Um Caso de feiti€aria

na Inquisiۥo de Pernambuco

Tatiane Trigueiro

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

Um caso de “feitiçaria” na Inquisição de Pernambuco
Tatiane de Lima Trigueiro

Recife 2001

Tatiane de Lima Trigueiro

Um caso de “feitiçaria” na Inquisição de Pernambuco

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco como requisito parcial para a obtenção do grau de mestre em História, sob a orientação do Prof. Dr. Marcus Joaquim Maciel de Carvalho.

Recife 2001

2

RESUMO

A chegada do Santo Ofício ao Brasil se deu com a união das coroas ibéricas e com o fim dela o “espírito” da perseguição, da delação e do confisco de bens já estava enraizado no seio da nossa sociedade. P e r n a m b uco não poderia ficar de fora desse processo inquisitorial. Por terras duartinas passou o primeiro visitador que esteve no Brasil e aqui deixou plantada a semente da suspeita e da delação, apesar de ser considerada uma terra de degredados penalizados pelo Santo Ofício, ou de fugitivos da inquisição portuguesa.

Por outro lado, a Capitania pernambucana era uma fonte de riqueza e de onde saiam muitos provimentos para a metrópole européia; dessa forma as oportunidades de comércio e bons negócios era uma constant e na realidade da população. Contudo, os moradores da Capitania conviviam com presença tanto de religiosos, que procuravam impor mais as regras que praticá- las, quanto com “feiticeiros”, “curandeiros” e “bruxos” que procuravam para livrar- se conquistar algo ou alguém. Como de mau querenças ou

conseqüência

dessa

realidade

religiosa que permeava Pernambuco, se constituiu uma sociedade com algumas particularidades.

3

A todos aqueles que um dia se sentiram injustiçados.

4

Agradecimentos Agradecimentos

Muitas são as pessoas a agradecer pelo apoio para a realização deste trabalho. Primeiramente a Deus por tudo que ele representa na minha vida e também a meus irmãos, pai e mãe, sobrinho e cunhados. A Rogério pelo carinho ao presenciar minhas crises de choro. Algumas pessoas são diretamente responsáveis pela realização desta dissertação e muito me ajudaram. Por ordem cronológica: Prof. Dr. Carlos Miranda pela ajuda na elaboração do meu projeto e pelo incentivo a este tema; ao Prof. Dr. Marcos Joaquim M. de Carvalho por ter aceitado me orientar, não só na minha formação acadêmica, mas também como amigo compreensivo e confessor nas horas de angústias. À professora Virgínia Almoêdo de Assis pela amizade, pelas conversas e pelo apoio constante. À prof.ª Drª. Sílvia Cortez pelo carinho, pelas leituras e pela ajuda na construção do trabalho. Ao professor Severino Vicente pelas leituras e sugestões bibliográficas. Não poderia esquecer as amigas que tanto me ajudaram, não só por serem amigas, mas principalmente por serem profissionais da área extremamente competentes: Érika Simone de Almeida Carlos Dias, pela pesquisa no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, e pela decana amizade e companheirismo, mesmo estando além -mar. À Maria da Conceição Pires da Silva, pela correção deste trabalho, mas principalmente pelos esporos para a sua conclusão. Aos meus amigos de sala de aula, aos professores do mestrado, que tanto contribuíram para a minha formação. Ao CNPq pela bolsa de estudos. A Rogéria Feitosa, a Carmem Lúcia de Carvalho dos Santos, a Luciane Costa Borba. Funcionárias competentes da UFPE e amigas queridas. À Andrea Nunes F. de Barros por escaniar as imagens. Para finalizar gostaria de deixar o meu agradecimento e o meu respeito a uma pessoa que muito se esforçou para a elaboração e conclusão deste trabalho. Eu mesma.

5

Sumário

Introdução

Capítulo 1 : A Inquisição 1.1

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 16

– Histórico inquisitorial: períodos Medieval e Moderno ::::::::::::::::::::::::::: ::::::: 20

1.2

– Inquisição na Península Ibérica: Questões políticas, econômicas e religiosas ::::::::::::: 30

Capítulo 2 – Brasil Inquisitorial

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 47 :::::::::::::::::::::::::: 48

2.1 – A Inquisição chega ao Brasil

2.2 – A Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil – 1593 ::::::::::::::::::::::::::::::: 55

2.3 – As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia ::::::::::::::::::::::::::::::::: 70

6

Capítulo 3 – Uma “feiticeira” em Pernambuco

:::::::::::::::: 83

3.1 – Descrição do processo de Antonia Maria 3.1.1 – Beja -Évora-Portugal/1713 :::::::::::::::::::::::: 85

3.1.2 – Recife- Pernambuco-Brasil -Lisboa/1723 ::::: 89

3.2 – Análise do processo de Antonia Maria

:::::::::: 99

Considerações Finais ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 123

Bibliografia

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 127

Anexos

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 135

7

Introdução

Ao

longo

dos

tempos

a

mulher

sempre

foi

a

responsável

pela

transmissão das tradições culturais da sociedade. Até bem pouco tempo atrás, era responsabilidade exclusiva da mãe a educação dos filhos e a passagem dos conceitos morais e religiosos que pertenciam à comunidade.

Nas sociedades primitivas, 1 a mulher possuía uma posição de destaque; ela era considerada um ser sagrado, porque [podia] dar vida e (...) ajudar a fertilidade da terra e dos animais.2

A mudança desse conceito do papel feminino é evidente no período onde se inicia a caça aos grandes animais. A partir desse momento as comunidades passaram a necessitar de mais alimento para abastecer a população e de mais espaço territorial para ocupar. Iniciaram- se as

1

Entendemos por sociedade primitiva as comunidades que antecederam o período neolítico e que sobreviviam da coleta de frutos e da caça aos pequenos animais. 2 MURARO, Rose Marie in KRAMER Heinrich e SPRENGER, James. Malleus Maleficarum – O Martelo das Feiticeiras. Rio de Janeiro, 1993, Editora Rosa dos Tempos, p. 05.

8

g uerras, momento em que a força física masculina tornou- se evidente e dominante.

Com a sedentarização dos grupos nômades coletores e caçadores de alimentos, as sociedades se tornaram patriarcais. A mulher passou a exercer um papel doméstico, mas ainda sendo respeitado seu ofício dentro da máquina funcional dessas sociedades, o de transmissora dos padrões culturais da comunidade.

O medo do desconhecido, do não acessível e do poder que algumas mulheres possuíam em manipular ervas e rezas ou de gerar outro ser, desenvolveu nos homens, nos médicos letrados e nas autoridades tanto eclesiásticas quanto estatais, um sentimento que “justificou”, na Idade Média, uma das maiores perseguições existente na História.

O medo e o receio do mistério que envolvia as rezas e os nascimentos, associado ao delírio e a intolerância, proporcionaram uma histeria coletiva que passou a conduzir essas perseguições.

Na Idade Moderna também essa perseguição se instituiu nos países europeus, principalmente da Península Ibérica. Segundo Anita

Novinsky dezenas de mulheres foram perseguidas e torturadas pelos

9

Tribunais da Santa Inquisição nesse período da história, e mortas nos Autos de Fé. 3 Além das mulheres, judeus, cristãos novos e também muçulmanos, foram perseguidos, presos, torturados, condenados e seus bens foram confiscados para o Estado e a Igreja.

Quem conseguiu escapar das “garras” da Inquisição se refugiou em terras distantes da perseguição; o Brasil pertenceu à “rota” dos i m i g r a n t e s- fugitivos. Inúmeros refugiados migraram para a colônia como alternativa de vida tranqüila. Contudo, os domínios

inquisitoriais aqui também aportaram e essas populações se viram cercadas por suspeitas, intrigas e delações. Viram- se presas e

condenadas, tiveram seus bens confiscados e ficaram marcados por gerações.

Pernambuco se inseriu como uma alternativa a esses grupos; por questões particulares de sua povoação e colonização, a intolerância a esses grupos se deu de forma amena. Além desses fatores, houve uma maior permissividade com relação às práticas e crenças que diferiam da difundida pela Igreja Católica Romana.

3

Festa realizada em praça pública durante todo o dia com uma série de atividades religiosas, entre elas a missa e a procissão, onde era lido o veredicto dos vários processos e os condenados a morte pelos Tribunais da Santa Inquisição eram executados no encerramento destas atividades. Detalharemos essas festas no capítulo 1.

10

O presente trabalho tem como proposta analisar está sociedade na primeira metade do século XVIII tendo como referência a atuação da Inquisição em território pernambucano no que diz respeit o a

perseguição às práticas heréticas de “feiticeiras”.

Contudo, para se estudar as práticas mágicas desses grupos no período moderno é necessário que entendamos como a inquisição chegou até eles. Nessa época da história a Igreja Romana estava mais preoc u p a d a nos bens que pudessem o ser confiscados também do que nessas com artes esse

propriamente

ditas;

Estado

compactuava

pensamento e principalmente com essa ação.

A entrada das práticas de feitiçarias foi apenas um “fio” inserido na “rede” de intrigas, denúncias e confissões. O que interessava às autoridades tanto seculares quanto regulares (Igreja e Estado) eram os cristãos novos, que na sua maioria eram proprietários de riquezas.

A palavra “bruxa” e “feiticeira” apesar de hoje terem se tornado sinônim o , apenas possuíam significados diferentes. Os bruxos que possuíam transporta

certas

capacidades

ocultas

(poderes),

hereditariamente, é causador de efeitos maléficos sem (...) ter disso

11

consciência [já os feiticeiros] pratica igualmente malefícios mas para o fazer tem que executar ritos, recitar fórmulas, ou ministrar porções .4

Dessa forma, as bruxas eram mulheres que haviam herdado das mães suas habilidades e as usava com fins de praticar maldades; as feiticeiras também eram do “mal” só que necessitavam ut i l i z a r a l g u n s meios para realizar suas artes. Dentro desse contexto de práticas heréticas se inseriam os curandeiros, que praticavam o bem

manipulando ervas e rezas na realização dos seus trabalhos, segundo Paiva, eles praticavam a magia com finalidades benéficas e à

semelhança do “feiticeiro”, para o fazer tem que executar certas operações ou aplicar “medicina”. 5

O período colonial foi selecionado por sentirmos necessidade de compreender a atuação inquisitorial em Pernambuco, nesse momento histórico, no que diz respeito às práticas heréticas desses grupos, já que no final desse período houve um “relaxamento” das autoridades eclesiásticas às artes mágicas praticadas pelas populações locais e que antes eram reprimidas e condenadas.

4

PAIVA, José Pedro. Práticas e crenças mágicas. O medo e a necessidade dos mágicos na diocese de Coimbra (1650-1740). Coimbra, Editora Livraria Minerva, 1992, p. 25. 5 PAIVA. Idem.

12

Assim nos esclarece Carl os André Cavalcante em sua dissertação de mestrado intitulada “A Reconstrução da Intolerância: o Regimento de 1774 e a Reforma do Santo Ofício”. Ele nos diz que:

no final do séc. XVIII e início do XIX os acusados de p r á t i c a s m á g i c a s ( . . . ) f o r a m p e r d o a d o s . Os inquisidores alegavam que eles eram pessoas humildes e ignorantes por acreditarem em certas superstições atribuídas na época à práticas mágicas que protegeriam ou ajudariam eles e os seus. 6

Também será analisada as Constituições Primeiras do Arcebispado d a Bahia, promulgadas em 1707 e organizadas pelos diocesanos com o intuito de ditar as regras para a sociedade brasileira nesse período. Essas leis representaram o primeiro e o mais completo conjunto de normas jurídico - religiosas que, apesar de serem ins piradas em outros documentos diocesanos, foram adaptados à realidade da colônia

portuguesa na América e são fontes essenciais para compreendermos o comportamento religioso e social da época estudada.

6

CAVALCANTE, Carlos André Macedo. A Reconstrução da Intolerância: o Regimento de 1774 e a Reforma do Santo Ofício. P. 61 e 62.

13

Esta

dissertação

de

mestrado

abordará,

no

primeiro

capítulo,

o

contexto histórico da instituição da Inquisição nos períodos Medieval e Moderno, relacionando as diferenças existentes em um e outro momento. Como a perseguição se posicionou nessas duas realidades distintas da História Ocidental considerando as particularidades

religiosas, políticas e econômicas de cada época, principalmente na Península Ibérica.

No segundo capítulo examinaremos como essa perseguição chegou e foi instituída na Colônia brasileira e de que forma ela se adaptou à diferente realidade de sua cultura de origem. Versaremos sobre os porquês da primeira visitação do Santo Ofício ao Brasil, e porque Pernambuco se inseriu neste roteiro. Analisaremos como se encontrava a Capitania no que se refere às práticas religiosas e ao seguimento das r e gras defendidas pela Igreja Católica Apostólica Romana. Teremos, entre outras fontes, as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, de 1707.

No terceiro e último capítulo discutiremos a sociedade pernambucana tendo como ponto de análise a Inquisição na colônia e as “práticas mágicas” que povoaram e amedrontaram a Capitania e os dirigentes religiosos, observando o significado dessas artes e tentando

14

compreender as causas do envolvimento da população de Pernambuco na aceitação desses ritos considerados h e r e s i a s .

Através do estudo dessas práticas tentaremos demonstrar que camadas da sociedade se envolviam e utilizavam estes artifícios. Que grupos recorriam ao emprego sociais, de rezas e simpatias e para resolverem ou até

divergências

problemas

econômicos

conquistar

mesmo se livrar de homens e situações indesejadas, além de se servirem desses mecanismos para prejudicar algum desafeto.

Também levantaremos que práticas eram consideradas como sendo “mágicas”, qual o ritual que envolvia a realização delas e s e o resultado obtido era satisfatório, ou seja, se o efeito desejado era alcançado.

15

Capítulo 1

A Inquisição

1.1 – H i s t ó r i c o
inquisitorial: Períodos Medieval e Moderno

1.2 – Inquisição na
Península Ibérica: questões econômicas, políticas e religiosas

A perseguição religiosa não é uma novidade dos tempos modernos. Desde a Antiguidade grupos religiosos são atormentados por

colocarem em risco a unidade e o funcionamento político e econômico dos seus reinos; assim ocorreu com os primeiros cristãos em Roma, quando muitos foram executados pelos imperadores romanos

justamente por prega rem uma nova ordem social que diferia da existente até então.

A partir da conversão do Imperador Constantino, em 313, e da religião cristã ter se tornado a religião oficial a partir de 380, os imperadores cristãos que se seguiram passaram a punir com rigor o paganismo e as heresias 1 . Segundo Novinsky, esse conceito de herege surgiu a partir do momento em que a Igreja Romana, no final do séc. XIII passou a receber críticas contra os seus dogmas, esses críticos foram chamados de hereges. 2

1

GONZAGA, João Bernardino Garcia. A inquisição em seu mundo. São Paulo, Editora Saraiva, 1993, p. 93. 2 NOVINSKY, Anita Waingort. A Inquisição. São Paulo, Editora Brasiliense, 1982. “A palavra herege origina-se do grego hairesis e do latim haeresis e significa doutrina contrária ao que foi definido pela Igreja em matéria de fé. Em grego, hairetikis significa ‘o que escolhe’”. p. 10-11.

17

No período Medieval, os cristãos já não mais eram perseguidos, agora assumiam o papel de perseguidores. Sabe- se que tanto a Igreja Católica como outros grupos sociais acossaram, torturaram e

executaram pessoas que não se adequaram ao padrão sócio - c u l t u r a l estabelecido pelo s grupos dominantes.

Essas perseguições se deram a partir do momento em que os interesses da Igreja foram postos em “xeque” e as várias populações passaram a não aceitar a “verdade absoluta” da Igreja e se rebelaram assumindo posturas e defendendo valores que colocavam em risco a unidade da Igreja e o seu poder.

Já a perseguição por parte do que hoje chamamos de Estado, 3 ocorreu sempre que este viu seus interesses prejudicados. Dessa forma se deu com os cristãos em Roma, na Antiguidade, e também no períod o moderno contra os cristãos - novos na Europa, pois havia a necessidade de acumular capitais para consolidar a centralização política e a modernização necessária para o desenvolvimento do Estado como Nação. Alguns Estados se encontravam falidos e sem perspectiva de

3

Organismo político administrativo que, como nação soberana ou divisão territorial, ocupa um território determinado, é dirigido por governo próprio e se constitui pessoa jurídica de direito público, internacionalmente reconhecida. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua Portuguesa, Editora Nova Fronteira, 1986, p. 714.

18

concentrar forças e riquezas para este propósito. Neste contexto, entra a Igreja como cúmplice e colaboradora dos monarcas na perseguição aos infiéis cristãos.

Dentre os perseguidos da Europa se encontravam comerciantes e camponeses, além de memb ros do próprio clero como Giordano Bruno que, de certa forma, passaram a questionar os valores e os dogmas da própria Igreja. Todavia, judeus e cristãos novos que habitavam a Península Ibérica, detentores de riquezas e influências, foram os grupos sociais que mais sofreram com a perseguição.

Veremos,

neste

capítulo,

como

se

deu

a

inquisição

no

período

medieval e moderno e a instalação dela na Península Ibérica.

19

1.1 – H i s t ó r i c o I n q u i s i t o r i a l :
Períodos Medieval e Moderno

A época medieval, até bem po uco tempo atrás, era considerada pelos pesquisadores como um momento da história da humanidade Ocidental em que as artes e as ciências praticamente não se desenvolveram e onde o conhecimento e o saber foram sufocados por religiosidades e superstições.

Ape sar dos recentes estudos sobre o período chegarem a algumas conclusões que desmistificam essa realidade, esse imaginário medieval não é de todo falso.

No início da Idade Média, as populações do imenso Império Romano migraram – em virtude das diversas invasões dos povos bárbaros para o interior e se refugiaram nas propriedades rurais dos senhores

20

feudais. A partir do século IX, houve a revolução artística carolíngia 4 e um reflorescimento das letras e das artes. Várias escolas foram fundadas e com elas se desenvolveram algumas áreas como as artes e as ciências. Foi durante esse período que a transmissão do

conhecimento passou a se dar através de uma instituição, e houve um desenvolvimento das ciências, principalmente a médica que,

interessada no corpo huma no, nos remédios e chás, associou- se à Igreja Católica Cristã para se contrapor à medicina popular que era praticada nas comunidades medievais e principalmente pelas mulheres.

Segundo Michelet, a escola da feiticeira e do pastor, situada no campo e com suas experiências que eram consideradas sacrilégios (utilizavam corpos e manuseavam venenos) “incentivou” a escola científica, localizada nas Igrejas, a estudar e a se desenvolver para poder eliminar a concorrente. Tudo teria ficado com a feiticeira; ter- s e -i a dado às costas ao médico para sempre. Foi preciso que a Igreja tolerasse e permitisse esses crimes 5 para que essa universidade científica aprendesse com a feiticeira e com o pastor. 6

4

Esta revolução artística se deu no governo de Carlos Magno, coroado imperador do Império Franco (ou novo Império Romano do Ocidente) no natal de 800 pelo Papa Leão III. 5 MICHELET, Jules. A Feiticeira: 500 anos de transformação na figura da mulher. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1992, p. 37. 6 MICHELET. Id em

21

Assim, a partir do século XIV, eram condenadas à morte as mulheres q ue ousassem t r a t a r s e m t e r e s t u d a d o 7 , pois a arte de curar cabia aos m é d i c o s ( . . .) que haviam para isso freqüentado cursos. 8

Apesar das proibições, as “heresias” de praticar a medicina popular utilizando plantas e rezas nos tratamentos, eram p r e g a d a s c o m d e n o d o nos campos, transmitidas de aldeia em aldeia 9 para uma população não letrada e mística, que vivia afastada dos centros urbanos e dos médicos cientistas e que acreditava em fadas, duendes, porções mágicas, bruxas, simpatias, etc, dos diversos povos que habitavam as florestas e os campos inquietando, aos poucos, a Igreja e o Estado.

Alguns desses grupos, como os cátaros por exemplo, investiram contra as autoridades eclesiásticas e as verdades de seus ensinamentos. Contrapondo- se ao Cristianismo, sua doutrina consistia na crença de que Jesus era mais um anjo e que seu sofrimento e morte, pregados pela Igreja Católica como sendo algo verdadeiro e concreto,

representavam apenas uma ilusão. 10 Também defendiam que D e u s , infinitamente bom e perfeito, não podia ser o criador de um mundo

7 8

MICHELET. Op. Cit. p. 38. GONZAGA. Op. Cit. p. 55. 9 GONZAGA. Op. Cit. p. 94. 10 FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo, Editora Perspectiva, 1976, p. 41.

22

mau e corruptível. Portanto, o mundo da matéria seria a obra de um (...) deus do mal. 11

À Igreja Cristã restou a responsabilidade de resgatar os vários hereges e “fracos de espírito” da influência maléfica e do fogo do inferno, sob o argumento de que nenhuma outra religião poderia salvar as

populações das tentações do mal e conduzi- las ao “Céu”.

Os vários reinos que se formaram ou se converteram ao cristianismo (necessitados de se firmarem como instituição detentora da

organiza ção das comunidades aldeãs bem como da felicidade material e terrena) viram- se impossibilitados de colocar em prática sua política em virtude da resistência de seus povos em se submeterem a tais governantes. A alternativa encontrada foi a associação com a I g r e j a Cristã induzindo seus povos a se converterem a uma religião que, além de impor regras e limites tão necessários a esses objetivos, os conduziria à “felicidade suprema”.

A religião transformou- se numa doutrina e d u c a t i v a , (pois) c o n s t i t u i um poderoso instrumento de paz social e de freio às más paixões

11

FALBEL. Op. Cit. p. 52.

23

(...). 12 Contudo, a não cessão às pressões “obrigou” essas duas instituições, associadas ainda à ciência médica, a se unirem e se organizarem contra esses infiéis, considerados leigos e contestadores.

C o nforme W. Keller essas populações que se recusavam a submeter - se às regras e leis desses novos reinos e que, portanto, foram perseguidos pela Inquisição Medieval, não se encontravam os judeus. Estes, ao contrário, eram tidos como sábios sendo esta sabedoria c o n s i d e r a d a base importantíssima da ciência [para] a vida Esses intelectual, 13 eles homens se eram os na

herdeiros

árabe. 14

destacaram

sociedade ibérica e ocuparam lugar de destaque junto aos Reis cultivando a Astronomia e a Astrologia (...) eram os médicos da corte e (...) do país. 15

Por

outro

lado,

a

mulher

como

detentora

da

transmissão

da

religiosidade e da conduta moral e ética da comunidade, foi umas das principais perseguidas nos seus atos, até então, rotineiros; a elas cabia debelar doenças com rezas e benzeduras, pois conforme a crença do período, a mulher estaria mais próxima da natureza e mais bem

12 13

GONZAGA. Op. Cit. p. 82. KELLER, Wener. História del pue blo judio, Barcelona, 1987 apud GONZAGA. Op. Cit. p. 148. 14 SARAIVA, Antonio José. Inquisição e cristãos novos , Portugal, Editora Inova, 1969, p. 31. 15 SARAIVA. Idem.

24

informada de seus segredos (. . .) [com] poder não só de profetizar, mas também de curar ou de prejudicar por meio de misteriosas receitas. 16

A

Igreja

e

os

seus

associados

desenvolvem

uma

campanha

de

difamação do comportamento e dos valores repassados, de geração a geração, pelo sexo feminino. Segundo Jean Delumeau: da idade da pedra, que nos deixou muito mais representações femininas do que masculinas, até a época romântica a mulher foi, de uma certa maneira, exaltada. De início deusa da fertilidade, ‘mãe de seios f i é i s ’ , e i m a g e m d a n a t u r e z a i n e s g o t á v e l , t o r n a -s e c o m Atenas a divina sabedoria, com a Virgem Maria o c a n a l d e t o d a g r a ç a e o s o r r i s o d a b o n d a d e s u p r e m a . 17

Entretanto, com o período Medieval essa visão romântica da figura da mulher foi modificada. O nascimento de uma filha passou a ser considerado uma desgraça; as mulheres eram tidas como “bocas inúteis” e apenas uma era considerada o bastante para a família. Por trabalharem menos que os homens, tinham tempo suficiente para se dedicarem a pensar e fazer maldades. 18 A mulher passa a ser uma

16

DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente: 1300-1800. uma cidade sitiada, São Paulo, Companhia das Letras, 1989,. P. 311. 17 DELUMEAU, Op. Cit. p. 310. 18 DELUMEAU, Op. Cit, p. 320.

25

concorrente da Igreja na transmissão do conhecimento e dos valores da sociedade e precisava, por isso, ser elimin a d a .

A mulher foi criada, segundo santo Tomás de Aquino, mais imperfeita que o homem, pois o corpo [masculino] reflete a alma, o que não é o caso da mulher. O homem é (...) imagem de Deus, mas não a mulher (...) cujo corpo constitui um obstáculo (...), 19 assim, ela teria que se submeter ao homem, pois seria inferior. 20

Para justificar uma maior incidência da mulher em compactuar com as forças maléficas que o homem, Brás Luís de Abreu, médico do século XVIII, publicou em 1726 um Tratado onde afirmou que as mulheres são <<ligeiras>> e caiem mais facilmente em enganos, porque são curiosas, <<amigas da novidade>> e tudo quererem saber, ou para satisfazerem os <<seus segredos e apetites>> ou, finalmente, para enganarem, pois as mulheres são o s < < g r i l h õ e s d o m u n d o>>, isto é, a fonte do pecado. 21
19 20

DELUMEAU, Op. Cit, p. 317 DELUMEAU. Idem. 21 PAIVA, José Pedro. Bruxaria e superstição num país sem “caça as bruxas” - 1600-1774. Lisboa, Notícias Editorial, 1997, p. 37.

26

Essa

visão

do

século

XVIII

é

fruto

de

anos

de

destruição

e

reconstrução da imagem da mulher diante das suas atribuições. Assim, após toda essa distorção das funções e da importância do papel feminino na transmissão dos valores, crenças e crendices da

comunidade, coube a ela esconder e omitir suas habilidades na manipulação das ervas, das rezas e do poder da benzedura. Mesmo assim, ela foi perseguida e acusada de fazer maldade tendo que responder pela morte de recém nascidos, pela impotência sexual dos homens e pela esterilidade das mulheres, pela morte de animais e pelo fracasso das plantações, entre outras acusações.

A curandeira se transformou em feiticeira; a parteira, em sócia do diabo roubando as almas dos inocentes pagãos; a benzedeira, em má. A vocação e a habilidade que até então eram consideradas dádivas dos Céus, “as mãos da divindade operando através das mulheres”, agora eram castigos. As mulheres que as possuíam eram tidas como

a p r e n d i z e s e a m a n t e s d o D i a b o , b r u xas e feiticeiras em favor do mal.

As que eram acusadas desse crime de heresia eram levadas aos Santos Tribunais Eclesiásticos da Inquisição e torturadas psicologicamente e fisicamente; tendo suas vidas e sua intimidade sexual exposta ao

27

p ú b l i c o . N a s t o r t ur a s 22 para a obtenção da confissão, as mulheres eram abusadas sexualmente com a justificativa de procurar a marca invisível do diabo. Isso consistia em inserir objetos pontiagudos em todos os locais; a vagina era minuciosamente explorada em busca de amuletos q u e j u l g a v a m [os torturadores inquisitoriais] ali escondidos. 23

As famílias das acusadas e condenadas eram sentenciadas a se afastarem do convívio das outras e ainda tinham que conviver com a desconfiança, a vigilância e a discriminação de todos os outro s membros da comunidade. A sentença condenatória da maioria das que, sob tortura, declaravam- se culpadas das acusações era a morte nas fogueiras dos autos de fé. Segundo Novinsky a coroa, nobreza e o clero atestavam a legitimidade da violência. 24

Apesar do “período das trevas” e da superstição terem findado e de ter se iniciado o período da razão, essas mesmas fogueiras queimaram também centenas de mulheres na época Moderna. As acusações eram as mesmas - heresia, prática de artes mágicas, bruxaria, feitiçar ia,

22

Ruston Lemos Barros apresenta a lista de tipos de torturas aplicadas no período. BARROS, Ruston Lemos. Estado, Inquisição Moderna e a Tortura in Saeculum – Revista de História nº 2 João Pessoa, Editora Universitária/UFPB, 1996, p. 141 e 142. 23 BARROS. Op Cit. p. 139. 24 NOVINSKY, Anita. Sistema de Poder e Repressão Religiosa: para uma interpretação do fenômeno cristão novo no Brasil in Anais do Museu Paulista, tomo XXIX, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1979, p. 6.

28

curandeirismo

todavia

as

razões

e

os

objetivos

dessa

nova

perseguição eram diferentes.

Com a instituição da Inquisição também no período Moderno, tem- se uma mudança do objeto da perseguição. Agora os judeus e os cristãos novos (judeus convertidos à religião católica cristã pela força) são os mais perseguidos, torturados, condenados ao degredo ou a serem executados sob forma de decapitações e/ou através das fogueiras; contudo, havia uma continuidade das estruturas da Inquisição

m e d i e v a l , 25 bem como no recurso a todos os artifícios empregados anteriormente.

Os principais países a utilizarem a Inquisição Religiosa como artifício de repressão e subterfúgio para o confisco dos bens dos acusados e condenados foram os países da Península Ibérica. Diferente do

restante da Europa, esses países - no período medieval - tinham como característica a tolerância étnica; com a instituição do Tribunal do Santo Ofício houve um abandono dessa tolerância e o desenvolvimento de um espírito fanático e retrógrado da cristand a d e m e d i e v a l. 26

25

BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália – séculos XV-XIX, São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 35. 26 NOVINSKY, Anita. Uma fonte inédita para a História do Brasil in Revista de História nº 94, São Paulo, Universidade de São Paulo, 1973, p. 563.

29

1.2 – I n q u i s i ç ã o n a P e n í n s u l a I b é r i c a :
questões políticas, econômicas e religiosas

A inquisição na Península Ibérica iniciou- se na Espanha em 1478 e quase 60 anos depois migrou para Portugal. Durante a Idade Média coabitavam quase que harmoniosamente cristãos, judeus e muçulmanos no território onde hoje compreende a Espanha e Portugal. A partir do século XV, com a centralização política e a demarcação territorial, houve a necessidade de uma unidade religiosa sob a égide da Igreja C a t ó l ica Apostólica Romana.

Os judeus, possuidores de propriedades, bens, riquezas e influências eram membros importantes da sociedade: médicos, professores,

astrônomos, conselheiros ... e também possuidores da ira de uma parcela da população cristã que se enc ontrava insatisfeita com o poder

30

político, social e econômico cada vez maior dos judeus em detrimento às posições dos cristãos.

Essa população cristã, revoltada com os filhos de Israel, associou- se à Igreja Católica e desenvolveu uma campanha contrária a eles. Também os judeus convertidos ao cristianismo, foram alvo dos cristãos já que gozavam dos mesmos direitos graças à liberdade de ação que lhes concedia o batismo, ocupavam as primeiras posições mais ainda do que na época em que praticavam a antiga relig i ã o , 27 sendo acusados de, à surdina, praticarem os ritos da gente da nação. Em virtude dessa suspeita, vários massacres a conversos foram promovidos por cristãos. Nessas “guerras santas” nenhum judeu foi tocado; mas vários

convertidos foram executados.

A campanha contra os conversos na Península Ibérica deu origem aos “estatutos de pureza de sangue”, que estabeleciam que nenhum

descendente de judeu ou mouro, até a sexta ou sétima geração, poderia pertencer às corporações profissionais, cursar universidades, ingressar nas ordens religiosas e militares ou ocupar qualquer posto oficial. 28 O Estado e a Igreja endossaram e legitimaram a teoria da inferioridade

27 28

DELUMEAU. Op. Cit. p. 303 NOVINSKY. A Inquisição, Op. Cit. p. 28.

31

racial desses grupos com o objetivo de controlar as possibilidades de competição e ascensão social 29 dos cristãos novos. Em 1449, a cidade de Toledo e toda a área de sua jurisdição baseada no direito canônico e no civil, foram as primeiras a considerar indignos de ocupar cargos privados ou públicos 30 os judeus e seus descendentes.

Uma das razões para que se a credite que a Inquisição no Período Moderno se deu por questões econômicas e políticas estão no fato de que as corporações profissionais adotaram este estatuto antes da Igreja Católica. Segundo Anita Novinsky esse fato demonstra que o problema era mais soc ial de que religioso, 31 parte dessas apesar dos estrangeiros antes serem do

proibidos

fazer

corporações

mesmo

estabelecimento desse estatuto: e nenhum estrangeiro trabalhará no dito ofício se não for aprendiz, ou homem admitido à cidadania do dito lugar. 32

A partir de 1478, após a união dos reis católicos Fernando e Isabel, foi instituído na Espanha um Tribunal da Santa Inquisição. A princípio a Igreja Romana se opôs a sua instituição mas após um acordo político

29 30

NOVINSKY, Sistema de poder e repressão religiosa, Op. Cit. p. 7. DELUMEAU, Op. Cit p. 306. 31 NOVINSKY. A Inquisição, Op. Cit. p. 28. 32 HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1972, p. 65.

32

com os reis acabou por concordar. O governo passou a se sustentar também com o confisco das riquezas dos judeus e dos conversos.

A instituição de um Tribunal Inquisitorial em território espanhol significou, segundo Bethencourt, uma ruptura com uma tradição

medieval de só a igreja nomear os clérigos inquisidores: pela primeira vez, assistia- se ao estabelecimento de uma ligação formal entre a jurisdição eclesiástica e a jurisdição civil, 33 pois os reis católicos conseguiram que o Papa permitisse- lhes que nomeassem os

inquisidores. Esse consentimento se deu a partir da argumentação dos reis espanhóis de que o desenvolvimento da heresia (dos judeus conversos) se deu com a tolerância dos bispos 34 nomeados pela Igreja.

E n t r e 1 4 8 0 35 - 1487, setecentas pessoas foram queimadas só em Sevilha, enquanto que em Toledo foram duzentas as condenações à morte no espaço de quatro anos. 36 Os protestos contra a violência e as

arbitrariedades dos inquisidores foram apresentados aos reis espanhóis e ao Papa que nada fizeram para resolver o problema. Bethencourt esclarece que três argumentos foram apresentados pelos opositores do

33 34

BETHENCOURT. Op. Cit. p.18. BETHENCOURT. Ibide. p.17. 35 Ano da nomeação de dois inquisidores pelos reis católicos. Os dominicanos frei Juan de San Martin (bacharel em teologia) e frei Miguel de Morillo (mestre em teologia). BETHENCOURT. Ibide. p. 18. 36 DELUMEAU. Op. Cit. p. 302.

33

Santo Ofício: o caráter arbitrário do tribunal, o segredo do processo e a injustiça do confisco dos bens, que excluía da herança os filhos i n o c e n t e s , r e d u z i n d o à m i s é r i a a s f a m í l i a s d o s c o n d e n a d o s . 37

C o m todas essas perseguições, confiscos e mortes por parte do Governo e da Igreja na Espanha, muitos da “gente da nação”, cristãos novos, muçulmanos, entre outros, migraram para muitos países da Europa, inclusive para Portugal, onde a inquisição ainda não havia iniciado seus trabalhos.

Durante

58

anos

esses

povos

puderam

conviver

quase

que

tranqüilamente em terras lusitanas. Entretanto em 1536, após uma longa negociação que durou 30 anos 38 entre o Estado português e Roma sobre a divisão dos bens dos condenados, foi instituído o Tribunal do Santo Ofício também em Portugal, tendo um funcionando e m Lisboa, que era responsável pelas colônias do Brasil e Angola, um em Évora e o outro em Coimbra. 39 Cada tribunal desses possuía organização própria. 40 Para inquisidores - gerais foram nomeados os

37 38

BETHENCOURT. Op. Cit. p. 20. D. João III utilizou manobras políticas para conseguir a autorização definitiva de Roma que lhe concedia centralizar o poder político e religioso nas mãos da coroa. NOVINSKY. O Tribunal da Inquisição em Portugal in Revista da Universidade de São Paulo nº 5. 1987, p. 91. 39 Também foram instituídos Tribunais em Lamego, Tomar e Porto, contudo foram abolidos por causa de abusos e corrupção na administração. NOVINSKY. A Inquisição, Op. Cit. p. 36. 40 MARQUES, A. H. de Oliveira. Breve História de Portugal . Lisboa, Editorial Presença, 1996, p. 268.

34

bispos de Ceuta, o de Coimbra e o de Lamego 41 . A autorização do funcionamento do Tribunal da Santa Inquisição em Portugal foi resultado de um jogo de interesses da Igreja e do Estado. 42

Segundo Oliveira Marques a i n q u i s i ç ã o f o r a e s t a b elecida em Portugal sem razões que lhe justificassem a existência. Afirma ainda que os reis D. Manoel e D. João III pretendiam copiar o modelo de Espanha e c o n s e g u i r e m u m a n o v a a r m a d e c e n t r a l i z a ç ã o r é g i a . 43

D. João III, rei de Portugal, conseguiu também a autorização do Papa para que pudessem funcionar sem as restrições e interferências da Igreja. 44 No Arquivo Histórico Nacional, de Madri, encontra- se uma carta de sua irmã, a Imperatriz Isabel, datada de 04 de setembro de 1536, em que ela o aconselha a não publicar a bula, pois continha restrições à atividade inquisitória. 45

Assim,

os

Tribunais

de

Portugal,

após

negociarem

com

Roma,

passaram a possuir absolutos poderes contra os judeus, cristãos novos,

41 42

BETHENCOURT. Op. Cit. p. 24. NOVINSKY. O tribunal da inquisição em Portugal, Op. Cit. p. 91. 43 MARQUES. Op. Cit. p. 267. 44 NOVINSKY. A Inquisição, Op. Cit. p. 35. 45 AHN, Inq., livro 1254, fl.14 r-v, e livro 1276, fls. 47v -48r. in BETHENCOURT. Op. Cit. p. 417.

35

muçulmanos e contra todos aqueles que praticassem heresia s c o n t r a a fé e a moral cristã. Conforme Novinsky: O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, em Portugal, foi introduzido exclusivamente para fiscalizar e punir os descendentes de judeus que haviam sido convertidos à força ao catolicismo, e sob s u s p e i t a de praticar a religião judaica. Foi gradativa a ampliação de seus objetivos até abarcar diversos tipos de comportamento e crenças. Às heresias em m a t é r i a d e f é j u n t a r a m- s e f e i t i ç a r i a s , b r u x a r i a s , sodomia, bigamia, blasfêmias, proposições, desacatos e problem a s d i v e r s o s d e s e x u a l i d a d e . 46

Ainda segundo aquela autora, a inquisição lusitana ultrapassou em ferocidade e violência a Inquisição espanhola, 47 embora não tenha sido contínua. Em determinados períodos os acusados de heresia, na sua maioria judeus e cristã os novos, eram presos, condenados,

torturados e executados, seus bens eram confiscados e sua família degredada; em outros momentos eram concedidas condições de vida sem perseguição, desde que se pagasse um tributo. Essa alternância de comportamentos variava de acordo com o rei que assumia o poder.

46 47

NOVINSKY.O tribunal da Inquisição em Portugal. Op. Cit. p. 92. NOVINSKY. A Inquisição. Op. Cit. p. 36.

36

Apesar da proteção de alguns Reis aos judeus contra os cristãos, ele, o Rei, encarregava os judeus de funções odiosas, como a de cobrança de impostos e direitos, colocando- os numa posição que tem analogias com a do carrasco 48 pois por mais profundo que fosse a fé do povo cristão no sacramento do batismo, um usurário, ou um arrecadador de impostos, seria sempre considerado antipático, tanto antes quanto d e p o i s d a c o n v e r s ã o . 49

Existiram

muitos

casos

em

que

os

judeus

e muçulmanos foram

obrigados a se converterem ao cristianismo, mas também havia a ameaça de terem seus bens confiscados e de serem expulsos do território português.

Isso se dava, segundo Novinsky, por conta da necessidade do governo lusitano do capital, p rincipalmente judio, para sua manutenção. Os judeus, sobretudo os cristãos novos, controlavam grande parte do comércio, tanto interno quanto externo, tão importante para os

portugueses; eles formavam

uma classe média de mercadores e

c a p i t a l i s t a s . 50 Esse fato também contribuiu para a fúria da burguesia

48 49

SARAIVA. Op Cit. p. 36. BAUER, A. História crítica de los judios apud CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Preconceito racial: Portugal e Brasil-colônia. São Paulo, Editora Brasiliense, 1988, p.45. 50 MARQUES,. Op. Cit. p. 268

37

cristã velha, invejosa do seu predomínio. 51 Além desse grupo cristão também as massas mais pobres viam neles os herdeiros dos odiados u s u r á r i o s j u d e u s . 52

Assim, em alguns momentos o Rei associou- se aos judeus e cristãos novos e em outros, aos cristãos e à Igreja Católica (perseguindo e confiscando os bens dos não cristãos).

Para

Novinsky,

uma

das

razões

para

que

Portugal

não

se

desenvolvesse economicamente e tivesse realizado sua industrialização tardiamente, co m p a r a n d o - se ao resto da Europa, deu- se por conta da expulsão do capital judeu de seu território. 53 Os portugueses

investiram timidamente e não estavam acostumados a reinvestir de novo, num ritmo acelerado (...) [ e ] do Estado não recebiam ajuda . 54

Com o fim da União Ibérica, em 1640, houve uma intensificação às perseguições contra os cristãos novos; conseguiu- se arruinar bom n ú m e r o d e f i r m a s e d e h o m e n s d e n e g ó c i o. 55 S e g u n d o S a r a i v a :

51 52

MARQUES. Idem. MARQUES. Idem. 53 NOVINSKY. A Inquisição. Op. Cit. p 39. 54 MARQUES. Op. Cit.. p. 271. 55 MARQUES. Op. Cit. p. 271-272.

38

o Estado português do século XVI oferece exteriormente uma aparência <<moderna>>, na medida em que é uma grande empresa econômica, por outro lado, ele assegura, no interior do País, a persistência de uma sociedade arcaica, na medida em que garante o domínio de uma classe tradicionalmente d o m i n a n t e , c u j o e s p í r i t o e s t á n o s a n t í p o d a s do b u r g u ê s . 56

Concordando com essa teoria, Raimundo Faoro afirma que o português não pensou dentro dos moldes da realidade, permaneceu encarcerado nas idéias medievais, 57 adaptando a política mercantilista moderna às condutas medievais de moral, baseadas na religião cristã. Essa

realidade só foi modificada com a administração de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, a partir de 1750.

O Santo Tribunal Eclesiástico funcionava na seguinte forma: havia um regimento interno, inspirado no Medie val e adaptado às exigências da “modernidade”, onde continham as leis, os prazos e as ordens, e onde estavam descritos os crimes contra a Fé e contra a Moral. Os primeiros eram considerados mais sérios e diziam respeito ao judaísmo e as criticas aos dogmas da Igreja Católica. Já os contra a Moral eram

56 57

SARAIVA. Op. Cit. p. 54. FAORO, Raimundo. Os Donos do Poder. São Paulo, Editora Globo, 1989. p. 61.

39

considerados menos graves e se referiam à bigamia, à sodomia, à feitiçaria. 58 Todos os inquisidores gerais pertenciam à nobreza. 59

Diferentemente

da

Inquisição

no

período

medieval,

o

crime

de

feitiçaria já não mais era considerado grave, não sendo também os condenados sentenciados com a pena de morte; na sua maioria eram condenados ao degredo. A bula Cum ad nihil magis de estabelecimento do tribunal em Portugal, fazia referências ao judaísmo dos cristãos novos, ao luteranismo, ao islamismo, às proposições heréticas e aos sortilégios.

A feitiçaria e a bigamia foram inseridas após os inquisidores gerais publicarem um monitório, ou seja, uma advertência, onde

especificaram e ampliaram as cerimônias judaicas e islâmi c a s , a s heresias luteranas e os crimes de feitiçarias e bigamia. Segundo Bethencourt talvez o único delito que não estava compreendido na b u l a . 60

Tanto nos crimes contra a fé como nos contra a moral, os acusados tinham suas casas lacradas, seus bens confiscados, a família era

58 59

NOVINSK. A Inquisição. Op. Cit. p. 56-58. MARQUES. Op. Cit. p. 265. 60 BETHENCOURT. Op. Cit. p. 25.

40

considerada diminuta, ou seja, de menor valor que as outras e por isso não poderiam permanecer em convívio com as famílias cristãs. Caso o acusado não confessasse seu crime era levado à câmara da tortura.

Existia uma grande máquina b urocrática que envolvia milhares de pessoas ao redor da Inquisição e que eram pagas por ela; toda cidade importante tinha os seus comissários com autoridade para prender, ouvir acusações, interrogar, etc. 61 Em todos os lugares existiam os familiares que obs ervavam as pessoas e as denunciavam ao Tribunal caso suspeitasse de uma má conduta. Eles ajudavam a inquisição (...) e s p i a n d o , p r e n d e n d o , d e n u n c i a n d o e i n f o r m a n d o . 62

Ser familiar representava ascensão social, pois se adquiria privilégios importantes como não pagar impostos. 63 Segundo Marques, nos portos de mar actuavam ainda os chamados visitadores das naus, com o encargo de inspeccionar todos os navios entrados e de confiscar m a t e r i a i s h a v i d o s p o r h e r é t i c o s . 64

Para ser um familiar era necessário apresentar três requisitos básicos:

61 62

MARQUES. Op. Cit. p. 269. MARQUES. Idem. 63 MARQUES. Idem. 64 MARQUES. Op. Cit. p.268.

41

primeiro, d e m o n s t r a r “ p u r e z a o u l i m p e z a d e s a n g u e ” (...) [ou seja] devia estar isento de mácula na a s c e n d ê n c i a , ( . . . ) [segundo] n ã o p o d i a t e r c o n t r a s i rumor de conduta moral desviante (...), amantes, (...) e por último [que] t ivesse posses, (...) para que resistisse à tentação de seqüestrar os bens dos suspeitos em p r o v e i t o p r ó p r i o . 65

Eles possuíam seus deveres e privilégios especificados nos regimentos i n q u i s i t o r i a i s ; 66 e também tinham como função seqüestrar os bens dos suspeit os e efetuar diligências (...), haviam ainda familiares que a v a l i a v a m a r e s i s t ê n c i a d o s t o r t u r a d o s . 67

A instituição de um processo inquisitorial exigia alguns procedimentos legais que, de teoricamente, alguma deveriam os ser seguidos. Ao em receber a

denúncia

he resia,

inquisidores

Lisboa68

encaminhavam que se fizesse uma investigação (diligência) para que se apurasse a denúncia.

65 66

VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), Objetiva, Rio de Janeiro, 2000, p. 219. VAINFAS. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), p. 218. 67 VAINFAS. Idem. 68 Estamos considerando que o denunciado seja do Brasil.

42

Esses depoimentos eram encaminhados novamente a Lisboa e havendo a necessidade se instituiria um tribunal para que se processasse o(a) acusado(a). Preso em Lisboa, ele(a) era interrogado pelo inquisidor e seu depoimento era registrado por um escrivão e ao ato deveriam estar presentes, como garantia de seriedade, duas pessoas de confiança e i m p a r c i a i s , q u e a t u d o a s s i s t i a m s o b p r o m e s s a d e m a n t e r s e g r e d o . 69

O

interrogado

permanecia

preso

o

tempo

necessário

para

que

confessasse suas culpas e denunciasse outras pessoas. Caso essa realidade não se concretizasse, ele era levado a um local onde seria torturado; dentre as mais utilizadas pela Inquisição em nome da verdade e da fé, estavam o potro e a polé. O primeiro consistia em uma cama com ripas onde o acusado era deitado e prensado contra a cama. A polé era a suspensão do suspeito pelos pés ou mãos, a uma determinada altura, de onde era so lto sem bater ao chão. Muitos saíam dessa sessão de tortura sem mais poderem andar.

A condenação era determinada na sessão do Tribunal. Após serem condenados ao degredo, os réus não eram mais torturados - para que os ferimentos cicatrizassem e a s s i n a v a m um termo em que se

comprometiam a nunca relatarem o que passaram no período a qual
69

GONZAGA, Op. Cit. p. 121.

43

estiveram presos. Quando a condenação era de morte o réu também ficava por alguns dias sem ser torturado, para que houvesse a

cicatrização dos ferimentos.

O S a n t o O f í c i o não decretava nem executava as condenações à morte. Havia um julgamento simulado, pois o reino punia os crimes de heresia e o condenado era imediatamente executado. 70

Um dos direitos dos condenados era o de escolher se gostaria de morrer na Lei de Cristo ou na Lei de Moisés. Morrer na Lei de Cristo significava ser morto por estrangulamento antes e ser jogado na fogueira. Morrer na Lei de Moisés consistia em ser queimado vivo. Havia também a morte ou se simbólica suicidar pela eram qual os acusados à que e

conseguiam

fugir

condenados

revelia

executados em forma de bonecos que eram jogados nas fogueiras dos Autos de Fé.

As sentenças eram lidas nesses autos, que eram mais ou menos públicos, pois havia os autos de fé que se realizavam de portas adentro (...) dest i n a d o s e x c l u s i v a m e n t e a o s

70

MARQUES. Op. Cit. p. 270.

44

<<reconciliados>>, isto é, àqueles que eram readmitidos no seio da Igreja e condenados a penas que iam desde penitencias espirituais até à prisão e desterro. Havia (...) os que se realizavam na praça pública, em que figuravam não só reconciliados, mas também <<relaxados>>, isto é, aqueles que eram entregues à Justiça secular para a execução da pena d e m o r t e . 71

Os autos realizados em praças eram grandes festas, t r a t a v a - se de uma a p r e s e n t a ç ã o p ú b l i c a d a a b j u r a ç ã o , d a r e c o n c i l i a ç ã o e do castigo. 72

Nessas

cerimônias

coletivas

estavam

presentes

as

mais

diversas

autoridades locais incluindo o Rei e a Família Real. Havia um grande espetáculo que era lida a sentença dos condenados e as execuções dos que iriam morrer queimados na fogueira. Segundo Marques, os autos de fé entravam na categoria de espetáculos cuidadosamente

encenados, visando atrair, excitar e comover as massas além de toda a publicidade para o evento 73 e os preparativos se iniciavam com várias semanas de antecedência, mas o anú n c i o p ú b l i c o f a z i a - se quinze dias

71 72

SARAIVA. Op. Cit. p 145. BETHENCOURT, Op. Cit. p. 227. 73 MARQUES. Ibid.

45

antes,

a

tempo

de

construir

o

cadafalso

e

o

anfiteatro,

de

c o n f e c c i o n a r o s s a m b e n i t o s . 74

Com a União Ibérica em 1580, o Tribunal do Santo Oficio foi reforçado em Portugal e a perseguição foi intensificada nas colônias por tuguesas. Apesar da União dos países ibéricos terminar em 1640, as atividades da Santa Inquisição lusitana estenderam- se, oficialmente, até o dia 31 de março de 1821, quando foi abolida por decreto das Cortes Portuguesas. 75

74 75

SARAIVA. Op. Cit. p. 149. SILVA, Leonardo Dantas in MELLO, José Antonio Gonçalves de. Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil: Denunciações e Confissões de Pernambuco. Recife, FUNDARPE, 1984.

46

Capítulo 2

Brasil Inquisitorial

2.1 – A I n q u i s i ç ã o chega ao Brasil

2.2 – P r i m e i r a Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil

2.3 – Constituições Primeira do Arcebispado da Bahia

Apenas tenho o nome de esposa, porque o mais he de escrava. Reconheço que o homem deve ser cabeça mas não sei que a mulher deva ser os pés. 1

2.1 - A I n q u i s i ç ã o c h e g a
ao Brasil

A perseguição religiosa na Península Ibérica proporcionou a fuga de grandes levas de pessoas para outras localidades onde o Tribunal Sant o não tivesse instituído seus trabalhos. Assim, dentre esses lugares muitos fugitivos se refugiaram na América.

1

NATIVIDADE, Sylvia. Conformaçam para os queixosos apud COATES, Timothy J. Degredados e órfãs: colonização dirigida pela coroa no império português. 1550- 1755. p. 225.

48

No Brasil, a Inquisição chegou com a União Ibérica (1580) e se intensificou a partir do governo dos Felipes. 2 Apesar do empenho de algumas autoridades coloniais, não houve um Tribunal Santo em território brasileiro, diferentemente de Goa, capital do império

português na Ásia, onde os portugueses assassinaram muitos hindus ricos para apropriar - s e d o s s e u s b e n s . 3

Uma das razões para que a Inquisiç ão só chegasse com a União Ibérica está no fato de que a colonização efetiva do Brasil além de ter sido iniciada tardiamente (1530), se comparada com a colonização

espanhola (1492), foi realizada e financiada também pelos judeus e cristãos novos. Foram ele s, os comerciantes e mercadores, que

investiram seus bens e se dispuseram a formar as primeiras Capitanias no Brasil.

Dessa forma, a administração portuguesa se viu “impossibilitada” de pôr em prática uma inquisição que prenderia e também confiscaria os bens de um povo que estava investindo riquezas e mão- d e - obra numa

2

NOVINSKY, Anita Waingort. Uma Fonte inédita para a História do Brasil in Revista de História, Universidade de São Paulo, 1973. p. 565. 3 PAINE. European Colonie in LIMA, N. de Oliveira. Pernambuco: seu desenvolvimento histórico, Recife, Coleção Pernambucana, Secretaria de Educação e Cultura, Governo do Estado de Pernambuco, 1975. p. 18

49

terra desconhecida repleta de incertezas quanto ao sucesso comercial e que não proporcionava o conforto da vida na metrópole.

Na América portuguesa, os acusados eram indiciados no Brasil e os casos mais sérios levados para Lisboa onde eram novamente ouvidos. Muitos presos eram torturados e a grande maioria condenada; ir para Lisboa significava a tortura e a morte, principalmente para os acusados de práticas judaizantes.

Em 1580, além de o Santo Ofício ter delegado poderes inquisitoriais ao Bispo da Bahia para que enviasse os hereges a Lisboa, foram enviados ao Brasil agentes inquisitoriais – visitadores, comissários e familiares – para investigar e prender os suspeitos de heresias. Segundo

Novinsky, isso se deu porque já havia chegado aos ouvidos dos inquisidores as infrações religiosas (...) [ e ] as notícias sobre as riquezas dos colonos. 4

Também se observa que cristãos novos e cristãos velhos gozavam de uma situação favorável para a integr ação na sociedade, pois

4

NOVINSKY. A inquisição. Op. Cit. p. 76.

50

necessitavam de colaboração (...) para sobreviverem às condições geográficas e humanas tão adversas.5

Esse grupo de cristãos novos constituía, no Brasil, uma classe de burgueses ligados à terra e ao comércio nacional e internaciona l. Dessa forma, eles adquiriram uma situação econômica importante. Eram homens que tinham o controle de considerável parte de produção e do capital. 6 Conseqüentemente, faziam parte da elite que administrava a colônia.

Em

1593,

a

população

de

Pernambuco

era

de

7.000

moradores

brancos, 7 sendo que desse total 14% seriam cristãos novos, isto é, 910 pessoas . 8 Segundo Novinsky, o próprio D. Manoel, não sabendo o que fazer com o Brasil arrendou- o a um grupo de mercadores cristãos novos, que foram os primeiros a explorar o país economicamente.9 Além desse fato, há na Biblioteca da Ajuda, em Portugal, documentos que comprovam que em 1590 o Senado da Câmara de Olinda queixava se que a cidade já tinha gente suficiente e os degredados exilados para

5

NOVINSKY, Anita. Sistema de poder e repressão religiosa para uma interpretação o fenômeno cristão novo no Brasil in Anais do Museu Paulista. Tomo XXIX, Universidade de São Paulo, 1979. p. 8. 6 NOVINSKY. Idem. p. 7. 7 O Barão do Rio Branco afirma ser de 8.000. MELLO. José Antonio Gonsalves de. Gente da Nação: cristão novo e judeus em Pernambuco – 1542-1654. Recife, Editora Massangana, 1990, p. 07. 8 MELLO. Idem. 9 NOVINSKY. Op. Cit. 1982. p. 75.

51

o Brasil deveriam ser mandados para as capitanias no sul ou para o P a r a í b a . 10

Outro dado importante, e que justifica esse atraso na chegada da Inquisição, encontradas diz as respeito riquezas ao fato de no Brasil não terem sido

que

foram

descobertas

nas

colônias

e s p a n h o l a s , diminuindo assim a necessidade de uma maior vigilância por parte da metrópole portuguesa.

Isso

propiciou

aos

judeus

e

cristãos

novos

viverem

em

terras

brasileiras sem que a Igreja e o Estado português os incomodassem. C o n t u d o , a I n q u i s i ç ã o p o r t u g u e s a n a s terras do Brasil foi contínua e alcançou o auge da perseguição inquisitorial na segunda metade do século XVIII, 11 período da grande exploração aurífera nas Minas Gerais. 12 Assim, na primeira metade desse século a c o l ô n i a b r a s i l e i r a [perdeu] parte significativ a de sua (...) burguesia nacional, 13 como também a vinda de pessoas para o Brasil foi controlada por Portugal como forma de impedir que aventureiros aqui aportassem para explorar as minas recém descobertas;
10

BA, 44-XIV-4, f. 194v. Carta do senado da Câmara de Olinda para a Coroa in COATES, Timothy J. Degredados e órfãos: colonização dirigida pela Coroa no Império Português – 1550-1755. Lisboa, Comissão Nacional para as comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998. p. 141. 11 NOVINSKY. Op. Cit. 1979. p. 08. 12 NOVINSKY. Op. Cit. 1982. p. 79. 13 NOVINSKY. Op. Cit. 1979. p. 9.

52

a partir de 1709, a Coroa ordenou que apenas marinheiros, missionários, ou aqueles que tivessem terra ou cargos no Brasil, poderiam emigrar para esse território (...) todos deveriam partir do Porto ou de Viana com os seus passaportes passados pela Relação d o P o r t o . 14

Além desses fatores, houve uma falta d e organização eclesiástica no Brasil nos primeiros anos da colonização. Durante muitos anos o bispado da Bahia, criado em 1551, foi a única diocese responsável pela vasta colônia portuguesa e somente no início do século XVIII teria a I g r e j a C o l o n i a l s u a s pr ó p r i a s c o n s t i t u i ç õ e s , 15 e m 1 7 0 7 .

Dessa forma, os clérigos responsáveis pela “tranqüilidade espiritual” dos colonos não se encontravam nos mosteiros, templos religiosos ou nos centros comerciais. Segundo Freire, a igreja que age na formação b r a s i l e i r a ( . . . ) não é a catedral, 16 mas a capela do engenho.

14

PAIVA, José Pedro. Práticas e crenças mágicas. O medo e a necessidade dos mágicos na diocese de Coimbra: 1650-1740. Coimbra, Livraria Minerva, 1992. p. 143. 15 VAINFAS, Ronaldo. Tropico dos Pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997. p.15. 16 FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal . Rio de Janeiro, Record, 1998. p. 195.

53

Essa realidade se confirma quando em 1699 a metrópole portuguesa escreve para o Bispo de Pernambuco autorizando que s e f a c ã o a s igrejas nessessárias para o pasto espiritual das nossas ovelhas [pois já se sabia m dos] dannos espirituais, e temporaes, que se seguem a este estado . 17

17

Arquivo Histórico Ultramarino (a partir de agora AHU), Lisboa. Códice 257, folha 8v. 20/01/1699 in Divisão de Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco (a partir de agora DPH-UFPE).

54

2.2 - P r i m e i r a v i s i t a ç ã o d o S a n t o O f í c i o
às Partes do Brasil – 1593

Em 1591, chegou ao Brasil o padre Heitor Furtado de Mendonça, 18 enviado como inquisidor para investigar as práticas religiosas e a fé da sociedade brasileira, iniciando a perseguição aos “infiéis às Leis de Deus” com a sua chegada. Primeiramente dirigiu- se à Bahia, capital da colônia desde 1549 e, portanto, o seu centro político e administrativo. No dia 21 de setemb ro de 1593, chegou ao Recife partindo dois dias depois para a vila de Olinda em um bergantim, 19 aportando no Varadouro.

Em Olinda, o inquisidor era esperado pelas principais autoridades da Capitania. Estavam presentes o Governador D. Felippe de Moura; o
18 19

Também havia estado em SãoTomé e Cabo Verde como inquisidor antes de chegar ao Brasil. Bergantin: antiga embarcação à vela e remo, esguia e veloz.

55

v i gário da Vara Eclesiástica, Diogo de Couto; o Ouvidor Geral do Brasil, Gaspar de Figueiredo Homem; o Ouvidor da Capitania, Pedro Homem de Castro; o Sargento- Mor do Estado, Pedro de Oliveira; o representante da Câmara, Francisco de Barros, entre outras

autoridades, além de muitos moradores da vila. O Inquisidor iniciou seus trabalhos trinta dias após sua chegada, permanecendo em terras duartinas até o final de julho de 1595.

Pernambuco, apesar do pouco tempo de colonização, era considerada uma rica Capitania , cuja prosperidade attrahia gente das outras capitanias e seduzia colonos do reino, e até famillias nobres que fugiam à miséria progressiva da metrópole. 20

Rodolpho Garcia, afirma que tanto os homens quanto as mulheres e seus filhos vestiam- se de veludos, damascos e outras sedas, e que os jesuítas os recriminavam afirmando que praticavam excessos, que a vaidade era maior que a existente em Lisboa 21 . As casas eram de cal, tijolo e telha 22, ou seja, já tinham perdido a miserável apparencia das primitivas palh oças defendidas por paliçadas e fossos. 23 Segundo José
20

LIMA, N. de Oliveira. Pernambuco: seu desenvolvimento histórico. Recife, Coleção Pernambucana, Secretaria de Educação e Cultura, Governo do Estado de Pernambuco, 1975. p. 18. 21 GARCIA, Rodolpho in MELLO, José Antonio Gonsalves de. Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil: Denunciações e Confissões de Pernambuco. Recife, FUNDARPE, 1984. p. X. 22 GARCIA in MELLO Ibid. p. VIII. 23 LIMA. Pernambuco: seu desenvolvimento histórico. 1975. p. 31.

56

de Anchieta a população pernambucana em 1583 era de oito mil brancos, dois mil índios mansos e dez mil escravos da Guiné e de Angola 24 , contabilizando mais ou menos umas 20.000 (vinte mil) pessoas.

O j e suíta Fernão Cardim, em 1584, afirmou que a Capitania de Pernambuco possuía 60 engenhos e uma produção de açúcar de 200 mil arrobas e que mais de 45 navios aportavam nos arrecifes 25 . Sobre esse mesmo período, muito Oliveira porque Marques com afirma que os pernambucanos Tratado

gas tavam

facilidade

ganhavam. 26 No

Descritivo do Brasil, de 1587, Gabriel Soares de Souza 27 escreveu sobre Pernambuco: É tão poderosa esta Capitania que há nela mais de 100 homens que tem 1000, até 5000 cruzados de renda, e alguns até 8, 10 mil cruzados. Desta terra saíram muitos homens ricos para estes reinos que foram a ela muito pobres, com os quais entram cada ano desta Capitania 40 e 50 navios carregados de a ç ú c a r e p a u- brasil, o qual é o mais fino que se acha em toda costa;(...) E parece que será tão rica e poderosa, de onde saem tantos provimentos para estes reinos, que se devia ter mais em conta a fortificação
24 25

MELLO. Op. Cit. 1984, p. X. SILVA, Leonardo Dantas in MELLO. 1984. 26 LIMA, Op. Cit. p. 32.

57

dela, e não consentir que esteja arriscada a um corsário a saquear e destruir, o que se pode atalhar com pouca despesa e m enos trabalho. 28

Este relato mostra a relevância de Pernambuco para a coroa Ibérica e nos faz compreender o porquê do Inquisidor ter também aportado nela.

Após ser instalado na vila de Olinda, o inquisidor Heitor Furtado de Mendonça iniciou os trabalhos da mesa inquiridora, que era

responsável pelos residentes da Capitania de Pernambuco, de Itamaracá e da Paraíba. No dia 24 de outubro de 1593, instituiu o Tempo da Graça de trinta dias concedidos à vila de Olinda e às freguesias do Salvador, de São Pedro Ma rtyr, do Corpo Santo e de Nossa Senhora da Várzea, cujas pessoas que soubessem de alguma heresia, algum crime contra a fé católica ou contra a moral cristã deveriam denunciar.

A presença do inquisidor foi a primeira investida da Congregação do Santo Ofício para fiscalizar o comportamento dos habitantes no início da colonização. 29 Com o término desse período para tais localidades, foi instituído novamente o Tempo da Graça, agora para outros lugares

27 28

Senhor de engenho da Bahia. SILVA in MELLO. Op. Cit. 1984. 29 Idem.

58

e assim se seguiram os trabalhos durante os dois anos em que o visitador inquisitorial, Padre Heitor Furtado de Mendonça, permaneceu nessas terras.

Desta primeira visitação do Tribunal Eclesiástico do Santo Ofício, 271 c a s o s f o r a m r e g i s t r a d o s e m P e r n a m b u c o . 30 Dentre as denúncias do Tempo da Graça, tanto de Pernambuco quanto da Paraíba e de

Itamaracá, encontram- se os mais variados “pecados”, tais como o homossexualismo feminino, blasfêmia e principalmente, as práticas judaizantes de guardar o sábado e o de esvaziar os potes quando ocorria o falecimento de alguém da c asa. Nesta primeira visita já foram encontrados alguns casos considerados de feitiçaria.

Um

dos

processos

de

feitiçaria

encontrado

nas

Denunciações

e

Confissões de Pernambuco é o de um licenciado chamado André Magno d’Oliveira, presente na Mesa Inquiridora no dia 21 de

novembro de 1593. Ele se dizia cristão velho natural d’Oliveira do bispado d’Elvas, de idade de 40 anos e viúvo. Segundo ele, uma mulher que era vendedeira e mulata, chamada Brisida Lopes, era feiticeira. Para justificar sua acusação, narrou que quando estava

30

174 eram reinóis, 21 eram ultramarinos, 59 eram brasileiros e 17 outros. MELLO, José Antonio Gonsalves. Gente da Nação. p. 06.

59

preso, ela – Brisida Lopes - compareceu à prisão e lhe fez algumas previsões que, posteriormente, cumpriram- se. Relata ainda que a dita “feiticeira” afirmou que uma amiga havia feito as feitiçarias, mas ele acredita ter sido a própria Br isida Lopes quem as fez e, portanto, isso o levou a denunciá - la ao Inquisidor Heitor Furtado de Mendonça. 31

Outro caso de feitiçaria denunciado nesta primeira visitação do Santo Ofício é o de Isabel Antunes contra Anna Jacome, no dia 29 de outubro de 1593. Isabel acusa Anna de ter embruxado sua filha recém nascida e por conta disto a menina veio a falecer. 32

Uma das denúncias que nos chamou a atenção é o caso de Domingas Jorge contra Felicia Tourinha, tomado no dia 28 de janeiro de 1594.33 D o m i n g a s a c u s o u F e licia de ser bruxa e de ter invocado o diabo para lhe fazer perguntas e dele (o Diabo) mover uma tesoura em resposta às perguntas de Felicia. 34

Com o término do Tempo da Graça das denúncias foi instituído o das confissões, que funcionou segundo as mesmas regras; contudo, os que

31 32

MELLO. Op. Cit. 1984. p. 95. MELLO. Ibid. 1984. p. 24. 33 Este relato se torna interessante por descrever uma prática até hoje realizada em reuniões de jovens adolescentes, onde uma caneta ou um copo fazem o que fez a tesoura no caso de Felicia Tourinho. 34 MELLO. Ibid. 1984. p. 187.

60

se confessassem culpados por algum “crime” - de fé ou de moral, ao contrário do que ocorria com as denúncias, seriam perdoados. Dentre os mais comuns “pecados” confessados, se encontram os de relações homossexuais entre homens e a blasfêmia - de afirmar que o estado de casado era melhor que o do religioso - além de intrigas entre inimigos.

Em 1594, após um ano de iniciado os trabalhos inquisitoriais em Pernambuco, o Inquisidor Geral e o Conselho do Santo Ofício de Lisboa enviaram ao Inquisidor das terras brasileiras, o Padre Heitor Furtado de Mendonça, uma correspondência em que eles diziam, entre outras coisas, que tornamos a encomendar e encarregar muito que com brevidade acabe a visitação e volte ao Reino. 35 Isto se deu por conta d o Padre ter sido considerado um leviano e um precipitado em sua atuação tanto na Bahia quanto em Pernambuco. Alguns acusados enviados para Lisboa, lá foram soltos por as culpas não serem b a s t a n t e s . 36

Durante os quatro anos de trabalhos no Brasil, o inquisidor encheu centenas de páginas com denúncias e confissões. Cópias delas foram

35

BAIÃO, Antônio. Correspondência inédita do Inquisidor Geral e Conselho Geral do Santo Ofício para o primeiro Visitador da Inquisição no Brasil, Brasília vol. I p 543-551 apud MELLO.Op. Cit. 1984. 36 MELLO. Idem. 1984.

61

feitas

para

a

elaboração

dos

processos

que

formulou

contra

os

principais acusados, para os remeter presos ao Tribunal em Lisboa.

Boa parte dessas delações partia de membros da própria família: irmãos que denunciavam irmãos, pais a filhos, tios a sobrinhos e viceversa, e também de amigos e vizinhos próximos. Isso se dava por conta das torturas, físicas e psicológicas, que eram praticadas nos réus presos, mas, principalmente, as torturas psicológicas a que eram submetidas às pessoas que faziam parte da sociedade e freqüentavam as missas, pois nelas havia os sermões do padre e a indução de não pecarem omitindo hereges.

Apesar de algumas dessas acusações serem únicas e isoladas, ou seja, partirem apenas de um denunciante, o Tribunal do Santo Ofício, em Lisboa, aceitou- as em detrimento às declarações das testemunhas de defesa, muitas figuras ilustres da sociedade ao qual pertencia o(a) denunciado(a) como religiosos, senhoras “respeitáveis e respeitadas”, prósperos negociantes e administradores que acusavam o(a)

denunciante de desequilíbrio mental, vingança, dentre outros motivos. É o caso dos descendentes de Branca Dias e Diogo Fernandes, sendo

62

sua filha, Brites Fernandes, considerada m ulher de pouco juízo 37 mas que teve seu depoimento, no qual denunciou irmãs e sobrinhas, aceito pelo Tribunal.

A atuação do Inquisidor em terras brasileiras foi considerada um abuso de poder, pois o Brasil era tido como uma terra de degredo para os penitenciados pelo Santo Ofício e nela e xerciam cargos importantes, 38 além de asilo para os cristãos novos que podiam e conseguiam fugir das perseguições na Europa. 39

Em 1595 partiu de Pernambuco, e do Brasil, o primeiro visitador do Santo Oficio levando consigo inúmeros processos contra os colonos, e deixou na capitania o “vírus” da delação. Após a sua saída inúmeras pessoas foram denunciadas ao Tribunal da Santa Inquisição e muitas foram levadas à Lisboa e condenadas as mais variadas sentenças. Dentre essas pessoas, encontramos João Nunes, rico senhor de engenho em Pernambuco, que foi acusado de práticas judaizantes e teve todos os seus bens confiscados pela Inquisição. 40

37 38

MELLO. Op. Cit. 1990, p. 136. LIMA. Op. Cit. p. 18. 39 MELLO. Op. Cit 1984, p. XX. 40 Seu processo se encontra, incompleto, na Divisão de Pesquisa Histórica da Universidade Federal de Pernambuco.

63

Esse comportamento só abrandou quando, em fevereiro de 1630, aportou a Pernambuco uma forte esquadra holandesa com o intuito de invadir, conquistar e dominar Pernambuco, na época maior produtora de açúcar. Iniciou- se um período da história em que Pernambuco, juntamente com as terras compreendidas entre Sergipe e o Maranhão, deixaram de ser colônia da católica Portugal e passaram a ser

administradas pelos protestantes holandeses.

Nesse período da nossa história houve um grande desenvolvimento artístico e arquitetônico do Recife. Durante a administração do Conde J o ã o M a u r í c i o d e N a s s a u- Siegen, a cid ade foi urbanizada e ruas foram calçadas e saneadas, além das pontes que foram construídas para ligar as ilhas. Cientistas analisaram a fauna e a flora brasileira, e médicos estudaram as doenças tropicais bem como a propriedade das plantas; pintores retrat aram as paisagens e a vida no Brasil. Segundo Lima, Nassau deixou a pequena povoação do Recife com mais de duas mil p e s s o a s . 41 Somada a todos esses benefícios, a administração do Conde holandês, apesar de ser protestante, não perseguiu os católicos e estend endo essa liberdade aos judeus, permitindo enfim o livre

exercício dos cultos (...) com todas as suas manifestações rituais . 42

41 42

LIMA, Op. Cit. p. 85. LIMA, Ibid. p. 90.

64

Após o período de ocupação holandesa foram eles (judeus e cristãos novos) os que mais receberam acusações e condenações. Segundo M e l l o , e m Gente da Nação, isso se deu por um conjunto de fatores, pois durante a dominação flamenga tanto os cristãos novos quanto os judeus, além de serem os cobradores de impostos, eram os

intermediários nas negociações entre holandeses e luso- brasileir os por dominarem a língua, além de fazerem parte de uma parcela da sociedade que se dedicava à indústria da cana - d e- açúcar entre outras atividades. 43

Toda

essa

mobilidade

econômica

e

administrativa,

associada

às

práticas religiosas realizadas de forma livre de censura durante o período de dominação holandesa, gerou uma série de

descontentamentos na população não judia e não cristã nova. Com a saída holandesa do território pernambucano reiniciaram- se as queixas, discriminações, perseguições, acusações e as denúncias.

43

MELLO. Op. Cit. 1984, p. 244.

65

Segundo o Cônego José do Carmo Baratta, o período de 1654 a 1676 foi o da reconstrução. Após a expulsão dos holandeses, a comunidade eclesiástica, tanto os jesuítas e franciscanos quanto os carmelitas e beneditinos, reedificaram seus conventos e igrejas, abriram colégios e construíram hospícios e capelas, além de retomarem seus trabalhos nas missões indígenas. 44

Com o término da guerra modificaram- se também alguns costumes e numerosos sacerdotes seculares e religiosos passaram a prestar

a s s i s t ê ncia religiosa aos fiéis espalhados pelo vasto território, que se e n c o n t r a v a l o n g e d a s e d e d o b i s p a d o ( B a h i a ) . 45

Com a elevação do Bispado da Bahia à condição de Arcebispado, em 16 de novembro de 1676 pela Bulla Ad Sacram Beati Petri Sedem , f o r a m c r i a d o s e m Olinda e no Rio de Janeiro, também pela mesma Bula, dois outros bispados. Sendo, a Diocese de Olinda, responsável pelas cidades de Olinda, Paraíba e Natal.

Todavia, na primeira metade do século XVIII, o “estado moral” e religioso de Pernambuco eram contr aditórios. Apesar da população

44

BARATTA, Cônego José do Carmo. História Ecclesiástica de Pernambuco. Recife, Imprensa Industrial, 1922. p. 40. 45 BARATTA. Ibid. p. 41.

66

confessar os seus pecados, se comover e chorar, passada a emoção, voltavam a praticar os mesmos “vícios” e pecados confessados. Essa atitude se encontrava tanto entre a população menos favorecida

e c o n o m i c a m e n t e q u a n t o a o s m a is afortunados, o próprio clero, que deveria dar o bom exemplo e ser o mestre e o guia do povo(...) não primava (...) pela santidade de vida e zelo sacerdotal, 46 pois , os próprios ecclesiásticos eram assassinos e polygamos. 47

Os párocos pouco puderam fazer contra a religiosidade brasileira 48 e conseqüentemente rezadores, pernambucana imagens existente no e seio da sociedade; protetores

benzedores,

milagrosas

objetos

t i n h a m p o d e r s u f i c i e n t e p a r a r e s o l v e r q u a s e t o d a s a s s i t u a ç õ e s . 49

Segundo o Cônego Baratta, essa “falta de moral” do clero e do povo pernambucano se dava como conseqüência de um período em que coincidiram lutas civis, 50 que depositaram ódios, desordens e vinganças na sociedade; a ausência de um bispo responsável entre os anos de 1704 e 1725 durante o período de desocupação da Sé de Olinda; a falta

46 47

BARATTA. Op. Cit. p. 57/58. LIMA. Op. Cit. p. 18. 48 Fruto da herança das crenças medievais portuguesas e da farta contribuição das culturas africanas e indígenas. História Geral da Igreja na América Latina - História da Igreja no Brasil: Segunda Época – séc. XIX. Tomo II/2. Coordenado por José Oscar Beozzo. Petrópolis, Edições Paulinas/Vozes, 1992, p. 112. 49 História Geral da Igreja na América Latina - História da Igreja no Brasil: Segunda Época – séc. XIX. Idem. 50 Guerra dos Mascates em 1710 e 1711.

67

de uma instituição responsável pela formação do clero e, ainda, a intervenção do Governo Civil na administração eclesiástica. 51 Todos esses fatos colaboraram para que existisse em Pernambuco uma

c o m u n i d a d e , tanto eclesiástica quanto civil, com princípios morais distorcidos do ponto de vista das leis da Fé Católica.

Associado a esses fatores já descritos, também é necessário que levemos em consideração os cruzamentos das culturas que povoaram a colônia portuguesa. Os três principais grupos que aqui se instalaram – o português, o negro africano e o nativo brasileiro – p r o p o r c i o n a r a m misturas, principalmente dos ritos religiosos, além dos casamentos entre raças distintas. Essa mestiçagem proporcionou a criação de uma prática religiosa que era transmitida de pessoa para pessoa através da cultura popular oral.

Tal

prática

religiosa

consistiu

em

algumas

orações,

devoções

e

benzeduras, utilizando imagens, fitas, medalhas, rosários e patuás. Segundo estudos sobre a re ligiosidade popular no Brasil, as populações conviviam com a misteriosa presença de almas do outro mundo, num misto de respeito, piedade e medo. P r o t e g i a m- se com rituais que garantiam proteção(...),
51

BARATTA. Op. Cit. p. 59.

68

contra inimigos havia orações bravas, que não eram p a r a ser rezadas, mas levadas ao pescoço (...) ou p r e g a d a s a t r á s d a s p o r t a s d a c a s a . 52

Essa realidade era reflexo dos anos consecutivos de falta de condução do clero, do ponto de vista das leis e regras da Igreja Católica, em relação à população. Havia um e x c e sso de liberdade [e uma falta] de lei moral (...) na conduta dos portugueses recém- chegados do reino, 53 e também dos nativos, que precisavam ser catequizados. Além deles, os clérigos seculares que chegaram após 1551 54 foram acusados de serem coniventes com os “amancebamentos” dos leigos com as

escravas negras e a b s o l v i a m q u a n t o s o s p r o c u r a v a m e m c o n f i s s ã o. 55

A falta de formação de um clero profissional na colônia e a fragilidade da estrutura eclesiástica montada no Brasil desde o início da

colonização favorece u, no século XVIII, a existência de um clero corrupto, uma população supersticiosa e uma conduta moral que não condizia com a defendida pela Igreja de Roma a partir do Concílio de Trento.

52

História Geral da Igreja na América Latina - História da Igreja no Brasil: Segunda Época – séc. XIX. Tomo II/2. Op. Cit. Idem. 53 VAINFAS. Op. Cit. p. 39. 54 Ano da instalação do Bispado da Bahia. 55 VAINFAS. Op. cit. p. 40.

69

2.3 - A s C o n s t i t u i ç õ e s P r i m e i r a s d o
Arcebispado da Bahia

No s éculo XVI a Igreja Romana passou por uma série de mudanças estruturais e ideológicas. Essas mudanças ocorreram a partir da

reforma protestante iniciada na Alemanha por Martinho Lutero e que se propagou por toda a Europa. Essa Reforma foi fruto da crise r e l igiosa do século XV que afetou os pilares que davam sustentação à Igreja. Sua estrutura foi minada e com isso ela teve que reformular sua doutrina.

A partir das críticas e dos questionamentos feitos pelos reformadores protestantes e da crescente aceitação da sociedade européia por essa nova doutrina de conduta cristã, a Igreja Católica de Roma viu- se obrigada a repensar e reformular seus métodos e práticas. Dessa forma, na primeira metade do século XVI, os sacerdotes iniciaram os

t r a b a l h o s p a r a d e f i n i r e m as novas regras morais e de comportamento

70

tanto do clero quanto da população leiga. Os resultados das inúmeras reuniões realizadas – e que duraram muitos anos, já que por várias vezes foram interrompidos - ficaram conhecidos como o Concílio de T r e n t o . S e g u ndo Vainfas, as resoluções desse Concílio tinham como objetivo maior a defesa do catolicismo frente ao avanço dos

protestantes [ p o i s ] aparentemente não tomaram qualquer resolução de afronta ao protestantismo. 56

A crise na Igreja Católica no século XV, que cu l m i n o u c o m a R e f o r m a protestante, teve base nas práticas do clero. Os cargos (...)

e c l e s i á s t i c o s t o r n a r a m- se objeto (...) de um comércio, 57 e os benefícios oferecidos pelo clero foram um cancro que minou a alma da Igreja até a s r e f o r m a s t r i d e n t i n a s . 58 Associada a essa realidade, também a vida particular dos religiosos não era nada aconselhável aos seguidores católicos, uma vez que muitos bispos, arcebispos e cônegos possuíam esposas e amantes, além dos inúmeros filhos que também usufruíam os benefícios do pai eclesiástico; alguns chegaram a ser excomungados por conta do escândalo de seus costumes e abuso de suas funções.59

56 57

VAINFAS. Op. Cit. p. 19. DIAS, José Sebastião da Silva. Correntes de sentimento religioso em Portugal: século XVI a XVIII. Coimbra, Universidade de Coimbra, 1960. p 35. 58 DIAS. Ibid. p. 40. 59 DIAS. Ibid. p. 37.

71

Esses religiosos acreditavam ter direitos sobre o patrimônio das Igrejas e dos mosteiros.

Muito dessa realidade se dava por conta dos memb ros eclesiásticos não se tornarem religiosos por vocação espiritual ou por revelação divina, mas sim por pertencerem a uma classe social que os induzia, havia uma total a u s ê n c i a d e v o c a ç ã o s a c e r d o t a l . 60

A partir da segunda metade do século XV, algumas cons tituições foram publicadas como uma tentativa de disciplinar os costumes do clero e a prática dos fieis, 61 a de 1477 possuía esse propósito. Todavia os resultados não foram suficientes para impedir que a Reforma

protestante surgisse e se propagasse pela Eur opa conquistando reinos e fiéis. A realidade do clero romano só mudaria a partir do Concílio de Trento, 62 que passou a defender e preocupar - se com a família e as relações que a envolviam, dando a ela um dos lugares privilegiados da vida cristã, 63 além de um maior preparo dos sacerdotes, entre outras resoluções.

60 61

VAINFAS. Op. Cit. p. 21. DIAS. Op. Cit. p. 73. 62 Convocado pelo papa Paulo III, durou 18 anos, de 1545 a 1563. 63 VAINFAS. Op. Cit. p. 23.

72

No Brasil do século XVIII a realidade eclesiástica não foi muito diferente da vista na Europa no século XV. A conduta moral do nosso clero havia sido importada da Europa e apesar dos jesuítas serem ma i s preparados e estudados, aqui no Brasil se desvirtuaram dos votos religiosos que haviam feito quando consagrados sacerdotes e dos longos anos de estudos.

A documentação da época demonstra que os religiosos, tanto jesuítas como franciscanos e beneditinos , v i v i a m e m grande deserviço de D e o s . 64 Uma carta do Governador de Pernambuco, Sebastião de Castro e Caldas, ao Rei em Portugal, datada de 1711, denuncia que os religiosos que moravam na província causavam grande escandallo (...) com as suas vidas e costumes [ p o i s v i v i a m ] os religiosos do Estado do Brasil sem respeito ao estado que pelo officio e ao exemplo que devem d a r c o m a s u a v i d a e c o s t u m e s . 65 A s s i m , d i a n t e d e s s a

rellaxação com que se portão sem temor de Deos, [aconselha o governador da província que] V o s s a Magestade deve mandar reprezentar a sua santidade os procedimentos das Relligioens que tem conventos nas conquistas; [que ao Bispo] f a ç a g u a r d a r o s u z o s e c o s t u m e s a n t i g o s d a s I g r e j a s [como também deverá
64 65

AHU, códice 265, folhas 258v in DPH da UFPE. AHU, códice 265, folhas 258v-259 in DPH da UFPE.

73

ser usada a] jurisdição diocezana contra aquel es Relligiozos que tiverem a seu cargo a cura das Almas e administração dos sacramentos, cometendo erro nos taes officios. 66

Esse documento demonstra que havia uma preocupação com a vida dos religiosos que viviam no Brasil, e que também havia uma penalidad e para os que não se portassem dentro das normas e leis religiosas. Todavia acredita- se que essas punições surtiram um efeito pouco prático na realidade do dia a dia desses religiosos, pois o mesmo governador afirma no inicio desse documento que por varias v e z e s r e q u e r e r a 67 que se tomasse providências com a vida dos religiosos. 68

Também a população leiga se viu envolvida com as crendices que se desenvolveram com a convivência dos mais variados grupos religiosos e raciais. Além do convívio de cristãos e judeus, e dos degredados por práticas mágicas, as práticas religiosas dos negros e dos aborígines terminaram por se fundirem com os ritos católicos, formando uma nova prática religiosa carregada de superstições e simpatias e que o c u p a v a l u g a r d e d e s t a q u e n a v i d a familiar e individual. 69

66 67

AHU, códice 265, folhas 259-259v in DPH da UFPE. AHU, códice 265, folhas 258v in DPH da UFPE. 68 AHU, códice 265, folhas 258v in DPH da UFPE 69 História Geral da Igreja na América Latina - História da Igreja no Brasil: Segunda Época – séc. XIX. Tomo II/2. Op. Cit. .p. 112.

74

Esses rituais mágicos que tanto fascinavam, mas ao mesmo tempo incomodavam e amedrontavam esses grupos sociais eram, geralmente, encomendados e/ou praticados por amantes repudiados, esposas

abandonadas, brigas de vizinhos ou aind a rezas de purificação ou benzeduras contra mal olhado, entre outros.

Segundo

Alfredo

de

Carvalho,

as

receitas

para

determinar

ou

concretizar casamentos, ou abrandar corações eram as mais procuradas. Os processos usados, ou aconselhados pelos (...) feiticeiros consistem em ‘orações’(...) acompanhadas de manipulações com objetos de uso p e s s o a l d a s p e s s o a s a a f f e c t a r o u f r a g m e n t o s d e p l a n t a s o u a n i m a i s . 70

A vida real da mulher no Brasil colônia permitia que ela se dispusesse a esses artifícios para conquistar ou mesmo se livrar de um homem. A repressão e a dependência instigavam nela sentimentos que variavam desde o desejo de casar- se, uma cobrança da sociedade da época, até o de se livrar dos maridos. A decepção com os casamentos, e com os maridos, propiciava para que as mulheres desejassem divorciar - s e o u

70

CARVALHO, Alfredo de. A Magia Sexual no Brasil in Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco, vol. XXI, Imprensa Industrial, Recife, 1919. p. 414.

75

ainda utilizarem de artifícios como porções e beberagens (...) para conquistar o afeto dos maridos . 71

As várias camadas da sociedade, direta ou indiretamente, participaram e contribuíram para a permanência e manutenção dessas práticas. As feiticeiras eram invocadas tanto para preservar a integridade física [quanto] p a r a p r o v o c a r m a l e f í c i o s a e v e n t u a i s i n i m i g o s , 72 exercendo um papel duplo: ora de feiticeira malvada e diabólica, ora de iluminada por Deus.

D i a nte de todo esse contexto, em 1707, após alguns anos de discussões e reuniões, a Igreja Católica promulgou as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Essa decisão não foi uma iniciativa da diocese da Bahia, durante todo o século XVI e XVII, Constit uições diocesanas foram promulgadas em Portugal 73 como forma de conduzir tanto a população leiga quanto o clero, principalmente no que diz respeito à vida particular e social dessas pessoas.

71 72

VAINFAS. Op. Cit. p. 143. SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz . Companhia das Letras. p. 194. 73 PAIVA. Op. Cit. 1992. p. 45 e seg.

76

Aqui no Brasil, este documento foi organizado pelos Diocesanos e coordenada por Dom Sebastião Monteiro da Vide 74 e representa um dos mais completos documentos da Igreja católica no Brasil para conduzir os colonos. Em sua parte introdutória o documento se apresenta do seguinte modo: C o n s t i t u i ç õ e s P r i m e i r a s d o A r c e b i s p a d o da Bahia feitas, e ordenadas pelo ilustríssimo, e reverendíssimo senhor D. Sebastião Monteiro da Vide, 5º Arcebispo do dito Arcebispado, e do Conselho de Sua Magestade: propostas, e aceitas em o Synodo Diocesano, que o dito Senhor celebrou em 12 de junho d o a n n o d e 1 7 0 7 . 75

O intuito dos diocesanos era organizar uma legislação eclesiástica de forma que os cristãos pudessem seguir a doutrina e conduzir como católicos seus familiares. Essa legislação não só serviria à população católica, como também aos governadores, juristas e aos próprios eclesiásticos que seriam obrigados a possuírem e a seguirem tais leis. Conforme consta na própria Constituição:

74

Arcebispo de sólida formação jurídica, planejou inicialmente a realização de um concílio provincial. Dada porém a ausência do bispo do Rio de Janeiro, contentou-se com um sínodo diocesano. História Geral da Igreja na América Latina - História da Igreja no Brasil. Tomo II/1. Coordenado por Eduardo Hoornaert. p. 177. 75 Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Capa

77

Por tanto auctoritate ordinaria mandamos em virtude de santa obediencia a todas, e a cada uma das s o b r e d i t a s p e ss o a s , q u e o r a s ã o , e a o d i a n t e f o r e m , a s cumprão, e guarde: e ao nosso Provisor, Vigário Geral, Desembargadores, Visitadores, e Vigarios da Comarca, e da Vara, e a todos os mais Ministros de nossa Justiça Ecclesiástica, as fação inteiramente c u m p r i r , e g u ardar, como nellas se contém, e por ellas julguem, e determinem as causas, e se governem em t o d a a a d m i n i s t r a ç ã o d a j u s t i ç a . 76

Assim também como os advogados que advogarem perante nossos Ministros, e sem o terem não serão admitidos ao tal oficio. Também o terão o Meirinho geral, e o Escrivão da Camara. 77

Da mesma forma que na apresentação desse conjunto de Leis, há em seu interior Títulos em que são especificados e determinados os termos do seu uso e quais as pessoas que seriam obrigadas a tê- las além de a r t igos referentes à obrigatoriedade da apresentação em público: ( . . . ) e assim ordenamos, e mandamos a todos (...) que em voz alta, e intelligivel leião a seus freguezes (...). 78

76 77

Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. p. XXII Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. p. 432, título LXXIII, cânone 1311 78 Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. p. 432, título LXXIV, cânone 1312

78

A falta da leitura por parte da população eclesiástica encarregada do mesmo acarretaria uma pena de duzentos réis por cada vez que faltarem para a Sé (...). 79 E as Constituições deveriam ser lidas em alguns momentos especiais como os domingos, sendo esta leitura iniciada pelos responsáveis assim que o volume destas Constituições vier a seu poder, no primeiro Domingo logo seguinte lerão, e

p u b l i c a r ã o o P r o l o g o d e l l a s , e o T í t u l o p r i m e i r o d a F é C a t ó l i c a . 80

Dom

Sebastião

Monteiro

da

Vide

procurou

adaptar

a

legislação

eclesiástica à realidade brasileira de sua época. O Arcebispo compôs uma colcha de retalhos, pois acoplou diversas deliberações de

Concílios Ecumênicos, Bulas Papais, de Sínodos Provinciais e de p e s q u i s a s d o s p r i n c i p a i s t e ó l o g o s c o n t e m p o r â n e o s p a r a e l a b o r á - la.

As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia é dividida em 5 livros, sendo que cada livro é dividido em Títulos, ao todo são 74. Estes por sua vez são subdivididos em artigos compondo um total de 1318, distribuídos em 411 páginas. O conjunto possui 729 páginas e apresenta dois índices: um por ordem alfabética, outro por ordem crescente dos Títulos; além do Prólogo, do termo de como se

79 80

Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. p. 433, título LXXIV, cânone 1313.

79

conferirão as Constituições, do Regimento do Auditório Eclesiástico, do Índice dos dias Feriados, entre outros.

Dessa Constituição alguns artigos espalhados pelos quatro primeiros livr os se referem a algumas heresias, contudo o quinto livro é referente às mais diversas práticas heréticas e, principalmente, às punições que deveriam incorrer aos que as praticarem. Segundo Paiva, algumas Constituições diocesanas como a de Coimbra não espec ificam as punições aos que se consultarem com feiticeiros, diferentemente das Constituições de Lamengo, Lisboa, Braga, Algarve 81 e Brasil. Na colônia americana se considerava prática herética a leitura de livros que contivessem doutrinas não católicas; heré ticos também eram

pessoas que não fossem batizadas. Na Constituição era ensinada a forma de rezar a Deus, a Virgem Maria e aos Santos.

Apesar de toda a vigilância, este documento reserva aos superiores eclesiásticos o poder de absolvição de pecados mais graves. Dentre esses se encontram os de homicídio voluntário (...), os feiticeiros (...), [os que] furtam alguma coisa pertencente à Igreja (...), [os que juram]

81

PAIVA. Op. Cit. 1992. p. 47.

80

falso em juízo (...), [os que incendeiam] de propósito para fazer damno ( . . . ) , d í z i m o s n ã o p a g os às Igrejas 82 entre outros.

Esta

Constituição

diocesana

representou

a

chegada

na

colônia

portuguesa de um documento organizado de acordo com a vivência e a realidade dos moradores coloniais, apesar de ter sido elaborado de acordo com as resoluções de outras reuniões religiosas – s í n o d o s , concílios, etc. Até então as regras seguidas pelo clero e pela sociedade eram importadas da Metrópole, inclusive os Tridentinos não se

preocuparam em determinar regras e condutas aos países que possuíam terras no além mar , entre as resoluções do Concílio de Trento, nenhum destaque fora dado à expansão católica (...), a composição

majoritariamente italiana dos conciliados dificilmente o levariam a formular (...) uma política global para o Novo Mundo. 83

Dessa forma, verific a m o s a i m p o r t â n c i a d e s s e d o c u m e n t o p a r a a sociedade eclesiástica e civil que estava vivendo, como vimos no início deste capítulo, uma realidade totalmente distorcida dos

82 83

Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. p. 74-76. VAINFAS. Op. Cit. p. 25.

81

princípios morais e éticos defendidos pela Igreja Católica Apostólica Romana.

O B r a s il, e principalmente Pernambuco com todas as suas riquezas e luxos particulares, necessitavam de regras e normas que conduzissem como bons cristãos católicos os súditos do Rei e os orientassem diante de situações adversas, como as denúncias contra hereges. Por detrás dessa moralização religiosa havia a necessidade de fiscalizar e

controlar a sociedade.

Antonia Maria foi contemporânea de toda essa realidade religiosa e do desenvolvimento em que Pernambuco vivia. É com ela que o nosso próximo capítulo irá se desenrolar.

82

Capítulo 3

Uma “feiticeira” em Pernambuco

3.1 – D e s c r i ç ã o d o
processo de Antonia Maria

3.2 – A n á l i s e d o
processo de Antonia Maria

Antonia Maria, degredada por práticas de feitiçaria, habitou em Pernambuco na primeira metade do século XVIII. Tempo este em que a Capitania vivia os reflexos da Guerra dos Mascates, da falta de uma presença religiosa por conta da ausência do bispado além de uma firmação do modo de vida da burguesia comercial recifense em detrimento ao da aristocracia açucareira que se encontrava mergulhada em dívidas.

O presente capítulo tem como objetivo responder a algumas questões levantadas quando na armação do problema que norteia nossa pesquisa. Essas questões são basicamente referentes ao que a Inquisição considerava artes e práticas mágicas na primeira metade do século XVIII e quais as causas do incomodo com esses rituais, além da curiosidade de se registrar que camada da sociedade se consultava com feiticeiras. Após a leitura, transcrição e análise dos processos de Antonia Maria outras questões surgiram e procuraremos responde- las ao longo deste capítulo.

Contudo, antes de iniciarmos a análise dessas questões e do processo de Antonia Maria, faz- se necessário descrevermos os processos de Beja e de Pernambuco para assim facilitar o entendimento das questões que serão discutidas mais adiante.1

1

Na leitura paleográfica do documento optamos pela transcrição atualizada do processo de Antonia Maria e das artes praticadas po r ela de forma a facilitar a compreensão do texto.

84

3.1- Descrição dos Processos de Antonia Maria 3.1-

3.1.1 - Beja – Évora – Portugal/1713

Antonia Maria, casada com Vasco Janeiro, de idade de 30 anos, mais ou menos, foi denunciada ao Tribunal do Santo Ofício por praticar artes mágicas e sortilégios. Suas denunciantes foram os membros de uma mesma família, todas filhas de João Rodrigues e de Brites Fernandes, já defuntos, natural e moradoras na rua Nova da cidade de Beja, a saber:

Natália Maria, moça donzela, de idade de 30 anos, mais ou menos. Caetana de Jesus, moça donzela, de idade de 33 anos, mais ou menos. Aquimar da Rosa , moça solteira, de idade de 20 anos, mais ou menos. Mariana Josepha, casada com Antonio da Silva, de idade de 17 anos, mais ou menos. Maria de Deus, moça solteira e doente, de idade de 38 anos, mais ou menos. Antonio da Silva , casado com Mariana Josepha, de idade de 20 anos, mais ou menos, tendo como profissão oficial de ourives.

85

Estes foram os denunciantes de Antonia Maria. As irmãs a procuraram para que ela realizasse um sortilégio com o objetivo de que o padrasto e a mãe de Antonio da Silva o perdoassem por ter roubado umas moedas de ouro do padrasto. Este, o havia denunciado as autoridades judiciais e ele seria preso pelo furto. Antonia Maria, em concordância com o pedido das irmãs realizou o seguinte sortilégio:

Primeiro mandou que se rezasse um rosário as almas dos fieis por nove dias: dez Ave- Marias em pé e os Padre-Nossos de joelhos, e que o fizesse a noite e na porta da casa com os olhos voltados para o Céu e dissesse estas palavras: Deus vos salve, santos fieis de Deus, Deus vos salve, salvemos Deus os da quem e os dalém os que andais pelos adros e pelos sagrados e os batizados e por batizar todos se queiram ajuntar e incorporar no coração de Manoel Rodrigues e de Ana Maria [padrasto e mãe de Antonio da Silva] queiram entrar e o perdão do furto das moedas de ouro lhe dar.

Segundo as irmãs essa reza não surtiu o efeito desejado e novamente procuraram Antonia Maria para que ela realizasse algum outro sortilégio. Sendo assim, Antonia Maria pediu 9 vinténs para comprar uns ingredientes e fez um fervedouro na casa delas em que pôs numa panelinha os seguintes ingredientes: um coração de lebre espetado com agulhas e alfinetes depois de ter lhes tirado as cabeças, sangue de leão suco de lobo, alfazema, erva de barbasco e outras, um pedaço de pedra de ara, tudo

86

ferveu com vinagre e nesse momento dizia as seguintes palavras batendo com três varinhas de marmeleiro no chão: Manoel Rodrigues e Ana Maria aqui te fervo o teu coração com quantos nervos em teu coração estão barrabás, califas, satanás, Maria Padilha com toda a sua quadrilha, Maria da Calha com toda a sua canalha e cavalo Marinho que os traga pelos caminhos depressa e todos se queiram ajuntar e no coração de Manoel Rodrigues e de Ana Maria se queiram entrar para que este perdão queiram dar.

No momento da realização do fervedouro chegou o marido de uma delas, Antonio da Silva, que nada sabia. Novamente esse sortilé gio não surtiu efeito e ela ensinou ao casal que eles deveriam ir a uma encruzilhada às onze para a meia noite para que o perdão fosse alcançado. O ritual consistia no seguinte: colocar uma mesa forrada com um pano velho e nela cinco bolinhos, cinco azeitonas, cinco pedacinhos de queijo, cinco figos e cinco pedrinhas tiradas do local. Cada ingrediente desse em um canto da mesa. E que se rezasse a seguinte oração sem que ninguém visse ou ouvisse:

O primeiro bolinho, queijo, azeitona e figo sejam para barrabás, o seguindo bolinho com o mesmo para califas, o terceiro bolinho com o mesmo para satanás, o quarto bolinho com o mesmo para Maria Padilha, o quinto bolinho com o mesmo para Maria da Calha e havia de dizer mais estas palavras: esta mesa venho plantar para meu bem não para meu mau.

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Contudo, tanto Antonio da Silva quanto sua esposa, tiveram medo e largaram a mesa na encruzilhada e novamente o sortilégio não surtiu efeito. Antonia Maria, desejosa do pagamento da moeda de ouro que as irmãs lhes havia prometido e não haviam pagado, as ameaçou de denunciá- las ao Santo Ofício e de fazer sortilégios para as atingir. Elas, receosas do que poderia acontecer, anteciparam- se denunciado Antonia Maria ao Santo Ofício.

Antonia Maria foi presa em 27 de agosto de 1712 pelas seguintes culpas: ações vans e supersticiosas, invocação do demônio, pacto expresso com o diabo e erro no entendimento contra nossa Santa Fé Católica .

Dia 27 de setembro de 1712 iniciaram-se os depoimentos de Antonia Maria, que além desse crime, confessou outro, dentre eles rezas para que pessoas se casassem, para amansar seu marido, que a impedia de sair de casa, simpatias para que comerciantes se dessem bem nas compras e vendas, rezas para que mulheres adúlteras não fossem descobertas pelos maridos. Segundo sua confissão, Antonia Maria afirma que suas rezas, simpatias e sortilégios não deram certo, com raras exceções, e que nem sempre era paga pelos serviços. E que só os fazia por ser muito pobre e necessitar de algum recurso para sobreviver.

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Em seu depoimento Antonia afirma que se iniciou nas artes mágicas com a mãe, mas que aprendeu com uma amiga chamada Joana de Andrade, que também foi presa e condenada pelo Santo Ofício.

No dia 13 de julho de 1713 Antonia Maria compareceu ao auto de fé que se realizou em Évora e abjurou publicamente e recebeu como sentença a confiscação de seus bens, cárcere e hábito penitencial perpétuo, açoites, excomunhão, degredo por toda a vida da cidade de Beja e por três anos para o reino de Angola. Dia 10 do mesmo mês e ano ela assinou o termo de segredo e de ida e penitencia.

3.1.2 - Recife – Lisboa/1723

Não estão claros os motivos que levaram Antonia Maria a aportar e fixar residência em Recife, contudo ela aqui chegou por volta de 1714.

Em Pernambuco Antonia Maria morou em algumas casas alugadas sendo todas na ilha de Santo Antonio. Segundo seu depoimento logo que chegou houve uma publicação, na Gazeta, em que afirmaram que ela havia sido degredada por feitiçarias e por conta deste fato as pessoas passaram a procura- la para que ela lhes fizesse alguma reza ou adivinhação do futuro. Negando- se, ela foi pressionada para que atendesse aos pedidos, o que fez, já que era só numa terra desconhecida.

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Dentre as pessoas que denunciaram Antonia Maria em Pernambuco em 1718, encontram- se:

Pe. Francisco Xavier de Viveiros, 32 anos de idade, mais ou menos, morador na Vila de Santo Antonio do Arrecife de Pernambuco, vizinho de Antonia Maria e a procurou para que adivinhasse o futuro para ele. Seu pedido consistia em descobrir se seria ordenado padre e se esta ordenação aconteceria antes ou depois da viagem do Bispo ao Reino. Antonia fez as adivinhações utilizando os seguintes recursos: em um alquidar com água colocou quatro vinténs, uma folha de papel dobrada e desdobrada. Também foram necessárias uma peneira e uma tesoura.

Segundo o padre Francisco Xavier, Antonia Maria utilizou- se dos seguintes procedimentos: pegou a peneira e abrindo a tesoura colocou as pontas no arco da peneira suspendendo, no ar, de uma parte com o dedo por baixo do arco e ele, o padre, de outra parte também com o dedo por baixo do outro arco. E ela mandou que ele repetisse as seguintes palavras: por São Pedro e por São Paulo e pela porta de Santiago em como Francisco Xavier não há de ser clérigo. E a peneira permanecia imóvel. Quando Antonia Maria dizia por São Pedro e por São Paulo e pela porta de Santiago em como Francisco Xavier há de ser clérigo
90

a peneira se mexeu por várias vezes como resposta positiva de que ele iria ser ordenado padre antes do Bispo viajar para o Reino.

João Pimentel, 40 anos de idade, mais ou menos, casado com Bárbara de Melo, cristão velho, tendo como profissão a de pedreiro, também foi vizinho de Antonia Maria. A denunciou por ela ter feito um sortilégio contra sua mulher. Segundo seu depoimento, ele e Antonia haviam tido uma “amizade ilícita” e a esposa havia descoberto e ele terminara o romance. Antonia Maria não satisfeita com o fim da relação fez com que ele, sua esposa e uma escrava doméstica caíssem doentes. Em seu depoimento ele narra o exorcismo feito por dois padres de onde ele e sua esposa “por via do curso natural” expeliram vários objetos, dentre eles dentes de gente, ervas, farelos de madeira, ossos, carvão, arvorezinhas com galhos, espinhas de peixe, pedaços de pedra, cabelos de gente e areia da praia, entre outras coisas. Todavia não ficaram curados e procuraram um negro curandeiro de nome Domingos João que com purgas, ervas e raízes os curou.

Bárbara de Melo, 50 anos de idade, mais ou menos, casada com João Pimentel, faz pão. Em seu depoimento ela narra os mesmos acontecimentos que seu marido e acrescenta que Joana de Andrade, amiga de Antonia Maria, foi quem confirmou para ela que a ré havia feitos os feitiços por conta da proibição que deu a seu marido de freqüentar a casa dela. E que Antonia havia se aperfeiçoado nas artes mágicas com uma mulher parda de nome Páscoa Maria que era conhecida como feiticeira.

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Isabel da Silva, 60 anos de idade, mais ou menos, viúva de Antonio Bayão, cristã velha, mãe do Pe. Francisco Xavier e presenciou toda a cerimônia feita por Antonia Maria. Declara os mesmos fatos que contidos no depoimento do filho e acrescenta que a casa de Antonia Maria era muito visitada tanto de dia quanto de noite.

Ignácia Maria, 35 anos, mais ou menos, solteira, cristã velha, irmã do Pe. Francisco Xavier. Além do deposto pelo irmão e pela mãe, ela acrescenta que na casa de Antonia Maria iam muitas mulheres, principalmente meretrizes.

Domingos de Almeida Lobato , 33 para 34 anos, mais ou menos, cristão velho, casado com Maria Crisostoma, tendo como profissão a de pedreiro. Ele narra que estando doente de soluços procurou Antonia Maria para que ela lhe fizesse algo que o curasse. Ela fez o seguinte sortilégio: apanhou cinco ramos de ervas e pediu que ele tirasse o pé esquerdo da chinela e o pusesse sobre a terra e lhe trouxesse o meio do rastro. Em uma panela nova de barro colocou 2 vinténs de água ardente da terra e o rastro de seu pé esquerdo. Pegando o primeiro ramo o meteu entre o dedo polegar e o indicador e puxando por ele para baixo sem o desfolhar dizia, satanás e o metia na mão direita e fazendo o mesmo ao segundo ramo dizia barrabás, o mesmo com o terceiro dizia califas, e ao quarto disse diabo coxo e ao quinto sua mulher.

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Depois pegou os ramos e os colocou na panela dizendo a cada ramo que jogava satanás, barrabás, califas, diabo coxo e sua mulher. Após ferver tudo mandou que ele se defumasse com a água do fervedouro e depois a jogasse na porta da casa de uma mulher chamada Basília Pessoa, que havia feito um trabalho de feitiçaria para ele.

Contudo, os soluços pioraram e ele descobriu que esse sortilégio feito por Antonia para o curar o fez piorar. Assim, ele procurou Domingos João, negro curador, que lhe deu um pó para inspirar pelo nariz e pela boca e uma raiz para enterrar. Depois ele voltou a casa do negro com sua esposa e este lhe deu uma bebida feita com ervas pisadas e assim que ele bebeu vomitou um bicho que se parecia com um cavalo e este estava seco da metade para baixo. O negro informou que quando o bicho secasse totalmente ele morreria. Nesse momento entrou uma galinha que pegou o bicho pelo bico e saiu voando. Segundo Domingos João ela era a dona do bicho.

Joseph Pereira, 33 para 34 anos, cristão velho, vive de sua agência, viúvo de Joana de Andrade. Ele denuncia que se casou com a degredada por acreditar que ela havia se redimido das culpas que havia sido condenada em Portugal e por se sentir obrigado a celebrar matrimônio com ela. E que após se casar continuou a freqüentar a casa de sua mãe e irmã e por muitas vezes sua irmã lhe tirou do casaco alfinetes. Também narra que depois de casado ia a sua casa e de sua esposa muitas mulheres dentre elas Isabel de Avelar, que havia sido também degredada pelo Santo Ofício e

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D. Garcia, que queria que o marido voltasse a ter com ela vida conjugal. Após a morte de Joana de Andrade, ele encontrou várias orações escondidas e muitos alfinetes no travesseiro dele. Também narra que perto da morte de Joana, Antonia Maria a veio visitar e lhe disse que queria vê- la morta por ela ter tirado o seu ganho e que era sabido que esta Antonia era feiticeira e que fazia malefícios às pessoas.

Maria Crisostoma , 23 para 24 anos, casada com Domingos de Almeida. Declara que foi ela quem procurou Antonia Maria para que curasse seu marido. Todavia, por ele não ter melhorado uma amiga chamada Francisca, casada com Joseph Pereira, a indicou o negro Domingos João. Seu relato sobre os procedimentos deste curador se assemelha com o de seu marido.

Estes depoimentos foram encaminhados para Lisboa e a prisão de Antonia Maria foi autorizada pelo Tribunal do Santo Ofício. Ela foi presa em Alagoas, para onde havia fugido e enviada para o Reino pagando sua viagem.

Em Lisboa Antonia Maria iniciou sua confissão no dia 06 de março de 1720. Foi ouvida e denunciou Joana de Andrade como responsável por todos os trabalhos de feitiçaria que ela havia praticado. Declarou que Joana a obrigou com ameaças a realizar os sortilégios e sem poder se negar ela os fez. Os inquisidores não aceitaram sua confissão e a encaminharam para sua cela. Esse procedimento se repetiu por inúmeros meses, durante esses meses ela confessou que inúmeras pessoas a

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procuraram para que ela realizasse adivinhações e rezas para as mais variadas causas. Os inquisidores não se sentindo satisfeitos ofereceram a ré, e ela aceitou, um procurador para que este encaminhasse novo depoimento aos denunciantes de Pernambuco, o que se fez em fevereiro de 1721. O procurador Brás de Carvalho encaminhou ao reitor do Colégio da Companhia de Jesus da cidade de Olinda as perguntas que deveriam ser feitas às testemunhas que depuseram contra Antonia Maria e também a novas testemunhas que, segundo Antonia, sabiam que ela possuía inimigos no Recife. São eles:

João da Mota, 55 anos, mais ou menos, sarge nto mor, casado com Brites de Almeida. Declara que Bárbara de Melo já estava doente quando Antonia Maria chegou ao Recife e que ela e seu marido, João Pimentel, eram inimigos de Antonia Maria, não sabe o porque. E que ambos eram de fora de Recife.

Luis de Siqueira Pacheco, 50 anos, mais ou menos, ajudante de pedreiro, natural de Recife, casado com Maria Frajoia. Declara que Antonia Maria e Bárbara de Melo eram inimigas e que ouvira várias vezes Bárbara tratar Antonia por feiticeira e ameaça-la de mandar degreda- la para Angola.

Maria Frajoia, 50 anos, mais ou menos, casada com Luis de Siqueira. Declara que Bárbara e Antonia eram inimigas e que Bárbara fazia ofensas públicas contra

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Antonia e que a causa dessa inimizade era que Bárbara desconfiara que seu marido, João Pimentel e Antonia haviam tido um romance.

Agostinha Carneira, 24 anos, mais ou menos, solteira, filha de Luis da Siqueira Pacheco. Declara que havia ódio entre Bárbara de Melo e Antonia Maria e que este sentimento se originara da desconfiança que Bárbara tinha de Antonia com seu marido e que Bárbara fazia ameaças públicas contra Antonia.

Brites de Almeida, 57 anos, mais ou menos, esposa de João da Mota. Declara que foi Bárbara de Melo quem denunciou Antonia Maria ao comissário do Santo Ofício, frei Bartolomeu do Pilar, bispo do Grão Pará. E que Bárbara de Melo sempre disse que havia de se vingar de Antonia Maria por ela ter lhe dado feitiços.

Luciano de Siqueira, 29 anos, mais ou menos, solteiro, filho de Luis de Siqueira Pacheco, cabo de esquadra da Companhia do capitão Agostinho Moreira. Declara que não tem conhecimento de nada pois vivia viajando em cumprimento do seu trabalho.

Pe. Frei Bernardo da Nápolis, 55 anos, mais ou menos, capuchinho do convento de Nossa Senhora da Penha, superior e prefeito das missões dos capuchinhos. Declara que só tem conhecimento que Bárbara de Melo se queixava de Antonia Maria ter lhe dado feitiço.

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Pe. Miguel Ângelo, religioso capuchinho que realizou o exorcismo de Bárbara de Melo e seu marido João Pimentel e a persuadiu a denunciar ao Santo Ofício Antonia Maria.

Francisco Rodrigues Chaves, 29 para 30 anos, mais ou menos, capitão, casado com Maria Rodrigues de Aguiar, natural do arcebispado de Braga. Declara que procurara Antonia Maria para que ela realizasse uma adivinhação para ele saber quem lhe havia furtado mercadorias de sua casa. Antonia se recusou a realizar a adivinhação por ele ser português e não queria engana- lo e caso ele fosse brasileiro o enganaria, pois ela não sabia fazer adivinhações.

Com relação aos antigos depoentes, todos foram ouvidos e nada de novo acrescentaram aos seus depoimentos a não ser o fato de declararem não conhecer Joana de Andrade e de serem obrigados a denunciarem Antonia Maria pelos padres confessores e pelo frei Bartolomeu do Pilar, bispo do Grão Pará e inquisidor que tomou o depoimento das testemunhas em 1718. Também de novo acrescentou Bárbara de Melo declarando que primeiro tentou denunciar Antonia Maria ao ouvidor da província e pediu a ele para que a encaminhasse para a ilha do Príncipe, para onde a princípio ela havia sido degredada segundo Bárbara de Melo, mais que nenhuma providência havia sido tomada.

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Quando esses depoimentos chegam a Lisboa de nada serviram, pois os inquisidores responsáveis optaram por torturar Ant onia Maria para que ela confessasse suas culpas. Dessa forma ela foi levada, no dia 26 de agosto de 1723, para a casa deputada para que se realizasse o tormento que se deu da seguinte forma: chamaram os médicos cirurgiões e os Ministros da execução para que procedessem com o tormento. Ela foi despida para ser torturada no potro. Nesse momento ela foi advertida que se morresse, quebrasse algum membro ou perdesse algum sentido a responsabilidade seria dela, por não ter confessado, e não dos senhores inquisidores. Após algum tempo de sofrimento e por clamar várias vezes pela Virgem se encerrou o tormento e ela foi encaminhada a sua cela.

No dia 09 de setembro de 1723 o escrivão Fabian Bernardes concluiu o processo de Antonia Maria e declarou que ela iria ao auto público e que teria cárcere e hábito perpétuo sem remissão e que seria degredada por 5 anos para a cidade de Miranda, que teria penitência espiritual e pagaria as custas. Assinam este documento o inquisidor João Álvares Soares e João Paes do Amaral. O auto público se celebrou em 10 de outubro de 1723 na cidade de Lisboa e estavam presente o Rei D. João V, os infantes D. Francisco, D. Antonio e D.Manoel, os senhores inquisidores e ministros da mesa, nobres e o povo. E assina o escrivão Manoel de Figueiredo. Em outubro do mesmo ano ela assina o termo de segredo, e o de ida e penitência.

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3.2 – Análise do processo de Antonia Maria

No dia 09 de junho de 1713 compareceu ao Auto Público da Fé na forma costumada2 Antonia Maria levando carocha na cabeça com o rótulo de feiticeira. Estavam presentes o Excelentíssimo Senhor Cardeal da Cunha inquisidor geral e o seu conselho e a mesa. El Rei, e os senhores infantes Dom Francisco, Dom Antonio, Dom Manoel o núncio, Bispos de Angola e de Sagoste(SIC).3 Nesta cerimônia Antonio Maria 4 Abjurou 5 publicamente seus erros e ouviu sua sentença. Além de ser excomungada, teve os seus bens confiscados para o fisco e câmara real, todavia por ter tido confessado seus crimes, ela recebeu ao grêmio e união da santa madre igreja (...) e em pena e penitencia deles [os crimes] lhe [assinaram] cárcere e hábito penitencial perpétuo e [seria] açoitada pelas mas públicas denacidades (...) e a

2

Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa (a partir deste momento ANTT) maço 120, processo 1377, microfilme 14067, p. 96. 1713 3 ANTT, maço 120, processo. 1377, microfilme 14067, p. 96v. 1713. 4 Antonia Maria, que tem ¼ de cristã nova por veia paterna, casada com Vasco Janeiro[...] natural e moradora na cidade de Beja (bispado de Évora-Portugal), de 30 anos de idade. Que seus pais se chamam Bartolomeu de Moraes e Luiza de Carvalho já defuntos, naturais e moradores da cidade de Beja. Que ela tem uma irmã chamada Leomar Mendes, casada com Manoel ___ natural e moradora de Beja. (...) somente tem um filho chamado Estevão de menor de idade. Que ela e cristã batizada e foi na Igreja do Salvador da mesma cidade pelo cura Pedro Cordeiro, não sabe quem foi seu padrinho. ANTT, p. 46v-47. 1713 5 Abjuração em anexos.

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[degradaram] por toda a vida da cidade de Beja, e por tempo de 3 anos para o reino de Angola. 6

A penalidade de ser degredada por toda a vida da cidade de origem, no caso de Antonia Maria, de Beja, se insere no contexto das penalidades instituídas pelos tribunais no período estudado. Ser exilado de sua cidade representava que o sentenciado seria privado do convívio social com a família e amigos, e dos negócios econômicos; o exílio ou degredo era uma punição terrível e temida.7 A qualidade do degredo variava de acordo com o crime cometido. Havia uma listagem desses crimes que eram divididos em três grupos:

QUALIDADE Sérios

CRIME Blasfêmia, homicídio, cometer uma ofensa, rapto, violação, feitiçaria, agressão a carcereiros, entrar para um convento com intenções desonrosas, provocar danos por dinheiro, ofender alguém numa procissão, ofender um juiz.

Imperdoáveis

Heresia, traição (lesa-majestade), contratação e sodomia

Menores Fonte: Timothy J. Coates, p. 60

Crimes sempre perdoados pelos tribunais

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ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067, p. 96. 1713 COATES, Timothy J. Degredados e Órfãos: colonização dirigida pela coroa no império por tuguês: 1550-1755. Lisboa, 1998, p. 43.

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Segundo Coates, esses quatro crimes imperdoáveis eram assim chamados por porem em risco os fundamentos teológicos, políticos, econômicos e sociais do Estado português 8 do período que ele denomina de moderno emergente; ou seja, esses crimes representavam tanto um desrespeito às leis cristãs que a Igreja Católica Apostólica Romana não poderia permitir, quanto uma traição ao Rei, que deveria ser punido com rigor para que outros não o fizessem.

As punições para esses crimes eram o degredo, sendo que este variava de acordo com o local - que a sentença seria cumprida - e também dos interesses do tribunal que o condenou; havia diferentes tipos de exílios: para toda a vida, durante o período de tempo que ao Rei aprouver, para as galés, ou para um local específico durante um determinado período de tempo, ou para fora da localidade onde se vive ou das suas terras adjacentes. 9

No caso específico de Antonia Maria ela foi degredada 10 por toda vida da sua cidade natal, Beja, e por três anos para Angola, depois de passado esse período poderia

8 9

COATES. Op. Cit. p. 60. SOUZA, Joaquim José Caetano Pereira e. Primeiras Linhas sobre o Processo Criminal in COATES, p.56. 10 Havia todo um procedimento após a condenação ao degredo. Teoricamente o degredado não poderia passar mais de 3 meses encarcerado depois da sua sentença. Todos os sentenciados eram encaminhados para a cadeia de Limoeiro, em Lisboa, de onde eram encaminhados para os navios; estes eram de particulares que tinham a obrigação de leva-los ao seu local de degredo. Os capitães desses navios eram os encarregados de os conduzir e de encaminha-los as autoridades competentes da cidade escolhida. Sobre os procedimentos legais de condução de degredados veja-se Timothy J. Coates, Degredados e Órfãs: colonização dirigida pela coroa no império português: 1550-1755.

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voltar para Portugal, desde que se fixasse em outra localidade que não fosse Beja. Uma das questões que nos chamou a atenção durante a leitura e transcrição dos dois processos desta ré foi que apesar de ter sido degredada para Angola ela aportou no Recife de Pernambuco estado do Brasil 11 , onde fixou residência na vila de Santo Antonio. O que poderia ter acontecido para que o Tribunal mudasse o lugar do degredo? E se isso realmente aconteceu, porque não há uma descrição em seu processo informando desse ocorrido? Quais os motivos que a fizeram permanecer em Pernambuco? Porque escolhera viver no Recife?

Coates nos sugere algumas evidências de tais acontecimentos. Ele nos informa que em 1662 alguns condenados exilados para Angola e São Tomé foram enviados para o Brasil por não haver navios no porto prontos para a partida para essas duas localidades. Por conta dessa espera, estavam a gastar um ror de dinheiro para [alimentar e vestir] estes prisioneiros [e que os] navios para o Brasil [estavam] de partida e daí os prisioneiros [poderiam] seguir para os seus locais de degredo.12 Sendo assim, a Coroa concordou em enviar para o Brasil esse grupo de degredados de onde partiriam para cumprir seu exílio nas terras para onde foram sentenciados. Todavia não se sabe se realmente esse grupo transportado para o Brasil foi depois para Angola e São Tomé.

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ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 130. 1723. BA, 51-VI-11, f. 125 (número 226), Regimento da Caza da Supplicação, 12 de setembro de 1662 in COATES, Timothy J. p. 142.

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Diante dessa possibilidade do Brasil servir de posto de paragem para degredados, acredita-se que provavelmente o mesmo poderia ter acontecido com Antonia Maria, apesar de não haver nenhum vestígio dessa ocorrência nos seus dois processos, e dela não ter seguido para Angola, como havia sido determinado pelo Tribunal na sua condenação, e sim permanecido em Pernambuco.

Outro motivo que levaria Antonia a ser degredada no Brasil está nas Leis Extravagantes de 1535 e 1549; nelas consta que os condenados a cumprir degredo na Ilha do Príncipe deveriam ser enviados para o Brasil. 13 O mesmo servia para os condenados para São Tomé. 14 Essas leis nos fazem perceber que além das autoridades determinarem a mudança do local de degredo dos condenados de um lugar para outro através de leis, o Brasil estava em pleno processo de colonização, ou seja, havia uma grande necessidade de se enviar pessoas para habitarem nas terras americanas de Portugal, o mesmo poderia ter acontecido com Antonia Maria.

Com relação à não constar nenhuma referência no seu primeiro processo sobre a sua vinda para o Brasil, entende- se que isso tenha ocorrido por conta do tribunal já não possuir nenhuma jurisdição sobre os condenados. Após o auto de fé eles eram entregues a justiça para que fossem encaminhados para o cumprimento das suas

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Quarta parte dos delictos, e do accessorio a elles, título XVII de leis penaes sobre diversas cousas, Lei VIII que se não degrade para a Ilha do Príncipe in Leis Extravagantes e Repertório das Ordenações de Duarte Nunes do Lião, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987. p. 176. 14 Idem, Lei IX que o degredo para São Tomé se mude para o Brasil.

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condenações, sendo assim a Inquisição não saberia se por questões práticas e/ou financeiras, ela, Antonia Maria, haveria de primeiro aportar em Pernambuco, para depois seguir para Angola.

No segundo processo também não consta nenhuma referência à mudança do local de exílio. No início dele, quando ela é presa e entregue à justiça, em 1720, consta que Antonia Maria re conciliada que foi por esta inquisição no auto público da fé que se celebrou nesta cidade em 9 de julho de 1713 no qual abjurou culpas de feitiçarias, sendo degradada para Pernambuco se acha relapsa nas mesmas culpas. 15

Ou seja, a Inquisição tinha o conhecimento de que Antonia Maria havia sido degredada para Pernambuco, ou pelo menos que estava degredada em Pernambuc o. Todavia nenhum documento foi encontrado que possa nos esclarecer essa mudança da localidade do exílio. Acredita- se que ela possa ter aportado aqui e que não tenha seguido para Angola fixando- se nessas terras com o conhecimento e autorização das autoridades competentes. 16

Não se sabe ao certo em que ano Antonia Maria chegou a Pernambuco, mas é possível sugerir uma data aproximada. O auto de fé em que ela foi condenada e

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ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067, p.108. 1723. Entendemos por autoridades competentes os encarregados de receber os degredados: juizes da localidade de exílio, a Câmara da cidade, etc. As localidades estipulavam quem seria a pessoa ou qual seria o órgão encarregado de os receber e fiscalizar. Sobre esse assunto ver Timothy J. Coates. Capítulo II (A base legal do exílio como pena).

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abjurou suas culpas celebrou-se em 09 de junho de 1713. No dia 10 de julho de 1713 ela “assinou”17 um termo de segredo18 onde se comprometia a nunca relatar o que se passara nesse período em que estivera presa, e no dia 17 do mesmo mês e ano ela “assinou” o termo de ida e penitência 19 . Sendo assim e levando em consideração que não havia navios para Angola e que ela não poderia permanecer mais que três meses encarcerada depois da leitura da sentença, e que ela teve que vir para Pernambuco e essa viagem levava mais de um mês, ela aportou em Recife no final do ano de 1713.

Outro dado que nos faz acreditar nessa hipótese está no depoimento das primeiras testemunhas que a acusaram em Pernambuco em julho de 1718. Os depoimentos dos oito denunciantes afirmam que tudo aconteceu de tres para quatro anos, pouco mais ou menos, 20 ou seja, se o ano é o de 17 18 e estão denunciando que as magias praticadas por Antonia Maria se deram três para quatro anos antes do depoimento, essa conta nos remonta ao ano de 1714- 1715.

Com relação à última indagação: quais os motivos que a levaram a permanecer em Pernambuco, e principalmente no Recife e não em Olinda, por exemplo? Como foi dito no segundo capítulo deste trabalho, Pernambuco era uma rica capitania e com prósperos negócios. Acredita- se que Antonia Maria tenha sabido, ou percebido, esse

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Antonia Maria não assinou esses documentos por não saber escrever. Eles foram lidos e ouvidos por ela e assinados pelo escrivão com o consentimento da ré. 18 Termo de Segredo em anexos 19 Termo de ida e penitência em anexos. 20 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067, p. 120. 1723.

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desenvolvimento, e durante o período em que ficou aportada em Recife esperando seu navio para Angola, optou por permanecer degredada numa terra rica e com possibilidades de ganhos para ela - como trabalho, casamento - do que se transferir para Angola, terra mais distante de Portugal que Pernambuco e nem tão rica quanto o Brasil. Nesse período Angola representava um dos lugares mais indesejáveis para ser exilado, pois era um dos locais mais remotos e insalubres. 21

Recife acabara de ser elevada à categoria de Vila e passara pela Guerra dos Mascates (1710-1711) de onde havia saído vitoriosa e fortalecida como grande centro comercial e econômico. Somando- se a esses dados, Olinda era a morada da aristocracia açucareira endividada e preconceituosa, da elite política e das famílias tradicionais, ao contrário de Recife, centro comercial e onde se encontrava o porto, passagem obrigatória para quem chegava à Capitania.

Essa guerra representou, segundo Evaldo Cabral de Mello, uma confrontação entre a loja e o engenho (...) entre um Recife florescente que aspirava a emancipação e uma Olinda decadente que procura mantê-lo numa sujeição irrealista. 22 Esse grupo de comerciantes era impossibilitado de pertencer, ou aspirar a pertencer, à ‘nobreza da terra’ 23 assim, o antagonismo econômico, político e social 24 que circundava esses
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COATES. Op. Cit. p.182. MELLO, Evaldo Cabral de. A Fronda dos Mazombos nobres contra mascates: Pernambuco 16661715. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. p123. 23 MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: o imaginário da restauração pernambucana. Rio de Janeiro, Topbooks, 1997.p. 118. 24 MELLO.Idem.

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dois grupos pertencentes a “elite” da sociedade pernambucana no início do século XVIII, proporcionaram uma realidade distinta de outras regiões da colônia brasileira.

Em 23 de dezembro de 1718, o escrivão João Cardoso enviou ao Tribunal da Santa Inquisição de Lisboa, responsável pela colônia do Brasil, os depoimentos tomados nos dias 21, 28 e 29 de julho contra Antonia Maria, informando a mesa do Santo Ofício que ela re tinha reincidido nas mesmas culpas fazendo sortilégios, malef ícios e curas supersticiosas usando nelas de invocação do demonio. 25 No dia 08 de fevereiro de 1719 a inquisição responde afirmando que as culpas eram bastantes para a delata ser presa nos cárceres do santo oficio e que com efeito o 26 fosse. No dia 23 de janeiro de 1720 é entregue pelo meirinho (...) João Botelho de Andrade ao alcaide (...) Fernando Coutinho a presa Antonia Maria que [vinha] de Pernambuco. 27

A partir desse momento Antonia Maria foi mais uma vez encarcerada e submetida a três anos de depoimentos e a torturas psicológicas e físicas, culminando com a condenação lida no auto de fé que se celebrou no dia 10 de outubro de 1723 tendo como

25 26 27

ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 249. 1723. ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 109. 1723. ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 107. 1723.

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pena e penitencia de suas culpas [...] cárcere e hábito penitencial perpetuo sem remissão e a degradam por tempo de 5 anos para a cidade de Miranda. Será instruída nas causas da fé necessárias para salvação da sua alma, e cumpra as mais penas e penitencias espirituais que lhe forem impostas, e pague as custas. 28

Na condenação deste segundo processo, percebe- se que Antonia foi instruída a pagar as custas do processo. Isso indica que possuía meios para tal, já que na condenação do primeiro processo não é relatado esse fato; percebe-se também a posse de algum bem quando de sua prisão e translado para Portugal, no auto de entrega o escrivão afirma que Antonia Maria vem de Pernambuco na não caridade, 29 ou seja, sem precisar que custeie a sua ida para a metrópole. Outro dado importante é que ela foi novamente degredada só que desta vez para a cidade de Miranda, situada no nordeste de Portugal, divisa com a Espanha, pelo tempo de cinco anos, diferente da primeira condenação que foi por tempo de três anos para fora de Portugal.

Esse fato nos leva a perceber que além do degredo externo, ou seja, para as colônias portuguesas na América, na África e na Ásia, também havia o degredo interno, ou seja, algumas regiões de Portugal pouco povoadas como Castro Marim, ao sul e Miranda, ao norte, eram localidades escolhidas para habitarem degredados. Havia uma tabela onde se estabelecia que um ano de degredo no Brasil representava dois
28

ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 254. 1723.

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anos na África, dois anos no Brasil significava um ano nas galés. Toda a vida no Brasil era o mesmo de 10 anos nas galés. O degredo passou a representar uma necessidade do Estado português em acomodar os indesejáveis do Reino em locais de pouca população, como essas localidades dentro do país, ou de baixa mão de obra, como as colônias.

Algumas questões nos surgem quando analisamos os processos de Antonia Maria. Segundo alguns historiadores, destacando-se Anita Novinsky, defendem que a inquisição se estabeleceu no período moderno na Península Ibérica por questões econômicas, afirmam que tanto a Espanha quanto Portugal necessitavam do capital judaico e cristão-novo para financiar e manter suas ambições expansionistas e suas colônias. Encontravam-se vazios [os] cofres do Tesouro (...) [e] os meios (...) conseguidos (...) [são o] confisco dos bens dos condenados pela Inquisição. 30

Partindo do princípio econômico da perseguição com a finalidade do confisco dos bens e sabendo-se que a maioria dos condenados por práticas heréticas, principalmente a bruxaria, a feitiçaria e o curandeirismo, nada possuíam de valor para que o fisco pudesse se apoderar, porque então eram eles perseguidos e condenados? Os mágicos perseguidos em Portugal eram (...) quase todos de origem

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ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 107. 1723. NOVINSKY. Anita Waingort. A Inquisição. São Paulo, Editora Brasiliense, 1982. p. 30.

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social humilde, sem qualquer formação literária, 31 situação semelhante se observa em Pernambuco. O negro curador citado do processo de Antonia Maria, Domingos João, era forro e não tinha emprego, o mesmo Páscoa Maria que era parda 32 . No Arquivo da Torre do Tombo, em Portugal, constam alguns registros, que não se tornaram processos, dentre eles o de uma negra escrava de nome Tereza, moradora em Goiana,33 de outra negra escrava de nome Lourença, moradora na Vila do Recife,34 e de uma mulher parda de nome Maria de Araújo, moradora na freguesia de Varge do Capibaribe, 35 todos negros ou pardos, escravos ou forros, e que portanto, não possuíam bens suficientes para que a Inquisição os confiscasse.

Portanto, com qual objetivo seriam esses curandeiros e mágicos presos por meses e até anos, condenados ao degredo ou executados, sabendo-se que todo o ritual desde a prisão até a condenação era custoso para a Inquisição e que não haveria confisco satisfatório para suprir os gastos?

Antonia Maria foi condenada tanto no primeiro quanto no segundo processo ao degredo. Apesar de no segundo ela ser obrigada a pagar as custas, não teve bens confiscados o que sugere que ela estava de posse de algum bem adquirido em Pernambuco. Ou seja, o bem que possuía só dava a garantia das custas do processo.
31

PAIVA, José Pedro. Bruxaria e supertição num pais sem “caça as bruxas”: 1600-1774 . Lisboa, Notícias Editorial, 1997. p. 163. 32 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p 108v. 1723. 33 ANTT, livro 279, caderno 86. p. 238. 238v. 34 ANTT, livro 277, caderno 84. p. 149. 35 ANTT, livro 262, caderno 68. p. 210, 210 v, 211.

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Já em seu primeiro processo ela teve seus bens confiscados, contudo acredita- se que não tenha sido algo de muito valor, uma vez que confessa que fazia os sortilégio pelo interesse de lhe darem alguma coisa 36 [e] por ser mui pobre. 37

Essa realidade financeira da ré é confirmada por uma das suas denunciantes chamada Maria de Deus; 38 em seu depoimento afirma que a ré era cristã nova pouco temente a Deus e mulher que [fazia] tudo por arte do diabo só por comer.39 Já no segundo processo a ré declara que fazia os sortilégios por razão da notícia que houve naquelas partes de ela ter saído nesta inquisição, 40 ou seja, por ser procurada pelos moradores que sabiam que ela havia sido degredada por prática de feitiçarias.

Diante de toda essa realidade financeira que não justificava a perseguição às bruxas, feiticeiras e curandeiros em Portugal e no Brasil, partindo-se da premissa que esta se deu por questões econômicas, questionou- se qual o sentido deste fato, uma vez que não possuíam bens de valor que pudessem servir de garantias para o fisco. Segundo alguns historiadores como Paiva 41 e Coates42 não só de confisco de bens a inquisição e o Estado português sobreviveu, de acordo com seus estudos o degredo como pena era de muito valor para Portugal.

36 37

ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 54v. 1713. ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 56. 1713. 38 Moça solteira, órfã de pai e mãe, natural e moradora na cidade de Beja em casa de sua irmã, de idade de 38 anos, mais ou menos. ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 23v. 1713. 39 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 24. 1713. 40 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 142. 1723. 41 PAIVA. Op. Cit. 42 COATES. Op Cit.

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Um país como este, que possuía poucos habitantes e um pequeno território, não tinha condições de colonizar as possessões da América, da África e da Ásia sem utilizar o artifício da ocupação através da força. Ou seja, a teoria de que a instituição da inquisição na Península Ibérica tenha se dado por questões meramente econômicas para o Estado não é de todo completa. Pode-se dizer, portanto, que com a necessidade de se colonizar as terras de além- mar, essa mesma inquisição - criada para confiscar bens de judeus conversos - passou também a degredar homens e mulheres com o intuito de habitarem regiões pouco povoadas tanto em Portugal quanto nas terras conquistadas.

Essa teoria se torna mais forte quando se percebe que a introdução das heresias da prática de artes mágicas foi inserida no contexto das perseguições depois da instituição da inquisição em Portugal. 43 Como já citado: foi gradativa a ampliação de seus objetivos até abarcar diversos tipos de comportamento e crenças [...] feitiçarias, bruxarias, sodomia, bigamia, blasfêmias.44

Dessa forma, compreende- se que os degredados serviram de mão-de- obra forçada para os contingentes de “exércitos” que guardavam as colônias, além de uma população masculina e feminina de hábitos portugueses (apesar de serem exilados)

43 44

Assunto já debatido no primeiro capítulo deste trabalho. NOVINSKY, Anita.O tribunal da Inquisição em Portugal , São Paulo, Revista da Universidade de São Paulo, 1987. p. 92.

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para povoarem, habitarem e se fixarem nas terras conquistadas, repassando assim os valores europeus para essas localidades colonizadas e reproduzindo- se por essas terras.

Em Recife, Antonia Maria fixou- se na vila de Santo Antonio morando em casas alugadas em companhia, por algum tempo de Joana de Andrade,45 amiga da cidade de Beja que também foi degredada por práticas de feitiçarias. Em Pernambuco, declarou Antonia, logo se publicou o crime por que fora o dito degredo e começaram a concorrer as casas dela re muitas pessoas, umas que lhes aplicasse algum remédio aos ataques que padeciam outras que lhes adivinhassem algumas coisas futuras46 e que por conta dessa publicação ela foi induzida a iniciar os trabalhos porque fora degredada, pois essas pessoas passaram a ter má vontade a ela re argüindo-lhe de que ela lhes não queria fazer as merinhas só porque eles padecessem os males nem lhes queria dizer o que lhe perguntavam só por lhes não fazer este bem. 47 Em seu depoimento ela queixa- se que era uma mulher estrangeira que foi para a dita cidade sem ter nela parentes alguns que lhe acudissem e defendessem de tantos aleives quantos lhes levantavam os seus inimigos. 48

45

Antonia Maria e Joana de Andrade brigaram por questões pouco esclarecidas no processo. Joana se casou com Joseph Pereira, cristão velho natural da vila, ela morreu de enfermidade não esclarecida; os denunciantes de Antonia Maria declararam que ela morrera por feitiços feitos por Antonia Maria. 46 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p.208v. 1723. 47 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067, p. 208v- 209. 1723. 48 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067, p. 208v. 1723.

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Percebe-se ainda que em nenhum momento ela se reporta a algum páro co ou amigo que tenha lhe assistido ou dado apoio, abrigo, emprego, amizade ou conforto espiritual, como lhe era cabido pela sua condenação em Portugal que afirmava que ela seria instruída nas causas da fé necessárias para salvação de sua alma e [cumpriria] as mais penas e penitencias espirituais que lhe [fossem] impostas. 49 Em momento algum se percebe no processo que ela tenha tido aulas de catecismo ou um acompanhamento por parte da Igreja ou das autoridades de Recife.

Em contra partida, percebe- se a influência que os padres confessores possuíam sobre os denunciantes de Antonia Maria em Pernambuco. Alguns confessaram que só a estavam denunciando por desencargo de sua consciência50 e principalmente por orientação dos seus padres confessores. 51 Nenhum deles ad mite estar denunciando por questões particulares ou por ódio e mau vontade, 52 mas sim por serem obrigados pelos confessores.

No primeiro processo, de Évora em 1713, os motivos que houve para que denunciassem Antonia Maria não foi por orientação dos confessores, mas sim por medo que Antonia Maria as denunciasse ao Santo Ofício, pois a delata (...)

49 50

ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 96v. 1713. ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 119v, 121, 121v, 127v, 193v, 195, 195v, 196v, 197. 1723. 51 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 117v; 192v; 194; 195v; 197. 1723. 52 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 113v. 1723.

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ameaçava (...) com a Santa Inquisição. 53 Outro motivo que as fizeram denunciá- la foi o receio que ela fizesse algum sortilégio contra elas. Caetana de Jesus 54 em seu depoimento assume que Antonia Maria as ameaçou que já que ele [Antonio da Silva] não pagava (...) elas lhe pagariam pois tinha arte para tudo.55

As denunciantes de Évora também se confessavam, mas em nenhum momento admitem que seus confessores as orientaram para que denunciasse ao Santo Ofício o ocorrido, diferente do procedimento dos confessores de Pernambuco. Estes aconselharam os delatores para que procurassem o Tribunal Eclesiástico para denunciá- la. João Pimentel56 afirma que na ocasião em que veio del atar da sobredita Antonia Maria a fizer pelos confessores assim o mandarem.57 Assim como Bárbara de Melo 58 que só denunciara Antonia Maria por ser obrigada de seus confessores um dos quais era um religioso do Carmo 59 e ainda Maria Crisostoma 60 que declara ter denunciado Antonia Maria por assim o obrigar o dito comissário D. Frei Bartolomeu do Pilar. 61

53 54

ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 26v. 1713. Moça donzela, órfã, 33 anos, moradora na cidade de Beja, depoimento em 22 de agosto de 1712. 55 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 26v. 1713. 56 Cristão velho, casado natural da Ilha de São Miguel e morador na Vila do Arrecife, de idade entre 40 e 43 anos. Depoimento dado em 21 de julho de 1718. 57 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 117v. 1723. 58 Casada com João Pimentel, natural da Ilha de São Miguel e moradora na vila do Recife, de idade de 50 anos. Depoimento dado em 28 de julho de 1718. 59 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 194. 1723. 60 Casada com Domingos Lobato de Almeida, de idade entre 23 e 24 anos. Depoimento dado em 01 de agosto de 1718. 61 ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 197. 1723.

115

Dessa forma percebe- se a presença dos religiosos das mais variadas ordens no acompanhamento da vida espiritual dos moradores do Recife na primeira metade do século XVIII, mas não se observa esse mesmo acompanhamento com Antonia Maria, degredada.

Em Pernambuco havia inúmeros funcionários do Santo Ofício, dentre eles, os familiares62 que em geral eram leigos que, sem abdicar das suas actividades profissionais, ajudava a Inquisição nas suas investigações, prisões e outras acções pedidas nas instruções dos comissários ou directamente de Lisboa, 63 além de fiscalizarem a sociedade e denunciarem os hereges a Câmara da cidade, este era o órgão encarregado de receber as denúncias e de as encaminhar ao Tribunal em Lisboa, para de lá, caso necessário, se instituir uma diligência, ou seja, tomar o depoimento dos denunciantes.

Estes depoimentos eram enviados para o Tribunal na Metrópole, onde eram analisados e caso se comprovasse a necessidade, o(a) denunciado(a) seria preso(a) e encaminhado(a) para Lisboa. Caso os inquisidores não aceitassem, as denúncias seriam arquivadas e não se transformariam em processo.

62 63

Já nos referimos a essa categoria de funcionários do Santo Ofício no capítulo 1. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Dicionário da História da Colonização Portuguesa no Brasil, Verbo, Lisboa/São Paulo, 1994. p. 332.

116

Dessa forma se deu com Antonia Maria. Ela foi denunciada a Câmara da Vila do Recife e sua denúncia foi encaminhada pela Câmara para o Tribunal em Lisboa e de lá se mandou fazer uma investigação e tomar o depoimento das testemunhas de acusação. 64 Esses depoimentos foram encaminhados novamente para Lisboa e de lá se autorizou à prisão de Antonia Maria e o início do seu processo que culminou com o seu julgamento e condenação.

Não podemos deixar de mencionar que Bárbara de Melo tentou denunciar Antonia Maria ao ouvidor de Pernambuco e que este não aceitou suas acusações. Seu confessor a aconselhou que [ela] fosse ter com o ouvidor para que a fizesse [Antonia Maria] ir cumprir o seu degredo para onde ela tinha saído o que ela testemunha ainda que sem efeito pediu (...) ao ouvidor que a fizesse cumprir o seu degredo.65 Algumas questões nos surgem com este fato. Porque o ouvidor se recusou a aceitar a denúncia de Bárbara de Melo? Diante dessa recusa levantam-se algumas questões: primeiro: prática de feitiçaria na província era uma constante e por esse fato o ouvidor não deu importância às acusações de Bárbara de Melo; segundo: ele não se sentiu responsável por receber denúncias desta natureza, sabido que o órgão encarregado de as receber era a Câmara; e terceiro: o fato do romance de Antonia com o marido de Bárbara já ter se tornado algo público, e portanto, o ouvidor não

64 65

Já relacionadas no início desde capítulo. ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 194. 1723.

117

levar em consideração as acusações contra Antonia Maria de práticas de feitiçarias, acreditando se tratar de denúncias com propósito de vingança.

Pernambuco era uma terra onde se encontravam muitas denúncias de feitiçarias. Em 1671 a Câmara escreveu para Lisboa denunciando as inúmeras mortes de negros escravos que assolavam o Estado por obra dos feiticeiros. O Príncipe respondeu em 6 de novembro de 1672 autorizando o governador Geral do Brasil Afonso Furtado de Mendonça 66 para que realizasse uma diligência pelo recôncavo desta cidade para que se averigúem estes damnos tirando se para isso devassa e avendo culpados ordenareis que sejão castigados como dispõem as leys e ordenações do Reyno.67 Além de autorizar a instituição da investigação para levantar os culpados, ele autorizou o Governador para que ele se encarregasse de castigar os culpados, não havendo a necessidade de os encaminhar a Lisboa para que se processasse os encaminhamentos habituais.

Outras acusações de feitiçarias e artes mágicas denunciadas à Câmara em Pernambuco e encaminhadas a Lisboa não se transformaram em processos. Dentre eles estão os casos, já citados, das negras escravas Teresa e Lourença, e da parda

66

Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça, também conhecido como o Visconde de Barbacena, governou de 1671 a 1675. Colonial Governors from the fifteenth century to the present. The University of Wisconsin Press Madison, Milwaukee and London, 1970. 67 AHU, códice 276, folha 74 in DPH da UFPE.

118

Maria de Araújo, além da parda Páscoa Maria e do negro forro Domingos João, citados no processo de Antonia Maria.

Esse fato nos faz perceber que boa parte dos condenados por práticas mágicas em Pernambuco era branca, diferente dos negros e pardos citados nesse período. Parecenos que a feitiçaria era “permitida” aos negros e pardos e não aos brancos. Em Pernambuco tanto homens quanto mulheres, negras ou pardas, escravos ou forros, eram consultados e denunciados, mas essas denúncias não se transformavam em processo, diferente do caso de Antonia Maria, que aqui também foi denunciada e processada, ao contrário de Páscoa Maria e Domingos João, entre outros, que por serem parda e negro, respectivamente, coincidentemente não tiveram suas denúncias transformadas em processo.

Outro dado que nos aguçou a curiosidade quando da análise destes processos, principalmente em Pernambuco, é que nenhum dos denunciantes de Antonia Maria que a procuraram para que ela realizasse algum tipo de reza, adivinhação ou simpatia recebeu punição por parte do Santo Ofício; ao contrário, eles foram tidos como vítimas. De acordo com as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia 68 havia punições para os que se consultassem com feiticeiros ou que participassem de artes mágica, 69 contudo apenas Antonia Maria recebeu as penalidades cabidas nesses

68 69

Já citada e discutida no capítulo 2. Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. p. 313, 314, 315, título IV, livro 5, cânone 894 a 898.

119

crimes, ao contrário dos que se consultaram com ela. Ou seja, as regras e leis punitivas eram relevantes e postas em prática quando interessavam, assim aconteceu com Antonia Maria, sua presença já não mais era de serventia para Pernambuco, pois ela estava criando casos com moradores cristãos e seguidores da Igreja.

É relevante considerarmos que houve mistura dos ritos mágicos entre Antonia Maria e Páscoa Maria. Em seu processo há denúncias de que ela teria se aperfeiçoado nas artes mágicas com uma mulher parda de nome Páscoa Maria, também chamada de Pascoazinha. Antonia Maria teria aprendido outras rezas e simpatias com o convívio de Páscoa que era feiticeira conhecida na região.70

Essa denúncia se comprova quando comparamos as simpatias, rezas e sortilégios realizados por Antonia Maria em Beja, no primeiro processo, com as do Recife, no segundo processo. A variedade de simpatias e rezas realizadas por ela em Recife é notória.

A análise do contexto político e econômico de Pernambuco na primeira me tade do século XVIII nos faz reconstruir uma sociedade recifense com características próprias e bem distintas. Nas terras duartinas havia uma grande permissividade com os ritos não católicos. Isso se observa quando João Pimentel, Bárbara de Melo,

70

ANTT, maço 120, processo 1377, microfilme 14067. p. 119v. 1723.

120

Maria Crisostoma e Domingos de Almeida Lobato procuram um curandeiro para realizar a quebra do “feitiço” de Antonia Maria. As rezas e chás desse curandeiro fizeram mais efeito que o exorcismo do padre, feito em João Pimentel e sua esposa Bárbara de Melo, além deles os inúmeros habitantes que procuraram Antonia para os mais variados serviços.

Recife era uma terra de paragem para outras localidades, além de moradia para estrangeiros. Não só Antonia, mais João Pimentel e Bárbara de Melo, além de Francisco Rodrigues Chaves e sua esposa Maria Rodriguez de Aguiar, também eram de fora. Somando a esses moradores, inúmeros comerciantes que circulavam diariamente pela cidade trazendo consigo histórias e aventuras, além de mercadorias e novos hábitos e costumes vividos em outras localidades. Toda essa circulação de pessoas e culturas proporcionou à população, tanto leiga quanto eclesiástica, coabitar com a presença de cristãos novos, judeus, feiticeiras e curandeiros, negros e pardos livres e escravos, num misto de preconceito e respeito.

Após a leitura, transcrição e análise dos processos de Antonia Maria, além dos documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e do Arquivo Histórico Ultramarino, podemos observar que as práticas ritualísticas invocadas pelos moradores, leigos ou clérigos, na Capitania de Pernambuco na primeira metade do século XVIII, diziam respeito às necessidades primeiras desses moradores. Havia uma precisão de respostas imediatas, o contrário do que a Igreja oferecia; as pessoas

121

que necessitavam desses “mágicos” eram freqüentadores das missas e dos rituais católicos, comungavam e confessavam- se. Os rituais que tanto fascinavam, e também amedrontavam a comunidade, dizia respeito a rezas, muitas aos santos católicos, a simpatias e versos invocando deuses, do Céu e do inferno. O que tanto fascinava era o espírito mágico e ritualístico que envolvia essas rezas, além do anseio de se alcançar o desejado.

Essa realidade sócio- religiosa atingia os mais variados setores da sociedade. Aspirante a padre necessitava saber com brevidade se seria ordenado; doentes careciam de cura, sem se consultar com um médico letrado, o que nos faz crer que os médicos eram de pouco número ou de pouca confiança. Maridos precisavam ser acalmados pois as esposas necessitavam de fidelidade; comerciantes recorriam a simpatias para poderem fazer bons negócios; ...

Essa era a realidade pernambucana no século XVIII. Uma capitania ao mesmo tempo supersticiosa e devota. Onde os mais variados segmentos da sociedade se refugiavam nos curandeiros, mágicos e feiticeiros para se assegurarem de seus futuros, de seus negócios e de sua saúde. A eles era guardado todo o respeito, desde que correspondessem as expectativas. A partir do momento em que punham em risco os que se consultavam, todo o respeito a eles era substituído e passavam a ser vistos como invasores de um espaço destinado aos seguidores e fieis católicos cristãos.

122

Considerações Finais

Iniciamos este trabalho dissertando sobre a Inquisição nos períodos Medieval e Moderno e a diferenciação da implantação em um e outro período. Ao contextualizarmos o período Moderno da perseguição nos detivemos nos países da Península Ibérica e as “razões” econômicas, políticas e religiosas territórios, que possuíram para num estabelecê - la momento em seus de

respectivos

justamente

histórico

descobertas no além- mar.

Percebemos

que

a

instituição

da

Inquisição,

principalmente

em

Portugal, deu- se por questões econômicas e não religiosas, como já nos havia esclarecido Anita Novinsky; todavia, avaliamos que com o passar dos anos também foram somados, aos crimes heréticos de judaísmo, o de feitiçarias e artes mágicas.

A i n s e r ç ã o d e s s e s crimes demonstra que houve uma alteração no que era considerado práticas mágicas, visto que elas existiam antes da 123

instituição da Inquisição mas que não eram observadas como perigosas a ponto de porem em risco a unidade da Igreja Católica. Ou ainda por elas não serem praticadas por membros da sociedade que possuíam bens a serem confiscados.

Também nos detivemos a examinar os motivos da chegada desta Inquisição em território brasileiro, particularmente à Capitania de Pernambuco, e quais as razões que a fizer am ficar bandeira numa terra considerada propícia para acolher refugiados de outros países e

condenados ao degredo em suas sociedades. A partir desse ponto analisamos a economia e a política pernambucana.

Fez- se necessário avaliar o desenvolvimento da religião Católica Apostólica Romana e dos clérigos que habitavam a Capitania, tendo em vista as práticas eclesiásticas e também leigas da sociedade do final do século XVII e início do século XVIII, principalmente no que diz r e s p e i t o a o c u m p r i m e n t o d a s l e i s q ue os regiam.

Esse corte temporal se fez necessário para podermos entender e avaliar como se encontrava a Capitania às vésperas da chegada da condenada ao degredo, por práticas de feitiçaria, Antonia Maria.

124

Finalizamos nosso trabalho descrevendo as “práticas mágicas” e os sortilégios efetuados por Antonia nos, aproximadamente, 6 anos em que viveu em Recife. Também discorremos sobre sua clientela e os pedidos ao qual a “feiticeira” era solicitada a efetuar.

Ao findar a análise dos processos desta mulher, chegamos a algumas conclusões. Primeiro: a punição a quem praticasse “artes mágicas” era o degredo, e não mais a fogueira, como no período Medieval. Ou seja, o degredo passou a servir como punição a partir do momento em que era usado como forma de colonizaç ão das novas terras descobertas.

Segundo: o número de pardos e negros “feiticeiros” e “curandeiro” em Pernambuco era bastante significativo. Associado a esse dado,

percebemos uma maior permissividade aos feiticeiros descendentes de negros e índios (e não aos brancos) sabido que a eles não incorria nenhum tipo de repressão por seus “atos mágicos”.

Terceiro: as mais diferentes e variadas camadas sociais se consultavam com “curandeiros” e “feiticeiros”. Desde prostitutas ansiosas por um casamento, passando p or comerciantes desejosos que seus negócios prosperassem, até mães preocupadas com os casamentos das filhas

125

solteiras

e

esposas

querendo

amansar

seus

maridos,

até

clérigos

desejosos de conhecer os futuros de suas carreiras religiosas.

Sendo assim, não faltavam clientes para proporcionar o sustento necessário para uma mulher que habitava uma vila como Santo Antônio no início do século XVIII. Mulher esta que não possuía nenhum parente ou ajuda de amigos ou religiosos para se suster na terra ao qual estava de gredada.

126

Documentos primários consultados

1-

Arquivo

Histórico

Ultramarino

(AHU)

in

Divisão

de

Pesquisa

Histórica(DPH) Códice 257, folha 8v. Códice 265, folhas 258v, 259, 259v. Códice 276, folha 74.

2- Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) Livro 262, caderno 68, folhas 210, 210v-211. Livro 277, caderno 84, página 238- 238v. Livro 279, caderno 86, página 149. Maço 120, documento 1377, microfilme 14067.

127

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134

Cena de tortura da polé

Execução da fogueira

Vista externa do cárcere

Vista interna do cárcere

140

Desenho de Goya: cena do garrote, uma das formas de execução dos condenados da Inquisição, usada para aqueles que “queriam morrer como cristãos” antes de serem queimados.

141

Execução dos condenados pelo tribunal da Inquisição de Lisboa. Percebe -se a quantidade de pessoas assistindo a execução dos condenados a morte.

142

Anexos

Este texto está impresso no processo de Antonia Maria, as partes sublinhadas significam a escrita do escrivão e das testemunhas.

Abjuração em forma
Eu Antonia Maria perante vós senhores inquisidores, juro nestes santos evangelhos em que tenho minhas mãos, que de minha própria e livre vontade anathematizo e apartio de mim toda espécie de heresia que for ou se levantar contra nossa Santa Fé Católica e Sé Apostólica especialmente estas em que cai, e que agora em minha sentença me foram lidas, as quais hei por repetidas aqui, e declaradas. E juro de sempre ter e guardar a Santa Fé Católica que tem e ensina Santa Madre Igreja de Roma e que farei sempre muito obediente ao nosso mui Santo Padre Papa Clemente Undécimo , nosso senhor presidente na Ig reja de Deus, e a seus sucessores e confesso que todos os que contra esta Santa Fé Católica vierem são dignos de condenação e juro de nunca com eles me ajuntar e de os perseguir e descobrir as heresias que deles souber aos inquisidores ou prelados da Santa Madre Igreja e juro e prometo quanto em mim for de cumprir a penitência que me é ou for imposta e se tornar a cair nestes erros ou em outra qualquer espécie de heresia quero e me praz que seja havido por relapso e castigado

136

conforme o direito, e se em alg um tempo constar o contrário do que tenho confessado ante vossas mercês por meu juramento a severidade e correição dos sagrados cânones. E requeiro aos notários do Santo Ofício que disto passem instrumentos e aos que estão presentes sejam testemunhas e ass inem aqui comigo e de consentimento da re por dizer não sabia escrever assinei por ela e mais testemunha abaixo assinados Fabiam Bernardês o sobescrevi. João Souza de Carvalho Fabiam Bernardes

137

Este texto está impresso no processo de Antonia Maria, as par tes sublinhadas significam a escrita do escrivão e das testemunhas e as partes não preenchidas representam que não foram completadas pelo escrivão.

Termo de Segredo

Aos ___ dias do mês de outubro de mil setecentos e vinte e três anos em Lisboa nos estaos e casa do despacho da Santa Inquisição estando ali em audiência da manhã os senhores inquisidores mandaram vir perante si do cárcere da penitencia a Antonia Maria re presa contenda neste processo e sendo

presente lhe foi dado o juramento dos santos evangelhos em que pôs a mão sob-cargo dele lhe foi mandado que tenha muito segredo em tudo o que viu e ouviu nestes cárceres e com ela se passou a cerca de seu processo e nem por palavras nem escrito se descubra, nem por outra qualquer via que seja sob pena de ser gravemente castigada o que tudo ela prometeu cumprir e sob -cargo mandado do dos dito juramento senhores de que se fez este termo ré de de seu

ditos

que

assinei

pela

consentimento. Manoel de Figueiredo.

138

Este texto foi escrito de próprio punho do escrivão. As partes não preenchidas representam que o escrivão não as completou.

Termo de ida e penitência

Aos ____ dias do mês de outubro de mil setecentos e vinte e três anos. Em Lisboa nos estaos e casa de despacho da Santa Inquisição estando ai em audiência de ________ os senhores inquisidores mandaram vir perante si a Antonia Maria re contenda nestes autos por constar estava instruída e confessada. E sendo presente lhe foi dito que ela não torne a cometer as culpas por que foi presa e processada neste Sa nto oficio nem outras semelhantes porque será castigada com todo o rigor de pública e que trate em sua vida e exemplo de dar mostra e boa fé católica cristã e cumpra o degredo em que foi condenada e o mais que se contém em uma carta que lhe será dada o que prometeu fazer sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos de que fiz este termo e assinei pela re de seu consentimento. Rogo João Cardoso o escrevi.

139

Mapa de Portugal

Miranda

Lisboa Évora Beja

Castro Marim

Fonte: Joel Serrão e António Henrique de Oliveira Marques i n Timothy J. Coates. p. 291.

140

Todas as imagens que se seguem foram retiradas do livro História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália. Séculos XV - XIX. Do autor Francisco Bethencourt .

Cena de tortura da polé.

141

Cenas de Tortura: a primeira se refere a do Potro ao qual Antonia Maria foi submetida.

142

Representação de um auto de fé. No primeiro plano vê -s e o s condenados em cima de mulas, sendo conduzidos pelas autoridades civis e acompanhados por religiosos para o local de execução. Em cima do palco, a cena central corresponde ao rito de degradação de um clérigo pelo bispo da respectiva diocese. À esquerda, a escadaria dos funcionários do tribunal e dos convidados, diante da qual, em cima de um púlpito, um clérigo lê a sentença de um condenado, que está sentado com uma vela na mão. Os sentenciados estão do lado direito do palco, enquanto ao fundo se vê um altar com a cruz, rodeado de dois baldaquinos, sob os quais se encontram os inquisidores e a família real.

144

Hábitos penitenciais dos sentenciados chamados de “sambenitos”. Eram feitos de linho cru pitado de amarelo. No caso dos reconciliados era pintada uma cruz de Santo André (gravura do meio); no caso dos condenados que tinham se salvado nos últimos dias com uma confissão, eram pintadas chamas viradas para baixo (gravura da esquerda); no caso dos relaxados, tinham o retrato pintado entre chamas e grifos, com o nome e as “culpas” inscritas embaixo (gravura da direita). Os reconciliados eram obrigado s a usar o sambenito durante um certo período.

145