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WILLIAM WILSON Edgar Allan Poe 3 .

entre as minhas esperanças e o céu. tais dimensões de torpeza que seria tão horrendo como difícil descrevê-lo. ilimitada! Ainda que pudesse. lúgubre. Esse período recente da minha vida atingiu. tudo acabou para mim. as suas aspirações douradas. Meu nome verdadeiro não deve manchar a página virgem que tenho diante dos olhos. Demais. as suas honras. 0 que quero é simplesmente determinar a origem desse súbito desenvolvimento de perversidade.  WILLIAM WILSON Edgar Allan Poe   IMAGINAI por um Momento que me chamo William Wilson. as suas flores. não quereria encerrar nestas paginas todas as lembranças dos meus últimos anos de miséria e de crime irremissível. paira eternamente uma nuvem espessa. tem ele sido o horror e a abominação do mundo. Não terão os ventos indignados levado a sua infâmia incomparável até às regiões mais longínquas do globo? . 4 . E. de repente. a vergonha e o opróbrio de minha família.Oh! Sou o mais abandonado de todos os proscritos! 0 mundo.

e confirmei desde pequeno o caráter tradicional de minha família. tudo isto não será um sonho? Acaso não morrerei vitima do horror e do mistério da mais estranha visão de todas as visões sublunares? Sou o descendente de uma raça conhecida. com um salto gigantesco. Meus pais.Os homens. além disso. lançou. Permiti que vos conte do principio ao fim o caso. Desejaria que descobrisse. caráter que a idade desenvolveu e que veio. de mim. num mundo cheio de tentações. mas. quase nada podiam fazer para modificar os 5 . o acidente fatal. Próximo a atravessar o sombrio vale. A morte aproxima-se e a sombra. na vasta seara de crime que vi desenrolar. pela força da imaginação e pela extrema irritabilidade de temperamento. Quereria convencê-los de que fui arrastado por circunstâncias superiores à resistência humana. a enormidades mais que heliogabálicas. influência benéfica de arrependimento e de paz. em geral. que motivou essa maldição. que a precede. desde longo tempo. Que concordassem. passei. apareceu alguma coisa igual a esta e que jamais criatura humana sucumbiu vítima de torturas semelhantes. De uma perversidade relativamente ordinária. prejudicar-me de modo tão terrível como extraordinário. sofrendo do mesmo mal. já. mais tarde. como se fora um manto. corrompem-se gradualmente. no meu coração. a virtude desligou-se num momento. suspiro pela piedade (ia dizer pela simpática) dos meus semelhantes. de uma vez. Em verdade. algum pequeno oásis de fatalidade para mim. fracos de espírito e. (e talvez não possam deixar de concordar) que nunca.

o único prazer que me é dado ainda sentir. minha voz foi a lei doméstica. Mesmo neste momento.maus instintos que me distinguiam. onde mergulhava o campanário gótico da igreja. alto e 6 . com indefinível voluptuosidade. a quietação da atmosfera escura. e. estremeço ainda. recordar. com o seu rugido súbito e moroso. grande. aquela aldeia antiga e venerável. fui abandonado ao meu livre arbítrio. mas tão fracas e mal dirigidas. atravessando. As primeiras lembranças da minha vida de estudante estão ligadas a um casarão exótico. por vulgares e insignificantes que pareçam. Desde então. a propriedade. ) Como acabo de dizer. fizeram algumas tentativas. numa idade em que poucas crianças pensam ainda sair do regaço materno. e bem próprio para excitar a imaginação. não podem deixar de ter na minha imaginação uma importância circunstancial. onde as casas eram todas de antiguidade respeitável. que ( Depois me envolveu tão profundamente na sua sombra. semeada de árvores gigantescas. hoje. perdoar-me-ão procurar consolo bem ligeiro e bem curto nestas minúcias pueris e errantes. A recordação destas lembranças do colégio constitui. respiro as emanações das suas matas rumorosas. por motivo de sua íntima conexão com a época em que distingo agora os primeiros avisos ambíguos do destino. à lembrança das badaladas profundas do sino. Além disso. Na verdade. ai. sinto no espírito as impressões refrigerantes das suas avenidas. Ainda assim. de hora a hora. situado numa aldeia tristonha da Inglaterra. pois. demasiado real). do estilo Isabel. imerso na desgraça. senhor absoluto de todas minhas ações. convertendo-se em completo triunfo para mim. a casa era velha e irregular. Deixai-me. era um lugar fantástico. que abortaram inteiramente. circundada por um muro de tijolos. como estou (desgraça.

voltemos à descrição do edifício. ainda agora. uma vez aos sábados de tarde. em companhia dos prefeitos. em cada crepitação dos seus gonzos possantes. formava os limites do nosso domínio. e duas vezes aos domingos. fazia executar. arrenegado e carrancudo. podia ser o mesmo homem que. assistir aos ofícios da manhã e da tarde. na única igreja da aldeia.sólido. Esse pátio. havia uma porta ainda mais maciça. das quais três ou quatro das maiores constituíam o pátio do recreio. Aquela muralha. para uns passeios curtos e monótonos pelos campos vizinhos. um mundo completo de observações solenes e de meditações ainda mais solenes. Não saíamos dali senão três vezes por semana. as leis draconianas do colégio? Oh! gigantesco paradoxo. Essa porta (que sentimentos profundos ela inspirava) não se abria senão para as três saídas e entradas de que falei. cuja monstruosidade não tem solução! Mas. encimado por uma camada de argamassa e vidros quebrados. com a regularidade de um regimento em parada. com as roupas todas sujas de tabaco. 0 recinto da propriedade era de forma irregular e dividido em muitas partes. digna de uma prisão. Aquele personagem venerável. vestes tão novas e tão clericalmente ondeantes. Num ângulo da parede maciça. Então. Com que profundo sentimento de admiração e de dúvida o contemplávamos do nosso banco reservado. tão direito e tão importante. cabeleira tão perfeitamente empoada. solidamente carregada de fechaduras e terminada por um bosque de ferragens denticuladas. quando íamos. 0 cura dessa igreja era o reitor do colégio. com passo solene e vagaroso. situado por de- 7 . quando subia ao púlpito. achávamos uma superabundância de mistério. de palmatória na mão. com aspecto tão modesto e tão benigno.

inumeráveis. nunca me foi possível determinar exatamente a situação do dormitório que eu ocupava. partíamos alegremente para a casa paterna. muito estreita. sem árvores nem bancos. era difícil dizer ao certo se estávamos no primeiro ou no segundo andar. as subdivisões laterais eram incompreensíveis. era alisado e coberto de areia. Em qualquer parte que nos . com os tetos baixos e as janelas ogivais. ainda era alvo de terror assaz considerável: um era a cadeira do 8 .trás da casa. em comunidade com pequeno mais dezoito ou vinte escolares. plantado de buxo e outros arbustos. viam-se outros compartimentos análogos. Durante cinco anos que ali residi. Bransby. havia um pequeno jardim. nas férias do Natal ou de São João. o Rev. durante as horas de estudo. de subdivisões incompreensíveis. Num canto afastado. Dr. Noutros dois cantos. Era muito comprida. relativamente ao conjunto da edificação. E a casa? Que curiosa construção apresentava! Para mim. à saída definitiva. com tantas voltas e reviravoltas. que as nossas idéias mais exatas. De sala para sala. A sala do estudo era a maior de todas da casa (e até de todo o mundo. mas esse oásis sagrado só nos era franqueado em ocasiões solenes. ou ainda quando. havia sempre três ou quatro degraus a subir ou a descer. Depois. achássemos. havia um recinto quadrado de cito ou dez pés. de onde emanava o terror. tais como à entrada no colégio. objetos de muito menos veneração: contudo. A frente do edifício. pelo menos me parecia). nem coisa alguma semelhante: lembro-me perfeitamente. que representava o “Sanctum” do nosso reitor. convidados por algum parente ou amigo. que verdadeiro palácio mágico! Era um nunca acabar de recantos. não eram mais aproximadas do que as que tínhamos do infinito.

sem aborrecimento nem mágoas. estava um enorme balde cheio d’água e. Espalhados pelo meio da casa. com traços tão vivos.mestre de belas letras. os feriados periódicos e 9 . os anos do terceiro lustro de minha vida. inumeráveis bancos e estantes carregadas de livros velhos e sujos. tão profundos e tão duradouros como as faces das medalhas cartaginesas. 0 meu primeiro desenvolvimento intelectual foi extraordinário. Encerrado nos muros daquele colégio venerável. 0 levantar. o outro a do mestre de inglês e de matemática. por isso. estas últimas. o estudo das lições. Comigo não acontece assim. Tudo são sombras. Em geral. tudo o que encontro ainda hoje me está gravado na memória. conservavam apenas uns restos do pouco feitio original que noutros tempos haviam tido. A uma extremidade da sala. E no entanto. o deitar. negras e antigas. desregrado até. o relógio de tamanho prodigioso. de figuras grotescas e de outras numerosas obras-primas de canivete. lembranças fracas e irregulares. cobertas de cicatrizes. confusão vaga de prazeres ligeiros e de penas fantasmagóricas. encontrei impressões mais vivas e mais intensas que todas as que a minha virilidade procurou depois. numa irregularidade completa. passei. os acontecimentos da vida infantil não deixam sobre a humanidade senão impressões mal definidas. cruzavam-se. estragadas pelo tempo. É necessário que tenha sentido minha infância com a energia de homem feito. na monotonia aparente da escola. 0 cérebro fecundo da infância não exige um mundo inferior acidentado para se entreter ou divertir. esses dias mereciam pouca recordação. de letras e de nomes. todavia. na devassidão e no crime. as recitações. debaixo do ponto de vista ordinário. na outra.

continha uma superabundância de sensações. como uma prova de verdadeira superioridade. tudo isso. contrariava minha ditadura em todos os casos possíveis. e nada mais. compunham a nossa classe. segundo a linguagem do colégio. A rebelião de William era para mim fonte perene de desgostos. mas que não está muito afastado do verdadeiro) : só o meu homônimo. Se jamais houve no mundo despotismo supremo e sem restrição. mas. o nome de Wilson (nome fictício. pela minha parte. e as suas pretensões. era um destes apelidos vulgares. não obstante a nobreza da origem. os seus passatempos as suas intrigas. adquiri um poderoso ascendente sobre todos os que não eram mais velhos do que eu. tinha o mesmo nome de batismo e o mesmo nome de família (circunstância pouco notável em si. um universo de emoções variadas e de excitações inebriantes. por direito de prescrição. nos jogos e nas disputas do recreio. não era sem grandes e contínuos esforços que conseguia conservar-me à sua al- 10 . propriedade comum do povo). Nesta narrativa. Não podia deixar de encarar a igualdade que mantinha tão facilmente comigo. por uma magia física que passou.os passeios. exceto sobre um. no fundo. entre todos os que. sem ter comigo parentesco algum. como era natural. tanto mais que. em suma. Oh! bom tempo foi o desse século de ferro! A minha natureza ardente. sobre todos. ousava rivalizar comigo nos estudos das aulas. recusar fé absoluta às minhas asserções e submissão completa à minha vontade. com suas lutas. o pátio do recreio. entusiasta e imperiosa. é o que uma criança de gênio exerce sobre as almas menos enérgicas dos seus camaradas. que parece ter sido. temia-o. Este um era o aluno que. deu-me um lugar distinto entre os outros rapazes e pouco a pouco. não obstante a bravata com que afetava tratá-lo. um mundo rico de incidentes. porque. desde tempo imemorial. porque o meu nome.

Dir-se-ia que o único móvel da sua rivalidade era o desejo caprichoso de me contradizer. que o meu rival misturava às impertinentes contradições certos ares de afetuosidade. não era reconhecida senão por mim. teríamos sido gêmeos. entre os nossos condiscípulos das classes superiores. a idéia de que éramos irmãos. de me assustar. se fôssemos irmãos. não tivéssemos chegado a odiar-nos absolutamente. os rapazes grandes não indagam com muita exatidão da vida dos menores. Já disse que William não era. junto ao Fato. e da energia que me dava autoridade. Não podia explicar a mim próprio semelhante conduta. puramente acidental. por acaso. ou. Ordinariamente. essa igualdade. de me atormentar. Wilson parecia igualmente destituído da ambição que me impelia a dominar. depois de ter deixado a casa do Doutor Bransby. concedendo-me publicamente a palma da vitória. na qual. espalhara. soube. posto que muitas vezes não pudesse deixar de notar. porque. os mais intempestivos e os mais desagradáveis do mundo. Mas. Wilson não deixava de me 11 . que o meu homônimo nascera no dia 19 de janeiro de 1813. antes. os outros rapazes. permitindo-se o tom da superioridade e da proteção. com sentimento confuso de espanto. senão supondo-a o resultado de uma presunção insolente. de cólera e de humilhação. essa superioridade.tura. pareciam não dar por isso. sendo precisamente esse dia (coincidência notável) o do meu natalício. A nossa homonímia. de termos entrado ao mesmo tempo no colégio. aparentado com minha família. Contudo. nem no grau mais remoto. É verdade que tínhamos todos os dias uma questão. Parece incrível que. não obstante a rivalidade de Wilson e o seu insuportável espírito de contradição. com uma cegueira inexplicável.

por ele. Contudo. esses ataques eram numerosos) tinham mais a forma da ironia e da brincadeira. procedendo talvez de uma enfermidade de construção. é-me difícil definir os verdadeiros sentimentos que nutria. todos os meus ataques contra ele (e. mas havia particularmente uma que me fazia ir aos ares. Não sei como chegou a perceber que semelhante futilidade produzia em mim tão grande efeito. Nunca pude achar nele senão um ponto vulnerável. Realmente. Era uma mistura variegada e heterogênea: animosidade petulante. que era ele que a tinha merecido. respeito. que o impedia de levantar a voz acima de um murmúrio muito baixo. sem mostrarem nunca o calcanhar de Aquiles. e da sua. mantinha-nos sempre nos termos da estrita conveniência. 0 meu homônimo tinha fraqueza do aparelho vocal. por mais engenhosamente que os planasse . teria sido respeitado por qualquer antagonista menos encarniçado do que eu. por qualquer forma. e isso mesmo era um pormenor físico que. francos ou dissimulados. Wilson tinha diferentes espécies de represálias. é escusado acrescentar que William e eu éramos camaradas inseparáveis. que não chegava a ser ódio. Mas. que a da hostilidade séria e determinada. Para o moralista. Mas. estima. muito receio e uma curiosidade imensa e inquieta. Em conseqüência dessa ambigüidade de relações. Ao mesmo tempo. sem aquela situação hostil. um sentimento de orgulho da minha parte. Era dessa imperfeição que eu tirava as minhas pequenas desforras. desde que o descobriu. a quase igualdade dos nossos caracteres havia despertado em mim um sentimento que. uma verdadeira dignidade. foi o 12 .fazer sentir. teria progredido em amizade.porque o meu homônimo tinha no caráter muita dessa austeridade plácida e reservada que dá aos que a possuem o privilégio de ferir os outros. os meus esforços neste sentido não obtinham grande triunfo.

A fama que corria. Este sentimento de irritação aumentava em cada circunstância. era natural. senti-me logo disposto contra ele. que tendia a pôr em evidência qualquer semelhança física ou moral entre mim e o meu homônimo. Numa palavra. 0 meu nome de família. unicamente por se chamar assim. tão desengraçado e deselegante. quer física. quando se apresentou no colégio. e que era geralmente acreditada. em funções. de que éramos parentes. Que Wilson as observasse com tanta atenção como eu. mas o que não era natural era ter descoberto em semelhantes circunstâncias mina tão rica de contrariedades para mim. nas classes superiores. nada me levava a crer que essas analogias tivessem dado lugar a comentários ou houvessem sequer sido percebidas pelos nossos camaradas de classe. por todas essas razões. e o meu nome próprio. confundida com a minha. não havia nada que me encolerizasse mais (bem que eu me contrafizesse o mais possível para não dar a conhecer) do que uma alusão qualquer à nossa semelhança. tão trivial senão tão completamente plebeu. Ora. no mesmo dia da minha chegada. Nesse tempo. porque a sua vida. seria. quer moral. 13 . assuntos de grande desgosto. mas via que éramos da mesma altura e achava até certa semelhança nas nossas fisionomias. muitas vezes e imitavelmente. E. do colégio. porque seria causa de eu ouvir pronunciar o dobro das vezes essas sílabas que me torturavam os ouvidos. o que me contrariava solenemente. eram para mim. exasperava-me do mesmo modo. um segundo William Wilson. desgostei-me ainda mais do nome. ainda eu não tinha descoberto o fato muito notável da paridade das nossas idades. Todavia. ou ao suposto parentesco.seu gênero de tortura predileto. e toda a vida tinham sido.

pois. as minhas maneiras. que o seu engenho lhe teria facilmente conquistado. Essa intervenção vinha. A minha única consolação era que só eu notava essa perfeitíssima cópia. a sua voz era perfeitamente o eco da minha. percebido quanto essas semelhanças me desagradavam. mas sugerido. mas o timbre e a entonação eram idênticos. Talvez que a lentidão graduada da imitação a tornasse menos notável. 1 e que eu 14 . Não me podia imitar as notas altas. não tomavam parte naquela maliciosa zombaria? Durante meses de inquietação. sem curar dos aplausos públicos. conselho que não era dado francamente. para maior admiração e desgosto da minha pessoa. assim. na punhalada que me infligia. arremedando-me com habilidade verdadeiramente prodigiosa. propriamente uma caricatura). antes. as minhas palavras. satisfeito de produzir no meu coração o efeito desejado. muitas vezes. adotava o meu vestuário. enfim. Copiava-me o gesto. parecia deleitar-se. insinuado. não se ocupava senão do espírito original. o meu andar. Como é que os nossos camaradas não compreendiam. Quando falava baixo. desprezando a letra” (coisa única que os espíritos broncos podem apreciar na pintura). a minha salvação à perfeita mestria do copista que. Não tentarei dizer-vos até que ponto aquele retrato curioso me apoquentava (porque não posso chamar-lhe. em segredo. ou talvez devesse eu. o meu homônimo aumentava-as ainda. nem mesmo a minha voz lhe havia escapado. não tinha a suportar senão os sorrisos misteriosos e singularmente sarcásticos de Wilson que. Já falei muitas vezes dos cruciantes ares de proteção que ele tomava para comigo e da sua intervenção oficiosa em quase todas as minhas vontades.Tendo. foi isto um enigma insolúvel para mim. sob a forma de conselho. não se percebiam as manobras. não obstante o seu defeito constitucional.

à medida que me ia tornando mais velho. mais feliz. Por fim. durante os últimos meses que passei no colégio. tinham propendido para o ódio positivo. alguma coisa que me era muito familiar. esses sentimentos. numa altercação que tivemos. Foi pouco mais ou menos nessa época (se a memória não me engana). Contudo. durante a qual ele perdeu a reserva ordinária. desde então. falando e portando-se com negligência quase estranha à sua natureza. e que eu seria. que descobri ou imaginei descobrir na sua voz. Uma vez. e. que então me inspiravam tamanho ódio e desprezo. nos seus modos e na sua fisionomia. noutras circunstâncias. nos primeiros anos da nossa camaradagem. não obstante a importunidade das suas maneiras habituais ter diminuído consideravelmente. presumo que patenteei isto muito claramente. nesta época longínqua. melhor. revoltei-me inteiramente contra a sua odiosa vigilância. quero fazer-lhe a estrita justiça de confessar que todas as sugestões do meu rival eram ajuizadas e superiores à sua idade. ordinariamente destituída de reflexão e de experiência. Essa descoberta. geral. recordações confusas. hoje. por conseguinte. ter-se convertido em amizade. de um tempo que a memória não podia alcançar. interessou-me vivamente. primeiro. fiz-me estremecer. Wilson evitou-me ou simulou evitar-me. Disse que. trazendo ao espírito visões obscuras da minha primeira infância. a qual aumentava.recebia com má vontade. detestando cada vez mais o que eu considerava insolência intolerável. Era como uma idéia extravagante e pertinaz 15 . os meus sentimentos para com ele poderiam. que o seu bom-senso. depois. se não tivesse rejeitado tantas vezes os conselhos encerrados nessas assisadas sugestões. resumidas. os seus talentos e o seu conhecimento do mundo estavam muito acima dos meus. estranhas. numa proporção quase semelhante. mas. e.

nunca colhera grande resultado. para executar o meu projeto. Ao abri-las. com todo o cuidado. sem fazer bulha. como eram gabinetes pequenos. não podiam comportar mais de um indivíduo.de já ter visto o ser que me falava. uma das tais troças que eu lhe fazia muitas vezes mas das quais. nas suas inumeráveis subdivisões. depois da alteração de que falei. voltei à porta. Uma noite. ao quarto do meu rival. deixando o candeeiro à porta. não a menciono senão para determinar o dia da última altercação. em período extremamente remoto. mas. Quando chequei ao seu quarto. enquanto todos dormiam. Além disso. que comunicavam entre si e serviam de dormitório à maior parte dos alunos. desvaneceu-se tão rapidamente como tinha vindo. compreendia muitos quartos grandes. e avancei até sentir o ruído da sua respiração tranqüila. a luz bateu em chapa 16 . Nessa noite. Tendo adquirido a certeza de que dormia profundamente. através de um labirinto de corredores estreitos. ‘ no fim do meu quinto ano de colégio. partida. peguei num candeeiro e dirigi-me furtivamente. que tive com o meu singular homônimo. disposto a fazer-lhe sentir toda a força da acrimônia que me animava contra ele. pequei no candeeiro e aproximei-me novamente do leito. em época muito antiga. (sobras e remates da construção) que o talento econômico do Doutor Bransby tinha igualmente transformado em dormitórios. é preciso confessá-lo. Havia muito que projetava pregar-lhe uma. Um destes quartos era ocupado por Wilson.0 velho casarão do colégio. tinha resolvido pôr o meu plano em execução. todavia. entrei. coberto com um guarda-luz. As cortinas estavam fechadas. Essa ilusão. . havia (como não podia deixar de ser numa edificação tão desastrada) uma quantidade de cantos e recantos. levantei-me.

apaguei o candeeiro. ao mesmo tempo o meu olhar caiu sobre a sua fisionomia. apoderou-se de toda a minha alma um horror espantoso. Quando me lembrava de semelhante aventura. que o que eu via agora fosse unicamente .. 0 acontecimento. inexplicável! Respirei convulsivamente. que me induzira a deixar o colégio. ou pelo menos para mudar consideravelmente a qualidade dos sentimentos que essas lembranças me inspiravam. aproximando ainda mais o candeeiro. A realidade.no rosto do dormente. e deixei para sempre o recinto daquela escola velha e extraordinária. resultado dessa hábil imitação sarcástica? Gelado de espanto.. a minha vida em Eton não era nada própria para diminuir aquela espécie de ceticismo. o meu cérebro girava sob a ação de mil pensamentos incoerentes. saí silenciosamente do quarto. admirava até onde pode chegar a credulidade humana. Aquelas feições eram realmente as de Wilson? Sim. convulso. parecia-me agora efeito de pura imaginação. Depois de um lapso de alguns meses. 0 turbilhão de loucura em que mergulhei imediatamente varreu tudo. o lado trágico do drama tinha desaparecido completamente. absorvendo de uma vez e inteiramente as impressões sólidas e sérias do 17 . que passei em casa de meus pais. não! nunca chegara a ser assim nas horas ativas em que contrafazia a minha pessoa! Estaria verdadeiramente nos juizes da possibilidade humana. Penetrou-me instantânea mente uma sensação de gelo. na completa ociosidade. e ria-me da prodigiosa força de imaginação que havia herdado de minha família. eram! eram! Que havia pois de extraordinário no seu semblante para produzir em mim tal impressão? Contemplei-o durante alguns momentos. Esse pequeno intervalo bastara para dissipar as lembranças do Colégio Bransby. trêmulo. vacilaram-me os joelhos. Ora. o coração pulou-me no peito. entrei para o Colégio de Eton. Ele não era assim.

depois de uma semana inteira de dissipação brutal. que penetrava através das janelas arqueadas. e murmurou-me ao ouvido: William Wilson. A pessoa que me esperava era um rapaz pouco mais ou menos da minha altura. aquela interrupção inesperada causou-me mais prazer do que surpresa. que nenhuma lei ou vigilância podia deter. durante os quais a minha alma se habituou ao vicio e o meu corpo adquiriu desenvolvimento quase anormal. talvez ainda mais perigosas. não tinham sido esquecidas. avançou para mim. Reunimo-nos a altas horas da noite. o delírio e a extravagância tinham chegado ao apogeu. devendo o deboche prolongar-se religiosamente até a manhã do dia seguinte. agarrou-me pelo braço com um gesto imperativo de impaciência. que parecia estar com muita pressa. anunciando-me que alguém. 0 vinho corria livremente.passado. Aquelas palavras a minha embriaguez dissipou-se como por en- 18 . vestido com uma roupa de casimira branca. estreita. Saí do quarto cambaleando. quando a minha atenção foi subitamente distraída pela entrada precipitada de um criado. três anos perdidos em loucuras. alumiada apenas pela fraca luz da aurora. obstinava-me a propor um “toast” de todo indecente. Um dia. convidei alguns estudantes dos mais dissolutos para uma orgia secreta no meu quarto. todavia. e em poucos segundos achei-me no vestíbulo da casa. Furiosamente inflamado pela embriaguez e pelas cartas. Três anos eram passados. Quando a aurora despontava no oriente. e outras seduções. pedia para me falar no vestíbulo. uma sala baixa. exatamente irmã da que eu trazia nesse momento. traçar aqui o curso dos meus miseráveis desregramentos. Apenas me viu. Excitado como estava pelo vinho. Não pretendo.

passado certo tempo. não me deixava dúvidas. A importância. o caráter. quem era? Quem era William Wilson. Mas. o rapaz tinha desaparecido. a chave dessas sílabas. o que quer que seja sobrenatural. quando voltei a mim. que se intrometia tão obstinadamente nos atos da minha vida. a solenidade da repreensão contida nas suas palavras baixas e sibilantes. fizeram-me estremecer como se na minha alma se houvesse produzido a descarga de uma pilha voltaica. no tremor nervoso do seu dedo erguido diante dos meus olhos. Apenas chequei àquela cidade (permitindo-me a generosidade pródiga de meus pais o luxo e a opulência tão caros ao meu coração) comecei a rivalizar em prodigalidades com os primeiros herdeiros dos condados mais ricos da GrãBretanha. o tom. é verdade. dei largas à natu- 19 . o espanto e o terror aniquilaram-me o entendimento. de onde vinha e quais os seus fins? Esses pontos ficaram sempre obscuros para mim. Durante alguns segundos. ora entregando-me a sérias investigações. Pensei nisso. simples. Havia nos modos do estrangeiro. para me entregar inteiramente aos projetos da minha partida para Oxford. deixei de pensar nisso. durante muitas semanas. só pude saber que um acontecimento súbito o obrigara a deixar o colégio na mesma tarde do dia em que eu fugira. contudo misteriosamente segredadas. familiares. Incitado ao vicio por semelhantes meios. esse efeito foi-se desvanecendo pouco a pouco. Entretanto. ora permanecendo dias e dias engolfado em mórbidos pensamentos.canto. Contudo. De todas as indagações que fiz a seu respeito. Aquele acontecimento produziu um efeito poderosíssimo sobre minha imaginação desregrada. A identidade do indivíduo.

A enormidade do 4tentado. seria absurdo demorar-me nos debates de tais extravagâncias. na embriaguez louca dos meus desregramentos. chamado Glendinning. diziam. o meu plano estando bem pensado. aquele cujas loucuras. encontramo-nos (eu com a intenção bem firme de fazer das minhas) em casa de um dos nossos camara- 20 . arrastado pela corrente impetuosa da libertinagem e da cobiça. cujos erros não eram senão inimitáveis caprichos. rico. ajuntei copioso apêndice ao longo catálogo dos vícios que reinavam então na universidade mais devassa da Europa. e. teria ousado conceber tal suspeita. do rapaz mais nobre e mais liberal de Oxford. assinalei-o desde logo para vítima dos meus talentos. e cujos vícios tenebrosos não passavam de ligeiras extravagâncias! Deste modo alegre. mesmo dentre os mais depravados. praticando habitualmente essa ciência desprezível como meio de aumentar a minha fortuna. diziam os seus parasitas. Por fim. e que não punha muita dúvida em gastar a sua fortuna. Inventando uma multidão de loucuras novas. do alegre. à custa da dos meus camaradas. do franco. os obstáculos vulgares da honra e da decência. Mas. deixando-o ganhar a princípio. Convidei-o a jogar muitas vezes. do generoso Willíam Wilson. Basta dizer que as minhas dissipações ultrapassaram as de Herodes.ral propensão. já avultada. somas consideráveis (conforme a manha habitual dos jogadores). vendo que era fraco de inteligência. era por isso mesmo a minha salvaguarda. rebaixei-me ao ponto de adquirir as manhas mais vis dos jogadores de profissão. como Herodes Attico. Tratei de travar conhecimento com ele. Enfim. tinha eu passado dois anos. calcando. não eram senão expansões da mocidade desenfreada. incompatível com todos os sentimentos de honra e de dignidade. Qual dos meus camaradas. quando chegou à universidade um rapaz de nobreza recente.

M. com espanto. Em pouco tempo. porque. dava as cartas e jogava de modo singularmente nervoso. na fisionomia do meu adversário. a sua dívida tinha quadruplicado. As outras pessoas. preparando as coisas de modo quê a introdução das cartas parecesse perfeitamente acidental e que a idéia do jogo partisse da própria vítima. A presa caíra perfeitamente no laço. interessadas pelas proporções grandiosas que ia tomando o nosso combate. como eu o fizera beber copiosamente durante a primeira parte da noite. em menos de uma hora. Glendinning baralhava. Preston.das. quando operei enfim de maneira a ficar com Giendinning por único adversário. fez exatamente o que eu tinha previsto: quis dobrar a parada. notei. Digo com espanto. não esqueci nenhuma das espertezas empregadas em casos idênticos. Então. 0 resultado foi o que devia ser. trouxe comigo uma sociedade de oito a dez rapazes. mas. a vermelhidão do vinho. 0 jogo meu favorito foi o “écarté”. não podiam (pelo menos assim o supunha eu) 21 . segundo as informações cuidadosas que tomara sobre Glendinning. igualmente conhecido de ambos. custa a crer. Para dar a tudo aquilo melhor aparência. espertezas tão estúpidas e tão sabidas que. imaginava-o prodigiosamente rico. se bem que realmente fortes. mas que. A noite ia já em mais de meio. e as somas que ele tinha perdido até ali. cedi.. depois de ter bebido mais um copo de Porto. já muito extravagante. devia-me soma considerável. Em resumo (para abreviar assunto tão vil). Com uma feliz afetação de resistência e só depois da minha recusa reiterada lhe ter provocado palavras azedas e duras. haja sempre pessoas assaz simples que se deixem enganar por elas. quase repentinamente. imaginei que aquele estado era só efeito da embriaguez. devo dizê-lo. tinham largado as cartas e faziam galeria à roda de nós. a palidez terrível . Então.que substituíra. que deram ao meu consentimento a forma de vingança. não tinha a menor tenção de fazer jogo em sua casa.

Peço-vos. mas. só o podíamos sentir no meio de nós. as trevas sendo agora completas. que senti o coração aliviado dum peso intolerável à interrupção extraordinária que se seguiu. propor-vos um meio rápido de chegardes a esse importantíssimo conhecimento.embaraçá-lo àquele ponto. a meu pesar. mesmo. senti. que toda. pois. De repente. Vou. . Confessarei. A situação deplorável da minha vitima sensibilizava e entristecia a todos.Meus senhores. unicamente para salvaguardar perante os outros rapazes a reputação do meu caráter. mas distinta. porque. u homem proximamente da minha estatura. Durante alguns minutos de profundo silêncio. Não conheceis decerto o caráter da pessoa que acaba de ganhar no “écarté” uma soma enorme a Lorde Glendinning. ia insistir peremptoriamente para acabar o jogo. que toda a sua perturbação era produzida pelo vinho e não por qualquer motivo de desinteresse. exprimindo o mais completo desespero. Mas. ruborizarem-se-me as faces sob os olhos ardentes de repreensão que me dirigiam os menos endurecidos da sociedade. ouvimos a voz do intruso: . que me gelou até à medula dos ossos. ainda. a luz deixou-nos ver alguém que entrava. quando algumas palavras pronunciadas ao meu lado e uma exclamação de Glendinning. não fiz mais que cumprir um dever. Não obstante. procedendo assim. me fizeram compreender que o tinha totalmente arruinado.disse ele “com voz muito baixa”. uma voz inolvidável.meus senhores. as velas se apagaram como por encanto. Imaginei. antes de se extinguir. Antes de alguém ter voltado a si do espanto excessivo que produzira em todos aquela violência. abriram-se de par em par as portas pesadas do aposento com uma impetuosidade tão vigorosa. não peço desculpa da minha conduta. . Ser-me-ia difícil dizer a conduta que teria adotado em semelhante circunstância. embuçado nu capote. examinai bem o forro do canhão da sua manga esquerda e algumas cartas que achareis nas algibeiras assaz vastas do 22 .

o “ingênuo”. que teria ouvido o ruído de um alfinete caindo ao chão. Espero que compreenderá a necessidade de deixar Oxford. mal acabou de falar. Wilson. Wilson. que tirara ao entrar na sala do jogo).Sr. 0 silêncio em que o escutavam era tão profundo. Graças a esta disposição. eu tinha efetivamente trazido uma capa. que corta o baralho (como se faz habitualmente) no sentido do cumprimento. isto é seu (como o tempo estava frio. e as ordinárias imperceptivelmente convexas do lado grande. de forma a dar ao parceiro uma carta principal. sairá imediatamente de minha casa. Uma tempestade de indignação ter-me-ia feito sofrer menos que o silêncio desdenhoso e os sorrisos sarcásticos que acolheram aquela descoberta. nem mesmo sei quais foram as minhas impressões! Senti-me agarrado por muitos braços.Sr.creio que será escusado procurar aqui mais provas da sua arte: bastam-nos as que temos. acharam-me todas as figuras essenciais do “écarté” e. certo número de baralhos de cartas exatamente iguais aos que usávamos nas nossas reuniões. não dará à sua vítima nada que possa levar-lhe vantagem. apanhando do chão uma capa magnífica forrada de peles preciosas. nas algibeiras do casaco. . cortando no sentido da largura. corta. 23 . mirando as pregas da capa. depois vieram luzes. . enquanto que o “esperto”. . creio .acrescentou.disse o dono da casa. No forro da manga. seguiuse uma pesquisa na minha pessoa. sendo ligeiramente convexas do lado Pequeno. partiu tão bruscamente como havia entrado.seu casaco. com a diferença de que as minhas eram daquelas chamadas propriamente boleadas. em todo o caso. As cartas principais. não posso descrever. Quanto a mim. 0 desconhecido. invariavelmente. com um sorriso amargo .

Mal pus os pés em Paris. fugia diante da sua tirania como diante da peste. com minucioso cuidado. tive logo uma prova da jurisdição de Wilson. sempre interrogando secretamente: a alma. com que desvê-lo importuno. duma variedade e dum preço extravagante (é inútil dizê-lo). com espanto vizinho do terror. coloqueia sobre a minha. forrada de peles esplêndidas. 0 feitio era de fantasia. Fugi até ao fim do mundo. humilhado até a lama. toda absorvida por um fato verdadeiramente pasmoso. coberto de vergonha e de terror. porque me ocupava muito de todas essas futilidades luxuosas. levando o furor do dandismo até ao absurdo. Preston me entregou a capa. contudo. Na madrugada seguinte. mas fugi em vão! E sempre. e sai da sala com um olhar ameaçador. inventado por mim. provando-me que o seu poder misterioso tinha apenas começado. a presença de espírito. sem que os outros dessem por isso. Decorreram anos sem tréguas para mim. Fugia em vão! 0 meu destino maldito perseguiu-me triunfante. então. quando M. Não perdi. que apanhara do chão. Miserável! Em Roma. Por isso. é provável que tivesse castigado imediatamente aquela linguagem insultante: com alguma violência pessoal.Aviltado. pequei-a. até nos pormenores minuciosos. veio interpor-se entre mim e a minha ambição! E em Viena! E em Berlim! E em Moscou! Aonde podia eu ir. que já trazia a minha no braço e que aquela. repetia as minhas perguntas: Quem é? De onde vem? Que quer? E analisava. se a minha atenção não estivesse. naquele momento. vi. com que ternura de espectro. que não achasse logo uma razão amarga para o amaldiçoar do fundo do coração? Atacado por um pânico indescritível. deixei precipitadamente Oxford e fugi para o continente. as 24 . era perfeitamente semelhante. A minha capa era um traste riquíssimo.

Triste justificação. a onipresença e onipotência aparentes de Wilson. deixai-me chegar à terrível cena que fechou o drama. na verdade. posto que exerceu sempre escrupulosamente e com destreza milagrosa a sua mania de “toilette” idêntica à minha. o método. tinham-me incutido a idéia da minha completa fraqueza e impotência. por certo semelhante mistério era o cúmulo da afetação e da toleima. o homônimo. eu não reconhecia o William Wilson do colégio. nem nesse ponto achava nada que pudesse servir de base a uma conjetura. que nos casos numerosos em que Wilson tinha recentemente. Era uma coisa verdadeiramente notável. a minha vingança em Paris. supor que no meu conselheiro de Eton. os meus amores em Nápoles e no Egito a minha cobiça. o rival temido e execrado da casa Bransby? Era impossível! Mas. o camarada. que inspiravam as outras feições da sua natureza e certos privilégios. misturando com não sei quê de sensação e de terror. se apresentava em todas as suas intervenções. a majestosa sabedoria. no destruidor da minha honra em Oxford. naquele que tinha contrariado a minha ambição em Roma.formas. que nesse ente. humilde- 25 . havia-me submetido covardemente ao seu domínio imperioso. atravessado o meu caminho. Quem quer que fosse esse danado Wilson. as feições características da sua insolente vigilância. meu grande inimigo e meu gênio mau. Até então. de uma autoridade tão imperiosamente usurpada! Triste indenização dos direitos naturais do livre arbítrio. de maneira a não me mostrar o rosto. teriam fatalmente rematado por uma desgraça. Podia. Mas. tão teimosa e insolentemente denegados! Havia muito tempo que o meu carrasco. acaso. 0 profundo sentimento de respeito com que me habituara a considerar o caráter elevado. aconselhando-me. se tivessem progredido. todos os planos derrotados por ele eram loucuras que.

a cara inteiramente coberta com uma máscara de seda preta. me tocava o ombro. pouco a pouco. Por fim. A dificuldade de abrir caminho através da multidão não contribuiu pouco para me exasperar. profundo. com inolvidável. no pensamento. a resolução desesperada daquela escravidão. quando senti alguém que. já se vê. Entrei a murmurar.Miserável! . apressava-me a chegar até ela. que me aumentava a cada sílaba que proferia. Depois. e a atmosfera sufocante das salas cheias de gente irritava-me de modo insuportável.. achava-me num baile de máscaras. e depois o tom meu ouvido! Do lho e extravagante Di Broglio o que. costume igual ao meu. Nessa noite. a atormentar-me! Vem comigo ou mato-te aqui mesmo! 26 . Mas. de Nápoles. alimentei. Tendo-a avistado. a alegre e bela li uma confiança assaz imprudente. ultimamente. com a voz enrouquecida pela cólera. comecei a sentir a inspiração de uma esperança ardente. me havia confiado o segredo do “costume” que ela devia trazer ao baile.mente. tinha abusado do vinha ainda mais do que o costume. . ao longe. finalmente. porque procurava com ansiedade (não direi com que indigno fim) a jovem.miserável! impostor! Celerado não voltarás mais a perseguir-me. maldito murmúrio. e a sua influência irritante sobre o meu temperamento hereditário tornava-me cada vez mais rebelde a toda qualidade de censura. sem restrição. em segredo. . a hesitar. Era em Roma. Trazia. ao de leve.. a resistir. no palácio do Duque Di Broglio. durante o carnaval de 18 . posto que cheia de tristeza e de repugnância.exclamei. . tinha-me abandonado de todo ao vinho. manto espanhol de veludo azul e espada suspensa à cintura por um boldrié carmesim. submissão à sua arbitrária ditadura. Voltei-me furioso para aquele que assim me interrompia e agarrei-o violentamente pela gola.

sentia no braço a energia e o poder de um exército.nada. A sua máscara e o seu manto estavam no chão. com a ferocidade de um bruto. se me deparou! Durante o curto instante que me afastara. Apenas entrei. levei-o contra a parede e ali. digo. arrastando-o irresistivelmente atrás de mim. por ardentes excitações de toda espécie. No lugar onde me recordava de não ter visto . nem uma linha 27 . ao espetáculo que. suspirando ligeiramente. Dentro em poucos segundos. Exasperado como estava. abria caminho da sala do baile para uma pequena antecâmara contígua. mas com a cara horrivelmente pálida e toda salpicada de sangue. depois.Dizendo aquelas palavras. Mas que linguagem humana pode traduzir o espanto e o horror que se apoderaram de mim. cheio de terror. Hesitou um segundo. Apressei-me a prevenir alguma invasão e voltei imediata. mas realmente não era assim. com uma praga tremenda. cravei-lhe repetidas vezes a espada no peito. Não havia um fio no seu vestuário. estava agora um espelho enorme (no estado de perturbação em que me achava. tendo-o à discrição. Nesse momento. por fim. pôs-se em guarda. de encontro a uma parede. era Wilson moribundo. que se erguia diante de mim. com silêncio e tranqüilidade extraordinárias. mexeram na fechadura da porta. assim se me afigurou) e. produzira-se nas disposições locais do aposento uma mudança material. avançou para mim a passos lentos e vacilantes. atirei com ele para longe. Era o meu adversário. Tal se me afigurava. como eu caminhasse para ele. fechei a porta. 0 combate não foi longo.mente para junto do meu adversário agonizante. e mandei-o desembainhar a espada. a minha própria imagem.

morto para o mundo.com. e de modo que me pareceu que era a minha própria voz. Mas.em toda a sua figura (tão caracterizada e tão singular) que não fosse meu. mas Wilson sem murmurar já as suas palavras! Falando alto. eletrônico ou impresso. e. virtualbooks. que não fosse minha. agora.br Todos os direitos reservados a Editora Virtual Books Online M&M Editores Ltda. como te assassinaste a ti próprio! FIM Copyright © 2000. vê nesta imagem. era o absoluto na identidade! Era Wilson. para o céu e para a esperança! Em mim existias. olha para a minha morte. sem autorização escrita da Editora. 28 . doravante também estás morto. que dizia: . É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação.Venceste e eu sucumbo. que é a tua.

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