A CAMPANHA DO TRIGO

«O trigo da nossa terra é a fronteira que melhor nos defende», afirmava o regime

A 21 de Agosto de 1929 foi publicado no Diário do Governo o decreto que deu início à Campanha do Trigo. Tinha como objectivo directo promover o aumento da produção deste cereal até às necessidades do consumo nacional, evitando assim que fossem para o estrangeiro «importantes caudais de ouro» para pagamento das importações. Visava também «dignificar a indústria agrícola como a mais nobre e a mais importante de todas as indústrias e como primeiro factor de prosperidade económica da Nação» (decreto nº 17252). Ainda que abrangessem a produção cerealífera de todo o País, as medidas promulgadas no âmbito desta campanha direccionavam-se sobretudo para o Alentejo. Na verdade, as políticas governamentais estavam, desde 1899, a contribuir para que a regiãoconsolidasse a imagem de «celeiro de Portugal» que manteve durante t odo o século XX.

Ao contrário de grande parte da legislaç o que incidiu sobre outras actividades agrícolas este decreto foi publicado no momento certo do ciclo produtivo do trigo, o que denota algum cuidado por parte do legislador. No final d o Verão, terminadas as ceifas e arrecadado o cereal da colheita de 1929, era altura de fazer as contas e de planear a nova safra. Este diploma e os que se seguiram na década de 30 estabeleceram as medidas de carácter técnico, financeiro e regulamentar que orientaram as políticas do trigo até meados dos anos 60.
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Apoios públicos Entre as iniciativas técnicas e tecnológicas previstas contavam-se: empréstimo de equipamentos às exploraç es agrícolas, criação de campos experimentais, assistência directa aos produtores, selecção de sementes, instalação de celeiros centrais e demonstração de adubos. Devido à desorganização e escassez de meios de que dispunham os serviços públicos, algumas destas medidas não passaram de promessas ou foram adiadas até se tornarem urgentes. Já as iniciativas de carácter financeiro subsídio de arroteia, crédito de campanha, fixação de preços ao produtor, prémios de produção tiveram aplicação mais lata. Nos anos 30, os produtores recebiam 100$00 (ou seja, 50 cêntimos de euro) por hectare de terreno inculto ou ocupado com vinha que fosse reconvertido ao trigo. Passaram também a usufruir de um empréstimo de capital circulante para financiar as operaç es de cada ano (alqueive, sementeira, adubos, monda, colheita, debulha e recolha) e, ainda, de um preço fixo para o trigo que produzissem, que lhes garantia lucro e os tornava quase imunes às flutuaç es do mercado. Tais apoios foram suportados pelo erário público. No primeiro ano de campanha, o Estado despendeu 5 mil contos, no segundo 7, 2 mil contos, depois esta verba começou a baixar. No total, o investimento público saldou -se, de 1929 a 1936, em pouco mais de 32 mil contos. A partir de 1933 foram suprimidos alguns mecanismos específicos da campanha. Todavia, manteve-se o essencial. Até meados dos anos 60, houve protecção alfandegária, um nível de preços relativamente elevado e facilidades para obter o crédito de campanha. Assim, a vocação cerealífera do Alentejo perpetuou-se não porque esta fosse uma cultura economicamente viável, mas devido ao forte apoio estatal. Estes incentivos estimularam o alargamento da superfície anualmente semeada. Passou de 438 mil hectares, entre 1925 -29, para cerca de 497 mil hectares nos anos 30, continuando a aumentar a década seguinte. O mesmo não aconteceu com a produção. No quinquénio de 1925 -29 produziram-se por ano à volta de 280 toneladas de trigo, em 1930 -34 contabilizaram-se 507 toneladas, o que foi interpretado como um enorme sucesso da Campanha do Trigo. Mas durou pouco. No quinquénio seguinte, a
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produção anual rondou as 440 toneladas e na década de 40 foi ainda menor, apenas voltando a subir nos anos 50. Excepto nos poucos anos de boa produção nacional, manteve-se a importação de trigo exótico para satisfazer as necessidades internas. Os anos de colheitas mais elevadas, especialmente entre 1931 e 1935, permitiram satisfazer as necessidades nacionais e criar excedentes. 1934 continua a ser lembrado como o ano em que «até as pedras deram pão». Surgiram, porém, novos problemas. Nos primeiros tempos, as estruturas de recolha e armazenamento não tiveram capacidade para acorrer a toda a colheita e uma parte perdeu-se: apodreceu mal acondicionada em sacaria e armazéns desadequados. Para resolver esses problemas foi criada uma rede institucional que controlav a o processo desde a terra à padaria. À Federação Nacional dos Produtores de Trigo (FNPT), criada em 1932, coube comandar a produção: os produtores ficaram obrigados a vender toda a colheita à organização pelo preço previamente fixado. Os negociantes de trigo desapareceram. O cereal era armazenado nos celeiros construídos nas principais cidades e vilas e, depois, conduzido para transformação à medida das necessidades. Os cilindros gigantescos que ainda povoam a paisagem alentejana e a de outras regiões, como Trás-os-Montes, têm as suas origens nas medidas frumentárias dos anos 30. A FNPT, em conjunto com a Federação Nacional dos Industriais de Moagem e outros organismos corporativos, passou a monopolizar todo o circuito.

O «celeiro de Portugal» Apesar de algumas desilusões, o entusiasmo alastrou pelo Alentejo. A combinação dos apoios estatais, que garantiram lucro, com as condições climatéricas propícias, que possibilitaram boas colheitas de trigo e não só, consolidaram os rendimentos dos latifundiários e criaram na restante população expectativas de melhoria de vida. Nos distritos de Portalegre, Beja, Évora e Setúbal a agricultura envolvia directamente milhares de interessados. Pelo recenseamento de 1930, a população activa agrícola nestes distritos rondaria 287 mil indivíduos, dos quais cerca de 19 por cento são classificados como patrões. A larga maioria, 81 por cento, foram considerados como trabalhadores por conta de outrem e como trabalhadores não remunerados. No contexto de uma agricultura pouco mecanizada, era no trabalho destes que assentava a exploração da vasta planície. Os assalariados rurais, que constituíam o grupo mais numeroso, estavam sujeitos a longos períodos de desemprego sazonal, a más condições laborais, a baixos salários. Muitos viram na Campanha do Trigo a possibilidade de escaparem à miséria, tornando -se seareiros. Os latifundiários permitiram que as famílias de seareiros e de rendeiros se encarregassem de desbravar as terras menos férteis das suas propriedades. Ainda que, quase sempre, salvaguardassem para si o subsídio que o Estado atribuía às novas

arroteias, a procura era enorme. Agricultores de todos os estatutos ansiavam por terras de semeadura. Para tal, reduziram os anos de pousio, arrancaram azinheiras e sobreiros, suprimiram áreas de pastoreio, resolveram mato e pedra. A azáfama continuou, mesmo quando o Governo e as associações de lavradores recomendaram moderação e a produtividade do solo estavam a baixar. Para muitos dos que se empenharam em fazer pequenas lavouras de trigo, todas as alternativas de que dispunham eram ainda piores e, até ao êxodo rural dos anos 60, foram acreditando que a sua situação haveria de melhorar.

Exaustão dos solos Os incultos deixaram de fazer parte da paisagem alentejana. Os estímulos públicos incentivaram o alargamento da área cultivada para além dos limites habituais, o que levou à utilização de terras pobres e pouco adequadas para os cereais. Exauridos os nutrientes acumulados à superfície, em milhares de hectares, o solo mostrou -se incapaz de suportar as exigências do trigo. Afinal, como afirmavam há décadas vários autores, em Portugal apenas os barros de Beja eram adequados para uma cultura tão exigente como esta. Na época, muitos entenderam que os adubos permitiram ultrapassar as limitações dos ecossistemas. É certo que o consumo de adubos aumentou, o que beneficiou este segmento industrial. Contudo, para que os adubos sejam eficazes é necessário que o solo tenha alguma fertilidade, que estes sejam adequados às sementes utilizadas e que haja outros cuidados técnicos. À semelhança do que estava a acontecer em outras regiões do Ocidente, a Campanha do Trigo materializou a aliança entre a ciência e a tecnologia, as quais se estavam a tornar aliadas na maximização da exploração dos recursos naturais. Acreditava-se que a agronomia poderia domesticar a Natureza, fazendo-a produzir quase tudo. A exemplo do que acontece em outros países, no Alentejo os impactos negativos desta aliança permanecem visíveis na paisagem, onde surgem montes sulcados pela erosão sem que, sequer, a floresta consiga crescer.

Os ministros e o ressurgimento da agricultura Numa «Saudação à lavoura» distribuída pelo Ministério da Agricultura em 1930, o ministro Henrique Linhares de Lima afirma: «Campanha do Trigo, Campanha do Pão, Campanha da Independência, como melhor lhe queiramos chamar, ela traduz a ideia, que já agora constitui para mim um credo, de que precisamos de caminhar e, de facto, nesta hora, caminhamos, para o ressurgimento da nossa economia agrícola.» Foi Linhares de Lima quem assinou o decreto fundador da campanha e quem assistiu aos primeiros meses de implementação das medidas legisladas (foi ministro entre 8-71929 e 21-1-1930). O seu percurso mostra que, mais do que um adepto das causas do sector agrícola, foi assumindo os cargos políticos que se ofereciam aos convictos apoiantes da ditadura. Desde os anos 30 que este militar de carreira atingiu a patente de coronel ocupou lugares tão díspares como presidente da Junta Autónoma das Obras de Hidráulica Agrícola, presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, ministro do Interior, deputado. A Campanha do Trigo terá começado a ser preparada quando a pasta de ministro da Agricultura esteve entregue (18-4-1928 a 7-7-1928) a Joaquim Nunes Mexia. Mas a instabilidade governativa que caracterizou a Ditadura Militar (que, por exemplo, levou Pedro de Castro Pinto Bravo a chefiar este ministério de 10-11-1928 a 8-7-1929), não garantiu que fosse este o promulgador da legislação. Entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do seguinte, Joaquim Nunes Mexia foi um prestigiado dirigente da Associação Central de Agricultura Portuguesa e ocupou inúmeros cargos em organismos públicos locais, regionais e nacionais. Este latifundiário de Mora e bacharel em Direito era reconhecido como um elemento importante do lobby dos senhores do trigo que, há décadas, pressionava os poderes públicos para que fossem tomadas mais medidas proteccionistas do sector. Os grandes produtores alentejanos, incompatibilizados e descontentes com as políticas da I República, estiveram entre os mais empenhados apoiantes do golpe militar de 1926 e do Estado Novo. Ao longo do período, a lavoura do Sul foi estabelecendo alianças, por vezes instáveis e transitórias, com os representantes de outros interesses, como os da indústria da produção de adubos ou os do vinho, com vista à obtenção junto do Estado das medidas que lhe fossem mais convenientes.

Em termos europeus, as medidas frumentárias promulgadas nestes anos enquadravam-se na crescente propensão que o Estado estava a revelar, desde finais do século XIX, para intervir no sector primário. Esta tendência acentuar-se-á a partir da I Guerra Mundial, quando nos países ocidentais, independentemente do regime político que os governa, o Estado tende a aumentar os entraves alfandegários à circulação de produtos, influencia os preços dos b ens mais importantes, cria ou patrocina instituições para enquadrar as actividades produtivas e comerciais relacionadas com o sector agrícola. A Campanha do Trigo inspirou-se na Bataglia del Grano, promovida por Mussolini. Nesta, como em outras áreas, o fascismo italiano influenciou a ditadura portuguesa e outras que surgiram na Europa. Estas medidas foram acompanhadas por uma

propaganda de exaltação nacionalista e autoritária, que aliás se estendia também a outros domínios do passado e do presente do País. Por um lado, inseria-se a campanha na frente de combate nacional à dependência alimentar face ao estrangeiro, afirmando: «O trigo da nossa terra é a fronteira que melhor nos defende». Por outro, manifestava-se a ambição mais vasta de difundir o amor pelo cultivo da terra e pelos valores ruralistas, projectando na agricultura, e não na indústria, um futuro glorioso para a Pátria. Como em décadas anteriores, o pão, que era o alimento mais importante na dieta alimentar dos Portugueses, continuava a ser uma arma política, agora ao serviço da ideologia do Estado Novo. Tal como nas «ditaduras irmãs», como lhe chama Pequito Rebelo.

A luta entre o pão e o vinho Desde há muito que a «luta» entre o pão e o vinho fazia estalar polémicas nas páginas dos jornais, nas tribunas parlamentares. A questão apresentava facetas opostas. No pão, seria necessário aumentar a produção de modo a suprir as carências nacionais. No vinho, as colheitas suplantavam com frequência as necessidades internas e os excedentes tornaram-se um problema de difícil resolução. Tratava-se de encontrar mercados para um produto que, não sendo de primeira necessidade nem de boa qualidade, estava mais sujeito às flutuações económicas e à concorrência de outros países produtores. Os defensores da vitivini cultura entendiam que se as condições agro-ecológicas do País eram propícias para a produção de vinho, o Estado teria de favorecer o escoamento. Tanto mais que este estava entre as principais exportações. Na primeira metade dos anos 30, a instabilidade pol ítica interna combinou-se com os impactos da Grande Depressão e com excelentes anos agrícolas para agitar os interesses ligados aos principais sectores agrícolas nacionais. Entre 1930 e 1935 registaram-se nos dois sectores as melhores colheitas de que havia memória. Assim, ao mesmo tempo que se debatiam com os novos problemas de armazenamento de cereais, os governos tiveram que enfrentar também os recorrentes problemas trazidos pelo sucesso da vitivinicultura. Para o vinho, o sistema de intervenção foi diferente do adoptado para o trigo: o comércio livre não foi suprimido e a organização corporativa actuava ao lado dos agentes privados: garantia-se aos produtores que poderiam vender à Junta Nacional do Vinho (JNV) tudo o que os comerciantes rejeitassem, asse gurando um preço mínimo que, mesmo sendo mais baixo do que o obtido no mercado, oferecia sempre algum lucro para os produtores. A área com vinha foi crescendo visando mais a quantidade do que a qualidade do vinho, já que a JNV assegurava o escoamento de qualquer zurrapa.

IMPORTANTE:
O artigo apresentado é da autoria de Dulce Freire e foi publicado no livro 1933 A Constituição do Estado Novo da colecção Os Anos em que Salazar governou . Assim, não é dispensável a leitura e análise do artigo no livro citado.

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