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Pediatria (São Paulo) 2001;(1):106-13

Fracasso escolar Degenszajn RD, et al.

Equipe Multiprofissional de Saúde Health Multiprofessional Team Equipo Multiprofesional de la Salud

Fracasso escolar: uma patologia dos nossos tempos?
School-failure: a discase of our days? Fracaso escolar: una patología de nuestros tiempos?
Raquel Diaz Degenszajn1, Deborah Patah Roz1, Lucimeire Kotsubo2
Serviço de Psiquiatria e Psicologia do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

Resumo
Considerando a crescente demanda de atendimento psicológico de crianças que apresentam problemas de aprendizagem, aborda-se o percurso de pesquisa e estudo de um grupo de psicólogos do Serviço de Psiquiatria e Psicologia do Instituto da Criança do HC-FMUSP, em torno do fracasso escolar. O entendimento do fracasso escolar, como um fenômeno de causas múltiplas, é destacado como a revelação de um mal-estar próprio da atualidade ao serem abordados os determinantes históricos, sociais e econômicos. Por outro lado, o fracasso escolar é analisado como manifestação de um sintoma da criança, que é encaminhada pela escola, médico ou família com uma demanda de cura. Algumas técnicas psicológicas e reeducativas são questionadas, propondo-se o método psicanalítico para os casos em que o mecanismo de inibição para aprender se evidencia, em crianças neuróticas. Descritores: Transtornos de aprendizagem, psicologia. Baixo rendimento escolar. Psicanálise.

Abstract
School-failure: a disease of our days? This paper approaches the increasing demand of children with learning disorders and concludes that it is related with multiple factors concerned to: 1) a symptom of discomfort pertaining to contemporanity and, in this way they have approached the historical, social and economic features related to the issue and, 2) as a symptom claimed by child that is refered from the school, the physician or the parents demanding healing. Excluding the situation raised in the context of school, a psychoanalytic approach was suggested when an inhibition to learn in neurotic children fits the diagnosis. Keywords: Learning disorders, psychology. Underachievment. Psychoanalysis.

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Psicóloga do Serviço de Psiquiatria e Psicologia do ICr – HCFMUSP Ex-psicóloga do Serviço de Psiquiatria e Psicologia do ICr – HCFMUSP

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al abordar los determinantes históricos. que se manifesta como um sintoma da criança que chega à clínica. nas clínicas-escolas ou nos consultórios privados. Resumidamente. publicado em 1887. Por otro lado. seja nos ambulatórios públicos. Segundo este autor. Pediatria (São Paulo) 2001. coincide com o esboço do processo de psicologização do cotidiano escolar no mundo ocidental”. A partir da crescente demanda que chega aos clínicos (pediatras. concluindo que “é plausível que o sistema escolar tenha começado a fraquejar só após essa data que. psicólogos e psiquiatras). Lajonquière 2 (1999) afirma que o verbete “fracasso escolar” não consta no famoso “Dictionnaire de Pédagogie” de Ferdinand Buisson. Fué posible llegar a la conclusión de que el fracaso escolar és un fenómeno con causas múltiples. et al. Introdução O termo “fracasso escolar” foi adotado como uma referência para organizar um grupo de pesquisa. no século XVIII. 107 . sean evidenciados en niños neuróticos. é lícito interrogar se o fracasso escolar pode ser considerado como uma patologia de nossa atualidade. podemos marcar alguns pontos importantes neste percurso. por sinal. psicología. se hace un relato del percurso de pesquisa de un grupo de psicólogos del Servicio de Psiquiatria y Psicologia del Instituto da Criança del Hospital das Clínicas de la Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. El problema es presentado como la revelación de um mal estar propio de la actualidad. sociales y económicos. sobre el fracaso escolar. Psicoanalisis. médico o familia con un pedido de cura. Palabras clave: Trastornos del aprendizaje. cuja orientação teórica fundamenta-se na Psicanálise. como uma doença propriamente dita. a revelação de um mal-estar associado a alguma característica de nossa contemporaneidade e por outro. que só pôde surgir com a instauração da escolaridade obrigatória no fim do século XIX e tomou um lugar considerável nas preocupações de nossos contemporâneos em conseqüência de uma mudança radical da sociedade”. para este grupo de pesquisa. proponiendose el método psicoanalítico para los casos en que mecanismos de inhibición para aprender. A intenção de compreender mais e melhor a criança se alia ao projeto educacional de transformá-la em um homem racional e cristão. neurologistas. a racionalidade dos costumes. utilizando Ariès 3 (1981). identificado com uma inquietação recorrente frente aos inúmeros casos que chegam ao ambulatório do Serviço encaminhados pelo médico ou pela escola com a queixa de problemas de aprendizagem ou de mau rendimento escolar. É relevante destacar que. como a Psicologia Social. composto por psicólogos do Serviço de Psiquiatria e Psicologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ICr HC-FMUSP). a Psicologia Escolar. como referência. a Neuropsicologia e a Psicopedagogia. São duas as vertentes que esta pergunta assume: por um lado. o percurso de estudo e discussão de casos foi enriquecido pela interlocução com outros saberes que também se ocupam deste problema. representado pela preocupação com a higiene e a saúde física. el fracaso escolar és analizado como la manifestación de un síntoma del niño que és encaminado por la escuela.Fracasso escolar Degenszajn RD. Rendimiento escolar bajo. A criança passa a ser inscrita em um discurso social em que predomina o conceito de disciplina. cumpre estabelecer uma relação entre o que entendemos como um fracasso relativo à escolarização articulado ao nosso tempo atual. o interesse psicológico e a preocupação moral em relação à criança surgem entre os moralistas e os educadores do século XVII. Cordié 1 (1996) situa o fracasso escolar como “uma patologia recente.(1):106-13 Resumen Fracaso escolar: una patología de nuestros tiempos? A partir de la creciente demanda por atendimiento psicológico de niños que presentan problemas de aprendizaje. Breve histórico Inicialmente. Algunas técnicas psicológicas y reeducativas son cuestionadas. acrescida de um elemento novo.

desta forma. Significa também “ser alguém”. É evidente que o problema da escolaridade adquire um papel e uma função bastante distinta em uma sociedade cada vez mais tecnicista. “foi obtido como resultado que 70% dos encaminhamentos feitos para atendimento psicológico. é validar a relevância da constatação de um contingente significativo de queixa escolar nos atendimentos realizados pelos psicólogos. mais tarde. de ter acesso. escola ou família. “as explicações psicológicas para as dificuldades escolares consideram que muitas delas tornam-se evidentes no momento de ingresso da criança na escola – tanto pelas habilidades psicomotoras que exige. os problemas que se originam na relação professor-aluno. expressar seu curar articular a queixa de fracasso escolar. Estas dificuldades foram identificadas como problemas de aprendizagem (50%) e problemas de comportamento (21%) na sala de aula e fora dela”. forçados a atualizações constantes. uma bela situação. Este sujeito pode. portanto. assistimos a imposição de uma nova e diferente realidade para a sobrevivência econômica dos indivíduos. 5 A experiência de atendimento no ambulatório do Serviço de Psiquiatria e Psicologia do ICr HCFMUSP corrobora este fato. graças aos progressos técnicos e científicos. portanto. Acrescenta-se. De acordo. tinham como queixa problemas de escolarização. Embora caracterizado como um Serviço que acolhe as demandas internas do Instituto oriundas de especialidades médicas. pela família.Pediatria (São Paulo) 2001. ainda. parte considerável das triagens refere-se a problemas escolares (segundo informações colhidas entre os profissionais da equipe. O sucesso. como o método pedagógico empregado. et al. acolhendo crianças. o problema crescente do desemprego que só piora as dificuldades de inserção de indivíduos excluídos do processo de escolarização. ser considerado.(1):106-13 Fracasso escolar Degenszajn RD. A criança seria portadora de dificuldades emocionais e conflitos internos que se revelam ao entrar em contato com um ambiente desafiador e hostil. jovens e adultos. ter-se-á sempre. Admite-se que existem pontos vulneráveis na trama deste tecido social que cerca o sujeito. ao consumo de bens”. Até o final do século XIX. entre outros aspectos. enunciada pelo médico. Durante muito tempo. Sabe-se que o sujeito se constitui. O interesse. em oito Unidades Básicas de Saúde. nota-se uma relação entre a duração da infância e a escola. tomado como um ideal. A utilização da avaliação psicológica – . Nas últimas décadas. como o escolar” . precoces ou atrasados. na faixa etária de 5 e 14 anos. que “ser bem-sucedido na escola é ter a perspectiva de ter. contraposto ao fracasso refere-se a um julgamento de valor. sem qualquer consideração ao que se passa na escola. pois seu objetivo essencial não era a “educação da infância”. já que o Serviço não mensurou estatisticamente esta demanda). na medida em que constrói ideais que lhe são apresentados ao longo de sua existência. Souza 7 (1991) e Machado 8 (1994). identificada e inserida em determinado contexto social. com Souza 5 (1997). o histórico da vida escolar do aluno. Para tanto. explicitado ou não pela família. É válido afirmar. por exemplo. frente a esta demanda de cura. em relação à tradição da psicologia brasileira. Tem-se. que podem originar uma rejeição escolar. 108 A queixa escolar Segundo levantamento citado por Souza (1997) de pesquisa realizada em 1989 na região Sudeste do Município de São Paulo. como sugerem os trabalhos de Patto 6 (1990). o sintoma que o sujeito (no caso. reconhece-se que a este valor. um sujeito que responde de maneira particular. a escola permaneceu indiferente à repartição e à distinção das idades. A escola medieval tinha como meta a instrução técnica. respeitado. ainda. um predomínio do modelo clínico na abordagem dos distúrbios escolares. quanto pela tarefa de adaptação a um ambiente novo. a criança) produz e a função dos psicólogos. circunscrito pela função de um ideal. indistintamente. Ainda com Ariès 3. a população “sem instrução” tinha acesso a ofícios e trabalhos artesanais que garantiam o sustento econômico das famílias e que muitas vezes eram passados de geração em geração. portanto. com Cordié 4 (1996). que difere profundamente do ambiente familiar.

“na escola tudo conspira para que professores e alunos vivam situações diárias de descontentamento. revelando o acirrado preconceito em relação às classes populares. psiquiatras. baseada numa leitura crítica da educação escolar buscam analisar os processos constitutivos das relações de aprendizagem e das alterações institucionais que dão forma ao dia-a-dia da sala de aula e da escola. descrédito na própria produção reduzindo. Numa direção totalmente diversa. permitem a reconstrução de uma história escolar não-documentada. as possibilidades de reflexão em relação a essa realidade que aliena e impede de dar conta de um processo adequado de escolarização”. professores e coordenadores. vêm de famílias desestruturadas. salas de professores. SP.Fracasso escolar Degenszajn RD. trazem consigo a suspeita de deficiências de uma ou várias funções cognitivas (alteração da percepção das formas. Mais que uma prática social altamente relevante expressa-se também uma ação política que visa implicar os envolvidos na questão de forma responsável e conseqüente. Para entender o que sustenta esse tipo de prática compreensiva e de atendimento à queixa escolar. via de regra. bem como o resgate de experiências bem-sucedidas no processo de escolarização. perda de auto-estima. portanto. Ou ainda. realizada a partir de entrevistas com professores e diretores da rede pública em Campinas. foi possível constatar que 92% dos entrevistados acreditavam que o fracasso escolar deve-se a problemas emocionais ou neurológicos das crianças e a totalidade afirmou que as dificuldades escolares têm como causas problemas biológicos e de desnutrição. O fracasso escolar como um sintoma da criança As crianças que fracassam na escola e que são encaminhadas para os psicólogos. estabelecendo espaços de expressão e reflexão com pais.(1):106-13 testes de nível intelectual. o esclarecimento da dinâmica de produção desse fracasso. como a formação de clínicas de apoio à socialização e escolarização (compostas por psicólogos. de percepção visomotora e projetivos – para explicar e atender a queixa escolar. É possível afirmar. distúrbios de fala. fonoaudiólogos. etc. verificando a força da crença de que as crianças encaminhadas “sofrem as conseqüências da pobreza: apresentam deficit cognitivo. neuropediatras. Pediatria (São Paulo) 2001. culturais. educadores. as pesquisas produzidas no Brasil até a década de 80 atribuíam o fracasso na escolarização a problemas nutricionais. cognitivos. é duramente criticado pelas autoras. A proposta de métodos reeducativos baseia-se no princípio do indivíduo visto como um “mosaico de funções das quais se deve restaurar aquela que se 109 . ainda resta explicitar o que pode ser delimitado para os casos em que se opta pela escuta psicanalítica. no setor público. recorreu-se a Freller 9 (1993) que entrevistou psicólogos que atuam na rede pública de saúde em São Paulo. psicanalistas. reuniões escolares. que apontam para o fato de que este mesmo procedimento costuma ser empregado para outros tipos de queixa trazidos para o psicólogo. são vítimas de carência afetiva”. a partir destes trabalhos que muitos problemas de aprendizagem e de comportamento são produzidos na escola. Com efeito. Segundo Souza11 (1997). É importante ressaltar a existência de alguns dispositivos para o exercício dessa prática em nossa sociedade. Esta convivência tem permitido a explicitação das contradições presentes nas práticas e nos discursos educacionais: o questionamento de mitos como desnutrição e problemas emocionais como causadores do fracasso escolar. as pesquisas relativas à vida diária escolar que utilizam a perspectiva etnográfica. etc. distúrbios da linguagem escrita e assim por diante). quando o fracasso escolar apresenta-se claramente como um sintoma da criança.) e iniciativas semelhantes já realizadas ou em projeto. segundo pesquisa de Collares e Moysés 10 (1992). afetivos. Novas propostas de ação têm sido deflagradas por psicólogos escolares baseadas na necessidade de convivência com as pessoas envolvi- das na vida diária escolar. articulando saúde e educação. Embora esta abordagem tenha constituído-se em uma importante referência para o encaminhamento de vários casos recebidos no Serviço de Psiquiatria e Psicologia do ICr HC-FMUSP. et al. A participação e observação em salas de aula. períodos de recreio. crianças.

(1):106-13 Fracasso escolar Degenszajn RD. anterior até mesmo ao seu nascimento. encontra deficiente” 12. sob forma de argumentos dramáticos (jogos. Esta compreensão refere-se a uma psicologia que privilegia as funções (cognitivas. Entende-se. para ilustrar. referenciada pelo que dizem dela (como ela é.). Diferentemente da noção de sintoma construída pelo discurso médico. Pode-se afirmar que os casos de fracasso escolar pertinentes ao atendimento psicanalítico referem-se àqueles sujeitos que manifestam uma franca inibição intelectual decorrente de uma desordem neurótica. subordinado. que o sintoma que a criança produz é o sinal de um mal-estar mais profundo. apenas localizam o nível de performance relacionado às aquisições escolares da média das crianças da mesma idade. que esses testes não medem a inteligência do indivíduo. que significa submetido. são discutidos amplamente os princípios que regem esse entendimento do sujeito avaliado e classificado por um QI qualquer. para tanto. Constata-se que a inibição da função intelectual traduz um mecanismo original de onde provém uma parte significativa dos comportamentos de fracasso escolar. verbalizadas pelos profissionais como “parece que ela não quer aprender”. onde a escuta e as intervenções do analista permitem a simbolização e conseqüente elaboração de seus conflitos. A constituição subjetiva acontece. em dois momentos: primeiramente. esquece tudo”. Tome-se. como deveria ser. dono de si e de seus atos e livre em seus desejos e aspirações. um arranjo relativamente satisfatório entre diversas forças em jogo. fala e atua por si mesma). “ela aprende algo. Em um segundo momento. o resultado esperado e freqüentemente as crianças acabam sendo encaminhadas para a psicoterapia ou psicanálise. então. relacionado a um conflito inconsciente.) como se fossem autônomas. adotou-se o termo “sujeito”. provocada por conflitos inconscientes. neste caso. etc. com quem se parece e assim por diante). Em outro trabalho 13. muitas vezes. sob suspeita de algum “bloqueio emocional”. sustentado por um desejo (sempre implicado nas relações humanas). inicialmente. Por outro lado. Através do tratamento. pois a criança 110 “é falada” por aqueles que a cercam. uma leitura possível desta problemática a partir da hipótese de Lacan14 (1991) sobre o aparecimento de sintomas na criança: “o sintoma da criança se encontra em situação de responder ao que há de sintomático na estrutura familiar”. Estas considerações indicam que “alguma coisa” do sujeito impede que ele aprenda. Nas histórias trazidas ao consultório do Serviço . permitimos que a criança expresse suas angústias por meio de relatos imaginários. motoras. Pode-se definir. desconhecido para o próprio sujeito. que o inconsciente se constitui a partir das palavras (marcas significantes) veiculadas pelo discurso familiar (representado pelos pais). et al. desenhos. na história da família. mas não consigo”. embora pareça inteligente”. Trata-se de uma avaliação comparativa. a criança surge de uma forma alienada. que engendrará o seu percurso. para cada criança haverá um lugar particular. A criança se vê “impedida” de aprender e progredir na escola. em psicanálise o sintoma é visto como uma “formação de compromisso”. etc. “eu não tenho culpa. “é muito desatenta com as atividades formalizadas. Cumpre notar que essas tentativas não obtêm. portanto. De forma distinta. Ressalte-se. tamanha resistência à aprendizagem também encontra na hipótese de debilidade mental uma possibilidade de justificar o fracasso e como conseqüência. etc.Pediatria (São Paulo) 2001. apenas. freqüentemente verbalizada como “eu tento. o encaminhamento para aplicação de testes de nível intelectual. portanto passíveis de serem restauradas e têm como premissa a noção de um sujeito unitário. É preciso que algum lugar simbólico seja construído pelo discurso parental. como se houvesse uma força contrária que neutraliza todas as alternativas externas que procuram trabalhar suas dificuldades. ocorre a separação e a possibilidade de colocar-se como um sujeito que também deseja e se posiciona frente ao outro (onde a criança adquire um contorno próprio. Neste sentido. ao inconsciente. brincadeiras. sem que possa explicar ou perceber a origem de tal dificuldade. é muito difícil”. mas no dia seguinte. compreende-se que o indivíduo não se constitui enquanto unidade. assim.

já que ele ocupa um lugar na economia psíquica do sujeito e daqueles que o cercam. que ao invés de sustentar um corte na relação mãe-criança. É isto que mantém o sujeito passivo e alienado ao outro. articula-se à forma como ela se encontra ligada a sua estrutura familiar. portanto. produtivas). buscando causas externas (na professora. É importante lembrar que na constelação familiar. pois não se encontra em posição de desejar por si mesmo. de maneira imaginária. colocando-se como um terceiro elemento. é considerada fundamental para o mencionado corte da relação mãe-criança. continue preso a mim”).). para a criança identificada como objeto do outro (representado pelo discurso. inclusive a do pai. “se faz de morta”: a angústia sinalizou o perigo e coloca em funcionamento a inibição. muitas vezes. o sintoma e a angústia 15. as demandas que dele advém são entendidas como a intenção de domínio direto sobre seu corpo. familiar). Pediatria (São Paulo) 2001. a criança estabelece uma aliança com o desejo da mãe. como uma limitação que o ego impõe para não despertar a angústia na criança. que se constata nesses casos de fracasso escolar. reconhecese que aquilo que é pedido pela mãe (“estude.(1):106-13 de Psiquiatria e Psicologia do ICr HC-FMUSP é bastante freqüente encontrar-se o sintoma de dificuldades escolares articulado a uma série de eventos marcados por uma relação de absoluta dependência entre a mãe e a criança. ainda. é necessária uma grande mobilização psíquica para dar conta dos conflitos gerados pelas vicissitudes de uma escolha de identificação do lado feminino ou masculino que se organiza neste momento e que terá desdobramentos na adolescência e na vida adulta. cada um se “arranja como pode”. reforçam a idéia de incapacidade da criança. Segundo Freud 15 (1981). realizar projetos construídos pelos pais. Convém. quando se confronta com a função paterna. As medidas reeducativas. existem motivos para que o sintoma não desapareça. “só aprende o que não presta”. Para tanto. etc. que reforça mais ainda a sua impotência. restrito à satisfação desse outro que desperta o medo de aniquilamento. inconscientemente (“não cresça. que funcionará como fundamento para suas escolhas e realizações subseqüentes (amorosas. Para sobreviver. na maioria dos casos. que ordena e delimita lugares. Sabe-se que na constituição do fracasso escolar subjaz um importante sofrimento psíquico que incide sobre a criança e a sua família. sendo este dispositivo acionado pelo ego. A partir do entendimento das categorias de demanda e desejo. a inibição para aprender se constitui. ressentem-se com as dificuldades do filho. aprenda!”) não corresponde necessariamente ao que é desejado por ela. protegido. que o sujeito se posicione frente ao desejo do outro (representado por seus pais). inculpando a criança (“é preguiçoso”. dando mostras do quanto estão atingidos em seu próprio narcisismo. muitas vezes. a inibição também revela a implicação do superego. Na medida em que o problema fica exposto socialmente. Ao produzir o sintoma. permitindo que esta exerça sua onipotência e domínio. encontra-se amarrada às identificações que se referem ao ego. etc.Fracasso escolar Degenszajn RD. no sistema escolar. resultante do atravessamento que a criança realiza. identificando-se com a situação de fracasso do filho. frente a uma situação de perigo. Revelam-se as posições subjetivas dos envolvidos. abandona este par à deriva. et al. mantendo-se tutelado por ela. Nesse sentido. Pode-se levantar a hipótese de que este filho subjugado ao desejo materno se encontra em posição de objeto destinado a satisfazer o outro. impedido de buscar sentido e satisfação em suas realizações. extrain- do necessariamente algum benefício secundário à situação instalada. “Self-made-man” A questão lançada como título do artigo alimen111 . que em psicanálise denomina-se gozo.). em seus primeiros anos de vida. Apesar deste sofrimento. neste caso. Espera-se. com resultados frustrantes. sociais. Esta referência á lei. a criança anula seu desejo. fundamentais para a constituição de uma identidade que dê certa estabilidade ao sujeito. também revela a falha de um projeto de “filho perfeito” que poderia. Os pais. E por outro lado. ao mesmo tempo em que denuncia uma verdade sobre as forças em ação naquela estrutura familiar. Esta breve consideração visa demonstrar o quanto a posição da criança frente ao saber. A inibição. que o mundo escolar representa. portanto. acrescentar algo para a compreensão do mecanismo de inibição a partir da referência freudiana sobre a inibição.

Freqüentemente. O fracasso. os imperativos sociais e culturais marcantes de nossa época (assimilados e veiculados pelo discurso familiar) que orientam a articulação com a grande incidência de problemas de aprendizagem na clínica da infância. Nesse mundo moderno. na medida em que se aposta que o trabalho analítico pode permitir a emergência da subjetividade da criança em suas dificuldades. A escuta da história. com o predomínio das indústrias de serviços. rumo a uma nova forma de capitalismo (o mundo efêmero e descentralizado da tecnologia. O ciclo de produção e consumo – que se alimentam – estabelece uma forma de trabalho produtivo sob a égide de um saber cada vez mais especializado. Trata-se de uma conseqüência que emerge de uma profunda mudança histórica ocorrida no Ocidente. foi possível para o grupo de pesquisa. os pais são incluídos no trabalho para que possam se implicar sobre o que aparece como queixa e mal-estar. mais ele vale. . Outros. o fim das ilusões. A discussão sistemática no grupo propiciou a elaboração de uma postura mais consistente. inibida intelectualmente. simultaneamente (conforme deixou-se claro sobre o entendimento do sintoma) a exclusão do sujeito até que ele possa ser reintegrado pelas “técnicas científicas” e a própria impossibilidade que existe na tentativa de dominar esse saber. e pela colaboração no Projeto Sagitário. A partir da posição de analistas é possível interrogar cada criança. o sujeito contemporâneo vive sem projetos de vida que estabeleçam laço entre o singular e o social. como uma promessa de sucesso e felicidade. no lugar da produção tradicional). em que momento da sua história singular. quando se percebe que os instrumentos de que dispomos não são suficientes para concluir as razões pelas quais a criança não aprende. buscando novas significações para as dificuldades da criança e liberando-a para o aprendizado. em defesa de princípios que salvaguardem o sujeito em seu desejo e em suas escolhas conseqüentes. são enviados para avaliações mais elaboradas. psicanalítico para alguns dos casos que chegam ao Serviço com queixa escolar. atualmente. finanças e informação. A oferta de um trabalho analítico torna a criança apta a responder por si mesma. ta o debate sobre o tema pois interroga. Uma outra parte é absorvida pelo Serviço de Psiquiatria e Psicologia. Como conseqüência. justamente. permitindo que ela rompa com os ideais parentais ou sociais e descubra o quê e como realizar. AGRADECIMENTOS Conclusões A partir destas reflexões e seus desdobramentos. uma nova forma de ver o mundo. estabelecer os parâmetros para propor o tratamento 112 À Flávia Ranoya Lins Seixas (ex-aprimoranda do Serviço de Psiquiatria e Psicologia do ICr HCFMUSP) pela participação no grupo de pesquisa. do consumismo e da indústria cultural. explorando seu potencial e aceitando seus próprios limites. como conseqüência da descrença no propalado progresso científico que se anunciou no século XIX. et al.Pediatria (São Paulo) 2001. Nessa nova ordem econômica e social. mais específicos (sobretudo aqueles em que há comprometimento orgânico). na medida em que ocorreu uma degradação do laço social. diferentemente do que ocorre em seu contexto familiar e escolar. então. no qual o conservadorismo domina e silencia qualquer proposta revolucionária. A relação entre dominar o saber e ter um lugar nesse ciclo de produção surge. o mais próximo de sua verdade. professores ou coordenadores pedagógicos são orientados a adotar condutas que possam favorecer a evolução da criança. ficou aprisionado o seu desejo de saber. na perspectiva deste “projeto para o sujeito contemporâneo” revela. Alguns casos têm sido encaminhados para os dispositivos que realizam o trabalho dentro do contexto escolar.(1):106-13 Fracasso escolar Degenszajn RD. temse um mundo que é dominado pelo saber dos especialistas e onde se procura dominar o sujeito e sua fantasia. Vive-se. quanto mais o saber é raro. a posição subjetiva daqueles que cercam a criança e o aprofundamento do tipo de distúrbio que o sujeito apresenta nos permitem balizar melhor esta proposta. Eventualmente. uma exacerbação do individualismo.

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