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Desenvolvimento humano e desenvolvimento social
Human development and Social development
YGOR DIEGO ALVES Professor de Graduação / Pós UNINOVE. e-mail: antropologiaygor@yahoo.com.br

RESUMO O presente artigo analisa os conceitos de desenvolvimento, desenvolvimento social e desenvolvimento humano a partir da própria ideia de movimento, passando pelas diversas formas que o desenvolvimento foi adquirindo no pensamento moderno e particularmente na escola desenvolvimentista latino-americana, até atingir às propostas de Amartya Sen que dão base ao IDH, sua crítica e possível superação.

ABSTRACT This article analyzes the concepts of development, social development and human development from the very idea of movement, through the various ways that the development was acquired in modern thought and especially in Latin American developmental school, reaching to the proposed Amartya Sen that underlie the HDI, its criticism and possible evolution.

PALAVRAS-CHAVE Desenvolvimento social, Desenvolvimento humano, IDH, Amartya Sen, Emancipação.

KEYWORDS Social development, Human development, HDI, Amartya Sen, Emancipation.

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1 INTRODUÇÃO Os conceitos de desenvolvimento humano e desenvolvimento social guardam uma história de alguns séculos no ocidente, com inequívocas intenções políticas por parte de atores sociais específicos que iremos expor brevemente. Discutiremos algumas das diferentes formas de abordar os temas que se sucederam, com direito a idas e vindas. As bases filosóficas de liberdade, e os limites que a ideologia liberal impõe às construções produzidas pela ONU e particularmente pelo PNUD atualmente. Concluiremos com uma abordagem que consideramos mais realista na busca da autodeterminação.

2 O QUE É DESENVOLVIMENTO? A noção de desenvolvimento guarda em sua origem relação com o conceito aristotélico de movimento, ou seja, com a passagem da potência ao ato. É a realização do que está em potência, a construção de algo, a aprendizagem de uma língua, a cura da enfermidade, o crescimento de uma economia e o envelhecimento. Seu fundamento é seu motor, princípio e causa do movimento, daí o teorema basilar da física aristotélica de que tudo o que se move é movido por alguma coisa. Modernamente, a partir do filósofo Guilherme de Ockham (ABBAGNANO, 2007) o movimento pode ser visto como a mudança de relação, de algo com aquilo que o circunda. Movimento é o mesmo que mudança. E o que seria desenvolvimento? É o movimento, como brevemente exposto acima, só que com uma dada direção que encaminha este algo para melhor. O significado otimista do termo é próprio do séc. XIX e o torna estreitamente ligado, se não sinônimo, dos conceitos de progresso e evolução. O primeiro dos dois conceitos foi de vital importância para a política e para as políticas sociais. Está inscrito na bandeira brasileira. E designa duas coisas, primeiramente, que algo, agora de maneira mais específica, tomado como série de eventos, se desenvolva na direção desejável. E em segundo lugar, considerando-se os acontecimentos históricos, eles também se desenvolveriam na direção do mais desejável, realizando um aperfeiçoamento ou aprimoramento constante. Essa forma de ver a história humana como desenvolvimento, ou progresso, é alheia à Antiguidade e à Idade Média. Os antigos viam a história como um processo de decadência, a partir de uma perfeição primitiva, ou idade do ouro. Ou de eventos que se repetiriam identicamente, de forma cíclica e ilimitada. Isso muda radicalmente na modernidade, tanto que conforme o DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS (1986), para o filósofo alemão Immanuel Kant: “A história da espécie humana como um todo pode ser considerada o desdobramento de um plano da natureza oculto para atingir um perfeito estado de constituição civil para a sociedade”. É o positivismo de Augusto Comte que irá definitivamente firmar a ideia de história como desenvolvimento, só que agora com um algo específico, que seria a ordem. O curso dos eventos históricos, da mesma forma que os naturais, constituiriam uma série unilinear, ou seja, a direção do desenvolvimento, ou do progresso é sempre a mesma. Nesta séria de eventos

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históricos, cada termo do passado, presente e mesmo os que estão por ocorrer é necessário, não poderiam dar-se de outra forma nem ser diferentes do que são. Cada novo termo da série, ou etapa de desenvolvimento, acrescenta alguma coisa de melhor. E, finalmente, o desenvolvimento é inexorável, sem volta, impossível de ser detido, sendo qualquer retorno ao passado apenas aparente, enganoso, um disfarce para o que realmente é: uma condição necessária para um desenvolvimento maior. Uma visão diferente deste processo gradual, contínuo e integrado defendido por Comte pode ser encontrada na obra de Karl Marx, que via o desenvolvimento caracterizado pela descontinuidade e pela desarmonia, em que a mudança de um tipo de sociedade para outro, se desse de modo abrupto, motivado pela luta entre as classes sociais antagônicas. A ideia de desenvolvimento desigual (BOTTOMORE, 1996) caminha neste mesmo sentido, e significa que sociedades e países desenvolvem-se segundo ritmos diferentes, porém havendo sempre a possibilidade de que a vantagem de uns sobre os outros aumente, mas também, por força destas mesmas diferenças de ritmo, os retardatários podem alcançar e mesmo ultrapassar os inicialmente mais desenvolvidos. Isto é possível devido às revoluções tecnológicas que transformam radicalmente a base produtiva, e um país ou região que ficou para trás, por exemplo, na industrialização pode passar diretamente para uma economia pós-industrial, baseada nas tecnologias de informação, sem ter de passar obrigatoriamente pelo estágio industrial. A crise do conceito de desenvolvimento como progresso não tardou a aparecer. O filósofo Schopenhauer, já no séc. XIX, viu na história a repetição dramática da dor e do sofrimento. Nietzsche, com a teoria do eterno retorno, mostra uma concepção do tempo como girando eternamente em torno de si mesmo. Os pensadores da chamada Escola de Frankfurt, Horkheimer e Adorno (MATOS, 1993), viram o progresso não como uma evidência histórica, mas como uma ideologia de dominação da classe burguesa sobre as outras. Reconhecem as regressões das sociedades e percebem o presente como sociedade da total administração ou sociedade unidimensional, um mundo sem oposição, em que os conflitos são dissimulados. Um totalitarismo uniformizante no qual o desenvolvimento se paga com o desaparecimento do sujeito autônomo. O desenvolvimento como progresso é o triunfo da técnica e de sua racionalidade, o arquivamento do passado e apologia do presente, o que vem depois é necessariamente melhor que aquilo que veio antes. Se a história é progresso, e necessariamente para algo melhor, tudo que venha contrariar a direção rumo ao desenvolvimento é convertido em irracional e, no campo político, em opositor que deve ser eliminado. O movimento que vimos acima foi deturpado pela ideologia do progresso em falso movimento. Não mais passagem da potência a ato, não mais ação humana com vistas à realização plena de suas potencialidades, mas falso movimento, movimento de mercadorias em um mundo que elas criaram. O desenvolvimento como progresso, que vimos anteriormente, faz parte de um contexto histórico e filosófico maior conhecido como modernidade, que costuma ser associado a termos

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como esclarecimento, iluminismo, razão, técnica, progresso, emancipação e secularização, entre outros. É também uma propensão a pensar a história como um processo libertador em direção à igualdade, fraternidade, bem-estar, como exposto acima. E a crítica dos autores da Escola de Frankfurt faz do progresso rota de autodestruição da humanidade (HORKHEIMER, & ADORNO, 1983). O desenvolvimento não tem nada a ver com aumento da felicidade, muito pelo contrário, isso porque o domínio do homem sobre o mundo, possibilitado pelo uso da razão, por meio da ciência e da técnica, se faz através do domínio sobre o homem e por meio da renúncia ao instinto do prazer em nome do trabalho, da eficiência e do lucro. Um símbolo primeiro desta ética antinatural seria o herói grego Ulisses, da Odisseia, que para resistir ao canto das sereias e seus convites à felicidade pede para ser atado ao mastro do navio depois de tapar os ouvidos de seus companheiros com cera. O herói pode ouvir o canto, mas atado ao mastro do navio, de modo que, quanto maior seu desejo de livrar-se das amarras, mais fortemente vai se prendendo aos nós, assim como aqueles que vivem na sociedade moderna, sob a lógica burguesa do lucro máximo, também se privarão mais fortemente da felicidade quanto mais – pelo aumento da riqueza – a tiverem ao alcance da mão. O desenvolvimento ou progresso como ideologia indica qualquer movimento em direção a uma perfeição desejada, ligada a valores éticos previamente definidos, e designa também o processo histórico de aperfeiçoamento geral, necessário e irreversível da sociedade. São, portanto, os valores éticos que darão a direção do desenvolvimento. Definir quais valores irão legitimar tal ou qual ação em nome do progresso é a questão política crucial. Desta forma, caso a qualidade de vida como valor for contraposta à máxima eficiência, ou a superexploração do trabalho, como valores da racionalidade do lucro, o desenvolvimento pode se dar na direção de uma menor jornada de trabalho ou de uma valorização maior das atividades de lazer e culturais. A ideia de desenvolvimento pode ter surgido no ocidente com o cristianismo e sua perspectiva escatológica de aperfeiçoamento espiritual dada a crença na proximidade do fim do mundo. A transformação destas convicções dá-se nos séc. XVI e XVII, com a nova visão de mundo racional e científica de um progresso irreversível e indefinido. E agora não mais espiritual, mas técnico, e futuramente também social, econômico, cultural, sanitário. Porém, sua direção unilinear lhe dava uma visão antropocêntrica da história, ou seja, desenvolvimento é a expansão de determinado tipo de sociedade, a ocidental, com sua mentalidade capitalista nascente e descobertas científicas (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1986). Levando o homem de menos perfeito para mais perfeito. Considerando-se que o homem é um animal social, o progresso da sociedade é o aperfeiçoamento do ser humano. A ideia de desenvolvimento como evolução social retirada das concepções de Charles Darwin o considera como força imanente das sociedades, irreversível, que impulsiona certas economias e marginaliza outras. É a sobrevivência do mais forte ou melhor adaptado e o perecimento dos tipos menos ajustados, que garantiriam a melhora da sociedade. Considerando-o como evolução, a ideia de desenvolvimento poderia libertar-se das amarras

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morais e valorativas do conceito de progresso se fizesse referência apenas a índices científicos e valorativamente neutros de produtividade ou renda per capita. Outra maneira de tentar se livrar da carga valorativa e moral da ideia de desenvolvimento como progresso é sua interpretação como mudança social em concepção puramente quantitativa. Ela designa uma diferença estrutural, institucional ou de hábitos sociais observadas em relação a estados anteriores de determinada sociedade. Podendo originar-se de mudanças nas leis, no ambiente físico, no tamanho do grupo social, em sua composição, no equilíbrio entre as diversas partes que o compõem e nos valores e significados compartilhados. Uma questão importante a respeito da mudança social é o problema da escala, das unidades a que se pode reduzir a pressuposta mudança. A alteração em um indivíduo poderia ser o sinal de futura modificação profunda na sociedade, ou como diz Condorcet: “O progresso está sujeito às mesmas leis gerais que podem ser observadas no desenvolvimento do indivíduo, e realmente não é mais do que a soma desse desenvolvimento realizado em grande número de indivíduos reunidos na sociedade” (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1986). Ou seja, o desenvolvimento seria a soma dos desenvolvimentos dos indivíduos vistos separadamente. É como se as mudanças por que passam as sociedades através da história, própria a cada uma delas ocorresse separadamente no comportamento de individualidades singulares, para que depois, de alguma forma, fossem gradativamente se consolidando em padrões de desenvolvimento. Primeiro mudam as pessoas, e a somatória destas singulares transformações vai aos poucos mudando a sociedade. Isso equivale a explicar um fenômeno social, a mudança, por outro fenômeno social, a psicologia individual, o que caracteriza uma forma de pensar reducionista, por centrar-se em um único fator causal. A expressão mudança cultural trata da modificação da cultura através do tempo. Na metade do séc. XIX, pretendia explicar o caminho desde o selvagem até o civilizado. Sua principal tarefa era descobrir as grandes leis da evolução ou desenvolvimento social. Verificar como progressos culturais, como novas invenções, podiam difundir-se para sociedades distantes, através do contato e interação entre culturas diferentes e da aculturação. A mudança cultural pode ocorrer, por exemplo, pela urbanização ou por uma intervenção externa, que pode levar a uma desorganização social com posterior reorganização, a mudança de certas características da sociedade com a permanência de outras pela resistência.

3 O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, O SUBDESENVOLVIMENTO E OUTROS Crescimento ou desenvolvimento econômico é convencionalmente medido pela renda ou produto nacional per capita. A teoria econômica clássica do séc. XVIII à metade do séc. XIX baseia-se em três fatores de produção – terra, trabalho e capital – para gerar o produto nacional. Modernamente, crescimento econômico é o mesmo que aumento do Produto Nacional Bruto per capita, seguido pela melhoria no padrão de vida da população, medido por indicadores relativos aos diversos aspectos da questão social e por alterações nos fundamentos da estrutura

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econômica. Desta forma, um país que deixa de ter uma economia baseada, principalmente, na agricultura de subsistência e passa a ser uma sociedade industrializada com uma população urbana, e não mais majoritariamente rural, passou por um processo de mudança social e desenvolvimento econômico. A força do crescimento é representada pela formação de capital, principalmente pela poupança, e o aumento da população tende a igualar o salário de mercado ao de subsistência (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1986). Por outro lado, é na desigualdade do poder de barganha entre empresas e funcionários que a teoria marxista – referente a Karl Marx – percebe a forma pela qual os salários são forçados para baixo até o nível de subsistência. Além disso, todas as inovações tecnológicas são poupadoras de mão de obra, desempregando trabalhadores e criando um exército de reserva de desempregados e retirando ainda mais seu poder de negociação. O agente humano como promotor de desenvolvimento foi enfocado no início do séc. XX pelo economista J. A. Schumpeter (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1986), na figura do empresário capaz de perceber as potencialidades nas variações não só da técnica mas também da qualidade, dos mercados e das fontes de suprimento. Todos estes fatores constituindo um conceito expandido de inovação. Estes pioneiros são sucedidos por imitadores de menor competência, até que o sistema entra em superprodução e recessão, porém em um patamar superior de renda per capita. Poderíamos dizer que nasce aí o mito do empresário empreendedor e promotor do crescimento. Mito este que entra em descrédito à medida que as empresas passam a ser geridas por uma burocracia de funcionários administradores que não motivam sua ação pela lógica do empreendedorismo, mas sim pelos interesses de sua própria carreira profissional. O desenvolvimento econômico e social passou a ser objeto de estudo posteriormente à Segunda Guerra Mundial, quando as profundas desigualdades entre, de um lado, os países industrializados com elevados níveis de consumo e, de outro, os países que não se industrializaram, são vistas como possíveis e necessárias de serem superadas. Além do aumento da atividade industrial e da migração da população do campo para as cidades, fazem também parte da ideia de desenvolvimento a redução das importações de produtos industrializados e das exportações de produtos primários e a menor dependência de auxílio externo. Os indicadores que para a ONU classificam os países segundo o grau de desenvolvimento misturam variáveis econômicas e sociais: “Índice de mortalidade infantil, expectativa de vida média, grau de dependência econômica externa, nível de industrialização, potencial científico e tecnológico, grau de alfabetização, instrução e condições sanitárias” (SANDRONI, 1999, p. 169). As economias subdesenvolvidas sofreriam de um dualismo sendo compostas de, ao menos, dois setores: um industrializado, maduro e relativamente pequeno; e outro tradicional, agrário, com terra insuficiente para absorver a população e, consequentemente, um desemprego disfarçado em agricultura de subsistência. O processo de desenvolvimento poderia ser

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entendido como a absorção deste excesso de trabalhadores em atividades industriais de alta produtividade (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1986). Este pensamento foi marcado pela ideologia do desenvolvimentismo, que identifica o fenômeno do desenvolvimento com o processo de industrialização, aumento de renda por habitante e taxa de crescimento da economia. Sem se preocupar com a distribuição/concentração da renda, as desigualdades regionais dentro do mesmo país, e as condições institucionais, políticas e culturais. Pode ser de certa forma exemplificada como a política de “50 anos em 5” ou a de “primeiro crescer o bolo para depois dividir”, a primeira ligada ao governo de Juscelino Kubitschek e a segunda, à ditadura militar, durante o período marcado pela presença do ministro Delfim Neto no Brasil. Quando o desenvolvimento de um país ou região é feito às custas de seus próprios meios, sem depender de auxílio ou endividamento externo, é chamado de desenvolvimento autônomo, ao mobilizar os excedentes de sua economia “encaminhando-os para os setores prioritários, de cujo crescimento depende todo o resto (indústrias de base, transporte, energia etc.)” (SANDRONI, 1999, p. 169). E o aperfeiçoamento coletivo, organizado e dirigido por uma comunidade que melhora a integração dos grupos sociais a partir de um programa, é conhecido como desenvolvimento comunitário. A comunidade é marcada por um sentimento interno de coerência, na presença de um território uniforme como um novo conjunto habitacional, uma rua, grupo de residências isoladas ou um bairro. Costuma demandar um local de reuniões e atividades, ume equipe diretora e muitas vezes um líder comunitário, com aspiração geral pela elevação do nível ético, cultural e recreativo, com fins materiais muitas vezes secundários. Costuma-se aceitar a ideia da promoção exógena deste tipo de desenvolvimento por entidades públicas, ou não, dos mais diversos tipos, que fornecem recursos humanos e materiais, e uma vez que as comunidades sejam capazes de prosseguir nos objetivos próprios recebem no máximo uma supervisão muito discreta (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1986). O desenvolvimento econômico e as mudanças estruturais que acarreta acabam por estar dialeticamente relacionados com o desenvolvimento político (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1986) na medida em que um é condição do outro. A capacidade das estruturas governamentais em proporcionar as condições necessárias à modernização e de gerar e absorver mudança social e cultural, facilitar a redistribuição de poder, riqueza, prestígio, a reorganização de papéis sociais, tendo por consequência o aumento da capacidade de inovação, de mobilização de recurso, com coordenação de funções, representatividade dos cargos eletivos, descentralização das decisões e neutralidade religiosa, influencia e é influenciada pelo desenvolvimento econômico. O crescimento econômico é considerado geralmente uma condição necessária, embora não suficiente, para o progresso social, que compreende nutrição, saúde, habitação, educação, liberdades civis e participação política para uma existência humana plena, segundo valores modernos. As variáveis que podem delinear tradição e modernidade são o grau de diferenciação funcional e estrutural dos sistemas sociais, o que pode ser observado pela maior ou menor divisão social do trabalho, por exemplo, em uma região ou país, seus habitantes

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dedicam-se em sua quase totalidade à mesma atividade econômica com baixa produtividade e uso de tecnologia. O que poderia ser superado por uma racionalidade científica que produza inovação, e que demande educação e instituições de pesquisa, com instituições políticas e sociais capazes de gerar integração entre os indivíduos e grupos, juntamente com um sistema de normas confiáveis impostas e acatadas pela grande maioria, garantidoras da estabilidade social.

4 DESENVOLVIMENTO E TEORIAS DA DEPENDÊNCIA Um fenômeno difusionista ocorre com a revolução das expectativas crescentes nos países e regiões subdesenvolvidas, que buscam adotar as ideias e modos de ser próprios da modernidade ocidental rica e desenvolvida, primeiramente, em uma elite modernizante. As mudanças sociais, quando não conseguem corresponder às esperanças, como as de consumo, podem gerar frustrações consideráveis, com consequências políticas sérias, caso a estrutura política não esteja capacitada a adaptar a sociedade removendo as barreiras à modernização. Esta teoria da modernização viria a sofrer críticas, e com o lema “desenvolvimento do subdesenvolvimento” Andre Gunter Frank denunciou seu caráter etnocêntrico sublinhando que não se trata de uma situação original, de onde partiriam economias novas, ou residuais, mas que o subdesenvolvimento foi criado no momento em que as sociedades não europeias são incorporadas no mercado mundial a partir do colonialismo, nas relações metrópolesatélite. Os primeiros se apropriam das riquezas dos satélites subordinados, pela troca desigual no comércio, expatriação de lucros, e de juros, enriquecendo-os e empobrecendo os últimos, gerando e reproduzindo subdesenvolvimento através do tempo, em vez de conduzir estas economias à modernidade. Suas formas sociais tradicionais são também capitalistas, pois são consequência de um tipo específico de inserção subordinada na economia global. “Em vez de destruir outros modos de produção, o capitalismo em geral os conserva (ou até mesmo os cria), articulando-os ou combinando-os com o seu próprio funcionamento, a fim de obter bens ‘baratos’.” (BOTTOMORE, 1996, p. 198) As teorias do desenvolvimento sofrem sua maior crítica pelo pensamento que ficou conhecido como teoria(s) da dependência, que superam a visão liberal de um mundo dividido em nações independentes entre si e relacionadas pelo comércio, para afirmarem o papel central da economia mundial e da divisão hierárquica do trabalho que articulam, não países, mas classes sociais de localidades diferentes (SADER, 2006). Estas classes dominantes, tanto de países centrais como periféricos, estabelecem uma convergência de interesses na busca de superlucros. São os monopólios tecnológicos, financeiros e comerciais, localizados nos países centrais, e patrimônio de suas classes dominantes que determinam as direções do crescimento global. E as elites dependentes utilizam seus Estados nacionais como instrumento de negociação para obterem uma melhor inserção na economia global. O que não leva à reprodução dos padrões de desenvolvimento dos países centrais, mas a uma modernização subordinada à divisão internacional do trabalho.

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O capital estrangeiro não seria um entrave ao desenvolvimento na interpretação de F.H. Cardoso e E. Faleto1, pelo menos a partir do pós-guerra. Este se volta para a internacionalização do mercado interno dos países dependentes sendo solidários com seu crescimento. As perdas internacionais constituídas pelas remessas de lucros, pagamentos de juros, serviços técnicos e royalties são compensadas pelos investimentos externos, que possibilitam o desenvolvimento dependente, porém com maior concentração de riqueza e desigualdade. As elites nacionais podem ter o protagonismo em suas economias e, em regimes democráticos, atender moderadas pressões sociais para participação na riqueza gerada. O fundamento do processo de acumulação no capitalismo dependente, a busca de superlucros, impulsiona as burguesias periféricas ao compromisso com os monopólios internacionais. Estes lucros extraordinários são baseados em tecnologias estrangeiras, o que acarreta transferências de riquezas ao exterior. A elevação da produtividade gerada pelas novas tecnologias tende a tornar mais baratos os produtos dos países dependentes no mercado internacional, aprofundando, para Ruy Mauro Marini e Theotonio dos Santos (SADER, 2006), a deterioração dos termos de troca e provocando crises constantes das economias exportadoras. A alternativa para se restabelecerem os superlucros é a maior exploração da mão de obra e a importação de bens suntuários. Estes dois autores representam a outra vertente da teoria da dependência e veem como única forma de restabelecer os superlucros o incremento da exploração do trabalho nas economias dependentes via: aumento da jornada, da intensidade do trabalho e da qualificação do trabalhador, sem aumento equivalente da remuneração. Esta superexploração do trabalho provoca a baixa constante dos salários, o que, com a deterioração dos termos de troca, restringe a demanda interna e limita a entrada de novos capitais externos. O crescimento exponencial da dívida externa dos países latino-americanos seria um sintoma dessa descapitalização. As persistentes saídas de capital e as tentativas de conciliá-lo com o desenvolvimento econômico e social conduziram à explosão da inflação, crise nos pagamentos internacionais dos países dependentes, durante os anos 1980. As políticas neoliberais, reunidas em torno do que se chamou de Consenso de Washington propõem a renegociação das dívidas externas latino-americanas, em troca da abertura comercial e financeira, da privatização das empresas estatais, adquiridas em grande parte pelo capital estrangeiro, da elevação das taxas de juros e desregulamentação das economias, principalmente pela flexibilização do mercado de trabalho. Juntamente com a reformulação do Estado pensada sob um modelo de eficiência gerencial, difundida por Luiz Carlos Bresser Pereira, durante o governo FHC, no Brasil, propõe-se a retirada do Estado da produção de bens e serviços de interesse do lucro privado, chegando às políticas de combate à exclusão social. Essas políticas conduziram a profundas crises nos países latino-americanos, com destaque para os governos de Alberto Fujimori, no Peru, Carlos Menem, na Argentina, e Gustavo Noboa Bejarano, no Equador. As ideias do Consenso de Washington parecem ter ficado para trás na quase totalidade dos países latino-americanos como alternativa para o desenvolvimento econômico, em seu

Cardoso, F.H. e Faleto, E. Dependência e desenvolvimento na América Latina, 1970.
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lugar se afirmam novas perspectivas que levam em conta a emergência do leste asiático, em particular da China como potência mundial, a financeirização cada vez maior das economias e a importância do territorialismo para as novas formas de dominação, que incorporam a biodiversidade, o petróleo e a água (SADER, 2006). Firma-se o pensamento que busca a ampliação das alianças sociais e políticas, sustentáculos da industrialização, para os setores majoritários da população, representados pelo mercado interno, em busca de austeridade, equidade via aumentos reais de salário, crescimento e competitividade possibilitada pelo retorno do investimento público maciço em educação superior, técnica e pesquisa.

5 DESENVOLVIMENTO HUMANO E “SUBDESENVOLVIMENTO SOCIAL”, LIBERALISMO E LIBERDADE O conceito de desenvolvimento humano serve de base tanto para o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) quanto para o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O site do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD (2010) informa que:
Ele parte do pressuposto de que para aferir o avanço de uma população não se deve considerar apenas a dimensão econômica, mas também outras características sociais, culturais e políticas que influenciam a qualidade da vida humana.

O índice surge como um contraponto ao PIB per capita, ou produto interno bruto por habitante, considerado insuficiente para medir o desenvolvimento humano, que para o economista indiano, radicado nos EUA, Amartya Sen deveria levar em conta também a longevidade e a educação. As três dimensões têm o mesmo peso no índice, que varia de 0 a 1. O IDH é chave para o que a ONU convencionou chamar de Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, para o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), assim como do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Porém, a definição deste conceito não é feita pelo PNUD e deve ser buscado na obra de Amartya Sen, prêmio Nobel de economia, que escreveu, entre outros, o livro Desenvolvimento como Liberdade. O autor foi consultor para a elaboração dos RDHs e nos agradecimentos deste livro reconhece a influência das análises de sua esposa, E. Rothschild, a respeito de obra de Adam Smith, pensador com quem o autor declara ter fortes laços mesmo antes de conhecer os trabalhos de Rothschild. Estas informações acabam sendo de suma importância para sabermos de que ponto de vista parte o autor ao formular suas ideias. Para tanto, devemos dar início ao estudo do autor e do IDH, não por ele mesmo, mas por sua referência teórica principal, o liberalismo. Para termos uma noção da importância de Adam Smith para as ideias e práticas da atualidade, é deste autor o conceito de sociedade civil, no entanto, apenas aparentemente afastado do significado que damos ao termo. Aparentemente, porque se trata da ideia de economia autônoma, com capacidade de se autorregular e que possui a probabilidade de se isolar em relação ao Estado (e à política), modo pelo qual pode realizar seu potencial de gerar o

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máximo benefício àqueles que dela participam, desde que livres para perseguir seus próprios interesses. A sociedade civil, tal qual caracterizada tardiamente, parece dizer respeito a algo para além do Estado, e também da economia. O que parece unir ambas é sua desejabilidade filosófica, são justificáveis e almejáveis por si mesmas, assim como as liberdades de Amartya Sen que veremos adiante. Adam Smith e o grupo de filósofos escoceses ao qual estava ligado desenvolveram a ideia de que a humanidade em sua história passa por estágios de crescimento relacionados ao modo de obter sobrevivência, e que são: caça, pastoreio, agricultura e comércio (BOTTOMORE, 2001). Cada uma dessas fases convive com diferentes formas de autoridade política, moral, relações de gênero e classes sociais. O que leva Adam Smith a identificar comércio com liberdade, e o crescimento de um com o outro. O que só poderia se realizar, em sua forma máxima, com a mais absoluta liberdade em relação à política. A conquista de mercados mundiais e de riquezas móveis torna a classe dos comerciantes livre da tirania. Mas o autor prossegue na sua argumentação com o dogma de que os seres humanos vivendo em sociedade, considerados ou feito indivíduos pelas novas circunstâncias políticas, ao buscarem seu interesse pessoal promovem, além de seus negócios, e de forma indireta e involuntária, o interesse coletivo. A sociedade civil, quando autorregulada, longe das amarras do Estado e da política, é benéfica e desejável por si mesma. A racionalidade individual leva ao bem coletivo; o interesse egoísta leva à ordem inconsciente da coisa privada que se iguala ao interesse público sem se submeter a ele. O indivíduo supera o cidadão. O ponto de vista acima exposto é facilmente identificável com o da burguesia comercial inglesa e seus anseios políticos frente à aristocracia decadente e ao absolutismo monárquico. A liberdade individual, separação entre os três poderes, o direito sagrado à propriedade, a livre iniciativa e a concorrência seriam capazes de harmonizar os interesses e promover o progresso social. O Estado não tem lugar na regulamentação e menos ainda na ação econômica, ficando restrito a garantir a livre concorrência e a propriedade privada. É o advento de um novo tipo humano, que por sinal, para os liberais, seria a própria essência da humanidade por todos os tempos, o homo economicus (SANDRONI, 1999) e sua aptidão natural de buscar o máximo de ganhos com o mínimo de esforço. A mais absoluta liberdade de produção e comercialização de mercadorias está nas palavras de ordem laissez faire e laissez passer, deixe fazer e deixe passar, política particularmente interessante à burguesia comercial inglesa ávida por conquistar os mercados de todo mundo e produzir em larga escala, derrotando as corporações de ofício que regulamentavam e limitavam a produção e as barreiras comerciais coloniais que impediam a entrada dos produtos, agora industrializados. A sociedade para os liberais é, desde seu surgimento, a associação pelo contrato social de indivíduos livres e independentes, e deve facilitar a felicidade de seus membros pela proteção de sua propriedade, que para John Locke, considerado pai do liberalismo político do séc. XVII, era além dos bens também a liberdade e a própria vida do indivíduo. Contrato

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feito pelo indivíduo racional, capaz de racionalizar seus desejos em busca da felicidade e de ser considerado responsável por suas ações e dispensar a ação da política sobre seus negócios privados. Esta primeira fase do liberalismo, à qual pertence Adam Smith e a que aparentemente Amartya Sen se identifica, é caracterizada pela atribuição aos indivíduos de direitos originários e inalienáveis, ou direitos naturais, próprios do jusnaturalismo. E, conforme apontado acima, considera a sociedade produto de um contrato firmado entre indivíduos livres, ou contratualismo. Combate o absolutismo estatal e a intervenção do Estado nos assuntos individuais via divisão de poderes (ABBAGNANO, 2007). Há coincidência entre interesse econômico privado e público, pois basta o indivíduo buscar conscientemente sua felicidade para estar também proporcionando felicidade aos outros. Modernamente, em Friedrich Von Hayek, a liberdade econômica representada pela liberdade de mercado e de livre iniciativa é o pressuposto de qualquer outra forma de liberdade. Qualquer controle econômico que não estiver estritamente nas mãos de agentes privados passa a ser controle dos meios para se atingirem quaisquer fins, e também controle sobre todos os fins, sobre aquilo que se deve valorizar, crer e pelo que se deve lutar. O controle dos meios de produção divididos entre o maior número de pessoas significa que ninguém poderá impor aos outros seus fins. A tutela do Estado é aceitável apenas em funções residuais, como o cuidado com os mais fracos. Em Uma teoria da justiça, de John Rawls, as liberdades fundamentais devem ser iguais para todos, com distribuição de recursos aos “menos favorecidos”. O resultado poderia ser uma sociedade em que se possam escolher os próprios fins, sem pretender que tenham uma validade universal ou eterna, com pluralismo de valores. No entanto, para realmente começarmos a compreender o significado do pensamento que dá origem ao IDH, na obra Desenvolvimento como liberdade, de Amartya Sen, é fundamental nos debruçarmos mais um pouco sobre o conceito liberal de liberdade. As disputas metafísicas, econômicas e políticas em torno da ideia de liberdade seguem três significações fundamentais para o termo no decorrer da história do ocidente. Primeiro, liberdade como autodeterminação, ausência de condições ou limites; segundo, liberdade como autodeterminação da totalidade ao qual o ser humano pertence; e terceiro, liberdade como possibilidade ou escolha, porém finita. Na primeira concepção é livre aquilo que é causa de si mesmo, como na definição aristotélica de voluntarismo, o que é “princípio de si mesmo”, ou o homem “como princípio e pai de seus atos, assim como de seus filhos”. Para Lucrécio, a vontade é o princípio de nossos atos. Importante, neste nosso debate, é a noção dos estoicos de que “só o sábio é livre”, são livres as coisas que estão “em nosso poder”, ou seja, os atos do homem que tem princípio no próprio homem. Ideias análogas podem ser encontradas na idade média, como a de Livre arbítrio de Santo Agostinho, originando a liberdade como poder de decidir por atos opostos e de propor coisas diferentes. A vontade livre pode inclusive querer alguma coisa, embora a razão lhe dite outra. Seria o poder de impedir ou de suspender o juízo do intelecto. Para Leibniz, a “substância livre” determina-se por si mesma, movida pelo bem, que é percebido pela inteligência. Para Kant,

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trata-se de “espontaneidade absoluta” e não recebe outra determinação senão de si mesma. Seguem nesta mesma linha de pensamento as ideias de liberdade como “autocriação do eu”. No entanto, de outro ponto de vista, as coisas externas e não apenas as internas devem depender de nós para que sejamos livres. Neste sentido, é fundamental o conhecimento “das leis das coisas”, que nos permite dominá-las e assim nos tornarmos livres. Ou então, é livre aquele que pela própria vontade dá preferência a um motivo mais que a outro, um motivo não pode ser o mais forte, independentemente da vontade. É o ato ou movimento que se produz e reproduz continuamente, levando consigo todo mundo em que atua. Como em Sartre, que também possui uma noção de liberdade como autocausalidade, a liberdade de indivíduos ou grupos sempre tem o potencial de limitar a liberdade de outros, o que é expresso na famosa expressão “o inferno são os outros”, como a vida humana é sempre social, a liberdade pode ser entendida, como um delicado equilíbrio entre pretensões diferentes dentro da sociedade. Como apontado acima, a segunda forma de se conceber liberdade é identificando-a com necessidade atribuída não à parte, mas ao todo, não ao indivíduo, mas ao absoluto, à ordem cósmica ou divina, ao Estado. Nos estoicos vistos anteriormente, liberdade é autodeterminação, e só o sábio é livre. Mas no que consiste exatamente esta sabedoria? O sábio é o que vive em conformidade com a natureza, com a ordem do mundo, com o destino. O homem é livre agindo segundo a ordem necessária do cósmico e do divino (ABBAGNANO, 2007). Assim, apenas deus é livre, pois só ele age sem ser obrigado por ninguém. Ou, como dizia Sartre: “Se deus existe, o homem não é livre”. Ser guiado pela razão é ser capaz de reconhecer em si a necessidade divina, através do amor intelectual por deus. Esta característica permanece no romantismo de Schelling e Hegel. Para o primeiro, o absoluto age por meio de cada consciência, enquanto o segundo diferencia liberdade abstrata, deus, de liberdade real, o deus realmente existente, o Estado, a realidade da liberdade concreta. No Estado os aspectos concretos da vida, como o direito, a arte, o bem-estar, são objetivamente realizados. Mas não nos enganamos pensando que a vontade do indivíduo se realiza através do Estado, o que ocorre é justamente o contrário, é a vontade universal que se realiza através dos cidadãos, que são seus instrumentos. Jaspers une necessidade e liberdade como posso porque devo; é livre o ser, o mundo, a substância, o Estado, a Igreja, a totalidade que se autocria e se autodetermina. A terceira forma de conceber liberdade entende-a como escolha motivada ou condicionada. O problema estaria nas condições de se garanti-la. Livre não é quem é causa de si mesmo, ou quem se identifica com a causa exterior ao indivíduo, seja deus ou o Estado, mas quem possui determinadas possibilidades limitadas pelos modelos de vida disponíveis e pela motivação influenciada, como afirma Platão, pelos costumes. Porém estas condições deixam uma maior ou menor possibilidade de escolha por parte dos indivíduos. Hobbes diferencia liberdade de fazer de liberdade de querer, não se pode não querer aquilo que se quer, mas é possível fazer, ou não, o que se quer. Nesta mesma perspectiva, Locke vê a liberdade como o fato de estar em condições de agir segundo a vontade. Para tanto, o homem em sociedade não deve estar sujeito a outro poder legislativo, ou outra lei, além do estabelecido pelo consenso no Estado.

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Para tanto, faz-se necessária a fiscalização dos cidadãos sobre o estabelecimento destas normas. O problema da liberdade torna-se um problema político de medida da possibilidade de fiscalização das leis por parte dos cidadãos e de quanto tais leis restringem as possibilidades de escolha dos cidadãos. Da mesma forma, Kant vê a liberdade na capacidade de não obedecer a outras leis que não aquelas a que damos nossa concordância. Para o filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey, a liberdade está no controle das possibilidades futuras que se abrem para nós, e não no controle de nossa vontade ou motivações.

6 AMARTYA SEN E AS QUARENTA LIBERDADES A ideia de liberdade defendida por Amartya Sen é mais um episódio nas controvérsias descritas acima. Para falar sobre liberdade e tudo aquilo ao qual o autor quer se referir ao utilizar o termo, são utilizados sinônimos, neologismos e outras criativas maneiras de adjetivar, com o intuito, aparentemente, de reduzir muitas coisas a uma só. Liberdades reais, liberdades desfrutadas, liberdades que desfrutamos, liberdade de participar, liberdade para participar, liberdade de participação, liberdade humana, liberdades elementares, liberdades substantivas, liberdade de saciar a fome, liberdades políticas e civis, liberdade econômica, liberdade da pessoa, liberdade de participação política, liberdade dos indivíduos, liberdade individual, liberdade de troca e transação, liberdades básicas, liberdade de entrar em mercados, liberdade do contrato de trabalho, liberdade social, liberdade política, liberdades que as pessoas desfrutam, liberdade de transações econômicas, liberdades globais, liberdades instrumentais, liberdade humana em geral [sic], liberdade de expressão, liberdade de eleições livres, liberdade de ações, liberdades individuais substantivas, liberdade global da pessoa, liberdade para fazer as coisas que são justamente valorizadas, liberdades efetivas, liberdade significativa, liberdades relevantes, liberdade formal, liberdade de escolha, liberdade dos meios de comunicação e liberdades específicas. Para não constranger mais o leitor nem o autor, fiquemos apenas na introdução e primeiro capítulo da obra com as 40 espécies de liberdade acima listadas. Não sem motivo o autor nos exora que é importantíssimo ver a liberdade de um modo mais amplo (SEN, A. p. 32). E estes 40 termos acima mostram de modo até cansativo e redundantemente enfático que a ideia de liberdade se presta muito pouco além daquilo que qualquer pessoa, com algum contato com a literatura social, reconhece comumente como cidadania. Porém, existe uma diferença sutil, mas politicamente da maior relevância, entre tratar de cidadãos e tratar de pessoas. A liberdade de Amartya Sen é uma liberdade pessoal. Algumas liberdades são velhas conhecidas da cantilena liberal, outras parecem surgir por adição, por exemplo, liberdades individuais mais liberdades substantivas é igual a liberdades individuais substantivas. Outras são de difícil distinção, qual seria mesmo a diferença entre liberdade humana e liberdade humana em geral? Algumas lembram a mais profunda imaginação sociológica como liberdade para fazer as coisas que são justamente valorizadas, ou mesmo despertam nosso humor de não muito bom gosto, como esta verdadeira preciosidade do espírito liberal que é a liberdade de saciar a fome. Com tanta

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ênfase em uma mesma ideia, era de se esperar que em algum momento, de preferência acreditamos no início de seu trabalho, Amartya Sen nos premiasse com a informação, a nosso ver absolutamente relevante, do que, afinal de contas, se entende por liberdade em seu texto. Ou pelo menos uma discussão do termo como fizemos acima. Infelizmente, lemos sua obra sem saber o que é a tal liberdade, tão proeminentemente citada. O autor procura desvencilhar-se daquilo que ele denomina como sendo uma visão restrita de desenvolvimento, como crescimento do Produto Nacional Bruto (PNB), aumento de renda pessoal, industrialização, avanço tecnológico ou [sic] modernização social2. O desenvolvimento deve servir para expandir as liberdades acima e, ao mesmo tempo, a liberdade impulsiona e é condição indispensável para o desenvolvimento. Como, por exemplo, a liberdade de participar de discussões e averiguações públicas. Ops! Mais uma. Como vimos no início deste texto, a noção de desenvolvimento está intimamente relacionada com a passagem de potência a ato, ao movimento. E o fundamento do movimento e, por conseguinte, do desenvolvimento é seu motor, seu princípio, sua causa. Para Amartya Sen, o motor do desenvolvimento (SEN, A. p. 19) é “a condição de agente livre e sustentável”. O que podemos entender desta afirmação, no contexto ideológico do autor, parece ser a chave para compreender suas intenções. O termo agente é próprio da filosofia escolástica3 e diz respeito àquilo que toma a iniciativa de uma ação em contraposição à paciente, que é o que sofre a ação. Agente, neste contexto é “alguém que age e ocasiona mudança” e, além disto, “cujas realizações podem ser julgadas de acordo com seus próprios valores e objetivos, independentemente de as avaliarmos ou não também segundo algum critério externo” (SEN, A. p. 33). Além disso, agente é uma condição, o que significa que se alguém está na condição de agente existe uma soma de diversos antecedentes, todos necessários, que são causa e conjuntamente compõem esta condição. Todas as “liberdades” citadas acima são, em conjunto, causas necessárias e condicionantes do agente. Sem as liberdades não se poderia estar em condição de agente. É exatamente o que vem em seguida na frase “condição de agente livre e sustentável”, as liberdades são condicionantes do agente livre e do agente sustentável. As liberdades que dizem respeito ao primeiro são, provavelmente, aquelas que ficam no campo das liberdades democráticas de cunho liberal: liberdade de participar, liberdade para participar, liberdade de participação, liberdades políticas, liberdade de participação política, liberdade política, liberdade de expressão, liberdade de eleições livres, liberdade para fazer as coisas que são justamente valorizadas, liberdade de escolha e liberdade dos meios de comunicação. De um ponto de vista político/liberal, estas liberdades em conjunto são condicionantes do agente livre. No entanto, vimos acima com Friedrich Von Hayek que, para os liberais mais fundamentalistas, a liberdade econômica representada pela liberdade de mercado e de livre iniciativa é o pressuposto de qualquer outra forma de liberdade. Então, é de se acreditar que, para Amartya Sen, liberdade econômica, liberdade de troca e transação, liberdade de entrar em mercados, liberdade do contrato de trabalho e liberdade de transações econômicas são tão condicionantes do agente livre quanto as liberdades políticas. E para dar autoridade à
Filosofia escolástica é a filosofia cristã da idade média europeia. Literalmente, significa filosofia da escola. Neste caso, em referência ao scholasticus, professor na escola do convento ou catedral.
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Vimos acima que modernização não se confunde com avanço tecnológico.
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argumentação, o braço de ferro de Adam Smith é invocado: “Como observou Adam Smith, a liberdade de troca e transação é ela própria uma parte essencial das liberdades básicas que as pessoas têm razão para valorizar” (SEN, A. p. 21). E isso não é tudo: “Ser genericamente contra [destaque do autor] os mercados seria quase tão estapafúrdio quanto ser genericamente contra a conversa entre pessoas [destaque nosso]... trocar palavras, bens ou presentes”. Ou seja, o Homo Sapiens é tão dotado de linguagem quanto de propensão a abrir uma lojinha ou traficar escravos. Vimos acima que as diferentes formas de autoridade política, moral, relações de gênero e relações entre classes são, para Adam Smith, relacionadas com as formas de obter sobrevivência: Caça, pastoreio, agricultura e comércio. A última fase é identificada com a liberdade, ou seja, Adam Smith é vítima de uma tendência que poderíamos considerar sem exagero como humana e demasiadamente humana, de identificar seu mundo como o melhor dos mundos possíveis, sua forma de viver como a única digna, sua maneira de pensar como a mais correta, seus valores como sendo os valores, enfim, uma maneira etnocêntrica de ser no mundo. A conquista de riqueza móvel via mercado livra a classe dos comerciantes da tirania. Então por que não dizer que a liberdade de mercado livra a humanidade, o Homo Sapiens da autocracia? E é exatamente o que Amartya Sen faz. É o velho dogma liberal, próprio da classe comerciante inglesa do séc. XVIII, ávida por saquear as colônias dos reinos absolutistas, que aparece três séculos depois em Desenvolvimento como liberdade. De que os seres humanos vivendo em sociedade, ao buscarem seu interesse pessoal, promovem, além de seus negócios, o interesse coletivo. O interesse egoísta se metamorfoseia em interesse público sem se submeter a ele. O indivíduo supera o cidadão. Por isso, em Amartya Sen vemos liberdades de pessoas e não cidadania. Mas falta um termo em nossa frase “condição de agente livre e sustentável”, e é justamente o último. Se a humanidade passa por estágios de crescimento relacionados ao modo de obter sobrevivência, então no período regido pelo comércio essa nova forma humana de sobreviver, ser sustentável, é condição. Mas nem todos são comerciantes na nova ordem. Adam Smith viveu os períodos iniciais da industrialização inglesa e, embora fosse um estudioso totalmente afastado de qualquer atividade econômica real, nunca abriu uma lojinha ou traficou escravos. Sabia que para haver fábrica eram necessários operários. E estes trabalhadores precisam estar em condições de se apresentar dia após outro em seu posto de batente. Daí se pode apreender o porquê da liberdade de saciar a fome e do “sustentável”.

7 O ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (IDH) De acordo com o que foi visto acima, o conceito de desenvolvimento humano serve de base tanto para o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) quanto para o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Procura ir além da dimensão econômica, refletindo aspectos sociais, culturais e políticos que influenciam a qualidade da vida humana. Para Amartya Sen, a mensuração da longevidade e educação, com o mesmo peso no índice, auxiliaria

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a abranger a “qualidade da vida humana”. O IDH foi largamente incorporado em nosso país em muitas iniciativas de intervenção social, a partir de projetos e mesmo de políticas sociais que fazem referência ao IDH ou aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), assim como do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Os RDH estão disponíveis desde o ano de 1996 e trazem, a cada edição, uma temática diferente que é abordada no decorrer do documento, ficando o IDH propriamente dito reservado às páginas finais. Os temas dos RDHs vão desde Crescimento Econômico e Desenvolvimento Humano, no primeiro relatório, até Mobilidade e Desenvolvimento Humano, da última edição de 2009, passando por: 1997 – Desenvolvimento Humano para erradicar a pobreza; 1998 – Padrões de Consumo para o Desenvolvimento Humano; 1999 – Globalização com uma face humana; 2000 – Direitos humanos e desenvolvimento humano – pela liberdade e solidariedade; 2001 – Fazendo as novas tecnologias trabalhar para o desenvolvimento humano; 2002 – Aprofundar a democracia num mundo fragmentado; 2003 – Um pacto entre nações para eliminar a pobreza humana; 2004 – Liberdade Cultural num Mundo Diversificado; 2005 – Cooperação Internacional Numa Encruzilhada; 2006 – Além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água; 2007/2008 – Combater a mudança do clima: Solidariedade Humana em um mundo dividido; 2009 – Ultrapassar Barreiras: Mobilidade e Desenvolvimento Humano. Em 2005 foi elaborado um Relatório do Desenvolvimento Humano Brasil cujo tema foi Racismo, pobreza e violência. Vamos tratar do RDH de 2009. Ele compõe propriamente as páginas 167 a 217 e é apresentado como Tendências do IDH a partir da tabela G. As tabelas de A a F são relacionadas à migração. São listados 182 países por ordem de IDH e divididos em quatro grupos. O primeiro, com 38 países com IDH considerado muito elevado, se inicia com a Noruega, IDH 0,971, e termina com Malta, IDH 0,902. O segundo grupo dos países de IDH elevado, onde se encontra o Brasil, na posição de número 75, possui 44 nações e se inicia com Barém, na posição 39 e IDH 0,895, terminando com o Líbano, IDH 0,803. O terceiro, de IDH médio, começa na posição 84 com Armênia, IDH 0,798, até a posição 158 com Nigéria, IDH 0,511, com 74 países no total. O último grupo de IDH baixo tem Togo, IDH 0,499, como primeira nação, e na última posição da tabela, Níger e seu IDH 0,340. Embora os relatórios estejam disponíveis anualmente, desde 1996 são apresentados dados quinquenais desde 1980, e anuais de 2005 a 2007. O índice é baseado em dados sobre a esperança média de vida, taxa de alfabetização de adultos, taxas brutas combinadas de alfabetização, e em dados sobre o PIB per capita em dólares americanos de 2007. Na nona coluna da tabela aparecem os dados referentes a 2006, para que na décima coluna seja dada a alteração na ordem 2006-07 para se verificar se determinado país se elevou ou desceu na tabela de um relatório para outro. O Brasil, por exemplo, ocupava a posição 75 em 2006, permanecendo na mesma posição em 2007, e o número correspondente de variação na tabela é zero. O Peru ocupava a posição 83, passando para 78, o que corresponde ao número 5 na coluna de “Alterações na ordem”. Existem outras três colunas com taxas médias

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“A recente mudança do índice combinado de escolaridade bruta, fundamentalmente, residiu na alteração da base de dados usada para sua elaboração. Isto é, na forma anterior eram usadas informações produzidas pela Unesco. Neste ano [2002, observação minha], se passou a adotar os números do MEC. Deste modo, não se tratou de uma mudança de metodologia de cálculo mas, sim, de uso de fonte de dados. Isto fez com que o nosso país tivesse experimentado um crescimento tão expressivo em termos do IDH em um espaço tão curto de tempo.” (PAIXÃO, 2003)
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de crescimento anual do IDH em (%), que vão do longo prazo 1980-2007, médio prazo 19902007 e curto prazo 2000-07. O Brasil, por exemplo, teve uma taxa média anual de crescimento do IDH em longo prazo de 0,63%, no médio prazo a evolução foi mais acentuada, de 0,79%. A tabela seguinte H traz o Índice de desenvolvimento humano de 2007 e as componentes que o constituem e novamente os países são numerados de 1 a 182 com IDH crescentes. Cada dado é desmembrado em outras sete colunas, que tratam de Esperança média de vida à nascença (anos), Taxa de alfabetização de adultos (% com idades a partir de 15 anos), Taxa bruta combinada de escolarização no ensino, PIB per capita (Paridade do Poder de Compra – PPC em USD – dólares americanos), Índice de esperança média de vida, Índice de educação, Índice do PIB. E uma última coluna com a Ordem do PIB per capita menos a ordem do IDH. A Esperança média de vida à nascença é o “Número de anos que se pode esperar que um recém-nascido viva, caso se mantenham os padrões das taxas de mortalidade específicas de cada idade existentes na altura de seu nascimento” (PNUD, 2009, p. 210) e no caso do país de IDH mais elevado, a Noruega, este número é de 80,5 anos. Em Níger, último colocado em IDH, o número cai para 50,8 anos, mas não é o menor, dado que pertence ao país recém-invadido pelos EUA, o Afeganistão, 43,6 anos. Enquanto isto, no país invasor a esperança média de vida à nascença é de 79,1 anos, e no Brasil, de 72,2. A Taxa de alfabetização de adultos faz referência aos censos realizados entre 1999 e 2007, Cuba e as ex-repúblicas comunistas da Letônia e Estônia possuem as taxas mais elevadas de 99,8%, para Noruega e os 14 países de IDH mais elevado foi atribuída a taxa de 99,0 %. O Brasil tem taxa de 90%, mas atribuiu-se taxa de 100% para cálculo do IDH. A Taxa bruta combinada de escolarização no ensino "[...] um dos índices usados para os cálculos que resultam no IDH é obtido através da divisão do total de matrículas, nos três níveis fundamentais de ensino (1º, 2º e 3º graus), pela população total entre 7 e 22 anos". (PAIXÃO, 2003) Por isso, existem países com esta taxa acima de 100%, pelo número de pessoas acima de 22 anos matriculadas. A taxa brasileira é de 87,2%, com dados provenientes do MEC4. O PIB per capita fornece “o valor do produto interno bruto (nos termos da paridade do poder de compra em dólares americanos) dividido pela população total a meio do ano [sic]”. A paridade do poder de compra é
Uma taxa de câmbio que dá conta da variação de preços nos vários países, permitindo efetuar comparações internacionais de produção e rendimentos reais. À taxa de PPC em dólares americanos, (tal como usada neste Relatório) existe um igual poder de compra com 1 dólar americano na economia interna e na economia dos EUA. (PNUD, 2009, p. 212)

O PIB per capita da Noruega é de 53,433 (PPC em USD), o mais alto é o de Listenstaine, com 85,382 (PPC em USD), e o menor, da República Democrática do Congo, com 298 (PPC em USD). O brasileiro é de 9,567, abaixo da vizinha Venezuela, com 12,156. O Índice de esperança média de vida é outro dos três índices que compõem o IDH

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[...] e mede os progressos relativos de um país em termos de esperança de vida à nascença. No caso do Brasil, com um valor observado de 70,8 anos em 2004, o índice da esperança de vida é 0,764. Índice da esperança de vida = 0,764 (PNUD, 2006).

Um valor baixo de Índice de esperança média de vida pode estar relacionado a epidemias, como a da Aids na África sub-sahariana (MENDES, 2007). Para o ano de 2007, a Noruega tem índice de 0,925. O menor está no invadido Afeganistão e o maior, no Japão, 0,961. Na América Latina, o maior índice é encontrado em Cuba e Chile, com 0,891, ficando o Brasil com 0,787. O Índice de educação ou
IDH Educação: indicador de nível educacional, medido pela combinação da taxa de alfabetização de pessoas de 15 anos ou mais (com peso 2) e da taxa bruta de matrículas nos três níveis de ensino (fundamental, médio e superior) em relação à população de 7 a 22 anos de idade (com peso 1). (MALI, 2008)

A Noruega, primeira colocada no IDH, tem índice de educação de 0,989, e o país com menor índice é novamente o invadido Afeganistão, com 0,282. Na América Latina, destaca-se Cuba com o maior índice planetário de 0,993, igualando-se a Austrália, Finlândia, Nova Zelândia e Dinamarca, deixando muito para trás o Brasil, com seu 0,891. Finalmente o índice do PIB, que é abalizado no produto interno bruto per capita com PPC.
O índice do PIB é calculado com base no PIB per capita ajustado (PPC em USD). No IDH, o rendimento entra como substituto de todas as dimensões do desenvolvimento humano não refletidas numa vida longa e saudável e no nível de conhecimentos. O rendimento é ajustado porque, para atingir um nível elevado de desenvolvimento humano, não é necessário um rendimento ilimitado. Sendo assim, utiliza-se o logaritmo do rendimento. No caso do Brasil, com um PIB per capita de 8.195 (PPC em USD) em 2004, o índice do PIB é 0,735. (PNUD, 2006)

log (8.195) – log (100) Índice do PIB = ___________________ = 0,735 log (8.195) – log (100)

A Noruega atingiu em 2007 índice do PIB de 1,0, juntamente com Irlanda, Suíça, Luxemburgo, EUA, Listenstaine, Singapura, Hong Kong, Andorra, Brunei, Kuwait, Qatar, e Emirados Árabes Unidos. O Brasil teve índice do PIB de 0,761. A menor marca global ficou por conta da República Democrática do Congo, com 0,182. Há uma última coluna com o resultado da subtração da ordem do IDH pela ordem do PIB per capita. O resultado indica se um determinado país possui IDH mais ou menos elevado que a ordem do PIB, sinalizado por um número negativo ou positivo. Ou seja, o quanto as demais variáveis educação e esperança média de vida podem alavancar a posição de um país ou prejudicá-la. Listenstaine com seu PIB per capita de 85,382 (PPC em USD) perde 18 posições quando considerados os outros dois índices e cai da primeira posição do PIB para a décima nona em IDH. O país com maior

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diferencial positivo na comparação do PIB com IDH é Cuba, que ganha 44 posições, ficando no quinquagésimo primeiro lugar de IDH.

8 DESENVOLVIMENTO COMO EMANCIPAÇÃO Vimos acima como a ideia de desenvolvimento foi capaz de gerar todo um conhecimento a respeito da mudança de sociedades tradicionais para sociedades modernas. Por vezes entendido como modernização, outras por progresso, evolução, crescimento, cada qual com suas peculiaridades que valeram prevalência de uma noção sobre as outras em períodos de tempo e em lugares diferentes. Passamos pelos diferentes conceitos possíveis de liberdade e suas implicações políticas para finalmente chegarmos ao Desenvolvimento como liberdade e suas claras limitações. O conceito de emancipação humana nos auxiliará a perceber como as limitações, próprias do ponto de vista liberal, influenciam o próprio IDH e os demais índices produzidos pelo PNUD. Renda, longevidade e educação são as três variáveis que condicionam o desenvolvimento humano, mas não sua emancipação. A ideia de emancipação surge no séc. XIX para se referir à “libertação” dos escravos norte-americanos e servos russos, também está presente na Revolução Francesa, no movimento operário e movimentos de libertação nacionais das colônias europeias. Vemos que em seu sentido original a libertação (liberdade) como emancipação vai muito além da igualdade jurídica. O escravo liberto deixa de ter senhor, assume a propriedade de seu próprio corpo. O servo liberto não está mais preso à terra. Mas assim que se veem livres são confrontados com a necessidade de sobreviver. Continuam presos ao reino da necessidade e não da liberdade. Esta necessidade é satisfeita ou parcialmente atendida, na condição de trabalhador livre. A liberdade do contrato de trabalho apregoada por Amartya Sen, com os demais pensadores liberais, é, do ponto de vista do contratante, a liberdade de contratar e dispensar mão de obra sem se submeter a regras externas, a autodeterminação do capital em dispor do trabalho livremente. Do ponto de vista de quem possui apenas sua capacidade de trabalho para oferecer em um mercado livre de compra e venda de força de trabalho assalariada, a liberdade de trabalho converte-se em necessidade de trabalhar. Que pode facilmente transmutar-se em obrigação de trabalhar. Basta lembrar que até pouco tempo atrás em nosso país pessoas (pobres) eram presas por vadiagem ao se encontrarem desempregadas. Se os pobres não fossem no fundo forçados a trabalhar, não haveria sentido na figura do trabalho voluntário, que é justamente aquele que se faz por vontade própria. Lembremos que os primeiros operários, trabalhadores livres, foram as crianças do orfanato, que não possuíam a “liberdade” de se recusarem a trabalhar ou descumprir o contrato entre o dono da fábrica e o padre (GORZ, A. 2001). Poucos adultos “livres” sujeitavam-se às condições do assalariamento amplamente contrárias a autodeterminação. Não existe liberdade de trabalho quando as outras opções para a grande maioria são o sistema penitenciário, manicomial e funerário. A liberdade como autodeterminação humana depende de condições sociais concretas em um processo de superação do alheamento de suas capacidades no contexto de relações

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sociais também concretas. As capacidades humanas no contexto do trabalho assalariado são propriedade do empregador. É esta relação social concreta empregador/empregado, empresa/ funcionário, patrão/empregado ou capital/trabalho que transforma algo que pertencia ao escravo liberto, o domínio de seu próprio corpo, em algo alheio, afastado, de outro que não o ser humano, desumanizado em trabalhador. Durante a jornada de trabalho os movimentos, pensamentos, expressões, ações, reações e desejos do trabalhador “livre” são propriedade de outro, que não se opõe como pessoa que emprega pessoa, mas como classe que coloca outra para trabalhar, por gerações, como os filhos dos garotos do orfanato, os primeiros nascidos dentro da moderna classe trabalhadora, assim feitos operários por outra classe social livre para contratar. A liberdade existente apenas fora dos muros da empresa não é autogestão. A capacidade para o trabalho criativo é o que nos diferencia profundamente dos demais seres do reino animal, na mesma proporção que a atual divisão do trabalho com suas tarefas esvaziadas de sentido é capaz de nos desumanizar. O Desenvolvimento como liberdade está muito longe de uma contestação da frustração quase crônica, da tensão nervosa, da renúncia do tempo livre, da desvalorização dos outros domínios de realização pessoal, resumidos nos custos humanos da forma atual de se viver o cotidiano na empresa. As imensas frustrações de ordem pessoal provocadas pela baixa mobilidade ou quase ausência de desenvolvimento e carreira na imensa maioria dos locais de trabalho. O pavor do desemprego crônico provocado pela obsolescência das qualificações técnicas de profissionais que, depois dos 35 ou 40 anos de idade, têm dificuldades para achar uma fonte segura de renda. A formação insuficiente dentro das empresas. Os critérios subjetivos de promoção, as discriminações, recomendações, apadrinhamentos. Os modos de se trabalhar e gerir não podem ser aceitos como dados objetivos, mas sim como modelos culturais inculcados pelas escolas de formação. O desenvolvimento como emancipação e liberdade como autodeterminação só podem ser considerados com alguma seriedade se for possível a contestação por cada um de seu próprio papel dentro da empresa, onde passa a maior parte das horas produtivas e alertas de seu dia. A liberdade para o engajamento político não pode estar circunscrita ao “tempo livre”, mas sim fazer parte da experiência do trabalho, por alguém que também se explica e se contesta. Contestar o conteúdo político do papel desempenhado na função e na estrutura de poder da empresa. Liberdade para poder afirmar: “Não faço o que me pede porque não lhe conheço os pressupostos nem as consequências; não faço um trabalho do qual não compreendo o sentido” (GORZ, A. 2001, p. 189), só assim irmos a busca de um trabalho total, que favoreça o real desenvolvimento da pessoa, que a valorize e que contenha o poder de gerir a empresa. Aí sim começaremos a tratar o desenvolvimento humano de modo consequente.

YGOR DIEGO ALVES, Desenvolvimento Humano e Desenvolvimento Social

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REFERÊNCIAS

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