornal o artigo em que se analisa um de meus poemas à luz das novas teorias lítero-estruturalistas.. e me achei um monstro de trevas e confusão. Dezembro. Ele observa: — Ah. tornou-se sombriamente complicado. Setembro. Confesso-lhe que.Conversamos à margem de doença. Travo conhecimento com expressões deste gênero: "dinamismo dos eixos paradigmáticos".. só os carismáticos é que têm direito a ela. sem ilusões e com senso de humor. em um Governo cujo Presidente é o mais nordestino de todos nós. de 1965 a 1971. caímos no inevitável assunto de morte. no Ipase. "invariante semântica horizontal"." O Presidente é gaúcho. 10 — Jóias do puxa-saquismo nacional. 25 — Aturdido.

6 — "O tempo. Chego à conclusão de que escritor é aquele que não sabe escrever. 10 — Meu amigo L. entretanto. sob a alegação de que em tempos remotos foi simpatizante da esquerda. E ficamos os dois a falar mal do tempo. e recusei — disse-me ele." Duvido. Melhor envelhecer com a possível discrição e aceitação. em plena festa interior. 12 — Tanto trabalho para redigir a carta de resposta a uma diretora de serviço público que me mandou observações sobre uma crônica que publiquei no Jornal do Brasil. que. Como se ele se importasse com isso. tão espontânea em sua amarga verdade. é que não tem jeito para ela. algum americano é bem capaz de pegar a idéia no ar e nos impingir uma falsa mocidade eterna. pretendeu viajar para o exterior. . respondeu a processo administrativo por acumulação indevida e inexistente. a palavra justa. desperta sorriso. Novembro. que canalha!" — exclamação de simpática senhora do Recife. nem mais nem menos. pois quem não sabe escreve sem esforço. Nada disso. mediante processo eletrônico e suaves prestações. que lá reside. Já Manuel Bandeira era de outra opinião: "Se você faz uma coisa com dificuldade. Ela aprovou a minha idéia de que o ideal da vida seria começar pela velhice e acabar na mocidade. em nome da humanidade desiludida.1972 Março. — Achei que era demais. isto é. em visita a pessoa de sua família. Finalmente. Problema: achar o tom adequado. não remunerado. teve o seu nome vetado para membro de um conselho técnico. Por outro lado. Abril. a expressão medida e insubstituível. para o qual o indicaram à sua revelia. e criaram-lhe dificuldades no DOPS. resolveram homenageá-lo com uma condecoração de ordem cultural. a acusá-lo. no café.

Fernando e eu evidentemente perturbamos. meu e nosso carrasco! Filmagem com Fernando Sabino Junho. qualquer coisa parecida com as montanhas de Minas. E há namorados em volta. A merda da coisa teimando em ser coisa depois de ter sido e apodrecido coisa. já demolido na realidade. É a coisa tirada do farelo da coisa. são tantos minutos de filmagem que. David Neves. Mas não é fácil ver o Pico do Cauê.1973 Janeiro. acha que a cena será de grande efeito. 20 — Aprendo com Fernando Sabino que um curtametragem só o é na hora da exibição: antes. diretor. de Abel Gance. enquanto eles também nos . 6 — Exclamação na rua: Ó tempo! Ó anti-Pitanguy. Não sou Napoleão. dariam talvez um outro Napoléon. Janeiro. Fernando. mas tenho de subir à pedra do Arpoador para divisar. erguer-se sobranceiro no céu. somados. nas nuvens. querendo curtir calmamente seu namoro. que os aparelhos de filmagem. 1 — Mas é a mesma coisa pintada de janeiro! — Não a mesma coisa.

Ela recusou: "Paguei a passagem. e sou o primeiro a rir da minha peraltice. mediante trucagem. "Corta!" — ouço a ordem do diretor e do cinegrafista. A idéia é aceita. sobraçando livros. Fernando pediu a uma senhora. Proponho esconder-me atrás de uma das colunas e. entre austero e entediado. A outra. e nem-te-ligo. mas de todo não cola a filmagem no eixo da Avenida Rio Branco e Ouvidor. lendo uma revista. com a multidão empurrando a gente de qualquer jeito. para instalar a câmera. reaparecer saindo de trás de outra. a linda Lygia Marina é uma estudante de letras que. documenta-se mais uma passagem da vida cotidiana do poeta. pelo menos me saio bastante bem nas cenas silenciosas — como certos deputados. uma coisa! A verdade é que nos divertimos mais do que esperávamos. para desabafar. e partimos para outra. se não sou um ator excelente. é no pátio do Ministério da Educação.perturbam a nós. já em outro dia. que sinto vontade de fazer molecagem. . troca duas palavras comigo. que que há?" Os outros passageiros olham-nos. Passei tantos anos de vida naquela burocracia. No Bar Bico. Afinal. Mas a moça é tão bonita que prefiro trocar duas mil. e o pobre do cinegrafista caminhando de costas e de cócoras. Ah. e. o obséquio de desocupar o banco por alguns momentos. A cena no ônibus deu trabalho. cortesmente. espantados. E eu tenho que ficar bem natural.

Maio. O autor utiliza todos os recursos de expressão. em livros. viúva de Álvaro Moreyra. Setembro. País em desenvolvimento. Mas por que não ser desculpado. como vacina. revistas e jornais. mais moço do que eu um ano. Ora. em seu gabinete na editora. Concordo inteiramente. esta frase que o encantou. O poeta não teria escolhido isso . depois. pesquisa na Biblioteca Nacional as crônicas de Álvaro na revista Querida. do destino e da vida. Acho até melhor assim. Elisabeth Pereira me conta o telefonema que recebeu de uma professora de Letras: — Estamos fazendo em aula um estudo sobre As Impurezas do Branco. 17 — Pensão da Cila. de um desconhecido. 6 — Em sua sala de trabalho na Editora José Olympio. para as coisas gerais. por tudo que a gente fizer compelido pelas leis do sangue. e que nos interessa a ambos: — Tudo aquilo que a gente faz depois dos 70 anos merece ser desculpado. ao telefone: — Não estamos mais em idade de admitir nossas candidaturas à Academia Brasileira. logo ao nascer. no INPS: Cr$ 590. Diz-me que ouviu na rua. do Drummond. A gente se elege e abre vaga em seguida. durante 55 anos. É mesmo. comenta as coisas do dia e passa. e a análise tem de reparar neles. Viva a Previdência Social! Para obter aumento.1974 Janeiro. o volume é impresso em papel de duas tonalidades: um branco mais claro e outro mais amarelo. Eu gostaria de apurar uma coisa. do meio e da vida? Novembro. 4 — Meu amigo. 1 — Conversa com José Olympio. Em ritmo pausado. Ele escreveu.

O que importa é a sua atitude. porque havia escassez do branco. Morreu em outubro e foi sepultada no Dia da Criança. E explicava: — É para não ter de dar a mão a essas vagabundas que dormem com o vigário. Ary comentou: — Ela havia de ficar alegre. A gráfica teve necessidade de lançar mão de duas variedades de papel. Na hora eu verifico o nome. De fato. que importam os nomes e até os partidos. 12 — Pergunto ao meu querido médico Dr. O nome dele. Rodolfo Ferreira se tem candidato para as próximas eleições de deputado. minha senhora. nem sequer é reconhecido pelos homens. se o que vale é ser contra ou a favor de alguma coisa que para nós é uma causa importante? Dezembro. enquanto os mais puros ficariam para a qualidade mais branca? Resposta de Elisabeth: — Não. O que houve foi o seguinte. É um tipo de bravura que não aparece. E a gente podia ficar triste? A chamada fraqueza das mulheres é um preconceito como outro qualquer. se pudesse assistir a um funeral tão bonito assim. não guardei. e estrugiam foguetes. ela só ia a certos lugares com os braços cruzados. Todos nós conhecemos uma dona-de-casa que assume calmamente as responsabilidades.intencionalmente. ou o número. sem reclamar as prerrogativas que os homens se atribuem. 20 — Ary de Andrade fala-me da forte personalidade de sua mãe. O enterro coincidiu com a festa comemorativa da data. reservando os poemas impuros para a segunda qualidade de papel. Na cidadezinha paulista onde a família morava. e ele responde: — Tenho sim. É um que defende os animais. falecida este ano. que têm a favor de sua suposta . Novembro.

Vejo na firmeza e integridade de Ary o reflexo da personalidade materna.capacidade o costume e a lei. .

no enterro do seu tio Eurico Camilo. conta-me que meu irmão José. em Friburgo. Fevereiro. Todas são terrivelmente adultas. Respondeu. sempre lhe apertava a mão. 2 — Reflexão do dia. elas voltassem a ter um pouco de existência. e é como se. Mas de vez em quando dou as minhas casadinhas. A televisão conferiu-lhes maioridade.1975 Janeiro. Muitas são objetos sexuais que vêem nos homens objetos sexuais. 27 — Evolução de conceitos. Perguntaram a uma de minhas amigas se é casada. A maioria acha que. no dormitório. antes de se deitar. 20 — Dia do aniversário de minha mãe. Maio. José redigia um diário em que anotava com espírito crítico os acontecimentos colegiais. não poupando os padres. que encontro depois de muitos anos. conquistam independência. . no ar. Sacrificaram graças específicas e não alcançaram independência. Também quase não existem mais mulheres. 3 — Afonso Alvim. Esquecer: outra forma de lembrar. de certo modo. A menor referência a pessoas mortas de minha família me deixa profundamente interessado. natural: — Não. Faria 106 anos. seu companheiro no Colégio Anchieta. à revelia das leis e do desenvolvimento natural. fluida. É lembrar no segredo de mim mesmo e tanto aprimorar essa lembrança que ela viva sem mim. Não existem mais crianças. imitando os homens. Valeu a pena? Janeiro.

Ganhei. mas cortaram de minha crônica o nome de Adalgisa Nery. sensível às novidades mas fazendo um jornal conservador de tendências liberais. O Correio tinha sua lista negra. a partir de 1950. O almoço comemorativo. impetuoso.. irredutível a aparecer. como diria Aporelly. entre números de musica popular e outras atrações. reuniu. Na redação. no restaurante da sede. embora o jornal já não fosse o mesmo dos tempos do seu . Luís Alberto Bahia e Otto Maria Carpeaux dava ao Correio um toque de independência intelectual que compensava as posições moderadas da folha. Aloísio Branco. Tive bastante liberdade de opinar e satirizar. depois. Acima de tudo mandava o gerente. gregos e goianos. O nome Correio despertava susto e medo entre políticos e governantes. houve enorme sorteio de brindes entre os funcionários. era o secretário. creio. e de certa maneira controlando o diretor. cioso dos gastos. reconciliados por um momento. Paulo tinha charme e bravura pessoal." Trabalhei para este jornal (que foi uma potência) desde 1942.Fim do Correio da Manhã Junho. como colaborador. Os 50 anos de existência do jornal foram largamente comemorados com festas e edições especiais durante uma quinzena.. Uma excelente figura humana. e através dele meu trabalho de cronista se tornou conhecido. que faziam dele uma figura nada comum. na questão do petróleo. a convite de Álvaro Lins. Não sei como obtive de Lúcio Costa. a convite do diretor-proprietário Paulo Bittencourt.A. Era generoso. uma máquina de costura. como redator. Não me pagavam bem. mas o jornal era importante. notável ensaio sobre a arquitetura do Rio de Janeiro da primeira metade do século. a boa presença de Antônio Callado. sem obrigação de trabalhar na sede. 9 — Forte impressão ao ler este anúncio no Jornal do Brasil de hoje: "Leilão de um dos maiores parques gráficos do Rio de Janeiro — Massa falida do Correio da Manhã S. para um desses números. porque como jornalista assumira posição contrária à de Paulo. escritora. No prédio do velho High Life.

num ateliê improvisado. para fins burocráticos. quase todos inferiores intelectualmente a ele. que Pedrosa trabalhou no porão da Biblioteca Nacional. o artista. À saída. José Pedrosa. a solidez econômica da empresa foram pouco a pouco se diluindo. Nada mais melancólico do que o fim de um grande jornal. 28 — A burocracia previdenciária exige que se tomem dois depoimentos sobre a atividade do escultor José Pedrosa em tempos idos. E uma tristeza. A imprensa modernizada já não comportava clima demolidor. conhecer a opinião reservada do mestre sobre os homens do seu tempo. Ainda assim. que a gente quase nunca vê pelos . ver como um homem dessa categoria mental precisava se repartir entre trabalhos exaustivos e mal remunerados para sobreviver com a família. Julho. juntamente com o polonês Zamoisky. doadas ao arquivomuseu literário da Casa de Rui Barbosa. onde um grave funcionário nos interroga circunspectamente. de crítica e mesmo de imaginação criadora. Consumia nessas tarefas secundárias o tempo e o talento que poderia aplicar numa obra metódica de investigação. é menos valiosa. parece. Junho.fundador Edmundo Bittencourt. a uma dependência do INPS. do que o testemunho de dois cidadãos. omitindo o triste diário arrendado que se apagou sem o estrondo de um desmoronamento. por ser verdade. Quis conservar a imagem do velho jornal combatente. o que conta são as palavras. A obra pública do escultor. Fichada a parte referente a 1907-1908. Não importa a evidência. Todo o prestígio político e social. com Milton Dacosta. 22 — Bom domingo: organizando e lendo com interesse as cartas de João Ribeiro a seu amigo Alberto Faria. Afianço. Uma graça. um editorial ou mesmo um tópico do Correio deixava marca na pele do atingido. para que ele possa obter aposentadoria. Lá vou eu. Não assisti aos últimos instantes do Correio. murchando. que se distinguia pela terrível agressividade.

em casa dele. além do dinheirinho ganho. Portinari aceitou a sugestão e fez uma Última Ceia. Alegava que ele próprio. ele me conta por sua vez esta lembrança: — As fotografias do mural de Portinari na capelinha da casa dele em Brodósqui me impressionaram. No dia seguinte. e não 12? Ele respondeu: "Porque não coube." Murilo contestou que esse trecho figurasse na Bíblia. tendo saído Judas. ." Então manifestei a minha admiração por ele ter conseguido figurar um belíssimo momento do Evangelho: aquele em que. leitor assíduo da Escritura. não se atrevia a tanto. uma nota de 50 mil-réis que Rebelo tinha posto lá às escondidas.caminhos de Deus. Murilo era intransigente nessas coisas. sorriu. Manuel Bandeira. Alguém perguntou a Candinho: "Por que você botou 11 apóstolos. Murilo Mendes e Cristo Agosto. Então. ouvindo-o. Murilo Mendes pôs em dúvida que poetas incrédulos ou pouco fiéis ao cristianismo pudessem escrever poemas sobre a vida de Cristo. eu costumava jogar vinte-e-um com Marques Rebelo. Capanema voltou para casa e consultou o livro: achou o texto no Evangelho de São João. telefonou para Murilo e este reconheceu o engano. Mas ao chegar em casa. eu encontrava no bolso. e Murilo também. pois se refugiou com seus granitos e ferramentas lá em São Conrado. Eu confesso que não gostei dessa limitação dos direitos poéticos. chamando os amigos para apreciar o trabalho no seu estúdio. Jesus ficou só com os discípulos fiéis e comunicou-lhes um novo mandamento: "Amai-vos uns aos outros. conta coisas antigas: — Quando moço. 21 — Uma ocasião. Fui lá. Se eu ganhava (o jogo era a dinheiro) ele se indignava. Dizendo isso a Capanema. estimulei-o a pintar mais cenas religiosas.

perdendo. vai ser mistura de trabalho. sua mulher. chamou a neta e disse-lhe: — Hoje você vai comigo ao cemitério. com o passar do tempo. Passar a vida a limpo. a começar pelos comprovantes para o Imposto de Renda. isto é. costumo identificá-los: "Este foi desenhado pelo Kalixto. Rabiscar figurinhas sem saber mesmo o que sairá do traço canhestro.. num 1 ° de janeiro. que não sei se existe no exterior. comprou duas caixas de tâmaras. rasgálos na maioria: tão bom. 3 — Gostava das festas de fim de ano porque com elas vinha a oportunidade de comer tâmaras. como todos os anteriores. nesta vida? Melhor pegar a esmo um livro na estante e descobrir nele uma passagem atraente. Arrumar papéis. correria..1976 Janeiro. Rasgando papéis. e aquilo que parecia documento precioso. Esta é puro J. morreu. Ano atrasado. e que eu visitaria sempre. ao ver desconhecidos. E vou perdendo tempo. nesse último dezembro. — Vou levar estas tâmaras para a sepultura do seu avô.. a ser guardado pelo resto da vida. mas sempre se faz alguma limpeza. Janeiro. sentir que se alivia o peso das obrigações. Para que pauta. sabendo que o ano. porque eu não gosto de ir ao cemitério sozinha. rasgamos os fatos que eles testemunhavam. 1 — Nada melhor do que vadiar no escritório. Carlos. não vale mais que um bilhete branco de loteria. obrigações impostas pela vida. Há muita carta a responder. Quem inventou esse foi Ziraldo. nova ou esquecida. Então. Conquistar o direito de perder tempo. Adorava tâmaras. se existisse no Rio." Penso num museu de caricatura. voluptuosamente. vó? Não é dia de ir ao cemitério. e você vai me fazer companhia. — Pra que. Não se consegue.. Ócio no escritório: das boas coisas que ninguém lá de cima pode proibir. e alguns trabalhos em pauta. deliberadamente. Olha ali uma gordona do Raul. Seria ótimo ter nascido caricaturista. . Na rua.

mostra-se enleada. regressando da Europa. No caminho. Ao receber as notas de quinhentos cruzeiros. Quem passasse por lá e visse as tâmaras decerto parava para comer. já está bom. E explicou: Em Pernambuco. pede adiantamento de salário. ficaria tão satisfeito! Janeiro. porém. Deixa que eu como. Respondeu: Como está.— Mas vó. um homem poderoso mandou prender um seu inimigo e trazê-lo para a cidade com escolta policial. que você não conhece. Clarice? — Então vá ao casamento de meu filho. Um passante que viu a cena gritou para eles: "Bate com o gume!" Aí o preso virou-se e disse: "Como está. e telefona-me: — Você não acha que eles fizeram mal em me pressionar? Eu ia botar as caixas em cima do túmulo. nem nunca viu eles. E na ceia de Natal elas foram muito apreciadas. levar tâmaras para defunto? Ele não vai comer coisa nenhuma." Acho que vou tirar disso um conto. não se conforma. 10 — A boa Jurema. . já está bom. Rapazes e moças que bem podiam trabalhar. usando a parte superior da arma. me contou: — Em Paris me encontrei com Miguel Arrais e perguntei a ele por que não volta para o Brasil. ou pelo menos uma crônica. A família acabou fazendo com que a mulher desistisse de levar as tâmaras para o defunto. 19 — Telefonema de Clarice Lispector: — Você quer me fazer feliz? — Quem não gostaria disto. e afinal explica-se: — Não podia ser notas de cem? Lá onde eu moro ninguém troca quinhentos cruzeiros. Declara que está na pior. vacila em falar. Março. A viúva. com as despesas crescentes dos filhos. os soldados batiam com o sabre no sujeito. mas que preferem viver sob o guarda-chuva materno de uma doméstica. Março. Ele. lá do céu. secretária da pasta da cozinha. 5 — Fernando Sabino.

meu velho. — O que passou. A associação deles promove anualmente a ida a Friburgo. — Esquece isso. no Museu de Arte Moderna. — Exatamente. até o que não merece lembrança. — Bem. Tempo de Colégio Abril. — De qualquer modo. e há um almoço comemorativo e nostálgico. ele apagou tudo. em menos de um ano. o Bento. 1 — A moça conta-me que pela segunda vez. — O tempo apaga tudo.Mas não quero que você dê presente. Junho. mas não vejo o que é que este "outro" iria fazer lá. e por isso não posso matar saudades. Eles gostam de relembrar tudo. Pílulas. Talvez eu próprio seja outro. que também sou. onde os padres jesuítas recebem o pessoal. passou. aliás mais velho do que você. Há ladrões especializados em furtar a vida. Você será recebido com carinho. Há muito eu sentia o vazio. a incapacidade de recriar a vida em termos estéticos. Explico aos ex-colegas que não tem sentido eu voltar. economize o seu dinheiro. Não houve decepção. a impotência. 18 — Voltam a convidar-me para a romaria de antigos alunos do Colégio Anchieta ao chateou. os padres de hoje são outros. da . saudoso. não sinto saudades do Anchieta. um ladrão penetrou em seu apartamento e furtou-lhe certos objetos que falam de sua vida. Digo isto a você como poeta. — Eu também fui — responde um deles. 7 — Visita à Exposição de Arte Francesa. Junho. entre esses também "outros" desconhecidos. e por que é que eu iria tentar reacender o que ficou felizmente apagado? Não há meio de convencer os profissionais do saudosismo. ao colégio de que fui expulso.

.maioria dos artistas contemporâneos mais badalados. E também o ímpeto com que se impõem. Salvam-se na mostra os velhos impressionistas. graças a intensa publicidade. mesmo não representados por obras de primeira grandeza.

o seu fraco era por José de . a gás. Só o trabalho de receber essa quantia. chegando o momento imprevisível. Por mês. em se tratando de burocratas de quarto ou quinto escalão.. procurando fazer esquecer o que havia de insensato no meu gesto. O funcionário que me atendeu. desobrigá-la do compromisso para comigo. Fiquei com pena da Associação.. — O quê? O senhor acha que 735 cruzeiros não valem nada? Olhe que é muito dinheiro. nem a mim nem à Associação interessa manter esse pacto. pensasse melhor. com o só trabalho de contabilizar meu descontinho? Resolvi. derivou a conversa para a literatura. E para que esse dinheiro seja pago. que eu voltasse para casa. desconta-se dos proventos deste aposentado a engraçada importância de 10 cruzeiros e 59 centavos. de condição modesta. — Mas 735 cruzeiros. pelo contrário. talvez se reduzissem a centavos. forçada ao trabalho de cobrar e recolher mensalmente essa quantia ilusória. estranhou que eu abrisse mão de qualquer coisa. A desvalorização da nossa prezada moeda emagreceu-a tanto que ficou valendo 735 cruzeiros. mas se eu desse licença.. ao procurar a Associação dos Servidores Civis da União para dar baixa no seguro de vida e no pecúlio instituídos em 1960 e 61. por menor que fosse. Na época. no valor total de 735 mil cruzeiros. Meu nome não lhe era estranho. ou menos que isso. pois. e ele então.1977 A Ilusão dos Pecúlios Janeiro. Os 735 cruzeiros a que a família faria jus. Não se joga fora uma contribuição paga anos a fio.. no futuro. Não cedi aos seus benévolos argumentos. e certamente manteria a vitalidade do meu pecúlio e do meu seguro. Quanto não despenderá ela mensalmente. 28 — Hoje me senti bastante joão-brandão. era quantia respeitável. Portanto.

Fusco era o mais petulante de todos. Há muito tempo não tinha contato com ele. Não se podia prever no quase menino o crítico. mas do regime .Alencar. Esse ele ainda não tivera tempo de ler. aposentados. — É uma pena o senhor contribuir anos a fio e perder a batalha. O destino de Fusco foi uma aventura existencial em que a vibração terminou em cansaço. embora sabendo que era bom também. obrigado. 17 — O noticiário da TV deu agora à noite a morte de Rosário Fusco em Cataguases. com liberdade de crítica. mas emocionei-me. uma poesia preparatoriana de modernista da última fase. e agora me candidato a deputado federal. — E é também o de muita gente boa — tranqüilizei-o. mas de Alencar podia me dizer páginas e páginas decoradas com deleite. e o papel da desistência continuava na mão-do servidor. Depois. pintei tabuletas de cinema. Ele era dos que ousam tudo. passam mal. estudei Direito. para que ele terminasse o devaneio literário. A conversa prolongava-se. — O senhor está bem acompanhado. ele se apresentou candidato com um volante que dizia: "Eu lavei vidros numa farmácia. a começar por Machado de Assis. Ponderei-lhe que não houve propriamente batalha. e não pôde ousar tudo. o romancista e o dramaturgo que ele viria a ser. Eles eram mais moços e mais petulantes do que nós. Foi preciso que eu lhe lembrasse à conveniência de protocolar. e que todos os funcionários civis. Rosário Fusco Agosto. Como seria Fusco deputado federal (é o que pretendia ser)! Em 1954. E a gente se dava bem. então. Fazia. A vantagem não é minha. em que achávamos graça. fui servente de pedreiro e bedel de ginásio. A lembrança dos "verdes" daquela cidade está muito ligada à lembrança do nosso grupo modernista de Belo Horizonte. com seus desmandos verbais.

para compor a bancada na Câmara e no Senado federais. 18 — Sem sono. Percorro todas as de 1925. com esforço e insegurança. Só ele permite. Uma única vez se desculpa: começou a carta com o tratamento de "tu" (que só usava na linguagem escrita) e. alguns mineiros ilustres. Rosário Fusco (tão mineiro quanto você). fosse de que maneira fosse. a todos. e o dizia melhor do que eu sei fazer. E sinto. melhor do que nunca. Um poeta como Augusto de Lima não perdia eleição.democrático. que realmente era. e gente que simplesmente dava número. no meio de muitas nulidades ou mediocridades. com o auxílio da irmã que sabia um pouco mais. sua forte individualidade." O regime democrático não quis conceder ao ex-lavador de pratos a faculdade de fazer leis. e o aprendizado de primeiras letras iniciado na escolinha do "mestre" foi interrompido bruscamente e só terminou em casa. bem traçada. órgão pouco democrático da democracia anterior a 1930: ele tinha sempre o cuidado de eleger. pois não havia colégio. mais intelectuais do que propriamente políticos. sem rodeios. dá vontade de reler as cartas do Velho. A democracia tem seus caprichos. Rosário Fusco não ter sido deputado. só o que pretendia dizer. E o estado tinha uma representação equilibrada: gente que pensava e brilhava. Vote em quem quiser. mas vote bem desta vez. hesitando entre duas construções verbais. Mas às vezes a gente tem saudades do extinto PRM. possibilidades iguais. sem se advertir. Uma pena. Cartas do Velho Setembro. Letra firme. assim como Calógeras ou Afrânio de Melo Franco. Sem receber maior instrução. trocou-o pelo de "você": "Depois desta feita é que vi ter começado por um modo e . como a teria recusado se ele se apresentasse como escritor de mérito. ainda assim mais suportáveis que os caprichos do autoritarismo. ele escrevia perfeitamente bem: com clareza. Em poucas palavras. tarde da noite.

mas inerentes à condição humana. Que pretendia dos filhos? Não seria gratidão. desloca um braço e pede a um trabalhador que lhe restabeleça a posição normal. Que lhe importava estilo? Queria dizer o essencial. nítido. E quando teve de separar-se do garoto. O resultado é desastroso. que se feria como qualquer outro menos defendido. Explicou: "Este menino é meu amigo. combinava-se com a resignação diante do que não pode ser evitado. O meu espírito sempre preocupado é o causador de tudo isto. podia justificar faltas maiores. estou duro como um coco. trata-se passando querosene na região afetada. A atenção dividida entre seis filhos e tantos problemas." Sempre preocupado. breve. mas amor. de que era habitante continuando fazendeiro. chegando a mudar-lhe fraldas e dar-lhe mingau. a energia. No campo.mudado para outro. Se não podia atendê-los diretamente. sem contudo dizer ou escrever esta palavra. que ia com o pai para outra cidade. não se permitia um deslize gramatical que hoje é moda literária. escusava-se de usar intermediários: "Sua irmã quer . O amor aos filhos é manifestado sem derrame sentimental: objetivo. Seu verdadeiro escritório era o campo." Enxameavam os pedidos dos filhos. onde não havia lembranças materiais do ambiente em que o avô brincava com o neto. e não se lastima por falta de socorro médico: "No mais. Mas. Um bom dicionário lhe bastava como equipamento do pequeno escritório. que não são fruto da época. rigoroso consigo mesmo." A severidade aparente velava um coração sensível. tudo presente mesmo na cidade. quase seco. Nenhuma preocupação de estilo. sobre o negócio de uma boiada ou a compra de um enxoval de internato. Mas esta. as reses na engorda para o corte. Pelo neto a quem criara. com o virar dos 60 anos. não quis permanecer onde estava: seguiu também para outro lugar. tinha o maior carinho. Seu traço capital. servindo de mestre-deobras improvisado na construção de uma casa. Resistência física extraordinária. E só com a mão direita faço quase tudo que fazia com as duas. o espaço.

mandava quando podia mandar. O que posso fazer é mandar dinheiro. O velho supunha dizer só o estritamente necessário na folha de bloco pautado. entretanto. salvo se ele quiser fazer isto espontaneamente. e não precisam ser consultadas? Vivem. Tantas coisas não escritas. ao alcance da mão. mais adiante uma notícia de clã. mas nem por isso era menos bem aquinhoado. De certas mágoas que guardava. o Livro Razão. Mas só a releitura. muito tempo escoado. seu pé-de-meia. Mas as despesas supérfluas eram debitadas. caligraficamente perfeito. Nenhum era preterido pelos outros. O pacote de cartas vai para a gaveta. imutável em sua permanência. Cavando bem. sem sentir. Segredo e mistério das cartas menos pretensiosas. As contas dos filhos eram modelares.reformar a casa. pedia o menos possível. Alguma coisa que talvez me falte. O único livro que ele escreveu. . de contabilidade minuciosa. revela a preocupação de igualdade e harmonia. radicular. era vendido. Todos tinham. aflorado espírito ancestral. pois estando longe não vou pedir a um filho que preste serviço a outro. independente das gerações. O destinatário não sabia ler senão em superfície. que. profundo. O que dava a um dava a todos. Tão simples." Escrupuloso ao exagero. Que só se descobre a custo. Esse podia dar-lhe mais desgosto do que prazer. O bezerro oferecido como presente de aniversário crescia. Dizia mais do que isso. as torna visíveis. silenciosamente. ali a reprimenda suave. aqui uma recomendação. o dinheiro creditado. Serão relidas algum dia? Ou basta saber que estão ali. só se veio a saber depois de sua morte. e tarde. ou que não é tão intensa quanto deveria ser. se mostram no escrito destas cartas.

feito neste diário em 16 de abril de 1945 e publicado pelo Jornal do Brasil a partir de 1º. ao afirmar de maneira tão segura e categórica. a todos os indivíduos forçados a romper o casulo e entrar na vida pública. nem em minha presença anotadas. daquele matutino. como sendo minhas. Tomo a liberdade de escrever-lhe estas linhas porque fui surpreendido pela forma que deu a seus artigos. como aquelas palavras não foram gravadas. publicados nas edições de 1. Não os vêem como de fato são: enxergam-no através de lentes deformadoras. palavras pronunciadas há 35 anos atrás. Habitual leitor de suas crônicas no Jornal do Brasil. Qualquer literato sabe isto: a frase largada na livraria modifica-se no jornal. de abril de 1980. foi com o mais vivo interesse que li seus três artigos.APÊNDICE Uma Carta de Luís Carlos Prestes O registro da conversa com Luís Carlos Prestes. 3 e 5 do corrente mês de abril. Ora. deu margem à seguinte carta daquele líder político: "Rio. 14 de abril de 1980 Prezado e ilustre compatriota. confesso-lhe que me sinto admirado por não encontrar em seus artigos ao menos uma ressalva de que se trata da sua interpretação pessoal — talvez registrada em seu diário — daquilo que foi por mim efetivamente dito e. portanto. nos quais relata o que de mim ouviu na visita que me fez na Casa de Correção desta capital. em maior ou menor grau. sujeito a confirmação de minha parte. Confesso-lhe que seus artigos levaram-me a reler o que escreveu em certa feita o nosso grande Graciliano Ramos e que julgo conveniente aqui transcrever: "O que sucede a Carlos Prestes ocorre. emprestando a um sujeito opinião que ele nunca . em 15 de abril de 1945.

afirmar que por ser comunista não podia manifestar-me individualmente.teve. da cadeia onde me encontrava. conhecendo as deturpações. se tal acontece ao modesto colecionador de idéias mirins. não têm qualquer significação'. tanto nos imbuíram. surgimos autores de pensamentos alheios. não nos livramos delas. felicitava o Presidente Vargas pelo estabelecimento de relações diplomáticas do Brasil com a União Soviética e opinava pessoalmente sobre a situação política em nosso país. em horas de efervescência como as atuais? Lenda? Com certeza. Neste caso. Não diria absolutamente que os homens. Garanto-lhe igualmente que jamais fiz a previsão de que 'Dutra seria pior do que Getúlio'. mas que não são minhas. Sempre repeli raciocínios e conclusões de tal natureza. ao menos." É na esperança de corrigir algumas. das expressões que a mim atribui. Porque não é nem jamais foi esta minha opinião sobre o papel dos homens na História. 'por si. por exemplo. O ilustre poeta compreenderá também que naquela época em que eu. De repente. que jamais chamei o movimento popular de 1930 de revolução. com base na afirmação de que 'Getúlio foi pior do que Bernardes'. o que não se dará com o dirigente político. que lhe escrevo estas linhas. seria de grande valia o testemunho do ilustre Dr. Ora. em meia dúzia de palavras desatentas. Asseguro-lhe também que não pode passar de lamentável equívoco haver eu me declarado católico na conversa que então tivemos. contraditoriamente. em país analfabeto. Heráclito . e muito menos usaria a expressão 'revolução completamente errada' para caracterizar aquele movimento insurrecional. Mas na história também fervilham exageros — e às vezes. Esta é uma compreensão errônea da disciplina partidária dos comunistas. Posso garantir-lhe. recebemos ataques ou elogios por uma entrevista dada pelo telefone. críticos sagazes decifram complicados enigmas em livros comuns. não poderia.

Finalmente. que em minha opinião era apoiada pelo Embaixador Adolfo Berle. em 19 de abril de 1980. correu à sede da Associação Brasileira de Imprensa. Luiz Carlos Prestes o mesmo respeito que sempre lhe dediquei por sua vida de lutas e de malogros honrosos. onde riscou seu nome de uma lista de intelectuais que a apoiavam. as saudações cordiais de quem se subscreve seu admirador. com quem numerosas vezes conversei. e não minhas. que teve grande repercussão (será fácil verificar nos jornais da época). que me senti no dever de escrever-lhe estas linhas. Eduardo Gomes à Presidência da República mais democrática do que a do seu competidor no pleito presidencial. cheguei a afirmar que raramente se daria o caso de dois candidatos de duas candidaturas serem tão semelhantes. recebera eu a visita de Astrojildo Pereira. Queira receber. ainda no mesmo mês de abril de 1945. após ouvir-me a respeito da referida candidatura. Por . Basta dizer-lhe que já alguns dias antes de sua visita. e que é bom conhecedor de minha maneira de pensar naqueles anos de prisão. Luiz Carlos Prestes" Na mesma edição do Jornal do Brasil. Posteriormente. nos terrenos religioso e filosófico. foram estampados o texto desta carta e o da resposta que lhe dei em artigo. mas seus artigos são tão categóricos ao atribuir a mim expressões e afirmações que são suas. como colaborador desse matutino: "Conservo pelo Sr.Sobral Pinto. com a segurança do meu maior apreço. só pode ser fruto de um equívoco a afirmação a mim atribuída de considerar naquela época a candidatura do Sr. em entrevista coletiva que concedi à imprensa nacional e estrangeira. e que este. seguro como estou de que o senhor não se negará a tornar públicas as ressalvas acima formuladas. nos anos de 1937 e 1945. Perdoe-me a impertinência.

a seres humanos. enfim. quando eu guardava ainda o som da voz de quem as pronunciou. entrelaçando idealismo e materialismo dialético prático. Resta lamentar que o registro imediato da remota conversa não coincida com a memória que o Sr. páginas de um caderno de diário. E sem lápis de repórter.isso mesmo. A declaração de ser. reflexões e pontos de vista guardados no silêncio de tantos anos de reclusão forçada. Bernardes e Eduardo Gomes. acaba levando a julgamentos individuais que se traduzem por frases como as que ouvi no interior daquela prisão. que não havia então. sim. Registrei o que me pareceu essencial ou curioso. católico. foi anotada. de resto. além de patriota. Prestes guardou do nosso encontro. Nem frase solta ouvida em livraria nem entrevista de meia dúzia de palavras pelo telefone. Publiquei. . que jorravam em catadupa.. O "papel dos homens na História". Já não é absurdo aproximar marxismo e uma ala saliente do catolicismo. isto não altera em nada o sentido da referência a esse fato. sinto lembrar-lhe que não escrevi artigos sobre a nossa conversa 35 anos depois de realizada. Talvez se tenha inserido em contexto teórico alusivo ao caráter social da doutrina católica. Não me convenço da necessidade de retificá-las. ainda se presta a debate. considerado criticamente. Foi conversa sem gravador. Os fatos estão aí. como toda gente falava e ainda fala. As referências a Dutra. mas com a atenção presa às suas palavras. como as feitas a outros nomes e que não foram contestadas. Se não escrevi "movimento popular de 1930" em vez de "revolução de 1930". facílimas de guardar.. cuja qualificação histórica. escritas na manhã seguinte à visita que lhe fiz. justificável pela necessidade de expor. Getúlio. O que explica também certas aberturas circunstanciais. comuns ao pronunciamento verbal improvisado. que futuramente se definiria na Teologia da Libertação. eram. por me causar surpresa. a citação de Graciliano foge à natureza deste caso. por sua natureza. Seria apagar o que minha pena escreveu com segurança e o maior empenho de fidelidade. transcorrido tanto tempo.

" http://groups.google. será um prazer recebê-lo em nosso grupo.google. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original. portanto distribua este livro livremente.com/group/Viciados_em_Livros.com/group/Viciados_em_Livros http://groups. Se quiser outros títulos nos procure : http://groups. o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. . a venda deste ebook ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. Dessa forma.com/group/digitalsource Esta obra foi digitalizada pelo grupo Digital Source para proporcionar. Isto não altera a consideração que voto a um homem da sua integridade.google.Acontece. de maneira totalmente gratuita. provada na ação e no sofrimento. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição.

Glauco Rodrigues Foto do Autor: Luiz Augusto R de Britto e Silva .Ilustração da Capa.