Projeto do Clube Esportivo, Oscar Niemeyer

O milagre do gênio é imprevisível. Mozart, aos sete anos de idade, surpreendeu por seu virtuosismo musical; no entanto, esse tipo de fenômeno nunca aconteceu com arquitetos. A aprendizagem e o amadurecimento em arquitetura são um processo que passa por um embasamento técnico e por vivências formais e espaciais tomadas da realidade. É essa experiência que permitirá ao criador expressar-se com os instrumentos básicos da disciplina. Evidentemente, não é indispensável, para ser um gênio da arquitetura, assistir às aulas na academia, mas sem dúvida existe um ponto de partida para um trajeto que reunirá o conhecimento necessário para conceber a forma de uma edificação. É um percurso que pode ser lento ou acelerado, de acordo com as circunstâncias familiares, sociais e culturais que emolduram a formação intelectual, cultural e técnica do futuro arquiteto. Dois casos paradigmáticos de gênios que não se formaram na academia e souberam projetar e construir desde muito jovens são Le Corbusier e Frank Lloyd Wright. O primeiro obteve os conhecimentos essenciais das técnicas artesanais e das expressões artísticas em uma escola de artes e ofícios na sua cidade natal, Chaux-de-Fonds, que lhe permitiu, aos 17 anos, projetar e construir a casa Fallet. Wright, aos 22 anos, construiu sua casa em Oak Park, Chicago. Por outro lado, a figura de Louis Kahn identifica o lento despertar da genialidade, já que, formado aos 25, ele projetou com 39 anos de idade sua primeira obra: a residência Oser (1940), em Elkins Park, na Pensilvânia. A velocidade do amadurecimento criativo depende do ponto de partida na vida do adolescente. A mãe de Wright iniciou-o no sistema educativo de Friedrich Froebel, que, baseado em experimentações geométricas e formais, estimulou sua vocação para a arquitetura. Le Corbusier formou-se muito cedo na Suíça com Charles L’Eplattenier, que o introduziu nas correntes estéticas européias associadas com o artesanato e com a exatidão na produção de relógios. Por outro lado, Oscar Niemeyer teve um progresso mais lento até achar o caminho da arquitetura e manifestar sua genialidade. Decorre daí serem discutíveis tanto a afirmação de Yves Bruand de que “a ascensão de Niemeyer foi fulgurante”, (1) como aquela que estabelece que o “milagre” aconteceria em 1936, quando colabora com Le Corbusier. É curioso constatar que, sendo um dos arquitetos que mais escreveram sobre os acontecimentos marcantes de sua vida, Niemeyer não tenha se aprofundado no processo que o levou a descobrir a vocação e sua linguagem expressiva. Biógrafos e críticos tampouco fizeram uma leitura do conjunto de projetos que precedem a difusão do novo vocabulário, baseado nas formas curvas, que aparecem primeiro levemente no Pavilhão do Brasil na Feira de Nova York e depois com firmeza no conjunto da Pampulha. O que identifica a personalidade de Niemeyer é a persistência da linha, representada pelo traço limpo e puro sobre o papel branco, antecipando a materialidade de formas e espaços. Primeiro, a linha reta dos projetos iniciais, e logo as curvas livres da arquitetura, das mulheres e das paisagens. Segundo o seu próprio testemunho, a paixão pelo desenho começou na infância: “Costumava desenhar no ar com o dedo. Minha mãe perguntava: ‘Menino, o que você está fazendo?’. E eu respondia com a maior naturalidade: ‘Desenho’. Na realidade, eu fazia algumas formas no espaço, formas que conservava na memória, que corrigia e desenvolvia como se de verdade estivesse desenhando”. (2) Ele conta também que nos seus primeiros anos de escola havia uma professora - Hermínia Lyra da Silva - que o fazia desenhar com lápis de cor: “Eu fazia bules, xícaras, estatuetas; desenhos que sempre recebiam nota dez e que minha mãe guardava orgulhosa”. (3) Até decidir entrar na Escola Nacional de Belas-Artes para estudar arquitetura, Niemeyer continuou o exercício do desenho livre. Quando começou a trabalhar na tipografia do pai, distraía-se desenhando focinhos de buldogue e retratos de jogadores de futebol; e depois de casado fazia para a filha Anna Maria cabeças de buldogue com miolo de pão, pintadas meticulosamente a nanquim. Esses primeiros anos da juventude não foram aproveitados para consolidar sua futura vocação para o desenho: ele só haveria de começar seus estudos na Enba aos 23 (4) (a escola permitia o ingresso aos 17 anos). Na verdade, Niemeyer não tinha grande vocação nem disciplina para o estudo regular, alternando a sua paixão pelo futebol com a vida boêmia, que transcorria entre bares, cabarés e cinemas, com uma turma de amigos. Ao privilegiar essas atividades “de recreio”, segundo ele próprio, abandona os estudos no Colégio Santo Antônio Maria Zacarias, dos padres barnabitas, para terminá-los mais tarde no Liceu Francês. Treinava no Fluminense Futebol Clube e chegou a participar de um jogo contra o Flamengo no Estádio das Laranjeiras. Foi até chamado para integrar a equipe profissional do Flamengo, convite que afortunadamente recusou. Alternava os bares da Lapa, o cabaré da rua do Passeio, o café Lamas e o cinema Polytheama com as festas musicais no Clube de Regatas Guanabara. Sem dúvida, esse espírito livre e despreocupado moldou sua personalidade modesta e popular, assim como sua identificação com as pessoas humildes, suas lutas e sofrimentos, o que provavelmente contribuiu para a filiação ao Partido Comunista Brasileiro. Como sua família não possuía boa situação econômica, era mantida pelo avô Antônio Augusto Ribeiro de Almeida, ministro do Supremo Tribunal Federal, que os abrigava em uma grande residência em Laranjeiras. Quando Niemeyer casou, em 1928, com Annita Baldo - ele com 21 anos, ela com 17 -, passou a trabalhar na tipografia do pai para poder se manter. Em sua autobiografia, ele comenta as privações daqueles anos, quando alugou uma pequena casa, onde morava com a esposa, a prima Milota (que contribuía com o sustento do casal) e, em seguida, com a filha Anna Maria, nascida pouco tempo depois, em 1932. Entrementes, ainda segundo sua autobiografia, declara definitivamente o seu interesse pela arquitetura e decide, em 1929, ingressar na Escola Nacional de Belas-Artes. (5) Entre o clássico e o moderno Existem escassas referências sobre a sua vida entre 1929 e 1934, ano em que se gradua como arquiteto. O próprio Niemeyer minimizou a significação desses anos de estudo. Além disso, não existem relatos nem testemunhos sobre sua participação na sucessão de fatos importantes que caracterizaram esse período. No fim de 1929, pouco depois da crise na bolsa de Nova York, Le Corbusier ministra duas palestras no Rio de Janeiro.

projeto do Clube Esportivo. projetos de casas sem dono. 1932/36 Oscar Niemeyer.Lucio Costa. 1935 .

villa em Cartago. Ambulatório infantil. 1928 Prêmio Caminhoá. Ernani M. primeiro lugar.Le Corbusier. 1932. Vasconcellos Riscos de Le Corbusier para a villa em Garches (1926) .

pág. convidado por Jorge Machado Moreira. do diretório acadêmico. organizado por João Lourenço da Silva. no qual ocorreu um exacerbado debate entre os modernos e os neocoloniais. ocorre uma longa paralisação das aulas por causa da revolta paulista contra Vargas. Costa é demitido e os estudantes entram em greve contra o novo diretor.Terraço dos Immeubles Villas (1928/29) Histórico escolar do aluno Oscar Niemeyer na Enba. foi o anfitrião do 4º Congresso Pan-Americano de Arquitetos.204. José Marianno Filho. o júri da União Pan-Americana se reúne na Enba para definir os prêmios no concurso do Farol de Colombo. Buddeus. em história e teoria foi aprovado com nota 4. em Santo Domingo. O boletim comprova a tese de que Niemeyer não foi um aluno exemplar. ministra uma palestra. pouco depois da revolução de Getúlio Vargas. Alcides da Rocha Miranda. alguns deles convidados por Costa para ministrar cursos na Enba (entre os quais estão Warchavchik. Documento existente no Museu D. o diretor da Enba. Volume 6. Ademar Portugal e . Em 1932. com a presença de artistas e arquitetos da vanguarda moderna. foi o melhor aluno em composição arquitetônica. João 6º. Archimedes Memória. membro da banca internacional. Se. Frank Lloyd Wright. apóia o movimento estudantil e. Celso Antônio e Leo Putz). Em 1933. Em outubro do mesmo ano. no quinto ano. 1930/34. O primeiro e o terceiro anos estão sem nota. que contou com a presença de Gregori Warchavchik e Flávio de Carvalho. Marianno Filho foi substituído em dezembro por Lucio Costa na direção da escola. Em setembro de 1931. 185 Em 1930. da EBA/UFRJ. Cria-se nela um efervescente ambiente de mudanças que culminarão no salão “revolucionário” de 1931. Alexandre S. novamente a vanguarda arquitetônica se fez presente no Salão de Arquitetura Tropical. “simplesmente”.

anteriores ao pavilhão em Nova York. no qual obteve o segundo prêmio e pela primeira vez surgiria uma grande cobertura curva. recebendo o Prêmio Caminhoá. A afirmação de que o gênio se revelou na solução obtida no projeto do MES é controvertida. a Obra do Berço. Também não há registro para o ano de 1931. para obter a experiência prática que não se recebia na escola -. professor de perspectiva. professor de composição de arquitetura. Da fase inicial de Niemeyer. Ele próprio reafirma essa tese quando explica que somente reelaborou a solução de Le Corbusier na praia de Santa Luzia. (13) Aqui Niemeyer evidencia a sua capacidade de elaborar soluções complexas com formas articuladas espacialmente em uma estrutura geométrica simples. com o volume puro alongado. A lição dos mestres Logo após ter iniciado o curso na Enba. acabaram por debilitar a continuidade do edifício nas duas fachadas. existia. Com certeza. Na cidade começaram a surgir prédios sob a influência do movimento moderno europeu: em 1929. en feuilletant ses livres. Reidy e Gerson Pinheiro realizam o Albergue da Boa Vontade. Dois anos antes da graduação de Niemeyer. diferenciado da simplicidade esquemática dos projetos de Carlos Leão (por exemplo. em 1936 ocorre uma intensa demanda por projetos. naquele curto período em que Lucio Costa dirigiu a escola. em 1931. Marcelo Roberto construiu o edifício de apartamentos na rua do Lavradio. que contava também com a participação dos intelectuais progressistas. das articulações espaciais internas e do equilíbrio entre os volumes que compõem o conjunto. nas Immeubles Villas (1928/29) e na villa em Cartago (1928). não havia vingado. Associado com os colegas de turma Fernando Saturnino de Britto e Cássio Veiga de Sá. o escritório usava como referência o primeiro livro de Corbusier. assim como dos cinco princípios canônicos do desenho moderno. até a construção do seu primeiro prédio. Ni la ligne droite. com vegetação no térreo e no terraço-jardim.ocasião em que a maioria dos estudantes da sua geração buscava trabalhar nas empresas construtoras ou nos escritórios de arquitetura comercial. definindo um volume pouco expressivo. Os críticos. e o anteprojeto de uma maternidade. entre julho e outubro. procurando achar as leis estéticas e conceituais que definiam os códigos da arquitetura moderna. Niemeyer pouco assistia às aulas dos professores tradicionais e foi aprovado nesses cursos com notas mínimas Como seu histórico acadêmico demonstra. Cabe supor que desde o início a sensibilidade estética de Niemeyer o levou a optar pela vanguarda. até 1935. ele cita Galdino Duprat da Costa Lima.Alexandre Altberg. (11) Se for considerado que. Niemeyer também participou de dois concursos. Pela primeira vez aparece a memória explicativa do projeto escrita à mão. foi muito mais que isso. tanto funcionais quanto formais. escolas). Os desenhos apresentados ainda não tinham a limpeza e a expressividade dos posteriores. a residência Schwartz. Aqui se percebe claro domínio das articulações formais possíveis em um espaço pequeno. Nesse sentido. em um pequeno escritório na avenida Rio Branco. Costa formou uma sociedade com Carlos Leão. tem grande semelhança com as casas sem dono de Costa. critica a linha reta dura e inumana . Anos de estudo dos riscos e dos projetos do Mestre francês o levaram a dominar a linguagem racionalista. que foi rompida. aceitavam os projetos modernos. Em 1937. Desinteressado. Vers une architecture. Por fim. Nesse ponto se inicia o traço firme e refinado de Oscar. Lélio Landucci e João Lourenço da Silva. Bruand. é possível concluir que esta foi uma etapa de estudo analítico e introspecção para o jovem arquiteto. entra no concurso para o projeto da sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). primeiramente trabalhando na equipe do projeto brasileiro e em junho ao lado de Le Corbusier. Dos colegas. Alcides da Rocha Miranda. entre eles Lucio Costa. historiadores e biógrafos tampouco concedem alguma importância a essa fase: na maioria dos textos . e não ficou nada em troca”. obtendo suas melhores avaliações. junto com Milton Roberto. Na brilhante adaptação do prédio da maternidade ao forte declive do terreno. desenho de ornatos e escultura de ornatos) são lançadas no início de 1932. Este tinha finalizado sua sociedade com Warchavchik.Papadaki. na Urca (1935/36). mais que a intenção de achar um relacionamento entre desenho e natureza ou entre desenho e construção. a única casa citada por críticos. Desafortunadamente. (12) esquece-se de que ao longo da sua vida produtiva desenhou dezenas de prédios cartesianos. o anteprojeto para o Clube de Engenharia. Charlotte Perriand e Pierre Jeanneret”. a Revolução Constitucionalista contra Vargas. como em Monlevade (1934) e no Museu das Missões (1937). ganharia o Caminhoá Em 1933. foi o Club Esportivo. professor de urbanismo. foi mais coerente. ano em que vai trabalhar no escritório de Costa. o Instituto Nacional de Puericultura influenciou a solução de função semelhante na Cidade Universitária. “o trabalho escasseava e ainda porque o tal ‘modernismo estilizado’ que às vezes aflorava já não parecia . anuncia-se o desenho futuro do Grande Hotel em Ouro Preto. manteve-se. o projeto moderno de um ambulatório. e nelle ore libere consultavo i libro di Le Corbusier che per gli studenti della mia epoca constituivano un´iniziazione obbligatoria”. o cuidado no estudo da insolação e a limpeza da estrutura de concreto armado. (14)são os do Instituto Nacional de Puericultura. elaborado com Olavo Redig de Campos e José de Souza Reis. o projeto moderno de um ambulatório infantil. não somente na solução volumétrica e funcional. No concurso para a sede da ABI. desencontro que culminou com os móveis de feição ‘decorativa’ da casa Schwartz. tanto pela escassez de obras como por incompatibilidades estéticas. Algumas das principais perspectivas do projeto foram desenhadas por Niemeyer. e Paulo Pires. em volume pouco expressivo Mas na seqüência de projetos publicados na revista PDF. em vista da difícil situação econômica. o que será uma característica constante nos projetos futuros de Niemeyer. o projeto dos irmãos Roberto era o melhor. Jorge Machado Moreira. os dois últimos projetos desta seqüência. que em 1930 projetou um Palácio de Convenções Rotarianas nos moldes clássicos. Adolfo Morales de los Rios Filho e Raul Saldanha da Gama. dans chaque trait et dans chaque courbe. O júri elogiou o sistema de circulação. Francisco Saturnino de Britto e Milton Roberto. Em 1934. Nas casas sem dono. Este volume serviu de clara inspiração para a elaboração dos primeiros projetos de Niemeyer. secundado pelos recém-formados Affonso Reidy. Foram estabelecidos cursos paralelos com os professores convidados nos últimos anos . entra no curso especial de arquitetura. com o qual trabalhou em importantes obras na década de 1950. (7) Niemeyer concentrou seus maiores esforços na conclusão dos temas dados para a matéria composição de arquitetura nos últimos dois anos do curso. Provavelmente Niemeyer não teve que apresentar projetos acadêmicos como Affonso Reidy. elaborado com Lucio Costa em 1936. A análise detalhada dos projetos das casas e dos grandes edifícios (como o Palácio das Nações. na villa em Garches (1926). que eram apoiados por Attilio Corrêa Lima. Lucio Costa experimenta soluções volumétricas identificadas com as “caixas brancas” de Le Corbusier Infelizmente. Nesse sentido. e foram também adotados temas típicos da arquitetura contemporânea (conjuntos habitacionais. surpreendentemente. e os desenhos das residências projetadas no escritório . Era o desejo de dominar o desenho abstrato. especialmente depois da sua primeira visita. a única casa citada a aparecer é a de Henrique Xavier. o primeiro projeto. Warchavchik não tenha percebido a presença de Oscar. em Copacabana. nítido e limpo. Decorre que nos muitos livros realizados sob sua supervisão ou controle nunca aparecem os projetos realizados entre 1934 e 1937. que comunicam os dois extremos do lote. Como tinham poucos encargos. vencido por Marcelo e Milton Roberto e cujo segundo lugar coube a Alcides da Rocha Miranda.a “descoberta” da curva e das montanhas . durante a permanência deste por quase um mês no Rio de Janeiro. Essa obra expressa um caminho que o levará ao mundo das curvas puras. Niemeyer aprendeu ali a também diferenciar os traços e as representações dos dois Mestres. nesse projeto a visão poética de Niemeyer se libera na verticalização do espaço. Como se sente identificado com a linha curva como representação da sua personalidade criativa.demitidos junto com Costa. uma espécie de decantação. bem ou mal. e.ajustar-se aos verdadeiros princípios corbuseanos a que nos apegávamos. Sem pilotis. não se fez ainda uma pesquisa profunda acerca do ensino na Enba nesses anos convulsos. Mas o que se evidencia da estrutura docente. na rua Toneleiros. Não há registro de notas nas matérias da primeira série (desenho figurado. Cabe observar que nesse período o relacionamento com a realidade do exterior era mínimo: sua primeira viagem se realizaria por ocasião do projeto do Pavilhão do Brasil na Feira de Nova York. Havia uma coisa organizada. com pátio interno e terraço-jardim. posteriormente faz com Lucio Costa as casas operárias na Gamboa e. e a Oeuvre complète 1910-1929. nas esporádicas visitas ao escritório de Costa. Marcelo e Milton Roberto. Este procurava nos detalhes da arquitetura histórica e nos sistemas construtivos a essência do desenho. Esta solução. No concurso para a sede do Ministério de Fazenda. concluindo seus estudos em dezembro de 1934. a reforma curricular proposta por Costa. semelhantes aos do MES. quando já então havia aquela série impecável de cadeiras para as várias funções. onde esteve radicado por muitos anos. o que fica registrado nas palavras de Lucio Costa: “Foi o canto do cisne da pretendida reforma do ensino. que acabara de ser publicada e começava a circular no Brasil. Com esses projetos se fecha a experimentação teórica e começa a etapa construtiva que se inicia com a Obra do Berço. na Urca.se manifesta quando desenha as perspectivas do projeto de Le Corbusier para o Ministério da Educação e Saúde.permitiram a compreensão dos aspectos compositivos típicos. de Ernani Vasconcellos. elaborados nas viagens realizadas entre 1907 e 1911. anuncia-se o desenho do Grande Hotel em Ouro Preto Segundo Papadaki. E aqui também tem fim a imagem racionalista cartesiana da linguagem corbusieriana baseada no amor à linha reta. Evidentemente foi um percurso irregular. é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro . Minha intervenção foi praticamente negativa. sua formação foi diferente da de Le Corbusier. no qual fica evidente seu desinteresse pela maioria das matérias ministradas. com claras influências da Bauhaus. que serão assumidas da experiência ao lado do Mestre francês. com janelas corridas horizontais. proposta por Jorge Machado Moreira e Ernani Vasconcellos. Os professores tradicionais. e não ao salão. MG. fato que lhe possibilitou terminar o curso. dure et inflexible creé par l´homme -. em 1934. Luiz Nunes. Esse domínio das interrelações espaciais demonstra a sua leitura aprofundada dos interiores elaborados por Le Corbusier na villa Meyer (1925). Os primeiros projetos Niemeyer nunca se preocupou em documentar uma genealogia séria da sua trajetória arquitetônica. ano em que ocorre. le but architectural”. Niemeyer decide procurar trabalho no escritório de Lucio Costa. Foi um trabalho intenso. obteria o primeiro lugar. a nova Constituição é promulgada e em 1935 ocorrem o levante comunista e o fechamento da Universidade do Distrito Federal. além de se ter incorporado o urbanismo. É importante ressaltar que dois anos antes da graduação de Niemeyer. e levando em conta o relato do Mestre sobre a participação tranqüila e quase anônima no período 1933/35. (8) Talvez isso demonstre que não havia um confronto acintoso entre acadêmicos e modernos. Jorge Machado Moreira e José de Souza Reis. Em março é aprovada pelo ministro Gustavo Capanema a equipe selecionada por Costa para elaborar o projeto do MES. mais do que uma epifania. Saldanha da Gama e Paulo Pires. pois desarrumei uma coisa que. com o volume horizontal suspenso no ar pelos finos pilotis. e também. o segundo lugar foi outorgado à equipe de Oscar Niemeyer. desenho geométrico e história da arte): uma simples observação indica que havia sido “promovido nas notas do primeiro ano”.ao Carlos Leão e a mim . o pedido de emprego foi aceito. mais que pela prática profissional. o que ocorreu foi o resultado de processo evolutivo. Niemeyer dedica-se a descobrir os segredos desses desenhos: “A quello scopo. experimentando soluções formais. semifechado. (9) A partir desse ano. espaciais e volumétricas identificadas com os modelos das “caixas brancas” de Le Corbusier. e assumindo o lirismo de Shelley e Rilke. Lecionou em Havana. transformando a lâmina horizontal em vertical e elevando os pilotis de quatro para dez metros. No entanto. que não tinha grande vocação para os estudos teóricos. idealizada por Le Corbusier. Maior sofisticação planimétrica e espacial aparece no projeto da casa Henrique Xavier. que iria produzir mais à frente. Sem dúvida. Niemeyer e seus associados criaram um sistema em ziguezague. em 1932.as de Álvaro Osório de Almeida. matérias técnicas ou desenhos decorativos. a ponto de o próprio Corbusier ficar surpreso com a maestria de Niemeyer na representação das formas e espaços nas perspectivas desenhadas do MES e do projeto da Cidade Universitária. Depois da escassa atividade desenvolvida em 1935. em que os temas de projeto arquitetônico estavam distribuídos ao longo dos cinco anos de estudos. mas também no projeto da Cidade Universitária. ou o do Colégio Pedro 2º. Sem dúvida. obtido por uma seqüência de cheios e vazios. da Diretoria de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal. onde se integra Niemeyer. E na brilhante adaptação do prédio da maternidade ao forte declive do terreno. o jovem Niemeyer presenciou o debate entre antigos e modernos. Nesse mesmo ano é promovido nas notas das matérias da terceira série sem de fato cursá-las de acordo com o decreto de 5 de dezembro. As notas de três das quatro matérias da segunda série (desenho figurado. Costa se consolidou como líder indiscutível da modernidade arquitetônica carioca. Corona -. que se organizam em um movimento em direção ao céu. para obter a medalha de ouro no concurso do grau máximo para o trabalho final de graduação. em um vôo leve. a presença dos pilotis e dos grandes terraços abertos que se abrem para as áreas verdes. Genival Londres e Coelho Duarte . É aqui que se manifesta a sua vocação para o desenho arquitetônico. Colocando a entrada principal na esquina. assim como alguns prédios específicos: o Clube dos Estudantes tem o traço de Niemeyer e reflete a influência da solução da praia de Santa Luzia do Mestre francês. onde consegue criar um sistema de caixas articuladas e perfuradas que permite a ventilação e a implantação de espaços livres abertos. quando Lucio Costa fecha o escritório. em 1932. mas também na utilização dos brises na fachada. com o predomínio de um ensino dito “artístico”. en essayant de percevoir ses intentions. que outorgava uma bolsa de viagem por dois anos na Europa. com um volume puro sobre pilotis. como o demonstram seus vários Carnets. Botey. cercavo di studiare attentamente i progetti che si elaboravano nell´atelier di Lucio. no mesmo ano Gregori Warchavchik acaba a importante residência Nordschild. Tampouco elaborava desenhos de paisagens naturais ou urbanas. a partir dos quais foi buscando a sua própria linguagem gráfica. definido por um terreno entre empenas. num processo de decantação ao longo da seqüência dos projetos realizados entre os anos 1934 e 1937. como Archimedes Memória. verificável na comparação entre os riscos de Le Corbusier e a posterior interpretação do jovem arquiteto. Ele também desenvolve um elaborado estudo dos espaços interiores e dos grandes salões para as atividades sociais. propondo na fachada a alternância de pano de vidro e um pano total com brises. segundo seu próprio testemunho: “C’est lá que nous avons étudiée. A planta quadrada. o primeiro registro da natureza carioca . da organização dos cursos e da equipe de professores é que as mudanças estabelecidas por Lucio Costa não conseguiram alterar radicalmente os fundamentos práticos e teóricos da academia. Provavelmente. a estrutura básica. mas. Atualmente.“Ce n´est pas l´angle droit qui m´attire. já que essas aulas eram ministradas nos anos finais do curso. de 1937) e da integração entre o moderno e o vernáculo que identificará a produção de Costa. Tampouco participou de um grupo específico da sua turma. Entre as tentativas de mudanças no ensino e o sucesso do salão do 1931. Niemeyer sujeitou-se a trabalhar sem receber salário. no qual Niemeyer colaborou tanto com Le Corbusier quanto com Costa. na Urca Na ocasião em que Costa projeta as casas sem dono. em primeiro lugar. pouco assistia às aulas dos professores tradicionais e foi aprovado nesses cursos com notas mínimas. entre outros. vilas operárias com casas mínimas. (6) Niemeyer. Já se percebe a procura da transparência entre os espaços externos e internos e a adaptação ao clima nas pérgulas que protegem o terraço-jardim. na praia de Santa Luzia. em Genebra) realizados por Le Corbusier. Segundo a justificativa do próprio Costa. semelhante ao de Ícaro. Niemeyer não teve contato com o ensino proposto pelo grupo de professores de vanguarda no período 1930/31. em 1933.(10) Ou seja. vencido por Eneas Silva e Wladimir Alves de Souza. refiro-me ao ensino. Em 1936. ingressando no curso especial de arquitetura . quando tinha 20 anos. feito por Ernani Vasconcellos e avaliado por Memória. A última (geometria descritiva) é lançada em novembro. Niemeyer e seus associados criaram um sistema em ziguezague. As duas propostas evidenciam seu domínio da grande escala. em seu famoso poema. Niemeyer matriculou-se no curso geral em 1930. Gastão Bahiana. historiadores e biógrafos é a residência Henrique Xavier. organiza-se com estrutura simétrica indicada pelo acesso principal e as duas escadas que comunicam os três pavimentos. *Roberto Segre nasceu na Itália e formou-se arquiteto pela Universidade de Buenos Aires em 1960. en tentant de découvrir. não somente na realização dos desenhos do MES. não inclui Hélio Uchoa. hospitais.

Oscar Niemeyer. pelo Prourb-FAU/UFRJ Agradecemos as informações fornecidas pela doutoranda do Prourb-FAU/UFRJ Denise Vianna Nunes e pela bolsista do Laurd/Prourb-FAU/UFRJ Flávia da Silva Teixeira Notas: 1 . São Paulo. op. São Paulo. Rio de Janeiro. “Ensino acadêmico e modernidade.Oscar Niemeyer. 13. 1996. 1996. Urca. 305. Concluiu mestrado em 1985 em Cornell (EUA) e doutorado em urbanismo em 2003. 72.Marcos Sá Corrêa. O curso de arquitetura da Enba. 113. Arquitetura contemporânea no Brasil. 13 . Lugano. Editora JB.. EBA/UFRJ. Memórias. pág. pág.. 7 . Tese de doutorado. cit. Revan. pág. pág. Oscar Niemeyer. pág. 1995. Relume-Dumará. Oscar Niemeyer. Arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateaubriand.). George Braziller. 1960. 18. aparece com a idade de 20 anos. 2007. 1998.Jean Petit (ed. pág. Rio de Janeiro. 42. op. Fidia Edizioni d´Arte. Entre dois séculos. 12 . 1890-1930”. Rio de Janeiro. 105.Curiosamente. Rio de Janeiro. FAU/USP. poéte d´architecture. Milão. Lucio Costa. Niemeyer.Helena Cunha de Uzeda. na ata de inscrição da Enba. 5 . pág.Roberto Pontual. As curvas do tempo. 17. Arnoldo Mondadori Editore. pág. 10 . onde é professor adjunto e vice-diretor. Publicada originalmente em PROJETODESIGN Edição 345 Novembro de 2008 Proposta de Niemeyer para o Clube dos Estudantes na Cidade Universitária. 1995. Perspectiva. 6 .**José Barki formou-se em 1974 na FAU/UFRJ. 1987. 2 . 1975. 89. 11 . 9 . 8 .Jean Petit. 14 . inserido no projeto geral de autoria de Lucio Costa. Nova York. projeto da residência de Henrique Xavier.Jean Petit. pág. 1935/36 . Tese de doutorado.Oscar Niemeyer. pág. 455. pág. “Oscar Niemeyer e Le Corbusier: encontros”.Yves Bruand. Lugano. Oscar Niemeyer. Empresa das Artes. 1999. Fidia Edizioni d´Arte. 4 . São Paulo. 68. 3 . 2006.Stamo Papadaki. cit. 1936 Oscar Niemeyer. 1975.Lucio Costa. registro de uma vivência. Niemeyer paroles d´architecture.Rodrigo Cristiano Queiroz. 33. pág.

projeto apresentado no concurso para a sede da Associação Brasileira de Imprensa.Oscar Niemeyer. Fernando Saturnino de Britto e Cássio Veiga de Sá. Jorge Machado Moreira e José de Souza Reis. projeto que obteve o segundo prêmio no concurso do Ministério da Fazenda. 1936 Perspectivas interiores do projeto da ABI . 1936 Oscar Niemeyer.

Perspectivas do projeto de Oscar Niemeyer. Rio de Janeiro. 1937 Oscar Niemeyer. 1937. para o Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York. Comparação com o Grande Hotel de Ouro Preto . que obteve o segundo prêmio. anteprojeto de maternidade.

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1937 Casas sem dono de Lucio Costa Croqui . desenhos do projeto do Instituto Nacional de Puericultura. Olavo Redig de Campos e José de Souza Reis.Oscar Niemeyer.

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