O MISTÉRIO DE ALAIZABEL CRAY Chris Wooding

FICHA TÉCNICA Título original: The Haunting of Alaizabel Cray Autor: Chris Wooding Chris Wooding, 2001 Tradução Editorial Presença, Lisboa, 2003 Tradução: Antônio Carlos Andrade Capa: Ilustração Edward Miller Composição, impressão e acabamento: Multitipo — Artes Gráficas, Lda. 1ª edição, Lisboa, Fevereiro, 2003 Depósito legal n.° 189 659/02

PRIMEIRA PARTE

A GAROTA PERDIDA

CAPÍTULO I

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Perseguição Thaniel tem uma Surpresa Desagradável Primeiras Impressões

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O dirigível pairava a baixa altitude, a sua parte inferior longa e delineada era uma mancha tênue de luz prateada por entre a bruma, refletindo a luminosidade dos candeeiros a gás da cidade. O pulsar forte e lento dos seus motores ecoava pelas ruas da Zona Antiga, provocando um murmúrio queixoso nas janelas sujas dos terraços altos e geminados. Como um enorme monstro, parcialmente oculto, sobrevoava o labirinto de becos e calçadas, demasiado grande para prestar qualquer tipo de atenção aos seres insignificantes que os habitavam... por fim, afastou-se; o ruído dos motores transformou-se num mero zumbido até se silenciar por completo. O ar da noite estava frio, como se uma espécie de vento glacial que

viera do Tâmisa envolvesse Londres até os ossos. E, claro, havia nevoeiro, que se estendia por toda a parte como uma teia de aranha e suavizava o brilho dos candeeiros negros, até este se transformar numa mera névoa. O nevoeiro marcava presença praticamente todas as noites de Outono, uma característica tão marcante de Londres como as carruagens que passeavam à volta de Piccadilly Circus ou como os resolutos Peelers1 que faziam as suas rondas a norte do grande rio. Mas não a sul; não na Zona Antiga. Esse era o reino dos loucos e malvados e das coisas que é melhor afastar do pensamento. Os bons cidadãos da capital sabiam muito bem que nada os deveria reter lá depois de o Sol baixar; pelo menos se tivessem amor à vida. Thaniel Fox escutou o silêncio que a partida do dirigível deixara para trás. Em algum lugar ao longe, um velho barco a vapor fez soar a sereia enquanto avançava pelo Tâmisa acima. Para além disso, não se ouvia nada senão o suave queimar da lâmpada a gás que se encontrava ali de pé. Nem passos, nem vozes, só a luz branca enfraquecida pela neblina nas extremidades da rua, absorvendo a calçada e as desgastadas lojas de pedra que apresentavam sobre as portas os seus resistentes letreiros. — Queres, então, esconder-te de mim — murmurou para o seu adversário invisível, antes de tirar uma tigela mais ou menos do tamanho de um biscoito, dourada e pouco funda, de dentro do bolso do casaco. Agachou-se na pedra fria do pavimento e, colocando a tigela diante de si, encheu-a com um líquido vermelho-escuro proveniente de um frasco que retirara de outro bolso. Se alguém ali passasse e deparasse com esta cena, acharia com cer1

Peeler — membro do corpo policial londrino, formado por Sir Robert Peel em 1829- (NR)

teza estranho: um rapaz de dezessete anos, pálido, com um ar decidido, agachado de propósito no meio da rua numa noite enevoada. Uma pessoa sensata não ficaria por perto para fazer perguntas, pois a Zona Antiga abrigava perigos que tomavam as mais diversas formas, mesmo que o Tâmisa estivesse a pouco mais de um quilômetro para norte. Mas se essa pessoa decidisse mesmo ficar, veria o rapaz a substituir o primeiro frasco e tirar um outro, este cheio de um líquido transparente. Se estivesse suficientemente perto, conseguiria sentir o cheiro acre de enxofre quando o rapaz desenroscou a tampa, na qual se encontrava uma pequena pipeta cheia de líquido. Veria ainda o rapaz a deitar uma única gota dentro da tigela e a gota a efervescer e brilhar num branco forte, uma pequena bolha de raiva que viajou lentamente para a borda da tigela e ali ficou, indo de encontro ao dourado como se tentasse saltar para fora dela. Veria, por fim, a bolha desvanecer-se e desaparecer em poucos segundos, e o rapaz olhar em seguida na direção em que a bolha viajara. — Então é aí que está — monologou Thaniel calmamente. Pegou na tigela, despejou o conteúdo no chão e voltou a arrumá-la no bolso do casaco. Partiu pelas ruas, caminhando cuidadosamente pela calçada, olhos e ouvidos bem atentos. Quase sem dar conta, tirou a pistola do cinto e empunhou-a preparado para qualquer eventualidade. Não se encontrando ainda demasiado afastado do Tâmisa, a probabilidade de encontrar algo mais do que aquilo que procurava não era muito grande; mas os mortos é que correm riscos, como costumava dizer o seu pai. E ele tinha obrigação de saber. Já enganara a morte tantas vezes que as pessoas costumavam dizer que a Velha Ceifeira já desistira dele.

Também fora o seu pai que lhe ensinara o truque da tigela. Deitar uma só gota de composto de enxofre sobre sangue de porco e ver em que direção vai. Aí se encontrará o alvo. Rudimentar, mas eficaz, desde que se soubesse o que misturar com o enxofre. Nessa altura, um som partiu da escuridão, um uivo alto e insano, que subiu de tom até começar a desvanecer, um grito que não era humano nem animal. Thaniel tentou definir de onde vinha o som, mas o nevoeiro gorou as suas tentativas. Mas estava perto, quanto a isso não restavam quaisquer dúvidas. Começou a acelerar o passo. Avançou por um beco abaixo, onde as casas se inclinavam na direção da rua e não se via qualquer luz. Passou por cima do corpo de um vagabundo que jazia inconsciente na sombra de uns degraus de pedra, tresandando a álcool e murmurando para si mesmo enquanto se mexia agitadamente, assolado por pesadelos. O homem estava a pôr a sua vida em grande risco, dormindo nas ruas da Zona Antiga, mas julgando pelo seu cheiro e aspecto, já não tinha muita vida para arriscar de qualquer forma. Thaniel ignorou-o. Estava em Londres e das duas uma: ou uma pessoa se agüentava ou acabava caída na sarjeta como acontecera àquele tipo. Algo se moveu ao fundo do beco, onde este desembocava numa via pública. Apesar dos esforços em contrário, ao parar, Thaniel respirou fundo e a mão cerrou a pistola com mais força. Estava lá um lobo, que, tendo parado como uma estátua ao passar a entrada do beco, o observava fixamente. Ficou a olhar para Thaniel, os seus olhos amarelados estudando-o na escuridão; depois afastou-se, ignorando-o. Era óbvio que tinha acabado de se alimentar e ainda não estava interessado noutra refeição.

Thaniel soltou um suspiro suave, relaxando. Os lobos eram um perigo por toda a cidade de Londres, mesmo ao norte do rio. Nessa zona eram mais raros, claro, e acabavam normalmente por ser mortos, mas enquanto fossem procriando na Zona Antiga, continuariam a atravessar o rio durante a noite. Não foram poucos os órfãos perdidos e as senhoras pintadas a serem vitimados pelos lobos esfomeados da cidade. Deu ao animal algum tempo para se afastar, partindo depois rapidamente através do beco e para fora deste. Mais uma vez, o grito louco e agudo do seu adversário ecoou no nevoeiro, agora muito perto. Estava a dirigir-se para o chão, de volta à sua toca. Thaniel surpreendera-o perto de Chadwick Street. Esta não fora a primeira vez que ele se afastara do seu território. Dois bebês haviam desaparecido dos seus berços, ambos trabalho da coisa que estava a caçar. Era sua função certificar-se de que não voltaria a acontecer. Já era suficientemente mau que uma parte da cidade fosse mortífera à noite, suficientemente mau que os honestos comerciantes tivessem de correr de volta para as suas casas do outro lado do rio antes de o Sol se pôr; mas quando as criaturas que assolavam as ruas começavam a vaguear para além da Zona Antiga, era altura de entrar em ação. O ruído das suas botas era absorvido pelo nevoeiro que se ia deslocando lentamente enquanto Thaniel se dirigia para o local de onde partira o grito. Nesta zona as lojas já haviam dado lugar aos destroços, e casas de pedra em ruínas observavam-no com os seus dentes partidos e olhos entalhados. Reviu mentalmente o que sabia do seu adversário, preparando-se para o confronto como o seu pai lhe ensinara. Era um Cradlejack, disso tinha certeza. Mesmo que os bebês desa-

O Cradlejack silenciara-se agora. Já ganhava a vida . Tinha dezessete anos e era um caçador-de-bruxas. parando do outro lado. Ele abrandou o passo. ele já o vira quando o perseguira em Chadwick Street.parecidos não fossem prova suficiente. mas onde? Voltou a tirar a sua tigela dourada do bolso e repetiu o procedimento que executara anteriormente. estavam para os humanos um pouco como as doninhas para os ovos de pássaros. Os Cradlejacks construíam as suas tocas em zonas calmas. que eram a sua dieta de emergência quando não conseguiam apanhar carne humana. para os prédios em ruínas que iam adquirindo uma tonalidade preta e depois cinzenta à medida que se erguiam em direção ao nevoeiro. Um cartaz à sua direita dizia: E. Negociante e Fornecedor do melhor Tabaco. ou com o seu adversário. CHELMTON. mas lutavam se a isso fossem obrigados e Thaniel era demasiado experiente para subestimar qualquer tipo de ser-bruxa. Tinha o hábito de falar sozinho. — Então é aí que tem se escondido — murmurou. A área circundante à sua toca tinha tendência para estar repleta de corpos de ratazanas. partiu em linha reta através de um pátio coberto de lajes partidas e estilhaçadas. caçavam os jovens indefesos. traiçoeiros e covardes. um sinistro prédio de contabilidade olhava-o com um ar ameaçador. olhando para cima. Thaniel sabia que estava próximo. Nunca se encurralavam a eles mesmos. Perto desse cartaz. Eram necrófagos. Confirmado o seu rumo. Ajudava a acalmar o seu desconforto. Fugiam se pudessem. escuras e protegidas da luz do sol. porque escalavam muito bem e era mais seguro uma vez que lhes dava uma vasta gama de opções de fuga. Normalmente num local bem alto. quando estava sozinho numa caça-às-bruxas. ou seja.

para eles. Não que isso fizesse grande diferença para um Cradlejack. uma construção triangular com um nariz embotado que se erguia no V formado por duas estradas convergentes. uma janela era tão boa como uma porta. com os seus dedos compridos e finos e corpos estreitos. Decidido. ombro com ombro com o grande edifício. Os seus níveis inferiores estavam completamente vedados por tábuas de madeira enquanto a maior parte das janelas superiores havia sido destruída. e pessoas de toda a Europa tinham viajado até lá para o ver. Thaniel deu uma vista de olhos pelo exterior do edifício. Além disso.. uma maravilha da ciência que fazia com que imagens que se moviam aparecessem diante do público. Mas as coisas que ele caçava eram mais perigosas que qualquer presa animal e só um louco os confrontaria sem qualquer medo. mas não conseguia ver qualquer forma normal de entrar. albergara um cinematógrafo. não era isso que o pai costumava dizer? Tens o mesmo sentido-bruxa que ele tinha. eles eram ladrões dotados. Tu sabes. Agora não era mais do que uma outra baixa da batalha travada e perdida pelas pessoas de Londres para manterem a sua cidade. mas estas agüentaram-se firmes. esqueléticos. tu sabes que está aqui. Tinha de ser aqui. Outrora.desde os catorze anos. Tinha todas as características de uma típica toca de Cradlejack. Thaniel deu uma pancada nas tábuas que cobriam a entrada. Diante de si estava um grande cinema. tendo sido aprendiz durante seis anos antes disso.. uma vez que o jovem se encontrava na ponta do V e o prédio tinha três andares. Ele era bom. a sua intuição gritava-lhe. A fechadura havia sido destruída há já . A caça-às-bruxas está no teu sangue. Escuro e imponente. dirigiu-se à casa estreita que se encontrava atrás do cinema. elevava-se diante dele como a proa de um navio.

Empurrou a porta cautelosamente. O cheiro que se sentia era de sangue velho e pó. A casa tinha apenas uma sala no andar inferior. coberta de sujeira. a sua única esperança de apanhá-lo era sendo furtivo. cortinas de tecido rasgadas haviam sido deixadas sobre as duas janelas que deixavam entrar o brilho opaco da luz a gás. Depois de se certificar de que o Cradlejack não se encontrava nas imediações. A sala apresentava o cheiro de umidade. Pôde ver que o interior da sala estava uma autêntica confusão. Nada se moveu. agora estava a cair de podre tanto por dentro como por fora. com um travo ligeiramente adocicado que o enjoava. O Cradlejack fugiria se o ouvisse chegar. Subiu as escadas. que se encontrava miraculosamente inteira. e a escuridão fria absorveu-o. Aqui. avançou silenciosamente. Uma tênue luminosidade entrava o melhor que podia através de uma única janela. Fora uma habitação modesta mesmo antes de a degradação da Zona Antiga se apoderar dela. penetrando na escuridão que o aguardava lá em cima. todos os seus sentidos concentrados na tentativa de vislumbrar um som. Thaniel esperou um momento de forma a permitir que os seus olhos se ajustassem à pouca luz e depois entrou sem fazer qualquer ruído. e através dessa luminosidade conseguiu ver os corpos semi-mastigados e destroçados de ratazanas e de alguns pequenos cães espalhados pela sala. qualquer coisa que o avisasse da presença de seres-bruxa. com escadas para o piso seguinte. fechou a porta. Silenciosamente. Estava ainda .muito tempo. uma imagem. Mordiscou o lábio inferior. o cano da sua pistola abrindo caminho na escuridão que se avizinhava.

Por um breve instante. a pistola apontada à abertura visível no topo de uma escada pouco segura. Afastou a trepidação que sentia por todo o corpo e pôs uma mão no corrimão da escada.mais escuro do que no piso inferior e cheirava a animal. subiu até ter a cabeça e os ombros . desapareceu. mas nada. denunciando-o. entrou na divisão. Uma pancada no teto alarmou-o. aos poucos e poucos. uma centena de esconderijos. até mesmo por cima. a pistola sempre apontada em frente. cada degrau parecendo um quilômetro. Estava no último andar. Cautelosamente. qualquer um podendo albergar o ser-bruxa que procurava. muito silenciosamente. enquanto ele esperava ser atingido de qualquer lado. Lá em cima. Atravessou a sala sem fazer qualquer ruído. Miraculosamente. mas tão depressa como surgira. Neste piso viam-se caixas e velhas grades espalhadas pelo chão. A aragem noturna parecia exalar perigo. Silenciosamente. agüentou o seu peso. e ele deixou de ter certeza se de fato tinha passado alguma coisa lá ou não. pareceu-lhe ter visto qualquer coisa passar no topo da escada. sentindo a madeira áspera debaixo da palma. Subiu. subiu lentamente. rezando para que a velha madeira não rangesse. não fazendo qualquer som. um aroma almiscarado que quase o fazia vomitar enquanto subia as escadas. Com a pistola apontada ao alto das escadas. fazendo-o virar-se subitamente e instintivamente erguer a pistola. vigiando todas as direções. Lá em cima parecia haver um pouco mais de luz. Seguiram-se uns breves momentos de terror. um frio mais profundo que o ar que entrava pelas narinas e passava pela garganta até arrefecer o seu coração. silenciosamente. Espreitou sobre o alto das escadas.

Olhou para baixo. aproximando-se do buraco na parede e teto. mas o quarto encontrava-se. que deixava entrar suaves pedaços de nevoeiro e o brilho dos candeeiros a gás. que percorria os terraços bem abaixo das suas janelas superiores e atravessava a parede lateral do cinema. Talvez uma construção deficiente. mas não lhe parecia que esse mesmo nevoeiro pudesse amortecer a queda se por acaso . Era um quarto.no interior da divisão. mais pedaços de ratazanas e de outros animais menos fáceis de identificar. Aí. que conduzia ao andar superior desse edifício. Uma única cama de solteiro encontrava-se disposta de forma oblíqua encostada à parede. semelhante àquele em que se encontrava. então é assim que entra — constatou. provocando o desabamento da parede devido ao seu próprio peso? Uma bomba perdida de um dirigível? Quem poderia dizer? Espreitando o exterior. reparou noutro buraco. — Ah. do mesmo tamanho dos dois pisos inferiores. Então o que é que fizera o barulho? Passou por cima do cadáver de algo pálido e ligeiramente peludo. vazio. Thaniel apertou o seu casaco um pouco mais com uma mão e entrou na divisão. os seus lençóis e coberta já há muito transformados numa fina e frágil teia de tecido. O que poderia ter provocado isto. O Cradlejack não se encontrava aqui. Onde devia ter estado a janela. de maneira geral. a uma dezena de metros. viu um parapeito de pedra largo e decorativo. não fazia idéia. Viam-se. O nevoeiro não lhe permitia ver bem a calçada que se encontrava debaixo dele. aqui e ali. via-se agora um grande buraco na parede. cerrando os olhos de forma a ver além do nevoeiro.

prestes a cair para a morte que o esperava lá em baixo. Ele tinha a intenção de livrar Londres de mais um ser-bruxa esta noite. na rua. afastou-se lentamente da segurança do buraco e começou a avançar ao longo do parapeito sem levantar os pés. Thaniel estava tão concentrado em evitar a queda que foi um segundo lento demais a levantar a pistola. o instinto guiando-o mais depressa que o pensamento. nem se colocava a questão de voltar para trás. e antes que a sua capacidade de raciocínio lhe desse a perceber o que se estava a passar. Com todo cuidado.escorregasse do parapeito abaixo. ficou à beira do precipício. Não tão perto do objetivo. testando a estabilidade deste ao aplicar o seu peso sobre ele muito lentamente. seguido da horrível sensação de estar de pé no vazio ao perceber que tinha perdido o equilíbrio. Uma forma escura e magra. A sua mão mexeu-se à velocidade de uma bala. A sua direita aguardava-o um mar de nevoeiro que se agitava esfomeado.. já agarrara o parapeito com uma mão. um clarão de olhos castanho-amarelados completamente enlouquecidos.. Por um momento que pareceu uma eternidade. e depois caiu. até ter a certeza de que não desmoronaria. Com a pistola na mão direita e a mão esquerda encostada à parede. O esticão que sentiu quando o ombro acolheu todo o seu peso quase que rebentava com os músculos superiores . o corpo fora do seu controle. Aquilo atacou-o quando estava a meio caminho. saiu para o parapeito. por uma questão de conforto. dentes curtos e afiadíssimos e depois o rugido do disparo da sua pistola. Contudo. Debaixo dos pés tinha cerca de vinte centímetros de granito e argamassa que o mantinham acima do chão. estendendo-se.

. em direção à porta que fora deixada aberta com a fuga apressada do Cradlejack. Tirou uma segunda pistola do cinto ao chegar ao buraco que lhe permitiu regressar ao interior do andar de cima da casa em ruínas. conseguiu prender os seus braços atrás das costas. depois o outro. resmungando. demasiado selvagem para ser eficaz. mas foi o suficiente para rodar o corpo de forma a que a outra mão também agarrasse o parapeito. tentando escapar às suas mãos. Ele gritou de surpresa ao ser derrubado.do braço. Antes que se pudesse aperceber do que se passava. a sua primeira arma caíra no nevoeiro quando ele se desequilibrara. e estava de pé. agarrado ao parapeito sobre a calçada coberta de nevoeiro. mas o ataque daquela coisa era frenético. correu através do quarto e escada abaixo. uma coisa que uivava. batia e cuspia. Escapando. e algo foi contra ele vindo do flanco. Teria atingido a criatura? Provavelmente não. concentrado apenas em fugir. Thaniel mal teve tempo para sentir o choque do seu confronto com a morte. pois já estava a erguer-se. avançando aos encontrões na escuridão em perseguição do seu alvo. A cautela esquecida com a pressa. estava a lutar pela vida. Um guincho. os seus músculos cansados mas fortes a levantarem o seu corpo magro com facilidade.. derrubando qualquer coisa pelo caminho enquanto corria para as escadas. arranhava. ele. Mas também não a deixaria fugir. Um joelho. A cara de Thaniel ardia de um arranhão profundo e muitas outras partes do corpo doí- . avançando rapidamente de regresso pelo parapeito. que se contorcia. O Cradlejack deu o seu uivo louco ao desaparecer uma vez mais para dentro da casa. Novo lance de escadas abaixo. mesmo antes de perceber exatamente o que era aquilo que estava em cima dele.

A criatura que o atacara perdera as forças debaixo dele. respirava com dificuldade e tinha os olhos brilhantes e semicerrados.am-lhe de várias pancadas que sofrera. aquilo não era o Cradlejack. . — Que raio de coisa és tu? — perguntou. Contudo. Parecia ser uma garota. Ela gemeu suavemente e desmaiou. embora não esperasse qualquer resposta. mas Thaniel sabia muito bem que as aparências podiam iludir na Zona Antiga.

Era preciso qualquer coisa especial para fazer alguém sentir a necessidade de se atirar contra um inimigo quase imbatível. outros por vingança. a necessidade de o superar. segredos que os faziam desejar o trabalho que mais ninguém queria. Uns nasceram dentro da caçada. Quase todos tinham as suas razões. outros criaram o seu próprio espaço dentro dela. A única razão de que Cathaline Bennett precisava era o fato de ser estranha. Uns eram atraídos pelo dinheiro. outros. Os odores de castanhas e batatas assadas com casca começavam a fazer-se sentir.CAPÍTULO II ~ A Irreprimível Menina Bennett Apresentando o Doutor Pyke Um Nome para a Garota ~ Os caçadores-de-bruxas vinham em todas as formas e tamanhos. saindo dos carrinhos de ferro escuro dos vendedo- . e mesmo os que pareciam normais por fora guardavam sentimentos secretos bem dentro deles. Alguns eram motivados pela religião. As ruas estavam a despertar enquanto ela andava ao longo de Crofter’s Gate ao nascer do Sol. os pedintes começavam a distribuir-se pelos seus locais preferidos. As barracas do mercado estavam começando a abrir. Uns procuravam o desafio. a sensação de estar a prestar um serviço ao mundo. outros pelo perigo.

com um tapete grosso . — Aqui dentro — chegou a resposta vinda da sala. o número 273 de Crofter’s Gate não era um local bonito. forrada a madeira. arcos e espirais. Lucas. Ela entrou. Uma vedação de ferro preta guardava os poucos metros quadrados do pátio de entrada lajeado. o soluçar suave era outra coisa completamente diferente. O calor que a recebeu quando a porta se abriu informou-a de que Thaniel estava em casa. Gárgulas espreitavam nos cantos das torres. De cor verde-opaco. arranhando as ruas que rodeavam a catedral. Cathaline chegou à porta da frente e entrou. escura e assustadora à luz da alvorada. A catedral erguia-se alta e imponente sobre todos os edifícios circundantes. Era uma casa grandiosa. retumbando sobre as pedras da calçada.res ambulantes. no andar inferior via-se uma porta e uma janela saliente e duas outras janelas um pouco mais acima. Ardia um lume na lareira e os candeeiros a gás encontravam-se ainda acesos. A sala estava carregada de verdes e castanhos. criando pequenos focos de luz que se iam desvanecendo aos poucos até se transformarem numa ligeira escuridão nas pontas. uma massa teutônica de curvas. — Thaniel? — chamou. como que escavando em direção às habitações abaixo. sem prestar grande atenção aos peões. fechando a porta atrás de si. com degraus e soleira de pedra bege. A casa onde vivia com Thaniel Fox erguia-se debaixo do olhar profético da Catedral de S. com terraço. Seguiu a sua voz até à fonte. No andar superior tinha várias janelas altas e rasgadas. As carruagens passavam de um lado para o outro. mas meramente funcional. colocadas com o propósito de maximizar a luz. apesar da proximidade da manhã.

um casaco de . Estava a beber qualquer coisa que cheirava a sopa de carne de uma tigela de cerâmica castanha. Tinha um longo cabelo louro. ajoelhado ao seu lado. tinha. Cathaline Bennett fora a mentora de Thaniel durante os seus últimos anos como aprendiz de caçador-de-bruxas. pelo que Cathaline podia ver. à sua volta. maciças e desconfortáveis. A sua face. dando-lhe aquela ligeira falta de graça de um poldro recém-nascido. um bocadinho alta demais proporcionalmente ao seu corpo. mas era muito difícil precisar. Era alta. Thaniel suspeitava de que ela andava nos vinte e muitos anos. Ajoelhada no tapete da lareira estava uma garota mais ou menos da idade de Thaniel. embora no momento. sujo e desalinhado e usava um vestido branco fininho que estava rasgado. um corte incrivelmente arrojado e excêntrico numa altura em que se esperava das mulheres que transpirassem feminilidade e recato. Estava vestida com um estranho conjunto de roupas. O seu cabelo estava cortado como de um rapaz.diante da lareira e várias cadeiras de braços. uma vez que ela agia com tal juventude e imaturidade que podia perfeitamente ter menos dez. Thaniel. um brilho inerente que lhe iluminava as feições e as tornava verdadeiramente hipnóticas. Uma pesada mesa de jantar de madeira de teca encontrava-se a um lado da sala. contudo. mas tornava-se ainda mais chocante pelas duas madeixas vermelhas que percorriam o cabelo preto desde a raiz até à ponta. afastando o exterior. As cortinas grossas estavam corridas. não sendo bonita nem feia. e sua amiga desde então. olhou para cima quando a amiga entrou. só a conseguisse ver por trás. à nuca. sujo e manchado de sangue em alguns lugares. — Preciso da tua ajuda — disse.

Um ligeiro sorriso formou-se nos lábios de Thaniel. Cathaline apoiou-se sobre um joelho ao lado da garota. — Não a aprova? . dava um gole quase mecânico na sopa que se encontrava dentro da tigela em suas mãos. Ele admirava-a. e calças pretas de algodão grosso com bainha vermelha. Thaniel? — indagou Cathaline aproximando-se deles. — Encontrei-a na Zona Antiga — explicou ele. o calor vindo da lareira aquecendo-lhe um dos lados da face. o maior caçador-de-bruxas de Londres. e isso agradava-lhe. Aliás.. — Thaniel fez uma pausa ao ver o olhar alarmado da amiga. Ocasionalmente. — Não foi isso que me arranhou. onde é que encontra estas garotas? — suspirou. Jedriah Fox. e. não diz nada de nada.pele de porco vermelho-escuro sobre uma blusa preta. percebia o olhar distante e transparente nos seus olhos.. Calças. — Estava a caçar um Cradlejack. para melhor poder observar os cortes e feridas que tinha ali. Agora que conseguia ver a maltrapilha. Acho que está louca. calmamente. — Não me diz como se chama. numa mulher! Cathaline não se regia pelas regras de ninguém. — Thaniel. A garota não reagiu minimamente ao seu toque. Cathaline afastou gentilmente uma madeixa de cabelo que caía sobre a face suja da garota. talvez até mais do que admirara o seu falecido pai. Foi ela. fixos no lume. como se estivesse a ver qualquer coisa além das chamas que eles não conseguiam ver. — Onde é que arranjou esses arranhões. A garota parecia estar aterrorizada. Thaniel sorriu para ela.

— Ela levantou-se e olhou para a garota. — De qualquer maneira. lembra? Já fui mordido uma vez . — Acho que essas feridas foram provocadas por várias quedas. embora preferisse estar na cama.— Acho que pode arranjar melhor — retorquiu. — Esteve assim o tempo todo? — perguntou Cathaline. — Já lidei com Cradlejacks antes. E se tivesse arranhado a garota e ela tivesse arranhado Thaniel. onde encontrara esta garota. É melhor me contar o que aconteceu. Talvez a tenha assustado. — Tão calma? — Estava bastante enlouquecida quando a encontrei. Thaniel explicou os acontecimentos da noite anterior. Os Cradlejacks eram uma das raras espécies de seres-bruxa que podiam passar a sua condição a outros através de um arranhão ou dentada. — E ela? Está ferida? — Não vi nada que pudesse ter sido infligido por animais ou seres-bruxa — disse Thaniel. — Nunca vai conseguir encontrar uma jovem adequada perseguindo seres-bruxa na Zona Antiga. aqui estou eu.. às vezes tens esse efeito — observou. — Bem.. — E tem certeza de que o Cradlejack não a arranhou? — inquiriu Cathaline quando Thaniel chegou ao fim do seu relato. como o tinha perseguido de volta à Zona Antiga e como o seguira até à sua toca. contou como estivera a fazer uma patrulha de rotina quando se cruzou com o Cradlejack que andava a aterrorizar a zona de Chadwick Street. Cathaline coçou a nuca.

Cathaline nunca fora atingida por um Cradlejack. até saberem com o que é que estavam a lidar. a garota ficou subitamente sonolenta. — Acha que a garota está louca? — perguntou. ou se lutava contra ela e se ficava para sempre imune. onde a pôs na sua cama. e as suas pestanas e cabeça tornaram-se pesadas. Certificou-se de que as janelas estavam bem fechadas e trancadas e depois trancou a porta quando saiu. Depois da sopa. — Sirva-se da minha sopa à vontade — disse Thaniel. aquecendo-se diante do fogo enquanto comia sopa com pedaços de pão escuro. Thaniel assentiu. e ela adormeceu instantaneamente. ou possuída. — Pode estar louca. Quando voltou à sala. voltando depois a olhar para a garota. Era melhor jogar pelo seguro. ou ela nos derrotava. Cathaline estava sentada numa cadeira. mordiscando o lábio inferior quase inconscientemente. Estou imune. era como malária ou uma febre grave qualquer. Fosse o que fosse que transformava uma pessoa num Cradlejack. — Estava a pensar em mim — retorquiu Cathaline. Thaniel levou-a para cima. e perguntar-lhe se . — Tenho certeza de que ela não foi arranhada — assegurou-lhe Thaniel. passando a mão pelo seu cabelo louro e fino.e consegui ultrapassar o problema. andando para frente e para trás na sala. Cathaline ergueu uma mão em sinal de agradecimento. ou talvez só assustada de morte. Vou fazer uma visita ao Doutor Pyke no manicômio.

diante do grande portal de pedra que marcava a entrada principal. Quando a carruagem avançou. Onde a estrada curvava junto aos campos. Pararam ruidosamente no cascalho do caminho de acesso. erguiam-se altos portões de metal forjado encaixados num enorme muro. num dos lados de uma pequena colina. como um penhasco rochoso ou um relâmpago cruzando os céus. rodeado por um vasto mar de campos atravessado por uma única estrada. Portas de mogno escuro olhavam para eles. Um senhor com ar sisudo usando uma boina e casaco castanho perguntou a Thaniel qual o propósito da sua visita e deixou-o entrar. Vindo em algum lugar . erguendo-se isolado. O cocheiro espiou em volta com nervosismo. O cocheiro carregou o sobrolho ao entrar no edifício e apressou os cavalos.fugiu algum paciente — decidiu ele. e a sua expressão foi de completo desânimo quando Thaniel lhe pediu para esperar. torcendo o nariz de forma a mostrar o quanto a idéia lhe desagradava. sem qualquer tipo de ornamento. — Não queria deixá-la sozinha. Tudo em si deixava transparecer a sua força bruta. a esperança do homem era de abalar o mais depressa possível. afastando os portões com um ruído agudo. Thaniel viu-o regressar à casa da guarda e levantar o auscultador do telefone. o metal no centro de cada portão fora torcido de forma a criar as iniciais RA. obviamente desejoso de ir-se embora. Era um edifício largo. Fica com ela durante um tempo? — Posso comer mais sopa? — perguntou Cathaline. atarracado. um sólido retângulo de pedra com pequenas janelas quadradas distribuídas irmãmente ao longo da fachada. O Asilo Redford Acres encontrava-se nos arredores de Londres.

As portas abriram-se no preciso momento em que Thaniel saía da carruagem e ali estava o Doutor Pyke. um chão de azulejo preto e branco e uma secretária trabalhada. ouviu-se um grito agudo que trespassou o dia. com um lance de escadas em caracol que levava ao topo de uma parede para uma varanda. seu rosto enrugando-se até formar um sorriso. Era uma divisão com teto muito alto. batendo com as mãos uma na outra e esfregando-as. Doutor — disse. Thaniel agarrou sua mão e cumprimentou-o. Era um homem de cara achatada. Thaniel sempre ficara impressionado com a forma como o átrio era . — A sua companhia é sempre bem-vinda. Faça o favor de entrar.lá de cima. Acompanhou Thaniel para o interior do átrio de Redford Acres. embora não conseguisse fazer a sua voz parecer convincente. com um nariz magro e pontiagudo no qual assentava um par de óculos pequenos e redondos. Mestre Thaniel Fox! — exclamou. atrás da qual se encontrava uma recepcionista de ar petulante com o cabelo negro preso num rolo. parecendo estranho àquela luz cinzenta que coloria o céu e fazendo o cocheiro saltar de susto. O seu corpo era tão magro e ossudo como a cara mas os seus olhos azuis eram brilhantes e agudos por trás dos óculos e das pálpebras pesadas. — Ah. — O melhor é não ficarmos aqui fora. O guarda do portão avisou-me da sua chegada. O seu cabelo grisalho dava sinais de que se preparava para se tornar completamente branco e começava também a ter entradas cada vez maiores. — É um prazer voltar a vê-lo. — Bem — disse Pyke. com o dia triste que está.

Supunha que era em parte pela profissão que exercia. parece que procura os meus serviços para qualquer coisa? — afirmou Pyke. pelo menos. o homem sempre o fizera sentir-se desconfortável. Nem todos os seres-bruxa eram como o Cradlejack. Pelo menos a Thaniel afetaria com certeza. batendo com os dedos na secretária diante dele e olhando fixamente para Thaniel com os seus penetrantes olhos . estavam um livro de frenologia e um modelo de um crânio humano. — Então. A maior parte do edifício não reunia qualquer uma destas características. Thaniel nunca gostou de Pyke. agradável. meu jovem. as paredes cobertas de livros antigos e imponentes. Convidou Thaniel a sentar-se e tomou depois o seu lugar do outro lado da secretária. era limpo. eficiente. havia alguns que deixavam um rasto de loucura por onde passavam e só os mais fortes de espírito resistiam. Era um pequeno estúdio. e uma cadeira de cabedal verde atrás de uma secretária que estava coberta de organizados molhos de ficheiros. um bocadinho. diante de uma alta janela retangular que deixava entrar a luz do dia. Pyke foi conversando com Thaniel enquanto o guiava escadas acima até seu escritório. Pyke era um dos velhos conhecidos do seu pai. Algumas das pessoas que agora definhavam nas sombrias celas de Redford Acres tinham sido colocadas ali por Jedriah e Thaniel.enganador. com as diferentes seções destacadas e nomeadas. pois o seu trabalho levara-o a visitar Redford Acres muitas vezes. Marcando uma presença dominadora sobre essa secretária. Só o fato de se encontrar entre as paredes deste lugar deixava-o nervoso. Uma pessoa não podia trabalhar cinco dias por semana num manicômio sem que isso o afetasse.

ecoando estranhamente. E é desnecessário dizer-lhe que deve ficar entre nós. — Oh! Estou vendo que me encontro em alguma encrenca! — De forma alguma. — Doutor Pyke. Thaniel respirou fundo. A minha pri- . presos nas suas celas. — Ficar entre nós? — admirou-se o homem mais velho. Mas a sua resposta poderá ser entendida como prejudicial para a sua reputação. Pyke ficou com um ar um pouco mais sério. — Diga lá. Odiava este lugar. — Doutor Pyke. como que dizendo: veio aqui perguntar-me isso? — Só ponho esta questão — continuou Thaniel.azuis. Passado algum tempo acabamos por ficar bastante habituados. os seus olhos brilhando de divertimento. Quase que conseguia sentir os prisioneiros. Pyke nem pestanejou. senhor. escondendo o seu desconforto por trás de um já muito treinado escudo de eficiência. torturados pelos seus próprios demônios. Um gemido assombrado fez-se ouvir no escritório. com as palmas das mãos viradas para cima. então. antes que Pyke pudesse responder — porque na noite passada deparei-me com uma garota que se encontrava em considerável estado de loucura. Parece não haver forma de impedir o som de se espalhar. — Uma das nossas almas mais perturbadas. definhando no seu tormento. como é a segurança em Redford Acres? Uma ligeira expressão de irritação atravessou a face de Pyke. recostando-se na sua cadeira e abrindo os braços. vim vê-lo para lhe fazer uma pergunta. sabe. calmo mas angustiado. se chegar aos ouvidos errados.

. Thaniel pensou nos corredores úmidos e frios. Mas deixe-me garantir-lhe. deixe-me garantir-lhe que nenhum paciente desapareceu de Redford Acres. tomar conta dela. posso perguntar a alguns dos outros asilos mais adiante. lágrimas e gargalhadas ruidosas que jaziam debaixo da respeitável fachada de Redford Acres. Não. para alguém não treinado.meira suspeita foi que talvez tivesse sido tocada por um ser-bruxa. Tem a garota consigo? — Sim — respondeu Thaniel. nem agora. poderia trazê-la de volta em segurança e ninguém saberia de nada. senhor. — Bem. — Ela parece feliz com os meus cuidados — retorquiu diplomati- . se assim o desejar. e não houve um único paciente que tivesse abandonado estas instalações sem antes ter sido curado por nós. meu amigo. — Tinha de me certificar antes de tentar o Rito para determinar a origem da sua loucura. uivos. Contudo. Depois pensei que talvez tivesse fugido destas instalações. que se alguém tivesse fugido e o senhor me dissesse. posso garantir-lhe que não foi isso que aconteceu! — retorquiu Pyke rapidamente. e. mas não é nada fácil determinar se a loucura é natural ou se tem ligação aos seres. mas de repente acalmou-se. — Ah. — Não acha melhor trazê-la até mim. Não queria ser ríspido. perdoe-me. nos gritos. Dormi muito pouco esta noite. Pyke parecia estar prestes a gritar de novo qualquer coisa ao rapaz. nas grades ferrugentas das celas. senhor — disse Thaniel fazendo uma vênia. para que possa tomar conta dela? Pode ser perigoso. — Peço desculpa. nem nunca. — A nossa segurança é da mais alta qualidade..

Talvez me possa dar um nome? — Ela não fala. Mestre Fox. bem — disse Pyke. mesmo assim. cabelo negro e olhos castanho-escuros — mentiu. — O melhor é não perturbá-la. mas Thaniel não prestou atenção. Estava embrenhado nos seus pensamentos. pois era aí que se encontravam os seres-bruxa. dissera que andava a caçar quando a encontrou. — Muito provavelmente alguma andarilha louca. — Muito obrigado — disse Thaniel. — Ah. Pyke escreveu a descrição num bloco de notas.camente. mas tenho de regressar ao trabalho. Nunca dissera que encontrara a garota na Zona Antiga. — Muito bem. Avançaram com solavancos e ruído ao longo do caminho de acesso até ao portão. é sempre um prazer. alguma coisa não lhe cheirava . e a maior parte da caça-às-bruxas passava-se na Zona Antiga. Então como é que Pyke sabia disso? Supunha que era um raciocínio lógico. Thaniel e Pyke trocaram alguns elogios enquanto desciam as escadas e Pyke ficou a observá-lo à entrada enquanto ele subia para a carruagem. Diz que a encontrou na Zona Antiga? Como ela é. Fechou a porta com um último aceno enquanto o cocheiro agitou as rédeas e os cavalos ganharam vida. Mas. para que possa informar os meus colegas? Thaniel fez uma ligeira pausa. Acompanho-o até à saída. Agora. — Perguntarei aos meus colegas em seu nome. afinal de contas. — Tem cerca de vinte e cinco anos. sorrindo escusatoriamente para ele.

decidiu ele. a tarde já chegara ao fim. Thaniel não precisava de despertador. enquanto lavava o rosto na casa de banho e se olhava ao espelho. Colocara Encantamentos por toda a volta do quarto de Thaniel. Thaniel estava verdadeiramente estourado.bem naquilo tudo. Tinha uma pele límpida e feições bem distribuídas. por isso colocou mais lenha na lareira e enrolou-se sobre si mesmo no tapete. veriam se a garota estava melhor e determinariam o que fazer com ela caso não estivesse. Era apenas um fato estranho de entre muitos outros. Mais urgente era a questão da descoberta da identidade da garota. ele não parecia nada fora do normal. Nessa noite. Tinha a invejável capacidade de decidir a que horas queria acordar e acordaria exatamente três minutos antes desse momento. embora as suas voltas na cama dele tivessem deixado os lençóis todos amarrotados e enrolados à sua volta. Por hora não valia a pena pensar muito nisso. Não fazia sentido correr riscos com a garota. e nenhuma varicela ou febre-das-trincheiras lhe tinha atacado o rosto. mesmo que tivesse sido comprada pelo pai? E. Mas por hora. Foi ver como estava a garota e encontrou-a ainda a dormir. Cathaline podia ter um ar despreocupado. realmente. Quando chegou a Crofter’s Gate. mas era uma das melhores de Londres. Ele era fora do normal em muitas coisas. como ele reparara em muitas . não tendo dormido desde a tarde do dia anterior. Cathaline adormecera numa cadeira da sala. sonhava. Quantas pessoas podiam dizer que eram caçadores-de-bruxa aos dezessete anos? Quantas poderiam viver na sua própria casa. Este sorriu. pensou.

uma vez que os seus ombros eram mais estreitos e ele era naturalmente mais magro. e foram os ensaios publicados por ele que espalharam o conhecimento sobre como derrotar os diferentes tipos de seres-bruxa. foram as histórias contadas sobre os seus feitos o que atraiu novos caçadores. Fora um homem alto e bem constituído. o mais proeminente caçador-de-bruxas de Londres. Chiana Roseleaf Fox. tal como a sua mãe antes dele. e ainda por cima de raciocínio rápido. alcançara o estatuto de ícone entre os caçadores-de-bruxas de Londres. legados da sua mãe. quando ninguém sabia nada acerca dos seres-bruxa e a caça-às-bruxas era semelhante a suicídio. vítima de um homicídio brutal e inexplicável num cemitério em Whitechapel. e morria um pouquinho cada vez que o ouvia. forte como um touro. Um veterano de centenas de confrontos com a morte. talvez até do mundo. Nos primeiros tempos. Thaniel ficava completamente destroçado por dentro. com uma grossa barba negra. O seu pai dissera-lhe muitas vezes que via nele a sua mãe. Mas tinha uns belos olhos azul-claros e um suave cabelo louro. Mas agora o seu pai desaparecera. Ela era . Thaniel estava sozinho. outras com um travo de decepção por Thaniel não conseguir alcançar as expectativas que o pai traçara para ele. e nunca teria a constituição física do seu pai. Nascera filho único de um homem que já era uma lenda nessa altura. A sua infância não fora fácil. Mas depois a sua mãe morrera. com quem tinha grandes semelhanças. Jedriah Fox. Talvez fosse um bocadinho pálido demais. umas vezes dissera-o com carinho.pessoas. Quando era este o caso. Thaniel idolatrava o seu pai. Sabia mais acerca da ciência-bruxa do que qualquer homem ou mulher que jamais houvesse vivido.

A sua natureza dócil. Ele dissera isso uma vez. Quando Thaniel tinha onze anos. a sua veia criativa. Nunca chegaram a descobrir aquilo que ele estava caçando. Estamos numa idade de indústria. artística. Temo por ti. filho. — É por isso que os matamos. Temo que essas características que foram as da tua mãe signifiquem a tua desgraça no futuro. os cientistas criam maravilhas.. a sua compaixão. onde outrora estas características foram vantagens. estamos a desvendar os mistérios do Universo e estes são frios e duros. — E os seres-bruxa. mas pouco restava dele quando o encontraram. carinhosa. quando Thaniel tinha seis anos. Mas ela morreu assim mesmo. o seu pai adorara-a e Thaniel amara-a profundamente. Thaniel. pai? Onde é que eles se encaixam nesta nova idade de ciência e razão e pensamento lógico? A cabeça de Jedriah caíra um pouco. agora são fraquezas. — Não se encaixam — respondeu. — Não há lugar para pessoas como a tua mãe neste mundo. Os homens labutam em fábricas. A sua voz apresentava um terrível tom de melancolia enquanto ele olhava pela janela. A ciência é a nova via. Depois disso. — Ela era boa demais para um mundo como este.. A caça-às-bruxas era . A Idade da Razão.bela. ela estava destinada à outra vida. Foi Cathaline. Jedriah deixara-lhe uma casa e bastante dinheiro. Jedriah mudou. e a ciência não tem tempo para poesia ou histórias ou pessoas desatentas. a perícia enfraquecida do seu pai falhou-lhe. aos anjos. que tratou da educação do rapaz. a amiga de Jedriah.

podia estar num asilo. ela fora um desenvolvimento interessante. toda a sua aprendizagem feita em casa. Encontrariam os seus pais e levá-la-iam de volta para o lugar de onde ela viera. Ela mudou-se para a casa dele e fez com que Thaniel prosseguisse com a sua aprendizagem para se tornar um caçador-de-bruxas. Tinha poucos amigos e nenhum que ele considerasse próximo. não tinha? E conhecia alguns outros caçadores. e o Parlamento oferecia salários e prêmios que fariam qualquer advogado ficar verde de inveja. em vez de estar ganhando muitíssimo mais dinheiro do que a maioria das pessoas de Londres. pois isso fora a única coisa que lhe haviam ensinado desde os oito anos e não sabia fazer mais nada. Com o passar do tempo. na maior parte das vezes. . Thaniel rodou as torneiras de bronze para desligar a água do lavatório e foi ver mais uma vez como estava a garota. onde a garota estava trancada. sozinho. Era o fado do caçador-de-bruxas. Era feliz. Neste preciso momento. Discutia consigo mesmo freqüentemente. apenas que ela estava em apuros e que não deveria deixá-la a vaguear pela Zona Antiga sozinha. por fim. Mas tinha a Cathaline. ele nem tinha pensado no que poderia acontecer quando ficasse melhor. mas apenas superficialmente. Para ser sincero. Pelo menos. a professora e o aprendiz tornaram-se amigos e. Trabalhar à noite. Não pensara no que estava fazendo quando a trouxe para casa.uma profissão extremamente lucrativa devido aos perigos a que obrigava. E se ela não melhorar? Thaniel debatia a questão consigo mesmo enquanto atravessava o corredor até o seu quarto. companheiros de caçada.

— Não consigo me lembrar — respondeu. — Um cavalheiro teria batido. Ao seu dispor. Os seus olhos deslocaram-se rapidamente para a porta e depois de volta para ele.Podia ter sido pior.. ainda embrenhado nos seus próprios pensamentos. — Tem febre? — Tenho frio — respondeu ela. Ela estava deitada de lado na cama. com a coberta puxada bem para cima. — Quem é você? — Thaniel Fox. — Como é que vim parar aqui? — inquiriu a garota atrás dele. com um ar desesperado. — Claro. A sua pele brilhava por causa do suor. eu. talvez? Ela assentiu debilmente com a cabeça e lambeu os lábios.. — Volto já — disse ele. e puxou as cobertas da cama ainda mais para junto dela. Thaniel saiu da sua introspecção em choque. peço desculpa. Destrancou a porta do quarto e entrou.. — Posso comer qualquer coisa? — resmungou. mas tinha os olhos abertos e observava-o. — Ah. não esperava que estivesse acordada. terminando os movimentos com um ligeiro sorriso que a fazia parecer um gato feliz. primeiro — disse a garota calmamente. Um pouco de estufado. — Não consigo me lembrar de nada! . até o pescoço.. e o seu cabelo louro pendia lânguido sobre a cara. minha senhora. virando-se em direção à porta. Os seus olhos abriram-se ainda mais. — Não sabe? — perguntou Thaniel.

— Então permita-me que lhe vá buscar um pouco de estufado. tremendo e suando. Thaniel levantou-se lentamente e deixou-a. rodou a chave na fechadura. — Alaizabel Cray. Menina Alaizabel. e depois talvez possamos falar um pouco mais? Ela voltou a assentir. Vai acabar lembrando-se de tudo.Thaniel dirigiu-se a ela. fechando a porta atrás de si. Sabe o seu nome? Comece pelo seu nome. Estava com a expressão de medo e loucura que vira da primeira vez que a encontrara. aparentemente aliviada por esse conhecimento. silenciosamente. Ela pareceu relaxar um pouco. menina. Depois voltou atrás e. — Lembro-me do meu nome — disse. — Acalme-se. .

antes de voltarem a vestir seus ternos e capas e saírem do edifício como se fossem os mais respeitáveis cavalheiros da face da terra. Nessa noite só tivera dois clientes. pouco faziam para melhorar a situação. desde que isso significasse estar rodeada pelo calor do quarto que reservara no último andar. irrompe- . com a cara pintada como a de uma boneca. pensou. Sob o seu olhar. olhando por cima do ombro para a estalagem Waterside e desejando estar lá dentro em vez de aqui fora. Pelo menos o nevoeiro não estava tão mau hoje. ambos a agarraram e maltrataram no quarto de uma forma particularmente desagradável. corados e completamente bêbados. dois velhos robustos. Talvez até não fosse totalmente mau receber outra vez um desses dois molestadores. como é que uma garota de uma família abastada acabara de pé em Hangman’s Row numa gélida noite de Novembro. Era a única explicação possível. De outra forma. atirando beijos e fazendo poses às tipóias e carruagens que passavam? Estava extremamente deprimida e mesmo os goles de gim bem quente que ia bebendo de um frasco.CAPÍTULO III ~ Uma Mulher de Má Fama Fazendo Serviços Uma Infeliz Reviravolta do Destino ~ Marey Woolbury nasceu sob uma estrela de azar.

Fora um parto difícil e a mãe. — As nossas carteiras foram esvaziadas pelo demônio instalado naquela estalagem. abria rapidamente caminho diante dela. — Ponham-se a andar. Tirou o frasco de dentro de um bolso do vestido. até o mar. O Tâmisa. e esperou que passasse o próximo candidato a cliente. senhores — disse Marey. Uma estrela de azar. o demônio uísque — acrescentou o outro. O seu bafo era visível no ar frio enquanto ela olhava para um lado e depois para o outro de Hangman’s Row. e a alegria foi novamente abafada. resmungando. com uma dicção verdadeiramente abominável. Marey arranjou-se. . um chapéu e um xale e roupa interior de renda. luz e riso. com certeza. — É um verdadeiro ladrão. perdendo o interesse na sua lengalenga. — Que tal um pouco de companhia feminina. minha boa menina — disse o mais sóbrio dos dois.ram pela porta. rindo. Depois a porta voltou a fechar-se. Uísque. Esta noite estava sem paciência. piscando-lhes o olho e sorrindo. deu outro gole no gim. que corria bem ali ao lado. meus senhores? — perguntou-lhes. Qualquer senhora com dois dedos de testa que saísse à rua na noite de hoje estaria coberta com duas camadas de ceroulas e camisas interiores. não a enregelar os ossos com um único vestido rodado. Não se via ninguém. seguidos por uma nuvem de calor. — Sim. deixando-a de novo sozinha no frio. Mas agrada-me tanto. um ladrão ele é. mostrando os seus dentes amarelados. tinha sido assaltada por azar desde o dia em que veio ao mundo. Afinal. Eles foram-se embora aos tropeções. — Ah.

depois de ter levado uma surra particularmente brutal. O seu pai apostara-a numa partida de cartas. Uma vez. isto é. chamado Scrimp. Deixou-a sozinha. com as monstruosas contas que amealhara no jogo. mas não havia nada que pudesse fazer. por isso tomou bem conta de si. esperando vê-lo de volta. Quando ouviu alguém bater à porta. E perdeu. Agora órfã. com dores em mais lugares do que os que ela conseguia contar. Todos os dias a coser até os seus dedos . que se riam muito e faziam comentários obscenos. cheia de medo. Ele nunca regressou. com dois beleguins de ar ríspido. Estava habituada a cozinhar e a tratar da casa. quando tinha oito anos. Era ilegal. sem dúvida à procura de bebida ou de uma prostituta. Depois fazia-a dormir no cesto de carvão. sobretudo quando tinha uma má noite de cartas. abriu-a. Era uma senhora diferente todos os dias. talvez por sentir a culpa de ter sido o instrumento da morte da esposa tanto como Marey. Foram sete longos anos. Em vez dele. o que não era tão raro como isso. Foi vendida a uma fábrica por dois xelins. Quando tinha estes ataques.uma mulher que sempre fora fraca. O seu pai. virou-se para a bebida e para o jogo. Sozinha. as lágrimas correndo-lhe pela face. Foi então que descobriu que ela também era uma dívida. ou talvez de ambas. morrera durante o trabalho de parto. E recordava-se de ver a sombra imponente do pai a sair de rompante pela porta. não tinha ninguém que lutasse por ela. apareceu um usurário. Durante dois dias aguardou o seu regresso. Andava freqüentemente acompanhado por senhoras. espancava-a violentamente. lembrava-se de estar enrolada sobre a cama dura de pedras sujas. claro.

Mas o melhor de tudo. Foi uma prostituta com um bom coração chamada Elsbey que a viu vagueando pelas ruas e a acolheu. Fugiu da fábrica. de tronco nu. coser outra vez.ficarem com cãibras e depois. Era irlandês e dois anos mais velho que ela. Acaso do destino. preparada para morrer de fome em vez de ficar ali. Ela deve ter cosido centenas de milhares de bainhas. Então. Ela estava ali . coberto de suor salgado com o calor do Verão e dos seus olhos marotos. o seu corpo elegante. um homem chamado Ratchet. um dia. sem saber para onde podia ir. Dezenas de pessoas. fazendo camisas a troco de pouca comida e de alojamento. E o melhor capítulo na história da vida de Marey Woolbury terminou. Aquela pronúncia. Ele era um corredor-de-telhados. um dos rapazes que trabalhava nas roldanas em cima das vigas. aventura e excitação. todas enfiadas num pequeno armazém. prometendo-lhe coisas longe dali. Uma vida de labuta constante. fazendo serviços em seu nome.. Nessa altura fugiu. Ele estava correndo ao longo das vigas. a sua voz. de suor. Isso acontecera cinco anos atrás. havia um homem que tinha como profissão tratar das senhoras da noite. Pela primeira vez ela era querida e desejada por outro ser humano. um trepador ágil com um assustador desrespeito pelas alturas. Mas não duvidava de que aqueles tinham sido os melhores anos da sua vida. Ela apaixonou-se por ele e ele por ela. calor e dor. teve uma tontura e caiu. Recordava a sua face sempre ansiosa. ele apanhou gripe. Por causa de uma só coisa. Um rapaz chamado Kairan.. Viu nela uma boa perspectiva e em menos de uma semana ela estava nas ruas. O mestre-de-obras fê-lo trabalhar do mesmo jeito.

bem. gordo e todo suado. Wardle ter ido embora. Ele fez-lhe uma vênia e afastou-se com rapidez. Fez um esforço com os olhos para tentar perceber quem vinha lá. — Senhor Wardle! — chamou. Passaram cerca de cinco minutos em que ela esteve ali de pé. Hoje tenho outros compromissos marcados. Preparou-se e colocou um sorriso nos lábios. nitidamente constrangido por ser visto junto dela. Era uma criatura asquerosa. Wardle: um dos clientes habituais e um dos que ela mais detestava. e nem uma só alma passou. Wardle chegou junto dela. Não estava bem-disposta e sentia-se com frio. aborrecida e com algum receio de já ter apanhado uma pneumonia. Menina Marey. pensou Marey.desde essa altura. porco mesmo para os seus padrões de exigência. Olhou: uma carruagem preta com um degrau de madeira . Que estranho. respirando pesadamente. o dinheiro teria sido agradável. — Desculpe. depois de o Sr. Passou um lenço na testa e careca. mas era um alívio não ter de fazer carinhos àquele homem odioso esta noite. Oh. — A Marey tem frio e gostaria que subisse e a aquecesse! O Sr. e resmungou para si mesma quando viu quem era. O álcool estava agora a entorpecer-lhe o cérebro de uma forma bastante agradável e até começava a esquecer-se um bocadinho do frio. — Tem alguma coisa mais importante do que a sua Marey? Mas que vergonha! — brincou ela. Estou apenas de passagem. O Sr. O eco de passos trouxe-a de volta ao presente. Foi nessa altura que ouviu o barulho de uma carruagem. e apercebeu-se de que tinha estado a divagar.

O cocheiro estava sentado no seu lugar. Marey olhou para o cocheiro. sou um cocheiro de carruagem. dos seus flancos via-se sair o calor dos seus corpos. — Temo que este humilde cocheiro de carruagem esteja de serviço. com um ligeiro temor da sua face oculta. acabando mesmo por parar. — E quererá este belo cocheiro de carruagem a companhia de uma senhora. com um sorriso de lamento. com as costas inclinadas para frente. puxada por um garanhão preto e uma égua branca. O que ela estava ali a fazer era bastante óbvio. — Boa-noite. É uma pena. pareço . envolvendo-o. — Talvez estivesse à espera de um cocheiro de tipóias? — Ah. por acaso. um pequeno bigode castanho e olhos gentis. e o bafo a escapar-se por baixo da sua cartola. Estará. — Boa-noite. esta noite? — perguntou.esculpido no flanco. Ela sentiu um estranho alívio. quase sem voz. sorrindo para ela. à espera de uma tipóia? Ela sorriu como resposta ao seu galanteio. Os cavalos relincharam e bateram as patas impacientemente. julgo eu. Ela preparava-se para se pavonear até mais próximo da estrada e chamar quando a carruagem se aproximasse. abanando as ancas de forma sedutora. O cocheiro tirou a cartola e dobrou a gola para baixo. minha senhora — disse. — Contudo. viu com alguma surpresa que a carruagem abrandou quando chegou junto dela. meu senhor — cumprimentou ela. junto à porta. Ele tinha um ar agradável. Contudo. mas como vê. o casaco puxado bem até em cima. minha senhora. mas após uns instantes decidiu que não valia a pena. minha senhora.

. como você? Para onde vamos? — Para Archerwood — indicou ela. e fora o detestável senhor Wardle. e logo uma bela senhora. fico muito agradecida pela sua oferta — disse. — É muito gentil da sua parte. ainda por cima. Esta era uma feliz reviravolta do destino. Estava a morrer congelada sem qualquer razão e. — Fantástico! — respondeu. — Para que serve uma carruagem sem passageiro. deu outro gole no seu frasco e relaxou. misturada com o gim.ter uma carruagem vazia e você deve estar com frio. Talvez a sua estrela de azar estivesse a brilhar menos esta noite. Talvez queira uma boléia para casa? — Não tenho meios para poder viajar num veículo tão bom — respondeu. senhor.. minha senhora. meu senhor. Para que é que havia de ficar ali. Ratchet nunca iria ficar a saber. Ela subiu lá para dentro. sentindo-se um pouco tonta por causa do gim que bebera. — Não cobro nada. Recostando-se. — começou por dizer. que ainda por cima não a tinha querido. A viagem foi surpreendentemente calma e a movimentação suave. — Bem. embora não muito mais quente que o exterior. mas depois parou. por certo. e o cocheiro voltou a pôr a sua cartola e pegou nas rédeas. mas eu tenho de. parecia-lhe que era capaz de estar a apanhar uma constipação. — Aceito-a. começou a fazê-la adormecer um pouco. O interior era macio e confortável. de qualquer maneira? Era óbvio que esta noite não ia ser boa. Só um dos clientes habituais tinha aparecido. Era só .

e uma peruca de senhora de cabelo castanho fino. — Stitch-face2! — exclamou num só fôlego. Acordou quando a carruagem parou. 2 Stitch-face — literalmente. isso era só para trabalho. e em Londres. Wardle não tivesse outros compromissos marcados para aquela noite. ela não vivia na estalagem. uma série de retalhos cosidos uns aos outros sem qualquer cuidado. com buracos na zona dos olhos e da boca. e desejou. não se apercebendo até esse momento de que tinha adormecido. como que num esgar de morte. soube que a sua estrela de azar tinha finalmente levado a melhor sobre ela. e nesse preciso momento. com franja. uma reviravolta deveras feliz do destino. sentou-se e espreguiçou-se. As suas faces rosadas empalideceram quando a porta se abriu. que o Sr. Sentia-se mesmo como uma verdadeira senhora. mas uma máscara de serapilheira cinzenta. (NR) . conjugada com o cabelo bonito ficava verdadeiramente horripilante. Pestanejando. era sempre mais seguro ir numa carruagem do que a pé. cara pespontada. à noite. escutando o bater de botas no cascalho enquanto o cocheiro saía para lhe abrir a porta. Não viu nenhum cocheiro esbelto. Já tivera alguns encontros imediatos. Sim. não. A boca da máscara parecia estar ligeiramente aberta.uma pequena viagem até sua casa. mas contavam-se cada vez mais episódios de lobos e coisas ainda piores e era sempre arriscado andar por aí assim tão perto do Tâmisa. quando olhou para a longa faca que ele tinha na mão. mais do que qualquer outra coisa.

que era do outro lado da rua. estremecendo quando lhe passou pela garganta. Parecia uma coisa curiosamente infantil. o cobertor bem enrolado em volta dos seus ombros e joelhos de forma que a única coisa visível fora daquele casulo eram os seus braços e cabeça. quando Cathaline regressou do boticário. mas agradava a Thaniel. Engoliu a tintura sem qualquer pergunta ou queixa. por fim. ao longe. — Melhor — respondeu ela. — Não . Alaizabel não falou muito enquanto comia. entregou a tigela vazia a Thaniel e pareceu saciada. mas Cathaline conhecia a família a quem pertencia e eles resolviam-lhe os problemas quando ela lhes batia à porta àquelas horas tardias. com uma tintura para a sua febre. com um pequeno sorriso. claro. centrando toda a sua atenção na comida que Thaniel ia lhe dando. — Como se sente? — perguntou Thaniel. O boticário encontrava-se fechado. Ela acordara com uma fome quase selvagem e ia na sua terceira tigela de estufado. o Big Ben acabara de bater a uma hora da manhã. que se lembrava de fazer aquilo quando era pequeno.CAPÍTULO IV ~ A Febre de Alaizabel Um Espectador Indesejado Uma Carta do Doutor Pyke ~ Alaizabel sentou-se na cama.

— Quer vir sentar-se junto à lareira? É mais quente do que o meu quarto. — Boa sorte — disse Thaniel.tenho tanto frio. O melhor é chegar lá antes que isso chegue aos ouvidos de outros. numa das cadeiras. os seus olhos brilhantes fixos nos dele. Thaniel ajudou-a a deslocar-se até à sala. subitamente interessada. enquanto bebia um gole de brande. — O melhor é ir andando para a caça — anunciou Cathaline. pouco iluminada e acolhedora. menina — respondeu Thaniel. assim como para ele próprio e para Cathaline. Ainda estava enrolada no cobertor quando se sentou. onde Cathaline já se encontrava. deixando transparecer um tom estranho na sua voz. — Somos caçadores-de-bruxas. — E cuidado com as caudas deles. — Oh — disse ela. — Vocês são caçadores? Em Londres? — perguntou Alaizabel. Ela assentiu. Olhou para ele. Thaniel trouxe-lhe um brande. de pernas cruzadas. A sala aqueceu rapidamente. mesmo sob o cabelo desalinhado. a sujeira e a pele amarelada que a febre lhe provocara. — Não fui eu quem te ensinou isso? — retorquiu Cathaline com um sorriso enquanto saía. . Nem me sinto tão cansada. depois sentou-se numa cadeira ao lado de Alaizabel. espevitando o lume. o brilho das chamas dançando no espelho de suor que era a sua pele febril. a luz do fogo destacando as suas feições pequenas e infantis. — Foi visto um par de Trepadores-de-telhado em Kensington. um advogado ofereceu um prêmio pelas suas cabeças.

de coisas dispersas. — Nenhum cavalheiro poderia fazer menos do que o que eu fiz — respondeu. Mas não do lugar onde vivo. Alaizabel levantou uma madeixa do seu desalinhado cabelo louro e olhou-o atentamente. ela estava imunda. não tivera consciência de que estava suja. Olhou para as costas das mãos. voltando-as diante dos seus olhos. se quiser tomar banho. — Lembro-me.— Tem sido muito gentil para mim — disse ela. conheço as ruas e os becos.. — Entretanto. pior que isso. como se se esforçasse por recordar qualquer coisa que estava bem ali. De repente. — Por que é que não me consigo lembrar? — perguntou calmamente. — Espero que sim — continuou ela. como é que não me consigo lembrar de onde vivo? — Acabará por se recordar. franziu o sobrolho. deixei-lhe baldes de água quente. menina — assegurou Thaniel. — Com o passar da febre. Conheço esta cidade. — Conte-me — disse. a confusão também passará.. Uma expressão de súbita compreensão surgiu no seu rosto. Seguiu-se um momento de silêncio. — Conte-me como me en- . Lembro-me dos rostos dos meus pais. brincando com a pequena pulseira de prata que tinha no pulso. por isso. distraidamente. — Talvez a febre lhe esteja a obstruir o cérebro — aventou Thaniel.. Até àquele momento.. quase ao seu alcance. Thaniel corou. os segundos sentiam-se passar através das batidas do coração. virando-se para o fogo de forma a disfarçar o rubor que sentia na face e bebendo um pouco da sua bebida.

As finas pulseiras e fios de prata em volta do seu pulso e pescoço. O ar fresco estava cheio de vapor. Para sua surpresa estava um mon- . Interrogou-se sobre ela. curvada. três baldes de água quente quase a ferver e um balde de água gelada. a sua superfície prateada escorrendo gotas de orvalho quente. ainda assim. reparando em pequenas coisas a seu respeito. como Thaniel prometera. Encontrou a água na casa de banho. enquanto o fazia. Seria como ele. Então Thaniel disse-lhe e. lisos e simples mas. as suas vogais eram irrepreensíveis. ela ficou em silêncio por algum tempo.controu. como fora a sua educação. Rasgado. descosido e sujo. as suas palavras pronunciadas de forma perfeita. Também a sua voz. quem eram os seus pais. febril e a tremer ligeiramente. — Tenho de tomar banho — disse depois. Uma banheira funda estava encostada a uma parede e noutra estava pendurado um espelho de corpo inteiro. deu por si a avaliar a garota que se sentava diante de si. fora das possibilidades de uma criada ou de uma operária. a pequena janela solitária encontrava-se completamente embaciada e os azulejos verde-escuros das paredes pingavam com a condensação. Era de fato uma garota estranha. Apesar da sua aparência algo doente. não tinha passado fome e não apresentava sinais de piolhos no cabelo. cheio de alegria? Deu por si a observá-la enquanto explicava o que acontecera. mas mesmo assim percebia-se que tinha sido relativamente caro. Quando Thaniel chegou ao fim. Também havia uma mesa de apoio com ungüentos e óleos. produto de uma boa educação ou de aulas de elocução. de onde vinha. o seu vestido. Por exemplo. com muitos amigos. solitária e decidida? Ou teria um lar feliz.

usando o sabão e a água. gravada com simples tinta azul. e por um momento perguntou-se quando conheceria a senhora da casa para lhe poder agradecer. Era difícil dizer o que é que era suposto retratar. Voltou-se de costas para o espelho e olhou sobre o ombro para o reflexo. Levantando-o. ela conhecia esta cara. nem decente. Olhou fixamente para a imagem durante muito tempo. também reconhecia o seu corpo. A visão daquela coisa perturbava-a. Tinha nódoas negras nas costelas e o fundo das costas doía-lhe incrivelmente. alguns ganchos de cabelo. não era uma face estranha para si mesma. Desta feita. vista num perfil de três quartos. supôs ela. molhou-a na água fria e esfregou-a nas mãos. meias e sapatos. A simples presença daquilo no seu corpo envergonhava-a. desconhecida e sinistra. Ao menos tinha isso. viu uma barra de sabão. Tirou o vestido imundo e rasgado e olhou para o seu reflexo. a condensação desvaneceu. Comunicava sombriamente com o seu subconsciente e trazia ao de cima sentimentos de terror. uma tatuagem circular na base das costas. Uma imagem estilizada de uma coisa com vários tentáculos. Caminhou até ao espelho e limpou-o. ter qualquer tipo de ta- . Tremeu e afastou o olhar. Sim. Da mãe de Thaniel. quase negra. cada curva. percebeu que era composto por um vestido azul e cor de pérola. Estava lá uma coisa que não conhecia. sinal e sarda lhe era familiar. O coração subiu-lhe à boca.tinho de roupa cuidadosamente dobrada colocado sobre essa mesa. Não gostava de a ter. Uma tatuagem. A presença daquilo ali era-lhe estranha. Encontrou uma toalha e. quando limpou o espelho. a pele em seu redor parecia querer enrugar-se para fugir daquela zona. Não era adequado. ao ver que isso pouco adiantava. limpou a cara com uma esfregadela.

tuagem naquela zona do seu corpo. Deitou a água na banheira. Esta pessoa apresentava . Alaizabel. não viu a marca de uma mão aberta surgir lentamente na janela. estando a janela no último andar da casa. lavada e vestida. Thaniel ficou sem palavras. O que lhe estaria a acontecer? Quem era ela? Quem era Alaizabel Cray? Sem estender o pescoço. Não se lembrava das circunstâncias que haviam rodeado a sua criação. uma marca igual à que seria feita se uma cara se encostasse à janela. para a garota na banheira. Ainda estas fraca. com a pressa de se lavar. Mas fraca do quê? Estaria a sua doença relacionada de alguma forma com a sua loucura e amnésia? E com os terríveis pesadelos que ela recordava apenas em parte? Começou a chorar suavemente. Assim sendo. não conseguia ver a janela solitária da divisão. Ao meter-se dentro da banheira. o seu cabelo penteado e arranjado. Quando Alaizabel desceu as escadas. E embora não estivesse nada do lado de fora que fosse visível ao olho humano. Cuidado. outra marca começou a delinear-se lentamente ao lado da mão: uma marca com a forma de um maxilar e de uma sobrancelha. mas também não tinha a certeza de o querer fazer. o sangue subiu-lhe à cabeça e sentiu uma tontura a tomar conta dela. situada para cima e para a sua direita. não havia lá nada senão escuridão. como se estivesse a ser colocada de encontro ao vidro pelo lado de fora. olhando para baixo. De qualquer maneira. fazendo com que a água ficasse um bocadinho quente de mais. e o vapor gerado pelo banho quente tornara-a opaca. dissipando a condensação interior no local onde tocava.

— Apenas fico feliz por tê-la encontrado antes que lhe acontecesse . os seus olhos verde-claros não mostravam qualquer sinal de doença. de forma que caía sobre os seus ombros em caracóis cor de trigo..poucas semelhanças com a garota que trouxera para casa duas noites antes. O cabelo louro. Por tomar conta de mim. mas isso em pouco manchava a transformação. com feições suaves e perfeitas como as de uma criança. outrora todo emaranhado.. Essa tinha um ar esgazeado e deformado. A sua voz continuava fraca. Ela riu-se bem-disposta e corou. — Acho que a febre está a passar. — Como se sente? — Agora sinto-me melhor — disse ela. puxando o seu próprio cabelo para trás. Mas ela abanou a cabeça. — E eu não fazia idéia de que havia um malandro por trás daquele cavalheiro. fora penteado e domado com ganchos. o qual lhe assentava na perfeição. Penso que o melhor é descansar. — Não fazia idéia de que havia uma princesa escondida por trás de toda aquela sujeira. — Minha senhora — entoou. — Estou cansada. estava totalmente desgastada e com um olhar tresloucado. Só vim aqui. Pôs-se de pé. para lhe agradecer. A garota que estava diante dele parecia quase uma boneca. Thaniel deu por si a desviar o olhar para ela mais do que o adequado. e fez uma longa vênia. Envergava o vestido azul e cor de pérola que ele lhe deixara na casa de banho. — Quer sentar-se? — perguntou. — Honra-me em demasia — retorquiu.

desesperada. Ela ficou um pouco triste devido ao seu tom. é da sua mãe? — Era — respondeu. Thaniel olhou sobre o ombro para ela. — Mas ela já morreu. Menina Alaizabel. — Este vestido. O quarto estava frio e coberto por um manto de escuridão.algo de mau — afirmou. até ficar boa. Respirando fundo. Depois recuperou a consciência. tentou tranqüilizar-se. sem saber onde estava. Um pesadelo. o seu ritmo cardíaco a bater a alta velocidade e a sua testa e costas alagadas em suor.. apenas que era perseguida por uma coisa enorme. Estava no quarto de Thaniel. Estivera a dormir. — Algumas coisas queridas duram para sempre — disse. a sonhar. — Boa-noite — disse ela e saiu. mas não passava disso mesmo. tentando reordenar o puzzle das suas idéias. e ela escutava a batida do seu coração a desacelerar.. Ela sorriu. Olhou em redor. Despertou para a escuridão com um pequeno grito. um horrível pesadelo. — É minha convidada aqui. Alaizabel não sentiu nada ao ouvir isso. Os candeeiros de ferro . assim como o meu pai. Assim como tudo o que me era querido. estabilizou e acalmou-se. O lume estalou. Era de noite. Mas. com uma expressão estranha no olhar. voraz. — Encontraremos os seus pais — continuou ele. estranhamente. escura e invisível que gemia e a queria. Quero que veja esta casa como sua.

e estava toda enrolada por uma corda de contas de madeira com um cheiro estranho. que se estendiam a toda a largura da soleira. eram interessantes. pensou. esses sim. cansada. e havia vários sinos atados em vários pontos ao longo de toda a corda. Debaixo da porta haviam sido desenhados pequenos símbolos com uma espécie de pasta preta parecida com cinza. um chão de madeira polido com um só tapete.. a cama. Era só um quarto. Ali. lançando finas formas amarelas ao longo do chão de madeira. pendia uma cauda de raposa com um pequeno frasco de qualquer coisa indefinível atado à sua volta.negro da rua brilhavam pela janela. Tirou os cobertores de cima de si e despertou. Alaizabel encontrara um rolo de corda debaixo da cama. por qualquer razão. Um dos amuletos que pendiam do teto ressoou suavemente ao mexer-se. Reparara nos amuletos pela primeira vez quando veio para o quarto depois do banho. Não havia muita decoração no quarto de Thaniel. Tinham o aspecto temporário das coisas que não costumavam estar num determinado lugar. Outra pequena escultura móvel feita com pequenos sinos de todos os tipos de metal pendia sobre a cama. uma mesa-de-cabeceira com um pente e um livro velho sobre ela. branco e castanho-amarelado. uma cômoda com gavetas. como se as paredes se afastassem para respirar. Esqueci-me de perguntar acerca deles. O resto do quarto estava bem arrumado. Mas os amuletos. enquanto as réstias do pesadelo se esvaíam da sua mente e o cansaço começava a regressar. sobre a janela. De noite. não mostrava nada acerca da sua personalidade. o quarto parecia maior. sentindo a camisa de .. mas os fios que se entrelaçavam estavam pintados de vermelho.

e a temperatura caíra de tal forma que conseguia ver o seu bafo claramente. Sentou-se. a coisa enorme que se erguia aos pés da sua cama e se dobrava sobre ela. Era difícil ter a certeza. talvez não. Resvalando como uma pedra pelo limiar da consciência. um odor amargo a suor doentio. Ouviu os ruídos da casa. em vez disso. alarmados. mas ela sentia-se otimamente. O seu peito ficou congelado de medo. voltando a encostar-se. Estava qualquer coisa ali. testando para ver se as tonturas voltavam. O quarto escurecera. e servia-lhe na perfeição. Da mãe do Thaniel. encostada ao teto. Encontrara-a sobre a cama quando se retirara na noite anterior. ela tinha a certeza. Foi então que se apercebeu de que a sua febre passara. Mas mesmo na escuridão. conseguia vislumbrar a sombra mais escura. Era de uma suave seda lilás. Não voltaram.noite fria a tocar-lhe na pele. pensou. sentindo-se um pouco triste. Talvez tenha dormido. e de repente sentiu uma terrível. as madeiras que estalavam e os canos que arrefeciam. elegante e luxuosa. não sabia dizer se tinha mesmo sonhado ou se apenas passara pelas brasas antes de os seus olhos se abrirem de repente. era algo que a invadia e prometia ficar. Não só agora. Sentiu o estômago a contrair-se e teve vontade de chorar. horrível solidão. sem qualquer porto a que pudesse chamar casa. A roupa da cama ainda cheirava a doença. no teto. uma partícula de escuridão congelada que emanava . Estava completamente à deriva. pensou. Pelo menos isso é bom. as sombras alargaram-se até engolirem por completo a luz. não só porque a casa estava vazia.

por baixo da camisa de noite. tremelicando. Não estava lá nada. Saiu da cama. cheia de medo. Não está ali!.maldade. O frio deixou-a com pele-de-galinha por todo o corpo. e um pequeno brilho de luz afastou a escuridão. Ter-se-ia ido embora? Teria lá estado alguma vez? Ela tinha tanta certeza. analisando-a com um olhar pavoroso. ali guardada para acender o candeeiro a petróleo que se encontrava próximo. lutando para o voltar a controlar. apontando a sua luz para o teto. de- . e transmitia uma sensação de maldade tão grande que ela sentiu vômitos. indefinida. uma presença vaga. só uma sombra! Mas estava ali. observando-a sem pestanejar. contudo. Não se atrevia a afastar os olhos da abundante escuridão que pairava sobre si. O estalar e silvar do fósforo quebrou o feitiço. Tirou o vidro do candeeiro a petróleo e. Não passa de uma sombra. conseguia sentir os seus olhos... temendo que assim que o fizesse. e ela.. uma coisa sem corpo nem forma. Colocou o vidro no candeeiro a petróleo de forma a difundir a luz e a alastrá-la mais.. encostou a chama ao pavio. arquejando. Era inacreditavelmente alto. que não se mexia e a paralisava de medo. depois ergueu-o sem sequer recolocar o vidro. aquilo caísse sobre ela como um sudário. sem cara. Olhou por trás da cômoda. gritou qualquer coisa vinda do fundo do seu ser. Depois pô-lo no máximo e vasculhou o quarto. a sua mente racional tentando derrotar freneticamente o seu crescente terror. Sentou-se na cama. Mal se apercebia de que a sua mão buscava a caixa de fósforos que estava na mesa junto à cama.

Durante algum tempo permaneceu acordada. Aos poucos. O degrau seguinte rangeu.. Mas estou a melhorar. acompanhado por uma horrível sensação de vulnerabilidade. Alguém estava a subir. Ficou durante algum tempo a olhar para o teto. tombou o vidro do candeeiro a petróleo e soprou para apagar a chama. na mesa. durante os quais a passada lenta e pesada subira mais dois degraus. alerta. mas a única coisa que viu foi o estuque branco.. começou a sentir-se adormecer uma vez mais. os seus olhos totalmente abertos. pensou. Só pode ter sido isso. disse a si mesma. Estou sim! Sentindo-se subitamente idiota. olhando fixamente para o teto. rodou a chave na fechadura de forma a trancá-la. Voltou a meter-se na cama. e foi por isso que adoeci. para o local onde a coisa estivera. . As escadas rangeram. um gemido longo e grave.. A escuridão regressou ao quarto e instalou-se. Foram precisos vários segundos para que a compreensão da situação se instalasse. por fim. qualquer coisa não natural que ela não conseguia bem identificar} e um terrível mau presságio assolou-a. de modo bastante perceptível. Talvez ainda não esteja tão recuperada como pensei. Alguma coisa aconteceu e é por isso que não me consigo lembrar.baixo da cama e. Voltou a acordar de imediato. não era o som dos canos a arrefecer ou o gemido da madeira a estalar. recolocando o candeeiro ao seu lado. Havia uma premeditação terrível naqueles passos. Aquele ruído não era nenhum barulho normal da noite. Arrepios noturnos. e foi por isso que enlouqueci. Alguma coisa me aconteceu.

que dava aqueles passos vinha para a apanhar. Não se atrevia a sair da segurança imaginária da cama para atravessar o quarto. atravessou o quarto. Não era o bater de botas. fê-la afastar o cobertor e pôr o pé no tapete. Mas em algum lugar dentro de si. Não há razão para entrar em pânico desta forma. Silenciosamente. Mas ela estava congelada. A cômoda! Tinha gavetas. ela apercebeu-se da razão pela qual os passos lhe pareciam estranhos. O Thaniel ou a Cathaline. O intruso já chegara ao patamar e. ou fosse o que fosse. Eram passos molhados. Não se atreveu a acender a luz para não alertar o intruso. E. fosse o que fosse que se encontrava lá fora. enrolando-se nele até ao pescoço. o corpo tão tenso que até era doloroso. ouvia-se uma respiração sibilante.É o Thaniel. Percorreu o quarto com os olhos em busca de qualquer coisa que lhe servisse de arma. O quarto arrefecera ainda mais e a escuridão voltara a aumentar. Puxou o cobertor mais para cima. não soubesse que ela estava ali. foi esse som que a fez mexer. como a respiração carregada de catarro de um homem muito. mas o pisar suave de qualquer coisa como barbatanas ou de uma pata palmípede. esperando mais que tudo que. de repente. lá dentro tinha de haver qualquer coisa como um abre-cartas. O seu reflexo ia-se dirigindo a ela. e chegou-se para trás de forma a ficar sentada contra a cabeceira da cama. fosse quem fosse. a acompanhar esse ruído. um reflexo sombrio no espelho do outro lado do . Por qualquer razão. Tem de ser. profunda e instintivamente. ela sabia que. muito velho.

Trancada. pensou. Alaizabel olhou de relance para a porta. agarrando a faca e voltando a correr para dentro da cama. umedecendo a sua camisa de noite e fazendo o seu fino cabelo louro colar-se à cara. fê-la ranger no interior da cômoda. olhou para a gaveta. imaginando que a coisa do outro lado já a estava a abrir. quando o seu interior estava inteiramente tomado por um completo e profundo horror. Como as profundezas escuras e frias do mar.quarto. Esta tremeu de encontro à ombreira como se alguma coisa estivesse a chocar com ela do . Os pés pararam de avançar. Ela ficou surpreendida ao ver o quão normal a sua imagem parecia. apercebendo-se de que o orvalho começava a colar-se a ela. um som que parecia ensurdecedor naquela escuridão carregada. Havia lá uma faca. tremendo de medo. Notou um cheiro a sal. A porta fez um barulho estrondoso. e com eles aproximava-se também o som arrastado de algo pesado. Tremendo agora incontrolavelmente. O quarto estava agora gelado. até lhe sentia o sabor nos lábios e na língua. Ela gritou. De certa forma. cheia de medo. com a pressa. onde se ajoelhou virada para a porta. tentou abrir uma gaveta da cômoda o mais silenciosamente que foi capaz. progredindo lentamente. como tentáculos frios e pesados. Tentou outra gaveta. e cada expiração era como uma nuvem branca. tão frio que ela começou a tremer violentamente. o silêncio era ainda pior do que ouvir o som dos passos. sobre a cômoda. Então. abanando violentamente e de forma ensurdecedora. e. Os passos molhados aproximaram-se. não um abre-cartas mas uma coisa curiosa com uma lâmina bamboleante.

até que Alaizabel gritou de novo para tentar silenciar aquele ruído. batendo e esmurrando. Alaizabel observou. Silêncio e calma. Alaizabel ficou a ver o círculo formado pela chave enquanto esta rodava. Encontrou Thaniel sentado numa cadeira de braços com um bran- . o seu cabelo desalinhado. A noite não fora proveitosa. ofegante. Como é que Thaniel não ouvia tal barulho? Como é que ele não estava acordado e alerta? A não ser que fosse Thaniel do outro lado da porta. depois da caçada. A chave começou a rodar lentamente na fechadura. a faca estendida diante de si numa ameaça fútil contra qualquer coisa que tentasse entrar pela porta.lado de fora. Não se conseguia mexer. Os Trepadores-de-telhado já tinham desaparecido quando ela lá chegou e o resto da noite fora passada numa perseguição na qual ela nunca chegou realmente a alcançá-los. a tremer e de olhos bem abertos. Quando Cathaline regressou a casa nessa manhã. cada um aproximando-a mais do momento em que não teria nada a separá-la da coisa que a esperava do lado de fora. estava arranhada e exausta. Seguiu-se silêncio. A porta abriu suavemente para dentro. deixando antever um espaço de cerca de dez centímetros de escuridão total e completa. milímetro a milímetro. A sua pele estava ensopada. mas não ostentava qualquer ferimento. Aterrorizada. O som da fechadura a ser destrancada parecia o disparar de uma pistola.

. Ele pegou noutro copo de brande e ofereceu-lho. — Nada — respondeu Thaniel. — Esta manhã ouvi a Alaizabel a gritar. — Não me soa a boa coisa. — E não ouviste nenhum ruído feito pelo intruso? — inquiriu. Thaniel não respondeu. — Bom dia — cumprimentou ela. e ainda vai levar algum tempo até acordar. — O que pensas do que ela disse? Cathaline levou muito tempo até responder. alegremente. Precisei de uma hora para a acalmar e para ela me contar o que aconteceu. Thaniel não disse nada durante algum tempo. Agora está a dormir. agitando o brande no fundo do copo para o aquecer na sua mão. — Estou inclinada a dizer que está louca — respondeu lentamente. és mesmo querido — disse. — Para mim? Thaniel.de na mão. Cathaline instalou-se na cadeira. — E o que foi? — perguntou Cathaline. Avançou até ele e sentou-se numa cadeira ao seu lado. — Depois dei-lhe um calmante. estava meio doida de susto e balbuciava qualquer coisa. Quando a encontrei. a sua voz ecoando no copo enquanto bebia um gole de brande. — Acreditas nela — afirmou Cathaline. vendo as suas feições serem realçadas peia luz hesitante da manhã fria e pelo calor do lume. — Houve um desenvolvimento no caso — informou ele. Ele contou-lhe acerca da noite de Alaizabel e do intruso no patamar.

por amor de Deus? Sabes como é difícil evocar uma coisa daquelas? Thaniel sentou-se no parapeito da janela. Ouve. Cathaline suspirou e levantou-se. rodando os braços antes de se dirigir ao seu antigo aprendiz. Algo testou fortemente a barreira por ti colocada.. vivendo de noite. — Estava úmido. Thaniel. lembra-te. — Eu sei que queres acreditar que ela não é louca — disse. E os Encantamentos que desenhaste em redor da porta tinha sido mexidos. só estão confirmados dois encontros com os Seres Submersos. sempre a caçar. — E é por isso que duvido dela. — respondeu. Quem mandaria um Draug atrás dela. — Deus sabe como tu conheces poucas pessoas nesta profissão. As pessoas precisam de ami- . pensativo. a luz fria e morta vinda do exterior. em toda a ciência-bruxa. — Era uma descrição exata do Draug. batendo sobre a sua nuca e ombros. — Ou alguém os apagou e escreveu outros — sugeriu Cathaline. Estavam tortos e incoerentes. Além disso. Tens dezessete anos. Thaniel. tenho a certeza disso. levantando-se e andando para trás e para a frente ao longo da sala. nós não sabemos nada acerca do seu passado. — Como é que ela podia ter inventado aquilo tudo? Era um Draug.— Foi a forma como ela o descreveu. uma pessoa só consegue ser solitária durante um certo tempo. — Não é inconcebível. como se tivesse acabado de sair de um manual — retorquiu. Podia ter lido aquela descrição em algum lugar.. transformava-os numa mancha brilhante de branco e cobria a sua face com a sombra. — Examinei o local — disse Thaniel. ela não passa de uma garota perdida. que ia ficando cada vez mais iluminada pela força crescente do sol.

mas de repente pareceu gaguejar um pouco e acabou por tirar uma carta do bolso. Depois saiu da sala. o andar de cima dessa ala desabou. — Antes de mais fui tua professora. Por um momento. Como conseqüência da sua visita a respeito da garota que encontrou na Zona Antiga. Parece que o Doutor Hart de Crockerly Grange teve recentemente um incêndio numa ala do seu estabelecimento. é que te certifiques a respeito dela antes de teres grandes esperanças. que resultou na morte de vários pacientes. Conheço-te bem demais. de forma a ler o remetente. leu: Meu Caro Senhor. — Ficar com ela? Onde é que a punha? Um dia era capaz de gostar de ter a minha cama de volta. — Tenho-te a ti — respondeu Thaniel. e além disso sou velha demais para ti — acrescentou. — Isto chegou há uma hora — disse. destruindo a parede exterior e permitindo a fuga aos pacientes que sobrevive- . abanando o cabelo. Thaniel. colocando a carta nas mãos de Cathaline. Durante o incêndio. de Redford Acres. — Eu não conto — disse. Retirando a carta que estava no interior. parecia que ia continuar. Fora enviada pelo Doutor Pyke. encolhendo os ombros. fechando a porta atrás de si. Estás a pensar em ficar com ela. Thaniel soltou uma gargalhada. — O que eu quero dizer. De repente.gos. coloquei algumas questões aos donos de dois outros asilos da área de Londres. Espero que esta carta o venha encontrar bem de saúde. Cathaline virou o sobrescrito para cima.

infelizmente. informe-me da conclusão dos seus inquéritos. o telefone tocou. — Oh. Thaniel — exclamou. mas lamento informar que esta foi a única situação que consegui descortinar de uma possível fuga de uma paciente em Londres. Essa garota. dois homens e uma mulher. Ainda andam a monte três pacientes. tem cerca de dezessete ou dezoito anos de idade e.ram. Lamento não poder ajudar mais. pois tem cabelo louro e olhos verdes. pesarosa. . Na entrada. Com os melhores cumprimentos. Por favor. que se chama Alaizabel Cray. Doutor Mammon Pyke Cathaline releu a carta duas vezes antes de a dobrar com cuidado e de a recolocar dentro do sobrescrito. não corresponde à descrição da sua garota perdida. Algo a desanimava tremendamente.

Elegantes cadeiras de carvalho trabalhado haviam sido viradas ao contrário e vários livros tinham caído das prateleiras que ocupavam toda uma parede. A divisão estava iluminada de forma suave por candeeiros a gás presos à parede. entrando a correr com Thaniel. afastada da avenida ladeada por árvores. um homem e uma mulher encontravam-se agachados sobre uma fi- . as suas páginas machucadas e dobradas por se encontrarem virados ao contrário e abertos no chão. dirigindo-se ao local de onde provinha o som. Junto à base das prateleiras. Era uma propriedade espaçosa. — Para a direita! — gritou. o seu avental preto e branco esvoaçando em volta dos calcanhares . e um lume ardia numa pequena lareira para afastar o frio de Novembro. e Cathaline e Thaniel passaram a correr pela preocupada criada e subiram as escadas. em Kensington. com três largos degraus encimados por um corrimão preto de ferro que conduziam até à verde e robusta porta da frente. — No escritório do patrão! Cathaline abriu a porta de rompante. atrás deles.CAPÍTULO V ~ Uma Corrida Contra o Tempo Maycraft Thaniel tem uma Segunda Oportunidade ~ — Aqui dentro! — gritou uma voz. A jovem que lhes abrira a porta seguiu-os até ao andar de cima.

fazendo com que. afastando-os com um empurrão e agachando-se onde eles estavam anteriormente —. A mulher segurava nos braços uma criança que chorava aos altos berros. chegando mesmo a apresentar algumas falhas no alto da cabeça. com um belo cabelo louro e um queixo firme. jazia no chão. e um cabelo da mesma cor que também principiava a dar mostras de enfraquecimento. quer o homem quer a mulher. Agora. O homem que estava diante deles já fora forte e jovem. a sua face e roupa alagadas com um suor de cheiro amargo. A sua tez apresentava já uma cor esverdeada assustadora. — Afastem-se dele! — gritou Cathaline ao entrar no escritório. — Não o será por muito tempo.gura inerte. — Ele é meu marido — protestou sem grande energia. referindo-se ao homem que estava deitado no chão. — Bennett! O que raio é que estava a pensar? — reagiu o homem virando-se para trás. bem constituído. e a criança redobrasse a força do seu choro. Regillen Maycraft. com um bigode preto e grosso que começava a ficar grisalho em alguns pontos. os seus dedos formando garras devido aos espasmos. minha senhora — redargüiu Cathaline. Era um tipo alto. onde a criada aguardava ansiosamente. Thaniel agachou-se ao seu lado enquanto Maycraft e a senhora recuavam alguns passos em direção ao lado oposto do escritório. de lado. inspetor-chefe dos Peelers de Cheapside. e se ele decidir morder ou arranhar qualquer um de vós. o vosso destino será igual. as artérias de ambos os lados . Thaniel reconheceu-o de imediato. encorpado e gasto. A senhora parecia estar igualmente chocada. Usava um sobretudo creme. saltassem de susto.

— Os seus olhos já se transformaram — observou Thaniel em voz baixa e Cathaline anuiu. Respirava com grande dificuldade.a Turner. como uma lebre ferida ou um rato preso nas mandíbulas de um gato. os olhos do homem apresentavam uma cor de mel e as suas pupilas haviam ganho uma forma oval e horizontal. Ele disse. que ouvira um barulho no quarto do bebê e fora investigar. Nem mesmo isso era suficiente para deitar por terra a sua educação aristocrática e a fazer parecer mais do que vagamente . estava a sangrar de uma ferida na mão provocada por uma dentada.. Chamamos a polícia mas.do pescoço de tal forma salientes que pareciam prestes a rebentar a qualquer momento. feriu-o. ele já estava assim. mas o seu dono parecia demasiado fraco para se mexer. De fato. revelando dentes pontiagudos que saíam de gengivas acinzentadas. era óbvio que ela era a Sr. informou-os de que a morada na qual eram precisos pertencia aos Turner. pois quando a criada lhes telefonou. Ela parecia estranhamente calma tendo em conta o que acabara de acontecer: o seu marido atingido. Cathaline olhou sobre o ombro para a senhora.. Thaniel olhou de relance para a senhora. Cathaline ergueu rudemente o lábio superior do homem. ou alguma coisa. mas a coisa saiu pela janela e fugiu.. — Foi a senhora quem nos chamou? — A Hettie chamou-vos — respondeu ela. com uma faca julgo eu. quando o Inspetor Maycraft cá chegou. — Mas fui eu quem encontrou o Johnaten. Estava lá alguém. Quando o encontrei. fazendo festinhas na cabeça careca do bebê e apontando para a criada. o seu filho quase raptado. Ele lutou contra aquilo. Os olhos seguiram-na..

penso eu. A Sr. Cathaline resmungou uma ou duas asneiras. Há quanto tempo é que tudo isto se passou? — Há uma hora. abrindo rapidamente um saco que trouxera consigo. — E nesse caso? — indagou Maycraft. sentindo-se um pouco embaraçado por ter sido posto de parte. — E se for realmente tarde de mais? Thaniel não respondeu. Thaniel levantou-se e olhou o inspetor-chefe nos olhos. Hettie pareceu momentaneamente surpreendida pelo fato de a sua senhora estar a aceitar ordens de um rapaz de dezessete anos. — O que é que se passa. Bennett? — perguntou Maycraft. a não ser que façamos um Rito já imediatamente. Cathaline fez-lhe um gesto de desagrado por cima do ombro. ele vai transformar-se num. . cobriu a boca com as mãos. mas obedeceu-lhe e levou a criatura barulhenta para fora do escritório. como se estivesse a sacudir uma mosca. — Ele foi mordido por um Cradlejack há mais de uma hora. mas o seu olhar frio disse tudo. — Encontrei esta mesma criatura há duas noites. Isso significa que. Hettie — instruiu.perturbada. talvez um pouco mais — informou-o. horrorizada. — Ele foi mordido por um Cradlejack — afirmou Thaniel. — Faz o que ele disse.a Turner soltou um pequeno «oh!» por detrás das mãos. Leve o bebê para o andar de baixo e deixe alguém a vigiá-lo até ao nascer do dia. Pode até já ser tarde demais. passando a criança chorosa para as mãos da criada.a Turner. A Sr.

mas Thaniel inserira-a de tal forma que era ainda mais doloroso tentar resistir. — Segura-lhe os maxilares. e ele era forre. sem tirar os olhos da coisa que agora se contorcia e abanava debaixo dela. Desta vez. e enfiava-o agora peia boca aberta do homem que ali estava deitado. mesmo um tão novo como ele. Não havia dúvidas a toldar-lhe o espírito. Thaniel obedeceu sem hesitação. nem hesitações. Rápida como um relâmpago. que tinha forçosamente de se meter no meio do caminho. Cathaline esticou-se. articulada a meio e com um pequeno cadeado do . passando por cima de Maycraft. como se estivesse a lidar com um animal e não com um homem. passando-lhe um instrumento de bronze semelhante a uma tenaz. As pessoas respeitavam um caçador-de-bruxas. era o filho de uma lenda. Tinha de estar à altura disso. agarrou com destreza o outro pulso e prendeu-o também. Era uma pessoa completamente diferente quando lidava com seres-bruxa. depois. — Vocês dois! Prendam-lhe os braços! — ordenou ela. Afinal de contas. presa na tenaz de Thaniel como um peixe num anzol. Johnaten teve um vômito e engoliu automaticamente. confiante e seguro de si. Maycraft agarrou um pulso e ajoelhou-se em cima dele. Cathaline destapara um frasco que continha um líquido grosso e transparente.— Thaniel! — chamou Cathaline. e tirou para fora outro objeto que estava no seu saco. tratava-se de uma fina faixa de aço revestida a ouro. vendo que a senhora da casa não fazia qualquer tenção de segurar o marido. Ele fez um movimento brusco e tentou afastar-se. Antes que o corpo fraco que era Johnaten Turner se apercebesse do que estava a acontecer. já Thaniel lhe tinha enfiado a tenaz num dos lados da boca e lhe abrira os maxilares sem piedade.

no saco. e quase instintivamente. Maycraft ficou nitidamente furioso. — Se não quer acabar assim. Ela abriu com um rasgão a camisa da coisa que cada vez se parecia menos com Johnaten Turner.outro lado. Estiquem-no. — Está apertado demais — disse Thaniel. assim como um pincel de pêlo grosso fortemente manchado. — Maycraft. Sacudiu-se e contorceu-se mas não se conseguia mover e não se conseguia esticar o suficiente para morder qualquer um deles. atirando-o contra o chão e ajoelhando-se sobre ele de modo que Johnaten ficou preso na posição de um crucifixo. expondo um peito que era agora magro e macio mas que fora ou- . do gênero do de um touro. tente ter mais cuidado — advertiu Cathaline. reparando na forma profunda como aquilo se enterrava na pele. Maycraft. com os braços bem abertos e com Cathaline sentada na parte superior dos seus joelhos. Thaniel passou a Cathaline um pote cheio de sangue de porco espesso e viscoso que trazia. Johnaten tinha um pescoço muito grosso. embora fosse encolhendo cada vez mais diante dos seus olhos. mas Maycraft deu um pulo para trás. apanhado de surpresa. e largou um dos pulsos. — Não há tempo para isso — retorquiu Cathaline de forma brusca. Com Thaniel a conduzir a cabeça de Johnaten pelos dentes até ao chão do escritório. Johnaten tentou morder-lhe os dedos. Ele já estava à espera disso e afastou-se muito a tempo. como um cão raivoso. Thaniel agarrou-o prontamente. Com as mãos agora livres. ela prendeu a faixa à volta da garganta da vítima e trancou o cadeado.a Turner ouvia-se como ruído de fundo. mas conteve-se. deixe o Thaniel agarrar num dos pulsos. O choramingar da Sr. Thaniel removeu a tenaz e largou-a.

curvilínea. Provavelmente seria tarde demais para este homem. O inspetor-chefe libertou lentamente o braço que tinha preso e afastou-se. Thaniel abanou a cabeça. — Eu trato disso. havia algo de inexplicavelmente errado no desenho. os que se encontravam presentes na divisão tiveram uma sensação de perturbação e esforço. desequilibrados. para tirar o Cradlejack de dentro dele. Como acontecia com a maior parte dos Encantamentos. — Não se pode mexer. A pele tinha um tom amarelado. caindo sobre ele. devolvendo-os à normalidade. E então foi dada a última pincelada e a sensação desapareceu. Thaniel fez o mesmo. Cathaline já estava ocupada remexendo no seu saco. e uma dor de cabeça seguir-se-ia rapidamente para aqueles que não estavam habituados aos seus efeitos. como se as suas formas desafiassem as leis da trigonometria. cruzada por traços curtos e rápidos. — Já o pode largar — disse Thaniel a Maycraft. Agora podemos realizar o Rito. feria a vista olhar muito tempo para um. — O que é que lhe fez? — perguntou a Sr. As linhas de sangue que desenhava com o pincel começavam a formar um símbolo. Viu Cathaline começar a desenhar um Encantamento no peito da criatura. tirando um pedaço . — Está Encantado — respondeu Thaniel. a sua voz quase inaudível. Johnaten ficara de repente quieto. uma forma estranha.a Turner. corno se eles se estivessem a inclinar sobre o Encantamento. como um pergaminho. somente os seus olhos estreitos e cerrados se revolviam desesperadamente dentro das órbitas.trora forte e musculado. À medida que Cathaline se aproximava do final do desenho. Thaniel — disse Cathaline.

pareceu mais satisfeito. Desta feita. — Essa senhora disse que o Johnaten feriu a coisa. Thaniel escolheu uma. Via-se várias manchas a secar no chão. Metálico. Não o quero a tentar fazer isto com outro bebê. embora preferisse ser comido vivo a ter de o confessar era voz alta. O rapaz sabia o que andava a fazer. disso não restavam dúvidas. embora também a tenha cuspido. O berço estava virado ao contrário e a janela aberta. Os caçadores-de-bruxas deixavam-no nervoso. o mesmo receptáculo que agora monopolizava toda a sua atenção enquanto a carruagem de Maycraft o . Thaniel sacou de uma pistola. Tu e o Maycraft vão lá procurar e encontrem-no. abriu-a. deixando entrar o vento frio da noite. isso quer dizer que há sangue no quarto da criança. — O sangue dos seres-bruxa tem um sabor diferente — disse ao reparar no olhar inquisitivo de Maycraft. Para dizer a verdade. cuspiu e avançou para a mancha seguinte. ele conseguia ser até um pouco assustador. Thaniel necessitara de pouco mais que alguns segundos para descobrir o sangue do ser-bruxa no quarto do bebe. rodou a câmara para verificar se estava toda carregada e fechou-a com um estalido. Metera rapidamente um pouco desse sangue num receptáculo que trazia no bolso do seu longo casaco. — Mais aguado. nódoas vermelho-escuras que iam ensopando a madeira. — O prazer é todo meu — disse. bem como pequenos fios de nevoeiro.de cera vermelha e desenhando um octógono no chão em redor do corpo inerte de Johnaten. Maycraft tinha de admitir que estava impressionado. molhou os dedos nela e provou-a. tal era a sua eficiência.

Era um globo de vidro.transportava para sul através das ruas de Londres. que eu saiba. há bocado? — perguntou Maycraft. destacada do resto do receptáculo. — Um Cradlejack não é a criatura que vê no exterior. Ele olhou para Maycraft. A resposta de Thaniel foi saindo à medida que tirava o pequeno frasco de composto de enxofre que usara da última vez que perseguira o Cradlejack. — Enxofre? Mas isso é.. Não faço idéia de qual é a forma de um Cradlejack antes de este ocupar o corpo da vítima. A substância é atraída por eles. mas eles odeiam-na. nunca ninguém viu um.. Isso é meramente o que resta do pobre diabo que ele habita. Os olhos de Maycraft abriram-se mais. permitindo de alguma maneira que o conteúdo fosse sempre visível. em direção ao Tâmisa. mantendo-o o mais direito possível por força dos solavancos da carruagem. essas correntes estavam presas à metade superior do globo. — Para que foi aquilo tudo. Maycraft observou atentamente enquanto ele desenroscava a tampa. A metade inferior estava neste momento na mão de Thaniel. Foi isso que Cathaline enfiou pela boca do Turner abaixo. Pendia de uma corrente tripla presa a uma única esfera do tamanho de uma bala de mosquete. deitando algumas gotas da . e estava manchada por uma pequena quantidade de sangue de Cradlejack que se reunia no seu fundo. — Têm uma relação muito particular com enxofre. — Venenoso — completou Thaniel. para verificar se o homem mais velho ainda o estava a perceber. rodeado por uma rede de fibras de ouro que servia para o fortalecer e proteger.

meu senhor. não tomam? — E a coleira de ouro? — Os Cradlejacks odeiam o toque do ouro. Thaniel voltou a atarraxar o globo e pendurou-o na sua corrente. — Porquê? — perguntou Maycraft. Ah — exclamou. meu senhor. noventa por cento de trabalho de dedução e dez por cento de superstição. — Infelizmente. parecendo quase zangado por ter de admitir tal ignorância. — Você não sabe? — disse o outro. descrevendo pequenos círculos no ar diante si. As leis que se aplicam às coisas terrestres não se aplicam a eles. Você pergunta-se por que é que os seres-bruxa nos estão a escorraçar da nossa cidade? Porque só passado todo este tempo é que começamos a perceber como os derrotar. é. As pessoas tomam comprimidos de enxofre para afastar as doenças. interrompendo de repente a sua explicação —. Thaniel olhou para ele. — Não naquelas quantidades. — Quem sabe? — respondeu. não — redargüiu Thaniel. puxando para trás o seu cabelo louro com uma mão. — Isso é ridículo — declarou Maycraft. — A ciência-bruxa não é uma ciência como as outras. Ia agitando gentilmente o globo na ponta da corrente. aqui está o exemplar de hoje. Inspetor Maycraft. incrédulo. E cada erro significa que mais um caçador-de-bruxas tem um encontro marcado com a Velha Ceifeira. . Serve para abrandar o processo de transformação.substância no sangue do Cradlejack e recolocando-a dentro do frasco. — Os seres-bruxa não respeitam as leis da ciência. isso sim. Tentativa e erro.

— É verdade — assentiu Thaniel. carregando uma espingarda no alto da carruagem e observando com atenção as suas éguas. — Espero aqui por si. mas não deve ter ido para muito longe. Nenhum deles conhecia muito bem esta parte de Londres e o nevoeiro voltara a cair mais denso. mesmo a norte do rio. Inspetor — declarou o cocheiro.O globo começara a brilhar no seu interior. Estavam um bocadinho perto demais da Zona Antiga para poderem sentir-se à vontade. uma luz opaca de um branco-amarelado que saía de dentro da rede de ouro que a continha. Brilhava de forma progressivamente mais intensa à medida que se deslocavam para sul. O caminho mais direto de lá para Kensington é através de Chelsea e. deixando-o balançar na sua corrente. e os lobos adoravam carne de cavalo. mais intensamente brilhará este globo. — Muitos químicos reagem uns aos outros dessa forma. Thaniel estragou-lhe os planos dando uma resposta rápida. complicando a missão de descobrir qualquer placa ou prédio que lhes indicasse a sua localização exata. Quanto mais perto nos encontrarmos da criatura. — Mas o terceiro elemento é o próprio Cradlejack. Thaniel ergueu o globo diante de si. — Os Cradlejacks são territoriais. têm de avançar discretamente e man- . — Isso é um simples truque científico — disse Maycraft. Ele deve ter abandonado essa toca. Descobri a toca deste perto de Lambeth. apesar de serem rápidos. Saíram da carruagem em algum lugar na zona de Chelsea. — O que é que o leva a pensar que estará aqui e não em qualquer outra parte de Londres? — perguntou Maycraft. mais por querer espicaçar o rapaz do que por necessidade de conhecer a razão.

Aceleraram por entre as ruas de Chelsea. bastava um vislumbre das pistolas que as duas figuras apressadas transportavam para fazer fugir os bêbedos. — Tem a certeza de que é o mesmo que encontrou? — Os Cradlejacks são. atraídas como traças inebriadas para a luz brilhante que Thaniel segurava. De quando em vez. mas ainda se via várias pessoas bêbedas e cambaleantes a caminhar pelas calçadas com garrafas de vinho e de uísque meio vazias na mão. com o nariz vermelho devido ao álcool. eu estou pronto — declarou Maycraft com alguma rispidez. — Por aqui. meu senhor — disse Thaniel. ele parecia ter um instinto para aquilo. Tudo o que temos de fazer é interceptá-lo. Apareciam pelo meio do nevoeiro. mas geralmente este continuava a balançar na direção que seguia. de boa aparência. Penso que estamos ligeiramente à sua frente. As cervejarias e estalagens já tinham fechado. reparando que balançava mais para oeste. Algumas senhoras da noite andavam pelos becos. Maycraft sacou da pistola enquanto Thaniel observava o globo a balançar na sua corrente. procurando clientes. Thaniel parava e consultava o globo. raros — respondeu. era muito mais eficiente do que se poderia julgar pela . Passará por aqui dentro em breve. Contudo. felizmente. como se fosse atraído nessa direção por um ímã. Este rapaz magro.ter-se escondidos. — Bem. desde que uma bala alojada no coração os consiga parar. com os seus deslavados olhos azuis e cabelo louro penteado com risca ao meio. — Tenho a certeza. — Isso pára-os de forma mais que eficaz. Uma coisa era certa. mas reconheciam Maycraft e ficavam em silêncio enquanto este passava.

poucas eram as pessoas na cidade que não tinham ouvido falar do maior caçador-de-bruxas de Londres. Eram pessoas nitidamente estranhas. de repente. quase sem proferir qualquer som. O globo balançou para a esquerda. Maycraft imitou-o. Este rapaz saía definitivamente ao pai. mesmo com os salários astronômicos que o Parlamento lhes oferecia por exercerem uma profissão tão arriscada. Um dirigível passou em algum lugar à distância. — Devia estar mais brilhante do que isto. Thaniel parou de imediato. como se os rodeasse por completo. demasiado distante para ser vista por trás do onipresente nevoeiro. O trabalho de Maycraft levara-o a entrar várias vezes em contato com seres-bruxa e. Maycraft deparara-se com Jedriah Fox muitas vezes.sua aparência. Ah. enquanto erguia o globo. — Está na água? — inquiriu Maycraft. com um pequeno esgar de satisfação. pensou Maycraft. com caçadores-de-bruxas. em direção ao Tâmisa. Não devo ter posto reagente suficiente — resmungou Thaniel. uma enorme sentinela sobre a cidade. o riso agudo e demente do Cradlejack. — E provavelmente assim que passa . Mas este rapaz tinha uma calma gélida que era pouco habitual. — Talvez — disse Thaniel. Ali estava. Era preciso ser-se de uma estirpe diferente para se dedicar a vida ao extermínio dos seres-bruxa. Avançaram ao longo da margem do Tâmisa. passando a correr pelo beco onde Stitch-face pusera fim à vida de Marey Woolbury duas noites antes. então sempre cometes erros. por conseqüência. — Está mais perto do que julgava.

o qual elevava a estrada das margens lamacentas do rio. entrando pelas suas aberturas. e o seu bafo vendo-se distintamente diante deles. Aqui em baixo. apenas para chegar à conclusão de que não seria minimamente útil. esperando a subida da maré para voltarem a navegar. Correram ao longo da rua até o corrimão do seu lado esquerdo dar lugar a uns degraus de pedra que desciam ao longo do muro. à espera — sugeriu Thaniel como alternativa. A maré estava baixa e as sombras dos navios atracados. mas ao menos já o esperava e por isso não ficou tão perturbado. — Talvez já tenha atravessado para o outro lado. Uma indistinta fila de luzes assinalava o cimo do paredão. destacavam-se na escuridão debaixo deles. — Não ouço chapinhar — observou Maycraft em voz baixa. embora não passassem de pequenos barcos de pesca e traineiras. e a substância pegajosa escorregou pelos atacadores. as suas mãos úmidas e frias. a rua de onde tinham vindo. ainda podemos apanhá-lo. Maycraft desejou ter-se lembrado de trazer uma lanterna. coberta por sombras de um branco sempre mutável. o mundo não passava de uma terra-inferior. a Lua estava cheia. enquanto avançavam penosamente por entre a lama e porcaria. o bater das suas botas engolido pela névoa. Fora-lhes concedida essa . Thaniel fora confrontado com a mesma sensação desagradável.para a Zona Antiga. altos e imponentes vistos deste ponto. Maycraft soltou um ligeiro som de repugnância quando as suas botas se enterraram muito mais do que esperara na lama fria e molhada. Eles desceram. A maior parte dos navios erguia-se agora sobre eles como escuros monstros-marinhos. Pelo menos. — Talvez saiba que vamos a persegui-lo e está quieto. Se nos despacharmos.

o globo caiu-lhe das mãos.pequena graça. Maycraft começou a frase mas a sua questão foi interrompida por um grito penetrante vindo de cima e a coisa mergulhou do convés do barco para cima de Thaniel. Agora era uma criatura escanzelada.. assustada. Maycraft gritou e a criatura olhou para cima. partindo-se. As margens lamacentas encontravam-se misteriosamente silenciosas. Outrora. Os seus olhos tinham a mesma forma horizontal e oval que ele vira em Johnaten Turner e os seus dentes. vestida com uns trapos rasgados e com mãos e pés com unhas longas e curvadas como garras. — Está demasiado perto para já ter chegado ao outro lado. Nesse momento. — Está aqui — afirmou ele. sentiu o avançar de uma garra para a sua cara. Maycraft olhou em volta enquanto se arrastavam à sombra de uma grande traineira de alto mar que se debruçava penosamente sobre eles. visíveis porque os lábios secos e quebrados se enrolavam como caracóis. Incapaz de reagir suficientemente depressa para repelir o seu atacante. Maycraft tinha a pistola apontada à coisa. aquilo tinha sido um homem. Thaniel ia olhando de relance para o globo brilhante suspenso pela corrente que se encontrava na sua mão. e ele foi atirado ao chão. mas conseguiu desviar a cabeça para o lado e o Cradlejack falhou por milímetros. — Acha que aquilo pode ter. mas aquela visão fê-lo hesitar por um momento. com pele da cor de pergaminho. a sucção e imersão das suas botas fazendo um ruído ensurdecedor no meio da calmaria que invadia o ar.. . A pistola do rapaz disparou à toa. sufocante devido ao peso do ser-bruxa enlouquecido sobre ele. magra e descarnada.

— Certifique-se de que está morto! E. Deu um grito rouco.eram pequenos e perigosamente afiados. Maycraft correu para Thaniel. Thaniel ergueu a sua pistola e disparou. que no seu corpo ossudo se assemelhavam a facas. realmente. O tiro foi mortal. acertando-lhe nas costas. fazendo pontaria ao longo do cano. mas não a de Maycraft. Thaniel conseguira apontar a pistola por baixo da barriga atrofiada da criatura e apertou o gatilho. sentindo o coice da arma passar por todo o braço. embora sangrasse da ferida na barriga e ainda sofresse da facada no antebraço que lhe fora infligida por Johnaten Turner. mesmo entre as omoplatas. O ser saltou de cima dele. Uma arma disparou. uivando e sibilando. — Se chegar à água. esticando um braço e puxando-o para fora do buraco lamacento para o qual fora atirado. O Cradlejack não passava já de uma vaga silhueta no nevoeiro e ele conseguia ouvir o bater dos seus pés na água à medida que ia chegando à borda do rio. o seu braço bem esticado e um olho fechado. um som de surpresa ligeiramente patético e depois seguiu-se o som do seu corpo caindo de cara na água. sabendo que a única coisa que ia conseguir era desperdiçar uma bala. desaparece! Maycraft apontou a pistola. — Dispare sobre ele! — gritou Thaniel ao soltar-se. já corria sobre a lama em direção ao local onde as águas do Tâmisa tocavam a margem. tentando pôr-se de pé. Permaneceu quieto por um momento. de cara para baixo e pernas . caindo na lama e afastando-se de rastos. — Dispare! — repetiu Thaniel. está longe demais — disse Maycraft. — Maldita seja aquela coisa.

— Não estava suficientemente longe — disse. calculando a distância a que Thaniel disparara e pensando que acabara de assistir a um tiro verdadeiramente fantástico. deixando para trás um rasto vermelho que se ia desvanecendo lentamente. . até que a corrente o levantou e puxou ao longo do rio em direção ao mar. Thaniel flectiu o braço.abertas. — Assim parece — retorquiu Maycraft.

Cathaline riu-se. Thaniel virou-se para a fitar e depois voltou a olhar pela janela. ele não a vai ter. as ruas eram muito frias e estranhamente paradas e mortas. sorrindo para dentro. contudo. — Não gozes comigo — respondeu num tom de voz cáustico. eram mais familiares para os caçadores-de-bruxa que a luz forte do meio-dia. o seu cabelo preto e vermelho esvoaçando enquanto ela atirava a cabeça para trás.CAPÍTULO VI ~ O Sótão de Cathaline Realiza-Se um Rito Fazem-Se Planos ~ A primeira luz do novo dia começava a espalhar-se sobre Londres enquanto Thaniel e Cathaline regressavam da casa dos Turner. Thaniel — observou Cathaline. — Alguma coisa te está a perturbar. — Não a vou levar ao Pyke — declarou após uns instantes. Thaniel. estás mesmo a tornar-te superprotetor — disse Cathaline. — Louca ou não. Nas horas antes de o nascer do Sol. enquanto eles avançavam aos solavancos dentro da carruagem. — Deus. para a calma das ruas que aguardavam o nascer do dia. . a sua carruagem atravessando camadas de nevoeiro cada vez menos densas.

no entanto. Thaniel lançou-lhe um olhar venenoso e depois ignorou-a. deu a volta até estar num lugar onde pudesse ver a face de Alaizabel. Ela estendeu a mão diante de si e examinou a ponta das unhas.. Alaizabel estava lá quando eles chegaram. Não conseguiste salvar a tua mãe.. — Quem é você? — disse a garota bruscamente. — Não chegou a completar a frase. Cathaline lançou um olhar inquisitivo a Thaniel. nem mesmo quando eles a saudaram da entrada. — Não tens de te preocupar com isso. Tens de aceitar esse fato. Ela não se apercebeu da chegada deles.— Sempre te levaste demasiado a sério. mas há qualquer coisa. E. Ela pode ser louca. — Cathaline — reagiu ele bruscamente. — Não.. com as costas viradas para eles. O lume ardia com pouca intensidade diante dela. para olhar para ele. e o seu coração subiu-lhe à boca quando a garota se virou. — Ela está suficientemente sedada para ficar a dormir até amanhã a esta hora — sublinhou Cathaline. . com um súbito movimento da cabeça. e tu também. — Eu falei com ela. Thaniel — continuou. — Ouça. e Cathaline levantou de imediato os olhos daquilo que estava a fazer ao fundo da sala. não a teria deixado sozinha. o seu longo cabelo cor de trigo espreitando por cima do encosto da cadeira em que se sentava. não conseguiste salvar o Jedriah e sentes que.. intrigado. Thaniel. — Eu sei que a queres salvar de alguma forma. — Se pensasse que ela era louca. Ela não é louca. — Não quero que te magoes. Thaniel.

ainda aturdido por esta súbita reviravolta. mas era desagradável e arcaica. — Quem são vocês? Eu perguntei. Não. enquanto Cathaline se aproximava. mas era a postura do seu corpo que estava alterada. balanceando-se de um lado para o outro no alto de um pescoço rígido.Uma vaga de horror apoderou-se de Thaniel. — Sei quem vocês são? Nunca vos vi antes! Eu não sou nenhuma Menina Alaizabel. A sua pele estava tão suave como sempre. — Você sabe quem nós somos. E por esse nome que me conhecem há já quase sessenta anos. A sua cara parecia estar descaída. as suas feições tão pequenas e infantis. quem são vocês! Era também a sua voz. mas as vogais e a pronúncia eram completamente diferentes. as suas mãos pálidas e elegantes. como uma corcunda. Estava vestida somente com a suave camisa de noite lilás que Thaniel lhe providenciara. A sua cabeça projetava-se para fora dos ombros como a de uma tartaruga. Ela curvava-se para a frente em direção ao fogo. formando uma expressão severa. não era bem isso. Alaizabel parecia velha. . Era a voz de Alaizabel. é quem eu sou. Quem são vocês? Onde estou? Hã? Onde estou? Falem! — Thatch? — repetiu Thaniel. Thaniel não conseguia localizar a pronúncia. Menina Alaizabel — disse. — Então quem é você? — Thatch. e as suas mãos sobrepunham-se como garras formadas por artrite. esposa e viúva. sentindo que algo estava mesmo muito errado. sem dúvida. não. puxando as suas feições para baixo.

agora sentam-se junto ao meu fogo sem sequer um com licença. — Mostrem-me a vossa marca. ambos desejando não ter ouvido o que tinham acabado de ouvir. dirigindo-se a Thaniel num tom de voz alto e áspero. abrindo com um puxão súbito e violento os botões que subiam pela camisa de noite acima. Cathaline sentou-se noutra. completamente esquecido. — Ela não era suposta ainda estar aqui! Vejam! Vejam a tatuagem! Oh.— Sim. hein! Mostrem-me a vossa marca! Vocês não são da Irmandade. tão lenta. ambos adivinhando o que o outro estava a pensar. Thaniel deixou passar o insulto. sabem! Poderes! — Qual é o seu objetivo? — disse Cathaline cuidadosamente. Tenho poderes. ou uns nomes pelos quais eu os possa tratar! — gritou Alaizabel. não compreendes. hein? Hein? Para perder o meu tempo. A Irmandade. seu rapaz lento? Dizendo isso. de compreensão tão lenta. Deves ser um simplório. pois não? Onde é que esta garota se meteu? Onde. hein? Qual é o meu objetivo. Estavam prestes a dizer qualquer coisa quando Alaizabel voltou a falar. O lume estalou quase silenciosamente. Sim. Esta abriu-se até à base da sua espinha. pergunto eu? Oh. a minha cabeça! Porque tenho eu de sofrer tanto? Porque tenho eu de lutar? Quem são vocês? Thaniel e Cathaline trocaram um olhar. — Para que é que me trouxeram até aqui. . — Vejam só. Thatch. Alaizabel pulou da cadeira e esticou a mão para trás das costas. Sentou-se numa das cadeiras junto à lareira.

— Oooh. os seus movimentos eram mais suaves.. o seu cabelo louro escorregando por entre os dedos. a sua respiração abrandando subitamente. e quando falou. já tinha visto a tatuagem. era visível nos seus olhos uma enorme confusão. — Vêem — disse. gravada a tinta na sua pele. e quando se conseguiu recompor. agarrando os lados do crânio e inclinando-se para a frente. Depois olhou em volta. e então. hein? Por que é que eu não estou a cumprir o meu objetivo? Por que é que a minha cabeça lateja tanto? Um segundo mais tarde. Quedou-se em silêncio. Era novamente jovem e flexível. ela voltou a sentar-se na sua cadeira. encostou-se pesadamente na cadeira e os seus olhos abriram-se de repente. a minha cabeça — queixou-se. A mudança era quase física e imediata. A coisa com vários tentáculos. como faria normalmente. pa- . Era a Alaizabel outra vez. Já não se curvava nem vergava.. Por um momento. fechando os olhos com força. embora não fosse como qualquer outro Encantamento que ele já vira. e foi incapaz de desviar o olhar.expondo as omoplatas e uma pequena extensão de carne. Thaniel ficara demasiado surpreendido para desviar o olhar. não eram tolhidos peia rigidez das articulações nem por músculos cansados. o círculo escuro mesmo acima do cóccix de Alaizabel. Havia qualquer coisa de terrível naquilo e era tão perturbante para a vista como um Encantamento. com uma profunda inalação. a sua voz regressara à elocução perfeita que Thaniel aprendera a reconhecer e apreciar. quando estes encontraram os de Thaniel. — A tatuagem! Onde é que esta garota se meteu.

enchendo de luz aquela divisão. era um espelho exato da sua dona. apercebendo-se do lume e dos dois companheiros. ao contrário do quarto de Thaniel. Tal como a sua dona. Tinha um aspecto grande e extenso. Ela encolheu-se na cadeira. o quarto era caótico. Estar em camisa de noite já era suficientemente mau. e depois para o seu próprio estado de seminudez. previamente um estúdio de pintura da mãe de Thaniel. ter. não estava. que estava dependurado no teto. Neste momento. Nada combinava. com muito espaço livre e sem paredes ou obstáculos que fechassem uma pessoa. que atingira agora um brilho estonteante. Uma cauda de falcão empalhada saía da boca de um jacaré. como se tivesse dado demasiado trabalho arrumar estes li- . não se conseguindo lembrar de nada menos óbvio para dizer. o sol do meio da manhã. desde a mesa em miniatura até à cama frágil e antiga de quatro colunas que se encontrava sob a clarabóia. Ocupava o último andar do número 273 de Crofter s Gate e. — Não — retorquiu Thaniel —. envolvendo-se a si mesma num abraço. invadia o sótão. absorvido ansiosamente pelas altas janelas viradas a norte e sul do edifício.ra a sala. Tudo estava aberto e à vista a partir de qualquer ponto da divisão. Um monte de livros desarrumados estavam atirados meio ao acaso junto de uma estante praticamente vazia. tudo fora atirado ao acaso e deixado para ali de modo a descobrir o seu próprio lugar. — Estava a dormir — afirmou.as costas da camisa todas abertas era tanto humilhante como incrivelmente perturbante. também ele empalhado. balançando para trás e para a frente quando atingido por uma brisa. O sótão de Cathaline era uma divisão longa e espaçosa.

.vros. — Diria que é uma espécie de polvo — disse ela. — Ainda por cima estava de- . lado a lado com bonecas e ursos de pelúcia. cinzento.. encadernado em pele. mas como um cão de caça em perseguição de uma lebre. ela perseguira o novo objetivo com o seu vigor característico até o encontrar. muitos dos quais valiam mais que a renda mensal de uma casa em Londres. Ela dirigiu-se até onde Thaniel esperava sentado num pequeno sofá de verga. exibindo um livro grosso. — Cá está! — declarou Cathaline de forma triunfal. — Mais tentáculos — retorquiu Thaniel. observando a escrita estranha e fluida que atravessava a página. e velas de sebo pretas anichavam-se em prateleiras. e sentou-se de pernas cruzadas diante dele. de volta nos seus lugares. — Sânscrito — respondeu sem prestar grande atenção. que para ele estava de pernas para o ar. — Sei que vi qualquer coisa desse gênero aqui. debruçando-se sobre o livro. mas ainda assim pertencia a um lugar muito mais elegante do que este. A cama antiga de quatro colunas possuía uma grandiosidade estranhamente patética. já embrenhada na procura do que desejava. abrindo o livro entre os dois. estava esfarrapada e comida pela traça. a meio da manhã eles estariam normalmente a pensar em ir para a cama dentro em breve. Aquela era uma hora tardia para ambos. Pentagramas de ferro escuros e sinistros. com qualquer coisa aparentemente indecifrável gravada a ouro na lombada. Ela partira freneticamente em busca do livro quase no mesmo instante em que Thaniel voltara a deitar Alaizabel depois de lhe dar um novo calmante. — Que tipo de língua é essa? — perguntou ele.

— Podemos estar metidos em algo bem mais perigoso do que aquilo que calculamos — continuou. o livro esquecido.. apenas um instante e retomou logo de seguida. cada vez mais e mais. sabes? De repente. — A Irmandade. — Thaniel estás a ser confuso como só um homem consegue. — Alguma vez Sentiste que o caminho que segues não é escolhido por ti? Quer dizer. até ficar num pino perfeito.senhado num ângulo estranho. — A Irmandade — concordou Cathaline.. — começou. Levantou-se de repente. inclinando-se para trás. Cathaline cruzou as mãos atrás das costas e ergueu o sobrolho de forma teatral para ele. — Alguma vez Sentiste. Percebes? E é como se não tivesse qualquer poder sobre mim mesmo. — Ouviste o que ela disse. abanando a cabeça. de momento. Desembucha. algo em que eu nunca pensara a sério tornou-se irresistível. que devias seguir por uma estrada que não é aquela em que viajas? Sinto que estou a ser. Cathaline afastou-se do livro e bateu com os dedos nos joelhos enquanto falava. chamado. em certa medida. passando depois os pés lentamente para o outro lado para completar o movimento. — Tens a certeza de que queres levar isto até ao fim? Thaniel recostou-se no sofá de verga. depois parou. não ouviste? Thaniel assentiu com uma expressão severa. quase como se quisesse contorcer-se para fora da sua pele. .

— Página cento e vinte e sete — disse. Thaniel olhou para o livro e depois para ela. — disse ele. Ela e Thaniel eram espíritos gêmeos.. — Olhou para Cathaline. um conclave de ocultistas foi . sim — asseverou Cathaline e o tom da sua voz indicou que ele não iria gostar da descoberta. mostrando compreensão.. — Quero. voltando a hesitar. antes que visses. — Queria conversar contigo — disse.. A última vez que foi registrado foi há treze anos atrás. Não tem mais ninguém. algo diferente daquilo que conheço. indicando o livro que estava aos seus pés. Fez-se silêncio. — Sabes o que é? — perguntou. — Ela precisa de mim. percebes? Sinto que a vida dela deve ter sido muito diferente da minha.— Eu. e há mais acerca dela do que nós sabemos. — É conhecida por chackh’morg. Uma cortina esvoaçante mexeu-se. Compreendia-o sempre. — Sempre soubeste onde estava. — Quero conhecer esse sentimento. — Ela precisa de ti? — perguntou Cathaline com um sorriso.. Quero ajudá-la. — Quero fazer amizade com ela — continuou. agitada por uma brisa vinda de em algum lugar. Cathaline sorriu. Ela é-me tão estranha. — A tatuagem? Sabes o que significa? — Oh. Thaniel recusou-se obstinadamente a perceber o que a amiga estava a insinuar. — Ela está sozinha e assustada. ficando de repente com um ar muito sério —. É um símbolo usado pelos seguidores dos Glau Meska: Os Profundos.

— Os livros da ciência-bruxa que eu tenho só indicam uma altura em que eles se dão ao trabalho de tatuar uma vítima. não com pequenos grupos de pessoas esperançosas que pensam que conseguem evocar um demônio com um Quadro de Espírita e umas quantas rezas antigas. Fez uma pausa. o chackh’morg é outra coisa. — Estás a dizer que ela fazia parte de uma seita? Parte da Irmandade? — Talvez — respondeu ela. Não. Cathaline sentou-se ao lado de Thaniel no sofá de verga. encostou-se e espreguiçou-se. Ou aprenderam a esconder-se melhor ou foram absorvidos por seitas maiores. mas atualmente são quase impossíveis de descobrir. Além disso. — Seitas deste gênero eram o pão nosso de cada dia em Londres. um pouco aborrecido pela sua ignorância. trabalham para eles de forma a reunirem mais poder para si mesmos. E os Peelers já têm muito com que lidar. — Estas pessoas adoram os seres-bruxa mais poderosos. oferecem-lhes sacrifícios. Lidam com eles. — Mas os membros da Irmandade não são suficientemente estúpidos para andarem tatuados de forma a que as autoridades os consigam identificar a todos quando um é apanhado. É quando a vítima . os caçadores-de-bruxa lidam com seres-bruxa.descoberto em Cheapside e descobriu-se que este símbolo era utilizado em muitas das suas cerimônias. Normalmente é queimado na pele quando alguém vai ser sacrificado. é um trabalho para os Peelers. — Por que é que eu não sabia disto? — perguntou Thaniel.

pelo que nós deduzimos. — Assim parece. Está possuída. Eles deram-lhe veneno. E administrado um veneno que vai matando a vítima lentamente enquanto o espírito evocado vai ocupando a sua nova residência. e agora está lá dentro com Alaizabel. — Um farol. — O espírito não venceu a vítima. Um espírito não pode possuir um corpo morro. Alguém pôs aquela coisa dentro dela. De algum modo. — Não existe qualquer prova de que isso tenha alguma vez funcionado. compreendendo de repente. isto é tudo teoria — disse Cathaline. Um espírito tem de saber para onde vai depois de ser evocado. Cathaline assentiu. levantando-se de repente e ajeitando as suas escuras calças de veludo. mas não resultou. o corpo tem de ser abandonado pelo espírito que o habita. Depois o veneno é neutralizado antes da morte e o espírito forte destrói o fraco. Ele virou-se lentamente no sofá e olhou para Cathaline com um ar determinado. E quando a Thatch chegou. — Ela não é louca. — Como é que eles fazem isso? — Compreende uma coisa. talvez mais do que o que eles esperavam. mas pode apoderar-se de um que está a morrer. mas para ser possuída. Quando um espírito precisa de um corpo. — Só que desta vez isso não aconteceu — interveio Thaniel. — E o que é que a tatuagem tem a ver com tudo isto? — A tatuagem é um convite — explicou Cathaline. encontrou a vítima ainda a lutar.não estava a ser preparada para uma simples morte. . ela resistiu.

O santuário de Thaniel e Cathaline era na cave do número 273 de Crofters Gate. A atmosfera era impassível. procedimentos e experiências em segurança. — Vem comigo ao santuário. erguia-se a um canto. exsudando uma sensação de peso que envolvia toda a sala. — E agora o espírito está dentro de Alaizabel — prosseguiu Cathaline.— A Irmandade! — exclamou Thaniel. a qual parecia erguer-lhes o sobrolho quando entraram. espalhando-se o seu brilho pelo revestimento de madeira e pelo chão vazio de pedra negra. Uma árvore de madeira petrificada. Era um local onde podia realizar os seus rituais. Tenho de tentar fazer uma coisa. — E suponho que eles o queiram de volta. rodou sobre si mesma. uma divisão grande. A sala era iluminada por lamparinas a gás que se encontravam escondidas por trás de candeeiros de parede. que impunha respeito. também ele levantando-se e andando para trás e para a frente no sótão. acessível através de um pequeno lanço de escadas de pedra que partiam de uma porta no final do corredor da entrada. nunca levava muito tempo até que o acumular de artefatos necessários à realização de Ritos lhe transmitisse uma aura de fascínio e mistério. mas independentemente do quão vazio e asséptico pudesse estar. baixa e quadrada. reagindo fisicamente à idéia que tivera. Cada caçador-de-bruxas tinha pelo menos um santuário em algum lugar. uma sensação de gravidade. geralmente um lugar simples: uma cave ou um sótão. — Lembras-te do que ela disse há momentos? A Irmandade evocou-a. com cerca de dois metros de altura e picos salientes. os ramos semelhantes a lan- . De repente. Um santuário podia ser criado em qualquer lugar.

esculpidas num só pedaço grande de madeira. pequenas e escurecidas. debruçada para a frente com as mãos abertas. (NR) . gaiolas de almas. saindo curvados do seu tronco fino e rígido. que fora de seu pai. uma cara de gárgula horrivelmente distorcida que apresentava um sorriso malévolo. Junto dele via-se uma vitrina trabalhada a madeira de carvalho. apanhadores de sebo. com uma cara lisa e larga. contudo. respectivamente. dentro da qual se podia ver a parafernália habitual do negócio da caça-às-bruxas. com tigelas. Artefatos de superstição e sabedoria popular. lia-se a inscrição: Rawhead and Bloodybones3. crucifixos. Debaixo das janelas altas. Estava de cócoras. que mostravam os pés das pessoas que passavam por Crofter’s Gate. Envergava uma camisa sem mangas e os seus braços enormes e peludos pendiam para baixo como os de um gorila. era do tamanho de um homem. contentores de incenso e velas de cera. gordo e musculado ao mesmo tempo.ças. A sala era presidida por um altar de mármore negro e metal polido que se encontrava no extremo mais distante. Sob eles. estendidas no chão para a apoiar. via-se uma escultura odiosa que atraía o olhar. agachada atrás da primeira de forma ligeiramente inclinada.um sapo. muitos provavam ser eficazes contra várias es3 Rawhead and Bloodybones — em sentido literal. numa placa. punhais malaios e muitas outras coisas. Duas figuras eram retratadas. Cabeça em Carne Viva e Ossos em Sangue. Este altar estava bem arrumado. mas. amuletos. como. A outra. postes de bruxa. mas Cathaline adorava-a. sangue em pó. Thaniel odiava aquela escultura. Uma tinha um físico robusto. e uma feições violentas disfarçadas por trás de um desgrenhado monte de cabelo. exibindo os seus pontiagudos dentes de bronze por trás do lábio de couro.

E onde podiam acontecer coisas normalmente . caso alguma coisa corresse mal com esses Ritos. partindo uns atrás dos outros ao longo das bordas do círculo. Foi para o círculo de evocação visível no centro do chão de pedra negra que Cathaline o levou primeiro.pécies de seres-bruxa. quando os olhos se fixavam neles demasiado tempo. e o que quer que fosse que eles tivessem evocado. se escapava e se dava a ver. e também para assegurar que. também eles cravados a ouro. Thaniel conhecia vários santuários construídos nos extremos da Zona Antiga que eram agora edifícios abandonados. um aro simples. Era fato confirmado que a maior parte das lendas tinha uma base verdadeira. Encantamentos e Chancelas. Fora feito com ouro batido. percorriam os espaços entre os aros e pareciam mexer-se. encontrava-se preso. muitos caçadores-de-bruxas houve que tiveram de colocar a vida nas mãos de tais lendas. Era aqui que se faziam muitos dos Ritos. Era necessário um grande número de Encantamentos para garantir que nenhuma força espiritual exterior entrasse e interferisse com os complicados Ritos que se faziam no seu interior. onde a substância de onde nasciam os seres-bruxa. Um santuário levava meses a construir. seja ela feita do que for. Mas nenhum local no santuário era tão fortemente guardado por Encantamentos como o círculo de evocação. um local onde as leis da física não eram tão aplicáveis. Esses locais ganhavam rapidamente a fama de assombrados e eram evitados. nada conseguisse sair. cravado na pedra com um outro círculo concêntrico mais pequeno no seu interior. os seus donos mortos pela falta de cuidado ou inexperiência. enraivecido. andando pela casa ou sala para a qual o dono do santuário o trouxera.

um dos mais básicos que se ensinava a aprendizes. . Tirou uma pequena pedra do bolso das calças. deitou uma pequena quantidade cuidadosamente sobre o Encantamento. Enquanto fazia isto. dentes de gato e penas de pomba tingidas com sangue de porco. onde esta é mais intensa — respondeu Thaniel. a presença da Zona Antiga estraga o seu efeito como um ímã estraga o efeito de uma bússola. — Então. continuava a falar. Começou a fazer pequenos círculos no ar sobre a pedra. e se a realizares em Londres. parecia que estava a fugir. agitando a roca alternadamente com força e de forma suave.consideradas impossíveis. quando se agitava com força o som era tão forte que feria os ouvidos. O que é que isso é suposto provar? Sei fazer isso desde os meus dez anos. O ruído que soltava fazia ranger os dentes. era feita de ossos de corvo. o que é que faz a Divinação de Strachlea? — Serve para detectar a atividade dos seres-bruxa. — Mas é muito rudimentar e imprecisa. que o absorveu sofregamente. — Estou certa de que sim — disse Cathaline. O Rito que Cathaline montou era simples. pegando numa roca que mais parecia um instrumento de um qualquer curandeiro. Retirando um pequeno frasco de sangue de porco. quando se agitava suavemente. contas de âmbar. Thaniel franziu o sobrolho enquanto se agachava na extremidade do círculo. diz-me. Um Encantamento fora lá cravado. formando sulcos profundos e que se interceptavam. um pedaço de rocha vulcânica era forma de pinha. — Isso é a Divinação de Strachlea.

meu jovem Thaniel — afirmou Cathaline numa voz ríspida de professora. Podes apostar que. — Ela é como um farol para eles. se ela ficar aqui. e o tremer vigoroso parou de repente. que esconderá a sua presença dos seres-bruxa. e na noite seguinte e assim sucessivamente até a apanharem. sabe onde ela está — respondeu. — A Zona Antiga é a Sul daqui. A pedra pareceu fazer uma pausa. — Adivinha de quem é o quarto que fica exatamente dois andares acima de nós? Thaniel praguejou em voz baixa. parando de repente no lugar onde estava. A pedra que se encontrava no círculo de evocação começava a tremer e saltar. Seguiu-se um momento de silêncio enquanto Cathaline olhava para Thaniel. — Podes engendrar qualquer coisa para os parar? — Conheço um Rito que criará uma proteção para Alaizabel. não é? Que parede é que fica para Sul? — A que está na direção do altar — respondeu. — Agora vê — disse ela. apontando por cima do ombro. Thaniel levantou-se e puxou o cabelo para trás. pelo menos o suficiente para .— Resposta acabadinha de sair de um livro. saindo do chão e espetando-se no teto. aquele espírito dentro dela é como um farol. amanhã à noite estará cá qualquer coisa a persegui-la. — O que é que isto significa? Cathaline sentou-se no chão. Ficava precisamente atrás de si. ainda que remotamente. — Significa que tudo nesta cidade que esteja ligado. aos seres-bruxa. depois rodou sobre si mesma e saltou para cima. Ou melhor.

— Mas isso não resolve o problema imediato. Renovou as formas cuidadosamente pintadas no chão por baixo da porta do seu quarto. — Quanto tempo? — Para o Rito? Seis. exatamente? — perguntou Cathaline. Durante quase duas horas. Passamos a noite e partimos amanhã de madrugada. sentou-se numa cadeira da sala e deu-se ao luxo de adormecer por uns instantes. . Cathaline levantou-se e estudou a escultura de Rawhead and Bloody-bones enquanto pensava. colocando Encantamentos em todas as portas e janelas. — A Irmandade tem olhos e ouvidos por todo o lado.que não possa ser detectada a quilômetros de distância. — Não nas Vielas Desonestas — respondeu Thaniel. Quando deu por concluída a missão de tornar o mais inexpugnável possível a fortaleza que era a sua casa. — Partimos para onde. onde Alaizabel dormia. fazia-o para proteção dela. Thaniel verificou o perímetro da casa. a Irmandade fá-lo-á. Se os seres-bruxa não nos apanharem. levando a chave consigo. — Vou colocar Encantamentos a toda a volta da casa. Desta vez. mesmo que não a consigam ver. sete horas. Eles sabem que ela está aqui. — Isso vai levar-nos até anoitecer — constatou ele. pondo as mãos nas ancas. Voltou a trancá-la pelo lado de fora.

Porém. A noite acabara de cair. uma névoa estupidificante. Era uma sensação perturbante: por um lado. tanta como se se tivesse levantado e visto o último raio de sol esvair-se do céu. como se quisesse apenas voltar a desligar e adormecer. Acordara quase nesse preciso momento. os seus sentidos alerta e o seu corpo pronto para agir. a sua mente estava encoberta por um nevoeiro. pelo menos não no sentido de estar desperta. visto a longa montanha de luz demarcada no horizonte a desaparecer aos poucos e poucos. transformando-se primeiro numa linha tênue e depois desaparecendo por completo.CAPÍTULO VII ~ Um Distúrbio Durante a Noite A Irmandade Revela o seu Querer ~ Alaizabel acordou com a sensação de não estar sozinha. parecia estar acordada e fresca. impedida de o fazer somente pela parte que estava acordada. por outro. Era difícil separar uma sensação da outra. Não percebia como. presos pelas suas fitas e fios. pois a sua parte lenta. os seus olhos pestanejando até se abrirem para vislumbrar a luz cinzenta da lua a passar por baixo das cortinas do quarto de Thaniel. dando lugar ao azul-escuro. preenchendo as falhas nas tábuas do chão e acalmando os amuletos que esvoaçavam suavemente pelo teto. mas tinha a certeza disso. mas. certamente ainda a- . ela não estava acordada.

baralhava-lhe as idéias. Não aceitou que o que estava a acontecer fosse verdade. o seu corpo. que toda a vida se haviam traduzido em movimento muscular. esteve realmente à beira da loucura. Naquele preciso momento. Levantou-se e foi então que se apercebeu com um tremor de que algo estava extraordinariamente errado. fê-la ranger os dentes. Ela parecia não ter acesso a esta parte. Mas o mesmo calmante que lhe toldava o cérebro amparou o golpe. Estava trancada. mais do que em qualquer outro. tinha meramente consciência de que estava lá. insensível ao seu pânico. Se não fora isso. O seu corpo estava a agir sob a vontade de outra pessoa qualquer e aquilo era a violação mais profunda e intensa que podia imaginar. não queria afastar o cobertor e pôr-se em pé. Algo dentro dela irritou-se.tordoada pelo efeito dos calmantes que tomara. Queria gritar por ajuda. era como se ela fosse meramente um cérebro. não provocavam qualquer reação. De repente. não teve tempo para assimilar tudo. um pedaço de carga viva sob o controle de uma outra pessoa. do que estava a fazer e de que não lhe pertencia. que se sentia como um tigre enjaulado. Era a parte da sua mente que estava desperta. transportado dentro do crânio de uma odiosa máquina carnuda. talvez não tivesse conseguido lidar com o trauma sem danos para a sua inteligência. tornando-as imprecisas e fugidias. Ela caminhava para a porta. Pois ela não comandara ao seu corpo que se mexesse. . de garras afiadas e veloz. mas os seus pensamentos. rodava a maçaneta. Mas da maneira como as coisas se passaram. impediu que a sua mente se destruísse graças a um simples processo de recusa.

e de uma forma bem real. enrugadas). sempre de forma idêntica. No local onde os dedos . parecia que estavam somente a agitar-se sem propósito nem direção (e não pareciam as suas mãos estar. Apercebeu-se de que estava a andar curvada. Ela bateu em retirada dentro da sua própria cabeça. sentia-se agora muito calma. pensou. assim como as costas e ancas. mas depressa percebeu que se repetia um padrão.. A recusa pura e simples substituíra o medo. digo-te eu!! Ela obedeceu. Isso era qualquer coisa a que ela se podia agarrar. Os dedos doíam-lhe ligeiramente. O calmante fez-me sonhar. A voz velha e caprichosa era muito desagradável. O seu corpo voltou a testar a porta. lentamente. A melhor explicação era que aquilo simplesmente não estava a acontecer. uma maneira de lidar com a situação verdadeiramente impossível por que estava a passar. desta vez com mais força. uma mão que não parecia ser dela rodando a maçaneta.Quem és tu? !!Senta-te garota idiota!! foi a dura resposta que lhe chegou. mas não se conseguia endireitar. atingindo-a como um chicote. uma forma no ar. Ficou a olhar enquanto as suas mãos traçavam. de alguma forma. De início. !!Cala-te!! Cala-te. A dança complicada dos seus dedos estava a ser constantemente refeita. Estou a sonhar. E agora conseguia ver algo de estranho. à medida que o choque do que parecia impossível se ia instalando no seu cérebro e arrefecia o pânico. e de repente tudo começou a fazer sentido. Por dentro. diante da porta. O melhor era fazer o que mandava e esperar que o sonho acabasse..

por um breve instante. Então.desenhavam linhas invisíveis no ar. como se de fogo se tratasse. uma profunda luz vermelha seguia-os. À medida que o corpo dela se ia tornando hipersensível. A cada passagem. as linhas tornavam-se mais definidas. antes de se lembrar de que devia estar em silêncio. e naquele momento a sua memória não era grande coisa. Que interessante. subindo-lhe desde as entranhas. como se se tratasse de um pedaço de tecido desgastado pela fricção. uma complexidade que deixava a mente estonteada por um momento antes de se desvanecer numa questão de segundos. a passagem final. como se fosse uma rocha na praia e a maré a fosse cobrindo e descobrindo. uma barra dupla horizontal sobre três linhas curvas e um conjunto de pequenos círculos e pontos. Parecia só alcançar uns momentos de lucidez e depois voltava a submergir. um vermelho sangue que brilhava como brasas carregadas. o Encantamento em toda a sua plenitude. enquanto as linhas que desenhara se abriam a toda a sua largura como cordas esticadas. Durante um desses momentos de . a escuridão pareceu ficar mais iluminada. pensou. sensação acompanhada pelo som do sangue a correr forte junto aos seus ouvidos. mais fortes e o tecido da noite cada vez mais e mais fino. e. como se as pontas dos seus dedos fossem facas. expondo as fibras que se encontravam por baixo. parecendo voltar a enterrar-se na escuridão de que nascera. começou a sentir um calor no peito. à medida que os dedos que não eram os seus passaram sobre a forma bidimensional que inexplicavelmente estava suspensa diante da porta. flutuando no ar. E ali esteve. Ouviu-se um forte estalido enquanto a porta se destrancava sozinha. mais fina. em certa medida. Tudo lhe parecia um pouco confuso.

estreitas e inclinadas. Conseguia sentir que a velha (Thatch. pôs-lhes um pé em cima e começou a descer. !!Oh. mas logo de seguida recuperou a posição e tudo voltou a estar como dantes. Dormir numa cadeira não era o modo mais confortável de passar o dia. vinda das janelas do andar inferior que deixavam entrar o brilho dos candeeiros a gás da rua. Ela tem medo de mim. teve um pensamento que até a ela apanhou de surpresa. como se temesse ser atingida. pensou Alaizabel de forma categórica. O seu pescoço doía-lhe de uma forma incrível do lado para o qual a . Uma luz tênue trepava pelas escadas acima. !!Vai chegar a vez deles. vou tratar deles!!. A voz de Alaizabel fora forte naquele momento. o frio da casa provocando-lhe pele-de-galinha por baixo da camisa de noite lilás. e já falta pouco!! As escadas desciam diante dela. Os olhos de Thaniel abriram-se e ele acordou de imediato. Naquele momento. Se não fosse o calmante. a velha pareceu encolher-se na mente de Alaizabel. a voz de Thatch ecoava de forma cortante dentro do crânio de Alaizabel. eu vou tratar deles. o rapaz e Cathaline estariam a dormir. não terias qualquer poder sobre mim. Ao ouvir isso. Hesitante. a sua agressividade amordaçada pelo calmante.clarividência.. mas os seus ossos envelhecidos roubavam-lhe esse tipo de controle e fez as tábuas de madeira ranger. Sou mais forte do que ela. alinhadas em ângulo reto com o patamar. Porém. era esse o seu nome) estava a tentar avançar furtivamente. o Sol acabara de se pôr. caminhava ao longo do patamar escuro.agora era de novo fraca.

Ela estava metida em maiores apuros do que o que julgavam à partida. onde estavam as escadas. lembrava-se disso. ele sonhara com aquele som. Limpando a cara com a manga da camisa. O lume tinha-se apagado há já muito tempo. Fora isso que o acordara. Havia mesmo alguém nas escadas. esticou as costas e pensou no fardo que era agir como um cavalheiro. Então o pai pisara uma tábua podre e o rangido altíssimo acordara-o de sobressalto. e a noite voltara a cair sobre as ruas de Londres. apoiando todo o seu peso e deixando-o com um torcicolo. Ainda por cima. olhou em volta. Uma estranha sensação de dêjâ vu assaltou-o subitamente. eram muito di- . Ouviam-se vozes do lado de lá da porta. A sua mente sonolenta incorporara o som que ouviu no sonho. A idéia fê-lo ficar com um ar sério. Pôs-se de pé. quando o tentava subir descobria que era mais alto que uma montanha. descobriu que um fio de baba escorregara pelo canto da boca e lhe molhara a bochecha. para a sala. Embora parecesse pequeno. Um rangido vindo das escadas fê-lo parar a meio do processo de se pentear com a mão. Olhou cuidadosamente para a porta fechada que levava para o corredor da entrada. vendo-o subir um lanço de escadas. afastando-se dele. Ele aproximara-se da porta e tinha a mão na maçaneta quando reparou noutra coisa. para sua vergonha. Thaniel não conseguira subir o primeiro degrau para o seguir. sobrando agora apenas as cinzas. Fez uma pausa e ficou à escuta. Estava a sonhar com o pai. Alaizabel. Para sua frustração. Havia muito para discutir esta noite.cabeça tombara. tendo de deixar a convidada ocupar a sua cama.

bem como promessas sombrias e sugestões incompletas do que lhe fariam enquanto dormia. O som podia perfeitamente ter acabado de ser feito mesmo junto ao seu ouvido. temendo de repente que alguém. Parecia que estavam pessoas no corredor da entrada. Os murmúrios continuavam. e o riso voltou. ora descendo de tom. duas ou três vozes diferentes. mas ainda assim. Possuía uma característica perturbante. era difícil perceber. Thaniel afastou-se da porta. Rapidamente. atravessou a sala escura sem que os seus pés provocassem qualquer ruído no chão de pedra. Era uma espécie de murmúrio baixo que lhe chegava aos ouvidos. O seu casaco estava estendido sobre uma cadeira ali perto. surpreendido. Os murmúrios não se haviam esbatido com a súbita explosão. conversando e fazendo planos em voz baixa. Quem quer que fosse que ali estava vinha do andar de cima. murmúrios feitos em voz alta. suficientemente silenciosos para não se perceberem. Ocasionalmente conseguia entender meia palavra e a sua imaginação completava-a e às vezes era um riso. Agora feliz por ter dormido vestido. um som soluçante que começava por ser baixo e ia crescendo até se tornar num guincho agudo e cessar. tivesse . ora subindo. eram silvos sussurrantes. As escadas voltaram a ranger. uma pontinha de qualquer coisa insana. como os do teatro. e recolheu a arma.fíceis de ouvir e completamente impossíveis de decifrar. regressou até junto da porta e encostou-se a esta. Alaizabel. pensou. com a sua pistola deitada sobre ele. nascendo do silêncio num volume tão louco que ele se afastou da madeira. ou algo. Pareceu-lhe ouvir o seu nome uma ou duas vezes. Na sua base. como se fosse alguém a resmungar consigo mesmo. agora mais próximo da entrada.

feita com madeira de carvalho. como um gato descoberto pelo brilho de uma lanterna. À sua esquerda estava a porta da frente. Os seus olhos refletiam a fraca luz de uma forma estranha. Os seus pêlos da nuca eriçaram-se e começou a sentir um formigueiro gelado a percorrer-lhe as costas. e apontou o cano da pistola ao alto das escadas. a sua pistola apontada no extremo do seu braço esticado e pronta para enfrentar o que estava do outro lado. mas soavam mais alto atrás dele. parada. de onde se encontrava só via os três degraus inferiores. dois pontos brancos ardentes no meio da sua cara escondida pela sombra. À sua direita estavam as escadas. Deu um passo em frente. permitindo-lhe ver qualquer coisa. mas Thaniel conseguia ver que ela adotara a mesma postura curvada e instável que tivera da outra vez. exibindo um lusco-fusco doloroso. do lado de fora da porta da rua. pesada.estado lá em cima com ela. Olhou-o como se olhasse para um predador. e aquele riso horrível e agudo voltou a surgir. Estava a tentar andar direita. Isso levou-o a voltar a pôr a mão na maçaneta e a abrir a porta. . Alaizabel pareceu hesitar. Os murmúrios enchiam o corredor. preparada para largar a correr a qualquer momento. depois desceu o resto das escadas. proibindo-se de ceder ao medo que o invadia. Os murmúrios ouviam-se mais alto agora. que só as luzes a gás enfraquecidas pelo nevoeiro conseguiam iluminar através das frestas das janelas. embora fossem ainda incompreensíveis. Estava lá a Alaizabel. O corredor da entrada ficou aberto. Ele baixou a pistola. — Alaizabel? Nem lhe passou pela cabeça pensar como é que ela saíra do quarto.

a sua cara adotando um horrível esgar de malícia. de uma maldade inumana. Qualquer coisa enorme e sem forma atirou-se a ele. e um uivo penetrante. rodou a chave e abriu-a. — Não! — gritou Thaniel. procurando afastá-la caso ela voltasse a tentar passar por ele. pensou. De repente. arrancada das mãos de Alaizabel. desviando o braço que segurava a pistola. Alaizabel soltou um som sibilante dirigido a ele. — Thatch? — desafiou. os seus olhos completamente cerrados. como se tentasse negar a visão que acabara de ter. A sua pistola estava apontada às cegas para o local onde deduzia que Alaizabel se encontrava. agarrando-a. atirando o seu cabelo para trás e derrubando o vaso e o telefone que estavam sobre uma mesinha junto ao balaústre. Ela era uma mancha de sombra ao passar por ele. manchas brilhantes aparecendo e desaparecendo no interior das suas pálpebras. e o turbilhão parou tão subitamente como começara. Thaniel caiu encostado à porta. mas a porta fechou-se com um estrondo. e passou por cima dele com um salto. atirando todo o peso do seu corpo sobre a porta de carvalho no preciso momento em que ela a abria. penetrou no corredor da entrada como um furacão.A tatuagem. deixando somente um lamento vago e fúnebre de fome frustrada que se desvaneceu à distância. Sentia um rio de lágrimas a escorrer-lhe pela face e a parte da frente . até que tudo voltou a ficar em silêncio. Por uma fração de segundo. demonstrando uma agilidade que o apanhou desprevenido. atirou-se à maçaneta da porta da rua. voltando a apontar a pistola. os seus olhos passaram pela imagem da coisa murmurante que aguardava no exterior.

— Você. a pistola pendendo na mão. Embora Thaniel teimasse que estava ótimo. os seus olhos! — repetiu.. Ele abriu os olhos e viu-a de joelhos diante dele. mais ou menos um metro para a esquerda do lugar para onde a pistola estava apontada.. — Olhe! — insistiu ela. com um certo tom de desespero na voz. Os seus olhos ardiam como todo o resto da cara. você lembra-se? Lembra-se de alguma coisa? — indagou Thaniel sem grandes forças enquanto ela o empurrava pelas escadas acima. Dos cantos internos dos olhos escorriam canais de um vermelho aguado. A sua cara era uma mistura de medo e preocupação com ele. agarrando-o de repente e obrigando-o a levantar-se. — Thaniel — foi o som que se ouviu. já sem forças. As lágrimas caíam com pequenos fios de sangue. não a de Thatch. Estavam tão vermelhos que não sobrava espaço. Deixou cair o braço.. em direção à casa de banho. agredida pelo choque do horror que presenciara. Este deu uma espreitadela aos olhos de Tha- . frágil e perdida. A única coisa que conseguia fazer era olhar estupefato para o que via. A voz de Alaizabel.. Vacilava. Praticamente todos os vasos sangüíneos tinham rebentado. Cathaline insistiu que fosse chamado um médico. Ouviu-a conter a respiração e viu-a cobrir a boca. — Thaniel.do seu cérebro parecia arder. Os seus olhos não tinham praticamente branco nenhum. Ele olhou para o espelho até ao qual ela o guiara. — Os seus olhos. — disse ela.

perguntando-se se esta agüentaria ainda mais choques naquela noite. ou seja. Alaizabel brincava com o amuleto que tinha em volta do pescoço. — Temos lá um. não era muito mais perigoso do que um dedo metido no olho com muita força. ou vamos todos acabar mortos. pois não conseguia agüentar por mais tempo a corda bamba sem rede em que se encontrava desde que tinha memória. — Por essa altura já nós teremos partido. quando Cathaline lha deu. Os vasos tinham rebentado de uma forma bastante grave. quaisquer que fossem. mas Thaniel replicara: — Vai usá-lo. — Partido? — perguntou Alaizabel. mas curar-se-iam rapidamente. protestando que não podia aceitar um presente daqueles. Thaniel virou-se para Alaizabel. No entanto. — Têm de me dizer o que está a acontecer. Ficou de boca aberta. sem saber o que dizer. hesitando — amigo que talvez nos possa ajudar.niel e aconselhou-os a esperar até de manhã para ver se melhoravam. Queria respostas. uma bonita espiral achatada em filigrana de ouro. — acrescentou. Não aceito ser tratada desta forma. . empurrada como um peão sem saber porquê.. com pequenas pedras de jade incrustadas entre os fios e uma safira no centro. a sua cara era um espelho de determinação. Outrora fora da mãe de Thaniel. Teria de se manter afastado de luzes muito fortes e de álcool durante algum tempo. — Partido para onde? — Para as Vielas Desonestas — disse Cathaline. — Esperar até de manhã! — repetiu Thaniel com desagrado quando o médico saiu. Menina Alaizabel.. era motivo para preocupação mas não para pânico. encaracolando-se para dentro. — Quero saber — disse ela de repente.

Eles controlam juízes. Advogados... quase todos os que alguma vez o tentaram provar acabaram mergulhados no Tâmisa. A Irmandade é um grupo de homens e mulheres que se dedicam a ajudar os seus. e contou-lhe tudo.. — É também conhecido por quase todos os caçadores-de-bruxas que existe um grupo de fanáticos no seu âmago — continuou Cathaline. diretores de jornais.. Homens e mulheres influentes. médicos. Eles são o poder de Londres. — O coração da Irmandade é uma seita. — A Irmandade — sussurrou. procuradores.— Muito bem — acedeu ele.. banqueiros. comissários de polícia. mas a maior parte de Londres nem sequer acredita que eles existem. Os ricos e poderosos. — Querem o que está dentro de si — explicou Thaniel tocan- . — Por que é que. políticos. — As suas ações são mantidas em segredo pela imprensa. aristocratas. mas como é que ninguém os trava? — perguntou Alaizabel. É nossa função sabermos. No entanto. — Esse nome diz-me qualquer coisa. mas nós sabemos. — Ninguém sabe quanto do que se ouve é verdade e quanto é rumor — afirmou Thaniel. — Quem é que os travaria? — respondeu Thaniel. esfregando os olhos. acerca do espírito que a habitava e acerca do que dissera sobre a Irmandade quando a Thatch falara através da sua boca. diz-se que são milhares. — E agora eles querem-me a mim? — perguntou Alaizabel. — A maior parte das pessoas nem sequer ouviu falar deles. Tudo acerca da tatuagem e do seu propósito.

Thaniel Fox — afirmou ela —.do-lhe carinhosamente no braço. e os três sentiram o peso do seu inimigo invisível que aguardava para lá daquela porta. O que fiz eu para acabar assim? — É isso que temos de descobrir — disse Thaniel. — Não compreendo nada disto. fê-lo numa voz suave e frágil. Dormiram por turnos e aguardaram o nascer do Sol. A cabeça de Alaizabel caiu e quando voltou a falar. pois não tenho mais ninguém a quem recorrer. A escuridão caiu sobre Londres. a noite estava profunda e carregada. . — Então coloco-me nas suas mãos.

A Lua. em algum lugar lá em cima. Estava um frio horroroso. desaparecido. enchendo as ruas como se nunca tivesse chegado a sair. mas neste momento havia uma coisa que ela temia mais do que o Todo-Poderoso. por essa altura. e isso estava em algum lugar nos becos atrás dela. estava invisível.SEGUNDA PARTE STITCH-FACE CAPÍTULO VIII ~ Charity Street Os Homicídios Verdes ~ Priscena Weston era uma mulher temente a Deus. pois com o avançar do Inverno as temperaturas iam baixando. tocando com os seus dedos úmidos nas pedras. Londres apresentava-se calma esta noite. O nevoeiro regressara. aguardando o nascer do Sol. a geada começava a entrar pelas frestas das janelas e via-se gelo tão claro como água nos luga- . também ela escondida por nuvens. rezando para que as coisas que se moviam ocultas pelo nevoeiro já tivessem.

res onde a umidade do nevoeiro se reunia e congelava. Os pubs e as estalagens estavam agora vazios, e só o distante zumbido de uma fábrica rasgava o silêncio. Pris estava habituada à calma do silêncio. Era quase completamente surda desde os quatro anos, quando o seu pai embriagado lhe batera nos ouvidos e lhe perfurara os tímpanos. Mas agora não havia calma nenhuma para ela. Embora as ruas fossem como um verdadeiro cemitério, ouvia um ruído a ecoar-lhe na cabeça. O sangue subia-lhe pelo pescoço acima, dirigindo-se ao cérebro; a sensação da sua respiração pesada e arquejante a entrar e a sair era profunda e dolorosa; o coração batia-lhe dentro do peito a um ritmo infernal. O Stitch-face seguia-a. Há quinze anos que ele seguia e aterrorizava os habitantes de Londres, vasculhando as margens a norte do Tâmisa. Há quinze anos que ele era uma ameaça usada pelas mães para obrigar as crianças a comportarem-se: — Para a cama já, senão o Stitch-face apanha-vos! Poucos dos que eram chantageados dessa forma sabiam o suficiente para compreender que o Stitch-face só matava mulheres, nunca homens nem crianças. Algumas pessoas diziam que ele era meio-bruxa, o filho de Black Annis, que um dia possuiu um homem na cama dele enquanto lhe sugava o ar que respirava, deixando-o a ele morto e a ela grávida, Uma coisa era certa, se o Stitch-face não passava de um homem, então fora incrivelmente inteligente a escapar à atenção dos Peelers. Um reino de terror que durava há uma década e meia e mesmo assim ainda não havia qualquer pista sobre quem seria a não ser o relato das poucas

pessoas que o viram e sobreviveram ao seu olhar. Relatos esses que lhe valeram a sua alcunha. E agora fora ela quem vira a assustadora máscara, a boca aberta por entre os retalhos de serapilheira cinzenta, um esgar de morte sob um lindo cabelo de mulher, fino e castanho, com uma franja a direito. Ele estava de pé no beco de esquina entre Charity Street e Shrew Lane, que se encontravam completamente encobertas pelo nevoeiro. Braços cruzados, um casaco comprido apertado até a cima, era como se tivesse estado à sua espera toda a noite. E ela correra, e embora não conseguisse ouvir os passos, sabia que ele a seguira. De todos os habitantes de Londres, o Stitch-face escolhera-a a ela, esta noite, e ela fugia pela vida. A área em volta de Charity Street era uma loucura de vielas em ruínas, subidas e descidas, e becos sem saída. Uma bomba perdida do Vernichtung destruíra a maior parte da estrutura, e os engenhosos habitantes tinham deitado mãos à reconstrução sem qualquer preocupação com o que era daqui e o que era dali. As casas inclinavam-se umas sobre as outras, transformando o céu, quando este era visível, numa tênue linha entre as calhas dos seus telhados. Via-se luzes a arder numa ou duas das suas janelas, pequenas manchas de calor na nuvem fria que caíra sobre Londres. Ela correu, o seu pânico tornando-a descuidada enquanto avançava por entre o nevoeiro. Mais ou menos de dez em dez metros olhava por cima do ombro para a face inexpressiva da rua enevoada. Uma das vezes, pareceu-lhe ver uma silhueta fugidia atrás de si, na neblina, mas depois fora engolida pelo cinzento. Candeeiros de rua passavam por ela com uma explosão de luz, despreocupados, indiferentes ao seu sofrimento.

Dentro da sua cabeça, silêncio, a não ser pelo bater interno dos seus órgãos. Ela estava trancada dentro de si, incapaz de passar para o mundo exterior, os seus olhos cobertos pelo nevoeiro, os seus ouvidos há muito mortos. Qualquer coisa correu para a rua diante dela, parou e depois voltou a correr para a proteção dos degraus de onde viera. Um gato, assustado pela recém-chegada. Ela mal teve tempo para reparar nele antes de se sentir cair, a perna direita rugindo debaixo dela de forma incontrolável. Gelo, pensou, caindo de seguida sobre as pedras da calçada e vendo um mar branco surgir à sua volta. A dor não foi suficiente para a travar. Levantou-se, queixosa, sentindo de imediato o lábio a inchar. Viera a correr pela estrada e não pelo passeio, pois as pedras da calçada eram mais aderentes; mas mesmo isso não bastara nesta noite traiçoeira. Olhando freneticamente por cima do ombro, viu o Stitch-face ali parado, a sua sombra escura quase invisível por causa do nevoeiro. Ele estava à espera de que ela recomeçasse a correr. Atirou-se à porta mais próxima com um grito, uma das que tinha luzes acesas a brilhar pelas janelas. — Ajudem-me, por amor de Deus! Está aqui o Stitch-face! Mas apesar de as palavras fazerem sentido para ela, não escutava a sua voz desde os quatro anos e os sons que proferia eram quase indecifráveis. Voltou a gritar, um som abafado dentro da sua cabeça, mas não conseguiu fazer com que o significado das suas palavras ultrapassasse a atrapalhação da sua língua. O Stitch-face começou a andar na sua direção, aproximando-se

lentamente, tornado-se cada vez mais nítido conforme ia saindo do nevoeiro. Com um grunhido de frustração, ela correu até outra casa, batendo também nessa porta. Talvez aquelas pessoas pensassem que estavam a ser importunadas por uma lunática; talvez só não se quisessem envolver. Fosse como fosse, fecharam as cortinas e deixaram a porta bem trancada. Ela guinchou de medo e olhou para trás, para Stitch-face, que ia avançando calmamente na sua direção, com a segurança de um gato que brinca com um rato. Agora voltava a conseguir ver a horrível máscara de morte, emoldurada por aquela bonita cabeleira comprida. E conseguia ver também a faca de lâmina longa e larga que ele tinha na mão esquerda, cintilante de tão polida que estava. Voltou a correr, recitando para dentro orações de puro pânico. Não fora ela devota ao longo dos anos? Não fora ela sempre uma religiosa bem-comportada e praticante? Porquê ela? Por que é que ele a escolheu a ela? Mesmo depois de ter sido amaldiçoada por um pai bêbedo, um homem que lhe retirou a capacidade auditiva antes de encontrar a morte no fundo de uma garrafa de gim, mesmo depois de a mãe ter morrido de tuberculose pulmonar, mesmo depois de tudo isso, a sua fé nunca vacilou. Não tivera ninguém que a ensinasse, os seus pais eram ambos ateus, adorando somente os deuses gêmeos do álcool e do láudano, respectivamente; e mesmo assim, apesar de tudo, apesar de ter mais razões que a maioria para se enfurecer com a sorte que Deus lhe destinara, era uma paroquiana exemplar, uma Católica devota e, pelo menos ela assim gostava de pensar, uma mulher de bom coração. Por que é que isto lhe estava a acontecer a ela? Nos minutos que se seguiram, concentrou-se somente em fugir,

não vendo nada, não ouvindo nada, não sentindo nada senão esse desejo. Caiu mais duas vezes, mas só sentia dormência onde deviam estar as nódoas negras e arranhões. A sua lamúria fez do seu ritmo cardíaco uma síncope violenta, assim como da corrente sangüínea em volta do seu cérebro. Correu até o peito lhe doer e os seus músculos lhe parecerem feitos de chumbo. Parou uma vez mais para bater numa porta e uma vez mais não recebeu qualquer resposta. A cidade não se envolvia nos assuntos dos condenados. As pessoas que habitavam na zona de Charity Street ficavam sentadas junto às suas lareiras e fogões, as suas portas e janelas transformadas em verdadeiras barreiras impedindo a comunicação com o exterior, e ouviam os gritos semi compreensíveis de Pris com corações frios. Abrir a porta era convidar problemas a entrar, diziam para si mesmos. E além disso, quem é que podia saber se aqueles gritos horrendos não seriam de um qualquer ser-bruxa? Por fim, completamente exausta, a sua corrida abrandou para um caminhar vacilante, e ela acabou por parar encostada a um candeeiro enquanto tentava recuperar o fôlego, cheia de dores na barriga. As lágrimas escorregavam-lhe pela face quando ela olhou para trás, para o centro enevoado do beco, e, com um lamento, apercebeu-se de que ele estava ali, o Stitch-face, ainda caminhando como se nunca tivesse sido forçado a correr para a apanhar. Não me consegues escapar, era o que dizia a sua passada. Vem cás quero apresentar-te a minha faca. — Socorro — sussurrou, sendo que desta vez o pedido não era dirigido a ninguém, pois ela sabia que estava muito para lá de qualquer tipo de ajuda.

Mas ao proferir essas palavras, um novo fluxo de energia pareceu invadi-la, suficiente, pelo menos, para a fazer levantar e recomeçar a fugir. Não sabia para onde ia, nem porquê, sabia apenas que não podia desistir. Dobrou a esquina, entrando num beco estreito, que desembocava no pátio das traseiras de uma loja. Separando o pátio do fundo do beco, encontrava-se um portão de grade aberto. Estava tão cansada que não conseguiu ver as duas sombras que a seguiram furtivamente, saindo da escuridão de um buraco na parede e partindo atrás dela. A sua surdez não lhe permitiu ouvir o rosnado baixo que fizeram. Para dizer a verdade, só se apercebeu da presença dos lobos quando deu por si a ser empurrada por trás por um grande peso e se desequilibrou para a frente com um grito, batendo com a cabeça na barra metálica do portão. Depois disso, a única coisa que se seguiu foi escuridão. Uma nova manhã, e o Detetive Ezrael Carver deu por si espetando mais um alfinete no grande mapa de Londres que estava pendurado na parede do gabinete que partilhava com o Inspetor Maycraft na Central da Polícia de Cheapside. Presa ao alfinete estava uma pequena bandeirinha de papel, com o número setenta e seis cuidadosamente pintado. Espetou-o em Holborn, num lugar imediatamente a sudeste de Charity Street. Sentou-se na sua secretária de teca e ficou a olhar para o mapa, com a cara apoiada no punho. As janelas fechadas deixavam entrar o brilho da luz do sol, transformando as minúsculas partículas de pó em pequenos sóis em miniatura que esvoaçavam pelo ar. O gabinete não estava nem arrumado nem caótico, mas num ponto intermédio. Construído quase todo com painéis de madeira, tinha mais ar de gabinete de um professor universitário ou de retiro espiritual de uma bibliotecária do que de

um local para se fazer trabalho policial. Uma porta sólida separava Carver do resto do edifício, onde prosseguia o constante vaivém de criminosos, cidadãos assaltados, alarmes, relatórios e emergências. Aqui, no seu gabinete, havia um ambiente calmo, e ele levantou-se, foi até à janela, e espreitou para o céu congestionado de Londres, gozando indolentemente o brilho, já que não o calor, do sol. Os seus olhos passaram pelos pináculos e cúpulas das altas igrejas, pelos telhados sombrios das fábricas e asilos em ruínas, pelas estreitas chaminés que disparavam em direção ao céu, e sentiu um súbito carinho por esta cidade e pelas suas pessoas. Ali de pé, olhando para a rua, sentiu que estava prestes a ter uma revelação interior e profunda que podia mudar a sua maneira de ser, fazer dele um homem melhor, O momento, se é que alguma vez chegaria, foi destruído por Maycraft quando este rodou a maçaneta da porta com ruído e entrou, os olhos postos num monte de relatórios que trazia na mão. — Bom-dia, Carver — disse, sem levantar o olhar. — Inspetor Maycraft — respondeu de forma educada, abafando a sua irritação por ser interrompido antes da chegada do seu momento de revelação. Maycraft pousou os papéis e olhou para ele. Carver tinha vinte e muitos anos, não era alto nem baixo e tinha ombros mais largos do que o habitual. O seu cabelo negro estava penteado todo para trás e um farfalhudo bigode preto cobria-lhe o lábio superior. Vestia um colete duplo preto sobre uma camisa castanha e as suas calças cuidadosamente passadas eram de um castanho ainda mais escuro. Estava, como sempre, muito bem arranjado. Tinha a mania das arrumações. A confusão do gabinete

Há já muito que a piada perdera o interesse. Como se eles não tivessem passado os últimos dois anos a tentar fazer qualquer coisa para o apanhar. — Dificilmente consigo achar que ter sido mutilada por animais selvagens foi uma forma decente de escapar — redarguiu Carver secamente. caindo sobre a sua cadeira. — Tem muita sorte em estar viva — respondeu Maycraft. Dá para perceber o seu ponto de vista. Era uma piada recorrente entre eles. — Deus salvou-a fazendo-a ser atacada por lobos? — perguntou Carver com o sobrolho franzido enquanto se sentava também.partilhado pelos dois era quase da inteira responsabilidade de Maycraft. ela é a quinta pessoa que foge dele em quinze anos. A conversa parou enquanto ele o acendia. quanto mais não fosse por uma questão de tradição. Que nós saibamos. — Já está na hora de começarmos a fazer alguma coisa para apanhar esse tal de Stitch-face. Maycraft virou a ponta do charuto para o seu companheiro mais novo. . Carver sorriu. — Continua a balbuciar qualquer coisa acerca de como Deus a salvou. — Pelo menos ainda está viva. — Como é que ela está? — perguntou. — O número setenta e seis — disse Maycraft. mas Carver era demasiado bem-educado para o censurar por isso. mas Maycraft ainda a atirava para o ar nas ocasiões devidas. libertando uma nuvem de fumo perfumado. como era suposto fazer. Maycraft tirara um enorme charuto do bolso e cortava-lhe a ponta com um cortador de prata.

Carver pôs as mãos atrás da cabeça e recostou-se. agora. anda por Yukon a matar ursos pelas peles. Dirige aquela loja de peles quando está em Londres.— O Senhor escreve direito por linhas tortas — retorquiu. com um ligeiro tom provocativo. metafísica à parte. o seu próximo ataque será dentro em breve e mais ou menos num raio de . não se querendo comprometer com nenhuma das hipóteses. Pelo menos foi isso que fez nas quatro ocasiões anteriores em que falhou um homicídio — disse. — Até parece que começas a acreditar que ela foi salva pela força divina — comentou. E um caçador. durante a qual Maycraft puxou uma longa fumaça no charuto. graças à Menina Weston. — O Stitch-face ataca sempre na mesma zona. — Alguns arranhões. de todas as pessoas com quem se podia cruzar. ao menos. — Sim. uma ou duas cicatrizes. — Se seguir o mesmo padrão. — Bem. mas nem mesmo o Senhor consegue ser tão misterioso como o Nosso Senhor Stitch-face — ripostou Carver. temos uma vantagem — continuou Carver. isto se falhar um primeiro ataque. Seguiu-se uma pausa. Já interroguei o homem que afastou os lobos. apontando para uns quantos alfinetes que se reuniam em pares. levantando-se e dirigindo-se ao mapa. — Humm — resmungou Maycraft. e olhou para Carver com um ar desconfiado. O resto do tempo quem a dirige são familiares. ela tenha logo dado de caras com ura homem habituado a matar animais selvagens. — E estranho que. sabes. — Ela vai recuperar dentro em breve — disse Maycraft. batendo com o punho na secretária.

Pareciam ser obra de Stitch-face. tal como os outros. e estavam dispostos com os braços cruzados sobre o peito 4 Caatfoot Joe — Joe Sorrateiro. Tinham começado um ano atrás. língua e coração. removidos com a precisão de um cirurgião. com olhos bem atentos. Fora o próprio Carver a inventar o nome. Carver estudou o mapa. Era um nome curiosamente inofensivo para uma coisa tão grave. contudo. Estas espalhavam-se por toda a área de Londres em vez de se agruparem em volta de uma área específica. a Oeste. e ele era muito territorial nos seus homicídios. Um até fora cometido na Zona Antiga. cada uma contendo um número. sem dúvida. Os Homicídios Verdes eram o maior e mais recente progresso na caça ao Stitch-face. como os alfinetes. até Poplar. depois de os ter começado a marcar com tachas verdes para mostrar que eram diferentes dos outros. Por entre os pequenos alfinetes e as suas bandeirinhas. cometidos desde Hammersmith. Há aqui um padrão. — Não está ainda a tentar perceber. um pouco de humor negro era bem necessário hoje em dia. Os corpos das vítimas eram encontrados sem olhos. a Este. — Detetive? — chamou Maycraft.um quilômetro de distância do local inicial. viam-se sete tachas verdes. e ele conquistara um certo monopólio nos homicídios em série de Londres desde a execução de Catfoot Joe4 Sorrateiro. — Não consigo evitá-lo. Principalmente aqueles desgraçados Homicídios Verdes. (NR) . pois não? Carver torceu o nariz. tenho a certeza disso. caso se quisesse manter a sanidade mental. Homicídios cometidos bem longe do território de Stitch-face.

A distância entre os homicídios de Kensington e Battersea era quase exatamente metade da distância entre o de Kensington e o de Poplar. Pareciam tão deliberadas. não tinha simetria. porque o Stitch-face nunca matava fora do seu território. pois. Carver estava convencido disso. Maycraft insistia teimosamente que os Homicídios Verdes eram obra do Stitch-face. Bem. Carver tinha a certeza de que nenhuma organização secreta o manipulava a de. conseguia senti-lo. aparentemente. e isso nos primeiros tempos. Maycraft recusava-se a acreditar que fosse outra pessoa a fazê-los. era impossível prever onde poderia ocorrer o próximo homicídio. tentando desenhar uma forma com elas. O que normalmente era tomado por «seita» em Londres.ensangüentado e a cara voltada para baixo. Embora fossem fora do seu padrão habitual. A não ser que se acreditasse em toda essa treta da Irmandade. Carver não acreditava nisso. onde ocorrera outro Homicídio Verde. . logo. com as órbitas vazias a fixarem o chão. tão equilibradas. teoria que ganhava peso pela forma cerimonial como ele matava e dispunha as vítimas. mas não era nenhuma forma que ele alguma vez vira. Havia a teoria popular de que o Stitch-face fazia parte de uma das muitas seitas clandestinas de Londres. claro. até o próprio Stitch-face fora visto por diversas vezes. Havia ali uma forma. Era simplesmente inconcebível que alguém conseguisse safar-se com sete homicídios em menos de doze meses sem deixar qualquer rasto. Mas não estavam bem feitos. Passara horas a olhar para as tachas verdes no mapa. Os restantes quatro homicídios tinham um semelhante plano matemático. não passava de um pequeno grupo de ricaços entretendo-se com umas velas pretas e um livro falso de feitiços.

e quem é que estava a cometer os Homicídios Verdes? . Era simples e evidente para ele que os Homicídios Verdes não eram obra do Stitch-face. Maycraft recusava-se a aceitar a possibilidade de haver outro assassino em série em Londres. Carver sabia que Maycraft estava errado.quando a sua média anual era de três ou quatro homicídios. e. ainda por cima. O que deixava duas questões por resolver: por que é que Maycraft se recusava tão obstinadamente a aceitar as provas que lhe eram exibidas. um mais inteligente que o Stitch-face.

CAPÍTULO IX ~ As Vielas Desonestas Grindle Carver faz uma Descoberta ~ A cidade de Londres tem um centro secreto. tornando-a quase feia demais para se ver. Pelos seus becos carregados de doenças correm os vermes. não há Peelers a fazerem rondas. Sacos de . pois fossem quais fossem os perigos que lá existiam. que não aparece em qualquer mapa ou guia. com pedras partidas e valetas molhadas. Estavam ainda nos limites das Vielas Desonestas. sabendo que neste lugar não são melhores nem piores do que as pessoas com quem habitam. uma vez dentro das Vielas Desonestas era como se se desaparecesse da face da terra. Aqui não existe qualquer lei. É um sitio atravancado. para as Vielas Desonestas. que Thaniel. Cathaline e Alaizabel se dirigiram. Até mesmo as aeronaves que andam para trás e para a frente partindo do aeródromo de Finsbury Park parecem evitar voar demasiado perto. nem carruagens a chegar. E foi para aqui. Era meio-dia quando se aproximaram de Camden. recentemente colados nalgumas paredes rugosas por um rapazote mais corajoso. todas as rugas e imperfeições das ruas sinuosas desta parte da cidade estavam visíveis sob o sol duro e ofuscante de Novembro. ainda se viam vestígios de uns cartazes publicitando a chegada a Londres de um grande circo russo e a abertura de algumas peças em Piccadilly.

por entre a confusão que era o esforço de Thaniel para levar somente o essencial. — Já se lembra de alguma coisa? — inquirira Thaniel. e a sua expressão de verdadeira preocupação fê-la sentir um calor de satisfação que lhe percorreu as entranhas.compras castanhos. — As coisas começam a ficar mais claras. a presença de Thatch na sua cabeça já não era nada tão assustadora agora que conhecia a identidade do seu inimigo. cuspindo-a para o ar limpo. renovou-lhe a sua já normalmente grande força de vontade. Após algum tempo para analisar os acontecimentos. Janelas escurecidas pelo fumo observavam-nos de cima. acabando nas valetas. chocando contra corpos de ratazanas mortas e rígidas que tinham flutuado até ali pelos esgotos. com um ar sério. quando se preparavam para sair de Crofter’s Gate. também se conseguia respirá-la. uma recordação muda das fábricas não muito distantes que atiravam para o ar fuligem e dióxido de carbono o dia todo. — Acho que começo a perceber. ela conseguira descobrir o que acontecera na noite anterior e foi capaz de explicar o sucedido a Thaniel ao nascer do Sol. . partilhando a sua mente. Quando o vento estava de feição. entupindo-as. Curiosamente. De certa forma. esvoaçavam ao vento. Era visível a poluição escura que saía das chaminés a curta distância. Uma mudança apoderara-se de Alaizabel desde os acontecimentos da noite anterior. de papel. Recordava-se de que Thatch tivera medo dela durante aquele transe sonâmbulo. a compreensão de que estava qualquer coisa dentro dela. Thaniel — dissera ela. enquanto os dois estavam sentados de pernas cruzadas no meio do chão. Ela apercebeu-se de que a razão da sua preocupação era o não saber.

não me lembro porque é que as sei. — Mas sei coisas.. de algumas imagens dispersas — respondeu.. no seu quarto. — A Cathaline pôs aquelas coisas.. Thaniel mal se apercebia de qualquer outra coisa para além do contato entre eles. Mas foram os Encantamentos de Cathaline que lhe negaram a entrada.. Não sei como. Perguntei-me muitas vezes porque é que a Thatch não me obrigou a levantar-me e sair para o corredor. Mas. — Quer dizer. — Era isso que aquilo era? — indagou com um tremor.. Percebe? — Penso que sim — assentiu Thaniel. também ele compreendendo. — Acho que prefiro não saber mais nada a respeito daquilo. Afinal de contas.. não a lembrar-me. ela fê-lo na noite seguinte.. aqueles Encantamentos no meu quarto. e continuou: — De qualquer forma. — Dessa primeira vez. Mesmo assim. — O Draug — interrompeu Thaniel automaticamente.. — Sim — retorquiu ela. — E foi por isso que a Thatch pôde fazer o que fez. conseguiu proferir uma qualquer resposta cavalheiresca de que mais tarde não se conseguiria recordar.— Só. Ela tirou a mão. os seus olhos claros procurando os dela. quer dizer. pôs a mão sobre o braço dele com um sorriso culpado. — Ao dizer isto. aquilo . acho que me estou a aperceber. onde estava aquela coisa. se é que me entende. naquela noite. batendo com as mãos uma na outra. Sabe.. — Então o que é que acha que está a acontecer? — Na noite anterior? — disse ela.. Depois percebi. não estava sedada — disse Thaniel. a coisa que veio atrás de mim. quebrando o contato.

Por esta altura tinham já avançado mais para o interior das Vielas Desonestas e Alaizabel começou a perceber porque é que o nome pegou. — Mas gostava de saber como é que deduziu tudo isso. olhando depois para Alaizabel. o estado em que estava quando a encontrei na Zona Antiga — meditou Thaniel.. — Do que é que estamos à procura? — perguntou Alaizabel. — Estamos à espera de que eles reparem em nós. Seguiu-se uma pausa. — Vamos chegar ao fundo desta questão. Ocasionalmente. — Vamos encontrar os seus pais.. — Não o conseguiríamos encontrar.que disse acerca da cerimônia. um monte de detritos que ainda não haviam sido retirados desde o Vernichtung bloqueava-lhes o caminho e eles tinham de voltar atrás. bem. que nem sequer lhes pediram uma moeda. . mesmo que tentássemos — respondeu Thaniel. — Parece fazer sentido — acrescentou. se o espírito e o anfitrião estão a batalhar. Pequenas sacadas percorriam armazéns abandonados.. Aqui parecia haver muito poucas pessoas nas ruas. — Também eu — admitiu Alaizabel. sabe — acabou por dizer Thaniel.. viram apenas alguns pedintes deficientes. As casas aproximavam-se e os becos partiam para a esquerda e para a direita um pouco ao acaso. — E você acredita que é mais forte? Ela só foi capaz de exercer o seu poder quando você estava sob o efeito de calmantes? — Sim! — repetiu ela. conseguiam ouvir uns rapazotes a rir e lutar. Alaizabel não respondeu. À distância. afastando-se o mais depressa possível. mas para além disso. um tem de ser mais forte. — Pergunto-me se a presença de Thatch pode explicar o seu. tudo parecia estar misteriosamente deserto.

Ele pode ajudar-nos. — Tu sabes o que estás a fazer. A Irmandade está a preparar alguma. Chama-se Crott. — Tenho um amigo aqui. não sabes? — perguntou Cathaline bem-disposta. para a tentar matar ou reaver. mas atualmente os pedintes dividem-se em quatro bandos. — Em Londres. Thaniel atirou-lhe um olhar grosseiro e depois dirigiu-se a Alaizabel. — O que são os Reis Pedintes? — perguntou em vez de aprofundar outras questões. cada um liderado por um chefe dife- . estavam a melhorar rapidamente e já não lhe doíam. Felizmente. nessa altura verá de que é que as Vielas Desonestas são feitas. os pedintes têm os Reis Pedintes.— Por que é que isto aqui é tão calmo? — Alaizabel atirou a questão para o ar. e conseguiram também evocar um Draug e outra coisa qualquer. — Os carpinteiros têm o seu sindicato. Passa-se algo de obscuro. esfregando os olhos ainda vermelhos com o punho. Penso que no passado terá havido apenas um Rei Pedinte. — Os que ficaram para trás especializam-se em não ser vistos. Precisamos de nos esconder e temos de chegar ao fundo deste mistério. — Os pedintes vão para a cidade durante o dia — respondeu-lhe Thaniel. não sabendo exatamente como reagir. ser pedinte é uma profissão tão válida como ser ladrão ou carpinteiro — respondeu. os ladrões a sua guilda. Conseguiram evocar o espírito que transporta dentro de si. só Deus sabe o quê. Espere até anoitecer. é um dos quatro Reis Pedintes que mandam neste lugar. Alaizabel piscou os olhos. sem qualquer destinatário.

Segundo o relógio de bolso de Thaniel e o dobrar de um distante sino de igreja. fazendo peso. — A mulher de Crott era afligida por um Incubo. — E o Crott? Quem é ele? — indagou Alaizabel. — Isso é horrível — disse em voz baixa. encolhendo depois os ombros. pouco passava das três da tarde quando as Vielas Desonestas finalmente tomaram conhecimento da sua presença. até que ele a levou ao meu pai. A mulher morreu. A mulher de Crott tinha sido observada por todo o tipo de médicos. Os olhos de Alaizabel apresentavam um ar de tristeza quando olhou para ele. — Ele conhecia o meu pai — respondeu o jovem.rente. Estavam cansados. Continuaram amigos até à morte do meu pai. — Para dizer a verdade. Espero que Crott se lembre de mim afetuosamente. e um dia cai de joelhos e nunca mais se levanta. uma pessoa vai perdendo a vontade de viver. enfraquecendo corpo e espírito. não sei assim tanto a respeito disso. pois não tinham dormido o suficiente e andavam sem direção defi- . Lentamente. o problema é que ninguém sabe que lá estão. — Fez uma pausa. mas era tarde demais. Não se consegue vê-lo ou tocar-lhe. Este é um ser-bruxa que se agarra às costas de uma pessoa. mas está lá. Ele conseguiu removê-lo. mas Crott ficou eternamente grato ao meu pai por ter feito com que os seus últimos dias fossem felizes. e certificam-se de que alguém que apareça a pedir e não pertença ao grupo seja rapidamente despachado. Os bandos ajudam os seus membros em troco de uma percentagem dos lucros. já completamente desesperado. — Felizmente são fáceis de remover.

desconhecidos? — O meu nome é Thaniel Fox. com uma horrível cicatriz numa das faces. olhando-os como um corvo que observa um tesouro. A senhora chama-se Alaizabel Cray. não proferindo uma palavra que fosse. — Não há nenhum ser-bruxa nas Vielas Desonestas. cada um aguardando ansiosamente. — Chamam-me Grindle — disse. Passaram menos de três minutos até chegar uma outra pessoa. Eles esperaram. Estão à procura de alguém do Crott? Não dos meus. como lhes fora dito. Mestre Fox — assentiu Grindle. a sua voz soando grave e carregada de expectoração. — Sim. — Que assunto é que têm com o Crott. numa voz estridente. — E esta é Cathaline Bennett. o seu queixo era descaído e os braços descobertos estavam cheios de manchas de fígado.nida há horas. ouvi falar d’ seu pai. . — Humm. os abordou num beco estreito e lhes dirigiu subitamente a palavra. sou caçador-de-bruxas — foi a sua resposta. como se tivesse sido agredido há muito tempo por um animal selvagem qualquer. — Estão perdidos? — Fazes parte do bando de Crott? — respondeu Thaniel de imediato. olhando de soslaio para ele. eu sou dos do Rickarack — afirmou o estranho. Era um homem velho. também ela caçadora-de-bruxas. curvado. dobrando uma esquina a correr. Foi quase um alivio quando um homem de cara chupada. — Esperem aqui — prosseguiu subitamente. envergando um manto castanho. Estava vestido com uma amálgama de trapos e farrapos.

Pretendo uma audiência com o Rei Crott — retorquiu Thaniel. Sentou-se na sua cadeira e colocou os papéis na secretária diante de si. estavam mais pessoas em volta da recepção. Desde que os seres-bruxa chegaram. Não havia nenhuma razão em particular. ou sentadas nos duros bancos da sala de espera. mesmo que isso significasse trabalhar com um homem com quem apenas tivera uma relação antagô- . e a sua paciência atingia o limite. não tivera quaisquer hesitações. A decadência era cada vez maior desde o Vernichtung. Entrara várias vezes em conflito com aquele homem mais velho quando trabalhara em Holborn. Finalmente encontrados os papéis dos requerimentos. — Não diga? — ripostou o velho. Parecia que.— Não estamos aqui por causa de seres-bruxa. — Pois não me diga? Fora um dia longo para Ezrael Carver. Tinha de admitir que gostava de Maycraft. nenhumas circunstâncias especiais que tornassem este dia mais difícil que qualquer outro. lá isso era verdade. regressou ao seu gabinete. isolando-se do ruído exterior. e reparou que Maycraft ainda não regressara de onde quer que tivesse ido. A cidade de Londres caminhava para a sua ruína. Desde que esses malditos prussianos a bombardearam. Estava só cansado. fechou a porta. mas quando soubera que o Parlamento o incumbira de acabar com o Stitch-face. há vinte e tal anos. a cada dia que passava. por isso precisou de se esforçar muito para manter uma fina e frágil capa de delicadeza enquanto passeava de um lado para o outro da Esquadra de Policia de Cheapside em busca de ficheiros que a sua secretária irremediavelmente incompetente espalhara por diversos lugares. com um sorriso sombrio. Não gostava da balbúrdia que assolava a maior parte do edifício.

mas Maycraft insistira que o Doutor Pyke era digno de confiança. de Redford Acres e perguntar-lhe se ele tivera tempo de analisar os documentos que lhe tinham enviado. apercebeu-se subitamente de que não tinha o número do Doutor Pyke. tinham-lhe enviado os detalhes sobre os Homicídios Verdes para saberem a sua opinião profissional acerca da hipótese de aqueles homicídios terem sido cometidos pelo Stitch-face. ciente do enfraquecimento da luz enquanto a tarde se ia transformado em mais uma noite fria. caso não o tivessem sido. Mas Carver não queria esperar. faria mais sentido esperar que Maycraft voltasse e fizesse ele o telefonema para Pyke. tendo liberdade para escolher e selecionar as suas tarefas departamentais de forma a não interferir com o caso Stitch-face. obviamente. Agora. já que os dois eram amigos. Pediu desculpa e voltou a pousar o auscultador. Para dizer a verdade. atirou-se à idéia de telefonar ao Doutor Pyke. mas o número não vinha na lista. por isso. Esquecendo tudo isso. A inspiração não estava num dia muito bom.nica. pensou. Bem. após dois anos de colaboração. Carver opusera-se à idéia de partilhar informações com pessoas alheias à força policial. escura e indubitavelmente enevoada. Seguindo uma sugestão de Maycraft. o que vou eu fazer em relação aos Homicídios Verdes? Bateu com um lápis nos dentes. Pediu à telefonista que lhe fizesse a ligação para Redford Acres. ou. . E. para se tornar útil. olhando para o vazio. conheciam-se bem e aceitavam os defeitos de cada um. Pegando no auscultador do telefone. gostava da posição privilegiada que ocupava. acerca do tipo de pessoa que seria capaz de fazer aquelas coisas.

Parecia qualquer coisa como uma concha denteada. Abriu-o e começou a folheá-lo. . ou.. pensou.. pois estava representado como uma segunda encarnação de Cristo) e várias bandeiras do Reino Unido. não. ou um olho pestanudo. Foi quando folheava o livro em busca do nome Lucinda Watt que. não tinha bem a certeza. nitidamente. não fosse pela estranha sensação desagradável que lhe provocava nas entranhas. Ainda por cima. Carver começou a virar as páginas mais devagar. subitamente. Contudo.. via-se uma pequena forma.Que idiotice da minha parte. não aparentando ser um homem imaginativo. Andou duas páginas para trás e ficou a olhar para aquilo que lhe chamara a atenção. por entre uma grande confusão de outros rabiscos sem sentido. não. aproximou-se da secretária de Maycraft e abriu a gaveta na qual se encontrava o livro de endereços do Inspetor. como um distintivo ou um símbolo. era mais como um animal estranho e deformado. Mas diante dele. Viam-se dragões. era. A letra de Maycraft era assustadora e ele tinha o hábito de fazer pequenos desenhos nas bordas dos papéis. secretária. Estava desenhado dentro de um círculo. criativo nos seus rabiscos. o seu cérebro eficiente fez de imediato uma ligação mal os seus olhos ali se focaram. não pusera os números por ordem alfabética e quando Carver finalmente encontrou a morada do Doutor Pyke. Noutras circunstâncias. ou uma foca. Maycraft. o que era muito irritante e desviava a atenção de quem estivesse a ler. debaixo lia-se uma pequena nota que dizia: Numero de Telefone: ver Lucinda Watt. um rabisco de um vendedor de bolos (desenhado. não lhe teria chamado a atenção. Maycraft teria o número com certeza. De seguida. um polvo. contudo.. um ligeiro erguer das sobrancelhas desenhando-se na sua face. num estado de grande fome.

tirando da sua secretária um mapa mais pequeno da cidade de Londres. Uniu então os pontos. o alto do que se assemelhava a uma cabeça. Desenhada sobre a cidade de Londres.Olhou do mapa da parede para o símbolo e depois de volta para o mapa. faltando apenas uma pequena parte do seu lado esquerdo para ficar completa. — Maycraft. — Meu Deus — repetiu. como uma constelação. estava a coisa com muitos tentáculos que se via no livro de endereços de Maycraft. marcou os locais onde ocorreram os Homicídios Verdes. Em seguida. — Meu Deus — murmurou ao olhar para o mapa que se estendia sobre a sua secretária. e assim por diante. e desenhou uma forma em seu redor. Uma nuvem passou diante do sol e a sala ficou mais escura. Ele deduzia que faltavam apenas dois pontos para a forma ficar completa e pôs uma marca nesses locais. Os locais dos Homicídios Verdes formavam os pontos principais da sua forma: as pontas dos tentáculos. .

com pilares altos e imperfeitos que tocavam lá em cima. os pedintes das Vielas Desonestas. A toda a volta da zona iluminada estavam mesas. e parecia não haver qualquer porta. mulheres e crianças. . Ao longo de todo o perímetro do seu reino. caldeirões. nos grandes arcos. Era tudo de pedra nua. construído em blocos maciços. era quase totalmente aberta. mesmo nos tempos que correm!) coziam batatas e vegetais. nas quais se sentavam homens. Contudo. onde não brilhava qualquer tipo de luz. entre os pilares abundavam a luz e um calor sufocante. assim como carne rija de frango e de porco. com as extremidades a esvaírem-se numa total escuridão. cheia até acima de carvão a arder e coberta por todo o tipo de grelhas e espetos sobre os quais se via carne de vaca cheia de nervos. uma gigantesca sala de pedra. Caldeirões a ferver (sim. e suportavam o seu peso.CAPÍTULO X ~ Uma Audiência com Crotr Chega-se a um Acordo A Ratazana-Mor ~ O salão de banquetes do Lorde Crott era enorme. viam-se cozinheiros a andar de um lado para o outro provando e mexendo a comida. em vez disso. propriamente dita. Uma longa gamela de metal atravessava o centro do salão. que desse acesso à sala.

sentados à mesa. e poderia até ser considerado bonito. transmitia-lhe uma aura de felicidade. Era um homem elegante. trocando piadas picantes ou dando palmadas amigáveis uns aos outros. ecoando no grande telhado e espalhando-se pela caverna. e um rapaz pequeno. que lhe atravessava a face. e deu uma palmada nas costas do ogre. Grindle levou-os até onde Crott estava sentado. com cerca de quarenta anos.Estavam sujos e mal arranjados. e o som. Sob o olhar deles. quase todos exibindo uma deformação ou doença qualquer. deu uma enorme gargalhada. respondendo. Pouco se parecia com um . O homem que Grindle indicou como sendo Lorde Crott não estava sentado em nenhum lugar especial. resultado de uma facada. a comer tudo o que podiam. Não estava sentado em nenhum trono nem sobre nenhum estrado. que a entendeu como uma deixa para soltar uma risada lenta e desajeitada. e à medida que se iam aproximando este ergueu os olhos para eles. que estava sentado de olhos fechados e tinha o cabelo comprido e sujo a cair-lhe todo desalinhado sobre a cara. pois era prática comum pais pobres aleijarem propositadamente uma criança para que esta provocasse a piedade de quem passava e ganhasse uma moedinha. musculado e com uma cara simples que parecia indicar um tipo de deficiência mental. estavam ali a rir e a conversar. em nenhuma mesa em particular. banqueteava-se entre um homem gigantesco que mais parecia um ogre. Todavia. não fosse a horrível cicatriz. com jarros de vinho para ajudar a empurrar a carne. a uma qualquer piada. O salão era todo ele ruído e movimento. fazendo com que o seu lábio se encaracolasse de uma forma muito desagradável. bem como as marcas de varicela muito profundas que se escondiam por trás de uma barba curta e rala. por certo.

— Ah. estavam ligadas por um fio. Punia-se a si mesmo por ser extravagante. Cathaline começou a comer a sua dose de imediato. — Ezekien Crott — respondeu Thaniel com um sorriso. batatas. de maneira que havia agora um banco vazio diante da mesa tosca. talvez o Robin dos Bosques. É um prazer tê-la à minha mesa. mas que ele não fora capaz de distinguir ao longe.pedinte. tendo mais o estilo de um fora-da-lei. os outros esperaram que Crott lhes desse permissão . — Nem acredito. — Thaniel Fox! — exclamou Crott. Os seus olhos estavam fechados porque tinham sido cosidos. Grindle regressou com um companheiro e colocou diante deles quatro pratos de frango. estou a ver. O rapaz não estava sentado de olhos fechados por sua livre e espontânea vontade. — Claro. — Ainda rei do seu castelo. imediatamente acima e abaixo das pestanas. Duas linhas paralelas de pontos castanhos escuros que percorriam os seus olhos. Havia um detalhe agora extraordinariamente evidente. Já lá vai algum tempo. A última vez que te vi tinhas metade desse tamanho. Só nesse instante eles se aperceberam de que estavam esfomeados. claro — disse. Mas era o rapaz ao seu lado que dominava a atenção de Thaniel. Ela anuiu com um sorriso e sentou-se. Com um movimento das mãos mandou embora as pessoas que estavam sentadas à sua frente e estas pegaram nos seus pratos e saíram. molho e couve. — Têm de se sentar — continuou. a encantadora Menina Bennett. Crott levantou-se e apertaram as mãos calorosamente. desviando de seguida a sua atenção para Grindle. — Então? Venha daí comida para os nossos convidados. pensou Thaniel.

um serviço ao seu filho é como um serviço a ele. Armand voltou a soltar aquele lento ah-ah-ah ao ouvir o seu nome e depois pegou num pedaço de frango com as mãos e começou a mastigá-lo. mas sendo honesto na maior parte do tempo. um conselheiro do mais alto calibre. . Pode bem vir a acontecer que a história dela nos venha a afetar a todos. mas tirando isso é um tipo impecável. E esta montanha à minha esquerda é o Armand. — Imagino que tenhas algum problema no qual te posso ajudar.rapaz com os olhos cosidos. — E uma honra poder apresentar-vos os meus companheiros — disse Crott. ocultando um pormenor aqui e ali. mas ele indicava estar alheio ao ruído de fundo que quase engolia as suas palavras. À sua volta. — E depois logo se vê. então. estou convencido disso. Thaniel contou-lhe tudo. — Imagino que poderei retribuir a gentileza — respondeu Thaniel fitando Jack. — O velho Grindle já vocês conhecem. Thaniel — afirmou Crott passado um bocado. E francês. Crott inclinou-se para a frente quando ele acabou. meus amigos. o Rapaz-diabo. — Fala-me dos teus problemas. Grindle sentou-se à direita do. — Eu penso — disse Thaniel — que aquilo em que estamos envolvidos tem repercussões muito maiores do que as que já vimos. Aqui à minha direita está Jack.para avançar. e eu falar-te-ei dos meus — disse Crott com boa disposição. o Rapaz-diabo. — Parecem estar numa situação muito complicada. com uma sensação de desconforto. A Irmandade quer esta garota. — O teu pai e eu sempre fomos grandes amigos. o banquete parecia ter atingido um ponto máximo de barulho.

— Precisas de que eu vos proteja a todos — disse Crott lentamente. — Não sentem os presságios de morte na cidade? Estamos à beira de uma era profana. Armand bateu também as mãos. — Acho que devemos falar daquilo que vocês podem fazer por mim. imitando-o. — Bem. Crott silenciou-se quase de imediato. mas ele não disse mais nada. e soltou uma vez mais o seu riso. O espírito envelhecido que transporta dentro de si. limitou-se a bater com os dedos um no outro diante da sua cara. — As coisas estão negras aqui nas Vielas Desonestas — declarou Jack inesperadamente. — Pedes-me muito — continuou. virando de seguida a sua face sem olhos para Alaizabel. — Precisas de que a proteja a ela. Toda a gente desviou a atenção para ele. — Vejo uma pestilência nas pedras das nossas caves e os esgotos são assombrados por uma coisa que não é desta terra.— Thaniel Fox tem razão — interveio o Rapaz-diabo. Seguiram-se alguns momentos de tensão e depois Crott bateu com as mãos uma na outra. à espera de que se explicasse. já chega de falar dos vossos problemas — disse Crott. E queres ainda que descubra tudo o que puder sobre o seu passado e sobre aquilo em que está envolvida agora. Ela trará . certo? — Sim — assentiu Thaniel. Crott nem sequer olhou para ele. é a chave. Alaizabel Cray. a sua voz surgindo como um murmúrio baixo e rouco. quando aparecerem coisas à sua procura. — Eu sei — respondeu Thaniel. dando a palavra ao rapaz magro e cego. Estamos rodeados de portentos do mal — acrescentou.

Cinco ratazanas negras. O som viera da escuridão exterior aos pilares que cercavam o salão. — O seu propósito. — Depois de nos terem feito um pequeno favor a nós. — Que querem que façamos? Crott mordeu uma perna de frango fria e gordurosa. Foram trazidos archotes e quando Crott chegou à origem do distúrbio. Os pedintes abriram caminho para ele e para os seus convidados. nenhum mais rápido do que o próprio Crott e poucos mais lentos do que Armand. passados poucos segundos. — O seu nome já vocês conhecem — respondeu o Rapaz-diabo. encontravam-se junto à coisa que jazia no exterior do enorme salão de banquetes. e as suas caudas grossas estavam entrelaçadas. — Quem é ela? — perguntou Alaizabel. formando um núcleo em redor . A face de Thaniel apresentava-se sombria e inexpressiva. — Livrem-se dele. — Temos um convidado indesejado nos nossos esgotos — informou com a boca cheia de carne. sobrepostas umas às outras numa mistura complexa. — Ser-vos-á revelado no seu devido tempo — interrompeu Crott. Thaniel assentiu.a escuridão até nós.. Mas qualquer comentário que se seguisse foi esquecido com o escutar do grito que partiu do lado contrário do salão de banquetes. jaziam mortas. — Claro — respondeu. Os seus dentes incisivos de aspecto assustador saíam dos lábios frios.. já um círculo se formara em seu redor. cada uma do tamanho de um pequeno cão. e. Os pedintes levantaram-se de imediato.

— O que é isto? — perguntou Alaizabel. — Uma Ratazana-Mor — respondeu Cathaline. A escuridão aguarda. reparando em como os pedintes olhavam com pavor para as criaturas unidas. o Rapaz-diabo.do qual os corpos das ratazanas se espalhavam sem grande ordem. . Uma catástrofe aproxima-se. na sua voz arranhada e grave. — E um portento do mal — disse Jack. — Os sinais são inconfundíveis.

Contudo. a necessidade de viajar era suficientemente grande para os obrigar a enfrentar os elementos. Mas. duas circunstâncias se reuniam: a necessidade de viajar e a falta de dinheiro. para uns quantos infelizes. onde pequenas porções do mesmo cobriam cemitérios frios e lixeiras abandonadas. para alguns. e com um coração bondoso que não a deixava condenar os filhos aos orfanatos. ganhava uma dimensão fantasmagórica. e ainda se via algumas carruagens a passar de um lado para o outro debaixo do dilúvio. a forte chuvada desfizera-o por completo. Pancras que espreitava por entre o véu de chuva.CAPÍTULO XI ~ A Estranha Morte de Alista White Uma Carruagem em Redford Acres ~ O grande arco gótico da estação de comboios de St. Poucas pessoas passeavam pelas ruas. Alista White era uma mulher com três filhos para sustentar. Hoje não havia nevoeiro. Ganhava dinheiro suficiente com a costura para se agüentar com uma vida dura e trabalhosa. mas não o suficiente para o esbanjar numa carruagem quando os seus ricos pés a podiam . iluminado somente pelo fraco luar. pois a chuva caía com tanta força que até magoava. e aqueles que se aventuravam no exterior viam-se rodeados por uma nuvem de umidade personalizada à medida que as gotas caíam e explodiam em cima deles. forçando-o a retirar-se para os vales. sem marido.

Nenhuma parte da sua face era visível. e as valetas em bocas abertas que iam sugando a água. O seu cocheiro. foi sendo engolida pela chuva até que saiu de vista e desapareceu. que se sentava curvado para a frente.levar exatamente ao mesmo lugar. abrindo caminho sobre os lençóis de água. o Tomas. As beiras da estrada transformavam-se em margens de rios. dirigindo-se a um destino somente conhecido pelo seu cocheiro. Sob a fraca proteção do seu guarda-chuva negro. Claro está que ele não iria gostar muito de ser acordado àquela hora. Insidiosamente. mergulhando com violência no chão. envergava uma cartola e um sobretudo comprido com a gola puxada para cima. puxada por um garanhão preto e uma égua branca. seriam mais ou menos uma e meia da manhã segundo os seus cálculos. como se fosse um vaso todo despedaçado e colado de novo. sem se aperceber de que hoje qualquer coisa a perseguia que lhe roubaria a vida antes de o Sol voltar a nascer. Cataratas espumantes formavam-se no alto de cada telhado. Por isso continuou a andar. Vira aqueles horríveis golpes vermelhos a aparecerem-lhe pelo corpo todo. tremuras e febre. Gradualmente. Alista continuou a avançar. mas o seu filho Jip estava com arrepios. e o sangue . e ela bem vira o que acontecera ao melhor amigo dele. acelerando em direção à casa do Doutor Roach. Pancras. O dilúvio continuou a cair. Um lugar e uma hora marcados. a carruagem escura passou pelas ruas em volta de St. deixando apenas uma tira de espaço para uma sombra que deveriam ser os olhos. Uma carruagem rodou lentamente por entre a chuvada. quando ele tivera a mesma coisa há uma semana. cobrindo as paredes de veios de água que mudavam constantemente de direção sobre as pedras irregulares.

E agora era o seu Jip que a tinha. e a lua emergiu em todo o seu esplendor. Um franzir de sobrolho apoderou-se da sua cara rabugenta e cansada enquanto ela se esforçava por tentar perceber o que poderia ser. Era uma caminhada de mais de três quilômetros. Sim. e estava a ficar cada vez mais frustrada quando de repente percebeu. por isso nem pensou duas vezes. Apertou mais o manto e baixou a cabeça coberta por um chapéu. iluminando tudo em tons de prateado.. Já o vira muitas vezes nos narizes e faces de velhos bêbedos. mas não conseguia identificar o que era. Alista sentia um medo crescente dentro do peito. por isso culpou a sua compreensão lenta por não a ajudar. como se a cortina de chuva caísse toda no chão deixando para trás apenas o som constante da água a escorrer pelas ruas alagadas. Recomeçou a andar. esta parou. Sem a barulheira do dilúvio. subitamente.debaixo deles a inchar mais de um milímetro sob a sua pele. sem dúvida. e agora o Tomas jazia em algum lugar. de uma forma misteriosa. de forma a abrir caminho por entre a chuva. Algo estava errado. Mas isto era pelo corpo todo. numa vala comum. as ruas pareciam invadidas por um silêncio sobrenatural. . Nunca fora uma pessoa muito inteligente ou culta. ouvira-o. A Febre Escarlate. E. Parou à luz de um candeeiro. mas era a vida do seu filho que estava em risco. veias rebentadas por uma vida inteira de consumo de álcool. e essa sensação começou a ganhar cada vez mais força à medida que ela avançava sobre o passeio molhado.. algo. e ficava sinceramente apavorada com aqueles que o eram. com outros catorze como ele. que não tinham dinheiro para um enterro decente. Até ficou satisfeita ao descobrir que a chuva estava a abrandar. Contudo.

também não havia tempo para isto. qualquer coisa que ela ouvira contar? Acerca disto? Por que é que lhe fazia lembrar qualquer coisa? Ah. os três passos seguiram-se aos seus dois. não conseguiria silenciá-la segurando. ouvia três. A situação criada era às vezes cômica. Será que tinha qualquer coisa presa ao pé direito que batia no chão quando ela andava? Ou a parte de trás do seu casaco? Tentou segurar e prender várias partes do seu vestuário enquanto andava. então. mas não conseguisse. Voltou a parar. mas o som continuava lá: passo. Não estava ninguém na rua. com ela a segurar uma ponta da saia ou. Ficou a olhar durante algum tempo. um som apressado. Tinha de se despachar a chegar ao Doutor Roach. Como se alguém estivesse a tentar andar ao mesmo ritmo que ela. Não havia qualquer coisa. passo (passo). mas algo lhe dizia que não. passo (passo). Um arrepio formava-se com cada vez maior intensidade na sua espinha. como se alguém a seguisse e fosse apanhado pela sua súbita paragem. Por cada dois passos que dava. Se havia realmente alguma coisa a esvoaçar presa a si e a fazer aquele som. para ver se seria isso que batia no chão e provocava aquele som de passos. mas o único som que escutava era o da água a correr pelo chão. Retomou a caminhada. olhando para trás. Voltou a olhar por cima do ombro para a longa rua ao longo da qual ela caminhava. Poderia ser um truque? Um eco? Talvez. Havia qualquer .escutando atentamente. Passado um bocado. Bem. e não vislumbrava ninguém. Uma vez mais. uma das botas. e mais uma vez não estava lá nada. passo. desistiu. Ainda ali estava. maldita fosse a sua cabeça confusa.

E aquele maldito passo a mais continuava lá. virou-se outra vez para a frente e avançou. tentando ver o que estava a escrever. acompanhava o médico nas suas rondas. quase como se alguém estivesse a andar mesmo atrás dela. agora mais alto. que se movimentava um pouco como um pássaro. Mas o medo e a irritação não desapareciam. Havia qualquer coisa de que ela se devia lembrar. secretária e assistente pessoal do médico chefe de Redford Acres. sendo que maior parte das vezes era até mais do que isso. atormentando-a incessantemente. e esperava ser tratada com o respeito e dignidade que achava que a sua posição lhe concedia. abanando a cabeça para trás e para a frente. Ela era a recepcionista. o Doutor Pyke requeria os seus serviços. fazendo observações acerca das atividades . não se conseguia lembrar de como era. ambos chamados Gaio. Não resistiu a olhar uma terceira vez para trás. uma lengalenga que a mãe do Tomas lhe dissera uma vez. mas pelo menos uma noite por semana. como um pardal. mas não conseguia nem por nada. chegando mesmo a aumentar. Redford Acres era um local desagradável para se estar depois de escurecer. Lucinda Watt era uma mulher com um ar severo. Ela era extremamente bem paga e tinha poucas outras distrações na vida para além do seu pequeno apartamento em Islington e dos seus dois gatos. enquanto ele passava de uma cela sombria para outra. Durante estas noites de vigília. dando bicadas com os dedos no estenógrafo ou arranhando um papel com a sua caneta. o que demonstra bem que a sua imaginação era tão limitada quanto o seu gosto para a moda.coisa que a estava a irritar. e foi a última. Com um resmungo. mas no meio dos arrepios provocados por aquele estranho e crescente medo e da sua preocupação com Jip.

O médico não parecia minimamente perturbado pela loucura que o rodeava. mal pegou no auscultador. um guarda-chuva extra guardado num armário por baixo da sua secretária. estava uma carruagem escura puxada por um garanhão preto e uma égua branca. precisamente para uma ocasião como esta. enquanto os gritos. mas.. Intrigada. ouviu o som de rodas no exterior. O cocheiro. mas a Menina Watt tinha de cerrar os dentes e reprimir o horror que escapava de dentro da semi-escuridão das celas. e. graças ao seu meticuloso método. O clarão de um relâmpago converteu a entrada do edifício numa escultura branca de baixo-relevo enquanto ela emergia por detrás da sua secretária com o guarda-chuva negro na mão. às vezes sussurrando obscenidades que a Menina Watt não desejaria que a mais comum prostituta de rua tivesse de ouvir. ergueu uma mão ao vê-la espreitar. e ali. mesmo do outro lado do alpendre. pensou que talvez não fosse má idéia telefonar para chamar uma carruagem. mas fora apenas uma pausa para recuperar forças. entreabriu as grandes portas da entrada de Redford Acres. libertou toda a sua fúria sobre a capital. curvado para se proteger dos elementos e envergando uma cartola e um casaco com o colarinho puxado para cima com o intuito a proteger a cara. com o rugir de um trovão. gargalhadas e sons enlouquecidos ecoavam pelas úmidas e bolorentas paredes de pedra. fazendo-se ouvir sobre o ruí- . A Menina Watt tinha.noturnas dos pacientes numa voz seca e grave. A chuva parara durante um bocado enquanto ela se preparava para sair. — Menina Lucinda Watt? — gritou. Olhando para a chuva que caía lá fora. Olhos dementes espreitavam por pequenas aberturas nas portas de ferro. de forma a que este não a corroesse e consumisse.

esticando-se. esforçando-se por ver melhor na escuridão que rodeava as extremidades do alpendre.do da chuva. mas era o tipo de coisas que ele fazia de vez em quando. minha senhora. Os olhos escondidos do cocheiro seguiram-na enquanto ela caminhava até à porta da carruagem. — Não chamei nenhuma carruagem — retorquiu. Era sem dúvida algo de estranho para o seu caráter. — É esse o meu nome — foi a resposta. fechando a porta atrás de si. entrou. pois — respondeu. — Não acredito nessas superstições tolas. a qual o cocheiro abria naquele preciso instante. — Dá azar abrir um guarda-chuva dentro de casa. — Estou enganado? A Menina Watt olhou para trás. como uma flor negra que retrocedia . pois a Menina Watt ainda não saíra para o alpendre. estando a abrir a porta com a sua mão livre. Ainda sob o seu olhar. — Pois. fechou o guarda-chuva e puxou-o para dentro. escrevendo relatórios. ser tão atencioso. — Uma carruagem para si. abrindo o guarda-chuva para atravessar os poucos metros que separavam o alpendre da porta da carruagem. minha senhora — aconselhou o cocheiro. Um grito agudo de um dos pacientes dos andares mais altos foi acentuado pelo clarão de outro relâmpago a sul. não está enganado — confirmou ela. em direção às escadas que levavam ao gabinete do médico. — Não. onde ele se encontrava nesse preciso momento. — Penso que foi chamada por ura tai de Doutor Pyke — insistiu. Nem parecia dele.

No interior. felizmente. e ela sabia que ainda não poderia. em parte por uma tremenda curiosidade em descobrir o que se estava a passar. Em parte levada pela vontade de dizer a esse pseudo-cocheiro umas quantas verdades. a não receber qualquer resposta. assim como algumas árvores com um aspecto fantasmagórico. e a relva interminável. — Cocheiro! — repetiu. escutando o barulho da tempestade no exterior a ganhar cada vez mais força. e ela recostou-se no assento confortável enquanto o cocheiro incitava os cavalos a avançarem. de forma alguma. portanto ela só tinha de relaxar. e esta carruagem era um golpe de sorte. — Cocheiro — chamou. ter chegado sequer a meio caminho de Islington. Foi só quando a carruagem começou a abrandar. abrindo a porta da carruagem. — Por que é que parou? Silêncio foi a sua única resposta. seca. Estavam numa espécie de charneca qualquer. e deu graças por estar aqui dentro e não lá fora. Sentiu de imediato a vastidão do espaço que a rodeava. mas a chuva obscurecia o ar e tornava extraordinariamente difícil ver o fim do que quer que aquilo fosse. mas. Instalou-se. estranho para as pessoas habituadas às ruas e vielas estreitas de Londres. antes de decidir abrir o guarda-chuva e sair para o exterior da carruagem.para dentro do seu botão. a carruagem era fria. Fora realmente uma noite horrorosa. O médico ter-lhe-ia fornecido um destino. — Se isto for qualquer tipo de piada — disse bruscamente ao sair . ou num parque. Só se via o caminho pelo qual ali tinham chegado. Voltou a chamar e. pela terceira vez. que começou a sentir os primeiros indícios de ansiedade.

Estava vazio. rodeada pela chuva forte que já a ensopara até à bainha do vestido. garanto-lhe que não continuará a ter este emprego por muito tempo. abanou o guarda-chuva. O seu olhar recaiu sobre uma coisa que estava sobre o banco do lado oposto da carruagem. Deu a volta até ao banco do cocheiro. Era um pedaço de papel. uma coisa que não estava lá antes. ficou sem saber o que havia de fazer. Ao longe. sem dúvida. Durante alguns segundos. Não conhecia Londres suficientemente bem para adivinhar onde estava e não conseguia ver longe o suficiente para descobrir qualquer tipo de saída ou de direção.. Deu uma breve vista de olhos à sua volta. Um desenho . Ficou de pé por uns momentos. decidiu regressar para dentro da carruagem e esperar por ajuda ou pelo regresso do cocheiro. sob esta desagradável tempestade.. virando a cabeça da esquerda para a direita. lançando um chuveiro de umidade ao abanar as crinas. — Cocheiro? — chamou.—. Nada. Os cavalos batiam com as patas e resfolegavam impacientemente. veloz como um estorninho. Podia ficar ali presa a noite toda. e depois deu um pequeno passo atrás. O que é que passara pela cabeça do homem? O que é que. no meio deste enorme vazio. com um esboço rudimentar feito sobre ele. ofendendo para si mesma o cocheiro da carruagem. procurando. um porto de abrigo para se proteger da tempestade. Estava sozinha. ouviu o ruído de uma aeronave a atravessar o céu noturno. hesitando. Andar por aí numa noite destas seria um convite a uma pneumonia. Profundamente perturbada. De volta ao interior da carruagem.

como que certificando-se de que era sólido. Ela sentiu-se paralisada enquanto ele fechava a porta da carruagem atrás de si e se sentava de frente para ela. espreitando por baixo das madeixas molhadas de cabelo de senhora que estava preso ao forro cinzento da sua pele. pois ela esperara que da sua boca saísse apenas um ruído áspero de morte. Stitch-face. — Chackh’morg — disse para si mesma. — Não me queres dizer. inclinou-se para a frente e roçou a ponta da sua faca ao longo do pescoço tremulo de Lucinda. Lucinda Watt? . Esticando-se.de uma coisa com vários tentáculos dentro de um círculo. até que a sua boca ficou tão perto da dela que parecia que a podia beijar. Ele inclinou-se mais para a frente. pegando ao mesmo tempo no desenho. Virou-se subitamente ao sentir a porta da carruagem abrir-se e caiu de volta no seu banco com um grito de terror. Lentamente. pequenas gotas de água escorregavam pela lâmina abaixo. tocou-lhe com as pontas dos dedos. com a outra mão. qualquer coisa que a aterrorizava tanto como a faca. A voz do assassino pareceu-lhe surpreendentemente normal. — Chackh’morg — repetiu Stitch-face. ergueu o desenho até este ficar à altura dos olhos dela. a efígie macabra de um corpo cosido. Mas havia qualquer coisa de incrivelmente frio na sua voz. — Sabes quem é que anda a matar em meu nome — sussurrou numa voz rouca. Era ele. Um faca brilhava numa mão.

— Thaniel? Ele ergueu o olhar. sob uma escotilha. Parecia que o amuleto que lhe fora oferecido estava a funcionar. Alaizabel dormiu profundamente. Tinham passado a noite a dormir. pelo menos por agora. descendo uma escada ferrugenta por entre os detritos de uma casa das máquinas destruída. escorregando pelos degraus de uma escada ferrugenta e espalhando-se pela sala de pedra nua. A voz que o chamara fora a de Cathaline. e desta vez não aparecera qualquer visitante. sob a vigia alternada dos seus companheiros. iluminando apenas um arco que dava acesso a uma encosta descendente. só serviria para a pôr em perigo. através da qual passava a luz da casa das máquinas. exaustos após a fuga de Crofters Gate. . Alaizabel tinha ficado entregue aos cuidados de Crott. pois não fazia qualquer sentido trazê-la para uma caça-às-bruxas. Estavam numa antecâmara escura.CAPÍTULO XII ~ O Inimigo nos Esgotos Um Truque para Apanhar o Ser-Bruxa ~ Aproximava-se o crepúsculo do dia seguinte quando Thaniel e Cathaline se viram acompanhados pelo simples gigante Armand e o idoso Grindle.

— Embora seja por demais evidente que estavas a pensar noutra coisa. Levamo-los para a luz do sol? Mas como é que fazemos isso se eles só saem depois de anoitecer? Cathaline abanou o saco que trazia.Bem. até agora nunca tive de lidar com wights. pela descrição que o Crott nos deu das pessoas que viram a coisa e sobreviveram. — Desculpa — voltou a dizer. — Para dizer a verdade. . mas luz a mais destrói-os.— Desculpa? — disse ele. pensando por alguns momentos. franziu o sobrolho. não são capazes de fazer mal na escuridão total. Depois voltou a olhar para Cathaline. Só que é preciso mesmo muita luz. Armand pediu também ele desculpa. — Os wights só existem na luz. sorrindo. Thaniel — disse Cathaline. Thaniel puxou o cabelo para trás e mordiscou o lábio superior. — E parece que tu nunca deixas de ensinar — respondeu. Grindle deu-lhe um pequeno toque e disse-lhe para ficar calado. —. muito lenta e com um ligeiro sotaque francês. — Isto é um teste? — retorquiu o jovem. numa voz grossa e arrastada. e do estado necrótico daqueles que morreram. — Criamos a nossa própria luz do sol. — E como é que lidamos com wights? — perguntou ela. Cathaline sorriu para dentro. — Ao dizer isto. despreocupada. — Perguntei-te se fazias alguma idéia do que poderia ser o ser-bruxa? — respondeu ela. diria que é um wight. — Nunca se deixa de aprender.

esconderijos e uma rede de esgotos e de túneis de metropolitano por acabar. O toque de um wight provocava a necrose. De qualquer forma. ou qualquer outra força de segurança. os pedintes poderiam ser forçados a recuar. a decadência entrava numa corrida com a morte . A pele enrugava-se e escurecia. Os subterrâneos eram uma verdadeiro covil. Pois vários pedintes haviam desaparecido num troço do esgoto em particular e os seus corpos tinham sido encontrados mais tarde. Thaniel suspeitava de que os amuletos deles não resultavam. havia algo nos esgotos que passara pelos amuletos e artefatos de superstição que se usavam normalmente para manter os seres-bruxa afastados. Até agora. E tal como acontecia com os seres-bruxa. num estado horrível. O negócio de pedir dinheiro era próspero nesta era de indústria e riqueza. escotilhas e esconderijos. e mantinha-o ciosamente. como se podia comprovar pelo banquete a que tinham assistido. e até mesmo armadilhas. decidisse tentar reapoderar-se das ruas. e eles não iam deixar-se ficar sem este emprego facilmente. Cada um dos quatro bandos tinha o seu território. com becos sem saída e portas seladas. As Vielas Desonestas eram tudo menos inexpugnáveis se os Peelers. Mas. Debaixo das ruas existia uma teia labiríntica de caves. pois era debaixo do solo que se encontrava a verdadeira fortaleza. as artérias paravam e enrolavam-se. Aquilo que estava à superfície nas Vielas Desonestas não passava de um terço do espaço total. a morte do tecido ósseo e dos tecidos em geral. as Vielas eram tão para norte do rio que os seres-bruxa ainda não tinham lá chegado. Na sua opinião.Crott falara-lhes anteriormente naquele dia dos esgotos sob as Vielas Desonestas. Voltariam sempre em grande número. mas nunca poderiam ser derrotados. ultimamente.

— Hã? — retorquiu Grindle. Thaniel já se voltara a distrair. Crott ordenara aos seus homens que lhes dessem tudo de que precisassem. até uma outra antecâmara que era iluminada por candeeiros a gás. — Não ouviste? — insistiu Cathaline. — Estejam preparados para as apagarem assim que eu disser — acrescentou Cathaline. Os esgotos debaixo das Vielas Desonestas eram verdadeiras trevas. o seu pensamento regressando inquieto a Alaizabel. rodeando constantemente a sua imagem como um lobo matreiro. aquilo ali em baixo é escuro como breu. . que era. Esta divisão era circular. com uma escotilha ao centro. não te pode fazer mal no escuro. se querem ver — disse Grindle. e era por isso que os wights eram tratados com um cuidado extremo pelos caçadores-de-bruxas. enquanto batia no ombro de Armand e o encaminhava para abrir a escotilha. — Um wight é feito de sombra. Era uma imagem verdadeiramente horrível. — Apagá-las? Deves estar louca. Não vou apagar nada com aquela coisa a andar por aí. apaga a tua luz. supostamente. da qual pendia um pé-de-cabra que fora encravado numa das pegas. Mas se queriam a ajuda de Crott.cerebral para ver quem conquistava o corpo primeiro. Assim. tinham de lidar com este. e ao cair da noite. começaram a trabalhar. o conteúdo do saco completamente cheio que Cathaline transportava. porque a sombra precisa de luz para ganhar forma. — Acendam as lanternas. Se te atacar. Grindle guiou-os mais para baixo.

e tu. A escuridão aqui em baixo era total. — Montamo-la aqui.que pingavam. estariam envoltos numa escuridão tão completa que seria o mesmo que estarem cegos. Dizia-se que a combinação das mentes dos animais unidos formava a Ratazana-Mor. — Ei. que as ratazanas costumavam usar. ou mais. — Tanto quanto sei. cheiravam mal e apresentavam um ar abafado. Lá dentro. — É fogo-de-artifício. — Vamos montar um grupo de bombas luminosas aqui. Pousou o saco no caminho de pedra que vinham seguindo e abriu-o ao comprido. — Pode estar em qualquer lugar daqui em diante — disse Grindle. um monte de paus curtos sobrepunham-se uns aos outros. Haviam sido relatadas várias aparições do fenômeno interessante que era a Ratazana-Mor: quatro ratazanas. remexendo o saco com um sorriso. — Não é dinamite — esclareceu Cathaline. e comunicavam através da forma asquerosa. — Bum! — disse Armand e riu-se da sua própria piada. de uma forma tão intrincada que não era possível separá-las. — Bombas luminosas? — perguntou Thaniel. esta é a fronteira com a terra daquela maldita coisa. A simples idéia daquela correria invisível que os rodeava por completo ser coordenada por uma inteligência verminosa provocava uma horrível sensação de desconforto a Thaniel. — Lindo. o seu murmúrio formando um ruído de fundo constante ao som dos seus passos e à correria das ratazanas. Thaniel deu por si a recordar a Ratazana-Mor que tinham encontrado e tremeu. se não fosse a luz das lanternas a gás que eles empunhavam. não vais usar dinamite aqui em baixo! — gritou Grindle. fosse ela qual fosse. A água suja passava ininterruptamente sob os seus pés. . unidas pela cauda. mesmo depois de mortas. — Então é aqui — decidiu Cathaline.

qualquer uma daquelas sombras podia transformar-se subitamente numa coisa demoníaca. Cathaline começou a dispor as bombas luminosas em seqüência ao longo do esgoto. usando o resto das bombas.Grindle. — Os wights são lentos e os teus Encantamentos proteger-te-ão durante al- . os caçadores-de-bruxas começaram a avançar para as profundezas úmidas do terreno em poder do wight. E assim. — O Thaniel e eu vamos empurrar o wight até este local. Grindle murmurou qualquer coisa a Armand que o ouviu de forma inexpressiva. atira uma bomba — aconselhou Cathaline. — Quanto mais tempo é que vão demorar? — vociferou para Cathaline. iluminados pelas luzes das suas lanternas. Thaniel piscou e coçou os seus olhos raiados de sangue. Os outros não podiam ajudar sem se meterem no caminho. Distribuiu as restantes bombas e mostrou a Grindle como acender o rastilho que acenderia o primeiro fogo-de-artifício e. que o ignorou. ficarás encarregue de as acender — disse Cathaline de forma brusca. O pedinte mais velho ergueu a sua lanterna e espreitou cautelosamente para as sombras ondulantes. daria início à seqüência. Foi com uma sensação de alívio que o grupo ouviu Cathaline dizer que estava pronta. Uma vez aqui. a explosão de luzes a toda a sua volta deverá bastar para o destruir de forma tão eficaz como a luz do sol. ordenando os rastilhos com uma precisão extraordinária. por isso limitaram-se a ficar por ali. O maldito wight podia estar em qualquer lado. consequentemente. deixando Grindle e Armand para trás. Grindle começava a ficar nitidamente mais agitado. olhando nervosamente para a escuridão em seu redor ou então tapando os narizes para tentar minimizar o cheiro horrível que enchia os túneis do esgoto. — Logo que o vires.

Durante um longo momento não se seguiu nada. . Tinham somente a largura do caminho escorregadio que seguiam a separá-los da parede úmida e do líquido fétido dos esgotos. — Caluda — sibilou Cathaline e Thaniel parou de imediato. por baixo da camisa. Thaniel sentia os nervos a vibrar como as cordas de um violoncelo acabado de tocar. todos eram ineficazes. À medida que o silêncio se apoderava deles. se tudo o resto falhasse.. Depois ouviram. Umas vezes todos funcionavam. Estes eram a derradeira linha de defesa de um caçador-de-bruxas. mas basta um toque. marcados apenas pelo som da água e dos seus passos quase silenciosos. as portinholas das suas lanternas escancaradas e os seus olhos vasculhando incessantemente tudo em seu redor. quem é que podia dizer? A amplitude da sua lanterna parecia assustadoramente pequena enquanto se afastavam da pequena ilha de luz onde aguardavam Grindle e Armand. Thaniel passou o dedo pelo arsenal tilintante de pequenos amuletos de metal que pendiam do seu pescoço. só podiam pedir que um dos amuletos Encantados que transportavam consigo conseguisse rechaçar o ataque de um qualquer ser-bruxa que os quisesse apanhar. ficaram só os dois.. Não levaram muito tempo a passar uma curva do esgoto. outras vezes nenhum. Com um wight. dado que estes se albergavam num corpo de pele e osso. e a partir daí. Com os Cradlejacks.guns segundos. quase a ponto de se partirem. o som da água a deslizar suavemente à sua direita parecia aumentar. e o fedor que os rodeava era tão forte que mantinha Thaniel numa constante sensação de vomito. Passaram-se alguns minutos.

enfiando ao mesmo tempo o rastilho da sua bomba luminosa sobre a chama da lanterna. ou. — Isso é para detectar deildegasts — lembrou Thaniel. — Quem diria? Mais um fato da ciência-bruxa registrado em nome de Cathaline Bennett. ficando de frente para a parede do esgoto. semelhante a dentes rangendo uns nos outros de forma muito suave. pelo menos. unidos por tripa de gato. aos dois. — Que Encantamento é que usaste na pulseira? — O Paradigma de Manderil. — Ali! Thaniel. De fato. à medida que a vibração aumentava. algo que só se tornaria visível quando passasse a fronteira de luz criada pelas suas lanternas. Cathaline levantou o braço. — Congratula-te mais tarde — disse o rapaz. um sentido-bruxa. batendo uns nos outros. A escuridão arrefecia em volta deles.Um ligeiro ruído áspero. desenvolviam um sexto sentido. bran- . gritava-lhes agora. — E parece que também resulta com os wights — respondeu ela com um sorriso. Ela tirou a pulseira e ergueu-a mais alto. puxando a manga para trás de forma a revelar uma pulseira de pequenos quadrados de osso coloridos. Thaniel rodopiou. Esse sentido. Todos os caçadores-de-bruxas. à tua esquerda! — gritou Cathaline. aqueles que sobreviviam tempo suficiente para isso. que lhes dava a capacidade de reconhecer os sinais identificativos de uma presença alheia que eram demasiado subtis para a maioria das pessoas reparar. os ossos vibravam. que algo invisível se aproximava. — Vem aí. — Já alguma vez viste isto? — perguntou a Thaniel. e os pêlos da nuca começavam a eriçar-se.

Thaniel estava a olhar para o wight quando a bomba explodiu e a imagem da coisa ficou queimada dentro das suas retinas. e ele sentiu os braços dela sob os seus. mas a única coisa que Thaniel conseguia ver era a forma do seu opositor descendo sobre ele com o seu corpo esguio. — Em direção ao local onde está o Grindle. o grito do wight ao ser apanhado pela luz. Os seus olhos captaram um movimento subtil e naquela mera fração de segundo. com um terrível toque de decadência. Não havia . — Eu estou bem — insistiu. A explosão de luz estava agora a fugir para as extremidades dos seus olhos e ele já conseguia ver outra vez. Cathaline seguindo-o de perto. atirou-se ao chão e rolou para o lado. a sua lanterna rebentando na aterragem e lançando uma linha de óleo a arder pela borda do caminho. — Grindle! — gritou Thaniel. a bomba luminosa acendeu-se e o túnel foi atingido por uma brilhante explosão de branco. — Para que lado foi? — Para ali — respondeu Cathaline. pondo-o de pé. umas mãos com dedos compridos e finos que ocupavam metade dessa sombra e que avançavam como uma aranha. Um segundo mais tarde. cinco dedos horrivelmente compridos de cada lado. entrando depois dentro da água. — Thaniel! — chamou Cathaline. — Vai na vossa direção! Ele correu de volta. pestanejando. apercebeu-se da sombra que se esticava parede abaixo na sua direção.ca e de pedra curva. Com um grito. o volume da sua voz tão elevado que Cathaline encolheu-se. Durante um longo período de tempo. ficou cego. Algo soltou um profundo e assustador uivo. que já anteriormente não se encontravam muito bem.

mas aquele mero segundo em que os seus olhos se deixaram ficar sobre o infeliz pedinte foi o suficiente para sentir o coração vacilar. segurando-o.tempo a perder recuperando forças. e. voltando depois a unir-se como se fosse líquido. Umas longas pernas com joelhos afiados completavam a forma impossível em que consisti-a. somente dois pontos ardentes. quando o Sol está baixo e a sombra é mais comprida. e não tinha cabeça. Thaniel sentiu o sangue congelar-se-lhe nas veias ao ver Grindle e Armand. e perfurando-o. o wight em toda a sua forma. um uivo de puro terror enquanto o wight caía sobre o velho pedinte. enterrados numa coisa que podia dizer-se ser o seu peito. e. perversamente. pela primeira vez. ficando fina como uma linha e se separava. escurecendo a luz das lanternas. mas deduzia que a explosão de luz fizera o wight fugir. semelhante àquela forma que a sombra humana desenha no chão ao fim da tarde. parecendo atravessá-lo com os seus dedos afiados como facas. Thaniel nem tinha bem a certeza do que acabara de acontecer. — Grindle! Acende os rastilhos! — gritou ele. Cada mão era exatamente do tamanho de todo o seu corpo fino. Mas ao dobrarem a esquina. desproporcionado de uma forma inacreditável. A carne a engelhar-se e a ficar . amorfa e mutante que ao avançar se esticava toda. da segurança contra o ser-bruxa que perseguiam. O ser-bruxa estava sobre Grindle. que se aproximavam de olhos. Um manto de escuridão que escorria ao longo das paredes e do caminho do esgoto. Era uma coisa horrível. Não se podia afastar muito de Cathaline pois ela segurava a lanterna que era a única coisa que os separava da escuridão total. Thaniel desviou o olhar numa tentativa de preservar a sanidade. a resposta que lhes chegou foi um lamento abafado.

. Cathaline passou por ele a correr.negra. O pequeno rastilho começou a arder e um segundo mais tarde começou o fogo-de-artifício. O wight. apagando-se. Grindle a apodrecer diante deles. O wight guinchou. ignorou-a. um som que penetrou pela espinha dos caçadores-de-bruxas abaixo e os fez tremer. com a intenção de afugentar o horror que segurava o seu amigo. — Armand! — gritou Cathaline.. Cathaline já chegara ao corpo de Grindle e tocou com a sua lanterna no rastilho da seqüência de bombas luminosas que Grindle fora demasiado lento a acender. Fez Cathaline parar para poder acender o rastilho na lanterna dela e atirou a bomba pelo caminho abaixo com toda a força que tinha. enquanto o atrasado gigante se levantava do lugar algo distante para onde caíra com o susto. mas desta vez aquilo fora apanhado numa luz demasiado intensa para escapar. os dentes a soltarem-se e a caírem. foi aniquilado e à medida que a explosão de luz desaparecia. tentando atingir a coisa escura que largava agora a carcaça de Grindle e se dirigia ao gigante. distraído com a aproximação de Armand. A bomba de Thaniel deslizou na direção das outras bombas. o mesmo acontecia com o wight. Com um lamento desvanecente. mas mesmo assim. seu idiota! Thaniel estava atrapalhado com uma bomba luminosa. Desta feita. dirigindo-se ao rastilho principal que iniciaria a seqüência de bombas luminosas. bateu num alto do caminho de pedra e saltou para a água suja do esgoto. — Não. . a luz era tão forte que conseguiam ver os traços vermelhos dos vasos sangüíneos nas suas pálpebras. Thaniel e Cathaline tinham fechado os olhos. e se preparava para avançar em direção a Grindle.

um soluçar silencioso. a de Cathaline e uma que Armand deixara no chão quando partira para ajudar o seu companheiro. . encostando a bochecha ao crânio engelhado do seu amigo e soluçando profundamente. pôde ouvir-se um som.Duas lanternas estavam ainda acesas. Armand estava ajoelhado junto aos necróticos restos mortais de Grindle. Quando o desvanecer do brilho intenso deu lugar ao brilho calmo das lanternas que lançavam uma luminosidade úmida sobre o esgoto fétido.

A sala onde agora se encontrava sentado era . Para lhes aceder. escondido onde nenhum outro Rei Pedinte o pudesse encontrar. não seriam capazes de encontrar o caminho de volta mesmo que tentassem. as suas paredes de pedra cobertas de peles e ornamentos um verdadeiro monumento da decoração excessiva. tinha de se atravessar um caminho sob gotejantes arcos de pedra. Quase nem havia necessidade de vendar os caçadores-de-bruxas quando foram levados à presença de Crott. o Javali Elisander e Sanforth Maycraft Recebe um Telefonema ~ Os aposentos de Crott encontravam-se mesmo no centro do labirinto que era o território do Rei Pedinte. a base do seu poder. e as quatro salas interligadas que compunham a sua casa estavam tão atravancadas com vasos baratos e enfeites que quase nem havia espaço para caminhar entre eles. Crott parecia ter um autêntico instinto de corvo que o levava a colecionar tudo o que fosse brilhante e garrido.CAPÍTULO XIII ~ Perris. Os aposentos propriamente ditos eram o paraíso perdido da pelúcia. subindo caves e descendo alçapões. sem um guia. seriam impossíveis de encontrar. Era aqui que se encontrava o centro do seu pequeno império. atravessando túneis e portões guardados por sentinelas sujas e desarranjadas e.

. e quando Crott ergueu o seu copo para fazer um brinde. Alaizabel. Por isso nos juntei.iluminada por candeeiros a gás e continha uma miscelânea de mobília diversa disposta em redor de uma mesa baixa. o sótão de Cathaline. dando depois um gole na bebida e inclinando-se para a frente. sentado na sua cadeira preferida. discutirmos. sentada numa outra cadeira com um diferente tom de verde. eu pergunto-me se Londres não tem algo a enfrentar desde o Vernichtung. e anda-se a guardar segredos a mais por aqui. para conversarmos. Todos empunhavam um copo cheio de um rico tinto de Chianti. Era bem diferente de qualquer outro lugar que Thaniel tivesse visto até então. Crott convocara-os a todos. Crott. assim que regressaram dos esgotos. de pé. Cathaline e Thaniel. para se aproximar dos seus ouvintes. — Ao Grindle — disse. — Até eu consigo ver que . o Rapaz-diabo. — Uma triste perda. excetuando.. sobre a qual se encontravam garrafas de cristal cheias de vinho e de outras bebidas alcoólicas. os outros imitaram-no. sentados lado a lado num sofá. e Jack. Estavam mais ou menos ordenados em círculo em volta da mesa. — Vamos então aos negócios — continuou Crott. Aliás. Dito isso. planearmos — disse. Na divisão encontravam-se agora cinco pessoas. Parece que todos temos algo a enfrentar. com um leopardo empalhado a espreitar por trás de um dos braços do sofá e com vários tapetes a surgirem sob os seus pés e cobrindo as paredes. talvez. meus bons amigos. feita de madeira polida e coberta de almofadas verde-escuras. — Penso que é chegada a hora de reunirmos cabeças. todos beberam e quando o brinde chegou ao fim. esperaram ansiosamente.

e os marinheiros enrolavam as mangas das camisas e ficavam de pé nos conveses dos seus barcos a vapor enquanto estes subiam o rio em direção às docas. tu podes acompanhá-la. são meus convidados. A última linha de resistência entre o norte de Londres e a Zona Antiga. Thaniel observou com atenção as defesas. envergando os seus retesados uniformes negros. guardando os portões. Gostaria que partilhassem comigo aquilo que sabem. Os sinais estão a toda a volta. como sempre acontecia durante o dia. combinei um encontro com um amigo meu que lhes poderá dizer o que precisam de saber acerca do passado da Menina Cray e do paradeiro dos seus pais. — Ele encontrar-se-á consigo amanhã. a sul do rio. E por isso que ainda está vivo. mas nesta altura era já uma missão sem sentido. com as suas espadas e pistolas. Até essa altura. as suas águas lamacentas de um verde-acastanhado passando sobre a velha ponte que o atravessava. havia um em cada ponte que atravessava o Tâmisa. Os Peelers ficavam de plantão todas as noites. e depois disso. E foi assim que Thaniel e Alaizabel deram por si a atravessar o grande jorro sombrio do Tâmisa. O dia apresentava-se com um sol brilhante e quase quente. Os lobos eram . Alaizabel ergueu os olhos. na estalagem Green Angel.. Ele fica muito nervoso no que toca a conhecer pessoas. examinando a fila dupla de corrimões de ferro envoltos em picos que atravessavam a ponte a meio.anda algo de obscuro pelas ruas de Londres.. Mas é tudo. Os portões da Ponte de Battersea estavam abertos. é mau para mim e para os meus homens. E o que é mau para Londres. Thaniel. com os Peekrs a guardarem os dois extremos. às cinco da tarde.

Para qualquer um que não fosse caçador-de-bruxas. e as rendas incrivelmente baratas das ruas infestadas a sul do Tâmisa faziam com que as pessoas invadissem a zona. pois os Peelers. viajando pelos túneis sob o rio. — De onde surgiram os seres-bruxa? — perguntou Alaizabel. De fato. Passaram sobre a Ponte de Battersea e entraram na parte da cidade que dava o nome à ponte. Os produtos eram mais baratos. Os habitantes de Londres recusavam-se a ceder o seu território por completo. mas para aqueles dispostos a arriscar. A Zona Antiga transformou-se num asilo seguro para todos aqueles que caminhavam sobre a tênue linha da lei. pois os ladrões e assassinos não se contentavam com atacar à noite. era um local que transbordava de oportunidades. e os seres-bruxa tinham outros meios. como os seres-bruxa. Thaniel suspeitava de que eles usavam o Metropolitano. e era substancialmente mais perigosa que as ruas do outro lado do rio. e depois um autêntico deserto durante a noite. — O que é que quer dizer com isso? — respondeu Thaniel. Agora ninguém com dois dedos de testa se metia no metropolitano após o pôr do Sol. ten- .suficientemente astutos para não tentar atravessar as pontes. Era estranho observar como a Zona Antiga era ainda uma área repleta de vida durante o dia. roda a gente elogiou os comboios subterrâneos como uma obra de arte do planejamento citadino. assim apelidados por causa do seu fundador Sir Robert Peel. Depois chegaram os seres-bruxa. Não era uma área de Londres que se pudesse considerar respeitável. ficavam na sua grande maioria a norte do rio. pois os comerciantes tinham custos menores. era puro e simples suicídio. enquanto avançavam em direção a Lambeth. era irônico. Havia menos polícia.

Tenho a certeza de que li qualquer coisa acerca disso. Uma disputa menor com a Grã-Bretanha. Mas deve ter havido uma altura em que não estavam. Thaniel virou para uma rua mais calma. estava um pouco surpreendido por ter falado disso com Alaizabel e ficou aliviado ao perceber que ela não se sentira ofendida. — Ninguém tem bem a certeza — respondeu. o único Império próximo com uma força comparável. sobre território marítimo. e Thaniel tinha sempre algum cuidado em não referir o Vernichtung em Londres. Poucas pessoas falam disso.tando livrar-se de um vendedor de maçãs mais agressivo.. entre dois terraços altos de prédios em ruínas. Uma disputa qualquer com a Prússia. se não me engano. — O Vernichtung. Significava destruição. então. — Só isso? Thaniel assentiu. Era uma palavra que não se repetia muitas vezes na Grã-Bretanha. Os historiadores desconfi- .. e estava cheio de força e confiança. — Bem. ninguém gostava de ser recordado das derrotas. — Nem sei como tudo começou. eles estão aqui desde que me lembro. O Império Prussiano era particularmente forte na altura. foi transformada num incidente de grande escala. — Não foi há muito tempo. junto de pessoas que não conhecia. na língua dos seus atacantes. por onde só andavam algumas pessoas a correr e um ou outro malabarista e pasteleiro tentavam impingir o seu negócio. Alaizabel franziu o sobrolho por um instante. acabara de esmagar a França. As coisas pareciam encaminhar-se para a guerra. Talvez vinte anos. uma vez. Na verdade.

As bombas vieram depois. e vê-lo a ser usado contra eles foi o bastante para os fazer vacilar. Aeronaves. nem se atreveram a declarar guerra. O orgulho britânico fora esmagado. procurando a fonte do ruído monótono e sinistro que os rodeava.avam de que o Chanceler prussiano estava apenas a tentar encontrar uma desculpa para testar a sua nova tecnologia. mandando as pessoas para as ruas. As aeronaves voltaram para casa. Os bombardeamentos continuaram durante duas semanas até o Parlamento se render e permitir aos prussianos levarem a melhor na disputa. Estava demasiado escuro para serem vistos. mas as pessoas acordaram e olharam para o céu cheias de medo. O barulho era aterrorizador. aos gritos. vindos desde o estuário e sobrevoando a capital. uma série de explosivos rudimentares juntos uns aos outros que rebentaram com a cidade e destruíram edifícios. O povo britânico só soube da existência dessas coisas. o orgulho secreto do seu país. mas as cicatrizes por elas deixadas nunca sararam. Outros dizem que são a vingança de Deus por terem deixado que os prussianos bombardeassem a Catedral de S. quando uma frota de formas escuras e prateadas chegou a Londres uma noite. e uma explosão libertou-os. Algumas pessoas julgam que eles estariam presos em algum lugar debaixo da terra. — Mas o que é que acha? . Paulo até à destruição. ou deixando-as paralisadas de medo nas suas camas. Nunca anteriormente os habitantes de Londres haviam presenciado nada de tão destrutivo. — É isso que dizem. temendo as aeronaves que os sobrevoavam. — Foi nessa altura que chegaram os seres-bruxa? Thaniel coçou a nuca.

O primeiro-ministro estava mais preocupado em reparar os estragos provocados pelas bombas no centro da cidade. que se caracterizava por secar a pele da cara e mãos de tal forma que esta se abria. Os médicos diziam que eram meros fantasmas da mente. Nessa altura. foi nessa altura que eles chegaram. De início. os estudiosos da ciência-bruxa discutem se as ratazanas teriam qualquer relação com os seres-bruxa ou se não passaria de uma . até que um Inverno particularmente duro matou as ratazanas e a epidemia. menos rico. Atualmente. Num ano. uma praga de ratazanas assolou a cidade. deixado à mostra a carne rosada.— Que não interessa de onde vieram — disse Thaniel. Foram conversando à medida que seguiam as ruas até à velha estalagem onde se iriam encontrar com o conhecido de Crott. Em dois. trazendo com elas uma terrível doença chamada febre-das-trincheiras. ninguém acreditava sequer que eles existiam. onde pouco restava de pé. A epidemia propagou-se por toda a cidade nos dezoito meses que se seguiram. o lado sul. podia esperar. — Devemos conhecer a natureza do nosso adversário se o queremos derrotar. — Seja como for. sendo que eles surgiram de forma particularmente selvagem na zona de Camberwell. coisas testemunhadas por sobreviventes ainda abalados pelo efeito das bombas do Vernichtung. Camberwell passou a ser conhecido como «o passeio da morte». tem razão. tornou-se inabitável. com ele a contar-lhe como os seres-bruxa prosperavam nas ruas arrasadas da zona de Camberwell e como eles beneficiaram da relutância da parte do Parlamento em aceitar a sua existência. Isso foi um erro. — O que interessa é como nos vermos livres deles. — Eu acho que interessa — ripostou Alaizabel.

os seres-bruxa talvez pudessem ter sido contidos. mexendo-se sem grande alarido. e por isso os seres-bruxa multiplicaram-se e espalharam-se. mas a situação encontrava-se adequadamente controlada. Era um elogio à Idade da Razão o fato de ainda não ter havido qualquer caça às bruxas como aquelas que se vira por toda a Europa nos . Os melhores estudiosos da ciência-bruxa de todo o mundo não sabiam explicar como acontecera. mas todos concordavam numa coisa: eles eram seres da família das bruxas. fantasmas. Nova Iorque. Mas o Parlamento já tinha muito entre mãos. espíritos. quase todas as capitais tinham um qualquer problema de invasão. embora tenha sido a primeira e a pior de rodas as cidades.. Por que é que seria que eles só apareciam nas maiores cidades? Eles espalhavam-se como um vírus. ninguém sabia o que eram. quase sem se dar por eles. Manchester. Fora simples superstição que atribuiu o nome de seres-bruxa às coisas que infestavam Londres. Newcastle e Glasgow eram agora assoladas pelo mesmo problema. ou surgiam de forma espontânea? Ninguém sabia responder a estas questões. mas desde essa altura.infeliz coincidência o fato de todos terem aparecido ao mesmo tempo. já os seres-bruxa controlavam grande parte do sul de Londres e eram demasiado numerosos para serem removidos. Aliás. de todos aqueles que conspiravam com o sobrenatural. Quando finalmente se controlou a febre-das-trincheiras. Se calhar.. Liverpool. os seres-bruxa espalharam-se. O Vernichtung pode ter marcado o seu início. crescendo onde havia maior densidade populacional. diabos. Filadélfia e Nova Orleans também já tinham a sua próspera população de seres-bruxa. Demônios. Mas não foi só Londres a sofrer a atenção dos seres-bruxa. se não tivesse havido uma epidemia de grande escala com que lidar.

Não vamos aqui fi- . mas nunca admitiriam tal coisa. perto do Tâmisa. os britânicos eram demasiado reservados. e escondia-se numa rua secundária. seres-bruxa. envergando um vestido de visco e empunhando uma espada. A estalagem Anjo Verde erguia-se na zona norte de Battersea. onde as lojas e armazéns se inclinavam sobre as destruídas pedras da calçada. para agirem de forma tão disparatada. tão perto uns dos outros que quase fechavam o céu. que adotaram o nome algo enganador de caçadores-de-bruxas. No seu íntimo. A estalagem a que Thaniel e Alaizabel chegaram era um pequeno e baixo aglomerado de vigas de madeira. Através das janelas gradeadas de vidros fumados viam-se sombras movimentando-se de forma cambaleante e hesitante. que procuravam bodes expiatórios para doenças e padecimentos que há muito tinham sido explicados pela ciência. também ela de madeira. Estava pintada com a imagem de uma senhora alada. Não eram como os caçadores de bruxas do antigamente. Então assim ficou. — Dentro de pouco tempo o sol desaparecerá — disse Thaniel — Por essa altura já a espero ter tirado da Zona Antiga. balançando ao vento sob a luz do fim da tarde. Era um nome tão bom como qualquer outro para dar ao inominável. precisavam da bruxaria para explicar os seres-bruxa. ouvindo as vozes altas que saíam de lá dentro. Com o novo horror apareceram aqueles que o desejavam exterminar. pendurada no exterior. Mas agora.séculos anteriores. com uma forte placa. Caçadores-de-bruxas. demasiado bem-educados. Estes eram uma nova raça de homens e mulheres que caçavam a escuridão que se espalhava sobre Londres. Alaizabel analisou-a com desconfiança.

mas este limitou-se a esperar. mesmo enquanto dizia aquelas palavras. mas tinha a certeza de que nunca estivera tão perto de uma por sua livre e espontânea vontade.car muito tempo. . Mas manteve-se firme e não se retraiu perante os olhares. Alaizabel preparou-se. Alaizabel já vira pessoas assim tão repugnantes. Foram olhares frios aqueles que observaram Alaizabel à medida que ela seguia Thaniel para o interior da estalagem. . e tresandava a fumo e suor. Contudo. quando se riam deixavam ver os seus dentes podres e amarelos. Alaizabel olhou para Thaniel. — Tenho de saber. A sua face estava coberta por um padrão remendado de barba hirsuta e um dos seus olhos parecia coberto por um tecido branco por influência de uma catarata. e ela sentia-se ameaçada por cada um deles. aterrando sobre a sua barriga. — Vamos entrar — sugeriu. e eram de tal maneira porcas que a sua pele apresentava uma tez escura devido à camada de sujeira que as cobria. Ela voltou a olhar para o homem sentado à mesa. O interior da estalagem Anjo Verde era quente e escuro. e o molho do peru escorregava-lhe pelo queixo abaixo. As pessoas que lá comiam e bebiam tinham a barba por fazer. Soltava roncos enquanto comia. O homem gordo nunca levantou os olhos na direção deles. Puxou uma cadeira para ela se sentar e de seguida sentou-se ele. hesitante. onde um homem gordo e atarracado roía uma perna de peru. Thaniel guiou-a sem hesitações até uma mesa redonda num canto escuro. ficou uma vez mais surpreendida com a sua falta de entusiasmo pela perspectiva de vir a descobrir o paradeiro dos seus pais.

Perris. o Javali. o Javali — disse Thaniel. . Pertenciam à classe média e não viviam assim tão bem. com um tom de voz desagradável. — É ela? — perguntou com a boca cheia de comida. — Alaizabel Cray. Ele conhecia a reputação do homem. é? — acrescentou acenando a perna de peru na sua direção. — A sério — disse Alaizabel maliciosamente. tenho o prazer de lhe apresentar Perris. — Não vai pensar o mesmo quando eu acabar. Eram jovens. sem sequer olhar para eles. com uma filha recém-nascida para sustentar. para a sala. Embora a razão pela qual esta linda senhora não lhas possa ter dito ela mesma. bufou e resfolegou. cheios de vida. tenho. — Ooh! Ela pensa que é esperta! — ripostou ele. — Não fomos — respondeu calmamente Thaniel. — Javali. limpando a boca com a manga da camisa. seja algo que me ultrapassa. Olhou em volta. — Pensa que é melhor que eu. da família do porco — acrescentou o seu anfitrião. — Tem a informação que ele lhe pediu? — De fato. certificando-se de que ninguém o estava a ouvir e depois começou. — Fale. — Elisander e Sanforth Cray casaram-se novos. — Isso não lhe diz respeito — retorquiu Thaniel. — O Crott não lhe paga para nos dar pistas difusas — afirmou Thaniel.— Acho bem que não tenham sido seguidos — rosnou subitamente o homem. mas Elisander era uma música talentosa e Sanforth o herdeiro de uma companhia de marinha mercante. Ele arrancou com os dentes um outro naco de perna de peru e fitou Alaizabel com o seu olho bom.

. — O negócio avançava prosperamente. eles assim o pensaram. mas desejara estar errado.mas também algo perturbados. Sempre pensara que alguma coisa de obscuro se escondia no seu passado. o seu coração diminuindo um pouco. Era óbvio que por baixo do exterior repugnante. ou pelo menos. Sanforth passara a juventude vivendo feliz com a mesada que o pai lhe dava e a idéia generalizada que havia dele era a de um vadio esbanjador. E quando o pai de Sanforth finalmente sucumbiu à bebida e morreu. Menina Cray. Sabem. embora Sanforth não parecesse muito interessado em dirigi-lo.. este homem tinha a alma de um contador de histórias. o futuro deles estava assegurado. vendo que ninguém com importância jamais a descobriria. mas a história que ele contava começava a trazer-lhe certas recordações que ela não tinha a certeza de querer recuperar. Espero que esteja a gostar do que lhe disse até agora. Mas ele continuou na mesma. é que os talentos de Eiisander perdiam-se em pequenas orquestras e começava a desesperar. — Mas foram essas mesmas características que cativaram o coração de Elisander. Thaniel olhou de soslaio para Alaizabel. uma palavra dita ao ouvido certo permitiu a Elisander ter a . Alaizabel não mostrou qualquer reação. fria e quieta como uma boneca de porcelana. e eles estavam profundamente apaixonados. e agora que tinham o dinheiro. permanecendo ali sentada. fazendo depois uma pausa para dar mais uma dentada no pouco que restava da perna de peru. Queria que as notícias a fizessem feliz. — Durante algum tempo tudo lhes correu bem — prosseguiu Perris. e o pai de Sanforth não passava o controle da companhia para o seu filho antes de morrer.

— Já chega. e. A sua cara apresentava-se inexpressiva. — Oh. mas sabia como descobrir coisas. e com ele a sua esposa. Thaniel voltou a olhar para Alaizabel. expondo a sua vida perante eles como se estivesse a fazer uma autópsia. Histórias sombrias. contentando-se em ficar com os lucros sem fazer qualquer parte do trabalho e não levou muito tempo até que a tentação que tanto dinheiro representava se apoderasse dele. enquanto deixavam a sua filha ao cuidado de amas.audição que merecia. e em menos de um ano. — Eu lembro-me — respondeu ela. Sanforth pura e simplesmente não possuía o temperamento certo para ser um homem de negócios. coisas que uma pessoa respeitável se envergonharia de ouvir. sendo educada para uma alta sociedade que nunca chegaria a alcançar. mas não pode dizer que não tem curiosidade em ouvir o . — Não aceito vê-lo a regozijar-se com o mal alheio... por essa altura teria uns seis ou sete anos. murmúrios e rumores: salas de ópio. a sua voz totalmente inexpressiva. — Mas isso não era para durar. — Isso foi há quase dez anos — continuou o Javali — e não levou muito tempo até que histórias sobre os dois começassem a circular por toda a sociedade. Começou a entrar nas apostas e no deboche. Perris — interrompeu Thaniel em voz baixa. Deixou o legado do seu pai nas mãos de administradores incompetentes. Menina Cray. Ele sentia-se mal por Perris falar dela como se Alaizabel não estivesse presente. já ela tocava violoncelo na orquestra de Sua Majestade. horríveis perversões. Mas era assim que ele funcionava. O homem podia ser repugnante à vista.

e estes foram-lhe roubando dinheiro até que o negócio do seu pai faliu. eu. Começava a desejar não a ter trazido. Thaniel hesitou. Sanforth por negligência e Elisander por escândalo. — Certas coisas têm de ser encaradas. advogados e pessoas poderosas em geral. Sem esperar por uma resposta. eu insisto — interrompeu ela. Sanforth escolhera mal as pessoas para gerirem o seu império. para que pudesse ser poupada a isto.resto! — exclamou Perris com um sorriso maldoso. Pois à medida que aumentava o seu gosto pelo pecado.. — Preciso de ouvir. olhando-o depois com um ligeiro sorriso. — Posso continuar? — perguntou ansiosamente o Javali ao seu público. por muito talentosa que fosse. seja como for. Elisander estava demasiado envolvida em rumores sombrios para manter a sua posição na orquestra de Sua Majestade. . talvez ela tivesse agüentado a posição por virtude do seu enorme talento. Os rumores de que eles se haviam juntado a uma seita.. os seus olhos verdes caindo sobre os seus. — Deixe-me dizer-lhe. e eles viraram-se para prazeres mais obscuros. políticos. isto ainda vai piorar! — Thaniel — disse Alaizabel calmamente. por muito desagradáveis que sejam. uma blasfema liga de aristocratas. ele continuou: — Bem. o simples deboche das classes mais altas começou a aborrecê-los. Mas falava-se também de outras coisas. perderam os empregos e a fortuna em rápida sucessão. — Menina Alaizabel. A voz de Perris baixou de tom e ele inclinou-se para eles. — Por favor. Se fossem só os narcóticos e a duvidosa retidão moral da senhora.

ela afastava-se cada vez mais deles. — Ele tem razão — assentiu subitamente Alaizabel. vivendo em caros colégios internos. e passado pouco tempo já eles voltavam a ter bastante dinheiro.. Tenho a certeza. — Isto era tudo o que se sabia. não conseguia atrair a atenção que desejava da parte deles. Thaniel virou-se para ela. Thaniel voltou a olhar de relance para Alaizabel. Thaniel fechou os olhos e a sua cabeça pendeu ligeiramente. causando rodo o tipo de problemas por onde quer que passava. pelo nome de Irmandade — completou ele. sem deixar rasto. — Pois nessa altura toda a família Cray desapareceu da sua mansão em Kent. Era o único nome que ele desejara não ouvir. mas Sanforth e Elisander quase nem reparavam. perguntando-se. De tudo. Era uma adolescente perturbada. — Ah. Uma noite foram para a cama e quando o Sol nas- . Mas ela continuava a mesma que sempre fora: acarinhada apenas por uma série de amas. — Agora lembro-me. O nome nunca me foi dito. esquecia-me da bela Alaizabel — retomou Perris. era a Irmandade.— São conhecidos. Até há uma semana — disse Perris. Ela adotara urna postura de calma impassível e não lhe permitia perceber fosse o que fosse.. claro. como é que seria a sua reação a comentários tão impertinentes sobre a sua personalidade. Foi uma das raras alturas em que os três estavam juntos. — Ele tem razão — repetiu. — Enquanto os seus pais se dedicavam a atividades que envergonhariam o Diabo em pessoa. mas... subindo de tom. A fortuna dos seus pais recuperou extraordinariamente após a entrada na Irmandade. como estou certo de que ambos sabem. E independentemente do que ela fizesse.

menina. — Durante vários dias. tentara fazê-la rir com uma pequena piada acerca dos Peelers. coçando o nariz. desta vez ele conhecia-a! Era diferente quando se tratava de uma qualquer vagabunda ou de uma aristocrata distante. — Polícia. diretores de jornais. — Há um infeliz epílogo para a minha história. — Há. Aparentemente saltaram de Tower Bridge.. Fechou os olhos. o cheiro úmido da maldita chuva ainda impregnado nas suas narinas.ceu. A polícia não fez nada. Alaizabel olhou fixamente para os olhos perspicazes do Javali. — Eu estou a falar da Irmandade — afirmou o Javali. — E depois? — perguntou Thaniel. — Como é que isso pode acontecer? — perguntou Alaizabel. os corpos de Elisander e Sanforth Cray foram pescados do fundo do Tâmisa. não da sua. eles é que decidem o que público sabe. Quatro dias atrás.. como se estivesse a ouvir falar da vida de outra pessoa qualquer. empresários. O Inspetor Maycraft atirou-se para cima da cadeira da secretária. Ela sentia-se estranhamente afastada de todo o caso. sim — respondeu. tinham desaparecido. e até ele pareceu ficar um pouco triste. acredite em mim. por isso voltou a a- . conversara com ela. mas esta senhora ele vira há menos de uma semana. — Há mais — disse ela. nada. Bolas para aquilo tudo! Ele já vira muitas coisas odiosas na sua vida. Uma família importante desaparecera sem deixar rasto e ninguém soube de nada.... mas a escuridão só serviu como uma tela ainda melhor para pintar a imagem mental do que vira. — Nada — respondeu Perris. o seu estômago ainda às voltas. bem. Nunca foi noticiado nos jornais.. mas.

deixando um rasto de gotas no chão. — Inspetor Maycraft — disse para o bocal. — O que é que ele tem a ver conosco? — Eu é que não sei. Levantou apressadamente o auscultador. A recordação de Carver levou-o até ao telefone. Era difícil esconder coisas a Carver. O telefone tocou diante de si. O melhor é mantê-lo fora disto. e começaria a fazer ligações. Maycraft levou um instante a perceber quem é que lhe estava a telefonar. para as ruas enevoadas da cidade coberta pelo manto noturno. fazendo-o saltar. Não queria que Carver o visse assim. por agora. não há dúvidas quanto a isso. contar-lhe o que acontecera. Não. quando finalmente compreendeu a quem pertencia a voz do outro lado da linha.. — Um aviso. — Foi uma mensagem — respondeu. limpando a sua face molhada e puxando para trás os poucos cabelos que ainda lhe restavam.. — Quem é que se atreveria a avisar-nos a nós? Maycraft fez uma pausa e depois respondeu. penso eu.bri-los. — O Stitch-face? — Conheço o Stitch-face. mudando de idéias. ele vai descobrir de manhã. e olhou lá para fora. — Anda alguém na nossa pista — foi a resposta que ouviu. É inconfundível. Ele pode saber o que andamos a fazer. Ele devia telefonar a Carver. imitando o hábito de Carver. tinha uma intuição que roçava o fenomenal. Isto é trabalho dele. Deslocou-se até à janela. pois não? Silêncio. — O Stitch-face. o homem sabia muito. Não. pensou. para silenciar as infernais campainhas. mas já vai . — Não interessa.

Maycraft. e tomará parte nas diversões. um charuto acalmar-lhe-ia os nervos. pegou numa garrafa de cristal que guardava na secretária. Um charuto. não haverá lugar onde a garota se possa esconder de nós. Maycraft conteve-se. Deixou o fumo espalhar-se pelo interior da boca. Depois disso. Maycraft atirou com o auscultador para o descanso com tanta força que quase o partiu. — Oh. Frustrado. Se fosse a si. tentando relaxar. encheu um copo de uísque e despejou-o pela boca abaixo. certificava-me de que qualquer familiar ou amigo que não façam parte do nosso pequeno círculo não estejam em Londres nessa altura. é capaz de ter interesse em saber que alistei uma pequena ajuda na procura da nossa antiga senhora Thatch. Domingo a primeira cerimônia estará completa. — Domingo? Isso é daqui a dois malditos dias! Pensei que teríamos uma semana para nos prepararmos! — Dois dias.tarde. tirou um do bolso de dentro do casaco. — Espero que se lembre de lhe dizer que precisamos da garota viva quando chegar a nós. tal como o resto do nosso grupinho. Sentou-se. servindo-se de outro logo de . No entretanto. mas nada poderia acalmar tão facilmente a inquietação que sentia. De seguida o telefone ficou mudo. cortou-o e acendeu-o. Deduzo que ele se mantenha tão fugidio como sempre. começou a andar de um lado para o outro no gabinete. Quem melhor para encontrar uma bruxa que um caçador-de-bruxas? — Ele? Você chamou-o a ele? — gritou Maycraft. segurando a resposta que queria dar. Levantando-se. — E o Stitch-face? — Faça o que puder. ele foi bem informado a esse respeito — foi a resposta que ouviu. Você ficará.

. Mais uma destas tachas verdes. A mulher surda fugira-lhe.seguida. Isso significava que podia saber de todos eles. a sua cara exibindo um sorriso de ódio. Um carinho. meu amigo. Stitch-face. E depois a vítima. a secretária do Doutor Pyke e a mulher que o solitário Inspetor poderia ter amado. Só que desta vez a vítima fora Lucinda Watt. Stitch-face! Aquele maldito inimigo! A sua maneira. um pouco estranha.. talvez eles se tivessem aproximado um pouco mais. A chuva torrencial. um desejo pela mulher fria e austera. e o que ele lhe fizera à cara. Sabia que Lucinda fazia parte dela.. Não penses nisso. . O Stitch-face sabia acerca da Irmandade... Maycraft olhou para o mapa de Londres que se encontrava atrás de si.. Mas gostava que não a tivesses escolhido a ela. Se as coisas tivessem corrido de outra forma. Mas por muito que tentasse. pintado a sangue nos tijolos secos da parede. quase impossível de reconhecer como humana. Como de costume. Passou os olhos pelos alfinetes que ponteavam a sua superfície. intercalados com as tachas verdes. O beco escuro e molhado. e nada nos poderá deter. Maycraft sentira qualquer coisa pela senhora cujo cadáver mutilado ele acabara de ver. O abrigo frágil e atrofiado. e as facas. por isso Stitch-face matara outra vez na mesma zona. Carver tivera razão. O símbolo grosso do chackh’morg. Maycraft engoliu de um trago mais um copo de uísque para tentar não vomitar. Talvez. não conseguia afastar aquela imagem da mente. não penses. e as unhas. é certo.

brilhando por entre o nevoeiro. o Sol baixo. onde filas de batatas e cenouras se escondiam por baixo de faixas de folhas ásperas. Estava com os cotovelos apoiados no muro que rodeava todo o telhado e que lhe dava pelo peito.CAPÍTULO XIV ~ Honra entre os Vagabundos Um Aliado Inesperado ~ O dia nascia sobre as Vielas Desonestas. as suas mãos envoltas distraidamente pelos cabelos louros tocados pelo sol que lhe caíam de cada lado da face. Fingindo-se despercebida. O frio da noite ainda se fazia sentir na cidade de Londres. filas de estufas baixas desenhavam um motim de cores. Alaizabel encontrava-se de pé. as extremidades do seu círculo desfazendo-se em pequenas ondas de calor à medida que ia subindo no céu. trazia consigo a promessa de um calor estranho para a época. mas onde quer que o sol tocasse. Sentiu a sua chegada embora não o tenha ouvido subir as escadas e chegar ao telhado. observando a cidade a despertar desde um jardim no telhado raso de um edifício alto e estreito que fora outrora um boticário. manteve o olhar fixo na confusão de ruas entrecruzadas que se via lá em baixo. de um amarelo carregado. Atrás dela. — Menina Alaizabel? .

Serei assim tão má. virando-se para trás. Odiava os meus pais. eles eram gigantes e o meu papel era manter-me afastada para não ficar debaixo dos pés deles. mas o véu de vasos rebentados que lhe cobria os olhos já tinha desaparecido quase por completo. — Não — retorquiu ela. —Já vi demasiadas coisas medonhas na minha vida para conseguir passar uma noite descansada — acrescentou. passado algum tempo. — Isto é diferente. muitas. Thaniel — disse. um patrimônio — disse. . portanto. isto se a Irmandade não me tiver já roubado tudo. Ficaram juntos durante algum tempo. Conheci amas.— Olá. Talvez tenham sido eles a agir de forma errada. — Não sinto nada — disse Alaizabel por fim. absorvendo apenas a estranha beleza do panorama urbano diante deles.. fazendo uma pausa a seguir. E você? — Eu durmo muito pouco — disse ele. um pouco sem jeito. — Foi uma noite cansativa — respondeu. — Tenho. e isso deixava-o com muitíssimo melhor aspecto. — Às vezes o desgosto começa assim — respondeu em voz baixa. em silêncio. — Posso ficar aqui consigo durante um bocadinho? — Será um prazer — respondeu. Ele estava com um ar ligeiramente desgrenhado. — Fez uma pausa e olhou para Thaniel. Devia agradecer-lhes por isso. Mas os meus pais.. — Deve estar cansada — observou Thaniel. — Mas não me parece que vã já dormir. — Dinheiro. Thaniel? — O amor transforma-se facilmente em ódio — respondeu Thaniel. — Não a considero má.

eu nunca fiz um grande esforço. e de repente abraçou-o. — Alaizabel. Surpreendido. — Tive sorte por ter sido você a encontrar-me — disse. — Mais ninguém faria aquilo que fez por mim. — Agora sei disso. há falhas. sentindo-se algo lamechas.. o seu cabelo iluminado pelo Sol nascente. Eu nunca... suavemente. Thaniel? Lembro-me de quase tudo. pois não? Para encontrar os meus pais. — Mas agora tem-nos a nós.. fazendo uma pausa —. o que ê que eu fiz com a minha infância? Thaniel não respondeu. ela disse: — Tens um bom coração. mas a sua garganta fe- . Thaniel. — confessou. agora. felicidade.. Thaniel — prosseguiu em voz baixa. — começou por dizer. faria o mesmo — retorquiu ele. Com o rosto no seu ombro. só me lembro de um vazio. — Acredita mesmo nisso? — perguntou ela. acho que sempre soube. Acha que eu sabia? — Talvez — disse Thaniel. Nesta cidade tem havido pouco mais do que horror para mim. ele deixou os seus braços envolverem as costas dela.. Onde devia haver calor humano. és como o diamante no centro do carvão. — Qualquer um. mas mesmo assim. mesmo quando não me conseguia lembrar.. Thaniel. acrescentando depois de uma curta pausa. As suas feições delicadas abriram-se num sorriso. Já vi suficientes corações de pedra para saber ver a diferença.— Mas que mais tenho eu? Não me lembro de quaisquer amigos. mas tu. na verdade. Sabe o que é assustador. de qualquer pessoa que me fosse querida. eu.. — Estou sozinha.

— Nessa altura ficará livre? — perguntou Thaniel. Não. Neste momento. sobre o vestido da mãe de Thaniel. o amuleto que Cathaline fez. — É extraordinariamente complexa — afirmou Thaniel. — Não sei — disse ela. Ela afastou-se dele. mas depois desviou os seus olhos dos dela. de quando em vez. aceitando a derrota. — Muito para lá do alcance da maior parte dos caçadores-de-bruxas. afastando-se ligeiramente. e ambos sabiam que aquilo não passava de um infeliz substituto para aquilo que ele realmente pretendia confessar. — O Rapaz-diabo diz que consegue tirar a Thatch de dentro de mim — disse. — disse. por isso é que eles me perseguem. Uma brisa matinal que ia crescendo aos poucos fazia as pontas do seu cabelo dançar sobre o seu vestido.... uma mão pousar sobre as ásperas folhas verdes. — Diz — incitou ela. — Sinto-me honrado pelo seu elogio — concluiu. — Quando o espírito estranho sair do seu corpo? Alaizabel começou a andar por entre os vegetais que eram cultivados lá em cima. Thaniel seguiu-a. O Ra- .chou-se. de forma a fixar nele o seu suave olhar esverdeado. Não é assim tão difícil.. Seja como for. ela dorme dentro de mim. e mudou de assunto. esgotou-a. vai demorar pelo menos três dias a preparar a cerimônia. — Eu. como todos os outros que lhe tinham sido oferecidos. não deixando passar as palavras que queria dizer. deixando. — Ele diz que a Thatch está a chamar os seus. — Diz aquilo que sentes. com uma expressão que não escondia alguma mágoa e bastante desilusão.

Quando morreu. e ela é essencial para eles. eles não podem agir. e depois estava em sua casa.paz-diabo deve ter um talento fantástico — disse. Tudo calmo. agora que sei quem sou.. A Irmandade evocou-a. Sempre fora assim. Mais forte que eles. e uma amiga poderosa. tudo bem. tudo correndo sob rodas. a sua gente regressava a casa.. dos contatos e da segurança que o seu bando oferecia. enquanto ele dormia. — Mas agora que sei. O Lorde Crott tinha muito em que pensar.. Ela vem com um propósito muito importante. O dia passara. estou mais forte agora. — Quem é ela. Mas enquanto ela estiver dentro de mim. — Quase nada. o seu espírito era ainda forte. e os pedintes do seu bando tinham feito os seus negócios como de costume. E amiga dos seres-bruxa.. A Irmandade tem um plano. entregava os lucros do dia aos contabilistas e recebia-os de volta depois de serem registrados e de sofrerem a dedução de vinte por cento. Lembro-me claramente de ir para a cama nessa noite. . Como de costume. e eu era o corpo anfitrião. fazendo depois uma pausa. o que fui. — Com duzentos anos de idade. Vinte por cento dos seus lucros em troca da amizade. realmente? — perguntou. — Lembra-se do que aconteceu naquela noite? Ela abanou a cabeça.. Alaizabel parou com ele. — Acredito que sim — disse Thaniel em voz baixa. — O Rapaz-diabo disse-lhe? — É uma bruxa — respondeu Alaizabel. — Estava sob o efeito de drogas? — Não sei — disse ela.. ou mais.

— E as tuas mulheres e crianças. — Claro — respondera Crott. Talvez correr com ela das Vielas. o Javali. e Crott sentia uma vaga de desconforto a gerar-se nas suas entranhas. agora que te apercebeste do perigo em que nós.Mas as coisas estavam a mudar. disso tenho a certeza. o Rapaz-diabo. com um sorriso bem-disposto. — Prometeste-nos a tua hospitalidade se eliminássemos o convidado indesejado que andava nos vossos esgotos — dissera Thaniel. era perigosa para todos os outros. e qualquer outro truque que possas ter na manga. se tivesse sido outro que não o filho de Jedriah. desta feita de forma algo mais fria. Viera ter com Crott depois de regressarem do encontro com Perris. Thaniel deduzira acertadamente que Crott não considerava que algumas das mulheres mais homicidas do seu grupo se encaixassem no epíteto de «os seus homens»... ou talvez até uma solução mais permanente. Aquela garota. Ele aconselhara a sua morte. Se ela era assim tão preciosa para a Irmandade. — O espírito que ela alberga não é o perigo — dissera. e isso inclui-te a ti. e que teria ponderado a hipótese de se escapar à pro- . — Mas é a chave para algo. estamos envolvidos. Thaniel — dissera. e ele raramente se enganava. uma sensação que lhe dizia que as coisas estavam a mudar para pior. — Claro. Jack. Mas Thaniel adivinhara essa possibilidade. a porta permanecerá trancada. — Espero que isso se aplique também a garantir a nossa segurança contra ti e os teus homens. pelo menos. assim o pensava. ele talvez se tivesse sentido tentado a ver-se livre dela. Se destruirmos a chave.

bateu à porta dos seus aposentos internos e ele a mandou entrar. ser escocesa. eles tinham a sua palavra. e eles sentiam-se benevolentes perante um dos seus «súbditos». — Isso é interessante. que a população mais pobre e baixa de Londres fosse a que mais vivia da honra. que achava que a mulher já sofria o suficiente sem. como um Peekr. Lorde Crott. não um daqueles normais. a Escocesa. refletiu Crott. Estava em plena meditação quando Millenda. lá em cima. E a palavra de um pedinte era tão sólida como a de um ladrão. Um gajo qualquer anda pr’aí a rondar. — Como está o teu filho? Millenda exibiu um sorriso desdentado. ela nascera perto de Leicester e andara a pedir em volta do mercado dessa cidade até se mudar para sul. se é que me entende. e que o valor da honra fosse diminuindo de forma direta-mente proporcional à ascensão social de um homem. O seu sotaque incrivelmente falso atraía ainda mais simpatia da parte da aristocracia londrina. ótimo. Crott gostava disso. como sempre. ainda por cima. — Íamos pô-lo a andar.messa feita. — O que é que fizeram com ele? Millenda coçou a orelha. ela apelava às suas velhas noções da Grã-Bretanha como um Império. Mas ouça lá. Um de nós reconheceu-o. Uma estranha ironia. — Millenda — disse Crott. e bem. que tem umas coisas importantes a lhe dizer. se Thaniel não o tivesse apanhado. Portanto. mas depois ele começa pr’a lá a dizer que tem de ver o manda-chuva cá do lugar. dos uniformes. Como é que se chama? . — Está ótimo. Apesar do seu nome. certo? Só que é um dos arranjadinhos. para Londres.

— Detetive Carver. Crott recostou-se na cadeira e entrelaçou os dedos. Ezrael Carver. então traga-o até mim. Quando Carver foi mandado entrar. Não podia ser pior que Maycraft. conseguia sentir a noite a cair à sua volta sem sequer olhar para o relógio de bolso. . nessa manha. xerez e vinho nas garrafas de cristal sobre a mesa. sentando-se de seguida. Tinha ouvido falar de Carver. havia brande. Millenda assentiu e voltou a desaparecer pela porta. Ficou agradado ao reparar que Carver era um homem bem vestido. e ao contrário do que acontecia com Rickarack e os outros Reis Pedintes. Millenda levou quinze minutos a regressar com Carver. Embora se encontrasse bem debaixo do solo. com quem já tivera uma série de encontros desagradáveis. ele acreditava que era necessária uma certa dose de dignidade quando se lidava com o mundo exterior. é um prazer conhecê-lo finalmente — retorquiu. embora nunca tivesse tido de lidar com ele. Detetive dos Peelers de Cheapside. — Lorde Crott. pois o Lorde Crott levava o seu título sempre muito a sério. citando inconscientemente o livro que acabara de ler. Vamos ouvir o que ele tem para dizer. — Brande. indicando-lhe um lugar do lado de lá da mesa. bem-vindo a minha casa — cumprimentou. — Bem. — Cada vez mais curioso — murmurou para si mesmo. diz ele. sem qualquer ponta de ironia. com o seu cabelo negro bem penteado para trás e um bigode bem conservado. o que deu tempo a Crott para voltar a preparar a sala em que se encontrara com Thaniel e os outros.— Carver. xerez ou vinho? — ofereceu Crott com um sorriso.

. até às Vielas Desonestas? Estou certo de que não é assim tão ingênuo. a Millenda falou-me de qualquer coisa. — Estes últimos dias têm sido devastadores. E Carver contou a sua história. — Sinto-me perdido — afirmou o Detetive. — Ah. — Não tenho ninguém para me ajudar a não ser o senhor. — Preciso da sua ajuda. — Parece que todos precisam! — redarguiu Crott com um largo sorriso. Começou por falar dos Homicídios Verdes. pedir-lhe-ia um xerez — respondeu Carver. e mesmo esta hipótese só é viável porque tenho a certeza de que não há a mínima possibilidade de estar envolvido nisto e não há qualquer outro recurso de que me consiga lembrar. e como uma senhora chamada Alista White fora assassinada ontem . sim.— Ou está de serviço? — Mesmo se estivesse. e ainda por cima fora das horas de serviço. descobrindo assim que só faltavam dois pontos para completar a forma. para que possamos discutir as condições — sugeriu Crott. Descreveu como dispusera aquela estranha coisa com muitos tentáculos. um Rei Pedinte. — disse. sobre o mapa de Londres.. depois disse que tinha descoberto que Maycraft lhe andava a sonegar informações. que achava que Maycraft devia saber exatamente o que eram os Homicídios Verdes e estava envolvido neles. servindo o xerez. a sua face marcada exibindo sinais de diversão. — O que é que pode ser tão importante a ponto de trazer um Inspetor. — Conte-me o que aconteceu e do que precisa. que encontrara no livro de endereços de Maycraft. de alguma forma. Lorde Crott — disse Carver sem hesitações.

Crott recostou-se na cadeira e bebeu o brande que servira para si mesmo. e quando Carver aceitou. fez uma pausa. — Acha que tudo isto está ligado. — Vim porque é consigo que as pessoas vêm ter quando não têm outra forma de descobrir o que precisam de saber. De seguida. dando a Carver o copo de xerez. deixando-a como um aviso. Diga-me como.num desses pontos. Isto não é só uma questão de homicídios. Há aqui qualquer coisa de maior. e aquele símbolo tem qualquer coisa a ver com os Homicídios Verdes. — Veio ter comigo porque acha que eu talvez saiba qualquer coisa que os seus colegas na polícia não lhe sabem dizer — observou Crott. E porque tremo só de pensar no que pode acontecer quando o último ponto daquele maldito símbolo estiver completo. deixando apenas mais um ponto por completar. Seguiu-se uma pausa. nem de apanhar o assassino. Pyke e a Menina Watt fazem todos parte de qualquer coisa — respondeu Carver. . — Ou será que não confia neles? Carver olhou-o sem vacilar. serviu aos dois as bebidas da sua escolha. Lucinda Watt. fora brutalmente assassinada na noite anterior. Detetive? — ofereceu Crott. — Qualquer coisa que tem a ver com aquele símbolo. Lorde Crott. — Maycraft. ou uma mensagem. Depois falou da forte amizade que Maycraft tinha com o Doutor Mammon Pyke e contou como a secretária de Pyke. — Quer outro xerez. com o mesmo símbolo desenhado a sangue na parede atrás dela. enquanto o Detetive pegava no copo. Agora o Stitch-face envolveu-se no assunto e matou a Menina Watt.

Ele aproximou-se mais de Crott.. pintado à pressa com tinta. — O meu conselheiro Jack fez-me este desenho depois de ter falado com Alaizabel. Detetive Carver? Carver franziu o sobrolho. e eu. olhando para Crott com súbita preocupação. Mostrei este símbolo a Thaniel Fox. — Thaniel Fox? O filho do grande caçador-de-bruxas? Tudo está ligado. — Não sou um deles. dom. de alguma forma — concluiu Carver. .tenho a certeza disso. — Esse símbolo que descreve. e eles disseram-me que estava tatuado nas costas de Alaizabel. tendo em conta que é um rapaz cego.. Trouxe uma coisa de uma das vítimas dos Homicídios Verdes. — Ouvi dizer que tem um amigo chamado Rapaz-diabo. como eu ia dizendo. — interrompeu Crott de repente. — Uma garota que devia conhecer — respondeu Crott.. o símbolo que perturbava o olhar. — Já ouviu falar da Irmandade. não acha? — Quem é Alaizabel? — perguntou Carver. Ele tem esse. — Tudo. — Bem. esticando-se para trás da cadeira e desenrolando um pedaço de papel áspero. É um artista particularmente dotado.. o símbolo da coisa com muitos tentáculos.. não se preocupe — asseverou o Rei Pedinte.. — Era parecido com isto? Era o chackh’morg. Preciso de saber aquilo que estou a enfrentar. o Rapaz-diabo viu este desenho aparecer constantemente nos pensamentos dela. Carver piscou os olhos. que consegue adivinhar respostas através de objetos.

Preparam-se coisas que são superiores a nós os dois. Detetive. — Pelo que me contou. — Mas a Irmandade não existe — disse Carver.. pode ter a certeza de que todos eles estão envolvidos no plano. mas. indubitavelmente. Só nós a podemos impedir.. o Doutor Pyke.. o Rapaz-diabo. que está a ser posto em prática. a Menina Watt e. e depois logo verá. seja ele qual for. — São tão reais como o Stitch-face — retorquiu Crott. A escuridão está prestes a cair sobre todos. — Está envolvido em assuntos da Irmandade. no futuro. com uma expressão gélida... e eu tremo só de pensar no que acontecerá quando o grande chackh’morg de homicídios que cobre Londres estiver finalmente completo.— Ouvir falar deles. — Acha que é assim tão mau? Crott olhou-o fixamente.. . Detetive. bem como dos outros. — Talvez esteja na altura de nós juntarmos forças. — Crott falava agora com um ar sério. O Inspetor Maycraft. sim. penso que devia começar a fazer uma melhor seleção de parceiros. eles não. — Vou levá-lo até junto de Jack.

escondendo-se nos cantos do aglomerado de ruas de Whitechapel. O nevoeiro estava lá. A bruma que partia do Tâmisa movia-se de forma furtiva a esta hora. mas fora separado em pequenos pedaços por um cortante vento de Norte que parecia congelar os ossos sem que o calor da carne minimizasse o efeito. pensou Alaizabel. não sentes? . O mal está a apoderar-se da cidade. Também o sentes.TERCEIRA PARTE A ASCENSÃO DA IRMANDADE CAPÍTULO XV ~ Uma Senhora em Apuros Thaniel Luta Sozinho A Desgraça ~ A brisa fria da noite londrina ziguezagueava e rodopiava sob o brilho das luzes a gás. O céu encontrava-se relativamente limpo para o mês de Novembro. como de costume. movendo-se como uma espiral malévola pelas ilhas de luz artificial.

nos últimos dias. desempenhando. a sua força aumentara. e a sensação preocupante que envolvia a cidade transformara-se numa ansiedade palpável. acelerando os passos daqueles que caminhavam pelas ruas de Londres. Toda a população da cidade o sentia. Hoje fora a data prevista pelo Rapaz-diabo para o último Homicídio Verde. num sangue que escorria pelo cimento. em certa medida. Ele olhava em volta com uma freqüência que traía o seu nervoso estado de alerta. temendo que essa pessoa pudesse ser um agente desse medo sem nome. Tal como ela. Levou al- . A sensação não era nova. evitando encarar o olhar de alguém. albergando um espírito adormecido no seu seio. mesmo para pessoas como eles os dois: ele. O ar estava carregado. ela. Sempre estivera ali. aguçada por anos de contato com os seres-bruxa. até se transformar num pulsar monótono que se sentia nas pedras dos terraços. como um relâmpago preparado para saltar sobre a terra. O encontro com Carver fora um momento estranho. Thaniel sentia a podridão que invadia o coração de Londres. o papel de um marido que escoltava a sua mulher pelas horas mais negras da noite. sentia os tentáculos cancerígenos que se espalhavam pelas veias da metrópole. e ela sabia disso.Este último pensamento dirigia-se a Thaniel. De início. Mas o medo não chegava para explicar a sua postura. com a sua intuição altamente desenvolvida. ansioso por completar o circuito e cumprir a sua promessa. com o seu bigode certinho e o cabelo todo penteado para trás. Alaizabel sentira-se desconfortável na presença do Detetive bem vestido. sem jeito. que caminhava de braço dado a seu lado. Tinha um pouco de medo. à beira da percepção. Contudo.

Entre eles ca- . As ruas de Whitechapel pareciam estar completamente desertas às onze horas desta noite de domingo. minha esposa — respondeu Thaniel. de observar sem serem vistos. Cathaline Bennett. As forças em ação eram mais fortes do que qualquer um arriscara pensar. mas não quando. tentando introduzir alguma leveza no seu solitário passeio.gum tempo a perceber porquê. exibindo-lhe depois um sorriso cansado e uma piscadela de olho. Ele surgira na posse das peças que faltavam no puzzle deles. porque a tua presença mantém-me quente. — Estás com frio. mas a verdade era bem diferente. como se a vinda de Carver não fosse coincidência mas sim algo de predeterminado. e. Foi uma estranha sensação que se apoderou dela. Thaniel Fox. tudo tinha ficado mais claro. Que tipo de adversário iriam enfrentar. Jack realizara o Rito e adivinhou o que podia. mas iria atacar esta noite. Alaizabel tinha uma assustadora noção de que o seu encontro com Thaniel fora um pouco mais do que sorte e que eles não se estavam a encontrar por acaso. em Whitechapel. meu marido? — perguntou alegremente. Lorde Crott e os seus lacaios estavam aqui nesta noite. Sabia onde iria ter lugar o próximo homicídio. ele não sabia. mas sim a serem reunidos. olhando sorrateiramente desde soleiras obscurecidas ou espreitando sobre as calhas de telhados. Aqueles que vigiavam as vielas tortuosas e becos escuros eram mestres da arte de se esconder. Lorde Crott. — Não. Trouxera consigo uma bagatela qualquer de uma das anteriores vítimas de um Homicídio Verde. Detetive Carver: todos unidos por uma causa que uma semana atrás eles nem sabiam existir. subitamente. pois sabia como funcionava a bruxaria.

havia talvez umas cinqüenta pessoas cujo único objetivo era ver o assassino dos Homicídios Verdes e evitar este homicídio. e ele sabia que mesmo numa noite de domingo. nas horas mais sombrias. sabia bem como batia o coração da cidade. numa expressão enigmática. O par patrulhava as ruas de Whitechapel. tal com Thaniel e Alaizabel. alguém estava à espera do momento certo para atacar. Já há muito tempo que estavam a andar e ela precisava de se distrair. como um gato é um gato e um cão é um cão. As pessoas continuavam a fazer visitas.minhava Carver. em algum lugar ali perto. os amantes regressavam a casa depois de discussões. A expressão de Thaniel era absolutamente neutra. concluíam-se negócios urgentes. com trânsito e comércio. como este acelerava e desacelerava. Mas Whitechapel tinha muitas ruas e muitos becos e. descansava com um olho aberto. uma criatura noturna por força da sua profissão. sabendo que. será que esse número era suficiente? Uma carroça passou por Thaniel e Alaizabel. Alaizabel ergueu o sobrolho durante um segundo. Thaniel. em toda a zona de Whitechapel. avançando por entre as farripas de nevoeiro com os olhos bem abertos. — Thaniel. passeando inocentemente ao lado da esbelta figura de Cathaline Bennett. No total. Londres nunca dormia. — Mas nós sabemos porque é que um gato é um gato e una cão é um cão. Darwin explicou-os na sua teoria . ainda batia bem forte. — São só seres-bruxa. o que acha que são os seres-bruxa? — inquiriu Alaizabel. faziam-se favores. regressando de alguma entrega noturna. Sabemos de onde eles vieram. em última análise.

nunca falhara uma matança. Alaizabel sentiu a brisa fria tocar-lhe na pele.da evolução. exceto eles? Thaniel não respondeu. podia ajudar-me? Thaniel olhou de relance para Alaizabel e depois assentiu. Até o próprio Stitch-face fora visto várias vezes na vida. — Mas e os seres-bruxa? Por que é que eles desobedecem à ciência? Como é que podem existir num mundo onde tudo existe segundo as mesmas leis. — Como é que a podemos auxiliar? — Estou a ser seguida. deixando atrás de si um arrepio. não sabendo o que procuravam nem sabendo se seriam capazes de enfrentar aquilo que encontrassem. — Senhor? — ouviu-se uma voz junto ao ombro de Thaniel. Thaniel passava de forma bastante convincente por um cavalheiro. meu senhor — disse ela. Thaniel sentiu Alaizabel apertar o seu braço com um pouco mais de força. Viraram para Crawley Street e seguiram em frente. e a sua faca falhara o alvo bem mais de uma vez. O assassino dos Homicídios Verdes nunca fora visto. Ele olhou em volta e viu uma senhora pequena e pálida envergando um vestido negro. — Pelo menos eu acho que sim. . Thaniel cumprimentando um casal que passava na outra direção levando a mão à cartola. Ela surgira da sombra de uma escadaria de pedra. fazendo depois uma pausa e olhando para Thaniel. Já caminhavam havia cerca de duas horas. — Meu senhor. Com a sua juventude disfarçada pela sombra da orla larga da cartola e a sua figura magra disfarçada por baixo de um casaco grosso. Existem ao nosso lado desde sempre — disse. cruzando as ruas um pouco ao acaso.

. era difícil perceber o que levaria uma senhora a arriscar-se a sair à rua sozinha. O seu sentido-bruxa dando sinal de repente. sabe.. a esta hora. — Thaniel? — chamou Alaizabel. eu não podia. Oh. — hesitou.. a cabeça dele inclinava-se como se estivesse a enfrentar um vento forte. bem. as suas feições de boneca crispando-se devido à preocupação. — Se alguém me estiver a seguir. Era óbvio que a sua viagem devia permanecer em segredo. — Oh. passará por aqui e. uma pressão dentro do crânio como nunca antes sentira. mas ouço os seus passos. — Não sei — retorquiu a senhora.. — Talvez seja melhor. se calhar.. Após alguns momentos. ela tomou uma decisão e falou. obrigada pelo vosso tempo — despediu-se a senhora. mas não parecia nada convencida pelo seu próprio raciocínio. — Não o consigo ver. estou só a deixar a noite assustar-me — acrescentou. senhor? O senhor está bem? Thaniel exibia uma expressão de dor na face. olhando de forma assustada para Thaniel. Realmente.. — Podiam esperar aqui durante alguns minutos? — pediu. — Nós podemos acompanhá-la até ao seu destino — ofereceu-se Thaniel. vendo-o agachar-se. Os seus nervos já fragilizados não estavam preparados para suportar ainda mais .— Quem é que a está a seguir? — perguntou Alaizabel. afastando-se e evitando os seus olhares. mesmo que não houvesse a onipresente ameaça do Stitch-face. com uma intensidade que chegava a ser dolorosa.

. mas inconfundível de uma pegada com apenas dois dedos. Tirou do bolso um frasco que continha enxofre pré-preparado. separando-se e dividindo-se de forma a seguir uma série de caminhos diferentes. tendo conseguido superar o choque inicial da sensação que tivera na cabeça. E sob o seu olhar cada vez mais aterrorizado. afastando-se deles com uma vida própria. um contorno vago. Thaniel largou a correr. Alaizabel parecia disposta a segui-la. Thaniel endireitou-se. para traí! . tentando evitar que ela se fosse embora. e atirou-o pelo chão. a sua cartola caindo-lhe da cabeça e o cabelo esvoaçando ao ar livre enquanto ele acelerava na direção da mulher.coisas estranhas. que procurava qualquer coisa dentro do casaco. — Eu vou andando. não era possível. mas os olhos de Alaizabel estavam fixos no composto de enxofre que se espalhava pelos carreiros formados pelas pedras da calçada. e virara para uma rua secundária quando o enxofre se espalhou pela calçada. que brilhava vagamente por causa do Encantamento que ele lhe colocara. ao mesmo tempo. espere um momento — disse Alaizabel. — Oh! — exclamou ela. mas Thaniel prendeu-lhe o braço. A senhora não ia aturar nada daquilo. Não olhe.. para tentar evitar que lhes escapasse. tentava atender a Thaniel. a única coisa que ela conseguia ver era um homem a tentar tirar uma faca ou uma pistola e fugia o mais depressa que conseguia sem correr. — Não. o enxofre começou a formar um desenho na estrada. enquanto. Era impossível. A senhora já se afastara razoavelmente deles.

Estava pura e simplesmente ali. assustada pela sua perseguição e pensando que era dele que devia ter medo. atirando a criatura para o lado no preciso momento em que as suas garras entravam em contato com a vítima. A criatura vacilou e lançou um olhar sinistro a Thaniel. O rugir da pistola de Thaniel ecoou no silêncio da noite como um tiro de canhão. Ouviu-se um grito enquanto a senhora voava pelo ar ao longo da rua. Viu-a. nenhum aparecimento gradual. e era só isso que era preciso para a coisa que caminhava atrás dela ficar visível. Rawbead. com um ar assustado. Olhou de relance por cima do ombro. Mas ele sabia que agora já nada o poderia parar. correndo para longe dele. como o da lua quando surgia de trás de uma nuvem.Thaniel projetou o pensamento para a senhora ao dobrar a esquina. um enorme e horrível monte de garras e dentes de metal que a cobriu por completo quando se esticou para a abrir. Aquilo que ele estava a ver era inconcebível. cobrindo-lhe a face. Era a terceira vez que olhava para trás desde que começara a reparar no passo a mais quando caminhava. num segundo não estava. com escuras manchas de sangue molhando o seu vestido negro e escorrendo da sua cabeça. entrando na rua que a senhora seguira. ainda não acreditando completamente naquilo em que estava a pensar que poderia ser o seu adversário. que sentiu o coração cair-lhe aos pés sob aquele olhar. Ela embateu nas pedras da calçada e rolou pelo chão até parar numa sarjeta. logo de seguida já estava a atacá-la. . Não se viu qualquer brilho extra quando a criatura se revelou aos olhos da sua vítima.

mas uma coisa real. A pistola de Thaniel não fizera qualquer dano visível. pensando naquilo que podia esticar-se e agarrá-lo de debaixo da sua cama. Era uma imitação exagerada da forma humana. Thaniel apontou a pistola e deu-lhe um tiro em cheio na face. embora ele tivesse quase a certeza de ter atingido a criatura no lado do pescoço. Rawhead e o seu companheiro. quando ficara acordado. Estes dispunham-se em cima de uma boca larga onde se viam uns dentes de bronze. chegassem rapidamente. e esta voou para trás. Bloodybones: eles eram uma história para assustar os miúdos. e Thaniel deu por si a desejar não estar sozinho. Uma rosnadela lenta saiu da garganta da coisa enquanto se preparava para lidar com o recém-chegado. pequenos e pontiagudos. demasiadamente musculado e curvado. com um horrível fascínio. as coisas que viviam nos armários e que se escondiam na escuridão debaixo da cama. terrível e assustador. caindo com grande . que brilhavam. em Crofter’s Gate. cheio de medo. Agora ele encontrava-se de frente para a criatura que assombrara as suas noites de infância. como se a escultura que tanto o assustara todos aqueles anos atrás tivesse ganho vida. como se tivesse sido atingida de frente por um martelo. Umas grossas sobrancelhas lançando uma sombra sobre os seus olhos pequenos e ameaçadores. Já não era um mito. ligeiramente sob a luz dos candeeiros a gás. rosnando enquanto avançava. para a escultura que se encontrava no santuário da sua casa.Quando era criança passara horas a olhar fixamente. Rawhead atirou-se a ele como um touro. que com certeza tinham ouvido o disparo da pistola. O avanço da criatura foi violentamente travado. Rawhead era enorme. que os outros.

pelo menos. A teoria era de que. Thaniel guardava já a sua pistola. ela estava furiosa. Ergueu o fio de amuletos enquanto caía. o coração batia tão depressa que parecia prestes a saltar para fora do seu corpo e as suas mãos encontravam-se umedecidas por um suor frio. e o seu desviar acabou por ser muito atrapalhado. contra outros tipo de seres-bruxa. gritando de forma enlouquecida. Soltou-se da mão de Thaniel.impacto sobre as pedras frias da estrada. Não se vislumbravam quaisquer marcas na face da criatura provocadas pela bala. Mas Rawhead movera-se mais depressa do que Thaniel preverá. Rawhead não lhe acertou por milímetros e o fio tocou na criatura enquanto esta passava. Rawhead já se voltara a levantar quando Thaniel conseguiu preparar o fio de amuletos. e Thaniel atirou-se para o lado no momento em que o adversário avançava sobre ele. um retrato do olho maligno gravado num pedaço de madeira do tamanho de uma moeda. Desta vez. enrolando-se à volta do corpo do inimigo e enquanto rebolava. Um pé bateu no outro e ele sentiu-se a tropeçar. uma parte do arsenal funcionaria contra o inimigo. Aquela era a primeira linha de defesa de um caçador-de-bruxa contra um inimigo desconhecido: uma grande variedade de Encantamentos e amuletos que já tinham provado ser eficazes no passado. Caiu no chão. no total havia cerca de vinte como aquele em todo o mundo. mas uma coisa era certa. penas de abutre. Voltou ao ataque. rezando para que a sorte estivesse com ele. ele sentiu a onda de força passar por si. Eram os Encantamentos a ganhar vida. Pele de cobra curada envolta em feno. Se- . tirando do cinto um longo fio cheio de amuletos que consistia de uma série de artefatos Encantados presos por um cordel. estava.

— Arranja-lhe ajuda! — ordenou Carver a um dos homens de Crott. O chackh’morg não ficará completo enquanto ela estiver viva. — Ela ainda está viva. Ainda há esperança. — O que é que tu. graças ao lento desvanecer de intensidade do seu sentido-bruxa. tinha de atravessar o pata- . — Era o Rawhead — disse ele em voz baixa. que Rawhead desaparecera realmente. — Quando era criança. Thaniel piscou os olhos. — Thaniel! — foi o grito que se ouviu.. — Se tivesse de ir à casa de banho. Thaniel começava agora a tremer. — Estás bem? — arquejou Cathaline. e Cathaline surgiu de uma rua secundária. De Rawhead. enegrecido e fumegando ligeiramente. — explicou. que ele quase esquecera. não se via qualquer sinal. Os outros alcançaram-no no momento em que ele se baixava junto ao seu corpo ensangüentado para lhe verificar o pulso. jazia o fio de amuletos. — Não te preocupes comigo — disse ele sem rodeios. à medida que a adrenalina saía do seu corpo e o deixava mais fraco. Sob a luz prateada do luar que surgia por entre as luzes dos candeeiros a gás.. quando as luzes se apagavam. Tinham sido atraídos pelo som do disparo. à noite. Com eles vinham duas outras pessoas..guiu-se um uivo animal de fúria e dor e logo a seguir já Thaniel estava de novo de pé e pronto. — O Rawhead? — perguntou Cathaline.. acompanhada por Carver. Um segundo mais tarde. corria para a senhora. Os dois homens correram a obedecer. homens de Crott. apercebendo-se. Cathaline agachou-se ao seu lado e pôs o braço em volta dele.

— Eu sei — retorquiu Cathaline. — Mas se fechares os olhos e contares até dez. Como é que ele podia estar aqui? Thaniel ouviu os passos de Carver a surgirem por trás de si. — Costumavam cantar isso no pátio da escola — continuou Thaniel. — Não podes olhar por cima do ombro mais do que duas vezes. se olhares para trás mais que duas vezes. com um ar intrigado. — Thaniel — disse Carver. o Rawhead deixa de estar ali — concluiu Cathaline. antes que ela pudesse responder. esquecera-se dela. partindo do princípio de que ela estava mesmo atrás de si. Ela desaparecera. — Como é que ele podia aqui estar. . Thaniel colocou a mão sobre a face. No calor da perseguição. o Rawhead vai matar-te a ti. Cathaline? Não é real. Alaizabel. As histórias acerca do Rawhead existiam muito antes de os seres-bruxa aparecerem. — Onde é que está a Alaizabel? Thaniel sentiu o sangue congelar-se nas suas veias. Apercebia-se agora de que não a vira durante todo o tempo em que estivera a lutar com o Rawhead.mar escuro. — O Rawhead esta mesmo atrás de ti.

— Pouco mais posso fazer — disse o médico. iluminados pelo brilho de uma única lanterna a gás. trazendo consigo a carta que tinham encontrado no bolso dela. as suas expressões ocultadas pela escuridão. para um encontro secreto. encontrava-se uma série de outras pessoas. Cathaline deu um passo para a luz. o enorme rasgão no seu peito tratado e ligado. Leanna Butcher. nesta altura nem sequer estaria viva. e só o bater do seu coração atrasava a onda de desgraça. Junto à porta. Se não fosse aquela carta. Cathaline meteu a carta nas mãos a- . Agora estava calma. a declaração de amor proibido de um homem casado que a trouxera até ali. — Teremos de esperar e ver o que acontece. coberta desde o chão até ao teto por azulejos de um verde desbotado. a última vítima dos Homicídios Verdes. observando. Se não fosse o Thaniel. disposta de encontro a uma parede. a sua cabeça também bem ligada para tentar sarar a racha no crânio. lutava pela vida sob as Vielas Desonestas.CAPÍTULO XVI ~ Vigília pelos Mortos Desespero no Campanário ~ A sala era escura e fria. Três corpos mexiam-se com azáfama no centro. afastando-se da maca na qual jazia a sua paciente. não teria saído a correr naquela noite.

uma mistura caótica em que nada dava com nada. Thaniel podia dar por si a sentir saudades de casa. por esta altura. Noutras circunstâncias. . — Saiam agora — resmungou o Rapaz-diabo. Thaniel não passava de uma sombra magra. Ele não respondeu. — Vou colocar Encantamentos. — Agora está nas mãos do destino — disse Crott. e a perguntar-se sobre o que se passava no lugar que tinham abandonado. e sob melhores cuidados. adivinhando acertadamente a razão para o silêncio do companheiro. cadeiras e tapetes descobertos por entre o lixo. tinha outras preocupações. nós falamos sobre isto. por agora. Aquela mulher nunca teria sequer falado contigo se Alaizabel não estivesse ao teu lado. — Ela estará mais segura aqui que em qualquer hospital.dormecidas de Leanna. Passando por um corredor com paredes rachadas e desgastadas. — Ela insistiu em ir — retorquiu Cathaline. — Ela vai ficar bem — assegurou-lhe Cathaline enquanto caminhavam. — Devíamos tê-la deixado aqui — respondeu. Podem ainda surgir outros seres-bruxa para acabarem o serviço. — Tu não tens culpa. Mas. — Casais são menos ameaçadores do que homens sozinhos. com camas. — Espero que ele valesse a pena — murmurou. radiando raiva e frustração reprimidas. Estavam bastante mobiliados. Cathaline e Thaniel afastaram-se. dirigindo-se para os quartos agrupados que Crott lhes destinara como aposentos.

— Ou a Irmandade a tem. mas o fogo . ou o Stitch-face. E tu devias deixar de tentar viver à altura de algo que já não existe. para que o fogo pegasse. — Se ela. Excepcionalmente bom. Mas não era aquilo que a sua lenda faz dele.. — hesitou. Thaniel.. com um candeeiro de petróleo a arder num recanto da parede. Se for o Stitch-face. Thaniel bufou. como se eles não tivessem já discutido todas as possibilidades. — É claro que teria — retorquiu Cathaline. um pouco chocada com a sua frieza. sentando-se numa cadeira. — Agora pareces o teu pai. então têm a Thatch de volta e as coisas acabaram de passar de mal a pior. Se forem os primeiros. — O meu pai não teria falhado na sua proteção como eu falhei — afirmou Thaniel... pelo menos não temos de nos preocupar mais com a Thatch.que costumava ser a cave e a casa das caldeiras de uma escola. — Thaniel — disse Cathaline. Eram frios e úmidos. fazendo uma pausa —. Thaniel acendeu lume num pequeno fogão de aquecimento feito de madeira e dedicou-se a soprar lá para dentro. Ao perceber que Thaniel estava em silêncio. — Como é que podes dizer isso? — perguntou ele. ela olhou para ele e viu o seu ar de espanto. — Não sei a que é que te referes — redarguiu Thaniel. — Oh. — Ela pode ter partido de livre e espontânea vontade — sugeriu Cathaline. pensas que foste o único a conhecer o Jedriah? Cacei com ele dezenas de vezes. chegaram aos seus aposentos. Ele era bom.

Em algum lugar à distância. Cathaline olhou-o nos olhos. qual é que seria? Salvar a Alaizabel e deixar a Irmandade cumprir o seu plano. Cathaline. Era um velho campanário. sobre Finsbury Park. Sentou-se com a cara encostada aos joelhos. ouviu o som repetitivo da explosão das bombas que caíam sobre a Zona Antiga. de forma pesada. o braço ereto de uma igreja em ruínas. A sociedade não via com bons olhos um cavalheiro a exibir uma emoção como o desespero. Esta era a noite de um dos ataques men- . — Tinhas uma escolha — disse Cathaline num tom de voz enfurecedoramente calmo.que se via no seu olhar indicava o contrário. — Então não finjas que não te preocupas com o fato de ela ter desaparecido. Então. envolvendo-se a si mesmo num abraço. sob a luz fantasmagórica da lua convexa. — Se não tivesses salvo a Leanna Butcher. Thaniel descobriu um lugar escuro onde pudesse desesperar sozinho. que se erguia suficientemente alto sobre os telhados decadentes das Vielas Desonestas para o deixar sofrer sob o luar resplandecente. todos estaríamos muito mais encrencados do que o que estamos. não afetado pelas garras do nevoeiro. Tudo estava em silêncio. A pedra fria encostava-se ao centro da sua espinha. — Tu sabes qual é a resposta. ou perdê-la para salvar aquela mulher e dar-nos um pouquinho mais de tempo a todos? A face de Thaniel estava coberta pela sombra. por isso. Pelos arcos góticos do campanário viu ao longe o charuto luminoso que era um dirigível a virar lentamente.

e ensinou-lhe o trabalho do caçador-de-bruxas. Como montar e colocar um isco numa gaiola de almas. como reconhecer um Ouriço Negro. Mas o seu pai. sobre a altura em que as coisas eram mais simples. que era o melhor caçador-de-bruxas de todos. . Depois Jedriah morreu. completamente destroçado. isso era diferente. submergiu-se nela por completo. em que tipos de buracos procurar um stumpfoot. Poucas pessoas sentiram a sua falta quando Jedriah o tirou da alçada protetora das instituições escolares de Sua Majestade e o acolheu no seu ninho.sais que a frota fazia sobre Camberwell. e Cathaline tomou o seu lugar. e ele não era um caçador-de-bruxas mas sim uma criança. adorava o seu pai. Jedriah tirou-o para longe daquilo. Ele pensava sobre o seu passado. Quando o seu pai era vivo. e não fazia amigos com facilidade. de olhos bem abertos. numa vã tentativa de baixar o número da população. Ele era acima de tudo um caçador-de-bruxas e sê-lo-ia para sempre. como fazer um Rito. grande parte das recordações que tinha dela eram sons e sensações incompletos que lhe escapavam da memória quando os tentava agarrar. atirou-se à única coisa que sabia fazer. O rapaz. E o rapaz. e Thaniel adorou-o por isso. largando explosivos sobre as áreas já de si destruídas onde os seres-bruxa se multiplicavam. Seria isso que o seu pai teria querido que fizesse. Bombardeando a sua própria cidade para destruir o centro do cancro. Sempre fora calado na escola. Mas ser um caçador-de-bruxas deixava pouco espaço para qualquer outra coisa. Era demasiado novo para compreender a morte da sua mãe. como olhar para uma luz-do-pântano sem ser sugado lá para dentro.

talvez eu o conseguisse ver como a Catbaline consegue. Fora com esse homem que Thaniel crescera. que ele nunca soube que lá estavam. Ser só. uma unha ou uma jóia de que gostasse muito. O amuleto que Cathaline lhe fizera com o propósito de a proteger dos seres-bruxa impedia-os agora de a localizar.Pai. o amuleto de Cathaline escondê-la-ia deles. Ela descobrira-o. como um cabelo. após a morte da sua mulher. não sabia como a encontrar. Tudo o que bastou foi a Alaizabel para destruir as paredes de silêncio que rodeavam a sua vida. . pensou. qualquer coisa. Se não tivesse morrido. Pai? Como é que eu suplanto um fantasma? Jedriah fora um homem solitário. e a lição entrara para o seu subconsciente. para nós — asseverou o Rapaz-diabo de forma seca. A única coisa que podemos esperar é que seja o Stitch-face e não a Irmandade a tê-la. Sem nunca chegar a fazer nada. Nenhum Ki to a conseguiria localizar sem algo que lhe pertencesse. Não precisar de ninguém. Ele falara com o Rapaz-diabo e este confirmara os seus piores receios. Como é que eu posso viver à altura de uma lenda. Ser solitário. — Leanna Butcher tem cerca de uma semana de vida. é que ele se apercebeu da profundidade de tudo isso. Mas depois aparecera Alaizabel. soltara-o. E só agora. Entrou em desespero porque Alaizabel tinha desaparecido e por muito que desse voltas à cabeça. E mesmo que tivessem esse objeto. Nunca voltara a amar. nem o quisera fazer. — Ela está perdida. só pela sua presença. nenhuma outra coisa serviria. agora que ela desaparecera. Ele entrou em desespero. ela despertara dentro dele sentimentos. Tinha de ser algo que lhe fosse querido e próximo.

teremos de nos preparar para o fim. — Volta para junto de mim. Depois. uma ausência de pensamento. — Alaizabel — sussurrou. Durante algum tempo. Thaniel pôs-se de pé na escuridão prateada do luar. houve só escuridão.pois se a Irmandade conseguir retirar o espírito de dentro dela. .

provocando um ruído que se assemelhava a um sussurro constante entre eles. Erguia-se isolada. totalmente envolta numa camisa de sempre-verdes. Uma estrada de campo ventosa abria passagem até um portão com trepadeiras de ferro forjado envolvendo as suas grades. O Sol ainda não se pusera há muito tempo e viam-se luzes lá dentro. de carruagem. como que em permanente discordância com toda e mais alguma coisa. uma ocupante solitária numa colina repleta de árvores. pequenos olhos de aranha brilhando do interior do monólito sombrio.CAPÍTULO XVII ~ Uma Reunião Curien Blake ~ A mansão de Pyke era como um bloco de escuridão na noite de Novembro. que batiam uns nos outros por força do vento. o cantar das garrafas de cristal tocando nos copos e o sussurro de artimanhas e sedução. os seus contornos coloniais demarcados à luz dos altos candeeiros de rua a gás. Era a cerca de uma hora de Redford Acres. onde os seus intrépidos botões de Inverno se viam transformados em gelo e veludo à luz do luar. que guardavam o caminho de acesso. . contrastando com a escuridão envolvente. Mas nesta noite. Normalmente o silêncio marcava-a. Para trás do portão seguia um grande caminho de acesso que contornava um canteiro de flores circular. os seus salões ecoavam com o barulho de vozes.

excluindo Maycraft. piscando os seus olhos pestanudos. — Penso que vai chegar à conclusão de que não precisa de se preocupar com isso — disse Pyke. sofás de madeira com finas almofadas num padrão florido. Espero que tenha consciência de que eles vão dar cabo de mim por não estar lá quando aparecer outro Homicídio Verde. — Está atrasado. ainda desorientado da viagem. sempre aceitou a sua palavra sem qualquer problema. para a sala. rebordos de estuque branco no teto. aquela palavra solitária combinando uma saudação e uma apresentação ao homem alto que se encontrava ao seu lado. Ele olhou em volta. Estavam numa das salas de convidados de Pyke. não sendo exatamente um crítico da decoração de interiores. Pyke descrevera-a uma vez como «estilo Filadélfia da era da Independência» e Maycraft. com retratos de estadistas idosos. — Mammon — retorquiu Maycraft. que não estava vestido para a ocasião. que fora decorada num estilo que jogava bem com o ambiente da casa. com a sua cabeça careca e em forma de cone erguendo-se sobre um pescoço magricela. Vestido com um casaco comprido e um chapéu mole de aba larga contrastava horrivelmente com a roupa elegante das todas as outras pessoas à sua volta. O Inspetor apercebeu-se pela primeira vez de que o médico se assemelhava extraordinariamente a um abutre. Paredes num tom azul de esmalte. pesadas molduras douradas penduradas na parede a toda a volta. O médico . Ele olhou para o companheiro de Pyke. — Estive a tratar de assuntos profissionais. sabendo o quanto isso irritava o seu anfitrião. usando o nome próprio de Pyke de propósito. ele era o único na sala.— Maycraft — disse Pyke.

— Por que é que não aconteceu? — Tudo no seu devido tempo — disse Pyke. Membros da alta sociedade. de péssima reputação. pelas quais homens como Maycraft não tinham qualquer interesse. Aí. — O que é que se passa? — sibilou. indubitavelmente fugindo aos resultados do habitual excesso de entusiasmo com os seus revólveres Remington. Maycraft — observou Pyke maliciosamente. numa pronúncia americana lenta e arrastada. e os olhares nervosos que lançavam a Pyke traíam o seu nervosismo. Emigrara para Inglaterra há sete anos. fazendo um sinal na direção dos pequenos grupos de pessoas que andavam pela sala. O médico usava-o em certas ocasiões para esclarecer pequenos enganos cometidos pela Irmandade. mas a representação que faziam não era muito boa. Blake conhecera o Doutor Pyke. ou. que ficou impressionado tanto pela sua crueldade como pelos seus princípios exclusivamente mercenários. que nascera em Kentucky. — Por agora. Maycraft cumprimentou-o e apresentou-se. Isso explicava a pessoa à sua esquerda. como diriam alguns. penso que vocês os dois nunca se conheceram pessoalmente? — Curien Blake — apresentou-se o homem mais alto. reunindo o mínimo aceitável de boa educação para dirigir a um homem que ele já odiava. depois de Pyke ter percebido o que queria dizer com a frase anterior. Curien Blake era um caçador-de-bruxas de grande renome. nos Estados Unidos. falando de coisas relativas à alta sociedade. poderia acabar numa das celas de tratamento dele. noutras circunstâncias.sempre tivera uma curiosa afinidade com a América. — Parece distraído. — E não parecemos todos? — retorquiu. que. Às vezes o Rito dava .

advogados. um candidato à presidência da câmara de Essex. aqueles que eram influentes pelas suas profissões. Maycraft odiava-o. até . políticos. Depois. e. voltou a percorrer a sala com o olhar. reunia-se uma parte da Irmandade: juízes. Blake desempenhava todas essas tarefas com o mesmo à vontade. sabendo que com a ajuda de pessoas como estas. Depois havia ainda a história do juiz da Irmandade que começara a ter a infeliz a idéia de que queria abandonar o grupo. às vezes. e se ele voltasse a considerar a hipótese de abandonar a Irmandade. amas. médicos. a forma como matara uma vítima espancando-a com a coronha da sua pistola. Enfermeiras. Para evitar entrar em diálogo com o homem. Blake raptou a sua filha de oito anos e atirou-a como a uma galinha para o Tâmisa. às vezes era preciso capturar ou destruir um certo ser-bruxa. lembrou o juiz de que este tinha duas outras filhas e uma mulher. polícias. elas seguiriam o caminho da sua filha mais velha. funcionários públicos. não deixariam de alcançar os seus objetivos. como roubara a casa de uma vítima e matara a sua mulher só para fazer um homicídio passar por assalto.para o torto. Eles vinham atraídos pela promessa de se juntarem a um grupo que reunia os homens e mulheres mais poderosos de Londres. mas o sangue-frio de Curien Blake repugnava-o. Pyke disse a Blake que o «persuadisse a mudar de idéias». secretárias. Talvez ele fosse um bem útil à Irmandade. uma pessoa sabia demais para puder continuar a respirar. enfeitiçados pela sede de sucesso. estavam os menos ricos. Ouvira contar histórias acerca de Blake. só para não gastar uma bala. a nata da sociedade. mas era um homem odioso com uma tendência para a violência que roçava o repugnante. Ali. Abaixo deles. Maycraft não era um homem de princípios.

As pessoas que eram abordadas pela Irmandade sentiam-se atraídas. foi a desilusão de Maycraft por ter sido ignorado duas vezes quando chegada a hora da promoção. O ateísmo ou uma certa elasticidade religiosa era um fator importante na escolha das pessoas a abordar. Por que ê que os seus deuses não tinham sido libertos? Um silêncio caiu sobre a assembléia enquanto Pyke subia as escadas em caracol. Estavam todos aqui. Aqueles que se recusaram firmemente a participar. que abriam caminho para as profun- . A outra encaracolava-se em seu encontro partindo do chão escuro de pedra do átrio central. pelas vantagens sociais que esta oferecia. Onde se uniam. Por essa altura já estavam em dívida para com a família e quase sentiam que a cerimônia seria bastante inócua. e a quererem mais. primeiramente. ou eram despachados.carteiros. após as pessoas serem «ajudadas». E não foram poucas as ocasiões em que um bebê desapareceu de um dos muitos orfanatos de Londres e acabou por aparecer numa das cerimônias da Irmandade. mensagens pudessem ser interceptadas. de forma a que os registros pudessem ser alterados. ou eram forçados a manter o silêncio através de chantagem. pessoas pudessem ser coagidas. Na verdade. À espera de que ele lhes dissesse porque é que a sua promessa não fora cumprida. que o levou a juntar-se. e tinha havido erros no passado. todos bem colocados. Foi depois de verem o que a seita podia alcançar que começaram a acreditar. depois de ter sido abordado e de lhe terem prometido que não seria ignorado uma terceira vez. A iniciação à seita vinha depois. à espera de que Pyke falasse. Aquela escadaria fazia parte de um par simétrico. havia uma pequena varanda com duas portas de carvalho de ambos os lados.

Não era segredo nenhum que Pyke tinha pouca consideração por aqueles que decidiram fugir da capital face ao iminente Cataclismo. a sua voz firme cortando como facas por entre os convidados. O americano lançou-lhe um sorriso melífluo e totalmente falso. Ele sorriu com frieza. Aqueles que decidiram ficar em Londres fizeram uma viagem mais curta. tentando verificar quem faltava. e os cautelosos.dezas da mansão. Os ouvintes começaram a murmurar e a olhar era seu redor. tinham medo de estar no centro da ação sem primeiro testarem a sua violência. inclinando-se sobre o corrimão de teca e olhando para as faces viradas para cima da sua congregação. como diria Pyke. esperando até ao jantar para anunciar aquilo que aqui vieram ouvir — prosseguiu ele. desde os vossos retiros. expectante. afastando-se do corrimão e observando-os com um interesse vuipino. O que todos vocês querem saber é: por que é que não aconteceu? O que é que correu mal? É isso que todos vocês . Maycraft fora deixado sozinho com Blake. — Não vou prolongar o sofrimento que a vossa incerteza provoca. mas são esses os benefícios dos fiéis. que se silenciara por completo. — Vejo que uma parte dos nossos decidiu ficar em casa e declinar o meu convite — observou Pyke. a quem é que se podiam considerar superiores. Londres seria o epicentro da ascensão da Irmandade. ou infiéis. A primeira etapa da nossa vitória devia ter tido efeito. — O chackh’morg devia ter ficado completo ontem. Foi aí que Pyke parou. — Muitos de vós viajaram de muito longe. Era uma medida da sua importância o fato de ele não se preocupar com introduções ou preâmbulos. Pyke não lhes deu tempo para isso.

o sacrifício final na seqüência do chackh’morg foi interrompido por influência exterior. embora tivesse sido Pyke a convocá-los a eles. uma outra razão para vos ter convocado a todos para virem aqui. ela ainda não pereceu. pensou Maycraft. para ser mais preciso. os mais sábios médicos não poderiam fazer nada para a salvar agora e. no entanto. — Ontem. Mas isso quer dizer. Virou-se . Dar-vos-ei pormenores acerca do local.. Um grupo de sessenta é necessário para assistir à recitação da Destilação de Chandler. que atenuou fortemente a tensão que se sentia por toda a sala. A recitação terá lugar hoje. de qualquer forma. Quando o seu último fôlego tiver sido dado. A congregação pareceu sentir-se ligeiramente culpada. Contudo. Preciso de todos vocês uma vez mais. — Deixem-me. — Há. Curien Blake examinava as unhas da sua mão esquerda. então. Espero voluntários a seguir ao jantar. como devem concordar. — O nosso agente conseguiu ferir mortalmente a vítima — continuou —. A sua piada teve como resposta um coro de gargalhadas. Isto não passa de um atraso sem importância. esclarecer-vos — disse Pyke. mas. uma hora depois da meia-noite. para nosso inconveniente. Hoje?. é só uma questão de tempo até ela sucumbir aos ferimentos que lhe foram infligidos.. Caçadores-de-bruxas. eles estão todos aqui. Pyke esperou que esta passasse. então o chackh’morg estará completo e a primeira etapa terá início. surpreendido. desvanecendo-se os murmúrios para um canto da sala até desaparecerem por completo. A congregação foi tomada por uma onda de sussurros.querem saber.

Oh céus.automaticamente para Blake. Blake sorriu com um ar desinteressado e levou a mão ao chapéu. colocando a questão com os olhos. como Maycraft odiava aquele homem. .

espalhando-se por teto e chão até que a sala parecia um útero obscuro de horror incrustado. linhas grossas de um vermelho-escuro e incerto aqui.CAPÍTULO XVIII ~ A Garota do Vestido Branco Um Encontro Infeliz ~ A sala era quadrada e baixa. numa língua áspera e gutural que era feia e repelente de ouvir. ali umas chancelas desenhadas com o mesmo material. Sobre o fosso de fogo havia uma grelha. Vestes simples de cor carmesim e capuzes de monge. As paredes eram uma confusão de símbolos. sombras que avançavam e recuavam como espadas num duelo. e o cheiro a sangue e suor era tão forte que quase sufocava. a multidão dissoluta que eram os seus companheiros. com paredes rugosas de pedra nua. e sobre ela uma armação . caindo sobre os espelhos ovais bem delineados que eram as suas faces. as pessoas mascaradas com espelhos. muito próximas umas das outras. Entoavam canções em voz baixa e uniforme. velha e abandonada. Cada um dos membros da seita apresentava sob o capuz a cena que tinha diante de si. O calor era abrasador. Eles estavam ali. Marcas de mãos competiam por espaço na pedra suja com Encantamentos cuidadosamente elaborados. o fosso brilhante de carvão ardente. A luz do fogo espalhava sombras recortadas pelos sulcos e fendas.

de ferro. os sons não pareciam ganhar consistência. O canto uniforme subiu de tom. e a respiração era pesada e trabalhosa. as suas veias cheias de drogas. Tinha a garganta e lábios secos. olhando para um mundo desconhecido através dos seus olhos estupefatos. Algo se mexia dentro dela. quanto mais onde viera parar e como cá chegara. uma voz que irradiava um contentamento sinistro. uma presença. estava Alaizabel Cray. ficar coerentes. uma alta montagem de sustentáculos que formava o esqueleto oco de um cubo. Não se lembrava de nada e não sabia nada. cada corda enegrecida pela quantidade de Encantamentos nela desenhados. Por baixo dela. Ela estava insuportavelmente quente. Pendurada no interior do cubo estava uma cama de rede feita de cordas grossas. o seu cabelo louro colava-se à cara em madeixas molhadas.. uma coisinha . qualquer coisa. na grelha sobre o fosso de fogo. e dentro da cama. amarrada como uma mosca numa teia de aranha. preocupada. completamente à mercê de outros. !!Sim!! Sim!! Oh. envolvendo-a. ensopando o seu vestido branco. minha linda!! Mas agora quem é esperta? Tens sido uma coisinha difícil para a velha Thatch. Estava a dizer qualquer coisa. só se apercebia do calor e da estranheza que a rodeavam. Um bebe recém-nascido. pensavas que eras tão esperta. Ela franziu o sobrolho. Os seus olhos focavam e desfocavam de forma incerta o mar disforme diante de si. ela mal conseguia saber quem era. tentando concentrar-se para ultrapassar a confusão que se apoderara dela. qualquer coisa. uma larga tigela de ferro apanhava o suor que escorria constantemente do seu corpo.. Embalada na cama de rede. a pele escorrendo suor. todo o seu corpo parecendo derreter como cera a ferver.

mas o aconchego quente que parecia fluir de dentro do seu coração para todo o seu corpo não a deixava excitar-se. Ugh!! Como eu te odeio!! Porque é que diz isso? O que ê que eu lhe fiz? !!Silêncio!! Silêncio. O que é que se está a passar?. viu uma garota envergando um simples vestido branco a ser trazida para dentro da sala. Isso quer dizer que sou surda? !!Garota estúpida!!. seu pardalito escanzelado. mas não percebia como) mas mesmo assim lutava. tanto pelo efeito soporífero do calor como pela desidratação que provocava. !!Sua garota idiota!! Estão a tirar-me de dentro de ti. e já não era sem tempo. Agora conseguia ver qualquer coisa a mover-se pelo canto do olho. sua coisa malvada!! Alaizabel obedeceu. sim. Vão pôr-me noutra rapariguinha qualquer. !!Thatch. disse eu!! És surda? Eu perguntei-te se és surda!? Alaizabel pensou nisso. minha horrorosa. Sentiu que devia ficar assustada. oh sim. Consigo ouvi-la. Não gostava dos sons que estavam a ser feitos. acelerando aos poucos e poucos. gritou a voz.mesmo muito difícil. contra as figuras com cara de espelho que a puxavam na direção do fosso de fogo. . Não como tu. recordavam-na. de uma forma desconfortável. Eu vou tratar de ti. com as poucas forças que tinha. E estava tão cansada. vou tratar de ti!! Quem é você?. e conseguiu rodar o pescoço para ver o que era. Estava drogada (Alaizabel sabia-o. uma outra altura que ela queria esquecer. O cantar subia cada vez mais de tom. e é bom que desta vez o façam como deve de ser!! É bom que desta vez ela morra quando é suposto!! Não como tu. perguntou à outra voz. perguntou a si mesma. De forma algo desfocada. calando-se de seguida.

mas não deixariam a Irmandade usá-la como receptáculo para o espírito de Thatch. matou os seus pais e levou-a de qualquer maneira. degradação. medo. Isto não era bem a mesma coisa. puseram-na numa cama como aquela em que se encontrava agora. A Irmandade! Como é que eles podiam jogar com vidas como quem joga com peças de xadrez? Peões para serem sacrificados pelos reis. Mas a garota continuava a ter de morrer e. Provavelmente. como ela os odiou naquela momento. os seus pais não contaram com os sacrifícios que teriam de fazer. Alguns dias atrás. drogada não. a cerimônia também te vai matar a ti!! As palavras foram varridas por uma onda de raiva que crescia dentro de Alaizabel. mas conseguia sentir o seu medo. Uma cerimônia diferente. ??O que é isto?? O que é isto?? Estás triste. Naquele momento sentiu os efeitos das drogas retroceder. Nesse momento. rainhas e torres? Com a sua vida? Oh. senti-la a esvair-se e a enfraquecer. minha querida. apesar do veneno. entoaram os cânticos. e jurou que iria agüentar. Mal conseguia ver a garota. como quando as nuvens se afastam para deixar passar um brilhante raio de sol. a Irmandade raptou-os a todos. ela odiava-os. é?? Não te preocupes. Envenenada. um rasgo de compreensão apoderou-se de Alaizabel. desta vez eles estavam a tirar o espírito de dentro dela e a pô-lo dentro de alguém diferente. ela lutava contra o seu destino. Por isso. Podiam não amar a sua filha. dor. mas similar.Não. por tudo o que lhe fora feito. com o efeito atordoante das drogas. Quando se juntaram à Irmandade. pela humilhação. Envenenaram-na. Alaizabel sentiu uma grande tristeza apoderar-se dela e começaram a escorrer-lhe lágrimas pela face. aquela fora ela. que iria sobreviver a esta pro- .

e assim vou ficar. Ela gritou. e fá-los-ia pagar pelo que lhe tinham feito. Thatch gritava com ela. sua pardalita!! Bem.. Gritou de dor e pelo horror de tudo aquilo. Gritou na mesma. ordenou Alaizabel com um vigor que surpreendeu a outra. mas a sua garganta parecia lixa e isso só lhe trouxe novos sofrimentos. penetrando na sua carne como se a pudesse cortar e ela caísse aos pedaços lá em baixo dentro da tigela.vação. tu. As . a ela. inumana. de forma a que conseguisse pensar claramente durante um bocadinho. o ar quente que enchia a divisão ficando cada vez mais fino. A cama de rede parecia embutir-se na pele de Alaizabel. !!Ainda atrevida. Alaizabel era ainda dona e senhora da sua mente e a raiva deu-lhe forças suficientes para superar os efeitos persistentes das drogas. Não quero ouvir nem mais uma palavra tua. como se alguém dentro dela lhe estivesse a apertar os pulmões e o coração. Era um rebentar da alma. mas a força que a esmagava vinha do seu interior. e tu vais voltar para o miserável canto do Inferno de onde saíste! Thatch vacilou e bateu em retirada. como um elástico esticado ao máximo. Dentro da sua cabeça. a ponto de rebentar. de um espírito fraco.!! Cala-te!. sua aberração malvada e morta. sentiu-se como se estivesse a ser esmagada. Estes sofrimentos. pelo menos. eram naturais. parecendo retroceder dentro dela. Não passava de uma sombra. Os cânticos chegaram a um clímax e depois pararam. Alaizabel sentiu uma súbita tensão na sala. como se o seu centro de existência estivesse a ser atacado por um ser com garras. Eu estou viva. De repente.. à garota que agora obrigavam a ajoelhar-se à beira do fosso de fogo e a todos eles. aquela sensação estranha.

a dor parou e seguiu-se um vazio de tamanha felicidade que ela pensou que tinha mesmo morrido e esta era a sua recompensa. E por fim. então decerto isso teria acontecido. não conseguia ver nada para além de escuridão e.cordas carregadas de Encantamentos queimavam. As drogas que a mantinham adormecida foram a única coisa que impediu Alaizabel de morrer com o choque. obrigada a engolir. mas nessa altura. puxada em todas as direções ao mesmo tempo. Depois veio a separação. Mordeu o lábio no meio de toda aquela dor. a fazia vomitar. a sua raiva. lhe feria a mente. Alaizabel não lhe conseguia ver a cara. e agora Thatch estava dentro dela. depois de anos-luz. de eternidades sobre eternidades. uma tortura que não a deixava respirar. por fim. A dor continuou mesmo muito depois de ela pensar que não era possível sofrer mais. Debaixo dela. e o sangue escorregou-lhe pela garganta abaixo. com um sabor de metal. Se ela tivesse desistido por um momento. . se por um só segundo tivesse pensado que preferia morrer e acabar com tudo aquilo. a garota bebia a tigela com o seu suor com um punhal encostado à garganta. Era como se estivesse a ser esquartejada por cavalos. acabou por perder as forças e a inconsciência apoderou-se dela. Era só a sua vontade que mantinha o corpo vivo. Dentro em breve dar-lhe-iam o antídoto para o veneno. a sua necessidade de sobreviver para eles não ganharem. e a dor verdadeiramente inimaginável. Ela estava a morrer. já o seu espírito estaria fraco demais para resistir à velha bruxa. drogada e sem ninguém que a ajudasse. tudo ao mesmo tempo. incapaz de resistir. e ela sofria mentalmente. entrar em espasmos e chorar. por fim.

As paredes almofadadas da sua ceia já lhe eram familiares, embora não tivesse a certeza absoluta de que iria voltar a acordar depois da cerimônia. Foi com uma sensação de alívio que olhou em volta, para os quadrados macios, em branco sujo; para a grelha formada pelos botões achatados que formavam as suas extremidades, fila atrás de fila, rodeando-a por todos os lados. Ainda aqui, pensou. Sobrevivera à cerimônia e a Irmandade ainda não a matara. Gritos distantes abriam caminho através do acolchoado da cela, uma cacofonia de sofrimento de alguns dos pacientes do manicômio que se encontravam mais perto. Ficou deitada onde estava, a sua face encostada ao chão mole, e deixou uma lágrima cair-lhe do olho. Pelo menos a sua mente estava desobstruída. Tinham-na mantido drogada desde o momento em que aquele caçador-de-bruxas americano a trouxera até ali. Raptara-a naquela noite, do meio da rua, atacando como uma serpente logo que Thaniel virou as costas. Num momento estava a persegui-lo enquanto ele corria atrás da última vítima dos Homicídios Verdes, no momento seguinte estava a ser puxada para um beco, a sua boca coberta por uma mão envolta num pano, e a última coisa de que se apercebeu foi do forte cheiro do clorofórmio, antes de acordar nesta cela, nas profundezas de Redford Acres. Não fazia idéia de quanto tempo a haviam deixado aqui. Provavelmente não fora muito, deduzia ela; eles quereriam a Thatch fora dela o mais depressa possível, para a meterem num corpo-receptáculo com um espírito um pouco mais disposto a sair. Tinham conversado várias vezes com Thatch, sedando Alaizabel antes de cada sessão, para que a sua men-

te ficasse impotente e o espírito que a habitava pudesse falar pela sua boca. Não se conseguia lembrar do conteúdo das conversas. Talvez Thatch estivesse a fazer exigências; talvez a razão para estar agora viva tivesse sido um pedido de Thatch. Uma coisa era certa, ela já não era minimamente útil à Irmandade agora que eles tinham Thatch. Lembrou-se das palavras do espírito durante a cerimônia: Tens sido uma coisinha difícil para a velha Thatch, uma coisinha mesmo muito difícil. Eu vou tratar de ti, oh sim, vou tratar de ti!! Ela tinha medo de pensar no que Thatch preparava para ela. Delicadamente, endireitou-se e sentou-se com as costas contra a parede almofadada, de frente para a porta. Estava vestida com um rude vestido branco-acastanhado de algodão, o uniforme dos pacientes. A sua garganta continuava seca, mas não estava tão desidratada como seria de esperar depois da cerimônia. Talvez a tenham forçado a beber, depois? Possivelmente estivera acordada nalguma altura entre a cerimônia e estar ali; não podia ter a certeza. Um ligeiro sorriso abriu caminho nas suas feições fatigadas. Mas pelo menos pertenço-me outra vez. Sou Alaizabel Cray, e mais ninguém. E se conseguir fugir destas pessoas, prometo a Deus que nada possuirá a minha mente senão eu. Nem drogas, nem bruxas. Era verdade. Foi só quando Thatch partiu que Alaizabel se apercebeu do quão notória a sua presença fora, um fardo na sua mente, que fazia a sua cabeça ficar pesada. Sentia-se agora mais leve do que alguma vez fora, solta e livre. Mas ainda estás numa jaula, Alaizabel, realçou a si mesma. Não iria desesperar. Voltara a ser ela mesma, e a sua força de von-

tade sempre fora grande. Ia esperar, e ver o que acontecia. Na hora que se seguiu, pensou nos seus pais e pouca tristeza sentia pelas suas mortes. Estavam demasiado longe; sempre lhe tinham sido estranhos. Tinham-se juntando à Irmandade; tinham sido o primeiro instrumento a meter Alaizabel nesta confusão. Mereceram aquilo que tiveram, flutuar rio abaixo nas águas sujas do Tâmisa. Também pensou em Thaniel. Como se sentiria ele agora? Estaria preocupado com ela? A sua procura? Querê-la-ia de volta para manter Thatch longe da Irmandade, ou querê-la-ia só de volta? Querê-la-ia de todo? Não conseguia perceber a forma como ele reagia a ela. Mas gostava dos seus sorrisos, e da forma como às vezes se exprimia, e o ocasional brilho dos olhos. Gostaria de voltar a estar com ele. Ele fora a única coisa sincera que alguma vez tivera. Foi enquanto pensava nele que começou a desenhar padrões na camada de pó que se acumulava sobre o tecido branco do acolchoado da cela, criando pequenas linhas de branco limpo entre a sujeira. De início, os seus rabiscos eram meras formas ao acaso, depois começaram a surgir imagens mais complexas; até que, por fim, a meio de criar um comboio a vapor, uma idéia surgiu-lhe que a deixou atônita pelas possibilidades que criava. Será que podia ser realmente assim tão simples? Pôs-se de pé, tonta com a fome e o cansaço, depois atravessou a cela até à porta e ajoelhou-se diante desta. Não tinha maçaneta no interior, era completamente lisa, uma secção delineada por um retângulo escuro e estreito no meio da parede acolchoada. Fechou os olhos, recordando. Como era fugidia a memória, e contudo, a imagem da forma que ela pre-

tendia ficou impressa na sua mente com uma definição e solidez tão grandes que era quase anormal. Só a vira uma vez, e contudo recordava-se melhor disto que da face da sua mãe. Com o dedo, começou a desenhar no pó do acolchoado, a sua impressão digital desenhando um carreiro. As linhas cruzavam-se e ligavam-se, curvas e planas, parecendo formar-se diante de si. Quando deu por terminado, sentou-se sobre os calcanhares e ali, na sujeira diante de si, estava um Encantamento de Abertura perfeito. O mesmo que desenhara naquela primeira noite em que Thatch se apossara do seu corpo, quando fora trancada no quarto de Thaniel e procurava escapar. Nada aconteceu. Empurrou a porta, para experimentar. Continuava tão trancada como sempre estivera. O seu coração caiu-lhe aos pés, não tendo já a esperança que sentira durante aquele bocadinho. Seja como for, tinha sido uma idéia parva. Fora o espírito malvado dentro dela que desenhara o Encantamento, não ela. Esperara, talvez, que uma pequena parte do seu poder tivesse permanecido dentro dela por uma qualquer osmose misteriosa. Aparentemente enganara-se. Olhou com a cara franzida para a forma que desenhara. Como todos os Encantamentos, parecia um pouco real demais, como se em comparação, o resto do mundo parecesse ligeiramente desfocado. Mas contudo... não parecia que o tecido estava um pouco mais fino onde o seu dedo passara? Como se tivesse aberto um pouco o caminho por entre o acolchoado da porta? Com um entusiasmo renovado, passou com o dedo sobre as linhas que já fizera, obrigando-se a avançar lenta e cuidadosamente, convencen-

do através da sua força de vontade o Encantamento a tomar forma. A sua primeira passagem não produziu qualquer efeito; sem se deixar abater, tentou outra vez. Desta segunda tentativa, pareceu-lhe ver algo, mas não podia ter a certeza de não ser a sua imaginação. À quarta passagem, já não tinha qualquer dúvida. Não era o acolchoado que ficava mais fino sob os seus dedos, mas um tecido invisível no ar, gastando-se gradualmente para abrir passagem para outro local, o local onde o Encantamento existia. O coração começou a bater mais depressa, os olhos começaram a abrir-se mais e a brilhar de entusiasmo. Tal como acontecera da primeira vez, quando Thatch estava a controlá-la, começou a sentir um calor nas entranhas. Era necessária uma certa técnica para fazer isto, um evocar do poder, mas era-lhe tão natural que ela nem sabia como o estava a fazer. Vira Thaniel a desenhar Encantamentos com sangue de porco, mas o sangue precisava de ser tratado e preparado, precisava de Ritos e de ser misturado com outros reagentes. Ela estava a desenhar uma forma com o dedo, e estava a funcionar, estava mesmo a funcionar! Thatch, sua coisa podre, ainda posso vir a ter razões para te agradecer, pensou, e sob o seu dedo o vermelho brilhante do Encantamento começou a irromper, como sangue saindo de uma incisão cirúrgica. Ela fez a última passagem e tirou a mão. Ficou sobre a porta durante um momento, um forte brilho vermelho, escurecendo a sala à sua volta; e depois desapareceu, ficando marcado nos olhos dela, como a imagem do Sol que permanece depois de se olhar para o astro. Ouviu-se um suave clique, e a porta abriu-se alguns centímetros. Ela perdeu alguns segundos ficando num silêncio de estupefação

antes de se levantar, cambaleante. Empurrou a porta para esta se abrir completamente e espreitou para o exterior. Um corredor vazio, húmi-do e repleto de ecos de gritos distantes, com candeeiros a gás mostrando o caminho e refletindo a sua luz no chão de pedra molhado. Ali fora, sem o efeito abafante do acolchoamento, conseguia ouvir os murmúrios, o choro, as pancadas, a desordem e os gritos dos seus vizinhos nas suas celas. Milhares de vozes loucas sussurravam no ar, a toda a sua volta, ecoando e multiplicando-se no corredor. Não admira que não estivesse ali ninguém; um guarda saudável juntar-se-ia rapidamente aos seus pacientes se tivesse de patrulhar este corredor dia após dia. Descalça, saiu para o chão úmido e frio. Pequenas poças e carreiros de água escorriam pelo corredor. Fechou a porta da sua cela ao sair, depois olhou para ambos os lados. Via-se uma porta num dos extremos. Começou a correr. Embora estivesse fraca, a idéia de fugir das vozes no corredor era suficiente para a pôr a mexer. Felizmente, não havia janelas nas portas das celas, por isso não podia ver as almas torturadas que faziam sons tão horríveis; mas a sua imaginação fornecia-lhe substitutos mais do que interessantes. Alcançando o fundo do corredor, deu com a porta destrancada e passou a grande velocidade, não se preocupando grandemente com o que estaria do outro lado. Deu por si numa sala de tratamento. Uma maca encontrava-se no centro da sala, com cintas na zona dos pulsos, cintura, tornozelos e pescoço, para segurar os pacientes. À sua direita, estava uma coisa alta que parecia um armário, frio, proibitivo e coberto de botões e interruptores. Ouvia-se um ruído surdo de eletricidade a correr, indubitavelmente de algum gerador que se encontrava nas catacumbas do asilo. Via-se um

chapéu de metal sobre a maca, ligado ao armário por grossos fios. Alaizabel sentiu um arrepio de horror, não desejando saber o que se passava naquela sala. Passou a correr, deixando para trás dela o som desvanecente dos pacientes. Desta feita, deu por si no que pareciam ser os aposentos do pessoal. No seu interior encontrou uma pequena cozinha com uma chaleira de latão queimada, e uma mesa numa sala próxima sobre a qual se viam os restos de uma torta de carne sobre um prato lascado. Roubou a torta sem pensar duas vezes e ficou satisfeita ao descobrir que estava fria. O fato da torta ser suficientemente velha para estar fria sugeria que quem quer que fosse que comera três quartos desta não estivera aqui há pouco tempo. Comeu o que restava, uma vez que estava esfomeada e precisava da força que esta lhe forneceria. Não era desagradável de todo. Uma busca revelou um lance de escadas estreito que subia para um corredor curto e escuro que desembocava numa outra porta. Esta encontrava-se trancada e não havia pó sobre o qual desenhar. Franziu o sobrolho durante algum tempo, depois levantou a mão e traçou a forma do Encantamento no ar diante de si. A forma ficou suspensa no ar, quase invisível, desenhada numa escuridão mais profunda do que aquela que a rodeava. Porque é que consigo fazer isto?, pensou para si mesma, voltando a traçá-la. De cada vez, ficava à espera de descobrir que era só um efeito criado pelos seus olhos ou pela sua cabeça, mas isso nunca acontecia. Era mais do que simplesmente desenhar no ar; era como se o seu dedo seguisse um ritmo, um padrão que exigiria mais esforço para fazer mal do que para fazer bem. Estava a lembrar-se, mas era mais do que lembrar-se.

Um grito ecoou vindo de em algum lugar nas profundezas do edifício. com um retrato da Rainha Vitória sobre uma lareira de pedra e um modelo de um frenólogo sobre a secretária. Através de uma janela. Era uma parte de uma estante de livros. ou de outra pessoa qualquer? Não tinha tempo para descobrir as respostas. Era incrivelmente pesada. Alaizabel permitiu a si mesma um sorriso de puro prazer infantil e empurrou a porta. O manicômio tinha o seu próprio abastecimento de eletricidade e lâmpadas brilhavam no interior de pequenos candeeiros de bronze. e era só isso que interessava de momento. sem querer. como andar de bicicleta. uma vez alcançado. pôde ver que lá fora era noite adiantada. A sala que se apresentava agora diante de si não era úmida como as outras. Não parecia haver ninguém no asilo esta noite. encontrando-se. não se conseguia vislumbrar qualquer entrada. a Alaizabel a arte de desenhar um Encantamento e. Alaizabel nem sequer sabia como o estava a fazer. A velha bruxa ensinara. memórias que eram agora de Alaizabel. Espreitou para o lado de fora da porta e depois avançou. mas deixara coisas para trás. mas encostou o ombro para ajudar e conseguiu movê-la. Entrou e percebeu porque é que a porta era tão pesada. e ela não fazia tenções de desperdiçar a oportunidade de fugir. e quando a voltou a fechar. isso sim. Era um estúdio atraente. mas estava a funcionar. belissimamente mobiliada. Existiriam passagens iguais àquela por todo o recinto de Redford Acres? Seria este o escritório de Pyke.Thatch saíra da sua mente. nunca se podia esquecer. experiências. Completo o Encantamento. escutando atentamente mas não ouvindo ninguém. a porta fez um suave clique e abriu-se. suficientemente alto para passar pelas pare- .

Não havia sinais de vida. nem sinais de movimento em qualquer parte. A maior parte do pessoal de . pensou. com uma secretária vazia ao seu lado.des. mas Alaizabel desenhou um Encantamento sobre ela. para a fixar lá e evitar que a sua alma se perdesse. A que dava para o exterior era óbvia e Alaizabel dirigiu-se a ela. À sua frente estava uma porta de mogno escura. mas não havia qualquer luz na casa do guarda. Este excesso de sorte não podia durar muito tempo. mas de certeza todos os hospitais mantinham um pessoal básico vinte e quatro horas por dia? Os lunáticos não respeitavam horários laborais. Tinha de se despachar. De seguida avançou escadas abaixo. olhou em volta. A porta estava trancada. Os seus pés descalços caminhavam sobre o chão coberto por uma carpete. praguejou e avançou para um local onde uma varanda espreitava sobre uma recepção. do outro lado. Quando chegou ao fundo das escadas. não fazendo qualquer ruído. Foi feito com um pouco mais de pressa do que devia. pronta para largar a correr a qualquer momento. e para lá disso. Ela deu um salto. A porta deu o estalido e abriu-se e. É óbvio que ela não esperava muito pessoal a esta hora da noite. mas o efeito foi o mesmo. Porque é que não esta aqui ninguém?. Ela não tinha forma de saber que a cerimônia consistindo da transferência de Thatch envolvia mais que um Rito. todas fechadas. como suspeitara. ela conseguia vislumbrar a sombra escura dos muros e portão. Várias portas interiores olhavam para ela. Os candeeiros elétricos afastavam um pouco a noite. levaria até de madrugada para completar a preparação necessária do novo corpo de Thatch. olhando por cima do ombro enquanto atravessava a entrada. ela viu o alpendre de Redford Acres. lentamente.

Mas quando chegou ao portão. As solas dos pés estavam arranhadas e sangravam por causa do cascalho. os seus dentes já batiam e ela tremia incontrolavelmente. Iria tentar. Por isso Alaizabel saiu para a gelada noite de Novembro. quase desmaiando devido ao esforço. Confiava nas suas trancas para manterem Alaizabel onde estava até decidir o que fazer com ela. Era o distante avançar de uma carruagem. afastou-se de vista. Mal acabara de tomar essa decisão. escondendo-se atrás de uma fila de arbustos que marcavam a fronteira de um campo. sentindo a pele arrepiar-se sob o vestido de algodão que era a sua única roupa. Caiu do lado de lá e fugiu para fora da estrada. não podia ser mais de um ou dois quilômetros até Londres. Persistente. e os pacientes podiam safar-se sozinhos por uma noite. ouviu um som. em direção a ela. A chama de . Acocorando-se na relva. fugindo da luz para a segurança da escuridão para lá do portão. mas não lhe serviriam de nada. Iria tentar lá chegar. Estava um frio de morte. Morreria de frio em meia hora. Conseguia de fato ver as luzes de Londres. Morrer aqui. por muito impossível que fosse. mas não se atrevia a ficar ali nem mais um segundo. e àqueles que não faziam tinha sido dada folga naquela noite. escalou o portão. descendo a estrada.Redford Acres fazia parte da Irmandade. pensou. Fechou a porta e correu descalça pelo caminho de cascalho. Era uma escolha entre morrer aqui fora ou voltar para dentro de Redford Acres. Atravessando os campos. É melhor assim. Conseguiria ver as luzes da cidade e dirigir-se para elas. Pyke não queria quaisquer interrupções no trabalho presente. Não.

ela saltou com um grito. Tirou um cobertor das costas de um dos cavalos e atirou-o para ela. O cocheiro. Pode ser Pyke. mas qualquer outra direção seria suspeita. com o colarinho puxado para cima. Demasiado aliviada para lhe agradecer. respondeu ela. então talvez pudesse ser o seu salvador. Ela conteve a respiração enquanto a carruagem se aproximava mais. — Senhor! Por favor. embrulhando-se na abençoada oferta. um deles tão negro como a noite pela qual cavalgava. Apercebeu-se depois de que eram dois cavalos a puxar a carruagem. avisou uma voz cautelosa. A carruagem não pareceu indicar qualquer sinal de abrandamento ao aproximar-se dela. ela abriu completamente a porta e entrou um pouco atabalhoadamente para o interior da escura carruagem. isto não é lugar para si. Não ia para Redford Acres. por favor! Fui raptada. Levá-la-ei onde quiser ir. o volume da sua voz sobrepondo-se ao bater dos seus dentes. a cartola bem puxada para baixo e a cara oculta na escuridão. Uma indistinta mancha branca começou a tomar a forma de um cavalo a avançar estrada fora. mas consegui fugir! — Ela sabia que os Peelers não a poderiam ajudar.esperança que se acendera dentro dela fizera-a esquecer o frio por um momento. esticou-se e abriu a porta da carruagem. e quando teve a certeza de que ia passar o manicômio. Entre. ainda sem abrandar. — Leve-me aos Peelers. — Minha jovem senhora. Pode não ser!. com uma carruagem escura atrás. ajude-me! — gritou. que estava ainda quente .

por favor! Parta! — gritou com urgência do interior da carruagem.por causa do cavalo e cheirava ao seu anterior dono. e incitou os cavalos a avançar. — Claro. . — Parta. Menina Alaizabel — disse Stitch-face em voz muito baixa.

— Por que é que não estás no santuário. mulheres e crianças sob sua proteção. fazendo Lorde Crott saltar. e não havia nada que pudesse fazer para evitar fosse o que fosse que a Irmandade andava a preparar. — Sangue de prostituta! — praguejou com o susto. tornando-se agora óbvio que dirigia a questão a Cathaline e Thaniel que estavam sentados à frente de Crott e Armand. . a tentar encontrar-nos a garota? Ultimamente Crott andava cada vez mais agitado.CAPÍTULO XIX ~ Os Pedintes Preparados para a Guerra O Inevitável Acontece ~ — Sentem? — indagou o Rapaz-diabo. A espera interminável deixara-lhe os nervos em franja. — Sentem o quê? — perguntou Crott antes que Cathaline conseguisse responder. depois voltavam aos seus pratos. depois virou-se de lado. Crott começava a ceder gradualmente sob a pressão da responsabilidade. ao aparecer como um fantasma ao lado da mesa. Alguns no salão de banquetes olhavam-no com uma expressão preocupada. tinha centenas de homens. e a sua aparência calma e despreocupada começava a desaparecer. — Sentem? — repetiu Jack. a escuridão que ele sabia que viria.

Aha-ah-ab. —. — Interessa-me a mim! — gritou Thaniel. Já o fizeram? — Sem dúvida — previu Jack. — Não interessa. e a Irmandade tem o espírito que lhe interessa. A morte de Leanna Butcher tornará o seu plano realidade. Risos. não sabia.. e abordava o seu posto com seriedade. comida. O resto do mundo podia cair no abismo que ele pouco se importava. Crott olhou distraidamente para o salão de banquetes. pândega. Alaizabel foi levada pela Irmandade.. no alto salão de pedra. a Ratazana-Mor. Sentiu que os estava a deixar mal. — Senti qualquer coisa. Os presságios. Armand deu a sua estúpida gargalhada. os seus membros estar tortos ou não existirem de todo.. Não era um . nunca tirando os olhos de Jack. Ele era o seu guardião. — A Destilação de Chandler. Nunca esperei sentir a força daquilo. — Ela não interessa para nada. Cathaline pôs a mão sobre o seu braço. tudo sintomas do mal que estava para vir.E Alaizabel? — perguntou Cathaline. Era uma noite como todas as outras. mas os seus corações eram iguais aos de todos os outros. — Não fui capaz de a localizar — respondeu com uma voz áspera.— A Irmandade tem Thatch — disse Cathaline. agora. As suas faces podiam estar marcadas por cicatrizes e deformadas. a grande vida dos pedintes. Temos de nos preparar. A Irmandade tem mais poder do que imagináramos. mas. afastando o seu prato de comida. mas não as suas pessoas. empalidecendo. a Febre Escarlate. — Sabes onde foi realizada a Destilação? — inquiriu. levantando-se. — Encontraste-a? O Rapaz-diabo virou-se para ela..

avisando-os para estarem preparados. Mensageiros foram enviados aos outros três Reis Pedintes. e muitos tinham já perecido mesmo no seu interior. Verificaram-se armadilhas. Mas qual era a natureza do mal. Foram enviados guardas para os esgotos. Crott não quisera dar a ordem até ao último momento. Havia os Peelers. As tocas que percorriam o chão sob as ruas sempre estiveram prontas para a guerra. que sempre . e tratando-se de pessoas supersticiosas. tendo testemunhado por si mesmas os portentos malvados que se espalhavam pela cidade. embora. elas acreditavam no mal. pois os seus inimigos eram muitos. mas acreditava na Irmandade e acreditava nos seres-bruxa. O bando de Crott foi informado. A palavra espalhou-se de madrugada. ninguém sabia. Para as pessoas das Vielas Desonestas era suficiente que o seu Rei lhes tivesse dado uma ordem. vigias para os locais mais altos. Os pedintes viviam num estado de alerta permanente. O mal está a chegar. felizmente. trancaram-se portas. O mal está a chegar. principalmente quando não sabiam do que estar assustadas. A Febre Escarlate espalhava-se a grande velocidade fora das Vielas. pelo que se podia ver. era o murmúrio que se ouvia por todas as Vielas. espiões para as ruas. pois sabia que o pânico e a desordem nunca andavam muito longe quando as pessoas estavam assustadas. e muitos deles sentiam-se aliviados só de estarem a fazer qualquer coisa para se opor. contando-lhes o que se estava a passar. E sabia aquilo de que ambos eram capazes. construíram-se fortificações. comandados a esquecer as suas funções nas ruas durante os próximos dias e a prepararem-se para a guerra. não tivessem infectado quaisquer outros. Sabiam que os tempos que agora chegavam eram negros.homem que acreditasse em Deus.

claro. Tinha de ser assim. e os seus recantos mais profundos seriam tão impenetráveis como a Torre de Londres. mas o cansaço que lhe caíra sobre os ombros não seria resolvido com um tratamento tão inconstante. que foi apagada quando ela se tornou no alvo final de um demoníaco puzzle de juntar os pontinhos. Um casamento infeliz com um homem insensível e indiferente. Cedera a umas quantas horas de sono. Chegara a essa conclusão através da carta que trazia no bolso. Sentia-se o cheiro da morte sobre ela. aqui e ali. Fora raptada e levada em segredo para as Vielas Desonestas. Ninguém sabia onde ela estava. um amor proibido.tinham tentando livrar as Vielas Desonestas da sua praga de habitantes. e. era uma coisinha pálida e frágil. em algum lugar em Londres. uma confissão terna e sentida dos sentimentos de um homem. Tinha desaparecido. Era a única luz brilhante na vida monótona de Leanna. A respiração de Leanna Butcher. Tudo o que Cathaline sabia sobre ela era que se tinha envolvido num romance. os outros Reis Pedintes. medido pela respiração mais do que pelos segundos. as Vielas estariam tão completamente preparadas como alguma vez poderiam estar. Ne- . os seres-bruxa. Cathaline regressou para a divisão fria e esterilizada como uma traça para a luz. um trabalho numa fábrica de enlatados. cuja permanente luta por território e vantagem tinha como conseqüência uma constante proximidade com o conflito. Aqui. Em menos de vinte e quatro horas. Leanna Butcher: completamente insignificante em todos os aspectos. o tempo parecia abrandar. tornando-se cada vez mais inconstante à medida que se aproximava do fim.

e quem é que dava um tostão pela vida de uma pobre mulher como Leanna Butcher quando existiam milhares como ela para encher as caixas. por razões que ela não conseguia explicar. e onde havia dinheiro havia homens de negócios. fuligem e um ganância horrível. os criminosos. as intermináveis novas invenções. inveja e ódio. o novo mundo da ciência. e só uma pessoa se preocupava o suficiente para estar ao seu lado quando isso acontecesse. Por isso ali jazia. Por que é que não deixou o seu marido? Por que é que não tentou ser feliz? Por que é que se deixou ficar esmagada e subjugada? Sentia que conhecia esta mulher. identificara nela muitos pormenores. Cathaline lera várias vezes a carta. mexer a lixívia? Cathaline sonhava com os tempos sobre os quais . Homicídios. moribunda. bem. a sua forma de ratinho.. as suas roupas e chapéu castanho-claro. isso seria perfeito para eles. conhecia-a pelas suas feições chupadas. As fábricas cuspindo sujeira. Que coisas cruéis e maldosas são as pessoas. pensou Cathaline.. Tocava-lhe no coração. para eles. não se interessam. Estavam guardas do outro lado da porca. E aqueles que sabem. e nem uma centena de pessoas sabe que as suas vidas podem ser preservadas um dia mais por causa desta mulher. Com as suas ambições e ganância e ignorância. Estava a morrer por eles. horrível.. Às vezes odiava a cidade. nada. mas para além disso.. trabalhar nos teares. se continuasse a respirar mas nunca acordasse.. As fábricas traziam dinheiro. Só Cathaline. Só lhes interessa que o seu coração continue a bater. e havia a visita ocasional do médico. Nesta manhã. os modos rígidos. era esta a face da Idade da Razão.nhum hospital a podia proteger dos seres-bruxa. toda a cidade continuará com os seus afazeres..’a pessoa mais importante do mundo. sozinha. Se nunca acordasse. A insignificante Leanna Butcher era agora. a mulher e a carta. Porcaria.

Leanna a pudesse ouvir e ficar contente por alguém a amar. do pior da humanidade. Os seus olhos encheram-se de lágrimas. e só os aristocratas é que passavam os dias a discutir como se matarem uns aos outros enquanto o homem comum continuava com a sua vida. Sonhar com um lugar que não fosse assim. Pegou na mão fria e seca de Leanna Butcher e leu-lhe a carta pela centésima vez. Por qualquer razão. Ela esperava que. tempos de aldeias. agora que a escuridão se preparava para os engolir? O que seria de todos eles? Ainda estava a segurar a mão de Leanna quando ela morreu. Acabou a carta. tempos de pessoas do campo. esta amálgama. O que seria deles agora. tais tempos nunca existiram. como se pudesse ver através dele. e olhou para o teto da sala escura. em algum lugar. mas podia sonhar. ela sabia que Leanna estava prestes a morrer. ver o céu e o nascer do Sol. . poluída e agitada. Sonhar com um mundo sem seres-bruxa. disse a si mesma. Tempos em que as pessoas se preocupavam umas com as outras. sem alma. trabalho honesto e de lareiras quentes. Provavelmente.lera.

um turno entrava. os vendedores ambulantes de bolos. os sapateiros e os procuradores. Leitores de palmas e adivinhos. os jogadores e aqueles que gerem as salas de ópio nas Docas. A manhã nascera. Um turno saía. pelo menos os genuínos. Por toda a cidade de Londres. O pessoal da noite foi descansar. deixando tudo escuro e brilhante. As pessoas levantaram-se como de costume. as prostitutas. bebes choravam desesperadamente. Só os inocentes e os sensíveis é que percebiam o que se estava a passar. e as pessoas comentavam como era estranho a cacofonia animal se fazer ouvir à . gatos miavam. encolhidos. a cidade seguia como normalmente.QUARTA PARTE A ESCURIDÃO CAPÍTULO XX ~ Portentos Terror Noturno O Primeiro Dia de Escuridão ~ A catástrofe chegou lentamente a Londres. cheios de medo. ignorante do horror que se aproximava. os condutores de elétricos. Cães uivavam. cobrindo de chuva as ruas sujas. fecharam as lojas e ficaram em casa.

em direção à capital. Por esta altura só os mais ignorantes ou aqueles que melhor se concentravam na recusa do desconhecido é que não sentiam o descon- . As Ilhas Britânicas estavam cobertas de nuvens. fazendo a chuva cair em diagonal. O núcleo do furacão. aproximando-se progressivamente do interior. Londres era o centro de uma enorme e rotativa monstruosidade de nuvens. porquê? Por que era que o alto e súbito lençol de nuvens se movia para oeste. Então. que só de cima se poderia apreciar totalmente. O céu brilhava e explodia com uma raiva terrível. Soprava um vento forte de oeste para este. em direção a Londres? Foram feitas observações semelhantes também para norte e para sul. Se alguém tivesse conseguido levar um balão de ar quente até à estratosfera. mais alto do que alguém alguma vez fora. mas nunca se tinham comportado desta forma. como era habitual nesta altura do ano. contra o vento.distância. onde as nuvens se moviam perpendicularmente ao vento. consequentemente. como água a descer um ralo. aumentando a fúria da chuva e atirando relâmpagos bifurcados sobre a cidade. poucos se aperceberam de que a massa que os sobrevoava começara a rodar lentamente. A dimensão do fenômeno foi tal. Parecia que Londres estava a aspirar as nuvens numa enorme espiral. A chuvada foi tão forte que escondia as nuvens que se encontravam sobre ela e. poderia ter olhado para baixo e visto algo nunca até então observado. até no centro da cidade. A tempestade começou a meio da tarde. Foi em Margate que as pessoas primeiro se aperceberam. O corpo enorme e sombrio rodava de forma maciça.

Só as mulheres discutiam esses medos. fazia com que sentissem arrepios na espinha e com que as suas mãos tremessem. O nevoeiro aglomerou-se nos becos e espalhou-se pelas ruas. num tom vermelho-forte. mas terrivelmente real. Saíram do Metropolitano. Assim eram as coisas. mas a chuva continuava forte de mais para se ver o que estava acima. abrindo caminho pelas portas trancadas das estações. refletindo a sua luz em linhas onduladas sobre os rios murmurantes que corriam uns atrás dos outros pelas ruas. do outro lado do Tâmisa. E com o nevoeiro vieram as hordas de seres-bruxa. as pessoas começaram a reparar no brilho avermelhado do céu. Mesmo antes das oito. os homens guardavam-nos dentro de si. para as ruas em ruínas e destruídas pelas bombas. a noite caiu. Algo de primitivo nas suas almas dirigia-se a eles. De súbito. por fim. Às seis. mais forte a sul. Brilhavam de forma pálida. andando sempre à volta. as pessoas de Londres perceberam que o seu desconforto não fora mera imaginação. o céu brilhava carregado de mal. Mexia-se como um lento redemoinho de sangue. pendendo sobre a Zona Antiga. Escurecera de tal forma que às quatro da tarde os candeeiros a gás foram acesos. as pontes que atravessa- . com faíscas de relâmpagos secos saindo do turbilhão e dirigindo-se para baixo. ribombando e rosnando.forto e o ligeiro medo que assentava sobre eles como cinza. Pois ali. Atravessaram o Tâmisa. dizia-lhes que algo de anormal estava a acontecer. ficando completamente negro aquilo que já fora um dia escuro. e. estava o centro da espiral de nuvens que se espalhava pela terra. e no seu centro. a chuva começou a enfraquecer e acabou mesmo por parar. Por trás das nuvens.

vam o rio ficaram sem guardas e os portões encontravam-se escancarados. completamente direito. que passava sob as suas janelas até ser tarde. e com eles caçavam os lobos. muito enrugada. passaram para o norte de Londres. Os seres-bruxa mexiam-se com subtileza. que estava deitado. ainda a dormir. que se encontrava de gatas. Perseguiam e moviam-se rapidamente. Quando o lençol branco se soltou e caiu. mas ninguém fazia idéia da onda insidiosa. Claris Banbury. nua. Claris suspirou e voltou a cair sobre a cama. Na sua cama. e aí espalharam-se como uma praga. O coração de Claris. saíram das sombras. Talvez duzentos tenham sido atacados na primeira noite. Sem pressas. tarde demais. ela viu com horror que ele ainda tinha os olhos fechados. como se regressasse ao sono. Passaram pelas barreiras como fantasmas. fétida. em Chelsea. planando silenciosamente no ar. silenciosa e furtivamente. com patas em vez de pés e uma longa cauda abanando atrás dela. As primeiras áreas a sofrer foram aquelas mais próximas do Tâmisa. Era uma velha. novas ruas para vaguear. parou por completo ao ver a Égua-da-Noite a pegar no seu marido. cada um com as suas próprias necessidades e intenções. que sempre fora fraco. encontrando novos buracos onde habitar. . Levou algum tempo. com um longo cabelo desalinhado cobrindo todo o seu corpo dobrado. viu a coisa que se escondia nas sombras do canto do quarto. acordou com um grito para ver o marido subir de debaixo dos lençóis da sua cama. Novas vidas às quais pôr fim. somente visível sob o olhar enevoado de sono. Ainda aos gritos. torcida. passaram por baixo das portas. coisas semivistas. mulher de um publicitário.

pois os londrinos não gostavam muito do seu povo desde o Vernichtung. estava envolvido no projeto de encontrar um cadáver fresco para as experiências de um médico particularmente ambicioso quando passou por entre a lua e a sepultura de Kitamina Forrest. Cemitério Stepney. com túmulos e placas comemorativas das vítimas do Vernichtung. aqui. Era um fato pouco conhecido. não se apercebendo de que já estava morto. cujo nome verdadeiro era Boris Dunkel. pling. um ladrão de sepulturas de alguma reputação. até ser engolido pelas sombras lá em cima. pling. pling. e por isso avançou. um pedaço de relva espalhada entre quatro paredes. Foi poupada às lentas e constantes gotas de sangue que começaram a molhar a cama. A experiência ensinara-lhe a disfarçar o seu sotaque. graças a um qualquer truque da geografia. sonhando que estava a voar. e ele vivia sob outra identidade para evitar os espancamentos ocasionais que sofrera nos anos que se seguiram aos bombardeamentos da cidade. deixando atrás de si. nas mãos do ser-bruxa. um imigrante dos estados tectônicos. mas Corbis nunca ouvira falar em ghasts. Amargamente. quando tinha oito anos. pintando os lençóis brancos com chocantes flores vermelhas. a filha muito jovem de um aristocrata que não resistira à poliomielite. Barrow Smith. que os ghasts preferiam os túmulos de crianças para se esconderem.Não viu o marido a continuar a sua subida suave para o teto. mesmo aos estudiosos da bruxaria. a sua sombra formada pelo luar. Corbis Tallow. ele odi- . não encontrara uma vida fácil em Londres. O nevoeiro que assolava a cidade não passava de uma ligeira névoa.

Terá havido uma altura em que ele se teria imaginado a encontrar um cão magoado. Quinze anos. o nevoeiro dançando em volta dos seus pés. Boris olhou. Fora-o desgastando progressivamente. levando-lhe primeiro a dignidade. Ele escutou. e ele apercebeu-se de que o cão estava no interior do buraco. tendo passado o fim da tarde e o princípio da noite agachado num beco. O ganido do cão ecoou misteriosamente pela charneca fantasmagórica. que o fizesse sentir outra vez um bocadinho humano.ava agora a cidade para onde viera há quinze anos. Um terceiro som. a acarinhá-lo até o cão recuperar. e o que é que ele tinha para mostrar? Só se tinha a si mesmo. incapaz de dormir por causa do frio que lhe espetava agulhas de dor nas articulações artríticas. Não testemunhara o fenômeno estranho e de aspecto malvado que sobrevoava a Zona Antiga. Mas a sua imaginação já há muito que tinha desistido. Só quando o nevoeiro caiu é que decidira vaguear. como o de uma criatura sarnenta pedindo qualquer coisa. esperando que em algum lugar neste pedaço de terra molhado e desolado estivesse a há muito aguardada reviravolta na sua sorte. depois a sua casa. por isso não conseguia pensar em nenhuma razão por que . Por isso caminhava. um esfarrapo de homem. a ter um companheiro para alegrar os seus dias nas ruas. e via vagamente um lugar onde a terra se dobrava sobre si mesma. assustando Boris. sem visibilidade para o céu. depois o trabalho como secretário de um advogado de Bond Street. abrindo uma pequena caverna de terra com as raízes de uma árvore próxima a segurá-la. sem saber para onde. vagabundeando-se soturnamente sobre uma charneca nas zonas subdesenvolvidas de Poplar. e uma vez mais ouviu-se o queixume miserável.

a corda balançando de forma constante. Jimley Potter. perito carteirista com a idade de doze anos. De início tinha os olhos virados para baixo. Ele estava a dormir. mas . Havia uma criança pequena junto à forca. e Boris apercebeu-se de que o que quer que fosse que estava a fazer aquele barulho. roubar as carteiras de outras pessoas. Ele conseguia ver que ela era totalmente careca. coberto pelo seu casaco num armazém abandonado. — Anda lá. uma rapariguinha envergando um vestido preto de funeral. a não ser o fato de sentir um estranho desejo por fosse o que fosse que estava lá dentro. rapaz — disse. e uma capa preta com um capuz que cobria metade da sua cabeça. era um trabalho bastante recompensador. O ganido tornou-se mais profundo. não era certamente um cão. Não era uma má vida. onde é que estás? Agachou-se diante do buraco. que era especial porque tinha um outro elemento. — Aqui. Ele tinha sonhos freqüentes com a forca. vá. o Facas. Então. Tirando o risco profissional de poder ser enforcado.se dirigiu ao buraco. num perfeito sotaque londrino. transformando-se num rosnar. Uns olhos brilhantes observavam-no. um sono agitado. uma forca erguendo-se solitária nas charnecas do Yorkshire. era um rapazote de rua sob os serviços de Pete. na companhia de seis outros rapazes da mesma idade que formavam o resto do bando de Pete. guardar uma parte e dar o resto ao velho Pete. tal como não se iria lembrar deste. e esse erro acabou por lhe custar a sua miserável vida. mas nunca se lembrava. Era com o nó do carrasco que ele sonhava agora.

Era uma coisa alta. A propriedade era fruto de uma ajuda de um cliente agradecido. horrível. Avançando como um sonâmbulo por entre o nevoeiro. Só mais tarde nesse dia é que a Febre Escarlate se começou a fazer sentir. envergando roupa esfarrapada. . teria reparado que dava sempre três voltas à casa antes de largar a pedra. mãe e prostituta. conhecida no âmbito da ciência-bruxa como deildegast. vivia no andar superior de uma casa com dois andares. com uma grande pedra redonda e brilhante nas suas enormes mãos. três vezes que se afastara e regressara com uma nova pedra. Há vinte minutos que via o ser-bruxa a andar em círculos à volta da sua casa. espreguiçou-se e levantou-se para ir tomar o pequeno-almoço. caminhou em volta da casa. Ele fizera fortuna com uma série de negócios pouco escrupulosos nas áreas era desenvolvimento de Londres. Frannie Best. ele estava a dormir profundamente. e a sua face tão fria como uma sepultura. que era também senhorio e vivia no andar inferior com a sua esposa. Já parara para pousar a pedra três vezes. Tinha a forma de um homem estreito e alto. e se Frannie tivesse contado. cada vez num dos cantos da casa. Nessa manhã acordou como de costume. ele conseguiu ver que a sua íris era vermelha como sangue. Erguia-se só.quando o olharam. lúgubre. com a cabeça inclinada para baixo e os ombros abatidos enquanto transportava o seu fardo. ouvia o raspar suave dos seus pés. Frannie não sabia o que fazer. jogando com os limites da lei de propriedades para fazer lucro. Lá em baixo. via-o progredir lenta e estranhamente. uma pequena ilha no centro de uma confusão particularmente apertada de ruas de traseiras. Lá em cima.

enterrando o senhorio e a sua mulher. o seu medo do ser-bruxa suplantado pelo medo de ficar dentro daquela casa quando a última pedra fosse colocada. o seu brilho enfraquecendo até se tornarem outra vez em meras pedras cinzentas. Desde que as forjas continuassem a funcionar e o Sindicato os . A escuridão era afastada pela luz infernal das fornalhas. Grandes recipientes cheios de metal fundido fervendo como lava. a criança começando a chorar nos seus braços. as suas forjas nunca arrefeciam. Os homens envergavam apenas coletes. todas sujas de suor e porcaria.Agora. para dizer o mínimo. capacetes e calças resistentes. Nas paredes pretas caíam longas sombras de martelos a subir e a descer. As grandes fundições de Fulham nunca dormiam. mas o preço a pagar era um calor abrasador constante que fazia o corpo dos trabalhadores escorrer suor. sibilando à medida que era deitado sobre longas valas de ferro que o encaminhavam até enormes moldes. a arrastar-se sobre os carris. que faziam um ruído semelhante ao de correntes de ferro. pegou nela e saiu a correr. Saiu porta fora. a casa gemeu e caiu. Correu para o quarto da sua filha de dois anos. O deildegast colocou a sua última pedra no último canto e desapareceu. mas os trabalhadores eram de uma estirpe dura e não eram dados a conversas inúteis. Ouvia-se falar por toda a fábrica da coisa malvada que sobrevoava a Zona Antiga. e Frannie entrou em pânico. de grandes correntes a serem puxadas e de recipientes. aproximava-se do quarto canto no final da sua terceira volta. deixando somente as pedras. Um momento mais tarde. por isso a especulação foi parca. Desceu as escadas.

Era um enorme caldeirão de uma liga de metal negra com um bocal recortado como o de um jarro. e uma vez lá. eu vinha dar uma vista de olhos. — O que é que foi. Ele pisou-a. a escuridão. até onde o cadinho pendia como um ídolo a um deus do fogo. esmagando-a sob a sua bota. Bert apontou para o centro da mistura brilhante. junto aos seus pés. altura na qual transportariam o metal fundido até aos moldes.protegesse contra os homens de negócios que gostariam de lhes tirar o emprego e de lhes baixar o ordenado. Era um homem rechonchudo e começava a ficar careca. o que era o mais próximo de felicidade que qualquer destes homens alguma vez alcançava. esperando o momento em que o cadinho seria inclinado. e com correntes pendendo sobre ele. . — O que é que tem o cadinho? — Se fosse a ti. Amon. Amon limpou os restos da barata de debaixo das suas botas e seguiu Bert até onde este o levou. — Então? — É o cadinho. Passava das três da manhã quando Bertlin Creel se aproximou do seu contramestre com uma expressão preocupada na face. eles estavam contentes. atravessando os ruídos. Nunca acreditadas em mim. mas os seus braços pareciam troncos e era tão forte como qualquer outro homem da fábrica. Várias valas de ferro encontravam-se por baixo. Bert? — disse o contramestre. Subiram os inseguros degraus de metal até ao topo. onde o calor era mais abrasador. o recinto de trabalho. sem tirar os olhos da barata que fugia ao longo do metal.

a única coisa que conseguia ver eram as pequenas ilhas negras de impurezas que flutuavam no alto da fornalha.Amon olhou com atenção. No metal fundido que se encontrava a uma temperatura de várias centenas de graus. De início. mas conseguia perceber.. O que era impossível. aquilo que estava a acontecer. estalam como vidro quente sob água fria. — E o que é que acontece depois? — inquiriu Amon. — Diz-lhes que não existe tal coisa como uma Salamandra. — Ninguém sobreviveu para contar a história — retorquiu Bert. Atnon estudou-a mais cuidadosamente. esperando a sua reação. seja ela o que for. — Vejo alguma coisa. Estudou-a por algum tempo. pela forma como se mexia. Aquecem tanto que quando saem. agüenta aí os cavalos! Viste aquilo? — É claro que sim — anuiu Bert.. — Os rapazes acham que é uma Salamandra. impossível de ser identificada. — Acho que é. Amon manifestou impaciência com um ruído. despejem aquele metal e tirem aquela coisa de lá. Nadava como uma lontra ou uma foca. — E uma coisa que vive no fogo. — O que é uma Salamandra? — perguntou este. Amon —. observando-o a ele. — Vê-lo? — perguntou Bert.disse Bert. e a sua visão foi atraída para aí. — A maldita coisa tem andado a mexer-se aí em baixo há cerca de cinco minutos. Percebeste? . Era apenas uma mancha negra. Peguem nos moldes. lá isso é certo — respondeu Amon. Também ali estavam outros trabalhadores. incerta. mas então algo se mexeu bem no interior do caldeirão.

— Certo — acedeu Bert. Às cinco horas da manhã. Se é que se podia chamar manhã àquilo. O fumo subia aos céus como um manto vindo das zonas da cidade que ardiam. as fundições de Fulham explodiram. das pessoas que saíram para as ruas em direção ao trabalho. o tracejado delicado dos vasos capilares rebentados a surgir para transformar a pele num. e vagas coroas de fogo podiam ser vistas em terraços e parques. Quando chegou a manhã. pois o céu estava tão sobrecarregado de nuvens que os melhores esforços do sol só conseguiam produzir um lusco-fusco. Battersea e Hammersmith. e só os pequenos bonecos que lhes pertenciam restavam agora sobre as almofadas. feliz por alguém ter decidido o que fazer. A Febre Escarlate estava por todo o lado. lançando uma chuva de fogo e meteoritos ardentes que alcançou Chelsea. Os cavalos das carruagens foram massacrados por alcatéias de lobos. e não parecia ser infecciosa de uma forma normal. cada vez mais e mais pessoas vendo as linhas vermelhas quebradas a surgirem por todo o seu corpo. puzzle. Londres apercebera-se de que o tumor da Zona Antiga rebentara e espalhara o seu veneno. As pessoas escondiam-se ou trancavam-se nas suas casas. numa noite afetara mais pessoas que em toda a semana anterior. O dia já não fornecia qualquer descanso aos seres-bruxa. As fábricas viram o seu pessoal entrar em pânico ao observar coisas agachadas por entre as vigas. ou a- . Atacava sem qualquer padrão ou lógica. contudo. muitas nunca lá chegaram. Crianças que se queixaram durante a noite de que havia qualquer coisa debaixo das suas camas desapareceram nessa manhã. dando origem a fogos que se espalharam vorazmente até ao nascer do Sol.

a maior parte não. .bandonavam a cidade o mais depressa que podiam. Londres vacilou e temeu a noite que se avizinhava. Os cocheiros pareciam desorientar-se no caminho e davam por si numa estrada que voltava ao centro da cidade. Outros descobriam à sua própria custa que havia coisas inomináveis à espera nas estradas principais para sair de Londres. Alguns conseguiram. Isso foi a primeira noite e o primeiro dia escuro. sem nunca ter atingido o brilho do dia. Quando o lusco-fusco voltou a transformar-se na escuridão total.

Sentia-se fraca devido à fome e ao cansaço e tremia por causa do frio que se sentia naquela sala vazia. De um horror para outro. Como é que podia ter acontecido uma coisa daquelas? De todos os salvadores que podiam ter passado por ali naquela gélida noite de Novembro. mas lá fora ainda era de noite. A sua respiração transformava-se num bafo visível assim que lhe saía da boca. um lobo uivou e do outro lado veio a resposta de uma alcatéia. As portadas que cobriam o retângulo negro que era a única janela deixavam passar por entre as farripas a pouca luminosidade cinzenta que havia para mostrar.CAPÍTULO XXI ~ À Mercê do Stitch-face O Cerco das Vielas Desonestas Reunião ~ Alaizabel encontrava-se sentada na frágil cadeira de madeira da sala escura. aquele que lhe salvou a vida tinha de ser o mais voraz assassino em série da cidade de Londres? Que tipo de forças é que . por isso não podia ter passado muito tempo. Parecia que estava ali havia horas. Tinha os pulsos em carne viva de os roçar contra as cordas que os prendiam às costas da cadeira. a sua cabeça pendendo para a frente e o cabelo louro caído sobre a face. pensou. Quando é que chegará ao fim? Stitch-face. À distância.

e olhou para cima. nem mesmo ela. Não havia qualquer parte do seu corpo visível a não ser a curva dos seus lábios e os seus olhos frios. — Bom dia. Sozinha. Alaizabel reprimiu um som de medo que ameaçou sair da sua boca. era superior a isso. Envergava uma botas de cavaleiro. vendo-o a ir ali salvá-la. sem nunca vacilar. mas eram esperanças falsas. mas ela não se deixava cair em sentimentos de autocomiseração. Mas não. filha — disse a máscara-cadáver retalhada sobre a qual caíam belíssimas madeixas de um cabelo castanho morto. agora. mortos. pensou. Manteve os olhos fixos nele. com a faca diante de si. Ouviu o som de uma chave pesada a rodar na fechadura. uma vez mais. luvas de cabedal e um sobretudo. A pesada porta de madeira abriu-se e Stitch-face apareceu. Nessa altura. Havia pelo menos isso. colocou-a diante dela e sentou-se. Ninguém sabia onde ela estava. Alaizabel Cray. mas ela ainda respirava. não seria como uma criança amedrontada. ela não cederia ao desespero. com uma enorme e afiada faca de mato numa mão. Ela era ela mesma. Ele entrou na sala.estavam a conspirar contra ela? O que é que ela fizera para atrair tanto mal sobre si? Talvez esteja a sofrer pelos pecados dos meus pais. O terrível cansaço que se apoderava dos seus ossos estava a enfraquecer a sua força de vontade. Stitch-face tinha-a. pensou em Thaniel e durante algum tempo deu asas à imaginação. Ele trancou a porta e guardou a chave no bolso. Pegando noutra cadeira. com o colarinho puxado para baixo. Se tinha de morrer aqui. . com um aperto no peito. livre do espírito sombrio que a habitara.

Não fazia diferença.. Ele tirou a faca da garganta dela. Acabou de me dizer pelo tom da sua voz. A faca de Stitch-face encostou-se ao seu pescoço assim que ela tremeu. nessa altura ela morreria e o plano da Irmandade seria sabotado. — Por favor. Menina Alaizabel — disse Stitch-face com um suspiro. Ela ficou rija como uma tábua. — Onde é que está o espírito-bruxa. Ainda não fazia idéia do que Stitch-face pretendia. Alaizabel manteve a sua face inexpressiva. gelada de terror e repugnância. sem dizer uma palavra. — começou Alaizabel. — Suponho que a Irmandade a tenha. Ele inclinou-se para a frente e esticou a mão.. Menina Alaizabel. mas a sua garganta encontrava-se seca e o único som que saiu foi o da sua respiração difícil. fingir ter Thatch dentro de si podia significar que ela mantinha a vida. — Como é que sabe que não está? — Isto era tanto uma pergunta como um bluff. Menina Alaizabel? Por que é que já não está consigo? — Como. bateu com ela no lado da sua própria cabeça e depois voltou a sentar-se na cadeira. Ela recomeçou. passando sobre a linha do maxilar de Alaizabel. . pare com estes jogos. não? — O que faria se eles a tivessem? — questionou ela. abri-la-ia como a um peixe.insistiu. — Eu sei. — Não tem a bruxa consigo —. mal se atrevendo a respirar. Ou que a perdia. corajosamente. — Bastar-me-á dizer-lhe que se ainda tivesse a bruxa dentro de si.Ela esperou. aqui e agora.

Tenho outras preocupações. Venha. onde se via lixo e pedaços de coisas espalhadas por todo o lado. Relâmpagos brilhavam e ziguezagueavam. Agora. quase demasiado baixo para ser audível. Para lá desse terreno estava a cidade. Não havia ninguém a uma distância suficiente para a ouvir gritar mesmo que tivesse aberto as janelas. infelizmente. É um bocadinho nova demais para ser cortada. Veja por si mesma. minha filha. pois eu fora lá para a encontrar e matar. não acha. Uma parte ardia. cheguei tarde demais. lamentos e sinos a tocar. acertando nas ruas e acendendo . eu ter passado por ali esta noite? — perguntou. abrindo-as completamente. pensando apenas na ponta afiada ali tão perto da sua pele. e sob tudo isso um burburinho distante. Não tenha medo. e dirigiu-se até à janela como lhe tinha sido dito. Andou até à janela. pegou noutra chave e destrancou as portadas. e Stitch-face afastou-se. os sons do exterior ouviam-se melhor: uivos de lobos. — Ou melhor. e para lã ainda o terrível e assustador remoinho de nuvens ensangüentadas que rodava descomunalmente naquela quase completa escuridão. deixando-a aterrorizada com o tom da sua voz. — Foi uma sorte. Mas as cordas caíram. e hoje não estou com disposição. disparos de pistolas distantes. ironia. mas. Alaizabel estremeceu de medo quando ele encostou a faca às cordas que a prendiam. Este lado da sua prisão dava para um vasto espaço de terreno abandonado. Ela levantou-se. passos a correr. esfregando os pulsos. gritos agudos de seres não-identificáveis. A cidade propriamente dita enchia-se de gritos. as chamas erguendo-se acima dos telhados e lançando grandes pedaços de cinza queimada para o ar.Ele levantou-se. Ele afastou-se da janela e colocou-se atrás dela. olhando peia janela.

Um grande Encanta- . afastando-se daquela visão. falhamos — constatou.novos focos de fogo. — Disse que era de manhã — disse Alaizabel em voz baixa. — Ainda estamos um bom quilômetro a norte do Tâmisa. Alaizabel franziu o sobrolho. ou pouco passa. os sacrifícios foram feitos. Aquelas nuvens deixam tudo horrivelmente escuro. A Zona Antiga é por baixo daquele redemoinho particularmente bonito que se vê no céu. O chackh’morg está completo. Ela desinteressou-se.. sabe. O preparar do caminho. — Não falharam — disse de repente Stitch-face. Ela voltou a olhar lã para fora. intrigada por esta nova reviravolta. — Tive uma conversa com uma senhora chamada Lucinda Watt. Virou-se para Stitch-face. Isto representa apenas uma pequena parte do que irá acontecer se falharem mesmo. esta não era uma delas. — Está tudo assim? — A maior parte — respondeu Stitch-face. ainda não. não — disse Stitch-face despreocupadamente. horrorizada. depois de a ter persuadido o suficiente — afirmou com um sorriso horrível. — Pelo menos. de morte. Ela sabia mesmo muito acerca dos métodos da Irmandade. — E é — retorquiu. o portal está aberto. Isto é apenas uma pequena amostra do poder que a Irmandade está a fazer passar pelo portal. estonteada pelo choque. — Então. e não havia qualquer chuva para os apagar. — Isto. Eles ainda podem ser parados. De todas as coisas que esperara do seu primeiro encontro com Stitch-face. — Trouxe-me para a Zona Antiga? — Oh. isto é a Zona Antiga? — perguntou. — O chackh’morg é o início.. — Dez horas da manhã.

— Ele fez uma pausa. Aterrorizada como estava. o portal está aberto. Mas sei algumas coisas acerca da Irmandade. — Alguém andava a matar em meu nome — explicou Stitch-face. Ela é a chave. Em vida ela tinha grandes poderes. Como está Londres. examinando a ponta da sua faca. — Onde os mortos estão não é nada fácil encontrar o caminho de volta para a terra dos vivos.mento desenhado com homicídios. o caminho está preparado. ganhando uma tonalidade vermelha por efeito do céu. Mas há ainda outra cerimônia. e deduzi que hou- . Alaizabel ouviu-se a si mesma a falar. — Porquê? — perguntou. minha filha. — Matar a Thatch? — A cerimônia levará alguns dias — disse Stitch-face. — Quando chegar ao fim. — Não compreendo — disse ela. e pode guiar os deuses da Irmandade até nós. Ela é mortal. Mas mesmo os monstros querem viver. — Fingindo ser eu. que lhe permitiram vencer a morte. Agora. Alaizabel mal conseguia assimilar tudo. um espírito que morreu e foi ressuscitado. Agora Thatch conhece os caminhos dos mortos. tudo está perdido. — Sou um monstro. Menina Alaizabel. Thatch é a guia. Não gosto de imitadores do meu trabalho. Ela pode morrer. A Irmandade passou décadas a preparar-se para a evocação de Thatch. Só o Rito para evocar o Rawhead levou sete anos para procurar todos os ingredientes e o conhecimento necessário. ficará todo o mundo. — Por que é que está a fazer isto? A face sinistra olhou pela janela. Ela é como o rebocador que puxa um grande navio para o porto.

então talvez me sinta tentado a fazer com ele o que fiz com a sua secretária. Por isso procurei Lucinda Watt. e caminhou até à porta. olhando depois para trás. um olhar aterrorizador. foi-se embora. — Queimem-nas! Queimem-nas a todas! Fósforos foram acesos e encostados a trapos embebidos em álcool que pendiam de garrafas cheias da bebida mais potente de Londres. olhando para Alaizabel fixamente. — E se por acaso me deparar com o homem que está por trás do plano de imitar as minhas obras de arte. bem. — Fez uma pausa. O ar fétido enchia-se de gritos e berros que ecoavam pelos túneis num pulsar constante. Destrancou-a e saiu. E depois disso. esgravatando e arranhando. — E eu não quero morrer.vesse mão deles neste assunto. O plano da Irmandade de trazer a morte para todos nós — disse. um tal de Doutor Mammon Pyke. E dito isto. As ratazanas guinchavam à medida . o ruído ensurdecedor das ratazanas enquanto passavam sobre as barricadas de improviso. Nessa altura. mordendo. Não me darei ao trabalho de trancar esta porta quando sair. — Você tem amigos.. que dava pelo joelho de um homem. e ela disse-me tudo o que sabia. falei com ela. A explosão seca das bombas de álcool foi acompanhada por uma súbita onda de calor. Sugiro que os encontre. E sobrepondo-se a tudo isso ouvia-se os guinchos.. à medida que longos carris de fogo se estendiam pelas paredes do esgoto e se espalhavam em ilhotas ardentes na água túmida. Stitch-face virou-se para o outro lado. Por isso eles têm de ser parados.

As Vielas Desonestas estavam completamente cercadas. O focinho parecia de couro e tinha uma expressão semelhante à de um cão. acertando em cheio no meio das costas da criatura. Seres-bruxa assolavam as ruas e os túneis. Eram deformados desde o interior. com dentes que seriam capazes de arrancar a mão de um homem. e tinham chegado a cavalgar numa onda de porcaria e detritos que conduziram de encontro às barrica- . As ratazanas tinham derrubado um bloqueio qualquer mais à frente nos túneis. Tinham um metro de comprimento. Por entre a horda invasora andavam os Cães-ratazana. As barreiras construídas à pressa. e nos esgotos. indiferentes às defesas e nada confundidos pelos labirintos interiores. como pequenas lanternas na escuridão. Crott atirou a sua bomba de álcool a um deles. antes de manusear a sua espada contra um grupo de ratazanas próximas que se tinham atracado à perna de um velho pedinte.que os seus pêlos pegavam fogo. patas traseiras arqueadas e pêlo negro hirsuto. feitas de folhas de metal e grelhas estavam a provar serem incrivelmente ineficazes contra a maré de roedores que aparecera naquela manhã. as garras eram arqueadas e maldosas e os olhos brilhavam com uma luz demoníaca. estas malditas ratazanas. sem contar com as caudas. só que a água também estava em chamas e elas só conseguiam aguentar-se debaixo de água durante algum tempo até terem de voltar à superfície e morrerem. possuídos por espíritos-bruxa que os envolviam e tornavam-nos enormes e horríveis. os animais-bruxa que comandavam as massas. Ficou a gozar os guinchos e saltos da criatura durante um momentos. saltando para a água.

Os esforços que faziam para se defenderem eram fúteis. Recordou a si mesmo que devia agir de acordo com a sua posição. derrubando-as. Ele aqui não servia para nada. esfaqueando as coisas peludas que nadavam em volta das suas pernas ou avançavam pelo caminho ao lado do esgoto. — Vai procurar os caçadores-de-bruxas.das. possuído subitamente por uma onda de fúria originada pela frustração. tinham invadido sem qualquer esforço o domínio dos humanos. e agarrou pelos colarinhos um rapaz pedinte que se preparava para descer as escadas em direção às ratazanas. sentindo os seus ossos a partirem-se. Nunca se sentira tão incapaz de fazer qualquer coisa. — Não te preocupes com elas agora. depois atirou a coisa mole para o lado e afastou-se. e leva-os para os meus aposentos. tresandando a esgoto e com os ombros descaídos. Conduzidas por uma inteligência obscura. para não parecer tão derrotado. Passou de rompante peia porta ao cimo das escadas. enquanto ele abria caminho no sentido oposto. Crott pegou numa ratazana pela garganta e abanou-a violentamente. dirigindo-se à batalha nos esgotos. Atrás das barricadas. O rapaz obedeceu. Despacha-te. deixando os defensores num combate para as manter afastadas. dezenas de pedintes lutavam e combatiam na água malcheirosa. Mal reconheciam o seu líder graças ao seu estado esfarrapado. Os pedintes passavam a correr pelas escadas abaixo. e corrigiu a sua postura. mas era preciso oferecer resistência de qualquer tipo. caminhando de volta pelos túneis que levavam à superfície. agarrando o seu braço atrofiado de encontro ao . rapaz — disse.

Pelo que se sabia. Não tinha qualquer método eficaz para lidar com os seres-bruxa ou com a Febre Escarlate. completamente inexpressivo. Cathaline e Thaniel já lá estavam quando chegou. — Estamos a ser cilindrados. sentado ao lado dos caçadores-de-bruxas. Queria gritar ou matar qualquer coisa. O . para ajudar o seu povo de alguma maneira. talvez por não acreditarem no seu aviso. Fechando a porta. — Como é que vão as coisas. Os sacanas estão a segurar-nos dentro do matadouro. nenhum deles enviara mensageiros em resposta. Ergueu o sobro-lho ao ver Carver. Praguejou de tal forma que até um marinheiro se teria envergonhado e abriu caminho até aos seus aposentos. não é? — De fato — respondeu Thaniel. Detetive Carver? — Deprimentes — retorquiu. Ele até apostava que agora acreditavam nele.peito enquanto corria. Nada que ele pudesse fazer conseguira travar os invasores. Não sabia o que acontecera com os outros dois Reis Pedintes. dizia mais do que qualquer palavra. para um homem com o habitual cuidado de Carver na apresentação. As ratazanas eram aquilo com que era mais fácil lidar e até elas estavam a derrotar os pedintes por uma grande margem. parando aqui e ali para dar ordens ou apoio. Estava com péssimo aspecto. Crott abriu caminho pelos escuros túneis subterrâneos. — Então — disse. de gritos distantes. o Detetive devia estar mais do que ocupado a lidar com o caos na cidade. — Isto é que é uma bela confusão. as coisas passavam-se da mesma maneira no território de Rickarack. sentou-se numa cadeira de braços que parecia saltar de dentro de um monte de armações de camas douradas e de cômodas de madeira. Estava rodeado de confusão e batalhas. E as pessoas não conseguem sair.

— Estamos a minimizar o pânico — afirmou o Detetive. — Crott recostou-se na cadeira e entrelaçou os dedos. — Estamos a enfrentar um exército. Estava demasiado cansada para ser bem-educada. um pouco por despeito. Não podemos ganhar combatendo-os aqui. um exército muito maior que . ainda não se tinha deparado com nada de maior. fazendo-o sorrir com desdém. e lhe percorria toda a Face. As suas últimas horas tinham sido passadas a lidar com todo o tipo de seres-bruxa menores. — Vocês alcançaram alguma coisa? — perguntou Crott. — Tenho uma proposta — disse Carver. Carver ignorou por completo o tom desagradável de Crott. Uma proposta. por agora. Eles estão a dar cabo de nós. mas gostava de saber o que podem eles alcançar que nós não tenhamos já feito. por um momento parou para olhar na direção em que viera o som. embora não para com Carver em particular. É a única coisa que podemos fazer. Vocês os dois são a única verdadeira arma que temos contra os seres-bruxa. coçando a cicatriz que curvava o seu lábio. — Ah.Exército vem a caminho. — Para que é que nos queria ver? — perguntou Cathaline sem rodeios. mas depois ignorou-o e continuou: — A guardar os hospitais. felizmente. e deduzo que estejam a ficar sem mantimentos e amuletos. — Quero um plano de batalha — disse Crott. — O que estamos a fazer é inútil. Ouviu-se um som de chocalho vindo de uma outra sala dos aposentos de Crott. Ainda se sentia rancoroso. — Eu sabia que havia uma razão para ter aqui vindo.

Temos de atacar os generais. Não faz sentido enfrentar os soldados rasos. o Rapaz-diabo. entrando silenciosamente como um fantasma pela porta vindo de outra sala. — Por amor de Deus. Além disso. Algum de vocês está interessado em ouvi-la? Ou preferem dar desde já a vossa causa por ina- . Fora ele quem Carver ouvira a fazer ruído. — Magnífico — exclamou Crott. Vamos perder. recostando-se na sua cadeira. Crott parecia estar habituado a que o Rapaz-diabo entrasse e saísse conforme quisesse. O centro do redemoinho.nós. — Nós sabemos — assentiu Cathaline. levantando-se. irritada. — Pensa que não ponderamos já essa hipótese? — sublinhou. estou certa de que já realizaste uma Divinação para ter a certeza? — Realizei. e permanecer vivo é quase impossível? — Exatamente o que eu estava a pensar — disse Cathaline. fazendo um movimento com a mão para indicar o mundo exterior. — Eu sei onde ela está — disse Jack. — Nunca vi homens e mulheres a cederem tão facilmente! Vim aqui com uma forma de entrar na Zona Antiga. — A Irmandade — disse Cathaline. — Sabem onde está a Thatch agora? — perguntou Carver. — E algum de vocês pensou como é que vamos entrar no centro da Zona Antiga quando caminhar um quilômetro que seja à superfície. — Estou certo de que já todos adivinharam. embora o Detetive não fizesse idéia do que ele estava a fazer. A Zona Antiga. já estão todos derrotados? — gritou Carver. Nem sequer é preciso um sentido-bruxa para sentir de onde é que tudo isto vem. — E óbvio.

ele não se atrevia a pensar isso. — Não acredito que o estou a ouvir bem. podemos seguir pelos túneis do Metropolitano e atingir até Binsbury Park.tingível e desistir? Seguiu-se um momento de silêncio de ligeira vergonha. Depois disso. Mas se Alaizabel estivesse.. pelo menos por algum tempo. ele está lá. — Quer que levemos um dirigível? — perguntou Crott. Telegrafei e exigi um piloto. Deduzo que não haja muitos seres-bruxa capazes de voar. sobrevoamos a Zona Antiga. — Quer que atravessemos o Metropolitano? — Não vou fingir que não é perigoso — concordou Carver. O aeródromo de Finsbury Park ainda está sob o poder dos soldados. — A oeste daqui está a velha estação de Caledonian Road — declarou Carver. à nossa espera. A postura do seu maxilar dava-lhe um ar determinado. Se lá conseguirmos chegar.. Até Crott se sentiu infantil no seu pessimismo. não seja dramático. Cathaline não conseguiria enfrentar o problema sozinha. — Oh. — O que está a propor parece ser um suicídio. — Mas é viável. — Como é que o fazemos? — perguntou Thaniel por fim. No Metropolitano não há tantos lados de onde podem surgir os seres-bruxa. não acreditando nos seus ouvidos. Mas depois os seres-bruxa atacaram e ele fora forçado a ficar e a defender as Vielas. com um olhar sombrio. — As Vielas chegam até muito perto dela. não. todo o seu pensamento concentrado em como encontrá-la. Carver — disse Crott. Ficara com um aspecto duro e ameaçador desde que Alaizabel lhes fora roubada. Crott — retorquiu Cathaline brusca^ .

con- . As pedras videntes eram uma mistura de antigas disciplinas rúnicas de magia e tarot. Ali. Não parecia ter qualquer problema a andar por todo o lado. um sistema complexo de símbolos que criavam imagens de grande complexidade quando conjugados. Era preciso muito estudo para as controlar. acrescentando depois para si mesma: o suficiente para saber se tu sabes alguma coisa a respeito delas. eles levantaram-se e seguiram-no para o interior da sala da qual ele viera. elas não diriam nada que fizesse sentido. brancas e elípticas. fora desenhado um círculo a giz no meio do chão. Cathaline sentia algum cepticismo em relação ao Rapaz-diabo. o cabelo caindo sobre os seus olhos cegos. — Sabem como funcionam as pedras? — perguntou numa voz áspera. e cada uma tinha de ser tratada com o seu próprio Rito. Contudo. — Esta runa mágica. gravada e pintada com tinta preta. Eram achatadas. e pedras videntes estavam espalhadas no interior do círculo. numa voz rouca. Para um charlatão ou um amador. eram extremamente específicas e não eram dadas a interpretações latas. ele era demasiado novo. — Entrem nesta sala. e cada uma apresentava uma marca. Eu vou. ao contrário das runas mágicas e do tarot. — Vejam — disse. Um saco de pele de gamo encontrava-se lá perto. caída nesta direção. — É a melhor idéia que ouvi até agora. Intrigados. mesmo sem visão.mente. Jack agachou-se ao lado do círculo de giz. sob a luz intermitente de um candeeiro a gás. — Eu também — assentiu Thaniel. — Vamos todos — adiantou o Rapaz-diabo. — Um pouco — respondeu Cathaline.

Aqui. Lorde Crott. Somos os peões dos poderes superiores. Viajamos por cima e por baixo do solo — disse. ele tinha um grande poder e um conhecimento muito superior à sua idade. — Lancei as runas mágicas antes de entrar. que encolheu os ombros. Está fadado. Thaniel e Cathaline. fazendo sinal para uma série de pedras dentro do círculo às quais Jack não fizera referência. o sinal dos caçadores.juga-se com esta. — Então levamos o Armand — disse Crott. Isso somos nós. Viagem. Esses são vocês. Thaniel olhou para Cathaline. . ou quem quer que fosse o Jack. Vamos. o Idiota e o Sacrifício. — E Thaniel e Alaizabel? — Ainda não compreendeu? Tudo está a ser decidido por nós. O que quer. — Ali. — Quer dizer que Alaizabel nos vai encontrar? — perguntou Thaniel. É o caminho. endireitando-se e virando-se para eles. Ele afastou uma madeixa de cabelo da sua cara suja e apontou para outra parte do círculo. A sua localização ajuda a adivinhar o significado das outras pedras — foi a resposta. e aquela significa Acima e Abaixo. e a sua orientação em direção aos outros significa dois. Mais três: o Arqueiro. a Terra. com um súbito tom de esperança na sua voz. O Rapaz-diabo parecia saber do que estava a falar. — O que significam estas outras pedras? — inquiriu Crott. Armand e Alaizabel. O Rei e o seu Rapaz. Detetive Carver. — São irrelevantes. decidido desde já. que querem que nós travemos a Irmandade.

Lorde! — gritou o guarda.Alguém bateu à porta. no momento em que Crott fez sinal ao guarda para a deixar entrar. que já encontrou. Thaniel levantou-se mais depressa que qualquer um deles. — Parece — disse o Rapaz-diabo —. — Uma garota está aqui para ve-lo. Já estava à entrada quando ela entrou. e depois abraçaram-se e já não foram precisas palavras. Ficaram os dois a olhar-se por um segundo. . sem dizerem nada. esfarrapada e exausta. e os seus olhos erguerarn-se para fixarem os dele.

CAPÍTULO XXII ~ O Lado Bruxa de Alaizabel Cray O Vampiro Santo As Marionetes Vêem as Cordas ~ O tempo era perturbantemente escasso. Carver disse que «fazia mais sentido». que estavam guardados e tinham várias salas suficientemente grandes para os acomodarem a todos. Jack declarou no seu estilo irritantemente vago que o alinhamento das pedras videntes favorecia uma partida noturna. e tinha havido muito poucas oportunidades de se deitarem nos últimos dias. O fato era que precisavam de dormir. e o pior aspecto daquele dia era talvez a espera. mas todos tinham perdido pelo menos um dia de descanso. mas não explicou porquê. Os caçadores e os pedintes eram pessoas noturnas por natureza. ninguém a queria adiar. A razão de Cathaline era prática: precisavam de tempo para fazer novos fios de amuletos pois as batalhas da manhã tinham-nos deixado quase sem munições. Uma vez tomada a decisão de partir. o medo antecipado era quase insuportável. Carver e o Rapaz-diabo insistiram todos para que avançassem ao cair da noite. Todos estavam exaustos. Precisariam de estar o mais alerta e preparados que fosse possível para terem hipóteses na missão que se avizinhava. Dormiram nos aposentos de Crott. . Mas Cathaline.

Facas foram Encantadas. Voltou a atirar-se para a batalha. realizando Rito atrás de Rito. mitos e lendas. ídolos de floresta canadianos em miniatura para os mendigos. apesar de aceitar as recomendações dos companheiros. não podia descansar enquanto o seu território estava a ser atacado. amuletos tratados e reagentes preparados. iam aceitar tal sugestão. — Eu vivo num campo de batalha. e quando regressou. Não havia forma de se prepararem o suficiente e pura e simplesmente não podiam transportar demasiadas coisas. o arsenal deles era uma mistura de superstições. nem o Jack. Alaizabel passou o tempo a ler. fios de amuletos cosidos. mas nem ele. ao anoitecer.Crott recusou-se a dormir. estava nitidamente exausto. gris-gris de Nova Orleans para afastar mortos-vivos. com um sorriso que parecia algo mal-intencionado por causa da cicatriz que atravessava a sua face marcada pela varíola. Pó medicinal. balas e lâminas. Menina Bennett — disse Crott. mas preparavam-se para entrar no coração do domínio dos seres-bruxa e precisavam de todas as armas que tivessem ao seu dispor. enxofre. só podiam fazer o melhor que fossem capazes e esperar que bastasse. O Rapaz-diabo forneceu-lhes o que precisavam. Cathaline sugeriu que ele ficasse para trás. Jack fornecera-lhe um livro com amostras de Encantamentos simples. Thaniel e Cathaline passaram a maior parte do dia com o Rapaz -diabo no seu santuário. . Era um trabalho desgastante. — Já agüentei muito mais do que o que estas criaturas me podem fazer. e ainda lhes deu alguns artigos do seu próprio arsenal: dardos feitos com penas jamaicanas para usar contra espectros. só dormindo quando estavam cansados de mais para continuarem. e instruiu-a para que os estudasse. No fim de contas.

permanecia. aprendeu trinta dos Encantamentos mais básicos. Nesse dia. Lá fora. um . Armand. aos seres-bruxa. bastaria uma pequena recordação para os voltar a trazer à superfície. pensou Alaizabel. mas. Só Carver dormiu todo o dia como um bebê. O que é que eu sou suposta fazer com isto? Fora deixado a Alaizabel um poder. estava com Lorde Crott. uma vez vista. Alaizabel leu. sucumbindo à pura exaustão. completamente despreocupado. Todos dormiram umas horinhas. os seus olhos ficando cada vez mais desfocados por passar tanto tempo a olhar para as formas arcaicas e perturbantes marcadas na página com tinta vermelha. e o pensamento fê-la começar a chorar subitamente. desta feita. O que é que ela me fez?. literalmente do dia para a noite. A noite caiu. as Vielas Desonestas iam-se entregando lenta. Agora sou uma bruxa. que não precisava do descanso. desorientação. disse a si mesma. a habilidade fora-lhe entregue nas mãos. mas seguramente. Estava habituada a ver coisas imaginárias e impossíveis a acontecerem nos contos de fadas. morte. Ela temia-a. Já vira Encantamentos para provocar dor. que a poderia modificar por completo. Tinha medo de pensar no que poderia recordar se passasse um mês. um ano a estudar bruxaria.Se a memória de Thatch ainda residia nela. A tempestade eclodia das nuvens com a força de um tufão. E cada forma. mas tinha a certeza de que funcionariam. Todos eles lhe tinham provocado uma imediata recordação assim que lhes pôs os olhos.

a fronteira do território de Lorde Crott. Os olhos esculpidos de Cristo observavam assim aquela coisa ímpia arrastando-se por entre os bancos da igreja.. embora fosse pouco mais do que uma sombra.dragão enfurecido com um chicote de chuva e um rugido de trovões. Mas em algum lugar . Só era visível aos olhos humanos quando a luz incidia diretamente nele. um imponente crucifixo de madeira pendia de correntes. Os fogos que tinham consumido Londres por toda a parte eram abafados sob o temporal. afastando a sujeira com um selvagem ataque de limpeza. como se não estivesse lá de todo. tão depressa provocando incêndios. Era uma criatura que se julgava viva. insubstancial. de resto era invisível. No extremo das Vielas Desonestas erguia-se uma velha igreja. água escorrendo por eles abaixo. mas a chuva lavava os seus vitrais. As suas grandes portas encontravam-se trancadas.. pois jazia desocupada há já doze anos. já inclinado para um dos lados. como lágrimas choradas pelos cadáveres que recheavam o seu interior. deixando pedaços com quilômetros de largura de carvão negro e molhado. desde a altura em que as Vielas Desonestas tinham expandido o seu território e a tinham apanhado por trás. o Vampiro Santo caminhava como sempre o fizera. A fuligem vinda de um incêndio próximo escurecera-lhe a fachada. Era o ponto mais ocidental do bairro de lata. reduzindo edifícios ao seu esqueleto. como apagando-os. atacando com uma espada bifurcada de relâmpagos. uma construção de pedra desgastada e de altos arcos góticos. No interior. Lá no alto. por entre os claustros. passando sob os imponentes pilares de arenito. A pia batismal já secara havia muito. gasto e quebrado. como um fantasma de um vampiro. diante do altar até à abside. e o altar não passava de uma mesa abandonada.

cujas inscrições tinham sido apagadas pela passagem do tempo. revelando um quadrado de luz no chão da cripta silenciosa. já a luz da lanterna se tinha multiplicado pela adição de várias outras e toda a cripta era visível. seguida de Alaizabel. já se tinha juntado à rede de túneis e becos deixados no rescaldo do Vernichtung. Já havia reclamado a vida a invasores. Desde essa altura. Quando todos finalmente se puseram de pé. Olhou em volta com cuidado antes de abrir caminho pelo estreito túnel.naquilo a que se pudesse chamar a sua mente. ele acreditava que era o guardião da igreja. que passava por entre as pedras desgastadas. os caixões quebrados e as aranhas que se espalhavam pela divisão. até à figura maciça de Armand que se espremeu pela passagem em último lugar. Rodeava-os uma decadência úmida e imóvel. mas aqueles que tinham conseguido escapar às suas garras tinham avisado os outros. semi-descobertos e semi-construídos pelos empreendedores pedintes que chamavam casa às Vielas Desonestas. Vários retângulos de pedra dominavam o chão. enchendo com um brilho indesejado o vazio escuro. todas as noites. caminhava. Ele levantou a sua lanterna. o defensor das pedras. escura e poeirenta. Crott e dos outros. Não houvera razão para o usar até agora. e assim. Lá dentro . talvez tivesse sido o meio de fuga de padres ainda preocupados com as perseguições religiosas que levaram os britânicos para a América. Até esta noite. Mexer o alçapão de pedra da cripta da igreja não era tarefa fácil. Thaniel precisou de usar toda a sua força para erguer o alçapão. vazia. Cathaline foi atrás dele. e não houvera qualquer visitante há já cerca de seis anos. mostrando as filas de prateleiras e saliências de pedra. Outrora.

— Aposto que aquele maldito está em algum lugar por aqui — resmungou Crott. Afinal de contas. um delicado globo de ouro. — Mais vale o demônio — dissera Cathaline. ela.estavam ossos que já há muito se tinham transformado em pó. alguns quase que até gostavam dele. Um telhado baixo pressionava-os. Nunca houvera razão para fazer fosse o que fosse acerca da criatura. era só uma igreja velha. Quase toda a gente das Vielas sabia. A face de Armand exprimia uma imagem infantil de medo. O longo túnel para norte cortava um quilômetro de ruas densas e perigosas. — Estejam atentos — advertiu. A toda a volta notava-se uma estranha sensação de movimento. Carver fez o mesmo. pendendo de três correntes fininhas. e Cathaline avançou com um pequeno contentor de incenso que tirou da sua maia. as aranhas e as baratas fugiam da luz em direção aos cantos da cripta. Thaniel olhou de relance para ele antes de erguer a sua lanterna em direção a um lanço de escadas decrépito e estreito que levava para o cimo. completamente aterrorizado. as ratazanas. era uma simples troca. Na realidade. Mas agora tinham de lidar com o guarda da igreja. Deixem o vampiro ficar com. Eles sabiam da existência do Vampiro Santo. entalando-os entre as prateleiras de caixões que estavam de ambos os lados. — Acendam-nos — disse Thaniel. mas o mais certo era o fracasso aguardá-los do outro lado. Ele soltou um estranho gemido. Armand continuou a balir enquanto o fumo . tocando com um fósforo e acendendo a mistura inflamável que se encontrava sob o incenso em pó.

sem qualquer janela que deixasse entrar luz.saía dos globos. — Não quero nem tentar adivinhar quantos caçadores-de-bruxas morreram às mãos de vampiros até que alguém descobrisse isto — disse. — Os vampiros odeiam isto — asseverou Thaniel com confiança. Ambos balançavam os globos cuidadosamente de um lado para o outro. Nada para além de um banco e de uma bacia. Thaniel olhou-o nos olhos. indicando que o fumo estava a fazer o efeito desejado. Era um cheiro a terra. Subiram um estreito lanço de escadas de pedra e abriram a porta que dava para a sacristia. relva e terra seca misturados com incenso. onde os padres se preparavam para a Missa. e Cathaline abriu a porta que dava para a igreja propriamente dita. — Quase que os torna menos assustadores. O cheiro de um funeral — acrescentou. Agora não estava ali nada. Atravessaram a divisão. — Lírios em pó. como pêndulos. — Só tem de os lembrar de que estão mortos. . pois fora esvaziada quando a igreja foi abandonada. permitindo que o odor subisse e os rodeasse. falando num murmúrio por causa do silêncio da cripta. olhando para Cathaline que assentiu com a cabeça. Era uma divisão pequena. — Dificilmente imaginaria que algo tão insignificante poderia derrotar seres-bruxa — comentou Crott. com um ligeiro toque acre. — E é isto que vai manter afastado o Vampiro Santo? — perguntou Crott com cepticismo. Era tão escura quanto a cripta. seco e algo monótono.

e uma mão ossuda espreitava por entre uma manga rasgada. Tinha carne em apenas metade da sua cabeça. com os bancos à direita. A igreja não era tão escura como as divisões anteriores. — Continuem a andar — aconselhou Crott. Viram-no então. — Está perto — disseram Thaniel e Cathaline em uníssono. e os sussurros que davam a entender o ataque do sol na sua pele exterior ecoavam e rugiam. consideravelmente mais contente. inclinado. os seus olhos perscrutando as sombras que se moviam no interior do edifício. exibindo um . apontando. agora que já estava fora da cripta e longe dos cadáveres. com os mantos dos santos e asas dos anjos. Os bancos estavam cobertos de sombra e o grande Cristo de madeira olhava para eles do outro extremo. as luzes das suas lanternas espalhando-se ao longo do lado esquerdo do seu corpo e exibindo-o num branco translúcido.Claustros silenciosos. arrastando-se ao longo da nave central. no extremo norte da igreja. inclinando para o chão o seu colorido. corredores com pilares e um balcão superior saudaram-nos quando entraram. — Ali está o nosso vampiro — sussurrou de repente Crott. Thaniel sentiu a pele a eriçar-se na nuca. Envergava uns trapos e farrapos. soltou o seu riso idiota. dirigindo-se às portas duplas em arco. com um pedaço de crânio a ver-se por trás da órbita do olho e os seus lábios estavam reduzidos a nada. Os altos arcos de vitrais deixavam passar um ligeiro brilho. Armand. Avançaram lentamente por entre os claustros. — Onde é que está? — murmurou Alaizabel. reagindo ao seu sentido-bruxa.

O Vampiro Santo. sem que nenhum deles se atrevesse a tirar os olhos da coisa. O brilho desvaneceu. pois as partes que não estavam iluminadas eram invisíveis. Estava talvez a uns cinco metros de distância. As partes do seu corpo que estavam iluminadas pareciam pender no ar. Meio cadáver. Lentamente. Pode ser que nos deixe passar se não o assustarmos. — Desapareceu! — exclamou. apesar da chuva. quadros achatados sem qualquer apoio. Nenhum deles tinha estado acima do solo havia já algum tempo e.sorriso de esqueleto sob um nariz destruído e uns olhos sem pálpebras que observavam incessantemente. — Não se deixem enganar. nenhum se apercebera da tempestade verdadeiramente feroz que assolava o exterior até esta se decidir anunciar com um relâmpago ofuscante e simultaneamente com um estrondoso trovão tão forte que fez Armand guinchar e Alaizabel encolher-se. conseguia não ser nem uma coisa nem outra. E tinha razão. arrastava-se lentamente e olhava em frente. com somente a largura de um dos bancos a separá-los. — Ele sabe que estamos aqui? — perguntou Alaizabel. deixando-os numa igreja vazia. O seu inimigo era suficientemente mau quando o conse- . em vez disso. meio esqueleto. Parecia não ter reparado neles. — Sabe — respondeu Thaniel. não olhava para a esquerda. Crott praguejou. para onde eles estavam. Continuem a andar. Assim o fizeram. Sentia-se a tensão no ar. iluminado por um segundo em toda a sua plenitude pelo relâmpago. desaparecera depois na confusão que se seguiu.

— Temos o incenso — lembrou Thaniel. uma catarata desastrosa de destruição acidental. A pistola de Crott saltou instintivamente do cinto. O vidro estilhaçou-se e caiu numa confusão de cor e sons. e a seguir. Viu-se o brilho de um novo relâmpago. Carver fez o mesmo. e o disparo de Crott passou mesmo por dentro dela e pelo grande vitral da rachada da igreja. O ruído trespassou-os como lâminas. Ela gritou e atirou-se para trás. um ruído mais alto do que o que alguém pudesse julgar possível saído da boca de um homem. Cathaline ergueu bem alto o seu contentor. espantado com os estragos feitos à sua casa. balançando-o em círculos um pouco maiores. e os outros aproximaram-se mais dele. que não faziam idéia de onde estava.guiam ver. mas o vampiro parou o seu ataque ao alcançar os fumos do contentor de incenso. envolvendo-os completamente no cheiro sentimental. e. de repente. O Vampiro Santo guinchou. fazendo-os aninhar-se de medo. o ar encheu-se com o barulho de um trovão a rebentar. Voltou a saltar. contra a parede. — Continuem a avançar. Thaniel estava lá. atirando a sua garra ao peito de Crott. a única coisa que se ouvia era o ruído do fio de amuletos a cair . O Rei Pedinte gritou. alcançando o seu interior e agarrando-lhe o coração como se fosse uma maçã num cesto. enquanto olhava para Crott com o seu olho bom. agitando um fio de amuletos na direção da coisa fantasmagórica. Cathaline estava a ponderar a hipótese de largarem a correr para a estirada final quando um guincho terrível ecoou pelos claustros. e de trás de um dos grossos pilares. era ainda pior. com as garras dirigidas a Alaizabel. o Vampiro Santo saltou para eles. agora. Estavam a cerca de meio caminho da igreja. A criatura já estava a recuar. disparando sobre aquele ser apodrecido. afastando-se com um silvo.

deitando cinza a ferver para cima da pele. — Por que é que o incenso não funcionou? — perguntou Carver a todos em geral. Estendeu a mão e preparava-se para falar. Ela abriu a camisa de Crott com um rasgão enquanto Armand segurava a cabeça dele. Só o Rapaz-diabo permanecia em silêncio. Todos gritavam ao mesmo tempo. Carver e Thaniel davam instruções também aos gritos. Ficara sem fôlego e por isso parara de gritar. que tentava tomar conta da situação no seu estilo policial. — Deita-o.no solo e o lamento desvanecente do Vampiro Santo enquanto este partia finalmente para o seu descanso. já Thaniel lhe passava o globo dourado de incenso. assim como Cathaline. Armand pousou-o no chão. Cathaline afastou com um encontrão Carver. uma ação surpreendentemente inteligente. sem o conseguir fazer. e atirou o globo para o lado antes de esfregar vigorosamente a cinza no peito de Crott. Ela entornou-o na mão. e não a alguém em particular. ainda aos berros. Alaizabel gritava de terror. Ficara cinzento no lugar onde o vampiro lhe tocara. Armand! Afastem-se. Crott encontrava-se ainda sem conseguir respirar. — Afastem-se! — ordenou Cathaline. Crott caía no colo de Armand. contorcendo-se e . mas antes que ela tivesse tempo para o fazer. embora não fizesse idéia do que estava a fazer. parecia ficar de boca aberta tentando inspirar. — Este idiota enfureceu-o — disse Cathaline pressionando a mão contra o peito de Crott. em vez disso. a sua voz sobrepondo-se às de todos os outros. todos vocês! Crott parecia um coelho ferido. mexendo-se e abrindo os olhos como louco. Armand juntara-se ao seu Rei soltando um estúpido lamento de preocupação.

não foi? — questionou Thaniel. respirando com dificuldade. caminhou até ao fio de amuletos e pegou nele. Vamos como ordenaram as pedras videntes. tossiu e depois deitou-se. por cima do ombro.. o Rapaz-diabo. — Vais levá-lo de volta. Dito isso.. tendo pegado fogo ao entrarem em contato com o vampiro... alteramos o rumo do futuro. quando Cathaline juntou os punhos e deu com eles no peito de Crott. — Vai sobreviver. — Não devia ter conseguido. Por agora. Não vou pôr o mundo em risco por causa de Crott. — Estão mais poderosos do que antes. — Eu vi nas pedras como isto vai acabar. Estudou-o. Se nos afastarmos da matriz definida. — Chegou a hora dos seres-bruxa — disse Jack. Precisa de ser tratado. — começou Thaniel. numa voz áspera. . — Não é esse o caminho. como eu disse! — ordenou Cathaline. entregando o objeto a Thaniel. Ouviu-se uma pancada forte. disseram-te coisas. Precisa de um Rito decente. O Rei Pedinte tentou inspirar. Cathaline suspirou e olhou para trás. — Não — respondeu Jack. aquelas que disseste que não tinham qualquer utilidade.tossindo. — Agora sabemos como lidar com eles da próxima vez — disse. Os olhos cosidos e sem alma do Rapaz-diabo não mostravam nada. — As outras pedras. Se tudo correr como deve ser. Podes levá-lo de volta. aparentemente sem se preocupar com o seu Rei. Dois Encantamentos estavam a fumegar. Rapaz-diabo. Podes realizar o. seremos vitoriosos.

Está lá quando um comentário casual leva um cientista a pensar «e se. pois se alterarmos aquilo que iremos fazer. com . e então todos os outros morreriam. Podia salvar a vida de um de nós. — Tenho de o fazer. e onde — retorquiu Jack. Está lá quando um homem pára de repente para apanhar a moeda que outro homem ali deixou cair dez dias antes. — E eu não sou o peão de ninguém. — Falo da força que criou as leis do Universo.. Ele pôs-se em pé. — Não falo de nenhuma entidade — redarguiu Jack. e quinhentos anos mais tarde os seus descendentes comandam a Terra. e essa pessoa morreria de qualquer forma. zangado. que tanto as minhas pedras como o Detetive Carver tenham chegado ao mesmo plano. — E num dos casos. e a mulher que virá a ser sua esposa choca com ele. nem de bruxa. nem de homem.— Quem sobrevive. como. — Não nos podes esconder isso! — exclamou Thaniel. Não acham estranho. independentes umas do outro? Um poder superior a nós dirige-nos contra os seres-bruxa. Rapaz-diabo! — disse Thaniel. e nós falharíamos! — Ele gritou a última palavra. — Foi-nos escolhido um caminho. quem morre. Agora não podemos voltar atrás. — Tenho de o fazer — foi a resposta gutural que se ouviu. É tão vasta que aquilo a que nós chamamos caos é somente uma outra parte da sua ordem.?» e dez anos mais tarde uma grave doença passa a ter cura. mais tarde. a improbabilidade e o acaso. assim alteramos as conseqüências.. — Não existe nenhum poder superior. a força que estabelece os padrões que os planetas seguem ao girar. fazendo Alaizabel saltar. a força que faz o tempo andar para a frente e não permite que tudo aconteça ao mesmo tempo. nem dessa entidade abstrata de que falas. As suas armas são a coincidência.

Estava com um ar acinzentado. e Crott ficou de pé. Armand levantou-o. e tinha o peito marcado com uma mancha escura e com mau aspecto. Carver foi o primeiro a falar. — Quem és tu. como Alaizabel já foi — respondeu. . É um caminho. É essa a matriz. Podemos escolher os nossos caminhos. Não tem nome. — Posso ir. e avançaram para a cumprir. Nada mais havia para se dizer. ele ainda não vai morrer. nem nunca terá. embora seja possível ao Homem referir-se-lhe como fado ou destino. e devo acompanhá-los ao longo do percurso. Tinham uma missão.. — Vislumbrei o caminho à nossa frente. E o que é. a matriz. algo bamboleante. Olhou para Thaniel e depois para o Rapaz-diabo. mas a matriz está sempre à nossa frente. Peguem no Lorde Crott.uma forma demasiado grande para ser compreensível. Rapaz-diabo? — Sou um receptáculo. É o caminho.. — Posso ir — assegurou.

e a ferida nunca sarara. apoiando-o. E ao menos a chuva afastara o maldito nevoeiro. A respiração de Crott era áspera e irregular. a sua estrutura continuava praticamente intacta. tendo abatido devido à força da explosão. Os caçadores e seus companheiros ficaram completamente encharcados assim que saíram do covil do Vampiro Santo. contudo. Os caçadores e o Detetive tinham as pistolas preparadas. e o telhado partido fervilhava com o rebentar das gotas de chuva sobre a sua superfície. Aberturas nas paredes deixavam passar a água da chuva para o pavimento. O edifício baixo e quadrado que surgia no meio das pilhas de destroços abaulava no seu centro. como que esmagada sob o peso da força da chuvada.CAPÍTULO XXIII ~ Caledonian Road Sob a Cidade Um Velho Inimigo Regressa ~ A estação de Caledonian Road era uma autêntica ruína. Fora atingida em cheio por uma bomba largada por um dirigível há vinte anos. e a maior parte da estação ainda estava de pé. surpreendentemente. mas davam-se por satisfeitos por não se terem deparado com nada mais ameaçador do que um gato assustado na curta viagem entre a igreja e a estação de Metro. e o Rapaz-diabo caminhava apressadamente junto a Alaizabel no . e ele caminhava com o enorme braço de Armand sob o seu.

Mas a estação de Caledonian Road fora bombardeada durante o Vernichtung. impedindo-os de sair para as ruas. De qualquer maneira. Uma coisa que todos adivinharam foi que alguns iam morrer.centro do círculo protetor. todos eles estavam a fazer suposições e a analisar o sucedido de forma frenética. o instrumento daquilo que os manipulava. A maior parte das estações de Metropolitano era como fortalezas. logo era fácil de entrar e sair dela. Olhares de ódio foram lançados à criança cega. sem chegar a qualquer conclusão. Mas se ele falava a verdade ou se era só ele que fazia deles marionetes. O Rapaz-diabo não tinha já arruinado a matriz ao dizer-lhes o que dissera? Ou faria aquilo parte do que vira nas pedras videntes? Seria suposto ele dizer-lhes? Para si mesmos. Aproximaram-se do edifício destruído. quando os seres-bruxa estavam ainda a surgir e. com a função de manterem durante a noite os visitantes indesejados no seu interior. não era possível dizer. quando os seres-bruxa vinham para se apoderar dos túneis. Seria possível que ele estivesse a mentir simplesmente para que fizessem o que ele queria? E atrever-se-iam eles a ir contra ele. ele tinha-os nas mãos. os seres-bruxa normalmente não viajavam tão para norte da Linha de Piccadilly. Nenhum deles se sentia propriamente confortável com a idéia de que as suas ações seguiam um plano que decidia quem seria sacrificado e quem não o seria. nunca beneficiara dessas defesas. Um ambiente negro apoderara-se do grupo como conseqüência do anúncio de Jack. a correr esse risco? Uma coisa era certa. Já há muito que se tinham habituado à idéia de que o Metropolitano era intransitável à noite. Pelo . uma porta em ruínas para o abismo que os esperava sob os seus pés. felizmente para os caçadores-de-bruxas.

Thaniel entrou à frente do grupo na estação. Outrora fora um átrio espaçoso e aberto. cobrindo por completo o chão de pedra com um lençol de água. como até então nunca fora visto. abrindo-o para a escuridão que se encontrava lá debaixo. A noite sem lua já habituara os olhos deles à visão noturna ao longo da viagem. Era um interior escuro como um túmulo. a estação era uma autêntica caverna oca. A zona das bilheteiras era um local largo e de teto baixo. as formas ficando visíveis apenas graças ao pequeno brilho provocado pelas ondas da água. apontando para o local onde se encontrava uma entrada sobre a qual se via a palavra COMBOIOS destacada num arco de mosaicos dourados. O manto revolvente de sangue sobre a Zona Antiga dera um alento. através de uma grande abertura na parede de tijolo que estava parcialmente coberta com hera. . que passava sob os seus pés para a rua. pelos montes de lixo e pelas entradas escuras. não o faziam anteriormente. Cathaline acendeu a sua lanterna e os outros seguiram-lhe o exemplo. No interior. e caíam em toda a sua força pelo buraco grande e recortado no centro do edifício. as pedras caídas e os mosaicos destruídos atravancavam-no e obstruíam a passagem. onde os ruídos da chuva ecoavam. — Ali — indicou Alaizabel. O brilho espalhou-se pelos pilares derrubados. Pequenas cataratas passavam por falhas no teto. A bomba caíra diretamente no teto sobre essa zona. aos seres-bruxa e agora os habitantes da cidade já não sabiam o que esperar. deitando-o abaixo e explodindo.menos. agora. mas. abrindo uma grande cratera no chão. enchendo o ar com o odor seco de petróleo a arder. ou para o interior do vazio que separava os mosaicos do átrio. mas mesmo assim era impossível ver adequadamente.

inútil. as escadas chegaram ao fim e o túnel nivelou-se. Avançaram cuidadosamente pelo átrio devastado. Alaizabel sentiu o aperto aflitivo da claustrofobia à medida que desciam. até as suas luzes se esgotarem e eles acabarem por ser absorvidos pela escuridão. os degraus avançando eternamente. dois caminhos paralelos. Sem ser visível qualquer início ou fim. que o seu sentido-bruxa não lhe mostrava nada. e sorriu com um ar confiante. e passando por cima de traves caídas e de suportes de pedra. como que escutando os pensamentos dela. à qual ele respondeu assentindo com a cabeça. indicando. tão forte como sempre. incrivelmente vulnerável agora que já não transportava Thatch no seu interior. sentindo que o solo podia ruir sob os seus pés a qualquer momento. Ela sabia que podia confiar nele. Placas semi-apagadas indicavam a direção das linhas. contornando a cratera provocada pela bomba que se encontrava no seu centro. não restavam dúvidas de que ele era o mais sensível dos dois.Cathaline olhou para Thaniel com um expressão inquiridora. os mosaicos passando sempre na mesma seqüência. Ela sentia-se pequena. atirando-os para a escuridão. . na sua direção. Mas este aguentou-se. e somente o escudo da luz das suas lanternas a enfrentar a cegueira total. Ela retribuiu-lhe o sorriso. Agora os seres-bruxa já não a poupariam. e eles passaram pelo arco. olhou por cima do ombro. portanto. Por fim. Nenhum confiava plenamente no chão que pisava. era fácil imaginar-se a descer para sempre. entrando num longo túnel de pedra com uma escadaria que mergulhava para baixo do chão. Thaniel. com a escuridão a cercá-los de ambos os lados.

atrás deles. Olharam todos ao mesmo tempo para trás. Agora já não passavam aqui quaisquer comboios. um brilho que crescia e se aprofundava à medida que iam dando passos suaves e acolchoados. A mancha cinzenta na pele do seu peito espalhava-se lentamente. O Rei Pedinte estava a ficar mais fraco. — Não ficarão assustados por muito tempo. Alaizabel olhou para ela com uma expressão de reprovação. ou então tentando afastar o apito longo e profundo que surgiu quando começou a recuperar a audição. Crott mandou Armand calar-se. Um rosnar baixo ecoou pelo túnel. Cathaline apontou a pistola e disparou. aproximando-se deles. Os olhos tinham desaparecido. e um para oeste e sul em direção a Hammersmith. e este foi-se silenciando aos poucos. desejando que ela os tivesse avisado antes de disparar. Nem que tenha de ser . vou tratar do Crott. Não quero saber do que o Rapaz-diabo disse. Quando chegarmos ao aeródromo de Finsbury Park. Armand lamuriou-se e bateu nas orelhas. — Eles vão regressar — disse Cathaline. devido ao espaço fechado da estação. o barulho da arma deixando-os surdos por alguns momentos. como que tentando reanimá-las com uma massagem. Ainda se estava para ver se ele resistiria tempo suficiente para lhe arranjar assistência. deixando-os a todos paralisados no local onde se encontravam. Na escuridão destacavam-se três pares de olhos que os observavam. na direção em que tinham acabado de vir.um para este e norte em direção a Finsbury Park. — Devíamos seguir este caminho — sugeriu Thaniel. pensou Thaniel.

Avançaram por entre os carris enferrujados. A sua experiência no exterior de Redford Acres deixara-a com um enorme pavor ao frio. por isso ela agasalhara-se bem quando saíram dos aposentos de Crott. nem sabia se a ferida no coração de Crott não seria já demasiado grande para ele ser salvo. Era fanfarronice. mas os elementos tinham conspirado contra ela. O mundo de Alaizabel decaiu para uma penosa caminhada. deixando-a uma vez mais só com os seus fantasmas e memórias. Estava um frio de morte. delineada à luz das lanternas. ele não tinha a certeza de saber como afastar a infecção provocada pelo toque de um vampiro.eu a fazer o Rito. e passado pouco tempo já a sua luz havia abandonado Caledonian Road. chamando-os para si. Mas precisava de dizer algo que o fizesse sentir mais forte no seu íntimo. o cascalho mexendo-se e fazendo barulho sob os calcanhares das suas botas. até sentirem os dentes a tiritar. Entraram pela boca do túnel. Eles aceitaram o convite. um passo atrás de outro. incapaz de pensar em qualquer outra coisa que não a terrível temperatura de Novembro e como esta era ainda pior debaixo da terra. . para depois a congelarem. Já estavam demasiado envolvidos para sequer hesitarem. e as suas roupas ensopadas arrefeciam-nos mais ainda. pois eles caminhavam agora pela plataforma do Metropolitano. miserável e gelada. e eram impulsionados pelo desejo de saírem da escuridão que os engolira. Já tinham ultrapassado o ponto de retorno. embrenhando-se no interior da garganta do Metropolitano. ensopando-a por completo. e ao fundo via-se a boca do túnel do comboio. até aos ossos.

ficando ao lado da forma comprida do comboio. com uma boa disposição nitidamente forçada. Thaniel levantou a sua lanterna. Nem os caçadores nem o Rapaz-diabo sentiam fosse o que fosse em relação a eles. Era um monstro carcomido que se erguia diante deles. Mantinham-se afastados da luz. umas criaturas de Deus que morrerão quando lhes der um tiro. Quase que parecia que arrefecia cada vez mais à medida que avançavam. Os seus perseguidores não estavam muito longe. procurando o calor do seu corpo. — Lobos — disse Crott. Não havia corrente elétrica nos túneis para o voltar a ligar. Morrera na estação. espalhando a luz pela plataforma que avançava paralelamente à linha. Havia um espaço muito apertado entre a . lutando para esconder o seu próprio desconforto. pois o túnel chegou a um fim abrupto e eles depararam com os olhos achatados e inexpressivos de um comboio. Chegaram à estação de Holloway Road sem qualquer aviso. Ela agarrou-se a ele. subindo para a plataforma. o que indicava que aquilo que os caçava eram lobos. como ligeiros vislumbres de umas coisas baixas que se arrastavam pelas fronteiras do mundo deles. mas ele não a abraçara tão fortemente como Alaizabel desejara. sem que nunca mais se voltasse a mover. — Finalmente. Rosnadelas e farejos baixos seguiam os seus passos. e já enferrujara há muito tempo.Thaniel caminhava ao seu lado. Saíram da linha. a temperatura dos seus corpos baixando como se o seu próprio sangue se estivesse a tornar frio. Sentia que também ele tremia. encontrando-se agora com as janelas partidas. e mesmo outro disparo de Cathaline só os deteve por mais alguns minutos.

mesmo antes de o eco dos seus disparos ter deixados de se ouvir nas paredes. — Alaizabel! — gritou Thaniel. Armand olhou com nervosismo em seu redor. Nós conseguimos aguentá-los. e embora o primeiro disparo de Cathaline tenha falhado o alvo. com um tiro no pescoço. O lobo caiu.. ouviram-se uma série de uivos que ecoaram pelo túnel numa grande cacofonia. — Vêm aí — disse subitamente Cathaline e. Largaram a correr. Atrás deles. havia ainda algo do homem primitivo no íntimo de cada um deles. com os dentes a tremer. um lobo soltou um uivo grave que se espalhou pelos túneis como o lamento de um fantasma. pois as paredes abaladas pelas bombas tinham descaído para dentro com o passar do tempo. Cathaline e Carver a lutar . com a língua de fora. O primeiro lobo passou pelo espaço existente e subiu para a plataforma antes que eles chegassem a meio caminho da outra extremidade. Alaizabel obedeceu sem dizer uma palavra. — Devem ser dezenas deles! — exclamou Carver. Três outros animais já avançavam para eles. um instinto pré-histórico que tremia de medo ao ouvir uma alcatéia de lobos a caçar. o de Thaniel não falhou. Não precisaram de ninguém que lhes dissesse o que fazer a seguir. — Leva os outros para dentro do túnel. como que respondendo à sua afirmação. liderando os outros numa corrida até ao túnel.frente do comboio e a parede do túnel. onde um outro arco aguardava para os levar mais adiante na Linha de Piccadilly. deixando Thaniel. Correu esfomeado desde a escuridão até à luminosidade das lanternas. onde só se conseguia passar com dificuldade.

destruindo-a e lançando um fio de petróleo a arder ao longo da plataforma. — Penso — disse Carver — que isso será o mais aconselhável. Thaniel. onde os outros desciam atabalhoadamente para a linha. e três lobos caíram mortos. para o lado contrário do comboio. Carver e Cathaline viraram-se. uns a deitarem fumo dos pêlos. a luz extra dava mais hipóteses aos caçadores e ao Detetive de acertar em quaisquer outros agressores. os seus olhos brilhando numa cor de mel contra o brilho das chamas. onde estavam os seus companheiros. Uma nova vaga de disparos de pistola ecoou pela estação. Fugiram. mas não conseguiam ver para o cimo da plataforma. ladrando e uivando. — Ponham-me lá em cima. . pois o comboio ocultava-lhes a visão. Cathaline olhou para trás. como que seguindo a deixa. apontando às coisas ardentes e infernais que corriam para eles. Embora tivesse sido lançado demasiado para trás para parar os três que avançavam para eles. horrorizados pelo que viam. os lobos atacaram-nos. Conseguiam ver os outros lobos a juntarem-se do outro lado do fogo. impulsionados por uma fome louca. Thaniel atirou a sua lanterna contra os animais que avançavam para eles. e o fogo afastá-los-ia com certeza. Três armas dispararam. e. por amor de Deus! Ainda consigo disparar contra um lobo! — exigiu Crott enquanto Armand o metia para dentro do túnel. mas foi completamente ignorado. outros literalmente a arder por completo. Saltaram pelas chamas.contra o exército que os atacava. — Vamos sair de cena? — perguntou ela. Levantaram as pistolas e dispararam enquanto recuavam.

e o ar enchia-se com o odor enjoativo de carne a arder. Aqueles que já tinham saltado. traçando sempre a mesma forma. fazendo-a abrandar mas não a derrubando. com calma e sem pressas. Para Carver e seus companheiros. Tinham já recuado quase até ao final da plataforma. junto ao comboio. nem precisou de o fazer. fazendo-a ferir o olhar. confusos. um que saltara sobre as chamas sem grandes danos. — O que é que julga que está a fazer? — perguntou Crott. e subitamente o animal . Pois traçava agora a última passagem sobre o Encantamento. O espaço da plataforma existente entre eles e o petróleo a arder já se encontrava completamente coberto de corpos de lobos. Só o segundo disparo de Cathaline é que finalmente a matou. até explodir para a vida com um enorme brilho e depois desvanecer-se lentamente. Thaniel apontou a pistola mas quando disparou. Parecia estar a fazer um desenho no pó. Aqueles que não tinham saltado sobre o fogo olhavam em volta. fazendo-os cobrir os ouvidos com as mãos. Depois ouviu-se um guincho tortuoso que encheu o ar. o ataque dos lobos tornou-se hesitante. enquanto estes se encolhiam por causa do ruído. apontando para onde ela se encontrava. definindo a forma encaracolada. Carver disparou sobre uma das criaturas flamejantes. mas os lobos continuavam a uivar e a atacá-los. uma luz vermelha brilhante como lava seguia o caminho do seu dedo. Mas atrás daquele animal flamejante vinha um segundo lobo. a situação era cada vez mais exasperante.— Alaizabel tem uma idéia — disse calmamente o Rapaz-diabo. Por um momento nada aconteceu. Na plataforma. Mas ela não respondeu. prosseguiram o ataque. não saiu nada.

e alguns. Mas alguns ficaram paralisados pela indecisão. Ela gritou de dor quando as suas garras romperam pelo seu casaco e tentou pegar numa faca. centímetro a centímetro. lentamente. Um correu demasiado junto do fogo e a sua cauda tocou-lhe. após vinte anos. atacando-o pelas costas com a sua própria faca. e rolava lateralmente com ruído. Os lobos uivaram. correram de volta para o túnel de onde tinha vindo. espetando-a na base do pescoço do lobo. Afetado pelo medo e sofrimento. viu-se a deslocação de algo enorme.estava sobre eles. O lobo que Thaniel não conseguira alvejar saltou sobre Cathaline. enviando-a sobre o fogo criado por Thaniel e acertando bem no meio dos lobos que se encontravam reunidos do outro lado. No meio da confusão. O bicho caiu sem forças. e as criaturas viram-se envoltas num mar de chamas. morrendo instantaneamente. e o comboio começou a arrastar-se para a frente. para evitarem ficar encurralados. Nesse momento. atirando-a contra a parede. incendiando-se. mas Thaniel já estava sobre o animal. o guincho pareceu aumentar ainda mais de volume. por entre a cacofonia de uivos moribundos. e começaram a ladrar e correr em círculos. temendo aquela coisa ardente. o animal começou a correr entre os seus companheiros e estes afastaram-se dele. rasgando a medula espinal. Carver apanhou-a e atirou-a com um só movimento. O lobo que estava a arder transformou-se no fósforo involuntário do petróleo que se espalhou sobre eles. as rodas que há muito tinham enferrujado. os mais inteligentes. assustados com o barulho terrível. rodando. A lanterna de Cathaline sobrevivera miraculosamente à queda. . até parecer não ser possível ficar mais alto. como uma vassoura.

— Atingiu-te? — perguntava Thaniel. enquanto ajudava Cathaline a levantar-se. Ali em baixo. tendo tapado o túnel de onde tinham vindo. — Estás ferida? Ela tirou uma das mangas do casaco. Cathaline mexeu os dedos. e embora o exercício lhes tenha aquecido o corpo e as roupas molhadas. Agora tinham menos lanternas. até que finalmente parou. Thaniel considerou-a sortuda por ter sido um lobo e não um Cradle-jack a arranhá-la. o frio recusava-se a abater. o que fez com que saísse mais sangue dos ferimentos. que era agora um pouco pequeno demais para ele. avançando cautelosamente pela linha. olhando atentamente para a plataforma à sua direita. e a escuridão cercava-os mais de perto. Os ferimentos faziam parte do trabalho dos caçadores-de-bruxas. eles nunca partiam sem esses objetos. O lamento dos lobos foi-se desvanecendo até se tornar no estalido suave da sua carne a arder. posso fazê-lo enquanto caminhamos. Viam-se feridas profundas no seu antebraço. Thaniel ajudou Cathaline a ligar as feridas e eles conseguiram estancar o sangue com bastante eficiência através de reagentes coagulantes e ligaduras que ela trazia na sua mala. — Vai ficar ótimo. — Um torniquete e uma ligadura — disse ela de imediato. Vamos andando.Ouviu-se o barulho ensurdecedor da pancada que o comboio deu na parede do túnel. não haveria auxílio possível se algo desse gênero acontecesse. e tudo voltou a ficar em silêncio. Cada um . e os acessórios médicos eram tão importantes como as armas e os amuletos. Passaram por Arsenal sem problemas. o gemido do comboio parara. o metal dos lados do comboio raspando na pedra da parede. arregaçou as mangas da camisa e olhou. Eles avançaram.

deles imaginou-se a si mesmo a trepar para lá e a subir as escadas até ao exterior; a fazer qualquer coisa desde que saísse da escuridão terrível que os rodeava. Crott enfraquecia a cada passo que dava, isso era por demais evidente. Mas a estação de Atsenal estava destruída e era intransitável, logo eles tinham de continuar. Voltaram a entrar no túnel, avançando para o último percurso neste lugar escuro e amaldiçoado. — Parem — disse Alaizabel. Tanto podia ter passado um só minuto desde que tinham saído de Arsenal, como uma meia hora; nenhum deles sabia ao certo, e nenhum tinha a coragem suficiente para olhar para os relógios de bolso. Todos se viraram para ela. A sua respiração estava ofegante, e cada bafo era visível, transformando-se numa nuvem diante de si. — Está a ficar cada vez mais frio — constatou. — E bem depressa. Ela tinha razão. Agora todos o sentiam. A temperatura caía abruptamente, caminhando rapidamente para um nível de congelamento. Thaniel sentia um aperto de medo que ia aumentando no seu peito. Armand esfregava a língua com as costas da mão, como que tentando livrar-se de um sabor horrível. Crott foi o primeiro a reparar, e depois compreendeu porquê. — O ar tem um sabor salgado — declarou. Nessa altura, o Rapaz-diabo aparentou uma expressão próxima de preocupação que até então nenhum deles vira na criança. Alaizabel virou a cabeça para Crott com um movimento brusco, com uma assustada expressão de entendimento espelhada na sua face. — Os Draugs — disse o Rapaz-diabo com a sua voz áspera, — Os

Seres Submersos. Eles vêm atacar-nos. Alaizabel tremeu, lembrando-se da noite em que estivera muito próxima de se encontrar com uma das criaturas. Nunca ouvira o nome deles, mas conhecia bem o sabor amargo do mar e as baixas temperaturas que anunciavam a sua chegada. — Juntem-se todos aí! — gritou Jack, retirando de seguida um pedaço grosso de pedra negra de dentro do casaco. Caminhou apressadamente em volta deles, esfregando com a pedra no chão e criando assim o desenho de um amplo círculo, passando por cima dos carris e das pedras. A pedra não deixou qualquer marca; mesmo com a luz das lanternas, não conseguiam ver qualquer sinal do círculo por ele desenhado. Mas aos olhos cegos do Rapaz-diabo, era claro como o dia. — Frio! — queixou-se Armand, abraçando Crott com força para tentar aquecer. — Acho que vos posso aquecer — sugeriu Alaizabel. Ela conhecia o Encantamento para criar calor, embora não tivesse bem a certeza de como o aplicar. — Não use Encantamentos no interior deste círculo — sibilou o Rapaz-diabo, ainda trabalhando, — Temos de nos esconder. O círculo tornar-nos-á invisíveis para eles. Fazer Encantamentos atraí-los-á como a maré é atraída pela lua. O som molhado de uma pata palmípede chegou até eles através da escuridão, vindo de diante deles. — Apaguem as lanternas — ordenou Jack. Eles hesitaram. — Façam-no, ou morreremos todos! As lanternas apagaram-se, e os fantasmas do medo aproximaram-se

deles sorrateiramente, comprimindo-lhes a garganta e o coração. A escuridão era total e completa. Só se sentia o frio, aquele frio horrível, e ouvia-se o ruído de pedra a raspar provocado por Jack que completava o círculo, pois o Rapaz-diabo já era cego e não precisava de luz. As roupas deles, que tinham aquecido um pouco sobre a pele, começaram a umedecer. Thaniel sentiu o cabelo achatar sob o peso da umidade, com gotas geladas de água salgada a cair sobre ele. O abismo escuro e gelado de um mar sem fundo envolveu-os, transformando em nuvens invisíveis o bafo de todos eles. — Não façam qualquer ruído — sussurrou o Rapaz-diabo, juntando-se a eles no interior do círculo. Ouviu Crott a repetir a instrução a Armand, o pateta, embora as palavras de Crott fossem ditas de forma tão embrulhada que quase se tornavam incompreensíveis. No seu estado de fraqueza, o frio afetava-o muito mais que aos outros, e ele começava a entrar em hipotermia. O eco de patas molhadas multiplicou-se. Passos lentos e cautelosos, pesados e penosos. As coisas pareciam arrastar-se, pois cada passo trabalhoso era acompanhado de um som que se encontrava em algum lugar entre o arranhar e o deslizar, e esse som parecia indicar algo maior que um ser humano. Aproximaram-se cada vez mais do grupo apavorado que se encontrava cego no meio da linha, preso dentro de um círculo invisível, toda a sua confiança depositada num processo que não compreendia. Só o Rapaz-diabo sabia o que estava a fazer; nem mesmo Cathaline alguma vez ouvira falar deste Rito. Alaizabel abraçou-se a Thaniel, e deste feita, na escuridão, ele correspondeu, fazendo os seus braços deslizar em volta dela e apertando-a

junto ao seu peito, sentindo o bater do coração dela junto ao seu. O ruído que se seguiu estava tão próximo que ela quase deu um pequeno grito de susto, mas este morreu antes de passar pela sua garganta. Sentia Armand junto de si, a tremer com nervosismo, e quase que conseguia imaginar o lábio dele a vacilar enquanto lutava para reprimir um gemido de medo. Então, eles rodearam-nos por completo, com o seu odor úmido a peixe podre entrando à força pelas narinas e gargantas do grupo. Alaizabel ouvia o gorgolejar agudo da respiração deles, sentia-os a mexerem-se ali à volta, cheirando, procurando a sua presa. Os Draugs sabiam que os humanos estavam perto, contudo, eram incapazes de compreender porque é que não os encontravam. Cathaline agüentou sem se mexer ao sentir algo passar por ela, algo que fez com que os pêlos do seu braço se eriçassem sob a manga rasgada do seu casaco. Engoliu em seco, aterrorizada, sentindo o primitivo medo inicial da escuridão a soltar-se dentro de si e a subir pelo seu corpo, sufocando-a, até acabar por sair. Foi nesse momento que se apercebeu de que nunca estivera imersa em escuridão total. Neste mundo de candeeiros a gás e lanternas, quem é que precisaria de o estar? E mesmo no campo, havia sempre a lua e o brilho do ambiente noturno do mundo que a rodeava, fornecendo luz suficiente para que nem mesmo a meia-noite mais nublada fosse completamente escura. Mas aqui, não havia luz. Nada, nem uma réstia a que os olhos se pudessem agarrar para utilizar. Um vazio total e doloroso, que ameaçava sugar-lhes o coração e a alma de dentro do corpo e esmagá-los. Thaniel manteve-se firme, sem vacilar, combatendo contra a tre-

mura que se apoderava do seu corpo. Os Draugs mexiam-se e gorgolejavam em volta deles, assustadoramente próximos. O grupo ouvia o bater molhado de uma cauda a arrastar-se sobre um carril, o som borbulhante da respiração do ser-bruxa, sentia o movimento à medida que eles passavam cada vez mais perto, procurando, perscrutando. Pareciam passar pelo círculo sem se aperceberem do que ali estava, contudo, todos tinham consciência de que as presas estavam muito perto, e não iam desistir assim tão facilmente. Um horrível vazio gelado, a completa escuridão salgada do mar mais profundo, e Cathaline sentiu que a provação nunca chegaria ao fim. Escuro, escuro. Está tudo escuro. Alaizabel soltou um ligeiríssimo gemido quando um sopro de bafo podre foi atirado para a sua cara, vindo de um Draug que estava tão perto que ela podia ter-lhe tocado com o nariz. O som, embora sendo ínfimo, caiu no silêncio total e absoluto. O Draug parara de se mexer, ficando como uma estátua assim que o som saiu dos seus lábios. Alaizabel sentiu o coração cair-lhe aos pés, completamente aterrorizada. Eles tinham-na ouvido. A movimentação era agora mais deliberada, carregada com o peso da intenção. Aqueles que se encontravam mais afastados movimentavam-se agora para junto do círculo. Thaniel sentiu algo viscoso a passar-lhe pela face, tão perto dele que umas finas gavinhas tocaram-lhe nos lábios, quase fazendo-o vomitar. Os Draugs estavam a tentar alcançá-los, esticando-se para o interior do círculo, e seria uma questão de segundos até serem tocados e descobertos. O grito angustiado que os assustou a todos foi o suficiente para fa-

zer Thaniel pensar que a sua hora chegara, mas após um breve instante, reconheceu o tom arrastado e nasalado. Era Armand, e assim que o percebeu, sentiu-se a ser empurrado e soube, de imediato, que Armand fugira do círculo, gritando e gemendo incoerentemente, embrenhando-se na escuridão. Thaniel apertou Alaizabel de encontro a ele quando os sons chegaram aos seus ouvidos, o arrastar e saltar subitamente rápido dos Draugs, o berro de Armand, o deslizar, a pancada da queda, e a voz de Armand desvanecendo lentamente, até se transformar num soluço, depois num gorgolejar e finalmente desaparecer. O silêncio que regressou foi total e completo. Os sons dos Draugs desapareceram. Durante um período de tempo que pareceu uma hora, ninguém se mexeu. A atmosfera já não se encontrava salgada e aquecera substancialmente. — Desapareceram? — perguntou Carver por fim, num tom de voz quase inaudível. O sibilar de um fósforo e a luz da lanterna do Rapaz-diabo a acender-se foram a reposta. Pouco tempo depois, todas as lanternas estavam acesas, espalhando uma luz saudável pela escuridão repleta de terror. Thaniel tremia; Alaizabel começou também ela a tremer, apertada entre os seus braços. Do Rei Pedinte, Crott, e do seu companheiro gigante, não havia nem sinal.

CAPÍTULO XXIV

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General Montpelier Londres de Dirigível O Coração do Mal

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O aeródromo de Finsbury Park era um retângulo longo, de paredes altas, cercado por barras de ferro denteadas, que se colava ao chão sob o teto ardente de nuvens escuras. Viam-se luzes no interior, lâmpadas elétricas alimentadas por geradores que se encontravam em Hampstead Heath. No lado ocidental, um quadrado oco de edifícios achatados ganhava vida com fendas de luminosidade que se refletiam tremeluzentes no alcatrão ensopado do pátio principal. O lado oriental do recinto era o aeródromo propriamente dito, tratando-se de pouco mais do que uma placa larga de espaço vazio com candeeiros de rua altos a brilhar em volta das suas extremidades. Ali, imóveis, viam-se dois enormes dirigíveis, pousados nas suas barquinhas com os balões acorrentados ao chão, como carapaças de umas enormes baratas. A chuva caía a cântaros, o céu iluminava-se com o brilho dos relâmpagos e o rugido dos trovões, pintando a cena com uma luz branca, e soldados corriam de um lado para o outro, entre o pátio e o aeródromo, de espingardas na mão. Sobrepondo-se às explosões dos trovões, ouviam-se os disparos das armas. O aeródromo erguia-se isolado, como uma ilha de luz cercada por uma barreira de campos obs-

Con- . as estações nunca foram reparadas e o resultado foi que o aeródromo foi construído no final de uma linha morta. Situava-se no rés-do-chão da ala administrativa. Os guardas tinham sido informados do telegrama de Carver. mas nenhum deles acreditou que alguém sobrevivesse à viagem de vários quilômetros pelos túneis do Metropolitano até chegar a Finsbury Park. A construção do aeródromo em volta da estação fora um erro infeliz das autoridades de planejamento municipal. carregando pistolas e sabres. A construção do aeródromo já fora iniciada quando os seres-bruxa começaram a aparecer. O exército devia patrocinar a construção do aeródromo. e era aqui que a Linha de Piccadilly chegava ao fim. A estação propriamente dita fora assimilada pelo grupo principal de edifícios. O dinheiro foi gasto noutras coisas. enquanto a reedificação das estações destruídas ficaria a cargo da assembléia municipal. tinha Encantamentos colocados sobre a entrada para deter quaisquer seres-bruxa que pudessem sair da escuridão e estava guardada por dois soldados de uniforme que se encontravam um de cada lado do aeródromo. e da aquisição da tecnologia dos dirigíveis pelos britânicos. A estação de Metropolitano de Finsbury Park caíra em desuso depois do Vernichtung e da destruição das estações de Caledonian Road e de Arsenal. Depois do bombardeamento de Londres.curos. tendo como ligação entre o Metropolitano e o aeródromo uma entrada de ferro fortemente protegida. a intenção era recuperar as estações de Metropolitano destruídas. restaurar a Linha de Piccadilly e construir o recém-concebido aeródromo sobre a velha estação de Finsbury Park. e o município deparou-se com problemas muito mais urgentes com que lidar do que uma velha linha de Metropolitano.

fazendo de seguida a continência ao grupo esfarrapado que entrava na sala. ambos assustados. um quadrado cinzento e com um aspecto asséptico. quando se ouviu um forte bater na porta. e destrancaram-na apressadamente. Pequenas mesas encontravam-se alinhadas de frente para os quadros. tremendo e completamente exausto. — E leve-os para uns aposentos quaisquer. e umas janelas pequenas colocadas bem no alto deixavam entrar os raios de luz da tempestade no exterior. passado um momento. onde o sol nunca chegava. e transformar as suas roupas de molhadas e geladas para úmidas e mornas. Uma vez saídos do Metropolitano. olharam um para o outro. Foram levados para uma sala de instruções. Eles aconchegaram-se em volta do fogo. Aqueça-os. Mas o mais importante era a lareira. e roupas úmidas eram uma inevitabilidade com este . — De quem é que estavam à espera? Eles voltaram a fechar o óculo da porta. que durante o Inverno era deixada permanentemente a arder para benefício dos pilotos e soldados que tinham de ficar aqui sentados ao frio. — É o Detetive Carver! — gritou em resposta uma voz desesperada. enquanto eram informados acerca das suas missões.sequentemente. com duros bancos de madeira encostados às paredes e quadros pretos numa das extremidades. por amor de Deus. — Quem é e a que vem? — gritou um deles. a temperatura voltara a tornar-se suportável. deixando aquele precioso calor penetrar nos seus ossos enregelados. — Chame o General Montpelier — ordenou um dos guardas ao outro.

Jack não reagiu. — Isso sabemos nós — retorquiu Cathaline com brusquidão. Os Draugs tomaram as suas vítimas. — Sabias que eles iam morrer — afirmou Carver. Saiu do círculo a correr e levou Crott consigo. — Quantos mais de nós é que irão atrás deles? — perguntou o . não nos serve de nada. — O que é que aconteceu? — perguntou Alaizabel. — Armand assustou-se. Talvez tivesse esperança de salvar os dois. Guardem qualquer pena que julguem que devem ter até tudo isto acabar. — Dois homens que conhecíamos acabaram de morrer — disse Cathaline espantada. Thaniel deu por si a ficar preocupado com a possibilidade de apanhar o vírus da influenza e riu-se do ridículo da situação. e também ele morreu. — Desapareceram — disse o Rapaz-diabo. só Armand nutria algum carinho especial por ele. — Ao Crott e ao Armand. Aqui.tempo. Uma gripezinha era um preço insignificante a pagar se conseguissem sobreviver àquela noite. quando os dentes finalmente pararam de tiritar. ironicamente. — Sim — respondeu Jack. eles salvaram-nos a nós. quero dizer? O que é que lhes aconteceu? A pergunta foi dirigida a Jack que. Fez-se silêncio. fora o único do grupo a não ficar cego naquela escuridão. Em vez disso. — Será que algum de vocês se apercebe disso? Discutem as mortes deles como se fossem uns estranhos. — O Lorde Crott já está morto — afirmou o Rapaz-diabo. — De todos nós.

— Influenciaria o resultado final. no exterior das muralhas do seu aeródromo. — No seu escritório — retorquiu Carver. — Se não se importa. guerra. com uma farfalhuda barba branca e uns olhos azuis pequenos e porcinos. bem! — declarou. abriu-se a porta da sala. Somos ambos homens ocupados. — Bem. — Chegaram até aqui atravessando os túneis. Preciso da sua assinatura nos documentos para autorizar a utilização dos seus dirigíveis. — A isso eu não vou responder — foi a réplica de Jack. cheio de vida. e era absolutamente impossível ignorá-lo. cumprimentando-os e apresentando-se. e nunca se encontrava mais bem-disposto do que quando as probabilidades não o favoreciam. Nesse preciso momento. não vamos perder tempo. envergava um uniforme impecavelmente engomado.Detetive. parecendo alegremente esquecido do fato de que Londres. . — Bem-vindos ao covil do leão! O General Montpelier era um homem expansivo. e por ela passou um homem alto e bem constituído. foi? Não acreditaria se não os estivesse a ver como os meus próprios olhos. Carver. O General só se sentia verdadeiramente vivo quando em. — Bem. estava a ser invadida por seres-bruxa. Jorge! — exclamou bem-disposto. — Por S. com uma voz forte e possante. Passou por todos os membros do grupo. com uma medalha isolada presa ao peito. Vamos conversar. Qual de vocês é que é o Detetive Carver? Carver respondeu que era ele.

No caminho. — O que raio é que isto quer dizer? — gritou Montpelier. Os dois homens saíram da sala. A minha carta vem diretamente do mais alto gabinete. — Desculpe.— Claro. General. Não existe carta nenhuma do Palácio. — Precisamos do dirigível. — Não me divertia assim tanto desde os Boers — afirmou Montpelier ao fechar a porta depois de eles terem entrado no escritório. — Eu diria que é assim mesmo que tem de ser — declarou o General. trou- . aquelas malditas coisas-animais não paravam de vir. Estou aqui sob falsos pretextos. Não gostaria nada de o ver fazer todo este caminho para nada. — Estas coisas são o orgulho da frota real! Não as posso autorizar a sair com qualquer um. O Palácio também pensa assim. — Voltamos já. — Tenho de lhe dizer. — Temo que se vá tornar muito menos divertido a partir de agora — disse Carver. ele falou entusiasticamente de como os seres-bruxa estavam a apertar o cerco sobre aquele local. Já agora. a apenas alguns centímetros do seu nariz. Ao fazê-lo. anda por aí — respondeu Carver. nem mesmo consigo. espero bem que a sua carta seja verdadeira. atravessando o corredor. deparou-se com o cano de uma pistola. onde é que anda o velho Maycraft? — Oh. claro — assentiu o General. e o tom da sua voz fez o General virar-se para ele. Carver. em direção ao escritório de Montpelier. Por isso. e eu não tinha tempo para ficar à espera com o intuito de ver se eles me davam permissão para levar um dirigível. independentemente do número que se conseguisse abater. O Palácio tem coisas mais importantes com que se preocupar. General.

xe a minha própria permissão. — Vai roubar um dirigível? Não seja louco. mas isto é demasiado importante para deixar a burocracia intrometer-se. batendo no material grosso antes de cair no asfalto pelas extremidades. travando o fumo enquanto observava o grupo a avançar para ele apressadamente. atraídas pelas luzes. esfregando as mãos cobertas por luvas. vindos do lado ocidental do aeródromo. — De que é que isso lhe servirá? Estará morto — retorquiu Carver sem rodeios. Gregor estava ali. de pé junto à porta da grande barquinha. uma figura em miniatura tendo como pano de fundo a descomunal forma longa do balão que voava sobre ele e a barquinha que pendia debaixo do balão. fugin- . Agora. a forma como tinha chegado a este ponto. Ouviam-se os disparos distantes de espingardas enquanto os soldados iam mantendo afastadas as coisas obscuras que andavam pelos campos. Interessante. — Desculpe. Parecia muito pequeno em comparação com o dirigível enorme sob o qual se abrigava. formando uma cortina. homem. E este era apenas um dos dirigíveis mais pequenos da frota. Gregor pôs um cigarro nos seus lábios ásperos e acendeu-o. tentava afastar o frio batendo com as botas no chão. apertando o seu blusão de aviador até lhe cobrir o nariz e puxando o gorro bem para baixo. General. Seis anos atrás tinha-se enfiado num cargueiro a vapor que partia da Sibéria. e nada que se comparasse com os tamanhos dos que os prussianos andavam a inventar. Dispare essa coisa e tem um batalhão aqui em menos de um minuto. julgo que tem alguns papéis que me deve assinar? A chuva caía sobre os enormes flancos cinzentos do aeródromo.

— Ficarei verdadeiramente surpreendido se eles chegarem a aparecer. que tinha a aprovação do Palácio e que a sua missão era salvar a cidade de Londres. E assim. Só foi pena que a sua coragem tivesse falhado no meio do seu período de serviço. embora não se importasse muito. e ele não tinha muito talento para a pesca. com documentos assinados pelo General dando-lhes autorização para utilizar Gregor e o seu dirigível durante um período de vinte e quatro horas. e sabia o que fazer. e ele alistou-se. ouviu dizer que o aeródromo de Finsbury Park precisava de pilotos de dirigíveis. . pois aqui estavam eles.do de uma colônia prisional para onde fora enviado por deserção das forças armadas russas. mas aparentemente enganara-se em ambos os pontos. O seu dinheiro valia alguma coisa. mesmo que apenas a si mesmo. O Exército estava disposto a ignorar o seu passado em troca das suas aptidões. agora tinha de admitir que estava intrigado. Gregor fugira de um exército para outro. Não era um combatente. Depois de passar um ano a carregar caixotes. Um detetive chamado Carver. Até ele admitia isso. o tempo aqui era melhor. era um covarde. enviara um telegrama ao General dizendo que precisava de um dirigível. no meio de toda esta calamidade. quanto mais trazendo uma carta com autorização real — declarara Montpelier. Pelo menos. Contudo. mas para um emigrante russo em Inglaterra o único destino era as docas. Durante seis meses. nunca ficava de estômago vazio e podia arranjar tabaco americano sempre que quisesse. pilotara os dirigíveis russos mais pesados. Uns documentos falsos ainda serviram para se agüentar durante uns tempos em Londres. na sua terra natal.

Era esse o destino deles. milhares de janelas iluminadas espalhando-se em . Preferia estar no céu. As lâmpadas a gás brilhavam no topo dos candeeiros de rua de ferro negro. Alaizabel olhou para as ruas que passavam debaixo deles. o primeiro distrito a ser infestado pelos seres-bruxa. Conseguiriam eles sobreviver no coração da Zona Antiga. como se eles permanecessem imóveis e a Terra é que estivesse a encolher. pelas janelas da barquinha.Gregor encolheu os ombros para si mesmo. a tempestade começava a afastar-se. Ergueu os olhos para o redemoinho vermelho que rodava lentamente sobre a Zona Antiga. levando-os para Camberwell. A sul via-se o brilho dos relâmpagos. Alaizabel via. A cidade era uma rede de estrelas. O chão parecia estar a cair para longe. vinte anos atrás. onde esses nojentos seres-bruxa não chegavam. do que aqui. e sobre o qual pendia das nuvens a pupila daquele malvado olho vermelho. materializando-se nas vielas e caminhos desertos. para o bem ou para o mal. pelo menos. no chão. e o nevoeiro voltava a abrir caminho. O que se passaria ali. erguendo-se lentamente para o céu turbulento. virando quando eles viravam. o aeródromo a recuar atrás deles. O dirigível subiu do piso de alcatrão com o ruído ensurdecedor dos motores. A chuva enfraquecera. debaixo do emaranhado de ruas e destroços? O zumbido dos motores mudou à medida que o dirigível acelerava. mesmo antes de os seres-bruxa invadirem toda a capital? Somente dirigíveis sobrevoavam a zona desde que se tornara demasiado perigosa para lá se transitar a pé. largando bombas numa tentativa fútil de minimizar os números dos demônios. onde ninguém se aventurava há anos. ignorando a carnificina.

temendo o que poderia aparecer. Cradlejacks. Os seres-bruxa prosperavam. ainda a fortaleza firme que os suportava a todos. Contudo. as luzes estavam todas acesas porque ninguém se atrevia a desligá-las. Voltando a olhar pela janela. A beleza era falsa. bruxas-de-pó. As trancas podiam manter afastadas algumas espécies de seres-bruxa. fogos-fátuos. Os seres-bruxa nunca responderam. parece tão pacífica. — Alaizabel — disse Thaniel. disse: — Tenho medo. vista daqui. — Como as coisas eram. Mas . — Sinto que. com o céu limpo sob eles e um mar tempestuoso por cima. Era como se estivessem virados de pernas para o ar.todas as direções. mais de um milhão. e eram demasiado heterogêneos para serem travados. mesmo junto ao seu ombro. não me sentia feliz. guarda-tempestades. mas ainda forte. pedras-d’anjo. molhado e amarrotado. Nas casas. — Era isso mesmo que te ia dizer — retorquiu ele em voz baixa. estavam pessoas a morrer. Gatos-de-sebo. as coisas saíram do meu controle — continuou. De onde é que eles vêm? O que ê que eles querem? As questões tinham sido colocadas demasiadas vezes para poderem ser contabilizadas. — A sério? — perguntou. jujus. ou deslizariam pelo teto. vendo-o ali de pé. Londres está a ser comida viva... mas outras desceriam pela chaminé. Ela sabia o que a escuridão escondia. ainda em voz baixa. pensou Alaizabel. ou materializar-se-iam do fumo de uma vela.. surpreendida.. Thaniel. Os seres-bruxa eram imbatíveis em termos numéricos e de uma variedade interminável. Ela olhou para trás.

Sentiu um sorriso de alívio nascer-lhe nos lábios. A chuva transformara-se numa neblina suave. para a cidade. Vi a minha vida desmoronar-se à minha volta. embaciando as janelas da barquinha. O ruído grave dos motores rodeava-os por completo. — Dirigimo-nos a um local onde nunca nenhum de nós esteve. transportando-os através do céu. e o seu coração começou a bater um bocadinho mais depressa. E nesse momento ela beijou-o. o que me deste... um beijo longo e apaixonado.. Queria dizer.. acima do alcance dos seres-bruxa. Alaizabel. abandonei a minha casa. — Lamenta-lo? — perguntou ela. caso nunca volte a ter a oportunidade. Desde que apareceste. Havia meia hora que se encontravam em cima das ruas apagadas e agitadas da Zona Antiga. agora a presença deles não era importante. é uma dádiva indescritível. Sinto-o. quase que enlouqueci.... O dirigível sobrevoou o campo de massacre. chiu. mudei. — Não sei o que vai acontecer agora — continuou ele. virando-se da janela de forma a ficar de frente para ele —. . contraindo-se de forma inconsciente enquanto aguardava a resposta.sentia-me seguro. — Mestre Fox — interrompeu-o ela. Desde que apareceste. Alguns de nós podem não regressar.. — Nem por um segundo — respondeu Thaniel. eu. e ele a ela. Eles olharam lá para fora. vendo o sinistro redemoinho vermelho crescer e deslizar na direção deles. tudo mudou. passando a fronteira do Tâmisa e indo mais além. Os outros ocupantes da barquinha desvaneceram-se. e eu.

que deslizavam e se arrastavam. deixando as vítimas ao sol e à chuva. E ali à frente estava o centro do redemoinho. espalha- . Os Terraços caíam uns sobre os outros. antigos telhados escancarados como bocas abertas com dentes de vigas de madeira. Era um mar de destroços. — Meu Deus — sussurrou Thaniel. por entre as ruas destruídas e arruinadas pelas bombas. Erguia-se sobre os edifícios circundantes como uma garra. O nevoeiro estava a voltar a concentrar-se. — Conseguem ver? Conseguem ver o que ali está? — perguntou Cathaline. o núcleo em volta do qual rodavam as nuvens de mal. Iluminados por ele. de pedra inerte. e gárgulas lúbricas. com a sua forma recortada. pressionando a cara contra a janela da barquinha. uma catedral de ódio que surgia de forma ameaçadora. As lojas arrasadas demonstravam o padrão dos ataques. como se uma série de exércitos de edifícios tivessem chocado uns contra os outros vindos de direções diferentes. malvada e perversa. e as ruas lá em baixo encontravam-se pintadas num tom de vermelho lívido. um enorme bloco gótico.Só a imaginação podia dar uma imagem do tipo de coisas que andava ali por baixo. Mas eles passavam agora sob o olho medonho. o que é que caçava pela noite dentro. coisas que avançavam furtivamente. conseguiam ver movimento no solo. os tijolos que os compunham rachados onde tinham chocado. para se ensoparem e descolorarem até se começarem a desvanecer. descrevendo círculos oblíquos de pilhas de entulho. arrasando-se mutuamente. saltavam. Torres e pináculos tocavam a barriga do céu. mas só o suficiente para dificultar a visão das formas dos seres-bruxa que corriam. rosnavam e rastejavam.

A catedral tem de estar aberta para receber os deuses da Irmandade. como uma coroa destorcida e ensangüentada. semi-igreja e semi-templo. Temos pouco tempo. Banhada pelo brilho vermelho das nuvens que a sobrevoavam. — Mas. — Agora. Era semi-castelo. Não precisara de olhar.. emanava uma maldade infernal. e torres de igreja misturavam-se com contrafortes e campanários.. uma coisa que só os arquitetos mais loucos seriam capazes de conceber. como é que está aqui? — repetiu Cathaline. Janelas altas em arco surgiam sobre enormes pedaços redondos de vidro negro. — O ventre da escuridão — entoou Jack por trás deles. — Encantamentos de poder como eu nunca senti. e as munições começavam a esgotar-se rapidamente. — E para aí que temos de ir. O aeródromo de Finsbury Park continuava sob ataque. — Como é que aquilo ali apareceu? — perguntou Cathaline. — Da mesma maneira que os seres-bruxa estão — retorquiu Jack. erguendo-se de uma forma orgulhosa. Os Glau Meska vêm a caminho. As criaturas continuavam a . — Por que é que não o víamos antes? — Já há muitos anos que tem sido ocultado dos nossos olhares — respondeu o Rapaz-diabo. o resto depende de vocês. Estamos quase no fim. preparem-se.vam-se sobre a superfície. blasfema. Partes do edifício pareciam derreter-se umas nas outras. não ficando satisfeita com a resposta. Mas os Encantamentos não estão agora em utilização. enquanto outras secções se definiam rudemente com filas de lâminas torcidas e varandas.

enquanto batia à porta do escritório do General.atacar. partindo pelo ar em direção à Zona Antiga. atraídos pelas luzes e pelas vidas que se encontravam no interior dos muros. Ele lutara até a vitória se tornar completamente impossível. conduzidos por uma fome maior que a fome. Tentou abrir a porta de qualquer forma. Ele franziu o sobrolho. mas não ouviu qualquer resposta. não. Esperara. e agora ia ter com o General. Há já quase uma hora que ninguém via o General. Retirar. para exigir que usassem o último dirigível para evacuar a base. parados. Não houve resposta. estavam agora cobertos de cadáveres. Estava trancada. a sua exigência. Os seus homens estavam cansados. Este era um momento para agir. Tal como antes. Se não conseguisse incutir juízo a Montpelier. outrora. pela ordem dando autorização para o envio dos dirigíveis carregados com bombas para arranjar ajuda ou para lançarem as bombas em defesa da base. A base teria de ser abandonada. mas os seres-bruxa passavam por cima dos seus companheiros mortos sem hesitação. Essa ordem nunca chegou. O tribunal marcial que fosse para o diabo. Voltou a bater. talvez acabasse por ter de lidar com um motim. Vira um a ser reservado e levado por um estranho. havia três para tomarem o seu lugar. completamente frustrado.. e por cada uma que fosse atingida. disparou contra a porta. não para hesitações. . Pegou na pistola. Afastando-se. Pensava em como devia expor o seu pedido. Recuar.. Os campos que tinham sido planos. encurralados e derrotados. — General? — chamou. Os dois dirigíveis tinham ficado ali. a única resposta foi o silêncio. Jerob Whately estava encarregue dos esforços de defesa.

destruindo a fechadura. amarrado e amordaçado. atado à sua cadeira. — Ah — disse Jerob. A porta abriu-se. . vermelho de raiva e soltando ruídos abafados pela meia que tinha na boca. E ali. Via-se uma secretária grossa junto a uma janela com as portadas cerradas. como se isso explicasse tudo. assim como livros e documentos. estava o General. dando entrada para um escritório arrumado.

CAPÍTULO XXV ~ A Catedral Guardiões ~ O pátio da catedral estava vazio. Os muros altos que o separavam do resto da Zona Antiga mantinha os seres-bruxa à distância com Encantamentos. para não ser invadida pelas coisas caóticas que infestavam Londres. Mas a catedral encontrava-se isolada da Zona Antiga. uma montanha avermelhada de curvas. seria a mando da Irmandade. Eles uivavam e gritavam pelas ruas destruídas de Camberwell. como que de quarentena. Apesar da cacofonia que saía do outro lado do muro. Parecia vibrar e sussurrar. Se alguma daquelas coisas se movimentasse dentro daqueles muros. o pátio mostrava-se misteriosamente silencioso e calmo. As pessoas da Irmandade podiam saber como lidar com os seres-bruxa. feitiços e forças que iam além dos sentidos humanos. do ruído dos motores do dirigível e do incessante murmúrio grave da catedral. pilares e arcos. desesperadamente tentando chegar ao grande dirigível que baixava até ficar suspenso a cinco metros do chão de pedra. fazendo com que a cabeça e ouvidos de Thaniel palpitassem enquanto descia as escadas de corda que pendiam da barquinha até ao chão do pátio. mas continuavam a ser humanos e vulneráveis. A catedral erguia-se de forma maciça sobre eles. A chuva parecia não ter caído neste .

As botas de Thaniel tocaram o chão e ele olhou em redor. por fim. um enorme par de portas pretas envernizadas cobertas com todo o tipo de formas e símbolos desenhados em ouro. não tinha grande escolha. . Foi a própria Thatch quem os colocou. Só ela os pode desfazer. À sua direita encontrava-se a porta principal da catedral. e quando o voltaram a ver. para um enorme vazio. — Está tão vazio — observou ela. Thaniel perguntou-se acerca do que Carver lhe dissera para o fazer cooperar. tudo ficou muito silencioso. A chuva transformava-se em nevoeiro em volta deles quando Alaizabel. a última a descer. pois o veículo flutuaria para longe. a julgar pela troca de palavras mais quente que teve lugar na barquinha enquanto desciam. por que é que não há nenhum guarda? — Porque eles sabem que é impossível entrar — disse o Rapaz-diabo. Na verdade. Era óbvio que isto não fora uma coisa que ele desejara. uma para controlar o aparelho e outra para desatar as amarras. Não podia abandonar o aparelho para as soltar ele mesmo.local como caíra no resto de Londres. Carver e Cathaline estavam a atar uma amarra à grande barra que trancava o portão do pátio. ao lado deles. mas. talvez por se encontrar sob o olhos da tempestade. ele estava pálido e a tremer. sem ele. Junto dele. pois soltar o dirigível requeria duas pessoas. Gregor devia esperar o regresso deles. — Thaniel. chegou ao fim das escadas. fazendo eco dos seus pensamentos. — Os Encantamentos na entrada são mais poderosos do que aquilo que mesmo o melhor caçador-de-bruxas poderia ultrapassar.

Bombardear a catedral pode bloquear-nos a entrada. e começou a desenhar o Encantamento no ar. Ser deixada de repente com uma oferta destas. O Rapaz-diabo sorriu. — Podemos usar as bombas a bordo daquela coisa? — perguntou. — Ela aprende — crocitou. perturbaria a mente mais resistente quase tanto como acordar com um novo membro. Alaizabel aceitara-a. um presente de despedida de Thatch. Ela nunca se deixaria conquistar. apontando para a parte inferior da barquinha. o seu olhar vasculhando a sua superfície. Ela parecia ter nascido com esta capacidade recém-descoberta. — Mas talvez — sugeriu Alaizabel —. Alaizabel já estava a aproximar-se das portas. — Temos de nos certificar — disse Jack. Thaniel olhou para o dirigível que os sobrevoava. decidiu Thaniel. se houvesse alguém que tivesse um bocadinho da magia de Thatch. Na última semana. onde estavam presos dois objetos com barbatanas de aspecto algo rudimentar. — Os Encantamentos podem matar-te. — Não lhes vou tocar — assegurou Alaizabel. — Temos de apanhar a Thatch. uma expressão tão rara que lhe ficava horrível.Thaniel nem gastou o seu latim respondendo ao isco de Jack. Thaniel viu-a trabalhar. contudo. passara por . esse alguém conseguisse desfazer a tranca. Era esse o poder dela. — Não lhe toques — avisou o Rapaz-diabo. com um ligeiro ar de espanto. Sabia que não tinham sido arrastados até ali se não houvesse forma de entrar.

a vida que tinham anteriormente desaparecera. Era um Encantamento de Negação. O tempo urge. Ela afastou-se. Cada membro da Irmandade sabia qual era o seu papel de trás para a frente. e sorriu para si mesmo. extintos. Alaizabel fez a última passagem sobre o Encantamento como se o tivesse feito milhares de vezes.mais do que o que ele desejaria a qualquer pessoa à face da terra e. Normalmente. usado para desfazer outros Encantamentos. Depois: uma cegante explosão de luz. fazendo com que todos protegessem os olhos. — Vamos a isso. mesmo assim. as probabilidades de este ceder ao seu toque eram grandes. ela ultrapassara-o sem nunca perder a sanidade mental. mas qualquer pessoa que colocasse um Encantamento poderia removê-lo com toda a facilidade. — Até aposto que aquela velha bruxa ainda vai ter razões para lamentar o fato de se ter cruzado com a Menina Alaizabel Cray — disse Carver com um sorriso. Os Encantamentos da porta arderam com grande brilho. como pólvora. Adaptava-se a cada nova situação. pensando no que poderia vir a acontecer quando isto chegasse ao fim. apesar do medo. então. deixando a forma pendendo no ar diante de si. Nada. O Rito do ptbau’es’maik demorava cerca de dois dias no total. derretendo-se de seguida e acabando por desaparecer. e uma vez que Alaizabel herdara o seu poder de Thatch. O traçado dourado dos símbolos parecia agora gasto e opaco. inúteis. adaptava a chave a cada fechadura. Alaizabel olhou para Thaniel e sorriu rapidamente. . Ele pensou no beijo que haviam partilhado. não teria hipótese de se sobrepor ao poder de Thatch.

As orações corretas tinham de ser entoadas na ordem correta. Mais de um milhar de componentes eram necessários para completar com sucesso o ptbau’es’maik.Para ser bem sucedida. chamando ao longo de todo o percurso. O médico acabara de presidir a uma secção particularmente cansativa do ptbau’es’maik. e a cerimônia aproximava-se cada vez mais da sua conclusão. mesmo no fim da cerimônia. para guiar os Glau Meska para o mundo. dirigindo-se para onde Pyke dormia. e só uma de correr bem. cada um dos cento e treze Encantamentos do círculo de evocação tinha de ser evocado e tratado individualmente. Havia tantas maneiras de correr mal. E assim continuava. no grande salão da catedral. Consequentemente. mas quarenta e oito horas era muito tempo para alguém conseguir manter a concentração. chamei-te! Onde é que estás? Maldito sejas! Thatch abria caminho pelos corredores de pedra da catedral. Os membros da seita saíam e eram substituídos a um ritmo cadenciado. a vigília era feita em turnos. o incenso tinha de ser preparado e queimado dentro do círculo nas proporções corretas. quatro horas de cada vez. era necessário que a cerimônia decorresse de forma contínua e ininterrupta. cada pessoa que estava a realizar a cerimônia tinha de se purificar ritualmente de cada vez que ele ou ela se voltava a juntar ao grupo. tinham de ser preparadas unções para o momento em que Thatch se juntaria a eles. — Pyke! Pyke. de forma a que nunca ficassem menos de vinte a realizar a cerimônia. uma parte demasiado delicada para ser confiada a qualquer . não mudando toda a gente ao mesmo tempo mas fazendo-o de uma forma gradual.

é? Fala. mas continuava a parecer velha. Que desperdício. — Agora és escravo dele. Que desperdício. minha senhora. Thatch tinha a cara e corpo dessa jovem. e a sua voz era tão estridente como a de um corvo. Aquela bela rapariguinha de dezoito anos. Blake não respeitava Thatch mais do que qualquer outra pessoa. — Sai do meu caminho. seu insuportável pateta das colônias! Desaparece. — Pyke! — gritou ela. Enquanto eles faziam vênias e obedeciam a cada capricho dela. faz o que te digo! Um escravo? — Enquanto este escravo continuar a ser pago como é pelo Doutor Pyke. Ao contrário dos membros da Irmandade.outra pessoa. os seus dedos delicados e suaves continuavam a assemelhar-se a garras artríticas. e eles encheram-na de espinhos. pensou. ele tratava-a sem qualquer distinção. Isso enfurecia-a. e desta feita a porta abriu-se e era o médico em pessoa. Ele encontrava-se de pé do lado de fora da porta do quarto onde Pyke dormia. Os seus ossos saudáveis continuavam a curvar-se rigidamente. — Bem. disse eu! Pyke! O alto americano olhou para a mulher que se encontrava diante de si. — Ele está a dormir. O que posso eu fazer por si? — inquiriu Curien Blake na sua voz arrastada. — Disse que não devia ser perturbado. . Esperava agora poder descansar. faz o que o homem lhe manda. o melhor exemplo que podia existir de uma delicada rosa inglesa. envergando uma camisa de dormir e colocando os óculos no nariz. Menina Thatch — disse Blake.

ele ficou totalmente acordado e alerta. O interior da catedral era composto de pedra preta e dourada e verniz vermelho. provocando assim uma sensação de opressão naqueles que caminhavam sob a sua luz.. — Senhor Blake! — disse bruscamente. — Vou vestir-me de imediato — continuou Pyke. escuras e opressivas. Arcos ornamentados. As cores eram tão vivas e constantes que era impossível os olhos não serem subjugados por elas. Que bela. — Alguém abriu a porta da catedral! — gritou-lhe ela. agressivas. altares votivos. seu idiota! Foi preciso um momento para esta informação ser assimilada pelo médico. — Eu sinto-o. dourado e preto e vermelho. pequenos recantos vermelhos na parede com velas pretas ardendo no seu interior. — Com todo o prazer — respondeu o americano. — Confesso que não imaginava que alguém pudesse chegar tão perto de nós. Alguém entrou. — Encontre os intrusos e trate deles. vermelho e preto e dourado. dirigindo-se agora a Thatch. Cores tão suaves.. Era como caminhar pelas artérias de um enorme monstro adormecido. . mas há formas e meios de lidar com estas coisas. afastando-se de seguida.— Oh! Menina Thatch. mas quando isso aconteceu. Os meus Encantamentos foram todos quebrados. sem qualquer tom diferente ou variação de qualquer espécie pelo meio. mas ao mesmo tempo.

— Estes seres-bruxa precisam de um anfitrião onde viver. Despache-se.— Odeio este lugar — sussurrou Alaizabel. simples — declarou Thatch. O que eu queria dizer era que já há algum tempo que evocamos seres-bruxa deste tipo. e que se enquadrava no ambiente. Pusemos seres-bruxa dentro deles. — Humm. — Tem qualquer coisa de atraente — retorquiu Cathaline. — Podem saber que estamos aqui. — Seu idiota! Eu sei tudo o que há para saber acerca de seres-bruxa! — retorquiu Thatch bruscamente. Os resultados das nossas experiências foram bastante espetaculares. um pouco corno a senhora. — É claro que sim — respondeu Pyke. Cradlejacks. — Imagino que saiba dos seres-bruxa que não têm forma física — disse Pyke. — Uma tarefa simples. que usava freqüentemente o vermelho e o preto. dentro em breve tenho de tomar o meu . — Eles sabem — disse o Rapaz-diabo. hã? — Era disto que estava a falar — respondeu o médico. A sua pistola estava apontada e pronta. e por isso voltou-se para Pyke e olhou-o com um ar inquisitivo. Cães-ratazana e assim por diante. — As minhas mais sinceras desculpas. Sim. avançando pelo corredor sombrio. — Cuidado — advertiu Carver. — O que é que foi isto. Ela ouvia agora um rosnar. Um dos nossos membros mais antigos cria uma raça particularmente maldosa de cães de guarda. — Eles possuem criaturas que já estão vivas. assim como as dos caçadores.

mas com a luz vinda da entrada. que podiam ser identificados como tratadores de animais pelas roupas que envergavam. Todos temos uma. enquanto as criaturas se atiravam contra as suas jaulas. Pyke parou diante de uma porta trancada.lugar na cerimônia — retorquiu ela. A reação foi imediata. não só na fechadura mas também com uma pesada barra de ferro. encontravam-se lá. — Encantadores. e um dos tratadores destrancou a porta e abriu-a. Dois homens bem constituídos. Thatch obedeceu. — Por favor. O médico deu a Thatch uma pulseira fina de um metal suave. não são? — perguntou Pyke. O rosnar vinha do interior. Thatch conseguia ver duas filas de jaulas e as silhuetas das coisas que se encontravam no seu interior. A sala estava completamente às escuras. Impedirá os cães de a atacarem. e os dois tratadores entraram para abrir as jaulas e soltar os cães-bruxa. coloque isto. As rosnadelas transformaram-se automaticamente num ladrar frenético. com rispidez. com um único Encantamento gravado em filigrana. . e o som de correntes esticando-se por completo misturava-se com o ruído de corpos grandes batendo contra grossas barras de metal. era um som profundo e gutural.

CAPÍTULO XXVI

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Os Cães-Bruxa Profecias Cumpridas A Americana

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Ouviram os cães a caminho muito antes de os verem, e souberam de imediato que aqueles não eram cães normais. — São dezenas deles! — adivinhou Cathaline. Carver verificava a câmara da sua pistola. O zumbido do sentido-bruxa de Thaniel aumentava de volume no interior da cabeça deste à medida que as criaturas se aproximavam. Estavam dentro de uma sala alta, com longas faixas vermelhas envernizadas pendendo do teto inclinado que se encontrava sobre eles. Viam-se bancos de madeira e mesas grossas dispostas em filas, que davam àquele lugar o ar de um salão de banquetes. Existiam duas entradas arqueadas, uma por onde eles tinham acabado de entrar e outra exatamente no extremo oposto; e duas outras pequenas portas que se encontravam nas outras paredes. Os sons vinham da grande entrada em arco que estava diante deles, e aproximavam-se a grande velocidade. — Virem as mesas! — gritou Carver. — Façam barricadas! Eles assim o fizeram, empurrando duas das grandes mesas contra a

entrada de onde viriam os cães. Depois disso, viraram o resto das mesas e bancos, transformando a sala num estranho labirinto de obstáculos. Fizeram tudo em cerca de um minuto e depois recuaram, para esperar. Tinham disposto três toscas filas de mesas pesadas, de forma a que pudessem bater em retirada para trás de outra fila se fossem derrotados numa primeira. Tinham sido deixadas aberturas nas Filas de trás, para que pudessem passar rapidamente para trás delas e depois juntar as mesas para formar uma barreira forte. Agora posicionavam-se na fila da frente, com os olhos postos na entrada aberta através da qual se podia escutar o som dos cães a aproximar-se. Thaniel passou uma espada curta, de lâmina estreita que tinha no cinto, a Alaizabel. — Caso se aproximem demais — disse ele. Alaizabel pegou nela sem dizer palavra. Nessa altura chegaram os primeiros cães, duas criaturas que saltaram sobre o bloqueio da entrada e aterraram no chão lajeado. Cathaline praguejou para si mesma quando os viu. Não havia dúvidas de que eram seres-bruxa. Tinham vagamente a forma de cães, mas pareciam ter sido inchados e destorcidos desde o interior. O peito era saliente, as pernas tinham os músculos tão desenvolvidos ao ponto de parecerem grotescos, os dentes tinham crescido demais para as suas gengivas e tinham-se fendido na boca, o sangue fazendo com que a sua baba ficasse cor-de-rosa. Os olhos eram escuros e inexpressivos, embutidos em saliências de ossos proeminentes que os escondiam na sombra. O seu pêlo era de um preto hirsuto, mas eram banhados peia luz vermelha que enchia a sala, dando-lhes um aspecto infernal.

Thaniel foi o primeiro a disparar, e os outros seguiram-lhe o exemplo logo de seguida. Os dois primeiros cães foram despedaçados pela salva inicial, mas já outros saltavam e arranhavam a barricada, uivando ao sentirem o cheiro. Thaniel apontou e arrancou a cabeça de um deles quando este tentava elevar-se para cima das mesas com as patas da frente; Carver e Cathaline descarregaram ambos as suas armas sobre o flanco de outro. Dois outros caíram da mesma forma, atingidos enquanto tentavam passar sobre a barricada, mas depois, quatro cães-bruxa atacaram a barricada ao mesmo tempo, e as mesas tombaram para a frente, caindo sob o seu enorme peso. As criaturas entraram de rompante, as pistolas foram disparadas e mais duas caíram mortas. Mas os cães não se deixavam parar e agora tinham a vantagem numérica. Correndo através da sala, lançaram-se sobre as mesas viradas atrás das quais se escondiam os intrusos. Um deles conseguiu passar por cima, mas apenas para ver o cano de uma pistola colocado na boca e os seu cérebro a ser separado do crânio. Ainda assim, a maré não se detinha, e outro cão-bruxa apareceu do nada, espremendo-se por um buraco entre as mesas e dirigindo-se a toda a velocidade para Alaizabel; mas ela ergueu a espada com as duas mãos, como um punhal, e espetou-a no flanco da criatura. Esta ganiu de dor, passando por Alaizabel, e um segundo depois, Carver estava lá, para terminar o serviço com uma bala. Ele arrancou a espada das costelas da criatura morta e atirou-a de volta a Alaizabel, não podendo perder nem mais um instante, uma vez que os cães invadiam agora a sala. Ele disparou sobre outro cão que tinha ficado entalado quando tentava passar por entre duas mesas, mas falhou e só acertou na madeira. Cathaline gritou, pois uma grossa farpa de madeira acertou-lhe mesmo sobre o olho. Thaniel matou o cão

com o seu sabre antes que este se conseguisse libertar. — Recuem! — gritou Cathaline, e eles assim o fizeram, passando pelo buraco entre as mesas da outra fila e fechando-o de seguida para impedir a passagem do inimigo, Quando se deu a segunda vaga de ataque, Thaniel estava a recarregar a arma freneticamente. Cathaline limpou o fio de sangue que escorria da sua testa e voltou a apontar. Aquelas malditas coisas eram implacáveis, e atacavam agora por todos os lados. Os mais inteligentes já tinham aprendido a não tentar subir para cima das mesas, nem a tentar passar por entre eles, mas sim a dar a volta à sala e atacar pelos flancos, surgindo por trás das barricadas. Thaniel olhou em seu redor e viu um desses cães a lutar com o Rapaz-diabo, arranhando-o com as suas garras malvadas enquanto Jack lutava para manter aqueles dentes longe da sua face. Um dardo, com umas penas de cores exóticas, apareceu na mão do Rapaz-diabo e este espetou-o na criatura que se encontrava sobre ele. No momento em que se espetou na criatura, o cão guinchou e explodiu, transformando-se numa chama ocre. As criaturas pararam, amedrontadas pela visão do seu parente a contorcer-se em sofrimento, enquanto o Rapaz-diabo o tirava de cima de si. De seguida, algo voava pelo ar, atirado por Cathaline, caindo depois e detendo-se... A atmosfera foi dilacerada por uma explosão ensurdecedora e um clarão de luz tão brilhante que até encadeava. Uma das bombas luminosas de Cathaline, com uma coisinha extra para acrescentar barulho. Voltou a ouvir-se um disparo de armas, mas desta vez vinha de trás deles. Thaniel levou alguns segundos a aperceber-se de que não eram Cathaline nem Carver a disparar, mas outras pessoas que disparavam sobre

eles! Virou-se ao contrário e viu quatro homens, dois envergando uns desajustados trajes de cerimônia, outro envergando um chapéu de aba larga e roupas de cabedal, e o último envergando um manto carmesim com o capuz recolhido sobre os ombros. Eles encontravam-se na entrada em arco por onde os intrusos tinham entrado na sala, e as mesas viradas ao contrário bloqueavam a linha de fogo. Thaniel e os seus companheiros estavam entalados; de um lado tinham os cães-bruxa, do outro a Irmandade. — Fiquem juntos! — gritou Cathaline, mas a sua voz foi abafada por uma nova bomba luminosa, desta feita dirigida aos membros da seita. — Tu e o Thaniel têm de levar isto até ao fim — disse subitamente o Rapaz-diabo, surgindo mesmo ao lado de Alaizabel. — O quê? Onde é que tu vais? — gritou ela. — Chegou a minha hora. Não estarei... Foi interrompido quando Curien Blake apontou e disparou, e Alaizabel gritou e tremeu ao ver o sangue espalhar-se pela superfície de madeira da mesa, salpicando-lhe o vestido, assim como a cara e o cabelo. O Rapaz-diabo tombou para frente, caindo sobre ela e ela voltou a gritar, tropeçando para trás enquanto o afastava. Sentiu-se a ser puxada para cima. Era Thaniel, que disparava por cima do ombro dela para um cão-bruxa que saltava para os tentar apanhar. — Agora! — gritou Curien Blake fazendo-se ouvir sobre a confusão geral. Seguindo a ordem, ele e os seus dois companheiros que ainda estavam vivos avançaram em volta das mesas e correram em direção aos defensores. Egmont, o homem que envergava o manto carmesim, jazia ali

perto, morto, tendo apanhado com uma das balas de Cathaline em cheio no coração. Dartson, um dos que envergava fatos de cerimônia, pois ainda não tomara parte no ptbau’es’maik, foi atingido antes de conseguir chegar ao local onde Cathaline, Carver, Thaniel e Alaizabel se abrigavam. Mas Blake coordenara o seu ataque para coincidir com o momento em que os poucos cães-bruxa que ainda restavam se lançavam para um último assalto, e assim, Carver e Thaniel tinham tido de se ocupar com manter as criaturas à distância; deixando apenas a pistola de Cathaline para se opor aos atacantes humanos, e quando ela a apontou na direção de Blake, este atingiu-a na mão. Ela gritou de dor, recuando enquanto Blake e o único sobrevivente dos seus companheiros, Hodge, saltavam as mesas e erguiam as suas armas. Carver virou-se, mas ouviu-se o disparo da pistola de Blake e o Detetive foi atirado para trás, por cima de uma mesa, onde se quedou, imóvel. O som do cão das pistolas dos atacantes a ser preparado anunciou o final do conflito; a arma de Hodge estava encostada à cabeça de Thaniel, e a de Blake era apontada a Cathaline, que se encontrava ajoelhada no chão, agarrando a sua mão ensangüentada. Alaizabel ficou quieta onde estava. — Pode ter a certeza de que não queria disparar sobre uma senhora, madame, mas você não deixa grandes alternativas a um homem — disse Blake na sua voz arrastada. — Sacana — sibilou Cathaline por entre os dentes cerrados, tentando dobrar os dedos mas não conseguindo mais do que fazê-los tremer. Tinha um buraco na palma, onde se via a carne ensangüentada, feita em pedaços, tão escura que quase parecia preta sob a luz avermelhada. — Meu Deus, e eu que pensava que as mulheres inglesas eram só

boas maneiras — observou ele com um sorriso. Ouviu-se um rosnar, e Blake sacou de uma segunda pistola com a sua mão livre e disparou sobre o último cão-bruxa quando este tentava passar por cima da barreira de mesas. — São umas coisas terríveis de controlar, estes. Não vou deixar que se ponham para aí a mastigar os meus prisioneiros. — Eu conheço-o — disse Thaniel, e Blake virou-se para ele, levando a mão ao chapéu. — Curien Blake, o melhor caçador-de-bruxas no raio dos Estados Unidos. E eu conheço-o a si, meu senhor. Thaniel Fox, se não estou enganado. Filho do melhor caçador-de-bruxas de toda a Inglaterra, segundo me dizem. — Senhor Blake, devíamos lidar com eles agora — sugeriu Hodge. — Agora cala-te, Hodge — disse o americano. — Eu tenho negócios a tratar aqui. Ninguém vai a lado nenhum; a preciosa cerimônia do Pyke está a salvo. Eu quero divertir-me um bocado. Hodge cedeu, sem grande confiança, mantendo a arma apontada a Thaniel. — Agora, meu senhor — dirigiu-se Blake a Thaniel. — Pergunto-me se me daria uma enorme honra. — Duvido — respondeu Thaniel. — Uma vez que parece ter alinhado contra mim. — Bem, eu vou para onde há mais dinheiro, essa é que é a verdade — disse Blake, na sua irritante voz arrastada. — Mas eu não posso deixar passar uma oportunidade destas. O melhor dos Estados Unidos contra o melhor do Reino Unido. Sempre quis desafiar o teu pai, rapaz. Mas o que se diz por. aí é que o filho tem a mesma coragem. Tu e eu, Thaniel Fox.

— Facas. — Assim como aquela coisinha linda ali — acrescentou. para eles. percebes? É a lei de William Kidci. — Eu disse para te calares.Vamos ver quem sai daqui vivo. tirando-lhe todas as armas menos a faca escolhida por este. Senhor Thaniel Fox? — Nada de pistolas — disse Thaniel. para longe do caminho. Pois bem. Vamos abrir um pouco de espaço. tenho realmente de protestar. manchada de sangue. eu sou o melhor. Hodge não se conteve: — Senhor Blake. um homem faz o que tem de fazer. um punhal de lâmina longa com copos decorativos. Hodge mudou a mira da sua arma para Cathaline enquanto Blake revistava Thaniel. — Bem. — Está a desafiá-lo para um duelo? — exclamou Cathaline. enquanto via o ianque maluco a fazer o . sempre mantendo a pistola apontada a Thaniel. completamente inseguro. não és o melhor até teres batido o melhor. inscritos com Encantamentos e runas. desviaram os corpos dos cães-bruxa e do Rapaz-diabo. Blake e Thaniel afastaram as mesas do caminho no centro da sala. não querendo acreditar. seu inglesinho! — gritou o americano. — Sejam facas — acedeu Blake com um sorriso. Hodge levou Cathaline e Alaizabel para o extremo da sala. Ele suava. criando uma pequena arena. é isso ou eu dar um tiro aos dois já de seguida — retorquiu Blake. Ninguém é tão estúpido que fosse desafiar um tipo do Kentucky para um duelo de pistolas. — De onde eu venho. — Eu sabia que ia dizer isso. e estou aqui para o provar neste preciso momento! Estamos combinados. fazendo sinal com a cabeça para o local onde Hodge trazia Alaizabel para junto deles.

Só que Thaniel era mais rápido que isso. puxando da sua faca. e um plano começava a formar-se por trás daquela expressão impávida. Thaniel contra-atacou. distribuindo o peso. Blake era rápido. Durante algum tempo rodearam-se um ao outro. Blake ficou impressionado. mas que bonito. e desde então que as preferia às armas. — Deu-ma quando eu tinha oito anos. erguendo a arma. que nitidamente adorava o som da sua própria voz.que queria. fazendo ligeiras fintas. É verdade? — Matou-o com esta faca — retorquiu Thaniel. que ele matou o seu primeiro ser-bruxa com uma dessas facas Encantadas. testando os reflexos do inimigo. — Estou curioso — disse Blake. com um movimento de baixo para cima em direção ao queixo do americano. No momento seguinte tinha a faca na mão. — Ouvi histórias sobre o seu pai. agüentou a força do empurrão e golpeou a canela de Blake com a faca. sim senhor! Ele fez um movimento rápido na direção da face de Thaniel. Só tenho de saber uma coisa: é o filho do seu pai ou não? — Já o veremos — ripostou Thaniel. prontos para o combate. — Querer lutar consigo e isso. mas Blake defendeu o ataque e deu com a bota no peito de Thaniel. mas o inglês sabia um ou dois truques. afastado com o eco agudo de metal em metal. — Espero que me perdoe este capricho — disse Blake. recuperando o equilíbrio enquanto Blake . — Ora bem. provavelmente mais rápido que Thaniel. e os dois homens enfrentavam-se. Ainda não me deixou mal. sobre isso não restavam quaisquer dúvidas.

a pistola dele encostada à sua cabeça. lançou-se e atacou. O golpe só o arranhara. ainda tinha de se desviar muito mais antes que ela pudesse tentar qualquer coisa. observando. estava completamente concentrada no combate. Cathaline queria dar gritos de apoio. à medida que prestava cada vez menos atenção à sua prisioneira e cada vez mais ao combate. — Dou graças a Deus pelo bom do cabedal americano. de novo os olhos de ambos fixos um no outros. Bastava um deslize para que Blake vencesse. Mas tudo dependia de uma coordenação perfeita.recuava. Por isso ficou a ver Thaniel. pois se Blake o atacasse com tudo o que tinha. Tinha também consciência de que a pontaria dele começava a desviar-se. retribuindo depois a gentileza. seguido de um golpe a meia altura e de um último à altura dos olhos. desejando a sua vitória. mas ele não podia deixar que isso acontecesse. Alaizabel. — Hum — disse Blake. Estavam a testar-se mutuamente. Blake foi surpreendi- . Thaniel atacava agora. mas permaneceu calada. a sua face exibindo uma imagem de puro terror. tentando descobrir fraquezas. Tinha consciência de Hodge de pé junto dela. e Thaniel queria adiar esse momento o mais que pudesse. um ataque alto. uma combinação tripla que Thaniel defendeu facilmente. Mesmo assim. Nenhum deles estava ainda a lutar com todo o seu potencial. uma vez que a maior parte do que Thaniel cortara fora a bota de Blake. E com esse pensamento. Blake defendeu-os a todos. que se encontrava do outro lado de Hodge. Tinha tomado uma decisão e sabia o que tinha de fazer. o jovem tinha dúvidas de que conseguisse resistir por muito tempo.

Um lutador de facas era suposto ser cuidadoso e defensivo. Ele estava prestes a fazer qualquer coisa. Agora estou a divertir-me. atacando apenas quando a oportunidade se apresentava. as lâminas curtas chocando uma contra a outra. — Partiu-me o raio do nariz! — gritou. e a sua defesa foi descuidada. e voltou logo ao ataque. . Mais um erro. foi golpeado nas costas da mão. suplantava o americano. Ela via a resolução na sua face. e era o fim. Thaniel estava a conseguir ultrapassar as suas defesas através de puro descuido. — Não é mau. Blake praguejou e vacilou para trás. Blake estaria preparado. defendiam e atacavam. praguejando. Ele já tinha percebido o esquema de Thaniel. mas o quê? Hodge já quase nem apontava a arma a ela. cobrindo a cara com a mão. Como resultado disso. desta feita afastando a faca de Blake e dando-lhe um soco em cheio no nariz. — Bom para si — redarguiu Thaniel. um ataque que era pura e simplesmente um convite a ter uma faca espetada na garganta. mas apenas graças à sua audácia. Fazer as coisas de outra forma era equivalente a perder alguns dedos. Da próxima vez. mas o golpe não fora suficientemente profundo para atingir qualquer nervo e a sua mão continuava a funcionar bem.do pela súbita selvajaria. — Não é nada mau. Mas agora já não o podia continuar a fazer. Recuou. Senhor Thaniel Fox — comentou Blake. Thaniel olhou de relance para Cathaline e algo no seu olhar fê-la sentir-se nervosa. Mas de vez em quando Thaniel lançava um ataque para o qual Blake não estava preparado. fazendo barulho enquanto ripostavam. Thaniel tentou aproveitar a vantagem. Ele estava a lutar como um homem que não teme pela vida.

Cathaline virou-se. O seu nariz estava achatado e tinha os olhos negros. — Thaniel — gritou Alaizabel. tirando a arma das mãos de Hodge. A lâmina de Blake acertou-lhe de lado. mas o americano ficara demasiado surpreendido pelo movimento de Thaniel para conseguir colocar muita força no golpe e a faca saltou-lhe da mão. — Agora estou farto de brincadeiras. Blake ergueu a sua faca. como um toureiro. dando tempo ao seu cérebro para acompanhar os seus reflexos. rapaz — disse Blake. Alaizabel estava de boca aberta. Cathaline apontou e disparou. e o tiro de Blake saiu demasiado alto enquanto ele se inclinava para trás. espetando de seguida a sua faca na testa de Hodge. com um ligeiro empurrão deixou Blake passar ao seu lado e rodopiou.mas mesmo assim seria morta se se mexesse. entrando pelas janelas altas. Então: compreensão. Ele saltou sobre Thaniel. erguendo-a para disparar sobre Cathaline. com a mão colocada sobre o seu lado. Era rápida. Thaniel ficou de pé. Com a mão esquerda. Com um movimento rápido. mas não tanto. caindo morto no chão. correndo para onde se encontrava o . transformando a sua cara numa máscara preta e branca. Cathaline fiou imóvel por uns momentos. que se encontrava ainda de pé. e a sua expressão de raiva ficou carregada de maldade pela luz vermelha odiosa que abafava a sala. Demasiado lento. — Esse foi um truque sujo. com uma expressão parva de surpresa e o cabo da faca de Thaniel bem entre os seus olhos. desviou-se. Blake recuperou o equilíbrio num segundo e sacou a pistola do coldre. desta feita já não tão bem-disposto. — Também eu — disse Thaniel.

— Suponho que afinal és mesmo filho do teu pai. desviando-se das mesas como um relâmpago para chegar à fonte do movimento. no meio da confusão. os seus lábios ensangüentados formando um sorriso. — É só um arranhão. Thaniel Fox — disse com um sorriso. — E logo de seguida já ela lá estava. Parece que me deixei atingir. — Estás ferido — disse. com uma súbita expressão de preocupação. — O que é que foi? — perguntou Thaniel. o seu sorriso desvanecendo-se. — Bem. O rapaz susteve a respiração por causa da dor. — Menina Bennett. Cathaline aproximou-se por trás de Alaizabel. Peço desculpa. afastando o casaco dele de forma a poder examinar a ferida que lhe fora infligida.caçador-de-bruxas. . de onde se encontrava. Ele sorriu e ela abraçou-o. — Ela parou de repente. — Ah — disse Carver. — Ali — respondeu. — Não te preocupes — retorquiu ele. analisando a cena que os rodeava. — Algo se mexeu. e ela afastou-se.

um dos muitos que se estendiam por entre os grandes saiões da catedral. .CAPÍTULO XXVII ~ A Tribuna Gregor Conquista a sua Liberdade A Maré Avança ~ Ouvia-se passos apressados e vozes a vir na direção deles. — Agora todo este maldito lugar deve andar atrás de nós — disse Cathaline. e eles agora não faziam idéia de onde estavam. cada vez mais ruidosos e depois passaram e desvaneceram-se. Era uma espécie de depósito de livros. o Rapaz-diabo dissera-lhes que a cerimônia tinha de ser num grande átrio. fechando a porta de seguida. em tons de vermelho. Jack. uma pequena sala coberta de velhos volumes atirados para ali sem qualquer ordem ou cuidado aparente. Os passos aproximaram-se. um átrio suficientemente grande para acomodar muitas pessoas. Alaizabel abriu de rompante uma porta lisa de carvalho que era a saída do corredor e incitou-os a entrar. e estavam perdidos. dourado e preto. Não o teriam achado difícil de encontrar se não fosse o fato de as entranhas deste lugar horrível parecerem enrolar-se sobre si mesmas. Estavam num estreito corredor de pedra. um labirinto de pesadelo.

numa sala junto dos lados do salão onde tinham lutado contra os cães-bruxa. — Devemos estar perto — disse Thaniel. baixa e difícil de entender. escutando. A força súbita do sentido-bruxa de Thaniel a pulsar na sua cabeça apanhou-o completamente desprevenido. Esconderam-no o melhor que puderam. — Não sabes qual é o aspecto dela — realçou Alaizabel. Ela debruçava-se . o mais bem tratado e ligado que podiam. Ele sobreviveria. Ele disse-lhes para se irem embora e depressa. prometendo que voltavam para o ir buscar. O caminho diante deles parecia livre. Ele conseguia ouvir Alaizabel a dizer qualquer coisa.Thaniel estava distraidamente a recarregar a sua pistola. sem a certeza que Thaniel parecia ter. mas não estava em condições de se mexer. Eles abriram a porta e avançaram um pouco mais pelo corredor. — É uma grande cerimônia — retorquiu ele. mas a voz dela era fina. Havia coisas mais importantes em risco do que a sua vida. — A cerimônia deve ser aqui perto. — Deixem-me só ter a Thatch debaixo de mira e eu ponho-lhe uma bala no cérebro — murmurou para si mesmo. e fez com que caísse sobre um joelho em plena passada. — Acho que a reconhecerei — respondeu ela. pelo que era dado a perceber a Cathaline. — É uma grande catedral — comentou Alaizabel. — Tu sabes — retorquiu ele. era óbvio que as forças da Irmandade se encontravam enfraquecidas pela necessidade de realizar a cerimônia. Tinham deixado Carver para trás.

sobre ele. coisas que não deviam existir saíam do oceano e enviavam ondas gigantescas para destruírem as cidade humanas. o que aconteceria se a cerimônia fosse levada até ao fim. Uma escuridão terrível e fria. A visão parou de repente. e a sua maldade espalhar-se-ia como um cancro até que por fim. o que era aquilo? Visões assustadoras passavam-lhe pelos olhos. daqui a cem anos. os servos dos deuses obscuros conhecidos pelos humanos como os Glau Meska. arrebatavam-no e consumiam-no. bebês nasceriam com guelras. e os seus leitos entornar-se-iam. gritando e uivando. erguiam-se parcialmente visíveis por entre faixas de nevoeiro. Escuridão. coisas enormes com um quilômetro de altura. Os oceanos subiriam. a suar e com . as profundezas salgadas dos oceanos mais profundos onde não existia qualquer luz que aquecesse as pedras e o peso da água negra era suficientemente forte para esmagar um homem como uma uva. ou mais. feitos de ossos e tendões. os seres-bruxa correriam selvaticamente. totalmente deformados. a Mãe Terra fosse deles. os seus pequenos dedos ligados com membranas interdigitais. Londres seria afundada pelo mar e pelas coisas que viriam com a água desde os abismos do Atlântico e do Círculo Polar Ártico. afetada de forma semelhante. Ao pé dela estava Cathaline. E então chegaria a nova raça. Por amor de Deus. pela pouca terra que restasse. e quando este recuasse. as criaturas das profundezas. A terra seria engolida pelo mar. com medo e preocupação estampados nas suas feições de boneca. Na sua mente. deixando Thaniel a tremer. tudo estaria em ruínas. libertando a maldade que há muito se encontrava ali enterrada. Eles construiriam grandes templos e cidades. E viu então o resultado das ações da Irmandade.

Não os conseguem sentir a aproximar-se? — Eu. ainda pulsava. — Thaniel. mas Thaniel e Cathaline nem tentaram esconder-se. O portal. surgiram pela porta. Mais passos. — Thatch já deu início ao processo de guiar os Glau Meska até nós. — E vem daquela direção — continuou. — Eu sinto — confirmou Cathaline. . Agora não sentia qualquer remorso. E naquele momento. Thaniel passou por cima dos seus corpos sem pensar duas vezes. Até esse dia nunca tinha morto um homem. criaturas que iam para além da imaginação humana. nem tiveram tempo de erguer as suas armas pois foram logo atingidos mortalmente. cegar aqueles olhos. há muito tempo. Avançaram pelo corredor... para que a sua alma não tivesse de se encolher sob aquele olhar. ele desejava acima de tudo fechar aquele portal. envergando mantos e capuzes. quando um homem fora possuído por um ser-bruxa. onde Thatch estava e donde chamava os Glau Meska como um farol. recuperando o controle. Thaniel sentia o olhar temível dessas entidades enormes. a não ser uma vez. pelo interior opulento da catedral. apontando para o extremo do corredor. A sensação que ambos tinham tido possuía nitidamente um epicentro. A Irmandade ajudara a trazer os seres-bruxa. estás bem? O que é que foi? — A cerimônia propriamente dita já começou — declarou com uma súbita certeza a apoderar-se das suas palavras. O seu sentido-bruxa deixara de bater tão fortemente dentro de si. e quando os dois membros da seita. mas mesmo assim. Passou alguns momentos somente a respirar. eu não sinto nada — disse Alaizabel com insegurança.os braços enrolados com força sobre si mesmo.

tudo o resto se resumia a uma sombra de preocupação. talvez até milhares de pessoas nas ruas de Londres. Ouviu-se o ruído de um corpo a cair e ele afastou-se. — Eles não se podem opor a nós — disse ele. colocando a mão sobre o seu braço . Porque sentira uma dor como a que Thaniel sentia agora. Thaniel compreendeu realmente como o seu pai se devia ter sentido. Compreendia agora como Jedriah fora capaz de se fechar a si mesmo. Thaniel fê-los parar junto a um outro lanço de escadas de pedra. e ele matou-os a todos com tanta calma que mais parecia estar a dar tiros em latas dispostas sobre um muro. quando a única coisa que ele amara verdadeiramente fora atacada e chacinada num cemitério. — Não são suficientes. três outros membros da Irmandade opuseram-se a eles. A viagem foi curta. espreitando de seguida para o lado de lá da esquina. No caminho. O percurso seguido por Thaniel levou-os ao cimo de uma escadaria e depois ainda mais para o interior da catedral. pela primeira vez. pois estavam perto do átrio onde se realizava a cerimônia quando a visão os atingiu. — Thaniel — disse Cathaline. E agora. Por fim. desta feita uma escadaria estreita e discreta. tentavam trazer um mal para o mundo que o engoliria por completo. as suas vidas não eram nada e. e depois disso. Cathaline observou-o enquanto ele recuava rapidamente e um momento mais tarde saltava de arma em punho e disparava três vezes. há todos aqueles anos. Colocou o dedo sobre os lábios. deixando que o guarda da Irmandade passasse a rebolar pelo fundo das escadas. e precisam de membros para a cerimônia. olhando para cima.Tinham assassinado centenas. Confrontadas com tudo isso.

O átrio era tão grande como Jack dissera. inexpressivo. adornada a ouro. fora feito um enorme círculo de evocação em ouro. mas não tinha quaisquer bancos. e sem mais. com um balaústre ornamentado disposto entre duas cortinas de um vermelho carregado que estavam presas a cada uma das extremidades. em vez disso.—. mas o brilho do átrio lá de baixo espalhava-se para cima e sobre os ladrilhos de pedra preta. como feridas provocadas por garras. seguido por elas. com quinze metros de altura e apenas meio metro de largura. Um cântico. Janelas finas. Alaizabel e Cathaline se encontravam agora. e os cantos onde as cortinas se prendiam tornavam-se escuros por causa da sombra. subiu as escadas. Ele empurrou-a e entrou. Era o átrio onde se realizava a cerimônia. a maldosa luminescência vermelha que vinha do exterior manchava a luz das velas com um tom de sangue. tem cuidado. rasgavam a parede na vertical. Ele olhou-a fixamente. — Não vou falhar — asseverou. o som aumentou de volume. sobre isso não havia dúvidas. era uma plataforma onde as pessoas podiam ficar de pé a assistir aos acontecimentos lá de baixo. carregada de marcas e símbolos. Era suficientemente larga para ter a função de uma tribuna. Debaixo deles. partindo de um enorme vitral em forma de diamante que estava mais ou menos à mesma altura que a varanda onde Thaniel. disposto sobre obsídia negra e rodeado de braseiros feitos de uma liga de ouro que . No cimo encontrava-se uma porta de madeira preta envernizada. um som monótono repleto de consoantes ásperas e guturais e de vogais roucas. Não havia qualquer luz acesa. Quando o fez. Uma varanda alta e pequena.

Havia já quase uma hora que estava ali sentado. com as suas mãos contorcidas como garras erguidas e esticadas. e o toque frio do cano de uma pistola fez-se sentir na nuca de Alaizabel. fosse ele qual fosse. A chuva parara. Os seres-bruxa desejavam o poder. Outro lado era dedicado a um altar de pedra. e só de vez em quando os relâmpagos mostravam o seu brilho. sobrepondo-se à entoação dos outros. sendo ladeado por membros da Irmandade que envergavam os seus mantos carmesim e as suas máscaras espelhadas. Mesmo sob aquela luz vermelha. preso pelas amarras.brilhavam e ardiam. com demônios e gárgulas esculpidos sobre as costas dos quais repousavam livros antigos. estava uma jovem garota. Conseguia ver para o exterior do muro da catedral. — É ela — disse Cathaline. a cabeça pendendo para baixo e os olhos fechados como que dormindo ou profundamente concentrada. que estava a crescer no interior do edifício. no círculo de evocação. Um membro da seita lia agora em voz alta. Gregor espreitava com nervosismo pelas janelas da barquinha. onde aquelas coisas horríveis uivavam e arranhavam para tentar entrar. com goteiras de sangue cravadas no seu interior e que o percorriam a toda a volta. E ali. — Pois é — respondeu uma voz vinda das sombras. atraídos para ali como limalhas de ferro para um . curvada como uma velha. rezando para que eles voltassem depressa. mantendo o dirigível a planar. Um fosso de fogo partia do círculo de evocação e percorria a coxia central. Num lado da sala encontravam-se vários pódios de madeira. era óbvio que aquelas goteiras tinham há pouco tempo escorrido sangue. aterrorizado.

As amarras que estavam ligadas à grande barra do portão do pátio esticaram-se e agüentaram a pressão. contudo ele esperava que a qualquer momento alguma coisa o viesse atacar. pois este flutuaria para longe quando ele desatasse a última amarra. Não consegues sair de Londres. da mesma maneira que o Exército não consegue entrar. Ligou os motores e começou a subir. Bem. Ele nunca quis isto. não sabia o que fazer. Para onde irás?. Não se conseguia libertar das amarras que prendiam o dirigível sem ajuda.ímã. e os soldados ou estão mortos ou a evacuar. contra os controles. . pensou para si mesmo em russo. contudo. O aeródromo já foi invadido por esta altura. Já não conseguia agüentar mais. pensou. Se tiveres sorte. Chega. No inferno que existia debaixo dele. e ele foi impulsionado para a frente. O muro mantinha-os do lado de fora. Mas onde estavam os outros? Provavelmente mortos. Alguma coisa malvada. Santa mãe do céu. Não avançara mais de cinco metros quando o dirigível tremeu. A sua intenção nunca passara de deixar Carver e os seus companheiros na catedral e depois fugir. Gregor estava no lugar mais seguro de que se conseguia lembrar. concluiu. Perder-te-ás e darás por ti a voltar para o centro da cidade. Ele pensou nos seres-bruxa reunidos no exterior e forçou ainda mais o dirigível. Rodeado de morte e sem lugar para onde ir. rezando para que as amarras cedessem antes de os motores sobreaquecerem. alguma coisa que subisse pelas amarras que o prendiam à grande barra do portão do pátio. Estava encurralado. quero ir-me embora. não fazia tenções de se juntar a eles.

Agora era demasiado tarde para se mudar. Conhecia o poder da Irmandade e sabia o que eles podiam fazer. Contudo. estivera lá quando a pobre Chastity Blaine. estivera presente quando Rawhead foi evocado para realizar os Homicídios Verdes. Os cães tinham sido libertos. Sabia que eles se preparavam para este momento há já quase trinta anos. fora envenenada e Thatch transferida do corpo de Alaizabel para o dela. Não sabia dizer porquê. Então porque era que. Os caçadores-de-bruxas estavam lá dentro. vira Thatch a ser chamada e metida no corpo de Alaizabel. o momento em que os seus deuses seriam chamados ao mundo. temia vir a fazer qualquer coisa de irracional se ficasse mais tempo no átrio onde se realizava a cerimônia. chegado o momento. e os membros da Irmandade que não estivessem a tomar parte na cerimônia tinham pegado em armas para se defenderem. o temia? Seria possível que ele tivesse algumas dúvidas quanto à veracidade das promessas de Pyke acerca de como a Irmandade seria poupada à destruição que se avizinhava? Acreditaria realmente que entidades tão enormes que desafiavam a visão humana se preocupariam com os insetos que as traziam até ali? Estariam eles a cometer um grande erro? Não interessa. Assistira a dezenas de reuniões da Irmandade. a pedra negra abafava os sons. isso ele sabia. mas mesmo assim conseguiu ouvir o som de disparos a vir até ele através dos corredores. nascendo aos gritos para trazer o Cataclismo. As paredes desta eram grossas e. aquela que agora se encontrava no círculo de evocação do átrio onde se realizava a cerimônia. por qualquer razão.O Inspetor Maycraft estava a perder a calma. agora. mas a catedral era . por isso pegou na pistola e saiu de lá para andar pela catedral.

Um dirigível! Uma porcaria de um dirigível! Agora ele avançava pelo salão de banquetes. ouvira o ruído dos motores disfarçado pelo murmúrio da catedral e pela barulheira feita pelos seres-bruxa raivosos no exterior. Mas só Maycraft se perguntara como é que os caçadores ali tinham chegado. os Encantamentos tinham sempre conseguido mantê-los à distância. Raios e coriscos. ninguém se tinha preparado para isto! Ninguém era sequer suposto saber da existência da catedral. escondendo a catedral de vista e sugerindo subtilmente que eles largassem as suas bombas em qualquer outra parte da Zona Antiga quando a atacavam. Parou quando viu o corpo . com uma expressão de desagrado. Não havia maneira de lá chegar pela superfície. Se o olhassem de repente tudo parecia normal. ainda por cima havia poucas janelas que dessem para o portão de entrada e estas eram finas e obscurecidas por vitrais. abrindo caminho pelas mesas e passando os olhos pelos cadáveres deformados e contorcidos dos cães-bruxa que se espalhavam pelo chão. onde tivera lugar quase toda a luta. e era impossível distinguir de onde vinham os disparos. e vira-o.enorme e os seus caminhos labirínticos. Todos os seus companheiros de seita tinham estado demasiado ocupados com o que estava a acontecer no interior da catedral. E claro que tinham sido tomados em linha de conta os dirigíveis. quanto mais lá entrar. Mas uma utilização cuidadosa dos seus contatos no exército garantiu que nenhum dirigível fosse autorizado a levantar vôo naquela altura. olhara lá para fora e vira a grande amarra presa à barra do portão do pátio. E depois olhara para cima. Nenhum pensara em olhar para o pátio protegido.

construídos apenas com o intuito de empurrar suavemente o enorme balão sob o qual pendiam. nem a barra. O homem era um animal. e riu bem alto quando viu Blake ali ao pé. As que eram supostas estar trancadas e Encantadas com proteções tão fortes que nem mesmo Pyke as conseguiria quebrar. sem dúvida. Sabia o que o aguardava do lado de fora do portão. Bem. encontravam-se abertas. se queria rebentar com as amarras. Ele praguejou em russo. batendo com a porta da barquinha. mas não se preocupava com isso. Gregor espreitou pela porta do lado do passageiro da barquinha para o pátio lá em baixo. Sob a luz vermelha brilhante do redemoinho de nuvens do mal conseguia ver que a amarra principal continuava no lugar. ele tivera finalmente o que merecia. e olhou lá para fora. ele ia-se embora e depressa. As amarras não iam rebentar. Os motores eram fracos. havia uma forma simples de o fazer. enrolada em volta da barra do portão exterior. Antes que pudesse . Agora. até aí já ele tinha chegado.do Rapaz-diabo. Ficaria feliz de se ver livre daquilo tudo. E um belíssimo trabalho. Quem quer que estivesse no interior da catedral saberia cuidar de si mesmo. — Estou farto disto tudo! Voltou para o lugar do piloto e sentou-se na cadeira. — Pah! -— exclamou. Então. Conseguiu chegar às grandes portas. Com a pistola junto ao ombro. a única entrada da catedral. O motor do dirigível não tinha potência suficiente para se conseguir afastar. avançou cautelosamente para o fino raio de luz vermelha que separava as duas portas altas e negras.

entrando em jorros pelo portão destruído. Dos quatro segundos que elas demoraram a chegar ao solo. aniquilado bem no centro da detonação.pensar melhor no assunto. premiu dois botões do painel de instrumentos. . virando o dirigível para norte e afastando-se o mais depressa que podia. trepando por cima do entulho e infiltrando-se no interior da catedral como veneno. O portão e a porta da frente da catedral rebentaram em pequenos pedacinhos e o pátio irrompeu numa erupção de detritos. A parte da parede da catedral mais próxima tremeu e acabou depois por cair sob o peso das pedras que a mantinham de pé. Entraram às centenas. Maycraft estava a ponderar o que iria fazer acerca do dirigível que o sobrevoava quando viu as coisas lisas em forma de bolha a desprenderem-se da parte de baixo. correndo. pulando. Ás centenas. para se banquetearem com quem caminhava no seu interior. Sombras. Por cima de tudo aquilo. Procuravam o portal. rebocando atrás de si os restos das amarras. desmoronando-se num monte de entulho com um ruído ensurdecedor. Gregor deu um grito de contentamento ao mesmo tempo que subia para longe da malfadada catedral. e o dirigível vacilou no momento em que as duas bombas que estavam presas a ele se soltaram e caíram. atraídos pelo poder que sentiam. agrupavam-se cegamente. gritando e deslizando. Maycraft passou dois a tentar perceber o que eram. monstruosidades e fantasmas. Não ouviu os uivos de alegria que anunciaram a chegada dos seres-bruxa. Ele desapareceu numa explosão branca de calor. para o interior da maldita catedral. o dirigível soltou-se e começou a subir. um a chegar à terrível conclusão e o último a ver toda a vida a passar-lhe literalmente diante dos olhos.

as suas mentes quebrariam como ramos secos no Outono. por isso não foram apanhados completamente desprevenidos. e estavam cientes das conseqüências de interromper um Rito tão poderoso como este. Ignoraram o grito de Alaizabel como antes haviam ignorado as vozes que já há alguns minutos se ouviam na tribuna. a pessoa que lia os textos obscuros continuou. e como haviam ignorado o enorme estrondo que imediatamente antes os fizera estremecer e . até que Thaniel caiu no chão. tinham de acabar o Rito. Se parassem neste estádio tão tardio. Mesmo que fossem atingidos um por um. mas retomou o seu curso normal. mas eram todos muito disciplinados. O momento de perigo passou. O cântico passou por uma hesitação momentânea. para ver se algum deles tinha sido atingido. Tinham ouvido os disparos distantes quando os caçadores-de-bruxas abriram caminho a tiro. com uma bala na barriga. O eco vibrante do disparo fez com que as pessoas presentes no átrio onde decorria a cerimônia saltassem. mas uns quantos olharam em redor. Thatch permaneceu imóvel.CAPÍTULO XXVIII ~ Pyke Detém as Respostas Os Seres-bruxa a Nu O Fim de Tudo ~ Aquele momento foi todo ele luta. barulho e uma explosão.

Pyke erguera o seu revólver americano de sete balas rapidamente. — Minha querida Menina Bennett. parece que sim — confirmou o médico friamente. o seu olhar passando rapidamente de Thaniel para Pyke e vice-versa. um centro negro numa mancha ensangüentada de rachas. Alaizabel estava de joelhos junto ao rapaz. — Uma lição que não vou esquecer nos tempos mais próximos. Uma explosão ali perto. Thaniel. Se aquele braseiro tivesse caído. Thaniel tentara agarrar a oportunidade. mas esta fora demasiado pequena. o suor escorria frio. era visível o sangue nos seus lábios. eu avisei-o de que não tentasse nada. Mesmo uma coisa tão pequena podia perturbar o pthau’es’maik. — Não. A explosão no pátio fizera a sala abanar o suficiente para que Pyke se desequilibrasse. mas quando se tornou óbvio que ele não ia ficar no chão.vacilar. — De fato. não o deves fazer — aconselhou Alaizabel. Thaniel resmungou e começou a tentar levantar-se. quase virando ao contrário um dos braseiros. Cathaline encontrava-se de pé perto deles. — Você disparou sobre ele! — gritou Alaizabel. como que ponderando a hipótese de vingança sobre aquele homem hirsuto. O Doutor Mammon Pyke encostou a sua arma à testa de Cathaline. tudo teria terminado. A bala estava agora na parede. Quando ele se virou para o médico e falou. mesmo para ele. ela ofereceu-lhe o braço e ajudou-o. Sob as suas máscaras. apontando-o a baixa altura. . tentando em vão protegê-lo. — Tem mesmo de perceber que eu não faço bluff.

O buraco nas suas roupas quase não se via. passaram por quatro dos meus Encantamentos sem terem reparado. Podíamos ter entrado pelo átrio e por esta altura já Thatch estaria morta. Sabia exatamente onde estavam.. Um rápido olhar para as suas costas revelou que a bala tinha passado através dele. Contudo. você tem coragem — animou-o o médico. — Não sabia onde estávamos. Um refém é uma coisa terrivelmente útil. As suas calças eram suficientemente apertadas na cintura para não precisarem da faixa de cabedal a segurá-las no lugar. — Teve sorte — disse Cathaline a Pyke. A única coisa que podia fazer era travar o sangue até lhe conseguirem arranjar ajuda. o que era bom. Se aquele idiota teimoso tinha de estar de pé. — Fica quieto — sibilou Alaizabel. tirando-lhe o casaco e rasgando a sua camisa. é que a área em redor do átrio está repleta de pequenos alarmes. mas sorrindo. — Menina Bennett. Pyke riu.. mas diabos a levassem se ela o ia deixar esvair-se em sangue. Cathaline fez o que lhe foi dito.senhor Doutor — disse com esforço. se estivesse a usar um vestido como as mulheres eram supostas. Sabe. dá-me o teu cinto — ordenou Alaizabel. mas o líquido vermelho escorrendo do lado esquerdo da sua barriga era por demais evidente. . — Cathaline. Você só continua vivo para a eventualidade de eles chegarem até aqui. — Aquela explosão parece indicar que alguém anda a fazer estragos na minha catedral. um som que se assemelhava ao de folhas a serem esmagadas sob os pés de alguém. então tudo bem. — Ora. ora.

cuspindo sangue. A Irmandade será destruída juntamente com tudo o resto. não faz idéia de há quanto tempo eu trabalho para conseguir fazer isto acontecer. — Oh meu rapaz.. E as recompensas que teremos se sobrevivermos? — O quê? — gritou Thaniel. — Mas duvido.. arrasando-nos. já têm mais influência que o Parlamento! Porquê arriscar? Já são os reis e rainhas do mundo! Pyke sorriu. — Que recompensas? Já são ricos. — Então lute contra eles! Nesse momento ele soltou uma gargalhada. — Pôr fim a quê? Pôr fim à cerimônia? Meu querido rapaz. profunda e cruel. Será que ainda nenhum de vocês percebeu? Não os podem derrotar! — Porquê? — perguntou Thaniel com um ar desafiador.— Pyke — disse Thaniel. mas pergunte uma coisa a si mesmo: quem é que quer este mundo? Os seres-bruxa são a nova espécie dominante. Isso é muito amável da sua parte. um por um. — É possível — admitiu Pyke. por amor de Deus. Prefiro acabar com tudo já e estar do lado deles do que morrer resignado como vocês. tem de pôr fim a isto. Por que razão deveria eu pôr-lhe um fim? — Vão morrer todos. acalmando-se. Thaniel. rangendo depois os dentes por causa de uma vaga de dor que o atacou vinda da ferida. — Pyke. — Porque não? . piscando os seus olhos pestanudos e inclinando para a frente a sua cabeça de abutre. — Você galanteia-me. Ele respirou fundo. Eles estão a apoderar-se do nosso território. poderosos.

— Está a mentir — disse Cathaline. que tinham sido escritas antes de seres-bruxa aparecerem? Nós pegamos nos nossos piores pesadelos e transformamo-los em seres-bruxa. agora completamente lançado. com a sua postura lúgubre a animar-se enquanto falava. ninguém falou. E nós nem sequer nos apercebemos de que o estamos a fazer! Ele começou a caminhar para o outro lado da tribuna. os seres-bruxa não nasceram de bruxas como Thatch. surpreendido. — Criamo-los todos os dias! Cada vez mais numerosos. um som áspero de qualquer coisa a arrastar-se na qual nenhum deles reparou. Não se pergunta acerca do que fazemos com os outros nove décimos? Não se pergunta acerca do que aconteceria se começássemos a utilizar uma parte desse bônus? Por . Pegamos em toda a nossa vil culpa. — Thaniel Fox. em todo o nosso ódio. Menina Bennett! — gritou Pyke. — Sabia que um humano só utiliza dez por cento do cérebro ao longo de toda a vida. E nessa altura também eles desaparecerão — continuou. um ligeiro ruído. O único som que se ouvia era o cântico e por trás disso. e aquilo que os põe a mexer.— Porque nós é que os criamos! — gritou. — Não. mais maldosos. ser-bruxa atrás de ser-bruxa até não restar ninguém. — É tão óbvio! Nunca se perguntaram porque era que alguns seres-bruxa tinham a forma de velhas lendas. Thaniel? Eu sabia! Passei muito tempo a analisar cérebros e mentes. em tudo o que não gostamos em nós mesmos e com isso criamos fantasmas que nos assombram e monstros que nos perseguem. em toda a nossa vergonha. olhando Thaniel nos olhos. Eles são nós! Na varanda. mais obscuros.

isso sim. uma vez que Thaniel parecia não notar que estava a sangrar muito. — Foi nessa altura que deixamos de acreditar. Ela percebia que o rapaz não estava a tentar ganhar tempo ou distrair Pyke. nunca ninguém tinha sequer ouvido falar de sentido-bruxa até trinta anos atrás. mas que se sentia. Alaizabel rasgara a manga do seu vestido e dobrara-a. e. Era ligeiramente perturbante. dizendo-lhe para a segurar . só às vezes. transformando-a numa compressa. dá para acreditar neles. — O que é que isso tem a ver seja com o que for? Alaizabel deu a compressa a Thaniel. O que é que aconteceu? O que é que os prussianos bombardearam que soltou tudo isto? — Nós — respondeu Pyke. — Eles bombardearam-nos a nós — continuou. parecia conseguir ouvir um ruído. mas Pyke era demasiado astuto para baixar a guarda.amor de Deus. demasiado embrenhado no conhecimento que Pyke lhe estava a transmitir para se lembrar de onde estava ou do buraco na sua barriga. Cathaline ainda estava pronta para aproveitar a mais pequena oportunidade. às vezes. em algum lugar à distância. e ficariam espantados com o número de pessoas que dizem ouvir vozes. ou que reivindicam estar em contato com o outro lado. Subitamente franziu o sobrolho. — O Vernichtung — disse Thaniel. recuperando o fio à meada. mas não conseguia identificar porquê. — A Idade da Razão? — perguntou Cathaline. Foi nessa altura que entramos realmente na Idade da Razão. — Foi nessa altura que tudo começou. Os pacientes admitidos no manicômio quadruplicaram desde o Vernichtuag. genuinamente cativado pelo que o homem mais velho dizia.

era porque a aldeia era pecaminosa. foi o fim. sabe. os aztecas. as nossas igrejas. era porque os deuses estavam zangados. O bom do Charles Darwin explicou a vida. Quando um bebê morria por causa de febre. os gregos e os romanos tinham os seus deuses. Não era importante aquilo em que acreditávamos. e fez o que lhe foi dito.contra a ferida das costas enquanto ela preparava outra para o local por onde a bala tinha entrado. os seus ídolos. Ele tossiu. percebe! A ciência dá passos de gigante todos os dias. porque agora tudo é explicável. nós. A Idade da Razão é a causa de todos nós estarmos aqui. quando sentíamos o peso da vergonha e da culpa. O Homem assumia o papel de Deus. — Ah. não por nós não a termos construído suficientemente longe da costa. bem. os peles-vermelhas tinham os seus espíritos animais.. cuspindo um pouco de sangue.. podíamos expiar esses sentimentos. Podíamos ser perdoados. não por ter sistemas de filtragem de água inadequados. Desde o princípio dos tempos que o Homem acredita em algo. e cada passo se afasta mais do caminho do antigamente. mas apenas o fato de acreditarmos. Agora nós temos o poder de arrasar cidades. não percebe? Sempre tivemos alguém para culpar! Quando uma onda gigante destruía uma aldeia. Já não precisávamos de temer que um deus nos atacasse do céu. Menina Bennett.. Quando cometíamos um pecado terrível. O que é que resta? Quem é que ainda existe para nos livrar da culpa e da angústia? Quem é que podemos culpar senão nós? . O triunfo da ciência. A ciência retirou-nos a necessidade de acreditar seja no que for. de pôr fim a milhares de vidas de uma só vez. Os homens das cavernas temiam o fogo do céu.. quando largamos bombas do céu. «Quando chegou o Vernichtung.

não estamos a . Nesse momento ele encolheu-se de dor. valerá realmente a pena existir? Valerá a pena arrastarmo-nos por todo o sofrimento. ficamos sem nada. a autodestruição a que tínhamos dado início. onde a ciência não consegue chegar. temíamos o vazio que criávamos para nós mesmos. — Sabe — concluiu Pyke —. — Quando deixou de haver crença. surgiram os seres-bruxa. pois Alaizabel atava-lhe o cinto de Cathaline em volta do corpo com força. — Temos de acreditar em algo superior a nós. para segurar as compressas no lugar. Uma escravidão de fabricas. Se é só nisso que consiste a existência. Se mantivéssemos tudo isso dentro de nós. estávamos a entrar em pânico. fuligem e nevoeiro. embora não o admitíssemos a nós mesmos. — De alguma forma. na Irmandade.. ao explicarmos tudo. Porque todo o ódio. culpa e vergonha tinham de ir para algum lado Thaniel. e criamos criaturas saídas dos nossos pesadelos para nos aterrorizar. — A humanidade ainda não tem maturidade suficiente para assumir a responsabilidade pelos seus erros — afirmou Pyke. acordamos uma qualquer parte antiga das nossas mentes que nem sabíamos existir. No mais íntimo dos nossos seres. acabaríamos todos como o Stitch-face. ou destruir-nos-iam. orfanatos. O médico assentiu.. Thaniel. porque é aí que os desesperados se juntam para fazer fortuna e falham. Por isso criamos os seres-bruxa. só para chegar à conclusão de que o fim não justifica o esforço para lá chegar? Os seres-bruxa vivem em cidades de todo o mundo.— Os seres-bruxa — murmurou Thaniel. Ao darmos grandes passos na ciência. hipnotizado. nós.

Aquele som. A nossa oferenda para o mundo: deuses novos e zangados. para além da matemática e dos cinco sentidos. É a humanidade que se está a destruir a si mesma. mesmo antes de ter tempo para se aperceber de que a arma tinha encravado. Pyke. não lhe prestara atenção. e os berros dos membros da seita misturaram-se com os gritos insanos das criaturas. sibilante e agudo que penetrava nos ouvidos à medida que se aproximava.destruir a humanidade. Cathaline tirou a pistola da mão de Pyke com uma pancada. em bando. — Acho — disse Thaniel com um sorriso manchado de vermelho — que os seus queridos seres-bruxa o querem conhecer. aquele som. Seres-bruxa. pode ter a certeza. — Mataram-nos a todos! E puxou o gatilho. Thaniel tentou saltar para cima dele. — Vocês deixaram-nos entrar! — gritou. guinchando e uivando. O ruído era agora demasiado alto para ser ignorado. um som agitado. . a expressão de satisfação desvanecia-se da sua cara e era substituída pela incerteza. Os olhos do médico abriram-se. Os seres-bruxa entraram de rompante no átrio abaixo deles. e logo de seguida tinha a pistola apontada à cabeça de Thaniel. eles vão dar ao Darwin algo com que se entreter. Oh. Nós estamos a dar-lhes algo de novo em que acreditar. ao ouvir da boca de Thaniel as palavras que ele não se atrevera a pensar. — O que é isto? — perguntou Alaizabel. que se embrenhara no seu discurso. olhando para cima. Os Glau Meska. horrorizados. mas agora. meu rapaz. algo que está para além da ciência. Doutor Pyke.

os seus braços ainda esticados e a sua cabeça ainda pendendo para a frente. a improbabilidade e o acaso. protegida no interior do círculo de evocação. tombou para trás. não a garota mas a bruxa dentro dela. e ouviu-se um uivo sobrenatural que deixou Thaniel de joelhos. extraordinariamente ágil para a sua idade. Falo da força que criou as leis do Universo. Debaixo dele.mas Pyke escapou-se. mas os olhos que a habitavam amaldiçoaram-no para toda a eternidade. As suas armas são a coincidência. e foi devorada. a força que faz o tempo andar para a frente e não permite que tudo aconteça ao mesmo tempo. De repente. A face de Chastity Blaine exibia uma expressão de surpresa. uma mancha de sangue ensopava o vestido branco que envergava. um som tão alto que parecia arrasar tudo diante de si. Ele disparou. e saiu pela porta. reinava o caos. caindo para fora do círculo de evocação. como que debaixo de um enorme peso. desaparecendo pelas escadas abaixo antes que qualquer um deles o conseguisse travar. mas Thatch continuava ilesa. Thaniel pegou na pistola. Thatch vacilou. bem no centro. Depois. O céu abriu-se com a enorme explosão de um trovão. e os seus olhos abriram-se. Um vento fortíssimo. Entre os seios. embora tivessem de atravessar o enorme átrio e o seu brilho carmesim. rodou a câmara com a palma da mão e apontou. que cheirava a sal e . a força que estabelece os padrões que os planetas seguem ao girar. fixando Thaniel. Os seus braços tombaram. Os membros da seita estavam a ser completamente despedaçados. as palavras ditas pelo Rapaz-diabo no covil do Vampiro Santo surgiram na sua mente.

agarrou-se a Thaniel. estilhaçando-se e caindo por terra em grandes pedaços de vidro. como se tivesse sido rasgado por harpias. Um instante de silêncio. Incêndios eclodiram a partir de velas e lareiras. O chão pareceu ondular por toda a cidade de Londres. provocando um enorme tremor de terra e de ar. e o gigantesco redemoinho vermelho nas nuvens libertou-se como uma corrente de bicicleta partida. A Zona Antiga acolheu grande parte do impacto. o seu olhar temível passando e desvanecendo-se no momento em que o portal que os poderia deixar entrar lhes era fechado subitamente na cara. desta feita provocada por uma série de vozes. acima das hordas uivantes. entrou de rajada peia catedral. uma fúria contrariada guinchando de frustração. Alaizabel. e. Três pequenas figuras na tribuna. de um momento para o outro. Então a onda de choque partiu da catedral. os seus prédios gemendo enquanto se afundavam e desmoronavam. e eles encolheram-se os três.mar. com os seus edifícios a serem completamente pulverizados e vários já ardendo. e os olhos enormes e medonhos dos Glau Meska afastaram-se do mundo humano. O céu abriu-se em farripas. A Tower Bridge quebrou e deslizou para dentro do Tâmisa. rebentando a partir do centro e espalhando-se. . o que fora uma grossa manta de escuridão transformara-se num monte de fitas esfarrapadas que se afastavam sem qualquer direção. que estava tão aterrorizado que nem sentia a ferida. tentando ficar o mais junto que conseguissem para enfrentar o furacão que soprava à sua volta. Alaizabel fechou os olhos com força e agarrou-se a Thaniel. Voltou a ouvir-se uma enorme gritaria. O vento amainou. as janelas rachando-se.

traindo-os e deixando-os sob a luz diurna. . — Acho que acabou — disse. o som agudo de qualquer coisa metálica a rolar no chão. Cathaline encontrava-se junto dos dois. Já não se via o malvado brilho vermelho.E então acabou. A luz do sol entrava pelas janelas destruídas da catedral. o ambiente agradável da manhã. O roçar das cortinas na varanda. Alaizabel abriu os olhos.. Seguiu-se o silêncio. isso sim. via-se. Eles tinham partido. os seus raios passando pelos finos arcos. e era tudo. Os restos mortais dos membros da seita e de Thatch jaziam debaixo deles. que tinha o braço sobre a ferida. O olhar dele apresentava um ar perturbado. no chão do átrio. mas dos seres-bruxa não havia rasto. As nuvens que haviam bloqueado o sol e que lhes permitiram vaguear durante o dia tinham partido. olhando de seguida para Thaniel. com os olhos postos nos quentes raios de luz que se espalhavam pelo local. — Acho que acabou de começar — retorquiu. trazendo consigo Thaniel. completamente irreconhecíveis. Ela levantou-se lentamente..

sobrepondo-se ao brilho dos candeeiros a gás da cidade. Não se viam grandes decorações. mesmo por entre os destroços dos edifícios destruídos e queimados. e só o grande rio Tâmisa manteve as chamas afastadas do lado norte. e por isso todos levantaram os copos que seguravam e brindaram a novos começos e a novas vidas. a Zona Antiga ardeu por completo. para a noite. Na noite que se seguiu ao momento em que Thaniel matou Thatch. servira para purificar coisas que precisavam de o ser. nem paradas. . mas tal como acontecera anteriormente com o Grande Incêndio de Londres. pensou Carver. O desastre que os assolara não lhes retirara o gosto pelas festividades. neste Natal tinham celebrado como nunca. na verdade.CAPÍTULO XXIX ~ O Despertar ~ O Detetive Carver sentou-se num banco em Hyde Park e olhou para cima. e as estrelas mais brilhantes iluminavam Carver. novos começos. o seu bafo tornado visível pelo frio da noite de Janeiro e em Londres ainda se sentia a emoção do Natal e do Dia de Ano Novo. Estava sentado sob um candeeiro de rua. O despertar do que se tornara conhecido como A Escuridão fora duro e cruel. mas cada homem e cada mulher sabia que lhe tinha sido atribuída uma segunda oportunidade. que tinha estado a um passo da morte e sobrevivido. Realmente. Londres estava a gozar um raro momento de céu limpo.

pois fora Cathaline quem o encontrara depois de Blake o ter atingido. veio a chuva. ter perdido o grande final. mas depois disso desmaiara e não se apercebeu de mais nada até Cathaline e os outros voltarem para o levar dali. continuava a caçar. . O que faria ela. rangia e ribombava. Estava bem de saúde e com o mesmo espírito de sempre. Sentia que estava em dívida para com ela. ele não sabia para onde. Jurou hão voltar a caçar. Tinha uma fortuna bastante razoável e uma propriedade. Considerava um dever seu utilizar o que Pyke lhe dissera para espalhar a notícia e armar os caçadores-de-bruxas contra os seus inimigos. para descobrir uma forma de os destruir. e o grande incêndio morreu. ouvira os uivos dos seres-bruxa a invadir o local. Thaniel e Alaizabel tinham partido. Os focos de incêndio a norte tinham sido apagados prontamente e não pegaram. Onde quer que ele e Alaizabel estivessem agora. e. e fora ela quem o tratara e escondera até eles levarem a cabo o que tinham de fazer na catedral. mas decidira agora dedicar-se ao estudo da ciência-bruxa. Uma tristeza. sabendo que não podia passar por cima da água para chegar ao outro lado. Carver não fazia idéia. mas Alaizabel não era uma pessoa que Carver conseguisse perceber facilmente.Carver recordava como as chamas se ergueram na noite. estavam junto e em pleno esplendor amoroso. Ela levaria a cabo a sua vida como bem entendesse. um muro de fúria que fervilhava. A cidade estava a renascer. Ele sentira o impacto da bomba. de tentar reunir num livro informações que explicassem os seres-bruxa. herança dos seus pais. Thaniel dissera qualquer coisa acerca de estudar. Carver ainda via Cathaline de vez em quando. embora a mão ficasse um pouco presa de movimentos em noites frias como esta. Por fim.

avançando em passo de passeio na direção de Park Lane. Tudo servia um propósito. Carver levantou-se e meteu os braços nas mangas. líder da Irmandade. Mas ele escapara da catedral como eles. a teia de coincidências que se espalhava por anos e séculos até os fazer chegar a uma conclusão ou outra. Como era complexa a matriz sobre a qual caminhavam. pois se não fosse o assassino. tratando ali dos seus pacientes. Somos guiados por mãos que fogem do alcance da visão de qualquer um de nós. quando Thaniel a descobriu? Nem mesmo ela sabia responder a isso. estava feliz. continuava a viver na sua casa de campo. um ponto de frustração que ainda existia. Uma reunião social de grandes mentes da medicina. e eles não teriam conseguido pôr-lhe um travão. consequentemente. ele e Maycraft nunca teriam sido reunidos. permitindo nada mais do que uma vitória aqui e uma derrota ali. E Carver não lhe podia tocar. Assim como Alaizabel. O Doutor Mammon Pyke. Carver sabia disto porque havia uma vigilância apertada so- . Mas havia um assunto inacabado. Hoje. Interminável.mas considerava-se sortudo por ainda estar a respirar e. ajeitando depois o grande sobretudo cinzento. Até o Stitch-face servia um propósito. Escondia-se atrás da sua máscara de respeitabilidade e continuava a trabalhar em Redford Acres. Como escapara ela da Irmandade da primeira vez. Pyke ia a uma festa. pensou. Ninguém sabia do seu envolvimento na Escuridão e nunca ninguém viria a saber. todas elas ligadas umas às outras. ele nunca teria descoberto a influência da Irmandade. Pegou na cartola e começou a andar.

Com o chicote bateu nas costas dos cavalos: o garanhão preto e a égua branca. tão límpido como a neve nas Dunas5. de forma que a sua face ficava escondida na sombra. Sentindo-se abatido. levou a mão à cartola. dirigindo-se para um encontro com o Doutor Mammon Pyke. A lei não tinha qualquer poder sobre ele. Digitalização: hypnotic Revisão: Yuna Supervisão: Sayuri TOCA DIGITAL 5 Montanhas que ficam entre Goodwin Sands e a costa de Kenc. agora. nada dera resultado. virando-se para Carver e este retribuiu a delicadeza. Carver foi para casa e o Stitch-face avançou. só uma carruagem solitária passava sobre a calçada. O cocheiro envergava um casaco com a gola puxada para cima para o proteger do frio e a cartola puxada para baixo. A esta hora não havia muito trânsito. com quem tinha umas contas a ajustar. Contudo. Pyke mantinha-se longe de confusões. Ao passar.bre o bom do médico. (NT) . Carver caminhou ao longo de Park Lane.

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