Revista Eletrônica Acadêmica de Direito

Law E-journal

PANÓPTICA

O princípio da legalidade no direito penal brasileiro

The principle of legality in brazilian penal law

Rommero Cometti Tironi
Bacharelando em Direito pela UFES – Universidade Federal do Espírito Santo.

Resumo: O princípio da legalidade, como uma das principais garantias individuais do cidadão, tem aplicação em todos os ramos do direito. Restringimo-nos aqui a abordar a legalidade no âmbito do Direito Penal, fazendo breve menção à sua previsão constitucional no inciso II do art. 5º da Constituição Federal. Pretendemos, com este lacônico estudo, apontar as características fundamentais do princípio da legalidade, suas funções, bem como as implicações que daí decorrem, os princípios que com ele se relacionam diretamente e a aplicação da lei penal no tempo, trazendo algumas orientações jurisprudenciais dos Tribunais Superiores sobre os assuntos mais relevantes. É garantia individual de cunho constitucional cuja análise é imprescindível para a compreensão de todos os outros institutos do Direito Penal, sendo também o princípio mais importante desse ramo do Direito. Sem a pretensão de esgotar o tema, estudaremos apenas as questões do instituto que reputarmos mais relevantes.

Palavras-chave: Estado de Direito. Direito Penal. Princípio. Legalidade. Norma penal.

Abstract: The principle of legality, as one of the main citizen individual guarantees, is applied in all spheres of law. Here we limit ourselves to analyze legality by the Criminal Law point of view, briefly mentioning it’s constitutional appearance in art. 5º, number II, of the Federal Constitution. We intend, by this laconic study, indicate the fundamental characteristics of the principle of legality, it’s functions and the arising implications of it, the principles directly related to it and the application of the criminal rule according to time, bringing some precedentes of the Superior Courts about the most relevant subjects. The principle of legality is a constitutional individual guarantee whose analysis is indispensable

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for the comprehention of all other institutes of Criminal Law and it’s the most important principle of this ambit of Law. There’s no intention in exhausting the subject, so we’ll study only the issues that we repute most relevants.

Keywords: State of Law. Criminal Law. Principle. Legality. Criminal rule.

Sumário: 1. Estado de Direito e princípio da legalidade. 2. Princípios qualificadores da legalidade no Direito Penal. 3. Origem. 4. Funções. 5. Legalidade formal e legalidade material. 6. Conflito de leis penais. 6.1. Lei penal no tempo. 7. Norma penal em branco. 8. Bibliografia.

1 ESTADO DE DIREITO E PRINCÍPIO DA LEGALIDADE

Estado de Direito é uma concepção imediatamente ligada ao princípio da legalidade. INOCÊNCIO MÁRTIRES COELHO remonta o conceito de Estado de Direito ao direito alemão, mencionando BÖCKENFÖRDE, o qual ressalta que o surgimento dessa expressão se deu na Alemanha. Seu significado não tem correspondente exato em outro idioma, significando, no âmbito da teoria do Estado do liberalismo alemão, dentro da qual foi cunhada a expressão, o Estado da razão, do entendimento, ou “[...] o Estado em que se governa seguno a vontade geral racional e somente se busca o que é melhor para todos”. O autor aponta, então, características essenciais do Estado de Direito: não é criação de Deus, estando a serviço dos interesses de todos os indivíduos; sua atividade cinge-se a garantir a liberdade, a segurança e a propriedade, assegurando a todos a possibilidade de desenvolvimento individual; e: 1

[...] a organização do Estado e a regulação das suas atividades obedecem a princípios racionais, do que decorre em primeiro lugar o reconhecimento dos direitos básicos da cidadania, tais como a liberdade civil, a igualdade jurídica, a garantia da propriedade, a independência dos juízes, um governo responsável, o domínio da lei, a existência de representação popular e sua participação no Poder Legislativo (grifo nosso).

MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de direito constitucional. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 41-42.

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2 ZAGREBELSKY. Belo Horizonte: Del Rey. 55. René Ariel. Pedro. 71 e 81. p. Ob. p. CAPEZ. Curso de direito constitucional. 6 BECCARIA.. Ob. I. 12.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA Um Estado com o predicativo “de Direito” tem como principal característica. 4 MORAES. 11. São Paulo: Damásio de Jesus.4 Vale a lembrança de que todas as Constituições brasileiras trouxeram o princípio da legalidade no sentido do Direito Penal em seu bojo. DOTTI. que o posiciona como garantia constitucional LENZA. 15. p.. sendo inclusive garantia individual. 1. p. Direito constitucional esquematizado. 2). 561-562. cit. BRANCO. 2002. Direito penal. Cesare. 1. Alexandre de. 98. da Constituição). ed. ainda que possa vir a ser invalidada por inconstitucionalidade. ed. tendo-se-o como verdadeira garantia do cidadão (art. 159. Crimes omissivos impróprios. Dos delitos e das penas. SANTOS. José Frederico. Curso de direito penal: parte geral. 55 e 183. 536.. Direito criminal. Rio de Janeiro: Forense. Em sentido diverso. Julio Fabbrini. lei fundamental do moderno Estado de Direito. 5 2 PRINCÍPIOS QUALIFICADORES DA LEGALIDADE NO DIREITO PENAL Trasladado especificamente para o âmbito do Direito penal. Paulo Gustavo Gonet. afirma categoricamente que. Belo Horizonte: Del Rey. ed. Ob. 25. Gillmar Ferreira. BIERRENBACH. p. p. p. São Paulo: Martin Claret. Ela vale porque é lei. 53. v. e ampl. 5º. p. 55. Campinas: Bookseller. Direito constitucional. e não pelo conteúdo de sua prescrição 3. 2002. a lei não depende de legitimação material.. II. 2 264 . Sheila. Sua aplicação é idêntica. 178. v. LENZA. Daí a garantia de que ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer algo senão em virtude de lei (art. p. 2000. 25) e na Constituição espanhola (art. Direito constitucional esquematizado. 56. 69. 2001. sendo formalmente válida. p. excepcionando a Constituição de 1937. NUCCI aponta três significados principais de legalidade: o político. 2. rev. 2000. É exatamente esse o princípio da legalidade. e atual. É claro que não podemos aderir cegamente à ideia de que a lei. BIERRENBACH. Pedro. Manual de direito penal. 158. cit. Crimes omissivos impróprios. ed. MENDES. p. 5º. GRECO. Inocêncio Mártires. MARQUES. 1. COELHO. cit. 10. Curso de direito penal: parte geral. atual. 9. Curso de direito penal: parte geral. COELHO. 2004. Sheila. e 24. v. Ob. p. 20. René Ariel. 1997. DOTTI. Tratado de direito penal. Curso de direito constitucional. Rogério. CF). Rio de Janeiro: Impetus. 6. cit. 2006. Inocêncio Mártires. 1. BRANCO. e atual. 1. Hodiernamente temos que admitir uma legalidade comprometida com a Constituição. MIRABETE. v. ed. 2006. 2. Marino Barbero. cit. Vemos que a afirmação é fruto da tamanha importância que é dada à lei no Estado de Direito. São Paulo: Atlas.. 2002. Ob. São Paulo: Atlas. Ob. Gillmar Ferreira. p. o princípio da legalidade assume feições peculiares. exatamente o domínio da lei. 3 MENDES. São Paulo: Método. 16. rev. p.. rev. comunica-nos previsão semelhante na Constituição italiana (art. p. cit. 5 DOTTI. Paulo Gustavo Gonet. Fernando. ed. ed. René Ariel. 19. citado por INOCÊNCIO COELHO. XXXIX. 6 todavia vários outros princípios associam-se a ele. Curso de direito penal. então.. 3. p. atual. Estado constitucional de derecho y sistema penal. sê-lo-á invariavelmente no âmbito jurídico. ed.

stj. da Constituição. designa a exclusividade da intervenção do Direito Penal para os casos de violação aos bens jurídicos mais importantes. v. cit. garantindo maior segurança jurídica ao cidadão.. cit. Ob. também qualificador da legalidade. 2. No momento de cominação das penas de cada crime (bem como na aplicação).. v. Código Penal comentado. René Ariel. v. Ob./dez. Rogério. Informativo jurídico da Biblioteca Ministro Oscar Saraiva. produzidas pelo Poder Legislativo e em conformidade com o processo legislativo constitucionalmente disciplinado. II. cit. por não ser essa a pretensão deste estudo. Luiz Vicente. por exemplo. 59-60. BECCARIA. Curso de direito penal.. mas também a uma gama de outros princípios. NUCCI. 63. é a criação da lei penal vinculada ao Direito Penal como ultima ratio. LIMA. p. Novas tendências do direito penal: descriminalização e incriminalização. n.. Revista do Tribunal Federal da 1ª Região. p. Código Penal comentado. de grave violação a esses bens. 2009. rev. 2005. Diz esse princípio que o Direito Penal. cit. traduzido pelo art. p.. 64-65. os quais não abordaremos aqui em sua totalidade.. 3-4. temos o princípio da fragmentariedade. 2. cit. o jurídico lato sensu.. Guilherme de Souza. Curso de direito penal: parte geral. Cesare. surge uma série de princípios.. v. p. Ob. 1997. v. Deverá o valor da pena corresponder razoavelmente à gravidade da conduta praticada pelo agente. 10 Mencionemos também o princípio da taxatividade. 9 GRECO. cit. Rogério. p. jul. 9. 17. DOTTI. São Paulo: Revista dos Tribunais. 81. Brasília. abr. 53-54. DF. somente deverá intervir em situações específicas. I. Curso de direito penal: parte geral. p. 10 GRECO. segundo o qual a lei penal deverá ser categórica e o mais clara possível. p. Guilherme de Souza. Curso de direito penal. 7 Auxiliando-o. 42 e 45. Curso de direito penal. o NUCCI. ed. 4. 65.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA dos direitos fundamentais. apesar de proteger apenas os bens jurídicos mais importantes. 8 O princípio da intervenção mínima. 12 Ademais. Disponível em: <http://bdjur. cit. p. e o jurídico stricto sensu. 12 GRECO. p. Isso porque o legislador não está adstrito tãosomente ao princípio da legalidade para criar leis penais incriminadoras. Esse princípio limita o poder incriminador do Estado. René Ariel. Ob. 7 265 .gov. qualificando o princípio da legalidade. Acesso em: 30 mai. atual. e ampl. I. p. 9 Complementando a intervenção mínima./jun. DOTTI. consoante o qual os tipos penais incriminadores apenas podem ser criados por leis em sentido estrito.br/dspace/handle/2011/18180>. Curso de direito penal: parte geral. p. Ob. 67-68. Aloísio Palmeira. 43. n. Ob. Ob. 5º. René Ariel. Conflito aparente de princípios. I. de suma importância para a eficiência da legalidade. 2003.. Dos delitos e das penas. 21-22. Ob. tornando-o mais benéfico ao cidadão. 11 Não podemos deixar de citar o princípio da proporcionalidade. 8 CERNICCHIARO. cit. 11 DOTTI. Rogério. deverá o legislador atender ao critério da proporcionalidade. Brasília. “Fragmentariedade” porque importará ao Direito Penal apenas um “fragmento” das hipóteses de violação aos bens jurídicos mais importantes. Vale a menção de alguns deles.

Paulo José da. de trabalhos forçados. determina que uma conduta punível pelo Direito Penal não é só aquela que se subsume a uma descrição típica.1999. cit. v. v. bem como aeronaves e embarcações brasileiras mercantes ou de propriedade privada que se encontrem no espaço aéreo correspondente ou em alto mar (art. § 1º. garantido constitucionalmente (art.. Curso de direito penal: parte geral. v. e atual. I.07. I. 127-143. 1. 14 13 266 . Tomamos a GRECO. Finalmente.. t. Rogério. Ob. Ob. 1995. Curso de direito penal. São Paulo: Revista dos Tribunais. DJ de 01. Belo Horizonte: Del Rey... ed. v. j. Ob.. corroborando a intervenção mínima exigida pela natureza repressiva do Direito Penal. 2004. GRECO. 16 VARGAS. São Paulo: Revista dos Tribunais. é aplicada a lei brasileira a todo crime cometido no território brasileiro.251/RJ. COSTA JR. e ampl. CF). Referindo-se à relação entre irretroatividade e legalidade. lagos e rios. De nada adianta saber que para se ser obrigado a fazer ou a deixar de fazer algo deve haver uma lei dizendo que deve ser assim se não se sabe em que lugares será aplicada essa lei. senão aquela que efetivamente lesiona o bem jurídico protegido por aquele tipo penal (nullum crimen sine iniuria). CAPEZ. cit. cit. p. Fernando Gonçalves. Min. p. os princípios da territorialidade e da extraterritorialidade contribuem também para uma maior segurança jurídica para os cidadãos. 7. Luiz Flávio. p. Dessarte. de caráter perpétuo. 20-21. rel. 5º.06. 2002. onde quer que estejam. 119-122. p. de natureza pública ou a serviço do governo brasileiro. os mares interiores. rev. GRECO. 15 Art. impede que uma lei penal imponha penas de morte. 5º. São Paulo: Saraiva. DOTTI. p. temos também o da irretroatividade da lei penal (constitucional. CP). Rogério. limitada pelas fronteiras. Ob. 3. p. BIERRENBACH. compreende a área terrestre. 14 Acompanhando o princípio da legalidade. 69. Ob. Luiz Vicente. o mar territorial e as ilhas marítimas. Princípio da ofensividade no direito penal. território é o espaço onde o Estado exerce sua soberania. 13 O princípio da ofensividade. XL. o espaço aéreo correspondente e as embarcações e aeronaves brasileiras. p. 09. Curso de direito penal. cit. 5º. CC 23. Curso de direito penal. Serão punidos agentes que houverem praticados crimes no estrangeiro nas hipóteses previstas no art. GOMES. José Cirilo de. I. p. ed. 34-35. 7º. René Ariel. Sheila. 130-131. Direito penal na Constituição. 1997. apenas se permitindo a retroatividade se a lei for mais benéfica ao réu). Instituições de direito penal. rev. Curso de direito penal. 48.16 O princípio da extraterritorialidade é aplicável em situações excepcionais. de banimento ou cruéis. Crimes omissivos impróprios. 87. bem lembrado por LUIZ FLÁVIO GOMES. Rogério. CF. I. 114.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA princípio da limitação das penas.15 São todos princípios voltados a beneficiar o cidadão. 61-62. p. CERNICCHIARO.1999. Para efeitos de aplicação da lei penal no espaço. Fernando. Pelo princípio da territorialidade. p.. 3ª Seção. cit. I (extraterritorialidade incondicionada) e II (extraterritorialidade condicionada). XLVII.

87-88. Desenvolveram essas ideias John Locke 19 e Montesquieu 20. Sheila. a primeira aparição do princípio da legalidade. aos condes e aos barões. Ob.. José Cirilo de. Na Europa. cit. Nenhum homem livre será detido. Crimes omissivos impróprios. nem perturbado de maneira alguma. cit. rev. sem maiores complicações. Francisco de Assis. 17 3 ORIGEM Muitos afirmam remontar à Magna Carta. cit. Curso de direito penal. I. cit. e não poderemos. Rogério. Sheila. de José II. José Cirilo de. cit.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA liberdade de não dispô-las aqui. fazendo menção expressa ao princípio. 99. entre outros.. VARGAS. p. Ob. Rio de Janeiro: Forense. Ob. Charles de. afirmando o caráter aristocrático da Magna Carta e entendendo que a proteção. The spirit of laws. propagando-se com os enciclopedistas. cit. Ob. erigiu-o à categoria de direito fundamental. DOTTI. BIERRENBACH. 1994. BRUNO. o primeiro registro após a Magna Carta fora a Ordenança Penal Austríaca. 39 assim dispunha: 18 Art. Instituições de direito penal. era voltada aos senhores feudais. ed. 17 267 . Em sentido diverso. de 1789. a Josefina. Ob. São Paulo: Saraiva. do final do século XVII ao início do século XVIII.. nem posto fora da lei. p. p. 19 LOCKE. 20 SECONDAT. 22 Quem trouxe o VARGAS. mais precisamente na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão... 39. o Bill of Rights e as Constituições das colônias inglesas na América do Norte já o haviam mencionado. Curso de direito penal: parte geral. p. como primeiro reconhecimento legislativo. 17-18. Kitchener: Batoche Books. Rogério. Baron de Montesquieu.. I. 5. I. t. 5. do início de 1787. Petrópolis: Vozes. 1994. Segundo tratado sobre o governo civil e outros escritos. por serem hipóteses e condições categóricas de aplicação da lei brasileira. nem despojado de sua propriedade. com destaque para o Bill de Virgínia.. Logo após. René Ariel. nem preso. p. cit. t. Princípios básicos de direito penal. e atual. 133-135. ed. 21 BIERRENBACH. 21. a não ser em virtude de um juízo legal de seus pares e segundo as leis do País (grifo nosso). p. 18. nem faremos pôr a mão sobre ele. Aníbal. p. Seu art. Instituições de direito penal. nota 12. ali. 124. Crimes omissivos impróprios. O Congresso da Filadélfia. com os filósofos. foi com a Revolução Francesa que o princípio amoldou-se às exigências do Direito Penal. No mesmo sentido. ainda em 1787. Direito penal: parte geral. John. de 1215. Antes dela. GRECO. de suas liberdades ou livres usos. GRECO. de 1774. 21 Por outro lado. 2003. Ob. passim. p. Ob. passim. p. nem exilado. I. v. 2001.. 22 BIERRENBACH. Crimes omissivos impróprios. 17. v. Sheila. Ob. Curso de direito penal. I. 57. 127-131. 18 TOLEDO. cit. p. t. nasceu a Constituição americana de 1787.

24 o que não seria necessário.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA princípio à América Latina foi FEUERBACH. reforça a legalidade... 100-101.. Curso de direito penal. a criação de crimes e de penas pelos costumes. 25 DOTTI. cit. Atualmente. cit. sob o brocardo nullum crimen. 19. XL. 100. Rogério. Aqui o próprio dispositivo 23 24 CERNICCHIARO. 1º. v. Crimes omissivos impróprios. I. Vimos que o princípio da irretroatividade da lei penal. Rogério. abordaremo-los como aspectos atinentes ao princípio da legalidade. I. pois. ao analisarmos os princípios qualificadores da legalidade. p. BIERRENBACH. 26 Essa é apenas uma sistematização das funções do princípio da legalidade. p. Ob. Direito penal na Constituição. GRECO. cit. princípio da reserva legal e princípio da anterioridade da lei penal.. Consideramos equivalentes os três conceitos. cit. COSTA JR. René Ariel. Vejamo-las. Insta salientar que muitos autores diferenciam princípio da legalidade. 26 GRECO. Sheila. 4 FUNÇÕES Consoante o magistério de ROGÉRIO GRECO. Mesmo que se os considerem diversos. até Código de 1940. Ob. 5º. A primeira delas é a de proibir a retroatividade. o emprego de analogia na criação de crimes ou na fundamentação ou agravação de penas e as incriminações vagas e indeterminadas. 55. 268 . apenas não mencionando o nomen juris pretendido por alguns autores. com fulcro constitucional (art. Paulo José da. como preferem alguns) no seu art. o princípio da legalidade apresenta quatro funções fundamentais: proibir a retroatividade. Ob. com a Reforma de 1984). p. p.. então. v. Ob. p. Curso de direito penal.. CF). pois. Ob. Esta é a redação do inciso XL do art. já fizemos menção a todas elas. Luiz Vicente. 23 Vale lembrar que esse princípio sempre foi expressamente previsto no Código Penal brasileiro (desde o Código do Império. 14. essa punição apenas se poderá dar a partir do início da vigência daquela lei. salvo para beneficiar o réu” (grifo nosso). haja vista que a Carta Magna já dispõe nesse sentido. o Código Penal traz o princípio da legalidade (ou da anterioridade da lei penal 25. 5º da Constituição: “A lei penal não retroagirá. nulla poena sine lege. cit. além de uma pessoa só poder ser punida por previsão legal. de 1830. Curso de direito penal: parte geral.

. Curso de direito penal: parte geral. DJ de 02. No STJ. portanto a exceção se coaduna com essa ideia. I. p. cit. quando os juízes. p. 5ª Turma. cit. DOTTI. 30 Outrossim. Atentemo-nos para a afirmação: o princípio da adequação social não tem o poder de revogar tipos penais incriminadores. os princípios qualificadores da legalidade estão sempre voltados para o bem do cidadão. cit. 101.. v. 44. da atipicidade de certas condutas. GRECO. antes de tudo. TOLEDO. 230-231. I.08.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA constitucional que disciplina o princípio prevê uma exceção.. Francisco de Assis. René Ariel. A incriminação e a penalização são funções atribuídas exclusivamente à lei. DOTTI.. Nucci. Ob. pelo juiz.. Resp 11. 28 Por outro lado. cit. Dessarte. j.819. Código Penal comentado. desconsiderando o tipo penal do adultério. é imperioso admitir que os costumes não têm o condão de criminalizar condutas.09. Rogério. Ora. Francisco de Assis. 29 Vale aqui uma observação. Ob. ao legislador. Ob.1991. Ob. Rogério. p. Um brocardo resume essa função do princípio da legalidade: nullum crimen nulla poena sine lege praevia. não o aplicavam.1991. Curso de direito penal. p. I. TOLEDO. segundo o qual não devem ser criminalizadas (ou devem ser descriminalizadas) condutas socialmente adequadas ou reconhecidas. Como dissemos. Doutrinária e jurisprudencialmente se reconhece o costume como fonte do Direito Penal quando aparece para beneficiar o réu. não havia mais aquela repugnância de tempos atrás com relação à conduta adúltera. René Ariel. Francisco de Assis. 27 269 . 6162. 28 GRECO. p. 101. 29 TOLEDO. Curso de direito penal. ou seja. p. 22. rel.604/SP. Temos o chamado princípio da adequação social. cit.. v. nullum crimen nulla poena sine lege scripta. p.. Ob. Tanto deve ser assim que até recentemente se aderiu a essa prática. Princípios básicos de direito penal. Curso de direito penal: parte geral. cit. 11. Ob. Curso de direito penal. p. podendo-se aplicar a lei mesmo se ainda estiver em vacatio legis. cit. 14. Rogério. sob o pretexto de que. para que adapte o Direito Penal à cultura da época e do local nos quais se o aplicará.. diz-se que o Brasil aceita a retroatividade in mellius (ou proíbe a retroatividade in pejus). Destina-se. 30 GRECO. Min. v. Ob. 22. p. cit. Se a sociedade não abomina determinada conduta a ponto de ser tão importante que demande uma proteção do Direito Penal. 61-62. Princípios básicos de direito penal. Assim. Assis Toledo. 26. 27 A segunda diz respeito à impossibilidade de se criarem crimes ou penas pelos costumes. não podemos afirmar categoricamente que os costumes não exercem influência no Direito Penal. para a sociedade. deve ser admitida a aplicação do princípio da adequação como critério para a determinação. p. vimos que a principal implicação do princípio da legalidade é o fato de ser a lei a fonte precípua do Direito Penal (a única fonte imediata). Princípios básicos de direito penal. Ob. essa proteção não deverá ocorrer. desde que benéfica ao réu.

. v. razão pela qual não se deverá aplicar a pena desse crime. além de ter que ser previsto legalmente.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA A terceira função é a de proibir o emprego de analogias para se criarem crimes ou para se fundamentarem ou agravarem penas. da Constituição diz que ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer algo senão em virtude de lei. p. Ext 795/EUA. Ob. de 8 (oito) a 20 (vinte) anos”. I. É justamente isto que o princípio da legalidade abomina: tipos penais abertos. Ob. 232. Min. Não pode o cidadão ficar à mercê do intérprete. cit. por se basear num princípio de equidade. 270 . O que vêm a ser “interesses da pátria”? Que condutas almodariam-se ao tipo em questão? São perguntas sem resposta exata.. 32 TOLEDO. Sepúlveda Pertence. pois o tipo penal do art.2001. que o constrangimento feito pela mulher sobre o homem com essa finalidade é punível como crime de estupro. 101.08. René Ariel. Princípios básicos de direito penal. p. Ob. Isso porque as normas penais devem estar escritas.. Ob. cit. Em resumo. Rogério.. por exemplo. 213 do Código Penal apenas faz menção a “constranger mulher”. v. cit. 33 31 GRECO. DOTTI. TOLEDO.. cit. não se podendo impor. 33 TOLEDO. 101-102. o cidadão só é obrigado a fazer ou a deixar de fazer algo em virtude de lei. Curso de direito penal: parte geral. o princípio da legalidade é voltado também para impedir a analogia in malam partem. I. o cidadão encontra-se em situação de extrema insegurança. 233. Ob. Rogério. Curso de direito penal: parte geral. Pena – reclusão. j. Corroborando a vedação de criação de crimes por analogia. p. Ob. Pelo dispositivo constitucional. A lei deve ser taxativa. não sabendo exatamente o que deve deixar de fazer em função daquela norma. com base no princípio da legalidade. 22. II.. 32 Empresta-se a essa função o brocardo nullum crimen nulla poena sine lege stricta. não há lei alguma dizendo. expressamente (na forma escrita). Já vimos também essa função quando falamos do princípio da taxatividade. Por outro lado. Sendo esse tipo penal instituído por lei. cit. a pena do crime de estupro sobre uma mulher que constrangeu um homem a conjunção carnal mediante violência ou grave ameaça. legalmente previstas. DOTTI. 5º. 08. GRECO. A última função sugerida por GRECO é a proibição de incriminações vagas e indeterminadas. rel. Curso de direito penal. Princípios básicos de direito penal. 27. estará o cidadão obrigado a “deixar de atentar contra os interesses da pátria”. cit. Ob. Curso de direito penal. Ob.. Francisco de Assis. Princípios básicos de direito penal. Imaginemos um tipo penal com o seguinte preceito primário: “atentar contra os interesses da pátria. Diante da vagueza do tipo penal. Curso de direito penal: parte geral. p. p. Francisco de Assis. p. Ora. René Ariel. René Ariel. 31 A analogia não poderá ser empregada em prejuízo da parte. O crime. DOTTI. a analogia in bonam partem é amplamente aceita. deve ser disposto de forma categórica e clara.. O art. Tribunal Pleno. cit. Francisco de Assis. 22. cit. p. p.

Tentar submeter o território nacional.. cit. Ob.. Luiz Vicente. p..”. Exemplo é o art. Na União Soviética. 1º do italiano. transcreve o art. traz também a notícia. 221. 1. É mister salientarmos que. respectivamente. Ob. 1º do polonês. p. I.170/83): “Art.. Ob. 1977. Ob. 1º do romeno. 37 GRECO. 34 MIRABETE. 4º do da República Democrática da Alemanha de 1968.. cit. é perfeitamente plausível defender-se a inconstitucionalidade desse dispositivo. Roma. ao domínio ou à soberania de outro país [. Aníbal. FRAGOSO.. p. I. o art. 56.. cit. e na Inglaterra não há disposição constitucional expressa relativamente ao princípio da legalidade. 4º do iugoslavo de 1951. 6. dos búlgaros de 1951 e de 1968. seria até possível defender-se a tese da “lei ainda constitucional”. MIRABETE. Guilherme de Souza. Ob. nos cientifica de que o Código Penal alemão de 1935 permitia a punição de qualquer fato conforme “os princípios fundamentais do direito penal” e “o são sentimento do povo”. 5º e 18 do português. o art. nota 17. 2º e 9º. Foi o que ocorreu na Alemanha nazista. Comentários ao código penal. 1980. 1º do húngaro de 1961. 42 e 45. Manual de direito penal. Irretroattivitá della Legge Penale. I. p. o art. acrescentando a informação atinente à carência do direito inglês. arts.]”. 37 Dessarte. Na falta de uma tipificação mais taxativa. 4º do francês. 59-61. Código Penal comentado. 1º do suíço. 35 NUCCI. cit. 38 Hodiernamente. claramente afenso ao princípio da taxatividade: “Reputa-se perigosa toda ação ou omissão dirigida contra a estrutura do Estado soviético. p. CERNICCHIARO. 1977. o art. Heleno Cláudio. ou que lese a ordem jurídica criada pelo regime dos trabalhadores e camponeses para a época de transição à organização social comunista. 38 HUNGRIA. 36 Segundo notícia de BRUNO. 1º do holandês. 271 . art. o princípio foi suprimido a partir de 1919. v. 102-103. regimes totalitários lançaram mão de tipos penais vagos com o objetivo de deixar ao talante do seu aplicador as hipóteses de subsunção. os arts. NUCCI.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA Para burlar o princípio da legalidade (mediante a violação do princípio da taxatividade). É caso que se assemelha ao do exemplo dado anteriormente. Rio de Janeiro: Forense.. os arts. Código Penal comentado. 13-14. no pós-guerra. 35 após a revolução bolchevique. 56. traz a notícia do direito italiano no mesmo sentido. mas retornou no Código Penal de 1960. Curso de direito penal. Direito penal: parte geral.. ou parte dele. 6º do Código Penal soviético de 1926. t. 1. cit. porém de fato devemos rechaçar essa prática. art. 27 e 28 do boliviano. 9º da Lei de Segurança Nacional (Lei nº 7. 126. Na atual Dinamarca. p. Guilherme de Souza. 2º do belga. Rogério. 1º e 23 do espanhol de 1944. v. 9º. v. 36 No Brasil. Como ocorre a submissão do território nacional à sobernia de outro país? Tipos penais obscuros como esse são o que o princípio da legalidade repugna (nullum crimen nulla poena sine lege certa). cit. 1º do Código Penal da Dinamarca assim dispõe: “Cai sob a sanção da lei penal o ato cujo caráter delituoso é previsto pela lei dinamarquesa ou uma ação assimilável a tal ato”. ed. p. t. Julio Fabbrini. Nelson. 45. o princípio da legalidade se fez mais presente nos códigos penais: art. Manual de direito penal.. há previsão profundamente hostil ao princípio da legalidade. I. o art. temos ainda tipos penais vagos. I. o art. 2º do Código Penal tcheco de 1950. Julio Fabbrini. p. 7º do mexicano. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização) – Università Degli Studi Di Roma. os arts. art. o art. Ob. o art. 34 na Itália fascista e também na União Soviética. temos ainda vários exemplos de códigos: o art. v.

os arts.. não pode prosperar rigidamente num Estado de Direito. II. ela deve seguir os trâmites 39 40 HUNGRIA. alvos principais das sanções penais. o art. v. Uma obrigação. os arts. 53 e 54 do paraguaio. Para que uma lei seja válida e possa produzir os efeitos pretendidos pelo legislador. 2º e 4º do equatoriano. é impedir que o Judiciário e o Executivo possam especificar as condutas que devem ser punidas pelo Direito Penal. 272 . 15. 1º do venezuelano. 4º do dominicano. Direito penal na Constituição. Comentários ao código penal. Luiz Vicente. os arts. COSTA JR. 39 Vale dizer um dos objetivos principais do princípio da legalidade. no início deste trabalho. os arts. os arts. para ser imposta ao cidadão (art. os arts. CF). que o princípio da legalidade não exige apenas que uma lei discipline a conduta que se pretende prescrever. o art. uma lei não deve ser obedecida apenas por ser lei. 40 A certeza do direito é fundamental para a proteção das liberdades individuais. 1º do colombiano. 1º do portorriquense. Ora. e o art. 1º e 2º do guatemalteco. o art. 5 LEGALIDADE FORMAL E LEGALIDADE MATERIAL Mencionamos. 41 e 83 do nicaraguense. além de ser garantia individual constitucional dos cidadãos. 2º do cubano. cit. 1º do costarriquense. A Carta Magna de 1988 prescreve vários direitos e garantias fundamentais que são invioláveis. 22. Ob. deve estar prevista em lei e em harmonia com a Constituição. o art. 4º do haitiano. os arts. 20 e 89 do hondurense. 18 e 80 do chileno. Sua natureza não lhe confere uma aura de inquestionabilidade e de exigência de obediência incondicional. os arts. 1º e 40 do salvatoriano. Heleno Cláudio. A afirmação de ZAGREBELSKY. 2º e 3º do peruano..Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA o art. O Estado é regido pela lei. o art.. e o Legislativo é o poder nas melhores condições para conceder essa certeza. cit. antes de tudo. Paulo José da. Ob. citado por INOCÊNCIO COELHO. 19. Nelson. t. 5º. I. 85 do uruguaio. pela Lei Fundamental. 1º do panamenho. o art. FRAGOSO. p. Aqui há uma forte demanda pela segurança jurídica. porém o é. tanto por uma conduta quanto por qualquer ato normativo. o art. Não há segurança maior do que ter um documento escrito disciplinando as situações em que o Estado poderá exercer seu direito de punir. cerceando a liberdade de um cidadão. I. p. CERNICCHIARO. Esse é o aspecto formal do princípio. que é a Constituição.

Ob. de forma que não possam coexistir num mesmo sistema jurídico. e com muito mais razão. Ob. tácita ou expressa. pelo raciocínio que ora demonstramos. 6. 43 KELSEN. Direito penal na Constituição. Hans..Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA legais para a sua criação. 41 273 . é exatamente o seguir o procedimento formal para a criação de uma lei daquela natureza. p. cit. Já que devem observar o procedimento formal. será expressa quando a lei posterior trouxer na forma escrita que determinada lei está revogada. Assim. ainda.. Curso de direito penal. Paulo José da. 6 CONFLITO DE LEIS PENAIS As leis penais podem entrar em conflito. 44 DOTTI. 17. a lei suprema. por serem as leis penais sempre de mesma hierarquia. COSTA JR. Por outro lado. seus efeitos. CERNICCHIARO. p. Legalidade material. p. p. Francisco de Assis. A revogação pode ser. ou a clássica expressão “revogam-se as disposições em contrário”. Luiz Vicente. não se alterando. Ob. 30-31. ed. conformar-se com as normas constitucionais materiais. I. Princípios básicos de direito penal. bem como deve estar em consonância com a Lei Maior em seu aspecto material. O princípio da legalidade exige obediência incondicional à Constituição. Ob. cit. Curso de direito penal: parte geral.. é o amoldar-se o conteúdo da lei aos direitos e às garantias fundamentais. Aqui tem lugar a máxima nullum crimen nulla poena sine lege valida. previstos constitucionalmente. Aquela designa a invalidação total de uma norma jurídica. então. esta. devem também. Teoria pura do direito. a parcial. a legalidade diz respeito a um Estado regido por uma Constituição. 103-104. v. cit. seja em âmbito formal (processo legislativo) ou em âmbito material (direitos e garantias fundamentais). Assim. podemos dizer com certeza que lei posterior revoga anterior. 42 GRECO. como se dá com qualquer norma jurídica. Será tácita quando as disposições de cada lei forem incompatíveis entre si.. Rogério. p. 293-294. São Paulo: Martins Fontes. a lei penal posterior revogará a anterior nas disposições em que forem incompatíveis apenas. disciplinado na Mater Legis. portanto as leis hierarquicamente inferiores devem sempre obediência à suprema. 144. 41 A legalidade formal. 1998. 42 Num Estado Constitucional de Direito. TOLEDO. por sua vez. 44 Com igual sentir.. contudo. cit. René Ariel. São espécies de revogação a ab-rogação e a derrogação. 43 A revogação é instituto que está no âmbito da invalidade das normas jurídicas. desnecessária.

por exemplo. 2º e 3º do Código Penal. isto é. 59). será ela válida. Cessará a produção de efeitos pela lei a partir da vigência da nova Carta Magna. e outros mais gravosos. a incompatibilidade for exclusivamente material. assim. é mais benigna no que tange à pena ou à medida de segurança. havendo harmonia entre as duas leis. Havendo conflito de leis no tempo. penal ou não. Tanto a parte material da Mater Legis é fundamental para que seja válida a lei penal que uma norma. § 3º. por outro lado. A Constituição de 1988 não previu essa espécie legislativa (art. pois é a espécie legislativa designada pela Lei Maior para a elaboração de normas penais. tratar-se-á do fenômeno da não-recepção. Nesse caso. Ainda. Isso no âmbito das normas penais incriminadoras. cuja incompatibilidade com a Constituição for apenas formal será válida. é cediço que a lei penal é inconstitucional. aplica-se a lei vigente à epoca do fato. 2º. por isso. da Lei de Introdução ao Código Civil) para qualquer espécie normativa. a lei revogada não se restaura por ter a lei revogadora perdido a vigência”. Se. “salvo disposição em contrário. 274 . 6. contém uns preceitos mais benéficos. sendo. pois uma lei penal pode ser contrária a certa disposição constitucional relativa ao Direito Penal. o princípio da legalidade (ou da anterioridade da lei penal). Aplicam-se a essas hipóteses os arts.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA Dissemos que as leis penais são sempre de mesma hierarquia. Vale lembrar que o fenômeno da repristinação é proibido no Brasil (art. Queremos dizer aqui que não importa a roupagem dada à lei (o Código Penal. poderão surgir quatro situações: a lei posterior é mais grave. conforme o dispositivo legal mencionado. nula. Quer dizer essa proibição que.1 LEI PENAL NO TEMPO A regra geral da lei penal no tempo é tempus regit actum. preservando-se. desde que materialmente compatível. Apenas ganhou nova roupagem. e nem por isso deixou o diploma repressivo de ser válido. aboliu o crime. se a Constituição surgir quando a lei penal com ela incompatível já estava vigente. hoje sendo tido hierarquicamente como lei ordinária. foi elaborado em 1940 sob a forma de Decreto-Lei.

45 Se.2007. Havendo lei nova que extirpe determinado tipo penal do ordenamento jurídico-penal. entendendo diversamente. XXXIX. temos duas posições.793/MS. por uma questão lógica: o período de vacância da norma é criado em benefício do cidadão. tenha criado tipo penal novo ou inovado na agravação de consequências penais. j. t. Ob. a cada instante). a solução será diversa. rel. a toda a série delitiva. rel. Min. Jane Silva. e CIRILO DE VARGAS diz que não.] Tratando-se de novatio legis in pejus.1999. durante a consumação de um crime permanente (que se consuma. cit. Diversamente. Pode-se fundamentar esse raciocínio. 47 TOLEDO. CC 23. temos duas situações: se a lei nova surge no curso da série criminosa. Nesse sentido. DOTTI. A lei nova. Fernando Gonçalves.. Aplica-se a lei nova apenas aos fatos ocorridos a partir da sua entrada em vigor. VARGAS. ASSIS TOLEDO afirma que a lei mais maléfica se aplica. 34-35. ainda. em tese. p. Princípios básicos de direito penal. I. admitem a aplicação da lei nova mais benéfica (lex mitior) já no período de vacatio legis. 47 Muitos doutrinadores. Com ASSIS TOLEDO. A hipótese de abolitio criminis tem solução bastante simples na doutrina e na jurisprudência. o qual perfilhamos. 14. 3ª Seção. p. previsto no art. a Súmula nº 711 do STF veio corroborar o posicionamento de ASSIS TOLEDO.. p. aplicase-a. 32-34.2007.1999. aplicála-se-á imediatamente. DJ de 17. Princípios básicos de direito penal. e o agente permanecer cometendo o crime. cit. Francisco de Assis. inclusive. porém sempre se observando a anterioridade da lei penal e o tempus regit actum. René Ariel. logo não faz sentido que o prejudique. critica a posição de ASSIS TOLEDO e afirma sempre o princípio segundo o qual só pode ser aplicada a lei posterior se mais benigna. Curso de direito penal: parte geral. 5º. 1º do Código Penal. esteja o processo penal na fase em que estiver. por contrariar o princípio da irretroatividade in pejus. e essa regra vale para todas as normas de direito material. José Cirilo de. só se a aplica às condutas praticadas durante a sua vigência.07. Assim consta na ementa desse último julgado: “[. ainda que venha a entrar em vigor durante uma série delitiva ou durante um crime permanente.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA No caso de lex gravior (lei posterior mais grave). Já nas hipóteses de crime continuado. Francisco de Assis. DJ de 01. Ob. opera a irretroatividade absoluta. p. Ob. a sua imediata aplicação configura ofensa ao princípio da legalidade. se os fatos anteriores eram impuníveis. se os fatos anteriores já eram puníveis. surgir lei nova maléfica. p.08. Em casos bem particulares.09. cit. j. 338. uma vez que houve majoração do prazo legal de cumprimento de pena para a obtenção da progressão de regime aos condenados por crimes hediondos..” 46 TOLEDO.251/RJ. 111-112. da Constituição Federal e no art. 244. Instituições de direito penal.. HC 84. 5ª Turma. CIRILO DE VARGAS.. p. 45 275 . Ob. vindo a lei nova apenas a agravar a sua pena. submete-se incondicionalmente ao princípio da irretroatividade. Min. 114. 46 Em 2003. como é cediço. cit. 09.06..

Nesse caso. 51 O mesmo autor lembra que. CAPEZ. Sempre que a lei for mais benéfica ao réu. de qual lei será mais benéfica. p. Curso de direito penal. A inconstitucionalidade está no âmbito da invalidade. na modalidade nula. cada qual no conjunto de suas normas aplicáveis ao fato”. é como se nunca tivesse existido.. aplicá-la-se-á.. 125. José Cirilo de.. v. 52 CERNICCHIARO. Ob. 78. XL. p. 1. 103. v. Assim. 244-245. COSTA JR. I. René Ariel. em se tratando de diminuição da pena. Ob. Se for anterior. p. VARGAS. portanto a decretação de inconstitucionalidade produz efeitos ex tunc. p. Ainda sobre a lex mitior. Curso de direito penal. 48 Havendo abolitio criminis cessam todos os efeitos penais da sentença condenatória (se já houver sido proferida. I. Ob. Ob. Ob. perguntar-se-á ao réu qual lei ele prefere que seja aplicada. 119. COSTA JR. cit. ainda que maléfica. já se for aplicada a pena máxima obviamente será mais benigna a lei anterior. Atualmente. 5º. GRECO.. rev. Direito penal na Constituição.. t. p. em qualquer sentido. teoricamente seria imperiosa a aplicação da lei posterior. Paulo José da. portanto uma norma inconstitucional é uma norma inválida. DOTTI. 102. qual é a lei mais benéfica. p. não temos definição de lex mitior na lei brasileira. entendem que. São Paulo: Saraiva... Instituições de direito penal. Rogério. § 2º. opera com ultraatividade. a lei nova será mais benéfica. Curso de direito penal. Luiz Vicente. t. 52 Alguns autores. Rogério. em muitos casos. José Cirilo de.50 CERNICCHIARO atenta para a dificuldade de se determinar com clareza. Ob. I. VARGAS.. Ob. I. Fernando. v. CERNICCHIARO propõe interessantíssima observação acerca do Direito italiano no tocante à lei mais benéfica inconstitucional. em seu art. I. cit. assim dispunha.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA com o art. 2º. Sendo nula. cit. cit. se. 7. aparentemente a aferição da lei mais benigna ficaria facilitada. cit. Não é bem assim. havendo dúvida quanto à maior benignidade de uma norma ou de outra. Paulo José da.. Ob. o juiz tiver que aplicar a pena mínima. retroage. 49 48 276 . cit. 49 A situação de lex mitior também se resolve com facilidade. O Código Penal de 1969. p. p. se for posterior. 2004. Rogério. 7980. Direito penal na Constituição. 35-36. obviamente). cit. no caso concreto. e atual. 50 TOLEDO. 53 Entendemos bastante razoável esse entendimento. Francisco de Assis. Curso de direito penal. Exemplifica o caso de mudança de uma pena de 6 (seis) a 20 (vinte) anos para uma de 4 (quatro) a 25 (vinte e cinco) anos. Defende a avaliação. p. dadas as circunstâncias do caso. A doutrina italiana propõe solução mais afeta à GRECO. porém persistem os efeitos civis. GRECO.. Luiz Vicente.. Em sentido contrário. ed. Instituições de direito penal. a lei posterior e a anterior devem ser consideradas separadamente. e § 1º da Constituição. sem muita utilidade: “para se reconhecer qual a mais favorável. Ob. Curso de direito penal: parte geral. Princípios básicos de direito penal. ainda. p. 126. v. cit. cit. 58. 51 CERNICCHIARO. 53 Nesse sentido.

Rejeita a combinação de leis VARGAS.. 58 7 NORMA PENAL EM BRANCO Entre as leis penais. como chamam os doutrinadores. Curso de direito penal.033-5.. 25. ou de ultraagir somente a parte boa da lei anterior.03. Francisco de Assis. 57 De fato. desde uma perspectiva da realização da segurança jurídica.. Direito penal na Constituição. Que problema haveria. cit. HC 69. cit. Ob. externa ao direito penal. Por fim. Ob. aplicando-se normalmente o princípio tempus regit actum (operam os efeitos ultraativos da lei mais benéfica). A retroatividade da lei mais benéfica já é uma medida de política criminal. I.. p. que remetem o seu preceito primário a uma outra norma. p. Ob. 59 MARQUES. Rogério. cit.. 2925. CERNICCHIARO. 38. Min.1992. rel. René Ariel. de qualquer modo. 54 É um raciocínio interessante e admissível.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA justiça. Ob.. cit. é aceita por autores como ROGÉRIO GRECO55 e ASSIS TOLEDO 56. t. 107. José Frederico. em obediência aos princípios da equidade consagrados pela Constituição Suprema.. Instituições de direito penal.. p. 59 Nas palavras de ANÍBAL BRUNO. Tratado de direito penal. 87. I. Curso completo de 55 54 277 . José Cirilo de. 57 O STF já aceitou a combinação de leis. cit. Rogério. 122-123. v. A combinação de leis. Romeu de Almeida. as pessoas do juiz e do legislador. Ob. por entender inconfundíveis. “[. Curso de direito penal. Conjugando o raciocínio com o art... favoreça o agente. 2. DOTTI. com os quais concordamos. desde que.] são disposições penais cujo preceito é indeterminado quanto a seu conteúdo e nas quais só se fixa com precisão a parte sancionadora”. em aplicarem-se parte de uma lei e parte de outra? Trata-se de medida protetiva do acusado que condiz com os ditames da política garantista adotada pelo Direito Penal brasileiro. Princípios básicos de direito penal. cit. Paulo José da. 188. GRECO. v. Luiz Vicente. p. no caso concreto. da Constituição italiana. Relata-nos GRECO. então. p. reputa aplicável a lei inconstitucional aos fatos ocorridos durante a sua vigência. Marco Aurélio. DJ de 13. Na mesma linha. p. 58 GRECO. p.. Na precisa lição de FREDERICO MARQUES. deixar de beneficiar o réu. COSTA JR. p. 56 TOLEDO. havendo lei posterior com alguns preceitos mais benéficos e outros mais maléficos. SALLES JR. Ob. pois tecnicamente a lei produz efeitos a partir da sua vigência. 123. numa só pessoa. pode e deve. existem as normas penais em branco. selecionar parte da lei anterior e parte da lei superveniente. a doutrina se divide quanto à possibilidade de retroagir apenas a parte boa da lei nova. por mero formalismo. citando um acórdão de felicíssima constatação. do TACrim/SP: Malgrado o dissenso doutrinário sobre a combinação de leis mais benignas o julgador. não podemos. I. Ob. Curso de direito penal: parte geral. 225. cit.

p. que tipifica o crime e omissão de notificação de doença.1986. uma vez que a norma penal em branco já existia à epoca da prática do crime. Direito penal na Constituição. t. As heterogêneas. José Frederico.04. É exemplo de norma penal em branco o art. 269. pois o tipo penal não as traz em seu preceito primário. Min. não há violação ao princípio da legalidade. p. COSTA JR. rel. p. se é a lei penal que. 12. FIGUEIREDO. I. As homegêneas são complementadas por leis cuja elaboração advém da mesma autoridade competente para a criação de normas penais (art.Universidade da Amazônia.05. p.08.2004. O STF não recusa a aplicação da lei penal em branco. cit. integrando-a à definição do delito ou da contravenção penal”.2004. Artigo científico apresentado como requisito para obtenção do título de Especialista em Ciências Criminais . 44..10. 22. perguntam como podem normas de terceiro escalão (portarias. 104. Brasília. DJ de 16. regulamentos. j. propondo perfeito raciocínio. Se apenas a lei é fonte imediata do Direito Penal. t. pois a regulamentação da lei penal foi indicada por ela própria.. p. j. 122. rel. “[. decretos) regulamentarem questões penais? Não vê problema nas normas penais em branco CERNICCHIARO. cit. permite a remissão a uma norma nãopenal. já existente ou futura. j. 61 MARQUES. normas em que a descrição das circunstâncias elementares do fato tem de ser completada por outra disposição legal. rev. 05.1987. cit. Inq 1. 6. Direito penal: parte geral. 1ª Turma. p. Min. Sepúlveda Pertence. cit. Leonardo Boaventura. I. 60 As leis penais em branco podem ser homogêneas ou heterogêneas 61. I. 2006. Tratado de direito penal. simetricamente. DJ de 15. Min.2000. Nelson. São Paulo: Saraiva. 42. Paulo José da.. 62 direito penal. RHC 80. Tribunal Pleno. DJ de 28. ed. Neles a enunciação do tipo mantém deliberadamente uma lacuna. Ob. Em outras palavras. 2006. 189-190. 37. 11.915/RS. RHC 64. Questionam alguns autores a sua constitucionalidade por ferirem o princípio da legalidade. 60 BRUNO. 62 CERNICCHIARO.834. Comentários ao código penal.06.090/SP. “O caráter absoluto da reserva legal é entendido da seguinte maneira: somente a lei pode referir-se a outra norma. Forte discussão doutrinária cinge a existência de normas penais em branco. p.680/SP.. 2ª Turma. Luiz Vicente. 09.. são integradas por normas elaboradas por autoridade diversa da responsável pela legiferação penal. Ob. não 278 . que outro disposição (sic) legal virá integrar. Crimes econômicos: algumas notas sobre as normas penais em branco. p... 3. v. Aldir Passarinho. 16. por determinação própria. Portaria do Ministério da Saúde será a norma regulamentadora das doenças sobre as quais o médico deve notificar.] mantendo-se intacto o princípio que confere somente à lei a origem da relevância penal”. FRAGOSO. Para ele. HUNGRIA. Ob. Aníbal. Ilmar Galvão. I. Heleno Cláudio. rel. p. CF).12.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA Normas penais em branco são normas de tipo incompleto. 1993. Observemos o julgado do STF que afirmou não beneficiar o réu a edição de norma complementar mais benéfica. Ob.2000. e aum.

BIERRENBACH.Universidade da Amazônia. 2004. 2007. Artigo científico apresentado como requisito para obtenção do título de Especialista em Ciências Criminais . e ampl. 7. CERNICCHIARO. v. 1995.Revista Eletrônica Acadêmica de Direito Law E-journal PANÓPTICA 8 BIBLIOGRAFIA BECCARIA. e atual. Luiz Vicente. 11. Cordeiro Guerra. 29. DOTTI. Fernando. Brasília.06. 1. rev. CAPEZ. Acesso em: 30 mai.br/dspace/handle/2011/18180>.544/SP. rev. Curso de direito penal. e atual. Paulo José da. BRUNO. Disponível em: <http://bdjur. São Paulo: Martin Claret. 17. fazendo parte dela a norma complementar. Roma. Crimes omissivos impróprios. j. FIGUEIREDO. e atual. 207 f. Sheila.1975. v. Belo Horizonte: Del Rey. Rio de Janeiro: Forense. Irretroattivitá della Legge Penale. 2004. 2ª Turma. ed. 1. Direito penal: parte geral. 279 . Luiz Vicente. rev.gov. t. Dos delitos e das penas. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2.stj. 1977. CAPEZ. rel. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização) – Università Degli Studi Di Roma. René Ariel. Fernando. Leonardo Boaventura. mas apenas dando-lhe suporte. DJ de 24. v. CERNICCHIARO. 5. Luiz Vicente. ed. Crimes econômicos: algumas notas sobre as normas penais em branco. Aníbal. Min. ed. São Paulo: Saraiva. COSTA JR. 3. 2003.04. Assim./dez. DF. Rio de Janeiro: Forense. 1977. ed. 2009. Brasília. jul. 2002. CERNICCHIARO. RE 80.1975. 2. Conflito aparente de princípios. Direito penal. 2005. rev. 2006. 2002. ed. São Paulo: Damásio de Jesus. Curso de direito penal: parte geral. ed. Direito penal na Constituição. n. 1. I. Cesare. 2006. Informativo jurídico da Biblioteca Ministro Oscar Saraiva..

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