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Renata Zacaroni Goulart

JORNALISMO EM REVISTA, SEGMENTAÇÃO E PUBLICIDADE:
A Revista Ragga, o viés publicitário no jornalismo e a formação de nichos midiáticos

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011
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Renata Zacaroni Goulart

JORNALISMO EM REVISTA, SEGMENTAÇÃO E PUBLICIDADE:
A Revista Ragga, o viés publicitário no jornalismo e a formação de nichos midiáticos

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Jornalimo. Orientador(a): Profª. Ana Rosa Vidigal Dolabella

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

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À Deus, agradeço por tudo. Aos meus pais, Jorge Tadeu Dázio Goulart e Divani Zacaroni Goulart, pelo apoio em tempo integral, pelo amor infindável e por serem sempre, para mim, o melhor exemplo a ser seguido. À minha irmã Bárbara por estar a todo o tempo presente e ser uma grande amiga em minhas caminhadas. Ao meu filho João Vítor, por ser meu guia, minha luz e meu maior estímulo para vencer mais essa etapa em minha vida.

“Agradeço todas as dificuldades que enfrentei; não fosse por elas, eu não teria saído do lugar. As facilidades nos impedem de caminhar. Mesmo as críticas nos auxiliam muito”. Chico Xavier.

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RESUMO

Este artigo apresenta uma análise sobre a possível vigência de uma nova prática jornalística; prática essa pela qual o jornalismo se submete a publicidade carregando em seus textos informativos e noticiosos a presença de juízos de valor e opinião exacerbada, muito além de um mero jornalismo opinativo. Para tal, é apresentado como objeto empírico desse estudo a revista Ragga, cujas três seções Noite adentro, Consumo/Eu Quero e Estilo foram estudadas. A revista Ragga por sua vez consiste em um veículo de comunicação impresso pertencente ao Grupo Diários Associados – atualmente, o sexto maior conglomerado de empresas de mídia do país. De veiculação mensal no estado de Minas Gerais, a revista Ragga aborda como sua temática principal: moda, comportamento, cultura, esportes radicais e estilo de vida. A ela, pode ser atribuída a característica de um veículo de comunicação especializado – que constitui um nicho midiático – direcionado a um público específico e fragmentado não se tratando, portanto, de um produto do mercado de massa. Alguns eixos temáticos como a compreensão do que é a segmentação, o jornalismo especializado, o jornalismo de opinião, o jornalismo de revista, em quê consiste a mídia revista e a as influências e interferências da publicidade no jornalismo foram fundamentais para o desenvolvimento deste trabalho de conclusão do curso de jornalismo. O projeto em questão é suma relevância, pois sugere uma revisão de valores do jornalismo, que tem seus princípios éticos assolados quando se converte às necessidades de mercado (textos que opinam, induzem e propagam idéias que favorecem um produto), apresentando assim, somente os valores morais e os princípios ideais da conduta capitalista. Além disso, entender como um veículo de comunicação cria um novo nicho midiático por delimitar um público leitor, as razões pela qual age dessa maneira e porquê passa a ser visto como um veículo formador de preferências.

Palavras-chave: jornalismo; publicidade; segmentação, mídia especializada; jornalismo de revista; jornalismo de opinião; revista; Revista Ragga.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 07 2 JORNALISMO EM REVISTA ........................................................................................ 09 2.1 Jornalismo e revista ........................................................................................................... 09 2.2 Gramática própria e redação: a linguagem da revista ....................................................... 12 2.3 Regras da diagramação: edição em revista ....................................................................... 16 3 JORNALISMO, REVISTA E SEGMENTAÇÃO .......................................................... 20 3.1 O jornalismo especializado: segmentação em revista ....................................................... 22 3.2 O jornalismo opinativo x a publicidade no jornalismo ..................................................... 24 3.3 Um novo nicho e uma nova construção do fazer midiático .............................................. 31 4 REVISTA RAGGA, PUBLICIDADE NO JORNALISMO E A CARACTERIZAÇÃO DE UM SEGMENTO ........................................................................................................... 35 4.1 Panorama histórico da Revista Ragga ............................................................................... 35 4.1.1 O que constitui a Ragga ................................................................................................. 39 4.2 Um viés publicitário no jornalismo da revista Ragga ....................................................... 42 4.2.1 A promoção de casas noturnas em ‘Noite adentro’ ....................................................... 42 4.2.2 Pouca moda e muito capitalismo: Estilo ....................................................................... 44 4.2.3 A publicidade escancarada: Consumo/Eu Quero .......................................................... 46 4.3 As divulgações da Ragga e a segmentação de mídia e público ........................................ 49 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 52 REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 54

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INTRODUÇÃO

A capacidade do ser humano (principalmente dos jovens) em se adaptar facilmente às novidades, se cansando rapidamente de práticas antigas e antiquadas, exigindo dessa maneira, especificamente do mercado, soluções diferentes a todo instante, são no mínimo, um obstáculo a ser enfrentado para aqueles cujo objetivo é atender a essa demanda. Na esfera comunicacional, o quadro não se isenta dessa situação e nem se difere dos demais setores.

O comportamento aqui datado, de ânsia por tudo o que constitui o novo por parte dos indivíduos torna-se, até mesmo, um estímulo e uma necessidade para que veículos de comunicação se adéqüem às necessidades humanas – o que implica também, e de importante ressalva, na adoção de comportamentos e atitudes muitas vezes errôneas e antiéticas para alcançar esse propósito.

O jornalismo e os veículos de comunicação têm, por diversas vezes, se submetido a fatores externos, que transgridem e violam a ética jornalística, na finalidade de se sustentar e se manter no mercado. Nesse contexto, atenta-se para a compreensão de, como, uma revista – que consiste em um tradicional veículo de comunicação impresso – consegue se manter em um alto patamar de visibilidade atualmente. À mesma, ainda é conferida a característica de ser preferência de um público específico, não se tratando, portanto, de um produto de mercado de massa e sim, focada em um público fragmentado, cujo mercado é de nicho.

Essas características peculiares podem ser notadas na revista Ragga, uma publicação mineira pertencente ao grupo Diários Associados, de veiculação mensal, tomada aqui como objeto empírico de estudo. Atribuições como deslizes e atos desrespeitosos quanto aos princípios do jornalismo sujeitados à publicidade em suas divulgações, acabam por definir a imagem e identidade desse produto e, consequentemente, de seu público leitor.

Pretende-se, portanto, através da questão principal aqui levantada, compreender a prática de um gênero jornalístico pretensioso dentro da revista Ragga, que se afirma informativo e noticioso e que, no entanto, carrega em seus textos fatores como a opinião, possuindo um viés publicitário no decorrer de algumas de suas seções. Além disso, como um veículo de nicho, direcionado a um público reduzido, se mantém no mercado e delimita um segmento. 7

Ao longo do primeiro capítulo do proposto estudo serão ressaltadas informações de embasamento teórico que remetem ao jornalismo de revista, esclarecendo questões sobre essa prática, em que ela consiste e apresentando a mídia revista com o auxílio dos autores Vilas Boas (1996) e Scalzo (2006). Em seguida, um ensaio aprofundado sobre a linguagem utilizada nesse veículo – e que caracteriza uma gramática singular e única desse meio, na finalidade de comunicar com o leitor através de uma determinada afinidade lingüística, uma tonalidade, será apresentada pelos mesmos autores além de Sodré (1972), que menciona o surgimento do novo direcionamento dado à revista.

Continuando fundamentado por Sodré (1972), Vilas Boas (1996) e Scalzo (2006), o primeiro capítulo ainda se divide entre, primeiramente, a organização dos temas e assuntos, a forma como se constitui a estrutura do texto (palavras e expressões) e os meios utilizados na redação de textos de revistas. Por fim, uma análise dos padrões editoriais e a composição do veículo, serão frisadas ainda, por Pereira Júnior (2009).

O segundo capítulo, Jornalismo, revista e segmentação, pretende através de uma orientação por parte de autores como Marshall (2003), Melo (1985), Sodré (1972), Rodrigues (1994), Anderson (2006), Scalzo (2006) e Vilas Boas (1996) compreender e explicar em que consiste a mídia segmentada, especificamente a especialização em revista. Em seguida, apresentar as limitações do jornalismo opinativo que por muitas vezes, e principalmente nesse caso, se difunde com a publicidade. Finalizando, a constatação de um nicho social cultural, formado por indivíduos que compartilham de igual interesse, tão segmentando quanto o produto aqui tratado e que se dá, inclusive, em consequência do mesmo.

Já no terceiro e último capítulo, abrange-se um estudo de caso aprofundado das seções Noite adentro, Estilo, Eu quero / Consumo, pertencentes à revista Ragga – após a apresentação do objeto empírico e um panorama histórico do mesmo. A finalidade é observar no proposto estudo – além de expandir o desenvolvimento de novos trabalhos ligados à essa área – a mídia especializada, a ação exercida pela publicidade no jornalismo, o jornalismo de opinião e formação de nichos. Os elementos levados em consideração na análise são o favorecimento de estabelecimentos, marcas, produtos, pessoas, através da utilização de juízos de valor e opinião na descrição do alvo da matéria, a indução e sedução do leitor, e por fim, a mudança de status desse último, que passa a ser visto como mero consumidor. 8

2 JORNALISMO EM REVISTA Nesse capítulo serão apresentadas informações de embasamento teórico que remetem ao jornalismo de revista, esclarecendo questões sobre essa prática – em que ela consiste e como se dá. Diante disso, serão abordados fatores como a linguagem da revista, a forma como é construída a estrutura do texto nesse veículo, as características da redação de textos de revistas e a diagramação das matérias nesse gênero.

2.1 Jornalismo e Revista De uma forma ampla e leiga, enxerga-se no jornalismo (à primeira vista) uma única definição: a de levar ao seu espectador informações, notícias e dados, sejam eles factuais ou não. Entretanto o jornalismo é, além disso, arte, trabalho, atividade com função social – que consiste em trazer debate à sociedade –, construção de uma visão da realidade e da sociedade; um fazer profundo de comunicação.

O jornalismo pode ser praticado em inúmeras áreas ou veículos de imprensa, tais como os jornais, as revistas, a televisão, o rádio, os websites, os weblogs, nas assessorias de imprensa, dentre outras mídias. Essa é uma entre as várias razões pelas quais não se deve generalizar o jornalismo, já que essa prática opera através de um meio (de um veículo) e este pode consistir em qualquer um dos já mencionados.

Ressalta-se que cada veículo tem sua particularidade, são distintos e consequentemente, atingem o público de maneiras diversas, dessemelhantes. É por isso que nesse estudo sobre o jornalismo de revista é importante diferenciar esse gênero das demais mídias. Algumas delas apresentam, assim como o objeto específico deste estudo, características de cunho informativo, jornalístico e de entretenimento, entretanto, cabe aqui, o foco no jornalismo de revista, apontando suas especificidades e relevância.

Embora haja uma certa dificuldade para a uma explicação clara e breve do que é jornalismo se bastando de poucas palavras, toma-se a afirmação de Rossi (1994) que o significado desse termo vai além de qualquer definição acadêmica, consistindo em “uma batalha pela conquista das mentes e corações de seus alvos – leitores, telespectadores ou ouvintes”. Essa batalha 9

imposta ao jornalismo, conforme Rossi (1994) faz uso de uma arma aparentemente inofensiva: a palavra – sendo importante uma ressalva para os meios imagéticos, que também fazem uso de imagens juntamente às palavras.

A batalha travada pelo jornalismo, cuja finalidade é atrair o maior número de interessados possível para a sua divulgação, agrega certamente, importância em contextos políticos e sociais devido também, ao auxílio prestado na formação da opinião por parte do público – ao ceder conhecimento ao mesmo. Entretanto, manter a informação livre de juízos de valor, não impondo uma opinião e agindo de maneira unilateral com o público é fundamental.

Para Rossi (1994) o mito da objetividade é o que motiva tal batalha – a imprensa deve se colocar numa posição neutra e suas publicações jornalísticas devem abordar os fatos ocorridos na esfera social, deixando assim, a parte interpretativa à cargo do seu leitor, telespectador, ouvinte e receptor.

Nesse sentido, Erbolatto (1984) afirma que qualquer trabalho da imprensa de cunho jornalístico exerce influências sobre a sociedade. A notícia, por exemplo, é considerada a matéria prima do jornalismo, pois somente depois de divulgada a informação contida nela, é que haverá um debate por parte do público receptor – sendo essa a principal função da profissão. Esse processo caracteriza a notícia como a “compra e venda” de informação: a mesma é vendida aos seus leitores e preencher-se dela é uma obrigatoriedade do mundo atual.

O que sabemos sobre os numerosos assuntos de interesse público é consequente do que nos é transmitido pelos veículos de comunicação. Erbolatto (1984) afirma que as notícias são, portanto, comunicações sobre fatos da atualidade que tendem a influir seus leitores e mostrar a eles que devem se interessar pelo assunto retratado.

Frente a isso, vê-se a importância do jornalismo, das notícias, da disponibilização das informações e conhecimentos na sociedade. Traquina (2001) relembra o apelido dado ao jornalismo de “o quarto poder”. O termo foi forjado por um inglês em 1823, no momento em que os primeiros teóricos da democracia argumentavam que os mídia-noticiosos teriam um papel fundamental e dual. Isso, decorrente do fato de ser o guardião dos cidadãos, protegendoos através da disponibilização e acesso à informação do abuso de poder dos governantes – e 10

por constituir em um meio de informação cuja finalidade é equipar o cidadão com ferramentas vitais ao exercício dos seus direitos.

Nesse contexto, a definição de Traquina (2001) sobre jornalismo abrange a obrigação em defender a liberdade de imprensa, dando aos cidadãos informações justas e significativas. Deve-se por outro lado, ouvir o público e realizar uma cobertura noticiosa daqueles temas que são importantes para eles e não apenas com base no que é decidido como relevante e de interesse do mercado.

Para o proposto estudo, pretende-se compreender as especificidades em jornalismo de revista. Para relacionar jornalismo e revista, torna-se necessário que se defina neste estudo em que a mídia revista consiste. Scalzo (2006, p.11-12), em poucas palavras, a define como “um veículo de comunicação, um produto, um negócio, uma marca, um objeto, um conjunto de serviços, uma mistura de jornalismo e entretenimento”.

A revista age de forma incisiva, criando vínculos com seu público leitor, o que promove de certa forma um encontro entre o editor da publicação com um grupo de pessoas, leitoras, que compartilham do mesmo interesse. Esse encontro não se dá de forma visível, não é público e nem pessoal, mas ainda assim ajuda na constituição de uma imagem para a revista, determinando seu público, uma “tribo” unificada por atrativos em comum, objetivos semelhantes e por fim, por simpatia.

A razão pela qual as revistas mobilizam, em grande escala, seu público, se dá pelo fato da mesma ser constituída pela escrita. “Elas servem para confirmar, explicar e aprofundar a história já vista na tevê e ouvida no rádio. Ainda hoje, a palavra escrita é o meio mais eficaz para transmitir informações complexas” (Scalzo, 2004, p.13). E assim, como todo veículo constituído na base da escrita preferencialmente impressa (como jornais, folhetos, apostilas e outros), é concedida uma credibilidade à informação fazendo com que essa se demonstre, aparentemente, através de um desdobramento atencioso, estudado e amparado, mais confiável.

Dessa forma, Vilas Boas (1996) acredita que através da revista, haja a existência de um resgate de um jornalismo que os jornais diários não conseguem imprimir em suas notícias 11

(por se tratar de uma leitura rápida) e, que, as revistas conseguem obter, através da exposição de uma nova linguagem midiática mais elaborada – comparada aos demais meios impressos. Para Scalzo (2006) os jornais “nascem com a marca explícita da política, do engajamento claramente definido” sendo que as revistas surgiram na finalidade não apenas de levar informação, mas também, de ser um complemento de embasamento educacional e intelectual de seu leitor.

O jornalismo praticado em revista envolve uma certa revisão de fatores. Essa tarefa se constitui através da agregação daquilo que constitui o jornalismo escrito e impresso (como por exemplo o design, texto e fotografia) à uma integração da equipe que trabalha nesse meio. Conciliar ao conhecimento de quem é o público e principalmente, à compreensão do que é a revista para, enfim, caminhar à remodelagem de seu plano editorial, delineiam a ordem da montagem dessa mídia, conforme Scalzo (2006).

Em revista é necessário que, para que o jornalismo sobreviva, se tenha conhecimento das preferências do público; é preciso criar identificação com ele. É necessário por parte dos editores ousar, experimentar, focar, principalmente se a mesma se direciona a um leitor específico.

2.2 Gramática própria e redação: a linguagem da revista Falar da linguagem da revista é falar sobre a organização de seu texto. Para Vilas Boas (1996), um bom texto tem que possuir – em paralelo e independentemente do veículo (seja ele impresso ou não) – uma boa organização de palavras, idéias e conceitos para resultar na constituição e caracterização de uma linguagem própria, singular. Nessa questão, e priorizando o estudo da linguagem da revista, Vilas Boas (1996) ressalta que o texto, nesse veículo específico, exige do profissional muito preparo e um grande cuidado por ser documental e necessitar de apuração constante.

Scalzo (2006) menciona que uma revista se vê obrigada a delimitar e desenvolver uma natureza informativa diferenciada, que exige um afastamento maior do que constitui o noticiário e mais próxima daquilo que integra caminhos alternativos, descobrindo assim, sua própria função, linguagem e público. Portanto, para que se dê início à escrita em revista, é 12

preciso agrupar idéias de um mesmo tema. Vilas Boas (1996) afirma que o essencial para realização de um “texto referência” em revista é a organização do mesmo conforme a lógica do pensamento do leitor – preferencialmente, fazendo com que este se interesse pela publicação do início ao fim.

Uma revista estabelece em si, quase sempre, assuntos de um mesmo sentido, interligados, sendo necessária a escolha de uma tonalidade, ou seja, uma linguagem mais apropriada para a abordagem desses assuntos. O texto deve interpretar o fato mais profundamente (o que por algumas vezes, também pode ser visto em artigos para jornais), sendo uma análise deste último e de suas conseqüências, preenchendo uma lacuna deixada pelos demais veículos de comunicação aos leitores. “A reportagem é a própria alma da revista e seu texto deve ser uma grande história, um grande documentário”. (VILAS BOAS, 1996, p. 15).

E para que esse processo de tonalidade, organização, agrupamento de idéias e linguagem se constitua, Scalzo (2006) acredita que escrever em revista requer um cuidado essencial com a escolha do tom. Essa escolha é uma das mais difíceis partes do projeto, pois, nessa questão, é o jornalista que se adapta à linguagem. É necessário pensar como o leitor e, muitas vezes, deixar o texto mais claro e conciso sem, entretanto, fazer de um texto simples, algo simplório.

O peso e a importância do uso correto da linguagem – que é visivelmente específica dentro da revista – pode acarretar a mudança dos rumos de uma reportagem além de diferenciá-la. Vilas Boas (1996) afirma que o modo como é escrito o texto em revista é o que caracteriza a mesma, concedendo a ela uma representação específica diante de seus receptores.

O texto não necessariamente precisa desprezar os recursos costumeiros – e caso os utilize, como por exemplo, como os coloquialismos e as gírias, o redator deve se policiar e ter cuidado para que esses recursos não se tornem algo de uso constante e nem sua primeira ou única opção.

Tende-se a criar uma “gramática própria” dentro da revista através do estilo gráfico e da linguagem. Quase tudo é válido para atrair e prender a atenção do leitor como produzir uma capa com os atrativos de uma embalagem; revistas não se obrigam a registrar ocorrências que não se enquadram em seu apelo e seu leitor-alvo; frases criativas surgem para substituir o 13

lead. Vilas Boas (1996) afirma que o jornalismo é predominante em revista, e que consiste em ceder informações sem opinar, expondo ao leitor o quadro completo de uma situação trazendo uma interpretação do fato cabendo ao leitor aceitar ou não.

As revistas usufruem tão corretamente de sua linguagem, tonalidade, devido ao desejo de saber com, mais precisão talvez, que os demais veículos, o quê o leitor almeja ler. Sodré (1972) afirma que foi a partir da década de 1960, com o desenvolvimento das agências noticiosas e o aprimoramento da notícia, do serviço fotográfico e dos cadernos dos jornais, com a multiplicação das revistas especializadas – que antes, eram mais abrangentes e um produto de massa –, foi com o grande boom da televisão, ou seja, com o bombardeio do público pelos veículos de massa, que o jornalismo de revista mudou.

O entretenimento proposto pelas revistas e outros veículos de uma maneira em geral, têm uma função evasiva, o que implica em possibilitar àquele que lê uma apreciação e degustação de um momento prazeroso e, obviamente, de uma leitura agradável – o que implica também, em uma regra para tais veículos que consiste em nunca proporcionar ao indivíduo leitor, lembranças daquilo que o preocupa. Para que isso aconteça é necessário que se faça um alicerce em torno do texto para que o mesmo esteja bem estruturado e atenda a todas as necessidades.

O encadeamento de idéias é relevante para a organização do texto para que a leitura não se torne algo cansativo ou até mesmo, desperdiçado. Por vezes, jornalistas pecam no desenvolvimento de um texto ao deixar todas as informações a serem divulgadas através de uma reportagem, nos dois primeiros parágrafos iniciais – sem apresentar esclarecimentos necessários e suficientes para todo o restante da matéria se tornando assim, algo desinteressante. Observar outras leituras de outros autores contribui nesse processo para que o redator aumente sua aquisição de bagagem intelectual. “Jornalismo, não é literatura, mas as técnicas literárias podem ajudar, e muito, um jornalista a escrever melhor” (Scalzo, 2006, p. 77).

As revistas exploram os impulsos aquisitivos e consumidores do público e, sendo assim, o profissional deste veículo configura-se desejoso de influenciar. Essa mídia está diretamente vinculada à estrutura capitalística do mercado e para que venda, irriga a opinião pública para 14

o entretenimento ou a evasão do consumidor (abordando sempre coisas brilhantes e leves). Para Sodré (1972) o estilo de um bom profissional de revista poderia ser definido como a técnica da isenção e do encantamento, estilo localizado entre o discurso denotativo e literatura.

As temáticas constantes abordadas em revista são, conforme afirmação de Sodré (1972), artes e literatura; natureza, paisagem e aventura (assuntos que sempre estão presentes em revista por propiciarem fotografias em cores grandiosas pelo qual o natural converte-se em monumental); personalidades e nobreza (nomes famosos pela posição social ou estrelato qualquer são sempre atrativos, a revista é tida como uma grande narradora de contos de fadas modernos); ciências; esportes (pelo qual os sociólogos vêem em sua profissionalização o desvirtuamento do sentido original das competições atléticas, a despertar o espírito de emulação comunitário e exaltar ideais de aperfeiçoamento físico do homem). É justamente por provocarem a sensação de relaxamente e lazer, que deparamos, quase sempre, com essas temáticas nas abordagens das revistas.

E não só de palavras e textos é constituída uma revista. Para que sua estruturação torne-se efetiva e completa é necessário pensar em cada estágio de sua composição. Em revista, a regra da objetividade jornalística encontrou na ilustração fotográfica um forte aliado. O que garante valorização da fotografia em revista são fatores como a necessidade de atingir grandes massas, contornando assim a linguagem articulada com o auxílio da imagem.

A fotografia coloca em segundo plano o jornalismo de idéias e opiniões, aquele pelo qual a relevância se encontra no texto escrito (mas conciliando seu trabalho à ele), acentuando uma tendência das revistas a procurarem ser pura e altamente descritivas. Outra característica é o triunfo dos digestos ou condensação dos textos – o digesto foi no passado uma forma literária especializada que se reencontrou na cultura de massa, pela qual algo que se dizia em mil palavras, passou a ser transcrito em dez.

A fotografia por sua vez não esta isenta de opiniões, sendo que pode ser interpretada como o ponto de vista do redator – em revista. “Além disso, a área do fotografável é freqüentemente limitada pela do censurável” (SODRÉ, 1972, p. 53).

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Para se distinguir dos jornais e de seus cadernos de cultura, as revistas acrescentam ao texto um conteúdo complementar, ou ainda uma angulação mais específica e aprofundada. O local da narrativa, por exemplo, em uma matéria cultural de revista, se situa em uma abertura enxuta.

Em cadernos de cultura, e no geral, textos culturais, independentemente do veículo, “o texto é mais solto, com tendência a absorver coloquialismos e neologismos de todo o tipo. O texto de um caderno de cultura tem estilo e público muito bem definido” (VILAS BOAS, 1996, p. 95). Hoje em dia, a revista trata de matérias de cultura com a mesma desenvoltura estilística dos jornais, entretanto, dando preferência a um texto mais desenvolvido e informativo.

O estilo magazine, que é a prática do jornalismo de revista, conforme Vilas Boas (1996) desenrola os fatos, busca testemunhos, constrói o texto, narrando e reportando cada situação. É fiel ao fato reportado desfazendo padrões e conduzindo até mesmo, o leitor a um juízo de valor. No texto de revista, pode-se atribuir acessórios subjetivos (por não possuírem uma referência padrão) como beleza, elegância, sofisticação e sensibilidade.

Em revista, o estilo é uma forma pessoal de expressão. Com muito cuidado, pode-se ter um texto estilizado que combine com a objetividade e com a narrativa literária. O estilo consiste na escolha de um elemento ao invés de inúmeros outros disponíveis, sendo vinculado ao tempo, ao espaço, à interpretação que o autor dá as experiências, leituras e toda sua relação com o que o cerca

O jornalista, conforme o autor menciona, não pode nesse gênero, esquecer-se das normas que o orientam no sentido do texto sedutor, bonito e prazeroso de se ler. O ato de escrever se renova a cada matéria escrita; técnicas literárias podem ser incorporadas a esse fazer criando uma literatura não ficcional.

2.3 Regras da diagramação: edição em revista A chave para o entendimento dos padrões editoriais do jornalismo de revista pode-se resumir a três termos, conforme Sodré (1972) afirma: a sensação, pela qual os ângulos espetaculares dos assuntos considerados dignos de interesse sejam abordados e, diferentemente de jornais, o 16

sensacionalismo ocorre com maior freqüência. O sucesso, “entende-se como a boa realização de um personagem (um indivíduo, um grupo, uma instituição, etc.) com relação ao optimum de prazer e satisfação estabelecido pela Ordem social” (SODRÉ, 1972, p. 47). Por fim, o relaxamento, que visa entretenimento do leitor e procura sempre, liberar-lhe os sentidos, evitando tormentos intelectuais.

Sobre diagramação e principalmente sobre edição, Vilas Boas (1996) afirma que a revisão do trabalho é de fundamental importância. Escrever para jornalismo é uma arte, questão de dom, entretanto, ser tolerante para reescrever é a própria essência do ofício, afinal qualquer erro ou engano que estiver presente no texto é passível de correção e a revisão existe exatamente para isso.

É preciso inspiração para escrever em revista sem perder de vista o estilo jornalístico. Vilas Boas (1996) ainda alega que para tal, é preciso se livrar da padronização. Uma boa reportagem deve ser fundamentada; não deve abrir mão da pesquisa, sob pena de alterar o espírito de investigação, curiosidade, desafio e surpresa, fatores esses, superiores.

Fato constatado, a primeira questão observada pelo leitor em uma revista são suas imagens. É o que chama a atenção do mesmo pelo fato de serem convidativas, sugestivas e, até mesmo, esclarecedoras de acordo com Scalzo (2006). Mesmo assim, sua colocação na página também deve ser cuidadosamente pensada. As figuras, ilustrações e imagens na diagramação e montagem da página, devem ser posicionadas estrategicamente de forma com que ganhem maior visibilidade.

Legendas são obrigatoriamente aplicadas embaixo de qualquer imagem – que é o lugar onde os leitores já estão habituados a procurá-las – e preferencialmente, abordando de forma inteligente o que está contido na imagem. Isso contribui para tornar a leitura prazerosa e facilitada.

Fato importante para a realização da edição e diagramação do texto em revista é seu valor e contemporaneidade. Revistas elaboram matérias de acordo com critérios de valor e atualidade. Vilas Boas (1996) a define como a realização do prognóstico futuro para o desdobramento, a descrição do decorrer do presente. Informatização não garante qualidade de informação e 17

novamente o autor reforça a idéia de que, para se escrever em revista é necessário muito mais, no caso, criatividade. A qualidade do texto é seu diferencial sendo conseqüência de um conteúdo bem elaborado e criterioso.

As técnicas para edição jornalística consistem também – e muitas vezes, principalmente – na compreensão do fato e apresentação do mesmo por completa, sem deixar margens para dúvidas. Para isso, saber sua localização em espaço tempo são essenciais até mesmo para considerar a sua relevância dentro da publicação. Nesse contexto, “a rede noticiosa cria uma seqüela importante: os fatos passíveis de registro serão aqueles que ocorrerem na zona de alcance do veículo”, de acordo com Pereira Júnior (2009).

São fatores condicionantes do planejamento de uma notícia ter que enfrentar o “pouco tempo” disponível dedicado à produção da matéria – tempo esse que na verdade, não é necessariamente reduzido, mas sim, insuficiente para a demanda da produção – além das limitações relacionadas a deslocamentos e espaço. Mesmo diante desses fatores, a mídia impõe sua identidade para que sua relação com seu destinatário (seja ele leitor, ouvinte, receptor ou telespectador) seja estabelecida, conforme afirma Pereira Junior (2009):

O primeiro de todos os critérios de identidade, que vão afetar o planejamento da notícia, é a linha editorial de um veículo ou a que veio uma editoria. Isso significa, diz Sidney Basile em Elementos de jornalismo econômico, ‘comunicar o ponto de vista’ do produto enquanto emitimos informação. (PEREIRA JUNIOR, 2009, p. 95)

A importância da ordem das palavras, imagens e textos em uma revista atraem ou dispersam a atenção do leitor. É de suma importância que as informações contidas nesse veículo demonstrem porque importam e contribuem para a vida e realidade de quem lê; não apresentar esse cuidado pode parecer distração ou falta de consideração com o conteúdo e a qualidade daquilo que é publicado. Para Pereira Júnior (2009), “a forma que assume um título, por exemplo, vai tornar a página mais dinâmica e viril, mas principalmente define a leitura que o produto faz dos assuntos que cobre”.

A primeira página, ou seja, a capa, é destinada à miscelânea de fatos e acontecimentos, desempenhando o papel de um menu. Eliminar da mesma o excesso, facilita e torna a leitura

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mais atraente por oferecer menos esforço; estabelecer uma harmonia entre as unidades faz com que os fatos se correspondam.

Recursos como fazer uso de infográficos (que nada mais são do que informações desenhadas, em linguagem ilustrada e que obrigatoriamente devem ser claros, atrativos e rápidos de ler), contribuem para uma leitura enriquecida para o leitor. A infografia desempenha o papel de representar graficamente os mais diversos conteúdos, através do esclarecimento de relações e demonstração de escalas, explicando e exemplificando fenômenos.

Sumários ilustrados, micro informações complementares, intervenção estética nas fotos tornam mais vistosas e potencializam a carga informativa de cada página, conforme Pereira Júnior (2009).

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3 JORNALISMO, REVISTA E SEGMENTAÇÃO A trajetória histórica do jornalismo no Brasil tem início em uma necessidade: a necessidade, por parte do indivíduo, de ter acesso às informações, dominar e ter conhecimentos sobre a vida social, o que caracteriza uma premissa essencial. Saber o que se passa, como se passa, onde acontece e porque ocorre; essa curiosidade pertinente e provinda do público sucinta a vocação para os ‘contadores de história’, dados jornalistas.

“Informar e informar-se constituiu o requisito básico da sociabilidade” (MELO, 1985, p. 11). Todo esse desejo por conhecer aquilo que diz respeito a uma determinada situação, que explique o desdobramento de um acontecimento, que informe um fato, seja ele pertinente a atualidade ou referente a um período passado, é um processo que faz parte da natureza do homem.

Diante desse contexto, parâmetros muitas vezes erroneamente confundidos, precisam ser estabelecidos: comunicação, informação e imprensa. Sodré (1972) simplifica a noção de comunicação resumindo a mesma à troca de informações (abrangendo estímulos, imagens, símbolos e mensagens), que só se torna possível através de um conjunto de regras, explícitas e implícitas, denominadas códigos. Ainda segundo o autor, a informação por sua vez, tem como finalidade ordenar e reordenar a experiência social do cidadão promovendo o seu convívio com setores contingentes.

Para Rodrigues (1994), a informação pertence à esfera da transmissão (do emissordestinatário) enquanto que a comunicação é intersubjetiva, surgindo e emergindo na perspectiva particular e singular dos indivíduos. A ênfase da comunicação humana está centrada intimamente nas trocas que se estabelecem entre as pessoas, através daquilo que é denominado “estímulo-resposta”.

Por fim, o termo imprensa, que implica em uma nomeação daqueles veículos que exercem funções relacionadas à comunicação informativa e ao jornalismo, em oposição à comunicação de entretenimento e propagandas.

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A própria imprensa, que viabilizou tecnologicamente o jornalismo, também surgiu como resultado de crescentes exigências sócio-culturais que se manifestaram na nascente engrenagem burocrática, nas operações mercantis e financeiras que movimentavam as cidades, na circulação mais rápida das idéias e dos inventos que tornaram a reprodução do conhecimento um fator político significativo. (MELO, 1985, p. 12)

Sendo assim, o surgimento da imprensa ocorreu articulado aos interesses da sociedade vigente com o claro objetivo de manter a população informada sobre os acontecimentos da época. O que a sociedade pretende é informação e entretenimento rápido e objetivo, que de acordo com a lógica de Rodrigues (1999), são manobras como a segmentação de conteúdos que passam a ser benquistas a fim de que sejam satisfeitas as necessidades especializadas e individualizadas.

Já o jornalismo, embora apresente uma natureza política (devido ao seu surgimento em folhetos, avisos e gazetas que indicavam manifestações do povo contra o governo e atendiam as necessidades da população), nasceu como um processo social. Trata-se de uma publicação que mantém regularidade quanto a sua circulação e que se conserva ativa devido à contínua de fatos atuais e até mesmo, ao capitalismo.

A prática jornalística assume hoje, conforme Melo (1985) uma fisionomia peculiar, composta por um comprometimento no exercício do poder político, apresentando e defendendo pontos de vista, propagando informações e juízos, além de causar o debate das mesmas.

Quanto à segmentação e a fragmentação do mercado, discute-se através de teorias apresentadas por Anderson (2006) a existência de uma transformação do mercado de massa, dominado por grandes hits – aquilo que a grande maioria adere e se interessa – para um mercado de inúmeros nichos e de micro-hits – mais segmentado, voltado a um público de menor consistência.

Justificando essa nova alternância, em que há uma transição de mercados, a liberdade de escolha e a ausência de limitações são tidas como os principais desencadeadores da formação de novos mercados. Reconhece-se a existência de demanda para a cultura de massa, mas a mesma deixou de ser o único mercado - os novos nichos compõem o mercado de variedades. Esse novo mercado movimenta e influi tanto na comunicação, quanto nas indústrias sendo 21

possível afirmar que hoje, o mercado de massa e em maioria o mercado de nichos, dividem o mesmo palco, o mesmo espaço.

Através da disposição de novos meios de se obter conhecimentos e informações referentes aos novos (ou já existentes) produtos, a população se vê diante da situação do afastamento: quando mais se encontra distante dos caminhos já conhecidos, conclui que suas preferências não são convencionais como imaginava.

Como Anderson (2006) afirma, a economia movida a hits impede que o mercado de massa seja consumido como um todo pelo seu público, por apenas fornecer em alta escala o que “vende mais”, o que é aproveitado em sua maioria, relegando aos que não fazem parte desse grupo àquilo que é de seu agrado. Esse é o mundo da escassez que está sendo substituído pelo mundo da abundância de opções. O que também pode ser visto em veículos de comunicação, como jornais, revistas, sites, e outros que , especializados, têm chamado a atenção do público.

3.1 O jornalismo especializado: segmentação em revista Tudo aquilo que é diferenciado, exótico, variado, modificado, certamente, chama atenção. Nas mais diversas esferas da vida (profissional, pessoal, emocional, dentre inúmeras outras) essa observação prevalece. E da mesma forma que na sociedade essa hipótese se firma, no jornalismo ela também se fixa.

O jornalismo especializado se funda em uma a abordagem perspicaz e restrita a uma categoria de temas. Após a escolha de um assunto, a prática jornalística deve ser executada por um profissional que tenha amplos conhecimentos sobre ele e o domine.

Exercer o jornalismo especializado requer cuidado. Existem benefícios em se tratar e conhecer melhor sobre um único tema, assim como aprofundar nele pode desencadear reações nada positivas para o meio jornalístico. O profissional pode se encontrar em situação monótona e, por ter domínio e autoridade sobre o texto e sobre o que ele aborda, pode se esquecer das necessidades de aprofundamento do tema vindas do leitor que não são nada óbvias como são para quem escreve.

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O leitor tem que ser apresentado e informado com exatidão sobre a que remete o assunto, mesmo que já o prepondere. Fato esse que não pode ocorrer através de uma linguagem cifrada, codificada, intimista, fazendo uso de termos técnicos e de difícil compreensão.

Para Scalzo (2006), em revista, essas circunstâncias mencionadas (referente à linguagem e aos cuidados com a abordagem repetitiva de um mesmo tema), se tornam ainda mais passíveis de acontecer – entretanto, nada que implique em regra. A alternativa é fazer uma tradução da linguagem burocrática para o leitor comum, tornando-a simples, clara e concisa. “Um bom exemplo contrário a esse é o de uma revista como a Superinteressante, que trata de assuntos científicos, muitas vezes áridos e polêmicos, em linguagem acessível para seus jovens leitores” (SCALZO, 2006, p. 56).

De acordo com afirmação de Vilas Boas (1996) os tipos de revistas também podem ser determinados conforme três grupos estilísticos: as ilustradas, as especializadas e as de informação-geral. A especialização de cada uma delas vai firmar de acordo com a temática ou com a segmentação de seus leitores. Mais que os outros veículos de comunicação, a revista precisa definir seu público para garantir sua sobrevivência no mercado. Vilas Boas (1996) especifica que, quanto mais amplo e mais de massa for o público pretendido por uma revista, mais o repertório lingüístico fará uso de formas tradicionais confirmadas socialmente.

Já no jornalismo especializado, existem riscos inerentes a esse exercício. O jornalista pode se ver circunscrito em um determinado tema, acreditando que o mundo gira em torno dele e diminuindo assim, sua capacidade para percepção de outros fatos. Manter um nível de excelência com novidades e surpresas conforme Scalzo (2006), também é outra dificuldade encontrada, já que o leitor, habituado a se informar sobre o assunto, também domina bem o fato.

Mais um impasse se consolida no jornalismo especializado quando cobra-se do jornalista uma linguagem simples e não de baixa qualidade; as informações complexas, de difícil compreensão, devem ser mantidas e explicadas e não simplificadas. O que deve ser facilitado é a leitura, afinal a informação tem que se manter intacta, íntegra e em sua conotação original – pois seu público leitor também pode ser constituído por especialistas.

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Investir, nesse ramo específico, implica em pensar e elaborar explicitamente, uma identificação entre revista e público. Essa seria uma questão estratégica na tentativa de garantir um mercado, necessitando de foco.

Os tipos de segmentação mais comuns são os por gênero (masculino e feminino), por idade (infantil, adulta, adolescente), geográfica (cidade ou região) e por tema (cinema, esportes, ciência...). Dentro dessas grandes correntes é possível existir o que já nos referimos como ‘segmentação da segmentação. (SCALZO, 2006, p. 49)

A personalização, de um veículo de comunicação consiste em se aproximar ao máximo da individualidade de cada leitor. E essa tarefa ficou a cargo da Internet, já que, em revista, existe o entrave de imprimir inúmeros exemplares quanto seus leitores. A revista especializada fica com a opção de, assim, se dirigir não à massa, e nem à minoria, individualizada. Situa-se em um meio termo. Sua capacidade é a de gerar identificação e reafirmar identidades de grupos e interesses específicos.

Para que uma revista nova e especializada se mantenha no mercado, é preciso descobrir novas tendências, encontrar um ponto diferenciado mesmo que em um tema já abordado. Para Scalzo (2006), fazer uso das tecnologias para economizar e poupar (na redução dos custos de uma publicação), para direcionar o veículo a grupos menores, reduzidos, pode ser, até mesmo, uma escolha plausível – contanto que mantenha a essência de veículo informativo sem depender por completo da publicidade.

3.2 O jornalismo opinativo x a publicidade no jornalismo O Jornalismo Opinativo ou de opinião surge, conforme Melo (1985), no mercado em meados dos séculos XVII, XVIII e XIX caracterizado pelo domínio de vontades, desejos e interesses de políticos e daqueles que, de certa forma, mantinham as empresas jornalísticas. A mídia era, portanto, utilizada como um meio quase que exclusivo de comunicação desse grupo, que a utilizavam para tomada de decisões, afirmações e discursos. É exatamente por conta desse desfecho histórico que a imprensa ganha o título de “quarto poder”; devido a sua capacidade de atingir a sociedade e manipular – ou influir – no pensamento daqueles que através dela se informavam. 24

Apesar das críticas e dos críticos, a era do jornalismo de opinião acaba sendo uma fase fundamental na história da sociedade mundial, já que se constituiu como uma aliada poderosa nas lutas e bandeiras levantadas na modernidade. A imprensa tornase uma esfera pública em que os jogos entre os interesses públicos e os interesses privados são estabelecidos. (MARSHALL, 2003, p.80)

Da mesma forma, Melo (1985) constata que os meios de comunicação que penetram na sociedade são ‘aparatos ideológicos’ que podem atuar de duas maneiras: atrelados monoliticamente ao Estado, ou então, na perspectiva de influenciar e gerar consciência nas pessoas – não necessariamente sendo essa constatação um modelo ou prescrição.

O foco ou o tom dado a uma notícia (muitas vezes guiado pela opinião) é decorrente da linha editorial que a instituição jornalística adota. Preservar e manter uma relação de confiança com seu destinatário pode desencadear muitas vezes, um descompasso entre como o fato real é apresentado, a forma como é descrito e relatado ao longo da matéria – na finalidade de agradar e dizer exatamente o que o público deseja ler. Dessa forma, a intenção do jornalismo de opinião não é tratar ou dar valor a algo de maneira explícita mas sim, de acrescentar como um mecanismo de ideologia.

A seleção da informação a ser divulgada através de veículos jornalísticos é o principal instrumento de que se dispõe a instituição (empresa) para expressar a sua opinião. É através da seleção que se aplica na prática a linha editorial. A seleção significa, portanto, a ótica através da qual a empresa jornalística vê o mundo. Essa visão decorre do que se decide publicar em cada edição privilegiando certos assuntos, destacando determinados personagens, obscurecendo alguns e ainda omitindo diversos. (MELO,1985, p. 59).

Se discute, em larga escala, se a orientação que assume um texto jornalístico é determinada sob a ótica da empresa ou sob a ótica do jornalista. Entretanto, embora haja uma hierarquia caracterizada verticalmente dentro da redação – onde decisões fluem dos mais poderosos aos menos –, os jornalistas conseguem transmitir (mesmo que contrária a opinião da empresa) seu parecer. Isso ocorre até mesmo para que a tensão criada entre as classes patrão x assalariados seja quebrada e dê lugar a familiaridade, intimidade, dentro da redação e também, para dar espaço à algumas minorias que se encontram e se figuram em opiniões adversas e que assim, anulam mesmo que momentaneamente, a impenetrabilidade informativa.

A atuação do jornalismo opinativo de acordo com Melo (1985) é tida no princípio de todo o processo de elaboração de uma matéria: durante o estabelecimento do tema da pauta. “A pauta 25

reflete a idealização das pessoas que permanecem na redação e não daquelas que estão em contato direto com os fatos ou com os protagonistas das notícias” (MELO, 1985, p.62). Muitas vezes, a pauta se torna um leque de opções temáticas limitada por ser a função de um jornalista (o pauteiro) que se encontra só em seu escritório, gabinete ou mesa e que portanto, não têm tanta visibilidade do que ocorre ao redor.

No momento em que a imprensa atingiu seu patamar de “quarto poder”, sua estrutura obrigatoriamente foi reformulada, tornando-se conseqüentemente maior e assim, a expressão de opinião se fragmentou criando situações até mesmo conflitantes. Empresas, como já mencionado, priorizam obter o controle de suas divulgações, e em caso contrário, pelo menos assegurar o acompanhamento e a supervisão do que se torna notícia. Fato de suma importância para sua estabilidade, afinal, o domínio da informação transmitida aos indivíduos é fundamental.

Opiniões são manifestadas através das mais diversas vertentes no jornalismo, para isso, é de relevância, apresentá-las. O editorial é avaliado, por exemplo, como um “gênero jornalístico que expressa a opinião oficial da empresa diante dos fatos de maior repercussão no momento” (MELO, 1985, p. 79). É importante, todavia, ressaltar que essa opinião não se detém apenas aos proprietários da empresa jornalística, mas também, a todos aqueles que possuem participação na propriedade (como financiadores). O discurso contido em um editorial,

portanto, é direcionado à opinião pública – fato que ocorre com empresas que atuam na sociedade e que sustentam pensamento contrário ao do Estado.

Embora apresente opinião, o objetivo do editorial é quase que inalcançável quando se constata que hoje, ele é menos lido que no passado¹ - o que implica no fato do mesmo não conseguir atingir efetivamente grande parte da massa e com isso, não conseguir causar efeito e influenciar ideologicamente sobre o que se afirma. A justificativa para essa falha se encontra na própria estrutura do editorial (que apresenta poucos parágrafos e um texto extremamente intelectualizado, além de retratar um assunto que muitas vezes é visto como desinteressante) e também pelo seu público ser específico e limitado.

¹ MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo brasileiro. 1985. Página 82, 5º parágrafo, citação de JOBIM, Danton. Introduction au journalism contemporain. Paris, Nizet, 1957.

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Como

parte

do

jornalismo

opinativo,

o

comentário,

uma

prática

recente

na

história do exercício do jornalismo brasileiro, informa e resume fatos. Recorrentemente, o comentarista é aquele que possui ampla bagagem cultural, alguém que tenha vivenciado as mais diversas eventualidades para que assim, tenha aval para emitir com credibilidade, opiniões e valores. “É um analista que aprecia os fatos, estabelece conexões, sugere desdobramentos, mas procura manter, até onde é possível, um distanciamento das ocorrências” (MELO, p. 85, 1985).

Entretanto o que se afirma não torna necessariamente um comentarista, um jornalista neutro. Na verdade o que ele faz é deixar explícita sua opinião, atuando como “agente da notícia” conforme Melo (1985) explica. O comentarista não pretende se elevar a uma dignidade maior para mais tarde, fazer uso de vantagens. Ele assume o posto em que julgar a notícia, orientando e conduzindo o seu destinatário, faça parte de um processo natural e sem artimanhas.

Em resumo, no jornalismo ainda se encontram demasiados gêneros opinativos, sendo eles: o artigo, que como pré-requisito exige atualidade dos fatos e opinião (pois o sentido do gênero se encontra justamente na opinião daquele que o escreve, sendo jornalista ou não), que desenvolve e aborda um fato e uma idéia; a resenha ou crítica que consiste em uma análise, realizada por jornalistas que apreciam obras de arte e produtos culturais e que se destinam especificamente ao público consumidor desse tipo de informação, mantendo um diálogo com os produtores desse mercado. “[...] configura-se então, como gênero jornalístico destinado a orientar o público na escolha dos produtos culturais em circulação no mercado” (MELO, 1985, p. 99).

A coluna por sua vez – que também recebe o nome de seção devido ao seu posicionamento e freqüência fixa dentro de uma página seja ela de revista ou jornal – é uma parte especializada, que aborda um determinado tema, escrita de forma simples e pessoal e que carrega a assinatura de seu autor. Por apresentar personalidade, instiga o público leitor e ascende sobre o mesmo na formação de opinião. São dessa forma, “pontos de vista apreendidos de personalidades no mundo noticioso. Trata-se de uma colcha de retalhos, com unidades informativas e opinativas que se articulam. São pílulas, flashes, dicas” (MELO, 1985, p. 106). 27

Tratando-se de crônica, Melo (1985) contribui ao afirmar que a mesma já está definitivamente estabelecida no jornalismo praticado no Brasil. Ela narra os fatos, respeitando a temporalidade dos mesmos, relacionada geralmente com a atualidade para que em um futuro sirva como um documento. Por tratar de assuntos de importância no cenário social, realiza comparações em espaço e tempo entre situações semelhantes, dirigindo remoques àquilo que está sendo abordado, incitando o leitor.

Por fim, os dois últimos gêneros opinativos do jornalismo que são: a caricatura que faz uso de imagens e ilustrações para promover uma idéia. Devido a sua ferramenta de trabalho ser o desenho, na maioria das vezes a caricatura consegue influir de forma mais abrangente sobre a massa expectadora por essa última não ser constituída apenas por ávidos por leitura. A opinião na caricatura torna-se evidente pelas freqüentes críticas, sátiras e doses humorísticas que exprimem e enunciam juízos de valor. E finalizando, a carta, que é um espaço reservado à opinião do leitor, tendo a oportunidade de participar da produção jornalística. Nessa medida, ele expõe seus pontos de vista, emoções, lamúrias, reivindicações.

Adentrando sobre a publicidade, é possível perceber o quão conflituosa é a relação da mesma com o jornalismo, e especificamente, o de opinião. A questão do uso de juízo de valor, de demonstrar preferência em relação a algo ou a um produto, podem ser confundidos facilmente, com o exercício de uma prática publicitária em meio a um texto jornalístico.

Problemática, essa relação da publicidade no jornalismo precisa antes de se estabelecer, impor seus limites territoriais. Primeiramente pelo fato do cliente de cada um desses setores já obter seu perfil traçado – sendo este, completamente distinto. Os clientes de publicitários são anunciantes, compradores de espaços em veículos de comunicação em que a propaganda será anunciada. Já os clientes dos jornalistas consistem no público alvo da mídia em questão, sendo eles os leitores. Ou seja, nem sempre os interesses dos leitores e anunciantes são semelhantes, conforme Scalzo (2006) explica.

Os anúncios, de maneira geral, são de extrema importância na garantia da sobrevivência de uma revista. Quando o setor de publicidade realiza suas obrigações em se informar com a redação sobre quais serão as pautas das reportagens publicadas em uma próxima edição,

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podem contribuir positiva e financeiramente com a empresa, pois, através dessa iniciativa, recorrem a anunciantes cujos produtos coincidem com os temas das matérias.

Apesar da relevância da publicidade, é a credibilidade adquirida pela revista diante de seus leitores, através das informações nela publicadas com seriedade e comprometimento, o que realmente importa. É a credibilidade que agrega valores ao veículo. A empresa deve deixar evidente, não apenas para aqueles que nela trabalham, as suas regras, como também, para seu público. E essas normas, por sua vez, devem ser compartilhadas dentro da organização sem qualquer tipo de impedimento entre as partes (jornalistas e publicitários), preferencialmente escritas e não apenas verbalmente ditas para evitar desordem e oposições de interesses.

Tais normas deixam claro que uma página de publicidade deve ter diagramação bem diferente daquela de uma página editorial; que a assinatura do anunciante deve ser explícita e facilmente identificada pelo leitor; que os jornalistas não podem produzir peças de publicidade para a revista em que trabalham; que nenhuma publicidade pode aparecer na capa da revista; que o anúncio não deve ficar perto de matérias que se relacionem ao produto anunciado; que o diretor de redação deve aprovar todas as páginas de publicidade em nome de seu leitor. (SCALZO, 2006, p. 85).

O jornalismo tem se convertido diante das novas exigências do mercado. Segundo Marshall (2003), a razão para que isso aconteça está enraizada no neoliberalismo. Conclui-se que o universo da informação tem sofrido alterações propagadas em seus inúmeros departamentos, desde unidades culturais às estéticas. Fato esse que tem diminuído o jornalismo em si a “uma simples esfera de sustentação para interesses eminentemente comerciais”. Diante de tais fatos, a imprensa contemporânea ganhou nova conotação diante de seu público, pois muito embora seja uma empresa cuja função é pública, a mesma opera com recursos e interesses privados.

Frente a isso, o jornalismo se encontra em uma nova versão: agora, o que prevalece é a descoberta de padrões que sejam atrativos para compradores que, conseqüentemente, sustentem a empresa jornalística pela qual criam o vínculo através de seus investimentos.

[...] um novo paradigma começa a nascer no universo do jornalismo. A lógica do capital e do livre mercado flexibiliza o conceito e processo do newsmaking e a informação transforma-se em um campo de negociação e barganha de interesses, submetida às regras e às determinações do marketing empresarial. (MARSHALL, 2003, p. 27).

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A publicidade assume hoje um papel fundamental no desenvolvimento do mundo capitalista conforme sua gigantesca contribuição, tendo até mesmo redirecionado as esferas das relações pessoais, sociais, econômicas e políticas, da comunicação da cultura, podendo ser vista em qualquer produto, afinal, vivenciamos uma sociedade de consumo. Hoje, ela chega a dominar até 60% do espaço das revistas e jornais americanos, conforme explica Marshall (2003).

E generalizando, hoje tanto no rádio quanto na televisão é a publicidade que provém sucessivamente às despesa feitas com o trabalho jornalístico. Um dos maiores jornais impressos do mundo, o New York Times, tem seus gastos pagos em pelo menos em 70% através de vendas publicitárias. Devido ao bombardeio de aparições da publicidade em jornais, o que se ouvia durante longos anos eram reclamações referente a ela. O que se constata atualmente, é que a sociedade de consumo a requer.

A publicidade é desejada; muitos que possuem acesso a veículos midiáticos, ao invés de consumirem as informações, se deleitam com as propagandas. Nem sempre vista com rejeição, existe em meio a totalidade do público, aqueles que satisfazem lendo, vendo ou ouvindo uma propaganda tanto quanto se no lugar dela, estivesse aquele espaço reservado a uma notícia.

De maneira curiosa, o que se sabe é que os primeiros anúncios não tinham a pretensão de render um ganho à empresa de jornalismo – seu valor era meramente informativo. Contrário a esse quadro e reafirmando as teorias anteriores de Marshall (2003), segue:

No Brasil, desde o seu início, a televisão se caracterizou como um veículo publicitário. Fazem parte da história da indústria cultural brasileira, programas como Gincana Kibon, Sabatina, Maisena,Teatrinho Trol, Telenotícias Panair, Repórter Esso, Telejornal Bendix [...] produções integralmente subsidiadas por empresas por empresas anunciantes e formatadas por agencias de publicidade. (MARSHAL, 2003, p. 109).

O que se constata na atualidade é que a realização do jornalismo só se dá através do custeio da publicidade. Entretanto, vale ressaltar que os princípios do jornalismo devem superar

qualquer dependência da mesma, caso contrário, representará somente os valores morais e os princípios ideais da conduta capitalista. Produtos jornalísticos precisam estar adaptados ao

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consumo, correspondendo ao que a massa deseja no quesito que responde as opiniões, gostos, dentre outros elementos.

Nessa perspectiva, a publicidade não aceita mais apenas fazer vizinhança com o jornalismo. Portadora dos interesses do capital, a publicidade pressiona o jornalismo a operar na mesma lógica. A publicidade acossa o jornalismo, submete-o às mesmas regras e valores do capital, obrigando-o a relativizar seu compromisso com a verdade e com o interesse público. (MARSHALL, 2003, p. 115).

Até mesmo a veracidade dos fatos passa a ser questionada. Tudo que envolve o processo de criação de uma matéria se flexibiliza a favor do mercado, desde a mudança na notícia que passa a afirmar aquilo que a audiência anseia escutar até o conceito da informação, razoavelmente adaptada na finalidade de suprir as necessidades do mercado. “O financiamento das empresas, refletido nos anúncios comerciais nos jornais e nas revistas provoca, muitas vezes, influências diretas em todas as esferas da cadeia jornalística” (MARSHALL, p. 116, 2003). Constatado o fato do jornalismo como um negócio, acredita-se precisar mais uma vez, reformular o newsmaking.²

3.3 Um novo nicho e uma nova construção do fazer midiático

Ao identificar uma cultura de nichos é preciso especificar o processo que a engloba, no caso, denominado a Cauda Longa. A Cauda Longa é constituída pelo que supre as necessidades da demanda dos menores nichos, aqueles que não se encontram dentro do mercado de massa, dos grandes hits. Obviamente, apresenta também o que é desnecessário e descartável, mas em igual proporção àquilo que se encontra dentre os grandes hits e que não é aproveitável.

O que se constata como o primeiro grande atrito das produções dos hits e a permanência dos mesmos é que o mercado consumidor passou a se deslocar para áreas menos dominantes (através da ascensão de novas mídias, pela própria tecnologia) dispersando-se para inúmeros subgêneros diferentes.

² A teoria do newsmaking foi criada na finalidade de compreender e estabelecer a função do produtor de notícias,

estudando o profissional jornalista. WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa: Editorial Presença, 1995.

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[...] A cultura deslocou-se do que antes era mania de seguir as multidões até o topo dos gráficos para a busca efetiva do próprio estilo e para a exploração das trilhas que se afastam das tendências dominantes, onde se depara com a relativa obscuridade e com o retorno dos clássicos. (ANDERSON, 2006, p. 35).

Constitui-se cada vez mais tribos cuja coesão decorre da afinidade e dos interesses comuns: a cultura de massa, não mais definida por questões geográficas e sim por pontos semelhantes define uma nova cultura, a de nichos.

Nessa perspectiva, discute-se o surgimento de tribos urbanas. Constata-se que a multiplicidade favorece a emergência do sentimento coletivo, assim como a ambiência emocional que emana do desenvolvimento tribal. Maffesoli (1998) afirma que a idéia de extensibilidade do eu, um ego relativo e extensível, pode ser uma alavanca metodológica das mais pertinentes para a compreensão do mundo contemporâneo. Por sua vez, a distinção é uma noção que talvez se aplique à modernidade, entretanto, ela é inadequada para descrever as formas de agregação social por possuírem contornos indefinidos.

A criação das tribos é mais importante que qualquer outro aspecto, mais essencial que seu objetivo e finalidade – a energia despendida para a constituição de um grupo como tal. De forma controversa, a tribo tem propriedade de enfatizar aquilo que está próximo como pessoas e lugares, mas esta é também uma tendência a fechar-se sobre si própria.

Existem em todos os mercados mais nichos que hits, sendo que os custos para atingir tais nichos têm caído drasticamente, resultando em uma maior variedade de produtos. Tantos são os produtos de nicho que se torna possível, ao os unir como um todo, rivalizar com o mercado de massa, ou seja, com os hits. Em síntese, a cauda longa conforme Anderson (2006), nada mais é que a cultura sem os filtros da escassez econômica. A cauda aumenta quando se há democratização das ferramentas de produção, que em conseqüência reduz os custos de consumo e por fim, empurra a demanda cauda abaixo devido a ligação entre a oferta e a demanda.

Quando se fala da influência da cauda longa na mídia, especificamente escrita, muitos escritores preferem nadar contra a corrente (é trabalhosa a aceitação no mercado de massa, pois exige concessões) quando se diz respeito a quê será abordado em sua obra. Assim sendo, 32

apenas querem ser lidos por algum grupo de afinidade, atingindo conseqüentemente, um novo nicho. Isso não implica na inexistência de um público em potencial, a questão é apenas o tamanho desse público.

Não se produz apenas para obter remuneração, mas principalmente, porque se deseja – e ambos os tipos de atividade podem ser de grande valia. O que se parece constatar é que hoje, existe menos demanda por grandes hits que por conteúdo especializado, com alvo certo que não se destina a todos. O importante é simplesmente a existência do produto e sua fatia de público; não se trata de criação do comércio tradicional, com fins lucrativos – apesar de competir com ele.

Através do surgimento de novos formadores de preferência (aqueles cuja opinião é respeitada), dá-se a formação de novos nichos. Pessoas confiam em pessoas iguais a elas ou em seus pares, o coletivo passa a controlar a mensagem. A propaganda boca a boca se torna uma conversa pública, o efeito feedback das recomendações que sofreram até mesmo adaptações constituem a questão que impulsiona a demanda. Em ambos os mercados (de nicho e de hits), o que o consumidor almeja é que seu produto vá além do quesito atrativo, mas que tenha um forte substrato de aficionados e comentários positivos.

Trata-se de uma geração em que o consumidor é capaz de medir os padrões de consumo, as inclinações e as preferências de todo um mercado de consumo em tempo real. É através do “boca a boca” que empresas e empresários exploram o sentimento dos consumidores para ligar oferta à demanda.

Anderson (2006) discute que diante do mercado, os produtos de nicho, diferentemente dos produtos de massa, se destinam a conquistar com mais intensidade uma faixa evidentemente estreita de gostos. “Elas não só impulsionam a demanda cauda abaixo, mas também podem aumentar a satisfação, ao ligar as pessoas a produtos mais compatíveis com as características delas do que ofertas de amplo apelo que se concentram no topo”. (ANDERSON, 2006, p. 117).

As influências da cauda longa na mídia e a criação de novos nichos é vasta. Existem duas caudas longas que estão transformando o jornalismo na atualidade: a do tempo, que 33

corresponde a uma troca dos valores-notícia através da temporalidade e, a cauda que se refere à abundância de conteúdo, que é representada por blogs, isto é, ao fato de que essas publicações pessoais competem com a mídia tradicional pela atenção do leitor.

Interessante compreender que a cultura de nichos não cria nenhuma exclusão. Pelo contrário, fragmenta-se e reagrupa-se em torno de outras dimensões. Em um futuro próximo, a cultura será baseada em afinidades sendo também maciçamente paralela. “A cultura de massa pode desaparecer, mas a cultura compartilhada perdurará”. (ANDERSON, 2006, p. 190).

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4 REVISTA RAGGA, PUBLICIDADE NO JORNALISMO E A CARACTERIZAÇÃO DE UM SEGMENTO

Este capítulo apresenta um estudo de caso da Revista Ragga, um veículo de comunicação impresso pertencente ao Grupo Diários Associados, que por sua vez, constitui o sexto maior conglomerado de empresas de mídia do país. De veiculação mensal no estado de Minas Gerais, a revista Ragga aborda como sua temática principal: moda, comportamento, cultura, esportes radicais e estilo de vida.

A partir da discussão já realizada sobre publicidade no jornalismo, segmentação da mídia, jornalismo especializado e opinativo e a delimitação de um público leitor constituinte de uma nova tribo urbana (unificada por interesses iguais), foi elaborada uma análise histórica e qualitativa do título.

A finalidade dessa pesquisa é, através do embasamento teórico, constatar e compreender a designação dos temas apresentados pela Ragga (a quem se dirige, como e porquê se dirige), reconhecer o perfil de seus leitores visualizando as identidades culturais que possam estar implícitas e compartilhando de um mesmo espaço e interesse social, e sobretudo, verificar a existência de uma prática jornalística com viés publicitário, pela qual o jornalismo opinativo se torna predominante – mesmo quando se trata se matérias cujo cunho seja informativo – e não necessariamente noticioso.

4.1 Panorama histórico da Revista Ragga A Ragga surgiu através da união de um trio de profissionais (Bruno Augusto Dib e Silva, cuja formação profissional é em marketing e publicidade, Lucas Fonda Francisco e José Antônio Toledo Pinto, formado em engenharia civil) cuja finalidade era de poder levar aos jovens mineiros um conteúdo ‘inteligente e informativo’ que despertasse o interesse pela leitura de um público, até então, desinteressado e até mesmo, carente de um veículo que se comunicasse diretamente com eles (devido a inexistência de revistas e veículos de comunicação do gênero), com linguagem atual (conforme seu palavreado e expressões) e descontraída. Seus fundadores foram os empresários Lucas Fonda, Bruno Dib e Antônio Toledo. Feita de jovens para jovens, a Ragga ganhou considerável visibilidade no estado de Minas Gerais. 35

Conforme o web site do grupo Diários Associados (www.diariosassociados.com.br) acessa-se a descrição e composição da revista Ragga. Trata-se de uma publicação de porte que contém 80 páginas de projeto gráfico e de fácil acesso quando se considera que a mesma é distribuída, e não vendida, em pontos estratégicos de Belo Horizonte (locais pelos quais os jovens freqüentam). Seu núcleo de produção é formado por jovens, que por sua vez, são os mais indicados para falar com igual público. Em suas matérias, a Ragga retrata temas e assuntos atuais sobre comportamento, esportes, diversão, moda, tendências, cultura, música, cinema, dentre outros.

Esse padrão é seguido desde o mês de junho de 2005, quando a revista Ragga começou a circular, tendo passado a integrar o Diários Associados somente em 2007, quando ganhou um ainda mais espaço e possibilidade de atingir um público maior. Manteve, no entanto, sua premissa de ser pautada pela liberdade que inspira os esportes extremos ou radicais. A revista tem a pretensão de produzir no seu público leitor emoções, refletindo o estilo de vida de uma juventude determinada, com poder aquisitivo para consumir, que aprecie adrenalina e que se interesse e conscientize da necessidade de um desenvolvimento sustentável.

A revista surge apresentando qualidade editorial, visual e gráfica inéditas até então para a região metropolitana – especificamente, para o público jovem. Torna-se o principal veículo de comunicação impresso de nicho do estado, tendo como proposta mostrar aos leitores que Minas Gerais é inspiração e a concretização de um cenário para a prática de esportes, além de ser um lugar onde os jovens se preocupam com saúde, bem-estar, qualidade de vida e desejam se manter sempre bem informados.

Assim como outros veículos de comunicação, um dos objetivos editoriais da revista Ragga é contribuir para a formação de opinião, com foco na produção de retratos e representações daquilo referente à geração – que se encontra em constante evolução – cujo desejo é priorizar o bem estar.

Em setembro do mesmo ano, a Ragga assume o campeonato mineiro de wakeboard resultado de uma parceria com a Concave, uma marca de produtos fabricados e direcionados ao esporte mencionado – realizando diversas etapas em todo o estado e colaborando através dessa abertura e investimento, para a difusão e o crescimento do wakeboard na região. 36

Durante a passagem do ano de 2005 para 2006, a Ragga adentra o mercado de surf, agregando às suas páginas a divulgação das principais marcas do segmento. Foi também no mesmo período que a publicação lançou duas novas seções: os ensaios das Ragga Girls (que apresenta jovens esteticamente bonitas do estado em fotos sensuais e textos curtos em uma abordagem sobre as mesmas) e a seção Adote um atleta, que possibilita apoio à profissionalização de esportistas.

Durante janeiro de 2006 a revista participou da elaboração e divulgação junto ao Convention and Visitors Bureau de Belo Horizonte da campanha Eu Amo BH Radicalmente, fomentando o mercado de turismo mineiro, tendo como principal atrativo à prática de esportes de ação.

Em junho do mesmo ano, a edição comemorativa de um ano da publicação foi marcada pela realização da segunda etapa do Circuito Nacional de Wakeboard em um evento que reuniu cerca de 3 mil pessoas para comemorar o aniversário da revista. Nesse período, a Ragga também foi selecionada para batizar uma linha exclusiva do veículo Gol da Volkswagen – ação que reforçou a fixação da marca e resultou em vendas satisfatórias do veículo.

No mês de setembro (2006) a Ragga recebe o reconhecimento da Associação Brasileira da Indústria Gráfica Regional de Minas Gerais (Abigraf-MG) com o prêmio mineiro de excelência gráfica, justificado através de uma ‘comprovação da qualidade do material da publicação’. Já em outubro foi criado o departamento Ragga Eventos, pela qual a revista Ragga e a marca Ragga ingressam como realizadora cultural e esportiva no mercado, efetuando eventos próprios e institucionais, assim como para outras marcas.

Em janeiro do ano de 2007 é realizado um acordo com a Federação Brasileira de Wakeboard, estabelecendo a Ragga como realizadora de todas as etapas do Circuito Brasileiro de Wakeboard do ano. No mês seguinte, a revista dobra sua tiragem e passa a ser distribuída em mais 12 cidades do interior de Minas Gerais – além da consolidação de uma parceria com a rádio 98 FM, passando a fazer parte do plano da emissora através do pequeno programa ‘Ragga 98, direto da redação da revista’, abordando temas como: saúde, esportes e comportamento jovem.

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Junho de 2007 é marcado pelo aniversário de dois anos da revista Ragga, que realiza nova parceria – dessa vez, de abastecimento de conteúdo jovem para o portal UAI. Já em Outubro o veículo contrata novos profissionais e faz uma revolução na linha editorial e gráfica da revista. É assumida a “postura 2.0”, como foi denominada a iniciativa que previa dar maior autonomia e espaço ao leitor para participar e opinar sobre as publicações, criando um canal de interatividade com o público.

Durante o mês de novembro (2007) é selada a sociedade com o grupo Diários Associados, ao qual pertence o jornal Estado de Minas, TV Alterosa, portal UAI, jornal Aqui, rádio Guarani FM, teatro Alterosa e Alterosa Cinevídeo. A Ragga torna-se responsável pelo núcleo de conteúdo jovem do grupo.

No ano seguinte, especificamente no mês de fevereiro de 2008, é criado o mais novo segmento da revista Ragga. Batizado de Ragga Drops, o caderno veiculado toda quinta- feira no jornal Estado de Minas é direcionado a um público ainda mais jovem, ampliando seu nicho de atuação para um veículo de comunicação cujo público leitor inicia-se dos 13 aos 29 anos de idade, em Minas Gerais.

Em abril é lançado o departamento de promoções e em Julho (2008) a revista Ragga completa mais um ano de mercado (o terceiro). Esse fato se refletiu em parcerias, com grandes empresas enquanto anunciantes, em uma convergência de conteúdo entre seus veículos e com o lançamento de um novo portal de notícias. Foi também nesse período que a Ragga lançou a Editora Ragga, responsável por outras publicações impressas e suplementos.

A revista Ragga reproduz a capa da primeira revista já publicada no país, “O Cruzeiro”. O fato que remete à extinta publicação do Grupo Diários Associados e que marcou a história do Brasil ocorreu durante o mês de Novembro de 2008 .

Em abril de 2009 é realizada a primeira Ragga Surf Trip, evento que levou um grupo jovens de Belo Horizonte para Camburí, cidade localizada no litoral paulista, para que os mesmos aprendessem a surfar e pudessem ter a oportunidade de vivenciar uma viagem. Nessa mesma época, a periodicidade da revista passa a ser mensal.

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No quinto mês do ano de 2009 o veículo realiza a etapa brasileira do Circuito Mundial de Wakeboard, o Ragga Wake World Series, que insere o estado de Minas Gerais definitivamente no calendário internacional do esporte.

4.1.1 O que constitui a Ragga Apresentando as temáticas da revista conforme o site do Grupo Diários Associados (www.diariosassociados.com.br) os destaques do conteúdo da Ragga se constituem pelo esporte, através de uma ampla cobertura, principalmente das modalidades radicais, em grande parte das matérias publicadas. Campeonatos, eventos e novas tendências da prática esportiva estão sempre em destaque.

Assuntos diversos sobre comportamento e estilo de vida também são discutidos de maneira informal, com linguagem despojada, tratando de fatos e acontecimentos sociais, econômicos e políticos conforme a visão do jovem. Ressalta-se que o trabalho realizado para refletir essa visão é atribuir a mesma uma versão bem humorada.

Na seção Quem é Ragga, constituída por fotos de atletas, celebridades e outras pessoas que se identificam com o estilo de vida Ragga – como foi imposto pela revista como um estilo de vida consciente, entretanto preocupado com sustentabilidade, meio ambiente e saúde – as fotos são registradas em eventos, campeonatos e na noite, de forma espontânea e com exclusividade para a revista.

Por fim, a seção Eu quero/Consumo apresenta produtos modernos, tecnológicos e atuais, que coincidem com os mais desejados pelos consumidores e leitores da revista. A cada edição, um tipo de produto, com fotos e especificações é apresentado.

Em paralelo às principais editorias da revista, a Ragga também é composta por outros departamentos. Desde o ano de 2008, ela mantém um setor de promoções, responsável por brifar, elaborar, desenvolver, produzir, realizar e avaliar ações de comunicação integrada, que compreende atividades externas de corpo a corpo, marketing de relacionamento, hot sites, entre outras. Pode-se mencionar como alguns de seus clientes a Mercur, Cinema Click, Portal Uai, ETC Intercâmbios, Kolosh, Number One, entre outros. 39

A Ragga ainda apóia e incentiva atitudes e atividades que sejam benéficas e positivas para a educação, meio ambiente, cidadania, entre outros temas relevantes para a sociedade. A partir de 2009, essas iniciativas passaram a fazer parte de um projeto próprio do grupo: o Ragga Sangue Bom. O objetivo é mobilizar os jovens em favor de um mundo mais justo e melhor – relacionado aos temas já mencionados. A primeira ação do Ragga Sangue Bom foi em parceria com a Hemominas, incentivando a doação de sangue, especialmente, nos períodos de festas de fim de ano, quando os bancos de sangue têm sua reserva diminuída e o número de acidentes aumentado.

Em torno dessa mesma campanha foram reunidos nomes como o do cantor Gabriel O Pensador, o estilista Ronaldo Fraga, a atriz Priscila Fantin, a cantora Fernanda Takai, o skatista Sandro “Mineirinho” Dias, e outros inúmeros. O lançamento oficial do Ragga Sangue Bom foi realizado no Palácio das Artes, no dia 4 de novembro de 2008, com apresentação exclusiva do espetáculo “Contracapa”, do Balé Jovem do Palácio das Artes.

Por ser um especialista no público entre 13 e 29 anos, o grupo Ragga sempre atraiu grandes anunciantes para seus veículos Ragga Drops – voltado para os adolescentes – e Revista Ragga – cujo público-alvo são os jovens. Exemplo disso são as numerosas propagandas para a rede de fast-food Subway, as grife Tshit e Quiksilver e a marca de roupas GreenCo.

Há também o Projeto Dropper que seleciona nas escolas um jovem entre 16 e 18 anos para passar algumas tardes na redação, navegando pelas redes sociais da empresa (Orkut, Twitter, Facebook, Myspace), conversando, divulgando e atraindo novos leitores e consumidores para as notícias publicadas pelo Ragga Drops.

A primeira dropper (como é denominado o jovem escolhido para participar do projeto), Lara Dias de 16 anos, opinou, criticou e participou das pautas do caderno durante um período de três meses, além de assinar a “Coluna da dropper” pela qual teve a oportunidade de dividir com os leitores assuntos de interesse de sua faixa-etária. A continuidade do projeto em 2010 objetivou a ampliação do alcance de público do Ragga Drops, estando presente nas principais escolas da capital mineira.

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Quanto ao relacionamento com os leitores da Revista Ragga, a redação sustenta um projeto que abre espaço para o público alvo do título se expressar. Em 2009 os leitores do Ragga Drops alcançaram o posto de protagonistas de grande parte do conteúdo produzido pelo suplemento. A idéia do jovem alienado foi substituída pela altivez e autonomia conquistada pelo leitor.

Até o mês de janeiro de 2010 circularam 205 mil exemplares da Revista Ragga. O aumento do número exemplares/mês foi feito gradativamente. A partir de fevereiro de 2006, a tiragem passou de 5 mil para 10 mil a cada número. Em abril de 2009, o aumento ocorreu na periodicidade, que passou a ser mensal, e não mais bimestral.³

Conforme o web site do grupo Diários Associados (www.diariosassociados.com.br), devido ao fato dos jovens constituírem o público que em maior escala navega na internet, a Ragga se tornou presente na rede mundial com o objetivo de compartilhar interesses e construir idéias de forma colaborativa.

No site Ragga (www.revistaragga.com.br) são publicadas notícias diárias e enquetes semanais, além da versão digital da revista (que pode ser folheada virtualmente pelo sistema flip) que apresenta uma extensão de visibilidade para o leitor e ao anunciante do meio impresso. Por fim, a Ragga também está presente na Last FM, no Facebook e no Orkut. Os sites da Ragga e do Ragga Drops estão vinculados ao portal Uai por meio do canal Divirta-se.

A Revista Ragga, cuja tiragem é de 10 mil exemplares mensalmente, é distribuída entre os municípios de Betim, Conselheiro Lafaeite, Contagem, Divinópolis, Governador Valadares, Ipatinga, Juiz de Fora, Sete Lagoas, Uberaba, Uberlândia, Lagoa da Prata, Pará de Minas e em maior abrangência na capital mineira, Belo Horizonte, onde se dispõem inúmeros pontos de acesso à mesma – como bancas de revistas, lojas, lanchonetes dentre outros estabelecimentos.

O material circula através da distribuição gratuita para um mailing de aproximadamente 4.000 pessoas, selecionadas de acordo com o segmento e qualificação do público freqüentador do seu comércio.

³ Informações baseadas em material (release) concedido por Bruno Mateus, subeditor do setor de jornalismo da revista Ragga.

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4.2 Um viés publicitário no jornalismo da revista Ragga Para a observação de uma interferência publicitária no desdobramento de matérias noticiosas e/ou informativas publicadas pela revista Ragga – e até mesmo verificar a existência de uma nova prática jornalística que opina, induz e propaga idéias que favorecem um produto – será utilizado como material empírico desse estudo as secções Noite Adentro (edições 42 e 43), Estilo (edição 41) e Consumo/Eu Quero (edições 41, 42, 43 e 44). Ressalta-se que as edições mencionadas, 41, 42, 43 e 44 se referem respectivamente aos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro de 2010.

4.2.1 A promoção de casas noturnas em ‘Noite adentro’ Para dar início ao estudo, a secção “Noite adentro” referente às edições de número 42, 43 e 44 da revista Ragga será analisada. O objeto mencionado consiste em duas páginas da revista, sempre com o mesmo padrão de publicação e diagramação: poucas fotos em escala de cores normais e a maioria em formato preto e branco de pessoas aparentemente belas, apresentáveis e elitizadas, se divertindo no local que está sendo apresentado pela revista ao seu público leitor. Geralmente, se trata de uma publicidade sobre casas noturnas da capital mineira.

Ainda sobre a diagramação da secção, a mesma se apresenta geralmente em páginas pretas contendo título e sub-títulos em cor laranja com o objetivo de causar contraste e chamar a atenção do leitor. Na tentativa de promover e simultaneamente expor o objeto retratado, a seção da revista acaba por se tornar opinativa. Primeiramente por promover a casa noturna fazendo uso de termos e frases de opinião e em segundo lugar, por deixar explícito a importância da divulgação da bebida energética Burn em meio a matéria.

Como já foi visto nos capítulos anteriores, uma página que contenha publicidade não pode ter qualquer semelhança com a diagramação de uma página editorial, assim como os jornalistas não podem realizar o trabalho de um publicitário ao produzir peças do gênero, conforme Scalzo explica.

Termos como “as músicas mais quentes de todas as pistas”, “Essa é a Cinco, uma boate cheia de requinte e sofisticação, onde a energia das luzes, cores e sons irão transportar você para um 42

mundo repleto de experiências marcantes” e por fim “Venha, pegue seu Burn e deixe a Cinco incendiar você” (Revista Ragga edição #42, pág. 31, 2010) comprovam o argumento de que, não se trata apenas de um ponto de vista do autor que orienta a reportagem, e sim de uma opinião formada sobre a casa, sendo favorável a mesma.

Esse comportamento influi sobre a percepção do leitor devido ao fato de que – em conseqüência da credibilidade cedida à publicação e seu autor – o que está escrito na secção tem a capacidade de atingir a sociedade, influenciando-a em seu pensamento, e por vezes, a manipulando e agindo como verdade absoluta. Ressalto que essa credibilidade acaba por se tornar duvidosa quando se cogita a possibilidade de tal favorecimento ao estabelecimento retratado ser, possivelmente, fruto de interesses próprios da empresa – perdendo dessa maneira, a independência de caráter imprescindível para ter o poder de julgamento sobre aquilo que constitui algo realmente digno de crédito.

Afirmar que “as músicas ouvidas na boate Cinco são as mais quentes da região” implica considerar que o autor da matéria tenha conhecimento de todas as outras casas noturnas de Belo Horizonte. Além do fato de que, a opinião de quem publica essa afirmação em sua matéria pode não ser compartilhada pelo leitor (mesmo tratando-se de um público já delimitado), pois se trata de uma opinião, extremamente peculiar e privada, que inclusive, diverge do jornalismo nesse gênero da publicação (formato de uma matéria).

Esses fatores comprovam que o jornalismo tem realmente se convertido diante das exigências do mercado já que, é através dos ganhos obtidos com a publicidade que uma redação se sustenta e se mantém. Assim, retoma-se a afirmação de Marshall que diz que o jornalismo é “uma simples esfera de sustentação para interesses eminentemente comerciais”.

Imparcialidade, objetividade, transparência e isenção são os alicerces pela qual a credibilidade jornalística se sustenta. Entretanto, diante de tamanha e expressiva preferência à boate Cinco e ao energético Burn em apenas uma matéria, pode-se até mesmo pensar que a marca Ragga, e principalmente sua revista, estejam vivenciando ou um momento de luta por uma sobrevivência no mercado (e por isso precisam se converter à publicidade, priorizando objetivos comerciais), ou então, uma estratégia para aderir mais um forte anunciante ao grupo – também de saliente interesse comercial. 43

Já na 43ª edição da revista Ragga, as primeiras descrições sobre a casa noturna Cheio de Graça são, de certa forma, apenas um ponto de vista do autor, pois o mesmo não faz uso de termos que se baseiam em conceitos duvidosos – apenas expõe os atrativos dela como os estilos musicais que podem ser ouvidos no local. Já ao finalizar a matéria, a frase “envolvente e atual como a cidade que respira novidade, a casa se abre em opções prazerosas” está carregada de juízos de valor já que, as opções prazerosas referidas são incertas e não se tornam de conhecimento do leitor, dando margem para crer que as mesmas se referem a uma experiência particular do autor e que somente podem ser concedidas, após uma visita à boate.

Outro fato importante que pode ser observado nas edições de número 42 e 43 é que, consoante às constatações de Scalzo (2006), a assinatura do jornalista autor da secção não é divulgada – apenas os créditos das imagens que ilustram a matéria. Dessa forma, torna-se ainda mais evidente que a abordagem dada pela revista resume-se à mera publicidade, quando as assinaturas dos favorecidos (como os nomes das casas noturnas e do energético Burn) são as únicas explícitas e que podem ser facilmente identificada pelo leitor.

Relembrando as afirmações de Scalzo (2006), o que se nota realmente não é mais uma vocação noticiosa da revista e sim, uma restrição da mesma por ser parcialmente informativa. Há, visivelmente, a afirmação evidente de dois caminhos, pela qual a educação também se faz presente, mas que entretanto, o que importa nesse contexto e se sobressai, é o entretenimento.

4.2.2 Pouca moda e muito capitalismo: Estilo

A coluna Estilo por sua vez se caracteriza como uma coluna autoral. Isso porque ela é facilmente identificada pelo nome do autor/colunista – que é sempre o mesmo, Lucas Machado –, sendo ainda acompanhada por fotografias e imagens cuja finalidade é ilustrar o personagem e/ou objeto retratado. A Estilo cria através de artifícios como familiaridade e freqüência de publicação, e principalmente, abordagem assídua de um mesmo gênero (como no caso, moda) uma certa conivência com o público leitor.

Assim como em todas as outras edições onde é apresentado ao leitor algo ou alguém relacionado ao mundo da moda – e quase que obrigatoriamente, de sucesso e relevância no mercado – na edição de número 41, a personagem da coluna é a responsável pelo marketing 44

nacional da grife Carmim, Carolina Fávero. Em uma curta abordagem, Carolina fala sobre sua trajetória pessoal e profissional à publicação, dando também seu parecer sobre política.

Como característica singular dessa secção especializada, na Ragga os padrões de uma escrita simples e pessoal se mantêm em uma coluna. Pode-se averiguar através de uma citação de Melo (1985) que a Estilo também se enquadra no conceito de que é feita “de unidades informativas e opinativas que se articulam. São pílulas, flashes, dicas”, pois a composição da página não é dada apenas pelas informações mostradas ao leitor referentes ao personagem, mas também, pelo seu Kit Sobrevivência.

O Kit Sobrevivência por sua vez é um jogo de imagens que mostram aquilo que o personagem da coluna utiliza no seu dia-a-dia e que de certa forma, assevera firmemente, “não viver sem”. O acervo de Carolina (que somente está sendo exemplificada nessa questão por ser a pessoa retratada ao longo da coluna) é representado assim como em todas as outras edições da Estilo, por produtos e suas respectivas marcas ilustrados na página.

Especificamente, o Kit Sobrevivência de Carolina Fávero é composto por um vestido Carmim, um telefone celular Sony Ericsson Xperia, óculos para leitura cuja armação é da marca Marc Jacobs, par de sandálias Carmim, um colar em ouro Olho turco, maquiagem pó/base do Studio Fix – MAC e por fim, uma bolsa Carmim.

O que se conclui, portanto, é que não apenas a promoção da marca Carmim está sendo realizada – tanto de forma implícita através de uma entrevista com uma funcionária (de alto cargo e incumbência) dessa empresa como através dos seus produtos expostos, em grande maioria, da Carmim. A visibilidade garantida à marca ocorre por meio de um texto inicialmente jornalístico e que perde no seu decorrer, essa função informativa e de crédito, tornando-se publicitário.

Outro desfecho também pode ser visualizado no momento em que Carolina Fávero tem a oportunidade de expor “o segredo do sucesso da empresa” (fato que já consiste em uma opinião por parte do autor da coluna sobre a Carmim) transversalmente às enunciações da personagem quanto as estratégias de comunicação da empresa. A frase “o novo pode até assustar, mas, no mundo fashion a ousadia é que causa a diferença”, logo em seguida ao 45

depoimento de Carolina, encerra o texto com a sutileza da opinião do autor que julga a ousadia da empresa Carmim, a razão decorrente de seu êxito, sobreexcelência e sucesso mediante o mercado.

Dando seqüência à conclusão de uma sólida influência publicitária em meio a essa publicação jornalística, especificamente sob a coluna Estilo, a promoção de outras marcas como Sony Ericsson, Marc Jacobs e MAC, que fazem parte da coleção pessoal de Carolina Fávero demonstradas pelo Kit Sobrevivência, instigam o leitor. O mesmo passa a sentir a necessidade de compreender o que torna tais objetos tão especiais, além de os desejar – assim como ocorre também , com os próprios objetos vistos e mostrados da própria marca Carmim.

Com base nas afirmações de Marshall (2003) pode-se compreender que o jornalismo exerce nova função, pela qual o que predomina é a descoberta de padrões e ferramentas que sejam encantadores para compradores que venham a manter a empresa jornalística pela qual criam o vínculo através de seus investimentos. E mais que isso, o papel do leitor passa a ser de consumidor, sofrendo até mesmo um redirecionamento de suas relações pessoais, sociais, econômicas e políticas.

4.2.3 A publicidade escancarada: Consumo/Eu Quero

Com função muito mais publicitária que informativa, a secção Consumo/Eu Quero confunde o leitor quanto a seu gênero. Geralmente formada por duas páginas, apresenta cores leves, fundo branco ou neutro, na finalidade de deixar o destaque por conta dos produtos anunciados – ilustrados inclusive, com um tamanho consideravelmente grande e geralmente, sendo de cinco a oito produtos. É assinada por Sabrina Abreu e possui freqüência incessante fazendo parte das secções fixas da revista Ragga. Esse fator confere à Consumo/Eu Quero a característica de coluna, destoando apenas de sua diagramação por não concordar com os padrões dessa especialidade jornalística.

Outra observação de importância para o estudo é que o nome da secção aparece sempre acompanhado de uma palavra sugestiva. No caso da edição de número 41, referente ao mês de Setembro de 2010, lê-se Eu Quero Primavera devido a proximidade da data da publicação com a chegada da estação; a edição 42 (Outubro), Eu Quero Infância ocorre em 46

conseqüência do mês de Outubro abranger o Dia da Criança; a edição 43 (Novembro) teve como matérias de capa um perfil de Rickson Graice, lutador de artes marciais e também, a abordagem sobre a nova preferência do público mineiro por esportes de luta, logo levou o nome Eu Quero Porrada; e por fim, a edição 44 que leva o nome Eu Quero Pé na areia, por ter sido publicada no mês de dezembro, próximo às férias.

Ainda de acordo com o título da secção, o lead que antecede as informações concernentes aos objetos explicitados faz uma prévia sobre a causa pela qual estes produtos constituem a edição e porque realmente importam. Pouco jornalístico, com características literárias, a autora escreve de forma menos informativa e mais descontraída, chamando atenção sempre para a importância dos produtos, criando uma necessidade para o leitor de se obter os mesmos, conforme a ocasião.

Exemplo disso pode ser constatado na edição de número 42 da revista Ragga: “ [...] selecionamos itens os quais deixarão seu dia-a-dia mais colorido, pois, apesar da realidade não ser tão doce como um brigadeiro, nada melhor do que reviver essa fase da vida na qual se podia sorrir sem motivo e sem preocupações”. Novamente, estratégias decorrentes de uma forte opinião do autor que induzem o leitor.

Fato constatado, tanto o jornalismo quanto a publicidade produzem conteúdo. Entretanto, o jornalismo aqui, deveria engajar o leitor, entretê-lo, informá-lo e não realizar o papel da publicidade que por sua vez, consiste em vender produtos e idéias, seduzir o consumidor e criar necessidades.

Nesse contexto, pode-se comprovar que a atuação do jornalismo opinativo (diretamente relacionado à publicidade) já é vigente desde o princípio do processo de criação de uma matéria, sobrevindo no momento em que se estabelece uma pauta, como Melo (1985) explica. Não há, portanto, limites espaciais entre o jornalismo e a propaganda e o leitor acaba por ser visto novamente, como mero consumidor.

O título Eu Quero também é bastante sugestivo. Em si, já se encontra explícito a instigação de um desejo de consumo, o que implica conseqüentemente, no oferecimento de produtos para saciar essa necessidade provocada. Tirando como exemplo a edição de setembro da revista 47

Ragga (#41), a secção Eu Quero Primavera sugere produtos que possam ser utilizados durante e, em decorrência, da estação.

Nos subtítulos que antecedem e representam cada imagem, uma chamada atraente. Exemplo disso, o nome “Quase descalço”, seguido de sua descrição e também, de uma justificativa do porquê consumir o produto. “Passado o inverno, é hora de aposentar as botas e colocar os dedinhos dos pés de fora. Para elas, rasteira de couro Luiza Barcelos. Para eles, a boa, velha e legítima Havaianas”. O que pode ser certificado é que, além de informativo quanto não somente à tendência da moda e da estação, o texto é opinativo em relação àquilo que constitui a mercadoria – indicando inclusive qual a mercadoria deve ser consumida.

É possível fazer uma referência a Marshall (2003) e fundamentar que essas ações realizadas pela revista comprovam que a publicidade é quem provem sucessivamente às despesas feitas com o trabalho jornalístico. Comprova-se também que a permanência da secção Consumo/Eu Quero só existe ainda por haver uma forte demanda, que a pede. Mais uma vez se constata que essa publicidade antes tão mal vista e indesejada – e que altera a fórmula jornalística – é hoje, mais que requisitada pela sociedade.

O produtos anunciados, cujos preços também são expostos e que variam bastante, possuem características que os diferenciam, dando status de exclusividade, na tentativa de os assemelhar com o seu público leitor em aspecto físico, estético e glamour.

Repetidamente o que se vê é a confirmação das teorias de Scalzo (2006), sendo possível acrescentar que hoje, o processo de produção de uma notícia ou informação, de maneira jornalística, não ocorre sem interferência da publicidade. A matéria se flexibiliza em prol do mercado e do consumo. E para isso, o setor publicitário procura se informar coma redação sobre quais serão as pautas das reportagens a serem produzidas – sendo possível imaginar que nesse exemplo da secção Consumo / Eu Quero o procedimento realizado é o inverso: procurase pelos produtos para somente depois, criar um enredo informativo.

É possível concordar com o fato de que um anunciante procura um veículo já consolidado e adequado para fazer sua publicidade. Entretanto, essa publicidade deveria consistir em algo que não interferisse no trabalho jornalístico. A liberdade dada à redação para a produção de 48

matérias em relação ao comercial passa a ser um desafio, um teste de extrema importância, frente à prática do jornalismo correto e justo – pois é nesse contexto que se comprova se a dita credibilidade será, não somente gerada, mas mantida.

4.3 As divulgações da Ragga e a segmentação de mídia e público

Como a própria revista Ragga se descreve, a mesma trabalha sob a perspectiva de um encaminhamento a um público de espírito ‘jovem e aventureiro’, que apresenta como sua expressão, a prática ou admiração por esportes radicais e seu estilo de vida. Diante disso, a revista Ragga age atualmente, como um instrumento integrador entre atletas, consumidores, federações, eventos, marcas, produtos e empresas que se identificam e proporcionam um estilo de vida, denominado “Ragga” (expressão criada pela própria revista).

A intenção da revista Ragga é nitidamente clara quando se constata que sua determinação é atingir, portanto, um público diferenciado, limitado. O que é interessante e vale ressaltar é que nem sempre o indivíduo que lê pela primeira vez a revista se encaixa no perfil da mesma, mas que se torna mais tarde, um fiel leitor por descobrir assim, novas afinidades. A revista Ragga é vista portanto, nesse contexto (e assim como inúmeros outros produtos de nicho) uma formadora de preferências. Diante disso, retoma-se a afirmação de Maffesoli (1998) que explica que as pessoas confiam em pessoas iguais ou semelhantes a elas.

A revista Ragga tem como seu público alvo (aqueles que apresentam desejo por informação subjugada à diversão, conforto e criatividade. Também, aos que demonstrem preocupação com o futuro da sociedade, com a responsabilidade social e sustentabilidade, como julga a própria revista) três classes sociais, sendo eles jovens das classes A, B e C entre 13 e 29 anos e 29 anos de idade a diante.4

A primeira classe é formada por jovens e adolescentes de 13 a 20 anos, que formam uma tribo urbana de estilo de vida esportista e saudável, de classe A, B e C, e que possuem renda suficiente para adquirir produtos elitizados e exclusivos. São movidos pela associação a aceitação do grupo, e orientados pela moda e tendência deste mercado específico, em uma

Informações embasadas em material (release) concedido para estudo através de Bruno Mateus, subeditor do setor de jornalismo da revista Ragga.

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proporção de uma revista para cada oito leitores da classificação.

A segunda classe por sua vez, é constituída por adultos de 21 a 29 anos, que também estão entre o foco da mesma – normalmente atletas ativos ou casuais, que têm o estilo de vida e hábitos de consumo, orientados pela transmissão de uma imagem saudável e moderna – causada pelo próprio veículo. São estudantes e profissionais, de classe A e B, sem filhos, com renda exclusiva para consumo de bem estar e estilo de vida. A visualização da revista nesse contexto é de um exemplar para cada cinco leitores.

Por fim, a terceira classe, formada por indivíduos cuja idade é acima de 30 anos, normalmente atletas profissionais e profissionais atletas, que criaram e vivem os estilos de vida esportista e livre. Sua renda, já estabelecida de classe A e B, consome produtos e serviços orientados pelo seu estilo de vida, de liberdade e descontração em momentos de lazer e diversão. A revista Ragga é visualizada por esse público em uma proporção de um exemplar para cada três leitores.

Os leitores da revista Ragga se assemelham por seus interesses e afinidades em comum, criando dessa forma um novo público, específico, de nicho. O que ocorre de fato é a segmentação de um mercado, sua divisão em pequenos grupos, que torna cada público diferenciado, singular, assim como o público que lê a revista e aprecia suas publicações sendo este, um novo segmento.

Nota-se que à procura do que a revista pretende oferecer – de assuntos como esportes, moda, viagens, eventos à consumo, reflexão, discussão política – o que compõe esse segmento Ragga, responde a uma determinada estratégia de marketing, cujo produto é a própria revista. O critério para tal é tanto personalidade quanto estilo de vida.

Analisando por exemplo a secção Quem é Ragga, que é composta apenas por fotografias e nenhum texto, se torna a primeira vista, de difícil compreensão, o que faz das pessoas alvo das imagens parte do segmento Ragga. Entretanto, em primeira parte, a própria revista se encarregou de criar um código que identificasse aqueles que “são Ragga”. O símbolo (que também integra a logomarca da revista), feito com as mãos (os dedos indicador e mínimo

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levantados e os demais abaixados) comprova que a cultura compartilhada perdura, como Anderson (2006) já havia verificado; e nesse caso, unifica através de um gesto.

Já a segunda parte se encarrega da percepção de que, as fotos divulgadas abrangem pessoas que integram as classes sociais A e B (de relevância social, alto poder aquisitivo, dentre celebridades e artistas e que freqüentam festas e eventos cujo custo é alto), que compartilham do gosto de apreciar ambientes requintados – estes últimos que muitas vezes são alvo da própria divulgação da revista Ragga, que promove em suas páginas (como na secção Noite adentro) casas noturnas e ambientes luxuosos.

Conforme Maffesoli (1998) já havia exposto, esse público delimitado, diferenciado, constitui uma nova tribo. E em um tribalismo, como o do segmento Ragga, há a indução de um exclusivismo que estranha tudo aquilo que não lhe for familiar. É nesse contexto que a delimitação territorial é uma grande responsável pela fundação de múltiplas sociedades. Para a sobrevivência de cada um que outros grupos se criem a partir de uma suposta exigência de mesma natureza, mesmo que seja reduzida – como no caso dessa fatia que compreende o segmento Ragga, mas que detém de vontade de permanecer.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Respondendo a principal questão levantada nesse estudo – que consiste em uma compreensão de uma prática jornalística, que apresenta critérios de noticiabilidade, mas que não age por inteiro de maneira noticiosa, informativa e factual, que sustente no decorrer de seu texto uma presença predominante da publicidade e propaganda – foi realizado um aprofundado estudo de caso de três seções específicas da revista Ragga: Noite adentro, Estilo e Consumo / Eu quero. As mesmas, juntamente às demais publicidades contidas na revista, representam aproximadamente 37% do conteúdo apresentado pela Ragga – em 74 páginas, por exemplo, 28 são dedicadas à propaganda.

O que se pôde compreender é que, não somente a existência como também a predominância da publicidade sobre a prática jornalística, se faz atuante. A revista Ragga afirma possuir a preocupação em manter informado seu leitor através de notícias referentes à moda, estilo de vida, esporte, cultura, meio ambiente e sustentabilidade. Entretanto, os textos inicialmente ‘noticiosos’ apresentam-se em grande parte, como mera propaganda no favorecimento de estabelecimentos, produtos, marcas, personalidades – o que não confere credibilidade ao jornalismo justificado pela revista, por assolar as bases da mesma como imparcialidade, objetividade, isenção de juízos de valor e opinião, dentre outros.

Tal determinação consolida um novo gênero jornalístico, cujo viés publicitário, carregado inclusive de opinião, não retrata notícias e sim, quaisquer acontecimentos factuais transformando-os em um artigos publicitários. Além disso, a certificação da influência de ambos os fatores já mencionados, na delimitação de um público leitor, de nicho, unificado por afinidades, também se faz valer. Uma notícia expressa o fato, desperta no público o devido interesse e indagação. Deve ser caracterizada por uma linguagem impessoal, clara e concisa. A intenção do veículo, a revista Ragga, é a princípio, não se restringir a pequenas coberturas noticiosas – exibindo uma completa abordagem de informação das regiões do Brasil e do mundo sobre as mais diversas editorias. Entretanto, a revista Ragga apresenta informações factuais à noticiosas, dois termos que se distinguem completamente em conceito e que ponderam e muito, no resultado final de

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uma divulgação. Ressalto que o factual aqui exercido, não deveria, conforme teoria, nem ao menos carregar opinião – o que exerce em constância.

Uma abordagem factual procura expor os fatos como o alicerce para sua produção, para a tomada de determinadas decisões. Entretanto, o que se observa na revista Ragga é que distintamente, a mesma consegue conciliar a verificação de fatos com as opiniões. A maneira como esse veículo faz dos fatos imputados de juízos de valor tornarem-se matérias, constitui praticamente, uma nova categoria de jornalismo que aqui, peço seu reconhecimento, como uma prática já vigente. O jornalismo não tem como premissa apenas informar os fatos, mas causar debate social, constituindo assim, a notícia – o que não se vê em grande maioria, em matérias da Ragga e em inúmeros outros veículos de comunicação.

Conclui-se que esse veículo de comunicação segmentado, direcionado a um público específico (que o próprio veículo impõe e delimita) é posto em xeque quanto a ser noticioso e quanto à prática jornalística – como se apresenta e impõe. O que envolve o processo de criação de uma matéria dentro da marca Ragga se flexibiliza a favor do mercado, acarretando parecer do redator, opinião além do jornalismo opinativo, propaganda, e também, informação – entretanto, não noticiosa. Muda-se a notícia para afirmar aquilo que a audiência pretende ler, adaptada na finalidade de suprir as necessidades do mercado e do leitor.

A prática, ainda que orientada por alguns critérios jornalísticos, ainda que apresente capacidade de noticiabilidade, se dissipa e perde o caráter de notícia ao abranger os fatores já mencionados. Torna-se um texto sem definição, por conter como base o jornalismo, mas se orientar pela publicidade.

O leitor da revista Ragga, por sua vez, unido por semelhanças em seus interesses (conforme os temas e abordagens das publicações), parece constituir uma tribo cultural urbana diferenciada consequente de um produto de nicho. A segmentação da Ragga, dada por tema (esporte, saúde, comportamento, estilo de vida, cultura, moda) elabora e pensa essa identificação entre revista e público – uma questão estratégica na tentativa de garantir um mercado – que, por fim, só ocorre da necessidade da publicidade para sobrevivência da publicação. Por fim, acredito ainda que tal argumentação ofereça subsídios para validação de um estudo a posteriori. 53

REFERÊNCIAS

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ERBOLATTO, Mário L. Técnicas de Codificação em Jornalismo: Redação, Captação e Edição no Jornal Diário. Prefácio de MELO, José Marques de. 3ª Ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1984.

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SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. 3ª Ed. São Paulo, SP: Contexto, 2006.

SODRÉ, Muniz. A comunicação do grotesco. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1972. 54

TRAQUINA, Nelson. Estudos do jornalismo no século XX – Quem vigia o quarto poder? São Leopoldo: Editora Unisinos, 2001.

VILLAS BOAS, Sérgio. O estilo magazine – O texto em revista. São Paulo: Summus Editorial, 1996.

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