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Aline Evelyn Campolina Dias

C O M U N I C A Ç Ã O E T U R ISM O :
estudo do programa turístico Cidade da Gente da TV Horizonte

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

Aline Evelyn Campolina Dias

C O M U N I C A Ç Ã O E T U R ISM O :
estudo do programa turístico Cidade da Gente da TV Horizonte

Monografia apresentada ao Centro Universitário de Belo Horizonte como requisito parcial à obtenção do título de bacharel em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo. Orientador: Prof. Luciano Andrade Ribeiro

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

SU M Á R I O 1 I N T R O D U Ç Ã O .................................................................................................................. 03 2 C O M U N I C A Ç Ã O E T U R ISM O ....................................................................................... 05 2.1 Turismo mineiro ................................................................................................................ 05 2.2 Circuito Turístico............................................................................................................... 07 2.3 Gestão de cidades históricas .............................................................................................. 09 2.4 Gestão estratégica do turismo ............................................................................................ 13 2.5 Economia gerada na cidade turística ................................................................................. 14 2.6 Turismo no contexto internacional e nacional ................................................................... 16 2.7 Novas tecnologias da comunicação no mercado turístico ................................................. 18 2.8 A influência da mídia na indústria do turismo .................................................................. 20 2.9 A importância do marketing no turismo ............................................................................ 22 3 T E L E V ISÃ O E O R E G I O N A L ISM O .............................................................................. 25 3.1 Televisão e o turismo ......................................................................................................... 25 3.2 História da televisão brasileira .......................................................................................... 26 3.3 Televisão digital interativa ................................................................................................ 28 3.4 O papel da emissora regional e sua audiência ................................................................... 30 3.5 Desafios e obstáculos de uma televisão regional .............................................................. 33 3.6 A multifuncionalidade do jornalista e o profissional multimídia ...................................... 34 3.7 Produção em televisão ....................................................................................................... 36 3.8 Critérios de noticiabilidade na televisão ............................................................................ 39 4 C I D A D E D A G E N T E : U M O L H A R M U L T I F U N C I O N A L PA R A O T U R ISM O .... 43 4.1 A emissora católica de Belo Horizonte ............................................................................. 43 4.2 De Minas para o mundo .................................................................................................... 45 4.3 A trajetória de Luciana Katahira ....................................................................................... 47 4.4 Metodologia ....................................................................................................................... 48 4.5 Análise ............................................................................................................................... 51 4.5.1 Critérios de noticiabilidade............................................................................................. 51 4.5.2 Características técnicas ................................................................................................... 53 4.5.3 Pauta ............................................................................................................................... 56 4.5.4 Obstáculos editoriais ...................................................................................................... 58 5 C O N C L USÃ O ..................................................................................................................... 60 6 R E F E R Ê N C I AS ................................................................................................................. 62

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1 INTRODUÇ Ã O Uma emissora de televisão regional possui o papel de exibir sua programação com o conteúdo direcionado à cidade em que está instalada. Para isso, veicula as principais notícias e acontecimentos locais, dando destaque, sobretudo, aos casos inusitados no âmbito policialesco ou de prestação de serviço. Muitas vezes, lida com a falta de recursos tecnológicos e financeiros, motivos estes que a induzem optar em escolher profissionais da comunicação que saibam fazer várias funções, em vez de manter na empresa pessoas em áreas específicas. O jornalista multifuncional é, na contemporaneidade, a característica predominante do profissional da comunicação que lida, como nunca antes lidou, com possibilidades tecnológicas e alternativas de representação social. Nas empresas televisivas, isso não é diferente. A intenção é, uma vez o profissional da comunicação aliados às novas ferramentas digitais, como laptops, iphones, gravadores e celulares modernos, entre outros, dinamizar e agilizar o material jornalístico final, além de obter uma economia na empresa. Diante deste cenário, este trabalho pretende estudar o programa televisivo Cidade da Gente, produzido, roteirizado, apresentado e, muitas vezes, filmado pela jornalista multifuncional Luciana Katahira. O programa – com proposta editorial voltada para a cobertura do turismo doméstico e alternativo – pertence à emissora regional da capital mineira, TV Horizonte, e servirá de objeto de estudo para mostrar a multifuncionalidade da apresentadora nos programas gravados em cidades mineiras – mesmo com a ajuda da equipe em algumas funções, como filmagem e edição de imagens –, e nas várias tarefas acumuladas em séries internacionais, no qual ela mesma se deslocou, sozinha, para a Argentina e Europa, com câmera, microfone, tripé, fitas etc. As hipóteses iniciais dão conta de que a experiência de Katahira em exercer várias funções nos programas turísticos nacionais foi fundamental para que a apresentadora soubesse planejar e executar sozinha as filmagens, entrevistas, offs1 e passagens nas cidades estrangeiras por onde passou. Outra questão relacionada aos pressupostos deste trabalho se

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“Off” é o termo técnico que, do inglês, significa “desligado”. Em contraponto ao “on”, ou seja, “ligado”,  representa o texto televisivo em que apenas a voz do repórter se destaca.

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concentra na relação comunicação e turismo, em que a influência da mídia nos negócios turísticos é cada vez maior. Para que essas hipóteses sejam verificadas e, posteriormente, comprovadas ou refutadas, livros e artigos científicos de autores relevantes para a pesquisa serão estudados. Para isso, o eixo teórico foi dividido em três momentos: comunicação e turismo; a televisão e o regionalismo; e o jornalista multifuncional. Para que seja entendido esse processo, no primeiro capítulo será apresentada a importância da comunicação na indústria turística. Saber o poder de influência que a mídia tem no momento da escolha do destino desejado pelo viajante e entender como funcionam as questões culturais, políticas e econômicas, que envolvem o turismo, serão estudados, sobretudo, por meio dos autores Nielsem (2002), Franchi (2004), Wild (2004), entre outros. Após essa reflexão teórica, a importância da televisão – considerada como um dos maiores veículos de comunicação de massa –, na divulgação do turismo nacional e internacional será mostrada no segundo capítulo, assim como será ressaltada a forma como essa mídia pode auxiliar e influenciar as pessoas no dia-a-dia. Além disso, serão analisados, por meio dos autores Bazi (2001), Bistane & Bacellar (2006), Mark (2007), entre outros, os desafios e o papel das emissoras regionais e como elas contribuem para a formação do jornalista multifunção. Já no terceiro e último capítulo, o leitor terá acesso à trajetória histórica da emissora, à vida profissional da apresentadora e à linha editorial do programa, que são objetos de estudo deste trabalho. Neste momento desta monografia, está, também, a estratégia metodológica utilizada. E, ainda, a análise dos quatro episódios do programa escolhidos como referência: Diamantina (Série Minas Gerais), Morro Vermelho (Série Minas Gerais), Bariloche, Argentina (série

Argentina), e Amsterdam (série Pela Europa!).

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2 C O M U N I C A Ç Ã O E T U R ISM O Este capítulo mostrará o potencial da comunicação no turismo. Também será analisada a forma como a mídia pode influenciar o turista na escolha do destino desejado. Para que esta interpretação seja compreendida, é fundamental que dinâmicas do setor turístico econômico, político e cultural sejam apresentadas para melhor entendimento. 2.1 T urismo mineiro O turismo é, na concepção da comunicação, a locomoção de pessoas para um determinado lugar, em busca da concretização de seus sonhos ou movidos por interesses comerciais, estéticos ou acadêmicos.
[...] uma forma de auto-expressão, o desejo de exercer as muitas liberdades que usufruímos na sociedade moderna (gastar, nos movimentarmos, experimentar a sensação do novo, do velho ou do outro) e de comunicar esses desejos presentes ou futuros em decisões e ações de turismo e viagens de uma forma comercial, estética, física, virtual, real e emocional. (NIELSEN, 2002. p.17).

Em Minas Gerais, o turismo é conhecido pelas exuberantes paisagens naturais e os grandes patrimônios históricos. Localizado na região sudeste do mapa brasileiro, com 853 municípios, o Estado mineiro oferece vários atrativos turísticos correspondentes à arquitetura, gastronomia, religião e história. De acordo com a Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais (Setur/MG)2, o Estado oferece, pelo menos, três grandes segmentos turísticos, entre eles o Turismo de Negócios, que se destacou nos últimos anos com eventos de grande porte nacionais e internacionais, como a Reunião Anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em 2006, e a Reunião da Cúpula do Mercosul, em 2004. Por tratar-se de um território montanhoso, com um grande número de rios, cachoeiras, grutas e cavernas, que oferecem ao turista farta opções de prática de esportes radicais – rafting, trekking, rapel, parapente, entre outros -, o Ecoturismo e Turismo de Aventura também se encaixam como outros dois segmentos turísticos. Outros tantos segmentos compõem o perfil turístico do Estado. Um deles, impossível de não ser citado aqui, é a culinária mineira, conhecida pelos seus pratos típicos, como o feijão
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Fonte: www.turismo.mg.gov.br

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tropeiro, a carne com ora-pro-nóbis, o frango com quiabo e angu, além do tradicional pão de queijo mineiro e as cachaças que encantam todo o país. Eventos gastronômicos em todo o Estado são realizados, como o Comida di Buteco, em Belo Horizonte, a Festa do Queijo, no Serro, o Festival Internacional de Cultura e Gastronomia, em Tiradentes, e o Expocachaça, também na capital mineira. Por esse motivo, o turismo Gastronômico se tornou uma grande modalidade no segmento turístico mineiro; e, por fim, o Turismo histórico-cultural, que contempla museus, igrejas barrocas, casario colonial e tradições religiosas seguidas por moradores das belas cidades históricas, como Ouro Preto, Mariana, Diamantina e Sabará. O turismo em Minas também é mundialmente conhecido pelas festas religiosas e manifestações folclóricas, que são realizadas nas cidades mineiras com o intuito de homenagear santos, exaltar a fé e manter as tradições da cultura popular. A semana santa – período em que são celebradas, pelos católicos, a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo –, por exemplo, atrai centenas de visitantes às cidades históricas, como Ouro Preto, Tiradentes e Sabará, onde são confeccionados extensos e ornados tapetes artesanais com figuras sacras, para que, na procissão do Domingo de Ramos, fiéis caminhem sobre a arte, e encenem passagens bíblicas. Normalmente, essa manifestação religiosa ocorre entre os meses de março e abril. No que diz respeito ao folclore, os destinos turísticos mais procurados, além das tradicionais cidades históricas, são Curvelo, Jequitibá, Baldim e Paraopeba. Vários turistas se deslocam para esses lugares com a intenção de prestigiar a cultura local. A Folia de Reis, por exemplo, é um festejo do folclore popular, de origem portuguesa, que passou a ter caráter religioso no Brasil em meados do século XVIII. É comemorada sempre no dia seis de janeiro – data esta ligada aos motivos natalinos -, em que doze foliões caracterizados de reis magos, mestre e contra-mestre, palhaço e pessoas comuns, tocam instrumentos, como violão, reco-reco, sanfona, cavaquinho e chocalho, cantam versos de caráter religioso e passam em todas as casas da redondeza em busca de oferendas. O Governo do Estado tem incentivado o desenvolvimento dessas e outras atividades turísticas em Minas, investindo em operadoras do turismo, em prol da promoção de atrativos, produtos e destinos mineiros. De acordo com a pesquisa realizada pelo Ministério do Turismo,

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disponível no Plano Estadual de Turismo 3 2007 – 2014, Minas Gerais desponta como Estado turístico forte, consolidando posição alcançada em 2005 de segundo destino turístico interno brasileiro, com 10,4% do fluxo total de viagens. Essa grande procura está relacionada com a diversidade cultural e natural dos destinos que o Estado oferece, além da hospitalidade do povo mineiro, que é uma característica marcante de Minas. O reflexo da escolha de turistas pelas cidades mineiras faz com que o setor hoteleiro ganhe cada vez mais destaque no índice de visitantes no Estado. A Secretaria Estadual de Turismo de Minas Gerais4 afirma que, em 2010, o número de hóspedes, em Belo Horizonte, atingiu a marca de 1.484.098, ou seja, um crescimento de 2,10% em relação a 2009 (1.453.507) e 3,83% em relação à 2008 (1.429.418). Informa, ainda, que a taxa de ocupação de Unidades Habitacionais daquele ano cresceu 4,85% em relação a 2009, alcançando o valor médio de 64,7% ante ao número de 61,7% de 2009, e a taxa de permanência dos hóspedes foi de 1,91 pernoites, obtendo um aumento de 2,88% em relação a 2009. Esses resultados influenciam positivamente no movimento da economia mineira. Afinal, quanto mais turistas vierem usufruir as belezas naturais e culturais de Minas, mais verba entrará nos municípios e, consecutivamente, mais emprego e renda serão gerados para as pessoas que ali vivem. 2.2 C ircuito T urístico Preocupado em divulgar nos veículos de comunicação as regiões mineiras com potencial turístico sustentável do Estado, a fim de promover o turismo local, o Governo de Minas Gerais, por meio do Sistema Mineiro de Gestão do Turismo, relacionou algumas cidades como referência em atividades turísticas. Esse conjunto de municípios foi nomeado, pelo Governo, em 2003, como Circuitos Turísticos, que objetiva oferecer aos visitantes uma lista de vários destinos – entre cidades, rios, grutas, serras e outros –, como, por exemplo, o Parque Nacional da Serra do Cipó, a Gruta e Mar de Minas, o Pico da Bandeira, a Nascente do Rio Doce, a Mata Atlântica de Minas, o Velho Chico, o Campo das vertentes e a Serra do Brigadeiro. Os Circuitos Turísticos são formas de organização social que correspondem a determinadas cidades que possuem elementos atrativos de cultura, história e esportes radicais, a fim de promover o fluxo de permanência de visitantes naquele local. Diminuir a distância entre os municípios e os Estados, promover a integração entre governos e empresários e
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Plano Estadual de Turismo, de 2007 a 2014, do Governo de Minas Gerais. Fonte: www.turismo.mg.gov.br

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introduzir a conscientização para a preservação dos patrimônios históricos, ambientais e culturais, são algumas das várias características de um Circuito. Segundo dados da Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais, há, no Estado, 58 circuitos turísticos que envolvem um total de 663 municípios. A Setur/MG identifica as Associações de Circuitos Turísticos, que são entidades sem fins lucrativos que caracterizam a política pública de regionalização do Turismo no Estado mineiro, com placas indicativas nas rodovias, cursos de capacitação para um melhor atendimento turístico, além da implantação de ações que envolvem desde a elaboração de um plano estratégico de desenvolvimento da associação e roteirização de lugares turísticos, até a promoção de destinos em prol da política de fortalecimento das mesmas. De acordo com a Setur/MG, em 2006, foi criada a Federação dos Circuitos Turísticos do Estado de Minas Gerais (Facitur), entidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, com objetivo de amparar as Associações de Circuitos Turísticos. São vários os deveres da Facitur, entre eles, representar as demandas comuns dos Circuitos Turísticos do Estado de Minas Gerais, nas organizações públicas ou privadas, das esferas regional, estadual, nacional e internacional; integrar os circuitos membros; difundir idéias, elementos culturais, tradições e hábitos sociais da comunidade mineira; incentivar e patrocinar pesquisas nos campos da arte, esportes, cultura e lazer, visando ao incremento do turismo no Estado. A implantação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) Turístico, incentivo financeiro estadual que visa à melhoria nos serviços de infraestrutura e à conservação de patrimônios histórico, cultural e ambiental de municípios carentes (Lei Estadual 18.030/2009, de junho de 2010), pelo Governador de Minas Gerais, Antônio Augusto Anastasia, foi um marco na história do turismo mineiro. A inclusão deste imposto, além de significar grande melhoria na gestão turística na cidade, é um dos instrumentos de distribuição de renda mais democráticos que objetiva a promoção de substancial desenvolvimento econômico, cultural e social, de acordo com a Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais. Para tanto, o ICMS Turístico representa a motivação para que municípios implantem projetos e programas de turismo sustentáveis. Ainda segundo a Secretaria, para que o município receba esse benefício, é preciso que ele siga alguns parâmetros de comprometimento das prefeituras com o processo de desenvolvimento

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turístico local e de adesão a política de turismo de governos estadual e federal. Além disso, é indispensável a comprovação de participação de um circuito turístico reconhecido pela Setur/MG, nos termos do Programa de Regionalização do Turismo no Estado de Minas Gerais; a elaboração e implementação de uma política municipal de turismo; possuir o Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) e o Fundo Municipal de Turismo (FUMTUR), constituídos e em funcionamento. Em 2010, 44 cidades habilitados já receberam o benefício, entre elas, Alfredo Vasconcelos, com o circuito turístico Trilha dos Inconfidentes; Grão Mogol, com Lago de Irapé; Uberlândia, com Triângulo Mineiro; Simonésia, com o Pico da Bandeira e Jequiri, com Montanhas e Fé. 2.3 Gestão de cidades históricas As cidades históricas mineiras, como Ouro Preto, Mariana e Sabará, foram originadas entre os séculos XVII e XVIII por bandeirantes, que andavam consideráveis distâncias em terras ainda não descobertas em busca de ouro e minério. Graças ao regime escravocrata da época, essa exploração possibilitou que valores culturais fossem construídos, sobretudo nas áreas econômica, religiosa e política. Essa identidade transformou esses municípios como grandes pontos turísticos do Estado. Pessoas de todo o mundo visitam igrejas e museus destas cidades históricas, onde ficaram estampadas a arte barroca e obras dos artistas Aleijadinho e Ataíde. De acordo com o Programa Destinos Indutores do Desenvolvimento Turístico Regional de Minas Gerais, divulgada no Plano Estadual de Turismo do Governo de Minas 5, de 2007 a 2014, quatro municípios mineiros - Belo Horizonte, Tiradentes, Diamantina e Ouro Preto -, foram considerados pelo Ministério do Turismo (MTur) como destinos indutores, ou seja, lugares capazes de fomentar o desenvolvimento turístico da região. Já a cidade de São João Del-Rei foi selecionada, pelo mesmo órgão, como destino referência do segmento de Estudos e Intercâmbio. Ainda segundo o Programa, um Estudo de Competitividade é realizado nos destinos indutores a fim de permitir a elaboração de planos de ação mais objetivos e eficazes. Esse estudo é feito pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com MTur e o SEBRAE.

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Plano Estadual de Turismo do Governo de Minas Gerais para os anos de 2007 à 2014.

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Entende-se por Estudo de Competitividade a forma sustentável de cada município em gerar negócios nas atividades econômicas sobre o turismo, proporcionando reflexos positivos ao visitante. Neste processo, são avaliadas, em cada cidade, através de um questionário de 610 perguntas, várias questões, como infraestrutura geral, política pública, serviços e equipamentos turísticos, aspectos sociais, capacidade empresarial, economia geral e cooperação regional. Conforme a Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais divulgou por meio do Programa Destino Indutores do Desenvolvimento Turístico Regional de Minas Gerais, os critérios utilizados na escolha dos destinos foram: fazer parte de uma Associação de Circuito Turístico; estar inserido no Projeto Estruturador Destinos Turísticos Estratégicos; representar um segmento turístico prioritário (bem-estar, rural, natureza, aventura, negócios, religioso, náutico e pesca esportiva, cultural); ter produtos comercializados pelo mercado; ter operadores receptivos participantes do Programa Minas Recebe e possuir infra-estrutura básica e turística além de atrativos turísticos qualificados. A Setur/MG informa, ainda, que 11 municípios do Estado – entre eles, um histórico -, que já foram trabalhados com o padrão de qualidade nacional em uma primeira etapa como destinos indutores: Araxá, Caeté, Camanducaia (Monte Verde), Capitólio, Caxambu, Juiz de Fora, Maria da Fé, Poços de Caldas, Santana do Riacho, São Lourenço e Sete Lagoas. Cativar o turista e convencê-lo a voltar mais vezes na cidade histórica escolhida por ele, são atos de extrema importância para o círculo econômico da região. É através do turismo que se movimenta a entrada e saída de dinheiro do município, o que é sinônimo de melhor investimento por parte de seus gestores em cultura, infra-estrutura, educação, lazer, entre outras tantas melhorias, mas sempre de forma respeitosa com o patrimônio histórico cultural. Além disso, a atividade turística é uma grande fonte de emprego e renda para moradores de cidades históricas. Muitas vezes, é através do artesanato, da comida típica e da religiosidade que os residentes fabricam e comercializam tais produtos a fim de conseguir dinheiro para sustentar suas famílias. O apoio financeiro e/ou material por parte das prefeituras é também outra questão fundamental para que os expositores e ambulantes dos municípios tenham algum tipo de incentivo e continuem a trabalhar de forma legal. O trabalhador motivado produzirá mais e isso, consecutivamente, aumentará sua renda e refletirá positivamente no círculo da economia

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da cidade. Para tanto, é importante que o viajante valorize e usufrua as tradicionais feiras de artesanatos, barraquinhas, teatros e guias turísticos para a conservação não só da cidade, mas também das pessoas que trabalham para ela. Administrar uma cidade histórica exige, além de grande conhecimento na área, atenção especial por parte de seus governantes, afinal, além de enfrentarem situações cotidianas de toda cidade, também lidam com outros tipos de assuntos, como por exemplo, o consenso de interesses de turistas e moradores.
É um trabalho perpétuo de educação do munícipe e de criação de soluções adaptadas às peculiaridades da cidade. As ações devem contemplar diuturnamente a educação patrimonial, de forma que o morador tenha orgulho da sua casa histórica pertencente ao conjunto. Isso é fácil de falar e difícil de fazer, uma vez que o habitante deseja ter todos os confortos do século XXI. Sem o orgulho e a questão pecuniária, [...] fica difícil convencer o morador de que ele não pode abrir um buraco em uma parede de 250 anos de sua casa para construir uma garagem. (PIRES, 2003. p.70).

É preciso que exista uma conscientização do gestor para com os moradores do município de que se trata de um patrimônio histórico e cultural. Este, aliás, é um dos principais motivos que fazem com que os turistas se desloquem para estes lugares para admirarem tal beleza. Manter os traços originais e a boa conservação das casas, ruas e monumentos públicos é fundamental para que os visitantes, inclusive estrangeiros, voltem com mais frequência à cidade. Para SILVA (2004), alguns historiadores, turismólogos e antropólogos acreditam que o mercado turístico internacional exige cada vez mais a preservação da verdadeira identidade cultural da cidade.
[...] A busca dos elementos característicos e diferenciais de cada cultura aparece como uma necessidade do mercado; a cultura autóctone é a matéria prima para a criação de um produto turístico. Assim, o legado cultural transformado em produto para o consumo perde seu significado, não é mais importante porque deixa de mostrar as raízes de um povo, preocupando-se, apenas, em gerar divisas econômicas. Portanto é necessário um turismo com base no legado cultural, que permita manter a comunidade de alguma forma, isto é, que ela engaje-se no processo de recuperação de sua memória coletiva, de reconstrução histórica, tomando consciência do papel que sua cidade representou em determinado cenário em determinada época. (SILVA, 2004, p.64).

Instruir visitantes e residentes de que é necessário respeitar algumas regras de convívio impostas pelo poder público também contribui para a preservação do bem histórico cultural do município. Para tanto, Pires (2003, p.71-75) enumerou alguns itens que, uma vez seguidos, ajudam na organização e para o bom funcionamento da administração de cidades históricas:

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1- abertura dos adros das igrejas para que as pessoas possam fazer suas orações; 2- manter becos e ruas muito estreitas com segurança à noite, pois, com o aumento da violência, a tendência é que nesses lugares a prática de crimes aumente; 3- utilizar as lixeiras espalhadas pelas ruas; 4- respeitar placas e sinalização de trânsito implantadas na região; 5- manter o bom senso com shows em praças públicas das cidades. Os moradores e turistas precisam de diversão, mas o patrimônio pode ser prejudicado com grande concentração de pessoas no local; 6- contribuir para que o trânsito não fique congestionado no centro histórico. O tombamento6 – ato pertencente somente ao poder público – é utilizado para preservar o patrimônio histórico cultural em prol do usufruto dos cidadãos moradores ou não da região. Portanto, ele também é considerado como uma outra forma de cuidar dos bens pertencentes aos municípios. Seu objetivo é de resguardar valores históricos, culturais, materiais e sentimentais da sociedade. No âmbito estadual, nesse caso em Minas Gerais, o responsável pelo tombamento é o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais IEPHA/MG -, já no municipal, é a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, sendo que no interior do Estado, existe um setor responsável em cada prefeitura. Se o bem for reconhecido mundialmente, o tombamento fica aos critérios da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, e, assim, reconhecido como patrimônio da humanidade. Uma vez que a medida do tombamento seja adotada na cidade, mais pessoas tendem a visitar as obras e pontos turísticos no local e, consecutivamente, fazem com que o turismo cresça. Para que esta política seja aplicada com sucesso na cidade, é preciso uma boa estratégia de gestão pública. De acordo com PIRES (2003), a participação de representantes e lideranças de
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Tombamento é um ato administrativo, atribuído, pelo Decreto-lei nº 25/37 de 30 de novembro de 1937, ao poder Executivo, que visa reconhecer o valor de bens culturais, históricos, arquitetônicos, ambientais e afetivos através da preservação dos mesmos, nos âmbitos municipal, estadual e federal. Quando isso acontece, o dono continua sendo o proprietário do bem tombado, ou seja, ele tem total poder de venda, troca ou aluguel do patrimônio, mas fica ciente que qualquer modificação física só poderá ser realizada com autorização prévia e acompanhamento do órgão competente. Em relação à vizinhança, não são permitidas construções que tampem a coisa tombada, assim como também não é aceitável a fixação de cartazes e anúncios no patrimônio. Caso isso aconteça, é cobrado 50% do valor do objeto anexado no bem pelos órgãos responsáveis. A solicitação para o tombamento de algo pode ser feita por qualquer cidadão comum, associações, órgãos públicos ou entidades.O pedido recebido é estudado e avaliado a importância cultural do bem. (Informação disponível no site <http://www.iepha.mg.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=69&Itemid=114>. Acessado em 12 de março de 2011)

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diferentes setores do município em uma câmara informal, uma espécie de gestão participativa, também contribui para uma boa administração da cidade. “[...] Esta deve ter como princípios  prioritários o compromisso de tirar de seus encontros decisões claras, [...] e de atuar como detentor  de  pressão  pública”  (PIRES,  2003,  p.71).  Para  que  autoridades  públicas  consigam  uma boa gestão de uma cidade histórica, principalmente no que diz respeito à conservação do patrimônio, ele conta com a colaboração de associações, moradores e projetos sociais, que fornecem informações importantes sobre o assunto e conscientizam a população sobre os direitos e deveres que os mesmos possuem. 2.4 Gestão estratégica do turismo O turismo é movido por gestores que administram segmentos e negócios em prol da promoção turística na cidade, Estado ou país. No Brasil, por exemplo, fica a cargo da Diretoria de Gestão Estratégica do Ministério do Turismo7 do Governo Federal coordenar o que diz respeito a orçamentos, contabilidade e finanças e, ainda, promover e investir em atividades  relacionadas  ao  planejamento  gestão.  “A  Política  Nacional  de  Turismo  deve  funcionar como o elo integrador entre as esferas de decisão governamental, representadas pelos segmentos oficiais do sistema e os beneficiários e usuários dessa política” (BENI, 2006,  p.16). Na prática, gestores públicos do turismo, na grande maioria das regiões do país, possuem certas dificuldades em desenvolverem uma administração eficaz.
[...] O que temos notado, até agora, é que a grande maioria dos prefeitos brasileiros não tem uma visão correta do desenvolvimento turístico de suas comunidades. Em suas prioridades de governo, recorrem ao poder federal, solicitando verbas para incrementar o turismo em seus municípios, sem conhecerem as diretrizes políticas do setor para sua região, faltandolhes o necessário embasamento técnico-científico ou, mesmo, o projeto que justificasse suas reais necessidades para o desenvolvimento dos recursos turísticos de seus municípios ou a criação de meios para alavancar o desenvolvimento endógeno com o potencial local. (BENI, 2006, p.20).

Para que a gestão de uma localidade seja feita com total consciência e com bons resultados, é necessária uma integração dos diferentes setores de planejamento de turismo do país. Dessa forma, haverá um crescimento na infra-estrutura básica, como transporte, comunicação, geração de emprego e renda, entre outros.
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Fonte: www.turismo.gov.br/turismo/

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A comunicação no turismo também exige uma boa preparação de seus gestores, afinal, são eles quem oferecem ao viajante o consumo de momentos de descanso e lazer. Cada consumidor viaja por necessidades diferentes, mas todos eles investem valores financeiros para a concretização de seus sonhos turísticos. Por isso, é preciso que o administrador público conheça o real motivo do deslocamento do turista, a passeio, profissional, práticas religiosas ou esportivas, para que haja um planejamento de viajem para os visitantes de forma criteriosa e um resultado final agradável.
[...] temos a presença do gestor de comunicação como um profissional e agente que deve ir além das suas competências, no sentido de interpretar e retratar, por meio das diferentes pesquisas, esse comportamento do consumidor que é mutável e está presente em nossa sociedade.[...] (VALENTE, 2008, p.84).

De acordo com dados do Plano Nacional de Turismo (PNT) 2007/20108, o Ministério do Turismo implementou um modelo de gestão pública para o desenvolvimento de atividades turísticas em todas as regiões do país com base em criação de diretrizes gerais e ambientes de reflexão e discussão. Ainda segundo o PNT, tal implementação viabiliza os canais de interlocução entre a gestão pública e a iniciativa privada e do terceiro setor, facilitando a implementação dos programas e ações propostos pelo Plano. 2.5 E conomia gerada na cidade turística O turismo é uma atividade capaz de ativar e estimular economias locais e regionais, com competitivas vantagens perante outros setores econômicos, estimulando o consumo de bens e serviços do setor. Em Minas Gerais, de acordo com a Secretaria de Estado do Turismo9 (Setur/MG), o turismo é hoje o setor da economia mineira que, com amplas vantagens comparativas, é capaz de gerar emprego e renda, elevar receitas públicas, com justa distribuição geográfica de benefícios sociais e culturais, e plena preservação ambiental. Para Cunha (2004), a economia gerada em determinada região é ofertada pela prática do turismo devido o incentivo social, político e fiscal.
O discurso da necessidade de Turismo é produzido nos diversos meios de comunicação, difunde a atividade como aquela que gera rendimentos financeiros, reestrutura economias
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Instrumento de Planejamento e gestão do turismo no Brasil. Fonte: www.turismo.gov.br/turismo/o_ministerio/plano_nacional/index.html 9 Fonte: www.turismo.mg.gov.br

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locais mediante a criação de posto de trabalho e permite a inserção das nações na dinâmica econômica global. (CUNHA, 2004. p.92).

Por trás de uma viagem, existe uma demanda de despesas com hospedagem, alimentação, transporte, comércio, passeios turísticos, entre outros. Esses gastos representam o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado e do país. Segundo o levantamento feito pelo Centro de Estatística e Informações (CEI) da Fundação João Pinheiro (FJP)10, do Governo de Minas Gerais, no terceiro trimestre de 2010, o PIB mineiro apresentou crescimento real de 11,8%, em relação ao mesmo trimestre do ano de 2009, (-4,7%). Esse resultado, de acordo com a Fundação, representou um rápido crescimento do ritmo de expansão da atividade econômica do Estado, pois, nos últimos dois trimestres do ano de 2010, este indicador já havia registrado valores acima de 10%. Comparando o desempenho da economia em nível nacional, em 2010, a FGV divulgou dados que mostraram que a taxa de crescimento real do PIB se destacou no terceiro trimestre, quando Minas Gerais atingiu 11,8%, porcentagem esta maior em relação ao do Brasil, que foi de 6,7%. Diante destas informações, calcula-se que o Estado mineiro apresentou uma superação de cinco pontos percentuais do que o país. Os critérios utilizados pela Fundação Getúlio Vargas sobre essa superação dão conta de que:
Como a expansão do mercado interno refletiu no aumento da despesa de consumo das famílias e, principalmente, da formação bruta de capital fixo, a indústria de transformação mineira é particularmente beneficiada com excelentes perspectivas de crescimento de suas vendas; ao mesmo tempo, a recuperação das exportações favoreceu sobremaneira a produção da industria extrativa do Estado. (FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS, 2010)11.

Com a realização da Copa das Confederações em 2013, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas de 2016 no Brasil, segundo a Setur/MG, especula-se considerável aumento no PIB nacional e estadual. O Governo investirá em projetos que visam reformas e construções de bens públicos e privados em prol de melhor acolhimento de milhares de visitantes que chegarão ao país nos próximos anos. Além disso, o órgão também implementará outros benefícios para as cidades que também serão utilizados após as festividades, como duplicação de rodovias, criação de novas estações de metrô e ampliação nos aeroportos. Com base em
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Produto Interno Bruto de Minas Gerais. Fonte: http://www.fjp.gov.br/index.php/servicos/81-servicos-cei/58produto-interno-bruto-de-minas-gerais 11 Informação disponível no site < http://www.fjp.gov.br/index.php/banco-de-noticias/36-noticias-emdestaque/1205-pib-mineiro-cresce-118-no-terceiro-trimestre >. Acessado em 12 de março de 2011.

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dados divulgados pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero)12, em seu Relatório anual de 2010, até 2014, esta empresa investirá em obras cerca de R$ 9 bilhões, sendo mais de R$ 5 bilhões nos aeroportos relacionados com eventos internacionais, no caso a Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016. Contudo, vários empregos temporários serão criados antes, durante e após as comemorações previstas, o que gerará grande movimento na economia brasileira. De acordo com o Plano Estadual de Turismo do Governo de Minas Gerais, de 2007 a 2014, foi desenvolvido pelo Estado o Projeto Estruturador Destinos Turísticos Estratégicos, em parceria com o Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), focado na Copa de 2014 no país. Tal projeto tem o objetivo de estimular a inserção dos destinos turísticos mineiros no mercado para que aumente a comercialização de produtos artesanais das regiões do Estado. Mas, para que estes destinos sejam divulgados, várias ações serão realizadas pelo Governo para compreender o estudo de mercado, como a definição de posicionamento mercadológico e identificação de operadores e parceiros, a inserção em mídia de publicidades, workshops, blitz, dentre outras ações. 2.6 T urismo no contexto internacional e nacional Nos últimos anos, registrou-se um grande aumento no número de pessoas que chegam de viagens internacionais em todo o mundo. Os principais motivos são estudos, negócios, eventos esportivos, além das tradicionais férias escolares. Nielsen (2002) define o turismo internacional como  “[...] a movimentação temporária de pessoas para um  destino localizado além  das  fronteiras  do  país  de  origem  ou  da  residência  dessas  pessoas”,  (NIELSEN,  2002,  p.18). O índice das Chegadas de Turismo Internacional (CTI) é classificado, pelo autor, como a mensuração de movimentações de turismo em todo o mundo, utilizado pela Organização Mundial de Turismo (OMT) como um barômetro da atividade turística. De acordo com dados do Plano Nacional de Turismo 2007/201013, disponíveis no site do Ministério do Turismo, em 2006, foram registrados 842 milhões de turistas que chegaram de viagens internacionais em todo o mundo. Número este que representa um crescimento médio
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Relatório anual 2010. Fonte: Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) Fonte: http://www.turismo.gov.br/export/sites/default/turismo/o_ministerio/plano_nacional/downloads_plano_nacional/ PNT_2007_2010.pdf

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anual acima de 6% desde 1950, quando foi contabilizado um total de 25 milhões de chegadas. Europa, Ásia, Pacífico e América do Norte são os destinos mais procurados pelos turistas. Salienta-se que, diante de fatores considerados negativos, como tragédias naturais e atentados terroristas, em países onde o turismo é uma grande fonte da economia, a tendência é que ocorra uma diminuição do número de chegadas de turistas naquela cidade ou país. Um exemplo claro foram os ataques de 11 de setembro de 200114, em Nova York, Estados Unidos da América. O caso chocou o mundo diante das imagens divulgas pela mídia de aviões atingindo o complexo de prédios do World Trade Center , conhecido como Torres Gêmeas. Naquela época, esse episódio causou resultados insatisfatórios no turismo dos EUA. Para Nielsen (2002), os turistas se sentem com medo de algo acontecer com eles após ataques terroristas.
Segundo um levantamento do Instituto Gallup, realizado pela revista Newsweek em abril de 1996, 79% dos americanos afirmaram que rejeitariam a oportunidade de viajar ao exterior devido à ameaça do terrorismo. Uma pesquisa com 205 agentes de viagens constatou que aproximadamente 48% de seus cancelamentos estavam relacionados ao terrorismo em 1986. (SONMEZ & GRAEF apud NIELSEN, 2002, p. 195)15.

No Brasil, não é diferente. O deslizamento de uma encosta que atingiu uma luxuosa pousada e várias casas vizinhas na Ilha Grande, na baía de Angra dos Reis, onde morreram dezenas de pessoas, foi um exemplo de tragédia natural que abalou o turismo daquela região. O acidente aconteceu no dia primeiro de janeiro de 2009. Durante um bom tempo, os visitantes não quiseram se deslocar para a cidade com receio de acontecer outro deslizamento e pelo fato de Angra ter ficado desfalcada em relação a alimentos e materiais, como colchões, camas e utensílios domésticos que foram levados pelas chuvas. Diante dessas situações, muitos viajantes, com medo e se precavendo do que pode acontecer, preferem fazer o turismo de um dia – ou turismo doméstico –, que são viagens realizadas, dentro do país, em menos de um dia, independente da finalidade do turista, trabalho, estudos,

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Os atentados terroristas de 11 de setembro foram vários ataques suicidas coordenados pela organização fundamentalista islâmica internacional, constituída por células colaborativas e independentes que visariam, supostamente, reduzir a influência não-islâmica sobre assuntos islâmicos, a Al-Qaeda, em 2001. Dezenove terroristas sequestraram quatro aviões, no qual dois deles bateram, intencionalmente, contra as Torres Gêmeas. Ambos os prédios desmoronaram após duas horas. O terceiro avião atingiu o Pentágono, em Arlington, próximo a Washington, e o quarto caiu em um campo, na Pensilvânia. O total de mortos naquele dia foi de 2.996 pessoas. 15 SONMZ, S. & Graefe, A. Influence of Terrorism Risk on Foreign Tourism Decisions . Annals os Tourism Research, Vol.25 (1), Pergamom Press, RU, 1998.

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lazer, entre outros. “O turismo de um dia se diferenciará das demais modalidades apenas pelo aspecto do período de permanência, ou seja, inferior a 24 horas”. (MELO, 2004, p. 102).  Segundo dados disponíveis na pesquisa sobre a Caracterização e o Dimensionamento do Turismo Doméstico no Brasil16, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), no ano de 2004, os Estados que mais originam turistas domésticos para os demais destinos em 2005 foram: São Paulo (35,7%), Minas Gerais (13,6%), Rio de Janeiro (8,2%), Rio Grande do Sul (7,9%) e Paraná (7,4%). Quanto aos que mais recebem viajantes foram: São Paulo (27,7%), Minas Gerais (10,8%), Rio de Janeiro (8,4%), Bahia (7,4%) e Santa Catarina (7,2%). Ressalta-se que São Paulo lidera o ranking de saídas e entradas de turistas domésticos por vários motivos, entre eles, por tratar-se de um Estado caracterizado pelas inúmeras indústrias, onde grande número de pessoas viajam à trabalho. 2.7 Novas tecnologias da comunicação no mercado turístico Diante dos avanços tecnológicos, que proporcionaram a modernização e criação de aparelhos como laptops, celulares, GPS ( Global Positioning System), câmeras filmadoras e fotográficas, entre outros, a vida das pessoas foi afetada com tamanha eficácia que estes aparatos tecnológicos causam em tarefas simples do dia-dia, como acessar uma conta bancária através do celular. A forma de trabalho delas também foi alterada. Hoje, por exemplo, é possível consultar, pela internet, a melhor localização de um hotel em Paris, na França, meses antes de se deslocar para aquela cidade. Ou, ainda, com um GPS, conseguir roteirizar turisticamente e se locomover de forma independente dentro de um país. Há alguns anos, o quesito inclusão digital apenas se relacionava àquelas pessoas que sabiam fazer tarefas que hoje chamamos de básicas, como, por exemplo, enviar e-mail, digitar textos, montar planilhas e gráficos e navegar pela internet. Atualmente, no ramo da comunicação, essa expressão ganhou novos rumos e para ser uma pessoa inclusa aos novos instrumentos digitais é preciso saber, além das funções citadas, editar imagens televisivas e áudios em programas específicos de computador, tratar imagens fotografadas em aparelhos específicos, postar material (áudio, vídeo e texto) em home-pages, armazenar arquivos em locais apropriados, compartilhar dados pela internet, entre outros.
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Fonte: Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – FIPE -, Caracterização e o Dimensionamento do Turismo Doméstico no Brasil, São Paulo, FIPE, 2006.

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No que diz respeito ao turismo, é preciso que os profissionais desta área saibam lidar e utilizar esses novos aparatos tecnológicos para o desenvolvimento dos negócios turísticos. Esses novos meios de enviar e receber informações fizeram com que os cursos de qualificação em Turismo se adaptassem a essa realidade e investissem em equipamentos modernos e eficazes.
[...] Em um mundo de alta tecnologia, o Curso de Turismo não pode estar em sintonia com o passado, mas sim com a realidade atual e futura, pois o futuro nesse século XXI chega muito rápido! Não é mais possível falar em ensino de turismo sem equipamentos de última geração no campo da produção de mídias digitais e de transmissão de informação em alta velocidade. Precisamos de laboratórios bem equipados e de docentes altamente qualificados. O profissional de turismo tem de fazer uso das tecnologias disponíveis para criar e vender o seu produto ou serviço. (FERREIRA, RIBEIRO, 2005, p.200).

Através da criação de novas tecnologias, como a televisão em 3D, celulares modernos e a própria internet, é possível conferir, em tempo real, tudo que acontece no Brasil e no mundo, sem ter que contar com barreiras geográficas e o fator tempo. “[...] e o turismo, por sua vez, se  transformou mediante esta nova cultura mediática global, possibilitado às pessoas viagens e delírios por meio das imagens da TV e da Internet, [...]” (FRANCHI, 2004. p.126). Os profissionais de turismo devem sempre trabalhar em parceria com os veículos de comunicação. É através da mídia que os produtos e serviços do turismo chegam ao conhecimento dos turistas, por meio de programas de televisão, cinema, publicidades, telejornais, fotografias, sites da internet, entre outros. Nielsen (2002) afirma que a forma como as informações turísticas são transmitidas para as pessoas deve ser cautelosa, seletiva e objetiva, para que haja uma maior e melhor absorção da mensagem. Além disso, a informação deve ser completa e se adequar ao veículo de comunicação, que são: televisão, rádio, impresso e internet. As telecomunicações, redes sociais e a convergência de mídia contribuíram – e ainda contribuem – para a modernização, rapidez e eficiência da mídia. Esse acúmulo de informações pode ter impacto positivo, como, por exemplo, uma comunicação mais rápida e inteligente, mas também negativo, devido ao acúmulo e/ou à duplicidade de informações que podem gerar confusão na mente do turista.
[...] as mensagens duplicadas competem pela atenção dos clientes. Essa complexidade também torna o trabalho dos consultores de viagens – já difícil devido às crescentes exigências de sua clientela - ainda mais complicado e pesado. Quanto maior a quantidade e

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variedade de informações recebidas, maiores as dificuldades encontradas pelo cérebro humano em processá-las e elaborar mensagens individuais. (NIELSEN, 2002, p. 93).

Toda essa divulgação de um lugar turístico por meio das redes sociais e da mídia pode causar no turista a sensação de viajar sem sair de casa, ou seja, dependendo da forma e contexto que as informações turísticas forem oferecidas aos consumidores, estas podem atrair ou inibir as pessoas a saírem de casa. WILD (2004) afirma que a divulgação da imagem ideal de determinado lugar por meio de rádio, televisão, cinema, internet, entre outros, estimula o turista a se deslocar do ponto “A” para o ponto “B”. Mas, essa mesma divulgação pode fazer  com que o turista conheça os pontos turísticos de determinada região através de vídeos, fotos ou, até mesmo, pelos sites turísticos da internet, evitando, dessa forma, o deslocamento. 2.8 A influência da mídia na indústria do turismo A partir do momento em que o ser humano decide viajar para destinos ainda não conhecidos por ele, automaticamente busca informações do lugar escolhido por meio da mídia, fotos, relatos de pessoas, vídeos, panfletos, propagandas, ou, até mesmo, dos agentes de turismo. A partir de então, o viajante imagina o cenário que ele vai encontrar no lugar desejado, mas nem sempre é tudo aquilo que ele espera. Muitas vezes, foi apenas a veiculação de informações boas a respeito do local a fim de cativar as pessoas para visitá-lo. De acordo com Cunha (2004), a mídia cria uma imagem de um determinado lugar com a intenção de promover o turismo na região. As pessoas são motivadas a se deslocar a um determinado local pelo lazer, pelos desejos e pelos sonhos. Desta forma, é preciso que os meios de comunicação alimentem tais fantasias, por meio dos programas de televisão, propagandas e internet, com imagens de um lugar perfeito para que os turistas se motivem a fechar um pacote nas agências de turismo e se desloquem para o destino escolhido. As imagens ideais dos locais turísticos são obtidas pela divulgação da culinária regional, hospitalidade dos moradores, perfeição dos lugares – naturais ou não -, as vestimentas das pessoas e o artesanato. O turista se sente motivado ao ver, em uma campanha de divulgação, belas paisagens de praias; cidades bem cuidadas, limpas e arborizadas; pousadas próximas de uma área verde com várias plantas e flores; pontos turísticos; hotéis luxuosos e pessoas bonitas e felizes. Por essa razão, as empresas turísticas divulgam estas imagens na mídia

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dando maior ênfase nas cores da paisagem que for ser publicada, além de acrescentar frases com palavras que encantam  os  consumidores,  como  “realize  seu  sonho,  venha  para  esse  paraíso”, “lugar de descanso e alegria” e “Desfrute de momentos de lazer e aventura”.
As imagens turísticas apresentadas pelos meios de comunicação social fazem interagir o público receptor com espaços ideais em termos de liberdade, segurança e prazer. Muitas vezes, [...] a mídia codifica imagens de lugares por meio de símbolos representativos dos ideais humanos, com elementos referentes às suas necessidades de sobrevivência e oferece ao grande público bens de consumo produzidos pela lógica de uma economia global. (CUNHA, 2004, p. 68).

Já Nielsen (2002) afirma que é papel da mídia divulgar informações que podem ser favoráveis ou não às empresas de viagens. Dessa forma, as agências de turismo divulgam as informações com muita cautela, pois qualquer palavra mal colocada em uma frase ou qualquer expressão mal interpretada pelos espectadores pode gerar uma grande polêmica, ocasionando a degradação do nome da agência de viagens, e fazer com que o turista opte a escolher outra empresa para fechar um pacote de viagem ou, até mesmo, mude o destino. Ainda de acordo com Nielsen (2002), a televisão, por exemplo, é o veículo que mais contribui para essa situação por ser considerada o meio de comunicação mais eficiente para a divulgação de uma notícia e estar presente nas residências de quase todas as famílias brasileiras. As operadoras de turismo precisam entender o real motivo pelo qual os turistas escolhem o local de destino, por exemplo, se já é um lugar conhecido por eles, recomendação de outras pessoas ou se é um sonho a ser realizado. Os critérios utilizados por eles para selecionar as empresas turísticas, como desconto no valor total do pacote, promoções, indicação, entre outros, também são fundamentais para que o agente de viagem saiba para quem, quando e como fornecer os produtos turísticos. O fato de cada pessoa pensar e agir diferente da outra dificulta ainda mais a tarefa das agências em oferecer o produto turístico ideal, sonhado e planejado pela clientela. A indecisão por parte do turista também é outro fator que desmotiva a venda de pacotes turísticos. Por esse motivo, é desejável que a empresa saiba interpretar os verdadeiros objetivos, desejos e, o mais importante, fazer com que o cliente saiba exatamente o que ele deseja para que o turista se sinta incentivado a viajar.

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2.9 A importância do mar keting no turismo A publicação na mídia de serviços das agências de turismo vem crescendo gradativamente. O motivo é a expansão das operadoras no país. Profissionais de turismo investem cada vez maior quantidade de dinheiro, tempo e tecnologia na divulgação dos lugares oferecidos ao turista em todos os meios de comunicação. O mercado turístico aposta que, ao colocar seus produtos na mídia, ele terá um bom retorno em aumento de clientes e financeiro. Cunha (2004) ressalta que a publicidade turística é um grande fator que desperta o interesse do turista, estimulando seus desejos e fantasias. Através dessa divulgação, são criadas imagens de lugares e ambientes agradáveis, inesquecíveis e que fogem do que é comum.
A publicidade turística usufrui os meios de comunicação para atender as necessidades de mobilidade dos consumidores, estabelecem códigos que através da exposição de imagens romantizadas despertam o interesse do homem e recriam os elementos de prazer, segurança e liberdade. Para atender a demanda gerada pela propaganda turística, um mercado de viagens é institucionalizado por empresas multinacionais que oferecem hospedagem e transporte, criando condições práticas para a mobilidade se instalar entre os hábitos de consumo da contemporaneidade. (CUNHA, 2004, p.86).

Em 2003, o Ministério do Turismo utilizou publicidades em feiras e eventos internacionais para divulgar o Brasil no exterior, segundo o Plano Nacional de Turismo
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de 2007 à 2010.

Em 2005, ampliou-se essa divulgação do país a nível internacional através do programa Agenda de Promoção Comercial do Turismo Brasileiro no Mercado Internacional, criado pelo Mtur. Com isso, ainda conforme o Plano, em 2006 o Brasil foi o sétimo país que mais realizou eventos de publicidades turísticas divulgados em todo o mundo, o que resultou em 41 feiras internacionais de turismo e 21 feiras comerciais. Já em Minas Gerais, de acordo com O Plano Estadual de Turismo18, de 2007 à 2014, da Secretaria Estadual de Turismo, o Estado conta com o Macro-programa de Promoção e Apoio à Comercialização, que visa promover Minas nos mercados regional, nacional e internacional, através de propagandas, publicidades e participação em eventos que divulgam e agregam valor à imagem dos destinos mineiros. Nele consta o Plano de Marketing, que se baseia na análise do comportamento do consumidor moderno, identificando as tendências do comportamento humano, de consumo e estilos de vida; análise macro-ambiental, que são as influências políticas, econômicas e sociais; e, por fim, a análise micro ambiental, que permite
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Plano Nacional de Turismo, de 2007 à 2010:Uma viagem de inclusão Fonte: Plano Estadual de Turismo do Governo de Minas Gerais.

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a estratégia de distribuição mais eficiente dos produtos mineiros perante cada um dos mercados-alvos. Além disso, com o intuito de garantir a efetividade do Plano, a Setur/MG criou estratégias de marketing que são executadas por meio de ações, projetos e programas. A reformulação de ações promocionais, o aumentar da quantidade e melhoria da qualidade dos eventos realizados em Minas Gerais, a melhora da qualidade da informação utilizada nos processos decisórios e no planejamento de marketing da Secretaria, são alguns dos vários exemplos de estratégias mineiras. A estratégia de marketing, além de persuadir e vender, gerencia os desejos e as necessidades nos consumidores. No caso do turismo, os produtos a serem oferecidos são hotéis, visitas a lugares públicos e privados, passagens aéreas, terrestres ou marítimas, centros de entretenimento, entre outros. Mas Franchi (2004, p. 138) explica  que,  “mesmo  persuadidos  por propagandas, as pessoas acabam se frustrando por não encontrarem nas ofertas para as quais foram atraídas compromisso com seus desejos e ansiedade.” Desta forma, é necessário  que o marketing não seja focado somente nos produtos e serviços e, sim, nos efeitos da oferta refletidos no consumidor. No Brasil, as telenovelas são produtos da mídia que possuem o maior poder de persuadir e ditar moda na sociedade. Esse poder de persuasão que as novelas têm acaba interferindo no comportamento e atitudes das pessoas, principalmente nos jovens, que arriscam sem medo e apostam no inusitado.
A mídia é hoje uma das maiores criadoras e propagadoras de modismos, de forma a garantir a aceitação e manutenção de seu público. A fábrica mais tradicional e persuasiva de modas vem sendo, no Brasil, as telenovelas, que com técnicas persuasivas precisas, além de proliferarem fortes elementos ideológicos de comportamento, constroem e desconstroem modismo numa abrangência de público jamais imaginado, inclusive para a prática do turismo. (FRANCHI, 2004, p. 130).

Cada vez mais, os jovens estão à procura de uma agência de turismo para se deslocarem a lugares que ofereçam condições para realização de esportes radicais, que contenham atrações turísticas, uma boa música ou, simplesmente, pelo potencial de atrações românticas da cidade. Os meios de comunicação criam personagens e enfatizam com intensidade a beleza do local, através de programas de televisão, por várias intenções, entre elas, o negócio turístico. Por isso, é dever da gestão da comunicação integrada - juntamente com o planejamento de

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marketing -, conhecer os diversos públicos e suas necessidades, no que diz respeito à prática de consumo. Dessa forma, segundo VALENTE (2008), a gestão pode atuar por meio dos diferentes meios de comunicação, desde os tradicionais, como propagandas, promoção de venda, marketing direto, merchandising, até pelo marketing digital, ou seja, que utilizam tecnologia digital, como games, sites, blogs, entre outros.

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3 T E L E V ISÃ O E O R E G I O N A L ISM O Neste capítulo será abordado de que forma uma emissora de televisão, que é um dos maiores veículos de comunicação de massa, pode influenciar a vida das pessoas e como essa mídia auxilia o profissional em comunicação no seu trabalho diário. Além disso, será mostrada a importância da divulgação do turismo em uma empresa televisiva. 3.1 T elevisão e o turismo A televisão é, hoje, um dos instrumentos midiáticos de massa mais eficaz no que diz respeito à divulgação da informação. Entre suas várias funções, destaca-se a de educar, informar e entreter o telespectador com conteúdo diversificado, voltado para diferentes públicos. É por meio dela que colocamos o mundo dentro da nossa casa, permitindo nos atualizarmos sobre os principais fatos e acontecimentos do planeta. No turismo não é diferente. Imagens de determinados destinos turísticos são mostradas na televisão com a intenção de promover o turismo na região. São por meio dos programas de viagens, reportagens de lugares que atraem considerável número de visitantes e propagandas de agências turísticas que as emissoras de televisão transmitem, para o espectador, imagens dos principais pontos turísticos da cidade, além das belas paisagens, gastronomia e o artesanato da região ofertada. Mas essas imagens são trabalhadas, por profissionais da comunicação, para que a pessoa, que esteja do outro lado da tela, sinta sensações parecidas de como se ela estivesse presente no local, ou seja, faz com que os sentidos humanos sejam estimulados a conhecer determinado lugar sem sair de frente da televisão.
O turista se alimenta, vê, toca, escuta, lê, fala, cheira e opera cognitiva e emocionalmente em ações como objetivos específicos, diferentes dos de seu dia-dia, focados na satisfação de desejos, de fantasias e sonhos. No entanto, não se pode desprezar o poder que exerce a imagem neste processo de comunicação. O turismo é primordialmente uma atividade de comunicação visual por meio da qual se fomentam todas as emoções e efeitos estéticos individuais e coletivos. (FRANCHI, 2004, p. 120).

Essa possibilidade de conhecer, por meio da televisão, o que o destino turístico apresenta para seus visitantes sem que eles estejam fisicamente presentes, também desperta as sensações de segurança, aconchego e bem-estar. Afinal, a pessoa poderá desfrutar das imagens transmitidas

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pelo programa turístico, por exemplo, em casa, com a família reunida, longe da violência e da agitação de outras pessoas, que, por ventura, poderiam estar presentes no local mostrado. Além disso, essa proposta proporciona ao telespectador descansar da tensão física e emocional depois de um dia pesado de trabalho. Tudo isso estimula as pessoas a buscarem, cada vez mais, a televisão como um meio de conhecer várias cidades turísticas do mundo sem sair de casa. O potencial desta mídia faz com que o telespectador, mesmo que nunca tenha viajado para o exterior, por exemplo, absorva vasto conhecimento ao apreciar a cultura, línguas e os costumes dos diferentes países do planeta. Para tanto, são divulgados imagens, sons e relatos de pessoas conhecedoras do assunto em questão para melhor visualização do destino turístico pautado. 3.2 H istória da televisão brasileira Inaugurada oficialmente em 18 de setembro de 1950, pela TV Tupi canal 3, em São Paulo, por Assis Chateaubriand19, a televisão brasileira foi um marco na vida das pessoas. Naquela época, eram poucas as famílias que tinham o aparelho televisor em suas residências por tratarse de um objeto de alto custo. Por esse motivo, Chateaubriand encomendou do exterior e distribuiu duzentos aparelhos para que, pelo menos alguns brasileiros, pudessem acompanhar aquele dia histórico. Com isso, as pessoas se reuniam na casa de vizinhos e parentes para assistirem a programação do dia que era composta pelos teleteatros, telefilmes, seriados estrangeiros e shows parecidos com os radiofônicos. A frase célebre que iniciou a transmissão das imagens no país foi dita por uma criança de cinco anos de idade: “está no ar a televisão no Brasil”. Ainda nas cores preto e branco e sem grandes aparatos tecnológicos, as cenas eram projetadas na tela do aparelho televisor sem muita nitidez. As pessoas que ali apareciam, não tinham seus contornos definidos, mas somente pelo fato de ver o que estava acontecendo em um outro lugar que não fosse aquele em que a pessoa estava, já era o bastante para encantar e emocionar os telespectadores.

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Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, além de jornalista, empresário, advogado, membro da Academia Brasileira de Letras e Senador da República, foi um dos mestres da comunicação no Brasil entre as décadas de 1930 e 1960. Dono do Diários Associados - maior conjunto de mídias da América Latina, que contou com veículos de jornais impressos, revistas, emissoras de rádio e televisão, e agências telegráficas -, foi o responsável pela chegada da televisão no Brasil juntamente com a inauguração da primeira emissora televisiva, a TV Tupi, em 1950. (MACEDO; FALCÃO; ALMEIDA; MENDES, 1988, p. 57-69).

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[...] A gente está vendo uma coisa que está acontecendo lá no Flamengo, lá, lá, lá no final do Flamengo. Parecia uma distância imensa.A imagem não era muito clara; era meio borrada, como se fosse um desenho que você faz e passa o dedo. A tela redonda. Mas tinha movimento, você via as pessoas, dava até para reconhecer. (DANIEL FILHO. 2001, p. 16).

A televisão foi uma espécie de rádio com imagens. As pessoas, muito acostumadas com a programação radiofônica, esperavam algo muito parecido na tela daquele aparelho. No princípio, muitos profissionais que eram do rádio, como Hebe Camargo, Lolita Rodrigues, Lima Duarte, Ivon Cury e Wilma Bentivegna, foram para a emissora Tupi, onde atuavam nos programas e telenovelas na base do improviso, pois, além de ser ao vivo, com espetáculos que duravam de 14 a 15 horas ininterruptas, os atores contavam apenas com uma câmera no auditório, motivo este que dificultava esconder determinados erros em cena. Com o passar do tempo, a televisão sofreu várias transformações tecnológicas, como a implantação do videotape - que permitiu gravar os programas antes que episódios fossem ao ar, e, após serem veiculados, poder repetí-los -, a transmissão via satélite e a invenção da televisão em cores. Além disso, outras emissoras televisivas também foram criadas em outros Estados, como a TV Itacolomi, de Belo Horizonte, TV Piratini, de Porto Alegre e TV Globo, no Rio de Janeiro. Essa expansão contribuiu para que o valor dos aparelhos de televisão também ficasse mais acessível às pessoas, motivo este que permitiu a entrada desse objeto na casa de milhões de brasileiros. Hoje, entre tantas funções que a televisão exerce, a que mais se destaca é a rapidez de como a informação é levada ao conhecimento de milhares de telespectadores. Esta é uma das mídias que transmite, em tempo real, os acontecimentos do Brasil e do mundo, além de também propagar a cultura e educação por meio da divulgação de outros meios de comunicação, como afirma Bonásio (2002, p. 14.). “Este é um veículo em constante metamorfose e crescimento,  um dos únicos veículos de comunicação de massa espalhado por todo o planeta. É uma mídia que auxilia na divulgação de outras mídias: o cinema, o teatro, o rádio...”. Mas, da mesma forma que a televisão brasileira tem o poder de educar o telespectador, com a programação voltada para o conhecimento cultural, como já citado, ela também deseduca ao mostrar conteúdos polêmicos que induzem a violência, corrupção, pornografia e ao vocabulário chulo. Atualmente existe uma farta quantidade de canais televisivos com perfis de

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conteúdo diversificado. Cabe ao espectador utilizar essa tecnologia e separar aquilo que ele julgar ser proveitoso para seu conhecimento, optando ou não, pela mudança de canal. 3.3 T elevisão digital interativa Atualmente existem vários canais televisivos – da TV por assinatura –, que dedicam consideráveis partes da grade de suas programações a programas de viagens. Aliados a algumas das inovações que a televisão digital20 apresenta ao espectador, como interatividade, acessibilidade e qualidade em alta definição nas imagens e no som, tais canais chamam a atenção do espectador, uma vez que é proporcionado uma maior sensação do real, ou seja, transmite a idéia deles estarem vivenciando a imagem transmitida. A televisão com imagem digital já era prevista em épocas passadas.
[...] é uma verdadeira revolução do mundo da imagem teletransmitida. Avançam as técnicas da digitalização da televisão, ampliando os espaços do casamento do vídeo com o computador, transformando completamente os processos de gravação e permitindo, ao mesmo tempo, o lançamento de uma geração diferente de novos receptores, cujas telas podem receber simultaneamente, dois, três, quatro canais de imagem. (SALLES, 1988, p. 15-16).

De acordo com o Site Oficial da TV Digital Brasileira21, com a chegada do sinal digital representação de algo através de uma escala (dígitos), via satélite, que pode ser copiado, armazenado, reproduzido e retransmitido sem perder informações -, as pessoas não terão que se preocupar em assistir a programação de determinado canal televisivo somente em suas residências ou locais em que estejam o aparelho televisor. O sinal digital permite visualizar o conteúdo das emissoras dentro de carros, ônibus, aviões, estabelecimentos comerciais, notebooks e celulares, em movimento. Algumas empresas de televisão já estão transmitindo regulamente conteúdos interativos em suas programações, como acessar a internet, votar em pesquisas e fazer compras pela televisão sem ter que usar o telefone.

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A televisão digital é transmitida via satélite, por meio de um aparelho conversor ou por um sintonizador interno da própria televisão, capaz de transformar cada minúsculo elemento da cena e do som em um número binário formado somente por zeros (0) e uns (1), correspondentes à mesma linguagem dos computadores. O primeiro grande impacto é a alta definição, ou seja, a visualização da imagem com mais detalhes e nitidez e som com qualidade de CD. A interatividade é outro atrativo que essa nova tecnologia proporciona aos telespectadores. Permite consultar guia de programação das emissoras, realizar operações bancárias, acessar a internet, entre outros serviços. Atualmente cerca de 50 cidades brasileiras já possuem sinal digital. Informações disponíveis no site < http://www.dtv.org.br/index.php/entenda-a-tv-digital/ >. Acessado em 27 de março de 2011. 21 http://www.dtv.org.br/index.php/entenda-a-tv-digital/50/

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Algumas agências publicitárias, juntamente com empresas de software, estão desenvolvendo aplicativos para que sejam utilizados nas emissoras televisivas, como um novo recurso de interatividade em suas propagandas. Com isso, tais agências, especificamente de turismo, devem transmitir a idéia do viajar através das imagens veiculadas pela televisão, com ainda mais naturalidade e realidade. Mas, por outro lado, a propaganda despertará os desejos e sonhos dos telespectadores, fazendo com que eles se sintam estimulados a se deslocarem até o lugar ofertado. As empresas de publicidade utilizam de recursos tecnológicos e efeitos especiais capazes de capturar a atenção das pessoas e os convencer de que o produto em questão, no caso, a viagem para o lugar desejado, é a melhor escolha a ser feita. Entre vários meios, usam efeitos visuais e de animação, sons diferentes, pessoas conhecidas no meio artístico, humor, fantasia e magia. Além disso, é somada a técnica adotada pelos profissionais para ajustes da estética do comercial. Elas investem muito dinheiro e apostam na divulgação da mídia, principalmente na televisão, por tratar-se de um veículo de massa em que a imagem é seu principal instrumento de persuasão. Entretanto, as agências publicitárias veiculam as propagandas em programas de maior audiência da emissora para obter um melhor retorno financeiro e resultado final.
[...] A TV ganha de longe de outros meios de comunicação na quantia dos investimentos em publicidade. As redes lucram vendendo tempo de TV para os anunciantes. Quando maior a audiência do programa (medida pelo IBOPE22 em números de aparelhos ligados num determinado programa), maior o valor do anúncio. (ACOSTA-ORJUELA, 1999, P. 26).

A propaganda turística na televisão cria um elo entre o anunciante e o telespectador. É ela quem supre as necessidades do consumidor, oferecendo momentos de descanso, lazer e alegria, longe da agitação cotidiana. Logo, essa relação mais próxima com o turista, juntamente com as belas imagens veiculadas nas emissoras televisivas, fará com que as pessoas sejam persuadidas, e, consecutivamente, busquem realizar a tão sonhada viagem. Para tanto, pode-se dizer que a publicidade televisiva é uma grande contribuinte para a influência
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O IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) é um instituto de pesquisas de audiência realizada em diversas áreas, como política, mídia, mercado, entre outras. No caso da comunicação, é fundamental a utilização desta empresa para avaliar o percentual de pessoas que estão com seus aparelhos – televisão, rádio e internet -, ligados em um determinado programa e/ou acessando alguma matéria específica. Com isso, os veículos de comunicação também ficam sabendo qual a reação das pessoas quando se divulga determinado assunto polêmico ou não. Em relação à televisão, antigamente a amostra era feita pelo chamado flagrante – que consistia em abordagens feitas de porta em porta por um pesquisador pessoalmente. Hoje, a coleta de índices é feita pelo peoplemeter, aparelho usado desde 1989. Esse equipamento monitora os hábitos televisivos de uma família de até seis pessoas. (Informações obtidas em BONASIO, 2002, p. 77-78).

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de pessoas que adquirirem produtos e serviços turísticos, no caso, - hotéis, passeios culturais, passagens aéreas, terrestres ou hidroviárias, tradutores, guias turísticos, entre outros -, por meio desta mídia que é a televisão.
A mídia, especificamente a TV, sofreu grandes transformações tecnológicas, globalizou sua acessibilidade, seus padrões e estratégias, constituindo uma verdadeira revolução das técnicas de persuasão em massa, que atuando sobre as necessidades, os desejos, a autoestima, as emoções o inconsciente e sobre o sistema de valores e crenças do espectador, o convence a comprar, a consumir, a voltar a comprar e consumir novamente e, assim, manter o sistema. (FRANCHI, 2004, p. 123).

A televisão é um veículo de comunicação que está presente, direta ou indiretamente na vida das pessoas. Ela influencia não somente ao projetar imagens de algo a ser comercializado, mas também na formação de opinião e nas atitudes dos cidadãos. Para Porcello (2006), a televisão é uma fonte de influência na formação de conceitos e opiniões das pessoas. Além disso, o autor afirma que esta mídia aumenta o peso da imagem em relação ao valor da palavra, ou seja, o telespectador, em seu imaginário, decodifica melhor a real mensagem que a imagem transmite do que se ele apenas escutasse. No meio turístico não é diferente. É preciso que esta mídia divulgue cenas perfeitas de belos lugares, naturais ou não, oferecendo momentos de descanso e lazer para o convencimento de que aquele destino é o ideal para se fazer uma viagem turística dos sonhos. Com isso, o turista se sente motivado a se deslocar para o lugar desejado, depositando total credibilidade na agência de turismo. Entretanto, influenciar e persuadir as pessoas para que elas visitem determinadas localidades, é considerada uma das funções da televisão, no que diz respeito ao setor turístico. Tal veículo de comunicação visa à promoção de visitantes na região e o aumento do número de pacotes turísticos vendidos nas empresas de turismo. 3.4 O papel da emissora regional e sua audiência A televisão é, hoje, um instrumento midiático capaz de assumir alguns papéis importantes na sociedade, como o de educar, informar e formar opiniões. Além disso, é responsável por prestar serviços à comunidade das cidades brasileiras. De acordo com uma pesquisa realizada pelo jornal Folha de São Paulo em 1997, citada por Bazi (2001, p. 11), 49% das pessoas entrevistadas utilizam a televisão como principal fonte de informação. Diante disso, observase que, cada vez mais, é discutida a importância da regionalização das emissoras de televisão,

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além de seu crescimento e implantação nos municípios a fim de levar a público os principais fatos que ali acontece, preservando, ainda, a identidade cultural das regiões. Cada vez mais a regionalização da programação se mostra como uma tendência de mercado televisivo devido às grandes redes de televisão não conseguirem – por vários motivos -, atenderem às demanda das diversas regiões do país. Quando as grandes emissoras precisam de matérias para complementar a grade de assuntos de seus programas e/ou telejornais, são das emissoras locais que elas solicitam envio de material. Daí encontra-se uma das importâncias da televisão regional. Bazi (2001, p.18) conceitua a televisão regional como “[...] aquela que retransmite seu sinal a  uma  determinada  região  e  que  tenha  sua  programação  voltada  para  ela  mesma”.  O  autor  afirma que uma emissora regional procura dar maior ênfase nos principais fatos e acontecimentos da cidade, como por exemplo, eventos culturais realizados nos municípios, casos policiais que chocam os moradores da região – assaltos, homicídios, corrupção -, prestação de serviços, histórias inusitadas que chamam a atenção das pessoas, entre outros assuntos. Já emissoras filiais, que são emissoras próprias, e as emissoras afiliadas, aquelas que são associadas a uma emissora com o âmbito nacional de sinal, são formadas pelas grandes redes de televisão com a intenção de levar a informação para todas as partes do Brasil. Por meio da televisão regional que se mantém um vínculo com a comunidade. As emissoras locais são de extrema importância para as cidades do interior, pois são através delas que os moradores tomam conhecimento dos principais acontecimentos da redondeza. Saber das reais necessidades e o que há de comum na vida dos moradores das cidades, faz com que exista um maior envolvimento da emissora com o mercado, o que pode ser sinônimo de lucro para e empresa televisiva. Muitas vezes, as televisões regionais promovem eventos na comunidade, que são na área do esporte, lazer e cultura, em que, muitas vezes, são descobertos talentos regionais e, consecutivamente, divulgados pela emissora.
A penetração do novo veículo, nos vários segmentos da sociedade, passa a dar ao acontecimento local dimensão mais abrangente e repercussão mais imediata. A comunidade passa a se inteirar mais de seus próprios problemas e dificuldades. Passa também a descobrir suas potencialidades, as oportunidades que cria, as alternativas que tem. Discute mais amplamente suas próprias soluções e abre com isso a possibilidade de atuar, de influir e de escolher melhor seu próprio futuro. As campanhas educativas, os projetos culturais e as ações comunitárias, que a emissora desenvolve reforçam esse sentimento. Promovem a integração de segmentos e regiões. (GUSMÃO, 2004, p. 2).

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Esses eventos promovidos pela emissora chamam atenção do público regional, tanto no momento em que acontecem as gravações quanto na hora em que as imagens são transmitidas na televisão. A curiosidade despertada nos moradores faz com que eles assistam a matéria veiculada em programas ou em jornais para conferir se a imagem deles, ou de algum conhecido da redondeza, aparecerão no vídeo. Com isso, mais pessoas estarão conectadas no canal regional e, consecutivamente, farão com que a audiência cresça. Do mesmo modo que a televisão regional preza o respeito e a credibilidade para com o telespectador regional, os autos índices de audiência comprovam que o público acredita no que é veiculado e deposita toda sua confiança no conteúdo dos programas e telejornais. São esses picos, ou seja, grande número de pessoas que estão com suas respectivas televisões ligadas em determinado canal, comprovado através do controle de números divulgados pelo IBOPE, que fazem uma emissora regional viável. A linha editorial de um telejornal - regional ou não -, pode ser alterada pela queda de audiência. Por esse motivo, várias redações jornalísticas passam por pressão para que seja elevado o número de espectadores. Afinal, quanto maior for a audiência da programação da emissora, maior é o valor cobrado pelos espaços publicitários. É por meio desta audiência que as emissoras regionais financiam seus investimentos e geram seus lucros.
Se determinado telejornal perde público, é necessário trazer de volta essas pessoas. [...] reúne-se um grupo de pessoas que têm o perfil do telespectador de telejornal. Elas assistem a algumas edições, informam sobre o que gostaram e o que desejariam ver, e também os assuntos pelos quais se interessaram. Baseando nesses dados, o editor-chefe pode orientar as pautas para atender às expectativas. (BISTANE; BACELLAR, 2006. p. 80).

Pequenas empresas e instituições optam em mostrar seus comércios na tela da televisão, em horário da programação local, devido o valor cobrado pela emissora ser mais barato. Essa facilidade em divulgação fez com que crescesse e/ou abrisse várias agências de publicidade, além de aumentar o número de profissionais da área, que é fruto da geração de emprego e renda na cidade. “[...] muitos publicitários perceberam que o mercado que estava se formando  seria muito promissor. A inauguração da televisão regionalizada possibilitou ao pequeno comerciante se ver na tela”. (BAZI, 2001. p.81). 

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Os anúncios veiculados em uma emissora regional incentivam o crescimento dos negócios na localidade. Por meio das propagandas as pessoas tomam ciência de determinados estabelecimentos comerciais e optam em comprar aquilo que necessitam nestes lugares. Com o aumento de clientes nos centros comerciais, os empresários investem em suas empresas ampliando as instalações, melhorando o padrão de serviços, diversificando a linha de produtos e construindo filiais, afinal, logo surge a concorrência que é acirrada. Além disso, outros investimentos econômicos que beneficiam a cidade sede da emissora também são registrados, como a arrecadação de impostos, melhoria de condição de pólo econômico e benfeitoria no setor de infraestrutura e serviços públicos prestados pelo município. 3.5 Desafios e obstáculos de uma televisão regional Entre tantos desafios que uma emissora de televisão regional lida, destaca-se a falta de recursos financeiros. Uma televisão local não possui as mesmas condições de arcar com grandes gastos, em determinadas situações, como uma grande empresa televisiva. Um exemplo é, às vezes, a falta de veículos para transportar o jornalista para o local em que será realizada a matéria. Em uma emissora conceituada a probabilidade desse tipo de situação acontecer é muito pouca. Haverá vários veículos a disposição dos comunicadores, caso contrário, a empresa paga todas as despesas de táxi ou outros transportes. Por isso, é preciso que os funcionários de uma emissora regional saibam conviver com situações parecidas e colaborem para o bom funcionamento da empresa. Bazi (2001) afirma que para manter uma televisão regional é preciso boa administração, pois, o custo para manter a produção é muito alto e caso seja mal administrado, ao invés de dar lucros pode gerar prejuízos. A falta de recursos tecnológicos também pode ser considerada como outro grande fator que prejudica a rotina de uma emissora regional. Aparelhos com defeitos e com vários anos de uso são a combinação necessária para gerar atrasos ou cancelamentos de edições de materiais. A implementação da tecnologia em uma empresa de comunicação é um dos fatores fundamentais para o alcance da eficiência. Porém, para que uma televisão local invista em aparelhos em boas condições e que favoreça o trabalho jornalístico, é necessário dinheiro, tanto para pagar os aparatos tecnológicos, quanto para a contratação de funcionários, o que nem sempre é possível conseguir. Essa falta de verba fez com que os jornalistas exercessem várias funções dentro da emissora regional, como produtor, editor, cinegrafista, roteirista, entre outras. Tal profissional ficou conhecido como jornalista multifunção.

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3.6 A multifuncionalidade do jornalista e o profissional multimídia O repórter de televisão é popularmente conhecido como um grande contador de histórias. Mas, sabe-se que, além desta função, existem outras tantas, como a de informar a população sobre os principais fatos e acontecimentos, mostrando sempre todos os lados do fato ocorrido, apurar se a notícia que chega à redação possui veracidade, instruir e/ou esclarecer os cidadãos sobre assuntos de interesse público e investigar se algo de caráter duvidoso possui algum tipo de irregularidade, mas sempre com ética e respeito. Além disso, o repórter deve saber conduzir uma boa entrevista, afinal, fazer com que o entrevistado diga algo que o jornalista deseja, às vezes, pode ser difícil, mas não impossível. Cada repórter tem seu próprio método e técnica de trabalho. Atualmente, o profissional em jornalismo de televisão tem que saber exercer, além do seu trabalho rotineiro de reportagens, outros tipos de funções, como o de produtor, editor, cinegrafista, pauteiro, entre outros. Esse profissional que sabe lidar com vários tipos de tarefas – jornalista multifunção -, é bastante procurado para desenvolver seu trabalho nas grandes e pequenas redações de emissoras de televisão do mundo. Especula-se que foram as televisões regionais as grandes responsáveis pelo aparecimento e desenvolvimento desse novo modelo de profissional em jornalismo. “A videorreportagem se desenvolveu em empresas com poucos recursos tecnológicos como uma proposta de redução de custos para tornar a execução dos produtos audiovisuais economicamente mais viáveis”. (THOMAZ apud SILVA, 2008, p. 6)23. Com o surgimento do repórter multifuncional muitas empresas de televisão optaram em demitir alguns de seus funcionários, visto que se apenas uma pessoa poderia executar o trabalho feito por pelo menos três ou mais profissionais, não havia necessidade em manter todos eles empregados. “O grande envolvimento na absorção do real e a participação intensa em todas as etapas permitem ao autor empregar diferenciações na narrativa, na expressão visual e sonora, na estética da imagem e na edição” (THOMAZ apud SILVA, 2008, p.7)24.

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THOMAZ, Patrícia. A linguagem experimental da videorreportagem. IN: Revista Brasileira de Inovação Científica em Comunicação – Dossiê, 2006, v.1 (2), p. 92-99. 24 THOMAZ, Patrícia. A composição da obra autoral e a experimentação de linguagem telejornalística na videorreportagem. Trabalho apresentado na Intercon, 2007. Disponível em : http://www.intercon.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R0239-1pdf.

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O repórter multifunção é uma grande tendência no jornalismo atual. Aliado às novas ferramentas criadas pela tecnologia com intuito de auxiliar o repórter quando ele vai a campo, ou seja, quando ele sai da emissora para algum lugar a fim de buscar informações sobre determinado assunto, o serviço deste profissional tende a ser mais eficaz, permitindo que o jornalista divulgue para outras mídias o mesmo assunto instantaneamente. Normalmente, o jornalista sai da redação com vários equipamentos, como laptop, câmara fotográfica, gravador digital, tripé e filmadora, faz a matéria e, além de veicular na empresa em que trabalha, ele também tem a oportunidade de registrar em outro meio de comunicação – televisão, rádio, impresso ou internet. “O repórter sozinho dá conta do recado. Além disso, o custo é menor e o  jornalista  adquire  mobilidade”,  (BISTANE;  BACELLAR,  2006.  p.  113).  Portanto,  com  o  avanço das tecnologias, as coberturas jornalísticas ganharam mais agilidade e credibilidade do espectador. São através das novas mídias presentes na internet, conhecidas também como media webrádio, redes sociais, webtv -, que oferecem, ao repórter, mais rapidez na divulgação da notícia, contribuindo, também, para a interatividade do usuário com o veículo de comunicação. Dessa forma, se a emissora televisiva utilizar um site para a divulgação do conteúdo que foi divulgado na televisão, é permitido que o espectador participe e opine sobre os assuntos pautados na programação e o jornalista tenha um retorno do seu material postado na internet, mais conhecido no meio como feed-back.  “Enquanto  os  media clássicos apresentam os seus produtos de forma linear, os interativos possibilitam o controle da informação que se recebe, da seqüência em que as notícias são apresentadas e até da ordem de apreensão dos conteúdos” (GRADIM, 2003. p 117). As redes sociais, como os blogs, twitter, orkut e facebook, se transformaram em uma espécie de bloco de anotações exposto ao público, que auxiliam os repórteres a divulgarem e apurarem informações, saber sobre quais assuntos o público deseja se informar melhor e qual a prioridade de divulgação das matérias feitas, de uma forma mais eficaz e objetiva. Mark (2007, p. 34) afirma que a interatividade é fundamental para os espectadores, afinal, hoje eles não são considerados apenas receptores da mensagem. Pelo contrário, querem receber, compartilhar,  comentar  e  divulgar  informações.  “Muitas  empresas  de  notícias  tradicionais  incluem links de e-mail em seus artigos para facilitar o contato dos leitores com o repórter e o envio de perguntas ou comentários sobre as matérias”.

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A chegada da internet fez com que o computador se aproximasse da televisão. Por meio da internet, composta por uma placa de vídeo, é possível assistir a novelas, filmes, programas em tempo real, entre outras programações. O aparelho celular também evoluiu, possibilitando ao usuário, além de mandar mensagens de texto e se comunicar por voz, enviar vídeos, fotos, arquivos e acesso à internet. Estas são consideradas duas maiores aliadas do profissional em jornalismo. Atualmente, a maioria das pesquisas realizadas para a produção de matérias, envios de materiais para sucursais ou correspondentes de outros países, localizar lugares e/ou telefone de pessoas, enviar mensagens instantâneas para alguém e navegar em sites de buscas de todos os assuntos, são feitas através destas mídias. As novas tecnologias também deram maior agilidade às coberturas jornalísticas internacionais. As informações que hoje são acompanhadas por transmissões ao vivo e pela internet, antigamente demoravam horas para a chegada das imagens por meio das máquinas de telex. Bistane e Bacellar (2006) enfatizam que a maioria dos noticiários internacionais não são produzidos por equipes brasileiras. As agências internacionais de notícias são de grande importância para repórteres em cobertura internacional. Os jornalistas fazem com frequência seus textos com base nas informações disponíveis nelas e gravam suas passagens em qualquer local onde estiverem, muitas vezes até na própria redação. 3.7 Produção em televisão Antes de um programa ou telejornal ir ao ar em uma emissora de televisão, existe todo um processo de produção do conteúdo veiculado. Quando se trata de um programa semanal, normalmente, escolhe-se um dia da semana para fazer a reunião de pauta. Nela, todas as pessoas envolvidas no programa – produtor, apresentador, repórteres, diretor, editor e coordenador -, sugerem temas de um determinado assunto. Dessa forma, tais temas são trabalhados, no decorrer da semana, com gravações externas, edições, ajustes em estúdio, entre outros. Já em um programa diário, geralmente é o produtor quem seleciona os assuntos e distribui as tarefas para a realização do episódio, mas sempre em comunicação com o restante da equipe.
A participação na produção do telejornal começa no dia anterior com a reunião de pauta, aberta a todos na redação, quando os temas e as formas dos assuntos que serão mostrados no dia seguinte são apresentados. No caso de emissoras all-news essa produção é constante, industrial e não pára nunca. (BARBEIRO, 2005, p. 92).

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O produtor deve conhecer bem o perfil do programa ou telejornal em que trabalha. Não são todos os tipos de assuntos, entrevistas ou matérias que podem ser inseridas em determinado espaço televisivo. Conhecer o público que o programa é destinado e saber os assuntos que lhe proporciona maior audiência é fundamental para acertar nos temas abordados e, consecutivamente, fazer com que o telespectador se sinta motivado a continuar assistindo o programa. Para isso, ele deve entender quais as verdadeiras necessidades e interesses do público, e transmitir, por meio das matérias e atrações, confiança e credibilidade a eles.
Algumas considerações básicas de produtor são: se a audiência é nacional ou local; se o público alvo é constituído em sua maioria por homens, mulheres ou crianças; e qual a idade desse público. Um exemplo que demonstra a diferença de métodos a serem aplicados em  um  programa  do  mesmo  estilo  pode  ser  percebido  entre  o  “Programa  de  entrevistas  para  adolescentes”  e  um  “Programa  noturno  de  entrevistas”. Embora ambos sejam programas de entrevistas, o primeiro é direcionado a um público de adolescentes e jovens, enquanto o outro atrai uma audiência de todas as idades”, (BONASIO, 2002, p.57).

Cabe a esse profissional realizar tarefas diárias dentro e fora da redação, como procurar entrevistados especialistas sobre determinados assuntos e agendar tais participações; confeccionar as pautas jornalísticas25; participar de edições de matérias, definir temas, verificar a montagem do cenário no estúdio, providenciar água e, às vezes, alimentação para os envolvidos, produzir o script – relatório entregue a equipe de jornalismo na hora da veiculação do programa com todo o conteúdo do dia, divididos em blocos -, entre outros tantos afazeres. Estar conectado sempre que puder com os telespectadores, respondendo emails e observando o que é postado nas redes sociais, também é tarefa do produtor. É importante que este profissional fique atento às sugestões do público, afinal as pessoas gostam de demonstrar suas participações, de alguma forma, no programa televisivo, o que desperta curiosidade no mesmo em saber se a sugestão dele foi ao ar e isso, consecutivamente, cativa a audiência.
Todas as emissoras recebem e-mails, cartas, ligações telefônicas de telespectadores nas quais eles registram sua opinião sobre programas específicos. Logicamente as informações obtidas de cartas e telefonemas podem representar apenas uma minoria expressiva, porém a maioria dos que ligam ou escrevem são sinceros tanto nas suas críticas quanto nos seus elogios. Afinal, para um telespectador se dar ao trabalho de ligar ou escrever para um
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Pauta jornalística é o planejamento esquematizado dos ângulos a serem focalizados numa reportagem, com o resumo dos assuntos e a indicação da sugestão de como o tema deve ser tratado. A pauta não é normativa, não estipula uma linha de ação a ser obrigatoriamente seguida: é uma tentativa de orientar e dirigir metodicamente o trabalho do repórter, dentro dos parâmetros que possam ser previstos. Caso ocorra algum detalhe importante como notícia e não previsto na pauta, esta não impede, obviamente, que a reportagem seja desviada para outros ângulos. Podem estar contidos numa pauta, além do resumo do assunto, o tratamento que deve ser dado à matéria, uma sugestão de lide, perguntas para os entrevistados, nomes, endereços e telefones de possíveis fontes, etc. (Informações obtidas em RABAÇA, 2002, p. 556).

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programa de televisão, é porque ele realmente reagiu à sua mensagem. Resta saber se bem ou mal. Por esse motivo, preste atenção nas ligações, e-mails, cartas. Observe que o padrão geral dessas mensagens pode lhe dar algumas perspectivas interessantes sobre as reações dos telespectadores quanto ao seu programa”, (BONASIO, 2002, p. 79).

A rotina de produção requer eficiência, organização e responsabilidade. Além disso, saber improvisar e ser criativo são qualidades indispensáveis para o profissional da produção jornalística. Manter um programa diário exige conceitos criativos para prender a atenção do público, caso contrário, o programa cai na mesmice e corre o risco de sair do ar. Tratando-se de um programa que, além de ser diário, também é ao vivo, requer ainda mais atenção em assuntos repetitivos e na fiscalização de todos os detalhes para que não ocorra erros gritantes em cena, ou também na técnica. O retorno dos telespectadores que fazem esses tipos de observações é imediato, motivo este que pode diminuir o conceito do programa. No meio jornalístico, existe uma grande procura por novidades impactantes na sociedade. Divulgar uma notícia ou alguma informação antes da concorrência oferece certo prestígio ao veículo de comunicação, mas é preciso ter cuidado para não levar ao ar informações erradas ou sem que elas tenham sido apuradas. Por isso, o produtor deve sempre ter em mente que antes de se divulgar algo é preciso checar com as fontes cabíveis se a informação é de caráter verdadeira, afinal, quem divulga melhor uma notícia é quem apura direito, e não quem informa primeiro. No jornalismo um pequeno deslize gera uma grande repercussão, pois são milhões de pessoas assistindo a programação. Há várias formas da notícia chegar ao produtor e/ou jornalista. Através de boato, denúncia anônima, internet ou via release – material enviado pelas assessorias de imprensa. A rondatelefônica, que são as ligações feitas várias vezes ao dia, em busca de informações, para a polícia, corpo de bombeiros, centrais de trânsito, entre outros órgãos, além de também ser considerada outra forma do jornalista descobrir a notícia, é essencial para a checagem de fatos. Muitas vezes, quando o produtor  faz  a  ronda,  ele  acaba  descobrindo  o  “furo  de  reportagem”,  ou  seja,  descobre-se a notícia e veicula-se antes que outro veículo de comunicação tenha divulgado. Quando o produtor entrega a pauta para que o repórter e o cinegrafista se desloquem para um determinado local a fim de fazer uma matéria para o programa, ele sugere ao jornalista que não siga necessariamente todos os passos da pauta. É importante que o profissional da

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comunicação a enriqueça também com outras fontes relevantes do acontecimento para complementar  a  matéria.  “Se  a  missão  do  repórter  se  limitasse  a  trazer  exatamente  o  que  a  apuração levantou, ele seria dispensável. Bastaria orientar o cinegrafista para que captasse as imagens  necessárias,  e  o  editor  redigiria  o  texto”,  (BISTANE;  BACELLAR, 2006. p. 51). Outra orientação importante por parte do produtor para com o cinegrafista, em reportagens externas, é que caso ocorra o flagrante de uma imagem inusitada, capturada por ele, não deixe de fazer. Às vezes, aquela imagem pode ser de extrema importância no contexto do programa, podendo gerar grandes debates, discussão sobre o assunto ou até mesmo sérias denuncias. O cotidiano de um produtor é bem conturbado e exige dedicação especial. Todos os dias existe uma correria para fechar a edição do telejornal, escalas para plantões nos finais de semana, feriados e dias santos, além de cansaço mental e físico ao produzir uma matéria ou programa televisivo. Além disso, este profissional deve saber lidar com o comportamento e o ego de alguns repórteres, entrevistados e pessoas do convívio, que são considerados, para as autoras, como outro fator problemático na profissão. Segundo as autoras, muitos pensam que são celebridades pelo fato de aparecerem na televisão e por serem reconhecidos nas ruas. Por isso, é importante que o produtor esteja preparado para lidar com esse tipo de situação e tentar, sempre, manter a harmonia no ambiente de trabalho para o bom convívio das pessoas e um melhor rendimento na produção de material. 3.8 C ritérios de noticiabilidade na televisão No cotidiano de uma redação jornalística de emissoras de televisão, o volume de informações que chegam ao conhecimento dos profissionais da comunicação é muito grande. Mas nem tudo vira notícia, ou seja, apenas parte desse material é veiculado. Cabe ao jornalista usar sua experiência e  conhecimento  para separar aquilo  que será discutido na mídia. “É fato  que os  jornalistas se valem de uma cultura própria para decidir o que é ou não notícia. Ou seja, têm critérios próprios, que consideram óbvios, quase instintivos” (PENA, 2007. p. 71). Para que seja feita a triagem do que de fato é considerado notícia, obrigatoriamente os acontecimentos devem responder algumas perguntas, por exemplo, se eles são relevantes e significativos para a sociedade e se são suficientemente considerados interessantes ao público destinado. Wolf (2003, p. 202) conceitua noticiabilidade como a capacidade de algum acontecimento  em  virar  ou  não  notícia.  “É  o  conjunto  de  elementos  por  meio  dos  quais  o 

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aparato informativo controla e administra a quantidade e o tipo de acontecimentos que servirão de base para a seleção das notícias”, afirma o autor. A objetividade e clareza são outros fatores que contribuem na hora do editor ou produtor escolher o que deve ir ao ar. Bonner (2009) enumerou alguns critérios de escolha da notícia. Em primeiro lugar, destaca-se a abrangência. É importante que o assunto a ser veiculado seja de interesse de várias pessoas. Para isso, é necessário que seja avaliado se o assunto é local, nacional ou internacional e, posteriormente, verificar quantos telespectadores, naquele programa, serão atingidos. Caso contrário, a emissora poderá não alcançar seu objetivo em transmitir a informação em questão, além de ter uma queda na audiência do programa. É bastante comum, por exemplo, a produção de um programa regional televisivo fazer uma pesquisa sobre os acontecimentos e lugares mais procurados para visitação em determinada cidade. É importante saber o que motiva as pessoas a se deslocarem para aquele lugar e o que elas pretendem buscar ao chegarem ao destino desejado. A partir desses resultados, a emissora regional trabalha com o objetivo de abordar um assunto em comum que agrada tais telespectadores. A gravidade das implicações também é considerada como o segundo critério de noticiabilidade. Quanto mais escandaloso for o fato, como, por exemplo, algum caso de corrupção e violência, maior é o retorno por parte dos telespectadores e maiores são as chances do caso ser esclarecido e resolvido. É preciso que a mídia denuncie aquilo de errado que esteja acontecendo para que a sociedade possa cobrar das autoridades uma solução. Mas, por outro lado, os veículos de comunicação também precisam divulgar fatos integrantes de uma agenda positiva que acontecem no mundo, como ações de responsabilidade social, serviço voluntário, atos de gentileza urbana e de conservação patrimonial histórico e cultural, e campeonatos esportivos para que sirvam de exemplo aos telespectadores. Em relação às empresas televisivas regionais, este segundo critério também se encaixa no sentido de referendar algum acontecimento marcante no município que envolva algum patrimônio daquele lugar, costumes ou pessoas que fizeram ou fazem parte da cultura local. A restauração de alguma igreja tombada, as tradicionais festas religiosas e homenagens a alguém que faz parte da história da região, são exemplos de fatos que expressam total significância para os moradores da cidade.

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Enumerado como terceiro critério, o caráter histórico do acontecimento faz a total diferença na hora da escolha da notícia que será divulgada. Imediatamente, ele tem que ser veiculado na programação por se tratar de um fato com histórico já conhecido pela sociedade, no qual todos acompanham as notícias que saem na mídia sobre aquele assunto. Normalmente, são acontecimentos que afetam o mundo todo, logo o assunto também será divulgado pela imprensa internacional. É bastante comum que programas eliminem alguma outra pauta para exibir a matéria de caráter histórico por mais tempo. Um exemplo desse critério é quando alguma autoridade visita determinada cidade histórica para receber algum prêmio ou simplesmente prestigiar o evento, como na solenidade de sepultamento dos restos mortais dos inconfidentes José de Resende Costa, João Dias da Mota e Domingos Vidal de Barbosa, na cidade mineira de Ouro Preto, em abril de 2011, quando a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, esteve presente. Naquela mesma ocasião, celebrou-se a entrega da Medalha da Inconfidência26, como uma forma de homenagear pessoas que prestaram relevantes serviços e contribuíram para a promoção de Minas e do Brasil. A importância relativa de uma notícia, titulada como peso do contexto e classificada como quarto critério, deve ser comparada às demais antes de ser levada ao ar. Existem fatos que são de importância absoluta, ou seja, aqueles que obrigatoriamente devem entrar na programação com um tempo maior pela gravidade do assunto. Em relação àquelas notícias registradas naquele dia que também são importantes, mas não quanto a de importância absoluta, devem ser exibidas com tempo menor do que a outra, sem muito destaque. A importância relativa também serve para os assuntos escolhidos em um programa televisivo. É preciso focar no assunto principal do dia e saber classificar quais as outras informações que também irão compor a grade do programa. Um exemplo de peso do contexto no turismo é quando o jornalista cita em sua matéria, ou mostra no programa televisivo, personagens relevantes existentes em uma cidade, como em Diamantina, lugar onde o ex-presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, cresceu e viveu grande parte de sua vida. Em um dia comemorativo naquela cidade, em que, por algum motivo, JK será lembrado e citado, alguém com parentesco ou com grande proximidade do ex-presidente será o peso do contexto, ou seja, a importância relativa da notícia ou programa.

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BRASIL, Luisa. Ouro Preto sedia solenidade de entrega da Medalha da Inconfidência nesta quinta . Disponível em < http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2011/04/19/interna_politica,222740/ouro-pretosedia-solenidade-de-entrega-da-medalha-da-inconfidencia-nesta-quinta.shtml>. Acesso em 2 de junho de 2011.

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Por fim, o quinto e último critério estipulado por Bonner (2009), a importância do todo. De um modo geral, as notícias devem conter caráter factual e relevância absoluta para que sejam veiculadas. Porém, nesta categoria, vê-se, também, o mérito de matérias frias que abordam do particular para o geral e, assim, representa o todo. É a junção de todos os critérios já citados – abrangência, gravidade de implicações, caráter histórico e importância relativa. Graças a esta categoria, tem-se, dentro da linha editorial de um veículo como a televisão, a liberdade de mesclar assuntos factuais com outros mais frios e, assim, obter uma matéria mais analítica ou interpretativa. Além disso, a importância do todo também diz respeito a possível identificação na matéria da existência de algo ou alguém com caráter representativo em lugares específicos. É possível identificar esse critério no turismo quando alguém se refere a monumentos ou lugares característicos da cidade como se representassem, por si só, a cidade. Um exemplo claro é que não se fala de Ouro Preto sem falar das belas igrejas, das obras de Aleijadinho, museus, entre outros locais.

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4 C I D A D E D A G E N T E : U M O L H A R M U L T I F U N C I O N A L PA R A O T U R ISM O Neste capítulo, serão apresentados a emissora regional TV Horizonte, o programa de turismo

Cidade da Gente, objeto de estudo desta monografia, e a jornalista Luciana Katahira. Além
disso, será identificada, para o leitor, a metodologia utilizada para a confecção desta pesquisa. Por fim, a análise dos quatro episódios do programa está aqui como forma conclusiva deste trabalho. 4.1 A emissora católica de Belo Horizonte A TV Horizonte27 é uma emissora regional mineira, pertencente à Fundação Cultural João Paulo II, que, por sua vez, faz parte da Arquidiocese de Belo Horizonte, ligada à Rede Catedral de Comunicação Católica – que compreende quatro veículos de comunicação: TV Horizonte, Rádio América, Rádio Cultura e Jornal de Opinião. Sua missão é trabalhar para que a informação, a formação e o entretenimento, agregados a valores cristãos, sejam transmitidos aos telespectadores por meio do conteúdo de sua programação. Para tanto, segundo dados disponíveis no site da emissora, o objetivo desta empresa televisiva é contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, humana e fraterna. Com fundação em 13 de agosto de 1998, a emissora regional católica sempre produziu grande parte de sua programação. Os primeiros programas que fizeram sucesso naquela época – e alguns ainda fazem -, foram o extinto TV X, programa diário infantil apresentado por Rúbia Mesquita; o Dedo de Prosa , programa voltado para os cidadãos da terceira idade, apresentado por Juarez Elisiário; o jornal Horizonte Notícia , que destaca os principais acontecimentos da comunidade católica de Belo Horizonte e Região Metropolitana, apresentado por Renata Lima; e o programa de turismo Cidade da Gente, que mostra a cultura e as belezas de várias cidades do Brasil e do mundo, apresentado por Luciana Katahira. Em 2010, a TV Horizonte firmou parceria com a TV Cultura, que passou a produzir metade da grade de programação da emissora. A partir de então, programas como Castelo Rá Tim

Bum, Cocoricó, Escola 2.0, Rodaviva e Novo Telecurso ensino médio, também começaram a
ser veiculados na televisão regional mineira. Além disso, a TV Horizonte possui um vínculo com a PUC TV, emissora universitária da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais,
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Fonte: http://tvhorizonte.com.br/instituciona/

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que é sede do Canal Universitário de Belo Horizonte, transmitido pelo cabo, através da NET (canal 12) e da WAY (canal 14). Cabe à emissora da Arquidiocese de Belo Horizonte reprisar alguns programas produzidos e realizados pelos estudantes de jornalismo da PUC Minas, como o telejornal diário Jornal 15 minutos, o programa musical Microfonia e o programa educativo Cenário Cultural . De segunda-feira a sábado, a emissora paulista, TV Aparecida, libera o sinal e autoriza a veiculação, ao vivo, da Missa de Aparecida, diretamente do Santuário Nacional de Aparecida do Norte, em São Paulo. Um dos motivos de tantas parcerias da TV Horizonte com outras emissoras mineiras ou de outros Estados se deve ao fato de tratar-se de uma empresa televisiva de pequeno porte, sem tantos recursos financeiros e/ou tecnológicos, motivo este que necessita de ajuda para manter sua grade de programação. Grande parte dos programas da emissora é transmitida ao vivo, e, posteriormente, reprisada ao longo da semana. As publicidades divulgadas na programação da emissora dizem respeito ao mercado varejista e anunciantes de pequenas empresas da capital mineira e região metropolitana. Para isso, a TV Horizonte disponibiliza o projeto Vitrine Horizonte, que é uma janela de boa visibilidade veiculada nos comerciais e interprogramas da emissora. Além disso, os anunciantes têm a opção de também expor suas marcas e produtos dentro dos principais programas da casa, com status de apoios e patrocínios, no qual o apresentador divulga o objeto em questão com prestígios e relatos do produto. De acordo com informações divulgadas no site da TV Horizonte, a concessão da emissora é de TVA - por assinatura. Além da transmissão do sinal estar disponível na grande Belo Horizonte e região metropolitana, outras cidades do interior de Minas e de outros Estados brasileiros, também são contemplados em sinal digital pelo satélite Brasilsat B4. Ainda segundo a emissora, devido à Outorga Federal, toda a programação da emissora católica é transmitida por 11 horas - das 12h às 23h -, pelo canal aberto 19 (UHF) e 24 horas pelas operadoras de canal a cabo em Belo Horizonte - 22 - NET e 24 - OiTV. Atualmente, a emissora está localizada na avenida Itaú, 515, bairro Dom Cabral, Belo Horizonte.

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4.2 De M inas para o mundo Estreado em 1999, na emissora regional mineira, TV Horizonte, o programa Cidade da Gente encanta os telespectadores com belas imagens e informações de lugarejos do Estado de Minas Gerais e do mundo. Trata-se de um programa semanal de viagens – nacionais e internacionais –, que mostra a cultura, os patrimônios e as histórias de lugares variados. Apresentado e produzido desde o início pela jornalista Luciana Katahira, que, mais tarde, em 1995, também passou a assumir a direção e a produção dos roteiros, o programa, nos seus três primeiros anos, mostrou as belezas e as tradições de cidades localizadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte, como Sabará, Ibirité, Santa Luzia e Igarapé. Já no quarto ano de existência do Cidade da Gente, a produtora resolveu inovar fazendo uma série especial do programa sobre os bairros da capital mineira. Durante um ano foi veiculado o que os bairros têm de melhor para oferecer à comunidade. Além disso, problemas e desafios que os moradores das regiões, em questão, enfrentam no cotidiano, também foram discutidos nos episódios. Passado esse período, as gravações voltaram a ser feitas nas cidades do interior, porém, desta vez, abrangendo todo o Estado de Minas e com novas propostas, como por exemplo, do programa ser mais ágil e dinâmico, agregando esportes radicais, culinária, entre outros. Nos últimos três anos, o programa teve a oportunidade de sair do Estado mineiro com destino à América Latina. Dessa viagem, originaram-se duas séries. A primeira delas foi a Série

Argentina, que viajou pela capital portenha e a Patagônia Argentina, com cinco programas Buenos Aires, Bariloche, El Calafate, Puerto Madryn e Ushuaia. Já a segunda foi a Série

Caminhos Andinos, que percorreu a Bolívia e o Peru e deu origem a nove programas Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra, Uyuni e Oruro, La Paz e Potosi, Copacabana, Puno, Arequipa, Lima e Nazca, Cusco e Machu Picchu. Em 2010, mais uma série internacional foi realizada, desta vez, na Europa. Quatro países deram origem a seis novos programas do

Cidade da Gente - Amsterdam, Praga, Veneza, Roma / Vaticano, Barcelona e Madri. Essa
série foi titulada como Pela Europa!.

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Apesar de o programa ser da emissora Católica, TV Horizonte, nas viagens internacionais é a jornalista Luciana Katahira28 quem arca com grande parte das despesas. Katahira afirma que, na série Argentina, foi ela quem investiu desde a hospedagem, alimentação até as passagens aéreas. Já na Caminhos Andinos, a emissora disponibilizou ajuda financeira com cerca de 60% do valor das despesas. Ainda de acordo com a jornalista, na última viagem feita, pela Europa, as passagens foram patrocinadas pelo Rotary Internacional, devido a um intercâmbio profissional que a apresentadora fez à Bélgica naquela época. Mas a TV Horizonte também financiou parte das despesas com ajuda de custo, e o restante da viagem foi a própria Katahira quem pagou. Em relação aos programas nacionais, é a emissora quem arca com todas as despesas, como hospedagem, transporte, alimentação, contratação de guias turísticos, entre outros. No que diz respeito aos equipamentos utilizados nas gravações dos programas dentro do Estado mineiro, como câmera filmadora, fitas, tripé, luz e microfone, são todos de propriedade da emissora regional, TV Horizonte, que os disponibiliza juntamente com sua equipe – cinegrafista e auxiliar de câmera. Já nas viagens internacionais, nas quais Katahira exerce várias funções sozinha, todos os aparatos semiprofissionais utilizados pertencem à jornalista. Há 12 anos, a apresentadora e produtora do Cidade da Gente acompanha o retorno por parte dos telespectadores em relação ao programa. Sugestões, elogios, críticas e mensagens de incentivos são enviadas a Katahira por meio de telefone, e-mail, redes sociais – orkut,

facebook, twitter. Tais participações são fundamentais para que ela, além de acompanhar a
coemissão do público, acrescente ou mude alguns itens na hora da edição ou até no dia de gravação. Katahira afirma que os critérios utilizados na escolha dos lugares pautados, nos programas internacionais, na verdade, surgiram da vontade que ela sempre teve em conhecer tais destinos, mas sempre com indicações de amigos, pessoas de convívio profissional, guias turísticos, entre outros. “Depois de escolhidas as cidades, determino quantos dias vou ficar em  cada uma delas, quais pontos serão visitados e quais terão que ser excluídos. Determino qual será a ordem da viagem e de exibição para que na hora de elaboração do roteiro não existam furos” (KATAHIRA, 2011)29.

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Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 5 de março de 2011. Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 5 de março de 2011.

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Desde  sua  estréia,  cada  episódio  do  programa  exibido  tem  a  duração  média  de  30’.  A  veiculação estipulada dos programas inéditos pela emissora TV Horizonte é de sábado às 19h e as reprises são aos domingos, às 11h30, terça-feira, às 23h30, quarta-feira, às 4h30 e sextafeira, às 8h. 4.3 A trajetória de L uciana K atahira Formada em Jornalismo, em 2000, pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH), Luciana Katahira30 é apresentadora oficial do programa de turismo Cidade da Gente, veiculado pela TV Horizonte, desde sua estréia, há 12 anos. A jornalista relata que seu vínculo com a emissora regional católica começou com um estágio, quando exerceu a função de produtora e repórter no extinto Voz da Comunidade, um programa que tinha, como objetivos, ajudar as comunidades carentes de Belo Horizonte e região metropolitana, sensibilizar os órgãos administrativos em relação a determinados problemas, entre outros. Em 1999, algumas mudanças internas ocorreram na emissora e, com elas, deu-se a criação de dois novos programas: Este bicho é o bicho, um programa do mundo animal que mostra, de forma leve e descontraída, as histórias, os hábitos e as curiosidades dos bichos de estimação -; e o Cidade da Gente – programa de viagens que mostra a beleza, cultura e histórias das cidades. Naquela época, Katahira foi convidada pelo então diretor, Vanderlei Timótio, para apresentar os programas e, desde então, a jornalista não deixou de produzi-los e apresentá-los até hoje. Luciana Katahira exerce o papel de uma jornalista multifunção dentro da emissora regional da Arquidiocese, sobretudo no programa Cidade da Gente, objeto de estudo desta monografia. É ela quem faz, sozinha, a pré-produção, os roteiros, a produção, apresentação, direção e as imagens na cidade escolhida, com apenas uma câmera fotográfica e filmadora, um tripé, um microfone e um laptop. Apenas a finalização conta com a ajuda de um outro profissional: o editor da TV Horizonte, Leonardo Mello. Porém, sempre com a supervisão da produtora.
Como o tempo sempre é curto e viajo sozinha, infelizmente, não consigo fazer tudo aquilo que acho que seria necessário para realmente "mostrar" o que é a cidade. Durante a viagem, geralmente começo a gravar quando o dia começa e só termino quando não tenho mais luz

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Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 5 de março de 2011.

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para filmar. Fico por conta do programa durante toda a viagem. Quando chego ao Brasil, decupo todo o material e, então, começamos a editá-lo. (KATAHIRA, 201131).

Luciana Katahira, além de jornalista, também é atriz, com passagens pelo Oficinão do Grupo Galpão e participações em curtas-metragens premiados, como Caixa-Postal – Prêmio de Melhor Atriz em Pernambuco e no Festival de Vídeo do Espírito Santo, além de Menção Honrosa no Festival de Vídeo de Arouca, Portugal. Além disso, já apresentou alguns vídeos comerciais e institucionais, como o da empresa Arcelor Mittal, Splendore e Instituto Magnum de Responsabilidade Social. 4.4 Metodologia A elaboração do conteúdo bibliográfico foi de fundamental relevância para a realização da pesquisa desta monografia. Utilizada na tentativa de explicar determinado assunto ou conceitos, por meio de teorias aplicadas em livros ou obras científicas, Koche (2000, p.122) afirma  que  “o  objetivo  da  pesquisa  bibliográfica  é  o  de  conhecer  e  analisar  as  principais  contribuições teóricas existentes sobre um determinado tema ou problema, tornando-se um instrumento indispensável para qualquer tipo de pesquisa”. Para tanto, a revisão bibliográfica foi a partir de títulos de livros e artigos científicos que abordam o tema na pesquisa em três momentos: comunicação e turismo; televisão e o regionalismo; e o jornalista multifunção. No primeiro deles, os autores explicam o poder de influência que os meios de comunicação têm no mercado turístico. Nielsen (2002) aborda o poder persuasivo exercido pelos meios de comunicação, independente da plataforma ser televisão, rádio, internet ou impresso. Para ele, a divulgação de imagens do lugar ideal convence ou dissuade o viajante. No segundo momento, para falar sobre os itens televisão e regionalismo, foram utilizados autores que justificam a importância da divulgação do turismo em uma empresa televisiva. E, ainda, como as novas tecnologias oferecem novas ferramentas, como a interação maior entre o produtor do conteúdo e o telespectador. Além disso, também é discutida a importância das

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Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 5 de março de 2011.

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emissoras regionais nas comunidades em que estão instaladas e a preservação, promovida por elas, da identidade cultural da região. Bazi (2001) foi um dos autores utilizados na pesquisa, que conceituou o termo televisão regional, abordou sobre sua expansão nos municípios e a colaboração ao divulgar os principais fatos, acontecimentos e prestação de serviço da cidade. O autor também explica a relação de parceria entre as emissoras regionais com as grandes empresas televisivas, ao enviarem materiais locais a fim de serem divulgadas nas grandes emissoras. Os altos índices de audiência de uma emissora regional também são outra questão abordada na pesquisa, afinal, de acordo com o autor, a empresa televisiva preza a credibilidade e respeito para com seu público regional, e, por isso, o telespectador deposita total confiança no que é transmitido, motivo este que cativa a audiência do mesmo. Por fim, no terceiro momento, os autores conceituam o jornalista multifunção como o profissional em comunicação que exerce várias funções do ramo, como as de repórter, produtor, roteirista, pauteiro, editor, cinegrafista, entre outras. Esse profissional surgiu da necessidade de otimizar a mão de obra na pouco rentável emissora regional, visando a uma economia maior naquele veículo de comunicação. Com isso, de acordo com Bistane & Bacellar (2006), o potencial das novas tecnologias faz com que surja, de forma natural, o repórter multifunção. Esse papel tem se tornado referência dentro dos veículos, já que se exige, cada vez mais, multimidialidade do profissional e, consequentemente, mais agilidade. Diante desses três momentos trabalhados com autores que contribuíram para o esclarecimento de temas relevantes na pesquisa, a justificativa para a escolha do objeto de estudo em questão – no caso, o programa de turismo Cidade da Gente, apresentado pela jornalista Luciana Katahira, na TV Horizonte -, é pelo fato dele ser um exemplo de programa televisivo que aborda todos os itens estudados, que foram citados acima. Trata-se de um programa de viagens semanal, que veicula informações culturais, históricas e gerais de cidades visitadas dentro e fora do Brasil. O Cidade da Gente utiliza-se da comunicação para transmitir aos espectadores – principalmente aos que não tem condições de fazer uma viagem e/ou conhecer lugares novos -, por meio da televisão, a rotina, os valores e os costumes, além de pontos turísticos do lugar escolhido.

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Devido à experiência de Katahira ao produzir e roteirizar os episódios mineiros, nas séries gravadas fora do país, a jornalista exerce sozinha várias funções ao produzir os programas. Por esse motivo, ela pode ser considerada uma jornalista multifuncional. Após a apresentadora montar toda a produção, o roteiro e as pautas, ela filma sozinha todas as cenas do lugar turístico em que estiver, contando apenas com ajuda dos objetos de trabalho, como o tripé, microfone, câmera filmadora e fotográfica. Alguns aparelhos tecnológicos, como laptop e celulares também são utilizados pela jornalista com o intuito de agilizar seu trabalho. Dessa forma, é possível acompanhar todas as etapas de produção de um programa turístico. A economia financeira é um dos motivos que leva a TV Horizonte, empresa regional televisiva que veicula tal programa, a manter apenas uma funcionária para exercer várias funções do ramo. Normalmente, esse modelo de jornalista multifuncional é encontrado apenas em emissoras regionais, mas, atualmente, a tendência é que as grandes empresas televisivas também optem por esse tipo de profissional. Foram escolhidos quatro episódios do Cidade da Gente para serem analisados, sendo dois programas nacionais e dois episódios de séries internacionais. A justificativa é mostrar que a multifuncionalidade da apresentadora se equivale ao trabalho realizado por vários profissionais na gravação dos episódios do interior de Minas Gerias e do Exterior. Os programas selecionados foram gravados nas cidades de Diamantina (Série Minas Gerais), veiculado no dia 21 de setembro de 2005, Morro Vermelho (Série Minas Gerais), exibido em 29 de abril de 2005, Bariloche, Argentina (série Argentina), com exibição em 04 de fevereiro de 2009, e Amsterdam, Europa (série Pela Europa!), transmitido no dia 8 de outubro de 2010. Os programas mineiros foram importantes para a apresentadora, pois serviram de base para as gravações no exterior, mesmo com o intervalo de 4 anos. Esses episódios foram retirados de séries diferentes justamente com a intenção de verificar se a multifuncionalidade empregada nos programas nacionais teve relevância nos internacionais. A observação participante foi realizada no primeiro semestre de 2010, quando a autora também estagiava na empresa TV Horizonte. Dessa forma, foi possível verificar, na prática, a rotina de produção que a jornalista Luciana Katahira desenvolve naquele veículo, bem como entender a forma como a apresentadora lida com a questão das várias funções que exerce. Na época, Katahira pesquisava as cidades, lugares e contatos de pessoas a fim de produzir as pautas e a criação dos roteiros de viagens para a série Pela Europa!. Algumas reuniões com

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coordenadores e diretores da emissora Católica foram realizadas para que eles ajustassem os detalhes da viagem. Todas as entrevistas com a produtora Luciana Katahira foram realizadas por e-mail. Desde 2010, tanto a jornalista quanto a autora da monografia conversam por esse meio de comunicação a fim de solucionar dúvidas, enviar materiais e trocar idéias sobre o programa. Esse contato diretamente com a Katahira é de grande relevância para o enriquecimento da pesquisa monográfica. Os critérios de noticiabilidade são a primeira categoria de análise da monografia a ser verificada. É por meio desta categoria que é possível estudar a essência de noticiabilidade no programa Cidade da Gente, além das justificativas que motivam a realização do programa turístico. O tipo de linguagem utilizada em cada um dos programas também será analisado. Enumerado como o segundo item das categorias de análise, será avaliado se a linguagem existente nos episódios é pré-produzida – trabalhado em um texto antes da gravação –, ou não produzida – uma linguagem informal, sem texto pronto. Alguns trechos de offs e passagens serão retirados dos vídeos selecionados para obter melhor estudo das falas das pessoas que compõem o programa e verificar se há presença de coloquialismo. Como terceiro tópico, serão analisadas as características técnicas dos episódios. Nele, serão avaliados a quantidade de entrevistados por programa e o tempo dos offs, das sonoras e das passagens nos episódios. Em relação às pautas, será relatado como foi a produção, a execução e a aproveitabilidade delas em cada programa selecionado. 4.5 A nálise 4.5.1 C ritérios de noticiabilidade Os critérios de noticiabilidade no programa turístico Cidade da Gente são relevantes de serem analisados devido à intenção editorial e ao potencial persuasivo construído junto ao telespectador. “Muito  se  fala  em  inovar,  fazer  algo  diferente,  em  programas  turísticos,  por  isso, o que mais tentamos é nos aproximar dos telespectadores e mostrar um olhar mais ameno,  mais  apaixonante,  mais  simples,  dos  lugares  por  onde  passamos”  (KATAHIRA, 2011).

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No episódio de Diamantina, o que motivou a realização do programa foi, além da necessidade de mostrar para o telespectador a história da cidade, indicar os principais pontos turísticos e que, por isso, ganham status de representatividade do município. Entre eles, é destacável o casarão, conhecido como a Casa da Glória, que, na verdade, é dividida em duas casas, cada qual construída em períodos distantes e em lados opostos da rua, é bastante procurado por ser uma construção diferente e por ter sido a residência do primeiro Bispo de Diamantina. O programa mostra que os turistas também procuram conhecer a residência de Juscelino Kubitschek, lugar onde ele nasceu, cresceu e hoje serve de acervo aos pertences do expresidente, e a casa de Chica da Silva, a escrava conhecida por ter sido alforriada e por ter mantido uma união consensual estável com um rico contador de diamantes de Diamantina. As pessoas que visitam a cidade não deixam de conhecer o Mercado Municipal de Diamantina, que comercializa desde comidas típicas da região até objetos artesanais. Lá existe a barraca de uma diamantinense que prepara todos os sábados vários quitutes, como salgados, quitandas, bombons, bolos, pés-de-moleque e tortas. Estes lugares representam o critério de noticiabilidade titulado por Bonner (2009) como a importância do todo, pois tratam-se de estabelecimentos historicamente conhecidos e que tomam o corpo representativo de toda a cidade. São basicamente por meio desses locais que as pessoas buscam conhecer Diamantina. No programa Morro Vermelho, o critério de noticiabilidade utilizado também foi a importância do todo, pois foram divulgados os esportes radicais que ali se praticam, os pontos de atrações turísticas da cidade, como a tradicional Banda Santa Cecília, que já ultrapassou 290 anos e é considerada uma das mais antigas de Minas e que atrai os turistas com suas músicas cantadas em Latim, sendo populares e folclóricas. O bordado feito por mulheres naturais da cidade é um ponto forte na venda do artesanato da região. Por isso, foi fundada uma Associação das Bordadeiras a fim de expor o material das mulheres que trabalham com esse trabalho manual. Portanto, o bordado, o esporte e a banda são considerados ícones dentro da cidade de Morro Vermelho, motivo este que faz com que seja impossível falar do município sem mostrar essas variedades do local. Quem visita Morro Vermelho procura sempre ver o pôr do sol na igreja de Nossa Senhora da Piedade, principal ponto de peregrinação do Estado localizado no distrito de Caeté. Além disso, naquele local, também está o Observatório Astronômico da UFMG, que, à noite, é aberto ao público para visualizar o universo estrelar pelos telescópios que ali estão. A cidade

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também é bastante procurada pelas pessoas que desejam se aventurar em esportes radicais e desfrutar as belezas naturais, como a cachoeira de Santo Antônio, as trilhas entre as montanhas para ciclistas e a competição de circuito fechado de jeep, que acontece todos os anos nas trilhas existentes no distrito de Caeté e reúne várias pessoas de todo o país. Alguns dos passeios realizados pela equipe do programa no dia das gravações só foram possíveis de jeep. Essa dificuldade foi comprovada pela apresentadora que registrou a dificuldade de locomoção, juntamente com sua equipe, quando os mesmos estavam a caminho da cachoeira de Santo Antônio. Em relação à série internacional Argentina, o critério estipulado para mostrar que a cidade atrai vários turistas não só pela cultura e os pontos turísticos da cidade de Bariloche, mas também pela neve, foi a abrangência. Isso se deve ao fato de que o assunto é de grande interesse entre os brasileiros. A matéria mostrou relação, obviamente, com a prática esportiva snowboard e ski , incomuns para os turistas. Na série Pela Europa!, a intenção foi mostrar as características marcantes da Holanda que atraem turistas de todo o mundo, como o colorido das tulipas que são plantadas em praças, jardins e comercializadas em vários pontos das cidades visitadas. Como as gravações foram feitas no período da primavera, os moinhos, que são uma espécie de cata-ventos, as milhares de bicicletas espalhadas pelas ruas e os passeios de pedalinhos e barcos pelos canais marítimos da cidade também puderam compor o material imagético do programa. Esses critérios são conhecidos como a importância do todo, pois a apresentadora mostrou as características marcantes da capital Amsterdam, que são símbolos da cidade. Estas fazem com que os visitantes se desloquem em busca de conhecer estas representações. Quando a jornalista apresentou ao telespectador os famosos museus da Europa onde estão as obras de Van  Gogh,  Rembrandt  e  Anne  Frank,  ela  utilizou  o  critério  “caráter  histórico”,  pois  foram  mostrados, por meio das obras de arte e dos museus, os patrimônios históricos e seus respectivos valores culturais que expressam total significância para os moradores da cidade e também para os visitantes. 4.5.2 C aracterísticas técnicas Como características técnicas, no episódio Diamantina, foram contabilizados 10 entrevistados. As passagens ou o momento em que a apresentadora aparece no vídeo, como

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forma de assinatura do seu trabalho, chegaram a 15, o que prova uma reportagem autoral e livre da preponderância dos offs. Essa decisão indica uma opção de se aproximar, ainda mais, do telespectador. A maioria delas foi feita em diferentes pontos da cidade e durou, em média, de 15 a 30 segundos. Acompanhados sempre de uma trilha sonora calma, instrumental e/ou, até mesmo, de cantores variados, foram registrados 16 offs feitos por Katahira, com tempo médio de 15 a 20 segundos. Dividido em dois blocos, sendo o primeiro com 13 minutos e 26 segundos, e o segundo com 12 minutos e 57 segundos, o programa utilizou uma infografia televisiva, também conhecida como  “arte”,  no início do primeiro bloco, ao mostrar o nome das rodovias que levam à Diamantina e a animação gráfica de um turista utilizando um ônibus para informar os horários rodoviários. Uma ficha técnica com os nomes da equipe do programa e agradecimentos de estabelecimentos do local foi utilizada ao final do episódio. No programa de Morro Vermelho, foram contabilizadas 16 passagens feitas pela apresentadora Luciana Katahira, em lugares diferenciados, com a variação de tempo de 12 a 20 segundos. Já os offs foram um total de 16, que variavam de 10 a 15 segundos. Alguns assuntos daquele episódio foram ilustrados com arte, por exemplo, quando a apresentadora se refere aos horários de partidas dos ônibus da rodoviária de Caeté, ao apresentar o veículo – Rural 59, motor V8 -, que a equipe de gravação iria utilizar para andar nas trilhas de Off Roud, quando as fontes explicam sobre determinado assunto ou lugar – nestes casos, dividiu-se a tela em dois quadrados, onde em um deles apareceu a imagem do entrevistado e, no outro, a imagem do que era relatado por ele. Naquele dia, por se tratar de um programa que a maioria do conteúdo foi voltado para mostrar a prática de esportes radicais no local, a trilha sonora utilizada foi de músicas agitadas, cantadas em inglês e com trechos que prevalecia o som dos instrumentos guitarra, bateria e baixo. A única exceção desse estilo musical foi quando a apresentadora falou sobre a igreja de Nossa Senhora de Nazaré, motivo este que foi usado uma música sacra. A duração do programa foi de 23 minutos e 57 segundos, sendo que esse total foi dividido em dois blocos, o primeiro com 13 minutos e 34 segundos, e o segundo com 10 minutos e 23 segundos. Foram registradas 11 participações no programa com o intuito de melhor acrescentar e/ou adicionar informações sobre Morro Vermelho. No final do episódio, enquanto era inserida a

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ficha técnica com os nomes e funções da equipe que ajudou na gravação, edição e os agradecimentos a estabelecimentos que, de alguma forma, colaboraram com as gravações, algumas imagens dos melhores momentos foram exibidas. Trabalhado em músicas instrumentais e cantadas de origem Argentina, que resgatam o ritmo de tango, o programa Bariloche utilizou apenas um entrevistado, Pablo Antônio de Angelis – Cônsul-adjunto da República Argentina/BH -, para melhor explicar sobre questões culturais, políticas, sociais e geográficas daquela cidade. Este foi o único momento em que a gravação não foi feita pela Luciana Katahira e, sim, pelo cinegrafista Luiz Otávio, no Brasil. Todas as outras imagens foram feitas somente pela jornalista na Argentina. Foram 21 minutos e 34 segundos o tempo total do programa, sendo que foi preciso dividir esse total em dois blocos, o primeiro com 11 minutos e 59 segundos, e o segundo com 9 minutos e 35 segundos. Katahira utilizou, neste episódio gravado na Argentina, apenas 6 passagens, que duraram em torno de 10 a 15 segundos cada. Em relação aos programas da série Minas Gerais, este foi um número bem menor levando em consideração a multifuncionalidade da jornalista no local, ou seja, a dificuldade para filmar as passagens dela era maior devido o fato repórter exercer sozinha várias funções, entre elas a de apresentar e filmar ao mesmo tempo. Todas as passagens foram gravadas em um mesmo local. Os offs foram totalizados em 8, com o tempo em média de 15 a 20 segundos. Algumas artes foram exibidas neste episódio, como o mapa explicativo das províncias da Patagônia Argentina, as fotografias feitas pela jornalista dos pontos turísticos de Bariloche, e a figura de um passaporte sendo carimbado para a Argentina. Apesar de Katahira ter feito toda a parte de produção, roteiros, direção, apresentação e imagens na Argentina, ao final do programa foi creditado os nomes do editor, de quem fez as artes, do cinegrafista no Brasil, além dos nomes e cargos obrigatórios, como o da Coordenação de Produção e de Programação, Coordenação Técnica, Vigário Episcopal Comunicação e Cultura, e do Presidente. No programa da Holanda , que pertence à série Pela Europa!, foi contabilizado um total de 24 minutos e 8 segundos, sendo que o primeiro bloco possui 12 minutos e 3 segundos, e o segundo 12 minutos e 5 segundos. Este episódio foi o primeiro da série, motivo este que levou a apresentadora fazer uma grande introdução relatando por meio de falas e imagens o porquê

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da existência daqueles programas. Para isso, várias artes foram usadas para simbolizar a rota dos países da Europa onde Katahira viajou, a simulação da jornalista arrumando as malas e o momento em que ela seguiu viagem para aquele país. O tempo total da introdução foi de 6 minutos e 21 segundos. As passagens da apresentadora – recurso autoral muito utilizado – nos dois blocos somaram 16, que duraram entre 20 a 45 segundos. Em comparação ao programa Bariloche, Katahira, além de gravar mais passagens, fez várias aparições em lugares diferentes. A experiência que a jornalista teve nas séries passadas, no qual ela também teve que exercer várias funções sozinha, foi fundamental para sua progressão nas gravações na Europa. Apenas duas cenas foram gravadas no Brasil: as passagens da jornalista, logo no início do programa em uma praça de Belo Horizonte e ao mostrá-la arrumando as malas – cena esta gravada em estúdio com a inserção de arte. Já os offs foram totalizados em 13 neste programa, com duração média entre 25 segundos a 1 minuto. Houve, apenas, duas entrevistas que enriqueceram o conteúdo do programa com o relato de pessoas que moram e conhecem A msterdam. No momento da entrevista, a apresentadora não aparece nas gravações. Ela fica manuseando a câmera enquanto os próprios entrevistados seguram o microfone. As trilhas sonoras – composições locais com sustentação musical de violino, teclado, piano, entre outros instrumentos – foram usadas ao fundo das imagens, offs e sonoras e fizeram com que o programa ficasse dinâmico e agradável. No final do episódio, uma espécie de retrospectiva de fotografias e vídeos feitos por Katahira na cidade foram trabalhados em arte enquanto os créditos da equipe que trabalhou em algumas funções do programa no Brasil apareceram. 4.5.3 Pauta A pauta do programa Diamantina surgiu da necessidade em registrar alguns pontos mais procurados por turistas em seus diferentes aspectos, como o religioso, mostrando as igrejas e seus significados pela existência naquela cidade; cultural, ao relatar as obras e casarões de pessoas ilustres que fizeram história no município, como Juscelino Kubitschek e Chica da Silva e os principais restaurantes com comidas típicas da região; e comercial, veiculando o que é vendido no Mercado Municipal da cidade, ponto este que também não deixa de ser cultural. Foram dois dias de gravações, sendo que tudo o que estava na pauta foi cumprido, de

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menos mostrar como é por dentro da igreja Nossa Senhora do Rosário, pois naquele dia, a igreja não foi aberta para visitação. Morro Vermelho é conhecido por ser uma cidade apropriada para a prática de esportes radicais, como o ciclismo em trilhas, as competições de circuito fechado de jeep e o rapel. Esse foi o principal motivo da confecção da pauta para realizar as gravações naquela cidade. Mas, além disso, também foi acrescentado no roteiro da viagem, que assim como em Diamantina, também duraram dois dias, mostrar o lado cultural da cidade que envolve as tradições musicais, a procura pelos turistas de objetos artesanais e bordados, além do grande volume de romeiros que visitam a Serra da Piedade, lugar este onde está localizada a igreja de Nossa Senhora da Piedade. A pauta proposta naquele dia foi cumprida com êxito, alcançando, dessa forma, o objetivo principal que foi deixar o programa com uma aparência mais esportiva. Já a pauta do programa Bariloche surgiu dos preparativos de uma viagem de férias que Katahira realizou. Ao fazer uma pesquisa das cidades que iria visitar naquele país, entre elas, Bariloche, a jornalista percebeu que teria, de alguma forma, que registrar aqueles momentos únicos que viveria, afinal, segundo a apresentadora, depois de trabalhar anos em televisão, o olhar jornalístico quer sempre registrar todas as situações possíveis do dia-dia. Diante disso, a jornalista propôs para a direção da televisão regional que se ela conseguisse, sozinha, fazer boas imagens dos lugares que iria visitar, a emissora veicularia alguns episódios. A proposta foi aceita pela TV Horizonte, assim como as imagens trazidas da Argentina. Como as gravações foram feitas no inverno da Argentina, o objetivo da pauta foi mostrar a frequente procura pelos brasileiros para conhecer e praticar os esportes que só podem ser realizados em neve, além de divulgar as belas paisagens da Patagônia, os costumes argentinos, e a arquitetura diferenciada dos imóveis daquele lugar. Toda a pauta foi cumprida e complementada no Brasil, com a entrevista de Pablo Antônio de Angelis – Cônsul-adjunto da República Argentina/BH. Holanda teve sua pauta um pouco diferenciada das outras, pois, em 2010, Katahira recebeu uma oportunidade de realizar um intercâmbio profissional patrocinado pelo Rotary

Internacional, para a Bélgica. Devido às gravações que ela fez em séries anteriores - como
mostrado na Argentina -, terem dado certo, a jornalista resolveu estender sua viagem para

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outros países da Europa, entre eles, Holanda. Do mesmo modo como foi nas séries internacionais anteriores, a jornalista levou consigo uma câmara filmadora, um tripé, uma câmera fotográfica e um notebook para registrar todos os momentos das cidades em que ela iria visitar com o intuito de, posteriormente, fazer uma boa edição das imagens. No roteiro de Amsterdam, a proposta era visitar os grandes museus no qual estão as obras de Van Gogh,

Rembrandt e Anne F rank, aproveitar que era época de primavera e registrar as belas tulipas e
parques da cidade, mostrar a utilização de bicicletas e dos canais marítimos que ali existem. Naquele episódio, Katahira conseguiu atingir todo o objetivo da pauta. 4.5.4 O bstáculos editoriais Como obstáculos editoriais no programa Diamantina destaca-se o pouco tempo de gravação – dois dias -, visto que a cidade é rica em lugares históricos e naturais, e, por esse motivo, a equipe não pôde mostrar todos eles. Outro ponto negativo, identificado como deficiência de produção, foi a não abertura da igreja de Nossa Senhora do Rosário, motivo que obrigou a apresentadora a gravar com sua fonte do lado de fora da capela. No episódio de Morro Vermelho, a maior dificuldade foi chegar aos locais onde são realizadas as competições de rally e ciclismo. No local, existem muitas pedras e lama, por isso foi necessário a equipe alugar um jeep. Já no programa de Bariloche, os maiores gargalos encontrados, além do frio, foram a falta de experiência da apresentadora em exercer várias funções sozinha, poucos entrevistados que falassem português, falta de tempo para registrar todos os momentos possíveis e a falta de dinheiro, pois, neste episódio, a TV Horizonte não contribuiu com ajuda financeira. Por fim, no programa Amsterdam, de acordo com a própria apresentadora, a maior dificuldade encontrada foi cansaço físico e mental.
Nos primeiros dias de gravações tudo vai bem, mas lá pelo oitavo dia o corpo e a mente começam a ficar exaustos. Como vou sozinha, tenho que ter tudo muito bem controlado: logística de viagem, roteiros, textos que são elaborados ao longo da viagem, lógica das imagens, cuidados com minha alimentação, minha imagem, fitas, funcionamento do equipamento, entre outros. (KATAHIRA, 2011)32.

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Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 10 de maio de 2011.

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A jornalista afirma, ainda, que a falta de tempo e dinheiro também foram elementos que contribuíram para os obstáculos editoriais do programa Amsterdam. Como na maioria dos lugares em que ela viajou as pessoas falavam inglês e espanhol - línguas estas no qual ela domina bem -, em momento algum a comunicação foi um motivo complicador.

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5 C O N C L USÃ O Uma das hipóteses iniciais deste trabalho foi comprovada pelo autor Bazi (2001): as emissoras de televisão regional são as pioneiras pelo jornalista multifunção. O Cidade da

Gente na TV Horizonte comprova essa constatação. A falta de verba e de aparatos
tecnológicos faz com que essas empresas optem em manter apenas um profissional da comunicação que exerça várias funções ao invés de muitos empregados responsáveis por apenas um afazer. Um ponto negativo, do ponto de vista profissional, é que, ao perceberem que o jornalista, sozinho, é capaz de produzir, roteirizar, entrevistar, filmar, entre outras funções, materiais para a confecção de programas e/ou matérias para televisão, as grandes empresas do ramo indicam essa tendência do jornalismo (BAZI, 2001). Com isso, cada vez mais, estes veículos investem em aparelhos sofisticados, aliados às redes sociais, com a intenção de garantir melhores condições de trabalho para o comunicólogo, além de dinamismo e rapidez para o produto final. O programa de turismo Cidade da Gente e o perfil profissional da jornalista Luciana Katahira são exemplo desta tendência. , O programa e a emissora possibilitam a oportunidade para que a apresentadora coloque em prática sua multifuncionalidade. Ainda que em poucas funções, nos programas gravados em Minas Gerais, esse dinamismo foi significativo para que a jornalista adquirisse conhecimento, segurança e aperfeiçoamento nos programas produzidos fora do Brasil. Neste momento, sim, ela executou várias funções. Nielsen (2002) explica que a comunicação está cada vez mais presente na indústria do turismo. A mídia tem um papel fundamental na divulgação e comercialização do produto turístico, como pacotes de viagens, hotéis e transportes. Os programas turísticos de televisão, por sua vez, possuem o papel de mostrar o que determinada cidade oferece, em aspectos culturais, históricos e de lazer, para o telespectador. Portanto, podem-se considerar as hipóteses iniciais ventiladas nesta pesquisa científica como comprovadas por meio da pesquisa bibliográfica realizada, além da análise feita do programa Cidade da Gente. Diante desta pesquisa monográfica e, claro, do objeto de estudo em questão, o programa

Cidade da Gente, é possível afirmar que o jornalista multifunção está cada vez mais presente

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nas redações, tanto das emissoras regionais quanto nas grandes empresas televisivas. Esse perfil de comunicólogo é o jornalista exigido pelo atual mercado de trabalho, que, por sua vez, tem metas de vê-lo, num futuro próximo, ainda mais autônomo, como aquele que busca, sozinho, transmitir a informação de uma forma mais dinâmica, inovadora, inteligente e independente. Hoje, a atual percepção é de que, mesmo sem grandes ferramentas tecnológicas, dinheiro e equipe para gravação dos episódios, o Cidade da Gente informa o telespectador, sobre os principais lugares turísticos de Minas e do mundo. A oportunidade em analisar, no final do curso de jornalismo, o programa turístico Cidade da

Gente, como objeto de estudo desta monografia, é de grande importância para a vida
acadêmica e também profissional da autora da pesquisa por mostrar que o mercado jornalístico busca profissionais que saibam atuar em várias áreas e funções da comunicação. Futuramente, esta monografia tem tudo para ser o embrião de uma especialização ou outra pós-graduação com ênfase no marketing, nas convergência de mídias e no turismo.

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