editorial

com muito orgulho e entusiasmo que a Revista Bambu, lançada durante o II Seminário Nacional da Rede Brasileira do Bambu – RBB, em Rio Branco, Acre, apresenta a sua primeira edição. A Revista, que deve circular por todo o território nacional, tem como objetivo principal disseminar a cultura do bambu ao público em geral, seja este formado por profissionais ou leigos no assunto. Nos dias atuais, em que a sociedade cada vez mais exige dos profissionais uma postura responsável no que diz respeito à preservação dos recursos naturais, torna-se necessário despertar o interesse sobre os materiais sustentáveis, ecológicos e que não agridam o meio ambiente durante a sua fabricação, industrialização ou uso. Neste sentido, a Revista Bambu visa fornecer informações atualizadas e disseminar o conhecimento técnico-científico e as diversas possibilidades de uso desta planta tão conhecida e apreciada pelo povo brasileiro: o bambu. O bambu é um material de construção consagrado há milhares de anos, conforme registros históricos ancestrais. Sabe-se que seu uso está presente na cultura de praticamente todos os povos, de todos os continentes. O bambu entrou na história das construções há cerca de 6 mil anos nos países asiáticos. Mais tarde, foi incorporado pelo Equador, pela Venezuela, Colômbia e Costa Rica. Felizmente, esta planta popular vem sendo empregada ao longo dos anos de diversas maneiras, como material de construção, artesanato, na indústria farmacêutica e química, no meio rural e, ainda, como carvão e na produção de óleos combustíveis, papel, entre outros. Neste contexto, o bambu surge como uma importante alternativa construtiva. É um material facilmente renovável pela natureza, de crescimento rápido e baixo custo, além de demandar reduzido consumo energético para sua produção e despontar como o maior consumidor de gás carbônico do reino vegetal. Espera-se que a Revista Bambu possa servir como um importante elo entre a comunidade em geral e o meio técnico, formado por arquitetos, engenheiros, pesquisadores, técnicos e artesãos, e entre as instituições públicas, privadas e do terceiro setor. Desta forma, busca-se incluir definitivamente o bambu na cadeia de produção e na cadeia de valor social, com a geração de emprego, renda e desenvolvimento sustentável. Anelizabete Alves Teixeira Pazini
anelizabete@gmail.com Bambu

É

1

NeSta ediÇao

ENTREVISTA

04

diretor do Centro de Pesquisa e aplicação do Bambu e Fibras Naturais da Universidade de Brasília (CPaB/UnB), Jaime G. de almeida analisa cenário do desenvolvimento tecnológico do bambu

CIêNCIA&TECNologIA 12
desenvolvimento tecnológico do bambu ganha impulso com estruturação de pesquisas em rede

ARTESANATo

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lúcio Ventania e o poder social do bambu – capacitação para inclusão

CUlTURA

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a civilização do bambu: conheça um pouco da aplicação da planta na China

MEIoAMBIENTE
Pesquisa aponta eficiência do bambu no tratamento de esgotos. tecnologia é alternativa para evitar a contaminação de mananciais

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REvistA BAmBu vEíCulo ofiCiAl DA REDE BRAsilEiRA Do BAmBu – RBB

Conselho Gestor Pro-tempore da RBB Elias M. de Miranda Jaime G. de Almeida (Coordenador) Manoel F. M. Nogueira Marney P. Cereda Normando P. Barbosa Siu Mui Tsai Walter F. M. Correia Conselho Editorial Anelizabete A. Teixeira – UEG/GO Antonio L. Beraldo – UNICAMP/SP Alexandre F. da Costa - EFL/FT/UnB David Pennington – FAC/UnB Jaime G. de Almeida - CPAB/UnB

Mário R. de Souza – LPF/SFB/MMA Othon Leonardos - CDS/UnB Marney P. Cereda – UCDB/MS Sérgio A. de O. Almeida - SFB/MMA Siu Mui Tsai – USP/SP Coordenação Editorial Jaime Gonçalves de Almeida Editora Executiva Lydia Costa Editora Dâmares Vaz Jornalista Responsável Dâmares Vaz – MTb 84.241/DF

Redação Neyfla Garcia Revisão Luiz Alberto Guimarães Projeto Gráfico e Diagramação Lucivam Queiroz Capa Geraldo Benício Equipe de Apoio Ana Cristina T. V. de Magalhães Bruno G. B. de Sá Edeijava R. Lira Gabriela N. C. Lima

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Bambu

ARTIgo

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AplICAÇão

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o que o bambu tem para nos ensinar? antonio ludovico Beraldo revela o segredo da rede Brasileira do Bambu-rBB

estudos apontam novos usos para o material – da construção de sistemas de irrigação até a geração de energia limpa e renovável

gAlERIA

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ione Saldanha e a recriação do mastro festivo com bambu

DESIgN

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SEMINáRIo

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artesão e designer aproveitam a versatilidade do bambu na produção de peças de decoração e mobiliário

rede Brasileira do Bambu-rBB debate avanços na articulação das pesquisas com a planta no País

AlIMENTAÇão lITERATURA

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receita adaptada: Bambu à brasileira

INDúSTRIA

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ainda incipiente no Brasil, desenvolvimento industrial do bambu é estratégico para construção civil e setor moveleiro

Fontes para quem quer saber mais sobre bambu – indicações de tarciso S. Filgueiras

ESpECIAl

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INTERNACIoNAl

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tarciso S. Filgueiras avalia o que deve ser levado em conta na hora de escolher entre espécies nativas ou exóticas

equador e Colômbia são modelo na utilização da planta na construção civil. No entanto, difusão do bambu na américa do Sul é desigual

pANoRAMA
antigas ou modernas, construções de bambu pelo mundo atraem pela resistência, beleza e durabilidade

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opINIão

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Sérgio alberto de oliveira almeida, pesquisador do Serviço Florestal Brasileiro, aborda a criação da Política Nacional de incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu

Laís Wiziack Lanisson A. Gonçalves Maria Betânia de O. Bezerra Marlúcia A. Felino Colaboradores Anelizabete Alves Teixeira Antonio Ludovico Beraldo Reinaldo G. Machado Sérgio Alberto de O. Almeida Tarciso S. Filgueiras impressão Ideal Gráfica tiragem: 3.000 exemplares

Circulação: Nacional Editada por: Vincere Editora Endereço para Correspondência Centro de Pesquisa e Aplicação do Bambu e Fibras Naturais – CPAB/UnB - SCLN 406, Bl. A, Lj. 52 – Brasília – DF CEP.: 70847-510 (61) 3340 3948 seminariobambu@unb.br cpab@unb.br www.redebrasileiradobambu.com.br

Referências fotográficas Vélez, Simón and Bamboo architecture – Grow your own house Bamboo architecture. Bess, Nancy Moore with Wein, Bibi – Bamboo in Japan. López, Oscar Hidalgo – Bamboo the gift of the gods.

Bambu

3

com o objetivo de promover o desenvolvimento tecnológico do bambu. de Almeida reuniu um grupo de alunos para a execução de trabalhos práticos e construtivos com bambu. em 2006. Originado de uma atividade experimental.RBB. que mais tarde daria origem ao Centro de Pesquisa e Aplicação de Bambu e Fibras Naturais (CPAB/UnB). Entre os contemplados. O documento destina R$1. E . há representantes de diversas regiões do país e áreas de aplicação do bambu. instituição que lidera a estruturação da rede Brasileira do Bambu.eNtreViSta rede consolida articulação entre pesquisas com bambu no Brasil por Dâmares Vaz diretor do CPaB/ UnB. Jaime G. Este processo foi possível graças ao lançamento do edital CT-Agro CNPq/MCT 25/2008 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).8 milhão a 12 grupos de pesquisa durante o período de três anos. de almeida avalia o panorama do desenvolvimento tecnológico da planta no País 4 Bambu m 1996. o CPAB acabou liderando o processo de criação da Rede Brasileira do Bambu . Nascia o Projeto Cantoar da FAUUnB. do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). a atração de novos pesquisadores. A instituição da RBB foi fundamental para a agregação das pesquisas sobre o bambu no País e. o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAUUnB) Jaime G. de 2009 a 2011. sobretudo. a articulação em rede de pesquisadores e suas instituições e a construção de parcerias entre diversos setores sociais e econômicos.

também do MCT). de placas para piso. No ano seguinte. E a Seped e o Fundo Setorial do Agronegócio foram os protagonistas desta ação. Tentamos convencê-la da importância da organização da rede e isto não foi possível. © randal andrade Bambu 5 . Várias questões foram levantadas. encaminhou ao CNPq novos recursos. Jaime Almeida. A secretaria então reuniu os principais pesquisadores. Era o edital que queríamos. Mas a Finep optou simplesmente pela pesquisa em rede. cosméticos e carvão. Hoje. A Rede Brasileira do Bambu . nesta entrevista exclusiva à Revista Bambu. técnicos e lideranças administrativas para discutir a situação do bambu no Brasil. Com ele. o artesanato e as pequenas e médias indústrias de móveis tradicionais de bambu são facilmente encontrados em todo o território nacional. por meio do Fundo Setorial do Agronegócio. a rede foi finalmente posta em prática. entre elas a criação de uma rede nacional do bambu. o desenvolvimento do bambu no Brasil e os desafios do setor é que o diretor do CPAB. Como foi o processo de estruturação da Rede? Em 2005. profissionais. a Secretaria Nacional de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente dava início ao inventário florestal nacional e precisava de dados sobre bambu no País. O bambu está enraizado na cultura brasileira e conta com um forte apelo ambiental. que pela primeira vez seria incluído no levantamento. na segunda tentativa. Também tem sido fonte de renda e criação de emprego. E o CNPq/MCT assumiu a tarefa de implantá-la. Foi aí que percebemos que o CNPq sabia lidar melhor com pesquisadores do que aquela agência. Elaboramos a proposta da rede e enviamos para a sede da agência no Rio de Janeiro. Sobre a estruturação das atividades de pesquisa. Mas o ministério. fala. mas os recursos foram parar na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos. levamos ao MCT a idéia de criação da rede proposta naquela reunião.RBB foi proposta em 2006 e contou com o apoio inicial das secretarias de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (Secis) e de Política de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped). foi lançado o primeiro edital público de pesquisa e desenvolvimento do bambu aliados à estruturação de uma rede. ambas do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). em 2006.Quando se fala do recurso florestal. no Brasil. Finalmente. há a percepção de uma aceitação direta da população. Mas outros usos começam a tomar corpo. como a produção industrial de celulose para papel. Foi a Secis quem deu o primeiro passo nesta direção e destinou recursos para sua organização.

“ 6 Bambu © randal andrade . mas até aquele edital eram de- O Centro da Un i v e r s i d a de de Brasília ocupa posição pioneira na estruturação desta rede nacional voltada para o bambu e o senhor está à frente deste processo. A criação do Centro foi trabalho de equipe. Pa r t i c i p a r a m da empreitada uma equipe de profissionais e p e s q u i s a d o re s da universidade e também colaboradores externos. Fundada por um grupo excepcional de intelectuais. também. Não é tão fácil viabilizar projetos como este na administração pública. em 2007. o bambu era um desafio e ”o controle do desmatamento e o aperfeiçoamento dos instrumentos de fiscalização têm contribuído para limitar a oferta de madeira no mercado. o Projeto Cantoar. botar a mão na massa. Vieram as orientações de trabalho no mestrado e doutorado. uma secretaria. artistas e profissionais liderados por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro. a UnB passou a coordenar o processo de formação da RBB. cuja eleição ocorrerá no II Seminário de Estruturação da Rede Brasileira do Bambu. em geral. É claro que ao longo do caminho surgiram vários obstáculos. Nosso horizonte eram os países asiáticos e alguns latino-americanos que conseguiram incorporar de maneira sustentável o bambu no dia a dia de sua população. Com o Centro. Mas. Daí para a criação do Centro pelo Conselho Universitário (Consuni) da UnB. Foi assim em 1996. Na execução de protótipos de cobertura. quando criei. em dezembro de 2009. foi bem rápido. tínhamos de enfrentá-lo de duas maneiras. O projeto tinha como lema trabalhar diretamente com o material. É nossa intenção. uma revista de divulgação cultural. crie mecanismos para sua sustentabilidade. com um grupo de estudantes. Tem caráter provisório e será substituído por um definitivo. pelo estudo e pela prática. não teríamos chegado a nenhum lugar. Qual é o panorama das pesquisas com bambu no País e a sua transformação em processos produtivos? As pesquisas sobre bambu no Brasil não são recentes. O conselho é formado pelos coordenadores dos grupos que compareceram à reunião. A Rede possui um site. e nele passamos a lidar com o bambu. surgiram inúmeros desafios. em João Pessoa (PB). mais importante. que a Rede assuma a responsabilidade pela proposição dos próximos editais de pesquisa do bambu. Para nós. Em compensação. Isto me estimulou a dar início ao trabalho sistemático com o bambu na arquitetura e construção. depois do seminário. E jamais tinha imaginado que uma experiência tão singela como aquela pudesse nos levar a um patamar como o atual. técnica e científica e. instituído na reunião de grupos de pesquisa do edital CT-Agro CNPq/MCT 25/2008. a Rede conta com um conselho gestor pro-tempore. quem toma decisões na maioria dos casos são os indivíduos.eNtreViSta E qual é a situação atual da RBB? Atualmente. Que avaliação faz do trabalho? A UnB é uma instituição diferenciada. sua estrutura favorece experimentações inovadoras. Se não tivéssemos sido tão persistentes. foram mais de dez anos empregados no bambu. E. este é então o momento propício para a difusão do uso do bambu.

Em geral. Acredito que. o bambu é um insumo para a produção de riqueza e. e estamos entrando no segundo momento. o desenvolvimento de um programa de plantação de bambu. o de priorização. O primeiro. um fator para a valorização social e inclusão de populações carentes. as lideranças administrativas. por qual o País passa? Estamos saindo do primeiro momento. eles investigam problemas específicos e chegam a propor novos produtos. O primeiro é o da articulação e planejamento da rede. sem dúvida. Na primeira. o da inovação. pronto para ser utilizado pela população. este caminho tem três momentos principais. De modo esquemático. na segunda. botânica e engenharia civil. dar início a um programa nacional e articulado de qualificação de pessoal. o de agregação e articulação. a construção civil. Estamos numa transição e temos que enfrentar alguns desafios. para depois entrarmos no terceiro momento. E o terceiro momento. profissionais e técnicos deixam de lado o egoísmo e partem para o diálogo. com a Rede. possamos dar início ao equacionamento destas questões. A primeira é a impossibilidade do pesquisador ou profissional saber tudo a respeito do bambu. pesquisadores. E qual é o caminho para atender a estas duas demandas – integração e mercado? O processo de formação de uma rede nestes moldes não é simples. e. É comum encontrarmos estes trabalhos nas áreas de arquitetura. A segunda questão compreende o desafio de transformar o produto p ro p o s t o e m produto acabado. interação com a sociedade e o mercado. os problemas e as questões relevantes que devem ser estudados e desenvolvidos.senvolvidas de forma pontual. que setores são mais promissores e devem ser priorizados? Um dos setores que mais empregam no Brasil é. o terceiro. o da inovação tecnológica. Uma exige diálogo do pesquisador com outros pesquisadores e técnicos de áreas diferentes. O segundo momento é o da definição de prioridades de investimento em termos de política nacional – quais os temas. Desses três momentos. É quando os estudos e as pesquisas saem da bancada do laboratório para a cadeia produtiva e de valor social. A outra. Nele. a conclusão da Rede em termos organizacionais de acordo com a proposta aprovada no I Seminário de 2006. que hoje é um proBambu 7 . que é uma matéria-prima transversal. O protagonista era e em muitos casos continua a ser o pesquisador individual. Estas pesquisas estão diante de duas questões. Destaco os trabalhos sobre o bambu que estão sendo desenvolvidos nos cursos de graduação e pós-graduação. o segundo. E ela ainda consome uma quantidade enorme de madeira. Neste segundo momento.

O lançamento desta revista de divulgação pela Rede é parte deste esforço. há o artesanato. Além da energia. © Jaime G. mais importante. a proposta aguarda o posicionamento de algumas comissões do Senado e. Este é então o momento propício para a difusão do uso do bambu. Mas a demanda deste setor econômico.180 de 2007. que as ajuda a desenvolver ao mesmo tempo a coordenação motora e o gosto pela planta. Outra área promissora é a da geração de energia a partir da biomassa do bambu. o bambu e a madeira se complementam muito bem. como o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). É uma atividade direta que. conta com o emprego de técnicas simples e de reduzida infraestrutura de produção. de almeida duto escasso. comerciante e consumidor. especialmente pelo Fundo Setorial do Agronegócio. especialmente no seu interior. Esta lei é um bom exemplo de política pública que certamente estimulará o governo e os bancos a investirem no setor. O artesanato também atrai o apoio de instituições importantes. as crianças nas escolas começam bem cedo com o artesanato do bambu. é gigantesca. Evento avalia e consolida avanços desde a estruturação da rede. bordaduras e tecelagem 8 Bambu . E. no Brasil e em outros países. Trata-se da alocação de recursos para o edital de 2008. Outra iniciativa importante foi dada pelo MCT. depois. haverá geração de empregos e renda para a população. resta mais um enfrentamento a ser feito pelo País: o desconhecimento dos benefícios que o bambu propicia e. que tem contribuído de forma decisiva para o desenvolvimento organizacional e qualidade dos produtos do setor. Mas estas atividades precisam atingir a população. Investimentos em pesquisa e desenvolvimento concorrem para a expansão das atividades em torno do bambu no País. terá que passar pela sanção presidencial. que institui a Política Nacional da Cultura do Bambu. Isto implica pensarmos o bambu em grande escala.Que políticas públicas de expansão do negócio do bambu no País para geração de renda e criação de postos de trabalho vêm sendo desenvolvidas? Um grande passo nesta direção foi dado pela Câmara dos Deputados com o Projeto de Lei 1. lançado pelo CNPq/MCT. possui um alcance social impressionante. Na China. Não penso na substituição da madeira pelo bambu. Seu custo está proibitivo para o produtor. gera renda imediata. Outra saída é pela educação. Com isto. em decorrência disto. e representa um aporte de conhecimento para o estado que abriga a maior reserva nativa de bambu do mundo Fitas coloridas de bambu para trançados. tendo em vista o déficit de habitação. o preconceito cultural que ainda subsiste em determinadas camadas da população. Agora. Na arquitetura e construção civil. em 2006. O controle do desmatamento das florestas nativas e o aperfeiçoamento dos instrumentos de fiscalização pelo governo federal têm contribuído para limitar ainda mais a oferta do insumo no mercado. Temos acompanhado o trâmite no Congresso Nacional e conseguimos sua aprovação na Câmara. No momento.

O evento é promovido pela Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped) do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). por meio do Centro de Pesquisa e Aplicação do Bambu e Fibras Naturais (CPAB). Acre. Bambu 9 .8 milhão à pesquisa do bambu no País. Ao fim do evento. Entre as atividades previstas. Na programação. estudantes e o setor produtivo da região para a utilização econômica do bambu. o seminário é um marco e uma oportunidade de congregar profissionais e pesquisadores da cadeia do bambu. Também sensibilizará profissionais. Para o coordenador de Visão de Tecnologia da Madeira da Funtac. de 25 a 28 de agosto de 2010. o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do estado (Sebrae) e a Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac) apoiam o seminário. “O seminário trará à tona informações que serão úteis aos técnicos locais. anúncio do Inventário Florestal pelo Ministério do Meio Ambiente. a divulgação e análise das pesquisas do edital MCT/ CNPq/CT-Agro 25/2008. prático-profissionais e culturais. com a coordenação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e execução da Universidade de Brasília (UnB). desde a extração e tratamento até o desenvolvimento do design dos produtos”. apresentação das pesquisas contempladas A pelo edital de 2008 e mesas redondas.SeMiNário acre recebe ii Seminário da rede Brasileira do Bambu por Dâmares Vaz valiar e consolidar os avanços no desenvolvimento tecnológico do bambu são os principais objetivos do II Seminário da Rede Brasileira do Bambu-RBB. serão editados os Anais com os trabalhos científicos. Dixon Gomes Afonso. como mostra de cartazes sobre trabalhos acadêmicos. estão previstos palestra de abertura com o professor chinês Zhou Zhaduo. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária do Acre (Embrapa). abarcando as diversas fases. O seminário terá também novas seções. No dia 28. Orlando Sabino. que destina R$1.” O superintendente do Sebrae no Acre. “Este aporte de especialistas é importante para que o estado consiga desenvolver o bambu em escala industrial. está programada uma visita ao tabocal do Acre. o lançamento nacional da Rede Brasileira do Bambu-RBB. o fortalecimento dos laços entre as pesquisas e demais trabalhos técnico-profissionais do bambu e os setores sociais e produtivos. A realização do II Seminário da RBB no estado abre uma porta para a difusão da Rede regionalmente e representa um impulso para o aproveitamento da potencialidade local. e a construção da continuidade da Rede. concorda com Afonso quanto ao caráter agregador do evento. O evento ocorre em Rio Branco. culturais e técnico-profissionais selecionados pelo Comitê Científico. afirma. Acre O Brasil tem a maior diversidade de bambu das Américas e uma das maiores reservas nativas do mundo fica no Acre.

Galeria ioNe SaldaNha artista resgata criação coletiva das telas para peças – formas e cores transformam colmos de bambus por Neyfla Garcia colaboração prof. Reinaldo Guedes Machado rgmachado@unb. A escolha das cores acaba reafirmando a admiração confessada de Ione Saldanha pelo trabalho do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi. as faixas de cor se sucedendo em altura sem. um grupo de artistas brasileiros tinha como pretensão levar as cores para além dos limites do plano das telas. O conceito era ultrapassar a moldura dos quadros e fazer a cor vibrar no espaço onde transitamos. em 1950. Nestes bambus. Mais tarde troca as ripas por troncos de bambu. gaúcha de Alegrete. Fundiu as influências nos bambus que pintou a partir de 1988. ousou ao aliar a técnica à questão do ambiente intelectual. seguirem obrigatoriamente as divisões dos gomos naturais da planta. pintou paisagens de casario geometrizado e retratos. os quais recobre com têmpera ou tinta acrílica sobre uma base de preparação. no entanto.br N divulgação a década de 60. se expressam tanto uma sensibilidade particular educada pela observação e o estudo teórico como a criação coletiva do povo brasileiro que reaparece na recriação do mastro festivo com bambu. deixa a superfície bidimensional da tela e passa a pintar faixas horizontais de cor sobre ripas de madeira que expunha escoradas na parede. 10 Bambu . Em 1968. No início da carreira. Ione Saldanha (1919-2001). portanto.

Esta importante e invisível estrutura constitui uma rede. E assim. nascidos em estações anteriores. o bambu ainda oferece sombra fresca para o viajante. ano após ano. Este é o segredo do bambu – organizar-se como se fosse uma eficiente rede. mas também o encaram como uma dádiva dos deuses. o grupo se fortalece e se torna cada vez mais imponente. as valiosas contribuições só puderam ser efetivadas porque se apoiaram em conhecimentos divulgados pelos membros mais antigos .artiGo Qual seria o segredo que os bambus tentam nos ensinar? O as características fundamentais da planta que podem se aplicar à rede Brasileira do Bambu Ludovico Beraldo beraldo@agr.unicamp. Esta é a grande importância da Rede Brasileira do Bambu – a de congraçar a experiência dos membros pioneiros (como se eles fossem colmos velhos). Toda a sua complexa estrutura apoia-se em um emaranhado de raízes e rizomas que dão sustentação à touceira do bambu e protegem os seus colmos dos ventos implacáveis. desde a produção de alimentos. até para aplicações em sofisticadas construções. No bambu não existe a individualidade. de uma forma inédita. diferentes pessoas apresentaram relatos que mostraram algo em comum – a paixão que os uniu pelo bambu. Esta capacidade de regeneração. Quem um dia foi um colmo jovem e imaturo logo se mostrará forte o suficiente para que possa então apoiar seus irmãos mais jovens e frágeis. sem descuidar do aspecto protetor da rede. aparentemente tão indefeso. é que fará com que o Brasil possa finalmente se equiparar aos países que não só utilizam o bambu como um simples recurso econômico. encontra-se fortemente ligado aos seus semelhantes. servindo para inúmeras atividades. Bambu 11 . onde todos os indivíduos se agrupam e se protegem mutuamente. mas não nos damos conta ou imaginamos certo aspecto deste processo. exercendo um papel protetor do solo. Qual seria o grande segredo que os bambus humildemente tentam nos mostrar? Esta planta imponente e majestosa não é constituída apenas da imensa massa verde cuja presença delicia nossos olhos.br bambu é uma planta maravilhosa. De uma indefesa planta. E o faz de uma forma muito mais eficiente do que os Três Mosqueteiros. por décadas. para uma nova e importante geração que agora surge (como se fossem os brotos). e todos eles. adquirida ao longo de toda uma vida. No entanto. pois cada colmo.os pioneiros no estudo do bambu em nosso país. pois são todos por todos! No seminário realizado em 2006 para a estruturação da Rede Brasileira do Bambu. na forma de brotos. muito mais importante do que relatos apresentados de forma isolada e independente. Além de embelezar o meio ambiente. agora surgiu um poderoso e colaborativo grupo. ligados fraternalmente aos rizomas mais velhos. às vezes notamos apenas a imponência dos colmos de bambu ao erguerem-se em uma velocidade de crescimento incrível em direção ao céu. Mas. Este é o segredo que nos ensina o bambu – organizar-se eficientemente como se fosse uma rede.

CiêNCia & teCNoloGia articulação e estruturação definem novo cenário para pesquisas com bambu no País por Dâmares Vaz Rede Brasileira do Bambu-RBB é a principal conquista de profissionais. Proposta de política nacional de incentivo à cultura da planta também representa salto para o setor mbora desenvolvidas desde a década de 1950. pesquisadores e lideranças administrativas vinculados a diferentes instituições nacionais do setor público e privado e interessados na difusão. A instituição é uma das pioneiras no trabalho com bambu no Brasil. Naquele ano. pesquisadores e lideranças administrativas ligados ao bambu. E 12 Bambu . Depois do seminário de 2006. técnicos. O evento foi a etapa inicial do processo de articulação e organização de profissionais. pesquisa e desenvolvimento tecnológico do bambu. técnicos. da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAUUnB). a Universidade de Brasília liderou o processo de constituição da rede. o diálogo e integração entre os variados estudos em curso ganharam impulso com a realização do Seminário Nacional para a Estruturação da Rede de Pesquisa e Desenvolvimento do Bambu (Rede do Bambu). por meio do Centro de Pesquisa e Aplicação do Bambu e Fibras Naturais (CPAB) – originado do Projeto Cantoar. as pesquisas com bambu no País só começam a se estruturar em rede no ano de 2006.

engenharia civil. Política Nacional A estruturação da RBB em 2006 delineou alguns temas estratégicos. cuja eleição ocorrerá no II Seminário da RBB. Em 2008. o salto para as pesquisas com bambu veio com o aporte de R$1. Em 2007. Com informações de Anais do Seminário de Estruturação da Rede de Pesquisa e Desenvolvimento do Bambu. técnica e científica e uma secretaria. crédito rural e comercialização. ele é considerado a primeira política pública de financiamento ao desenvolvimento tecnológico do bambu no Brasil. As pesquisas contempladas representam grupos de diversas regiões do País e áreas de aplicação do bambu. Neles. há pesquisadores de vários campos. manejo sustentável. A intenção dos seus coordenadores é que. Na prática. De acordo com dados do CNPq. Lançado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).180. ele será substituído por um definitivo. Um deles é a criação de uma política nacional de incentivo à cultura do bambu. a RBB é administrada por um conselho gestor temporário formado pelos coordenadores da maioria dos grupos contemplados no edital.8 milhão por meio do edital CTAgro CNPq/MCT 25/2008. Se acatada. Com a medida. Atualmente. A proposta aguarda agora votação pelo Senado. do MCT. Os recursos de capital e custeio já foram liberados. engenharia florestal e engenharia agronômica. empreendimentos que tenham como principal atividade o uso da biomassa do bambu poderão ter acesso às linhas de financiamento públicas e privadas disponíveis para outras modalidades agrícolas. botânica. desenho industrial. que estabelece a Política Nacional de Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu. a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 1. segue para sanção presidencial. Instituído em dezembro de 2009. As bolsas ainda estão em andamento. como arquitetura. A Rede possui um site estruturado. no documento foram aprovadas 12 propostas em quatro linhas temáticas. em agosto de 2010. A proposta foi atendida e a Rede Brasileira do Bambu-RBB formada. organização de Jaime Gonçalves Almeida e Anelizabete Alves de Teixeira Bambu 13 .A Universidade de Brasília apresentou ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) um plano que propunha um orçamento para a implementação da rede em dois anos. o bambu passa a ser considerado um produto agrossilvocultural e poderá receber incentivos à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico. ela assuma a responsabilidade pela proposição dos próximos editais de pesquisa do bambu no País. depois do seminário. fruto do trabalho desta articulação. uma revista de divulgação cultural.

podem ser utilizados na construção civil ou na indústria moveleira. coladas e prensadas. O mercado brasileiro de decoração e design vê com bons olhos a aplicação bem dosada de desenhos em superfícies de móveis e objetos de decoração. bem como em painéis e paredes. Estou empenhado em colaborar para esta etapa de transformação do bambu natural em um produto que possa ser utilizado em inúmeras atividades econômicas”. A técnica permite elevar a matéria-prima a um novo patamar de utilização e também de estética. Délio Martins Cunha é o dono de uma fábrica de máquinas para laminar bambu em Petrópolis. que. Atualmente. Toda a tecnologia de seus equipamentos foi desenvolvida por ele. É uma versatilidade maior que a oferecida pelo bambu em forma natural”. Délio é projetista e fabricante de máquinas especiais para madeira. com potencial para ser empregado em grande escala. “A propagação do uso do bambu em outros segmentos impulsiona a realização de estudos e experiências com a planta. O primeiro contato do projetista com o bambu ocorreu em 2006. a laminação do bambu ainda é nova no Brasil. complementando ou substituindo o uso da madeira em diversos setores. se tornam materiais como pranchas e tábuas. afirma. A laminação do bambu permite exatamente este equilíbrio. As ripas feitas de bambu são cortadas em espessuras de aproximadamente três centímetros por uma máquina específica. experiência que lhe conferiu conhecimentos técnicos sobre todas as fases de transformação até o produto final. “A resistência do BLC permite a criação de móveis leves e que podem ser inseridos em qualquer projeto de decoração. no Rio de Janeiro. As vendas são feitas no País por encomenda. pesquisa e fabrica maquinário para o beneficiamento do bambu. por sua vez. O cliente descreve o material a ser utilizado e o produto final que tem como objetivo e Cunha projeta e monta as máquinas adequadas.” Délio destaca que o BLC é um produto resistente e de beleza incomparável. afirma Cunha. A partir daí elas são coladas e prensadas para formar blocos de bambu.iNdúStria País dá primeiros passos no uso industrial do bambu T ecnologia empregada largamente em países da Ásia e América Latina. Bambu O maquinário de Délio é feito de materiais simples e pode ser encontrado facilmente no mercado interno. “Conheci as várias utilizações da planta e os benefícios para a sociedade e passei a ter contato com pessoas que mostravam interesse no beneficiamento do material e na ampliação de sua aplicabilidade. chamados bambu laminado colado (BLC). “A difusão da aplicação do bambu será boa para quem trabalha e investe neste ramo”. O processo consiste na transformação da planta in natura em lâminas que. aposta. que as desgasta até eliminar a sua curvatura. por Neyfla Garcia tecnologia de produção de laminados de bambu pode oferecer alternativas ao uso da madeira para os setores da construção civil e da indústria moveleira 14 divulgação . Antes trabalhava na extração e beneficiamento de madeira.

e setor energético e químico. O consumo mundial de derivados da planta movimenta cerca de US$10 bilhões. cujo consumo vem aumentando nos últimos anos. Máquina transforma bambu em ripas. as informações sobre o uso do material são escassas e a percepção geral que a sociedade brasileira tem do bambu ainda é restrita ao artesanato tradicional associada à confecção de móveis e peças de decoração. No Brasil. As características do material favorecem ainda uma produção mais limpa. de celulose e alimentícia. como construção civil. inovação tecnológica e políticas públicas de incentivo à cadeia produtiva e de valor da planta. condições inerentes a um modelo de desenvolvimento sustentável que atenda às demandas sociais e ecológicas de países em desenvolvimento como o Brasil. As possibilidades oferecidas pelo bambu são imensas. localizada e barata. a planta é matéria-prima substituta em diversas finalidades produtivas em vários segmentos econômicos. é preciso avançar em aspectos como financiamento e integração das pesquisas. que mais tarde formam o BlC divulgação Cunha trabalha com bambu desde 2006: máquinas projetadas e montadas de acordo com a necessidade do cliente Bambu 15 divulgação . valor que deve duplicar até 2015. artesanato. Em países orientais e latino-americanos. um bilhão de pessoas tira seu sustento direta ou indiretamente do bambu.Industrialização ainda é incipiente Em todo o mundo. para suprir esta demanda. Um mercado que se abre para o País é o de aglomerados e laminados de bambu. A industrialização da planta no País também é incipiente. No entanto. indústria moveleira.

só é permitido plantar espécies nativas. o conhecimento deste aspecto é crucial. alimento ou mesmo para uso puramente ornamental. espécie nativa 16 Bambu . de propósito ou acidentalmente. Quando se introduzem mudas ou sementes não somente as mudas ou sementes são introduzidas. Não é verdade. Portanto. porque o status nativo/exótico é reconhecido por lei. Introduzir organismos numa região onde eles não são nativos é sempre um grande risco. a le- Guadua paniculata. seja como fonte de matéria prima. Por que é importante reconhecer o status de procedência de uma espécie? Primeiro. incluindo pragas e doenças. os bambus exóticos foram introduzidos no Brasil com o objetivo de serem utilizados para diversos fins. Neste caso. Suas populações (ou plantações) sofrem intervenções humanas em diversos níveis e muitos não sobrevivem sem a ajuda do homem. em um programa de reabilitação ecológica de determinada área. sem nenhuma aplicação prática.br M Botânico analisa riscos da introdução de espécies exóticas e fala dos aspectos que devem ser levados em conta na hora de decidir que tipo de bambu plantar no País gislação atual proíbe o uso de espécies exóticas na recuperação de áreas degradadas e encoraja o uso sistemático de nativas.eSPeCial Bambus nativos versus bambus exóticos Tarciso S. muitos outros organismos são simultaneamente introduzidos. Já os exóticos seriam aqueles que foram introduzidos. As populações naturais. Filgueiras tfilg@uol. Bambus nativos podem ser conceituados como aqueles que crescem espontaneamente no território de determinado país ou região. Seu desconhecimento pode representar prejuízos e atrasos na condução do projeto ou mesmo inviabilizálo. em outra região que não a de sua ocorrência natural. Inadvertidamente. De um modo geral. neste caso. As implicações práticas deste status são grandes e imediatas. contenção de erosão.com. algumas pessoas que trabalham com bambus acham que uma discussão sobre bambus nativos versus bambus exóticos é totalmente irrelevante e tem apenas um leve interesse acadêmico. Por exemplo. se desenvolvem totalmente independentes da interferência humana. Os serviços de quarentena nem sempre são capazes de detectar a presença de organis© dalva Graciano uito provavelmente.

No passado. as espécies introduzidas representam uma estreita faixa de variação genética de sua espécie. passageiro.Mesmo com controvérsias. dentro do contexto correto e da finalidade que se almeja. registrados no Index Herbariorum) de sua ocorrência no território nacional (Acre? Mato Grosso?). ou até outra. por conta das relações de competição entre as espécies e suas complexas relações com o meio onde vivem. A introdução de espécies nativas de um determinado país numa região dentro do próprio país onde elas não ocorrem naturalmente também pode trazer problemas ecológicos sérios. Já as espécies nativas representam o patrimônio genético do país e contêm toda a variabilidade encontrada na natureza. via de regra. muitas vezes clandestinamente. em razão de suas dimensões continentais. Isto simplesmente não é verdade. e não apenas seu interesse pessoal. Com as crescentes facilidades de comunicação entre os continentes. Até que essa comprovação seja fei- © dalva Graciano ta. há diversos relatos anedóticos (sem comprovação científica. O que deve ficar claro. está indo bem. a falta de observação cuidadosa desses aspectos ensejou o aparecimento de muitas pragas e doenças sérias que vieram associadas com germoplasma introduzido. ou do norte para o sul. com estreitíssima base genética. Ele precisa levar em consideração a questão ecológica nacional como um todo. angustifolia deve ser considerada exótica mos que depois se tornam prejudiciais. Cada qual tem seu valor. as autoridades fitossanitárias precisam ficar cada vez mais atentas para detectar potenciais fontes de futuros problemas nesta área. Um caso para se pensar é o de Guadua angustifolia. ainda não descrita. Guadua angustifolia deve continuar sendo considerada uma espécie exótica. O estudioso de bambus que tem consciência ecológica não pode fazer introduções de maneira irresponsável e apenas para atender ao capricho de possuir algo diferente e que ninguém tem. angustifolia seja. especialmente no Brasil. por meio de espécimes depositados em herbários de acesso público. na verdade. além das populações nativas. A espécie é nativa da Colômbia. a correta identificação de uma espécie é um dado fundamental para o posterior reconhecimento de seu status como nativa ou exótica. no entanto. Existe sempre a possibilidade de que o bambu que algumas pessoas chamam de G. uma espécie próxima. A presente discussão não pretende insinuar que os bambus nativos são bons para todos os usos e finalidades e que os exóticos são vilões que devem ser eliminados. Como se vê. Às vezes uma única planta dá origem a milhares de populações clonais. Há alguns anos. Bambu 17 . Trazer espécies do sul para o centro-oeste. passou a ser cultivada no Brasil e. onde. há extensas plantações comerciais. No entanto. G. tem o potencial de espalhar doenças e pragas que antes tinham distribuição restrita ou estavam sob controle local. segundo avaliações preliminares. Esta variabilidade tem que ser investigada e seus eventuais produtos colocados a serviço do bem estar de todos os brasileiros. é que.

O material é amplamente utilizado em diversas partes do planeta. A difusão das tecnologias de utilização do bambu pode ser um valioso instrumento para gerar trabalho e renda. Arquitetos de todos os continentes redescobriram a planta e passaram a usá-la em modernas obras. Cerca de 140 espécies de bambu. pesquisas na construção civil avalizaram estas características. Projeto de mirante no Parque Guadua. tanto pelo aspecto econômico como. o material passa por um redescobrimento e ganha espaço no projeto de arquitetos de todo o mundo epensar o consumo de materiais na construção civil para torná-la mais sustentável traz a demanda por novas alternativas. De acordo com um estudo elaborado pelo pesquisador do Serviço Florestal Brasileiro do Ministério do Meio Ambiente Sérgio Alberto de Oliveira Almeida.5 bilhões de pessoas comercializam e utilizam o bambu em todo o mundo. são utilizadas no mundo sob forma industrial ou artesanal.PaNoraMa o antigo e o moderno se encontram no bambu por Neyfla Garcia Utilizado há milênios por diversas civilizações na construção de casas e templos. notadamente em países em processo de desenvolvimento na Ásia. Uma construção de bambu pode baratear uma obra em até 50% e apresentar durabilidade superior a 25 anos. mais de 2. requer matéria-prima em abundância. por sua resistência. América do Sul e América Central. risaralda. intensivas em mão de obra e de fácil aprendizagem. principalmente nas áreas rurais. Neste cenário. também. Colômbia R 18 Bambu divulgação . de um total de 1. São técnicas que exigem pouco investimento de capital. no entanto.3 mil espécies. Nos últimos anos. O emprego maciço da planta. o bambu desponta como uma matéria-prima promissora. Von Pereira.

é um exemplo moderno. os produtos manufaturados de bambu movimentam US$ 7 bilhões. foi possível ver. com vãos enormes tensionados com cordas de bambu. encontram-se construções em formas de potes. capazes de resistir a terremotos sem grandes danos. este material tem sido amplamente utilizado. as finalidades são múltiplas. na estrutura de templos em vários países. em Agra. Bambu 19 . A parte interna do telhado do aeroporto de Madri. US$ 400. em média. na Índia. na Espanha. destacam-se na utilização da planta Colômbia e Equador. É o caso do Taj Mahal. Já na China. cuja abóbada em metal foi estruturada recentemente em substituição à estrutura milenar de bambu. atrai a atenção de quem passa pelo lugar. Já uma casa de alvenaria não sairia por menos de US$ 10 mil. Além disso. Estas edificações acabaram se revelando altamente resistentes. Na América do Sul. culturas em que o uso da planta é milenar. escadas e janelas. na prática. Nas construções. Na Índia e na China.escola colombiana utiliza técnica tridimensional com treliças de bambu na construção do teto divulgação Calcula-se que mais de um bilhão de pessoas viva em casas de bambu. a economia com o uso do material. Treliças de telhado. Revestido com o material. Os exemplos mais antigos da utilização da planta em construções encontram-se na Ásia. Para se ter uma idéia. que adotaram o bambu na construção de casas populares. no Equador uma casa popular feita de bambu custa. estruturas de vigas.

mente 500 colmos por ano. barata e acessível para é fundamental para pequenos agricultores. O rendimento ções. inovações. o professor Marco Antônio dos Reis Pereira. a irrigação contribuiu para o restrita a usos como artesanato. elaborou um projeto de pesquisa da utilização do bambu para a fabricação de tubos de irrigação em pequenas propriedades rurais. compequenas construções. embora sua exploração ainda esteja cas agrícolas. Na década de 1990. do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp/Bauru). “Aplicada com outras técniBrasil. usado para caracterizar necer uma alternativa sima biomassa: tecnologia ples. Embora nova no Brasil. a técnica é largamente usada na China e tem como objetivo foranalisador elementar. No propriedades. da construção de sistemas de irrigação até a geração de energia limpa e renovável por Neyfla Garcia aplicação do bambu na geração de energia 20 Bambu Wilhelm abud Klei esistência. agricultura e aumento da produção de alimentos”. o material fonte de renda sustentável nas pequenas conquista espaço em outros segmentos. Tradicionalmente usado na produção das plantações levou o pesquisador a perde uma variada gama de artefatos úteis ou ceber que o material podia se tornar uma decorativos e na construção civil. é possível identificar pleta Marco Antônio. nlein R . durabilidade e poder caA Unesp realiza o plantio experimenlorífico – características do bambu tal de espécies prioritárias de bambu desde que atraem os homens há milênios 1990 e seus bambuzais geram aproximadae que vêm ganhando novas aplica.aPliCaÇão inovação na utilização do bambu no País amplia importância do material Pesquisas apontam novos usos para a planta.

por meio da criação de empregos e da geração de receita. Além da produção de álcool. A maior resistência dos colmos de bambu ocorre entre os três e os sete anos. os estudos nesta área são recentes. O aproveitamento energético e racional da biomassa tende a promover o desenvolvimento de regiões menos favorecidas economicamente. Uma das principais vantagens da biomassa é que seu aproveitamento pode ser feito diretamente. “O bambu é usado para as mais diversas atividades e agora estamos descobrindo esta forma de usá-lo e como adaptá-la a nossa realidade”. a biomassa apresenta grande potencial para a geração de energia elétrica. Depois.O bambu utilizado na construção do sistema de irrigação pode ser plantado na propriedade rural. reduzindo o problema do êxodo rural e a dependência externa de energia. Sistema de irrigação feito de bambu pode durar até seis anos divulgação Bambu 21 divulgação . explica Severiano Filho. “Estamos em fase de estudo. diz o professor. De acordo com o professor do Departamento de Engenharia Mecânica da UFPA Severiano da Silva Lima Filho. o que dá um total de 12 a 16 metros úteis por colmo. quantos quilowatts serão gerados e qual a capacidade de abastecimento. não é a melhor aplicação para o bambu”. caldeiras e outros usos não-comerciais. os furos nas tubulações são feitos. técnicas e fontes que aumentem a eficiência na produção de energia é uma demanda deste novo tempo. O corte no colmo deverá ser feito a 20 cm do solo e logo acima de um nó. A durabilidade do sistema varia de um a seis anos. Há dois anos. verificar os primeiros resultados da utilização do bambu como energia elétrica. de acordo com a manutenção. O desenvolvimento de novos processos. para evitar o aparecimento de trincas. Como fazer um tubo de irrigação de bambu Os cuidados devem começar na colheita da planta. instalados. a Universidade Federal do Pará (UFPA) desenvolve pesquisa sobre a viabilidade deste uso em regiões com grande disponibilidade da matéria prima. A universidade consegue. A secagem do material deve ser feita à sombra. os tubos conectados e os aspersores. Cada colmo pode render até quatro tubos de quatro metros de comprimento. no entanto. “Estudos do Laboratório de Experimentação com Bambu da Unesp demonstram que a utilização da planta no artesanato ou seu beneficiamento e transformação em bambu laminado colado (BLC) agregam mais valor ao material. o que permite autonomia ao produtor. queima em fornos. os colmos devem ser cortados em seções de quatro metros. de forma a evitar a entrada de água e o apodrecimento da parte do colmo que ficou na touceira. pontua Marco Antônio. por intermédio da combustão em fornalhas e caldeiras. estamos fazendo uma caracterização do projeto – avaliamos qual é a quantidade necessária de matéria-prima para a produção de energia. Primeiro. em termos de geração de renda. De acordo com a pesquisa. “Mas. a prática é viável e não apresenta custo industrial. A modernização e a globalização têm trazido mudanças no padrão de consumo das populações urbanas e rurais. A fase posterior é a instalação da tecnologia nas regiões que abrigam plantações de bambu”.” Energia A utilização da biomassa do bambu como fonte geradora de energia é outra aplicação que ganha força. Traz ainda o diferencial de ser uma fonte renovável e limpa. Depois da remoção e limpeza interna dos nós.

Parte da densa experiência no manejo da planta adquiriu com colegas da Colômbia. contrabaixos e peças artesanais de bambu há 10 anos.deSiGN Bambu sem fronteiras por Dâmares Vaz das técnicas mais simples às tecnologias mais avançadas. criado e executado pelo artesão e lutiê Carlos Melo 22 Bambu © Jaime G. artesãos e arquitetos comprovam a versatilidade do material P ara o artesão Carlos Melo. de almeida . A versatilidade do material comprova isso. de almeida Protótipo de violino de bambu. Desenvolvi ainda uma metodologia de ensino que facilita a apreensão de conhecimentos sobre a produção de itens com a planta. fabricação de móveis e objetos de decoração. a planta se adéqua aos mais diferentes usos. Começou a trabalhar com o material numa época em que foi consultor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. na área de design e artesanato. Fez o pri- meiro violino em 2003.” Melo dá aulas de artesanato e produção de instrumentos e vem ministrando cursos em universidades. Tão versátil como a planta. e o baixo. Alimentação. artesanato. Do uso mais simples até aquele que exige tecnologia avançada. país referência na América do Sul no uso e desenvolvimento tecnológico do material. o bambu tem dois extremos. o Sebrae. o também lutiê. Carlos Melo foi o pioneiro na fabricação de violino e contrabaixo com o bambu laminado colado (BLC) no País. organizações não governamentais e prefeituras de todo o Brasil. a Oré Brasil dá uma ideia a mais do que é pos- © Jaime G. “As técnicas para trabalho com bambu são simples. O bambu se adéqua a todos estes fins. diz ele. Suas peças são revendidas por lojas da capital paulista. “Serve tanto para os ricos como para os pobres”. construção civil. em 2005. Também pioneira no País no uso do bambu sob a forma de laminados. músico e escultor Melo produz violinos.

A Oré e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). triplicou desde 2006. “Conseguimos produzir lâminas suficientes para o trabalho. Outra razão é a ausência de bambuzais comercias no País. espécies divulgação oré Brasil que têm diâmetro maior e apresentam maior rendimento de laminados. Foggiato avalia que parte do caminho já foi trilhado. que inclui as etapas de colheita. Embora ainda haja gargalos no desenvolvimento tecnológico do bambu. Aí se enquadra a Oré Brasil. campus de Bauru. em média quatro anos. Um de seus donos. A principal razão da estruturação da rede encontra-se no preço do bambu.Paulo Foggiato: parcerias entre iniciativa privada e universidades são necessárias para desenvolvimento tecnológico do bambu sível fazer com o material. há um projeto para a instalação de uma rede de fornecedores. a ser formada por pequenos agricultores. Mesa Jabuti: Base em multi-laminado de bambu e tampo de aglomerado de pinus revestido com bambu. Estes agricultores também têm sido orientados quanto ao tempo necessário para que o bambu se torne maduro para ser comercializado. impulsionadas por incentivos governamentais e também pelo esforço da iniciativa privada. “Ele viu meus desenhos e pediu que eu fabricasse protótipos. “Busca-se aperfeiçoar as técnicas hoje existentes para o procedimento”. de acordo com Foggiato. que viria a se tornar seu sócio na formação da Oré. Desde aquela época. Outra pesquisa abrange o tratamento do bambu para evitar fungos e insetos. O bambu usado pela Oré vem do Paraná. de acordo com a espécie. já são quatro anos dedicados à pesquisa de todo o processo do bambu e o uso em escala industrial. criada em 2009 pela oré Bambu 23 divulgação . Santa Catarina e São Paulo. e outros processos. que selecionou produtores interessados e com terras disponíveis para o cultivo da planta. o arquiteto Paulo Foggiato. pelo menos na Oré. dedica-se ao desenho de móveis desde 2006. As mudas virão de São Paulo e serão distribuídas pela Oré. trabalham juntas em pesquisa relativa ao estabelecimento de normas técnicas para o bambu. afirma o arquiteto. Pesquisa Se por um lado as técnicas para a produção de artesanato de bambu são simples. Foi quando conheceu o industrial catarinense Reinaldo Baechtold. É feita em parceria com a Universidade Estadual de São Paulo.” De acordo com o arquiteto. beneficiamento – melhor forma de corte e como evitar o desperdício. com a designação das características físicas e mecânicas da planta. por exemplo. Vinte propriedades já estão mapeadas. O plantio deve ocorrer ainda este ano. As pesquisas com bambu no País começaram a se estruturar a partir de 2006. A Oré trabalha com os bambus gigante e mosô. e também com o mandaqui. No litoral de Santa Catarina. algumas parcerias podem contribuir para mais avanços. que. Gostou e então viramos sócios”. O levantamento foi feito pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural do estado (Epagri). como secar. por exemplo – como tratar. o uso do material de forma industrial exige desenvolvimento tecnológico. conta Foggiato. que apresenta coloração e textura uniformes e é mais usado para revestimentos.

artesão mineiro que se dedica à inclusão de populações carentes por meio do bambu .arteSaNato trabalho de artesão exibe o poder do bambu social há mais de duas décadas o mineiro lúcio Ventania dedicase à capacitação de comunidades pobres de todo o Brasil para a produção de artesanato de bambu por Dâmares Vaz e Lydia Costa © lydia Costa 24 Bambu lúcio Ventania.

Também compunham as turmas grupos de arquitetos. Lúcio detectou que as bambuzerias formadas sofriam um colapso depois de dois ou três anos. que desenvolveria um produto exclusivo para cada bambuzeria. A segunda. Na hora em que o item chega ao mercado. organização da sociedade civil de interesse público voltada para o desenvolvimento técnico e científico do bambu. paisagistas. Outro eixo era a formação de cooperativas. o seu reconhecimento. ambientais e religiosas. Foi estabelecido então um núcleo de design.” Cerbambu – de volta ao lar Depois de mais de 20 anos de trabalho percorrendo o País. haverá um viveiro Bambu 25 . e apresentá-lo como um produto agrícola capaz de suprir necessidades econômicas. e foi produzido largamente nas cidades de Cajueira. A primeira é que a planta tem potencial enorme para promover a inclusão social de populações carentes. conta Ventania.” Ventania explicita que o artesanato tem papel importante na sociedade. engenheiros. Uma pesquisa revelou também que a falência ocorria no auge do sucesso comercial das cooperativas. o consumidor não quer saber se foi feito em um projeto social. Uma vertente do projeto era a capacitação técnica de pessoas excluídas do mercado de trabalho. A população que nós focamos não está capacitada para as responsabilidades do mundo empresarial. mulheres de baixa escolaridade. © lydia Costa Cerbambu será inaugurado em setembro: na estrutura. o objetivo era acabar com a imagem que o bambu tinha. com o apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Nacional e as sedes regionais. um centro de referência da planta. Lúcio Ventania voltou para Minas Gerais. artesanato e movelaria. “No início. A segunda vertente relacionava-se ao cultivo da planta em larga escala.” O programa atendeu cerca de 60 comunidades em todas as regiões do País. quer. “Para o desenvolvimento da cultura do bambu no Brasil. em volume suficiente e próxima às comunidades. obter trabalho e renda de uma maneira ecológica e sustentável. Em Ravena. ganhou o prêmio Planeta Casa. em 2001.” mercado As ações do programa foram dando certo.V inte anos de trabalho com bambu deram ao artesão Lúcio Ventania duas certezas. Sabará. qualidade e um produto funcional. a 30 km de Belo Horizonte. de matéria-prima ruim e vulgar. travestis. mas Ventania e a equipe perceberam que a modelagem de produtos seria uma abordagem mais bem sucedida. a aplicação na construção civil. em Alagoas.” A ação começou no início dos anos 90 com as bambuzerias. Ventania está à frente do Programa de Desenvolvimento do Ciclo do Bambu no Brasil desde 1986. A inauguração está prevista para setembro. da Editora Abril. com ênfase no artesanato. meninos de rua. como manter a pontualidade na entrega e a qualidade dos produtos e cumprir leis trabalhistas e tributárias. “A ideia era que as pessoas pudessem. sociais.” O item gerou trabalho e renda por mais de 10 anos para mais de 80 famílias ex-cortadoras de cana-de-açúcar. reunidas na bambuzeria Capricho. cooperativas sociais de produção e comercialização de produtos de bambu. principalmente para o homem do campo. União dos Palmares e Cururipi. a partir da utilização do bambu. Ao longo do trabalho. mas precisa ser exercitado e valorizado como arte e não como simples atividade alternativa. prostitutas. “As turmas atendidas eram formadas por trabalhadores rurais desempregados. no entanto. falta capacitação para aproveitar tudo o que o material oferece. isto sim. “Os produtos têm que ter acabamento fino para poder competir no mercado com os produtos industrializados. O objetivo do espaço é fornecer uma estrutura e suporte técnico e científico à cadeia produtiva do bambu. Diretor da bambuzeria Cruzeiro do Sul. jovens em conflito com a lei”. “Um dos produtos. aposentados e pessoas simplesmente interessadas no bambu. o cabide de bambu. “Os problemas começam a surgir neste momento de sucesso. precisamos de matéria-prima em condições fitossanitárias adequadas. o artesão instalou o Cerbambu. por pobres ou ricos. estudantes.

O A mais antiga informação que existe sobre itens feitos de bambu. Na China. Na ceifa do bambu.C. a área cultivada não sofre degradação. condado de Qingshen. sequestra três vezes mais carbono que outras espécies vegetais e pode ser utilizado para reflorestamento. dependendo da espécie. como esteiras e cestas. E um dos primeiros radicais ou elementos da escrita chinesa é. a paisagem ou a plantação. fabricação de tecidos. de forma surpreendentemente rápida. os colmos. A utilização da planta no país começa a ser relatada no período entre 1600 a 1100 a. Explicando – é possível fazer a colheita anual sem impactos sobre o meio ambiente. Qinshen China Bamboo art City. o bambu se configura como matéria-prima utilizada em construções antigas e modernas.. de almeida ChiNa a civilização do bambu a tradição milenar e o desenvolvimento tecnológico avançado são algumas marcas da relação da sociedade chinesa com a planta por Dâmares Vaz © Jaime G. província de Sichuan. avó e bisavó e quem a cultiva. em antigos caracteres chineses. na província de Zhejiang. Pontes. Diversidade No país. templos. foi desencavada das ruínas de Hemodu e Shishan. casas. que continuará cheia de colmos mais jovens. e remonta ao período Neolítico. filha. medicina. produção de fármacos e cosméticos. O povo chinês enxerga na planta uma família composta por mãe. A cada ciclo. Alimentação. homem e bambu estão unidos desde os tempos pré-históricos. surgem vários filhos novos. estuda ou apenas observa sabe que a “família” aumenta todos os anos. saem do estágio de broto comestível para alcançar uma altura de até 30 metros. 5 mil anos atrás. Os chineses aprenderam cedo que o bambu protege o solo. um desenho de bambu. papel e artesanato. de almeida personagem do texto do explorador americano William Edgar Geil é um chinês e o relato do viajante expressa a importância do bambu na cultura daquele país. que. China 26 Bambu .CUltUra © Jaime G. justamente. obtenção de carvão. como fonte de alimento e ainda matéria-prima de qualidade para diversos fins. Os colmos bisavós podem ser colhidos anualmente sem alterações na estrutura da família. os usos são múlti- tecelagem de quadro com fios de bambu em preto e branco. todos erguidos com estruturas feitas da planta.

emprego e sustento das populações étnicas ou tradicionais. Não por acaso. Com informações de: • Bambu de corpo e alma. organização de Jaime Gonçalves almeida e anelizabete alves de teixeira Um homem pode acomodar-se em uma casa de bambu sob um teto de bambu. na outra mão pauzinhos de bambu. ou transportaria suas coisas numa cesta de bambu suspensa por uma vara de bambu. Beraldo. e ele pode abanar-se a si próprio com um leque de bambu. the gift of the gods. beber água de uma concha de bambu. a grande variedade de objetos feitos exclusivamente de bambu ou consorciados a outras matérias-primas. com uma caneta de bambu. pelos inúmeros benefícios diretos na geração de renda. r. a este uso. soma-se o aprimoramento da capacidade tecnológica e da qualidade da produção. China plos. com colaboração de Betty Feffer • Bamboo. e coçar-se com uma raspadeira de bambu. Seu filho pode repousar num berço de bambu. Os produtos derivados deste recurso florestal apresentam duas características marcantes.alunos de escola primária praticando trançado com bambu. como o International Network for Bamboo and Rattan. tirar uma sesta em uma cama de bambu. ter em uma das mãos uma tigela de bambu. Estas populações conseguem empregar tecnologia artesanal com sustentabilidade ambiental e econômica e. A segunda também relaciona-se à diversidade. o Inbar. de oscar hidalgo-lópez • anais do Seminário de estruturação da rede de Pesquisa e desenvolvimento do Bambu. em uma cadeira de bambu a uma mesa de bambu. Ao levantar-se ele fumaria um cachimbo de bambu e. William Edgar Geil Bambu Ode ao Bambu 27 . Pereira e antonio l. Ele pode então fazer uma caminhada sobre uma ponte suspensa de bambu. as atividades em torno da planta são reconhecidas pela sua contribuição sociocultural e. A primeira. com sua cabeça repousando sobre um travesseiro de bambu. dos tradicionais aos que exigem processos tecnológicos avançados. com um guarda-chuva de bambu sobre sua cabeça. Quando ele terminar sua refeição. nas civilizações fundadas sobre o bambu. brincando com um brinquedo de bambu. a mesa pode ser lavada com um tecido de bambu. e comer brotos de bambu. escreveria em papel de bambu. que foi cozida em fogo de bambu. Historicamente. de Marco a. deitado sobre uma esteira de bambu. a China domina o uso pleno do bambu e abriga centros de pesquisa importantes. com um chapéu de bambu em sua cabeça e sandálias de bambu em seus pés. e o China Bamboo Research Center (CBRC). ao mesmo tempo. especialmente. Ele pode. mas diz respeito à multiplicidade de sistemas e estruturas de produção e comercialização e dimensões organizadas em matrizes artesanais tradicionais e modernas ou industriais avançadas.

no período de seca. como os rios ficam sem vazão. Mas. o engenheiro agrônomo Rogério Almeida. da Agência de Desenvolvimento Econômico e Social de Caldas Novas. o que está de acordo com a lei. Mas um ano é muito pouco para a obtenção de resultados definitivos”. e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Senador Canedo. É financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os primeiros resultados estão saindo este ano e indicam que a água alcança o grau de pureza determinado pela legislação. De acordo com o coordenador da pesquisa. cidade a 22 km de Goiânia (GO). no entanto. O estudo citado é desenvolvido há três anos por uma equipe formada por representantes da Universidade Federal de Goiás (UFG). “O tratamento com bambu é complementar. As Etas garantem 85% de eficiência no tratamento do esgoto. Este líquido volta aos mananciais e tem que cumprir exigências de qualidade. da Goiasindustrial. À medida que mais informações são dadas sobre a pesquisa e seus resultados. da UFG. explica. a poluição de mananciais por esgotos. ocorre a concentração de massa 28 Bambu Pesquisa visa analisar comportamento do bambu na disposição final do esgoto já tratado em estações de tratamento . da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás (Semarh). a ideia é analisar o comportamento do bambu na disposição final do esgoto já tratado em estações de tratamento de esgoto (Etas). da Embambu Agroindústria.Meio aMBieNte Bambu versus esgoto por Dâmares Vaz O estudo desenvolvido por pesquisadores de Goiás demonstra eficiência da planta no tratamento de efluentes industriais e domésticos e na proteção dos corpos hídricos divulgação embambu nome é um tanto quanto complicado e não diz muito para leigos – Disposição de efluente de estação de tratamento de esgoto industrial em solo vegetado com bambu. maior é a facilidade para entender como o bambu pode se tornar uma solução sustentável para um grave problema ambiental. do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Bambu 29 . Além do aspecto ecológico. “O projeto é que cada estação tenha um bambuzal e que esta água tratada retorne ao manancial via lençol freático.”. embora seja considerado complementar. um dos mais importantes do Centro Oeste. Nestes processos. e não como ocorre normalmente. geralmente o solo.” A norma estabelece que os efluentes só poderão ser lançados em mananciais depois de tratamento adequado e que as concentrações de contaminantes não podem ultrapassar os limites impostos pela lei e. o Ministério da Saúde recomenda o uso de fossa ou tanque séptico. econômico e social. em um ativo. responsável pela purificação dos efluentes. Estas lavouras também se tornam fonte de matéria-prima para as comunidades próximas. elevar os níveis nos corpos receptores acima dos limites estabelecidos. O bambu encontra nas Etas um ambiente propício ao seu desenvolvimento. com o envolvimento das comunidades próximas às plantações para a produção de itens a partir deste bambu. nutrientes e calor em abundância. há a parte do bambu social. a pesquisa conquistou o Prêmio Crea Goiás de Meio Ambiente. da Embambu. os efluentes são purificados pelo sistema de raiz de várias espécies vegetais. explica que a plantação de bambu gera uma cobertura de raízes sobre o solo. Alejandro Luiz Pereira da Silva e Dario João de Mendonça Bernardes. na produção de artesanato. Bambu social O tratamento de esgoto por meio de plantas é feito em várias partes do País e do mundo. Com a introdução de raízes. por despejo”. em 2006. onde fica depositada a parte sólida do esgoto – que corresponde a menos de 10% do total – e de um sumidouro. conjunto que acaba desempenhando o papel de “peneira biológica”. O engenheiro agrônomo Roberto Magno. complementa Rogério. Em 2009. “Os resultados preliminares da pesquisa atendem à Resolução 357 do Conama (Conselho Nacional de Meio Ambiente). “O eixo da pesquisa é a transformação de um passivo ambiental. “O que se pretende observar é se a planta cresce mais rapidamente nessas condições. diz Rogério. A parte líquida vai para o bambuzal e a sólida fica no tanque séptico. por exemplo. a ideia é que essas pessoas se organizem em cooperativas ou associações e passem a utilizar este bambu como fonte de geração de renda. Mas com o bambu abre-se mais uma possibilidade – o aproveitamento do material para a produção de bens de divulgação embambu alto valor agregado e geração de emprego e renda. o sistema apresenta autossuficiência no tratamento de esgotos industriais e domésticos. explica Roberto. usando efluentes domésticos e industriais na irrigação e adubação do bambu.Bambuzal gera cobertura de raízes sobre o solo que acaba desempenhando o papel de “peneira biológica” orgânica e contaminantes. visando à geração de renda”. a eficácia deste sumidouro tem ganhos. Para o tratamento de efluentes. o esgoto. Neste aspecto. Roberto pontua que. tampouco. *A Fitorremediação como exemplo das possibilidades de políticas públicas de inclusão social foi apresentada originalmente no Seminário Nacional para a Estruturação da Rede de Pesquisa e Desenvolvimento do Bambu. com água. pelos pesquisadores Francisco de Assis Machado.

2 colheres de sopa de toucinho defumado.aliMeNtaÇão Praticidade e alto valor nutritivo fazem deste prato uma ótima opção ico em proteínas. Derreta a manteiga e o toucinho defumado em uma panela. 200 g de broto de bambu. que divulgação começam assim que ele nasce. As bainhas e as partes mais rígidas e fibrosas são descartadas. adicionando as ervilhas e o sal. minerais. 30 Bambu . Em seguida despeje o arroz. Na alimentação. aproveitam-se apenas as partes mais tenras. tampe e só retire a panela do fogo quando a água evaporar. amargos ou ligeiramente ácidos. carboidratos. Fonte: Bambu – Técnicas para o cultivo e suas aplicações. e. Na preparação do alimento. devem ser cortados Colheita adequada dos brotos é fundamental para manter qualidade Bambu à brasileira ingredientes • • • • • • 500 g de arroz. Os brotos ficam prontos para ser consumidos depois de duas fervuras. são necessários alguns cuidados prévios. 500 g de ervilhas frescas. o bambu tem ganhado espaço na alimentação dos brasileiros. Está pronto para ser servido. mais apreciados comercialmente. São vários os tipos de brotos que podem ser utilizados. o broto de bambu e um litro de água. de Vera Lúcia Graça R rente ao solo os brotos que estejam com 30 a 50 cm. brancos e muito mais agradáveis ao paladar. Na colheita. consequentemente. amidos e açúcares. Deixe cozinhar por cerca de cinco minutos. A parte comestível deverá ser fervida em água com sal por 15 minutos. não devem ser expostos por muito tempo aos raios solares. Os sabores podem ser doces. modo de preparar Lave o arroz e deixe-o secar. Pegue as ervilhas já descascadas e corte o broto do bambu em pequenas tiras finas. Para que os brotos sejam tenros. Uma fritura em torno de três minutos é o suficiente. 1 colher de sopa de manteiga e 2 colheres de chá de sal.

Os primeiros cinco capítulos tratam de aspectos gerais da subfamília Bambusoideae. Lynn G. Os desenhos ilustram cada passo na confecção do nó. sobre as relações com as populações rurais. outros foram sinonimizados. Filgueiras divulgação Caderno de Nós: amarrações em Bambu Autores: Jaime G. Ximena Londoño & Margaret J. Decorridos mais de 10 anos desde a publicação da primeira edição. Quem precisa aprender a fazer amarrações em bambu vai se beneficiar pela consulta constante a este manual de instruções. Esta publicação. Os autores evitaram a polêmica nomenclatural simplesmente numerando os nós apresentados. fornecendo alguns detalhes dos diversos passos intermediários envolvidos na confecção dos nós. apresenta. Judziewicz. Stern Editora: Smithsonian Institution Press. na qual se classificam os bambus. mas o tema é bastante complexo e. para quem se interessa pelo tema dos bambus nativos no continente americano. muitas mudanças taxonômicas ocorreram neste período. Brasília. 1999. completo. 2 ed. Os autores dissertam sobre as plantas. Em uma possível terceira edição. Washington. Em seguida. Para cada gênero. é apresentada uma “chave” para identificação dos 21 gêneros de bambus de colmos lignificados encontrados em estado nativo no continente. DC. de forma ilustrada. ISBN 1-56098-569-0. pela abrangência da abordagem e pela riqueza de informações nele contidas. 2009 divulgação american bamboos Autores: Emmet J. de Almeida & Rômulo Bonelli Editora: Universidade de Brasília. outra “chave” é mostrada. as paisagens dominadas por elas. seria altamente desejável que as ilustrações fossem acompanhadas de legendas. Fotos coloridas e ilustrações em preto e branco enriquecem o trabalho e ajudam o leitor a reconhecer a morfologia dos diversos táxons. este livro é leitura obrigatória. Apesar disso. instruções de como realizar amarrações de peças de bambu.. partindo do mais simples (primeiro nó) ao mais complexo (sétimo nó). são fornecidos uma boa descrição e um conspecto (resumo) das espécies de ocorrência confirmada. para complicar as coisas. Gêneros novos foram descritos. Esta é a primeira publicação que aborda o amplo tema dos bambus nativos no continente americano. Não parece. Clark. em forma de manual. Em seguida. urbanas e tradicionais e também sobre seu cultivo. tratando dos 20 gêneros de bambus de colmo herbáceo.literatUra Resenha por Tarciso S. Bambu 31 . o chamado Novo Mundo. Uma pequena foto no canto esquerdo mostra cada nó finalizado. Mapas concorrem para uma boa aproximação da distribuição geográfica conhecida dos gêneros dentro do continente americano. há uma rica nomenclatura que designa os distintos tipos de nós executados por técnicos e artesãos.

drenos. 32 Bambu . artesanato e instrumentos musicais. No Brasil. A importância da planta. varia de acordo com a cultura. não diminuiu com o passar do tempo e foi ampliada pelo desenvolvimento tecnológico. utensílios de cozinha. mobiliário. no entanto. na Colômbia e no Brasil. Ao todo. pontes. mais de mil usos e artigos poderiam ser citados. principalmente nos países do sudeste asiático. e na alimentação. conheça um pouco da aplicação do material no Equador. objetos de arte. Embarcações. as culturas asiáticas empregam o recurso florestal há milênios para construir casas. estruturas de casa. Tradicionalmente. um dos primeiros a usar o bambu em construções. em países como equador e Colômbia. Na América do Sul. paredes. o uso é bem difundido. foi utilizado na fabricação de itens diversos e também para suprir demandas variadas. aplicação do material ainda é baixa C Bambu é usado como madeira em construções na Colômbia: Pavilhão Zeri divulgação onhecidas como as civilizações do bambu. cercas. portas e janelas. irrigação. contenção de encostas. Nesta edição. o bambu é conhecido há milênios como a “planta dos mil usos” ou a “madeira dos pobres”.iNterNaCioNal Países da américa do Sul avançam no uso do bambu por Neyfla Garcia Grau de utilização da planta. fabricar utensílios domésticos.

como maior exemplo da aplicação do material no país. estima-se que 50% das casas populares utilizam bambu.divulgação equador é destaque na construção de habitação social com bambu ítios arqueológicos descobertos recentemente no Equador demonstraram que as civilizações pré-colombianas utilizavam o bambu há cerca de 5 mil anos. resistentes a inundações e terremotos. com prioridade para as mulheres chefes de família e de baixa renda. de 1978 até o ano 2000 foram construídas e entregues quase 9 mil casas populares no Equador. e de fácil montagem. o que corresponde a um milhão de pessoas. *Com informações de o Estado da Arte do Uso do Bambu na América Latina S equador é modelo na construção de casas populares com bambu Bambu 33 . um dos menores países latino-americanos. Exporta cerca de U$S5 milhões por ano em produtos manufaturados. financia e fabrica casas pré-moldadas de bambu a um custo médio de U$S385 por unidade. entidade não-governamental. a Fundação Viviendas del Hogas de Cristo. tem 15 mil hectares de bambu nativo e mais 20. O Equador. As construções são leves. Na cidade de Guayaquil. De acordo com a organização não-governamental Bambu Brasileiro.5 mil hectares cultivados. Modernamente.

Manizales. florestamento. o governo da Colômbia constrói escolas públicas com bambu nas cidades e nas áreas rurais. Vélez foi responsável pelo projeto de galpões em muitas fazendas. feira mundial de arquitetura que ocorreu em Hannover. 34 Bambu divulgação . Desde 1981. instala conjuntos habitacionais populares com sucesso. O arquiteto também executou construções monumentais. sem pilares na ponta). em 1998. reflorestamento e industrialização de bambuzais. O país criou. A sociedade tem ainda o propósito de fomentar estudos de plantio. Inúmeras construções centenárias feitas com bambu em cidades históricas comprovam a durabilidade do material ao longo do tempo. e inúmeras residências. capital do Departamento de Caldas. a Sociedade Colombiana de Bambu.iNterNaCioNal Colômbia abriga construções monumentais com o material N a Colômbia. é um exemplo. preservação. além do pavilhão colombiano na Expo 2000. cuja proposta principal é a promoção da utilização dos bambus do gênero Guadua. Alemanha. Simon Vélez e Carlos Vergara simbolizam grandes personalidades nacionais e com renome internacional em projetos arquitetônicos com bambu. Desde 1920. visando o desenvolvimento regional do país e a preservação do meio ambiente. com beirais de telhados ousadíssimos (oito metros de balanço. os nomes de Oscar Hidalgo-López.

é uma das pioneiras no País a utilizar o bambu em construções. Este é o caminho para que o bambu se torne alternativa aos materiais convencionais. “O bambu não é um material de construção efetivo porque não há normas que regulem e disciplinem o uso”. no Brasil. engenheiros e arquitetos que trabalham com a tecnologia. No município de Três Rios. Equador e Tailândia. Mas alguns processos genuinamente brasileiros estão em desenvolvimento. Para o engenheiro civil. as edificações com a planta custam até 40% menos. Há ainda iniciativas experimentais para o desenvolvimento de estruturas de bambu laminado colado (BLC). Este é o panorama brasileiro”. complementa. a viabilidade da utilização do material está condicionada à oferta de matériaprima e de mão de obra. Há vários construtores. “No artesanato. a construção com bambu tem o mesmo custo das convencionais.Uso do bambu no Brasil esbarra na baixa oferta de matéria-prima e na falta de mão de obra especializada A aplicação do bambu em construções no Brasil ainda é incipiente. analisa o pesquisador do Serviço Florestal Brasileiro Sérgio Alberto de Oliveira Almeida. em Brasília. que são grades de bambu preenchidas com material alternativo. afirma o engenheiro civil da Bioestrutura Engenharia. Outra construtora que também trabalha com técnicas colombianas é a Bioestrutura Engenharia. Bambu Protótipo para o pavilhão Zeri em Manizales (Colômbia). Simón Vélez 35 .” Rosalino pontua ainda que. Em países como Colômbia. no Rio de Janeiro. também há estudos para a fabricação de casas populares pré-moldadas. exemplifica. no Rio de Janeiro. Frederico Rosalino. a adoção da planta é bem antiga. para que haja mais plantações comerciais e mais qualificação. Mas o bambu ainda não está incorporado ao mercado da construção civil. como raspas de pneu”. As edificações existentes são na sua maioria iniciativas artesanais estruturadas em técnicas colombianas. “Promovemos palestras e cursos de capacitação para mostrar às pessoas as potencialidades do bambu. A Associação Escola de Bioarquitetura (Ebiobambu). “O Instituto do Bambu em Alagoas construiu um protótipo de casa popular usando compósitos.

estes empreendimentos poderão. O termo não consta no dicionário. Aguarda votação no Senado Federal. foram acompanhadas pelo corpo jurídico e técnico do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Bambu e Fibras Naturais (CPAB) da Universidade de Brasília. documento fruto do I Seminário para Estruturação da Rede Brasileira do Bambu . oficinas artesanais e servem à subsistência familiar. e agora no Senado. na sua maioria.oPiNião Projeto de lei pode retirar bambuzerias da informalidade por Sérgio Alberto de Oliveira Almeida seralm44@hotmail. A falta de incentivo à cultura do bambu foi evidenciada na Carta de Brasília. Surgem no País. O documento. foi apresentado. Todas as ações empreendidas para sua aprovação na Câmara. e foi aprovado em plenário. a ampliação dos negócios esbarra na dificuldade de acesso a crédito e na ausência de plantações sistemáticas de bambu para o abastecimento do mercado. Tem impacto especial para agricultores familiares. mas está bem presente na cultura nacional como o lugar onde se educa e se trabalha com bambu. como figura física ou jurídica. já com parecer favorável do relator. em qualquer banco público ou privado. empreendimentos mais sofisticados. com seis artigos. no entanto. segue para sanção presidencial.180. que passa a ser considerado um produto agrossilvocultural.RBB. no entanto. propiciando o desenvolvimento do comércio local e o aumento na arrecadação fiscal. almeida é pesquisador do Serviço Florestal Brasileiro . crédito rural. Na sua essência. e designa um parque de bambus e espécies exóticas. As bambuzerias brasileiras são. O projeto passou primeiro pelas comissões de Agricultura e de Constitui- B ção e Justiça da Câmara dos Deputados. cria a Política Nacional de Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu. A expressão vem do francês La Bambouseraie. realizado em setembro de 2006. em 2007. promotores do uso da planta em produtos de alta qualidade. texto aprimorado posteriormente pelas sugestões de outros parlamentares e também de instituições como o Ministério do Meio Ambiente. Assim. o Projeto de Lei nº 1. obter empréstimos com taxas de juros e prazos de pagamento nas mesmas condições de qualquer outro financiamento agrícola. o projeto retira o bambu da informalidade e passa a reconhecer todos os que tenham como principal atividade o uso da biomassa da planta. comércio. Este instrumento será um passo importante para a redução das desigualdades sociais e o aumento da renda no setor agrícola. Em qualquer dos casos. apto a receber incentivos à pesquisa e desenvolvimento tecnológico.com 36 Bambu © randal andrade ambuzeria. Se acatado. Como fruto desta carta. manejo sustentável. e demais setores de toda a cadeia produtiva.