De como não ler Marx ou o Marx de Sousa Santos**  Sousa   Santos,   um   sociólogo   erudito   e   prolixo,   cultiva   uma  imagem   progressista   fundamentalmente   enganadora.

  A   sua  influência suporta­se em retórica em circuito fechado no seio  acadêmico, e em suposta sabedoria transcendente na arena do  circuito dos movimentos sociais. É um sociólogo que fez a sua  opção   de   classe   e   nela   milita,   do   lado   dos   opressores,  supostamente   eruditos,   contra   os   oprimidos,   supostamente  intelectualmente   destituídos.   Neste   ensaio,   o   Prof.   brasileiro  José Paulo Netto arranca­lhe a máscara.  José Paulo Netto* ­ 17.09.08  fonte: http://odiario.info/articulo.php?p=871&more=1&c=1  Professor Doutor Boaventura de Sousa Santos, doutor em Sociologia do Direito pela Universidade  de Yale e  catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra é, atualmente,  a  personalidade mais internacional dentre os intelectuais portugueses vivos (mais conhecido do que  ele, apenas o escritor comunista José Saramago). O renome de Sousa Santos não é fruto do acaso: se tem a ver com a sua intervenção cívica no  interior do campo democrático e progressista, seja no marco de movimentos sociais, seja noutros  espaços políticos  (comenta­se que, no seu segundo mandato presidencial, Mário Soares o tinha  como   conselheiro  pessoal),  é  sobretudo   resultado  de   um  intenso  e   múltiplo  exercício  teórico   e  analítico.   Figura   central   na   institucionalização   da   Sociologia   no   Portugal   pós­salazarista,  pesquisador incansável e organizador científico, Sousa Santos vem contribuindo significativamente  no debate contemporâneo das ciências sociais, percorrendo um leque temático extremamente amplo,  que envolve da discussão epistemológica à abordagem renovada de complexos como os da cidadania  e  do   Direito.  Sua obra, ensaística e sistemática, divulgada em revistas  especializadas de vários  países (inclusive do Brasil, onde já fez investigações e tem estado com freqüência) e em livros  (publicados em vários idiomas), é ponderável ­ cf., entre outros, Santos, 1988, 1989, 1990, 1991 e  1995a ­, e carrega uma marca muito peculiar: a erudição de que se satura vincula­se a uma prosa  clara,   meridiana   transparente,   vinculação   (diga­se   de   passagem   incomum   no   universo  contemporâneo das ciências sociais) que, para além dos seus méritos inerentes, garante­lhe uma  comunicabilidade excepcional. Prova incontestável desta qualidade foi o êxito de Pela mão de Alice.  O social e o político na pós­modernidade ­ livro que, absoluto sucesso de vendas em Portugal [1],  viu­se em seguida editado no Brasil (Santos, 1995) [2].   Trata­se de um instigante conjunto de ensaios, reunindo, ademais de trabalhos inéditos, estudos  publicados em periódicos (de vários países: Portugal, Brasil, Itália, Estados Unidos, Uruguai) entre  1985 e 1993 ­ porém, se cada texto pode ser tomado em sua singularidade, claramente demarcada  pela   imediata   diversidade   de   objetos   (da   realidade   portuguesa   à   crise   mundial   da   instituição  universitária,   da   relação   Estado/sociedade   civil   às   questões   da   cidadania,   subjetividade   e  emancipação, da função utópica à pós­modernidade, da sociologia dos tribunais à globalização da  economia), nenhum deles é escrito de ocasião: todos expressam momentos constitutivos da reflexão  sistemática de Sousa Santos.

Esta reflexão sistemática incide sobre o que o autor considera a transição paradigmática própria do  fim   do   século   XX,   envolvente   de   dois   processos,   naturalmente   conectados:   a   transição  epistemológica (vale dizer: do paradigma da "ciência moderna" ao da "ciência pós­moderna") e a  transição   societal   (vale   dizer:   entre   diferentes   modos   básicos   de   organizar   e   viver   a   vida   em  sociedade). Se o primeiro de tais processos, que parece a Sousa Santos mais evidente e explícito,  ocupou­o predominantemente até a entrada dos anos 90, em Pela mão de Alice ... ele nos apresenta  os resultados iniciais de suas pesquisas sobre o segundo. Tais resultados, diz­nos o autor, "apesar de  fragmentários, têm alguma consistência global", resumindo "a investigação e a reflexão que foram  sendo feitas ao longo dos últimos anos" (Santos, 1995: 9).   Vê­se, pois, que este é um livro de importância particular na dinâmica intelectual do autor ­ e, nele,  a discussão do legado de Marx tem uma relevância específica, ainda que o espaço a ela dedicado  seja dos mais econômicos [3]; entretanto, e a despeito dessa economia, Sousa Santos julga haver  procedido aí “a um balanço geral da proposta de Marx" (idem: 243) e, já por isto,um "balanço"  merece especial cuidado.   Uma leitura muito simplória do marxismo   Pela mão de Alice ... compreende três partes: na primeira, intitulada Referências, Sousa Santos, em  dois compactos capítulos, faz "uma reflexão sobre das referências teóricas que têm pautado a [sua]  investigação" (idem:10). Na segunda, Condições de inteligibilidade, composta de quatro capítulos, o  centro é a "análise de alguns dos aspectos da crise da modernidade enquanto paragdima societal"  (idem, ibidem). Enfim, na terceira parte, Cidadania, emancipação e utopia, ordenada também em  quatro capítulos, "a análise combina­se com a prospectiva" (idem: 11).   A riqueza temática do livro, já assinalada, distribui­se equilibradamente pela segunda e terceira  partes e de modo tão orgânico que ao leitor mais atento pode mesmo escapar o fato de elas se  constituírem de ensaios originalmente autônomos ­ o que, além do mais, testemunha a coerência  intelectual de Santos, bem como atesta sua castigada artesania formal.  Mas é indubitável a importância da primeira parte, com seus dois densos e econômicos capítulos. Se  o sugere o próprio título (Referências), comprova­o o sentido que Sousa Santos lhes confere: sobre o  primeiro (“Cinco desafios à imaginação sociológica"), diz o autor que, nele, "formulo algumas das  minhas perplexidades analíticas perante as transformações sociais neste final do século e enuncio as  vias   por   que  se podem traduzir em motivos  de criatividade sociológica" (idem: 10); quanto   ao  segundo ("Tudo que é sólido se desfaz no ar: o marxismo também?"), Sousa Santos não é menos  direto ­ afirma ele: "No segundo capítulo, procedo a uma avaliação do marxismo enquanto tradição teórica da  sociologia com o objetivo de distinguir as áreas ou dimensões em que continua atual, e   eventualmente mais atual que nunca, daquelas em que está desatualizado e deve, por isto,  ser profundamente revisto, senão mesmo abandonado" (idem, ibidem).   Parece inteiramente legítimo inferir, então, que a "avaliação" efetuada por Sousa Santos determina a  sua posição relativamente a incorporar, e em que medida, ou não as referências marxistas ao seu  instrumental heurístico e/ou, eventualmente, às suas prospecções sócio­interventivas (como veremos 

adiante,   Sousa   Santos   sustenta   a   diferencialidade   do   estatuto   dessas   duas   operações).   Ora,   a  "avaliação" em tela, Sousa Santos realiza­a em dois movimentos diversos: o primeiro consiste em  um excurso sobre a história do marxismo [4] e o segundo numa interlocução com o que se lhe  afigura o núcleo central da obra marxiana. Comecemos pelo primeiro movimento. Sousa Santos traça o que se poderia chamar, com excessiva boa­vontade, de uma sinopse crítica do  desenvolvimento do marxismo, do final do século XIX à década de 80 do século XX, organizando­a  em quatro períodos, aos quais oferece tratamento bem diferenciado. O primeiro cobriria os anos de 1890 a 1920, configurando o que "pode ser considerado a idade de  ouro do marxismo" (idem: 24) [5]; o autor crê, repetindo palmar constatação, que "a riqueza da  reflexão marxista tem obviamente a ver com a pujança do movimento socialista neste período"  (idem: 25). Ele destaca duas grandes cisões do período: a política, inaugurada com o debate acerca  das proposições de Bernstein, e a epistemológica, sinalizada pelo neokantismo dos austro­marxistas  (aliás,   bastante   valorizados   por   Sousa   Santos),   cuja   "concepção   cientista   e   sociologizante   do  marxismo foi fortemente contestada [depois de 1917] por teóricos tão diversos como Korsch, Lukács  e Gramsci" (idem: 25­26) [6]. Os anos 30 e 40 constituem, na seqüência, "um período negro para o marxismo" (idem: 26). A  combinação   fascismo/stalinismo   responderia,   de   um   lado,   pela   difícil   sobrevivência,   na  clandestinidade e no exílio, dos austro­marxistas e da Escola de Frankfurt e, de outro, pelo fim da  reflexão teórica "com a liquidação de Plekhanov, Bukharin, Riazanov, Trotsky" (idem, ibidem) [7].  No imediato seguimento desta afirmação, Sousa Santos acrescenta, evidentemente referindo­se ao  marxismo no Leste europeu, que aquela reflexão teórica nunca mais renasceu. O terceiro periodo, conforme o sociólogo português, envolveria os anos 50­70 ­ ele entende que, "a  partir dos anos 50, o pensamento marxista renasce com vigor, iniciando uma fase brilhante que se  prolonga até o final da 70" (idem, ibidem). Tangenciando os processos sociais que sustentam tal  renascimento,   Sousa   Santos   aponta   seus   frutos   nos   países   periféricos   [8],"   lista   seus  desdobramentos nos países capitalistas  avançados ­ com o desenvolvimento de “uma sociologia  marxista de muitos matizes"? [9] e de "uma historiografia brilhante de inspiração marxista" (idem:  28) [10] – e, na área continental da Europa Ocidental, destaca que esse movimento se expressa no  "marxismo   ocidental",   que   se   evidenciaria   em   "duas   grandes   orientações":   a   "teoria   crítica   da  Escola de Frankfurt" e o "marxismo estruturalista francês" (idem: 27) [11]. Finalmente,  o quarto período, referido aos anos 80, marcaria "a década o pós­marxismo":  para  Sousa   Santos,   "a   solidez   e   a   radicalidade   do   capitalismo   ganhou   [sic]   ímpeto   para   desfazer   o  marxismo  no ar" (idem: 29). Depois e arrolar os debates que lhe parecem os fundamentais do  decênio [12], ele considera que ocorre nos países centrais "a dissolução do marxismo", enquanto, na  periferia, "a sociologia de inspiração marxista continuou a produzir reflexões e análises valiosas"  (idem:31) [13]. Arrematando, o autor constata que "o perfil pós­marxista da década de 80 tem um  traço fundamental: é anti­reducionista, antideterminista e antiprocessualista" (idem, ibidem) [14] –  perfil este que, destacando do "interior da teoria marxista" o debate sobre "a tensão ou equilíbrio  entre estrutura e ação", acabará por privilegiar, nestes anos, uma "leitura antiestrutural", claramente  oposta àquela predominante na década de 60 (privilégio visível, por exemplo, no marxismo analítico  de um J. Elster) [15].

Aqui, Sousa Santos suspende o seu "breve excurso pela tradição teórica marxista" (idem: 32), para –  depois interpelando ao próprio Marx – avançar no sentido de indagar se o legado de Marx tem  algum futuro. Trata­se mesmo de um breve excurso – e seria tolice, senão mesquinhez, reclamar do  que "falta" numa sinopse que não se alonga por mais de dez páginas. Com efeito, não teria o menor  cabimento exigir do autor o que ele não se propôs a oferecer – Sousa Santos não prometeu uma  síntese histórico­crítica do marxismo, absolutamente inviável, mesmo em suas linhas fundamentais,  no espaço de que se valeu e na direção dos seus interesses. Todavia, ainda que nos situemos no interior dos quadros dessa sinopse – com seus limites explícitos,  formais e temáticos –, não há como ladear o seu caráter tosco e insuficiente para subsidiar mesmo a  mais   esquemática "avaliação do marxismo  enquanto tradição  teórica  da sociologia" (idem:  10).  Realmente, como entender que:   a)   ao   abordar   a "idade  de  ouro" (1890­1920), Sousa Santos  não  diga  uma  só  palavra  sobre   os  impactos da Revolução Russa no movimento socialista, sem os quais a dinâmica da reflexão teórica  nos anos 20 (e não só) é incompreensível?   b) nessa mesma abordagem, Sousa Santos não se atenha minimamente sobre o que representaram os  trabalhos (que, aliás, cita) de Korsch, Lukács e Gramsci, largando de mão, precisamente, a base de  grandes polêmicas dos anos 20 (e, também, não só deles), cujos núcleos problemáticos percorreriam  boa parte do marxismo posterior? [16]  c)  ao  mencionar (nos anos 30­40) a razia efetuada pelo stalinismo, Sousa Santos afirme que a  reflexão marxista no Leste europeu tenha sido ferida a ponto de "nunca mais renascer", equalizando  tudo sob "o pesadelo stalinista" (idem: 26) e descurando por completo certos desenvolvimentos  particulares,   como,   por   exemplo,   na   Hungria   e   na   Polônia   e,   ainda,   nas   então   Iugoslávia   e  Tchecoslováquia? [17] d) com sua ênfase sociológica, Sousa Santos não se refira absolutamente, ao cuidar do terceiro  período (anos 60­70), à contribuição essencial que, nesta etapa e nesta área, foi oferecida por Henri  Lefebvre ou pelos marxistas italianos? Observe­se que não estou, reitero, questionando omissões ­ exceto na indagação contida em d) [18]  – explicáveis e compreensíveis num "breve excurso". O que coloco em causa é, em a), um viés  analítico   que  não   contempla   absolutamente   nenhuma   dimensão   do  processo   que,   instaurando   a  fratura de maior magnitude no movimento socialista, condicionaria largamente os rumos posteriores  da tradição marxista; em b), a incrível superficialidade no trato de autores e obras emblemáticos e  paradigmáticos   dos   dilemas   da   tradição   marxista   a   partir   do   primeiro   pós­guerra;   em   c),   uma  afirmação  factualmente insustentável acerca do evolver do pensamento marxista no interior  dos  países anteriormente ditos socialistas. Em suma, a minha crítica não incide sobre as escolhas, os cortes, enfim a seleção a que Sousa  Santos   obrigou­se   pela   natureza   sinótica   do   seu   "breve   excurso":   o   que   é   débil   e   frágil   é   o  tratamento teórico­crítico que conferiu ao objeto desse excurso – do qual resulta uma leitura vulgar  e muito simplória da tradição marxista. Resultado não só injustificável, quando se conhece o talento  do autor e se reconhece a riqueza do objeto, mas sobretudo inepto para fundar qualquer apreciação  séria do legado marxiano no século XX.

Mas o traço de vulgaridade que recobre todo esse primeiro movimento da "avaliação" de Sousa  Santos não pode ser posto na conta de um eventual deslize do autor – ele me parece remeter a algo  mais substantivo, a que retornarei adiante. Por agora, ocupo­me do segundo movimento de Sousa  Santos, quando ele se dirige ao próprio Marx. 

O Marx de Sousa Santos: receita nova, pudim velho Sousa   Santos   interpela   a   obra   de   Marx   –   num   espaço   em   que,   de   novo,   há   que   conceder  excessivamente à capacidade de síntese do autor, uma vez que não gasta mais de treze páginas com  objeto de tamanha magnitude – a partir da "condição do presente" (idem: 33). Já assinalei que, para  Sousa Santos, essa condição se caracteriza por uma dupla transição paradigmática, a epistemológica  e a societal – e é nessa dupla dimensão que ele apreciará a obra marxiana. No campo dos que sustentam a exaustão do "paradigma da Modernidade", Sousa Santos distingue  (numa operação que, aliás, se encontra em outros analistas) duas concepções diferentes: de um lado,  há aqueles para os quais o exaurimento da Modernidade significa o colapso final de suas promessas,  de quaisquer objetivos transistóricos, com as práticas sociais das sociedades contemporâneas não  tendo mais qualquer alternativa – está aqui o "pós­modernismo reconfortante ou de celebração"  (idem:   35),   seguramente   portador   do   neoconservadorismo   outrora   denunciado   por   Habermas;  doutro,   localizam­se   os   que   argüem   a   Modernidade   seja   cultural,   seja   sociopoliticamente,  verificando "que as promessas da Modernidade, depois que essa deixou reduzir suas possibilidades  às do capitalismo, não foram nem podem ser cumpridas (idem, ibidem), porém demandando uma  nova   epistemologia   e   uma   nova   socialidade   –   tem­se   aí   o   "pós­modernismo   inquietante   ou   de  oposição" (idem, ibidem), no qual Sousa Santos se vê inscrito. É claro que, para o "pós­modernismo  de  celebração", não se põe o problema de um projeto societário distinto ao do capital (nele,   a  história chegou, fukuyamamente, ao fim); assim, a dupla dimensão da transição paradigmática só se  coloca para a vertente "inquietante".  Curiosa,   mas   explicavelmente,   a   distinção   entre   as   duas   vertentes   –   Sousa   Santos   assevera,  expressamente, que são antagônicas  (idem, ibidem), posição que está longe de ser inteiramente  fundada   [19]   –   se   esbate   inteiramente   no   nível   da   teoria   do   conhecimento   quando   se   trata   de  apreciar Marx. Segundo Sousa Santos, para o "pós­modernismo de celebração", "o marxismo nada  tem a contribuir" (idem, ibidem); mas, também para o próprio autor, "no plano epistemológico, o  marxismo   pouco   pode   contribuir   para   nos   ajudar   a   trilhar   a   transição   paradigmática"   (idem,  ibidem). Tem­se, aqui, um "antagonismo"... relativo! A explicação reside, a meu ver, não apenas  num viés irracionalista que permeia ambas as posições, [20] mas na concepção, de fato esposada  pelos dois "pós­modernismos", do "paradigma da ciência moderna" com que operam [21]. O conceito de paradigma, se pode ter alguma valia quando se trata de abordar o desenvolvimento  das  ciências  que têm por objeto a realidade do ser natural, enferma de inteira imprestabilidade  quando é deslocado para a apreciação do evolver do conhecimento do ser social (recorde­se, aliás,  que o responsável pela divulgação do conceito no conhecido A estrutura das revoluções científicas,  Kuhn (1972), mostrou­se muito cético quanto à sua aplicabilidade nas ciências sociais, consideradas  por ele como "pré­paradigmáticas") [22]. Ora, Sousa Santos desenvolve urna elaborada versão do  "paradigma  da ciência moderna" que estende tranqüilamente da análise das "ciências  duras"  às  ciências   sociais   e,   nessa   translação,   tal   "paradigma"   se   converte   num   instrumento   de   redução 

indiferenciada que equaliza todo o século XIX, enfiando no mesmo saco da "ciência moderna" seja  a   lógica   hegeliana,   o   sistema   categorial   de   Marx   ou   as   tipologias   durkheimianas   (Weber,  naturalmente, tem aí um enquadramento difícil, até porque, na corrosiva ironia de Mészáros [1996:  198   e   ss.],   é   um   homem   para   todas   as   estações).   Nesse   reino   de   absoluta   indiscriminação,  praticamente toda construção teórica (insista­se nesta qualificação: teórica) do século XIX, e não só,  é subsumida na razão puramente instrumental – e, pois, repugna à "sensibilidade pós­moderna",  seja ela "reconfortante" ou não. A determinação fundamental da qual parte Sousa Santos para interpelar Marx situa­se neste marco.  Afirma o autor:   "Marx demonstrou uma fé incondicional na ciência moderna e no progresso e racionalidade   que ela poderia gerar. Pensou mesmo que o governo e a evolução da sociedade podiam   estar sujeitos a leis tão rigorosas quanto as que supostamente regem a natureza, numa   antecipação do sonho, mais tarde articulado pelo positivismo, da ciência unificada" (idem,  ibidem).   Este é o Marx de Sousa Santos ­­ um positivista avant la lettre, um pré­Durkheim edulcorado por  uma perspectiva "utópica" (e de um "utopismo" insuficientemente radical') [23], este é o Marx que,  com a facilidade viabilizada pelo desprezo à textualidade e à documentação, todos os pós­modernos  consideram um personagem do Jurassic Park. Para esse gênero de consideração reducionista e equalizadora, as reiteradas e enfáticas notações  marxianas   sobre   o   caráter   tendencial   e   histórico   das   leis   histórico­sociais   (sistematicamente  constitutivas do pensamento de Marx e explicitadas, pelo menos, a partir da Miséria da filosofia)  são desimportantes. É desimportante que a determinação da "ciência única" – a história – apareça  num contexto (a célebre passagem de A ideologia alemã) onde está subjacente a problemática da  humanização   da   natureza   [24].   Igualmente,   a   complexa   noção   marxiana   de   progresso   é  convenientemente vinculada às concepções positivistas de determinismo e evolução, como se nota  no conjunto da “avaliação” de Sousa Santos – e aqui devemos nos deter minimamente.  O fulcro desta "avaliação" encontra­se numa passagem de Pela mão de Alice… situada fora do  capítulo   que   é   objeto   do   meu   rápido   exame   polêmico,   mas   que   subsidia   e   complementa  admiravelmente. Nela, Sousa Santos afirma, com a sua prosa sempre clara e inequívoca, que  “o erro de Marx foi pensar que o capitalismo, por via do desenvolvimento tecnológico das  forças produtivas, possibilitaria ou mesmo tornaria necessária a transição para socialismo.  Como se veio a verificar, entregue a si próprio, o capitalismo não transita para nada senão  para mais capitalismo. A equação automática entre progresso tecnológico e o progresso   social desradicaliza a proposta emancipadora de Marx e torna­a, de fato, perversamente   gêmea da regulação capitalista" (idem: 243).   Nesta   passagem,   a   única   referência   verdadeira   é   a   que   diz   respeito   a   que,   do   movimento   do  capitalismo, entregue a si mesmo, só pode derivar mais capitalismo – como, aliás, sobejamente o  sabia   Marx   (não   fosse   por   outra   razão,   ele   considerava   a   organização   da   vontade   política   dos  proletários   absolutamente   indispensável   para   a   transição   socialista   e,   conseqüente   com   esta  convicção, foi um incansável organizador dos trabalhadores) –; todo o resto da passagem é falso:

1. não se pode sustentar seriamente, a partir de uma leitura rigorosa de Marx, a hipótese de um  desenvolvimento   "automático",   "natural"   e/ou   "espontâneo"   da   força   produtiva   engendrada   pelo  "desenvolvimento   tecnológico".   De   1847   a   1867   (passando   pelas   longas   disquisições   dos  Gründrisse...),   Marx   insistiu   suficientemente   em   que   o   caráter   revolucionário   do   capitalismo   –  designação, aliás, pouco utilizada por ele – no que toca ao desenvolvimento das forças produtivas  vincula­se às lutas entre capital e trabalho: é esse antagonismo radical, cuja solução socialmente  progressista depende do nível de consciência e intervenção sociopolítica dos trabalhadores, que leva  o capital à inovação científico­tecnológica. Vê­se como o Marx real se distingue do Marx de Sousa  Santos: nas mãos deste, o primeiro teórico socialista a pensar o condicionamento sociopolítico do  desenvolvimento   científico­tecnológico   se   converte   num   vulgar   apologista   do   "determinismo  tecnológico";  2. leitura similar desautoriza liminarmente imputar a Marx uma pretensa "equação automática entre  o progresso tecnológico e o progresso social". Bem ao contrário, no conjunto da obra marxiana o  que é enfaticamente destacado é que, nos quadros de uma sociedade dinamizada por contradições de  caráter antagônico, o desenvolvimento social (que, isto me parece incontroverso, para Marx supõe  desenvolvimento   de   forças   sociais   produtivas)   implica   sistematicamente   componentes   de  barbarização [25]. A noção de progresso no Marx dos textos autógrafos, ao contrário do que nos  propõe a visada de Sousa Santos, contempla sempre, numa ordem social como a capitalista, uma  contraface que a divorcia de qualquer visão unidimensional."   Por isto, seja a "fé incondicional na ciência moderna", que Sousa Santos atribui a Marx, seja a  "fraternidade" que vê entre sua proposta de emancipação e a regulação capitalista mostram­se, tal  como as concebe o ilustrado sociólogo lusitano, completamente insustentáveis. Sumario,   antes   de   prosseguir.   No   marco   da   transição   paradigmática,   do   ponto   de   vista  epistemológico, Marx – e, no fim das contas, segundo Sousa Santos, isto vale para qualquer pós­ modernismo, seja o "reconfortante", seja o "inquietante" – se desfez no ar. Cabe avançar, então – e,  como vimos, esse avanço só tem cabimento para o pós­modernismo esposado por Sousa Santos, isto  é, o "inquietante" – para a consideração de Marx do ponto de vista da transição societal. No capítulo  de Pela mão de Alice ... de que me ocupo, Sousa Santos afirma que, ao contrário do que ocorre no  interior  do "pós­modernismo de celebração", para a sua posição pós­moderna cabe interpelar a  Marx, posto que ao "pós­modernismo de oposição" torna­se   "essencial   a   idéia   de   uma   alternativa   radical   à   sociedade   atual,   e   Marx   formulou,   mais  coerentemente que ninguém, uma tal alternativa. A questão está, pois, em saber em que medida a  alternativa de Marx, que é tão radicalmente anticapitalista quanto é moderna, pode contribuir para a  construção de uma alternativa assumidamente pós¬moderna" (idem: 36).  Um crítico inscrito ainda no "decadente" paradigma moderno poderia indagar se vale a pena, para  Sousa Santos, debruçar­se sobre a prospecção societal de um analista cujos referenciais teórico­ metodológicos o anacronizam face da transição epistemológica – pois é este, justamente, o caso de  Marx   para   o   sociólogo   de   Coimbra.   Mas   o   problema   não   se   coloca   para   Sousa   Santos:   como  antecipei rapidamente, ele também aqui se opõe às  "ciências  sociais da modernidade”, que,  de  acordo   com   ele,   tenderam   a   situar   num   mesmo   campo   gnosiológico   as   operações   de  explicação/compreensão   da   sociedade   e   de   detecção   da   direção   da   transformação   social;  conseqüentemente, o autor acredita que "a sociologia [sic] de Marx é, em geral, coerente com a  utopia [sic] de Marx, mas não se confunde com ela" (idem, ibidem). Assim, Sousa Santos se põe a 

buscar a resposta sobre a eventual atualidade de Marx para uma alterna¬tiva societal.  E fá­lo questionando a contribuição de Marx em três "áreas temáticas: processos de determinação  social e autonomia do político; ação coletiva e identidade; direção da transformação social" (idem,  ibidem).   Nas   "três   áreas",   que   a   reflexão   de   Sousa   Santos   procura   explorar   (idem:   33­45),   a  "avaliação" procedida pouco salva além de um Marx utópico (aliás, repita­se, insuficientemente  utópico...): 1. no que tange aos processos de determinação social, para além de protocolares reverências ao  tônus da análise marxiana, Sousa Santos considera (sem deixar aqui de mão o "determinismo" e o  "evolucionismo") que ela enferma de um insustentável "reducionismo econômico" (idem: 38). É  claro   que,   tomando   a   teoria   social   de   Marx   como   uma   teoria   fatorialista   (o   "econômico",   o  "político", o "cultural") – e, em resumidas contas, é assim que Sousa Santos a visualiza (idem,  ibidem)   –,   fica   relativamente   fácil   tergiversar   e   escamotear   a   concreta   análise   marxiana   das  determinações   econômico­políticas   que   é   simplificada   em   termos   de   "base/superestrutura".  Evidentemente, para argumentar em torno desse "reducionismo econômico", Sousa Santos elude o  rico arsenal heurístico que Marx apurou ao largo de seu itinerário de pesquisa (se, para um pós­ moderno, compreende­se que totalidade cheire a "totalitarismo", é menos compreensível a nenhuma  alusão ao conceito, aliás operativo, de formação econômico­social); 2. quanto ao nó ação coletiva e identidade, a problematização de Sousa Santos (idem: 39­42) é  pertinente e merece uma análise cuidadosa, que não cabe nos limites desta nota polêmica. Ainda  que se discorde da sua interpretação sociopolítica acerca do protagonismo da classe operária no  processo de transformação da ordem burguesa e da sua apreciação sobre a precisão das antecipações  de   Marx   quanto   ao   destino   das   classes   no   evolver   do   capitalismo,   as   questões   que   coloca   –  referentes   tanto   à   ênfase   marxiana   nas   classes   como   princípio   "explicativo"   e   como   princípio  "transformador" – são inegavelmente legítimas e instigantes  [27], na medida em que assinalam  dilemas ainda em aberto e para os quais o recurso a Marx freqüentemente se revela uma forma de  ladear o impóstergável exame de realidades novas [28]; 3. no que se refere à direção da transformação social, Sousa Santos anota que a "idéia de Marx de  que a sociedade se transforma pelo desenvolvimento de contradições é essencial para compreender a  sociedade contemporânea, e a análise que fez da contradição que assegura a exploração do trabalho  nas   sociedades   capitalistas   continua   a   ser   genericamente   válida.   O   que   Marx   não   viu   foi   a  articulação entre a exploração do trabalho e a destruição da natureza e, portanto, a articulação entre  as contradições que produzem uma e outra" (idem: 44 ­ grifo não original; cf., supra, notas 24 e 25).  Eis   por   que,   segundo   Sousa   Santos,   entre   outras   razões,   a   "utopia"   que   atribui   a   Marx   é  insuficientemente radical e, pois, inadequada para subsidiar a transição paradigmática societal – esta  exige a "utopia ecológica e democrática" (idem: 43), com a qual se alinha o autor [29]. Ao fim de sua "avaliação", Sousa Santos nos oferece um Marx que, referência das ciências sociais  (aqui, não se esqueça, a impostação é sociológica) e objeto de evidente respeito e simpatia, não  passa   pelo   crivo   crítico   do   "pós­modernismo   de   oposição"   também   no   território   sociopolítico,  enfermado   que   está   seu   pensamento   de   "determinismo",   "evolucionismo"   e   "reducionismo".   E,  emblematicamente, não se concede ao infeliz Marx qualquer benefício de dúvida ou ambigüidade –  sequer a existência de tensões internas no seu pensamento, como as explorou, por exemplo, Alvin  W. Goudner –: Sousa Santos provavelmente considera como residuais possíveis ambiguidades ou  tensões na obra marxiana [30].  

Ora!   o   fato   é   que,   à   parte   aqueles   respeito   e   simpatia,   a   leitura   de   Marx   por   Sousa   Santos,  aparentemente   sofisticada   e   reveladora   de   interesses   analíticos   renovados,   apresenta   resultados  extremamente similares aos já centenariamente divulgados pela grossa maioria dos cientistas sociais  que, entre outras coisas, notabilizam­se pela sua plena integração ao establishment. Correndo o  risco   de   cometer   uma   indelicadeza   formal,   a   leitura   de   Marx   por   Sousa   Santos   pode   ser  caracterizada como uma receita nova ­ com ingredientes como Modernidade, paradigma etc. – que  culmina na feitura de um pudim cujo gosto se conhece há muito – determinismo, evolucionismo,  reducionismo   econômico. Os  habituados  aos  velhos  confeitos  da Teoria  Sociológica de  terno   e  gravata sabem que as guloseimas oferecidas por N. Timasheff não tinham outro sabor.

Em síntese: uma análise incompetente   Não é necessária nenhuma argúcia especial para concluir, a partir dessa "avaliação do marxismo  enquanto  tradição teórica da sociologia", ou deste "balanço geral da proposta de Marx,” que  a  contribuição   marxiana   e/ou   marxista   para   o   enfrentamento   da   "transição   paradigmática"  contemporânea   configura   um   aporte   pouco   mais   que   medíocre   –   Sousa   Santosnão   o   diz  expressamente, mas há passagens, em Pela mão de Alice..., das quais se pode inferir que o pobre  Marx, para além da sua "utopia" (que, como vimos, nem suficientemente "radical" é)! Não tem  serventia maior que Weber e Durkheim [31]. É preciso deixar muito claro que são secundárias, a esta altura, as opiniões e apreciações de Sousa  Santos sobre Marx e a tradição marxista; que ele, como todos e qualquer um de nós, é livre para  emitir quaisquer juízos de valor sobre ambos, seja enquanto cidadão, seja enquanto intelectual –  papéis que, como sabemos, se entrecruzam sem se confundir. Mas parece não haver muita dúvida de  que o papel do intelectual exige modos de argumentação mais rigorosos para validar tais juízos. E é  exatamente aqui que se põe o problema da "avaliação" de Sousa Santos: a sua análise da teoria  marxiana é de todo incompetente para fundar uma interpretação que dê conta, minimamente, da  fecundidade ou não daquela teoria para enfrentar os grandes desafios contemporâneos. Com efeito,  o Marx de Sousa Santos justifica a tese de que,  "se a modernidade se torna hoje mais do que nunca problemática, o marxismo será mais parte do  problema que defrontamos do que da solução que pretendemos encontrar" (idem: 35).  Entretanto, já salientei quão distintos são o Marx de Sousa Santos e o Marx real, verificável nos  textos autógrafos.  Com franqueza, repito: independentemente dos limites a que se impôs, a análise que, em Pela mão  de Alice..., Sousa Santos nos oferece de Marx e sua tradição é uma análise incompetente: se apanha  alguns elementos significativos e lacunas reais da teoria marxiana (como indiquei), repete lugares­ comuns   insustentáveis   (dos   quais   o   mais   tolo   é   a   acusação   acerca   do   "reducionismo")."   faz  afirmações  completamente absurdas (como aquela sobre "a equação automática entre progresso  tecnológico   e   progresso   social")   e   elude   convenientemente   importantes   tematizações   marxianas  (como   as   referidas   à   relação   sociedade/natureza).   Presta,   com   isto,   dois   enormes   desserviços   à  investigação: de um lado, reforça preconceitos ignorantes em face da teoria marxiana; de outro, não  contribui   para  que  a  pesquisa  identifique  o que,  nessa  teoria,  efetivamente  perdeu  atualidade  e  validez. No fim das contas, é quase inacreditável que um intelectual do nível e da qualidade de 

Sousa Santos – que, por outra parte e como assinalei, revela­se capaz de análises finas e sugestivas –  possa nos apresentar um Marx tão deformado e empobrecido e um marxismo tão miserável. Mas   quando   um   autor   competente   como   Sousa   Santos   tanto   se   expõe   numa   análise   assim  incompetente, há que buscar razões de fundo para isto.  Se se podem invocar causas e motivos de ordem episódica e pessoal (pressa em publicar textos?  passageira ausência de autocrítica?), eles não parecem procedentes em referência a um acadêmico  responsável   como   o   pesquisador   em   tela.   Aqui   deve   haver   algo   mais   substantivo   que   meras  idiossincrasias, mais relevante que um ou outro preconceito, mais importante que um controle maior  ou menor sobre tal ou qual obra de Marx. E quer­me parecer que o busílis da questão (para retomar  a   expressão   tão  cara  ao  velho  Florestan)  reside  no tratamento teórico­crítico  que Sousa Santos  dedica a Marx e à tradição marxista. Nas páginas de Pela mão de Alice... o que é fundante na análise que Sousa Santos faz da teoria  marxiana (e da tradição marxista) é uma concepção convencionalíssima da obra de Marx, que teria  criado, "ainda que de modo não sistemático, uma nova teoria da história, o materialismo histórico"  (idem: 36), a partir do qual se viabilizariam cortes científicos e ideais particulares – donde Sousa  Santos   possa   referir­se   à   "sociologia"   e   à   "utopia"   de   Marx,   como   poderia   referir­se   a   uma  "filosofia",  a uma "economia" etc. Ou seja: a concepção de Sousa Santos projeta sobre a obra  marxiana   a   divisão   das   "ciências   sociais   oitocentistas",   apanhando   nela   os   recortes   teórico­ científicos que mais lhe convêm (no caso, a ênfase numa "sociologia"). Está claro que, com este  procedimento, o que não se resgata da teoria social de Marx é justamente aquilo que lhe é mais  visceral e medular: seu caráter unitário e totalizante/totalizador, embasado numa ontologia do ser  social – a partir da crítica da economia política – historicamente constituído no mundo do capital. O   procedimento   é   tão   velho   quanto   a   própria   sociologia   (como   disciplina   científica  institucionalizada). E vem sendo histórica e sistematicamente reiterado (inclusive por marxistas) –  mas nada disto o torna legítimo, ainda que coberto de créditos acadêmicos. Que os sociólogos (bem  como outros cientistas sociais especializados) dos mais diversos matizes tenham se inspirado em  Marx e/ou  nele recolhido indicações teóricas e analíticas e que, no interior mesmo da tradição  marxista, se tenham gerado correntes sociológicas não afeta a substância da questão que, como  Lukács indicou já em 1923, consiste na relação de excludência entre a teoria marxiana da sociedade  burguesa e o discurso de uma ciência social especializada qualquer. Numa formulação mais precisa,  o mesmo Lukács (1968, cap. VI) esclareceu o fulcro da questão: o estatuto original da sociologia  repousa   no   corte   entre   relações   sociais/relações   econômicas,   com   a   explicação   sociológica   das  primeiras   prescindindo   da   análise   das   segundas   (que,   então,   se   remetem   a   outra   ciência  especializada, a economia) [33]. Ainda que os praticantes do que Florestan chamou de "sociologia  crítica"   (ou   "radical")  tenham  e venham  procurando  romper  com  este  corte  –  e esta  procura  é  sensível em Sousa Santos [34] –, o quadro estrutural­categorial próprio da reflexão sociológica  (como de qualquer ciência social especializada) os compele a encontrar na crítica da economia  política e na crítica das relações econômicas empiricamente dadas quando muito as famosas (e  engelsianas) "determinações em última instância".  Sousa   Santos,   indiscutivelmente,   é   um   sociólogo   "crítico"   (ou   "radical")   e,   como   todos   os  sociólogos   "críticos",   procede   sobre   a   estrutura   categorial   própria   à   sociologia   –   donde   a  inapreensão do caráter unitário da teoria social marxiana com a (pres)suposição dos seus níveis  "sociológicos",   "econômicos",   "utópicos"   etc.,   posto   que   a   pense   à   moda   das   "ciências   sociais 

oitocentistas" (idem: 38). É por esta razão que ele pode fazer um "balanço" do marxismo como  tradição sociológica sem discutir minimamente o estado da crítica da economia política marxista  (que, obviamente, é matéria da "economia", não da "sociologia…) [35]. É esta a razão que faz este  "olhar   sociológico"  converter  a teoria  social  de  Marx  numa  enciclopédica  teoria  fatorialista  do  "econômico",   do   "social",   do   "político"   etc..   E   é   evidente   que,   sob   tal   luz,   as   determinações  complexas,   bem   como   os   seus   igualmente   complexos   sistemas   de   mediações,   que   articulam   a  totalidade   concreta   que   é   a   sociedade   burguesa   passam   a   oferecer   o   espaço   ideal   seja   para   a  construção   reflexiva   de   determinismos   simplistas,   seja   para   a   postulação,   também   puramente  reflexiva, de autonomias relativas ("regionais"?) que terminam por se hipostasiar [36], Assim, é  óbvia  a   dificuldade para  recuperar, no plano  do pensamento, as  concretas  interdeterminações   e  mediações entre os vários níveis, instâncias e esferas constitutivos da sociedade – dificuldade que,  às vezes, se converte mesmo em impossibilídade [37]. É   este   trato   sociológico   da   teoria   marxiana   que   responde   substantivamente   (ainda   que   não  exclusivamente)   pela   flagrante   debilidade   do   "balanço   geral"   –   com   suas   conseqüências   na  decorrente   "avaliação"   –   que,   em   Pela   mão   de   Alice…,   Sousa   Santos   exercita   pobre   e  esquematicamente. Trato que está longe de comprometer a Marx e à tradição (teórico­prática) a ela  afeta. Antes, pela enésima (mas não última) vez, comprova que o "olhar sociológico", ao vestir a  obra de Marx com a mesma sobrecasaca de Durkheim e Weber, comporta­se diante dela como o  verme drummondiano que, partilhando da "alegria de zombar dos mortos",  só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava  que rebentava daquelas páginas  (Andrade, 1977: 105).  Notas: [1] Publicado pela Afrontamento (Porto) em 1994, 0 livro esgotou a primeira edição em Maio e a   segunda em Setembro, fazendo com que a editora colocasse no mercado a terceira em Novembro. [2] Todas as citações que farei de Pela mão de Alice... serão extraídas dessa edição. [3] Embora as referencias a Marx e a tradição marxista estejam presentes em varias passagens,   esta discussão, como se verá, ocupa somente um capítulo do livro, 0 segundo (Santos, 1995: 23­49). [4] A alusão ao marxismo não implica a existência de "um cânon marxista. Não há uma versão ou   interpretação autorizada do que Marx verdadeiramente disse ou quis dizer. Não há uma ortodoxia   a que se tenha de prestar lealdade incondicional, nem inversamente fazem muito sentido protestos   de renegação ou abjuração [...]. Numa pincelada de sociologia do marxismo pode dizer­se que  canonização e ortodoxia são próprios de universos de conhecimento que se pretendem diretamente   conformadores da prática social como é o caso, por exemplo, da teologia ou da psicanálise" (idem: 33). Parece claro que, aqui, a noção de ortodoxia nada tem a ver com o sentido que   Lukacs, no primeiro ensaio de História e consciência de classe (que Sousa Santos conhece),   Ihe atribuiu. [5] Sousa Santos reproduz aqui, literalmente, a apreciação de Kolakowski, para quem "o periodo  da Segunda Internacional (1889­1914) pode ser denominado, sem exagero, a idade de ouro do  marxismo" (Kolakowski, 1982: 9).

[6]   Aqui,   Sousa   Santos   simplesmente   remete   às   obras   desses   três   autores   (em   referencias  bibliográficas   que   suprimimos   nesta   citação),   com   um   comentário   esquemático,   ao   qual   retornaremos adiante, de exatas seis linhas (idem: 26). [7] E inteiramente falsa essa menção a Plekhanov: o "pai do marxismo russo" não foi liquidado,   mas faleceu num hospital finlandês em 30 de Maio de 1918. [8]  Rememorando, a esta altura, o impacto do maoismo, a argúcia de Fannon e a "teoria   da   dependência", de Fernando Henrique Cardoso et alii. [9]   Sousa   Santos   arrola,  aqui,  inúmeros  analistas, entre os  quais   Mills,  Poulantzas,  Miliband,   Touraine, E. O. Wright, G., Theborn, Marcuse, R. Williams, Habermas e Bourdieu. [10] Neste passo, Sousa Santos evoca Braudel, Hobsbawm e Thompson. Entre a "sociologia" e a   "historiografia", menciona ainda uma "investigação sociológica histórica de grande criatividade",   lembrando os trabalhos de B. Moore Jr. e I. Wallenstein. [11] Esta passagem do texto de Sousa Santos é particularmente equivoca; de um lado, referir o   "marxismo ocidental" como próprio deste período (anos 50­70) é, para dizer o mínimo, uma tolice   historiográfica.   De   outro,   situar,   como   ele   a   faz,   Lucien   Goldmann   no   marco   do   "marxismo   estruturalista francês", "devedor da reflexão filosófica de Althusser e da antropologia de Levi­ Strauss"   (idem:   27),   é   ignorar   completamente   a   concepção   goldmanniana   de   estruturalismo   genético. [12]   Curiosamente,   a   autor   anuncia   a   relevância   de   quatro   dentre   os   debates   importantes   da  década,   mas,   ao   discrimina­los,   menciona   cinco   (idem:   30)   incidentes   sobre:   1)   processos   de   regulação social nas sociedades capitalistas avançadas (Aglietta, Brender, Boyer); 2) processos de   formação e de estruturação das classes nas sociedades capitalistas, considerando as novas classes   e seus lugares contraditórios (E. O. Wright); 3) primazia ou não da economia, das relações de   produção ou das classes na explicação dos processos de transformação social (Offe, M. Mann, N.   Mouzelis,   1.   Sckopol,   p.   Evans);   4)   natureza   das   transformações   culturais   do   capitalismo   (F.   Jameson); 5) avaliação do desempenho politico dos partidos socialistas e comunistas e, em geral,   do movimento operário europeu (W.Korpi, A. Przeworski). [13] Sousa Santos ilustra: "A título de exemplo, refiram­se os estudos sobre os novos movimentos   sociais   e   sobre   os   processos   de   transição   democrática   na   América   Latina   e   os   estudos   de   sociologia histórica sobre o contexto colonial e pós­colonial da Índia […]" (idem: 31).  [14] É interessante observar que Sousa Santos identifica dois "pós­marxismos": o da década de 80,   aí referido, e o da década anterior, "pós­estruturalista […], fortemente tributário de Foucault e da   reflexão teórica na lingüística, na semiótica, na teoria literária e mesmo na psicanálise" (idem:   31).   [15] A propósito da "articulação ação/estrutura tal como ela foi se constituindo e transformando   na tradição marxista", Sousa Santos (idem: 32) realça a crítica a "mais aguda e mais inovadora",  oriunda da "sociologia feminista" e a recusa "dessa dualidade no seu todo", expressa na obra de E.  

Laclau e C. de Mouffe, Hegemony and Socialist Strategy. Toward a Radical Oemocratic Politics   (London, Verso, 1985); num passo posterior, Sousa Santos sugere sua discrepância com esses dois   autores (idem: 37).   [16]   Mencionamos   atrás   (nota   6)   que,   com   eles,   Sousa   Santos   gasta   seis   linhas;   vale   a   pena   transcrever sua notação: "Convergiam estes pensadores na idéia de que a conversão do marxismo   numa   ciência   positiva desarmava o seu potencial revolucionário. As  raízes  do marxismo eram   hegelianas   e   faziam   dele   uma   filosofia   crítica,   uma   filosofia   da   práxis,   mais   virada   para   a   construção   de   uma   visão   libertadora   e   emancipadora   do   mundo   do   que   para   uma   análise   sistemática   e   objetiva   da   sociedade   capitalista"   (idem:   26).   Deixando   de   lado   as   substantivas   diferenças  entre os três autores, o que Sousa Santos não assinala concretamente é o conteúdo  antipositivista   e   anti­reducionista   que   especialmente   Lukács,   batendo   forte   contra   o   marxismo   vulgar da Segunda Internacional, introduz no debate; a ausência dessa sinalização contribui para   explicar   por   que   Sousa   Santos   parece   ignorar   que   o   combate   aos   vários   reducionismos   (de  natureza econômica, notadamente) surge precisamente nos anos 20, bem antes de qualquer "pós­ marxismo"; sua chave, formulou­a Lukács na frase de abertura do ensaio sobre Rosa Luxemburgo   (1921):   "É   o   ponto   de   vista   da   totalidade   e   não   a   predominância   das   causas   econômicas   na   explicação da história o que distingue de forma decisiva o marxismo da ciência burguesa" (Lukács,   1965: 47).   [17] É assombroso, para quem se preocupa com o desenvolvimento da sociologia, a ausência, aqui,   da menor referência aos autores da Escola de Budapeste, reunidos em torno de Lukács (quando se  sabe,   ademais,   que   Sousa   Santos   conhece   os   trabalhos   de   Agnes   Heller,   Ferenc   Féher   e   G.   Markus), aos empenhos de um S. Ossowsky – sem falar de nenhuma alusão ao grupo Práxis e a   Kosik.   [18] Mas, nesse caso específico, as duas omissões são verdadeiramente graves ­ se um sociólogo   culto não pode deixar de considerar a obra multifacética de Lefebvre, nenhum balanço, por mais   sumário que seja, do marxismo nos anos 50­70 pode ser levado a sério se não consigna a produção   peninsular   da   época   (quanto   aos   italianos,   Sousa   Santos   limita­se   a   protocolares   citações   de   Labriola e Gramsci).   [19] Para um pensador marxista contemporâneo, essa distinção já convencional ("pós­modernismo   de celebração/pós­modernismo de oposição"l no interior do "campo pós­moderno" é inteiramente   desprovida de fundamentação (Mészáros, 1996: 27­70).   [20] Muito mais evidente no caso do "pós­modernismo reconfortante". Parece­me que Sousa Santos   recusaria de plano esta observação, que não posso desenvolver aqui; contudo, uma análise mais   cuidadosa de seu pensamento – ao qual, como ele mesmo reconhece, não é alheia a influência de   Heidegger (idem: 76) – apontaria este viés, presente inclusive em não poucas passagens de Pela   mão de Alice... (cf. esp. as notações sobre "Conhecimento e subjetividade", pp. 328 e ss.).  [21] Sousa Santos debateu amplamente a questão em Santos (1989l.   [22] O próprio Habermas, cuidadoso como sempre, já advertira que este é um "conceito que só se   pode aplicar com certas reservas às ciências sociais" (Habermas, 1988, I: 157, nota). 

[23] Numa passagem de Pela mão de Alice..., discutindo o "pilar da emancipação" do projeto da   Modernidade, no "período do capitalismo liberal" (século XIX), Sousa Santos considera que "o   socialismo dito utópico é, nos seus objetivos, mais radical que o socialismo dito científico" (p. 83).  [24] Sousa Santos, justamente preocupado com os desastres provocados pelo estatuto (com as suas   incidências   prático­sociais)   meramente   objetual   de   que  a   natureza  desfruta   no  "paradigma   da   ciência moderna", atribui a Marx concepção idêntica à desta última, passando inteiramente por   alto   as   páginas   que,   nos   Manuscritos   econômico­filosóficos   de   Paris,   ele   dedicou   à   relação   sociedade/natureza.   [25] Apenas duas passagens, para atestar a notação: "A um certo estágio da evolução das forças   produtivas, vê­se o surgimento de forças de produção e meios de comércio que, nas condições   existentes, apenas causam malefícios. Não são mais forças de produção, mas de destruição […]”;   "[…]”.   As   coisas   chegaram   hoje   ao   ponto   em   que   os   indivíduos   se   vêem   obrigados   a   se  apropriarem   da   totalidade   existente   das   forças   produtivas   não   só   para   se   afirmarem,   mas,   sobretudo, para resguardar a sua existência" (trechos de A ideologia alemã, in Marx, 1982, /11:   1120, 1122).   [26] Não cabe aqui mostrar como, nesse aspecto, Marx é um herdeiro direto de Hegel, cuja noção   de progresso é diversa das "ilusões heróicas" da Ilustração do século XVIII.  [27]   Noutro   passo   de   Pela   mão   de   Alice...   tematizando   a   "transformação   não   capitalista"   da   sociedade atual, Sousa Santos faz uma observação que certamente o distingue de boa parcela dos   sociólogos   contemporâneos:   assevera   que   "se   tal   transformação   não   pode   ser   feita   só   com   o   operariado, tão pouco pode ser feita sem ele ou contra ele" (idem: 272).  [28]   No   exame   dessas   novas   realidades,   fundamentalmente   as   que   são   postas   pela   crescente   complexidade concreta da ordem tardo­burguesa, algumas contribuições de Sousa Santos merecem   particular atenção ­ e muitas delas comparecem em Pela mão de Alice...  [29]   A   esta   "utopia"   ­   que,   noutro   desenvolvimento,   Sousa   Santos   chamará   de   heterotopia   –   corresponderia o "Paradigma Eco­Socialista" (idem: 336 e ss.). Quanto à noção de socialismo de   Sousa Santos, ela aparece lapidarmente quando discute as "mini­racionalidades pós­modernas"   (idem: 111).   [30] É fato que assinala umas poucas delas (cf., por exemplo, idem: 37­38, 241), mas não as   explora minimamente.   [31]   "Marx   deve   ser   posto   no   mesmo   pé   que   os   demais   fundadores   da   sociologia   moderna,   nomeadamente Max Weber e Durkheim. [ ... ] Apesar de se guardarem de uma tradução organizada  das suas idéias em processos de transformação social, Max Weber e Durkheim não se coibiram de  fazer previsões e de apontar direções desejáveis ou indesejáveis de transformação social. O que os   distingue de Marx é, neste domínio, o íato de suas previsões se manterem dentro do quadro do   capitalismo […]. Porque se limitaram a prever variações do presente, Max Weber e Durkheim   falharam menos estrondosamente que Marx em suas previsões. Mas, por outro lado, ao tentar   prever   mais   longe  e   mais   radicalmente,   Marx   apresentou,  talvez   contra   sua   vontade,  uma   das   últimas grandes utopias da modernidade: é hoje claro que todo socialismo é utópico ou não é   socialismo" (idem: 33­34).  [32] O "reducionismo economicista" que Sousa Santos atribui a Marx ­ expressa e obliquamente   (idem: 36 e 120) ­ é uma inteira ficção, como Mészáros, entre muitos, já demonstrou sobejamente  

(Mészáros, 1993, parte 111).   [33] Recorde­se que Marcuse, no seu estudo de 1941 ­ Razão e revolução. Hegel e o advento da   teoria social (Marcuse, 1969) ­, pensa no mesmo compasso (desistoricização e deseconomicização)   a constituição da sociologia.   [34] Cf. esp. os dois últimos capítulos de Pela mão de Alice... É de notar, porém, que, nessas   páginas, o trato dos processos econômicos é muito mais de natureza constatativa que analítica.  [35] Certamente que, no seu "balanço", ele menciona Hilferding e um que outro "economista"; mas   a   contribuição  e/ou  as   polêmicas   derivadas   dos   trabalhos,  apenas  para  citar  alguns   exemplos  notáveis, de Varga, Crossmann, Sweezy, Baran, Dobb, Boccara e Mandei seguramente lhe parecem   pertencer a outro continente teórico.   [36] Prova­o, por exemplo, a própria concepção que o sociólogo português vem apresentando da   Modernidade. Sousa Santos tem sabido evitar, ao longo de sua obra, a visão simplória, chapada e   apologética da Modernidade que comparece na maior parte dos ideólogos pós­modernos. Muito   especialmente,   ele   tem   procurado,   no   plano   histórico­sistemático,   discernir   o   Projeto   da   Modernidade do capitalismo (idem: 76), inclusive investigando os rebatimentos do evolver deste  último   sobre   aquele   projeto   (idem:   80­93).   É   interessante,   assinale­se,   na   sua   análise   da  Modernidade, a conexão que estabelece entre o "pilar da regulação" e o "pilar da emancipação",   com seus respectivos "princípios" e "lógicas de racionalidade" e com a expressa admissão de que o   projeto   sociocultural  moderno  é  "muito  rico,  capaz   de  infinitas   possibilidades  e  [...]   sujeito   a   desenvolvimentos contraditórios" (idem: 77). Todavia, e como se verifica em praticamente toda a  literatura que tematiza a Modernidade de um ponto de vista pós­moderno, Sousa Santos tem as   maiores   dificuldades   para   explicitar   concretamente   tais   "desenvolvimentos   contraditórios":   no  plano   crítico­analítico,   acaba   por   caucionar   um   "paradigma   da   Modernidade"   inteiramente  enquadrado pela lógica do capital ­ assim é que, considerando os contemporâneos "problemas com   que   nos   defrontamos"   (conversão   dos   problemas   ético­políticos   em   problemas   técnicos,  legitimidade da propriedade privada independentemente do seu uso, obrigação política vertical do  cidadão frente ao Estado, crença produtivista no progresso), Sousa Santos não vai à caça das   mediações que propiciem articulá­los à dinâmica e à lógica atuais do capital, mas vê na "base" de   tais problemas ... "quatro axiomas fundamentais da modernidade"! (idem: 321). A tensão irresoluta  nessa   concepção   de   Modernidade   é   indescartável:   de   uma   parte,   teoricamente,   Sousa   Santos  substancializa o Projeto da Modernidade, autonomizando­o das concretas conexões que mantém   com a ordem do capital e, de outra, analiticamente, termina por estabelecer entre Modernidade e   capitalismo uma relação unívoco­funcional.   [37] Quanto  a isso, são ilustrativas as páginas que Sousa Santos dedica à análise da relação   Estado/sociedade civil, que ele pensa como "dualismo" (idem: 115 e ss.).  *   José  Paulo   Netto  é  ensaísta, escritor   e  Professor   titular  da  Universidade  Federal  do Rio   de   Janeiro ** Apêndice do livro Marxismo impenitente ­ contribuição à história das idéias marxistas, Cortez   Editora

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