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Fernanda de Souza Alexandre

A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NOS PROGRAMAS ITATIAIA PATRULHA E JORNAL DA ITATIAIA

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

Fernanda de Souza Alexandre

A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NOS PROGRAMAS ITATIAIA PATRULHA E JORNAL DA ITATIAIA

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH), co mo requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Jo rnalismo. Orientadora: Maria Cristina Leite Peixoto

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

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Agradeço primeiramente a Deus por ter me permitido chegar até aqui, a minha mãe e a minha Dinha, que sempre estiveram ao meu lado, apoiando e apostando no meu sonho. A minha orientadora Cristina Leite pelos ensinamentos. A minha amiga Daisy Felício pelo incentivo. A todos os professores que estiveram comigo nesta caminhada, muito obrigada.

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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO................................................................................................................... 06 1 Violência uma triste realidade ............................................................................................. 09 1.1 Direitos .............................................................................................................................. 09 1.2 Violência e criminalidade: Quando a mulher é vítima ...................................................... 11 2 MÍDIA E VIOLÊNCIA ...................................................................................................... 18 2.1 O papel social da mídia...................................................................................................... 18 2.2 A mídia e o tratamento da violência .................................................................................. 20 2.3 O rádio .............................................................................................................................. 24 2.4 A rádio Itatiaia e os programas policiais .......................................................................... 26 3 EM MULHER NÃO SE BATE NEM COM UMA FLOR: A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NOS PROGRAMAS ITATIAIA PATRULHA E JORNAL DA ITATIAIA................................................................................................................................28 3.1 Metodologia do trabalho .................................................................................................... 28 3.2 O Jornal da Itatiaia ...................................................................................................... 29 3.3 Itatiaia Patrulha ................................................................................................................ 33 CONCLUSÃO ........................................................................................................................ 44 REFERÊNCIAS..................................................................................................................... 47

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INTRODUÇÃO Esta pesquisa tem como objetivo analisar como é tratada a violência contra a mulher nas notícias dos programas Itatiaia Patrulha e Jornal da Itatiaia.

Segundo o artigo de Pessoa 1 , “Itatiaia Patrulha: as histórias da vida”, o Itatiaia Patrulha segue a linha do jornalismo policial e em suas reportagens procura ouvir todos os lados envolvidos nos casos, como autoridades, suspeitos, criminosos e vítimas. O Itatiaia Patrulha está no ar desde 1975. De acordo com Pessoa, o programa atinge diversos públicos. “O perfil dos ouvintes em maior número, é de homens das classes C, D e E com idade entre 25 e 49 anos, moradores das regiões oeste e norte da Grande Belo Horizonte, de acordo com o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística.” (Pessoa, 2006, p.2) Apresentado desde 2003 pelo jornalista Laudivio Carvalho o programa encerra sempre com um bordão falado por ele. “Se você não quer aparecer, não deixe que o fato aconteça”.

Diariamente, das 6h 30 min às 9h, o Jornal da Itatiaia entra no ar com um jornalismo tradicional, sendo geralmente apresentado por Eustáquio Ramos e Kátia Pereira. De acordo com o site da Itatiaia 2 a primeira meia hora do jornal é composta por matérias da Editoria de Cidades, intercaladas por participações dos repórteres ao vivo sobre trânsito, previsão do tempo e destaques da área policial. A segunda parte contém matérias voltadas tanto para os interesses de Minas Gerais, com foco em Belo Horizonte, como notícias sobre outros estados.

No radiojornalismo, de acordo com Jung (2009), a aproximação com o ouvinte é um dos trunfos, fazendo com que o público se identifique com o apresentador. O rádio é o meio de comunicação mais popular, pois precisa de um pequeno espaço físico, para atinge todas as camadas da sociedade.

Com agilidade para transmitir as informações em tempo real e dando ao ouvinte liberdade para continuar os seus afazeres sem parar de prestar atenção ao noticiário, o rádio difere da televisão que necessita de muitos aparatos técnicos para funcionar e da maior atenção do telespectador devido às imagens que são exibidas.

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http://www.bocc.ubi.pt/pag/pessoa-sonia-itatiaia-patrulha-historias-da-vida.pdf. Acesso em 13 de setembro de 2010 2 www.itatiaia.co m.br. Acesso em 13 de Setembro de 2010

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Segundo Jung (2009), o ouvinte do rádio se envolve com o jornalismo policial e se coloca no lugar do repórter, se transportando na maioria das vezes para a cena do crime. Chora, fica revoltado, sorri junto com o repórter em ação.

No entanto, de acordo com Beato (2007), o jornalismo policial precisa de profissionais especializados, prontos para abordar assuntos complexos e que tenham uma postura correta com os policiais. Essa especialização ajuda não só os jornalistas, mas também a população, pois o jornalista é um formador de opinião e querendo ou não, influencia na opinião dos cidadãos.

De acordo com Soares (2007), o jornalismo policial é uma área de grande interesse para a sociedade, vários programas não só de rádio, mas também de televisão, apostam nesse tipo de jornalismo para alavancar a audiência, por ser algo que prende a atenção do ouvinte.

A proposta dessa pesquisa foi investigar como os programas Itatiaia Patrulha e Jornal da Itatiaia tratam o tema da violência contra a mulher. Procurou-se analisar os temas recorrentes, a linguagem do apresentador nos programas em questão e verificar a frequência com que fatos ligados ao tema são notícias.

De acordo com pesquisa feita pela Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), entre janeiro e setembro de 2010, divulgada pelo site da Agência Patrícia Galvão 3 , o número de atos de violência contra a mulher vem crescendo, e os tipos de violência praticados também. Dos 88.960 casos de violência relatados até setembro de 2010, 51.736 correspondiam à violência física, 1.873 à sexual, 10.569 à moral, 1.526 à patrimonial e 22.897 à psicológica.

No mesmo site, consta que o Instituto Sangari divulgou em julho de 2010 o mapa da violência no Brasil que mostra que em dez anos, dez mulheres foram assassinadas por dia no país, em média. Número maior que dos países europeus, a motivação normalmente é passional. A título de exemplo, no Jornal da Itatiaia foi dada a notícia de que um homem estaria sendo procurado pela polícia por agredir e espancar a namorada em um aglomerado em Belo Horizonte. A vítima teve suas mãos e a costela quebradas, além de vários hematomas pelo

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http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/ index.php.Acesso em Outubro 2010

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corpo. Já no Itatiaia Patrulha o apresentador se revoltou ao noticiar que um homem de 48 anos disparou seis tiros contra a companheira.

Dada a dimensão da violência contra a mulher em nossa sociedade, o papel dos meios de comunicação é fundamental. O tratamento dado ao tema por estes meios pode contribuir decisivamente para alterar o quadro mencionado. A forma como isso é feito nos dois programas radiofônicos em questão, cuja audiência no estado de Minas Gerais é grande de acordo com o Ibope de Maio/ Março de 2011 que mostra que a media de ouvintes por minuto do Jornal da Itatiaia 1º edição é de 144.095 e do Itatiaia Patrulha é de 181.286. Será aqui analisada, de modo a contribuir tanto para os estudos do papel da comunicação na divulgação de problemas sociais, quanto para o entendimento específico do rádio nesse cenário, sobretudo com relação à violência contra a mulher.

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1. Violência, uma triste realidade

A alteração do quadro de violência presente em nossa sociedade exige a mudança de atitude, de todos. O respeito aos direitos são primordiais para que essa mudança dê certo.

1.1 Direitos

O Direito moderno é algo que ocupa uma parte fundamental na vida de todo cidadão, ele é a garantia de funcionamento de uma dada ordem social. Ele nada mais é que um conjunto de leis, normas que todos temos que seguir, é ele que, em princípio, nos resguarda, nos defende e nos protege de algo ou alguém que o descumpra. Tendo várias ramificações, o direito tenta defender os cidadãos dos abusos. “A dignidade do homem é o mais importante de todos os valores protegidos pelo Direto. Aliás, o Direito só existe em função do ser humano e para ele”. (Ribeiro, 2009, p.11) Em 1948, foi assinada a Declaração Universal dos Direitos Humanos 4 que vê todo cidadão igual perante a lei. O artigo VII diz que
“Todos são iguais perante a lei e tem direito, sem qualquer d istinção, à igual proteção da lei. Todos têm d ireito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal d iscriminação.”

De acordo com Verucci (1999), em julho de 1993, os direitos das mulheres tornaram-se parte dos direitos humanos. “Por isso, no que se refere às mulheres, contemplar seus direitos fundamentais na carta constitucional é um pano importante para melhorar o status das mulheres e prevenir suas várias formas de discriminação.” Verucci, 1999, p. 35

No Brasil, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu normas a serem respeitadas por toda a população do país e ficou conhecida como “Constituição Cidadã”. No entanto, estamos longe de honrar essa nomenclatura, particularmente no que diz respeito às mulheres, apesar de no artigo 5º desta constituição, homens e mulheres serem considerados iguais perante a lei.

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http://www.onu-brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php.Acesso em 13 de Março de 2011.

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O Código Civil de 1917 tratava a mulher casada como incapaz, ela era totalmente dependente do consentimento do marido para as ações mais simples. Em 1962, foi criado pela advogada feminista, Romy Medeiro Fonseca, o Estatuto da Mulher Casada, no qual consta que “O marido não poderia praticar, sem o consentimento da mulher, os atos que essa não poderia praticar sem sua autorização.” (Vernucci, 199, p.78)

Somente na Constituição de 1934, elas adquiriram o direito de votar. O direito ao voto foi consagrado como uma grande conquista para as mulheres. Na política brasileira, o espaço dado às mulheres ainda é pequeno, apesar da eleição de 2010 ter levado mais mulheres ao poder, de acordo com José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciência Estatísticas 5 . O senado possui hoje doze mulheres no senado, quarenta e cinco na câmara dos deputados, duas governadoras e uma presidente.

Nos anos 80, vários conselhos foram criados para tentar combater a violência contra a mulher brasileira, como, por exemplo: Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, SOS - Mulher, Conselho da Condição Feminina.

Em agosto de 1985. foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, que veio para fiscalizar a discriminação, e também para acompanhar as providências tomadas pelos responsáveis. Também em 1985, em São Paulo, foi criada a primeira delegacia especializada em atender mulheres vítimas de violência.

Um marco na defesa dos direitos da mulher e da proteção contra a violência, muitas vezes praticada pelo próprio marido, entrou em vigor no Brasil em 2006 : a Lei Maria da Penha. A Lei estabelece medidas protetivas de urgência, com determinação imediatamente dada pelo juiz, para que a mulher violentada tenha proteção rápida. Ela obriga o agressor a ficar distante da vítima e de seus familiares, tornando-o impedido de estabelecer qualquer forma de comunicação com ela.

Assim, apesar dos avanços, a sociedade brasileira ainda tem um longo caminho a percorrer, no que diz respeito aos direitos das mulheres. Na situação atual, a violência praticada contra a elas compromete a garantia dos direitos dos cidadãos.
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http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/ index.php?option=com_content&view=article&id=1473:13032011apesar-dos-obstaculos-as-mu lheres-estao-podendo&catid=42:notícias. Acesso em 10 de Março de 2011

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1.2 Violências e criminalidade: Quando a mulher é vítima

Segundo Mussumeci (2007), as pessoas confundem crime com violência. Os termos são utilizados em diferentes situações para caracterizar uma agressão genérica. Crime (ou delito) deve ser entendido como “ato ilícito previsto na legislação penal. Não existe crime sem uma lei anterior que o defina. Já violência é o uso da força física; atitudes (mesmo não intencionais) do indivíduo que causem ou ameacem causar dano físico a si próprio (a) ou a terceiros’’ (Musumeci, 2007, p.153)

Mussumeci (2007) afirma que violência e crime têm a mesma natureza e exemplifica dizendo que nem todo ato socialmente reprovado é crime. A prostituição não é crime, já a sua exploração é; nem toda violência é criminosa, a venda de drogas não é uma prática violenta. De acordo com a autora, existem delitos violentos e não violentos. No primeiro caso, são exemplos: homicídio doloso e culposo, tentativa de homicídio, lesão corporal, ameaça de estupro, atentados violentos ao pudor e roubo. Já a calúnia, difamação, furto, tráfico e uso de drogas são delitos não violentos.

A violência contra a mulher no Brasil tem crescido muito, e na maioria das vezes, o autor das agressões é o marido, companheiro, namorado ou ex- namorado. Segundo pesquisa feita entre janeiro e dezembro de 2010 pela Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), do governo federal, divulgada pelo site da agência Patrícia Galvão 6 , foram registrados 734.416 atendimentos em 2010 7 , um aumento de 82,8% em relação ao ano de 2009 (269.977). De abril de 2006 a dezembro de 2010, foram contabilizados 1.658.294 atendimentos.

Dos 734.416 registros de atendimento de 2010, 108.026 dizem respeito a relatos de violência. Do total desses relatos, 63.831 referem-se à violência física; 27.433 à violência psicológica; 12.605 à violência moral; 1.839 à violência patrimonial; 2.318 à violência sexual; 447 a cárcere privado; e 73 a tráfico de mulheres. Em 2010, foram registradas 58.714 ocorrências de lesão corporal e 15.324 de ameaças, o que corresponde a 55% e 14,4% do total de relatos de violência, respectivamente.

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http://www.agenciapatriciagalvao.org.br. Acesso em 6 de Março de 2011. Os dados aqui considerados são os mais recentes publicados.
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180 é o nú mero telefônico gratuito para acessar o serviço “Disque Denúncia” para todo o Brasil.

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De acordo com os atendimentos, 58,1% das vítimas são a gredidas diariamente, 38% sofrem violência desde o início da relação, 71,5% moram com o agressor e 65,5% convivem com seu algoz há mais de dez anos. Em 51,3% dos casos, a mulher diz correr risco de morte.

Silva (1992) afirma que a violência contra a mulher tem sido discutida por grupos, principalmente os ligados ao Estado. Homens e mulheres não são tratados igualmente na sociedade e isso vem de muitos anos. “A violência contra a mulher é associada a agressões físicas e sexuais, isso vem de uma cultura que deprecia a mulher” (SILVA, 1992, p. 60). Além disso,

A vida da mulher é construída socialmente como se fosse determinada pelo destino de mu lher, sendo que essa vida de mulher varia de acordo com a situação econômica e sociocultural desta. Assim, em maior ou menor escala, trata-se de uma vida difícil (SILVA , 1992, p. 61)

De acordo com a autora, os principais tipos de violência contra a mulher são: homicídios, estupro e lesão corporal, sedução, fraude, atentado ao pudor entre outros. Silva verificou por meio de pesquisa feita em algumas delegacias que existe uma banalização por parte dos policiais (homens), considerando os casos de violência contra a mulher como natural. Conclui assim que o ingresso da mulher na carreira policial e a qualificação de profissionais de ambos os sexos são medidas que podem ajudar a diminuir o quadro desse tipo de violência e a desnaturalizar casos desse tipo.

A variedade de atos violentos é grande. São tratados como violência física tapas, empurrões, chutes, tentativa de homicídio, mordida, queimadura entre outros. Já humilhação, ameaça impedimento de trabalho ou estudo, impedimentos de contato com os filhos e amigos são considerados como violência psicológica. Prostituição forçada, toques e carícias não desejadas entram na categoria violência sexual e a violência moral abarca injúria, calúnia e difamação, conforme a Cartilha Direito das Mulheres 8 .

As mulheres sempre estiveram entre as vítimas de atos violentos e criminosos, mas as delegacias de defesa da mulher só começaram a surgir no Brasil em 1985, com a exigência do movimento feminista. Antes de tudo isso o machismo imperava, a mulher não tinha direitos somente deveres.
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http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/images/stories/PDF/violencia/cartilhadireitosdamulher_acnur2010.pdf. Acesso em 6 de Março de 2011

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“A criação dessas instituições só pode ser compreendida no contexto da reabertura democrática dos anos de 1980 e da pressão exercida pelos movimentos feministas, que, com muita veemência, crit icaram o descaso com que a violência contra a mulher era tratada pelo sistema de justiça, part icularmente no tribunal do júri”.

Silva (1992) afirma que a delegacia de mulheres é onde as agredidas e violentadas podem dar voz à sua revolta, angústia e contar tudo o que aconteceu. A autora acredita que, quando isso ocorre, a vítima deixa de ser invisível e o fato violento se torna uma questão pública. De acordo com Debert (2008), o Brasil contava no final dos anos 2000 com 310 delegacias de proteção à mulher; somente a cidade de São Paulo contava com 126 delegacias para proteger a população feminina em todo o estado. Hoje, o número de delegacias cresceu e em todo Brasil há 387 delegacias de proteção à mulher 9 . São Paulo conta agora com 129 delegacias para proteger a população feminina em todo o estado, e em Minas Gerais há cerca de 40 delegacias. Já em Belo Horizonte, que hoje possui uma população estimada em 2.375.444 habitantes, há somente uma delegacia especializada em atendimento à mulher.

Segundo dados da Secretaria Nacional de Política para Mulheres, divulgada pelo site Agência Patrícia Galvão, São Paulo é o estado que mais recebeu denúncias de violência contra a mulher. Entre os meses de janeiro e julho de 2010, com 47.107 registros, em segundo lugar Bahia, com 32.358 e em terceiro o Rio de Janeiro com 25.274 chamados. Minas Gerais ficou em quarto lugar com 22.951 Quanto aos juizados e varas especializadas para julgar os crimes de violência contra a mulher, o Brasil conta com 147 e Belo Horizonte com duas varas. Essa pequena quantidade de delegacias, juizados e varas especializadas espalhadas pelo Brasil, não supre as necessidades do grande número de mulheres agredidas todos os dias pelo país. De acordo com pesquisa realizada pelo IBGE 10 , em 2009 as mulheres vítimas de violência doméstica só encontravam abrigos institucionais em apenas 2,7% das cidades brasileiras. Em outra pesquisa realizada em agosto de 2010 pela Fundação Perseu Abramo, e divulgada pelo site da Agência Patrícia Galvão, a cada 5 minutos duas mulheres são agredidas em todo o Brasil. A cada dia, dez mulheres são assassinadas. A pesquisa foi realizada em 25 estados, e

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https://sistema3.p lanalto.gov.br//spmu/atendimento/busca.php?uf=TD&cod=6. Acesso em 11 de Março de 2011 10 http://www1.ibge.gov.br/home/presidencia/notícias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1620&id_pagina=1 Acesso em 25 de Março de 2011

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mostra que aproximadamente 8% dos homens admitem ter agredido a parceira em alguma circunstância.

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, cerca de 200 mulheres são estupradas ou vítimas de violência, por semana, segundo documentário da Rede Minas sobre violência contra a mulher. 11

Esses dados alarmantes apontam ainda para o fato de que a violência contra a mulher está disseminada em toda a sociedade. Quando se fala que uma mulher foi morta ou espancada pelo marido, logo pensamos numa pessoa analfabeta, de classe social baixa, pressupondo que quem tem instrução sabe dos seus direitos. Mas, quando conhecemos o noticiário e as estatísticas, começamos a perceber que a violência contra a mulher está presente em todas as classes sociais.

Contudo, a mulher agredida, na maioria das vezes, não denuncia seu parceiro, por medo, falta de apoio da sociedade ou por vergonha de tornar público algo que julga ser constrangedor e indigno. Algumas mulheres não acreditam que o companheiro esteja mesmo disposto a agredir ou até matar, duvidando assim das ameaças sofridas; é comum também a ideia de que faz parte do papel da mulher aceitar o marido/companheiro sem reclamar.
“A mulher que ousa publicizar fatos que deveria esconder em nome da sacralidade da família, deixa de cump rir seu papel de santa, de esposa e mãe abnegada e exemplar. Deixa de ser referencia parad ig mática dos que cumprem o destino de mulher” (Silva, 1992, p. 69)

Quando a mulher toma coragem de denunciar o companheiro, acaba por não dar sequência ao caso, pois o homem muda momentaneamente de atitude e começa a agir diferentemente; desse modo a esposa acaba acreditando que tudo vai mudar.

A mulher do século XXI tem direitos, escolhas, tem profissão e é independente. Podemos considerar a mulher de hoje mais segura, informada, uma cidadã que tem onde se apoiar quando o seu direito é desrespeitado por quem quer que seja. Mas a violência contra a mulher persiste. O caso de Maria da Penha é exemplar neste contexto.

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Dado divulgado no programa televisivo Planeta Minas, exib ido pela Rede Minas em 14/ 02/2011.

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Maria da Penha Maia Fernandes foi agredida, durante seis anos, por seu marido. Em 1983 ele tentou matá- la, por duas vezes, porém sem sucesso. Ele conseguiu deixar a mulher paraplégica, mas não conseguiu calar a sua boca. Em homenagem a ela foi criada então a Lei Maria da Penha que, em 7 de agosto de 2006, foi sancionada pelo então Presidente, Luis Inácio Lula da Silva, entrando em vigor em setembro do mesmo ano. Essa Lei, no primeiro artigo, cria

“... mecanis mos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Vio lência contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos Juizados de Vio lência Do méstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar 12 .

De acordo com pesquisa realizada pelo Datasenado 13 , o número de mulheres que ouviram falar da Lei aumentou nos últimos dois anos. Em 2009 eram 83%, em 2011 98% da população feminina conhece a lei Maria da Penha.

Mesmo depois de sancionada a Lei, muitas mulheres ainda sofrem agressão do marido/companheiro e o número continua assustador: 18% das entrevistadas continuam sofrendo violência, 32% ainda vivem com o agressor, 40% das mulheres afirmaram ser agredidas raramente, mas 20% revelaram sofrer ataques diários. No entanto, se a Lei Maria da Penha veio sim para respaldar as mulheres e resguardar o seu direito perante a justiça, muitas mulheres que denunciam e são “protegidas” pela Lei são mortas por seus ex- companheiros. Isso mostra que a lei parece ter lacunas que ainda precisam ser consideradas. Casos como o da cabeleireira Maria Islaine de Moraes, que foi morta em janeiro de 2010, pelo seu excompanheiro, em Belo Horizonte, ainda mostram o quanto falta para concretizar a proteção à mulher. O assassinato ocorreu no salão de beleza da vítima, que fica no bairro Santa Mônica. De acordo com matéria do Jornal Nacional, Maria Islaine fez 8 denúncias contra o excompanheiro, mas não recebeu a atenção devida dos órgãos públicos.
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Cf. http://leimariadapenha.blogspot.com/2006/12/lei-11340-lei-maria-da-penha.html. Acesso em 8 de Março de 2011
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Pesquisa nacional realizada anualmente pelo DataSenado, que realiza pesquisa qualitativa e quantitativa ouvindo a população. http://www.senado.gov.br/noticias/DataSenado/release_pesquisa.asp?p=32. Ace sso em 8 de Março de 2011 http://www.senado.gov.br/notícias/opiniaopublica/release_pesquisa.asp?p=32. Acesso em 8 de Março 2011

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Para tentar lidar com a situação da violência contra a mulher em todo o Brasil o Governo Federal lançou, em agosto de 2007, o Pacto Nacional de Enfrentamento da Violência Contra a Mulher que veio para tentar prevenir e combater esse tipo de violência em todo o país.

Há também os centros de referência de atendimento à mulher, que cumprem o papel de ajudar as mulheres vítimas de violência a superarem e a recuperarem a dignidade. As mulheres nesses centros têm acompanhamento psicológico e orientação jurídica. Em todo país há 163 centros de referência. No estado de Minas Gerais são 7.

Assim como os centros de referência, a mídia também tem papel importante na divulgação da violência contra a mulher, assim como na abertura de espaço para campanhas que tentam conscientizar as pessoas. Foi a mídia que ajudou a divulgar a Lei Maria da Penha e a informar melhor a população sobre a violência contra a mulher, fato já considerado de saúde pública.“A afirmação que a violência é um problema de saúde pública sustenta-se, para OMS, em dados que apontam para o crescimento, ao longo dos anos, da incidência de lesões intencionais em todas as faixas etárias e grupos de gênero.” (Peres, 2008, p.101)

De acordo com Soares (2007) os meios de comunicação têm que dar voz à mulher e não tratálas somente como vítima do fato.
“A nova Lei Maria da Penha também coloca desafios importantes para os jornais. A imprensa fez u ma boa cobertura uniformemente positiva da nova lei, aplaudindo o endurecimento das penas para agressores. Sem dúvida, é importante contar com instrumentos para a punição nos casos necessários” (Soares, 2007, p.140)

Há uma mobilização de todos os meios de comunicação quanto à violência contra a mulher. “Hoje, o número de reportagens sobre o problema já é bem maior, embora ainda não corresponda à importância do fenômeno na sociedade”. (Soares, 2007, p.139)

Um exemplo disso é o já referido site da Agência Patrícia Galvão, lançado em 2001, que tem como objetivo divulgar pesquisas e notícias sobre a violência contra a mulher, assim como o

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site Bem Querer Mulher 14 que lançou uma campanha com esse mesmo nome com o objetivo de lutar contra para acabar com a violência contra a mulher em todo Brasil. Os sites saíram na frente, quanto à divulgação de campanhas de conscientização. A Avon15 , em 2009, fez uma pesquisa sobre a violência doméstica no Brasil, divulgada também pelo site Patrícia Galvão, chamada Fale sem Medo. Com isso descobriu que 24% das mulheres agredidas vivem com o agressor por falta de condição financeira, pois na maioria das vezes quem sustenta os gastos da família é o homem, por ganhar mais que a esposa ou por não deixá-la trabalhar. 23% das mulheres pesquisadas que ainda vivem com o agressor têm preocupação com o filho, 8% tem vergonha de admitir que seja agredida, 6 % tem vergonha de se separar, 4% ainda acha que são obrigadas a manter o casamento.

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http://bemquerermulher.webnode.com/. Acesso em 10 de Março de 2011 http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/ images/stories/PDF/pesquisas/pesq_ibope_2009.pdf . Acesso em 21 de Março de 2011

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2 Mídia e Violência 2.1 O papel social da mídia

Segundo Rondelli (1998), a mídia, ao publicizar os acontecimentos, tem um papel importante para a produção de sentido para as pessoas, ajudando-as a formular a sua própria opinião; além disso, exerce pressão para que as pessoas responsáveis pela resolução dos problemas tomem um posicionamento. Um exemplo recente é o movimento que a mídia está fazendo para que haja uma solução rápida para as mortes que tem acontecido constantemente na BR 381, em Minas Gerais.

Para ajudar as pessoas a elaborem opiniões a mídia explora os assuntos por meio de debates, conta com a participação de especialistas nos mais variados assuntos e divulga as impressões do cidadão comum.

Thompson (2005) diz que a recepção de conteúdos da mídia é feita de maneiras variadas dependendo, por exemplo, da formação social que os indivíduos têm, do grau de atenção com relação aos produtos midiáticos e das habilidades técnicas para utilizar os meios. O autor afirma com isso que a interpretação varia de pessoa para pessoa. “Como acontece com todas as formas simbólicas, o “significado” de uma mensagem transmitida pela mídia não é um fenômeno estático, permanentemente fixo e transparente para todos” (Thompson, 2005, p.44).

Para atingir a sociedade o mais amplamente possível, a mídia tem que usar dos mais variados recursos e criar uma programação diferenciada e atraente, além de facilmente inteligível. Filmes, documentários e livros exploram bem as histórias de uma sociedade, criando uma visibilidade maior para os acontecimentos. 16

A mídia proporciona à sociedade formas variadas de obtenção de informação. Thompson comenta a importância do surgimento da mídia, lembrando, por exemplo, que antes do rádio e

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Um bo m exemp lo é o documentário Ônibus 174 (2002, direção de José Padilha) feito após o sequestro de um ônibus ocorrido no Rio de Janeiro em 12 de junho de 2000, praticado por u m jovem usuário de droga. O caso teve repercussão mundial. Ao ver so mente o noticiário julgamos a atitude do autor do sequestro de maneira limitada, sem maior contextualização do ocorrido. Co m o documentário, tivemos a visão ampliada, conhecendo os antecedentes que culminaram na trág ica situação.

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da televisão, as pessoas comuns tinham poucas chances de acompanhar as ações de um político de alto escalão.
“Antes do desenvolvimento da mídia, os lideres polít icos eram invisíveis para a ma ioria das pessoas que eles governavam, e podiam restringir suas aparições públicas a grupos relativamente fechados em assembléia ou reuniões da corte.” (Tho mpson, 2005, p.109)

Depois do advento da mídia os políticos começaram a ser vigiados não só pela imprensa como também por cada cidadão. Essa facilidade de se chegar às pessoas através da mídia deu aos políticos a ideia de reforçar a sua imagem junto à sociedade. “A administração da visibilidade através da mídia é uma atividade perseguida não somente nos períodos intensivos de campanhas eleitorais, ela faz parte também da própria arte de governar.” (Thompson, 2005, p.124)

Outros efeitos sociais da mídia ocorreram sobre a tradição cultural. Depois do desenvolvimento dos meios de comunicação algumas tradições tiveram que ser transformadas. As instituições religiosas, por exemplo, por mais conservadoras que sejam, utilizam hoje intensamente dos meios de comunicação. “Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a formação e a transmissão da tradição se tornou cada vez mais dependente de formas de comunicação que perderam o caráter face a face, com várias conseqüências” (Thompson, 2005, p.173)

Com a transmissão de notícias boas ou ruins, a mídia faz com que os indivíduos conheçam lugares e situações diferentes dos seus, ampliando sua visão de mundo. Cidadãos de classe média podem conhecer a vida dura de um morador da favela, de um lugar onde as condições de vida são precárias e vice- versa. Pela mídia, podemos saber também da violência que acontece nas diferentes classes sociais.
“A idéia chave de que a mídia permite aos indivíduos adquirir experiência ao longo do espaço e do tempo, através de formas de interação que não têm mais o caráter imed iato, é certamente correta e se acentuou ainda mais pelo advento da televisão.” (Thompson, 2005, p.168)

Para que a sociedade seja bem informada os meios de comunicação contam com pessoas especializadas, capazes de passar a informação com segurança e clareza. Isso é um princípio que deveria ser comum a todas as editorias.

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Contudo, no caso da editoria de cidades isso não é comum. A respeito do jornalismo policial, que integra essa editoria, Beato (2007) acredita que hoje seria necessário um profissional especializado, como ocorre nas editorias de economia e política. O autor afirma que essa falta de especialização é fato quando o tema é segurança e não acontece somente no jornalismo policial, mas também em outras atividades da área: juízes, promotores e policiais, em geral, estão mal preparados para exercerem sua profissão com qualidade e eficácia. Isso tem implicações para a atividade jornalística e para a sociedade em geral.
“Pessoas que entendem pouco do que estão falando, orientam-se por profissionais que entendem menos ainda do que estão tratando. O resultado é des informação e ausência de uma perspectiva mais analítica que leve à co mpreensão da violência a partir de um quadro de referência mais amp lo”. (BEATO 2007, p. 35)

Jung (2009) afirma a importância da apuração responsável das notícias que são veiculadas nos meios de comunicação e do valor que tem de ser dado aos repórteres. São eles que vão às ruas para ouvir a população, encarar as situações de alta carga emotiva e as tragédia, trazendo a informação de forma clara e objetiva.

2.2 A mídia e o tratamento da violência

Como é notório, o crime tira a harmonia da sociedade e é algo que compromete o bem estar da população, conforme reafirma Molica (2007). Se, como vimos, a mídia tem um papel importante para a produção de sentido para as pessoas, ajudando-as a formular a sua própria opinião, o autor mostra que historicamente foi ela que se ocupou em retratar os crime e os criminosos. Até os anos de 1960

Os criminosos mais comuns eram aqueles inadaptados, homens que se escondiam em favelas, que assaltavam padarias , que andavam armados, que fumavam maconha, que invadiam casas alheias. Nos jornais, o crime não era visto como um processo, mas como algo localizado, personificado. (MOLICA, 2007, p.27)

No fim de 1960 o tratamento da imprensa quanto aos criminosos começou a mudar, afirma Molica. A mídia começou a perceber que em certos casos o bandido poderia ser inocente e a culpada era a polícia. O autor afirma que os crimes passaram a ser vistos de maneira diferente, policiais começaram a ser acusados por assassinatos de supostos criminosos.

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Rondelli (1998) também informa que grande parte do noticiário sobre violência tem como autor aquela que deveria proteger e prender quem a praticasse, a polícia 17 . O autor acrescenta que o aumento da violência fez com que todos os meios de comunicação dessem atenção para acontecimentos desse gênero.

Ultimamente a mídia também tem dado muito espaço quando a violência acontece com pessoas de classe social média e alta 18 . Esses casos são tratados como absurdos, enquanto a violência que acontece constantemente em classes sociais menos desfavorecidas é considerada fato corriqueiro.

Rondelli afirma que violência é um tipo de linguagem, um modo de se expressar. Ao abordar a violência, os meios de comunicação têm um papel importante que é o de fazer as pessoas pensarem sobre os atos violentos e criarem uma opinião sobre eles.
“Para o bem ou para o mal, a mídia constitui um veículo de ressonância social. Certamente, a mídia não inventa ou cria os fatos violentos. Ela os veicula, traduzindo em grande medida a evolução da criminalidade e dos sentimentos de medo e insegurança.” (Adorno e Lamin, 2008, p.168)

A evolução da criminalidade em nossa sociedade tem sido um problema recorrente. As pessoas têm cada vez mais o medo estampado no rosto, as casas são todas cercadas de grades. Câmeras de segurança estão espalhadas por todo o centro de Belo Horizonte. Porém, isso não resolve o problema da segurança para a população.
“Soluções locais e capacidade de articulação são as grandes marcas da admin istração municipal que devem ser consideradas como fatores positivos, se não fundamentais, para a formulação de políticas públicas de segurança.” (Miraglia, 2008, p.89)

Devido à visibilidade dada pela mídia, a segurança pública cria uma relação de dependência com a imprensa. Por meio dela, a imagem das instituições da área é criada e várias carreiras e cargos são construídos. Muitos dos envolvidos na área da segurança pública conseguem boas

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Fato que ilustra essa observação feita por Molica, e Rondelli foram dois assassinatos que aconteceram em 2011 no bairro Serra, em Belo Horizonte. Tio e sobrinho levaram t iros à queima roupa quando voltavam pra casa. Depois da investigação feita pela própria policia, foi co mprovad o que quem matou dois inocentes foram os policiais que faziam patrulhamento na favela. A mídia cobriu o fato exigindo uma resposta institu cional para esses assassinatos. 18 Esse foi o caso da menina Isabela Nardoni, de cinco anos, que em 2008 morreu ao ser jogada do 6º andar de um préd io na cidade de São Paulo. O caso teve grande repercussão em todos os meios de comunicação.

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posições, seja em órgãos governamentais ou mesmo na vida política, devido à sua exposição nos meios de comunicação (Beato, 2007). Beato (2007) afirma que a segurança pública e a imprensa têm uma relação difícil, porém uma depende da outra para sobreviver.

Governantes, policiais e policy makers destacam frequentemente o papel negativo da cobertura jornalística da segurança pública, bem co mo o descrédito decorrente lançado sobre as instituições de justiça. Contudo, à medida que a imprensa é capaz de influenciar e mo ldar comportamentos ainda é um vasto e inexplorado tema de pesquisa em nosso país. (BEATO, 2007, p.33)

No entanto, a imprensa, ao considerar o interesse dos cidadãos, muitas vezes tem problemas para conseguir informações fidedignas na área da segurança pública. No Brasil, mesmo com as garantias dadas pela constituição de 1988, as pessoas têm dificuldades de obter informações produzidas pelo governo. Rodrigues (2007) analisa que até mesmo os jornalistas sofrem para conseguir acesso direto a essas informações, muitas das vezes tendo que recorrer a outros meios para consegui- las. “De acordo com o artigo 5º, inciso 33: Todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que são prestados no prazo da lei, sob pena de responsabilidade [...].” (RODRIGUES, 2007, p. 53)

Em vários países como, por exemplo, África do Sul, Lituânia e Reino Unido, é lei que a população tenha acesso a essas informações do governo. Rodrigues (2007) acredita que o cidadão bem informado tem maior condição de não ser lesado pelo estado. Defende ainda que a sociedade deva ter livre acesso às informações do governo, pois isso é um dos princípios básicos para a construção de uma nação. O autor afirma que a informação pertence ao cidadão e não ao Estado. Porém muitos meios de comunicação abusam da espetacularização das notícias e do sensacionalismo, sobretudo quando a matéria é a violência. Angrimani (1995) afirma que o sensacionalismo é a produção de noticiário que explora o real de modo a superdimensionar o fato. De acordo com o autor, as manchetes dos jornais colocam sempre algo que chama a atenção, palavras e imagens que provoquem algum tipo de emoção no leitor. Contudo, o abuso desses recursos faz com que os meios de comunicação tenham a credibilidade abalada.

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“A linguagem sensacionalista não pode ser elegante e sim coloquial exagerada, com uso de gírias e palavrões. È uma linguagem que obriga o leitor (ouvinte) a se envolver emocionalmente com o texto, uma linguagem editorial “clichê”. (ANGRIMANI, 1995, p.16)

O sensacionalismo é algo que aparece em todos os meios de comunicação, cada um com sua característica. O jornal impresso dá destaque para as manchetes e fotografias; a televisão dá ênfase às imagens, repetindo-as à exaustão quando a intenção é provocar sensações no telespectador; já o rádio investe nas locuções, entonações e no tipo de linguagem empregada.

No caso dos programas policiais, poderíamos perguntar: todo programa policial é sensacionalista? Não, segundo Angrimani. No caso do rádio, para um programa se tornar sensacionalista, deve mesclar a fala do agressor com a de um comentarista. “O comentarista diz aquilo que o ouvinte gostaria de estar dizendo para o criminoso.” (Angrimani, 1995, p. 40).

O papel dos meios de comunicação na divulgação da violência tem sido questionado. Algumas pessoas afirmam que se os meios de comunicação não noticiassem a violência, ela diminuiria na sociedade, enquanto outros apostam na necessidade de sua divulgação. De qualquer modo, a insegurança hoje está presente praticamente em todos os lugares, as pessoas comentam e comparam o mundo de hoje com o de ontem. “Não há mais espaço para inocência. A nostalgia de uma cidade sem violência criminal esvai-se no passado. As imagens de pureza são substituídas pelas do perigo permanente e iminente.” (ADORNO E LAMIN, 2008, P.153)

Os autores afirmam que o individualismo é a característica mais forte da sociedade de hoje, onde as pessoas têm medo, sentem-se sem proteção e veêm o seu direito desrespeitado. A mídia tem grande responsabilidade nessa situação.
“O medo não é independente das suas formas de comunicação e de circulação. O medo circula através de gestos, expressões corporais, imagens, símbolos, rituais, estéticas (literárias ou não), textos diversos. Frequentemente, essas formas estão encarnadas em estórias contadas de geração a geração, falas sobre fatos e acontecimentos, rumores, depoimentos, testemunhos.” (ADORNO E LAM IN, 2008, p. 155)

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Caco Barcelos em seu depoimento ao livro Mídia e Violência (2007), diz que os jornalistas estão pouco preparados para cobrir casos de violência, eles acham que têm que agir como a polícia ou até mesmo como o juiz. Além disso, a imparcialidade no jornalismo é algo difícil de ser alcançado, sobretudo na cobertura policial, na qual frequentemente os jornalistas expressam sua visão dos fatos. Muitas vezes, incorrem no erro básico de tratar suspeitos como criminosos. Ocorre também a frequente associação da violência com a pobreza.
“Curiosamente, mes mo os jornais e as rádios populares,cujo público é formado pelos moradores dessas comunidades, segue as mesmas linhas de difusão. A periferia é sempre apresentada a partir da violência. Naturalmente, as notícias sobre mortes em suas localidades realmente geram grande interesse nos moradores das comunidades. Afinal, o noticiário policial é um dos poucos espaços em que este cidadão pode ver os seus iguais e o que acontece na sua vizinhança.” (Silva, 2009, p. 96)

2.3 O rádio

O rádio surgiu para ajudar na 2ª Guerra Mundial e não para beneficiar a sociedade como um todo. Porém, com o passar dos anos, os cidadãos ricos tiveram acesso ao rádio. Segundo Martins, o rádio era artigo de luxo e somente na década de 1950 passou a ser um artigo de consumo popular. “O rádio tinha um lugar próprio, na sala de visitas; era colocado sobre uma mesa coberta por um bonito forro ou bordado a mão ou feito a crochê. E as pessoas se sentavam em volta” (Martins, 1943, p.32)

No inicio do radiojornalismo as notícias que saíam no jornal impresso eram lidas no rádio sem nenhuma mudança. Com isso, a comunidade sabia das notícias antes mesmo de o jornal chegar a casa delas.
“Entre 1930/ 1940, o rádio jornalismo presta grande serviço à população interiorana de todo o Brasil. Nas pequenas cidades de Minas, as informações impressas chegavam com atraso, pois os jornais demoravam pelas estradas: quando chovia os ônibus atolava-se na lama, e o Jornal do Brasil, o Correio da Manhã, o Estado de Minas chegavam com atraso às mãos dos leitores trazendo notícias velhas”. ( Martins, 1943, p. 31 e 32)

De acordo com o autor, o rádio toca a alma dos ouvintes levando a eles notícias de toda parte do mundo, mas ele ressalta a dificuldade dos ouvintes de guardar fatos noticiados pelo rádio. Segundo Jung (2009) as pessoas têm mais facilidade de gravar fatos noticiados pela televisão, por causa das imagens.

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“A mensagem rad iofônica tem de ser clara e precisa, levando em consideração as dificuldades impostas pela própria característica do veículo. Mas não apenas por isso. Todo e qualquer cidadão que procura comunicar algu ma coisa ou informar a alguém- entre eles, os que representam um grupo ou estão à frente de u ma idéia e precisam divu lgá-la - deve saber que comunicação não significa o que é dito, mas o que o outro entende.” (Jung, 2009, p.16 e 17)

Segundo Jung (2009) depois de 1950 o rádio começou a investir no jornalismo, com isso houve uma grande migração dos profissionais do jornal impresso para o rád io. Não só os profissionais do jornal impresso como também os atores conquistaram seu espaço nos programas de rádio.

Com a chegada da televisão muitos acreditaram que o rádio iria acabar e perder seu espaço na sociedade. A forma que o rádio encontrou para reverter essa situação foi criar a figura do repórter de rua, que informava em tempo real o que estava acontecendo.
“A emissora continental e o JB, no Rio de Janeiro; a Bandeirantes e a Record, em São Paulo, entenderam a necessidade de oferecer informação ao vivo, apesar da falta de mobilidade dos equipamentos da época. Em lugar do pequeno gravador ou celula r que cabem no bolso da calça, havia enormes aparelhos que precisavam ser carregados por mais de um funcionário. A voz do repórter chegava aos transmissores por linha telefônica, nem sempre disponível nos lugares em que estava a noticia.” ( Jung, 2009, p.3 7)

Segundo o autor, o rádio cresceu e voltou a concorrer com a televisão. O rádio, que antes ficava no poste, longe das pessoas, tornou-se companheiro cotidiano dos ouvintes. Hoje, ele busca se adaptar às novas tecnologias. Jung afirma que muitas formas de fazer o jornalismo mudaram com a chegada das novas tecnologias, facilitando assim o trabalho do jornalista, que tem que saber lidar com diversas mídias diferentes. “Na convergência, as mídia não desaparecem somam-se e impõem desafios aos jornalistas.” (JUNG, 2009, p.69)
“O âncora apresenta o programa diante do correio eletrônico, aberto ás imagens e interferência dos ouvintes, quase que imediatamente. A entrevista mal co meça e já chega a primeira pergunta do ouvinte. O entrevistado escorrega, e vem a c rít ica. O apresentador se engana, e a correção aparece. E assim, internauta ou ouvinte, conectado á internet, transforma -se em protagonista.” ( Jung, 2009, p. 68)

Jung afirma que a característica mais marcante do rádio é a proximidade com o ouvinte. “O público se identifica com a emissora da cidade e com o radialista de plantão. Tem no âncora a figura que diariamente divide emoções e faz companhia, seja pelo rádio sobre a pia, no painel do carro ou no computador do escritório.” (Jung, 2009, p. 39)

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De acordo com dados da Abert 19 ( Associação Brasileira de Rádio e Televisão) nos últimos cinco anos nasceram no país 687 emissoras de rádio comerciais FM. Em 2010 o Brasil contava com cerca de 2.602 emissoras. Somando as comunitárias (4.193) e as educativas (465), o setor de rádio no Brasil alcança a marca de 9.184 emissoras.

As pessoas têm mais facilidade de ter um rádio do que uma televisão, por ser um aparelho mais acessível, tanto para a compra quanto para o manuseio. O rádio tem muita força junto à sociedade, é um dos meios de comunicação mais utilizados. Jung (2009) afirma, por exemplo, que, em 1992, os vereadores mais votados no Brasil utilizaram o rádio para se eleger. “Sérgio Zambias e Nelson Rodolfo foram exemplo do modelo de político criado a partir da década de 1980, quando a relação da política com o rádio se evidenciava.” (JUNG, 2007, p. 53) 2.4 – A Rádio Itatiaia e os programas policiais

Algumas emissoras de rádio adquiriram, no decorrer dos anos, credibilidade junto aos ouvintes, como é o caso da rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, que está no ar desde 1952, conquistando, a cada dia mais audiência, principalmente por meio dos noticiários. “A Itatiaia, então, encontrava sua razão de existir nos noticiários jornalísticos e esportivos desde o inicio de sua história.” (Santos, 2010, p. 118). No decorrer de 59 anos de existência, com o propósito de ser uma rádio regional e com uma programação variada, a Itatiaia atraiu diversos tipos de ouvintes.

A partir da vontade de ter uma rádio voltada para o futebo l, Januário Carneiro, fundador da Itatiaia, contou com a ajuda de muitas pessoas que abandonaram seus empregos nos jornais impressos para se dedicarem à rádio e fazê-la crescer. No início, “Januário era diretor, locutor esportivo, corretor de publicidade, tesoureiro e redator, além de continuar trabalhando como chefe de esportes do Diário e correspondente do Continental, com um programa às 11h da noite” (Carvalho, 1937, p.45 e 46). A primeira sede da rádio localizava-se no município mineiro de Nova Lima.

19

http://www.abert.o rg.br/site/index.php?/clipping/clipping -2011/segundo-abert-brasil-chega-a-91-mil-estacoesde-radio.ht ml. Acesso em 25 de Abril de 2011

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No ano de 1960, Osvaldo Faria 20 teve a ideia de fazer um programa dedicado à área policial, especialmente para falar dos crimes que aconteciam em Belo Horizonte. Algumas autoridades foram completamente contra a criação desse novo programa, chamado Rádio Polícia, que começou com duas edições diárias.
“A reação foi imed iata. Autoridades civis e relig iosas que preferiam manter mudo e encoberto o submundo das delegacias policiais, protestaram contra o que consideravam u m verdadeiro absurdo. Argumentavam que a decisão da emissora de abrir o microfone para ladrões e assassinos era um modo de incentivar o crime. Mas a população adorou a novidade. (Costa e Martins, 2002, p. 49)

O foco da Rádio Itatiaia é o jornalismo e a prestação de serviços à sociedade. Na grade de programas da rádio o jornalismo policial tem um espaço considerável, despertando grande interesse do público.

20

Radialista mineiro nascido em agosto 1930 e falecido em 30 de Junho de 2000, em Paris. Co meçou sua vida como rad ialista em 1957, na rádio de Itatiaia.

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3 – “EM MULHER NÃO SE BATE NEM COM UMA FLOR”: A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NOS PROGRAMAS ITATIAIA PATRULHA E JORNAL DA ITATIAIA 3.1 – Metodologia do trabalho

A partir das reflexões feitas sobre a violência contra a mulher e a inclusão e tratamento do tema na mídia, dois programas de rádio foram escolhidos para análise: o Jornal da Itatiaia 1º Edição e o Itatiaia Patrulha, transmitidos pela rádio Itatiaia. A análise dedicou-se aos programas exibidos no período de 11 de outubro a 22 de novembro de 2010, período em que ocorreram dois crimes de grande repercussão nacional: os assassinatos de Mércia Nakashima e Elisa Samúdio. Em junho de 2010, o corpo de Mércia foi achadao boiado numa represa em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo. De acordo com a Polícia Civil, o principal suspeito pelo seu desaparecimento e morte é o ex- namorado, o advogado Mizael Bispo, de 40 anos. Ele alega inocência e até o presente momento está foragido 21 . A jovem Eliza Samudio, 25 anos, desapareceu no início de junho de 2010. Ela supostamente foi sequestrada e morta, seu corpo não foi encontrado. O principal suspeito é o goleiro Bruno, ex-Flamengo, com o qual teve um relacionamento. Ela brigava, na Justiça, pelo reconhecimento da paternidade do filho de 5 meses, que seria do jogador 22 . Hipoteticamente, a ocorrência desses crimes chamaria a atenção para a violência contra a mulher em geral. Buscou-se analisar o conteúdo dos programas transmitidos nesse período, de modo a observar a maneira como a violência é considerada e o espaço dado para notícias relacionadas à violência contra a mulher. Assim, a análise foi dividida entre aspectos qualitativos e quantitativos, observados à luz do referencial teórico.

Na análise quantitativa observamos a frequência de notícias ligadas à violência contra a mulher e de tipos de violência praticados e divulgados durante a programação analisada. Na análise qualitativa observamos quais as fontes ouvidas em cada notícia, quais os envolvidos, o espaço dado para os envolvidos, a linguagem e os recursos empregados pelo apresentador e pelos repórteres.
21

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2010/06/advogada-mercia-nakashima-e-sepultada-sob-gritos-dejustica.html. Acesso em 01/06/ 2011. 22 http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/ 07/cronologia -do-caso-eliza-samudio.html. Acesso em 01/06/2011.

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3.2 - O Jornal da Itatiaia Hoje, com duas edições diárias, o Jornal da Itatiaia tem uma vasta equipe de profissionais espalhados pelos principais estados do Brasil. A 1º edição inclui o noticiário policial e é veiculada de segunda a sábado de 6h30 às 9h. A segunda edição do jornal é apresentada também de segunda a sábado, de 12h30 às 13h, e repete as mais importantes informações da parte da manhã. A partir de 8h o jornal é transmitido somente para Belo Horizonte e região metropolitana, com o Conversa de Redação.
“São mais de 48minutos de noticias e análises, comentários polít icos e debates entre os repórteres do Conversa de Redação. O foco está sempre voltado para Belo Horizonte, Minas ou notícias de impacto direto no Estado. Esta última parte do jornal, normalmente é composta por um bloco de cunho nacional, dois da Grande Beagá e dois com enfoque regional.” (Santos, 2010, p. 122)

Segundo Santos, o Jornal da Itatiaia, em sua primeira meia hora, tem como foco as matérias da cidade, com participação de um repórter que fala sobre o trânsito da capital e de um apresentador que faz a previsão do tempo. Eustáquio Ramos e Kátia Pereira apresentadores do jornal, dão destaque para a área policial. “São 21 minutos de notícias, além de 9 minutos de comerciais, dividido em três blocos. 95% da primeira meia hora do noticiário são compostos por produções locais, de Belo Horizonte e região metropolitana”, segundo Santos (2010). Eventualmente, o jornal conta com a apresentação de outros repórteres.

Somente a primeira meia hora do jornal foi levada em consideração nessa análise, por ser este o momento em que matérias da área policial ganham mais destaque no noticiário.

O Jornal da Itatiaia começa com a leitura das manchetes pelos apresentadores Eustáquio Ramos e Kátia Pereira, tendo ao fundo uma vinheta do jornal. Conforme preconizam os padrões jornalísticos (Jung, 2009), a mensagem radiofônica deve ser clara e precisa, levando em consideração as limitações de um veículo sonoro; sem bordões e de forma clara os apresentadores noticiam os fatos de maior relevância para o Brasil. Nessa primeira meia hora do jornal são apresentadas, em média, dez manchetes; dessas chamadas somente cinco são detalhadas nessa primeira meia hora. Algumas notícias são

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completadas por matérias dos repórteres, outras contam somente com a leitura do apresentador sobre o fato ocorrido.

No mês de outubro de 2010, em 21 dias de observação, tivemos no Jornal da Itatiaia, primeira edição, sete notícias relacionadas à violência contra a mulher. Somente nos dias 11 e 16 de outubro de 2010 as notícias de violência contra a mulher tiveram chamadas no primeiro bloco do jornal, sendo que no dia 11 as notícias só foram detalhadas no segundo bloco do jornal.

Como vimos nos capítulos anteriores, o número de casos de violência contra a mulher tem crescido em todo o Brasil, assim como o número de denúncias feitas. Contudo, apesar disso, devido às limitações de tempo do programa, o número de notícias envolvendo violência contra a mulher no programa é reduzido. Na maioria das vezes, somente uma notícia do tipo é transmitida, raramente duas. As modalidades de violência noticiadas nesse mês de outubro foram estupro, sequestro, tráfico de drogas e violência doméstica (crime passional).

Das sete matérias sobre violência contra a mulher do mês observado, três correspondem à violência doméstica, uma a sequestro, uma a estupro e uma a homicídio por tráfico de drogas. Como anteriormente mencionado, no dia 11 de outubro tivemos duas notícias de crime passional que tiveram chamada no início do jornal, fugindo do padrão quantitativo. Contudo, as matérias referentes a elas só foram veiculadas no segundo bloco do jornal, devido à época de eleição. Por tratarem de fatos chocantes, tiveram chamada de forma conjunta. Na primeira matéria um homem manteve a mulher presa por mais de quinze horas no Morro do Papagaio, vila de Belo Horizonte, e na outra um homem “matou sua mulher e comeu o coração dela”. O fato aconteceu em Arapiraca, interior de Alagoas. Com uma entonação forte, as chamadas foram feitas por Kátia Pereira no início do Jornal, “Violência contra a mulher marca o final de semana” e Eustáquio Ramos, “Homem sequestra e espanca namorada por quinze horas (!)”. Por estarem inseridos num noticiário amplo, apesar da gravidade dos fatos, eles foram transmitidos de maneira mais objetiva, sem opiniões dos apresentadores. No entanto, provavelmente em função das limitações do rádio, os apresentadores noticiaram a matéria aqui considerada com uma entonação de voz específica e com ênfase em certos detalhes, dando assim para perceber a gravidade da notícia 23 .
23

Na transcrição das entrevistas de apuração das matérias exibidas nos programas, as expressões em itálico indicam u ma ênfase/entonação especial.

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Eustáquio Ramos: A polícia tenta localizar Jardel Rodrigues Soares principal suspeito de trancar a namorada e agredi-la por mais de quinze horas no Morro do Papagaio. As agressões teriam sido motivadas por ciúmes . Júnia Márcia da Paixão, de 18 anos, teve as duas mãos e u ma costela quebrada, além de vários hemato mas pelo corpo. Kátia Pereira: Outro caso passional assustou o país no fim de semana : u m homem matou a namorada em Arapiraca, interior de Alagoas, arrancou o coração dela (pausa), assou (pausa) e comeu. Ele foi preso horas depois do crime.

No dia 16 de outubro a matéria de sequestro de uma mulher teve chamada no início do jornal, noticiada por Kátia Pereira: “Mulher conta o drama que viveu amarrada, durante vinte horas nas mãos de bandidos”. A repórter ouviu a vítima do sequestro, o marido dela e a polícia.

Vít ima: Eu estava parada no bairro e tinha deitado o banco do meu carro só que aí eu ia embora, só que quando eu ia ligar o carro eles apontaram u ma arma para mim (...) Marido: De manhã quando a minha filha mandou mensagem e eu peguei e liguei pra ela, ela mandou a mensagem falando que a mãe dela estava desaparecida e que tinha um homem ligando aqui pra casa (...) Sargento: Conforme a solicitação, uma senhora estaria dentro de um carro co m as mãos amarradas para trás, com os olhos vendados e gritando por socorro (...)

Crime por tráfico de drogas também conta nas estatísticas de violência contra mulher. Um exemplo disso foi a notícia de triplo homicídio, veiculada no dia 18 de outubro, dentre eles o de uma mulher, estrangulada no Alto Vera Cruz, região leste de Belo Horizonte.

A fonte ouvida pela equipe do jornal foi somente o policial, pois as vítimas foram fatais e o suspeito do crime não foi encontrado pela polícia.
Policial: Olha, foi levantado pela minha equipe que a Marli, juntamente co m seu irmão, eles eram moradores do bairro Taquaril e apro ximadamente há 30 dias eles vieram morar nesse barracão onde ocorreu o homicídio (...)

Em matéria do dia 24 de outubro a repórter não ouviu nenhuma fonte, somente noticiou o fato em que um homem teria estuprado uma jovem de 22 anos na região leste da capital em uma passarela na divisa dos bairros Floresta e Colégio Batista.

No dia 30 de outubro, a notícia veiculada foi a de que um homem de 62 ameaçou matar a exesposa. Sabemos que as fontes ouvidas pelos jornalistas são muito importantes para elucidar um fato e ajudar o repórter a contar o que aconteceu de modo objetivo. O jornalismo policial não foge à regra. Na maioria dos casos apresentados no jornal, as fontes ouvidas pelos repórteres são vizinhos, policiais que atenderam a ocorrência no local, vítimas, suspeitos ou

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familiares. O exemplo a seguir mostra como a notícia considerada, contemplou um critério básico do jornalismo, a escuta das fontes:
Repórter: A ação rápida da polícia militar evitou u m possível crime passional no bairro Ribeiro de Abreu. Segundo a polícia, João do Carmo, de 62 anos, teria ameaçado de morte a ex-mu lher, Geralda Rodrigues, de 64 anos. Com o ho mem fo i encontrado um revólver calibre 32 mun iciado e u m punhal. Quem dá mais detalhes do caso aqui no Jornal da Itatiaia é o sargento Souza, do batalhão Rotam. Policial: Fo mos acionados pelo COPOM e, segundo o COPOM, a vítima ligou, discou o 190 solicitando a viatura policial, em razão de estar sendo ameaçada pelo ex-marido na sua residência. Tão logo chegamos lá, essa dona estava trancada, dona Geralda, trancada dentro de casa. Assim que chegamos, ela saiu de casa brutamente, nos relatando que esse senhor João do Carmo a ameaçava constantemente e desta feita retornou ao local pra mais u ma vez ameaçá-la, e que ele possuía uma arma de fogo na sua residência e fe z ameaça. Confirmamos essa situação com o João, que nos levou até sua residência, onde foi encontrado lá no quarto dele o revólver mais 26 cartuchos e um punhal. Repórter: A vítima já tinha feito boletins de ocorrência contra o marido? Policial: De acordo com ela sim, fez outras ocorrências em desfavor do seu João. Segundo seu João, houve separação em função da dona Geralda aco lher u m enteado e ele não aceitou essa situação, em razão disso houve a separação.

O repórter entrevista também o suspeito de ameaçar a ex- mulher, que se diz inocente, e a vítima da ameaça.
João do Carlos: Esse revólver eu nem sei de quem que é. Ela fala que eu ameaço ela, eu outro dia fui lá porque ela entrou na justiça, por causa da casa e da chácara, aí eu fui lá pra conversar com ela.... A í quando eu cheguei lá, ela chamou a v iatura pra mim. Tenho grande amor por ela eu nunca faço uma co isa dessa não. Repórter: O senhor ainda ama a dona Geralda? João do Carlos: A mo demais. Geralda: Quem cu ida de mim é a minha filha, porque eu tomo remédio pra pressão, eu tô com problema de rins, não posso sair pra mexer co m consulta com medo dele, porque ele me ameaça co m o revólver, aí a prova é tanta que o policial pegou. Repórter: A senhora registrou algum boletim de ocorrência? Geralda: Muitos boletins de ocorrência, só no São Gabriel é a quarta vez.

No mês de novembro, houve uma diferença muito grande na quantidade de notícias sobre violência contra a mulher, veiculadas no Jornal da Itatiaia. Em 22 dias tivemos somente três notícias. Dentre elas, uma de agressão física, uma de assassinato e uma de cárcere privado.

No dia 14 de novembro, o jornal foi apresentado por Rui Chaves e Camila Campos. No início do jornal Rui Chaves fez a chamada da seguinte forma: “Inocente é morta com mais de dez tiros”. Uma mulher de 54 anos foi assassinada a tiros no bairro Confisco, em Contagem, quando visitava amigos. O motivo do assassinato era desconhecido. Não houve entrevista com nenhuma fonte, porém o repórter conversou em off com alguns vizinhos, que não quiseram gravar entrevista, mas disseram que a mulher era muito religiosa.

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No dia 19 de novembro uma professora foi agredida por um aluno, o caso ocorreu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ela teve os dentes e os dois braços quebrados pelo aluno.

No dia 21 de novembro a notícia de violência contra a mulher teve chamada no jornal, mas foi veiculada no segundo bloco do jornal. Um homem manteve uma mulher, prostituta, em cárcere privado, alegando ter se apaixonado por ela e desejar desposá- la. A repórter Edilene Lopes fez a chamada da seguinte forma: “Homem se apaixona por prostituta, tenta casar à força e acaba preso”. Ao fundo, a marcha nupcial tentava dar um tom jocoso ao acontecido, deslocando a atenção da ocorrência de cárcere privado para o fato de alguém querer se casar com uma prostituta.

Repórter: Pau lo de Tarso da Rocha, de 33 anos, foi preso por militares, suspeito de ter mantido u ma mu lher em cárcere privado. O ho mem teria impedido que a garota de programa Maria Helena de 31 anos fosse embora de um motel em Sabará (...) Polícia: A princípio a vítima acionou a policia, pois estava em um motel e o homem não deixava ir embora, segundo a vítima ele queria levar ela pra a cidade dele, no interior (...) Suspeito: Ah, digamos que não houve cárcere privado, quero levar ela co migo porque é ruim ficar sozinho (...) Vít ima: Eu saí com ele, quando eu cheguei no motel ele não queria deixar eu ir embora, ele trancou a porta, não me deixava sair, fiquei co m medo dele fazer alguma co isa comigo (...)

3.3 - Itatiaia Patrulha Em 5 de Julho de 1975, entrou no ar o Itatiaia Patrulha, um programa especificamente voltado para o jornalismo policial. O programa é transmitido por Laudívio Carvalho há 8 anos . O Itatiaia Patrulha inicia sua programação com uma vinheta característica, na qual é divulgado o nome do apresentador e do programa em forma de jingle 24 . Logo em seguida há as manchetes, lidas pelo próprio apresentador. Dependendo do tema da primeira chamada ele logo faz um comentário sobre a matéria, terminando com um bordão. “Aqui é o Itatiaia Patrulha mostrando a vida como ela é.” O bordão indica a intenção realista do programa. Segundo a produtora do Itatiaia Patrulha, Jaqueline Moura, as matérias que vão ao ar são sempre factuais e respe itam uma hierarquia, assim constituída: em primeiro lugar, homicídios, em segundo, tentativas de homicídio e em terceiro, tráfico de drogas.

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Mensagem publicitária musicada, com um refrão simples e de curta duração.

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São noticiadas no decorrer do programa dez matérias em média. Sempre na metade do programa o apresentador Laudívio Carvalho noticia outros fatos policiais que ocorreram em Belo Horizonte e região metropolitana de forma rápida, como se fosse um giro. Bem no começo, antes de chamar para as principais notícias, o apresentador fala “Aqui as ocorrências que movimentaram Belo Horizonte e Região Metropolitana, o Itatiaia Patrulha dá noticia de tudo.” Ao fundo, enquanto as notícias são lidas, uma música de suspense e uma sirene ligada constantemente compõem o ambiente.

Durante o programa também há informações sobre o trânsito de Belo Horizonte, emitidas pela repórter Camila Campos; quando há outros temas importantes para divulgação, sempre há algum repórter ao vivo para dar as informações correspondentes, cumprindo com os requisitos básicos do jornalismo (cf. Jung,2009). Segundo a produtora do Itatiaia Patrulha, Jaqueline Moura, todas as noticias que chegam até a redação são verificadas e checadas. No programa, os repórteres responsáveis pela área policial são Alessandra Mendes, Camila Dias e Renato Rios Neto. O repórter Ernani Alves traz informações do Rio de Janeiro.

Em 19 dias de programa no mês de Outubro, obtivemos treze notícias de violência contra a mulher; seis delas eram de violência doméstica, uma de estupro, uma de tentativa de estupro, uma de latrocínio, uma de tráfico de drogas, duas de homicídio e uma de cárcere privado. Conforme vimos, a violência doméstica é praticada dentro de casa pelo companheiro, filho, cunhado, uma violência praticada por pessoas que pertencem à família e que alcança alto índice no Brasil.

No dia 11 de outubro de 2010 houve uma notícia no bloco em que o apresentador faz um giro pela área policial. Uma mulher foi estuprada no bairro Belvedere, em Ribeirão das Neves, região com alto índice de criminalidade. Somente o marido da vítima foi ouvido pela reportagem do programa e não teve o seu nome identificado pela reportagem.

Marido: Ela me emprestou a bolsa, falou que o lugar era perigoso e eu falei: desce comigo do carro; ela falou que ia ficar dentro do carro, a chave estava na ignição, eles rederam ela e levaram o carro com ela (...). É co mplicada a situação hoje, não tá segura pra ninguém, ninguém tá liv re dessa insegurança, e a impunidade está demais .

No dia 13 de outubro Laudívio Carvalho iniciou o programa com a seguinte fala : “Violência sem limite” para noticiar o crime praticado por Celsino Faria Viana, que teria matado a

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mulher com seis tiros. Logo em seguida, entrou a fala chorosa do filho do suspeito. O apresentador fez um comentário sobre a notícia de destaque do programa enquanto ao fundo havia uma música de suspense.

Laudívio : Meus amigos, (pausa) mais uma vez u ma cabeça fervendo coloca tudo a perder. Celsino Faria Viana, de 48 anos, atirou na co mpanheira Lilia Moreira , de apenas 34, (pausa) ela foi atingida com seis tiros de revolver calibre 38. Tudo porque, segundo informações ele estaria desconfiado de uma traição (pausa). O crime aconteceu na rua do Salesianos, no bairro São Bernardo, aqui em Belo Horizonte. Foram três tiros no peito, um na barriga, u m no omb ro esquerdo e outro no braço esquerdo. Gente, (pausa) cenas de extrema violência, cenas de horror.

Em geral, no Itatiaia Patrulha as matérias têm como fonte principal o autor da violência, quando esse se dispõe a falar e a dar a sua versão do fato ocorrido. Os repórteres ouvem também pessoas ligadas à família ou alguém que tenha testemunhado o ocorrido. No caso envolvendo Celsino Faria, como o autor da violência não quis conversar com o repórter e a vítima estava internada, o repórter Renato Rios Neto entrevistou o filho do autor do crime e o policial que atendeu a ocorrência.
Repórter: ... Fo ram quantos disparos? Policial: Seis disparos, a informação que nos temos é que ele efetuou seis disparos e acertou os seis, mas a vít ima foi socorrida ainda com vida, conversando com os militares , e fo i levada para o HPS. Tem vários outros caminhos pra resolver qualquer tipo de conflito, tirar a vida de uma pessoa não resolve o seu problema, cria outro problema, né? Pessoa que quer resolver u m problema , primeira coisa é ter calma pra não chegar lá de cabeça quente e arrumar outro problema pra vida dele. Repórter: O que você acha que aconteceu hoje para o seu pai p erder a cabeça desse jeito? Filho: Olha, fica meio difícil de ficar explicando isso, meu pai sempre foi u ma pessoa tranqüila e eu não sei, crise de ciúmes, eu não sei o que pode ter acontecido pra chegar no fato dele ter feito isso. Repórter: Quanto tempo ele estava nesse relacionamento? Filho: Apro ximadamente 18 anos Repórter: Semp re fo i assim, mu ita briga? Filho: Não, não, ele sempre foi u ma boa pessoa, sempre fez de tudo por ela, entendeu? Ela é enfermeira ho je porque ele ajudou ela co m o curso de enfermagem, pagando o curso de enfermagem pra ela, eu não sei, tô sem explicação pra isso que aconteceu, ele sempre foi uma pessoa boa fez de tudo por ela. Eu acho que iss o é uma coisa inaceitável, homem nenhum aceita, a cabeça ferve. Repórter: Você acha que ele foi traído então? Foi perante a informação que tenho, ela chegou a contar pra ele, chegou a falar com ele que já tinha três meses que estava tendo relacionamento com outro homem. Repórter: Melhor nesse momento era os dois terem conversado, cada um procurar seu canto? Filho: Não teve jeito não. Repórter: Seu pai já tinha essa arma? Filho: Eu não sei, tô até assustado porque meu pai é u ma pessoa tranquila, meu pai nunca foi d isso, eu tô abismado, até agora eu não sei se a arma é dele , onde que ele conseguiu. Repórter: Fo i u m choque pra família? Filho: Foi. Repórter: O que você espera agora?

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Filho: Espero que infelizmente a justiça vai ser feita, ele tinha muitas maneiras de resolver isso, mas ele preferiu essa maneira, então a justiça vai ser feita, infelizmente. Vamos ver o que a justiça vai decidir Repórter: Tô vendo que você está emocionado é difícil para u m filho ver o pai preso? Filho: É difícil. Repórter: Celsino Faria Viana, de 48 anos, preferiu não conversar com a nossa reportagem e Lilia Moreira está internada, entre a vida e a morte, no hospital Risoleta Neves.

No decorrer do programa foi noticiada a morte de Lilia Moreira. Vale ressaltar que o apresentador comenta o caso dizendo que os crimes passionais ocorrem por “falta de diálogo”. Contudo, nenhuma observação foi feita pelo repórter sobre a afirmação do filho acerca da suposta traição da mãe como “uma coisa inaceitável, homem nenhum aceita, a cabeça ferve”. A entrevista simplesmente prosseguiu com a pergunta: “Você acha que ele foi traído então?”. O apresentador prossegue, dizendo:

Laudívio : Mas, essa coisa de crime passional (pausa) é u m negócio altamente discutível. Eu penso, eu falo isso que o soldado acabou de falar com o Renato. Antes de você tomar u ma atitude conte até dez, (pausa) se você não resolveu, conte novamente. Conte mais dez vezes, sabe, bote o pé no chão. (pausa). Violência só gera violência, violência não dá nada pra ninguém. A minha produção está chegando aqui com u ma noticia de última hora, a Lilia Moreira de 34 anos, baleada seis vezes pelo cabeleireiro Celsino Faria Viana, acaba de mo rrer, acaba de falecer. Infelizmente, uma moça de 34 anos com a vida inteira pela frente teve essa vida interro mpida por seis tiros de um revólver calibre 38.

No dia 15 de outubro de 2010, houve notícia de violência contra uma mulher, no giro na área policial, morta pelo ex- marido. Foi narrada assim pelo apresentador.
Laudívio Carvalho: A mor termina em tragédia. Sebastião Rodrigues Pereira de 49 anos executou a ex-mulher, Durcelina de Assis, de 38, co m dois “balaços” na Rua Camp ina Grande, bairro Jardim Teresópolis em Betim. Welbert Gilvecio de 31 anos que estava com a vítima, levou um tiro no pé. Segundo testemunhas, o homem estava inconformado com o fato de ter que pagar o aluguel pra ex- mu lher, enquanto ela estaria mantendo relação sexual co m outros homens. A Polícia agiu co m rapidez e prendeu o homem.

Podemos observar que os envolvidos nessas notícias analisadas foram maridos, excompanheiros e namorados. Porém, em duas outras notícias analisadas chamaram a atenção pelo fato do autor da violência ser o filho da vítima. Nos dias 18 de outubro houve a notícia de que o filho agrediu a mãe. No dia 28, a de que o filho adolescente colocou fogo na casa, agrediu a mãe e arremessou objetos em chamas nela. Esse fato ocorreu no bairro Asteca, Santa Luzia. Foi uma matéria de destaque, o programa já iniciou com a fala do agressor. O repórter escutou o policial que atendeu o caso e o adolescente. Essa matéria foi destaque do programa nesse dia.

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Laudívio Carvalho, ao chamar a sonora do suspeito da agressão diz: O fim dos tempos: filho espanca a própria mãe. Adolescente: só hoje, hoje foi à primeira vez que aconteceu isso com ela, (...) jamais que eu ia dar uma en xadada na minha mãe. Loucura, deu um trem esquisito, só nervosismo, não sei nem o que deu na hora da discussão. Só quero minha liberdade. Acho que não saio daqui mais. Peço perdão a ela, quero que ela me perdoe. Repórter: Agora, como que ele feriu a mãe, como foram os ferimentos? Como foi essa agressão à própria mãe? Policial: Ela alegou que, ao presenciar o filho ateando fogo no interior da residência, ao tentar impedi-lo, ele passou a arremessar os objetos em chama nela. Repórter: Agora a mãe alegou que ele é usuário de drogas? Policial: Correto, que ele seria usuário de drogas (...) Repórter: Uma cena que choca, porque o próprio filho agredir a mãe? Policial: Co m certeza (...)

O repórter fez perguntas objetivas para o filho que agrediu a mãe:

Repórter: O que você tem a d izer em sua defesa? Agressor: Nada. Repórter: Você botou fogo na sua casa? Agressor: Botei. Repórter: Porque que você botou fogo? Agressor: Uns negócios na cabeça. Repórter: Você usa drogas? Agressor: Não já usei, mais não uso mais não. Repórter: Co mo é a sua relação co m a sua mãe? Agressor: Minha relação é... bem, só hoje, a primeira vez que aconteceu isso com ela. Repórter: Sua mãe já te levou no médico, no psicólogo? Agressor: Já Repórter: O que os médicos falaram co m você? Agressor: Quando ela me levou era pequeno, eles disseram que eu tenho um distúrbio mental. Repórter: E hoje você subiu no muro lá co m u ma en xada e u m facão, co mo é que foi essa história? Agressor: Olha o que aconteceu, meu primo pegou a enxada pra mim e eu corri dentro de casa e peguei outra pra ele (...) Repórter: Mas isso foi antes ou depois de botar fogo na casa? Agressor: Depois. Repórter: Você está arrependido de ter machucado a sua mãe? Agressor: Tô, peço perdão a ela, eu quero que ela me perdoe. Eu sei que o que eu fiz...

Na outra noticia do dia 18, o filho de 47 anos agride, espanca a mãe de 103 anos de idade. Laudívio de Carvalho mostra a sua revolta e indignação e repete várias vezes o caso e o nome do suspeito de agredir a mãe, de modo a tentar dimensionar devidamente a gra vidade do ocorrido.
Laudívio : Meus amigos, eu não sei aonde a gente vai parar com tamanha violência, o Renato Rios Netos é o produtor do Itatiaia Patru lha, ele está me trazendo uma notícia que eu não queria dividir co m ninguém, mas in felizmente somos condutores da informação. Um foragido da justiça bateu na mãe, mas espancou a mãe. Geraldo da Cru z, de 47 anos, foi preso na favela do Cafezal depois que agrediu a mãe e agora vocês estão achando que a

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mãe dele tem 55 anos, 60 anos , não, ela tem 103 anos de idade (música ao fundo), uma vovozinha de 103 anos de idade, foi agredida, espancada pelo próprio filho, Geraldo da Cru z, de 47 anos, já condenado por homicídio e que estava foragido da justiça, imag ine m vocês, camarada Geraldo da Cruz, de 47 anos, oh Geraldo, oh Geraldo, sem comentários né? Geraldo. Espancando a mãe, espancar a mãe já é u m negócio que não dá pra gente entender, agora, u ma velh inha de 103 anos !

No dia 21 de outubro mais uma vez o apresentador fica revoltado, expressa toda a sua indignação através do tom de voz e das palavras usadas para comentar o fato ocorrido. Laudívio Carvalho chama a matéria que noticia que um homem matou a cunhada e estuprou o cadáver da vítima na frente do filho dela e do sobrinho.

Laudívio : Autor de crime bárbaro é preso pela policia civ il, Cleber Pereira dos Reis fo i preso em Brasília de Minas, o homem é suspeito de ter matado a cunhada Vanessa Franciele Pires no Bairro Nova Cintra, em maio deste ano. O detalhe é que o anormal fez sexo com o cadáver da vítima na frente dos sobrinhos e do próprio filho. O delegado Frederico Abelha tem outros detalhes desse crime monstruoso e nojento.

Após anunciar a matéria seguinte, sobre tráfico de drogas, o apresentador volta ao caso:

Laudívio : Eu quero parabenizar a delegacia de homicídios, a equipe do delegado Eds on Moreira foi até a cidade de Brasília de Minas, depois de Montes Claros, como se você estivesse chegando a Cidade de São Francisco, às margens do Rio São Francisco. Ali prenderam Cleber Pereira dos Reis, meus amigos , esse camarada é acusado de ter matado a própria cunhada, Vanessa Franciele Pires, lá no bairro Nova Cintra, em maio deste ano. Agora, o detalhe macabro disso ele asfixiou, enforcou a vít ima, en forcou a Vanessa Franciele Pires na frente dos sobrinhos e do próprio filho, tirou as roupas da Vanessa Franciele e manteve relação sexual co m ela. Ele vio lentou o cadáver, vi-o-len-tou o cadáver. Vamos falar em linguagem mais popular, estuprou uma mulher mo rta, é isso, a verdade é essa, praticou sexo com a mulher que ele havia matado. Se tudo isso estiver comprovado em inquérito policial, o Cleber Pereira dos Reis é um anormal, u m tarado. Ele tem que ser levado à presença de um psicólogo, de um psiquiatra porque jamais, olha, pra matar alguém a pessoa tem que ser muito fria , essa é a primeira questão, matar enforcada, sem co mentário, e estuprar a pessoa depois violentar o cadáver, não dá pra comentar.

O reiterado comentário sobre o acontecido, com ênfase no ato “escabroso”, contraria a suposta constatação de que “não dá pra comentar”. Caracteriza também a prática sensacionalista na imprensa. A vítima praticamente desaparece do comentário e a questão não estimula maiores reflexões sobre a situação das mulheres vítimas de violência.

Nesse mesmo dia houve a notícia de que uma mulher estava mantida em cárcere privado pelo marido, no bairro Bonsucesso, em Ribeirão das Neves.

Laudívio Carvalho: Policiais militares do 40º batalhão estiveram na rua Camilo Alves de Lima, no bairro Bonsucesso, em Ribeirão das Neves. Ali u ma mulher estará sendo mantida

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em cárcere privado pe -lo ma-ri-do, a ocorrência está em andamento na delegacia de mu lheres em Ribeirão da Neves.

No dia 23 de outubro, duas notícias de violência contra a mulher foram veiculadas no programa. Uma delas foi destaque. Uma mulher foi executada com uma bala na cabeça no Morro do Cafezal, em BH e, segundo o policial, a causa pode ter sido o tráfico de drogas por conta do local onde a vítima foi encontrada. Esse tipo de crime é em grande parte responsável pela presença das mulheres nos presídios, quase sempre em decorrência do envolvimento com um traficante de drogas. Em outra notícia, uma mulher foi morta a pedradas, o motivo do crime não foi dito. Segundo Silva (1992) a violência contra a mulher é associada a agressões físicas e sexuais. Isso vem de uma cultura que deprecia a mulher.

No dia 25 de outubro uma diarista foi assassinada a pauladas no bairro Jardim América. Somente o policial que atendeu a ocorrência foi ouvido durante a reportagem e afirmou que a causa da morte da diarista ainda era desconhecida.

Em 27 de outubro duas matérias foram noticiadas durante o programa, na primeira uma mulher foi morta no bairro Eldorado, em Contagem e, segundo a polícia, a causa foi passional. Somente o policial foi ouvido pela reportagem. A segunda matéria informou sobre uma tentativa de estupro em Venda Nova. Foram ouvidos pela reportagem o policial, o suspeito e as vítimas.

No dia 29 de outubro, mais uma matéria de violência contra a mulher foi destaque no programa: uma mulher de 60 anos foi assassinada no bairro Olhos d’água. O crime foi caracterizado como latrocínio. No começo do programa, algumas falas dos vizinhos da vítima foram divulgadas, acompanhadas de choro. São recursos que ajudam a intensificar o ocorrido e causar sensações nos ouvinte. Conforme afirma Angrimani (1995), alguns meios de comunicação abusam desses recursos, principalmente em matérias sobre violência.

Vizinhos: (Choros ao fundo) O único jeito que nos achamos pra achar ela foi subindo por lá, a men ina entrou e achou ela lá morta. Ficou desesperada e começou a gritar e falar que alguém tinha assassinado ela, aí eu mais que depressa corri e liguei pra polícia.

Como afirma Jung (2007) a característica mais marcante do rádio é a proximidade com os ouvintes o autor diz que “o público se identifica com a emissora da cidade e com o radialista

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de plantão”. Estes tem no âncora a figura com a qual diariamente divide emoções e obtêm companhia. Laudívio Carvalho confirma essa ideia de Jung, pois tem proximidade com o público e conversa diretamente com os ouvintes em cada comentário, chamando-os de “meus amigos”. Alguns termos populares são empregados para aumentar ainda mais a aproximação com o público do programa entre eles: balaço, sentaram o dedo, banho de sangue, canão arrumado, erva do capeta, o pau comeu solto, integram o discurso do apresentador durante o programa Itatiaia Patrulha.

Pudemos observar que nos programas voltados para o jornalismo policial o número de notícias sobre violência contra a mulher é bem maior do que em um jornal que noticia diversos fatos. No mês de outubro observamos que a violência contra a mulher recebeu destaque em quatro dias. Observamos também que o programa, em geral, ouve os lados envolvidos na situação.

No mês de novembro, em 22 dias de análise, em oito dias tivemos matérias sobre violência conta a mulher, um número bem inferior a outubro que, em 19 dias, divulgou treze notícias do tipo.

Dessas oito matérias, duas eram ligadas a roubo, duas a estupro, uma a assalto com agressão física, uma a assassinato por motivação desconhecida e duas à violência doméstica.

No dia 3 de novembro uma mulher de 75 anos teve o corpo queimado pelo marido, de 83 anos, em Contagem. Por ser um casal de idosos o caso impressiona. As fontes ouvidas na reportagem foram a filha e a empregada da vítima.

Nos dias 4 e 13 de novembro tivemos duas notícias sobre roubo seguido de agressão física a mulheres. A primeira no bairro Copacabana, em Belo Horizonte, e a segunda no centro da capital. No dia 13 também uma mulher foi assassinada e a motivação do crime era desconhecida.

Tivemos também no mês de novembro duas notícias envolvendo estupro, uma no dia 17 e outra no dia 22. Na primeira notícia um homem estuprou a própria mãe, de 70 anos, em São Paulo, estado que mais recebe denúncias de violência contra a mulher. Nesse noticiário Laudívio Carvalho fez seu comentário com um ar de indignação. Em entrevista realizada no

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dia 30 de Maio, em Belo Horizonte, disse que quando não se emocionar mais, não ficar comovido com situações como essa, ele poderá desistir da profissão que escolheu.
Laudívio : M inha produção já esta fazendo contato com Marcel Naves , em São Pau lo, porque um homem fo i preso suspeito de abusar sexualmente da própria mãe , 70 anos de idade. A mãe, 70 anos de idade o camarada teria abusado sexualmente dela. Eu não sei onde a gente vai parar não, confesso a vocês que eu fico de queixo caído, não sei, não sei, não sei onde a humanidade vai parar? Não sei onde nos vamos parar nesses pais. Um homem é suspeito, não dá pra chamar u m cara desses de homem não, u m sujeito, u m elemento, um camarada está sendo acusado de abusar sexualmente da própria mãe de 70 anos de idade. Onde é que nos vamos parar, meus amigos, nesse país? Laudívio : Mas eu vou dizer u m negócio, a gente fica de queixo caído, não é u m filho abusar sexualmente, oh gente, eu falo que o abuso sexual é algo inenarrável, não dá sequer para você narrar o que é uma violência sexual, eu faço às vezes, uma co mparação entre duas situações para que minha amiga dona de casa acompanhe um pouco mais do Itatiaia Patrulha. Por exemp lo, você sai de casa, fecha a sua casa e quando você volta a sua casa está arrombada, alguém entrou na sua casa, como é que você se sente? Completamente violentada, não é verdade? Desprotegido, e se alguém invade o seu corpo, como você vai se sentir? O que passa na cabeça de alguém que prática um crime sexual, um abuso sexual , porque um cara que estupra alguém, passa a mão em uma mulher, que bolina uma criança é um anorma l, u m tarado u m desequilibrado mental esse cara tem que estar na cana. Agora eu fico me perguntando, um filho abusar da mãe de 70 anos , ele tem que ser doido, ter problema mental por que senão, né.

Novamente, o emprego repetido de certas expressões marca um traço sensacionalista do programa.

A notícia do dia 22 de novembro corresponde a um estupro, ocorrido no bairro Jardim Alterosa, Betim, que foi destaque do programa. Nessa matéria, todas as fontes do caso foram ouvidas: polícia, suspeito e vítima, com espaços similares.

Soldado: A viatura deparou com u m cidadão conversando com a moça em situação suspeita, no mo mento em que foi abordada ela confessou o fato que aconteceu (...). Suspeito: Eu não estava dirig indo carro, eu não sei dirigir carro nem ter carro eu não tenho. Eu trabalho no depósito, não sei dirigir carro. Eu estava dormindo dentro do Elba, todo mundo sabe que o Elba é do Bernardo, todo mundo sabe. Agora tão falando que era eu que tava dirigindo, ele está mentindo. Conheci ela ontem dentro do buteco. Eu fiquei co m ela, ficar eu não fiquei não, porque eu tava bêbado e ela também tava bêbada (...). Vít ima: Ele me perguntou as horas , quando eu cheguei perto dele pra falar as horas ele me jogou dentro do carro e falou que era pra ficar calada. Se eu falasse alguma coisa ele ia me matar, aí eu falei, mas você não tem arma, ele d isse eu tenho outra coisa pior ainda e foi , pegou no meu pescoço, na hora que eu tentei abrir a porta ele me chutou, virou e falou comigo que qualquer coisinha que alguém escutasse meus gritos ele ia me matar (....)

No dia 16 de novembro tivemos uma notícia sobre violência doméstica em que o marido ameaçou e agrediu a ex- mulher. A vítima já havia registrado 16 boletins de ocorrência, porém o marido não ficava preso porque a esposa pedia pra ele ser solto.

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A matéria chamou á atenção, porque a vítima e o suspeito não foram ouvidos pela reportagem do programa Itatiaia Patrulha. A repórter tentou ouvir os dois lados da situação, porém eles não quiseram falar. Então somente o policial que atendeu o caso foi ouvido. Chamou a atenção também pelo tratamento efetivamente jornalístico dado à notícia, pois a produção entrou em contato com a Assessoria de Imprensa da Polícia Civil para saber porque mesmo com o registro de dezesseis ocorrências o acusado ainda não estava preso. E descobriu que a mulher retirava as denúncias.

Repórter: Carla você quer falar sobre as ameaças do seu ex-marido? Repórter: Bruno o que está acontecendo você não quer separar dela? Porque que você não quer falar? Repórter: Porque Bruno que você fica ameaçando ela? Repórter: Ninguém quer falar, quer dizer a Carla que está sendo ameaçada não quer falar e o Bruno que, de acordo com a policia estaria ameaçando e invadindo a casa dela, também não quer falar. Repórter: Carla você não quer, nem para se proteger falar alguma coisa? Repórter: Ela está chorando Laudívio, porque ela tem medo, né. Ela está sentada em frente a ele inclusive nesse momento. Repórter: Vocês têm filhos Carla? Repórter: Ela realmente está nervosa, tá chorando nesse mo mento. Policial: A família dele , ao chegar aqui na co mpanhia, ameaçou, então ela deve estar temendo represália por parte deles e por isso ela não quer falar. Laudívio : Eu conversava ainda a pouco com a Assessora de Imprensa da Polícia Civ il, Gianneti. Ele não foi autuado em flagrante ontem, embora a polícia já possua diversas anotações, vários boletins de ocorrência. Porque, na maioria das vezes a própria esposa, própria co mpanheira dele, a Carla Aparecida, representa e depois vai lá e desiste. Ela chama a polícia, a polícia prende o Bruno Brandão e depois ela vai lá e fala pra delegada ”Não doutora eu não quero que ele fique preso não, eu prefiro que a senhora o solte” e ele acaba sendo solto. Embora a justiça já tenha determinado medidas protetivas, ela mais uma vez desistiu. Só que ontem, ele foi preso e a delegada lá de Betim vai procurar o juiz pra ver o que pode ser feito pra tirar o Bruno de circulação, porque são dezesseis boletins de ocorrência, uma hora dessas uma tragédia pode acontecer, embora, embora. Aí, eu já faço a defesa da polícia, a culpa é da própria companheira dele que por razões próprias, a gente não sabe quais, até suspeito que de repente ela tenha medo de um problema maior, ele faça ameaça ou que esse camarada preso possa faltar o sustento dentro de casa pra ela, pra algum filho que ela tenha co m ele. Co isas desse tipo, por algu ma razão ela desiste de dar prosseguimento ao feito lá na delegacia. Então a culpa não é da policia, se a Carla parar e colocar a mão na cabeça, de repente ela vai ver se a polícia to mar u ma providência, pode ser que a situação se resolva (...)

Este caso é emblemático da situação da mulher no Brasil que, mesmo vítima de ameaças e violência, se recusa a sustentar uma denúncia, preferindo a convivência com o agressor. Laudívio Carvalho encerra seu programa sempre com o bordão “Se você não quer aparecer, não deixe que o fato aconteça.” Em entrevista realizada com o apresentador, Laudívio conta que esse bordão é utilizado há mais de vinte anos no rádio. Pertencia à radialista Glória Lopes, que encerrava seu programa Polícia é notícia, da rádio Itatiaia. Antes que Glória

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Lopes morresse, pediu autorização para usar o bordão. “Essa é uma forma de homenagear aquela que foi a professora de todos nós, aqui da rádio Itatiaia”, disse o entrevistado.

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Conclusão Pudemos observar que, diante da dimensão da violência contra a mulher, exposta anteriormente, tivemos pouca frequência de notícias sobre o assunto no Jornal da Itatiaia no mês de outubro, pois em 21 dias somente em sete elas apareceram. E no mês de novembro o número de notícias desse gênero diminuiu ainda mais, pois, em 22 dias somente três notícias de violência contra a mulher foram veiculadas no Jornal da Itatiaia. É bom lembrar que neste período, no qual ocorreram dois casos de violência contra a mulher que ocuparam o noticiário nacional, o de Elisa Samúdio e o de Mércia Nakashima, seria, em princípio, um momento propício para discutir mais aprofundadamente a situação da mulher no Brasil. Em 2010 o serviço nacional disque-denúncia registrou 343.063 atendimentos nos sete primeiros meses, contra 161.774 nos mesmos meses de 2009 25 . Em Minas Gerais, houve 112 ligações para cada 50.000 mulheres. São Paulo foi o estado que mais registrou ameaças contra as mulheres (47.107), seguido pela Bahia (32.358) e Rio de Janeiro (25.274). Como se vê, a dimensão da violência praticada contra a mulher demanda maior espaço na mídia, principalmente nos jornais que podem explorar esse fato de uma maneira diferente. Considerando-se a popularidade do rádio, esse veículo teria um papel muito importante nesse aspecto. Contudo, há um paradoxo nesse fenômeno. Na pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo, a cada cinco minutos duas mulheres são agredidas em todo o Brasil e a cada dia dez mulheres são assassinadas. Se um dos critérios de noticiabilidade 26 é o fato de que um acontecimento vira notícia quando foge ao padrão de normalidade, podemos inferir que, dada a pouca frequência das notícias de violência contra a mulher no jornal em questão, esse fato tem mesmo se tornado corriqueiro.

No Itatiaia Patrulha, programa voltado para a área policial, observamos uma diminuição considerável de notícias desse gênero no mês de novembro, em comparação ao mês anterior. Será que no mês de novembro houve menos casos de violência contra a mulher e isso se refletiu no programa? A falta de estatísticas atualizadas sobre os casos impede a resposta mais precisa.
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http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/ 08/denuncias-de-violencia-do mestica-contra-mulher-crescem-112-em2010.ht ml. Acesso em 08 de junho de 2010. 26 São critérios de noticiabilidade, segundo Wolf (Teorias da Comunicação, 1999. Ed itorial Presença): nível hierárquico dos envolvidos no acontecimento; impacto do fato ocorrido sobre a nação; a quantidade de pessoas que o acontecimento envolve; a visibilidade do fato; a relevância e significado de u ma determinada situação.

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Segundo Pessoa, os casos abordados no programa são tratados a partir da visão de mundo das vítimas, autoridades e suspeitos. “Essa pluralidade de participantes contribui para um universo diversificado de interações entre os entrevistadores e os entrevistados, em trocas convencionais longas, que permitem a análise das estratégias discursivas adotadas pelos interagentes.” (Pessoa, 2010, p.155).

Observamos que o programa com o foco na área policial dá mais espaço para notícias de violência contra a mulher do que o Jornal da Itatiaia que cobre todos os assuntos possíveis no dia. No entanto, as notícias são desvinculadas de um contexto mais amplo sobre a situação da mulher como vítima de violência, sobre o direito das mulheres e sobre orientações mais precisas em casos de violência.

No programa Itatiaia Patrulha uma matéria chamou a atenção, pela condução. A produção do programa fez uma consulta à polícia pra saber se a vítima já tinha feito algum boletim de ocorrência. Dessa forma obtiveram respostas necessárias para explicar porque o suspeito ainda não havia sido preso.

Em outra ocasião, porém, o Jornal da Itatiaia deu um tom jocoso e inadequado a uma ocorrência de cárcere privado de uma mulher, prostituta, deslocando o foco do tema. A marcha nupcial ao fundo enfatizava e ironizava o fato de alguém q uerer se casar com uma prostituta, em detrimento do crime em si.

A linguagem utilizada pelos apresentadores do Jornal da Itatiaia 1º edição é bem simples, uma linguagem coloquial, sem bordões. No Itatiaia Patrulha, a linguagem se aproxima do discurso popular e o uso de efeitos sonoros especiais, tais como música e sons de tiros, juntamente com as repetições enfáticas de certas informações e palavras e a mistura da fala do agressor com a de um comentarista, dão um ar sensacionalista ao programa. Além disso, conforme nos lembra Angrimani, no programa “O comentarista diz aquilo que o ouvinte gostaria de estar dizendo para o criminoso.” (Angrimani, 1995, p. 40).

Retomando as recomendações de Beato (2007), o tratamento de temas ligados à segurança pública pela mídia deve contar com profissionais mais bem preparados, conscientes de sua

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função social e que dêem o devido valor ao que de fato deve ser valorizado, como é o caso do combate à violência contra a mulher em nossa sociedade.

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