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Poderes Emergentes em África Centro de Estudos Estratégicos de África Seminário de Líderes de Alto Nível National Defense University Fort

McNair Washington, D.C. 15 de Junho de 2011 Observações por David H. Shinn Professor Adjunto na Faculdade Elliott de Assuntos Internacionais Universidade George Washington Introdução O fim da Guerra Fria resultou no afastamento estratégico dos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, em relação a África. Prosseguiram com as suas relações comerciais, de ajuda e assistência a África, mas assim que desapareceu a ameaça da expansão comunista o Ocidente começou a olhar para o continente de uma forma diferente. Este facto permitiu uma abertura para que vários países emergentes ampliassem os seus laços com África. À medida que alguns desses países se tornaram fortes do ponto de vista económico, substituíram cada vez mais a influência e o envolvimento ocidentais, particularmente em certos países. Esse novo desenvolvimento alterou fundamentalmente a relação entre os 53 países africanos e o resto do mundo. Actualmente, a China é o mais importante interveniente emergente em África. Aliás, a China tornou-se na principal presença não-africana — ocidental ou não — em vários países africanos. Outros países emergentes também estão a expandir rapidamente as suas actividades no continente. O caso mais notório é a Índia, que tem laços muito antigos com a África Oriental e a África do Sul. O Brasil, um poder económico em ascensão na América Latina, está a investir fortemente em África. A Rússia está de regresso a África a seguir à redução acentuada do seu papel após o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria. O Irão aumentou o seu envolvimento em quase todo o continente. A Turquia e vários estados do Golfo estão a revelar um significativo interesse em África, especialmente no quadrante nordeste do Norte de África. Cuba, após um profundo envolvimento militar durante a Guerra Fria em Angola e na Etiópia, praticamente que se ausentou do continente mas está a regressar lentamente. Mesmo países como o Vietname, que nunca estiveram muito envolvidos em África, estão a começar a marcar presença. Limitarei as minhas observações à China, à Índia, ao Brasil, à Rússia, ao Irão, à Turquia e ao Vietname. China A China tem uma longa história em África; o país moderno deixou de se concentrar no apoio aos movimentos africanos de libertação e governos com ideologias semelhantes na década de 1950 e 1960 para se centrar, em meados da década de 1990,

2 nas alianças comerciais e na colaboração política prática. A China tem quatro interesses principais em África: • Aumentar o acesso à energia, minerais, madeira e produtos agrícolas. • Desenvolver boas relações com todos os países africanos de forma a que possa contar com o seu apoio nos fóruns regionais e internacionais. • Terminar com a presença diplomática oficial da Ilha Formosa (Taiwan) e substituí-la pelo reconhecimento de Pequim. • Aumentar significativamente as suas exportações à medida que as economias africanas se fortalecem e os africanos adquirem maior poder de compra. Ao analisarmos esses quatro interesses em sequência, cerca de um terço das importações totais de petróleo da China provêm de África e é importante manter esse dado em perspectiva. As importações da China constituem apenas 13 porcento das exportações totais de petróleo africano, enquanto que os Estados Unidos e a Europa importam, cada um, cerca de um terço das exportações totais de petróleo de África devido ao facto da sua procura total ser mais alta. No entanto, a China não está interessada apenas no petróleo africano. Importa de África cerca de 90 porcento do seu cobalto, 35 porcento do seu magnésio, 30 porcento do seu tântalo e 5 porcento da sua madeira. As importações dessas e de outras matérias-primas de outras partes do mundo sustêm a economia chinesa em rápido crescimento. Sem um forte crescimento económico, a actual liderança do Partido Comunista chinês teria dificuldades em continuar no poder. A China tem um interesse estratégico a longo prazo nos recursos naturais de África. Os 53 países de África constituem mais de um quarto dos 192 membros das Nações Unidas. Enquanto que a China detém poder de veto no Conselho de Segurança, África tem três assentos não permanentes no Conselho. África também está bem representada nas organizações que interessam à China, como o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas e a Organização Mundial do Comércio. É claro que os africanos não votam em bloco, mas a China faz todos os esforços para obter o apoio do maior número possível de países africanos a todos os assuntos de interesse para Pequim que surjam nos fóruns internacionais. Em alguns casos, os governos africanos que têm a mesma opinião usam os chineses da mesma forma que os chineses os usam, quando, por exemplo, surgem no Conselho dos Direitos Humanos assuntos contenciosos que afectam a China ou uma nação africana em particular. Quando a questão do Tibete se tornou complicada em 2008, a China pressionou os africanos a ficarem em silêncio ou até mesmo fazerem declarações de apoio. E fizeram-no. Os países africanos podem contar com a China para evitar que sejam levados ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU problemas controversos sobre os direitos humanos em África, e talvez até para apoiá-los quando são criticados pelos países ocidentais. A posição da Formosa em África é mais importante para a China do que a maioria dos observadores admite. Pequim nunca recuou da sua insistência na política de “Uma China”. Igualmente importante, a China nunca se esqueceu do facto de que os estados africanos foram fundamentais em 1971 na substituição da Formosa pela República Popular da China no Conselho de Segurança da ONU. Apenas quatro países africanos – Suazilândia, Burkina Faso, Gâmbia e São Tomé e Príncipe – ainda mantêm relações diplomáticas com a Formosa. Em finais de 2008, após a eleição de um novo presidente na Formosa, Taipei e Pequim estabeleceram uma trégua não oficial tendo concordado em

3 não solicitar activamente aos países que reconheciam um deles para passarem a reconhecer o outro. Em 2009, a China ultrapassou os Estados Unidos e tornou-se o mais importante parceiro comercial de África. Manteve esse título em 2010 com um valor comercial total situado em US$127.000 milhões; no entanto, apenas cerca de 4 porcento do comércio total da China é realizado com África, enquanto 10 porcento do comércio africano é com a China. Até 2009, África manteve, em geral, um ligeiro excedente comercial com a China; em 2009, teve um enorme défice comercial. O mais importante é o facto de se verificarem grandes disparidades de país para país. Cerca de 15 exportadores africanos de petróleo e minerais têm enormes excedentes com a China, enquanto que trinta e dois países africanos têm défices significativos. Os países mais pobres de África tendem a registar os maiores défices comerciais. Cinco países africanos exportadores de petróleo e minérios são responsáveis por 85 porcento das exportações africanas para a China. Apesar destes serem os principais interesses da China em África, não são os únicos. O investimento estrangeiro está a tornar-se mais importante. O Ocidente ainda é responsável por cerca de 90 porcento de todo o investimento directo estrangeiro (IDE) em África, mas nos últimos anos a China tem-se revelado mais agressiva do que os países ocidentais. Actualmente detém pelo menos US$20.000 milhões em investimentos no continente, principalmente no sector petrolífero, bancário e de indústrias extractivas; no entanto, este número constitui apenas 4 porcento do IDE da China. Os principais recipientes do investimento chinês são a África do Sul, a Nigéria, a Zâmbia, a Argélia e o Sudão. As companhias chinesas também se têm revelado mais dispostas a correr riscos em África do que as ocidentais, o que pode ser explicado pelo facto de que a maioria das companhias chinesas são controladas pelo estado. Uma das tácticas para o aumento da sua influência em África é um crescente programa de assistência. A China não usa de transparência nas suas estatísticas relativas a assistência e é difícil equiparar a assistência chinesa à definição da OCDE. O programa chinês de assistência equivalente à OCDE situou-se nos últimos anos em cerca de US$1,5 mil milhões. Um programa particularmente bem-sucedido datado de 1963 é o envio de equipas médicas para países africanos. Até 2009, a China tinha enviado 18.000 profissionais da saúde para 46 países e tratou, segundo diz, 200 milhões de pacientes. A China também encetou um programa idêntico ao Corpo da Paz (Peace Corps) dos Estados Unidos; está a enviar cerca de 300 voluntários para meia dúzia de países africanos. Enquanto que a prestação de assistência a África por parte da China está a aumentar lentamente, o que chama a atenção são os empréstimos com juros baixos ligados a projectos de infra-estruturas implementados por grandes companhias chinesas. Os recipientes devem aceitar a política de “Uma Única China” e são as empresas chinesas que executam os projectos; no entanto, exceptuando a natureza concessionária dos empréstimos, trata-se de transacções comerciais e não de projectos de assistência. Nos últimos anos, a China disponibilizou, em empréstimos a juros baixos, US$13.000 milhões para Angola, US$9.000 milhões para a República Democrática do Congo (RDC), US$5.000 milhões para o Níger e US$2,5 mil milhões para a Etiópia. O governo angolano paga os empréstimos com o petróleo que envia para a China. O empréstimo da RDC funcionará da mesma forma, mas com minérios. Não se sabe bem como é que a Etiópia pagará o empréstimo uma vez que apenas exporta para a China sementes de

4 sésamo, peles e couros e algum café. Serão necessárias muitas sementes de sésamo e peles de cabras para pagar US$2,5 mil milhões. Claro que há sempre a possibilidade de a China acabar por cancelar parte da dívida. Já cancelou débitos substanciais por parte dos países africanos mais pobres. A China também tem uma estreita relação de assistência com países como o Sudão e o Zimbabué, que são considerados párias por muitos países ocidentais. A marca distintiva das relações da China com os países africanos é a sua excelente aliança de estado para estado. A China tem uma embaixada em 48 dos 49 países que reconhecem Pequim. A única excepção é a Somália, onde as condições de segurança não permitem a instalação de uma embaixada. Dos 49, apenas as Comores não têm uma embaixada em Pequim. A China depende fortemente dos contactos pessoais de alto nível para consolidar as suas relações com os líderes africanos. O presidente Hu Jintao fez seis viagens a África — duas como vice-presidente e quatro como presidente —, tendo visitado vários países. O Primeiro-Ministro Wen Jiabao tem sido igualmente visível em África. Desde 1991 que todos os anos o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês escolhe África como a sua primeira visita ao estrangeiro, facto que tem sido salientado e apreciado pelos governos africanos. Todos os elementos da liderança chinesa visitam África frequentemente. Por sua vez Pequim convida com frequência os líderes africanos a visitar a China. Durante o período decorrido entre 2002 e 2005, os representantes do Partido Comunista chinês fizeram 64 viagens a África enquanto que as autoridades de partidos políticos africanos fizeram 69 visitas à China. A China e a África formalizaram o seu relacionamento no Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), que se reúne a nível de cimeira de três em três anos, alternando entre Pequim e uma capital africana, e ao nível ministerial noutros anos. A última reunião teve lugar em 2009 no Egipto. Este fórum tornou-se um importante mecanismo para a coordenação das relações entre a China e África. O dilema é que a China pode falar com uma só voz enquanto que os países africanos ainda têm tendência a falar com 53 vozes. A China também utiliza várias técnicas de poder de influência para alargar os seus laços com África. O serviço noticioso oficial, Xinhua, tem mais de 20 sucursais em África. Existem pelo menos 22 Institutos Confúcio. A China está a aumentar as suas transmissões de rádio para África em várias línguas, tem uma estação transmissora no Quénia e vários acordos sobre retransmissão. Oferece formação a muitos africanos, incluindo diplomatas e jornalistas, e em 2009 aumentou para 4.000 o número de bolsas de estudo oferecido a alunos africanos. Comparativamente aos países localizados na sua periferia, à Europa e à América do Norte, África ocupa uma baixa prioridade de segurança para a China. Apesar disso, África está a aumentar de importância devido à crescente dependência por parte da China das importações de matérias-primas do continente. O país tem uma política de não instalar bases militares em África, mas tem alguma interacção ao nível da segurança, apesar de ser modesta, com os 49 países africanos que reconhecem Pequim. Existe uma certa correlação entre a cooperação militar chinesa e os países africanos ricos em recursos. A parte que a China detém no mercado de armas convencionais da África Subsariana situa-se na ordem dos 15 porcento. A percentagem é mais alta para as armas ligeiras e de pequeno calibre. O intercâmbio de visitas militares de alto nível é uma parte importante das relações de segurança.

5 Vinte e oito países africanos têm adidos de defesa em Pequim, enquanto que 16 gabinetes de adidos de defesa chineses em África são acreditados perante 30 países africanos. A China está a desempenhar um crescente papel construtivo nas operações de manutenção da paz em África. Actualmente tem mais elementos nas forças da ONU de manutenção da paz em África do que qualquer outro membro permanente do Conselho de Segurança – cerca de 1.600, em comparação com cerca de 30 dos Estados Unidos. A China continua a enviar duas fragatas e uma embarcação de abastecimento para as forças navais internacionais que combatem a pirataria somáli no golfo de Áden. À medida que a China amplia a sua presença nas zonas de conflito africanas como o delta do Níger, o Sudão Ocidental e a península de Ogaden, na Etiópia, os seus cidadãos começam a sofrer o mesmo tipo de ataques que os dos países ocidentais. Por exemplo, no início de 2011 os militares chineses ajudaram a proceder à evacuação de cerca de 36.000 trabalhadores da Líbia. A China também enfrenta alguns desafios em África. Apesar de ter desenvolvido excelentes relações com os governos e com a maioria da comunidade empresarial, tem tido menos sucesso com a sociedade civil, com os partidos políticos da oposição e com os sindicatos. Entre as áreas em que o envolvimento da China em África tem provocado críticas destacam-se: • Democracia e boa governação. • Aplicação dos direitos humanos. • Transparência e corrupção. • Práticas ambientais questionáveis. • Aquisição de madeira africana extraída ilegalmente assim como de marfim e de espécies em vias de extinção. • Baixa segurança no trabalho e ausência de práticas justas no trabalho. • Exportação para África de produtos perigosos e falsificados. • Relutância em disponibilizar formação e apoio à indústria transformadora africana de forma a torná-la mais competitiva no mercado global. • Controlo inadequado da venda de armas a África. Índia Índia, a maior democracia mundial, é mais um desafio directo para a China em África do que os Estados Unidos. Há uma longa história de comunidades indianas em regiões de África. A parte oriental do continente faz fronteira com o oceano Índico, que a Índia considera incluído na sua esfera de influência. A Índia tem uma experiência colonial comum com muitos países africanos e tem velhas alianças com os membros da Comunidade Britânica. Tal como a China, a Índia foi uma forte defensora da luta contra o colonialismo e um líder do movimento dos não-alinhados. O principal interesse da Índia em África actualmente é, tal como a China, o acesso à energia e minérios. As suas relações comerciais mais importantes são com a Nigéria. A Índia importa cerca de 20 porcento do seu petróleo de África mas o seu comércio com o continente constitui apenas cerca de 7 porcento do comércio indiano total. Exporta produtos manufaturados baratos para África, provocando as mesmas críticas de que a China é alvo. O comércio anual da Índia com África situa-se nos US$48 000 milhões, mas continua muito atrás do nível do

6 comércio chinês com África. A economia da Índia é muito menor que a da China e não tem os recursos financeiros para concorrer com ela. A Índia tem algumas vantagens em relação à China. Encontra-se fisicamente mais perto de África. A sua forma de governo é mais atractiva para os aspirantes a democracia no continente. Os indianos falam uma língua comum aos países africanos que falam inglês. A cultura indiana, especialmente o cinema, é compreendida e apreciada em quase toda a África. O importante sector privado indiano, que é responsável por cerca de 70 porcento do seu PIB, é uma característica atractiva em alguns países africanos. A Índia tem uma impressionante taxa de crescimento do PIB – cerca de 8 porcento – que é invejada por muitos africanos. As comunidades indianas em África encontram-se bem estabelecidas, mas nem sempre foram bem recebidas e os africanos acusam-nas de se isolarem. A Índia tem uma política antiga de atrair pessoas de origem indiana em África; a política da China relativamente às pessoas de origem chinesa é mais ambivalente. A Índia começou a formalizar a sua colaboração com África, embora não tanto quanto a China. A primeira cimeira Índia-África teve lugar em 2008 em Nova Deli e o primeiro-ministro da Índia dirigiu a segunda em 2011 em Addis Ababa. Participaram 15 líderes africanos, um número muito inferior ao que geralmente participa nas cimeiras africanas com a China. A Índia tem 26 embaixadas em África comparativamente a 48 da China. A Índia também procura o apoio africano nos fóruns internacionais e mantém relações cordiais com estados párias como o Sudão e o Zimbabué. A Índia não impõe condições à sua ajuda mas não destaca a sua política como faz a China. Ambos os países instituíram um sistema de preferências pautais com isenção de direitos para as exportações dos países africanos mais pobres. Em 2011, a Índia anunciou uma nova linha de crédito de US$5 000 milhões aos países africanos durante os próximos três anos. O Banco de Exportações e Importações da Índia tem filiais em Dacar, Durban e Addis Ababa para monitoração dos seus projectos em todo o continente. O investimento indiano em África visa os empresários indianos e as joint ventures, e não as grandes companhias estatais como faz a China. As firmas indianas integram-se nos mercados nacionais africanos e tendem a usar os recursos locais, enquanto as firmas chinesas tendem a abastecer-se com importações da China. Os africanos expressaram preocupação com os planos da Índia para arrendar terrenos a longo prazo para cultivo de alimentos para a Índia. A ajuda indiana realça a formação de 1 000 africanos por ano por meio do seu programa indiano de cooperação técnica e económica. Em 2011 concordou em financiar 10 000 novas bolsas de estudo. Todos os anos, cerca de 15 000 alunos africanos frequentam universidades e escolas técnicas na Índia. A Índia envia um número impressionante de professores para África e tem planos para estabelecer institutos educacionais em África, estando os primeiros planeados para o Burundi e o Gana. A Índia também se tornou um local importante onde as elites africanas obtêm cuidados de saúde. O país planeia disponibilizar US$500 milhões para assistência a África durante os próximos cinco anos. Os bancos indianos estão a começar a ampliar a sua presença em África. A protecção do oceano Índico é um interesse nacional vital para a Índia, que desenvolveu estreitas relações de segurança com as ilhas africanas do oceano Índico e com vários países que o margeiam. A Índia é sensível à expansão naval chinesa na região. Assinou acordos de defesa com o Quénia, Madagáscar e Moçambique e iniciou

7 programas de formação conjuntos com o Quénia, Moçambique, Tanzânia e África do Sul. Madagáscar, a Maurícia e as Seicheles cooperam na vigilância marítima e recolha de inteligência. A Índia disponibiliza formação aos militares africanos nas academias militares indianas e pretende expandir a venda de armamento a África. Desenvolveu ainda uma aliança particularmente estreita com a África do Sul que também inclui o Brasil. Tomam parte nos exercícios conjuntos embarcações militares dos três países, mais recentemente na costa da África do Sul em 2010. Os navios indianos também se juntaram aos esforços antipirataria no golfo de Áden. A Índia tem cerca de 7 000 militares e elementos das forças policiais em quatro das seis operações de manutenção da paz da ONU em África. Brasil No Brasil vivem pelo menos 70 milhões de pessoas de ascendência africana. Muitos brasileiros têm as suas raízes na Nigéria e no Benim; a cultura africana sobreviveu no Brasil e ajuda a fortalecer os laços com África. Na Nigéria existem comunidades brasileiras concentradas em Lagos, formadas por descendentes de antigos escravos que regressaram durante o século XIX. Muito embora o Brasil tenha uma afinidade natural com os países africanos lusófonos – Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde –, nos últimos anos expandiu significativamente o seu envolvimento em África. O Brasil tem embaixadas em 34 países do continente. É membro da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, criada em 1986 e que conta com 24 estados, para estimular a cooperação regional nas áreas do desenvolvimento, paz e segurança. Vinte e um países da África Ocidental e Austral pertencem à organização. Desde que tomou posse em 2003 até que saiu do poder em 2010, o ex-presidente brasileiro Lula da Silva fez dez viagens a África, tendo visitado 25 dos 53 países do continente. A sua última visita foi realizada em Julho de 2010, quando também participou na cimeira Brasil-Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) realizada em Cabo Verde. A CEDEAO tornouse um importante parceiro do Brasil em África. Em 2004, a Índia, o Brasil e a África do Sul criaram uma aliança estratégica designada Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (IBAS) que poderá vir a ter importantes implicações para África. Esta associação dos três poderes médios pretende tirar partido das regras internacionais já estabelecidas para promover uma distribuição de poder mais justa, representativa e equitativa no sistema internacional. Os chefes de estado do IBAS realizaram a sua quarta cimeira no Brasil em 2010. Reúnem-se anualmente ao nível ministerial. O comércio do Brasil com África atingiu US$20 000 milhões em 2010, principalmente com a Nigéria, Angola, Argélia e África do Sul. O Brasil procura os mercados africanos para as suas exportações e oportunidades de investimento para as suas empresas. Depende muito dos minérios e energia africanos para abastecer a sua economia em crescimento. O Brasil desenvolveu estreitas relações económicas e políticas com a Nigéria. A Marinha nigeriana até enviou dois navios para o Rio de Janeiro em 2007. O Brasil investiu cerca de US$10 mil milhões em África, principalmente nos sectores energético, mineiro e da construção civil. O continente recebe cerca de metade da ajuda estrangeira do Brasil.

8 O Brasil espera que África o ajude a obter o lugar de membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Solicita apoio aos países africanos que, por exemplo, o apoiaram fortemente na Organização Mundial do Comércio numa disputa sobre um medicamento genérico. A Empresa Brasileira de Investigação Agropecuária (EMBRAPA), a principal agência de investigação agrícola e biotecnológica do Brasil, abriu quatro escritórios em África. Os países africanos estão a recorrer cada vez mais ao Brasil para assistência técnica e científica e o país está a posicionar-se como um dos principais parceiros africanos para ajudar a garantir a sua segurança alimentar e necessidades energéticas. Rússia A Guerra Fria testemunhou uma acérrima competição em África entre a União Soviética por um lado e os Estados Unidos e a China, por outro. O colapso da União Soviética e o enfraquecimento da economia russa provocaram um forte declínio nas relações entre a Rússia e África a partir do final da década de 1980. No fim da Guerra Fria, a Rússia mantinha uma presença diplomática na maioria dos países africanos e ainda hoje tem embaixadas em 43 deles. No entanto, foi apenas nos últimos anos, com o renascimento da economia russa, que Moscovo regressou a África como um dos principais intervenientes. A visita do ex-presidente Putin à África do Sul em 2006, a primeira de um líder russo, revelava uma nova atenção ao continente. O primeiroministro russo seguiu Putin em Março de 2007 com visitas a Angola, Namíbia e África do Sul. Em 2009, o presidente Medvedev visitou o Egipto, a Nigéria, a Namíbia e Angola com uma delegação de 100 empresários para consumar negócios no sector da energia, indústria mineira, construção civil e telecomunicações. Em termos do envolvimento em África, a Rússia encontra-se muito atrás dos Estados Unidos e da China. Desde 2000 o seu comércio com o continente cresceu rapidamente de uma base relativamente baixa e atingiu o seu máximo em 2008, com US$7 000 milhões, antes de, em 2009, descer para US$6 000 milhões. A Rússia tem um regime tarifário preferencial para os países em desenvolvimento, que garante aos produtos africanos um acesso com isenção de direitos. A Rússia investiu mais de US$20 000 milhões no sector energético e mineral africano. Os negócios tornaram-se o principal foco de interesse da Rússia em África. Em 2009, o Egipto assinou um acordo de cooperação estratégica de dez anos que incluía uma proposta para construção da primeira usina nuclear egípcia. A Rússia está mais interessada em minérios como o níquel e o ouro na África do Sul; o alumínio na Guiné, na Nigéria e na RDC; e os diamantes na Guiné, Serra Leoa, África do Sul e RDC. Em 2010, a Rússia concordou em investir US$1 000 milhões na exploração do urânio na Namíbia e assegurou as reservas de urânio da Tanzânia, o que foi rapidamente colocado de lado após o fracasso da usina nuclear japonesa. O presidente da África do Sul Jacob Zuma visitou Moscovo em 2010 quando assinou um tratado para o fornecimento, por parte da Rússia, de urânio ligeiramente enriquecido. A Rússia procura estabelecer acordos bancários cooperativos em Angola, na Namíbia e na África do Sul. Assinou um acordo com a África do Sul para estabelecimento de um centro de comando e controlo para a Agência Espacial Russa dar formação a pessoal do sector espacial sul-africano e para construção de satélites de comunicação, e lançará um satélite para Angola.

9 A ajuda da Rússia a África continua extremamente modesta apesar de ter aumentado de US$50 milhões em 2003 para US$210 milhões em 2007. Moscovo cancelou mais de US$20 000 milhões de dívida africana. A Rússia anunciou que destinou mais de US$1 000 milhões para ajuda aos países africanos mais pobres durante 20102011, para combate às doenças infecciosas e à pobreza e para melhorar o sector energético e a educação. Disse ainda que tentará disponibilizar US$400 a US$500 milhões em ajuda anual a África no futuro próximo. A Rússia retomou a venda de armamento em larga escala aos países africanos, boa parte da qual fora dos canais oficiais; circulam acusações de que fornece armas aos combatentes na região dos Grandes Lagos. Entre 2000 e 2007, a Rússia vendeu mais de US$1 000 milhões em armas a países africanos. Entre os recentes negócios energéticos com a Argélia conta-se uma venda de armamento russo no valor de US$7,5 mil milhões. A Rússia é o maior fornecedor de armamento ao Sudão, incluindo a venda de doze MiG 29. Não admira que o Sudão tenha apoiado publicamente o direito “legítimo” da Rússia a defender os seus cidadãos na Geórgia. Em 2002, a Etiópia assinou vários acordos de cooperação militar com a Rússia e continua a depender fortemente do armamento russo. Em sequência do recente embargo de armas à Líbia, a Rússia pode perder quase US$4 000 milhões em contratos de exportação de armamento. O país não tem contribuído com um número significativo de pessoal de manutenção da paz para as missões da ONU em África, mas os seus 350 elementos representam dez vezes a contribuição americana. A Rússia concentrou o seu envolvimento na manutenção da paz no Sul do Sudão, onde tem uma equipa com quatro helicópteros MI-8. Os helicópteros russos apoiaram uma operação de manutenção da paz no Chade em apoio da força ao longo da fronteira Chade-Darfur. A Rússia está a formar centenas de polícias civis africanos e pessoal de manutenção da ordem pública para as operações de manutenção da paz. As embarcações russas fazem parte de uma campanha antipirataria no golfo de Áden. A Rússia também expressou interesse em renovar os seus laços políticos, militares e culturais com as Seicheles. O director russo do Centro de Relações Russo-Africanas no Instituto África da Academia de Ciências Russa comentou em 2008 que a Rússia precisa ampliar as relações com África. Ele explicou que a Rússia está a passar por uma escassez de magnésio, crómio, silicone e outros minérios cuja extracção é demasiado cara na Rússia. O então presidente Putin concluiu em meados de 2007: “A cooperação da Rússia com África atingiu recentemente uma nova dinâmica. O nível e intensidade dos contactos estão a aumentar. Estamos a trabalhar continuamente para ampliar e aprofundar a nossa cooperação mutuamente benéfica no comércio e na economia, nas ciências e na tecnologia, no sector humanitário e noutras áreas.” A Rússia parece empenhada em recuperar a sua influência em África. Irão Apesar do Irão ter interesses em África há muitos anos, o seu envolvimento foi intensificado há cerca de sete anos. O isolamento por parte do Ocidente e o desejo de opor-se a Israel em África são provavelmente responsáveis por uma grande parte dessa actividade recente. Cerca de metade dos mil milhões de habitantes de África são muçulmanos, mas são quase todos muçulmanos sunitas. Os shiitas iranianos não têm

10 qualquer vantagem inerente em aliciar os sunitas africanos. Por isso, o Irão não limitou os seus esforços aos países africanos predominantemente muçulmanos e tem uma embaixada em 20 países africanos. Em 2004, o Irão estabeleceu a Sede da Cooperação Irão-África, que concordava em criar quatro zonas de comércio livre em África, desenvolver alianças bancárias com países africanos, formar um Conselho Empresarial Irão-África e um Centro de Investigação Africano afiliado com a Universidade de Formação de Professores do Irão. O presidente Khatami visitou a Nigéria, Senegal, Mali, Serra Leoa, Benim, Zimbabué e Uganda em 2005. Desde aí, foram realizadas várias visitas de intercâmbio entre os líderes africanos e os iranianos. O Irão concentrou a sua atenção no Sudão, com cooperação em todos os níveis, incluindo a possibilidade de partilha de tecnologia nuclear e assistência ao sector militar. O presidente senegalês Wade visitou o Irão em 2006 e em 2008 e anunciou que o Irão iria construir no Senegal uma refinaria de petróleo, uma fábrica de produtos químicos e uma linha de montagem de táxis no valor de US$80 milhões. O Irão realizou negociações com a Nigéria, a África do Sul, o Djibuti e a Tanzânia sobre cooperação na defesa e continua a enviar navios de guerra para o golfo de Áden para participar da coligação antipirataria. O Irão tem feito um esforço especial para estabelecer alianças com países do nordeste de África para além do Sudão. A Etiópia, Eritreia, Djibuti, Quénia, Tanzânia e Comores têm sido objecto de uma considerável atenção por parte do Irão. O presidente eritreu Isaias visitou Teerão em 2008, quando os dois países assinaram quatro acordos. Segundo um relatório não confirmado, o Irão renovará a refinaria de petróleo da Eritreia no porto Assab do mar Vermelho como troca pelo envio de forças iranianas para lá. O Irão também tem estado activo no Zimbabué, Líbia, Argélia, Costa do Marfim, Camarões, Mauritânia, Guiné, Gabão e Malawi. O Irão tem estatuto de observador na União Africana. Em finais de 2010, as autoridades nigerianas interceptaram um envio de armamento iraniano para as forças rebeldes na Gâmbia e no Senegal. A Gâmbia respondeu cortando as relações e o Senegal mandou retirar o seu embaixador. A maior parte da interacção do Irão com os países africanos diz respeito aos negócios e ao investimento. Em 2009, ele exportou US$3,5 mil milhões de produtos, especialmente petróleo, para África, mas importou apenas US$352 milhões de África. A África do Sul é o parceiro comercial mais importante do Irão. O presidente Mahmoud Ahmedinejad visitou o Quénia, Djibuti e Comores em 2009 quando assinou cinco acordos no Djibuti, dois em Nairobi e quatro em Moroni. Em 2010, visitou o Mali, Nigéria, Zimbabué, Quénia, Comores e Uganda. Também realizou a cimeira Irão-África em Teerão, em que participaram representantes de 40 países africanos, incluindo os presidentes do Malawi e do Senegal. O Irão solicita regularmente – e muitas vezes obtém – aos seus interlocutores africanos declarações públicas em apoio do seu programa nuclear. Turquia Há muitos anos que a Turquia vem seguindo calmamente os acontecimentos em África mas aumentou o seu envolvimento em 2005 quando o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan proclamou o ano de África, tornando-se seguidamente o primeiro chefe de estado turco a visitar a África ao Sul do Equador. A seguir, a Turquia credenciou o seu

11 embaixador em Addis Ababa perante a União Africana. Erdogan visitou o Sudão no ano seguinte e discursou na cimeira da União Africana em 2007. O presidente Abdullah Gül visitou o Egipto, Quénia e Tanzânia em 2009 e os Camarões e a República Democrática do Congo em 2010. A Turquia realizou a sua primeira cimeira de Cooperação TurquiaÁfrica em 2008 e actualmente tem 20 embaixadas em África. Em 2010, a Turquia e as Nações Unidas co-patrocinaram uma conferência de três dias sobre a Somália em Istambul. A Turquia mantém um número significativo de centros educacionais e culturais em África que dependem principalmente das organizações da sociedade civil. O comércio da Turquia com África totalizou US$16 000 milhões em 2009, constituindo 10 porcento das exportações totais da Turquia e 4 porcento do total de importações. Apoiou projectos de desenvolvimento em 37 países africanos a partir de escritórios regionais em Addis Ababa, Cartum e Dacar. Cerca de 400 empresas turcas investiram mais de US$500 milhões em vários países africanos. Actualmente, a Turquia está a destacar quase 100 polícias para cinco das seis missões de manutenção da paz da ONU em África. Desde 2009, a Turquia já enviou seis fragatas para participar da Forçatarefa Conjunta 151, sob o comando dos Estados Unidos, que está a realizar operações antipirataria na costa da Somália. A Marinha turca, que tem a quinta maior frota do mundo, visita regularmente os portos norte-africanos. Após o conflito na Líbia, a sua Marinha ajudou a evacuar 25 000 trabalhadores turcos do país. Vietname O governo do Vietname apresentou o seu programa nacional para promoção de melhores relações com África no primeiro Fórum Internacional Vietname-África realizado em 2003 em Hanói. Agora existe um Fórum de Parceria África do SulVietname. O presidente sul-africano Thabo Mbeki visitou o Vietname em 2007 quando teceu os mais calorosos elogios ao país e aos seus líderes anteriores e actuais. O Vietname tem relações diplomáticas com todos os países africanos excepto a Libéria, o Malawi e as Comores, com os quais espera vir a estabelecer relações, e abriu embaixadas em nove países africanos. Os presidentes da Nigéria e da República Centro-Africana, o primeiro-ministro da Tanzânia e o primeiro-ministro de Marrocos visitaram o Vietname recentemente. Em 2010, o presidente do Vietname visitou a Argélia e a Tunísia. O Vietname foi o anfitrião do segundo Fórum Internacional Vietname-África em 2010. Apesar do comércio vietnamita com África continuar modesto, aumentou de US$360 milhões em 2003 para US$2 000 milhões em 2009, sendo na sua maioria de exportações vietnamitas para África. O investimento está a aumentar, especialmente em países com um histórico de princípios socialistas, como Angola, Congo-Brazzaville, Moçambique e Namíbia. A PetroVietnam detém 40 porcento das acções num consórcio com a Sonatrach da Argélia para a exploração de petróleo e gás e assinou um acordo com a companhia estatal de petróleo do Sudão para investirem conjuntamente em petróleo e gás. O Vietname enviou especialistas agrícolas ao Benim e ao Congo-Brazzaville e 340 médicos e professores para Angola. Conclusão

12 O campo de jogos diplomático em África tornou-se muito mais concorrido à medida que um número crescente de nações emergentes intensificou o seu contacto com os países africanos. Esta situação apresenta oportunidades para África. O aumento do investimento, da ajuda e do comércio oferecem mais concorrência e mais escolha para os países africanos. O desafio para os africanos é o desenvolvimento de regras básicas e de uma estratégia que permita que 53 países maximizem os benefícios à medida que interagem com um interlocutor único como a China. A União Africana é a entidade mais capacitada para conceber essa estratégia, mas representa a opinião de todos os seus membros, que não chegam a um acordo sobre a estratégia. A maioria das nações emergentes que são activas em África concebeu o seu próprio mecanismo de coordenação. A FOCAC da China é a mais avançada. Essas organizações tendem a ser controladas pelo país parceiro não-africano e não garantem que os africanos possam receber os máximos benefícios da cooperação. Poderá ser cada vez mais necessário que as organizações sub-regionais africanas, como a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental e a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, em que os membros têm mais em comum, desenvolvam directrizes e estratégias regionais. Apesar de ser irrealista esperar que África fale a uma só voz sobre uma grande variedade de assuntos controversos, não há dúvida que deve melhorar as suas tácticas.