Criminalização dos protestos e movimentos sociais

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Kathrin Buhl e Claudia Korol (Orgs.)

Criminalização dos protestos e movimentos sociais

1ª edição: outubro de 2008 – São Paulo
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Copyright 2008, por IRL e Rede Social Coordenação Editorial: Natália Codo Organizadoras: Kathrin Buhl e Claudia Korol Revisão: Matrix Idiomas Projeto gráfico, diagramação e capa: Estação das Artes Produções Gráficas Ltda

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem prévia autorização do Instituto Rosa Luxemburg. 1ª edição: outubro de 2008 – São Paulo

INSTITUTO ROSA LUXEMBURG STIFTUNG RUA FERREIRA DE ARAÚJO, 36 - ALTO DE PINHEIROS CEP 05428-000 - SãO PAULO - SP - BRASIL TEL.: +55 (11) 3796-9901 www.RLS.ORG.BR REDE SOCIAL DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS RUA CASTRO ALvES, 945 - ACLIMAÇãO CEP: 01532-001 - SãO PAULO - SP - BRASIL TELS.: +55(11) 3271-1237/3275-4789 E FAX.: 011 3271 4878 www.SOCIAL.ORG.BR
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ÍNDICE Apresentação (Claudia Korol e Kathrin Buhl). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .09 Estudos de casos
Argentina. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79 Chile. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 México. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .137 Paraguai. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .183 Alemanha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198

Testemunhos da criminalização
Frente Popular Darío Santillán . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .231 (Buenos Aires - Argentina) Coordenadora de Mulheres de Oaxaca Primero de Agosto. . . . . 239 (Oaxaca - México) Frente de Povos em Defesa da Terra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243 (San Salvador Atenco - México) O Crime de ser MST - Leandro Gaspar Scalabrin. . . . . . . . . . . .247 (Porto Alegre - Brasil) La Legua York – Gustavo “Lulo” Arias. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .253 (Santiago – Chile)
Estas são as digitais de Ernesto Guevara de La Serna, mais conhecido como Che Guevara ou El Che.

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ApresentAção

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CriminAlizAção dos movimentos soCiAis

O que é um assalto a um banco, comparado com a fundação de um banco?
Bertold Brecht

Quais são as modalidades atuais de criminalização dos movimentos sociais? Que relação existe entre esta e outras formas repressivas tradicionais? De que modo os movimentos populares enfrentam as políticas que tendem a estigmatizá-los, invisibilizar ou deslegitimar suas demandas, de maneira que, ante a sociedade e perante a “justiça”, as lutas sociais sejam tratadas como delitos? Que relação existe entre o nível de implementação do modelo neoliberal e as novas formas de criminalização? Qual é o impacto da política-modelo de criminalização do protesto no desenvolvimento dos movimentos sociais? Estes e outros problemas foram compartilhados no Seminário convocado pela Fundação Rosa Luxemburgo, em junho de 2008, na Escola Nacional Florestan Fernandes do Movimento Sem Terra do Brasil. Ali realizamos uma experiência desafiante sobre a lógica de fragmentação promovida pelo neoliberalismo com a intenção de isolar nossas lutas, nossos movimentos e privatizar os conhecimentos forjados nas resistências. Partilhamos e debatemos as análises que os diferentes coletivos, integrados por militantes de movimentos populares, intelectuais e grupos de direitos humanos realizaram em nossos países, para olhar em conjunto esta problemática. Assim, a partir do México, Chile, Brasil, Paraguai, Argentina, fomos reconhecendo quanto há de comum nas realidades que chamamos de “nacionais” na América Latina Avançamos um pouco mais no diálogo com coletivos que na Alemanha vêm desenvolvendo luta sistemática em defesa dos direitos humanos e pudemos constatar o quanto se “globalizou” a repressão e seus argumentos, justificativos das modalidades de “ordem” do capitalismo transnacionalizado do século 21. vamos compartilhar nesta publicação nossos trabalhos locais. Contudo, não o fazemos como uma soma de fragmentos, mas sim como diálogo de experiências que se enriqueceram no encontro. Quiséramos transmitir àqueles que se aproximam destes textos o sentido coletivo que foi sendo criado durante o seminário, o qual não teve apenas momentos de análise e intercâmbio dos textos e contextos de nossos estudos. Esteve marcado também por uma cálida e fraternal convivência que permitiu que os
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duros e comoventes testemunhos apresentados pudessem ser recebidos a partir do lugar do afeto reparador para aqueles que, mesmo sofrendo as conseqüências brutais da repressão, não aceitam o lugar de vítimas, mas buscam caminhos para continuar as lutas populares: a única maneira de derrotar o terror com que o poder pretende nos isolar. Desse modo evitamos dois lugares-comuns que nos estigmatizam: tanto o de “criminosos” como o de vítimas. O seminário foi um encontro de militantes, como nós, que anseiam transformar o mundo desumano em que vivemos, que questionamos suas profundas injustiças, que queremos criar vínculos solidários em nossa caminhada pela vida, forjando identidade em nossos sonhos e em nossas diferenças. A Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) do Movimento Sem Terra do Brasil (MST) foi um marco adequado para nossos diálogos. Erguida com o trabalho voluntário de militantes e amigos do MST – um dos movimentos duramente criminalizados neste momento da América Latina –, é precisamente um signo das possibilidades de construir, tijolo a tijolo, um espaço comum que contenha nossos mundos diversos. Das paredes da ENFF nos saudavam a cada manhã o Che e Rosa Luxemburgo, Paulo Freire e Olga Benário, entre muitas lutadoras e lutadores que em seu tempo e no nosso desfraldaram projetos revolucionários e os encarnaram em suas vidas. A história dos vencidos que continuam forçando os limites do possível para abrir não apenas as “grandes alamedas”, mas também antigos e novos territórios de liberdade. O objetivo do seminário era traçar um panorama dos mecanismos de repressão e de resistência por parte das comunidades locais e criar um espaço para o intercâmbio de informações sobre instrumentos de incidência, formação, mobilização e articulação entre organizações e movimentos em diversos países, com intuito de construir ações conjuntas de resistência e solidariedade. Iniciou-se com uma análise de conjuntura, que situou alguns elementos fundamentais para contextualizar os estudos nacionais. Em seguida, foram apresentados os estudos particulares e, a partir daí, se começou a analisar o comum e o diferente que encontrávamos neles, para abrir passo à elaboração de sugestões que permitissem fortalecer nossas ações locais e acordar iniciativas para ampliar o trabalho comum. Da apresentação dos trabalhos de pesquisa, na primeira jornada, surgiram alguns temas de debate e a necessidade do seu aprofundamento, como aqueles assinalados no começo deste comentário, e outros como: • Quais os efeitos produzidos nas práticas cotidianas dos movimentos pela judicialização das organizações e de seus integrantes?
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• Como incide o fechamento dos espaços públicos e dos grandes meios de comunicação nas formas de expressão das demandas dos movimentos? • Que relação existe entre esse fechamento de possibilidades de intervenção social, a redução de espaços de negociações legais e a realização dos protestos? • De que maneira se legitimam ante a sociedade as diversas práticas populares de desobediência civil? • Como elucidamos a relação das políticas de criminalização dos movimentos sociais com o caráter “progressista” de alguns governos? • Como distinguimos as relações entre as políticas locais e nacionais e sua vinculação ou contradições com as políticas estatais de controle social? Durante o debate ficou evidente a existência de um “estado de segurança preventiva” em nossos países e foram mencionadas diferentes modalidades de repressão. Além das mais conhecidas, destacam-se outras como a repressão simbólica ou a privatização de alguns aparelhos de repressão. Examinou-se o papel crescente dos serviços de inteligência, de controle e uso de novas tecnologias, bem como os avanços na coordenação internacional da repressão (e, comparativamente, foi possível estabelecer que esta não atinge o nível alcançado entre os Estados da União Européia). Foi analisada a relação entre as políticas e as legislações repressivas que estão sendo implementadas, e as pressões em tal direção realizadas pelo governo dos EUA e seus planos de militarização do continente, destinados a reproduzir e fortalecer sua hegemonia mundial. Sustentou-se que a criminalização não é individual, é sempre coletiva. O castigo de um militante não é pessoal e individual, mas é parte de uma criminalização geral dos movimentos que lutam pela emancipação social. Foi considerado o lugar dos grandes meios de comunicação como parte do poder e como instrumentos privilegiados na manipulação do consenso. Analisou-se a ampliação dos “protagonistas do conflito social”. Por um lado, se encontram os Estados nacionais, provinciais (ou estaduais), municipais, as empresas transnacionais, os interesses econômicos do poder. De outro lado, entre os afetados é maior o impacto ou a visibilidade das lutas e, como conseqüência, a criminalização dos movimentos de jovens, mulheres, indígenas, camponeses, trabalhadores desempregados ou precarizados, populações afetadas pelos empreendimentos do novo modelo de “desenvolvimento” do capitalismo neoliberal. Constatou-se que nas universidades geralmente não se inclui o estudo dos direitos humanos, tampouco se transmite uma visão social. Os direitos privados são tratados como absolutos. Foi sugerida, em conseqüência, a promoção de campanhas para que sejam exigidas matérias de cunho social e a formação em direitos humanos nos concursos públicos para a Magistratura e Ministérios.
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Também foi proposta a necessidade do domínio de todos os ramos do Direito por parte de quem advoga para os movimentos populares, destacando-se que a boa formação técnica em todos os setores jurídicos é fundamental para o desempenho dos advogados que atuam na luta social. Nesse sentido, viu-se a possibilidade de manter intercâmbios sistemáticos entre as redes de advogados defensores de direitos humanos e a necessidade de criação de redes e de formação de advogados com essa orientação nos lugares onde estes são escassos para as demandas crescentes dos movimentos. Outra análise deu conta de que, apesar de haver experiências importantes, ainda existe uma debilidade muito grande na articulação entre os movimentos sociais e os meios de comunicação alternativos. Seu alcance, em muitos casos, é o dos especialistas e não chega a todos os militantes. Em muitos casos, essa mídia enfrenta conflitos legais para sua atuação. Também são fracas as políticas dos movimentos para influir nos grandes meios de comunicação e no diálogo com os trabalhadores da imprensa e jornalistas que ali atuam. Um momento especialmente impactante, mesmo para aqueles que permanentemente convivem com as denúncias de setores afetados pela repressão, foi o painel em que se partilharam diferentes testemunhos de criminalização dos movimentos sociais em nossos países, os quais foram transcritos para este livro. Na última jornada foram trabalhadas idéias e propostas, concernentes às questões jurídicas e da comunicação, e se analisaram possibilidades de ação comum nos movimentos urbanos, estudantis, de camponeses, de indígenas, de luta contra os megaempreendimentos. Entre outros temas, foram propostos como sugestões e necessidades: • Um maior intercâmbio sobre os temas jurídicos. Elaborar um estudo comparativo das legislações repressivas dos diferentes países e das formas como são utilizadas. • Desenvolver iniciativas (comunicacionais, pedagógicas e jurídicas), no sentido de deslegitimar as leis antiterroristas e as legislações repressivas. • Analisar a organização das forças policiais e de segurança. A partir disso, traçar uma estratégia comum para agir diante da repressão. • Compartilhar as modalidades de resposta e de resistência dos movimentos populares ante a criminalização. • Compartilhar recursos e fortalecer as redes de meios alternativos, e entre eles e os movimentos populares. • Desenvolver uma estratégia a partir dos movimentos para incidir nos meios de comunicação do sistema. • A partir dos movimentos populares, dos meios de comunicação alter13

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nativos e em todos os espaços em que seja possível atuar, é necessário: divulgar de forma permanente os conflitos sociais, permitindo que sejam visibilizados do ponto de vista dos protagonistas, discutir os discursos de criminalização dos protestos, ressignificando os termos com que somos estigmatizados. Ter sempre uma grande preocupação com a linguagem utilizada em nossos materiais. • Promover iniciativas que permitam visibilizar as estratégias de criminalização dos movimentos sociais, aproveitando formas alternativas de comunicação, tais como: murais, mensagens pelos celulares, teatro de rua, atividades em praças públicas, tribunais populares. Foi sugerida a elaboração de panfletos explicativos, acessíveis a possíveis afetados por estas políticas. • Debateu-se a possibilidade de criar um observatório de criminalização dos movimentos sociais latino-americanos, ou outro tipo de publicação na Internet, que divulgue esses fatos e as pesquisas e denúncias sobre eles. • Foi proposto o desenvolvimento de oficinas de educação popular nos movimentos para enfrentar as políticas de criminalização (estudo de seus mecanismos, como trabalhar com o discurso, como atuar diante da repressão, dos meios de comunicação, etc.). Insistiu-se na necessidade de formação de militantes com preparação teórica e técnica, com capacidade para enfrentar lutas que requerem cada vez mais preparação e conhecimento em todos os planos. • Promover ações como ocupações de terras, manifestações, marchas, recorrendo na medida do possível a formas criativas, para chamar a atenção da população sobre as violações aos direitos humanos. • Foi sustentada a necessidade de desenvolver a solidariedade ativa com todos os presos políticos, independentemente dos fatos de que são acusados pelo poder. A batalha pela liberdade é um objetivo irrenunciável do movimento de direitos humanos. • Levando em consideração o avanço na criminalização dos pobres, foi colocada a necessidade de sustentar políticas solidárias com os presos comuns e a necessária defesa do conjunto de seus direitos. O encerramento do encontro foi muito emotivo. Uma companheira fez um canto a Oxalá… e nele sentimos as vozes de todas as pessoas que foram negadas nestas terras, em mais de 500 anos de genocídio, escravidão, desaparições, ocultações, silencioso extermínio. No abraço final, sentimos vivo o grito que alentou a liberdade nos quilombos brasileiros, nas manifestações chilenas, nos piquetes da Argentina, nas comunidades guaraníticas do Paraguai, Brasil, Argentina, Bolívia, nos territórios mapuche da Patagônia, nas comunidades em luta no México, nas batalhas de rua da Europa, contra uma globalização que fecha as
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fronteiras para os seres humanos “outros”, e as deixa abertas para o “livre” trânsito dos capitais. Denunciar a criminalização dos movimentos populares é o caminho para defender coletivamente a legitimidade de cada um de nossos direitos. Para tornar visível o que dizia uma publicação de um coletivo mexicano: o verdadeiro crime é reprimir. O que se pretende com esta publicação é contribuir para um esforço aparentemente simples: sustentar o direito a defender os direitos. E se espera que seja um estímulo a todos aqueles movimentos populares que, aprendendo coletivamente uns de outros, sintam fortalecer sua capacidade de ação transformadora, baseada na criação de novos vínculos, opostos aos que promovem a dominação. vínculos que promovam relações de solidariedade, de confiança, de cooperação, nos quais nos reconheçamos em um mesmo caminho feito de muitas sendas abertas na história. Que permitam também identificar no horizonte os sonhos vivos dos lutadores e lutadoras do passado, do presente e do futuro. E olhar de frente aqueles que os criminalizam, com palavras verdadeiras, brotadas de corpos insubmissos, de resistências milenares, de gritos da terra e dos bosques que pronunciam desejos, esperanças e ações que humanizam a vida.
Kathrin Buhl e Claudia Korol1

1 Kathrin Buhl Kathrin Buhl é diretora da Oficina Regional da Fundação Rosa Luxemburg no Cone Sul. CLaudia KOROL é integrante do Centro de Pesquisa e Formação dos Movimentos Sociais Latino (CiFMSL) e da Equipe de Educação Popular Pañuelos em Rebeldia.

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estudos de CAsos

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ArGentinA

CriminAlizAção dos movimentos soCiAis nA ArGentinA2
Roxana Longo – Claudia Korol3

As batalhas populares em defesa dos direitos legítimos – ou pela possibilidade de conquistar novos direitos –, uns e outros ameaçados pelo avanço do capitalismo transnacional, têm que enfrentar formas repressivas insuficientemente conhecidas pelas pessoas que delas são vítimas. A criminalização dos movimentos populares é um aspecto orgânico da política de “controle social” do neoliberalismo. Articula diferentes planos das estratégias de dominação, que vão desde a criminalização da pobreza e a judicialização do protesto social, até a repressão política aberta e a militarização. São diferentes mecanismos tendentes a subordinar os povos às lógicas políticas do grande capital, para assegurar o controle dos territórios, das populações que os habitam, dos bens da natureza, e para reduzir ou domesticar as dissidências. Este estudo observa algumas modificações produzidas no capitalismo nas últimas décadas e a forma como interagem com as mudanças no Estado, que permitem reproduzi-las e afiançá-las; partindo do fato de que as novas modalidades repressivas – entre as quais é central a criminalização da pobreza e do protesto social – não são “vestígios do passado ditatorial não desmantelado”, mas sim mecanismos funcionais de controle de acordo com os padrões de acumulação do capitalismo do século 21. O trabalho analisa algumas iniciativas ensaiadas para reforçar o disciplinamento do mal-estar social, lista uma seleção significativa de casos concretos4, com as idéias que foram construídas a partir do poder e a partir dos setores populares sobre a legitimidade (ou não) da luta social, e sobre a pertinência (e inclusive o desejo) de sua
2 Este trabalho, coordenado por Claudia Korol e Roxana Longo, é parte de uma pesquisa realizada pelo Centro de investigação e Formação dos Movimentos Sociais Latino-americanos (CiFMSL), com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, da alemanha, cujo texto completo será publicado na argentina. Foi realizada em consulta com os coletivos Rede Eco alternativo, FiSYP, Mopassol, Fidela, Frente Popular darío Santillán e a Equipe de Educação Popular “Pañuelos en Rebeldia”. 3 CLaudia KOROL e roxana longo integrantes do Centro de investigação e Formação dos Movimentos Sociais Latino-americanos (CiFMSL) e da Equipe de Educação Popular “Pañuelos en Rebeldía”. 4 Estes casos, que figuram no estudo completo como anexo i (Estudo de casos) são: i.1. a resposta do governo de Neuquén ante o protesto social; i.2. a persistência da impunidade: a situação em General Mosconi; i.3. avassalamento do Movimento Nacional Campesino e indígena; i.4. O massacre da Ponte Pueyrredón – avellaneda; i.

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repressão. vincula aquilo que se tem promovido no plano cultural e comunicacional para possibilitar a maior criminalização social, com as demandas cidadãs que reclamam “maior segurança”, e a pretendida homogeneização cultural que estigmatiza “os diferentes” como perigosos. Observa a maneira de agir das forças repressivas e algumas das mudanças realizadas nas legislações, em função das políticas estadunidenses de “guerra ao terrorismo”5. Discute os discursos e as políticas de direitos humanos, que separam a análise dos crimes de terrorismo de Estado das atuais violações aos direitos humanos dos pobres e excluídos, daqueles que exercem seu direito ao protesto; socializa buscas populares que fortalecem sua capacidade de resistência, e inclusive de existência, em um mundo que as nega de muitas maneiras.

1. do trânsito do “estado neoliberal” ao estado neoliberal “em trânsito”
O trânsito do chamado “estado de bem-estar” ao “estado neoliberal” produziu modificações nas pautas de integração e de inclusão social, de controle da população, de “ordenamento” cultural e de repressão às possíveis ameaças à hegemonia. Na Argentina, este processo iniciado com a ditadura militar (1976-1983) continuou no governo de Raul Alfonsín (1983-1989), atingiu seu maior apogeu durante o governo de Carlos Menen (1989-1999) – favorecido pela incorporação do peronismo ao ideário consagrado do “fim da história” – e seguiu seu curso no governo da Aliança (De La Rúa-Chacho Alvarez, 1999-2001)6. A rebelião popular de 19 e 20 de dezembro de 2001 expressou uma crise profunda nessa modalidade de exercício da dominação. As conseqüências da aplicação das políticas devastadoras, que consideravam faixas inteiras da sociedade como “descartáveis”, encontraram um limite na fúria popular. O cansaço social provocou a crise de legitimidade das forças políticas do sistema, obrigando a mudança das regras de jogo das diversas frações do poder, que tiveram que readequar o modelo de gestão das políticas neoliberais, introduzindo mediações estatais, que tendem a combinar o neoliberalismo com políticas neodesenvolvimentistas. É necessário analisar de que forma influíram neste contexto os aconteci5 No estudo completo podem ser aprofundadas estas análises nos trabalhos apresentados como anexo ii: discurso da mídia e criminalização do protesto. Elaborado pela Rede Eco alternativa. anexo iii: algumas considerações sobre o papel da Polícia Federal argentina diante das diversas formas de protesto social. Elaborado por Gerardo Etcheverry (FiSYP). anexo iV: O contexto da “luta antiterrorista” proposto pelos EE.uu. Elaborado por Rina Bertaccini (Mopassol). (Estão publicados em www.cifmsl.org). 6 uma figura simbólica deste continuísmo é a de domingo Cavallo, presidente do Banco Central, durante a ditadura, e Ministro de Economia de Carlos Menem e de Fernando de la Rua. Em dezembro de 2001, domingo Cavallo era Ministro de Economia, e tinha promovido as medidas financeiras que desataram a rebelião popular dos dias 19 e 20, que liquidou com o governo de Fernando de La Rúa.

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mentos do 11 de setembro de 2001 nos EUA7, e no nível local a rebelião popular de 19 e 20 de dezembro. Nesta análise caracterizamos duas etapas: a que vai desde o fim da ditadura até 2001; e a que vai dessa data até os dias de hoje8. Enquanto 2001, no plano internacional, foi o momento de avanço da imposição das pautas culturais do “neoliberalismo de guerra”9, paradoxalmente na Argentina a resistência popular ultrapassou os limites desse modelo de acumulação conhecido como “neoliberalismo”. O Estado neoliberal começou a transitar na direção de um outro Estado, cujos alcances e contornos ainda não estão suficientemente reconhecidos. O “neoliberalismo de guerra” cultivou as noções de “guerra infinita”, do enfrentamento em todo o planeta entre o “Eixo do Mal” e o “Eixo do Bem” – em uma versão fundamentalista da cultura, da história e da política –, dando um novo giro à antiga “Doutrina de Segurança Nacional” – com as diferentes versões da “Segurança Democrática” – que têm como base comum os interesses de conservar e reforçar a hegemonia “política, econômica, social, alimentária, energética, etc.” estadunidense e dos centros do capitalismo mundial. A apropriação de territórios, de bens da natureza, alimentos, biodiversidade, e a destruição dos povos que pudessem constituir obstáculos para tal objetivo, foram justificadas com o argumento da “segurança”, pretendendo legitimar do mesmo modo invasões, massacres de populações, autênticos genocídios. A “guerra dos ricos contra os pobres” assumiu uma dimensão mundial, fazendo crescer de maneira brutal as assimetrias de forças e de oportunidades. Funcionais para o enfoque de estigmatização “dos pobres”, “dos diferentes” e daqueles que desafiam o poder, foram postas em prática diversas expressões de “criminalização da pobreza” e de “criminalização dos movimentos sociais”. Os meios de comunicação desempenharam um papel central na construção de uma subjetividade que destrói os laços de solidariedade, identificando os mais vulneráveis como ameaça para aquela parcela da sociedade que continua com suas necessidades básicas satisfeitas. O discurso da mídia se vê reforçado pelas políticas públicas que fragmentam o campo social, e inclusive o territorial, com propostas diferenciadas de educação, saúde, moradia, construindo geografias que acentuam a distância entre incluídos e excluídos, até dentro dos próprios setores populares. Muitas universidades, centros de pesquisa, fundações e outros âmbitos de produção intelectual que respondem às agendas de interesses apontadas pelo Banco Mundial e pelos grandes centros do poder produzem um amplo espectro de interpretações que tendem à dissociação dos saberes, à funcionalidade com os
7 atentado contra as Torres Gêmeas, e sua interpretação no discurso hegemônico norte-americano. 8 Trabalhamos na análise de casos até junho de 2008. 9 “Neoliberalismo de guerra”, caracterização feita por Pablo González Casanova.

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interesses do poder mundial, à apropriação dos saberes populares e à assimilação inclusive dos discursos progressistas, para fundamentar propostas de desarticulação das possíveis alternativas populares. O discurso pós-moderno age como um poderoso mecanismo de retroalimentação das visões fragmentadas da realidade, esvaziando os espaços de produção de sentidos dos aportes do pensamento crítico e desqualificando-os em função do pragmatismo que tudo transforma em mercadoria, desde a água até a ciência; desde o alimento imprescindível para a vida até os saberes populares que estão sendo patenteados e apropriados pelas corporações transnacionais. Coincidente no tempo, porém com um sentido e uma direcionalidade diferentes, o “basta!” popular, expressado na rebelião de 19 e 20 de dezembro de 2001, foi um momento de desnaturalização e de desorganização de alguns núcleos básicos da cultura capitalista da globalização como: a supremacia da propriedade privada sobre o direito à vida, a mercantilização de todas as dimensões humanas, o conceito positivista de “desenvolvimento”, a alienação do protagonismo popular na representação parlamentar, a colonização do saber, o triunfo de um modo de vida que sepulta a existência humana nos confins da sobrevivência, bem como a legitimação de um modo hierárquico de organização das relações sociais capitalistas, patriarcais e neocoloniais. As tendências contraditórias se expressam, entre outros modos, em discursos que – a partir do poder local – em alguns trechos se “engancham” com a lógica hegemônica, e em outros trechos a problematizam. Assim, embora constitua um avanço significativo na vida cotidiana um conjunto de medidas que os governos pós-rebelião vêm desenvolvendo com intuito de desarticular as políticas de impunidade dos crimes de Estado e mitigar com políticas assistenciais as arestas mais agudas da desproteção social, esses “alívios” são utilizados, ao mesmo tempo, para obturar qualquer crítica às atuais violações dos direitos sociais e políticos, configurando um status quo que multiplica territórios de desigualdade e exclusão, tornando-os estruturais. Dessa maneira, acentua-se uma fratura no discurso dos direitos humanos, que tem dois recortes claramente observáveis: 1) a reivindicação dos direitos humanos em relação às demandas contra os responsáveis da última ditadura militar encontra-se dissociada das demandas pela vigência atual dos direitos humanos “para todos”; e 2) um recorte classista: esse “para todos” que não é reconhecido, está sobredeterminado pela criminalização da pobreza, funcional às lógicas de exclusão estrutural do capitalismo. Se os direitos sociais e os direitos humanos foram arrasados no trânsito ao Estado neoliberal, a crítica realizada a esse modelo de acumulação capitalista pelos setores populares desaparecidos socialmente requer o questionamento de uma versão dos direitos humanos que reproduz em seu interior as lógicas de exclusão.
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É altamente desmoralizante para as novas vítimas das violações dos direitos humanos o fato de alguns organismos históricos desconhecerem, na atualidade, os crimes que são cometidos cotidianamente: as mortes de jovens por “tiros acidentais”, os regimes de torturas e confinamento em delegacias e prisões – que são verdadeiros depósitos de pobres –, as sistemáticas invasões policiais às populações mais vulneráveis, o incremento das figuras legais para castigar aqueles que protestam pela perda de direitos, ou a prisão política de lutadores e lutadoras. É por isso que, com o registro de formas concretas de criminalização social, discutimos o discurso hegemônico de uma fração do movimento de direitos humanos que, ao se fecharem às demandas diante das violações atuais desses direitos, terminam por contribuir para a formação de um consenso hegemônico que isola as novas vítimas do capital.

2.1. Argentina: 1983-2001
A ditadura militar (1976-1983) utilizou o terrorismo de Estado para criar as condições objetivas e subjetivas de reconfiguração do capitalismo que tornaram possível a ascensão do capital especulativo ao posto de comando da economia, e um ininterrupto processo de concentração e centralização da riqueza, estrangeirização da economia por meio das privatizações e do endividamento externo, destruição da natureza, desindustrialização, incremento da exploração e precarização da força de trabalho, e exclusão de extensas faixas da população dos direitos sociais básicos. No se trata apenas da destruição de conquistas históricas dos trabalhadores. Era necessário remodelar a subjetividade forjada nas batalhas populares por aquelas conquistas, deslegitimando o horizonte utópico que propunham as gerações de lutadores e lutadoras dos anos 1970, que imaginavam como projeto possível e desejável a libertação nacional e o socialismo10. Os mecanismos de destruição daquele imaginário de transformação social, tanto o dos setores mais radicalizados da população como o da maioria dos setores populares, foram, primeiro, o uso maciço e intensivo do terror e, na pós-ditadura, a impunidade dos responsáveis pelo genocídio – o que reforçava a internalização do medo11 –, assentados em componentes ideológicos fortemente difundidos a partir dos grandes meios de comunicação, como a “teoria dos demônios”. Por esse dispositivo buscava-se equiparar os responsáveis das violações massivas dos direitos huma10 Por isso, foi sumamente favorável à dominação, à crise e à desestruturação do mundo que se conhecia como “socialismo real”. 11 isto ficou muito evidente quando, em setembro de 2006, aconteceu o desaparecimento de Jorge Julio López, testemunha do julgamento ao repressor Miguel Etchecolatz. Reapareceram então os “fantasmas” alojados no “inconsciente coletivo”. a internalização do medo continua a se reproduzir por ocasião das detenções de ativistas, ou nos atuais seqüestros de militantes, nas ameaças que uma e outra vez se referem aos tempos da ditadura.

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nos, com as correntes que desafiaram a ordem capitalista, para responsabilizar tanto uns como outros pela violência, reforçando a chantagem onipresente do fabuloso castigo que recebem aqueles que se atrevem a questionar a dominação. Colocaram-se em um mesmo plano o terrorismo de Estado e a luta revolucionária, tentando explicitar a diferença entre esses atores históricos e um campo de supostos “inocentes” que ficariam “à margem” enfrentando-se a ambos. Ao suprimir da análise o difícil tema da cumplicidade civil com a ditadura, o que se pretendeu foi romper qualquer identificação entre os setores populares organizados e os movimentos revolucionários, de modo a perpetuar um “status quo democrático”, que não questionasse os limites do sistema de dominação. Mas era necessário avassalar ainda mais a consciência social, desorganizando inclusive o ideário populista, nacionalista, estatizante, que se galvanizou em torno do peronismo. Para esse trabalho, foi fundamental a contribuição do “menemismo”* que “de dentro” do peronismo promoveu a perda da identidade e dos valores da experiência popular, tornando possível, assim, avançar mais claramente na aplicação das políticas neoliberais. O governo Menen foi a expressão mais acabada do projeto sistematizado pelo Consenso de washington12. Conseguiu avançar na desarticulação das resistências que não haviam sido disciplinadas pela ditadura. Mas foi também nessa etapa que começaram a se expressar as lutas populares que desafiaram as conseqüências das políticas neoliberais; e surgiram movimentos que desenvolveram suas estratégias e propostas nos limites da sobrevivência. Diante da perda dos direitos à alimentação, à moradia, à terra, à identidade, desenvolveram-se novas maneiras de protestar, caracterizadas pela ação direta, por formas de organização em assembléias, pela identificação e a confrontação aberta com os fatores do poder responsáveis por estas políticas.

2.1.1. A confrontação com o modelo neoliberal: os primeiros sinais (1989-2001)
Citaremos aqui alguns marcos da mobilização social, desenvolvida entre 1989 e 2001, que dão conta do crescimento das resistências. - Saques em maio/julho de 1989 motivados pela fome13. Puseram fim ao go-

* Refere-se aos partidários do ideário do presidente Carlos Menen (N.da T.).

12 Em novembro de 1989, o institute for internacional Economics realizou em Washington dC um seminário no qual foi sistematizado o “catecismo neoliberal”, em torno de um conjunto de medidas: ajuste econômico, redução do Estado, política antiinflacionária baseada na recessão, desindustrialização, flexibilização das relações de trabalho, disciplina fiscal, taxas de câmbio “competitivas”, liberalização do comércio, investimentos estrangeiros, privatizações e desregulamentação . O debate foi publicado no livro O consenso de Washington (J. Williamson, Latin america adjustment: how much has happened? Washington d.C. 1990). 13 Embora a situação de descontentamento social tenha sido alardeada por “informantes” do Partido Justicialista interessados em desestabilizar o governo radical, a dimensão dos fatos que se desataram está diretamente relacionada com a acumulação de cansaço e enojo diante de situações-limite, como a fome, a miséria, a falta de trabalho.

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verno de Alfonsín14. Embora não representassem um nível de consciência crítica organizada, sua massificação expressou o cansaço popular diante da exclusão. - Década de 1990 – Mobilizações multitudinárias contra a impunidade em Catamarca, pelo esclarecimento do crime contra María Soledad Morales, jovem de 17 anos estuprada e assassinada por criminosos ligados ao poder político. As “Marchas do Silêncio” revelaram a impunidade existente na província. Durante sete anos foram realizadas 83 marchas, que mobilizaram, em algumas ocasiões, mais de 40.000 pessoas. Derrubouse o governo provincial e foram conseguidas algumas condenações de responsáveis, mas o julgamento não chegou ao fim pelo encobrimento político e policial do crime. - 16 e 17 de dezembro de 1993 – O “Santiagazo” Manifestação popular em Santiago . del Estero, iniciada por trabalhadores estatais que eram demitidos ou tinham os salários reduzidos e ficavam vários meses sem receber. A manifestação popu-lar assaltou e incendiou os edifícios dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e as casas de dirigentes políticos e sindicais do governo e da oposição. Na noite do dia 16, o Governador Juárez foi destituído e o Congresso Nacional decretou a intervenção nos três poderes provinciais, aprovando um projeto do Poder Executivo que, simultaneamente, enviou agentes e policiais federais à província. O “Santiagazo” foi um momento de inflexão, a partir do qual começaram a ser desenvolvidos novos níveis de mobilização e ação direta. - 1994-1995 – Grandes mobilizações de trabalhadores municipais e estatais em La Rioja, Jujuy, Salta, Chaco, Tucumán e Entre Ríos. - Jujuy foi centro de importantes lutas dos trabalhadores municipais e estatais, com apoio popular e elevado nível de organização para enfrentar a repressão policial. No dia 29 de março os trabalhadores estatais atacaram a Casa de Governo e a casa do governador. Alguns dias depois, em 4 de abril, tentaram entrar na Legislatura. - Em Salta no dia 8 de abril uma marcha de protesto dos professores terminou com o saque e incêndio de móveis e papéis de dois escritórios da Legislatura. - Em julho foi realizada a primeira Marcha Federal, com colunas que partiram de diferentes pontos do país e convergiram para a Capital Federal, convocada pela Central de Trabalhadores Argentinos (CTA), pelo Movimento dos Trabalhadores Argentinos (MTA, integrante da CGT) e pela Corrente Classista e Combativa (CCC). Estas organizações convocam uma greve geral em agosto de 1994. - Em 1995 multiplicaram-se as mobilizações por todo o país. No dia 12 de abril foi assassinado, durante uma mobilização, o operário da construção civil víctor Choque (37 anos). Foi o primeiro morto durante protestos sociais desde o retorno à
14 É interessante a análise que faz Nicolás iñigo Carrera destes saques. Em uma entrevista publicada no diário Clarín destaca: “– Já tinham ocorrido saques antes de 1989? – Claro que sim. dou uns poucos exemplos: houve saques em Jujuy, em torno dos fatos de 17 de outubro de 1945; no “Rosariazo” em 1969; nos anos 1930 e 1931, quando os desempregados de Villa Esperanza e Villa aceptación chegam até Corrientes e Canning e saqueiam lojas. – O que é, então, que distingue os velhos saques dos novos? – Que em 1989 e 1990 os saques não são um elemento marginal do protesto, mas o protesto em si mesmo... algo similar pode-se dizer dos bloqueios de estrada: sempre houve – nos anos 1970, as ligas agrárias –, mas por algum motivo – talvez porque não estejam inseridos dentro de outro fato dominante, mas porque são o fato em si mesmo – os dos últimos anos são mais significativos”. Nicolás iñigo Carrera. Clarín. 18 jan. 1998. O protesto social que nasceu com o ajuste.

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democracia. Nessa repressão, realizada pela Polícia da Terra do Fogo, houve outros 26 feridos. O Governador era José Estabillo, o Ministro do Interior, Carlos v. Corach e o Presidente, Carlos S. Menen. A polícia provincial recebeu o apoio do governo nacional, que enviou 300 agentes de reforço. - 1995-1996 – Importantes mobilizações docentes e estudantis em oposição à Reforma Educativa. - Junho de 1996 – Manifestações populares em Cutral Có e na Praça Huincul (Neuquén). No dia 20 de junho, 1.000 pessoas bloquearam a estrada contra o despejo. Em 26 de junho, diante da chegada de 400 agentes com ordens de liberar a estrada, 20 mil pessoas – quase a metade dos habitantes dessas localidades – se autoconvocaram para o bloqueio. - 26 de setembro – Mobilização no âmbito da greve geral de 36 horas declarada pela CGT com o apoio da CTA, que reuniu mais de 70.000 pessoas. - 1997 – Manifestações populares em Cutral Có (Neuquén), Tartagal e General Mosconi (Salta), em Cruz del Eje (Córdoba) e em diferentes localidades de Jujuy15. Em 1997 houve 104 bloqueios de estrada em todo o país16. - Em abril a manifestação popular em Cutral Có começa com uma mobilização docente. Em 12 de abril de 1997, foi assassinada Teresa Rodríguez (empregada doméstica, 24 anos)17. - Maio de 1997 – Manifestação popular em Libertador General San Martín (Jujuy), estendida a 21 bloqueios de estrada em diferentes localidades. Multiplicaram-se as “cozinhas comunitárias” e as “Multissetoriais”* A luta forçou a renúncia de três governadores de Jujuy. - De 7 a 14 de maio – Primeiro bloqueio de estrada em Mosconi e Tartagal (Salta). Foi iniciado pelos comerciantes de Tartagal, pelos devedores do Banco da Nação, do Banco da Província, pelos madeireiros e pelos ex-trabalhadores da YPF (empresa petrolífera). Participaram 15.000 pessoas. - Os bloqueios de estrada em massa – piquetes - de Cutral Có, Jujuy e Mosconi, marcam o nascimento do movimento “piqueteiro”, integrado principalmente por trabalhadores desempregados, ou por trabalhadores que vêem que os
15 “Os governadores de Neuquén e de Jujuy tiveram que sentar para escutar os manifestantes – o próprio povo – e negociar com eles. Foi interessante: o povo estava reunido diante das autoridades, sem mediadores. Nessa relação direta já há formas concretas de organização que talvez depois não se institucionalizem. Mas se forem dissolvidas podem reconstituir-se rapidamente. E essas organizações mostram que já têm metas, objetivos precisos e diversos.” Nicolás iñigo Carrera. Ob. cit. 16 Entre 1989 e 1996, a imprensa escrita informou a realização de 1.734 manifestações de protesto. Entre elas, apenas 50 foram de bloqueio de estradas, ou seja, menos de 10 por ano. Federico Schuster. Protestas sociales en argentina 1989-1996. informe sobre la situación de los derechos Humanos en argentina 1997, Buenos aires: CELS-EudEBa, p. 362, 1998. 17 Seu assassinato continua impune: o inquérito por homicídio está arquivado, com os imputados absolvidos. Os quatro policiais condenados por abuso de armas receberam uma sentença que foi suspensa, o que evitou que fossem presos e já voltaram à ativa. do governo nacional, o Ministro do interior Carlos Corach advertiu sobre “rebrote subversivo” para justificar a repressão. O governo provincial de Felipe Sapag reagiu argumentando que o tiro pode ter sido dado por franco-atiradores, mas as perícias indicaram que saiu de uma arma 9 milímetros, o calibre usado pela polícia. O presidente era Carlos Menem.

* Multisetorial: agrupamento de várias organizações populares e sindicais com uma finalidade comum (N. da T.).
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seus postos de trabalho estão ameaçados diante do avanço das políticas de privatização e suas conseqüências. - Entre os dias 8 e 11 de julho realizou-se a Segunda Marcha Federal, sob a denominação de “Marcha por Trabalho para Todos”. - 1999 – Junho-dezembro – Acampamento de autoconvocados e bloqueio da ponte Corrientes – Chaco. No dia 17 de dezembro houve forte repressão policial (uma semana depois da posse do governo de Fernando De La Rúa). Foram assassinados Mauro Ojeda (18 anos, desempregado) e Francisco Escobar (25 anos, papeleiro) e houve 28 feridos18. O governo de Fernando De La Rúa decretou Intervenção Federal. - De 11 a 21 de dezembro de 1999 – Bloqueio de estrada pela União de Trabalhadores Desempregados de General Mosconi, em Refinor. Começa a ser bloqueada a entrada a centros de produção, principalmente o petroleiro; produzemse o choque e as negociações diretamente com as transnacionais. - 2000-2001 – Manifestações Populares em General Mosconi e Tartagal (Salta). No dia 9 de maio de 2000 foram assassinados Orlando Justiniano (21 anos, pedreiro) e Matías Gómez (18 anos). Em 10 de novembro foi assassinado Aníbal verón (37 anos, funcionário da empresa de transportes Atahualpa). Começa a revolta popular. Em Tartagal foi incendiada a sede da polícia, o diário El Tribuno, a empresa de transportes Atahualpa, e a Empresa Distribuidora de Energia S.A. (Edesa); houve saques ao comércio. Em Mosconi puseram fogo na Prefeitura, na Secretaria de Finanças, na polícia e na casa do intendente. Junho de 2001: bloqueio de estrada. Foram assassinados Oscar Barrios (17 anos, desempregado) e Carlos Santillán (27 anos, desempregado). Houve oito feridos à bala. - Tanto em La Matanza como no sul da grande Buenos Aires a ação coordenada entre setores sindicais, de desempregados e de organizações locais, fortaleceu a presença pública dos piquetes no principal conjunto industrial do país. A Federação de Terra e Habitação (FTv) organizou, em 2001, o “Matanzazo”. Durante cinco dias um piquete manteve bloqueada a Rota n.º 3 e fez com que o protesto se localizasse muito perto do poder central. Cinco mil moradores se instalaram na estrada e outros 20 mil se mobilizaram até o local para solidarizar-se. - 19 e 20 de dezembro de 2001 – Rebelião generalizada em diversas cidades do país, com epicentro na Capital Federal, o que provocou uma profunda
18 a repressão foi realizada pela Polícia Nacional, sob as ordens de Ricardo alberto Chiappe, ex- repressor nos campos de concentração de La Perla e Campo de Mayo. O Ministro do interior era Federico Storani, e o Presidente, Fernando de La Rúa.

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crise institucional. Com a repressão, 37 foram assassinados19 e houve centenas de feridos. Segundo informe do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS)20, durante esses dias foram detidas 4.500 pessoas em todo o país. A rebelião provocou a caída de Fernando De La Rúa. - Em 28 de dezembro de 2001 produziu-se um novo “panelaço” na Plaza de Mayo e em distintos bairros portenhos. Doze policiais ficaram feridos e mais de 30 pessoas foram presas nos arredores da Plaza de Mayo e do Congresso. No dia 30 de dezembro de 2001 o Presidente Adolfo Rodríguez Sáa apresentou sua renúncia irrevogável perante a Assembléia Legislativa. No dia 1.º de janeiro de 2002 a Assembléia Legislativa elegeu como presidente da Nação Eduardo Duhalde. O acordo político que levou Eduardo Duhalde à Casa Rosada integrou a União Cívica Radial (UCR) e parte da Frente País Solidário (Frepaso). Diante da crise de representação o poder cerrou filas.

2.1.2. Alguns dados gerais desse período
- Na década de 1990 aconteceram nove greves gerais nacionais21. Um estudo realizado pelo Grupo de Estudos sobre Protesto Social e Ação Coletiva, do Instituto Gino Germani da Universidade de Buenos Aires, considerando o total
19 O nome dos companheiros/as assassinados/as são: Graciela acosta, 35 anos, Santa Fe; Carlos “Petete” almirón, 23 anos, Buenos aires; Ricardo alvarez Villalba, 23 anos, Rosario; Ramón arapi, 22 anos, Corrientes; Ruben aredes, 24 anos, Ciudad Oculta; Elvira avaca, 46 anos, Cipolletti, Rio Negro; diego avila, 24 anos, Villa Fiorito, Buenos aires; Gustavo ariel Benedetto, 23 anos, Plaza de Mayo; Gastón Riva, 30 anos, motoqueiro, Buenos aires; Walter Campos, 17 anos, Rosario; Jorge Cárdenas, 52 anos, ferido perto do Congresso, faleceu vários meses depois; Juan delgado, 28 anos, Rosario; Víctor ariel Enríquez, 21 anos, almirante Brown, Buenos aires; Luis alberto Fernández, 27 anos, Tucumán; Sergio Miguel Ferreira, 20 anos, Córdoba; Julio Hernán Flores, 15 anos, Merlo, Buenos aires; Yanina García, 18 anos, Rosario; Roberto agustín Gramajo, 19 anos, almirante Brown, Buenos aires; Pablo Marcelo Guías, 23 anos, San Francisco Solano, Buenos aires; Romina iturain, 15 anos, Paraná, Entre Ríos; diego Lamagna, 26 anos; Cristian Legembre, 20 anos, Castelar, Provincia de Buenos aires; Claudio “Pocho” Lepratti, 35 anos, Rosario; alberto Márquez, 57 anos, Buenos aires; david Ernesto Moreno, 13 anos, Córdoba; Miguel Pacini, 15 anos, Santa Fe; Rosa Eloisa Paniagua, 13 anos, Entre Ríos; Sergio Pedernera, 16 anos, Córdoba; Rubén Pereyra, 20 anos, Rosario; damián Vicente Ramírez, 14 anos, Gregorio de Laferrere, Buenos aires; Sandra Ríos, 19 anos, avellaneda, Buenos aires; José daniel Rodríguez, Paraná; Mariela Rosales, 28 anos, Lomas de Zamora, Buenos aires; ariel Maximiliano Salas, 30 anos, Gregorio de Laferrere, Buenos aires; Carlos Manuel Spinelli, 25 anos, Pablo Nogués, Buenos aires; Juan alberto Torres, 21 anos, Corrientes; José Vega, 19 anos, Moreno, Buenos aires. Fonte: arquivo de Casos elaborado pela Coordenadoria contra a Repressão Policial e institucional Policial e institucional (CORREPi) e outros informes provinciais. 20 O protesto de dezembro de 2001 na argentina – CELS. 21 Em 9.11.1992, convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) por 24 horas; em 2.8.1994, convocada pelo Congresso (depois Central) dos Trabalhadores argentinos (CTa) e pelo Movimento de Trabalhadores argentinos (MTa) por 24 horas; em 21.4.1995, convocada pela CTa e pelo MTa por 24 horas; em 6.9.1995 convocada pela CGT com adesão da CTa e do MTa por 12 horas, com mobilização da CTa e cozinhas solidárias do MTa. Em 26 e 27.9.1996 convocada pela CGT, incluído o MTa, com adesão da CTa por 36 horas com mobilização para a Praça de Maio; em 26.12.1996, convocada pela CGT (com exceção de alguns dirigentes menemistas) com adesão da CTa e do MTa por 24 horas sem mobilização; em 14.8.1997, por 24 horas com mobilizações no interior do país, convocada pela CTa, pelo MTa, pela Corrente Classista e Combativa (CCC), e pela união Operária Metalúrgica (uOM) (apesar de fzaer parte da CGT, que não adere à greve) e as 62 Organizações Peronistas; em 6.7.1999, convocada pela CTa por 24 horas com mobilização (Jornada de Protesto Nacional).

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do período 1989-200322, destaca: Entre o final de 1999 e o final de 2002 é mais difícil identificar um ciclo de protestos. No entanto, apesar do ritmo mais descontinuado, a partir do segundo trimestre de 2000 até o primeiro trimestre de 2002, cada uma das fases de intensificação dos enfrentamentos é mais importante que a anterior, em termos de quantidade de protestos. Os dados levantados mostram que as crises políticas não se produzem necessariamente como conseqüência de um incremento na quantidade de protestos. Em outros termos: a quantidade – ou o volume – de protestos não mantém uma relação direta com o seu impacto político. Em 1997 houve 56% a mais de protestos que ao longo de 2001; entretanto, as conseqüências estratégico-institucionais daquelas foram significativamente menores que as destas. Considerando todo o período, 2001 é um dos três anos com menor quantidade de protestos. Inclusive, durante esse ano registraram-se mais protestos no segundo trimestre que durante o quarto, quando terminou abruptamente o governo de Fernando de La Rua. [...] Não obstante, o impacto político dos protestos de 2001 em geral, e os do último trimestre em particular, foi notável, tanto no que se refere a sua performance política como a suas conseqüências estratégicoinstitucionais. As manifestações de 2001 – e talvez também as do ano seguinte – foram massivas e envolveram maior quantidade de medidas de ação direta, embora não tenha crescido o número total de protestos. Por outro lado, um processo crescente de organização dos atores ou um maior nível de articulação podem explicar também uma menor quantidade global de protestos. Esse argumento também pode ser considerado de outro ponto de vista: enquanto em 1997 apenas uma de cada quatro manifestações de desempregados tinha uma organização de piquetes como motor da ação, em 2001 essa proporção se eleva a quase metade do total, para chegar aos 61% em 2002. É necessário considerar também, que em 2002 as organizações “piqueteiras” protestaram em uma proporção similar à dos sindicatos. Um relatório do CELS sublinha:
22 Transformações dos protestos sociais na argentina 1989-2003 – Federico L. Schuster – Germán J. Pérez – Sebastián Pereyra – Melchor armesto – Martín argelino – analía García – ana Natalucci – Melina Vázquez – Patricia Zipcioglu GEPSaC (Grupo de Estudos sobre Protestos Sociais e ação Coletiva) Maio de 2006 – instituto de Pesquisa Gino Germani – Faculdade de Ciências Sociais – universidade de Buenos aires – argentina. disponível em: http://www.iigg.fsoc.uba.ar

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Em 1997 houve 104 bloqueios de estrada em todo o país e esta prática foi se incrementando durante os anos seguintes. Em 1998, uma rodovia foi bloqueada por semana, em 1999, uma a cada dia e meio, e em 2000 houve pelo menos um bloqueio diário. Em 2001, a média foi de quatro a cinco bloqueios por dia... Muitas ações das pessoas que participaram em manifestações durante a segunda metade da década de 1990 foram consideradas ilegais pela justiça criminal, impedindo que pudessem encontrar amparo no exercício legítimo do direito à liberdade de expressão. Foi registrada a imposição de condenações a manifestantes e ativistas, mas o fenômeno de maior transcendência foi o fato de os participantes terem sido processados. Além disso, em muitas outras ocasiões as manifestações populares foram reprimidas ilegalmente por forças de segurança da Nação ou das províncias. Estes casos se caracterizaram por um uso abusivo da violência, o que produziu várias mortes e uma grande quantidade de feridos em todo o país, durante toda a década.

2.2. os dias 19 e 20 de dezembro de 2001
Não é objetivo deste trabalho analisar profundamente o conjunto de sentidos discutidos pela rebelião popular de 19 e 20 de dezembro de 2001. Mas é imprescindível apontar esse momento como o ponto de virada nas possibilidades de as classes dominantes aplicarem o modelo neoliberal com o desenho de governabilidade que vinha sendo sustentado até então. O conflito social se alastrava pelo país. A capacidade de destituir intendentes, governadores, ministros e inclusive presidentes dava conta de uma forte crise de legitimidade da direção política do país que tinha emergido do Pacto de Olivos23. A palavra de ordem central dessas jornadas – “que se vão todos” – assinalava os alcances e também os limites do momento. A energia desatada naquelas jornadas prolongou-se por vários meses. No espaço liberado na subjetividade popular, multiplicaram-se assembléias populares, movimentos “piqueteiros”, fábricas sem patrões, movimentos culturais, meios de comunicação alternativos. Entre as características principais destes movimentos está a desconfiança do poder e do Estado, dos partidos políticos tradicionais, das hierarquias; o desenvolvimento de formas assembleísticas de organização e de democracia de base, métodos de luta de ação direta, propostas de construção de poder popular, centradas no trabalho territorial. Desenvolveram-se respostas autônomas à exclusão,
23 O Pacto de Olivos foi um conjunto de acordos destinados a manter a governabilidade, firmados em 1993 entre o ex-presidente Raúl alfonsín e o então presidente Carlos Menem. Este pacto possibilitou a Reforma da Constituição argentina em 1994.

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dirigidas a reinventar o trabalho, a resolver coletivamente o problema da comida, da saúde, do lazer, a compartilhar a poesia, as apresentações musicais, a multiplicar as mensagens radiais e nos meios alternativos de comunicação… Expressou-se a decisão de recuperar o perdido e de reinventar o necessário. Nenhum dos projetos políticos existentes conseguia canalizar toda essa energia, e nenhum deles era suficientemente confiável para os setores mobilizados. A Argentina plebéia tornou-se um gigantesco laboratório de ensaios de alternativas. Multiplicaram-se formas de resistência. Nos dias 19 e 20 de dezembro se generalizaram as manifestações populares, com epicentro na Capital Federal. O espaço público foi recuperado. A memória foi honrada com a ocupação simbólica da Plaza de Mayo. Para aqueles que haviam reescrito a arquitetura das relações sociais, colocando o protagonismo nas repartições oficiais e circunscrevendo a participação à representação parlamentar, essas jornadas sacudiram a rotina das práticas políticas e de suas interpretações acadêmicas. Diante do privado emergiu o público; diante do individual, o social; diante da implosão, a explosão. Os saques generalizados daqueles dias foram – no terreno simbólico – operações coletivas de recuperação do que havia sido expropriado de forma selvagem pelo grande capital. O incêndio dos grandes bancos e das financeiras foi uma maneira de “marcar a ferro e fogo” os símbolos da nova ordem mundial: as catedrais do dinheiro. Foi uma insurreição da dignidade, de povos levantando-se de décadas de esmagamento. A rebelião foi um ato de saúde social que ameaçou a impunidade dos poderosos. Os escrachos que aconteciam em qualquer lugar em que se identificasse um símbolo do poder levaram seus representantes a se sentir vulneráveis, o que logo se traduziu na exigência do restabelecimento da “ordem” perdida. Esses setores logo se constituíram em ativos demandantes de políticas de “segurança cidadã”, que pretendiam desalojar o espaço público, confinar os excluídos nos territórios de miséria, exigindo “mão dura” para quem saísse deles. A rebelião colocou em evidência a ausência de alternativas populares que dessem rumo à energia desatada a partir do coração indignado dos pobres, mas atuou como fator reconstituinte de energias, de subjetividade, de consciência, de memória, de cultura de rebeldia e de novas formas de organização popular.

2.3. A institucionalização e a domesticação do protesto social
O bloco de poder compreendeu que não poderia continuar aplicando as mesmas receitas que provocaram a rebelião e percebeu que estava esgotada a equação de neoliberalismo e governabilidade. Suspeitou que já não havia condições
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para uma política fundada no autoritarismo, quando o povo na rua derrogou, em 19 de dezembro, o Estado de Sítio decretado por De La Rúa. Desde os dias 19 e 20 de dezembro de 2001 até o dia 26 de junho de 2002, o movimento popular continuou a dinâmica de mobilização social. Um relatório da Secretaria de Segurança Interior do Ministério de Justiça publicado em 2002 no diário Clarín, intitulado “Conflituosidade social na República Argentina” , que compreende os meses de janeiro a maio desse ano, refere-se ao levantamento de um total de 11.000 manifestações no período. Surgiram novas formas de protesto, como ações diretas contra os centros produtivos das transnacionais e mobilizações contra as políticas destruidoras da natureza. O governo de Eduardo Duhalde eludiu a crise com base em um conjunto de medidas destinadas a restabelecer “a ordem”: a multiplicação das políticas assistenciais nas zonas de maior conflito24, a criminalização do movimento “piqueteiro” e a antecipação das eleições. Nesse contexto ocorreu um duro embate entre os setores populares que tentavam manter os espaços ganhos e as lógicas do poder que combinaram medidas judiciais e policiais dirigidas à “normalização” do país. Destacam-se nessa etapa alguns fatos repressivos destinados a forçar o recuo dos movimentos populares: - Em 6 de fevereiro de 2002 um veículo “Ford Falcón” invadiu um bloqueio de estrada realizado pelo Movimento de Trabalhadores Desempregados (MTD) sobre a Rota 205 na cidade de Jagüel, no marco de um plano de luta reclamando emprego e alimentos para os comedores populares. Seu condutor era Jorge “Batata” Bogado, um conhecido “informante” vinculado ao intendente de Ezeiza, Alejandro Granados – ontem duhaldista, anteontem menemista e hoje kirchnerista –, que desceu do veículo atirando e feriu mortalmente um dos manifestantes, Javier Barrionuevo (31 anos, peão), militante do MTD local. A pressão da mobilização popular colocou Bogado atrás das grades, acusado de homicídio simples, embora uma sentença da Câmara tenha permitido que aguardasse o julgamento em liberdade, com certas restrições.

2.4. Continuidades e rupturas no governo de Kirchner
O governo de Néstor Kirchner (25 de maio de 2003 – 10 de dezembro de 2007), resultado da nova correlação de forças, terminou sendo o instrumento mais capaz das frações das classes dominantes para conter e disciplinar a energia popular, a partir de uma política cultural ancorada em dados básicos da identidade e das lógicas políticas do peronismo: a resolução a partir do Estado–governo das
24 No ano de 2002 produziu-se o auge da pobreza, que alcançou 56,8% da população.

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demandas foi oferecida como mecanismo quase único de ação política “viável”. A disjuntiva proposta foi: “integrar-se” ao governo e seus mecanismos de clientelismo e de cooptação política, ou ficar confinados a lugares de exclusão. Assim, conseguiu-se reverter o crescente desafio ao modelo, avançando-se em um processo de domesticação das rebeldias, tendente à institucionalização das organizações populares, ao fechamento do espaço público e à reorganização de núcleos ideológicos substanciais à dominação. Segundo Maristella Svampa: [...] o governo nacional não teve dúvidas em alimentar a estigmatização do protesto – contrapondo a mobilização de rua à exigência da “normalidade institucional” –, impulsionando ativamente a difusão de uma imagem da democracia supostamente “acossada” pelos grupos de piquete. Pouco importava que as decisões governamentais dessem conta de um vaivém perigoso que ia da ameaça de tratar judicialmente o reconhecimento das necessidades dos desempregados, do questionamento da representatividade das organizações, à afirmação do direito legítimo de protestar, da proposta de criar uma brigada “anti-piquete” ou impedir o acesso dos piqueteiros à Plaza de Mayo, à declaração – uma e mil vezes repetida – de que o governo nacional não reprimiria. O cenário principal desta desigual contenda política entre o governo nacional e as organizações opositoras de desempregados foi à cidade de Buenos Aires. Foi em suas ruas, em suas praças, em seus edifícios públicos, que chegou à sua máxima expressão e corolário essa pugna desigual entre os que clamavam pela institucionalização e exigiam o recuo das forças mobilizadas (a demanda do instituído) e os diferentes atores mobilizados, especialmente as organizações de desempregados (a demanda dos excluídos). O resultado foi o avanço do tratamento judicial e da criminalização dos conflitos sociais e a instalação de um forte consenso antipiquete, sustentado e apoiado por amplos setores da opinião pública25. A ascensão de Néstor Kirchner gerou nos setores populares, cansados de exclusão, uma esperança de mudança de rumo, a partir de um discurso oficial que se tornou forte com um conjunto de símbolos significativos em relação aos reclamos históricos dos movimentos, e o incremento – que já estava sendo efetivado desde que assumiu Eduardo Duhalde – dos planos assistenciais. A sensação de melho25 as fronteiras do governo de Kirchner: entre a consolidação do velho as aspirações do novo. 24 jul. 2006. disponível em: <www.maristellasvampa.net>.

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ria foi reforçada por certa reativação econômica, conseqüência da passagem a um modelo produtivo orientado para a substituição de importações, favorecido pela rentabilidade das exportações (de milho, soja transgênica, minérios, petróleo, entre outras), beneficiadas pela desvalorização e pelos altíssimos preços internacionais. Em um curto resumo do rumo econômico assumido pelo governo de Kirchner, escreve Claudio Katz26: A conjuntura internacional favorável, o barateamento de ativos e a virada da política econômica induzem a gestação de um modelo neodesenvolvimentista. O esquema atual recolhe a centralidade agrária do regime agro-exportador, a prioridade industrial da substituição de importações e a regressão social do caminho neoliberal. O governo transfere subsídios aos empresários porque privilegia a revitalização da indústria. Com a troca da dívida e o pagamento antecipado ao FMI procurou reduzir o veto dos credores a essas subvenções e ao seu corolário cambial. Também são regulamentados os serviços privatizados para reduzir os custos industriais e incrementar o resguardo fiscal ante futuras crises. Ao propiciar o agrocapitalismo concentrado, há um crescimento de renda que os ruralistas não querem compartilhar. O aumento dos benefícios e da produtividade não se transfere aos salários. O esquema atual convalida a informalidade, estimula as altas taxas de exploração e transfere aos trabalhadores precarizados a pobreza que inicialmente golpeou os desempregados. Também afiança a desigualdade e posterga os aposentados. Apesar do incremento da arrecadação, não é modificado o sistema tributário regressivo. As primeiras medidas assumidas por Kirchner, no marco de uma crise de representação tão forte, visaram restabelecer a legitimidade das instituições questionadas pela rebelião: mudanças na Corte Suprema de Justiça (para acabar com a hegemonia menemista), troca da cúpula militar, pressão sobre o Parlamento para conseguir “superpoderes”. A política de direitos humanos, de solução de dívidas históricas ligadas à ditadura, foi o timão de proa do discurso oficial para chegar a um consenso que permitisse restabelecer níveis básicos de credibilidade. Paradoxalmente, essas conquistas favoreceram a prédica que deslegitimava qualquer reclamação nesse campo. A desqualificação de reconhecidos lutadores quando não acompanhavam o rumo governista foi realizada por representantes principais do governo e também por certas lideranças históricas na defesa dos direitos huma26 a virada da economia argentina. Claudio Katz. La Haine, 3 fev. 2007.

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nos. Foi sendo gerado um imaginário com vítimas de “diferentes status”. Se para os excluídos e as excluídas as chaves do consenso ao governo foram as políticas assistencialistas, para os setores médios a chave foi a política de direitos humanos.

2.4.1. exclusão e a precarização da vida
Uma pesquisa coordenada por Claudio Lozano27 demonstra que, considerando todo o período de crescimento de 2003 a 2007, 20% da população de maiores recursos apropriou-se de 50% da renda gerada pelo processo de crescimento econômico; 30% da população de maiores recursos capturou 62,5% das rendas geradas nesse período. O reverso desta brutal apropriação de renda é a constatação de que os 70% restantes só ficaram com 37,5% dos novos rendimentos. E para 40% da população de mais baixa renda só restaram 12,8% de toda a renda gerada. Por sua vez, Claudio Katz28 assinala: A política social regressiva constitui o ponto de maior continuidade entre o rumo econômico atual e seu precedente neoliberal-financeiro. O PIB já se situa em um nível superior ao do começo da crise (1998), mas nenhum indicador social recuperou esse patamar... Em 2005, 77% das companhias com ações na bolsa declararam incrementos muito significativos, e o lucro das 500 principais empresas do país duplicaram os obtidos dois anos antes. As cifras da produtividade são mais contundentes e se situam no nível mais alto dos últimos 15 anos. Atualmente são fabricados mais produtos com menos trabalhadores, porque os custos foram de 16% a 30% mais baixos que em 2001. O modelo bloqueia a transferência dessas melhorias para os salários que, em média, estão 20% mais baixos que os que prevaleciam antes do início da crise... O esquema regressivo dos salários afeta duramente os trabalhadores informais. Existe um terrível abismo entre a renda média dos precarizados (391 pesos) e dos formalizados (1.072 pesos). No primeiro segmento está situado 44% da força de trabalho, 60% dos empregados que não ganham o suficiente para comprar uma cesta básica e 30% dos que sofrem a indigência. O emprego sem registro não é uma atividade marginal. Encontra-se amplamente difundido em ramos de alta rentabilidade (como a agricultura e a construção civil) e inclui o próprio setor público, que mantém 11,7% de seus funcionários sem formalização...
27 Crescimento e distribuição: notas sobre o acontecido 2003-2007, publicada pelo instituto de Estudos e Formação da CTa. 28 Claudio Katz. Op.cit

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O esquema neodesenvolvimentista sustenta os capitalistas industriais à custa da maioria popular. Este modelo inclui um estratégico alicerce no setor agrário que relembra o esquema agro-exportador. Diferentemente da indústria, o PIB desta área cresceu de forma ininterrupta nos últimos quinze anos a uma elevada taxa de 5,7%, sem enfrentar nenhum freio significativo. Mas este impulso consolida um esquema baseado na proeminência da soja, na destruição dos cultivos regionais, no deslocamento dos camponeses e na concentração da terra. Aprofunda a modernização capitalista que gerou um grande salto de produção, com lucros para poucos e tecnologias que ameaçam a fertilidade da terra”.

2.4.2. As políticas de criminalização dos movimentos populares
A íntima relação entre as características atuais do modelo neoliberal e a política de criminalização da pobreza e dos movimentos de resistência não é advertida – ou é ocultada – por aqueles que tratam cada caso de “gatilho fácil”29, de repressão institucional ou de estigmatização pela mídia de um movimento popular, como “excessos” cometidos por determinadas forças policiais, ou por determinados governos locais. Nesta etapa, as mobilizações sociais continuaram, mas com organizações fragmentadas pela forte incidência das políticas oficiais, agravando-se os processos de ruptura e inclusive de enfrentamento entre diferentes frações do campo popular, estimulados pela beligerância governamental tendente à cooptação de alguns e à estigmatização daqueles que não entraram no jogo. Em seguida mencionamos alguns dos conflitos que expressam um salto nas políticas de criminalização dos movimentos sociais, de sua judicialização, no fechamento de espaços públicos, ou na militarização de algumas regiões do país, bem como a continuidade das resistências30.

29 Gatilho fácil é o nome utilizado na argentina para fatos de abuso de poder no uso de armas de fogo por parte da polícia. Em geral, as vítimas do gatilho fácil são, sobretudo, jovens pobres das periferias, vítimas de processos de disciplinamento compulsório realizado pelas forças policiais. a Correpi (Coordenadoria contra a Repressão Policial e institucional) tipifica este método como execuções sumaríssimas aplicadas pela polícia e que, geralmente, costumam ser encobertas como “enfrentamentos”. Esta “pena de morte extralegal” se distingue por duas etapas: o fuzilamento e o encobrimento. 30 Estes dados foram selecionados das cronologias do conflito social, realizadas por OSaL (Observatório Social da américa Latina), CLaCSO. disponível em: <http://www.clacso.org.ar/difusion/secciones/osal/>.

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2003
- 18 de julho – Piqueteiros marcham até a casa de Governo do Chaco reclamando o subsídio de desemprego, o envio de comida para os bairros pobres, assistência para os aborígines e a “cessação da criminalização do protesto social”. A casa de governo é invadida. - 25 de setembro – Piqueteiros bloqueiam as bilheterias do metrô em demanda de 500 postos de trabalho. A polícia reprime com um saldo de dez detidos e dois feridos. - Piqueteiros se instalam diante do Ministério de Desenvolvimento Humano e Trabalho, em La Plata, em demanda de assistência social e alimentar. A polícia reprime, três pessoas são detidas e 50 retidas para averiguação. - 26 de setembro – Três mil pessoas marcham por Mendoza para expressar seu rechaço à anunciada presença de efetivos das forças armadas norte-americanas, no marco do operativo Águia III. Conseguem que o operativo seja suspenso. - 9 de outubro – Manifestação popular em Libertador General San Martín, Jujuy, pelo assassinato de Cristian Ibáñez (24 anos), que apareceu morto em uma delegacia. O protesto culminou com saques ao comércio e destruições na delegacia e no centro da localidade. Durante esses enfrentamentos, Luis Marcelo Cuellar (19 anos) morreu baleado. Os jovens eram militantes da Corrente Classista e Combativa (CCC)31. - 4 de novembro – 30 mil pessoas marcharam até a Plaza de Mayo com a palavra de ordem “Por trabalho e salário, romper com o FMI. Não à criminalização do protesto”. Repudiaram as versões da criação de uma brigada antipiqueteira. - 20 de novembro – A polícia de Salta desalojou os piqueteiros que desde o dia 4 de novembro mantinham bloqueada a entrada à destilaria de Campo Durán. Os moradores de Mosconi saíram de suas casas ao ouvir a notícia da repressão em uma rádio local. Ocuparam uma petroleira e incendiaram um tanque de combustível. Entraram nos escritórios das empresas Refinor e Tecpetrol, sacaram computadores e os queimaram na Rota 34. Tentaram ocupar outros locais onde estavam as forças policiais. Oito manifestantes foram detidos. À noite bloquearam a entrada da cidade para pedir a liberdade dos presos. A UTD denunciou que a destruição das máquinas foi provocada por efetivos policiais infiltrados na manifestação. - 25 de novembro – 200 desempregados realizaram uma assembléia no bairro San Lorenzo, em Neuquén, para protestar contra a decisão do governo lo31 Nilda de ibáñez, a mãe do jovem que apareceu morto no calabouço, recordou que “em Jujuy há vários jovens que apareceram mortos nas delegacias como vítimas de suicídio, mas o meu filho foi morto pelos efetivos, e os golpes são evidentes em todas as partes do corpo”.

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cal de utilizar cartões bancários para o pagamento de planos sociais municipais e provinciais. Foram reprimidos pela polícia. Durante todo o dia os moradores se somaram ao protesto que se estendeu às zonas próximas. Os manifestantes responderam com pedras e barricadas para impedir o avanço policial com motos, carros fortes e outros veículos. A repressão deixou 22 pessoas feridas, sendo cinco com balas de chumbo.

2004
- 27 de janeiro – Rosario. Assassinato de Sandra Cabrera, dirigente da AMMAR (trabalhadoras sexuais) de Rosario. Suas companheiras asseguram que o autor material está ligado à polícia provincial. Sandra havia denunciado nos Tribunais da Província de Santa Fé os Chefes da Divisão de Moralidade Pública da Polícia por “receber dinheiro dos bares para impedir o trabalho das mulheres na rua e tirar do mercado as competidoras; por amparar locais de exploração sexual infantil e por cobrar propinas das prostitutas para não levá-las presas” (volante da CTA de Rosario). Sandra e sua filha de oito anos haviam sido ameaçadas várias vezes. No dia 9 de janeiro, por ordem do subsecretário de Segurança, Alejandro Rossi, foi retirada a proteção policial da casa de Sandra. Rossi argumentou: “Não podemos dar proteção pessoal para uma prostituta de rua”. - 26 de março – Mulheres piqueteiras ocuparam o depósito de tanques de petróleo cru da empresa Termap, em Caleta Oliva, demandando postos de trabalho. - 28 de março – Em Santiago del Estero 10 mil pessoas convocadas por familiares e amigos das jovens assassinadas no duplo crime de La Dársena, Leyla Bshier Nazar e Patricia villalba, marcharam para apoiar o anúncio de intervenção federal na província. A governadora e seu marido foram presos. - 30 de março – Ocupação da sede comercial da Repsol-YPF na Capital Federal. No expediente aparecem filmes, fotografias e outras ações de inteligência desenvolvidas sobre as organizações que participaram do fato. O ex-juiz federal Juan José Galeano autorizou, a pedido do promotor Carlos Stornelli, que fossem realizadas tarefas de inteligência sobre o Movimento Teresa Rodríguez. - 12 de abril – O governador de San Luis ordenou que fossem reprimidos os professores que ocupavam a Legislatura. Trinta mil pessoas marcharam exigindo a intervenção na província. - 29 de abril – Em uma megaoperação, na qual intervieram mais de quinze efetivos da 6.ª Delegacia de La Plata, o Comando Patrulha e o Grupo de Prevenção Urbana deteve em casa a Gabriel Roser, militante do MUP (que é parte da Frente
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Darío Santillán), destruindo parte das instalações do “copo de leite” que funcionava ali. Acusado de roubo ao supermercado de um ex-agente dessa delegacia – o que foi uma armação, como ficou demonstrado no processo judicial –, Gabriel Roser foi libertado depois de um ano e sete meses de detenção. - 30 de abril – Duas mil pessoas da Multisetorial de San Luis cercaram o edifício do Poder Executivo com piquetes em demanda da renúncia do governador. Foram reprimidos violentamente pela polícia, com um saldo de 15 feridos e 55 detidos. - 5 de maio – Foi aprovada a Lei 25.892, que endureceu os procedimentos para solicitar e outorgar a liberdade condicional. - 4 de junho – Piqueteiros marcharam por La Plata, armados com bastões e com os rostos cobertos, para reclamar que fosse investigada a morte de um militante em um caso de gatilho fácil. Assim, desafiaram a disposição pedida por um promotor para que fossem filmados os manifestantes que se negassem a deixar seus bastões e a descobrir os rostos para protestar. - 25 de junho – Foi assassinado com sete tiros, em sua casa, Martín “Oso” Cisneros, dirigente do Comedor Los Pibes de La Boca. Militantes da Federação de Terra e Moradia ocuparam a delegacia 24 da Boca para exigir justiça. - 16 de julho – A Casa Legislativa portenha aprovou um projeto de lei para reformar o Código de Convivência. Piqueteiros, vendedores ambulantes, prostitutas, travestis e militantes de partidos de esquerda se concentraram para rechaçar o tratamento dado aos artigos. A polícia reprimiu e, além de 23 detidos, oito policiais saíram feridos. - 26 de julho – Desempregados ocupam a refinaria da empresa Termap (Terminais Marítimos Patagônios) por tempo indeterminado para exigir postos de trabalho às empresas Repsol-YPF, vintage e Panamerican Energy. - 29 de julho – Os 700 trabalhadores da Altos Hornos Zapla ocuparam a empresa em Palpalá (Jujuy), reclamando o pagamento correspondente ao Programa de Propriedade Participada (PPP), que deveriam ter recebido por ocasião de sua privatização em 1992. - 18 de agosto – Sancionada a Lei 25.928, que modificou o artigo 55 do Código Penal, permitindo a imposição de penas de 50 anos de prisão ou reclusão. - 19 de agosto – Cerca de 200 pessoas ocuparam o pátio dos tanques da firma Termap reclamando trabalho efetivo. Depois de 48 horas do fim do protesto, o juiz criminal Marcelo Bailaque baixou uma ordem de detenção contra 24 pessoas e abriu inquérito a quase 60. Seis pessoas foram presas preventivamente durante seis meses, acusadas dos delitos de privação ilegal da liberdade agravada, ameaças, danos, usurpação, resistência à autoridade e entorpecimento da atividade do exercício de direitos no espaço público.
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- 31 de agosto – Reprimido um protesto na porta do Ministério de Economia, para repudiar a presença ali do diretor do FMI, Rodrigo de Rato. Foram detidas 102 pessoas. O juiz federal Juan José Galeano incorporou à causa um relatório elaborado pela Divisão de Operações do Departamento de Segurança de Estado da Polícia Federal Argentina, detalhando a investigação realizada sobre os advogados de defesa. - 10 de setembro – Mobilização na Plaza de los dos Congresos para exigir a retirada dos lutadores sociais dos processos. - 28 de setembro – Mais de 3.000 habitantes de Neuquén se mobilizaram contra a criminalização do protesto social nas audiências dos seis dirigentes da CTA Zapala e Cutral Có, levados a julgamento pelos incidentes de 9 de junho do ano de 2000. - 30 de setembro – Desempregados da Caleta Olivia ocuparam o local da Termap em demanda de postos de trabalho efetivos no setor petroleiro. Os efetivos da empresa de segurança impediram a passagem de manifestantes que se mobilizaram bloqueando a Rota Nacional 3. - 2 de outubro – O Corpo Nacional de Gendarmes e a polícia de Santa Cruz prenderam 15 desempregados que realizavam um bloqueio na Rota 3 da Caleta Olivia e 21 piqueteiros que ocupavam os tanques da Termap. - 27 de novembro – A Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) denunciou que um militante dessa organização, Esteban “Chirolita” Armella, integrante da Organização de Bairro Tupac Amaru e coordenador de um comedor comunitário, morreu ao receber duríssimos golpes na Brigada de Investigações da polícia de Jujuy32. - 1.º de dezembro – 70 desempregados que ocupavam um local da empresa petroleira Oil ONS, empreiteira da Repsol YPF, na localidade de Las Heras, Santa Cruz, foram desalojados por gendarmes e pela polícia provincial. vinte e cinco pessoas foram detidas. - 28 de dezembro – Forças especiais antimotim (Uespo) de Neuquén desalojaram sem ordem judicial as famílias mapuche que bloqueavam estradas utilizadas pela empresa Pioneer Natural Resources. Carlos Marifil foi ferido por bala de chumbo. - 30 de dezembro – Massacre do Cromagnon – Como conseqüência da corrupção, da falta de cuidado e de controles, produziu-se um incêndio em um salão de baile da Capital Federal, onde morreram 190 jovens. A partir de então foram iniciadas mobilizações por justiça, contra a corrupção e a impunidade.

32 armella faleceu no Hospital Pablo Soria de Jujuy após permanecer três dias em terapia intensiva, como conseqüência de fortes pancadas e torturas sofridas na Brigada. Tinha sido detido no dia 22 de novembro para averiguação de antecedentes e esteve por 24 horas no lugar denominado “chancho” (cela de castigo), de onde saiu com poucas possibilidades de sobreviver. a CTa denunciou que armella sofreu “privação ilegítima da liberdade, torturas (físicas e psicológicas) seguidas de morte sem que os culpados do fato tenham recebido castigo”.

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2005
- 6 de janeiro – Mais de dez mil pessoas marcharam em direção à Plaza de Mayo reclamando justiça para as vítimas do Cromagnon. Quando começaram a se desconcentrar, a Polícia Federal as reprimiu com jatos de água e deteve 42 pessoas, muitas delas jovens sobreviventes do Cromagnon e parentes das vítimas. - 15 de janeiro – O promotor geral Germán Garavano afirmou que aplicaria o Código de Contravenções para punir os dirigentes de organizações sociais que encabeçassem protestos. - 4 de março – A Multisetorial de Neuquén marchou até a casa de governo em repúdio à escalada de ameaças aos trabalhadores de Zanon, do sindicato ceramista, à defensora dos Direitos da Criança e sua adjunta. Em Centenário, seqüestraram a mulher de um operário de Zanon que foi surrada e ameaçada. - 1.º de abril – No marco da paralisação docente, algumas professoras fizeram um protesto sentando-se na Plaza 9 de Julio de Salta. A polícia impediu a manifestação a golpes, atirando balas de borracha e gases lacrimogêneos. vinte e oito pessoas foram detidas e várias feridas, entre as quais uma menina de seis anos, ferida na perna por perdigões de borracha. - 21 de abril – Em villa La Angostura, a Comunidad Paichil Antrito foi despejada violentamente de suas terras no cerro Belvedere por ordem do juiz Rolando Lima. - 30 de abril – Sob as palavras de ordem “não à contaminação”, “não às fábricas de papel”, 40 mil pessoas do Uruguai e da Argentina marcharam em direção à ponte internacional que une Gualeguaychú, na Argentina, a Fray Bentos, no Uruguai, interrompendo o trânsito durante seis horas em repúdio à instalação de duas fábricas de celulose às margens do Rio Uruguai. - 20 de junho – Os desempregados que ocupavam um local da Repsol-YPF na localidade de Cañadón Seco, Santa Cruz, foram reprimidos pela polícia com gases lacrimogêneos e pauladas, sendo detidas 60 pessoas, entre elas mulheres e crianças. - 28 de julho – No marco da multiplicação da luta dos trabalhadores da saúde, o ministro de Saúde, Ginés González García, qualificou de “terroristas sanitários” os trabalhadores não-profissionais do Hospital Garrahan. - 25 de agosto – Em Santa Cruz, desempregados bloquearam o acesso a um local da petroleira Repsol-YPF, em Pico Truncado, para exigir postos de trabalho. Foram reprimidos pela polícia. Mais de dez manifestantes ficaram feridos e 12 foram detidos. - 12 de outubro – Quatro delegados do Hospital Garrahan foram citados pela justiça, acusados de delito de coação. - 15 de outubro – Rebelião na prisão de Magdalena, província de Buenos Aires, que culminou com 32 internos mortos por asfixia.
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- 1.º de novembro – Passageiros destruíram a estação Haedo da ex-estrada de ferro Sarmiento, queimando 15 vagões em protesto pelo cancelamento de uma viagem e o mau serviço prestado pela empresa Trens de Buenos Aires. A polícia desatou uma forte repressão que deixou um saldo de 87 detidos e 21 feridos. - 4 de novembro – Cúpula das Américas em Mar del Plata, à qual compareceu o Presidente Bush. Foi realizada simultaneamente a III Cúpula dos Povos. A cidade foi militarizada. Foi reprimida uma manifestação contra a presença de Bush, com um saldo de 80 detidos. Em Buenos Aires, organizações populares realizaram uma marcha. Foram detidas oito pessoas e oito policiais saíram feridos.

2006
- 8 de janeiro – Um grupo de camponeses de Campo Gallo, Santiago del Estero, tentou impedir o desmatamento de um terreno em litígio judicial, produzindo-se enfrentamentos com a polícia que deixaram três policiais e um camponês feridos. - 26 de janeiro – Em Neuquén, 150 mapuches se concentraram diante do Conselho Deliberante, onde eram celebradas as sessões para a reforma da Constituição. Ao ficar sabendo que não seriam incluídos os direitos das comunidades indígenas, tentaram entrar no edifício para protestar, sendo reprimidos pela polícia. - 7 de fevereiro – Em Las Heras, Santa Cruz, mais de mil pessoas, entre trabalhadores e seus familiares, concentraram-se diante da delegacia para exigir a liberdade de Mario Navarro, representante de um setor dissidente do sindicato petroleiro. A polícia reprimiu, produzindo-se enfrentamentos que deixaram um policial morto, seis feridos à bala e manifestantes feridos. O governo nacional enviou mais de 300 gendarmes. - 13 de fevereiro – O corpo de delegados do sindicato de petroleiros de Santa Cruz convocou assembléias de base em cada local de trabalho em protesto pela decisão das empresas de não pagar 100% dos dias não trabalhados na greve e para exigir a retirada da Gendarmería de Las Heras. Os gendarmes controlaram os acessos às baterias de desidratação do óleo cru, ao mesmo tempo em que o Grupo de Operações Especiais (GOE) da polícia realizava revistas na entrada das refinarias. - 10 de março – Os trabalhadores da Federação Argentina Sindical do Petróleo e do Gás Privados (FASP/GP) e da União Operária da Construção da República Argentina (UOCRA) realizaram uma paralisação total em Las Heras, Caleta Olivia, Pico Truncado e Río Gallegos, Santa Cruz, para denunciar a militarização da província, as demissões e os descontos dos dias parados. - 5 de maio – Moradores do bairro Cuadro Estación, em Mendoza, lançaram-se sobre um trem para apoderar-se do carvão mineral que era transportado, para ter com que se aquecer e cozinhar. A polícia disparou balas de borracha
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e de chumbo. Mauricio Morán de 14 anos morreu com um tiro no peito. Outro adolescente foi ferido à bala. - 22 de maio – Em Mendoza, estudantes secundários marcharam em direção à Casa de Governo protestando pela falta de gás em 255 escolas da província. A polícia deteve 60 pessoas, acusando-as de danificar automóveis e um carro de polícia. - 26 de maio – Um juiz inocentou cinco enfermeiros do hospital Garrahan, acusados de abandono de pessoa no marco de um conflito sindical, porque foi verificado que nenhum dos pacientes piorou de saúde por falta concreta de atendimento. - Em Ensenada concentraram-se 500 trabalhadores do Estaleiro Rio Santiago agrupados na Associação de Trabalhadores do Estado (ATE), para reclamar ao governador a aceleração do acordo com a venezuela para a construção de navios. Produziram-se choques entre os manifestantes e o pessoal de segurança da empresa, ficando feridos dois trabalhadores. - 5 de junho – Integrantes do Movimento Independente de Aposentados e Desempregados (MIJD ) concentraram-se diante dos tribunais em Buenos Aires para apoiar seu dirigente Raúl Castells, durante o juízo oral pela acusação de extorsão àraiz de uma reclamação de alimentos à empresa Mc Donald’s em 2004. O promotor pediu uma pena de quatro anos e oito meses de cárcere; afirmou que a polícia tem medo de atuar contra os piquetes, os quais define como um cenário de coação permanente. - 7 de junho – Processo contra as autoridades da comunidade Lonko Purán, Martín velásquez Maliqueo e Fidel Pintos, e da Coordenadoria de Organizações Mapuche (COM), Florentino Nahuel e Roberto Ñancucheo, acusados de “perturbação da propriedade” pela empresa estadunidense Pioneer Natural Resources em 2001 (atualmente Apache Corporation). Como protesto, representantes de comunidades da região paralisaram poços de gás e petróleo da empresa. - 9 de junho – Organizações de direitos humanos de Mendoza protestaram contra a “mão dura” da polícia do governo provincial e reclamaram o esclarecimento de três casos de gatilho fácil, que deixaram como resultado dois jovens mortos e outro gravemente ferido. Também protestaram pela detenção de 43 estudantes secundários que reclamavam do governo a calefação para suas escolas. - 11 de junho – Um juiz federal processou 13 trabalhadores da empresa de segurança TAS por um piquete que no dia 2 de novembro do ano anterior havia interrompido a entrada e saída de passageiros ao aeroporto de Ezeiza. - 16 de junho – Militantes do MTR-CUBa (Coordenadoria de Unidade de Bairro – Movimento Tereza Rodriguez) se concentraram diante dos tribunais para exigir a liberdade do dirigente Ricardo Berrozpe, detido pelos incidentes em Mar Del Plata, em novembro de 2005, acusado de “incitação pública à violência coletiva e de fabricação de artefatos explosivos perigosos”.
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- 18 de setembro – Desaparecimento de Jorge Julio López, ex-preso e testemunha no julgamento do genocida Miguel Etchecolatz, Diretor Geral de Investigações da Polícia Bonaerense durante a última ditadura militar. Continua desaparecido até hoje. - 27 de setembro – Em Orán, Salta, a população marchou para repudiar a morte por espancamento de um jovem indígena, pobre e desnutrido, nas mãos de 16 guardas da segurança privada do engenho Tabacal Agroindústria, quando, com outros rapazes, roubava laranjas para sobreviver. - 2 de outubro – Estendida a greve de fome de 14.000 presos(as) nos cárceres de Buenos Aires e em três prisões federais, que pediam a aceleração de suas causas criminais, a derrogação da lei de solturas, a sanção de uma lei processual que respeitasse os tratados internacionais de direitos humanos e a Constituição Nacional. - 9 de outubro – Por ocasião de uma assembléia realizada pelo pessoal não médico e filiados do Hospital Francês, reclamando o pagamento de salários e em defesa da fonte de trabalho, um grupo de “barrabravas”* com apoio policial golpeou os participantes, deixando seis feridos. - 12 de outubro – Em Jujuy, no marco do Encontro Nacional de Mulheres, dois mil participantes marcharam até a Unidade Penal 3, onde se encontra presa a jovem Romina Tejerina, condenada a 14 anos de prisão por matar, no momento do nascimento, seu filho, produto de um estupro. Pediram a liberdade da jovem e a prisão do estuprador. - 27 de dezembro – Em Escobar, Buenos Aires, desapareceu Luis Gerez, pedreiro e militante peronista de 51 anos. No dia 19 de abril testemunhou contra o ex-policial Luis Patti, denunciando a participação dele nas torturas que sofreu em uma delegacia de Escobar, em 1972. Gerez reapareceu no dia seguinte.

2007
- 13 de fevereiro – A multinacional Meridian Gold processou moradores de Esquel que se opuseram à sua prática de contaminação. - 1.º de março – O militante do Movimento dos Trabalhadores Desempregados de Lanús (MTD-Lanús ) e da Frente Popular Darío Santillán, Carlos Leiva, foi seqüestrado e submetido a um simulacro de fuzilamento. - 29 de março – Em Santa Cruz, à paralisação docente que se havia iniciado há quatro semanas, somou-se uma greve de trabalhadores estatais; em Río Gallegos marcharam cinco mil trabalhadores gritando “que se vão todos”. Houve marchas em 16 cidades da província. Em Neuquén, docentes da Associação de

* Barrabravas – diz-se das torcidas organizadas muito violentas (N. da T.).
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Trabalhadores da Educação de Neuquén (ATEN), em greve por aumento salarial, interromperam o trânsito em duas pontes de comunicação com as cidades de Cipolletti e Cinco Saltos, em Rio Negro e na Rota nacional 22 de Zapala. Também pararam e se mobilizaram os trabalhadores provinciais filiados à ATE por aumento salarial. Estavam em conflito os docentes de Santa Cruz, Salta, La Rioja, Tierra del Fuego, Corrientes, Neuquén, La Pampa e Jujuy. - 31 de março – Na Caleta Olivia, Santa Cruz, docentes da Associação de Docentes de Santa Cruz (Adosac) decretaram uma greve de 72 horas e marcharam pela cidade para repudiar a decisão do governo provincial de enviar custódia policial, militar e da Gendarmería às escolas e outros edifícios públicos, com a desculpa de evitar uma eventual invasão dos estabelecimentos por parte dos docentes. - 4 de abril – Em Neuquén docentes em greve desde o dia 5 de março, lutando por aumento salarial, tentaram bloquear a Rota 22 para impedir o acesso aos centros turísticos. A polícia impediu o bloqueio disparando balas de borracha e gases lacrimogêneos. O professor Carlos Alberto Fuentealba (40 anos) foi assassinado quando uma bomba de gás disparada à curta distância por um policial atingiu sua cabeça. - 5 de abril – Militantes de diferentes agrupações marcharam em direção à Casa da Província de Neuquén em Buenos Aires, para repudiar a repressão aos docentes. Como a polícia impediu que passassem, dirigiram-se para um imóvel do governador Sobisch, e o incendiaram com bombas molotov. Dezesseis manifestantes foram presos. - 9 de abril – Em repúdio à repressão ocorrida em Neuquén aconteceu, com alta adesão, a greve geral nacional de 24 horas convocada pela CTA (Central dos Trabalhadores Argentinos) e pelos sindicatos docentes. Foram realizadas marchas multitudinárias: 30 mil manifestantes em Neuquén, igual número em Buenos Aires, 9 mil em Rosario; 6 mil em Mar de Plata, 10 mil em Jujuy, 13 mil em Salta, 2 mil em Tucumán, 3.500 em Córdoba, 9 mil em Mendoza, 2 mil em San Luis, 2.500 em Bariloche, 5 mil em Río Gallegos, 400 em Ushuaia. - 17 de abril – Em Buenos Aires, militantes de diferentes organizações participaram de um ato pelo Dia do Preso Político. Foram detidos três militantes de Quebracho. - 5 de junho – Em Buenos Aires, 400 trabalhadores do Cassino Flutuante se concentraram diante do Ministério de Trabalho para reclamar o pagamento de seus salários e a reabertura do estabelecimento, fechado desde o dia 3 de maio; houve choques com a polícia com um saldo de quatro manifestantes e cinco policiais feridos, e cinco detidos. - 6 de junho – Em apenas uma hora e meia foi aprovada no Senado a Lei Antiterrorista, com 51 votos a favor e 1 contra. No dia 13 de junho, na Câmara de Deputados a situação atingiu o quorum e o projeto do Poder Executivo Nacional n. 449/2006, que reforma o Código Penal, foi firmado pelo presidente Néstor Kichner, e se converteu em lei.
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- 7 de junho – Militantes de Quebracho realizaram um escracho a um juiz federal em demanda da liberdade de vários companheiros que se encontravam presos; houve choque com a polícia e oito manifestantes foram detidos. - 14 de julho – Em Buenos Aires, a polícia expulsou vendedores ambulantes da Plaza Cortazar; produziram-se incidentes, tendo sido feridos dois vendedores; quatro foram detidos. - 8 de agosto – À raiz da morte por desnutrição desde o mês de julho de 11 indígenas do El Impenetrable, no Chaco, dirigentes indígenas marcharam em direção à Casa de Governo em Resistência, para pedir a renúncia do Ministro Provincial de Saúde e que fosse declarada emergência sanitária e alimentar. - 17 de agosto – Enquanto o Presidente Kirchner e sua mulher faziam proselitismo em Río Gallegos, Santa Cruz, três mil trabalhadores estatais e docentes participaram de uma marcha de protesto convocada pela Mesa de Unidade Sindical. Rodeado por manifestantes, o ex-ministro de Governo, Daniel varizat, atropelou-os com sua caminhonete, deixando 17 feridos. - 18 de agosto – Em Concordia, Entre Ríos, a Gendarmería impediu o bloqueio da estrada por ambientalistas assembleístas, por ordem de um juiz federal, por causa de uma denúncia dos comerciantes da zona. - 21 de agosto – Em Buenos Aires, os trabalhadores do Hotel Bauen realizaram um ato e um festival para rechaçar a sentença judicial que implicaria seu despejo. Militantes de organizações de esquerda realizaram um ato em homenagem aos guerrilheiros fuzilados no Massacre de Trelew. Após o ato, integrantes de Quebracho dirigiram-se para a Casa da Província de Santa Cruz para repudiar a repressão e a militarização dessa província. Após confluírem com militantes das Organizações Livres do Povo (OLP), protagonizaram choques com a polícia diante da Chefia do Governo portenho. Foram detidos 44 militantes. - 27 de setembro – No porto de Mar del Plata, trabalhadores que fazem filés de merluza, concentraram-se diante da empresa El Dorado para exigir seu registro como assalariados. Dispararam de dentro da fábrica ferindo um jovem. Os manifestantes, juntamente com militantes da CTA e de partidos de esquerda, romperam janelas de automóveis e de fábricas e enfrentaram a polícia, que os reprimiu com gases lacrimogêneos e balas de borracha. Três policiais ficaram feridos e houve três detenções. - 31 de outubro – Em Mar del Plata, os trabalhadores que elaboram os filés de pescado para as processadoras e que estavam em greve tentaram realizar uma manifestação no porto, que foi impedida pelo grupo especial Albatroz da Polícia Naval, que a dispersou disparando balas de borracha e gases lacrimogêneos. - 4 de novembro – Trinta e sete internos do presídio masculino n.º 1, pertencente ao Serviço Penitenciário Provincial de Santiago del Estero, faleceram em um incêndio, cujas causas ainda não foram esclarecidas. Em um presídio com capacidade declarada para 200 pessoas, havia no momento do incêndio 267 processados e 215 condenados.
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- 13 de novembro – O Movimento Camponês de Santiago del Estero (Mocase), denunciou ataques de guardas armados a serviço de empresários da soja, amparados por juízes e pelo governo provincial, para despojar os camponeses de suas terras.

Algumas considerações para análises

Embora o relato desses fatos repressivos não abarque o conjunto deles, mas apenas alguns dos mais relevantes, é possível apresentar algumas idéias que surgem ao estudá-los: 1. A criminalização dos movimentos populares faz parte de um repertório mundial de ações e práticas de controle social, com as quais o poder organiza sua governabilidade, a fim de continuar o processo de reprodução ampliada do capital. 2. Este processo – mesmo sendo parte de uma política global – assume modalidades concretas em cada país. No caso da Argentina, vai tomando as características específicas requeridas para responder ao nível que atingiu a resistência popular. 3. No núcleo do processo de criminalização dos movimentos populares encontra-se a ação cultural destinada a apresentar as lutas pelos direitos sociais como delitos, e os sujeitos sociais que as promovem como delinqüentes. Isto facilmente se observa na maneira como os meios de comunicação informam (ou desinformam) sobre as manifestações sociais, ocultando suas motivações, a legitimidade das demandas, e pondo ênfase nas formas mais ou menos violentas de expressão do descontentamento social. Por sua vez, ao invisibilizar ou deslegitimar as lutas, os meios de comunicação de massa fazem com que elas, para adquirir maior impacto, ou simplesmente para serem conhecidas pela sociedade, recorram crescentemente a formas de “ação direta”, que reforçam a idéia de que o que está em curso não é uma reivindicação de direitos, e sim um delito. 4. Esta transmutação é possível pela mesma lógica que criou, subjetivamente, o medo ao outro, a desconfiança daquilo que é diferente, estimulando a fragmentação da sociedade até o ponto em que os diferentes grupos sociais se tornam alheios e irreconhecíveis entre si. 5. A ação repressiva do Estado tende a transformar a questão social em questão criminal. Tornam-se mecanismos principais de criminalização do protesto social a legislação – que vai incrementando as modalidades de criminalização do “delito” – e a interpretação que dela se faz nos âmbitos judiciais. 6. As diferentes modalidades de criminalização dos movimentos sociais são favorecidas pela impunidade que permite que numerosos
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efetivos policiais formados na ditadura continuem sendo parte das forças policiais e de “segurança”, e que a “eficácia” dos seus métodos de tortura e repressão seja transmitida aos novos efetivos. 7. O papel dos meios de comunicação é central na criação de um “sentido comum” que estigmatiza os movimentos de resistência. Constrói uma demanda de “normalidade” e sob a bandeira de “segurança cidadã” organiza culturalmente as bases de um novo “partido da ordem”. 8. A consideração fragmentada de cada fato repressivo como exceção, reforça a legitimação das políticas neoliberais e oculta a modalidade geral assumida pela dominação, e também o conhecimento do padrão de acumulação do capital nesta etapa. 9. Faz parte da resistência dos movimentos populares avançar na revelação desses mecanismos, e na ação político-ideológica tendente a questionar seus núcleos fundamentais, não só no plano discursivo, mas também naquilo em que afetaram a subjetividade popular. 10. O reconhecimento de que as demandas de normalidade e de segurança constituem uma chantagem que permeia o imaginário popular de sentidos conservadores e reacionários obriga a repensar as modalidades de denúncia, de ação, de solidariedade, de recriação dos laços sociais. 11. É imprescindível contribuir com a solidariedade às vítimas imediatas desses processos de criminalização. A fragmentação tem conduzido a atitudes em que cada organização tende a tomar distância dos afetados, resguardando sua própria “segurança” e estabilidade; e inclusive até tem acontecido de alguns setores populares estigmatizarem os movimentos em luta. 12. O dispositivo de criminalização dos movimentos sociais articula diversos eixos: a) a criminalização da pobreza; b) a criminalização dos movimentos populares, de seus integrantes e a judicialização do protesto social; e c) a militarização de regiões e territórios em caso de necessidade.

a. A criminalização da pobreza
Como conseqüência das políticas neoliberais de exclusão social e de precarização de todos os aspectos da vida, produzem-se novos fenômenos nas relações sociais. O medo ao “outro” é um dos dados significativos que “organizam” estas relações de desigualdade, desconfiança e diluição das solidariedades. A fragmentação social funciona como estímulo daqueles medos que expressam a insegurança generalizada diante do horizonte de exclusão. Aqueles que não habitam o “mundo” da negação social preferem não reconhecê-lo como parte de seu próprio espaço possível. Os novos “desaparecidos sociais” representam um
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fantasma aterrorizante, em um corpo social várias vezes ferido e vulnerado por uma continuidade de perdas materiais e simbólicas. A exclusão social leva a satisfazer as carências-urgências de modo imediato para garantir a sobrevivência, tanto em termos individuais como coletivos, gerando no imaginário construído a partir da hegemonia cultural a identificação das zonas de pobreza como territórios de crime. Por sua vez, estes sentidos que estimulam respostas conservadoras são alimentados pelos grandes meios de comunicação que ativam deliberadamente os mecanismos do terror, para levantar as exigências de “segurança”, entendidas, em última instância, como garantias para os direitos do capital, e especialmente da propriedade privada. Ao fazer parecer a exclusão como algo “natural” vulneram-se não só os diretamente afetados por essas políticas. Aqueles que sentem a pressão e a ameaça de ficar “de fora” aumentam o medo, o que estimula a ruptura de solidariedades entre esses mundos, cujas fronteiras se tornam valas cada vez mais profundas, tanto para impedir que sejam atravessadas fisicamente como para evitar que aqueles que habitam de um lado e do outro possam “ver-se” mutuamente (salvo pela Tv). Se para setores significativos da população o único caminho de acesso ao consumo é por meio da Tv – o que por sua vez incrementa o mal-estar diante das carências –, para aqueles que gozam de uma precária inclusão o lugar de encontro com os excluídos são as notícias policiais, ou quando uma mobilização social ou piquete “interrompe” o circuito de sua vida cotidiana. No entanto, há um outro mundo, o daqueles que gozam das “vantagens” e do “bem-estar” oferecidos pelo sistema e por sua maquinaria de consumo, que dificilmente se encontram com aqueles que habitam os setores da pobreza e da miséria; porque seus habitantes construíram muros e guetos de “segurança” em suas casas, bairros, clubes, locais de estudo, de trabalho e de lazer. O desencontro entre esses mundos rompe as possibilidades de identificação social. O “outro” negado, como não é reconhecido, não existe, e se “aparece” com suas lutas, ou seja, quando existe, interfere no “bem-estar” das camadas sociais beneficiárias desse modo de organização da vida. A ruptura de identidades leva a perceber a pobreza, a marginalidade, a miséria do outro como ameaça, e a impregnar esse sentimento de conteúdos racistas, xenófobos, violentos, repressivos e autoritários. Estes mecanismos de alienação social são reforçados pela perda de sentido e pela despolitização da luta social, que favorecem que ela entre para o index da criminalização como “causa penal”. Dessa maneira, se as ruas ou as estradas são ocupadas por setores marginalizados, isso aparece como uma ameaça, enquanto o mesmo fato, com outros protagonistas, é saudado efusivamente pelos meios de comunicação do poder. Foi paradigmática a mobilização promovida por Juan C. Blumberg (pai de Axel Blumberg, um jovem assassinado). O espaço público foi ocupado maciçamente
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em várias oportunidades por setores sociais que reforçaram diante desse assassinato (de um jovem branco, de classe média alta) sua sensação de terror ante o deslocamento das fronteiras da morte, que chegava a seu próprio campo. O tratamento da mídia foi o estímulo à mobilização, quando não diretamente o seu artífice. Algo similar produziu-se diante das manifestações de apoio às demandas da Sociedade Rural e dos grupos que protagonizaram o lockout “do campo” empresarial. Nesses casos, o suposto “conflito de direitos” que se apresenta quando os grupos excluídos se mobilizam por suas demandas diluiu-se rapidamente em favor do direito à propriedade privada e aos lucros do capital, à “segurança cidadã”, e na exigência de resguardá-la, endurecendo ainda mais as respostas repressivas, já não para quem protesta em geral, mas sim diante dos reclamos daqueles que protestam a partir das zonas de exclusão. Analisando este fenômeno, Susana Murillo33 interpreta: […] o pobre, o jovem e o não-branco emergem como os possíveis causadores de todos os males, e os pedidos de justiça são acompanhados pelas demandas de redução da idade penal e de diversas medidas que tendam ao endurecimento da repressão. As diatribes contra organismos de direitos humanos, o pedido de voto qualificado, o mais escancarado racismo, são manifestados por alguns líderes dessas marchas “apolíticas” promovidas, em alguns casos, por figuras vinculadas a repressores da década de 1970. Entretanto, em muitos cidadãos, o terror bloqueia as mediações reflexivas e a alma pede a gritos “tolerância zero” mediada por uma lei que, estabelecida sem deliberações – só baseada na exigência das “pessoas” –, cause para os outros a morte própria que se deseja outra vez denegar. A angústia que revela tal violência verbal ou física – que reclama a legalização da repressão e que não vacila em denunciar anonimamente os sujeitos nos quais tal tensão se personaliza – está sustentada, ademais, na abolição de algumas normas universais e sua substituição por uma legalidade baseada na urgência e no pragmatismo. Boa parte da população se envolve também em operações de vigilância e denúncia dos possíveis delinqüentes que geram insegurança. E esta é retroalimentada a partir dos meios de comunicação que vieram ocupar, em boa medida, o lugar dos dispositivos disciplinares em seu papel de intervenção moral na vida doméstica.
33 El Nuevo Pacto Social, la criminalización de los movimientos sociales y la “ideología de la seguridad”. Susana Murillo. OSaL 14. 2004

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Um aspecto essencial para reforçar a dominação é a criação de dispositivos de controle da pobreza. Escreve Esteban Rodríguez34: Neste contexto, caracterizado pela irrupção da exclusão, o Estado redefiniu sua intervenção. Porque o Estado continuará intervindo, embora desta vez já não tenda à integração social. Sua intervenção será exclusiva. Intervém para reassegurar essa exclusividade, para manter a exclusão, ou o que dá no mesmo, para evitar a irrupção. A intervenção estatal se torna diruptiva, isto é, fragmentadora. A dirupção é a forma assumida pelo controle social quando se trata de manter a exclusão, quando o inviável se torna insustentável e, portanto, já não cabe inclusão alguma. Essas tecnologias de controle estão relacionadas com: a) as agências políticas que, baseandose no clientelismo, organizam a cooptação; b) as agências sociais que, baseando-se na cooptação, organizam o subsistencialismo; c) as agências repressivas que articulam diferentes práticas (gatilho fácil, antitumulto, esquadrões da morte), que são formas de gerir o crime e o crescimento do protesto social; e d) as agências judiciais que organizarão a criminalização da pobreza e depois a criminalização do protesto. [...] Quando as multidões irrompem, é preciso intervir, e a intervenção será brutal, embora focalizada, contundente, embora imperceptível, se a multidão não se resignar. Da “doutrina de segurança nacional” passamos à “tolerância zero”, da mesma maneira que a “mão invisível” se torna a “mão dura”. Uma mão que se faz punho, mas permanecerá invisível, intermitente, difusa e errante. Por isso é que não pode ser percebida como tal. O terror de que falamos é um terror espectral, que já não tem sua base real em um ponto determinado, em uma instituição, mas que permanecerá disseminado entre diferentes práticas que organizam e gerenciam a dirupção. Isso será o terrorismo de Estado nesta nova época marcada pela crise de representação: um punho sem braço. O informe da Coordenadoria contra a Repressão Policial e Institucional (Correpi) assinala na apresentação do arquivo de casos 1983-2007: Desde dezembro de 1983 os governos “democráticos” mataram, desapareceram, torturaram até a morte ou massacraram em cárceres e mobilizações 2.334 pessoas. Mais da metade tinha menos de 25 anos.
34 un puño sin brazo. ¿Seguridad ciudadana o criminalización de la multitud? La criminalización de la protesta social. HiJOS La Plata y Ediciones Grupo La Grieta, nov. 2003.

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A esmagadora maioria era de pobres. Quase 60% fuzilados pelo gatilho fácil. 30% morreram nos cárceres e delegacias. Desde 1995 até 2007, cinqüenta e um companheiros caíram sob as balas de forças provinciais ou federais em marchas e mobilizações populares35. Referindo-se ao governo de Néstor Kirchner o informe agrega: O Estado argentino, durante o governo kirchnerista, exerceu o controle e o disciplinamento social mediante o gatilho fácil, as torturas em cárceres e delegacias, as batidas e as detenções arbitrárias, entre outras medidas como a saturação policial e o uso dos gendarmes e de agentes de segurança para militarizar os bairros. Também desenvolveu a repressão política mediante a perseguição das organizações populares, as ameaças, as perseguições, a repressão em mobilizações, o uso de quadrilhas governamentais e patronais, os processos criminais e o encarceramento por motivos políticos. É necessário destacar a persistência, como política de Estado, da sistemática aplicação de tormentos a pessoas legal ou ilegalmente detidas, o que, em muitos casos, ocasiona a morte do torturado. Uma parte significativa das mortes em cárceres e delegacias corresponde a torturas seguidas de morte, apesar de que não chegam a uma dúzia em todo o país as condenações por esse delito. Paralela e complementarmente ao uso habitual de métodos de tortura como o espancamento, o submarino seco (saco plástico) ou o choque elétrico, o Judiciário resiste a qualificar fatos óbvios de tortura como tal, porque essa figura legal mostra com mais clareza que qualquer outra a responsabilidade institucional. Em relação às mortes nas delegacias, cabe destacar também que a maior parte das pessoas que morreram não estava detida por delitos e à disposição da justiça, mas tinha sido vítima de seqüestros policiais para estabelecer identidade (averiguação de antecedentes) ou contravenções e faltas, provando assim que estas faculdades das forças de segurança para deter pessoas arbitrariamente são cruciais para dar ensejo à tortura. O Estado faz uma defesa irrestrita das normas que permitem às polícias deter indiscriminadamente “suspeitos”, cujo perfil sempre coincide com o que eles mesmos descrevem como “moreno, jovem e de bairros onde há conflitos.
35 Ver: apresentação do arquivo de casos 2007, disponível em: <http://correpi.lahaine.org>.

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A pesquisa efetuada pela Correpi aponta que: Em 2003 houve 1.508 casos de torturas, com uma média de 12 pessoas mortas por mês; em 2004, 1.684 casos, mantendo a média de 12 pessoas mortas por mês; em 2005, 1.888 casos, com uma média de 15 casos de morte por mês; em 2006, 2.114 casos, mantendo-se a média de 15 pessoas mortas por mês e no fim de 2007 foram re-gistrados 2.334, com uma média de 16 pessoas mortas por mês. Nos últimos meses são estimadas 192 mortes. A seletividade do sistema penal se manifesta no fato de que são os pobres que enchem as prisões. O informe assinala que durante esse governo foram assassinados mais jovens e pobres: um levantamento nos arquivos revela 847 mortos durante os 54 meses de gestão. Isso significa mais de 16 jovens e pobres assassinados por mês por policiais, militares, gendarmes ou agentes do serviço penitenciário. “Um jovem a cada 40 horas, em quatro anos e meio de governo.” O “gatilho fácil” – da mesma forma que as batidas nos bairros pobres – atua como dispositivos de disciplinamento, sem outro critério que não o castigo à pobreza, e o de fazer com que se acostumem à violência como a única face da lei. As invasões às comunidades, justificadas pela perseguição ao narcotráfico ou à “delinqüência”, são moeda corrente nos setores marginalizados. Produzem verdadeiros assaltos à população mais vulnerável, tendentes a estabelecer a ordem armada diante dos mais fracos. A militarização dos bairros carentes institucionalizou-se por meio de dispositivos como o Plano de Proteção Integral dos Bairros – iniciado em novembro de 2001 – com a ocupação de três grandes “vilas de emergência” em Buenos Aires pelas forças policiais. Esta nova escalada da criminalização, visível na militarização dos bairros carentes, torna natural a associação entre “pobreza” e “delito” através da categorização das populações pobres como “classes perigosas”, distinguindo-as do resto da sociedade e rotulando seus núcleos habitacionais como mera fonte de delito. No entanto, esta correlação que se estabelece entre “insegurança”, “delito” e “pobreza” põe em evidência a emergência de novas fronteiras políticas e jurídicas. O surgimento dessas novas fronteiras abre as portas à possibilidade de que, em nome da conservação da ordem social, sejam instituídas zonas despojadas de direito – zonas de não direito ou “estados de ex52

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ceção”, segundo a conceituação de Agamben36 – onde a auto-estima e o respeito coletivo não contam, e onde torna a primar uma pura lógica de ação policial37. Nos últimos anos também se avançou na militarização de estradas e redes ferroviárias, com a presença de postos da Gendarmería nas estações de trem. Isto tem sido enquadrado em fatos que provocaram violenta repressão, como os que aconteceram na estação de Haedo, no dia 1.º de novembro de 200538. Em 2006, o governo nacional anunciou o início de operações do projeto Trem Alerta, que consiste na instalação de câmeras de televisão nas estações da ex-ferrovia Mitre, operada pela Trens de Buenos Aires (TBA). As câmeras enviam imagens em tempo real ao Departamento Central da Polícia Federal e a uma página da Internet de acesso público. Em 2007, o projeto foi estendido à ex-ferrovia Sarmiento, reforçando-se a vigilância nas estações do metrô com câmeras e policiais. Um caso emblemático destas modalidades de criminalização da pobreza, que se entrelaçam com a judicialização do protesto social, foi a repressão desatada na Casa Legislativa no ano de 2004, quando era discutida a modificação do Código de Contravenção Penal, com um conjunto de medidas que prejudicavam precisamente os setores mais vulneráveis39. A repressão brutal – amplificada pelos meios de comunicação – mostrou a decisão de avançar na “limpeza das ruas” de pessoas
36 G. agamben, El Estado de excepción, Buenos aires, adriana Hidalgo, 2004. 37 R. Gargarella. M. Svampa. Las fronteras del derecho, p. 12, 1.º fev. 2003. Citado no informe de alerta argentina, 2005. 38 Nessa ocasião, quando os usuários de trem se queixavam dos maus serviços, produziu-se uma tentativa da Polícia Bonaerense de desalojar violentamente os milhares de usuários das plataformas com balas de borracha e gases lacrimogêneos (algumas testemunhas dizem que também atiraram com balas de chumbo). a reação das pessoas foi violenta. Foram incendiados quinze vagões, parte da estação de Haedo, algumas lojas foram saqueadas e vitrines foram quebradas. Tudo isso durou mais de cinco horas, e, com a chegada ao local de mais de 40 carros das polícias federal e de Buenos aires e da Gendarmería Nacional, desatou-se uma caçada humana indiscriminada em busca dos “culpados”. Vieram as detenções, mais de oitenta, depois torturas e prisão. diante desses fatos, apesar de não terem sido esclarecidos, sete jovens entre 19 e 30 anos ficaram detidos nas prisões federais de Ezeiza e Marcos Paz e um menor de idade foi internado “em resguardo” no instituto Roca. Existem mais de 60 pessoas sendo processadas pelos mesmos fatos, acusadas pelos delitos de lesões leves com agravante contra efetivos das forças de segurança, atentado e resistência à autoridade, obstrução ao transporte público, incêndio agravado pelo perigo comum para os bens e para a autoridade e perigo de morte para alguma pessoa, dano agravado por ser executado em prejuízo de bens de uso público. 39 Entre essas medidas estão: dar mais poder à polícia permitindo que atue de ofício como denunciante, testemunha e autoridade, podendo armar provas, causas e aplicar propinas e extorsões para sua “caixinha”; penas de prisão e multas impagáveis na quase totalidade das contravenções; criminalização do protesto social, das manifestações e do vandalismo: castigo com arresto das ações para impedir leilões públicos, prática que tem sido usada para impedir que os bancos se apropriem de residências únicas e familiares para cobrar créditos hipotecários. Criminalização da venda ambulante com multa, perda da mercadoria e até do dinheiro, condenando 20.000 trabalhadores ambulantes de parques e praças, catadores de papel e quantidade não determinada de artesão, artistas de rua, mendigos, lavadores de carros; criminalização da oferta de sexo em via pública e condenação a mulheres e travestis em estado de prostituição nas zonas controladas pelo proxenetismo policial e mafioso.

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pobres. Dessa repressão resultaram 15 presos: vendedores ambulantes, mulheres em situação de prostituição, com poucas possibilidades de se defenderem e pouco apoio de suas também precárias organizações. Essa prisão foi “um exemplo” da decisão de aplicar a mão dura. Também foi um salto no tipo de figuras às quais se imputaram delitos como “privação ilegítima da liberdade, resistência à autoridade, e coação agravada”. A esse respeito sublinha Roberto Gargarella40: Essas condenações, depois revertidas pela instância revisora, testemunham o incrível grau de leviandade com que se administram as penas privativas de liberdade de certos setores sociais (neste caso, com total ausência de provas); e a arbitrariedade com que são selecionadas as figuras criminais a serem utilizadas em cada caso. Ao mesmo tempo, as absolvições que podem chegar depois – como neste caso – são incapazes de reparar as injustiças já cometidas através do encarceramento dos imputados (e que implicaram, no exemplo citado, em rupturas familiares, ou grave prejuízo da saúde e do desempenho das atividades de trabalho e educativas de algumas das partes, de seus filhos e parentes), ao mesmo tempo em que testemunham o modo corporativo da ação judicial, incapaz de chamar a atenção ou sancionar de algum modo a atuação irresponsável das instâncias inferiores. A mensagem que se expressa é então muito clara: se alguém tem razões de queixa diante do poder, que não as expresse, porque pode ser vítima de um “erro” que implique em vários meses de prisão; enquanto que aquele que ocupa o papel de juiz pode seguir lendo as normas de aplicação do modo que bem entender, porque nenhum funcionário judicial estará disposto a repreendê-lo por aquilo que se vê, em todo caso, como uma “desafortunada” interpretação do direito [...] E diz também: As políticas criminais parecem desenhadas ao calor das demandas conjunturais dos grupos melhor situados. Eles têm mostrado reiteradamente, nestes anos, sua capacidade para influir no redesenho do Código Penal argentino, e do mesmo modo em que bloquearam reformas mais racionais (embora não obviamente justificáveis) sobre o mesmo, converteram o referido Código em um catálogo disforme de penas severas para os delitos que mais temem, que não são necessariamente os delitos mais graves que se cometem no país.
40 Roberto Gargarella. Expresiones de violencia en un contexto de fragmentación social.

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a.1. Feminização da pobreza e criminalização das mulheres
A dimensão de gênero na análise da pobreza implica assumir que a posição social da mulher é desigual, e que a sua experiência de pobreza pode ser diferente e mais aguda que a dos homens, em virtude das formas de exclusão e discriminação que as mulheres vivem cotidianamente. As organizações de mulheres vêm denunciando diversos casos de feminicídios, entre os quais um dos mais aberrantes é o dos assassinatos de mais de 20 mulheres que exerciam a prostituição em Mar del Plata, que não foram resolvidos, embora se saiba que a responsabilidade é da polícia provincial. Também foram denunciados assassinatos de mulheres em Santiago del Estero e Cipolletti. Em grande parte desses casos, ficou demonstrada a conexão dos crimes com as redes de tráfico de pessoas ou de prostituição. O movimento de mulheres assinala que mais de 500 mulheres foram “desaparecidas na democracia”, pelas redes de tráfico de pessoas. Uma declaração da Campanha diz: Nem mais uma mulher vítima das redes de prostituição: A resposta estatal é a repressão às vítimas nos bordéis ou na rua, como sucede com a aplicação dos códigos de contravenção e de faltas, que em sua redação e aplicação cada vez mais repressiva, são herdeiros dos velhos editos policiais. A polícia utiliza o seqüestro, os maus-tratos, a ameaça e a propina, convertendo-se em sócia do proxenetismo, quando não diretamente em proxeneta. Nunca se chega aos grandes responsáveis da exploração sexual das mulheres e crianças, aos chefes das redes de prostituição, aos funcionários, legisladores, empresários, promotores, delegados e juízes que participam do negócio... O Estado, os governos, os poderes legislativo e judicial são responsáveis pelo que fazem, mas também pelo que não fazem. Não perseguem os exploradores, não respeitam nem protegem os direitos humanos das vítimas, não destinam leis, programas e orçamento para a criação de abrigos, para a assistência médica, jurídica e psicológica, para a capacitação para o trabalho, para a criação de empregos. vale a pena chamar a atenção para o tratamento desse tema por parte do governo nacional e de determinadas ONGs, respondendo às imposições da política norte-americana, que coloca o tráfico de pessoas não como um problema de direi55

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tos das vítimas – fundamentalmente as mulheres –, mas como um a mais entre os múltiplos problemas que integram sua agenda de “segurança” (junto com migrações, narcotráfico, lavagem de dinheiro, terrorismo, pobreza). Em consonância com esses critérios, aprovou-se na Argentina a Lei contra o Tráfico de Pessoas, na qual se estabelece que, para que se constitua o delito, no caso de maiores de 18 anos, o Estado ou as afetadas devem “provar” que houve recrutamento mediante engano, fraude, violência, ameaça, coerção ou abuso de autoridade. Esta lei torna vulneráveis as mulheres maiores de 18 anos e cria a idéia de que existe um tráfico ilegítimo que se penaliza, e outro legítimo no qual as vítimas dariam seu consentimento para ser prostituídas. As vítimas devem “provar” que seus exploradores as violentaram, o que supõe a pretensão de que as vítimas são as responsáveis por sua própria defesa, meca-nismo pelo qual são revitimadas. Outro caminho para penalizar as mulheres pobres é a criminalização do aborto. Na Argentina, o aborto é a primeira causa de morte materna. A internação por aborto no país aumentou em 57% entre 1995 e 2000. Quarenta por cento dessas hospitalizações correspondem a menores de 20 anos. Calcula-se que morre uma mulher por dia em razão de abortos clandestinos (são realizados em torno de 500.000 abortos por ano). Houve, nestes anos, vários casos de mulheres processadas por realizar um aborto, e de médicas por praticá-lo. Mesmo que constem do Código Penal as causas de aborto não-puníveis, a falta de um protocolo claro que permita o atendimento nesses casos faz com que os abortos não sejam realizados nos hospitais públicos. Tampouco se cumpre o protocolo de assistência humanitária pós-aborto, com a Lei de Saúde Sexual e Procriação Responsável, nem com o Programa de Saúde Sexual e Procriação responsável. Estes fatos põem em risco as mulheres pobres – que são as que não têm acesso aos abortos clandestinos por falta de meios. São modalidades de criminalização e judicialização das mulheres pobres, e de controle de seus corpos a partir do Estado41.

b. A criminalização dos movimentos populares e a judicialização do protesto social
Há uma linha de continuidade entre as políticas de criminalização da pobreza e de judicialização do protesto social, que foi se produzindo simultaneamente
41 um caso exemplar é o de ana María acevedo, uma jovem de 20 anos, de Santa Fé, com câncer no maxilar, a quem se negou a ligadura tubária – contemplada em lei nacional. ana Maria tinha três filhos nascidos por cesariana. Foram-lhe detectados um câncer e uma gravidez de três meses. diante do pedido da família para que fosse praticado um aborto terapêutico, contemplado no artigo 86, inciso 1, do Código Penal, foi-lhe negado esse direito e postergou-se o tratamento de quimioterapia que necessitava com urgência. após 24 horas morreu o recém-nascido, e ela faleceu no dia seguinte.

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à criminalização dos movimentos populares. O fato de situar os excluídos como ameaça e suas ações como delito interfere na simbologia que considerava o lutador ou a lutadora social como militantes solidários, justiceiros. Quando esses ou essas militantes eram reprimidos ou encarcerados, ninguém duvidava em solidarizarse. No entanto, hoje, aqueles que lutam são apresentados como delinqüentes, e sua prisão é mostrada como castigo exemplar. Torna-se a escrever, assim, uma história de heróis e vilões, em que as vítimas de hoje, uma e outra vez, são obrigadas a demonstrar a legitimidade dos seus clamores. A repressão, a prisão, a tortura, em um país em que ainda doem as feridas da ditadura são apresentadas como “necessárias” para serem justificadas pelo sentido comum, manipulado intensamente pelo poder. Para isso estão sendo feitos complexos esforços que tentam fazer retroceder a consciência democrática criada na batalha contra a ditadura e contra a impunidade. Assim, nas diferentes fases da implementação do modelo neoliberal, foram difundidos diferentes argumentos legitimadores dessas políticas. Se nos anos 1990 atacava-se o Estado para justificar as privatizações e torná-las quase “desejáveis”, na atualidade a defesa das políticas em curso – a multiplicação de indústrias extrativistas, contaminadoras, depredadoras da natureza, etc. – se realiza em nome do “desenvolvimento”, do “progresso”. Aqueles que se opõem a elas são desqualificados, reconfigurando-se o paradigma “civilização ou barbárie” com que o capitalismo da “Geração de 1880” fundou a “República”, sobre a base do extermínio dos povos indígenas, e de uma pretendida “homogeneização cultural” realizada a partir de uma concepção eurocêntrica da inserção argentina no capitalismo mundial. A colonização tende a fortalecer a subordinação argentina – como a da América Latina – ao capitalismo transnacionalizado, e esta se constrói a partir de diferentes mecanismos de formação de opinião pública, mas também de transmissão e de valorização (e desvalorização) de saberes, como o sistema educativo e o comunicacional. Se para as corporações transnacionais é essencial – por exemplo – despojar de suas terras os povos originários, ou as populações camponesas, para poder estabelecer aí seus negócios e aumentar seus superlucros, a possibilidade de cumprir com essa meta está diretamente ligada ao papel dos governos locais (nacional, provinciais, municipais), que pregam as supostas bondades dos investimentos naqueles projetos de mineração, represas, petróleo, desmatamento para o cultivo de soja, eucaliptos, pinho, etc., complexos turísticos, construções ligadas à Iniciativa de Integração Regional Sul-americana (IIRSA); e também ao papel daqueles que desde um suposto “saber científico” constroem o consenso a essas políticas. Quem se opuser a esta inserção global será imediatamente desautorizado, e, caso se rebele, será processado.
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A partir do governo têm sido utilizados intensamente os grandes meios de comunicação para produzir uma forte desqualificação do protesto social. As conclusões da pesquisa realizada pela Rede Eco Alternativo42 assinalam que os meios apostam na omissão ou invisibilidade dos protagonistas, ações e reclamos que organizações sociais e políticas empreendem. Esta lógica da mídia se modifica quando os sujeitos sociais decidem coletiva e organizadamente empreender ações que compreendem a ocupação do espaço público (mobilizações, bloqueio de ruas ou estradas, ocupação de edifícios, etc.). Nesses casos, a cobertura é quase imediata e a desqualificação do protesto social adquire nos meios examinados uma força maior: pela ocupação do espaço coletivo, das “instituições do sistema” ou de empresas privadas. Dissimuladamente, os meios adotam um discurso que convoca à judicialização do protesto, justificando, além disso, a repressão. O tratamento assumido pelos meios analisados é: o desaparecimento discursivo do reclamo que dá origem a tais medidas (como também o contexto em que se desenvolve e as circunstâncias político-econômicas que o originam) e a estigmatização tanto das ações, catalogadas como delitivas e, portanto, ilegais, como dos protagonistas por pertencerem a agrupações, organizações políticas e sociais. Esta caracterização se modifica em alguns casos quando, como conseqüência da repressão com que se pretende deter o protesto social, as “forças da ordem” matam um manifestante. É nesse tipo de caso que os meios mudam temporariamente o eixo informativo. Deixam de lado a desvalorização das ações por uma cobertura centrada na preocupação “humanitária” “pela vida”. Mas essa cobertura isola o manifestante assassinado de qualquer relação que o crime possa ter com a organização sindical, piqueteira, etc.; com o reclamo inicial que motiva a ação e com a necessidade que tem este sistema de sustentar e recorrer às forças repressivas. … As vozes que se difundem para explicar os acontecimentos são as de funcionários públicos, nacionais e provinciais, políticos de organizações que representam os interesses do sistema, e da própria mídia. Neste último caso, os meios, por meio dos seus editoriais ou de jornalistas muito próximos à linha editorial, questionam as ações “antidemocráticas” desvalorizando e tergiversando o clamor. Pelo contrário, a palavra dos protagonistas do conflito é desprezada e em alguns dos fatos analisados nem aparece, ou aparece apenas como reforço do cenário “violento” criado pelas imagens e palavras difundidas por esses meios. Os jornais an42 Su versión completa está publicada en la edición argentina de esta investigación.

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lisados (e sua reprodução discursiva pelos meios que integram o grupo) constroem padrões de sentido para que “as pessoas” associem o protesto social ao caos. A reiteração de certos qualificativos dados aos protagonistas, às ações e à reclamação fortalece a formação de paradigmas de sentido, para que, tão logo seja mencionado um desses termos, a ilação mental se dê imediata e diretamente e, portanto, a valorização social do reclamo seja de desaprovação e condenação. Esta construção de padrões de sentido cria consenso social para justificar a repressão ao clamor e instala no sentido comum uma matriz de pensamento que vincula a reivindicação dos setores sociais com a ilegalidade e o delito e, portanto, propende à sua “ilegitimidade social”43. Foi intensamente utilizada nos grandes meios de comunicação a idéia de que o protesto social vulnera os direitos de determinados setores da sociedade. A hierarquização de direitos realizada pelo capitalismo coloca no alto da pirâmide o direito à propriedade privada, e os que estão associados a ela, como a “liberdade de empresa”, a liberdade para a reprodução e circulação do capital. Para deslegitimar o movimento piqueteiro, o bloqueio de estradas foi apresentado como um conflito entre o direito a pleitear e o direito a circular. Assinalam Maristella Svampa e Claudio Pandolfi: Desde o começo, o poder judicial haveria de dar mostra cabal de um rechaço a estas novas formas de protesto, ao estabelecer julgamentos muito questionáveis, pronunciando-se sem maior reflexão a favor do direito de livre circulação. Os bloqueios de estrada começaram a ser tratados prioritariamente como um assunto criminal, através da aplicação das figuras previstas pelo código penal, particularmente em seu artigo 194, relativo à obstrução das vias públicas44. Neste novo cenário de criminalização da pobreza e do protesto, um mecanismo fundamental é a mudança nas figuras penais empregadas nos processos, utilizada pelo sistema judicial para evitar as solturas. Assim, o castigo se produz no próprio processo. A passagem pelas torturas nas delegacias, nas prisões, os meses de encarceramento, formam parte do dispositivo de criminalização da pobreza e do protesto. O Dr. Antonio Cortina, assessor letrado da Federação Judicial Argentina, ilustra com clareza essa situação: o verdadeiro perigo dos processos criminais não está na condenação, mas no próprio processo, que significa toda uma série de restrições e ameaças encobertas ou silenciosas. As causas são ativadas, desativadas, não mantêm um ritmo constante... às vezes ficam meio esquecidas ou relegadas nos trâmites, pe43 Esta pesquisa está publicada de forma completa no livro que contém o conjunto do trabalho realizado pelos coletivos que interagiram para elaborar essas conclusões que aqui apresentamos. 44 Pandolfi Svampa. Las vías de la criminalización de la protesta en argentina. disponível em: <www.maristellasvampa.net>.

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didos de informações ou perícias, e de repente reaparecem no momento oportuno. Essas causas têm uma periculosidade e potencialidade repressiva constante, e por isso mesmo é que são iniciadas. Muitas vezes o denunciante sabe perfeitamente que o fato não é suficiente para uma denúncia, mas a faz do mesmo jeito, porque dessa maneira cria um risco. E uma denúncia não muito sustentada, somada a outra com as mesmas características, a outra mais e a outra mais, termina armando um pacote, uma rede de contenção que não é visível, salvo para a pessoa que a tem sobre sua cabeça45. A criminalização dos movimentos sociais em luta e a judicialização do protesto tornaram-se uma enorme chantagem sobre as organizações sociais. Milhares de lutadores têm pendentes processos judiciais que podem comprometer sua liberdade, o que constitui uma maneira de evitar ou conter novos conflitos. É por isso que, quando Néstor Kirchner assumiu o governo, no ano de 2004, no marco da enorme mobilização dos setores populares que prosseguia depois dos dias 19 e 20 de dezembro de 2001, alguns organismos de direitos humanos apresentaram projetos para descriminalizar os militantes populares. No entanto, nenhum desses projetos foi aprovado. Em entrevista coletiva realizada em setembro de 2004, a Central de Trabalhadores Argentinos divulgou um documento que assinalava: A CTA manifesta sua profunda preocupação pelo avanço da criminalização, uma vez que a pressão dos grupos econômicos que não querem perder seus privilégios, acompanhada por um discurso que sustenta a mão dura e a repressão em defesa de uma suposta segurança, levou não apenas a que se mantenha o processo a mais de cinco mil compatriotas que enfrentaram as injustiças do modelo, mas também que, nos últimos tempos, tem-se aprofundado a perseguição e repressão a dirigentes sindicais e sociais em todo o país. São apresentados exemplos tais como: a província de Neuquén onde desde o ano de 1998 até hoje foram processadas 1.550 pessoas. Existem entre elas alguns casos emblemáticos, como o do companheiro Julio Fuentes, dirigente da ATE
45 Revista En Marcha, Federación Judicial argentina, n. 31, abr. 2003.

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e da CTA, que responde a 50 processos criminais e Horacio Fernández, atual secretário general da CTA, que responde a 20 processos, [e agrega que] também na província de Jujuy, o companheiro Nando Acosta, titular da CTA, enfrenta 50 processos judiciais e na cidade de Bahia Blanca são 115 os processados. As respostas institucionais aos protestos sociais que enfrentaram o modelo de fome e entrega se caracterizaram pela repressão direta, incluído o assassinato de 47 pessoas desde o ano de 1995 até hoje, e pela perseguição de milhares de delegados sindicais, trabalhadores desempregados, dirigentes sociais, religiosos, produtores rurais, pequenos e médios empresários, etc. Outro caso exemplar é o de José “Pepino” Fernández, dirigente da União de Trabalhadores Desempregados (UTD) de General Mosconi, contra quem há mais de 80 processos abertos. Um informe do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) sobre Direitos Humanos em 2008 diz que: O fenômeno da criminalização do protesto social consiste em iniciar milhares de processos judiciais à margem da lei, com a única finalidade de controlar ilicitamente os reclamos sociais. O que se busca com esta atividade é desestimular a participação em manifestações públicas mediante a apresentação de grande poder coercitivo que um processo judicial implica para quem é imputado, independentemente do resultado final que esse processo tenha…46 Então, algumas das formas em que se manifesta a criminalização dos movimentos populares é o avanço do processo de judicialização dos conflitos, visível na multiplicação e no agravamento das figuras criminais, na maneira como elas são aplicadas por juízes e promotores, no número de processos a militantes populares, na estigmatização das populações e grupos mobilizados, no incremento das forças repressivas e na criação especial de corpos de elite, orientados para a repressão e militarização das zonas de conflito. Por todos esses caminhos, os problemas sociais e políticos se transformam em processos judiciais, nos quais o povo não tem como intervir, a não ser como espectador ou como “acusado”. De possíveis atores sociais, os sujeitos em conflito ficam reduzidos a excluídos, a vítimas, ou a potenciais criminosos. O movimento popular encontrou-se então diante da dupla exigência de expressar seus direitos e de legitimar as modalidades dessa expressão. Teve que justificar as formas populares de “irrupção” na história e no presente cotidiano.
46 informe 2008 – Centro de Estudos Legais e Sociais.

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E essa maneira de “existir”, em alguns casos, está associada diretamente à oportunidade de “sobreviver”. Por isso, coincidimos com a formulação de Roberto Gargarella sobre a necessidade de reivindicar o direito ao protesto, considerado como “o primeiro direito”, como “o direito a ter direitos” 47. O endurecimento do contexto repressivo tornou-se visível também a partir dos anos 1990 (quando a resistência popular começou a se incrementar), quando se começou a se munir mais intensamente as diferentes forças: polícia federal, provincial, Gendarmería Nacional e Prefectura Naval Argentina (Polícia Marítima). No que se refere às formas repressivas que intervêm na repressão, o informe da Coordenadoria contra a Repressão Policial e Institucional (Correpi) aponta: [...] observa-se, nos anos mais recentes, que integrantes de outras forças de segurança, como a Prefectura Naval ou a Gendarmería, aparecem com maior freqüência como os que vitimam. Isso responde linearmente à crescente presença dessas formas, outrora limitadas às fronteiras ou aos cursos fluviais, no patrulhamento urbano, participando ativamente no controle territorial. A Gendarmería Nacional tem sido desde meados dos anos 1990 a força favorita na hora de reprimir conflitos sociais, e a preferida nos crescentes processos de militarização como em Santa Cruz ou no Hospital Francês. Igual caminho parece trilhar a Prefectura Naval, cujo grupo de elite Albatroz foi selecionado para ocupar o porto de Mar del Plata diante do persistente clamor dos trabalhadores pesqueiros de terra. Um parágrafo à parte merecem as estruturas de segurança, custódia ou vigilância privada, geralmente dirigidas por membros de alto posto do aparelho repressivo oficial, retirados ou em atividade. Seus integrantes, na maioria dos casos, são membros dessas forças, incluindo exonerados, em disponibilidade ou suspensos por delitos diversos. A isso se soma o acionamento cada vez mais visível de bandos paraestatais, em geral dirigidos ou compostos por elementos de choque vinculados à estrutura do partido do governo, que tomam em suas mãos, aparentemente “privadas”, a repressão aos trabalhadores organizados, por fora das burocracias. Outro tema importante é o das possibilidades que essas forças têm de realizar ações de inteligência nas organizações populares. Aponta o informe do
47 Roberto Gargarella. El derecho a la protesta. El primer derecho. Bs. as., ad-Hoc, 2005, p. 142 e 31.

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CELS já mencionado: Em nosso país, a inteligência nacional se encontra regulamentada pela Lei 25.520 que, em seu artigo 4.º, inciso 2.º, estabelece: “nenhum organismo de inteligência poderá obter informação, produzir ações de inteligência ou armazenar dados sobre pessoas apenas por fatos de sua raça, fé religiosa, ações privadas ou opinião política, ou da adesão ou permanência em organismos partidários, sociais, sindicais, comunitários, cooperativos, assistenciais, culturais ou trabalhistas, assim como a atividade lícita que desenvolvam em qualquer esfera de ação”. Dessa forma, a própria lei veda a possibilidade de desenvolver tarefas de inteligência sobre pessoas apenas por seu pertencimento a organizações sociais – movimentos de desempregados, assembléias de bairros, organizações de base, sindicatos, etc. O que a lei impede são os comportamentos persecutórios contra manifestantes, aqueles que estão dirigidos, antes que à descoberta de ilícitos, à criminalização dos manifestantes sociais. Apesar da norma parecer clara quanto ao que proíbe expressamente – a realização de tarefas de inteligência sobre manifestantes e organizações sociais –, a forma como tem sido interpretada não esteve livre de conflitos. Assim, em diversas oportunidades foi o próprio Poder Executivo quem ordenou a realização de ações de inteligência ilegais sobre organizações sociais, enquanto que, em outras ocasiões, foram arranjadas por iniciativa das instituições de segurança, e inclusive foram ordenadas por juízes e promotores... Deste modo, observa-se de que maneira no contexto das manifestações públicas as tarefas que se apresentam como de “inteligência criminal”, confundem-se com as vedadas pelo artigo 4.º, inciso 2.º, da Lei de Inteligência. Na pesquisa realizada por Gerardo Etcheverry para este trabalho48, está sublinhado que [...] faz muito tempo que o acionar policial diante das mobilizações populares se caracteriza pela intensa participação de efetivos policiais sem farda, que ficam nos arredores da mobilização, ou inclusive se introduzem entre os manifestantes, com fins que indubitavelmente são incompatíveis com os objetivos declarados da Polícia Federal Argentina (PFA). Este acionar do pessoal da PFA com trajes civis, que provavelmente teve o seu momento
48 Publicada na forma completa na versão argentina desse estudo.

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mais trágico nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001, quando seu pessoal, fardado ou não, assassinou e feriu dezenas de manifestantes na nossa cidade, tinha depois diminuído de intensidade (sem desaparecer em nenhum momento), mas, a partir do ano de 2004, recobrou nova força e periculosidade. Mais adiante assinala Etcheverry que: Depois da dissolução da Direção Geral de Inteligência no ano 2000, seu pessoal continuou em funções, embora com um papel ainda mais obscuro pelas dificuldades de documentá-lo. Um dos casos nos quais foi possível detectar a presença desses agentes no marco de ações de repressão ao movimento popular foi o massacre de Puente Pueyrredón49, ocorrido em 26 de junho de 2002. […] Durante o primeiro ano do período presidencial de Néstor Kirchner, o Ministério de Justiça, Segurança e Direitos Humanos viu-se obrigado a emitir a Resolução 38/2003 que, no substancial, recordava às forças de segurança e à PFA a vigência das proibições contidas na nova Lei de Inteligência. Se foi necessário que as autoridades insistissem na vigência de uma lei e recordassem que as normas que se lhe contrapunham haviam sido derrogadas, é possível presumir que alguma das forças (ou a totalidade delas) desconhecia, em suas ações, a normativa vigente. Hoje em dia, não há motivos para supor que a PFA tenha diminuído suas ações de inteligência dirigidas contra aqueles que protestam por seus direitos, e a utilização do pessoal civil continua amplamente estendida, depois de um breve período durante o qual o pessoal não fardado identificava-se com amplos jalecos com a sigla “PFA”. Isso aconteceu imediatamente depois da interposição (em 22 de setembro de 2004) de uma denúncia criminal contra essa prática, que tramitou primeiramente sob os números 13967/04 (B-8449/04) ante o Juizado Nacional Criminal e Correcional n.º 1, Secretaria n.º 2 da Capital Federal, depois passando para o Juizado n.º 7, Secretaria n.º 13, cujo processo foi concluído este ano – depois de ter tido três apelações. Essa querela foi impulsionada por diversas organizações sociais: a Liga Argentina pelos Direitos do Homem, o MTR-CUBA, o

49 Ver o testemunho do massacre de Puente Pueyrredón nesta mesma publicação.

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Movimento Territorial de Libertação Martín Fierro, às quais se somou um “ahorrista”* com o patrocínio de letrados da Liga Argentina pelos Direitos Humanos (LADH), do Movimento Territorial de Liberação (MTL). e de Fundação de Investigação e Defesa Legal Argentina – (Fidela). É conveniente destacar que, embora a citada Lei de Inteligência Nacional separe claramente as tarefas de inteligência criminal encomendadas à Direção Nacional de Inteligência Criminal (DINIC), durante o governo de Néstor Kirchner, a Secretaria de Inteligência (SI), pouco mais que a velha Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE) com novo nome, foi empregada para tarefas vinculadas a delitos comuns (seqüestros com extorsão) e na atualidade existe pelo menos um caso no qual uma promotoria contravencional requereu a essa secretaria uma informação absolutamente proibida: os dados relativos a uma organização piqueteira (o Movimento Territorial de Libertação) e um de seus dirigentes, por sua participação em uma atividade a favor dos trabalhadores contratados que foram deixados sem emprego pelo governo da Cidade de Buenos Aires encabeçado por Mauricio Macri. Em outro trecho da pesquisa, Etcheverry dá conta da criação do Departamento de Segurança do Estado (DSE): Esta repartição foi criada mediante uma Ordem do Dia Reservada (cujo conteúdo a Polícia Federal Argentina (PFA) se viu obrigada a acompanhar em uma causa judicial pelo seguimento a duas organizações políticas, Quebracho e Patria Libre, durante a presidência de Carlos Saúl Menem). Podemos destacar neste sentido as ações do Departamento de Segurança do Estado (sucessor do Departamento de Proteção da Ordem Constitucional que foi, por sua vez, a versão reciclada em dezembro de 1983 da Coordenação Federal), teoricamente destinado “à perseguição e investigação da atividade de grupos que possam pôr em perigo o sistema democrático e a ordem institucional com independência das atividades ou vinculações internacionais”; no caso de vinculações internacionais a tarefa corresponde ao Departamento Unidade de Investigação Antiterrorista (DUIA), menina mimada dos EUA, dentro da PFA, com uma subunidade na Tríplice

* São assim denominadas as pessoas que tiveram suas poupanças e investimentos bloqueados pelos bancos na crise
financeira de 2001 (N. da T.).

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Fronteira. O DSE depende da Superintendência do Interior e Delitos Federais Complexos (antes chamada simplesmente de Superintendência do Interior e, nos tempos da última ditadura, de Coordenação Federal) da PFA; sua subunidade operativa se chama precisamente Divisão de Operações e tem sido empregada em reiteradas oportunidades contra aqueles que protestam ou reclamam seus direitos. vale assinalar também que o governo de Néstor Kirchner, apesar de autoproclamar-se como “o governo dos direitos humanos”, é o governo que teve mais presos políticos desde 1983. Atualmente continuam presos seis camponeses paraguaios, com trâmite de extradição, aos quais o governo argentino não concedeu o refúgio que vieram solicitar a nosso país; seis presos detidos durante os protestos do povoado de Las Heras, na província de Santa Cruz (ver as cronologias anteriores); a militante de Filhos e Filhas pela Identidade e Justiça e contra o Esquecimento (Hijos por sua sigla em espanhol) Karina Germano (que foi presa no Brasil e extraditada para a Argentina); dois militantes chilenos requeridos pelo governo do Chile; e 23 integrantes da Assembléia de San Telmo, desalojados de um hotel. O caso dos militantes camponeses paraguaios é especialmente expressivo das mudanças que levaram a que a Argentina, um tradicional país de asilo, tenha respondido ao pedido de refúgio político com a detenção desses militantes perseguidos em seu país. Quando se fala de judicialização do protesto social, é necessário denunciar também o papel dos juízes e promotores. Como se aponta no trabalho realizado por Gerardo Etcheverry: [...] os agentes policiais ou de inteligência não atuaram contra os lutadores populares por decisão própria, mas sim por expressas ordens judiciais ou de promotorias. É necessário destacar então que o Poder Judicial não só desempenha o papel de garantir a impunidade do pessoal dos aparelhos repressivos e de inteligência (exceto casos excepcionais nos quais o custo dessa impunidade seja maior para o Estado que o dano ocasionado pela condenação de seus servidores) mas, além disso, promove, em muitos casos, de forma ativa a atividade repressiva ou as investigações ilegais em prejuízo daqueles que se manifestam ativamente contra o governo ou contra outros representantes da ordem estabelecida. O papel do aparato judicial para garantir o pleno poder dos órgãos repressivos e de inteligência não deve ser subestimado embora, por ser menos espetacular, desperte menos atenção que os operativos policiais.
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b.1. A batalha pelo espaço público
O protesto social emerge quando setores da sociedade perdem a esperança de tornar visíveis suas demandas. Diante da desconfiança sobre a possibilidade de resolver as demandas urgentes pela via da representação parlamentar e sobre a possibilidade de que possam ser escutadas por meios de comunicação – fortemente monopolizados –, o único caminho para fazer com que o protesto fosse visível foi a ocupação do espaço público. A tendência do movimento dos excluídos foi progressivamente ir encontrando a forma de existir politicamente na ocupação de praças, ruas, no bloqueio de estradas, no “escracho”. Esta modalidade de resistência foi inventada por Hijos50 para denunciar a impunidade dos genocidas, realizando esse ato de condenação social no território da vida cotidiana, ali onde o genocida vive com sua família, onde estão seus vizinhos. Esta forma de denúncia, que identifica responsabilidades individuais, quando a justiça deixa de fazê-lo, estendeu-se a outros movimentos sociais, colocando em debate a legitimidade do sistema judicial, por um lado, e por outro a tranqüilidade que a impunidade oferecia àqueles que eram e são os responsáveis pelos crimes aberrantes. Os “escrachos” atualmente se realizam tanto a um genocida da ditadura como a um dirigente político responsável por habilitar as políticas de contaminação e saque. No escracho, a vida privada se torna pública. A vizinhança fica sabendo das responsabilidades sociais daqueles com quem compartilha o espaço territorial. Isso provoca não apenas inquietação, mas novas exigências de fortalecimento das medidas que afastem “os indesejáveis” dos locais habitados pelos setores sociais ligados ao poder por múltiplos laços. Nesta disputa se inscreve a batalha que vem sendo travada a partir de 2001, quando as forças sociais ocuparam o espaço público com iniciativas que desafiavam a negação social que o modela vinha criando para invisibilizar as zonas de exclusão. A reorganização territorial realizada pela ditadura deixou a cidade de Buenos Aires como “vitrine” de uma Argentina “branca, moderna, européia…”, lugar preparado para o turismo e para a ilusão dos setores médios portenhos de haver obtido o visto para o primeiro mundo. Essa concepção se reproduziu na maior parte das grandes cidades argentinas (Rosario, Córdoba, Mendoza, entre outras), dando lugar a políticas de “limpeza social” que impedem os setores empobrecidos de entrar na cidade. O impedimento só é aplicado a mobilizações e concentrações convocadas por organizações de desempregados que se opõem ao governo nacional. Quando alguns organismos de direitos humanos denunciaram a arbitrariedade e a ilegalidade dessa disposição, o Governo mudou de estratégia, pondo condicionamentos direcionais a algumas marchas. Desde então, tem sido
50 HiJOS (Hijos por la identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio). Movimento integrado por filhos e filhas de desaparecidos políticos.

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uma constante a guerra contra os catadores51 – reeditada nos primeiros tempos do governo de Mauricio Macri na Capital Federal –, a proposta de criação de “zonas vermelhas” para a prostituição, o que confina as mulheres postas na rua pela miséria a verdadeiros guetos controlados pela autoridade policial, a perseguição aos vendedores ambulantes. Esta batalha pelo controle do espaço público também se estende ao fechamento das praças com grades (“para que os mendigos não durmam ali”), às grades com que são bloqueados os edifícios públicos e a Plaza de Mayo em momentos de conflito, à presença policial ou de segurança privada em lugares públicos, como as Universidades, violando abertamente a autonomia universitária. E também aos mecanismos de vigilância que transformam bairros inteiros em “bairros privados”. Assinala o CELS: As relações informais e ilegais entre as agências de segurança privada, pessoas vinculadas ao terrorismo de Estado durante a última ditadura militar e funcionários da polícia de Buenos Aires, foram denunciadas por ocasião do assassinato do repórter gráfico José Luis Cabezas no dia 25 de janeiro de 1997. No julgamento que teve lugar entre 14 de dezembro de 1999 e 2 de fevereiro de 2000, ficou demonstrado que o homicídio tinha sido cometido em virtude da instigação que Gregorio Ríos, chefe da custódia privada do falecido empresário Alfredo Yabrán, exerceu sobre o ex-policial bonaerense Gustavo Prellezo. Por sua vez, a polícia tinha recrutado para concretizar o seqüestro e o homicídio de Cabezas a um grupo de pessoas do bairro Los Hornos, na cidade de La Plata. Também foi determinado que os ex-policiais Sergio Rubén Cammaratta e Aníbal Luna deram apoio substancial para o homicídio, já que foram o nexo entre os imputados de Los Hornos e o ex-policial Prellezo. Segundo a Lei 12.297, art. 8.º, modificada pelas Leis 12.381 e 12.874, que regulam as atividades das pessoas jurídicas prestadoras de serviços de segurança privada, não podem atuar no âmbito da segurança privada quem tiver sido excluído das Forças Armadas, das forças de segurança, das polícias, do Serviço Penitenciário ou de organismos de inteligência, por delitos ou faltas, nem quem tiver antecedentes criminais ou processos judiciais em trâmite por delitos dolosos ou culposos relacionados com o exercício da função de segurança. Segundo o presidente da Câmara Argentina de Empresas de Segurança e Investigação (CAESI),
51 Os exércitos de homens e mulheres, meninos e meninas, revolvendo o lixo à noite era uma visão demasiado “fantasmagórica” para os medos toleráveis pelo “sentido comum”.

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existem em todo o país aproximadamente 200.000 vigilantes privados, dos quais 50.000 trabalham sem contrato formal. Em algumas zonas do país, a presença de seguranças privados de grandes empreendimentos vinculados à exploração de recursos naturais e propriedade da terra adquire características de grupos parapoliciais. Na província de Santiago del Estero foi denunciada a existência de grupos de segurança contratados por grandes proprietários que, além de guardarem suas terras, têm também a função de amedrontar os camponeses com os quais seus patrões têm disputas. Esses grupos atuariam encapuzados e fortemente armados.

b.2. As batalhas pelo território dos povos nativos e das populações camponesas
Nos espaços rurais estão sendo travadas batalhas decisivas pelo território, em torno das quais se estruturam elementos fundamentais da identidade e da cultura dos povos. A criminalização que é feita nessas ações reconhece práticas especiais, tanto nas políticas de terror que se aplicam nas comunidades como pelo tratamento que a mídia dá a elas. Assinalam Patricia Agosto e Claudia Briones em uma análise sobre a forma como se criminaliza o povo mapuche na Argentina52: O protagonismo do povo mapuche na luta em defesa da natureza está ancorada em sua cosmovisão, em sua concepção de território e no lugar ocupado pela espiritualidade em sua cultura. […] Esta cosmovisão é incompatível com os interesses das poderosas corporações transnacionais e nacionais, que utilizam recursos também poderosos para apropriar-se dos bens da natureza em território ancestral mapuche, e buscam a cumplicidade dos poderes políticos locais, provinciais e nacionais para enfrentar as resistências que as comunidades levantam diante da pilhagem. Assim, a militarização das zonas de disputa, a aprovação de leis terroristas, tentando aplicá-las aos que resistem, e a judicialização e criminalização das lutas, acusando muitas vezes seus protagonistas de “usurpadores” das terras em disputa, formam parte do quadro da situação. A repressão policial e de outras forças de segurança; as ordens de despejo e a abertura de processos criminais por parte da justiça; a venda ilegal de terras supostamente públicas; as permanentes
52 Luchas y resistencias mapuche por los bienes de la naturaleza. Patricia agosto e Claudia Briones. OSaL 22.

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intimidações de empresários e forças públicas completam o quadro. São formas freqüentemente aplicadas pelos poderes privados e públicos contra os povos nativos, em seu afã de fazer desaparecer os obstáculos para a concretização de grandes negociatas. Estas práticas ignoram os direitos territoriais, culturais e de identidade indígenas, sancionados pelo Convênio 169 da OIT (ratificado pelo país em 2001), e pela Constituição Nacional reformada em 1994, que reconhece a preexistência étnica e cultural dos povos nativos à formação dos próprios Estados, bem como seu direito de propriedade e posse sobre as terras tradicionalmente ocupadas. Esta situação se multiplica em todo o território do país onde existem comunidades que reivindicam seu pertencimento e identidade como povos. A criminalização dos povos nativos inscreve-se na tradição cultural com a qual foi constituído o capitalismo na América Latina, que justificou o genocídio dos habitantes nativos da terra. O despojo atual das comunidades, a repressão a que são submetidas quando defendem os últimos rincões aos quais foram confinados, é a continuidade das políticas de colonização cultural com as quais foram alienados de seu lugar no mundo os povos nativos.

b.3. A militarização de regiões petrolíferas
O Informe do Alerta Argentina 2005 assinala: Outro cenário de fortes conflitos é o que abrange as regiões de exploração petrolífera, ali onde a relação entre um modelo puramente extrativista (enclaves de exportação), sustentado por poderosos atores econômicos (empresas multinacionais), e a crescente deterioração de direitos se revela com maior dramatismo. O processo de privatizações resultou na destruição das capacidades estatais, bem como na construção de mercados monopólicos, paradoxalmente favorecidos pela própria proteção estatal, que terminaram por assegurar, através de condições vantajosas de exploração, a obtenção de uma “rentabilidade diferencial”. Este processo aparece paradigmaticamente ilustrado pelas áreas de exploração petrolífera onde se adverte a estreita relação entre o modelo econômico e a crescente deterioração dos direitos. Isto se expressa na territorialização crescente dos conflitos, a partir dos quais estes ficam entregues à intervenção da justiça e dos entes municipais e/ou provinciais, cujo grau de vulnerabilidade é maior que o de seus homólogos nacionais.
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A resposta do governo apontou a militarização das áreas em conflito, a partir de uma grande movimentação de tropas da Gendarmería Nacional, polícias provinciais e grupos especiais. O incipiente processo de militarização foi acompanhado pelo desenvolvimento de novas formas de territorialização das empresas multinacionais. Por exemplo, na localidade de Caleta Olivia, a Termap levantou um paredão de mais de três metros de altura, coroado com dupla cerca de arame farpado, custodiado por agentes encapuzados53. Essa foi a solução que as empresas da Termap – associação entre Repsol, YPF, Pan American Energy, vintage Oil e Shell – encontraram para pôr fim às reclamações dos habitantes do lugar. O mencionado muro antipiquete é a ilustração incontestável de um modelo de apartheid próprio de uma economia de enclave, hoje rebatizada como “enclave de exportação”. A localidade de General Mosconi (Salta) esteve praticamente sitiada pelas forças da Gendarmería entre maio de 2000 e dezembro de 2001. Durante os anos de 2000 e 2001 foram realizados na província de Salta, especificamente em Mosconi, os Operativos Cabanas, com a participação de 1.500 oficiais do Chile, Bolívia, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai, dirigidos pelo Comando Sul do Pentágono, sem a devida autorização do Congresso Nacional. Segundo documentos do governo argentino, o objetivo desse treinamento seria criar um “comando militar unificado” para combater o “terrorismo na Colômbia, além de um campo de batalha composto por civis, organizações não governamentais e potenciais agressores”.

c. da doutrina da segurança nacional à doutrina da segurança Cidadã
Os Estados Unidos empreendem múltiplas estratégias repressivas e de controle social sobre nosso continente em nome da “luta contra o terrorismo”. A partir daquele país são tramadas linhas de legislação que tentam incluir a ampliação de poderes para revistar as casas de possíveis suspeitos, interceptar suas comunicações, vigiar seu uso da Internet. Nesse marco se avança na imposição de acordos e legislações que tendem a assegurar seu controle na região. Rina Bertaccini, no informe para esta pesquisa, assinala que [...] a primeira Reunião de Ministros de Defesa das Américas (em williamsburg, virginia, EUA, de 24 a 26 de julho de 1995) é o ponto de partida da aplicação na América Latina da política de segurança do governo Clinton. Ali toma corpo a Doutrina da Cooperação para a Segurança Hemisférica (DCSH), pela qual os EUA se reservam o co53 La Nación. 19/6/2005.

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mando geral, as atividades de formação e treinamento, e a supervisão, enquanto que as tarefas práticas são realizadas pelas forças armadas e de segurança de cada um dos países. A DCSH está vigente e vale recordar uma vez mais que “o que eles chamam de segurança é, em essência, repressão das lutas e rebeliões populares que se estendem na região como resultado do crescimento da consciência dos povos diante das tremendas conseqüências sociais da política do neoliberalismo”54.

Em um trabalho de Albert R. Coll, ex-primeiro vice-secretário de Defesa para Operações Especiais e Conflitos de Baixa Intensidade, datado de 1997 e intitulado “Interesses estratégicos dos EEUU na América Latina”, o autor enfatiza o tema do narcotráfico distorcendo intencionalmente o conceito para associá-lo aos movimentos insurgentes e às rebeliões populares em palavras como “narcoguerrilha”, “narcosubversão” e “narcoterrorismo”. Esse é também o transfundo dos Acordos da Tríplice Fronteira assinados este ano (1998) por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai com a mira posta nas ações heróicas dos camponeses sem terra e outras lutas da região [da declaração citada do Mopassol]. vale agregar que esse é também o transfundo da legislação “antiterrorista” que prolifera no continente e no mundo. Desde 1999 foram produzidas iniciativas legislativas em consonância com essa pressão internacional, como a aprovação pela Lei 25.762 da Convenção Internacional para a Repressão dos Atentados Terroristas Cometidos com Bombas e a Lei 26.023, que aprovou a Convenção para Combater o Financiamento ao Terrorismo. No dia 30 de março de 2005, foram convertidos em lei, na Argentina, os convênios internacionais referentes à suposta “guerra contra o terrorismo” impulsionada pelos EUA: a Convenção Interamericana contra o Terrorismo (CICTE) e o Convênio Internacional para a Repressão do Financiamento de Terrorismo. Após o atentado às Torres Gêmeas, o governo de Bush propôs, entre outras coisas, a intervenção armada unilateral e preventiva em qualquer lugar a partir
54 Ver declaração do Mopassol – Movimento pela Paz, a Soberania e a Solidariedade entre os Povos – unirnos para resistir la estrategia imperial, 26 de abril de 1998. Sobre a dCSH também se pode ver Cooperación para la Seguridad Hemisférica – construyendo la seguridad cooperativa, de Francisco Rojas aravena, FLaCSO / Chile. FaSOC, v. 7, n. 2.

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de onde se considerasse que podia ser colocada em perigo a segurança dos EUA. Posteriormente indicou a Tríplice Fronteira como um foco de perigo terrorista potencial. Em fevereiro de 2003, o Presidente Bush emitiu uma diretriz segundo a qual o tráfico de pessoas era uma prioridade para o seu governo. A Embaixada dos EUA ofereceu subsídios à Organização Internacional de Migrações (OIM). Como relata um informe do embaixador norte-americano na Argentina publicado em 9 de junho de 2008 pelo diário Clarín: Desde 2001 o governo dos Estados Unidos comprometeu mais de 528 milhões de dólares em assistência financeira internacional para a luta contra o tráfico de pessoas. Nos últimos anos provimos em torno de 700 mil dólares à OIM para desenvolver campanhas de conscientização e programas de capacitação na Argentina e nos seus vizinhos do Cone Sul. Doamos camas, computadores e outros artigos para equipar o centro de assistência às vítimas dirigido por Susana Trimarco na Fundação María de los Angeles. Cabe mencionar também como parte das políticas de militarização impulsionadas pelos EUA a presença de manobras militares conjuntas, realizadas entre as tropas estadunidenses e as forças armadas de países da América Latina, que têm o propósito de preparar a participação das forças armadas da região em forças multilaterais. Os Operativos Cabanas, realizados em General Mosconi, Salta, fizeram parte dessas políticas. A este objetivo se soma a possibilidade das forças estrangeiras, presentes nas missões e exercícios conjuntos, de conhecer o terreno no qual se movem, obtendo informação em relação aos recursos, biodiversidade e características das populações; e também para exercitar-se na repressão (como sucede com as tropas da Minustah no Haiti). Foi nesse contexto que se aprovou a “Lei Antiterrorista”, votada e promulgada sob o número 26.268. Foi Cristina Fernández de Kirchner a encarregada de tramitar sua votação no Senado, conseguindo uma semana depois que fosse aprovada pelos Deputados. Essa pressa deveu-se ao fato de os Estados Unidos e o Grupo de Ação Financeira Internacional (Gafi) exigirem a sanção da lei antes de 23 de junho de 2007, sob ameaças de aplicar sanções econômicas, as quais consistiam na não-concessão de créditos por parte do Banco Mundial, FMI e outras entidades internacionais. A Lei Antiterrorista se situa dentro da doutrina jurídica mais retrógrada, que reproduz a doutrina do “Direito Criminal do Inimigo” e do “Direito Criminal de Autor”. Tem como objetivo estender o poder de repressão por meio de uma
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ferramenta legal que aumenta enormemente as atribuições das forças policiais, de inteligência, juízes, promotores e que é suficientemente severa para com os que lutam, e o mais aberta possível quanto às ações que possam ficar enquadradas como “terroristas”. Reprime com prisão de 5 a 15 anos todo aquele que colaborar, da maneira que for, com qualquer integrante de uma organização “terrorista” independentemente de essa pessoa ou de a organização efetuar algum ato ou fato nenhum. Esta legislação é sumamente antiquada em matéria de refúgio e asilo político, pois nega tais benefícios políticos às pessoas acusadas de “terrorismo”. Ampliam-se faculdades já por si amplíssimas da Unidade de Informação Financeira, dependente do Ministério de Justiça da Nação (um organismo de inteligência econômica do Estado) para recolher todo tipo de informação financeira, mesmo secreta, de qualquer tipo e sobre qualquer pessoa, em poder de quem quer que seja (AFIP, rendas das províncias, entidades bancárias, financeiras, contadores, etc.) Investigar e atacar as fontes de financiamento das organizações sociais e políticas populares (arts. 4 a 8 da lei), podendo dispor dos serviços de todas as agências de inteligência do Estado. Está facultada para solicitar a suspensão de qualquer operação ou ato mesmo antes de sua realização quando existam, a seu critério, indícios de que se trata de dinheiro proveniente ou destinado a um “integrante” ou arresto de bens das organizações populares ou de qualquer pessoa física. Com essa ferramenta repressiva (que se complementa, entre outras, com as Leis 25.241, 25.246 e os diferentes tratados internacionais sobre terrorismo), aprofunda-se a institucionalização dos infiltrados e provocadores nas organizações populares, bem como a incorporação da figura do arrependido (art. 9 que torna aplicável a Lei 25.241). Uma norma tão ambígua na tipificação do que é um ato de terrorismo abre as portas para considerar terrorista qualquer um que se oponha às políticas governamentais e decida militar ativamente contra elas. Em poucas palavras, torna-se uma desculpa perfeita para a perseguição política. Junto a estas medidas, os EUA decidiram reativar sua Iv Frota de Guerra, que voltou ao serviço ativo no dia 1.º de julho de 2008, para “combater o terrorismo e atividades ilícitas como o narcotráfico”, informou o Pentágono. “Servirá para mandar uma mensagem a toda a região e não apenas à venezuela”, disse o contraalmirante James Stevenson, comandante das Forças Navais do Comando Sul.

Algunas iniciativas de los movimientos populares
Os temas abordados na pesquisa são de enorme amplitude. No entanto, quanto mais analisamos quem são “os sujeitos da ordem” que vêm trabalhando na implementação das políticas de criminalização dos movimentos populares, cons74

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tatamos as estreitas relações entre eles e aqueles que legislam as políticas antiterroristas, ou aqueles que respondem às demandas de segurança construídas e alentadas a partir dos meios de comunicação de massa. Também podemos identificar a ideologia que nutre cada aspecto dessas políticas disciplinadoras que têm como objetivo garantir a governabilidade, assegurar os interesses das elites locais e domesticar as rebeldias populares, criando as condições subjetivas para a reprodução do capitalismo real. Os movimentos populares têm reagido diante desses processos de maneira criativa, em muitos casos, e de maneira defensiva em outros; e nessa experiência foram identificando algumas maneiras de diminuir o impacto que as políticas de criminalização têm na subjetividade popular. Alguns dos objetivos definidos tendem a suturar a fragmentação entre o mundo dos excluídos/as e os setores de trabalhadores/as, assim como dos setores médios. É fundamental, nesse sentido, conceber como parte das ações políticas e organizativas a batalha cultural, tendente a visibilizar o direito negado, pelo qual se está lutando, e os esforços realizados para aceder a esses direitos. Um aspecto essencial, nesta perspectiva, é o papel dos meios de comunicação alternativos, como um lugar significativo para a elaboração de outro discurso que possa resultar audível. Ao mesmo tempo, é imprescindível articular alianças com jornalistas que trabalhem nos meios de comunicação do sistema, elaborando estratégias para romper o cerco de desinformação levantado pelos governos provinciais e pelo nacional, respondendo aos interesses das transnacionais. Também tem sido sistemática a busca de alguns movimentos sociais de entrelaçar suas demandas, para evitar o isolamento (um exemplo é a vinculação entre a luta do movimento camponês pela soberania alimentar e a Campanha contra a Fome, que são impulsionadas por diferentes organizações populares). Outro grande esforço, neste processo, é aquele que tende a rearticular os setores do movimento de direitos humanos que possam assumir as demandas atuais. Diante da multiplicação de situações de criminalização, e constatando a debilidade existente em relação à quantidade de advogados para a defesa de setores populares com direitos vulnerados, é necessário, por um lado, contribuir para a formação de equipes de advogados jovens, especialmente nas províncias do interior do país, que possam multiplicar as experiências de defesa dos direitos das organizações populares, contribuindo para a modificação dos planos de estudo das Universidades, de maneira que se inclua a formação em direitos humanos; por outro lado, é importante dotar os movimentos populares de saberes básicos para a defesa de direitos, educando neles seus próprios militantes. Também é necessário pensar e propor iniciativas nos campos legislativo e judicial, que possam frear as ações repressivas marcadas pela impunidade policial,
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ou as interpretações judiciais carregadas de ressentimento contra os setores mais afetados. A interação entre o mundo dos movimentos sociais e o mundo parlamentar, requer que se criem condições para que o debate desses temas chegue até aqueles que possam se sensibilizar, e isso possa se traduzir em políticas de controle, de monitoramento e em legislações mais avançadas. Alguns temas necessitam respostas concretas no plano internacional: a presença da Minustah no Haiti, as leis antiterroristas, a Quarta Frota, não podem ser tomadas apenas no plano nacional. É imprescindível concertar ações daqueles que estejam dispostos a denunciar essas políticas; mas isso requer que elas sejam conhecidas de maneira mais clara pela militância dos movimentos populares. A relação entre as operações militares conjuntas e as políticas repressivas internas é um dos argumentos; o outro é a necessidade de dar uma batalha comum pela soberania dos povos ante as políticas imperialistas. Embora estejam sendo realizadas algumas experiências de educação popular que põem em debate os mecanismos de criminalização da pobreza e do protesto, e seu vínculo com a militarização do continente, é imperativo criar uma autêntica rede de educadores/as e comunicadores/as populares que, como parte de diferentes organizações, ou em diálogo com elas, multipliquem as experiências de defesa de cada um dos direitos arrebatados, e a formação de militantes com capacidade de comunicar essas batalhas de maneira que possam ganhar consenso em outros setores da sociedade. A legitimação do protesto social requer o diálogo plural com a sociedade. A sistematização de experiências de luta é outro caminho para que possam ser transmitidas as aprendizagens das organizações populares. Mas o fator fundamental para desorganizar as iniciativas do poder tem sido, em todos os casos, a possibilidade que tiveram os movimentos populares de sustentar níveis de mobilização que possam dar batalha diante de cada violação de direitos. As iniciativas para anular os processos dos lutadores têm sido eficazes quando se desenvolveram nas ruas ao mesmo tempo em que nos tribunais. A solidariedade com os presos políticos é uma exigência ética e também uma necessidade política diante de um sistema que não tem limites na capacidade de destruição do ser humano. Trata-se de não deixar sozinho ou sozinha a ninguém, por solidariedade e também como uma maneira concreta de recriar os laços sociais necessários para a constituição de sujeitos históricos com horizontes emancipatórios.

A descriminalização dos movimentos populares
A descriminalização dos movimentos populares é uma ação dirigida à relegitimação do direito ao protesto e também do direito à rebelião, diante de um mun76

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do que nos nega um espaço e um tempo para nele existir. É aprender a politizar as demandas sociais, evitando que sejam capturadas nas redes clientelistas que as amordaçam. É desestatizar as organizações de excluídos para recuperar a dimensão de autonomia que possibilitem que suas energias não sejam alienadas por políticas de manipulação traçadas a partir do poder. Tornar a luta social não só legítima, mas também desejável, exige que exploremos ao máximo as dimensões lúdicas, criativas, de uma prática política que não tenha uma lógica de sacrifício, mas que seja capaz de cultivar e apaixonar o imaginário coletivo, com o convite para refazer um mundo habitável. Trata-se, em definitivo, de recuperar a memória que foi seqüestrada nos museus, para que nos traga não apenas os nomes das vítimas, mas a memória de suas lutas, de seus sonhos, seus desejos, suas ânsias de transformar a vida. Descriminalizar será uma experiência de luta contra a pior das alienações: a que transformou os símbolos de resistência, as palavras de combate, as imagens sonhadas, em estandartes do poder. Será contribuir para a constituição de sujeitos com projetos políticos solidários, que possam reconhecer-se na ação necessária de romper o muro, de cortar a cerca, de derrotar a incomunicação, de crer na solidariedade, de julgar os verdadeiros criminosos e de ir sanando as cicatrizes lacerantes da repressão e da impunidade, nos corpos e na subjetividade de movimentos que assumam os sonhos como projeto, e a liberdade como uma meta possível de ser vivida.
Tradução: Beatriz Cannabrava

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BrAsil

CriminAlizAção dos movimentos soCiAis: demoCrACiA e repressão dos direitos HumAnos
Aton Fon Filho 55

introdução
Já desde os gregos se louvava a participação dos cidadãos na política, na demanda e na formulação e implementação de seus direitos sociais. Na sociedade contemporânea brasileira, a irrupção da cidadania em diferentes espaços de articulação e participação – conselhos, fóruns, conferência – não tirou importância dos movimentos sociais, mas, ao contrário, acresceu-a. Ainda que formalmente enunciados como “direitos e garantias fundamentais”, os direitos sociais inscritos nos artigos 6.º a 9.º da Constituição Federal, quer para sua implementação, quer para sua observância, demandam a participação massiva da população. Em contrapartida, o interesse na manutenção do status quo se vê ante a necessidade de impor freios a essa participação. A entrada do Brasil no processo de globalização e as políticas estatais desenvolvidas ao longo de meio lustro redundaram em forte frenagem do processo econômico e expropriação de riquezas nacionais e sociais. Em paralelo com as ações de privatização de bens e serviços públicos, a redução de garantias e suportes sociais, com a seguridade e previdência sociais em destaque, aprofundaram o abismo social e a marginalização. A queda vertiginosa da indústria de transformação durante a década de 9056 implicou forte elevação das taxas de desemprego e semelhante piora da qualidade dos empregos ainda disponíveis. Como efeito mais imediato, a amplitude e profundidade das lutas sindicais do final da década de 70 até meados de 80 transformaramse num temor dos trabalhadores urbanos pela perda das ocupações, repercutindo fortemente em redução da atividade reivindicativa. Os atuais movimentos sociais urbanos, não vinculados diretamente ao mundo do trabalho, mas estruturados a partir de organizações territoriais e de-

55 aTON FON FiLHO é advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra - MST, membro da Rede Nacional de advogados e advogadas populares (RENaP) e diretor da Rede Social de Justiça e direitos Humanos (Brasil). 56 de acordo com as Contas Nacionais do iBGE, a participação indústria de transformação cai de 23% em 1990 para 18% em 1998.

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mandas que não os colocam diretamente em oposição ao capital, mas em confronto com o Estado e seus imperativos de definir e implementar políticas públicas, movimentam-se numa faixa cidadã que, se não lhes rouba participação no espectro da luta de classes, permite a busca de atendimento de necessidades que redundam, por fim, em incrementar por via indireta, os salários rebaixados mercê da explosão da mão-de-obra disponível em decorrência de seguidos downsizing, fechamento de fábricas e reduzido crescimento industrial. Quanto aos movimentos sociais rurais, livres inicialmente desse temor do capital, viveram um crescimento de sua importância e mobilizações que veio paralelo e foi, de certa forma, incrementado pela expulsão de trabalhadores urbanos desempregados, num movimento de retorno. Quer por seus métodos e especificidades organizativas, quer pelas demandas que vocalizam, os movimentos sociais, em particular aqueles do mundo rural, de algum modo lograram manter e exercer ao longo de quase um quarto de século um potencial de mobilizações que têm servido para sinalizar as possibilidades combativas e de vitórias na luta de classes, mesmo num cenário de forte crise de emprego, desarticulação dos trabalhadores e confusão de lideranças sindicais. Nesse particular, sua ação tem adquirido importância destacada, em virtude desse prolongado período de descenso das lutas sindicais e em razão dos sinais que apontam uma retomada da atividade industrial e do emprego de mão-de-obra operária, a partir de 200357. Essa redução das alentadas taxas de desemprego anteriores permitiu um crescimento do grau de formalização no mercado de trabalho que atingiu um patamar recorde de 49%, enquanto os informais alcançam 19% e os empregadores, 5%. Não dispomos para este estudo, é verdade, de indicadores que permitam avaliar a incidência dessa transformação sobre a disposição de luta dos trabalhadores. Mas, assim como a restrição da disponibilidade de emprego constrange a mão-de-obra à submissão às exigências do capital, os momentos de forte crescimento da necessidade de força de trabalho aumentam a capacidade de negociação dos trabalhadores e sua confiança nos movimentos reivindicatórios. De outra parte, uma como outra repercussão sobre a consciência e disposição de luta não decorrem automaticamente das inflexões da curva de emprego, o que, se não permite ainda assegurar se e quando as manifestações podem se tornar perceptíveis, não exclui, porém, a possibilidade de afirmar a tendência. Luzes de crise brilham no horizonte internacional e seus raios ainda bruxuleantes já anunciam a possibilidade de iluminar decisivamente o cenário econômico brasileiro. Não podemos dizer se esses impactos serão sentidos antes que se firmem na consciência dos trabalhadores as possibilidades e os desejos de luta, ou
57 dados do iPEa mostram uma redução da taxa de desemprego, de 11,7% em dezembro de 2002, para 8,5% em abril e 7,8% em junho de 2008.

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antes que comecem eles a se manifestar e acumular em ações concretas. Mas não cabe dúvida de que também as preocupações dos capitalistas se devem voltar para essas hipóteses, e, por isso, às necessidades de reprimir as atividades do movimento sindical se vão somando, imperativas e urgentes, as de confrontar ações dos movimentos sociais rurais e urbanos, já que são elas, afinal, não apenas perigoso exemplo a atuar nas franjas da ação consciente, como a influir nesse espírito social disseminado que faz tantas vezes com que situações aparentemente calmas se vejam de súbito transtornadas por processos subjacentes em tempestades e tornados. Posto o foco da repressão nos movimentos sociais, vem a lume a exigência de conhecê-la. Não se conhece discrepância quanto ao caráter repressivo de ações empregadas para estabelecer limites à ação dos movimentos sociais, pondo-se a divergência quando se refere a suas legalidade e legitimidade. São esses movimentos expressão de demandas legítimas da sociedade brasileira? São os métodos e as ações utilizadas para manifestar tais demandas adequadas? Legítimas? Legais? Fincam os agentes estatais mais diretamente ligados às lides repressivas – policiais, promotores de justiça e magistrados – atenção e relevo à necessidade de estabelecer limites às ações desses grupos sociais, sob o entendimento de que põem elas em risco o estado de direito ao confrontarem o direito positivado. De outra parte, põe-se a questão de que, alegadamente, trata-se de repressão a organizações, ações e demandas econômicas, culturais e sociais, pelo que seria de tê-las como representativas e expressivas de pleitos na esfera dos direitos humanos. E, ainda, de que os pleitos de direitos humanos em geral constituem não apenas uma subsunção da realidade à legalidade vigorante, mas esforço de construção de uma nova legalidade, adequada à defesa e concretização desses direitos que se vão gerando no dia-a-dia e que buscam um respeito ainda inexistente. Por isso, a legalidade vigente é em si, muitas vezes, contraditória com aqueles direitos que, por merecerem prevalecer sobre elas, não a admitem. A dissonância entre legitimidade e legalidade ganha importância quando se encara a questão da ação dos movimentos sociais e sua repressão, dando vezo a um novo confronto, o do estabelecimento de limites à ação reivindicativa ou o de peias melhor estabelecidas perante as próprias ações repressivas. A Constituição Federal estabeleceu compromissos com a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. Traçou, ainda, objetivos fundamentais a serem atingidos, enumerados estes no art. 3.º – construir uma sociedade livre, justa e solidária, garantir o desenvolvi81

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mento nacional, erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais, e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Compromissos e objetivos apontam igualmente para a necessidade de ouvir a voz da sociedade, e os modos de ela se expressar são tornados ilimitados quando se garante, no art. 5.º, a liberdade de expressão do pensamento. Tornam-se cada vez mais freqüentes as invocações de ação repressiva e de restrições à atuação dos movimentos sociais, na mídia e no aparelho de Estado. Ressuscitam-se mecanismos que o passado esquecera nas gavetas – como a Lei de Segurança Nacional –, e o exercício da tortura é considerado justificado por serem os vitimizados integrantes de movimentos reivindicatórios tidos por exacerbados. Cresce o inconformismo ante a ausência de meios eficazes para direcionar e dar tratamento às demandas, ante o ressurgimento da tese de que “a questão social é um caso de polícia”. Os níveis de radicalização em ascensão impõem uma visão sobre essas demandas e seus meios de demandar, bem como suas limitações e seus meios de limitar. A postergação do atendimento das demandas econômicas sociais e culturais dos diferentes grupos marginalizados da sociedade brasileira gera situações limítrofes e exacerba os ânimos. O processo de globalização e existência de um estado de direito põe na ordem do dia para os movimentos sociais no Brasil demandas que vão além daquelas que imediatamente lhes dão origem. Comandado pela mídia, assumindo esta o papel de mecanismo de expressão das vontades das classes dominantes, em oposição à dos demais setores da sociedade, o Estado brasileiro vem assumindo cada vez mais às claras o múnus de gendarme em oposição ao de árbitro. Somam-se e se articulam diversas atividades estigmatizadoras do ideário das organizações e das lutas dos movimentos sociais; restritivas da veiculação de suas demandas e de sua existência organizada e repressiva de suas ações. Essas atividades, articuladas, apontam para negar a possibilidade de exercício da democracia, tisnando de descabidas e ilegais as demandas e terroristas as ações para sua consecução. Essa articulação se faz em desfavor da sociedade e da realização dos direitos humanos e põe o Estado a serviço de interesses privados, chegando a ponto mesmo de privatizar o monopólio da violência. Dizer dessa forma não implica desconhecer que será cabível ao Estado, também, as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas, religiosas etc. A própria consciência dos direitos humanos foi concorde com o desenvolvimento da sociedade humana, resultando de condições que permitiram a com82

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preensão de que todos os homens são dotados de inerente dignidade. Por isso, a expansão e a concretização dos direitos humanos pressupõem sempre a existência desses conflitos que opõem a sociedade a seus dominadores, que opõem sempre a ação desses dominadores para conter as demandas sociais e supõem alguma ação articulada do Estado com os dominadores para garantir a estabilidade das relações de produção. Com Gramsci, entendemos que a preservação da dominação não a buscam os dominantes consagrar apenas pelo exercício direto da violência, sendo esta, ao revés, secundarizada e invocada apenas em derradeira instância, válidos primordialmente os recursos ideológicos e culturais, no estabelecimento da hegemonia que torne aceitável a dominação exercida. E é nesse sentido que o enfrentamento à demanda por direitos humanos deve se fazer no sentido de negar tais direitos, como de reprimir sua invocação.

os movimentos soCiAis
De que movimentos sociais falamos? Inexiste todavia acordo sobre uma definição universalizante do que sejam movimentos sociais. Já se têm englobado sob o termo acepções mais amplas e abstratas, que incluem todas as manifestações sociais populares, como os levantes e insurreições anteriores e da primeira metade do Império, ainda que desprovidos muitas vezes de plataformas político-ideológicas claras 58. Nesse sentido, o termo faz referência a processos e grupos não-institucionalizados e suas lutas dadas com o objetivo de realizar transformações sociais, em particular no que tange à produção e apropriação das riquezas. Mas, como diz o Movimento Nacional de Direitos Humanos (ele próprio um movimento social resultado da articulação de outros), Os Movimentos Sociais Brasileiros se apresentam em diferentes configurações, um setor está articulado através de grupos organizados de base, em redes em nível regional e nacional, outros organizam pessoas e segmentos os mais diferenciados e sejam aqueles que se estruturam como redes ou juntando pessoas organizam os setores mais frágeis e explorados da sociedade brasileira, como: sem terra, assentados, pequenos agricultores, mulheres, quilombolas, indígenas,
58 GOHN, MaRia da GLÓRia, Maria da Glória Gohn. História dos movimentos e lutas sociais: a construção da cidadania dos brasileiros. São Paulo: Loyola, 1995.

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pessoas sem casa em áreas urbanas, favelados, pessoas presidiárias, adolescentes e jovens pobres e negros, homossexuais, travestis, entre outros. Todos estes grupos representam não apenas os Movimentos Sociais organizados, mas também sua própria existência revela o teor dos principais problemas sociais presentes no Brasil quando se realiza uma análise da conjuntura sociopolítica do país59. Isso permite ter por adequadas e cumulativas visões de que movimento social é (SCHERER-wARREN 1987, p.12) “um grupo mais ou menos organizado, sob uma liderança determinada ou não, possuindo um programa, objetivo ou plano comum, visando a um fim ou mudança social”, como de que60 “Os movimentos sociais apresentam perfis organizativos próprios, uma inserção específica na tessitura social e articulações particulares com o arcabouço político-institucional”. Não se pode descartar, porém, que são aqueles movimentos sociais que alcançam maior grau de organização, às vezes expandindo-se nacionalmente desenvolvendo e institucionalizando plataformas programáticas, métodos e formas de consciência particulares que têm logrado mais efetividade em sua ação, assim como a atenção e a repressão. É o que se dá, particularmente, com os movimentos sociais rurais, organizados na esteira da experiência do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o Movimento dos Atingidos por Barragens, o Movimento das Mulheres Camponesas, o Movimento dos Pequenos Agricultores e outros, mas também com articulações do Movimento de Moradia e a Central de Movimentos Populares. Esses movimentos têm origem recente no Brasil, datando os primeiros do período liberal-desenvolvimentista, quando o Partido Comunista Brasileiro faz um esforço para articular movimentos localizados na 1.ª e 2.ª Conferência Nacional dos Trabalhadores Agrícolas realizadas em 1953 e 1954 e no I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Rurais, que ocorreu em Belo Horizonte, em 1961. Embora sem vencer a característica de movimento local, ganham força as Ligas Camponesas, que apresentavam uma proposta de reforma agrária radical e lograram organizar, com certa rapidez, camponeses de Pernambuco e Paraíba; e o pequeno, mas significativo, Master – Movimento dos Agricultores Sem-Terra, do Rio Grande do Sul, que, impulsionado pelo apoio do governo de Leonel Brizola, ganhou alguma notoriedade e a repressão promovida por Ildo Meneghetti. O golpe militar de 1964 esmagou os movimentos existentes, em especial as Ligas Camponesas, que tiveram vários de seus dirigentes presos, assassinados e
59 MOViMENTO NaCiONaL dE diREiTOS HuMaNOS. a Criminalização dos Movimentos Sociais no Brasil: Relatório de Casos Exemplares. Brasília. 2006. 60 T. Evers, T. identidade – a face oculta de movimentos sociais. Novos Estudos Cebrap, 10, , p. 10, 1989.

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pelo menos um deles desaparecido. Movimentos sociais de destaque somente voltaram a aparecer já no período de ocaso do regime ditatorial, valendo mencionar o Movimento contra a Carestia, que contava com o apoio da igreja católica e cresceu graças à adesão das comunidades eclesiais de base. Dos movimentos sociais atualmente em atividade no Brasil, o é, de longe, o mais organizado e o que mais impacto causa na cena política. Como já foi apontado anteriormente, a condição de movimento social o põe diretamente em oposição ao Estado, de quem busca arrancar o atendimento de sua demanda constitutiva – a reforma agrária – e em face de quem se politizou, no sentido de que sua luta, reivindicativa na origem, por sua própria dinâmica se vê em seguida posta diante da necessidade de transformações sociais mais radicais, dado que seu interlocutor é exatamente aquele que, em nome dos dominantes, exerce a dominação. É essa característica, aliás, que faz com que qualquer novo movimento social se veja, logo em seu nascimento, às portas das prefeituras, dos palácios dos governos ou tentado a marchar a Brasília, já que não buscam eles estabelecer pressão sobre agentes privados, o que possibilitaria o recurso ao Estado como negociador e conciliador, sendo a pressão exercida diretamente sobre as autoridades estatais, ainda que intermediadas, algumas vezes, por ações em face de particulares. Com efeito, não desnatura o fato de que a pressão dos movimentos sociais é exercida diretamente em face do Estado, realizando eles ocupações de imóveis que descumprem a função social. Neste caso, a ação realizada não visa a arrancar concessões do capitalista, mas, ainda uma vez, obrigar a administração pública ao cumprimento de sua função de garantir a observância da função social da propriedade ou de sancionar seu desatendimento61. Daí se vê quanto há de farisaísmo na acusação de que os movimentos sociais estariam deixando de ser reivindicativos
61 Vale aqui menção ao acórdão proferido pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Habeas Corpus 4399/96, em que se decidiu pela concessão da ordem, constando do voto do Min. Luiz Vicente Cernicchiaro: “invoque-se a Constituição da República, notadamente o Título Vii – da Ordem Econômica e Financeira – cujo Capítulo ii registra como programa a ser cumprido a – Reforma agrária (arts. 184 usque 191). Evidentemente esta norma tem destinatário. E como destinatário, titular do direito (pelo menos – interesse) à concretização da mencionada reforma. a demora (justificada ou injustificada) da implantação gera reações, nem sempre cativas à extensão da norma jurídica. a conduta do agente do esbulho possessório é substancialmente distinta da conduta da pessoa interessada na reforma agrária. atualmente, a culpabilidade é cada vez mais invocada na Teoria Geral do delito. a sua intensidade pode, inclusive, impedir a caracterização da ação penal. No esbulho possessório, o agente dolosamente investe contra a propriedade alheia, a fim de usufruir um de seus atributos (uso). Ou alterar os limites do domínio para enriquecimento sem justa causa. No caso dos autos, ao contrário, diviso pressão social para concretização de um direito (pelo menos – interesse). No primeiro caso, contraste de legalidade compreende aspectos material e formal. No segundo, substancialmente, não há ilícito algum”. Em outra decisão, o mesmo STJ, no julgamento do Habeas Corpus 5574, fez constar: “Movimento popular visando a implantar a reforma agrária não caracteriza crime contra o patrimônio. Configura direito coletivo, expressão da cidadania, visando a implantar programa constante da Constituição da República. a pressão popular é própria do Estado de direito democrático”.

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para se tornarem movimentos políticos. No que respeita ao MST, outra peculiaridade está a nos parecer merecedora de atenção. Sendo, embora, um movimento de camponeses, este Movimento está longe de conformar um movimento camponês. Ressoam as palavras candentes de Marx no Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte para desenhar a imagem do conservadorismo camponês: Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos outros, em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo. Esse isolamento é agravado pelo mau sistema de comunicações existente na França e pela pobreza dos camponeses. Seu campo de produção, a pequena propriedade, não permite qualquer divisão do trabalho para o cultivo, nenhuma aplicação de métodos científicos e, portanto, nenhuma diversidade de desenvolvimento, nenhuma variedade de talento, nenhuma riqueza de relações sociais. Cada família camponesa é quase auto-suficiente; ela própria produz inteiramente a maior parte do que consome, adquirindo assim os meios de subsistência mais através de trocas com a natureza do que do intercâmbio com a sociedade. Uma pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles outra pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumas dezenas delas constituem uma aldeia, e algumas dezenas de aldeias constituem um Departamento. A grande massa da nação francesa é, assim, formada pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira que batatas em um saco constituem um saco de batatas62. Do MST, porém, é preciso que se tenha atenção para o fato de que a integração, diferentemente de outros movimentos sociais, demanda uma incorporação permanente que se aprofunda ou exclui nos duros tempos da vida em acampamento, à beira de uma estrada interiorana, sem água nas cercanias, muitas vezes; sem comida suficiente, quase sempre. Sob o constante acicate de pistoleiros, provocações da polícia e a suspeita e o medo dos moradores das vizinhanças para quem tanta gente despossuída é sempre um perigo de apossamento indevido, o acampamento
62 MaRX, KaRL, O dezoito Brumário de Luiz Bonaparte. in: Karl Marx e Friedrich Engels. Textos. São Paulo: Edições Sociais, 1982. p. 277.

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diferencia-se da “simples adição de grandezas homólogas” pela via do estabelecimento de uma ordem de vida, primeiro, que já é em si o brote de uma estrutura complexa, em que se vão relacionando inicialmente comissões diferenciadas de negociação, organização, alimentação e segurança e às quais vão sendo acrescentadas outras paulatinamente destinadas a cuidar e resolver os problemas de educação, saúde, transporte, comunicação e quantos outros assuntos demandarem uma resposta coletiva. Ao surgimento dessa estrutura se soma o estabelecer de regras de moradia e participação destinadas a reduzir os conflitos e regular a produtividade da vida em comum. E assim, pouco a pouco, o que estaria destinado a não ser mais que “um saco de batatas” se mostra como uma organização com relações complexas de componentes igualados, mais próxima, no viver, da solidariedade do trabalho proletário, mas com um ingrediente a mais resultante da adesão consciente, que compreende o papel que joga a atividade realizada, seu objetivo e seu conteúdo de construção do esforço e resultado comuns. Já se apontou que os proletários, por si sós, alcançam apenas o estágio da consciência reivindicatória, sendo necessário o aporte externo para que dêem o salto para a consciência política. Pois a esses camponeses o aporte externo cria uma relação solidária essencial para a vida e para os objetivos que estão propostos, de sorte que não é de estranhar que se disponham às manifestações, às marchas e à solidariedade. Uma relação e uma consciência que carregam muito de proletárias. Ainda na área rural, o Movimento dos Trabalhadores SemTerra (MST), fundado em 1984, com base na linha das mobilizações promovidas pela Comissão Pastoral da Terra, desde o final dos anos 70, no Rio Grande do Sul, constitui-se um dos grandes fenômenos políticos contemporâneos, com uma pauta inicialmente centrada sobre a questão da terra, mobilizando hoje cerca de 300 mil famílias assentadas e 80 mil acampadas. Sem a quantidade de afiliações de uma central sindical, o MST tem, nos dias atuais, uma presença política, uma estrutura organizacional e operacional tão mobilizada quanto à da Contag, com presença em todos os estados e uma rede de militância orientada e disciplinada na lógica do centralismo democrático. Montado em bases filosóficas e ideológicas com orientação explicitamente socialista, o MST potencializou as suas vitórias nas lutas contra o latifúndio e no seu poder de pressionar o governo, dando uma orientação mais política às suas mobilizações, que extrapolam os limites estritos da pauta dos trabalhadores rurais em campanhas contra a Alca, contra os alimen87

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tos transgênicos, pela libertação da Palestina, participando publicamente em todas as mobilizações pelas liberdades democráticas, por justiça social e pela cidadania63.
A essa organização da atividade do movimento social têm promotores de justiça, delegados e agentes de polícia, latifundiários e porta-vozes do agronegócio atribuído uma característica militar, de costas para a realidade de que é o trabalho do operário que assume tantas vezes características militares, presentes numa como noutra atividade a continuidade, subordinação e uma contraprestação, características essenciais da vida militar e que permitirão ter por configurada a relação de emprego nos termos de nossa legislação trabalhista.

Diferentemente, porém, de uma ou de outra, a adesão ao movimento social não se faz à conta de contraprestação, mas de esperança de direitos serem concretizados e de consciência da necessidade da organização e de certeza da possibilidade de dela advirem os desejados frutos. O MST não é, certamente, o único dos movimentos sociais a avançar na construção de uma institucionalização e organicidade. Mas algumas de suas características estão por merecer ainda um aprofundamento, motivo pelo qual nos permitimos aqui apenas um breve rascunho de algumas delas, na medida do necessário e suficiente para nossas preocupações. Observa com justeza Arim Soares do Bem que Se nas décadas anteriores os movimentos sociais eram definidos por uma enorme capacidade de pressão e reivindicação, a partir da década de 90 estes passaram a institucionalizar-se por meio das organizações não-governamentais. Tais organizações assumiram o papel não apenas de fazer oposição ao Estado, mas de participar da elaboração de políticas públicas, contribuindo, assim, para ampliar a esfera pública para além da esfera estatal64. O MST, porém, numa atitude que até hoje ainda lhe rende dificuldades de compreensão, recusou a sedução da institucionalidade pela via da conversão em ONG. E marcou essa diferenciação com a recusa do registro cartorial e da busca da afirmação como movimento de massas, no qual, em lugar da atuação isolada dos especialistas, é o agir organizado do coletivo, orientado por uma elaboração
63 GOMES dE MaTOS, aÉCiO. Organização social de base: reflexões sobre significados e métodos. Brasília: Núcleo de Estudos agrários e desenvolvimento Rural – NEad/Conselho Nacional de desenvolvimento Rural Sustentável/Ministério do desenvolvimento agrário, Editorial abaré, 2003. 64 arim Soares do Bem. a centralidade dos movimentos sociais na articulação entre o Estado e a sociedade brasileira nos séculos XiX e XX. Educação & Sociedade, Campinas, v. 27, n. 97, p. 1153, set.-dez. 2006.

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teórica, que constitui o método e o fundamento.

repressão Aos movimentos soCiAis

Ainda que comumente seja mais utilizada a expressão criminalização dos movimentos sociais e sindical, estamos em face de um processo de combate à demanda, organização e luta populares, que se manifesta por diferentes formas de enfrentamento: estigmatização, restrição, repressão e criminalização, um conjunto que chamaremos de repressão – no sentido empregado tradicionalmente – dos atos dos agentes e movimentos sociais. Já o Presidente washington Luiz dizia na década de 20 que a questão social era um caso de polícia, expressando-se de modo rude, talvez, mas apenas explicitando o que a tradição marxista já apontara como o papel do Estado – garantir, em última análise, a dominação de classe. Na seqüência da conhecida frase de Carl von Clausewitz para quem “a guerra é a continuação da política por outros meios”, os militares que regeram o Brasil durante 20 anos, a partir de 1964, fizeram da questão social um crime militar, dando-lhe o enquadramento que julgaram devido nas leis de segurança nacional65. A constitucionalização da sociedade brasileira, com o fim da ditadura militar, gerou, num primeiro momento, inúmeros e extensos avanços na organização e manifestação sociais, repercutindo em conquistas jurídicas como os princípios fundamentais estipulados no art. 1.º da Constituição Federal (a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político); os objetivos fundamentais enumerados no art. 3.º (construir uma sociedade livre, justa e solidária, garantir o desenvolvimento nacional, erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais, e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, e os direitos e garantias fundamentais expressos no art. 5.º e outras partes, e os direitos sociais constantes do Capítulo II. Essas conquistas jurídicas, por sua vez, abriram espaço para novos avanços organizacionais e de luta dos movimentos e agentes sociais. Não estranha, por isso, que tivesse início, desde logo, um movimento em sentido contrário, visando a restringir o espaço da luta social, com intuito de impedir a concretização dos direitos inscritos na Constituição Federal e possibilitar a construção do retorno ao exercício, pelo Estado, de seu papel de garantidor de dominação. Esse movimento retrógrado incorporou-se à tendência mundial decorrente da globalização econômica e política e às modificações econômicas advindas da submissão às orientações do chamado Consenso de washington, logrado acasalar no mesmo leito corpos aparentemente tão díspares quanto a defesa do chamado liberalismo e a repressão
65 Os militares editaram quatro leis de segurança nacional: os decretos-Leis 314, de 13.3.1967 e 898, de 29.9.1969, e as Leis 6.620, 17.2.1978, e 7.170, de 14.12.1983.

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das demandas sociais. A defesa da legalidade, mesmo quando essa legalidade mantinha incorporada à última lei de segurança nacional, em vigor até os dias de hoje, pareceu uma proposta natural, diante da necessidade de reconstrução de um arcabouço que guardasse um mínimo de semelhança com a democracia, depois de anos de exercício ditatorial.

estiGmAtizAção
Por seu papel na luta contra a ditadura e sua derrota, os movimentos sindical e popular, movimentos de mulheres, homossexuais, indígenas, quilombolas, ambientalistas, negro, camponês e outros ganharam destaque e acumularam respeitabilidade, fazendo com que suas demandas, plataformas de ação e métodos se difundissem e obtivessem apoio. Por isso, o esforço para limitar a ação desses movimentos e agentes, e reprimi-los, não se pode dissociar do conteúdo mesmo de suas reivindicações, tendo seus adversários gerado um esforço em diversos âmbitos, em particular acadêmico e de mídia, no sentido de descaracterizar, ridicularizar e estigmatizar suas teses, demandas e práticas66. Como regra geral, a estigmatização dos movimentos sociais e de suas ações se dá pela via da caracterização de suas demandas como antipopulares e de suas ações como voltadas contra os grupos sociais que defendem. Exemplo desse esforço encontra-se, por exemplo, em documento entregue por 113 representantes da posição contrária às ações afirmativas antidiscriminatórias aos negros, expressas na adoção de cotas para ingresso nas universidades, em que, numa inversão de valores, aponta-se como racista a defesa que se faça do emprego dessas ações afirmativas exatamente para superação do racismo. No que respeita às violações dos direitos das comunidades indígenas, tem a imprensa se dedicado a desmerecer e ridicularizar aqueles direitos, valendo-se, em geral, de afirmações incabíveis, como a de que os indígenas constituiriam empecilho ao progresso e ao desenvolvimento, e pretendessem tornar-se latifundiários, ao passo que as organizações que lhes dão apoio pretendem se apossar do território nacional67. Joênia wapichana (Joênia Batista de Carvalho) acusando-a
66 Tendo a luta dos trabalhadores rurais em favor da realização da reforma agrária se tornado uma das demandas mais visíveis e de maior aceitação na sociedade, diversas vozes que anteriormente sustentavam na academia a necessidade daquela política bandearam-se para o campo dos defensores das grandes propriedades latifundiárias e do agronegócio, ao tempo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Entre as mais notáveis delas podemos citar o sociólogo José de Souza Martins, antes assessor da Comissão Pastoral da Terra e depois seu oponente acerbo, e o agrônomo Francisco Graziano. 67 Nos momentos finais da redação deste trabalho, vimos o general-de-brigada Luiz Eduardo Rocha Paiva, ex-comandante da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, referendar as palavras de seu colega augusto Heleno, do Comando Militar da amazônia, afirmando: “Se o brasileiro não-índio não pode entrar nessas reservas, daqui a algumas décadas a população vai ser de indígenas que, para mim, são brasileiros, mas para as ONGs não são. Eles podem pleitear inclusive a soberania”. Paiva afirma que o Estado “não se faz presente”. “a amazônia não está ocupada. É um vazio. alguém vai vir e vai ocupar. Se o governo não está junto com as populações indígenas, tem uma ONG que ocupa. as ONGs procuram levar as populações indígenas a negar a cidadania brasileira”. a Fronteira não pode ficar “a reboque” de índios, diz general. disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u417412.shtml>. acesso em: 30 jun. 2008.

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de indígena falsa, que recebe dinheiro utilizando os índios, questionam até como ela conseguiu se formar advogada perguntando de onde veio dinheiro para esse feito e, além disso, acusam-na de causar violência contra brancos68. As denúncias de exploração de trabalho escravo, ou de trabalho indigno, em defesa dos trabalhadores escravizados e submetidos são apresentadas, pela mídia defensora dos fazendeiros escravistas, como prejudiciais aos trabalhadores e seu direito a um emprego. A exploração do trabalho infantil é justificada com o argumento de que as denúncias formuladas por seus oponentes objetivam tornar crianças e adolescentes mão-de-obra do tráfico de drogas. Outro exemplo marcante da criminalização é a estigmatização promovida pela grande imprensa das crianças e dos adolescentes em situação de rua, freqüentemente tratados como “delinqüentes” e “marginais”. A reportagem “Meninos se drogam e roubam no centro” (7) mostra meninos de rua cometendo delitos, enfocando o risco que estes representam para os pedestres. Na reportagem não se abordam a situação de risco e os problemas para sobreviver que as crianças e os adolescentes que vivem nas ruas da cidade enfrentam, vítimas de múltiplos fatores entre os quais a falta de alternativas educacionais e de assistência e promoção, a pobreza, miséria e exclusão das famílias, sem atendimento prioritário do Estado69. Talvez seja, porém, na atualidade, o MST que mais seja alvejado por essa campanha de negativização da imagem, apresentado diariamente na mídia como violento, vinculado à corrupção e ao banditismo70. A criminalização maior do MST, porém, partiu novamente da mídia burguesa. Jornais, revistas, rádios e telejornais destilaram vene68 Rosiana Pereira Queiroz; Juliana abrão da Silva Castilho; diego Ecker (Org.). a criminalização dos movimentos sociais no Brasil – relatório de casos exemplares. disponível em: <http://www.dhnet.org.br/dados/relatorios/nacionais/index.html>. acesso em: 18 jun. 2008. 69 Fórum Centro Vivo, Violações dos direitos humanos no centro de São Paulo. disponível em: <http://dossie. centrovivo.org/Main/HomePage>. 70 “durante os meses de junho e julho do ano de 2006, multiplicaram-se no Estado de Pernambuco outdoors, cartazes e notas públicas com os seguintes dizeres: ‘Sem-Terra: sem lei, sem respeito e sem qualquer limite. Como tudo isso vai parar?’. assinava o material midiático a associação de Oficiais Subtenentes e Sargentos da Polícia e Bombeiro Militares de Pernambuco (aOSS). a mensagem alusiva aos movimentos sociais de trabalhadores(as) rurais em luta pela terra, notadamente ao Movimento dos(as) Trabalhadores(as) Rurais Sem-Terra (MST), constituía apenas uma face da estratégia da associação. alguns meses antes, ela havia publicado em jornais de grande circulação em Pernambuco notas de repúdio às entidades de defesa dos direitos Humanos, acusando-as de ‘defensoras de bandidos’ e propagando a tese segundo a qual os direitos Humanos deveriam servir aos ‘humanos direitos’”. Roberto Cordoville Efrem de Lima Filho. direito humano à comunicação: uma afirmação contra a criminalização dos movimentos sociais. disponível em: <http://209.85.215.104/search?q=cache:Tn_lcTiudMJ:www.direitoacomunicacao.org.br/novo/index.php%3Foption%3dcom_docman%26task%3ddoc_download%26gid%3 d218+Roberto+Cordoville+Efrem+de+Lima+Filho&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=2&gl=br>. acesso em: 18 jun. 2008.

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no contra a “jornada de luta pela reforma agrária”. O “abril vermelho” ocupou os principais noticiários sempre com abordagens negativas. Os manifestantes foram execrados como arruaceiros, violentos e inimigos da sagrada propriedade privada. Como registrou Marcelo Salles, editor do Fazendo Média, o ataque mais virulento coube à Tv Globo. Numa das várias “reportagens” do Jornal Nacional, nos dois minutos e vinte quatro segundos da matéria busca-se a criminalização do MST. Para tanto, as imagens e palavras são articuladas para transmitir ao telespectador a idéia de que seus militantes são responsáveis por todo o medo que ronda o Pará. Logo na abertura, o fundo escurecido por trás do apresentador exibe a sombra de três camponeses portando ferramentas de trabalho em posições ameaçadoras, como a destruir a cerca cuidadosamente iluminada pelo departamento de arte da emissora... Em nenhum momento os dirigentes do MST são ouvidos, o que contraria o próprio manual de jornalismo da Globo. Obsessão editorial da revista veja Quanto à asquerosa revista veja, desta vez ela não deu capa para demonizar o MST – como uma em que João Pedro Stedile aparece como o próprio molock. Mas nem precisava. O seu ódio à luta pela reforma agrária já é notório. Um excelente estudo de Cássio Guilherme, intitulado “Revista veja e o MST durante o governo Lula”, comprova que a publicação da famíglia Civita tem como obsessão editorial atacar os sem-terra. Ele acompanhou a cobertura da revista desde a criação do movimento, em janeiro de 1984. Num primeiro momento, ela até tentou cooptar o MST, tratando seus militantes como “coitadinhos, pés-descalços, analfabetos, que lutam por um simples pedaço de chão. Tal atitude por parte da revista teve a deliberada intenção de neutralizar as suas forças”. Como não conseguiu o seu intento, ela passou a atacar sistematicamente o movimento. “Como o MST sobreviveu e continuou crescendo, a alternativa foi satanizar o movimento. Passou-se a dar destaque para toda e qualquer conseqüência negativa das suas ações. A revista usou de diversos clichês preconceituosos, fazendo o julgamento social de seus integrantes. Termos como invasão, baderna e arcaico passaram a ser correntes nas reportagens. visavam estereotipar o movimento como atrasado e antidemocrático, inclusive associando-a a figura de Lula, o principal adversário nas cor92

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ridas presidenciais.” A detalhada pesquisa, de quem teve estômago para acompanhar suas edições, confirma que a criminalização do MST é um dos principais objetivos da direita fascista. Conforme constatou Cássio Guilherme, para a revista veja “o MST não quer apenas terras, mas principalmente a tomada do poder; os sem-terra são massa de manobra de seus líderes; as figuras de Che, Fidel e Mao Tse Tung sempre são ligadas de forma pejorativa; confrontos com mortos são culpa única e exclusiva do MST que promove invasões; a reforma agrária é uma utopia do século passado; e não existem mais latifúndios improdutivos no Brasil. Enfim, o MST invade, seqüestra, saqueia, vandaliza, tortura, mata”. Não há nada de jornalismo imparcial, mas sim pura ideologização visando crimina lizar um dos principais movimentos sociais do país71. Até mesmo a divulgação de pesquisas sobre o modo como a população vê o MST pode ser e é utilizada para difundir mensagem de estigmatização da imagem do Movimento. Ao noticiar a realização de pesquisa sobre o MST encomendada pela Companhia vale do Rio Doce, adversária do Movimento porque este encabeça campanha nacional pela anulação do momentoso leilão que a transformou de empresa pública em privada, as Organizações Globo anunciaram com estrépito: “MST é visto como sinônimo de violência”72. A manchete poderia ser vista, assim, como apenas um resultado de uma campanha anterior. Pior que isso, porém, é que destoava do próprio conteúdo da divulgação. Com efeito, no corpo da matéria se noticiava que, se, “para 45% dos entrevistados, a palavra que melhor descreve o MST é violência, para 27%, é coragem; e, para 24%, é a expressão ‘reforma agrária”73. vê-se, portanto, que a pesquisa relatava uma predominância de visões positivas quando se tratou de indicar uma palavra que expressasse o MST. Pese a tanto, a manchete estigmatizadora ajudava a reproduzir e fortalecer a imagem do Movimento como violento.

QuAliFiCAção Como terrorismo
Assim como, em especial, após o ataque às torres gêmeas, em 2001, a políti71 aLTaMiRO BORGES. Nova onda de criminalização do MST. disponível em: <http://www.correiocidadania. com.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=1800>. acesso em: 17 jun. 2008. 72 SORaYa aGGEGE. ibope: MST é visto como sinônimo de violência. O Globo, 15 jun. 2008, sumariada em O Globo Online. disponível em: <http://oglobo.globo.com/pais/mat/2008/06/14/ibope_mst_visto_como_sinonimo_de_violencia-546806512.asp>. acesso em: 18 jun. 2008. 73 idem.

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ca dos Estados Unidos voltou-se para carimbar como terroristas todas as organizações, movimentos, atividades e pessoas que se oponham a seus interesses, no Brasil uma corrente na mídia, na política e nos órgãos de Estado deu-se a qualificar de terrorismo as ações do movimento social em favor de suas reivindicações. Esse trabalho de acoimar de terroristas os movimentos e organizações sociais, bem como seus integrantes, tem origem como resposta da extrema-direita militar ao dispositivo que, na Constituição da República, excluiu a prescrição do crime de tortura. Naquele então, sem condição de opor-se à proposta normativa, em decorrência do repúdio social que se estabelecera em face da tortura empregada como método pelo regime militar, a extrema-direita buscou e obteve, considerando a correlação de forças do momento, que igual determinação se aplicasse também ao “crime de terrorismo”. Ainda que inexista tipificação legal dessa figura delitiva, as forças conservadoras desde logo passaram a utilizar o substantivo terrorismo e o adjetivo dele derivado para referir-se às demandas e ações sociais. As atividades do MST, mas não apenas elas, são freqüentemente assim designadas, vindo a designação sempre vinculada à invocação de ação repressiva estatal. Em um editorial do jornal O Globo, no dia 21 de março, podemos ler o seguinte sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra: “Faz tempo que o MST se descolou da questão da reforma agrária e se converteu em uma organização política radical, semiclandestina, [...] com uma face operacional, patrocinadora de ações que começam a ganhar roupagem de terrorismo”74. Aparentemente o diálogo termina nessas duas cenas, mas eis que irrompe, na mesma edição da revista [veja], uma terceira reportagem que prolonga os sentidos até aqui expostos de terrorismo e medo, relacionando-os com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Curioso perceber que Beslan, Laden e o MST aparecem como ícones interligados pelo ódio que lhes corre nas veias emendadas75. Ao trabalho dos grandes órgãos da mídia se soma a ação dos parlamentares hidrófobos da direita, no mesmo sentido, demonstrando a clara orquestração de métodos e objetivos. Já em abril, a cada ocupação de terra ou protesto diante do Incra ou Banco do Brasil, um senador se revezava no plenário para
74 PEdRO CaRRaNO. Brasil de Fato, 21 maio 2008. 75 LuCíLia MaRia SOuSa ROMãO. Veja vs. MST. Memória e atualização de sentidos em três atos do discurso jornalístico. disponível em: <http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=294iMQ007>. acesso em: 17 jun. 2008.

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desferir ataques hidrófobos ao MST. Artur virgilio (PSDB-AM) e Gerson Camata (PMDB-ES) foram os mais histéricos, acusando os manifestantes de “bandidos” e “terroristas”. Na seqüência, o novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, aproveitou a sua posse para, segundo leitura da mídia, atacar os sem-terra. O ministro elogiou a democracia nativa, “ainda que alguns movimentos sociais de caráter fortemente reivindicatório atuem, às vezes, na fronteira da legalidade... Nesses casos, é preciso que haja firmeza por parte das autoridades”, aconselhou, quase que num recado ao presidente Lula, presente na solenidade76. Nessa mesma linha, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Congresso Nacional, conhecida como CPI da Terra, aprovou relatório do deputado Abelardo Lupion (PFL-PR) em que pede a tipificação do ato de ocupação de terra como crime de terrorismo, qualificado como hediondo. Também empresas privadas se têm somado a essa política de indicar como terrorismo a ação social: No mesmo sentido, até pouco tempo, a página na internet da vale exibia o vídeo de uma coletiva de imprensa, com seu diretorexecutivo, Tito Martins, à época das manifestações da via Campesina do dia 8 de março. O posicionamento dos próprios jornalistas, ao longo da entrevista, era de condenação à postura dos movimentos sociais. Uma jornalista presente na coletiva reforçava a questão do terrorismo. A vale, que até então havia se mantido em silêncio quanto à ação dos movimentos, passou a pedir punição77. Mas não só ao MST está reservado esse tratamento. Também outros movimentos sociais o recebem, dependendo sempre do interesse de seus adversários. Mais recentemente, ao Movimento dos Atingidos por Barragens se dedicou a pecha: Para a relatoria da ONU, o MAB e outros movimentos sociais “desenvolveram modos de ação social e participação e estão desenvolvendo regras de combate que diminuem a possibilidade do uso de violência em ações sociais”. E por isso recomenda ao governo brasileiro que esse aspecto deve ser “projetado pelo Estado, assim como pela mídia” – o que infelizmente não vem aconte76 aLTaMiRO BORGES. Nova onda de criminalização do MST. disponível em: <http://www.correiocidadania. com.br/content/view/1800/47/>. acesso em: 17 jun. 2008. 77 Pedro Carrano. Brasil de Fato, 21 maio 2008.

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cendo. A maioria dos meios de comunicação projeta o MAB e seus militantes como uma quadrilha, como um caso de polícia, destacando-se em 2006 a parcialidade da cobertura do jornal Estado de Minas. Em matérias publicadas no mês de julho o movimento é chamado de “grupo radical”, “suspeito de alojar os mentores de um plano de sabotagem” e que “recebe treinamento no exterior”. As fontes do jornal não seriam ninguém menos que os serviços secretos brasileiros (ABIN, P2...). Ora, quem recebe treinamento é militar; treinamento no exterior é tática terrorista; sabotagem; investigação da ABIN; a caracterização dada pelo jornal ao movimento transmite a idéia de que trata-se de uma organização “terrorista” para o leitor78. Invertido o sentido de sua ação em defesa dos interesses do povo e estabelecida contra eles a acusação de práticas terroristas, os movimentos sociais devem se ver frustrados de possibilidades de defesa de seu ideário, métodos e atividades. Faz-se necessário estabelecer uma limitação a seu direito de difundir idéias, manifestar pensamentos e divulgar informações.

restriçÕes À liBerdAde de inFormAção e opinião
Estando em mãos dos grandes grupos econômicos o poder de determinar a linha editorial dos grandes órgãos de imprensa, não é de estranhar que se alinhem eles na oposição aos movimentos sociais, nem que neguem a estes a possibilidade de divulgar seus pontos de vista. Mesmo nos pontos mais remotos, os órgãos de difusão e de imprensa se alinham automaticamente aos adversários das demandas populares: Pouco antes de conceder uma entrevista a uma rádio local, em Marabá (Pará), para divulgar a situação dos conflitos no campo no Brasil, o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), José Batista Afonso, deparou-se com a advertência do radialista: o entrevistado não podia mencionar o nome da vale (ex-vale do Rio Doce), mineradora que opera na região79. Não dispondo de meios de informação de massa, ou os tendo apenas parcos,
78 Leandro Gaspar Scalabrin. ONu confirma denúncias do MaB – Modelo energético continua sua sanha impune.
79 PEdRO CaRRaNO. Brasil de Fato, 21 maio 2008.

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as manifestações de grupo constituem o meio por excelência para divulgação do ideário e reivindicações dos movimentos sociais, que por intermédio delas exercem pressão sobre as autoridades e realizam proselitismo. Mesmo tais meios, porém, vêm cada vez mais sendo objeto de restrições, que se quer justificar atribuindo às demonstrações massivas a condição de perturbadoras da ordem social e causadoras de prejuízo aos cidadãos. As manifestações públicas das diferentes categorias de trabalhadores urbanos têm encontrado, contra si, dois tipos de argumentos reiteradamente utilizados. Por primeiro, visando a incompatibilizar a população com o direito de manifestação, apontam-se as manifestações como constrangedoras do direito de ir-e-vir, causadoras de empecilhos à vida social e mesmo como ameaçadoras à vida e à saúde, com o argumento de que impediriam o deslocamento de ambulâncias e carros de socorro a enfermos. De outra parte, tais manifestações têm se tornado freqüentemente uma contabilização de supostos prejuízos à economia, valendo-se de cálculos que partem da responsabilização dos manifestantes pelas dificuldades do tráfego, passam por estimativas de tempo parado e de número de veículos, para desembocar na afirmativa de que os trabalhadores é que seriam as vítimas e alvo dos manifestantes. O jornal Folha de S.Paulo, de 26 de setembro de 2007, divulgou que a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo estaria realizando cálculos desse teor para embasar ações do Ministério Público contra manifestantes e suas entidades. Como alternativa, a Companhia sugeriria para as manifestações a fixação de locais tão insólitos como distantes, como o sambódromo paulistano80. Segundo os relatórios da CET, nos últimos três anos, o prejuízo financeiro foi de mais de R$ 3 milhões e o congestionamento somado é de mais de 227 quilômetros. Para chegar a estes números, foi levado em conta o custo das horas paradas no trânsito81. Por causarem tais transtornos à vida social, justificar-se-iam limitações administrativas e policiais, que se vão tornando cada vez mais comuns e que contam já, muitas vezes, com apoio do Ministério Público e do Poder Judiciário. Depois de parar a Avenida Paulista, na região central de São Paulo, por três sextas-feiras seguidas, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado (Apeoesp) enfrentará um inquérito civil para apurar excesso em suas manifestações. A promotora de Habitação e Urbanismo do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Stela Tinone Kuba, abriu nesta sexta (27) o processo de investigação. O MP vai
80 LuCiaNa CaNdidO. Prefeitura de São Paulo quer restringir protestos em locais públicos. disponível em: <http:// www.pstu.org.br/autor_materia.asp?id=7445&ida=40 81 idem

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apurar se houve excessos e prejuízos à mobilidade dos moradores da capital paulista nos protestos de hoje e dos dias 13 e 20 deste mês. O inquérito investigará ainda se o sindicato atendeu às exigências legais para fazer manifestações. É preciso avisar previamente a Polícia Militar (PM) e a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), para que monitorem o protesto e orientem as pessoas que estão no local. Nos dias das manifestações, bloqueios na avenida – normalmente já congestionada – causaram até 2,2 quilômetros de lentidão. Um ofício do promotor de Justiça da Cidadania Luís Fernando Pinto Júnior reforçou o pedido de apuração. Ele encaminhou a petição à Promotoria de Habitação e Urbanismo e ela deve ser juntada ao inquérito de Stela Tinone. Ontem, a PM entrou com representação com a mesma solicitação ao Ministério Público82. Na cidade de São Paulo, a administração municipal tem exigido comunicação com antecedência para a realização de passeatas e manifestações. No Ceará, o governo do Estado já proibiu em anos passados marchas de camponeses. No Rio Grande do Sul foi o Poder Judiciário que ordenou à força policial que impedisse marchas de trabalhadores, não sendo de esquecer que no Paraná, ao tempo do governador Jaime Lerner, policiais militares assassinaram um trabalhador sem-terra quando uma marcha de camponeses foi impedida de se dirigir a Curitiba. E, no Pará, o célebre Massacre de Eldorado de Carajás decorreu exatamente de ação que visava a cercear manifestação de camponeses em marcha rumo a Belém. Com o mesmo sentido, e agindo como braço das forças do atraso, o Poder Judiciário já se lançou em outras oportunidades contra o MST, valendo aqui referir decisões proferidas na comarca de Teodoro Sampaio que, copiando institutos vigentes nos Estados Unidos, pretendeu proibir trabalhadores sem-terra de se aproximarem a menos de 10 km de determinada propriedade, o que, violando o direito de ir-e-vir, transformava-os em prisioneiros de campos de concentração, dado que impedidos de usar as estradas da região, que se encontravam dentro do perímetro proibido. Também cabe referência à recente decisão de magistrada do Rio de Janeiro que pretendeu determinar a dirigente do MST que se abstivesse de manifestar opinião a respeito da Companhia vale do Rio Doce, responsabilizando-o por qualquer manifestação de inconformismo com esta que ocorresse no território nacional. A violação do direito de manifestação se estende igualmente aos direitos de organização sindical e de greve, invocadas cada vez mais limitações a eles.
82 disponível em: <http://educacao.uol.com.br/ultnot/2008/06/27/ult4528u396.jhtm>. acesso em: 30 jun. 2008.

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Somado ao trabalho de incriminação realizado pela mídia, cada vez mais categorias de trabalhadores são vitimadas por ações do Ministério Público e decisões do Poder Judiciário que, afrontando a Constituição e os Direitos Humanos, buscam, na prática, proibir o exercício do direito de greve. A Constituição da República estabelece peremptoriamente que: “Art. 9.º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender”. Apesar disso, cada vez mais categorias são impedidas de exercer esse direito em virtude de decisões judiciais que estabelecem obrigatoriedade de garantirem os sindicatos a atividade de trabalhadores em números tais que, na prática, inviabilizam o direito que a Constituição assegura. Sob o argumento de que realizariam atividades essenciais, categorias de trabalhadores vinculados aos transportes, serviço público, energia, etc. já foram obrigados a, por seus sindicatos, garantir o comparecimento de pessoal ao trabalho. Tais decisões, contudo, afrontam o texto constitucional, eis que somente se estabelece, ali, restrição nas hipóteses em que a lei confira a uma atividade esse caráter essencial, e que a mesma lei estabeleça os limites mínimos de atividade. Isso é o que decorre, sem dúvida, do § 1.º do art. 9.º da Constituição da República, em que se dispõe que: A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. vítimas relevantes dessa política restritiva e repressiva foram, por exemplo, os petroleiros – que quase tiveram sua Federação inviabilizada por multas impostas pelo Judiciário – e metroviários, que a cada greve tornam-se alvo da fúria da magistratura. Como o são, neste momento, os professores: “O MP pediu hoje à Justiça ainda a execução de uma dívida de R$ 156,4 mil da Apeoesp. A multa é resultado de uma ação civil pública contra o sindicato por causa de uma manifestação ocorrida em 1999. Na ocasião, os docentes interditaram a Avenida Paulista sem antes ter avisado as autoridades, o que trouxe transtornos a quem estava na região. Com a intimação, a Apeoesp terá 15 dias para depositar o dinheiro no Fundo Estadual de Reparação dos Interesses Difusos Lesados. O valor será reajustado até ser pago”83. O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) é o mais visado. Não só a entidade responde a pro83 disponível em: <http://educacao.uol.com.br/ultnot/2008/06/27/ult4528u396.jhtm>. acesso em: 30 jun. 2008.

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cessos, mas alguns de seus diretores, individualmente, também. O presidente da Apeoesp, Carlos Ramiro, foi condenado a pagar R$ 3.350 milhões de reais por danos materiais e morais. Seus bens estão bloqueados pela Justiça e, obviamente, não tem como pagar esse valor. Esta sentença, porém, apesar de ter recaído sobre Ramiro, é um ataque à categoria. O Ministério Público, representando os interesses do governo, visa, com a medida, desorganizar os professores. Para Ramiro, trata-se de “um jogo político do Ministério Público, pois em vez de acionar o governo para atender às reivindicações, é mais fácil impedir que os sindicatos façam manifestações”. Ele disse, ainda, que o governo chegou a propor que os professores fizessem manifestações no sambódromo de São Paulo, que fica na marginal Tietê. João Zafalão, membro da Diretoria Executiva da Apeoesp e da Oposição Alternativa, também responde a inquérito policial por conta da manifestação do dia 23 de maio passado, em frente à Assembléia Legislativa. O ato terminou em enfrentamento com a polícia. “Estas ações são parte da tentativa de criminalizar a Apeoesp, todas as manifestações que a Apeoesp fez foram parar no Ministério Público em ações indenizatórias, eles querem intimidar o movimento”, disse 84. São, portanto, as restrições ao direito de manifestação e de divulgação do pensamento de responsabilidade, hoje, quer de agentes privados, quer de agentes estatais, agindo estes em função de poder administrativo, policial ou judicial.

restriçÕes À liBerdAde de orGAnizAção
Ainda que a Constituição Federal não estabeleça limite à liberdade de associação para fins lícitos restringida apenas àquela de caráter paramilitar, vêm se tornando cada vez mais freqüentes exigências que visam a impedir, na prática, o direito associativo. Nesse particular, no que respeita aos povos indígenas, embora a Constituição Federal assegure, nos arts. 231 e 232, que são reconhecidas suas organizações sociais, sendo elas partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, tanto o Poder Judiciário como o Executivo têm se negado a validar o dispositivo, estabelecendo exigências de que

84 Luciana Candido. Prefeitura de São Paulo quer restringir protestos em locais públicos. disponível em: <http://www.pstu.org.br/autor_materia.asp?id=7445&ida=40>.

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tais organizações sejam cartorialmente registradas. Essas exigências de registro cartorial têm sido feitas também em face das organizações quilombolas, ainda que a Convenção 169 da OIT estabeleça, no art. 5.º, b, que deverá ser respeitada a integridade das instituições representativas desses povos.

repressão Aos movimentos soCiAis e sindiCAl
Postos já não apenas em termos de criminalização, mas de repressão aos movimentos sociais, elementos dão conta de que essa tarefa é cometida tanto a agentes privados como a agentes estatais, quer ajam estes no exercício da função ou fora dele. Parece evidente que a ação de pistoleiros a serviço do latifúndio tem se reduzido em termos nacionais, ainda que em regiões e Estados determinados – valendo mencionar o Pará, Paraná, Minas Gerais e Pernambuco – se mantenha. Essa situação, porém, não tem implicado, de modo algum, o fim ou mesmo a diminuição da repressão aos movimentos, organizações e agentes sociais, em curso uma legalização da violência privada e uma estatização dessas ações, incrementado ao extremo o crescimento das prisões, detenções e intimidações85. A legalização da violência privada teve origem já há anos, evoluindo aos poucos no rumo do estabelecimento de empresas de segurança diretamente vinculadas ao latifúndio e grande empresa. No Pontal do Paranapanema-SP e no Mato Grosso do Sul, há anos ocorreram os primeiros intentos de legalização das organizações da violência rural. Tais tentativas originaram, naqueles Estados, maus resultados, dado o exercício extemporâneo da violência, com tiroteios em São Paulo e emboscadas, sequestros e assassinatos no Mato Grosso do Sul. No Paraná, a relação estreita com a Polícia Militar ao tempo do ex-governador Jaime Lerner garantiu à pisolagem legalizada do latifúndio uma proteção que se
85 Na Região Sul e Minas Gerais, entre agressões, ameaças de morte, detenções e prisões, intimidações e impedimentos de ir-e-vir, a Comissão Pastoral da Terra, em seu Relatório anual sobre Violência no Campo, aponta 2.212 vítimas. 86 a Comissão interamericana de direitos Humanos, apreciando denúncia formulada pela Rede Nacional de advogadas e advogados Populares, acolheu o pedido formulado, em face do Estado brasileiro, por ter a juíza de direito da comarca de Loanda, PR, Elizabeth Kather, violado o sigilo de comunicações de assentamento de trabalhadores rurais vinculados ao MST, divulgando seu conteúdo pela Rede Globo. (disponível em: <http://www. cidh.org/annualrep/2006sp/Brasil12353sp.htm>. acesso em: 18 jun. 2008). O Governador do Paraná Jaime Lerner levou o Brasil a ser denunciado perante a Corte interamericana de direitos Humanos também como resultado da morte de Sétimo Garibaldi, em novembro de 1998, quando grupos armados despejaram famílias de sem-terra da fazenda São Francisco, e a mesma juíza, Elizabeth Kather, arquivou o inquérito. a CidH entendeu que o Estado não tinha envidado esforços para prender os criminosos e decidiu, neste como no primeiro caso, levar o Brasil à Corte (disponível em: <http://www.anexo10.com.br/news_det.php?cod=1405>. acesso em: 18 jun. 2008).

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firmou ainda mais com a omissão e mesmo, em certas áreas, respaldo judicial86. Uma etapa seguinte iniciou com a adoção do emprego das empresas de segurança pelas grandes empresas do agronegócio e da produção de transgênicos. No Estado do Espírito Santo, a empresa Aracruz Celulose adota a contratação de empresa de segurança para o enfrentamento a indígenas e quilombolas que foram expulsos de suas terras para a expansão da produção de eucalipto87. No Paraná, a Syngenta organiza a violência também nesses moldes, produzindo pelo menos um homicídio constatado88. Em Pernambuco, empresas de segurança a serviço de usinas usurpam do Estado o monopólio da violência; na Paraíba, policiais agindo como particulares privatizam a exclusividade. No Brasil todo, a privatização da força vai cada vez mais a passo com a autorização estatal para seu emprego sob a máscara de empresas de vigilância, com a privatização da ação estatal e com a expansão da repressão do Estado. O Ministério Público e o Poder Judiciário afiam suas navalhas e cortam fundo na carne dos movimentos sociais, naquilo que mais especificamente se tem chamado de criminalização. É assim que dirigentes e dirigentes de movimentos sociais e sindicais, rurais e urbanos, vão conhecendo as barras dos tribunais. Nos mais recentes episódios, o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul deixou vazar ata de reunião do Conselho Superior em que diversos promotores se articulam para usar o poder estatal contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem-Terra, acoimando este de violar a segurança naol. O MP-RS traçou estratégia para enfrentar o movimento social camponês, em virtude de terem os promotores Luciano de Faria Brasil e Fábio Roque Sbardelotto realizado um “notável trabalho de inteligência”: O relatório que segue faz jus a esse conceito, apresentando o MST como uma ameaça à sociedade e à própria segurança nacional. O resultado do trabalho de inteligência inspirado nos métodos da ABIN é composto, na sua maioria, por inúmeras matérias de jornais, relatórios do serviço secreto da Brigada Militar e materiais, incluindo livros e cartilhas, apreendidas em acampamentos do MST. Textos de autores como Florestan Fernandes, Paulo Freire, Chico Mendes, José Marti e
87 Flávia Bernardes. Empresa que ameaça índios e negros vai vigiar escolas. Século diário. disponível em: <http://www.seculodiario.com/arquivo/2005/novembro/16/noticiario/meio_ambiente/16_11_06.asp>. acesso em: 18 jun. 2008. 88 Valmir Mota de Oliveira, o Keno, morto por pistoleiros contratados pela Syngenta como vigilantes privados. Keno tinha 34 anos, deixou a esposa íris e três filhos, meninos com 13, 9 e 7, respectivamente. No episódio, os milicianos da Syngenta feriram gravemente Couto Viera, Jonas Gomes de Queiroz, domingos Barretos, Hudson Cardin e izabel Nascimento de Souza, que perdeu a visão de um olho.

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Che Guevara são apresentados como exemplos da “estratégia confrontacional” adotada pelo MST. Na mesma categoria, são incluídas expressões como “construção de uma nova sociedade”, “poder popular” e “sufocando com força nossos opressores”. Também é “denunciada” a presença de um livro do pedagogo soviético Anton Makarenko no material encontrado nos acampamentos”89. Já o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul resolveu ir mais longe e, sem pejos, invocou a Lei de Segurança Nacional para denunciar oito militantes do MST por crimes contra a segurança nacional. Dirigentes do Sindicato dos Metroviários foram, na última greve, enquadrados por crime contra a organização do trabalho. Dirigentes do MAB, do MST e da CPT também o são continuamente. Indígenas e quilombolas e estudantes vão, também, encontrando enquadramento penal quando demandam reconhecimento de direitos.

ConClusão
O que se vê, por um lado, como criminalização dos movimentos é considerado, por outro, como expansão da democracia e da submissão à lei. Não se discute, é evidente, que a redução da repressão a parâmetros legais constitua um avanço diante do exercício da violência desmedida dos particulares. O que se tem explicado, muitas vezes, como criminalização dos movimentos sociais, e que neste trabalho enxergamos como uma combinação de diversos métodos repressivos, não se conforma à constituição de um Estado Democrático de Direito, dado que este não pode ser reduzido à mera enunciação de direitos formais. De nada vale a afirmação da constância da legalidade, se esta é apenas, ao fim, uma formalidade a que se ausenta qualquer resultado prático. Não se pode pretender garantido o exercício do direito de manifestação e de expressão do pensamento, se por medidas administrativas ou judiciais se pretende confinar o exercício desse direito a locais distantes e inacessíveis; não se pode pretender ter por garantido o exercício do direito de greve, se se pretende estabelecer que oitenta ou mais por cento dos trabalhadores devam estar aprisionados ao labor; não se pode pretender ter por garantido o direito de acesso ao conhecimento, se a leitura de um educador ou um sociólogo longe do agrado da Governadora que lhes paga o salário impele promotores a afirmar que são crimi89 agência Carta Maior, ação do MP gaúcho contra MST repete discurso anti-comunista pré-1964. disponível em <http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15058>.

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nosos os trabalhadores que os lêem. Fazê-lo seria negar valor ao direito e afirmá-lo às manobras dos leguleios. Admitir que o Estado seja um instrumento a serviço da dominação de classe não implica admitir que assim deva ser. O reconhecimento da dignidade humana como fonte de direitos, a constituição da doutrina e da normativa dos direitos humanos não permite mais conformar-se com tal admissão, pondo no campo da exigibilidade a possibilidade de um Estado materializador desses direitos. A condição de vir-a-ser da sociedade não se ajusta à idéia de movimentos sociais criminalizados, porquanto a expressão da vontade social se dá por sua expressão, antes de tudo.

AneXo 1

estrAtÉGiAs de CriminAlizAção soCiAl ou o AssAssinAto de vlAdimir HerzoG em CArAzinHo -rs
Aton Fon Filho e Suzana Angélica Paim Figueiredo90

A sociedade brasileira tomou conhecimento recentemente de que, no extremo Sul do País uma nova experiência se articulava para permitir desenvolver novos mecanismos repressivos e instituir nova coordenação de organismos autoritários. O vazamento do concerto de ações contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem-Terra, engendrado pelo Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul e a seção local do Ministério Público Federal, demonstram cabalmente, de uma vez por todas, que, mais do que do exercício de funções legais, está-se em vista de utilização de funções e artifícios legais para atingir objetivos ilegais e realizar, sob a cobertura do regime democrático, a violação dos direitos da cidadania. As tentativas não são recentes, mas, assim como eram quase sempre decorrentes de decisões e atitudes individualizadas – quadro que foi radicalmente modificado agora –, não se tinha notícia anterior de tais graus de elaboração, articulação, decisão e subordinação a uma estratégia predefinida. Se não se pode dizer que façam parte do jogo democrático – na medida em que impedir as manifestações e demandas sociais constitui a própria negação da democracia –, as atitudes de combate aos anseios de transformação são parte da realidade. O próprio privilégio de acesso aos quadros da magistratura e do
90 aTON FON FiLHO é diretor e SuZaNa aNGÉLiCa PaiM FiGuEiREdO é conslheira da Rede Social de Justiça e direitos Humanos (Brasil).

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Ministério Público, decorrente da desigualdade material imperante na sociedade, estabelece uma torre de vigia a partir do qual as classes dominantes observam e controlam as tentativas de ascensão e disputa. Somente em situações em que se sente ameaçada pelo crescimento do adversário ou, pelo contrário, quando o sente enfraquecido e com capacidade de reação diminuída, uma força social se lança ao ataque frontal a outra. Por isso mesmo, buscar reduzir as possibilidades de reação do oponente constitui necessidade tão vital quanto garantir as próprias energias para o ataque, pois, se for dada aquela primeira hipótese, será necessário reduzir as forças do outro lado para diminuir-lhe o ímpeto; e se a hipótese enfrentada for a segunda, necessário será mantê-lo na dificuldade de resistir. O confronto entre duas forças não se resolve apenas em função dos recursos que cada uma tenha a sua disposição, mas das possibilidades concretas de sua utilização. Isso que é válido nos âmbitos militar e político encontra respaldo também no terreno jurídico, no qual as partes têm, por definição legal, acesso a dadas alternativas, segundo situações predeterminadas. Não basta, por exemplo, que se tenham determinados elementos que possam constituir provas, porque é necessário que esses elementos tenham sido obtidos de modo lícito; não basta que se tenha a previsão legal genérica de interposição de um recurso, se não se derem as condições específicas que admitem sua interposição; não basta que se tenha o direito, se não existirem mais – pela perempção, por exemplo – as possibilidades de seu pleito em juízo. Exatamente por isso, a garantia do direito de defesa – de ampla defesa, nos termos constitucionais – é elemento regulador básico no regime democrático, já que é ela que garante os cidadãos contra os arbítrios do Estado. O direito de defesa – amplo – não pode ser traduzido em mera formalidade que se possa afastar pela via de circunlóquios ou tergiversações. O elemento básico de qualquer defesa é, evidentemente, a ciência do ataque, de suas condições e circunstâncias, e de sua importância no processo não se falou melhor do que Franz Kafka com a experiência de Joseph K. Sem saber do que lhe acusam, nem K, nem ninguém pode se defender. Sem saber de que lhe foi aberto prazo para contestar ou recorrer, o réu deixa escoar a possibilidade de defesa. O MST é réu num processo político. Não, não se estão elaborando frases de efeito, mas simplesmente afirmando o que é uma verdade cabal. A denúncia oferecida contra os oito militantes do MST na Justiça Federal na comarca de Carazinho é base de uma ação política, porque os réus são, ali, acusados de violação aos artigos 16, 17, caput 20, caput, e 23, I, da Lei de Segurança Nacional: Art. 16. Integrar ou manter associação, partido, comitê, entidade de classe ou grupamento que tenha por objetivo a mudança do regime vigente ou do Estado
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de Direito, por meios violentos ou com o emprego de grave ameaça. Pena: reclusão, de 1 a 5 anos. Art. 17. Tentar mudar, com emprego de violência ou grave ameaça, a ordem, o regime vigente ou o Estado de Direito. Pena: reclusão, de 3 a 15 anos. Art. 20. Devastar, saquear, extorquir, roubar, seqüestrar, manter em cárcere privado, incendiar, depredar, provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas. Pena: reclusão, de 3 a 10 anos. Art. 23. Incitar: I – à subversão da ordem política ou social. Perceba-se que, de quatro dispositivos penais utilizados, o primeiro criminaliza a pertinência a uma organização política; o segundo criminaliza a ação dessa organização política; o quarto criminaliza a divulgação de seu ideário, e o terceiro é aquele cujo objetivo é apenas intitular de terrorista a associação política que se quer destruir. No plano jurídico a eleição da Lei de Segurança Nacional tem o condão de proibir o exercício da ampla defesa, uma vez que obriga cada um dos réus a justificar todas as ações de qualquer integrante da organização a que pertença, podendo – em tese – virem a ser condenados no Rio Grande do Sul por algum ato que tenha sido praticado por outro integrante da mesma associação – mesmo sem seu conhecimento – num remoto vilarejo do Amazonas. Mas, e é o que nos parece mais importante destacar, sendo os réus acusados de pertinência a uma organização de que se diz ser criminosa, é a própria organização que está, na verdade, sendo acusada – criminalizada – sem que lhe seja dada a possibilidade de defender-se. Quanto aos réus, são eles na verdade meros peões eleitos aleatoriamente, eis que qualquer um dos milhares de integrantes do MST poderia ser igualmente adequado para figurar na denúncia, dado que, ainda que pessoalmente nada se possa provar contra eles, o simples fato de admitirem ou ser provada sua filiação já justificaria a ojeriza do MPF no Rio Grande do Sul. Tanto assim é que, admita-se a hipótese, ainda que todos à exceção de um negassem sua adesão ao MST e esta não ficasse provada, o fato de um único a ad106

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mitir e por isso ser condenado já implicaria a existência de uma decisão judicial estabelecendo que teria ele participado de “associação, partido, comitê, entidade de classe ou grupamento que tenha por objetivo a mudança do regime vigente ou do Estado de Direito, por meios violentos ou com o emprego de grave ameaça”. O que implicaria dizer que o MST seria uma tal “associação, partido, comitê, entidade de classe ou grupamento que tenha por objetivo a mudança do regime vigente ou do Estado de Direito, por meios violentos ou com o emprego de grave ameaça”. Resulta, assim, evidente que, ademais de se estar criminalizando o MST como entidade, como movimento social, está-se procedendo judicialmente de modo a impedir que esse movimento se defenda nos autos do processo, permitindo-se o MPF e a Justiça Federal eleger os oito cordeiros para o sacrifício da democracia. Objetivando um ataque de extermínio de um movimento social e da vocalização das demandas camponesas, cuidou o Ministério Público Federal, em conluio com seu equivalente gaúcho, de impedir, desde logo, a defesa que pudesse seu oponente realizar. Se no plano jurídico se buscou a Lei de Segurança Nacional para impedir ampla defesa, tratando-se de um processo político que visa a criminalizar as demandas e as atividades de uma organização, pareceu lógico obstar, desde logo, essas demandas e essas atividades, reduzindo, no plano político, as opções de ação do MST. O meio escolhido como adequado para isso, e para garantir as violações dos direitos dos réus no processo e as possibilidades de êxito na ação que visa à criminalização de toda a atividade dos sem-terra, foi o segredo de justiça. A Constituição Federal estabelece (art. 93, IX) que “todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos [...], sob pena de nulidade”. Autoriza à lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, quando “a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação”. Trata-se, no caso, de processo de caráter político – o primeiro após a ditadura militar – que tem tudo para se tornar paradigmático. Estão em jogo ali os direitos de todos os cidadãos de se manifestar e de como se manifestar; de demandar e de como demandar; de se organizar e de como se organizar. Os réus são acusados de pertencer a organização que se diz ser terrorista. E se pretende que uma tal acusação não interesse à Nação, motivo pelo qual se decreta segredo de justiça. Não foram os réus que pleitearam, em defesa de sua intimidade, esse segredo. Pleiteou-o a Promotora de Justiça oficiante e o deferiu o magistrado presidente do feito, alegadamente em defesa do interesse público. visaram, na verdade, um e outro, a que não pudessem os cidadãos se aperceber de que seus destinos estão ali em jogo; que não pudesse rir do ridículo que se contém
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naqueles autos, e que não pudesse o MST denunciá-los como cabível e merecido. Têm os movimentos sociais – e o tem em especial o MST – como única arma diante das necessidades de se opor às desigualdades e realizar os compromissos constitucionais, a força de sua manifestação e verbalização de seus pleitos. Ao impedir, pela via do segredo de justiça, o conhecimento de quanto se passa naqueles autos do processo de Carazinho, quiseram e alcançaram, até agora, o Ministério Público e a injustiça do Estado brasileiro restabelecer o segredo que cercou as masmorras da ditadura e permitir que, inatingidos pela luz da publicidade dos atos judiciais, possam ser imolados os direitos democráticos, como o foram antes atrás das grades dos DOI-CODI. Mas, assim como o assassinato de vladimir Herzog se denunciou pelo enforcamento em que as pernas estavam dobradas, a tentativa política de extermínio do MST, a criminalização do movimento social se denuncia pelas armas utilizadas para tanto, a Lei de Segurança Nacional e o segredo de justiça.

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CHile

AlGuns eiXos interpretAtivos soBre os movimentos soCiAis e A repressão do protesto soCiAl no CHile
Raúl Zarzuri Cortés91

introdução
A repressão, que na definição da Real Academia da Língua Espanhola consiste no “ato, ou conjunto de atos, ordinariamente a partir do poder, para conter, deter ou castigar com violência atuações políticas ou sociais” (RAE, 2002), tem sido um fato recorrente na análise do desenvolvimento das mobilizações e lutas das organizações populares na América Latina. No caso particular do Chile, os fatos repressivos a que têm sido submetidos os movimentos populares vêm de longa data. Talvez a máxima expressão dessa situação sejam os fatos acontecidos a partir do golpe militar do ano de 1973 que dá origem à ditadura militar que governará o Chile autoritariamente durante 17 anos. Desde os primeiros tempos da ditadura a repressão foi caracterizada pelas detenções realizadas tanto pela polícia civil como militar. Em 1977 sofre um forte aumento afetando mais de um milhão de pessoas (ROJAS, s.f.)92. Cifra que tende a decair depois desse ano, mas se mantém superior aos quinhentos mil detidos por ano. Esse número aumenta nos anos 80, particularmente a partir de 1983, quando têm início os protestos nacionais que levarão ao surgimento de um forte movimento popular antiditadura que minará, de alguma maneira, o poder político do general Pinochet e da Junta Militar e conduzirá ao plebiscito de 1988 e às eleições de 1989, perdidas por Pinochet, dando passo à “recuperação da democracia” no Chile. O período, chamado inicialmente de “transição para a democracia”, pode ser caracterizado como uma fase de forte desmobilização social e de falta de protagonismo por parte dos movimentos sociais no país. Mas é preciso assinalar também que se assistia – particularmente desde o início do novo século – a uma construção incipiente de novas formas de ação coletiva, as quais começam a apresentar caracterís91 RaÚL ZaRZuRi CORTÉS Sociólogo, Mestre em antropologia e desenvolvimento (uCHiLE). Professor da Escola de Sociologia da universidade academia de Humanismo Cristão (uaHC) e pesquisador do Centro de Estudos Socioculturais (CESC) na área de estudos culturais e culturas juvenis. dirigiu diversos projetos de pesquisa e publicou diversos artigos e livros sobre culturas juvenis urbanas, televisão e mídia. 92 inclui apenas detenções realizadas pelas polícias, excluindo as realizadas pelos organismos de inteligência de caráter político ou as invasões de domicílio efetuadas pelas forças armadas.

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ticas novas que, necessariamente, não constituem o que classicamente se denomina como movimentos sociais. Portanto, podemos afirmar que houve um deslocamento das formas orgânicas coletivas tradicionais no sentido daquilo que alguns autores chamam de redes ou coletivos, expressões mais de acordo com as realidades de participação em nosso país, onde os jovens aparecem como um ator relevante. Cabe assinalar que, quando falamos de deslocamento, referimo-nos a uma série de fatos no âmbito mundial que emergem durante o século XIX e possibilita a emergência do movimento social mais característico ou clássico. Estamos nos referindo ao “movimento operário”, o qual, no bojo das mudanças ocorridas nos anos 1960, foi deslocado pelo que se conhece como “Novos Movimentos Sociais”, que no fim dos anos 1980 e princípio dos anos 1990 abre passagem aos “Novíssimos Movimentos Sociais” (FEIXA; SAURA Y COSTA, 2002). Esse deslocamento se manifesta também no motor que os movimenta. Dessa forma, para alguns, passamos de reivindicações situadas no aspecto econômico e em transformações macrossocietárias (típicas do movimento operário) às reivindicações de caráter cultural, que alguns chamam de lutas pela identidade (LARAÑA, 1994). Para outros, estamos em presença de uma volta às questões estruturais matizadas de questões culturais (FEIXA; SAURA Y COSTA, 2002). Por outra parte, atualmente e para o caso particular do Chile, a repressão não se reveste necessariamente de aspectos tão opressivos, com as características que se manifestaram durante a ditadura93, mas nos vemos diante de um novo tipo de repressão que vamos denominar “repressão simbólica”. Levada a cabo pelos meios de comunicação, principalmente a televisão e a imprensa escrita, ela tem contribuído para que certos sujeitos e suas ações reivindicativas sejam vistos como novos “bárbaros ou monstros sociais”. E contribui também para que a violência, ou certo tipo dela – utilizada pelos movimentos para se fazerem visíveis, dados os processos de invisibilização que se instalaram, ou melhor, se perpetuaram desde a ditadura –, apareça ou seja lida como uma “violência sem sentido”, construindo uma alteridade marcada pelo estigma. Estes elementos que assinalamos serão trabalhados com maior profundidade a seguir.

i. AlGuns elementos do ConteXto pArA entender os movimentos soCiAis no CHile
É preciso mencionar que os movimentos sociais têm se manifestado na sociedade chilena desde meados do século XIX, até o seu pleno desenvolvi93 a exceção é constituída pela perseguição a que se tem visto submetido o povo mapuche, particularmente seus dirigentes, os quais têm sido fustigados, perseguidos e acusados de terroristas. isso levou o Estado chileno a aplicar a lei antiterrorista, atitude que tem sido criticada pelos organismos internacionais de direitos humanos.

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mento com o movimento operário no século XX. Mas é só nos anos 1960 que se configura um tipo de ação coletiva, que está de acordo com as definições mais modernas de movimento social e que vai adquirindo força partir dos anos 1970 como forma de enfrentar e resistir aos embates da ditadura que se instala. Uma das características relativas aos movimentos sociais é a sua reconfiguração, particularmente na liderança, o que produz algumas mudanças, ao serem substituídos os atores mais político-partidários por outros atores mais sociais, em um quadro de desarticulação das estruturas político-partidárias que davam embasamento à ação coletiva dessa época. É preciso assinalar que o forte movimento social popular que se organiza timidamente a partir de 1973 atinge a “maturidade” no início da década de 1980 e se torna fortemente visível ao se iniciarem os protestos em 198394, gerando um espaço de participação inédita durante a ditadura militar, sendo rapidamente cooptado pelos partidos políticos95, que vêem a possibilidade de iniciar negociações políticas com a ditadura militar, do mesmo modo em que se tenta integrar outros setores sociais, como os estratos médios, afastando os movimentos sociais da condução política. Essa questão se fará mais manifesta e pode ser interpretada como retirada e invisibilização, a partir da chegada da democracia com os governos da concertação. Instala-se então um discurso centrado no pacto, no simulacro democrático que requer a desmobilização do movimento popular, questão que é aceita para resguardar a incipiente democracia que começava a ser construída sob a tutela militar, e que é consagrada na Constituição de 1980. O período de pós-ditadura foi, comparativa e paradoxalmente, de uma notável ausência de protagonismo dos Movimentos Sociais. Em parte porque, como explicita o próprio tom sociológico da pretendida transição à democracia, uma condição fundamental da nova etapa foi o traspasso do protagonismo a atores institucionais, depositários de uma racionalidade prudente e realista que garantisse tanto a estabilidade política como a governabilidade dos processos sociais. A política chegou a ser então um subsistema auto-referente (Cousiño-valenzuela) que se fecha restritivamente em torno ao aspecto representativo-parlamentar (villalobos 1997; vicuña) (URRUTIA, GANTER Y ZARZURI, 2000, p. 8).
94 Há que recordar que os protestos nacionais que começam em 1983 não são organizados por partidos políticos, mas por organizações sindicais, particularmente as pertencentes aos trabalhadores na mineração do cobre, que foram e são os trabalhadores melhor remunerados do Chile. 95 a exceção a esta lógica talvez seja o partido Comunista que desenvolve uma estratégia de enfrentamento político, mas ao mesmo tempo militar, com a intenção de combinar negociação política com acumulação de forças e expressões de luta armada.

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É preciso anotar, no tocante a este ponto, que os movimentos foram invisibilizados pela ditadura militar, e com a chegada dos governos da concertação tampouco houve espaço para eles. Em muitos casos primaram as visões mais funcionalistas, que viam esse tipo de ação com uma forte carga anômica, como no caso das análises de Tironi y valenzuela (1987) nos anos 198096. Assim, os movimentos sociais foram considerados disfuncionais para a construção da incipiente democracia e devem recuar, dando passagem aos partidos políticos para a administração e condução da democracia. Como apontam Urrutia, Ganter y Zarzuri (2000), este tipo de postura encontrou resistência em setores com discursos políticos radicalizados, os quais vão apelar para o caráter de confrontação que caracteriza precisamente os movimentos sociais. Os anos 1990 vão se caracterizar pela forte desmobilização social, fruto da retirada dos movimentos sociais. Não obstante, começa a se instalar um espaço de mobilização em relação a determinadas “datas emblemáticas”, as quais resgatam em categorias de memória fatos e situações particulares. São exemplos: o 11 de setembro, dia do golpe militar de 1973, ou o dia do jovem combatente, que recorda a morte dos irmãos vergara Toledo, ou o 12 de outubro, dia do Descobrimento da América, que se lê como data recordatória da dominação dos povos indígenas pelos colonizadores europeus. Instala-se, então, um espaço de ritualismo combativo, no qual os jovens vão ser os principais protagonistas, seja nas universidades ou em determinados setores populares de Santiago e de outras regiões. Destacam-se também, no início dos anos 1990, ações que serão protagonizadas por organizações político-militares que haviam nascido na época da ditadura e mantêm atividades de luta armada, tratando de mesclá-las com ações político-sociais, o que não encontra acolhida na população, mas sim em alguns jovens. Esses referenciais foram: a Frente Patriótica Manuel Rodríguez Autônoma (FPMR-A), o Movimento de Esquerda Revolucionária Exército Guerrilheiro do Povo (MIR-EGP) e especialmente o MAPU Lautaro por meio de seu grupo mili96 Para o caso do funcionalismo, o surgimento dos movimentos sociais se realiza a partir das “tensões originadas no desenvolvimento desigual dos vários subsistemas de ação que constituem um sistema social ou uma sociedade moderna diferenciada” (RiECHMaNN Y FERNÁNdEZ BuEY, 1994, p. 17). Portanto, induz-se que há desorganização social no sistema social, o que leva ao desenvolvimento de respostas individuais diante dessas tensões estruturais. Por isso é que alguns autores consideram o movimento social como uma espécie de terapia diante da ansiedade das mudanças produzidas por essas situações de transformação. dessa forma, os movimentos sociais aparecem conformados por massas integradas por atores irracionais, cegos e selvagens (TuRNER Y KiLLiaN, 1986. in: LaRaÑa, ENRiQuE, 1998), desenvolvendo formas de comportamento desviado, que se apartam da norma, questionando-a, transformando-se em fenômenos divergentes dessas normas. a ênfase desse enfoque está, então, em considerar as normas como fruto da organização social e, portanto, as condutas sociais devem se ajustar a essas normas, e, na medida em que se produzem fissuras, como as que poderiam ser provocadas pelos MS, estas são catalogadas como condutas desviadas. Esta é precisamente a leitura que Tironi e Valenzuela realizam dos movimentos sociais no Chile dos anos 1980 e lhes restam validade, principalmente por seu caráter “desorganizado”, para ser considerados protagonistas da construção da democracia, quando precisamente haviam sido eles os que tinham conseguido construir, por meio das lutas implementadas, a possibilidade de acesso à democracia.

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ciano, o Movimento Juvenil Lautaro (MJL), os quais se manifestam especialmente nas datas comemorativas. A historiadora Tamara Conteras aponta, a respeito desse período, a morte de pelo menos 26 militantes desses grupos e o encarceramento de aproximadamente outros 45 que se autodenominam “presos políticos em democracia”, no que foi denominado o “Cárcere de Alta Segurança” (CAS). Assim é que desde a chegada à Democracia até o ano 1994 registraram-se 26 caídos em diversas circunstâncias. Estes 25 homens e uma mulher eram militantes ativos das organizações FPMR, MIR, ML, MIR-EG-PPL97. Nesse mesmo contexto, em 20 de fevereiro de 1994 é inaugurado o Cárcere de Alta Segurança (CAS), com 45 presos políticos que são transferidos para lá. A Anistia Internacional confirma que durante o traslado os prisioneiros são torturados e maltratados. Assim, embora os anos 1990 possam ser caracterizados como de uma “relativa passividade” da ação social, a chegada do novo século traz com ela um processo que tende a reverter essa situação. E serão precisamente os jovens que darão o sinal para a mobilização, ao se iniciarem a partir de 2001 as primeiras mobilizações estudantis com o chamado “mochilaço”. Foi quando vários milhares de estudantes secundaristas saíram às ruas para protestar contra o abusivo custo do passe escolar, questão que estará na ante-sala das grandes mobilizações de 2006 e que darão origem a uma série de mobilizações sociais no país. Por outra parte, é preciso assinalar que a desmobilização dos movimentos sociais provoca a emergência de novos tipos de ação coletiva, as quais se caracterizarão por estarem estreitamente ligadas a objetos reivindicativos, o que se observa particularmente na nova conjuntura a partir do ano 2000. Embora hoje em dia se assista ao que se poderia chamar de “situação de efervescência social”, o que levou à proliferação de mobilizações e de conflitos sociais, é preciso considerar que são episódicos, apesar da grande força com que se desenvolveram em alguns casos. Podem ser citadas, por exemplo, as mobilizações dos inadimplentes agrupados na Associação Nacional de Devedores Habitacionais (ANDHA), os quais se tornaram visíveis nos últimos anos graças a suas ações espetaculares contra as autoridades governamentais; o movimento dos trabalhadores terceirizados, particularmente da empresa nacional do cobre (Codelco), que puderam mobilizar milhares de trabalhadores conseguindo incluir temas centrais como “salário digno ou ético” e renegociar
97 Nomes completos e o detalhamento das datas em que se produziram essas mortes estão em http://www.nodo50.org/kaminalibre/extramuros/caidos.htm.

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seus contratos incorporando-se às unidades de trabalhadores contratados; os trabalhadores da saúde, por melhorias salariais e de infra-estrutura de atendimento; a reconfiguração do movimento estudantil universitário, desaparecido em meados dos anos 1990, que tem se somado atualmente às mobilizações dos estudantes secundaristas na interpelação da nova Lei Geral de Educação (Lege), que pretende substituir a Loce, agregando pontos particulares mais reivindicativos, questão que se manifesta nos diferentes objetivos perseguidos pelos estudantes de universidades públicas e privadas, por exemplo. Uma menção à parte é a mobilização dos estudantes secundaristas que em 2006 “inauguram” as mobilizações sociais, embora seja preciso dizer que elas começaram timidamente já no início do novo século. Paradoxalmente, esse é um ator pouco valorizado pela sociedade chilena. Um ator secundário que, em termos estritos, ainda não é um cidadão pleno, que em termos biológicos está entrando na juventude (para outros, adolescência) ou já está nessa etapa, ou seja, a meio caminho para a idade adulta, mas que executa uma série de mobilizações com sentido de país, criticando duramente o sistema educacional imperante sob uma lógica de livre mercado. Uma das particularidades dessas mobilizações é que supôs a convergência com outros atores: professores, procuradores, trabalhadores, convertendo as mobilizações em uma questão transversal à sociedade chilena. No entanto, no início dessas mobilizações, não faltaram autoridades de governo e meios de comunicação que tentaram minimizá-las, tratando de construir uma imagem de criancinhas, infantilizando-os e tratando-os como pouco maduros e, portanto, considerados como não atores, não sujeitos, e pouco dignos de ser levados em consideração nas conversações sobre os problemas nacionais.

ii. - movimentos soCiAis, repressão e CriminAlizAção
Ninguém ignora que hoje em dia se assiste, cada vez com maior força, à implementação de medidas de caráter punitivo com a finalidade de criminalizar uma série de problemas sociais que, por óbvios, são deixados de lado ou invisibilizados, para apoiar um certo discurso que se instalou na sociedade associado à (in)segurança cidadã. Isso levou certos setores a solicitar – e paradoxalmente esta é uma solicitação transversal – cada vez mais “mão dura” com a delinqüência, por exemplo, ou com qualquer manifestação que rompa os marcos normativos da sociedade chilena, com o discurso de que isso põe em perigo a “saúde da sociedade” ou o funcionamento normal do sistema social (BAUMAN, 2005). Dessa forma, vemos emergir um discurso com um forte conteúdo higienista, de pureza e controle social que nos leva diretamente ao tema da (des)ordem.
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Aqueles que aparecem como objeto predileto e causa dessa desordem e, por que não dizer, da contaminação ou da sujeira que começa a se instalar em nossa sociedade, são particularmente os pobres, os jovens e as ações reivindicativas. São manifestações causadas pela precariedade das situações (políticas, econômicas, culturais ou sociais) que os sujeitos que participam desse tipo de ação têm que enfrentar. Assim, aparecem aos olhos dos “higienistas e buscadores da pureza” como transgressores de qualquer ordem, incontroláveis. Conseqüentemente, são sujeitos que podem ser classificados como “sujos”, “agentes contaminadores” enquanto se estruturam como sujeitos ilógicos – transgressores –, já que não se encontram nos lugares em que se supõe que deveriam estar, segundo os buscadores da pureza e da ordem. Isso faz com que provoquem e deixem a descoberto a fragilidade normativa existente, uma vez que ultrapassaram as fronteiras estabelecidas, com convite ou sem ele, convertendo-se em agentes perigosos para a ordem social. Portanto, assiste-se à construção de um sujeito que pode ser rotulado como “descartável”, ou, melhor dizendo, como um “sujeito residual”, e de um Estado e sociedade – ou certa parte dela – que tenta se proteger desse sujeito instalando mais políticas de controle e mais prisões. Isso supõe uma análise de parte de certos estamentos do país, que entendem que a única forma de contenção desses segmentos sociais transgressores (jovens, pobres, trabalhadores precarizados, entre outros) é a construção de um Estado cada vez mais forte em suas políticas de controle social. Um Estado penal, policial, de segurança que, de alguma forma, tenta isolar fisicamente a esses “refugos da sociedade” (wACQUANT, 2001). Um dado não menos importante nesse processo é que, atualmente, o Estado tem que enfrentar, no âmbito do resguardo da ordem – uma de suas funções principais –, um discurso no qual aparece com essa capacidade reduzida. Aparece também como incapaz de dar proteção contra as inseguranças que se apresentam, questão que possibilita a construção de um discurso relacionado com a perda de autoridade por parte do Estado. Uma pergunta surge de tudo isso: Qual é a forma que o Estado, ou melhor, certo tipo de Estado, tem para recuperar sua legitimidade, sua autoridade? A resposta mais simples é apelar para a proteção, instalando um discurso protetor, que anda de mãos dadas com políticas repressivas mais duras. É o que leva à criminalização de certos setores da população. Para isso é preciso implementar grandes campanhas contra a delinqüência e a violência e aplicar medidas que, em outro momento, seriam consideradas excepcionais, mas que agora passam a ser vistas como normais, como é o caso da redução da maioridade penal. Cabe reiterar que esta implementação vem precedida de um discurso de mão dura, que pode ser visto como uma rogativa de certos setores da sociedade – especialmente de direita, mas também de pobres que foram impregnados pelo discurso
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da segurança cidadã – para que o Estado atue com mais repressão. Um paradoxo, pois são precisamente esses setores de direita que querem um Estado menor, menos intrusivo, mas parece – e aqui concordamos com wacquant (2001) – que o objetivo de envolver o Estado em políticas mais agressivas é a tentativa de ocultar, com esse tipo de medidas, a deterioração social trazida pela implementação de fortes políticas econômicas de tipo neoliberal, que deixaram ao desamparo vastos setores da população.

2.1. Alguns aspectos gerais
Há que assinalar que a repressão dirigida aos “movimentos sociais” no Chile tem estado focada principalmente em detenções nos protestos de massa, como demonstram os quadros seguintes, e que, em termos de volume, corresponde a detenções na rua sob a acusação de “desordem na via pública” ou “destruição na via pública”. Os mais afetados têm sido sempre os jovens e não outros atores sociais. Pode-se afirmar que, no que se refere à maioria das detenções realizadas, os detidos são libertados após algumas horas e, no caso de menores, os pais são avisados e os devolvem às suas casas. No quadro a seguir pode-se apreciar o que mencionamos anteriormente relativamente a outros dois atores que se mobilizaram durante os últimos três anos: referimo-nos aos trabalhadores terceirizados da Codelco e aos trabalhadores da saúde, onde há menos detenções.

trabalhadores da Codelco

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mobilização de trabalhadores da saúde

No que diz respeito aos trabalhadores terceirizados da Codelco, resulta interessante analisar as poucas detenções em relação ao outro sujeito que se mobilizou nestes últimos anos: os estudantes secundaristas. Nas mobilizações realizadas pelos trabalhadores, em muitos casos eles usaram violência como mecanismo para se fazerem ouvir, realizando bloqueios de estradas e incendiando veículos, como a queima de ônibus de transporte de pessoal, ou o descarrilamento de um trem. No entanto, a “repressão” a este setor, entendida como detenções, não teve a força que se manifestou contra os estudantes secundaristas. É preciso observar que as mobilizações dos estudantes são altamente massivas, ao contrário do que ocorre com outros atores mobilizados, em que há mais presença de adultos.

mobilização estudantil

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Por outro lado, é preciso assinalar que as mobilizações estudantis foram mais prolongadas no tempo. Isso foi observado em 2006 e também se constata atualmente. Às mobilizações estudantis pouco a pouco foram se somando outras organizações como o Colégio de Professores, que estão participando há mais de um mês e parece que vão continuar por mais algum tempo. São dois os casos que serão analisados nesta parte. O primeiro tem relação com a situação do povo mapuche, que tem reivindicado com maior força uma série de exigências associadas a seu reconhecimento como povo e demandas sobre terras originárias, o que acarretou sobre eles uma forte repressão e violações aos direitos humanos, constatadas por organismos internacionais. O segundo corresponde às mobilizações realizadas pelos jovens secundaristas do Chile e a construção, por parte da imprensa, do que se denomina “repressão simbólica”, que se acentuou – e isso é apenas uma hipótese – com a entrada em vigor da nova lei de responsabilidade juvenil, que reduz a idade penal dos jovens para 14 anos, precisamente a idade em que eles se encontram na educação secundária.

2.2. o caso do povo mapuche
Como aponta a Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH), em sua missão internacional sobre a repressão ao povo mapuche, este tem sido sistematicamente vulnerado em seus direitos e se encontra à margem do processo democrático que está vivendo a sociedade chilena. Em geral, pode-se dizer que o povo mapuche tem vivido uma sorte de exclusão permanente em relação ao resto da sociedade chilena, acentuada por uma aberta discriminação que faz com que viva à margem da sociedade, do país. Isso é reforçado pela forte idéia de eles se considerarem diferentes dos chilenos, visto que como dizem: “são outro povo” “outra nação”, porque têm uma história, um idioma. Apesar disso, o Estado chileno tem tentado integrá-los, ao longo dos últimos dois séculos, por meio de políticas “genocidas”, “de extermínio” e “de repressão”, que perseguiam a perda de identidade como etnia.
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Diante dessa situação foram sendo geradas formas de resistência que se manifestam, preferentemente, na volta às raízes, valorizando a sua cultura, especialmente para os mapuche que nasceram na cidade; na realização de trabalho comunitário, nas ocupações de terras, etc. Dessa forma, para os mapuche a política – “sua política” – é a reconstrução de seu povo, de sua nação, a recuperação da terra, do idioma, da religião, de sua cultura, etc., e por isso esses são aspectos centrais em sua prática política. A resposta do Estado chileno tem sido principalmente repressiva, criando uma política criminal que tenta desmantelar o protesto social gerado por este povo, desrespeitando, dessa maneira, direitos básicos dos indivíduos. Como mostra o referido informe:

A violação dos direitos individuais de pessoas mapuche, como resultado da política criminal orquestrada em resposta à situação de conflito social que experimenta o Sul do Chile, torna particularmente patentes essas margens. A perseguição criminal de comportamentos, tipificados como delitos, cometidos no marco do protesto social mapuche, provocou um número incontável de processos contra indivíduos mapuche sob a legislação penal ordinária. Também tem levado a uma intervenção generalizada das forças policiais na vida cotidiana das comunidades, deixando para trás graves conseqüências sociais e contribuindo para reforçar pautas históricas de discriminação e estigmatização das pessoas que pertencem a esse povo. Durante os últimos anos, com a radicalização do protesto, essa política repressiva intensificou-se com a aplicação de regimes penais especiais para a perseguição e sanção dos supostos responsáveis de atos de protesto sociais violentos, incluindo a aplicação da legislação especial antiterrorista. Líderes tradicionais e ativistas mapuche foram condenados a graves penas de prisão por ameaças ou atentados contra a propriedade, associados a reivindicações de terras indígenas, sob regimes processuais de exceção regulamentados na Lei Antiterrorista. Outros casos similares têm sido julgados conforme outros regimes penais especiais, como os da Lei de Segurança do Estado, ou sob a jurisdição militar. Enquanto isso, os defensores e defensoras dos direitos humanos, vinculados aos acusados em casos relativos ao protesto social
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mapuche, ou comprometidos com a defesa dos fins legítimos desse protesto, têm vivido um clima de crescente perseguição por parte das instituições chilenas (FIDH, 2006, p. 4). Sendo assim, assiste-se a uma série de situações de arbitrariedade jurídica que prejudica fortemente o povo mapuche, particularmente pela aplicação da lei antiterrorista, o que veremos a seguir. Seria preciso assinalar que, no que se refere ao tema de detenções em situações de protesto, o número “não é significativo estatisticamente”, no tocante, por exemplo, às detenções praticadas na repressão aos jovens estudantes secundaristas, como se pode ver no quadro seguinte, mas é significativo no nível simbólico. mobilização Causa mapuche

2.2.1. A aplicação da lei antiterrorista
Outro ponto a ser analisado, referente ao povo mapuche, é o uso da lei antiterrorista que, desde os anos 1990 até hoje, tinha sido utilizada particularmente para reprimir grupos que optaram pela luta armada, cujo caso paradigmático é o do Movimento Juvenil Lautaro. Posteriormente, a lei foi empregada no início do novo século na repressão à luta do movimento mapuche, sendo aplicada a dirigentes e não-dirigentes. Na opinião de organismos de direitos humanos internacionais, a lei não pode ser adotada nesse caso por transgredir convênios internacionais de direitos humanos, pois precisamente viola as garantias processuais fundamentais. É preciso anotar que essa lei foi aplicada principalmente a delitos contra a propriedade ou suspeitas de associação ilícita, questões que não
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constituem um perigo direto para a vida, para a liberdade, nem para a integridade física, ou de violência extrema, objeto dessa lei. Isto tem levado a longas detenções prévias aos julgamentos, à utilização de “testemunhas sem rosto”, o que viola o devido processo e as fortes condenações com privação da liberdade, o que se pode ver no seguinte quadro. Quadro: lista de líderes e ativistas mapuche condenados ao amparo da lei 18.319 que define as condutas terroristas e fixa suas penalidades: nome do condenado; causa; sentença; pena de prisão, juizado.

As mais emblemáticas, entre as arbitrariedades cometidas pela aplicação da lei antiterrorista, são exemplificadas nos casos dos longko Aniceto Norín e Pascual Pichún, autoridades tradicionais das comunidades de Norín (Lorenzo Norín) e Temulemu (Antonio Ñirripil), respectivamente. Eles foram condenados a cinco anos e um dia de prisão por suposta responsabilidade em um delito de “ameaça terrorista” relacionada com o incêndio da Fazenda Nancahue e de sua casa de moradia, que pertencia a um ex-ministro dos governos da concertação, na comuna de Traiguén (IX Região) em dezembro de 2001.
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É preciso mencionar que no final desse ano vivia-se um forte protesto mapuche na vIII e na IX regiões, o que, como assinala o informe do FIDH (2006), gerou atos contra a propriedade de empresários agrícolas e florestais, tendo sua máxima expressão nesse incêndio. A Fazenda Nancahue está localizada em “terras antigas” que pertenceram tradicionalmente ao povo mapuche, mas foram arrebatadas juridicamente em fins do século XIX, ficando nas mãos de latifundiários chilenos. Esses longkos, juntamente com a ativista da causa mapuche Patricia Troncoso, foram absolvidos em 2004 dos delitos terroristas. No entanto, essa medida foi revertida pela Corte Suprema e eles foram novamente submetidos a processos, sendo posteriormente condenados. Outro caso é o denominado Poluco Pidenco, que afetou construções de propriedade da empresa florestal Mininco S.A., como relata o informe da FIDH:

[...] o processo judicial seguido contra os imputados no caso Poluco Pidenco revestiu-se de características similares ao caso dos longko na aplicação da legislação antiterrorista chilena: prisão preventiva prolongada; segredo durante a etapa de investigação; e uso extensivo da figura das testemunhas protegidas ou “sem rosto”. No curso do processo, a defesa denunciou uma série de irregularidades que, em sua opinião, limitaram substantivamente a capacidade processual de seus defendidos. Particularmente denunciou-se que as provas apresentadas durante o julgamento diferem substancialmente daquelas apresentadas durante a investigação; a omissão da valoração da prova apresentada pela defesa durante o julgamento sem que fosse desestimada; os pagamentos realizados a algumas das testemunhas protegidas que participaram no julgamento; a falta de imparcialidade do tribunal julgador, que copiou um dos considerandos da sentença de um caso julgado anteriormente pelo mesmo tribunal; e a falta de um recurso adequado de revisão da sentença condenatória 132, entre outros (FIDH, 2006, p. 41).
Estes casos levaram a comunidade internacional a se pronunciar, deixando de manifesto os níveis de perseguição que sofreram as comunidades mapuche e seus dirigentes:
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Esta perseguição penal conduziu a processos e condenações que, por seu elevado número, por suas relevantes conseqüências sociais e por afetar quase exclusivamente a indivíduos mapuche, deixam dúvidas razoáveis sobre a compatibilidade da política penal existente com os objetivos de proteção dos direitos humanos e de resolução de conflitos sociais no marco de uma sociedade democrática (FIDH, 2006, p. 42). Juntamente com o que já foi descrito, é preciso agregar outro elemento: a violência exercida pelas forças policiais que são denunciadas. Entretanto, depois de identificadas as pessoas que atuaram nessas ocasiões, o julgamento é feito em tribunais militares e não cíveis como corresponderia, ficando impunes os denunciados.

iii. - A repressão simBÓliCA. A Construção de umA “AlteridAde monstruosA” e de umA “violÊnCiA sem sentido”
Embora a definição de repressão se refira geralmente a situações em que as forças policiais ou repressivas – que podem ser militares ou civis – exercem uma ação persecutória a sujeitos que se “manifestam contra”, e que conduzem a ações repressivas de tipo físico, como as detenções, também há outro tipo de repressão que pode ser ainda mais perigosa, que se instala na forma de imaginário ou representação social, construindo as percepções e opiniões dos cidadãos comuns e correntes. Isto é possível em razão da forte penetração que têm os atuais meios de comunicação, especialmente a televisão. No caso do Chile, quase 80% da população se informa a partir dos noticiários da televisão que é, portanto, um meio muito relevante na construção de imaginários. Da mesma forma que a imprensa escrita, é claro, ainda que em menor medida para um setor significativo para o qual o custo de comprar diários e revistas é muito alto. Então a imprensa começa a elaborar um tipo de discurso que constrói certos sujeitos e demandas, que se apresentam como perigosos para a ordem social ou para as políticas de consenso instaladas. Assim, passam a denominar certos sujeitos e suas ações como “perigosos”, “anárquicos”, “contrários à ordem social”, “subversivos”, entre outros termos. Tais rotulagens atuam como estigma sobre os sujeitos que, em muitos casos, são construídos como indesejáveis socialmente. Por outro lado, as ações em que há “violência” são vistas como ações sem sentido, construindo-se a idéia de que toda violência é uma “violência sem sentido”.
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3.1. sobre a violência nas mobilizações e o seu sentido: o caso da criminalização dos jovens na mídia
A respeito deste ponto, é preciso dizer que, no caso da televisão, estudos realizados pelo Conselho Nacional de Televisão mostram que o tema da violência, a partir do conceito de segurança cidadã associado à delinqüência, ocupa o segundo lugar nas notícias dos telejornais no Chile. Destaca-se, além disso, a “existência de uma tendência geral de incluir o tema de segurança cidadã dentro das ‘primeiras notícias’, estruturando assim a agenda informativa dos canais” (CNTv, 2006). Este é um indicador interessante na hora de analisar o que se vê na televisão, ainda mais considerando que as pessoas se informam mais nesse meio que nos meios escritos, como já havíamos mencionado. Então, é evidente que há uma forte presença da violência na televisão. Por outro lado, a imprensa escrita tem desenvolvido um estranho interesse pelos jovens, particularmente a partir de sua relação com a violência, o que não condiz com a quantidade de fatos violentos que os jovens cometem, descontando, é claro, os fatos catalogados como delituosos. Por outra parte, observando-se o trabalho realizado pelo Centro de Estudos Socioculturais (Cesc), no que concerne ao acompanhamento de notícias escritas, para monitorar a forma como a imprensa aborda o tema dos jovens, pode-se assinalar que, no ano de 2006, de um total de 3.37798 notícias analisadas, constatou-se que apenas 5% remetiam a situações de violência, o que é uma porcentagem suficientemente baixa para atribuir aos jovens ou catalogá-los de violentos, como tem feito a imprensa. Assim, no tocante às mobilizações protagonizadas pelos estudantes secundaristas no ano de 2006, dando origem ao que se chamou de “revolução pingüim”, a cobertura midiática das primeiras semanas esteve marcada por uma apresentação do caráter violento, eludindo o fundo do assunto: as demandas por melhor educação. Essa imagem teve que ser modificada quando as manifestações foram ganhando a simpatia da população. Inicialmente, foi enfatizado o número de detidos nos incidentes “violentos” que se produziram nas
98 O CESC vem realizando um acompanhamento da imprensa desde 2005, que é divulgado por meio do boletim de análise mensal Jóvenesadiario, que pode ser acessado pela internet em www.cesc.cl. Essa análise não é exaustiva, uma vez que só concerne às notícias publicadas na Região Metropolitana, correspondente a todos os diários e revistas que aí circulam. Não obstante, é bastante representativa no nível nacional.

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primeiras marchas de secundaristas. O protesto estudantil foi construído pela imprensa como um conflito de rua e “vandálico“, como espaço de violência e de desordem; não como expressão válida contra um sistema educacional que legitima a segmentação de classe e que distribui diferencialmente a qualidade da educação de acordo com a renda, não permitindo a mobilidade social, questão promovida e validada pelo governo e certos setores da sociedade. A imprensa, tanto escrita como televisiva, tratou de subtrair validade ao movimento publicando frases como “a grande maioria (dos escolares) desconhecia as propostas que seriam apresentadas ao ministério” ou concentrando-se – como já dissemos – na violência que se converteu no fio condutor das informações publicadas sobre os jovens. No entanto, com o passar dos dias e semanas, a visão da imprensa teve que começar a variar, questão que chama a atenção para entender como, em um curto lapso de tempo, um protesto, catalogado como um ato vandálico, passou a ser considerado uma expressão válida, quase de veneração, por esses jovens que conseguiram instalar o debate sobre a educação no Chile, apresentar demandas concretas e mudar a agenda da presidenta Bachelet. Estes exemplos indicam algumas coisas interessantes no momento de analisar a relação entre mídia, jovens e violência. Como assinala Juris (2006), a violência é um extraordinário ícone simbólico, utilizado tanto pelos jovens como pelos meios de comunicação. Estes últimos, diz o autor, usam a violência para captar audiência ou, como aponta Júris lendo Glitin (1980) e Hall (1974), as imagens de confronto violento empregadas pelos meios servem para descontextualizar as performances violentas e inseri-las novamente em certas narrativas hegemônicas, que a única coisa que fazem é marginalizar, neste caso os jovens, mas também outros atores, como criminosos e desviados. Dessa forma, possibilitam a realização de um exercício reinterpretativo da violência, no qual ela é lida como uma “violência sem sentido”, pelo que, seguindo Juris, os meios atuam de certa forma como filtros ideológicos a serviço da hegemonia dominante. Por outro lado, a diminuição das notícias sobre a violência demanda fatos mais violentos e espetaculares, constituindo-se assim um círculo vicioso que não tem fim, com os meios demandando cada vez mais violência para poder vender e atingir altos índices de audiência. Portanto, a visibilização da violência e seus associados (delito, delinqüência, crime, etc.) por parte dos meios nada mais fazem senão objetivar o medo na sociedade, o qual “se projeta em uma minoria, a dos portadores do medo e da suspeita” (BONILLA Y TAMAYO, 2007). Assistimos então à construção de uma alteridade que é vista primeiro como estranha e depois como monstruosa, desatando uma onda de “pânico moral”, particularmente porque o medo a esse outro (os jovens violentos) é o medo de não poder controlar uma alteridade. Ou seja, teme-se aquilo que não se pode controlar, o que de acordo com Baumann (2001) –
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que segue Lévi Strauss – implica a adoção de três possíveis estratégias: a primeira é a assimilação, ou seja, o aniquilamento do outro como alteridade; a segunda é a expulsão, vomitar as alteridades rebeldes, e portanto isolá-las e excluí-las e, por último, simplesmente a eliminação. Tudo isso nos leva, como Bonilla y Tamayo (2007) nos indicam, a uma “criminalização midiática” de certo tipo de sujeitos.

3.2. para compreender a violência juvenil: a chamada violência performativa
Jeffey S. Juris (2006) tem interessante artigo baseado em suas experiências de trabalho de campo realizado em Gênova, no marco das manifestações antiglobalização. Acompanhando os militantes do Black Block (Bloco Negro), que se caracterizavam pelas táticas de ação direta, que esse autor denomina violência performativa, aponta, relativamente à violência – citando Antón Block –, que esta não deveria ser definida a priori como algo irracional ou sem sentido, mas que haveria que “considerá-la como uma forma mutante de interação e comunicação, como um padrão cultural de ação significativa historicamente desenvolvida” (BLOCK, 2000,p. 24, in JURIS 2006, p. 188). Assim, Juris vê a violência como uma forma de interação social mediante a qual se vai construindo realidade com os modelos culturais disponíveis; e segundo outro autor como Riches (1986, in JURIS, 2006), a violência se caracteriza por possuir componentes prático-instrumentais que tentam modificar o entorno social e componentes simbólico-expressivos que “enfatizam a comunicação e a dramatização de importantes idéias e valores sociais”, mesmo sendo a diferença entre esses dois componentes apenas de grau (JURIS, 2006, p. 188). Portanto, a violência performativa é vista por Juris como uma representação de rituais simbólicos que se manifestam de forma violenta, como um mecanismo de comunicação e de expressividade cultural, mediante o qual os participantes nesses rituais tentam fazer efetiva a transformação social mediante um confronto de tipo simbólico. Confronto que se dá no que se denomina de performances violentas, em que a violência adquire dimensões de espetaculosidade icônica com a utilização de uma linguagem não-verbal. Assim, a violência performativa é um recurso com que contam esses grupos de limitados recursos (materiais), que se refere a uma economia de recursos no nível simbólico (a violência), que é utilizada dentro de uma luta simbólica. Talvez por isso a violência contra certos “ícones do sistema capitalistas” (bancos, transnacionais, etc.) seja a forma mais atraente e econômica de conseguir uma vitória no nível simbólico contra o poder hegemônico, e de se fazer visível na mídia. Encontramo-nos diante do que o autor chama de “guerras midiáticas de interpretação simbólica”, nas quais os jovens,
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levam a cabo performances violentas espetaculares, em parte para ganhar acesso aos meios de comunicação comerciais que buscam constantemente histórias e imagens sensacionais. As formas cotidianas e rotineiras de protesto não são notícia, enquanto que as imagens icônicas de carros em chamas e batalhas de rua entre manifestantes mascarados e corpos policiais militarizados são retransmitidas na mesma hora através das redes globais de comunicação (JURIS, 2006, p. 190). Desse modo, a violência pode ser vista como uma forma de visibilidade e de presença, no marco de certo ritualismo expressivo no qual a performance adquire relevância. Segundo Rodrigo Díaz (2002) – que acompanha o antropólogo Max Gluckman –, a ritualização pode ser entendida como comportamentos convencionais e estilizados que segregam e/ou se distinguem em um sistema hierárquico de posições e relações, particularmente nas sociedades simples, e também nas complexas, que ajudam a compreender as ações sociais. No entanto, Díaz assinala que Gluckman, influenciado por Durkheim, colocou demasiada ênfase na estrutura de status, posições e papéis para um desempenho “correto” na sociedade (os aspectos normativos e a ritualização domesticada) em prejuízo de outros usos, que têm as características de ser situacionais e que não estão apegados às normas e regras (ritualização selvagem), como seria, neste caso, o uso da violência ou talvez em um exemplo menos complexo, a tatuagem – como indica Diaz –, que segrega mas ao mesmo tempo identifica e integra, pelo qual essa prática emite muitas mensagens além do simples ato de tatuar-se. Essa questão deve ser considerada quando nos vemos diante de recurso da violência por parte de certos jovens. Assim, pode-se afirmar que o ato de ritualização está “configurado por ações simbólicas que segregam e integram, que expressam algo e que as interpretações possíveis desse algo geram tensões, estão em conflito [...]” (2002, p. 26). Dessa maneira, como assinala Díaz, a ritualização pode ser situada no âmbito da performance (como um de seus casos singulares). Isto porque os rituais não são apenas redes de ações simbólicas que emitem mensagens, mas são também uma construção social da realidade que nos remete a hábitos e técnicas corporais. Ambos, performance e ritualização, articulam-se pela criação da presença (recriação e um ato de fazer presentes situações já vividas que podem reforçar e alterar disposições). A performance pode ser entendida então como um “ato que descreve certas ações que estão transcorrendo, executada em lugares específicos, testemunhada por outros ou pelos mesmos celebrantes: é uma ação que focaliza essa presença enquanto ato de criação […]” (DÍAZ, 2002, p. 27), mas é um ato
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que também traz campos discursivos preexistentes como as convenções de gênero, tradições, tensões políticas e sociais, etc. Então não é apenas um “repetir”, mas é um repetir em um “presente performativo” que não está fechado, mas aberto e, portanto, possibilita a interpelação desses campos discursivos existentes. Portanto, os grupos vão se fazendo visíveis por meio da performance, praticando e criando um ato de presença que pode ser entendido também como uma “cerimônia definitória”, assinala Díaz. Assim, a qualidade distintiva das cerimônias definitórias é que se desenrolam ali onde um grupo, por exemplo, um bando, sofre de crise de invisibilidade, de inexistência, de marginalidade, de inferioridade estrutural, de domínio e de desconhecimento por uma sociedade ou por outro grupo mais poderoso. Por isso constituem estas cerimônias “dramas simbólicos”: não são meras representações de condições e formas de vida, mas aludem a agentes criativos auto-performativos, que elaboram, organizam e recriam práticas, discursos, crenças, valores e atitudes, memórias e projetos políticos e culturais para se fazerem visíveis e existentes (2002, p. 36). Então, a partir desses atos performativos ritualizados que (re)criam dramas simbólicos, os jovens são capazes de transtornar a ordem normativa no plano cultural-simbólico, mais que no político-social, constituindo-se estes atos performativos em um tipo de poder: como atos de “reinvocação e resistência”, que apelam à criação e à imaginação de um futuro desejado. Portanto, dramatizam as identidades dos grupos, pelo que não é possível, ou não se pode concluir que, ao realizar estas performances, os grupos sejam efetivamente assim. No fundo, instalam a necessidade de reconhecimento e do direito à diferença.

ConClusão
Para finalizar, cabe assinalar que atualmente instalou-se um discurso que domina o que poderíamos chamar de cultura pública. Referimo-nos à “política do medo cotidiano” que leva à instauração de uma política repressiva e de controle social, seja na repressão das manifestações ou na construção de mais presídios e no aumento das penas, ou, como estamos assistindo nestes momentos, à redução da idade de discernimento para os delitos cometidos por certo tipo de jovens. Dizemos certo tipo porque não são todos os jovens, pois “casualmente” são jovens de setores populares e pobres, por exemplo.
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Resumidamente, poder-se-ia dizer que o tema da insegurança é um problema complexo, no qual a mídia desempenha um papel relevante, pois insiste em tratar diferentes problemas, em particular aqueles associados à perda da segurança, os quais passam a fazer parte da agenda pública. Dessa forma, podemos dizer que os meios irromperam agressivamente na nossa cotidianidade como sujeitos, incidindo em nossa visão de mundo, conformando assim uma cultura midiática, pela qual se influencia o pensamento da cidadania e sua concepção da realidade. Dessa maneira, a consciência coletiva vai se nutrindo de notícias que mostram parcial e seletivamente os fatos sociais, políticos e econômicos que ocorrem na realidade nacional e internacional, constituindo-se os meios nos aparelhos de representação que constroem o discurso social da insegurança. Um exemplo disso são as construções que se fazem dos jovens, dos pobres, dos mapuche, ou das mobilizações originadas em reivindicações econômicas, políticas ou culturais, o que denota uma alta discriminação e baixa tolerância dos meios para com certos segmentos de nossa sociedade. Portanto, o olhar a partir dos espaços de poder foi construindo certos imaginários que em nada ajudam a entender este tipo de situação, mas pelo contrário, a partir da construção de certos estereótipos divulgados pela mídia, e, porque não dizer, por certos estamentos da sociedade, nada mais fazem senão estigmatizar esses setores, que vão se convertendo em perfeitos estranhos para segmentos relevantes de nossa sociedade. Isso não provocaria problemas, já que todos podemos ser e somos estranhos em algum sentido, mais ainda em nossas grandes cidades. O problema ocorre quando esses estranhos são adjetivados como perigosos, violentos, delinqüentes, terroristas, entre outras coisas. Dessa maneira, são enquadrados sob o eixo do desvio ou da inadaptação social e, portanto, situam-se esses sujeitos e certas práticas como questionáveis para a ordem social imperante por serem subversivas e fonte de perigo e risco. Isso tem provocado a instalação de uma série de “barreiras de contenção” para alcançar níveis de segurança, entre elas: tentativas de criminalizar o grafite, a detenção por suspeita, que embora esteja derrogada ainda se aplica especialmente aos jovens de setores populares, agora sob denominação de “controle de identidade”. E também a instauração da nova lei de responsabilidade, que reduz a idade dos adolescentes como sujeitos que têm discernimento para 14 anos, questões que nos levam a perguntar se não estamos assistindo à construção de um Estado penal. Por outra parte, há que assinalar que em nosso país não podemos dizer que haja movimentos sociais no sentido clássico do conceito. O mais parecido à concepção clássica é o movimento ou organização que têm os mapuche (embora eles talvez reneguem o conceito). Então, o que é que temos? O que existe são organizações dedi131

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cadas a temáticas específicas que não chegam a se constituir em movimentos sociais. Esta tem sido uma característica dos atuais processos de mobilização no país. Portanto, para analisar os movimentos sociais, é preciso voltar ao conceito ou categoria que está sendo utilizada, já que existe a impressão de que, pelo menos para o caso do Chile, a definição mais tradicional não dá conta das novas formas de manifestação que ocorrem na sociedade civil nestes momentos. O caso emblemático é a mobilização dos estudantes secundaristas em 2006 ou a atual mobilização de pessoas por causa da decisão do Tribunal Constitucional que proibiu a distribuição da pílula do dia seguinte. Da mesma maneira, temos assistido nos últimos anos a uma série de mobilizações, algumas com certas características nacionais, mas que estão restritas a espaços mais localizados de luta, sem nenhuma coordenação com outros espaços. Talvez o único caso reivindicativo destacado – que paradoxalmente foi levado a cabo por jovens – foi a mobilização dos estudantes secundaristas que ressaltaram o tema da qualidade da educação e também chamaram a atenção sobre certos encraves deixados pela ditadura militar nessa área, tal como a Lei Orgânica Constitucional de Educação (Loce). Por outra parte, vale mencionar que as últimas mobilizações de características sindicais estiveram restritas a espaços reivindicativos próprios. É verdade que levantaram demandas de caráter nacional, como o caso da renda mínima, que foi adotada pela igreja e levada ao plano ético para demandar e discutir um “salário ético”. Também as reivindicações por uma melhor educação de qualidade, que somou outras organizações ao tema (pais e procuradores, colégio de professores), mas que se diluíram quando foram “capturadas” pela institucionalidade – como aconteceu também com o “salário ético” – sem gerar novas mobilizações ou demandas sobre estes aspectos (há alguns vislumbres). Então, o que se assiste são lutas reivindicativas mais particulares, como o caso dos trabalhadores terceirizados do cobre, o das “salmoneiras” ou os inadimplentes, os quais, uma vez que suas demandas são aceitas ou entram em processo de negociação, recuam, constituindo-se em uma modalidade de mobilização que submerge e emerge em determinados momentos. Estas mobilizações são tão particulares que não têm comunicação com outros espaços de demandas sociais; não há nenhum grau de coordenação ou apoio. Isso pode ser visto, por exemplo, na luta dos trabalhadores terceirizados do cobre, dos trabalhadores nas empresas de produção de salmão, ou na própria luta dos mapuche no Sul, que não se conectam com outros processos reivindicativos. Agora, haveria que assinalar que no momento atual não se conta com um grande espaço de agrupamento sindical, como foi a Central Unitária dos Trabalhadores (CUT) em outras épocas, pois esta se diluiu em pequenas forças sindicais com reivindicações particulares. Isso é bom ou ruim? Nem sim, nem não, mas põe de manifesto as novas formas de organização e de construção de participação política e de agenciar movimentos.
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Isso debilita os processos de constituição de organizações de movimento mais duradouras. Parece que isso é uma constante que começa a acontecer; portanto, um dado a ser considerado, pois já não se pode esperar que se estruturem fortes movimentos à usança clássica, mas sim lutas mais de caráter micropolítico. No entanto, essa situação que poderia ser lida como uma perda de capacidade da sociedade civil de manifestar-se, a partir do que se conheceu como movimentos sociais no Chile, pode e deve ser lida em outro registro, pois precisamente as expressões de movimentos sociais de caráter mais sustentado já não se articulam necessariamente com conteúdos chamados de “classicamente políticos” como ocorreu no nosso país até o fim dos anos 1980. De fato, estamos diante de um cenário em que emergem temáticas antes invisibilizadas, como os direitos étnicos e das minorias sexuais, as tentativas ao mesmo tempo integradoras e contraculturais dos jovens, as lutas contra a discriminação de gênero e a destruição do meio ambiente, entre outras práticas discursivas que representam exercícios micropolíticos de produção da realidade social com alto grau de mobilização, ainda que seja preciso mencionar que são esporádicas ou episódicas99. No tocante ao tema da repressão no Chile, embora já não tenhamos violações flagrantes aos direitos humanos, salvo no caso do povo mapuche, que sistematicamente tem sido perseguido mediante leis repressivas herdadas da ditadura, ainda há muito que avançar no resguardo dos temas das liberdades de expressão, especialmente pelo alto número de detenções em manifestações de rua que afetam principalmente os jovens, mas que não imobilizam as ações coletivas. Por outro lado, a maior preocupação teria que ser focada no que se denominou de “repressão simbólica”, que emana de discursos de governo e dos meios de comunicação, construindo imagens de certos tipos de atores sociais e ações reivindicativas como simples rupturas de grupos minoritários, desorganizados, incivilizados e inclinados à violência. A uma violência sem sentido, negando espaço ao protesto de rua, ferramenta de luta ou de visibilização dos setores mais postergados. A respeito deste ponto, Zarzuri y Contreras (2005) dizem que a tradição de protesto de rua se remonta bem atrás na história social do Chile com as passeatas e explosões sociais que expressam sua força eruptivo-vulcânica de maneira periódica ao longo do século XX. Trata-se de uma tradição de um setor da sociedade. Recorrer à violência para se manifestar revela uma relação conflituosa entre o Estado, as elites dominantes e os setores populares. Sua expressão mais radical de resistência cultural foi o levante
99 Em 23 de abril, como produto da decisão do tribunal constitucional que declarou como ilegal a distribuição por organismos públicos da pílula do dia seguinte, produziram-se marchas que conseguiram, no caso de Santiago, congregar 15.000 pessoas, coisa que não é possível fazer com convocatórias no registro da política mais tradicional.

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social composto pelos três fenômenos clássicos de violência: o motim urbano, o levante mineiro e o bandoleirismo rural. Portanto, se fizéssemos um percurso cronológico na história social do Chile, identificaríamos uma seqüência de protestos sociais com diversas intensidades no uso da violência por parte dos manifestantes e também por parte da polícia, na maioria dos governos republicanos do século XX100. Nas palavras de Salazar (1990), “[...] as passeatas da classe popular chilena tiveram, desde o século XvIII, a mesma freqüência tectônica que as insurreições e malocas (invasões) mapuche diante da dominação hispânica” (ZARZURI & CONTRERAS, 2005, p. 34). Por último, o atual cenário de “efervescência social” – recorrendo ao velho cientista político argentino, José Nun – pode ser visto como a “rebelião do coro”, ainda incipiente, mas que começa a demonstrar que o privilégio de ter contato com os deuses, tal como sucedia na tragédia grega aos que estavam na parte central do palco, hoje em dia começam a ser questionados. Aparece o coro, que na tragédia grega estava relegado a ser um ator secundário, a ser invisível, já que seus integrantes eram meros acompanhantes dos heróis. Desta forma, o coro começa a querer desempenhar papéis centrais. Por isso, parece que atualmente assistimos à rebelião do coro.

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100 Para mencionar apenas alguns: seqüência de greves operárias de 1903 a 1907; Greve operária de Magalhães 1919; acontecimentos em prédios públicos de San Gregorio 1921 e La Coruña 1925; assalto à FECH e julgamento aos subversivos na década de 1920; levante camponês de Ranquil em 1935; greve da “chaucha” (greve contra o aumento do custo do transporte que gerou manifestações violentamente reprimidas. Chaucha era a denominação da moeda que equivalia à tarifa do transporte naquele momento N.da T.) em 1949; Seqüência de greves nacionais da década de 1950 e sua culminação na explosão social de abril de 1957; acontecimentos do povoado de José María Caro em 1960; acontecimentos da pampa irigoyen em 1969; seqüência de violações aos direitos humanos e ações de resistência à ditadura entre 1973 e 1989; violência política exercida por organizações político-militares durante a década de 1990. Gabriel Salazar (1990) realiza uma tipologia de ações de violência política popular nas quais inclui incidentes, concentrações, marchas, invasões, greves, paralisações, manifestações, agressão, ataque armado, sabotagem, enfrentamento e rebelião.

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mÉXiCo

A CriminAlizAção do protesto soCiAl no mÉXiCo

introdução

Pablo Romo Cedano 101

O presente documento é resultado do trabalho de uma jovem equipe de colaboradores e colaboradoras da área de pesquisa de Serviços e Assessoria para a Paz (Serapaz) agrupados no Observatório da Conflituosidade Social no México102 (OCSM). Graças ao seu trabalho e às observações que recebemos de diversos atores sociais em conflito e de instâncias da sociedade civil e a partir da publicação do Reporte sobre la Criminalización de la Protesta em abril passado, foi possível chegar a este documento para o seminário “Criminalização da pobreza, repressão aos movimentos e lutas soci101 PaBLO ROMO CEdaNO, Observatório do Conflito Social no México. Serviços e assessoria para a Paz, a. C. Maio 2008. 102 Cf. <www.serapaz.org.mx>; P. Romo, El Observatorio de la Conflictividad Social en México como instrumento para la transformación positiva de conflictos, in:, M. atilano uriarte, Los retos del México actual. Centro de Promoción y Ecuación Profesional “Vasco de Quiroga”, a. C. México, jul. 2007.

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ais na América Latina”, realizado de 18 a 20 de junho de 2008 em São Paulo: Criminalização do Protesto Social no México. A criminalização do protesto social é um fenômeno que se estende no país e que está sendo documentado e denunciado por muitas organizações sociais e civis, chamando a atenção do resto da sociedade. Nos últimos meses incrementaram-se as ações para pôr em evidência essa política de atuação por parte das autoridades dos poderes da República em seus diferentes níveis de governo. A Rede Nacional de Organismos Civis de Direitos Humanos “Todos os direitos para todas e todos” iniciou uma campanha nacional intitulada “Protestar é um direito, reprimir é um delito”, que tem como objetivo ressaltar o incremento de violações aos direitos humanos contra líderes sociais, homens e mulheres que exercem os seus direitos de reivindicar e protestar103. Por outra parte, dezenas de organizações sociais se reuniram formando uma frente social ampla, a Frente Nacional contra a Repressão (FNCR), para denunciar a prática constante das autoridades de deter, encarcerar e torturar dirigentes sociais. A FNCR trabalha com muito afinco pela liberdade de todos os presos políticos do país que somam várias centenas104. Nesse mesmo sentido a Liga Mexicana de Direitos Humanos (LIMEDH) elaborou um documento de denúncia muito importante que registra a repressão como política de Estado que, particularmente nos últimos anos, vem se incrementando105. O conjunto das denúncias põe em relevo não a novidade da criminalização do protesto social, que já nos tempos do priismo* era vivida cotidianamente, mas particularmente as condições de deterioração dos direitos humanos que tiveram os sexênios denominados de “transição”, a partir do ano 2000. A criminalização do protesto nos últimos anos se desenvolve em um contexto de militarização do país em nome do combate ao narcotráfico, versão mexicana da luta contra o terrorismo em muitos países do mundo106. A criminalização do protesto está contida também no desenvolvimento das reformas estruturais que se iniciaram no final dos anos 1980, a partir dos governos neoliberais, e que estão sendo implementadas nesta segunda fase. Essas reformas estruturais de segunda geração107 estão modificando as leis trabalhistas; as de aposentadoria e pensões; as que normatizam o rádio e a televisão,
103 Os diferentes grupos membros estão redigindo informes a respeito. Cf. Centro de derechos Humanos de la Montaña, Tlachinollan. Guerrero: donde se castiga la pobreza y se criminaliza la protesta, Tlapa, jun. 2008. 104 Existem várias listas dos presos que estão em cárceres mexicanos. Cf. <http://espora.org/comitecerezo/spip. php?article24>, e <http://comiteverdadjusticiaylibertad.blogspot.com/2006/09/lista-de-presos-polticos-y.html>. 105 disponível em: <http://espora.org/limeddh/>.

* Época em que o país era governado pelo Partido Revolucionário institucional – PRi

106 Cf. SERaPaZ, informe anual 2006. Observatorio de la Conflictividad Social en México, México, 2007. 107 a primeira geração das reformas aconteceu nos anos 1980 e 1990; consistiram na privatização da maioria das empresas paraestatais, no controle do gasto público, na redução do orçamento social, na aplicação de aumentos tributários e outras ações mais.

(N. da T.).

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particularmente com o desenvolvimento da digitalização; as leis que regulam a produção petroleira e as possibilidades de privatização de certos espaços da extração do petróleo; as leis que normatizam a produção de energia elétrica. Também as leis que se adéquam aos tratados internacionais de segurança108 e luta antiterrorista, por meio das reformas judiciais. Em nome do “combate ao narcotráfico” e da “luta antiterrorista”, o país se converte em um campo de batalha onde os verdadeiros criminosos permanecem impunes e os líderes sociais são perseguidos, criminalizados, encarcerados respondendo a processos judiciais freqüentemente absurdos109. Para elaborar esta apresentação foi examinada a documentação que o Observatório da Conflituosidade Social no México elabora dia-a-dia há dois anos e meio, com uma recopilação de cerca de dois mil conflitos sociais no país. Da mesma forma, obteve-se informação de várias instâncias da sociedade civil e de organizações sociais. Agradecemos à Fundação Rosa de Luxemburgo Stiftung por sua contribuição a esta pesquisa.

pontos de partida
A criminalização do protesto social está contida fundamentalmente em um âmbito econômico cada vez mais complexo e difícil para aqueles de menos posses. O governo federal dá continuidade a política econômica neoliberal impulsionando reformas estruturais muito importantes, tais como a privatização parcial da indústria energética; a abertura comercial do setor agropecuário de grãos básicos; a entrada de sementes e produtos transgênicos; a privatização da previdência social; a flexibilização das leis trabalhistas (precarização); a mercantilização de recursos naturais e a instalação de megaprojetos em comunidades indígenas e rurais pobres do país. Por outra parte, implementou uma reforma fiscal que implicou uma série de aumentos nos preços de bens e serviços, bem como em várias tarifas públicas e forçou as classes médias a pagar um novo imposto que as grandes companhias sonegam. Como conseqüência das políticas econômicas, mantém-se a tendência de aprofundamento dos graves problemas de iniqüidade e pobreza que o país está vivendo, castigando mais os pobres, as mulheres e os povos indígenas. De acordo
108 Os acordos contidos na aspan (aliança para a Segurança e Prosperidade na américa do Norte), e no Plano Mérida. 109 Tal como os casos de ignacio del Valle sentenciado a 67 anos de prisão por crimes que notoriamente não cometeu, no contexto dos fatos repressivos de San Salvador atenco, Estado do México. Outro caso é o de Flavio Sosa e Horacio Sosa, detidos por crimes, os quais um ano e meio depois um juiz federal qualificou como inexistentes. No tempo em que permaneceram na prisão, foram submetidos a torturas, transferidos de um presídio a outro, passando pelo de segurança máxima do país.

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com as Nações Unidas, o México registra uma das maiores desigualdades no mundo, ao situar-se em 103.º lugar entre 126 nações estudadas, onde 10% da população concentra 40% da renda. Contando, além disso, com o nada honroso fato de que um mexicano seja o homem mais rico do mundo110. Sessenta por cento dos mexicanos vivem em situação de pobreza sem poder satisfazer as mínimas necessidades básicas; e nesse grupo as mulheres representam mais de 60%. Muitos mexicanos saíram do país para sobreviver. De fato, 24 milhões de pessoas que vivem nos Estados Unidos são de origem mexicana. As remessas do estrangeiro enviadas pelos mexicanos são a segunda fonte de recursos do país (mais de 23 bilhões de dólares anuais), apenas inferiores aos recursos do petróleo e maiores que os do turismo. Nos últimos meses as cifras decresceram em razão da crise econômica nos Estados Unidos. Os pobres financiam os mais pobres e dão suporte à economia: 80% das remessas se destinam à manutenção das famílias, 6%, à educação e 3%, à moradia. No entanto, a migração tem sido a principal causa de ruptura do tecido social comunitário em povoados e comunidades indígenas. Muito recentemente, algumas se converteram em fornecedoras de mão-de-obra, como é o caso das comunidades tzotziles e tzeltales de Chiapas. Houve uma queda nas expectativas de crescimento econômico. Os pilares da estabilidade macroeconômica mexicana nos últimos anos têm sido basicamente o crescimento dos EUA, o alto preço do petróleo e as remessas de trabalhadores nos EUA. Os Estados Unidos estão vivendo uma forte desaceleração econômica que afeta as economias mundiais. Essa crise é conseqüência, segundo especialistas, de uma crise na indústria da construção causada pela especulação financeira no ramo hipotecário. A esta crise se agregam a crise energética e a especulação no mercado de futuros dos energéticos. México é um dos primeiros países a se ressentir dessas crises desencadeadas pela dependência econômica dos Estados Unidos. Durante o primeiro trimestre de 2007, perderam-se no México 180 mil empregos, enquanto a inflação, nos cinco primeiros meses de 2007, atingiu os 4,1%, diante dos 2,2% registrados no mesmo período de 2006. Da mesma forma, a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) registra este ano para o México uma queda de 16 posições em competitividade internacional111. Passados 15 anos da firma do Tratado de Livre Comércio (TLCAN), os benefícios não chegaram à maioria da população. Sobre os danos provocados por esse acordo, podemos dizer que cresceu a dependência comercial,

110 Refere-se a Carlos Slim, dono de empresas de telefonia e diversos meios de comunicação em vários países da américa Latina (N. da T.). 111 CEPaL. La inversión Extranjera en américa Latina y el Caribe. 2007.

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financeira, tecnológica, alimentar, energética, política e militar do México para com os Estados Unidos. Da mesma forma, aprofundou-se nosso subdesenvolvimento de acordo com índices nutricionais, educativos e de desigualdade socioeconômica e regional. Dado que o crescimento estadunidense será muito baixo em 2008, entre 1.5% e 2%, espera-se que o crescimento do México não passe de 2,7%, cifra insuficiente para criar emprego, segundo os especialistas. O México registra uma deterioração muito grave dos recursos naturais e dos sistemas ambientais. Multiplicam-se os problemas de acesso, abastecimento, potabilidade e distribuição de água. Os desastres “naturais”, cada vez mais freqüentes, produzem situações de retrocesso econômico muito severo em vastas regiões do país, como no ano passado em Tabasco, onde as perdas materiais chegaram a vários bilhões de pesos112. Nesse contexto, os conflitos sociais se multiplicaram e, segundo o informe do Observatório, existe uma tendência ao seu crescimento tanto em número como em intensidade113. Ao analisar os conflitos sociais que estão acontecendo no México nos últimos anos, encontramos três momentos no processo do conflito que, embora não sejam compartimentos estanques, podem nos ajudar a classificá-los metodologicamente. 1. A primeira fase pode ser caracterizada por uma tendência à negação da interlocução e à invisibilização dos conflitos sociais por parte das autoridades e dos meios de comunicação respectivamente, bem como pelo não-reconhecimento da legitimidade dos atores sociais em conflito. Nesta fase têm início as mobilizações sociais pela outra parte em conflito, agrupam-se os elementos que compõem o ator social, afina-se a demanda e começam a ser estabelecidas as bases estratégicas para alcançar o objetivo. 2. A segunda fase se caracteriza pelo escalonamento social da conflituosidade no qual se geram formas de enfrentamento mais radicais. Isso se dá como conseqüência da negação da interlocução e da invisibilização do conflito. 3. O terceiro momento se dá a partir do fechamento dos canais de diálogo e o escalonamento no enfrentamento. Aí gera-se uma tendência de resposta por parte do Estado com repressão e judicialização, que tem por objetivo o desgaste dos movimentos.
112 Nos últimos meses, elaboramos um documento de diagnóstico mais amplo com o grupo Paz com democracia, intitulado “chamado à nação”, em que analisamos de maneira mais profunda o contexto nacional. Cf. <http:// www.serapaz.org.mx/paginas/Llamamiento%20a%20la%20nacion%20mexicana.pdf>. 113 Observatorio de la Conflictividad Social en México. Op. cit., 2007.

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Esta ação espiral (negação – invisibilização – não-reconhecimento – escalada do enfrentamento – repressão) está reforçada por uma estrutura de leis que favorecem a ação da repressão praticada pelas autoridades, que se transforma em uma política sistemática exercida pelo Estado e por uma estrutura de construção de opinião pública que justifica a política repressiva. É preciso dizer que ao longo do documento entendemos como conflito social, no marco teórico que adotamos no Observatório da Conflituosidade Social no México é : “um processo de interação contenciosa entre atores sociais que partilham orientações cognitivas, mobilizados com diversos graus de organização e que atuam coletivamente de acordo com expectativas de melhoria, de defesa da situação preexistente ou propondo um contraprojeto social”.

o sujeito Ator Criminalizado
O protesto social está protagonizado, na maior parte dos casos, por setores pobres ou empobrecidos que enfrentam o Estado como contraparte. Na maioria dos casos que o Observatório pode obter como amostra, os atores sociais em conflito são os camponeses e camponesas, os trabalhadores e trabalhadoras no comércio informal, os operários e operárias e os setores dos bairros pobres urbanos114. De tal maneira que a criminalização do protesto tem um rosto claro definido basicamente na classe pobre115. Dentro deles, os povos indígenas têm um protagonismo relevante com cerca de 12% dos casos de conflito no país, como mostra o seguinte gráfico (gráfico 1):

gráfico 1
114 O Centro de Reflexión y acción Laboral, a. C., documenta em seus informes como está se dando a feminização da exploração no âmbito do trabalho, particularmente da maquila (linha de montagem) e como gera graves violações aos direitos trabalhistas Cf. <http://www.sjsocial.org/fomento/documentos/cereal_m.html>. 115 O pesquisador Roberto Hernández do CidE afirma que “70% dos presos nas penitenciárias do país cometeram furtos menores sem violência [...] investimos valiosos recursos públicos para castigar a pobreza, e assim agravar a situação de suas famílias, enquanto que a maioria dos delinqüentes perigosos está em liberdade”. Cf. R. Hernández. Memorando. El objetivo de la reforma de los juicios orales. CidE, 30 abr. 2006.

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O gráfico 2 mostra os atores que se enfrentam com o governo segundo os dados do Observatório da Conflituosidade Social. vale dizer que 67% dos casos de conflito registrados em 2007 são contra o Estado.

gráfico 2
É importante mencionar que 70% dos casos apontados tendo por contrapartida o Estado não têm com ele uma interlocução real. Ou seja, o conflito não é processado com a sua contraparte. Neste processo de conflituosidade que chega à repressão, as mulheres e os indivíduos dos povos indígenas são focalizados de maneira prioritária, por seu significado simbólico e de reprodução da luta ou da exemplaridade da ação. O caso de San Salvador Atenco, localidade mexicana onde as mulheres detidas (em 2002) e alguns homens sofreram abusos sexuais por parte de elementos da polícia no transporte até o local de detenção, mostra como o corpo humano, particularmente o das mulheres, é “objeto de disputa” e “espaço de repressão”. O informe da Relatora Especial Yakin Ertürk, do sistema das Nações Unidas, sustenta que os altos níveis de violência contra
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a mulher no México são, ao mesmo tempo, conseqüência e sintoma da generalização da discriminação e da desigualdade por motivos de gênero. A isso se unem outros tipos de discriminação, por origem nacional, etnia ou condição socioeconômica que vão associados a uma falta de acesso eqüitativo à proteção do Estado. Por isso alguns grupos de mulheres – sobretudo as migrantes, as pobres e as indígenas – são particularmente vulneráveis à violência116. O caso da jornalista Lydia Cacho exemplifica claramente como a repressão tem um componente patriarcal quando se trata de mulheres adversárias ou em conflito, castigando não apenas a dissidência, mas também o fato de ser mulher117. Ernestina Ascencio, Adelaida Amayo e Susana Xocohua, em Zongolica, veracruz, são outros exemplos, neste caso sendo vitimadas por militares. Os casos em que militares são estupradores, assassinos, provocadores têm se multiplicado nos últimos meses, como detalharemos mais adiante. Alguns exemplos conhecidos são as violações ocorridas durante tumultos na localidade de Castaños, em Coahuila; o estupro de valentina Rosendo Cantú e Inés Fernández Ortega de Acatepec em Ayutla de los Libres, em Guerrero, e os ataques à população civil indefesa de Nocupétaro, em Michoacán. A própria Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) emitiu nas últimas semanas várias recomendações à Secretaria da Defesa Nacional (Sedena) para os casos de abusos e violações aos direitos humanos118. Consideramos que é importante deixar registrado que freqüentemente o sujeito criminalizado é o que mostra mais vulnerabilidade e que é facilmente invisibilizado119. Abordemos esta espiral do enfrentamento e vejamos alguns casos exemplares de conflitos que, de alguma maneira, irão sustentando a reflexão.

1. não os vejo nem os escuto
Quando, pela primeira vez na história da longa presidência do PRI120, um grupo de deputados atreveu-se a interromper com gritos e cartazes o Informe Presidencial para o Congresso, o Presidente Carlos Salinas de Gortari afirmou em entrevista que “não os vejo nem os escuto”. O discurso presidencial seguiu sem interrupções e foi transmitido pelos meios como se nada tivesse acontecido. Muito
116 Cf. Yakin Ertürk. integración de los derechos humanos de la mujer y la perspectiva de género: la violencia contra la mujer. Misión a México. informe E/CN.4/2006/61/add.4 del 13 de enero de 2006. Vale a pena considerar que os Estados mais marginalizados do país (Guerrero, Chiapas, Oaxaca, Veracruz e Hidalgo) são os que contam com maiores recursos naturais e têm altos índices de migração e conflituosidade social. 117 O pesquisador Roberto Hernández do CidE afirma que “70% dos presos nas penitenciárias do país cometeram furtos menores sem violência [...] investimos valiosos recursos públicos para castigar a pobreza, e assim agravar a situação de suas famílias, enquanto que a maioria dos delinqüentes perigosos está em liberdade”. Cf. R. Hernández. Memorando. El objetivo de la reforma de los juicios orales. CidE, 30 abr. 2006.
118 Ver adiante. 119 Cf. <www.cndh.org.mx>. 120 Nos informes do Observatório aprofundamos muito mais esse aspecto. Cf. informe 2006 e informe 2007.

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pouca gente no país teve conhecimento de que existiu esse grupo de deputados que interrompeu o Informe do Governo na Câmara. Foram ignorados e invisibilizados pelos meios e pela autoridade. Da mesma maneira, durante anos, a guerra suja no país foi ignorada e “não existiu”121. A mesma coisa aconteceu com o massacre de estudantes em Tlatelolco, Cidade do México, de indígenas em wolonchán, Chiapas ou de ativistas em Madero, Chihuahua, e tantos outros: foram negados, invisibilizados e desconhecidos. Falar de invisibilização é falar da ação decidida, consciente e autoritária que o Estado, ou uma de suas partes, gera diante de certos atores sociais que lhe são incômodos ou francamente antagônicos. O Estado ignora-nega deliberadamente o ator ou suas demandas, deslegitimando sua interlocução ou aquilo que pede-exige. A negação pela via da invisibilização na mídia ou pela não-interlocução da autoridade é um modo de fazer política, em que tanto os concessionários dos meios de comunicação como as autoridades atuam de comum acordo com o fim de eliminar os adversários. Essa negação é o primeiro degrau do processo de criminalização. Em muitas ocasiões esta prática política funciona. É uma política dissuasória, que inibe as ações e busca incidir fundamentalmente no ânimo das pessoas: “você não existe e sua voz não vale”. Ou ainda, “a luta está terminada mesmo antes que você a inicie”, “suas demandas são absurdas” e “de pouco interesse para o conjunto social”. E o que é pior: fortalecendo a discriminação, o racismo, o machismo e enaltecendo o status social: “não ouvem porque você é pobre”, “você não tem valor porque é mulher”, “você é índio, por isso sua palavra não conta”; ninguém os vê ou escuta. O Observatório da Conflituosidade Social no México documentou que 70% dos casos de conflito no país têm como contraparte servidores públicos do Estado. A negação como prática é um dos instrumentos mais freqüentemente usados por autoridades de qualquer tipo para “resolver” conflitos. O caso dos assassinatos de mulheres é eloqüente, pois as autoridades, ante sua incompetência ou cumplicidade para resolver esses crimes, invisibilizam-nos, negam-nos e proclamam que “são solucionados”. No primeiro semestre de 2008 já foi registrado o mesmo número de mulheres mortas que em todo o 2007122. Segundo o constatado pelo Observatório, a negação política termina por desintegrar uma grande parte dos protestos sociais, manifestados com formas
121 a “ditadura perfeita”, período de 72 anos em que o Partido Revolucionário institucional governou, de maneira ininterrupta, até o ano 2000. 122 Há que agregar, neste sentido, que no México 50% das mulheres, isto é, uma de cada duas, foram ou são vítimas de agressões físicas, psicológicas, sexuais ou de outro tipo, e 30% desses casos acontecem desde o noivado. Cf. informe inmujeres. dinámica de las relaciones en el noviazgo en mujeres estudiantes de bachillerato, México, 2008. disponível em: <http://www.inmujeres.gob.mx/dgpe/vidasinviolencia/reto/index.htm>.

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pacíficas de confronto com baixo perfil (denúncia pública, marcha, comício). Os protagonistas destas expressões, freqüentemente dissolvidas, não estão consolidados como atores sociais fortes e seguros. Internamente, os atores sociais se vêm frustrados diante da incapacidade de encontrar canais de interlocução, em que sua palavra tenha alguma incidência em relação a suas necessidades ou interesses afetados, e acaba por se desmobilizar, gerando frustração ou apatia. Em outros casos, os atores ou movimentos, continuam buscando outras formas mais efetivas de enfrentamento que, estas sim, permitam que reivindiquem suas demandas. A esses casos nos referimos na próxima parte do documento. A negação política, assim entendida, inclui não só a negação da interlocução com a autoridade, o não-reconhecimento do ator em conflito, mas também a invisibilização que os meios de comunicação realizam ao não mostrarem certo tipo de notícias relacionadas com a mobilização social ou com o conflito. Muitos já documentaram essa prática de invisibilização adotada pelos meios de comunicação123. É fácil saber quando o telejornal e seu controlador (e sua posição em relação à autoridade) estão a favor da manifestação: aumentam o número dos participantes, exaltam os líderes e sua probidade, enumeram ponto por ponto as reivindicações pretendidas pelos peticionários, assinalam o extraordinário comportamento dos manifestantes pela limpeza e, é claro, a civilidade no exercício do direito de reivindicar. Quando o telejornal – o dono da concessão (e sua correlação com a autoridade) – é contra uma determinada manifestação: fala dela ressaltando o caos no trânsito que provocou, e não a agenda que está sendo exigida; fala da corrupção dos líderes, dos desmandos que se produziram, da sujeira deixada pelos “revoltosos” e pelos “baderneiros”, e de como é triste a “utilização” de pessoas “ingênuas” ou “ignorantes”. Os meios de comunicação constroem para sua audiência um imaginário que facilita ou impede a corrente de solidariedade para com os atores sociais. O exemplo clássico é o desastre natural, quando o meio de comunicação constrói rapidamente um imaginário para a audiência, mostrando uma vítima, em geral uma criança ou uma mulher sozinha ou abandonada. Esse imaginário é aproveitado pelo controlador do meio que o apresenta com expressões de solidariedade da audiência. Faz a mesma coisa com atores sociais em conflito, apoiando ou injuriando, mostrando solidariedade ou repúdio. Os casos de San Salvador Atenco e Oaxaca são muito claros nesse sentido. No primeiro, as Tvs pró-oficiais repetiram insistentemente, até cansar, a imagem de alguns jovens moradores batendo em um policial, com isso generalizando a

123 O especialista em meios de comunicação, Jenaro Villamil, tem realizado muitos trabalhos a esse respeito, do mesmo modo que o ex-legislador Javier Corral.

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conduta de toda a população. A reação foi um contundente repúdio contra os moradores de San Salvador Atenco, um “linchamento midiático contra o movimento de protesto”. No caso da rebelião de Oaxaca em 2006, grupos de mulheres tomaram várias emissoras de rádio e a partir daí mudaram a opinião dos ouvintes: informaram e animaram o movimento rebelde. As conseqüências foram claras, milhares de pessoas saíram às ruas para apoiar e expressar sua solidariedade com aqueles que tinham feito barricadas e mobilizações nas ruas124. Por isso, afirmamos que os meios de comunicação de massa desempenham um importante papel catalisador, precipitando ou inibindo processos, legitimando-os ou não, e como criador de solidariedade na dinâmica dos conflitos sociais. As autoridades sabem disso e os utilizam. Certamente existem outros fatores de conjuntura que permitem que os conflitos sejam visíveis, e por isso é que os atores sociais têm que estar atentos para encontrar a pertinência da visibilidade, saber situar-se. Por exemplo, em 2006, no contexto do Fórum Mundial da Água realizado na Cidade do México125, centenas de pequenos conflitos relativos a problemas em torno da questão de água foram visibilizados pela mídia e puderam ter outro nível de interlocução com as autoridades que em outros momentos não haviam tido. Por outro lado, são interessantes as cifras reveladas pelo Observatório no que se refere aos protagonistas em conflitos e sua maneira de transformá-los. Mostram que em 2007 menos de 20% dos casos de conflitos sociais tendo como contraparte o Estado entrou em algum processo de negociação ou transformação positiva. Isto é, apenas um de cada cinco conflitos que têm como contraparte alguma instância de governo, ou algum funcionário público, encontra um caminho institucional. Na maioria dos casos que puderam ser documentados pelo Observatório, o Estado intervém de maneira impositiva, ou seja, com mecanismos legais, mas sem diálogo com a contraparte. O uso da política como instrumento de governo é afastado e dá lugar à judicialização dos processos conflituosos ou o diferimento de respostas. A repressão mediante as forças da ordem pública tem sido usada de maneira considerável, representando a terceira forma mais recorrente de intervenção diante de conflitos de caráter social, como veremos mais adiante. Diferentemente dos sindicatos que contam com uma forte estrutura institucional para a negociação com o Estado e para ter visibilidade na mídia, os movimentos sociais não-orgânicos e os atores emergentes – como os coletivos, os
124 informes completos sobre os dois casos são: os elaborados pela Comissão Civil internacional de Observação pelos direitos Humanos (http://cciodh.pangea.org/index_4atenco.html ) e o informe elaborado por Roberto Garretón, auspiciado pela Obra diakónica alemã, publicado por SERaPaZ, 2008. Cf. <www.serapaz.org.mx>. Revisar também os informes da anistia internacional. 125 O portal oficial na internet é: <http://www.worldwaterforum4.org.mx/home/home.asp>.

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grupos não tradicionais ou pouco articulados – são mais facilmente invisibilizados pelos meios de comunicação e negados pelas autoridades. Os atores sociais que contam com uma estrutura orgânica mais sólida, tais como as organizações trabalhistas ou sindicatos, são, com freqüência, mais facilmente reconhecidos como interlocutores válidos pelo Estado e pela sociedade em geral126. Particularmente, os sindicatos tradicionais, provenientes do corporativismo da segunda metade do século XX, e alguns sindicatos independentes contam com mecanismos institucionais para exercer pressão ante a contraparte empresarial, como a greve, e ademais possuem significativa capacidade de mobilização e organização para pressionar as autoridades127. Da mesma forma, estas estruturas operárias contam com recursos próprios que podem sustentar lutas com mais fôlego, do que aquelas que não têm recursos de emergência para contingências de luta. É por isso que essas instâncias sociais têm maior interlocução com as autoridades e é menos fácil sua invisibilização. No entanto, muitas greves de mineiros, de professores e de construtores em 2006 e 2007 foram negadas pelas autoridades e invisíveis para a mídia. Outro fator importante dessas estruturas corporativas são a corrupção e o paternalismo freqüentes em seu funcionamento. Um conflito muito significativo nesse sentido é o protagonizado pelas viúvas de Pasta de Conchos, em Coahuila, onde um grupo de mulheres valentes demanda à companhia e ao seu dono o resgate de seus esposos presos na mina onde trabalhavam. Esta luta é muito significativa por muitos motivos. Um deles é que as estruturas sindicais patriarcais fizeram muito pouca coisa para defender com fatos concretos o direito das mulheres de resgatar seus maridos da mina. Em segundo lugar, o fato de as mulheres exigirem o resgate ao dono da companhia, um dos maiores milionários do mundo, o Sr. Germán Larrea. Este conflito é invisível para os meios, talvez porque são mulheres as protagonistas da demanda. É preciso ter presente que 31,3% dos trabalhadores estão sindicalizados, dos quais 8,2% são mulheres e 23,1%, homens, enquanto dos 68,7% restantes, a maior parte não sindicalizada, são compostos por mulheres. Outra forma de negação do ator social é a falta de canais orgânicos ou institucionais entre autoridades e a sociedade, bem como a falta de confiança nas existentes. As estruturas autoritárias do passado não foram reformadas e permanecem funcionando na atual administração federal e nas estatais. As instâncias de administração e procuração de justiça no país têm, em geral, pouco ou nenhum

126 a exceção é o sindicato mineiro, onde existe uma luta frontal desenvolvida a partir da própria empresa e da Secretaria do Trabalho contra os líderes do sindicato. 127 Vale a pena aprofundar-se no tema com os informes do Centro de Reflexão Laboral (Cereal). /Cf. <http://www. redtdt.org.mx/wwwf/informes/2008/informe%20cereal%2008.pdf>.

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crédito128. No entanto, cabe assinalar que a criação do Instituto Federal de Acesso à Informação Pública (IFAI) e seus similares nos Estados pode ser considerado um avanço no que se refere à possibilidade de acesso à informação129. Os espaços de participação cidadã são pobres, escassos e, em muitos casos, cooptados pelas autoridades. Existe uma cultura de corrupção e de cumplicidade que impede ou freia a crítica construtiva e a criação de espaços para a reflexão e elaboração de Políticas Públicas130. É muito ilustrativo o fato de, no verão de 2006, o Centro de Direitos Humanos Frei Francisco de vitória (CDHFv) ter organizado com centenas de organizações civis uma série de reuniões para as quais foram convidados os então candidatos à Presidência da República, com o propósito de discutir a participação da sociedade civil na criação de Políticas Públicas do Estado mexicano. O objetivo era os candidatos reconhecerem publicamente que a sociedade civil também tem o direito de gerar políticas públicas. O atual chefe do Executivo federal cancelou sua participação, negando com fatos o direito de as instâncias da sociedade civil gerarem políticas públicas. vale agregar, para ilustrar melhor, que poucos meses depois de assumir a Presidência da República cancelou o espaço de participação de organizações de direitos humanos que elaboravam o Plano Nacional de Direitos Humanos131. Para concluir, no fim de maio deste ano de 2008, o encarregado do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos retirou-se do cargo, supostamente por gerar espaços de participação nos quais organizações civis e sociais auxiliavam na elaboração de políticas de direitos humanos132. Um exemplo ainda mais claro da falta de uma relação inclusiva, de reconhecimento de atores sociedade-governo, pode ser encontrado na implementação dos mecanismos de consulta estabelecidos pelo Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho e na última Declaração dos Povos Indígenas, que se referem à consulta aos povos indígenas sobre suas terras, territórios e bens naturais aí contidos. As leis mexicanas obrigam a levar em consideração, mediante uma consulta pública, a popula128 Estudos recentes mostram que são muito poucos os cidadãos que recorrem ao Ministério Público para apresentar uma denúncia. Só 23% formulam uma queixa ante o Ministério Público e uma porcentagem muito reduzida consegue consigná-la perante um juiz. Cf. Roberto Hernández. La Reforma Judicial, CidE, 2006. Segundo o informe dirigido por Luis de la Barreda, México: atlas delictivo del foro común 1997 – 2006, do instituto Ciudadano de Estudios sobre inseguridad, a. C. 2008, afirma que apenas uma de cada cinco vítimas de algum delito o denuncia. 129 No entanto, o Estado de Querétaro, em abril de 2008, recuou em seu processo de abertura e transparência, reduzindo seu instituto Estatal a uma instância que, em vez de exigir informação, simplesmente recomenda que seja outorgada. 130 Cf. OaCNudH. diagnóstico sobre la situación de los derechos Humanos en México, México, 2006 131 ainda que o espaço exista, foi cancelada a real participação de instâncias reconhecidas para propor algo sobre o tema ao governo federal. 132 amerigo incalcaterra jamais reconheceu publicamente que o governo mexicano tenha solicitado sua saída, nem o governo mexicano aceitou publicamente o fato de ter pedido sua saída por solicitação das Nações unidas. O fato é que ele foi embora sem motivo aparente, deixando inconcluso o trabalho de articulação entre algumas autoridades e instâncias da sociedade civil e social.

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ção indígena-camponesa, da qual querem expropriar terras, normalmente no interesse da construção de macroprojetos industriais nessa região. No entanto, realiza-se todo tipo de artimanha para enganar a população em processos jurídicos, como a mudança de uso do solo, privando-a do mais elementar direito à informação. Busca-se estabelecer, a todo custo, uma submissa relação clientelista com a população, por meio de mecanismos como a compra de votos e a simulação de assembléias agrárias. Em muitas ocasiões a necessidade econômica e as carências da maior parte da população obrigam os atores a trocar bens por subsistência, votos por cestas básicas, água potável por concessões, etc. É preciso recordar que atualmente no México existem 25,9 milhões de famílias, das quais 2,4 milhões de famílias monoparentais são encabeçadas por mulheres. A partir do Observatório da Conflituosidade Social no México podemos inferir que as mulheres participam de modo significativo nos conflitos relacionados à demanda de necessidades básicas, à defesa dos recursos naturais e do território, e à luta contra a impunidade (45,37%). Assim é o caso do conflito gerado pelo projeto hidrelétrico “La Parota” em Guerrero. Aí, com base na compra de votos e simulação de assembléias agrárias, pretendeu-se realizar a mudança de uso do solo ejidal133, que é requerida para a expropriação das terras em que se planeja construir a represa. Até a presente data são três os processos que cancelam as resoluções de supostas assembléias agrárias, nas quais nem sequer se havia informado a população sobre as questões mais básicas do projeto. Há vários anos foi constituído na região um movimento social a favor da defesa da terra, denominado “Conselho de Ejidos e Comunidades Opositoras a La Parota” (Cecop), que enfrentou esses mecanismos e planos do Governo Federal e do Estadual reivindicando seu direito à consulta, à informação e em defesa dos recursos naturais dessa zona134. Em uma situação similar em Zimapán, Hidalgo, mentiu-se aos “ejidatarios” da zona em que se pretende realizar um depósito confinado de lixo tóxico, dizendo-lhes que se tratava de uma usina de reciclagem que traria empregos para a região. Apenas depois da construção da maior parte da infra-estrutura da obra é que se descobriu do que realmente se tratava. Isso gerou o “Movimento Cívico Todos Somos Zimapán”, que tem lutado para evitar uma obra que atenta contra seu já reduzido direito à saúde135.

133 artigo 6.º do Convênio 169 da OiT. 134 O ejido é uma forma de propriedade da terra estabelecida na Constituição de 1917, que estabelece o direito de usufruto da mesma, mas a propriedade é da Nação. 135 Neste movimento liderado por homens, a maior parte das pessoas que participam são mulheres.

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Situações similares ocorreram em diferentes partes do país, como no projeto eólico de La venta, em Oaxaca; em Paso de la Reina, em Oaxaca; no Cajón, Nayarit e outros tantos, nos quais o Estado, por intermédio de seus funcionários, costuma estar mancomunado com interesses econômicos de grandes empresas transnacionais, sem considerar a vontade dos moradores da zona onde se realiza o projeto. As autoridades negam a existência dos atores que lutam contra os megaprojetos e a imprensa os invisibiliza conseguindo sua “inexistência midiática”136. O caso é o mesmo para leis federais e estaduais. Nunca se consulta previamente a população, ou pelo menos com os interessados, salvo quando se trata de grandes empresas. As conhecidas Reformas Estruturais foram sendo aprovadas uma a uma sem consultas e em clara contradição com a vontade da maioria da população. No México não se reconhece o direito do povo de plebiscitar uma lei 137 ou um projeto . Não existe o referendo como mecanismo popular de controle dos acordos de cúpula. Em 2007, as reformas realizadas à Lei do Instituto de Seguridade e Serviços Sociais aos Trabalhadores do Estado (ISSSTE) não foram objeto de consulta, nem sequer aos da referida instituição, que eram os implicados diretos. Geraram-se em todo o país, como resposta, movimentos de repúdio e 138 139 centenas de milhares de “amparos” contra a modificação legal . A modificação constitucional do status da empresa Pemex é um caso atípico, pois há algumas semanas foi iniciado um movimento civil muito amplo que culminou com a ocupação simbólica das câmaras de legisladores resultando em um pacto com os 140 partidos para iniciar um processo de debates com especialistas por 71 dias . Antes de chegar ao fim deste primeiro passo do processo de criminalização, vale a pena dizer que os povos indígenas com maior protagonismo ou visibilidade em conflitos sociais, segundo as cifras do Observatório em 2007, foram: Choles, Zoques, Tlapanecos, Nahuas, Purépechas, Mixtecos, Zapotecos, Tojolabales, Mixes, Trikis, Tzeltales y Tzotziles. O seguinte gráfico (gráfico 3) mostra esse protagonismo.

136 Há muita informação disponível sobre o particular. Vale a pena ver um vídeo de sua própria perspectiva que está disponível em: <http://youtube.com/watch?v=-v70TW6QtH8&feature=related>. Também elaboraram um material fílmico ganhador de um “ariel” chamado Zimapan, história de um confinamento, elaborado por Juan Manuel Sepúlveda em 2007. 137 Somente no distrito Federal existe esta possibilidade mediante a lei de participação cidadã publicada em 17 de maio de 2004. 138 O amparo é um recurso legal semelhante ao habeas corpus de alguns países da américa Latina. 139 Em 22 de março de 2007, a maioria integrada por deputados do PaN, PRi, PVEM, Panal e alternativa (313 votos) aprovou a nova lei do iSSSTE, que contempla a criação de um novo sistema de pensões, aumenta a idade para a aposentadoria, constitui uma Caixa de poupança pública (Pensionissste) com vigência de apenas três anos, e promete sanear as finanças da instituição. até dezembro de 2007 havia sido interposto cerca de um milhão de amparos (habeas corpus) contra a lei. 140 O fórum se chama “análise Constitucional das iniciativas de Reforma Energética” que está sendo discutido no Senado.

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gráfico 3
vejamos alguns casos menos conhecidos que podem exemplificar o que foi exposto até agora no que se refere à criminalização do protesto social e como se fabricam delitos sempre que se quer, como nos casos apresentados, dos quais participam elementos do exército.

Frente em defesa da Água em Cuautla
A Frente em Defesa da Água de Morelos (FDAM) tem travado nos últimos anos uma forte luta em defesa da água, particularmente em Cuautla nesse Estado. Ao longo de 2007 essa luta intensificou-se contra a construção de um posto de gasolina. O posto da companhia Milenium 3000 apresentava mais de 50 anomalias e irregularidades detectadas pelos próprios moradores, que as denunciaram às autoridades, enfatizando que causaria grande dano ao manto aqüífero que abastece 80% da população de Cuautla. O posto foi construído a 350 metros do poço de água “El Calvario” e no início de janeiro de 2007 os ativistas Jonathan González Suárez, Noe Neri e Silvia Espinosa de Jesús denunciaram os riscos de contaminação da água que poderiam ser causados pelos tanques subterrâneos da empresa. A primeira resposta das autoridades municipais e do Estado foi negar a validade das demandas dos moradores, acusando-os de ignorantes, que “não conhecem regras ambientais”. Diante da insistência dos moradores em revisar a licença de construção do local ou de localizar o posto em outro lugar, o conflito cresceu: as autoridades negaram interlocução com os moradores, enquanto tratavam com a empresa construtora e com seu dono, Rafael Anguiano Aranda. A imprensa local, próxima dos interesses da empresa, ou comprada por ela, qualificou os moradores nos mesmos termos, negando-lhes o direito de réplica a suas
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acusações. No dia 4 de maio de 2007 policiais municipais e estaduais irromperam em uma manifestação, dissolvendo-a. Nesse mesmo dia, correu o rumor de que existiam ordens de detenção contra os líderes do protesto. A estratégia de difundir rumores de “ordens de detenção”, que por 141 princípio são secretas para que possam ser cumpridas , é utilizada como mecanismo para amedrontar e dissuadir os participantes das manifestações de continuar a exercer o seu direito de protestar ou reivindicar. Tanto a imprensa como as autoridades iniciaram uma campanha de desprestígio contra o movimento e a favor da empresa de combustíveis. A emissora de rádio local disse, durante semanas, que os ativistas eram agitadores que pouco estavam interessados na ecologia e que seu interesse era desestabilizar o governo estadual. Acusaram-nos de estar relacionados com outros grupos sociais “perigosos” ou “subversivos”. Em 10 de outubro de 2007, de regresso de um fórum realizado em 142 Guadalajara, o Tribunal Latino-americano da Água , em que denunciaram os atropelos sofridos pelo seu movimento em defesa da água, os ativistas Jonathan González Suárez, Silvia Espinosa de Jesús e Noe Neri sofreram um acidente no qual o motorista do veículo que chocou com o deles fugiu. Na ocasião perderam a vida os dois primeiros. No dia 30 de outubro, elementos da polícia preventiva municipal detiveram com violência Margarito Neri Gutiérrez e Gualberto Noé Neri Hernández, pai e filho, acusados de ameaçar uma oficial de justiça. O conflito foi reprimido e a partir de então o posto está funcionando. No fundo, o conflito permanece, pois as autoridades não atacaram de maneira alguma as raízes do problema.

o movimento em prol do melhoramento do Agro Guanajuatense
O Movimento em Prol do Melhoramento do Agro Guanajuatense (MPMAG) data do ano de 1999. Desde esse período os camponeses integrantes da agrupação empreenderam ações buscando apoio governamental, sobretudo para o subsídio às altas tarifas elétricas. Esse movimento tem fortes articulações com outras organizações camponesas, particularmente no Estado de Chihuahua.
141 Quando a detenção é ordenada pela autoridade judicial, ou seja, uma vez que o Ministério Público já exerceu a ação penal, o juiz pode ordenar a detenção do provável responsável de um delito. a ordem de detenção deve ser dada por escrito por um juiz criminal, fazendo específica referência à pessoa à qual se refere: nome completo, delito. O juiz só pode ditar uma ordem de detenção quando o delito de que é acusada uma pessoa for daqueles aos quais corresponde uma pena privativa da liberdade e que existam dados que acreditem o corpo do delito e que tornem provável a responsabilidade do sujeito contra o qual se exerce a ação criminal. a ordem de detenção deverá ser secreta até ser cumprida. 142 disponível em: <http://www.tragua.com/es/>.

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Em 2007 o movimento adquiriu novo realce pelo fato de ter demandado tarifas mais justas para a energia elétrica e nos subsídios para os camponeses usuários do serviço. No entanto, os funcionários do Estado não intervieram porque, presumivelmente, se tratava de um assunto de particulares com a empresa, a Comissão Federal de Eletricidade (CFE). Cabe dizer que a empresa é paraestatal federal. Os camponeses, ao não se sentirem ouvidos pelas autoridades, iniciaram o confronto e realizaram marchas, comícios e outras formas de pressão para serem atendidos e para que a imprensa tornasse visível sua agenda. A resposta das autoridades do Estado de Guanajuato foi a detenção do líder local do movimento, Rubén vázquez, acusado de delitos políticos. Diante da detenção de seu líder, os camponeses organizados trocaram sua principal demanda, de subsídios por sua liberdade. Rubén vázquez foi libertado poucos dias depois, mas não se cumpriram as demandas dos camponeses no tocante a sua agenda. Em 14 de março do presente ano, foi assassinado o dirigente da organização Agrodinâmica Nacional, Armando villareal Martha, principal promotor dos protestos contra o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN), e articulado com o MPMAG. O terror, a ameaça de prisão e a troca de presos são fatores importantes de desmobilização de grupos camponeses em muitos Estados do país.

Casos de vítimas do processo de militarização no país
Há poucas semanas a Comissão Nacional de Direitos Humanos emitiu oito documentos (Recomendações) que se referem justamente à forma como atuam elementos do exército no presumido “combate ao narcotráfico”. São oito casos exemplares de muitos que certamente devem existir e que ninguém se atreve a denunciar. Copio boa parte da síntese que a própria CNDH realiza de suas recomendações. O leitor atento perceberá o modus operandi repetitivo, sem importar se estão tratando com criminosos ou não. Já de saída criminalizam-se e culpam-se os civis. Nas narrações aparece a forma em que operam não apenas os maus elementos do exército, mas todo um mecanismo que aceita com normalidade a tortura, as detenções arbitrárias, os maus-tratos, etc., sem nada fazer, nem levantar denúncias judiciais.

santiago de los Caballeros
O processo de militarização do país está fazendo com que se criminalize a população sem motivo nenhum. Esta situação está gerando tensões, medo e uma
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situação de sentimento de perseguição. Há que recordar que a presença do Exército nas ruas do país responde a um estado de extrema exceção, que nada tem a ver com a legalidade ou com a Constituição. Em 26 de março de 2008, aproximadamente às 21 horas, na comunidade de “Santiago de los Caballeros”, município de Badiraguato, Estado de Sinaloa, elementos militares dispararam suas armas de fogo contra o veículo Hummer H2, onde se encontraram Zenón Alberto Medina López (30 anos), Manuel Medina Araujo (29 anos), Edgar Geovanny Araujo Alarcón (28 anos), Irineo Medina Díaz (53 anos), Miguel Ángel Medina Medina (31 anos) e wilfredo Ernesto Madrid Medina (22 anos). Foram mortos os quatro primeiros e ferido o último. O motivo alegado foi que eles não reduziram a velocidade em um bloqueio militar. A CNDH emitiu a 143 recomendação 036/08 por esse caso . Os senhores Celso Eleazar Pérez Peña e Jaime Olivas Rodríguez foram detidos arbitrariamente por elementos do exército no dia 26 de março de 2008 quando circulavam em um quadrimotor na estrada de terra a caminho de “Santiago de los Caballeros”, município de Badiraguato, Sinaloa. Eles foram retidos deitados de bruços no chão por aproximadamente sete horas depois da detenção sem que fosse 144 estabelecida sua causa legal .

reynosa, tamaulipas
Em 17 de fevereiro de 2008, atendendo a uma informação jornalística, a CNDH iniciou uma investigação que concluiu com a verificação de violações aos direitos humanos por parte de elementos do exército. Os fatos violadores desses direitos se referem: ao uso excessivo da força pública e das armas de fogo; violação do direito à vida e à integridade e segurança pessoal; à legalidade e segurança jurídica; e ao exercício indevido da função pública por parte de elementos da Secretaria da Defesa Nacional, em agravo dos senhores Sergio Meza varela e José Antonio Barbosa Ramírez. A síntese da Recomendação assinala que os servidores públicos agregados à Secretaria da Defesa Nacional excederam-se no uso da força pública e das armas de fogo, no dia 16 de fevereiro de 2008, “quando, no momento em que tentaram deter a marcha do veículo marca Chrysler Dodge Sebring, duas portas, conversível, de cor verde, capota cor bege, modelo 1998, placas 884 GGS, do Texas, Estados Unidos da América, acionaram suas armas disciplinares em direção ao automóvel citado, o que privou da vida o senhor Sergio Meza varela. De acordo com os relatórios médicos de autópsia da Procuradoria Geral de Justiça de Tamaulipas,
143 CNdH. Recomendação 036/2008, julho 2008. 144 idem

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a mencionada pessoa faleceu em conseqüência de disparo de projétil de arma de fogo. Além do mais, o senhor José Antonio Barbosa Ramírez foi ferido por projétil de arma de fogo, como foi declarado no relatório médico prévio de lesões feito para o senhor José Antonio Barbosa Ramírez, datado de 16 de fevereiro de 2008, emitido por um perito médico forense da Procuradoria Geral de Justiça do Estado de Tamaulipas, sem que existisse justificativa alguma, pois os passageiros do citado veículo não portavam armas de fogo, o que constituiu um abuso de poder contra 145 os governados e se traduziu em uma clara violação de seus direitos humanos” .

Huetamo, michoacán
Elementos do exército assassinaram o menor víctor Alfonso de la Paz Ortega quando realizavam um operativo no contexto do “combate ao narcotráfico”. Segundo a CNDH, os elementos do Exército mexicano “transgrediram o direito à vida e violaram o que estabelecem os Artigos: 14, parágrafo segundo, da Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos, 6.1 do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, 4.1 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, 6.1 e 6.2 da Convenção sobre os Direitos da Criança, e 3.o da Declaração Universal de Direitos Humanos, e os números 4, 9 e 20 dos Princípios Básicos sobre o Emprego da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Encarregados de Fazer Cumprir a Lei, relacionados com o direito à vida, em agravo do menor víctor Alfonso de la Paz Ortega, que faleceu no lugar dos acontecimentos, bem como de Juan Carlos Peñaloza García, que não apenas foi ferido a golpes por pessoal militar, mas colocado em grave risco de também perder a vida, por encontrar-se acompanhando o 146 menor morto violentamente . Estes fatos aconteceram apesar das medidas cautelares solicitadas pela própria Comissão para a proteção das vidas e direitos dos moradores da região.

tanhuato, michoacán

Em 7 de outubro de 2007, o senhor Antonio Paniagua Esquivel foi atacado por elementos do exército mexicano em atentado contra a sua propriedade (invasão de domicílio, danos e roubo), sendo vítima de tortura, tratamento cruel e/ou degradante, detenção arbitrária, violação ao direito à integridade e segurança pessoal, e à legalidade e segurança jurídica. Os fatos ocorreram aproximadamente às cinco horas, no município de Tanhuato, no Estado de Michoacán. Segundo relata a CNDH em sua Recomendação 033, elementos do 37.º
145 CNdH. Recomendação 035/2008, México, julho 2008. 146 CNdH. Recomendação 034/2008, México, julho 2008.

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Batalhão de Infantaria do Exército MEXICANO, lotados na Base de Operações Mistas de Zamora, Michoacán, introduziram-se em seu domicílio sem ordem judicial, danificaram seu imóvel, subtraíram objetos de valor, detiveram-no arbitrariamente e lhe causaram lesões mediante procedimentos de torturas, entre os quais colocaram uma toalha em seu rosto, jogaram água, sentindo que se afogava; e que houve um momento em que colocaram em seus genitais um tubo, sentindo choques elétricos, para posteriormente colocá-lo à disposição do agente do Ministério Público da Federação, onde foi iniciada a averiguação prévia AP/ 147 PGR/MICH/LP/214/2007, sob o argumento de posse de armas .

Chauz, municipio de la Huacana, michoacán
No dia 21 de agosto de 2007, às 22 horas, segundo a Recomendação 032/2008, “o senhor Jesús Picazo Gómez se encontrava fora da casa de sua tia, localizada em Uruapan, Michoacán, quando cinco elementos do Exército mexicano, comandados por um tenente, perguntaram seu nome e endereço. Além disso, solicitaramlhe seu título de eleitor e, ao constatarem que era morador da localidade de Chauz, município de La Huacana, Michoacán, detiveram-no, subtraíram-lhe uma pulseira tipo escrava, um relógio, três anéis, uma corrente, uma medalha e a quantia de $3,000.00 (três mil pesos). Em seguida o jogaram no chão dando-lhe pontapés por todo o corpo, vendaram-lhe os olhos e, posteriormente, transferiram-no para a Zona Militar de Uruapan, Michoacán, onde o despiram e lhe puseram uma bolsa de tecido na cabeça, jogaram-no no chão e lhe amarraram mãos e pés, atirando água em sua cara, enquanto o golpeavam no abdome. Permaneceu despido durante toda a noite em um pequeno quarto”. A narração prossegue e agrega que, “aproximadamente, às oito horas de 22 de agosto de 2007, o senhor Jesús Picazo Gómez foi levado a um quartel militar, na cidade de México, e nesse lugar foi examinado por um médico. Depois disso, alguns elementos militares continuaram a golpeá-lo e a jogá-lo contra a parede, enquanto lhe mostravam umas fotografias e lhe perguntavam por algumas pessoas. Entretanto, ao responder que não as conhecia, começaram a meter-lhe a cabeça num tonel cheio de água e, ao mesmo tempo, lhe davam choques elétricos no estômago. Algum tempo depois o transferiram para a agência do Ministério Público da Federação em Morelia, Michoacán, com o argumento de que presumidamente portava duas armas de fogo, três quilos de maconha, 30 gramas de perinol e vários cartuchos”. A Recomendação agrega que, aproximadamente às três horas de 25 de agosto de 2007, diversos elementos do Exército mexicano se apresentaram no domicílio do senhor Santos Picazo Car147 CNdH. Recomendación 033/2008, México, julho 2008.

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ranza, localizado no Rancho El Chauz, município de La Huacana, Michoacán, e presumidamente seis deles entraram de forma violenta na sua moradia, revistando toda a casa. Além disso, atiraram no chão sua filha menor DOPG, apesar de estar grávida, e apontaram suas armas à esposa, chamada María Delia Gómez Parra, por ter defendido sua descendente. Ademais, no dia seguinte os mencionados mili148 tares fotografaram e gravaram vídeos de toda a casa, automóveis e família .

naco, sonora
A Comissão Nacional de Direitos Humanos em sua Recomendação 031/2008 relata que, no dia 3 de agosto de 2007, elementos militares que se encontravam percorrendo as imediações do município de Naco, no Estado de Sonora, detiveram três pessoas que estavam indo trabalhar em um rancho: Mario Alberto Sotelo Estrada, Filomeno Guerra Flores e Fausto Ernesto Murillo Flores. Este último desapareceu a partir dessa detenção e as outras duas pessoas foram transferidas para o Ministério Público da Federação na cidade de Agua Prieta, Sonora. Agrega a Recomendação que, em 4 de agosto de 2007, foi encontrado o cadáver do senhor Fausto Ernesto Murillo Flores em um local denominado “La Morita”, à altura do km 28 da rodovia Cananea-Agua Prieta, Sonora, cujo corpo se encontrava golpeado e com lesões que 149 provavelmente lhe provocaram a morte .

Colonia José maría morelos e pavón em morelia, michoacán
No dia 13 de junho de 2007, segundo a Recomendação 031/2008 da CNDH, o senhor Óscar Cornejo Tello “encontrava-se em uma casa situada no bairro José María Morelos y Pavón em Morelia, Michoacán, acompanhado de dois menores, assistindo a um filme. Nesse momento, perceberam que elementos do Exército mexicano estavam rompendo os vidros da porta que divide a cozinha e os quartos e em seguida gritaram: ‘abre a porta, filho da puta’. Tendo o ofendido aberto imediatamente, 15 elementos militares ingressaram no domicílio, jogando-o ao chão e começaram a lhe bater e perguntar se ele era o tal ‘chino güenses’. O ofendido respondeu que não e ante tal negativa os elementos do instituto armado lhe taparam a cara com uma peça de roupa, a molharam e lhe deram choques elétricos nos testículos; inclusive lhe puseram a mesma peça de roupa no pescoço para cortar-lhe a respiração. Os referidos golpes duraram aproximadamente 30 minutos, durantes os quais recebeu pontapés, tapas e socos e utilizaram um
148 CNdH. Recomendação 032/2008, México, julho 2008. 149 CNdH. Recomendação 031/2008, México, julho 2008.

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quadro que estava no imóvel para feri-lo. Que devido ao ofendido não ter declarado o que queriam, os elementos militares optaram por levá-lo a uma espécie de ronda por diferentes partes da cidade para, posteriormente, transferi-lo à 21.ª Zona Militar; que o anterior pode ser identificado pelo ofendido, pois, ao chegar à referida guarnição, descobriram-lhe a cara; que nesse traslado algemaram suas mãos provocando-lhe feridas no pulso e imobilidade na mão direita; que durante o tempo que esteve na citada Zona Militar pôde escutar a conversa entre dois elementos militares, na qual um deles afirmava ‘já fizemos cagada’ e outro mencionava ‘é preciso atirar-lhe a bomba’. Posteriormente transferiram-no às instalações da Procuradoria Geral da República, pondo-o à disposição da Agência Terceira do Ministério Público Federal, os quais ao ver a gravidade dos ferimentos que apresentava levaram-no a um médico. Só no dia 15 de junho de 2007, quando teve a oportunidade de depor diante do representante social da Federação, pôde conhecer a declaração da base de operações mistas, onde constava que foi detido em um veículo branco, de marca Seat, por volta de uma hora da manhã com armamento, um distintivo com as insígnias da Agência Federal de Investigação, umas algemas, coldres para pistolas, uma calça preta tipo comando, um par de botas e um uniforme tipo militar camuflado. Ele declarou que isso era contrário à verdade, mas, apesar disso, foi levado para o Centro de Readaptação Social ‘Lic. David Franco Rodríguez’. Da mesma forma, da investigação realizada se infere que, posterior ao arbitrário e conseqüentemente ingresso ilegal ao domicílio onde se encontrava o ofendido por elementos do Exército mexicano, este foi vítima de sofrimentos físicos, consistentes em golpes, pontapés, tapas, socos e choques elétricos nos testículos, em tapar-lhe a cara com uma peça de roupa molhada com a intenção de impedir que respirasse normalmente, e inclusive amarrá-lo pelo pescoço com a mesma peça, tudo isso com a intenção de que confessasse se era o ‘chino güences’, o que, 150 sem dúvida, traduz-se em atos de tortura” .

sonoyta, sonora
Em sua Recomendação 029/2008 a CNDH relata que, “em 7 de junho de 2007, aproximadamente às 19h30min, o senhor José Fausto Gálvez Munguía se encontrava com outras pessoas na base do cerro de ‘La Lesna’, localizado na fronteira com os Estados Unidos da América. Nesse momento, chegaram dois veículos do Exército mexicano com pessoal que gritava que era da 40.ª Zona Militar e lhes apontara as armas perguntando quem era seu chefe e onde se encontrava a maconha e que ‘iam fodê-lo’
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e inclusive ‘matá-lo’. Eles explicavam aos elementos militares que a razão de estar nesse 151 lugar era porque estavam esperando um ‘pollero’ que os passaria para a cidade de Phoenix, o que motivou que um dos soldados lhe desse um pontapé nas costelas e gritasse ‘você está mentindo cornudo’. ‘Está esperando droga para passar, diga quem é seu patrão e onde está ou eu vou te foder.’ Foi então que outro dos elementos militares agarrou-o pelos cabelos e ordenou a um a que chamava de cabo: ‘leva ele pro carro que este cornudo aí vai cantar’. Nesse momento, os elementos militares dispararam suas armas ao lado das cabeças das pessoas que o acompanhavam. Trataram de sacar-lhe informação, mas por ignorá-la não pôde responder a suas perguntas, motivo pelo qual um militar, de nome SP1, deu-lhe um soco na boca; que o desceram da caminhoneta, lhe vendaram os olhos, o arrastaram pelo chão. Foi quando lhe meteram um tubo na boca e o obrigaram a beber um líquido com sabor a álcool com o propósito de afogálo; que, por causa da quantidade, esteve vomitando; lhe meteram nas unhas das mãos e pés uns pedaços de madeira que mexiam para fazê-lo sofrer, até que lhe arrancaram as unhas. Mesmo assim, sangrando pelo nariz e ferido, os militares o abandonaram inconsciente e que despertou entre às 11 e 12 da noite moribundo, e foi auxiliado por 152 uma pessoa que o levou ao hospital” .

2. o conflito escalonado
Poucas semanas depois de seu levante em armas, os zapatistas enfrentaram severas críticas por parte de alguns meios de comunicação em virtude do uso 153 de “passa-montanha”. A resposta que deram foi muito simples: “tivemos que colocar passa-montanhas para ser alguém, pois quando não o usávamos éramos simplesmente os índios de sempre e ninguém prestava atenção em nós”. Como já mencionado, os atores sociais que se encontram em uma situação de conflito recorrem a diferentes formas de manifestação para tornar visíveis suas demandas. Tais formas de manifestação, inicialmente, são normalmente apegadas ao marco normativo contemplado pela lei como formas de liberdade de expressão – a estas nos referimos como formas institucionais de enfrentamento social. No entanto, a maioria dessas formas são estratégias de confrontação de perfil muito baixo que não exercem pressão suficiente, a não ser em caso de grupos muito numerosos. Os meios de comunicação não as considera relevantes e são invisíveis, e as autoridades freqüentemente não consideram seus participantes como interlocutores significativos e portanto os negam. As formas de enfrentamento mais usadas são a denúncia
151 Também chamados de “coiotes” ou “gatos”, são traficantes de pessoas e agenciadores de mão-de-obra ilegal na fronteira do México com os Estados unidos (N. da T.). 152 CNdH. Recomendação 029/2008, México, julho 2008. 153 Gorro de lã que deixa de fora apenas os olhos (N. da T.).

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pública, em algum meio de comunicação ou diretamente perante a sociedade civil, com cartazes ou panfletos; as marchas, os comícios e as demandas legais. Diante da negação das autoridades e a invisibilização dos meios, os movimentos sociais mudam sua dinâmica recorrendo a formas de expressão de suas demandas que se localizam na fronteira do marco normativo. A estas formas de confrontação mais diretas com o Estado denominaremos de formas não-institucionais de enfrentamento social. O uso de algumas delas, como os bloqueios a certas estradas, tornou-se mais recorrente pelos atores sociais em conflito. Outras, como o enfrentamento físico, a retenção física de autoridades, a invasão de instalações ou o protesto armado, são normalmente separadas da legitimidade do contexto social que as acompanha e do que se trata de reivindicar, sendo catalogadas pelo Estado como delitos graves que são castigados. Neste sentido, os dirigentes sociais que encabeçam os movimentos deixam de ser considerados interlocutores válidos e são perseguidos como delinqüentes. Por exemplo, o caso dos dirigentes da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca, que um dia dialogavam de forma civilizada com a mais alta autoridade política do país e no dia seguinte foram detidos como criminosos e presos em presídios de segurança máxima. Compreendendo que o conflito social é na verdade um processo e não um evento que surge de repente, é evidente que um ator social buscando reivindicar suas demandas utiliza várias estratégias de enfrentamento ao Estado, dependendo da dinâmica com a qual o conflito se vai desenvolvendo. A utilização dessas diferentes estratégias, por sua vez, muda os diferentes momentos e ritmos de confrontação que se dão com o Estado e influi, de alguma maneira, no tipo de resposta que ele dá. Portanto, o conflito pode chegar a níveis de enfrentamento mais direto, em função da interação que existiu entre os atores ao longo do processo, gerando, assim, aquilo que entendemos como escalonamento de um conflito. Esse é o caso dos estudantes da Escola Normal de Ayotzinapan, em Guerrero. Eles iniciaram o movimento com comícios e uma marcha e, pouco a pouco, escalonaram o confronto para se fazerem visíveis e gerarem uma correlação de forças com seus interlocutores, realizando um plantão diante do Congresso do Estado e depois tomando o posto de cobrança de pedágio da rodovia Cuernavaca – Acapulco. Normalmente, ao ir se escalonando, um conflito vai se tornando mais complexo, deixando no percurso do seu processo presumíveis delitos, demandas legais e acusações. Em certos casos de confronto o Estado toma prisioneiros como reféns para negociar sua libertação em troca da desmobilização do processo social de protesto. Freqüentemente se vê que, quando um movimento social em conflito escalona seu enfrentamento, o Estado vai tomando reféns e ameaça com prisões e encarceramentos para “baixar o tom do movimento”.
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Segundo dados do Observatório da Conflituosidade, a maior parte dos atores sociais recorre, em um primeiro momento, para exigir suas demandas, a formas de enfrentamento institucional não-violentas. Mais de 60% das estratégias de confronto utilizadas por atores sociais são institucionais. No entanto, excepcionalmente também existem certos grupos de atores sociais que tendem mais ao enfrentamento físico, principalmente diante de conflitos internos ou com outras agrupações da mesma tendência. Esse é o caso das disputas territoriais dos concessionários de transporte, entre simpatizantes ou militantes de partidos políticos e alguns grupos camponeses e sindicais. O seguinte gráfico (gráfico 4) mostra quais são as estratégias de enfrentamento que os atores sociais adotam em seus conflitos.

gráfico 4
A política de negação do ator por parte de autoridades e a invisibilidade são elementos fundamentais para que os atores sociais em conflito sintam a necessidade de escalonar sua expressão de confronto. Ou seja, os movimentos sociais que estão mobilizados por alguma demanda e não se sentem atendidos mudam suas estratégias de enfrentamento para colocar-se em um nível diferente em relação à autoridade. Ao elevar o “tom”, o enfrentamento se torna mais visível e mais vulnerável à crítica dos meios e do uso da mídia para criminalizar seu protesto.
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Assim, no processo de confrontação com o Estado, a maior parte dos conflitos sociais no país recorre, em primeira instância, à denúncia pública para exigir suas demandas. Posteriormente, organizam uma marcha ou comício para exigir interlocução e, apenas quando não são ouvidos, acorrem aos bloqueios como método de pressão. Até esse momento costumam ter alguma resposta por parte do governo, ainda que freqüentemente não seja favorável, tanto no conteúdo como na forma. Desse modo, o movimento necessita demonstrar sua força com formas de enfrentamento ainda mais diretas, que o legitimem pelo menos como interlocutor representativo e válido diante do Estado, e seja contemplado. A radicalização é parte do processo de uma errática ou nula interlocução com os representantes do Estado, e as expressões mais combativas do movimento ganham espaço ao ver que não as atendem e as difamam. No interior do movimento social acontecem com certa freqüência fissuras entre a liderança moderada e propensa ao diálogo, e a liderança radical e combativa. Esta fase do conflito é usada pelas autoridades e aguçada pela mídia para qualificar os radicalizados de “ultras”, “intransigentes”, “membros de organizações armadas”, “terroristas”, “desestabilizadores”, etc. Enquanto isso, a autoridade busca corromper, comprar ou chantagear o grupo moderado. Do mesmo modo, é nessa etapa que em alguns conflitos aparecem os que provocam pancadaria, os “porros” (grupos de arruaceiros), os infiltrados, que iniciam o trabalho de intimidação, espionagem e desestabilização das lideranças, aguçando as contradições internas e provocando o enfrentamento físico. As acusações internas de “traição” e de “vendido” são utilizadas para quebrar a luta. As ameaças são freqüentes, sobretudo contra as mulheres, e os “incidentes de segurança” se multiplicam. As mulheres, com maior freqüência que os homens, são seguidas até em casa. As portas das casas de alguns ativistas são pichadas com inscrições ameaçadoras. As “mensagens” que vêm das autoridades, mais que de busca de diálogo, são de ameaça. Nessa fase aparecem com freqüência as dissidências, as expressões de outros parceiros que pedem o contrário. Por exemplo, em Zimapán, Hidalgo, onde apareceu um pequeno grupo impulsionado por autoridades do Estado e financiado pela empresa que constrói o local para o despejo de resíduos tóxicos. Esse grupo de moradores de Zimapán, camponeses e pessoas pobres, apóia decididamente as ações da empresa e se enfrenta, primeiro verbalmente, e depois a golpes contra seus pares que 154 lutam pela saúde da comunidade e pela não-construção do lixão tóxico . Outro exemplo é o conflito pela defesa da terra contra a construção da grande represa “La Parota”. A empresa elétrica (CFE) e o governo do Estado de Guerrero apóiam o sector de camponeses que são a favor do megaprojeto e os financiam para enfren154 No dia 1.º de maio infiltrados em uma marcha bateram em Crescencio Morales, um dos dirigentes do movimento “Todos somos Zimapán”, ,até produzir nele uma fratura de crânio.

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tar os opositores. Nas escolas e universidades se vêem, com muita freqüência, grupos de arruaceiros financiados e apoiados pelas autoridades educativas batem nos estudantes que se manifestam. Também são apoiados pelas mesmas autoridades os setores “ultras” que “radicalizam o movimento” e facilitam a criminalização midiática e real dos atores peticionários. vamos ilustrar com um caso de conflito o que dissemos nesta segunda parte.

Comunidade de santa Ana Xalmimilulco, puebla, contra a empresa ecotérmica de oriente
Durante o mês de abril de 2007, moradores da comunidade Santa Ana Xalmimilulco, município de Huejotzingo, Puebla, exigiram o fechamento definitivo da empresa Ecotérmica de Oriente dedicada ao manejo de resíduos biológico-infecciosos, em virtude dos danos que produz ao meio ambiente e à saúde dos habitantes. Graças aos protestos, o forno da indústria foi fechado. Entretanto, no dia 26 de abril o presidente auxiliar de Santa Ana Xalmimilulco, Óscar Juárez Macuitl, denunciou que, embora o forno já não funcionasse, a empresa continuava operando sem a licença ambiental correspondente, o que constitui uma violação à Lei de Proteção ao Ambiente e ao Equilíbrio Ecológico do Estado de Puebla. Apesar da denúncia, as autoridades estaduais e as ambientais federais ignoraram a situação. Em 8 de maio de 2007, cerca de 500 habitantes da comunidade se reuniram para realizar um bloqueio na rodovia México–Puebla com a finalidade de pressionar o Governo Estadual e a Procuradoria Federal de Proteção do Meio Ambiente (Profepa) para que a empresa fosse fechada. Inclusive as aulas foram suspensas em Santa Ana para que todos os estudantes comparecessem ao fechamento da estrada. Ao tentar realizar o bloqueio, houve um enfrentamento entre elementos da polícia estadual e os manifestantes. Os primeiros empregaram gases lacrimogêneos para dispersar o grupo e cassetete para golpear os líderes. Como conseqüência da repressão seis manifestantes ficaram feridos e uma pessoa idosa foi detida, da qual foi pedida, juntamente com os demais detidos, uma averiguação prévia por sua provável responsabilidade nos delitos de ataque a funcionário público e depredação de vias públicas. No dia seguinte, como protesto pela agressão sofrida, os moradores de Santa Ana decidiram suspender as aulas em todas as instituições da comunidade. Sobre isso, o secretário de Educação Pública, Darío Carmona García, declarou que foi oferecida uma denúncia ministerial contra “quem for responsável” pela obstrução do serviço educativo.
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Por sua parte, o delegado da Procuradoria Federal de Proteção ao Ambiente em Puebla, Rubén Pedro Rodríguez Torres, declarou aos meios de comunicação locais que já havia sido fechado o forno da indústria Ecotérmica de Oriente, mas que o restante das instalações podiam continuar em funcionamento, pois não foi constatado que produzissem dano ambiental. Confirmou que existiam “algumas irregularidades” dentro da empresa, uma das quais consistia em não contar com a licença correspondente para operar o incinerador, mas esclareceu que isso não implicava o fechamento definitivo da empresa. Até hoje se mantém o estigma público, estimulado pelos meios de comunicação locais, de que os habitantes de Santa Ana são “agitadores” e que “há criminosos infiltrados em seus protestos”.

3. A repressão e o estigma de ser criminoso
wilfrido Robledo, um dos responsáveis pela repressão em Atenco, Estado do México, declarou aos meios de comunicação, poucos dias depois dos fatos, que os manifestantes de Atenco não tinham dado alternativa para solucionar o conflito. Por isso é que a polícia “foi obrigada a intervir”. Diante do escalonamento do conflito, o Estado costuma obter a legitimação requerida ante a sociedade em seu conjunto, para evitar os altos custos políticos do uso da Força Pública. Utiliza a perspectiva, geralmente negativa, dada pelos meios de comunicação à visibilidade que finalmente “conseguiram” os movimentos e, em maior ou menor tempo, dependendo dos ritmos da oportunidade política, reprime os movimentos com um menor custo, evitando um impacto mais forte nas urnas das eleições seguintes. Com muita freqüência existe um “timing”, ou cálculo político, da pertinência da repressão que é realizada pelo Estado em diferentes momentos, dependendo do custo político que implique termos da legitimação da ação. Em 2006, por exemplo, houve duas repressões com visibilidade na mídia. Uma delas, a repressão em Atenco, que durou um dia só, foi baseada no fato de que o movimento continuava articulado e muito ativo, apesar de ser um movimento triunfante. A outra, em Oaxaca, demorou meses para ser realizada diante de um cenário nacional em que o governo necessitava urgentemente de legitimidade, em razão dos questionamentos às recém-realizadas eleições, e com uma importante representação de professores pertencentes à seção 22 da CNTE. Se a repressão ainda não é oportuna, isto é, politicamente rentável, a aposta é em processos de confrontação mais longos e de menor intensidade, sob a premissa de dividir e enfrentar. Nesses casos, ignoram-se os movimentos ou comu165

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nidades com lideranças empoderadas e com dirigentes com plena capacidade de enfrentamento, ao mesmo tempo em que se busca cooptar uma parte deles com diferentes ofertas de poder político ou econômico. Dessa forma, trata-se de que os movimentos se desgastem lentamente e diminuam a atenção no conflito que têm com o Estado, para terminar em um enfrentamento entre seus membros. Isso deixa os movimentos sumamente vulneráveis diante de ataque de grupos provocadores ligados ao governo ou, em casos mais extremos, a grupos paramilitares Nesses casos, no final da confrontação, os acontecimentos sempre serão qualificados pelo Estado como frutos de um conflito intercomunitário, alheio à responsabilidade governamental. Isso tem cobrado muita força nos últimos anos. Dependendo do custo político que esteja disposto a pagar pela repressão, em função da efetividade dos fins de desmobilização que se propõe, o Estado utiliza diferentes tipos de repressão. O gráfico 5 mostra quais são os atores governamentais aos quais se enfrentam os atores sociais.

gráfico 5
A repressão massiva é aplicada a numerosos grupos de pessoas. Tem uma maior visibilidade e isso eleva o custo político. Geralmente é mais difícil de con166

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trolar, pois confronta livremente as forças policiais com os movimentos sociais. Isso permite atos de maior brutalidade que costumam gerar violações aos direitos humanos, cuja responsabilidade individual se oculta no confronto entre grupos. Assim foram os casos de Atenco e Oaxaca em 2006. Normalmente não há distinção das pessoas que são reprimidas e representa um altíssimo custo humano para os movimentos. Por outro lado, a repressão seletiva é dirigida contra líderes ou indivíduos estrategicamente selecionados de um movimento ou organização. A repressão seletiva pode operar ainda com mais sigilo por meio do desaparecimento de membros de movimentos ou organizações e cuja responsabilidade oculta não é reconhecida pelo Estado. É o caso dos desaparecidos do Exército Popular Revolucionário (EPR), Gabriel Alberto Cruz Sánchez e Edmundo Reyes Amaya, no ano passado. Para exigir sua apresentação com vida, o conflito foi escalonado com estratégias de enfrentamento mais radicais, que conseguiram um importante espaço na mídia, antes nunca visto no país. A repressão seletiva pode atingir seu objetivo ao descabeçar ou desarticular completamente um movimento, mas pode também encrespar os ânimos, provocando reações mais duras de diferentes grupos da população, chegando a ser contraproducente para o Estado. O fundamental a ser considerado é que a forma de repressão exercida pelo Estado sempre obedecerá a sua necessidade de legitimidade por parte da opinião pública e da população em geral. E essa legitimidade está diretamente relacionada com a imagem fabricada de “criminosos” dos atores que protestam. Os movimentos com estruturas sólidas como os sindicais, que reivindicam, sobretudo, demandas trabalhistas, têm sido reprimidos nos últimos anos, porém com menor energia que outros setores mais débeis. Organizações armadas como o EPR ou inclusive o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) tiveram necessidade de gerar uma estrutura sumamente forte a partir da sua linha militar para evitar essas ações. Por outro lado, os movimentos mais inorgânicos são reprimidos com mais facilidade e deslegitimados ante a opinião pública, como grupos violentos que atentam contra a segurança e a ordem pública. Como não têm uma estrutura capaz de responder embates dessa classe, gera-se uma paralisação da solidariedade e reduzem-se os custos políticos do governo. Não é trivial que a maior parte dos casos de conflituosidade social no país reivindique demandas trabalhistas; segundo nossos dados, representam em torno de 30% dos conflitos no país. Isso mostra, por um lado, a ausência da participação democrática mais importante existente no México, a trabalhista, mas também o espaço que é mais legitimado socialmente como válido em seu enfrentamento com o Estado. No entanto, a maior parte dos conflitos trabalhistas
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em que o Estado intervém não é encabeçada por organismos de estruturas fortes e reconhecidas, como sindicatos, e dificilmente chegam a algum tipo de acordo. Existem diferentes mecanismos pelos quais a força pública reprime, fazendo este jogo de manter a imagem de maior legitimidade possível diante da sociedade civil, quando precisa. Por ordem da visibilidade que lhes é dada como mais ou menos legítimos, citamos aqui alguns deles: As estratégias de confrontação mais reprimidas em 2007, segundo os dados do Observatório da Conflituosidade Social no México, são aquelas em que há algum tipo de enfrentamento físico. O gráfico 6 mostra claramente as estratégias mais reprimidas. O leitor atento descobrirá que estão organizadas em dois grupos: um conjunto de estratégias que não têm contato físico e um segundo em que a expressão física é maior.

gráfico 6
A) O ator social se manifesta com formas institucionais ou não-institucionais. A polícia é enviada para conter. O ator enfrenta fisicamente a polícia. A polícia reprime.
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Esse tipo de repressão é comum diante de muitas marchas que se deseja impedir ou desviar e costuma ser apresentado como uma falta de controle do movimento sobre seus integrantes. Por isso, tem um baixo custo político para o Estado e é utilizado com certa freqüência. Novamente se apresentam os membros do movimento como pessoas violentas, diante das quais o comando policial intervém com o pretexto de não permitir agressões contra a autoridade que representam. Esse tipo de estratégia de contenção restringe os objetivos da manifestação dos movimentos e normalmente é utilizada como uma provocação que leva à repressão e ao desprestígio, no caso de os movimentos morderem a isca. Chega um operativo com a função de desalojar um grupo que atenta contra a propriedade privada ou alguma forma de interesse público, como vias de circulação. O ator social confronta o operativo; a polícia reprime. Esse tipo de repressão se mostra para a sociedade civil como mais legítimo em comparação com as outras e, por isso mesmo, o custo político que gera é mais fácil de ser manejado pelo Estado, porque é apresentada superficialmente em função da defesa de um bem ou direito público. Nesses casos, podem ser apresentadas facilmente imagens que contribuam para deslegitimar o ator social, por seu modo de operação em determinado momento, sem nada considerar, é claro, do processo anterior. Por exemplo, a repressão realizada contra a população de San Salvador Atenco em 2006 foi desse tipo, na qual os meios de comunicação desempenharam um papel importante apresentando repetidamente as agressões prévias aos policiais do município e do Estado. Depois disso, o Estado sentiu-se com a capacidade plena de introduzir a força pública com ordem de realizar uma repressão brutal, o que foi feito. B) O ator social se manifesta com formas não institucionais, tais como bloqueios, ocupação de instalações ou detenção de autoridades. A polícia chega imediatamente para reprimir. Neste outro tipo de repressão o Estado pode pagar um custo político maior por sua intervenção e se apresentar como incapaz de negociar, ineficaz e inclusive inepto diante de um maior número de grupos da sociedade civil. Apesar disso, ao escudar-se em sua função fundamental de manter a ordem pública e a segurança social da população, advogando por terceiros prejudicados, pode desprestigiar gravemente as dinâmicas de ação do movimento que reprime, apresentando-o como um grupo que atenta contra a segurança e o interesse público. Costuma ser apresentado como negativo para os movimentos sociais que são caracterizados como delinqüentes. O ator social se manifesta institucionalmente. A polícia chega imediatamente para reprimir. É o modelo de repressão de mais baixa legitimidade por
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parte do Estado. Mostra um governo intolerante, incapaz de fazer acordos e de ter respostas sumamente violentas contra a liberdade de expressão da população. É um governo que viola os direitos humanos e isso chega a gerar pressão tanto interna como internacional. Muitas vezes é invisibilizado pelos meios de comunicação de massa, a partir de critérios de interesse político, mas, no caso de um alto nível de agressividade, termina por aparecer facilmente. C) Outra estratégia do Estado para confrontar os movimentos, em combinação ou não com a repressão, é a que tem sido chamada de judicialização. Consiste em colocar os movimentos sociais em longos processos legais, com intuito de um desgaste interno dos movimentos e que deixam os atores sociais em uma situação de profunda desvantagem em termos de recursos, tanto econômicos como profissionais, para enfrentar seu conflito. E, mesmo quando têm a capacidade de levar o processo a bom termo, o resultado pode ser claramente inclinado a favor do Estado, em virtude da corrupção de autoridades. Esse é o caso do processo contra a jornalista Lydia Cacho, que denunciou em seu livro Los demonios del Edén uma rede de prostituição e pornografia infantil, na qual se encontram implicados poderosos empresários e autoridades do governo que foram expostos à luz pública com provas claras de corrupção e tráfico de influências. No entanto, Lydia Cacho obteve uma sentença negativa por parte da Suprema Corte de Justiça que foi baseada na suposição de que a população não pode compreender as sofisticadas decisões do poder judicial, em que se é incapaz de fazer justiça sobre algo que a qualquer um resultaria evidente. A judicialização também é muito utilizada pelo Estado como um método de repressão mais sutil, de aparência legal. É utilizado para paralisar os movimentos em processos criminais, fabricando presos políticos, fazendo com que o movimento tenha que mudar a prioridade de seus esforços para a libertação de seus membros encarcerados, perdendo assim grande parte da capacidade de manobra que tinham no princípio. É esse o caso dos detidos em San Salvador Atenco a raiz da invasão da polícia em maio de 2006, cujos processos judiciais paralisaram o movimento, que agora tem que enfrentar uma luta diante de sentenças de 67 anos contra seus líderes. O Centro de Direitos Humanos da Montanha Tlachinollan (CDHMT) documentou em seu último Informe 73 processos legais contra líderes sociais, 75 ordens de detenção e 44 inquéritos abertos. Isso significa mais de duzentas ações penais contra líderes sociais, apenas no que foi documentado pelo CDHMT em Guerrero. O Centro de Direitos Humanos “Fray Bartolomé de Las Casas”, em seu recente Informe sobre a situação dos Direitos Humanos em Chiapas, dedica seu capítulo 2.º ao tema da criminalização, enfocando-a partir dos mecanismos de 155 controle, particularmente o processo de judicialização .
155 Centro de direitos Humanos “Fray Bartolomé de Las Casas”. informe sobre a situação dos direitos Humanos em Chiapas, México, jul. 2008, Cap. 2. Em seu anexo ii documenta uma série de casos que considera como parte da criminalização do protesto em Chiapas (p. 139-145).

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gráfico 7
O restante do desgaste dos movimentos é gerado a partir das próprias condições precárias em que se encontram as populações lá onde eles mais surgem. Assim, o Estado os margina a um processo no qual não podem manter uma luta de longo fôlego, sob condições tão fortes de necessidade social que são as que geram a maior parte dos conflitos. A corrente se rompe, definitivamente, no elo mais fraco, aquele em que as pessoas são mais capazes de levantar a voz no confronto a partir dos movimentos, porque têm pouca coisa a perder. Mas é também por meio dessa necessidade que o Estado atua para cooptar seus membros e os isola em um processo de desgaste mais acelerado que, ao longo do tempo e sem um processo de desenvolvimento alternativo, é incapaz de manter. Isso pode ser visto facilmente no fato de que os Estados nos quais nossos dados registram mais conflitos (Gráfico 7) são precisamente aqueles em que existe um maior índice de marginação social e pobreza. São também Estados com alto índice de presença indígena, grupo social historicamente excluído e marginalizado em nosso país. Os cinco Estados que apresentam esse maior nível de marginação – Chiapas, Guerrero, Oaxaca, Hidalgo e veracruz – são precisamente os de maior índice de conflituosidade, salvo o Estado do México e o Distrito Federal. No norte do país, Chihuahua, único Estado de elevada população indígena, se destaca pelo número de conflitos. De um total de 151 conflitos com pelo menos uma contraparte indígena registrados pelo Observatório da Conflituosidade Social no México, cerca da metade se localiza em Chiapas (47%), 21% em Oaxaca e 6% em Guerrero. Igualmente, é nesses territórios que há, coincidentemente, uma maior presença de recursos naturais estratégicos, de que o Estado pretende se apropriar para a utilização em seu interesse e das empresas transacionais, o que relaciona esta forma de intervir nos conflitos a outros processos de interesse econômico de tendência principalmente neoliberal.
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gráfico 8

gráfico 9

Quando nos perguntamos quais são as demandas mais reprimidas, e consultamos os dados do Observatório, constatamos que os conflitos trabalhistas e os que pedem infra-estrutura e serviços são os mais reprimidos. vale a pena assinalar que a luta contra a impunidade é uma demanda muito notada e que é freqüentemente reprimida pelas autoridades. A seguir, apresentamos no Gráfico 10 os conflitos mais recorrentemente reprimidos.
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Da mesma forma, o Gráfico 11 mostra claramente os atores mais reprimidos. A maneira de abordar os setores não permite ver o conjunto de atores indígenas que protesta e é reprimido, mas as cifras obtidas pelo Observatório nos permitem afirmar que constitui 12% do total, ou seja, um pouco mais do que a porcentagem representada pelo conjunto dos Povos Indígenas. vejamos alguns casos de repressão ocorridos em 2007. Obviamente os casos mais conhecidos e dos quais se falará com mais profundidade neste fórum são os de Oaxaca e o de San Salvador Atenco, de 2006.

movimento de estudantes não Aceitos
Um grupo de estudantes não admitidos no Instituto Politécnico Nacional, 156 reunidos no Movimento de Estudantes não Aceitos (MENA) , demandavam perante as autoridades da Secretaria de Educação Pública e do próprio Instituto a reconsideração de seus casos e mais vagas nos cursos. Em uma de suas manifestações, no dia 7 de agosto de 2007, foram desalojados pela polícia preventiva, com um saldo de nove detidos. Este caso é um pouco diferente dos outros, pois as autoridades educativas atuaram com muito mais rapidez no processo de repressão. Passaram da negação de interlocução e da invisibilização à repressão direta em um prazo muito curto. Os detidos foram acusados dos delitos de seqüestro, dano em propriedade alheia, motim e violação da Lei Federal de Armas de Fogo e Explosivos. Posteriormente, foram acrescentadas outras acusações, tais como obstrução ao acesso a instalações e roubo. Essas imputações foram negociadas quando os estudantes se reagruparam e continuaram com suas demandas, acrescentando agora a liberdade dos detidos. A negociação consistiu em que os nove detidos seriam libertados sem acusações, sempre e quando os estudantes desistissem das mobilizações e de suas petições de matrícula no Instituto Politécnico Nacional. A negociação foi feita, os estudantes se desmobilizaram e ficaram sem escola para continuar seus estudos. Ou seja, a judicialização fez parte do processo de desmobilização.

escola normal de Ayotzinapa em Guerrero
O conflito dos professores da Escola Normal rural de Ayotzinapa, em Guerrero, é outro dos casos que consideramos emblemático, pois reivindica demandas historicamente negadas pelas autoridades do Estado de Guerrero e foi invisibilizado pelos meios de comunicação. Esse conflito, iniciado a 11 de novembro de 2007, repete o
156 Para mais informação sobre este movimento cf. <http://www.odiseo.com.mx/lectores/2005/08/nete-al-movimiento-de-estudiantes-no.htm>.

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caminho dos demais movimentos, desde a negativa de interlocução até a negociação, passando pela consabida repressão. Nessa ocasião, a repressão não foi realizada apenas por elementos da polícia local ou estadual, mas também por corpos policiais federais, insinuando a presença de grupos radicais e facilitando a criminalização do processo. O movimento de estudantes agrupados na Federação de Estudantes Camponeses Socialistas do México (FECSM) reivindicava em sua agenda três pontos: a permanência do sistema de internato, a licenciatura em educação primária e a criação de 75 novas vagas para professores de educação primária. O conflito foi sendo escalonado na medida em que os peticionários não eram atendidos pelas autoridades. Sofreu uma brutal repressão, no dia 29 de novembro, quando um contingente de policiais estaduais e federais (PFP) agrediu uma manifestação que jovens professores realizavam no posto de pedágio, nos arredores da cidade de Acapulco, sendo detidas 56 pessoas. várias ficaram feridas, uma delas gravemente. No dia 18 de dezembro foram aceitas as primeiras demandas citadas acima, menos a criação das 75 novas vagas para professores. Na negociação que pôs fim pelo menos a esta etapa do conflito, um dos pontos da minuta foi a devolução dos veículos apreendidos pelos estudantes, e se estabelecia que o governo impulsionaria a “desistência da ação penal” contra os manifestantes detidos.

Ayutla de los libres, en Guerrero
No dia 17 de abril, em Ayutla de los Libres, estado de Guerrero, Manuel Cruz victoriano, Orlando Manzanarez Lorenzo, Natalio Ortega Cruz, Raúl Hernández Abundio e Romualdo Santiago Enedina, integrantes da Organização do Povo Indígena Me´phaa (OPIM), defensores de direitos humanos, foram detidos em um bloqueio policial-militar em cumprimento de uma ordem de detenção contra eles pelo homicídio de Alejandro Feliciano García no dia 1.º de janeiro de 2008. Até pouco antes dessa detenção, a investigação desse homicídio, que de acordo com denúncias anteriores da OPIM foi obra de um grupo paramilitar ao que a vítima pertencia, estava completamente parada. Foram expedidas as ordens de detenção contra os cinco integrantes da OPIM poucas horas depois da exumação do corpo da vítima e no contexto da ofensiva do governo do Estado de Guerrero contra a organização indígena. O Processo pode levar vários anos para ser concluído e, enquanto isso, os defensores de direitos humanos permanecem na prisão, apesar das modificações legais que asseguram a presunção de inocência até prova em contrário.

Altamirano, Chiapas
Mais de quatro mil militantes e simpatizantes dos partidos do Trabalho, Convergência, verde Ecologista e Ação Nacional, em sua maioria indígenas, mar175

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charam na cabeceira do Altamirano, Chiapas, no dia 30 de dezembro de 2007, para exigir a anulação das eleições municipais. A ganhadora do pleito, segundo a contagem do Instituto Estatal Eleitoral foi Heidy Pino Escobar, do PRI. Os inconformados exigiram a formação de um Conselho Municipal, pois asseguravam que durante o processo eleitoral houve compra de votos a favor dessa candidata. No transcurso da marcha foram registrados enfrentamentos com integrantes do PvEM e do PRI em Altamirano, Chiapas. No final do protesto, policiais estaduais detiveram umas vinte pessoas e dispersaram a manifestação com gases. Os manifestantes foram libertados poucas horas depois.

mazatlán villa de Flores, oaxaca
A associação civil Mie Nillu Mazateca, que opera a emissora comunitária Radio Nandia no povoado de Mazatlán villa de Flores, em Oaxaca, sofreu vários atos de provocação e repressão por sua posição política. Já no dia 24 de agosto de 2006 um grupo de pessoas, filiadas ao PRI, supostamente enviadas pelo governador de Oaxaca, Ulises Ruiz, apoderou-se do equipamento de transmissão e agrediu fisicamente os operadores. Nesse mesmo dia, a energia elétrica foi cortada pelas mesmas pessoas que os haviam agredido anteriormente. Ao chegar à central de energia, essas pessoas ameaçaram o pessoal da rádio Nandia, que teve que se retirar. No dia seguinte, não foi possível entrar na rádio, pois a fechadura havia sido violada. Dois dias depois, 26 de agosto, integrantes da rádio tentaram entrar nas instalações, mas não tiveram sucesso, pois as mesmas pessoas que os provocaram anteriormente, com armas em mãos e ameaçando atirar, impediram a entrada dos integrantes à rádio. Por tudo isso, a rádio comunitária Nandía teve que suspender suas transmissões. Nos últimos meses reiniciaram-se as provocações, e por diversos meios, tanto intimidativos como judiciais tem-se tentado fazer com que a rádio comunitária Nandía seja fechada.

4. Conclusões
No enfrentamento movimentos-Estado, são cada vez mais reduzidas as condições para as saídas negociadas. Por um lado, o Estado está cada vez menos disposto a fazer concessões substantivas aos movimentos sociais e trata de justificar seu endurecimento qualificando-os de extralegais e ilegítimos, de não ser interlocutores válidos que mereçam ser incorporados por meio da pressão a qualquer que seja o tipo de negociação-acordo. Por outro lado, um número significativo de movimentos sociais está cada vez menos disposto a ceder diante da decisão vertical ou diante do prejuízo e despojo que sofrem. É freqüente que as mobilizações sociais resultem insuficientes e até contraproducentes para pressionar a classe política e os governos em favor de uma
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solução negociada. Nessas circunstâncias, este número significativo de movimentos sociais promove cada vez menos uma política de aproximação, de diálogo e de negociação estratégica com o governo. Ao mesmo tempo, a disputa e as reacomodações no seio da classe política não deixam claro quem é o interlocutor válido para os acordos. E, dentro dos movimentos, a multiplicidade de lideranças ou a pressão das bases radicalizadas relativiza o papel das direções políticas como interlocutores para a negociação. Constata-se que cada vez há maior participação das mulheres nos movimentos sociais. Muitas vezes em séria tensão com os homens, seus companheiros. Da mesma forma, a presença indígena nos movimentos sociais e o protagonismo das organizações indígenas é um fato muito relevante e representa 12% do total de atores que estão mudando, com toda a clareza, a agenda social em seu conjunto. O espaço de negociação é utilizado pelo Estado para inviabilizar os conflitos estratégicos, e pelos movimentos como um recurso tático para ganhar força. Por isso, a margem de negociação está se tornando frágil e estreita. As mesas de diálogo estão tendendo a se converter em mesas táticas, nem de fundo nem estratégicas, ou em espaços para resolver transitoriamente conflitos trabalhistas, organizacionais ou muito locais. Ainda é prematuro qualificar o caso concreto do Exército Popular Revolucionário-Governo Federal.

Existe todo um processo de enfrentamento, por parte do governo, contra os movimentos sociais, que aposta no desgaste paulatino destes últimos e que se inicia com a invisibilização e termina com a repressão ou judicialização dos conflitos. Esse processo está baseado na mesma estrutura de relação sociedade civil-governo mantida historicamente com partidos de Estado e mecanismos clientelistas e corporativistas, que o situa em uma política de Estado independentemente do partido que estiver no governo. Para poder responder à criminalização que existe atualmente no Estado mexicano é preciso, entre outras coisas:
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• Impulsionar uma abertura de co-responsabilidade participativa para a sociedade civil, com intuito de transformar esses mecanismos. Isso implica, entre outras coisas, explorar novos mecanismos para transformar conflitos, acudindo a instâncias especializadas da sociedade civil; acudir a organizações de direitos humanos civis e públicas; documentar com maior precisão as violações aos direitos humanos; dar maior protagonismo a setores invisibilizados no interior dos próprios movimentos, como as mulheres e os indígenas. • Os movimentos sociais devem se preparar para estratégias mais complexas de ação, que incluam medidas de segurança para evitar e prevenir a repressão. • Os movimentos sociais devem assumir em suas agendas as reivindicações de gênero não como assuntos táticos, mas como elementos substantivos de constituição. Da mesma forma, devem assumir a inclusão em sua visão de país a todos os setores sociais, um dos quais o constituído pelos povos indígenas, reconhecendo sua própria especificidade e agenda. • Manter a articulação entre os diversos setores e movimentos sociais como parte da estratégia de defesa diante da criminalização promovida pelo Estado. • Gerar processos de sensibilização e aproximação com os meios de comunicação, bem como criar e enriquecer mecanismos alternativos de comunicação. *** Acrônimos
AI ASPAN CECOP CEPAL CEREAL CDHFv CDHFBLC CDHMT CFE CIDE CNTE EPR EZLN FECSM FNCR FDAM IFAI Anistia Internacional, Acordo para a Segurança e prosperidade da América do Norte Conselho de Ejidos e Comunidades Opositoras à Parota Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe Centro de Reflexão Laboral, A. C. Centro de Direitos Humanos “Fray Francisco de vitoria”, A. C. Centro de Direitos Humanos “Fray Bartolomé de Las Casas”, A. C. Centro de Direitos Humanos da Montanha Tlachinollan Comissão Federal de Eletricidade Centro de Investigação e Docência Econômicas, A. C., Coordenadoria Nacional de Trabalhadores da Educação Exército Popular Revolucionário Exército Zapatista de Libertação Nacional Federação de Estudantes Camponeses Socialistas do México Frente Nacional Contra a Repressão Frente em Defesa da Água de Morelos Instituto Federal de Acesso à Informação Pública
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ISSSTE LIMEDH MPMAG MENA OACNUDH OIT OCSM OPIM PAN PEMEX PGR PRI PRD PROFEPA PvEM SERAPAZ SEDENA SNTE TLCAN

Instituto de Serviços e Segurança Social para os Trabalhadores do Estado

Liga Mexicana pelos Direitos Humanos Movimento Pró Melhoramento do Agro Guanajuatense Movimento de Estudantes Não Aceitos
Oficina do Alto Comissariado das Nações para os Direitos Humanos

Organização Internacional do Trabalho Observatório da Conflituosidade Social no México Organização do Povo Indígena Me´phaa Partido Ação Nacional Petróleos Mexicanos Procuradoria Geral da República Partido Revolucionário Institucional Partido da Revolução Democrática Procuradoria Federal de Proteção do Meio Ambiente Partido verde Ecologista do México Serviços e Assessoria para a Paz A. C. Secretaria da Defesa Nacional Sindicato Nacional de Trabalhadores a Educação Tratado de Livre Comércio da América do Norte

Bibliografia
livros e artigos em livros CACHO, Lydia. Los Demonios del Edén. México. Grijalbo. 2004 CARDARSO LORENZO, Luis Pedro. Fundamentos teóricos del conflicto so cial.S XXI de España. 2001. ROMO, P. “El Observatorio de la Conflictividad Social en México como instrumento para la transformación positiva de conflictos”, en ATILA NO URIARTE, M. Los retos del México actual. Centro de Promo ción y Ecuación Profesional “vasco de Quiroga”, A. C. México. Julio, 2007.

páginas da internet consultadas
http://www.tlachinollan.org/inicio.htm http://espora.org/comitecerezo/spip.php?article24 ,
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http://comiteverdadjusticiaylibertad.blogspot.com/2006/09/lista-de-presos-polticos-y.html

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pArAGuAi

CriminAlizAção de movimentos soCiAis no pArAGuAi: AlGuns elementos pArA Compreender suA mAGnitude157
Marielle Palau e Ramón Corvalán 158

¿ordem de revista ou instalando comoção e pavor?
Entre as 6h30 e as 9h30, aproximadamente, da terça-feira 1.º de julho de 2008, na Rua 6, distrito de Horqueta, Concepción, Paraguai, mais de 300 efetivos policiais, sem mostrar em nenhum momento a ordem de busca, realizaram uma “revista” em um acampamento de camponeses e moradores da mencionada rua. O procedimento teve as seguintes características: entrada da polícia nos domicílios dos moradores de maneira violenta (pegando as pessoas pelo pescoço), sem explicar o motivo da apreensão; disparos contra o pessoal do acampamento, obrigando-os a deitar-se na terra. Estando nessa posição, os policiais começaram a pisar nas suas costas, caminhando sobre eles; outros golpeavam os camponeses na cabeça com as culatras dos fuzis; vários policiais urinaram em cima das pessoas que se encontravam no chão. Ao mesmo tempo, os policiais proferiam ameaças de queimá-los vivos, dizendo que antes da chegada à promotoria estariam todos mortos com a desculpa de que houve enfrentamento, mas antes de serem mortos seriam violados, porque todos eram guerrilheiros e delinqüentes. Alguns camponeses foram obrigados a comer terra. Os policiais explicavam que essa era a maneira mais rápida de conseguir a terra própria. Uma mulher que protestou, por ser maltratada, foi ameaçada de ser queimada viva se continuasse insistindo. Disseram-lhe que ficasse tranqüila porque, na realidade, ela estava preocupada pelo motivo de ficar sem “machos” que pudessem satisfazê-la sexualmente. A tudo isso se agrega o fato de que os policiais roubaram dos moradores celulares, dinheiro, facões, lanternas, mochilas, sapatos, desodorantes, calças, camisetas, luvas, carteiras, carregadores de celular, alicates, rádios portáteis, colchões, entre outras cosas. Os policiais finalizaram o procedimento esquartejando porcos de propriedade dos moradores, e
157 Este documento aqui apresentado não é o resultado de um estudo em particular, mas a síntese de várias produções de BaSE.iS e Serpaj, com o apoio de informação fornecida pela Coordenadoria de direitos Humanos do Paraguai. assim, muitas das informações utilizadas já foram publicadas em diferentes trabalhos. 158 MaRiELLE PaLau E RaMÓN CORVaLÁN integrantes da BaSE. investigações Sociais e Serviço de Paz e Justiça – Paraguai. 159 a descrição do procedimento está baseada no texto da denúncia do fato, elaborado e apresentado pela equipe jurídica da Coordenadoria de direitos Humanos do Paraguai (COdEHuPY) ao Promotor, com cópia para o Comando da Polícia Nacional e para a Comissão de direitos Humanos da Câmara de deputados e do Senado.

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em seguida os comeram em forma de churrasco 159. Este particular procedimento de “busca” na verdade está mais próximo dos princípios da estratégia conhecida como “impacto e pavor”. O criador dessa doutrina dizia que “o impacto e pavor busca, mediante o uso de todo o nosso poder físico e psíquico, que o inimigo se sinta tão vulnerável e intimidado por nossa capacidade que veja a inutilidade de qualquer resistência. Os objetivos são a vontade, a percepção e o comportamento do adversário”. Isto coincide com uma das conclusões do Informe Chokokue quando aponta que “muitas dessas execuções arbitrárias pretendiam causar terror nas comunidades camponesas, deter espirais de resistência e protesto social ou descabeçar organizações de base” (CODEHUPY, 200). Neste documento são apresentados alguns elementos de análise para tentar compreender, situar e explicar a prática da criminalização dos movimentos sociais no Paraguai. As respostas do Estado às demandas, particularmente das organizações camponesas, combinam várias estratégias que vão desde procedimentos aparentemente legais até deixar que sicários contratados por particulares se ocupem de realizar desaparições e/ou execuções.

um coração estratégico
O fato de estar situado no “coração da América do Sul”, como dizem, ou-torga ao Paraguai uma alta importância geopolítica, pois praticamente todos os países da região se encontram eqüidistantes do território paraguaio. Esse é um dos tantos motivos que explicam o interesse dos Estados Unidos da América do Norte em incrementar sua presença militar, não apenas física, mas quase como um “fantasma” onipresente. Isso vem acontecendo de maneira sistemática desde a época da ditadura de Stroessner e tem tido um aumento significativo nos últimos anos (CADA, 2006), com a justificativa da suposta existência de células vinculadas ao terrorismo na zona da chamada tríplice fronteira. Grande parte da Região Oriental do país – a mais povoada e fértil – encontra-se localizada sobre o Aqüífero Guarani. Isto é, sobre uma das maiores reservas de água potável do planeta que poderia satisfazer indefinidamente as necessidades diárias de 360 milhões de pessoas160 (CANDIOTI, 2007). Além disso, é no território paraguaio que se produz a maior recarga do aqüífero e a prospecção de mais fácil acesso. Como ocorre no nosso continente, a biodiversidade existente em solo para160 Seu volume está estimado em 55.000 quilômetros cúbicos. Cada quilômetro cúbico equivale a um milhão de milhões (doze zeros) de litros de água. Explorando anualmente 40 quilômetros cúbicos poderiam ser abastecidas aproximadamente 360 milhões de pessoas, cada uma com um consumo diário de 300 litros de água. a recarga está estimada entre 160 e 250 quilômetros cúbicos por ano. a área mais importante e fundamental de recarga e descarga é o corredor transfronteiriço entre Paraguai, Brasil e argentina, localizado na zona da Tríplice Fronteira. disponível em: <http://www.rel-uita.org/radiorel/texto/23.htm>.

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guaio é outra de suas importantes riquezas, e sobre ela já puseram os olhos as empresas transnacionais. A Mata Atlântica é um dos ecossistemas fundamentais, tanto por sua fauna como por sua flora. Alvo ideal do ponto de vista dos interesses do capital, para o patenteamento genético e cultural, em especial dos conhecimentos medicinais ancestrais, cuja riqueza é bem conhecida e altamente utilizada e difundida entre o povo paraguaio. Por meio da política de substituição de dívida por natureza, está sendo perdida a soberania sobre as regiões mais importantes. Muitas dessas reservas já se encontram administradas por organizações conservacionistas apoiadas pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e pelo Fundo Mundial para a Natureza (wwF). A riqueza energética é outro dos recursos naturais do país. Por um lado, a que é fornecida pelas hidrelétricas: Itaipu (compartilhada com o Brasil) e Yacyretá (compartilhada com a Argentina), e que é aproveitada principalmente por ambos “sócios”, e outras de menor envergadura, de propriedade do Estado paraguaio. São esses rios que estão incluídos nos projetos da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana (IIRSA) que provavelmente se converterão nos corredores do agronegócio. Por outro lado, cada vez mais se menciona a existência de reservas de gás e petróleo na vasta e despovoada Região Ocidental ou Chaco, cuja exploração já foi cedida a empresas estadunidenses e canadenses. Finalmente, e não por isso menos importante, está o alto rendimento agrícola do solo. Desde a época colonial até o presente – como já foi mencionado –, o Paraguai tem desempenhado na economia regional e mundial o papel de agroexportador de matérias-primas. Neste momento, a vedete é a soja (principal gerador de divisas do país). vinte e quatro por cento das terras cultiváveis foram ocupadas por esse grão, destinado principalmente a satisfazer a demanda de forragem do mercado europeu. Sessenta por cento da exportação da oleaginosa está controlada por três transnacionais: Cargill, ADM (Archer Daniels Midland Company) e Bunge. Espera-se que nos próximos anos a soja esteja competindo com a cana-de-açúcar e outros cultivos que estão sendo promovidos para a fabricação de agrocombustíveis (biodiesel e etanol). É assim que o capital, para garantir a penetração e implementação de suas políticas, impulsiona uma série de mecanismos que fazem parte de uma estratégia que, em geral, tende a ser vista de maneira isolada e não como parte de uma engrenagem na qual se fundem interesses internacionais com a cotidianidade das lutas sociais, isto é, com a sua perseguição e criminalização.

expansão do plano Colômbia
Poucos anos depois do início da abertura política, começaram de maneira
161 as primeiras acusações foram feitas pelo deputado Celso Velázquez, do Partido Liberal Radical autêntico, entre os anos de 1991 e 1993.

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sistemática as acusações161 de que setores camponeses realizavam treinamento militar para a formação de um movimento guerrilheiro. Nunca se sustentou esse tipo de acusação com provas concretas. No entanto, foi se tornando mais e mais freqüente, chegando a seu ponto alto no ano de 2001, quando uma organização política de esquerda foi acusada de envolvimento em um seqüestro, com o assessoramento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Posteriormente, a Promotoria foi fazendo aparecer cada vez mais provas que vinculam as organizações camponesas com a posse de “propaganda ideológica” (livros de Marx ou Fidel Castro, pôster de Che Guevara, manuais de treinamento militar), desencadeando-se assim uma forte perseguição às organizações sociais. A partir desse fato, aprofundaram-se as relações entre os governos paraguaio e colombiano para o assessoramento anti-seqüestro e o intercâmbio de informação. Iniciouse um diálogo sustentado em supostas semelhanças entre ambos os países: no Paraguai, cultivo de maconha, na Colômbia, coca e papoula; seqüestros em ambos; lavagem de dinheiro no Paraguai, vinculada não só ao narcotráfico, mas também a supostas células terroristas financiadas pela Al Qaeda na Tríplice Fronteira. Nesse marco, muitos juízes e promotores estão sendo treinados diretamente por pessoal colombiano. O Plano Colômbia surgiu com a escusa do combate ao narcotráfico, mas tem utilizado o território desse país irmão para resguardar o controle político-militar no norte da América Latina. Dali foi avançando com força para todo o continente com o real propósito de calar qualquer voz que pretenda questionar ou pôr em risco os interesses do capital. Não se pode deixar de mencionar que o Plano Colômbia é complementado com a Iniciativa Mérida, que nada mais é senão o Plano Colômbia para o México e América Central, pois também com o pretexto de combater o narcotráfico e o crime organizado justifica-se a intervenção direta nessa região. A implementação do Plano Colômbia no Paraguai estaria orientada fundamentalmente a consolidar, a partir deste país privilegiado geopoliticamente, a dominação do sul do Continente, treinando, neste caso, não as forças militares, mas o aparelho judicial encarregado de legalizar, proteger e defender as atividades e ações que favoreçam o processo de controle interno da população, de maneira que esta não se constitua em ameaça para os interesses do governo de George Bush.

o controle do movimento social
Em 2003, o presidente Nicanor Duarte Frutos promulgou o Decreto 167, que autoriza as Forças Armadas a atuar em ações de segurança interna, ou seja, sair às ruas para tudo quanto se considere necessário, desde perseguição à delinqüência comum, até, e principalmente, para intervir – agora legalmente – nas repressões ao movimento popular. Deve-se recordar que isto acontece um ano depois de ter sido detido o processo de privatiza186

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ção e a aprovação da lei antiterrorista, com uma mobilização de 16 dias na qual se alcançou unidade de ação das principais forças do campo popular, lideradas pelo movimento camponês. A partir desse momento, os despejos das ocupações camponesas e a vigilância das plantações de soja têm sido realizados pela polícia, conjuntamente com forças militares, num marco de recrudescimento da criminalização das lutas sociais, de acusações de vinculação com as Farc e de acusações em massa a dirigentes camponeses. Como se pode observar no seguinte quadro, construído considerando somente informação jornalística, a violência contra as organizações camponesas se deu majoritariamente durante os primeiros anos do governo de Nicanor Duarte Frutos, com o objetivo não apenas de controlá-las, mas buscando sua desmobilização.

Quantidade de desalojados e feridos por ano No ano de 2003, por meio de um decreto do Ministério do Interior, o governo criou oficialmente as Comissões de Segurança Cidadã (CSC)162 com o pretexto de incentivar a participação da cidadania na solução dos problemas de insegurança, embora aponte indiretamente à legalização de forças parapoliciais que vêm funcionando há algum tempo em áreas rurais. Dos 93 casos de assassinatos de camponeses a partir de 1989, 38% foram cometidos por autores civis armados
162 deve-se considerar, também, a constante presença de grupos armados desse tipo na história política paraguaia. Na década de 1940, durante o governo liberal de José Félix Estigarribia, conforma-se o movimento dos “Guiones Rojos” (Guias Vermelhos) “um destacado grupo de militantes do Partido Colorado, entre os que figuravam universitários, estudantes e operários que decidiram criar uma organização clandestina contra a arbitrariedade imperante e para buscar as liberdades públicas quebradas de forma tão prepotente” (Benítez Rickmann, 1989). Essa organização teve um papel tenebroso durante a chamada Revolução de 47, na qual se enfrentaram, por um lado, setores militares e do Partido Colorado e, por outro, um segundo setor militar com o apoio do Partido Liberal, do Partido Febrerista e do Partido Comunista. durante cinco meses se desenrola uma cruenta guerra civil, com a Vitória do Partido Colorado, o que poucos anos depois permitiria a ascensão de Stroessner ao poder (Yore, 1992).

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e nenhum deles foi processado judicialmente (www.cde.org.py).

Camponeses assassinados no marco da luta pela terra segundo o autor A conformação das CSC – também conhecidas como “comissões garrote” – não gerou muita surpresa, pois é “habitual” que setores vinculados ao Partido Colorado se encontrem habilitados para exercer o poder em todas as suas dimensões, inclusive o poder das armas. Enquanto isso – sobretudo nos setores organizados –, a desconfiança e o temor inicial foram se confirmando diante da cada vez maior quantidade de denúncias de assassinatos, torturas e atropelos de todo tipo que esses grupos armados vêm cometendo, fundamentalmente contra militantes de organizações camponesas. Até esta data, a Coordenadoria de Direitos Humanos do Paraguai (CODEHUPY) conta com uma série de denúncias de assassinatos e atropelos cometidos. O quadro
163 O quadro foi elaborado com base nos dados consignados nos informes da área jurídica da COdEHuPY apresentados nas reuniões plenárias mensais dessa organização.

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abaixo apresenta alguns dos casos atendidos pela CODEHUPY163. Esta segunda maneira de implementar as políticas de segurança aponta fundamentalmente ao controle interno, isto é, à repressão do movimento popular, prioritariamente camponês, de maneira a evitar que siga avançando em suas formas organizativas e, por outro lado, para garantir uma zona segura para a instalação do agronegócio vinculado à soja. As denúncias apresentadas pelas organizações sociais, principalmente camponesas – como se pode observar no quadro seguinte –, foram orientadas a revelar os impactos do modelo do agronegócio (contaminação, intoxicações e desmatamento) e ao mesmo tempo denunciar a violência que vem junto com este modelo e a falta de ação do governo diante do seu avanço.

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tipo de denúncia por ano

A criminalização das lutas sociais

Assim como as lutas populares foram uma constante ao longo da história, também o foi a resposta repressiva do Estado. Ambas vão mudando em cada momento histórico, dependendo da conjuntura política e da correlação de forças existente. Durante a ditadura, a repressão se realizava abertamente. Militantes e dirigentes eram detidos, torturados, assassinados e muitos se encontram desaparecidos até hoje; as manifestações sociais eram reprimidas brutalmente. Reunir-se, organizar-se, manifestar-se eram escusas para ser acusado de subversivo ou comunista, pretendendo assim desqualificar a luta por direitos. Durante essa época, os direitos humanos, inclusive os mais elementares, eram pisoteados pelo Estado. Com a abertura política de 1989, a repressão às lutas se manteve, mas mudou de forma. O novo cenário político – produto, em parte, das lutas que foram tão duramente reprimidas – obrigou o Estado a um maior respeito aos direitos humanos e às liberdades básicas amparadas pela Declaração Universal. Os órgãos repressivos já não podiam atuar tão abertamente como vinham fazendo. Agora deviam reprimir guardando as aparências, isto é, escudando-se em marcos legais. As manifestações, por exemplo, continuaram sendo reprimidas, mas agora amparadas no resguardo do “direito de terceiros” ou do “livre trânsito” ou
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na conhecida “lei do marchódromo”. Iniciou-se um período em que a repressão vem de mãos dadas com a lei. Assim, a grande maioria das repressões se produz na presença de promotores, cumprindo com os requisitos legalmente estabelecidos, que em muitos casos estimulam a violência, quando o que deveriam fazer seria justamente o contrário. O Ministério Público só se converte em um órgão eficiente quando trata de reprimir e perseguir organizações populares. O quadro seguinte mostra como, durante o ano de 2004, o governo de Nicanor Duarte desatou contra o movimento camponês uma forte política repressiva. A criminalização está evidente nas detenções de camponeses e na judicialização da maioria deles.

Quantidade de detidos por ano

Embora a detenção de dirigentes populares tenha sido outra constante dentro do padrão repressivo, a variante importante que se incorpora é a abertura de processos a dirigentes sociais, seja por participar de mobilizações, ou por haver participado de bloqueio de estrada, ou por haver realizado uma ocupação. Atualmente existem mais de dois mil militantes sociais processados, segundo denunciam organizações camponesas, acusados, na maior parte dos casos, por invasão de propriedade, exposição a perigo no tráfego terrestre ou coação. A judicialização coloca a luta social em um terreno desconhecido e que sempre lhe foi hostil: o legal. Nesse terreno pouco servem a combatividade e a longa experiência de luta das organizações, pois tudo está orientado a proteger os interesses das minorias, privilegiar primeiramente os direitos individuais, depois os coletivos. A propriedade privada está acima do direito à própria vida.
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Mas a repressão e a perseguição, muitas vezes, em lugar de cumprirem seu objetivo – frear ou extinguir as lutas –, despertam a solidariedade de outros setores e geram ondas de mobilização diante das quais a resposta é mais repressão, com maior intensidade e força, afetando mais setores sociais. Diante desta realidade, é necessário – dentro da lógica da dominação – isolar os sujeitos em luta, conseguir que a cidadania os perceba negativamente, que os veja como perigosos, isto é, como delinqüentes e criminosos. Os meios comerciais de comunicação realizam esta tarefa, a de desqualificar e deslegitimar a luta pelos direitos. Desse modo, para justificar as perseguições e repressões, alguns meios de comunicação utilizam todos os seus recursos para apresentar os lutadores e as lutadoras sociais como se fossem delinqüentes que atentam contra os direitos individuais, contra a propriedade privada, criando as condições para legitimar a repressão e a perseguição legal. Poucos mostram ou se referem, mesmo esporadicamente, ao fato de que o conflito social é produto da falta de políticas sociais e do não-funcionamento dos canais institucionais que devem dar resposta aos reclamos dos setores sociais. Têm o poder, tal como disse uma dirigente camponesa, de “fazer aparecer como verdade a mentira”. Este processo repressivo, no qual se conjugam a força bruta e a aplicação da lei, legitimado pela imprensa, é denominado “criminalização das lutas” e de seus militantes. A criminalização é uma estratégia pensada e montada a partir do Estado para enfrentar as lutas sociais e colocar no plano judicial (delitivo) os problemas sociais, de maneira a deslegitimar as lutas pelos direitos. Aponta à desmobilização social, seja por meio da repressão direta ou atemorizando os setores sociais com a perda da liberdade. Ao criminalizar, o Estado seleciona um ato de protesto (que está amparado legalmente) e o transforma em delito, e sobre os sujeitos que o realizam cai todo o poder coercitivo estatal, o qual se vai agravando com a intenção de endurecer ainda mais os marcos legais. Como parte desse endurecimento da repressão e do estreitamento das liberdades democráticas, o Parlamento Nacional inicia as modificações do Código de Processo Penal, incluindo nele um capítulo sobre antiterrorismo. Durante o ano de 2007, novamente se consegue deter a aprovação da “lei antiterrorista” a partir da unidade de ação de diferentes setores, embora não tenha ocorrido o mesmo com outros artigos que penalizam com maior rigor a “invasão à propriedade privada”. Isso significa que esses artigos serão utilizados para frear o movimento camponês e garantir que as plantações de soja continuem avançando.

A tentativa de dissolver o estado social de direito
O componente-chave na estratégia para outorgar um discurso legal à es193

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tratégia de criminalização dos movimentos sociais consiste na reestruturação do Estado em direção a um Estado policial e militar. Essa reestruturação é coerente com a tendência à abertura ilimitada ao capital financeiro e à circulação de divisas e mercadorias. A institucionalidade própria do Estado Social de Direito se dissolve para dar lugar a um Estado presente particularmente em sua dimensão punitiva dirigida a determinados setores. Nesta perspectiva é que pode ser abordada a tentativa de modificação do Código Penal do Paraguai, que se conseguiu deter em 2007, como mencionado. Na realidade, esse processo se inicia em 2004 quando a Lei 2.403 cria a Comissão Nacional para o Estudo da reforma do Sistema Penal e Penitenciário. Dessa Comissão o que se esperava era que elaborasse propostas de modificação para a Lei 1.169, “Código Penal”, a Lei 1.286, “Código de Processo Penal”, e a Lei 210, “Do Regime Penitenciário”. Em 2005, a CODEHUPY leva propostas à Comissão, mas, apesar dos reiterados pedidos, a sociedade não participou do processo de elaboração. Só em fins de julho de 2007 é que a Comissão de Direitos Humanos do Senado, cinco dias úteis antes da discussão da proposta de Lei que modificaria o Código Penal, convoca uma Audiência Pública. Não obstante tudo isso, não foram modificados os artigos relacionados aos desaparecimentos forçados e à tortura conforme os princípios da Convenção Interamericana sobre Desaparição Forçada de Pessoas (Lei 933/96), a Convenção Interamericana para Prevenir e Sancionar a Tortura (Lei 56/90) e a Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos e Penas Cruéis, Desumanas e Degradantes (Lei 69/90). A Corte Interamericana de Direitos Humanos também havia ordenado ao Estado paraguaio a adequação das normas internas dos artigos sobre desaparição forçada e tortura aos padrões internacionais de proteção dos direitos humanos. A Comissão Nacional, na elaboração de suas propostas, ostensivamente fez caso omisso de todas as normas indicadas. Dessa maneira, até hoje no Paraguai não existe a tortura; o Código Penal tipifica lesão, lesão corporal no exercício de funções públicas ou privação da liberdade, e a desaparição forçada deve ser comprovada. O ponto que gerou toda uma campanha contra um Código Penal que não respeitava os direitos das pessoas centrou-se especialmente na seção denominada “Fatos Puníveis contra os Povos”, em que foram incluídos três ilícitos penais: Terrorismo, Associação Terrorista e Financiamento do Terrorismo, que eram definidos como crimes imprescritíveis. A proposta foi sancionada pela metade na Câmara de Deputados em maio de 2007. A redação dos ilícitos penais mencionados desconhecia técnicas elementares do discurso jurídico. Por exemplo, em nenhum momento se define “terrorismo”, simplesmente se recorre ao procedimento de mencionar ilícitos penais já existentes no Código Penal que podiam ser adaptados à figura do terrorismo. Assim, vinte condutas delitivas díspares e autônomas foram redefinidas mediante os
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três novos ilícitos penais, ficando ao arbítrio do juiz a determinação das condutas no marco do “terrorismo”. A proposta foi recusada no Senado em agosto de 2007, no marco de uma intensa mobilização social. A recusa impede a inclusão da seção “Fatos puníveis contra os povos”, mas, de qualquer maneira, ainda persistem no Código Penal critérios que, por exemplo, fazem com que delitos e crimes contra bens das pessoas tenham penas mais graves que os que ferem a integridade física e a autonomia sexual. Também foram aumentadas as penas dos delitos para reprimir organizações sociais em suas reivindicações de direitos fundamentais. Esse é o caso do ilícito penal “invasão de imóveis”, cuja pena chega até cinco anos de privação da liberdade.

As execuções e desaparições como respostas do estado
De qualquer maneira, apesar da não-inclusão do “terrorismo” como ilícito penal na proposta de modificação do Código Penal, o comportamento do Estado paraguaio diante das demandas e das lutas das organizações camponesas se caracteriza por empregar estratégias que têm por objetivo, como já foi assinalado no início do documento, gerar terror nas comunidades rurais como forma de controle dos protestos sociais. O Informe Chokokué, precisamente, dá conta dos perfis dessa estratégia. Apresentado em junho de 2007 ao Relator Especial de execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias do Conselho de Direitos da Organização das Nações Unidas e elaborado por uma equipe da Coordenadoria de Direitos Humanos do Paraguai (CODEHUPY), o documento analisa 75 execuções arbitrárias e duas desaparições forçosas (que incluem uma mulher grávida de oito meses) que se verificaram no âmbito da luta pela terra. O estudo abrange o período de 1989 a 2005. Da quantidade mencionada, 84% dos casos se concentram nos eixos Norte (Concepción/São Pedro) e Leste (Caaguazú, Alto Paraná Canindeyú) da Região Oriental, zonas de maior conflito camponês pelo acesso à terra. Além do mais, foram abertos 62 inquéritos para investigações dos fatos e só três chegaram a ser julgados e as penas cumpridas. Na prática, isto significa que foi condenado apenas um sicário como único autor, sem que fossem investigadas a co-autoria, a instigação ou a cumplicidade. Em todos os outros casos a impunidade foi absoluta. O Informe assinala que “os atentados se dirigiram fundamentalmente contra trabalhadores rurais pobres, homens, adultos jovens, vinculados a organizações camponesas ou à luta pelo direito à terra no contexto da reforma agrária, e pertencentes ao grupo lingüístico dos monolíngües guarani”164. Sessenta e três por cento das vítimas eram de níveis de base das organizações, seja como associados, militantes ou colaboradores e dirigentes de base, e em 53 casos
164 informe Chokokue, citado anteriormente.

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são apontados guardas, parapoliciais ou sicários como causadores, enquanto 22 execuções arbitrárias estão atribuídas a agentes da Polícia Nacional. Em todos os casos foi constatado que o Estado não cumpriu seu dever de prevenção e garantia, ou seu dever de investigar e sancionar, e inclusive ambos os deveres relativos a um mesmo caso. Finalmente, a estratégia para criminalizar se dá da mesma maneira – certamente com muito poucas variantes – em grande parte do nosso continente, o que indica que responde a uma tática que nossos Estados obedecem para garantir e salvaguardar os interesses do capital.

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AlemAnHA

“A criminalização de movimentos sociais na Alemanha – um resumo”
Corinna Genschel165 e Peter Stolle 166

i. preFÁCio
No dia 9 de maio de 2007 houve buscas e apreensões simultâneas em 40 projetos residenciais e em algumas instituições da esquerda em diferentes cidades da República Federal da Alemanha. No país inteiro 900 policiais participaram da operação. A aplicação maciça do poder governamental no mês antes da cúpula dos G8 em Heiligendamm (no norte da Alemanha) estava relacionada a dois processos de investigação contra 20 pessoas pela sua “participação em uma associação terrorista”. Nesse caso, o processo de investigação foi conduzido contra 17 pessoas acusadas de fundar/participar de uma associação terrorista denominada “Campanha Militante contra a Cúpula do Grupo dos Oito em Heiligendamm”. Outros três foram acusados de ser membros da “associação terrorista Grupo Militante (MG)”, responsáveis por diversos atentados de incêndio desde 2001. Foi apreendida uma grande quantidade de material como listas de mailing, computadores, projetos de internet, caixas postais eletrônicas. O processo foi iniciado em abril de 2006 mediante recomendação do Bundesverfassungsschutz (um serviço de inteligência que atua internamente). Assim, a Agência Federal contra o Crime (Bundeskriminalamt), uma das autoridades superiores da polícia na Alemanha, aplicou “todo o arsenal de medidas de monitoramento do processo penal” (BECK, 2007, p. 27) que a polícia alemã tem à sua disposição nesses processos: grampo de telefone, monitoramento da comunicação de e-mail e do comportamento on-line, uso de GPS, monitoramento de vídeo em entradas de casas, monitoramento do correio etc. Isso colocou centenas de outras pessoas no foco, 1.000 nomes apareceram nos dossiês de investigação. Os processos de investigação, do monitoramento imenso e completo, assim como a enorme busca e apreensão ocorridos em 9 de maio, estavam baseados em uma disposição legal do Código Penal alemão: o § 129a. O § 129a foi apro165 CORiNNa GENSCHEL (Centro de contatos de movimentos sociais da fração diE LiNKE no Parlamento alemão e no Comitê para os direitos Civis e a democracia) 166 PEER STOLLE (associação de advogadas e advogados Republicanos, RaV)

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vado em 1976 no âmbito da histeria e da perseguição dos “grupos de resistência armados”, de pouca importância política e pouco numerosos, que eram provenientes da dissolução do movimento estudantil em 1970. Essa lei penal pode ser considerada o núcleo do Código Penal Especial Político na República Federal da Alemanha. Com essa lei a constituição, filiação, participação e propaganda para uma “associação terrorista” fica sujeita a punição. O ponto de partida para uma investigação e perseguição conforme o § 129a não são os crimes propriamente ditos, mas a acusação de terrorismo permite extensas medidas de investigação e a aplicação de penas antes da realização de qualquer ato. A criminalização de movimentos críticos à globalização e ao capitalismo (muitas vezes também denominados de esquerda radical ou esquerdistas radicais) na República Federal da Alemanha, nesse caso, não obteve sucesso. Na noite das buscas e apreensões foram realizadas em muitas cidades alemãs manifestações espontâneas com alguns milhares de participantes, todo o espectro dos movimentos, os partidos de oposição da esquerda e organizações de direitos civis se solidarizaram com os acusados e a repercussão na imprensa foi ampla e crítica. Isso é bastante incomum para os processos realizados nos termos do § 129a. A posteriori pode-se dizer que a tentativa aberta de criminalizar esse movimento (ou as partes radicais desse movimento) incentivou a mobilização da campanha anti-G8, gerando uma tematização nova e mais ampla de repressão e criminalização. Meio ano mais tarde, em outubro de 2007, a justiça penal superior (Superior Tribunal de Justiça) decidiu que não estava provado o fato de terrorismo. Todavia, os processos não foram arquivados. Isso não é incomum quando se trata de processos nos termos dessa disposição (§ 129a), pois em até 95% de todos os processos de investigação não há condenação. Mesmo assim, isso causa danos e uma meta foi alcançada: a investigação “legal” de todos os movimentos, seus perfis de movimentos, formas de comunicação e os vínculos entre estes.

mudança de cenário
Um mês após as buscas e apreensões, iniciou-se a reunião de cúpula dos G8 em Heiligendamm. A cúpula dos G8 é um dos mais simbólicos encontros de Chefes de Estado das oito nações mais ricas e líderes mundiais. Os encontros dos G8 são momentos nos quais as relações de domínio se tornam mais densas e palpáveis. Isso “convida” não só à resistência, mas também ao protesto dos movimentos sociais. Assim, imagens das grandes manifestações e da repressão e violência maciça e brutal da polícia por ocasião da cúpula G8 em Genova em junho de 2001 foram exibidas no mundo inteiro. As preparações dos governantes para a cúpula também foram maciças: foi encontrado um local pouco habitado, mas logisticamente fácil de pro199

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teger. Foi então construída uma cerca de segurança em torno da área e em torno desta foi criada mais uma “zona de direitos especiais”, permitindo que os direitos de liberdade de reunião e a liberdade de circulação pudessem ser limitados “legalmente”. Uma unidade especial ou uma espécie de autoridade especial (Kavala) da polícia foi criada, na qual todas as autoridades governamentais (em um intercâmbio internacional intensivo) cooperam, tendo recebido todas as tarefas da polícia. A “Kavala” se transformou em uma autoridade superior com atuação autônoma, na qual a separação entre a polícia civil e a militar, entre as unidades federais e estaduais e entre o serviço secreto e a polícia desapareceu. “Todas as exigências de separação e princípio de separação de poderes que constitucionalmente, segundo a Lei Fundamental [Constituição], deveriam evitar medidas excessivas do poder executivo e da polícia foram evitadas” (DONAT, 2007, p. 45). Todavia, estas foram registradas na Lei Fundamental em virtude das experiências do fascismo, justamente para evitar a formação de um aparato policial descontrolado. A Kavala assumiu a liderança, não somente no planejamento, mas também nas “medidas operacionais”. Portanto, ela também se tornou destinatário para qualquer direito de reunião, e sempre atuou conforme a sua própria “previsão de risco antiterrorista”. Quem quisesse permanecer na área definida como zona de risco ou quisesse fazer uso do seu direito de reunião167 interferiria de forma geral na concepção de segurança, tornando-se terrorista e inimigo em potencial. A posteriori, foi constatado que em nenhum momento houve nenhum risco concreto de ataques terroristas. Mesmo assim, essa “previsão de risco” também se tornou uma diretriz para a justiça (a qual, segundo os princípios do Estado de Direito é/deveria ser independente): essas novas autoridades não só suspenderam a separação entre a polícia e a jurisdição, mas a Kavala também foi a instância competente a descrever em seus “relatórios de situação” a verdade aos juízes/juízas – com todas as conseqüências que isso acarretaria para a liberdade de reunião, a proteção legal de medidas da polícia e ações do processo penal. Outra novidade foi o fato de a polícia ou a Kavala preparar e publicar autonomamente comunicados de imprensa ofensivos. Estes eram caracterizados por mensagens incorretas e previsões de risco enganosas, o que por sua vez esquentou muito o clima público. No total havia 20.000 policiais em serviço, 350 soldados foram chamados para a proteção do espaço aéreo (com sobrevôos dos campos dos manifestantes contra a cúpula), 1.100 soldados estavam de prontidão para ajudar. Ocorreram 1.112 prisões, 850.000 pessoas foram controladas nas fronteiras do Espaço Schengen, para 155 a entrada foi vetada. Foram barradas 401 pessoas nas fronteiras externas do Espaço Schen167 O direito da liberdade de reunião consta no artigo 8.º da Lei Fundamental como direito civil e será mencionado mais adiante.

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gen. Foram controladas 890.000 pessoas. Nos casos em que houve processos penais foram sancionadas especialmente as violações da proibição do uso de disfarces (e do armamento passivo), assim como invasão de propriedade (RAv, 2007; S. 49). Mesmo assim, havia 100.000 ativistas no local entre 1.º a 9 de junho: por exemplo, na cidade de Rostock 80.000 pessoas protestaram em 2 de junho; apesar das fortes limitações e restrições 10.000 a 15.000 pessoas se alojaram nos três acampamentos da cúpula; apesar da presença maciça da polícia foram realizadas todos os dias manifestações grandes e pequenas; e, apesar da disposição generalizada aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (Bundesverfassungsgericht) (da proibição de reunião na área da zona de direitos especiais de 40 km2), foram bloqueados durante três dias os acessos terrestres ao local da cúpula. Esse é um dos resultados mais importantes, tanto da perspectiva dos movimentos sociais como no aspecto prático da democracia. Não obstante todas essas restrições da polícia, políticas e da mídia e legais, os ativistas dos movimentos críticos à globalização colocaram em vigor e praticaram o direito tão valorizado e estabelecido na Lei Fundamental da Alemanha (Supremo Tribunal Federal) da liberdade de reunião. ----------------------------------------------------Essas duas “histórias” servem para introduzir a nossa contribuição sobre a “Criminalização de Movimentos Sociais e do Protesto Social na República Federal da Alemanha”, não por acreditarmos que esse grande evento pode ser aplicado analogamente ao “dia-a-dia” da criminalização, nem por acreditarmos que seria uma descrição suficiente. No entanto, a cúpula dos G8, assim como a mobilização contra essa cúpula por diversos movimentos – críticos da globalização, antimilitaristas, da migração, dos fugitivos e da política de desenvolvimento –, foi um grande evento para os movimentos na República Federal da Alemanha. Novos vínculos foram criados, e especialmente jovens criaram uma consciência política a partir da campanha e das atividades concretas, novas medidas foram experimentadas e especialmente os bloqueios (dos acessos ao local da cúpula) mostraram que existe a possibilidade de outras formas mais amplas de resistência e militância. O direito de realizar manifestações pôde ser reivindicado nos locais e nos momentos, nos quais parece politicamente viável. E exatamente esse era o “medo” das autoridades de segurança governamentais, o que levou a essa reação maciça. No entanto, os acontecimentos em torno da cúpula dos G8 recolocaram o interesse dos movimentos nas discussões sobre repressão, “segurança interna” e as autoridades governamentais no palco político. Por muito tempo, essa questão só foi tratada pelos “profissionais anti-repressão dos movimentos”, por exemplo, as organizações de direitos civis, advogados da esquerda e suas associações (por exemplo, a RAv) e as organizações de auto-ajuda, como as
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comissões de investigações e a Ajuda vermelha (Rote Hilfe). No âmbito da repressão ficou claro novamente que esta não está voltada somente contra as partes radicais do movimento, mas contra o movimento em si. Estes se sentiram alvos e nesse sentido se comportaram de forma radical: os direitos civis e humanos podem ser protegidos simplesmente sendo praticados e quando são praticados. Todavia, a criminalização/repressão desses movimentos novos e radicais com um objetivo amplo foi somente um “alvo” da maior ação policial na história da RFA. Sob o argumento da “previsão de risco de terrorismo”, mostraram-se antes e durante a cúpula os aspectos de um Estado modernizado de segurança preventiva. Isso ficou evidente em diversos planos e é acompanhado pela dissolução dos princípios do Estado de Direito da Alemanha (separação de polícia militar e civil, separação de polícia e serviços secretos, alocação descentralizada de poderes da polícia) e por medidas técnicas. Acreditamos, portanto, que tanto no exemplo das medidas de busca e apreensão como também concretamente na cúpula dos G8 os elementos da criminalização de movimentos sociais (ou da nova esquerda desde 1968) na RFA podem ser evidenciados de forma atual e explícita: • O papel dos serviços secretos e do direito penal especial político (especialmente, mas não somente na “Legislação antiterrorista” do § 129a do Código Penal), que serve principalmente para criminalizar e investigar os movimentos e as formas de protesto (potencialmente) radicais e segregar estes dos demais movimentos sociais (e da população). Mostramos acima que aqui medidas de investigação especiais são permitidas, que não seriam possíveis no Estado de Direito (liberal-democrático) da República Federal da Alemanha (uso do serviço secreto, a suspensão do princípio da inocência presumida, direitos de acusados e dos advogados de defesa). • Na própria cúpula dos G8 também ficaram evidentes mecanismos da “criminalização” ou da atitude do governo em relação ao protesto e à resistência que vão além do direito penal especial político em relação aos movimentos sociais radicais. Uma prática rígida policial concernente às “reuniões a céu aberto” (políticas) e ao amplo registro de dados é indício dos protestos usuais e das atividades de resistência. • No entanto, a medida da repressão/criminalização na cúpula G8 junto com a vontade prática dos governantes em desativar princípios centrais do Estado de Direito alemão na legitimação do combate antiterrorista mostra a transformação do Estado de Direito liberal para algo que chamamos de Estado de Segurança Preventivo com o seu foco na estratégia policial preventiva (esta, além disso, tem uma dimensão cada vez mais européia). --------------------------------------------------------------202

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Nas preparações para essa conferência pensamos sobre como poderíamos contribuir para uma discussão conjunta em face do pouco tempo (de preparo) e da (suposta) não-comparabilidade da criminalização de movimentos sociais na América Latina e na RFA (ou do Oeste europeu) . Movimentos sociais na Alemanha são bastante fracos e raramente organizados como movimentos de massa. Isso significa que também a criminalização dos movimentos sociais atinge relativamente poucas pessoas comparando-se com a população total. Isso fica ainda mais evidente se usarmos a quantidade de detenções, lesões, mortos como índice de comparação. O controle e o monitoramento de pessoas, espaços, mobilidade, comunicação atinge muito mais pessoas e toda a sociedade. Nesse aspecto decidimos nem tentar retratar sistematicamente a criminalização dos movimentos sociais e protestos sociais na RFA. Com essa contribuição queremos primeiramente proporcionar uma pequena idéia da relação entre a cultura de protesto e o poder do Estado em um país que, por um lado, afirma defender os princípios do Estado de Direito, inclusive em sua constituição (e que é um Estado de Direito), e, por outro, não apresenta fortes agitações sociais. Queremos mostrar com o conceito do “Estado de Segurança preventiva” e da “estratégia policial preventiva” até que ponto sob a argumentação de um combate do terrorismo ou da proteção contra terrorismo e com ajuda das possibilidades técnico-burocráticas o registro completo de movimentos sociais (e dos cidadãos) pode ser controlado, “criminalizado” previamente e confinado. Como também em outros países, a senha “Terrorismo” (e isso já ocorreu antes de 2001) pode transformar em realidade os sonhos de longa data dos soberanos/governantes. ---------------------------------------------------------------------

As particularidades do “estado de direito” alemão
Antes de retratarmos exatamente a história da criminalização e as medidas concretas para o controle, monitoramento e criminalização em determinados pontos, queremos destacar algumas particularidades na consideração da crimina lização de movimentos sociais e protestos sociais na Alemanha. 1. A República Federal da Alemanha hoje abrange as histórias de dois Estados: a história (de repressão) da antiga RFA e a história (de repressão) da RDA. Ambas se distinguem consideravelmente. A RDA era conhecida especialmente pela vigilância e controle bastante amplo de toda a sua população por uma polícia que atuava como serviço de inteligência – a denominada STASI ou Segurança de Estado. Os órgãos da RDA que atuavam de forma repressiva aplicavam um conceito abrangente de subversão e atividades inimigas/perigosas para o Estado,
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proibindo, criminalizando e sancionando fortemente quase todas as atividades e organizações políticas independentes e críticas, oferecendo muito poucas possibilidades de defesa (de estado de direito). Essas instituições, as bases (normativas e legais) e os sistemas foram dissolvidos após 1989, a nova RFA foi criada exatamente como a antiga em sua forma jurídica, política e normativa. Para avaliar a situação atual, portanto, a criminalização na RDA praticamente não tem importância. Assim, em nossa apresentação não detalharemos mais a (história da) criminalização na RDA. Claro que também a RFA tem serviços de inteligência. Estes já foram mencionados no primeiro exemplo, uma vez que representam um papel predominante na criminalização dos protestos contra a cúpula dos G8 e na investigação e conseqüente criminalização dos movimentos sociais em geral. O verfassungsschutz é uma autoridade que trabalha como um serviço de inteligência interno e quase não é controlado (controlável). Sua tarefa formal é proteger o Estado contra os “inimigos da constituição” ou da “ordem básica liberal-democrática” (FDGO), observando, documentando e analisando atividades subversivas e revolucionárias e disponibilizando estes “dados avaliados” às autoridades políticas e à polícia para a abertura de investigações policiais públicas (ou atuando nesse sentido). Apresentamos resumidamente alguns pontos básicos dos princípios de Democracia e Estado de Direito na Alemanha (e não a realidade jurídica). Esses princípios básicos estão sendo “trabalhados” maciçamente ou dissolvidos há alguns anos por forças políticas e pela polícia. A cúpula dos G8 evidenciou como na prática princípios do Estado de Direito são dissolvidos, os quais também estão sendo abalados no plano legislativo: • Serviços de inteligência não podem investigar ou sancionar. A partir das experiências do fascismo está definida constitucionalmente – ou seja, na constituição da RFA – a separação entre serviços secretos e a polícia para evitar a formação de um aparelho policial amplo e todo poderoso. • Além disso, está definida a Independência da Justiça ou o controle da polícia e do Poder Legislativo pela Justiça. Ou seja, juízes formalmente independentes deverão autorizar medidas policiais solicitadas pelo Ministério Público que interferirem profundamente nos direitos civis, podendo também indeferir essas solicitações quando não forem justificadas. Com base nessas leis, medidas policiais e decisões judiciais podem ser impugnadas em outras instâncias até o Supremo Tribunal Federal ou Tribunal Federal Administrativo. • Como a RFA tem uma organização federal, existe uma divisão exata de competências entre a União e os Estados. Também a polícia e a justiça são organizadas de forma descentralizada. Isso também tem a sua explicação nas ex204

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periências do fascismo. Deve-se impedir a formação de aparatos de poderes fortes e centralizados. Assim, existe uma Polícia Federal (não há forças policiais paramilitares), mas que só podem ser usadas em tarefas específicas (proteção das fronteiras, transporte ferroviário e na segurança do espaço aéreo). Autoridades de investigação policiais federais (como o Bundeskriminalamt) só podem atuar em casos bastante específicos (criminalidade grave e defesa do estado) e deverão fazer isso em comum acordo com os Estados. • Não está prevista na lei vigente a ação de forças militares dentro do país para conter perigos (somente em casos de solicitações oficiais de ajuda, por exemplo, em caso de catástrofes e para auxiliar a logística policial) • O direito de um advogado de sua própria escolha é um direito constitucional (comunicação privilegiada, pode entrar com recursos); além disso, é válido o princípio in dubio pro reu. • Existem na constituição direitos centrais que protegem a articulação e a associação política e que são condições básicas para movimentos sociais. Entre estes podemos mencionar o direito de liberdade de reunião tanto em salas fechadas como “a céu aberto” (artigo 8 da Lei Fundamental), a liberdade de expressão em relação à palavra, a expressão e divulgação (pública) (artigo 5 da Lei Fundamental), assim como o direito de associar-se (artigo 9 da Lei Fundamental). Como direitos civis, estes são interesses legalmente protegidos. Ademais, são normativamente considerados direitos passíveis de proteção, ou seja, deverão ser protegidos de restrições, por exemplo, pela polícia. Claro que essa não é a nossa realidade jurídica, o que certamente não deixará ninguém admirado. Como vimos no exemplo da cúpula dos G8, estes direitos são diretamente limitados, o que por sua vez acarreta a criminalização de movimentos sociais. Indiretamente, estes direitos são limitados por outras leis (execuções). Estas serão detalhadas mais adiante, uma vez que são determinantes para o dia-a-dia da articulação pública dos movimentos. Mesmo assim, esses direitos básicos formam um padrão normativo e legal que os movimentos e seus representantes legais usam para colocar em prática as suas liberdades e limitar a criminalização. 2. O título do workshop faz referência à criminalização dos movimentos sociais e do protesto social. Na presente apresentação queremos nos limitar à criminalização dos movimentos sociais, sabendo que aqui estamos excluindo um campo extenso de diferentes protestos sociais e muitas vezes individuais e suas formas. Acreditamos, todavia, que a criminalização e o controle, assim como a segregação e a confinação repressivas do protesto social é digna de um tratamento à parte, fazendo-se necessário o esclarecimento do conceito do protesto social. O que significa “protesto social”: trata-se de toda a gama de protesto social desde o furto de alimentos, pela resistência individual contra policiais, até a dissidência (social) e
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as revoltas sociais (sem metas políticas explícitas)? As formas de protesto sociais e políticas podem ser colocadas no mesmo patamar ou, então, podem ser separadas simplesmente, como nós o fazemos? Gostaríamos de discutir essa questão mais adiante, pois acreditamos que especialmente a expansão do “Estado preventivo de segurança” faz com que essas formas de protesto sociais e dissidências entrem ainda mais no foco do controle estadual, de sancionamento e monitoramento, e que, por outro lado, nas condições sociais mais difíceis do capitalismo globalizado exatamente estas formas de protesto venham a aumentar. Essa questão, todavia, não pode ser tratada neste artigo. Os movimentos sociais e/ou a oposição extraparlamentária são uma forma especial de organizar a crítica, o protesto e a resistência política que se defende contra a forma tradicional de se “fazer política” em partidos etc., tentando influenciar os acontecimentos políticos de um país de forma diferente. Então, quando falamos da criminalização dos movimentos sociais, estamos nos referindo à criminalização daqueles movimentos e daquelas pessoas que organizam protestos e resistências sociais e políticas. O objetivo do recurso da desobediência civil, ou seja, a transgressão consciente de regras legais e estatais (por exemplo, em bloqueios, incentivo à deserção, violação das proibições policiais e espaciais para reuniões, etc.), mas também por meio de “brigas militantes” (por exemplo, arriscando a confrontação com a polícia ou colocando em prática o direito e a proteção da “propriedade”), muitas vezes não é defender os seus direitos, mas também democratizar os limites políticos deslocando estes de forma a “alterar o sistema”. Assim, esses movimentos transgridem necessariamente e com freqüência os limites da liberdade permitida e da articulação política. Sabemos que também os movimentos da direita agem para “mudar o sistema”, mas em nossa apresentação nos referimos a movimentos sociais que agem na perspectiva democrática e emancipatória168. 3. Em nossa apresentação nos limitaremos à criminalização, ao monitoramento e controle pelo Estado ou pela máquina do Estado. É importante mencionar isso especialmente na área de conflitos empresariais e sindicais, uma vez que estes não ocorrem “livres de repressões”: Assim, as constituições de conselhos de fábrica são muitas vezes proibidas e sindicalistas são investigados, pressionados, às vezes perdem o emprego. Há pouco soubemos que em muitas holdings os colaboradores são espionados sistematicamente e que os dados de telefone dos colaboradores foram registrados sistematicamente. Isso, todavia, ocorre no plano da
168 Os “movimentos da direita” adquiriram, especialmente nos anos 90, uma relevância bem maior, uma vez que também os partidos e as organizações da direita aplicam essa forma de organização mais do que antigamente (Grunke, 2008, S. 475 f). Estão, portanto, também sujeitos à criminalização, ao monitoramento pelo Verfassungsschutz e ao uso de espiões.

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economia privada e em sua extensão certamente não se compara à criminalização de sindicalistas na América Latina. Aqui não é o Estado propriamente o agente, mas podemos acusá-lo da falta de leis (proteção de dados) ou da falta de reivindicação penal dos direitos de colaboradores. O fato de os sindicatos na RFA não serem ou serem muito raramente objeto de monitoramento estatal e criminalização tem a ver com um modelo específico alemão corporativo de parceria social, negociado e desenvolvido na RFA em 1949: o Estado Social e de Direito da RFA. Nesse modelo os sindicatos ou a união dos sindicatos Deutscher Gewerkschaftsbund (com os seus respectivos sindicatos individuais) foram incluídos como parceiros legítimos de negociação nas questões dos trabalhadores, incluindo os processos específicos de greves, legalizando as greves “organizadas” por aumentos salariais. A filiação em sindicatos é legalmente protegida, assim os empregadores, por exemplo, por ocasião da contratação, não têm o direito de perguntar sobre a filiação; conselhos de fábrica ou representantes de funcionários em empresas são regulamentados legalmente nos termos da Lei das Constituições Empresariais (Betriebsverfassungsgesetz) e podem ser reivindicados em juízo. A proteção do direito de greve (social) e a posição importante dos sindicatos na estrutura soberana na RFA, todavia, eliminara por sua vez o direito político de fazer greves, abolindo algo como um mandato político (os sindicatos, por exemplo, são suprapartidários). Na RFA, ao contrário do que ocorre em outros países, não é permitido fazer greves contra guerras, reformas de aposentadoria ou contra leis de estado de emergência. Claro que também os sindicatos às vezes iniciam manifestações políticas, realizam atividades políticas e estão sujeitos, como outros cidadãos políticos, a ser vítimas de criminalização. Também houve na história da RFA “greves selvagens” e ocupações de fábricas por funcionários. Mas nesse caso também são aplicadas mais as sanções da economia (privada) do que as sanções estatais. Uma descrição mais detalhada desses mecanismos de sancionamento precisaria ser feita em um trabalho à parte. A inclusão dos sindicatos nos negócios da representação de interesses e o modelo do Estado Social na RFA caracterizaram fortemente a forma das disputas sociais, assim como a relação entre os sindicatos e os movimentos sociais desde 1949. Os sindicatos (assim como as associações de beneficência pública) eram os principais responsáveis para a realização de conflitos sociais. Organizaram a negociação de salários, jornadas de trabalho e algumas questões político-sociais mais amplas com as suas formas de combate (greve) e sua cadeira na “mesa do governo”. Para as questões mais amplas da sociedade os responsáveis continuam sendo os movimentos sociais e outras organizações políticas, e estas se desenvolveram dessa constelação, muitas vezes a uma grande distância dos sindicatos e suas
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máquinas. Somente depois dos maciços ataques neoliberais dos últimos anos que os movimentos sociais se formaram em maior escala no campo dos conflitos sociopolíticos (por exemplo, o movimento dos desempregados) que questionam o direito de representação advocatícia dos sindicatos na área da política social. Da mesma forma, os próprios sindicatos sofreram pressão com a reforma maciça do Estado Social (Democrático), de forma que novas opções de coligações, além do “mandato propriamente dito”, são desejadas e experimentadas. 4. Distinguir no ponto acima mencionado entre a repressão/criminalização estatal e o monitoramento/controle e repressão por atores “particulares” tem um significado especial para o movimento social: o movimento Antifa. Um movimento que organiza tanto a resistência e o protesto contra o nazismo organizado, bem como combate a expansão da ideologia da direita no dia-a-dia e nos municípios (muitas vezes rurais). A Antifa cresceu na medida em que os movimentos da direita nos anos 90 expandiram especialmente nas regiões rurais. Os ativistas desse movimento estão sujeitos, além dos mecanismos usuais da criminalização dos movimentos sociais, à agressão pelos seus oponentes. Grupos/partidos/ movimentos da direita possuem listas específicas de Antifas (com todos os dados pessoais), colocando em prática as suas ameaças de violências com grupos de guerreiros contra a Antifa organizada e também contra pessoas que possam parecer Antifas ou esquerdistas. Outras vítimas da violência física dos nazistas são, obviamente, mais ainda, os fugitivos e migrantes. A questão relevante para a Antifa seria, portanto, em relação ao Estado não somente a medida e a forma da criminalização estatal, mas até que ponto o Estado garante a sua integridade física sancionando violências contra ela169, permitindo ou impedindo os protestos contra nazistas (por exemplo, contra a suas manifestações). 5. E, por fim, temos que enfatizar uma particularidade na criminalização de grandes grupos de populações antes da formação de movimentos. Isso se refere à repressão contra fugitivos e migrantes. Uma grande parte da criminalização e repressão de fugitivos e migrantes sem visto de permanência ocorre antes da formação de movimentos sociais, impedindo praticamente a formação de movimentos. Em virtude do armamento nas fronteiras externas da UE e da política maciça de isolamento, só poucos fugitivos conseguem ultrapassar as fronteiras da UE. Muitos se afogam no Mar Mediterrâneo, são mandados de volta quando conseguem ou então são segurados fora das fronteiras da UE em “campos extraterritoriais”. Os fugitivos que conseguirem entrar na RFA sem serem imediatamente extraditados se escondem ou se tornam “ilegais” sem documentos e direitos (e sem a possibilidade de reivindicar os seus direitos humanos). Estão sujeitos no dia-a-dia às intrigas racistas e agressões, assim como a um tratamento injusto por
169 O que não está sendo realizado de forma conseqüente em todas as instâncias: ameaças não são levadas a sério, as investigações policiais não são realizadas com o devido cuidado e já aconteceu de a polícia ter fornecido nomes de autores da antifa aos réus nazistas.

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parte da polícia. Aqueles que conseguem submeter um pedido de asilo político são todos registrados e internados nos denominados centros de emigração. Lá, eles estão sujeitos legalmente a uma “legislação especial”, que só vale para eles, como a “obrigação de residência”. Essa obrigação de residência proíbe a mobilidade “não autorizada”, além dos limites restritos, e impede que os fugitivos possam se encontrar e se reunir “legalmente”. Com essas leis, para os fugitivos ficam suspensos os direitos básicos da liberdade de reunião, da associação e o direito de mobilidade. Os fugitivos são criminalizados pela mera violação da obrigação de residência. Posteriormente, iremos descrever a aplicação de outra “lei especial” que vale especialmente para pessoas sem passaporte alemão, que sanciona a filiação e o apoio de uma organização criminosa/terrorista estrangeira. 6. E como último aspecto gostaríamos ainda de esclarecer os conceitos de “militância”, assim como a “resistência armada”, que é recorrente na descrição da história dos movimentos sociais e sua criminalização na RFA, mas que pode causar mal-entendidos, pois sugere outra coisa. Em 1970 fundou-se a “Facção Exército vermelho” (RAF), assim como o “Movimento 2 de Junho” (como uma resposta à decomposição do movimento estudantil e a crescente polarização da sociedade). Ela se autodenominou (com sua presunção típica) de guerrilha urbana, promovendo a “resistência armada”. E de fato, diferente dos demais grupos de esquerda, estes atuavam “subversivamente” (seu objetivo não era a “base das massas”), andavam armados e defendiam a violência contra bens e pessoas e também colocavam em prática esses ideais (foram responsáveis por diversos atentados que levaram à morte). A concepção da “resistência armada” nunca foi defendida pelos demais grupos da esquerda, muito menos pela população. E ambos os grupos permaneceram isolados, a maioria de seus membros foi presa nos anos 70. Sem dúvida, existiu nos anos 70 um forte movimento de solidariedade com os membros presos. Mas essa solidariedade não se baseava nas ações, e sim nas condições especiais da detenção (“prisão isolada”), e se alimentava também das fortes tentativas do Estado em criminalizar, intimidar e monitorar toda a esquerda (radical) no âmbito da perseguição da “resistência armada” (SEMMLER, 2007). Portanto, mesmo que a “resistência armada” por si só não tenha sido relevante, ela se tornou importante com a resposta do governo. Isso deverá explicar por que uma grande parte da história da criminalização a seguir se baseia nestes grupos. Do mesmo modo, o conceito da militância, como é usado na Alemanha, não pode facilmente ser utilizado analogamente. É outro conceito criado no âmbito do movimento estudantil e de suas disputas sobre a “violência como meio legítimo” (permanecendo em uso nesse sentido na Alemanha). Até 1967, até o falecimento do estudante Benno Ohnesorg em uma manifestação contra o Xá em Berlim, o
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movimento estudantil agia nos termos da “desobediência civil”: transgressões de normas calculadas para defender um direito maior (greves sentadas, ocupações, bloqueios, manifestações não autorizadas, cartazes ilegais, danificações de propriedades com bolas de tinta, etc.). Após a morte de Benno Ohnesorg, o clima mudou. Além do desejo de defesa, cresceu a necessidade de causar estragos ao “inimigo” (ao prédio Amerikahaus etc.). Com a escalação da violência da polícia também aumentou a defesa e com esta um conceito de militância que se origina na resistência contra a violência da polícia. Militância significa não aceitar a surra ou a prisão sem protesto, realizar manifestações de forma ofensiva (ou seja, mesmo com ataques à polícia) e mais tarde aumentar “as despesas” dessas formas de conflitos e criar “imagens negativas” para o Estado. Quando a seguir falamos de manifestações e movimentos “militantes”, trata-se em primeiro lugar de uma autodenominação desses movimentos (e não necessariamente uma classificação nossa). Significa que o confronto com a polícia não está sendo evitado ou que este é até mesmo procurado. Uma separação clara de alguns movimentos ou uma separação do caráter pouco estratégico e às vezes ritualizado da “militância” sempre esteve presente no denominado debate de violência nos movimentos sociais, esgotando estes.

ii: situAção nA rFA ApÓs 1945
A história dos movimentos sociais e sua criminalização na RFA deverão ser apresentadas a seguir grosso modo em alguns pontos-chave:

1. 1. os anos 50 e o início dos anos 60: proibição do partido comunista e o anticomunismo como diretriz do governo
Após a libertação do fascismo, foi constituída em 1949 a RFA (e a RDA). O fascismo havia destruído toda a oposição, acabando com as suas estruturas culturais, sociais e políticas (partidos, associações, estruturas solidárias, etc.). Um grande número dos poucos sobreviventes da esquerda optou por morar na RDA e participar da construção de um Estado socialista. Em parte por esses motivos, os anos 50 foram na RFA uma época “de poucos movimentos”. A primeira resistência mais ampla na ainda jovem RFA foi contra o armamento das Forças Armadas alemãs (Bundeswehr) e contra a remilitarização da RFA. A mobilização obteve boa resposta pública. Em um plebiscito que mais tarde foi proibido, foram obtidos nove milhões de votos contra o armamento. Nas épocas da Guerra Fria e da integração da RFA no pacto ocidental (adesão
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à OTAN em 1955, constituição das forças armadas em 1956), todas as disputas políticas mais básicas sofreram interferência do posicionamento contra o comunismo e as respectivas repressões. O Partido Comunista KPD, até 1956 um partido legal com cadeiras nos parlamentos estaduais e no Parlamento alemão, participou fortemente da mobilização contra o armamento. Além disso, também havia contatos com a RDA (DDR) e também com o partido socialista (SED). Isso na época da guerra fria era considerado alta traição. Defendia a idéia de uma Alemanha unificada que o governo de Adenauer respondeu com a integração ocidental (westintegration). Em 1956 foi proibido: o partido foi dissolvido, os mandados foram retirados, a constituição de organizações sucessoras também foi proibida e milhares de processos foram iniciados contra determinados membros. Já em 1950 o go-verno alemão havia deliberado o denominado Decreto Adenauer [Adenauer-Erlass], que exigia a lealdade à constituição dos funcionários públicos, proibindo a filiação em organizações anticonstitucionais. Depois disso, muitos comunistas foram expulsos dos serviços públicos. Em 1951, o governo alemão solicitou que fosse constatada a inconstitucionalidade do partido comunista pelo Supremo Tribunal Federal, o que foi aprovado em 1956 pelo Supremo Tribunal Federal alemão. A base da decisão foi a acusação de alta traição, assim como a constatação de que os objetivos do PC seriam incompatíveis com a ordem fundamental liberal-democrata, uma vez que ela atua como “partido de luta marxista-leninis-ta”, “rejeitando princípios e instituições cuja validade e existência seriam uma condição para o funcionamento da ordem liberal e democrática”, uma vez que o objetivo seria provocar uma situação revolucionária. Para os membros do PC e os movimentos sociais que estavam surgindo na época, essa proibição teve conseqüências graves. O partido teve que partir para a ilegalidade (Illegalität) pela terceira vez em sua história. Isso provocou milhares de processos e condenações170. O número dos processos de investigação iniciados de 1956 a 1968 foi estimado em 125.000 e mais – muito mais do que o número de membros do PC. Esse processo de investigação poderia gerar conseqüências, pois somente a suspeita já poderia ser motivo para demissão, mesmo que o processo fosse arquivado. Além disso, a mera atividade política no local de trabalho também seria motivo para a demissão. Sabemos ainda de casos nos quais o serviço de inteligência interno, quando era contratada uma pessoa comunista, informava o seu passado comunista,
170 ainda no dia da decisão, a polícia fechou escritórios do partido, apreendeu imprensas e prendeu 33 funcionários. Parte da liderança do partido transferiu-se para a Rda já antes do julgamento. O patrimônio do partido, entre outros imóveis, imprensas e 17 jornais com uma tiragem de um total de 150.000 exemplares, foi confiscado e entregue a fins beneficentes.

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o que já poderia levar a uma nova demissão. O número de condenações transitadas em julgado por violação desta proibição está em torno de 7.000 a 10.000171. Contra a proibição do PC não houve protestos relevantes, nem mesmo dos trabalhadores. A mídia nos anos 50 não deu atenção à justiça política, nem aos importantes processos políticos. Isso provavelmente ocorreu em razão da denominada fase de reconstrução, do trabalho no “milagre econômico”. Também se acredita que o anticomunismo produzido durante a “Guerra Fria” pelo Estado e pelos soberanos, especialmente em um país dividido e de fronteira como a RFA, que até os anos 70 sempre impediu movimentos sociais e a oposição, teve a sua contribuição. O grande número de processos de investigações também mostrou que a proibição do PC ainda teve efeito repressivo para os movimentos sociais vinculados ao PC, o que provavelmente foi proposital. Mesmo que a proibição não possa ser comparada à agitação de McCarthy nos EUA, não pode também ser considerada uma mera proibição de um partido, mas é um mecanismo para a criminalização e imobilização de movimentos sociais e do protesto social nos anos 50 e 60.

2. o final dos anos 60 e os anos 70: a criação da nova esquerda e a invenção do conceito da “segurança interna” – histeria antiterrorista e o “outono Alemão”
Apenas em meados dos anos 60 começou a constituição de novos movimentos parlamentares e formas de protesto no âmbito da Nova Esquerda172. Para o desenvolvimento dos anos 60 e o início do movimento estudantil, o problema em processar e reprimir o passado foi significante. Somente depois de 1963 (os processos de Ausschwitz) iniciou-se um debate público sobre o papel das personalidades nazistas em postos importantes da economia, justiça e do Estado. Além disso, foi constatado o fortalecimento do partido nacionalista NPD. Outros fatores que caracterizaram o desenvolvimento político no final dos anos 60 foi a primeira grande crise econômica, o arranjo entre os “partidos populares” União Democrática CDU e os socialdemocratas SPD em uma grande coalizão (o que impossibilitou uma oposição parlamentar), o anúncio das leis emergenciais, o apoio à guerra do
171 a maioria por filiação a organizações inconstitucionais (§ 90a do Código Penal alemão, primeiro associação sob suspeita de incosntitucionalidade e depois violação da proibição do partido), delitos contra organizações (§§ 128-129a, incluía entre outros a participação em pactos secretos [Geheimbündelei] e associações criminosas [Kriminelle Vereinigung)] subversão (§§ 88-98 do Código Penal alemão) e traição [Landesverrat] (§§ 99-101 do Código Penal alemão). até 1958 houve, em nível estadual, 80 proibições contra organizações consideradas direcionadas pelo PC e que, com isso, estavam sujeitas à decisão judicial. O número de associações e organizações proibidas foi estimado em mais de 200. 172 Essa apresentação dos movimentos sociais e da construção da máquina policial e estadual dos anos 60 aos anos 80 baseia-se no livro Staatsgewalt. Politische unterdrückung und innere Sicherheit in der Bundesrepublik, de Enno Brand (Göttingen, 1988).

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vietnã dos EUA, assim como a cooperação com governos reacionários nos países do Hemisfério Sul. Uma grande parte dos jovens e dos estudantes não conseguiu identificar ou aceitar esse governo sentindo a separação entre aqueles que reprimiam e/ou toleravam o passado. Os primeiros protestos estudantis em massa ao poder estadual provocaram uma reação clássica: repressão, violência por parte da polícia e demagogia. No dia 2 de junho de 1967 o estudante Benno Ohnesorg foi morto pela polícia em uma manifestação contra o regime do Xá e mais tarde houve o atentado ao líder estudantil Rudi Dutschke (pelo qual os movimentos culparam a agitação do Estado e da mídia). As formas de protesto se radicalizaram e o arsenal de protestos aumentou (desde a defesa de manifestações até atentados direcionados contra bens (e não contra pessoas), como o prédio Amerikahaus, lojas de departamentos etc.). Além disso, os protestos estudantis acabaram incluindo alunos, aprendizes e sindicatos. Em face dessa situação, explicam-se as extensas “discussões de reformas” dos grandes partidos sobre um “combate decidido de todas as ações extraparlamentares inconstitucionais”, assim como a aprovação das “Leis emergenciais” no ano de 1968 planejadas desde 1956. Essas leis dispõem que em caso de defesa, conflitos e catástrofes, assim como em situação de emergência interna, pode ser proclamada a situação de emergência proporcionando ao Primeiro Ministro o poder de ordem e comando (centralização do monopólio de poderes e suspensão da separação de poderes). O período até os anos 70 é caracterizado por um momento duplo na relação de aumento do poder estatal/criminalização e movimentos sociais. Enquanto essas formas de protesto se radicalizam cada vez mais (ao menos em grande parte dos movimentos), as manifestações se tornaram ainda mais militantes, provocando prisões em massa, levando à constituição das denominadas guerrilhas urbanas da Facção Exército vermelho (RAF) e do “Movimento 2 de junho” em 1970 (com o conceito da resistência armada), o governo (SPD a partir de 1969) apresenta e aprova uma sugestão para a “modernização e intensificação do combate ao crime”. Isso significa especialmente a constituição de uma polícia centralizada responsável pela investigação de delitos contra a segurança do Estado reorganizada em colaboração com os serviços secretos. Essa polícia é liderada por sonhadores de uma segurança interna aperfeiçoada e totalizada. Além desse elemento, há ainda o da segregação. Para aliviar a situação política interna é aprovada uma lei de anistia em 1969 que prevê a isenção de penas no contexto das manifestações dos anos anteriores. Isso afeta aproximadamente 10.000 pessoas. Não são levados em conta os delitos considerados crimes. A nova autoridade de polícia federal para a “Segurança do Estado” trata da perseguição dos movimentos/grupos militantes nos anos seguintes a todo vapor.
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Certamente não é exagero afirmar que exatamente essa perseguição caracterizou o clima político, assim como as experiências concretas da criminalização muito além dos grupos marginais “armados” nos anos 70. Em 1972 é aprovado o “Decreto sobre extremistas” com a proibição de trabalhar em cargos públicos em caso de suspeita de anticonstitucionalismo, o que é consultado até os anos 80 regularmente no serviço secreto. Até a suspensão da consulta regular, foi investigado em toda a Alemanha um total de 1,4 milhão de pessoas. Destas, aproximadamente 1.100 foram proibidas de entrar ou permanecer no serviço público, 130 foram demitidas. Seguiram também diversos programas de expansão para as autoridades federais e o serviço de inteligência no programa da “Segurança Interna”. Grandes e trabalhosas ações de procura com busca detalhada, bloqueios de ruas, buscas em massa e detenções foram realizados durante os anos 70, e ainda houve, de tempo em tempo, pessoas assassinadas pela polícia, das quais ao menos para algumas o contato com os “grupos armados” era incerto. O objetivo das procuras não era somente a detenção de acusados, mas o registro de dados e a intimidação (e a fragmentação) dos grupos. Como as procuras policiais sempre eram acompanhadas por propagandas, podemos supor que o “Estado” queria demonstrar poder. Os anos 70 foram determinados pelo aumento do poder do Estado em forma de polícia, serviços secretos e a justiça, publicamente legitimado pelo combate “do terrorismo” e dos “grupos armados”. De fato, os planos de armamento para a polícia continuaram. Aqui foram enfocados cada vez mais a “Proteção do Estado”, assim como as “Medidas preventivas” (ou seja, não a perseguição de crimes cometidos, mas uma antecipação da ação policial) nas atividades estaduais. Não podemos nos estender a ponto de mencionar todas as etapas da expansão da máquina de repressão e das (possibilidades de) criminalização do Estado. É importante, todavia, constatar que, no decorrer dos anos 70, a autoridade da polícia federal (o Bundeskriminalamt) tornou-se a principal autoridade de registro de dados da Europa, que foram criados comandos e unidades especiais da Polícia Federal que também estariam disponíveis para posteriores manifestações e que com a aprovação do § 129a no ano de 1976 e a instituição da Procuradoria-Geral Federal foi criado um aparato de segurança com uma organização rígida e centralizada. Essa polícia podia exercer poderes executivos não controlados, ao menos provisoriamente, sem aprovação dos parlamentos e da soberania policial dos Estados. Os desenvolvimentos descritos culminaram em 1977 na situação mais tarde descrita na história como “Outono Alemão”. A resposta às escalações das ações da Facção Exército vermelho em 1976/77 (seqüestro e assassinato do procuradorgeral Buback, do banqueiro Ponto, do presidente da associação dos empregadores Schleyer, assim como a tentativa de um atentado com foguete à ProcuradoriaGeral em Karlsruhe) foi um estado de emergência durante quase seis semanas com
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bloqueio geral de notícias, batidas em todo o país, bloqueio de comunicação para 70 presos, limitação ou suspensão dos direitos de defesa e da liberdade da imprensa. Havia ainda uma forte agitação contra os “apoiadores morais do terrorismo”, que incluiu até mesmo pessoas conhecidas do setor liberal-democrático e jornalistas críticos. Em outubro morreram sob condições ainda não esclarecidas os três líderes iniciais da “Facção Exército vermelho” no setor de segurança máxima da penitenciária de Stammheim (Enslin, Baader, Raspe). No entanto, ninguém ousou um posicionamento público ou até mesmo questionar a tese oficial de suicídio para os mortos em Stammheim.

3. Conflitos militantes nos anos 80: a generalização dos combates “anti terrorismo” (§ 129a) e a escalação da ação policial em manifestações
Tanto os conflitos sociais e políticos como a expansão do “Estado de Segurança” nos anos 70 não podem ser reduzidos meramente ao conflito entre o poder do Estado e os grupos da “luta armada”. Os anos 70 foram “épocas agitadas”, movimentos sociais organizaram ocupações de casas, defendendo estas e lutando por centros para jovens autonomamente administrados. Organizaram campanhas contra aumentos das tarifas de transportes públicos, conflitos trabalhistas mais radicais e as primeiras manifestações contra usinas nucleares, que mais tarde se transformariam em um ponto de cristalização dos movimentos sociais (radicais). Esses movimentos críticos do sistema determinaram os “conflitos e movimentos militantes” dos anos 80. E estes movimentos, além daqueles que lutavam contra as condições de detenção especiais dos “prisioneiros políticos”, foram alvos especiais da criminalização dos movimentos sociais e que sentiram as conseqüências da máquina policial e da segurança do Estado construída nos anos 70. Até o final dos anos 80 houve 300.000 processos em delitos contra a “Segurança de Estado”173. Tratava-se de processos contra “alta traição”, desde o “incentivo público ao cometimento de crimes”, “invasão de propriedade”, “distribuição não autorizada de cartazes” até a “filiação, propaganda e apoio em uma associação terrorista”. De fato, somente uma quantidade bem menor chegou a ser condenada legalmente. O número baixo certamente não é indício para um trabalho insuficiente da polícia e da justiça, mas para o fato que o objetivo na Alemanha foi e é assustar, intimidar, fragmentar e controlar. Já em meados dos anos 70 o governo exigiu um combate ao crime mais amplo – além dos grupos da Facção Exército vermelho e do Movimento 2 de
173 Conforme informações da Polícia Federal, houve entre 1974 e 1986 128.605 casos investigados por “delitos políticos”.

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junho –, com foco em uma “verdadeira prevenção do crime”. Deveriam ser segregados e criminalizados o “ambiente político” e a formação de grupos militantes (também ou especialmente de outros movimentos) por meio de “medidas policiais preventivas” e “operações do serviço secreto”. O objetivo era intimidar, perturbar e vigiar os movimentos internamente. Essa expansão dos poderes foi sem dúvida fundamentada no fato de que estavam se formando cada vez mais movimentos de caráter de massa e expressão militante. Movimentos que operavam de forma muito diferente da Facção Exército vermelho, marginalizada e clandestina (que nunca teve importância para os movimentos políticos e para a sociedade), constituindo, portanto, outro “perigo para o Estado”. Por isso, os seguintes conflitos e a criminalização de movimentos sociais era por um lado caracterizada pela perseguição por medidas do serviço secreto e por outro pela Justiça Ética política (conforme § 129a). Além disso, os anos subseqüentes são caracterizados por uma proibição maciça e brutal do direito de “reunião a céu aberto” pela polícia. 1. O aumento da máquina policial com unidades especiais e proteção das fronteiras nos anos 70 provocou – para isso, só temos que olhar as imagens – uma atuação em nossa percepção quase que “militar” da polícia. Em conseqüência, foram feridas centenas pessoas em muitas manifestações de grande porte entre 1975 e 1985 (especialmente na área da luta contra usinas nucleares, as ocupações, a resistência contra a ampliação do aeroporto de Frankfurt com a nova pista de decolagem e mais tarde nos conflitos antimilitaristas) e foram presas muitas pessoas, em parte recebendo penas altas – certamente com o objetivo de assustar – de prisão e multas. Dois anos de detenção sem condicional para os casos de invasão de propriedade não eram nada raros e, além disso, houve sempre a tentativa de repassar o prejuízo dos danos e as despesas da polícia aos manifestantes. Outra novidade é que os amplos bloqueios e os locais manifestação registram não somente sistematicamente os dados, como também conseguem impedir grande parte dos manifestantes vindo de fora, como ocorreu na usina nuclear planejada de Kalkar em 1977174. Em outras oportunidades, parte ou mesmo grandes manifestações tinham que se reunir cercadas, em outras ocasiões parte supostamente radical das manifestações foi separada previamente (KREFELD, 1983). Essa atitude da polícia em manifestações e antes das manifestações tornou-se, na década seguinte, padrão para reuniões e manifestações de “caráter crítico” ao sistema. Ademais, é aplicada cada vez mais a tática de “separar e dominar” entre os ativistas supostamente pacíficos e manifes174 de um total de 70.000, 20.000 pessoas foram impedidas; as demais 50.000 foram controladas por 10.000 policiais.

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tantes legais e os que são estigmatizados já antecipadamente como caóticos, violentos e terroristas. Com a desculpa de evitar “transgressões violentas”, as manifestações são proibidas ou sujeitas a tantas limitações que o sentido da manifestação é questionado. Em 1985 o Supremo Tribunal Federal reage a essa situação de fortes restrições da liberdade de reunião com a denominada sentença de Brokdorf. Motivo para essa sentença foram as limitações ilegais (uma decisão generalizada, ou seja, a proibição da manifestação no local desejado) por parte da polícia e dos tribunais locais em uma manifestação federal contra a construção de uma usina nuclear em Brokdorf em 1981. Desde então, a denominada sentença Brokdorf é considerada um padrão normativo e jurídico (embora raramente observado). Nesta foi constatado: Manifestações oferecem a oportunidade de influenciar publicamente o processo político, o desenvolvimento de iniciativas ou alternativas pluralistas ou ainda críticas e protestos. Elas contêm um pouco de democracia original, indomada e direta, apropriada para proteger a vida pública da rigidez da rotina. Por isso, é uma tarefa do Estado (de Direito Democrático) permitir as reuniões a céu aberto de forma que o local, o momento e a forma sejam adequados a articular o protesto de forma sensata e audível. Uma proibição ou a dissolução de uma manifestação existente, portanto, só é possível nos casos em que outros bens passíveis de proteção tenham que ser protegidos. As diversas limitações do direito civil com proibições generalizadas, como ocorreu na cúpula dos G8 por meio de uma disposição generalizada ou exigências da polícia que impedem as reuniões, serão mencionadas mais tarde. O Comitê para Direitos Fundamentais e Democracia, uma das organizações de direitos civis constituída em 1980 em conseqüência do Outono Alemão, conclui, portanto: O direito fundamental de liberdade de reunião constante do artigo 8 da Lei Fundamental difere da maioria dos demais direitos fundamentais e humanos mencionados na Constituição, por dois elementos adicionais. Trata-se de um direito civil individual, mas permite também uma ponte a outros cidadãos (a política começa, conforme Hannah Arendt, com uma maioria de pessoas). Nesse sentido, é também um direito civil coletivo. Nessa característica está vinculado o segundo elemento adicional. Com
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o direito de liberdade de reunião sempre e em todos os lugares foi implantado um espinho de democracia radical na carne da democracia representativa175. A sentença de Brokdorf obviamente não significa grandes mudanças na prática da proibição da liberdade de reunião (veja exemplo inicial na cúpula dos G8), parece até que as autoridades e os aparatos executivos arriscam conscientemente sentenças posteriores que lhe atestam que sua atitude não ocorreu “nos termos da lei”. Além disso, e veremos isso ainda mais adiante, há meios melhores para limitar e impedir o direito de reunião sem ter que proibir as manifestações. São limitados não somente os direitos da liberdade de reunião, mas também os movimentos “aprendem” que cada vez mais pessoas são presas e ficam em prisão preventiva por muito tempo e, além disso, os processos e as sentenças são encenados pelo governo (por exemplo, após a manifestação contra a visita do Presidente Reagan em Berlim em 1981). 2. O segundo elemento básico da criminalização de movimentos sociais nesse período está na ampliação ou generalização da “Justiça Ética” com o § 129a muito além dos argumentos (o pequeno campo da “resistência armada”), que levaram à sua aprovação. Contra aqueles acusados não somente do “apoio”, mas também da participação direta no “terrorismo”, atua-se com toda a violência, até mesmo com tiros letais (só em 1978/79 são mortos três acusados, um sofreu lesões graves). Quem sobrevive à prisão precisa contar com as mais duras penas (vitalícias) em condições especiais de justiça e prisão. Mesmo os advogados não estão protegidos, três são condenados em 1981 por apoio. As ações contra o denominado ambiente são rigorosas, e isso se mostra especialmente nos anos 80 na criminalização dos que apóiam as reivindicações da Facção Exército vermelho (em greves de fome) para condições melhores na prisão e que querem divulgar informações sobre isso publicamente. A criminalização dos denominados “simpatizantes” (um conceito juridicamente bastante inexato) adquire
175 “a Lei Fundamental da RFa é – explica o Comitê da teoria da democracia –, no mais, criada em forma de ‘absolutismo representativo’ (veja artigo 20 inciso 2 da Lei Fundamental). Esse ‘absolutismo’, ou seja, uma representação contínua para ‘o povo’ e não a ação e decisão do ‘povo’, ou mais exatamente e constitucionalmente correto ‘da população’, é questionável, mesmo na democracia representativa. assim, a democracia representativa ficaria sem a inquietude ‘populista’ garantida constitucionalmente. Por isso, na teoria a prática da democracia especialmente no contexto de uma constituição liberal-democrata o direito ilimitado de manifestação é tão importante. E é por isso que é tão polêmico. O absolutismo representativo torna a vida mais fácil do que as preocupações de agulhadas demonstrativas da população. Só que constitucionalmente nos termos do artigo 8 da Lei Fundamental como norma que rege todas as leis existentes (normae normates) essa vida fácil não é justificável. Esse entendimento ativamente radical, ilimitado, constitui a perspectiva de observação e avaliação do Comitê (em Gewaltbereite Politik und der G8 Gipfel. demonstrationsbeobachtungen des Komitee für Grundrechte und demokratie, 2007, página 18ff)” (op. cit.).

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uma extensão que não pode ser subestimada em seu efeito “psicológico” O § 129a é o instrumento adequado para tal, pois não somente penaliza a filiação e delitos concretos, mas também o auxílio e a propaganda. São realizadas buscas e apreensões em editoras e imprensas, acusadas de propaganda/apoio, e os colaboradores são presos. Enquanto isso, o § 129a torna-se um recurso contra os movimentos militantes e autônomos, que não têm nada a ver com a “luta armada da Facção Exército vermelho”. O movimento contra energia nuclear é transformado em “associação terrorista”, ou seja, são iniciados cada vez mais processos investigativos contra grupos destes e outros movimentos. O argumento é obviamente o aumento de atividades “militantes” dos movimentos (via de regra, danos em propriedades): além da “defesa militante” do direito de manifestações, são organizadas nos anos 80 ainda outras atividades, por exemplo, são derrubados postes de luz, sabotados trilhos ferroviários e outros. Para saber mais detalhes sobre estes grupos e movimentos organizados de forma descentralizada (os denominados autônomos), são introduzidos espiões do serviço de inteligência e da polícia, os movimentos reagem em parte com um cuidado adequado, em parte com isolamento e paranóia. A expansão dos movimentos é também impedida pelo seu próprio comportamento. A censura e a criminalização de revistas e jornais da esquerda (radical) transformamse em uma situação normal (por exemplo, contra os editores da revista Anti-Atom é iniciada uma ação investigatória nos termos do § 129a). O campo de “assuntos passíveis de atentados”, como diz o Procurador-Geral, a “Segurança do Estado” (a Bundesanwaltschaft) foi ampliada de tal forma que nos anos 80, em princípio, qualquer movimento está em foco. Por isso, em 1987 a lista de crimes no §129a é ampliada para as “formas típicas de terrorismo da atualidade”. Desde 1976 houve mais de mil processos investigatórios nos termos do § 129, 129a e (desde 2002) nos termos do § 129b. Todavia, 80% a 97% destes processos foram arquivados. No período entre 2000 e 2004 houve um total de 404 processos contra 509 acusados, tendo sido julgados apenas 37 processos. Na maioria dos processos foram realizadas somente medidas de monitoramento de telecomunicação; aqui obviamente foi registrada uma grande quantidade de pessoas completamente alheias.

4. “A virada” e as mudanças na estrutura dos movimentos
No final dos anos 80 e com a virada em 1989, essa época de glória da política especial de movimentos sociais (caracterizada pela massa e militância) termina. Com a pressão dos movimentos civis na RDA e a implosão da estrutura econômico-política na RDA, esta se dissolve aderindo à antiga RFA em forma de
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novos Estados. A máquina e as instituições sociais da RDA são dissolvidas, todo o patrimônio do Estado e da sociedade é vendido, representantes das instituições de polícia e serviços de inteligência estão sujeitos a processos penais. Segue uma verificação sistemática das atividades do STASI (o abrangente serviço de segurança do Estado da RDA) e de seus colaboradores (especialmente os inúmeros “colaboradores informais” que estavam presentes em toda a RDA). Esse processo é incentivado pelo Estado alemão, bem como pelos movimentos civis da RDA. Por isso, os anos 90 se destacam das décadas anteriores, mesmo que as máquinas estatais na Alemanha permaneçam as mesmas. Enquanto os primeiros anos após a virada representam uma fase frutífera para os movimentos civis (pacifistas) da ex-RDA, uma parte da esquerda da Alemanha Ocidental (a esquerda radical) quase se dissolve, ou seja, precisa dos anos 90 para se realinhar, em parte nos movimentos da crítica de globalização. Isso certamente não significa que os movimentos sociais pararam de agir (especialmente nos conflitos contra a energia nuclear, que ainda estão muito constantes), e não significa de forma alguma que a criminalização dos movimentos sociais e seus atores sejam coisa do passado. E assim nos anos 90 também aparecem novos atores no palco dos movimentos políticos, bem como novos objetos no radar da máquina do Estado, que estão desde os anos 90 sujeitos ao monitoramento, controle e criminalização do Estado. Temos que mencionar aqui, por um lado, o movimento Antifa. O seu significado aumentou consideravelmente no âmbito da virada, uma vez que os movimentos de direita/extrema-direita estão em expansão. Especialmente a primeira metade da década de 90 é caracterizada por agitações racistas e pogrom contra alojamentos de fugitivos. Em 1993, a política oficial reagiu suspendendo o direito de asilo aos fugitivos políticos, o que até o momento fora um direito fundamental. Os movimentos da esquerda conseguem instalar em alguns locais da RFA as “No Go Áreas” para fugitivos e migrantes, mas também para (jovens visivelmente) esquerdistas, pois os da direita atuam de maneira cada vez mais ofensiva em espaços públicos e em forma de reuniões políticas. Aqui a Antifa reage, defendendo os “seus espaços”, protesta contra os grupos da direita nas ruas e ofensivamente contra mobilizações de direita (manifestações, discursos, concertos etc.). Isso a transforma em um objeto de atenção do governo, tornando a Antifa vítima não só dos grupos de direita, como também de repressões governamentais. Outro grupo relativamente novo no radar da repressão estatal é o das organizações de migrantes (do partido) da esquerda, que fugiram da perseguição em seu país e constituem e conduzem as suas organizações também na RFA (especialmente de grupos de esquerda turcos e curdos que fugiram para a Alemanha em 1980 após o golpe militar na Turquia). Associações e organizações são proibidas, se violarem a “ordem
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constitucional” da RFA (ou seja, concerne estritamente a “crimes” realizados na RFA). Em 2002, além disso, o § 129 é ampliado pelo §129b, conforme exigido pelo Conselho da UE desde 1998. Agora supostos membros e apoiadores de uma organização que opera no exterior podem ser perseguidos. Isso se refere especialmente aos denominados “terroristas dormentes”, mas também atinge outras organizações (que se consideram esquerdistas) como a PKK. Em 2006, já haviam sido iniciados mais de 60 processos de investigação. E como sabemos do § 129a, desde 2002 (e possivelmente também antes) uma rede de espiões e agentes secretos investiga migrantes políticos e organizações de fugitivos. Desde o final dos anos 90 e mais explicitamente no início do século XXI, os movimentos críticos da globalização se tornam mais conhecidos. Características de seus movimentos são a rede internacional, o grande número de atores e o extenso repertório de formas de protesto. A criminalização, todavia, ocorre cada vez mais nos padrões europeus. Os elementos principais que elaboramos nessa parte e as linhas de criminalização, começando pela proibição da KPD e o anticomunismo da Guerra Fria que a acompanha, a construção do “Estado de Segurança”, a histeria da Facção Exército vermelho e a “agitação contra terroristas” dos anos 70, assim como a generalização e expansão da “luta antiterrorismo” para quase todos os movimentos sociais críticos de sistema e a respectiva ampliação do aparato policial “proativo” continuam de forma mais fundamental no desenvolvimento do “Estado de Segurança preventiva”. No próximo capítulo detalharemos esse assunto e as respectivas “medidas policiais preventivas”, explicando especialmente o caráter “europeu” destas políticas.

iii. estrAtÉGiA de políCiA preventivA
O elemento central da repressão de movimentos sociais é uma estratégia de polícia preventiva, que se expressa em diversos planos, especialmente realizados com medidas técnicas. O objetivo desta estratégia policial é evitar a escalação de conflitos sociais já de antemão e obstar, especialmente nos protestos de rua, situações incontroláveis. Foi desenvolvida – ao menos no setor do controle de protestos de rua – como resposta aos conflitos militantes nas manifestações dos anos 80, que em parte eram grandes. Aqui é apresentada uma série de possibilidades de monitoramento e controle, com a concepção policial proativa para o controle de multidões (crowd control) e o direito penal que já pode ser aplicado antes de ocorrerem situações concretas de risco. 1. Amplo registro de dados Está disponível às autoridades estatais na Alemanha uma variedade de
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medidas técnicas, com as quais poderão ser levantados os dados não somente de ativistas políticos, como de todos os cidadãos. O primeiro é a obrigação do registro de residência, que faz com que todos os cidadãos sejam registrados em um banco de dados central com o seu endereço. Cada cidadão também precisa ter uma carteira de identidade ou um passaporte, no qual desde 2007 está registrada a impressão digital de forma eletrônica. Além disso, desde o início de 2008 todos os provedores de telecomunicações deverão registrar os dados de seus clientes. Aqui fazem parte nos e-mails os dados sobre as caixas postais, quando e por quanto tempo foi mantido o contato com a internet, quem telefonou para quem, quando e por quanto tempo. Na telefonia móvel ainda precisam ser armazenados os dados do local, de forma que se pode elaborar um perfil de mobilidade completo para a respectiva pessoa. Além disso, a polícia possui amplos bancos de dados sobre pessoas que tiveram contato com a polícia no passado. Assim, a polícia federal possui mais de 340.000 amostras de identificação de DNA e respectivamente mais de três milhões de impressões digitais e fotos (para o total aproximadamente de 80 milhões de habitantes). Além destes bancos de dados gerais, há ainda uma quantidade de bancos de dados políticos, por exemplo, sobre críticos de globalização, criminosos esquerdistas etc. Nesses bancos de dados são armazenados todos os fatos relacionados à polícia, por exemplo, processos de investigação, condenações e também expulsões. A polícia tem a possibilidade de acessar os bancos de dados no local e podem prender preventivamente pessoas registradas nos bancos de dados políticos ou excluir estas da participação do evento.

2. prática de ações policiais rígidas em reuniões Essa prática preventiva e proativa é bastante clara nas manifestações e outras reuniões. Na Alemanha não é usual e não é mais possível se reunir sem a participação da polícia em um determinado local ou realizar uma manifestação. Reuniões precisam ser informadas sempre 48 horas antes de seu início. Legalmente proibido – e também sujeito a penas – é o porte de armas ou objetos perigosos, que nos poderiam proteger da violência da polícia, por exemplo, capacetes, máscaras de gás, joelheiras e cotoveleiras. Também é proibido o porte de objetos que possam impedir a constatação da identidade. Aqui fazem parte, por exemplo, óculos de sol, lenços, bonés e casacos com capuz. É até mesmo proibido portar esses objetos no caminho de uma reunião. Nesses casos, a polícia tem a possibilidade de estabelecer exigências, por exemplo, alterar as rotas, de forma que a manifestação possa ocorrer longe do destinatário da reunião. Ademais, pode ser proibido o uso de calçados pesados ou o transporte de banners com mais de 1,50 m.
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Antes de uma manifestação – especialmente da esquerda radical –, são muitas vezes instalados pontos de controle, nos quais os participantes da manifestação são revistados por policiais e checados nos bancos de dados políticos. Antes de grandes eventos, ativistas são às vezes procurados por policiais em suas casas que lhes recomendam não participar da reunião. Em alguns casos há também exigências de comunicação e prisão preventiva. No caso das manifestações radicais da esquerda, há muitas vezes tropas de choque diretamente ao lado da manifestação que acompanham, às vezes em fila. Assim, para o público não fica mais evidente quem está protestando e por que motivo. Toda a manifestação é filmada, cada unidade de polícia possui um policial equipado com uma câmera de vídeo. Algumas unidades de polícia possuem câmeras de vídeo integradas nos capacetes. A polícia alemã tem bastante experiência na administração de multidões (crowd management). Sabem cercar e separar rapidamente grandes quantidades de pessoas. Dispõem ainda de unidades especiais (BFE – unidades de proteção de provas e de detenção), as quais entram rapidamente com pequenos grupos nas manifestações, agredindo as pessoas, ou prendendo alguém e saindo com a mesma rapidez da manifestação. Uma orientação ofensiva da manifestação é evitada desde o início, maiores colisões são impedidas. Há ainda os crimes especiais, assim como a (grave) invasão de propriedade. Aqui os participantes de uma manifestação incorrem em penas se participarem de atos de violência. Muitas vezes já é suficiente jogar uma pedra, sem machucar ninguém, para ser punido com uma pena de detenção de um ano.

3. proibição de associações Na Alemanha ocorrem periodicamente proibições de organizações políticas. Mesmo que nos últimos anos a prática de proibições tenha atingido especialmente associações islamitas e da extrema-direita, às vezes são também proibidas organizações dos movimentos sociais. Isso atinge especialmente associações/organizações de grupos políticos estrangeiros, como a organização turca marxista-leninista DHKP-C ou o partido dos trabalhadores curdo PKK. Não somente as organizações estão sujeitas à proibição, mas também à apresentação de seus símbolos, à defesa dos objetivos da organização e à constituição de organizações “sucessoras”. Assim, não somente uma organização é criminalizada, mas também a defesa de seus objetivos políticos. De fato, isso pode gerar uma proibição de atividade política para os líderes desta organização. 4. §§ 129, 129a, 129b As normas penais especiais para a criminalização de movimentos sociais são
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os §§ 129, 129a e 129b. Estas normas penalizam a filiação, a propaganda e o apoio de uma associação criminal/terrorista (estrangeira). O § 129a do Código Penal alemão foi criado especialmente para combater os grupos armados nos anos 70 e 80 na RFA. O objetivo desses parágrafos não é em primeiro lugar prender ativistas da esquerda, mas sim monitorar e espionar os movimentos sociais e os contextos políticos da esquerda. Os §§ 129 e seguintes do Código Penal alemão permitem amplas medidas de investigação até o monitoramento do contato dos presos com os seus advogados, o isolamento dentro da penitenciária e também a facilitação da prisão preventiva. No ano passado, tornou-se público que ativistas da esquerda estavam sendo completamente vigiados há quase oito anos (com câmeras de vídeo na frente das casas e dos locais de trabalho, grampo de telefone e monitoramento da internet, localizações de celulares para a elaboração de perfis de mobilidade, GPS no veículo e em partes eram grampeados também os apartamentos e os carros). Nenhuma dessas medidas até o momento acarretou um processo judicial, todavia há nos arquivos informações sobre aproximadamente 2.000 pessoas. No âmbito da colaboração européia na luta contra o terrorismo, o §129a foi modificado em 2002 e, além disso, a aplicação desse parágrafo foi ampliada para organizações estrangeiras. Até o momento foram iniciados processos contra as organizações islamitas Ansar al Islam e Al Quaida, que em parte acarretaram altas penas. No momento, há um processo contra a organização turca marxista-leninista DHKP-C. A Procuradoria Geral também tentou perseguir a Farc e a ELN, o que foi, no entanto, proibido pelo Ministério da Justiça. Com o § 129b deve ser possível perseguir também os membros de organizações que estão no país, mas cujas organizações atuam no exterior. Acreditamos que isso no futuro se referirá especialmente às organizações dos países com os quais a Alemanha está em guerra.

iv. europA
No início dos anos 90 foram abolidos na Europa os controles nas fronteiras na Europa. Isso significa que os controles de passaportes e pessoas são mais realizados apenas nos limites externos da UE. Essa abolição dos controles nas fronteiras entre países da UE gerou uma expansão da colaboração além das fronteiras e uma troca de dados das autoridades nacionais de segurança e para a construção das instituições de segurança européias. Especialmente na proteção contra a migração ilegal são experimentados novos sistemas de segurança. Assim, são armazenadas as impressões digitais e as fotos de todos os fugitivos de países fora da Europa em um banco de dados central europeu, que pode ser acessado também pelas autoridades nacionais de segurança (sistema vIS e SIS). Desse modo, já existem a polícia européia Europol e a procuradoria geral européia Eurojust, cujas competências estão sendo ampliadas constantemente e
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que no futuro provavelmente também serão usadas para a perseguição de ativistas sociais e políticos em toda a Europa. Além disso, também são usadas unidades de polícia nacionais em toda a Europa, por exemplo, em caso de protestos contra cúpulas, mas também para jogos de futebol, etc. Está sendo planejada ainda a construção de uma associação de polícia paramilitar em toda a Europa. Associações de polícia paramilitares existem na França, Itália e Espanha, na Holanda, em Portugal, entre outros. Está sendo planejada a constituição de uma tropa de polícia formada por partes destas associações, que pode ser solicitada especialmente em casos de agitações, revoltas e rebeliões (volume de 3.000 policiais; European Gendarmerie Force). Na luta internacional contra o terrorismo, todos os padrões de segurança do Estado de Direito foram suspensos. Os limites entre guerra, atividades de serviços de inteligência e da execução criminal estão cada vez menos nítidos; o controle público e parlamentar não existe mais. Somente alguns exemplos. Muitas organizações e pessoas privadas constam na lista de terroristas da EU (União Européia), entre outros, a PKK e suas organizações sucessoras, a DHKP-C e também uma série de organizações do movimento esquerdo de libertação basca. As pessoas, uma vez registradas, estão sujeitas a uma ampla “proibição de atividades civis”: ninguém pode firmar contratos com essas pessoas, vender objetos, alugar apartamentos, pagar benefícios estatais. Trata-se de um “suicídio civil”. O processo de como as pessoas são listadas ou retiradas da lista não é transparente e é bastante incompreensível. Especialmente após a invasão no Afeganistão e mais tarde no Iraque, houve muitos casos nos quais a CIA seqüestrou na Europa pessoas sob suspeita de terrorismo, levadas a campos secretos e ilegais, que torturaram ou mandaram torturar, em parte, com ajuda e apoio ou, ao menos, com o conhecimento dos governos europeus. As vítimas estavam fora do sistema jurídico; não somente perderam alguns direitos, mas se encontrava em uma situação completamente sem direitos. No momento, essas medidas atingem especialmente grupos e pessoas islamitas, mas a história nos mostrou que essas medidas podem ser ampliadas rapidamente para outros movimentos ou grupos sociais e políticos. A perseguição do movimento esquerdista de libertação no País Basco é um exemplo bastante claro.

v. respostAs do movimento
No final de nossa apresentação, ainda queremos expor algumas respostas dos movimentos sociais às tentativas de criminalização. Segundo o lema, que a melhor proteção contra a interferência nos direitos civis e humanos é praticá-los, os movimentos sociais tentaram sempre colocar em
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prática o seu direito de liberdade de reunião e opinião, assim como de integridade e disposição dos próprios dados e mais na rua e na justiça. Para isso, as correntes mais radicais dos movimentos muitas vezes também selecionaram táticas de confrontação (e militantes), o que causou especialmente nos anos 80 (e também a exemplo da RAF) intensivos “Debates sobre violência” da esquerda. Não foram poucos os participantes dos movimentos sociais que se distanciaram das partes “militantes” e se afastaram das reuniões (de forma que também poderiam proporcionar menos “proteção”), em parte foram até mesmo organizadas manifestações diferentes (com os mesmos objetivos), para que não tivessem que agir em conjunto. Outras correntes desenvolveram concepções muito mais fortes da desobediência civil (bloqueios “pacíficos”, ocupações etc.), para expressar as suas vontades; outras desenvolveram concepções inovadoras para colocar em prática os direitos na rua sem ter que encarar confrontações com a máquina armada da polícia (e especialmente na campanha G8 essa concepção também foi bem-sucedida com os bloqueios e a denominada tática dos cinco dedos). Paralelamente ao desenvolvimento da cultura de movimentos sociais e sua criminalização (ou seja, a expansão do “Estado de Segurança”), desenvolveu-se também um ambiente heterogêneo de organizações de direitos civis (Liga para Direitos Humanos Internacionais, Comitê para Direitos Civis e Democracia, União Humanista, Advogadas Republicanas e Associação dos Advogados, Sociedade Gustav Heinemann, Pro Asyl, Associação de Juristas Democráticos, Nova Associação de Juízes). Aqui temos desde os princípios liberais e democráticos até esquerdistas-liberais da defesa de direitos (individuais e coletivos) civis e de direitos humanos com um trabalho profissional de Informação e Publicidade (inclusive, uma criminalização concreta), com ações fundamentais e com o apoio situacional das pessoas/movimentos ameaçados de criminalização. As organizações de direitos civis na Alemanha não têm o poder de mobilização como os movimentos sociais. O seu papel especial está mais no trabalho (político) profissional, de publicidade e apoio. Especialmente o RAv, assim como o comitê para direitos civis e democracia (que são aqui representados por nós), também trabalham intimamente com os movimentos que realizam a manifestação. Enquanto o RAv com os seus advogados apóia os manifestantes, defendendo os seus direitos imediatamente e a longo prazo em processos penais (na cúpula dos G8, por exemplo, como Legal Team), o Comitê para Direitos Civis e Democracia desenvolveu a concepção da “Observação da manifestação”, com a qual uma manifestação é documentada do início ao fim, transgressões são avaliadas e disponibilizadas como relatórios de manifestação para o público e a mídia, assim como à polícia e às autoridades. Freqüentemente, aqui é gerada uma imagem muito diferente daquela retratada pela polícia e pela mídia.
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A partir dos movimentos sociais propriamente ditos, desenvolveram-se nas últimas quatro décadas as estruturas anti-repressão, que funcionam em parte identificadas como auto-ajuda, em parte como tentativas políticas de desenvolver perspectivas que vão além do evento propriamente dito. Aqui podemos mencionar especialmente os comitês de investigação, a Rote Hilfe e o serviço de emergência de advogados. Os comitês de investigação (EA) existem desde a década de 80 em diferentes cidades e podem ser acionados em manifestações. Os números de telefone são distribuídos durante as manifestações e os manifestantes são solicitados a informar transgressões e detenções de outras pessoas (com nome). Os comitês coletam, além das informações gerais sobre transgressões, detenções e prisões, especialmente os nomes e as datas de nascimentos de feridos, presos e detentos. Eles mantêm contato com os advogados e garantem assim que os detentos recebam em tempo a ajuda de um advogado. Além disso, o comitê tenta localizar as delegacias e campos de detentos, aos quais as pessoas foram levadas, para agilizar o processo. Oferece ainda um apoio psicológico, mostrando às vítimas e à polícia que existe um público que cuida dos detentos. Os comitês de investigação trabalham em conjunto com os Serviços de Emergência dos Advogados. Estes são formados especialmente por representantes da RAv. Os advogados deverão cobrir diversas áreas no serviço de emergência. Durante as manifestações e outras ações, estão presentes no local para ajudar os ativos a exigir e reclamar os seus direitos, defendendo estes da polícia. Também tentam estar presentes nos campos de detentos representando estes, especialmente em audiências com o juiz. O contato é realizado pelo respectivo comitê de investigação. Na cúpula dos G8, a RAv também organizou um serviço de emergência europeu, o denominado Legal Team, que estava no local com um escritório próprio com 100 advogados (voluntários). A Rote Hilfe é uma organização solidária que apóia, conforme seu entendimento, os perseguidos políticos da esquerda. O apoio é para todos os que perderem o emprego, forem processados ou condenados como esquerdistas em virtude de suas atividades políticas, por exemplo, pela responsabilidade nos termos da Lei de Imprensa por textos subversivos, pela participação em greves espontâneas, pela resistência contra ataques da polícia ou por apoiar exigências de melhoria das condições de presos políticos. A Rote Hilfe não é uma organização caritativa; ela oferece ajuda material e política, prepara e acompanha processos. Diferentemente do comitê de investigação, ela trabalha no país inteiro, a longo prazo e politicamente. Existe desde 1986, nesse formato (havia outras formas, em parte vinculadas ao partido comunista), e possui 4.300 membros. Apesar do bom trabalho anti-repressão dos movimentos e do trabalho político das organizações de direitos civis, é importante registrar que, muito rara227

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mente, houve momentos em que foi possível interferir com sucesso (provocando uma mudança) na criminalização prática e no discurso da “Segurança Interna” que a acompanha, além dos movimentos em questão. Certamente, muitos processos de investigação não resultam em um processo jurídico ou em uma condenação. Mas isso não se deve tanto à pressão pública do que ao fato de que nem está planejado concluir todos os processos de investigação. Além disso, a criminalização maciça dos movimentos radicais (militantes) sociais, o seu monitoramento sistemático e a infiltração de agentes fizeram com que os grupos se isolassem. Os debates sobre a violência dos anos 80 (assim como as manifestações ritualizadas dispostas à violência) contribuíram para que estes – que estavam mais ameaçados da criminalização – estejam ainda mais marginalizados. Ademais, o assunto da “Segurança Interna” foi discutido mesmo antes de 11 de setembro de 2001, quase sempre por um público amplo e pelos grandes partidos representados no parlamento (o CDU/CSU, SPD), por exemplo, o FDP com a sua tradição liberal assumiu um papel ambivalente. Em geral, foi possível apresentar a expansão da polícia e de seus poderes como praticamente única resposta à “militância” dos movimentos e como proteção contra os grandes danos provocados ao Estado. Isso mudou somente um pouco com a constituição do partido inicialmente pacifista e orientado nos direitos dos cidadãos dos verdes no final dos anos 70 e a entrada deste no Parlamento alemão em 1982. Eram provenientes dos mesmos movimentos, foram testemunhas de como muitas partes foram criminalizadas e foram freqüentemente vítimas da violência da polícia e da suspensão dos direitos fundamentais nas mesmas manifestações. Assim, os verdes foram o primeiro partido que lutou no parlamento contra os respectivos projetos de lei, que auxiliaram as vítimas da criminalização e que tentaram realizar manifestações. A partir de 1991, o partido de oposição dos verdes foi complementado pelo PDS (mais tarde A Esquerda) nessas questões. Até hoje são estes os partidos que se empenham no processo parlamentar contra as leis mais rígidas exigindo a suspensão do § 129a até a abolição dos serviços secretos (com limitações). Eles (e os partidos inteiros) acreditam que o Estado de Direito Democrático pode ser fortalecido com o enfraquecimento dos órgãos executivos, a abolição ou o controle dos serviços de inteligência, assim como uma disputa sobre a “Segurança Interna”. No entanto, não consideram esta a sua questão principal. Obrigados por diretrizes da eu, os verdes conseguiram, no governo em coalizão com o SPD, desativar o § 129a e agravá-lo em 2002. Também no plano eles conseguem colocar em prática uma ou outra reforma (insignificante), por exemplo, a obrigação de identificação da polícia, a reforma de controle do serviço de inteligência interno de Berlim, etc. Isso talvez se deva também a motivos táticos, pois especialmente após 2001 uma
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crítica fundamental da “Segurança Interna” no discurso público não gera ibope. E assim acontece que ambos os partidos, quando se encontram em um governo de coalizão, pratiquem uma política muito real concordando com os respectivos planos de agravamento e expansão (por exemplo, nas respectivas Leis de Segurança e Ordem dos países). Não somente por esses partidos serem “volúveis” e se encontrarem geralmente em uma posição de minoria, a esquerda extraparlamentar (os movimentos sociais e as organizações de direitos civis) confiou muito raramente apenas em processos parlamentares e influências parlamentares.
Tradução: Susanna Berhorn de Pinho

Frente populAr dArío sAntillÁn (ArGentinA)

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testemunHos de CriminAlizAção

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O Massacre de Avellaneda
“ O poder mundial ainda não encontrou a arma para matar os sonhos, enquanto não a encontrar seguiremos sonhando, quer dizer, triunfando.”
É necessário, em primeiro lugar, apresentar um breve panorama histórico para situar o contexto político e social em que acontece o conhecido massacre de Avellaneda.
Subcomandante Insurgente Marcos

Muitas vezes não se entende por que esse caso teve tanta repercussão, não porque não seja importante o assassinato de dois companheiros, mas porque, lamentavelmente, na história de luta do povo latino-americano, tivemos numerosos massacres em que muitas companheiras e muitos companheiros foram assassinados. Podemos citar, como exemplos, os casos de Oaxaca, no México, e do Movimento Sem-Terra, no Brasil.

1) o contexto anterior ao massacre de Avellaneda
Desde 1996 e 1997, ocorre uma recomposição do campo popular na Argentina. Nesses anos, surgem as primeiras organizações de desempregados que começam a exigir trabalho, a partir de uma metodologia de protesto baseada no bloqueio de estradas. É também nessa época, em um contexto de forte desemprego em virtude da implementação das políticas neoliberais, que surgem as organizações piqueteiras. O ciclo de protestos populares que se abrem nesta época atinge seu ponto mais alto nas jornadas dos dias 19 e 20 de dezembro de 2001, que levam ao término do governo do Presidente Fernando De la Rúa. Após um breve período, e diante da ausência de uma alternativa popular capaz de capitalizar essa situação de crise política e econômica, Eduardo Duhalde, o homem forte do Partido Justicialista, que havia sido derrotado nas últimas
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eleições democráticas, termina ocupando a presidência com o objetivo de pôr um ponto final ao protesto social. Neste marco, a conflituosidade social continua em ascensão e o movimento piqueteiro se encontra no centro da disputa e do enfrentamento.

2) Breve crônica do que ocorreu no dia 26 de junho de 2002
No mês de junho de 2002, um conjunto de organizações piqueteiras lança um plano de luta que tinha um componente fortemente reivindicativo: o pagamento dos subsídios de desemprego, aumento dos planos de 150 pesos para 300 pesos, implementação de um plano alimentar sob gestão dos próprios desempregados, insumos para as escolas e centros de saúde dos bairros, anulação dos processos aos lutadores e o fim da repressão. Nesse momento, as organizações se propõem a bloquear os acessos à Capital Federal. Por parte do governo, com o objetivo de restabelecer a ordem e terminar com o protesto, vai sendo gerado, com a cumplicidade da mídia, um clima propício para a repressão. Na segunda-feira, 17 de junho, o presidente advertiu que “as tentativas de isolar a capital” com bloqueio de estradas e piquetes “não podem mais acontecer”, “temos que estabelecer a ordem”…176 Durante os dias anteriores ao protesto, diferentes funcionários do governo se referem aos planos supostamente “desestabilizadores” dos piqueteiros e à decisão de não permitir o bloqueio às pontes. No livro Darío y Maxi Dignidad piquetera. El gobierno de Duhalde y la

planificación criminal de la masacre del 26 de junio en Avellaneda, mostra-se de que forma, desde os mais altos estamentos do poder executivo do governo nacional, foi armado todo o plano para a repressão. O rionegrino Carlos Soria, secretário de Inteligência […] no mês de fevereiro de 2002, havia difundido uns supostos informes produzidos pelo general Carlos Mugnolo e o Estado Maior, conjunto das Forças Armadas, sobre a presumida
176 Extraído de darío y Maxi dignidad piquetera, p. 81.

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infiltração das Farc da Colômbia entre as assembléias populares e piqueteiros 177. Durante os dias 17, 18 e 19 de junho, uma semana antes do 26, o Presidente Duhalde promoveu a realização de cinco reuniões com a participação de membros do gabinete, das Forças Armadas e de Segurança, dos serviços da Inteligência do Estado, de homens-chave da justiça e do governador da Província de Buenos Aires. Nessas reuniões, o governo instruiu todos os organismos e funcionários envolvidos relativamente à decisão política adotada a respeito da repressão ao conflito social. Foram estabelecidas as bases para o planejamento, justificativa, e postas em prática, do plano integral em torno do massacre de Avellaneda178. Entre os funcionários que criaram o clima de violência institucional e aqueles que apertaram o gatilho, houve muito mais que coincidências discursivas. Houve um planejamento geral que englobou cada declaração e cada atitude com o objetivo de justificar a repressão sistemática contra a luta popular. A responsabilidade operativa do massacre recaiu sobre Fanchiotti e seus homens. O delegado major vega, um protegido político do presidente do PJ (Partido Justicialista) da província de Buenos Aires, foi quem lhe encarregou a missão. O subsecretário de Inteligência e amigo pessoal do Presidente, Oscar Rodríguez, foi o elo entre a Casa Rosada e a maldita polícia. O então secretário de Segurança Álvarez garantiu o brutal operativo conjunto das forças de repressão interna sobre o qual montaram os fuzilamentos. Porta-vozes do poder econômico, por intermédio dos meios de comunicação, agitaram e justificaram a repressão e as mortes. O Presidente Duhalde encabeçou a decisão de levar a cabo uma repressão “exemplar” que o mostrasse forte perante sua estrutura política e os organismos internacionais179. Tudo isso se dá no contexto de uma aguda crise econômica na qual o governo de Duhalde buscava demonstrar aos organismos internacionais de crédito sua capacidade para controlar o protesto. Com esse objetivo, foi organizado, desde os mais altos níveis do Estado, um plano criminoso que desembocou na morte de dois jovens piqueteiros: Darío Santillán e Maximiliano Kosteki. Cabe ressaltar que o saldo da repressão foi de 160 companheiras e companheiros detidos, a maioria feridos por balas de borracha; 32 feridos por balas de chumbo e 2 mortos. Paralela e imediatamente após a repressão, o governo, com a colaboração dos principais meios de imprensa, tentou ocultar os fatos, argumentando que tudo havia sido conseqüência de um enfrentamento entre os próprios piqueteiros. O diário de maior tiragem nacional anunciava na edição matutina de 27 de junho: “a crise causou duas novas mortes”, “não se sabe ainda quem disparou contra os piqueteiros”. A manchete não revela quem foi o assassino. Será que foi o governo? Será que foi a polícia? Para o diário foi a crise, assim secamente. Por outro lado, a foto de capa pertence a uma série de ins-tantâneos que
177 idem, p. 118. 178 idem, p. 81. 179 idem, p. 109.

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mostra como Darío é assassinado por dois policiais. Essas fotos da edição foram ocultadas e, posteriormente, como fruto da pressão popular, tiveram que ser publicadas. Como segundo passo, o governo começou a acionar os mecanismos para judicializar o protesto social e processar os lutadores sociais. O Presidente Duhalde, por meio de seu ministro de Justiça, Jorge vanossi, apresentou no dia seguinte do Massacre de Avellaneta uma denúncia ante a justiça federal pelo cometimento de delitos que violavam a Lei de Defesa da Democracia: associação ilícita ou formação de quadrilha, intimidação pública, apologia do crime, alteração da ordem, alteração do livre exercício de suas faculdades ou deposição de alguns dos poderes públicos, sedição, atribuir-se direitos do povo e impedir a execução das leis, usurpação com clandestinidade, entre outras acusações menores, se comparadas com estas. A denúncia judicial enquadrava a suposta comissão em todos esses delitos, na teoria de que existia um “complô” para derrocar o governo de Duhalde e “atentar contra os poderes constituídos da República”180.

3) A resposta popular
A resposta popular aos assassinatos foi imediata. No dia seguinte ao “massacre de Avellaneda” – apesar de a grande mídia nacional ter ocultado durante várias horas as fotografias e vídeos que demonstravam que foram as forças de seguranças as responsáveis pelos dois assassinatos –, uma multidão saiu à rua para repudiar a repressão do governo. E uma semana mais tarde, no dia 3 de julho, realizou-se uma grande marcha desde a Estação Avellaneda até a Plaza de Mayo, no centro de Buenos Aires. Esta marcha foi a resposta do conjunto do movimento popular, no qual os setores de desempregados, trabalhadores assalariados e estudantis mostraram que não se permitiria nunca mais uma repressão com essas características na Argentina. Com as feridas da ditadura militar ainda não fechadas, e depois de seis meses
180 idem, p. 97.

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dos acontecimentos de dezembro de 2001, o povo argentino em seu conjunto saiu de novo à rua: 40.000 pessoas chegaram à Plaza de Mayo. Também era notório como as pessoas que não participavam da marcha aplaudiam, na medida em que a coluna avançava, ao mesmo tempo em que das sacadas dos edifícios chegavam gritos de estímulo e repúdio à repressão. A palavra de ordem que começou a ser acolhida foi: “Darío y Maxi não estão sós”, com o objetivo de fazer oposição à intenção do governo de isolar o movimento piqueteiro da sociedade. Essa reação popular teve um efeito político muito importante e obrigou o ex-Presidente Eduardo Duhalde a desistir de sua candidatura presidencial e antecipar a convocação às eleições. Embora muitos piqueteiros tenham sido assassinados durante os bloqueios de estrada entre 1997 e 2002, a maioria dos casos havia acontecido no interior do país, em províncias afastadas do centro do poder político. Nesse sentido, o massacre de Avellaneda, ocorrido no limite entre a província de Buenos Aires e a Capital Federal, teve um impacto político muito forte e condicionou as estratégias dos setores dominantes. Depois da insurreição popular de dezembro de 2001, que deixou um saldo de mais de 30 mortos em todo o país, e do “massacre de Avellaneda”, tanto os setores dominantes como uma parte da classe política perceberam que já não seria possível apelar para a repressão aberta sem pagar altos custos políticos.

4) o pedido de justiça após o 26 de junho
Depois do 26 de junho de 2002, o re-clamo de justiça para os responsáveis políticos e materiais do “massacre de Avellaneda” cons-tituiu um dos eixos de luta mais importantes para nossas organizações que integram a Fren-te Popular Darío Santillán. Uma de nossas ações foi escrever o livro Darío y Maxi dignidad piquetera, para que nós mesmos contássemos os fatos desse dia porque, do contrário, a história termina sendo contada por outros em benefício das classes dominan-tes. Outro objetivo foi o de que o livro servisse como insumo para a busca de justiça e luta contra a impunidade. Um dos seus principais eixos é deixar clara a
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vinculação política do governo de plantão com o massacre de Avellaneda e de que forma o Presidente Duhalde teve ingerência na decisão de reprimir e assassinar. Ao longo de mais de quarenta meses após o massacre, todo dia 26 de cada mês foram realizados bloqueios na Ponte Pueyrredón, reclamando o esclarecimento dos assassinatos. Como conseqüência desse processo sustentado de mobilização social (também estivemos acampados durante 45 dias diante dos tribunais de Lomas de Zamora), no início de 2006 conseguiu-se a condenação à reclusão perpétua de dois policiais da província de Buenos Aires, responsáveis materiais dos assassinatos. É importante assinalar que se trata de um fato inédito, visto que praticamente todos os assassinatos de lutadores populares na Argentina nos últimos dez ficaram impunes (Teresa Rodríguez, Aníbal verón, etc.).

5) o governo Kirchner e o protesto social
Como dissemos anteriormente, em um contexto de fratura do paradigma neoliberal imperante até esse momento, o governo de Néstor Kirchner adotou uma política que tinha por objetivo fundamental recompor o funcionamento do sistema político e das instituições após a crise de dezembro de 2001. Como o próprio Kirchner disse em várias ocasiões, o que se buscava era construir um “capitalismo a sério”. Muitos setores das classes dominantes também perceberam que já não havia margem para a aplicação das políticas de ajuste que vinham sendo aplicadas até esse momento e que o kirchnerismo oferecia uma saída possível diante de uma crise de hegemonia sem precedentes. Sem afetar substancialmente os interesses dos setores mais concentradores
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da economia, o governo avançou em uma estratégia tendente a desmobilizar e fragmentar os setores populares, evitando a repressão aberta. Como exemplo disso, pode-se mencionar a reunião a que nos convocou o Presidente Kirchner, ocasião em que anunciou a intenção de avançar no esclarecimento do processo por meio de uma comissão independente. Mas, para que isso fosse possível, nós deveríamos abandonar a rua e o bloqueio da ponte Pueyrredón. Não aceitamos tal proposta porque entendemos que a única garantia de que sejam cumpridos os interesses do povo é a manutenção da mobilização e a luta. Nesse sentido, as políticas adotadas objetivaram a fragmentação de algumas organizações, cooptação de outras e uma política muito dura em termos de concordância com as reivindicações das organizações piqueteiras que, paulatinamente, foram ficando isoladas e perderam consenso, ao compasso da reativação da economia em um contexto internacional muito favorável. O duplo discurso do governo de Kirchner ficou evidente em quase todos os terrenos, mas não há dúvida de que um dos mais importantes foi o dos direitos humanos. Embora não se tenha apelado para a repressão aberta, foi-se avançando em diferentes formas de criminalização do protesto social, a ponto de que são milhares os ativistas e militantes sociais processados pela justiça por participarem dos protestos populares. Nos últimos anos, o desaparecimento de Julio López, testemunha-chave no julgamento de um dos chefes policiais que comandou a repressão ilegal nos anos 1970, e o assassinato de Carlos Fuentealba, docente da província de Neuquén que participou de um bloqueio de estrada, mostram com toda a clareza que o aparelho repressivo do Estado não foi desmantelado e seus integrantes ainda gozam de impunidade. Os relatórios de organismos de direitos humanos, como a Coordenadoria Contra a Repressão Policial e Institucional (Correpi) dão conta da permanência de certas práticas contra militantes políticos e sociais (assédios, seqüestros e ameaças), bem como da continuidade de torturas e maus-tratos nas prisões e nas delegacias.

6) Conclusão
• O massacre de Avellaneda deixou como saldo dois militantes muito valiosos assassinados pelo poder político, mas também demonstrou que a repressão e o assassinato aberto são coisas que a sociedade argentina não está disposta a tolerar, entre outras coisas, em razão da ditadura genocida que fez desaparecer 30.000 pessoas entre 1976 e 1983. • Remarcar como agiram os meios de comunicação de massa, em total cumplicidade com o poder político e as classes dominantes. É nesse sentido que se revestem de fundamental importância os meios de comunicação alternativos, pois se nós, como povo, não contamos nossa própria história, outros se encarregarão de contá-la em função de seus próprios interesses e conveniência.
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• É preciso construir uma alternativa popular real, que dispute o poder com os setores hegemônicos capitalistas; não apenas no plano eleitoral, mas sobretudo no território, nas ruas, nos locais de trabalho e também no plano cultural, na vida cotidiana, no imaginário coletivo. Nós, da Frente Popular Darío Santillán, dizemos que a transformação social, ou o socialismo, é nosso horizonte estratégico e que, ao mesmo tempo, temos que ir construindo dia a dia em cada um desses espaços antes mencionados. Por último e concluindo, queremos citar uma frase que ficou registrada na porta do Tribunal de Lomas de Zamora onde foi realizado o julgamento dos autores materiais do assassinato:

“o sangue derramado não se olvida, não se perdoa, não se negocia.”
Darío e Maxi Presentes!!! / Onde nos vemos? / Na luta!!! / Piqueteiros Caralho!!!

Tradução: Beatriz Cannabrava

CoordenAdorA de mulHeres de oAXACA primeiro de AGosto (mÉXiCo)
A luta social em Oaxaca
O Estado de Oaxaca é uma das regiões mais ricas do México por sua diversidade cultural e ambiental, onde todos os ecossistemas estão presentes. No entanto, não existem políticas que reconheçam a inter-relação entre povos indígenas e recursos naturais para contribuir com o desenvolvimento. Os programas realizados deterioram a produção no campo, danificam o ambiente e excluem a população que, diante desse panorama, se vê obrigada a emigrar. Recursos vitais como a água são dados em concessão para benefício de empresas transnacionais. Oaxaca é uma entidade exportadora de mão-de-obra barata para os centros de maior crescimento econômico do país e do exterior. A violação aos direitos humanos tem sido constante. São reprimidos aqueles que se manifestam no uso de seus direitos constitucionais, restringe-se a liberdade de expressão e, no interior do Estado, se fortalecem os caciquismos. São criados grupos de paramilitares nas diferentes regiões. A justiça é aplicada de forma dirigida e as instituições encarregadas de fazer cumprir as leis se converteram em ferramentas do poder, com as quais se reprimem líderes e opositores políticos. Não há transparência nem prestação de contas nas ações de governo. Privilegiam-se a simulação e a manipulação na destinação da obra pública, para favorecer empresas de familiares e pessoas próximas ao governador. Inclusive os progra239

Frente popular darío santillán

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mas sociais – federais e estaduais – são utilizados pelo governo com propósitos político-partidários. O governo atenta contra nossas tradições. Comercializa nossa cultura em uma forma tosca e insultante para a população. No mês de maio de 2006, o movimento do magistério, ao não encontrar resposta para suas reivindicações trabalhistas e sociais, inicia uma vigília. Suas principais demandas eram a reclassificação econômica de Oaxaca como um Estado de alto custo de vida e o apoio comunitário às zonas de maior marginalização. A resposta do governo foi a desqualificação do movimento magisterial por intermédio dos meios de comunicação e, no dia 14 de junho, a repressão desalojou os professores com gases lacrimogêneos. Esse ato gerou a solidariedade do povo, que repeliu essa forma de exercício despótico do poder governamental. A partir desse momento, o movimento magisterial converteu-se em popular, assumindo como principal demanda a destituição do governador. Em junho, povo e professores conformamos a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), um acontecimento sem precedentes na história local. A partir de então, tem início uma série de mobilizações jamais vistas no Estado. Conformam-se as representações da APPO, as comunidades indígenas realizam fóruns para defender seus direitos, seus recursos naturais e contra a discriminação. Diante do injusto cerco midiático encabeçado por Ulises Ruiz, nós, mulheres de Oaxaca, em agosto de 2006, marchamos pelas ruas exigindo justiça e nos dirigimos à corporação de rádio e televisão controlada pelo governante assassino. Ao ser negado um espaço para que pudéssemos passar uma mensagem à comunidade, decidimos tomar essa corporação para dar voz ao povo. A partir desse momento, a televisão do fascista, assassino, estava controlada por nós. Isso permitiu que, entre diversas mulheres que não nos conheciam, pudéssemos intercambiar pontos de vista sobre a luta, sobre nossas vidas, sobre nossas experiências, sobre o futuro que queríamos para nós mesmas e para nossos filhos e filhas. Nesse espaço vimos a dor dos que nada têm, de crianças descalças que chegavam para apoiar seus professores e professoras, de donas de casa que denunciavam que o dinheiro não dava para comer, de mulheres indígenas que rechaçavam essa política do governo neoliberal que estava saqueando seus recursos naturais. O medo nos dominava quando chegavam os paramilitares disparando suas balas para nos intimidar, ou quando nos enviavam mensagens aos celulares, ameaçando-nos com violação, seqüestro e assassinato de nossos filhos. Dia e noite, durante 21 dias, cuidamos desse espaço do povo, até que, posteriormente, as antenas foram baleadas e o transmissor destruído pelos esbirros do governo. Na madrugada desse mesmo dia, decidimos tomar as rádios comerciais para difundir o movimento. Nessa ocasião, corpos policiais assassinaram impie240

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dosamente um companheiro. No dia seguinte, instalamos barricadas em toda a cidade como um mecanismo de autodefesa para enfrentar os grupos militares denominados “caravanas da morte”. Em agosto, constituímos a Coordenadoria de Mulheres Oaxaquenhas Primeiro de Agosto, um esforço plural ao que se somam mulheres de diferentes idades, de diversas organizações sociais e coletivas: donas de casa, profissionais, trabalhadoras de todos os setores e universitárias, mulheres de comunidades indígenas. Os eixos dessa luta são: a saída de Ulises Ruiz Ortiz, a liberdade dos presos políticos, a luta contra a discriminação das mulheres, contra a violência em todas as suas formas e pela transformação profunda do Estado de Oaxaca, onde os direitos das mulheres sejam uma prioridade. Em novembro, quando realizamos o Congresso da APPO, elaboramos a Declaração dos Povos de Oaxaca, na qual se aponta a necessidade de um governo que represente o povo em toda a sua diversidade: povos indígenas, população urbana, camponesa, trabalhadores, empresários, mulheres, homens, crianças, jovens e as comunidades lésbico-gays. Um governo cuja ação prioritária seja estabelecer as pontes de diálogo em que se incluam todas as vozes; que sejam implantadas instituições, leis e políticas acordes com as culturas e a autonomia dos povos e comunidades de Oaxaca. Dias mais tarde, os empresários e os partidos políticos, inclusive o PDR que se diz de esquerda, pedem a entrada da Polícia Federal Preventiva, que chega depois de membros do partido do governo terem assassinado o jornalista estadunidense Brad will. O governo de direita, representado pelo Presidente vicente Fox, envia suas tropas, semeando o terror e a morte, porque, ao tratar de impedir a entrada da Polícia Federal Preventiva, outro companheiro é assassinado quando estala em seu peito um petardo lançado pela polícia. Em 2007, o Estado reativou os grupos paramilitares com a intenção de gerar um clima propenso a uma intervenção militar. A violência, a sedução mercantil e o conflito de identidade com a provocação de enfrentamentos entre indígenas são algumas das ferramentas utilizadas pelos lá de cima para liquidá-los. O objetivo encoberto é a recuperação do território indígena: petróleo, gás, energia elétrica, biodiversidade, água doce, madeiras, urânio e a possibilidade de instrumentar megaprojetos depredadores a serviço do grande capital nacional e estrangeiro. No âmbito indígena, lamentamos que as mulheres da região triqui continuassem sendo um objetivo de ataque, pois as irmãs Daniela y virginia Ortiz Ramírez de 20 e 14 anos, respectivamente, originárias do povoado El Rastrojo, foram seqüestradas e desaparecidas em 5 de julho de 2007. Dessa mesma forma, grupos paramilitares assassinaram no dia 7 de abril passado, em uma emboscada, Teresa Bautista e Felícitas Martínez, locutoras da rádio comunitária de San Juan
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Copala, “a voz que rompe o silêncio”. Edmundo Reyes Amaya e Gabriel Cruz Sánchez foram desaparecidos em 25 de maio de 2007 e Lauro Juárez, indígena chatino, foi visto pela última vez no dia 30 de dezembro de 2007. Em nenhum desses casos os governos federal e estadual adotaram medidas de reparação e justiça, ou mecanismos para que os fatos não se repetissem. O Tirano de Oaxaca mantém militarizado o território oaxaquenho e continua reprimindo os lutadores sociais. Por isso, as mulheres da COMO (Coordenadoria de Mulheres Oaxaquenhas) hoje levantamos a voz para seguir exigindo a liberdade incondicional dos prisioneiros políticos deste governo e dos anteriores, como: Isabel Almaraz e os presos de Loxicha e de Xanica, entre outros. Em todos os dias que for preciso sairemos à rua para gritar ao mundo que aqui em Oaxaca ESTÁ ACONTECENDO ALGO! Queremos ver livres nossas presas e presos políticos; vivos as desaparecidas e desaparecidos; queremos uma vida digna para todas e todos os oaxaquenhos, porque estamos fartas de tanta impunidade. Que os responsáveis pelos custos de vidas humanas durante a repressão de 2006, que foi brutal, selvagem, com mais de trezentos detidos e desaparecidos, não fiquem impunes. Nós, mulheres, sabemos que nossa participação é um fator fundamental na história pela libertação de nossos povos. Entretanto, somos excluídas dos espaços de direção e decisão dos movimentos revolucionários por causa de uma vontade ou princípio. Na nossa APPO, nós, mulheres, também temos batalhado para sermos parte da tomada de decisões. E dizemos: basta de opressão e misoginia, que nossos companheiros também participem do processo de reeducação, condição básica para o avanço revolucionário, porque a luta para transformar este mundo é de ambos os sexos. Hoje, a COMO se irmana às causas de nossa América Latina ferida pelos governos imperialistas e declara: “não vamos deixar de lutar porque, assim como parimos os filhos da pátria, também seremos capazes, se for necessário, de pegar um fuzil para defendê-la”. Em Oaxaca dizemos: nós, mulheres, já deixamos o avental e, se for necessário, tomaremos o fuzil. Por tudo isso, vamos construir em união o princípio de Simón Bolívar de nos irmanarmos e unirmos a todos os povos da América Latina, para, juntando todos os nossos esforços, dar uma leitura clara aos governos e ao mundo de que seguimos em pé de luta por uma vida melhor para todas e todos. Obrigada.

o punho da mulher atenta contra o poder! CoordenAdoriA de mulHeres oAXAQuenHAs primeiro de AGosto

San Salvador Atenco, 18 de junho de 2008.
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Frente de povos em deFesA dA terrA (mÉXiCo)

Tradução: Beatriz Cannabrava

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Recebam uma fraternal e combativa saudação da FRENTE DE POvOS EM DEFESA DA TERRA (FPDT). Existem em Atenco antecedentes históricos da luta pela terra dos nossos antepassados: Nezahualcoyotl e seus guerreiros, Zapata e os revolucionários. Atualmente, existe a Frente de Povos em Defesa da Terra (FPDT), na qual a mulher não é alheia à luta e a ela se soma pela necessidade de sobreviver e defender sua terra, seu lar, sua história, etc. Em San Salvador Atenco e povoados circunvizinhos, a luta da mulher tem sido constante, histórica. Temos avançado juntas, mesmo sem nos conhecer. Temos lutado por nossos direitos, fazendo valer nossa palavra, nossa decisão. E contra o machismo, sim, porque a luta não é unicamente contra os governos, mas também no lar, nas escolas, no âmbito social e de trabalho. Não tem sido fácil; temos ainda muito por fazer. “É todo um processo de transformação ao qual temos que dar continuidade”, como nos dizia o companheiro Ignácio del valle (detido no presídio de segurança máxima, antes denominado La Palma, no altiplano). No dia 22 de outubro de 2001, os governos estadual e o federal expropriaram nossas terras de cultivo, afetando 5.200 hectares dos povoados de Atenco e Texcoco, oferecendo-nos $7,20 por metro quadrado. Tratamos de conseguir entrevistas com os governos federal, estadual e municipal. Como não houve resposta, vimos a necessidade de nos unir; e nos organizamos, tomando o machete, que é uma das ferramentas de trabalho no campo. Isso para ter identidade como camponeses e para sermos visíveis para os meios de comunicação e os governos, que diziam que éramos 80 pessoas violentas da cidade de Netzahualcóyotl, Estado do México. Uma das primeiras marchas para o Distrito Federal foi no dia 14 de novembro de 2001. O companheiro Ignacio del valle (Nacho) comentou: as mulheres mais velhas, as crianças e os idosos não irão à marcha. Uma mulher de idade avançada respondeu: você é que não vai, Nacho, porque eu vou, sim. Essa é uma das formas como nós, as mulheres de Atenco e de povoados circunvizinhos, decidimos participar da luta social. Não tem sido fácil nos desprender do nosso lar e participar. Geramos uma mudança com a solidariedade de todos. Assim o decidimos pela necessidade de que nossos povos não sejam exterminados. Participamos da organização nas áreas de administração, saúde, educação, na tomada de decisões, na cozinha, etc., explorando cada uma das nossas habilidades. E aqui cabe mencionar o lema: “quando uma mulher avança, não há homem que retroceda”. Foi assim que derrogamos um decreto expropriatório no dia 1.º de agosto de 2002. Claro que sem menosprezar a participação dos valentes companheiros e de todas aquelas organizações nacionais e internacionais que se solidarizaram com a FPDT. As companheiras que nem sequer sabiam que existiam direitos da mulher agora sabem e os fazem valer. Muitas companheiras dizem: já não sou a mulher que abaixa a cabeça e obedece, agora tomo decisões. O governo, longe de nos espantar, nos abriu os olhos porque querem fazer com que a gente desapareça. Isso nos fez reagir e agora nos unimos e nos organizamos. Já não pedimos licença para
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sair, agora avisamos que vamos sair para realizar alguma atividade. De participar em peregrinações e procissões da religião católica passamos a participar de marchas, comícios, fazer cartazes, participar de fóruns, entrevistas coletivas, atos político-culturais, pesquisar nossa história, etc. Para os governos, estadual e federal, não foi muito grato ter que derrogar um decreto expropriatório e o fato de não termos permitido que se instalasse o grande negócio do capitalismo. E os governos, estadual e federal do México, alegando que se tratava do “aeroporto internacional”, usaram os meios de comunicação de massa para fundamentar que isso era de utilidade pública. Posteriormente, e depois de haver derrogado o decreto expropriatório, o objetivo da Frente de Povos em Defesa da Terra (FPDT) foi começar a fazer projetos produtivos no campo, projetos de educação e reivindicar benefícios para as escolas. Além disso, brindar solidariedade às organizações sociais do México, entre as quais os floristas de Texcoco, que lutavam por ter um espaço para uma banca e poder vender suas flores nos feriados, como 3 e 10 de maio, 12 de dezembro, entre outras datas. Sobre isso existe um vídeo em que o governo e os floristas fazem um convênio de forma verbal, que o governo não respeita e reprime. Mas isso foi realmente só um pretexto, pois o que houve foi vingança por não haver permitido que construíssem o aeroporto. Essa repressão foi nos dias 3 e 4 de maio de 2006. Invadiram nossas casas, destruindo tudo, roubando artigos de valor e dinheiro, torturando física e psicologicamente nosso povo, realizando vexações e violações sexuais a nossos companheiros. Por causa da nossa cultura, os homens não denunciaram isso publicamente. Nossas companheiras, sim, tiveram coragem e raiva para denunciar. Sabemos que essa é a forma de querer calar as mulheres. Também sabemos que há mais de 500 anos são essas as estratégias que os governos têm utilizado para que a mulher se ajoelhe e peça perdão por levantar a cabeça, a voz e exigir que seus direitos sejam respeitados. E agora esses governos justificam as ordens que deram a seus cachorros (policiais) e dizem: eles exageraram. Também dizem que as mulheres que foram violadas fazem questão de contar o fato, pois isso é o que as lutadoras sociais têm que dizer para se defender, entre outras bobagens declaradas pelos autores intelectuais. Eu fui detida, no dia 4 de maio em San Salvador Atenco, ao ir fazer umas compras no armazém, unicamente por passar pela praça principal. Esse foi o meu delito. Detiveram todas as pessoas que encontraram no caminho. Fui encarcerada no presídio de Santiaguito, Estado do México, junto com 45 companheiros. Ao chegar a esse lugar estávamos com o olhar perdido, não conseguíamos assimilar o que tinha acontecido. Nesse momento fiquei sabendo como várias companheiras foram humilhadas e violadas sexualmente. Perguntamos qual era o delito de que éramos acusadas e ninguém sabia responder a essa pergunta. Os policiais nos responderam: “só recebemos instruções”.
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Afortunadamente, estive detida apenas 15 dias. Durante esse tempo, estivemos incomunicáveis, sem atendimento médico, torturadas psicologicamente. Assim que pude dar um telefonema, comuniquei-me com meu esposo e filho e lhes disse que tinham que sair de casa, pois fiquei sabendo que os granadeiros estavam invadindo as casas. Meu filho respondeu: “Não vamos nos abrir” (não recuaremos). Nesse momento fiquei com um nó na garganta e lhe disse que só fizéssemos uma pausa dentro da luta e que continuaríamos juntos quando eu saísse da prisão. Ao sair da prisão, meu esposo me esperava na porta, assim como vários companheiros solidários. Em casa estava meu filho; minha filha estava cuidando de uns parentes. Meu esposo pensou que ao sair eu deixaria de participar da luta social, que regressaria espantada e me ocuparia dos serviços de casa e do meu trabalho, como fazia antes, mas não foi assim. Já que agora até me tornei “grossa” respondi que já não encontrava outra forma de expressar minha coragem, minha impotência, minha indignação, que era uma mulher que não tinha nascido só para parir filhos e ser dona de casa. Agora tinha aprendido algo novo, a buscar mais formas de defesa; que, se ele queria se separar de mim em razão das diferenças de forma de pensar, eu estava disposta, mas não me retiraria da luta, que agora era por defender nossos direitos e fazê-los respeitar. Que sozinha não conseguiria e que tinha que continuar com a organização. Basta a mulher ser submetida, humilhada, pisoteada, violada! etc. Além do mais, temos companheiros presos, e eu disse que não descansaríamos até conseguir a liberdade de todos. Ele ficou surpreso e calado ante minha resposta. Mas, sobretudo, agradeço o apoio que até agora continua me proporcionando. Companheiros, esta é uma parte do que vivemos e a resistência que continuamos dando como mulheres da FPDT. Esta é a forma com que acreditamos estar contribuindo com a luta nacional e internacional. Com dois anos da repressão, atualmente temos três companheiros detidos em uma prisão de segurança máxima, sentenciados a 67 anos e meio de prisão, 13 companheiros no presídio Molino de Flores Texcoco, assim como vários companheiros exilados. A Comissão Nacional de Direitos Humanos, em suas recomendações, não exigiu castigo aos culpados materiais e intelectuais; unicamente mencionou que houve violações aos direitos humanos. No entanto, o governo do México, por intermédio dos meios de comunicação de massa, criminaliza nossa luta social, acusando-nos de delitos como: delinqüência organizada, seqüestro equiparado e ataques a vias de comunicação. Em algum momento também nos acusaram de terroristas, mas, como FPDT, dizemos que somos defensores da terra, da história, da cultura e das tradições, defensores de Direitos Humanos como vocês. O “3 de maio” utilizou essas formas de criminalizar a Frente, repetindo por televisão as cenas em que pessoas de Atenco golpeavam nos genitais a um policial, mas nunca exibiram as imagens das companheiras que foram torturadas física e psicologicamente, violadas sexualmente, ameaçadas de morte.
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Exortamos a todas as companheiras a que participem em suas diferentes formas e atividades, além de propormos alternativas para avançar na luta social, articulando-nos, movendo-nos em uma mesma direção para denunciar que nossos direitos não são reconhecidos nem respeitados. Atualmente, como FPDT, continuamos nos reorganizando e trabalhando com projetos no campo – para desmentir o governo que diz que essas são terras inférteis –, projetos de comunicação e educação, entre outros, para nossas comunidades, retomando o trabalho que já vínhamos fazendo antes da repressão, bem como realizando atividades para arrecadar fundos e dar continuidade à luta social. Algumas das propostas que temos como FPDT para resistir à criminalização dos movimentos sociais são: • Realizar enlaces e articular as lutas, nacionais e internacionais, para que assim continue sendo denunciado publicamente, de todas as maneiras possíveis, o que sucede em nossos países e comunidades. • Criar mais meios de comunicação alternativos, comprometidos com a luta social. Nossa prioridade neste momento é a liberdade dos presos políticos não apenas de Atenco, mas de todo o país e do mundo inteiro, pois também estamos participando da Frente Nacional contra a Repressão (FNCR). Não mais violações aos direitos da mulher, nem às garantias individuais! Não mais violações aos Direitos Humanos! Nem um passo atrás, companheiros! Presos políticos em liberdade! Zapata vive… a luta continua!

Frente de povos em deFesA dA terrA
Tradução: Beatriz Cannabrava

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o Crime de ser mst (BrAsil)

Leandro Gaspar Scalabrin 181

Há 500 anos caçamos índios e operários Há 500 anos ... não somos nada violentos Há 500 anos ... sonhamos a paz da Suécia com suíças militares, Há 500 anos a polícia nos dispersa
Que país é esse? AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

Criminalizar significa considerar como crime. Considerar como crime atos e protestos ou os integrantes e líderes de movimentos sociais não é nenhuma novidade no Brasil ou na América Latina, onde assassinatos, ameaças, difamação pela imprensa, prisões e espionagem de defensores de direitos humanos são fatos comuns que acontecem todos os dias. Agora criminalizar a existência de um movimento social sob a acusação de “defender o socialismo”, “desenvolver a consciência revolucionária”, possuir uma “opção leninista” ou cultuar personalidades do comunismo como Karl Marx e Che Guevara eram fatos que não aconteciam no Brasil há mais de 20 anos, quando a campanha pelas “diretas já” anteciparam a derrocada da ditadura militar. O Estado do Rio Grande do Sul, conhecido no mundo todo por ter sediado os primeiros Fóruns Sociais Mundiais em Porto Alegre, passou a ter sobre si o foco de atenção dos democratas de todo o País por ser o palco de um conjunto de ações obscurantistas, dignas do auge da Guerra Fria e das ditaduras militares na América Latina. Em 11 de março de 2008, o Ministério Público Federal de Carazinho ingressou com ação criminal, aceita pela justiça federal, contra oito supostos integrantes do MST pelo cometimento de delitos contra a “Segurança Nacional”, com base na Lei de Segurança Nacional (LSN) promulgada em 1983, no final da ditadura militar. Segundo a denúncia, nos anos de 2004, 2005 e 2006, os grupamentos dos quais faziam parte os acusados “constituíram um ‘Estado paralelo’, com organização e leis próprias”, teriam resistido ao cumprimento de ordens judiciais, “ignoraram a legitimidade da Brigada Militar”182, teriam utilizado táticas de “guer181 LEaNdRO GaSPaR SCaLaBRiN advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e membro da Rede Nacional de advogados e advogadas Populares (Renap). 182 denominação da Polícia Militar do RS.

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rilha rural” e estariam recebendo apoio de organizações “estrangeiras”, tais como a via Campesina e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)183. “Eles (os sem-terra) afrontaram o Estado de direito de forma sistemática”, declarou a procuradora que ingressou com a ação em entrevista à imprensa. Estes fatos são enquadrados nos artigos 16, 17 e 20 da LSN, cujas penas máximas somadas são de 30 anos de reclusão e tratam dos “integrantes de grupamentos” que tenham por objetivo a mudança do Estado de Direito com uso de violência e de atos de terrorismo por inconformismo político. Se todo mal traz um bem consigo, o mérito desta ação penal foi divulgar a existência de três documentos “secretos” que a procuradora usa como “provas” contra os acusados. O primeiro deles intitulado “Situação do MST na região norte do RS”, de maio de 2006, elaborado pelo Coronel waldir João Reis Cerutti, comandante do Comando Regional do Planalto da Brigada Militar do RS. Neste relatório do serviço secreto da BM (PM2), de caráter “Reservado”, demonstra que órgãos públicos federais como o Incra e a Conab, um deputado estadual e movimentos sociais (MST, MAB e MPA) são alvos de investigações dos serviços secretos da Polícia. Nas conclusões são apresentadas várias “teses”: vinculação do governo federal ao MST; do MST com o PCC; do MST com as Farc; presença de estrangeiros nos acampamentos para dar treinamento militar; e a mais espetacular de todas, a de que o movimento objetiva criar uma “zona de domínio” territorial no Sul do Brasil, na região compreendida entre a Fazenda Anoni (onde 400 famílias estão assentadas) e a Fazenda Guerra (área cuja desapropriação para reforma agrária é reivindicada), por ser uma região “estratégica” do ponto de vista geopolítico por sua localização que permitiria acesso às fronteiras com a Argentina e por ser uma das mais ricas e produtivas regiões do Estado. O Coronel184, que é a principal testemunha na ação por crime contra a segurança nacional, qualifica a maioria dos sem-terra como “massa de manobra” de líderes da via campesina. O segundo deles, o Relatório de Inteligência “Reservado” 1124-100-2007, elaborado pelo serviço secreto da BM (a PM2), a pedido do Subcomandante Geral do Estado Maior, Cel. Paulo Roberto Mendes Rodrigues, conclui que a atuação da via Campesina – em especial o MST – afronta a ordem pública e a ordem constituída, caracterizando-os como movimentos que deixaram de realizar atos típicos
183 Cabe destacar que, a pedido da procuradora, a Polícia Federal de Passo Fundo investigou o MST do RS durante o ano de 2007 e não conseguiu encontrar provas da existência de vínculos do movimento com as Farc ou presença de estrangeiros realizando treinamento de guerrilha nos acampamentos do movimento, concluindo pela inexistência de crimes contra a segurança do Estado, não indiciando nenhum acusado e requerendo o arquivamento do inquérito policial. 184 Quando de sua passagem para a reserva em 2007, em entrevista ao jornal Periódico Central de Passo Fundo, o Coronel declarou que durante a ditadura militar brasileira, nos anos 80, permaneceu cerca de três anos infiltrado no MST, no acampamento da Encruzilhada Natalino. Com o codinome Toninho, representou um funcionário barbudo e cabeludo do incra, que conquistou a simpatia de parte dos acampados e deixou 34 afiliados de batismo e casamento: “Fiquei cerca de três anos no Serviço de inteligência. Morava nas barracas junto com os sem-terra. Quando tinha oportunidade, passava informações para o comando através de um rádio escondido numa borracharia das proximidades. Meu objetivo era convencer as pessoas a irem para os assentamentos oferecidos pelo governo. assentei muita gente no Mato Grosso”.

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de reivindicação social para realizar ações criminosas, taticamente organizadas como se fossem operações paramilitares. O Coronel Mendes é o principal articulador desta visão sobre os movimentos sociais do RS dentro do Estado Maior da Policia Militar e do atual governo estadual, tendo sido promovido ao cargo de comandante geral da corporação em 11 de junho de 2008, mesma data em que comandou o maior episódio de repressão visto no Estado nos últimos dez anos. Uma passeata com 400 pessoas pelas ruas de Porto Alegre contra a corrupção no governo estadual foi violentamente dissolvida com gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, disparos de balas de borracha e cavalaria, deixando 12 manifestantes feridos (um gravemente, com hemorragia interna) e outros 12 presos. “Não podemos aceitar baderna” e “não vamos abrir mão do uso de energia”, foram as declarações do Coronel à imprensa ao se referir aos movimentos sociais. O conhecimento do Relatório 1124-100 permitiu aos movimentos sociais do RS compreender o motivo da atuação da Polícia Militar, que passou a ser abusiva, desproporcional, violenta e militarizada, como se estivesse agindo numa guerra contra um “inimigo interno”, nos últimos dois anos (2007 e 2008). Neste período foram descobertos inúmeros grampos telefônicos clandestinos, ocorreram apreensões ilegais de documentos e agendas de manifestantes, infiltração de agentes da PM2 como agitadores em protestos, monitoramento de pessoas e sedes de entidades e identificação criminal “massiva” dos participantes de atos públicos, sejam de estudantes, sindicalistas ou integrantes de movimentos sociais185. Na maioria dos despejos e protestos ocorreu a mobilização de grandes contingentes de policiais (de 100 e 800 policiais) do Batalhão de Operações Especiais (BOE), com uso de fardamento camuflado (semelhante ao do exército), aquartelamento das tropas, mobilização da banda marcial e formação de pelotões com cavalaria e matilhas de cães. Alguns fatos são ilustrativos desse “novo jeito de governar” protestos populares: em 23 de março de 2007, 600 policiais militares foram mobilizados para despejar 36 famílias sem-teto que ocupavam um prédio em Porto Alegre; em 24 de abril de 2007, três comerciários ficaram feridos ao serem expulsos da frente de uma loja onde realizavam ato da campanha salarial; em 28 de novembro de 2007, 300 integrantes do MTD foram forçados a marchar “em passeata” até a delegacia; em 14 de março de 2008, estudantes e professores foram impedidos de protestar em frente à Secretaria Estadual de Educação, uma professora é retirada algemada do local; em 4 de abril de 2008, 50 mulheres camponesas (duas grávidas) ficaram feridas num protesto contra o “deserto verde” e a multinacional Stora Enzo, uma foi presa e as trezentas participantes ficaram detidas e sem comida por quase dez horas; em 4 de junho de 2008, 100 PMs e um helicóptero sob o comando do Cel. Mendes foram mobilizados para impedir que 27 sem-terra (quatro crianças) fossem impedidos de montar um acampamento na beira de uma rodovia estadual; todos receberam voz de prisão e depois de “fichados” foram liberados.
185 Estima-se que mais de 2.000 manifestantes e lideranças foram “fichados” pela PM2 nestes dois anos; pelo menos 200 responderam processos judiciais.

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No entanto, o fato mais significativo de todos talvez tenha sido a atuação conjunta da Polícia Civil (60 agentes), Polícia Militar (800 policiais), Polícia Federal, Corpo de Bombeiros e Polícia Rodoviária Estadual, para empastelar, desbaratar, dissolver, 40 anos depois de a ditadura militar brasileira ter dissolvido o Congresso da UNE em Ibiúna – SP, o XXIv Congresso Estadual do MST. O álibi para a dissolução foi o cumprimento do mandado de busca e apreensão de R$200, uma máquina fotográfica e um anel. Esse exército de mil homens e aproximadamente cem viaturas, helicópteros, cavalaria, cercou todos acessos à comunidade da Coanol, no assentamento da Fazenda Annoni (berço do MST no Brasil). A área ficou “congelada” o dia inteiro. Desde as seis horas da manhã nenhum dos mil e quinhentos participantes do congresso pôde entrar ou sair do local. Todas as atividades programadas para o último dia, quando seriam tomadas as principais deliberações, foram suspensas. Os presentes queriam fazer valer seu direito de reunião; a PM queria ingressar e identificar criminalmente todos os participantes. No final da tarde, cerca de 200 policiais ingressaram no local e revistaram os ônibus e alojamentos: nada foi encontrado. O congresso estava encerrado. No quente 17 de janeiro de 2008, lá estava o Cel. Mendes comandando a operação de guerra no “quartel-general” de seu “inimigo”. O terceiro documento revela que o Conselho Superior do Ministério Público do RS, órgão independente dos outros três Poderes da república, cuja missão é defender a Constituição Federal, instaurou um procedimento administrativo e designou dois promotores para realizar um levantamento de dados sobre as atividades do MST. Os investigadores enfocaram em sua tarefa a “atividade de inteligência”, “fundamental para [...] planejamento estratégico”, formulando relatório com os seguintes tópicos “1. Compreensão do fenômeno MST, 2. Identificação de seus focos de atuação, 3. Esclarecimento de seu modus operandi, 4. Levantamento das conseqüências de sua atuação, fáticas e jurídicas; 5. Propositura de linhas de enfrentamento do problema”. As conclusões da investigação, muito mais políticas do que jurídicas, são semelhantes as do serviço secreto da PM. O MST é caracterizado como “organização criminosa”, de “caráter paramilitar”, que estaria buscando a estruturação de um “Estado paralelo”. Ao apresentar o relatório conclusivo das investigações ao CSMP, o conselheiro-relator, Procurador Gilberto Thums, defendeu a necessidade de “desmascarar o MST”, por se tratar, segundo ele, de uma organização criminosa, com nítida inspiração “leninista”, que se utiliza de “táticas de guerrilha rural”. O procurador criticou a complacência do poder público, notadamente dos “governos de esquerda” que se limitariam a “fornecer cestas básicas, lonas para as barracas, cachaça, treinamento em escolas para conhecer a cartilha de Lenin, etc.”. O procurador chama de “vagabundos” e “invasores movidos a cachaça” os sem-terra e propõe que sejam ingressadas ações judiciais para a
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“dissolução do MST e a declaração de sua ilegalidade”; “suspender marchas colunas, ou outros deslocamentos em massa de sem-terra”; “investigar os integrantes de acampamentos e a direção do MST pela prática de crime organizado”; intervir “nas três ‘escolas’ [...] de influência externa do MST”; desativar os acampamentos “que estejam sendo utilizados como ‘base de operações’ para invasão de propriedades”; investigar os “assentamentos promovidos pelo Incra ou pelo Estado do Rio Grande do Sul”. Por fim, sugere a “formulação de uma política oficial do Ministério Público [...] com a finalidade de proteção da legalidade no campo”. Na reunião de 3 de dezembro de 2007, o voto e os encaminhamentos propostos pelo procurador foram submetidos e aprovados por unanimidade pelo CSMP. O conselho decidiu ainda “que o referido expediente [o Processo Administrativo 16315-09.00/07-9] tem caráter confidencial...”. Após ter sido denunciado publicamente o teor dessa deliberação, o CSMP esclareceu que em 7 de abril de 2008 se reuniu em nova sessão, solicitou informações sobre o cumprimento das medidas aprovadas, quando seus membros manifestaram “total apoio aos Promotores de Justiça designados por tratar de tema de segurança pública” e, ao final, decidiram por desclassificar o processo administrativo quanto a seu caráter sigiloso e retificar a ata de 3 de dezembro de 2007, para suprimir a determinação anterior de ajuizamento de ação civil pública para dissolução do MST e a declaração sua ilegalidade. Tamanhas foram a repercussão e a reação dos setores democráticos da sociedade brasileira, inclusive do próprio Ministério Público do RS, que em 30 de junho de 2008, em nova reunião do CSMP, houve nova retificação da famosa ata, em que constou q0 de junho de 2008, e novamente retificou a ata de 3 de dezembro, afirmando que tudo não passou de um equívoco, tudo que estava contido na ata não foi aprovado, fazendo constar que a deliberação do conselho teria sido somente a de designar “Promotores de Justiça para conhecer do expediente e levar a efeito as medidas legais cabíveis”, e não os encaminhamentos propostos pelo Procurador Thums. Equívocos à parte, cabe questionar por que o CSMP decidiu investigar o MST. Ou melhor, por que não decidiu investigar outros “movimentos” que também poderiam ser considerados “ações criminosas” e “formação de quadrilha”, com peculiar modus operandi, como a atuação de empresas transnacionais e de latifundiários no contrabando de sementes transgênicas, na implantação do “deserto verde” ou na construção de hidrelétricas. Cabe questionar também se compete ao CSMP, órgão administrativo da instituição, tomar definições vinculantes para seus membros, fato que a Constituição Federal veda, e ainda questionar por que o fiscal da lei não processou os comandantes da PM por terem invadido a esfera de competência de outras
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polícias e por ter realizado procedimentos ilegais, similares aos da época da ditadura militar. Por que não investiga as terras públicas apropriadas ilegalmente pelo latifúndio? Por que não investiga os integrantes da Farsul que estão ameaçando de morte proprietários que se dispõem a vender terras para reforma agrária? Questionamentos de lado, o fato é que várias decisões propostas pelo relator do processo foram executadas por integrantes do MP em todo o Estado do RS. várias ações visando impedimento de marchas, proibindo marchas de ingressar na Comarca de Carazinho, visando o cancelamento de títulos eleitorais, retirando crianças de marchas, solicitando despejos de acampamentos, já haviam sido ingressadas. No dia 11 de junho de 2008, mesmo dia em que o Cel. Mendes dispersava uma manifestação nas ruas da capital gaúcha, vários promotores ingressaram com uma ação judicial e obtiveram liminar para o despejo de dois acampamentos do MST existentes sobre áreas particulares, propriedade privada legalmente cedida pelos seus proprietários para os acampados, e, no dia 17 de junho de 2008, os mesmos Promotores de Justiça ingressaram com outras três ações nas Comarcas de São Gabriel, Canoas e Pedro Osório, criando zonas de restrição de direitos ao redor de três fazendas que são reivindicadas para fins de reforma agrária pelo MST. Isso demonstra que essas ações são resultado da decisão aprovada pela instância máxima do Ministério Público do Rio Grande do Sul e compõem uma estratégia institucional que tem por finalidade “desmontar” o MST. A lógica de todas as ações parte de um argumento central: o MST é uma organização criminosa, paramilitar, é preciso “desmontar bases” (não por acaso as quatro ações civis se dirigem contra os quatro principais pólos de acampamento do MST atualmente existentes no Estado). Na prática, as ações criaram zonas especiais, onde o direito de ir-e-vir, direito de reunião e manifestação estão suspensos e colocam em risco a integridade física de cerca de 800 famílias que estão à mercê da violência e abuso de poder da PM, que agora tem respaldo judicial para “combater” seu “inimigo”. Os fatos que estão acontecendo no RS, materializados em três “fronts de luta” simultâneos contra o MST, mostram que historicamente os movimentos sociais são combatidos de três maneiras: ignorando-os, cooptando-os ou criminalizando-os. Quando não se consegue cooptá-los, depois de terem sido ignorados e continuarem existindo, o remédio é considerá-los crime. E ao considerá-los crime não é porque se é contra o “movimento” em si, este ser abstrato, mas é por serem contra aquilo que ele propõe de concreto. No RS a reação a que se assiste é contra a reforma agrária, essa minguada reforma agrária que o MST pouco tem conseguido ajudar a fazer, a conta-gotas, conta-grãos. Esse é o crime do MST. E, se é verdade que a melhor forma de defender um direito é exercendo-o, não há jeito; para se “descriminalizar” o MST, vai ter que continuar fazendo reforma agrária, vai ter que continuar sendo MST.
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lA leGuA YorK (CHile)
repressão dos poBres e dos movimentos soCiAis nA perspeCtivA dA Juventude

Gustavo Arias186

Geralmente, não pensamos muito sobre este tema tão particular, que é a forma como a repressão é vivida no nosso país, que empunha bandeiras de uma chamada democracia participativa. A partir do convite para o encontro latinoamericano que seria realizado no Brasil, juntamos olhares sobre esse assunto, travamos uma árdua conversação sobre o que eu, do meu ponto de vista de morador de um bairro popular, de jovem e de dirigente social, posso aportar. Neste país chamado Chile, a cada dia a primeira repressão é a da mídia, já que por meio dessas vitrines de massa são acusados, sentenciados e estigmatizados setores da população, movimentos sociais, seus dirigentes e mesmo pessoas físicas. A situação é tão grave que a chamaremos de homicídio midiático, pois muitas vezes, ao ocorrer esse julgamento, a busca de expectativas ou de sobrevivência se vê truncada de forma quase absoluta. O nível de questionamento em relação ao que é apresentado pelos meios massivos é quase nulo por parte da cidadania, o que provoca um estado de total credibilidade ao que é expresso por esses meios de desinformação. É assim que podemos falar dessa repressão como a mais atual e evidente, mas que não é a única, pois fisicamente a repressão é vivida nas populações mais emblemáticas do nosso país. As mesmas que ainda ontem eram chamadas de populações combativas hoje são acusadas como focos de droga e delinqüência, o que pretende justificar um estado de sítio por parte da polícia, e onde em cada esquina é feito o controle de identidade, e não precisamente da melhor forma. Existem depoimentos sobre esse tema que constatam os atropelos aos direitos humanos básicos nestas práticas policiais, que chegam a ponto de desnudar as pessoas em plena via pública, revistar roupas, bolsas, e, o que é pior, fazer uma revista inclusive anal ou vaginal às mulheres, para constatar se levam drogas. Esse é o nível do que hoje o Estado chama intervenção nos lugares de alto risco. No final do texto, agrego alguns depoimentos. Além de territorialmente reconhecermos como bairros populares, com uma dinâmica ligada ao mundo cultural e político, vemos como a população infanto-juvenil em seu conjunto é hoje sujeito de repressão e perseguição constante por parte do Estado. Como exemplo, temos a redução da idade penal, as perseguições em razão da forma de vestir, a falta de oportunidades de educação e trabalho. Mostra do descontentamento desses grupos foi, sem dúvida, a chamada revolução pingüim, em que o conjunto de necessidades da juventude atual, en186 GuSTaVO aRiaS, mais conhecido como “Lulo” da banda de Hip Hop e coletivo cultural Legua York (Santiago-Chile), é militante da Juventude Comunista, ele é o encarregado nacional de cultura e sua atuação se insere no pacto “Juntos podemos mais”.

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cabeçada, é claro, por algo tão básico como a educação, fez com que os jovens levantassem a voz para exigir direitos e necessidades. Essa iniciativa foi fortemente reprimida pelo estado policial encabeçado pelo Ministério do Interior, como uma resposta aos movimentos sociais em nosso país. Depoimentos de habitantes de La Legua Fonte: www.lalegua.cl ----------------------------------------------------------------------------------------Eu tinha deixado meu filho no colégio e regressava para minha casa quando na rua Cabildo uma patrulha de carabineiros me parou e pediu meu documento de identidade. Como não o tinha comigo, lhes dei o número e me perguntaram o que eu fazia por ali. Eu lhes disse que morava aqui em La Légua. Havia um carabineiro muito antipático e outro que era mais amável e, depois de um montão de perguntas, um deles queria me revistar ali na rua. Eu disse que para isso iam ter que me levar para a delegacia, porque eu não ia deixar que nenhum dos dois me tocasse. Então um disse para o outro: vamos deixar que ela vá embora, seu único pecado é morar em La Legua. Eu lhe respondi que “como podia dizer isso?” e sua resposta foi: “pode ir”. Tenho 27 anos e sou nascido e criado em La Legua Na quinta-feira, 6 de abril, eu ia andando para deixar uma garota na esquina da rua Toro y Zambrano, lá pelas 17 horas, quando me exigiram o carnê de identidade, que eu não tenho. Eu tampouco quis parar, o que provocou que me tomassem por delinqüente. À força, com palavrões, me algemaram e me atiraram no furgão policial levando-me para a 50.ª Delegacia. Lá me bateram e me maltrataram, perguntando: Quem tinha a droga? Depois me despiram e um deles me deu uma paulada no joelho. Eu levava dois papelotes de pasta básica para consumo pessoal, já que sou viciado. Disseram-me que tinha que esperar que chegassem os da pesagem e depois de três horas me soltaram. Caminhando pela rua Pedro Alarcón, quase chegando na esquina de Toro y Zambrano, às 22h30 aproximadamente do dia 22 de novembro, uma patrulha me detém junto a meu companheiro, exigindo-nos o carnê de identidade. Como estávamos voltando depois de deixar um amigo no ponto de ônibus a dois quarteirões da casa onde morávamos, não levávamos nossos carnês. Fizeram-nos subir no furgão policial e nos despiram, porque, como dizia um dos carabineiros: “se tivessem o carnê o tratamento seria diferente... Assim, pois, senhores, se não querem arriscar 6 horas de detenção – poderíamos levá-los por 3 a 6 horas – devem andar com o carnê”. E por causa de vizinhos, transeuntes e amigos que começaram a se aproximar para saber o que acontecia e do grito de um menino de no máximo uns cinco anos dizendo “tiras fodidos”, o carabineiro disse: “90% das pessoas de La Legua são assim, é preciso ter cuidado com elas porque até para as crianças de dois anos ensinam, antes de dizer papai, a dizer ‘tiras fodidos’... pensam que estamos aqui porque
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queremos? Porque o governo nos manda, porque o governo tem um programa, se fosse por mim eu deixaria que se matem sozinhos, que os mate a droga...”. Nós tivemos sentimentos ambivalentes, misturados. Desde impotência pela forma como se davam as coisas, até indignação por entender que se trata de uma injustiça permanente. vontade de acabar logo com tudo, tanto assim que velhos e solidários vizinhos ficaram discutindo com os carabineiros por causa do tratamento que nos deram e seu evidente desprezo para com os seres humanos que os rodeavam. Enquanto isso, nós decidimos ir embora... sair de uma situação que nos competia diretamente, mas na qual nos sentíamos profundamente indefesos, injuriados, vulneráveis e desatendidos, impotentes e amargos. Em menos de duas semanas fui detido três vezes por carabineiros que trabalham no bairro onde moro. Em duas delas me obrigaram a tirar a roupa. O que foi constante nas três vezes foi a agressão verbal e psíquica que vivi. Palavras que denotavam um forte desprezo, raiva e desdém tanto por seu trabalho como pelas pessoas do nosso bairro. Obrigado a mostrar a bunda, obrigado a tirar a roupa, baixar as calças e a cabeça, a consciência e a compreensão. Dá ganas de dizer: de que se trata? Dizer que não e ficar na cela até quando eles queiram, por não andar com carnê de identidade!!! Por não levar o papel pelo qual o Estado nos reconhece, nos dá vida, nos faz existir, ser? Passar. Isto ocorreu entre as 11h30 e as 12 horas do dia 15 de fevereiro na esquina da rua Santa Elisa com Alcalde Pedro Alarcón. Íamos no furgão com meu pai e meus dois sobrinhos, Martín e Antonia, que têm 3 e 2 anos respectivamente, em direção à Grande Avenida esquina de Carlos valdovinos, onde compramos quase todos os dias a mercadoria que meu pai vende na barraca que tem na feira. Eu guiava tranqüilamente e na velocidade que a lei exige, quando aparece um carabineiro indicando que eu encoste no meio-fio. Paro, desligo o motor, puxo o freio de mão e o meganha pede minha carteira de motorista que eu entrego sem nenhum problema. Depois me pede os documentos do furgão (licenciamento, seguro, revisão técnica, revisão de poluentes, etc.); eu os dou e tudo está bem, todos em dia e nenhum papel com data vencida. O meganha pergunta meu endereço e lhe respondo Cabildo 3831, que é o endereço dos meus pais, e me diz que vai me multar porque na minha carteira aparece outro endereço (Progresso 386, endereço da casa da minha irmã), e não o que eu disse. Depois fica me olhando e diz: “outra multa por dirigir sem cinto de segurança”, ou seja, já eram duas. Uma por não ter mudado o endereço da carta de motorista (atualização de endereço) e outra por falta de cinto de segurança. Falo com ele explicando que para nós era difícil pagar uma multa porque o trabalho estava fraco e que realmente não tinha, nem tenho, como pagar a multa. O meganha nem se interessa, eu peço para falar com o chefe da patrulha ou da unidade policial que tinha detido a gente e contamos a mesma coisa: que era impossível para nós pagar essa multa. E o meganha nos diz que vai lavrar a multa do mesmo jeito. Quando me disse isso, eu lasco um xingamento e meu pai me acompanha na raiva. Na discussão me lembro das crianças que estavam no furgão e a essa altura muito assustados. O meganha agarra meu pai para levá-lo preso e eu bato no seu braço para que o solte. A discussão era cada vez mais forte e digo ao meganha que me deixe ir
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levar as crianças em casa porque estavam muito nervosas e ele me diz que tudo bem. Subo ao furgão no rumo da casa de meus pais que fica a três quadras de onde nos haviam detido. Damos a volta por Cabildo e uns cinqüenta metros adiante atravessam no caminho um carro das forças especiais e dois carros de carabineiros. Eles descem com ímpeto, abrem a porta do furgão e um me agarra pelos cabelos e outros me apontam suas armas de fogo. Enquanto me descem do furgão, um deles me bate nas costas com a culatra de sua metralhadora; me atiram no chão e me algemam, me fazendo subir no carro patrulha. Entre tanto nervosismo e preocupado com as crianças – já aterrorizadas –, dizia aos tiras que deixassem as crianças em casa. Levaram-me para a 50.ª Delegacia com as crianças, meu pai e o furgão. Depois me transferiram para o Barros Luco para exame de corpo de delito. Encontraram um hematoma e me deram duas doses de antitetânica. A denúncia que eles fizeram foi por desacato aos carabineiros e nos deixaram citados para a promotoria militar. ------------------------------------------------------------------------------------------Eu cheguei ao bairro há um ano e alguns meses. Estava procurando casa junto com um amigo, vínhamos desde Legua Nova até Legua Emergéncia para visitar alguns amigos e famílias, descendo pela rua Carlos Fau em direção a Canin. Era noite, dia 25 de fevereiro, quando uma patrulha de carabineiros nos deteve e perguntou: de onde éramos? O que estávamos fazendo? Por que tão tarde? Onde morávamos? Que tanto olha? Eu não respondi, pois pensava para mim mesmo: “O que é que há com esse meganha?”. Podia fazer mais perguntas, ou pior, que as perguntas se acabassem. A única coisa que pude dizer foi que ele me intimidava, e ele continuou: Está nervoso? Carrega droga?... é melhor que não, moleque, passe aqui pra dentro logo. Em seguida, respondi que não carregava droga e que só estava indo ver alguns amigos… Ah, sim… o carnê… eu o perdi anteontem, respondi. Outro abriu a porta do carro patrulha e pediu meus dados. Enquanto eu dizia, o outro me pegava pelo braço para que eu subisse na caminhoneta. Ali começaram a revistar minhas coisas pessoais, a bolsa, os cadernos, os lápis. Depois os tênis: eu os mostrei e ele respondeu: Ah, sim? tire as meias; e depois fechou mais a porta e a tapou com o corpo. Eu já não podia ver meu amigo, já era pânico o que eu sentia. Ele me disse: “abaixe as calças”. Eu não reagi e só me saiu um: O quê? O meganha me diz: “Mira panaca eu vou dizer só mais uma vez, porque sou novo por aqui, este bairro está sob intervenção do Estado, assim que faça só o que eu digo se não quiser que eu te leve pra delegacia e aí não vamos estar explicando porra nenhuma, não me faça perder tempo”. Eu abaixei as calças e ele logo me indicou que a cueca também, e ao fazer isso riu burlescamente e me disse, rindo: “Tenha cuidado, panaca, que aqui você não está na sua casa, aqui as coisas são diferentes”. Eu desci da patrulha, pálido e vi a impotência do meu amigo que havia passado pela mesma coisa. Os dois sem saber o que fazer ou como poder seguir com dignidade depois dessa vergonha. Seguimos caminhando, acendemos um cigarro para tranqüilizar-nos, enquanto nos aproximávamos da esquina de San Gregorio onde estava a mesma patrulha revistando e envergonhando outro. Tradução: Beatriz Cannabrava
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