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INTRODUÇÃO À POLÍTICA Este livro tem por finalidade remover um pouco da paixão, do preconceito e da ignorância que toldam as discussões

políticas e aprofundar a compreensão geral do leitor com relação ao que realmente é política. Mantendo o passado e o presente, o ideal e o real num justo equilíbrio, o Professor Laski examina a natureza do Estado e suas organizações, como vai ao encontro das necessidades dos que o compõem e como vem sendo, inevitavelmente e cada vez mais, compelido a transformar-se num todo mais amplo: um governo universal. Nunca se sentiu tão intensamente a necessidade de fazer que estes princípios, fundamentais à organização humana em todo o mundo, fossem universalmente compreendidos. O Professor Laski escreveu este livro em 1930, não apenas como uma introdução popular ao assunto, mas também como um estímulo ao leitor médio, no sentido de explorar os textos clássicos ou, pelo menos, a mais completa de suas obras, a Gramática Política. Foi revisto e atualizado em 1951, dentro do espírito da edição original, por Martin Wight, com a colaboração de Geoffrey Goodwin e Ralph Miliband, amigo e colega do Professor Laski. .

CAPÍTULO I NATUREZA DO ESTADO I Todo cidadão do mundo moderno é súdito de um Estado. É legalmente obrigado a obedecer às suas regras, e sua conduta é estabelecida por normas impostas pelo mesmo. Estas normas são a lei, e é no poder de impô-las a todos aqueles que vivem dentro de suas fronteiras que se acha a essência do Estado. Pois, enquanto todas as outras sociedades são de natureza voluntária e somente podem compelir o indivíduo a sujeitar-se às suas regras se ele a elas se incorporar, esse mesmo indivíduo, desde que se torne residente de um determinado Estado, legalmente não terá alternativa senão obedecer às suas leis. Estas são, em suas exigências legais, superiores a qualquer obrigação imposta a ele por parte de outro grupo qualquer. O Estado, a bem dizer, é o ponto culminante do edifício social moderno, e é em sua supremacia sobre todas as outras formas de agrupamento social que consiste sua natureza especial. O Estado é, portanto, uma forma de regulamentar a conduta humana. Qualquer análise de sua natureza o revela como um método de impor princípios de conduta, através dos quais os homens devem regulamentar suas vidas. O Estado nos proíbe de roubar e nos pune pela violação dessa ordem. Estabelece um sistema de imperativos e faz uso da coerção para assegurar obediência aos mesmos. Dentro de seu próprio ponto de vista, a validade dessas leis é autoderivada. São legais, não pelo fato de serem boas, justas ou sábias, mas porque são suas leis. São a expressão legal da maneira como os homens devem agir, de acordo com as normas estabelecidas pela autoridade, que é a única competente para tomar decisões finais dessa natureza. Os imperativos legais, porém, nem se estabelecem por si mesmos nem são impostos por si mesmos. Foram desejados por algum homem ou grupo de homens e por algum homem ou grupo de homens deverão ser impostos. Quando examinamos os Estados do mundo moderno, verificamos que eles apresentam

sempre o espetáculo de um grande número de homens obedecendo, dentro de um território definido, a um pequeno número de homens. Verificamos, também, que as regras feitas por esse pequeno número, quer, como na Grã-Bretanha, sejam ilimitadas (o Rei no Parlamento), ou, como nos Estados Unidos, limitadas, seja no que se refere à matéria a respeito da qual elas podem exigir obediência, seja quanto aos métodos pelos quais isso deverá ser conseguido, possuem, entretanto, uma qualidade fundamental: se elas forem violadas, esse pequeno grupo de homens poderá lançar mão de toda coerção necessária para impor sua autoridade. Todo Estado, em resumo, é uma sociedade territorial dividida em governo e súditos, sendo o governo um grupo de pessoas, dentro do Estado, que aplica os imperativos legais sobre os quais repousa o Estado; e, diferentemente de qualquer outro grupo de pessoas, dentro da sociedade territorial, está autorizado a usar de coerção, de modo a fazer que esses imperativos sejam obedecidos. Em todo Estado, a bem dizer, há uma vontade que é legalmente superior a todas as outras vontades. Ela restabelece as determinações finais da sociedade. É, em expressão técnica, uma vontade soberana. Não recebe ordens de qualquer outra vontade, nem pode alienar sua autoridade. Tal vontade, por exemplo, é a do Rei no Parlamento, na Grã-Bretanha. Dentro dos limites de seu território, o que for decidido recairá sobre os residentes daquele território, que poderão considerar suas decisões imorais ou insensatas, mas são legalmente obrigados a acatá-las. Um súdito britânico que não esteja de acordo com alguma decisão de sua Igreja poderá abandoná-la; seria impossível forçá-lo a aceitar tal decisão. Mas o súdito britânico que não esteja de acordo com a lei que regula o imposto de renda será legalmente forçado a cumpri-la. Qualquer tentativa no sentido de desafiar a sua eficácia encontraria imediata sujeição compulsória às suas conseqüências, de uma forma ou de outra. O Estado é, portanto, uma sociedade de indivíduos submetidos, se necessário por compulsão, a uma certa maneira de viver. Toda conduta dentro da sociedade

deverá estar de acordo com essa maneira de viver. As regras que estabelecem sua natureza são as leis do Estado e, por uma lógica óbvia, têm a necessária primazia; são, a bem dizer, soberanas a todas as outras leis. Nessa sociedade, os indivíduos que elaboram e exigem o cumprimento das leis são denominados governo; e aquele conjunto de princípios que estabelece a) como tais leis deverão ser feitas, b) a maneira pela qual deverão ser modificadas, c) quem deverá elaborá-las é denominado Constituição do Estado. II Naturalmente, isso é o mesmo que encarar o Estado como mera ordem legal. É simplesmente uma descrição da forma pela qual as relações sociais são engrenadas numa comunidade moderna, sem considerarmos nem o processo de desenvolvimento do presente sistema nem os propósitos a que serve, ou o valor e perigos que a ele se adicionam à medida que funciona. Evidentemente, tudo isso é muito importante. A natureza do Estado moderno é a conseqüência das experiências pelas quais passou e seria incompreensível, a não ser à luz dessa história. O poder do Estado não é exercido num vácuo. É usado para atingir certas finalidades e suas regras são alteradas, em sua substância, para assegurar as finalidades consideradas boas, em determinada época, por aqueles que detêm o direito legal de exercer o seu poder. Novamente, nossa noção do valor e dos riscos do Estado, assim concebido, dependerá evidentemente, em grande parte, de nossa maneira de encarar as finalidades a que ele está procurando servir e a maneira pela qual procura servi-las. Não pretendo tratar aqui da história do Estado. Basta somente salientar que sua natureza, como força soberana, foi o produto de uma longa cadeia de circunstâncias históricas das quais a mais importante foi a necessidade, por ocasião da Reforma, de encontrar um plano de organização ao qual todas as exigências de autoridade pudessem recorrer para decisões finais. O Estado firmou sua primazia sobre todas as outras sociedades

sem imposição de proibições de nenhuma espécie de crença religiosa. O que. segurança para suas pessoas e propriedades. ainda em termos gerais. Seus súditos desejam adorar a Deus à sua maneira. em aspecto. os propósitos do Estado: isto é. Estava em condições de regulamentar a vida porque. Seu triunfo resultou da habilidade de impor sua vontade sobre todos os homens contra adversários que. oferecia perspectivas de paz e ordem que nenhum outro grupo poderia assegurar. por exemplo. naquela época. O Estado emergiu como a única sociedade capaz de impor imperativos legais que as massas respeitassem. nesse caso. dirigidos no sentido de satisfazer esse desejo. não teria havido ordem. A anarquia de crenças religiosas parecia oferecer pouco mais que conflitos. Precisamos esclarecer o que parecem ser. em síntese.porque. Por que terá sido possível impor sua vontade? Neste ponto passamos da natureza do Estado. não menos ardentemente. a organização econômica era demasiadamente local e atomística. encarado como mera ordem legal. logicamente. para ser capaz de estabelecer regras gerais. A Revolução Francesa foi simplesmente a conseqüência do fato de ter sido impossível satisfazer as exigências feitas às instituições do . disputavam essa sujeição. por exemplo. aqueles da França do ancien régime? O que nos leva a julgar que o funcionamento do Estado francês do ancien régime era inadequado aos propósitos para os quais o Estado deveria existir? A autoridade de um Estado é função de sua capacidade de satisfazer as exigências efetivas que lhe são dirigidas. Se o Estado não encontra motivos para contrariar esse desejo de seus cidadãos. em geral. sem a sua autoridade. temos que encará-lo sob dois ângulos diferentes. que natureza deverão ter tais imperativos legais. Aqui. Seus súditos desejam. Temos também que pesquisar os critérios que nos possibilitarão determinar. a tolerância religiosa torna-se um de seus imperativos legais. Os imperativos legais de um Estado são. explica os hábitos de determinado Estado. para o Estado como assunto de análise filosófica. o que explica a natureza dos imperativos legais que ele impõe em determinada época.

pois os estadistas nem sempre agem criteriosamente. será função do sistema econômico . teria sido impossível imaginar-se que um Estado pudesse obrigar seus membros a contribuir para tal fim. Corresponderão aos desejos daqueles que sabem fazer sentir sua vontade no centro do poder político. e a sua eficácia dependerá do grau de maior ou menor êxito ao atender a tais desejos. são selecionados para serem traduzidos em termos legalmente imperativos. Por quê? É claro. naquela época. No entanto. evidentemente. do vasto e competidor tumulto de desejos que o Estado enfrenta.Estado. Porque aqueles que exercem a autoridade do Estado julgaram necessário. a efetivar demandas razoáveis e aceito algumas que. não será que a exigência era razoável: o Estado tem-se recusado. Isto é. estão interligadas. A resposta. podemos tomar como regra que a natureza de um Estado. A necessidade talvez tenha sido a causa mais óbvia: precisamos então saber por que certa exigência. em determinado tempo e lugar. freqüentemente. portanto. nem a razão nem o conhecimento de sua substância poderiam justificar. não era efetiva se tornou compulsória pelo processo do tempo. As leis de determinado Estado representarão um esforço no sentido de atender a tais desejos. o tempo ou o lugar determina seu funcionamento. Não podemos conceber um Estado dentro da civilização ocidental que não cobre impostos de seus membros quando necessita financiar um sistema nacional de educação. não todos. são função de demanda efetiva. conveniente ou justo ceder à exigência de um sistema nacional de educação. lndubitavelmente. aparentemente. O princípio de seleção é variável. sem exceção. de modo geral. alguns. Uma exigência que. há menos de um século e meio atrás. sob o sistema de imperativos legais mantidos pelo ancien régime. por seus membros. é considerada necessária pelo Estado e outras não. Imperativos legais. Mas temos que descobrir o que torna tal exigência efetiva em determinado tempo e lugar. No entanto. os motivos que levam os estadistas a agir são demasiadamente complicados para permitir uma explicação simples: todas as causas.

Ela revela a natureza geral de um Estado. da classe dominante da sociedade. A lei. também o equilíbrio da ação do Estado é alterado de modo a ir de encontro ao novo equilíbrio. O Estado. Poucas são as classes que após terem atingido o poder não se tenham utilizado do mesmo de maneira extrema. na medida de sua força. e elas mesmas sentirão. É preciso ter cuidado para que não se deduza dessa interpretação nem mais do que ela representa nem mais do que aquilo que pode justificar. raramente é imediata e jamais completa. Elas têm que conquistar o consentimento de seus adversários em relação ao novo equilíbrio. A ordem legal é a máscara por trás da qual um interesse econômico dominante garante os benefícios da autoridade política. que torna gradativa qualquer adaptação. Argumenta que. que a sua própria admissão ao poder é por si só satisfatória. expressa os desejos daqueles que dominam o sistema econômico. torna-se um sistema de relações. não raro. é claro. em movimentos históricos. olvidando a exclusão que haviam sofrido anteriormente. Argumenta amplamente que o privilégio geralmente acompanha a posse da propriedade e que a supressão da propriedade representará a supressão do privilégio. dando expressão legal a seus desejos. O Estado. à medida que o equilíbrio da propriedade é alterado. para tornar seus desejos efetivos. A maneira. pois aqueles que detêm esse poder têm condições. não procura deliberadamente justiça ou utilidade geral. como funciona. dentro de uma sociedade. Qualquer sistema social é caracterizado pela luta pelo controle do poder econômico.que consegue implantar-se na sociedade controlada pelo Estado. nessas circunstâncias. não explica os detalhes de suas ações. Mas ninguém que estude a legislação de um Estado poderá duvidar da relatividade das reivindicações da classe que age em seu nome. há sempre um período intermediário. então. A história das leis sindicais na Inglaterra. da liberdade de contrato na . Essa alteração. portanto. através da qual o poder econômico é distribuído em determinado tempo e lugar caracterizará a natureza dos imperativos legais que forem impostos naquele mesmo tempo e lugar. no sentido amplo. mas o interesse.

América e da legislação agrária na Prússia são exemplos da maneira pela qual a classe econômica dominante faz uso do Estado para atingir os imperativos legais que protegem seus interesses. Não desejamos negar, nem por um instante, o desejo da classe governante de agir sensatamente ou com justiça. Mas os homens pensam diferentemente quando vivem diferentemente; e, na maneira de abordar o problema relativo ao qual os imperativos legais são basicamente necessários ao interesse da comunidade como um todo, cada classe encara a questão com uma vaga e semiconsciente premissa maior no fundo da mente, que é de fundamental importância na sua maneira de encarar a razão ou a justiça. Os homens ricos subestimam sempre o poder da propriedade no sentido de garantir felicidade; os religiosos superestimam sempre a influência da fé sobre os costumes; os cultos geralmente atribuem indevida importância à relação entre erudição e sabedoria. Somos prisioneiros de nossa experiência; e como o item mais importante de nossa experiência é adquirido através do esforço despendido na luta pela vida, a maneira pela qual lutamos nesse sentido é que forma, mais profundamente, nossa noção quanto às coisas que são realmente necessárias. John Bright jamais conseguiu entender o valor da legislação fabril porque, como empregador, ela estava em oposição à experiência que mais profundamente o tocou; e um latifundiário, como Lorde Shaftesbury, que não tinha a menor dificuldade em entender a justiça elementar da legislação fabril, jamais conseguiu divisar justiça na regulamentação das condições do trabalhador rural. Os escravocratas dos Estados Confederados acreditavam sinceramente que o sistema de escravatura era do interesse dos próprios escravos. Costuma-se dizer que essa teoria pode originar uma comunidade cujo poder é de natureza oligárquica; uma Inglaterra, por exemplo, onde o direito de voto é confinado à classe média, naturalmente promove legislação de natureza predominantemente de classe média. Mas onde o Estado for uma democracia baseada em sufrágio universal, o fato dos governadores de Estado serem

escolhidos pela comunidade, como um todo, torna obsoleta a interpretação econômica que repousa sobre a teoria de que é o poder da propriedade, acima de tudo, que determina sua natureza. A objeção, no entanto, é menos substancial do que parece na superfície. É verdade que um Estado democrático será, de modo geral, mais generoso em relação à massa do que um Estado oligárquico; a diferença entre as legislações inglesas dos séculos XIX e XX torna esse fato auto-evidente. Mas tais diferenças não tocam a raiz da questão. O poder depende, para suas ações, de uma consciência de posse, do hábito de organização, da capacidade de produzir efeito imediato. Num Estado democrático, onde existe grande desigualdade de poder econômico, a principal característica dos pobres é a necessidade de alcançar essas condições. Eles não têm consciência do poder que possuem. Raramente compreendem o que poderiam conseguir se organizassem seus interesses. Eles não têm contato direto com aqueles que os governam. Qualquer ação da parte das classes trabalhadoras, mesmo num Estado democrático, envolve riscos à sua segurança econômica de forma desproporcional à certeza de vantagens. Raramente possuem os instrumentos necessários para garantir seus desejos. Na maioria das vezes, nem sequer chegaram a aprender a melhor maneira de formulá-los e defendê-los. Eles trabalham sob o sentimento de inferioridade derivado da obediência perpétua a ordens, sem experiência nenhuma da confiança oriunda do hábito de mandar. Tendem a confundir as instituições por eles herdadas com as inevitáveis bases da sociedade. Há, na realidade, razão para se esperar que um Estado construído por sufrágio universal seja responsável por concessões mais amplas às massas do que qualquer outra forma de governo; mas não há razão histórica para supor-se que tal Estado esteja em condições de alterar diretamente em suas bases os resultados sociais de uma sociedade economicamente desigual. Concluímos, portanto, que a natureza dos imperativos legais, em qualquer Estado, corresponde às reivindicações efetivas que o Estado enfrenta e que estas,

a seu turno, dependem, de modo geral, da maneira pela qual o poder econômico é distribuído na sociedade que esse Estado controla. Acontece então que, quanto mais eqüitativamente o poder econômico for distribuído, tanto mais profunda será a relação entre o interesse geral da comunidade e os imperativos legais impostos pelo Estado. Pois, obviamente, igual poder econômico significa igual exigência efetiva; e a vontade do Estado, então, não tenderá parcialmente mais numa direção do que noutra. E, se o Estado é uma organização cuja função é efetivar reivindicações, quanto mais igualmente distribuído for o poder por ele enfrentado tanto mais amplo será o campo de seu alcance. Essa, sem dúvida alguma, parece ter sido a experiência geral da história. O Estado aristocrático perdurou porque a classe excluída dos benefícios, embora consciente de seu poder para desafiar os alicerces do mesmo, era pequena demais para ser efetiva; e fracassou porque uma mudança no sistema de produção alterou de tal maneira a incidência da propriedade naquele Estado que aqueles que estavam excluídos do poder, desde que participassem efetivamente do novo esquema de coisas, tiveram oportunidade de forçar, em seu próprio benefício, a extensão dos imperativos legais que o Estado impôs. Estamos agora em condições de analisar a significação do Estado visto puramente como ordem legal. Encará-lo como tal não nos diz nada de sua validade além da esfera legal. O Estado, como um sistema de imperativos legais, é um paralelogramo temporário de forças cuja natureza se modifica à medida que se alteram as forças que determinam sua posição momentânea. Suas leis são válidas somente na medida em que, em determinado momento, elas podem, de fato, ser impostas. Desde que elas sejam exigidas como válidas em bases outras que sua fonte fundamental, estaremos transitando além da atmosfera da lei, em regiões onde outros fatores predominam. Isto é, um ato do Congresso ou do Parlamento luta por aceitação dentro da esfera legal meramente porque é um ato do Congresso ou do Parlamento. Se tenta aceitação em outros setores porque, por exemplo, é conveniente ou justo, a fonte da qual emana é inaplicável nesse

campo, porquanto ela se está apresentando em termos de uma ordem de valores para a qual não pode encontrar justificação no domínio puramente da lei. III Entraremos agora no segundo aspecto da filosofia do Estado, à qual já fiz referência. Já descrevemos o Estado como, em termos legais, um sistema de imperativos imposto em seu nome por um grupo de homens que, em seu aspecto corporativo, se chama governo. Já vimos que a natureza substancial dos imperativos legais deriva do sistema econômico que, em cada época, estabelece a ordem legal que expressa a incidência da exigência efetiva da sociedade. Evidentemente,isso nada nos esclarece além da esfera de puro fato. Explica por que um Estado adota legislação de uma natureza especial. Não explica a natureza que deveria ser adicionada à legislação do Estado como tal. Uma teoria de pura lei apresenta-se para aceitação baseada na fonte que a originou. Mas, se pergunto por que devo obedecer ao Estado, certamente não basta que me respondam que devo obedecer-lhe porque ele é o Estado. Pergunto como homens no passado já perguntaram, porque os ditames do Estado merecem obediência; e se esses ditames estão em desacordo com tudo o que penso, espero e sinto, posso concluir, como homens no passado concluíram, que não tenho alternativa senão recusar essa sujeição assim exigida de mim. As ordens do Estado, portanto, precisam justificar-se em outras bases que não sua origem como decreto de Estado. Tal origem nos explica sua fonte; informanos que poderão dispor de coerção para se fazerem cumprir. Nada mais nos diz. Não nos esclarece que o Estado foi justificado ao elaborar tais leis. Uma teoria legal do Estado, portanto, torna-se teoria de direito somente depois de transformada em teoria de lei. Precisamos investigar para que serve a lei, que fins propõe-se representar quando em funcionamento, porque considera que tais finalidades devam ser as nossas, antes de termos uma teoria sobre o Estado que

talvez não escritos. foi a lei de Moisés. por exemplo. Tal panorama cosmológico é semelhante ao de Tomás de Aquino. de modo a recomendá-la à aceitação dos homens. o panorama geral pode ser chamado de teológico. Ou. encontramos a lei como um apanhado de costumes antigos. Tais teorias. na sua maior parte. como. é o ponto de vista de Kant que encara a lei como um sistema de preceitos que habilita cada indivíduo a gozar do máximo de liberdade. ainda. conseqüentemente. evidentemente. Os homens são aconselhados a obedecê-las pois. seguir-se-á a ira divina. ou aquele código de Hamurabi. mas tradicionalmente preservados por uma casta de sacerdotes. Semelhante. a obediência à lei é recomendada essencialmente com base no fato de seus princípios terem origem na natureza elementar das coisas e de que a conduta dos homens deve. igual liberdade em outros indivíduos. no caso de infração. de modo a verificar como os homens têm tentado justificar os sistemas institucionais sob os quais têm vivido. que o deus-sol lhe entregou com todos os detalhes. a exigir obediência dos homens através do medo e da ira divina. Obedecendo-a. respeitando. As teleologias das leis são quase tão variadas quanto a própria experiência histórica da humanidade. por assim dizer. uma teleologia à lei. Precisamos acrescentar. A lei é um conjunto de regras divinas impostas por um deus ou deuses àqueles a elas subordinados e dignas de serem obedecidas em vista de sua inspiração divina. Tal. pertencem à história primitiva da humanidade. Tal panorama se torna uma cosmologia em Hegel. Mas é conveniente destacar algumas das principais concepções. os homens estarão nitidamente ajustando sua conduta ao plano do qual depende a boa ordem do mundo.possa ser encarada como adequada para o propósito de filosofia política. condizer com elas. Para ele a lei é o espelho onde se reflete a razão divina que planejou e governa o universo. Num período mais evoluí.do. quando . Na experiência primitiva da humanidade. num conceito não muito distante deste. o da jurisprudência romana. ao mesmo tempo. como devem fazê-lo. se não são observadas.

os quais. em sua equação. são inacessíveis no plano político. ou pela obtenção de liberdade crescente. É bem claro que tais teorias não podem surtir efeito. que possuem a firme constância de leis naturais. como no ideal estóico. ou pela realização do plano inerente ao universo. Pesquisas históricas têm destruído todos os sistemas que pretenderam operar sob sanções teológicas. para ser encontrada por ele. ser a arte a natureza do homem. o conceito de bondade é estabelecido em conformidade com um código para cuja elaboração ele não contribui. por assim dizer. que é a voz da natureza ou da razão são obviamente derivadas de uma tentativa de descobrir no mundo social leis análogas.o processo da história tomou conhecimento do desdobramento de uma liberdade ainda maior que se realiza por si mesma na evolução do Estado. estão em condições de alterá-los. num mundo civilizado. são as vontades ativas dos homens individualmente. A tentativa é impraticável. Seja por temor a Deus. o fato é que elas não concebem o homem como um fator independente cuja experiência própria. em confiança certo número de preceitos que englobam resultados do processo do mundo. àquelas da natureza inanimada. por exemplo. o Deus de suas revelações fala a linguagem de um mistério que não possui magia. Uma vida social em conformidade com a natureza. deliberada e conscientemente. os fatores. Omite o fato do mundo social não ser somente permanentemente dinâmico mas também permanentemente novo. aos quais não se pode escapar ou. resultados dos quais ele escapa com risco de sua salvação. a não ser para aqueles que o elegeram voluntariamente. portanto. Tais teorias principalmente aquelas baseadas na suposta lógica do processo do mundo. Em sentido. está sempre “lá longe”. Todas essas teorias têm uma constante: colocam a sanção da lei fora do controle dos homens. como. pelo menos. as relativas à Física e à Química. Leis. O homem é solicitado a aceitar. Elaboram modificações por desejarem modificações. e uma vida . Sua substância. através do escrutínio dos resultados eventuais. dá forma à elaboração da lei. não leva em consideração o fato de.

é simples. para ele. Algumas vezes. que dá validade aos imperativos legais de qualquer sistema de Estado é o fato de os homens terem concordado com os princípios elementares sobre os quais eles são elaborados. Todo mundo sabe que a vida é impossível de ser vivida a não ser que os homens mantenham suas promessas: fundemos o Estado baseado no consentimento e as leis que o Estado elaborar poderão. têm sido o resultado de imposições de concepções derivadas de uma experiência parcial e tendenciosa sobre os desejos do resto da comunidade. tem exercido fascinação permanente sobre os homens. em uma palavra. A verdade é que a maioria das teorias das leis que acabamos de considerar tem sempre justificado uma ordem social. portanto.coerente com os mais altos princípios de arte depende de um conceito de beleza ou bondade que possa exigir aplicação universal. ao contrário. Ele terá que ser equacionado com uma companhia limitada . em sua forma crua. pelo menos basicamente. concordam em construir o Estado e investem-no do poder de emitir ordens. os homens vêem a vantagem de um Estado. limitado e revogável. evidentemente. Tais pontos de vista. então. Algumas vezes. Os homens. não pode ser imposta aos homens a não ser que eles estejam de acordo com essa imposição. A lei. ela argumenta. Do contrário. e não seria uma caricatura da teoria de Estado de Hegel. O fator. é a teoria de um contrato social. dizer-se que. diz-se. sem nenhuma tentativa adequada no sentido de comparar com outras pessoas o quanto sua experiência estava em desacordo com o resultado de tais concepções. o poder é. Essa. será pura coerção e não poderá receber nenhuma base ética. exigir obediência de seus cidadãos. dentro da qual a maioria tem vivido em benefício de uma minoria. mas não concordam em torná-lo onipotente. para escapar aos horrores da anarquia os homens entregam-se a um déspota como dirigente. como em Hobbes. desde os tempos da antiga Grécia. por exemplo. o homem tenha encontrado a mais alta expressão de sua liberdade na obediência ao Rei da Prússia. Isso é que tem dado encanto a uma teoria de lei que. o poder é ilimitado e irrevogável. A teoria. como em Locke.

à medida que age. falam freqüentemente de um consentimento tácito. alguns de seus cidadãos. penso eu. Algumas vezes. o problema de tamanho torna o governo representativo a única forma através da qual é possível encontrar expressão para a vontade do Estado. E que dizer de uma lei que mereceu a aprovação de um homem quando criada e que. cresceu. depois de experimentada. Mas não devemos omitir os graves defeitos que tais teorias apresentam. neste ponto. estabelece sua própria responsabilidade e é óbvio. finalmente. Assim como um sistema de imperativos legais é tanto melhor quanto menor coerção envolver. que ele se considere comprometido. o Estado emerge do consentimento dos homens como onipotente. mas. o indivíduo. Ninguém. também é impossível pensar-se em uma comunidade moderna cujas finalidades possam ser obtidas sem uso da força sobre. nota-se também que. O Estado é dirigido por referendo permanente e sua lei exige obediência de seus membros porque eles mesmos estão contribuindo para sua substância. uma parte de sua vontade. . então. uma vez ultrapassado o pequeno Estadocidade.e. a cada estágio de ação. mas está claro que. viver estritamente dentro dos seus estatutos de sociedade. na iminência de revolução. uma minoria discordante ser forçada a render-se. desde que consentimento envolve a noção de um ato deliberado de vontade. De acordo com seus termos. concordando com a lei. Não temos exemplo de contrato social original algum tal como a teoria exige. é necessária alguma coisa mais positiva do que isso. Os defensores da teoria contratual. Nem poderia seu funcionamento desenrolar-se bases de consentimento somente. Dá-se não apenas o fato de. cada uma de suas vontades forma. perde essa aprovação? É válida para ele? O poder de revogar o consentimento não tornaria a administração uma tarefa inexeqüível? Claro que sim. como em Rousseau. poderá negar que as teorias que justificam a exigência de obediência à lei em termos do consentimento possuam uma força a sustentá-las que nenhum outro conceito rival possa pretender. o Estado não foi feito. pelo menos. até certo ponto.

de modo a poder atingir suas finalidades da melhor maneira possível. O poder do Estado pode ser justificado somente em termos daquilo que procura realizar. simplesmente porque cada período valoriza as coisas de modo diferente. Sua exigência quanto obediência deve. obviamente. em seu funcionamento. Podemos somente argumentar que os imperativos legais podem ser impostos se.IV Situemos nosso problema central de maneira diferente. ser baseada em seu poder de atender. Sua legislação deve ser justificada em função das exigências que procura satisfazer. que elaborar instituições. Sua ação é basicamente imperativa. competindo e operando conjuntamente. através das quais o Estado opere. satisfizermos . É uma ordem legal cujas normas restringem a conduta dos homens num determinado sentido. O Estado. à qual nenhum de seus cidadãos tem legalmente o direito de fugir. à demanda social. eu já disse. Por que esse poder? É difícil qualquer explicação em termos não-funcionais. em seu maior alcance. Não podemos basear-nos em nenhum princípio estável para dizer exatamente como o equilíbrio deve ser atingido.o máximo da vontade humana. então. O Estado preside sobre um vasto tumulto de interesses. e uma fórmula absoluta de valor intrínseco seria obsoleta imediatamente depois de ter sido elaborada. . Temos. pessoais e corporativos.com o mínimo de sacrifício . Deve atingir tal equilíbrio de interesses que o total beneficiado seja maior do que aquele que qualquer outro programa pudesse assegurar. é uma forma de regulamentar a conduta humana.

Ele está tentando atingir a substância de sua vontade fazendo-o. à medida que luta por essa finalidade. é o supremo órgão ditando as regras dentro das quais deve agir. portanto. portanto. Para ele. O Estado. precisamos entender a posição do Estado dentro da grande sociedade. Evidentemente. como eu já disse. Ele é filiado a uma Igreja. enquanto outros podem desagradá-lo acerbamente. o máximo de satisfação das necessidades. devem operar. para ele. dentro do âmbito das regras que o Estado estabelece. uma forma de regular a conduta humana. Ele está. Tais . as leis precisam ser justificadas pelos seus resultados na vida dos membros individuais do Estado. o Estado pode pecar tanto por omissão como por ação. em sua maioria. apenas um membro do Estado. zeloso defensor de um movimento para vacina compulsória.CAPÍTULO II POSIÇÃO DO ESTADO NA GRANDE SOCIEDADE I Já demonstrei que o poder do Estado é justificado na medida em que ele assegura. A vontade do Estado determina as fronteiras dentro das quais seus desejos. O indivíduo não é. Ele pode aprovar alguns dos imperativos do Estado. Na sociedade da qual ele faz parte há inúmeras unidades de interesses às quais pertence. tão bem quanto possível. por assim dizer. Cada um deles se encontra buscando a felicidade por meio do esforço constante de satisfazer seus desejos. de acordo com a lição de sua própria experiência. intimamente ligado a associações a fim de promover cada um desses interesses que vivem. um pacifista para quem uma objeção conscienciosa ao serviço militar é o princípio central de sua vida. sob forma de associações. Para podermos apreciar devidamente o que isto significa. O Estado é. fervoroso maçom. com o mínimo de sacrifício. e somente o modo pelo qual executa suas funções lhe dá o direito a uma obediência não puramente formal. ardente membro de um sindicato.

vemos apenas a natureza eventual da exigência do Estado quanto à obediência porque. Isso seria. não se sente obrigado a obedecer-lhe apenas porque o Estado é. Para ser bem sucedido como elemento de coerção. ele e aqueles que pensam com ele estão preparados. o indivíduo não hesita em sujeitar-se. somente na medida da concordância com os imperativos legais que o Estado estabelece. Se o Estado decide combater seu sindicato. onde os costumes do Estado ultrajam o senso de direito do indivíduo. certamente. verá que. Sua própria experiência entra em conta. legalmente. O poder do Estado é imenso: o desafio que ele oferece aos indivíduos deve ir às raízes de seu ser antes que ele sinta o chamado de reação à sua autoridade. como Estado. em termos legais. deverá ser bem sucedido na persuasão. e somente ele pode escolher. Normalmente. normalmente. Há nele um elemento-Atanásio que ao mesmo tempo o afasta e aproxima de suas ações. ele ajuda a decidir se a repressão deverá ser aceita. age sempre numa atmosfera de contingência. Mas qualquer um que tome em consideração a história normal dos movimentos nacionalistas. mas por aquilo que. Ele julga o que o Estado faz.desejos exigem obrigatoriedade de seus membros. para divergir de suas atividades. a quem deve submeter-se. O Estado. por assim dizer. A ordem representa um bem pelo que sugere e não pelo que é em si mesma. ou a vida dos líderes revolucionários e dos partidos que dirigem. Terá que fazer o cidadão sentir que o benefício que recebe está condicionado aos imperativos legais que o Estado está tentando estabelecer. em última análise. um ponto de vista inviável. ou os movimentos de agitação como o do sufrágio feminino na Inglaterra antes de 1914. Como o indivíduo não é meramente um membro do Estado. Não poderíamos condenar essa dissensão sem endossarmos o princípio de que a ordem é o mais alto bem dentro da sociedade. ele escolhe. Se a Igreja entra em conflito com o Estado. entretanto. a organização soberana da sociedade. O Estado obtém sua aquiescência não por ser o Estado. Preservar a ordem onde as atividades do Estado representam um . está procurando realizar.

O Estado mantém suas regras não pelo que são em si mesmas. certamente. Precisamos sentir que as regras por ele impostas não são apenas as condições de nossa felicidade. mas também a de outros membros do Estado. mas pelo que elas representam para a vida dos indivíduos. Cada um de seus membros luta para ser feliz. por assim dizer. Quando ele age de maneira a contrariar a carga de nossa experiência. Um homem pode sentir que a vida não é digna de ser vivida sem o amor de determinada mulher. de modo que elas próprias sejam salvaguardadas. o Estado não pode garantir felicidade a todos pela simples razão de que algumas das condições de felicidade estão além de seu controle. Em seu funcionamento. O Estado deve assegurar aos seus membros pelo menos essas bases. se pudermos tornar tal desafio efetivo. Ele necessita. que são as bases mínimas de uma vida social satisfatória.ultraje perpétuo a seus cidadãos é. Prestamos obediência ao Estado. sacrificar tudo aquilo que torna a vida digna de ser vivida. e essas finalidades envolvem direitos do cidadão contra o Estado. à luz da experiência . pelo menos. satisfaçam a finalidade que temos em mente. portanto. e ele julga o Estado pela sua capacidade de lhe assegurar tais condições. por assim dizer. como Estado. como Estado. se espera contar com obediência permanente às suas regras. Que pretendemos dizer com a idéia de direitos? É uma condição sem a qual. Situemos este problema de forma diferente. mas ninguém poderia argumentar que ele tem o direito de esperar do Estado a garantia desse amor. nas regras impostas pelo Estado estão implícitas reivindicações contra o mesmo. certas condições gerais de felicidade. Evidentemente. o Estado deve deixar-nos com a impressão de que nosso bem está implícito no alcance de seu próprio bem. somos levados à necessidade de desafio. Em síntese. porquanto o que o Estado pode fazer é evidentemente limitado pelas suas finalidades. desde que suas finalidades. desde que suas finalidades. Tudo o que podemos dizer é que há. das condições sem as quais a felicidade é inatingível. atingindo igualmente todos os cidadãos. Sua soberania depende de nossa aprovação ao seu exercício.

evidentemente. não podemos garantir que os direitos do indivíduo sejam constantes. portanto. Mas o direito de trabalhar. e por tantas horas de trabalho que permitam que o trabalho adquira para ele significação outra que a de simples ganha-pão. quero dizer pagamento capaz de assegurar a satisfação normal do apetite físico e que não impeça a satisfação das demais solicitações espirituais dos homens. precisa ter certeza de que. Meu argumento é que existe um direito a horas razoáveis de trabalho porque. são. o direito de trabalhar por um preço razoável. O direito a descanso. numa civilização como a nossa. uma decente manutenção por parte da sociedade. relativos a tempo e lugar. Ele não pode esperar felicidade sem segurança pessoal. Deverá conhecer suas relações com os outros homens e estar em condições de relatar o significado de sua experiência . A melhor maneira. na falta deste. como condição elementar e óbvia de vida. e isso envolve tanto o reconhecimento do direito de trabalhar como. Isto é. Ele precisa ter condições de vida. garantida essa relatividade. portanto.histórica. a maioria dos cidadãos deve encontrar a principal satisfação de sua personalidade durante as horas de descanso e não nas horas de trabalho. Mas. cruamente definido. não vai ao encontro dos anseios de uma maneira civilizada de viver. Mas o indivíduo necessita de mais do que isso se sua felicidade for tomada em consideração dentro do Estado. Precisa representar. dominada pela tecnologia da máquina. de compreendermos o que isto significa será colocarmo-nos na situação do cidadão normal numa sociedade como a nossa. falta ao indivíduo a certeza de que pode alcançar a felicidade. talvez. o indivíduo está capacitado a esperar que o Estado a reconheça como condição para obediência a seus regulamentos. está a salvo de ataque pessoal. Quando digo salário razoável. é um dos imperativos legais sobre os quais deve insistir um Estado bem organizado. Um Estado que permita ao empregador extrair dos homens essa espécie de esforço exaurível característico dos dias primitivos da Revolução Industrial deixaria frustrada neles a possibilidade de atingir felicidade.

conhecimento é coisa essencial e o direito à educação é. nega-lhes os meios de realizar sua personalidade. O Estado que nega educação a seus cidadãos. a não ser que seja uma democracia baseada em sufrágio universal. deve ter o direito de colaborar na escolha daqueles por quem ele será governado. que nenhum Estado poderá atingir a finalidade em razão da qual existe. cedo ou tarde. em geral. na qual existam não somente liberdade de palavra e associação. no governo do Estado. torna-se necessário salvaguardar o cidadão nesse sentido. O homem privado de educação. o homem se acha perdido num grande mundo que é incapaz de entender. portanto. Ele deve ter o direito de expressar-se livremente. fundamental ao cidadão. E como a recusa do direito de usar é. Temos que aceitar isso simplesmente porque a história tem provado que a exclusão de determinado grupo de homens do poder redunda. sobre as quais tenham entrado em acordo. ele mesmo. evidentemente. Isso significa. se conseguir convencer outros a escolhê-lo. Pois.resultante dessa relação. Para esse fim. é como um homem cego incapaz de relacionar causa e efeito. deve 'ter o direito de. pelo menos como regra geral. Mas somente educação não é suficiente. em sua exclusão dos benefícios do poder. sem educação. não tem condições para fazer críticas sobre o significado da experiência. deve ter o direito de associar-se a outros que pensem como ele para a promoção de qualquer finalidade ou finalidades. Ela pode proporcionar conhecimento a um cidadão a quem o Estado ainda nega a oportunidade de usar esse conhecimento. nascimento ou propriedade possam representar barreira contra o exercício dos direitos civis. A vontade do Estado é sempre manipulada por um governo que expresse as vontades daqueles de quem este governo depende para a renovação de sua autoridade. Tornar a área de dependência coincidente com o corpo de cidadãos é. portanto. Ele não tem meios para dar o máximo de si mesmo. elevar ao máximo a possibilidade de que a . quatro direitos são essenciais. Para esse fim. tomar parte. no meio das complexidades da civilização moderna. mas também reconhecimento de que nem credo ou raça. a recusa do direito de se beneficiar.

É indispensável uma palavra sobre a liberdade de palavra e associação. Não podemos negar a existência de dificuldades inerentes ao sistema democrático. Nesse sentido. E como essas experiências diferem. Não podemos. É uma tentativa no sentido de limitar uma experiência indispensável. podemos estar certos de que os resultados da experiência serão negativos. o direito de ir em busca de suas conseqüências é fundamental à sua auto-realização. que a condição de um Estado raramente pode ser melhor medida do que por sua tolerância a idéias diferentes. sem dúvida. Podemos afirmar. aos imperativos legais que ele tenta impor. por exemplo. mas nenhuma filosofia política poderá rigorosamente estar em condições de satisfazer as demandas do indivíduo. a não ser que reconheça que os cidadãos têm. por princípio constitucional. ou opostas. também. na realidade. de modo geral. Limita a incidência da ação do Estado em benefício de apenas uma parte da comunidade. uma tentativa no sentido de recusar a satisfação de um desejo. portanto. E a única maneira pela qual seus desejos podem afetar os desejos do Estado com ênfase permanente é quando o governo do Estado é compelido. no entanto. Desde que a função do Estado é preservar a ordem. autorizado a declarar que qualquer pronunciamento destinado a incitar à desordem imediata está sujeito a penalidades e que qualquer associação cuja ação envolva ameaça à manutenção da ordem deve. afirmar que o direito a essas liberdades seja ilimitado. Está. Todo esforço no sentido de supressão é. Nada mais premente num Estado do que a oportunidade dos homens discutirem abertamente seus problemas e de serem capazes de agir conjuntamente em busca dos objetivos que se propuseram. Se essa liberdade sofrer penalidades. ele deve preocupar-se em manter a paz. o Estado não poderia .totalidade de desejos seja levada em consideração. O Estado suprimirá as opiniões que não lhe convenham e impedirá a organização de grupos voluntários que trabalham em prol de finalidades que o Estado não aprova. estar sujeita a penalidades. direito à satisfação de seus desejos. a tomá-los em devida conta.

Não podemos também menosprezar aquele conjunto de direitos que se ocupa da proteção dos interesses individuais. mas poderia punir um orador. por definição. à força. de modo a garantir penalidades contra um indivíduo. desde que sua conduta relacionada com a mesma não ameace diretamente a paz pública. II Tal sistema de direitos é necessário num Estado. são todos exemplos de ação que negam a realização do direito do indivíduo. como os Voluntários de Ulster. Eu não deveria poder difamar meu vizinho impunemente. seus princípios são incompatíveis com a violência. a interferência do Estado será uma negação desse direito. a busca em sua casa sem o devido mandado judicial. Os limites da liberdade são sempre estabelecidos pela iminência de uma ameaça à paz social. ademais. sem eles.interditar um livro ou panfleto. digamos na Praça Trafalgar. Um homem deve estar habilitado a professar a fé religiosa que lhe aprouver e. aos imperativos legais do Estado. Coisas como duplo risco ou definição ex post facto de crime. mas estaria autorizado a interditar uma corporação que. um nível de custas judiciais que torne o acesso aos tribunais praticamente inacessível ao pobre. exigem uma limitação definida sobre a liberdade de palavra. de modo que se possa assegurar tratamento adequado ao cidadão. Não poderia interditar uma sociedade de anarquistas tolstoianos porque. acima de tudo. o cidadão sentirá que as limitações sobre a expressão de sua personalidade dificultam fatalmente. a não ser que estivesse em condições de poder provar: 1) que a acusação era verdadeira. O Estado está também autorizado a prever proteção judicial. se organizasse deliberadamente para resistir. . que concitasse uma multidão exaltada a marchar sobre a Rua Downing. a perspectiva de sua auto-realização. Sem esses direitos o homem não pode ser livre. Os interesses individuais. Onde não houver tal necessidade. 2) que era de interesse comum que ela fosse divulgada. o Estado não tem o direito de interferir.

Uma nação dividida em ricos e . veremos que seu resultado será circunscrito àqueles que são privilegiados com os benefícios da ação do Estado. Da maneira como funcionam seus imperativos legais. uma negação de sua finalidade. pode analisar as condições da vida social moderna sem estar a par das diferentes concessões feitas à demanda individual. deverá estar em condições de provar que tais diferenças são exigidas pelo bem comum. A dedução que a filosofia política deve extrair de tal situação é a impossibilidade de manter os propósitos do Estado quando existem grandes diferenças materiais na posição dos cidadãos. Em qualquer sociedade onde seja limitado o número daqueles que desfrutam esses direitos. a não ser que tais direitos sejam extensivos a todos. a não ser que possa ser provado que existe uma relação direta e causal entre tal vantagem diferencial e o bem-estar da sociedade como um todo. Torna o poder de demanda tão diferente em diferentes classes da sociedade que. Há uma pequena tentativa no sentido de igualar a segurança conferida pelo Estado a seus cidadãos. na realidade. Qualquer sistema de imperativos legais que resulte em vantagem diferencial para certo grupo de cidadãos é uma violação dos propósitos do Estado. eles parecem pertencer mais a duas nações do que ao mesmo povo. Fundamentando esta concepção de direitos está a tese de que nenhum indivíduo está mais autorizado do que outro. A divisão da sociedade em ricos e pobres toma os imperativos legais do Estado mais favoráveis aos ricos.Nem pode ele esperar a garantia de igual consideração em relação a seus semelhantes. Não há proporção entre esforço e recompensa. seja qual for o princípio de limitação. Isso significa que o efeito do sistema de propriedade sob o qual vivemos prejudica a interpretação dos imperativos legais que controlam a vida dos homens. usando famosa frase de Disraeli. eles tendem mais a proteger a existente posse de privilégios do que a estendê-los. Ninguém. meramente como cidadão. enquanto o Estado proteger diferenças de satisfação em resposta à demanda. Isto é. a satisfazer às suas próprias exigências.

inevitàvelmente. exatamente. pelo uso do poder de taxação de impostos. Nenhum sistema de imperativos legais se mantém por si mesmo. mas não poderá evitar o esforço no sentido de convencer seus membros de que seus imperativos legais. seus mestres. representam a obtenção geral da justiça. mas também na substância. a característica permanente da natureza humana. num esforço no sentido de satisfazer as exigências dos pobres. a não ser que proporcione a satisfação desse sentimento. assim como a pobreza gera inferioridade. A ânsia por igualdade é. poderá adiar. Neste ponto precisamos adiantar certas proposições que acompanham a noção de direitos discutida anteriormente. Qualquer um que observe a maneira pela qual. é lugar-comum em Filosofia dizer-se que aqueles que executam as medidas são. em proteger ao máximo suas vantagens e os pobres são levados a tentar invadir tais vantagens como o único caminho para gozar dos seus resultados. na realidade. Ele tem que. Eles se dão conta da ineficiência de um sistema social que não relacione proporcionalmente trabalho e remuneração. obrigar os ricos a pagar. saúde ou habitação entre os pobres leva a uma crescente intensidade de demandas de novas concessões. durante os últimos 50 anos. não somente na forma. ele tem que ser aplicado a diferentes e. se uma suposição. por exemplo. uma associação ameaça a vida pacífica da sociedade. A fortuna gera arrogância. se uma lei é desejada ou não. de modo a. Se o Estado procura realizar suas finalidades. Os imperativos legais precisam ser interpretados. de . Dia após dia. Ora. mitigar as conseqüências dessa desigualdade material. a ação policial do Estado do século XIX tem sido transformada em serviço social do Estado do século XX verá como a desigualdade somente poderá manter-se por aquiescência a concessões pelas quais o Estado tem que pagar. em síntese. Onde deve ser traçado o limite da palavra livre. comumente. quando. portanto. é compelido a organizar suas atividades. E essas concessões crescem em volume. Nenhum Estado está seguro. novas situações. deliberadamente.pobres é uma casa dividida contra si mesma. Uma classe rica se empenha. Pois qualquer melhoria em educação.

Estados Unidos. Chego à conclusão de que o objetivo do Estado não pode ser atingido onde o poder de efetivar as demandas é seriamente . leia a história da 14ª Emenda. O que ocorre em qualquer Estado onde há grandes diferenças materiais entre classes é simplesmente a distorção dos objetivos do Estado em favor dos interesses dos ricos. da maior importância esclarecer como esse equilíbrio é estabelecido. encorajada e patrocinada pela classe empregadora porque envolveria. dificilmente poderá evitar insistir em que as Côrtes tenham sido instrumento dos homens de negócios na sua luta contra o desenvolvimento da legislação social. Qualquer um que. entre outras coisas.caráter sindical lhes dá o direito de assegurar representação parlamentar. bem como uma miríade de itens semelhantes. Qualquer um. Eles dominam a máquina do Estado. a limitação de horas de trabalho representa a violação do princípio de que a liberdade de contrato é necessária. a destruição da organização sindical. Cada um desses itens envolve equilíbrio de interesses na sociedade e é. por exemplo. E a história do estabelecimento do regime fascista na Itália. que considere a história da interpretação das leis sindicais pelos juízes da Inglaterra. se. especialmente como manifestada em decisão semelhante ao famoso caso Osborne. têm de ser tomadas. evidentemente. como acontece nos Estados Unidos. Por justiça eles entendem a satisfação de suas próprias solicitações. Sua concepção do bem insensivelmente insinua-se no clima mental da administração. obtida à força. Vemos nesses casos a crua distorção da máquina democrática. encontrará dificuldade em evitar a conclusão de que a mente judicial de um Estado de classe média está incapacitada de interpretar as necessidades da classe trabalhadora. nos. Interpretam as lições da história como garantia de sua experiência. a tirania nazista na Alemanha e a ditadura de Franco na Espanha representam o registro de uma alteração deliberada de toda a disposição constitucional do Estado. decisões sobre estas. Seu poder compele os agentes do Estado a transformar suas vontades em primeiro objeto de consideração.

portanto. é baseada no caos que resulta de um desafio à sua autoridade. Somente eles poderão julgar estes resultados. a organizar suas instituições. O direito de resistir à lei é a reserva de poder. em tais circunstâncias. portanto. que o Estado pode fazer quanto à obediência. Sob este ângulo. dentro da sociedade. A única exigência. é forçado. Seu direito à obediência não se deve apenas ao fato de ter sido efetiva. é impossível argumentar que não deveria ser usada. pela qual os homens cujas demandas foram negadas podem legitimamente tentar alterar o equilíbrio das forças do Estado. enquanto suas experiências representarem um interesse diferente do resto da comunidade. é um chamado à obediência. Não existe diferença inerente entre sua exigência e aquela de uma lei extraída da experiência do próprio indivíduo. segue-se que a resposta é estruturada com vantagem para os poderosos. é poderosa. A lei aparece como o registro da vontade que soube fazer-se efetiva na sociedade. reforçado pela experiência de seus resultados. Essa exigência. de forma que o julgamento de seus cidadãos sobre seus imperativos legais se faça plenamente conhecido e com peso igual. Qualquer Estado. Decorre desse fato uma teoria de lei que é de importância capital em filosofia política. . Mas nesse sentido. Lei. A resistência deverá ser sempre. uma arma de última instância. ou de um grupo de indivíduos. pelo preço que envolve. Cada indivíduo. e tal diferença é uma questão de ordem econômica. Do contrário. Suas exigências de obediência dependem do que proporciona à vida de seus cidadãos individualmente. A resposta que dá é limitada a satisfazer os desejos de cidadãos poderosos e. os imperativos legais do Estado não têm. suas conseqüências não são adequadamente encontradas. está inteiramente capacitado a decidir sobre a validade desses direitos e a agir de acordo com os resultados de tal discernimento. e a retidão da lei.desigual entre seus membros. outros direitos sobre seus membros que não puramente formais. e cada grupo de indivíduos. à medida que funcionam. admitimos. pela natureza de seus objetivos. depende do julgamento deles. portanto.

com a Igreja. e a força em si mesma é destituída de conteúdo moral. Não somente dá lugar à anarquia como ainda admite que há certas ocasiões em que a anarquia é justificada. é coisa complexa e variada demais para que todas as suas manifestações possam ser reduzidas a uma única fórmula. Enquanto concorda em que. ou uma sociedade como o Partido comunista. Separa completamente a lei do Estado da justiça e. uma tendência para que a anarquia ocorra no Estado desde que os homens atuem de modo diferente para a realização de objetivos diversos e ninguém poderá dizer que uma recusa no sentido de obedecer ao Estado seja sempre incapaz de . faz o Estado competir. III São feitas objeções a esse ponto de vista em vários sentidos. recusa-se a ver aquele propósito como inerente ao seu funcionamento. não dá ao Estado garantia de vitória. ele não tem exigência a priori quanto à obediência.exceto na força usada pelo Estado para obter obediência às suas ordens. como ordem legal. A sanção dos regulamentos pelo Estado é simplesmente força. uma teoria clara que apresente um padrão de instituições sociais plenamente coordenadas. ao mesmo tempo nega à soberania do Estado qualquer coisa mais que mero significado formal. Onde o Estado estiver em conflito. Não posso negar que a teoria aqui apresentada ofereça margem a toda a série de objeções que acabo de enumerar. pelo menos. pela sujeição dos cidadãos. portanto. Na realidade. o Estado é soberano. Existe. através de vidas cheias de substância. O Estado somente tem direito à vitória se provar a seus cidadãos que suas leis devem partir deles. Sua soberania existe em função da qualidade de vida que proporciona a seus membros. onde houver conflito entre elas. Não é. com todas as outras associações dentro da sociedade e. ou um sindicato. enquanto define os propósitos filosóficos do Estado. Sua exigência depende da interpretação do conflito por aqueles ligados a ele. afinal de contas. Mas será alguma delas importante? A vida. diz-se.

como feita. É verdade. em atributo moral. que o Estado é levado a competir. certamente.justificação. por exemplo. Não podemos. mas somente da mesma maneira que nós as separamos na vida. ou. A função da lei sendo satisfação de demanda deverá depender. para sua transformação. uma vez mais. pela obediência de seus cidadãos. também. a ponte de ligação é feita através do que a lei faz e ela se torna justa através de sua aceitação como justa por aqueles a quem ela se aplica. a soberania do Estado não é mais que fonte formal de referência. entre Sinn Fein e o governo inglês. Ela. com todas as outras associações dentro da sociedade. diz-se. é implicitamente neutra. realmente. separa a lei da justiça. A teoria. Quando dizemos que uma lei é injusta. sua característica principal lhe é conferida por aque1es que a recebem. dentro dessa teoria. Não podemos argumentar que a Lei Sindical . encará-la de outra forma sem atribuir-lhe uma sabedoria permanente em todas as suas operações. admitimos que não há conexão necessária entre a lei e a justiça. separa uma da outra. encontrará dificuldade em argumentar que o Estado tenha jamais vivido ou possa jamais viver sob outros termos. enquanto seus membros tenham demandas que permaneçam insatisfeitas. Mas. não é de fato óbvio que ele assim entre em competição? Qualquer um que considere a história dos conflitos como aquele entre Bismarck e a Igreja Católica Romana. de seu sucesso no preenchimento de sua função. em síntese. E só teremos conhecimento de tal fato à medida que aqueles que tiverem contato com a lei relatarem os resultados de seu funcionamento. É verdade que. se as mulheres a denunciarem como injusta. que variam na razão direta de nossa experiência em relação às mesmas. A lei. entre a Áustria e seus cidadãos italianos durante a Renascença. Mas é impossível. entre a Rússia czarista e as associações revolucionárias. E a experiência da lei seca na América torna absolutamente claro que o Estado não pode esperar reforço adequado de seus imperativos onde sua substância não se faça representar de maneira justa sobre aqueles sobre os quais eles são impostos. dizer que uma lei eleitoral é justa quando limita o direito de voto exclusivamente aos homens. como exemplo final.

em seu julgamento. os russos em 1917 decidiram claramente que o sistema sob o qual viviam não estava em condições de assegurar-lhes a satisfação de demandas que. do propósito de fazer o máximo. lhe assegura o sistema de direitos sem os quais. na realidade. a resposta certamente será que isso é um assunto sobre o qual somente aqueles que vivem na dependência das conseqüências de seus atos poderão decidir. a bem dizer. Novamente. Será a vida de cada cidadão de tal maneira presa a circunstâncias que ele esteja capacitado a realizar o máximo de potencialidade de sua natureza? Isto é. Cada um desses estatutos tornar-se-á lei. o Estado. um ensaio . Não vejo como possa ser possível concluir-se de outra maneira IV Acontece que os imperativos legais de qualquer Estado. Os franceses em 1789.Inglesa de 1927 é justa se os membros de sindicatos a denunciarem abertamente como legislação de classe. devem ser sempre concebidos de acordo com as finalidades às quais procuram servir. eles são. dispusesse de um conjunto de imperativos legais que buscasse o bem-estar de todos os seus cidadãos e que fossem encarados por tais súditos como contendo tal busca. Ninguém poderá honestamente dizer que o Estado francês antes de 1789. mas nenhuma se tornou justiça a não ser após reconhecida como tal por aqueles sobre quem suas conseqüências foram impostas. se forem elaborados de forma a merecerem justificação. tal realização é impossível? Não há outro caminho senão este que nos habilite a decidir de maneira correta sobre a natureza do Estado. isso é óbvio. eles tinham o direito de ver satisfeitas. como já tive oportunidade de comentar. desde a sua promulgação pela autoridade formalmente competente para legislar sobre o caso. o propósito filosófico que ele representa. Se se responder que se deve dar ao Estado um crédito de boas intenções. Não nos precisamos impressionar pela objeção de que esse ponto de vista se recusa a ver. ou o Estado russo antes de 1917. nas atividades do Estado.

Elas tornam público o significado da experiência para a qual. um clube de futebol. tem consciência de seu poder. Essa é a razão por que liberdade e igualdade são tão importantes numa sociedade. tanto mais estarão em condições de avaliar a política a ser adotada. Raramente. cujo resultado deve ser julgado por aqueles que estão autorizados a esperar benefícios de seu funcionamento. ele é um ser preso a tradições. como indivíduo. também é verdade que. talvez não fosse dada atenção. segue-se que seu governo é um truste. é geralmente destituído de qualquer conteúdo político. de obter atenção para seus desejos. politicamente.mesmo quando consciente -. E para elevar ao máximo tal receptividade. em nome do Estado. para forçar suas exigências. qualquer governo. A retenção do poder em suas mãos depende de sua habilidade em emitir ordens sensatamente. por exemplo. quanto mais eles conhecerem as mentes e os corações de seus súditos. A sabedoria de suas ações. de maior ou menor intensidade. Elas representam os automotivados esforços dos homens no sentido de garantir-lhes um lugar ao sol. que exigem deles satisfação. realmente. portanto. Finalmente. depende claramente de sua habilidade em elevar ao máximo a receptividade de seus súditos.permanente no modo condicional. . E. se assim encararmos o Estado. é um grupo de homens expedindo ordens a seus semelhantes. O próprio tamanho do Estado moderno faz do cidadão uma voz no deserto. em última análise. As associações são. como indivíduo . Mas se um homem é um ser social. Somente quando organizado com outros de igual mentalidade. Somente a liberdade torna possível a formulação de demandas. a demanda por ele exposta poderá ter esperança de efetivação. de importância básica. somente a igualdade proporciona a certeza de que elas serão pesadas de maneira justa. como governo. Tanto liberdade como igualdade existem quando o sistema de direitos que tive oportunidade de descrever está em franco funcionamento no Estado. Eles estão cercados por inúmeras demandas. Nem todos. de outra forma. dizem respeito ao propósito do Estado. ele está ainda mais raramente em condições.

da habilidade em transformar o resultado de seus esforços em legislação do Estado. não é apenas uma pequena parte de sua direção que depende dessas associações. o comando do Estado parecerá vazio e sem significado comparado com a atração despertada nos cidadãos pelas associações que eles escolheram voluntariamente para expressar seus pontos de vista. Elas representam a expressão espontânea das necessidades sentidas pela experiência dos homens. um sindicato. deve-se deduzir que quanto menos o Estado interferir na vida das associações.lei formal à parte . com relação ao qual um esforço de sua parte para salientar sua superioridade poderá resultar somente em perda social. Na realidade. meramente formal e sem pressões. As associações voluntárias vivem em conseqüência do seu poder de satisfazer aspirações. onde crenças fundamentais estão envolvidas. em sua base. uma sociedade para a promoção de um teatro nacional. para seu sucesso. quanto mais rica a variedade de vida em grupo. Sua supremacia sobre elas deverá permanecer. O Estado é . penso eu.Mas muitas associações dependem. Uma federação de empregados. Neste caso. por exemplo. A razão de sua existência repousa no esforço para modificar a substância dos imperativos legais dos quais o Estado dispõe. pode-se dizer que. Segue-se então que qualquer sociedade. o religioso. como no caso dos sindicatos ingleses. freqüentemente.uma dentre outras associações. é essencialmente federal em natureza. elas vivem a despeito da vontade do Estado. ser capaz de governo por parte do Estado somente. no sentido de existência. em qualquer sociedade. tanto mais ampla será a qualidade de satisfação que ela obtém. E como a vida da sociedade é demasiadamente ampla para. e . ainda que fosse desejado. tanto melhor será para ambos. antes de 1824. O Estado lhes não dá vida. todos procuram fazer de suas vontades uma parte da vontade do Estado. e deverá admitir que há certos aspectos da vida. a soberania do Estado não se apresenta envolta na penumbra emocional através da qual obtém-se lealdade profícua e bem sucedida. Disso. Pois. tanto quanto possível. O Estado deverá reconhecer seus direitos inerentes.

O que. quando aplicada. como o sistema do Seguro de Saúde na Inglaterra. que representam o maior total de satisfação dentro da sociedade. a associações médicas e sociedades autorizadas. sua experiência levada em conta na elaboração das decisões. se não aprovação. Porque a sociedade é essencialmente federal. quanto mais o caráter monístico da lei puder permanecer de forma puramente formal.não acima delas. mas . aponta o caminho de uma importante verdade. creio eu. Esse exemplo. lei eficaz é aquela que leva consigo. E não deverá tentar a elaboração de leis sem um esforço específico no sentido de consultar aqueles que serão afetados pelos resultados de sua aplicação. naqueles afetados. abdicar de seus direitos de tomar decisões próprias enquanto for governo. Seus imperativos legais serão bem sucedidos se estiverem em relação. de forma criadora. A lei funcionou bem porque deram-se ao trabalho de. A discussão promove. Eles têm aquele senso criador que surge do fato de serem parte ativa e integrante do processo de elaboração da lei. quase sempre. seria o conjunto de demandas que encontra entre esses membros.estiverem ligadas ao processo de governo. tanto mais eficaz tenderá a ser. na realidade. pelo menos a impressão. não somente a substância da lei a ser elaborada. Pois. a maior carga de experiência disponível para fins de administração. por exemplo. convenhamos. de que seu conhecimento foi usado. Toda gente sabe. Quanto mais unidades de interesses . A vontade registradora é a do Estado. mas o processo pelo qual o estágio do registro é atingido é aquele que não deixa os cidadãos preocupados com a idéia de que o Estado está acima deles ou contra eles. com aqueles estabelecidos por outras associações para seus membros. tanto melhor para a sociedade. ele poderia tentar registrar.que nós chamamos de associações . como lei. em todos os setores da administração. foi o resultado de consulta. Nenhum governo constitucionalmente escolhido pode. que o sucesso de um grande esquema. consultar aqueles que tinham experiência da matéria em questão e estavam ligados ao resultado de seu funcionamento. em toda a Inglaterra. mas também seu funcionamento após aprovada.

a melhor maneira de assegurar tal convicção é proporcionar-lhes um contato direto e integral com o processo de administração. além do mais. E centralização. finalmente. dificilmente pode ser encontrado quando necessário. à parte o papel representado na sociedade pelas associações voluntárias. A escala de suas operações torna a experiência uma questão difícil. A obediência raramente é criadora num Estado muito centralizado. falta-lhe o espírito de tempo e lugar. quanto maior número de homens tiver responsabilidade pelo resultado da lei. Essa hipótese. nenhum governo terá mais condições para permanecer como governo do que aquele que convence seus cidadãos do esforço que está empreendendo para satisfazer suas demandas. Ela se torna mecânica e inerte. assim como homens que sentem que. leva-nos a outro princípio. quanto mais o poder for distribuído num Estado. Homens que não foram consultados sobre uma mudança que afete suas vidas jamais poderão sentir a mesma confiança em sua eqüidade. mesmo quando sua experiência foi rejeitada. traz uniformidade. e o senso de cooperação responsável. em segundo lugar. Grupos como um gabinete e uma assembléia legislativa só podem trabalhar determinado . em sua natureza. cuja importância nunca é demais salientar. Por. representa certa inabilidade para enfrentar o problema de tempo no governo.também. em vez de procurar acompanhá-los em suas f1utuações. um esforço genuíno foi feito no sentido de tomarem em consideração sua atitude. Há três razões principais que determinam esse fato. Centralização. sempre desejado em períodos de urgência. Grande parte do fracasso dos governos modernos repousa no fato de seu sistema institucional ser contra os interesses que eles têm de satisfazer. pois o preço do fracasso é geralmente grande demais para tornar a novidade uma coisa atraente a um administrador para quem a primeira regra é a necessidade de um mínimo de erros. Acima de tudo. tanto mais eficaz poderá ser seu funcionamento. tanto maior a probabilidade de estarem eles interessados em seu resultado. ou a mesma boavontade sobre suas possibilidades. E.que sendo a sociedade federal.

Unidades de interesses. Nova Iorque. como a indústria de algodão. têm necessidade suas próprias instituições governamentais tanto quanto Lancashire. As instituições políticas britânicas oferecem. Liverpool ou Tóquio. penso eu. Mas isso. é iludir-se quanto à natureza dos interesses em movimento na sociedade. Num sistema centralizado. certamente. a centralização era menos perigosa há cem anos passados do que agora. ser obrigados a buscar a autoridade daquele governo na tentativa de inovações. por exemplo. normalmente.e ao mesmo tempo independentes dele . como entre nós. por causa disso. Enquanto não tivermos ligado os imperativos legais do Estado às instituições apropriadas à sua . Há uma esfera na qual. Berlim e Paris sejam plenamente responsáveis pelo governo central . ela introduz longos dedos em todo canto e fenda da estrutura social. elas necessitam elaborar exatamente as mesmas leis para sua governança que Viena. no momento. muito comumente. Um Parlamento que tem responsabilidade em relação ao Império Colonial pode.número de horas por dia. funcional. ao mesmo tempo. encontrar somente dois dias por ano para discutir seus problemas. importante que Londres e Manchester. Condicionar toda a legislação ao plano territorial ou. e eles não deveriam. Essa pressão significa que muitas coisas que exigem atenção jamais são consideradas e que. sob proteção adequada. simplesmente porque o âmbito da atividade do Estado era muito menor. e o Gabinete vê o Orçamento pela primeira vez somente algumas horas antes de ser levado à Câmara dos Comuns. elas são sobrepujadas pelo número e variedade de processos com os quais têm que lidar. É. um exemplo significativo dos perigos dessa posição. é essencial ação rápida e flexível. exige um Estado descentralizado.em todos os assuntos de natureza local. Mas o problema é. Onde. o que exige o máximo de atenção é apenas rapidamente discutido. em tais assuntos. Kansas ou Baden. Finalmente. possuidor de instituições que são adequadamente relacionadas com as funções que lhe estão afetas. toda a jurisprudência. O problema não é de natureza meramente geográfica.

em filosofia política. Muito do mal-estar da civilização moderna é devido ao fato das instituições do Estado não terem acompanhado as outras mudanças. principalmente. Assim como. será impossível que elas funcionem eficazmente. Nossa situação. os privilégios oferecidos por nossos imperativos legais a todo conjunto de cidadãos. acima de tudo. acima de tudo. qualquer pessoa que examine. realmente. quando contrária aos interesses do empregador que os engajava. A necessidade com que deparamos é estender. isto é. particularmente a econômica. Ambos representaram esforços no sentido de tornar mais amplo o âmbito de uma idéia de justiça. também atualmente o cidadão que não possui propriedade não pode. anteriormente a essa fase. dificilmente saberá. na realidade. é. V Essa argumentação talvez possa ser resumida na afirmação de que nossa necessidade. Mas a liberdade e igualdade por ela asseguradas foram. gozar dos direitos que estão .incidência em cada período. o plebeu que não tinha gens não tinha lei. em torno de uma idéia essencialmente como possuidor da propriedade. Ela representa a filosofia do século XVIII. concebida. os Códigos Civis da França e da Alemanha. o desejo da burguesia de proteger-se contra o assalto do poder arbitrário. e é para sua proteção que ela é. É organizado. por seus princípios básicos. de maneira alguma. A fraqueza do Estado moderno repousa nas suposições sobre as quais seus imperativos legais são estabelecidos. sob esse ângulo. liberdade e igualdade para o possuidor da propriedade. na sociedade que ela pretende controlar. Essa idéia dava-lhes proteção para a liberdade de contrato que se tornava ilusória. que existia um vasto número de homens e mulheres que não dispunham de propriedade alguma além de seu prórpio trabalho. não é diferente daquela que a plebe enfrentou em Roma. no sentido de uma teoria de Estado que procure obter a socialização contínua da lei. antes de receber a proteção de seu tribuno extraordinário e a lei das Doze Tábuas. como todo sistema social.

Elas impõem à sociedade condições favoráveis à sua preponderância. O mesmo está acontecendo agora conosco. Tradição e precedente em jurisprudência operam ainda tão adversamente à classe trabalhadora quanto nos tempos do Colégio de Pontífices.teoricamente a seu dispor. que estabelecia as fórmulas e o funcionamento das ações legais como um mistério que. é uma garantia de privilégio do empregador. o sistema não se altera uniformemente numa só frente. O que aconteceu à lei romana foi a emancipação do indivíduo .uma emancipação sempre fragmentária . sufrágio universal significa a conquista do poder pelas massas no sentido de fazer funcionar as instituições políticas. Nossa proteção. naturalmente. dentro de suas categorias de reconhecimento. e tem forçado o Estado a admitir. por exemplo. A autoridade das massas faz que as coisas pareçam hoje uma parte natural da justiça que. exatamente da mesma maneira que seus . ele está forçando o Estado a estender sua concepção de justiça. força-os a tentar atender a reivindicações mais amplas ou deixarão de ser imperativos legais.extraída de um Estado para ele estabelecido desde o nascimento. até a geração passada. Elas tendem a usar esse poder de modo a fazê-lo funcionar no sentido de atender às necessidades até então não atendidas pelos costumes do Estado. E porque. o plebeu não pretendia sequer penetrar. teria sido considerada impraticável pelos estadistas. Há. e tanto o plano de educação nacional como os sindicatos. A nova ordem econômica significa sufrágio universal. obstáculos no caminho. assim como a garantia oferecida pela preponderância da aristocracia romana na assembléia legislativa de Roma. As concessões feitas às suas reivindicações são tão parciais quanto as que os patrícios estavam em condições de fazer aos plebeus. à liberdade individual de contrato do trabalhador. antes do tempo de Flávio. ele tem consciência da emancipação intelectual e econômica. de modo a atingir igualmente seus interesses e os dos possuidores de propriedades. cada vez mais. A nova ordem econômica pressupõe uma transformação na substância dos imperativos legais. fora das condições comuns estabelecidas pelo sindicato.

Da primeira podemos apenas dizer que a natureza atual da evolução econômica implica a transferência de autoridade para as massas e. penetrando no sistema social através de uma alteração na importância atribuída ao poder econômico. a moralidade. organizados pelo Estado em favor das massas. tivesse o sistema econômico de ser modificado . eu já disse. O que está ocorrendo. Elas transformam as concepções das quais têm necessidade nos mesmos objetos de veneração em que foram transformadas outras concepções em sistemas sociais anteriores. de sorte que suas próprias vítimas reconheçam a justiça dos princípios em conseqüência dos quais elas foram despojadas de seus privilégios. cada vez mais. ela exige. Da mesma forma no passado. O sistema de direitos que sustentei como característico das condições sociais modernas está sendo transformado de exigências morais em obrigações legais positivas. Devemos ainda fazer duas observações finais. como na Rússia Soviética hoje em dia que sua exploração seja equacionada com o direito. A lei. Os benefícios decorrentes de sua posse estão agora.predecessores. a religião são movimentadas em termos do novo ritmo de vida. Porquanto uma classe que domina o Estado não exige o poder exclusivamente para explorar aqueles a quem ela despoja. a preponderância dos interesses das massas nos imperativos legais sobre os interesses de uma minoria. a sociedade considerava um ataque à propriedade o maior dos pecados e considerava mais honrado o homem que abandonasse sua mulher e filhos na miséria do que aquele que prejudicasse as propriedades de seu vizinho. exatamente como aconteceu quando outras classes atingiram o poder. Mas. à custa daqueles que estão em condições de usufruí-los sem interferência do Estado. com essa transferência. nem podemos contar com sua realização pacífica. E essa concepção de direitos é o resultado de uma concepção mais ampla de justiça. é a ampliação do âmbito da lei. A propriedade do indivíduo é deliberadamente desapropriada pelo Estado para essa finalidade. Não há razão para supor-se que o processo seja inevitável.

certamente alterariam a substância dos direitos em seu próprio interesse. Os homens defendem suas idéias de justiça e raramente abdicam voluntàriamente do poder. através da qual são feitas concessões no sentido de estabelecer certa correspondência entre autoridade legal e poder político. portanto. dentro da estrutura de uma constituição. como resultado dessa mudança. A razão. aqueles que alcançassem o poder. não temos a menor garantia de que a razão venha a sair vitoriosa. mas como o homem não é totalmente um animal racional. a nova ordem impõe sua vontade força. Onde essa correspondência for inatingível. Não podemos. também. Tal mudança poderá assumir proporções de catástrofe. . A paz parece ser função da continuidade. contar com a realização pacífica da mudança. pois a civilização moderna depende de mecanismos tão complexos e tão frágeis que talvez não sobrevivessem ao uso da violência em qualquer escala. sugere uma política de reforma contínua.repentinamente em direção imprevista.

em graus variados. em sua vida. Podemos apenas argumentar que. atualmente. em outras. na vida quotidiana. como na França ou Grã-Bretanha. ainda em graus variados. a seu turno. O que encontramos.CAPITULO III A ORGANIZAÇÃO DO ESTADO I O problema da organização de um Estado é a relação entre seus súditos e a lei. como na Suíça. As formas de qualquer Estado atual são determinadas pelas suas tradições históricas. e a aristocracia pura elaboraria e aplicaria. o Estado ser uma democracia ou a lei poderá ser-lhes imposta sem tal participação no caso de. Uma verdadeira democracia consultaria todos os seus cidadãos sobre todos os assuntos acerca dos quais se tivesse que deliberar. Ou. Eles podem participar da elaboração da lei. Todas as combinações possíveis ocorrem. de modo geral. torna impossível insistir em que determinado sistema de categorias seja superior a qualquer outro. Um legislativo controlado. ser o Estado uma autocracia. ela própria. as atribuições do legislativo e do executivo podem ser determinadas pelo judiciário. com todas as suas fraquezas. está sujeito a emenda constitucional. dominar quase totalmente o executivo. Em algumas comunidades. pelo eleitorado pode. pelo menos aos hábitos da civilização ocidental. cujo poder. e a contribuição efetiva que representa a experiência de um povo. Nenhum desses dois tipos de organização pode existir de maneira absoluta. . Em comunidades do tamanho atual é materialmente impossível a ambos os tipos de governo funcionarem nessas bases. ele próprio. no caso de. todo o sistema de imperativos legais no Estado. Uma legislação democrática poderá ser apoiada por um executivo com poderes quase autocráticos. como na Rússia e na Espanha. a forma democrática é mais conveniente do que a autocrática. é a forma mista de Estado. como nos Estados Unidos. Pois a democracia. o elemento democrático tende a predominar. o elemento autocrático predomina.

não é falso dizer-se que a democracia. como a experiência parece sugerir. Tais grupos são de natureza legislativa. de certa forma não encontrou as instituições apropriadas. cuja competência é fixada pelo estatuto de onde emana sua autoridade. não há outro sistema que. no entanto. Desenvolve o espírito de iniciativa ampliando o senso de responsabilidade. tanto a todo o conjunto de cidadãos como a determinada parte do mesmo que possua um interesse definido obviamente distinto do interesse do todo. Dá ao cidadão. Sua função é a execução dos imperativos legais que dão forma aos contornos da vida política. A perspectiva de seu funcionamento deverá estar dentro do âmbito dos direitos estabelecidos por tal legislatura. Faz que a crítica a seu funcionamento seja a base de sua vida. mas também a oportunidade real de influenciar em sua substância. Os princípios sob os quais vivem são estabelecidos para eles pela legislação pela qual são normalmente responsáveis. em regra geral. que um sistema democrático tende a trabalhar mais vagarosamente do que qualquer outra forma de governo. Poderão ser o legislativo supremo. pois. Dizer que o Estado requer forma democrática.possibilita que um grupo mais amplo de demandas seja tomado em consideração na estruturação dos imperativos legais do Estado. tenha o mesmo mérito de atingir a finalidade teórica a que o Estado deve servir. um grupo não soberano de elaboradores de leis. como esquema institucional. cujo dever seja por em prática os objetivos das leis elaboradas pelo legislativo sob cujas ordens trabalham. de modo geral. ou. é não estabelecer as instituições através das quais essa forma de governo recebe expressão. A característica de tais grupos é que eles. Admitindo-se. simplesmente porque a variedade de vontades que enfrenta é muito maior. não determinam sua própria competência. III) Necessitamos ainda de grupos que arbitrem sobre duas formas de . como o Rei no Parlamento. II) Necessitamos de grupos. como o Conselho Local de Manchester. Qualquer análise de um sistema de imperativos legais parece revelar a necessidade de três tipos de autoridade: I) Precisamos de grupos que estabeleçam regras gerais aplicáveis. não somente a sensação de participar das decisões.

de regulamentar. pelo menos. ser encarada como incumbência do legislativo. em segundo lugar. por exemplo. tanto quanto à função por eles exercida como quanto às pessoas que fazem parte dos mesmos. Torna-se necessário decidir se o procedimento reclamado por A é realmente proibido pelos imperativos legais do Estado. na verdade. ocasionalmente. em primeiro lugar.divergências. e. essa função abrange um âmbito tão amplo que se torna comumente difícil distingui-la do trabalho do legislativo. A reclama que foi enganado por R. ao aplicar a lei. o primeiro reclama. responsável pelos imperativos legais que o orientam em sua vida. pelo menos. O judiciário. alheio ao executivo. a função judicial pode. Dificilmente poderíamos aceitar tão rigoroso ponto de vista. Existem. a não ser que estivessem em condições de interferir na execução da lei e também. pois nenhum grupo pode mais apropriadamente estar em condições de conhecer o significado da lei do que aquele que a faz. que certo ato do executivo vai além de sua competência. no Estado moderno. que . Um executivo está inclinado. a esconder princípios gerais sob o manto dos detalhes. através de estatuto. Evidentemente. as decisões dos juízes cujos resultados não fossem amplamente considerados satisfatórios. é preciso. se o executivo pudesse determinar o âmbito de sua competência. esses três tipos de grupos estarem separados uns dos outros. em qualquer Estado bem organizado. tem sido um princípio constante da filosofia política o fato de. Desde os tempos de Aristóteles. têm ido mais longe ainda quando afirmam que essa separação é o segredo da liberdade política. Alguns pensadores. poderá ser alcançada uma avaliação imparcial de sua legitimidade. Na prática. se o Estado o proíbe. Como pura teoria. do poder das decisões de tais divergências. é impossível manter-se uma separação rigorosa. estabelecer-se uma penalidade apropriada. Os legislativos não poderiam exercer suas funções. Existem divergências entre o cidadão e o executivo. mais logicamente. divergências entre cidadãos. finalmente. Montesquieu por exemplo. ainda de acordo com os termos da lei. Investindo-se outro grupo. ele seria.

a não ser que prove a procedência do poder que pretende assumir. desde que julgue necessário.estabelece tanto a competência do executivo (em cujo caso determina a substância da vontade do legislativo) como a disputa entre dois cidadãos (em cujo caso estende os imperativos legais de um Estado a outros setores ou nega que o setor envolvido esteja dentro do âmbito de tais imperativos).pois sua autoridade é derivada de constituições escritas que eles não podem alterar -dá aos juízes que interpretam tais constituições. Todo Estado bem organizado possui uma constituição que determina a maneira elementar pela qual seus imperativos legais são elaborados. . por outro lado. na realidade. por exemplo. por exemplo. Tais constituições poderão ser divididas de duas maneiras. como nos casos em que é desafiada tanto a autoridade do estatuto como um executivo. falando-se tecnicamente. mas o Rei no Parlamento pode alterar o poder do executivo britânico quando achar conveniente. e nenhum deles é competente para agir. É necessário abordarmos dois princípios de natureza geral antes de entrarmos na análise específica de instituições individuais. é um documento que estabelece as relações mútuas entre o legislativo. o executivo e o judiciário. o fato de todos os legislativos serem de natureza não-soberana . O Congresso dos Estados Unidos. pois a vontade judicial é fator decisivo na limitação da competência legislativa. decisões judiciais e convenções não-escritas. por exemplo. na América. está. e podem ser flexíveis ou rígidas. consiste numa série de estatutos. cuja relação real é formalmente determinada pelo fato do Rei no Parlamento ter o poder de alterá-los. não tem poderes para alterar as funções do presidente. desempenhando uma função de natureza legislativa. A Constituição dos Estados Unidos. um poder maior do que o do legislativo propriamente dito. a legislação ordinária e a legislação constitucional estão no mesmo plano. Na Inglaterra e na América. A Constituição britânica. baseado nas cláusulas daquele documento. o que é corretamente chamado lei feita por juiz abrange provavelmente uma área mais ampla do que a lei de estatuto e. Podem ser escritas ou não.

De modo geral. pois alguns princípios constitucionais são tão importantes que nunca é demais salientar sua supremacia. desde que estas se tornem claramente desejáveis. A experiência nos tem demonstrado que. A rigidez da Constituição americana. As necessidades de uma comunidade se modificam e a estrutura formal que ela exige se modifica de acordo com essas necessidades. é inteiramente indesejável que qualquer constituição seja de natureza rígida. por exemplo. assegurar certa uniformidade em legislação trabalhista e determinar ajustes em questões conjugais essenciais no mundo moderno. mas insista em que uma proporção elevada dos membros apóie qualquer alteração proposta. Por outro lado. De modo geral. na prática. é possível que o melhor método seja que o legislativo emende a Constituição. fazer do poder de emenda um processo tão difícil. costuma-se dizer. representa uma falha quando se faz necessário assegurar modificações. facilidades de divórcio para os ricos que não estão à disposição dos pobres. ela só pode ser modificada pela resolução de dois terços de cada uma das Casas do Congresso. não controla realmente sua vida se sua participação direta na elaboração dos imperativos legais está confinada somente à escolha de pessoas responsáveis pela substância dos .A constituição escrita é cada vez mais adotada como regra geral no mundo moderno. o empregador reacionário é indevidamente privilegiado. por exemplo. Num estado atrasado da federação. Um povo. num período de sete anos. Há quem diga que um sistema democrático requer a inclusão da iniciativa e do referendo na Constituição. com assentimento de três quartos dos estados constituintes da federação americana. é notória. A distribuição de poderes nos Estados Unidos torna quase impossível. A conclusão que se tira dessa experiência parece ser a necessidade de uma Constituição escrita que possa ser emendada por um processo direto e simples. e a cláusula de plena fé e crédito da Constituição envolve. sente-se que a distribuição do poder num Estado é um fator tão importante que necessita da precisão que tal instrumento assegura. a experiência tem demonstrado que existe fundamento real nesse conceito.

e nenhum eleitorado pode lidar com os detalhes de uma medida a ele submetida para consideração. Deixa de promover o debate dos problemas. porém. o tamanho do eleitorado é geralmente tão grande que o povo dificilmente pode fazer mais. é uma questão tanto de detalhe como de princípios. pois ele coloca a responsabilidade essencial quanto à questão de medidas a serem tomadas fora do legislativo. ainda mais. proclama-se. O governo direto. que a opinião pública age tanto sobre o processo de legislação como .mesmos. por exemplo. Isso. quando se faz necessário discuti-los. como disse Rousseau do povo inglês. como um todo. fornece o necessário suplemento a um sistema representativo. Em todos os Estados modernos. Não somente a maioria das questões não pode ser enquadrada de forma a tornar eficaz um governo direto como também os resultados secundários do sistema não são satisfatórios. do que dar uma negativa ou afirmação direta às questões que um governo direto lhe apresente. Pode-se. e não facilita o processo de emenda. Mas todas as outras questões são tão delicadas e complexas que o eleitorado. Admite-se. pelo referendo. na realidade. com o sistema parlamentar. tanto a natureza dos problemas a serem decididos como o lugar onde a opinião popular pode obter os mais valiosos resultados. por exemplo. o povo pode impedir qualquer ação de seus representantes com a qual não esteja de acordo. do contrário. a vontade popular pode tomar forma positiva e. Através da iniciativa. deixar certas questões gerais de princípio ao voto popular: se o fornecimento de eletricidade deve ser um serviço nacional ou privado. é verdade. É dificilmente compatível. Isso não é tudo. é um instrumento demasiadamente imperfeito para as finalidades de um governo moderno. quando se trata de um eleitorado indiscriminado. no entanto. convenhamos. não teria nem o interesse nem o conhecimento necessários para chegar a decisões adequadas. Tal divisão de responsabilidade destrói aquela coerência de esforço que habilita um povo a julgar adequadamente o trabalho de seus representantes. O governo direto. tal povo seria livre somente durante as eleições. Legislação. é confundir.

Deve ser grande bastante para permitir a seus membros manter-se em contato efetivo com o eleitorado e pequeno bastante para permitir debates autênticos. por exemplo. notadamente na história da Suíça. Isso envolve não o governo direto. em síntese. . sobre um esquema nacional de seguro de saúde daria resultados muito menos apreciáveis do que uma técnica de consulta em que fosse dada ampla oportunidade a médicos. mas um método de associar as importantes unidades de interesses da comunidade à elaboração das medidas que afetarão suas vidas. no fim de determinado prazo. Um referendo.sobre seus resultados. toda individualidade em debate é perdida e a assembléia torna-se um mero órgão registrador da vontade da parte dominante da máquina governamental. e parece ser a lição da experiência. Uma opinião popular. Mas o problema real do governo não é forçosamente extrair do eleitorado uma opinião indiscriminada e desinteressada sobre medidas acerca das quais o eleitorado não está bem informado. sob as condições atuais. Opinião eficaz para efeito de governo. pelo povo. cuja extensão a própria assembléia. II Para que o legislativo de um Estado tenha autoridade sobre seus constituintes. grande como o Congresso do Governo da Rússia Soviética. é quase sempre uma opinião organizada e diferenciada da opinião das massas pelo conhecimento especial que envolve. mais do que isso. relacionar ao processo elaborador de leis aquele setor da opinião pública pertinente à sua substância e autorizado a opinar sobre ela. que ela está de tal forma enraizada em costumes tradicionais que torna difícil uma experiência social quando ela representa uma reserva de poder externo. Num organismo. antes que essa substância se transforme num imperativo legal. por exemplo. em condições normais. Ele deverá submeter-se à reeleição. precisa ser baseado em sufrágio universal. raramente dará resultados que não sejam negativos. como tal. sindicatos e associações similares para apresentarem seus pontos de vista antes do esquema ser debatido na assembléia legislativa. E.

capaz de tornar essas medidas parte da constituição. No Estado moderno. de modo a se familiarizarem com o seu funcionamento. o sistema partidário é a base parlamentar do governo representativo. pois logo que. Com todos os seus defeitos. nem conseguir. parece que a duração de cinco anos atende a essas exigências. os partidos representam a expressão articulada de uma forma de vida que se desenvolveu fora da demanda cívica efetiva.não está habilitada a alterar. na assembléia legislativa. os quais prometem transformar em lei. não corresponde diretamente à divisão de opinião entre os membros do Estado. o número de interesses tão variado que se torna necessário organizá-lo para o fim de chegar-se a decisões. Dada essa falta de correspondência. A divisão dos partidos. como proceder de acordo com os métodos legislativos. antes de 1911. Esse prazo deve ser de duração suficiente a garantir dois resultados: O legislativo deve estar em condições de fazer-se responsável por um amplo programa e seus membros devem ter prazo suficientemente extenso. um representante é eleito. Essa é a função dos partidos no Estado. o período de dois anos da Casa dos Representantes nos Estados Unidos é pequeno demais. sendo ambos atraentes em teoria e . Normalmente. Grosso modo. era extenso demais. é claro. Mas esse período de tempo deve também ser suficientemente curto para que o legislativo não perca o contato com seus eleitores. a reeleição começa a dominar sua mente e ele mal pode aprender. não poderíamos assegurar nem um programa coerente de medidas. por outro lado. Sem ele. dois princípios são frequentemente encontrados. Eles esco1hem os princípios que consideram mais adequados a garantir aceitação por parte do eleitorado e obtêm do mesmo apoio para tais princípios. O sistema que prevaleceu na Inglaterra. eles atuam como agentes de idéias. pois dava ao legislativo uma vida pouco atingida pelo fluxo da opinião pública. na medida do possível. o eleitorado é tão numeroso. apoio organizado para os partidos. em tão curto prazo. De modo geral. período de sete anos entre as eleições. um membro da assembléia legislativa é eleito para a mesma como membro de um partido.

para cada partido empenhado nisso. A mais importante delas sendo que. é claro que o método de dividir a opinião é altamente artificial. entre esses dois. Torna-se. O segundo defeito é claramente observado na França. .não satisfatórios em funcionamento. o eleitor sabe claramente a espécie de resultado que está tentando obter e pode admitir que a vitória de seu partido representará a espécie de legislação que aquele resultado sugere. pode distinguir. as possibilidades de usufruir as vantagens do poder. onde esse sistema funciona. ainda que não estivessem plenamente de acordo com nenhum deles. Mas a experiência do sistema de grupo da França e da Alemanha de Weimar revelou duas falhas fatais. existe um grande número de grupos. por exemplo. muitos cidadãos não teriam alternativa senão optar por um dos dois. e a conseqüência é a substituição da responsabilidade pela manobra e a subtração à política daquela coerência e amplitude que a habilitam a ser julgada de maneira justa. cujas diferenças dificilmente podem ser estabelecidas com segurança. usualmente chamado sistema de grupo. O eleitor médio. é uma falha a mais que a derrota do governo na assembléia legislativa dependa menos da discordância em torno de princípios do que da luta entre os diferentes grupos para a conquista daquela fusão particular que deverá maximizar. em vez de fazê-lo em torno de princípios. não há relação direta entre a vontade expressa do eleitorado e a espécie de governo sob o qual viverá. na Inglaterra. portanto. onde o sistema de grupo tende a agregar o poder em torno de pessoas. enquanto na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. os grupos monarquista e socialista. mas. na França. corresponda mais eficazmente à divisão da opinião pública. por exemplo. desde que as extremas direita e esquerda não estejam no poder. necessário que um sistema partidário múltiplo. a única maneira de controlar o legislativo é através da organização de tal fusão de grupos que resulte numa maioria capaz de dominar o legislativo. na França. Onde o partido do governo domina a vida do Estado. A conseqüência é que. Acima de tudo. se existissem somente o Partido Conservador e o Partido Trabalhista.

Na prática. sob qualquer outro critério de escolha o desejo expresso pelos eleitores é limitado e a legislação resultante poderá ser até contrária à opinião pública.Essa falta de correspondência. por exemplo. o que torna impossível uma legislação coerente ou leva ao governo de coligação que. tanto a reforma da Câmara dos Lordes . Mas devemos considerar não somente os méritos teóricos da representação proporcional como também sua real atuação. II) equilibra a força dos partidos na assembléia legislativa de tal maneira que freqüentemente produz um governo de minoria. Onde quer que funcione. Um sistema que. por exemplo. quando isso tiver sido injustamente alcançado. ter a desvantagem de deixar grandes grupos da opinião pública sem representação proporcional à sua força. o Governo Conservador tinha poder para tentar. na assembléia. enquanto o Partido Liberal. o sistema de um único membro estabelece limites ao que um governo pode fazer com sua maioria. A força dos partidos. o Partido Conservador obteve grande maioria na Casa dos Comuns. e pode. deveria ser proporcional. ela tem obtido dois resultados importantes: I) aumenta sempre o poder das máquinas partidárias. tem todos os inconvenientes do sistema de grupo. para o qual convergem ainda milhões de votos. leva-nos a persistir na idéia de que a participação na assembléia legislativa deveria ser estabelecida pelo critério de representação proporcional. como na Inglaterra. Nas eleições gerais de 1924. ainda. conseguiu apenas um pequeno número de representantes em proporção irrisória. Na Inglaterra em 1924. diz-se. à medida que funciona. porém através de considerável minoria de votos. Está claro que existe fundamento na crítica. em segundo lugar. simplesmente divide o território do Estado em número razoàvelmente igual de distritos eleitorais e garante o assento ao candidato que tenha o maior número de votos pode ter o resultado unilateral de dar a um partido um número de assentos inteiramente desproporcional ao total de apoio que tenha obtido em todo o território. o que não podemos deixar de aceitar. ao grau do apoio obtido do eleitorado por cada um deles. acima de tudo. se o quisesse.

porque a natureza de sua maioria o destituía de força espiritual suficiente para assim agir. Quaisquer limitações quanto ao direito de participação na assembléia legislativa. também. insistir em que qualquer governo que transgrida os limites implícitos em sua real autoridade. e ele receava o resultado de tal tentativa nas eleições seguintes. Não poderia. como o Direito. Se. tenham oportunidades que sejam dificilmente acessíveis a outros cidadãos. Mas talvez devêssemos exigir testes mais rigorosos de adequação do que os que temos. Pode-se. argumentar que qualquer pessoa que deseje participar da assembléia legislativa deve oferecer prova de experiência na espécie de trabalho que essa assembléia executa. ambas as quais eram ardentemente desejadas por seus partidários. fortuna. No momento. é peculiarmente adaptável à participação na assembléia legislativa. também. desde que o teste de idade tenha sido satisfeito. razoàvelmente. No processo real de elaboração de leis. ligação a uma poderosa organização voluntária (a National Union of Mineworkers. é quase certo. É importante. que use sua maioria de maneira indevida. Vale a pena. esforçar-se em nenhum dos dois sentidos. é provável que pudéssemos melhorar grandemente a qualidade dos membros. É preciso lembrar. praticamente nenhum outro critério é exigido. que os membros sejam pagos. por exemplo) ou filiação a uma profissão que. exigíssemos como prerrogativa de eleição que cada candidato tenha servido pelo prazo de alguns anos em alguma agremiação. Isso significa que. na prática. mas também que tenha seus projetos alterados pelo governo que o suceder. que venha a sofrer as conseqüências nas eleições gerais seguintes. que deverão ser no menor número possível. que o poder de qualquer setor de opinião não é medido apenas pelo número de votos que pode reunir numa eleição geral. isto é. ainda. nascimento. Do contrário. não somente. como um conselho municipal ou seu equivalente. recairão igualmente sobre toda a comunidade. . os fatores que constituem sua autoridade são mais numerosos e mais sutis do que as críticas ao presente sistema estão preparadas para reconhecer. por exemplo. na realidade.como a criação de uma tarifa protetora.

Uma segunda câmara eleita não tem muitas possibilidades de melhor situação. na medida em que seu privilégio for limitado. a hipótese de uma segunda câmara é geralmente feita em duas bases. e a participação na mesma. após exame. Deixando-se de lado o domínio de interesses especiais. de modo geral. Mas isso levanta questões a) da composição e b) das funções e competência da segunda câmara. mesmo num Estado federativo. Onde quer que. Tomemos primeiro o caso da composição da assembléia. com os mesmos privilégios que a primeira. Uma assembléia legislativa deveria. sempre que ocorram vagas. pode-se observar que. ainda mais sob diferente sufrágio. tiverem o direito de nomear. se ela concorda com a primeira. para desafiar a vontade de uma assembléia eleita. por exemplo. diz-se. a predominância de algum interesse especial no Estado. como acontece com o Senado dos Estados Unidos. como disse Siéyès. evitar legislação mal elaborada e precipitada pela primeira câmara e é importante ter-se um grupo capaz de submeter à necessária revisão técnica as medidas que o governo propõe. consistir em uma só câmara. será excessivamente sobrecarregada. verificar-se-á. é difícil imaginar-se o caso de uma segunda câmara. refletirá apenas a sua composição. Entre parênteses. a Câmara dos Lordes ou o Senado canadense. como acontece na Câmara dos Lordes na Inglaterra. não pode absolutamente ter autoridade. realmente. estaria em condições de devotar todo o seu tempo ao trabalho legislativo. em época diferente. dependerá da vontade daqueles que. e se discorda. é supérflua. Na teoria. Uma segunda câmara simplesmente nomeada. se. que ele tende a garantir.homens pobres dificilmente poderiam esperar ser eleitos e ninguém. no sentido de proteger os interesses a que aquela limitação de liberdade . como no caso do Senado francês. o sistema de duas câmaras tem sempre resultado na predominância enfática de uma ou outra das duas câmaras. como. É necessário. Se é escolhida na mesma época. provavelmente dificultará o trabalho do governo no poder e. é prejudicial. naquele momento. pelo menos num Estado democrático. exista um sistema de duas câmaras. exceto os ricos. num Estado unitário.

se o atraso é extenso demais. mas de um pequeno grupo de especialistas nessa arte. por exemplo. e dar-lhe menos autoridade seria levantar imediatamente o problema da composição . Já vimos que nem nomeação nem eleição são satisfatórias quando baseadas na extensão territorial e que os interesses ocupacionais deveriam ser a base para a formação de uma segunda câmara. Isso é. Qualquer um que se lembre do tempo gasto na Grã-Bretanha para estabelecer medidas como a reforma eleitoral. a não ser que fosse eleita de modo semelhante. em sua natureza. antes que sua substância tenha sido lugar-comum de discussão. será tentado a solicitar uma técnica para apressar o mecanismo da legislação. ou a educação nacional com referência à constituição.que. que requer serviços não de uma câmara. Porquanto. como engenheiro. e se.e do direito da primeira câmara fazer sua vontade prevalecer. As funções e a responsabilidade não são problemas mais fáceis de serem resolvidos. Quanto ao problema da competência. o trabalho da primeira câmara é enormemente desperdiçado. é incapaz de solução satisfatória . necessitamos somente dizer que nenhuma segunda câmara poderia ter a autoridade da primeira. uma segunda câmara ocupacional teria que eleger seus membros numa base de partidos e isso destruiria o verdadeiro propósito a que a representação ocupacional se propõe. o setor profissional de engenharia enviasse um de seus membros para tal órgão. Mas não se conhece nenhum método capaz de dar peso proporcional conveniente a interesses ocupacionais. e. em vez de atrasá-la. não se aplicariam à vasta maioria de decisões que tal grupo tivesse que tomar. Para obter-se coerência. como já disse. a Irish Home Rule. nenhum governo tenta uma legislação de ampla escala. em segundo lugar. um trabalho de pesquisa. seus pontos de vista. em síntese. É difícil encarar seriamente o argumento de que é necessária uma câmara com poder de protelação. Tampouco existe fundamento no ponto de vista de que é necessária uma segunda câmara para executar o trabalho de revisão técnica.dá maior importância. Torna-se necessária uma palavra sobre a posição de uma segunda . em primeiro lugar.

como o deveria ser. pode ser obtida sem a segunda câmara. como uma comissão do partido dominante na assembléia legislativa. e a proteção da distribuição dos poderes. entre discussão de princípios e discussão de detalhes.a instituição clássica dessa espécie . vinculando-se a emenda da constituição a uma considerável aquiescência da totalidade de unidades cuja competência deve ser alterada. tal como é necessária. menos de acordo com o modelo . ao legislativo como um todo. no qual o executivo político. estabelecer a diferença no trabalho do legislativo. através de seus próprios governos. como o principal meio de selecionar homens adequados para postos de responsabilidade executiva. naturalmente. Com relação à experiência do Senado americano . impede que sejam feitas mudanças necessárias na ocasião devida. em segundo lugar. A primeira pertence. Dois motivos poderiam justificá-la: I) as unidades constituintes da federação devem ser representadas e II) a distribuição de poderes que a constituição organiza deve ser protegida contra violação. pois as unidades constituintes já têm o controle.câmara num Estado federal. Tal fusão produz não somente planejamento coerente como também responsabilidade óbvia. e capacita o legislativo a ser utilizado. Não posso analisar aqui os detalhes da organização legislativa. a segunda é mais adequada a comissões pequenas de membros do legislativo. Mas o primeiro argumento é evidentemente redundante. é obviamente preferível ao sistema americano (em si mesmo principalmente um acidente histórico) que separa a assembléia do executivo político. é uma parte inerente àquele grupo e dirige seu trabalho. Tudo o que posso fazer é indicar certos princípios gerais que a experiência parece ter definitivamente estabelecido.não creio que se poderia seriamente argumentar que seus resultados apresentam qualquer valor especial como defesa contra centralização excessiva e a experiência da Austrália parece indicar o perigo de um sistema que. por dar ênfase a uma igualdade artificial onde não existe nenhuma. É importante. dos assuntos que lhes são atribuídos pela constituição. O clássico sistema britânico.

durante seu exercício. tornou óbvia a necessidade de uma ligação mais íntima entre seu trabalho e o do legislativo. dentro do departamento. Esse grupo de homens representa o poder de motivação da legislação. mas aqueles que não o praticarem sabiamente serão certamente. Do contrário. o poder de dissolvê-lo é importante. a necessidade de uma associação mais íntima entre a assembléia legislativa e o processo de administração. destituídos de suas investiduras pelos membros de seu próprio partido. sujeita a revoltas eventuais. O poder de dissolução repentina tem o mérito adicional de habilitar o executivo a manter . É importante manter a responsabilidade do ministro em relação à administração de seu departamento. Para tal fim ou quando o governo é derrotado e crê que o legislativo perdeu o contato com a opinião pública. Se fosse dado ao dirigente formal do Estado reter essa força em suas mãos. afim de relatar sobre o trabalho da legislação delegada e investigar. como o Conselho Londrino de Condado. também. mero órgão de registro dos ditames do executivo. Isto sugere. Já tive ocasião de sugerir o prazo de cinco anos como o período adequado para a duração de um legislativo. como acontece quando um projeto novo e vital entra em pauta. Mas não é aconselhável que seja. um período fixo. de modo geral. como nos Estados Unidos. A experiência. Pois o uso errado do mesmo não somente receberá a reprovação do eleitorado. Há ocasiões em que se torna necessário consultar o povo. cada departamento do Estado deveria ser apoiado por um conselho formado por membros da assembléia legislativa com o direito de ser consultado sobre projetos do legislativo. torna-se um. porém. É um poder que não deve ser exorbitado. Onde deverá ficar tal poder? Não vejo razão alguma para que não esteja no gabinete. a assembléia. os problemas que estejam necessitando de investigação. Para esse fim.da Câmara dos Comuns britânica do que com o modelo desenvolvido por assembléias subordinadas na Inglaterra. o exercício da mesma envolveria graves problemas quanto à sua imparcialidade e nenhum legislativo poderia votar sabiamente sobre sua própria dissolução. sua atuação é o objeto principal de debates.

Deveriam. por exemplo. transportes locais. é importante notar-se que o legislativo parece dar o máximo quando a maioria do governo é suficientemente grande para habilitá-lo a executar um amplo programa. um sistema de legislativos subordinados. o governo central deveria manter contato com essas assembléias. Isso poderá ser mais favoràvelmente conseguido de três maneiras: I) Tôdas as questões de natureza geográfica. desde que não especificamente determinadas como transcendentes à sua alçada. deveríamos procurar desenvolver para a indústria. Isto é. com poderes de elaborar leis que. como. ter o direito de entrar em entendimentos no caso de interesses comuns. Embora esteja claro que o legislativo deve ser órgão competente para definir os imperativos do Estado. pudessem ser aplicadas compulsoriamente. II) Sob a estrutura de um conjunto mínimo de condições gerais estabelecidas pelo legislativo central. por exemplo. Estas não deveriam ter poderes limitados. deveriam ser administradas por assembléias locais eleitas que controlassem áreas adequadas. a espécie de autogoverno que tem sido a característica de profissões como a advocacia e a . sob proteção adequada. mutatis mutandis. para as indústrias. proporcionando-lhes ajuda em forma de subsídios e. também. O interesse popular em relação à política nunca é tão agudo como quando o governo de um Estado está sob a ameaça de uma possível derrota. se é que deseja funcionar de maneira criadora. Em certos casos como. enquanto sua característica dramática mantém um interesse constante entre o eleitorado em relação ao procedimento do legislativo. a educação e a saúde pública. mas não tão grande que lhe dê autoridade excessiva. a não ser que uma parte considerável de seus poderes seja delegada a grupos subordinados. deveria ser criado.aqueles que o apóiam (e adversários) em posição satisfatória. ele não pode pretender funcionar de maneira eficaz. reservando-se o direito de inspeção. ao mesmo tempo. Nesse sentido. Já tive ocasião de esclarecer que a dimensão do Estado moderno requer uma vasta medida de descentralização. mas sim o direito de lidar com todas as questões.

a um distrito eleitoral óbvio e bem definido. tanto melhor será a administração. De modo geral. nos três casos citados. o ministério (ou gabinete) deve ser composto de membros do mesmo partido. as duas categorias são mais distintas quanto às pessoas do que quanto ao poder: um funcionário destacado. Evidentemente. É dela que emana o poder desses dirigentes e a ela deverão prestar contas de sua missão. esses mesmos estadistas. Um ministério deve ser pequeno. III) Deveriam ser delegados aos grupos subordinados . o legislativo central deve estar investido do direito de revisão. e a Electricity Authority na Grã-Bretanha. Isso significa que. a experiência tem demonstrado que ele passa a perder a coerência interna.o político e o administrativo. III O executivo de um Estado tem dois aspectos . De um lado está um pequeno grupo de estadistas a submeter determinada política à aprovação de um legislativo.medicina.dos quais a Comissão Interestadual de Comércio. o ministério ou o gabinete. nos Estados Unidos. terá grande influência sobre o mesmo e muito pesarão suas decisões. em conjunto. embora tecnicamente subordinado a seu chefe político. que eles sejam membros da assembléia legislativa. uma vez aprovada tal política. desde que ultrapasse de doze. um grupo muito maior de funcionários executa as determinações relativas às deliberações dos estadistas. É aconselhável. como regra geral. pois somente assim proporcionarão aquela unidade de pensamento que torna possível certa coerência administrativa. mas é sabido que quanto mais reduzido e formal for esse direito. tornam-se responsáveis por sua execução. A maioria de seus membros deve ser responsável por . no funcionamento de seus resultados.amplos poderes na elaboração de leis relativas a assuntos de natureza técnica que não fossem a) facilmente passíveis de debate no legislativo e b) não limitadas. são bons exemplos . e mesmo essencial a um bom governo. Os dirigentes políticos de um Estado são. do outro lado. de longa experiência.

Geralmente ele é o líder do partido que atingiu predominância naquela casa. pois torna mais fácil ao chefe do gabinete. o chefe do Estado podendo perfeitamente ser um personagem do cerimonial cuja função política é garantir a continuidade da administração. na Austrália. de uma mente diretora e coordenadora. como PrimeiroMinistro. embora o método anglo-francês seja mais conveniente. por outro lado. Admitindo-se que um Primeiro-Ministro não somente será passível de erros como também superestimará sua capacidade pessoal. Como deverão ser escolhidos seus companheiros de gabinete? Na maioria dos casos ele mesmo os escolhe dentre aqueles que julga poderem formar.o chefe formal do Estado ou. como disse Bagehot. ou o povo americano quando escolhe um presidente. tomar parte na assembléia legislativa. ainda assim estará menos sujeito a erros do que um grupo como o Partido Trabalhista australiano. sem responsabilidade específica quanto a determinado departamento e pelo menos um membro (que é geralmente denominado ministro sem pasta) . como grupo. o instrumento mais eficaz do governo. cujos serviços possam ser utilizados a qualquer momento em que haja necessidade. finanças. os cargos poderão ser distintos. o sistema americano é muito semelhante a uma loteria e.como nos Estados Unidos . As qualidades exigidas para a direção de um departamento do governo não são as mesmas que geralmente influenciam nos processos de eleições. o Partido Trabalhista escolhe seu gabinete através de uma convenção do partido. Não há superioridade inerente a nenhum dos dois sistemas. Mas necessita. o sucesso na loteria não é argumento que . como na Inglaterra e na França. negócios e intercâmbio comercial. também.algumas funções importantes da administração. O chefe do gabinete poderá ser . política exterior. Creio não haver muita razão para dúvida quanto ao fato de que deve caber ao Primeiro-Ministro a escolha de seus colaboradores. Os problemas de colaboração e trabalho de equipe que são envolvidos inferem uma técnica de escolha discriminativa para a qual o processo de voto é um instrumento muito imperfeito.

também. De modo geral.sua competência. para encorajá-los a produzir o máximo. ao mesmo tempo. essas tarefas devem ser executadas com o mínimo de atritos. lhes seja assegurada permanência na função e. elevar ao máximo seu funcionamento efetivo. Os funcionários de um Estado executam as ordens de seus chefes políticos. a primeira e a terceira dessas questões são determinadas pela nossa resposta à segunda. eles devem servir o partido no poder tão dedicadamente e tão eficientemente quanto a qualquer outro.justifique o método. quase todos aqueles que são escolhidos para o gabinete parecem ser os candidatos óbvios para os postos para os quais foram escolhidos. Para serem neutros. eles não podem prestar mais do que uma supervisão geral a essa tarefa. Evidentemente. Eles dependem de seus funcionários para conhecimento da demanda pública. levanta três questões: I) Como deverá ser composto e organizado? II) Quais as suas funções? III) Quais serão as suas relações com o público a que ele serve? Evidentemente. uma defesa suficiente. O lado apolítico do governo executivo desperta problemas de natureza diferente. A incumbência dos ministros é delinear uma administração que satisfaça ao maior volume possível de demanda pública e. Para esse fim. Todos os partidos têm homens de projeção e estatura em nada inferiores à sua. de modo geral. E os fatores que limitam a escolha por parte do PrimeiroMinistro são. :Ele é forçado a escolhê-los e o apoio deles estará condicionado à sabedoria das outras nomeações que ele fizer. desde que comprovada . deverá oferecer-lhes . é preciso que. desde que aceita pelo legislativo. tendo em vista o tamanho dos Estados modernos. o sistema de promoções deverá estimular ao máximo o desenvolvimento da capacidade dos funcionários e. Admitindo-se que eles passaram pelo rigoroso aprendizado da assembléia legislativa. os funcionários precisam ser neutros. Seja qual for a tendência do partido no poder. para informações detalhadas quanto às possibilidades de atendê-la e para o trabalho diário e detalhado de execução da lei.

A aposentadoria deverá ser fixada para uma idade não muito avançada de modo a assegurar. e tende a pensar que a imunidade contra a crítica é a prova de um departamento bem organizado. Desde que um candidato seja admitido para o serviço. Para garantir esses requisitos. Elas dependem multo da sabedoria dos chefes políticos. que as categorias do mundo oficial sejam tão elásticas quanto possível. tanto melhor será para o Estado. ele deverá ter a garantia de permanência no posto até a idade de sua aposentadoria. como é ao público que os funcionários devem servir. Porquanto. Este receia tomar iniciativas e tentar experiências. e. A primeira necessidade de uma repartição civil é a defesa contra tais perigos. Não há. as provas de competição representam. evidentemente. É importante. o melhor meio de chegar-se à esse fim. também. O perigo de qualquer serviço público é a burocracia. regras estabelecidas para evitá-los. e talvez mais ainda do esprit de corps da própria repartição. chefes de departamentos que estejam em contato com as novas idéias de sua geração. permanentemente. e o caminho que mais facilmente nos leva a ela é a rigidez de rotina e a promoção por antiguidade. de modo geral. o sistema de comissão .oportunidade de alcançar postos proporcionais às suas aptidões. a opinião pública deve estar corretamente relacionada com o processo administrativo. a escolha de funcionários deverá estar sempre nas mãos de uma comissão independente do governo do momento. comprovada sua competência e boa conduta. De modo geral. Mas a regra geral é que os funcionários deveriam executar seu serviço numa atmosfera de opinião pública de crítica e de competência. o método para escolha de funcionários a ser adotado pela comissão deveria ser aquele que reduzisse o favoritismo às menores proporções. quanto menor for a pressão exercida pelo governo. E desde que serviço e julgamento devem ser devidamente executados. Confundir rotina com eficiência e antiguidade com experiência são sempre os perigos que ameaçam o funcionalismo. Para assegurar esse resultado. pelo público devem ser julgados. exceto para cargos técnicos.

Grande parte da perspectiva do governo constitucional depende da sabedoria com que se serve desse instrumento. voltar ao serviço público. no caso de derrota. Os primeiros aprendem a arte de governar por persuasão. o trabalho de administração se ressentirá não somente de espírito criador como também daquela sensibilidade marcante a seus resultados. em condições normais. Se tanto o governo como a comunidade geral têm necessidade de confiança nessa neutralidade. digamos de formação conservadora. O que acaba de ser dito em relação a funcionários públicos aplica-se. confiaria facilmente em seu secretário permanente se soubesse que o mesmo dedica suas tardes a ardente propaganda socialista. os últimos descobrem a que ponto a realidade das reivindicações é deturpada pela natural influência da paixão e da propaganda. segue-se que todos os servidores civis que participam da elaboração administrativa devem abster-se de tomar parte na vida política. A mesma restrição parece aplicar-se logicamente a candidatos políticos. psicólogos e pais. por exemplo. cedo ou tarde seria inevitável . Essa exclusão não se aplica a funcionários menores. Baseados nesse princípio. doutores. Não existe melhor elemento do que uma comissão conselheira para o treinamento de relações entre os funcionários civis e o público. às forças armadas e à polícia do Estado. Cultivar hábitos políticos dentro desses setores seria fatal à indiscutível aceitação de ordens civis das quais. Sem o mecanismo adequado para esse fim. precisam ser explicadas. Onde quer que um departamento afete um interesse social. mas nenhum ministro. penso eu. que é a prova real de sua eficiência. Um departamento de educação. depende o bem-estar do Estado. com maior propriedade. as associações que atendem àquele interesse devem estar ligadas ao departamento para o fim de cooperação orientadora.conselheira é de importância capital. Certas conseqüências da neutralidade dos funcionários e de sua posição como servidores do Estado. em todos os detalhes de seu trabalho. deve estar em contato permanente com grupos organizados de professores. em conclusão. um alto funcionário não pode pretender participar da assembléia legislativa e.

na indústria privada. sem dúvida. Sua função. certa independência de arbítrio quando surgem divergências entre elas e o governo. como na Inglaterra. e é bastante provável que tal mecanismo seja geralmente bem sucedido. autoriza-as a desenvolver certa forma de autogoverno que dá a cada uma de suas seções pleno direito de participar na determinação de suas condições de trabalho e lhes possibilita. mas. através de um órgão como a Corte Industrial. como a de qualquer outro empregador. que o Estado esteja autorizado. O Estado. Não creio que tal proibição pudesse ser aplicada ou tornada efetiva aos servidores civis se se tornasse necessário pô-la em prática. A honra de trabalhar numa repartição do governo não é compensação suficiente para escreventes e carteiros que não se sintam devidamente tratados. Não vejo também razão para que funcionários inferiores do Estado não possam estar habilitados a participar. e o caminho para a autocracia seria tão inevitável quanto curto. A ligação das forças armadas e da polícia com o Estado toma legalmente necessário vedar-lhes o direito de greve. para melhorar suas condições através de métodos que eles considerem convenientes. O problema é complexo e eu somente poderia apresentar aqui certas conclusões em forma dogmática.transformar funcionários em guarda pretoriana. como empregador. é conquistar a lealdade de seus servidores persuadindo-os de que seus padrões de conduta são justos e de que eles têm acesso a todos os métodos normais que o sindicato empreende para melhorar suas condições de trabalho. em compensação. porém. Naturalmente. está autorizado a criar um mecanismo que insista na conciliação de disputas entre o governo e seus servidores antes que estes entrem em greve. a prevalecer-se de seu caráter soberano. isso levanta a questão dos limites da liberdade de associação entre funcionários do Estado. IV . com trabalhadores de igual categoria. Não creio.

um bom juiz. em primeiro lugar. Jessel e Bowen e Holmes. primeiramente. III) as promoções devem tomar em consideração somente o mérito dos candidatos no setor legal. tanto através do povo como através do legislativo. porque as qualidades exigidas de um juiz incluem algumas que o método de admissão não pode testar. e. o dos Estados Unidos. para nomeações federais.Já tive ocasião de esclarecer por que a independência do judiciário é um princípio importante no funcionamento do governo. um organismo escolhido. O primeiro princípio rege as eleições. as qualidades exigidas para cargos judiciais não podem ser avaliadas devidamente pelos critérios característicos de um processo eleitoral. ao máximo. Ele é. sendo as promoções aos postos mais altos dependentes de provas de habilitação. onde os juízes são escolhidos por nomeação executiva. I) O sistema de nomeação deve reduzir ao mínimo a possibilidade de influência política na escolha de juízes. comparado com o juiz inglês. por uma elevada consciência de honra profissional. como na França. devem ter garantia permanente do posto. Eu preferiria um terceiro método em que os próprios juízes apresentassem uma . o francês permanece um tanto limitado legalmente no aspecto geral. como atestam nomes como Mansfield e MarshalI. comprovada sua boa conduta. Parece que restam três processos possíveis. Minha dúvida quanto ao método é. como processo de escolha. mas ninguém que examine as nomeações dos últimos cem anos poderá duvidar de que as influências políticas têm um papel muito importante quanto à determinação de sua natureza. II) as pessoas nomeadas. tanto nas cortes baixas como nas altas. geralmente. mas a rigorosa disciplina dentro da qual transcorre sua vida tende a afastá-lo indevidamente da experiência extrajudicial. Há muito que dizer-se desse método. sem dúvida alguma ele deu à França um corpo de juízes competente. caracterizado. Esse sistema. indiscutivelmente. O judiciário poderá ser. tem-nos dado grandes juízes. Nesse sentido três princípios são importantes. Outro método é o da Inglaterra e. por critério de prova competitiva.

o lugar apropriado para o leigo é o júri. É necessário acrescentar que considero indesejável o tipo de sistema. e nenhuma pessoa que tenha exercido função política deveria ser nomeada para cargos judiciais. é mais conveniente a presença de um quadro . em primeiro lugar. sujeitas somente à limitação de que nenhum juiz que estivesse somente há cinco anos no exercício da função. os juízes deveriam fazer suas próprias recomendações para promoção. geralmente. É também importante. onde é mantido um sistema de jurados. acima de tudo. Neste terreno. As vantagens de tal sistema são claras. Limitam as possibilidades do advogado quanto à garantia de promoção ou nomeação. em casos criminais. como recompensa por pequenos serviços políticos. desde os primórdios da humanidade. Elas nos salvaguardam contra o perigo do tipo de judiciário que.pequena lista de nomes ao executivo ao qual ele pudesse sair somente em circunstâncias excepcionais. diga-se ainda. em que o leigo pode ser nomeado oficial de justiça. Da mesma maneira. impedir o acesso de juízes a postos políticos. em troca de serviços políticos. por exemplo. ou que estivesse a cinco anos de sua aposentadoria. aposentar os juízes compulsoriamente aos setenta anos de idade. elas valorizam o direito daqueles que possuem mais experiência das qualificações profissionais para avaliar o peso que deve ser atribuído às virtudes de tal sistema. em casos comerciais relativos a assuntos como letras de câmbio. a não ser que tivessem transcorrido três anos de sua aposentadoria. selecione nomes para serem aprovados pelo executivo. tem sido segregado ao resto do mundo através de uma casta profissional limitada. penso eu. como na Inglaterra. pudesse ser nomeado. com opção de pedido de aposentadoria voluntária após quinze anos de exercício da função. penso eu. É ainda importante. Fazendo que o judiciário. enquanto o direito excepcional do executivo de fazer outra escolha limita o perigo do favoritismo judicial. Mesmo o juiz comum tem valor duvidoso nos casos em que os fatos a serem julgados são de natureza altamente especializada como.

na qual juízes. melhor ainda. mas é também importante que o resultado de seu funcionamento seja consignado por todos os que participam do mesmo. especialmente no setor criminal. Ou. nenhum Estado pode estar verdadeiramente sob o domínio da lei. Onde. é uma das mais urgentes necessidades de nosso tempo. Em qualquer Estado bem organizado. V Tenho-me referido constantemente à importância da opinião pública e é impossível concluir esta explanação sem uma referência. A soberania não deve ocasionar a irresponsabilidade daqueles que agem em seu nome. o executivo tem poderes de legislação delegada. a elaboração das leis será caracterizada por quatro princípios. é necessário. É essencial.de pessoas cuja experiência especializada dá um peso especial a seu julgamento sobre os assuntos envolvidos. principalmente. ainda que breve. a questão do limite legal de tais poderes deveria sempre ser decidida pelos tribunais ordinários. se os atos de seus agentes não deixam transparecer honestidade da parte de seu superior em relação a faltas. que o processo judicial não seja tão dispendioso que impossibilite ao indivíduo pobre o acesso aos tribunais. As infrações do governo envolvem precisamente a mesma responsabilidade que as infrações do cidadão comum. Uma comissão permanente de reforma de leis. o segundo princípio pode talvez ser melhor . Nesse sentido. advogados e leigos participem em igualdade de condições. Duas coisas são claras: a qualidade da opinião pública depende da veracidade da informação sobre a qual é baseada e seu poder de impressionar é função da camada popular para a qual é organizada. Finalmente. a certos problemas que são parte integrante da mesma. a reforma dos métodos legais deve ser a preocupação constante do Estado. é mesmo preferível haver um grande número de causas triviais a deixar o povo na crença de que a falta de recursos os impede de alcançar justiça. em terceiro lugar. não somente fiscalização permanente do funcionamento das instituições judiciais.

uma greve importante. Somente numa sociedade uniforme vale a pena publicar a verdade. Acontecimentos como a Revolução Russa. Desde que o interesse dos homens no resultado da política não seja igual. . Os jornais. numa sociedade desigual. e. os jornais não podem circular entre aqueles cujo poder de demanda efetiva é vultoso. os fatos que lhes são transmitidos são selecionados e pesados de maneira a evitar que surja seu verdadeiro sentido. e organização é. o impacto de sua complexidade e. primeiro. qualquer opinião pública é forte na medida em que é organizada. Finalmente. e o poder relativo de tais opiniões depende do conhecimento e da organização que elas podem controlar. em geral. O que ocorre é antes o desenvolvimento de uma série de opiniões públicas em torno dos acontecimentos que surgem. o impacto decorrente do fato de sua fonte e divulgação não representarem um esforço para a apresentação objetiva dos fatos. e sua produção é tão dispendiosa que. na maioria das vezes. o funcionamento de uma indústria nacionalizada são deturpados de maneira a produzir uma impressão desfavorável quanto à sua natureza sobre os cidadãos que tomam conhecimento da mesma através de seu jornal. afim de se ajustarem a um interesse especial. Eles recebem os fatos como através de um espelho. somente os ricos podem fundá-los. depois. do contrário. publicar notícias e comentários que satisfaçam aqueles que compram os artigos que o anunciante tenta vender. a apresentação de notícias é desvirtuada de acordo com a vontade dos que têm as rédeas do poder econômico. O resultado é uma evidente parcialidade na divulgação de notícias. uma opinião pública geral. cuja verdadeira versão poderia criar constrangimento para as classes ricas. eles devem.expresso dizendo-se que raramente existe tal coisa. Qualquer um que examine o problema da autenticidade da informação na sociedade moderna sofrerá. A maioria dos homens depende dos jornais para sua informação. Mas por dependerem do anunciante. dependem para sua manutenção dos anúncios que obtêm. por sua vez. Uma notícia torna-se propaganda logo que seu conteúdo possa afetar a política. no qual suas perspectivas estão fora de proporção.

as conseqüências do sucesso são muito mais diretas. O impacto do erro se faz sentir de maneira mais suave. Nenhuma ordem social. Na realidade. portanto. O poder econômico tem condições para controlar o conhecimento inteiramente de acordo com a sua conveniência. A justiça desses grupos é sempre limitada pela distorção do interesse que o poder desigual determina. em síntese. jamais satisfará eqüitativamente as demandas de seus indivíduos. Mas a organização humana. entretanto. quando destituída de poder econômico.principalmente. manter os primeiros em posição coerente e unida. CAPITULO IV O ESTADO E A COMUNIDADE INTERNACIONAL I Tratei até agora dos problemas do Estado como se eles envolvessem relações apenas com seus próprios cidadãos. que elas não poderiam dar-se ao luxo de usá-las. também. É muito mais fácil. ou jamais tentará seriamente o justo reconhecimento de seus direitos. função do poder econômico. tem poucas dessas vantagens. Seu poder de comprar conhecimento é menor. porquanto a experiência psicológica daqueles que possuem o conhecimento de que a organização necessita. Pode dar-se ao luxo de esperar sem sentir que sua vida normal tenha sido alterada pela necessidade de esperar. cada Estado no mundo moderno é um dentre muitos. a opinião pública não tem possibilidade de fazer reivindicações em termos de sua natureza moral. Suas armas principais são geralmente tão caras. enquanto houver sérias desigualdades na distribuição do poder econômico. e talvez os acontecimentos mais . Numa sociedade sem uniformidade. É muito mais fácil organizar um pequeno grupo de ricos proprietários de minas do que um grande grupo de pobres sindicalistas. como uma greve por exemplo. comumente traem os interesses de tais organizações. porém não de menor importância.

pois. como um imperativo legal. o que lhe dá autoridade é sua adoção por Estados individuais. superior a eles. nos defrontaríamos com uma condição para a qual a anarquia seria a única palavra. I) Um novo Estado. É necessário. Essas leis são impostas aos homens que vivem dentro de uma sociedade porque. uma vez que nos afastássemos da característica interna para a externa do Estado. os imperativos legais do último deixariam de ter a natureza da qual.importantes com que nos defrontamos sejam os problemas de relações exteriores que surgem quando um Estado e seus cidadãos têm relações com outros Estados e seus membros. logicamente. têm havido pensadores. sem elas. o Direito Internacional torna-se efetivamente lei através de seu reconhecimento como tal por determinados Estados. que não hesitaram em aceitar essa conclusão. Pelos postulados já estabelecidos. sem dúvida. Se o Direito Internacional não incidir sobre os Estados. Isto é. então. E. Se os imperativos legais do Estado devem ser supremos. Mas antes de aceitarmos uma conclusão tão drástica é necessário examinarmos seus fundamentos. Não tem força compulsória em si mesma. item por item. nenhum outro imperativo pode ser. não pode escolher e adotar regras dentre as . como já vimos. depende a estrutura interna do Estado. principalmente. eles argumentam que o fato de nenhuma associação humana estar autorizada a dar ordens ao Estado torna impossível encarar-se o Direito Internacional como tão válido quanto o Direito Nacional. Partindo de uma premissa bastante lógica. Segue-se. então não haverá leis entre eles exceto a vontade que determinar suas ações. Hobbes. surgem certos fatos importantes. regular as relações entre os Estados. por exemplo. Sob este ângulo. nenhum Estado pode dar ordens a outro. fosse esse o caso. dizem eles. o Direito Internacional é um conjunto de leis através do qual são organizados os contatos mútuos entre os Estados e seus cidadãos. que o Direito Internacional é válido somente para determinado Estado na proporção em que está preparado para aceitar seu conteúdo. quando constituído.

dado corpo a um conjunto de princípios bem estabelecidos que. De modo geral. que a vontade do Estado deve estar sujeita a uma vontade superior em questões de interesse internacional. Mas as condições . ser apresentado de outra forma. uma vontade comum. a vontade do Estado era destituída de qualquer caráter soberano. Entre 1500 e 1700 o Estado moderno emergiu como soberano porque nenhuma outra forma poderia garantir paz e segurança a seus súditos. dentro da sociedade de Estados. Ela era encarada como implicitamente limitada pela lei de Deus e pela lei da Natureza. pela mesma razão que a vontade do Estado garantiu a supremacia sobre todas as outras associações dentro de seu território. Verificamos que transformações científicas e econômicas tornaram impossível ao Estado individual tomar suas próprias decisões em assuntos de interesse internacional comum. digamos. também tornou-se uma necessidade política. Os pensadores inferiram. antes da Reforma. portanto. Ele as julga tão aplicáveis a si mesmo como se ele próprio tivesse sido responsável pela sua criação. talvez. Em ocasiões decisivas. com prioridade sobre a vontade de qualquer Estado. exatamente como a vontade individual está sujeita ao sistema de imperativos legais estabelecido pelo Estado. Segue-se. de fato. qualquer determinação do Estado contrária a seus princípios era inerentemente destituída de validade.estabelecidas pelo Direito Internacional. que o Estado era a unidade definitiva da organização social. de tratados e de arbitragem têm. Estamos testemunhando agora o que poderíamos chamar a reconstrução da comunidade universal com a qual sonharam os pensadores medievais. a lei da Inglaterra limita as atividades de seus súditos. Acordos internacionais de aduana. Para os pensadores que desejavam uma filosofia de suas atividades. II) A soberania do Estado é uma condição histórica que surge da decadência da respublica christiana da Idade Média. no intercâmbio normal entre Estados. tal liberdade de ação nos leva à guerra e. portanto. Isso pode. o importante na vida do Estado era que ele libertasse sua vontade de qualquer controle externo. limita suas atividades da mesma forma que.

. por exemplo. o Estado deixa de ser soberano. em resumo. Uma exigência de sua parte para livre deliberação é tão impossível de ser aceita quanto uma exigência individual de direito legal em relação a uma vontade ilimitada. com seus próprios imperativos legais que representem as leis fundamentais perante as quais todas as outras leis devem render-se. É possível. . a relação de determinado Estado com a sociedade dos Estados seria de subordinação: assemelha-se. àquela de Nova Iorque para os Estados Unidos da América. a liberdade de estabelecer suas próprias fronteiras e armamentos. Se dermos à Inglaterra. criar-se uma teoria de lei baseada na hipótese de que sua fonte originária seja a vontade da sociedade dos Estados e que esta vontade tenha prioridade sobre todas as outras na civilização moderna. Dentro de tal hipótese. Sob este aspecto.novamente se modificaram. há outras com relação às quais deve aceitar a decisão dos Estados Unidos. uma sociedade de Estados. Nossas condições. O mundo tornou-se de tal maneira interdependente que uma vontade livre em determinado Estado é fatal à paz dos demais. etc. suas próprias tarefas e padrões de trabalho. A interdependência dos Estados torna necessário estabelecer uma comunidade internacional. o método pelo qual decidirá disputas com outros Estados. possibilidade de um Estado soberano. O Direito Municipal. deveria estar legalmente subordinado ao Direito Internacional. em síntese. o resultado inevitável será o desastre internacional. tornam tão essencial a elaboração de leis cosmopolitas para questões de interesse comum quanto a predominância legal do Estado dentro de seu próprio território. Necessidades comuns implicam subordinação mútua e onde há subordinação mútua não há no sentido histórico e técnico. Deve aceitar a lógica das condições mundiais em que está envolvido. portanto. Há certas questões de legislação a respeito das quais Nova Iorque pode decidir por conta própria. os direitos que ela concederá aos estrangeiros em seus tribunais. particularmente no último meio século. digamos.

Existem duas razões que justificam este fato. também a teoria de mandados e tutelas atribuídos a territórios que não são autogovernados. Todos. Portanto. A infração do Direito Internacional por um Estado individual é tão importante. desde a Segunda Guerra Mundial.e suas conseqüiências . quanto a infração da lei municipal por um determinado cidadão.embora menos universalmente . esses tratados representaram invasões definitivas e tangíveis do princípio de soberania do Estado. de forma sistemática dificilmente pode ser datado de antes do Tratado de Versalhes. especialmente na esfera legislativa. o reconhecimento da interdependência internacional é relativamente novo. Em primeiro lugar. em segundo lugar. A história da Liga das Nações e das Nações Unidas é o registro de nada mais que um conflito entre o novo princípio de interdependência internacional . na lei de unanimidade entre os Grandes Poderes no Conselho de Segurança das Nações Unidas.e o velho princípio de soberania. a lei permanece lei enquanto for normalmente e habitualmente capaz de sanção. E. ou tão insignificante. em 1919. Podemos admitir que as instituições da sociedade de Estados são ainda inadequadas para seus propósitos. qualquer tentativa no sentido de traduzir essa interdependência em termos institucionais esbarra com o fantasma da soberania do Estado ainda tentando ardentemente reter em suas mãos as ruínas de seu império.Esse ponto de vista não é alterado pelos fatos evidentes de a) que os Estados quebram o Direito Internacional e b) que a sociedade de Estados ainda não desenvolveu órgãos satisfatórios.nos vários tratados de cooperação ocidental. A necessidade de aceitar os resultados da interdependência internacional tem sido vista em projetos como a Cláusula Facultativa e o Ato Geral de Arbitragem da Liga e mais concretamente . para o desenvolvimento do Direito Internacional. pois cada um deles teve por significação o fato de que os Estados que os aceitaram deixaram de ser livres para agir a seu critério. mais surpreendentemente. os direitos garantidos a . O desejo de prestar serviço ao último é sentido na retenção da lei de unanimidade da Liga quanto às decisões e. que culminaram no Pacto do Atlântico.

de modo geral. Não podemos garantir a necessária coordenação entre os Estados modernos sem sujeitá-los a um poder superior comum. Para o jurista é puramente uma questão de competência. certos pensadores de destaque tentaram harmonizá-la com o antigo conceito. desde que sua força operante depende da aceitação dos Estados individuais. independente da vontade dos Estados individuais. a justiça é a única fonte autorizada a aplicar os regulamentos incluídos na lei. na verdade. não têm alternativa e não há vantagem em preservar uma teoria de consentimento que. não tendo relação alguma com eles. Tampouco é mais satisfatória a noção do Direito Internacional como um sistema autônomo . Assim como nenhuma lei internacional pode ser operante senão quando seus súditos concordam com sua imposição. enquanto o Direito Internacional for efetivamente lei. a posição teoricamente atingida através dos poderes conferidos ao Conselho de Segurança pela Carta das Nações Unidas. Essa é. mas porque. e ele é levado a recusar hipóteses que envolvam critérios baseados em outros pontos de vista. Baseados em seus próprios postulados. não porque eles assim o escolham. isso é verdadeiro também no que se refere à lei do Estado em si mesma. por outro lado. na realidade.minorias nacionais dentro de certos Estados que fazem parte da Liga e maior autoridade das Nações Unidas para proteger os direitos humanos. De um lado. insistiram em que. Dadas as circunstâncias. Juridicamente. Diante de tal teoria. enfim. tornar a natureza legal do Direito Internacional depende do sucesso de sua aplicação. de duas maneiras. é atribuir-lhe cânones de validade que o jurista não sonha aplicar ao Direito Nacional. os Estados concordam com os regulamentos do Direito Internacional. são o reconhecimento de que os tempos de independência do Estado já passaram definitivamente. Podem ser dadas duas soluções ao primeiro. será um sistema completo em si mesmo. alegaram que o Direito Internacional é meramente Direito Nacional. Mas nenhum dos dois pontos de vista é satisfatório. é de natureza irreal. E a lógica de tal sujeição é a primazia dos imperativos legais exercidos por tal poder superior sobre todas as vontades que tentem invadi-los.

independente do Direito Nacional. como costumamos dizer. Se uma de suas regras não é observada. e a famosa decisão de Lorde Parker no Zamora * mostra o quanto esses tribunais já estão preparados nesse sentido. como a herdamos de Hobbes e Austin. C. é a divisão. Podemos argumentar ainda que os regulamentos internacionais são agora aplicados não somente na Corte Internacional de Justiça. essa característica não existe na sociedade dos Estados. aceitar a teoria clássica de soberania. Isso significa. deixa de satisfazer as complicadas condições da sociedade atual. pois todo o propósito do Direito Internacional é regulamentar a conduta de cidadãos que vivem. não há ninguém sobre quem recaia diretamente a obrigação de aplicar a sanção pela infração cometida. é importante considerar suas implicações. Antes de aceitarmos essa crítica como inevitável. Para tal. É simples. diz-se. a impor seus imperativos sobre seus concidadãos. e somos levados a admitir que o Direito Municipal é derivado de postulados que o Direito Internacional impõe. encarar o Estado como ordem legal porque repentinamente surge um grupo de homens. Isso não é tudo. que mais nos interessa. na realidade. mas também que * (1916) 2 A. Ele não pode atingir seus propósitos a não ser subordinando as vontades dos Estados àqueles propósitos. e essa teoria. em Estados. porém. Admite-se que a lei é criada por um organismo do Estado que tem o poder de aplicar sanções onde necessário. autorizados pela posição que ocupam. é irrefutável sua inerente superioridade a esta vontade. como já vimos. Um argumento final poderá ser considerado. 93 . Estamos menos preocupados com a descoberta de um poder superior comum através de cuja vontade toda lei é feita do que em encontrar organismos apropriados para elaboração de leis necessárias aos diferentes setores da vida social. Podemos argumentar que muitos dos regulamentos do Direito Internacional são normalmente e naturalmente aplicados pelos tribunais ordinários de justiça em determinado Estado. e não a unificação de funções.

suas decisões configuram cada vez mais a natureza do trabalho feito em todos os setores preocupados com essa matéria. pelo menos. na Carta das Nações Unidas elas tornaram-se claras e definidas. É evidente. se não como um gabinete. O importante era que o Conselho da Liga já funcionava. com todas as suas imperfeições. A tendência da história comum desses dois órgãos tem sido no sentido de dar maior expressão a essa idéia. as formas de responsabilidade corporativa eram rudimentares. além do mais. que a Liga e as Nações Unidas. pelo menos como um grupo semelhante a um órgão elaborador de instruções. caminhava no sentido da noção de que a ação agressiva poderia ser definida com precisão e de que o Estado responsável pela agressão deveria incorrer no desagrado de todos os membros da Liga. possuindo competência legal suprema. parte da mesma esteja limitada pela dependência de unanimidade entre os Grandes Poderes. um órgão dessa natureza. na esperança de que uma espera pudesse proporcionar a reflexão que promove mediação profícua. pode-se dizer. que os povos do mundo contavam . A Assembléia da Liga. a apoiar qualquer decisão que ela possa tomar. além do mais. em princípio. a priori. o Conselho de Segurança das Nações Unidas é definitivamente. teve um efeito direto e impressionante na opinião pública e a Assembléia Geral das Nações Unidas (embora teoricamente possuindo menos poderes do que a Assembléia da Liga. E a diferença principal de princípios entre as Nações Unidas e a Liga repousa precisamente neste ponto: que o Conselho de Segurança das Nações Unidas está investido de plenos poderes executivos. em favor dos membros das Nações Unidas que estão comprometidos. na prática. assim como o Conselho de Segurança possui mais poderes do que o Conselho da Liga) mostrou também uma surpreendente vitalidade e tendência para dilatar seu âmbito. Segundo a Convenção da Liga. Deficientes e impropriamente usados como devem ter sido os mecanismos da Liga e das Nações Unidas. embora. têm representado uma expressão institucional da idéia de sanção. Uma Convenção levada a efeito pela idéia de transferir o irrompimento da guerra.

apesar de suas fraquezas e de suas vicissitudes. no entanto. mas sim pela rigidez das obrigações que impunha a seus membros para manterem a continuidade de sua soberania. II Uma instituição como a Liga. Ela tenderá a valer-se de sua autoridade para estabelecer normas de conduta para os Estados. e tivesse a Liga que desaparecer. A Liga ressentiu-se muito da ausência dos Estados Unidos. ou as Nações Unidas. dentro de um campo cada vez mais amplo. de seus trabalhos no campo social e científico. É claro que a fundação da Liga das Nações representou um estágio decisivo na história das instituições políticas. em todos os assuntos de interesse comum à sociedade . e é mais sensato procurar-se a limitação do veto no desenvolvimento das disposições convencionadas sobre seu emprego do que na revisão da Carta. tanto na forma como nos fatos. durante toda a sua existência. Mas. Pode-se afirmar. para limitar as questões sobre as quais os Estados estão autorizados a legislar por iniciativa própria. se não fosse por eles. As Nações Unidas incluem tanto os Estados Unidos como a Rússia. atualmente restritas aos Grandes Poderes e à cooperação internacional. O poder do veto. na realidade. só pode desenvolver-se através das contínuas restrições dos direitos de Estados individuais. exceto em seus últimos cinco anos. e também da Rússia por todo o período.com elas para limitar e controlar os excessos dos Estados individuais. é difícil por-se em dúvida tanto o valor da Liga e das Nações Unidas como a necessidade de uma organização desse tipo. Mas ela foi destruída não por este fato. nem por seus próprios defeitos de funcionamento. com justiça. outro órgão semelhante teria que ser criado. que. o mundo seria mais pobre e mais feio. deve ser encarado como inevitável num órgão dentro do qual não existe ainda a vontade de converter-se em governo do mundo. O que tem contribuído para sua bem sucedida evolução. mas continuam a enfrentar a contradição fundamental entre as liberdades soberanas. é o fato de representar um poder.

somente depois de longo e penoso trabalho. superou grandemente o poder de consumo. Além disso. uma das principais causas do caos. Pelo menos alguns desses assuntos definem-se por si mesmos. com equipamento técnico moderno. o processo de integração internacional estiver sendo concentrado. Desde a Segunda Guerra Mundial. tarifas e migração. Pois esses fatos representam o princípio e não o fim da evolução que. tem tido grandes efeitos na comunidade internacional. foi o direito incontrolado do Estado individual de determinar sua política monetária. A conseqüência desse estado de coisas deverá ser. O direito de guerrear. devido à paralisação das Nações Unidas. através da distribuição desigual de poder aquisitivo.um controlado pelo Cominform. dos métodos de comerciar e dos padrões de trabalho. a arbitração de armamentos. O resultado foi que Estados. sem dúvida alguma. Uma restrição drástica de crédito em Washington poderia causar uma queda desastrosa nos preços internacionais. têm sido . em primeiro lugar. A Liga das Nações foi concitada a considerar a importância das causas econômicas da guerra e foi dada forma institucional a esta questão com a criação do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas. cedo ou tarde. no século passado. nos anos que intercalaram as guerras. o controle internacional das matérias-primas.internacional. uma retenção descuidada de ouro em Paris poderia representar desemprego no Japão e na América do Sul. em conseqüência de desentendimentos entre os Grandes Poderes. são todas questões sobre as quais o Estado individual não deve ter autoridade para decisões definitivas por um período muito longo. nos dois grandes grupos que surgiram da Segunda Guerra Mundial . entraram em competição febril para a conquista de mercados de exportação e foram compelidos a proteger seus padrões de vida contra a competição de Estados com padrões mais baixos. a proteção de raças subdesenvolvidas. O poder de produção. Isso não será menos verdadeiro se. a delimitação de fronteiras. O desenvolvimento da ciência na indústria. e o outro organizado no Pacto do Atlântico. estamos destinados a testemunhar.

na Basiléia. nota-se claramente que o Direito Internacional pouco se tem preocupado com os direitos dos homens encarados como pessoas físicas merecedoras de sua proteção. portanto. de maneira bem semelhante à subordinação das sociedades anônimas bancárias inglesas ao Banco da Inglaterra.desenvolvidos organismos internacionais a fim de dar expressão mais efetiva à interdependência das finanças modernas. eles tiveram que procurar solução em seu próprio país. também. . e à luz das condições históricas. é um Estado soberano. O bom-senso leva-nos a inferir que o Banco Mundial. para que. mas também de demonstrar que esgotou. Enquanto perdurou a autoridade da Liga. e não tem havido meios de obrigar tal Estado a auxiliá-los a conseguir justiça. o Fundo Monetário Internacional e quaisquer sindicatos europeus de pagamentos administrados pelo Banco de Ajustes Internacionais. numa corte internacional. que estejamos no limiar de uma nova era nesse sentido. entretanto. não possa exigir satisfações. tem-se dito. ainda. neste terreno. Não há razão. Não há razão teórica para que o indivíduo de comprovada boa conduta. os recursos que o Estado transgressor fornece. dadas as circunstâncias. O caso de um cidadão ser tratado injustamente por seu próprio Estado tem sido encarado pelo Direito Internacional como assunto de jurisdição interna. pelas injustiças do Estado transgressor. o súdito de determinado Estado. para sua proteção. sem dúvida alguma. não tenha o direito de procurar justiça num órgão como a Corte Internacional de Justiça. fora de sua alçada. É possível. Pode-se. Ele deveria. ninguém tem o direito de discutir decisões que ele seja obrigado a tomar. prever um desenvolvimento sob plano diferente. a quem são negados direitos -cuja observância aquele Estado é obrigado a garantir pelas disposições do Direito Internacional -. Até aqui. estar em condições não somente de comprovar seu caso. que seja atingido injustamente pela ação de um Estado estrangeiro. O Estado. No caso de indivíduos que sofreram nas mãos de um país estrangeiro. sejam o princípio de um sistema monetário central de que os Estados se tornarão unidades dependentes.

significaria a efetivação. tem sido possível verificarse. em troca. já tinha uma geração de existência. O julgamento e a punição de crimes de guerra cometidos por súditos dos Poderes do Eixo foram mais sistemáticos do que nunca. os princípios de um eficaz Direito Criminal Internacional. Este julgamento representou um novo processo judicial. Analogamente. As conseqüências desse fato merecem consideração. de que a guerra agressiva é um crime contra a humanidade. mas o julgamento moral que dele surgiu. a competição era sua lei e. dando aos indivíduos o direito unilateral de levar uma ação a um tribunal internacional contra seus próprios Estados. com sanções efetivas contra Estados pela violação do Direito Internacional dos direitos humanos. e não legal. quanto mais pudermos desenvolver a noção de que o indivíduo é o objeto do Direito Internacional.que faziam parte do acordo de paz firmado em 1919 -deram um grau de proteção às minorias orientais européias. era tão natural para Austin interromper suas discussões sobre leis nas fronteiras do Estado quanto seria impossível para o pensador medieval discuti-las em termos que não universais.os Tratados de Minorias . definida como crime. com direitos compulsórios contra seu próprio governo. sob o conselho da Liga. atrás dessa competição. os líderes políticos de um Estado soberano foram julgados por planejarem e praticarem a guerra agressiva. portanto. um progresso na aplicação de leis análogas àquelas das quais se originou a lei comum. Embora seja de força moral. e esta. tanto mais ampla será sua força compulsória sobre os homens. A Declaração dos Direitos do Homem das Nações Unidas é uma fórmula mais ampla do mesmo princípio. desde a Segunda Guerra Mundial. Há cem anos atrás. O Julgamento de Nuremberg representou. está ainda incipiente. através de um protocolo executivo. O projeto de tornar o indivíduo sujeito ao Direito internacional. é o primeiro passo em direção a uma Carta Internacional de Direitos. No mundo de Austin o Estado parecia ser a última palavra na evolução das instituições. mas. no Tribunal Militar Internacional de Nuremberg. Pela primeira vez na história. com possibilidade de acesso à Corte Permanente para consulta. .

Nosso mundo é um mundo diferente. A soberania do Estado. Não podemos. paralelamente. Dentro desse ponto de vista. na realidade.estava a idéia. Aprendemos que o Estado não pode viver uma vida auto-suficiente. em que a lição da evolução histórica é a conquista de uma liberdade ainda mais ampla. ele é parte integrante da grande sociedade. cujas necessidades se fundem com todos os aspectos de sua natureza. desde que encaremos a necessidade de sua organização. na afirmação ansiosa do radicalismo de Bentham de que a liberdade de contrato é a solução final para os males sociais. não o valor da competição mas a necessidade de cooperação. deixar sem organização as faixas interestaduais e. A noção de que este poder pode ser relegado ao livre arbítrio de qualquer setor da sociedade tem-se revelado incompatível com um bom padrão de vida. tornou-se tão perigoso quanto o velho ideal de indivíduos isolados de insurgir-se contra seus próprios Estados. se deseja ter uma vida pacífica e um contato coerente com outros Estados. mas sim a dependência internnaicona1. portanto. é tão obsoleta quanto a soberania da Igreja Romana há trezentos anos passados. no mundo ao qual pertencemos. como pensava Aristóteles. É o mesmo otimismo que se vê na “mão invisível” de Adam Smith. Ele está autorizado a controlar questões de âmbito local. e nos ensinamentos de Hegel. portanto. O ideal dos Estados soberanos. Precisamos criar uma teoria funcional de sociedade. na qual o poder seja organizado para fins claramente expressos nos casos em que somos obrigados a usá-la. Não é a separação nacional. em seu curso corrige tudo se confiarmos apenas em sua sabedoria imparcial. de que a Natureza. a maneira natural de abordar os problemas políticos é encarar o Estado como parte da grande sociedade e insistir. não pode prevalecer-se desse direito para interferir em assuntos que envolvem outros Estados. Chegamos à conclusão de que conferir liberdade de contrato ao indivíduo não tem sentido sem igualdade do poder de negociar. que nos impressiona. em que seus regulamentos sejam . é óbvio que a soberania do Estado significará anarquia. herdada do otimismo benevolente do século XVIII.

tanto quanto possível.limitados pela sua necessária subordinação a interesses maiores do que os seus. Mas a intenção deliberada nesse sentido é a melhor garantia para o sucesso desse empreendimento. que nenhum outro mundo conheceu. que Macaulay há mais de um século anunciou seria o dia de maior orgulho da história da Inglaterra. Instituições que conquistaram o poder não abdicam de sua autoridade sem reação. as desconfianças nacionais e religiosas. acima de tudo. o desenvolvimento da intolerância política e a hostilidade a idéias 1iberais na . os problemas pendentes do futuro da Alemanha e Japão. Entretanto. Na Convenção da Liga e na Carta das Nações Unidas. terá razões para concluir que as perspectivas de paz são infinitamente pequenas. discutiu-se muito o ideal de desarmamento. os dogmas e ortodoxias. Por outro lado. as rivalidades econômicas e. Qualquer um que considere as possibilidades de conflito que estamos enfrentando. Um novo mundo não pode esperar viver convenientemente mantendo os padrões do velho mundo. em dirigir nossos mandatos e territórios baseados nas velhas teses coloniais. é possível que venha a falhar o nosso esforço no sentido de uma organização internacional. vivemos hoje sob a ameaça de armamentos terríveis. Há muita coisa que nos autoriza a ter esperanças: a concessão de independência à Índia. Concordamos em que é árdua a tarefa de organizar a grande sociedade. em melhores condições estaremos de pensar em termos de uma jurisprudência que convenha ao nosso novo ambiente. as crueldades e fanatismos que têm acompanhado o desenvolvimento da experiência do comunismo na Rússia e na Europa oriental. o antagonismo entre a Rússia e a América que emergiu com a Segunda Guerra Mundial. Quanto mais conscientemente admitirmos que a soberania do Estado representou uma condição histórica já superada. de conceber as instituições apropriadas ao campo que ela deve controlar. mas não chegamos a ele e. Louvamos o princípio de tutela. os ódios raciais. os conflitos de raças e classes próprios do despertar nacional da Ásia e da África. Um Estado que já foi Leviatã não se rende facilmente. mas nos temos empenhado.

Na realidade. Nada nos autoriza a supor que aqueles que detêm o poder.que proclamam com alarde sua recusa em aceitar essa meta. Não aprendemos sequer a ter tolerância quando não sentimos da mesma maneira. através de nossa disposição de pagar o preço que ela exige. Lutando para conservar sua autoridade.os mais poderosos . Se vencem. cujos pés se acham tão próximos do abismo. uma geração como a nossa. há muitos homens . não tem direito a otimismo quanto a seu futuro. Os perigos que nos cercam são tão tangíveis e imediatos que somos levados a experimentar e inovar. abdicarão do mesmo em favor de ideais dos quais não compartilham. Para atingi-la. Não podemos ter certeza do sucesso. recuaremos diante das dificuldades da jornada. e essa vontade não poderá ser nem intensa nem ampla enquanto os interesses ligados às suas conseqüências forem tão desiguais. jamais acarretados por guerra alguma. se perdem. além do mais. ainda. e o preço da justiça é a igualdade.América. Nossos conflitos ainda conservam todo o amargor das guerras de credo. como a história recente da Alemanha e da Itália revelou. somente a substância dos credos mudou. envolvendo sacrifícios enormes e risco não menos graves. implantam a tirania e surge a perspectiva de anarquia. através de trágica . A vitória da paz depende de uma intensa e ampla vontade de obtê-la. como a história da Rússia evidencia. o grande Estado terá que se tornar humilde e os ricos serão concitados ao sacrifício. A idéia de sacrifício para a defesa do direito não é. todos esses fatos nos impedem de imaginar que o progresso seja um fato inevitável. repousa talvez nossa maior esperança. Não poderemos ser livres se não formos justos. uma vaga esperança de sucesso. o fato dela conhecer o caminho não é prova de que o escolherá. Não pode haver liberdade ou felicidade sem construirmos a paz. eles alimentam. pelo menos. Temos que submeter à prova nosso direito à paz. Se tivermos o conhecimento do caminho para a meta. Precisamos aprender a pensar na paz como uma aventura criadora. Verificamos. paradoxalmente. as perspectivas não são diferentes. Nisso. e usufruem suas vantagens. parte integrante dos hábitos mentais da humanidade.

Considerações Sobre a Revolução Francesa JOHN STUART MILL. H. Uma lista completa de livros ocuparia mais espaço do que é possível aqui. Conferências Sobre os Princípios de Deveres Políticos KARL MARX e FRIEDRICH ENGELS. pelo menos. transformará a herança que recebemos da civilização em algo muito menor do que uma simples recordação talvez nos dê o equilíbrio necessário para reconhecer que a justiça não é mais meramente um ideal destituído de significação. BIBLIOGRAFIA A leitura crítica de textos clássicos é a melhor maneira de se estudar política. afinal de contas. e Considerações Sobre o Governo Representativo T. de grandes proporções. Teoria Social R. A Cidade de Deus DANTE. Poderia. A Política SANTO AGOSTINHO. Cole. Leviathan JOHN LOCKE. talvez tenhamos. Da Monarquia THOMAS HOBBES. dos seguintes livros: PLATÃO. A mera suposição de que outro conflito. A República ARISTÓTELES. tomado conhecimento do perigo de tentar por sua força à prova. M. e as próprias dificuldades para a sua conquista talvez nos levassem a conceber a sua beleza. também. O Segundo Tratado de Governo Civil JEAN-JACQUES ROUSSEAU. MACIVER. O Estado Moderno . Sobre a Liberdade. O Manifesto Comunista Os debates mais modernos poderão ser encontrados em: G. GREEN. como são frágeis os hábitos da civilização.experiência. Mas o leitor necessita estar a par. H. haver um interesse comum quanto ao conceito de um padrão de vida satisfatório. D. O Contrato Social EDMUND BURKE.

A Revolta Pragmática na Política LÉON DUGUIT. A Liberdade do Estado Moderno LORDE HUGH CECIL. A Teoria Metafísica do Estado . Conservadorismo W. T. HOBHOUSE. ELLIOTT. J. A Lei no Estado Moderno L.H. LASKI. Y.