Comentário sobre capítulos do Curso de Lingüística Geral de F.

de Saussure No capítulo VI da introdução do Curso de Lingüística Geral, Saussure escreve uma defesa à fala em detrimento à escrita. Essa última é muito mais privilegiada pelo estudo científico; contudo, todo esse brilho da escrita é imerecido e ofusca a fala. Inicialmente, a escrita se definiu como representação da fala, mas tomou-lhe o papel principal: a escrita nos dá a impressão de perenidade do idioma, fato reforçado pelas imagens gráficas das palavras que aparentam ser objetos sólidos e permanentes. “As impressões visuais são mais nítidas que as impressões acústicas”. (p.35) a escrita se perpetua em prestígio com seus dicionários, gramáticas e regras rigorosas de uso, como a ortografia – que deseja submeter a liberdade da fala, gerando as incongruências entre grafia e pronúncia. A ortografia e língua falada produzem uma dissonância que resulta no uso de vários signos para representar o mesmo som. “Ertha, erdha, erda (…) do alto alemão antigo representam (…) o mesmo elemento fônico [que] é impossível [conhecer] através da escrita” (p.39) Saussure descreve a escrita como tentativa de regulamentação da riqueza de variações fonéticas da língua: “A escrita obscurece a visão da língua; não é um traje, mas um disfarce” (p.40). A fala possui várias relações e ligações fônicas que a escrita tenta formalizar e acaba por apagá-las. O autor termina o texto declarando que as incessantes mudanças fônicas pertencem à língua, mas não produzidas por influências externas (como a ortografia, as mudanças na História e sociedade, por exemplo) – pontos que cabem à Lingüística estudar. Como mentor do Estruturalismo, Saussure escreve esse capítulo introduzindo os de Fonologia, disciplina mais próxima da fala – pouco prestigiada até aquele período, mas considerada pelo autor como uma das chaves para a essência da língua, num estudo que se queira científico. Este é o I capítulo dos “Princípios gerais” do CLG, e explica como se forma a unidade lingüística. Saussure diz que, para certas pessoas, as palavras são só uma nomenclatura das coisas existentes no mundo. Mas a união entre um nome e uma coisa é mais complexa: ela é dupla, formada de termos psíquicos ligados em nosso cérebro por uma associação. O autor nomeia os termos de conceito e imagem acústica, sendo essa última “não o som material (…), mas a impressão psíquica desse som, a representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos, tal imagem é sensorial (…) em oposição ao conceito, geralmente mais abstrato” (p.80). A linguagem é psíquica, porque podemos falar sem mover os lábios ou usar o som, mas ele aparece em nossa mente. Conceito e imagem acústica estão intimamente ligados e formam o signo lingüístico. Às vezes atribui-se o nome signo só à imagem acústica, contudo, se ao falarmos “árvore” pensamos em sua figura, essa abrangerá o conceito. Saussure equipara conceito e imagem acústica respectivamente a significado e significante. Os signos são arbitrários: a idéia de “mar” não está ligada a seqüência de sons ma-r. Os signos de cortesia (como o costume oriental de curvar-se para cumprimentar) podem parecer não-arbitrários, mas constituem uma regra, uma obrigação e não são utilizados por seu valor intrínseco.

especificando-se que o significante é imotivado. que são parte da evolução fonética. cabível a qualquer caso num estudo lingüístico.84) O autor procura simplificar ao máximo possível todos os termos ao se referir aos mecanismos da língua. Entretanto. As exclamações não têm vínculo necessário entre o significante e o significado. diz que o símbolo não é arbitrário: “existe um rudimento de vínculo natural entre o significante e o significado” (p. mas Saussure rebate alegando que elas não têm origem no sistema lingüístico.O autor também atribui o nome símbolo ao significante. que é imotivado. para ser fiel a sua criação de uma estrutura universal. Onomatopéias parecem conter significante não arbitrário. Por fim. O termo arbitrário é justificado. tic tac) entraram na evolução fonética e morfológica (pigeon do latim vulgar pipio) e perderam seu primeiro caráter para adquirir o do signo lingüístico. não tem relação natural com o significado nem com a realidade. Saussure define o caráter do significante: “[esse] representa uma extensão (…) mensurável numa só dimensão: (…) uma linha” (p.82). . Onomatopéias que viraram palavras na língua (glu-glu.

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