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SAGA WILLIAM DIETRICH 02 A CHAVE DE ROSETA
Tradução Mário Vilela 2008 Unicórnio Azul
uni cór nio azu l

Escaneado, Formatado e Revisado Por:

Para minha filha Heidi A posse do saber não elimina o maravilhamento e o mistério. Sempre há mais mistério. Anais Nin Caros leitores, Ethan Gage está encrencado de novo, e vocês são os únicos culpados! Graças à maravilhosa acolhida e interesse que tiveram para com As Pirâmides de Napoleão, e a época pitoresca que aquele romance descreve, o meu americano jogador, "eletricista", protegido de Benjamin Franklin, atirador certeiro e mulherengo de meiapataca (a sorte de Ethan com as senhoras é inegavelmente irregular) está de volta em A Chave de Roseta. Desta vez, ele se vê metido na invasão da Terra Santa por Napoleão Bonaparte e na ascensão do general ao poder na França, tudo isso em 1799. Muitos de vocês se

perguntam o que teria acontecido à Astiza, a namorada de Ethan, e ao conde Alessandro Silano, o vilão, depois que os dois despencam no fecho do livro anterior. Escrevi A Chave de Roseta para descobrir o mesmo. Assim como As Pirâmides de Napoleão, o novo romance baseia-se num episódio real da assombrosa carreira do general francês, combinando os primórdios da ciência da eletricidade e os ensinamentos de Franklin com um mistério - apoiado em fatos - sobre o Livro de Tot, os templários, o misticismo judaico e a Pedra de Roseta. As batalhas realmente aconteceram, e muitas das personagens do livro (Sidney Smith, o aventureiro inglês; Antoine de Phélippeaux, o francês fiel ao Antigo Regime e rival de Napoleão; Al-Djezzar, ou "o Açougueiro"; Gaspard Monge, o matemático; e Haim Farhi, o judeu desfigurado) existiram. No trabalho de pesquisa para esta narrativa, chapinhei nos túneis subterrâneos de Jerusalém, percorri as muralhas de Acre e subi as trilhas da cidade perdida de Petra. Igualmente verdadeiro é o golpe de Estado que levou Napoleão ao poder na França. A maneira pela qual ele transformou seu fracasso na Terra Santa em triunfo em Paris é o mistério histórico que está no âmago desta narrativa. Qual era o segredo de Napoleão? Recebi mensagens de muitos leitores que apreciaram o ritmo rápido, o humor irônico e a pesquisa cuidadosa da primeira caça ao tesouro levada a efeito por Ethan, e penso que vocês terão mais dessas características em A Chave de

Roseta. Já nas primeiras páginas destas novas peripécias, mesmo quem ainda não conhece Ethan Gage e suas aventuras, será imediatamente conquistado pela maneira de ele de ver as coisas. A Chave de Roseta vem para completar o ciclo da narrativa, que ao fim me deixa um pouco sem fôlego após tantas aventuras. Mas sempre há mais mistério... Boa leitura. William Dietrich

PARTE 1 -1Encararmos mil mosquetes apontados para o peito tende mesmo a nos fazer ponderar se não tomamos a decisão errada. E ponderar, eu ponderei - com cada boca de mosquete tão escancarada quanto a boca de um cão de rua a querer nos morder num beco do Cairo. Mas não: embora eu seja humilde ao extremo, também tenho minhas pretensões à superioridade moral e, no meu entender, não fora eu quem se perdera, mas o exército francês. Coisa que eu poderia ter explicado a meu ex-amigo, Napoleão Bonaparte, se ele não estivesse lá nas dunas, fora do alcance da minha voz, desinteressado e irritantemente distraído, com seus botões e suas medalhas reluzindo ao sol do Mediterrâneo. Na primeira vez em que eu estivera numa praia com Bonaparte, quando o homem desembarcara seu exército no Egito, em 1798, ele me disse que os afogados ali seriam imortalizados na história. Agora, nove meses depois, do lado de fora do porto palestino de Jafa, eu é que viraria história. Os granadeiros franceses preparavam-se para atirar em mim e nos infelizes cativos muçulmanos entre os quais eu fora jogado - e, mais uma vez, eu, Ethan Gage, tentava achar um jeito de passar a perna no destino. Vede bem, era uma execução em massa, e eu caíra em

desgraça junto ao general de quem um dia procurara ser amigo. Ah, quanto chão nós dois havíamos percorrido em nove curtos meses! Entre os coitados dos prisioneiros otomanos, fui me enfiando atrás do maior que achei, um gigante negro do alto Nilo que calculei ter espessura suficiente para deter uma bala de mosquete. Todos nós havíamos sido arrebanhados, tal qual gado perplexo, numa linda praia. Os olhos se mostravam arregalados e brancos até nas caras mais escuras, e o vermelho-escarlate, o amarelo-nata, o verdeesmeralda e o azul-safira dos uniformes turcos estavam sujos da fumaça e do sangue após a cidade ter sofrido pilhagem atroz. Havia marroquinos esbeltos e ágeis, sudaneses altos e macambúzios, albaneses pálidos e truculentos, soldados de cavalaria circassianos, artilheiros gregos, sargentos turcos - a mistura de tropas de um vasto império, todos humilhados pelos franceses. Não apenas eu ficava confuso diante daquele falatório ininteligível, mas também eles freqüentemente não entendiam uns aos outros. A multidão se mexia para lá e para cá, com os oficiais já mortos, e tal desordem oferecia um contraste com as fileiras impecáveis de seus vitoriosos carrascos, dispostos como se estivessem desfilando em parada. A resistência otomana enraivecera Napoleão (não se deve jamais colocar numa estaca a cabeça de emissários), e o número de prisioneiros famintos ameaçava tornar-se um estorvo para a força

invasora. Assim, fizeram-nos marchar através dos laranjais até uma faixa de areia com o formato de um crescente, logo ao sul do porto capturado, com o mar espumante adquirindo um maravilhoso tom verde e dourado nos baixios, e a cidade queimando, já sem chamas, no alto do morro. Eu enxergava algumas frutas que ainda se prendiam aos galhos de árvores estouradas pelos projéteis. Meu ex-benfeitor e recente inimigo, montado em seu cavalo à maneira de um Alexandre, estava (pelo desespero e pelo cálculo extremo) a ponto de exibir uma crueldade de que seus próprios marechais falariam, aos cochichos, por muitas campanhas ainda. E, no entanto, ele agora não tinha sequer a cortesia de prestar atenção! Estava lendo outro daqueles romances sorumbáticos, seguindo o hábito de devorar uma página, arrancá-la e passá-la aos oficiais. Eu, descalço e ensangüentado, estava a apenas vinte milhas em linha reta do lugar onde Jesus Cristo morrera para salvar o mundo. Meus dias imediatamente anteriores, de perseguição, tormenta e guerra, não me haviam convencido de que os esforços de nosso Salvador conseguiram melhorar de todo a natureza humana. "Preparar!" Puxaram-se os cães de um milhar de mosquetes. Eu tivera de marchar com os outros prisioneiros para a praia porque os sicários de Napoleão haviam me acusado de espião e traidor. E, sim, as circunstâncias tinham dado um quê de verdade a tal caracterização. Mas de modo

e duas polegadas para a direita. quando atirara nele. Já eu lamentava não ter apontado um tantinho mais alto. quando tentou me roubar um medalhão sagrado.e olhem que sou um sujeito afável! Minha mais recente nêmesis francesa era um patife chamado Pierre Najac. um assassino e larápio que não conseguia superar o fato de que certa vez eu o baleara na diligência para Toulon. alguém cujos incipientes conhecimentos de eletricidade (e a necessidade de fugir a uma injustíssima acusação de homicídio) fizeram que fosse incluído na companhia dos cientistas. da mulher que eu amava. Lá em Paris. Eu também desenvolvera aptidão para estar do lado errado na hora errada. de degoladores árabes. Como já tive ocasião de observar. obrigara-me marchar na fileira de prisioneiros.algum eu começara com esse objetivo. e ele. Najac reaparecera em minha vida tal qual uma dívida que nos persegue. cutucando-me as costas com um sabre de cavalaria. como atesta o volume anterior. de Napoleão durante a brilhante conquista do Egito pelo general. de pelotões franceses . E uma história complicada. fora um jogo de cartas o que me rendera o misterioso . de fanáticos muçulmanos. Era simplesmente um americano em Paris. O canalha estava antegozando meu iminente passamento com a mesma sensação de triunfo e asco que se tem ao esmagar uma aranha particularmente irritante. Levara tiro da cavalaria mameluca. de belonaves britânicas. tudo parece começar com a jogatina. ou savants.

Eu. "Apontar!" Mas estou colocando o carro na frente dos bois. não arrumar confusão. Astiza a mim. podia-se argumentar. O anseio por uma.medalhão e dera início à encrenca. e perdida. essas duas ambições são tão opostas quanto a eletricidade positiva e a negativa. Mas. o que parecia um jeito simples de recomeçar . levara-me à presente enrascada. vai quase certamente fazer gorar a outra.tirar cada xelim dos perplexos marujos da HMS Dangerous antes que os britânicos me desembarcassem na Terra Santa . Permitam que eu repita: o jogo é um vício. convencera-me de que precisávamos salvar o mundo do amo de Najac. Ethan Gage. rendendo o medalhão. assim como a dor de cabeça que se segue ao álcool ou à traição que causam as belas mulheres. Tudo isso. por sua vez. o conde e feiticeiro franco-italiano Alessandro Silano. meio sem que eu esperasse. que me levou ao Egito com metade dos vilões do mundo em meu encalço. passei a maior parte dos meus trinta e quatro anos tentando ficar longe de demasiada confusão e de demasiado trabalho. e é tolice confiar na sorte. Agora. colocou-me do lado contrário a .não resolvera absolutamente nada e. Como por certo diria o grande e falecido Benjamin Franklin (meu mentor e ex-empregador). Foi minha aversão ao trabalho pesado o que reforçou meu gosto pela jogatina. e o Egito trouxe minha linda. não trabalhar. trata-se de uma lição que esquecemos com a mesma freqüência em que as aprendemos. Ela.

"Fogo!" Antes que eu lhes conte o que aconteceu quando os mosquetes cuspiram fogo. apaixonei-me. Uma coisa levou a outra. Que tal uma coisa dessas para vir nos espreitar o pensamento à noite? Qual era afinal o relacionamento entre Astiza e Silano? Foi por isso que concordei em deixar que sir Sidney Smith. encarando mil bocas de mosquete. Silano. junto com meu inimigo. quando me vi sem escapatória no convés da fragata . minha bela e exasperante Astiza . aquele inglês maluco.primeiro candidata a assassinar-me. talvez deva voltar ao ponto em que se interrompera meu relato anterior. com aflição redobrada pelo fato de que as últimas palavras de meu inimigo a Astiza foram: "Sabes que ainda te amo!". Eu avisei que era uma história complicada.Bonaparte. Fosse como fosse. desembarcasse-me na Palestina logo adiante do exército invasor de Bonaparte. encontrei uma entrada secreta para a Grande Pirâmide e fiz as descobertas mais surpreendentes de todos os tempos. só para perder tudo o que eu prezava quando me vi obrigado a fugir de balão. No decorrer dos acontecimentos. e agora lá estava eu. para que eu fizesse investigações. Desde então. eu vinha tentando desesperadamente saber o paradeiro dela. depois sacerdotisa do Egito caíra do balão no Nilo. depois minha serva. no final de outubro de 1798.

Eu não poderia simplesmente arrumar passagem para casa sem saber se ela sobrevivera à queda com o vil Silano e se poderia. cuidando de testamentos chatíssimos para viúvas trajadas de preto. singrando o mar espumoso. que rumava para a Terra Santa com velas enfunadas. o qual eu finalmente despachara para um inferno condizente. tendo escapado por pouco à carga violenta de um guerreiro mameluco na Batalha das Pirâmides e ao sem-número de traições de um árabe adorador de cobras chamado Achmed bin Sadr.Dangerous. Em outras palavras. uma escrivaninha e uns livros-caixa empoeirados . os altivos oficiais de chapéu bicorne a percorrer o castelo de popa. e proles ingênuas e nada merecedoras.a bandeira inglesa desfraldada. era justamente o tipo de iniciativa militante e viril que eu aprendi a detestar. as gotinhas a secar em estrelas de sal. Eu estava um pouco cansado de aventuras frenéticas e mais do que disposto a voltar correndo para Nova York e assumir um belo emprego de contador.Astiza. Quão animado era tudo aquilo . A vida era mais simples quando eu não tinha princípios. escriturário ou talvez despachante.aquilo sim é vida! Mas sir Sidney não queria saber de nada disso. os vários canhões a orvalhar-se pela espuma do Mediterrâneo. ser resgatada. lépida. Pior: eu enfim decidira o que era importante para mim no mundo . os robustos marujos a puxar as rijas cordas de cânhamo com uma cantoria enérgica. E. . de algum modo.

um antro poliglota de muçulmanos. dissera-me que seria vantajoso para nós dois se eu me unisse a ele. Sir Sidney precisava de aliados e informações e. eu poderia fazer indagações sobre o paradeiro de Astiza. católicos. gritara sir Sidney. após ter-me pescado do Mediterrâneo. Será que ele enlouquecera? Segundo todos os relatos. ao mesmo tempo que avaliava as diversas facções que poderiam alinhar-se contra Napoleão. aquela cidade semi-esquecida. por outro lado. arquitetando uma borrasca de planos e mais planos. pelo fanatismo religioso e pela doença. Mas. maronitas. . "Jerusalém!". Assinalou que seria temerário de minha parte tentar voltar para o Egito e encarar sozinho a ira dos franceses. judeus. greco-ortodoxos. Recebera a incumbência de ajudar os turcos e seu Império Otomano a frustrarem mais avanços dos exércitos de Bonaparte do Egito para a Síria. um buraco otomano tomado pela sujeira e história. todos recordando ofensas feitas uns aos outros vários milênios antes. quando se era um guerreiro e maquina-dor inglês como Smith. beduínos. Jerusalém tinha a vantagem de ser uma encruzilhada da complexa cultura da Síria. só sobrevivera impingindo o turismo obrigatório aos crédulos e facilmente logrados peregrinos de três religiões. Na Palestina.Smith estava paramentado como almirante turco. drusos. curdos e palestinos. turcos. já que a esperança do jovem Napoleão era abocanhar para si um império no Oriente.

se ele de fato contivesse as chaves para a imortalidade e o domínio do universo. O sinete que Smith me dera salvou-me de ser enforcado no mastro pelo almirante Nelson. Meus sentimentos (de . havia mesmo lógica em ir para Jerusalém. e só o fiz porque Astiza convenceu-me de que Moisés roubara das entranhas da Grande Pirâmide um livro sagrado da antiga sabedoria. Mas. E Smith era um herói de verdade. com o destino me pondo outra vez cara a cara com sir Sidney e me deixando tão à mercê dos britânicos quanto eu estivera dos franceses. o tal Livro de Tot só rendera dissabores. após aquela bagunça no Nilo. perdi-o para não me afogar e roubei um balão de meu amigo e colega savant Nicolas-Jacques Conte. Com isso. que queimara navios franceses e escapara de uma prisão parisiense fazendo sinal das grades da janela para uma de suas excompanheiras de cama. podia? De um modo ilógico. e. fiz um pouso forçado no mar e me vi encharcado e totalmente desprovido de dinheiro no castelo de popa da Dangerous. tínhamos realmente uma espécie de aliança. eu nunca me aventuraria nem a cem milhas daquele lugar. Jerusalém se tornava o paradeiro mais provável do objeto. e de que os descendentes dele haviam levado o livro para Israel.Sinceramente. eu não podia de jeito nenhum esquecê-lo. depois que baleei Najac. Smith me imaginava um cúmplice de confiança. Até aquele momento. Eu o conhecera num acampamento cigano. a bem dizer. Depois que peguei um tesouro faraônico sob a Grande Pirâmide.

nossos amigos turcos vão precisar de toda a ajuda que puderem conseguir. errante e desprovido de escrúpulos e crenças. Gage. observei sensatamente. enquanto investigas na Palestina síria o paradeiro dessa mulher com quem te encantaste. "Mas só tenho rudimentos de árabe e não sei nada sobre a Palestina".. afável. Em Jerusalém.." "Exatamente. a Coroa . porque acham que não tens importância!" "É só porque sou americano. e. Uns e outros encantados com a perspectiva. e não britânico nem francês. com quem os britânicos contavam para combater Napoleão. "Assim. "Pode ser que eles tomem o partido dos franceses." Ele me segurou pelo ombro." Al-Djezzar. disso eu tinha certeza. Gage. podes também sondar os cristãos e judeus a respeito da possível resistência a Bonaparte". dizia-me Smith. Djezzar vai se impressionar com o fato de que até um homem superficial como tu tenha abraçado a causa. Perfeito para o que queremos. As pessoas te contam coisas. Ethan. cujo nome significava "o Açougueiro". "Isso não é problema para um agente sagaz e intrépido como tu. na América) foram alegremente desconsiderados. era o notoriamente cruel e despótico paxá de Acre.que eu já estava bastante farto de guerra e tesouros e me encontrava pronto para voltar para casa. se Bonaparte estiver levando um exército para lá. "Eu penso que és justamente o homem para esse tipo de trabalho: esperto.

O sacrifício que ela fizera para salvar-me fora o pior momento da minha vida (sinceramente. logo. como vens nos alertar.eu estava mesmo curioso a respeito do Livro de Tot e vinha me afligindo com a lembrança de Astiza. tendo solucionado todos os teus problemas. Logo. vou ajudar Djezzar a organizar a defesa de Acre no caso de Bonaparte marchar para o norte. festejados nos salões de Londres!" Sempre que as pessoas começam a nos elogiar e usar palavras como "formidável". É mesmo formidável como essas coisas se resolvem. pior até do que quando meu adorado fuzil da Pensilvânia explodiu). e o buraco no meu coração era tão grande que uma bala de canhão podia atravessar por ali sem esbarrar em nada pelo caminho.. Jericó tem até contatos no Egito! Alguns dias com tua manha diplomática. é hora de checar se já não nos furtaram nada. e estarás de volta com nada mais sério que poeira nas botas e alguma relíquia sagrada no bolso. boa frase para usar com uma mulher. um ferreiro de ofício que já serviu na nossa marinha. é ..tem um colaborador de codinome Jericó. Mas . Assim. e eu queria tentar essa tirada com Astiza. seremos considerados dois verdadeiros heróis. Aliás. Entrementes. mais a oportunidade de caminhar por onde andou o próprio Jesus.pela batalha de Bunker Hill! . Ele pode te ajudar a procurar essa Astiza e trabalhar para nós.

sem armas e sem dinheiro". apesar de me provocarem coceira.claro que eu disse sim .estou sem roupas. Minha primeira idéia fora penhorá-los. basta arranjar turbante e capa em Jafa. "E ganhaste um bronzeado bem trigueiro. "Esse teu gosto por roupa árabe vem perfeitamente a calhar". isso poderia te fazer parar numa cadeia turca se desconfiarem que és espião. Para passar por nativo. Gage. bronze e cobre: reais (espanhóis). disse o capitão-de-mare-guerra britânico. A única coisa que eu conseguira reter da Grande Pirâmide haviam sido dois pequenos serafins de ouro. enfiara nas ceroulas. no mínimo." "Ainda não falastes em dinheiro. uns anjinhos ajoelhados que Astiza afirmava provirem do cajado de Moisés e que eu. Ela é formidável. assinalei. O que vai te manter a salvo é a sagacidade. Mas eu posso te emprestar uma lunetinha. Quanto a levar alguma arma inglesa. eram uma reserva de metal precioso que eu preferia não revelar. "Mas vede . já que estava tão ansioso para alistar-me. mas eles adquiriram valor sentimental." Ele me deu uma pequena bolsa com uma quantidade variada mas reduzida de moedas de prata.a palavra mais perigosa do idioma." "A verba régia será mais que suficiente. um tanto vergonhosamente. perfeita para acompanhar claramente os movimentos de tropas. piastras . No mínimo. Então. que Smith me desse uma verba.

Quando eu ainda não caíra em desgraça como savant na expedição de Napoleão ao Egito. Mas és homem de muita capacidade. pensei com meus botões: talvez eu e os tripulantes que não estivessem de serviço pudéssemos matar o tempo com um joguinho cordial de cartas. aguçando minhas habilidades de jogador. um copeque (russo) e dois risdales (holandeses). Eles me haviam estimulado a pensar de modo mais sistemático sobre probabilidade e vantagem da banca. hein? Estica os tostões! Deus sabe que o Almirantado tem de fazer a mesma coisa!" Bem... porque elas te denunciariam num instante. gostava de conversar sobre as leis da probabilidade com figuras ilustres como o matemático Gaspard Monge e o geógrafo EdmeFrançois Jomard. "Será que posso chamar vossos homens para um carteado?" "Hum.(otomanas). Cuidado para que eles não fiquem com o teu desjejum!" —2— . Gage. a verba governamental! "Mas isto mal paga o desjejum!" "Não posso te dar esterlinas. eu já podia começar a mostrar capacidade ali mesmo. Ah.

Se é o par da carta da direita. As chances são iguais. para tanto fingindo que tinha cartas melhores (ou insinuando estar vulnerável quando. após haver tirado deles o máximo possível. se as duas primeiras cartas são iguais. a da direita a do apostador. naturalmente. eu trazia alguma prática dos salões de Paris (só o Palais Royale tinha cem salas de jogo em meros seis acres). a mão me deixava mais armado que a cinta repleta de ferros e bocas de fogo de um bei mameluco). as coisas não seriam assim. dependendo como é o blefe. na realidade. a da esquerda a minha. a banca (eu) lança uma aposta que os outros precisam igualar. Viram-se duas cartas. ganha o apostador. a banca ganha de imediato. numa ligeira vantagem matemática que. e os honrados marujos britânicos não eram páreo para alguém que eles logo estavam chamando de francês duas-caras. não é mesmo? Mas. Por conseguinte. que não é ruim para jogar com marujos simplórios.Comecei com brelan. propus jogos que pareciam exigir mais sorte que outra coisa. após várias horas. Nisso. Marinheiros e tenentinhos que já haviam perdido meio mês de soldo num jogo de habilidade vieram ansiosamente apostar o soldo inteiro num jogo pura e simplesmente de azar. deu-me boa . ganho eu. Eu então começo a virar outras cartas até achar par para uma das duas primeiras. se é o par da carta da esquerda. Só que. No lansquenê.

" "E. Não obstante a obviedade de minha vantagem. "Já virou coqueluche em Paris. a qual é do apostador. ianque trapaceiro!" Faraó. eles acharam que com o tempo levariam a melhor sobre mim. entretanto. mais minha pilha de moedas aumentava. quando o que aconteceu foi exatamente o oposto: quanto mais o jogo se estendia. sugeri. e tenho certeza de que a sorte dos senhores vai mudar. Ademais. Meu velho amigo Monge teria simplesmente dito que a matemática reina soberana. Quando se tira dinheiro de um homem. E não se conta a última carta no baralho de cinqüenta e duas. Quanto mais eles pensavam que a sorte inevitavelmente me abandonaria. a banca ganha sempre que as cartas são iguais. "Vamos então experimentar faraó". pois esta ganha automaticamente a primeira carta. Numa fragata que ainda não apresara nada. e estou em dívida convosco. mas havia tanta gente querendo levar a melhor sobre mim que. jogando a noite toda.margem de lucro e os fez implorar por um jogo diferente. é um jogo ainda mais vantajoso para a banca. vamos recuperar o dinheiro que perdemos. quando avistamos o litoral da Palestina. Afinal. é importante tranqüilizá-lo com a certeza de que ele jogou brilhantemente e foi apenas vítima dos caprichos do azar. e ouso dizer que distribuí tamanha solidariedade em tal grau que me tornei . mais minha vantagem se tornava inexorável. os ganhos eram parcos. minha pobreza já se remediara. sois meus salvadores.

porém. tentei reprimir um bocejo. mas parece que a divina providência tem sorrido para mim nesta longa noite.amigo do peito de figuras que eu espoliara ao extremo. e isso enquanto eu embolsava lucro suficiente para instalar-me em Jerusalém em grande estilo. observou com olhar furioso um enorme fuzileiro naval. "Ou a sorte dos anjos". "Jogaste de modo magistral. "Fui apenas feliz. Agradeceram-me por eu ter feito quatro empréstimos a juros altos aos perdedores mais lamentáveis. aventei." "Meu caro nauta. mantiveram-se teimosamente insensíveis a tal charme. Ele disse aquilo enquanto contava e recontava os dois tostões que lhe restaram." Dei um sorriso de orelha a orelha." "Eu quero que jogues com os meus dados". Em seguida. Dois de meus oponentes. procurando parecer tão afável quanto Smith me descrevera. eles já estavam prestes a me eleger presidente. Os dados são os olhos do demônio. meu camarada." Dei de ombros. "Homem nenhum consegue ser tão sortudo por tanto tempo. de cara vermelha. "Aí veremos se és mesmo sortudo. Quando devolvi o medalhão com retrato de namorada que um dos tolos penhorara. uma das marcas do homem inteligente é a relutância em confiar nos dados de outrem. "Tens a sorte do capeta". com mirada tão estreita e torta quanto uma viela de Alexandria." . que atendia pelo bastante preciso apelido Big Ned. disse o fuzileiro.

" "E. Lamento que tenhais perdido. ora. interpretou Little Tom. "Eu acho que ele quis dizer que trapaceou".. "Ora.nas cartas. Outros marujos acompanhavam o diálogo com interesse cada vez maior. um homem mais atarracado e mais feio que chamavam de Little Tom. É o homem quem faz a própria sorte. mas os fuzileiros estão pondo em dúvida a tua honra. estou simplesmente satisfeito em jogar o meu jogo e deixar-te jogar o teu. já nos batemos a noite toda. acho que esse americano é meio covardão". "Consta que és um atirador e tanto e que lutaste bastante bem contra os franceses. estou certo de que destes o melhor de vós e admiro tal perseverança. Gage"." "Estudar o quê?". senhores . Ele disse aquilo com mais entusiasmo do que eu gostaria de ter ouvido. Não vais . "Está morrendo de medo de dar uma colher de chá a dois honrados fuzileiros." "Ora. Tom ostentava a vileza compacta de um cão de rinha. mas talvez devêsseis estudar a matemática das probabilidades. Comecei a ficar receoso." Se Ned tinha a massa de um cavalo. não há por que falarmos em desonestidade. "Muito pelo contrário. declarou um capitão-tenente de quem eu abiscoitara cinco xelins.. escarneceu o amigo do fuzileiro."Estás com medo de me dar a chance de recuperar o que perdi?" "Não. quis saber Big Ned. já que eles também não reaveriam seu dinheiro de nenhuma outra maneira.

saindo pela tangente. eu imploraria para devolver todos os meus ganhos do jogo.." Big Ned martelou o punho contra o convés. joga com estes dados ou encontra-me no convés da bateria ao meio-dia. Que seja ao meio-dia. quando já tivesse sido amassado o bastante. Ficou claro que Ned era de um tamanho tal que não estava acostumado a perder. A marujada supôs que seria uma luta na qual eu. o que eu devia fazer estava suficientemente claro. "Ao meio-dia já estaremos em Jafa". me debateria dolorosamente ante o peso da mão e a força dos braços de Big Ned." Bem." Os presentes aprovaram aos brados.. por conta de cada tostão que ganhara. subi ao castelo de . respondi. Para que a notícia da briga se espalhasse por toda a Dangerous. A fim de distrair desse futuro desagradável minha tão fértil imaginação. "Devolve o nosso dinheiro. então. com um sorriso afetado apenas o suficiente para irritar. e um par de dados saltou de sua manopla como se fossem pulgas. precisas mesmo aprender uma lição. só demorou um pouquinho mais do que a fofoca de um encontro amoroso clandestino levava para ir de uma ponta a outra da Paris revolucionária.deixar esses fuzileiros questionarem o teu bom nome. "Então. Levantei-me. teremos ainda mais tranqüilidade para discutir o assunto lá entre os canhões. Aí. vais?" "Claro que não." Ele disse isso num resmungo. "É. mas todos vimos que foi um joguinho jus.

encontrava o cais do porto. Era um telescopiozinho de visão muito nítida. eu provara laranjas de Jafa. meses antes de Napoleão vir a tomá-lo. e suas construções de teto abobadado desciam em degraus para todos os lados. e me preparei para partir. Uma flotilha de pequenas balsas árabes veio ver que negócios poderia oferecer.popa para observar nossa aproximação de Jafa. Jafa coroava uma colina com fortes. Canhões negros se projetavam de seteiras. ouvíamos os gemidos dos muezins a chamar os fiéis para a prece. testando a nova luneta. tapetes pendiam dos balaústres. afamadas porque a casca espessa possibilita que sejam transportadas para a Europa. havia alguns recifes de aspecto perigoso. . Assim como as outras embarcações grandes. mesmo de duas milhas de distância. e o principal porto da Palestina. Havia tantas árvores frutíferas que a próspera cidade mais parecia um castelo na floresta. ancoramos em mar aberto. constituía-se de um farol numa costa que de resto era plana e nevoenta. campos dourados e pastagens castanhas. Em Paris. Estandartes otomanos tremulavam à brisa morna do outono. Terra adentro. Próximo à costa. e o cheiro dos fogos a carvão vegetal chegava à água. qual pilha de tijolos. e o pequeno porto estava cheio de dhows e faluchos. sinalizados por pequenos anéis concêntricos brancos. mais além. torres e minaretes. Tudo estava cercado por uma muralha que. e. havia laranjais e palmeiras e. na direção do mar.

passando-me o saco de bolachas de bordo que. Não foram poucos os que gostaram de ver-te passar a perna nele. Os ingleses não são conhecidos pela boa culinária. é claro. supunha-se. Desci para procurar Big Ned e o achei perto do fogo da cozinha. "Poderíamos ter uma palavrinha em particular?" . sendo tão tapado quanto. "Gage. Que pena que. hein? Faze-o dançar!" Deveras. para que eu não tivesse como segurá-lo. ele já usou de trapaça com mais de um desses infelizes que foram alistados na marra . Mas pareces bem lépido. eu soube que a tua famosa sorte te meteu num rolo com Big Ned". essa tua cachola vá pagar o pato. na briga. se eles fossem um tantinho mais pesados. Big Ned não está acostumado a perder.Depois. que eu tivesse me acertado com aquele fuzileiro descontente. mas desconfio que.e tem músculos para calar qualquer reclamação." Ele riu." "A tripulação está inflamada para diabo e só vai poder desembarcar em Acre." "Poderíeis proibir a luta. fariam esta fragata adernar. Brilhava tal qual um ganso na mesa de Natal. disse sir Sidney. onde ele ia passando banha na imponente musculatura. "É. deveria bastar para me alimentar até Jerusalém. Um bom arrancarabo ajuda a sossegá-los. Tens algum plano para embromá-lo?" "Sir Sidney. eu até tentaria jogar com os dados de Big Ned. "O homem é um touro e tem cabeça de aríete.

"Ben Franklin. afirmava que a riqueza aumenta as preocupações. mas a cada marujo e fuzileiro deste navio!" "Impossível."Estás arregando. lá onde se guardavam os suprimentos. "Acabo de ponderar o assunto e cheguei à conclusão de que o nosso inimigo comum é Bonaparte e de que não há por que hostilizarmos um ao outro. Mas ainda tenho o meu amor-próprio. Farias bem em te lembrares disso. mas ávido. para que ninguém o furtasse". Vem comigo e vamos acertar tudo longe dos olhares dos outros. levantando um alçapão que levava ao porão. Não sei quem deve o que a quem." Big Ned bamboleou atrás de mim como um urso de circo obtuso. o meu mentor. Descemos à parte mais baixa da fragata. se me acompanhares agorinha mesmo e prometeres me deixar em paz." "Que se dane o rebelde do Franklin! Ele devia ter sido enforcado!" . "Escondi o dinheiro aqui embaixo. Mas. eu te devolvo o dinheiro em dobro. "Maldito sejas ." Agora os olhos deles brilhavam. gananciosos. Seus dentes pareciam grandes como as teclas de um desses pianos modernos.vais me dar o triplo!" "Então vem até a coberta inferior para que eu lhe mostre a minha bolsa sem criar escarcéu. Vais devolver o que deves não apenas a mim. e atrevo-me a dizer que ele tinha razão. não?" Abriu um sorriso de orelha a orelha." "De jeito nenhum. eu disse.

Nisto. Será que podes me dar uma ajuda?" "Estica o braço tu mesmo!" "Eu só consigo tocar a bolsa com a ponta dos dedos.vês aquele brilho da prata? Estica o braço o mais que puderes. mas isso.. O homem era pesado como um saco de farinha. "Perdeste quanto no jogo? Três xelins?" "Por Deus. ." "Justamente . Céus." Olhei bem em volta e. foram quatro!" "Então triplica isso.." "Ali.. Big Ned caiu. erguendo a vista para aquele Golias ameaçador.a bolsa saiu do lugar. rolei alguns barris de água para cima do alçapão. eu já fechara e trancara o alçapão.. "Não estou vendo porcaria nenhuma. Talvez possamos achar um gancho." Fiquei ali de pé. Acho que caiu. eu o fiz seguir o resto do caminho para o porão. ouviu-se um baque e um chape.. e. foi uma vantagem. antes que ele pudesse urrar bastante na água sebosa do fundo do navio." Big Ned resmungou. ai ..agora estás me devendo dez!" "O teu braço é mais comprido que o meu. depois que ele já estava mesmo indo abaixo. ai. "Ai. com uma vigorosa levantada... com cara de perdido." Ele se abaixou e enfiou a cabeça pelo alçapão. usei do mesmo desamparo fingido que várias mulheres haviam usado para comigo. com o tronco atravessado no alçapão. à direita .Enfiei o braço pelo alçapão. que linguajar vinha agora lá de baixo! A fim de abafá-lo... espichando-se e tateando. "Ianque canalha.

não. tão logo ousei fazê-lo. não vou culpá-lo por não querer me enfrentar. Passei algum tempo ali embaixo. gritei. Little Tom estava rubro. gritando. mas não houve resposta.e único . Depois. "Os sinos do navio deram meio-dia!". Não vou brigar com cada homem deste navio. eu me voltei para Smith.Depois. eu é que vou te dar uma sova!" "Não vais." "Ned. "Por Satanás. Mas não teve resposta. chamou Tom. se eu não saísse logo da Dangerous. ensaiei movimentos de boxe." Só para manter as aparências. é? Bem. peguei a bolsa de onde estava realmente escondida (entre dois barris de bolacha de bordo). "Será que ele foi tirar uma soneca lá nos mastaréus?" Ergui os olhos para o velame e então me diverti vendo Little Tom subir para escalar o mastro com dificuldade. "Ele se escondeu. berrando e suando. portando-me como um galo impaciente. enfiei-a nas calças e subi saltando. vem dar o que esse americano merece!". para o convés da bateria. onde foi que ele se meteu?" Ergueu-se um coro a chamar Big Ned aos gritos. de mangas arregaçadas. "Em nome do rei Jorge. Smith sabia que." A tripulação estava visivelmente decepcionada e extremamente desconfiada. ele provavelmente perderia seu mais recente . "Quanto tempo vamos ficar esperando esse covarde? Eu e vós sabemos que temos assuntos a tratar em terra firme.

Eu o olhei pela . e o capitão muçulmano começou a remar para as rochas e o porto de Jafa com o dobro do vigor de costume.agente americano. é claro. Vai-te.. "Não jogueis cartas se não podeis vos dar ao luxo de perder!". ofegante e frustrado. Tom.e vais ganhar uma moeda a mais se fores bem depressa". como a de uma marmota do chão. de modo que. Eu preferiria antes partir para a China! Em especial quando houve uma agitação no convés da bateria e a cabeça de Big Ned despontava subitamente. Gage. Voltei-me para acenar para Smith. mas me deixaram passar até a escada do navio. "É. já passa de quinze do meio-dia." Houve um urrar de descontentamento. Eu não tinha muito tempo. "Para a praia. "Mal posso esperar para que nos vejamos de novo!" Mentira deslavada. berrou Smith à marujada. deixei-me cair nas sujas redes de pesca de uma balsa árabe. rubro de raiva e esforço. não tinha nenhuma intenção de chegar perto nem dos ingleses nem dos franceses. Tom sumira lá para baixo. Eles escarneceram. cochichei para o barqueiro. e Ned teve a chance dele. Tão logo eu descobrisse o paradeiro de Astiza e tirasse conclusões satisfatórias acerca do Livro de Tot. Smith verificou a ampulheta. tal qual um gato aflito. e cumpre tua tarefa em nome do amor e da liberdade. Eu próprio empurrei a balsa para longe da fragata. o que ainda equivalia à metade do que eu teria preferido. pulou de novo para aquele convés. agora mesmo . que se engalfinhavam já fazia um milênio.

tanto que eles começaram a girar em círculos. pois os musculosos fuzileiros batiam as ondas tal qual roda-d'água. Com uma boa dianteira. peguei uma das redes de pesca do meu barqueiro e. Ainda assim. ianque trapaceiro!" "Eu fiz que aprendeste uma lição. Smith já me inteirara a respeito de Jafa. vociferando insultos tais que fariam corar um sargento-instrutor. numa saudação irônica. isto sim!" Mas estava ficando difícil ouvir à medida que íamos sacudindo para longe. efêndi. e era preciso guia para locomover-se pelo lugar. Os fuzileiros navais ingleses já corriam a baixar uma lancha. A cidade tinha apenas um portão terrestre. Simbá?" "Sim ." Foi uma regata disputada. A rede se emaranhou nos remos de estibordo. "Dá para ir um pouquinho mais depressa. antes que este pudesse fazer objeção. Saltei para o cais de pedra um bom minuto antes daqueles que vinham . "Volta aqui. eu me esconderia bem o suficiente. Meu barqueiro reclamou.por mais uma moeda. arremessei-a na rota da lancha (que já se achegava). Sir Sidney levantou o chapéu. com Big Ned urrando na proa. Ned! Foste tu que não apareceste na hora combinada!" "Tu me ludibriaste. mas eu tinha moedas o bastante para pagar em dobro pela miserável rede e mantê-lo remando. Assim.nova luneta e vi que parecia ter sido batizado com lodo. cachorro covarde! Vou te arrancar os braços e as pernas!" "Acho que o covarde és tu.

As ruas eram um labirinto que conduzia às torres. e de laranja. que eram exportados pelo porto.decepção! . Estava determinado a localizar Astiza e dar o fora fazendo votos de nunca mais rever Big Ned nem Little Tom. mesquitas. próspera cidade agrícola. Como porto comercial. uma laranja e uma sacada com tela. -3Jafa se ergue qual um filão de pão no litoral do Mediterrâneo. ou "o Açougueiro"). que chegavam para visitar Jerusalém. ao norte (lá onde ficava o quartel-general de AlDjezzar. eles logo se revelaram inestimáveis quando um moleque de rua me convidou à taverna de sua irmã. Mas o dinheiro me proporcionou pão sírio.era desprovida de encantos. Anexos domésticos se projetavam ilegalmente sobre vielas escuras. falafel. sinagogas e igrejas que encimavam a cidade. Jafa ainda era. algodão e sabão. num andar superior. Burros tropeliavam para cima e para baixo nas pedras do pavimento. atrás da qual pude me esconder enquanto o bando de fuzileiros britânicos subia por uma viela e descia por outra. Por mais que meus ganhos no jogo pudessem ser de origem discutível. A irmã . correndo na inútil busca por . com praias vazias a curvarem-se na cerração para o norte e para o sul. porém. Havia fluxo constante de peregrinos.reivindicar o que consideravam seu. o lugar perdera importância para Acre.

Comprei um manto beduíno de listras grená e brancas. Por conseguinte. que são compridos. suficiente para levar-me até lá e não muito além. com cabo de osso de camelo. Como Smith previra. duas camisas de algodão e pano para turbante. calças bufantes de beduíno (tão mais confortáveis no calor que os apertados calções europeus!). mais botas novas. soldados otomanos que usavam botas de cor vermelha e amarela. mas eu já vira quanto eles haviam se mostrado medíocres contra os mosquetes franceses durante as batalhas de Napoleão no Egito. desajeitados e rebuscados. Ali descobri que não havia diligência para a cidade santa. Tenho pouca habilidade com espadas e não me animei a adquirir um dos mosquetes muçulmanos. o resultado me fazia parecer mais um membro exótico de um império poliglota. a madrepérola marchetada das coronhas é linda. para falarem de minha perfídia enquanto tomavam vinho palestino de má qualidade. E qualquer mosquete seria . eu era demasiado prudente (Ben Franklin. faixa de cintura. Como exíguo armamento.minha vil carcaça. desde que eu tomasse o cuidado de ficar longe dos arrogantes e inquiridores janízaros. outra vez) para comprar ou alimentar um cavalo. Esbaforidos e afogueados. colete. eles acabaram parando numa taverna cristã no cais. adquiri um burro dócil. economizei comprando uma adaga árabe curva. circulei sorrateiramente para gastar mais de meus ganhos no jogo. nem mesmo uma estrada que prestasse. com mangas. Nesse meiotempo. Financeiramente.

" . Já te disse que sou uma pessoa afável. Ainda preocupado com o dinheiro. chamava-se Mohammad. então é mulher." "Ah.. escolhi um tipo empreendedor. Tenho dinheiro bastante. efêndi. eu prefiro partir lá pela meia-noite.. Se o tal Jericó era metalurgista. para o caso de algum fuzileiro ainda estar à espreita por ali. nós dois conseguíamos nos comunicar. nome que parecia ter sido dado a metade dos varões muçulmanos de Jafa.. Entre o meu árabe rudimentar e o tosco francês de Mohammad. "Nem Satã conseguiria aplacá-las. Esposa ruim? Já vi as esposas cristãs.muitíssimo inferior ao lindo fuzil da Pensilvânia que eu sacrificara em Dendara para poder escapar com Astiza. Eu também escapuliria da cidade sem ser visto. sabes que paguei adiantado metade do preço extorsivo que me cobras.. calculei que. eu poderia economizar um dia de pagamento pelos serviços de Mohammad. Mohammad. Sabes como é." "Como quiserdes. aprendido porque os mercadores francos dominavam o comércio do algodão. evitamos o trânsito e desfrutamos o revigorante ar da noite. se partíssemos logo." "Então só pode ser dos credores." "Mohammad. Como dizia Ben Franklin. barbudo e muito vivo na hora de regatear." Balançou a cabeça e sentiu arrepios. "Pois muito bem. acordar cedo. talvez pudesse me fazer um substituto! Para ser meu guia e guarda-costas em Jerusalém. Estaríeis talvez fugindo de inimigos?" "Claro que não.

Mohammad chegou uma hora atrasado. e atravessei a arcada com a curiosa euforia que advém ao iniciarmos .. Sou homem. e. não sou monge. Exigia-se propina para que o abrissem à noite. gostava de dizer Franklin. pensei melhor e resolvi esperar para buscar alívio em Jerusalém. A verdade era que a abstinência e a fidelidade a Astiza faziam que eu me sentisse bem. se Big Ned tivesse alguma persistência. com o chão coberto de esterco. demasiado ocupado para passar a perna nele."Basta que estejas pronto à meia-noite. com uma insistência que desconcentrava.. desde as mais monótonas até as mais pervertidas. Combinados?" A despeito da dor pela perda de Astiza e da aflição em descobrir o paradeiro dela. e lá estava eu. Não obstante as condenações das mais variadas religiões. "A consciência limpa é um Natal permanente". Minhas tribulações no Egito me levaram a decidir reforçar a autodisciplina. muito embora copular na Cidade Santa fosse o tipo de coisa que deixaria meu antigo pastor apoplético. todas as variedades de sexo. mas finalmente me conduziu pelo labirinto de vielas escuras até o portão que. Mas o navio de Smith continuava ancorado ao largo. eram objeto de propaganda pelos moleques árabes nas ruas. seria bem próprio da minha sorte que o fuzileiro me encontrasse enrolado com alguma rameira. e já fazia mesmo uns dias. Por isso. tendo passado pelo primeiro teste. confesso que me passou pela cabeça procurar uma ou duas horas de companhia feminina em Jafa. dava para terra adentro.

e paramos. imaginando se ele não teria desmaiado. tal qual um cão após dar voltas no tapete da lareira. Assim. recuperara temporariamente a solvência graças à habilidade no jogo e saíra numa missão que nenhuma semelhança tinha com trabalho de verdade. no entanto. por intermédio do agente de Smith em Jerusalém. É . os bandoleiros beduínos infestam a estrada para Jerusalém e roubam todo e qualquer peregrino desarmado". perguntei ao subitamente deitado Mohammad. Mas não: deitara-se de caso pensado. eu sobrevivera a oito tipos de inferno no Egito. apesar de meus devaneios de tornar-me contador. O Livro de Tot. passamos a passos largos pelo portão . eu realmente ansiava por Astiza. dando à viagem o caráter otimista de uma caça ao tesouro. "Efêndi. e. displicentemente. Fiquei impaciente pela chance de.. E. que os crentes acreditavam capaz de proporcionar desde a sabedoria científica até a vida eterna. disse no escuro o guia. no qual os próprios ossos parecem então dissolver-se. descobrir de algum modo o que acontecera com ela. meu primo Abdul conduzirá uma caravana de camelos para lá. e nós.. iremos junto com ele. podia ser que ele estivesse em algum lugar. "O que é que estás fazendo?". Afinal. provavelmente já não existia.é insano. "Continuarmos sozinhos não é só arriscado .uma nova aventura. Ninguém consegue relaxar como um otomano. por segurança. Mais tarde. apesar de meus instintos lúbricos.

não se viam as casas de telhado de palha. voltou a dormir. os galos e os pássaros . Maldição! Bem. eu tinha pouca idéia da direção a seguir. Uma milha depois. O rangido das selas e o badalo dos sinos dos camelos vinham assinalar nossa passagem. preparamos um chá. Por fim. emprestaram-me uma pistola turca e cobraram-me mais cinco xelins tanto por ela quanto pela escolta adicional e outro xelim pela forragem do burro. Fizeram-se as apresentações. apenas os latidos dos cães indicavam onde elas ficavam. e era bem possível que ele tivesse razão. Assim. eu me afligi durante três horas. Na madrugada. A Palestina era tristemente célebre por estar tomada por bandoleiros. passamos por campos de algodão e trigo. era o meio da noite. Em seguida. até que finalmente Abdul e seus camelos resfolegantes se reuniram mesmo no portão. Eu estava na Palestina havia menos de vinte e quatro horas. surgiu um fio de luz quando as estrelas se desvaneceram. preocupado com a possibilidade de que os fuzileiros britânicos aparecessem por ali. bem antes do nascer do sol. e saímos. estávamos cinqüenta jardas para fora das muralhas. e partimos através dos laranjais. ou saqueadores vindos do deserto." E. O céu clareou. ou caudilhos às turras uns com os outros." "Mas e aquela conversa de sairmos cedo?" "Pagastes. e minha bolsa de dinheiro já minguava.assim que eu e Alá cuidamos de nosso hóspede americano. tendo dito isso. com a estrada orlada de tamareiras.

desde que sufocara uma revolta das tropas mercenárias dele próprio. essa desumanidade era necessária. mutilara os conselheiros mais próximos para lembrá-los de quem mandava ali e afogara generais ou capitães de navio que lhe desagradaram. Djezzar estrangulara várias esposas para não ter de aturar rumores de infidelidade.começaram a cantar. cada um deles tão à vontade entre os outros quanto um calvinista num piquenique no Vaticano. Mas. A província se fragmentava num número excessivo de grupos religiosos e étnicos. do governo imperial em Constantinopla. Na opinião de Mohammad. aquela planície costeira parecia tão luxuriante e agradável quanto a viçosa região dos colonos alemães da Pensilvânia. e. uma província otomana cuja capital. eu soube que a Palestina era nominalmente parte da Síria. Por meu guia. A invasão do Egito lançara ainda mais refugiados na Terra Santa. assim como o Egito estivera na realidade sob o controle dos mamelucos (independentes até que Bonaparte os expulsou). lá onde transcorrera tanto da história bíblica. ele mesmo um ex-mameluco. que há um quarto de século governava o Acre. estava sob o controle da Sublime Porta. eu enxergava os montes escarpados mais adiante. à medida que o alvorecer se avermelhava. infelizmente com célebre crueldade. e mesmo assim. com os . ou seja. As árvores de Israel haviam sido eliminadas para fazer carvão e cinza de sabão. Damasco. a Palestina estava sob o controle do bósnio Djezzar. após o deserto egípcio absolutamente árido. Era a Terra deveras Prometida.

e todo clã. seita e culto sopesavam as vantagens e desvantagens de Djezzar e dos até então invencíveis franceses.fugitivos mamelucos do bei Ibrahim procurando ali um ponto de apoio. comentei com Mohammad enquanto cavalgávamos. o sultão francófilo que lutava contra os Wellesley na índia. "A Palestina me parece uma barafunda repleta de donos da verdade e da virtude". Metade da população espionava a outra metade. As notícias das assombrosas vitórias napoleónicas no Egito. galopando todo o caminho até a índia meridional para reunir-se ao "cidadão Tippu" e privar a Grã-Bretanha de sua colônia mais rica. o corso queria superar o macedónio. a última das quais fora a supressão de uma revolta no Cairo. Eu também sabia que Napoleão ainda tinha esperanças de juntar forças com Tippu Sahib. cuja espinha era dura como uma barra de nogueira. prevendo a invasão francesa. Segundo Smith. Tropas otomanas recémrecrutadas chegavam em quantidade. eu grande demais para meu burro. abalavam o Império Otomano. O ambiciosíssimo Bonaparte estava organizando um corpo de camelos com o qual ele esperava atravessar os desertos orientais de modo mais eficiente que Alexandre Magno conseguira. "Aqui há tantas facções quanto numa vereança de New Hampshire. Aos vinte e nove anos. eu teria de extrair sentido daquele angu. ao mesmo tempo em que o ouro e as promessas de ajuda naval dos britânicos acirravam ainda mais as coisas." .

por caminhos que teriam sido desdenhados por qualquer cabra que tivesse algum amor-próprio (era evidente que a estrada não recebia manutenção desde a época de Pôncio Pilatos). disse Mohammad. eu não me lembro de ter ficado muito aborrecido com alguém. disparando canhonadas uns contra os outros para ver quem é mais democrático: se os republicanos franceses. nem alguém comigo. Astiza. e aí está a raiz de metade do derramamento de sangue do mundo. igualmente santo. chegando lá ao crepúsculo do terceiro. Sidney Smith. instigando minha diminuta montaria rumo à capital mundial da discordância teimosa. Pela milésima vez. a campanha egípcia. e . quando tudo o que tinha para me preocupar eram as cartas do baralho. levamos três longos dias para alcançar Jerusalém. com suas prisões para inadimplentes. de religião diferente. Era um trajeto cansativo e serpeante. "e não existe nada mais irritante que um vizinho. Napoleão. Em meus tempos de Paris." Amém. Aí veio o medalhão. Devido a nosso atraso e ao passo majestoso da caravana. Franceses e britânicos são exemplos perfeitos. as mulheres e às vezes um contrato de navegação. perguntei-me como é que eu fora parar ali. e cá estava eu."Aqui todos os homens são santos". pois outro homem estar convencido de que ele tem razão é insinuar que podemos estar errados. com sua guilhotina ensangüentada. ou se os parlamentaristas britânicos.

mostravam-se bem menos atraentes: eram pouco mais que pátios murados que serviam principalmente de curral para moscas. e moças de aldeia gingavam de modo bem interessante à beira da estrada. Passamos por frades de hábito marrom. ficaram íngremes como os Apalaches. O ar se tornou perceptivelmente mais frio e mais seco. passando por burros que zurravam. meus . ou khans. equilibrando cuidadosamente na cabeça jarros de barro. que em quatro ocasiões exigiram pedágio. camelos respingados de baba que peidavam e carroceiros cujos bois batiam cabeça enquanto os dois condutores batiam boca. faixas de cintura. mercadores sírios. Os lugares que se intitulavam estalagens. com a relva acastanhada pelo outono. um ou dois comerciantes de algodão franceses radicados na Palestina e muçulmanos de incontáveis seitas. em cores brilhantes. usando turbante e cajado. judeus ortodoxos de barba e longos cachos nos lados da cabeça. e seus olhos escuros brilhavam como pedras negras no fundo de um rio. cobertos de arbustos. Também deparamos com bandos de cavaleiros malencarados. oscilavam no balanço dos quadris. Subimos. missionários armênios de sotaina. Subimos a garganta do Bab al-Wad até umas matas de pinheiro e zimbro. descemos e demos voltas e voltas. Em cada uma dessas vezes. Beduínos desciam encostas conduzindo rebanhos de carneiros e cabras que pareciam derramar-se ali como água.em pouco tempo os montes castanhos.

Aqueles parasitas me pareciam simples assaltantes. não? Aqueles rústicos armados eram uma mistura de policiais com extorsionários.acompanhantes ficaram na expectativa de que eu contribuísse com mais do que parecia ser minha justa parte. de santos cristãos e conquistadores muçulmanos de um passado remoto. a luz apresentava uma limpidez muito diferente do que se via na brumosa Europa. e cada vila tinha direito à parte desse pedágio. Assim como no Egito. como se houvesse sido respirado vezes demais. como se pudéssemos ouvir os ecos dos heróis hebreus. mas Mohammad insistiu em que eram valentões das aldeias locais que mantinham à distância bandoleiros ainda piores. Quando parávamos para tomar água. Mas. Israel tinha seus encantos. ela ainda assim parecia bem rodada. Pedaços diversos de entulho histórico se projetavam de cada elevação. as pedras que calçavam o caminho para as bicas e poços eram côncavas e lisas. Mohammad provavelmente dizia a verdade. Se a Palestina não chegava a ter aquele ar de antiguidade do Egito. quando eu não estava resmungando sobre o interminável esvaziamento do meu bolso. Oliveiras tinham o diâmetro de barris de vinho. com o lenho retorcido por incontáveis séculos. Foi num daqueles khans que me fizeram lembrar de que eu não deixara totalmente para trás o . O ar também tinha gosto de poeira. já que cobrar tributo para nos proteger dos ladrões é coisa que todos os governos fazem. por conta de todas as sandálias e botas que as haviam percorrido antes de nós.

eu não ficava tão perplexo desde que o maldito medalhão realmente funcionara. Nada de falar delas a ninguém. Mas ele apenas recuou. e de início pensei que o velho mendigo vira alguma coisa que queria furtar." E. "O quê?" "Os dedos de Satã. "Apófis." "A furna?" Os serafins tinham vindo do subterrâneo da Grande Pirâmide." Ele estava claramente maluco. ouviste?" "Meu imã me confidenciou sobre elas. dei de costas com o homem e me sobressaltei antes de ter percebido que ele estava ali.mundo do medalhão. Apófis! Era esse o nome de um deus-cobra (ou demônio- . "São relíquias pessoais. Um velhote de religião e idade indeterminada recebia seu magro sustento do estalajadeiro para que servisse de faz-tudo. seu olhar de assombro e desalento me deixou apreensivo. Eu teria tido olhos para alguma serviçal. tendo dito isso. Ficou de olhos arregalados em face dos anjinhos de asas abertas. mas um esfarrapado com vassoura de gravetos não atraía minha atenção. e era tão humilde e discreto que só reparávamos nele para pedir um copo de água ou mais uma pele de carneiro onde deitar. consternado e temeroso. Ainda assim. Que Alá tenha misericórdia de vós. ele se virou e fugiu. Da furna. "A bússola". de modo que. Ora. Cobri os serafins com a roupa de baixo. quando estava me despindo altas horas e expus momentaneamente meus serafins de ouro. murmurou ele em árabe. e o brilho sumiu como se a luz houvesse se apagado.

e em três de seus lados o terreno despenca abruptamente para vales estreitos. correndo e de novo escondendo os serafins na roupa. eu estava farto de divindades transviadas a meter-se na minha vida como parentes indesejados que vinham deixar marcas no chão com barro de suas botas. Mas não o achei em lugar nenhum. o estalajadeiro contou que o criado aparentemente pegara seus escassos pertences e se escafedera. era verdade. mas a coincidência era inquietante. A coisa não tinha sentido. cá estavam falando dele outra vez! Pela fuça de Anúbis. No entanto. Oliveiras. um homem da razão. Eu não a levei a sério (afinal.. E chegamos bem à legendária Jerusalém. Muralhas colossais. e eu achava ter deixado isso e seu nome bem para trás. sou discípulo de Franklin. um homem do Ocidente). vinhedos e pomares recobrem as encostas. no Egito. Reconheço que se tratava de uma visão impressionante. E agora um velho faztudo trazia novamente o nome à baila. o norte. É pelo quarto lado. mas havia mesmo algo lá embaixo num poço fumarento. que os invasores sempre vêm. e jardins proporcionam pontos de verde no interior da cidade. de duas milhas de . A cidade fica encarapitada num monte entre outros montes. De manhã. Tornei a me vestir. e saí apressadamente de meu cubículo para procurar o velho e lhe perguntar o que significava aquele nome.cobra) que Astiza afirmara estar nas entranhas do Egito..

o horizonte estava pontuado de cúpulas. Por toda a parte.comprimento. judeus. Aparentemente. Mais perto de onde estávamos. subsistindo economicamente dos peregrinos e da inconstante indústria da cerâmica e do sabão. O efeito era tão competitivo quanto barracas de verduras a rivalizar entre si numa feira de domingo. cristãos. Eu encontraria pedras semelhantes no Monte do Templo. minaretes e torres de igreja. O que fazia a cidade sobressair eram suas edificações. área que agora servia de base para a grande mesquita. Eu logo descobriria que uns quatro mil eram muçulmanos. legado deste ou daquele cruzado ou conquistador. Menos de nove mil pessoas moravam ali quando cheguei. flores e arbustos brotavam das mal conservadas muralhas. com suas ameias encimadas por uma torre redonda como um farol. o Magnífico. O Domo da Rocha . Pedras tão descomunais quanto as que eu vira no Egito constituíam as fundações da cidadela.tinha uma cúpula dourada que brilhava como um farol ao poente. três mil. cada um deles tentando deixar um edifício santo que compensasse sua respectiva variedade nacional de matança. circundam por completo a população de Jerusalém. o Portão de Jafa era a antiga cidadela. Trepadeiras.a mesquita principal . erguidas por um sultão chamado Suleíman. os alicerces de Jerusalém haviam sido assentados por gigantes. e dois mil. a plataforma do antigo templo judaico. . com os sinos cristãos tocando enquanto os muezins gemiam e os judeus entoavam suas preces.

"O que procurais. fileiras de oliveiras desciam marchando para vales rochosos e tortuosos. Sabedoria era o que se presumia que estivesse contido no Livro de Tot. "E. justamente porque a consideravam tão sagrada. de modo que é bom que tenhais vindo para cá. assim como Jafa." "Tomara que sim. tudo nítido e detalhado. "Vou te pagar agora e ir atrás do homem com quem me hospedarei.pelos óculos de Franklin! .e palmeiras marcavam praças e jardins. . Muitos homens procuram a vida inteira sem achar sabedoria nem amor. Com o sol baixo. e era bem verdade. comentou Mohammad enquanto fitávamos a antiquíssima capital. queimada e saqueada mais vezes do que qualquer outro lugar da Terra. fumacentos devido à queima de lixo. era da cor do mel. do outro lado do chamado Vale da Cidadela." Eu sabia que Jerusalém. notícias de quem amo. fora atacada. "A maioria dos homens vem para cá procurando alguma coisa". onde queira Deus que as preces por ambas as coisas sejam atendidas. meu amigo?" "Sabedoria". Jerusalém." "Ah.eu bem que precisava de alguma. Desse buraco infernal." Tentei não fazer tinir em demasia a bolsa de dinheiro enquanto contava o restante da paga de Mohammad. com sua pedra calcária fermentando aos raios amarelos do sol. erguia-se o olhar para ver pássaros rodopiando diante de palácios celestiais de nuvens. e . espero. respondi. Do lado de fora da cidade.

" Assim. "Nenhum mimo por ter compartilhado convosco meus conhecimentos da Terra Santa? Nenhuma recompensa por terdes chegado em segurança? Nada por esta vista gloriosa?" "Imagino que também te consideres responsável pelo bom tempo. apesar dos trajes. vi que Jerusalém era uma semi-ruína. Ele fez uma reverência e agradeceu efusivamente.Ele a pegou avidamente e então reagiu com um assombro muito ensaiado e praticado. resmungou. eu . revistou-me à procura de armas (elas não eram permitidas nas cidades otomanas mais importantes). -4Quando segui pela trilha de terra e atravessei uma ponte de madeira até o ferro negro do portão de Jafa e a feira mais além. efêndi. "Que Alá sorria para vossa generosidade!" Não consegui esconder o azedume em meu "Vai com Deus". contorcendo-me na sela para que ele não visse quão pouco me restava. Um policial. "Sou um simples peregrino". "Eu achava que os francos saíssem por aí com coisa melhor". "E que a paz esteja convosco!" Uma bênção que acabou não tendo efeito. tomando-me por europeu. "Procurei ser vosso servo. ou subashi. mas deixou que eu conservasse minha reles adaga." Ele pareceu magoado. dei-lhe uma gorjeta que eu não podia muito permitir-me.

Jerusalém era sonolenta. com as aves tendo ocupado as torres da cidades. "Pois que continues assim. O trajeto era tão despovoado que eu topava com galinhas na rua o tempo todo. Mercadores se encontravam com caravanas. construído ao redor da igreja do Santo Sepulcro e da sede franciscana. Através do portão. os outros cristãos de modo geral e os judeus. mas seus toldos desbotados e suas prateleiras semivazias só enfatizavam a melancolia secular. As residências habitadas. e governadores inoperantes. vendi meu burro pelo que pagara por ele (ao menos eram algumas moedinhas de volta!) e me localizei. decaíam tal qual a pele das velhas. para os muçulmanos. Mohammad me explicara que a cidade se dividia em quatro bairros. Seu olhar era cético. Metade das casas parecia abandonada. Mas a autoridade otomana estava em declínio havia dois séculos. frustravamse quaisquer fantasias que eu tivesse de um Oriente opulento. Segui por vielas tortuosas da melhor maneira possível. até o quadrante noroeste. com barracões e sacadas de madeira projetando-se como pústulas. os armênios. impostos extorsivos e rivalidade religiosa haviam atravancado a prosperidade de Jerusalém até não mais poder. Assim como no Egito. construídas de pedra antiquíssima. saqueadores beduínos.lhe disse. ." Depois. e peregrinos de uma dúzia de seitas davam graças ao entrar nos locais sagrados. Barracas de feiras orlavam as principais ruas. passava um tráfego constante.

Fiquei surpreso em deparar com um olhar de mulher . A parte esquerda do pátio era uma venda abastecida de implementos prontos. Ademais. imaginei se estava mesmo no endereço certo.. "Meu nome é Ethan Gage e trago carta de apresentação de um comandante de navio inglês para o homem a que chamam Jericó. até que enfim a porta se abriu. Projetando-se ligeiramente por sobre essas três alas. estava a moradia. com as pedras do piso manchadas de cinza pela fuligem. as pupilas eram cinza-claro.. acessível por . comecei em inglês. e eu sentia o cheiro do carvão vegetal da forja de Jericó. disso não havia dúvida. de pé. Estou aqui. bem à maneira árabe. um depósito de metal e carvão vegetal. à direita. como se por vontade própria. num barracão térreo cujas paredes estavam cobertas de ferramentas penduradas. de uma translucidez incomum no Oriente. De um lado havia uma porta menor. Após alguns minutos. encimado por uma ferradura. até que se abriu uma pequena viseira. Bati vigorosamente na portinha de entrada.As vagas orientações de Smith e meus próprios pedidos de informação me levaram a um sobrado de pedra calcária com sólido portão de madeira. Por instrução de Smith. eu me acostumara a porteiros muçulmanos corpulentos e esposas confinadas." A viseira se fechou. vi o fulgor de uma forja. e entrei cautelosamente. Mais adiante. no mais. também de madeira. a fachada não tinha traços distintivos. Estava no pátio de trabalho de um ferreiro.no Cairo. esperei e tornei a bater com força. Continuei ali.

exceção feita a alguns fios soltos que escapavam do lenço e indicavam uma cor surpreendentemente clara. Os lábios eram cheios. O rosto exibia a beleza arredondada de uma pintura renascentista. o que me surpreendeu. tendo uma lisura de casca de ovo. a cabeça estava coberta por um lenço. sem dizer palavra. vi o suficiente para chegar a uma conclusão fundamental: ela era bonita. músculos . O cabelo estava todo coberto. Algumas pétalas haviam caído nas cinzas ali embaixo. quando consegui que nossos olhares se encontrassem. que eu acho tão sedutora. eu me voltei para ver um homem de barba. Ela passou por mim como um fantasma. com a pele muito clara para aquela parte do mundo. e percebi que a mulher ficara escondida por ele. aquela sutil curva meridional. E então a mulher desapareceu por um vão de porta. de intensa curiosidade. Tendo feito aquele reconhecimento instintivo. E verdade que sou um safado vistoso. baixou o seu. seus olhos me examinando com uma mirada fugaz e oblíqua. mas será que eu era mesmo tão interessante assim? O vestido lhe ia do pescoço às canelas. O portão se fechou às minhas costas. O nariz tinha aquele ligeiro arco mediterrâneo. e. e a mulher afastou púdicamente o rosto. ela.uma escada de madeira sem pintura e tendo na frente uma sacada. O talhe do corpo era bastante esbelto. mas ficava difícil dizer mais que isso. com rosas murchas a cascatear de vasos de ferro. Entretanto. à moda de todas as religiões na Palestina. recatada.

não?" "É. já era um passo na direção certa." "Irmã. algo que me fazia pensar na gravidade bondosa que sempre associei a José. grossos como pernis e marcados pelas inevitáveis queimaduras. "Jericó. O homem descalçou uma luva de couro e estendeu a mão calejada.. "Gage. não a constranjas. o Carpinteiro..rijos e avental de couro vir caminhando da forja a passos largos. Não que eu estivesse esquecendo Astiza por um momento que fosse . Tinha antebraços de ferreiro. a constituição do homem era suavizada em alguma medida pelos lábios cheios e pelo rubor que se escondia sob a barba nas faces (um viço querubínico que ele comparrilhava com aquela mulher)." "Deveras?" Bem. era bem claro." O homem podia ter boca de mulher. Ethan Gage". Em todo o caso.é só que a beleza feminina desperta uma curiosidade natural em todo varão saudável. vindo de um homem rijo como um toco de carvalho." . A fuligem do ofício não ocultava o cabelo cor de areia nem os surpreendentes olhos azuis. que me miravam com certo ceticismo. "Naturalmente. "Como tua esposa talvez já tenha explicado. mas seu aperto de mão era um torno." O recado. e sempre é mais seguro saber em que pé estão as coisas. Por isso. "Ela fica encabulada com estranhos. Teriam as ondas atirado vikings na Síria? No entanto. confirmei ao apertar uma palma dura como lenho. é louvável que ela aparentemente entenda o inglês.

Falo um pouco de árabe. de modo que posso te oferecer alojamento temporário e um conselho que vem resistindo ao teste do tempo: qualquer estrangeiro que tenha pretensões a entender a política de Jerusalém não passa de um tolo." Conservei a afabilidade de sempre. Jericó. porém indisponível. não entendo a resposta e vou embora para casa como qualquer peregrino." Só consegui desconcertá-lo. não consigo imaginar que vás desabar logo. "Então quem sabe minha tarefa seja breve? Eu pergunto. "Preferes a indumentária árabe?" "E confortável e anônima. "Quanto a ti." "Encantadora."Seria surpreendente se não entendesse. Um bom homem para termos do nosso lado. "Smith mandou-me avisar sobre tua missão." Eu estava decidido a continuar tentando. Lá não há mais muralhas. e achei que ela poderia ser útil no souk e na cafeteria. não?" "Jericó é a vila onde nasci. logo." Ele me olhou de alto a baixo." . "Sabes a história bíblica." Ele reagiu a minha verve com tanta animação quanto um ídolo de pedra. Comigo. Ela não tem nenhuma relação com nossos assuntos. As melhores senhoras são assim. aquela sobre o desabamento das muralhas de Jericó? Tu me pareces sólido como uma rocha. já que morou na Inglaterra.

e. continuei.. Se bem entendi.está aí uma das vantagens dos Estados Unidos. e não estão lá muito errados. persas." Inteligente e direto. As raízes de minha família são bem antigas. Todos os credos. Hospedo os amigos de Smith. Pela passagem de volta e algum pagamento. mongóis." "Mas. Eles fazem o que ele manda fazer. não ficaste por lá. de ascendência breve e. Descobrem pouca coisa que se aproveite. Fui aprendiz de ferreiro em Portsmouth e mandei buscar minha irmã. o tal ferreiro. etíopes." "Sentíamos falta do sol. eu me alistei numa fragata inglesa e aprendi a fazer reparos no ferro. Os meus vizinhos pensam que eu simplesmente me aproveito de saber inglês para acolher hóspedes de vez em quando. Eu me vi na expedição de Bonaparte .". mas nossa geração acabou saindo bem clara. aprendeste inglês na marinha deles.. E tu?" "Americano. melhor . quanto antes esquecida. os britânicos são brancos como vermes. Deveríamos ser uma mistura de cores. hesitante. "Sidney Smith acredita que ele e eu podemos nos ajudar mutuamente. não?" "Miriam e eu ficamos órfãos por causa da peste. em Tiro."E eu não esperava encontrar olhos azuis na Palestina. "Sangue dos cruzados. concordei em ficar de ouvidos atentos aqui. Os marujos me deram esse meu apelido. Todas as raças passaram por Jerusalém cruzados. opiniões e nações. Eu havia conhecido Smith na marinha. obviamente. Os padres católicos que nos acolheram nos contaram alguma coisa do mundo. Era minha obrigação.

" "Se a mensagem é essa.. vou levá-la a Smith." Avaliei que ele estava não tentando me explorar." "Então não vais me ajudar?" "Quem não vai te ajudar são meus contatos no Egito. Se eu quisesse chegar a algum lugar com minha busca.ao Egito. mas apenas me dizendo a verdade. um tirano que está sempre pisando no pescoço deles. Não sem dinheiro. ela caiu no Nilo.. e quem melhor que aquele ferreiro de olhos azuis? Assim. precisaria de um parceiro.. Quero saber se está viva e. Conheci no Egito uma mulher que está desaparecida. Não são poucos os que vão considerar os franceses seus libertadores.Com gente que odeia Djezzar." "Uma mulher? Intima de ti?" Ele parecia tranqüilizado por meu interesse em alguém que não fosse a irmã.. como resgatá-la. "Desconfio que mais do que podes pagar. nesse caso. Mas também preciso de ajuda para mim mesmo." "Quão mais caro?" Ele me olhou de alto a baixo. os judeus e os drusos podem fazer. dei-lhe uma dica da outra coisa que eu . "Esse tipo de investigação é mais caro do que ficar ouvindo as fofocas políticas em Jerusalém. Agora. Para ser mais preciso. os franceses estão planejando vir para cá. Ele está tentando ajudar Djezzar a organizar a resistência aos franceses." ". Disseram-me que tens contatos no Egito." "E Smith quer saber o que os cristãos." "Exatamente.

" Eu o fisgara. não?" "E és ótimo juiz de caráter!" Ele podia estar cético. E ele tinha a mesma ganância de todos nós: não há quem não sonhe com tesouros enterrados. "Eu posso ver se não custa demais. mas também estava curioso. "Talvez tu possas colaborar. Eu apostava que pagar por notícias de Astiza não lhe custaria assim tão caro." Ele passou a língua pelos lábios. Um bom fuzil. Mas ele poderia fazer de um homem um rei. "O maior tesouro? E qual seria ele?" "É segredo. eu te prometesse uma parte do maior tesouro do mundo?" Ele finalmente riu." Jericó vivia com simplicidade. "Eu também preciso de outra coisa. aqui mesmo em Jerusalém. Os muçulmanos preferem . "Smith achou um biltre bem descarado e atrevido. E se. sua casa tinha mais mobiliário que uma moradia islâmica. em troca." "Tens idéia de quantos tolos já alimentaram a esperança de descobrir tesouros em Jerusalém?" "Não serão os tolos a descobri-lo." "Ah. embora o ofício de ferreiro lhe desse alguma prosperidade. Sendo cristão. E onde estaria esse tesouro?" "Espero que bem debaixo de nossos narizes." "Queres que eu gaste o meu dinheiro procurando por essa tua mulher?" "Eu quero que invistas no teu futuro.procurava.

exceção feita ao calor que vinha do carvão a queimar no fogo e na forja lá embaixo. A comida era farta. azeitona. mas o produto era relativamente raro e caro. os cristãos. num atravancamento estacionário de mobília. cadeiras e grandes armários. e os ornamentos nas paredes de estuque se limitavam a um ou outro crucifixo ou imagem de santo . eram de uma simplicidade puritana. sentamos em posição alta e formal. caros e escassos. Miriam. vinho e quaisquer verduras que Miriam conseguisse comprar na feira a cada dia. Em vez das almofadas e arcas islâmicas. as velas e o óleo. o que vinha reforçar a escuridão e a melancolia outonais. e tão desconcertante quanto. As janelas tinham treliça. Embora o inverno já se aproximasse. não havia nada para o aquecimento. Já nós. estamos acostumados a ter a cabeça mais perto do calor do teto que do frescor do chão. A carpintaria e a marcenaria. Jericó tinha mesa. de modo que o frio mais intenso era contido por sacos de serragem que ficavam nelas por toda a estação. ela trazia carne para o irmão.almofadas.o hábito da tenda beduína nunca foi deixado para trás.um lugar despojado como um convento. não vidraças. por isso. pois estas podem ser movidas para que as mulheres fiquem isoladas quando chegam convidados do sexo masculino . . mas básica: pão. mantinha a casa imaculada. musculoso e esfomeado. O piso de tábuas estava desprovido de tapetes. De vez em quando. a irmã. o vento. porém. A água das bacias era gelada. penetrante. e nós dormíamos e levantávamos muitíssimo cedo.

para uma mesma quantidade de bucha e pólvora. eu deveria tentar imitar) e conquistara o respeito da cidade. O que primeiro nos uniu foi a fabricação de meu fuzil. a Palestina foi um baque. uma caída na coronha para que os olhos fiquem na altura da mira. cristãos e judeus) que apareciam naquele pátio coberto de fuligem para comprar implementos de ferro. e dá para municiá- . "Estás falando de um fuzil alemão como o Jäger? Um fuzil de caça?". O melhor fuzil que já vi consegue pregar três em cada cinco pregos a cinqüenta jardas. mas ele já estava adiante de mim. e assim. Via-se isso. a velocidade do fuzil permite que se usem balas menores que as de mosquete. mas o primeiro tiro já acerta mesmo alguma coisa. Ferro doce. no olhar dos homens (muçulmanos. reservado e aplicado (todos atributos que. indiferentemente. ranhuras profundas." "Por aqui. Quanto ao calibre. o quarenta-e-cinco já basta. São rápidas na hora de recarregar. "Não vai ficar desajeitado demais?" "O comprimento dá precisão e potência à bala. Mostra-me na areia o comprimento que queres. hábil. perguntou quando lhe descrevi a arma que eu perdera. Jericó era constante. Achei que eu pudesse orientá-lo no projeto de uma boa arma. mas a fronte permaneça longe da chama. imagino. Leva um minuto inteiro para carregar e socar. eu posso levar mais munição. a regra são as armas de alma lisa. "Já trabalhei em alguns." Esbocei um cano de quarenta e duas polegadas.Para um parisiense boa-vida como eu.

" "Não. Para mim. até seixos. homens que." "No combate aproximado." Jericó tinha a parcialidade dos marujos com os quais servira. a rapidez ao recarregar leva às vezes a melhor." "Ser preciso é ser certeiro. eu às vezes invejo tipos sérios e . podes caçar tesouros enterrados ou ouvir rumores suficientes para satisfazer a Sidney Smith." Trabalho honesto? A idéia era instigante (verdade seja dita. partiam direto para o arranca-rabo brutal." Como era difícil brincar com ele! Jericó olhou para o esboço na areia. Vais ajudar. Vou dar duro procurando enquanto fabricas o fuzil. tentar lutar com um mosquete comum é como ir ao bordel de olhos vendados .las com qualquer coisa .se for necessário. Para essa tua arma. vamos necessitar de balas precisas. E pretendes usar o tal tesouro para me pagar por isso?" "Em dobro." Ele balançou negativamente a cabeça.podemos até conseguir o que queremos. Será uma experiência nova para ti fazer trabalho de verdade. "E o tiro certeiro ao menos impede que se aproximem de nós. Nos dias de pouco movimento. "E fácil prometer dinheiro que não se tem. Podes cobrar dele para saldar tua própria dívida comigo." "Não sei nada dessas coisas. mas também podemos errar e muito o alvo. mas também em outros. não apenas nesse serviço. "São quatrocentas horas de trabalho. ao abordarem um navio inimigo.

Nessa altura. própria para fazer armas de fogo." Com o endosso dela. "mas precisas me garantir horas suficientes para que eu cisque por aí. regateei. eu já terei achado o tesouro e conseguido o dinheiro com Smith. mas também assustadora. eu sabia que tinham alguma confiança em mim. Segurei o mandril e lhe passei ferramentas enquanto Jericó colocava a fita numa das ranhuras da bigorna apropriada e começava a martelar para ir formando o cano. . Aí. de calibre ligeiramente menor que o do cano pretendido para meu futuro fuzil. depois que obedeci de um átimo. e virei tanto metal que meus ombros doíam. ou mandril." E. Jericó balançou a cabeça. O ferreiro aqueceu uma fita de aço carbonizado de Damasco. de má vontade. "Ajudarei na forja". que teria o mesmo comprimento do cano da arma. "Pois então usa o fole para avivar aquele fogo.responsáveis como Jericó). Ele enrolaria a fita em torno do mandril. e joguei carvão com a pá. Fazia aquilo uma polegada de cada vez. Jericó primeiro pegou uma haste metálica cilíndrica. Poderia acontecer muita coisa até lá. retirando o mandril enquanto o metal ainda estava ligeiramente maleável e mergulhando o resultado do trabalho na água. Que tenhas o fuzil pronto no final do inverno. quando Napoleão chegar. "Miriam acha que és um bom homem. mas a primavera estava bem longe." Conseguir arrancar alguma coisa do Almirantado é como extrair caldo de cadarços.

"Não és casado. ficaram ainda mais rijos. Nunca encontrei a moça certa. Aconteceram outras coisas. Aquele cano seria meu novo companheiro. incomodado." . Ele parou de martelar. E Miriam." "Mas é uma moça tão adorável! Doce. A obrigação me mantinha aquecido.. já tonificados pelo Egito. Eu fui para o navio britânico. "Assim como cuido dela... Era uma faina tediosa.. Tentei fazer que o ferreiro se abrisse. Mas aí houve essa mulher no Egito. martelar e ressoldar. Eu comia com simplicidade. enrolar outra polegada do aço. Jericó?" "Vês alguma esposa por aqui?" "Mas um homem próspero e bem-apanhado como tu?" "Eu não quero saber de casar." "E tu tens essa mulher no Egito. insisti. de polegada em polegada." O olhar dele encontrou o meu.voltava a reaquecer. Meus músculos. "Já fui casado. Recatada. Obediente. dormia bem e até vim a me sentir à vontade na singeleza devota de minhas acomodações. E assim íamos." "Teremos notícias dela." "E se aparecer um pretendente?" "Ela não quer saber de pretendentes." Agora eu estava entendendo. "Cuida de ti. e o trabalho braçal duro produzia sua própria satisfação. o irmão enlutado." "Eu também não." "Então são só tu e tua irmã". mas também curiosamente apaixonante. Ela morreu quando estava grávida do meu filho.

ou refeitórios beneficentes."Precisas casar". Ele precisava de uma ou duas taças de vinho para se soltar. eles criam seu próprio Inferno particular. já que estou aqui. Com o café." "Eu não preciso da ajuda de um estrangeiro. Jerusalém estava acostumada com peregrinos. "o que significa que. as cafeterias atraíam homens de todos os credos para bebericar café. eu posso oferecê-la assim mesmo!" Eu sorri de orelha a orelha. mas. aconselhei. eu convencia Jericó a vir junto. As confluências da cidade eram as feiras. e nós voltamos a malhar metal. Talvez eu possa arranjar alguém para ti. suas relutantes explicações sobre a terra natal se mostravam inestimáveis. quando começava. "Em Jerusalém. resumiu." "Mas. e meus sotaques não chamavam a atenção. Se os khaskiyya. todo o mundo acha que está bem mais perto do Céu que os outros"." . Ou de um vagabundo. eu saía para conhecer Jerusalém. inglês e francês. procurando garimpar informações úteis com meu conhecimento do árabe. o ar era inebriante. ele resmungou. juntos. o forte fumo turco e o haxixe. fumar narguilé e debater. "E ter uns filhos para fazer-te dar risadas. Dependendo do bairro aonde ia. De vez em quando. atendiam aos desamparados. Quando o trabalho era leve. onde os ricos e os pobres se misturavam e os janízaros faziam casualmente refeições com artesãos comuns. variava ligeiramente a indumentária.

Bonaparte ainda não fora derrotado. Djezzar dominava implacavelmente a região havia um quarto de século. Por que deveria eu tomar o lado dos arrogantes britânicos. . Aspirantes a déspota religioso de meia dúzia de credos sonhavam em estabelecer suas respectivas utopias puritanas. A cidade estava tão tomada por rumores da chegada de Napoleão que zumbia como uma colmeia. Mesmo que Smith tivesse esperança de que eu fosse recrutar adeptos para a causa britânica. eu explicava que era representante comercial dos Estados Unidos. Dizia estar esperando para fazer negócio com o vencedor. e a Palestina não passava de uma ilhota no vasto Império Otomano. não estava de maneira alguma claro quem pegaria em armas contra quem."Mas não é esta uma cidade desarmada. lugar de paz e devoção?" "Até o momento em que alguém pisa na devoção dos outros. Embora xiitas e sunitas estivessem às turras nas comunidades muçulmanas e tanto os cristãos como os judeus fossem minorias indóceis e desconfiadas uma da outra." Se alguém perguntava sobre minha presença ali. Eu ainda gostava dos ideais republicanos franceses e dos homens com os quais servira no Egito. Queria ser amigo de todos. Os ingleses controlavam o mar. coisa que fora de verdade em Paris. mas não havia consenso sobre qual lado levaria a melhor. minha pessoa não tinha nenhuma intenção de realmente fazê-lo. e não discordava necessariamente dos sonhos de Napoleão de reformar o Oriente Próximo.

esfreguei o âmbar energicamente em minhas roupas e aí ergui a mão por sobre as peninhas. Algumas flutuaram para a minha palma. eu encontrara um pedaço de âmbar. e foi inevitável que se espalhasse a notícia sobre o infiel em indumentária árabe que estava trabalhando na forja de um cristão. Era uma cidade pequena. E. com um inseto preservado lá dentro. cheguei de fininho por trás. "Como é que fazes isso?" "Trago misteriosos poderes da França e da . descobri o que pude na cultura de café e narguilé que tinham ali. mas vi nele um objeto de ciência. dei o melhor de mim para mexer com Miriam. Ela se voltou num átimo. fugir daquele hospício. depois. mas ali havia muita gente com passado nebuloso que procurava um monte de coisas. Assim. -5– Para passar o inverno. Na feira.que haviam combatido tão cruelmente a independência de minha própria nação? Tudo o que eu queria de fato era ter notícias de Astiza e descobrir se existia alguma possibilidade de que esse legendário Livro de Tot ainda estivesse por aí após três mil anos. Estava sendo vendido como amuleto vistoso e brilhante. Eu era só mais um e me dedicava àquilo em que consiste maioritariamente a vida . Numa ocasião em que Miriam estava depenando e limpando um frango.esperar.

avermelhados pelo trabalho. Em seguida." Peguei-lhe a mão. usa o teu âmbar para depenar o próximo frango!" Ri e passei-lhe o âmbar pelo queixo." Virei a palma da mão para cima. "E agora és também uma eletricista. Benjamin Franklin. "Talvez o âmbar possa servir de pente. experimenta. "Vamos. ele atrai coisas. disse Miriam. Damos a essa mágica o nome de eletricidade." "Se és tão esperto.é um truque elétrico que aprendi com meu mentor. "E coisa de ímpios trazer magia para esta casa. embora Miriam hesitasse. E não deu outra coisa: algumas levitaram para grudar-se à manga. Os dedos eram fortes." "Curioso de quê?" Ela ruborizou tão logo perguntou isso. de modo que Miriam pudesse ver o âmbar que eu estava segurando. sem muita convicção. Eu sou um eletricista. "Os antigos gregos já faziam isso. com os desconfiados olhos de Miriam por cima. .América". esfreguei o âmbar em sua manga e a segurei sobre as penas. Miriam fez o sinal-da-cruz." Miriam torceu o nariz e me devolveu o âmbar. atraindo com ele fios de seu lindo cabelo." Eu criara um véu louro. "Como é que arrumas tempo para brincadeiras inúteis?" "Mas talvez não sejam inúteis. desfrutando o pretexto para tocá-la. Quando se esfrega o âmbar. e coloquei o âmbar em seus dedos. entoei. "És um descarado." "Que idéia tola"." "Não se trata de magia . só isso." "Sou curioso.

Mas Miriam não deixou as coisas irem. da maneira que Franklin me ensinara. eu conseguia fazer uma faísca passar entre os lábios de um casal) adquirira caráter mais sério após minha estada no Egito. Teria sido possível que os antigos houvessem transformado tais mistérios em poderosa magia? Teria sido esse o segredo de suas civilizações? A ciência era também um modo de elevar meu status durante . meu celibato de Jafa estava sendo involuntariamente prolongado. Com o tempo. Também não havia muita tentação carnal numa cidade onde as mulheres estavam mais cobertas que criança de colo numa nevasca do Maine."Ah. agora começas a me entender. mas estava na pior cidade do mundo para isso. É coisa que faz mesmo um homem pensar antes." Dei uma piscadela. Ah. as mulheres me lançavam de vez em quando olhares cativantes (eu tenho algum estilo). mas os encantos delas eram envenenados pelas histórias lúgubres que se ouviam nas cafeterias sobre a mutilação genital levada a efeito nos mais galantes por pais ou irmãos furiosos. Assim. Eu tivera a esperança de fazer o tempo ocioso passar com um ou outro jogo de cartas. Jerusalém oferecia menos diversão que um piquenique quacre. acabei ficando tão frustrado e entediado que busquei inspiração na brincadeira do âmbar e resolvi mexer com eletricidade. O que parecera um esperto passatempo parisiense para encantar os salões com um beijo elétrico (tão logo dava uma descarga elétrica numa mulher com minhas máquinas. além disso.

pois a eletricidade constituía novidade ali. que os fazia tremer de espanto com suas extremidades formigando. O brilho roxo que resultou iluminou o barracão e deixou as crianças da vizinhança extasiadas. Usei filamento de cobre para ligar em seqüência essas baterias de faísca e enviar a uma corrente de metal eletricidade o bastante para fazer os fregueses saltarem se a tocassem. . muito embora duas velhas tenham desmaiado. um mago. um rabino tenha saído ruidosa e furiosamente do recinto e um padre católico tenha estendido o crucifixo em minha direção. Com a relutante tolerância de Jericó. Percebi então que me tornara um conde Silano. fazendo-o girar com a manivela. deixando seus braços e pernas dormentes por horas. retirei o ar de um globo de vidro. e reconheço que gostei da notoriedade. construí uma manivela de fricção.eram minhas garrafas de Leiden improvisadas. e estendi a palma da mão sobre ele. Os estudiosos da natureza humana não ficarão surpresos em saber que homens faziam fila para levar choque. a carga estática se transmitia aos jarros de vidro que eu revestira com chumbo . Ganhei ainda mais fama de feiticeiro quando eletrifiquei meus braços e usei os dedos para atrair lascas de latão. No Natal. Quando eu a virava contra coxins ligados a um arame. com um disco de vidro para servir de gerador.aquele inverno do descontentamento em Jerusalém. Os homens começaram a cochichar a respeito de meus poderes.

como todo o mundo sabe que os médicos matam mais do que curam. Talvez seja a eletricidade o que anima as nossas almas." Mas. nós obtemos eletricidade? Não. disse eu. rebateu o padre."É só um truque de salão". ou tiramos água de um poço." "Pelo contrário: sábios da França e da Alemanha acreditam que choques elétricos possam curar a doença ou a loucura. os vizinhos de Jericó não acaram lá muito impressionados com essa perspectiva." "Ugh!" "E os músculos dos mortos realmente se movem. para tranqüilizá-los. Miriam também continuava ressabiada." "Mas por que a eletricidade aguilhoa? Era isso o que Ben Franklin queria entender." "E o que são os franceses senão infiéis e ateus?". "Na França. há algo de especial naquilo." "Ela vem quando se gira a manivela. embora o espírito já tenha partido. Eletricistas vêm tentando reanimar com a eletricidade. e Franklin achava ser a força que anima o universo. "Parece trabalho demais só para dar uma aguilhoada em alguém. fazemos isso o tempo todo. E a eletricidade o que nos dá vida? E se pudéssemos domar essa força tal qual domamos o fogo ou os músculos de um cavalo? E se os antigos egípcios já faziam isso? . "Boa coisa a eletricidade não dará. criminosos mortos. não?" "Mas por quê? Quando batemos leite para fazer manteiga." "Blasfêmia!" "A eletricidade está em nossos corpos.

cada viela. os cruzados foram à carga nesta praça. Saladino retomou a cidade do outro lado daquela muralha. Salomão deu as boas-vindas à rainha de Sabá ali.o Monte do Templo." Entrementes. Construído por Herodes. Mas tudo aquilo apenas para um templo? Por que precisara ser tão grande? Estaria a plataforma cobrindo algo escondendo algo . E então os muçulmanos construíram . o Grande. Por que não podemos reaprendê-lo?" "Talvez porque cause mais mal do que bem. ficamos imaginando se os homens não tinham tal poder no passado.A pessoa que soubesse como fazer poderia ter um poder inimaginável." "E é isso que procuras. inescapável e persistente do tempo. é uma plataforma pavimentada de meia milha de comprimento e trezentas jardas de largura. Ethan Gage? Poder inimaginável?" "Quando vemos a pirâmide. O mais extraordinário era o canto sudeste da cidade. uma história. que consistia num vasto tabuleiro artificial construído no topo do monte onde Abraão ofereceu o sacrifício de Isaac .mais crucial? Isso me fez lembrar nossas intermináveis especulações sobre o verdadeiro propósito das pirâmides. Jesus caiu aqui. Cada parede tinha uma lembrança. Não sei se a história humana consegue encharcar o solo como a chuva de inverno. O Templo de Salomão ficava nesse monte até que primeiro os babilônios e depois os romanos o destruíram. mas os lugares que visitei transmitiam uma sensação palpável. Jerusalém aplicava sua própria magia.

deixavam-me às vezes entrar no próprio Domo da Rocha. O domo era sustentado por quatro imensos pilares e doze colunas. quando eu me demorava . Cada religião tentara deixar sua marca ali. Talvez tivessem a esperança de me converter ao islã. e ovelhas pastavam. Será que alguma coisa estava mesmo escondida lá? Se um dia o Templo de Salomão se erguera ali. a mesquita azulejada de azul. Eu tirava as botas antes de pisar em seu tapete vermelho e verde. sussurrando que eu era um djinn. que explorava poderes sombrios. onde Abraão oferecera o filho em sacrifício e onde Maomé subira para percorrer o Céu. eu subia a passos largos pelo Portão da Corrente e passeava pelo perímetro. e. Apesar de minha fama. mas o resultado geral era um vazio sereno. Debaixo dele. ou talvez por causa dela. havia outra mesquita. será que algum tesouro hebraico não fora ocultado no mesmo lugar? Mas ninguém estava autorizado a descer à gruta. Kubbet es-Sakhra. El-Aqsa. crianças brincavam. cujas formas tinham sido distorcidas por anexos feitos pelos cruzados. elevando-se acima da cidade comercial como o próprio Céu. Num dos lados da rocha havia um poço. e constava que existiria uma pequena gruta debaixo dele. pedra fundamental do mundo. observando com minha lunetinha os montes circundantes. um gênio da garrafa. Na extremidade sul. ficava a rocha sagrada. De vez em quando.sua mesquita dourada naquele mesmo local. e seu interior era adornado com mosaicos e escrita islâmica. Ali. Os muçulmanos me deixavam em paz.

demais. dobradiças e todas as diversas ferragens do cotidiano. incluindo os teus cruzados." Ele grunhiu. "Será que nesta cidade há subterrâneos onde algo de valor pudesse ficar oculto por um tempo longo?" Jericó deu uma risada nada amistosa. Ela pode ter estado um dia no Templo de Salomão. foices. "Subterrâneos em Jerusalém? Todo porão leva a um labirinto de túneis abandonados e ruas esquecidas.. fiquei especulando. Subterrâneos? Deve haver mais Jerusalém lá embaixo que aqui em cima!" "Essa coisa que estou procurando foi trazida pelos antigos israelitas. e dei duro com Jericó para malhar ferraduras. Cortaram-se tantas gargantas que a água do subsolo deveria ser sangue. para não falar de uma mixórdia de grutas e pedreiras. um zelador muçulmano me tocava para longe. Não te esqueças de que esta cidade já foi saqueada por metade das nações do mundo. mas não há menção da arca desde 586 antes de Cristo. ou de que fossem . Assim. ou pelo menos nutria a esperança de que a arca me levasse ao livro. E ruína em cima de ruína em cima de ruína." Mas me referia. não.." "Não. sim. eu não me refiro a isso. Tive ampla oportunidade para fazer perguntas a meu anfitrião. tenazes. "Não venhas me dizer que estás à procura da Arca da Aliança! Isso é mito de lunáticos. quando Nabucodonosor destruiu Jerusalém e levou os judeus para o exílio.

com intensa curiosidade a respeito do passado histórico. Mas não revelei nada disso. . Levarias toda a eternidade para escavar Jerusalém. Diziam que tinha misteriosos poderes e que roi de ajuda na hora de derrotar os inimigos dos hebreus. já que Astiza acreditava que Moisés o pegara. não até aquele momento. Afinal. eram gêmeas no intelecto." Embora Miriam fosse uma mulher calada. foi que consegui induzir os dois a concordarem que ela ficasse conosco à mesa. Arca é caixa. eu aos poucos percebi que aquele silêncio era o véu de uma inteligência aguçada. conquistando pequeno grau de confiança. Miriam falava apenas quando se dirigiam a ela (mais uma vez. e desconfio que não terminarias com mais do que começaste. mas comia à parte. o oposto de Astiza) e parecia ter pouca necessidade de expressar-se. Só depois que eu trabalhara um tempo com Jericó na forja. Desce rastejando pelos buracos se quiseres. não estávamos predispostos a segregar os sexos como os muçulmanos. e teoricamente a Arca da Aliança era a caixa de acácia revestida de ouro na qual os hebreus que escaparam do Egito mantinham os Dez Mandamentos. De início. Era natural que eu perguntasse a mim mesmo se o Livro de Tot também não seria um recipiente. "Ótimo. Por diferentes que ela e Astiza fossem na personalidade. ela preparava e servia nossas refeições. Nos primeiros dias de minha estaca.os dois a mesma coisa. mas tudo o que encontrarás serão cacos de louça e ossos de rato. e a relutância dos irmãos era curiosa.

mas fiquei assombrado com o fato de que tal beldade ainda não tivesse sido levada embora por algum admirador persistente. Por isso. encantadoras. com riachos de água e sabão a caírem em cascata pela topografia perfeita das coxas. gostavam de minhas histórias sobre Paris. Quando o fazia. mas relutava em tirar o lenço dos cabelos à mesa. Eu continuava a me orgulhar de minha castidade (já que achar uma aventureira em Jerusalém era como tentar achar uma virgem nos salões de carteado de Paris. eles se assemelhavam a uma cachoeira dourada. as pernas esbeltas e fortes que meu cérebro tão frustrado cogitava. Eu não conseguia deixar de tentar imaginar seus seios e seu ventre. minhas primeiras incursões no comércio de peles nos Grandes Lagos. panturrilhas e tornozelos. e acabava recorrendo ao punho. Miriam desfrutava nossa conversa com olhar rápido e animado. À noite. tão claros quanto eram escuros os cabelos de Astiza. O pescoço era longo.Como eu já desconfiara. e as maçãs do rosto. minhas jornadas pelo Mississippi até Nova Orleans e as ilhas açucareiras das Antilhas. Os irmãos eram pessoas que tinham visto um pouco do mundo. E aí eu gemia. em pé numa cuba. ela era realmente linda (uma beleza que sempre me fazia pensar em frutas com creme). Também estavam curiosos acerca do . a infância e juventude na América. No jantar. eu bem podia ficar satisfeito com minha virtude forçada). tentando pensar em eletricidade. banhava-se cuidadosamente. a rotundidade de suas ancas. eu ouvia os sons da água enquanto Miriam.

Conhecia muito mais. "O passado. as grandes batalhas terrestres e navais do ano anterior e o templo de Dendara. ele a transformava em açúcar. Ao iluminar a paisagem. Não lhes falei dos segredos da Grande Pirâmide. dos pontos de interesse cristãos que eu poderia visitar no monte das Oliveiras. que eu visitara bem mais ao sul. Quando se forjou por completo o cano. Do lado de fora das muralhas. como também lia avidamente e passava grande parte de seus inenciosos dias. continuava o trabalho no fuzil. indicando que ela conhecia muito mais sobre a Jerusalém histórica do que eu teria imaginado. Jericó me falou da Palestina. Miriam também começou a fazer sugestões acanhadas." Jerusalém era um lugar carregado de passado. aliás do que o irmão. mas descrevi o Nilo. Entrementes. quando a luz projetava longas sombras sobre ruínas anônimas. resguardada dos homens e livre de crianças. Após alguma hesitação. Certa vez. e essa manta branca foi seguida de um céu azul-claro e um sol tão desprovido de calor quanto uma pipa. eu vagava pelos montes no inverno gelado. "O que estás lendo?". o vento cortante trouxe uma neve leve. da Galiléia (por onde Jesus caminhara). no estudo de livros que comprava na feira ou pegava emprestado nos conventos. e eu podia ver que Jericó estava gostando da perícia artesanal exigida. nós o alargamos no sentido longitudinal até .Egito. eu lhe perguntava. Ela não apenas sabia ler (coisa já bem rara entre as mulheres em terra islâmica).

Depois que acabamos isso. Jericó aferiu o resultado esticando um fio pelo furo. Havia o polimento. que precisa ficar ajustada ao tamanho do atirador tal qual um casaco. Minhas mãos ajudaram. a vareta etc. Era trabalho pesado. cada uma delas feita por uma broca que girava pelo cano. A própria Miriam se propusera para a tarefa. Eu girava a manivela enquanto Jericó empurrava o cano (firmado com braçadeiras) em minha direção. era preciso girá-la à mão pelo cano . a donzela Miriam me surpreendeu ao pedir para tomar as medidas de meu braço e meu ombro. Os momentos em que ele ficava mais feliz eram aqueles em que podia trabalhar em silêncio. E isso foi só o começo. Um dia. Seria ela quem entalharia a coronha.o diâmetro correto. o gatilho. o acabamento da coronha. cujas manoplas carnudas se mostravam capazes de produzir resultados dignos de uma prendada donzela com a agulha. bem firme. Já que a broca não podia cortar fundo. Eram sete ranhuras. a grande quantidade de peças de metal para a pederneira. ele ficou ainda mais reto.duzentas vezes para cada ranhura. mas a perícia era toda de Jericó. "Ela tem olho de artista". A feitura das ranhuras que fariam a bala girar no cano foi esmerada e laboriosa. explicou Jericó. e procurando sombras e rebarbas que assinalassem imperfeições." O bordo era uma árvore inexistente . Aquecendo e malhando o cano com habilidade. "Mostra a caída e o desaprumo que queres na coronha. o recozimento do aço.

despachando para Smith avaliações políticas e militares tão vagas que teriam confundido qualquer tolo estrategista o suficiente para dar atenção a elas. Até que. declarou o visitante. Foi a vez de meu coração bater com força no peito. Assim eu levava a vida. Durante aquelas semanas com Miriam. "Trago notícias do Egito para o americano". e o homem foi servido de água (era muçulmano e recusou todo e qualquer vinho).na Palestina. Astiza fora encolhendo em minha lembrança. Quando ela tomou minhas medidas para as dimensões da coronha. nosso jantar foi interrompido quando vieram bater com força na porta de Jericó. resistente. Miriam traduziu minha sugestão em curvas graciosas. eu aguardava com apreensão. firme. . mas dura. de modo que Miriam empregou a mesma madeira usada na Arca da Aliança. que lembravam os fuzis da Pensilvânia. tremi como um garoto de escola ao toque de seus dedos. a acácia do deserto . da caravana da feira do dia. Depois que fiz um esboço tosco de como queria que a madeira diferisse do desenho das armas de fogo árabes. surpreso com a enxurrada de emoções que me corriam pelas veias. Vede quão casto eu me tornara. Sentamos à mesa simples de cavaletes. Enquanto ele agradecia acanhadamente nossa hospitalidade e comia como um esfomeado. O ferreiro foi ver quem era e voltou com um viajante barbudo e empoeirado. azeitona e pão.mais pesada do que eu preferiria. uma noite.

Alguns desconfiam que ele tenha sido morto na pirâmide. Outros acham que voltou para a Europa. frieiras. o "Como estás?" é uma das mais profundas indagações de minha e uma lista das provações da viagem. "Ninguém confirma vossa história. os votos de prosperidade. sentimentos enterrados havia meses latejavam em minha cabeça como se Astiza ainda estivesse em meus braços ou eu a visse balançar desesperadamente numa corda abaixo de mim. um relatório sobre a saúde (por conta da prevalência da gota. dizem que ele simplesmente desapareceu ou desertou do exército francês.Agora. O mensageiro engoliu. febre intermitente. Consta que estava investigando a Grande Pirâmide e então sumiu. sacudindo da barba as migalhas de pão. oftalmia. impaciente. "Há rede um balão francês que se perdeu durante a revolta de outubro no Cairo". insisti. sentindo a comichão da ansiedade. Houve o de praxe: as saudações. começou. hidropisia. mas não existe consenso sobre o que teria acontecido a ele. Miriam me observava. Por fim. a pergunta: "Quais são as notícias da amiga deste homem?". Os . Vários relatos alegam que o americano estaria aqui ou ali. "O conde Alessandro Silano está igualmente desaparecido." "Mas com certeza há notícias do que aconteceu ao conde Silano". dores e desfaleratos. as expressões de agradecimento ao Divino. "Nada sobre o americano a bordo." Olhou de relance para mim e então baixou a vista para a mesa. Corei.

o sepultamento de seu corpo após o afogamento. onde afirmais vos hospedado. Yusuf al-Beni. seja no Cairo. seja em Alexandria. Correm boatos de que uma linda mulher acompanhou a força expedicionária do general Desaix ao alto Egito. mas ninguém afirma tê-la visto ou conhecido. que dissestes ter hospedado essa mulher em seu harém. objetei." “E Astiza?" "Não achamos nem sinal dela. . A soldadesca fala de uma mulher atraente. ela não deve nunca ter reaparecido. Só estou vos contando o que dizem por lá. ficou vazia depois que o assassinaram e foi requisitada para servir de quartel aos franceses. se isso de fato aconteceu. não tivemos nenhuma notícia. não!". Essa mulher parece ter sido uma miragem. é verdade. "Ele caiu do balão!" "Não há notícia disso. E quase como se ela nunca houvesse existido. Ninguém se recorda da presença de Astiza. "Nem sinal?!" "A casa de Qelab Almani.crédulos acreditam que o conde tenha desaparecido por mágica." "Mas ela também caiu no Nilo! Um pelotão inteiro viu!" "Se assim foi. nega que algum dia ela tenha posto os pés lá. mas. ela também sumiu. efêndi." "Não." Fiquei deprimido. Do mameluco Ashraf que mencionastes. o homem que chamais Enoque. A morte de Astiza." Eu estava abismado. meu amigo.

ela a cortar a corda. Teria sido tudo aquilo um pesadelo? Não! Fora tão real quanto aquela mesa. mas também a ciência de que a egípcia me mantivera longe da irmã dele. o sol ofuscante enquanto o balão subia para longe.os piores monstros são aqueles que ainda não encontramos. Mas ali estava eu. a cair com Silano.. algo pelo que eu nutrira esperança.. Depois. ainda ouvindo as últimas palavras de Astiza. efêndi. solidário. Naquele instante. Jericó me olhava com desalento. para nunca mais ser vista nem receber enterro decente? Que tipo de resposta era aquela? E Silano também se fora? Isso era ainda mais suspeito. por isso o . percebi que também ela perdera alguém. e nele vi uma compreensão pesarosa.era algo para que eu me preparara. Mas seu total desaparecimento?! Será que o rio a carregara. a ressoar em minha cabeça: "Acha-o!". sim. os gritos. o exército inteiro a conhecia! Napoleão falou dela! Importantes sábios franceses a levaram no barco deles! E agora não se tem notícia nenhuma?!" O homem olhou para mim. Teria Astiza sobrevivido de algum modo e ido embora com ele? Tal idéia me agoniava ainda mais! "Deveis saber algo mais que isso! Deus do Céu. Deus às vezes deixa mais perguntas do que respostas. Solidariedade. Sua sobrevivência. Por isso não se encorajavam pretendentes. "Sinto muito. O olhar de Miriam era agora mais direto do que jamais fora. não é mesmo?" Os humanos conseguem adaptar-se a tudo menos à incerteza . mesmo como prisioneira.

ele também partiu. do maldito Oriente. Aquilo não dera em nada .. nem o amor duradouro pela mulher que me arrebatara e enfeitiçara.nem riquezas.. Ela se foi.tinha o gosto mais amargo possível.". passando por batalhas pavorosas." E. naquela mesma hora. conhecido Astiza etc. tendo dito isso. agora que a notícia era que não havia . toda a grotesca odisséia com Bonaparte ter escapado de Paris. e.irmão continuava a ser a companhia mais chegada. Mas não tenhais esperanças.alma e pelo cruel segredo da Grande Pirâmide . nem a filiação permanente aos estimados sarants que tinham acompanhado a expedição napoleónica.. Agora. Os amigos de Jericó ficarão de ouvidos atentos. sussurrei. Eu até perdera o fuzil! Meu único motivo real para ter vindo à Palestina fora descobrir o paradeiro de Astiza.. E para sempre. "Vossa resposta é que o que passou. mas sou apenas o mensageiro. nem o perdão pelo crime que eu nunca cometera em Paris. visto a tomada de assalto de Alexandria. "Sinto que eu não possa ter trazido notícias melhores. etc. -6Minha primeira reação foi querer sair de Jerusalém. zarpado de Toulon. é claro. Estávamos todos unidos pela dor. passou." O visitante se levantou. "Eu só queria uma resposta clara. pela perda de meu amigo Antoine .

seria assombrado pelo resto da vida. no entanto. ela tampouco estava definitivamente morta. ter possuído seu corpo às margens do Nilo!.mas não esquecê-las. mas e se não fosse e estivesse mesmo em algum lugar sob meus pés? Jericó estava perto de completar um fuzil em cuja . a carreira de sir Sidney Smith. Quanto ao Livro de Tot. os cálculos políticos dos drusos. sua vulnerabilidade e seu erotismo quando acorrentada no Templo de Dendara. Eu não me importava com a iminente invasão da Síria. Se eu partisse. tudo o que encontráramos na pirâmide fora um repositório vazio para ele e.. Não havia cadáver. Em um ou dois séculos. E..ela terme mostrado a estrela Sírio quando subíamos o Nilo. o cajado escarninho de Moisés). Astiza assombrava meus pensamentos. E. minha missão parecia vã. sua beleza quando sentada no pátio de Enoque. Se Astiza parecia não estar viva. Eu também ainda guardava lembranças demais de Astiza ... talvez. ter-me ajudado a conter Ashraf na fúria da Batalha das Pirâmides. o destino do Açougueiro. Como é que eu fora parar naquela insana necrópole do ódio? Já era hora de voltar para casa na América e dar início a uma vida normal. judeus e todo o resto daqueles que estavam presos em seus infindáveis ciclos de vingança e inveja. talvez se consigam superar lembranças como essas . Minha determinação de dar tudo por encerrado e partir estava paralisada pelo simples fato de não saber.notícias (pode alguma mensagem ser mais cruel que isso?). então. podia bem ser mito (afinal.

pele menos até que a arma estivesse pronta. apesar da frustração. eu me vi resolvendo ficar um pouco mais. e eu era um estrangeiro folgazão. a mulher cuja morada eu compartilhava. Jericó vigiava a nós dois com mais atenção e. um caçador de tesouros cujo futuro era incerto. de uma fidelidade canina. Pior: eu poderia carregá-la para a América. Queria terminá-lo e ver-me indo embora. Quando punha meu prato ela ficava perceptivelmente mais perto. cuja comida eu comia e cujas mãos estavam dando forma à madeira de minha própria arma parecia de repente ainda mai. . Para quem eu precisava voltar na América? Para ninguém. E estava curioso acerca do que Miriam perdera. mas agora nossos olhares se encontravam por mais tempo. mais solidário. Como é que eu podia culpá-lo? Miriam era uma linda colaboradora. E havia Miriam. Eu não conseguia deixar de sonhar em possuí-la. Com Astiza desaparecida. e seu tom de voz .feitura eu dera uma mão e que parecia destinado a ser superior ao que eu perdera. Assim. Eu era um jogador. e Jericó também era homem sabia o que qualquer de seus iguais desejaria. que eu adivinhava ter sofrido alguma perda trágica antes da minha e que era minha parceira no pesar.estaria eu imaginando coisas? era mais suave. às vezes. Ela me tratava com a mesma circunspecção decorosa de antes. Percebi que ele começava a despender mais horas em meu fuzil. interrompia nossas conversas com interjeições rudes. maravilhosa. esperando por uma virada nas cartas. Talvez uma nova carta aparecesse agora.

comprou alimentos numa barraca. Em Jerusalém. Ladeou os tanques de Ezequias. precisemos elaborar tão tortuosamente maneiras de expressar o que nos vai no coração! Ela. Chegavam notícias de que Desaix. Então. procurando pensar em algum motivo plausível para abordá-la. Como é estranho que nós. rejeitou os produtos de outras duas e então pegou as vielas para as feiras . tudo para preparar-se contra a ofensiva de primavera de Napoleão. Constantinopla e o bloqueio de Alexandria. ou uma maneira de dar a volta pela frente para que nosso encontro parecesse coincidência. entretanto. com Jerusalém cinzenta e silenciosa. e a guerra se avizinhava. andava rápido demais. resolvi ir atrás dela. mas talvez se apresentasse a chance de conversarmos. desceu para o longo souk que dividia a cidade. num impulso. perto da fronteira com a Palestina. O que pretendia dizer a Miriam? Não sabia. numa manhã escura.Suportamos as chuvas do final do inverno. O sol ia ganhando forças e lentamente aquecendo as pedras da cidade. Tropas francesas se acumulavam em El-Arish. quando Miriam saiu para buscar nas feiras da cidade um tempero que faltava para o jantar. o melhor general de Bonaparte. Queria uma oportunidade para falar-lhe longe da presença protetora de Jericó. os humanos. relatava novos triunfos e novas e espetaculares ruínas bem acima no Nilo. eu. Eu a segui a distância. Smith zanzava pelo mar entre Acre. Eu estava solitário. homem seguir mulher solteira era indecoroso.

Num instante. umas ruínas que às vezes eram usadas como redil de cabras. ela estava descendo a Via Dolorosa. e eu seria capaz de jurar que havia algo de familiar naquela voz masculina. do pátio adjacente a um antiquíssimo arco romano que atravessava a rua. Pisquei. Depois de uma grade de ferro. para além da residência do paxá. "Para onde é que ele vai? Onde é que ele está procurando?" O tom era ameaçador. rumo ao Portão da Escuridão. Quatro brutos. E curioso como um cheiro ou um som conseguem chacoalhar a memória. no instante seguinte. à cata de alguma arma melhor. o que me dava a vantagem da surpresa. e à torre de El-Ghawanima. eu estava desarmado. Como já disse. Retrocedi e então. seguindo apressadamente diante de portas trancadas. adentrei um pátio escuro e coberto de entulho. Será que notara que eu a seguia e tentara me evitar? Acelerei o passo. no Monte do Templo. já sumira. Não me pareciam o tipo de homem suscetível a blefes. E aí Miriam desapareceu. cercavam a moça. ouvi uma fala rude e insistente. "Ser obrigado a usar das próprias habilidades é ser jogado no próprio colo da . usando capotes franceses e botas européias. "Eu não sei!" A mulher parecia aterrorizada. exceção feita à adaga árabe que eu levava na faixa de cintura. amedrontada. Mas eles ainda não tinham me visto.do bairro muçulmano de Bezeta. E. confuso. até enfim perceber que eu já correra longe demais. e por isso olhei rapidamente em volta.

Acertei as costas do amontoado de biltres como se fossem pinos de boliche. avistei um cupido de pedra que. do que eu imaginara. que fez o patife congelar tal qual flamingo em nevasca canadense. É . mesmo enquanto era agarrada. eu tornara a erguer o cupido e segurar o querubim pela cabeça. havia muito fora desfigurado e castrado por muçulmanos ou cristãos que procuravam obedecer às injunções referentes a falsos ídolos e a pênis pagãos.Fortuna". Então Miriam soltou-se e saiu correndo pelo portão. gritei para a meiga Miriam. Moça valente! Tinha mais tutano. assentiu temerosamente. Mal consegui erguêla acima de minha cabeça. largado ali. Agora o bando de canalhas se levantava contra mim.era bem pesada e felizmente não estava presa ao chão por nada que não fosse o próprio peso. Ouvi o baque do impacto. mas. Já haviam rasgado as roupas dela. mas. e conhecimento da anatomia masculina. Miriam o chutou nas bolas com força e com a precisão de quem dançava uma giga. Por fim.só que ele tinha mais habilidades que a maioria. e eles desabaram uns sobre os outros. Mas eu o fiz. . rezei uma prece ao Amor e arremessei. "Corre para casa!". como se fosse uma boneca esquecida ali. costumava dizer Ben Franklin. aos pulos. Tinha um terço de minha altura . deu um passo para partir e aí girou de repente quando um dos patifes a agarrou de novo. xingando. Miriam olhou para mim. A estátua jazia de lado no entulho. naquele meio-tempo. Achei que e l e talvez a puxasse para o chão.

antes que ele pudesse terminar de fazê-lo. violando todas as leis. Ah. não era possível que ele fosse arriscar-se a disparar na cidade santa. Enquanto isso. Agora. enfiando-lhe a lâmina. meio cego — era hora de bater em retirada! Troquei pernas até a rua. quando vozes já se levantavam! Mas a arma disparou com estrondo. Um terceiro biltre começou a desembainhar uma espada. vizinhos tinham ouvido a balbúrdia e estavam armando uma gritaria. eu o atara com minha adaga árabe. uma estaca passou . as abas de seu capote esvoaçantes como asas. sua chama como o clarão do relâmpago. e o cupido se despedaçou. quando me voltei na viela para confrontálo da melhor maneira possível. até então oculta (e obviamente passada às escondidas pela polícia de Jerusalém). E então. O homem pareceu sibilar e se desvencilhou tão violentamente que larguei o cabo da adaga. eu nunca apunhalara ninguém. e assim. Dois dos vilões se estatelaram. Quem diabos era ele? O impacto da bala me deixara tão zonzo que eu me movia com muita dificuldade. e fiquei surpreso com quão depressa a lâmina mergulhou nele e quão lugubremente ela roçou uma costela nesse processo. Cambaleei. estava sem arma nenhuma. Apesar de todas as brigas em que me metera antes. e algo me queimou o lado da cabeça. a espada desembainhada. Entrementes. aquele que vinha interrogando Miriam sacara uma pistola. tenebroso. Tropecei para longe. mas o desgraçado vinha atrás de mim.Girei num círculo completo e soltei a estátua.

por mim. "Tu?!". Que diabos ele fazia agora em Jerusalém. ele se ergueu com dificuldade.o compasso e o esquadro maçônico. "Por que não estás morto?!" Tampouco estás. durante minha fuga de Paris. Eu o deixara ali urrando. Ele deu uma tossidela medonha e escorregou. e sabia com horror que ele tinha o mesmo propósito que eu . atentou aos . este oculto. Olhava para mim não para ela. Ele tentara tomar-me o medalhão.voando por mim e acertou o desgraçado ali na fronteira da garganta com o peito. Pois. Antes que eu tivesse chance de confirmar isso. armado até os dentes? Mas. porém. com o G no centro . no ano anterior. e eu acabara baleando-o com meu fuzil enquanto Sidney Smith acertava outro bandido.procurar por segredos antiquíssimos. disse o homem. é claro. aparentemente. caindo sentado. tão atônito quanto ele. E. O francês era agente de Silano e não desistira. Fora Miriam quem pegara um mastro de barraca de feira e o arremessara como uma lança! Eu tenho mesmo jeito para achar mulheres competentes. quase impossibilitado de falar. no luscofusco da viela calçada de pedra: reconheci primeiro o emblema que o mastro arremessado por Miriam fizera ficar para fora da camisa dele . arquejante. me abordara na diligência para Toulon. eu sabia. Estava ali pelo Livro de Tot. perplexo. Estava claro que não. pensei comigo mesmo. e fiquei imaginando se o ferimento acabara sendo fatal.e depois o rosto moreno do "fiscal de alfândega" que. Olhou para cima.

Peguei algumas das travessas menos óbvias que eu descobrira em minhas andanças por Jerusalém." Ela olhou como se me visse pela primeira vez. de modo que depois de um tempo. paramos por um momento na reentrância de um vão de porta. tendo meu braço ao redor dos ombros dela. "Não era assunto de dinheiro. "Eu sinto muito por aquilo disse a Miriam. Corremos para o outro lado. eu o baleei. Miriam tremia enquanto voltávamos para a casa de Jericó. "Acho que já é hora de fazê-lo. Uma pena que eu não o tenha matado naquela oportunidade." “Ethan!" "Ele tentava me assaltar. mas agora nos abraçávamos instintivamente." . com os ratos afastando-se leves e ligeiros enquanto eu olhava para trás." "Viste onde?" "Na França." A boca de Miriam estava entreaberta." "Quem são aqueles homens?" "O que atirou em mim é francês. verificando se nos seguiam. Não contei a ti e teu irmão a história completa. ofegando. É de mim. "Não é atrás de ti que eles estão. era coisa mais importante.berros da vizinhança e aos gritos dos vizinhos e fugiu. A bem dizer. para tomarmos fôlego e nos certificarmos de que minha cabeça latejante estava indo mesmo pelo caminho certo. Nunca havíamos estado fisicamente próximo. Eu já o vi antes. e o bairro cristão é mais elevado que o muçulmano). A volta era uma subida íngreme (nenhuma parte da cidade é plana.

"E aquela mulher. E as duas colunas. Ísis surgira repetidamente durante minha busca no Egito. Na realidade." Interessante. Nossos pensamentos recônditos e nossos pensamentos conscientes. "Era. Alto e baixo. "Como o dia e a noite". Eu nunca ouvira falar de uma deusa pagã que circulasse tanto. uma sacerdotisa. uma branca e a outra negra. Sono e vigília. muito antes de Jerusalém e de Jesus. respondeu Miriam. Homem e mulher. era parte dessa história?" Miriam falava em voz baixa. que ladeavam o altar das lojas." "A Virgem Negra. Bem e mal. Ísis. O universo está em tensão . "Todas as coisas são duais." "Quem era ela?" "Uma estudiosa dos tempos antigos. ao que tudo indicava uma cristã devota. e esse é um ensinamento que vem dos tempos mais longínquos. "Mas por que branca e negra?" Lembrei-me do padrão xadrez das lojas maçônicas parisienses. mas de uma deusa egípcia muito. sabia também alguma coisa sobre ela. Astiza." Miriam disse isso num sussurro. muito antiga. Alguns vêem isso como simplesmente uma variação da arte cristã. E agora essa mulher. já ouvistes falar. "Quem?" "Existe há muito um culto a imagens de Nossa Senhora talhadas em pedra negra. quando eu me esforçara ao máximo para entender a maçonaria. A Virgem Branca e a Negra. mas outros dizem que na verdade se trata de uma continuação do culto a Ísis.

disse eu. "Então vamos tratar de consegui-la. permissão para fazer uma pergunta mais pessoal. "Os dedos dele eram como garras. conhecimento. por conseguinte. A mesma coisa que Astiza e eu procurávamos." Miriam assentiu. O que antes era brincar de caça ao tesouro se transformara em perigosa busca." "Espera. em grego." Miriam ainda tremia." "O herético Rito Egípcio teve início na Inglaterra". "Também perdeste alguém." Ela me pegou pelo braço. "O homem que atirou em ti usava uma medalha que expressava isso. os opostos precisam juntar-se para fazer o todo. não é verdade?" ." Eu a puxei de volta para o escuro." "Astiza me disse a mesma coisa. em inglês. "Estamos numa corrida para descobrir a verdade antes deles.permanente. apesar disso. não?" "Tu te referes ao símbolo maçônico do esquadro e do compasso sobrepostos?" "Eu o vi na Inglaterra. O compasso descreve o círculo. E o G significa God. "Mas o que aqueles homens querem?" "A mesma coisa que procuro. outra vez. Eles podem ter querido te seqüestrar para pedir resgate e chegar a mim. e. Vou precisar de ajuda de Jericó." Senti-me culpado por inadvertidamente tê-la arrastado para aquilo. O dual. e o esquadro de carpinteiro traça um quadrado. Senti que nossos apuros nos tinham dado certo grau de intimidade emocional e. ou gnosis.

e houve uma altercação. "Esse segredo que procuras. precisamos nos apressar. a questão era essa. naturalmente. Jericó e eu éramos muito unidos como órfãos. "Por favor.Ela se impacientou.. Ele descobriu. não houve?" Miriam hesitou. Fiquei imaginando se já não foste casada ou prometida és bonita demais. Acabou sendo mandado para o Egito e nunca voltou. disse eu. mas eu estava decidida a casar. Para tornar esta cidade outra vez santa. e os pretendentes o aborrecem. Morreu na Batalha das Pirâmides. observando a eficiente matança que levou a cabo as tropas européias. E agora Bonaparte pode vir para cá. Mas houve alguém. "É a guerra." Eu. meu noivo foi recrutado à força para o exército otomano." "Vi isso no teu olhar quando o mensageiro disse que não havia mais traço de Astiza. insuficientemente.. A guerra e o destino." Ela estremeceu. Antes que pudéssemos fazê-lo. um aprendiz de ferreiro em Nazaré. estivera do lado oposto na mesma batalha. conheci um homem. Que desperdício! “Sinto muito". não era mesmo? Astiza e seus aliados nunca tinham tido certeza sobre se poderiam usar o misterioso Livro de Tot para o . mas o perigo também abrira uma brecha em seu recolhimento. pois meu irmão se enciumou. "Por intermédio de Jericó. Ficamos noivos em segredo. Ele poderá ser de alguma ajuda?" “Ajuda para quê?" "Para pôr fim a toda a mortandade e violência." Bem.

De fato. Foi um beijo roubado. um homem fica abalado quando a coisa é assim por . pelo menos um pouco. muito embora eu estivesse duro contra sua coxa. o lado da cabeça estava úmido e quente. "Sei apenas que será ruim se aquele desgraçado que atirou em nós chegar a ele primeiro. mas Miriam não se afastou de imediato. que tirava vantagem de nosso turbilhão emocional. resolvi beijá-la. com mais bravura do que sentia. Doía um pouco. "Vamos lá falar com teu irmão." Era uma maneira de não falar o que acabáramos de fazer. Quando ela de fato se afastou. desviou a vista de meus olhos para minha têmpora. Para evitar que eu me comprimisse contra ela. e o modo pelo qual Miriam retribuiu o beijo me fez saber que ele era recíproco. disse Jericó quando lhe contei nossa história. "Magnífica idéia. Eu gostaria também que me forjasses um machado de guerra como os dos índios americanos." "É melhor terminarmos esse teu fuzil". Ai!" Miriam estava enfaixando meu ferimento. e eu tinha uma dor de cabeça danada. respondi.bem ou se precisavam simplesmente evitar que ele caísse em mãos erradas e fosse empregado para o mal. mas seus dedos fortes se mostravam maravilhosamente delicados ao colocar a bandagem. "Estás sangrando. "É só um arranhão". Ainda que a bala de pistola tivesse me pegado apenas de raspão." Tendo dito isso. foi com um pequeno suspiro. Não consegui evitar (a ação e a intimidade tinham me excitado).

mirei um inimigo e acertei o camelo dele." Ora. O desconhecido. "Não existe coisa mais útil que essas machadinhas. No entanto." "Bem. para o caso de esses bandidos aparecerem por aqui. ficaria fascinado com esse tipo de improviso. Miriam. deixaria o fuzil mais desajeitado e atrapalharia na hora de colocar a pólvora e a bala. mas logo a fechou. Aquela mulher e eu havíamos nos tocado mais naquela última hora que em todos os quatro meses anteriores. e perdi a minha. Agora. reparei que ficas espiando pela cidade com tua luneta. a idéia era absolutamente ridícula. gostei de que ela cuidasse de mim. E se ajudasse mesmo a ver de perto os alvos distantes? "Será que funciona?” Franklin. Tu dizes ser difícil mirar alvos no alcance máximo da arma. E se a usássemos para te ajudar a mirar?" "Mas como?" "Prendendo-a ao cano do fuzil.um triz. "Se esse fuzil é mesmo tão certeiro quanto afirmas. que assusta a maioria dos homens." "Teremos de montar guarda. já que ninguém a tentara antes. Jericó andava para lá e para cá.. não é?" "Certa vez. Aquilo só aumentaria o peso. eu sabia. verdade seja dita. tenho uma idéia para aprimorá-lo. tu não sairás desta casa. atraía-o como a uma sereia. Precisaremos de toda vantagem que pudermos conseguir." Ela abriu a boca. . Não podia ser boa idéia.

Caçamos essa coisa no Egito. Baleei o líder deles na França . em Jerusalém.e cá está ele exuberante.. O que está acontecendo de fato?" Já passara da hora de eu confiar neles. pode estar enterrado algo que poderia influenciar todo o curso da guerra. "Aqui. Vai saber. E precisaremos de aliados caso aquele bando ainda esteja na cidade. "Pois é." "Eles fizeram perguntas a teu respeito". A cidade é um monte de entulho. mas acabamos concluindo que ela só pode ter vindo para Israel. E agora os franceses estão aqui. certamente atrás da mesma coisa. Precisava também de prática de tiro. Achas que mataste um deles?" "Eu o apunhalei. lembrou Miriam. o problema é que. no Egito. "A presença dos agentes franceses aqui pode ser importante o suficiente para que os britânicos mandem ajuda. essas pessoas que fizeram indagações sobre Astiza no Egito podem ter deixado escapar que estou aqui?" . Eu não precisava só do fuzil. E Miriam diz que tudo isso tem alguma coisa que ver com o tesouro que vives prometendo. Parece que tenho muita dificuldade em dar cabo das pessoas. eu com algum tipo de beco sem saída. A minha busca talvez se mostre impossível. disse Jericó."Podemos tentar. toda vez que encontro uma escada que leva para baixo. Vou mandar notícias a sir Sidney".. Será que só descobriram minha presença quando chegaram aqui? Ou será que ficaram sabendo de longe? Jericó. ambos continuavam vindo atrás de mim mesmo depois de feridos diversas vezes.” Pensei em Silano e em Achmed bin Sadr.

achar o quê. Tudo o que sei é que atiraram em mim.é um livro de sabedoria." "Um livro?" Jericó ficou decepcionado.ou melhor. exatamente? Que tesouro é esse que procuras?" Tomei fôlego. porta pela qual Astiza e eu adentramos.. eu poderia ter-me afogado. E esse livro é diferente . quando lhe explicava o atraso no pagamento do aluguel. Ao fim." "Mas então já tens o tesouro?" "Não. Jericó." Jericó tinha a mesma expressão cética que eu costumava ver em madame Durrell."O combinado não foi esse. jogaram serpentes em meu leito e perseguiram-se de camelo e barco para pegar esse livro . Perdi tudo. deixado ao lado.. em Paris. Ou o Corão. "O Livro de Tot. um pavilhão de mármore e um repositório de ouro para o livro. "E o livro?" "O repositório estava vazio. Astiza me . Os judeus talvez tenham enterrado um tesouro diferente aqui em Jerusalém. um medalhão que eu tinha e que era a pista de onde estaria o livro. Olha a Bíblia.. Com o peso do ouro e das jóias. Mas espera aí . Descobrimos um lago subterrâneo entupido de tesouros. "Não precisas acreditar em mim. Passei o inverno inteiro fazendo um fuzil em troca de um livro?!" "Os livros têm poder. poder e.. A única maneira de escapar da pirâmide foi nadando por um túnel. magia." Seu semblante era inexpressivo. o medalhão era a chave para uma porta secreta na Grande Pirâmide. Tudo o que restava era um cajado." "Magia. "Pensei que tivesses falado em tesouro.

"Quem?" "Moisés. Tu acreditas em tudo isso. o conde Silano. não? E. um riso vociferante e desdenhoso. de repente. sabendo o que tudo aquilo devia parecer. Depois riu. A maioria dos homens diz que foi simplesmente milagre. e não teria contado a ti e a Miriam se não tivéssemos visto aquele francês. Precisamos achar o livro antes dele. sabia como entrar e sair da pirâmide. dividir as águas e manter os israelitas alimentados no deserto do Sinai.eu venho hospedando um demente! Será que Sidney Smith sabe que és insano?" "Eu não contei tudo isso a ele. .convenceu de que o cajado tinha sido trazido pelo homem que furtou o livro e que esse homem só pode ter sido... uma dádiva divina . foge do país e então volta para libertar os escravos hebreus após ter conversado com uma sarça ardente." "Um livro que Moisés furtou. O que significa que o tempo é curto. Moisés tem o poder de invocar pragas. ele apenas piscou.mas e se Moisés descobriu instruções que lhe disseram como fazer aquilo? Era nisso que Astiza acreditava." Hesitei. mas aquele patife estava aliado ao meu maior inimigo. consternado. a qual não passava de despiste e marco para proteger o livro dos indignos." Por um instante. Ele era príncipe. Sei que parece estranho. "Aí está . "E isso é assim tão impossível? Um príncipe egípcio mata um capataz num acesso de raiva.

"Então por que estou com isto aqui?" E enfiei a mão em meu manto para sacar os dois serafins de ouro. quando o Faraó descobre que o livro se foi. ele persegue Moisés e os escravos hebreus com seiscentas bigas. "És mesmo louco. "Um velho que encontrei os chamou de bússola". Esta é uma adversidade tão real quanto os machucados nos braços e ombros de Miriam. com as asas abertas na direção um do outro. tamborilando. Não sei quanto dessa história é verdadeiro. Mais adiante. apenas para ser engolido pelo mar Vermelho. "Não sei o que ele queria dizer." Balancei a cabeça." O ferreiro me fitou. Mas as pirâmides parecem . Do contrário. Tenho 'ávido à base de ciência. Era também o fato de que esses anjos ajoelhados. continuei. constituíam uma réplica minúscula daqueles que outrora ornaram a tampa da Arca da Aliança. Não era um truque barato que eu pudesse ter arranjado numa loja de artesão . essa tribo de ex-cativos entra na Terra Prometida e começa a conquistá-la aos habitantes civilizados ali estabelecidos. Miriam ficou boquiaberta. Mas como? Graças a uma arca com poderes misteriosos? Ou a um livro de sabedoria antiga? Sei que parece improvável. aqueles homens não teriam seqüestrado tua irmã.Moisés o pega. ainda tão vívido após milênios. um ano atrás. pesado demais. Eu sabia que não era apenas o resplendor do ouro. e o ouro. fé e especulação desde que. e os olhos de Jericó se arregalaram. fugi de Paris. e. frustrado.a qualidade da obra era boa demais. mas os franceses também acreditam nisso. cada um deles com quatro polegadas de comprimento.

Deus não permitiu que ele entrasse. que sonha em ser outro Alexandre? Ou pelos sequazes do conde Alessandro Silano.codificar uma matemática sofisticada que nenhum povo primitivo teria como conhecer. salvaguardaramno sob a Grande Pirâmide. mesmo que Astiza não o tenha conseguido? Esse livro poderia ser decisivo no equilíbrio do poder. ela parece ter brotado já totalmente constituída. E de onde veio a civilização? No Egito. predecessor do deus grego Hermes. Os faraós. tão poderoso que poderia ser usado tanto para o mal como para o bem. medicina e astronomia veio de um ser chamado Tot. contra-argumentou Miriam. se Moisés o furtou. Reza a lenda que : conhecimento humano da arquitetura. percebendo a força desse livro. esperando para ser redescoberto? E se for achado primeiro por Bonaparte." "Moisés nem sequer chegou à Terra Prometida".só pode ter sido trazido! . È .para cá pelos judeus. do outro lado do rio Jordão. Mas. que têm sonhos para si próprios e para seu pervertido Rito Egípcio da maçonaria? E se Silano sobreviveu à queda do balão. que se tornou divindade egípcia. E se esse livro era parte ou complemento da arca? E se ele foi escondido sob o Templo de Salomão? E se ele sobreviveu à destruição do Primeiro Templo pelos babilônios de Nabucodonosor e do Segundo Templo pelos romanos de Tito? E se ainda estiver aqui." "Mas seus sucessores entraram. escrita. o livro talvez tenha sido trazido . com a arca. Tot teria escrito um livro da sabedoria. "Ele morreu no monte Nebo.

tu te lembras dos boatos sobre eles na Inglaterra". destruí-lo. Tudo o que estou dizendo é que temos de olhar em cada um dos locais prováveis antes que aqueles franceses o façam. não um privilégio." "De Moisés não.preciso achá-lo e salvaguardá-lo ." "Não! Impedir que as pessoas erradas . e só agora me contas isso?" Jericó estava irritado e. "O Rito Egípcio?" "Irmão. " Uma sociedade secreta.." "Eu sou ferreiro. se conheces túneis subterrâneos.ou. As vezes somos chamados a fazer coisas. disse Miriam. um falso ídolo.os renegados do Rito Egípcio da maçonaria ." "Ah! Achar um livro escrito por um deus mítico." "E eu sou apenas um representante comercial que se viu apanhado em guerras longínquas. se o pior acontecer. Estamos numa corrida. Jericó. Tu foste chamado a me ajudar nisto." ." Minha frustração aumentava porque eu sabia quão insano estava parecendo. precisas me ajudar a achá-los." "Moras na minha casa." "A achar o livro mágico de Moisés. que diziam ter práticas malignas. De Tot. não explorador.usem o poder desse livro para o mal. no entanto.. trabalhas na minha forja. Outros maçons os abominavam. É um pesadelo. Os franceses não desistirão. "Tentei deixar a ti e a Miriam fora disso. não um soldado. olhava com curiosidade para meus serafins. Mas agora.

aliviado com o fato de que o ferreiro agora estava ajudando. mas é fato que ninguém conhece tanto a história de Jerusalém". e orientação de Haim Farhi.7 – Eu tinha a expectativa de que Haim Farhi exibisse algo da circunspecção e dignidade do antiquário . disse eu. objetou Jericó."Isso. Precisamos de lanternas. encorajando-a." “Um historiador?". que me ajudara no Egito. irmão. "Ele está mais para publicano mutilado. admitiu Jericó. estás certa!"." "E quem é ele?". nem de livros perdidos ou maçons renegados. "Coisas tangíveis. picaretas. "Desconfio que o homem que atacou tua irmã seja um deles. Como eu conseguiria recrutado? "Mas nós sabemos que nesta cidade há um erudito que pesquisou os anti-caminhos". "Alguém que sabe mais do que qualquer um sobre os caçadores de tesouros que vieram antes de ti os cavaleiros cristãos que talvez tenham levado a melhor sobre ti nessa busca. reconheceu Miriam." Fiz uma careta. interrompi." .. estás?!" “Ele é um estudioso do passado. Não sei nada da Jerusalém antiga. "Miriam ficou amiga dele." "Mas eu trabalho com ferro duro e fogo quente".. Aquilo lembrava Enoque. nem de túneis ocultos. auxílio de Sidney Smith. perguntei alegremente. “Não estás falando do agiota.

Mas. não seu cérebro." "O rabino Farhi é um dos mais destacados historiadores da província". falando baixinho. disse Miriam. É um dos mais poderosos banqueiros da Palestina e tem a confiança de Djezzar. enquanto ela e o visitante se aproximavam de nós. uma figura a Aristóteles que se tornara meu mentor no Egito e fora assassinada por meus inimigos. Não era só porque faltava a majestade de Enoque àquele judeu baixo. em tom mais alto. Era principalmente porque ele fora mutilado para transformar-se num dos homens mais horrendos que já vi. com os dois já adivinhando o motivo de nossos cochichos. eu estava fazendo força para não olhar embasbacado. Parte do nariz fora cortada. E o olho direito fora arrancado. o que deixou uma fuça como a dos porcos. franzino. pois permaneceu fiel depois da tortura." "As pessoas o usam para fazer poupança e pedir empréstimos?" "O que lesaram foi seu rosto.Enoque. sussurrei para Jericó enquanto Miriam pegava o capote do homem à porta. A orelha direita estava faltando. o que aconteceu com ele?!". Qualquer pessoa que investigue o passado fará bem em consultálo. com cachos laterais em espiral e roupa escura e sombria. restando uma órbita fechada por cicatriz." . "É também um estudioso dos mistérios judaicos. agora. Ele ostenta a sobrevivência como uma divisa de honra. "Deus meu. respondeu o ferreiro. de meia-idade. "Não demonstre pena. "Ele incorreu na ira do Açougueiro".

"Posso compreender porque viajastes para tão longe com tanta empolgação."De modo que agradeço vossa ajuda"." Obviamente." "Possivelmente? Ora vamos . Mas o isolamento que a mutilação causa me proporciona tempo para as lendas desta cidade. "Sei do efeito que causo nas pessoas. "E esses tópicos talvez tenham relação com a Arca da Aliança". não?" "Possivelmente. mas não lhe disse isso nem nada mais. "Isso também não é verdade?" "É. No entanto. ele já sabia o que eu contara a Jericó. é minha triste responsabilidade avisar-vos de que talvez estejais setecentos anos atrasado. disse eu. tentando não ficar encarando Farhi. Jericó me disse que estais procurando segredos perdidos de importância estratégica. diplomaticamente.se quisermos avançar nesta questão. continuou Farhi. Vejo a minha desfiguração refletida no olhar de cada criança assustada." "E ides me dizer que eles tentaram o máximo possível e não conseguiram achá-los. respondeu ele. persistente. não é mesmo?" Eu estava aprendendo a não confiar muito em ninguém. com voz serena. precisaremos confiar uns nos outros. "Assim como agradeço vossa tolerância para com minha desventura". Homens já vieram a Jerusalém para procurar os mesmos poderes que vós." .

disse Miriam. "O nome completo da ordem deles era os Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão. se de fato não conseguiram.e. Jericó me disse que tendes no máximo dias. Fiquei olhando os três. Por conseguinte. os templários"." "E onde estão agora?" . Nem todos os monges guerreiros eram celibatários. ainda assim. irmão". mansamente. "Essas histórias de túneis são lendas bolorentas". zombou Jericó. de um para outro." O que aquele mutilado sabia? "Achado exatamente o quê?" "Curiosamente. descobriram ou não alguma coisa?" "Um conto de fadas". respondeu a irmã. Ou que. "Mas. Eles procuraram durante anos. disse Miriam. Eles já haviam discutido aquilo antes. insistiu Jericó. Um grupo de cavaleiros cristãos partiu de Jerusalém levando poderes inexplicáveis . que lendas?" "Dos nossos ancestrais. os eruditos ainda debatem a esse respeito. dirigindo-se a Miriam. e reza a tradição que o nosso sangue descende do deles. Os templários procuravam o mesmo que procuras. e alguns dizem que eles o acharam. "E o que são as lendas senão ecos da verdade?". afinal. "Mas um conto fundamentado na história."Pelo contrário — vou dizer-vos que eles podem ter achado justamente o que procurais. ficaram desamparados quando foram traídos. é improvável que também consigais.

"Nessa batalha. Bernardo de Claraval."É uma história curiosa". o grande santo e mestre. não. "Esperai . Lendas de tal magia. Que podemos incorporar dimensões divinas em edifícios sagrados.sobre Ele ser dimensões. escritos por um inglês chamado Gibbon. transmitiramse às gerações de francos que viriam a habitar a Champagne. foi um dos que ouviram tais histórias. o grande huno. muito antigos. que remontava a tempos muito." . Lembrei-me de que o sábio francês Jomard o evocara logo que escalamos a Grande Pirâmide. disse eu. mais a idéia de que neste mundo há forças maiores do que as dos simples músculos e aços. senhor Gage? Estais familiarizado com a região da Champagne.eu já ouvi falar dele. a sudeste daquela capital e ao norte de Troyes?" "Já passei por lá e gosto dos produtos locais. Essas eram pessoas que achavam existir mais coisas no mundo do que aquelas que podemos facilmente ver e tocar. Aécio." "A batalha de Chalons". derrotou Átila. travou-se ali uma das mais terríveis batalhas de toda a história. Átila tinha uma misteriosa espada com poderes místicos. Disse alguma coisa sobre Deus ser altura e largura . disse Farhi. Ali." "Mais de mil e trezentos anos atrás." Esse nome também despertou uma recordação. "Vivestes em Paris. grato por Franklin ter mencionado uma ou duas vezes esse quebra-pau da Antiguidade. o último dos romanos. Ele era um poço de informações esdrúxulas e lia livros de história tão grossos quanto três calços de porta juntos.

esses homens da Champagne não recrutaram seguidores de início e fizeram pouco para patrulhar a estrada de Jafa. largura. debaixo do Templo de Salomão . fitando-me com o olho bom. não?" . e esses nove chegaram à cidade e pediram para formar uma nova ordem militar. o rei Balduíno II. na extremidade sul do Monte do Templo. uma autorização extraordinária para estabelecer base na mesquita de El-Aqsa. compartilhava da idéia de que os antigos que conhecessem tais coisas podiam ser enterrado poderosos segredos no Oriente. Embora houvessem se proposto a defender os peregrinos cristãos. continuou Farhi. disse o santo. tio de Bernardo. de monges guerreiros . "Montbard foi um dos nove cavaleiros que viajaram em missão especial à Terra Santa.que ocupava o Monte do Templo. Antoine Talma. talvez. altura e profundidade'. lembrando-me de meu falecido amigo jornalista. 'O que é Deus? Ele é comprimento. Mas a intenção deles parecia misteriosa já nos primórdios. comentei. e suas arrebatadas teorias. Em vez disso. "No ano de 1119". Jerusalém já fora tomada pelos cruzados. E o poderoso cavaleiro André de Montbard.os templários."Sim. Enterrado. a pouca distância de onde estamos." "Os maçons acreditam nisso até hoje". conseguiram do governante de Jerusalém." "Nove recém-chegados conseguem acantonar-se no Monte do Templo?" Farhi assentiu. "Coisa curiosa.

E então." "A taça da Última Ceia". E assim tiveram início as lendas .e até um livro secreto. uma lança. nos diversos relatos. disse Farhi. uma espada. respondeu Farhi. os líderes templários acabaram detidos pelo rei da França num imenso expurgo. Os recrutas vinham em multidão para eles.. Após a estada deles aqui. voltaram para a Europa. 13 de outubro de 1309 -. receberam status especial do papa e se tornaram os primeiros banqueiros e a mais poderosa ordem militar do continente.. perguntei. disse eu. e reis tremiam diante deles. acrescentou Miriam. uma mesa . um prato. alguma coisa. Foram torturados e mortos às centenas. "Mas. "começaram a surgir narrativas sobre cavaleiros em busca de um Santo Graal. "Essa é uma das histórias".pois como pôde uma obscura ordem de cavaleiros ficar tão rica e poderosa em tão pouco tempo?" "Achais que eles descobriram a arca?" "Nunca se viu nem traço dela. Com eles."E que relação esses templários têm com Moisés e a arca?". o Graal tem sido também descrito como um caldeirão." "Logo depois". "É aí que começamos a especular". um peixe." Ele me observava atentamente. "Os rumores dão conta de que eles escavaram um túnel pelas entranhas do que havia sido o Templo de Salomão e encontraram. morreram os segredos do que tinham descoberto em Jerusalém. numa única e terrível noite . "O Livro de Tot!" . uma pedra.sexta-feira. Os templários eram agora inimaginavelmente ricos.

chamamos Enoque. eu não o ouvi ser chamado assim. a Primeira Inteligência. ""Triplamente sabedor!' Que é o que significa o nome grego Hermes Trismegistus ." "Isso não me surpreende. Foi o primeiro grande autor. o três vezes sabedor. terminada em 1210. eu sentia uma onda quente de empolgação tomar conta de mim. O deus Tot foi o precursor do deus grego Hermes. "Alguns eruditos acreditam que ele venha do francês treble escient.Hermes. estes foram acusados de heresia. o herói vai aconselhar-se com um sábio e idoso eremita chamado Treurizent. Já sabíeis disso?" "Já. o sexo com outros homens e o culto a uma figura misteriosa que se chamava Baphomet . Mas a história que contastes a Jericó e Miriam é mesmo fascinante." "Na lenda alemã de Parzival. Pois bem. mestre de todas as lidas. quando aprisionaram os templários. o originador da civilização." . que por sua vez é o deus egípcio Tot!" "Sim. os judeus. Três Vezes o Maior.o Bafomé." Agora. aprendi isso no Egito. Reconheceis o nome?" Balancei negativamente a cabeça. Imputaram-lhes rituais obscenos." "Enoque era o nome que meu mentor no Egito adotava. Já ouvistes falar dele?" "Não."Até este momento. aquele que nós.

mas à sabedoria?" "Essa é a minha teoria". pode ter sido uma corruptela do nome árabe Abufihamat. que é 'sabedoria' em grego. disse Miriam. com modéstia. "Mas então por que foram perseguidos?" "Porque o rei da França os temia e queria a riqueza deles. ou Thoth. que Tot. Se escreverdes Baphomet em hebraico e depois transpuserdes isso para a cifra Atbash. Salomão. os judeus antigos tinham também o hábito de às vezes escrever códigos secretos usando cifras de substituição. e assim por diante.a primeira letra se torna a última do alfabeto. Mas há uma curiosidade nesse nome. Durante as ocupações estrangeiras. que significa 'Pai da Sabedoria'. disse Farhi. é supostamente a origem da palavra inglesa thought?" . a penúltima."Bafomé tem sido retratado como um diabo com cabeça de bode." "Bafomé. E quem poderia ser esse para homens que denominavam a si próprios os Cavaleiros do Templo?" Pensei por um momento." "Isto! Os elos continuam. a segunda letra. Ethan. cada letra do alfabeto hebraico corresponde na realidade a outra letra . "O rei Salomão. Sofia. lereis sophia. Na cifra Atbash. "Não nos disseste. Então os cavaleiros estavam se consagrando não a um demônio. Existe melhor maneira de desacreditar os nossos inimigos do que acusá-los de blasfêmia?" "Os cavaleiros talvez tenham se consagrado a algo mais tangível". Se ele se originou de Jerusalém.

Teriam os templários.. os pretensos ancestrais de minhas próprias lojas maçônicas fraternas. Será que o conhecimento é bom ou ruim? Vede a história do Jardim do Eden e da Arvore do Conhecimento do Bem e do Mal." "Corriam boatos sombrios de que Salomão tinha o poder de invocar demônios". Baphomet é o Pai da Sabedoria. "Se esse livro fosse coisa verdadeira e o rei estivesse de posse dele. é Sofia.. sabido dessa antiga divindade egípcia? Teriam eles a cultuado? Estaria todo esse contra-senso relacionado de alguma maneira que ia dos maçons aos templários e destes ao antigo Egito. é Salomão.. o deus original de todo o conhecimento?" Eu estava atônito." Eu estava pasmado com as possibilidades." "E assim o encadeamento é ainda mais longo. gregos e judeus? Haveria uma história secreta que se desenrolaria por todo o tempo do mundo. "E assim as histórias se entrelaçam . "Pensais que os templários já acharam esse livro?" "Se acharam. levando à riqueza e ao mal.. talvez o tenham perdido no expurgo que se seguiu".relatando que homens devotos procuravam apenas conhecimento ou que o conhecimento corrompia."Sim. bem devagar. em paralelo à história comumente conhecida? "E como foi que Salomão se tornou tão sábio?". mas não poderia ele também ser o pensamento. Tot. disse Miriam. 'Pensamento'. passando pelos romanos. As lendas e os debates pendem de um lado para o outro. respondeu Farhi. disse Jericó. "Vosso Graal .

seremos executados. prometendo que. os muçulmanos o guardam ciosamente. o livro fora de fato encontrado? Perdeuse? Ou foi.mas não permitem nenhuma exploração ali.. bradei. e o islã é inimigo da feitiçaria. o rei da França e o papa o seguiriam ao túmulo. ele rogou uma terrível maldição. pareceu ter-se perdido a possibilidade de penetrar no monte. Esses segredos poderiam abalar os alicerces de todas as religiões. Seria como se tentássemos escavar a basílica de São Pedro." "Quereis dizer que não temos como entrar lá?" "Se tentarmos e formos descobertos. o último grão-mestre da ordem. mas em lugares tão profundos que não há como redescobri-lo com facilidade. Ademais.. Nenhum grupo de cavaleiros jamais se igualou a eles. e nenhuma fraternidade voltou a estar tão disseminada pela Europa." "Outra vez ocultado". "Possivelmente. "No Monte do Templo!". Eles por certo já ouviram algumas das mesmas histórias que nós . completou Miriam. foi queimado na fogueira por ter-se negado a trair os segredos dos templários.específico pode já não ser nada senão cinzas ou estar em outras mãos." "Então por que estamos conversando?" . Só que nenhum poder sucedeu os templários. E. No passado. quando Jacques de Molay. Assim. É solo sagrado. quando Saladino retomou Jerusalém aos cruzados. escavações provocaram distúrbios. para começo de conversa. E ambos morreram mesmo naquele período. Mesmo hoje. em um ano.

" Bem. perigosa. eu fico imaginando em qual de meus bolsos ele está metendo a mão." "Por uma parcela do tesouro. respondeu alegremente Farhi. toda vez que um estranho proclama seu altruísmo e me chama de amigo. imagino.é preciso que não sejamos pegos. meu amigo. como teria contentado a Tot." "Pode-se dizer o mesmo do dinheiro. "Ah." "Coisas que Miriam disse poderem ser usadas para o bem e para o mal. em mútuo entendimento. "Farhi sugeriu uma rota possível." "E por que ele mesmo não a seguiu?" "Porque é encharcada. "Afinal." "Então nos guiareis?" "Tanto quanto for possível a um guarda-livros desfigurado. Talvez sejais um mentiroso divertido. apertada e provavelmente vã".Olharam rapidamente uns para os outros. eu não descobrira nenhuma pista. naqueles meus meses de pesquisa. não . ou um tolo crédulo. disse Jericó. Mas quereis saber se descreio. estávamos tratando apenas de uma vaga lenda histórica até que viestes afirmar que algo realmente extraordinário existiu no antigo Egito e pode ter sido trazido para cá. quando a existência desse algo pode ter representado grande poder para meu povo? Não posso me dar a tal luxo. suja. compreendi ." "Exatamente"." "Pela verdade e conhecimento. Se eu creio nisso? Não. Mas.

a Kubbet es-Sakhra. Ademais. "A água vem de antiquíssimas cisternas pluviais que estão bem fundo no monte do Templo. "Por onde começamos?" "Entre o Domo da Rocha e a mesquita de El-Aqsa. Eu disse a ele que não encontrara nenhuma. Djezzar me pediu que vasculhasse os antigos registros à procura de passagens subterrâneas para o Monte do Templo. Alguns autores especulam que são parte de um retículo de passagens que talvez se estenda até mesmo debaixo da própria rocha sagrada. explicou Farhi. relatos fragmentários." . os muçulmanos nunca nos veriam. para que abasteçam umas às outras. onde Abraão ofereceu seu sacrifício a Deus . e não apenas a coletores da água de chuva. A fonte de Giom. talvez ofereça um caminho. fica a fonte de El-Kas".a pedra fundamental do mundo. fui mutilado. Se assim for. Por conseguinte. que indicavam uma rota secreta para poderes tão grandes que não se poderia jamais permitir que um homem como Djezzar os tivesse. que abastece o tanque de Siloé.como punição." "Mentistes?" "Foi uma confissão de fracasso que me saiu muito cara . do lado de fora das muralhas da cidade. uma década atrás. Essas cisternas são ligadas entre si por túneis. essas cisternas têm necessariamente de estar ligadas também a bicas. Mas o fiz porque de fato encontrei antigos registros.era mesmo? Talvez eu e ele pudéssemos usar um ao outro.

agora talvez esteja fechado. Mas." "E se os muçulmanos nos ouvirem fuçar lá embaixo?". disse Miriam. perguntei. "Queres acordar a cidade inteira?" "Força bruta. acrescentou Farhi. Entretanto. Para dar-lhe o ponto de mira. vi que conseguia acertar constantemente um prato a duzentas . exclamou Farhi. o livro e outros tesouros." "Com suficiente força bruta ou pólvora. mesmo se não estiverem. "seria mesmo uma grande infelicidade. então. há mais um problema que me desestimulou a realizar qualquer exploração ali. disse Jericó. quando fui testar a arma fora da cidade. "Pólvora não!". homens decididos conseguem forçar qualquer porta". "Possivelmente. e. onde os judeus teriam escondido a arca. Jericó colara cuidadosamente dois fios de cabelo de Miriam na lente da luneta." "Os túneis estão bloqueados por água?" Eu tinha lúgubres lembranças de minha fuga da Grande Pirâmide."Pode ser que as cisternas"." "Até essas coisas terem sido talvez descobertas pelos templários". "E terem sido talvez outra vez ocultadas depois que Jacques de Molay morreu na fogueira. um registro que achei fazia referência a portas seladas .o que um dia esteve aberto. "Isso"." Meu fuzil estava pronto. "levem aos locais mais profundos. respondeu o banqueiro.

Miriam usara latão brilhante para marchetar dois serafins em cada lado da coronha. para Miriam. quando levei o aparato ao telhado de nossa casa para vigiá-la contra os bandoleiros franceses." "Concordo". "Vê coisas que não consigo ou não quero ver. Jericó também me fez a machadinha. comandando-os secretamente. disse eu.jardas. Quando a noite de nossa aventura chegou. não vi nada. Os serafins se agacharam com as asas estendidas. que Alessandro Silano estava ali. apesar do costume local de enclausurar as mulheres. E não tenho a intenção de deixá-la sozinha enquanto os ladrões franceses estiverem rondando por aí. . empurradas pela bala. perscrutando até a vista doer. e comprei um pequeno crucifixo espanhol. tal qual aqueles da Arca da Aliança. reconheceu Jericó. Em comparação. Mas era como se aquele bando nunca tivesse existido. e que eu poderia capturá-lo e interrogá-lo a respeito de Astiza. Teriam eles ido embora? Devaneei que não. um mosquete já seria impreciso após as cinqüenta jardas. caso algum dia topasse com esse jogo. "Ela conhece antigas lendas que me entediam". Mas. dourado. limpam os resíduos de pólvora a cada disparo. Fiquei tão satisfeito que dei ao desconfiado ferreiro algumas instruções de como ganhar no faraó. como estojos onde eu guardaria minhas buchas. não fiquei de todo surpreso em ver que Miriam insistia em nos acompanhar. Estas.

um mistério. O primeiro é o das narrativas que todos conhecemos. possa ser lida em dois níveis. Meus poucos entreveros com eles tinham sido apavorantes. desde nossa conversa. e . inserida num código numérico. trajado de preto. "Também existem mistérios judaicos. "É importante que nos desloquemos furtivamente".uma história oculta nas entrelinhas. e." A bem dizer. ou a vossa Bíblia. dirigindo-se a mim e ao irmão. "Minha presença talvez seja mais importante do que eu imaginava". uma história sagrada . O segundo seria o de outra narrativa. Mas eu exagerara para Miriam as minhas façanhas no desbravamento da América (um mau hábito meu)."Além disso." "A Bíblia é um código?" "Cada uma das vinte e duas letras do alfabeto hebraico pode ser representada por um número. eu estive estudando o que os templários estudavam. minhas habilidades de pele-vermelha haviam consistido primordialmente em evitar esses selvagens sempre que pude e comprá-los com presentes quando aquilo não mais se mostrou factível. inclusive a numerologia da cabala e dos livros do Zohar. Farhi também veio. disse ela. "Miriam diz que tens habilidades de pele-vermelha. acrescentou Jericó. O Zohar é isso. e não adiantaria pôr as coisas a limpo naquele momento. disse ele. os dois vão precisar de juízo feminino"." "Mais livros? E esses servem para quê?" "Alguns de nós acreditam que a Torá.

numerologia e prodígios matemáticos que eu também comecei a acreditar. Mas. Essas dez sephiroth e vinte e duas letras representam os trinta e dois caminhos da sabedoria. leste. sede bem-vindo. mais o acima e o abaixo . Aparentemente. norte e sul. apontam para os setenta e dois nomes sagrados de Deus. Será que esse Livro de Tot pode ser lido da mesma maneira? Qual é a chave para ele? É o que veremos. mesmo se apenas raras vezes conseguia concatenar com o que as pessoas estavam dizendo. oeste. a insanidade é contagiosa. Está aí o código.e as essências do universo — o fogo." . o éter e Deus. Procurai acompanhar o nosso passo. se um banqueiro desfigurado como Farhi estava disposto a fazer papel de bobo metendo-se nas entranhas da terra por causa da numerologia judaica." Eu me voltei para Jericó. O segredo do furto é fazer parecer que ele não aconteceu. então isso também parecia valer meu dispêndio de tempo. Tanta gente parece acreditar em lendas." "Dez o quê?" "Sephiroth." Bem. São as seis direções da realidade . por sua vez.os quatro pontos cardeais.há mais dez números além desses. representando as sagradas sephiroth. "Então. os quais. "Por que estás carregando uma saca de argamassa?" "Para recolocar no lugar qualquer coisa que tenhamos de quebrar. a água. era mais do mesmo palavrório obscuro que eu vinha encontrando desde que ganhara o maldito medalhão egípcio em Paris.

Descemos pela encosta rochosa até o Tanque de Siloé. eu animadamente lhes recomendava agachar-se aqui e apressar-se ali. Durante o percurso. o que deixava a encosta às escuras. que é parte dos encanamentos de Jerusalém desde os tempos do rei Davi. e que agora se aproximavam de Jafa. A verdade é que fico mais à vontade nos cassinos de Paris que nos sertões da América. Era lua nova. "Onde?" . murmurei para Jericó.Era o tipo de pensamento que admiro. estavam as muralhas que cingiam a face sul do Monte do Templo. Depois que escureceu. Estariam sentinelas muçulmanas nos perscrutando de lá? Enquanto seguíamos lenta e furtivamente. e aquela noite de começo na primavera estava fria. "Há gente ali". Estávamos no começo de março. Enquanto passávamos com dificuldade por antigas minas. Eu via lá em cima os contornos da mesquita de El-Aqsa e as paredes e abóbadas dos anexos que os templários :construíram ali. como se isso fosse mesmo o fidedigno costume dos índios algonquianos. formando uma linha escura contra o céu. cães latiam das choupanas de alguns pastores de ovelhas e cabras. tive a inquietante sensação de estar sendo observado. saímos de fininho pelo Portão do Esterco. Haviam chegado notícias de que os franceses tinham marchado de El-Arish (na fronteira do Egito com a Palestina) em 15 de fevereiro e obtido uma rápida vitória em Gaza. Atrás de nós. mas Miriam parecia impressionada. e a invasão napoleônica já tivera início.

explicou Jericó. "Fui é afortunado em face de vosso destemor. senhor Gage". capitão-tenente. Vós lhe tirastes seis meses de soldo. faziam ruidinhos inquietos." Apalpei a machadinha e segurei o fuzil com ambas as mãos. Vou ver se pego alguém atrás. Degraus de pedra gastos iam descendo para uma plataforma (também de pedra) da qual as mulheres podiam mergulhar seus cântaros na água. "Vós três seguis na frente. que parecia um retângulo de breu perto do leito do vale." "Capitão-tenente Henry Tentwhistle. sabendo que os outros me esperavam." Mas a noite parecia tão vazia quanto a sacola preta dos mágicos." "Este é o segundo-tenente Potts. Por fim. E nosso grupo crescera." Gemi por dentro. aninhados na paredes de pedra do tanque. da HMS Dangerous. Só um ligeiríssimo brilho dos rostos me indicava onde meus companheiros se apinhavam. fui para o Tanque de Siloé. "Precisaremos dos braços deles no subsolo. murmurou no escuro o comandante dos recémchegados. "Vós vos recordareis talvez do sucesso que tivestes em blefar melhor que eu nas nossas partidas de brelan." Ele olhou em torno."Não sei. a vosso dispor. Eu os pressinto. Acho que afugentaste os franceses. "Sir Sidney mandou mesmo ajuda"." . Pardais. "Britânicos?" Agora eu entendia aquele meu pressentimento. mas não consigo vê-los. sobre quem levastes a melhor no faraó. "Não ouvi nada.

-8“ Deverias era te sentir honrado. como teclas de piano em barricada. "Depois disto aqui. respondi débilmente. "Quão desesperadamente eu tenho necessitado desse dinheiro para concluir a missão atribuída a mim pela Coroa aqui em Jerusalém. "Esta foi até hoje a única missão em que nos apresentamos como voluntários". melhor estaremos. explicou Little Tom. "E o nosso dinheiro de volta. com certeza". disse o dono do sorriso. eu conseguia reconhecer o brilho de um sorriso inesquecivelmente largo e hostil." ." Mesmo na escuridão de meia-noite no Tanque de Siloé. "Sir Sidney achou melhor que todos nós trabalhássemos em conjunto. ainda me deves uma briga"."Não pode ter sido tanto assim. pode?" Balancei negativamente a cabeça." "Foi por tua causa que a gente veio. chefe". "Jericó. não podias ter-me deixado a par disto?" "Sir Sidney ensina que." "Estou lisonjeado." "E acredito igualmente que conheçais bem estes dois camaradas. com quanto menos pessoas falarmos. disse Big. Eram Big Ned e Little Tom." Mas claro.

se uma cobra como tu estava neste negócio. olhando para essa turma de oficiais e fuzileiros indiscutivelmente pouco amistosa. passou. mas existe também uma possibilidade real de que façamos história. Agora. vede: há certo perigo aqui. virá melhor para homens que se mantêm unidos. tentando desconsiderar meu instinto de que aquilo tudo ia acabar mal. Pois muito bem. era porque devia haver dinheiro em jogo". companheiros". acrescentou Big Ned. e o que vier. disse eu. e precisamos ser silenciosos como camundongos. disse alegremente Little Tom. Minha filosofia é que o que passou. só pode ser algum tesouro escondido! E esse ianque pode acertar as contas com o Ned aqui. O próprio Ben Franklin dizia que três só conseguem guardar um segredo se dois já estão mortos. caso Bonaparte venha a tomar esta cidade. "Está claro que não. É essa a nossa missão." . Não um tesouro. "é bom contar com aliados que tivemos o prazer de conhecer em amistosas rodadas de jogos de azar. "Quando eles nos deram picaretas. "E então ele mandou mais quatro?" "Calculamos que. Não sois da mesma opinião? Afinal. cada tostão que tenho comigo vai para as necessidades da Coroa." "Não somos tão simplórios quanto pensas".ou então dar a parte dele para nós'. pensamos: 'Bom.Deveras. do jeito que prometeu lá no navio . mas a possibilidade de descobrirmos um corredor secreto até o cerne do inimigo.

. "E que diabos quer dizer essa história dos gatos?" "Que somos uma porcaria de saco de gatos. não custou quase nada". perguntou Tom.eu me contentarei com este ou aquele pergaminho. é só um lixo bonitinho.manufatura oriental. "Pois então quem é essa rapariga?". assinalou Little Tom. nenhum conhecimento real da feitura de armas de fogo. meus companheiros. insisti." "Em Jerusalém. apontando para Miriam. como Ben Franklin gostava de dizer." "Bem carinha essa tua arma. se acharmos.que tal? No escuro. "Ora. já que é responsabilidade minha que nenhum de vós sofra mal algum. Aposto que custou muito dinheiro. "Sabeis como é . A bem dizer." "Que estaremos todos juntos até cumprirmos a missão". "Um maldito rebelde que devia ter sido enforcado". podereis ficar com minha parte . quis saber Little Tom.. é claro que vós. todos os gatos são pardos." Evitei a encarada de Jericó. resmungou Big Ned."Necessidades da Coroa? E o que é essa bela arma que estás segurando?". Mas. "Agora. ou coisa assim." "Quem?". . "Este fuzil?" A arma reluzia ostentosamente. Tão empetecada quanto uma vadia de luxo. trata-se de um exemplo capital! Ele é para vossa proteção. corrigiu Tentwhistle. É nesse espírito de colaboração que eu gostaria de começar . não posso prometer que acharemos algo de valor.

"Construído para manter do lado fora as crianças e os animais.. nosso ferreiro fechou o portão atrás de nós. "Irmã?!" Tom recuou como se tivesse levado um choque elétrico.". "E a gente não vai carregada". "O joelho dela sabe onde estão as tuas bolas. "Para este eu tenho a chave. Ele usou de força e alavancagem. acrescentou o parceiro. Pelo relvado da batalha de Lexington." "Ah. que ela vê". "Trazes a irmã numa caça ao tesouro?! Para que diabos?" "Ela vê coisas". com um rangido. ouviu-se um estalo. e a grade enferrujada se abriu para dentro. grunhiu Jericó. "Como se eu fosse deixar que fizésseis isso. "Aqui. disse Ned." . vadeamo-lo até seu final. disse Jericó. A corrente vinha de uma abertura semelhante à gruta. "E quem é aquele ali atrás?" "Nosso guia judeu. "Toma cuidado. Ned". cortou Miriam. Assim. comigo totalmente intranquilo. disse Tom. áspera e abruptamente. com água pelos joelhos. Depois que entramos.Ela se afastou. trancando-o com um cadeado novo que ele próprio trouxera.. levantando seu pé-de-cabra. fechada por um portão de ferro. "Minha irmã". não nós". respondi. repugnada. ó. um judeu também?" "Trazer mulher dá azar"." "Sabe. entramos naquele tanque raso e. é?" Ele a olhou com mais interesse. avisei. aquilo era ou não era um rolo e tanto?! Eu não conseguiria angu pior se convidasse anarquistas para redigirem uma Constituição.

fui chapinhando até Tentwhistle. Quando já havíamos adentrado suficientemente o túnel para que Jericó se arriscasse a acender a primeira lanterna. Era uma canalização artificial que fora construída para trazer água de manancial à velha cidade do rei Davi. "Não tenho o hábito de chapinhar no escuro. na defensiva. A passagem de túnel que vadeávamos tinha a largura de meus braços abertos e uma altura de dez a quinze pés. O leito era irregular. sibilou Jericó. . entrastes na cidade?" "Só para conseguir comida." Logo a água nos chegava às coxas. perguntei. para a longa margem do tanque. resmungou baixinho o banqueiro. "Não estou enxergando nada desde que saímos da casa de Jericó". "Pagamos a nossos guias para que ficassem de boca fechada". sussurrei para Farhi. intrometeu-se Ned. e também não dissemos nada em Jerusalém". apresentando a textura de rocha submetida a picaretas antiquíssimas. exasperado. "Não há nenhuma possibilidade de que tenhais sido seguidos até aqui." "Eu vos disse para ficar na surdina até escurecer!". "Estávamos em trajes árabes e não conversamos com ninguém". "Um momento . explicou Tentwhistle. fazendo que tropeçássemos.Olhei para trás. há?".vós quatro. respondeu o capitão-tenente. "É. contou-nos Farhi. Teria alguém se abaixado rapidamente para sumir de vista? "Vistes alguma coisa?". da marinha inglesa. fria mas não gelada.

." De repente. com o fuzil. "Acho melhor nos apressarmos. deixei que a ponta do cano de meu novo fuzil acertasse em cheio a virilha de Ned. mas segurei a mão dele. "Não me toques!" "Desculpa ." Enquanto eu abria caminho aos empurrões para o fim da fila. "Ah.. exclamei. és nossa retaguarda. acrescentou Ned. "Todos vós pareceis tão árabes quanto Papai Noel! Essas carantonhas vermelhas não teriam dado mais na vista se tivésseis entrado marchando com a bandeira britânica". ."Ora essa. vou te manter segura". cuja fisionomia estava sombria à luz âmbar da lanterna. E tu. o que se podia fazer a respeito agora? Volteime para Jericó. eu não ia vir até Jerusalém sem dar uma olhada. arfando. perguntou lascivamente Little Tom. Miriam gritou nas sombras. "Eu cuido disso. disse ele. rebateu Big Ned. "Maldição!". "Que viesses nos receber com algum grude. "Ei." Bem. então a gente devia morrer de fome até de noite e depois cavar um buraco para vossa alteza?".eu esbarrei?". se querias tanto nos deixar do lado de fora desta tua preciosa cidade." "Deixei um cadeado forte na grade. É uma cidade famosa!" "Trajes árabes?!". boneca. Jericó começou a levantar a picareta.

. o nariz como um focinho. Os fuzileiros ficaram brancos de susto e se mantiveram o mais longe possível de Miriam.a cratera no olho. disse eu. astutamente. o que foi que aconteceu com ele?!" Farhi passara à luz da lanterna." "Pois eu vou ficar onde bem entend. "Eu relei na irmã dele". respondeu o judeu.. girando a coronha tão abruptamente que ela raspou direitinho em uma das faces de Tom. Deus do Céu. não ficaremos esbarrando em ninguém. eu esbarrei?" Miriam segurava um péde-cabra. "E eu vou fazer os dois dançarem ao som da chibata". eu vos avisei." Nisto. "Desgraçado!" "Tenho certeza de que. Tom deu um berro e um pulo. só estávamos brincando. se todos mantivermos distância uns dos outros.comportai-vos!" "Ah.. e os perplexos britânicos viram pela primeira vez aquele rosto mutilado .como sou desajeitado!".. senhor! Os dois aí . "Ai! Essa cadela veio toda sorrateira por trás!" "Desculpa. completou Jericó." "Eu vou te castrar com as minhas próprias mãos se tocares na minha irmã outra vez". disse Tentwhistle. a orelha arrancada. "Segundo-tenente Potts! Cuidai da disciplina!" "Sim."Oh. Mantende distância se dais valor à vossa virilidade. desculpa .. "Senhores.

e o túnel começou a ficar mais baixo à medida que nos aproximávamos dela. com todos nós vadeando num casulo formado por luz de lanterna. Surgiu enfim o ruído de água corrente. "Reza a lenda que o umbigo de Jerusalém está em algum lugar acima de nossas cabeças. Não estavam habituados aos ambientes fechados nem ao trabalho em terra. Em certa altura. . disse Farhi. foi que ela tirou um pouco do vigor dos ofegantes fuzileiros. O que era aquilo? O eco de um tinido. "Por que a gente não aproveita e carrega também um coche cheio de tijolos?". sugeri a Tentwhistle que Ned e Tom ajudassem a carregar a saca de argamassa de Jericó.Se houve alguma vantagem na longa e árdua caminhada com água pelas coxas. "Estamos cada vez mais perto do manancial". Mas ele continuou forcejando como uma mula. E então. Para mantê-los resfolegantes. queixou-se Ned. parei para ficar de ouvidos atentos enquanto os outros seguiam dificultosamente e a escuridão crescia à medida que eles se afastavam.. e não escutei mais nada.. e só a suposição de que conseguiriam riquezas antigas evitou que empacassem de vez. de um cadeado ao ser quebrado bem lá atrás? Aquela distância. Logo teríamos de rastejar." "Já eu acho que estamos é no maldito cu". resmungou Little Tom. porém. era quase tão inaudível quanto a queda de um alfinete. Acabei desistindo e me apressei em alcançar os outros.

Procuramos com nossas lanternas até que de fato achamos uma fenda escura acima de nós. Eu não tinha idéia de quanto havíamos avançado ou de que horas eram . empurrando a saca de argamassa. pois mal conseguia espremer-se por ali. vadeado e rastejado de volta para Paris. não paredes de gruta. e uma passagem (seca." À proporção que seguíamos.não teria ficado surpreso se me dissessem que havíamos caminhado. encontramos pedra talhada. com o teto apenas um pé acima de nós e o diâmetro pequeno demais para que mais de um homem passasse facilmente. E então o túnel ficou novamente regular. obra de mãos humanas. Ele subia num gradiente constante. dessa vez) voltava obliquamente rumo à cidade principal. mas. ele já estava coberto por um suor lustroso. apertada como o fecho da bolsa de um pão-duro. Em seguida. Rastejamos sobre pedras grandes caídas do teto. Big Ned praguejava. . Estamos no caminho certo. e a mulher foi na frente. mais fracas. Ned vivia batendo o cocuruto e praguejando. "A lenda diz que esta passagem foi construída com largura suficiente apenas para um escudo". tão logo demos impulsão uns aos outros para subir por ela. um único homem poderia defendê-la contra um exército de invasores. com Miriam se mostrando mais ágil que qualquer um de nós. Eu não teria adivinhado que ela levaria a algum lugar. Apareceu outro buraco estreito. a fenda foi se abrindo. disse Farhi. o ar ficava mais impuro. e as lanternas. "Assim.

" Continuamos vigorosamente. bem acima. elevando também o piso. Além dali. "Está tudo certo . informou. o túnel voltou a subir para uma caverna seca. enxergávamos o alto de um vão de porta arcado. "Será?". Fazei o mínimo de ruído possível. que nossas débeis lanternas mal abarcavam. e enfim nosso caminho terminou.a água vem só até o peito e é limpa". O teto era mais alto porque fora escavado. Jericó me fez segurar sua lanterna enquanto ele entrava cautelosamente na água abaixo. cada qual com umas dez jardas de largura. debaixo da própria plataforma do monte do Templo. explicou Jericó.esta trabalheira toda para nada!". "Numa estação mais chuvosa. apesar das dificuldades . "Maldição . todas estas passagens estariam submersas". cortando nosso caminho. portanto. Chegamos a outra cisterna e depois a uma terceira. Em seguida. o túnel continuava. disse Jericó. ouvi o barulho de água mais adiante. murmurou Jericó. "Achamos as cisternas. disse Ned. "Estamos passando debaixo dela e."A muralha de Herodes". e as pedras tiradas dali enchiam a câmara pela metade." Do outro lado. ofegante. abruptamente.e. "O que há por trás desta parede para que seus construtores não quisessem que chegássemos lá?" . O problema era que a porta já não estava mais lá e o vão fora completamente tampado com blocos de pedra e argamassa. o túnel terminou numa grande gruta. construído de pedra. uma vez mais. De súbito.

acrescentou Miriam. cruzados ou templários a emparedaram. "Chefe. é melhor haver alguma coisa do outro lado desta parede. "Besteira". passando pedras soltas de um para outro até formar uma vala que chegava à base do vão emparedado. "Ela poderia ser usada como ponto de entrada por exércitos inimigos. silêncio é essencial". atirando a saca de argamassa no chão. disse o fuzileiro. Foi preciso duas horas de trabalho árduo até afastarmos entulho suficiente para que se visse a entrada por inteiro: o largo portal subterrâneo estava arrolhado como uma garrafa por pedras calcárias de diferentes cores." Ele me olhou de soslaio." Mas. Algum tremor de terra . aventou Tentwhistle. "Tendes de cavar antes das preces da alvorada. Nós oito formamos uma corrente."Ou que não quisessem que saísse dali?". conjeturou Farhi. Tentei direcionar o pateta. "Precisamos de um barril de pólvora". porque senão vou te chacoalhar pelas canelas até ficares vaziozinho. disse Farhi." "Os antigos judeus construíram a arcada". apesar da bazófia. disse Ned. "e os árabes. "O tempo perdido nunca é reencontrado. dizia o velho Ben. "Fazia sentido selar a entrada". ele e Little Tom acabaram pegando no oesado. "Não." "E tornar a vedar a passagem". interrompeu Miriam. diz o velho Ned." "E quem rouba nas cartas deveria devolver o que pegou.

exausto. Assim. disse Tentwhistle. senhores. trabalhamos nas pedras adjacentes. Os músculos dos dois se estufaram. e isto ficou esquecido desde então. qualquer bem que venha a ser tomado pertencerá à Coroa para posterior distribuição aos tripulantes segundo as leis do . o buraco ficou grande o bastante para que se rastejasse por ele. gostemos ou não. como se de algum modo pudesse ver a reação dos guardas muçulmanos muito acima de nós. "Jericó e eu faremos o reconhecimento". somos todos agentes da Coroa. expliquei aos britânicos. "Estamos todos numa missão naval. ergueu o pé-de-cabra." Jericó. Não ousávamos bater até quebrar. quebrando a argamassa e alavancando-as uma a uma. Por fim. Justamente por isso." A primeira pedra é sempre a mais difícil. e eles a pegaram antes que chegasse ao chão e a deitaram sem fazer ruído. usassem seus pés-decabra para deslocar a pedra. Farhi ficava olhando para o teto. a pedra deslizou para fora como uma gaveta travada e teimosa. cada um de um lado." "Mas de jeito nenhum!". mãos à obra. escuridão total.endas. secamente. mas devo concordar com meu subordinado". sendo lembrado apenas pelas . "Então.fez o teto aesabar. de modo que removemos a argamassa e deixamos que Ned e Jericó. Eu me inclinei até a baforada de ar bolorento que saía de nosso buraco. Se houver alguma coisa lá. nós traremos para vós. reclamou Big Ned. "Sinto muito. "Ficai de guarda. e.

Jericó ergueu o pé-de-cabra como se fosse uma lança." "Não estou mais na vossa marinha". "Fostes enviados como mão-de-obra para o trabalho subterrâneo. havia serpentes e crocodilos atrás de cada buraco. o que significa que ou todos atravessamos juntos este buraco. ou não atravessa ninguém. disse Farhi. Ficamos estremecendo tal qual cães rivais no açougue. protestou Jericó. "Estais loucos? Se começarmos a lutar aqui. é claro. Suspirei. "Então. não?"." . disse Tentwhistle. pelo rei e pela pátria. Vossas contribuições serão plenamente consideradas. ensaiei. e o segundo-tenente Potts fez o mesmo. que eu deixara encostado à parede da gruta. mas depois baixamos as mãos." Pus a mão no cano de meu fuzil. não como caçador de tesouros em regime privado. não como guarnição de uma nave apresada".apresamento." Tentwhistle levou a mão à pistola. entre dentes. "E Gage também é agente dele. Ele estava certo." Hesitamos. Ned e Tom agarraram o cabo de seus alfanjes. teremos todos os muçulmanos de Jerusalém à nossa espera! Não podemos nos dar ao luxo de brigar. qual de vós quer ir primeiro? No Egito. "Parai!". "E o senhor foi enviado a Jerusalém como agente da Coroa. "Mas estás a soldo de sir Sidney Smith.

E em cemitérios de igreja. Sabíeis. com ossos cruzados por baixo." "A mortalidade obceca a todos nós. O piso estava coberto de lajotas de mármore no conhecido padrão . Tive um sobressalto. e seguimos por ele para um recinto maior. esperei um momento para certificar-me de que nada estava me mordendo e então puxei pela abertura uma lanterna. a ordem de cavaleiros cujos líderes acabariam na fogueira. estenderse como um friso pela junção das paredes com o teto. Caveiras arreganhavam os dentes para mim. chefe. Ali vimos outros ornatos que eu também achava terem-se originado com os maçons. meus senhores. eu me retorci para passar pelo buraco. só esculturas. Esse friso em ossada é típico dos templários. Eu não vira nada parecido no Egito. Os outros vinham rastejando atrás de mim. senhor Gage. "Parece que és o único com experiência. era inquietante ver uma fileira de caveiras. não é mesmo?" As caveiras ornavam um corredor. e.Fez-se um silêncio apreensivo. Não eram caveiras de verdade. "Piratas não. Ainda assim. à medida que deparavam com aquele mórbido friso. que a caveira com as tíbias cruzadas remonta no mínimo aos cavaleiros da ordem?" "Eu também a vi associada a ritos maçônicos. Farhi tinha uma explicação mais prosaica. as exclamações dos britânicos iam de um "Jesus!" ao mais esperançoso "É tesouro de piratas!"." Por conseguinte.

De resto.xadrez. Atravessamos o recinto. mas robusta o suficiente para sustentar a plataforma herodiana que ficava em algum lugar lá em cima. em raio. dos arquitetos dionísicos. O teto era uma abóbada de berço. cada qual com uma estátua do que parecia a Virgem. chã. Do outro. havia um altar de pedra. . a primeira de alabastro. A Virgem Maria e Maria Madalena? Ou a Virgem Maria e a antiquíssima Isis. porém. Havia um nicho de cada lado. que tinha comprimento de cinqüenta passos. e talvez os cavaleiros se banqueteassem ali quando não estavam ocupados cavando túneis em busca do tesouro de Salomão. bem curioso: as lajotas pretas ziguezagueavam contra as brancas. a entrada pela qual viéramos estava ladeada por duas enormes colunas. com um nicho escuro atrás. Tinha as dimensões de um refeitório. viase uma placa ornamental dupla. mostrava o desenho tosco de uma igreja com cúpula. preto-e-branco.a Virgem Branca e a Virgem Negra. Por que um relâmpago? Desse lado. deusa da estrela Sírio? "Todas as coisas são duais". a outra de ébano . No centro. o lugar estava decepcionantemente vazio. dois cavaleiros medievais montados num único cavalo. o padrão era outro. De um lado. O resto do recinto era totalmente despojado. Engastada na face do altar. Estranho. Na outra ponta do recinto. Como um enorme relâmpago. uma preta e a outra branca. murmurou Miriam.

Vede. O segundotenente empurrara a mão estendida dessa Nossa Senhora (erguida como numa bênção). ali está o Domo da Rocha. Quando fez isso. Noite e dia. interrompeu Big Ned. exatamente como a mesquita em cima de nós. "Mas olhai isto aqui!". resmungou Little Tom. "Isso confirma que foram eles a construir isso. chamando-nos." "Nada exceto os assuntos da Coroa"."O selo dos templários!". exclamou Farhi. Verso e reverso. "Parece que tivemos um bocado de trabalho por nada. disse Tentwhistle." "Aqui não há porcaria nenhuma". com uma abertura tão estreita que precisaríamos nos . Ele fora examinar a Virgem Branca. afastando-se e revelando uma escada ascendente. disse o segundo-tenente Potts. E os dois cavaleiros num cavalo só? Alguns acreditam que isso fosse uma marca da pobreza voluntária da ordem. "Uma porta de serviço? Ou uma passagem secreta?" Nós nos aglomeramos em volta. a pedra deslizou atrás dela. "E. acidamente. senhor Gage. rebati. e a imagem deu um giro. olhando em volta." "Outros argumentam que o selo significa que os dois são aspectos do uno". origem da designação templários. "Masculino e feminino. circular e serpeante. "Comentário sagaz". simbolizando o local do Templo de Salomão. disse Miriam. o americano nos ferrou direitinho".

disse Miriam. "Onde está o tesouro do templo. "Ela deve levar à plataforma do templo"." "Quem liga para o que eles ouvirem?". vão cegar-nos. sentindo a frustração. "Uma ligação com o velho acantonamento dos templários. "Não avisei que os templários chegaram aqui antes de vós?" "Mas esta câmara parece européia. na mesquita de El-Aqsa. "Aqui não há nada mesmo." "Tolo . Farhi?". mas precisamos mais do que nunca fazer silêncio . E era uma subida íngreme." "Tentemos também a Virgem Negra". e não que tenham descoberto. A passagem está provavelmente bloqueada. a estátua não se moveu. circuncidar-nos. O dualismo de Miriam não parecia estar em vigor.o ruído provavelmente subiria como por uma chaminé. disse Farhi.estás em solo sagrado muçulmano e judeu. perguntei. mas desta vez. Por que eles construiriam . torturar-nos pela invasão e depois desmembrar-nos.espremer de lado para entrar. Se qualquer dos dois grupos der por nós. Ficamos ali parados. disse Ned. não importando com quanta força Potts empurrasse o braço. um pedaço de cada vez. como algo que os templários tenham construído." "Ah. Ela foi ao lado oposto do recinto.

Estava marcada por dez discos de bronze do tamanho de pratos. Havia um disco no alto e. arfando." "Aqui embaixo não há janelas". "Agora. sim. Descemos e nos apinhamos numa ante-sala abaixo da câmara principal. "Acho que Big Ned deve empurrar aquela mesa de pedra ali". duas fileiras de três. observou Potts. disse Ned. Após um tempo. "Então isto era para cerimônias". "Com força!" De início. descendo. e por fim Little Tom. estava outra fileira vertical de . ouviu-se um ruído de raspar. Entre essas duas. só pode ter ocorrido em outra câmara. disse o irmão. todos grunhindo pelo esforço. Degraus desciam para a escuridão. veio juntar-se a ele Jericó. e o altar começou a girar sobre um pivô instalado num de seus cantos. via-se uma grandiosa porta de ferro. Tem de haver outra porta. rubra e negra pela ferrugem. e olhei rapidamente para o piso. abaixo. "Mas a atividade para valer. Depois. inferiu Miriam. Na outra ponta do recinto. As lajes pretas e brancas formavam diagonais que se irradiavam do altar. a coisa melhora de figura". Lembrei-me de minha experiência em Dendara. a busca. disse eu.isto? E um jeito bem trabalhoso de conseguir um refeitório. Potts e eu. verdes com a idade. Quando o altar deslizou de lado pelo piso." "As paredes são nuas e sólidas". nada aconteceu. no Egito. revelouse um buraco embaixo. porém mais baixo.

Meu palpite é que isso significava alguma coisa para os templários.três. alguém acabará nos ouvindo. disse o ferreiro. parece boa notícia." "Mas o quê?" . quando Jericó e Ned empurraram e puxaram aquela porta maciça. "Dez maçanetas?". assinalei." Tentou uma das trancas. com mais argúcia do que eu teria imaginado. "Para mim. No final das contas. uma tranca. não achais? Dez discos. recordando-me do mistério do medalhão no Egito. "Talvez nem seja uma porta." "O que quer dizer que ela talvez não tenha sido aberta nem saqueada". mas a peça não se moveu. "Talvez cada uma dessas trancas gire uma lingüeta nesse batente de ferro. e os muçulmanos virão para as preces. do formato do Sol. raciocinou Ned." "Esperai". E. bem no fundo de uma toca de coelho como esta?" "Dez fechaduras? Não há buracos de chave". "E um padrão. alertou Farhi. Se começarmos a bater nesse ferro. "É firme como uma rocha". "Ou dez fechaduras". disse eu. perguntou Tentwhistle. para completar. o americano talvez tenha descoberto mesmo alguma coisa. "Não temos ferramentas para mexer nesta porta. disse Jericó. ela nem sequer se estremeceu.. No centro de cada disco. O que alguém poderia ter que fosse tão precioso que o colocariam atrás de uma porta destas? E. "Logo será a alvorada na plataforma lá em cima." "E o tempo vai-se acabando". Dez é um número sagrado..

. glória. força. misericórdia. confirmou Miriam.mas eram ecumênicos quando se tratava de procurar antigos segredos". com keter. fundamento e soberania. Chesed." "Mas o que significa isso na porta?" "Acho que é um quebra-cabeça". eles conseguiam invocar deuses ou poderes. "Sim. Devem ter-se interessado por todos os símbolos que fossem de ajuda na sua busca por conhecimento." "Grandeza. Ele aproximara a lanterna.. Não conseguimos apreendê-lo." . "e que. enunciando-as. "O misticismo e a numerologia judaicos. a sabedoria.agora estou vendo! A Etz Hayim ." "Os templários eram judeus?!" "Decerto que não .a Árvore da Vida!" "A cabala". "Todos os aspectos de um Deus que está além da compreensão. Textos muçulmanos também. O que vemos aqui é o parirão das dez sephiroth. disse Miriam." "Árvore?" Farhi recuou de súbito. sim . no alto. "Devem ter estudado os textos judaicos à cata de pistas de onde cavar no monte. ou reino". assim como quaisquer outros. tifered. “É. consigo ver os nomes judaicos lavrados em hebraico. "É a Árvore. recitou Miriam. E assim por diante." "Os egípcios acreditavam que as palavras eram mágicas". bem devagar. e depois binah. majestade."As sephiroth". lembrei-me. respondeu Farhi. disse Farhi. a intuição. netzach.. a coroa. somente essas manifestações de seu ser.. vitória. defronte a chokhmah.

talvez nenhuma das trancas vá funcionar. que blasfêmia pagã! Esses cavaleiros de que falais adotaram as coisas dos judeus? Não admira que tenham morrido na fogueira!" "Não as adotaram . "Aqui em Jerusalém respeitamos outros credos. "E esse centro não representa para os cabalistas a incognoscível mente de Deus? Não é esse centro o . pacientemente. não cedeu. Talvez as trancas devam ser giradas na ordem certa. "Vitória? Eles eram guerreiros. thought. recordando os monolitos que quase acabaram comigo na pirâmide. "Isto pode ser um teste para manter afastados os imerecedores. perguntou Farhi. como o livro que Ethan procura." "Pensamento?" "Se traçarmos retas de disco a disco. a coroa". disse Farhi. Thoth. "Keter." "O que um templário escolheria primeiro?"." "Ou talvez disparemos alguma armadilha".eles apenas as usaram". apontou ele. Os templários queriam dizer alguma coisa com este arranjo aqui. explicou Jericó. "Por Deus. "Esperai . "Se cometermos um erro. disse Miriam." "Primeiro. Sabedoria? Se o tesouro fosse um livro.Big Ned fez o sinal-da-cruz. mesmo quando brigamos com eles. Glória? Eles encontraram a fama. Intuição?" "Pensamento". como Tot." Mas essa tranca. elas se entrecortarão aqui no centro". lá no alto." "Vou tentar. sugeri.vamos pensar". tal qual as outras. "Pensamento. disse eu.

"Esta é uma montanha sagrada desde o início dos tempos. disse Farhi. exatamente naquele círculo. como uma ponte levadiça. Ned e Tom desembainharam os alfanjes. os cristãos. com a parte de cima presa por correntes. ela pegou o pé-de-cabra com o qual espetara Little Tom e golpeou o ferro da porta com a ponta. Ela foi baixando pesadamente. "mas não há nenhuma tranca ali. e então vimos que a porta servia de ponte sobre uma fenda no chão. sussurrou Ned. conjeturou Farhi. uma . O abismo se estendia para a escuridão. Tentwhistle e Potts apontaram suas pistolas navais. o único lugar sem tranca é o coração. "Alguma falha fundamental na Terra". até pousar com um golpe surdo no piso empoeirado mais além. e de repente todas as dez trancas em todos os dez discos de bronze começaram a girar em uníssono." "E. "Só que aqui há um pequeno círculo lavrado." Miriam traçou retas dos dez discos para aquele ponto central. Quando as trancas pararam de girar. houve um clique. Jericó deu um empurrão e. "Preparai-vos!" Ergui o fuzil. perscrutando lá embaixo. "Vamos todos ficar ricos!". com um estrondo angustiante.pensamento em si? A essência? Aquilo que nós. o círculo lavrado afundou. Ouviu-se um estrépito surdo e ressoante que sobressaltou a todos. talvez denominemos alma?" "Estás certa"." E. Ergueu-se uma nuvem cinzenta. a grande porta se abriu para dentro e para baixo. antes que alguém pudesse impedi-la. Nisto. obscurecendo momentaneamente o que jazia ali.

e. As paredes exibiam escrita num alfabeto com o qual eu nunca topara antes. Era diferente também do que eu vira no Egito.. No centro do recinto. E dentro deles havia. No vértice da abóbada. mas que estava vazio. A nova câmara era bem menor que o salão templário mais acima.mas que talvez tenha suas raízes no mundo inferior. com teto baixo e abobadado. de minha parte. ar fresco foi bafejado para cima. secos e corroídos pelo tempo. Este era ornado com pinturas de uma profusão de estrelas. Ela não era muito maior que uma sala de estar.rocha que se dirige ao Céu . triângulos e círculos. . havia uma esfera que aparentemente recebera douradura e provavelmente representava o Sol. nem latino. nem hebraico. signos zodiacais e criaturas estranhas de alguma época primeva. um turbilhão de simbolismo que me trouxe à lembrança o teto que eu vira em Dendara. repetiu Miriam. um pedestal de pedra que chegava à cintura de um homem. Muitos caracteres tinham forma geométrica . me lembrava daquele poço do inferno na pirâmide. como a base de uma estátua ou um expositor. Não havia nada. Todos estávamos receosos. porém.quadrados. Baús de madeira e bronze se amontoavam pela Deriferia do recinto. Mas nossa ganância nos fez atravessar do mesmo jeito. outros.. nem grego. nem árabe. pareciam vermes contorcidos ou labirintos minúsculos." "Todas as coisas são duais". Da fenda na rocha.

onde o depositório do livro estivera vazio. reouveram ou transferiram. Um castigo atrás do outro. sim -. dando pontapés nos baús. "O que dizem as paredes?". Ninguém respondeu. Ned arremessou um deles contra a parede de pedra. "Além dos vossos famosos corações de carvalho.. o livro que se fora. perguntei. Se algum dia existira um tesouro ali . rogou Farhi. apontou para uma pequena saliência ali onde as paredes se encontravam com a abobada. Podia ser até que o tesouro já estivesse desaparecido desde que os hebreus foram escravizados por Nabucodonosor. agora. Mas então Miriam. os marinheiros ingleses também têm cérebros do mesmo material?" O capitão-tenente ficou rubro. E. ou escondido em outro lugar quando os líderes deles foram para a fogueira. "Não há nada aqui! Já saquearam tudo!" Saquearam.. Primeiro. recordei-me da Grande Pirâmide. "Silêncio. ele já se fora havia muito. aquela piada cruel. que estava contando.e eu desconfiava que existira. "Maldição!" Eram Ned e Tom.Mais uma vez. "Precisais quebrar coisas para que os guardas muçulmanos nos ouçam? Este Monte do Templo é uma peneira formada de grutas e passagens!" Ele se voltou para Tentwhistle. olhando para aqueles curiosos caracteres. Talvez levado pelos templários para a Europa. Depois. Havia candeeiros . pois nem mesmo Farhi sabia. e um grande estrondo transformou o baú numa chuva de lascas. tolos!". Astiza.

Este se acendeu. e aí um filamento de fogo se moveu por uma canaleta de óleo para acender o candeeiro seguinte. como se para receber velas ou lâmpadas de óleo. Agora. O banqueiro mutilado o fez. exclamou. "Farhi. "Setenta e dois". alguma maneira de lançar luz sobre o mistério que havíamos descoberto. com súbita convicção. . inflamando-se em cadeia pelo perímetro da abobada. Um depois do outro. conta-os". Vi que a abóbada tinha vigas de pedras que subiam para o vértice.esculpidos na tela. "O antro de Satanás!". E não era tudo. E então Jericó pôs fogo num pedaço de madeira de baú com o pavio de sua lanterna e tocou o óleo do candeeiro mais próximo. como é possível tal coisa?" "E um mecanismo acionado pela porta". disse eu. "Acendê-los para compreender." Jerico se aproximou. "Há óleo pingando neles!". murmurou Little Tom. "Vamos acendê-los"." Supus que se tratasse de magia templaría. os candeeiros irromperam em chamas. disse ela. "Como os setenta e dois nomes de Deus. esses sulcos começavam a brilhar com o calor ou a luz mais abaixo. e em cada uma delas havia um sulco. aventou Miriam. até o que antes era escuro ter-se tornado um lugar que pulsava com luz e sombra. numa cor roxa e lúgubre semelhante ao que eu vira em experiências elétricas com tubos de vidro dos quais se retira o ar. admirado. "Após tantos anos. disse bem devagar.

No ponto mais alto da abóbada. Os britânicos estacaram e se puseram a escutar. ela parecia apontar para a porta recém-aberta. que antes estava imóvel. "Ela está girando!" -9Corremos escada acima para a estátua. procurando sinais de desabamento. como o raio de eletricidade que eu invocara no Natal. como o de uma engrenagem enferrujada. algo que teria sido bloqueado caso um livro ou rolo estivesse pousado ali. E dela partiu um raio de luz roxa.. Onde talvez se houvesse mantido um livro ou rolo de papel ou pergaminho. e uma porta semelhante àquela atrás da Virgem Branca ia se abrindo.. Olhei para o teto. a esfera de aparência solar que eu imaginara ter apenas recebido douradura começou a brilhar intensamente. E então se ouviu um rangido lancinante. Sem isso. O braço. A Virgem Negra estava girando com ele. agora girava sobre seu próprio eixo. Jericó e Miriam faziam o sinal-da-cruz. Quando a estátua parou. gritou o segundo-tenente Potts da escada que levava de volta ao salão dos templários. como se fôssemos testemunhar um milagre. Esse raio incidiu diretamente no pedestal no centro do recinto. . Vi que havia um orifício no centro do pedestal. a luz de cima podia resplandecer pela abertura. "E a Virgem Negra!".

com Miriam e Farhi formando a retaguarda. possibilitando que o brilho penetrasse pelo orifício. e Jericó e eu os seguimos relutantemente. "Puxa isso. ordenou Tentwhistle. Se o estranho espetáculo de luz acionava de algum modo aquela abertura. para acabarmos de vez com este negócio! Já é quase dia!" O fuzileiro assim fez. . reparei que a outra face da porta era rocha irregular . gritei. "Puxa com toda a força. "Só pode ser o tesouro!" Potts já sacara a pistola e inclinou-se para entrar primeiro. Ned!". declarou Ned. "Espera aí!". muito mais velhas que os templários. disparado quando o livro fosse tirado dali? "Não sabemos o que isto significa!" Mas os quatro britânicos já arremetiam pela passagem. e. ela pareceria apenas parte da parede de uma gruta. As paredes toscas da escadaria me fizeram lembrar o acabamento do túnel de água do tanque de Siloé: eram antigas. perguntou Potts. este seria mesmo uma espécie de chave que levava a mais tesouros? Ou algum alarme templário. enquanto ele lentamente abria a passagem.do outro lado."Por todos os santos!". Remontariam elas aos tempos de Salomão? Ou mesmo de Abraão? O túnel subia em espiral e terminava numa laje com uma grande alça de ferro. era só porque o livro não estava no pedestal. subindo uma passagem íngreme e serpeante. Teriam as pessoas lá em cima um dia sabido que aquela passagem existia? "Onde diabos estamos?". Por conseguinte.

e do Domo da Rocha. havíamos mexido num vespeiro. . ergueu-se um grito em árabe. "Bem onde quaisquer vigias da mesquita podem ouvir intrusos do lado de baixo". gritei. respondi num sussurro. explodiu. e a cabeça de Potts. No outro. "Estamos bem debaixo da Kubbet es-Sakhra .ou mesmo a própria Arca da Aliança. e nos lançamos ao chão. Nisto. o segundo-tenente me puxara com louco entusiasmo. rapazes!" Ned e seus companheiros irromperam no corredor. havia uma gruta mais larga . "Queres dizer que os muçulmanos. empolgado e resfolegante pelo esforço de seguir nosso grupo. "Tesouro." "Bem debaixo do que já foi o Templo de Salomão!". Num instante. uma trovoada de disparos e balas ressoou furiosamente ao nosso redor. seus miolos eram borrifados sobre todos nós.Adiante. alertou Jericó. Então. disse Farhi. "Allah akbar!" Deus é grande! Os muçulmanos tinham nos ouvido bater cabeça em seu local mais sagrado e chamaram a guarda de janízaros! E. Potts desabou como uma marionete cujos cordões houvessem sido cortados.e luz. "Meu palpite é que saímos na gruta sob a própria rocha sagrada". coitado. vi um amontoado de homens recarregarem as armas.a raiz do mundo . Estava indo tudo depressa demais. A fumaça de pólvora preencheu a estreita passagem com seu conhecido fedor. "Abaixai-vos!". Através da fumaça. Os britânicos não iam esperar. "Onde talvez se guardassem os segredos do templo .

e uma dúzia de mãos maometanas se agarrou à borda da porta do outro lado. dissera Farhi. os janízaros arremeteram. pelo amor de Deus! Voltemos por aquela porta!" Mas. Atrás e acima de nós. ele bateu a porta. Ned soltou um berro portentoso e golpeou algumas delas com o alfanje. decepando dedos. Ele deu um pinote para trás. bradei. e ouviu-se um berro em resposta. de modo que Ned urrou tal qual um urso e investiu contra os janízaros. um só homem conseguiria conter um exército. Descemos correndo a escada serpeante até o salão vazio dos templários. Lá na passagem para o manancial. atirei. "Batamos em retirada!". e agora era a vez deles de girarem aos trambolhões para proteger-se. e Little Tom levou um tiro no braço. acertando outro janízaro. Corremos pelo corredor com o friso de caveiras.Por isso. descendo o alfanje como um louco até que os braços sumiram de vista. Se nos pegassem. A pistola de Tentwhistle também disparou. pegando um de nossos pés-de-cabra para emperrá-la temporariamente até que os janízaros pudessem abri-la à força. ouvíamos o pesado impacto de uma marreta à medida que os muçulmanos batiam na porta de pedra. Somente pela passagem arcada talvez ainda tivéssemos uma chance. assim que começamos a empurrá-la para fechar. Aí. praguejando. A porta estava sendo inexoravelmente empurrada para permanecer aberta. até o buraco que . eles nos massacrariam por sacrilégio. mas outras armas de fogo dispararam. "Apressai-vos.

De algum modo. monsieur Gage!". ou a alvenaria estava reforçada do outro lado com entulho e vigas. disse-me pelo buraco encolhido uma voz conhecida. somente a perfídia de Silano. Os franceses certamente haviam nos seguido (como eu temera). as pedras estavam se reempilhando. Que maldita bagunça! Algo. bradou Ned. Que mágica era aquela? "Au revoir. Desta feita. arrebentado o cadeado de Jericó na grade do Tanque de Siloé e ouvido nossos gritos quando não achamos tesouro algum. mudara. A pedra derradeira foi encaixada na nossa cara. Estávamos encurralados por nossa própria previdência. Eles então começaram a tapar nossa rota de fuga com a saca de argamassa que Big Ned deixara ali. "A argamassa ainda não secou!". usando alfanje e fuzil. ganharia tempo para os outros enquanto eles fugiam. Mas ou a cal aglomerante se solidificava depressa. Eu.escaváramos apenas uma hora antes. ele falava pelo que agora era o vazio de um único bloco de pedra! Então não era mágica coisa nenhuma. A abertura que fizéramos no vão emparedado diminuíra. pois o fuzileiro quicou como uma bola ao lançar-se contra ela. enquanto Little Tom cambaleava como um . Mais uma vez. prendendo-nos ali. Ned começou então a bater com os punhos no vão emparedado. e o buraco ficava pequeno demais. era a voz do pretenso inspetor de alfândega que tentara assaltar-me na França e com quem eu lutara em Jerusalém quando seus capangas pegaram Miriam. entretanto.

Farhi se espremeu para passar pela Virgem Branca e começou a subir aquela escadaria. Houve um estrépito. olhando admirados e então berrando quando nos avistaram no lado oposto. disse Tentwhistle. segurando o braço com a mão. Depois. "Não temos tempo para isso!". de cujos dedos pingava sangue. Por fim. e o eco de belicosos berros em árabe desceu pela escadaria da estátua escura. fazendo que o corpo de pedra da estátua obstruísse a estreita passagem.bêbado. "É nossa única chance!" Corremos de volta para o salão templário. gritou Farhi. Com os músculos quase explodindo. Big Ned empurrou até mesmo a mim à frente dele. Logo atrás do judeu. As balas ricochetearam e impuseram alguma hesitação. Agora os perseguidores estavam adentrando o salão dos templários. Isso colocou entre . Eles haviam passado! Tentwhistle e eu chispamos para o pé da escadaria e atiramos às cegas para cima. Jericó empurrava a irmã com força. Virando-se de lado. nosso golias pegou a Virgem Branca e a arrancou do nicho. o resto de nós também bateu em retirada pelo salão dos templários. comprimindo-nos um após o outro para subir os degraus. de modo áspero e abrupto. Ned mal conseguiu espremer-se pela entrada da escadaria enquanto arrastava a Virgem pela cabeça. explicou ele. "Os muçulmanos vão conseguir passar por aquela porta de pedra lá em cima e descer pela escada da Virgem Negra!" "A escada da Virgem Branca!". Do lado oposto. "Eu cuido dessa corja!".

ricochetearam inofensivamente nos degraus mais baixos. na mesquita de El-Aqsa. Voltamo-nos e subimos com dificuldade. com a fileira de arcos e janelas elevadas fazendo do enorme espaço interior um cruzamento arquitetônico de palácio árabe com igreja européia. Dispararam-se mais tiros. Deramse alarmes. Corremos desabaladamente para a porta da mesquita. Reparei em como ela fora modificada pelos cruzados. Seguimos desesperadamente escadaria acima. empurrando-o violentamente e fazendo-o bater na parede. que nos fechava do lado de dentro. porém. Eles começaram a puxar para soltar a Virgem. Topamos com um portão gradeado de ferro. arremeteu contra a obstrução e retrocedeu. certamente para avisar os compatriotas do Monte do Templo de nossa iminente saída. iluminada apenas pela luz tênue do céu antes do . Eu ouvia a turba lá embaixo berrar de frustração enquanto investiam contra a estátua que bloqueava nossa rota de fuga. O ferro reverberou como um gongo. as balas.nós e eles um tapadouro parcial. Aproveitei a pausa para recarregar o fuzil. Como Farhi adivinhara. Uma onda de muçulmanos. a escadaria da Virgem Branca só podia ter sido construída para possibilitar o acesso secreto da sede principal dos templários às câmaras e túneis abaixo. Saímos no alto do Monte do Templo. Na imensa plataforma do templo. urrando de raiva e decepção. Tentwhistle estourou o fecho com um disparo de pistola e escancarou o portão. correndo desnorteadamente.

estava suspensa sobre a entrada principal. havia poucos janízaros e poucas armas de fogo. com um grande urro. eu enxergava a azulejaria azul e a coroa dourada do sereno Domo da Rocha. caindo com enorme estrondo ao sepultar o líder da turba e dispersar o restante. Mais além. A multidão cantava. Foi o bastante para dar a nosso destacamento de trogloditas sujos e cobertos de sangue os preciosos segundos necessários para . brandia porretes. eu mirei pela luneta do fuzil. numa base de metal de dez pés de largura.alvorecer. Uma dessas lâmpadas . que podem ser baixadas com cordas brancas de algodão.com diversas dúzias de chamas individuais. Nossos perseguidores retrocederam momentaneamente. Quando a multidão veio irrompendo por ali. olhando ressabiados para cima. A bala rompeu a corda. com sua porta fervilhando enquanto homens entravam e saíam consternados de lá. a mesquita de El-Aqsa é alumiada por enormes lâmpadas pendentes de bronze. pululavam centenas de muçulmanos toscamente armados. voltou-se em uníssono e veio à carga. tudo pesando bem mais de uma tonelada . dava gritos de alarme. À noite. disse-me Ned. Afortunadamente. e a lâmpada desceu como se fosse uma guilhotina. Alguns dos muçulmanos acabaram nos vendo. "Mas que porcaria é estar contigo!". como abelhas numa colmeia que acabasse de ser chacoalhada. Então. mirei. pus no retículo de fios cruzados a corda e o gancho que a segurava no teto decorado e atirei. e aí aquela gente toda.

de sabedoria constituída sobre a sabedoria anterior. Mas. fiquei imaginando se a viagem noturna do Profeta a Jerusalém e a ascensão dele aos Céus seria apenas um mito ou se Maomé também estivera verdadeiramente ali. Big Ned correu de encontro a ela a toda a velocidade. no ponto onde a El-Aqsa e o Monte do Templo encontravam a muralha da periferia da cidade. procurando e talvez achando a sabedoria.que nos retirássemos rumo à parte traseira da mesquita. mitos e narrativas um interminável entrelaçar e exagerar de antigos textos. entrando nas pequenas ante-salas além do grande salão. no centro religioso do mundo. Olhamos para fora. . "Eles pegaram as sagradas relíquias de Maomé!". com as lascas de madeira retorcida parecendo feridas novas na madeira antiga. E. de mistérios ocultos por ainda mais mistérios? O que eu estava pensando era heresia . de repente. cingindo a cidade lá embaixo. eu não conseguia deixar de matutar. havia outra porta trancada. Numa torre. ou o Buda em suas andanças? Seriam todos os credos.mas ali. ouvi a multidão bradar. Teria também ele ouvido falar do Livro de Tot? O que aprendera Jesus no Egito. Corremos o máximo que podíamos pelos gastos tapetes vermelhos que cobriam as lajes da mesquita. A muralha acompanhava a extremidade sul do Monte do Templo num declive. e desta vez a porta se arrebentou e se abriu. cercando Jerusalém. temendo muitíssimo algum beco sem saída que nos encurralasse ali. a muralha se voltava para oeste.

Ele. disse ele. cheio de dentes. Nisso. rápido e firme. "Causaste o mal". ferreiro. Ned e Jericó arremeteram para a fumaça. em pé. teríamos sido mortos. Ouviram-se berros." E batemos em retirada mais uma vez. golpeando com os alfanjes. Acima de nós. com um sorriso de orelha a orelha. de alfanje na mão. e Ned caminhou de volta. parecia nauseado. "Se bem me lembro. disse ele ao fuzileiro. tendo as cimitarras prontas para que não pudéssemos fugir da cidade. os parapeitos estavam . arfante. conseguiremos despistá-los". embora as balas passassem com aquele curioso chiado quente que nos deixa paralisados se paramos para pensar no assunto. nós atiramos. Jericó. Então descemos pela escada da muralha para uma rua de Jerusalém. os muçulmanos recuaram. começaram a andar em passo rápido e constante pelo parapeito da muralha. "Agora eles vão pensar duas vezes". Se a multidão estivesse mais bem armada. os três cambaleando de exaustão. com o Portão do Esterco fechado por um subpelotão de janízaros. Miriam e o ferido Little Tom."Se entrarmos naquele labirinto de ruas. Tentwhistle e eu recarregávamos nossas armas no parapeito e Ned e Jericó ficavam parados. foram tu e a biscate da tua irmã que mostraram o caminho. rumo aos degraus que desciam para o Portão do Esterco. Quando os primeiros dentre nossos perseguidores preencheram a porta pela qual acabáramos de sair. Mas dispararam poucos tiros contra nós. Enquanto isso. prontos. vendo a lâmina molhada de sangue. disse Farhi.

conduziu-nos morro acima para a Sinagoza de Ramban e o Portão de Jafa. vós morais aqui. Judeus se apressaram a conter a multidão que irrompia no bairro deles. Cristãos alertavam que o verdadeiro objetivo dos muçulmanos era a igreja do Santo Sepulcro. "É nossa única chance!" Agora se ouviam gritos de alarme dos minaretes. Gente aos berros correu para as ruas. ofegante. indo para o outro lado. A menos que conseguíssemos socorro. berrou Farhi para os aflitos judeus quando estes saíram correndo para as ruas. o tiro único que poderia dar não deteria em nada a fúria despertada por termos passado por baixo do Domo da Rocha. Em instantes. estávamos perdidos. A multidão muçulmana vinha atrás. tínhamos agora um escudo. Eu instei com os outros: "Vamos nos separar! Jericó e Miriam. iluminada por tochas que formavam uma cobra de fogo. "Para o bairro judeu!". "Arranjai aliados cristãos! Os muçulmanos estão se sublevando!" "As sinagogas! Salvemos nossas casas sagradas!" Com isso. Farhi desapareceu. Tínhamos acordado a cidade inteira. "Eles querem queimar as sinagogas de Ramban e de Yochanan ben Zakaü". Mesmo se eu conseguisse tempo para recarregar o fuzil. exortou Farhi. Uma cabra apavorada passou a galope por nós. Com isso. ovelhas baliam. criou-se o caos. Multidão colidiu com multidão. Ide para casa!" . Farhi. e sinos cristãos badalavam.apinhados de muçulmanos que chispavam aos gritos para a escada. Cães uivavam.

" "Vem conosco!".sozinhos. Fui reconhecido. desalentado. com amargura. "Não podemos mais ficar em Jerusalém. saindo às ocultas quando escurecer." Coloquei os serafins nas mãos de Miriam." Ele me olhou feio. "Havia alguma coisa ali". "Não . rogou Miriam. os europeus. pois sois da terra. disse Jericó. Procurai lá a proteção dele. "Tu sabes que havia. "Vinde. Nós nos encontraremos em Acre. desespero e esperança. "Leva-os e esconde-os até que nos reencontremos. "Vai. O resto de nós dá tanto na vista quanto bonecos de neve no verão. "Então pegai o que puderdes e escapai para o litoral. disse Jericó. "Vão saquear e queimar a minha casa. Enquanto corríamos. Nós. podemos correr ou sumir de vista. Tentwhistle me puxou. para o casal de irmãos."Ouvi muçulmanos chamarem o meu nome". Vamos na direção oposta." Jericó me fitou com um misto de raiva. insisti. para dar-vos tempo. A pergunta é: onde estará esse algo agora? Em todo o caso. vai. olhei para trás. "Ainda haveremos de achar o que procuramos!" . Smith está organizando a defesa de Acre. Não te preocupes. antes que seja tarde demais também para nós!" E assim nos separamos. apertando-as. antes que seja tarde demais para a tua irmã!" Ao mesmo tempo. provavelmente conseguireis viajar sem que vos molestem. quando o acharmos. seremos ricos." A culpa me deu náuseas." "Perdi a minha casa e o meu bom nome por um subterrâneo vazio".

brioso. Entramos no bairro armênio e chegamos ao portão. Olhei de novo para trás. mas seguia em frente. não conseguia apressar-se. Queira Deus que eles não tenham pegado Farhi. as tochas e a aurora que se aproximava tinham alaranjado o céu acima das muralhas da cidade. "Se viajarmos à noite. o Vale de Hinom. Os guardas tinham saído. íamos aos tropeções. À nossa direita. Lá atrás. ainda havia sombras protetoras. as chamas. poderemos chegar a Acre em quatro dias e levar informações a Sidney Smith. estavam o Monte Sião e a Tumba de Davi. perguntou Tentwhistle. Little Tom. "Daremos a volta à muralha da cidade até o norte e pegaremos a estrada para Nablus". Mais adiante." "Mas e o tesouro?". disse eu.Eu e os britânicos nos dirigimos ao Portão de Sião. mas Jericó e Miriam já haviam se perdido nas multidões tal qual restos de naufrágio no mar agitado. À esquerda. Precisamos ver onde procurar em seguida. com o Tanque de Siloé em algum lugar na escuridão lá embaixo. com o braço pegajoso de sangue. O céu mal começava a avermelhar-se. Desaferrolhamos as grandes portas. provavelmente para controlar os distúrbios ou procurar por nós . empurramos com força e passamos para campo aberto." .e isso era nosso primeiro golpe de sorte em todo aquele fiasco. demasiado devagar e demasiado sem esperança. "Ficamos por aquilo mesmo? Vamos desistir?" "Vistes que ele não estava lá. Ele saberá onde tentar agora.

E então ouvi as palavras em francês: "Eles estão ali! Espalhai-vos! Não os deixeis fugir!" Era o grupo que tentara nos emparedar nos túneis."Não." Outra bala zuniu acima de nós. "Está certo. Por que precisava sair de fino daquele jeito?" Isso também me encafifava. "Leva Tom e o capitãotenente de volta pelo portão. Depois veio outro. chefe . Vou segurá-los por um momento. Tentwhistle tossia sangue. com as balas acertando a poeira. o capitão-tenente pareceu ter um espasmo. Minha luneta achou um dos tocaieiros. e depois podemos despistá-los no bairro armênio. Eu me agachei ao lado de Tentwhistle e mirei. e mais outro. "Tudo o que conseguirás é atrair a mira deles com o clarão da tua arma". Ele não viveria muito mais. "Potts . Recarreguei. e atirei. já bem grogue. com Tom seguindo-os. acho que ele está nos traindo. freneticamente. Nisto. Ned pegara a pistola de Tentwhistle e disparou também. Tentwhistle sentou com um grunhido.que nos faças ganhar tempo. Ele tombou. mas nossos agressores não estavam dentro do alcance de balas de pistola." Ned começou a arrastar Tentwhistle de volta. e o som de um disparo ecoou pelo morro acima. "A gente sempre cuida de salvar primeiro a própria pele". disse Big Ned. Tinham saído na surdina do Tanque de Siloé. eu lhe disse. Lindo fuzil. os mesmos franceses que haviam pegado Miriam. então. ouvido o pandemônio e esperado ao pé da muralha até que alguém aparecesse. e seus olhos estavam vidrados.

Elas bateram como granizo contra o ferro do portão." "Não acho que esses franceses vão se preocupar muito com os coitados de uns britânicos. olhei de relance para trás. no sentido do portão. És tu quem sabe dos segredos do tesouro. mal cheguei à muralha. e de fininho. Vultos escuros se achegavam como lobos a rondar a presa. Então. Os britânicos já haviam entrado pelo portão. trancando-me do lado de fora. Ouvi o baque surdo da trava.o portão estava se fechando! Chispei para lá. disse Ned em voz alta. Acabamos perdendo os amigos. e. Balas ricocheteavam à medida que os franceses se aproximavam em bando. "Ned! Abre!" Então ouvi uma ordem em francês. "Sozinhos? Pelo amor de Deus.. Não era mais hora de recarregar . Tornei a atirar e. chefe". não?" "Maldição." . aí. não é verdade?" "O quê?! Vais me deixar à mercê deles?!" "Talvez possas liderá-los como nos lideraste. fui de costas. Não compensa roubar de marujos honestos no carteado. e nós também. Ned . "Depressa eles estão chegando!" "Acho que vamos seguir sozinhos. dois de nós feridos.era hora de ir! Agachado. e me atirei de cara no chão antes do disparo de uma salva de balas." Estava ficando mais claro.. ouvi um rangido .morto. o portão foi batido com estrondo.fiquemos juntos. Eu estava tal qual um condenado no muro de fuzilamento. como o capitãotenente mandou!" "Ele está acabado. És mesmo uma inspiração desgraçada. chefe.

Pierre Najac. é claro. Voltei-me. só o portão mudo.o inspetor de alfândega que se revelou ladrão. abre este portão!" Mas não havia resposta. "Ned! Deixa-me entrar!" Mas não deixou. a vosso dispor. monsieur Gage."Mas eu não roubei . "Imagino que ainda vos lembrais de mim.. "Ned!" Debruçado. O que aconteceu com vossos amigos. bati com força no ferro inflexível. "Nós nos despedimos por baixo do Monte do Templo e agora tornamos a nos encontrar!". Ele tirou o tricornio em saudação e fez uma reverência.. Então teu verdadeiro nome é Najac?" "Verdadeiro o bastante." — 10 — . Só que eu também tenho . Os franceses haviam se insinuado até poucas jardas de onde eu estava." "Ned.ou não?" O dele era o sorriso dos torturadores. lá da diligência de Toulon. "Tendes mesmo talento para estar em todo lugar. O mais alto dos agressores sorriu. enquanto eu fazia força para ouvir por sobre o tumulto da cidade a retirada deles.só fui mais esperto!" "Dá na mesma." "Eu me lembro de ti . "Saíram frustrados de um jogo de cartas. gritou o líder. e vários mosquetes apontavam para mim. monsieur?" Eu me levantei devagar.

Foi aí que eu soube que devíeis estar por perto.Eu soube que estava no inferno quando Najac insistiu em mostrar seu ferimento de bala. pegamos um tolo caduco que. quando viemos para cá. "Imaginai minha satisfação quando. tão logo o assamos o bastante. mas o fato é que eu . após a convalescença. Primeiro. A vingança é um prato que se come frio . de mãos e pés amarrados. descobri que talvez estivésseis vivo e que eu poderia ajudar meu amo a ir em vosso encalço." Ele riu de minha piadinha. confirmando que minha pontaria não fora perfeita por pouco. Depois. rubro e coberto de crosta e cicatriz. Isso divertiu muitíssimo meus captores. A pequena cratera ficava poucas polegadas abaixo do mamilo esquerdo. abriu o bico e disse tudo sobre ter encontrado um franco que levava consigo os anjos de ouro de Satanás. num tronco que certamente não via sabão nem água fazia um mês.e. melhor. Caí de frente na fogueira. não concordais?" "Saberás a resposta quando eu finalmente te matar. "Abala quebrou uma costela". e foi a lenta combustão de minhas roupas e a dor resultante que enfim me incitaram o suficiente para me contorcer para longe. Agora eu também sabia que ele fedia. Era o que eu lhe causara um ano antes. ergueu-se e me chutou a têmpora com tanta força que a noite se dissolveu em pontos brilhantes de luz. cometestes a estupidez de mandar fazer perguntas no Egito. explicou. mais para o mesmo flanco. quanto mais frio.

coisas de que. eu estivera fazendo lá embaixo se não havia o que descobrir? . metade deles eram franceses. e o medo e a dor eram as únicas coisas que me faziam continuar consciente. o bando de Najac inchara para dez valentes. sonhando com o dia em que poderia igualmente me capturar e chutar. perguntaram. O humor de Najac não melhorou com a descoberta de que eu não levava nada de valor além do fuzil e da machadinha. Eu confiara os serafins a Miriam e. Estava exausto. a queimadura me manteve febril. tão desalinhados e sujos que pareciam ser o rebotalho da Arábia. de tão feios. não percebera que alguém (Big Ned ou Little Tom. O que. ele se apropriou. Minha insistência em que não acháramos nada no subsolo . e os restantes.em que Jerusalém se mostrara uma decepção tão grande quanto o Egito . um sinal de que eu estaria ficando melhor em dar cabo de meus inimigos.não caiu bem. estava faltando não só metade da dentição dessa turma. sendo ladrão. uns sapos. com toda aquela agitação. Mas talvez também ele estivesse convalescendo. Ali. Era a noite subseqüente à nossa partida de Jerusalém.sempre gostei mesmo de ser o centro das atenções. Tive a esperança de havê-lo liquidado. De algum modo. dolorido e terrivelmente sozinho. mas também o francês que eu apunhalara na briga por Miriam. beduínos. segundo presumi) me surrupiara a bolsa de moedas. Em seguida.

Ainda haveria bastante tempo para fazer-me berrar de dor. estavam de . as passagens sob o Monte do Templo deviam estar tão agitadas quanto um formigueiro. Eu enfim apaguei numa escuridão exausta. com o horizonte já marcado por colunas de fumaça. até que. Agora. com os muçulmanos provavelmente sem entender o que procuráramos. O exército francês andava bem ocupado. Eles me espancaram. respondi. Nessa altura dos acontecimentos. sacudiram-me dolorosamente para um desjejum de água e pasta de grão-de-bico. "Eu vos assaria agora mesmo se Bonaparte e o amo não vos quisessem vivo". A balbúrdia acabara com qualquer chance de que aquela quadrilha franco-árabe pudesse voltar. na manhã seguinte. Então continuamos por uma trilha batida que ia desde os montes de Jerusalém até a planície litorânea. tive uma estranha sensação de volta ao lar quando chegamos ao acampamento de Napoleão. mas não muito mais que isso. mas hesitavam em matarme. armando tendas brancas diante das muralhas de Jafa.Vendo a pedra fundamental do mundo pelo outro lado. Apesar do cativeiro. de modo que eu era a única pista que tinham. Ele deixou que os árabes se entretivessem usando suas adagas para jogarem brasas em meus braços e pernas. Eu marchara com o exército de Bonaparte e encontrara a divisão de Desaix em Dendara. rosnou Najac.

mais uma vez. A própria Jafa me era familiar. Najac entrou no amplo pavilhão de lona de Bonaparte. e as fortificações exibiam as feridas frescas das balas de canhão. e seu esterco tinha aquele cheiro adocicado familiar. que lhes arrancara a copa. surpresos. girando sem parar. mas desta feita via-a da perspectiva do sitiador. Não muito antes. eu fora um de seus savants. eu caíra de um despenhadeiro no rio São Lourenço. Os baldaquinos e os tapetes pendurados haviam sumido. Estava sedento. e longas fileiras de animais da cavalaria francesa se agitavam nervosamente à sombra.novo homens em uniformes europeus. Certa vez. De modo similar. E agora lá estava eu. onde haviam sido amarrados a estacas. e tivera aquela mesma vaga sensação de nauseado . homens olhavam com curiosidade para o bando de Najac. ouvi a sonoridade alegre e elegante da língua francesa. Suas caudas espantavam as moscas como metrônomos. e eu fiquei sem chapéu ao sol do Mediterrâneo. relinchando e arrastando os cascos com o canhoneio. muitas das laranjeiras que abrigavam o exército de Napoleão haviam sido reduzidas a lenho bruto pelo fogo de artilharia otomano. Terra e areia frescas estavam sendo escavadas para as obras de cerco. Senti o cheiro de comida conhecida e. À medida que passávamos montados pelas fileiras. zonzo e fatalista. e alguns. desertor e prisioneiro. apontavam para mim porque me reconheciam.

"Gage?" Ele forçou a vista ao aproximar-se. Seu traje civil estava cada vez mais surrado. Monge acompanhava o exército à Palestina. acima das pedras. E ali talvez estivesse também meu arbusto salvador. Como o resto de nós vos invejou!. "O que fazes aqui? Achei que te houvesse mandado voltar para a América!" "Eu tentei... nós dois concordamos. o célebre matemático francês. chamei. o homem que ajudara a solucionar parte do enigma da Grande Pirâmide." Ele não apenas não sabia nada do paradeiro de Astiza. com as calças remendadas nos joelhos e o casaco esfarrapado. e ir parar dentro do rio.foi o que Conte me disse. "Gaspard!". em voz alta. Agora. O rosto mostrava uma barba de vários dias. Era Monge. Ele era confidente de Napoleão desde os triunfos do general na Itália e o orientara e educara tal qual teria feito com um sobrinho genioso e cabeçudo. E agora estás de volta a este manicômio?! Por Deus. e bem depressa resolvi que seria . O homem tinha cinqüenta e dois anos e estava esgotado. doutor Monge.." "Embarcastes os dois num balão . mas acabaram nos apartando. mas pareces não ter mesmo nenhum juízo. Ah.eu sabia que não eras um savant de verdade..arrependimento . Escuta ." "Nisso. homem . como também desconhecia nossa entrada na pirâmide. como ele ficou furioso com essa patuscada! Flutuastes para longe.tens notícias de Astiza?" "A mulher? Mas ela foi embora contigo!" "É.até quicar num arbusto.

saindo da tenda. "E tu. um parasita. e o balão acabou descendo no Mediterrâneo". com a lona da entrada da tenda se enfunando . Conte propôs um plano bem brilhante . Só que Napoleão não tem tempo para novas invenções. "Mas o que fazes aqui." Monge se interrompeu. de mãos atadas?" Ele parecia confuso. Melhor deixar que Faraó descansasse em paz. cientista. expliquei. já que lhe furtara o balão de observação. um trapalhão.construir carroções de várias rodas para transportar os canhões através do deserto.meu Deus. eles explodiriam a edificação. "Nicolas também está aqui?" Eu estava um pouco apreensivo ante a possibilidade de encontrar Conte." "Espião inglês? Não sejas ridículo. percebendo que estava divulgando segredos.melhor não lhe contar. ele voltou para o sul para organizar o embarque de nossa artilharia de sítio. um errante. Ninguém o levaria a sério como espião. "Astiza caiu no Nilo. desamparado . queimado." Nisto. apareceu o próprio Bonaparte. o aeronauta da expedição francesa. respondeu Najac. e. por isso. Se os franceses porventura ficassem cientes de que havia coisas de valor lá embaixo. estamos nos arriscando ao trazer a artilharia por mar. o que aconteceu contigo?!" "Ele é espião inglês". Gage é um diletante." "Não? Nosso general leva. corres o risco de também se tornar suspeito só por falar com ele. "Felizmente para ti. "Estás sujo.

os cabelos escuros. "É verdade. O homem parecia um dedo-duro de escola. dos reacionários e dos turcos?" "As circunstâncias nos obrigaram a seguir caminhos diferentes. o racionalismo e o reformismo em favor do monarquismo." "Ele passou para os britânicos. espichado pelo poder. e. Agora. como se insuflada pela eletricidade dele. desgrenhados. Marchou até mim e parou. o sucesso e a responsabilidade haviam conferido uma dureza nova a seu rosto. Não consegui deixar de me encolher. Bonaparte se inclinou para bem junto de mim. receoso. general. disse Najac. e tinham sido abertas brechas nas muralhas de seu romantismo.grandiosamente. era mais baixo que eu e. és tu mesmo! Achei que tivesses morrido. os olhos cinzentos eram gelados. e ele precisara sufocar um sangrento levante no Cairo. a fisionomia. quase um ano antes. Eu venho . impaciente. Josefina era adúltera. mon general". Napoleão estava mais moreno que quando partíramos de Toulon. Com cinco pés e meio de altura. e eu já começava a desejar tê-lo baleado na língua. os planos de reformar o Egito com base em princípios republicanos franceses haviam sido rechaçados e lhe valido a condenação como infiel. embora ainda tivesse apenas vinte e nove anos. mais afalcoada. ainda assim. a passada. Assim como todos nós. "Então. O idealismo de Napoleão estava sitiado. Gage? Desertaste para o inimigo? Rejeitaste o republicanismo.

Silano está vivo. como Monge também teve ocasião de assinalar.." Ele explodiu. "Estou bastante ciente da tua antipatia pelo conde Silano. Eu também sei que ele tem demonstrado admirável lealdade e perseverança apesar da queda que sofreu nas pirâmides. Isso se não fosses tão tolo. E esperavas achá-la em Jerusalém. Gage. como Najac diz. O traidor é ele!" "Foi ele quem me baleou!". é que não és savant coisa nenhuma! Não me faças perder tempo com absurdos! És um viracasaca. quando eu já estava compromissado com vossa expedição. Eu tenho convicção disso!" "Silêncio!". As notícias não paravam de piorar. onde Najac te apanhou?" "Na qualidade de savant. disse Najac. inimigo de todos os verdadeiros maçons. esse Najac aí tentou roubar meu importantíssimo medalhão na França. pensei. "Ele é capanga do conde Alessandro Silano e adepto do herético Rito Egípcio. eu estava procurando fazer certa pesquisa histórica. Vós vos lembrareis de Astiza." "Senhor. um mentiroso e um hipócrita que lutou na companhia de homens da marinha inglesa! Talvez sejas espião de fato. Teria o conde fingido que . "Não! Se há uma coisa que aprendi..simplesmente tentando descobrir o paradeiro da mulher que conheci no Egito. Minha experiência é de que o amor faz mais mal do que bem." Então. Gage." "Aquela que fica atirando nas pessoas. interrompeu Bonaparte.

" "Napoleão. general. Ah. "Tudo não passou disso . como podeis ver pela minha presente condição. "O pecado dele é a incompetência. quis saber Napoleão. disse Najac. Sou tão-somente um pesquisador americano. sê sincero. corrigi. Olha para Gage.. mon general". e ainda assim mudas de lado. como eu queria esganá-lo! "Estavas era procurando um tesouro.caíra não do balão. "Por todos os santos. Gage! Foste acusado de homicídio. eu te dei todas as oportunidades. como um pêndulo!" "O caráter sempre se revela nas ações. "E que conhecimento descobriste? Se dás valor à vida. mas das pirâmides? E por que ninguém falava em Astiza? "Se fosses tão leal quanto Silano." "Eu buscava conhecimento". não a traição. não é mesmo?"." "Nenhum.. não terias condenado a ti próprio como o fazes agora". A verdade é apenas esta! Tudo o que digo é verdade.aquele comercialismo e ganância dos americanos. peremptório. continuou Bonaparte. interrompeu Monge. é evidente que o homem está mais para tolo que para inconfidente". O que poderia ele saber?" Procurei sorrir como um parvo (coisa nada fácil para um homem fundamentalmente sagaz como eu). apanhado numa guerra que não é a minha. com um quê de verdade. calculando que a avaliação de Monge era um . presunçoso.

mon general!" "Tenho de ir repelir uma investida. Eu deveria é despachar-te para dentro de Jafa e deixar que esperasses por minhas tropas lá. Agitavam-se bandeiras. "Najac!" "Oui. ensaiei. com certeza!" . não sei se mando fuzilar-te ou se te faço ir tentar a sorte com os turcos. rumo a uma plataforma de artilharia francesa ainda semiconcluída. No lado sul." E então se ouviu o som de disparos. cornetas e gritos de guerra.. "Não está claro a quem os cristãos. ligeiros. não depois da resistência que o inimigo ofereceu em El-Arish e Gaza. "Talvez eu pudesse ajudar o doutor Monge. "Posso dizervos que a política de Jerusalém é muito confusa". "Ah. judeus e drusos são realmente leais." Eu engoli em seco. Ou talvez eu devesse mandar-te para Djezzar.progresso em relação à de Najac. "Chega!" Bonaparte fez carranca para todos nós. e homens desciam o monte. Meus soldados não têm muita paciência. Os clarins franceses começaram a soar em resposta. com um bilhete dizendo que espias para mim. "Maldição". uma coluna de infantaria otomana transbordava de Jafa contra os franceses. resmungou Napoleão. enquanto os canhões turcos retumbavam. Consegues descobrir o que ele realmente sabe?" O homem sorriu de orelha a orelha. "Gage.. Todos olhamos para a cidade.

. tentou Monge mais uma vez. Não sou nenhum covarde. lunáticos e ladrões de Najac. Extra-oficialmente. tarados.só para fazer que o maldito sangue pare de acumular-se na minha cabeça! Os franceses tinham rechaçado a investida otomana. será apenas para ouvir suas últimas palavras. sob os apupos de uma quadrilha de degoladores franco-árabes. doutor Monge. quando se é pendurado de cabeça para baixo num buraco de areia nas dunas mediterrâneas." E. algo me faz querer dizer a eles qualquer coisa que queiram ouvir ." "Napoleão. mas. torturar-me era uma recompensa para o peculiar sortimento de sádicos. vários soldados tinham se oferecido entusiasticamente para ajudar a quadrilha de Najac a cavar o buraco e construir a armação de tronco de palmeira em que me dependuraram. chamando seus ajudantes-de-ordens. a idéia era arrancar de mim quaisquer segredos que eu ainda não houvesse compartilhado. . Oficialmente.". vou mandar fuzilá-lo. então Bonaparte correu para o som dos disparos. Quando informados de que eu era espião inglês. mas não antes que os bravos turcos tomassem a bateria incompleta e matassem franceses em quantidade suficiente para que o exército de Bonaparte se enfurecesse."Então vai e traz essas informações para mim. deixa que eu fale com ele. Se ele não tiver mesmo serventia.. "Se voltardes a falar com ele.

não?". pois se tratava do nome daquele antigo deus-cobra egípcio. "Jeito interessante de morrer. Eu já dissera a verdade uma dúzia de vezes. perguntou retoricamente Najac. mais alto. ante o fato . eu já topara com aquele mesmo bando desprezível. quando então declararam que já estava de bom tamanho para ser meu túmulo. com os braços livres para se agitarem. Meia dúzia de serpentes caíram no fundo do buraco e se contorceram.os quais existiam para fazer os servicinhos sujos da invasão. com a voz turvada pelo fato de a boca estar onde deviam estar os pés. respondi. até aí. obter a verdade não é realmente a razão de ser da tortura. "Apófis". sim. Encolheram-se ao ouvir a palavra. "O quê?" "Apófis!". E. sibilantes e indignadas. e. já que a vítima dirá qualquer coisa para fazer a dor parar. venerado pelo assassino renegado Achmed bin Sadr. A tortura é para o torturador. um dos beduínos se adiantou com uma cesta de vime e despejou o conteúdo daquilo no buraco. Cavaram um buraco de uns bons dez pés antes de darem em alguma coisa dura. repeti. amarraram-me pelos calcanhares e me dependuraram da viga sobre o buraco na areia. Ele fingiu não entender. Assim. mas os árabes compreenderam. É. em seguida. "Não há nada lá embaixo!" E: "Não consegui nada!" E: "Nem sei exatamente o que estou procurando!" Mas.

Puxei a cabeça para cima e para trás. Mas quanto eu . e tudo o que eu conseguia ver era uma fileira de botas e sandálias cujos proprietários faziam pouco de mim. Vai para o inferno. serpeando como elas gostam de fazer. "Ide baixando .de eu conhecer o nome. coitado." Ele se voltou para os homens que seguravam as cordas. Aquilo me fez lembrar a morte traiçoeira de Talma. berrei. e todos os fétidos delitos que Silano e sua corja haviam cometido para chegar ao livro. "feiticeiro" e . recurvando as costas de modo a olhar direto para baixo. "Eu vos amaldiçoarei pelo nome de Tot!"." "Já recebi ofertas mais tentadoras. Não consegui acompanhar a violenta enxurrada de palavras. monsieur Gage. As serpentes continuavam lá.sem parar!" A corda começou a desenrolar-se aos trancos." "Depois de vós. se nos disserdes atrás do que estais realmente e o que realmente descobristes. mais corda. Minha cabeça desceu ao nível do solo. Depois. e teve início uma altercação em árabe. "Silano". monsieur. meu corpo oscilava sobre a cova. mas ouvi fragmentos como "Apófis". Najac continuava fingindo não dar pelo nome. "A morte por picada de cobra é terrivelmente dolorosa e excruciantemente demorada. Nós vos mataremos mais depressa. Isso semeou a dúvida entre eles.o misterioso eletricista de Jerusalém .sabia verdadeiramente? Fosse como fosse. eles se retorceram como se estivessem trocando de pele. A corda parou outra vez.

Vi uma serpente atrás da outra. para que eu continuasse oferecendo entretenimento. Muito mais daquilo. De repente. quando minhas abjetas lamúrias começaram a ficar tediosas. O grupo ficara silencioso. "Então. para que possa implorar!" Ah.ou quase nada. Um beduíno que polemizara demais com Najac jazia morto. E então. eu implorei mesmo. elevou-se acima daquelas de seus capangas. transpirando. Todo o meu corpo já estava dentro do buraco. Então eu adquirira certa fama. A voz de Najac."eletricidade". alguém deu um empurrão para que eu balançasse de um lado para outro. calçado com sandália. a . concordais comigo agora? Ótimo . tendo um dos pés. como um possesso. "O próximo que discutir comigo vai dividir a cova com o americano!". avisou Najac. com as serpentes quatro pés abaixo. Era uma sensação vertiginosa. Gritei tudo o que achava que pudessem querer ouvir. Mas não adiantou nada . hein?! Eles estavam apreensivos. pois a discussão continuava. e eu apagaria. um solavanco quando caí mais dois pés e outra estancada. meus olhos ardendo com o suor. Não sou orgulhoso quando se trata de evitar picada de cobra. Deixaram a corda descer mais um pé e pararam de novo. Eles só podiam ter achado que eu nascera para os palcos. virado sobre a borda do buraco. contorcendo-me. rogando. houve o estampido de um disparo de pistola.baixai-o! Devagar. porque pelo menos me baixaram aos pouquinhos. furiosa e insistente.

Só que. "Não seria mais fácil se explicásseis o que vistes sob o Monte do Templo?" "Já te disse . "Espera. com serpentes se enrodilhando ao redor. É isso que a gente consegue quando diz a verdade. As serpentes. falando alto.afinal. O sol subira. "Ergue-me. não tinha sido eu a colocá-los ali. "Há uma pá aqui embaixo!" "Para tapardes vossa cova tão logo tenhais sido picado. preparando-se para picar-me na cabeça. eu já não achava que fosse rocha coisa nenhuma. monsieur Gage". "Bem. estavam sibilando. corrigime. Parecia um cano.cilíndrico.enrolarem-se de agitação. disse Najac. "Não sou de muita paciência. Reparei que o formato também era regular . pois tinha o vermelho-tijolo de um cântaro ou telha de argila.nada!" E. Vi de novo a pá." A corda tornou a descer. assim. Não era justo que aqueles répteis estivessem tão bravos . talvez eu tenha visto uma coisa". Não! Era um cano. e a rocha arranhada onde meus coveiros haviam parado de cavar. se o arredondado da areia que cobria aquilo servia de alguma indicação. baixaram-me mais um pé. . mas então percebi outra coisa. monsieur Gage. espera!" Eu estava começando a entrar realmente em pânico. e eu te conto!" Eu pensaria em alguma coisa! Algumas serpentes se agitavam para cima. e sua luz ia pouco a pouco cobrindo meu túmulo. desgraçadas. agora.

"Então dizei onde ele está. Nisto. "Só posso levar-te a ele se poupares a minha vida!" Eu estava de olho na pá e nas serpentes. E lá fui eu descer mais uma polegada. forçando os dedos. e mais outra. perderás o maior tesouro da Terra!". como meus captores estavam se divertindo! "Se me matares. avisei.fato que arrancou estrondosas gargalhadas. meio retorcido . "Acho que podeis me contar daí mesmo". eles estavam apostando em minha capacidade de pegar a pá antes que fosse picado por répteis rastejantes.. prontas." A corda desceu mais. Acertei dois . no que elas arremeteram.Agora que eu pensava a respeito. contorcendo-me para que pudesse balançar e passar sobre o cabo da ferramenta. agarrei a pá e a brandi desesperadamente. berrei. o mais que pude. Estiquei para baixo meus braços oscilantes. Ainda me faltava um pé de distância para alcançar a pá largada.. perscrutando por sobre a borda do buraco." Mais algumas polegadas para baixo.. uma serpente arremeteu no sentido de minha mão. Meus torturadores viram o que eu tentava fazer e me baixaram mais algumas polegadas. Ah. e ouviu-se mais um coro de risadas.. concluía que ele se estendia para o mar. as serpentes se ergueram. Agora. disse Najac. e movi abruptamente os braços para cima. eu estiquei a mão. Se pelo menos as cortesãs parisienses conseguissem me achar tão divertido!. "E que tesouro é esse?" Outra serpente investiu na minha direção. e aí. "Ele é.

Pelo bom e velho dólar. tão insatisfeitas com tudo aquilo quanto eu. minhas orelhas ou minhas pálpebras. dando início a uma pequena cascata ofídica. fugindo do jorro fétido. será que eu ia escapar da peçonha só para me afogar de cabeça para baixo?! "O Graal!". dobrei-me dolorosamente para cima o mais que pude. monsieur Gage? O que é ele?" Não consegui pensar em outra coisa para fazer. fazendo que meu peso levasse a tosca ponta da pá contra o cano de barro. As serpentes. fiz muita pontaria e então me deixei cair de novo. Minha cabeça caiu outra vez. Ninguém ficou mais surpreso do que eu. e meu cabelo estava mergulhado num efluente que fedia a esgoto e água do mar. "Para cima. Eram cobras do deserto. e agora a testa raspava nessa fossa pegajosa.dos répteis e os atirei contra as paredes de areia do buraco. urrei. Seria aquilo alguma infame descarga de Jafa? Fechei os olhos. "É o Graal!" . Peguei a pá com ambas as mãos. haviam rastejado para os cantos do buraco. por favor. E ele se despedaçou! Jorrou líquido no buraco. bem apertados. Elas se agitaram desesperadamente quando caíram de volta no fundo do buraco. para cima! Pelo amor de Deus. puxa-me!" "Qual é o tesouro. Abri os olhos. Mas o irado sibilar estava se esvanecendo. pronto para a mordida de presas em meu nariz. A corda desceu outro pé enquanto os homens lá em cima gritavam de perplexidade.

começou a erguer-se de todo o exército que sitiava Jafa. por favor. Os árabes estavam em polvorosa. com voz entrecortada e débil. "O Graal". e eles começaram a alçar-me. com as serpentes tentando escalá-lo e voltando a cair. um resmungo furioso. dizendo que eu era um feiticeiro que operara alguma espécie de milagre elétrico para tirar água da areia. E então minha cabeça subiu acima do nível do solo. Mas e se minha alegação se revelasse importante para Bonaparte? Nisto. respondi. me dar um tiro?" E é claro que ele teria gostado de fazer isso. "O que dizíeis?!". e meu tronco girava como um corte de carne de boi no gancho. Lá embaixo. — 11 — . Najac olhava incrédulo para a pá em minhas mãos. Najac deu uma ordem ríspida. o buraco continuava a encher. Meus calcanhares continuavam amarrados. perguntou Najac. Agora podes. "O Santo Graal. peremptoriamente. crescendo até transformar-se em bramido indignado.Com isso.

Não podemos justificar as atrocidades, mas às vezes podemos explicá-las. As tropas de Bonaparte vinham lutando contra a desilusão desde o verão anterior, quando desembarcaram no Egito. O calor, a miséria e a hostilidade da população - tudo isso, enfim - foram um choque para os franceses. Eles haviam tido a expectativa de ser recebidos como salvadores republicanos que traziam as dádivas da Ilustração. Em vez disso, precisaram enfrentar resistência militar, foram vistos como infiéis e ateus, e os remanescentes dos exércitos mamelucos vinham do deserto para fazer incursões contra eles. Nas aldeias, as guarnições viviam sob a constante ameaça do envenenamento, ou da punhalada no escuro. A resposta de Napoleão foi continuarem marchando adiante. Em Gaza, a resistência se mostrou inesperadamente acirrada. Prisioneiros turcos haviam sido libertados após terem prometido que não voltariam à luta, mas oficiais franceses, com lunetas, viram que as mesmas unidades guarneciam agora as muralhas de Jafa - e aquilo violava uma norma fundamental do modo europeu de guerrear! Mesmo isso, porém, talvez não houvesse desencadeado os massacres que se seguiram. O que causou a tormenta de fúria foi a decisão do comandante otomano, o agá Abdalla, de responder à oferta de rendição apresentada por Napoleão matando os dois emissários franceses e enfiando as cabeças deles em estacas.

Isso foi precipitação da parte de um muçulmano orgulhoso cujas tropas se encontravam em inferioridade numérica de três para um. O exército francês, como um leão provocado, rugiu. Agora, não poderia haver nenhuma clemência. Passados minutos, teve início o canhoneio - uma detonação quando ocorria o disparo, um sibilar quando os projéteis cortavam o ar, uma erupção de poeira e fragmentos quando eles atingiam a alvenaria da cidade. A cada impacto certeiro, as tropas francesas davam vivas, até que o bombardeio, desgastando constantemente as defesas de Jafa, se estendera por horas e horas e se tornara monótono. Pelo leste e pelo norte, cada canhão disparava de seis em seis minutos. Pelo sul, onde a artilharia francesa apontava para a cidade por sobre uma ravina com vegetação densa (que daria boa cobertura para tropas que viessem tentar o assalto às fortificações), os canhões estrondeavam de três em três minutos, abrindo lentamente uma brecha nas muralhas. A artilharia otomana respondia, mas com peças antigas e pontaria enferrujada. E é claro que teria gostado de fazer isso. Mas e se minha alegação se revelasse importante para Bonaparte? Nisto, um resmungo furioso, crescendo até transformar-se em bramido indignado, começou a erguer-se de todo o exército que sitiava Jafa. Najac se deteve para ver suas serpentes se afogarem e depois me acorrentou a uma laranjeira enquanto observava o bombardeio e ponderava o que eu dissera. A batalha era um pandemônio a

que ele preferiu não deixar de assistir, mas presumo que arranjou um minutinho para informar Napoleão de minha tagarelice sobre o Santo Graal. A noite chegou, as fogueiras pareciam pulsar em Jafa, mas não me deram comida nem água, só me restando o monótono bater de tambor da artilharia. Acabei dormindo ao som desse rufar. O nascer do sol revelou uma grande brecha na muralha meridional. As casas brancas, empilhadas como um bolo de noivas, estavam marcadas por novos buracos escuros, e a fumaça encobria Jafa. Os franceses apontaram sua artilharia como se fossem cirurgiões, e a brecha se alargou de modo firme e constante. Eu via dezenas de balas sólidas de canhão jazerem no entulho da base da muralha, tal qual uvas-passas em massa de panificação. Em seguida, duas companhias de granadeiros, acompanhadas por sapadores que levavam pólvora, começaram a aglomerar-se na ravina. Atrás delas, mais tropas se aprestavam. Najac me desacorrentou. "Aí vem Bonaparte. Provai vossa utilidade se não quiserdes morrer." Napoleão estava em meio a um aglomerado de oficiais. Era o menor em estatura, o maior em personalidade, aquele que gesticulava mais vigorosamente. Os granadeiros estavam marchando em fila pela ravina, batendo continência para o general ao se aproximarem da brecha na muralha de Jafa. As balas de canhão otomanas caíam com estrépito, agitando violentamente a folhagem como um urso ao aproximar-se da presa. Os soldados seguiam sem

deter-se pelo fogo impreciso e pela concomitante chuva de folhas cortadas. "Veremos agora quais cabeças acabam na estaca!", disse um sargento em voz alta quando eles passaram com baionetas caladas, e pisadas duras e ritmadas. Bonaparte sorriu de modo sinistro. Os oficiais nos ignoraram por um tempo, mas, quando as tropas avançadas iniciaram o assalto, Napoleão voltou sua atenção abruptamente para mim, como se quisesse ocupar os momentos de ansiedade em que aguardaria o sucesso ou o malogro do assalto. Ouviu-se um clangor de mosquetes quando os granadeiros saíram do arvoredo e investiram para a brecha, mas o general nem sequer olhou para lá. "Então, Gage, eu soube que agora operas milagres, tirando água de pedra e afogando serpentes." "Eu achei uma velha tubulação." "E, se bem entendi, o Santo Graal." Tomei fôlego. "Trata-se da mesma coisa que eu estava procurando nas pirâmides, general, e da mesma coisa que buscam o conde Alessandro Silano e seu depravado Rito Egípcio, para possível prejuízo de todos nós. O Najac, aqui está ele próprio mancomunando com biltres que..." "Gage, eu venho suportando tuas divagações há muitos meses, e não me lembro de ter obtido algum benefício com isso. Se te recordas, eu te propus uma parceria, a oportunidade de reconstruirmos o mundo por meio dos ideais de nossas duas revoluções, a francesa e a americana.

Mas preferiste desertar de balão - é ou não verdade?" "Mas foi só por causa de Silano..." "Tens esse Graal ou não?" "Não." "Sabes onde ele está?" "Não, mas estávamos procurando quando o Najac aqui..." "Sabes ao menos o que é esse Graal?" "Não exatamente, mas. Bonaparte se voltou para Najac. "É evidente que ele não sabe coisa nenhuma. Por que o tiraste da cova?" "Mas lá ele disse que sabia!" "E quem não diria qualquer coisa quando as tuas malditas cobras estão lhe mordendo a cabeça? Chega de bobagens tuas e dele! Quero que esse homem sirva de exemplo - ele é não só inútil, mas também enfadonho! Faremos o americano marchar diante da infantaria e ser fuzilado como o vira-casaca que é. Estou cansado de maçons, feiticeiros, cobras, deuses decrépitos e todos os outros tipos de lenda idiota que ouvi desde que iniciei esta expedição. Sou membro do Institut de France! Nossa pátria é a encarnação da ciência! O único "Graal" é o poder de fogo!" Nisto, uma bala de mosquete arrancou o chapéu da cabeça do general e acertou o peito de um coronel ali atrás, matando o homem. Bonaparte teve um sobressalto, fitando de olhos arregalados enquanto o oficial caía. "Mon Dieu!" Najac fez o sinal-da-cruz, o que eu considerei o cúmulo da hipocrisia, já que sua religiosidade cristã valia tanto quanto o dinheiro fajuto que o Congresso Continental emitira durante nossa

Guerra de Independência. "É um sinal! Não deveis falar como falastes!" Napoleão empalideceu momentaneamente, mas recuperou a compostura. Franziu o cenho para o inimigo, que pululava nas muralhas; olhou para o coronel estatelado; e apanhou o chapéu no chão. "Foi Lambeau quem levou o tiro, não eu." "Mas o poder do Graal!..." "Esta é a segunda ocasião em que a estatura me salva a vida. Se eu tivesse a altura do nosso general Kleber, já teria morrido duas vezes. Está aí o teu milagre, Najac." Meu captor estava paralisado pela visão do buraco no chapéu do general. "Talvez seja um sinal de que ainda podemos ajudar uns aos outros", ensaiei. "E quero o americano não só amarrado, como também amordaçado. Mais uma palavra, e eu mesmo vou fuzilá-lo." Com isso, minha situação não melhorou em nada, e Bonaparte se afastou a passos largos e pomposos. "Pois muito bem, já temos uma cabeçade-ponte! Lannes, põe naquela brecha um dos canhões ligeiros!" Perdi muita coisa do que aconteceu em seguida, e sou grato por isso. As tropas otomanas resistiram com ferocidade, tanto que um capitão dos engenheiros chamado Du Bois-Aymé precisou descobrir um caminho pelos porões de Jafa para surpreender o inimigo por trás - e à baioneta. Então, soldados franceses furiosos começaram a enxamear-se pelas vielas da cidade.

Entrementes, no lado norte de Jafa, o general Bon transformou seu ataque diversionário num assalto pleno, que conseguiu penetrar as defesas por aquela direção. Com as tropas entrando em grande número, o moral dos defensores ruiu, e os recrutas otomanos começaram a render-se. Mas a ira francesa ante a tola decapitação dos emissários não amainara, e a matança e os saques primeiro não foram reprimidos e depois viraram furor coletivo. Fuzilaram-se e baionetaram-se prisioneiros. Pilharam-se residências. Quando a noite veio ocultar os resultados de uma tarde sangrenta, soldados aos berros cambaleavam pelas ruas sob o peso do butim. Enfiavam mosquetes pelas janelas das casas e disparavam lá para dentro. Brandiam sabres úmidos de sangue. Os saqueadores se negavam até a parar para ajudar seus próprios feridos. Oficiais que procuravam deter o massacre eram ameaçados e empurrados para o lado. Arrancavam-se véus dos rostos das mulheres, seguindo-se as roupas. Todo marido ou irmão que tentava impedir era abatido a tiros, e as mulheres, estupradas à vista dos cadáveres deles. Não se respeitaram mesquita, igreja nem sinagoga, e muçulmanos, cristãos e judeus, indistintamente, morreram nas chamas. Crianças jaziam aos berros por sobre os corpos dos pais. Filhas imploravam por misericórdia enquanto eram violadas em cima das mães moribundas. Prisioneiros eram arremessados do alto das muralhas. Os incêndios encurralaram os idosos, os doentes e os insanos nos cômodos onde estes haviam-se escondido. O sangue corria pelas

sarjetas tal qual água de chuva. Em uma única e monstruosa noite, todo o medo e toda a frustração de quase um ano de implacável campanha militar foram descontados numa única e impotente cidade. Um exército de racionalistas, vindo da capital da Razão, ensandecera. Bonaparte sabia que não devia tentar estancar esse transbordamento; reinara a mesma anarquia em milhares de saques anteriores, desde Tróia até as pilhagens dos cruzados em Constantinopla e Jerusalém. "Nunca se deve proibir o que não se tem poder para impedir", comentava ele. Ao amanhecer, a comoção entre os soldados já se esgotara, e eles, exaustos, esparramavam-se no chão como suas vítimas, atônitos com o que tinham feito, mas também saciados, como sátiros após uma orgia. Aplacara-se uma ira ávida e demoníaca. Na seqüência, Bonaparte se viu com mais de três mil prisioneiros otomanos - homens macambúzios, famintos, aterrorizados. Napoleão não se esquivava de decisões difíceis. Apesar de toda a sua admiração pelos poetas e artistas, ele era fundamentalmente um homem da artilharia e da engenharia. Estava invadindo a Palestina e a Síria - uma terra de dois milhões e meio de habitantes - com treze mil soldados franceses e dois mil auxiliares egípcios. Quando Jafa caiu, algumas dessas tropas já exibiam sintomas da peste bubônica. O extravagante objetivo de Napoleão era marchar até a índia, tal qual Alexandre antes dele, liderando um exército de recrutas orientais, estabelecendo um império.

Mas Horatio Nelson já destruíra a esquadra francesa e o impedira de receber reforços; Sidney Smith estava ajudando a organizar a defesa de Acre; e Bonaparte ainda precisava aterrorizar o Açougueiro o bastante para que este capitulasse. Não ousava libertar os otomanos aprisionados, nem tinha condições de guardá-los ou alimentálos. Assim, resolveu executá-los. Foi uma decisão abominável numa carreira controversa, ainda mais porque eu era um dos prisioneiros que ele decidiu executar. Eu não teria nem mesmo a dignidade e a glória de, notável espião, desfilar diante dos regimentos reunidos; em vez disso, Najac me enfiou na massa de marroquinos, sudaneses e albaneses pululantes, como se eu fosse mais um recruta otomano. Os coitados ainda não sabiam o que estava acontecendo, já que haviam se rendido na suposição de que suas vidas seriam poupadas. Estaria Bonaparte fazendo-os marchar para embarcar em navios para Constantinopla? Seriam mandados para o Egito como mão-de-obra escrava? Ficariam tão-somente acampados do lado de fora das muralhas fumegantes da cidade até que os franceses seguissem adiante? Mas não - não era nada disso, e as sombrias fileiras de granadeiros e fusiliers com os mosquetes, em posição de descanso, logo começaram a desencadear o rumor e o pânico. Cavalarianos franceses haviam sido estacionados em ambas as extremidades da praia, para assim impedir a fuga. A infantaria estava de costas para os laranjais, e nós, de costas para o mar.

"Eles vão nos matar!", começaram a gritar alguns. "Alá nos protegerá", asseguraram outros. "Assim como protegeu Jafa?" "Olha, eu ainda não achei o Graal", sussurrei para Najac, "mas ele existe - é um livro -, e, se me matares, nunca o acharás. Não é tarde demais para fazermos sociedade..." Ele pressionou a ponta do sabre contra minhas costas. "O que se está para fazer é crime!", disse eu, entre dentes. "O mundo não esquecerá!" "Bobagem — na guerra, não há crime." No começo desta narrativa, já descrevi a cena subseqüente. Um dos aspectos notáveis de quando estamos nos preparando para ser executado é que os sentidos se aguçam. Eu conseguia perceber as diversas camadas sobrepostas do ar como se tivesse asas de borboleta. Conseguia distinguir os cheiros do mar, do sangue e das laranjas. Conseguia sentir cada grão de areia debaixo de meus pés (então descalços) e ouvir cada estalo e rangido das armas que iam sendo aprestadas, os arreios que iam sendo puxados por cavalos impacientes, o zumbido dos insetos, o grasnar e o piar das aves. Ah, quão pouco disposto a morrer eu estava! Homens imploravam e soluçavam numa dúzia de idiomas. As preces se avolumaram até virar zunido. "Pelo menos eu afoguei as tuas malditas cobras", assinalei. "Sentireis a bala entrar no corpo tal qual eu senti", rebateu Najac. "E depois outra, e outra. Torço para

colocando-o entre mim e os mosquetes justamente quando se disparou a salva de balas. e mais prisioneiros que giravam sobre si próprios tombavam. A água era jogada para cima em lâminas ofuscantes à medida que centenas de nós corríamos para ela. Dos que ainda continuavam de pé. Alguns pisaram em falso. com os braços erguidos em súplica. depois ficaram . correu atrás de Najac como se o canalha pudesse lhe conceder a suspensão da execução. Estas jogaram o negro para trás. O impacto das balas fez voar sangue e carne. tentando escapar a um pesadelo demasiado medonho para parecer real. berrando. inclusive eu. tropeçavam. "Fogo!" Outra fileira desbaratada. Eu teria preferido as serpentes. Outro perdeu o cocuruto num jato rubro. Mas. então. fugiu instintivamente para a água. e alguns correram para os soldados franceses. e tanto sangue espirrou em mim que. o que me salvou? O gigante negro. porque o chumbo dói muito mesmo. Ele se achata e corta a carne. mas ele ainda assim constituiu um escudo temporário. "Fogo!" Houve um estrondo. Uma fileira de prisioneiros desabou. Mas a maioria. e a massa de prisioneiros oscilou.que demoreis a morrer. alguns caíram de joelhos. mas isto é quase tão bom quanto. de início. ele se afastou a passos largos. temi que parte dele tivesse saído de meu corpo." Quando os mosquetes foram apontados. Um que estava junto a mim tossiu sangue pavorosamente.

As ondas rolavam sobre sua crista. Os feridos e os imobilizados pelo medo estavam sendo liquidados como porcos no abate. homens contorceram-se. mergulhei e nadei vigorosamente. quando então os franceses entraram na água com seus sabres e achas. agora que os soldados arremetiam de baionetas caladas. Outros soldados franceses iam calmamente recarregando as armas e mirando aqueles de nós que tinham ido mais adiante na água. percebendo então que a maioria dos turcos a meu redor não sabia nadar. os atiradores chamavam uns aos outros e apontavam alvos. Estavam paralisados. deixando baixios de um ou dois pés de profundidade. Dúzias dentre nós alcançaram esse tablado serrilhado. Avancei várias jardas e olhei para trás. que já ficava rósea de sangue. com a água na altura do peito. Outros seguravam braços e pernas feridos. Eu os empurrava e continuava em frente. A cerca de cinqüenta jardas da praia. o mar estava apinhado de cabeças e costas de otomanos fuzilados ou afogados. Com isso. "Fogo!" No que as balas passaram sibilando acima de mim. atraímos o fogo dos mosquetes. Rogava-se estridente e desesperadamente a Alá. havia um recife aplainado. O ritmo do fuzilamento se moderara. rodopiaram e caíram na espuma. . subindo nele e cambaleando para o lado do mar aberto. As salvas ordenadas haviam degenerado numa confusão generalizada de disparos.rastejando e berrando nos baixios. Homens que se afogavam agarravam-se a mim. Atrás de mim.

como uma pequena gruta subaquática. Será que eu conseguiria achar alguma espécie de esconderijo? Vi que Bonaparte. tão tristemente expostos quanto moscas em papel coberto de cola.Era uma insanidade! Eu ainda estava tão miraculosamente incólume quanto Napoleão. A rocha era cortante e lodosa. Não sabendo mais o que fazer. que observava das dunas. Mergulhei. sumira de vista. e mergulhei com louca desesperança em água mais profunda . Alcancei o afloramento. E então. sem vontade de assistir ao massacre até o fim. na margem externa no recife. enfiei a cabeça debaixo da água e abri os olhos. . Enxerguei nele um buraco. batendo débilmente os braços. O recife terminou. Vi debaterem-se as pernas dos prisioneiros que se agarravam a nosso refúgio e os tons esmaecidos de azul à medida que o recife descia para as profundezas.para onde poderia ir? Fiquei à deriva. Aquele que corria para cima e para baixo na areia seria Najac. ao qual homens se aferravam. procurando freneticamente por meu cadáver? Recifes mais altos afloravam mais perto de Jafa propriamente dita. aquilo parecia venturosamente apartado do medonho tumulto na superfície. entrei e tateei. Quanto mais não fosse. ela se debateu no ar livre. no que estiquei ao máximo a mão. olhando homens se amontoarem até as balas os acharem. Eu me impulsionei para a frente e vim à tona lá dentro. Os franceses já estavam saindo em pequenos barcos para dar cabo dos sobreviventes.

As estrelas brilhavam o bastante para que a . Os soldados eram metódicos. e anoitecia quando juntei coragem para emergir. tremendo. esperei. tiritando com o frio cada vez maior. eram passados pela espada ou despachados a baioneta. "Ali! Pegai aquele lá!" "Olha como o rato se contorce. como brasas empilhadas com o céu ao fundo. enquanto cascos de madeira davam no recife. pela longa permanência na água. O Mediterrâneo praticamente não tem marés. de modo que eu corria pouco risco de afogar-me. disparos ressoavam. Um ou dois corpos passaram boiando por mim. Por medo de que os franceses me achassem. em prantos. com a pele tão enrugada quanto a de um cadáver. Eu conseguia ver que Jafa ainda estava em chamas. E agora? Entorpecido. depois que acabaram os xingamentos e rogos.Eu conseguia respirar! Estava num bolsão de ar da gruta submarina. só havia espaço para um. Eu era o único sobrevivente. Eu estava em trapos. não ousei anunciar em voz alta a minha descoberta. E assim fiquei. e os últimos prisioneiros. onde a única iluminação vinha de uma fenda estreita acima de mim. Ouvi outra vez os gritos e disparos. não queriam deixar testemunhas. fez-se o silêncio." "Este aqui ainda está vivo!" Por fim. Assim. mantive-me na vertical. mas agora eles estavam abafados. boiando para o mar. e meus dentes batiam uns contra os outros. Era de manhã quando nos fizeram marchar para a praia. De todo o modo.

boiou alguma coisa escura que não era cadáver.um barril de pólvora vazio. Fiquei deitado no meio da balsa. O barco se aproximou. com as estrelas rodando lá em cima e Jafa ficando menos nítida. amolecido como uma água-viva. A meu lado. piscando para o cinza do céu e não inteiramente certo de estar vivo ou morto. E então. Surrupiei este barco e remei para fora do porto. Era uma pequena balsa árabe. quase vinte e quatro horas após o início das execuções. descartado por franceses ou otomanos durante a batalha. como os de um animal atento. "Efêndi?" Estremeci. rouquenho e tossindo. Olhei para o bruxulear das fogueiras dos acampamentos franceses e ouvi aqui e ali um disparo." Minha voz era pouco mais que um sussurro. "Mohammad?" "O que estais fazendo no meio do mar.linha de vegetação ao longo da praia se mostrasse em silhueta. e acenei. "Socorro. avistei um barco. quando eu mesmo vos deixei em Jerusalém?" "Quando foi que viraste marinheiro?!" "Quando a cidade caiu. Minhas forças estavam sendo sugadas pelo frio. um grito. do tipo que me levara da HMS Dangerous para Jafa. na luz fraca antes do alvorecer. e eu me agarrei a ela . Eu conhecia aquela voz. não faço a . Chamei. com olhos arregalados me perscrutando por sobre a beirada. Infelizmente. Passaram-se horas. Braços fortes me pegaram e me puxaram para o barco. exausto. um som de risada amarga.

consegui sentar.apesar de toda a mixórdia de ideais republicanos. ainda bem rouco. corrigi-me. Na maioria de nós. Mohammad".obtiveram . alianças com paxás remotos. "Não todo o mundo. O trabalho dos eruditos será inútil. mas alguns se entregam a ele. A balsa tinha um mastro e uma vela latina. fora do alcance de qualquer francês.e isso depois os persegue para sempre. é claro". e eu conduzira embarcações não muito diferentes no Nilo. vi que estávamos bem ao largo.menor idéia de como velejar. Mas eu fora mais sincero da primeira vez. às marchas sem objetivo definido. Para poderem liberá-lo. Sem dúvida. Aliviado. os historiadores quebrarão a cabeça para explicar o raciocínio estratégico que levou às invasões do Egito e da Síria por Napoleão. os homens se desinteressam de tudo mais. Se alguma lógica a guerra tem. Os franceses . "Eu sei velejar. A guerra não tem nada a ver com a razão e tem tudo que ver com a emoção. ao massacre de Gaza. destampando um caldeirão que eles mal sabem que está em ebulição . Podemos procurar um navio amigo. estudos científicos." Com grande dificuldade. Estou apenas à deriva." Ele parecia desolado." "Mas o que está acontecendo em Jafa?" "Todo o mundo morreu. Todos temos algum mal dentro de nós. disse eu. tinha amigos ou familiares que tinham sido apanhados pelo cerco. Daqui a muitos anos. que acaba universalmente liberado durante as guerras. sonhos reformistas . é a lógica maluca do inferno. "És uma bênção. é recôndito.

"Obrigado pelo resgate. amigo. "Pois bem. caso contrário não teríeis sobrevivido.acima de tudo uma catarse medonha. "Alá sabe o que faz. tão revigorantes quanto o formigar da eletricidade. "Tens água?" "Tenho." Deu-me água e comida. perguntou Mohammad. "Mas conheceis algum navio amigo?"." Dei as costas ao brilho triste do litoral. contas que quero acertar com alguns deles.mais uma vez serei vosso guia." Ele ficou radiante. seguida da plena consciência de que o que eles haviam liberado acabaria certamente por consumi-los. não é mesmo? E por acaso achastes o que procuráveis em Jerusalém?" "Não. Vamos estabelecer o curso para Acre e os navios ingleses. E pão. efêndi . e tenho notícias que preciso levar-lhes. "Talvez os britânicos." "Sim. penso que depois achareis." "Então já somos colegas de marinhagem. A guerra é a glória envenenada." Ele assentiu. "E só vou cobrar dez xelins pelo serviço!" . Mohammad. pensei comigo mesmo." E. em meu novo e robusto barco! Eu vos levarei aos ingleses!" Recostei-me na pequena amurada. ajuda-me a meter vela." "Se assim foi." Que consolo seria ter tanta fé! "Ou talvez eu não devesse ter procurado e esteja sendo punido por ter visto o que não devia. E umas tâmaras. "Estais fadado a isso.

falando alto.PARTE 2 — 12 —Eu chegaria a Acre como herói. "Gage. perguntou ele. e. Não é mesmo. não porque escapara à execução em massa em Jafa. o que me deixou ainda mais indignado. Os navios eram encabeçados pelas naus de linha Tigre e Theseus. és mesmo tu?". "Muito pelo contrário! Vossos excelentes fuzileiros me trancaram do lado de fora durante a brava retirada deles! Vós nos deveis uma medalha." . disse meu companheiro de bordo. quando passamos a sotavento da capitânia. mas porque me vinguei dos franceses dando informações providenciais aos inimigos deles. comandante!" "Traição? Mas eles disseram que desertaste!" Era ou não era uma mentira descarada de Big Ned e Little Tom? Eles por certo me julgavam morto e incapaz de contradizê-los. Era bem o tipo de distorção da verdade a que eu mesmo poderia ter recorrido. Mohammad?" "Os franceses tentaram nos matar". Mohammad e eu localizamos o esquadrão britânico no segundo dia de nossa jornada. "Ele me deve dez xelins. sir Sidney Smith. "Achamos que tivesses voltado para o lado dos franceses! E agora voltas para nós?" "Fui-me para os franceses pela traição de vossos próprios homens. saudei ninguém menos que aquele demônio simpático.

justamente quando o bando de canalhas franceses e árabes já me cercava. Smith e seus oficiais me encaram com ceticismo. Era uma nau de setenta e quatro canhões. Assim. escalamos as cordas para subir à capitânia. e vamos esclarecer esta situação. "Um momento ."E aqui estás.imaginais mesmo que os franceses me deixaram escapar de Jafa?" "As informações dão conta de que ninguém mais conseguiu.. se é"." Assim. Termos te achado foi um tanto extraordinário. que foi levada a reboque.. a Tigre. disse Smith." Mas.para um homem que aparece em todo lugar. Os oficiais britânicos revistaram Mohammad como se a qualquer momento ele pudesse sacar uma adaga e me lançaram olhares duros. Mas eu já estava decidido a bancar o injustiçado e ofendido. Ethan: pareces mesmo passar com excessiva facilidade de um lado para o outro". "Reconhece. ". tinha um trunfo. parecendo um leviatã quando comparada à frágil balsa na qual navegáramos.. sobe a bordo..ah. interrompeu um capitão-tenente." "É. ele é um rebelde americano . Bem.e então bateram o portão de ferro na minha cara. é difícil saber qual é o teu. que fora capturada aos franceses anos antes e ainda conservava o nome gálico. no meio do Mediterrâneo?" Smith coçou a cabeça. apresentei minha versão dos acontecimentos. "Maldição . Além disso. em lugar da indignação e solidariedade que eu bem merecia. "E sair das piores enrascadas." .

ferido. meus comandados relatam que adquiriste um fuzil bem caro e extravagante. Chamai aqueles fuzileiros canalhas agora mesmo. "Big Ned está lotado em terra."E quem é esse pagão?". vamos colocar as coisas em pratos limpos. Sinceramente.. disse Smith." Agora eles se eriçaram. e eu estava provavelmente a ponto de ser desafiado para um duelo. E aposto que é mais homem que o senhor. Apesar da raiva que eu sentia. ora . e tens o direito de responder a elas. num barquinho com um cameleiro muçulmano e sem arma nenhuma?" Eu estava furioso. Ademais. "Se é verdade que eu passei para os franceses. Temos o direito de fazer perguntas difíceis.. Talvez possas discutir . respondi. apesar do considerável investimento feito pela Coroa. queimado. apontando para Mohammad. Gage. Smith interveio às pressas. "Ora." "Little Tom perdeu o braço e foi mandado para casa". Perder um membro era ser condenado à miséria. a notícia me fez parar para pensar. Onde está ele?" "Foi roubado por um maldito ladrão e torturador francês chamado Najac".não há necessidade disso. não recebi tanta informação útil de ti em Jerusalém. para fortalecer as defesas de Djezzar em Acre. então o que diabos estou fazendo aqui em trapos. "Se eu passei para os franceses. com grande parte da tripulação da Dangerous. "É meu amigo e meu salvador. perguntou outro oficial. por que não estou bebericando um Bordeaux na tenda de Napoleão? É.

em Paris. são uns bárbaros! Não lhes contaste nada. não é verdade?" Ele me fitou atentamente. boas notícias. e é o camarada mais leal que se pode desejar. que não quero mais nada com os franceses. Miriam estava em segurança. Fiquei imaginando se ela ainda estaria com meus serafins. não se obteve nada . contaste?" "Claro que não". oficial monarquista de artilharia.e. e posso demonstrar minha lealdade com isso. sir Sidney. Jericó diz igualmente ter achado que morreste ou desertaste. eis-te aqui." "Por Deus. Tom ficou aleijado. "Mas eles me disseram uma coisa. Curioso como os homens escolhem lado em épocas perigosas. "Posso garantirvos. "Disseram o quê?" . Temos até um francês. "Potts e Tentwhistle morreram. mais os nossos valentes ingleses." "Falastes também com Jericó?" "Ele está em Acre.a questão com ele lá. mas senti uma onda de alívio ao saber que. mamelucos." Já era hora de usar meu trunfo. mercenários e cafajestes." Ora." "Estais aliados a um francês e ainda assim me questionais?" "Ele ajudou a providenciar minha fuga da prisão do Templo. Eu andara ocupado com meus próprios problemas.uma mistura de turcos. Temos uma mixórdia de homens rijos para conter Bonaparte . com a irmã. por ora. Antoine de Phélippeaux. menti. Ele está reforçando as fortificações. ainda assim. Tomei fôlego. Eles me penduraram de cabeça para baixo sobre uma cova cheia de serpentes.

e depois veio o nevoeiro. e eu te dou uma medalha ." É claro que choveu. e podes apostar que guardarei uma para ti se . Por aquela manhã de trabalho. e estes levavam em seus porões peças de artilharia de sítio. "Acha esses canhões para mim. não?" Smith ficou radiante. diminuindo ainda mais a visibilidade. estes enfrentavam apuros ainda piores para evadir-se a nós."Que a artilharia de sítio de Bonaparte está vindo por mar.para variar estiveres mesmo falando a verdade. que disparam balas de vinte e quatro libras. Mas outros seis não conseguiram. capitão-de-fragata Standelet. podemos capturá-la por completo antes que as tropas dele cheguem a Acre. O nevoeiro também era inimigo deles. quando o comandante deles. Com sorte.dou mesmo! Uma bela medalha turca . Com um único golpe. A cerração logo fez os ingleses pensarem que eu era outra vez um agente duplo. fui . reduzindo nossas chances de localizarmos a flotilha francesa. Gage. tentava circular o cabo Carmelo e entrar na pequena baía que tem Haífa ao sul e Acre ao norte. Três navios. E então os franceses toparam conosco na manhã de 18 de março. se tínhamos dificuldade para achar os franceses. incluindo o de Standelet. Mas. havíamos capturado a mais potente arma de Napoleão." "Deveras? Bem.as deles são maiores que as nossas e muito bem enfeitadinhas. Eles as distribuem a mancheias. escaparam. como se eu pudesse controlar o clima. isso mudaria as coisas.

na extremidade norte da baía de Haifa.proclamado o baluarte de Acre. que Smith então comprou de mim. Em tempos normais. para que eu pagasse a Mohammad e ainda ficasse com umas moedinhas." E assim desembarquei na velha cidade dos cruzados. "E. Acre é uma linda cidade. as muralhas marítimas confinam com recifes da cor . Nossa rota marítima corria paralela ao caminho terrestre das tropas de Napoleão. Acre era menor em área que Jerusalém. mas era mais próspera e quase tão populosa quanto. Bandeiras tricolores a tremular marcavam o arco dos acampamentos de Bonaparte. terias a pedra filosofal". A cidade fica numa península que se projeta para o Mediterrâneo. dois terços da cidade são cercados pelo mar. repreendeu-me. o guardião do mar profundo. e o porto é formado por um quebra-mar. "Se soubesses como gastar menos do que possuis. cujo avanço era marcado por colunas de fumaça. A península se estende para sudoeste a partir da terra firme. mas seria em Acre que se decidiria a disputa. Por conseguinte. Também ganhei uma medalha turca adornada com jóias. os franceses já a estavam isolando do lado que se prolongava terra adentro. a Ordem do Leão. com muralhas marítimas e terrestres com menos de uma milha e meia de circunferência. Na época em que lá cheguei. a raposa de Jafa. Haviam chegado relatos sobre uma série constante de escaramuças entre os regimentos franceses e os combatentes muçulmanos do interior. tenho lido o teu Franklin.

Um antiquíssimo aqueduto. Feiras sombreadas por toldos de cores brilhantes enchiam as principais vias. Mas podia Acre ser de fato defendida? Ficava claro que muitos achavam que não. com uma torre redonda em cada canto. o Khan el-Efranj e o Khan a-Shawarda. Esta seria tão fundamental para o cerco subseqüente que os franceses acabariam por denominá-la la tour maudite . Andares superiores se projetavam sobre ruas sinuosas. não mais em uso. estava o palácio do governante. com campos verdejantes. interrompe um encantador horizonte urbano de telhas. Havia três grandes complexos de hospedagem e armazenamento para visitantes marítimos: o Khan el-Omdan. junto com um minarete com feitio de agulha. A parte administrativa e religiosa ocupava o quarto nordeste da cidade. O porto cheirava a sal.de água-marinha. peixe fresco e especiarias. A cúpula verde de cobre da mesquita central. levava do fosso defensivo às linhas francesas. um bloco implacável à moda dos cruzados. A sólida fortaleza e a tortuosa cidade medieval coberta de telha me faziam pensar num diretor de escola rígido e severo a supervisionar uma animada classe de crianças ruivas. Levamos o pequeno barco de Mohammad para . torres e toldos. contrabalançando esse encanto. e as muralhas terrestres têm face para o norte e o leste. Na muralha setentrional.a torre amaldiçoada. juntando-se numa torre maciça. e as terrestres. suavizado apenas pelo fato de que as janelas do harém davam para jardins amenos entre a mesquita e o palácio.

Um mercador de algodão enfiara pistolas carregadas numa faixa onde se tinham costurado moedas de ouro. "Não ligues para esta ralé". Os teus canhões poderão nos ajudar. Na guerra. a área estava apinhada de refugiados aflitos para escapar da cidade. Um banqueiro usava uma cunha de escravos africanos para abrir caminho até a frente. como um bebê. seu conjunto de café de prata. com olhos escuros e boca trêmula. Smith. e. Djezzar tem tutano. quando chegamos ao cais." "Não confiam na própria guarnição deles?" "A guarnição deles não confia em si mesma. Uma linda menina de dez anos. Teremos peças de artilharia maiores que as de Bonaparte e colocaremos uma bateria delas bem . que se contorcia no colo. disse Smith. seguindo a chalupa da Tigre. A maioria se constituía de mulheres e crianças. dinheiro pode ser sinônimo de sobrevivência. Uma mulher suarenta levava nos braços. Mohammad e eu passamos aos empurrões por uma multidão que estava à beira do pânico. mas os franceses arrasaram cada um dos exércitos que já encontraram pela frente. mas não eram poucos que eram comerciantes ricos que tinham pagado propinas exorbitantes a Djezzar pelo direito de partir. e histórias de massacres haviam corrido litoral acima.terra. enquanto os filhos bem pequenos a seguravam com força pelo vestido e abriam um berreiro. segurava um filhote de cachorro. "Estamos melhor sem eles. Pessoas agarravam aos poucos pertences que podiam carregar e davam lances por passagem nos navios mercantes ao largo.

Phélippeaux sempre tirou notas mais altas que as de Napoleão. e dois terços da artilharia do Açougueiro estavam apontadas para o próprio . Mas a torre do canto será a noz onde o diabo quebrará os dentes." O "palácio" de Djezzar parecia uma Bastilha transplantada. Ele nunca perdeu para Napoleão . e nosso verdadeiro segredo é um homem que odeia Bonaparte mais até do que nós. Vem conhecê-lo. E o punho de Acre. Phélippeaux se infiltrou na França como agente secreto e me resgatou da prisão do Templo.no portão do Interior. formou-se com mais louvor e foi designado para os melhores postos na carreira militar. fingindo-se de comissário de polícia que me transferiria para outra cela. A torre de menagem dos cruzados fora reformada para incorporar não graciosidade. até ficarem roxas. mas intervalos de onde canhões pudessem ser disparados das ameias.e não perderá desta vez." "Falais do Açougueiro?" "Não. em Paris. Se a Revolução não tivesse obrigado o nosso amigo monarquista a fugir da França. ali onde as muralhas do mar e da terra se encontravam. Acreditas que o nosso Antoine Le Picard de Phélippeaux dividia uma carteira de escola com o biltre corso? Na adolescência. mas é também o mais forte das muralhas. Ano passado. ele provavelmente seria um superior de Napoleão. É o ponto mais distante do apoio da nossa artilharia naval. eu me refiro ao colega de turma de Napoleão na École Royale Militaire. Gage. o aristocrata e o provinciano viviam chutando as canelas um do outro.

Aquele era o andar em que se alojava a guarda fiel de Djezzar. Pisquei ao olhar em volta. Seu uniforme branco.povo dele. Vi janelas de harém gradeadas. tal qual as gaiolas de belas aves. o lado de dentro da fortaleza parecia um calabouço. Tímidos. os gabinetes administrativos no andar de cima. ouviram-se passadas rápidas na escada. Nisso. eu não sentia nenhuma vontade de ir explorar esse aquelas mulheres tinham me dado medo. e havia ali uma espartanidade militar. Aquele só podia ser Phélippeaux. Já tendo irrompido num harém no Egito. a cidadela era tão implacável quando a mão de ferro de Djezzar. apontando. onde estavam limpando mosquetes e afiando lâminas. e ele tinha a lânguida autoconfiança que vem do berço nobre. os soldados nos olhavam das sombras. Pareciam muitíssimo desanimados. desceu aos pulos. e um francês. ágil e mais enérgico. e adentramos o sombrio interior. "Há o arsenal no porão. do exército do Antigo Regime. e o sorriso desfalecido e os olhos escuros pareciam avaliar . seus movimentos eram elegantes. Quadrada e impassível. Passamos por grandes e parrudas sentinelas otomanas e uma imensa porta de madeira guarnecida com ferro. estava sujo e surrado. voavam entre essas janelas e as palmeiras embaixo. Era mais alto que Napoleão. explicou Smith. e não para os franceses. como se solidárias. Phélippeaux fez uma reverência cortês. Após a luz deslumbrante do Levante. Andorinhas. o palácio de Djezzar no seguinte e o harém no topo de tudo". a caserna no térreo.

os franceses que ali se concentravam estavam nítidos como soldadinhos de chumbo. eu já sabia como devia ser a vida nas linhas francesas: comida farta. era uma crista azul bem do outro lado da baía. "Vinde. Pela experiência em Jafa." "Pois eu asseguro que vossos canhões franceses serão inestimáveis. franceses. americanos.. Tendas e toldos pareciam florescer. bebida importada para estimular a coragem dos grupos de assalto." Phélippeaux abriu um sorriso largo. "Monsieur Gage. o ar estava estonteante.tudo com o cálculo característico dos oficiais de artilharia. mamelucos. Que vista magnífica! Após as chuvas dos dias anteriores. tudo a preços absurdos. que ironia! E um americano! Somos como Lafayette e Washington! Que aliança internacional está se formando aqui britânicos. ao longe. Phélippeaux nos conduziu por uma escada serpeante até que saímos na cobertura do castelo de Djezzar. pagos alegremente por homens que sentiam haver grande possibilidade de que estivessem prestes a . e o monte Carmelo. Mais perto. limpar e proporcionar calor à noite. judeus. vamos dar uma espiada nele!" Eu já estava gostando daquele seu estilo impetuoso. Ah. maronitas. turmas de prostitutas e criadas para cozinhar. eu soube que pudestes ter salvo a nossa cidade!" "Muito longe disso. otomanos. todos contra o meu ex-colega de classe!" "Realmente estudastes juntos?" "Ele colava de mim. tal qual uma grande quermesse de primavera..

eu o conheço e sei como ele pensa. Nós dois faríamos a mesma coisa: ele estenderá suas trincheiras até aqui e tentará minar as nossas muralhas com sapadores. . ainda está a meses de ser concluído". Cerca de uma milha terra adentro. Imaginei que parecesse ainda mais alta quando vista do lado francês.o fundo fica acima do nível do mar -. tendes vossa torre". revestido de pedra.morrer. "Desconfio que será ali que Buonaparte estabelecerá seu quartel-general". porém. Canhões estavam sendo alçados às muralhas. "Nenhuma água no fosso?" "Ele não foi projetado para isso . disse Smith. prolongando com aristocrático desdém a pronúncia italiana. neste meio-tempo. estamos construindo um reservatório que encheremos bombeando água do mar. "Vede bem. como um promontório. Eu assenti e disse: "Assim. fora do alcance de quaisquer de nossas armas. Ela era maciça. erguiase um morro de uns trinta metros de altura." Segui o movimento largo de seu dedo indicador. mas nossos engenheiros têm uma idéia. e lá eu discernia um agrupamento de homens e cavalos em meio a estandartes tremulantes. perto do portão do Interior. disse Phélippeaux. Então. Na costa. ela poderá ser descarregada no fosso. já sei que ele sabe que a torre é a chave. e logo adiante havia um fosso defensivo seco." "Esse plano. Numa crise. com uns vinte pés de profundidade e cinqüenta de largura.

que eles trouxeram por terra. Se os republicanos conseguirem submetê-la. "Já acrescentamos quase uma centena de canhões às defesas da cidade". "mas também pode ser alvejada e assaltada dos dois lados. a infantaria deles terá perecido inutilmente. disse Phélippeaux. Se não conseguirem. que ofereceria proteção contra o fogo de interdição. já estarão nos jardins e poderão espalhar-se para tomar nossas defesas por trás. Agora. elas ficariam mesmo confinadas. As mulheres do harém provavelmente estavam acostumadas a freqüentá-lo. "Aquilo logo estará repleto dos canhões mais leves. Vi que os franceses cavavam trincheiras ao longo dele. Tendo outrora trazido água para a cidade. explicou Phélippeaux. com tantos soldados e marinheiros guarnecendo os parapeitos lá em cima." Olhei para baixo. O jardim era um oásis de sombra em meio aos preparativos militares. "Agora . De um lado." Procurei abarcar a cena com seus olhos de artilheiro e engenheiro. interrompia-se quase em nossa muralha. os franceses estavam fincando estacas de agrimensor. "Eles esvaziaram esse reservatório aí para que tivessem uma depressão protegida onde instalar uma bateria". como se lesse meus pensamentos. Dentro dela. disse Phélippeaux. havia o que se assemelhava a uma lagoa seca. longe das vistas. perto da torre. O aqueduto em ruínas se estendia dos franceses em direção às muralhas."É o ponto mais forte das muralhas".

emendou Smith. se ele acreditar." "Exatamente. Depois do que acontecera em Jafa." "Eu?" "Viste o exército de Napoleão. Djezzar reconhecia que a própria sobrevivência dependia de seus novos aliados europeus. "E tu. e um felino grande e sarapintado olhou-nos sonolento de uma almofada. Quero que digas a nosso aliado que aquela força pode ser batida porque. Então." "O que significa não deixar Djezzar desistir". como se estivesse ponderando se comer-nos justificava a trabalheira. Aves piavam em gaiolas douradas. com o teto esculpido em estilo florido e o piso de tapetes orientais justapostos. Fomos conduzidos à sala de audiências. Sentamonos de pernas cruzadas diante dele. "Bonaparte não é mágico. precisamos manter o inimigo à distância. um macaquinho pulava para lá e para cá numa guia de couro. que estava sentado. poderá mesmo." Não precisamos esperar por uma audiência. um recinto belamente decorado. és a chave para isso. Tive mais ou menos essa impressão do Açougueiro. mas ainda assim modesto. Apenas ainda não encontrou ninguém tão combativo e obstinado quanto ele.que capturamos os canhões franceses mais pesados. ereto. Gage. E então? Acreditas?" Pensei por um momento. enquanto seus guarda-costas sudaneses nos vigiavam . com o torso idoso ainda transmitindo a idéia de força e poder. Mas primeiro tens de acreditar nisso. vem conhecer o Açougueiro.

No entanto. o próprio açougueiro era um astuto sobrevivente. se queres saber ." Naturalmente. as botas sujas.já matei mais homens e trepei com mais mulheres. como se pudéssemos ser assassinos e não aliados. disse Smith. mas um arofeta irascível. a pele curtida pelo excesso de sol e de água do mar . "És hábil e despachado. ""Escapaste de Jafa?" "Os franceses pretendiam me matar junto com os outros prisioneiros".e não procurou esconder o ceticismo. "Paxá. a boca. acho eu. "E ajudaste a capturar a artilharia do inimigo?" "Pelo menos parte dela.atentamente. O massacre foi horrível. este é o americano de quem vos falei". Djezzar me avaliou num relance . "Tenho mais que ele. Bem. os olhos. apresentan-do-me. Mas também estava curioso." Djezzar sorriu." "É." "Como vós. duríssimos. cruel. A barba era branca e cerrada. "Nadei mar adentro e achei uma pequena gruta nos recifes. E Alá me obriga a usar infiéis .Napoleão. então agora temos um duelo de vontades. disse eu. paxá. Uma pistola estava enfiada na cinta.as roupas de marinheiro emprestadas." Ele me analisou. e uma adaga jazia bem perto da mão. mas a sobrevivência é a marca dos homens extraordinários. Um cerco. Djezzar tinha setenta e cinco anos e parecia não um avô bondoso. Tendes tanta habilidade e desembaraço quanto qualquer Napoleão. o olhar traía a insegurança do fanfarrão tirânico que se vê diante de outro .

mesmo sem os canhões". jogou-a na boca e a mastigou de lado enquanto falava. Eles estão sempre conspirando." Eso parecia ingratidão. Os soldados de Napoleão são bons no que fazem.para combater infiéis. "Mas fala-me desse Napoleão." "E doentes"." "Com os navios britânicos. confirmei. "Então eu talvez devesse me render." "Ele quase não tem tropas para guarnecer o que quer que capture. "Ele virá para vossa cidade logo. estamos conspirando para salvar vosso pescoço. Napoleão está a centenas de milhas de sua base no Egito e a duas mil milhas da França. É um homem paciente?" "Nem um pouco. e o fogo deles é certeiro. Eu não confio em cristãos." Vi que o Açougueiro era sagaz. com ímpeto. "Acredita em golpes rápidos. As tropas dele são duas vezes mais numerosas que a minha guarnição. disse Djezzar. "Ouvi dizer que ocorreram mais em Jafa. disse eu. sois superior a ele em artilharia. acrescentou Phélippeaux. para quebrar o ânimo dos inimigos." "Mas ele é enérgico quando se trata de insistir no que quer"." "Já haviam surgido alguns casos no Egito". Ou fugir. e não uma . Em seguida." Djezzar pegou uma tâmara numa taça e a examinou como se nunca tivesse visto nenhuma antes." Ele deu de ombros. Seus soldados estão cansados e saudosos de casa. "No momento." "Então podemos derrotá-lo antes que consiga mais canhões. "Correm boatos de peste. de força avassaladora.

Ele reunia informações sobre seus inimigos como um estudioso. Se conseguirdes agüentar firme. "Rabino Farhi! O que fazeis em Acre?" "Servindo o amo dele". O homem está tentando realizar num único dia aquilo que outros homens precisam de um ano para fazer.. paxá. solene. prometeu Smith. e ninguém sabe melhor que ele que é tudo blefe no instante em que seus inimigos deixarem de temê-lo. arrematou Djezzar." . "A não ser que ele descubra algo mais poderoso que a artilharia". E. Tive um sobressalto. nas sombras. Quanto mais dias ele se detiver diante de Acre.nulidade otomana imposta pela Sublime Porta. Está querendo conquistar a Ásia com dez mil soldados." "Nós o bateremos aqui". da penumbra atrás do poleiro forrado de almofadas onde se sentava Djezzar. "O ponto fraco de Napoleão é o tempo. mas não demonstraram repugnância. disse outro. senhor Gage. e é essa a fraqueza dele. Eu conhecia aquela voz! E. "Esse homenzinho que ninguém bateu ainda. Napoleão estará liquidado. disse Djezzar. "Jerusalém se tornara um lugar muito desconfortável para nós. mais forças o sultão poderá enviar para cercá-lo.. Eles já o tinham visto antes. surgiu de fato o medonho semblante de Haim Farhi! Smith e Phélippeaux piscaram ante aquela mutilação." "Ele irá embora". sem o livro. Napoleão não obtém reforços nem novos suprimentos. não havia motivo para permanecer lá. ao passo que a marinha britânica consegue trazer ambas as coisas para nós.

E vá para o Céu." "Mas então escapastes de Jerusalém!" "Por um triz. e a soberba é o maior dos pecados. "Como sempre. emendou o banqueiro. "Vosso aliado aqui não foi a Jerusalém apenas para vos servir. Farhi se voltou para o oficial britânico. Acho que todos acabamos saindo de Jerusalém de mãos vazias."Fostes conosco a serviço do paxá?" "Mas é claro. sois a própria generosidade. e ." "Fiz um favor a ele". incomodado com o fato de Farhi estar displicentemente divulgando meu segredo." "Um livro de magia"." Farhi se inclinou numa reverência. As cicatrizes de Farhi permitem que ele se concentre nos números. resmungou o Açougueiro." "Mãos vazias do quê?". amo. havia uma mulher sobre quem ele fazia perguntas." "Tesouro?" "Não é dinheiro". "A boa aparência é mãe da vaidade. Eles não sabem nada e me ameaçaram com serpentes para descobrir o que sei. Sabeis quem modificou minha aparência. Deixei-vos porque o meu rosto atrai demasiada atenção e porque eu sabia que mais averiguações se faziam necessárias. se bem me lembro. O que os franceses sabem acerca dos nossos segredos?" "Que a indignação dos muçulmanos impede que se volte a explorar os túneis. perguntou Smith. "Correm rumores sobre ele há milhares de anos. comandante. respondi. "É um livro." "E um tesouro que homens muito perigosos estão procurando." "Não.

perguntou Djezzar. "Quase certamente. não temos nenhuma maneira de procurar.se permanecermos sitiados por muito tempo poderá ser tarde para acharmos primeiro o que o conde Alessandro Silano ainda procura. inimigo dele. porém. Estávamos era atrás desse livro. O tempo é. Haim?". Quando pedimos a ajuda de vossos homens da marinha. já que o patife cortara a outra orelha de seu auxiliar. Ressuscitado. "Que. o que queres dizer." "Apesar disso. a serviço de alguma figura misteriosa no Egito. como disse o senhor Gage. agentes estão fazendo indagações por toda a província da Síria". disse eu." "Vivo." Ele fazia bem em usar o substantivo no singular. o que todos os homens buscam talvez não exista. disse Farhi. isolados como estamos pelo exército de Napoleão. acrescentei. ele nem existe. "Farhi era o meu ouvido ali." Farhi apontou para mim.os templários o buscavam. Se existe. "Mas o livro não estava lá". no tom do amo já muito impaciente com as divagações dos subordinados. "Na maioria." Senti um arrepio. denotando dúvida e resignação. "Disseram-me que o conde Silano continua vivo. sim. "Afinal. Mas também é um desafio para nós . O olhar de Smith ia de um para outro de nós. "E eu". Imortal. não estávamos procurando uma porta que possibilitasse contornar as defesas da cidade para penetrar em Jerusalém. eles são árabes." Farhi encolheu os ombros. "Esse homem . disse Djezzar." "Assim como os franceses".

Mas. varetas de mosquete. Seus músculos eram iluminados pelo fulgor de uma forja de ferreiro. O chumbo esfriava em moldes de balas de pistola e mosquete. martelando tal qual Thor os instrumentos da guerra . chuços. a camisa úmida e perturbadoramente colada ao corpo. e as sobras de metal eram empilhadas para que Jericó as transformasse em metralha. Fosse como fosse." Segui o cheiro de carvão vegetal até achar Jericó.precisa descobrir um modo de ir outra vez atrás do segredo. naturalmente. o irmão estava ali. Ele estava nas entranhas do arsenal. . para empurrar as escadas dos inimigos que tentassem escalar as muralhas. mas. o cabelo nas faces em cachos suados. como era gostoso senti-la! A vontade de descer a mão para seu traseiro redondo era enorme. "Nós achamos que tinhas morrido!" Ela me beijou a face. seus olhos brilharam em animada saudação. na incandescência infernal da armaria. semelhantes a pérolas negras. até Jericó permitiu-se um sorriso relutante. deixando-a em fogo. eu não sabia como me receberiam. antes que seja tarde demais. ela disparou na minha direção e me abraçou. para que. Ah. Miriam estava trabalhando no fole.espadas. cabos compridos com forquilha na ponta. Segurei Miriam a uma distância segura. a transpiração a reluzir naquele vale da tentação entre o pescoço e os seios. quando Miriam me viu. e. baionetas. ali no porão do palácio. Dado que haviam perdido sua casa em Jerusalém por causa do tumulto que causei.

fisicamente. Mas não importava . dando-me conta de quanto sentira sua falta e quão angélicamente linda ela era. mas eu realmente achava que encontraríamos um tesouro. um capitão-de-mar-e-guerra inglês meio insano e um colega de escola de Napoleão Bonaparte que está muito contrariado com este. e eu decerto apagara o sorriso do irmão. com mais confiança do que de fato sentia." Olhei para Miriam. disse eu. e ela não queria tirar as mãos de meus ombros. agora. meu entusiasmo por nosso reencontro não ficasse demasiado óbvio. sua douta irmã e um americano jogador. vivos". disse Miriam. finalmente. Para não falar de um ferreiro parrudo. eis-nos aqui. disse Jericó. "A notícia de que sobreviveste foi como néctar para um homem que está morrendo de sede. mandrião e irresponsável. "E." Eu a soltei. um guia muçulmano. "Todos os três. respondi. um judeu mutilado. "Com um homem chamado Açougueiro." Julguei ter visto um rubor debaixo da fuligem. e assenti. Escapei de Jafa com meu amigo Mohammad. "Ethan. Parecemos o alegre bando de Robin Hood.eu não queria largar a cintura de Miriam. "Não precisamos batê-los — só temos de esperar até que se vejam compelidos a . "E eu temi que o mesmo tivesse acontecido a vós". num barco. "Lamento que a nossa aventura vos tenha deixado presos em Acre. soubemos o que aconteceu em Jafa. não?" "Sem dúvida". E se os franceses tomarem Acre?" "Não tomarão".

sobrou alguma corrente pesada na cidade?" "Vi algumas por aí." . "Isso poderia mesmo dar certo?" "Se não der. "Para dar-lhes uma mão na hora de escalarem as nossas defesas?" "Exatamente. o Açougueiro usará a corrente para nos enforcar. perguntou Miriam. convencido de que eu continuava maluco como sempre. Jericó. Por quê?" "Quero estendê-las nas torres para dar as boasvindas aos franceses.retirar-se. Seria como uma barreira de fogo. "Tanto quanto conseguiriam se o metal estivesse incandescente. poderemos transmiti-la com um arame para uma corrente suspensa." Jericó ficou curioso. E tenho uma idéia para isso. mas. desta vez. E então carregar as correntes de eletricidade." Eu me tornara o próprio guerreiro sanguinário. Daria o mesmo choque que demonstrei em Jerusalém. Se armazenarmos bastante faísca numa bateria de garrafas de Leiden. onde então poderíamos matá-los. usadas por navios ou empregadas para fechar a saída do ancoradouro. "Foi uma idéia que tive quando estava no barco com Mohammad." Ele balançou a cabeça negativamente. "Estás dizendo que eles não conseguiriam segurarse à corrente?". derrubaria os franceses no fosso." "Eletricidade?!" Jericó fez o sinal-dacruz.

Dávamos duro ouvindo o eco dos canhões adversários. cobre e garrafas em quantidade suficiente para fazer uma pilha gigantesca. Miriam e eu não apenas trabalhávamos juntos. Franklin dera o nome bateria às fileiras de garrafas de Leiden porque elas o faziam lembrar uma . roçando e tocando um no outro mais que o necessário. éramos parceiros. que procuravam acertar o alcance de tiro à medida que as trincheiras francesas avançavam rumo às muralhas. enquanto Jericó se punha a coletar e juntar elos de corrente de ferro. Raramente desfrutei tanto um projeto. Miriam e eu nos púnhamos a reunir vidro. de uma maneira que reeditava a aliança que eu estabelecera com Astiza.13 Eu precisava gerar carga elétrica numa escala com que nem mesmo Franklin sonhara. chumbo. e agora Miriam exibia uma confiança vivaz que fortalecia a coragem de todos com os quais ela trabalhava. O acanhamento recatado com que eu topara de início se perdera em algum lugar dos túneis de Jerusalém. Nós dois trabalhávamos ombro a ombro.. Até o porão do palácio de Djezzar tremia quando uma bala de ferro sólido acertava as muralhas externas. Nenhum homem quer ser covarde na presença de mulheres. Não há nada mais desejável do que uma mulher que ainda não pudemos possuir. e eu me recordava exatamente do ponto de minha face que seu beijo afogueara. de modo que.

como vamos girar os teus discos de vidro por tempo suficiente para fornecer força a este aparato imenso?". empurrando interminavelmente morro acima uma enorme rocha. Quando fiquei sabendo que Ned fora designado para ajudar a reparar o mais depressa possível a alvenaria do . ainda ressentido com as perdas no jogo. vinha aguardando meu reencontro com esse fuzileiro avantajado. coisa que ele providenciaria tão logo eu parasse de esconder-me atrás das saias da namorada. Bastam ombros largos e uma mente não muito brilhante. e. "Ethan." Eu me referia a Big Ned. Em nosso caso. Era necessário vingarme daquela perfídia no portão de Jerusalém. Ned continuava a ser um gigante perigoso. tosco e azedo. Assim. cada garrafa adicional poderia ser ligada à última para intensificar o choque potencial que eu pretendia aplicar nos soldados franceses. alinhados pelos cubos das rodas para proporcionar fogo concentrado. perguntou Miriam. Desde que eu desembarcara em Acre. "Precisaremos de um exército para girar manivelas!" "Um exército não. Logo tínhamos tantas garrafas que o trabalho de eletrificar todas por fricção (usando manivela) pareceu ser uma tarefa de Sísifo. planejei cuidadosamente a lição que lhe daria. no entanto.bateria de canhões. Eu soube que Ned estava informado de minha miraculosa reaparição e andava se gabando de que ainda me devia uma sova. O xis da questão era não topar por acaso com ele quando eu estivesse em desvantagem.

incluído Ned. no escuro. até virar uma pilha de corda a seus pés. até que restou apenas Ned lá embaixo. é coisa que não tem preço. acima de onde ele estava. Apesar de meus problemas com Ned e Tom. que lavrava. eu viera a admirar a rija determinação dos tripulantes ingleses. As muralhas se mostram mais fortes quando não têm fendas que facilitem a passagem de balas de canhão. . cestas de pedras. Ele deu um bom puxão na corda. homens pobres e analfabetos que tinham pouco do idealismo dos voluntários franceses. Ned possuía esse mesmo estofo. com as balas ricocheteando em volta. apareci para dar uma mão na porta de saída da fortaleza. mourejavam lá embaixo. A cara que Ned fez quando aquela rota de fuga se soltou e caiu fazendo som de matraca. Meu braço ofereceu a cada um deles uma mão para que entrassem. A vingança tem lá suas recompensas. Já perto do alvorecer. raspava e assentava. que saudades de meu fuzil!). Enquanto mosquetes disparavam com fulgor e estrondo no escuro (ah. mas que demonstravam obstinada lealdade à Coroa e à pátria. como se fossem macacos apressados. e era esse o motivo de Smith e Phélippeaux quererem os reparos ali. eles finalmente correram de volta para uma escada de cordas. argamassa e água eram baixadas para a turma de reparos. Era um serviço que exigia coragem: os peritos atiradores britânicos trocavam disparos com seus equivalentes franceses enquanto uns poucos voluntários.fosso na base da torre mais crucial de Acre.

baixei uma corda. espada contra espada. gritando ele lá embaixo. vou te cortar ao meio!" Assim. trapaceiro. disse-lhe." "Com os diabos. se alguma vez tiveres peito de cair no braço comigo!" "O valentão quer sempre tirar vantagem do tamanho. ianque lambão? Depois da lição que te dei em Jerusalém. achei que não ficarias a menos de cem milhas de honrados fuzileiros britânicos! E agora pretendes me largar neste fosso e deixar que os franceses façam o serviço por ti?" Juntou as mãos em concha e gritou: "O americano é poltrão . eu vou te arrancar os braços e as pernas. em vez de bater portão na minha cara ou se esconder no porão do navio. Ned?" A cabeça dele se aqueceu como uma cebola roxa quando me reconheceu cinqüenta pés acima. com porrete. com o duelo marcado de modo satisfatório para mim. rebati. alcei de novo a .ah. Big Ned". "Ah." "Deixa-me subir. "Só quero fazer que sintas o gostinho da tua vil traição e ver se és homem o bastante para me encarar. com canhão!" "Eu falei em espada. "Não é nada gostoso ficar trancado do lado de fora. então! Já que não posso te esganar. não é mesmo. "Duela comigo do jeito justo. não". se é!" "Não. juntaste coragem para sair do palácio do paxá. vou mesmo! Vou lutar contigo com pistola. como cavalheiro. com faca.Eu me inclinei sobre a muralha. "Encarar-te?! Por Deus." Os olhos dele saltaram como se estivessem cheios de vapor. e te ensinarei uma lição de verdade.

Assim. Preferes o florete. eu me pus a trabalhar. passando-lhe sermão enquanto Ned tirava argamassa das roupas e me fitava com fúria. Franklin era sempre uma inspiração. cuidando para que Ned pudesse segurá-lo com firmeza.escada e fiz Ned voltar para dentro de Acre. "E eu estou a ponto de retribuir a compaixão que demonstraste no carteado. o sabre ou o alfanje?" "Por Deus. o alfanje! Uma coisa que corte osso! E vou trazer os meus camaradas para te verem sangrar!" Olhou muito feio para os homens que estavam ali apreciando o diálogo. coloquei em seu lugar um substituto de cobre. disse eu. poli a peça . "Estou tendo mais compaixão para contigo do que tiveste para comigo". e. Sabotar Ned foi simples. enquanto trabalhava na nova forja de Jericó. eu não te deixaria pagar para sair desta nem se tivesses dinheiro para me devolver dez vezes o que levaste!" "Eu te encontro nos jardins do palácio. imediatamente antes que a luz do amanhecer o transformasse em alvo. Vamos duelar e liquidar nossos assuntos de uma vez por todas! Agora. "Ninguém passa a perna em Big Ned. Retirei o cabo de pano e tecido do alfanje que ele usaria." Minha disposição para duelar com um animal daqueles vinha da minha capacidade de prever seus movimentos. refleti que o sábio da Filadélfia usaria engenhosidade em vez de força bruta.

pouco antes da chegada de meu oponente. "Ei. aumentando o isolamento. Abri um vão no miolo do cabo. segurei contra a ponta do cabo um arame grosso que saía da manivela que eu construíra para gerar eletricidade por fricção. mas que matador não fica agitando a capa? Dei alguns minutos até que a multidão de marujos e fuzileiros navais reunidos fizesse apostas contra mim (com um empréstimo do ferreiro." Imagino que não seja muito esportivo ludibriar o touro. Eu estava girando e girando sem parar a manivela. Meu oponente olhou de soslaio. respondi. para minha própria segurança. do jeito que eu pedira. disse. e tornei a cobrir o cabo com tecido. Nada mais justo que isso. calculando que poderia lucrar bastante com toda aquela trabalheira) e então assumi uma pose de esgrimista na passagem do . "Isto é loucura. com resignação igualmente ensaiada. e. Meu alfanje já foi mais complicado. Não tens chance contra Big Ned." "A honra exige que nos batamos". agora acumulando eletricidade no aço de meu alfanje. quando Ned apareceu no pátio. eu as cobri inteiramente. coloquei uma cobertura de pano duas vezes mais grossa. Teu muque contra meu miolo. Os metais são condutores de eletricidade. ele vai te partir como se fosses uma vareta". lâmina contra lâmina. advertiu Jericó. "E o que é isso agora. ianque tratante de uma figa?" "Mágica".toda. não?" "Ethan. eu quero uma luta justa!" "E a terás. "não importando o tamanho nem a perícia dele. revesti-o de chumbo.

Opinião contrária teve Alessandro Volta. Gostei de pensar que as moças do harém estariam olhando lá de cima. que fez os espectadores se sobressaltarem e gritarem. para quem uma . e Ned ficou todo cheio de si. Ele estremeceu como um dos sapos das experiências de Galvani. "Se eu perder. Teria Ned morrido? Eu o toquei com a ponta de meu alfanje. e Ned se estatelou como Golias e ficou lá no chão. Então arremetemos um contra o outro. O alfanje do fuzileiro voou. e sabia que Djezzar também estava. mas eu ficara isolado do pior do choque. se perderes. com os olhos virados. houve simplesmente uma chuva de faíscas e um estampido agudo. fanfarrão!". O ar cheirava a queimado. Aparei o golpe. Nossas lâminas mal se tocaram. "Em guarda. errando por pouco um de seus companheiros de bordo.1 1 Galvani pensou que este fenômeno de contração muscular era devido a uma "eletricidade animal".jardim onde duelaríamos. bradei. pegarei o que me deves no picadinho em que terei te transformado. Eu desejaria poder dizer que exibi valorosa e hábil demonstração de esgrima ao contrapor destramente minha capacidade atlética à força bruta de Ned." A multidão gargalhou ante tal verve. brandindo os alfanjes. e ainda assim Ned foi atirado para trás como se houvesse levado um coice de mula. Mas. O outro alfanje ardia em minha mão. tal qual disparo de arma de fogo. Mas não foi assim: quando o aço bateu no aço. ficarás em dívida de gratidão para comigo!" "Se perderes. prometo te dar cada xelim.

Ned estremeceu. Um contramestre se apressou a atirar para mim a bolsa com o dinheiro das apostas. Ned. Ned. piscou e se encolheu. Nem mesmo o meu pai. grogue. Foi esta teoria que lhe permitiu construir a pilha de Volta. chefe ." "Caramba! O que fizeste comigo?" "Mágica". Se te aliares a mim. Agora." "Eu apenas uso o cérebro. quem mais quer me desafiar?" Eles recuaram como se eu fosse leproso. Unindo dois metais diferentes de um lado e tocando com as outras extremidades em certos pontos do corpo da rã. Ned conseguiu erguer-se o suficiente para ficar sentado no chão. "Venci nas cartas limpamente e venci este duelo. eu te ensinarei a fazer o mesmo. repeti. Tens estranhos poderes. Deus abençoe os tolos instintos dos marítimos britânicos para a jogatina. à custa do sacrifício de milhões de rãs. . Tu sempre sobrevives. Apontei meu alfanje para os outros. as pernas agitam-se bruscamente como se o animal estivesse vivo. Por fim. As observações de Galvani conduziram muitos fisiologistas a debruçarem-se sobre as relações entre eletricidade e fisiologia (eletrofisiologia). Em 1786. para desanuviá-la. em qualquer lado em que estejas. temeroso. abismada." fonte de eletricidade era o conjunto das duas peças de metal. "Ninguém nunca me venceu antes.A multidão estava absolutamente silenciosa. Luigi Galvani fez experiências com pernas de rãs. já disseste.agora eu vejo isso. "Não me toques!" "Não deverias pôr à prova quem é melhor que ti." "Vais finalmente me respeitar?" Ele balançou a cabeça. pelo menos não depois que fiz oito ou nove anos e já conseguia sová-lo. "Estou em dívida.

permutando os homens que haviam sido capturados em incursões e escaramuças. Eu e ele agora somos parceiros. só que desta vez contra os franceses. tal qual um símio gigantesco. sentava . podemos ser amigos. Depois. "Não toques na espada. eu preciso da tua ajuda para fazer mais mágica. estamos quites"." Fez-se uma estranha calmaria enquanto os franceses cavavam como formigas rumo às muralhas de Acre e assentavam os canhões que lhes restavam. resmungando a respeito da danação dos cristãos e de todos os infiéis."Certo. no espírito do feriado. Consegues. tereis de vos acertar comigo. em voz baixa e áspera. sim. como um gato inquieto. "Bem. Era a Semana Santa. Smith e Bonaparte concordaram em fazer uma troca de prisioneiros. Eles cavavam. Preciso de alguém que consiga fazer girar o meu aparato como o próprio capeta faria. "Todos os outros. forcejou para colocar-se em pé e balançou de um lado para outro. Quero servir contigo. homem!" "Ah. e nós esperávamos." Deu-me um abraço.. Se o fizerdes. "Não contrarieis o americano. escutai".. Ned?" "Se não me tocares. "Agora. de maneira que." "Não. confirmei." Ned se afastou às pressas. disse ele. não brigar." Desajeitadamente. Eu conseguia imaginar o formigamento nada natural que ele devia estar sentindo. Djezzar andava para lá e para cá pelas muralhas. com aquele moroso fatalismo que vai desgastando os sitiados.

O rosto um tanto querubínico se tornara mais seco. as vigas do teto tremeram com o bombardeio. o aço seria tão importante quanto a pólvora. grogue de sono e cansaço. era o tipo de homem que não sabia dizer não nem permitir-se uma redução da qualidade. Os canhões franceses troavam vinte e quatro horas por dia. Ambos sois mais valiosos como ferreiros que como alvos. e os olhos tinham se ensombrecido. Eu trabalhava exaustivamente em meu plano elétrico. desabávamos num sono espasmódico e exaurido. Trabalhava até quando Miriam e eu. foi o ferreiro a acordar-nos na escuridão anterior ao amanhecer de 28 de março. conjecturei. e ele estava intranquilo com minha crescente proximidade de Miriam. O ferreiro exibia sinais do esforço excessivo. "Mantém a tua irmã aqui embaixo. No combate aproximado nas muralhas. com pouco tempo para recarregar bocas de fogo. mais esticado. pois o Açougueiro. A oscilação fez voarem faíscas da forja. mas era difícil obter ajuda de Jericó. Smith e Phélippeaux lhe mandavam constantes solicitações de armamento. "Os franceses estão testando as nossas defesas". prenunciando o ataque iminente. em cantos opostos do arsenal.numa grande cadeira na torre do canto para motivar seus soldados. Jericó raramente via sol. Por isso. No entanto. quando se acelerou o rufar da artilharia francesa." "E quanto a ti?" . fitando-os com seu olhar feroz. Mesmo nas profundezas do porão de Djezzar.

dirigindo os disparos dos canhões da cidade com uma confusa mistura de francês. segui Phélippeaux até a torre. No parapeito. nossos canhões começavam a disparar em resposta. andando compassadamente atrás de um contingente de fuzileiros navais britânicos. cada um deles xingando em seu respectivo idioma. na esperança de atrair fogo que as denunciasse — mas os franceses eram demasiado disciplinados para isso. Phélippeaux corria como um louco pelas muralhas. Fui levado de roldão para cima. os clarões assinalavam onde se instalara a artilharia deles. Ao mesmo tempo."A minha corrente ainda não está pronta. mas não enxerguei as tropas inimigas. Nas linhas francesas. lanternas de sinalização eram alçadas na torre do meio para chamar apoio naval. Então. Smith estava no parapeito. Perscrutei a escuridão. para cima e para baixo. com um estranho sorriso nos lábios. Seus clarões interrompiam o troar . inglês. Peguei emprestado um mosquete e disparei para onde imaginava que elas pudessem estar. o bombardeio era uma sucessão constante de trovões. interrompida aqui e ali pelo impacto de uma bala de canhão na muralha ou pelo sibilar de outra que passava por cima. numa onda de soldados turcos e de marujos e fuzileiros britânicos que subiam as muralhas. árabe e aflitos gestos de mão. e as escadas e rampas estavam alumiadas por tochas. Agora. Esta tremia como uma árvore que estivesse sendo abatida. mas vou ver como poderíamos usá-la!" Eram quatro da manhã.

A coisa toda me ferira os ouvidos. "Como posso ajudar?". e quase bati de encontro em Haim Farhi nos aposentos do paxá." "Ele não pode ser incomodado. Tinha duas pistolas enfiadas na cinta e segurava um velho sabre prussiano. Ele é o único homem a quem seus soldados temem mais que Napoleão. As muralhas e o fosso tendiam a ecoar e amplificar os estrondos." Pelas calças de Casanova. Um canhão turco saiu da carreta e caiu pesadamente." Fiquei grato pelo pretexto para correr de volta ao palácio. procurando conter o tremor natural em minha voz. "Vai chamar Djezzar.constante do fogo francês. e sentia-se o fedor acre e intoxicante da pólvora queimada. barbudo. perguntei a Phélippeaux. sem camisa. e apareceu o Açougueiro. e uma camisa de feltro para ser usada por baixo. Um escravo lhe trouxe uma malha de aço. enferrujada. Antes que Djezzar fechasse a . o governante conseguia copular num momento daqueles?! Mas então se abriu uma porta numa escadaria que levava para cima. e homens cegados pela explosão berravam. "Precisamos de vosso senhor para ajudar a fortalecer o ânimo dos soldados. As balas começaram a voar mais alto. mas também proporcionavam aos artilheiros inimigos uma referência de mira. os olhos brilhantes .uma mescla de sátiro com o profeta Elias. e então houve um estrondo quando uma delas passou raspando por uma ameia e os fragmentos de rocha resultantes se espalharam como estilhaços de granada. Está no harém.

porta atrás de si, eu ouvi a falação e o choro agitados das mulheres. "Phélippeaux precisa de vós", disse eu, sem necessidade. "Agora os francos vão chegar perto o bastante para que eu os mate", assegurou o paxá. Quando voltamos para a torre, a luz pálida do amanhecer recortava em silhueta o morrote que era o observatório de Napoleão. Vi que navios britânicos tinham se movido mais para perto da terra, na baía de Acre, mas que o fogo de seus canhões não alcançava a coluna de assalto francesa. Agora, eu distinguia lá embaixo uma massa humana em trincheiras rasas, como uma centopeia grande e escura. Homens carregavam escadas. "Eles abriram uma brecha na torre, logo acima do fosso", informou Phélippeaux. "Não é muito grande, mas, se os franceses conseguirem entrar, os turcos fugirão em debandada. Há muito falatório sobre o que aconteceu em Jafa - os nossos otomanos estão angustiados demais para lutar e apavorados demais para render-se." Inclinei-me por sobre a muralha para olhar para o negrume do fosso. Os franceses poderiam entrar nele até com facilidade, mas conseguiriam sair? "Usai um barril de pólvora", sugeri. "Ou meio barril, completando o resto com prego e bala. Atirai isso neles quando tentarem tomar a brecha." O coronel monarquista sorriu de orelha a orelha. "Ah, mon Américain sanguinaire!... Vossos instintos são de guerreiro! Pois muito bem,

iluminemos o caminho para o homem da Córsega!" "Napoleão!", bradou Djezzar, subindo para ficar de pé em sua cadeira na torre, tão visível quanto uma bandeira desfraldada. "Vem meter-te com este mameluco agora, vem! Vou te foder como acabei de foder as minhas esposas!" Balas sibilaram, miraculosamente sem atingi-lo. "É, vem me abanar como fazem as minhas mulheres!" Nós o puxamos à força para que descesse da cadeira. "Se morrerdes, estará tudo perdido", repreendeu-o Phélippeaux. "Eis o que eu penso da pontaria deles", disse o Açougueiro, e cuspiu. A malha de aço balançava enquanto ele se pavoneava de um lado para outro na torre, assegurando-se de que seus soldados agüentariam firme. "Não penseis que não estou de olho em vós!" Assim que a paisagem ficou cinza-claro pela aproximação do dia, vi quanto Bonaparte se mostrara apressado. Suas trincheiras ainda eram rasas demais, e uma vintena de seus homens já fora atingida. Diversos canhões franceses haviam sido postos fora de ação na bateria do reservatório de água, pois as fortificações de terra preparadas para eles eram inadequadas, e o velho aqueduto ia sendo mascado por nosso fogo, fazendo chover pedaços de alvenaria sobre as tropas que se amontoavam ali. As escadas que elas traziam pareciam ridiculamente curtas. Não obstante, ouviu-se um grande urro, agitou-se a bandeira tricolor, e os franceses arremeteram. Como sempre, demonstravam élan.

Era a primeira vez que eu via do lado oposto a temerária coragem deles, e foi um espetáculo assustador. Com alarmante rapidez, a centopeia assaltou e engoliu o terreno entre as trincheiras e o fosso. Os turcos e os fuzileiros britânicos tentaram diminuir-lhes o ímpeto com seus mosquetes, mas o hábil fogo francês de cobertura nos obrigou a ficar de cabeça baixa. Acertamos só alguns. O inimigo se derramou para o fundo do fosso. Suas escadas se revelaram mesmo curtas demais (o trabalho francês de reconhecimento fora feito às pressas), mas os mais destemidos pularam para dentro do fosso e as ergueram e seguraram para que seus camaradas descessem por elas. Outros disparavam por sobre o fosso para a brecha que tinham aberto, matando alguns de nossos defensores. As tropas otomanas começaram a lamuriar-se. "Silêncio! Estais parecendo as minhas mulheres!", esbravejou Djezzar. "Quereis descobrir o que farei convosco se fugirdes?" Agora, a infantaria francesa colocava suas escadas do outro lado do fosso. Chegavam no máximo a uma altura vários pés abaixo da brecha - um indesculpável erro de cálculo. Esse momento, em que os franceses se puxariam para cima, era aquele em que eles poderiam agarrar-se a uma corrente suspensa. Sem descarga elétrica, ela permitiria que invadissem a cidade em torrente, e Acre teria o mesmo destino que Jafa. Entretanto, se estivesse eletrificada... Os turcos mais valentes se inclinaram sobre o parapeito para disparar com as armas de fogo ou

arremessar pedras para baixo - mas, tão logo faziam isso, eram atingidos por franceses do outro lado do fosso. Um homem berrou e despencou lá para baixo. Eu mesmo usei um mosquete, amaldiçoando sua falta de precisão. Alguns otomanos começaram a largar as armas e fugir. Os fuzileiros britânicos tentaram detê-los, mas aqueles haviam entrado em pânico. Então, Djezzar desceu do alto da torre para bloquear a saída deles, brandindo o sabre prussiano e gritando. "Do que estais com medo? Olhai para eles! As escadas que trouxeram são curtas demais! Eles não conseguem entrar aqui!" Djezzar se inclinou por cima da muralha, descarregou as duas pistolas e as entregou a um turco. "Faz alguma coisa, velha medrosa - recarrega as pistolas!" Após esse corretivo, os otomanos voltaram a atirar. Por mais que estivessem com medo dos temíveis franceses, eles tinham pavor de Djezzar. E, então, uma estrela de fogo caiu da torre. Era o barril de pólvora que eu sugerira. Ele chegou ao chão, quicou e explodiu. Houve um estrondo e uma nuvem que irradiou lascas de madeira e estilhaços de metal. Aquela aglomeração de granadeiros oscilou abruptamente para lá e para cá, os mais próximos despedaçados, outros gravemente feridos, outros ainda atordoados pela explosão. Os homens de Djezzar deram vivas e começaram a atirar para valer no apinhamento de franceses, aumentando a devastação.

Assim, o assalto terminou antes mesmo de ter se iniciado. Os franceses, com artilharia impossibilitada de atirar contra alvos próximos demais das tropas de assalto, com escadas curtas demais, com uma brecha pequena demais, com oposição revigorada, haviam perdido o ímpeto. Napoleão apostara na velocidade e não nos tediosos preparativos de cerco - e perdera. Os atacantes deram meia-volta, retornando aos trambolhões pelo caminho inverso. "Vedes como eles correm?", gritou Djezzar para seus homens. E as tropas turcas começaram mesmo a bradar com assombro. Os implacáveis francos estavam em retirada! Não eram invencíveis afinal! E, a partir daquele momento, a guarnição se viu tomada por renovada confiança, que lhes serviria de esteio nas longas e sombrias semanas vindouras. A torre se tornaria o fulcro não apenas de Acre, mas de todo o Império Otomano. Quando o sol enfim coroou os montes a leste e iluminou por completo a cena, evidenciou-se a destruição: quase duzentos soldados de Napoleão jaziam mortos ou feridos, e Djezzar se negou a diminuir o fogo para que os franceses recolhessem suas baixas que ainda viviam. Muitos morreriam ali, aos berros, antes que os sobreviventes fossem finalmente carregados para um lugar seguro na noite seguinte. "Mostramos aos francos a hospitalidade de Acre!", tripudiou o Açougueiro. Phélippeaux ficou menos satisfeito. "Eu conheço o corso. Aquilo foi apenas uma sondagem. Da

próxima vez, ele virá mais forte." Virou-se para mim. "É melhor que o vosso pequeno experimento funcione." O fracasso da primeira investida de Napoleão teve efeito curioso sobre a guarnição. Os soldados otomanos encorajaram-se com o fato de terem logrado repelir o invasor. Pela primeira vez, cumpriam seus deveres com determinação orgulhosa, e não mais com resignação fatalista. Os francos podiam ser derrotados! Djezzar era invencível! Alá atendera a nossas preces! Mas, em compensação, os marinheiros e fuzileiros britânicos ficaram mais comedidos. Uma longa sucessão de vitórias navais os tornara arrogantes em face da possibilidade de enfrentar os franceses. Agora, entretanto, davam-se conta da coragem dos soldados inimigos. Bonaparte não se retirara. Ao contrário: suas trincheiras de ataque estavam sendo cavadas mais vigorosamente do que nunca. Os marítimos sentiam-se encurralados em terra. Os franceses usavam engodos para atrair nosso fogo e desencavavam as balas de metal sólido que nossos canhões lançavam, reutilizando-as contra nós. Não ajudava que Djezzar estivesse convencido de que os cristãos conspiravam contra ele, muito embora os franceses que atacavam a cidade representassem uma religião que abandonara o cristianismo. O Açougueiro colocou várias dúzias de cristãos locais em sacos e os atirou ao mar, junto com dois prisioneiros franceses. Nesse episódio, Smith e Phélippeaux foram tão impo-

tentes para deter o paxá quanto Napoleão o fora para deter as tropas francesas no saque de Jafa, mas muitos ingleses concluíram que aquele aliado era um louco impossível de controlar. A inquieta hostilidade de Djezzar não se limitava aos seguidores da Cruz. O bei Salih, um mameluco do Cairo que era velho arquiinimigo do paxá, fugira do Egito após a vitória napoleónica e viera unir-se a Djezzar contra os franceses. O paxá o acolheu calorosamente, deu-lhe uma chávena de café envenenado e jogou o cadáver no mar meia hora após a chegada do visitante. Big Ned mandou seus camaradas depositarem a confiança deles no "mágico" - eu. Ned garantia que os mesmos artifícios que me permitiram derrotá-lo, um homem com o dobro de meu tamanho, ajudariam-nos a triunfar sobre Napoleão. Assim, sob nossa direção, os marujos e fuzileiros construíram dois toscos cabrestantes, um em cada lado da torre. A corrente ficaria pendurada como uma grinalda naquela fachada, tendo a elevação controlada pelos cabrestantes. Em seguida, transferi minhas garrafas de Leiden e minha manivela de fricção para um andar na metade da torre, o da porta de saída de onde eu desafiara Big Ned. As garrafas iriam se ligar a uma haste de cobre, que se ligaria a uma corrente menor, que, por sua vez, também se ligaria por gancho à corrente maior. "Quando eles vierem, Ned, deves girar a manivela como louco, sem parar." "Chefe, eu vou acender esses francesotes como se eles fossem fogueira de Halloween."

Miriam ajudou a montar o aparato; seus rápidos dedos eram ideais para ligar as garrafas umas às outras. Será que os antigos egípcios também tinham tal feitiçaria? "Eu queria que o velho Ben estivesse aqui para ver o que estou fazendo", comentei quando descansávamos na torre num fim de tarde, com nossa feitiçaria metálica reluzindo a luz débil que passava pelas seteiras. "Quem é o velho Ben?", perguntou Miriam, num sussurro, encostada em meu ombro enquanto estávamos sentados no chão. Tal proximidade física já não parecia fora do comum, embora eu sonhasse com mais. "Benjamin Franklin, um sábio americano que ajudou a dar início ao meu país. Era um maçom que sabia a respeito dos templários, e alguns acham que Franklin tinha em mente as idéias deles quando criou os Estados Unidos." "Quais idéias?" "Olha, eu não sei exatamente. Acho que a idéia de que um país deve representar alguma coisa. Ter um propósito. Acreditar em algo." "E no que acreditas, Ethan Gage?" "É justamente a pergunta que Astiza costumava me fazer! Será que todas as mulheres perguntam isso?... Bem, eu acabei acreditando em Astiza - e, tão logo fiz isso, a perdi." Miriam me olhou com tristeza. "Sentes falta dela, não?" "Como certamente sentes falta do noivo que morreu na guerra. Como Jericó sente falta da

mulher; Big Ned, de Little Tom; e Phélippeaux, da monarquia." "Então, cá estamos nós, o nosso círculo de enlutados." Ela ficou calada por um momento. Em seguida, disse: "Sabes no que acredito, Ethan?" "Na Igreja?" "Eu acredito no Outro que a Igreja representa." "Tu te referes a Deus?" "Quero dizer que, na loucura da vida, existe mais do que apenas loucura. Eu acredito que, em todas as vidas, há raros momentos em que percebemos aquele Outro que está em toda a nossa volta. Durante a maior parte do tempo, ficamos trancados, solitários e cegos no mundo, como as aves no ovo. Mas, de vez em quando, conseguimos quebrar a casca para dar uma espiada lá fora. Os abençoados têm muitos desses momentos, e os ímpios não têm nenhum. Mas, quando os temos quando percebemos o que é verdadeiramente real, muito mais real do que o pesadelo em que vivemos -, tudo fica suportável. E eu acredito que, se conseguirmos achar alguém que crê como nós, alguém que forceja contra a casca que nos prende... Bem, aí os dois, juntos, conseguirão quebrar a casca por inteiro. E isso é o máximo a que podemos aspirar neste mundo." Tremi por dentro. Seria a guerra monstruosa em que eu me vira preso naquele último ano um sonho falso, uma casca que me envolvia? Teriam os ingleses sabido como quebrar a casca daquele ovo? "Não sei se já tive um único momento assim. Isso me torna ímpio?"

"Os ímpios nunca reconhecerão sê-lo, nem mesmo para si mesmos." A mão de Miriam apalpou meu queixo, com a barba de vários dias. Seus olhos claros eram como o abismo junto ao recife de Jafa. "Mas, quando este momento chegar, precisarás aproveitá-lo, para deixar a luz entrar." E então ela me beijou, desta vez um beijo pleno. Seu hálito estava quente, e o corpo se comprimiu contra o meu. Os seios se espremeram contra meu peito, e ela tremia. Eu neste momento me apaixonei, não apenas por Miriam, mas por todo o mundo. Será que isso parece insano? Pelo mais fugaz dos momentos, senti-me ligado a todas as outras almas atormentadas de nosso mundo louco, com um estranho sentimento de comunhão que me encheu de pesar e amor. Retribuí o beijo, agarrando-me a ela. Eu estava finalmente esquecendo a dor de não ter Astiza, perdida havia tanto. "Guardei os teus anjos dourados, Ethan", murmurou Miriam, puxando uma algibeira de veludo que trazia num cordão entre os seios. "Aqui estão." "Fica com eles. É um presente." Que utilidade teriam para mim? E então se ouviu um estrondo, cuspindo argamassa, e a torre inteira estremeceu como se um gigante a sacudisse para que fôssemos jogados para fora. Por uns instantes, temi que a construção fosse desmoronar, mas aos poucos ela parou de oscilar e acabou se assentando, com o piso ligeiramente inclinado. Soaram clarins. "Explodiram uma mina! Eles estão vindo!"

Era hora de testar a corrente. sem chapéu. O fosso virou entulho. "Aquela vossa diabrura está pronta?" Phélippeaux apontou para fora. mas mal se atingiu a base da muralha . Eu me inclinei para fora. parecia tratar-se de uma brigada inteira. "Fica aqui"." Ele se impulsionou para voltar ao parapeito e me agarrou pelo braço. balançando enquanto os soldados avançavam. Quando eles se aglomerarem.não vejo rachaduras até em cima. contou-me." Voltei-me para Smith. . "Os sapadores cavaram um túnel debaixo da torre e o encheram de pólvora". disse eu a Miriam. "Tentarei ver o que está acontecendo. "Acho que erraram os cálculos. "Bonaparte está decidido. "Juntai vossos melhores homens na brecha". disse eu a Phélippeaux. que estava . uma coluna de tropas vinha a passo rápido junto ao aqueduto. As escadas eram agora mais compridas." Em seguida. "Vou deter os franceses com minha corrente. inclinado sobre a beira do parapeito e indiferente à sucessão de balas disparadas pelos atiradores franceses. corri para o alto da torre. Havia uma grande fenda na base da torre e uma nova passarela de entulho no fosso. Desta vez. fui perscrutar a névoa de fumaça e poeira. porém.14 Por uma portinhola. atirai neles com tudo o que temos lá embaixo e aqui em cima. Phélippeaux já estava lá." Assim como antes.

"Agora. de quando em quando destruindo ou fazendo tombar um canhão de campanha ou uma carroça de pólvora. e o furor da batalha era de tirar o fôlego. eu para meu novo companheiro. e eu os faço soltar faísca. chefe. agora! Vem para a nossa sala e gira a manivela com toda a força de que for capaz! Eles já estão vindo. ele para a brecha. pedaços dos escombros eram atirados para o ar. "Sir Sidney. perderei força elétrica. obrigando-nos a berrar por conta dos estrondos. "Farei cair sobre eles o fogo de Zeus. preparai vossas bombas!" Ele arfava. havia estrépito e nuvens de poeira. e eles quebrarão o meu aparato. e a nossa bateria de garrafas precisa estar totalmente carregada!" "Tu baixas a corrente." "Já os teremos liquidado até então." "Não hesiteis. Quando os projéteis caíam na cidade. mandando-os ficarem agachados até a hora de baixar a corrente. Desde a explosão da mina. Nossos próprios projéteis de artilharia causavam grandes jorros de areia entre as posições francesas. Disparavam-se canhões em toda a parte. Ned.ofegante após a rápida subida." Phélippeaux e eu saímos correndo escada abaixo. Às vezes se avistavam as balas da artilharia atravessarem o céu acima de nós. . Em algum momento. e. carregando as escadas como lanças no rumo do fosso. A vanguarda dos granadeiros franceses começava a correr. quando elas acertavam." Coloquei alguns fuzileiros em cada um dos cabrestantes. irrompera um duelo de artilharia em larga escala.

como se fosse um improvável cordão para coibir a entrada. "Baixai a corrente!" Em ambas as extremidades. Os franceses certamente pensaram que tínhamos enlouquecido. Quando chegou à brecha. a passos largos. eu os fiz parar. fazendo o aparato zumbir como colméia. e os parapeitos já ficavam escorregadios por causa do sangue. chefe!" "Esperemos até eles chegarem à corrente. entre seus soldados agachados ou estirados no chão. os fuzileiros começaram a soltar os cabos dos cabrestantes. apesar do fogo . "Pronto. com a corrente atravessada no buraco da torre. Homens berravam ou abriam a boca num esgar ao ser atingidos."Agora. A corrente suspensa. alheio ao fogo inimigo. acionava freneticamente a manivela. agora!". Metal rangia. e retribuíamos o cumprimento com metralha de canhão. caminhando para lá e para cá. foi raspando e deslizando pela face da torre na direção da base." "Eles vêm vindo". Djezzar apareceu. O disco de vidro girava como uma roda de carroça a galope. Correndo furiosamente. bradei. disse Miriam. espiando por uma seteira. Ned. a torre continua de pé!" Desci com toda pressa a escada da torre. no alto da muralha. ainda usando a velha malha de aço tal qual um sarraceno ensandecido. "Atirai. parecendo uma guirlanda. sem camisa e com o tronco reluzindo de suor. Companhias inteiras deles estavam disparando salvas de mosquete contra nossas cabeças.vede. até a sala onde estavam meus companheiros. atirai! Eles se darão por vencidos quando perceberem que não vamos fugir! A mina não funcionou .

ela estava mais para uma ajuda na escalada. faíscas. e a bandeira caiu. como vespas num fio de melaço. Longe de ser uma barreira.arrasador que lhes dizimava as fileiras. "Vamos! Agora!". "Reza a Franklin". Alguns não conseguiram soltar-se. Os atacantes alcançaram minha guirlanda de ferro e a agarraram." "Eu pus todo o meu muque nestas garrafas". e seguiu-se um estrondo quando nossos homens na base da torre dispararam uma salva de mosquete e pistola. arfante. Outros atacantes passaram arduamente sobre esses corpos. à medida que os franceses esticavam os braços para trás para alçar seus outros camaradas. disse ele. Num átimo. "Está quase na hora. atirando para dentro da brecha.um berro. Houve um clarão e um estalo. gritou Miriam. Escutei o baque já familiar de quando o chumbo atingia carne. A vanguarda dos atacantes oscilou para trás. Empurrei uma chave de madeira. a corrente estava apinhada de soldados. mais os grunhidos e berros de homens feridos. os granadeiros da dianteira (um deles carregando o pendão tricolor) arremeteram-se através da passarela de entulho que enchera pela metade o fosso e começaram a subir com dificuldade para o buraco que a mina abrira. gritando enquanto . Ned. murmurei. O efeito foi instantâneo . e a bandeira foi de novo levantada. e os granadeiros voaram da corrente como se houvessem levado coices. que fez a haste de cobre da bateria ir de encontro à pequena corrente que estava ligada à grande. Ouvi Phélippeaux gritar uma ordem.

" Dois andares abaixo.queimavam e depois pendendo tremulamente da corrente. mas agora zanzavam sem saber o que fazer. Homens a tocavam com as baionetas e retrocediam. mais eram derrubados a tiros. eu me vi no pleno furor da batalha. Na mesma hora. instalou-se a confusão. Phélippeaux e seu bando de turcos e britânicos. apinhavam-se na base da torre. de baionetas caladas. Em algum momento. notei uma ausência e olhei desesperadamente em volta. mesmo com mais tropas afluindo para o fosso atrás deles. "Continua girando a manivela!" Ele estremeceu. bradavam os granadeiros. "Não! Preciso dela aqui!" A brecha devia estar parecendo um abatedouro. e mais atacantes tombaram. disparando e esgrimindo pela brecha. Soldados tentavam levantá-la ou puxá-la e caíam como bois atordoados. Mais disparos foram feitos de nossa torre. gritou Phélippeaux lá de baixo. O aparato ia funcionando. "Aquela corrente tem um calor esquisito!". "Certo. respondeu Ned. enquanto os granadeiros franceses . mas quanto tempo a carga elétrica poderia se manter? Ned respirava ruidosa e dificultosamente. os atacantes perceberiam como a corrente estava suspensa e a arrebentariam. "Onde está Miriam?" "Foi levar pólvora para Phélippeaux lá embaixo". sentindo o esforço. À medida que se aglomeravam. Corri para a porta. Era pavoroso. De súbito. com os músculos geleificados. Senti o cheiro de sua carne. "Fogo!".

onde ela tentava arrastar um dos feridos para que não fosse liquidado pelas baionetas francesas. Arremeti atrás de Miriam. Phélippeaux dava golpes e mais golpes de espada. "Miriam. e Miriam ia sendo arrastada para longe de nós . como se pretendesse atirá-la em meu dispositivo. Mais tropas francesas chegaram impetuosamente. Eu sabia que a carga elétrica iria se esgotar. O vestido estava rasgado e ensangüentado. De onde eu estava. Continua girando. pedi numa prece sussurrada. . emaranhadíssimo. tocaram a corrente. Miriam fritaria! "Ned.tentavam passar por baixo ou por cima da corrente. "Puxa a haste de cobre para que não encoste mais na corrente!" Mas não havia como ele me ouvir. rubras de sangue. um medonho buraco de luz e fumaça. Ned. continua girando. preciso de ti lá em cima!" Ela assentiu. berraram e foram arremessadas para trás. Atravessou o peito de um tenente e talhou a cabeça de outro. errando por pouco o rosto de Phélippeaux. a brecha parecia uma caverna escancarada para todo o exército francês. berrei. as mãos. Ambos os lados já haviam arremessado granadas. os mortos se empilhavam. pára de girar a manivela!". e pelo menos metade dos nossos estava morta ou ferida.um soldado rastejara por baixo e a pegara pelas pernas. "Malditos republicanos!" Uma pistola disparou. o cabelo. Entre os franceses. Ouviu-se um grito de mulher. Avistei Miriam bem lá na frente. Ele começou a carregá-la de volta consigo.

Miriam caíra com a corrente. Uma imensa bomba. e os franceses se lançaram para a frente. recebi um golpe. Mas nada aconteceu. olhando-a à cata da fonte daqueles misteriosos poderes. elaborada com barris de pólvora. Homens bufavam e tombavam. Uma dúzia de homens a arrastou para longe. Peguei um mosquete caído e o brandi com fúria. Tentei rastejar em meio ao assalto dos granadeiros. E então veio outro estrondo. mas fui simplesmente pisoteado. segurei o captor de Miriam. até que a arma se quebrou na parte mais estreita da coronha. além de gritos em pelo menos três línguas. e ela caiu. O metal se descarregara. com ela unhando os olhos do homem. Preparei-me para o pior. Cortaram a corrente nas pontas. fora enfim jogada do alto da torre por Sidney Smith. e Miriam foi puxada de mim e atirada contra a corrente. Agarrei a bainha de seu vestido enquanto as botas avançavam e tropeçavam em nós. Tropeçamos nos escombros enquanto éramos agarrados por mãos de ambos os lados em luta. Ouvi disparos. e nós três nos debatemos. desta vez ainda mais ruidoso que a mina. Então.Foi uma investida contra os franceses que tinham rastejado por baixo da corrente. pois não se limitara ao subsolo. na expectativa de que minha bruxaria matasse quem eu amava. Por fim. derrubando homens como se fossem pinos de boliche. Ela caiu sobre a massa de franceses que haviam se juntado diante da corrente e . Houve uma grande aclamação.

tão macio e tão liso por baixo da fuligem! O frescor acabou por fazer que ela se recobrasse. "Miriam! Estás viva?" Ela jazia ali. Piscou. E então mãos vieram nos arrastar para trás. . Phélippeaux estava dizendo alguma coisa. não morta! Molhei um lenço na água. que eu não conseguia ouvir. Sim . Abracei-me ao entulho quando o mundo se dissolveu em chamas e fumo. flácida e calada. atravessando a torre. Eu me voltei. Cinzas caíam como se tivessem passado por uma peneira. dando um grito que tampouco consegui ouvir. Os homens que antes nos pisoteavam se transformaram num escudo sanguinolento. Fiquei momentaneamente surdo.explodiu. pernas e cabeças voaram tal qual palha miúda e quebrada. Meus ouvidos zumbiam. tendo sofrido baixas muito mais pesadas que antes. Mais uma vez. O ar do jardim estava fumarento. com força redobrada pelo fosso e pela torre. Lá atrás. e então se ergueu. que a confinaram. Eu a carreguei dos destroços para os jardins do paxá. tiritando um pouco. que estava rósea de sangue. mas a audição começava a melhorar. pois seus corpos caíram sobre nós como vigas. os franceses batiam em retirada.um murmúrio de trêmula respiração! Miriam estava inconsciente. e limpei aquele rosto . e apontando. Phélippeaux berrava ordens a sapadores e operários para que iniciassem os reparos na brecha. Braços. Deitei minha colaboradora no banco junto a uma fonte e levei o ouvido em seus lábios.

mudo. irmão." Eu sabia que. e houve a tensão entre dois homens que queriam a mesma mulher por motivos diferentes. o que aconteceu?!". conduzido por um Ned aflito. Ethan!" "Talvez eles não voltem mais. constrangido. "Estou parecendo um açougueiro. Eles se retiraram. perguntou o ferreiro. mas queria ficar longe tanto de Jericó e sua forja quanto da muralha e seus combates." Miriam pôs os braços ao redor de meu pescoço e se agarrou a mim. Nisto. "Funcionou. cingindo meu ombro com o braço para apoiar-se. "É tão horrível. e ela se recostou em mim." "Estás linda. Ned ficou de lado. "Os homens precisavam de munição." Ela balançou negativamente a cabeça. Linda e coberta de sangue. "Tu me disseste que Bonaparte é implacável." "Eu estou bem. Eu não sabia ao certo para onde levá-la. "Vamos entrar. seria necessário mais do que uma corrente eletrificada." Eu a ajudei a subir. Miriam olhou para si mesma. e não participar. apareceu Jericó. Comecei a nos levar na direção da mesquita. "Disseste que ela viria apenas ajudar na tua feitiçaria. "O que aconteceu?" Ela agora tremia." E aí se fez silêncio." "Eu poderia ter-te perdido." O tom dele era acusador. . Ela se portou como uma amazona.abruptamente. Jericó. "Meu Deus. como se aquilo fosse culpa dele." Ela intercedeu. "Miriam foi apanhada na luta pela brecha. para derrotar Napoleão." Era verdade.

fui procurá-lo. respondi. efêndi!" "Mas com certeza. voltemos para a forja". "Nenhuma bala de canhão poderá nos atingir lá. mas insistente. E assim fomos. "Estou com Ethan."Pois bem." "Todos os quartos estão ocupados. eu me esquecera dele. "Será que poderíamos dividir este quarto contigo?" . ela recostando-se em mim. "Pagando um precinho. andrajosos. como se eu soubesse." "Não te quero com ela. entretanto. mas." O tom de Miriam era suave. E é abafada e suja. precisamos de um lugar para descansar. irmão. "para onde ela possa descansar." A voz do ferreiro era categórica. sujos. agora. Tua forja é tão barulhenta quanto uma fábrica. "Vamos". o ferreiro lá no jardim. alojara-se no Khan elOmdan (em árabe.cheirando a fumaça. a artilharia ressoava como tambores distantes. severo." "Eu vou com Ethan. parecíamos dois refugiados . Jericó." "Vai? Aonde?" Ambos olharam para mim. a Estalagem dos Pilares). com os punhos fechando-se no nada. Na empolgação do trabalho na corrente. sempre se acha alguma coisa. quando aparecemos no cômodo de Mohammad." Dei um sorriso irônico. frustrado. "Mohammad. em vez de partir de barco e nos deixar para Napoleão. Eu pusera um capote em Miriam. Atrás de nós. Meu amigo Mohammad. disse Jericó.

e um jovem médico está usando a casa dele para dormir. com abóbada de alvenaria . A fuga do proprietário deixara um ar de desolação. e a água é pouca. Um mercador fugiu da cidade. O andar superior tinha um quarto de banho.. passei-lhe a bolsa. "Esta senhora precisa descansar. Não é lugar para uma senhora. não mereceis coisa melhor . de Tiro. com os postigos fechados e a mobília coberta e empurrada contra a parede.Ele balançou negativamente a cabeça. efêndi." "Não é necessário explicar. mas já encovados pela exaustão. Vós. Só volto amanhã." Estávamos a uma distância suficiente das muralhas para que o som dos canhões fosse abafado. "Há um banho lá em cima. Descansai." A casa estava às escuras. "Vinde. sim.mas ela. mais o que ganhaste no duelo." Mohammad estendeu a mão. chamado Zawani. Hesitei. Ele me alugou as chaves. e Mohammad sumiu.." Era um homem bem-apessoado." Fomos deixados a sós. Trocamos um aperto de mão. e ele olhou para Miriam com curiosidade. "Vamos lá . Era um cristão levantino. e mal se podia dizer que o médico estava aboletado ali. mas raramente aparece por lá. Dai-me o resto do dinheiro que sir Sidney pagou pela medalha. Sou médico. Para que serve o dinheiro se não o usamos?" Assim. vazia. e minha bolsa. Meia hora depois. de olhos gentis.sabeis que não pretendo vos lograr. "Usarei o dinheiro para comprar bandagens e ervas medicinais. ele estava de volta. "As paredes são finas.

Ela chorou na primeira vez e se agarrou ardentemente a mim. Ethan". A luz entrava em feixes multicoloridos. Miriam subiu primeiro e deitou de costas. numa cama rebuscadamente entalhada. gritando na segunda. Será que eu ainda me lembrava de como se fazia? Parecia já ter se passado um milênio desde a última vez.uma facada no coração. com gaveteiro e dossel. "Preparei um banho. de maneira que eu pudesse vê-la à luz pálida. de mamilos rosados. O colchão do mercador chegava à altura de minha cintura. mas perfeitos. E eu a possuí. e esfregou a nós dois para tirar o encardido do combate. Intrometeu-se então uma estranha e súbita lembrança de Astiza . Eu também me agarrei a ela. tremendo e arfando no final. O ventre descia para pêlos claros." Fiz menção de sair. com os olhos umedecendo quando pensei primeiro em . O quarto estava cheio de vapor quando a acordei. de modo que pus as mãos à obra enquanto Miriam cochilava. Não há espetáculo mais lindo que uma mulher que nos quer. sobre uma pequena piscina. mas ela me deteve e nos despiu. virginal. atravessada por grossas vidraças coloridas. até que ela voltou a ter cor de alabastro. Era uma Madona.branca. Sua doçura nos engolfa como o abraço do mar cálido. Havia lenha para aquecer a água. Seus seios eram pequenos. vagarosa e delicadamente. misteriosa e inexplorada. firmes. A topografia do corpo de Miriam era uma serra nevada. Mas então Miriam disse: "Este é um daqueles momentos de que te falei. como um arcoíris prismado.

Os franceses usaram uma flecha para passar isto por sobre a muralha. depois em Napoleão. Virei a cabeça para que Miriam não visse lágrimas nem preocupações. Por volta de meia-noite. "O que fazes aqui?"... o nome do destinatário fora escrito com bela caligrafia numa etiqueta: "Ethan . resmunguei. sussurrei de péssimo humor. E. efêndi." "Flecha? Por Isaac Newton. "Será que não se pode ter um mínimo de privacidade?" Ele levou o dedo aos lábios e me fez sinal para que o seguisse.". e adormecemos. eles matariam a todos nós. desci da cama. segurando um cobertor em volta de mim como se fosse uma toga. Agarrei uma pistola. O piso estava gelado. em que século estamos?!" Um pequeno pedaço de aniagem estava amarrado à flecha. Se conseguissem entrar em Acre. depois em Miriam e em quanto tempo levaria para que os franceses voltassem. Vosso nome está escrito aqui. Suspirando. "Mas que diabos?. A cidade parecia silenciosa. acordei ao me sacudirem. "Peço desculpas. "Agora?" Assentiu enfaticamente.Astiza. agora tão furiosos quanto haviam se mostrado em Jafa. de fato. mas então vi que era Mohammad. com os canhões descansando. mas sir Sidney e Phélippeaux disseram que a situação não podia esperar. Fui atrás dele até outro cômodo naquele andar.

exatamente. insistiu Mohammad. A última vez que eu vira aquela jóia. Fiquei atordoado. "Conheci a mulher que usava o anel. "Esse anel significa alguma coisa para vós?" "É só isto? Não há outra mensagem?" Monge era indiscutivelmente Gaspard Monge. A ele fora amarrada uma mensagem que dizia apenas: "Ela precisa dos anjos. o matemático francês que eu reencontrara em Jafa." Astiza estava viva! "E por qual razão. mas o que nossos inimigos poderiam estar me enviando que fosse tão pequeno? Desembrulhei o que estava envolto na aniagem.Gage".15 – Mohammad me observava atentamente. Franklin teria admirado aquela eficiência postal. Fiz que o conteúdo rolasse para a palma de minha mão. Era um anel de rubi. "Como é que eles sabem que estou aqui?" "A corrente eletrificada é como um estandarte a anunciar vossa presença. Monge"." Deveras. "E vossa surpresa não é apenas do tamanho da pedra. pesadamente. o exército francês mandaria assim o anel dela?" . é?". Imagino que a província inteira esteja falando dela. com a pedra do tamanho de uma cereja. . ela estava no dedo de Astiza. Eu me deixei sentar.

quando enfim pude perscrutar as águas cobertas pelos reflexos ofuscantes do sol. Astiza cortou a corda e despencou com Silano. "Eles temem a vós e vossa magia elétrica. até que Astiza tentou escalar a corda do balão desembestado de Conte para chegar à cesta. por qual razão? Virei o anel nos dedos. Era como se Astiza tivesse sumido da face da Terra. não acho que seja armadilha. E que anjos eram aqueles? Eram os dois serafins que encontráramos. que dizia que aquelas riquezas estavam amaldiçoadas. sob . Por isso. Apesar dos protestos de Astiza. não havia mais nada para ver. mas não consegui. recordando sua origem. Depois. "Querem que eu vá lá. em vez de arrastar-me para baixo até ficarmos ao alcance dos soldados franceses." "Então é armadilha!". aos berros. Eu teria de pegá-los de volta com Miriam.É. Naquele momento. nós nos esquecemos brevemente dele. e. no Nilo. As tropas francesas dispararam uma salva de mosquete contra mim. um desesperado conde Silano se agarrava aos calcanhares de Astiza." "Não. Ela lembrou a maldição e rogou que eu lhe tirasse o anel do dedo. Até esse momento em Acre. O balão chispou para cima de modo tão abrupto e violento que não vi como os dois chegaram ao rio. disse meu companheiro. eu insistira em que ela o pegasse no tesouro subterrâneo que descobríramos sob a Grande Pirâmide." Eu não me convencia da lisonjeira idéia de que me considerassem um inimigo tão temível que precisariam atrair-me para fora das muralhas. onde eu estava.

completei. de que não tinham desistido de nossa busca em comum pelo Livro de Tot. era a perspectiva de rever Astiza. preciso de ajuda. "Maior tesouro?" ." Eu me pus a pensar..falso pretexto. Uma vez que eu tenha Astiza e o que buscamos. Mohammad. sem emoção. "Quero ajudar os franceses a achar o que procuramos .. não é possível que estejais pensando em sair destas muralhas!" Olhei de relance para onde Miriam dormia." ".e depois furtar isso a eles. e descobriram alguma coisa em que posso ser útil. "Por causa de uma mulher?! Tendes uma bem aqui!" "Vou porque por aí há algo que está esperando para ser redescoberto e porque a maneira pela qual esse algo será usado influenciará os destinos do mundo para melhor ou para pior.. Para tanto. precisarei fugir pela Palestina. "Eu preciso. por causa da eletricidade. Alguém com conhecimento local. apenas para que pudessem atirar em mim. O meu palpite é que isso diga respeito ao que eu estava procurando em Jerusalém. E sabem que a única coisa que me faria voltar para eles são notícias dessa mulher. isto sim.. "Eles simplesmente sabem que estou vivo. efêndi! Enfiar-me agora entre os demônios francos..pode render-te parte do maior tesouro do mundo".." Mohammad estava atônito. Se havia uma maneira de tornarem a conseguir minha atenção. Eu desconfiava." "Efêndi. "Mal consegui escapar de Jafa." Ele empalideceu.

e não tinha a mínima idéia de como explicar-me sem parecer canalha também."Nada está garantido. Eu acabara de dormir com a mulher mais doce que já conheci e estava pretendendo pegar meus serafins e sair de fininho para descobrir a verdade sobre Astiza sem dizer nenhuma palavra à coitada. é claro. "Nesse caso. E as despesas com cavalos e camelos. "E qual seria a minha parte?" "Bem. Comida." Ele fez uma reverência. Não que eu estivesse sendo desleal para com Miriam. não achas?" "Para conduzir-vos pelos ermos da Palestina?! Um quinto. havia. no mínimo!" "Pretendo solicitar também a ajuda de outrem. só que de maneiras diferentes. "Primeiro vamos ver se conseguimos chegar a Monge sem levarmos nenhum tiro . claro. Mais uma pequena gratificação se obtivermos auxílio de meus primos. um décimo será absolutamente razoável. se esse é mesmo o maior dos tesouros.está bem?" Ao iniciarmos nosso urgente e animado planejamento. Nós nos . Astiza se tornara a essência do Egito. cinco por centro parece justo." Suspirei. Senti-me um canalha. Sete por cento é o máximo que tenho condições de oferecer. Uma ninharia." Mohammad ponderou a questão. dos mistérios de antanho. uma questão pendente. Armas de fogo. É que eu estava sendo leal à memória da primeira mulher e amava ambas. uma beldade cuja busca pela sabedoria antiga era agora também minha. irmãos e tios.

dissera Benjamin Franklin. O velho Ben freqüentava bastante as senhoras. perguntou Mohammad. Não fôramos apenas amantes . mas estava um pouquinho embaraçoso explicar isso a Miriam. "Devemos acordar vossa amiga?". garantira-me Sidney Smith. As mulheres podem ficar ranzinzas com tais coisas. "É tão cômodo sermos criaturas racionais. Astiza salvara minha vida mais de uma vez e dera propósito à minha natureza vazia. Era perfeitamente compreensível sair procurando por Astiza .nós nos transformamos em parceiros numa busca e quase morremos na Grande Pirâmide." Quando pedi a Big Ned que nos acompanhasse.conhecêramos quando ela ajudou na tentativa de me matar.. ou o meu mais fiel dos servidores. ele se mostrou tão difícil de convencer quanto um cão cujo dono chamasse para passear. é mesmo formidável como essas coisas se resolvem. com o próprio Napoleão vindo a comandar a pequena investida que a capturou. Ned era um desses homens que não conhecem meio-termo era ou o meu mais implacável dos inimigos. Convencera-se de que eu não só era um feiticeiro de raro poder. "Ah. não.o anel acendera memórias tal qual fogo num rastilho —. E então o quê? Bem. eu sairia para descobrir o significado do anel de Astiza. enquanto a esposa se afligia lá na Filadélfia. mas . pois isso possibilita que façamos tudo o que de antemão já pretendíamos fazer".. resgatá-la e então. Depois. Assim.

" E. Ethan Gage. por um momento. ordenei. Smith. Não. Defende a cidade e Miriam. procurando assim enganar a consciência. Talvez tenhas mesmo estofo. "Não posso deixar-te ir sozinho.Mohammad e Ned virão comigo." Não se pode tentar um homem com a riqueza e depois deixar de fazer que ele anseie por essa perspectiva. mas esse interesse era só porque aquela mudança de rumo talvez me mantivesse longe da irmã. desistira havia muito de todas as idéias de tesouro. se estiver viva. Ficou interessado quando o acordei para explicar que o anel de rubi pertencera a Astiza. Jericó. que eu ainda te darei uma parte quando acharmos o tesouro. ainda que dúbia. Ele olhou para mim com um respeito que antes não tinha. Ele pareceu tão satisfeito que. antes que pudéssemos nos estranhar por causa daquele . "Atravessar as linhas francesas é coisa arriscada. ao contrário. precisas de alguém sensato. Mas então Jericó piscou e balançou negativamente a cabeça." "Um pagão e um pateta? Será uma disputa para ver qual dos três causará um desastre primeiro. "Portanto cuida de Miriam enquanto eu estiver fora". Jericó.também estava apenas esperando o momento certo para sair distribuindo a riqueza de Salomão." "E esse alguém será Astiza." "Não estarei sozinho . Phélippeaux e o resto da guarnição precisam mais de ti do que eu. fiquei imaginando se não teria sido ele a enviar-me o anel." "Tua irmã também pensa assim.

. "Ele está ajudando no hospital. Acre não era mais que uma silhueta escura contra as estrelas. com o ar de superioridade dos savants. vivandeiros e outros paisanos e de todos os soldados que se fazem de doentes e não estão lá muito acostumados com o sacar das armas." Será que já havíamos ferido tantos franceses assim? O céu começava a clarear para leste quando achei as tendas do hospital. Descemos na praia de areia atrás do semicírculo das linhas francesas e nos esgueiramos para o acampamento deles pela retaguarda. e por isso fomos no barco em que Mohammad fugira de Jafa.assunto. A fosforescência na esteira do barco era prateada." O soldado apontou para lá. "Trago mensagem para Gaspard Monge de seus colegas acadêmicos no Cairo". cruzando os sulcos de carroça e as lavouras pisoteadas que a guerra produz. "Visitai-o por vossa conta e risco. costuradas umas às outras como uma imensa lona de circo. Mandei meus companheiros esperarem numa moita à beira de um riacho de águas tépidas e segui a passos largos e ritmados. parti com Mohammad e Ned. esses homens que têm opiniões sobre tudo e não têm realizações em nada. já a incandescência das fogueiras inimigas produzia uma aurora atrás das trincheiras. para que os franceses tivessem tão poucos alvos quanto possível. que é o lugar dos carroceiros. É mais fácil do que se poderia imaginar ir adentrando a pé num exército pela retaguarda. Seríamos pegos no fogo cruzado se simplesmente saíssemos andando das muralhas. disse eu a uma sentinela.

piscando. As doenças são a sombra dos exércitos. gemendo baixinho. Olhei rapidamente em volta. e recuei. seu rosto me lembrou um cão velho e sábio. Gaspard. quando levantei-o lençol. e mais magro. Soldados. Não admirava que houvesse atacado tão impetuosamente. mas a confirmação despertou um pavor secular. Eles pareciam estar ali em número excessivo para as baixas que infligíramos. Hesitei em acordá-lo. "Primeiro pensamos que tinhas morrido. E se agora ela atravessasse as muralhas? Por outro lado. que tremia espasmodicamente. depois imaginamos que fosses o eletricista louco . Inclineime para olhar um deles. suando. apesar do sol. A peste. assustado: havia pústulas no rosto e. um cientista e aventureiro de meia-idade que a expedição ia transformando em idoso. desgrenhado e exausto. um inchaço funesto na virilha. Monge estava se erguendo o suficiente para sentar. a doença impunha a Napoleão prazos apertados. Ethan?" Eu me voltei." Ele sorriu. Retrocedi às pressas. Estava pálido. raramente estando limitada a só um dos lados em conflito. "És tu. jaziam em fileiras paralelas que sumiam na penumbra. Já corriam rumores de que a coisa vinha se agravando. Tal qual já ocorrera antes.Monge estava dormindo num catre e parecia ele próprio doente. e a peste é a subalterna dos cercos. "Venho mais uma vez consultar-te. encovado pela enfermidade. Ele precisava vencer antes que a peste lhe dizimasse o exército.

Talvez sejas mesmo um mago . por fim. aqui no fim do mundo!" "O centro do mundo." "Junto com a guilhotina." Monge franziu o cenho para mim. Todo exército acaba marchando pela Palestina. "Belos filósofos somos nós. diriam os judeus. sem nunca saber de que lado está.de Acre. na escola. Nosso exército carreia a liberdade." "Gaspard." "Phélippeaux está do lado errado da história. a encruzilhada de três continentes." "Mas por quê?" . Gaspard.ou o homem mais confuso de ambos os exércitos. caindo no Nilo. "Astiza o usava quando a vi pela última vez. não ele. e agora te materializas ao meu chamado. ele riu. Depois. assim como todos os homens que se encontram atrás daquelas muralhas." "Com um paxá tirânico. És mais racional do que demonstras ser. onde conseguiste este anel?" Estendi a jóia. cuja pedra parecia uma bolha de sangue à luz pálida. A revolução vai refazendo o homem após séculos de superstição e tirania. um inglês lunático e um monarquista francês invejoso? Bobagem! Não acredito." "É." "Bonaparte ordenou que se enviasse aquela mensagem na flecha." "Eu estava bem contente do outro lado. o invejoso era Bonaparte. os cantos de sua boca se contraíram. os massacres e a peste. e." "Phélippeaux diz que. O racionalismo sempre triunfará sobre a superstição. decepcionado com minha intransigência.

Ela e Silano foram para o monte Nebo. e ela enviou o anel. mas tive notícias.. Sabes a que ela se refere?" Mais uma vez. saber que. de modo que sentiu o grosso do impacto e atenuou a queda dela." "O que eu quero dizer é que ela cuida do conde. Ah. Astiza não morreu. "Talvez. Astiza me instruiu a perguntar por uns anjos. Depois correram os boatos de que não morreras." "Monte o quê?" . "Só podes estar brincando... Disseram-me que Astiza se recuperou melhor do que ele. "Agora Astiza se desvela por ele". Ele quebrou o quadril e mancará pelo resto da vida. Astiza não desistiu dessa curiosa busca em que todos vós pareceis estar. para começo de conversa. não sei por que Napoleão não quis me escutar . eu sentia os serafins comprimidos contra a pele." As batidas de meu coração eram como tambores em meus ouvidos. Desconfio que Silano bateu na água primeiro. Aquilo foi uma bofetada. continuou Monge."Bem. por um mês.. Os dois ficaram furiosos ao saber que foste condenado em Jafa . Tu sabes algo de que eles precisam. Esteve em coma. com Astiza por cima. Eu preciso vê-la." Meu coração disparou. sob os cuidados do conde Silano.e horrorizados com a notícia de que te executaram. "E como ela está?" "Não a vi. Vimos o teu truque com a eletricidade.aquilo foi obra do palhaço do Najac." "Astiza não está aqui.

por que eles estão assim tão interessados em Moisés?" Monge me observava atentamente." "Não há lugar seguro na Palestina . com sinceridade. Mas vais . Ethan Gage. respondi. Nosso amigo Conte concebeu complexos carroções para trazer mais artilharia de sítio do Egito . "E o que sabes desses teus anjos que deixa Astiza e Silano tão ansiosos por achar-te quanto tu por achá-los?" "Disso faço menos idéia ainda". do outro lado do Jordão. Gage. Ah. "O que acontece no monte Nebo?" Monge deu de ombros.esta é uma terra pestilenta. não estavam à par de tudo. menti. Se este estava esperando canhões pesados. "Vieste sozinho?" "Tenho comigo alguns amigos. Agora.já que os pérfidos britânicos capturaram nossos canhões no mar -. mas tem sido um combate contínuo para fazê-los chegar aqui. "Se te confidenciasses com teus colegas savants. que me aguardam em lugar seguro. Lá onde Moisés enfim avistou a Terra Prometida e onde ele morreu antes de poder adentrá-la."A leste de Jerusalém." Monge se referia aos combatentes muçulmanos que fustigavam as linhas de suprimento de Napoleão. e provavelmente Bonaparte. Essa gente não sabe reconhecer que perdeu. talvez pudéssemos determinar teu futuro com mais exatidão. o tempo era curto. O que Silano e Astiza estariam tramando? "Nem faço idéia". então ele.

Eu estava simplesmente realizando experimentos com eletricidade quando mandaste este anel por cima das muralhas. mas carregava o ônus das certezas que vêm com o excesso de instrução (a correlação entre escolaridade e bom senso é extremamente limitada). chamarao de tolo." ." Precisei lembrar a mim mesmo de que nós dois éramos inimigos. É como aquela busca inútil por conta do triângulo de Pascal que estava inscrito no teu medalhão . Fiquei novamente admirado com sua habilidade para parecer maior do que era e com a maneira pela qual transmitia a sensação de sedutora energia. com suavidade. Era Bonaparte. Ele não era tolo. disse ele. Gage: o teu lugar é do lado da ciência e da razão .como um cavaleiro a seu corcel.aliás.pelo que te dá na telha e acabas metido em confusão. não?". "Não tenho nada para confidenciar." "Experimentos que mataram os meus homens. o tempo inteiro. Astiza. tu afinal te livraste desse brinquedo velho?" "Ah. Será que não dormia? Estava amarelo. agitado." A voz me fez ter um sobressalto. "Monge está certo. "Tentareis me fuzilar outra vez?" "Era isso o que o meu exército tentava fazer ontem.o lado da revolução. e seus olhos cinzentos se impunham friamente. quando Monge não podia ouvi-la. "E tu e a tua feitiçaria elétrica ajudaram para que levassem a melhor sobre nós. sim." Monge se convencera de que meu medalhão do Egito era uma fraude moderna. saindo das sombras! Ele parecia estar em toda a parte. tal qual fazia a tantos homens .

seguindo as recomendações do louco do Najac. não?" "E o que acontece?" "Os sonhos do herói são fadados ao fracasso depois que ele perde a visão em batalha. Ele diz a seus homens que precisa cobrir o rosto para que a radiância do Mádi não cegue aqueles que o contemplem. é claro . convida-os a um banquete e envenena a todos. eu reconheço.e de passionalidade. quando olho para cima. e a soberba não deixa que ele se renda. Era sobre um fanático muçulmano do século viu que se acha o Mádi e vai à guerra contra o califa. esconde o rosto com uma máscara de prata reluzente. e tenho interesse não só pela ciência. A morbidez da adolescência. Todavia." . Acaso sabias que escrevi ficção quando era mocinho? Eu sonhava em vê-la publicada. "Histórias de amor ou de guerra?" "De guerra. Mas o herói não tem como vencer." Fiquei curioso. contra a vontade. mas também pela literatura. Acreditam nele. vos vejo a ler romances baratos!" "Os meus romances não são baratos."Depois que. Uma das minhas favoritas se chamava O profeta mascarado. Ele então arrasta os corpos para a vala. ordena aos seguidores que cavem uma gigantesca vala para destruir a investida inimiga. Depois. Melodramático. põe fogo aos cadáveres e lança-se também às chamas. procurastes me fuzilar ou afogar em jafa. para manter em segredo essa desgraça. Lá estava eu. encarando a eternidade. O cenário é profético. e. Assim.

não achas?" Suspirei." "Estou agora com uma visão mais clara do rumo que devo tomar. "Profético também.um traidor da própria pátria ." "Achas que a história era autobiográfica? Só que não sou cego. sois. Ethan Gage. Se deixei claro para os otomanos os riscos que a resistência acarreta. do lado da ciência que nunca devias ter abandonado.nesse sentido. era esse o desfecho. Eu poderia mandar fuzilar-te. fui amaldiçoado com a capacidade de enxergar bem demais. Tu te julgas diferente do conde Silano. De fato.Era essa a imaginação que agora atuava na Terra Santa? "Que mal vos pergunte. o que sempre acalma nossos ânimos. E uma coisa que estou vendo é que agora estás no teu devido lugar. Gage." "Melhor como a matança de Jafa?" "Momentos de crueldade podem salvar milhões. Não desisti de persuadir-te. "Pelo menos pareceis mais afável que da última vez que nos encontramos. mas os dois buscam o conhecimento .. tendo os três uma curiosidade de gato. o que pretendíeis dizer com essa história?" "'Vede os extremos a que a obsessão pela fama pode levar um homem!. americano." Ele sorriu. O mesmo vale para a mulher pela qual sois ambos atraídos. mas é mais saboroso deixar que os três resolvam vosso mistério. Ainda tenho esperanças de que reconstruamos o mundo para melhor. portanto idênticos.. general. foi para que esta guerra acabasse rápido.'. Não fossem fanáticos como Smith e Phélippeaux .

Agora. resmungou o homem.guardar-te é o castigo dele por não ter lidado mais inteligentemente contigo antes". para unir a ciência à política e à tecnologia militar. a quem eu mesmo tenho servido de enfermeiro nas doenças que lhe sobrevêm. "Estou cansado de ver-te zanzando em todas as direções. O doutor Monge é inquebrantável! Aprende com ele. Pierre?" "Eu o levarei até Silano". Vai. descobre o que puder com Silano e Astiza e toma uma decisão de cientista acerca do que fazer com isso." "Muito pelo contrário . retrucou Napoleão." "Mas eu preciso". parecendo tão desalinhado e homicida quanto da última vez em que nos víramos. haverás de entender que preciso designar uma escolta para acompanhar-te. disse Bonaparte. Eu não me esquecera das queimaduras e sovas. "É ou não é.. doutor Monge?" O matemático deu um leve sorriso. "Só podeis estar brincando. e nenhum sangue teria sido derramado.-. Não te deixes encurralar em Acre pela insensatez desses homens. Lembrate: sou membro do Institut de France.não é verdade. eles já teriam se rendido. .. Napoleão. Não preciso que ele me escolte. dado o teu estranho histórico." "E ninguém trabalhou mais pela França do que o nosso doutor Monge. Gage!. "Esse torturador não passa de um ladrão. Eu irei me sujeitar aos ditames da ciência . Creio que tendes interesse em ficar de olho um no outro." E das sombras surgiu Pierre Najac. "Ninguém fez mais do que tu.

" Napoleão estava confuso. e então esse bandido o roubou. "Atira tal qual um bacamarte. terás sua chance de matar-me . tanto quanto não conseguirias desistir de um joguinho de cartas promissor. arbitrou Napoleão. Najac te capturou.teu fuzil é presa de guerra. Depois que acharmos o que quer que estejamos procurando. Eu sabia que o fuzil atirava bem como o diabo. "Vais. de má vontade. Gage." "A precisão de uma arma depende do homem que a usa"." Bonaparte parecia estar se divertindo com aquilo. "E a minha machadinha. "O que achaste da luneta?" "Uma idéia estúpida. ou não vais de jeito nenhum. Eu a removi. Se estamos procurando um tesouro. "Não te preocupes. sim. Gage." "Eu te desarmei . Tu o farás pela mulher ." Najac cuspiu." Olhei para o que Najac estava carregando. "É perigoso deixar o ." Najac obedeceu. Ele é tua passagem para aquela mulher.assim como terei a minha de acabar contigo." Eu sabia que ele certamente estaria com ela. Devolve. quer não. acrescentou o biltre. "Dá a luneta a ele. "Com o meu fuzil." "A arma nem é tão boa"." "Pode esquecer!" "Não vou ajudar se não devolveres. "Teu fuzil?" "Eu ajudei a fazê-lo em Jerusalém." "É justo". eu preciso de luneta. e ele está certo .eras meu prisioneiro!" "E agora sou teu aliado. não terás.Ou vais com Najac. quer eu goste. repliquei.e o farás também porque não consegues desistir desse mistério." "Eu a ganhei de presente. não.

e Gage. mas entregou a machadinha. é ferramenta. Najac: escolta-me de uma distância da qual eu não precise sentir o teu fedor. "Mas. agora. nós dois vamos mesmo acertar as contas de uma vez por todas. mas ainda parecia tão grácil e liso quanto uma perna de donzela.podeis mirar juntos!" A brincadeira irritante me fez querer embaraçar o general. então talvez eu deva mandar-te de volta para o trabalho de polícia.americano armado". não de savants." "Entrega a ele." Meu fuzil já estava arranhado e marcado (Najac tinha com as armas o mesmo desleixo que com as roupas)." "Garanto que o farei de uma distância muito boa para o fuzil. "E tu pareces um ladrão brandindo o meu fuzil. Eu ansiava por ele. Gage. "Isso aí é instrumento de selvagens. Pareces um campônio carregando tal coisa por aí. "Apressar-te?" . "E imagino que desejais que eu me apresse?" Fiz um gesto em direção aos enfermos. "A machadinha não é arma." "Deveras. Najac tem o fuzil." "Tão logo descubramos esse maldito segredo." "As alianças raramente são tranqüilas". Se não consegues controlar o americano com uma dúzia de homens." Avaliei o peso gratificante da machadinha. a luneta . quando tudo o que ele tem é uma machadinha. gracejou Bonaparte." O homem fez careta. avisou Najac. Pierre. "Faze-me um favor.

Agora. iríamos para o sul por conta própria. o general Jean-Baptiste Kléber. sim. Ela deve estar deixando vossas tropas em pânico. Meus companheiros e eu acompanharíamos as tropas de Kléber para leste. que desembarcara com Bonaparte na praia em Alexandria quase um ano antes. apressa-te. pululava de cavalaria turca e mameluca. ." . A França me aguarda. até o rio Jordão (que corre no sentido sul." Mas eu nunca conseguiria vexá-lo. Estão em ação coisas maiores do que conheces. A Galiléia. Em seguida. A libertação trazida pelos franceses não estava sendo recebida com mais entusiasmo na Terra Santa do que o fora no Egito. "Teríamos de cortar caminho pelo exército otomano!" Desde que Napoleão invadira a Palestina.16 Eu presumira que viajaríamos direto para o monte Nebo com o bando de degoladores de Najac. Tua busca diz respeito não só à Síria. levaria sua divisão para varrer esses muçulmanos. Mas não te preocupes demasiadamente com os prazos de minha campanha. mas ele riu quando mencionei isso. mas à Europa. do mar da Galileia para o mar Morto). "A doença os faz sentir a urgência. Então. informou-me Najac. a Sublime Porta vinha reunindo tropas para deter os franceses."A peste. acompanhando o legendário Jordão até que ele passasse junto ao sopé do monte Nebo.

"O monte Nebo?!". "Aquilo é para cabras e fantasmas!" "Acho que para tesouros também". "Por que mais o nosso mágico iria se alistar com os franceses outra vez? E então. "Isso aí equivale aos soldos de uma vida inteira!" "Mas não me viste usando o anel. "O fuzileiro queria saber o que ocasionou a nossa expedição. Lancei um olhar de desagrado a Mohammad. disse Ned. chefe . Veio da tumba de um faraó. ele estava adivinhando as coisas certo demais." "Amaldiçoado?!". admirou-se Ned. Ela irá me ajudar a solucionar o mistério que tentamos desvendar nos túneis de Jerusalém. mas eu soube que já tens outro brinquedo bonito". Kléber era um comandante popular. Porém. respondi. com argúcia. "Uma mulher que conheci no Egito está viva e me espera lá.vamos atrás das riquezas de Moisés?" Para um palerma. disse Ned. e esse tipo de despojo é sempre amaldiçoado. "Trata-se de um encontro de estudiosos da Antiguidade". efêndi. que deu de ombros. exclamou Mohammad. viste?" . Dependeríamos de Kléber para abrir caminho na marra." Tirei o anel do bolso. mas também podia mostrarse irascível e impulsivo. não tínhamos opção." "É. Os otomanos estavam diretamente em nossa rota e sem nenhuma vontade de diferenciar entre um e outro grupo de europeus. "Então ficai sabendo que isto dá azar.Mohammad e Ned não ficaram satisfeitos por ter de viajar com os franceses.

O fuzileiro se lembrava da emboscada que resultara na morte de Tentwhistle." "E agora conhecereis a verdadeira Palestina"." Pelo que eu podia ver. estando guardados tanto pelo bando de Najac quanto pelos batedores de Kléber. concordou Ned."É. Éramos como cães caros mantidos na coleira. garantiu Mohammad.. "E escolhes mesmo muito mal as escoltas. comentou Ned. e o francês se ressabiava com a força do gigante. Ainda estais dispostos?" "Entrar em briga sem nenhum ferro e nenhum pau-de-fogo. estávamos desarmados.. Lá eu me sentia preso. Éramos aliados dos franceses? Ou seus prisioneiros? Exceção feita à minha machadinha. e nos deram boas montarias e nos trataram como convidados da expedição. só com esse teu machado de cortar lingüiça. chefe. Esse tal de Najac tem jeito de quem cozinharia os próprios filhos se lhe pagassem uma pataca pelo ensopado. marcharemos com os franceses até que possamos fugir." "Pois bem.". Mesmo assim. deixando-nos cavalgar à frente da coluna para escapar à poeira mais densa. "O mundo inteiro quer possuí-la. Não tínhamos liberdade de movimentos.. Provavelmente estaremos em um ou dois arranca-rabos. Ned e Najac não gostaram um do outro logo de cara. era justamente esse o problema. não combina com a tua tez". estou gostando de estar do lado de fora das muralhas. "Espalhafatoso demais.. Quando o . Mas este nos mandou uma garrafa de vinho e seus cumprimentos.

e a luz realçava a mica e o quartzo como se estes fossem minúsculas jóias. "Esse pássaro é sinal de que o verão está chegando. o céu tinha o azul do manto da Virgem. No norte. com a bandeira tricolor anunciando nosso fantástico irromper no Império Otomano. rebateu Ned. Havia ainda o arroxeado do linho. A Terra Santa desperta uma paixão incomum. "Se o teu cérebro tivesse a metade do tamanho do teu muque. é bem irrigada e ostenta o verde da primavera. Os . disse Mohammad. O trigo e a cevada crescem como capim. eu também estava gostando de termos podido sair de Acre. respondeu Najac. não precisarias ficar procurando tanto por ele toda vez que baixas as calças".patife se aproximava de nós. e as papoulas e mostardeiras acrescentavam a isso largas pinceladas de vermelho e amarelo. uma escrevedeira-amarela". Apesar das altercações. o dourado dos crisântemos em buquês naturais de caules entrelaçados. o branco dos lírios. Seria aquele o jardim de Deus? Longe do mar." A divisão de Kléber era uma cobra azul a serpear pelo Éden. sempre abria bem o casaco. Já Ned bradou que não via uma rã tão feia desde que topara com certa perereca mutante no tanque atrás do bordel mais sujo e vagabundo da base naval de Portsmouth. eu talvez me interessasse pelo que tens a dizer". para mostrar as duas pistolas enfiadas na faixa de cintura. se o teu pinto tivesse pelo menos metade do tamanho dessa tua língua solta. alertando-nos de que não estava para brincadeiras. "E. "Vede.

rumo a célebre Nazaré. uma gruta ortodoxa com o tipo de quinquilharia que provoca indigestão nos protestantes. ficava Damasco. satisfeitos em escapar do tedioso trabalho de cerco. Pegamos água no poço de Maria e visitamos a igreja da Anunciação. Carroças seguiam com . Era um vasto lago. enevoado e sagrado. celeiro da antiga Israel e via de passagem para exércitos durante três mil anos. marchamos novamente para o sul. ao sul. de cabras. Em algum lugar a nordeste. Ao final do segundo dia. uma sopa azul numa imensa tigela verde e castanha. até o rico e indolente Vale de Jezreel. Jerusalém. e a divisão dispunha de dinheiro suficiente (apresado em Jafa) para comer bem e não precisar saquear pelo caminho. O gado pastava em morrotes cobertos de capim que outrora eram grandes fortalezas.rebanhos de ovelhas se abriam como um mar para que passássemos. Em seguida. sem pavimentação. lá embaixo. sobretudo. e seu bronze parecia piscar como se transmitisse alguma mensagem militar. Carroções cobertos de lona branca moviam-se a balançar. lá longe. Uma mesquita e um mosteiro franciscano ficam bem de frente um para o outro. e. e avistei o mar da Galiléia. Não descemos. onde o tráfego consiste. Os soldados estavam animados. abaixo do nível do mar. Peças de artilharia ligeira sacolejavam ao sol. A rua principal é uma trilha de carroças. Em vez disso. O lar do Salvador é um lugar poeirento e desanimado. como se vigiassem um ao outro. subimos uma derradeira serra. seguimos por espinhaços para o sul.

estrépito por estradas que as legiões romanas haviam percorrido. com mais homens do que o número de estrelas no céu. Há as tropas de Damasco e Constantinopla. e Miriam me esperava em Acre. não conseguira salvá-la. os homens se aproximavam de Deus. eu também me sentia apreensivo. os mamelucos sobreviventes do bei Ibrahim e os combatentes dos montes da Samaria. alguns dos soldados faziam o sinal-da-cruz ou murmuravam preces nos lugares santos. mas eu sabia que estava vivenciando o que poucos americanos podem ter esperanças de um dia ver . com um ruído tão familiar quanto o de grilos quando íamos dormir. Entretanto. mas as falas soavam banais. Minhas alianças políticas eram agora mais confusas do que nunca. Os xiitas estão se unindo aos sunitas. correm rumores de que os turcos estão se concentrando contra nós. Mohammad avisava que aqueles três mil soldados de Kléber não seriam suficientes. desde o Marrocos até a Armênia. Meus companheiros se impacientavam com aquele sinuoso trajeto militar. eles afiavam as baionetas.a Terra Santa! Ali. Ela estava mais uma vez enredada com o ocultista Silano. É loucura ficarmos com estes franceses — eles estão condenados. Afinal. quando a noite caía. Por mais ansioso que estivesse em ver Astiza. Entrementes. segundo a opinião geral. "Em todas as aldeias." . Ensaiei o que dizer a todo mundo. Apesar do ateísmo oficial da revolução. Chegam mercenários de toda a parte.

os louros da campanha egípcia haviam sido conquistados pelo corso. Bonaparte quem possibilitava grandes descobertas arqueológicas. tentava achar a tal hoste turca. o porte e a cabeleira cacheada de herói militar que faltavam a Bonaparte. pois seus colegas se submetiam mesmo era ao arrivista. Assim como Bonaparte levantara . "Não temos escolha. "A passionalidade governa. no início da campanha palestina. competente para um general. Aquela incursão independente para destruir os reforços otomanos era. é claro. ao passo que Reynier. Embora Kléber fosse o mais velho. mas Bonaparte. Não importava que Kléber ostentasse a estatura. nem importava que ele atirasse e montasse melhor. o astro solar em redor do qual orbitavam instintivamente. E Kléber. rival de Kléber. portanto. apesar de todos os defeitos. Nenhum dos generais reconheceria isto. Era Bonaparte quem tinha destaque nos comunicados que se enviavam para a França. a chance de Kléber para brilhar." O general Kléber. o mais alto. era o superior intelectual deles. a divisão de Kléber tivera desempenho não mais que mediano.Gesticulei na direção dos canalhas de Najac. e esperava flanqueá-la descendo das elevações nazarenas. Bonaparte quem ia enriquecendo com o butim. não fugir a ela. o mais forte e o mais experiente. irritara-se um ano inteiro como subordinado de Napoleão. ganhara elogios de Napoleão. gostava de dizer o velho Ben. e nunca governa com sabedoria". Bonaparte quem regia a moral do exército. Pior: durante a batalha de El-Arish.

nossa presa já tivera tempo de tomar o desjejum. ninguém parecia estar no . a marcha em torno do monte Tabor se mostrou muito mais longa do que Kléber previra. Encontraremos os turcos justamente quando o sol estiver se levantando e nos ofuscando. e a ambição de Kléber começou a ser moderada pelo bom senso. "Será que Napoleão ainda está tentando executar-vos. cujos animais eram meio engolfados pelo trigo alto da primavera enquanto seus ginetes disparavam inutilmente mosquetes e pistolas para o ar. Em vez de atacarem às duas da manhã como planejado. Logo se viram enxames de cavalaria turca correndo para lá e para cá. disse Mohammad. só que agora de um jeito mais complicado?" Nós três ficamos de boca aberta ante a gigantesca e ameaçadora horda de cavalaria. os franceses toparam com as guardas avançadas turcas só na alvorada.lá. O sol nascente revelou que ele conduzira três mil homens para atacarem vinte e cinco mil. efêndi. "Então o anel dá azar mesmo"." De fato. Eu realmente tenho talento para escolher o lado errado.acampamento no meio da noite para atacar os mamelucos nas Pirâmides antes que estes estivessem plenamente preparados. resmungou Mohammad. A única coisa que impediu que fôssemos aniquilados de pronto foi a confusão do inimigo . Quando formamos fileiras para o assalto. "Loucura!". "Estamos longe demais para pegá-los de surpresa. também Kléber resolveu partir no escuro para surpreender os turcos.

Ah. O exército turco era uma colcha de retalhos vindos de cantos demais do império. de modo que era impossível flanqueá-los. havia um castelo em ruínas. como eu queria estar numa fragata! E lá é mais limpo. do tempo dos cruzados. de modo que estivéssemos no terreno mais elevado. com cada soldado voltando-se para um lado e as fileiras cobrindo as quatro direções. Víamos a gama policromática dos diversos regimentos otomanos. um comandado pelo próprio Kléber e o outro pelo general Jean-Andoche Junot. Fez-nos retroceder para um monte chamado Djebel-el-Dahy. Os sargentos com os soldados veteranos se punham atrás das tropas mais inexperientes. O general francês pôs cem de seus homens para guarnecer o que restava das muralhas. e ainda tendas coloridas como numa grande quermesse. com grandes comboios de carroções atrás deles. sobranceiro ao largo vale. Há tantos soldados que não conseguem se organizar. os restantes formaram dois quadrados de infantaria. "Vede a desordem entre eles. ele era um tático hábil. Se queres um espetáculo vistoso. grunhiu Big Ned. embora Kléber tivesse se precipitado ao subestimar seus oponentes.comando. "Só precisam vir em bando e nos pisotear. Esses quadrados eram como fortins humanos. "Parece uma repetição da Batalha das Pirâmides"." "Eles não precisam de organização". tentando tranqüilizá-los. hein?" Mas. para impedir . Perto do cume. vê a guerra antes que se iniciem os combates. disse eu.

Os franceses permaneceram absolutamente quietos até que soou a ordem: "Fogo!" Fez-se um clarão e um estrondo de disparos. forçando a vista. "Que diabos eles estão fazendo?".que elas recuassem e pusessem a formação a perder. Essa tática desconcertara os mamelucos no Egito e estava prestes a fazer o mesmo com os otomanos: de qualquer lado que atacassem. Os turcos. algumas centenas investiam contra nossos quadrados. e os resultados eram os mesmos. ridiculamente. disse Ned. Nosso comboio de abastecimento e meu trio. estavam no centro. Então. com os homens de Najac. disse Mohammad. "Por que não atacam de verdade?" "Talvez estejam só esperando que fiquemos sem água e sem munição". O sol continuava subindo. Periodicamente. Cada vez mais cavaleiros otomanos afluíam para o ameno vale abaixo de nós. ululando e agitando lanças. Os outros se afastaram para longe. resmungou Ned. disparava-se outra salva de mosquete. deram a Kléber tempo para formar fileiras e depois realizaram cargas de sondagem. com seus trajes coloridos a lembrar flores ceifadas. com uma grande nuvem de fumaça branca. deparavam com uma linha firme de mosquetes e baionetas. galopando até perto de nossos homens ao mesmo tempo que davam gritos de guerra e brandiam espadas. . Logo se formou um semicírculo de mortos à nossa volta. "Com a breca! Eles têm mais peito do que juízo!". e os cavalarianos inimigos mais próximos foram derrubados das montarias.

Aquilo seria mesmo alguma espécie de ardil otomano. e os turcos não conseguiam fazer que seus cavalos se achegassem. . eriçaram-se como um porco-espinho. e ondas de cavalaria vinham contra nós como a rebentação na praia. procurando garantir ao máximo que as preciosas balas atingissem de fato os alvos. Começamos a refrear nossas salvas até o último segundo. em Acre. nossa resistência foi se minando. esporeavam. Davam um grande urro." Ajuda? Bonaparte estava muito longe. Mas os franceses não tremeram. Alguns se esparramavam no capim para comer. "Agüentai firme". "Chegará ajuda. Os turcos perceberam nossa apreensão. e a confiança deles. incitando outros a virem nos enfrentar primeiro. deixando-nos suar e ficar aflitos até que eles viessem à carga para valer? No entanto. quando olhei pela luneta que sir Sidney me dera. instruía ele. à medida que o dia avançou. Muitos turcos se detinham. não dando atenção ao silvo das balas. comecei a duvidar que tal ataque ainda ocorresse. e outros dormiam . aumentando."E pretendem fazer isso levando todo o nosso chumbo no bucho?!" Acho que os otomanos estavam aguardando que saíssemos de formação e debandássemos (seus adversários anteriores certamente haviam sido menos resolutos). Kléber continuava montado. cavalgando lentamente para cima e para baixo entre as fileiras e encorajando os homens.no auge da batalha! Mas. A pólvora escasseava.

Ned.. e o resto de nós ansiava pela mesma coisa. e os turcos escarneciam uns dos outros para atiçar os companheiros a nos atacarem. Deixai que venham.. mas a mortandade era muito pior no lado turco.. Agüentai. Janízaros de coloridíssima indumentária tombavam em meio a nuvens de terra. Mohammad e eu ajudávamos a arrastar os franceses feridos para o centro do quadrado. Os feridos gemiam pedindo água. e levantavam-se grandes colunas de poeira. Os turcos tentaram tomar de assalto o cume do Djebel-el-Dahy e vir sobre nós da parte de cima.fogo!" Cavalos davam relinchos lancinantes e desabavam. engrossando as fileiras e dando aos homens uma confiança renovada e extremamente necessária.. Pistolas e mosquetes produziam lacunas em nossas fileiras."Agüentai. e Kléber ordenou que os dois quadrados se unissem num só. parecendo que nos castigaria para sempre. sem intenção de seguir adiante. Tantos cavalos mortos já atulhavam os campos que os turcos estavam tendo dificuldade em arremeter através deles para chegar a nós. Fogo! Agora.mas. a fileira de trás .. O sol interrompera no ápice sua trajetória pelo céu. Uma centena de franceses já caíra.. Agora era meio-dia. Os campos tinham sido pisoteados até ficar apenas terra. contornando os camaradas caídos . suas montarias se empinavam. A elevação em que estávamos parecia tão seca quanto uma tumba egípcia. Os ginetes mais destemidos continuavam esporeando. quando chegavam à linha de baionetas. pois parecia que todos os muçulmanos do mundo haviam se juntado contra nós. .

"Lá vem o Pequeno Caporal!" .homens diziam ter avistado o brilho de baionetas no vale a oeste. poderás ressurgir como muçulmano. quando eles enfim nos atropelarem. ergueu-se um brado novo . fazendo estrondo. e o inimigo desceu inutilmente em ambos os lados de nossa formação. não podíamos ir a lugar nenhum. Não há necessidade de teres o mesmo destino que europeus malucos. Assim. minha boca estava absolutamente seca. retrucou ele. Presumi que a coisa terminaria quando todos morrêssemos de sede. ela era ofuscante e acre. O chão ficara branco por tanto papel descartado. ainda deixando que lhe diminuíssemos o contingente ao atirarmos contra seus flancos. por causa da fumaça. "Agora!" Disparava-se uma salva. Alguns soldados desmaiaram por terem ficado tempo demais em pé no mesmo lugar. grave. Embora os otomanos parecessem inoperantes." "Alá não manda um homem abandonar os amigos". sem cavaleiros. com pedacinhos de bucha esvoaçando como neve. Moscas zuniam sobre os mortos. e galopavam para longe. "Mohammad. Nisso.mas os chasseurs (infantaria ligeira) e carabiniers (infantaria montada) que estavam no velho castelo os obrigaram a dispersar-se. Montarias relinchavam desesperadamente. Depois dentes rasgavam o papel dos cartuchos para despejar a valiosa pólvora nos canos dos mosquetes. mais um dentre eles. Pelo meio da tarde. finge-te de morto até tudo acabar.

"Lá". suprimentos e milhares de vivandeiros e outros paisanos.a terra verdejante engolira as manobras dos exércitos. bastaria uma única e enérgica carga de cavalaria para romper nossa formação! Os homens então debandariam. o capim alto formava ondas. Só que isso ainda não acontecera. seu sangue era uma mácula no trigo verde. Éramos como uma rocha azul num mar do vermelho. Com certeza. Centenas de seus companheiros de armas já cobriam o monte abaixo de nós. os turcos pareciam ainda mais numerosos agora que eu enxergava mais longe por sobre suas fileiras." Meu telescópio inglês se revelara capaz de oferecer uma mirada mais nítida que a das lunetas-padrão do exército francês. Segui Kléber para fora do aconchego do quadrado. "Como Bonaparte conseguiria chegar aqui tão depressa?" Fez um gesto para mim. apontou Kléber. viam-se suas tendas. As ruínas do castelo dos cruzados proporcionavam uma vista panorâmica. Para indignação. mas eu não sabia se isso se devia ao vento ou à passagem de alguma infantaria . branco e verde otomanos. Milhares trotavam para cima e para baixo. "Vedes baionetas francesas?" Forcei a vista até os olhos doerem. "Pode ser uma coluna . Trazei vossa luneta naval. Passamos por uma roda de muçulmanos caídos. A oeste. alguns ainda gemendo. e seria o fim. até a encosta exposta do monte. "Vinde. Na distância. gesticulando como se discutissem acaloradamente o que fazer.Kléber se mostrava incrédulo.

As tricolores se agitavam ao descermos com passo pesado e firme o Djebel-el-Dahy. Não sei se há reforços vindo para cá. Homens choraram de alívio . torcendo (contra as probabilidades) para que não estivessem apenas se abrindo para serem dominados pela cavalaria turca. Ouvíamos seus brados e a força de suas cornetas. disse Kléber. Brandiram-se e agitaram-se lanças turcas. "Junot. como já dissestes. de que maneira ela poderia ter chegado tão depressa?" "Morreremos de sede se permanecermos aqui". "Ou homens desertarão e acabarão degolados.o socorro estava mesmo chegando! Os franceses começaram a dar vivas e até cantar. pois o capim está se movendo. como se estivéssemos em parada. comigo atrás. mas vamos descobrir. e aquele estrondo eficiente era tão francês quanto um pedido feito aos gritos num restaurante parisiense. ficou mais animada: ali estava a chance de precipitarem-se sobre nossos flancos e nossa retaguarda. Olhamos e vimos uma coluna de fumaça ser carregada pelo ar.francesa. . A cavalaria inimiga hesitou. começa a formar colunas. quando viu o quadrado dissolver-se em duas colunas." Ele desceu trotando para o quadrado. Partamos ao encontro daqueles que vêm nos render!" Os homens deram vivas. "Em frente!" Começamos a marchar morro abaixo. Esta. Mas. As diversas peças de artilharia têm sons muito distintos. perscrutando o oeste. E então um canhão foi disparado ao longe.

berros abafados e o soar triunfante dos clarins franceses. Em minutos. "Calma!". com um estrondo. Houve disparos. . os franceses. atiçados. baionetas e coronhadas. disse Kléber a seus homens. Entrementes. Agora nossos oficiais galopavam para cima e para baixo pelas colunas. Otomanos foram caçados e mortos por todo o caminho até o rio. "Atacar!" Dando vivas. A cavalaria de Bonaparte passou galopando por nós. E. na direção da infantaria da Samaria que guarnecia a aldeia. abaixai-vos e disparai só quando receberdes a ordem!". "Não saiais de formação!" "Quando eles vierem contra nós. e então o inimigo se pôs a correr em debandada. Nossa empolgação aumentou: havia ali um regimento otomano.E então começou a subir fumaça do campo inimigo. turcos fugiam também do que quer que houvesse surgido do oeste. a munição armazenada explodiu. tendo de escapar para leste por causa de alguns milhares de franceses. Suprimentos preciosos começavam a ser consumidos pelas chamas. Vimos uma lagoa junto à aldeia de Fula. dando ordens para que se preparasse uma investida. parecendo irresoluto. miraculosamente. acrescentou Junot. A cavalaria de Napoleão irrompera na retaguarda turca e estava semeando o pânico. perseguindo o inimigo rumo ao Vale do Jordão. Ouviram-se disparos. correram o resto do caminho morro abaixo. um exército de vinte e cinco mil homens ruía em pânico.

Kléber!". Napoleão chegou a galope. e poderemos marchar para Damasco". "Mais algumas divisões. "Eles fugiram só de ouvir um tiro de canhão!" . com os calções pardos de poeira. emendou . Bonaparte operava milagres. Bonaparte de imediato batizou nosso quase desastre como Batalha do Monte Tabor (um pico muito mais imponente e pronunciável que o modestamente ascendente Djebel-el-Dahy. depois de ter lido os relatórios!" Sorriu. gritou.17 Com seus instintos para a política. ele agora parecia deslumbrado com o resgate providencial que seu comandante levara a efeito. radiante como o salvador que de fato era.quero que todos os detalhes sejam transmitidos a Paris o mais depressa possível". Eu tinha certeza de que ele não se mostrara tão rápido para dar a notícia do massacre de Jafa. e depois ficamos encharcados e pingando como bêbados. matando a sede. general. e poderíamos marchar para Bagdá e Constantinopla". "Parti para cá ontem. Em vez de sentir inveja. disse Kleber. "Mais algumas divisões. inebriado com a inacreditável vitória.Mergulhamos na lagoa de Fula. ainda que distantes várias milhas um do outro) e o proclamou "uma das vitórias mais desproporcionais da história militar . com as bolsas de cartuchos já vazias. "Eu já desconfiava que fosses te meter em confusão.

. perdeu-se a batalha." "Franklin era sábio". Razão pela qual vais agora encontrar Silano. Ele acreditava em não se descuidar dos detalhes. "Todavia.". Ainda não tomastes nem Acre. Com tão poucos homens. E teu mentor era um verdadeiro savant." "Por falta de um cravo de ferradura. e desenrolam- . Não gostava de que duvidassem. costumava dizer .Napoleão. que o que nos derruba são as pequenas coisas. não em proveito próprio.. Ele ficaria ansioso em solucionar mistérios antigos. como pretendeis imitar Alexandre?" Bonaparte franziu o cenho.. general". Tippu Sahib. Benjamin Franklin. E Alexandre teve também de fazer um cerco. Bonaparte devastava exércitos tal qual Moisés dividia as águas. a milhares de milhas da Índia e de vosso aliado lá. eu seria senhor da Ásia!" Kléber assentiu. continuamos na orla da Ásia. comecei. "O quê?" "Só uma coisinha que meu mentor.ou seja. respondi cordialmente. mas para o bem da ciência. "A escrupulosa atenção aos detalhes é essencial aos soldados." Pareceu pensativo.. "Maldito Nelson! Se ele não tivesse destruído a minha esquadra. "E se Alexandre não tivesse morrido na Babilônia. "Os macedônios não eram muito mais numerosos. não é mesmo. Gage?" "Parece que tirastes toda a oposição do caminho. "Mas o nosso mundo é maior do que era o deles. disse Napoleão. nem César sido apunhalado. nem Rolando se adiantado tanto. em Tiro.

Kléber". Gage. secamente.solucionar o mistério das pirâmides e dos antigos com o conde Alessandro Silano! Cavalga sem descanso. não na França. Os franceses. "Pensas em Paris quando ainda estamos lutando nesta cloaca?" "Eu procuro pensar em tudo. "Nossa obrigação é aqui. E Astiza lhes contara mais do que eu desejara. batendo o dedo em riste enquanto disparava ordens. pois o que estamos fazendo tem um propósito. respondi. porque o tempo urge para todos nós. sabiam mais do que eu tinha esperança que soubessem.motivo pelo qual pensei em trazer socorro à tua expedição antes mesmo que precisaste disso. e tuas descobertas talvez sejam mais importantes em Paris do que aqui." "Na França?". Quanto a mim. sempre . "Fica tranqüilo. senti um desânimo: era a primeira vez que eu o via mencionar o livro. Deu um tapa no ombro do general que. que nós dois ascenderemos juntos!" Kléber olhou para ele com desconfiança." "Estou mais ansioso do que qualquer um para voltar para casa". com sua cabeleira. avultava-se acima dele. Tenho muitas coisas a exigir minha atenção." Ele me deu as costas e saiu a passos largos e pomposos com seu estadomaior. obviamente. . Cumpre tua obrigação. retrucou Bonaparte.se acontecimentos na França. "Então acha esse teu livro. É ou não é assim?" "E a obrigação desse americano é terminar enfim aquilo para que o trouxemos . perguntou Kléber.

fuzileiro." "Bem a tempo da pilhagem pelos franceses. que chance têm os meus camaradas lá em Acre? Vai ser outro maldito massacre. então é isso". disse eu." Ned olhou para mim maliciosamente. procurando ignorar o fedor que já emanava do escuro campo de batalha. sombrio. completou Mohammad. Os templários tinham descoberto alguma coisa e sido mortos na fogueira por torturadores que ansiavam saber o que era aquele segredo. Eu sabia o que se passava pela cabeça do fuzileiro: achar o tesouro e fugir. Phélippeaux e Sidney Smith". Não posso dizer que eu discordava de todo." "Só que Acre tem o Açougueiro". Jantamos carnes e pastéis turcos capturados. A cidade agüentará até voltarmos. Agora estávamos além dos campos." "E tem canhões. "Ele não deixará ninguém correr nem render-se. instrumentos de Silano e seu desonrado Rito Egípcio.Assim. com exceção dos pomares e prados ao longo do rio. Grande quantidade de santos seguira aquele curso . igual a Jafa. em território seco que só sustentava cabras. "Não te preocupes. "Bem. A cavalaria francesa ainda estava perseguindo os remanescentes do desbaratado exército otomano quando nos pusemos a acompanhar seu rastro de terra e vegetação pisoteadas e descemos ao Vale do Jordão. Eu só esperava que meu destino fosse mais benigno. "Se uma horda como aquela não agüenta uns poucos franceses. lá estávamos nós. comentou Big Ned. Não queria levar meus companheiros à destruição.

mosquetes. No rio.mas precisamos deles para nos conduzir à mulher que usava o anel de rubi. mas cavalgávamos como uma quadrilha. A gente poderia vestir esses patifes de coroinhas que eles ainda assim assustariam a catedral inteira. o vale se tornava cada vez mais árido. e João Batista atuara em algum lugar daquelas margens legendárias." "É. para evitar a fedentina. Ficamos bem longe deles. e os navios britânicos que Ned chamava de lar pareciam estar a dez mil milhas dali. com fuzis." . também encontramos corpos de soldados otomanos afogados ou baleados. A dúzia de árabes de Najac ia armada até os dentes. vamos largar esses bandidos e continuar por conta própria". lembra-te?" Ned resmungou. o fuzileiro veio rastejando para cochichar comigo. e cuidamos de só pegar água nas bicas. como lobos decepcionados. Conseguiremos o que viemos buscar e daremos o troco a essa corja. pistolas e espadas. Certa noite. "Não penses que já não possuo poderes elétricos. "Chefe. após terem olhado nosso armamento. inchados como balões de pano. instou-me. e avistamos dois bandos diferentes que se retiravam furtivamente. "Esse Najac fica de olho em ti tal qual o corvo esperando para bicar o olho do defunto. Havia ainda outros malfeitores.de rio. de modo que tive de tranqüilizá-lo. eles têm a moralidade de deputados e a higiene de escravos das galés . À medida que avançávamos para o sul.

Ned. Eu compartilhava do desassossego de Ned. Aquela era uma terra estranha e irreal." "Eles não perdem por esperar."Não vejo a hora de poder arrebentá-los. explicou: "Lá está o monte Nebo". A mais alta estava tanto para pico como para serra. quente e úmido. Lembrei-me do ferreiro e senti outra vez culpa por ter abandonado Miriam. salpicada de pinheiros-dealepo. florescia o rosa dos oleandros. exceção feita ao Mohammad. nevoento. passando da primavera ao verão. como se em dois dias houvéssemos avançado dois meses." Passamos a trote por uma trilha que Najac afirmou levar a Jericó. Odeio franceses. Nenhuma espécie de ave se juntava nos baixios. Montanhas se erguiam precipitadamente da margem do mar Morto. que gerava profetas e loucos em demasia. e nenhum peixe vinha à tona. Não vi nada dessa aldeia. como se tivessem pressa em fugir à salmoura. Em ravinas rochosas. "Jerusalém fica para lá". Depois. Não perdem mesmo. disse Mohammad. O mar Morto era o que se deduz do nome: uma margem incrustada de sal e uma água salobra. girando o braço na direção oposta. . de um azul brilhante. que veriam água só nas chuvas. apontando para oeste. e a região era tão estéril que ficava difícil acreditar que algum dia houvessem construído ali uma cidade de imensas muralhas. Árabes também. que se estendia até o horizonte. O ar do deserto era denso. Ela merecia coisa melhor.

e eu via meninos árabes de manto preto pastorearem rebanhos de cabras que zanzavam para lá e para cá. Ali perto. rebateu o francês. que usou o espelhinho mais uma vez. Nisto. os resquícios do fogo . Adiante. uma tenda francesa num rebaixo. com a relva verde ao lado dele indicando uma fonte. cabeça-dura".Najac. com os cascos fazendo chape na terra macia e os cavalos bufando ao passarem por esterco de camelo. Subimos por uma trilha de caravana. uma coluna de sinal de fumaça se ergueu do Nebo. e a encosta começou a recender a pinheiro-de-alepo. sim. fez sinais com um espelhinho. "A morada final de Moisés!" Esporeamos e começamos a subir. que pouco falara durante a jornada. que reluziu ao sol da manhã. sem em nada evocar leite e mel. Sentimos a refrescância. não vi nenhuma caverna que pressagiasse tesouros. estavam as ruínas baixas de alguma coisa. Havia. que dali parecia parda e brumosa. "Sejas paciente. "Esse ladrão desgraçado fez que a gente se perdesse". Vários homens nos esperavam junto a um fio de fumaça de fogueira. Passaram-se quatro horas. Aguardamos. avistávamos de fato a Terra Prometida. talvez uma antiga igreja. queixou-se Ned. Era um alívio sair do Vale do Jordão para ares menos enfasteantes. mas nada aconteceu. Tendas beduínas haviam sido armadas nos terraços da montanha. A nossas costas. mas enfim alcançamos o topo. exclamou aquele que nos escoltava. do outro lado do Jordão. "Lá!". O mar Morto era um espelho azul.

como se Astiza tivesse visto ou sentido coisas que preferiria não ter encarado. Ela. trazendo encanto ao mundo. Não envelhecera mal (é equívoco achar que a idade seja um insulto às mulheres. As mulheres são flores. e agora lá estava ela. mas os olhos estavam mais fundos. Tecido e cabelo eram soprados de leve pela brisa da montanha. vívida à luz do cume. avistei uma pessoa sentada num afloramento rochoso abaixo das ruínas. pois a beleza delas simplesmente adquire mais caráter). Tendo-a talvez idealizado na lembrança. eu viera contando com a possibilidade da decepção. A beleza daquela mulher. que vinha observando nossa chegada. trajada de branco. mas não: o que eu imaginava continuava lá. envelhecera. Estaria Silano entre aqueles homens? Antes que eu pudesse verificar isso. Saí com meu cavalo da fila que formáramos e desmontei. ela se pôs de pé. em carne e osso. mostrava-se mais tangível do que me preparara para encontrar. . entretanto. protegendo-a do sol. Será que eu mudara da mesma maneira? Qual a última vez que eu me olhara no espelho? Levei a mão ao rosto e senti a barba de vários dias. com as tranças longas e negras tal qual eu me recordava. um lenço branco caído.que se acendera para sinalizar para nós. a esbeltez grácil e equilibrada. e. Era uma mulher. Quando me aproximei. os lustrosos olhos escuros. de repente. Eu transformara Astiza num fantasma. longe dos homens. e Astiza era um lótus. os lábios e maçãs dignos de uma Cleópatra.

Astiza usava botas de cavalaria. É como um milagre pareces um anjo ou espírito. Parecia um pedido de desculpas. O vestido estava sujo de poeira e repartido para que ela pudesse cavalgar. como se o anel estivesse pelando.mas eu estava mesmo constrangido." "Temi que tivesses morrido. "A Ísis?" "A todos Eles. Saquei a jóia. com corpo de bailarina . que mostrava uma pequena adaga curva e uma bolsa de couro. tão pequenas que talvez tivessem sido tomadas emprestadas a algum garoto tamborileiro do exército de Bonaparte. Sobre a pedra onde se sentara. via-se um odre. tendo flutuado para longe no balão quando ela não pudera fazer o mesmo. Ela ainda o acha amaldiçoado. sujas da viagem. e só queres saber de jóias?" "Nós precisamos deles. Hesitei. esquecendo o que ensaiara dizer.fiquei cônscio de minhas roupas." "Estás com os serafins?" Sua frieza era desconcertante. "Vivi um inferno para achar-te. Era como se ela tivesse ressuscitado." "Trouxeste o meu anel?" Era um jeito frio de iniciar a conversa. A cintura era cingida por uma corda de seda. explicou." .mas todos nós havíamos emagrecido. "Eu o usarei numa oferenda". Acabei dizendo: "Mandei perguntarem por ti". cujo rubi brilhava. "Disseram-me que desapareceras. canhestro e nada eloqüente . Estava ainda mais esguia. inclusive Tot. pensei. Astiza o arrebatou e o enfiou rápido na bolsa de couro da cintura.

e doeu muito." Astiza desviou o olhar para longe. se bem me lembro." Bem. Então." "Medo. porque era verdade. E agora estavam juntos de novo? Em caso afirmativo. "Não me lembro do impacto. vergonha. A última coisa de que me recordo é do teu rosto. "Quando usei aquela machadinha.. enrubesci.Percebi que Astiza estava fazendo grande esforço para não demonstrar emoção.e em livrarme do feiticeiro aristocrata que antes fora seu amante. eu não conseguia atinar por que diabos tinham mandado me buscar. Em vez disso. Astiza cortara o cabo com minha machadinha. Se tudo o que queriam eram quinquilharias de ouro. A única razão pela qual não conseguiste escapar comigo foi que ele não deixou. para o vale. eu te libertei do ônus que te impuseram . e Silano se agarrara a seu corpo para que ela não pudesse subir à cesta. pesar. foi Alessandro quem me salvou. Eu fracassara em puxá-la para a cesta . Foi a coisa mais terrível que tive de fazer na vida. "Aquele desgraçado quase te matou. Astiza se dependurara no cabo do balão. vi uma centena de emoções em teus olhos. raiva. saudade." "O horror era uma delas." Eu ia objetar.a carga .. Quando cortei o cabo. e seu tom se mantinha inexpressivo. aquilo doeu. de maneira que o balão subisse para longe do alcance dos mosquetes. e alívio. "Nós quem?" "Ethan. arrependimento. Ethan. só da queda. olhando para baixo da beira da cesta. eu podia têlas mandado por correio.

Por que ela hesitava em fazê-lo? De novo. Eu até o vi vasculhar manuscritos enegrecidos que só podem ter vindo da biblioteca queimada de Enoque. Eu te libertei de mim. não podes cortar com machadinha a corda que nos une. E não podia tentar o contato. pois primeiro havia um muro invisível. de obrigação e arrependimento. Mesmo assim. "Quando acordei. Reuniu baús e mais baús de livros. Enquanto ia convalescendo do quadril fraturado. não voltaste para a América." "Disseste que presumias que eu fosse para a América. sendo tratada em segredo. para usá-lo de modo que eu pudesse alcançar-te de novo.de salvaguardar o Livro de Tot." "Astiza. nem por um momento sequer. eu não estava entendendo nada. Sabia que não saíramos da pirâmide com algo de útil e desconfiava que houvessem levado o livro para outro lugar. Eu tinha esperança de que ainda estivesses no Egito ou em algum lugar próximo. que precisávamos derrubar. Por isso. e eu soube que Astiza forcejava para não correr para meus braços." . e eu estava com Silano. mais uma vez me aliei a ele. Silano não desistira." Então ela se voltou e me encarou de novo. Não podíamos começar direito porque tínhamos coisas demais a dizer. com olhar ardente e corpo trêmulo. Silano continuava lendo todo e qualquer fragmento de escrita antiga que conseguissem achar para ele. Os sábios franceses tinham lhe dado instalações de estudo no Cairo. passara-se um mês.

Ethan. Será que a queda te fez perder todo o juízo?" "No aclive logo acima de nós. A construção em si remonta aos tempos bizantinos. Nessa tumba.o velho deus da tua cultura era cruel. percebi que o destino conspirava para nos reunir outra vez. O Egito foi outrora um paraíso de paz e conhecimento. quando o conde começou a elaborar outro plano e Najac partiu para espionarte. Ethan. Após a destruição dos templários na Europa. havia ossos e. um mapa medieval. há uma igreja. apesar de todo o sacrifício que fizera. Silano fez Bonaparte encarcerar o verdadeiro mensageiro e mandar um dos próprios homens a Jerusalém para desestimular-te. alguns fugiram para esta parte do mundo. já conheces o mundo em que vivemos. Mas isso não funcionou." "Astiza. Depois ouvi que andavam fazendo perguntas. e o meu coração acelerou." "Vós despedaçastes os ossos de um morto?" "Silano encontrara menção dessa possibilidade quando estudou em Constantinopla. Haviam ."Reconheço que fui assaltada pela dúvida . e acharemos o livro. jamais poderia adentrá-la . contemplando a Terra Prometida e sabendo que.eu sabia que talvez fugisses. O mundo pode voltar a ser assim." "Para quê? Não pretendes apenas reenterrá-lo?" "Ele também pode ser usado para o bem. hoje em ruínas. Achamos ali a tumba de um cavaleiro templário. Solucionaremos este mistério. Ela assinala o lugar onde Moisés talvez tenha um dia se assentado. tal qual os estudos de Silano indicaram. E. escondido num fêmur.

Os homens se apaixonam facilmente. afobado. "Eu te amei quando estávamos subindo o Nilo naquele veleiro." "Ainda me amas. mas para mim seria difícil amá-lo.. Todas as antigas emoções estavam voltando em torrente. E eu te amei na casa de Enoque. Do que mesmo o pobre Talma chamara Astiza? Bruxa? Feiticeira? Eu temia o poder que ela teria novamente sobre mim quando eu admitisse minha fascinação. querendo saber se ele toparia contigo.ama ainda." Fiquei ali em pé. como disseste no Nilo?" Claro que eu a amava. E quanto a Miriam. Depois soubemos que foras executado em Jafa.. uma coisa que pode estar relacionada à eletricidade e ao teu mentor Franklin.. "Não. "Não me orgulho disso". Silano também descobriu algo mais. E agora." "Algum dia amaste Alessandro Silano?" Astiza hesitou apenas um momento antes de responder. nada disso importava. Ethan. "Eu te amo desde o momento em que te tirei dos escombros em Alexandria". dei o anel a Monge. Em desespero de causa. continuou. "Ele me amava .descoberto algo em Jerusalém e o esconderam numa estranha cidade que aquele mapa descreve. ansioso por ouvir mais antes de ousar fazer a pergunta seguinte.. E eu te amei até quando. mas que o teu corpo sumira. acabei confirmando. por um . mas as mulheres precisam ser cuidadosas. coitada. Fomos amantes. Mas também a temia. ainda sitiada em Acre? Todavia.. esta mais lógica.." "Astiza. não precisavas de mim aqui para trazer dois anjos dourados.

me juntar novamente aos malditos franceses. achei que me traíras no templo de Dendara. E agora. ela balançou negativamente a cabeça. sem fôlego.. não? As mulheres fazem um homem perder o juízo mais rápido do que o uísque do Kentucky consegue. e é o teu desde que ganhaste o medalhão em Paris. no limite. Tudo vem conduzindo a este cume e às montanhas mais além. Não podemos ir embora e deixá-lo concluir a busca. E eu te amei quando achei que já estávamos condenados na Grande Pirâmide." . mesmo não tendo idéia do que te diria.. sim. partiremos.hoje à noite." Cheguei mesmo a cambalear ligeiramente. "Não. ou de que aparência terias.. zonzo de euforia.instante. e durante toda essa longa cavalgada montanha acima. ou de como te sentirias. eu oferecera o peito aos mosquetes. fiquei à espera de que ela me dispensasse com uma palavra. segundo parece. Esse é o meu destino desde que conheci Alessandro no Cairo. Temos de trabalhar com ele e então traí-lo. Acharemos o livro .e aí. Amei até a esperança de ver-te quando eu estava no vale lá embaixo. o pescoço à lâmina do carrasco.e te amei a ponto de agora. Silano sabe demais." Eu estava perdendo todo o controle. "Eu teria dificuldade para amar Alessandro. Eu te amei a ponto de me juntar aos malditos britânicos só pela esperança de recuperar-te .. mas não tive dificuldade para me apaixonar por ti. Ethan. Precisamos acompanhar tudo e pegar o livro no momento certo." Com olhos úmidos. Ali. Astiza deu um sorriso triste. "Então partamos agora .

Creio que nenhum europeu jamais esteve ali desde os templários. pela ganância de Benedict Arnold!. Até tudo terminar. "Ah. o fazia com a máxima atenção. Perdera a flexibilidade por causa da queda do balão. e a mirada não era mais cativante. . Silano não era mais o espadachim ágil de que eu me lembrava. e nós dois viajaremos como ex-amantes ressentidos. Alessandro Silano." "Agora. Para quê? Éramos rivais. O ruído foi de disparo de fuzil. e a dor endurecera sua bela estampa.que montanhas além?" "A Cidade dos Espíritos.. e não estendeu a mão nem ofereceu nenhum cumprimento. Havia escuridão no olhar e severidade na boca." Gemi. com toda a força de que foi capaz. Os outros nos observavam mais acima da encosta." "Inimigos?" E então ela girou e me esbofeteou.. Mancava. eu e tu precisamos parecer brigados."Espera lá . Nossa jornada ainda não se encerrou." "A o quê?" "É um lugar sagrado. Fez um esgar ao descer uma trilha de cabras desde a igreja bizantina. apenas obstinada. de porte aristocrático. Olhei de relance para trás. é necessário que pensem que somos inimigos. alto. Tu te farás de furioso porque voltei a unir-me a Alessandro. de ambição frustrada. para enganá-lo. e a bofetada de Astiza ainda doía em meu rosto. mítico. fazendo que ele se transformasse de Pã num sátiro mais sombrio.

respondeu Astiza. Não é uma mulher fácil de amar. americano. Trouxeste?" Hesitei. Gage?" "Eu estava bastante bem até que tu e Astiza me chamastes com o anel. e Silano não era do tipo que tolera a frustração. "Astiza me disse que trarias dois anjinhos de metal que vós dois achastes na Grande Pirâmide. não é. "Ele os trouxe?" "Não quis dizer". "E então?". não amantes. mandar matarme. perguntou Silano. Mas isso não quer dizer que vá usálos para ajudar-te". haverás de . falei: "Trouxe. como já fizeste antes.Desconfiei de que Monge ou nossos outros médicos lhe houvessem dado drogas contra a dor. "Ficarão em lugar seguro até que tenhamos conversado. só para aborrecê-lo. "Parece que não conseguimos mesmo escapar um ao outro." "E resolveste convencê-lo a bofetadas?" Ela deu de ombros. Espero que Astiza aprenda a dar valor a tal coisa antes que te canses disso." Olhou de relance para Astiza. Não é fácil vivermos com algo que não podemos ter." "E vieste atrás dela. Teríamos todos de ficar de olho um no outro. "Não está convencido de que deveria nos ajudar. Eram aliados. Vi que ela o desconcertava. Silano poderia. é claro. Dado o nosso histórico. "Eu e ele temos contas para acertar. não mais seguro que eu de quanto podia confiar na parceira." Silano se voltou para mim. Em seguida. Eu queria verificar quão hostil ele estava. sim.

De fato. que . não concordas? Vem.dependerá apenas da vontade dela. Depois poderás decidir se queres ajudar." Ele fez uma reverência. às vezes é melhor que não sejam .me perdoar se eu disser que não confio plenamente em ti. aquele diplomata. tenho certeza de que estás faminto após a viagem. na qual a luz do dia brilhava no entulho." Olhei de relance para Astiza. "Mas sei o que ambos decidireis. escondido sob o piso. Comamos." Silano começou a subir a trilha mancando. Mas sócios não precisam ser amigos. é-se mais sincero. "Digo o mesmo. naturalmente. Éramos sonhadores num pesadelo que nós mesmos criáramos. procurando restabelecer a certeza de que ela desprezava aquele homem. mas de tristeza. "O cavaleiro era Michel de Troyes. Astiza me mostrou o sarcófago. mago. "Silano encontrou referências a este túmulo no Vaticano e nas bibliotecas de Constantinopla". Contudo o olhar de Astiza era não de desdém. disse ela. Subimos a trilha a pé para a igreja sem teto. quando então se voltou." "E se eu não quiser?" "Aí poderás voltar para Acre. Ela entendia quanto somos prisioneiros de nossos desejos e nossas frustrações. duelista. onde evidentemente haviam sido descobertos os ossos do templário.dessa maneira. erudito e maquinador. e te contarei uma história. Viam-se montículos e buracos de escavação. E Astiza poderá seguir-te ou permanecer .

Levei algum tempo para perceber que a referência só podia ser ao monte Nebo. Astiza se ." "Por quê?" "Porque és seguidor de Franklin. Astiza e vários guarda-costas com que Silano viajava. com os nomes em latim. mas não o encontrei. muito embora nunca se tenha encontrado a sepultura de Moisés. "Golpeei. para meu desprazer. meu próprio trio. O mapa assinalava o próximo passo. "E uma rachadura no fêmur mostrou um quê de ouro. Silano. Eu tinha a esperança de simplesmente achar o documento no túmulo do cavaleiro. Foi então que mandamos buscar-te. Um eletricista. disse Silano.devem ter cortado a perna e esvaziado o osso após a morte do cavaleiro." "O quê? Eletricidade?" "Ela é a chave. Najac sentou conosco. Explicarei tudo depois do jantar. disse Astiza. Dentro desse tubo. estava um mapa medieval." "Uma carta dizia que ele repousara seus ossos com Moisés"." "Golpeaste os ossos com impaciência". Haviam inserido ali um tubo fino . de modo que insisti que Ned e Mohammad também comessem em nossa companhia.fugiu ao encarceramento dos templários em Paris e partiu para a Terra Santa. "e enterrara em si próprio o segredo." Ele relutou em admitir que se portara de modo passional. já éramos mais de vinte — os homens de Najac. A noite caíra. Aqueles serviçais fizeram uma fogueira num canto da igreja em ruínas e depois deixaram a sós os membros mais importantes da expedição." Nesse momento.

. Sem ofensa. dando a deixa como cão adestrado que era. "Será que Tot pretendeu que se estabelecessem uniões como esta para desvendar os enigmas que ele deixou para nós? Será que.ajoelhou. Esse centro.disse Silano. mestre?" perguntou Najac. murmurou Mohammad. mosteiros e túmulos do mundo. "ainda que tenhas escolhido o errado. com animais que se empinavam ante os dardos arremessados por nobres numa floresta. e Silano ocupou a posição central. é o que procuramos. sem percebermos. Sentamos na areia que se acumulara sobre antigos mosaicos de cenas de caça romanas. estamos seguindo os deuses o tempo todo?" "Eu acredito num Deus único e verdadeiro". "de cujo mistério todas as coisas. eis-nos finalmente juntos". Silano pegou um grão de areia." "Assim como acredito no Uno". companheiro. concordou Ned. Segui um milhão de trilhas por bibliotecas. replicou Ned. meus relutantes aliados." "Que centro. e todas levavam ao mesmo centro. acanhada. Faíscas subiam voando para misturar-se às estrelas. "É". com o calor da fogueira criando um casulo contra o gelado céu do deserto. todos os seres e todas as crenças são manifestações. "E se eu vos dissesse que isto é o universo?" "Eu diria que podes ficar com ele e deixar o resto para nós". iniciou Silano. . numa atitude nada semelhante à sua habitual. "Então.

sejam matrizes de quase nada.." "O ouro não passa de fio de aranha? O poder não arrebata nada senão vácuo?" "Ah. e sim algo substancial o bastante para que quebrasses o quadril". Que a queda de uma rocha ou de uma estrela seja uma simples regra matemática.. por exemplo . "E se eu vos dissesse que o mundo à nossa volta é algo diáfano. não podem suas águas serem partidas? Pode o Nilo virar sangue ou uma praga de sapos ser engendrada? Quão difícil seria derrubar as muralhas de Jericó se elas não são mais que um tapume vazado? Quão difícil seria transmutar . Que um formato possa ser sagrado.. não ..é o que afirmam alguns dos escritos sagrados.as pedras desta igreja. disse eu.. Que uma construção possa abranger o divino. não podem ser movidas? Se o mar não passa do mais ralo vapor. O que é feito dos seres que se dão conta dessas coisas? Se as montanhas são apenas teia.. e que tudo o que sustém essa ilusão são energias misteriosas que não compreendemos? E se eu vos dissesse que essas energias talvez não sejam nada mais que o pensamento? Ou que a. tão insubstancial quanto os espaços numa teia de aranha. Suponhamos que as coisas mais sólidas .. o sonho é nossa realidade. todos inspirados por Tot... "Ilusão e mais ilusão . eletricidade?" "Eu responderia que o Nilo no qual caíste não era nenhuma teia de aranha. jogou o grão para cima e o apanhou.O conde sorriu secamente.embora sejamos apenas sonho.... Mas aí está o segredo. Que uma mente possa apreender energias invisíveis.

negaste-me esse título uma vez. És eletricista bom o bastante?" "Sou um homem da ciência. "E agora compreendo o que estamos procurando e o que precisamos utilizar para encontrar isso: temos de capturar o relâmpago!" "Capturar o quê?"." "Creio que precisaremos do conhecimento de Franklin quando estivermos próximos do Livro de Tot. Procurei entender as pistas misteriosas que foram deixadas para nós enquanto o resto de vós se debatia na lama. Vim para o Cairo quando a cidade ainda estava sob o domínio dos mamelucos e explorei antigos mistérios enquanto tu ainda estavas desperdiçando a vida. "Tu. O homem não esquecia nada.chumbo em ouro se ambos são essencialmente pó?" "Estás louco". disse Mohammad." "Foi uma necessidade bélica. Ethan Gage. num banquete diante de Napoleão. soube que lograste usar a eletricidade como arma contra as tropas francesas. Insultaste meu renome para me fazer parecer banal. "Gage. perguntou Ned." . ressabiado. "Investigo tais enigmas há vinte anos. enrubesci. com Najac dando-lhe uma mão de que ele se livrou tão logo pôde. "O que dizes é a fala de Satã." "Não. Eu seguia o rastro dos antigos enquanto vendias teu oportunismo aos franceses. Sou um erudito!" E agora Silano se punha dificultosamente em pé." Ele tampouco perdera o elevado conceito que fazia de si próprio. mas não estou entendendo patavina do que dizes." Mesmo sem querer.

unidas"."É por isso que precisamos dos serafins. de algum modo." "Então vou concordar com Mohammad . interveio Astiza. com mais suavidade.estais ambos loucos. tão grande quanto os dois primeiros. eu venho estudando. Precisamos atrair o relâmpago como Franklin fazia." "Nas galerias subterrâneas de Jerusalém". nessa porta templária. "Acreditamos que. portanto não vira aquela porta de ornamen¬tação esquisita. "encontraste um piso curioso. Não foi assim?" "Como sabes disso?". "Todas as coisas são duais". não? As dez sephiroth da cabala. Najac. . Ele traçou outro círculo. com a configuração do raio. murmurou Astiza. deparaste com um arranjo judaico." "O que isso tem que ver com relâmpagos?" "Observa. "E. nunca adentrara os recintos que eu explorara. no entanto. eles apontarão para o derradeiro esconderijo que os templários usaram após a destruição de sua ordem. E. disse o conde. mas Alessandro e eu acreditamos que Tot também conhecia a eletricidade e que os templários a estabeleceram como teste para que se ache o livro. eu tinha certeza. disse Silano." Curvando-se para a poeira no chão junto à fogueira. Ethan". Silano traçou dois círculos. E uma porta estranha. e ele. "Como já disse. Os documentos são obscuros. perguntei. Eles trouxeram para o deserto o que haviam descoberto nos subterrâneos de Jerusalém e ocultaram isso na Cidade dos Espíritos. unidos pelas margens.

Mais uma vez. "Talvez Jesus também. ele cravou dez pontos. explicou. judaica".tanto uma estrela de cinco pontas como uma de seis.sobrepondo-se a ambos. todos pareciam estar falando línguas antigas que eu desconhecia e descobrindo significados no que eu teria considerado mera ornamentação. A estrela egípcia é usada na nova bandeira do teu país. mais e mais. disse ele. E os templários o reaprenderam. perguntei. Tão surpreendente que chega a dar medo. "Reconheces isto?". E depois círculos sobre esses círculos. cauteloso. As pistas deixadas pelos templários nos mandam usar o céu se quisermos descobrir onde está o livro." Onde os círculos se cruzavam. quis saber Silano. Unindo os pontos. num padrão cada vez mais complexo.não achas que era esse o propósito dos maçons que ajudaram a fundar os Estados Unidos?" Por fim. "Aí está um relâmpago. "As duas são igualmente sagradas. não?" "Talvez." "Nada de talvez. "Uma é egípcia. formando configurações . às quais Haim Farhi nos apresentara antes de Silano. disse ele. e a outra. "Os profetas conheciam isto". Silano começou a traçar retas. "Os templários traçaram outra configuração com base neste formato". nos interstícios. Gage . que constituíram o mesmo padrão distintivo que tínhamos visto no salão templário em Jerusalém as sephiroth. O símbolo do . "Qual parte disto?". o conde desenhou uma linha em ziguezague.

e ainda há o poema." "Poema?" "Duas estrofes.relâmpago está no mapa que achamos aqui . e a tradução explica por que eu estava ansioso para que nos reencontrássemos. Quando o deserto. É bem eloqüente. Cum region deserta bibens ex murice torto Siccatis labris arida sorbet aquas Tum demum partem quandam lux clara revelat Quae prius ignota est nec repute tibi Opperiens cunctatur eum dea cândida Veri Floribus insanum qui furit atque fide "Isso para mim é grego. Sedento suga água com lábios secos. Gage?" "Nos sertões." "Latim." Quando o céu fulgura com o relâmpago dos raios do sol E com as plumas o anjo aponta ao comando de Deus. os clássicos são bons para acender fogueira." Ele recitou: Aether cum radiis solis fulgore relucet Angelus et pinnis indicat ore Dei. Eles não ensinam os clássicos nos sertões da América. . E então a clara luz enfim revela certa parte Que antes era ignota e irreconhecida por teu espírito. Silano." "Encontrei esse documento durante minhas viagens. bebendo da concha retorcida do caracol.

e fundiu os ensinamentos de Jesus com os do Egito antigo. Tolo louco por flores. mas isso não parece ser nosso hábito." Ou a outra coisa." "E o deserto bebe de uma concha de caracol?" "De um temporal com relâmpago.Prolongando-se. Chamar o relâmpago para os serafins e ver para qual parte eles apontam. As conjeturas sobre a origem dos rosa-cruzes variam. havia naquelas palavras algo que despertava uma lembrança. "e invocar as chamas da tempestade." "Qual parte do quê?" "Meu palpite é que seja de uma construção ou uma gruta.. Entretanto. no ano 46. da mesma maneira que teu mentor Franklin fez na Filadélfia. Senti um arrepio de reconhecimento. mas uma delas diz que o sábio alexandrino Ormo foi convertido ao cristianismo pelo apóstolo Marcos. que também confia por fé. a Verdade brilhante e divina espera aquele. pensei com meus botões. Teremos a resposta se o procedimento der certo. "Precisamos ir a um lugar especial na Cidade dos Espíritos". "E quanto às flores e à fé?" "Minha teoria é que se trate de uma referência aos próprios templários e à Ordem Rosa-cruz. ou a crença no .. Desconfio que seja referência a alguma taça sagrada. O que diabos significava aquilo? O mundo evitaria um bocado de confusão se todos se limitassem a dizer as coisas às claras. uma coisa que eu nunca compartilhara com Astiza nem com Silano. o relâmpago. criando um credo gnóstico. disse Silano.

" "Flor e fé simbolizam o caráter que se exige daqueles que querem descobrir o segredo"." "E masculino e feminino".conhecimento. ou desespero e esperança. "Uma mulher?" "Talvez." Resolvi guardar minhas suspeitas para mim mesmo. simbolizando morte e vida. "Estás falando é de um pára-raios . mas o símbolo da cruz e da rosa é muitíssimo antigo.ou melhor. Nós o ." Silano me encarou para certificarse de que eu fizesse a correlação com o Livro de Tot. dois. acrescentou Astiza. "A cruz fálica e a flor vulvar. respondeu Silano." Ponderei. no lugar determinado pelos documentos que encontramos. sendo esse um dos motivos para termos uma conosco. e precisaremos da tua para achar o esconderijo lá. disse Silano." "E depois? Dividiremos o livro ao meio?" "Não". A Ressurreição. "Não precisamos de um Salomão para resolver nossa rivalidade. "Então pretendes atrair um raio para os meus serafins e ver o que acontece?" "Sim. Creio que precisaremos de metal para conduzir a energia para o solo. já que temos dois serafins. para que possamos montar os teus anjos." "E é por isso que as estacas de nossa tenda são de metal. se preferes. Venho planejando isto há meses. "As correntes de pensamento vão surgindo e desaparecendo na história do mundo. Precisarás de nossa ajuda para achar a cidade.

então podemos deslocar rochas. para o bem da humanidade. Os sacerdotes de¬sempenharam esse papel no Egito. não era mesmo? Olhei para Astiza. se teremos poder ilimitado para fazer o bem? Se o mundo é como um tecido diáfano. O mundo anterior era brinquedo de príncipes e clérigos. Que trindade ímpia! Mas eu não conseguiria nada se não cooperasse. exatamente como faziam os antigos. reconciliar inimigos e curar feridas. É isso o que o livro aparentemente nos diz como fazer." "Precisamente.usaremos juntos. Quando a razão e o oculto se unirem. não. Todavia. se todas as coisas são possíveis. prolongar vidas. . E. Todas as coisas são duais. E estamos ligados por Astiza." O sorriso de Silano se pretendia sedutor." Os olhos de Silano luziam. Nós seremos os sacerdotes do futuro. Gage. O novo será responsabilidade dos cientistas." "Juntos?!" "Por que não. "Tendo tu recuperado a juventude. podemos fiar e torcer a matéria." "Mas estamos em lados opostos!" "Não estamos." "A razão de Bonaparte?" Silano olhou de relance para Najac. não a mim. "Sou fiel ao governo que me empregou. os políticos e os generais só compreendem até certo ponto. e no comando de um mundo enfim regido pela razão. Os sábios é que governarão o futuro. terá início uma idade de ouro. Olhei para o quadril dele. Ela estava sentada junto a Silano.

Precisamos de ti para submeter o céu. então aquela fenda amuralhada.18 A entrada da Cidade dos Espíritos era um canyon de arenito. como fresta a fechar-se num terremoto. como passadiço para algum mundo inferior num sonho de sátiro. A rocha aqui pingava como melado congelado. Ethan". "Perdoarei se nos ajudares. cinza. a sinuosa passagem não era mais larga que alguns passos. e o céu era uma distante risca azul lá em cima. vi que a natureza não era a única escultora ali. esse abraço rochoso se mostrava inquietante. acolá se assemelhava a uma cortina de renda. O leito. Grande parte era listrada em camadas de coral. Enquanto caminhávamos levando bornais pelo leito ensombrecido do canyon. apertado e rosado como uma virgem. replicou Astiza. era um serralho de carne ondulada. branco e alfazema. Na base. de areia e pedra. tal qual Benjamin Franklin. ali se intumescia como glacê." . menti. Aquilo fora um portão . "Precisamos de ti para chamar o fogo celeste."Ela nem me perdoou". se a pedra pode mesmo ser voluptuosa. E. por vezes se inclinando como um teto. tão agradáveis aos olhos quanto a favorita de um sultão. talhada pela água em mil formas sensuais. rosa e azul. formava uma estrada tosca que descia rumo a nosso destino. Os paredões se elevavam a seiscentos pés. Mas. quando olhei com atenção.

contornando verdes pastagens no planalto e passando pelas sorumbáticas ruínas de castelos que os cruzados construíram. quando viramos a derradeira quina do canyon. "Eis o que se torna possível quando os homens sonham!" É. Depois subíamos para o outro lado e continuávamos no rumo sul. Passamos sob o desgastado arco romano que marcava a entrada superior do canyon e seguimos silenciosa e energicamente. estávamos havia vários dias em jornada para aquele lugar. Tendo partido de Nebo. com falcões a girar no ar ascendente e seco. esse efeito fantasmagórico se intensificou muito. por nichos nos paredões que abrigavam deuses e entalhes geométricos. com manchas escuras que deixavam claro que ela. o livro só podia estar ali. Ficamos boquiabertos. vigiando-nos . De quando em quando. e. "Vede!". e beduínos a tocar suas cabras para uádis laterais.de caravana. servira de aqueduto para a antiga cidade. lugares tão esquecidos quanto os templários. com um misto de temor e admiração. descíamos a canyons profundos e escaldantes. Nossa comitiva seguira as elevações do Jordão. Camelos de arenito. proferiu Silano. um dia. Regatos minúsculos eram engolidos pela aridez. que se abriam para o deserto de areias amarelas a oeste. Era como se os mortos tivessem sido transformados em pedra. e tinham escavado no paredão uma calha. sacaroteavam conosco em baixo-relevo. duas vezes maiores que o tamanho natural.

Ele dissera que as dimensões da pirâmide codificavam um "número áureo" (1.618. haviam escrito os templários. Será que a pirâmide traduzia de fato alguma verdade fundamental sobre a natureza? E como isso se relacionava (se é que relacionava mesmo) ao lugar para onde estávamos indo agora? Tentei pensar como Monge e Jomard. Meu amigo Talma concluíra que o jovem cientista era meio maluco. de uma distância segura. quando escalamos a Grande Pirâmide. que. O cerco de Acre parecia estar a um planeta de distância. afirmava Jomard. mas eu fora tomado de curiosidade. amigo meu. eu tivera tempo mais que suficiente para pensar nos versos latinos de Silano. até terminarmos de passar.silenciosamente. embora eu nem imaginasse que forças poderiam estar em operação ali. Essa progressão podia ser simbolizada por uma série interligada de retângulos e quadrados cada vez maiores. . na disposição das pétalas nas flores. "E então a clara luz enfim revela certa parte que antes era ignota e irreconhecida por teu espírito". Mas o que me instigara a memória foram as referências à concha de caracol e flor. se eu bem me lembrava). por sua vez. Aquilo de os anjos apontarem me parecia plausível até certo ponto. As mesmas imagens tinham sido usadas pelo sábio francês Edme-François Jomard. No percurso. os matemáticos. e um arco ao redor dos retângulos gerava o tipo de espiral vista numa concha de náutilo ou. era a representação geométrica de uma progressão numérica chamada seqüência de Fibonacci.

Para os outros. agindo como se estivesse irritada. Teria eu uma pista que me possibilitaria arrebatar o Livro de Tot bem debaixo do nariz de Silano? Acampávamos nos lugares mais defensáveis que achávamos e. ainda assim. Era como se as flores assentissem para minha suposição. o mais longe possível de onde dormirmos". Ao poente. incitou seu cavalo adiante para cortar o caminho do meu. quando Ned já estava mergulhado em seu vigoroso ronco. Eu. éramos ex-amantes ressentidos. envolta num branco luminoso e diáfano. deu-me uma idéia extravagante. Quando nos aglomeramos no portão semi-ruído para levar nossos cavalos ao pátio abandonado do castelo. saí de fininho e aguardei nas sombras. subimos um morro para pernoitar nos restos de um castelo que os cruzados haviam construído com arenito e sobre cujas torres destruídas as andorinhas voavam em círculos. mas. sussurravam elas. Ned e Mohammad tínhamos estabelecido o hábito de dormirmos um pouco apartados do bando de degoladores de Najac. Eu a . Ela aquiesceu de modo quase imperceptível e então. dei um jeito de cochichar para Astiza: "Encontra-me ao luar. nas ameias. e. Astiza veio como um fantasma. com o luar leitoso entrando pela seteira. Subimos cavalgando através de um prado de flores silvestres que balançavam ao vento da primavera. com mato crescendo entre as pedras. Fibonacci. as ruínas eram amarelas. em certo entardecer.Aquilo parecia não significar nada. Levantei-me e puxei-a para uma guarita longe dos olhares de quaisquer outras pessoas.

Posso confiar em ti?" Ela sorriu. seus lábios estavam gelados pelo frio noturno. afastou-se na surdina. É uma aposta. estava difícil conseguir sossegar o facho . "Najac está acordado e pensa que saí para as necessidades. "Ethan." Tentei abraçá-la. tu precisarás me ajudar a ficar longe de Silano. Combinaremos como nos encontrarmos depois. Respirei fundo. Se esse truque do raio funcionar mesmo. Nós te abandonaremos. Necessitarei de tempo para tentar uma coisa." "Sabes algo que não nos contaste. "Muito bem." "Deixa o desgraçado contar. Ele deve estar contando os minutos." Tendo dito isso." Astiza pensou por um momento. sussurrou Astiza. mas escuta." "Não será difícil. eu vou explodir. No resto do tempo.beijei pela primeira vez desde nosso reencontro." "E és apostador. tomamos o cuidado de parecer tão eriçados um com o outro quanto porcos-espinhos . "Sejas paciente! Estamos quase lá!" Maldição! Desde que eu saíra de Paris. "Depois que atrairmos o raio. diz a Alessandro que trocarás tua parte no livro por mim. se não nos contivermos agora." "Não. Faze-te de frustrado.era exercício demais e mulher de menos. e seus dedos se entrelaçaram aos meus para controlar minhas mãos. vamos estragar tudo!" "Se nos contivermos. "A confiança precisa vir do íntimo. Eu então fingirei trair-te e irei com ele. "Não temos tempo". sozinho. não é mesmo?" "Talvez." Ela me empurrou para longe.

não dando a impressão de valer a pena nos assaltar.e. quando nos aproximamos. Neles começaram a surgir pilares e . nem ao redor . O mundo parecia vazio. em frente a elas. erguia-se a mais estranha formação geológica que eu já vi. Percebi que a região estava salpicada desses afloramentos. Parecia não existir passagem naquela formação. vimos nela cavernas. Assemelhava-se a um ensopado que fora congelado com bolhas castanhas e tudo. Minha esperança era que se tratasse realmente de um ardil de Astiza. mas nossa comitiva também parecia rija e mal-encarada. um monstro de cem olhos. montados em camelos.mas. Quando chegamos à cidade do mapa templário. arredondado e cheio de protuberâncias. Eu temia as patrulhas otomanas. mas era como se o confronto no monte Tabor tivesse feito as forças turcas desaparecerem temporariamente. vieram em nosso encalço membros de tribos locais. Em certa altura. Najac se afastou a cavalo para conversar com eles.brigados. Seguíamos pelas velhas trilhas de caravana. ou a um pão que crescera desmesuradamente. recortadas e severas . primevo. como uma varíola arenítica. Entre nós e aquele ermo. além de pobre. levando seus próprios bandoleiros. uns homenzinhos rijos e mal-encarados. Havia uma sucessão de montanhas de aspecto lunar. e os nativos acabaram sumindo. um furúnculo de arenito marrom. ninguém mais nos seguia. Viramos para oeste e descemos da beira do planalto central para o distante deserto.

chegamos à outra extremidade do canyon após uma milha de caminhada e ficamos boquiabertos. as enchentes repentinas e violentas ocorrem com mais freqüência nesta época do ano. Entramos a pé e. quando clareou. entre os suprimentos guardados ali. não enxergávamos mais nada do mundo lá atrás. perpendicular ao primeiro e . e temiam um carroção que surgira à beira de nosso acampamento em alguma hora da noite. relinchando e batendo os cascos. "Aqui. O carroção era aquadradado e estava coberto de oleados. poucas jardas depois. Notei que os cavalos estavam estranhamente nervosos. Diante de nós. com as estrelas reluzentes e geladas. depois de trovões e relâmpagos. "Tempestades varreram pedras para o que foi uma estrada da Antiguidade". deixando de guarda alguns dos árabes de Najac. Desapareceram todos os sons.degraus talhados. Nós faremos o mesmo. como já descrevi. Eu quis investigar. de modo que. e Silano explicou que. Os templários sabiam disso e se valeram de tal informação. esclareceu Silano. nós as amarramos a estacas na entrada do canyon. mas então o sol da manhã iluminou a escarpa e realçou o canyon e o convidativo arco romano. menos o de nossos passos arrastados à medida que descíamos pelo leito." E então. Silano disse que as trilhas que percorreríamos na manhã seguinte eram demasiadamente estreitas e íngremes para montarias. Acampamos num uádi seco. havia outro canyon. segundo os registros. o cheiro da carne deixava os animais nervosos.

o que atraiu meu olhar não foram esses querubins ou demônios. a roupa pétrea num drapejado romano sobre os quadris. Aninhada no braço. de seios desnudos e erodidos. os resquícios de uma coroa constituída de um disco solar entre chifres de touro. Senti um calafrio ante aquela estranha recorrência de uma deusa que vinha me assombrando desde Paris.e sim o fato de que. uma cornucópia.tão imponente quanto aquele. Todavia. frontões e cúpulas mais altos que uma agulha de campanário da Filadélfia. o primeiro a rivalizar em esplendor com a imensidão das pirâmides. "Ela é uma estrela a guiarnos até o livro!" . estava o mais inesperado monumento que eu já encontrara. exclamou Astiza. tão róseo quanto as faces de uma donzela. onde os romanos haviam construído um templo para a mesma divindade no que agora era o terreno da Catedral de Notre-Dame. no paredão oposto. Eu vira aquele mesmo arranjo visual nos recintos sagrados do Egito antigo. "Ísis!". mas não foi isso o que nos deixou assombrados . Era uma mulher. mas a figura central bem acima da escura porta do templo. Era um templo talhado na rocha viva. Na cabeça. e os vãos entre as colunas abrigavam figuras de pedra com asas de anjo. Imaginai um desfiladeiro vertical com centenas de pés de altura. Águias esculpidas do tamanho de bisões se encarapitavam na cornija. a cabeça erguida e atenta. um complexo edifício pagão com colunas. Cinzelado nele e dele (não era simples coisa sobreposta ao paredão).

"A menos que tenham concebido algum truque para este lugar . por exemplo -. que significa Erário ou Tesouro. "Ele serve para quê?" Parecia grande demais para uma moradia. olhando para a rocha vermelha lá fora.Silano sorriu. Uma larga escadaria levava à escura entrada com colunas. . Como Silano já dissera. "Não. o canyon dava uma guinada para longe." "Estás dizendo que o livro se encontra lá?". o lugar estava decepcionantemente desguarnecido. O templo era tão nu quanto um armazém vazio. mas não grande e luminoso o bastante para um templo. porque as lendas locais alegam que o Faraó escondeu sua riqueza aqui. tão sem traços característicos quanto a câmara que continha o sarcófago vazio na Grande Pirâmide. semelhantes a caixotes. "Os árabes dão a este templo o nome Khazneh. e então adentramos o templo.suas dimensões matemáticas. perguntei. A nossa direita. disse eu. não há nada aqui". Ficamos um momento em pé no frescor do pórtico. chapinhando ao atravessar o regato que corria pelo centro dessa nova fenda na terra. O desfiladeiro fora cavoucado para dar origem a câmaras retas e perpendiculares. Os recintos estão vazios e são pouco profundos. Alguns minutos de verificação confirmaram que não existiam portas ocultas. O livro está em algum lugar aqui perto." Fomos até a entrada do Khazneh.

disse Silano. como tudo mais". a respeito disto aqui. em castelos de massa de panificação. e o cheiro é de temporal. é que o lugar não é elevado. Por fim. rebateu Silano. demos numa larga cavidade cercada por montanhas íngremes. O oleandro florescia para refletir aquela estranha rocha. mas precisamos agir antes que se desencadeie a tempestade. Tinham o formato retangular de portas humanas. em parte nas sombras. mas estas não eram naturais. Ainda vamos descobrir o Lugar do Alto Sacrifício. e o canyon estava em parte ao sol. É por isso que a crueldade não constitui pecado. os paredões estavam perfurados de cavernas. . proporcionando-nos vislumbres cada vez melhores do labirinto de montanhas que penetráramos. com suas fileiras de assentos também talhadas no próprio desfiladeiro. "E uma ilusão." O novo canyon se alargava lentamente à medida que seguíamos por ele. "O ar está pesado. em pães arredondados. "Estamos com sorte". Era uma cidade construída não sobre a terra. "Não importa. Os escarpamentos pareciam disparar para o céu em camadas de bolo." "Mas é sublime". como um vasto pátio rodeado de muros. de que falam os documentos. mas da terra." Saímos. Se há uma coisa que podemos confirmar. "Só a mente é real. murmurou Astiza.Silano deu de ombros. Por toda a parte. Passamos por um grandioso teatro romano em semicírculo. indicando que pessoas haviam escavado-as. O dia se enevoava. Não teremos de esperar.

havia ali espaço suficiente para comportar toda a Boston." Silano sacara seu mapa templário e agora o examinava. "Este lugar é imenso". ." Atrás de nós. que já não tinham o que sustentar. pedimentos. elevavam-se da terra. "Pelo amor de Isis". Fora talhado de modo a ser a fachada de uma cidade fabulosa." Uma senda fora construída de degraus toscos talhados no arenito.Era o esconderijo perfeito para uma cidade. "Faz as pirâmides parecerem uma caixa de correio. janelas e portas. milhares. É para acharmos um livro aqui?!" "E para tu achares. Templos sem teto se erguiam do entulho. uma profusão de escadarias. no entanto. colunas. Depois. Tu e os teus serafins. O ar estava quente e úmido. Eram centenas. e suávamos. à proporção que subíamos. "Lá em cima? Mas onde?" "No Lugar do Alto Sacrifício. disse eu. E. "Lá em cima. Comecei a contar as entradas e desisti. Entretanto. sussurrou Astiza. Trilhas de cabra conduziam até lá. Colunas. conduzindo a uma verdadeira colméia de câmaras lá dentro. "quem sonhava aqui?!" Um dos paredões era um espetáculo que rivalizava com o Khazneh. apontou. Não. acessível apenas por canyons estreitos e facilmente defendidos. uma montanha que se erguia acima do antigo anfiteatro fora escavada para criar parapeitos. mas parecia ser plana no topo. plataformas.

encerrada pelos desfiladeiros. Até a meseta onde estávamos fora aplainada com muita precisão por antiqüíssimas talhadeiras. "Para o sangue". como piões. contou-nos Silano. quatro degraus levavam a uma plataforma elevada que parecia ser alguma espécie de altar. o retângulo está mesmo no sentido norte-sul". disse eu. Nela. via-se uma pia redonda com calha. como uma piscina seca e muito rasa. "É. haviam recortado um retângulo do tamanho de um salão de baile. . Uma brisa tórrida e úmida apanhava funis de poeira e os fazia girar ainda mais. outras montanhas escarpadas sem nenhum sinal de verde. Silano consultou uma bússola. aproximavam-se rapidamente de nós como negras belonaves. A cidade abandonada estava muda. de onde vinha a tempestade. assomando. e surgiam cada vez mais desfiladeiros salpicados de portas e janelas. Para oeste.a vista se alargava. nós nos vimos numa meseta de arenito com uma vista magnífica. Chegando ao topo. estava a cavidade poeirenta de muros descaídos e colunas tombadas. sentenciou. A luz se arroxeava. Não vimos gente em parte alguma. como se fossem esqueletos. como se já esperasse por aquilo. "Não vejo nenhum lugar onde esconder um livro". O capote dele se agitava ao vento. Bem lá embaixo. Mais além. O sol ia baixando na direção das cabeças de trovoada que. sem as lamentações de almas penadas. No centro.

"Espera aí . com aqueles dez mil buracos que marcavam o arenito como se fossem uma absurda colméia. mas imagino que o velho Ben também estivesse quando se propôs a empinar papagaio numa tempestade. o Sol. abrupto. Os savants são um bando de adoidados.sou neutro. retruquei. insisti.o que acontecerá quando pegarmos o livro?" "Nós o estudaremos". "E eu vejo o infinito. Chegou a hora de usar os teus serafins." "E que metal é esse?" "Os egípcios o chamavam Ra-ezhri. Ethan Gage." "Não terias achado este lugar por conta própria nem em mil anos". "Nem sabemos se conseguiremos decifrá-lo". "És incapaz de cuidar de uma lista de compras no armazém. Tu deverias confiá-lo a mim. . "Eu me refiro a saber quem fica com o livro"." "E não conseguirias achar a tua orelha direita nem se ela estivesse amarrada às tuas bolas por um barbante". "Alguém precisará ser o guardião dele.O conde fez um gesto para a cidade lá embaixo. acrescentou Astiza. Parece que os meus serafins são o instrumento fundamental e que a minha habilidade em instalálos é a chave de tudo. irritadamente. resmungou Najac. respondeu Silano. Eles são feitos de um metal mais sagrado que o ouro. O deus vai tocar o metal e então apontar para onde devemos ir. E não estou realmente nem do lado francês nem do britânico . Invocaremos o dedo de Tot! A essência do universo irá nos dar um sinal!" Ele estava totalmente maluco. as lágrimas de Rá.

"Pois eis minhas condições. ninguém conseguirá o livro." "Juntar-me ao homem que. Silano. "A coisa não funcionará sem mim. "Realmente não entendo o que Franklin viu em ti. "Ou podes ficar sem nada. Irritoume sobremaneira ter de olhar para a boca de meu próprio fuzil. Eu te ajudarei a aprestar os serafins. "Ora." "E qual seria o teu título de posse do livro?" Eu precisava desempenhar meu papel. no Rito Egípcio. Se não ajudares. o fato de ter todas as armas de fogo. e não se fala mais nisso. Ele olhou em volta." "Não sejas tolo. que se acumulavam. estás tão curioso quanto eu. Ademais." "Quero que nos deixes ir embora. mandou-me a cabeça de meu amigo?" Silano deu um suspiro.. por certo que a situação já está bem clara nesta altura das coisas. divertindo-se. ali nas mãos sebosas de Najac. Pega-o.. sem nos causar mal nem interferir conosco. a maior parte das provisões e a única esperança de decifrarmos o que estamos prestes a achar. disse Silano com impaciência. e ficarás sem nada. Ethan." Olhei para Astiza." Apontei para as nuvens. acharás o livro." "Chefe!". não?". "Tu te juntas a mim." Os homens de Najac apontaram os canos de suas armas." "Ela não é minha para que eu possa dá-la. Se der certo. no Egito. e ganhas uma fatia do poder."Gage. exclamou Ned. "Mas quero Astiza no lugar do livro. Tens tanta dificuldade para enxergar o óbvio!." .

" "Feito. "Sim. e Silano confirmou que eles eram mencionados nos documentos templários. cheio de confiança. Trouxeste algum?" Claro que não ." Ele sorriu. Astiza evitou tanto o olhar dele como o meu. nenhuma junção entre os furos. As estacas estavam em pontos opostos. Examinei aquela superfície plana. porém. formando uma estrela de seis pontas. Assim. "E tu ajudarás se eu concordar?" Assenti e disse: "É melhor nos apressarmos". "Não tua. Enfiei a mão nas ceroulas para tirar dali meus suvenires das pirâmides e vi os olhos do feiticeiro brilharem quando ele os pegou.ali estava o alardeado trabalho de pesquisa de Silano! Ia ficando escuro. "Mas a escolha é dela. não minha". "Vamos fazer um pára-raios de Franklin. e os trovões . alertou Silano. inserimos as estacas ali." Notei dois furos no chão da meseta.Silano olhou de relance para ela. para conduzir a eletricidade. disse eu. "com fita ou fio metálicos. Será que eu podia mesmo confiar nela? Aquilo daria certo afinal? Eu estava apostando tudo numa charada latina. A fisionomia de Astiza era uma máscara sem expressão. "Agora. confirmei. a escolha é dela". O arenito exibia ranhuras. "Usa os encaixes que os prendiam ao cajado de Moisés para montá-los no alto das tuas estacas de metal". É tudo o que peço. instruí." Respirei fundo. Não havia. "Precisamos ligar as estacas". um sorriso tão frio quanto uma armadilha para castor num riacho canadense. ajuda-nos a preparar os serafins.

ribombavam à medida que as nuvens inchavam. faz alguma coisa além da cara feia". Bem. Senti arrepios. Ned e Mohammad me acompanharam. avisei. Até Astiza aguardava esperançosamente. Veio um de pé-de-vento atirando pedriscos e terra grossa. A tempestade caiu sobre nós como uma carga de cavalaria. O sol sumiu. pensei no que poderia substituir o metal (pois aqueles meus inimigos tinham razão: eu estava tão curioso quanto qualquer um). "Najac. mas ninguém mais parecia assustado. Relâmpagos golpeavam o céu a oeste. e não em mim. "Usa o teu odre para encher essas ranhuras com água e acrescenta sal. acabei dizendo. e a temperatura baixou." "Água?" "Ben dizia que ela ajuda a conduzir eletricidade. como plumas. Funis de poeira se moviam ligeiros pelo leito do vale. e fomos atropelados pelas nuvens. com o cabelo em torvelinho pela ventania e os olhos no céu. Mais trovões. evaporandose antes de chegarem ao chão." A água preencheu as ranhuras até que a estrela fulgurou à luz densa e verde-arroxeada." O homem tinha um ego tão grande quanto o de Aaron Burr. "Não entendo o que as hastes poderão fazer se ficarem isoladas uma da outra". "Os templários afirmaram que funcionará. Recuei para a beira da meseta. grandes sacas de chuva e trovão que adquiriam intenso brilho prateado ao . ziguezagueando e oscilando como ébrios. e eu via os primeiros feixes de chuva descerem em espiral. Meus estudos são infalíveis.

banhando tudo com um fulgor roxo que não era muito diferente daquele que havíamos testemunhado na câmara sob o Monte do Templo. O alto da . E então raios de luz emanaram das asas dos serafins. Nossas roupas tremulavam. e o raio único resultante riscou o espaço como uma bala de fuzil. que eram muito quentes e pesadas. um estrondo imediato. O raio se manteve por um momento. como uma momentânea espiada do sol numa caverna sombria. encontraram-se em pleno ar. O relâmpago já passara. e as asas deles apontaram para nordeste. Voaram faíscas. e depois se desvaneceu. e uma luz azul brilhante foi de estaca a estaca pelas ranhuras molhadas da estrela e depois formou um arco no ar entre os dois anjos. mais parecendo chumbo derretido que água. indo atingir um grandioso vão da entrada com colunas. Os serafins ficaram de um branco incandescente. a duas milhas de onde estávamos. com os trovões soando como uma artilharia. As estacas de ferro giraram. e o silvo do vento se tornou um grito agudo. como numa fonte.avolumar-se e inflar. Voavam faíscas para todos os lados. cada vez mais perto. em outro templo do paredão de rocha. exclamaram os capangas de Silano. mas as estacas retinham força elétrica. e a montanha estremeceu . "Isso!". E aí houve um clarão ofuscante. Raios lampejavam e atingiam os picos ao nosso redor. enviesando-se umas para as outras de modo que retas traçadas de cada um dos anjos se interceptavam umas vinte jardas adiante. Caíram gotas grossas.um dos pára-raios fora atingido! Senti as pernas bambas.

estamos vendo a obra de Deus. A tempestade se deslocava para leste. E não importa se esse deus é Tot. "Foi obra do capeta". Deslumbrado. obra de Moisés!". Silano erguera os braços para o ar. "Alguém marcou onde incidiu aquele raio?". com uma ponta de cobiça na voz. tirando o cheiro de temporal do ar. em que Satã era uma serpente que prometia o conhecimento a Adão e Eva. Todos sentíamos a eletricidade no ar. murmurou Big Ned. replicou Silano. agora mais fresca. a água corria a cântaros por toda a parte.o conhecimento. pois sua conformação é a mesma . "Não. "E dos templários e de todos os que buscam a verdade." Os olhos do conde se acendiam de energia. Jeová ou Alá. No alto dos desfiladeiros. e nossos cabelos dançavam por ela. lembrando cogumelos na ponta das estacas. "Eu conseguiria achar o lugar de olhos fechados". o vestido ensopado. vinha mais chuva. ouvidos na infância.mas as palavras e o aspecto de Silano me inquietaram. Recordei sermões.afinal. a água pingando dos anéis de cabelo colados às faces. Senhores. estive numa expedição de savants . garantiu Najac. como . Os serafins tinham derretido e se achatado. Astiza estava rígida. Com que fogo estávamos brincando ali? Ao mesmo tempo.montanha escureceu. Não tenho nada contra o conhecimento . olhei para nossas estacas de metal. perguntou Silano. como se parte do raio o tivesse permeado. Era um aguaceiro. mas. em triunfo. atrás de sua rabeira flamejante.

" Ele se inclinou numa reverência. "Não posso deixar Alessandro ter o livro apenas para si. Pierre." "Mas eu vim por tua causa! Saí de Acre por ti!" Ostentei mais indignação que um advogado ao encarar provas irrefutáveis contra seu cliente. senhores." Ela ficou longo tempo calada. disse eu. "agora podes vir comigo. minha bússola moral.realmente ocorrera alguma coisa . Mas ela precisava evitar meu olhar. mas acho que. após mil anos. Ethan. proclamou Silano. Não posso me afastar do livro depois de todo este sofrimento. Fizeste teu acordo. mas ouso dizer que nenhum de nós dois lamentará muito a perspectiva de seguirmos caminhos diferentes. disse o ansioso Najac. Acamparemos em frente ao templo que foi iluminado e iremos vasculhá-lo à primeira luz da manhã. até dizer: "Mas não vou." .e preocupada. sertanejo da América." "Hein?" "Ficarei com Alessandro. Isis me conduziu a este lugar para que eu concluísse o que comecei. Ethan. "Desçamos antes que anoiteça. "Entendo tua impaciência. que estamos prestes a fazer história".podíamos deixar que um fruto tão tentador ficasse sem ser colhido? Olhei para Astiza." "Ou com tochas. hoje à noite mesmo". nosso objetivo não vai a lugar nenhum. tua companhia foi fascinante como sempre. não era mesmo? Astiza parecia estupefata . "Astiza". "Creio. de maneira que agora posso dizer-te adieu. Gage.

envolvendo a cabeça com o lenço. em tom mais alto. resmungou Najac. Amaldiçoarás o trato que quiseste fazer!" "É". espero." "Só ajudei com o raio para ficar contigo!" "Sinto muito." Silano sorria. Mais importante do que nós. Gage."Mas Silano é louco! Vê quem são seus companheiros. arranquei uma das estacas de ferro para usá-la como arma. perceberás o que acabas de jogar fora".se é que Astiza estava mesmo fingindo. desceram a trilha em fila.. o que o Rito Egípcio poderia ter-te proporcionado!. Volta para os ingleses. "Ah. para mim. Astiza. que voltes para Acre e morras. Ele já esperava aquilo. levando com eles as estacas e os serafins .. "Então. empunhando a pistola com firmeza. O livro é mais importante do que tu. Ethan. mas o bando de Najac apontou os mosquetes em minha direção. "Adeus. disse Silano. "Muito em breve. Ethan. Dando sorrisos zombeteiros." Com fingida frustração. Eles são cria do diabo! Vem conosco ." Astiza balançou negativamente a cabeça. ordenei. "Se é assim. Gage." "Tu me usaste!" "Nós te usamos para achar o livro — de uma vez por todas." Deixei a estaca cair com um tinido.vem comigo para a América. Nossa encenação dera certo . com voz trêmula. Eu vou com Alessandro. não quis olhar para mim enquanto Silano a conduzia para fora da meseta. ide embora da minha monta¬nha!". "Não!" "Ela já escolheu.

derretidos. No caminho, Astiza só relanceou para trás uma vez. Quando eles já estavam a uma distância suficiente para não nos ouvirem, Big Ned finalmente explodiu. "Por todos os santos, chefe, vamos deixar aquele carcamano patife roubar o tesouro que é nosso por direito?! Achei que tivesses mais peito!" "Miolo, Ned, miolo. Lembras como te superei no duelo?" Ele ficou com cara de quem falara bobagem e aceitava a repreensão. "Lembro." "Pois aquilo foi com miolo, não muque. Silano não sabe tanto quanto imagina, e isso quer dizer que agora temos nossa chance. Vamos achar uma trilha pela parte de trás desta montanha e fazer nossas próprias explorações, bem longe daquela súcia de degoladores." "Longe? Mas eles sabem onde está esse teu livro!" "Sabem onde o raio lançou a luz. Só que não acho que os templários seriam assim tão óbvios. A minha esperança é que eles tenham sido estudiosos da Grande Pirâmide." Ned não entendeu nada. "Estás falando de quê, chefe?" "A minha aposta é que o que acabamos de testemunhar foi uma tentativa de levar os outros a equivocarem-se. Sou um apostador, Ned. E a Grande Pirâmide incorpora uma sucessão de números conhecida como seqüência de Fibonacci. Tu já deves ter ouvido falar disso, não?" "Com a breca! Não ouvi, não."

"Os franceses me ensinaram isso no Egito. A tal seqüência é uma representação de certos processos básicos da natureza. É algo sagrado, se preferes essa palavra. Bem o tipo de coisa em que os templários estariam interessados." "Desculpa, chefe, mas eu achava que tudo isso tinha a ver com tesouros antigos e poderes secretos, não com números e templários." "São todas essas coisas juntas, Ned. Pois bem, existe uma razão numérica que aparece em qualquer representação geométrica da seqüência, uma proporção aprazível entre uma reta mais longa e uma mais curta. Essa proporção corresponde ao número 1,61 e uns quebrados e é denominada número áureo. Os gregos, os construtores das catedrais góticas e os pintores renascentistas a conheciam, e ela foi incorporada nas dimensões da Grande Pirâmide." "Áureo?" Ned me olhava como se eu fosse maluco, o que talvez fosse mesmo verdade. Tracei retas no chão. "Isso significa que o livro talvez esteja em ângulo com aquilo que vimos aqui. Pelo menos, é nisso que estou apostando. Vejamos... Vamos supor que a base da pirâmide seja representada pela reta que vimos disparar através do vale." Esbocei uma reta para as ruínas a que Silano e sua turma se dirigiam naquele momento. "Tracemos uma perpendicular que vai do ponto de origem daquela reta mais ou menos para oeste." Apontei a serra escarpada de onde viera a tempestade. "Em alguma interseção dessa nova reta, há um ponto que seria representado se, para completarmos um triângulo retângulo,

traçássemos o cateto oposto entre o lugar para onde foi Silano e a reta que imaginei para oeste." "Um ponto onde?..." "Exatamente. Precisaríamos saber o comprimento desse cateto oposto. Imaginemos que ele tenha aproximadamente 1,61 vezes o comprimento do cateto que vai daqui ao templo de Silano - a razão áurea, que é a representação física da seqüência de Fibonacci e da própria constante natural, como vemos na inclinação da Grande Pirâmide. É difícil estimar distâncias, mas, se supormos que o templo está a duas milhas, então o cateto oposto teria um pouco mais de três..." Ned forçou a vista, acompanhando meu braço enquanto este partia do templo e ia do norte para o oeste. "Meu palpite é que ele interceptaria minha linha imaginária para oeste mais ou menos ali onde está aquela imponente ruína. Olhamos fixamente para lá. No leito do vale, havia um antigo edifício que dava a impressão de ter sido castigado por artilharia durante uns cem anos. Na realidade, aquilo era apenas obra do tempo e da deterioração. Ainda assim, o edifício se erguia mais alto que todo o entulho ao redor. Uma fileira de colunas, sustentando nada, projetava-se do chão ao longo do que parecia ser um antigo passadiço ou corredor. "Vistes esse ângulo onde mesmo, efêndi?", perguntou Mohammad, procurando entender. "Na inclinação da Grande Pirâmide. Foi meu amigo Jomard quem me explicou."

"Quereis então dizer que o conde Diabo está indo para o templo errado?" "E só palpite, mas é a única chance que tenho. Amigos, estais dispostos a dar uma olhada e torcer para que os templários tenham dado a esse jogo dos números a mesma importância que os antigos egípcios davam?" "Aprendi a ter fé em vós, efêndi." "E, caramba, que piada seria descobrirmos o maldito livro antes deles!", riu Ned. "E aposto que vamos achar ouro também..."

- 19 Fingimos descer como se estivéssemos indo à entrada do canyon para sair da Cidade dos Espíritos. Mas, após termos avançado com cautela por entre algumas pedras, longe dos olhos de Silano, encontramos uma descida difícil por uma ravina, bela e encharcada, na face oeste da montanha. Passamos por mais cavernas e túmulos em ruínas, junto a cascatas criadas pela chuva (o deserto estava mesmo sedento, sugando a água tal qual os templários haviam profetizado), até que chegamos ao leito da cidade. Era a hora do luscofusco, e a chuva terminara. Usando uns morrotes como cobertura para ficar fora das vistas dos outros, alcançamos bem ao escurecer o grande templo que tínhamos visto. Estava fresco após a tempestade, e estrelas começavam a salpicar o céu.

Essa estrutura estava em pior estado que o templo que eu explorara em Dendara, no Egito, e era muito menos imponente. O teto se fora, e o que restava parecia um cercado de entulho sem janelas e com ornamentação mínima. O templo era enorme (as paredes pareciam ter cem pés de altura, com um arco de altura suficiente para que uma fragata passasse por ali), mas despojado. Não foi difícil achar um túnel que conduzia para baixo. Num dos cantos do interior do templo, havia uma cratera no entulho, como se alguém tivesse escavado à procura de tesouro; e, no fundo dessa cratera, viam-se tábuas brutas seguras por grandes pedras. "Então está aqui!", exultou Ned, falando baixinho. Atiramos as tábuas para o lado e deparamo-nos com degraus de arenito. Usando arbustos secos para fazer tochas toscas, acendemos uma (atritando aço com pederneira) e descemos. Logo, porém, ficamos desapontados: após trinta degraus, a escadaria se interrompeu abruptamente, e a continuação assemelhava-se a um poço, de paredes de arenito liso. Peguei uma rocha e a deixei cair ali. Passaram-se longos segundos, e então se ouviu uma pancada na água. Eu ouvia uma correnteza lá embaixo. "Um velho poço", disse eu. "Os beduínos o fecharam para que as cabras e as crianças não caíssem nele." Frustrados, voltamos para fora para explorar o perímetro, mas não achamos nada de interesse. Lá na frente, velhas colunas que já não sustinham nada se enfileiravam num passadiço abandonado. Mais montes de alvenaria quebrada marcavam

velhíssimas construções, ruídas havia muito. Todos eles davam a impressão de ter sido remexidos, com fragmentos de cerâmica por toda a parte. Eu vos direi o que é a história: são cacos e ossos esquecidos; é um milhão de habitantes achando que o momento em que vivem é o mais importante, todos reduzidos a pó. Dos desfiladeiros em volta, as cavernas pareciam bocas caladas. Sentamos, exaustos. "Parece que a tua teoria não funcionou, chefe", disse Ned, desalentado. "Ainda não, Ned. Ainda não." "Onde estão os espíritos, então?" Ele olhou ao redor, forçando a vista. "Cuidando dos próprios assuntos, espero. Acreditas em fantasmas?" "Acredito - eu já os vi. Companheiros perdidos rondam o convés nas nossas vigílias mais escuras. Mais algumas almas penadas, de naufrágios desconhecidos, ficam chamando lá das ondas. É, isso gela o sangue da marujada, podes ter certeza. E, numa casa de cômodos onde morei em Portsmouth, tinha morrido um bebê, e a gente costumava ouvir o choro quando. "Isso é conversa demoníaca", interrompeu Mohammad. "É errado ficar a lucubrar os mortos." "Sim, amigos, pensemos em nosso objetivo. Precisamos achar uma maneira de descer. Se há uma coisa que não falta em caça ao tesouro, é enfiar-se pela terra." "Deveríamos receber salário de mineiro, sim, senhor!", concordou Ned.

"De manhã, Silano entrará no templo que o raio atingiu, e ele ou achará alguma coisa, ou não achará nada. Estou apostando nessa segunda opção - mas precisamos descobrir o tesouro e já estarmos bem longe antes disso." "E a mulher?", perguntou Ned. "Estás desistindo dela, chefe?" "O combinado é que ela saia às escondidas e venha ao nosso encontro." "Ah, apostaste também nela? Bem, as mulheres não são boa aposta." Dei de ombros. "A vida nada mais é que uma aposta depois da outra." "Eu gosto do som do córrego", comentou Mohammad, para mudar de assunto. Eu sabia que ele também considerava a jogatina um ardil do diabo. "É raro que possamos ouvi-lo no deserto." Prestamos atenção. De fato, um riacho corria por um canal junto ao passadiço, parecendo rir ao bater água. "Foi a tempestade. Acho que, na maioria dos dias, este lugar não tem como ser mais seco", disse Ned. "Mas para onde será que vai a água?", continuou Mohammad. "Estamos numa cavidade natural." Levantei-me. É, para onde? O deserto, sedento, suga água com lábios secos. Repentinamente empolgado, desci com dificuldade os degraus quebrados do templo até o passadiço e o atravessei para chegar ao riacho temporário, que agora cintilava à luz das estrelas. Ele corria para oeste, no rumo das monta¬nhas, e então... sumia!

Uma coluna jazia tal qual tronco abatido e atravessado sobre o riacho, e, debaixo dela, a água desaparecia abruptamente. De um lado, o curso de água sussurrante. Do outro, seixos e areia secos. Entrei na água fresca, sentindo-a correr contra minhas panturrilhas, e espiei sob a coluna. Havia na terra uma fenda horizontal, como a pálpebra de um gigante sonolento, e era nela que a água se derramava. Eu conseguia ouvir o eco. Ah, não o olho de um gigante, mas a boca! Suga com lábios secos. "Creio que achei o nosso buraco!", berrei para os outros. Ned saltou para a água, ao meu lado. "Se escorregarmos para aquela fenda, chefe, podemos ser varridos para o inferno." Deveras. Mas, e se por algum milagre eu adivinhara certo e aquilo era uma pista de onde os templários tinham realmente ocultado seu segredo de Jerusalém? Parecia ser mesmo a solução. Saí da parte de baixo da coluna e olhei em volta. Aquela era a única que caíra por sobre o riacho. Qual a probabilidade de que essa coluna tivesse rolado justamente para onde uma caverna conduzia ao subsolo? Uma caverna, ademais, cuja presença só se fez conhecer após uma grande tempestade com raios e trovões? Segui o fuste da coluna até a encosta oposta ao templo. Ela cindia-se da base como num terremoto, e o que restava do pé ressaltava do solo tal qual um dente quebrado. Muito curiosamente, essa base parecia mais livre de entulho que a paisagem circundante. Alguém

(séculos antes? Ou naquele momento mesmo?) limpara o chão, talvez após ter tirado a armadura medieval de malha e a túnica branca com uma cruz vermelha. "Ned, ajuda-me a cavar. Mohammad, pega mais arbustos para fazermos tochas." O fuzileiro resmungou. "De novo, chefe?" "Ainda queres o tesouro?" Logo revelamos sob a base da coluna uma plataforma de mármore gasto. Por um momento, consegui visualizar o que a cidade devia ter sido no auge, com as colunas formando uma arcada umbrosa em ambos os lados do passadiço central, apinhado de comércios e tavernas pitorescos; com a água fresca jorrando de fontes azuis; e com os camelos, enfeitados com borlas, o lombo carregado de mercadorias, balançando em passo majestoso ao chegar da Arábia. Também haveria estandartes, trombetas, pomares... Ali - uma configuração no mármore! Triângulos entalhados sobressaíam-se da base quadrada da coluna. Percebi que, na realidade, eram duas camadas de calço, e uma delas era uma polegada mais alta e justapunha-se à outra. "Procurai um símbolo nesta cantaria", ordenei a meus companheiros. "Algo como o emblema dos pedreiros-livres - o compasso e o esquadro da maçonaria." Esquadrinhamos tudo. "Nada de nada", sentenciou Ned.

Ora, os templários eram monges guerreiros, não pedreiros. "E nenhuma cruz? Nenhuma espada? Nenhuma das sephiroth?" "Efêndi, é só uma coluna quebrada." "Não, não - há alguma coisa aqui. Alguma coisa com flor e fé, como dizia o poema. É uma porta fechada, e a chave é... Temos um quadrado dentro de um quadrado. Quatro ângulos mais quatro ângulos? Dão oito. Um número sagrado? O oito está na seqüência de Fibonacci." Os dois olharam para mim, sem entender nada. "Mas são dois triângulos também - três mais três. Seis. Não, não é isso. Oito mais seis são catorze, mas também não é isso. Maldição! Será que errei totalmente de rumo?" Senti que minhas tentativas eram contraproducentes. Eu precisava de Monge, ou de Astiza. "Se sobrepuserdes os triângulos, efêndi, tereis a estrela judaica." Claro! Seria tão simples assim? "Ned, ajuda a puxar esta base de coluna. Vejamos se os triângulos deste piso deslizam um sobre o outro." "Como é?" Mais uma vez, ele fez cara de quem me achava um lunático. "Puxa! Tal qual fizeste naquele altar nos subterrâneos de Jerusalém!" Parecendo estar apenas confirmando a própria danação, o fuzileiro se juntou a mim. Não creio que, sozinho, eu teria conseguido mover aquela cantaria intransigente, mas os músculos de Ned se incharam até quase explodir. Mohammad também ajudou. Com extrema relutância, a base começou mesmo a mover-se, e os mármores começaram a

Ned. Quando os triângulos se cruzaram. Ouvíamos o ranger de antiqüíssimos mecanismos enquanto descíamos. pulai . eles foram mais e mais constituindo uma estrelade-davi. "Puxa. O poço era demasiado alto para que conseguíssemos escalado e sair. ouviu-se um estalido. . "Pulai.antes que se feche!" Saltei e pousei no mármore que descia. qualquer que fosse ela. a estrela-dedavi começava a afundar na terra. O aparato inteiro se tornara algo desprovido de peso . que então deu um solavanco e parou no fundo. e repentinamente a base se moveu sem entraves. chefe.justapor-se.e.estamos indo é para o livro e o tesouro!" Agora o ruído de água era mais alto. com o árabe segurando as tochas improvisadas. Após um momento de hesitação. Ned e Mohammad fizeram o mesmo. à medida que a base girava. Tudo o que eu enxergava eram umas poucas estrelas. girando sobre um pivô numa das quinas. Quando enfim formaram a estrela. Ficamos pasmados. "Não. ecoando na câmara subterrânea para onde estávamos descendo. sendo nossa plataforma aquele signo-de-salomão. homens . Quanto mais os triângulos se sobrepunham. Afundávamos por um poço em forma de estrela. lamuriou-se Mohammad." Mas isso não aconteceu. mais facilmente eles deslizavam. "Estamos indo para o inferno!". puxa!" "Vais é atrair outro raio. Olhei para cima.

e seu padrão me lembrou a concha de náutilo que Jomard me mostrara na Grande Pirâmide. fazia um ruído possante. "Um sorvedouro". a água era uma lagoa turbulenta e voraginosa. Nós nos agachamos e a seguimos." Eu disse isso com mais confiança do que de fato sentia. Fiquei boquiaberto. agora é tarde demais. Na saída do funil. Uma passagem horizontal baixa saía de nosso curioso poço na direção do som da água." . amigos. estreitando-se à proporção que baixava. Pela periferia da gruta. com razão. "Acendamos uma tocha". demos numa gruta.. Mais ou menos na metade do comprimento da coluna caída lá em cima. em algum lugar. murmurou Ned. que também confia por fé. Tolo louco por flores. "Hum. disse eu. Estávamos aglomerados no alto do funil. "Mas uma só podemos precisar das outras."Como é que vamos subir de novo?". "Não é do tipo de que a gente consegue sair." A luz amarela fulgurou. A gruta onde estávamos era artificial e tinha formato de cornucópia ou funil descendente. A saliência se espiralava ao descer. Mas não foi isso que atraiu minha atenção. havia uma saliência de pedra. O riacho criado pela tempestade se despejava da fenda que eu vira lá em cima . A água. Será que devíamos ter deixado um de nós lá em cima? Vinde. O livro irá nos dizer como sair. quis saber Ned.o deserto realmente sugava a água. aquela inspirada na seqüência de Fibonacci.. com largura suficiente para o andar de um homem.

tesouro e mulher." Que também confia por fé. Ned — trata-se de outro símbolo.conhecimento." Ele balançou negativamente a cabeça. sobre o que está por trás do mundo comum. Exatamente como os egípcios. Éramos todos absolutamente malucos. Mais uma vez. o que não estava longe da verdade. senti-me culpado por causa de Miriam. De alguma maneira. Mas eu sabia que matara a charada.é um portal. não onde estava Silano. Vós podeis esperar aqui. procurando um atalho para a felicidade. "Diacho. e que. chefe." "Não. trivial. efêndi .estamos num lugar maligno. Ou achais que teriam?" Olharam-me como se pensassem que meu lugar era no manicômio. se Astiza viesse nos encontrar como prometido. eu enfim teria tudo ." "Subterrâneos construídos por loucos?" "Não. Engraçadas . o que se combinava com a doce lembrança de seu corpo e com não pouca apreensão a respeito de sua mágoa. o universo é constituído de números. duas mulheres. Meu palpite é que o livro é sobre isso. estavam tentando imortalizar isso em pedra. Sabia que os loucos templários e seu relâmpago haviam colocado o segredo ali."Não. e os templários. este é um lugar sagrado. "É só uma entrada de esgoto. como foi que eu acabei metido contigo?!" "Deveras. ou as pessoas que construíram esta cidade. Aposto que não teriam construído tudo isto se não houvesse alguma coisa lá embaixo. Bem. mas isso se resolveria no devido tempo." "Não .

minha tocha crepitou no ar encharcado. mas eu simplesmente fui tateando e mergulhando direto para baixo. Talvez houvesse ali umas coisas a nadar. Submergi na escuridão. movendo-me lentamente pela saliência em espiral como um caramujo cauteloso. Meus companheiros ficaram lá em cima. Tinha . era absolutamente escura. respirei fundo. roçavam em mim. Acendi outra tocha e desci. Lençóis macios e fibrosos de algas. agora. mas não imunda. eu já disse. olhando para mim. Tomei coragem. confiando que os membros sobreviventes voltariam um dia e reconstituiriam a ordem daqueles monges guerreiros. estivessem ou não lá). rezei a todos os deuses que consegui lembrar e mergulhei. porque eu não tinha nenhuma dúvida de que eles haviam lançado seu tesouro de Jerusalém por aquele funil. podíamos? Assim. a única luz era a tocha débil de Ned e Mohammad lá no alto). Havia um bolor de caixão. rodopiando como num ralo. brancas e flácidas no negrume (eu até as imaginei. A água estava gelada. A água. Quão profundo era o poço? Demasiado fundo para que se recuperasse o que quer que os templários atiraram ali? Sim.as coisas em que pensamos quando estamos em apuros. Mas já não podíamos sair pelo mesmo caminho que entráramos. com espuma verde a boiar na superfície como coalhos. o lodo de séculos. Quando cheguei aonde a água caía no breu da voragem. colocando a tocha de lado (no que ela se apagou de imediato.

A correnteza me levou por sobre esse cemitério. vinda da frente. Notei uma claridade esquisita. e passei por um túnel . Enxerguei um fundo. A correnteza já me preocupava. Aquilo fora um poço sacrificial ou uma câmara de execuções. porque estava cada vez mais evidente que forcejar para voltar à superfície custaria mais tempo e fôlego do que eu tinha. Era um recife ósseo e alvejado. empurrando-me para uma luz cada vez mais larga. e órbitas tão vazias quanto covas funerárias. mas se mostrava bastante bemvinda após longos segundos de escuridão absoluta. porém suficientemente reconhecíveis. com dentes tão longos quanto dedos indicadores. Estaria eu tendo alucinações com a falta de ar? Não. Eu não podia retroceder e estava sendo arrastado para baixo e para adiante. como areia limpa. O todo estava envolto em pedras e em correntes de metal cobertas de filamento. em medonha mistura de braços. mas agora era cem vezes pior .um ossário dos condenados ao inferno. Eu vira o friso de caveiras na câmara templária de Jerusalém. mas osso. Comecei a entrar em pânico.dois minutos para achar o que procurava ou me afogar. Desta vez eram caveiras de verdade. era luz de verdade. lívidas. Mas então vi a verdadeira fonte do brancor e quase engoli água: o fundo não era areia. Não era brilhante. pernas e costelas. e ele era tranquilizadoramente branco.

curto e a vi ainda mais brilhante acima de mim. Embora a correnteza quisesse me arrastar para onde quer que o rio fosse, bati freneticamente as pernas para cima. Vim à tona com meu derradeiro fôlego, arfando - o horror daqueles ossos! Avistei uma saliência arenítica e me debati furiosamente para chegar lá. Agarrei-me a ela, tomei impulso e me deixei cair na beira daquilo como um peixe exausto. Por um tempo, fiquei apenas deitado, ofegante. Enfim, tomei fôlego o bastante para levantar meu tronco e olhar em volta. Eu estava no fundo de um poço de arenito. Bem acima, muito além de meu alcance, estava a fonte daquela luz débil. A correnteza subterrânea da qual eu escapara passava pela saliência e se derramava em outro túnel. Estremeci: haveria ainda mais ossos a jusante, aos quais se juntariam os meus? Ergui a vista para examinar a luz pálida e prateada da lua e das estrelas. Não consegui ver o céu, de modo que presumi que alguma coisa estivesse refletindo para baixo a luz celeste. A iluminação era muito fraca, mas suficiente para que eu verificasse que as paredes do poço eram lisas, sem frestas e sem pontos de apoio para os pés e mãos; além disso, o poço era demasiadamente largo para que eu pudesse subir pondo um pé e uma mão em cada lado. Não havia mesmo nenhuma possibilidade de sair escalando-o. E o que mais? Homens a observar. Pingando, levantei-me lentamente e me voltei àquela câmara sombria. Percebi que estava

rodeado de homens, imensos, barbados e sorumbáticos, ataviados com armaduras medievais. Tinham elmo, polainas de ferro e (apoiado no chão junto a estas) escudo em forma de pipa de empinar. Não eram, porém, homens de verdade, e sim estátuas de arenito, talhadas nas paredes do poço para formar um círculo de sentinelas eternas templários. Talvez fossem representações de grãomestres da ordem. Eram muito maiores que o tamanho natural, com uns bons nove pés de altura, e seu olhar era severo. Ainda assim, havia algo de reconfortante nesses meus novos companheiros, que nunca baixariam a guarda e, no entanto, ficavam de costas contra as paredes daquela câmara de pedra como se já esperassem que um dia seria encontrado o que eles guardavam. E o que guardavam eles? Um sarcófago, mas não um desprovido de tampa como o que eu vira na câmara régia da Grande Pirâmide. Esse agora seguia o estilo adotado nas igrejas européias, tendo na tampa a figura esculpida de um cavaleiro medieval. O sarcófago era de pedra calcária, e conjeturei que o templário fosse o primeiro deles Montbard, tio de São Bernardo. Um guardião por toda a eternidade. A tampa era pesada e, a princípio, pareceu firmemente assentada. Mas, quando lhe dei um empurrão mais forte, ela se deslocou ligeiramente, com ruído de raspagem, levantando poeira das bordas. Fazendo muita força, empurrei e empurrei, até que deixei o sarcófago entreaberto e depois

consegui baixar uma das beiradas da tampa até o chão. Em seguida, espiei lá dentro. Era uma caixa dentro de outra. O caixão que lá estava era de acácia, extraordinariamente bem conservada. Ainda que a idéia de abri-lo me fizesse parar para pensar, eu já viera longe demais para não fazê-lo. Levantei a tampa com um puxão. Dentro, estava o esqueleto de um homem, nada horripilante - ali, derradeiramente exposto, ele só parecia pequeno e nu. As carnes tinham se decomposto havia muito, e as roupas não passavam de pequenos fragmentos. O espadão se reduzira a uma sombra estreita e enferrujada da antiga potência. Mas a mão esqueletal ainda segurava um prodígio que não se corroera e continuava tão lustroso e intricadamente ornado quanto no dia em que o forjaram. Era um cilindro de ouro, largo como uma aljava e comprido como um rolo de pergaminho. Sua superfície mostrava uma profusão de figuras míticas, touros, falcões, peixes, escaravelhos e criaturas tão esquisitas e extranaturais que tenho enorme dificuldade para descrevê-las, tão diferentes eram de tudo o que eu vira antes. Havia ranhuras e arabescos, mais estrelas e formas geométricas, e o ouro era tão liso que meus dedos não resistiram a acariciar sua sensualidade. O metal parecia quente. Pelo peso, valeria o suficiente para uma vida inteira de riqueza. Pela concepção, não podia ter preço. O Livro de Tot só podia estar ali dentro. Mas, quando puxei o cilindro para tirá-lo do caixão, o esqueleto puxou na direção contrária!

Fiquei tão assustado que larguei, e o cilindro se deslocou de leve, assentando-se mais profundamente na ossada. Então percebi que eu apenas me surpreendera com o peso do objeto. Levantei-o de novo, e o cilindro soltou-se, ameno, liso, pesado. Não houve nenhum fulgor de relâmpago, nenhum estrondo de trovão. Eu prendera o fôlego sem perceber, e agora o soltava. Ali no escuro era simplesmente eu, segurando aquilo que se dizia que homens haviam procurado durante mais de cinco mil anos, chegando a lutar e morrer por isso. Estaria também aquele cilindro amaldiçoado? Ou seria ele o meu guia para um mundo melhor? E como abri-lo? Quando examinei o cilindro com mais vagar, tive um estalo - eu já vira alguns daqueles símbolos. Não todos, mas alguns estavam no teto do templo de Dendara, e outros, no dispositivo calendário que eu estudara no porão do L'Orient antes dessa capitânia francesa explodir na batalha naval do Nilo. Havia um círculo sobreposto a uma reta, exatamente como no calendário, e todas as outras coisas - animais, estrelas, uma pirâmide e o signo de Touro, a era astrológica em que se construíra a Grande Pirâmide. Lá estava não apenas a pirâmide, mas também a pequena representação de um templo com colunas. Vi que o cilindro tinha um eixo móvel, para que se pudesse deslocar e alinhar os símbolos, de maneira semelhante à dos círculos daquele calendário. Assim, experimentei mais uma vez o que eu já conhecia: o touro, a estrela de cinco pontas e o símbolo do solstício de verão, tal qual eu fizera no navio. Mas não foi

suficiente, e por isso acrescentei a pirâmide e o templo. Talvez eu tenha sido inteligente. Talvez eu tenha sido sortudo. Talvez existisse uma centena de combinações que também abririam o cilindro. Não sei. Sei apenas que ouvi um estalido e que o objeto se dividiu entre a pirâmide e o templo, como um salsichão cortado ao meio. E, quando puxei para lados opostos as duas metades douradas, surgiu o que eu esperava achar lá dentro: um rolo, o antigo formato dos livros. Eu o desenrolei, com os dedos trêmulos de empolgação. O papiro, se é que era esse mesmo o material, não se parecia com nenhum outro que eu vira ou manuseara antes. Era mais lustroso, mais resistente, mais maleável, e tremeluzia de um jeito inusitado. Não era couro, papel nem metal. O que seria? A escrita era ainda mais estranha. Não eram os pictogramas ou hieróglifos que eu encontrara no Egito, era mais abstrata. Era angular e vagamente geométrica, numa profusão de formas, barras diagonais, curvas irregulares, anéis e complexos caracteres. A crer nos lunáticos que vinham caçando aque¬la coisa, eu descobrira o segredo da vida, do universo ou da imortalidade e não conseguia 1er nem uma palavra! Em algum lugar, Tot decerto estava dando gargalhadas. Bem, eu já matara charadas antes. E, mesmo se o rolo se mostrasse indecifrável, o recipiente já garantiria uma vida de rei. Eu estava rico, de novo. Se conseguisse sair daquele buraco de rato.

Ponderei as coisas. Voltar nadando contra a correnteza era impossível, e, mesmo se eu lograsse fazê-lo, só retornaria a um poço que não tínhamos meios de escalar. Já seguir a correnteza iria me sugar numa tubulação subterrânea sem nenhuma garantia de que encontraria ar. Eu mal sobrevivera a coisa parecida na Grande Pirâmide e não me atrevia a tentar de novo. Eu não vira nenhum sinal de que aquele rio temporário emergisse em algum lugar. O que Benjamin Franklin faria na mesma situação? Eu me cansara totalmente dos aforismos dele quando tinha de ouvi-los todo santo dia, mas agora sentia falta de Ben. "O homem sensato não precisa de conselhos, e o tolo não os aceita." De fato, mas isso não ajudava muito naquele momento. "Esforço e perseverança conquistam tudo." Que perseverança? Cavar um túnel como fazem os mineiros? Vistoriei a câmara mais detidamente. Ao contrário das Virgens giratórias do Monte do Templo, as estátuas dos templários eram rígidas e inamovíveis. Não havia nenhuma inscrição nas paredes, nenhuma fresta, porta ou buraco onde inserir o cilindro de ouro na esperança de que ele pudesse servir como alguma espécie de chave. Bati de leve nas paredes do poço, mas não identifiquei espaço oco algum. Berrei, mas o eco não adiantou de nada. Golpeei as paredes, só para ver se algo cedia, mas não. Como diabos os templários chegavam ali? No intervalo das tempestades, o túnel ficava seco. Deveria eu esperar? Não, ouviam-se mais trovões, e um riacho como aquele poderia correr por dias e

dias. Chutei, puxei e urrei, mas nada saiu do lugar. "Nunca confundas agitação com ação", recomendara Ben. O que mais ele dissera? "O bem-feito é melhor que o bem dito." É, até onde eu sabia, tal máxima não chegava a ser propriamente útil naquele meu aperto. "Todos desejam a longevidade, mas ninguém quer ser velho." Nas circunstâncias, até a velhice parecia preferível à morte. "Nos rios e nos maus governos, o que vem à tona é a escória." Bem, esse pelo menos falava de rio... Vem à tona... Olhei para cima. Se a luz descia, tinha de haver uma saída! Era impossível escalar sem corda, sem escada, sem ponto de apoio. Se ao menos eu tivesse um dos balões de... Vem à tona. Diferentemente de quase todos nós, o que Ben fazia era pensar e só então agir. Por que isso é tão difícil? Fosse como fosse, tive finalmente uma idéia - uma idéia desesperada. E, tão importante quanto isso, eu não tinha nenhuma alternativa factível. Peguei a tampa do sarcófago, que estava encostada àquele caixote de pedra, e a arrastei, provocando um grande ruído agudo de raspagem, até a beira da água. Arfando, eu a coloquei de pé como uma porta, equilibrando-se numa das quinas e balançando sobre o rio subterrâneo. Mirei o melhor que pude o buraco escuro onde o rio desaparecia a jusante - e então, com um grunhido, empurrei a tampa para a água! A força da correnteza a lançou contra a boca do túnel, interrompendo o fluxo por ali.

No mesmo instante, a água represada começou a subir. Ela transbordou para a plataforma de arenito, cobrindo os pés das estátuas dos templários. Era bom que aquilo funcionasse! "Mil desculpas, Montbard ou quem quer que sejas." Ergui o caixão de acácia até a beira do sarcófago e despejei os ossos ali dentro. Eles chacoalharam no sarcófago de pedra calcária, produzindo uma misturada sacrílega, e a caveira me olhava com o que sou capaz de jurar que era reprovação - pois é, agora eu estava mesmo amaldiçoado. Equilibrei o caixão atravessando-o sobre o sarcófago, enfiei sob a camisa o cilindro dourado e entrei naquele esquife como se ele fosse uma banheira. A água subia depressa, quase um pé por minuto. Ela ultrapassou os joelhos dos templários, alcançou o alto do sarcófago, derramou-se lá dentro até enchê-lo - e então me fez flutuar. Roguei ao Deus cristão, roguei ao Deus judaico, roguei aos deuses egípcios. Aleluia, aleluia! Minha arca se elevou. Eu sabia que, à medida que o poço se enchesse e a coluna de água ficasse mais pesada, aumentaria a pressão sobre a tampa do sarcófago lá embaixo. Assim, só me restava a esperança de que ele agüentasse tempo suficiente. "Quem vive de esperança morre em jejum." Bem, meu conselho é escolher os aforismos que nos sejam mais convenientes, de maneira que, naquele momento, eu só fiz ter esperança e mais esperança. Fui subindo, um precioso palmo de cada vez. Dei-me conta de que meu plano também faria a água refluir para a

câmara em espiral lá atrás, na direção de Ned e Mohammad. Desejei que soubessem nadar. A luz tênue se intensificava à proporção que eu subia, e estrelas se refletiam no breu da água. Encontrei uma ou duas costelas que não haviam sido despejadas no sarcófago e, sem nenhuma cerimônia, atirei-as para fora, ponderando que eu não me importaria com o que fizessem com meus ossos depois que eles já não me fossem necessários. O caixão subia e subia, até que vi um disco prateado, reflexo da luz de um poço enviesado mais acima - e, nesse poço, havia degraus de arenito! Eu me pus de pé em meu esquife oscilante, estiquei os braços até segurarme ao primeiro degrau e tomei impulso. Era rocha sólida! Atrás de mim, a água ainda se elevava. Mas aí ouvi um baque, e a água pareceu arrotar e, com um ruído de sorvedouro, começou a desabar, levando meu caixão numa espiral - a tampa do sarcófago cedera à pressão. A água voltava a fluir por aquele ralo, mas eu não tinha tempo para isso. Subi os degraus, percebendo que se tratava do mesmo poço que encontráramos no templo em ruínas. Se não tivéssemos afastado aquelas tábuas, eu agora não teria nenhuma iluminação ali. Saí entre as paredes de pedra, passei com dificuldade sobre o entulho e atravessei correndo o passadiço para voltar à base de coluna por onde descêramos. "Ned! Mohammad! Ainda estais vivos?" "Por um triz, chefe, por um triz! O funil inteiro se encheu de água, e eu e Mohammad estávamos

prestes a nos afogar feito ratos! Mas aí a água baixou!" "Como chegastes aí em cima, efêndi? O que acontece?" "Ora, eu só queria dar-vos um banho, rapazes." "Mas como saístes?" "Peguei uma balsa." Eu podia ver seus rostos, virados para cima como duas pequenas luas. "Esperai, que tenho uma idéia para tentar trazervos para cima." A base da coluna caída, vós vos lembrareis, afastara-se do piso em forma de estrela para que a plataforma começasse a descer. Então eu a empurrei de volta para o lugar de origem, houve um estalo, e a plataforma lá embaixo começou a subir pelo poço de seção estrelada, com Ned e Mohammad gritando de alegria como dois insanos. Quando saíram dali, fiz que me ajudassem a empurrar a base de novo para o lugar de direito, selando novamente a entrada. E então Ned me abraçou como se eu fosse a mãe dele. "Com mil demônios, chefe, és mesmo um mago! Sempre te safas como um gato! E achaste o tesouro?" "Receio que não haja nenhum tesouro." Os dois agora eram o retrato da decepção. "Acreditai, eu procurei mesmo. Era só um túmulo templário, meus amigos. Ah, mas encontrei isto." Tal qual mágico, saquei o cilindro dourado. Ficaram boquiabertos. "Aqui, vinde sentir o peso." Deixei que o segurassem. "É ouro suficiente para que nós três nos estabeleçamos de maneira condigna." "Mas, efêndi", disse Mohammad, "e vosso livro? Ele está aqui? Está repleto de segredos mágicos?"

Talvez uma pessoa de erudição consiga algum dia entender o que está escrito ali. coisa que eu não me atrevia a fazer. "Um convento de freiras tem mais poder de fogo que a gente." Enquanto seguíamos adiante. explicou. Em vez disso. já ofegantes e exaustos quando alcançamos o leito do canyon no anfiteatro romano em ruínas. Subimos.. enquanto as estrelas se apagavam e o céu enrubescia.." Eles me olharam consternados. Uma ."Está aqui." — 20 — A saída mais direta da Cidade dos Espíritos nos faria passar pelo acampamento de Silano. lá no templo (eu não queria a queda de uma criança pesando na minha consciência) e então fizemos o caminho inverso pela laboriosa rota que subia ao Lugar do Alto Sacrifício e depois descia. qual Sansão. sim. e é a coisa mais esquisita que já vi. para deixá-lo arrancar do chão um pinheirinho murcho.e não consigo ler nem uma palavra!. No trajeto. passamos pela meseta e dali descemos. para dar forma ao porrete.um trabalho de Hércules . paramos só por insistência de Ned." "Uma pessoa de erudição?" "Eu finalmente acho o livro . primeiro recolocamos as tábuas do poço no lugar. ele ia arrancando os galhos com as manoplas. Tenho certeza de que faremos um favor ao mundo se o mantivermos longe de Silano. "Busquemos Astiza. "Pelo menos já é um porrete".

Tínhamos de partir antes que o conde visse que eu o conduzira a um buraco vazio! Mas eu não ia preferir à mulher que amava a um texto que não conseguia ler. "Então precisamos ir embora". disse Mohammad. Maldição.milha ou mais atrás de nós. "Astiza?" Silêncio. Teria eu novamente me equivocado com aquela mulher? Teria Silano atinado com o que pretendíamos e feito-a prisioneira? Ou estaria ela simplesmente atrasada ou perdida? Corri para fora. O céu clareava. eu voltaria a ser torturado pelo arrependimento. Se ficássemos tempo demais. do cinza ao azul. Os picos mais altos já estavam iluminados. o primeiro grande templo que víramos. eu via o brilho de uma fogueira lá onde Silano acampara. rumo à es¬treita e sinuosa entrada. "Cada milha que colocamos entre nós e aqueles . Combináramos nos encontrar ali. meus amigos poderiam ser mortos. demoraria quanto até que percebessem sua ausência? Para leste. o céu fulgurava. Enquanto os outros se ajoelhavam no riachinho para beber. eu subi os degraus aos pulos e adentrei o escuro templo. preocupado. Nós nos apressamos de volta pelo canyon principal da cidade. e o alto dos desfiladeiros começava a brilhar. "Ela não está aqui". Se fôssemos embora sem ela. informei. não? "Astiza!" O nome ecoou como se zombasse de mim. e demos outra vez na fachada do Khazneh. Se Astiza saíra de mansinho.

"Será que a mulher vos enfeitiçou? Ela fará que sejamos todos apanhados . "Sim. mesmo que ainda não soubesse se eram de empolgação ou de indignação. ofegante pela corrida. eu nem quero fugir." Ned tinha razão. Estava pálida. eu o achei. "Acho que já perceberam que sumi. Fui a primeira a deitar." "Chefe. Voltei correndo até ela.junto com vosso livro!" "Se necessário." "Mas então por que raios viemos aqui?" De repente. insisti." "Mas eu pressinto que ela está vindo. não podemos esperar." Seu vestido estava imundo. Tirei o cilindro da camisa. com negras madeixas por sobre os olhos. espremendo-se contra a rocha para minimizar a probabilidade de ser vista." Os olhos dela brilhavam. muito mais tempo do que eu. até passar por uma sentinela adormecida. podemos usar o livro numa troca. inquiridores. e que agonia esperar a noite toda até que ficassem quietos! Aí tive de rastejar umas cem jardas ou mais pelo leito do canyon. um sorriso aberto como o de criança a esperar um presente. . Astiza ficou quase em fôlego. Astiza surgiu na curva do canyon." Astiza me agarrou os braços. Eu já ouvia débeis chamados do grupo de Silano ecoarem pelo canyon. "Por que demoraste tanto?" "Eles estavam tão entusiasmados que não conseguiam dormir.infiéis francos dobra nossas chances de escapar. "Só mais alguns minutos"." "Consegues correr?" "Se não achaste o livro. Ela sonhara com o livro muito.

fazendo que o desfiladeiro e a rocha talhada adquirissem um tom róseo brilhante. eu lhe disse. Arranquei o livro de Astiza e girei o cilindro para fechá-lo." "Isto mudará o mundo. girei o cilindro para abri-lo e desenrolei parte do livro. espero. espantada. Seus dedos exploraram o cilindro tal qual um cego o faria. Mas Ned apontava para o lado de onde viéramos. Ethan.os templários exigiriam que os que buscassem o livro usassem a matemática das pirâmides para demonstrar que tinham o conhecimento necessário." "Para melhor. efêndi. Mais uma vez. A luz do sol começava a cobrir a fachada do templo. Eu o enfiei de novo por baixo da camisa e corri para onde o fuzileiro olhava." "Por Alá. Astiza segurou o livro com ambas as mãos. Um espelho parecia piscar ali. Do meu ponto de vista. . Mas não consigo lê-lo. na direção do acampamento de Silano. impressionou-me quão estranhos pareciam aqueles caracteres. mas relutando em devolvê-lo. Era o eco de um disparo de arma de fogo. as coisas não têm mesmo como ficar muito piores. apontando. "Onde estava?" "No fundo da tumba de um templário. Resolvi apostar que havia um ardil nas pistas que deixaram . Ele levara a mão ao ouvido."Sente o peso disto". disse Mohammad. "Ele está mesmo aí dentro?" "Está. Não lhe dei atenção. precisamos ir!"." "Chefe!" O berro de Ned nos tirou de nosso transe mútuo. chamando-me.

Olhamos de relance: uma pedra do tamanho de um barril de pólvora estava ricocheteando entre os paredões ao cair pela fenda." Ned apontou para a meseta arenítica que a entrada do canyon cortava em duas partes." "Efêndi. Os cabelos de Astiza esvoaçavam. estampidos. Os braços de Ned pulsavam com o esforço de segurar o porrete. "É para algum diabo que está lá em cima. "Mais depressa!" Corremos muito. ficando à frente da pedra cadente antes que ela atingisse com estrondo o leito do canyon. Da beira da meseta."Estão sinalizando para alguém. "Vamos para casa! Vamos para a Inglaterra!". Continuamos correndo. Nossos passos ressoavam enquanto arremetíamos terreno acima.os desgraçados tinham minado o canyon inteiro! Silano devia ter adivinhado que pretendíamos passar a perna nele e quis cortar nossa rota de . pronto a fazer rolar uma pedra grande. E aí corremos. os homens de Silano estão vindo!" "Então temos que tirar dos árabes aqueles cavalos lá na entrada. houve um clarão e um estrépito . agora mais lentamente. gritavam em árabe. Nisso. marujos?" Parecia o tipo de conclamação que Nelson ou Smith usariam. com pedaços voando como metralha. então. Ouvimos berros bem lá em cima e. sendo engolidos num átimo pela estreita entrada do canyon e totalmente cegados por aquelas muitas curvas. bradou Ned. Estais preparados para tanto.

não teria ficado nenhum para guardar os cavalos. e depreendi que se tratasse daquele carroção coberto de oleados que. o que atrasaria a perseguição por Silano. e uma pedra cortou o ar perto de . Nós. Era uma dessas jaulas volantes que eu vira ser usadas no transporte de escravos. mais um dilúvio de pedra. fazendo tremer o leito do canyon. que. tonitruante. bradou Ned. "Ned. "Eu cuido disto". aliás. houve um silvo. Sem fôlego. e então já estávamos correndo de novo. assustara os cavalos. Havia um único árabe junto a ele. apontando um mosquete para nós. mas desta vez as pedras caíram atrás de nós. Calculei que já houvéssemos percorrido mais de metade daquele buraco de cobra.. Balas sibilaram inutilmente. erguendo o porrete.. "Apressai-vos. se todos os árabes estivessem lá em cima detonando pólvora. A avalanche veio.fuga. e desta vez empurrei meus companheiros para trás. uma vez montados. Uma avalanche de pedras foi pelos ares após uma detonação de pólvora. dobramos outra curva do canyon e vimos que nosso caminho estava bloqueado por um carroção. pois estávamos invisíveis. perto do acampamento. e. afugentaríamos os cavalos restantes e. porém. vinha nos ocultar. através da nuvem de poeira. então nos encolhemos debaixo de uma saliência rochosa. movendo-nos com dificuldade sobre o entulho recém-criado. não facilites o disparo dele!" No instante em que o fuzileiro arremeteu. antes que estourem outra carga!" Houve mais uma explosão.

no que o homem foi caindo como se estivesse grogue. Corremos a dominar o atordoado árabe e passar pelo carroção. batendo com estrondo no chão. ela acertou o árabe na testa. A coisa saltou como se lançada por catapulta. levando Ned junto pelo braço.nossos ouvidos. numa confusão de pêlo e poeira. justamente quando ele disparara o mosquete. mesmo enquanto Ned era atingido pelas . explicou. Olhei para trás: Mohammad tirara o turbante e o utilizara para improvisar uma funda. gritei. com tanta velocidade e ímpeto que fez o leão cair de lado. "Ned!". com Ned na dianteira e Astiza atrás dele. Mas. "Quando era menino. Tive um vislumbre apavorante . O projétil passou longe. Quase com a velocidade de uma bala. e o porrete bateu de novo e de novo.a juba marrom. os dentes brancos. Ned bramiu de agonia e raiva. o rosado recôndito da bocarra. Ned e o leão urraram em uníssono e colidiram um com o outro. eu tinha de manter os cães e chacais longe das ovelhas". o humano gritando e o felino rosnando. Astiza berrou. Os dois rolaram. mas também ouvi as costelas do leão se quebrarem quando o porrete de pinheiro golpeou seguidamente o flanco do animal. e a rampa traseira da jaula se abriu. ele acionou uma alavanca. Uma coisa sombria e imensa levantou e se aprestou. e não impulsionada pelas próprias patas traseiras. O porrete foi deitando pancadas mesmo quando as mandíbulas do predador se fecharam e mastigaram o antebraço esquerdo do fuzileiro. O fuzileiro se levantou.

também eu investi contra o bicho. berrando ante aquela reversão do que se esperava de sua arma secreta. mas. derrubou um. ele fugiu. Eu o acertei acima de um dos olhos. Foi nauseante. ouvi Astiza chamar. Suas roupas estavam sendo rasgadas. ensangüentado. Nossa tresloucada arremetida o deixou confuso. Outra pedrada de Mohammad passou sibilando por mim e acertou o leão. atacou os árabes de Najac que vinham tentar nos deter.garras. nisto. "Ethan!". antes que eu pudesse ter ponderado as coisas e fugido como qualquer homem sensato. e o felino largou o braço de Ned e rugiu de dor e fúria. O leão. Subiu o canyon em disparada e. fazendo a cabeça dele virar depressa. Os cavalos que puxavam o carroção relinchavam de pavor. deram meia-volta e correram. que ela arremessou como uma atleta. Saquei minha machadinha. tão insignificante quanto uma colher de chá. Eles. Contra todas as expectativas. passando aos saltos pela jaula volante que o trouxera. como se ela estivesse muito longe. direto na fuça ensangüentada do leão. fez uma pausa para quebrar-lhe o pescoço. Essa distração foi tão oportuna que pude sair daquele corpo-a-corpo e golpear a cabeça do animal. movendo violentamente a cauda e batendo o traseiro na terra. Agora Astiza também atacava. . dilacerada. e sua carne. e depois partiu atrás dos outros e da liberdade nas montanhas mais além. erguendo bem acima da cabeça uma pedra pesada.

vívido." Estendemos os braços para tentar erguê-lo mesmo assim. "Tereis de continuar sem mim. "Deixai-me . e minha voz tremia quando me ajoelhei junto ao gigantesco fuzileiro. O sangue. Eu ainda sentia o fedor do felino. com o coração disparado. brilhava. arfou.Estávamos em choque. Astiza se dobrara para a frente.. "O bicho me esfolou até as costelas. Ou melhor. Espantosamente. a perna parece que quebrou ou saiu do lugar. mas acho que o leão limpou caminho para nós. Ned sangrava como um açoitado." . à exceção de Ned. chefe. Ned! Precisamos seguir em frente!" Eu resfolegava. correi como loucos.todos sabemos que não vou conseguir voltar para a Inglaterra!" Gemeu. e eu peso mais que o rei Jorge com a banheira dele. Mohammad enrolava o pano do turbante no braço lacerado do gigante." "Não dá mais. e lágrimas lhe marcavam as faces. enquanto ainda vale a pena. incólumes. carne e sangue.o antebraço parecia ter sido retalhado por uma máquina.. mas era inútil . com os dentes cerrados e os olhos arregalados por já ter ciência do próprio destino. claro. Correi. mas Ned gritou de dor e nos empurrou para que nos afastássemos. "Ah. aquele cheiro râncido de mijo. Sangue e pêlo se grudavam ao fio de minha machadinha. com o peito arfante. entre dentes." "Nós te carregaremos!" Ele riu. A arremetida de Ned contra as mandíbulas do leão foi a coisa mais corajosa que eu já vira. estávamos todos." Ele falava com dificuldade. "Ned. um casquinar espirrado. "Silano ainda está vindo atrás.

agora!" Fugimos.Os nós de seus dedos estavam brancos. afastando-nos. Começou então a cambalear de volta pelo caminho que fizéramos.." Ele fez uma careta de dor. faze a minha vida ter valido alguma coisa ." Por que será que nossos piores inimigos às vezes se transformam em nossos melhores amigos? "Ned. Não me orgulho dessa decisão. se tivéssemos ficado para enfrentar os franceses .. "Jesus. mas. se por acaso achares a minha mãezinha. Diacho.. ele se levantou com obstinação. chefe. diacho! Correi .. primeiro ajoelhando. ali onde se agarrava ao porrete. "Mas de jeito nenhum eu vou te deixar.. se és!. depois se pondo de pé. Ned! Não depois disto tudo!" "E morrerás se não o fizeres. que sede me deu!" Fiquei paralisado. e o teu livro do tesouro vai acabar na mão daquele conde doido e seu capanga lunático.e.. "Eu já tinha o pressentimento de que não tornaria a ver a Inglaterra se viesse contigo. Ethan Gage..vive! Eu posso me arrastar de volta para aquele monte de entulho e pegá-los quando passarem." "Eles vão te liquidar!" "Será uma caridade. dá um pouco daquele ouro para ela. És mais que apenas um ianque batoteiro . seu flanco era uma superfície sanguinolenta.ah." "Correi. Mas és uma companhia danada de interessante. "Precisamos ir. efêndi.. mas Mohammad me puxou. Uma caridade." E.

pegamos o rumo norte para Acre. Não tínhamos como manejar tantos cavalos. Os cavalos estavam amarrados onde os havíamos deixado um dia antes. Nossos perseguidores precisariam de certo tempo para recapturá-los. menos três para muda. Ressoou um berro. O leão. se fora. mas a pé. já meio esperando a cada curva que o felino enlouquecido saltasse sobre nós. pulamos por sobre aquele que o leão mastigara e subimos sem parar o aclive do canyon. olhamos para trás. mas agora batiam os cascos. davam relinchos agudos e reviravam os olhos. mas o preço era a agonia do fuzileiro. de modo que soltamos os outros. ouvimos o eco de gritos e depois disparos atrás de nós. Ao entardecer. O grupo de Silano surgira do canyon e nos encalçava com tenacidade. levaríamos com certeza a pior e para quê? Assim. Apesar de escutarmos mais disparos. alcançamos o castelo dos cruzados onde já acampáramos. Embora eu imaginasse que . já estávamos bem fora de alcance.armados de Silano. Quando chegamos à entrada do canyon. passamos correndo pelo árabe esparramado junto ao carroção. Ned ainda tentava ganhar tempo para nós. Quando subíamos para o planalto. entretanto. chorosos e totalmente exauridos. Selamos os três melhores. arquejando. puxamos a corda com os outros e começamos a galopar por onde chegáramos ao canyon. o grito tonitruante que um homem grande poderia dar quando submetido à dor insuportável. A distância entre nós e ele aumentava. E então.

" "Vem. eu sei. Não ousamos acender fogueira. estávamos bambos na sela. Por conseguinte. As pedras do castelo se alaranjaram fugazmente à medida que o sol se punha. disse Mohammad. Estou tiritando. ainda há salteadores por estas bandas." Naquela época do ano. sumiu por ali. Mohammad e eu. a relva ainda estava verde e macia. Astiza não se encontrava muito melhor que nós." Mohammad. Mesmo que os franceses e árabes estejam a pé e não tenham como chegar aqui logo. Deitamos juntos ao lado da rocha cálida nossa primeira oportunidade de estarmos verdadeiramente próximos desde que Astiza me esbofeteara na frente de Silano. "É. um lagarto se enfiou leve e rapidamente num buraco. Quando a noite veio lançar sua sombra. Ela se achegou . disse Astiza. e a pedra ainda estará quente do calor do sol." "Estás tão exausto quanto nós. e achamos parcas rações de pão e tâmara nos alforjes. Ficarei no alto da torre em ruína. e apostei que Silano e Najac não recuperariam os cavalos tão cedo. após termos perdido uma noite de sono pegando o livro e fugindo pelos canyons." "E é por isso que precisais substituir-me em poucas horas. ainda meu guia e guardião. Mohammad. "Ele está nos deixando a sós de propósito". "Vós dois dormireis primeiro". Naquele canto. paramos.deveríamos ter seguido mais adiante. há relva para servirvos de leito. "Eu ficarei de vigia. Sou um apostador.

" "Ned não era mau sujeito. assim como no Egito." "Quem pôs o leão lá foi Najac. grande o bastante para que um homem pudesse viver com conforto o resto da vida. "Talvez ele traga boa sorte. O ato foi urgente. Um companheiro já morreu. Não sei. Lembrei-me subitamente dele e o tirei de sua pequena bolsa. e me beijou." Estendeu a mão. Ethan.." "Era tudo o que eu tinha de ti. Ainda ouvi o tinido.. Eu pretendia devolvê-lo em oferenda.. não tu. "Caçados." Ela se agarrou ainda mais a mim. perdera-se. ela ergueu o torso e atirou o anel no canto oposto do pátio em ruínas.. atrapalhado." Quando o fiz.. "Tu o conservaste..... um desejo não tanto pelo corpo um do outro quanto pela união tranqüilizadora contra ." Mas eu trouxera mesmo Ned. mesmo tendo dito que era amaldiçoado. e Astiza trouxera o anel." Ela me olhou com espanto. Um dia talvez ainda tenhamos uma cama de verdade. estamos com o livro . Incapazes de ler o livro. tivemos de aproveitar o lugar e o momento disponíveis. com um ardor elétrico. Estava trêmula. Afinal.. com olhar arrebatado. nós apenas semidespidos.para que eu lhe desse calor e a confortasse. mas. chega!" E então ela voltou a deitar... "Dá-me o anel. "É sempre tão difícil!. Fui eu que trouxe a desgraça para ele. com as faces molhadas." "Os deuses tinham algum objetivo ao deixar que o achássemos?" "Não sei. Um rubi. Chega. "O livro já basta.e estamos juntos de novo.

Montamos e descemos a galope o morro do castelo. efêndi.. primeiro as prioridades. E eles sabem disso. Mohammad!" Batalhávamos para nos vestir tão decorosamente quanto possível. Eu tinha o livro. respondi. perguntou Astiza. ela brilhava. Eu também me sentia revivido. e não preocupação. tendo nossas roupas de baixo emaranhadas como uma concha em torno de nós. eu tinha Miriam. seus olhos cintilavam. resta apenas um lugar onde estaremos seguros Acre. pois quem sabe quando o inimigo recuperará os cavalos?" "Sim. "Cortaremos para o litoral. "Está tudo bem. Ofegamos ao copular.ninguém se aproxima.um mundo frio. Já perscrutei o horizonte . subitamente confiante. Eu me comprometi vagamente a substituir Mohammad tal qual combinado. implacável. eu tinha Astiza. e. Eu mesmo adormeci. com denodo. Astiza dando um grito abafado. Foi bom termos nos livrado do anel do faraó. E. Parecia rejuvenescida à luz cada vez mais forte. "Sinto muito. detalhe que eu cuidara não de dizer a Astiza. acharemos um barco e navegaremos para lá". e depois nos deixamos cair juntos numa inconsciência quase imediata. traiçoeiro. . Bem." "Como é que passaremos pelo exército de Napoleão?".. seus cabelos estavam magnificamente despenteados. forcejando como animais. provavelmente minutos depois que vos deixei. claro. Ele nos acordou ao amanhecer. Mas precisamos seguir viagem logo. com os franceses dominando a Palestina.

Se conseguirmos furtar um barco e chegar aos britânicos. disse eu a meus companheiros. "Arremeteremos para o litoral perto de Haifa". Astiza e eu readquirimos aquele companheirismo fácil dos casais. avistamos cavaleiros otomanos e nos ocultamos também deles. os quais podiam ou não nos considerar aliados. estaremos a salvo. continuamos no rumo norte pelo Jordão e voltamos ao vale de Jezreel. A Cidade dos Espíritos era agora tão irreal quanto um sonho. a levantarmos nuvens de poeira. e Mohammad era nosso fiel acompanhante e parceiro.Não nos atrevemos a parar para a segunda noite. ficando bem longe do campo de batalha de Kleber. um pesadelo incompreensível." E assim cavalgamos pelo trigo alto. ele não mencionara dinheiro nem uma única vez. Abutres orbitavam o morro onde resistíramos às investidas otomanas. Desde nossa fuga. fazendo o caminho inverso para o monte Nebo e depois descendo para o mar Morto e o Jordão. meu grupo ainda estava desarmado. Imaginamos que os montes de Jerusalém ainda pululassem de combatentes irregulares da Samaria. Duas outras vezes. A não ser pela machadinha. vimos uma patrulha de cavalaria francesa e desmontamos para nos esconder num olivedo enquanto passavam a uma milha de nós. . Cavalgamos tão celeremente quanto os cavalos agüentaram. e a grotesca morte de Ned. "Ali há pouca guarnição francesa. Por isso. Em certa ocasião. dividindo-o a nossa passagem como se fôssemos Moisés.

A perseguição continuava! Eles tomaram o cuidado de manter-se sempre entre nós e o litoral.Estávamos todos mudados." Tentamos nos desviar para o Mediterrâneo naquela noite. o bastante para mantê-los a distância. Agora. na direção de Nazaré ou do mar da Galiléia". e o grupo de Silano." . Exigimos muito das montarias. Escalei um pinheiro para olhar com minha luneta. com um grito. sabendo que nos tinham encurralados. contornando-os. Talvez pudéssemos nos esgueirar. "Estão nos conduzindo para Napoleão. "Por que não nos apanham?". Como era possível?! Eram Silano e Najac. A salvação parecia próxima. mas também estabelecido aquela guarda avançada para nos apanhar em armadilha. "Efêndi. mas. mas uma salva de tiros noz fez voltar correndo. mas ficávamos desamparados sem armas. podemos voltar para o interior. quis saber Astiza. Eles haviam não apenas nos alcançado. Mas não: quando fugimos para o norte. vimos uma fileira de cavaleiros esperando mais adiante. quando fomos para nordeste rumo às elevações do litoral e ao monte Carmelo (que cingiam Haifa). avistou-nos. "Podemos até buscar refúgio com o exército turco em Damasco. sugeriu Mohammad. não tínhamos como nos livrar. Eles não pressionavam. Desconfiei que os árabes de Najac fossem peritos rastreadores e tivessem adivinhado para onde íamos. demos em campos abertos que não era possível evitar. sentindo o pavor chegar quando focalizei uma figura e depois outra.

entretanto. Também havia novas montarias. darão com o fogo dos ingleses e de Djezzar. Silano por certo as forçara brutalmente. "Nós dois sabemos que os otomanos se apoderariam do cilindro num instante. Quando galopávamos. que vinham poupando os animais. o plano é este: vamos em disparada para as linhas francesas. e corremos para as muralhas de Acre." "E depois. eles. . mas aí continuamos em frente." E esporeamos para cobrir as derradeiras milhas. Caso Silano ou os franceses nos sigam. "Bem."E perder tudo o que conseguimos?". daqueles que nossos perseguidores tinham recapturado. efêndi?" "Torço para que nossos amigos não atirem em nós. Nosso descanso no castelo dos cruzados custara muito caro. Nossa única esperança era o elemento surpresa. partiam também para o galope. O Mediterrâneo era uma tentadora travessa de prata cujo acesso. respondi." Olhei para trás. — 21 — Estávamos na planície litorânea quando o sol se levantou. nos era negado por nossos inimigos. com gravidade. Eu os observava pela luneta e reconheci alguns cavalos. "Astiza! Quando nos aproximarmos do campo. direto pelo acampamento. como se quiséssemos nos render a Napoleão.

As sentinelas já estavam alertas. Passamos em tropel. Os guardas baixaram as armas. Olhei para trás: os homens de Silano estavam muito fora de alcance. nós de cabeça baixa porque continuavam a disparar atrás de nós. inclinando-se concentradamente sobre o pescoço de seu cavalo. O bando de Najac parecia mesmo uma turma de salteadores. Passamos num átimo pelas tendas do hospital e saltamos as hastes das carroças.agita o teu lenço como uma bandeira branca! Temos de confundi-los!" Ela assentiu. Aqueles ali não eram Monge e o boticário Berthollet? E não era Bonaparte a sair correndo da tenda? Disparamos através do círculo de soldados junto a uma . "Agora! Agita o lenço agora!" Astiza fez isso. Ouvimos tiros atrás de nós. Eu estava apostando na confusão. Agora os guardas estavam apontando sem muita convicção para nossos perseguidores. mas tentavam alertar as sentinelas francesas de que devíamos ser capturados. berrei para Astiza e Mohammad. com os mosquetes aprestados e as baionetas caladas. erguendo um dos braços com o lenço a tremular atrás de si e endireitando-se o bastante para que vissem seu tronco feminino. as ilhargas arfantes. com nossas montarias espumando. A milha final foi uma corrida de vida ou morte. "São bandidos e irregulares atrás de nós!". "Não afrouxeis!". bradei. a pleno galope. reforçada pelo fato de termos uma mulher conosco. mas se mostravam indecisas. com o vento comprimindo o vestido contra o busto.

apanhou uma bandeira tricolor e a levou consigo. Atrás de nós. exclamavam e apontavam. com homens se espalhando e brasas voando. que ainda se encontrava a uma milha de distância. Por toda a parte. Um sargento apontou uma pistola. tendo por base as coronhas e por ápice o encontro das bocas dos canos. estava se formando entre nós e as muralhas da cidade. Começaram a atirar. Mas não adiantou: agora uma cerca viva. O que pensaria Smith. dispersando-os. e as balas passaram sibilando como vespas insistentes. avançamos dando voltas entre as linhas. num espaço que se assemelhava a uma alameda. Por isso.fogueira. Talvez conseguíssemos mesmo. Lá nas muralhas de Acre. Virei com o cavalo e chispei por eles. militares se levantavam do desjejum. de infantaria francesa. sagaz. Mohammad. soavam trombetas. teve de parar ante os guardas. apontando furiosamente. eu ouvi gritaria e altercação quando o grupo de Silano. levantando poeira. e o homem foi jogado de lado pela parte dianteira de meu cavalo. com os homens desarmados e ocupados em cozinhar. O fato de estarem ali em bom número e poderem ser . depois que eu desertara sem dizer uma palavra? Ali! Uma cantina de campanha. com a arma disparando inofensivamente. Seus mosquetes descansavam em pequenas pirâmides bem ordenadas. como se estivéssemos lançando uma investida contra Acre. com as baionetas a cintilar. saltando um dique de areia. Seguimos pelo corredor entre as tendas de um regimento. mas dei uma guinada.

Por um momento. mas também de tenacidade. Então saltei uma trincheira. enquanto rolava. Mais disparos.alvejados nos protegeu de mais disparos. E então voei. e vi a corda que às pressas fora esticada para nos fazer cair. reunidas ali para a investida seguinte dos franceses. não entendi o que acontecera e pensei que talvez meu cavalo tivesse levado um tiro ou repentinamente estourado o coração. Um cozinheiro deu um grito de triunfo . e balas passaram zunindo. fazendo-a rolar por sobre a borda do aqueduto. Caí em terra fofa e fui parar adiante dos trambolhões. galopando ao longo do velho aqueduto rumo à cidade. "Efêndi. Mas.. e corri de volta para os outros dois. sua expressão era de dor. de modo que pudéssemos nos deixar cair na calha por onde a água costumava correr. meio cego pela poeira. Era um fiapo de proteção. Flavia uma pilha de escadas. Eu e Mohammad pegamos uma e a jogamos contra uma das colunas do aqueduto romano. com as mãos em carne viva. o aqueduto! Podemos usá-lo como proteção!" Assenti. Balas ricocheteavam na . puxando impiedosamente Astiza para que ela não afrouxasse o ritmo. Com o tornozelo torcido. percebi que Mohammad e Astiza também haviam sido derrubados. com seus cavalos relinchando quando as patas estalaram.havíamos sido abatidos quando nossa meta já estava diante de nossos olhos! Levantei-me.. Empurrei Astiza escada acima.

Com as balas zunindo e ricocheteando. Astiza e Mohammad me seguiram com dificuldade. . Silano conseguira entrar lá e estava agora apontando. prometeu Mohammad. em trincheiras avançadas. que tinha menos de três pés de profundidade. Vou seguirte o mais depressa que puder. Olhei por sobre a beira do aqueduto."Não. "Ficai abaixados e segui pela calha até que estejamos sob as armas dos britânicos". e mais outro. Ela o empurrou para mim. e os franceses se abaixaram instintivamente nas trincheiras. "Astiza. agachados. Mas então um canhão inglês trovejou de Acre. Os defensores por certo não faziam idéia de quem estava se beneficiando com os disparos deles. Houve outro disparo de artilharia. mas haviam decidido que qualquer inimigo dos franceses só podia ser amigo seu." "Ficarei com ela". Dou graças a Tot que os mosquetes sejam armas sem precisão nenhuma! Adiante. é a ti que eles conhecem. vai na frente. levantando uma nuvem de terra. corri pela calha. disse eu. mais soldados franceses. Najac parecia estar municiando meu fuzil. Não era hora para delongas. para sinalizar para eles. Corre e consegue socorro.pedra." Aquela brava mulher se aferrara ao lenço mesmo após ter caído da montaria. estavam se voltando para toda aquela agitação e apontando seus mosquetes e pistolas. O acampamento francês inteiro estava em polvorosa.

e as colunas do aqueduto foram atingidas por um projétil pesado a artilharia francesa! A estrutura toda tremeu. e ele tombou. Eu me voltei. Mais cem jardas! Empenhava-se a artilharia de ambos os lados. E nesse momento Astiza deu um grito. Tudo o que eu queria era voltar correndo para matar o desgraçado. Outro impacto certeiro. e pedras explodiram em todas as . Astiza mancava. berrei para os dois atrás de mim. Uma bala de canhão acertou a beirada superior. Os franceses certamente haviam trazido novas peças de artilharia de sítio para substituir aquelas que capturáramos no mar. Seu peito ficou escarlate. Foi um tiro perfeito de algum canhão grande. fazendo fragmentos de pedra choverem sobre mim. a boca aberta numa expressão de surpresa. um grito. porém. e de novo. Mais fumaça de uma bateria francesa. Em vez disso. Pisquei e olhei para trás. nisto. Mohammad se ergueu abruptamente. O aqueduto pareceu levantar-se. Mohammad vinha logo atrás dela. Mas. alguns deles atingindo as próprias trincheiras do exército sitiante. e mais silvos quando passaram os projéteis. Najac estava justamente baixando meu fuzil. o aqueduto explodiu entre nós. "Depressa".Outro estrondo. agitando o lenço como um louco e pondo todas as minhas esperanças num milagre. gritei para Astiza: "Deixa-o!" Agora eu esperaria por ela. uma batalha inteira por nosso pequeno trio. e o aqueduto tremeu de novo. Corri agachado. Olhei na direção dos franceses. teso. mas continuava deter¬minada.

Desolado. enquanto prosseguia o duelo de artilharia. levantando poeira com as botas. ouvindo os cavaleiros que me perseguiam . Se eu conseguisse. não . Se fosse fácil recarregar um fuzil como o meu. Com as pernas latejando. O fogo francês diminuiu. que eu te puxo para cima!" "Não. curvados sobre o pescoço de suas montarias e indiferentes ao fogo inglês. soldados apontavam o dedo para mim. e a estratégica torre se avultava como um monólito. Ele estava a cinqüenta jardas. "Ele não me matará! Vou ganhar tempo para ti!" Ela rasgou parte do vestido e começou a voltar. corri como nunca antes. apostando que a velocidade iria me tornar alvo difícil. "Pula para baixo. Eu agora já estava além das avançadas trincheiras francesas. e. Najac ainda poderia ter-me acertado. Os árabes de Najac vinham galopan¬do junto ao aqueduto. virei e corri a toda para Acre. no ponto onde o aqueduto terminava em entulho antes de chegar às muralhas de Acre. e então uma brecha se escancarou entre as colunas . Ouvi o ressoar de cascos e me voltei. mas não tinha como detê-la. mancando e agitando freneticamente o pano em sinal de rendição. Mas ele levaria um minuto inteiro para conseguir dar outro tiro. berrou.de repente. Corri para o fosso. e os disparos dos demais não tinham precisão alguma. Xinguei. eu desci para o chão. Na muralha de Acre. Astiza e eu estávamos em lados opostos de um abismo.continua sozinho!". agora completamente ereto. querendo pegar-me. seria por um triz. Voou poeira.direções.

deslizei sobre sua beirada como uma lontra-marinha num banco de neve. O fedor era nauseante. Eu estava encurralado! . pois alguns deviam ter sido atingidos. Lá de cima. rolando para o fundo seco. e escutei cavalos relincharem e tombarem. Agora. Olhei para trás: aqueles árabes abusados tinham entrado no fosso com cavalo e tudo e agora galopavam pelo fundo. Consegui ver os mastros de navios britânicos. o molhe negro e úmido do novo reservatório. homens forçavam a vista para olhar-me. e não havia jeito de escalar a muralha. A brecha na torre fora fechada. mas nenhum parecia ter percebido ainda quem eu era.diminuírem a distância. corri pelo fundo poeirento do fosso até o ponto em que ele encontrava o Mediterrâneo. Mais além. escadas quebradas e as armas abandonadas que constituem o detrito das guerras. e canhões continuavam a disparar acima de mim. Sem saber mais o que fazer. No que alcancei o fosso. estava a rampa sobre o fosso. Phélippeaux não dissera que estavam construindo um reservatório de água do mar na extremidade do fosso? Mais gritos. decididos a pegar-me sem ligar para os soldados que tentavam baleá-los da muralha Silano obviamente sabia que eu estava com o livro! Mais adiante. junto ao chamado portão do Interior. Viam-se corpos em decomposição. Não me ofereceram corda nenhuma. homens por toda a muralha estavam atirando por sobre minha cabeça.

que raspava tal qual lixa. sem poder respirar direito. levando-me como folha na sarjeta. pelo menos. Estás quase em casa!" Era Jericó. Imaginei ter sido um cavalo. e fui atingido por uma coisa grande. sem saber se estava virado para cima ou para baixo. e exatamente então a enxurrada me atingiu. Escutouse um estrondo. A detonação me jogou para trás. vi uma parede verde de água marinha virar espuma e começar a rugir pelo fosso. Consegui pôr-me de joelhos. uma corrente que pendia da fachada da torre como uma guirlanda. Ela me puxou para fora da água como se eu fosse um balde de poço e começou a me arrastar para cima junto à áspera fachada da torre. tossindo. e o molhe negro se dissolveu diante de meus olhos. todos nós de cambulhada com os cadáveres pútridos e o lixo acumulado de um cerco. e percebi que eu era um alvo suspenso . A água me carreou de roldão junto com meus perseguidores. dirigindo-se a mim e a meus perseguidores. quando fomos arrastados por ali. que por acaso me atirou para o ar. bem à frente. Gage. rumo à torre central. Debatime. "Segura firme. estupefato. Estávamos sendo varridos ao longo do fosso. eu me agarrei a ela.ou. E. Agora balas de mosquete atingiam a muralha a meu redor. fragmentos voaram. Fui dando cambalhotas. Eu estava num caos de espuma. Foi quando vi minha corrente . Ela me arrastou pelo caminho inverso do que eu fizera. e.E aí houve outra explosão.

por sobre as ameias. Se eu tivesse conseguido encolher mais. de um gato de rua. E depois mãos fortes me agarraram. teria simplesmente desaparecido. como se fosse um peixe morto. mas os ginetes árabes haviam sumido. gritou Jericó. Em cada uma das vezes. contundido. comigo dependurado. Outro impacto. e fui arrastado. A torre inteira estremeceu e balançou como uma conta num colar de barbante. miraculosamente. arrastados para sabe-se lá onde. Troavam canhões. Um homem boiava de barriga para cima. e um projétil que parecia grande como uma casa atingiu a cantaria a algumas jardas de onde eu estava. Eu me esparramei de costas no chão. Contraí-me até parecer uma bola. incapaz de ficar de pé. Smith. . Phélippeaux. Eu me segurei desesperadamente. Bastaria um tiro certeiro para que eu despencasse. Djezzar. queimado. Ainda assim. não apresentava. e mais outro. ralado. desolado por causa do amor e dos companheiros que perdera. arfante.eu tinha as vidas. mais o aspecto molhado. a torre tremeu e a corrente oscilou. nenhum furo . "Alçai!". meio afogado. dissolvendo-se em estilhaços. Juntou-se gente ao redor Jericó. sofrido e sujo. ofegante. Destroços coalhavam a superfície da água. talhado. O fluxo de água estava desacelerando.para o exército francês inteiro. Aquilo não ia acabar nunca? Olhei para baixo.

Parecia que eu estava com algo que Bonaparte queria de volta. No caso em questão. os quais desabafavam o quanto estavam decepcionados com minha sobrevivência. conseguiu finalmente articular. com seus cabelos dourados. quis saber Djezzar. mais coisas vêm nos atrapalhar o raciocínio. "Foste embora sem dizer nada?". com unidades entrando em formação e dirigindo-se para as trincheiras. trêmulo. A muralha tremia sob nossos pés. olhei para fora. E aí os franceses começaram a atirar para valer. tratava-se de uma centena de canhões franceses. um açude de compaixão e uma moringa de desconfiança. Miriam". A experiência me ensina que. seus olhos arregalados e atônitos. para a única pessoa que atraíra instintivamente meu olhar. "Olá."Que diabo. . com voz baixa e arranhada. Havia muita atividade nos bivaques de Napoleão. saudou-me Smith. E queria muito. quando mais precisamos ponderar cuidadosamente as coisas. Ethan!"." "Do que o cristão estava correndo?". "De que lado estás agora?" Mas olhei para além deles. Eu me levantei e. seu vestido coberto de pólvora e fuligem. falei. a coisa parecia pior. um afluente de confusão. "Era difícil explicar a razão. combinados com uma maré crescente de indignação. Miriam me olhava com uma expressão que era misto de espanto e alívio. Do jeito que ela expressara.

expliquei a eles." Percebendo que um ataque talvez fosse iminente. E ela estava mesmo viva.. e aquilo me surpreendeu e atingiu mais que uma . Será que tens algum amigo no mundo?" "Foi por causa daquela mulher. e foste procurá-la.." "Que te danes. Apontei para as tropas que se acumulavam nas linhas francesas. perguntou Smith. ambos estávamos vindo para cá." "Será que eu signifiquei alguma coisa para ti?" "Mas é claro que sim! Eu me apaixonei por ti! É só que. Eu me dirigi a Miriam. "Ele acha que sim . "Ela não morreu. mas ela foi recapturada. "E conseguiste?". mas não sabia como dizer-te . "Os franceses me enviaram um sinal de que ela podia estar viva.e está vindo pegar. eu acho. por deserção e traição. E estávamos pensando em fuzilar-te. Gage." "E só o quê?" "Eu nunca deixei de amar Astiza. Astiza ainda estaria viva? Eu acabara de ver meu amigo muçulmano ser morto por minha própria arma e Astiza voltar rumo ao desprezível Silano. os líderes de nossa guarnição começaram a gritar ordens. Tive de descobrir." Era a primeira imprecação que eu ouvia de Miriam. Agora. não?" Miriam adquirira jeito para ir direto ao ponto.não depois da noite que passamos. "Eles não parecem gostar muito de ti. comentou serenamente Phélippeaux."Parece que de todo o exército francês"." Olhei para trás. com os clarins soando por sobre o estrondo da artilharia. "Precisei pegar uma coisa antes que Napoleão o fizesse". juntos.

subi com os outros para o alto da grande torre. "Eles estão vindo!" Grato por ter de encarar apenas as divisões de Napoleão. não? É." "Perdeu a mim também. mas as mulheres têm certa satisfação felina em nos açoitar com palavras e lágrimas. Qual fora o erro nisso? Ademais. perdi Astiza outra vez. com seu avanço obscurecido pela fumaça do terrível canhoneio. toda vez que iniciava uma frase. Mas nada disso era fácil de explicar quando o exército francês estava vindo contra nós. eu trazia sob a camisa um cilindro de ouro de valor incalculável. . Há amor e crueldade de ambos os lados." "Bem. Tu sabes disso. Naquela noite. se sobrevivêssemos. esta parecia insincera e oportunista. a planura ganhara vida. planejaria uma estratégia para apagar o passado e cativá-la de novo. não é mesmo? Portanto eu suportaria o desdém de Miriam. Entretanto. "Miriam. e aí o destino e um anel me desviaram de um modo que não antevi." Mas eu podia reconquistá-la. até mesmo a mim. Decisões magoam pessoas . batalharia contra os franceses e. Lá embaixo. eu e Miriam cedêramos à emoção. há sempre mais do que apenas nós dois. Eu procurava uma maneira de explicar. e não a mágoa de Miriam.enfiada de ofensas de alguém como Djezzar. após a defesa da torre. os homens são uns cachorros." "Não.é simples assim. deixando claro que estavam em jogo causas mais elevadas. Cada trincheira era uma lagarta de homens apressados.

Soldados empurravam a carreta por trás e pelos lados. a fim de confrontar nossas forças dentro da fortaleza caso conseguissem uma brecha na muralha. Era um enorme cedro. Bonaparte por certo não achava que podia começar a martelar contra nossas muralhas com armas que estavam ultrapassadas havia séculos. Ainda assim. Ao que parecia. como se o cedro fosse um falo gigantesco. "Que diabos é aquilo?" Girei a luneta para o que ele indicava. Teria Napoleão enlouquecido? Aquilo me fez lembrar o tipo de aparato improvisado que poderia ter encantado Benjamin Franklin ou meu compatriota Robert Fulton. eram os sobreviventes do bando de Najac.Outras tropas arrastavam peças de artilharia mais leve para a frente de combate. presumi. que transbordava da carreta de doze rodas onde o haviam colocado de comprido. Um grupo de homens em trajes árabes se aglomerara perto do aqueduto semidestruído. o qual . Saquei a luneta.que diabos era aquilo? Parecia um aríete medieval. os soldados que empurravam o dispositivo avançavam cheios de confiança. Smith me puxou pelo ombro e apontou. A pergunta realmente se justificava . A ponta da tora estava inchada. Não vi Silano nem Astiza. Uma tora se movia lentamente em nossa direção. e vinha recoberta. e turmas de trabalho a galope traziam mais pólvora e balas de canhão para as baterias. com alguma espécie de blindagem. Escadas balançavam à medida que granadeiros cruzavam o terreno irregular.

mas o monstro simplesmente os atropelou ao caírem. os soldados turcos e fuzileiros navais britânicos ainda estavam mirando os homens que. Um ou dois foram atingidos. "É uma bomba!"... "Atirai naquela ponta! Depressa! Atirai naquela ponta!" O petardo chegara a um ligeiro declive que levava ao fosso e estava começando a acelerar. junto às rodas. "Há pólvora na ponta daquela tora! Precisamos detoná-la!" Peguei um mosquete e atirei. é claro. mas. Embora outros também disparassem. perguntou Phélippeaux. E qual outro conhecido meu era um experimentador inveterado? Nicolas-Jacques Conte. "Acertai-o com a artilharia!" "Tarde demais.zanzava por Paris com idéias amalucadas de coisas que ele denominava submarinos e barcos a vapor. "Não temos como inclinar os canhões o suficiente. Mas um aríete? Parecia coisa tão antiquada para um modernista como ele. minha bala deve ter ricocheteado sem nenhum efeito no revestimento metálico. Gage". "O quê?"." . Aquela tora tinha todas as características da engenhosidade e capacidade de improvisação de Conte. gritei de repente. empurravam a carreta. disse calmamente Smith. se porventura acertei mesmo o tiro. A não ser que. Monge dissera que Conte inventara uma carreta reforçada para fazer que canhões pesados chegassem a Acre. e o petardo ganhou velocidade. o homem cujo balão Astiza e eu furtáramos no Cairo.

depois. com sua ponta se chocando contra a base da torre. o aríete atingiu a beira do fosso e voou direto através dele.Por isso. Mais alguns segundos. corajosamente tentando diminuir a velocidade do aparato de Conte com uma pistola bem mirada. "Irmão!". Caí com Miriam enquanto eu a agarrava. agarrei Miriam. mas desta vez ela oscilou como um bebum encharcado de gim. Então. e o dispositivo explodiu com estrondo tão cacofônico que apagou minha audição. passando de raspão pelo atônito Jericó. mas um deles parou tempo suficiente para puxar uma corda de disparo. Sir Sidney segurou-se nas ameias da parte de trás da torre. Phélippeaux e Jericó despencaram junto com ela. Mas Phélippeaux se deixou ficar. Era loucura. berrou Miriam. destacando-se e deslizando para um abismo infernal. Houve um clarão de estopim. ou pelo menos foi esse o som que interpretei pelo movimento de seus . porque a bomba pode funcionar!" Smith também estava recuando. antes que ela pudesse reclamar. e grandes pedaços de pedra voaram acima do alto da torre e. E a frente do edifício se dissolveu ante meus olhos. balançaram preguiçosamente na queda. O ar irrompeu em fumaça e chamas. Os soldados que vinham empurrando a carreta se afastaram correndo. e Djezzar já saíra dali para pavonear-se pelas muralhas e intimidar seus homens. a empurrei para os fundos da torre. "Ide para trás. e. A construção tremera em ataques anteriores.

Na base. Eu apostava que Najac estaria com eles. na confusão em que me encontrava. corpos se misturavam à pedra no entulho. desnudando-nos. Outro som veio afetar meus maltratados ouvidos. Fui coleando para trás e puxei Miriam comigo. e o resto ficara exposto como um oco de árvore. e percebi que se tratava de milhares de homens a dar vivas. com o fosso cheio de destroços até a borda. mas depreendi que estivesse convocando homens para irem à brecha. de uma maneira que eu. Era como se as roupas nos tivessem sido arrancadas. Bradava algo que o zumbido em meus ouvidos tornava inaudível. Tudo o que eu conseguia ouvir era um zumbido. os quais cuspiam fumo como a garganta de um vulcão.lábios. até que a apanhei e derrubei. Rastejando sobre seu corpo. Miriam correu para a beira da torre. "O quê?" "Temos que sair desta torre!" . O terço frontal daquela que era a torre mais rija simplesmente se descascara. que se contorcia numa plataforma que agora já se fora pela metade e inclinava-se perigosamente. procurando por mim. gritei. mal discernia: os franceses estavam arremetendo-se para a brecha que haviam aberto. "O resto da torre pode desabar!". Smith recobrara o equilíbrio e desembainhara o sabre. que se mantinha graças a pavimentos semidestruídos. olhei para os escombros lá embaixo.

e escadas portáteis eram colocadas como garras a estender-se para cima. o ajudante-de-ordens. Smith e um contingente de fuzileiros navais haviam descido a escada da torre. Depois. tombou fatalmente ferido. parcialmente destruída atrás de nós. atiraram-se uns contra os outros. e chegaram à brecha ao mesmo tempo que nós. o comandante da divisão francesa. Miriam caiu naquele inferno gritando freneticamente por Jericó. meio saltando. Meio correndo. enegrecido pelo fumo . certo de que a construção inteira ruiria a qualquer minuto e nos sepultaria num túmulo de pedra. Louis Bon. e escorreguei para a borda. Croisier. projéteis de artilharia troavam em ambas as direções. eu também caí.Ela tampouco conseguia ouvir. tentando agarrá-la. voltou-se para a vanguarda francesa e. veio correndo para a refrega. praguejando sem som comigo mesmo. quase desarmado. Eu. Assentiu. e houve um estrondo de mosquetes dos dois lados. saltou da beirada de onde eu acabara de me afastar. Colidiram com as tropas francesas que irrompiam pelo entulho do fosso. alfanje e coronha de mosquete. com homens aos berros. usando baioneta. Entrementes. antes que eu pudesse detê-la. Lancei-me à frente. perplexo. Miriam caíra como um gato para as vigas que se projetavam do piso abaixo e estava descendo pelas beiradas do desabamento até Jericó. balas de mosquete ricocheteavam. Por isso. comecei a seguida. humilhado por Napoleão no ano anterior (quando não conseguira apanhar alguns escaramuçadores).

como haviam feito em Jafa! Urravam como as ondas numa borrasca. gritando. Arrojavam-se e lutavam como touros. avançando aos trambolhões sobre um amontoado de cadáveres. baleado e espetado numa dúzia de lugares.de pólvora. Fuzileiros navais britânicos corriam de encontro a eles. eles sofriam com o dilúvio de pedra. Se os franceses eram obstinados. tão corpo a corpo quanto os embates de gregos e troianos. que deixavam essas coisas cair como se estivessem semeando trigo. Mas. Acre estaria perdida. chutados ou cegados. Foi a luta mais feroz de que eu já participara. e o vermelho das túnicas inglesas formava com o azul das francesas um mosaico de cores em conflito. e todos certamente morreríamos. Homens grunhiam e xingavam ao ser espetados. disparando e dando golpes de sabre e alfanje. cara a cara com todo o exército francês. nós estávamos desesperados: caso eles penetrassem pela torre. sem que se desse ou se pedisse quartel. esganados. Com suas barretinas e quepes altos e seus talabartes cruzados. com a ponta do cedro estraçalhado a abrir-se para a frente tal qual uma flor desabrochada. Não enxergávamos nada da batalha mais . ao mesmo tempo que iam à carga. Croisier submergiu no tumulto. ferro e granada dos otomanos de Djezzar mais acima. eles pareciam ter a altura de dois homens. Investiam contra nós com a fúria e a frustração que advêm de semanas de trabalho infrutífero de cerco .lá estava a oportunidade de acabar com tudo de uma vez por todas.

Um granadeiro se aproximava da direção oposta.ampla. fora do alcance das baionetas que ele parecia desesperado caso visse serem enterradas em seu corpo. Então eu e Miriam demos um jeito de agarrar Jericó pelos braços e puxá-lo um ou dois passos para trás. Homens recuavam ante a energia insana com que ele brandia o ferro. e. e fui lá arrancar a machadinha. como também rastejara para fora dos destroços. só aquela peleja num morrote de entulho. tal qual Sansão. a . semi-enterrado. ligeiramente torcida. foi a passos largos enfrentar os franceses que chegavam. Um fusilier veio por trás mirando o mosquete. Jericó não apenas sobrevivera à queda. que ela segurou com ambas as mãos e disparou à queima-roupa. conseguir de algum modo puxar uma pistola que estava debaixo de si e dispará-la contra seus inimigos revolucionários. Lembrei-me de minha machadinha e a arremessei. Estava se formando uma sebe de cadáveres. Smith. com a torre prestes a cair sobre nós. Ele caiu como uma árvore abatida. No que fizemos isso. mas Miriam encontrara em algum lugar uma pistola de oficial. Metade da cabeça do francês voou pelos ares. observando-a girar até fincar-se no pescoço do soldado. cravou-se nele uma meia dúzia de baionetas. Em resposta. sem chapéu. Vi Phélippeaux. mas ele encontrara uma barra de ferro. e sua pele se acinzentara de pó de pedra. Suas roupas estavam meio queimadas e retalhadas. com a coluna provavelmente quebrada. tropas de Djezzar passaram correndo por nós e foram enfrentar os franceses.

dando.ou faziam um ruído surdo quando topavam com carne. tão perto quanto uma vespa que viesse me advertir antes da picada. talhando e talhando. Aquele disparo se destinara a mim! Tinham vindo para me matar.cabeça ensangüentada.ele estava usando o anel de rubi de Astiza! Entendi num átimo o que acontecera. Mohammad não resistira à tentação da jóia amaldiçoada que Astiza jogara para longe no pátio do castelo dos . tiros e mais tiros por sobre as cabeças dos granadeiros que constituíam a vanguarda. alguma coisa passou sibilando junto a meu ouvido. e então mais alguém grunhia e tombava. sentindo uma ira e uma sede de vingança que me fizeram sentir os músculos e veias latejarem e os olhos se tornarem subitamente capazes de enxergar detalhes com precisão sobrenatural. Minha audição voltara. E assim me vi também tomado pela fúria de combate. Balas zuniam e ricocheteavam . e berrei para Jericó e Miriam: "Temos de voltar para nossas linhas! Seremos de mais ajuda se estivermos lá em cima!" Nisto. porém.pois sabiam o que provavelmente estava enfiado sob minha camisa. ainda muito ruim. Eu percebera o clarão rubro no dedo do desgraçado . Najac praguejava. e Jericó levou um tiro no ombro e girou qual pião. usava o sabre como um possesso. com meu fuzil plantado pela coronha no entulho enquanto o patife começava a recarregar e seus capangas se mantinham fora do verdadeiro combate. Voltei-me e vi minha nêmesis. disso não havia mais dúvida .

Enquanto dormíamos. desgraçados! Eu me sentia invulnerável a balas. Vinte segundos.cruzados. não eu. tal qual uma foice a abrir uma trilha. Soldados da infantaria se afastavam em face de meu desvario. sem saber o que era o medo. Os franceses e árabes de Najac berravam e atiravam. eu a brandia num arco largo. sem conhecer a história da jóia. Isto é por Mohammad e Ned. Precisei lutar através de um feixe de franceses para chegar a ele. mas eu não sentia nada senão o vento. O tempo desacelerou. O bandoleiro francês depois fora verificar se o guia mulçumano estava mesmo morto e se apossara do rubi. Metal retinia quando eu o golpeava para que saísse do caminho. E Mohammad. Enxergava as ondulações no ar fumarento à . eu pegava a barra de ferro de Jericó e partia para cima de Najac. A barra reverberava quando. A bala de fuzil estava envolta na bucha e. pondo fim aos periódicos pedidos de mais dinheiro. Trinta segundos. o ruído se abafou.tudo o que eu via era Najac. com suas mãos trêmulas a colocar uma medida de pólvora no cano do fuzil. fora quem acabara morto pelo fuzil de Najac ao corrermos no aqueduto. Minha barra vibrava para lá e para cá naquele espinheiro de baionetas. e já se haviam passado dez segundos. com a vareta. possesso como um templário a lutar por Cristo. ele se apropriara do anel. a visão se aguçou e se concentrou . contando os segundos. era apreensivamente enfiada na boca da arma. Ele levaria um minuto inteiro para recarregar a arma. Agora.

Smith corria com seu sabre atrás de um chasseur. Najac nem perdeu tempo retirando a vareta. teimosa.medida que as balas aceleravam. Ao redor. Ao mesmo tempo que eu me impelia à frente. e tendo a fisionomia distorcida pelo urro que dava. Tinha medo no olhar . Eu já quase o alcançara quando um de seus bandidos surgiu diante de mim. ele agora se atrapalhava para aprestar e puxar o mecanismo de disparo. ia sendo socada no cano. o branco de dentes arreganhados. o sangue a jorrar de algum lugar obliquamente ao rosto de um jovem oficial. Quarenta segundos. e ele se vergou de lado.medo e desespero. e dois outros espetavam sua presa a baionetadas. minha barra de ferro continuava reverberando. Continuavam a chover escombros das muralhas. Saltei sobre mortos e moribundos. . tapando a brecha com seu efetivo e seu sangue. caiu e tornou a subir. A barra acertou as costelas de um granadeiro imenso. A bala. mas também ódio. e homens fugiam atabalhoadamente como o haviam feito ante o ferreiro Jericó. usando seus corpos como pedras num riacho. balançando para trás e para adiante. Cinqüenta segundos. Uma bandeira tricolor tremulou. com as duas mãos. empunhando uma cimitarra acima da cabeça. o brilho de olhares frenéticos. com o perfeito equilíbrio de uma aranha. e vi as detonações atrás de Najac quando explodiram granadas e projéteis de artilharia. reforços otomanos e ingleses irrompiam a minhas costas. um fuzileiro britânico morria.

lançado para trás com violência. e eu. não tendo conseguido dar cabo de mim com meu próprio fuzil. Cai sentado. Mas. O patife. rastejei para a frente. sufocando seus gritos agudos de dor. Sua língua se inchou de modo obsceno. e o agarrei pela garganta. antes de morrer. e Jericó. resfolegando. nessa tua vida desprezível. E agora. e o fuzil. Seus braços se debatiam. um estrondo. senti as mãos de Najac em minha cintura e um puxão quando ele agarrou a minha machadinha. percebendo que ainda não morrera. que se contorcia. e todos os outros homens bons que trucidaste. com sangue respingando em todas as direções. girei o braço e minha barra acertou aquele ladrão nos calcanhares. com os olhos de Najac arregalados de pavor. Senti seu gosto nos dentes. verme. houve um clarão no mecanismo de disparo. ainda com a vareta no cano. E continuei a esganá-lo enquanto ele ficava roxo e meu sangue pingava sobre minha vítima. O olhar de Najac expressava um ódio impotente. Eu o esganei com tanta força que os tendões de meu pescoço latejaram pelo esforço. Eu via a vareta projetar-se de meu peito. arrebentando-os. no que eu erguia o braço para o golpe final. e Mohammad. Ele também caiu. Pensei: Isto é por Ned. enquanto tropas arremetiam sobre nós. uma carga de calor e fumaça. disparou direto contra meu peito.até que minha barra de ferro o atingiu na têmpora e seu crânio explodiu. agora queria . O que estava acontecendo? Nisto. procurando a arma.

jogando-me para trás sem. sibilando como a víbora que era. Escutei vivas. sim.me acertar na têmpora com meu próprio machado de guerra! Sem pensar muito. Os olhos de Najac se arregalaram ao nos abraçarmos. entretanto. uma medonha confusão de braços. penetrar-me a carne. mas a vareta rompeu o esterno do desgraçado e então penetrou quase como faca na manteiga. E Najac.recuperei meu fuzil confeccionado sob medida. Havia . A batalha fora a pior carnificina até aquele momento. O sangue jorrou tal qual num poço. formando uma lagoa cada vez maior. aquele projétil em forma de seta me atingira. senhor. e finalmente me dei conta do que devia ter ocorrido: quando Najac atirara. de maneira que a vareta que ele disparara estivesse contra seu peito e seu coração. morreu com meu nome numa bolha rubra em seus lábios. e perfurei seu coração. eu me debruçava sobre ele e empurrava a vareta com o cilindro. Arranquei abruptamente a vareta. inclinei-me para a frente. O esforço doeu para diabo. pernas e troncos de homens que tinham morrido atracados uns com os outros. Agora. diretamente em seu peito.finalmente! . pus-me de pé e . mas desta feita em inglês. O assalto francês estava malogrando. A cabeça da vareta se cravara no ouro macio. enquanto Najac se desembaraçava e preparava o golpe com a machadinha. mas o fizera exatamente onde estava o cilindro com o Livro de Tot. Olhei para cima. A ponta da vareta se quebrara e agora estava afiada como uma agulha de tricô.

nós o superamos. Eu estava arfando. e dezenas em ambos os lados do fosso encharcado.parece que ela podia ter desabado a qualquer momento!" "Bonaparte deve ter pensado o mesmo. Os homens de Smith e Djezzar não ousaram sair em perseguição aos franceses. com os cadáveres se comprimindo ligeiramente à proporção que o inglês caminhava por eles. Agacharam-se. Seus homens não o . Ethan! Ele disparará contra nós todos os canhões que tiver. para a possibilidade de que o inimigo voltasse. se a engenharia britânica tiver chance. com uma veemência feroz. A emoção me exaurira por completo. disse-lhe. "Gage! Isso foi a coisa mais por um triz que já vi na vida! Meu Deus.centenas de corpos na brecha. Mas os franceses estavam em retirada. Bonaparte encontrará a torre reconstruída e mais reforçada do que nunca". O próprio Smith me avistou e veio a passos largos até mim. "Ao amanhecer. mais fatigado do que jamais estivera. aturdidos com o próprio sucesso. com escadas de assalto despedaçadas e as muralhas de Acre lascadas e fendidas. Os turcos também festejavam. sir Sidney". e depois recarregaram apressadamente as armas. Parecia que eu não tomava fôlego havia um século e não dormia havia um milênio. mas não voltará depois dessa surra. "Por Deus. Sargentos começaram a dar ordens para que se erguesse uma tosca barricada na base da torre. tremendo com todos os músculos. disse o capitãode-mar-e-guerra. e seus canhões troavam num adeus às tropas de Bonaparte. a torre .

"Mas onde está Phélippeaux?". "Eu o vi liderar a carga direto contra eles . com suas melhores tropas trucidadas ou postas para correr.permitirão ." . olhando feio para nós. Dois corpos jaziam sobre o de Phélippeaux. Recuaram?" Embora seus olhos estivessem abertos. fazendo a cabeça do moribundo descansar em seu colo. estávamos prestes a ver que ele tinha mesmo razão." Smith me fitou com olhos brilhantes." Afirmou isso com um gesto de assentimento consigo mesmo.. sir Sidney. muito embora eu tivesse visto meia dúzia de baionetas o trespassarem como se fosse um quarto de boi. Como Smith podia ter tanta certeza? E. "Antoine." Voltamos olhando cuidadosamente onde pisávamos.por Deus. "Guarda minhas palavras.eles se recusarão a avançar. Gage: nunca mais irá se ouvir muito o nome de Napoleão Bonaparte. "Ele agora está lá naquele morrote. Teu nome conhecerá a glória. porque Bonaparte não tomará Acre. e por isso os arrastamos para o lado. aquilo que era coragem monarquista!" Balancei negativamente a cabeça. e generais politiqueiros como ele não resistem a uma derrota séria. "O corso está liquidado!" "Quê?. O tirano republicano foi detido. Milagre dos milagres: o monarquista ainda respirava. nós os rechaçamos!". meu amigo. disse. "Receio que ele já não tenha mais como combatê-los. Smith o puxou ligeiramente para cima. no entanto.. perguntou. Phélippeaux estava cego.

eram depositados nos jardins do paxá. Não vi . deixando rasgos amarelos no padrão escuro. para lá e para cá. Olhei para cima. conquistara-se algo de fundamental. dando tapas nas costas de seus homens exaustos e berrando para os franceses. Saí atrás de Jericó e Miriam. voltai e desfrutai um pouco mais!" . A luta arrancara lascas do madeiramento. mas as mulheres do harém. Mas talvez Phélippeaux tenha tido um vislumbre de que não foi em vão e de que. Com a cacofonia da batalha. pesarosa e temporariamente. "O quê? Não apreciastes a minha hospitalidade? Ora.ainda bem! . Depois caminhei de volta através do entulho da torre semi-destruída. nos contemplavam das janelas gradeadas. Retornei ao corpo de Najac. na violenta insanidade do último e pior dia do cerco. inclinei-me e peguei meu fuzil. aprestar vigas e misturar argamassa. O paxá andava pomposamente pela muralha. Teria ele realmente compreendido sua vitória quando a vida se esvaía de seu corpo? Não sei. Engenheiros militares aos berros já começavam a alavancar pedras. A torre seria novamente remendada. como um pavão. minha machadinha e o anel. com seus olhos cobertos por véu.— 22 — Então o coronel Phélippeaux morreu. as aves tinham desaparecido.o corpo do ferreiro entre as longas fileiras de defen¬sores caídos que.

tendo água até os joelhos e depois a cintura. . Mohammad e eu havíamos chispado para a muralha. onde o Mediterrâneo parecia tão limpo após a sordidez da batalha. Será que existem mesmo maldições? O racionalista Franklin duvidaria disso. certificando-me de que estava finalmente pronto para fazer o que precisava ser feito. Olhei para trás. Ouvi um chape. deixando o mar lavar um pouco da poeira e fuligem.Bebi água na fonte da mesquita e depois caminhei pesadamente pela cidade. Foi como uma estrela cadente vermelha. abrindo os olhos na penumbra verde. sujo de sangue e fumo de pólvora. dirigindo-se ao azulcobalto que indicava a água profunda. e o anel se foi. com o frio me tomando a virilha e a seguir o peito. Como podia ter-se passado tanto tempo? Ainda pela manhã. Prendi a respiração o máximo que pude. e a fumaça e a poeira haviam criado naquela direção uma cortina. Preparei o braço e arremessei. sacudindo a água de meu cabelo encharcado e comprido. E então vim à tona. Andei até chegar ao molhe do farol. Canhões ainda ribombavam. anel que trouxera desgraça para toda pessoa que o tocara. Astiza. transformando-a numa escuridão tormentosa. Simples assim. que o sol declinante iluminava por trás. Imaginei que meus olhos brilhassem no negror do rosto. Peguei o anel do faraó. Mas eu já sabia o suficiente para não encostar os dedos no rubi enquanto entrava no mar gelado. mas minha mirada se fixava em algo a mil milhas dali. Curvei-me e submergi. enquanto civis aglomerados me olhavam com receio.

Conforme Smith previra. com o cabelo empastado e a parte superior do tronco envolta em bandagens manchadas. minha fala estava embotada. num último acesso de frustração. Miriam. eu. lixívia e carvão vegetal. Fiquei aliviado ao ver que Miriam estava cuidando de um irmão ainda vivo. pálido. "Será que nada consegue te matar?" "Peguei o homem que te baleou. Bacias continham nacos de carne amputada. banqueteando-se. cujos recintos estavam apinhados com os feridos recentes. todos nós. o ar era cortado por berros. rósea. Mas ele se mostrava alerta e enérgico o bastante para me dirigir uma encarada cética quando fui até seu catre. Jericó. Achei Miriam no hospital da cidade. Napoleão parecia estar disparando contra nós tudo o que tinha. Periodicamente. mas também de gangrena. Tu. dos braseiros onde os instrumentos cirúrgicos de corte eram aquecidos antes do uso.Tive um arrepio de alívio." Por conta da exaustão emocional. e havia cheiro não só de sangue. Moscas zumbiam. Poeira descia das telhas para os olhos dos feridos." "Mas aonde foste quando saíste da cidade?" . Conseguimos. Talvez ele esperasse simplesmente arrasar o que não podia capturar. Os lençóis estavam rubros. "Conseguimos defender a brecha. O edifício tremia pelo canhoneio incessante. e a água dos recipientes. Serras chacoalhavam nas mesas. Jericó estava sem camisa.

. Tenho tido azar com tesouros." "Estás me dando o ouro todo?" "Estou dando para ti e para Miriam. mas estou ficando sentimental.. Miriam e Jericó arregalaram os olhos ante o brilho do metal." Agora ele me fazia uma carranca. Meu peito tinha uma equimose do tamanho de um prato. "O tesouro?" "É." Enfiei a mão debaixo da camisa e tirei o cilindro de ouro. nem mesmo agradecimento." Ambos me fitaram. que escondi da vista das outras pessoas no hospital. Pesado o suficiente para construir duas vezes a casa. Não consigo ler palavra do que está escrito ali. Quando a guerra acabar. Jericó. "É pesado. não concluí a frase." "Não se trata de compensação! Isto aqui não é pagamento nenhum! Por Deus. Sabes aquela coisa que estávamos procurando em Jerusalém? Eu a achei. estarás rico. Só pretendo ficar com o livro que está dentro do cilindro." "Eu?" "Estou te dando. "Como é que é? Achas que podes compensar-me?" "Compensar-te?" "Por teres irrompido em nossas vidas e levado não só a nossa casa e o nosso ganha-pão. mas também a pureza de minha irmã."E uma história comprida." Sensatamente. Ele estava mesmo lascado e quase perfurado onde a vareta do fuzil acertara. ela não. "Não é compensação. que deixaste em Jerusalém. e duas vezes a forja. Mas tanto o invólucro do livro quanto meu corpo estavam intactos. É só o . mais ou menos.

coitada." Percebi que a resposta estivera debaixo de meu nariz. vais embora sem dizer nada e depois vens me trazendo isso?!" Jericó estava ficando mais bravo. juntos. nunca mais pegarão o livro. como fogo e gelo. "Perdeste totalmente o juízo?!" "Nunca estive mais são. meu coração não suportaria perdê-la outra . e agora volto para terminar o resto. porque." "Tu a seduzes. que fariam mau uso dele. Agora. e foi o que fiz. a possuis. que acabavam em perigo sempre que se juntavam. e peço a tua permissão.que é justo.eu e ela éramos veneno um para o outro. "Eu me envergonho de ter ido embora sem me explicar e vos deixado na ignorância nessas últimas semanas". "Eu cuspo no teu presente!" Era óbvio que ele não estava entendendo. eu conseguirei retirá-lo por mar nos navios de Smith. Um ou outro deus estava me mostrando o caminho certo ao levar Astiza para longe de mim . A egípcia. Mas tive uma chance de concluir nossa busca. disseram os dois. Terminei o que comecei. "Pois então cospes no humilde pedido de desculpas do teu futuro cunhado." O rosto dele se contorcia de incredulidade. não mais calmo." "Como é?!". "Sei que o que fiz parece mais baixo que cobra na sarjeta. Miriam me olhava sem conseguir acreditar. Quero casar com a tua irmã. respondi. Tu me farás um favor aceitando. mesmo se passarem pelas nossas defesas. estaria melhor sem mim. pura e simplesmente. mantendo este objeto longe dos franceses. Jericó. Por certo.

e quão bom. Uma delas é o quanto te amo. perguntou Miriam. Quero mesmo casar com Miriam. o caminho era aquele mesmo. esqueceria o pesar que a ausência de Astiza me causava e nunca mais teria nada a ver nem com batalhas. Havia sido isso que eu encontrara de fato na Terra Santa. É. e quão maravilhosa serás para mim. eu serei para ti. com lágrimas a correr-lhe pelas faces.e a perdi como também já aconteceu antes. e eu gostaria de ter a tua bênção. espero. "Mas e Astiza?". seu rosto se contorceu de modo estranho. Não sei por que. mas eu e ela não fomos feitos para ficar juntos. olhando-me com algo perturbadoramente próximo do sentimento de pena. E. com fisionomia inescrutável. "Jericó?" O rosto se enrugou. tomaria jeito. e não aquele livro bobo! Por conseguinte. Riu até não mais poder. e aí o ferreiro caiu na gargalhada. "Não vou mentir para ti. O que raios estava acontecendo? .vez. então." Ele me encarou fixamente durante um bom tempo. nem com Bonaparte. Essas últimas horas de inferno me abriram os olhos para mil coisas. ainda assim. era um exemplo de vida reta e tranqüila. uma boa mulher que aprendera a estourar a cabeça de um homem com pistola e. eu agora casaria com uma moça correta. Eu a resgatei como já fiz antes . Ainda a amo. E ali estava a meiga Miriam. Eu a amei. Jericó. Mas ela se foi. admirada. e Miriam também começou a rir. Miriam.

"A minha bênção?!" Era uma gargalhada estrondosa. "Mas. confusa. "Como se eu fosse mesmo dar!" Nisto. eu bancara o bobo outra vez! Quando a cigana Sarylla lera o taro e me dera a carta do Louco. Com a breca. é claro que não. chegando em casa para conseguir algumas horas de sono. eu me corrigi. me encontrou em lágrimas." Eu me virei." Eu estava cada vez mais confuso. Jericó recuperou o autocontrole. suspirando.. "Um homem que." Ela abriu os olhos. bemapessoado e. fitando algo para além de mim. . que o lembrava do buraco em seu ombro. mais respeitável (apesar das mãos sujas de sangue) que um batoteiro e mandrião como eu. Atrás de mim. vê bem. com raiva de mim mesma. Foi numa casa aqui em Acre.." "Era a casa de um médico. Um médico que trabalha neste hospital. considerando tudo. ele teve um esgar de dor. devagar. "lembra-te de onde me deixaste quando foste procurar Astiza?" "Lembro. trigueiro. disse Miriam." "Do que estás falando?" Olhei para um e depois para o outro. jovem." Miriam esticou o braço e tocou minha mão com a dela. arfando e produzindo um chiado ao respirar. "Tu achas mesmo que o mundo fica parado enquanto sais nessas tuas aventuras?" "Ora." "Ethan. "Gage.. estava o cirurgião levantino. "Será que terei de esperar a guerra acabar para que possa casar?" "Ethan". o teu senso de oportunidade é horrível. ela bem sabia o tolo que eu era.. não.

. dissera Smith. A experiência estava sendo humilhante? Estava. quero te apresentar o meu novo noivo. senhor Gage". e eu me surpreendi com o quanto fora.." "Ele é o tipo de homem de que minha irmã necessita". Hiram Zawani a vosso dispor. e lá estava a oportunidade de ser solteirão outra vez.. Solidão? Às vezes. Eu não ia a um bom bordel desde que fugira de Paris. com o tipo de entonação culta que sempre invejei. o doutor Zawani fez de mim uma mulher honrada. mas pelo menos uma vez fizeste alguma coisa direito. "Mas. Na metade de um dia." "Dr. que eu tinha duas mulheres me disputando a atenção e meu problema era escolher entre as duas. Bem.e foste tu a reuni-los! És um ser humano frívolo e confuso. mesmo quando são umas cavalgaduras."Ethan. Mas também menos responsabilidade. Ethan Gage. "Ninguém sabe disso melhor que tu . Ela os faz parecer três vezes mais inteligentes do que nós. E foi uma libertação. eu passara de duas a nenhuma. O rubi e o ouro também se foram. Mas foi um alívio? Foi. "Haim Farhi diz que não sois bem o finório que aparentas ser." Eu quis dizer que Miriam estava apaixonada por mim. . disse Jericó." "Ethan.." Sorriram enquanto eu tentava adivinhar se ele me cumprimentara ou insultara. Eu antes estava mentindo para mim mesma acerca do que eu queria e precisava. "E mesmo formidável como essas coisas se resolvem". ao diabo com tudo. disse o homem. que por certo ela devia ter esperado.

Parecia justamente o tipo de antro de oportunismo. Acre o detivera. precisasse de ajuda em seu negócio. em vista do que aconteceu. Sua única opção era voltar para o Egito e proclamar a vitória. ele agora se via em irremediável inferioridade numérica. o maioral do comércio de peles. Bonaparte dependia do ímpeto e da velocidade. E estavam construindo para o país uma nova capital lá nos brejos da Virgínia. acho que só vou te deixar nos ajudar a penhorar isso que está aí contigo.Eu embarcaria para casa. com voz aguda e embaraçada. Talvez John Jacob Astor. disse Jericó. embuste e velhacaria para um homem com meus talentos. os franceses. "Parabéns". começaram a bater em retirada. longe das vistas dos americanos honestos. os doentes e feridos que não conseguiam andar. Não tendo conseguido utilizá-los para que seus inimigos se desequilibrassem e perdessem o pé. Com minha luneta. "Eu ainda devia partir-te ao meio". Centenas de homens. daria o livro à Library Company para que eles quebrassem a cabeça tentando entendê-lo e tocaria minha vida. mencionando as batalhas que vencera e omitindo as que perdera. Um dia depois. consegui dizer. eu os observei enquanto saíam de fininho." E deixou Zawani dar uma espiada no ouro. "Mas. tendo esgotado grande parte de sua munição num derradeiro e feroz bombardeio que não mudou em nada os apuros estratégicos em que se encontravam. estavam .

Abandonadas ficaram também multidões de judeus e cristãos que haviam tomado o partido dos franceses na esperança de libertar-se dos muçulmanos. de modo que vi até Bonaparte a pé. puxando pela correia um cavalo que carregava um soldado com ataduras. Em ambos os lados. para retardarem uma perseguição que nunca viria . A escassez de forragem e transporte animal era tão grande entre os franceses que eles abandonaram duas dúzias de canhões. Fazia muito calor. e grandes colunas de fumaça se ergueram no ar da primavera. e Acre estava fétida. A peste que se propagara pelo exército de Napoleão atravessara as muralhas para adentrar a cidade. cativa ou morta.sentados ou estirados em carroças ou curvados sobre montarias. Atearam fogo aos suprimentos que não tinham como levar. lamuriavam-se como crianças perdidas. Também explodiram as pontes dos rios Na'aman e Kishon. de 19 de março a 21 de maio. Eu me deslocava com cansaço e aturdimento. as baixas haviam sido pesadas.nossa entorpecida guarnição não estava em condições de realizá-la. estariam condenados. Se ficassem para trás. Coloquei o livro num bornal de couro e o escondi no alojamento em que me hospedei na Estalagem do . Astiza se fora de novo. e a preocupação imediata era remover os mortos. Agora. O cerco durara sessenta e dois dias. pois só podiam esperar de Djezzar uma cruel desforra. Os franceses começaram a queimar vingativamente fazendas e aldeias ao longo da rota de sua retirada pelo litoral.

Em 2 de junho. A aventura de Napoleão estava se transformando em desastre para todos os que eu conhecia. Tornou a entrar no Cairo em 14 de junho. deu-se ópio e veneno. a marcha se interrompeu para que os homens descansassem e se recompusessem . Um termô¬metro colocado na areia do deserto registrou uma temperatura de cinqüenta e seis graus centígrados. na Samaria. no Egito. conquistada a preço tão terrível. Uma semana após ter deixado Acre. o general de artilharia perneta. . os derrotados soldados chegaram exauridos a El-Arish. Aos poucos. que o físico Étienne-Louis Malus contraíra a peste em Jafa e tivera de ser evacuado. alardeando a vitória. com estandartes capturados ao inimigo. o Khan a-Shawarda. Eu soube que Caffarelli. Quando chegaram ao Nilo.Mercador. e que tanto Monge quanto seu amigo boticário Berthollet pegaram disenteria e estavam entre os enfermos evacuados por carroção. Depois. Eu apostava que podia tê-lo largado numa feira de rua que ninguém o pegaria. tão esquisita era sua escrita.Napoleão não podia dar-se ao luxo de apresentar um exército derrotado. reforçando a guarnição local. mas essa alegação tinha sabor amargo. tivera um braço despedaçado por uma bala de canhão turca e morrera de infecção junto a Acre. Aos franceses mais acometidos pela peste. para apressar a morte e evitar que caíssem nas mãos dos combatentes irregulares muçulmanos vindos de Nablus. ele abandonou Jafa. o grosso do exército seguiu para o Cairo. chegavam relatos da retirada de Napoleão.

23 - . Silano Parte 3 . mas. O recado era simples. o deus provido de bico. no começo de julho. Eu ainda fazia planos de voltar para a América. Smith oferecera seu esquadrão para apoiar o ataque. um barco mercante me trouxe uma missiva do Egito.Entrementes. mas fortes garranchos masculinos. pronta para continuar para a baía de Abukir e recuperar o Egito. Quando abri. e estava endereçada a mim em caligrafia feminina. chegou uma esquadra com quase doze mil soldados otomanos. Em 7 de julho. Eu consigo lê-lo. que eu duvidava que pudesse derrotar o principal exército francês. Não tive interesse em alistar-me nessa expedição. Meu coração disparou. e ela está esperando. porém. A chave está em Roseta. Os reforços turcos de Constantinopla não tinham vindo depressa o bastante para ajudar Acre. Vinha selada em cera vermelha com um sinete que mostrava a imagem de Tot. Smith se mostrava ansioso para dar cabo do arquiinimigo. encontrei não a letra de Astiza.

os otomanos ainda receavam confrontar Napoleão em campo aberto. limitou o avanço a ocupar a minúscula península que formava um dos lados da baía de Abukir.que. Por isso. proclamando que ela acabaria de vez com Bonaparte.Cheguei de volta ao Egito em 14 de julho de 1799. Ali onde a língua de terra da península se juntava ao continente. um ano e duas semanas depois que desembarcara ali com Napoleão. com suas barbas brancas. o paxá Mustafá . na esperança de que os franceses tivessem a cortesia de esticar as canelas ante as novas trincheiras. E era difícil dizer quem tinha menos confiança no sucesso daquela invasão. Apesar da exitosa defesa de Acre. Após a vitória ridiculamente desigual do corso na batalha do Monte Tabor. não com o francês. Não pude deixar de notar. forçaram a rendição de outro posto avançado francês na extremidade da península e pararam. As tropas de Mustafá desembarcaram. que o inglês permaneceu ao largo com seu esquadrão de navios. antevendo o inevitável contra-ataque de Bonaparte. eu estava com o exército turco. Forças de Bonaparte rapidamente se reuniam para cortar nosso acesso . porém. se eu ou seu idoso comandante. os paxás encaravam qualquer iniciativa própria como um desastre em formação. Smith se mostrava entusiasmado por essa contra-ofensiva. invadiram e cavaram com frenesi. tomaram um reduto francês a leste do vilarejo de Abukir. massacraram os trezentos defensores. Mustafá começou a erigir três linhas de fortificações. Agora.

Assim como Bonaparte se mostrara impaciente em Acre. pelo general inglês Wellesley. com forças demasiadamente pequenas. Sem que me tivessem pedido. entretanto. no momento em que Mustafá desembarcava. Corria o rumor de que Murad ousara ir à Grande Pirâmide. fora morto no cerco de Seringapatam. e já víamos os primeiros batedores franceses nos espiarem das dunas além da península. no Egito. eu sugeri polidamente a Mustafá que ele arremetesse para o sul e tentasse unir-se com a resistência mameluca à qual meu amigo Ashraf se juntara. o avanço para a Ásia acabara detido em Acre. não queria compartilhar o comando e ficava apavorado com a idéia de sair da proteção de suas fortificações e canhoneiras. As coisas. o sultão indiano com quem Bonaparte nutria esperanças de unir forças. na Índia. escalando-a até o topo e usando um espelho para sinalizar para a esposa. Porém. também os otomanos haviam desembarcado demasiadamente rápido. que mantinham cativa no Cairo. e Smith acabava de receber a informação de que Tippu Sahib. o grandioso projeto estratégico original de Napoleão já fracassara. uma . A esquadra que viera com o corso fora destruída pelo almirante Nelson no ano anterior. e eu achava que aqueles turcos estariam melhor sob o sagaz Murad do que sob o cauteloso Mustafá. Sim. estavam em constante mudança. um contingente de cavalaria ligeira sob o comando do bei Murad.ao interior. Era um gesto de comandante audaz. Mas o paxá não confiava nos arrogantes mamelucos.

na parte oeste da foz do Nilo. Estava ficando complicado calcular quem levaria a melhor. Se eu tivesse sucesso. Mas e o livro? Tanto Bonaparte como Silano tinham razão . aluguei um falucho para que me levasse a Roseta.eu estava mais curioso ainda em saber o que significava aquela escrita misteriosa. Depois. durante minha primeira estada no Egito. Resolvi que minha melhor aposta seria fazer negócio com Silano em Roseta. tão depressa quanto possível. resgatar outra vez Astiza e então resolver por mim mesmo o que fazer com o segredo. com suas tendas num carnaval de cores. voltaria correndo para o enclave turco antes que tal cabeça-de-praia sumisse e pegaria um barco que fosse para qualquer lugar. Passáramos navegando por lá um ano antes.esquadra franco-espanhola adentrara o Mediterrâneo para opor-se à supremacia naval britânica. A vida já é dura o bastante sem que precisemos suportála para sempre. se o texto prometia a imortalidade. eu precisava obter a "chave" de Silano. eu não queria ter nada a ver com ele neste mundo. Enquanto os turcos se entrincheiravam no calor opressivo do verão. Astiza talvez voltasse comigo. um porto na foz do Nilo. mas não me parecera um lugar que chamasse . A única coisa de que tinha certeza era que. escrevera ele. Será que o velho Franklin teria feito diferente? "O que torna tão difícil para as pessoas resistir à tentação é que elas não querem desencorajá-la por completo". menos o próprio Egito. De algum modo.

monsieur. Embora a localização conferisse algum valor estratégico a Roseta. Este documento diz que isso se faz necessário para a segurança do Estado.a mulher e a tradução . Por conseguinte. O tenente no chebek reconheceu meu nome (aparentemente. Com o estímulo de algumas moedas. içar a vela a meio mastro para que eu pudesse fazer nela uma importante modificação . eu o fiz jurar segredo. Respondi que preferia ficar em minha própria embarcação e segui-lo. mas Silano enviara a senha para que me deixassem passar. Minha comodidade seria a última coisa que passaria pela cabeça do feiticeiro." . um chebek. minhas aventuras e mudanças de lado tinham me conferido certa má fama) e convidou-me para ir a bordo. tenho ordens de confiscar vossa bagagem até o momento em que venha a encontrar-vos com o conde Alessandro Silano. Logo fomos interceptados por um barco de patrulha francês. a explicação mais provável era que a mensagem de Silano fosse mentirosa e traiçoeira.para me fazer enfiar a cabeça na arapuca.coisa que ele aceitou como prova incontestável da maluquice de todos os estrangeiros. era um mistério o porquê de Silano querer encontrarse comigo ali. mandei Abdul. o barqueiro. Ele consultou o papel que trazia consigo. "Neste caso.particularmente a atenção. E então passamos uma vez mais do mar azul para a língua marrom do grande rio africano. mas havia iscas suficientes .

No entanto. sofrais algum feitiço antigo. acreditai. seguir viagem. retrucou ele. na pior delas. Se isso acontecer. assaz incômodo." Estendi o bornal por sobre a beira do barco. sejais levado à corte marcial . e aportamos em Roseta." "Tendes também um fuzil". posso garantir-vos de que o conde fará que. Silano. dado que as minhas façanhas me deixaram sem tostão e sem aliados." "Deveras. no delta do Nilo. Estou aqui de livre e espontânea vontade e sou apenas um americano desacompanhado numa colônia francesa. fomos em frente. já que eu me postara na amurada com o fuzil numa das mãos e a outra estendida sobre o rio. Suas construções." Ele resmungou e olhou mais algumas vezes para seu documento. Tratava-se de um vilarejo agrícola bem irrigado. Com certeza não pretendeis que eu desembarque nu .ou estou enganado?" "Mas carregais um bornal. tenente. E ele está pesado. exceção feita à mesquita. Deixai-nos. que tinha um único minarete e fora construída de . pois traz uma pedra grande. O último homem que procurou fazê-lo morreu. à sombra das palmeiras. na melhor das hipóteses. o confisco não se mostrava factível. há de aprovar o que vos proponho. portanto."A minha bagagem é o que estou vestindo. Assim.ou que. eram todas de adobe marrom. eu os deixarei cair no Nilo. "Caso tenteis me tomar estes parcos pertences. com o chebek nos pastoreando como cão de guarda. "O qual não tenho nenhuma intenção de disparar a menos que alguém tente tomá-lo de mim.

No portão." "Então não entro de jeito nenhum." "O conde não fará objeções". Deixei instruções com meu barqueiro e fui por caminhos sinuosos rumo a uma fortificação francesa ainda inacabada. relutantes. chamada Fort Julian. "Ele veio como savant. e o portão principal. mas preocupado." "Nós o guardaremos para vós. Os soldados. E Astiza surgiu. O eletricista inofensivo se tornara algo entre incômodo e perigoso. vós. "Não podeis entrar com esse fuzil. tendes o hábito de pegar emprestado e não devolver. com um estalido. Estou aqui porque fui convidado. disse uma voz feminina. trajada recatadamente num vestido que lhe cobria os pés. Estava de lenço na cabeça. eles foram detidos por sentinelas com chapéus bicornes pretos e bigodes enormes. não como espião." Aparentemente.pedra calcária. e não porque me tivessem ordenado que viesse. deixaram-me passar para o pátio. Astiza expressava em alguma medida a autoridade de Silano. Construções de tijolo e tábua recobriam . e ele ia amarrado ao pescoço. fechou-se atrás de mim. interrompendo-nos. de modo que o rosto lindo." "Infelizmente. com a bandeira tricolor tremulando acima das muralhas de adobe e uma multidão de meninos de rua curiosos me seguindo. lembrava uma lua. e eles me olharam como se eu fosse bruxo. Minha má fama se confirmou quando esses soldados me reconheceram com clara expressão de repugnância. Histórias de Acre haviam certamente chegado ali. os franceses.

" "Foi Silano quem te mandou dizer isso?" Ela pareceu decepcionada. baixinho." "Não te enganes. e não uma escolha minha. Só peço que tenhas fé por um pouco mais de tempo. Um sol escaldante castigava a praça de armas." Indicou com um gesto de cabeça as muralhas. vi Silano. deixaram-me zonzo. "Precisamos descobrir se essa lenda contém alguma verdade e. planejar o que fazer. e o que nos separou foi uma bala de canhão. O destino irá se encarregar do resto'. e ele. folha de palmeira). Mais uma vez. "Por que não consegues acreditar que te amo? Cavalguei contigo todo o caminho para Acre.as faces internas das muralhas daquele forte aquadradado e simples. com ou sem o teu fuzil." "Tu falas como Napoleão . "E irei embora contigo. uma estrutura térrea rebocada. "Eu garanti a Alessandro que virias". Dentro. chegamos à construção principal. mais o perfume de Astiza (uma fragrância de flores e especiarias)." Nisso. que esperava em uma mesa . E foi o destino que nos reuniu outra vez.'Já fiz todos os cálculos. precisamos estabelecer uma sociedade de conveniência com Alessandro.somos ambos prisioneiros. e vi mais sentinelas a vigiar-nos. depois. disse Astiza." "Bonaparte tem lá sua sabedoria. com cobertura de telhas e varanda de sapé (ou melhor. Ethan . estava fresco e escuro. Quando meus olhos se ajustaram à falta da luz ofuscante lá de fora.

Em ambos os lados do recinto.simples com dois oficiais. "Ele estava encarregado da construção deste forte quando seus homens escavaram um pedaço de entulho." Fez um gesto em direção ao oficial mais velho. Américain. segundo constava." "Até os melhores amigos têm suas discussões. não?" "Conheço." "Não esperava ver-te de novo. Silano se levantou. O outro. com a calva. "E este é o capitão Pierre-François Bouchard". O mais velho. Era fascinado pela cultura egípcia. eu não conhecia. "Estás sempre tentando escapar de mim. eu conhecia desde o desembarque francês em Alexandria: o general Jacques de Menou lutara com bravura e depois. "Conheces o general De Menou. Ah. havia portas fechadas e. a cara redonda de contador e o bigode fininho. eu descobriria.quem sabe estejamos fadados a ser amigos. respondi ao general. trancadas. muito polida. "Já deves com certeza reconhecer que se trata do destino . se convertera ao islamismo. como o coitado do Nicolas ficou bravo quando roubaste o balão dele!" "Foi em decorrência do hábito de atirarem em mim". não se tratava de um oficial de presença particularmente imponente. continuou Silano. Felizmente. Gage — mas nossos caminhos sempre se cruzam!" Fez uma ligeira reverência. o capitão Bouchard percebeu depressa a . um capitão bem-apessoado. e não inimigos?" "Eu ficaria mais convencido disso se os teus outros amigos não vivessem atirando em mim. mas.

Talvez o nosso Omar me dê alguma dica uma noite dessas. Eu te mostrarei. fora coberta com pano para manter a privacidade." Apontou para alguns frascos de tinta num dos cantos da sala." Toquei a tampa do esquife." . Creio que essa pedra de Roseta pode mudar o mundo. "Estou fazendo experiências. talvez.importância daquilo." "E mágico. e esta tem agora a fama de assombrar Roseta. "Impressionante o brilho das cores. ela é melhor que uma naja. Pintado em cores vivas e extraordinariamente bem conservado. do mesmíssimo modo que perdemos a fórmula dos vitrais medievais. mas disse aos soldados que o achamos aqui no local do forte". destrancou-a e nos introduziu no recinto. disse Silano. brincou Menou." "Sentinela?" "Eu o trouxe rio abaixo." "Pedra?" "Vem comigo. Não conseguimos igualar a beleza nem de uma coisa. ostentava pinturas que pareciam uma descrição da jornada de uma alma pela terra dos mortos. nem de outra. uma fenda vertical estreita que dava para o pátio. "Ele não se cansa nunca. "Tais múmias provocam medo. Estava bastante escuro. Hoje não conseguiríamos fazer igual. Quando se trata de manter os curiosos longe deste recinto. "Há algum corpo aí dentro?" "O de Omar. nossa sentinela". A primeira coisa que me atraiu a atenção foi o esquife de madeira de uma múmia. a janela." Silano nos conduziu à porta da esquerda.

respondeu Silano. eu reconheci o que tínhamos visto no rolo de texto. Com isto. uma coisa volumosa. apontando para a escrita que eu não reconhecia. Eram os mesmos símbolos curiosos que estavam no rolo de texto que eu achara na Cidade dos Espíritos. e outro. "Vês? Eu estava mesmo destinada a ser recapturada. fez meu coração disparar. forçando a vista na luz ruim. a de Tot." Junto ao esquife de madeira. Entendi o que Silano quisera dizer com aquela mensagem misteriosa . a escrita que eu já encontrara em templos egípcios. a escrita egípcia que se seguiu aos hieróglifos". Eu me curvei. Com um gesto dramático. no alto. estava envolta num oleado. "O meu palpite é que as escritas estão numa ordem cronológica com a mais antiga.ele podia comparar as palavras gregas com as palavras secretas de Tot e possivelmente desvendar essa linguagem! "O que é este texto aqui?". Viam-se escritas de diferentes idiomas. disse Astiza." "Quando Alessandro me trouxe para cá. de aproximadamente cinco pés de altura e um pouco menos de três de largura. no alto e a mais recente. mas um grupo de palavras parecia grego. a dos gregos. na base. logo acima da escrita dos templos.e a quarta."E tu? Não acreditas em maldições?" "Acredito que eu esteja prestes a ser capaz de controlá-las. Não sou nenhum lingüista. Ethan". Uma terceira não consegui identificar . perguntei. "E demótico." . Silano arrancou essa cobertura.

"Merdei". "Pelo contrário. e meu bornal me foi arrancado do ombro e aberto bruscamente."E agora quereis que eu vos ajude a decifrado". "Parceria. se preferires não colaborar. O sentido da vida. o rosto de Deus. Sinalizou com a cabeça. Gage". Entreabriram as solas de minhas botas. e reparei que ele tinha uma pistola enfiada no cinto. "Não achaste realmente que eu te entregaria o livro tal qual um bom carteiro. "Queremos que nos dês o livro para que nós te ajudemos a decifrado". O capitão Bouchard se moveu para trás de mim." Silano suspirou. não tereis o livro . poder e imortalidade. exclamou Bouchard." "Mas. . corrigiu Silano. o mundo na palma da tua mão. Talvez os segredos do universo. como se eu fosse uma criança particularmente obtusa. e um rolo de pastel caiu lá de dentro. "E ganho o que com isso?" "A mesma coisa que te ofereci antes. se a quiseres. O general e o capitão olharam sem entender.. fazendo uma marca no chão de terra batida. A fisionomia de Silano se ensombreceu. como se eu o tivesse de alguma maneira enfiado ali. Ou nada. verificaram as solas de meus pés. Virou de cabeça para baixo aquela sacola de couro. resumi. e Astiza abafou uma risada. disse Silano. se eu não colaborar.é ou não é?" Vi Menou fazer um pequeno gesto. Espiaram até no cano de meu fuzil. achaste?" "Revistai-o!" Mas não havia rolo nenhum..

até que estabeleçamos uma sociedade de verdade.e nada!" Mais uma vez. não importando quanto poder tenhas sobre nós.e à Royal Society. Até ergueram o barco para procurar na quilha . E quero Astiza de uma vez por todas. que trarei o livro a tu. Quero dar a tradução aos savants do Institut d'Egypte." "Trazê-lo de onde? Acre?" "Poderás tê-lo em menos de uma hora. e não para os maçons renegados do Rito Egípcio. não representamos a liberdade e a razão? Pois então." Ele mordeu o lábio. Nós dois temos sonhos. no Cairo . Quero que desistas dela. Nós. em Londres -. Silano. "Escondido. E quero que ela prometa vir comigo para onde eu escolher . Ou para generais ambiciosos como Napoleão Bo¬naparte. Quero que Bonaparte saiba que estamos todos aqui. para que nenhum de nós venha convenientemente a desaparecer. os americanos e franceses. para trocá-la pelo livro.agora e para sempre. trabalhando juntos por ele. "Já revistamos o teu falucho e o maldito barqueiro. Promete-me tudo isso. "Olhareis também dentro dos ouvidos?" "Onde é que está?" A frustração de Silano era evidente. irrompeu de sua máscara de urbanidade um pouco . E quero o fim do derramamento de sangue.apalparam-me rudemente em lugares que me deixaram indignado. Ambos perdemos amigos. para que seja difundida ao mundo. que o livro seja traduzido para toda a humanidade.

"Dá-me tua palavra de nobre e de savant? Estes soldados são tuas testemunhas. Gage." . Silano? Concordas com minhas condições?" "Sim. "Concordas com aquela condição dele?" Percebi que era a segunda vez que eu pedia os afetos de Astiza em um mês. "Concordo". para querer assim compromisso de uma mulher . O importante é decifrar o código lingüístico e traduzir o livro.. conde Silano." "E. Esclareceremos e instruiremos o mundo inteiro! Mas não poderemos fazê-lo se não estiveres com o livro. "Os meus homens revistaram cada polegada daquele falucho." Ele fez um gesto de alguma impaciência com a mão.. onde está o livro?" "Mas e tu. retrucou Bouchard.o que implicava que eu me comprometesse. Nenhum dos dois pedidos fora terrivelmente romântico. sim.. Eu sorri. Eu devia estar ficando velho.daquela frustração impaciente que eu vislumbrara no Egito no ano anterior. "Quanta confiança. mas ainda as¬sim." "Mas eles não içaram a vela." "Impossível".. Astiza me olhava esperançosamente. "Pois então.a um americano com mais perfídias do que consigo contar. Eu me sentia feliz e apavorado ao mesmo tempo. dou minha palavra ." "Ele ficou no barco. respondeu ela." Ele se voltou para Astiza.

e a vela. Dei uma ordem ríspida. A água. "O livro ficou exposto durante todo o percurso rio acima". parecia densa.. Meu barqueiro se acuara num canto de seu falucho (que fora puxado para a terra). "Ele costurou essa coisa no pano. disse Menou. A uma luz horizontal. ainda mais demorada e laboriosa. e uma luz cálida se derramava através das tamareiras. era traduzir e entender realmente o livro. proclamei.24 Tínhamos duas tarefas pela frente. foi içada até enfunar-se. A outra. que ondulavam à brisa tórrida. comigo à frente. parecendo esperar a própria execução a qualquer instante. verde. e pequenas garças estavam de pé nos baixios. discerniase com dificuldade uma tira que. O sol baixava. "Absolutamente ninguém notou. apresentando caracteres estranhos e indistintos." .Saímos do forte até o Nilo. limitada em cima e embaixo por suas hastes de madeira.". Uma era usar a pedra de Roseta a fim de traduzir para o francês os símbolos do texto de Tot. com certa admiração. ia da base ao topo da vela.. Eu não podia culpálo: tenho talento para levar azar à meus companheiros.vede?" Olharam de perto. "Lá . .

Sumiram-lhe rugas do rosto. não? . Silano exibia um pouco daquele encanto fidalgo com que seduzira as damas de Paris. e cada conjetura mais abalizada levava algum de nós a consultar este ou aquele volume para verificar se uma construção era gramaticalmente plausível ou se uma referência tinha mesmo sentido. Penosamente. Que estranho triunvirato de pesquisadores nos tornáramos! Eu não esquecera a morte de meus amigos nas mãos de Silano. O conde trouxera baús cheios de livros embolorados. Astiza também parecia aceitar nosso acordo.Agora que tinha. nas mãos um texto que procurava havia anos. e o conde se mostrava animado e ansioso ao começar a tabular símbolos e tentar achar nexos. Aos poucos. "Da liberdade pessoal e do destino inelutável". Bem. o coxear ficou menos doloroso. Mesmo a contragosto. Melhor ainda: parecia conformado em ceder-me Astiza (muito embora eu às vezes o pegasse olhando ardentemente para ela). Silano tinha charme. Um deles era "Da natura diáfana da realidade. aquela perspectiva me empolgava. dizia outro. decifrávamos títulos de capítulos do rolo de texto. Sua aristocrática energia intelectual era sedutora. mas admirava seu empenho e seu zelo. aquele era um problema e tanto. ia-se iluminando a pré-história obscura em que o Livro de Tot fora supostamente escrito. e principiei a entender o que Astiza vira nele. e do poder de manipulá-la segundo nossa vontade".

afirmara serem apenas uma amostra de trinta e seis mil. . dessa Bonaparte ia gostar. "Da eliminação das doenças."Da união de forças entre a mente." "Do poder de fazer o maná cair dos céus. sonhava com novas buscas. "Da vida eterna. e do mundo superior. Eu dava graças por não ser particularmente digno disso . Seriam encontrados apenas pelos justos." Teria Moisés lido aquilo? Não vi nenhum tópico sobre como dividir as águas do mar." O Inferno e o Céu? "Do poder de manipular as mentes humanas segundo nossa vontade. o corpo e a alma.ter conseguido aquele primeiro já quase me matara! Silano." Ah." Seria sucesso de vendas. Podeis imaginar tê-los todos?!" "Os faraós acharam que mesmo esse nosso único rolo precisava ser mantido bem oculto". uma lista de tópicos e postulados. no tempo certo. lembrei. entretanto. os quais Enoque.uma centena para cada dia do ano espalhados pela Terra. aquele era apenas o primeiro de quarenta e dois rolos de texto. em suas diversas formas. e que o conhecimento e o mistério se aprofundem a cada volume." "Do poder de conquistar o coração de quem amamos. "É assombroso! Estou supondo que este livro seja um sumário. quinhentos e trinta e cinco rolos . meu mentor egípcio." Por que isso não funcionara para Moisés? "Do mundo inferior." Isso já bastou para me fazer gemer. "Dos quarenta e dois textos sagrados. e da cura da dor. Aparentemente.

o conde era um homem movido pela frustração. talvez da Atlântida.eu. Sua construção era em tudo estranha."Os faraós eram homens primitivos que não dispunham nem da ciência nem da alquimia modernas. ou da Lua . por exemplo . adulando democratas que antes haviam sido reles advogados e panfletários. Privado da fortuna pessoal pela revolução. Ao contrário dos reis e tiranos. e simplesmente identificar as palavras não esclarecia o sentido. Todo o progresso humano. obrigado a rastejar para voltar a cair nas graças do poder. A feitiçaria e o oculto reconquistariam o que o republicanismo lhe tomara. "Isto é trabalho para universidades inteiras". um mago ou algum ser excelso de sabe-se lá onde.uma divindade. e agora foi redescoberta. Embora já tivéssemos alguns títulos de capítulo. legados por alguém . o nosso mundo é a culminância de um milhão de idéias compartilhadas e registradas. Desde o fogo e a roda. advém do conhecimento. E os homens mais sábios .que fundou a civilização e agora é capaz de renová-la. O que temos aqui são mil anos de avanço científico. Gage. Este rolo de texto irá nos conduzir aos outros. "Passaremos o resto de nossas vidas tentando deslindar o texto aqui em Roseta. disse eu a Silano. A maior das bibliotecas ficou perdida por cinco milênios. atinar com o texto em si estava se mostrando fatigante. decidirei tudo com perfeito conhecimento de causa!" Ninguém acusaria Silano de humildade.poderão governar e colocar as coisas em ordem. Vamos .

" E naquela noite. só Tot sabe. Foi por isso que alimentei o rato. Astiza e eu labutamos muito. Acabei fazendo uma pausa rápida em nossa . Não sou o mais bondoso nem o mais contemplativo dos homens." "És um completo tolo. para sermos dignos da tarefa. procurando ver se esta ou aquela palavra encadeava-se a outra e se tinham algum sentido esquisitices como "Em vosso mundo. Um tolo a procurar tolices. O porquê disso. Gage? Deixar um savant comum meter-se com isto é como guardar pólvora em loja de vela. foste necessário para que se achasse o livro. ou gatos a que dei valor por pegarem ratos.." "E quanto a mim?" "Estranhamente. o acaso é o alicerce da predeterminação fatalista". apanhá-las em armadilha ou usá-las como montaria ou animal de tiro. ele mandou me envenenarem. Durante décadas." "E a primeira vez que ouço esses charlatães dizerem uma verdade. Achei que eras tu a temer o mau uso do livro." "Certa vez. uma cigana leu o meu taro e me disse que eu era o Louco. Mas houve cães de caça a que me afeiçoei. ou aves cuja plumagem me deslumbrou. estudei as tradições referentes a essas palavras. Fiquei acordado com o livro até mais tarde que Silano e Astiza.. como se querendo demonstrar seu argumento. desde longa data. e em geral só penso nas outras criaturas do Senhor quando se trata de caçá-las.dar o trabalho ao Institut de France ou à Royal Society.

com olhos arregalados de pavor. Sentindo-me sociável naquela noite silenciosa. Depois.. se conseguisse decifrar onde a frase terminava. com as letras borrando-se — eu parecia estar mais cansado do que me dera conta! Mas. girar e dar cambalhotas. ou ver que Tot usava mesmo frases na acepção moderna do termo. inchada. receita egípcia que consiste em fava cozida e parcialmente macerada. e tornei a entrar para sentar a nossa mesa e ir beliscando o fui medames. tão grande quanto uma pequena ratazana americana. aquele . tendo a abundância de estrelas no breu úmido e compacto do céu de verão. mas minha língua. que apenas eu ouvi. avistei um visitante periódico que já me divertira antes: um rato-espinhoso-do-cairo. Num canto do recinto. O que acontecia? Olhei para o canto. Agora. caíra de lado e tiritava. de repente notando como eles pareciam mudar e deslizar. o rolo de texto tremulava. Silano. tentei gritar. produziu apenas um murmúrio. Embora tenham demorado demais. eu lhe joguei um pouquinho de fui. Empurrei o prato para longe e me levantei. "Astiza!". assim chamado porque seus pêlos espetam a boca de qualquer predador. Eram tantas opções! Eu me maravilhava com os símbolos. e pedi a um ordenança que me trouxesse comida. O rato. Pisquei.. com tomate e cebola. Ele espumava. Dei um passo trôpego. veio enfim um prato. voltei ao trabalho. ainda que a presença de tais roedores fosse uma das razões para que tivéssemos colocado o livro num cofre.varanda.

junto a um córrego.desgraçado! Ele concluíra que não precisava mais de mim! Lembrei-me de sua ameaça de envenenamento no Cairo. boiando na vertical. Homens entraram na ponta dos pés para me levarem dali. mas consciente . e me carregaram como uma saca de farinha. Será que queriam que parecesse afogamento? Alas o impacto me despertou um pouco mais. Não . sem curiosamente parecerem muito preocupados com meu poder de recuperação. submergi. e o pânico deu algum movi¬mento a meus braços e pernas. eu me senti caindo. desamparado como um bebê. Saímos do forte por um pequeno portão lateral e descemos no rumo do rio e da latrina da guarnição. entretanto. Mas como Silano explicaria o homicídio a Astiza? Ou pretendia ele assassiná-la também? Não. Com um ruído de queda na água. O efeito da pequena dose de veneno já estava passando. Eu estava tonto.provavelmente porque mal provara da comida. sem nem mesmo ter certeza do que acontecera a minhas pernas. Balançando-me. Os dois aspirantes a carrascos apenas observavam. Ergueramme. Eles. e bati no chão com tanta força que luzes dançaram diante de meus olhos. Com percepção enevoada. presumiram que eu já estivesse morto. Em seguida. o conde ainda a queria. vi o rato morrer. gemendo os dois com o esforço. arremessaram para lá o meu corpo. durante o ano anterior. Para além dele. Consegui sacudir-me para voltar à superfície e tomar ar. uma lagoinha do grande rio. a qual exalava o odor de lótus e merda.

e aí o crocodilo saiu da água e (coisa que já acontecera no Egito milhares de vezes) lhe papou. Foi então que ouvi um grande espirrar de água atrás de mim. Havia na lagoinha um cais baixo.perceberam que eu não tomara veneno suficiente? Não se mexeram para atirar em mim. Mesmo tonto como eu estava. é um projétil de músculos e consegue entrar na água e sair com espantosa rapidez. Virei-me. reconhecendo com abobalhada admiração a engenhosa perfídia daquilo.. foi até o Nilo para lavar-se ou admirar a noite. vinham em minha direção as narinas salientes e os olhos reptilianos da mais asquerosa e medonha de todas as feras .o crocodilo-do-nilo.. Esse pesadelo pré-histórico. e uma corrente estava se desenrolando com ruído de matraca. Que diabos. Os canalhas de Silano haviam acorrentado o predador na lagoinha para que ele me despachasse. o livro e a mulher! Eu mal acabara de visualizar esse roteiro desagradável. e tão insensível quanto uma máquina. Os elos agora serpeavam em minha direção. No escuro. nem para entrar na água e me liquidar a golpes de espada ou de machado.. E tão antigo quanto os dragões. Talvez eu pudesse nadar de cachorrinho e conseguir socorro.? Meus acompanhantes riram. da grossura de uma tora. Xeque-mate: o conde ficaria com a pedra. blindado com escamas. Eu já ouvia a história que Silano contaria: o americano usou a latrina.. quando o . entendi o que tramaram.

soltando minha perna. ele não era mais capaz de me morder. o vazio obtuso da expressão do animal . e. ainda que cada mordida sua só pudesse fazer a machadinha enterrar-se dolorosamente mais fundo. Ele me pegou por baixo. . sem dúvida surpreendendo-o com essa minha picadinha tanto quanto ele me surpreendera. O crocodilo e sua corrente me carregaram para cima. A lagoa parecia explodir enquanto o crocodilo se contorcia. Não ousei deixar que sua boca chegasse perto. como se acionadas por mola. logo após as patas dianteiras. e o animal tentava virar-se para me morder. Eu me segurei ali com a máxima firmeza . até que cheguei aonde ela formava uma coleira no pescoço do monstro. atingindo-o no céu da boca. Puxei-me freneticamente para adiante na corrente. abocanhando minha perna sem mastigá-la ainda. e o choque me impeliu à ação apesar da dor e do veneno. tirei a machadinha do cinto e acertei o bicho no focinho. Tornamos a mergulhar. Suas mandíbulas se abriram num átimo. nisto. e tomei fôlego.tudo isso se registrou em minha mente. onde a machadinha se fincou e ficou. O absoluto horror daquela pegada. os dentes justapostos na longa boca. e nos fez rolar. as escamas musgosas.animal deu o bote. Inconscientemente. firme como um torno. minha cabeça veio à tona. senti sua corrente resvalar em mim. seguindo o costume ancestral de afogar a presa. e eu o golpeei de novo. Enquanto girávamos na água.por mais que o bicho se retorcia. eu me agarrei a ela.

e eu mal conseguia me segurar. O cais começou a afundar rumo ao focinho do bicho. Seu focinho se chocou com estrondo no cais irregular. A fera mordeu a madeira. de modo que lhe bati repetidamente nos olhos.tendo alcançado a estrutura de madeira. e o cheiro do sangue fazia o crocodilo debater-se de maneira ainda mais frenética. o crocodilo irrompeu com metade do corpo para fora da água. partindo tábuas ao meio e grunhindo com a dor que minha machadinha tornava a lhe causar. Homem nenhum já saiu da água com tanta rapidez . Em vez disso. Viemos de novo à tona. levantei a laçada para soltar o animal. Assim. submergimos. Eu não tinha por onde matá-lo. nadamos no lodo do fundo raso da lagoinha e subimos outra vez. Minha perna sangrava. Enquanto a fera puxava e sacudia com fúria a corrente. quando outra arremetida do crocodilo relaxou a tensão nos elos. ele se agitava como cavalo chucro. esperando que ele nadasse Nilo acima. e veio atrás de mim. Agora. larguei a corrente e nadei para lá. Meus captores tinham parado de rir. enrolado na própria corrente. O crocodilo se voltou. e eu me arrastava para subir pelas tábuas inclinadas. eu podia ouvir o cais estalar e ranger atrás de nós. quando nossa agitação nos trouxe para perto do cais.Mergulhávamos. eu me pus em pé voando. e a corrente solta zuniu . Avistei então a estaca onde tinham enrolado a corrente e. Ouvi gritos confusos dos homens que haviam me atirado na lagoinha.

fazendo voar água. esgueirando-me pelo perímetro do forte até meus aposentos. O bicho caiu de novo na lagoa. Se não fosse. com um furioso fechar de mandíbulas. O homem gritava para alertar a guarnição. com as grandes patas espalmadas ao avançar. Eu me agachei quando ela sibilou pertinho de mim. o mataria. subi o caminho mancando. e um canhão disparou dando o alarme. seguindo o rastro de areia que a cauda do crocodilo varrera ao bater de um lado para outro. De jeito nenhum eu deixaria tudo para Silano. Se fosse possível. da margem. quase o partiu ao meio. parei no portãozinho lateral por onde havíamos saído. acompanhavam nossa luta. Com cautela. com uma centena de homens abrindo todo . deixou-o cair e foi atrás do outro. Eles fugiram aos berros. O crocodilo estava ferido. o atormentaria com o que ele estava para perder eu pegaria o livro e o jogaria no lugar mais fundo do Mediterrâneo. percebendo que estava livre . Em seguida. mas fiquei nas sombras. O crocodilo saiu da água para persegui-los. Os crocodilos conseguem correr distâncias curtas com a mesma velocidade que um cavalo a galope. arremeteu a toda a velocidade.e. direto para o forte. Ferido pelos dentes do crocodilo. O réptil pegou um de meus algozes e. pingando sangue. peguei o fuzil e espiei pela porta. Homens começavam a atirar. Entrei. Ali. Eu não tinha muito tempo. mas não contra mim. Seus olhos angustiados tinham avistado os homens que.como um chicote. O crocodilo irrompera direto por ali e estava no pátio. de repente.

Quando esse homem caiu. Assim. e as chamas começaram a dançar no feno. derrubar a lanterna sem apagar a mecha. por sua vez. confusa. mancando. Foi um dos melhores tiros que já dei. Tive de disparar por sobre todo o comprimento da praça de armas para. tornei a sair. Uma luz estranha começou a iluminar as escamas e os dentes (semelhantes a sabre) do crocodilo. Eu ia pôr fogo no forte. e os cava¬los relinchavam e saíam em pânico do estábulo. As chamas disparavam.o fogo que podiam contra ele. sem saber o que acontecia. mas não a fera: visei uma lanterna nos estábulos do outro lado do pátio. Mirei. aumentando o caos. e nisso os homens começaram a berrar: "Incêndio! Fogo. os quais. pedaços de outro humano já estavam presos em suas mandíbulas colossais. peguei uma das picaretas que estavam usando na construção do forte. No caminho.o livro sumira! Lancei um olhar para fora. Maldição . . mais altas. através de uma janela aberta. não ficavam longe do paiol. acertando alguém que tentava organizar uma corrente de baldes desde o poço do forte. Ninguém olhava para mim. fogo!" Cavalos relinchavam desesperadamente. pois sentinelas atiravam para todos os lados. a turma dos baldes se dispersou. Houve mais disparos. Ouvi oficiais gritarem: "O paiol! Jogai água no paiol!" Recarreguei e tornei a atirar. segurando o fôlego e puxando o gatilho com dedo firme. e fui para a sala onde haviam me envenenado. A lanterna caiu e se quebrou.

e talvez de ti. depois que ele tivesse te possuído e se cansado de ti? Ele quer o livro só para si. isto sim! Silano me envenenou e tentou me dar de comer àquele réptil lá fora! Tu achas que não terias sido a próxima. "Mas então por que é que fomos atrás daquilo? Não teria sido melhor deixar o livro onde estava?" "Por que é que as pessoas querem aprender o que quer que seja? E da nossa natureza!" "Não da minha. não para Bonaparte . disse ela. minhas roupas encharcadas. e agora balas começavam a atingir a construção onde estávamos encolhidos. o cabelo solto e despenteado. a mesa vazia onde estivera o livro.e certamente não para nós. vamos destruir a cifra que o traduz e deixar Silano com um livro inútil. com alguma pólvora. Não para a ciência. "Estás do meu lado?" "É claro." Agarrei Astiza. Viu minha perna a sangrar. de camisola.Astiza apareceu correndo. há uma armaria para os oficiais. O livro o levou à loucura!" "Eu o vi correr para a torre de vigia com Bouchard. os olhos arregalados de perplexidade." . "Ethan. Bateram a porta e se trancaram lá dentro. Há alguma saída desta ratoeira?" "Atrás daquela outra porta." "Pois então." Escutaram-se mais gritos. o que fizeste?!" "Eu?! O teu ex-namorado. se não podemos ter o livro." "Ele vai esperar e deixar que a guarnição dê cabo de mim . "Não podemos permitir que Alessandro desapareça levando o livro!".

tu ficas linda sob pressão!" Era uma porta pesada e trancada. mas Franklin afirmava que era tão lucrativo quanto imprimir dinheiro. só o lugar onde se guardavam as armas dos oficiais." "Não conseguirás levada! É pesada demais. peguemos a pedra para nós. soldados haviam formado uma longa corrente que ia até o rio. e os baldes iam sendo passados por sobre o rabo do crocodilo morto. encostei ambos os barris contra a parede que dava para fora do forte." O negócio editorial sempre me pareceu uma barafunda." Ergui aquele rolo de pastel que eu colocara no bornal para lograr Silano e seus comparsas e sorri de orelha a orelha. cobrindo sua . "Céus. mas atirei uma vez e depois a golpeei com a picareta. O tiroteio era agora menos intenso."Achas que temos como encarar a guarnição inteira?" "Podemos usar a pólvora para abrir um buraco na muralha dos fundos. lúgubres. Em seguida. Aquilo não era o paiol principal. Depois.lá estavam dois barris de pólvora. enquanto lá fora as chamas. Desarrolhei um deles e deitei um rastilho até o recinto principal. A porta cedeu. projetavam sombras. Pus o fuzil a tiracolo e fui mancando para o recinto onde estava a pedra de Roseta. Tirei dos frascos as tintas experimentais de Silano e usei um pouco delas para besuntar meu rolo de pastel. No pátio. mas por Tot! . "Agora. eu o passei sobre a parte superior da pedra de Roseta. "Benjamin Franklin garante que consigo." Eu sorri.

?" Segurei sua camisola pelos ombros e puxei. "O que estás fazendo?" "Transformando-te em biblioteca.superfície com o pigmento. Um golpe de picareta. não para desfigurá-lo. Astiza se contraiu. mas para trincá-lo. e eu gostei mesmo da maneira que o pano da camisola parecia dilatar-se ao drapejar em suas ancas. e a empurrei para a pedra. e parte dele chegou ao alto das nádegas. atônita demais para já ficar brava.." Eu a puxei e fui olhar. agora contra o texto grego. rasgando-a pelas costas enquanto Astiza dava um grito agudo. e então o quarto . estampara-se ali uma imagem idêntica à da pedra. mas deixando sem tinta os símbolos ali talhados. É que és mais lisa que eu. desnuda-te até a cintura.. e o granito começou a fenderse! Mirei pela última vez e usei a picareta com toda a força de que fui capaz." "Ethan!" "Eu preciso da tua pele.. Hora de trabalhar! Enquanto Astiza ficava ali de pé... mas as mulheres realmente têm costas lindas. Fiz a mesma coisa com o texto grego. Ainda assim." Então a beijei. dois.esses homens! É tudo em que consegues pensar numa hora des. Tive de mirar no meio dos hieróglifos. três. "Por favor. eu investi contra o monumento. com seus trapos contra os seios. pois alguns símbolos se perderam na cavidade da coluna dorsal. Não ficara perfeito." "Pelo amor de Ísis . "Desculpa-me. torcendo para que algum savant não me amaldiçoasse anos depois.. Foi estranhamente erótico. Comprimi Astiza outra vez.

mas podemos colocá-lo na armaria. eu me retirei. E então o mundo inteiro explodiu. O fragmento caiu no chão com estrondo. gritou ela. As chamas se avivavam. desta vez na armaria. a concussão nos deixou estatelados no chão. peguei uma vela e acendi o rastilho. Isso fará que o livro permaneça inútil enquanto não conseguirmos recuperá-lo!" O fragmento era pesado. Homens bradavam e corriam. Primeiro foi a vez do paiol do Fort Julian. Não dá para levar a pedra inteira. Astiza estava agachada junto à janela. Pedaços da pedra de Roseta voaram . Eu o calcei contra os barris de pólvora. e também de lá choveram destroços sobre nós. levando consigo toda a escrita de Tot e parte dos hieróglifos. Em seguida. uma detonação atroadora que lançou destroços flamejantes para o ar. Olhei rapidamente para trás. houve outro estrondo. "Ajuda-me a arrastar isto. Um instante depois. centenas de pés acima de nós. "Ethan!". Vamos destruir este pedaço da pedra. Mesmo abrigados como estávamos." "E depois?" "Explodi-lo ao mesmo tempo que abrimos um buraco na parede. mas demos um jeito de puxá-lo.superior da pedra de Roseta soltou-se. olhando para fora. empurrá-lo e arrastá-lo pelo recinto de entrada até a armaria." "Ficaste completamente louco?!" "Agora temos a cifra no teu corpo. calculando que ele ajudaria a direcionar a explosão para a parede.

haviam pendurado roupa para secar junto a uma carroça de burro. "És um livro. mas leva a vantagem de ser tão ridículo que as pessoas não tomam conhecimento. na confusão causada por um crocodilo alucinado." Eu sorri. pelo menos até que alguém pensasse em abri-la. No fim da viela. o lindo torso de Astiza passava a ser o único registro daquele escrito de Tot. Não vou zanzar nua pelo Egito. Minha esperança era de que." Fui buscar um capote de oficial. Eu a toquei.agora. estava num curral. . e agora minha perna. Levando meu fuzil. e escalamos seu entulho para dar nas ruas de Roseta. A machadinha. o pérfido Silano talvez presumisse que eu estava na barriga daquele seu réptil gigantesco. . eu tivera de deixar no crocodilo morto. por cavalos em disparada e por um paiol detonado. estava bem enfaixada.como metralha . não muito longe do bicho.o segredo da vida!" "Pois trata de arranjar capa para este livro. que. A muralha de adobe do forte se rompera. "A tinta já secou. Com alguma sorte. abrimos caminho em meio à destruição da armaria. Após termos requisitado sem conhecimento do dono aquela roupa lavada.25 - Fugir a passo de carroça de burro não é a maneira mais célere de escapar aos inimigos. Astiza . muito apavorado. talvez conseguíssemos nos safar. embora latejasse. estávamos mais ou menos em trajes egípcios.

ir ao encontro do esquadrão de Smith. Os turcos ficaram esperando como uma lebre paralisada. Com o céu tão límpido. O que lhes faltava era poder de fogo e bom senso tático. os franceses então os bombardearam e depois os . a menos que os turcos vencessem e os franceses se desbaratassem. ele perdera a possibilidade de continuar a decifrá-lo. Não havia nada de errado com a coragem dos homens do paxá Mustafá. Meu plano era vago: eu pretendia me esgueirar entre os franceses até as linhas otomanas. e isso significava que. só podia ser o troar de canhões. O panorama era desolador." Deixamos a carroça e o burro ao abrigo de uma duna alta e a subimos para olhar a baía mais além. Era o dia 25 de julho de 1799. começou a fazer-se ouvir um ruído como o de trovão. O sucesso desse esquema começou a diminuir à medida que o sol se levantou e o dia foi ficando mais quente. evidenciava-se a atrofia do poder militar otomano. Travavase alguma batalha. Mais uma vez." "E batalhas criam confusão . todo o exército de Bonaparte estava em nosso caminho.Ou então ele poderia concluir que fugíamos pelo Nilo. Se perdêramos o livro.talvez esta apresente alguma saída para nós. que estava ao largo. tentando passar pelos barcos de patrulha. "Não podemos voltar". "Silano iria nos localizar. e regatear com Silano de algum lugar seguro. No que deixamos a verde planície aluvial do Nilo para adentrar o deserto vermelho que se estendia até Abukir. disse Astiza.

e então decepando alguns dedos do paxá a golpe de espada. Escrevendo a um colega. O resto. então governava a França revolucionária). Em 1799. de Paris. Escrevendo ao Diretório (a junta que. Soubemos depois que Murat em pessoa capturou o comandantechefe turco em feroz combate corpo-a-corpo. sendo atingido no maxilar por um tiro de raspão da pistola de Mustafá. Era exatamente o triunfo de que ele precisava para restaurar sua boa fama após a batalha de Acre. e o dobro desse número se afogou ao mergulhar no mar para tentar chegar a seus navios. mas acabou bombardeada e privada de alimento até render-se. assistindo enquanto uma carga frontal dos cavalarianos de Joachim Murat não apenas rompia a primeira linha otomana. foi uma matança. Os corcéis avançavam correndo por todo o comprimento da península de Abukir. fazendo que os defensores se esparramassem em pânico para fora de suas trincheiras e as tendas murchassem ao terem as cordas cortadas. tão logo as linhas turcas se romperam.atacaram com a cavalaria. Ao preço de mil baixas. mas também atravessava a segunda e a terceira. ainda havia fidalguia. disse que fora "uma das batalhas mais lindas que já vi". Mais de dois mil dos guerreiros muçulmanos foram ceifados em terra. A guarnição do forte que ficava na extremidade da península agüentou teimosamente. Éramos espectadores de um desastre. Bonaparte usou o próprio lenço para improvisar uma bandagem na mão do homem. ele a . das quais três quartos eram feridos. Bonaparte destruíra outro exército otomano.

"Continuar fugindo.pintou como "uma das mais terríveis". é melhor não perdermos mais tempo. Napoleão faria a mesma coisa. Por conseguinte. Ambas as qualificações eram verdadeiras." E assim Astiza. à nossa frente. Astiza e eu tínhamos. um monte de franceses furiosos em Roseta e. Eu fugira das mandíbulas de crocodilo para me ver cercado por militares. deu mesmo uma sugestão. Silano certamente nos mataria. o que achas que devemos fazer?" Imagino ser lisonjeiro que as mulheres nos façam perguntas desse tipo em meio ao perigo marcial. "Isso não fica depois de cem milhas de completo deserto?" "Nesse caso. eu teria procurado um melhor." Engoli em seco. "Lembra-te do oásis de Siwah. o Grande. O sangue o ressuscitara. comentei. mas eu não me importaria se. "Ethan. moça valorosa. "Se tivéssemos tido tempo. Napoleão não domina o oásis vamos para lá. "Eu queria que o nosso burro não parecesse tão famélico e zonzo". acho eu. elas apresentassem suas próprias idéias. um exército francês vitorioso a saquear os restos de nossos aliados. foi declarado filho de Zeus e Amon? Pois bem." . Só não sei para onde. mas para onde mais poderíamos ir? Agora. de vez em quando. atrás de nós. onde Alexandre." Acabaríamos ambos mumificados pelo calor e pela sede.

Napoleão. só posso dar graças a Deus por teres mandado metade do meu forte pelos ares. a amada amarrada. Estandartes capturados aos turcos já estavam sendo preparados para embarque e exposição em Paris. o fuzil apreendido e o burro voltando para o legítimo dono. O conde Silano chegara boquiaberto. não é mesmo?" Bonaparte tomou um gole de vinho. . "Mas foi só para despistar. ensaiei dizer. E eu. sem muita convicção. "Venho tentando salvar-vos da feitiçaria. quando colocada naqueles termos. o irritante moscardo do general. estava tentando salvar nossas vidas. a coisa não parecia nada boa. previsivelmente. "E estavas tentando fazer isso agora? Com a tua bela víbora do lado?" "Silano procura poderes malignos que vos desencaminharão. Gage. como se eu houvesse ressuscitado após os bíblicos três dias. Informes seriam enviados à Franca para descrever com detalhes fulgurantes sua nova vitória. eu. estava agora bem agrilhoado. com a perna mastigada por um crocodilo esfomeado. Realmente. estava de bom humor naquela noite.. Sei que teria sido mais corajoso ser insolente e mal-educado.. Nada como a vitória para sossegálo."." "Então. porém. general". parte da reserva pessoal que o irmão trouxera da França. Ele desarrolhou uma garrafa de Bordeaux. respondi.Mas não tinha importância: uma patrulha francesa estava à nossa espera quando descemos da duna.

Agora. "Ele ajudará a vós e a todos aqueles que ascenderem convosco. "Fugir ao destino final?! Eu já sobrevivi quando tantos morreram. "Era a chave para traduzir um livro da Antiguidade?" Por sorte. conde?" Ele passou a garrafa. Dependendo de quem acabe por vencer aqui no Egito. Magia é apenas ciência avançada. "Então." "Vós. por exemplo. meu amigo. "Ainda existe isso?" "Poderemos fazer que exista. "É um aborrecimento que tenhas quebrado a pedra. tendes o incentivo!" Napoleão se voltou para mim. "Eu também estou farto disso. Gage. e a minha imortalidade não será esquecida. Eu sorri para ambos. Gage". . E o que restou da pedra possibilitará que os savants se concentrem nos hieróglifos. respondeu Silano. O que deixamos é a lembrança. ainda havia dignidade suficiente para que ninguém tivesse pensado em desnudar Astiza. mas Silano já decifrou alguns dos símbolos." "Imortalidade?!" Bonaparte riu. A magia e a imortalidade. Talvez ele desvende o resto." "E o que esse livro nos revelaria exatamente?" "A magia". general. ele dizia: "Já estou farto de tentar te matar. ela um dia irá para Paris ou Londres. perguntou Bonaparte. explicou o conde." "Acreditamos que o livro poderá vos ajudar a obter imortalidade de maneira mais literal"." "E quanto àquele pedaço de pedra que destruíste?". "Era.

a conquista da Ásia. Será assim que poderei regressar à França para endireitar as coisas. e meu irmão Lucien está em Paris tentando reformar aquela nossa Assembléia imbecil. os acontecimentos na Europa vão se desenrolando depressa .Multidões irão veda sem saber que havia um quarto texto. ." Aquilo parecia muito descaramento. "Smith me mandou isto como presente quando deixei os turcos recolherem seus feridos. e adotara outro. Tippu Sahib morreu na Índia ao mesmo tempo que éramos rechaçados em Acre.eu o surpreenderei com uma carta. embora tenhamos alcançado a glória no Egito. e fomos expulsos da Alemanha e da Itália. Kléber sonha com o comando desde que desembarcamos aqui. O Diretório está uma bagunça. de um jeito ou de outro. A esquadra britânica logo terá de afrouxar o bloqueio para que possa reabastecer os britânicos em Chipre. "O dever? E abandonar vossas tropas?" "Para preparar o caminho.o poder. O dever me chama.e a França está outra vez em perigo." "Eu poderia ficar por aí para contar a elas. Parece que." Foi então que pude confirmar que ele claramente abandonara um propósito. e descobríramos o que ele mais queria encontrar ." Bonaparte enfiou a mão numa pasta de couro e retirou dali um maço de jornais velhos." "Receio que não. Pois agora o terá . "A França e a Áustria estão em guerra desde março. Napoleão já ganhara o que pudera. o retorno a Paris.

. sempre atrás da maior chance." "Só por causa de Silano. "É uma pena que tenhamos de matar." Risco?! O risco estava em ficar com um exército ilhado no Egito. mas lá estavas com a tua eletricidade em Acre. já gastaste as tuas. mas é isso aí. Ambos também gostáva¬mos de mulheres bonitas. assumirei o risco de escapar à esquadra britânica.Entrementes. representas agora um obstáculo tão perigoso quanto foste útil quando te trouxe para o Egito. Em algumas coisas. eu sentia relutante admiração pelo safado tinhoso. Foi como se ele tivesse lido meus pensamentos. Nesta altura. não?" . Ethan Gage. O desgraçado estava abandonando os próprios homens pela política parisiense! Mas." "Au revoir. Nenhum de nós pretendeu que acabasses com os malditos ingleses.. Gage". Ele que arranjou o crocodilo. disse. poderíamos ter sido sólidos companheiros. "Em outras circunstâncias. Demonstraste ser um estorvo grande demais. Éramos fatalistas. Mas traíste a França pela última vez. e um inimigo demasiado capaz. interrompeu-me Bonaparte. E de grandes aventuras. éramos iguais ." "É isso aí o quê?!" "Sinto que estou sendo conduzido a um objetivo desconhecido e que tu. Só que até os gatos não têm mais que sete vidas. apostadores e sobrevivem tes. verdade seja dita. E agora atacaste Roseta.oportunistas. "A guerra e a política impõem necessidades". quando se tratava de fugir ao tédio.

saiu em passo de marcha. tendo se desembaraçado de nós. A areia escaldante sugará qualquer líquido que retiverdes. Aquela que." Assim. "Deixarei que Silano seja criativo contigo e com a tua amante. com a cabeça já no projeto seguinte." "Não. Vossa pele fritará e acabará rachando. tanto tempo atrás. "O tormento aumentará devagar. fomos enterrados após a meia-noite. fitando um ao outro. e os pés também amarrados. ela atirou foi em mim!" "Pois é. e ele tinha curiosidade em usar o ambiente local. a poeira e a luz refletida induzirão a cegueira. quando seus capangas terminavam de colocar e bater areia ao redor de nossos corpos. Estávamos sem chapéu. o destino nos aguarda. general. Um homem honrado teria simplesmente atirado em nós." E. Tínhamos as mãos atadas às costas. retruquei. Astiza e eu o lográramos o suficiente para que concluísse que merecíamos alguma dor. Por que será que justamente as malvadas são tão lindas? Bem. "O que me agrada nisto é que podeis olhar um para o outro enquanto queimam e choram". mas Silano era cientista. "Sabeis que a areia já basta para mumificar um cadáver?" "Quanta erudição."Tereis de tirar a prova". à medida que o sol levantar-se. e já sentíamos sede. de péssimo humor. atirou em mim em Alexandria. mas só até o pescoço. e vossas línguas incharão tanto que tereis . explicou. e enlouquecereis gradualmente. Aos poucos.

disse eu. "Escorpião gosta de ir direto para os olhos. rezareis para que as serpentes ou os escorpiões venham apressar as coisas.dificuldade para respirar." Silano se inclinou e me deu tapinhas amigáveis no alto da cabeça. Gage. Tu sabias. intrometendo-me na conversa. Estudo a tortura há muitos anos." "Benjamin Franklin disse que o homem que ama a si mesmo não terá rivais no amor". cujos cabelos negros pareciam um leque aberto sobre a areia. ao mesmo tempo. É uma ciência requintada. se mantenha coerente o bastante para nos revelar algo de útil. Aí. Não é fácil fazer que um homem sinta dor excruciante e. Mas o que causa mais dor são as serpentes. e formiga sobe pelas narinas para alimentar-se. "Tu sabes que te amei." "Sou naturalista." "Pareces entender um bocado do assunto." "Nunca amaste ninguém que não fosse tu mesmo. Os abutres torcerão para pegarvos antes que sejais comidos por completo. que nos dá muito prazer quando entendemos seus refinamentos. como se eu fosse uma criança ou um cão. Suponho que tenha sido com base nesse processo natural que os antigos egípcios tiveram a idéia da mumificação. No presente caso. o interessante é que o corpo abaixo do pescoço assará até ficar seco e preservado. que o rei persa Cambises perdeu um exército inteiro numa tempestade de areia?" "Eu não diria que estou muito interessado. ." "Eu estudo a história para não repeti-la." Voltou-se para Astiza.

" "Mas acreditarás." "Nem imagino o porquê disso. Também não é seguro afastar-se do corpo principal do exército. . eu os deixo para que possam olhar um para o outro — e virar múmias. e o general não é do tipo que fica esperando. Não conseguíamos ver o rosto dele. Silano?" "Acho que o meu interesse pelo sobrenatural não se estende à superstição. muitas e muitas vezes. "E." "Acreditas em fantasmas. talvez joguemos um carteado." E aí nos deixaram. "Mas receio que o destino também esteja me chamando. depois que me deres um bom susto. gritou Astiza. se achasse que poderia adiantar alguma coisa. Fez-se um longo silêncio. onde posso estudar mais profundamente o livro. tão divertido! Eu por certo fui mais fiel a mim mesmo do que qualquer um de vós foi a mim! Quantas oportunidades de parceria eu te dei. quando eu for atrás de ti. Gage. não? Até lá. E então Silano disse. baixinho: "Tu mereces. para que eu possa encostar-vos num canto como fizemos com o nosso amigo Omar?" "Alessandro. Partiste o meu coração. Voltarei com Bonaparte para a França. não merecemos isto!"."Ah. para que fritássemos. Creio que não tornaremos a nos encontrar." "Eu gostaria de ver-te implorar antes que o teu fim chegasse. Quem sabe não mando alguém vir escavar-vos daqui a algumas semanas. Gage? Quantos avisos e advertências? E ainda assim me traíste. aquele monsieur Franklin. sim." Ele riu." E eu imploraria mesmo.

e eu para o sul. Mas depois. Mas a dor. ao contrário. Minha cabeça logo latejava. "Estou com medo. Mesmo nas melhores circunstâncias. lembrei-me da fuga que. a calidez não foi desagradável. mas não tinha como . eu não podia me sacudir nem me abanar. o sol do verão egípcio nos martela a moleira. socorrei-nos! Chamai nossos amigos!" Ísis não respondeu. "Vamos acabar apagando. Minha orelha começou a queimar. e. a uns dez palmos de mim. um ano antes.Astiza e eu nos encarávamos. Daquela vez. durante os primeiros minutos depois que o sol surgiu no horizonte. Ethan". Com indesejada nitidez. disse eu. não doerá mais". A areia ficou mais quente. Agora. de modo que nossas bochechas grelhassem por igual entre a alvorada e o crepúsculo. sem convicção. a temperatura começou a subir. e esse meu amigo mameluco sabia achar água. e ponto". Astiza gemia baixinho. Ouvi os primeiros sussurros de inseto. sendo acentuada pela areia. Ashraf e eu havíamos empreendido para o deserto. Sentia picadas agudas. garanti-lhe. estávamos montados. eu me sentia como a bigorna de Jericó. como mordidas. Embora cada polegada de pele sentisse o calor crescente. ela voltada para o norte. O deserto é gelado à noite. pelo menos. que refletia a luz. e a língua inchou. "Ísis. murmurou Astiza. quando o céu perdeu o rosado para ganhar a cor leitosa do verão. "Depois de um tempo. aumentou.

Meus dentes fritavam nas gengivas. Meu queixo pegava fogo. A vista se turvava com a luz forte e ofuscante. O deserto. ardendo nos olhos. Não. porém. Soldados tinham me dito que as picadas de escorpião eram especialmente dolorosas.saber se algo já estava me comendo ou se era apenas o calor a roer minhas percepções. afirmara outro. Rezei para que ela houvesse desfalecido. Será que já mencionei que a jogatina é um vício? O suor já me deixara meio cego. Escutei o eco desfalecido de um estrondo. Minhas pálpebras já inchavam a ponto de fechar-se. ficando o sal. "Não. não . A temperatura subia sem parar. mas depois ficou silenciosa. mas logo secou. contara um deles. queria punir-me. Era preta. Estariam os combates recomeçando? Aquilo talvez fosse prenúncio de chuva. Astiza chorou por um tempo. e gemi por dentro. E então vi uma coisa passar rápido ao lado. em grandes ondas tremeluzentes. "São como uma centena de abelhas de uma vez só". como na Cidade dos Espíritos.é como segurar carvão em brasa contra a pele!". E aguardava que me acontecesse o mesmo. o calor aumentou. "Parece mais é . e a cabeça de Astiza se assemelhava mais a um ponto pequeno e distante do que a alguém reconhecível. Já seria pelo menos meio-dia? Achei que não. aquele lento resvalar para a inconsciência e a morte. O cérebro tem um jeito de fazer o pavor ampliar o medo. Minha cabeça inteira parecia estar inchando.

Pum! Contorci-me o máximo que minha prisão permitia. a meus olhos devastados. O ribombar ia ficando mais alto. como lobos.. "Pelas barbas do Profeta.ácido no olho!". obtuso e instintivo de seu minúsculo cérebro. A bota pisou e repisou. que. sugerira outro ainda. e ouvi uma voz conhecida. fez um movimento brusco. Nutri a esperança de que o ataque deles não despertasse Astiza. americano?" . Será que não aprendes nada. afigurava-se um monstro. Agora se aproximava um escorpião. será que nunca consegues cuidar de ti mesmo. Prometi a mim mesmo que faria toda a força para não berrar. Uma bota empoeirada esmagara a criatura.faz um calor danado quando se fica parado no deserto! E cá estais vós dois. mas pareciam juntar-se em bandos. Digo uma coisa .. Ele parecia contemplar-me com o calculismo frio. como se mirando. Ethan?!" "Ashraf?" Minha voz era um murmúrio de perplexidade. fazendo que o escorpião triturado se misturasse à areia. erguida. "Ou martelada no dedo!" Mais movimentos rápidos. em situação ainda pior do que aquela em que nos separamos no verão passado. E aí. tão descomunal quanto o crocodilo do Fort Julian quando visto daquela perspectiva. Outro escorpião. A cauda. Eles se aproximavam de nós e então recuavam. "Eu vinha esperando que vossos algozes se afastassem o suficiente. Não ouvi nenhuma troca de sinais.

primeiro até Roseta e depois na volta de lá. Dormimos sob um arremedo de tenda num oásis. Ethan. dera-nos um cavalo e então se despedira. Lembro apenas vagamente o que aconteceu em seguida. primeiro para o sul e o oeste. Uma aglomeração de mamelucos bem armados. E ouvi o bendito raspar de uma pá. até um acampamento secreto de . A água. Estávamos indefesos. o que explicava o ruído que eu ouvira. quando fugimos do Cairo e fomos resgatar Astiza. Não entendo por que estavas disfarçado de felá numa carroça de burro. incapazes de cuidar de nós mesmos. acabamos sendo amarrados de novo ao camelo e conduzidos ainda mais profundamente no deserto. para juntar-se às forças de resistência do bei Murad.Aquilo era mesmo possível?! O mameluco Ashraf fora primeiro meu prisioneiro e depois meu camarada. "Eu venho te seguindo há dias. e fomos amarrados em seu dorso." "Amém". E agora ele reaparecia?! Tot estava mesmo em ação. os olhos não mais que ranhuras. os lábios rachados. Ele tornara a nos salvar numa margem do rio. dolorosamente úmida quando a sugamos para nossas gargantas inchadas. depois para o leste. Assim. Tínhamos a cabeça vermelha e coberta de bolhas. escavando-me. Um camelo se ajoelhou. Depois seguimos montados rumo ao pôr-do-sol. consegui dizer. E os teus amigos francos ainda resolveram enterrar-te vivo? Precisas de companhias melhores. recuperando os sentidos.

poderíamos discernir a ponta das pirâmides.Murad. o bei Ibrahim informou que o conde Silano rumara por terra para o norte e sumira em algum lugar da Síria. O que podia estar acontecendo? Napoleão foi repelido em Acre. O tempo ainda transcorria de modo indistinto. respondeu. esperei até que tivessem vos enterrado e os franceses tivessem se afastado." "E o que seria isso?" . O Cairo estava além." "Não se fizeres o que desconfio que precisas fazer. invisível. Então achei que te juntaras aos ingleses e ordenei que procurassem por ti na força de invasão otomana. Assim. Estou sempre tendo de salvar-te. Ele já me relatara as escaramuças e batalhas com que vinha desgastando as forças francesas. Se subíssemos ao topo de uma duna próxima. sim. Depois. Mulheres passaram ungüento em nossa pele queimada. mas a cavalaria francesa estava demasiado perto. mas não voltaste para o Cairo com ele. "Primeiro. vimos chamas em Roseta. e avistei a vós dois na carroça de burro. meu amigo americano." "E estou sempre em dívida para contigo. soubemos que um ferreiro estava fazendo indagações sobre Astiza lá da longínqua Jerusalém". perguntei a Ashraf. "Como conseguiste nos achar?". e a alimentação fez que lentamente nos restabelecêssemos. "Era uma notícia estranha. E. mas eu sabia que desapareceras e fiquei desconfiado.

a viagem fora longa. perguntou Ashraf quando nos preparávamos para partir. Berthollet e alguns outros savants como Silano e navegara bem . O que são eles?" "Uma escrita antiga. de detê-los na França." . Ethan. respondeu Astiza. dois dias após Napoleão Bonaparte e Alessandro Silano terem feito o mesmo. então o segredo dele morrerá comigo". partira com Monge. depois de ter dado um tapinha no traseiro da amante Pauline Fourès. para decifrarmos o que Silano roubou. As criadas me disseram dos misteriosos sinais nas costas da tua dama. Bonaparte. mas há jeito de fazer os sinais permanecerem lá por mais tempo. Terás. informando-o de que este agora estava no comando (preferira não encarar pessoalmente o general). "Sou a chave de Roseta. despedindo-se assim dela. Mandei as mulheres prepararem hena." A hena é uma tintura que se usa para enfeitar as árabes com intricados arabescos castanhos. Tanto para ele quanto para nós." "A tinta está descascando. as costas de Astiza estavam ainda mais estranhamente belas. Quando terminaram. "Se não é.26 - Ustiza e eu desembarcamos no litoral sul da França em 11 de outubro de 1799."Acaba de chegar a notícia de que Napoleão zarpou e levou consigo o conde Silano. e deixado recado para Kleber. como tatuagens efêmeras. "Será que esse livro é mesmo para ser lido?".

de freqüentes calmarias. Nossa viagem também foi demorada. a Córsega. e o Mediterrâneo é bem grande.próximo ao litoral norte-africano. Enquanto Bonaparte seguia vagarosamente para casa. O percurso dele para o norte foi marcado por multidões a aclamá-lo. em Paris. a fim de interceptá-lo. descobrindo que não havia notícias dele por lá. Já estávamos ao largo da Córsega e de Toulon duas semanas antes da chegada de Napoleão à França e. ferviam em banho-maria conspirações e contraconspirações. O trajeto escolhido fez que uma viagem de rotina tomasse quarenta e dois tediosos dias. Caso Silano não o houvesse acompanhado. eu teria ficado satisfeito em deixar Napoleão ir-se embora. e a notícia da arrasadora vitória de Napoleão em Abukir chegou à capital três dias antes. e depois na França. Encorajados por Smith. fizemos rapidamente o caminho de volta. um barcopatrulha trouxe a informação de que ele descera primeiro na terra natal. partimos diretamente para a França. Era o ambiente perfeito para um general ambicioso. mesmo do alto do mastro. avistam-se apenas algumas milhas quadradas de mar. embarcamos numa fragata britânica uma semana após Bonaparte ter deixado o Egito e. A lentidão o salvou. Quando fomos em seu encalço. para evitar a Marinha britânica. a política francesa ficava mais caótica à medida que. Não era obrigação minha perseguir . isso eu não sei. Quão perto estivemos de Napoleão. Por fim. Entretanto. o homem já estava muito à nossa frente. mas por motivo diferente.

procurando fazer silêncio naquele navio de paredes finas. como marido e mulher. Em outras palavras. lendo em nossa cabine ou olhando da amurada o mar brilhante. Decerto já fôramos parceiros na aventura . o lustro. Só que gostei. e o livro era perigoso nas mãos dele e potencialmente útil nas nossas. às vezes com gentil cuidado. eu me enlevava. compartilhávamos a cabine de um capitãotenente (nossa intimidade causava certa inveja entre os solitários oficiais e praças) e tínhamos tempo de nos conhecer com vagar. Mas nossas provações a tornaram mais triste. tempo suficiente para apavorar qualquer homem que visse a intimidade com um pé atrás. e sua beleza se afigurava agridoce. quando nos uníamos em nosso apertado alojamento. o tempo que ela tomou não foi. Agora. E. sua pele recuperou o viço. às vezes com pressa. éramos também amigos. melhor ainda era despi-la lentamente. Com o descanso e a alimentação. Eu adorava simplesmente olhar para ela.insistentemente generais ambiciosos.e amantes. claro. caças ao tesouro. Mas tínhamos contas a acertar com o conde. fugas cheias de perigo. Quanto Silano já saberia? Quanto poderíamos decifrar com a chave de Astiza? Se nossa caçada por mar foi aflitiva e desanimadora. Agora. Adorava como seus cabelos se esvoaçavam à brisa. e seus cabelos. Astiza se encorpou.e. o . Admirava-me com o fato de que eu. Astiza e eu raramente tivéramos oportunidade de respirar juntos: havia sempre campanhas militares. Adorava como as roupas lhe caíam em dobras .

.. disse dos arbustos uma voz familiar. protegendo-a com o manto. "Aquele que descobriu o Louco. Comecei a antever uma vida normal. nos déssemos. enxergando coisas sombrias no passado ou no futuro. Por fim. dominando mais fórmulas arcanas e arrebanhando mais seguidores. Nossa missão não estará concluída até que recuperemos aquele livro. a cada ano. ouviu-se um assobio.. O destino a exigia tanto quanto eu. e ela. Silano vivendo para sempre e. pensa nisto: Bonaparte com o poder de Moisés.. e seu olhar era de preocupação. . não pudemos aportar no cais de Toulon.. já sendo capazes de saber o que o outro pensava. A França com o conhecimento secreto dos templários. estudou as cartas náuticas e. eu perdia o vínculo com Astiza.americano oportunista e inconstante. desembarcamos na França. trouxeram-nos num barco a remo para uma praia de seixos e nos deixaram sozinhos ali. Algumas vezes. Mas realmente nos complementávamos. Astiza conferenciou com o comandante da fragata. e Astiza acendeu uma vela.e não achar Napoleão de jeito nenhum. Eu quis que pudéssemos navegar para sempre . porém. cercada por encostas íngremes e habitada apenas por um ou outro pastor de cabras. "Ethan. insistentemente. a egípcia mística. Era aí que eu temia perdê-la outra vez." Assim. indicou-nos uma angra obscura.. Naturalmente. Como conhecia ela o litoral da França? Numa noite sem luar. "E não é que voltou o tolo?".

eu escapara para as matas e achara refúgio com o bando de Stefan. que leu minha sorte. quando eu e meu amigo Talma fugíramos de Paris para nos juntarmos à expedição de Napoleão. O líder deles fez uma reverência. que supostamente descendiam dos antigos). é claro. o cigano. Eu conhecera aqueles roma. tendo na cintura faixas de cores vivas onde se viam facas prateadas. "Pelas cartas do taro. bênção e maldição dos reis. de botas e chapéu largo. ou ciganos (ou ainda "egípcios". a salvo daqueles que estavam atrás de meu medalhão sagrado. morenos. tal qual um coelho a despontar da toca. o que fazes aqui?!".pai de todo o pensamento. Foi lá que conheci Sidney Smith e. perguntei. "Bem-vindo de volta ao roma". esperando por ti. "Ora. disse Stefan. originador da civilização. Fora uma maneira agradável de completar a viagem para Toulon. eis que meus salvadores ciganos estavam ali outra vez. no ano anterior. Fiquei agradavelmente espantado com o reencontro." Surgiram homens. como alguns europeus chamavam aqueles andarilhos. E agora. Depois que Najac e seus ratos de sarjeta nos emboscaram na diligência para Toulon. disse ser eu o tolo a procurar o Louco (outro nome de Tot) e me instruiu nas técnicas amorosas da Antiguidade. a bela Sarylla." . fato mais aprazível. encerrado num carroção cigano.

. mas apressar-se é a última coisa que pensei que os ciganos fossem capazes de fazer. O esconderijo templário durou quase cinco séculos. devemos nos apressar. Tomara que o vosso dure cinco milênios . Mas os roma têm talento para pegar as coisas emprestadas. Ah. "A viagem do general para Paris vem sendo uma marcha triunfal. e o desejo é algo perigoso. viajamos para Toulon a passo de tartaruga. estou encantado e espantado em ver-te. Se bem te lembras." "É verdade." "Stefan. "Bonaparte chegou antes de vós dois. e esses teus cavalinhos não conseguem puxar os carroções muito mais depressa." "É. e a notícia das mais recentes vitórias no Egito já chegara antes dele". Coisas momentosas estão para acontecer. Acharemos uma carruagem e duas parelhas rápidas e te conduziremos como um raio a Paris. explicou Astiza. Não tinham aqueles mesmos ciganos avisado com antecedência do medalhão e de minha chegada ao Egito? Coisa que quase fizera minha cabeça ser estourada pelo antigo senhor de Astiza. o que não fora a mais amena das apresentações. Eu serei.ou mais."Eu já mandara avisá-los por um cúter inglês". Faremos de conta que tu sejas algum deputado." "Primeiro temos de alcançar Bonaparte. Os homens têm esperança de que o conquistador do Egito possa ser o salvador da França. disse Stefan. Precisais separar Bonaparte do livro e salvaguardar o texto. Basta uma ajudinha de Alessandro Silano para que ele alcance tudo o que deseja.

com os anéis a reluzir nos dedos e os brincos de argola a refletir a luz do fogo." "A primeira coisa que fazemos ao voltar para a França é furtar uma carruagem e quatro cavalos?!" "Se te comportares como se os merecesses." "Estás vendo?".ele consegue nos dizer qualquer coisa que queiramos ouvir." "Eles já não te matarão de qualquer jeito?" "Bem." "Mas nem sequer estamos legalmente na França!. contente. à maneira das mulheres.. como gatas desconfiadas. E continuo acusado de matar uma prostituta. Carlo será teu lacaio.. entoou Sarylla quando virou a carta do Carro. "Não teremos problema em requisitar uma carruagem para teus propósitos. com que carinho eu me recordava de seus ganidos!) permanecia tão linda quanto dela me lembrava. Astiza. e as duas se eriçaram silenciosamente. teu cocheiro. disse Stefan. e o André aqui. ficou calada e sentada junto a mim enquanto a cigana manejava as cartas de taro.." A cartomante cigana que me mostrara mais que meu futuro (Céus. e tua dama será tua senhora. "A sorte vos apressa". morena e misteriosa. Eu gosto do taro . Meus inimigos poderiam usar o furto contra mim. um capitão de polícia. . não parecerá furto.digamos. porém.." "Pois então? Mas vamos. Perguntaremos a Sarylla o que fazer. Eu não estava de todo satisfeito em topar com uma ex-amante tendo Astiza a tiracolo. isso lá é verdade.

" Ela balançou negativamente a cabeça. "Espera para ver quem é o quê. Vi a Torre." Astiza pegou minha mão e sorriu. o Louco e o Imperador." Fitou as cartas e depois Astiza. Os Enamorados. não?" "Quando preciso. "Encontrareis estranhos aliados e estranhos inimigos. "Há perigo para a tua nova dama. Outra carta. O Mundo." Lá estava a tal rivalidade." Mais uma carta. desconcertada." . "Então está tudo dentro da normalidade.o pesar. Sarylla olhou para nós. e acho que alguma coisa ainda mais pro¬funda que isso . "O que queres dizer?" "Só o que as cartas dizem. "Não sei para quem seria esta carta. Grande perigo. A Morte. "Mas conhecerás uma mulher em circunstâncias de muita pressa. E talvez eu também devesse assassinar Bonaparte.Sarylla virou mais cartas. Ethan Gage. Para o Mago? O Louco? O Imperador? Os Enamorados? Vosso caminho é perigoso. Teu trajeto irá se tornar tortuoso. A Roda da Fortuna. "És apostador. "Precisais trabalhar juntos. Sarylla virou outra carta." Fiz careta." Sarylla olhou para nós com aqueles seus olhos escuros e grandes. Nada mais." Outra carta. com certeza." "Mas pelo menos será factível a tarefa?" A Morte era para Silano. "Qualquer que seja o desfecho." Outra mulher? "E ainda teremos êxito?" Ela virou mais cartas. "Não tens escolha. o Mago. será por um triz.

rotundas e gordas.Isso me deixou aflito. disse eu a Astiza. As . Os campos estavam repletos de montes amarelos de feno. e já chegamos até aqui". É para meditação e esclarecimento. e então meneou a cabeça. por mais que eu pudesse fazer pouco do taro. Caso a primeira leitura que Sarylla fizera de minha sorte não tivesse se mostrado verdadeira. "Podes me esperar no navio inglês. As derradeiras uvas. Temi muito pela mulher a meu lado." Astiza ponderou as cartas e a cigana por algum tempo. Entretanto. Ainda não é tarde demais para sinalizarmos para eles. nós nos esgueiramos até a casa de um magistrado. puxando o manto em torno de si. discordando. Depois da estada no Egito e na Síria. disse ela. a qual já alcançava o sul." Assim. Precisamos nos apressar. "O verdadeiro perigo para nós é o tempo. eu não teria dado atenção àquela nova. desacostumada que estava com a friagem européia de outubro. tomamos "emprestados" a carruagem e os cavalos dele e partimos para Paris. pendiam das parreiras. Afinal. minha senhora. "Tenho minha própria magia.e comovida. fiquei embasbacado com o exuberante verde-dourado da região campestre. "Guardai isto. um savant. "E convosco." Sarylla pareceu solidária e deu a Astiza a carta da Estrela. o poder dele tinha algo de lúgubre." Astiza se mostrou surpresa . Que a fé esteja convosco. sou um homem à moda de Franklin. "Talvez haja luta".

Dizem que ele conquistou metade da Ásia!" "Dizem também que o tesouro dos antigos está chegando logo depois dele!" "Assim como seus bravos soldados!" . como se fôssemos mesmo importantes representantes da República. acrescentou sua esposa. de fermentado. Tudo aquilo era prova da passagem de Napoleão. "O pequeno general?". os seios lembrando melões. Carroções sobrecarregados com as hortaliças do outono nos abriam passagem quando os homens de Stefan gritavam ordens e estalavam o chicote.frutas remanescentes conferiam ao ar uma fragrância de maduro. olhos cinzentos e fogosos. Astiza?" Ela se mostrava mais preocupada com os céus enevoados. as panturrilhas tingidas pelo sumo das uvas. "Não estou vendo". "Não é bonito. disse um taberneiro. "Um verdadeiro galo!" "Bonito como o diabo". com. os quadris um alegre tonel. de aspecto já gasto. "Cachos negros. respondeu. Até as moças de fazenda pareciam suculentas. Seus lábios eram rubros e cheios pelas ameixas que chupavam. essas raparigas davam a impressão de estar seminuas. as árvores a formar pérgulas indóceis por sobre as estradas. as folhas a girar no chão. após as roupas do deserto. Passamos várias vezes por localidades ornamentadas com bandeirolas nas três cores nacionais. mais pétalas secas nos caminhos e garrafas de vinho vazias e jogadas nas valas. que tudo cobriam.

e o outono avançava. O eixo da frente se quebrara. tinha a . À medida que íamos para o norte. De olhar frenético. capotando lentamente. Nossa carruagem se inclinou. desfazendo o tapete de folhas caídas na estrada. mas o trajeto para Paris toma vários dias. "Imbecis!". tal qual as pernas de dois de nossos cavalos.Seguíamos viagem noite adentro e nos levantávamos antes do amanhecer. quando outra bela carruagem com bons cavalos surgiu repentinamente de uma vereda à esquerda e deu uma guinada bem à frente de nós. gritou uma mulher. via-se uma mulher extraordinariamente elegante (suas roupas teriam custado o suficiente para levar um banqueiro à ruína). Os ciganos pularam para longe. "O meu marido pode mandar fuzilar-vos!" Trêmulos. E assim tropeliávamos adiante no anoitecer do quarto dia. Astiza e eu caímos para um dos lados. dava para o alto. A carruagem chispava. saímos nos erguendo pela porta que. agora. derrubando-se mutuamente. Berrando conosco da janela de sua carruagem. com Paris a poucas horas de distância. o céu ficava mais cinza. Cavalarianos que escoltavam quem quer que fosse com que colidíramos haviam desmontado e estavam indo de pistola na mão sacrificar os animais feridos e soltar os outros. Os animais relincharam e foram de encontro uns aos outros. que relinchavam desesperadamente. Os cavalos fumegavam quando parávamos para que bebessem água. equilibrou-se sobre duas rodas e então derrapou para uma vala.

em pânico. para evitar epidemias. "Por acaso sabes quem sou? Posso mandar prender-te!" Avancei para evitar uma briga de mulher. muito embora a culpa tivesse sido da carruagem da mulher. Nossos ciganos haviam sensatamente se escondido na mata. Eu era um americano que voltava ilegalmente para a França. "E és tão insolente quanto desastrada!". Dispararam-se dois tiros de pistola." Era tarde demais. rebateu a outra. só para tirar a megera de nosso caminho. disse eu. "Meus assuntos são de suprema importância para o Estado!". era imposta a todos os que chegavam do Oriente. Pressenti que estar com a razão não seria de muita valia naquele momento. "Afastai vossos cavalos dos meus!" "Mas foste tu que atravessaste nosso caminho!". retrucou Astiza. (Bonaparte. com voz aguda e histérica. com evidente sotaque. mas não a reconheci de imediato. aliás. gritou a estranha. propondo uma oferta fajuta de ressarcimento posterior. "És tão mal-educada quanto incompetente!" "Devagar". e perguntas seriam feitas. alertando-a. também não se submetera a ela. lá estavam soldados. "Ela está com soldados.altivez dos parisienses. . silenciando os relinchos mais excruciantes.) Agora. e aí os cavalarianos se voltaram para nós com as mãos no punho da espada. sendo até onde sabia ainda procurado por homicídio e não tendo sequer cumprido a quarentena que.

respondereis por isso!" Eu achava que a guilhotina houvesse liquidado esse tipo de arrogância. "Mais um minuto."Por favor. sorrindo com meu encanto afável de sempre. Se vós me atrasastes demais. cochichei para Astiza. Era ninguém menos que Josefina. e o fato de não me encontrar lá vai apenas confirmar o pior!" "Pior como?" "Que sou infiel!" E ela irrompeu em lágrimas. isto é uma catástrofe! Pegamos o caminho errado. A propósito. "Na véspera da Batalha das Pirâmides. "Mas Paris fica para lá". "É a mulher de Bonaparte". um tanto famosos nos círculos sociais parisienses cuja periferia eu freqüentara. e pegamos aquele caminho para dar a volta e retornar. apontei. madame. Agora. a esposa de Napoleão! O que diabos ela fazia numa estrada sombria quando a noite já caía? E é claro que as lágrimas despertaram compaixão. os irmãos vão chegar a ele primeiro e contar mentiras sobre mim. mas aparentemente ela não cuidara de todos os casos. Agora ele já deve estar em casa. foi só um acidente". argumentei. se eu conseguir achá-lo! Ah. Sou antes de tudo um galante. Foi aí que reconheci seus traços. e o choro desarma qualquer cavalheiro. quando . "Eu queria vir ao encontro de meu marido! Só que ele se adiantou a nós. vais para onde?" "Para onde estiver meu marido. e já iremos embora. e acabei perdendo a oportunidade de encontrá-lo na estrada.

Era esbelta. o general quase ficou louco." "O conde Silano? Eu soube que ele está vindo com meu marido. inteligentes. "Foi uma surpresa tão grande! Não tivemos nenhum aviso de que ele estava vindo. nariz retilíneo. não sendo nem feia nem particularmente bonita. com os olhos marejados. Ele poderia colocá-la diante do pelotão de fuzilamento. belamente esculpidas." "Ele enfeitiçou Napoleão e vem tentando voltá-lo contra vós." "É por isso que ela está apavorada?" "Nós dois sabemos como Bonaparte é volúvel. "Como é que podeis conhecê-lo?" "Servimos com Bonaparte no Egito. "Madame. baixou a cabeça. Alessandro Silano. pretende traí-lo. A senhora e vosso esposo tentam a reconciliação?" Josefina. Mas podemos ajudar. e as orelhas. mas a pele estava manchada de rubro pelo choro. lábios carnudos." Astiza ponderou o assunto e então se moveu rápido até a porta da carrua¬gem. Nós mesmos estamos correndo para avisá-lo de um perigo terrível.soube que ela o traía. grandes e." "Vós o conheceis?! Que perigo? Um atentado?" "Um acompanhante. . mesmo no desespero. Consta que é confidente e conselheiro. olhos agradavelmente escuros. Tinha tez cálida." "Como é?!" Eu agora via que se tratava de uma mulher pequena. Os cabelos eram escuros. conhecemos vosso esposo.

Astiza sorriu. poderemos auxiliar na vossa reconciliação." "Como?" . disse-lhe. naquele momento em que os homens perdem o pouco juízo que têm . nossa carruagem está destruída. o que significa que ela se aliará a qualquer um que lhe convenha. entre dentes. perderei tudo! Meus filhos ficarão na miséria! Eu tenho lá culpa se ele some por meses e anos?!" "Pois então os deuses devem ter providenciado este acidente. aí. chamando-nos. Isso quer dizer que precisamos trazê-la para o nosso lado. Se nos fizerdes o favor de deixar que sigamos caminho convosco. disse Astiza.e. Mas esses idiotas pegaram o caminho errado!" Ela se inclinou para fora da janela e agarrou Astiza pelos braços. "Eis a chave para chegarmos a Bonaparte!". eu ainda o amo! Se ele se divorciar de mim. Creio que podemos nos ajudar mutuamente. mas é imperativo que cheguemos a vosso esposo. poderemos surrupiar o livro!" "O que estais cochichando aí?" perguntou Josefina. "Ele estará rodeado de soldados.Saí correndo da casa de meu amigo mais querido para encontrá-lo. "Os deuses?!" Puxei minha companheira para trás. apesar de tudo. respondeu Astiza num sussurro. Ela poderá descobrir onde está o Livro de Tot quando tiver relações com o marido. não achais?". "O que estás fazendo?". "Precisais dizer a ele que. "Madame. ou coisa assim. De que outro modo teremos acesso a ele a não ser pela esposa? Josefina não tem sido fiel.

Por outro lado. e pegamos a dela para Paris. Assim. deveis contar-me o que sabes. todos eles. não importando quão inverossímil. respondeu Astiza.. "O padre Barruel. disse que os maçons estavam por trás da revolução .. com metade dos cavalos sacrificados e os ciganos escondidos. conspirando pela volta do trono. eu vejo que o futuro está com vosso marido". Assim. não passariam de um complô maçom. principiei. advertiu Josefina. menti. "Se seguirmos viagem. no Journal des Hommes Libres. "Descobri um livro que transmite grandes poderes. que se mostrava ansiosa por qualquer ajuda.os jacobinos." "Maçom?" Ela me olhou com desconfiança."Meu companheiro é um sábio maçom. largamos os destroços de nossa carruagem roubada. Temos a chave para um livro sagrado que poderá proporcionar grande poder a Napoleão. "Agora. Era uma aposta que tínhamos de fazer. os jacobinos vivem dizendo que os maçons são na realidade monarquistas. "Que tipo de poder?" . que maçons sois vós?" "Madame. Tão aturdida estava com o reaparecimento de Napoleão. Josefina ficou interessada em pesar os prós e contras.". chegaremos a Paris ao amanhecer." De modo um tanto surpreendente. "Livro sagrado?" "Do Egito". ou vos porei para fora". forçando a vista. e a indubitável fúria dele ante seus hábitos adúlteros. naquele famoso livro. Josefina concordou.

E..." Astiza se virou no assento da carruagem de Josefina e desatou o laço na parte de trás do vestido. confiamos naquela arrivista. sem aliados e sem armas. A francesa ficou boquiaberta. "Que cifra é essa?" "A chave para um idioma estranho e antigo. Eu proponho uma aliança: com nosso segredo. "Parece a escrita de Satanás!" "Ou de Deus.. cobiçosos. talvez eterna. quem vai querer saber de qual deles ela é?" Estaria Tot enfim sorrindo para nós? Chispamos para a casa de Bonaparte. De ter vida inaturalmente longa." Os olhos de Josefina se arregalaram.. tinha meia dúzia de anos mais e duas . O que sabíamos sobre Josefina? O tipo de mexerico de que Paris se nutria."O poder de convencer. se vencermos.. conseguiremos recuperar nosso livro. na recém-rebatizada rue de la Victoire. De transmutar objetos. livrar-nos de Silano e ajudar Napoleão..só nós podemos fazê-lo. há muito perdido. revelando aquele intricado alfabeto inscrito em hena. "Bem. conseguireis voltar aos aposentos de vosso esposo. De enfeitiçar. O tecido se abriu. com vossa influência. homenagem às vitórias dele na campanha da Itália. "O conde Silano roubou esse livro e se grudou a Bonaparte como uma sanguessuga. Ela crescera na Martinica." Josefina refletiu.. então recuperareis vosso matrimônio.. exaurindo-lhe o espírito." Ela estava desconfiada. Mas o livro ainda não foi traduzido . Se a esposa do general puder oferecer-lhe a cifra sob a condição de que Silano seja afastado. sem plano.

Casara com um jovem e rico oficial do exército. à boca pequena. Alexandre de Beauharnais. Oriunda que era das ilhas açucareiras das Antilhas. Estava vivendo com um ex-oficial chamado Hippolyte Charles. Quando um jovem oficial chamado Bonaparte viera visitá-la para louvar a conduta do filho. Alguns. Aos trinta e seis anos. diziam que era ninfomaníaca. Seus olhos se arregalaram com a explicação de Astiza sobre os poderes sobrenaturais. quando chegou a notícia alarmante do retorno do marido. Josefina corria o risco de perder tudo justamente no momento em que Bonaparte buscava o poder supremo. ela o seduziu. com os dentes manchados. perdeu o marido na guilhotina em 1794 e acabou ela própria na prisão. agora homem de negócios. Já que a revolução instituíra o divórcio. apostou suas fichas naquele corso em ascensão e o desposou. Só o golpe de Estado que pôs fim ao Terror salvou-lhe a cabeça. voltou para as Antilhas.polegadas menos que Napoleão e era uma sobrevivente obstinada. as histórias de magia não lhe eram estranhas. Desesperada. mas ele ficara tão envergonhado dos modos provincianos da esposa que se recusara a apresentá-la à corte de Maria Antonieta. . Eugène de Beauharnais (que pedira ajuda para recuperar a espada do pai). mas depois dormiu com todo o mundo que lhe aparecesse pela frente enquanto ele estava na Itália e no Egito. ela podia não ter outra chance. fugiu de uma revolta de escravos para regressar a Paris no auge da revolução. Josefina separou-se.

" "Mas quem sois vós?" "Eu me chamo Astiza. disse Astiza." . Vosso conhecimento sobre ele vos dará enorme influência sobre vosso marido. "Mas sois um assassino!" Olhou-me cheia de dúvidas. fico honrado em conhecer-vos e lisonjeado em saber que já ouvistes falar de mim. Silano enfeitiçou vosso esposo com sonhos de poder ilimitado. mas o conde Silano provocou o destino ao roubá-lo. poderemos salvaguardá-lo. Ajudemos a afastar de vosso marido esse veneno. Precisais ajudar-nos a pegar o livro de volta. "Espero que possamos ser aliados. "Matastes uma aventureira barata! Ou não o fizestes?" "Eis um exemplo perfeito das mentiras de Silano. Isso poderia levar Napoleão à insanidade." "Mas de que jeito?" "Se nos derdes o livro." "Gage? O eletricista? O assistente de Franklin?" "Madame." Peguei-lhe a mão."Esse livro é capaz de destruir os homens que o possuem". bem do tipo que pode ludibriar o general e pôr a perder os sonhos dele. "e devastar as nações onde o usem. e este é Ethan Gage. um americano." Josefina tirou bruscamente a mão. Fui vítima de uma acusação injusta. Os antigos sabiam disso e o esconderam. para que vosso idílio matrimonial retorne!" "Sim! É tudo culpa de Silano. não minha! Dissestes que esse livro contém um poder terrível?" "Um poder do tipo que escraviza almas.

Em seguida. tendo suntuoso papel de parede e cortinado de renda. ainda que as botas de Napoleão estivessem jogadas na sala de jantar e o capote . Por fim. alguns recém-desencaixotadas do Egito. comprada por Josefina antes do segundo casamento. chamadas folies (extravagâncias). Deus veio à minha procura. um lar respeitável para aplicados servidores públicos de médio escalão. ansiosa e agitada. sob tílias. A carruagem parou numa entrada de cascalho. pilhas e pilhas deles." Josefina deu um sorriso lânguido e tomou fôlego. mas ostentando mapas e plantas urbanas nas paredes. reclinou-se e sorriu. Era uma moradia modesta. uma região antes pantanosa onde os ricos haviam construído residências encantadoras. O asseio e o capricho de Josefina eram evidentes." A casa de Bonaparte. respondeu Astiza. com um roseiral no fim da floração e um terraço que Josefina cobrira com teto de madeira e decorara com bandeiras e tapeçarias. "Tendes razão. e Josefina saiu. no decorrer daquele século. Os cômodos eram uma curiosa mistura do feminino com o masculino. entramos. "Pareceis no controle da situação. "Como estou?" "Estais como uma mulher que tem um segredo".Ela pensou bem. Lá estavam as flores da patroa e os livros do patrão. passando os dedos nas faces. ficava na parte elegante de Paris que era conhecida como Chaussée d’Antin. de dois pavimentos.

Depois. Uma escada conduzia ao andar superior. . subiu os vinte degraus até o andar de cima e bateu na porta do marido. confortando-a. Desci a escada que levava à cozinha. Em certa altura. assim como ele". e pedidos lacrimosos de perdão. "O general está no quarto dele". cochilamos. Explicai que nos persuadistes a ajudá-lo e que o futuro dele depende de nós três.. e uma empregada nos arranjou pão e queijo. Josefina. mas de que outra arma dispúnhamos? Preocupava-me que Silano pudesse estar espreitando por ali. ele também não é nenhum santo." Eu não confiava em Josefina. e depois soluços. Cansados que estávamos. fez-se silêncio. "Ide até ele. ouvíamos a mulher implorar. Ele vai me odiar! Não presto. "E. e houve conversa em tom mais baixo. A criadagem se aglomerou como camundongos. Através da madeira do piso. Não consigo evitar ." "Os irmãos já devem ter-lhe contado tudo.eu gosto tanto do amor! E acha¬va que ele seria morto!" "Sois humana. pensei ter ouvido o estalido de uma fechadura a trancar-se.. juntando coragem. no porão.dele tivesse sido largado numa cadeira. Ide. disse eu." Por um momento. e escutamos pisadas e batidas duras. o silêncio. "Querido general?. Ele já se decidira pelo divórcio. a gritaria diminuiu. sussurrou ela. pedi perdão e dizei a ele que estivestes empenhada em recrutar aliados. sou uma mulher infiel. acreditai. aguardando o desfecho da tormenta que desabava lá em cima. Aí.

Fomos conduzidos escada acima. general. saudou-me Napoleão." "Mas Silano disse que vos deixou enterrados! E minha mulher estava me contando as vossas historinhas." "E o que minha mulher me diz. Gage". e o vencedor de Abukir e sua esposa. com uma despreocupação que eu não ouvira antes. e a voz de Josefina respondeu "Entrai". Adentramos o quarto. cobertos até o queixo. e. general. estavam deitados lado a lado na cama. sussurrou. A empregada bateu. Bem. Todo o mundo o quer. recém-readmitida à fidelidade. "Por Deus." "Só estamos tentando salvar este mesmo mundo. Admiro a esperteza de vós dois." "Nós conseguimos. "ainda não estás morto?! Se meus soldados conseguissem sobreviver como tu. ambos parecendo tão satisfeitos quanto gatos a beber leite à vontade. alegando que tendes um registro do que ajudastes a destruir." "Queremos apenas o que é melhor para a França e para vós. "A patroa quer ver-vos". por isso.Perto do amanhecer. podeis ter certeza de que uma coisa boa resultou dessa vossa longa noite: ajudastes a fazer que eu e Josefina nos reconciliássemos. eu conquistaria o mundo." "Vós dois quereis o livro." . Mas ninguém consegue lê-lo. estou com ânimo generoso. uma empregada nos acordou.

Gage." . Nisso. Comecei a olhar em volta. procurando o livro.27 É irônico ser encarcerado num "templo" que originariamente foi construído como sede dos templários. Talvez aquilo tudo viesse mesmo a dar certo. de relance." Ele sorriu. "Quanto a ti. Quando tornei a olhar para a frente. Napoleão empunhava uma pistola. "Devo dizer que minha Josefina se mostrou incansável em teu favor. Se o oficial da marinha britânica conseguira escapar. e me voltei. "Minha mulher me convenceu de que. Tua execução. seria melhor prendervos na Prisão do Templo. Já convoquei secretários para que venham copiar teu segredo. Agora. depois usado como calabouço para Luís XVI e Maria Antonieta antes da execução e por fim empregado como ineficaz cadeia para Sidney Smith. em vez de simplesmente fuzilar-vos. Astiza e eu experimentávamos nós .ato que representava um desembaraço e uma engenhosidade bem ao meu gosto. isso em parte se devia ao fato de ter feito sinal pelas janelas da prisão para uma dama com a qual já dormira . dezoito meses depois. enquanto ela e as criadas vigiam." Apontou para Astiza. ouvi passos pesados atrás de nós.Eu também me animei muito. poderá esperar até que sejas julgado pela morte daquela rameira. Um destacamento de gendarmes subia a escada. vais desnudar-te no toucador de minha mulher.

intrometido. servil. Do lado de fora. estando as pessoas apreensivas e os céus cinzentos. Quando entramos e descemos junto à torre dianteira. tudo era estranho: as grandes agulhas da catedral. a cidade parecia sem cor. algo atraiu meu olhar para o portão principal. a ousadia das mulheres trajadas de peles e veludo. mas interessante carcereiro Jacques Boniface. Em outubro. tão familiar quanto uma dívida de aluguel e tão irritante quanto uma lembrança desagradável. pessoas fitavam pelas grades.. a cacofonia dos relinchos no trânsito e dos ambulantes nas calçadas. Fomos conduzidos para lá na carroça gradeada da prisão. . Para minha companheira. e essa foi uma maneira deprimente de apresentar Astiza a uma cidade grandiosa. e tive um sobressalto ao avistar uma cabeça de cabelo seco e muito ruivo. Seria possível que. num pátio frio e desprovido de árvores. Éramos também observados. obtuso. sendo nosso senhorio o corpulento.mesmos aquelas acomodações. sempre ansiosas por ver infelizes ainda mais desafortunados que elas. como animais. estrategicamente abertos para oferecer um vislumbre dos seios e tornozelos. e agora não estava falando. Astiza se vira humilhada quando a obrigaram a despir-se para copiarem a cifra. observando Paris através das barras de ferro. pano e frutas..? Não. claro que não. que distraíra sir Sidney contando-lhe lendas dos templários. o alarido das feiras de couro. encardido.

Eu já vira cárceres piores.A Prisão do Templo. formado de cinco líderes políticos. e a comida era melhor que em alguns dos khans que eu conhecera perto de Jerusalém. Não fosse estarmos bem trancafiados e Bonaparte e Silano parecerem determinados a dominar o mundo. davam para galerias ao redor de um átrio central. As celas em suas torres eram iluminadas por janelas apertadas e providas de barras. era um castelo estreito e feio que se erguia duzentos pés até o pico de seu telhado piramidal. O fato de que a prisão estava basicamente vazia dizia algo da eficiência do Terror: os detentos monarquistas já haviam sido todos guilhotinados. Afinal. e todo grupo de conjurados procurava "uma espada" que lhes proporcionasse a necessária força militar para tomarem o poder. Essas duas câmaras legislativas eram barulhentas e . que data do século XIII. lendas antigas e batalhas contemporâneas para nos fazer dar valor a uma boa soneca. eu teria encarado de bom grado aquele descanso. A composição do Diretório. estávamos na França. Astiza e eu estávamos autorizados a passear pelo parapeito ao redor do telhado (ele era demasiado alto para que se tentasse pular de lá ou descer pelas paredes). Mas o Livro de Tot nos arrastava para si. e Boniface era um fofoqueiro que gostava de relatar as intrigas de uma cidade em pé de guerra e sob pressão. vivia sendo modificada pelo Conselho dos Anciãos e pelo Conselho dos Quinhentos. Complôs e conspirações sucediam-se com rapidez. Do lado de dentro. Nada como caças ao tesouro.

e a maioria dos generais tinha um olho no campo de batalha e o outro em Paris. porque o carcereiro sentia o tédio e não tinha amigos. Quando ando pela cidade. mas como alguém conseguiria tomar as rédeas dessa nossa Assembléia cheia de rixas? É como tentar controlar os gatos de Paris. Precisamos da sabedoria de Salomão." Inste isso. Boniface se mostrava mais tolerante com seus prisioneiros do que alguns anfitriões com os convidados. Tens sorte de estar aqui. Do ponto de vista dele. "Só que as pessoas não querem um ditador.empoladas. e ainda prestava mais atenção. Boniface fizera o mesmo com Smith. "Estamos todos cansados da democracia. metade da França ocidental vivia uma revolta alimentada pelo ouro inglês. praticava-se uma corrupção descarada e tinha-se orquestra à mão para marcar a legislatura com canções patrióticas. Imagino que a companhia dele se destinasse a ser parte de nossa tortura. longe da barafunda. nunca me sinto seguro. o exército penava na indigência de suprimentos. nelas se usavam togas romanas. mas eu adquirira um estranho apreço por ele. disse nosso carcereiro. A economia estava em frangalhos. Pouca gente deseja a volta da monarquia. "Precisamos de um líder". não chegava a atrapalhar que Astiza continuasse ." "Precisas dela agora?" Estávamos jantando juntos em minha cela. Precisamos conservar a república. Gage.

Bem. monsieur Boniface. e aquela estóica modéstia honra à tua jovem nação. homem que já esteve preso aqui! Os jornais. O que pretendia retornando do Egito sem ter recebido ordens para tanto? Vós dois têm lido Le Messager?" "Se recordais.. Boniface assentiu. "Ah. aquele bravo periódico atacou abertamente a campanha do Egito! Zombou dela! Um exército abandonado! Soldados atirados inutilmente às muralhas de Acre! Bonaparte humilhado por sir Sidney Smith. Gage. Era nisso que dava negociar com Josefina. claro. levá-lo à miséria. disse Astiza. na mesma toada. são uma voz da Assembléia.bem agradável aos olhos e que eu. É. Mas o que ninguém sabia era que Napoleão estava com o livro e que Silano outra vez dispunha da cifra completa para lê-lo. A mulher seria capaz de seduzir o papa e. vós sabeis. Napoleão está liquidado. aquela vadia intriguenta. O corso voltou achando que seria alçado ao Diretório pelo clamor popular." Taima me contara que Bonaparte tinha mais medo da imprensa hostil que das baionetas. fosse uma companhia extraordinariamente boa. sim. mas não tem a mesma circunspecção.. foi como ter . aceitando com relutância a condução da pátria. andei estudando Washington. claro. Quando perguntei a Boniface sobre os templários que haviam construído aquele lugar. estamos confinados a esta torre". em tom baixo e delicado. "Bonaparte quer ser um George Washington. mas os superiores dele o receberam com frieza.

". Ah. à francesa. aí já estaríamos falando de quando fordes guilhotinados. "Não. depois. foram mandados para a fogueira." "Imaginai como seria se tal poder fosse redescoberto. espíritos que ouço soltarem gritos lancinantes nas noites de tempestade.eram magos. meus jovens. aqueles templários não eram apenas monges guerreiros . encontrou tudo vazio. Lá.e. haviam descoberto algo que lhes dera estranhos poderes. mas. "O próprio Jacques de Molay foi grão-mestre aqui . Bem.posto para funcionar uma bomba de água .fatos e teorias vieram em borbotão.. Os templários foram tratados a queimaduras e pancadas até confessarem a pior espécie de abominação e adoração do diabo. Em Jerusalém. profetizou que o rei e o papa morreriam no espaço de um ano.e aqui torturado! Temos fantasmas." "Tu falas de nosso julgamento?". mudanças para me¬lhor e para pior. eu vos digo. estamos prestes a ver mudanças . perguntei. "Um homem como Bonaparte se apoderaria do Estado num instante.. murmurou Astiza. No entanto. onde foi parar o tesouro deles? Acreditava-se que os recintos em que estais confinados estivessem atulhados de riquezas. . o calafrio que a multidão sentiu quando ele augurou isso! E era verdade! Meus amigos. E onde foi parar aquilo que diziam ser a fonte do poder dos templários? De Molay não revelou nada e só falou quando foi para a fogueira. quando o rei chegou para pilhá-las." Ele deu de ombros.

Isso em nada se parecia com o Egito! "Mas e se aquilo tudo fosse redescoberto?". nosso carcereiro trouxe uma notícia eletrizante: Lucien Bonaparte. E as histórias sobre cidades perdidas no deserto? Se estavam perdidas. mecânica. E o Monte do Templo. sim. vinha trabalhando em prol do irmão em Paris. acabava de ser eleito presidente do Conselho dos Quinhentos! Eu sabia que Lucien. Nossa era moderna se mostrava desinteressante. muito antes de Napoleão ter deixado o Egito. "Estás a par de alguma coisa. aos vinte e dois anos. como poderíamos nós tê-las achado? Boniface insistia em que os antigos não teriam tido como erigir seus grandes monumentos sem usarem de segredos espantosos. A ciência vinha subjugando o mistério. não. Estivéramos dentro da Grande Pirâmide? Ah. Boniface. e o racionalismo passava por cima dos prodígios. e eu. e a entrada de cristãos estava proibida. em Jerusalém? Era agora um local sagrado dos muçulmanos. sugeri. Não havia nada para ver lá. Américain? Não. vou fazer-te desembuchar!" Em 26 de outubro. mas presidente da mais poderosa câmara legislativa da . não adianta balançar a cabeça! Sabes de alguma coisa. cética. A magia se perdera com os sacerdotes de antanho. privada de maravilhas. Era político talentoso.O carcereiro ansiava por ouvir nossas aventuras. cuja descrição modificamos prudentemente.

é claro. e o elegeram do mesmo jeito! De algum modo. e não faltam especulações . Napoleão Bonaparte. e o Conselho dos Quinhentos vai imitá-los! Continua tudo muito confuso. Boniface veio até nós de olhos muito arregalados. O fato.mas há mais do que isso para que Paris esteja vivendo em suspense. Estaria a opinião pública mudando e o general cativando os políticos da cidade para que tomassem seu partido? Em 9 de novembro de 1799 (ou 18 de brumário do ano viu. agora seria homenageado com um banquete. tiraram o Conselho dos Anciãos da cama. que impedirá que convoquem o apoio do populacho. Lá. O homem era um jornal ambulante. antes esnobado pelo Diretório. para cumprir o que diz a Constituição. no calendário revolucionário francês). Foi uma insanidade." "E o que seria?" . é coisa de Napoleão. ainda sonolentos. ou enfeitiçados. se necessário. Os deputados estão apavorados. a fim de deliberarem lá.França?! "Pensei que fosse preciso ter no mínimo trinta anos para ocupar o cargo. exclamou. "Foi como se os nossos parlamentares tivessem sido mesmerizados! Às quatro e meia da manhã." "É justamente por isso que Paris está em polvorosa! Ele mentiu sobre a idade . é que todo o mundo sabe que mentiu. "Não dá para acreditar!".tinha de mentir. votaram por retirar-se para o château de Saint-Cloud. foram reunidos nas Tulherias. Fizeram isso de livre e espontânea vontade. e eles. nos subúrbios de Paris. porém." Seguiram-se mais notícias muito curiosas.

. e mentes. "Hein?" "Monsieur Boniface. inclusive Napoleão. não?" . "Mas é claro . já ouvistes falar do Livro de Tot?". naturalmente. Astiza e eu nos olhamos: não havia tempo a perder." "O comando da guarnição? São dez mil homens.. algo que os leva a votar o oposto do que afirmavam dias ou mesmo horas antes."Napoleão recebeu o comando da guarnição da cidade. Há baionetas por toda a parte. disse eu.". perguntou Astiza. e outras formam barricadas. Encantamentos estavam sendo elaborados e usados. "Alguns dizem que Tot criou um paraíso terrestre que nos esquecemos de como conservar. ancestral de Salomão. Mas o que poderia ser?" Eu. de súbito. Boniface pareceu surpreso.todos os estudiosos do passado sabem do Três Vezes o Maior. tropas se deslocam para Saint-Cloud.. na linha. O exército de Paris era o que mantinha todos. toldadas. com suas mil aparências Baal. sabia. pai de todo o conhecimento." Sua voz se reduzira a um murmúrio. En¬feitiçadas era de fato a palavra! A cidade inteira estava enfeitiçada. o Caminho e o Verbo." "Esse livro está perdido há milhares de anos. "Mistérios do Oriente.. Bafomé!. tendo sido destituído o general Moreau! Agora. Belzebu." "Justamente! Por que os parlamentares permitiriam uma coisa dessas? Está acontecendo alguma coisa esquisita. Silano progredira na tradução do Livro de Tot. mas outros afirmam que ele é o próprio arcanjo negro.

Boniface. guardião deste cárcere. O senhor de Tot. Correm histórias de que os templários. são verdadeiras"." "Considera a possibilidade. Jacques Boniface. por sobre a mesa. Estás. não estranhas que Bonaparte nos tenha confinado aqui? Podes ver que estamos desamparados. escondido desde aquela sextafeira 13 de 1309." Eu me inclinei para a frente.." "Mas poderias ser um senhor. tenho estranhado isso. "Tais histórias. "Tesouro?" A voz do carcereiro saiu num gritinho.Agora ela parecia furtivo. pois talvez possamos ser úteis outra vez. Jacques Boniface. sim. Afinal. Meu tom de voz ficava mais grave. desconfiado. agudo e curto. sem amigos. Tu e nós. mas ainda não nos matou. o que uma dupla esdrúxula como nós estaria fazendo em Paris? E o que poderíamos saber que fosse tão perigoso para o Estado?" Boniface olhou para nós.o maior do mundo. "Talvez. que somos os verdadeiros . de que saibamos o paradeiro de um tesouro . "É. tão preso quanto nós.. Ele nos confinou." "Ainda assim. Quanto tempo mais desejas ficar aqui?" "Pelo tempo que os meus senhores. levantando-me da mesa tosca aonde dividíamos uma jarra de vinho barato. disse eu. ora! Não precisamos de acusações para manter-vos na prisão do Templo. "Dos templários. "Quais as acusações que se fazem a Astiza e a mim?" "Acusações? Nenhuma. quando eles foram aprisionados e torturados pelo louco rei da França.

os templários esconderam mesmo sua riqueza. pela tradição dos templários e pelos mistérios dos antigos! Estás comigo?" "Será perigoso?" ." Boniface arregalou os olhos.e logo.ou não?" Ele coçou a cabeça. mentindo. Creio que o golpe de Napoleão será hoje à noite.pois. ao contrário do que faz o conde Alessandro Silano. "Onde?".a coragem de tornar-te o homem mais rico e poderoso do mundo! Mas isso apenas se te dispuseres a cavar! E só um homem poderá conduzir-nos ao local exato! Silano vive tãosomente para sua própria cobiça. foi redescoberto. precisamos agir . "Na Notre-Dame?!" A pobreza nos faz acreditar em qualquer coisa. e o salário de carcereiro é mesmo vergonhoso. só o livro irá nos dizer onde precisamente está o tesouro. não daríamos segredos sagrados a tiranos ambiciosos como Bonaparte. "Sob o Templo da Razão. num lugar onde calcularam que homem algum ousaria procurar"." "Mas. deusa do Egito. construído na Île de la Cite no local exato onde os romanos ergueram seu templo a Ísis. Sim. Nós os preservaríamos para toda a humanidade . pela maçonaria. para tanto. outrora perdido.estudiosos do passado . e temos de capturá-lo e fazer o que é certo. arrematei. E esse golpe dependerá de quem estiver com um livro que. perguntou Boniface. Boniface . No entanto. a respiração contida. "Acho que sim. "Precisarás de picareta e de coragem.

tudo podia acontecer. Nessas circunstâncias. Deixar que saíssemos era."Leva-nos aos aposentos de Silano. E o que era mais importante: o sacerdócio católico fora encerrado pela revolução. passaria o resto de seus dias como encarregado na Prisão do Templo. com Paris à beira de um golpe. flagrante descumprimento de suas obrigações. Boniface informou que Bonaparte tomara de assalto o Conselho dos Anciãos quando eles rechaçaram sua exigência de que dissolvessem o Diretório e o nomeassem primeiro-cônsul. com generais apinhando-se em reluzentes uniformes na casa de Napoleão. do contrário. com tropas erguendo barricadas. juntos. Poderás então esconder-te na cripta da NotreDame enquanto decifrarmos o segredo. mudaremos a história do mundo!" Em tempos menos intranqüilos. Boniface reunia ferramentas de sapa.. e a Notre-Dame se tornara um grandioso fantasma. trocando mexericos com os condenados em vez de herdar a riqueza e o poder dos templários. Segundo . só isso. Aí. Enquanto Bonaparte se dirigia a milhares de soldados no Jardim das Tulherias. eu talvez não tivesse conseguido convencê-lo. Mas o advertimos de que nunca conseguiria achar nem ler o livro sem a nossa ajuda e de que. claro. com a Assembléia em pânico.. com a cidade escura e apreensiva. Mas. sendo usada apenas por velhas devotas e varrida pelos pobres em troca de assistência. À noitinha. O carcereiro conseguiria entrar na cripta com bastante facilidade.

tudo pareceu perdido para os conspiradores de Napoleão. "Agora. Fiquei imaginando.todos os relatos. enfim. "Uma dúzia de vezes. Mas fiquei imaginando se o discurso sem sentido de Napoleão não teria contido palavras mágicas que não eram pronunciadas havia quase cinco mil anos. se o Livro de Tot já não estaria em ação. poderia ser dito que tudo foi resultado de baioneta. Caso os feitiços do livro tivessem poder. apesar disso. blefe e pânico. Por quê? Naquela noite. Ainda assim. tanto que seus próprios auxiliares o afastaram dali . Depois da meia-noite. os homens submeteram-se à vontade dele". os deputados não ordenaram a prisão dele nem se recusaram a reunir-se. novo senhor do país mais poderoso da Terra. depois que as tropas mesmerizadas de Napoleão haviam limpado do Conselho dos Quinhentos o château de SaintCloud (com alguns dos deputados pulando das janelas para safar-se). Pelo contrário: pareciam propensos a atender ao que o general demandava. então Bonaparte. logo seria senhor do planeta - . contou o carcereiro. alguns dos Quinhentos estão sendo detidos para fazer o mesmo. e. os conjurados farão o juramento de posse!" Posteriormente.ele estava berrando um palavrório sem sentido! Tudo parecia perdido. os Anciãos passaram um decreto que determinava que um "comitê executivo temporário" dirigido por Bonaparte substituiria o Diretório. o discurso de Napoleão foi torrencial e disparatado. palavras de um livro antiqüíssimo que fora enterrado com um templário na Cidade dos Espíritos.

" Ele assentiu. Não estou certo de que seja a coisa certa. Há alguns guardas nas Tulherias. Felizmente..e tudo mais. Boniface. a maioria das tropas marchou para Saint-Cloud.ou não seriam grandiosas!" Parecia algo que o próprio Bonaparte diria. onde Alessandro Silano se encontra?" "Ele vem realizando experiências nas Tulherias. mas o velho palácio está basicamente vazio. e a história humana assistiria não a uma nova aurora." "Mas sou vosso carcereiro! Não posso deixar-vos a sós!" ." "Todas as coisas grandiosas são difíceis . e os franceses gostam desse tipo de conversa.. sob a proteção de Bonaparte. sem muita convicção e com as manchas de meia dúzia de jantares anteriores a salpicar-lhe a camisa. Mas consta que saiu esta noite.. o castigo poderá ser a guilhotina!" "Tão logo tenhas o livro e o tesouro. mas a uma longa era das trevas. "É só que isto tudo é arriscado. poderás controlar a guilhotina . para ajudar os conspiradores a tomar o governo. "Nós iremos para os aposentos de Silano e assumiremos o risco enquanto segues na frente para a Notre-Dame. com ele. Conseguireis ir aos aposentos de Silano e pegar esse vosso livro. o Rito Egípcio de Silano. Precisávamos agir. "Tendes certeza de que Silano está com o segredo? Se falharmos.e." Boniface olhou para nós. Teria início um domínio de megalômanos ocultistas.. "Já descobriste.

) Depois. Era uma falação impotente. "Voltaremos com o livro e um Silano já prisioneiro. para chegar à margem norte do Sena. Viamse poucas luzes. "E ali que deves preparar o caminho para nós". apontando a Notre-Dame. iluminado por uma lua encoberta. Os deputados haviam fugido. Nós nos agachamos num vão de entrada quando um esquadrão de cavalaria passou em tropel."Crês que partilharmos o maior tesouro do mundo não nos unirá mais firmemente que a mais forte das correntes? De uma coisa podes ter certeza. passando pelo Louvre. (Eu tinha gratas lembranças de seus saguões repletos de cortesãs a cortejar negócios. trocando rumores sobre a tentativa de golpe. seguimos o rio para leste. Bonaparte estava em SaintCloud. Bonaparte agora era rei. As grandes agulhas e arcobotantes da catedral na Île de la Cite se erguiam contra um céu cinzento. Os deputados reuniriam o populacho. A capital parecia em suspense." Ele assentiu. e por teatros que. . Jacques Boniface: não conseguirás livrar-te de nós!" Nosso trajeto por Paris era coisa de uma milha e meia. ou até em Versalhes. disse eu a Boniface. e as pessoas que estavam na rua formavam grupos. Os deputados haviam se unido a Bonaparte. Bonaparte fora preso. ou no palácio de Luxembourg. em vez de animados. Passamos pelo Hotel de Ville (a prefeitura). estavam às escuras. e fomos a pé para que pudéssemos contornar os postos de controle militar instalados pela cidade.

"Em Paris. era uma coisa enorme. O rio estava escuro e espesso. encomendado por Catarina de Medici mais de dois séculos antes. ainda ficara essencialmente abandonado após a construção de Versalhes. o clarão ruivo. era quase uma ruína.Em certa altura. aconselhou o soldado. quem não tinha? "Eu não subiria com a mulher". Assim como muitos palácios europeus. no Jardim das Tulherias. De novo. dando uma olhadela em Astiza. mas poderíamos ir para a cadeia se fôssemos parados levando armas de fogo. Explicamos que tínhamos assuntos urgentes a tratar ali. tinham sido obrigados a mudar-se para lá durante a revolução." Passamos pelo Louvre. mas só vislumbrei uma saia que desaparecia num vão de porta. "Ninguém . viramos e acompanhamos a grandiosa fachada do Palácio das Tulherias. Naqueles dias agitados. oito vezes maior do que qualquer necessidade racional exigiria. Teria eu apenas imaginado aquela mulher? Desejei estar com meu fuzil. percebi que uma figura nos seguia e me voltei rapidamente para ela. e. perguntei a Astiza. "Viste uma mulher esquisita?". Como se não bastasse. ou qualquer outra coisa que servisse. desde então. coitados. Luís XVI e Maria Antonieta. todos me parecem esquisitos. Tinha um ar espectral de abandono. Elas estavam proibidas na cidade. Depois. Boniface arranjara um passe da polícia para que pudéssemos passar por uma sentinela entediada e sonolenta numa entrada lateral. o edifício fora tomado de assalto pela turba e.

retrucou Astiza." Olhou em volta. "Ele não deixa que as sentinelas cheguem perto daqui. Por fim.mais vai lá em cima. o populacho arrastara por ali para confrontar Luís XVI. Mas a pintura estava encardida." "Tu te referes ao conde?" "Algo fica se mexendo lá em cima quando ele sai. explicou Boniface. recinto após recinto. "Estes são os aposentos de Silano". "Podeis deixar a moça comigo. perguntou Boniface. o papel de parede se descolava. empalidecendo. Subimos a escada para o primeiro andar. Algumas das grandiosas janelas ainda estavam quebradas e cobertas por tábuas. com seus dentes amarelos. lareiras que tinham futilidades suficientes para ornamentar metade da Filadélfia." "Eu gosto de fantasmas". Nossos passos ecoavam. o carcereiro parou diante de uma porta. A opulência arquitetônica das Tulherias ainda estava lá: vastos salões que se abriam uns para os outros num longo encadeamento. tetos abobadados que eram intricadamente entalhados. "Onde está esse fantasma?" . "Já se ouviram coisas na noite. parques de madeira de lei que pareciam mosaicos. como num lugar que fosse visto interminavelmente graças a espelhos que se refletissem uns nos outros. pois ele pode voltar a qualquer minuto. O lugar é guardado por um fantasma. Seguimos em frente. em 1792. e o piso fora rachado e estragado por um canhão que." "Fantasma?". A maior parte das obras de arte já desaparecera." A sentinela sorriu de orelha a orelha. Precisamos nos apressar.

Silano andara ocupado. amarelo como a bile.. o que é aquilo?!". "És o homem certo para penetrar a cripta. e seu líquido. estava repleto de organismos: peixes de olhos enormes e redondos. enguias viscosas. Assim." Ele olhou por sobre o ombro. "Silano está mexendo com a idéia da ressurreição." "Acaso me tomas por algum tolo. aves com o . disse Astiza. o fato é que alguma coisa mantém os curiosos. "Mon Dieu. respondi. sussurrou Boniface." "Sim . "Belo trabalho". atravessamos juntos uma ante-sala e adentramos uma câmara maior. Gage? Não vos deixarei até ter certeza de que esse conde tem mesmo algo que valha a pena procurar. sombria.. Alfinetes unidos por filamentos de metal sobressaíam do cadáver. Desde que nos apressemos. Havia também dúzias e dúzias de frascos com conservante. Jazia nela um cão morto. Nós te encontraremos lá." A fechadura da porta foi aberta com facilidade nosso carcereiro tivera tempo de sobra para aprender com os criminosos que hospedava."Na tua imaginação"." Nosso carcereiro fez o sinal-da-cruz. longe. eu lhe disse. com os lábios retorcidos num rosnar congelado de dor. "Uma experiência. o pêlo borrado de tinta ou tosado para deixar a pele à mostra. "Bem. A primeira coisa que atraía o olhar era uma mesa central. As estantes estavam apinhadas de livros e rolos de texto que Silano devia ter despachado do Egito. Ali paramos. acho eu".a credulidade que os faz dar ouvidos a historinhas tolas. indecisos.

um mar de folhas de papel. Tudo era iluminado por velas que já haviam queimado além da metade Silano saíra fazia algum tempo. Perto da ponta. repletos com os caracteres do Livro de Tot e as tentativas do conde de traduzir o texto para o francês. Num recipiente. . Havia braços e pernas de bebês e cérebros. e havia caixas de latão com muito pó químico. mas era óbvio que esperava voltar ainda naquela noite. Via-se uma prateleira de caveiras e o esqueleto montado de uma criatura grande que não consegui sequer reconhecer.bico enfiado na plumagem encharcada. olhos que se assemelhavam a azeitonas ou bolas de gude e pareciam perturbadoramente humanos. Sobre uma segunda mesa. conservante. pintara-se no chão um pentagrama. limalha e certa podridão subjacente. inscrito com estranhos símbolos do livro. com olhos de vidro. línguas e outros órgãos de adultos. Mais frascos continham líquidos perigosos. Pergaminhos e placas com símbolos variados pendiam das paredes. como uma cruz invertida e distorcida. A sala tinha um cheiro esquisito de tinta. mamíferos flutuantes e partes de coisas que não identifiquei por completo. Avistei o padrão cabalístico que víramos nos subterrâneos de Jerusalém. junto com velhos mapas e diagramas das pirâmides. Metade estava riscada e respingada de tinta. Das sombras. traços e símbolos de fontes arcanas. éramos observados por aves e roedores empalhados ou mumificados. mais outras mixórdias de números.

um esquife de madeira. O caixão de Roseta estivera oculto nas sombras. "Aposto que o conde espalhou a notícia. Ele terminava numa sacada que dava para um espaço às escuras. manchado e gasto. vai agora". Uma escada de madeira levava aonde estávamos. havia algo de estranhamente repulsivo naquele esquife. portanto. A luz fraca. "É por isso que precisamos tirar o livro de Silano". mas agora eu o via. Quero ver esse livro. Uma carruagem e três carretas se comprimiam lá dentro. "É a múmia"." "Há um defunto ali dentro?" . "Não. incitei-o. mas já me eram familiares. os traços rendilhados da decoração antiqüíssima estavam cinzentos. mas indubitavelmente deixado pelos Bourbon. Por exemplo. a coisa que evita que os homens fiquem xeretando aqui. "Se estás com medo. respondeu Astiza. encostado verticalmente à parede da sala. Sua fisionomia era a de quem acaba de descobrir que fez um pacto com o diabo. disse eu." A maior parte do piso estava coberta por um enorme tapete de lã."Este lugar é maligno". o andar térreo era pavimentado de pedra e tinha grandes portas duplas que se abriam para fora. Esse é o fantasma de que a sentinela estava falando. sussurrou Boniface. Silano. ainda não desfizera toda a bagagem. explicando por que se escolhera aquele apartamento específico era o mais cômodo para a entrada e saída de cargas. e as carretas estavam repletas de caixotes. Ainda assim. como um galpão de fazenda. Lá embaixo.

e isso há vários milênios. Um dia. não obstante a animosidade jacobina à religião. disse eu. Ele largou Omar como se a múmia estivesse pegando fogo. E Omar. inclinou-se lentamente para fora e caiu nos braços dele." Instigado. meu carcereiro.caixão. órbitas vazias e fechadas e dentes arreganhados. Vês? Nós o chamamos de Omar. "Está vivo!" O problema de pagar salários de fome ao funcionalismo público é que não se consegue atrair o que há de melhor. "O que estamos fazendo é errado. Já mandaste homens para a execução. não ." "Abrir aquilo?! Mas não mesmo! O guarda diz que a coisa ganha vida!" "Desconfio que não sem o livro. Dá uma espiada. A chave para a fortuna que se encontra debaixo da Notre-Dame pode estar naquele esquife. de rosto quase negro. Boniface deu um grito curto e agudo." "Que Silano trouxe lá do Egito sem problema nenhum. "Acalma-te". Estás com medo de uma caixa de madeira?" "Caixa. e poeira bolorenta caiu-lhe nos olhos. Bandagens milenares se agitaram junto a seu rosto. Boniface. Ficaremos amaldiçoados por isso. e ainda não o temos. Boniface então juntou coragem." O carcereiro tornou a fazer o sinal-da-cruz." . ficaremos todos daquele jeito. a múmia-guardiã. foi a passos largos até lá e escancarou o tampo do esquife."Defunto de milhares de anos. "Ele está bem morto.

disse eu a Astiza. e eu. teorias acerca dos rosa-cruzes e do mistério do Graal." Percorremos os livros rapidamente. Escuta. afrodisíacos. jogando-os no chão. curas . a Atlântica e a Última Tule. para nosso alívio." "Mas quando vireis?" "Tão logo consigamos o livro e respostas do conde. Esconde-as e espera por nós. e. até onde eu sabia. Omar nos fizera um favor. procurando em algum lugar atrás deles o rolo de texto de Tot. ele fugiu. Zoroastro. não? "Temos de achar o livro depressa". já começa a bater de leve no piso da cripta . Havia tomos sobre alquimia. Também álbuns de imagística maçônica. "E vós dois prometeis vir?" "Só serei rico se eu for até lá.deve haver uma parte oca em algum lugar. a hierarquia dos templários. com as deste. recobrando parte da ganância. feitiçaria. está ficando tarde. desenhos de hieróglifos egípcios.a múmia ficaria mesmo imóvel. Quanto a ti. Silano tinha tratados sobre eletricidade. já que. Olhei com cautela para o cadáver ."Só se perdermos a coragem. longevidade. Quanto risco és capaz de encarar? Vai para a catedral. não existia tesouro nenhum debaixo da Notre-Dame e eu não tinha nenhuma intenção de ir até lá. O negócio era terminar antes que o conde voltasse. Mitra. Eu esperava que fosse a última vez que o víamos. "Tu ficas com as estantes daquele lado. Ele assentiu. não é verdade?" Isso o satisfez. dá um jeito nos cadeados para entrar e esconde as nossas ferramentas.

"Ah. tendo sido removidos os órgãos vitais. enfiei a mão lá dentro. liso e bem enrolado.a chance de . E senti o livro. desolado por termos sido pegos de surpresa. a origem das doenças e a idade da Terra. Com uma careta de repugnância. então o rato descobriu o queijo". e reparei que o tronco era oco. e um espadim lhe tremeluzia na mão. O coxear sumira. Estava aprumado e jovem. Pensei na pobre múmia. enquanto avançava. Omar tinha uma fresta nas bandagens. Seria possível? Eu a virei de frente. Voltei-me. "Talvez ele tenha levado o livro consigo". Embora eu houvesse desejado desencavar o teu corpo mumificado e pôlo para queimar no fogo de meu futuro palácio. A gama das especulações a que ele se dedicava era infinita.ou não ousaríamos . Era Alessandro Silano. e o olhar do conde era homicida. mas não achamos o que buscávamos.olhar. para a frente e para trás. Esconderijo engenhoso. que vinha a passos largos em nossa direção. não nas ruas de Paris. Omar servira de sentinela." Ousar olhar? Em Roseta. também nutri a esperança de que um dia eu tivesse a chance que tenho agora . e por isso não repetirei o engano negligente que cometi no Egito. "És um homem difícil de matar. tombada com o carcomido nariz no chão. aventei. disse uma voz da porta dos aposentos. Ethan Gage. Ele o escondeu onde não cogitaríamos . "Não se atreveria fazê-lo.herbóreas. tendo remoçado anos.

"Já te perguntaste. aqui em Paris?" "Claro. fazendo movimentos bruscos como a língua de uma cobra. com seu eterno sorriso arreganhado e o Livro de Tot ainda dentro de si. Seu espadim se assemelhava a um varinha. levantei e agarrei Omar. Ele a desviou para longe com o cabo do espadim. só que letal. não é mesmo?"." Astiza então jogou a caveira. Os lábios do conde sorriram de sarcasmo. Gage." . e agora a terei de volta para fazer o que eu quiser . disse o conde. Com a mão livre. Ela. A múmia era leve e frágil. "Que adequado que estejamos de volta a Paris. a caveira fez estrépito ao bater no piso - . onde tudo começou.trespassar a vós dois." Silano lançou um rápido olhar para ela. quão diferente seria a tua vida se simplesmente me tivesses vendido o medalhão naquela primeira noite. logo. cujo braço estava preparado para arremessar a caveira. Motivado por pouco mais que a vontade de segurar o que viéramos buscar.logo. Silano desfez o laço no pescoço para deixar a capa cair. "Pensei melhor. As bandagens pareciam papel velho.28 Tanto eu quanto Astiza estávamos desarmados. Eu não teria conhecido Astiza nem a tirado de ti. na falta de coisa melhor. pegou uma caveira. coisa que farei agora mesmo. ásperas e esfarelentas.

mas tateou dentro da cavidade da múmia e. como doeu! O espadim era como uma navalha. jogando-me para trás e afastando de mim. . passando pelas mesas.o livro fizera alguma coisa para ele -. Ela estava tesa e amarelada. girou o braço livre (ele recuperara a antiga flexibilidade) e me acertou um murro. torcendo o punho do conde. como se a pele tivesse sido esticada. E eu ergui meu macabro escudo. Gage. Diabos. disse eu. mas a múmia deteve a ponta do espadim. Havia algo terrivelmente errado com aquele rolo de texto que descobríramos. Cambaleou para um lado. Omar foi perfurado. e os olhos. Parecia um homem que estava sem dormir havia semanas . às turras. Alessandro". "De qual deus és aprendiz?" "E simplesmente uma antevisão do lugar para onde estás indo. Por isso. embora brilhantes.e que talvez nunca mais dormisse. não era mesmo? Empurrei a múmia contra Silano. eram nublados pela fatiga. nesse momento o espadim atravessou Omar por completo e cortou meu flanco de raspão.e Silano continuava a vir em minha direção. seu olhar exibia um quê de insano. com o espadim ainda preso. "A tua sala de estudos fede como o inferno. triunfante. mas era uma juventude estranha. O conde dava mesmo a impressão de estar mais moço . mas ele já não ligava mais. Porém. Senti remorso por fazer o velho passar por tudo aquilo. o cadáver egípcio. E indo agora mesmo!" Nisto. ele arremeteu. Silano xingou.

e senti o vento da bala a passar. e o recipiente se estilhaçou. atirando Silano para trás e quebrando a lâmina ao meio. Agora eu não tinha mais escudo nenhum. tentando chegar até mim. Olhei freneticamente em volta. arrebentando o lenho decrépito. O conde chutou raivosamente o esquife. enfiou o livro debaixo da camisa e investiu contra mim outra vez. mas torcendo aquele trambolho. quase se partira ao meio). Astiza se agachara. quando estendi o braço. de maneira que o agarrei e forcejei para virar aquela caixa desajeitada e usá-la como proteção. mas. e uma coisa pálida e medonha deslizou no chão. tão dolorosamente que não consegui segurar o fuzil.arrancou de lá o rolo. Silano levantou o livro acima da cabeça. o espadim quebrado cortou-me os nós dos dedos como uma picada de cobra. Aparei o golpe com o esquife. quando aquilo caiu aos pedaços. deixando o espadim perfurar a madeira antiga. que já estava com a espada livre (Omar. . O líquido se esparramou com ruído junto à sacada. desafiando-me a dar o bote para que pudesse espetar-me. Ele sacara uma pistola. esperando uma oportunidade. Rolei para longe enquanto Silano chutava para o lado a madeira estourada. Meu fuzil! Mergulhei para pegá-lo. coitado. Silano. Ela atingiu um dos recipientes de vidro na extremidade da sala. Joguei-me de costas contra a estante justamente quando a pistola disparou. e. e seu rosto se contorcia de ira e aversão. O esquife! Ele já estava encostado na vertical. soltou-se algo que estivera preso lá dentro.

relembrei. Silano me olhou como se eu fosse um lunático. Energia! Astiza se encontrava debaixo de uma das mesas. E então o velho Ben veio em meu socorro. um fedor de vapores combustíveis. Produziu-se uma faísca. E. expandindo-se num átimo sobre meu corpo encolhido. estiquei o braço e o dedo. "Maldito sejas!" Silano recarregava atrapalhadamente a pistola. indo em direção ao conde e Astiza e descendo para a carruagem. Enquanto eu escorregava pelo tapete. acumulei carga elétrica. Os vapores do preparado de bruxo de Silano se tornaram uma bola de fogo. "Energia e persistência tudo conquistam". arranquei a camisa. A ardência da abrasão me fez ranger os dentes. as carretas e os caixotes lá embaixo. com um choque. Dei dois passos e mergulhei rumo ao vidro que se quebrara. Em seguida. como o Deus de Michelangelo a quase tocar Adão. rastejando-se até o conde. batendo no tapete de lã tal qual um nadador e escorregando sobre o torso. onde o . Vede que a eletricidade é gerada por fricção e que o sal em nosso sangue nos transforma em baterias temporárias. a energia que se acumulara em mim saltou. O recipiente quebrado tinha base metálica. Ao deslizar até a ponta da sala. e a sala explodiu. para o metal. quando me aproximei. que se misturou ao da pólvora. Tirei o casaco e o atirei em Silano para distraí-lo. mas eu precisava de pele nua e seca não existe nada melhor para criar fricção.Surgiu um cheiro tóxico.

mas ela se aferrou às costas dele. num grotesco ménage à trois. Era parte das bandagens de Omar! Rastejei para meu fuzil. Eu tinha líquido conservante nas roupas que me restavam. Uma névoa baça e fumarenta encheu a sala. porém tateando outra vez em busca da pistola. Cheguei ao fuzil e disparei. ergueu-a até que Astiza ficou suspensa no ar. Astiza e Silano giraram junto a mim. e vi o fuzil. e apaguei a tapas um comecinho de incêndio nos calções. mas houve apenas um estalido seco. Silano. O conde estava ficando vermelho pela asfixia. mas agora ele também forcejava para colocar-se em pé. Minha mão tremia. para esganá-lo. Foi quando Astiza se levantou por trás dele e lhe enrolou alguma coisa no pescoço. a pavorosa múmia pulava com eles. enquanto o depósito das carretas pegava fogo. o outro pela escorregada no tapete). Enquanto os dois dançavam desajeitadamente. amaldiçoando pela primeira vez o trabalhoso ato de socar a munição no cano. debatendo-se. bala. tendo o cabelo crestado e os flancos a queimar (um deles pelo corte do espadim. chamuscando alguns. mas segurava Astiza . Levantei-me com muita dificuldade. "Ethan. Pólvora.líquido conservante já pingara. Vi que Silano caíra. parecendo atordoado. e comecei a carregar a arma. bucha. A explosão fez os papéis sobre a mesa remoinharem no ar. depressa!" O chifre de pólvora e a bolsa de balas estavam lá.

com a caixa torácica e os músculos ressecados ainda firmes após milênios. A bala acertou-lhe a garganta. A fumaça ficou mais densa no teto da sala. Corri até a ponta da sala e perscrutei lá embaixo. Retirei a vareta do cano às pressas. presa ao par. Seus olhos se arregalaram de espanto e dor. A múmia.pelos cabelos e se contorcia para pegá-la. Meu tiro precisava ser perfeito! Silano removera a bandagem do pescoço e agora estava estrangulando Astiza com ela. O conde enfim conseguiu colocar Astiza à sua frente. e lutou para levantar e apontar a pistola. que se retorcia por ser lançada às chamas. fazendo parte dele despencar. escudando-se nela ao ver meu fuzil. O berro de Silano foi um gargarejo sanguinolento. ficara . O fogo subia lá de baixo. rumo às chamas abaixo. Astiza deu um grito e se foi. "Astiza!" Era uma reprise da queda do balão. mas sua mira foi arruinada por Astiza. "Ele vai me queimar!" Atirei. já na expectativa de ver Astiza em chamas.. Ergueu a pistola. coloquei uma pitada de pólvora no mecanismo de disparo e comecei a apontar. continuava sua dança. Mas não: a múmia.. maldição! Astiza e Silano bateram com força contra o corrimão da sacada. levando minha amada consigo. Soquei a munição com a vareta. Silano atirou. E então ele desabou pelo corrimão quebrado.

" ." "E o livro?!" "Foi-se com Silano. "Consegues andar?". os segredos que homens haviam cobiçado durante milhares de anos já teriam virado cinza. o fragor de carroções: os bombeiros de Paris logo estariam ali. Finalmente. O Livro de Tot estava junto a seu peito. Olhei para lá. E o livro? Enquanto as roupas de Silano se incineravam.presa. de onde agora pendia. transformando-se em tocha quando o pano foi atingido pelas chamas. mas um salvador. As chamas se avivavam à medida que a carne de Silano borbulhava. Ao inferno com o maldito livro! Agarrei e puxei as bandagens. Astiza se aferrara às bandagens de linho. A múmia crepitou ao queimar com o amo. vi o rolo torcer-se e espiralar-se no peito dissolvente do conde. "Não temos muito tempo . Astiza e eu nos agarramos um ao outro. e recuei. quebrados. moviam-se como se ele agonizasse! Estaria a múmia viva de algum modo? Ou seria aquilo uma ilusão criada pelo calor? Omar fora não uma maldição. perguntei a Astiza. Tot sorrira para nós. brados. contorcendo-se na pira improvisada. Ouviramse sinos de igreja.precisamos fugir. Os braços e as pernas de Omar. peguei o braço de Astiza e a alcei . Quando chegassem. repugnado. O conde Silano ia sumindo no fogaréu.não ia deixá-la despencar com Silano outra vez! Quando a arrastei pela beira da sacada. com os pés a debater-se sobre o incêndio. Omar soltou-se e caiu.

osso. fluido. eu sabia que ele tinha razão. tive a esperança de que o incêndio afastasse qualquer perseguidor até que conseguíssemos escapar. gostava de dizer Benjamin Franklin. Ouvi as portas de carruagem serem abertas e a água ser bombeada lá embaixo. "Ele me deve o aluguel!" Madame Durrell! Minha ex-senhoria em Paris. Por um instante. Pelo quê. "E tendes me seguido como um dos secretas de Fouché?" . acusara-me de tentativa de estupro. Eu o negaria. Não seria assim: um pelotão de gendarmes já vinha pesadamente pelo corredor. nem era preciso. pois bastava olhar para madame Durrell. mas. livro e papel estragado. "Estarás livre quando pagares o que me deves!" "Os credores têm memória melhor que a dos devedores".Ela estava soluçando.e estão em melhor estado. "Será que nunca me verei livre de vós?". O corredor estava enfumaçado. Por experiência própria. disso eu não tinha certeza. Estávamos chamuscados e ensangüentados e pisávamos sobre uma bagunça de vidro. disse eu. gemendo. era a ruiva misteriosa que me assombrava desde que eu voltara para a cidade. quando nos despedíramos. Fomos lenta e claudicantemente para a porta pela qual entráramos. As pirâmides são mais novas que ela . que eu não escutava havia um ano e meio. de quem eu fugira em circunstâncias vexatórias. Ela nunca pusera fé em meu caráter e. "É ele! É aquele ali!" Tratava-se de uma voz irritantemente familiar. francamente.

não importando quantos policiais tragais. Mas. "E essa arma aí? Não é aquela que furtaste do meu apartamento.e para aprontar alguma! Oui. Ele vive como um selvagem daqueles sertões . A última ocasião em que eu o vira tão furioso foi quando ele soube das infidelidades de Josefina e aniquilou os mamelucos na Batalha das Pirâmides. "Isto é típico do americano. O conde Silano disse que ele mesmo cuidaria de ti! Mas. corri a pedir ajuda. Preparei-me para o pior. Nem sequer é o mesmo fu. "Madame Durrell." Ela forçou a vista. que é o teu lugar. Seus olhos cinzentos estavam gelados. ela era minha. Bonaparte se aproximava pelo corredor com um enxame de generais e auxiliares. após ter feito carranca. O domínio que Bonaparte tinha das broncas militares recheadas de imprecações era legendário. e sua fisionomia. aquela com que tentaste atirar em mim?" "Eu não a furtei.. podes ter certeza de que fiquei de olho na Prisão do Templo! Quando te vi entrar no palácio com aquele carcereiro corrupto."Eu te avistei na carroça da prisão. desconfiada. e atirei na fechadura. quando voltei. Não tenho condições de pagar-vos. ele balançou negativamente a cabeça. não em vós.. o lugar inteiro estava em chamas!" Ela se virou para os soldados. irada.experimentai tentar fazê-lo pagar uma dívida!" Suspirei. mas já estava convencida de que sairias de algum jeito . receio que eu haja perdido tudo outra vez." Mas Astiza pôs a mão em meu braço e olhou para além de minha antiga senhoria. .

"Eu mesma. tentou por fim." "Sim.. outras cinqüenta libras como recompensa . que tenhas mesmo descoberto o segredo da imortalidade? "Sou apenas persistente." Madame Durrell não cabia em si de contentamento. Gage. que ponderava até onde poderia inflacionar o verdadeiro total. Quando ninguém explodiu em face daquele absurdo. "Berthier. "Isso diz respeito à segurança da França." "General.. "Madame. cônsul.um presente do governo. eu preferiria que vos referísseis a mim como primeiro-cônsul. pões fogo num palácio régio e fazes que meus bombeiros encontrem dois corpos nas cinzas?" "Garanto-vos que estávamos impedindo que acontecesse coisa pior. ela acrescentou: "Mais cinqüenta de juros". Será possível. . fostes vós quem soou o alarme?" Ela se inchou de orgulho. "Eu devia ter adivinhado. "Mas não deveis jamais dizer palavra sobre o que aconteceu aqui"." "Nesse caso. em tom de sermão. "Madame. E quanto ele vos deve?" Dava para ver a feitura dos cálculos na cabeça da senhoria. "Cem libras francesas". disse madame Durrell. paga duzentas libras a esta brava mulher. meu general. Quero dizer." Ele se voltou. disse-lhe Bonaparte. cargo para o qual fui eleito às duas horas desta manhã. intrometendo-se. ele me deve aluguel!"." "Então me segues por duas mil milhas.exibindo um espanto relutante.

"Bem. "Então me traíste até o final. a fim de contarem o dinheiro." O auxiliar a puxou para longe." "Lamentavelmente." "Entendo. Acredito que ele tenha salvado nossas vidas. que começava a dissipar-se." Franzindo o cenho como um senhorio ao ver uma goteira. e a França ficará mais segura quando ele acontecer." "Foi." Bonaparte suspirou. Gage. . Tendo deixado essa providência a cargo de outros antes desta noite. Um soldado tornou a confiscar meu fuzil. ele perscrutou a fumaça. já que agora tenho a França." "Tenho certeza de que não ficareis na inação. eu consigo. é? Revistai-os". grosseiramente. Podes identificá-los para mim. E eles o fizeram. não tenho mais necessidade do livro. mas não havia nada para acharem. Gage?" "Um é o conde Silano. madame?" "Por duzentas libras. "E o outro?" "Um velho amigo egípcio. Parece que eu e ele não pudemos renovar sociedade. "Os corpos queimaram de modo tal que não há como reconhecê-los.e os destinos de nossa nação dependem de vossa discrição e coragem. ordenou a seus homens. e o novo governante da França se voltou outra vez para mim. Consegues arcar com tal ônus." Napoleão pôs-se a bater o pé de leve no chão. teu fuzilamento já está mais do que atrasado. Sois uma verdadeira patriota. "E o livro?" "Temo que tenha sido vítima do mesmo incêndio." "Excelente. Deverias olhar bem o que farei com ela. chamado Omar.

penso que cuidarei dela eu mesmo. Mais uma vez. que minha história deveria terminar: Napoleão senhor de tudo. meu amor condenado. "O mesmo Smith que depois precisei enfrentar em Acre. Para isso. numa agourenta manhã de novembro. muito irritado. pois vou fuzilar também a ti . O outono já fizera sumir a maioria das flores. Mas as histórias de Boniface nos estimularam a continuar procurando pelo vosso livro. cortado por espadim. o Jardim das Tulherias é um lugar tão bom quanto qualquer outro. o livro perdido." "E verdade. "Não o culpeis. eu estava muito arrebentado ." "Napoleão!". pouparei o carcereiro." "Acho que ele está procurando por um tesouro na cripta da Notre-Dame". ralado pela necessidade de produzir fricção. Tufos de fumaça se elevavam no céu cinzento de antes da alvorada. então eu sinto muita pena dele. Bonaparte nos fez ficar de pé contra um muro decorativo no jardim. rogou Astiza. Estávamos fatigados . eu vos fuzilarei duas vezes.e ao carcereiro dos dois. resmungou Napoleão. É um simplório com imaginação fértil. Se tenho mesmo uma sorte do diabo. Seria ali. "Não sentirás a falta dele.sem sucesso algum." Fomos conduzidos ao lado de fora. se eu conseguir encontrá-lo. para compensar. o único carcereiro de quem já gostei. general. com o sono muito atrasado." "Aquele idiota também deixou Sidney Smith escapar da Prisão do Templo"." "Neste caso. disse eu.exausto.

Quero dizer. Estás ciente . já encarara bocas de mosquete mais que suficientes) e ouvi o caminhar ruidoso de botas no cascalhinho quando Napoleão veio até nós." "Ele funcionava. e necessitarei de ajuda para melhorar as relações com o teu país. primeiro-cônsul. mas fico bem impressionado contigo. Pegou fogo. como eu. pelo menos. Gage. Não preciso de magia quando tenho o Estado. a teu modo esquisito. não. haverá eleição nos Estados Unidos. Eu fechara os olhos (em Jafa. O que era agora? Abri cautelosamente os olhos.demais até para implorar. Um oportunista. Américain. até mesmo um intelectual." "Minha posição se modificou. o que farias se eu te deixasse ir?" "Deixar-me ir? Vós me desculpareis se ainda não estou conseguindo pensar bem nisso. Parte dele. como eu. general. Eu sou a França. És um sobrevivente." "Homem nenhum deveria ser capaz de lançar feitiços sobre outro. E então veio uma ordem abrupta: "Esperai". É possível enfeitiçar homens e fazê-los concordar com coisas extraordinárias. Gage?" "Ele não existe mais. Ano que vem. "Estás dizendo a verdade sobre o livro. O que fizeste foi um desperdício vergonhoso." "Eu te desprezo. como eu. Não posso ceder a vinganças mesquinhas . se queres saber. Lá vou eu outra vez. Assim. Apontaram-se e prepararam-se os mosquetes. pensei.preciso pensar em milhões. E.

" Os soldados pousaram a coronha dos mosquetes no chão. As nossas nações podem ser inimigas. "Ser um enviado?" "Tal qual Franklin. A França possui interesses nas Antilhas e na Louisiana." Não era o que eu lembrava. "Sim. e ainda temos esperança de recuperar o Canadá. e que Deus tenha piedade de nós! Vai com Astiza. Qualquer um vê isso. aquela que denominam Washington." Eu tossi. Tu me conheces tão bem quanto qualquer outro. como fizemos durante a vossa revolução. "Desistiremos da acusação de homicídio contra ti e relevaremos este fiasco entre ti e Silano. ou Columbia. Homem fascinante. estás tão enfeitiçado por ela quanto eu por minha Josefina. "Sem dúvida. mas nunca confiei nele. ou podem ajudar-se mutuamente." Olhei para a fileira de carrascos atrás dele. estou encantado com essa perspectiva." "Gage. explicando uma nação à outra.do fato de que as nossas duas nações vêm duelando no mar?" "Que infelicidade. "E?" Fiz um gesto com a cabeça em direção a Astiza. Nunca. Há estranhos relatos de artefatos no Oeste que talvez interessem a um pioneiro como tu. e examines algumas idéias para mim. vê o . sim. Senti a vida retornar a minhas extremidades. Quero que vás para a vossa nova capital. preciso de um enviado às Américas que pense e saiba desembaraçar-se com rapidez. mas há limite para o que se pode discutir com Napoleão.

És um velhaco. Meus auxiliares acharão um hotel para ti. "É claro. Mas estou disposto a fazer daqui o meu lar." "Tampouco confio em ti. "Se eu puder ter o meu fuzil de volta." "E que a França e os Estados Unidos compartilham os mesmos interesses contra a pérfida Albion?" "É. não tenho um tostão. Mas trabalha comigo que alguma coisa poderá resultar disso . primeiro-cônsul.que consegues aprender e descobrir e lembra-te: tu me deves duzentas de nossas libras!" Sorri com tanta afabilidade quanto possível. O teu incêndio é o pretexto para começar a reforma . é claro. já que o teu caráter é tão vazio. Faremos algumas deduções até que eu receba minhas duzentas libras. longe daquela senhoria medonha ." ." "Percebes que. Mas acho melhor confiscar a tua munição até que eu esteja bem fora de alcance.mon Dieu. é claro. é isso. a Inglaterra pode ser bem arrogante às vezes. que medusa! Vou começar dando-te um pequeno estipêndio e confiar que não vás arriscá-lo nas cartas. Gage. "O meu governo começará no Luxembourg.esta manhã mesmo!" "Que bom que eu pude ser de alguma ajuda. Pois bem." "Eu sou generoso com os amigos." Suspirei. Napoleão se voltou e contemplou o palácio. não é mesmo?" "Estou bem ciente disso. Depois de quase dois anos de aventura." Quando me restituíram o fuzil (descarregado).ainda não fizeste fortuna. não vale a pena gastar as balas para matar-te?" "Penso exatamente assim." "Feito.

Enviai Ethan em vossa missão. consigo finalmente eliminar o ex-amante dela."E quanto a ti. arrumo um emprego respeitável no novo governo da França . Não: ela chegará. Mas minha busca ainda não está de todo concluída.." "Não posso garantir tua segurança no Egito . hesitou e então balançou negativamente a cabeça. mas frio. Agora. fiz um exame de consciência e me dei conta de que o meu lugar é o Egito." Ela se virou. moça?". As terras agrestes da América me seriam ainda piores.não sei se conseguirei resgatar meu exército lá. Vosso país é belo. Ethan. Ainda não chegou a hora de ficarmos juntos. mas compreendei por que preciso voltar para o Cairo e o Institut d'Egypte." "Isis tem uma função para mim. "Estás pronta para conhecer a América?" Ela parecera preocupada enquanto Napoleão e eu conversávamos. tanto quanto não o é para Ethan. cônsul. com vagar e tristeza. Este não é o meu lugar .. tanto quanto tens me amado. "Sinto muito." "Não?" "Nestes dias longos e sombrios. Eu te amo. "Não." Com a breca! Será que eu nunca posso dar sorte com as mulheres? Atravesso o Inferno de Dante. Ela talvez ainda chegue.e agora ela quer ir embora? Que insanidade! . com vossos savants. perguntou ele a Astiza.e não creio que já tenhamos descoberto os derradeiros vestígios de Tot ou dos templários. e as florestas daqui ensombrecem a alma. e não é do outro lado do oceano.

então a campanha de Bonaparte na Terra Santa. Alguns almoços diplomáticos aqui. Astiza tampouco era o tipo de mulher que me seguiria docilmente. Tu podes apostar". em 1799. e esta suspensão de nossa execução é sinal de que devemos abrir a próxima porta e seguir o próximo caminho. vou. Astiza deu um sorriso triste. Mas ela também é destino. Ethan Gage. E eu estava muito interessado em saber mais sobre o antigo Egito. e eu estaria livre do homem e pronto para planejar nosso futuro. — Nota Histórica — Se de fato aprendemos mais com os erros que com os acertos. e realmente não fazia idéia de onde aquela nova aventura poderia levar-me. "Não vais sentir minha falta?". arrisquei perguntar." "Como é que vou saber se nos veremos outra vez?" Ela deu outro sorriso.Mas seria mesmo? Eu ainda não estava com nenhuma vontade de estabelecer casa. os ataques de Napoleão foram fruto de impaciência e se revelaram mal preparados. O general francês provocou a . Em Acre. E então sussurrou: "Tu podes apostar nisso. uma rápida olhada em uma ou duas ilhas açucareiras ali. foi mesmo educativa ao extremo. "Ah. mas doce. Ethan. pesaroso. triste. de modo que ela poderia já ir tomando aquele caminho enquanto eu cumpria as tarefas de Napoleão na América. A vida é pesar. e me beijou na face.

Ele não conheceria outro revés político-militar tão embaraçoso até a invasão da Rússia.hostilidade da maioria da população local. Antoine de Phélippeaux. A tragédia de Jafa. embora eu tenha tomado liberdades com os detalhes. Ethan Gage e sua corrente de metal eletrificado constituem invenções. o corso não apenas sobrevivera a uma debacle militar. a caminho de tornar-se imperador. . Os leitores de ficção que têm curiosidade por tais coisas gostarão de saber que grande parte deste romance é fato. Phélippeaux morreu de exaustão ou insolação durante o cerco. mas também manipulara tão habilmente a opinião pública francesa que se viu no cargo de primeiro-cônsul de sua pátria adotiva. Haim Farhi e Djezzar são personagens históricas. E ainda assim. Mas sir Sidney Smith. (Na realidade. Também não se mostraram muito melhores os relatos de que Napoleão era culpado de praticar a eutanásia entre suas próprias tropas. O saque e o subseqüente massacre dos prisioneiros em Jafa atingiriam a reputação dele pelo resto da vida. a Batalha do Monte Tabor e o cerco de Acre ocorreram em larga medida como se descreve. Como foi que ele conseguiu tal reviravolta após um desastre como aquele? É esse o mistério manhoso que está no cerne deste livro. Os políticos modernos que parecem revestidos de Teflon (no sentido de que nada de realmente negativo se cola a eles) nem se comparam a Napoleão Bonaparte em lábia e astúcia. ao encerrar-se o ano de 1799. em 1812. do mesmo modo que o torpedo-aríete de Napoleão. ao distribuir ópio e veneno aos moribundos da peste.

Aos leitores interessados na história da campanha síria de Bonaparte. Existem portões subterrâneos para túneis. Bonaparte in Egypt. e ali não fica difícil imaginar a estada de Gage na Terra Santa. foram fechados à visitação pelas autoridades muçulmanas). durante longo .e não a baionetadas. Jerusalém está repleta de grutas e túneis. e J. como os Estábulos de Salomão. As evocativas aquarelas documentais pintadas em 1839 pelo artista inglês David Roberts estão reunidas em diversos livros de arte. Djezzar as substituiu por novas depois da batalha).) Acre e Jafa (que hoje é subúrbio de Tel Aviv) conservam parte da atmosfera arquitetônica de 1799. eu recomendo Nathan Shur. À leste. Christopher Herold. Napoleón in the Holy Lanã. Entre esses locais. inclui-se um escuro canal subterrâneo que sai do mais baixo dos tanques de Siloé e que este autor. Ainda que a estratégica torre e as muralhas do cerco de Acre não existam mais (em razão dos pesados danos sofridos por elas. pois mesmo espaços que antes puderam ser visitados durante longo tempo. Muito embora eu tenha imaginado algumas das galerias subterrâneas do Monte do Templo (uma necessidade. sobra ar romanesco quando caminhamos pelas fortificações dessa linda localidade mediterrânea. uma rodovia para a Galiléia passa junto ao pé do morrote em que Napoleão instalou seu quartelgeneral durante o cerco. percorreu zelosamente para captar um quê da aventura subterrânea que descrevo. com água pela altura das coxas.

Alguns leitores perceberão que a "Cidade dos Espíritos" são na realidade as deslumbrantes ruínas jordanianas de Petra. Sobre Tot. E. e pode-se ver pelo menos um como turista. No passado. no século XIX. Não obstante eu ter tomado algumas liberdades evidentes. cidade que foi construída pelos árabes nabateus pouco antes de Cristo e acabou sendo administrada pelos romanos. o romance que .tempo secretos. Em Paris. o Palácio das Tulherias foi iniciado em 1564 e destruído pelo fogo em 1871. encontram-se mais informações em As pirâmides de Napoleão. o simbolismo da cabala e a idéia do Livro de Tot são reais. três meses após o general ter tomado o poder. mas foi posteriormente demolida. pesquisadores já foram postos para correr de lá por multidões furiosas . muito do que descrevo está lá. Serviu de residência oficial para Napoleão e Josefina a partir de fevereiro de 1800. tratava-se mesmo de uma cidade perdida. O monte está interditado aos arqueólogos por medo de que descobertas desencadeiem confrontos religiosos.mas não é justamente isso que dá embasamento à idéia de que ainda possa haver revelações ali? Só não apareça no Monte do Templo com uma pá: você poderá provocar uma guerra santa. As narrativas tradicionais acerca dos templários. construíram a Catedral de Notre-Dame no local de um templo romano dedicado a Isis. debaixo do Monte do Templo. A Prisão do Templo também existia. sim. a qual deixaria pasmados os primeiros europeus a visitá-la. A época da visita de Gage. Há de fato um Lugar do Alto Sacrifício.

o autor se baseou na erudição conscienciosa de uma multidão de historiadores. a mais importante.antecede este. exposta com orgulho ali desde que as tropas britânicas a confiscaram aos franceses (1801). Isso. bem como no evocativo trabalho de . se eles forem dignos de achá-los. — Agradecimentos — Para elaborar esta narrativa. quinhentos e trinta e quatro Livros de Tot. os conservadores daquele museu talvez queiram colocar um pequeno aviso na caixa de vidro que protege a pedra. Minha afirmação de que o Livro de Tot foi descoberto pelos templários é coisa que inventei . afinal. Devo sarcasticamente observar que pode ser surpresa para o Museu Britânico o fato de que a Pedra de Roseta. está desprovida da parte superior. Após lerem este livro.mas qual a causa da espantosamente rápida e avassaladora ascensão daquela ordem ao poder depois que seus cavaleiros fizeram escavações sob o Monte do Templo? O que. desculpando-se pela omissão e garantindo que estão se envidando todos os esforços para localizar o fragmento que um americano renegado mandou pelos ares em 1799. assim como a idéia de que os arqueólogos fiquem de olho nos outros trinta e seis mil. Mas trata-se apenas de sugestão. eles acharam ali? Onde está a Arca da Aliança? Que segredos adquiriram as sociedades antigas? Sempre há mais mistério. é claro.

conservação arqueológica que faz de Israel e da Jordânia lugares tão gratificantes para quem os visita. e a Mohammed Helalat. ao editor de produção David Koral. agradeço a Paule Rakower e ao professor Dan Bahat. Rakesh Satyal. obrigado a Holly. meus guias em Israel. ao assistente editorial Rob Crawford. minha primeira leitora. . a Andrew Stuart. providenciou o latim do epigrama dos templários. o agente literário que me mantém no mercado. Em especial. e aos muitos outros que tornaram a publicação possível. à agente de comunicação Heather Drucker. Na HarperCollins. meu guia na Jordânia. da Western Washington University. Minhas máximas congratulações. e Nancy Pearl trouxe à minha atenção a história de que Napoleão rasgava as páginas dos romances e as passava a seus oficiais. à copidesque Martha Cameron. como sempre. meus especiais agradecimentos a meu editor. é claro. Diane Johnson. pelo trabalho duro que realizou para divulgar o livro. E.