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Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, língua e identidade, no 34, p.

101-118, 2008

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OS ESTUDOS CULTURAIS VÃO AO PARAÍSO
André Luis Mitidieri Pereira
RESUMO O presente artigo analisa o romance El paraíso en la otra esquina [O paraíso na outra esquina], de Mario Vargas Llosa, considerando alguns pontos de vista desenvolvidos pelos Estudos Culturais. Nesse conjunto teorético, a posição “engajada” do narrador se contraditaria aos princípios ideológicos assumidos pelo escritor peruano. PALAVRAS-CHAVE: Estudos Culturais; romance Latino-Americano; Vargas Llosa. Cuando éramos chicos, en Arequipa jugábamos a un juego en que nos poníamos no en círculo, sino como en un cuadrado. El muchacho castigado, para volver a entrar, debía hacer una pregunta: ‘¿Venden huevo aquí?’. ‘No, en la otra esquina’, le contestaban. En otra fórmula más elevada, decíamos: ‘¿Está aquí el paraíso?’. La respuesta era evidente: ‘No, el paraíso no está aquí, está en la otra esquina’. Ese juego infantil significa, para mí, la búsqueda de lo imposible. ¿Y qué es la búsqueda de lo imposible? La utopía.

MARIO VARGAS LLOSA. efrontamo-nos primeiramente com a delimitação dos Estudos Culturais, tendo em vista sua emergência, paralela à proliferação do Pós-Colonialismo, do Pós-Estruturalismo e do Pós-modernismo, bem como a atual ultra-abrangência da Literatura Comparada. Tão heterogêneos quanto esses corpos teóricos, os Estudos de Cultura com eles convergem quanto a questões que gravitam em torno de etnia, identidade e raça, gênero e sexualidade, por exemplo. Em seu princípio, os Cultural studies britânicos preocupavam-se com o estabelecimento de uma

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não poderia ser muito diferente no lado da prática. expresso. La casa verde (1966). contemporaneamente assinalada. cujo molde aprimorado encontra-se em Walter Scott. 135. Os estudos culturais vão ao paraíso prática na cultura que os distinguisse. ¿Quién mató a Palomino Molero? (1986). do público sobre o privado. El hablador (1987). narrativas autobiográficas e/ou biográficas. em sua forma romanesca. Diferenciando-se do “romance histórico”. . p. La fiesta del Chivo (2000). Estreante na literatura. ou simulando. São Paulo: Boitempo. testado em provas e exames acadêmicos”. como novelas de detetive.102 Pereira. ou seja. por meio do esmaecimento das fronteiras impostas entre a cultura de massas e a alta cultura.1 Nesse sentido. Elogio de la madrastra (1988). tem sido a visão da cultura como instrumento de descoberta.2 lançada em 2003. interpretação e luta social. Historia de Mayta (1984). Travesuras de la niña mala (2006). Los cuadernos de don Rigoberto (1997). os estudos de literatura passaram a se ocupar de notações culturais ao gosto do grande público. Jorge Mario Pedro Vargas Llosa nasceu em Arequipa (1936). É sob essa ótica que são apresentados e representados a feminista Flora Tristán e seu neto. sendo essa representada sobretudo pela “arte literária”. no começo da década de 1960. assemelhando-se a. romances cor-de-rosa. La tía Julia y el escribidor (1977). num momento em que ocorre a “transformação de um modo de intervenção política em um modo de acumulação de conhecimento. desde os posicionamentos da revista New Left Review e do Centro de Estudos da Cultura Contemporânea de Birmingham. Lituma en los Andes (1993). 2003. El paraíso en la otra esquina (2003). Se isso ocorreu na teoria. André Luis Mitidieri. uma das grandes contribuições do Culturalismo. entre outras coisas. Pantaleón y las visitadoras (1973). do tipo sobre o indivíduo e do evento sobre o invento na história central. Dez lições sobre estudos culturais. o atual subgênero romanesco de que tratamos desrespeita o caráter reprodutivo das entidades históricas e rasura o predomínio do externo sobre o interno. Tal diretriz precisa ser considerada. da produção textual. Num panorama de revigoramento. pela reiterada incidência da transformação de figuras históricas famosas em personagens de ficção. o pintor Paul Gauguin. autobiografias e biografias. La guerra del fin del mundo (1981). consagrou-se com o prêmio Leopoldo Arias pelo livro de contos Los jefes (1959). e que se intitula O paraíso na outra 1 2 CEVASCO. Conversación en La Catedral (1969). Publicou as seguintes narrativas: La ciudad y los perros (1963). na obra literária de Mario Vargas Llosa. Maria Elisa.

Le pacte autobiographique. língua e identidade. em correspondência aos seres de real existência que as originam. LEJEUNE. permeado de vôos mais literários”. Todas as citações serão extraídas dessa edição. as personagens em evidência já seguem à lógica da ficção. denotando um jogo do narrador entre distanciamento e aproximação às personagens. a repugnância perante o sexo com o marido. outro em Paul). onde Wladir Dupont afirma que estamos diante de um romance. 07). descreve com propriedade: os mal-estares de Flora. que aí ocorre um visível predomínio do interno sobre o externo. pois. Tal veiculação se dá por meio de uma mistura de discurso indireto livre com discurso dirigido ao modelo. a economia da narrativa permite inferir. apesar das volumosas descrições espaciais. 3 . ao adentrarem no texto ficcional. é apresentado de forma mais vagarosa. O afastamento da mera reprodução dos fatos e sujeitos históricos já começa a ser definido nas abas do dito livro. de checar os acontecimentos narrados com aqueles cujos eventuais documentos possam atestar sua ocorrência real. Traduzido por Wladir Dupont. São Paulo: Arx. Essa mescla discursiva é paralela à intercalação dos capítulos (um centrado em Flora. suas dores de estômago e útero. mas de examinar qual modo de leitura nos é proposto pelo autor e pelos editores da obra em questão. portanto. característico de biografias laudatórias. Mario. 04) e a epígrafe de Paul Valéry — “Que seria. Não se trata. de nós. Paris: Seuil. pois. norteando-se. reflexiva.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura. sem a ajuda do que não existe?” (p.3 Mesmo nominadas. A instância narrativa. no 34. 2003.4 por meio dos expedientes antes identificados. p. conforme atestam várias incursões ao íntimo dos dois protagonistas. porque seu paratexto assim nos indica. conforme a ficha catalográfica — “romance peruano” (p. O paraíso na outra esquina. Localizado o estabelecimento do pacto romanesco. as paixões homossexuais por Olympia VARGAS LLOSA. 1980. em segunda pessoa. 101-118. Esse tradutor da destacada criação do escritor peruano para a língua portuguesa informa que “embora também baseado em fatos comprovados. por uma questão de estatuto. esse. Podemos considerá-la como ficcional. 2008 103 esquina. bem como à utilização combinada desses nomes e dos apelidos dos protagonistas (Andaluza/Madame-la-Colère e Koke). desse modo. 4 Cf. em primeiro lugar. Philippe.

vivenciada após 1807. Apesar de agredir a mulher. Brasília: UNESCO. sua comoção diante das ínfimas condições de trabalho dos operários com quem mantém contato. Para escapar à pobreza. em peregrinações “diaspóricas”. Chazal sempre vence processos contra ela e pela guarda dos filhos. de quem é filha bastarda. Belo Horizonte: Editora da UFMG. onde se depara com as atrocidades da escravidão. por parte de vários homens com os quais não concretiza relações sentimentais. o calvário perante as transformações ocasionadas pela sífilis. são freqüentes as experiências sexuais desse. contraída no Panamá em 1887. bem como com a marquesana Vaeoho. Da diáspora: identidades e mediações culturais.104 Pereira. Aline Gauguin. 2003. Traduzido por Adelaine La Guardia Resende et al. não se constituindo monoliticamente. ano da prematura morte do pai. Outros indicadores da relevância dada ao fator interno da personagem são: seu casamento com a dinamarquesa Mette Gad. o qual morrerá em 1831. quando seu navio aporta em Cabo Verde. que a levam ao campo em 1825. nem de subjetividades unificadas. . André Luis Mitidieri. os envolvimentos amorosos com a javanesa Anah. descritas com detalhes. sua emoção frente à morte da filha. Pau’ura e Teha’amana. p. 5 HALL. Os estudos culturais vão ao paraíso Maleszewska e Eléonore Blanc. 103-33. Tanto em relação à vida de Gauguin quanto à de Flora. assim como seu processo criativo e reflexões sobre a arte e o fazer artístico. e ao sofrimento da mãe. Florita vai trabalhar na oficina de gravura e litogravura do mestre André Chazal em 1819. O casamento com o patrão resulta em três filhos — Alexandre. as nativas taitianas Titi Peitinhos. Stuart. a paixão pela bretã Madeleine Bernard. uma vez que esses protagonistas são desvelados em suas complexidades individuais. não é verificada a construção de personagens como tipos. as desavenças com Vincent Van Gogh.5 O despertar da consciência da protagonista. os galanteios e assédios. a qual chegou a padecer abusos sexuais por parte do pai. acontece na viagem a Arequipa (Peru). Nas partes do romance que dizem respeito a Gauguin. que a leva a agir. alegando necessidade de recuperação do primogênito. conscientizando os trabalhadores face às injustiças sociais. Ernest-Camille e Aline — e numa série de maus tratos. Aline Chazal.

à qual parecia se conformar. Dom Mariano de Goyeneche. Madame-la-Colère falece em 1844. viajando a várias cidades francesas. evolui de pária a ativista feminista e socialista. informando-se. a protagonista embrenha-se pelo interior da França em 1832. desmorona-se quando se encontra com a pintura e parte com a família à Dinamarca em 1884. Seu posicionamento político e sua sexualidade não são dados como absolutos. na cidade de Bordeaux. Dom Mariano providencia a viagem da prima a Arequipa. . Na casa dele. com isso. e decide entregar-se à causa revolucionária. mas se vão construindo em relação com o Outro. após deixar Aline sob os cuidados de uma senhora que se apieda de sua história. língua e identidade. que o leva a vivenciar as seguintes diásporas: Panamá e Martinica (1887). ainda criança. No último desses lugares. Planeja. presencia grotescos espetáculos de humilhações a meretrizes. Segundo sua própria definição. participando de encontros literários e políticos. Por sua vez. a ser reencontrado entre os selvagens. Ela tem por objetivo convencer Dom Pio Tristán a reconhecê-la como filha legítima do irmão desse poderoso peruano. escrevendo obras resultantes de sua observação das sociedades que visitou. segue uma perspectiva idealista. trabalha na bolsa de valores de Paris e se casa em 1873. 2008 105 Visando a fugir do esposo e da justiça. aferir renda que proporcione conforto material e espiritual a si mesma e a seus dois filhos. no Peru. Flora vai a Londres. longe do desequilibrado marido. Após intensa atividade em prol da conscientização dos trabalhadores. 101-118. Em 1839. Depois. Frustrada essa expectativa. dos quais participam os ricos locais. Necessitando abrir mão da comodidade para se habilitar à vocação. a Andaluza retorna a seu país em 1835. Ficando com o pai. Gauguin conhece a experiência diaspórica ao morar. Ernest-Camille falecerá posteriormente. refugia-se por quase um ano. aí havendo somente estilhaços de um mundo livre dos preconceitos e do racionalismo europeus. no 34. Os deslocamentos espaciais se intensificam quando ele serve por sete anos à marinha. Bretanha (de 1888 a 1890) e Taiti (1891-1893). Permanece na França até 1838. p.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura. o artista busca o paraíso perdido. Entretanto. do mesmo modo que seus pontos de vista sobre a religião. de 1865 a 1871. visita o primo. Durante o calvário em que sua vida se transforma. A vida burguesa. de onde retorna em 1885. separando-se da mulher.

quer dizer. p. que fazem valer o sentido semântico de não-lugar. 1991. delata a multiplicidade e a provisoriedade da sua identidade sexual. Inicialmente. Os estudos pós-estruturalistas se constituem numa das mais significativas importações teóricas realizadas pelos Cultural studies britânicos. abrigaria os últimos resquícios de uma vida regida pelo prazer. Ele assim se distancia dos papéis tradicionalmente definidos de homem e mulher enquanto categorias sexuais. em eterna procura das utopias. Linda. Para metaficção historiográfica. mas tanto a natureza dos referentes quanto sua relação com o mundo real são problematizadas. Subgênero do amplo espaço biográfico. onde morre em 1903. ficção. quando volta ao Taiti. do qual se reveste tal palavra. da metaficção. Também pensa encontrar o canibalismo e a primitiva arte da tatuagem. . De idêntica maneira. ver: HUTCHEON. Igual a sua avó. não ocorre uma idealização do passado. a falta de indicativos das fontes relativas aos dados biográficos aí inseridos não estabelece a pura configuração das biografias. André Luis Mitidieri. a experiência homossexual do artista com um taata vahine ou mahu. No romance em análise. a liberdade sexual e a ausência do dinheiro.106 Pereira. Por outro lado. Poética do pós-modernismo: história. Os estudos culturais vão ao paraíso retorna à França. A ausência do discurso que se volta sobre a feitura do texto afasta-o. 38. Koke está em constante movimento. o livro é merecedor de averiguação sob o prisma dos Estudos Culturais por se aproximar a essa notação. onde fica até 1895. que não compõe o conjunto da “alta cultura” e é recebida com êxito pelo público. assim como alcança ampla difusão pelos meios mediáticos. 6 caso houvesse combinação com a autoreflexividade metaficcional. o que poderia levar à sua classificação como “metaficção biográfica”. Ele crê que o arquipélago. Ademais. geralmente conhecido por outros meios. com um homem-mulher taitiano. Rio de Janeiro: Imago. a biografia rege-se pela semelhança. portanto. 6 Consideramos como metaficção biográfica aquela metaficção historiográfica cujo protagonista baseia-se num ser histórico. sua proximidade — e concomitante não enquadramento — ao romance histórico ou à metaficção biográfica pós-moderna faz com que transite por aqueles entrelugares tão caros ao Pós-Estruturalismo. teoria. de onde sai para as ilhas Marquesas em 1901. devendo definir a que campos do real aponta.

bem como a resposta às narrativas-mestras européias. Entre as produções do crítico. Acesso em: 02/02/2006. detectados. o escritor recebeu bolsa de estudos para cursar doutorado em Filosofia e Letras na Universidad Complutense de Madrid.com. o entrecruzamento das vidas dos protagonistas opera como exercício de literatura comparada. diferentes sociedades (França. Entre Sartre y Camus (1981). de local-limite. 446). sou um tatuado. Cartas a un joven novelista (1997). José María Arguedas y las ficciones del indigenismo (1996). La orgía perpetua: Flaubert y Madame Bovary (1975). “MARIO VARGAS LLOSA”. língua e identidade. região outrora colonizada. outros valores. 2008 107 Trazida em suas reflexões. La tentación de lo imposible: Los Miserables de Victor Hugo (2004). Bases para una interpretación de Ruben Darío (2001. em função de sua impureza. Cf. dois períodos distintos (meados e fim do século XIX). El lenguaje de la pasión (1999). tese de doutorado).mvargasllosa. A representação da América Latina. p. ao justapor um homem e uma mulher. misturar-se às demais culturas. outras raças. é notada nesta passagem: “nem francês nem europeu. pós-coloniais e comparatistas.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura. Da mesma forma. Paco. La utopía arcaica. Todos os indícios pós-modernistas. . pós-estruturalistas. habilitam esse artefato de Vargas Llosa a certa perspectiva pós-colonialista. Defendeu a tese de doutoramento em 1971.8 parece transformar em prática literá7 8 Graduado em Literatura pela Universidad Nacional Mayor de San Marcos (Lima. provinda de um escritor cujo berço é uma ex-colônia. mas não aprimorados nesse ensaio. García Márquez: historia de un deicidio (1971. outras formas de vida e de moral” (p. servem para ratificar a existência das mencionadas zonas de correspondência entre tais formulações críticas. tese de licenciatura). Un demi-siècle avec Borges (2004). a posição relativa de limiar. um desses negros lá do Taiti” (p. na falta ainda de outro nome. 1958). outras crenças. Historia secreta de una novela (1969). ocupada pela referida narrativa. evidente na visão de que a arte deve “abrir-se ao mundo. 131). um canibal. Disponível em :http:// www. em virtude do enfoque culturalista a que nos propomos. as preocupações dos Estudos Culturais e as produções ficcionais rotuladas como pós-modernas. Uma vez que o romancista peruano é doutor em Filosofia e Letras7 e também exerce atividades de crítico. La verdad de las mentiras (2002). Taiti e ilhas Marquesas). 101-118. Inglaterra. Embora minha aparência diga o contrário. no 34. no ano seguinte. outras paisagens. estão: Carta de batalla por Tirant lo Blanc (1969). Peru. arejar-se com outros ventos. os escritos autobiográficos de Flora e a obra pictórica de Gauguin.

Passeios por Londres. o autor em destaque vem a inserir. 2002. seria retomada por Pierre Bordieu. Sobre a necessidade de dar uma boa acolhida às estrangeiras. reforçam a modificação verificada no emprego dos objetos dignos de estudo e o questionamento do cânone ocidental. situados à margem do “socialismo científico”. BENÔIT. Peregrinações de uma excluída. As peregrinações de uma pária. São Paulo: EDUSC. André Luis Mitidieri. Embora as ações engajadas circunscrevam-se ao século XX. Cf. destacamos os opúsculos escritos pelo ser histórico que inspira essa personagem: A união operária. Traduzido por Luiz Dagobert de Aguirra Roncari. Por outra via. Tais posturas encontram pontos de referência em Zola. No que se refere à construção de Flora. a combinação entre pesquisa e engajamento. e pondo em ação a fecunda interdisciplinaridade que passara a balizar os Estudos Culturais na década de 1970. Muitas vezes tratados como representantes do “socialismo utópico”. provocam a recirculação desses autores. a organização dos capítulos dedicados à Flora é orientada por eventos que se desenrolam entre abril e novembro de 1844. A perspectiva do intelectual engajado. literário ou historiográfico. abrindo-se a todas essas possíveis leituras. É o que também ocorre no segmento 9 O engajamento assenta-se no compromisso com um projeto de transformação da existência. no plano de seu romance. e ao livro A viagem por Icaria. mas igualmente pela divulgação de textos populares e não-canônicos. sendo desprezados por sua carga de ingenuidade e bizarrice. com figurino ideal em Jean-Paul Sartre. Os estudos culturais vão ao paraíso ria os seus conhecimentos das teorias mais proeminentes do século XX. Robert Owen. de Étienne Cabet. a história e a sociologia. a renovação dos objetos e dos problemas da cultura. inseridas para recompor o passado da protagonista. Denis. Dessa maneira. a partir do reconhecimento dos limites dos estudiosos em relação a áreas afins. sua ancestralidade é outorgada a Pascal e Voltaire. outra subespécie do espaço biográfico. aproveitados na narrativa ficcional lloseana.9 A recusa das hierarquias acadêmicas não passa apenas por aquela espécie de paródia da biografia. Saint-Simon.108 Pereira. Literatura e engajamento. As constantes viagens da memória. as menções a Fourier. como a economia. os três mais importantes sinais que o Culturalismo desenvolveu até os anos de 1980: o caráter interdisciplinar. Igualmente. à maneira de um diário íntimo. Proudhon. tais pensamentos desalojam outros “nobres” motivos de intertexto. Victor Hugo e Chateaubriand. .

de Pierre Loti. descobrem que o mercado os dispersa e ressemantiza ao vendê-los em países diferentes. ed. que articula suas peças seguindo uma matriz única. Traduzido por Heloíza Pezza Cintrão e Ana Regina Lessa. e algum dia um museu talvez reúna esses quadros. por ela mesma realizada. entre outros fatos. CANCLINI. Por curioso que possa parecer. 101-118. e representada pelas dificuldades que a imprensa objeta à venda dos livros de Flora. 2003. Cf. Ao artista restam às vezes as cópias.11 10 11 As descrições das telas correspondem às reais pinturas de Gauguin. ou slides. de acordo com a reavaliação que experimentaram. na crítica à circulação do sistema literário. pois todos os capítulos aí constantes são organizados em função de telas produzidas pelo artista. a consumidores heterogêneos. Disponível em: http://www. língua e identidade. (Eugéne-Henri). p. em uma mostra na qual uma ordem nova apagará a enunciação ‘original’ do pintor. o qual somente após a morte alcança alta cotação nas flutuações das bolsas de arte européias. Paul”. Tal engajamento se manifesta. não são as posições liberais de Vargas Llosa que vêm à tona quando ele combina sua pesquisa histórica. ao pendurar os quadros. 330. de porta em porta. 4. . 2008 109 centrado em Gauguin.org/wm/paint/auth/ gauguin.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura.ibiblio. no 34. registramos a referência ao livro que o teria inspirado a viajar ao Taiti: Le mariage de Loti ou Rarahu. com uma perspectiva engajada. ou ir vê-las — seriadas em uma ordem e em um discurso que não são os seus — num museu de arte popular ou em livros para turistas. propõe uma ordem de leitura quanto o artesão. resultante em artefato literário. São Paulo: EDUSP. Acesso em: 31/01/2006. vulnerável às repercussões ideológicas da mídia. Ao artesão resta a possibilidade de repetir peças semelhantes. Néstor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. p. Não deixa de ser irônica a observação de uma das mais divulgadas premissas econômicas do liberalismo — a lei do mercado — responsável pelo pauperismo do fim da vida de Gauguin.: “GAUGUIN.10 Além disso. Essas engrenagens mercadológicas assim nos são mostradas por Néstor Garcia Canclini: Tanto o artista que.

essas tendências. protegido de Gamarra e. em vez do general Pedro Bermúdez. as histórias de seres ex-cêntricos são contempladas pelo narrador. dona Francisca Zubiaga de Gamarra. Ilustram tal ocorrência. dentre outras. peculiares ao Pós-Modernismo. sobretudo. destaca-se especialmente a figura feminina envolvida na atrapalhada revolução que começou quando. proletários. A dimensão histórica do romance convoca vozes reprimidas pela história. Quando Gamarra ocupou a presidência. ao elencar visões de dois seres à margem da sociedade do século XIX. entremeando-se às vidas dos dois protagonistas. da sexualidade e do gênero. uma personagem cuja auréola de aventura e lenda a fascinou desde que dela ouvira falar pela primeira vez. negros. da posição social. latino-americanos. simulando a própria morte. ela teve tanta ou mais autoridade que o marechal nos assuntos do governo e não vacilou em puxar uma arma para impor sua vontade. em Lima. índios. a órbita romanesca é composta por outras personagens offcentro: escravos. havia combatido a cavalo ao lado de seu marido e governado com ele. Apenas tangenciadas. como teria feito o mais beligerante macho (p. meretrizes. mulheres. mas também com as correntes reestruturadoras dos estudos historiográficos. das meninas vendidas pela própria família no Taiti. a Convenção Nacional elegeu. Os estudos culturais vão ao paraíso Todavia. a Marechala. vestida de militar. apelidada de Marechala. a remodelação da sociedade e de suas formas artísticas pode coincidir com as demandas dos movimentos sociais. da mulher deste. Dona Pancha. Do mesmo modo que os Estudos Culturais. da freira arequipenha que se evade do convento. Além de contar com Flora e Gauguin. em brandir o chicote ou em esbofetear quem não lhe obedecesse ou respeitasse. para suceder ao presidente Agustín Gamarra. que terminou seu mandato. homossexuais. A interdisciplinaridade não se firma somente com as notadas excentricidades. as passagens: da prostituta encontrada por Gauguin no Panamá. abrigadas sob o rótulo de “Nova . por tradicionais compêndios de feição historicista ou positivista. quando não excluídas. em função da etnia. polinésios. 277). Também compondo esse conjunto. conhecida por encarnar uma versão local do mito da “vagina dentada”. André Luis Mitidieri. o grande marechal dom Luis José de Orbegoso.110 Pereira.

Aos marcados intertextos com a economia e a história. língua e identidade. Abre possibilidades de sínteses mais ricas do processo histórico. Jacques. da cultura. estupidez. A escrita da história: novas perspectivas. contextualizações e rememorações de fatos contados em outros momentos da trama. Jim. à objetividade e à explicação centrada em ações individuais. 1992.12 Como os novos historiógrafos. as mentalidades etc. de seus costumes e religiões. procedendo a freqüentes reenvios. remetendo a essas narrativas. O termo provém do ensaio de Edward Thompson (1966). novas tendências historiográficas reagiram à história política e factual. transmitidas de geração a geração. A história vista de baixo. A história nova.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura. 2008 111 História”. a chamada Nova História abarca as histórias da mulher. convertiam em coerentes manifestações de idealismo. cobraram vigor a partir da segunda metade do século XX. Peter. a superioridade estética e moral do povo fraco e avassalado e a inferioridade decadente e repressora do povo forte e avassalador” (p. cuja voz é processada pelo autor do livro O paraíso na outra esquina: “Um quadro que mostrava a total incompatibilidade de duas culturas. 307-308). um labirinto de imposturas patrioteiras (p. 480). (Org. SHARPE. de que é exemplo aquela controvertida batalha peruana: E se todas aquelas batalhas fossem tão disparatadas como a que você presenciou na Cidade Branca? Um caos humano que. 1992. In: BURKE. A recorrência a personagens localizadas na base da pirâmide social conforma o campo da “história vista de baixo”. crueldade e ignorância da maioria. para satisfazer o patriotismo nacional. Ver: BURKE.. p. avidez. [.] Sim. Desde os anos de 60/70. 1998. 12 13 .). UNESP. LE GOFF. sacrificada de maneira implacável pela ambição. generosidade. Os casos lembrados pela memória recobram importância. no 34. e a escrita. depois.13 ângulo também favorecido pelo pintor da obra pictórica A irmã de caridade. princípios. 101-118. Florita: a história vivida era de um ridículo cruel. nomeando abordagens alternativas à história das elites. pela cobiça ou pelo fanatismo da minoria. São Paulo: Martins Fontes. nelas apagando tudo que fosse medo. São Paulo: Ed. valor. p. Vargas Llosa valoriza a oralidade. 38-62.. egoísmo. proporcionando meio de reintegrá-lo aos que podiam tê-lo por perdido. soma-se o diálogo com a sociologia. os historiadores. por meio de uma perspectiva que não ratifica Após 1930.

que abordaria as culturas à margem da dominante. de maneira que as culturas dominadas se definem por sua distância em relação à dominante. dominante x dominado. Em lugar de um posicionamento populista. tanto em sociedades periféricas (América Latina. como nas festas taitianas onde os nativos usufruem a liberdade sexual. do romance e do cristianismo. fundamentalmente. contribuindo à desmobilização das classes dominadas (índios. A ordem estabelecida é legitimada através da hierarquização. por meio do poder simbólico do jornal. radicados na própria matriz ou em outros continentes. A observação mais próxima das interações sociais no cotidiano e dos significados e valores culturais das diferentes sociedades revela um quadro em que a sombria Europa se descortina tão ou mais miserável do que a América Latina e a Polinésia. a investir contra o poder financeiro e patriarcal no segmento protagonizado por Flora e contra a moral burguesa na parte centralizada em Gauguin. As ações dos grandes industriais e banqueiros europeus. seja ele católico ou protestante. é enfatizada a criação da própria história dos oprimidos por meio de sua luta social. das elites locais e dos colonos do terceiro mundo. Polinésia) quanto em capitalistas centrais (Europa). A hierarquia se estabelece. nem obliteradas as circunstâncias e estruturas de suas pobrezas. André Luis Mitidieri. não são vistas como determinadas. aliadas à presença das igrejas católicas e protestantes. contrapostas a essa forma de dominação. na manutenção das línguas quíchua no Peru e maori na Polinésia. por cujo intermédio são alocadas a direção e a manutenção de determinada ordem social. ao considerar as diversas condições através das quais se processa a hegemonia. Essas duas regiões são narradas com sol e colorido. mas continuaria a ter essa como legítima. nas celebrações religiosas dos indígenas peruanos. sexuais ou regionais. ainda que não seja omitido o enorme abismo entre suas classes. étnicas.112 Pereira. Do contrário. centro-periferia. nas crenças e superstições desses povos. As culturas locais ou regionais. . Os estudos culturais vão ao paraíso as redutoras oposições binárias opressor x oprimido. pelas diferenças entre as identidades nacionais. notamos o relevo dado às estruturas de sentimento. responsáveis. A presença de uma cultura dominante (branca européia) assegura comunicação imediata entre todos os seus membros. escravos. junto a outros fatores. dão sinais de resistência. proletários europeus etc).

irreconhecível. 14 . língua e identidade. por exemplo. defendida por partidos políticos de extrema direita. são levados em conta os fluxos migratórios. Introdução aos estudos culturais. Taiti e ilhas Marquesas. embora tardiamente. São Paulo: Parábola. alicerçadas sob a bandeira da construção de nacionalidades homogêneas. Assim. ocorridos massivamente nos anos de 1800.14 A força dos símbolos hegemônicos. das outras formas de poder”. não se reduzindo a uma delas. André. Os protagonistas são definidos através de suas situações relativas a diversas coordenadas (classe. no 34. p. a extrema-unção recebida pela feminista e o enterro do pintor em cemitério católico são sintomáticos do poder simbólico. a homogeneização/diferenciação. Do mesmo modo. essas ‘comunidades imaginadas’ estão sendo contestadas e reconstituídas. A idéia de uma identidade européia. que os torna reconhecidos nessas áreas. etnia. compreender consumos culturais e “prazeres’ midiáticos” que poderiam parecer escandalosos a intelectuais marcados pelo marxismo. a advogar uma identidade constituída na negação do Outro. p. ainda que só tivessem se agravado no final do século XX. 2004. gênero. quer dizer. Eles capitalizam simbolicamente os frutos dessa oposição e de suas inclinações às culturas subalternas. como BORDIEU. por Fernando Tomaz. “uma forma transformada. 15. 2008 113 Por sua vez. transferindo-os à ação política e artística. 101-118. mesmo que se oponham à cultura dominante. O poder simbólico. Madame-la-Colère e Koke fazem parte de um manifesto processo de degradação dos limites que moldam tanto suas identidades individuais quanto as culturas nacionais do Peru. Flora e Gauguin resultam do consenso entre culturas em choque. São Paulo: Bertrand. 110. p. NEVEU. Confira: MATTELART. de França e Inglaterra. Contra a vontade de ambos. pondo em risco a organização do Estado-nação. nação). transfigurada e legitimada. recentemente.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura. A representação dessas sociedades. 7. faz com que aflorem questões correspondentes à “virada etnográfica”15 sofrida pelos Estudos Culturais a partir da década de 80 do século XX. Estreitamente vinculando-se a tal incidência. 2004. Érik. 15 A “virada etnográfica” pode ser pensada como identificação dos meios mais eficazes para analisar em campo enigmas ligados a processos de decomposição/recomposição identitária. transparece nos mundos sociais do século XIX. presentes em tal época. Trad. da cultura e da política nacional: No mundo contemporâneo. ed. Pierre. surgiu.

Folha de São Paulo e O Globo. principalmente. Essa atitude é. A aferição dessa incidência numa obra literária torna-se um pouco dificultada. Kathryn. independentemente de agremiações partidárias. cada vez mais. muitos deles. 24. mas pelos representantes da grande imprensa. 2000. relacionado à ativa receptividade dos produtos da mídia. ao mesmo tempo. Tunísia e Argélia). visando à união dos operários franceses. da televisiva. também não poderíamos pas16 WOODWARD. 1995). p. p. tem sua recepção orientada. anúncios publicitários etc. . Outra importante marca da virada etnográfica é o desvendamento dos mecanismos de codificação/decodificação. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Podemos vê-la como a projeção de uma nova forma daquilo que Edward Said (1978) chamou de ‘orientalismo’ — a tendência da cultura ocidental a produzir um conjunto de pressupostos e representações sobre o ‘Oriente’ que o constrói como uma fonte de fascinação e perigo. 07-72. em virtude da indisponibilidade dos meios interativos de que a televisão se utiliza. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. não deixa de ser conveniente a averiguação da maneira pela qual o livro. isso é atestado por sua contracapa. 3. e as pregações da Andaluza. Petrópolis. RJ: Vozes. onde cintilam três releases apreciativos de talhe impressionista. como exótico e. In: SILVA. como provam a insuflação dos marquesanos contra os impostos. Os estudos culturais vão ao paraíso uma reação à suposta ameaça do ‘Outro’. encontrada nas políticas oficiais de imigração da União Européia (King. realizada por Koke.16 Ainda sob o prisma da reconfiguração dos Estudos Culturais. não por profissionais das letras. como produto cultural. financiados por merchandising. No caso da edição brasileira d’O paraíso na outra esquina. ed.114 Pereira. os quais são representados como uma ameaça cuja origem estaria no seu suposto fundamentalismo islâmico. Entretanto. ameaçador. extraídos dos jornais O Estado de São Paulo. Esse ‘Outro’ muito freqüentemente se refere a trabalhadores da África do Norte (Marrocos. Na discussão do circuito de produçãocirculação-recepção dos artefatos literários. campanhas governamentais. Tomaz Tadeu da (Org. André Luis Mitidieri. as lutas verificadas no romance dão-se no terreno dos movimentos sociais. todos do centro do país.).

será que Vargas Llosa estaria submetendo suas concepções ideológicas17 ao raciocínio econômico da rentabilidade em curto prazo e se orientando em função dos horizontes de expectativas de seus virtuais leitores? Caso essa hipótese pudesse ser confirmada. não seria demais repetir. viés um pouco esquecido pelos Estudos Culturais desde os anos de 1980. agrupando-se majoritariamente em torno de entraves sofridos por grupos que. da prática construtora dos espaços de negociação e transformação.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura. no 34. Então. já não são minoritários. São Paulo: Ática. Desafíos a la libertad (1994). 2008 115 sar ao largo de um fato que nos vem provocando. Pós-modernismo. em benefício de autores catalogados como pós-modernos. língua e identidade. cuja ambientação no século XIX parece sinalizar para as mudanças na economia global. em muitos casos. p. Piedra de toque (2001). As necessidades de entrada no mercado de trabalho. com a despolitização e marginalização dos “pais fundadores” (Hoggart. O estatuto do cultural. A Writer’s Reality (1991). desde a primeira leitura do romance em apreciação: a simpatia do autor por suas personagens revolucionárias e libertárias. reunidas em: Contra viento y marea (1980-1993). a observação das conexões interdisciplinares produtivas e o modo como o engajamento pode mover o trabalho intelectual são trazidos à luz pelo romance em tela. não teria sido mais fácil associar-se à moda teoricista da relativização e da desconstrução indiscriminadas? No entanto. Nesta fase do sistema econômico mundial. Making Waves (1996). 17 . aliando-se às questões com as quais se defrontavam os Estudos de Cultura nos anos de 1970 e que devem ser retomadas. Hall). 18 JAMESON. reconhecimento dos direitos civis. a lógica cultural do capitalismo tardio.18 as lutas passam a ser fragmentadas. 101-118. 1996. Isso poderia ser tomado como estratégia de marketing e se vincular a uma abordagem de economia política da mídia e da cultura. Fredric. liTais concepções podem ser conhecidas por meio do livro de memórias El pez en el agua (1993). a que Frederic Jameson chama de “capitalismo tardio”. Traduzido por Maria Elisa Cevasco. Williams. reconhecendo seu público-alvo naqueles que poderiam comungar com suas discussões teóricas sobre a literatura. Thompson. bem como por publicações de cunho político. o escritor peruano conserva a perspectiva do embate.

a termos em vista sua gênese e expressividade no Ocidente do século XVIII. pois registra mudanças estilísticas no que se pode chamar de dominante cultural. André Luis Mitidieri. juntamente com a rejeição aos binarismos rígidos ao redor da cultura de massa e da alta cultura. Configura-se então uma tradição emergente. Os estudos culturais vão ao paraíso vre orientação sexual ou mesmo de um visto de permanência revelamse mais urgentes do que os dogmas revolucionários. Traduzido por Hildegard Feist. Ian. WATT.20 valendo-se de estratégias da literatura biográfica. mostra-se frutífera ao considerar as políticas culturais da diferença. resultam proveitosas as suas interdisciplinaridades com a Literatura Comparada. a pequena utilização posterior e a revitalização por que passa no final do século XX. leque narrativo que. a cada dia. A ascensão do romance: estudos sobre Defoe. o Pós-Estruturalismo e o Pós-Modernismo. se constitui em manifestação de uma cultura residual. 19 20 HALL. cujos patrões estão. não têm origem única. o Pós-Colonialismo. . ganham importância a volta da história no domínio da literatura. mais distantes e inacessíveis. a ênfase na recepção e a atenção aos estudos pós-coloniais. em função da internacionalização do capital. São Paulo: Companhia das Letras. geralmente associada a posicionamentos em torno da revitalização do passado discursivo e de novas identidades.116 Pereira.. 261-262. op. 1990. Esse não é nem pode ser rejeitado inteiramente. mas que passam a compor o cenário sócio-cultural da pós-modernidade. Em tal cenário. por sua vez. abarcam discursos múltiplos e se recusam a ser uma grande narrativa.19 É assim que a estruturação da obra literária O paraíso na outra esquina oxigena o dominante gênero romanesco. cit. o qual também não basta como paradigma auto-suficiente para a prática analítica. Richardson e Fielding. até então marginalizadas pelo discurso literário hegemônico. como bem observa Stuart Hall. Como os Estudos Culturais constituem-se numa formação discursiva. p. de lutas em torno do diferente. 25-50. As condições objetivas e subjetivas de uma radical transformação da ordem vigente vêemse obstaculizadas em virtude da dispersão do proletariado. da produção de novas identidades e da entrada de novos sujeitos na cena política e cultural. p. Sua articulação com o Culturalismo.

Já que a obra aqui analisada desvia-se das posições conservadoras publicamente assumidas por seu autor. mas só às vezes operam como ação. O local da cultura. as práticas culturais são atuações. Direção: Elio Petri. p.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura. p. e ao oferecerem meios de expressão às culturas subalternas.23 Mais do que ações. um trabalho crítico se desincumbem da ilusória pretensão de sozinhos desafiarem as estruturas de um poderio multipolar que se solidifica vertiginosamente neste terceiro milênio. o simulado e o distinto em qualquer interação. Talvez o maior interesse para a política de considerar a problemática simbólica não resida na eficácia pontual de certos bens ou mensagens. no 34. língua e identidade. simulam as ações sociais. tal como o operário daquele filme italiano. p. BHABHA. Itália: Euro International Film. 21 . num tempo em que. 2003. nem substancialmente modificado ao se hibridizar na “atuação” de Canclini21 ou na “agência” de Homi Bhabha. operam como locais de combate. as arenas onde os combates são travados. ao revelarem os mecanismos de fixação e manutenção da hegemonia. 23 Referimo-nos ao filme A classe operária vai ao paraíso (1971). individuada e especificidade de análise) podem ser pensados agora como externos à epistemologia que insiste no sujeito anterior ao social ou no saber do social negando a diferença particular na homogeneidade transcendente do geral. Produção: Ugo Tucci. esquerda e direita também esbarram em problemas de identidade. cuja eficácia fica comprometida caso se desalojem de práticas sociais correspondentes e mutuamente implicadas às renovações da esfera teórica. 22 A agência pós-colonial é a ação que subverte o discurso imperialista. 239-274. Cf. mas em que os aspectos teatrais e rituais do social evidenciam o oblíquo. In: ______. o romance em exame mostra que os pluricentros geográficos nele representados correlacionam-se às multidimensionalidades dos sujeitos nele envolvidos. CANCLINI. UFMG. no qual um operário-modelo defronta-se com a tensão entre a descoberta da consciência de classe e os sonhos de consumo da classe média.22 Mudaram. de modo que um livro. 101-118. 2003. 2008 117 Exemplar dessa emergência. sim. Entretanto. Belo Horizonte: Ed. Representam. Homi K. Os elementos de consciência social imperativos para a agência (ação deliberativa. 350. A CLASSE OPERÁRIA vai ao paraíso. mas o engajamento não foi abolido. 01 videocassete. 1971. uma disciplina acadêmica. resta-nos torcer para que o fracasso do político liberal continue a ceder espaço ao sucesso do romancista engajado. O pós-colonial e o pós-moderno: a questão da agência. Narrador e personagens indicam que o paraíso das utopias pode estar sempre mais adiante.

Os estudos culturais vão ao paraíso ABSTRACT This paper aims at analyzing the novel El paraíso en la otra esquina [The paradise in the other corner]. showing that this peculiarity contradicts the ideological principles assumed by the Peruvian writer. The narrator’s engaged position is put in relief. Vargas Llosa.118 Pereira. by Mario Vargas Llosa. Latin-American Novel. André Luis Mitidieri. KEY-WORDS: Cultural Studies. . under some points of view developed by the Cultural Studies.