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Bill Bryson Breve história de quase tudo Do big-bang ao Homo sapiens Tradução de Ivo Korytowski São Paulo

: Companhia das Letras, 2005. p. 541 INTRODUÇÃO “Como alguém sabe o peso da Terra, ou a idade das rochas, ou o que existe no centro do planeta? (...) Como sabem o que ocorre dentro de um átomo? Por que cargasd’água os cientistas parecem saber quase tudo, mas não conseguem prever um terremoto ou mesmo informar se devemos levar o guarda-chuva às corridas de cavalos na próxima quarta-feira?”, esses são alguns dos questionamentos contidos no livro de Bill Bryson, os mesmos que o motivaram a escrever sua Breve história de quase tudo. Durante um voo sobre o pacífico, o jornalista americano se deu conta de sua ignorância acerca do único planeta que chegaria a habitar, partindo de uma constatação inicial: ele não sabia o porquê da salinidade dos oceanos — o que era, certamente, apenas uma ínfima parte do que ele ignorava, e isso incluía, ainda, “o que era um próton, ou uma proteína, (...) a diferença entre um quark e um quasar, (...) como o universo começou...” Partindo dessas ideias, Bill Bryson recorreu a livros, revistas e especialistas que lhe pudessem esclarecer as dúvidas e ajudá-lo a transmitir de maneira clara, divertida e acessível, sem ser técnico ou muito superficial, as realizações da ciência. DESENVOLVIMENTO De forma envolvente e intrigante, o autor inicia seu texto; de pronto, nota-se o tom descontraído mas profundo da obra. Há profundidade no tema — a origem do universo, como trinta gramas de matéria compactada num espaço equivalente a um bilionésimo do tamanho de um próton pôde ter levado do nada ao tudo —, mas é leve o tom com que se o trata, não se exigindo a compreensão do leitor, sendo admitida a impossibilidade de se imaginar tal grandiosidade. Bill Bryson se propõe a falar do universo como uma receita — da forma mais didática possível. O próprio título do capítulo é sugestivo: “Como construir um universo”. Tentando dimensionar o quão indimensionável é o universo, o atuor afirma: “Estou pressupondo que você deseja construir um universo inflacionário. Se você prefere construir um universo mais convencional, do tipo big-bang comum, precisará de materiais adicionais. Na verdade, terá que reunir tudo o que existe — cada partícula de matéria daqui até o limite do universo — e comprimir num ponto tão infinitesimalmente compacto que não terá nenhuma dimensão.” Com informações menos abstratas, Bryson informa o diâmetro do universo recémformado (1,6 milhão de bilhões de quilômetros), a temperatura com que ele se expande (10 bilhões de graus), os elementos principais que o compõem (hidrogênio, hélio e “uma pitada” de lítio), sua idade (13,7 bilhões de anos), chegando-se a relacionar o caos inexplicável dos primórdios do universo com a teoria criacionista — afinal, como se surgiria do nada, se não por ação divina?!

. Destaca-se sua onipresença — não há como fugir delas. armazenamento de gordura. ATP — tudo o quanto é relacionado às células é posto. nesse capítulo.. os danos que causam a hospedeiros.). Proteínas. as mais “agitadas” se dividem uma vez por século. patógenos.. a inacreditável coordenação com que desempenham seu trabalho.) que as bactérias florescerão como que criadas do nada” em todos os locais.)” Aqui. insulina.. e as duas em quatro. em potes de lama fervente e em lagos de soda cáustica. o mundo macro... os metais da tinta endurecida (. vírus.). por Darwin. pelos materiais radioativos. ainda. a origem dos antibióticos e os mecanismos de resistência bacteriana a estes. bactérias. também. estando sujeitas a serem reanimadas por si mesmas ou por cientistas: a Bacillus permians foi ressuscitada após 3 milhões de anos congelada na Sibéria (!). e assim por diante. concentrações de ácido sulfúrico fortes o suficiente para dissolver metal (. passa-se pela vida pessoal de Einstein e de outros cientistas. as bactérias são discutidas detalhadamente. Robert Hooke.e microscópico — células.. em lagos ocultos de água gelada da Antártida (. eras geológicas. em lentes lacradas de câmeras que permaneceram na lua durante dois anos (.. a engenhosidade que há mesmo nas células mais simples salta aos olhos.. em pressões mais de mil vezes maiores que na superfície (.). pois “dê-lhes um pouco de umidade (. sendo que.). tão microscópicos são os espaços em que todo o maquinário celular está compactado. Células Assim como em outros capítulos. e daí à “vida propriamente dita”.. neste “Células” Bill Bryson inicia bombardeando o leitor com números. cromo. o Homo sapiens. os benefícios que o hospedeiro proporciona às bactérias. no leito do mar.. suas capacidades notáveis (respiram elementos estranhos como ferro. É citada.Ao longo da obra. nesse caso. fungos. exercendo funções impossíveis de se copiar mesmo em enormes escalas.. em que Bryson tenta compreender por que elas prejudicam (podendo levar à morte) o organismo parasitado se dependem dele para se manterem vivas. você tem 10 mil trilhões (10 000 000 000 000 000) de células em seu corpo (. câncer. vivendo em tanques de refugo de reatores nucleares. pela descoberta do átomo. com o mesmo objetivo inicial de impressionar a respeito da grandiosidade do tema. haja vista a complexidade irreproduzível pelo ser humano que existe nessas unidades de vida. empaturrando-se de plutônio (. A primeira divide-se em duas.). pelas placas tectônicas. tudo ocorrendo exatamente como deveria para se alcançarem os devidos fins.. em sondas que eram introduzidas em chaminés oceânicas tão quentes que as sondas começaram a derreter” —. cola do papel de parede. O autor dedica esse momento do livro a abordá-las com a dedicação e a gratidão que merecem. cobalto. até urânio.. “Tudo começa com uma única célula. . fecundação.. e como o organismo responde à infecção.. Após apenas 47 duplicações. tecidos. no interior de rochas. Mundo pequeno No capítulo homônimo. elas podem permanecer dormentes por tempo indefinido. “elas comerão madeira.).

uma infinidade de ciências é desdobrada perante o atónito olhar do leitor.” . não estava a brincar! Na realidade.Ressalvas Por mais interessante que seja descobrir o que há por trás dos panos da ciência. porque qualquer ramo da ciência que lhe ocorra terá elevadas probabilidades de se encontrar representada neste extenso tratado. Disse Ricardo Ribeiro.. farmacologia. ao longo das suas quase quinhentas páginas. CONCLUSÃO Bill Bryson obteve inegável êxito em sua empreitada. Datas e incontáveis nomes de cientistas pouco conhecidos fazem o leitor se perder. narrou 13 bilhões de anos.com: “E quando escolheu o título. valendo-se de meras 484 páginas para tanto. dificultando a leitura de certos trechos. em criticanarede. insolúveis. química. perguntas são respondidas e outras continuam a pairar. sismologia.. paleontologia. por vezes o turbilhão de informações contido em Breve história de quase tudo confunde. um leitor apenas terá de escolher. antropologia. física quântica. como pretendia. que nem se apercebe da passagem de uma para outra. Geologia. A leitura do livro é uma aventura empolgante. De forma ampla. em que mistérios incríveis são desvendados. didática e bem-humorada.