Material: Ciências Sociais - 2011 1 – Introdução ao pensamento científico sobre o social 1.

1 – O renascimento Nesta unidade, vamos citar a contribuição de alguns filósofos para a compreensão das transformações sociais que culminaram o desenvolvimento do capitalismo, que é o que pretendemos analisar no decorrer deste curso. A partir do século XV significativas mudanças ocorrem na Europa, começa uma nova era não só para a organização do trabalho, o conhecimento humano também sofre modificações. O ser humano deixa de apenas explicar ou questionar racionalmente a natureza, para se preocupar com a questão de como utilizá-la melhor. Essa nova forma de conhecimento da natureza e da sociedade, na qual a experimentação e a observação são fundamentais, aparece neste momento, representada pelo pensamento de Maquiavel (1469-1527), Galileu Galilei (15641642), Francis Bacon (1561-1626), René Descartes (1596-1650). O pensamento social do Renascimento se expressa na criação imaginária de mundos ideais que mostrariam como a realidade deveria ser, sugerindo, entretanto, que tal sociedade seria construída pelos homens com sua ação e não pela crença ou pela fé. Thomas Morus (1478-1535) em A Utopia defende a igualdade e a concórdia. Concebe um modelo de sociedade no qual todos têm as mesmas condições de vida e executam em rodízio os mesmos trabalhos. Maquiavel em sua obra O Príncipe afirma que o destino da sociedade depende da ação dos governantes. Analisa as condições de fazer conquistas, reinar e manter o poder. A importância dessa obra reside no tratamento dado ao poder, que passa a ser visto a partir da razão e da habilidade do governante para se manter no poder, separando a análise do exercício do poder da ética. Segundo (COSTA: 2005,p.35) as idéias de Thomas Morus e Maquiavel expressam os valores de uma sociedade em mudança, portadora de uma visão laica* da sociedade e do poder.

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1.2. A ilustração e a sociedade contratual

Com a Ilustração*, as idéias de racionalidade e liberdade se convertem em valores supremos. A racionalidade aqui é compreendida como a capacidade humana de pensar e escolher. Liberdade significa que as relações entre os homens deveriam ser pautadas na liberdade contratual, no plano político isto significa a livre escolha dos governantes, colocando em xeque o poder dos monarcas. Os filósofos iluministas concebiam a política como uma coletividade organizada e contratual. O poder passa a ser visto como uma construção lógica e jurídica. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em sua obra O contrato social, afirma que a base da sociedade estava no interesse comum pela vida social, no consentimento unânime dos homens em renunciar as suas vontades em favor de toda a comunidade (COSTA: 2005, p. 48). Rousseau identificou na propriedade privada a fonte das injustiças sociais e defendeu um modelo de sociedade pautada em princípios de igualdade.

Diferentemente de Rousseau, John Locke (1632-1704) reconhecia entre os direitos individuais e o respeito à propriedade. Defendia que os princípios de organização social fossem codificados em torna de uma Constituição. Concluímos que a sociologia pré-científica é caracterizada por estudos sobre a vida social que não tinham como preocupação central conhecer a realidade como ela era, e sim propor formas ideais de organização social. O pensamento filosófico de então, já concebia diferenças entre indivíduo e coletividade, e como afirma (COSTA:2005, p.49) “Mas, presos ainda ao princípio da individualidade, esses filósofos entendiam a vida coletiva como a fusão de sujeitos, possibilitada pela manifestação explícita das suas vontades”.

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1.3 – O pensamento científico sobre o Social;

A preocupação em conhecer e explicar os fenômenos sociais sempre foi uma preocupação da humanidade. Porém a explicação com base científica,é fruto da sociedade moderna, industrial e capitalista. A formação da Sociologia no século XIX significou que o pensamento sobre o social se desvinculou das tradições morais e religiosas. Como afirma (COSTA: 2005, p.18). “Tornava-se necessário entender as bases da vida social humana e da organização da sociedade, por meio de um pensamento que permitisse a observação, o controle e a formulação de explicações plausíveis, que tivessem credibilidade num mundo pautado pelo racionalismo”. Augusto Comte (1798-1857) foi o autor que desenvolveu pela primeira vez, reflexões sobre o mundo social sob bases científicas. Em sua análise sobre o mundo social, compreendia a sociedade como um grande organismo, no qual cada parte possui uma função específica. O bom funcionamento do corpo social depende da atuação de cada órgão. Segundo Comte, ao longo da história a sociedade teria passado por três fases: a teológica, a metafísica e a científica. Concebia a fase teológica como aquela em que os homens recorriam à vontade de deus para explicar os fenômenos da natureza. A segunda fase, o homem já seria capaz de utilizar conceitos abstratos, mas é somente na terceira base, que corresponde à sociedade industrial, que o conhecimento passa a se pautar na descoberta de leis objetivas que determinam os fenômenos. Comte procurou estudar o que já havia sido acumulado em termos de conhecimentos e métodos por outras ciências como a matemática, biologia, física, para saber quais deles poderiam ser utilizados na sociologia. O conhecimento sociológico permite ao homem transpor os limites de sua condição particular para percebê-la como parte de uma totalidade mais ampla, que é o todo social. Isso faz da sociologia um conhecimento indispensável num mundo que, à medida que cresce, mais diferencia e isola os homens e os grupos entre si.

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O seu surgimento ocorre num contexto histórico específico. uma nova área do conhecimento ainda não incorporada ao saber científico. históricas e intelectuais. 4 . Podemos entender a sociologia como uma das manifestações do pensamento moderno. A sua formação constitui um acontecimento complexo para o qual concorrem uma constelação de circunstâncias. com a sociologia. mas representa o resultado da elaboração de um conjunto de pensadores que se empenharam em compreender as novas situações de existência que estavam em curso. a instalação definitiva da sociedade capitalista. por volta de 1830.Transformações sociais no século XVIII O surgimento. As transformações econômicas.2 .a industrial e a francesa . que coincide com os derradeiros momentos da desagregação da sociedade feudal e da consolidação da civilização capitalista. A sua criação não é obra de um único filósofo ou cientista.constituía os dois lados de um mesmo processo. mas são os acontecimentos desencadeados pela dupla revolução que a precipitam e a tornam possível. Surge posteriormente à constituição das ciências naturais e de diversas ciências sociais. políticas e culturais que se aceleram a partir dessa época colocarão problemas inéditos para os homens que experimentavam as mudanças que ocorriam no ocidente europeu. que vinha se constituindo desde Copérnico. O século XVIII constitui um marco importante para a história do pensamento ocidental e para o surgimento da sociologia. ou seja. o mundo social. A dupla revolução que este século testemunha . passa a cobrir. qual seja. A palavra sociologia apareceria somente um século depois. e determinadas intenções práticas. A evolução do pensamento científico.

por último. completamente diferentes das vividas anteriormente por ele.Não constitui objetivo desta parte do trabalho proceder a uma análise destas duas revoluções. A revolução industrial significou algo mais do que a introdução da máquina a vapor e dos sucessivos aperfeiçoamentos dos métodos produtivos. sem férias e feriados. que espalharam produtos para o mundo inteiro. País com pequenas cidades. Ela representou o triunfo da indústria capitalista. Num período de oitenta anos. A formação de uma sociedade que se industrializava e urbanizava em ritmo crescente implicava a reordenação da sociedade rural. Cada avanço com relação à consolidação da sociedade capitalista representava a desintegração. Em alguns setores da indústria inglesa. a destruição da servidão. assim como engajou mulheres e crianças em jornadas de trabalho de pelo menos doze horas. nas quais se concentravam suas nascentes indústrias. mais da metade dos trabalhadores era constituída por mulheres e crianças. desencadeou uma maciça emigração do campo para a cidade. em atividade fabril. a Inglaterra havia mudado de forma marcante a sua fisionomia. o desmantelamento da família patricial etc. a novas formas de conduta e de relações de trabalho. passou a comportar enormes cidades. Este foi também submetido á uma severa disciplina. que possuía um pequeno pedaço de terra. ganhando um salário de subsistência. o solapamento de costumes e instituições até então existentes e a introdução de novas formas de organizar a vida social. A utilização da máquina na produção não apenas destruiu o artesão independente. 5 . as terras e as ferramentas sob o seu controle. convertendo grandes massas humanas em simples trabalhadores despossuídos. com uma população rural dispersa. ou seja. entre 1780 e 1860. capitaneada pelo empresário capitalista que foi pouco a pouco concentrando as máquinas. mas apenas estabelecer algumas relações que elas possuem com a formação da sociologia. cultivado nos seus momentos livres. que ganhavam salários inferiores dos homens. Tais modificações não poderiam deixar de produzir novas realidades para os homens dessa época. A transformação da atividade artesanal em manufatureira e.

uma estrutura de moradias. sua própria literatura. da criminalidade. evoluindo para a criação de associações livres. do infanticídio. mas uma classe específica. possuía trezentas mil pessoas. de serviços sanitários. da violência. do suicídio. faziam-se mais visíveis nas cidades industriais. com consciência de seus interesses. do alcoolismo. Nesta trajetória. a classe operária.A desaparição dos pequenos proprietários rurais. É evidente que a situação de miséria também atingia o campo. 6 . capaz de acolher a população que se deslocava do campo. Um dos fatos de maior importância relacionados com a revolução industrial é sem dúvida o aparecimento do proletariado e o papel histórico que ele desempenharia na sociedade capitalista. tiveram um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas habituais de vida. Manchester. Estas transformações. cinqüenta anos depois. A conseqüência desta crescente organização foi a de que os "pobres" deixaram de se confrontar com os "ricos". de surtos de epidemia de tifo e cólera que dizimaram parte da população etc. formação de sindicatos etc. iam produzindo seus jornais. sem possuir. mas o seu epicentro ficava. por volta do início do século XIX era habitada por setenta mil habitantes. atos de sabotagem e explosão de algumas oficinas. principalmente os trabalhadores assalariados. que possuíam um sabor de cataclisma. começava a organizar-se para enfrentar os proprietários dos instrumentos de trabalho. que constitui um ponto de referência indicativo desses tempos. a imposição de prolongadas horas de trabalho etc. nas cidades industriais. As manifestações de revolta dos trabalhadores atravessaram diversas fases. local para onde convergiam todas estas modificações e explodiam suas conseqüências. roubos e crimes. Estas cidades passavam por um vertiginoso crescimento demográfico. As conseqüências da rápida industrialização e urbanização levadas a cabo pelo sistema capitalista foram tão visíveis quanto trágicas: aumento assustador da prostituição. como a destruição das máquinas. Os efeitos catastróficos que esta revolução acarretava para a classe trabalhadora levaram-na a negar suas condições de vida. dos artesãos independentes. no entanto. de saúde. sem dúvida.

procedendo a uma crítica da sociedade capitalista e inclinando-se para o socialismo como alternativa de mudança. Qual a importância desses acontecimentos para a sociologia? O que merece ser salientado é que a profundidade das transformações em curso colocava a sociedade num plano de análise, ou seja, esta passava a se constituir em "problema", em "objeto" que deveria ser investigado. Os pensadores ingleses que testemunhavam estas transformações e com elas se preocupam não eram, no entanto, homens de ciência ou sociólogos que viviam desta profissão. Eram antes de tudo homens voltados para a ação, que desejavam introduzir determinadas modificações na sociedade. Participavam ativamente dos debates ideológicos em que se envolviam as correntes liberais, conservadoras e socialistas. Eles não desejavam produzir um mero conhecimento sobre as novas condições de vida geradas pela revolução industrial, mas procuravam extrair dele orientações para a ação, tanto para manter, como para reformar ou modificar radicalmente a sociedade de seu tempo. Tal fato significa que os precursores da sociologia foram recrutados entre militantes políticos, entre indivíduos que participavam e se envolviam profundamente com os problemas de suas sociedades. Pensadores como Owen (1771-1858), William Thompson (1775-1833), Jeremy Bentham (1748-1832), só para citar alguns daquele momento histórico, podiam discordar entre si ao julgarem as novas condições de vida provocadas peta revolução industrial e as modificações que deveriam ser realizadas na nascente sociedade industrial, mas todos eles concordavam que ela produzira fenômenos inteiramente novos que mereciam ser analisados. O que eles refletiram e escreveram foi de fundamental importância para a formação e constituição de um saber sobre a sociedade. A sociologia constitui em certa medida uma resposta intelectual às novas situações colocadas pela revolução industrial. Boa parte de seus temas de análise e de reflexão foi retirada das novas situações, como, por exemplo, a situação da classe trabalhadora, o surgimento da cidade industrial, as transformações tecnológicas, a organização do trabalho na fábrica etc. É a formação de uma estrutura social muito específica - a sociedade capitalista – que impulsiona uma

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reflexão sobre a sociedade, sobre suas transformações, suas crises, seus antagonismos de classe. Não é por mero acaso que a sociologia, enquanto instrumento de análise, inexistia nas relativamente estáveis sociedades précapitalistas, uma vez que o ritmo e o nível das mudanças que aí se verificavam não chegavam a colocar a sociedade como "um problema" a ser investigado. O surgimento da sociologia, como se pode perceber, prende-se em parte aos abalos provocados pela revolução industrial, pelas novas condições de existência por ela criadas. Mas uma outra circunstância concorreria também para a sua formação. Trata-se das modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento. As transformações econômicas, que se achavam em curso no ocidente europeu desde o século XVI, não poderiam deixar de provocar modificações na forma de conhecera natureza e a cultura. A partir daquele momento, o pensamento paulatinamente vai renunciando a uma visão sobrenatural para explicar os fatos e substituindo-a por uma indagação racional. A aplicação da observação e da experimentação, ou seja, do método científico para a explicação da natureza, conhecia uma fase de grandes progressos. Num espaço de cento e cinqüenta anos, ou seja, de Copérnico a Newton, a ciência passou por um notável progresso, mudando até mesmo a localização do planeta Terra no cosmo. O emprego sistemático da observação e da experimentação como fonte para a exploração dos fenômenos da natureza estava possibilitando uma grande acumulação de fatos. O estabelecimento de relações entre estes fatos ia possibilitando aos homens dessa época um conhecimento da natureza que lhes abria possibilidade de a controlar e dominar. O pensamento filosófico do século XVII contribuiu para popularizar os avanços do pensamento científico. Para Francis Bacon (1561 - 1626), por exemplo, a teologia deixaria de ser a forma norteadora do pensamento. A autoridade, que exatamente constituía um dos alicerces da teologia, deveria, em sua opinião, ceder lugar a uma dúvida metódica, a fim de possibilitar um conhecimento objetivo da realidade. Para ele, o novo método de conhecimento, baseado na observação e na experimentação, ampliaria infinitamente o poder do

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homem e deveria ser estendido e aplicado ao estudo da sociedade. Partindo destas idéias, chegou a propor um programa para acumular os dados disponíveis e com eles realizar experimentos a fim de descobrir e formular leis gerais sobre a sociedade. O emprego sistemático da razão, do livre exame da realidade - traço que caracterizava os pensadores do século XVI I, os chamados racionalistas, representou um grande avanço para libertar o conhecimento do controle teológico, da tradição, da "revelação" e, conseqüentemente, para a formulação de uma nova atitude intelectual diante dos fenômenos da natureza e da cultura. Diga-se de passagem, que o progressivo abandono da autoridade, do dogmatismo e de uma concepção providencial ista, enquanto atitudes intelectuais para analisar a realidade, não constituía um acontecimento circunscrito apenas ao campo científico ou filosófico. A literatura do século XVII, por exemplo, constituía uma outra área que ia se afastando do pensamento oficial, na medida em que se rebelava contra a criação literária legitimada pelo poder. A obra de vários literatos dessa época investia contra as instituições oficiais, procurando desmascarar os fundamentos do poder político, contribuindo assim para a renovação dos costumes e hábitos mentais dos homens da época. Se no século XVIII os dados estatísticos voavam indicando uma produtividade antes desconhecida, o pensamento social deste período também realizava seus vôos rumo a novas descobertas. A pressuposição de que o processo histórico possui uma lógica passível de ser apreendida constituiu um aconteci mento que abria novas pistas para a investigação racional da sociedade. Este enfoque, por exemplo estava na obra de Vico (1668 - 1744), para o qual é o homem quem produz a história. Apoiando-se nesse ponto de vista, afirmava que a sociedade podia ser compreendida porque, ao contrário da natureza, ela constitui obra dos próprios indivíduos. Essa postura diante da sociedade, que encontra em Vico um de seus expoentes, influenciou os historiadores escoceses da época, como David Hume (1711-1776) e Adam Ferguson (1723-1816), e seria posteriormente desenvolvida e amadurecida por Hegel e Marx.

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e não a dedução. A obra deste historiador escocês revela a influência de algumas idéias de Bacon. Para proceder a uma indagação crítica da sociedade da época. que acrescentava que para o estudo da sociedade era necessário evitar conjecturas e especulações. Os iluministas. é entre os pensadores franceses do século XVIII que encontramos um grupo de filósofos que procurava transformar não apenas as velhas formas de conhecimento. os privilégios de sua classe dominante e as restrições que esta impunha aos interesses econômicos e políticos da burguesia. por exemplo. seus representantes intelectuais. e a importância da observação enquanto instrumento para a obtenção do conhecimento. os iluministas partiram dos seus antecessores do século XVII. Nesse sentido. como a maioria dos pensadores do século XVII. Hobbes e outros. estabelecendo uma área própria de investigação a que denominava 10 . No entanto. A intensidade do conflito entre as classes dominantes da sociedade feudal e a burguesia revolucionária que leva os filósofos.Data também dessa época a disposição de tratar a sociedade a partir do estudo de seus grupos e não dos indivíduos isolados. Ao invés de utilizar a dedução. e a negarem abertamente a sociedade existente. atacaram com veemência os fundamentos da sociedade feudal. Essa orientação estava. baseadas na tradição e na autoridade. na experimentação e na acumulação de dados. desejava aplicar os métodos matemáticos ao estudo dos fenômenos sociais. Condorcet (1742-1794). reelaborando. eram influenciados mais por Newton. enquanto ideólogos da burguesia. fio que por Descartes. com seu modelo de conhecimento baseado na observação. que nos revela a natureza do mundo. por exemplo. Influenciado por esse estado de espírito. nos trabalhos de Ferguson. Bacon. com seu método de investigação baseado na dedução. que nesta época posicionava-se de forma revolucionária. como a de que ë a indução. mas a própria sociedade. porém. algumas de suas idéias e procedimentos. os iluministas insistiam numa explicação da realidade baseada no modelo das ciências da natureza. como Descartes. a atacarem de forma impiedosa a sociedade feudal e a sua estrutura de conhecimento.

ao estudar as instituições de sua época. deveriam ser eliminadas. a família etc. ao contrário. a religião. não era. Admitia-o que. fruto das novas maneiras de produzir e viver. utilizando os mesmos procedimentos das ciências naturais para o estudo da sociedade. Combinando o uso da razão e da observação. os iluministas analisaram quase todos os aspectos da sociedade."matemática social". Ora. O conhecimento da realidade e a disposição de transformá-la eram. Procedendo desta forma. tal como as corporações. Esta crescente racionalização da vida social. pois este assumia a tarefa não só de conhecer o mundo natural ou social tal como se apresentavam. os iluministas conferiam uma clara dimensão crítica e negadora ao conhecimento. um valioso instrumento prático que criticava a sociedade presente. de acordo com esta concepção. O objetivo dos iluministas. mas. se as instituições existentes constituíam um obstáculo à liberdade do indivíduo e à sua plena realização. que gerava um clima propício à constituição de um estudo científico da sociedade. que atentavam contra a natureza dos indivíduos e. O visível progresso das formas de pensar. era demonstrar que elas eram irracionais e injustas. portanto. A filosofia. mas também de criticá-lo e rejeitá-lo. Concebiam o indivíduo como dotado de razão. não constituía um mero conjunto de noções abstratas distante e à margem da realidade. um privilégio de filósofos e homens que se dedicavam ao conhecimento. nesse sentido. vislumbrando outras possibilidades de existência social além das existentes. a autoridade feudal etc. porém. Dessa forma reivindicavam a liberação do indivíduo de todos os laços sociais tradicionais. contribuía para afastar interpretações baseadas em superstições e crenças infundadas. uma só coisa. assim como abria um espaço para a constituição de um saber sobre os fenômenos histórico-sociais. Os trabalhos de Montesquieu (16891755). possuindo uma perfeição inata e destinado à liberdade e à igualdade social. O "homem comum" dessa época também deixava. elas. por exemplo. a moral. segundo eles. impediam a liberdade do homem. cada vez 11 . o comércio. estabelecem uma série de observações sobre a população. este poderia atingir a mesma precisão de vocabulário e exatidão de resultados obtidas por aqueles.

como fenômenos sagrados e imutáveis. pela nova classe dominante. as normas. Para a destruição do "ancien régime". o conflito entre as novas forças sociais ascendentes chocava-se com uma típica monarquia absolutista. na política. passando a percebê-las como produtos da atividade humana. de encarar as instituições sociais. O objetivo da revolução de 1789 não era apenas mudar a estrutura do Estado. Na França. que assegurava consideráveis privilégios a aproximadamente quinhentas mil pessoas. elas foram "presenteadas". A revolução ainda não completara um ano de existência. com a interdição dos seus sindicatos. mas impedia ao mesmo tempo a constituição de livreempresa. isso num país que possuía ao final do século XVIII uma população de vinte e três milhões de indivíduos. A burguesia. seus costumes e hábitos arraigados. submetidos a forças sobrenaturais. procurando construir um Estado que assegurasse sua autonomia em face da Igreja e que protegesse e incentivasse a empresa capitalista. sucedeu-se uma liquidação sistemática do velho regime. a exploração eficiente da terra e demonstrava-se incapaz de criar uma administração padronizada através de uma política tributária racional e imparcial. mas fora suficientemente intempestiva para liquidar a velha estrutura feudal e o Estado monárquico. mas abolir radicalmente a antiga forma de sociedade.mais. ao tomar o poder em 1789. especialmente os trabalhadores pobres das cidades. com suas instituições tradicionais. Alguns meses mais tarde. A intensidade da crítica às instituições feudais levada a cabo pelos iluministas constituía indisfarçável indício da virulência da luta que a burguesia travava no plano político contra as classes que sustentavam a dominação feudal. e ao mesmo tempo promover profundas inovações na economia. na vida cultural etc. A investida da burguesia rumo ao poder. É dentro desse contexto que se situam a abolição dos grêmios e das corporações e 12 . investiu decididamente contra os fundamentos da sociedade feudal. portanto passíveis de serem conhecidas e transformadas. Esta camada privilegiada não apenas gozava de isenção de impostos e possuía direitos para receber tributos feudais. foram mobilizadas as massas.

quando esta mesma Revolução expande-se rapidamente por toda a parte com procedimentos desconhecidos. após ter arruinado a estrutura do governo. descobre-se que. quebra coroas. amparou e incentivou o empresário. constituiu-se como que por encanto a noção de ciência social". tão contrário a tudo que aconteceu antes no mundo e no entanto tão geral. forçando-o a uma divisão igualitária da propriedade. Alexis de Tocqueville. concentrarão suas reflexões sobre a natureza e as conseqüências da 13 . O impacto da revolução foi tão profundo que. poder espantoso que derruba as barreiras dos impérios. tornou-se um fato novo. tão monstruoso. esmaga povos e . O fato é que pensadores franceses da época. afirmou certa vez que a partir do momento em que "a tempestade revolucionária passou. como Saint-Simon. ao apercebê-lo. Durkheim. tão incompreensível que.chega ao mesmo tempo a ganhá-los para a sua causa. A revolução desferiu também seus golpes contra a Igreja. um importante pensador francês. os costumes e até a língua. o espírito fica como que perdido". em seguida. máximas mortíferas.coisa estranha . à medida que todas estas coisas explodem. as leis. o ponto de vista muda. passados quase setenta anos do seu triunfo. os usos.a promulgação de uma legislação que limitava os poderes patriarcais na família. novas táticas. Le Play e alguns outros. Comte. suprimindo os votos monásticos e transferindo para o Estado as funções da educação. por exemplo. confiscando suas propriedades. tradicionalmente controladas pela Igreja. referia-se a ela da seguinte maneira: "A Revolução segue seu curso: à medida que vai aparecendo a cabeça do monstro. após ter destruído as instituições políticas ela suprime as instituições civis e muda. O que à primeira vista parecia aos príncipes da Europa e aos estadistas um acidente comum na vida dos povos. mexe nos fundamentos da sociedade e parece querer agredir até Deus. Investiu contra e destruiu os antigos privilégios de classe. O espanto de Tocqueville diante da nova realidade inaugurada pela revolução francesa seria compartilhado também por outros intelectuais do seu tempo. coibindo os abusos da autoridade do pai. um dos fundadores da sociologia.

estava disposta a aprofundá-la. se assusta com a própria revolução. Uma das facções revolucionárias. encontrando soluções para o estado de "desorganização" então existente. Saint-Simon. utilizarão expressões como "anarquia". portanto uma ciência da sociedade. Em seus trabalhos. situando-a além do projeto e dos interesses da burguesia. a do século XX deve ser reorganizadora". a de estabilização da nova ordem. de liberdade. enquanto estratégia para modificação das sociedades. Para contornar a propagação de novos surtos revolucionários. a nova teoria da sociedade. Nesse sentido. deveria de agora em diante ser "superada" por uma outra que conduzisse não mais à revolução. Nutriam em geral esses pensadores um certo rancor pela revolução. controlar e neutralizar novos levantes revolucionários. de uma maneira muito explícita. para encontrar um estado de equilíbrio na nova sociedade. 14 . uma vez instalada no poder. seria necessário. A tarefa que os fundadores da sociologia assumem é. A verdade é que a burguesia. seria necessário. que constituiu um dos traços marcantes do pensamento iluminista e alimentou o projeto revolucionário da burguesia. Para ele. mas à "organização". os jacobinos. e a importância conferida ao indivíduo em face das instituições existentes. por exemplo. conhecer as leis que regem os fatos sociais. ao "aperfeiçoamento" da sociedade. instituindo. segundo eles. para julgar a nova realidade provocada pela revolução. principalmente por aquilo que eles designavam como "os seus falsos dogmas". deixando de lado. A tarefa que esses pensadores se propõem é a de racionalizar a nova ordem. de acordo com os interesses da burguesia. a sua negação. deveria ensinar os homens a aceitar a ordem existente. "perturbação". "crise". Comte também é muito claro quanto a essa questão. pois é a esta missão que esses pensadores se entregam. Mas para restabelecer a "ordem e a paz".revolução. era de fundamental importância proceder a modificações substanciais em sua teoria da sociedade. A interpretação crítica e negadora da realidade. como o seu ideal de igualdade. que ele denominava de "positiva". portanto. "desordem". radicalizando-a e levando-a até o fim. afirmaria a este respeito que "a filosofia do último século foi revolucionária.

Em 18161817 e em 1825-1827. "atividade crítica inconseqüente". no início do século XIX. 15 . Com a industrialização da sociedade francesa. ele entregou-se à tarefa de pôr termo a isto. a utilização intensiva do trabalho barato de mulheres e crianças. incitava-o por isso mesmo a aplicar-se às coisas coletivas. sua revolução industrial. seria necessário fundar uma nova ciência. com uma introdução progressiva da maquinaria. refere-se a Saint-Simon da seguinte forma: "O desmoronamento do antigo sistema social. conduzida pelo empresário capitalista. levada a cabo pela classe trabalhadora. Determinados pensadores da época estavam imbuídos da crença de que para introduzir uma "higiene" na sociedade. os operários destroem as máquinas em manifestações de revolta. antes de tudo. Durkheim. uma desordenada migração do campo para a cidade. que passava a ser designada por eles como "metafísica". a essa época. repetem-se determinadas situações sociais vividas pela Inglaterra no início de. Partindo da idéia de que a perturbação que atingia as sociedades européias resultava do seu estado de desorganização intelectual. ao discutir a formação da sociologia na França do século XIX. A partir da terceira década do século XIX. não seria capaz de interromper aquilo que denominavam estado de "desorganização". como em 1848. gerando problemas de habitação. passa a ser reprimida com violência. A contestação da ordem capitalista. conhecer.A França. Eram visíveis. Cada vez mais ficava claro para a burguesia e seus representantes intelectuais que a filosofia iluminista. ia se tornando visivelmente uma sociedade industrial. Essa situação logo encontraria resposta por parte da classe trabalhadora. por ela dominado. principalmente no setor têxtil. para "reorganizá-la". ao instigar a reflexão à busca de um remédio para os males de que a sociedade padecia. Ora. Mas o desenvolvimento acarretado por essa industrialização causava aos operários franceses miséria e desemprego. aumento do alcoolismo e da prostituição. de "anarquia política" e criar uma ordem social estável. intensificam-se na sociedade francesa as crises econômicas e as lutas de classes. de higiene. são estas que importa. alta taxa de mortalidade infantil etc. Para refazer uma consciência nas sociedades. para sufocar as pressões populares. quando a burguesia utiliza os aparatos do Estado.

propunha como solução para a restauração de seu papel de "unidade social básica" a reafirmação da autoridade do "chefe de família". Vejamos como ele a define e quais objetivos deveria ela perseguir. pois era uma unidade fundamental para a experiência do indivíduo e elemento importante para o conhecimento da sociedade. a sociologia deveria orientar-se no sentido de conhecer e estabelecer aquilo que ele denominava leis imutáveis da vida social. ou seja. Procedendo dessa forma. eliminando também qualquer discussão sobre a realidade existente. da liberdade. enfatizando a importância de instituições como a autoridade. Na concepção de um de seus fundadores. delimitando o papel da mulher às funções exclusivas de mãe. deixando de abordar. insistia que estas. A jovem ciência assumia como tarefa intelectual repensar o problema da ordem social. esta ciência surge com interesses práticos e não "como que por encanto". a questão da igualdade.esta ciência das sociedades. a família. os primeiros sociólogos irão revalorizar determinadas instituições que segundo eles desempenham papéis fundamentais na integração e na coesão da vida social. evitando a igualdade jurídica de homens e mulheres. da justiça. a hierarquia social. por exemplo. abstendo-se de qualquer consideração crítica. Le Play (1806-1882) afirmaria que é a família e não o indivíduo isolado que possuía significação para uma compreensão da sociedade. ligando-se aos movimentos de reforma conservadora da sociedade. era necessário. fundá-la sem demora". Enquanto resposta intelectual à "crise social" de seu tempo. na sua concepção: 16 . tentando instaurar um estado de equilíbrio numa sociedade cindida pelos conflitos de classe. não existia. Assim. portanto. num interesse prático. sob a industrialização. por exemplo. haviam se tornado descontínuas. Como se percebe pela afirmação de Durkheim. esposa e filha. como certa vez afirmara. destacando a sua importância teórica para o estudo da sociedade. Ao realizar um vasto estudo sobre as famílias de trabalhadores. a mais importante de todas. esta sociologia inicial revestiu-se de um indisfarçável conteúdo estabilizador. Diante de tais fatos. Comte. inseguras e instáveis.

que o proletariado. esse rebento da revolução industrial. criada e moldada pelo espírito positivista. Separando a filosofia e a economia política. Esta sociologia de inspiração positivista procurará construir uma teoria social separada não apenas da filosofia negativa. Os resultados de suas pesquisas tornam-se o ponto de partida positivo dos trabalhos do homem de Estado. Numa palavra."Entendo por física social a ciência que tem por objeto próprio o estudo dos fenômenos sociais. como objetivo real descobrir e instituir as formas práticas correspondentes a esses dados fundamentais. Não deixa de ser sugestivo o termo "física social". a fim de evitar ou pelo menos mitigar. isolando-as do estudo da sociedade. segundo o mesmo espírito com que são considerados os fenômenos astronômicos. postulando uma independência dos fenômenos sociais em face dos econômicos. físicos. quando não foi previsto. já então plenamente configurada. Também não será nela que o proletariado encontrará a sua expressão teórica e a orientação para suas lutas práticas. a ciência conduz à previdência. mas também da economia política como base para o conhecimento da realidade social. químicos e fisiológicos. É neste contexto que a sociologia vincula-se ao socialismo e a nova teoria crítica da sociedade passa a estar ao lado dos interesses da classe trabalhadora. 17 . A oficialização da sociologia foi portanto em larga medida uma criação do positivismo. e a previdência permite regular a ação". as crises mais ou menos graves que um movimento espontâneo determina. isto é. quanto possível. submetidos aleis invariáveis. utilizado por Comte para referir-se à nova ciência. que colocará em questão os fundamentos da sociedade capitalista. por assim dizer. cuja descoberta é o objetivo de suas pesquisas. "o social". que só tem. em seus diferentes matizes. esta sociologia procura criar um objeto autônomo. Não será esta sociologia. buscará seu referencial teórico para levar adiante as suas lutas na sociedade de classes. uma vez que ele expressa o desejo de construí-la a partir dos modelos das ciências físico-naturais. É no pensamento socialista. e uma vez assim constituída procurará realizar a legitimação intelectual do novo regime.

que era o país mais populoso e poderoso da Europa na época. Dentro dela havia a pequena nobreza.Envolvendo-se desde o seu início nos debates entre as classes sociais. como a isenção de impostos e direito a títulos feudais. Gozavam de privilégios especiais. A França deu o primeiro grande exemplo. tanto para manter como para alterar os fundamentos da sociedade que a impulsionaram e a tornaram possível. Nobres começavam a se empobrecer na França. Foi uma revolução social de massa com um caráter radical. 18 . mais recente e criada por meio de compra de títulos. A França forneceu os códigos legais. • Conflito entre as estruturas das velhas e aristocráticas monarquias absolutas e as novas forças sociais ascendentes (comerciantes e pequenos industriais) • França pré-revolucionária dividida em classes: Nobreza: Primeiro estado (status). a sociologia sempre foi algo mais do que mera tentativa de reflexão sobre a moderna sociedade. Suas explicações sempre contiveram intenções práticas. que era estabelecido em monarquias e privilégios de classes. o conceito e o vocabulário do nacionalismo. um desejo de interferir no rumo desta civilização. como fora a Revolução americana. Revolução Francesa e Revolução Industrial I) Revolução Francesa • Revolução com mudanças nas idéias • datação: 5 de Maio de 1789 e 9 de Novembro de 1799 • “A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e radicaldemocrática para a maior parte do mundo. • Revolução Francesa tinha ideais que eram de âmbito global e não local. nas disputas e nos antagonismos que ocorriam no interior da sociedade. Nobres não podiam exercer um ofício ou profissão. • Ocorreu na França. o modelo de organização técnica e científica e o sistema métrico de medidas para a maioria dos paises” . • Crise no velho regime de governo.

Fonte da soberania da nação não é o rei. Terceiro Estado é o que tinha mais pessoas em número.1789. que tinham idéias baseadas no liberalismo clássico (de filósofos e economistas). presentes e casamentos. Não conseguiam extrair da terra excedente para conseguir vender. capitalistas. aumento com os gastos para manter seu status de nobre. Convocação dos Estados Gerais para votação. famintos – conhecidos como os sansculottes): também faziam parte do Terceiro Estado. porém não tinha a mesma representação. Difusão das idéias pela maçonaria e associações informais • Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão . Divido em alto clero e baixo clero. Consenso de idéias gerais da Revolução Francesa dado pela burguesia. advogados). mas sim o povo. Clero: Segundo estado (status). povo (pequenos lojistas. Tudo o que não era nobreza e clero. Busca de um constitucionalismo. dificuldade de obter dinheiro com pensões. Sobe o custo de vida. Declaração que expressa os interesses burgueses como: propriedade privada. Pagavam tributos medievais. partido ou movimento organizado. fazia parte do terceiro estado. artesãos. porém os gastos com o financiamento da guerra americana e com a dívida advinda desta foram os fatores que mais abalaram a economia francesa na época. Classe média (comerciantes. pois os votos da nobreza e do clero. Nobres empobrecidos conseguiam dinheiro extorquindo o campesinato.devido às inflações constantes. com um “Estado secular com liberdades civis e garantias para a empresa privada e um governo de contribuintes e proprietários” . Campesinato: Formava o Terceiro Estado cerca de 80% dos franceses. O terceiro estado representava 95% da população francesa. • Revolução não teve grandes líderes. trabalhadores pobres. Grandes gastos com luxo. Inflação diminuía o pouco lucro. tinham mais peso por um número menor de pessoas. 19 . • Monarquia. igualdade dos homens perante a lei. • Crise econômica na França pré-revolucionária. diminuição dos postos de trabalho. mas sim o direito constitucional e o soberano deve cumprir essas regras. dízimos e taxas. Segundo a Declaração o Direito passa a não ser mais o direito divino.

melhoraram a produção. Queda de um símbolo.• Queda da Bastilha. Aprimoramento feito muitas vezes por artesões. Máquinas eram fáceis de instalar e relativamente baratas. 14 julho de 1789 • Revoluções campesinas • Elimina-se os impostos medievais. • A revolução Francesa teve diversas fases: Início. Danton: o processo da revolução. Problemas com a votação e a representatividade. mas de um processo de industrialização. Pequenos artesões que utilizavam do sistema antigo começaram perder espaço e a se revoltar quebrando máquinas. assume os rumos da França. Fase da Gironda. Isso era chamado de sistema doméstico de produção. 20 . • Artesãos independentes. na parte aristocrática. • Nome foi cunhado com base na Revolução Francesa • Datação aproximada: 1780-1840 • Inicio na Grã-Bretanha • Desenvolvimento tecnológico e científico não foi o que moveu primeiramente a industrialização britânica • Invenções modestas. França se torna uma república. A marselhesa: crônica da Revolução Francesa II) Revolução Industrial • Revolução com mudanças na economia • Não se trata propriamente de uma revolução. que depois levavam isso as fábricas. rei morto. Terceiro Estado. Fase do Terror • Filmes indicados: Maria Antonieta. Esse sistema começou a decair com a expansão do método industrial. com aprimoramentos simples nas máquinas já existentes. uma prisão estatal que simbolizava a autoridade real. antigos camponeses trabalhavam a matéria prima nas próprias casas. Monarquia derrubada. especialmente as ligadas à indústria têxtil.

Precisavam de pesados investimentos à longo prazo. Custos cortados pela diminuição dos trabalhadores e também pela substituição dos trabalhadores mais caros e qualificados.• Agricultura também estava preparada para suportar as exigências da industrialização. uma vez que a maquinaria pode suprir a especialização (trabalho de mulheres e crianças). 21 . mas sim exportar. o que possibilita mais lucros aos capitalistas • Quando a taxa de lucro diminuía. mas sim externo. somente foram desenvolvidas no curso da Revolução Industrial. • Comércio na Revolução Industrial não buscava só um mercado interno. Índia • Acúmulo de investimentos pelos comerciantes • Paises da Europa também possuíam indústrias e maquinaria especializada. Os salários também são ruins. Busca não só produzir para o local. • Indústria têxtil conseguia matéria prima do exterior. Inglaterra exportava para América Latina. Diminuição da taxa de lucro. • Mineração se desenvolveu largamente na Grã-Bretanha. em especial os custos dos salários. Máquinas a vapor para transporte. porém somente a Inglaterra realizou uma Revolução Industrial • Inglaterra tinha economia forte e Estado • Pequena burguesia e artesões começam a perder a condição de comprar máquinas e essas passam a ser propriedade de alguns ricos industriais • Ciclo comercial de boom e depressão. Diminuição do custo do transporte terrestre. em que o algodão era explorado através da escravidão. Novo meio de transporte para o escoamento de mercadorias para exportação. • Indústria mais pesada. os capitalistas cortavam custos. Crises que afetavam os empregos. Estimulou a criação das ferrovias. • Mecanização da indústria faz com que menos pessoas estejam empregadas e com menos qualificação profissional. como as metalúrgicas.

Bibliografia. 9 ed. O objetivo do curso é apresentar para o aluno alguma noção da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. • Classe média vai colocar seus investimentos em investimentos estrangeiros. Emprego de mulheres e crianças. Germinal. • Enquanto crescia o acúmulo de capital de uma classe rica e média que investia em indústrias. Condições precárias de vida. Trabalhador passa a trabalhar muito para conseguir dinheiro para sobreviver. higiene e saúde dos trabalhadores. Utilização do subempregador. porém há uma enorme bibliografia sobre os dois temas. que podem ser vistos de múltiplos ângulos e foram estudadas pelos melhores historiadores. Daens: um grito de justiça Obs: os pontos destacados nesse roteiro têm como base o livro de Hobsbawm. • Filmes indicados: Tempos Modernos. A era das revoluções (1789-1849). etc. crescia também a quantidade de famintos. por serem trabalhadores mais dóceis e mais baratos.. Empréstimos aos sul-americanos e norte-americanos. 22 . HOBSBAWM. prédios. da migração da população do campo para a cidade e da possibilidade de alimentar mais pessoas na cidade com menos pessoas trabalhando no campo (possibilitado pela revolução agrícola) • Novo ritmo de trabalho. • A Revolução Industrial foi possível graças ao aumento da população em geral. que eram uma construção cara. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1996.• Acumulação de capital das classes ricas permitiu um investimento nas ferrovias. para poder entender as teorias sociológicas.

Conde de Sant-Simon (1760-1825). contava com 29 anos no momento da eclosão da Revolução Francesa e viveu. Rompeu com sua condição nobilitaria aos 40 anos. Uma das temáticas centrais de sua obra decorreu de sua crença de que.3. que se caracterizou como positivismo. a industria. 1989:29) Está dada a conjuntura histórico-política que abriu espaço para a atuação intelectual do pensador que foi o precursor moderno da Sociologia Claude-Henri de Rouvroy. ensejando a eliminação definitiva da antiga ordenação social oriunda do feudalismo. para ele. compreensão que seria voltada para a tentativa de soluções que não implicassem a transformação essencial do sistema econômico e social recém-estabelecido na Europa. Essas circunstâncias vieram: “possibilitar uma nova forma de pensar. a transformação política que acontecia com o fim do Antigo Regime e a ascensão da burguesia. a racionalidade econômica burguesa suplantaria a dominação política da nobreza.As principais contribuições do pensamento sociológico clássico: Saint-Simon: O precursor moderno da sociologia Uma das ocupações originais da Sociologia foi relativa aos conflitos entre as classes sociais. Sua profissão de fé criou doutrina e fez seguidores: ela. o industrialismo: eles. no momento em que vivia intensa inquietação intelectual motivada por seu encontro com a racionalidade cientifica. buscando a preservação e manutenção da nova ordem capitalista” (Bedone. pregando o fim absoluto dos resquícios da sociedade feudal. 23 . na nova sociedade que nascia. pode ser considerado como um ponto de partida de duas formas opostas de compreensão da sociedade: a positivista e a socialista. que foi influenciado pelas idéias revolucionárias burguesas e pelo aparato teórico desenvolvido pelos filósofos iluministas. em sua vida pessoal. os saint-simonistas. cuja preocupação básica consistiu na tentativa de organização e reestruturação da sociedade. Seu pensamento. As freqüentes crises no âmbito das relações econômicas e as incompatibilidades decorrentes das transformações provocadas pela Revolução Industrial engendraram preocupações nos estudiosos voltadas para o entendimento do processo desses conflitos. ou o que ele chamou de sistema industrial. O motor dessa racionalidade era.

a vivência plena da ordem. A não-concretização desses preceitos. A concepção de sociedade desse pensador determina o peso da influência que ele exerceu sobre a primeira das sociologias clássicas. Para a indústria. os cientistas e os industriais. aproximou-o da nascente visão socialista. propiciando. arrefeceu os ânimos industrialistas de Saint-Simon no fim de sua vida. a positivista. A reunião dos homens constitui um verdadeira SER. a ponto de alguns o considerarem um de seus primeiro formuladores.Os princípios industrialistas eram tecnocráticos e fundamentados no esclarecimento motivado pela razão científica. pelo contrária. em outra medida. cuja existência é mais ou menos vigorosa ou claudicante. é uma verdadeira máquina organizada. t. Para Saint-Simon (1966. A continuidade da miséria. não interessava a origem familiar de sua mão-de-obra. da paz e do progresso. conforme seus órgãos desempenhem mais ou menos regularmente as funções que lhes são confiadas”. Na compreensão de Sant-Simon.. de maneira que os conflitos entre as classes pudessem ser atenuados. Esse sistema positivo deveria ser comandado por uma elite de substrato intelectual e econômico.). cujas partes. “a sociedade não é uma simples aglomeração de seres vivos (. que atingia de modo atroz a classe trabalhadora. ressaltava.. a sociedade industrial conquistaria algo inédito para a humanidade: transformar a natureza de forma ordeira e pacífica. a quem caberia a responsabilidade de prover condições convenientes de vida á classe trabalhadora. de modo que os frutos do progresso obtido pelo avanço da produção pudessem assegurar a todos os seus membros a cabal satisfação de suas necessidades materiais e espirituais. por meio da elaboração de normas justas de comportamento coletivo e pela remuneração adequada. 5:177-179). contribuem de uma maneira diferente para o avanço do conjunto. mas interessava muito sua estratificação a partir de diferentes capacitações e qualificações. Considerando a nação uma oficina produtiva que anulava as antigas distinções originadas pela condição do nascimento. pela acomodação. as diferenças de capacidade entre os integrantes dessa fábrica social. 24 . por parte do processo real de desenvolvimento que ocorria nessa fase do capitalismo. todas elas.

Essa crise só seria superada por meio da construção de uma nova coesão de pensamento que fosse capaz de reconstituir a ordem a partir da modernização industrial e cientifica. o sustentáculo fundamental da sociabilidade humana. O que Comte propôs não se limitava ao ato de compreender as relações sociais. ligou a nova ciência como Sociologia. uma vez que “há leis tão determinadas para o desenvolvimento da espécie humana como há para a queda de uma pedra”. era constituído por um conjunto de princípios admitidos em consenso pela coletividade. Esse confronto estaria a provocar o que ele entendeu como desagregação moral e intelectual da sociedade do século XIX. seu intuito era entender para interferir diretamente na ordem social.AUGUSTE COMTE: O pensamento positivista e as relações sociais O positivismo voltado para a análise social teve em Auguste Comte (17981857) um dos principais formuladores. fundada na indústria e na ciência. denominando-a de Física-social. ao positivismo. Comte iniciou suas reflexões partindo da realidade histórica de seu tempo. que configuravam os modos de pensar. Em sua concepção. as representações de mundo e as crenças. resultante do confronto histórico entre a antiga ordem feudal e a nova ordem capitalista. Comte aceitava plenamente os pontos de vista mecanicistas e reducionistas da 25 . a seu ver. ponto de apoio para a unidade social. Era esse conjunto consensual que se desagregava diante do surgimento da nova ordem social burguesa. Por isso. no qual ele acreditava encontrar-se a Europa após as revoluções francesa e industrial. Ele foi assistente de Saint-Simon e construiu sua obra a partir do embasamento teórico vindo das idéias simonianas. gerando um estado de caos. percebendo a emergência de uma crise. essa disciplina deveria adotar os paradigmas do método positivo das ciências naturais. no sentido de acelera e otimizar seu desenvolvimento. conferindo-lhes um corpo sistematizado que o primeiro não logrou organizar. Para ele. Ele acreditava que o espírito conquistado recentemente pela sociedade industrial levaria sua reorganização em novas bases consensuais.

Essa concepção teocêntrica da vida social era fundada na impossibilidade humana de. e apenas nela. a medida de tudo na sociedade. Comte estruturou seu pensamento a partir de uma Filosofia da História peculiar. é que ele relizaria sua naturez invariável: ser social. e o homem a ele diretamente vinculado. Nesse estágio. Devido a tal sociabilidade. o homem viveria em um estado de aculturação ainda incipiente. abalizar 26 .física newtoniana como modelos capazes de promover a descrição correta da realidade social. ao estudar. Assim como Saint-Simon. para que o progresso pudesse ter livre fluxo. o espírito positivo deveria alcançar a maturidade e oferecer os elementos fundadores da formação do espírito da nova ordem burguesa. como conseqüência da ordem instalada. Comte admitia que a sociedade industrial necessitava passar por mudanças morais importantes para que seu curso fosse reajustado na direção correta. por isso os adotou como fundamentos para suas teorias. nesse estado. explicar e intervir nos fatos da sociedade seria o elo cientifica que ligaria a ordem da sociedade ao progresso em curso contínuo. ou estados. Para que se desenvolvesse completamente. necessários para que o homem aprendesse a utilizar sua inteligência (razão) como fonte inspiradora de suas ações. definida pela física-social: a chamada lei dos três estados. Segundo essa lei. Essas mudanças seriam comandadas também pelos cientistas e industriais. o primeiro estado da humanidade foi definido como teológico. Com ela. portanto. um ser histórico porque na Historia. sua historia constituiria no percurso do desenvolvimento e do progresso da natureza humana. o surgimento da Física-social não significava apenas uma adoção do método positivo a um novo ramo de conhecimento. Estava estabelecida a primeira lei natural da humanidade. fosse por meio da relação direta ou pela mediação do Estão teocrático. a sociedade deveria passar por três estágios. Assim. Nele seria o centro de todas as referências humanas. Deus seria o regente da vida social. Em sua visão. A Sociologia. que justificaria sua íntima ligação com a divindade. os estudos sobre a fisiologia cerebral do homem revelavam que este era dotado de uma natureza caracterizada por uma irresistível tendência social. O homem seria.

passasse a coordenar todos os domínios da ciência. resultando em um conjunto estável e coerente de leis invariáveis que. uma vez que o espírito teológico era alicerçado na fé irracional. por ser de transição. daquela hora em diante. tanto ás inquirições humanas quanto á organização social uma proto-idéia de ordem. Dessa forma.suas explicações na razão. outrossim. os dogmas da fé anterior seriam questionados profundamente. uma vez reconhecidas universalmente. que explicaria e justificava a ordenação do mundo social. Nesse sentido é que o estado positivo do desenvolvimento humano só encontraria o ápice de sua maturidade racional com a Sociologia. O homem. Essa nova ciência foi subdividida em dois campos de estudo: a estática e dinâmica. revelava um sentido de progresso no percurso da civilização humana. no qual a explicação da sociedade já não passaria apenas pela fundamentação na iniciativa divina. Seu objetivo central seria conduzir o pensamento humano para a coerência racional á qual ele estivera sempre destinado. Deus não seria mais o regente absoluto da vida social. naturalmente. Se o estágio anterior definia-se por ordem. O último dos estado seria o positivo. conferindo-lhe uma unidade lógica voltada para a explicação racional dos fenômenos naturais. e sim uma essência onipresente a ela. servido apenas de transição histórica para o estagio seguinte. sempre aspirado. ponto de chegada histórico ao qual o espírito humano havia. partindo de uma concepção antropocêntrica. Esse estágio só se afirmaria em plenitude quando seu método. deveriam ser aceitas como dogmas. Nesse estado. pondo em dúvida seus fundamentos e dissolvendo o caratê orgânico de seu saber. após edificada a física social. 27 . de sistema. Ele seria o ele intermediária entre os três. Esse estágio encontraria sua expressão na sociedade capitalista moderna. O estado seguinte foi denominado de metafísico. o espírito metafísico não conseguiria sistematizar seus princípios. o espírito positivo forneceria os preceitos fundamentais para a concepção de uma unidade consensual para a nova ordem. se colocaria na condição de regente da vida sócia. assentada definitivamente. este. na razão. Esse espírito fornecia. Por ser uma negação da ordem anterior.

após afirmar-se em plenitude. por seu lado. Aqui. sua preocupação foi definir com precisão o objeto. elemento responsável pela preservação de toda a estrutura social. que tornaria a pluralidade dos indivíduos e instituições uma unidade social. revela-se o conteúdo conservador. Comte privilegiava o estático sobre o dinâmico. sinalizando que o progresso destinava-se a aperfeiçoar os elementos da ordem. e não destruí-los. deveria voltar seu interesse para o progresso evolutivo da sociedade. que substituiriam. os antigos sacerdotes do estágio teológico. a propriedade. O positivismo deveria. Esse poder seria exercido pelos filósofos e cientistas. não revolucionário. a linguagem. Voltado para a compreensão da passagem da sociedade para formas mais complexas de convivência. a conservação sobre a mudança. o direito etc. A dinâmica. esse campo de estudo deveria complementar estrategicamente o primeiro. tornar-se a expressão do poder espiritual da sociedade moderna. como a urbano-industrial. a religião. das instituições que mantinham a coesão e garantiam o funcionamento da sociedade: a família. portadores da razão que eram. A sociologia de Durkheim O que é fato social Embora Comte seja considerado o pai da sociologia e tenha-lhe dado esse nome. Em livros e cursos. o método e as aplicações dessa nova ciência. Durkheim é apontado como um de seus primeiros grandes teóricos. conferindo uma abordagem completa á investigação social.A estática definiu seu objeto de estudo na ordem social. 28 . com a função de governar e manter os preceitos reguladores das relações sociais. Ele e seus colaboradores se esforçaram por emancipar a sociologia das demais teorias sobre a sociedade e constituí-la como disciplina rigorosamente científica. objetivando determinar suas leis e seu percurso sucessivo e inalterável. A idéia central que sustentaria os estudos era a do consenso.

De acordo com as idéias defendidas nesse trabalho. quando é criado e se submete a um determinado tipo de formação família ou quando está subordinado a certo código de leis ou regras morais. nas quais se define a infração e se estabelece a penalidade correspondente. se o fizer. Essa força se manifesta quando o indivíduo desenvolve ou adquire um idioma. pois estão previstas e regulamentadas pela legislação que regula o tráfego de veículos e pessoas pelas vias públicas. “Legais” são as sanções prescritas pela sociedade. “Espontâneas” são as que afloram como resposta de uma conduta considerada inadequada por um grupo ou por uma sociedade. publicada em 1895. esses olhares têm o poder de conduzir o infrator para o comportamento esperado. As regras do método sociológico. por exemplo. Durkheim dá o seguinte exemplo das sanções espontâneas: Se sou industrial. Embora não codificados em lei. terei a ruína como resultado inevitável. para o autor. 29 . o ser humano experimenta a força da sociedade sobre si. Nessas circunstâncias. A força coercitiva dos fatos sociais se torna evidente pelas “sanções legais” ou “espontâneas” a que o indivíduo está sujeito quando tenta rebelar-se contra ela. Assim. são três as características básicas que distinguem os fatos sociais. mas.Imbuído dos princípios positivistas. Durkheim queria definir com rigor a sociologia como ciência. estabelecendo seus princípios e limites e rompendo com as idéias de senso comum – os “achismos” – que interpretavam a realidade social de maneira vulgar e sem critérios. Durkheim definiu com clareza o objeto da sociologia – os fatos sociais. a força que os fatos exercem sobre os indivíduos. Multas de trânsito. independentemente de sua vontade e escolha. nada me proíbe de trabalhar utilizando processos e técnicas do século passado. ou seja. Já os olhares de reprovação de que somo alvo quando comparecemos a um local com a roupa inadequada constituem sanções espontâneas. o fato social é experimentado pelo indivíduo como uma realidade independente e preexistente. levando-os a conformarem-se ás regras da sociedade em que vivem. fazem parte das coerções legais. A primeira delas é a “coerção social”. sob a forma de leis. Em uma de suas obras fundamentais.

numa comédia. A segunda característica dos fatos sociais é que eles existem e atuma sobre os indivíduos independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente. na encenação ou mesmo diante da realidade concreta. como a educação. Ao nascermos já encontramos regras sociais. sendo assim independente de nós. Apesar dessas regras serem informais. sendo. Jogar lixo no chão ou fumar em certos lugares – mesmo quando não proibidos por lei nem reprimidos por penalidade explícita – são comportamentos inibidos pela reação espontânea dos grupos que a isso se opõem. A arte também representa um recurso capaz de difundir valores e adequar as pessoas a determinados hábitos. ou seja. os fatos sociais são ao mesmo tempo “coercitivos” e dotados de existência exterior ás consciências individuais. costumes e leis que somos coagidos a aceitar por meio de mecanismos de coerção social. mais intimidadora do que a lei. muitas vezes. A reação negativa da sociedade a certa atitude ou comportamento é. Podemos observar ação repressora até mesmo nos grupos que se formam de maneira espontânea como as gangues e as “tribos”. “exteriores aos indivíduos”. segundo Durkheim. de nossos desejos e vontades. as regras estarem internalizadas nos membros do grupo e transformadas em hábitos. O uso de uma determinada língua ou o gosto por determinada comida são internalizados no indivíduo. uma importante tarefa nessa conformação dos indivíduos á sociedade em que vivem. assim. estamos aprendendo a não nos comportarmos como ele. A “educação” – entendida de forma geral. Não nos é dada a possibilidade de opinar ou escolher. Nosso próprio riso é uma forma de sanção social. que passa a considerar tais hábitos como pessoais. rimos do comportamento de certos personagens colocados em situações críticas. uma infração pode resultar na expulsão do membro insubordinando. mas o grupo pode espontaneamente reagir castigando que se comporta de forma discordante em relação a determinados valores e princípios. Quando. após algum tempo.O comportamento desviante num grupo social pode não ser penalidade prevista por lei. a educação formal e a informal – desempenham. Por isso. a ponto de. que acabam de impor a seus membros uma determinada linguagem. 30 . indumentária e formas de comportamento.

paixões e opiniões -. desejo e preconceito. a explicação científica exige que o pesquisador estabeleça e mantenha certa distância e neutralidade em relação aos fatos. tudo que nos mobiliza – nossas simpatias. como para os positivistas de maneira geral. para que o sociólogo consiga apreender a realidade dos fatos. a comparação e o cálculo estatístico. Levando ás últimas conseqüências essa proposta de distanciamento cognitivo entre o cientista e seu objeto de estudo. os acontecimentos manifestam sua natureza coletiva. dispõem de métodos objetivos. tão valorizada pelos positivistas. o cientista. sejam eles os costumes. Essa neutralidade em face da realidade. Durkheim aconselhava o sociólogo a encarar os fatos sociais como “coisas”. na maioria deles. isento de paixão. sem distorcê-los de acordo com seus desejos e interesses particulares. Formas de habitação. A objetividade do fato social Identificados e caracterizados os “fatos sociais”. as crenças ou os valores. Durkheim procurou definir o método de conhecimento da sociologia.A terceira característica dos fatos sociais apontada por Durkheim é a “generalidade”. entre o cientista e seu objeto.Deve o sociólogo manter-se afastado também das opiniões dadas 31 . valores e sentimentos pessoais em relação áquilo que seta sendo estudado. procurando preservar a objetividade de sua análise. que se repete em todos os indivíduos ou. que ocorre em distintas sociedades. fazendo-nos confundir o que vemos com aquilo que queremos ver. Para ele. assumido pelas ciências naturais. como a observação. em um determinado momento ou ao longo do tempo. Diante deles. ou de qualquer outra espécie. Por essa generalidade. para apreender suas regularidades. deve deixar de lado suas prenoções. Para ele. os sentimentos comuns ao grupo. isto é. sistemas de comunicação e a moral existente numa sociedade apresentam essa generalidade. É social todo fato que é geral. isto é. pressupõe o não-envolvimento afetivo. Segundo Durkheim. pelo menos. a descrição. objetos que lhe são exteriores. dificulta o conhecimento verdadeiro.

são fatos sociais. distinguindo-se dos acontecimentos individuais. Para identificar os fatos sociais entre os diversos acontecimentos da vida. A generalidade é um aspecto importante para a identificação dos fatos sociais que são sempre manifestações coletivas. assim como prescinde da opinião – sempre contraditória e subjetiva – a respeito dos fatos que estão sendo estudados. De acordo com esses critérios. utilizando nesse trabalho toda a metodologia defendida e propagada por ele. o que. Durkheim orienta o sociólogo a ater-se aqueles acontecimentos gerias e repetitivos e que apresentem características exteriores comuns. a influência de seus desejos. Suicídio Durkheim estudou profundamente o suicídio. podem servir de indicadores dos fatos sociais. o cientista pode analisar os crimes e suas penalidades sem entrar nas discussões de caráter moral a respeito da criminalidade. ou seja. os crimes. a necessidade do cientista inquirir sempre a veracidade e objetividade dos fatos estudados. pois existem em toda e qualquer sociedade e têm como característica comum provocarem uma reação negativa. cuja racionalidade só é acessível ao cientista. procurando anular. apesar de útil. ou acidentais. por exemplo. Durkheim propõe o exercício da duvida metódica. Considerou-o fato social por sua presença universal em toda e qualquer sociedade por suas características exteriores e mensuráveis. a que podemos chamar de “penalidade”. completamente independentes das razões que levam cada suicida a acabar com a própria vida. Para levar essa racionalidade ao extremo. mas mascaram as leis de organização social.pelos envolvidos. apesar de uma conduta marcada 32 . Agindo dessa forma objetiva e apreendendo a realidade por suas características exteriores. o sociólogo se exime de opiniões. concreta e observável da sociedade contra quem os pratica. Tais opiniões. Buscando o que caracteriza o crime por suas evidências. Assim. nada tem a ver com o trabalho cientifico do sociólogo. juízos de valor individuais. interesses e preconceitos. È ela que ajuda a distinguir o essencial do fortuito e aponta para a natureza sociológica dos fenômenos.

a vontade coletiva. a prova de que o suicídio depende de leis sociais e não da vontade dos sujeitos. apresenta estados que podem ser considerados estados “normais” ou “patológicos”. os membros de uma coletividade reforçam seus princípios. a sociologia tinha por finalidade não só explicar a sociedade como também encontrar soluções para a vida social. É sobre fatos assim concretos e objetivos. mas também por representar um fato social que integra as pessoas em torno de determinados valores. certamente. com sua característica ausência de organização. escapa ás consciências individuais dos envolvidos – do suicida e dos que o cercam. Punindo o criminoso.pela vontade individual. como todo organismo. portanto. que as taxas de suicídio aumentavam nas sociedades em que havia a aceitação profunda de uma fé religiosa que prometesse a felicidade após a morte. Durkheim considera um fato social como “normal” quando se encontra generalizado pelo sociedade ou quando desempenha alguma função importante para sua adaptação ou sua evolução. procurar-se-á no passado o que lhe deu origem.. A sociedade. ou o acordo de um grupo a respeito de determinada questão. estava na regularidade com que variavam as taxas de suicídio de acordo com as alternâncias das condições históricas. gerais e coletivos. por exemplo. por exemplo. isto saudáveis ou doentios. Se estas condições são ainda aquelas em que 33 . para saber se o estado econômico atual dos povos europeus.. o suicídio interessa ao sociólogo por aquilo que tem de comum e coletivo e que. Para Durkheim. renovando-os. Sociedade: um organismo em adaptação Para Durkheim. uma importante função social. que o sociólogo deve se debruçar. afirma que o crime é normal não apenas por ser encontrado em toda e qualquer sociedade e em todos os tempos. cuja natureza social se evidencia. O crime tem. Assim. sua unanimidade. é normal ou não. é garantia de normalidade na medida em que representa o consenso social. A “generalidade” de um fato social. Diz Durkheim: . Ele verificou. isto é.

Fora para Bordeaux aos 30 anos incompletos e. O que surpreende ainda em sua trajetória intelectual não é só a referida fecundidade. pois. a “saúde” do organismo social se confundo com a generalidade dos acontecimentos. formas padronizadas de conduta e pensamento. e que essa harmonia é conseguida por meio do consenso social. sobretudo a relativa mocidade com que produziu a maior parte de sua obra. A definição de consciência coletiva aparece pela primeira vez na sua obra Da Divisão do trabalho social. são considerados transitórios e excepcionais. Embora todos possuam sua “consciência individual”. “Patológico” é aquele que se encontra fora dos limites permitidos pela ordem social e pela moral vigente. como as doenças. mas. Portanto. portanto. seu modo próprio de se comportar e interpretar a vida podem-se notar. do principio de que o objetivo máximo da vida social é promover a harmonia da sociedade consigo mesma e com as demais sociedades. a adaptação e a evolução da sociedade.atualmente se encontra nossa sociedade. estamos diante de um acontecimento de caráter mórbido e de uma sociedade doente. a despeito dos protestos que desencadeia. o acordo. A consciência coletiva Toda teoria sociológica de Durkheim pretende demonstrar que os fatos sociais têm existência própria e independem daquilo que pensa e faz cada indivíduo em particular. já havia feito o suficiente para se tornar o mais notável sociólogo francês. no decorrer de uma década. “normal” é aquele fato que não extrapola os limites dos acontecimentos mais gerais de uma determinada sociedade e que reflete os valores e as condutas aceitas pela maior parte da população. Essa constatação está na base do eu Durkheim chamou de “consciência coletiva”. o consenso e. Os fatos patológicos. no interior de qualquer grupo ou sociedade. Quando um fato põe em risco a harmonia. Trata-se do “conjunto das crenças e dos 34 . é porque a situação é normal. Partindo.

resulta da expressão de características universais de uma mesma espécie. mas algo diferente. igualitária. ou seja. tem sido considerada errônea uma vez que todo comportamento humano. utilizada também em outros estudos teóricos. é considerado “imoral”. Desse ponto de partida. a forma moral vigente na sociedade. a classificação das espécies sociais. o trabalho de classificação das sociedades – como todo o mais. deveria ser efetuado com base em apurada observação experimental. mas esta espalhada por toda sociedade. em certo sentido. o “tipo psíquico da sociedade”. foi possível uma série de combinações das quais originaram-se outras espécies sociais identificáveis no passado e no presente. “reprovável” ou “criminoso”. se apresentavam justapostos e iguais. Guiado por esse procedimento. numa sociedade. estabeleceu a passagem da solidariedade 35 . Morfologia social: as espécies sociais Para Durkheim. tais como os clãs e as tribos. a forma social mais simples. numa nítida referência ás espécies estudadas em biologia. Essa referência. Ela revelaria. Ela aparece como um conjunto de regras fortes e estabelecidas que atribuem valor e delimitam os atos individuais.sentimentos comuns á medida dos membros de uma mesma sociedade” que “forma um sistema determinado com vida própria”. reduzida a um único segmento em que os indivíduos se assemelhavam aos átomos. que não seria apenas o produto das consciências individuais. Constituiu assim o campo da morfologia social. que se imporia aos indivíduos e perduraria através das gerações. A consciência coletiva não se baseia na consciência de indivíduos singulares ou de grupos específicos. Para Durkheim. a sociologia deveria ter ainda por objetivo comparar as diversas sociedades. È a consciência coletiva que define o que. A consciência coletiva é. segundo Durkheim. Durkheim considerava que todas as sociedades haviam evoluído a partir da horda. isto é. por mais diferente que se apresente.

E continua: Um fato social não pode.do ponto de vista puramente biológico.. numa rigorosa postura empírica centrada na verificação dos fatos que poderiam ser observados. O empirismo positivista. Elaborou um conjunto coordenado de conceitos e de técnicas de pesquisa que. Para a elaboração dessa postura. Observação.mecânica para a solidariedade orgânica como motor de transformação de toda e qualquer sociedade. igualmente determinada. que pusera os filósofos diante de uma realidade social a se especulada. o que é normal para o selvagem não é sempre para o civilizado e vice-versa. Dado o fato de que as sociedades variam de estágio. pois.. em Durkheim. como o cientista classifica os fatos normais e os anormais em cada sociedade? Para Durkheim a normalidade só pode ser entendida em função do estágio social da sociedade em questão . embora norteado por 36 . apresentando formas diferentes de organização social que tornam possível defini-las como “inferiores” ou “superiores”. transformou-se. Durkheim e a sociologia científica Durkheim se distingue dos demais positivistas porque suas idéias ultrapassaram a reflexão filosófica e chegaram a constituir um todo organizado e sistemático de pressupostos teóricos e metodológicos sobre a sociedade. históricos. ser acoimado de normal para uma espécie social determinada senão em relação com uma fase. de seu desenvolvimento. mensuração e interpretação eram aspectos complementares do método durkheimiano. Durkheim procurou estabelecer os limites e as diferenças entre a particularidade e a natureza dos acontecimentos filosóficos. psicológicos e sociológicos.. Encontramos em seus estudos um inovador e fecundo uso da matemática e estatística e uma integrada utilização das análises qualitativa e quantitativa. mensurados e relacionados por meio de dados coletados diretamente pelo cientista.

princípios das ciências naturais. O pensamento burguês se organiza tardiamente e quando o faz. por outro lado. da noção de totalidade. como a educação. A indústria e a expansão marítima e comercial colocaram esses países em contato com outras culturas e outras sociedades. ainda não expressa. A expansão econômica alemã se dá. no qual os países disputam com unhas e dentes os mercados mundiais. O sucesso alcançado pelas ciências físicas e biológicas. Havia busca. é sob influência de outras correntes filosóficas e da sistematização de outras ciências humana. já no século XIX. submetendo a seu imperialismo as mais diferentes culturas. fizeram com que as primeiras escolas sociológicas fossem fortemente influenciadas pela adaptação dos princípios e da metodologia dessas ciências á realidade social. o 37 . impulsionadas pela indústria e pelo desenvolvimento tecnológico. Distinguiu diferentes instâncias da vida social e seu papel na organização social. obrigando seus pensadores a um esforço interpretativo da diversidade social. aos mecanismos de coesão dos pequenos grupos e á formação de sentimentos comuns resultantes da convivência social. Ainda que preocupado com as leis gerais capazes de explicar a evolução das sociedades humanas. Pode-se dizer que já delineava uma apreensão da sociologia que se relacionavam harmonicamente o geral e o particular. entretanto. como a história e a antropologia. que tornou esses países potências emergentes nos séculos XVII e XVIII e sedes do pensamento burguês da Europa. numa época de capitalismo concorrencial. a família e a religião. guiava o cientista para o discernimento de um objeto de estudo próprio e dos meios adequados para interpretá-lo. a realidade é distinta. Sociologia alemã: a contribuição de Max Weber França e Inglaterra desenvolveram o pensamento social sob a influência do desenvolvimento industrial e urbano. Na Alemanha. Durkheim ateve-se também ás particularidades da sociedade em que vivia.

característica de sua formação política e de seu desenvolvimento econômico. nas maneiras diferentes como cada uma dessas correntes encara a história. sobre a profissão e a vocação do homem de ciências e do homem público (Geístige Arbeit aIs Benruf. na Universidade de Munique. enquanto o francês e o inglês. esforço interpretativo e facilidade em discernir diversidades caracterizou o pensamento alemão e influenciou muitos cientistas. para tanto. Mas foi Max Weber o grande sistematizador da sociologia na Alemanha. Seu interesse pela coisa pública o leva a refletir sobre as relações entre as ações científicas e políticas. Adicione-se a isso a herança puritana com seu apego à interpretação das escrituras e livros sagrados. cujos estágios o cientista pode perceber pelo método comparativo. separar ciência de opinião. Esse descompasso estimulou no país o interesse pela história como ciência da integração. ele pensava em seguir uma carreira política. 38 . Weber não era apenas um homem de ciência. a preocupação com o estudo da diferença. ele se declara a favor de uma clara cisão entre os dois tipos de atividade e procura. de Gabriel de Tarde a Ferdinand Tõnnies. entre outros elementos. Por tudo isso. A Alemanha se unifica e se organiza como Estado nacional mais tardiamente que o conjunto das nações européias. o pensamento alemão se volta para a diversidade. 1919). Desde cedo. para a universalidade. o que atrasa seu ingresso na corrida industrial e imperialista iniciada na segunda metade do século XIX. a história é o processo universal de evolução da humanidade. Devemos distinguir no pensamento alemão. Essa associação entre história. da memória e do nacionalismo. Para o positivismo. A sociedade sob uma perspectiva histórica O contraste entre o positivismo e o idealismo se expressa.que torna a especificidade das formações sociais uma evidência e um conceito da maior importância. portanto. Nas conferências que dá em 1918.

para Weber. Weber consegue combinar duas perspectivas: a histórica. A história particular de cada sociedade desaparece. que respeita as particularidades de cada sociedade. a pesquisa histórica é essencial para a compreensão das sociedades. Diz ele: Desde suas origens. Fica claro que essa posição anula a importância dos processos históricos particulares. e as individualidades são dissolvidas em meio a forças sociais impositivas. com formação histórica consistente. em nota de pé de página de seu livro As regras do método sociológico. Ao definir o que é uma espécie social. apresenta fenômenos por demais instáveis e complexos para fornecer a base para uma classificação. Max Weber. valorizando apenas a lei da evolução. alerta para que não se confunda uma espécie social com as fases históricas pelas quais ela passa. Durkheim. torna-se um poderoso instrumento para o cientista social. chegou à grande indústria. O estado econômico tecnológico etc. que ressalta os elementos 39 . entendido como a busca de evidências. Uma espécie deve definir-se por caracteres mais constantes. a generalização e a comparação entre formações sociais. Essa pesquisa. Ora. permite o entendimento das diferenças sociais. e não de estágios de evolução. se oporá a essa concepção. passou em seguida pelo artesanato e pelo pequeno comércio. figura dominante na sociologia alemã. depois pela manufatura e. diluída nessa lei geral que os pensadores positivistas tentaram reconstruir. baseada na coleta de documentos e no esforço interpretativo das fontes. de gênese e formação. Para ele. passou a França por formas de civilização muito diferentes: começou por ser agrícola. é impossível admitir que uma mesma individualidade coletiva possa mudar de espécie três ou quatro vezes. Portanto. que seriam.capaz de aproximar sociedades humanas de todos os tempos e lugares. finalmente. e a sociológica. Essa forma de pensar torna insignificantes as particularidades históricas. o caráter particular e específico de cada formação social e histórica deve ser respeitado. O conhecimento histórico. segundo a perspectiva de Weber.

O motivo que transparece na ação social permite desvendar o seu sentido. a conduta humana dotada de sentido. Mas o ponto de partida da sociologia de Weber não estava nas entidades coletivas. Para ele. o homem passou a ter. grupos ou instituições. Para a sociologia positivista. Por isso. isto é.mais gerais de cada fase do processo histórico. Weber analisou. Weber. mostrando a passagem da Antigüidade para a sociedade medieval. significado e especificidade. Para Weber. com base em textos e documentos. propunha para suas análises o método compreensivo. Cada sujeito age levado por um motivo que é dado pela tradição. de uma justificativa subjetivamente elaborada. as transformações da sociedade romana em função da utilização da mão-de-obra escrava e do servo de gleba. 40 . para Weber. a ação propriamente dita e seus efeitos. Assim. como indivíduo. ao contrário. Seu objeto de investigação é a ação social. Essa atitude de compreensão é que permite ao cientista atribuir aos fatos esparsos um sentido social e histórico. por interesses racionais ou pela emotividade. por exemplo. entretanto. que é social na medida em que cada indivíduo age levando em conta a resposta ou a reação de outros indivíduos. especificidade e importância próprias. um esforço interpretativo do passado e de sua repercussão nas características peculiares das sociedades contemporâneas.A ação social: uma ação com sentido Cada formação social adquiriu. isto é. É o agente social que dá sentido à sua ação: estabelece a conexão entre o motivo da ação. Na obra As causas sociais do declínio da cultura antiga. na teoria weberiana. a ordem social submete os indivíduos como força exterior a eles. não achava que uma sucessão de fatos históricos fizesse sentido por si mesma. . não existe oposição entre indivíduo e sociedade: as normas sociais só se tornam concretas quando se manifestam em cada indivíduo sob a forma de motivação. todo historiador trabalha com dados esparsos e fragmentários.

Por exemplo. Por outro lado.políticas. mas tal motivo não é 41 . Essa interdependência entre os sentidos das diversas ações . enviar e receber -. o social só se manifesta em indivíduos.Para Weber. O cientista pode. a tarefa do cientista é descobrir os possíveis sentidos das ações humanas presentes na realidade social que lhe interesse estudar. o fato de agir levando em consideração o outro dá um caráter social a toda ação humana. Ao cientista compete captar. formulado expressamente pelo agente ou implícito em' sua conduta. ao controle e à previsão do agente. Por outro lado. Um ator age sempre em função de sua motivação e da consciência de agir em relação a outros atores. Não significa também que a análise sociológica se confunda com a análise psicológica. por um lado. muitas vezes.o atendente. expressandose sob forma de motivação interna e pessoal. O caráter social da ação individual decorre. Por outro lado. da interdependência dos indivíduos. cabe ao cientista perceber isso. é expressão da motivação individual.é que dá a esse conjunto de ações seu caráter social. produz o sentido da ação social. Tais efeitos escapam. o simples ato de enviar uma carta é composto de uma série de ações sociais com sentido escrever. o carteiro etc. pois_ o sentido produzido pelos diversos agentes em todas as suas conseqüências. segundo Weber. Como dissemos. Para que se estabeleça uma relação social é preciso que o sentido seja compartilhado. econômicas ou religiosas. selar. um sujeito que pede uma informação a outro estabelece uma ação social: ele tem um motivo e age em relação a outro indivíduo. As conexões que se estabelecem entre motivos e ações sociais revelam as diversas instâncias da ação social . que terminam por realizar um objetivo. É o indivíduo que. por meio dos valores sociais e de sua motivação. Por exemplo. portanto. descobrir o nexo entre as várias etapas em que se decompõe a ação social. Assim. muitos agentes ou atores estão relacionados a essa ação social . Isso não significa que cada sujeito possa prever com certeza todas as conseqüências de determinada ação.mesmo que orientadas por motivos diversos . Weber distingue a ação da relação social. Por mais individual que seja o sentido da minha ação. a ação social gera efeitos sobre a realidade em que ocorre. O sentido.

em dada sociedade. Sua meta é compreender. o cientista pode conceber as tendências gerais que levam os indivíduos. mas acontecimentos que o cientista percebe e cujas causas procura desvendar. Os fatos sociais não são coisas. As preocupações do cientista orientam a seleção e a relação entre os elementos da realidade a ser analisada. como todo indivíduo em ação. A tarefa do cientista Weber rejeita a maioria das proposições positivistas: o evolucionismo. este deve se conduzir pela busca da maior objetividade na análise dos acontecimentos. Existe sempre certa parcialidade na análise sociológica. como a toda forma de conhecimento. também age guiado por seus motivos. Pela freqüência com que certas ações sociais se manifestam. Entretanto. os acontecimentos que integram o social têm origem nos indivíduos. a agir de determinado modo. para a sociologia weberiana. uma vez iniciado o estudo. tanto para ele como para os demais indivíduos que compõem a sociedade. o cientista. A neutralidade durkheimiana se torna impossível nessa visão. sua cultura e suas tradições. Dar conta de uma ação. existe uma relação social. é 42 . intrínseca à pesquisa. Explicar um fenômeno social supõe sempre que se dê conta das ações individuais que o compõem. diz ele. Portanto. A realização da tarefa científica não deveria ser dificultada pela defesa das crenças e das idéias pessoais do cientista. Numa sala de aula. em que o objetivo da ação dos vários sujeitos é compartilhado. O cientista parte de uma preocupação com significado subjetivo. Mas que é "dar conta" de uma ação? Pode-se continuar seguindo Weber nesse ponto. sendo impossível descartar-se de suas prenoções como propunha Durkheim. buscar os nexos causais que dêem o sentido da ação social. a exterioridade do cientista social em relação ao objeto de estudo e a recusa em aceitar a importância dos indivíduos e dos diferentes momentos históricos na análise da sociedade.compartilhado. Para esse sociólogo.

O que significa que o sociólogo deve poder ser capaz de colocar-se no lugar dos agentes por quem ele se interessa. nos atos individuais. Weber analisou os livros sagrados e interpretou os dogmas de fé do protestantismo. Weber relembra que. Todas elas compõem um conjunto de aspectos da realidade que se manifesta. Trata-se de uma construção teórica abstrata a partir dos casos particulares analisados. A compreensão da relação entre valor e ação permitiu-lhe entender a relação entre religião e economia."compreendê-la" (Verstehen). O tipo ideal Para atingir a explicação dos fatos sociais. Weber propôs um instrumento de análise que chamou de "tipo ideal". constrói um modelo acentuando aquilo que lhe pareça característico ou fundante. Um mesmo acontecimento pode ter causas econômicas. em As causas sociais do declínio da cultura antiga. o aristocrata dono de terras que constituía a elite política e econômica de Roma: O tipo do grande proprietário de terra romano não é o do agricultor que dirige pessoalmente a empresa. Assim. O que garante a cientificidade de uma explicação é o método de reflexão. para entender como a ética protestante interferia no desenvolvimento do capitalismo. políticas e religiosas. interpretação. necessariamente. Qualquer que seja a perspectiva adotada pelo cientista. Nenhum dos exemplos representará de forma perfeita e acabada o 43 . ele procura entender o que teria sido o patrício romano no auge do império. A gestão de suas terras está nas mãos dos servos inspetores. O cientista. a análise do social envolve sempre uma questão de qualidade. subjetividade e compreensão. sem que nenhuma dessas causas seja superior à outra em significância. por exemplo. não a objetividade pura dos fatos. pelo estudo sistemático das diversas manifestações particulares. antes de tudo. mas é o homem que vive na cidade. ela sempre resultará numa explicação parcial da realidade. Assim. embora os acontecimentos sociais possam ser quantificáveis. pratica a política e quer. perceber rendas' em dinheiro.

permitindo a identificação de exemplares em diferentes tempos e lugares. A partir daí. a austeridade. É preciso deixar claro que o tipo ideal nada tem a ver com as espécies sociais de Durkheim. permitindo comparações e a percepção de semelhanças e diferenças. numa construção do pensamento que permite conceituar fenômenos. no qual ele relaciona o papel do protestantismo na formação do comportamento típico do capitalismo ocidental moderno. A ética protestante e o espírito do capitalismo Um dos trabalhos mais conhecidos e importantes de Weber é A ética.atuavam de maneira decisiva sobre os indivíduos. a vocação. protestante e o espírito do capitalismo. Permite ainda comparar tais manifestações. O tipo ideal não é um modelo perfeito a ser buscado pelas formações sociais históricas nem mesmo em qualquer realidade observável. Constitui-se em um trabalho teórico indutivo que tem por objetivo sintetizar aquilo que é essencial na diversidade das manifestações da vida social. preferindo o cálculo e os estudos técnicos ao estudo humanístico. optando sempre por atividades mais adequadas à obtenção do lucro. Weber mostra a 44 . a poupança. empresários bem-sucedidos e mão-de-obra qualificada. No seio das famílias protestantes. Weber parte de dados estatísticos que lhe mostraram a proeminência de adeptos da Reforma Protestante entre os grandes homens de negócios. seus efeitos no comportamento dos indivíduos e sobre o desenvolvimento capitalista. É um instrumento de análise científica. procura estabelecer conexões entre a doutrina e a pregação protestante. que pretendiam ser exemplos de sociedades observadas em diferentes graus de complexidade num continuum evolutivo. o dever e a propensão ao trabalho . mas manterá com ele uma grande semelhança e afinidade.tipo ideal. os filhos eram criados para o ensino especializado e para o trabalho fabril.e formações sociais e identificar na realidade observada suas manifestações. Weber descobre que os valores do protestantismo .como a disciplina ascética.

acumula capital e o reinveste produtivamente. segundo Weber. na sua forma típica. diz ser o capitalismo. mostrando sua própria virtude e vocação e renunciando aos prazeres materiais. nessa obra.formação de uma nova mentalidade. como um fim absoluto em si mesmo. mostrando que os últimos revelam a tendência ao racionalismo econômico. Além disso. é o trabalho. mas por intermédio de valores introjetados nos indivíduos e transformados em motivos da ação social. segundo Weber. sacrifício e renúncia da vida prática. Alguns dos principais aspectos da análise: 1. Para constituir o tipo ideal de capitalismo ocidental moderno. em flagrante oposição ao "alheamento" e à atitude contemplativa do catolicismo. antes e após o surgimento das atividades mercantis e da indústria. 4.propício ao capitalismo.conjunto dos costumes e hábitos fundamentais . uma organização econômica racional assentada 45 . Buscando sair-se bem na profissão. um ethos . A motivação do protestante. 2. o protestante puritano se adapta facilmente ao mercado de trabalho. enquanto dever e vocação. base da ação capitalista. conforme seus preceitos. Ao cientista cabe. constrói um tipo gradualmente estruturado a partir de suas manifestações particulares tomadas à realidade histórica. no seu sentido teórico. 3. Procedendo assim. está em expor as relações entre religião e sociedade e desvendar particularidades do capitalismo. os atos individuais vão além das metas propostas e aceitas por eles. A relação entre a religião e a sociedade não se dá por meios institucionais. Entretanto. O motivo que mobiliza internamente os indivíduos é consciente. estabelecer conexões entre a motivação dos indivíduos e os efeitos de sua ação no meio social. podemos ver de que maneira Weber aplica seus conceitos e posturas metodológicas. Weber estuda as diversas características das atividades econômicas em várias épocas e lugares. e não o ganho material obtido por meio dele. Um dos aspectos importantes desse trabalho. Weber analisa os valores do catolicismo e do protestantismo. voltado para a oração. Assim. E.

contribuiu também para a formação de um pensamento alemão. a alemã. portanto. Isso permitiu que ele se aprofundasse no estudo das particularidades. O capitalismo promove a separação entre empresa e residência. e vivendo os problemas de seu país. Embora polêmicos. Sua contribuição para a sociologia tornou-o referência obrigatória. Mostrou. não influenciada pelos ideais políticos nem pelo racionalismo positivista de origem anglo-francesa. diversos dos da França e da Inglaterra na mesma época. em seus estudos. seus trabalhos abriram as portas para as particularidades históricas das sociedades e para a descoberta do papel da subjetividade na ação e na pesquisa social. crítico. a fecundidade da análise histórica e da compreensão qualitativa dos processos históricos e sociais. Nesse sentido. histórico e consoante com sua época. Ao contrário de seus predecessores. não para a mera especulação ou rapinagem. sujeito a leis de ação e comportamento próprios. procurando entender as formações sociais em suas singularidades. Análise histórica e método compreensivo Weber teve uma contribuição importantíssima para o desenvolvimento da sociologia. Em meio a uma tradição filosófica peculiar.no trabalho livre e orientada para um mercado real. pôde trazer uma nova visão. especialmente a jovem nação alemã que ele via despontar como potência. ele não admitia nenhuma lei preexistente que regulasse o desenvolvimento da sociedade ou a sucessão de tipos de organização social. Weber desenvolveu suas análises de forma mais independente das ciências exatas e naturais. 46 . a utilização técnica de conhecimentos científicos e o surgimento do direito e da administração racionalizados. Outra novidade do pensamento weberiano no desenvolvimento da sociologia foi a idéia do indeterminismo histórico. Foi capaz de compreender a especificidade das ciências humanas como aquelas que estudam o homem como um ser diferente dos demais e.

com base em fontes históricas. porém iluminando outras questões propostas pela realidade social. Karl Marx e a história da exploração do homem Quando um espaço contendo muitos objetos é iluminado por luzes de diversas cores vindas de várias fontes. depois. obtemos diferentes imagens. cada qual "pondo à luz" determinados aspectos da realidade social. oferecem diferentes perspectivas que se complementam. instituições e valores característicos do social. numa perspectiva mais dinâmica e interpretativa. desenvolveu-se o pensamento de Karl Marx. Passamos depois por Weber que. igualmente um estudioso do capitalismo ocidental. Simultaneamente às elaborações dos fundadores da sociologia. cada uma colocando em destaque certos contornos e formas. constituída por normas. buscando as leis de desenvolvimento das sociedades. e. cada uma delas orientada por um conjunto de pressupostos sobre a realidade e a vida social. resultando daí níveis diferentes de abordagem e modelos teóricos particulares. por sua vez. Abordamos o modelo positivista inicialmente elaborado por Comte. explicou os fatos sociais "à luz" da história e da subjetividade do agente social. como Sombart. as relações entre o meio urbano e o agrário e o acúmulo de capital auferido pelas cidades por meio dessas relações.Outros sociólogos alemães puseram em prática o método compreensivo de Weber. originando a corrente de pensamento mais revolucionária tanto do ponto de vista 47 . Weber desenvolveu também trabalhos na área de história econômica. expresso pela teoria do materialismo histórico. segundo o qual a sociedade se apresenta como sendo mais do que a soma de indivíduos. Até este ponto do livro. Estudou ainda. procuramos reconstruir o percurso que vai desde o surgimento do pensamento sociológico até a organização das primeiras teorias sobre a sociedade. o proposto por Durkheim. os diferentes modelos teóricos. De maneira análoga é isso que acontece com o campo científico: os pressupostos teóricos iluminam de forma peculiar a realidade. Assim como as diversas imagens que obtemos do espaço da experiência acima.

destinava-se a todos os homens. Marx escreveu sobre filosofia. tornava mais agudos seus conflitos e dissensões. econômica e social. Com o objetivo de entender o sistema capitalista e modificá-lo. Este é um aspecto singular da teoria marxista. pelas cientistas saciais em geral nem pelo cidadão comum.teórico como da prática social. sua inspiração. quando o marxismo se organiza como corrente política. Sua obra máxima. submetido à ordem social que ele procurou interpretar e criticar. não era apenas contribuir para o desenvolvimento da ciência. Marx foi especialmente sensível às dificuldades que a Europa enfrentava numa época de pleno e contraditório desenvolvimento do capitalismo: ao mesmo tempo em que crescia. nos últimos duzentos anos. Marx não escreveu particularmente para os acadêmicos e cientistas. nos quais se confrontaram diversos grupos sociais desde o século XIX. mas para todos os homens que quisessem assumir sua vocação revolucionária. acima de tudo. economia e sociologia. 48 . pois. Sua intenção. de organização partidária. permanecer ignoradas pela sociologia. Marx. Diferentes modelos de administração pública. porém. definia-se como um militante da causa socialista. mas propor uma ampla transformação política. As contradições básicas da saciedade capitalista e as possibilidades de superação apontadas pela sua abra não puderam. explicar ou sintetizar. por isso suas idéias não se limitaram ao campo teórico e científico. da política e da sociedade. não apenas aos estudiosos da economia. mas foram defendidas com luta como princípios norteadores para o desenvolvimento de uma nova sociedade em diferentes campos e batalhas. Ele produziu muito. Há um alcance mais amplo nas suas formulações. de ação revolucionária e de exercício da poder reconheceram em Karl Marx. suas idéias se desdobraram em várias vertentes e foram incorporadas por diferentes estudiosos. É também um dos pensamentos mais difíceis de se compreender. que adquiriram dimensões de ideal revolucionário e ação política efetiva. O capital.

. influenciados por Rousseau . apesar de julgá-las "utópicas". políticas e científicas de sua época. nem o resultado da ação voluntariosa e cons ciente dos heróis envolvidos. François-Charles Fourier (1772-1837) e Robert Owen (17711858). idealistas e irreais. Também significativo foi o contato de Marx com o pensamento socialista francês e inglês do século XIX.e cuja dinâmica se dava por oposições entre forças antagônicas . da qual seriam eliminados o individualismo.Nos primeiros meses de 1842. ou conde de SaintSimon (1760-1825). Esses autores. implantando uma ordem social justa e igualitária. propunham transformar radicalmente a sociedade. ou seja.As origens O pensamento marxista foi sintetizador de diferentes preocupações filosóficas. Hegel entendia a história como um processo coeso que envolvia diversas instâncias da sociedade . no qual o vemos pela primeira vez exibir suas melhores qualidades. não são os únicos responsáveis pela dinâmica dos acontecimentos . deve-se fazer justiça à influência da filosofia hegeliana de quem Marx absorveu uma diferente percepção da história . Marx utilizou esse método de explicação histórica para o qual os agentes sociais. assim como herdeiro de fundamentos formulados por outros pensadores. Em primeiro lugar.da religião à economia .não um movimento linear ascendente como propunham as evolucionistas.que atribuíra a origem das desigualdades sociais ao advento da propriedade privada -. apesar de conscientes.tese e antítese. como pensavam os historiadores românticos. Marx admirava o pioneirismo desses críticos da sociedade burguesa e suas propostas de transformação social. nele a lógica implacável e a ironia esmagadora de Marx são dirigidas aos eternos inimigos do autor: aqueles que negam a seres humanos os direitos humanos. Os métodos para isso variavam do uso massivo da 49 . de Claude Henri de Rouvroy. a competição a propriedade privada.as forças em oposição atuam sobre o devir. Desse embate emergia a síntese que fechava o processo "dialético" de conceber a história. Karl Marx escreveu um artigo a respeito da nova censura prussiana.

Filósofos alemães. necessariamente. Friedrich Engels . uma teoria social complexa que se destinava a analisar o capitalismo e a entender as forças que o constituíam e aquelas que levariam à sua superação. Entretanto. Finalmente. trabalho. . Mas. passa a predominar para o termo a idéia de privação. em contrapartida o socialismo defendido por ele era denominado de científico. como Hegel e Feuerbach. mercadoria. nenhum deles havia considerado seriamente a necessidade de luta política entre as classes sociais e o papel revolucionário do proletariado na implantação de uma nova ordem social.propaganda até a realização de experiências-modelo. classes sociais. também conhecido por "comunismo". que deveriam servir de guia para o restante da sociedade. Essa trajetória é marcada pelo desenvolvimento de conceitos importantes como alienação. atualmente conhecido por marxismo. maisvalia.economista político e revolucionário alemão que trabalhou com Marx de 1844 até sua morte. impossível não fazer referência ao seu grande interlocutor. emprestando-lhe um sentido de desumanização e injustiça que será absorvido por Marx. desde a publicação da obra de Rousseau (1712-1778). trabalho que tomou a atenção de Marx até o final da vida e resultou na maior parte de seu esforço teórico. modo de produção. à sua superação por um regime igualitário e democrático que seria sua antítese. falta ou exclusão. sendo co-fundador do socialismo científico. Este faz do conceito uma peça-chave de sua teoria para a 50 .A idéia de alienação A palavra "alienação" tem um conteúdo jurídico que designa a transferência ou venda de um bem ou direito.valor. Há ainda na obra de Marx toda a leitura crítica do pensamento clássico dos economistas ingleses. Vamos agora trabalhar com os principais conceitos do socialismo científico. também fazem uso da palavra. Era por esse aspecto que Marx os denominava de utópicos. doutrina que demonstrava pela análise científica e dialética da realidade social que as 'contradições históricas do capitalismo levariam. em particular Adam Smith e David Ricardo.

Esse comprometimento do filósofo e do cientista em face do poder resultou também em nova forma de alienação para o homem. a propriedade privada e o assalariamento alienavam ou separavam o operário dos "meios de produção" -:. com o intuito explícito de defendê-lo e justificá-lo. só se efetiva na práxis. transformaram-se em verdadeiras "filosofias do Estado". capaz de representar toda a sociedade e dirigi-Ia pelo poder delegado pelos indivíduos. modificados e eventualmente invertidos em relação a suas intenções. à política e à filosofia que o excluíram da participação efetiva na vida social. embora sendo produto da ação humana têm por efeito tornar o homem estranho a si mesmo. As diversas escolas filosóficas passaram a expressar a visão parcial que esse grupo tem da vida. A crítica está assim unida à práxis . como o liberalismo. entretanto. separado e mutilado. Marx mostrou. o homem só pode recuperar a integridade de sua condição humana pela crítica radical ao sistema econômico. Essa crítica radical. pois o princípio da representatividade. Segundo Marx. que na sociedade de classes esse Estado representa apenas a classe dominante e age conforme o interesse desta. matéria-prima. A indústria. base do liberalismo. também o homem se tornou alienado.ferramentas. terra e máquina . que é a ação política consciente e transformadora. criou a idéia de Estado como um órgão político imparcial. que se tornaram propriedade privada do empresário capitalista.compreensão da exploração econômica exercida sobre o trabalhador no capitalismo.e do fruto de seu trabalho. assim. Assim o marxismo se propunha como opção libertadora do homem. e o resultado de suas ações. a "divisão social do trabalho" fez com que o pensamento filosófico se tornasse atividade exclusiva de um determinado grupo. O mesmo aconteceu com o pensamento científico que. que nasce do livre exercício da consciência. Mais exatamente. a alienação é o efeito necessário de certas estruturas ou formações sociais que. Politicamente. pretendendo-se universal. Alienado. 51 . Algumas. da sociedade e do Estado. seus interesses. desejos ou necessidades. refletindo.novo método de abordar e explicar a sociedade e também um projeto para a ação sobre ela. passou a expressar a parcialidade da classe social que ele representa.

A oposição e o antagonismo derivam dos interesses inconciliáveis entre as classes – o capitalista desejando preservar seu direito à propriedade dos meios de produção e dos produtos e à máxima exploração do trabalho do operário. 52 . pois uma só existe em função da outra. apesar das oposições.burgueses e proletários estabelecem intransponíveis desigualdades entre os homens e relações que são. dispostos a vendê-la para: assegurar sua sobrevivência. de antagonismo e exploração. pagando baixos salários ou ampliando a jornada de trabalho. luta contra a exploração. antes de tudo. "apropriam-se" do produto do trabalho de seus operários em troca do salário do qual eles dependem para sobreviver. possuindo meios de produção sob a forma legal da propriedade privada. por sua vez.e os "capitalistas". melhores salários e participação nos lucros que se acumulam com a venda daquilo que ele produziu. que. só existem proletários porque há alguém que lucra com seu assalariamento. Só existem proprietários porque há uma massa de despossuídos cuja única propriedade é sua força de trabalho. De igual maneira. não resistem às evidências das desigualdades sociais promovidas pelas "relações de produção". que dividem os homens em proprietários e não-proprietários dos meios de produção. Por outro lado. considerados naturais pelo liberalismo.As classes sociais Outro conceito basilar do marxismo é o de classes sociais. O trabalhador. Para ele. as classes sociais são também complementares e interdependentes. que Marx desenvolve na busca por denunciar as desigualdades sociais contra a falsa idéia de igualdade política e jurídica proclamada pelos liberais. reivindicando menor jornada de trabalho. As classes sociais formadas no capitalismo . Dessa divisão se originam as classes sociais: os "proletários" trabalhadores despossuídos dos "meios de produção". os inalienáveis direitos de liberdade e justiça. que vendem sua força de trabalho em troca de salário .

o operário .e pela indústria. que têm o objetivo e as possibilidades de acumular bens e obter lucros cada vez maiores. nos mais diversos níveis da sociedade. na Inglaterra. A origem histórica do capitalismo Para desenvolver sua teoria. pelo trabalhador "livre" assalariado . do século XIII até meados do século XVIII. Na produção artesanal européia da Idade Média e do Renascimento (Idade Moderna). É assim que ele atribui a origem das desigualdades sociais a uma enorme quantidade de riquezas que se concentra. A comercialização. dos monopólios e do controle de preços praticados pelos Estados absolutistas. Aos poucos. No início. surgiram oficinas organizadas por comerciantes enriquecidos que produziam mais e a baixo custo. desde o surgimento da sociedade. em todos os tempos. a história humana é a história da luta de classes. em meados do século XVIII. porém. do roubo.Para Marx. principalmente com as colônias. A generalização desses galpões originou. a Revolução Industrial. As divergências e antagonismos das classes estão subjacentes a toda relação social. o trabalhador mantinha em sua casa os instrumentos de produção. nas mãos de uns poucos indivíduos. essa acumulação de riquezas se fez por meio dá pirataria. da disputa constante por interesses que se opõem. Mas. na Europa. o artesão e as corporações de ofício foram paulatinamente substituídas. acelerando o processo de separação entre o trabalhador e os instrumentos de produção e levando à falência dos artesãos individuais. Marx se vale de conceitos abrangentes. embora essa oposição nem sempre se manifeste socialmente sob a forma de conflito ou guerra declarada. era a grande fonte de rendimentos para os Estados e a nascente burguesia. Esta possibilitou a mecanização ampla e sistemática da produção de mercadorias. a partir do século XVI. da análise crítica do momento que vive e de uma sólida visão histórica com os quais procura explicar a origem das classes sociais e do capitalismo. As máquinas e tudo o mais necessário 53 . respectivamente.

isto é. que se pode comprar e vender. valor e lucro: 54 . a quem é permitido ao comprar ou "alugar por um certo tempo" sua força de trabalho em troca de uma quantia em dinheiro. o salário depende ainda da natureza do trabalho e da destreza e da habilidade do próprio traba lhador.ficaram acessíveis somente aos empresários capitalistas com os quais os artesãos. ele se torna uma mercadoria. inseparável do corpo do operário. dos hábitos e dos costumes dos trabalhadores. o salário deve corresponder à quantia que permita ao operário alimentar-se. Assim. O tipo de bens necessários depende. considerada como mercadoria.força motriz. artesãos que não conseguiam competir com o sistema industrial e desistiam da produção individual. o valor da força de trabalho. O salário O operário é o indivíduo que. vestir-se. mas uma capacidade. Como a força de trabalho não é uma "coisa". multiplicou-se o número de operários. O cálculo do salário depende do preço dos bens necessários à subsistência do trabalhador. matérias-primas . Trabalho. por sua vez. O salário é.ao processo produtivo . cuidar dos filhos. Isso faz com que o salário varie de lugar para lugar. constituindo uma nova classe social. nada possuindo. estar de volta ao serviço no dia seguinte. algo útil. Por meio de um contrato estabelecido entre ele e o capitalista. assim. instalações. o salário deve garantir as condições de subsistência do trabalhador e sua família. trabalhadores "livres" expropriados. é obrigado a sobreviver da sua força de trabalho. Além disso. No cálculo do salário de um operário qualificado deve-se computar o tempo que ele gastou com educação e treinamento para desenvolver suas capacidades. No capitalismo. não podiam competir. assim. recuperar as energias e. empregado-se nas indústrias. o salário. isolados. Em outras palavras.

55 . juntamente com a quantia paga a título de salário. Assim. Marx desmonta primeiro a armadilha da economia ”vulgar". produtos do trabalho humano. Tudo o que é criado pelo homem. o valor de um par de sapatos inclui não só o tempo gasto para confeccioná-lo. Os economistas ingleses já haviam postulado que o valor das mercadorias dependia do tempo de trabalho gasto na sua produção. Marx foi além. todos. para calcular os custos de produção e o lucro. as mercadorias resultam da colaboração de várias habilidades profissionais distintas. um pedaço de couro animal curtido. diz Marx. serão incorporados ao valor do produto. mas é claro que não se trata de uma mercadoria qualquer. Ela é a única capaz de criar valor. a máquina de costura etc. ao se exercer sobre determinados objetos. Por isso. O valor de todos esses trabalhos está embutido no preço que o capitalista paga ao adquirir essas matérias-primas e instrumentos. produziram fios de linha. Os economistas clássicos ingleses. renascem como meios de produção e se incorporam num novo produto. De modo geral. são coisas mortas. Por exemplo. Deixados em si mesmos. morto". utilizando. seu valor incorpora todos os tempos de trabalho específicos. utilizados para produzir um par de sapatos. já haviam percebido isso ao reconhecerem o trabalho como a verdadeira fonte de riqueza das sociedades. dizia que no valor de uma mercadoria era incorporado o "tempo de trabalho socialmente necessário" à sua produção. aquela que consiste em se ater apenas às aparências do jogo da oferta e da procura para analisar os fenômenos de mercado.O capitalismo vê a força de trabalho como mercadoria. mas também o dos trabalhadores que curtiram o couro. provoca nestes uma espécie de "ressurreição". que só pode ser reanimado por outro trabalho. uma agulha de aço e fios de linha são. os quais. por exemplo. Marx acrescentou que esse tempo de trabalho se estabelecia em relação as habilidades individuais médias e às condições técnicas vigentes na sociedade. um novo valor. uma nova mercadoria. Para ele. uma unidade de moeda qualquer. por isso. o trabalho. Imaginemos um capitalista interessado em produzir sapatos. desde Adam Smith. contém em si um trabalho passado.

Essa soma . a valorização da mercadoria se dá no âmbito de sua produção. não é no âmbito da compra e da venda de mercadorias que se encontram bases estáveis para o lucro dos capitalistas individuais nem para a manutenção do sistema capitalista. uma mercadoria com preços elevados. corre-se o risco de inundar o mercado com artigos semelhantes. ao sugerir possibilidades de ganho imediato. de acordo com a análise de Marx. cobrando 200 unidades de moeda pelo par de sapatos.150 unidades de moeda . vemos.por exemplo. isto é. cujo preço fatalmente cairá. que o valor de um produto corresponde exatamente ao que se investe para produzi-lo. se a disputa se prolongar poderá levar o sistema econômico à desorganização. mais 30 de salário diário pago a cada trabalhador. Sabemos que o capitalista produz para obter lucro.representa sua despesa com investimentos. O valor do par de sapatos produzido nessas condições será a soma de todos os valores representados pelas diversas mercadorias que entraram na produção (matéria-prima. uma alta arbitrária no preço de uma mercadoria qualquer tende a provocar elevação generalizada nos demais preços. quer ganhar com seus produtos mais do que investiu. Isso pode ocorrer durante algum tempo. instrumentos. Na verdade. mas. A mais-valia 56 . mais 20 com o desgaste dos instrumentos (ao término da vida útil dos equipamentos/ o empresário terá de substituí-los por novos). De outro lado. porém.Pois bem. nesse caso. pois. Ao contrário. suponhamos que a produção de um par lhe custe 100 unidades de moeda de matéria-prima. No exemplo acima. o que totaliza também 150 unidades de moeda. todos os capitalistas desejarão ganhar mais com seus produtos. força de trabalho). Mas o simples aumento de preços é um recurso transitório e com o tempo traz problemas. atrai novos capitalistas interessados em produzi-Ia. porém. De um lado. Com isso. Como então se obtém o lucro? O capitalista poderia lucrar simplesmente aumentando o preço de venda do produto .

tal como no nosso exemplo. Visualiza-se. Cada par continua valendo 150 unidades moeda. que a extensão indefinida da jornada esbarra nos limites físicos do trabalhador e na necessidade de controlar a própria quantidade de mercadorias que se produz. no restante do tempo. É claro. Nessas três horas ele cria uma quantidade de valor correspondente ao seu salário. É que. seis horas.Retomemos o nosso exemplo. portanto. que geram um valor maior do que lhe foi pago na forma de salário. que é suficiente para obter o necessário à sua subsistência. Agora. Essa é. Como o capitalista lhe paga o valor de um dia de força de trabalho. Desse modo. portanto. Esse valor excedente produzido pelo operário é o que Marx chama de mais-valia. mas a quantia relativa ao salário . a quantia investida em meios de produção também foi multiplicada por três. porém. mas agora eles custam menos ao capitalista. Suponhamos uma jornada de nove horas. a maisvalia absoluta. o salário e outra é o quanto esse trabalho rende ao capitalista. o operário recebe 30 unidades de moeda.correspondente a um dia de trabalho permaneceu constante. A duração da jornada de trabalho resulta. o operário produz mais mercadorias. A tecnologia aplicada faz aumentar a produtividade. que uma coisa é o valor da força de trabalho. por par de sapatos produzido. segundo Marx. ao final da jornada de trabalho. isto é. totalizando 60 unidades de moeda. Assim. O capitalista pode obter mais-valia procurando aumentar constantemente a jornada de trabalho. ao final da qual o sapateiro produza três pares de sapatos. isto é. Suponhamos que o operário tenha uma jornada diária de nove horas e confeccione um par de sapatos a cada três horas. as mesmas nove horas de trabalho 57 . Esse valor a mais não retoma ao operário: incorpora-se ao produto e é apropriado pelo capitalista. pensemos numa indústria altamente mecanizada. o custo de cada par de sapatos se reduziu a 130 unidades. no cálculo do valor dos três pares. ainda que seu trabalho tenha rendido o dobro ao capitalista: 20 unidades de moeda. de um cálculo que leva em consideração o quanto interessa ao capitalista produzir para obter lucro sem desvalorizar seu produto.

incluindo valores. O processo descrito esclarece a dependência do capitalismo em relação ao desenvolvimento das tecnologias de produção. monárquico. dos mais liberais aos mais ditatoriais. 86). mas expressam uma diferença de "existência material". digamos. Marx e F. vinte pares de sapatos. A mecanização também faz com que a qualidade dos produtos dependa menos da habilidade e do conhecimento técnico do trabalhador individual. em síntese. Engels “Manifesto do Partido Comunista".agora produzem um número maior de mercadorias. com ele. Esse é. legitimar seus interesses sob a forma de leis e planos econômicos e políticos. produz cada vez mais. monárquico constitucional ou ditatorial. ao mesmo tempo. p. Diante da alienação do operariado. as classes economicamente dominantes desenvolveram formas de dominação políticas que Ihes permitem apropriar-se do aparato de poder do Estado e. graças à maquinaria desenvolvida. Os indivíduos de uma mesma classe social partilham uma situação de classe que Ihes é comum. Mostra ainda como o trabalho. sob o capital. as condições específicas de trabalho geradas pela industrialização tendem a promover a consciência de que há interesses comuns 58 . A essas diferenças econômicas e sociais segue-se uma desigual distribuição de poder. . Para Marx. regras de convivência e interesses. Numa situação dessas. o processo de obtenção daquilo que Marx denomina mais-valia relativa. As relações políticas Após essa análise detalhada do modo de produção capitalista. portanto. sob quaisquer dos regimes já propostos. a força de trabalho vale cada vez menos e. in Cartas filosóficas e outros escritos. Cada forma assumida pelo Estado na sociedade burguesa seja sob o regime liberal. Marx passa ao estudo das formas políticas produzidas no seu interior. representa diferentes maneiras pelas quais ele se transforma num "comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia" (K. perde todo o atrativo e faz do operário mero "apêndice da máquina". Ele constata que as diferenças entre as classes sociais não se reduzem a diversas quantidades de riquezas. comportamentos.

59 . é o responsável por fazer a ligação entre a natureza e a técnica e os instrumentos. Materialismo histórico Para entender o capitalismo e explicar a natureza da organização econômica humana. A cada forma de organização das forças produtivas corresponde uma determinada forma de relação de produção. O homem. conseqüentemente. A classe trabalhadora. O desenvolvimento da produção vai determinar a combinação e o uso desses diversos elementos: recursos naturais. que procura dar conta de toda e qualquer forma produtiva criada pelo homem. como ferramentas ou máquinas. portanto. Marx desenvolveu uma teoria abrangente e universal. acaba por se organizar politicamente. Essas combinações procuram atingir o máximo de produção em função do mercado existente. principal elemento das forças produtivas. instrumentos e técnicas produtivas.para o conjunto da classe trabalhadora e.conjunto de forças naturais já transformadas e adaptadas pelo homem. Qualquer processo de trabalho implica determinados objetos . As forças produtivas constituem as condições materiais de toda a produção. Essa organização é que permite a tomada de consciência da classe operária e sua mobilização para a ação política. Marx parte do princípio de que a estrutura de uma sociedade qualquer reflete a forma como os homens se organizam para a produção social de bens que engloba dois fatores fundamentais: as forças produtivas e as relações de produção. vivendo uma mesma situação de classe e sofrendo progressivo empobrecimento em razão das formas cada vez mais eficientes de exploração do trabalhador.matérias-primas identificadas e extraídas da natureza -e determinados .instrumentos . mão-de-obra disponível. Os princípios básicos dessa teoria estão expressos em seu método de análise .o materialismo histórico. tendem a impulsionar a sua organização política para a ação. utilizadas segundo uma orientação técnica específica.

cooperativistas (como num mutirão) escravistas (como na Antigüidade). Os modelos de família. comunitária ou estatal e da exploração do homem pelo homem. do estudo do desenvolvimento e do colapso de diferentes modos de produção. A historicidade e a totalidade 60 . com a derrocada do modo de produção vigente e a ascensão de outro. as leis. Forças produtivas e relações de produção são condições naturais e históricas de toda atividade produtiva que ocorre em sociedade. Assim. servis (como na Europa feudal). são consideradas as mais importantes relações sociais. num determinado momento. Elas se referem às diversas maneiras pelas quais são apropriados e distribuídos os elementos envolvidos no processo de trabalho: as matérias-primas. nesse sentido. em princípio. como fundamento das relações de produção. as relações de produção podem ser. Cada qual representa diferentes formas de organização da propriedade privada. cria contradições básicas com o desenvolvimento das forças produtivas. as idéias políticas.As relações de produção são as formas pelas quais os homens se organizam para executar a atividade produtiva. o estudo do modo de produção é fundamental para compreender como se organiza e funciona uma sociedade. modo de produção asiático. Em cada modo de produção. modo de produção germânico. os próprios trabalhadores e o produto final. Essas contradições se acirram até provocar um processo revolucionário. modo de produção antigo. Marx identificou alguns modos de produção específicos: sistema comunal primitivo. ou capitalistas (como na indústria moderna). a desigualdade de propriedade. Analisando a história. a religião. As rela ções de produção. modo de produção feudal e modo de produção capitalista. A forma pela qual ambas existem e são reproduzidas numa determinada sociedade constitui o que Marx denominou "modo de produção". os valores sociais são aspectos cuja explicação depende. Para Marx. os instrumentos e a técnica.

estabelecer relações profundas entre a realidade. isto é. Entretanto. Por outro lado. Além de elaborar uma teoria que condenava as bases sociais da espoliação capitalista. isto é. substituiu a República pela Ditadura. Por sua formação filosófica.como nas colônias européias e em movimentos de independência. cada sociedade representava para Marx uma totalidade.objeto primeiro de seus estudos . porém.e os sindicatos revolucionários -. apesar de considerar as sociedades da sua época e do passado como totalidades e como situações históricas concretas.família. Marx vaticinou o fracasso da aventura do sobrinho. religião. mostrando como este parodiou o feito do tio que. um conjunto único e integrado das diversas formas de organização humana nas suas mais diversas instâncias . uma sociedade assentada na justiça social e igualdade real entre os homens. para uma conjuntura totalmente diferente daquela enfrentada por Napoleão Bonaparte. como um conjunto de relações de produção que caracteriza cada sociedade num tempo e espaço determinados. como nenhum outro. Incentivou os operários a organizarem partidos marxistas . identifica na estrutura de classes estabelecida na França aspectos universais da dinâmica da luta de classes. Marx conseguiu. poder. Marx dá um exemplo do seu método ao analisar o golpe de Estado ocorrido na França no século XIX. Na obra O 18 Brumário de Luís Bonaparte. A amplitude da contribuição de Marx 61 . pela profundidade de suas análises. encabeçado pelo sobrinho de Napoleão I. Marx conseguiu. a filosofia e a ciência. extrair conclusões de caráter geral e aplicáveis a formas sociais diferentes. com sua obra. conclamando os trabalhadores a construir. Assim. levou intelectuais à crítica da realidade e influenciou as atividades científicas de modo geral e as ciências humanas em particular. por meio de sua práxis revolucionária. Marx concebia a realidade social como uma concretude histórica. em 1799.A teoria marxista repercutiu de maneira decisiva não só na Europa . ao analisar o golpe de Luís Bonaparte. porque este aplicou a mesma fórmula política do tio.

só pode ser verdadeira e não-ideológica se refletir uma situação de classe e.O sucesso e a penetração do materialismo histórico quer no campo da ciência . Outra é exercer a crítica à realidade social. uma visão crítica da realidade. conseqüentemente. tão perseguida pelas ciências humanas. formando duas diferentes maneiras de atuação sob a bandeira do marxismo. desvendando as relações de exploração e expropriação do homem pelo homem. contradição. Fenômenos como luta. Um deles foi à objetividade científica. quer no campo da organização política. assim como das posteriores. revolução e exploração são constituintes dos diversos momentos históricos e não disfunções sociais. Marx redimensiona o estudo da sociedade humana. A ciência. A primeira é abraçar o ideal comunista. se deve ao universalismo de seus princípios e ao caráter totalizador que Marx imprimiu às suas idéias. Para Marx. Além desse universalismo da teoria marxista . A abordagem do conflito. Assim. A partir do conceito de movimento histórico proposto por Hegel. dê uma sociedade em que estão abolidas as classes sociais e a propriedade privada dos meios de produção. objetividade não é uma questão de método. Suas idéias marcaram de maneira definitiva o pensamento científico e a ação política dessa época. de modo a entender o papel dessas relações no processo histórico. econômica e social -.outras questões adquiriram nova dimensão com os princípios sustentados por Karl Marx.ciência política. a sociedade é constituída de relações de conflito e é de sua dinâmica que surge a mudança sócia. da dinâmica 62 . procurando suas contradições. voltadas para a ação prática e para a práxis revolucionária. Não é preciso afirmar a contribuição da teoria marxista para o desenvolvimento das ciências sociais. Para ele. desaparece em Marx. assim como a ação política. A idéia de uma sociedade "doente" ou "normal". Deve-se também ao caráter militante das idéias propostas. a questão da objetividade só se coloca como consciência crítica. preocupação dos cientistas sociais positivistas. mas de como o pensamento científico se insere no contexto das relações de produção e na história.mérito que a diferencia de todas as teorias subseqüentes . assim como do historicismo existente em Weber.

A sociologia. com várias tendências. como a primeira. das leis macrossociais para suas manifestações históricas. Karl Marx e Friedrich Engels estruturaram a Primeira Associação Internacional de Ope rários. Isso sem contar a habilidade com que o método marxista possibilita o constante deslocamento do geral para o particular. criava no mundo o primeiro Estado operá rio. promovendo a organização e a defesa dos ou operários em nível internacional. procurava difundir os ideais comunistas e organizar os partidos e a luta dos operários pela tomada do poder. o socialismo e o marxismo A teoria marxista teve ampla aceitação teórica e metodológica. Em 1917. A aceitação dos ideais marxistas não se restringia mais apenas à Europa. da relação entre consciência e realidade e da correta inserção do homem e de sua práxis no contexto social foram conquistas jamais abandonadas pelos sociólogos. Primeira Internacional. Os ideais marxistas também se 63 . especialmente os social-democratas. em Londres. A Segunda Internacional surgiu na época do centenário da Revolução Francesa (1889). inaugurava-se a Terceira Internacional ou Comintern. Já em 1864. que. assim como política e revolucionária. À formação do operariado no restante do mundo seguia-se o surgimento de sindicatos e partidos marxistas. O Comintern foi dissolvido em 1943. A Primeira Guerra Mundial pôs fim à Segunda Internacional como uma organização revolucionária da classe trabalhadora*. quando diversos congressos socialistas tiveram lugar nas principais capitais européias. à medida que se desenvolvia o capitalismo internacional. Difundia-se pelos quatro continentes. Extinta em 1873. como gesto de amizade do antigo bloco soviético em relação aos aliados da Segunda Guerra Mundial. do movimento estrutural da sociedade para a ação humana individual e coletiva. nem sempre conciliáveis. na Rússia. uma revolução inspirada nas idéias marxistas. em 1914. a Revolução Bolchevique. Em 1919. a difusão das idéias das propostas marxistas ficou por conta dos sindicatos existentes em diversos países e nos partidos.histórica.

preconizada pela liderança soviética. e o socialista. muito da sua capacidade de elucidar os homens em relação ao seu momento histórico e mobilizá-los para uma tomada consciente de posição. em Cuba. à época da Revolução Francesa. assim como à luta pela independência que surgia nas colônias européias da África e da Ásia. organizavam um sistema político com algumas características comuns . após a Segunda Guerra Mundial. liderado pela URSS. Intensificava-se. Todos eles são considerados movimentos de esquerda .adequavam perfeitamente à luta por soberania e autonomia. instauraram governos revolucionários que. nos anos 1950 e 1960. perdendo. assim. em 1925. sob o peso da direção do stalinismo na URSS e dos partidos comunistas a ele filiados. Em 1919. Em razão dessa disseminação pelo mundo e de sua vulgarização. liderado pelos Estados Unidos. O movimento revolucionário tornava-se mais forte à medida que os Estados Unidos e a URSS emergiam como potências mundiais e passavam a disputar sua influência no mundo. como um corpo doutrinário fechado para legitimar a tese do "socialismo em um só país". étnicos e religiosos. fiscalismo e uso intenso de propaganda ideológica e do culto ao dirigente. a cubana.uma referência aos jacobinos. coletivização dos meios de produção. existente nos países latino-americanos no início do século XX. na China e no México. o marxismo começou a ser identificado com todo movimento revolucionário que se propunha combater as desigualdades sociais entre homens e mulheres.o capitalista. como a chinesa. apesar das suas diferenças. e. em 1920. economia altamente planejada. defendia ideais de igualdade e liberdade e sentava-se à 64 . Várias revoluções. a oposição entre os dois blocos mundiais . no Uruguai. O marxismo deixou de ser um método de análise da realidade social para transformar-se em ideologia. a vietnamita e a coreana. partido que. em 1922. e da gestão burocrática dos estados socialistas. entre diferentes grupos nacionais. A polarização política e ideológica é transferida para o conjunto do método e da teoria marxista que passam a ser usados. no Brasil e no Chile. surgiram partidos comunistas na América do Norte.forte centralização.

mas apenas o de reformá-lo. falta de recursos para manter um estado de permanente beligerância. intelectuais e líderes políticos associaram de maneira categórica o desenvolvimento da sociologia ao desenvolvimento da luta política e dos parti dos marxistas. Entre eles. Entre 1989 e 1991. Nesses países.esquerda na Assembléia. Em primeiro lugar.dificuldade em conciliar as diferenças regionais e étnicas. pois o objetivo desses partidos não é mais o de romper com o capitalismo. gestão burocrática da economia e do Estado. partidos socialistas conseguiram eleger deputados e até presidentes sem que a forma de poder ou a política econômica tenham se modificado significativamente. entre outros fatores. inflação e corrupção. nas últimas décadas. para ele. porque a sociologia confundiu-se com socialismo em muitos países. Todos se confundem com o marxismo. em diferentes países. dificultando a identidade e a especificidade das teorias de Marx. Por outro lado. O fim da União Soviética provocou um abalo nos partidos de esquerda do mundo todo e o redimensionamento das forças internacionais. desfazia-se o bloco soviético após uma crise interna e externa bastante intensa . mas que a história não depende apenas da disposição humana. entender que. mas para a ação concreta sobre o mundo. Toda essa explicação a respeito do marxismo se faz necessária por diversas razões.como são hoje chamados os países dependentes da América Latina e da Ásia. a derrocada 65 . Assim. em especial nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento . atraso tecnológico. torna-se fundamentai para a compreensão da sociedade contemporânea e das crises que ora se apresentam. surgidos das antigas colônias européias. escassez de produtos. a teoria não pode se distinguir da práxis sob pena de se tornar alienada e vazia. É importante também para rever conceitos que não foram criados para a especulação científica. Rever as idéias de Karl Marx. o caráter revolucionário dos partidos de inspiração marxista passa a ser questionado ao mesmo tempo que torna possível a convivência pacífica destes com o capitalismo. baixa produtividade.

em termos científicos e marxistas. do contrário. Em segundo lugar. é preciso entender que a história não termina em qualquer de suas manifestações particulares. Nunca será bastante lembrar que a ausência da propriedade privada dos meios de produção é condição necessária. que. após dois ou três séculos de crença absoluta na capacidade redentora da ciência. revisão e complementação se coloca como necessário. um momento de particular cautela. quer na capitalista. Pode haver integração entre um e outro. Não poderia ser diferente com as ciências sociais. já não se acredita na infalibilidade dos modelos. mas nunca identidade. Assim. adquiririam um estatuto de religião e fé. não se devem confundir tentativas de realizações levadas a efeito por inspiração das teorias marxistas com as propostas de Marx de superação das contradições capitalistas. hoje se vive nas ciências. de maneira geral. e o trabalho permanente de discussão. é preciso voltar o olhar para a compreensão da emergência de novas forças sociais e de novas contradições. Enganam-se os teóricos de direita e de esquerda que vêem em dado momento a realização mítica de um modelo ideal de sociedade.confundir a ciência com o ideário político de qualquer partido. em sua possibilidade de explicitar de maneira inequívoca e permanente a realidade.e de maneira ainda mais rigorosa . Assim. quer na vitória comunista. uma vez que se apoiariam em verdades eternas e imutáveis. é possível reconhecer. Contrariamente às formulações que preconizam o fim das lutas sociais entre as classes. Em terceiro lugar. pois. mas não suficiente da sociedade comunista teorizada por Marx. Como Marx mostrou.do império soviético foi sentida como uma condenação e quase como a inviabilidade da própria ciência. É preciso lembrar que as teorias marxistas transcendem o momento histórico no qual são concebidas e têm uma validade que extrapola qualquer das iniciativas concretas que buscam viabilizar a sociedade justa e igualitária proposta por Marx. o próprio esforço por manter e reproduzir um modo de produção acarreta modificações qualitativas nas forças em oposição. na sociedade contemporânea. Também é improcedente . a persistência dos antagonismos entre o capital social total e a totalidade do 66 .

religiosas e até sexuais -. país. economia. bem como pelos traços da cultura. sua inserção na estrutura produtiva global. George Steiner mostra como a sociedade pós-clássica acabou por desmanchar os antagonismos mais agudos que existiam na sociedade ocidental. etc. etnia. ainda que particularizados pelos inúmeros elementos que caracterizam a região. É nessa perspectiva que ele propõe uma releitura da teoria marxista. O que se torna necessário é rever essa sociedade cujas relações de produção se organizam sob novos princípios enfraquecimento dos estados nacionais. Bibliografia_Cristina Costa-Introdição a Sociologia especificidade e a historicidade de cada uma de 67 . Por mais que pretendesse entender o desenvolvimento universal da sociedade humana. Em seu livro De volta ao palácio do barba azul. Marx jamais deixou de respeitar cientificamente a suas manifestações. e assim por diante. tentando encontrar em diferentes conjunturas sociais formas de contradição e exploração como as que Marx distinguiu na realidade francesa e na inglesa. sociedade.trabalho. as distinções comportamentais dos sexos desaparecem. nem o esgotamento do marxismo como postura teórica das mais amplas e fecundas. o mundo rural e o urbano se integram numa estrutura única industrial. formação de blocos supranacionais e organização política de minorias étnicas. gênero. com um poder de explicação não alcançado pelas análises posteriores. Os grupos etários se aproximam. entendendo que as contradições não desapareceram mas se expressam em novas instâncias. o fim da União Soviética não significou o fim da história ou da sociologia. mundialização do capitalismo. Assim. Tampouco terminou com a derrubada do Muro de Berlim o ideal de uma sociedade justa e igualitária.

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