You are on page 1of 68

Lorena Lage

O CRACK NA MÍDIA IMPRESSA Análise do espaço e tratamento dado ao crack nos jornais Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

2

Lorena Lage

O CRACK NA MÍDIA IMPRESSA Análise do espaço e tratamento dado ao crack nos jornais Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo

Monografia apresentada ao Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH, como requisito parcial à obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientadora: Maria Cristina Leite

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

3

"O jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e torná-lo humano por sua confrontação descarnada com a realidade. Ninguém que não o tenha sofrido pode imaginar essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida. Ninguém que não o tenha vivido pode conceber, sequer, o que é essa palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo das primícias, a demolição moral do fracasso. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderá persistir num ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra se acaba depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não permite um instante de paz enquanto não se recomeça com mais ardor do que nunca no minuto seguinte". (Gabriel Garcia Marques, escritor colombiano).

"Jornalista de raça é um mágico. Transfigura o anônimo em notável, celebra o despercebido, enquadra o texto no contexto. Enquanto nós nos limitamos a olhar, ele vê as coisas, as pessoas, a paisagem. Vê e conta". Ulysses Guimarães, político paulista, citado por Ricardo Kotscho, no livro Do Golpe ao Planalto (Companhia das Letras).

“É necessário pagar um preço por qualquer coisa que valha a pena; e esse preço é sempre o trabalho, a paciência, o amor e a dedicação” (John Burroughs)

4

AGRADECIMENTO

Quando eu entrei na faculdade, não sabia, ao certo, se o que eu estava fazendo naquele momento era o correto. Um coração cheio de saudades e tristeza se adentrava ao UNI BH, quatro meses após o falecimento de meu pai, que tanto esperou por este momento. No entanto, muitos sonhos e muitas expectativas estavam em minha mente. Umas se consolidaram, outras se desfizeram, mas a vontade de continuar, muitas vezes desanimada, não foi interrompida. Depois de quatro anos, muita coisa mudou em minha vida. Fatos inesperados aconteceram, alegrias e tristezas fizeram parte dessa jornada. Amigos saíram e entraram no meu caminho. Aprendizados se afloraram. Amores terminaram e nasceram. Mas, enfim, meu objetivo ao entrar na faculdade se realizou. Estou com meu almejado diploma em mãos.

Entretanto, o objetivo no qual foquei e, neste momento, conquisto, não foi conseguido somente por mérito meu. Muitas pessoas fizeram parte dessa jornada, das quais merecem meu agradecimento.

Ao meu pai, Roberto, que mesmo ausente, se fez presente em alma nessa longa trajetória. A ele que sonhou o meu sonho, vibrou as minhas vitórias, chorou os meus choros e me amou incondicionalmente em outros ares. Ao receber o diploma, sinto com mais certeza a força desse amor. E percebo, numa mistura de alegria e saudade, que ele faz parte de mim. Está no meu olhar, no meu sorriso, nas minhas palavras e atitudes. Contudo, ele se foi antes que esse momento chegasse. Mas, mesmo não o vendo, sinto sua tamanha felicidade e emoção, com olhos cheios d´água, em meio àqueles aplausos. Sua ausência não o torna passível de esquecimento. Sinta meu abraço e meu eterno agradecimento por tudo. Aonde quer que esteja essa vitória também é sua.

A minha amada mãe, Rosely, pelo amor, carinho, conselhos e apoio incondicional. Às irmãs abençoadas, Larissa e Letícia, pelas deliciosas gargalhadas nos momentos de estresse;

À querida orientadora, Cristina Leite, por toda paciência, compreensão e palavras de conforto em momentos de tensão;

À negra linda, Gabriela Rosa, pela ajuda da escolha do tema;

5

À família Lage e Martins dos Reis, pelos ensinamentos e exemplo de vida;

Ao meu coração, Thiago Barros, por me aturar nos momentos de estresse, de desespero e me fazer rir, quando minha vontade era de chorar;

A todos que fizeram parte dessa jornada e contribuíram de alguma forma para que esse sonho se realizasse;

Por estes motivos e por outros mais, agradeço a Deus, que me protegeu e guiou meus passos durante toda a minha caminhada de vida.

6

SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 07

1 ANÁLISE DAS MÍDIAS ................................................................................................... 10 1.1 As teorias de comunicação sobre os efeitos da mídia na sociedade...................................10 1.2 Critérios de seleção de notícia: os valores-notícia..............................................................13 1.3 A estrutura da notícia..........................................................................................................14 1.4 As funções sociais da mídia e do jornalismo......................................................................16

2 DROGAS, MÍDIA E A SOCIEDADE .............................................................................. 18 2.1 O uso de drogas e a sociedade ........................................................................................... 18 2.2 As drogas, os usuários e os meios de comunicação .......................................................... 21 2.3 A problemática do crack da sociedade brasileira .............................................................. 24 2.4 A entrada do crack em Belo Horizonte e a disseminação da violência ............................. 27

3 O CRACK COMO NOTÍCIA............................................................................................32 3.1 Estado de Minas: um jornal tradicional ............................................................................. 32 3.2 Hoje Em Dia: consolidação rápida no mercado ................................................................ 34 3.3 O Tempo: do standard ao tabloide..................................................................................... 36 3.4 Metodologia de análise ...................................................................................................... 38 3.4.1 Análise Quantitativa ....................................................................................................... 39 3.4.2 Análise Qualitativa ......................................................................................................... 39 3.4.2.1 O crack no Estado de Minas ........................................................................................ 40 3.4.2.1 O crack como notícia no Hoje em Dia ........................................................................ 45 3.4.2.3 O crack no jornal O Tempo ......................................................................................... 48

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................................51

5 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................54

6 ANEXOS ..............................................................................................................................57

7

INTRODUÇÃO Este estudo tem como objeto central o tratamento dado ao uso e tráfico do crack em cadernos dos jornais Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo, no período de outubro a dezembro de 2010. Buscou-se apurar o espaço e a perspectiva adotada para noticiar fatos ligados a esse entorpecente e seu consumo. A análise abordou, também, de que forma esses jornais fizeram a associação do crack com a violência em Belo Horizonte.

Em princípio, o jornalismo trabalha com a objetividade no tratamento dos temas. Na prática, contudo, essa objetividade nem sempre é alcançada. Muitos veículos adotam uma posição sobre determinados assuntos e explicitam isso nas reportagens. Segundo Noto et al (2003), a parcialidade se torna mais clara nos artigos ou reportagens escritos por especialistas ou profissionais, como médicos, antropólogos, filósofos, advogados etc. Esses profissionais exprimem em seus textos opiniões pessoais e tendenciosas “usando expressões como “Tratase de um abismo...”, “O uso de drogas... é um bom exemplo do horror...” (por um psicanalista), “o flagelo da droga” (por um economista), entre outras” (NOTO et al, 2003, p.72). Os autores explicam que a mídia impressa começou a divulgar uma gama de matérias sobre a “explosão” da utilização de “drogas ilícitas” na década de 70. No entanto, os primeiros estudos epidemiológicos realizados no Brasil, mostram dados totalmente diferentes da imprensa escrita: até o fim da década de 80, a utilização de drogas ilícitas entre os jovens era pequena e estável. Desta forma, os autores concluem que o fato da mídia ter divulgado anos antes o aumento do uso de psicotrópicos, poderia ser analisado de diversos modos: a “mídia incentivando o uso pelo excesso de informações; a mídia teria sido capaz de detectar um fenômeno antes que este fosse mensurado pela epidemiologia (…) entre outras possibilidades” (NOTO et al, 2003, pág 69).

Cada veículo de imprensa externa uma opinião sobre diversos tipos de assuntos, seja por conveniência ou não. Em relação ao crack, por exemplo, existe um conflito entre os sociólogos e o que é apresentado pela mídia. Zaluar (1994ab) explica que a imprensa escrita tende a marginalizar os usuários e traficantes de drogas, hostilizando os mesmos para a população, sem considerar outros elementos – políticos, sociais, econômicos - que participam do processo que envolve o tráfico de drogas.

8

Segundo Zaluar (1994a), o conhecimento que a maioria da população tem sobre as drogas é o que é divulgado pela mídia que, muitas vezes, é extremamente preconceituosa, hostilizando o usuário e colocando-o como marginal. A autora defende a descriminalização do uso e critica o tratamento que a imprensa e policiais dão ao tráfico. Observa, ainda, que há uma inadequação na abordagem do assunto, o que cria uma imagem deturpada dos envolvidos e repassa aos cidadãos informações que dificultam o combate ao problema.

Em agosto/2010, o Centro de Pesquisas em Segurança Pública (Cepesp), da PUC Minas, divulgou o resumo das principais conclusões de uma pesquisa feita sobre “a problemática do crack na sociedade brasileira: o impacto na saúde pública e na segurança pública”. Esse é o primeiro grande estudo qualitativo do fenômeno do crack no Brasil e seus efeitos sobre os usuários de drogas. Dada a escassez de estudos sobre o tema, essa pesquisa objetivou compreender os mecanismos sociais e simbólicos presentes na produção jornalística que se dedica a ele.

A entrada do crack em Belo Horizonte deu-se em 1995, na Pedreira Prado Lopes (PPL), tradicional favela da capital. A nova droga era oriunda de São Paulo e seu comércio chefiado por uma família na PPL, que foi a responsável pela introdução da droga na cidade. No entanto, a produção e a comercialização do crack expandiu e passou a ocorrer no Estado de Minas Gerais inteiro. Os fabricantes do produto compram o sulfato de cocaína, conhecido como a pasta base, e dele extraem a cocaína em pó e a cocaína em pedra, que é o crack. Os efeitos da droga na cidade são alarmantes, já que, a partir de 1997, evidenciou-se que o principal motivo da grande ocorrência de homicídios em Belo Horizonte era devido ao tráfico de drogas. (Sapori, 2010, p.3).

As dimensões do uso do crack têm sido de longo alcance. Segundo Sapori (2010), a demanda de tratamento por pacientes da classe média e alta, pessoas com nível de escolaridade superior e com condições socioeconômicas privilegiadas, é grande. Em geral, essa população não faz parte do noticiário; ao contrário, nas páginas dos jornais aparecem, geralmente, pessoas de classe baixa, representadas de maneira negativa e preconceituosa, o que “(...) contribui para o processo de exclusão social” (Sapori, 2010, p.19), influenciando na opinião do seguidor/leitor daquele veículo.

9

No entanto, Noto et al (2003) pontuam que os meios de comunicação têm prestado auxílio em diversos programas de saúde no que diz respeito à prevenção às drogas, por meio de informações jornalísticas ou de campanhas publicitárias. Nesse contexto, os autores acham importante estabelecer relação entre os profissionais interessados na prevenção de drogas, incluindo jornalistas, empresas publicitárias e especialistas no assunto.

Considerando o exposto, este estudo procura contribuir para o campo da comunicação social na medida em que trata das representações feitas nos jornais escolhidos, de grande circulação no estado de Minas Gerais, acerca do fenômeno das drogas. Dada a importância do jornalismo na criação de referências para os cidadãos, essa análise poderá enriquecer as reflexões sobre o real papel da mídia na construção de uma sociedade mais democrática e no enfrentamento de um problema tão grave quanto é o crack hoje.

10

1 ANÁLISE DAS MÍDIAS

1.1 As teorias de comunicação sobre os efeitos da mídia na sociedade

Wolf (2002), que publicou diversos estudos sobre comunicação e sociedade, ajuda a esclarecer como as teorias de comunicação de massa influenciam a opinião do leitor/seguidor de certas mídias, analisando uma a uma. A primeira, Teoria Hipodérmica, compreende que os indivíduos vivem numa sociedade de massa, isolados de suas referências sociais, agindo egocentricamente e anônimos. A partir desta condição, com o indivíduo perdido na massa, sua única referência seriam os meios de comunicação, que funcionam no modelo comunicativo de “estímulo/resposta”: a mensagem da mídia (estímulo) é absorvida pelos indivíduos que compõem essa massa, que as assimila e se deixa manipular de forma inconsciente através da informação (WOLF, 2002).

Diferente da abordagem da Teoria Hipodérmica, a Abordagem Empírico-Experimental desenvolveu suas pesquisas na sociologia e concluiu que a mídia cumpre papel limitado no jogo de influência das relações com a sociedade de massa. Estes estudos acarretaram no abandono da Teoria Hipodérmica na medida em que comprovaram que os efeitos das mensagens da mídia resultam da influência de outros fatores. Deste modo, os meios de comunicação, ao invés de “manipular”, passaram a ser considerados um instrumento de potencial persuasão na vida social, levando o indivíduo a crer, recusar ou aceitar o que lhe é transmitido. Essa abordagem também comprovou que não só os meios de comunicação, mas qualquer outra força social (igreja, família, partido político, etc), produz o mesmo efeito de “influência” sobre os indivíduos (WOLF, 2002, 2003). O alcance das mensagens midiáticas depende do contexto social em que estão sendo produzidas e divulgadas, ficando sujeitas aos demais processos comunicativos que se encontram presentes na vida social (WOLF, 2003).

Os estudos desenvolvidos por Wolf (2002, 2003) foram divididos em duas partes. As primeiras, citadas acima, fazem parte da pesquisa administrativa, que focaliza os efeitos dos meios de comunicação no indivíduo. Já a pesquisa crítica, segunda parte do estudo, aborda as teorias que analisam a função que os meios de comunicação exercem. Na teoria funcionalista, ao invés de pesquisar o mero comportamento do indivíduo, estuda-se as funções que o subsistema de comunicação de massa exerce. Entre as principais funções de sua ação social, está a de conservação de valores e modelos que se adquire em conjunto. A abordagem

11

funcionalista se distancia dos procedimentos da teoria Hipodérmica e Empírico-Experimental por não estudar a mídia em casos excepcionais, mas em situações comuns e cotidianas. É a partir desta teoria que surgem os estudos dos efeitos em longo prazo (WOLF, 2002, 2003).

As teorias Crítica e Culturológica fazem uma crítica à sociedade e, principalmente, aos métodos das teorias da pesquisa administrativa, que não consideravam a sociedade como um todo no processo comunicacional. A primeira investiga a produção midiática a partir do conceito de indústria cultural, definida pelo poder que a mídia exerce na sociedade a partir de mecanismos de repetição e produção em massa. A título de ilustração, podemos citar as informações contidas em obras como filmes ou músicas, nas quais os temas, símbolos e formatos são exaustivamente repetidos para a sociedade. Nesse aspecto, o sentido real artístico da obra seria perdido, e os meios de comunicação serviriam a um sistema manipulador que faz o indivíduo consumir os produtos dessa mídia passivamente. Já a teoria Culturológica parte de uma análise da Teoria Crítica, utilizando o conceito de cultura de massa. Conclui que a cultura de massa não é autônoma, como considerada em outras teorias. Ela é vista como uma fabricação da mídia, fornecendo à sociedade uma informação transformada por imagens de alta vendagem e uma arte produzida nos moldes da indústria cultural. Sendo assim, os produtos são remetidos pelos meios de comunicação como se fossem uma imagem da realidade social. Segundo os culturólogos, esse fenômeno nasce de uma forma de sincretismo, na qual se une a realidade com o imaginário (WOLF, 2002, 2003).

Os processos de comunicação, segundo Wolf (2003), são complexos de se entender através de um só modelo ou uma teoria. Devido a isto, o autor direcionou os estudos ao entendimento dos efeitos não como uma mudança de curto prazo, mas como conseqüências de um longo período. Os efeitos começam a ser entendidos como cumulativos e cognitivos, e os meios de comunicação desempenham uma função de construção da realidade.

A partir dessa busca de compreensão da maneira pela qual a mídia influencia o modo como o público organiza a própria imagem do ambiente, surge a hipótese do agenda-setting, ou a forma pela qual a mídia seleciona os acontecimentos ou conteúdos que devem ser inseridos na agenda dos órgãos de comunicação social. Um dos problemas dessa teoria é encontrar um modelo capaz de transformar a informação que os jornais passam ao leitor em conhecimento acumulativo por parte deste. Portanto, diferente da Teoria Hipodérmica, que afirma que o destinatário entende exatamente o que o destinador quis dizer em sua mensagem, os mass-

12

media devem ficar atentos ao que o público tem interesse para, assim, poder explorá-los nos jornais, nos programas televisivos, radiofônicos etc (WOLF, 2002). Se por um lado a imprensa não consegue dizer ao seu público o que pensar, por outro ela é efetiva em dizer aos seus destinatários sobre quais temas refletir. Sendo assim, quanto menor for o entendimento e envolvimento do indivíduo sobre o tema tratado, mais ele dependerá da mídia para obter informações que lhe sejam necessárias sobre aquele assunto (WOLF, 2003).

Nesse contexto, cada veículo de comunicação aborda diversos temas e os trata de modos diferentes. Para entender a lógica de uma informação e as diversas formas de divulgá-la, sem distorção ou exclusão de determinados elementos, é fundamental a compreensão de que um profissional de jornalismo precisa ter regras e restrições. Segundo o Wolf (2002), os critérios de noticiabilidade são o conjunto de fatores que são exigidos para se considerar um acontecimento como notícia. Tuchman1 (1997 citado por Wolf, 2002) pontua condutas a serem adotadas numa produção noticiosa pelos jornalistas.
1. 2. 3. Devem tornar possível o reconhecimento de facto desconhecido (inclusive os que são excepcionais) como acontecimento notável. Devem elaborar formas de relatar os acontecimentos que não tenham em conta a pretensão de cada facto ocorrido a um tratamento idiossincrásico. Devem organizar, temporal e espacialmente, o trabalho de modo que os acontecimentos noticiáveis possam afluir e ser trabalhados de uma forma planificada. Estas obrigações estão relacionadas entre si. (WOLF, 2002, p.189)

Quem investiga que critérios serão utilizados para divulgar ou não uma notícia, são os gatekeepers.2 O newsmaking3 é o aperfeiçoamento das investigações do gatekeeper, que, com tais critérios, analisa os processos de industrialização das informações recebidas, para avaliar se a informação tem ou não valor de notícia. (WOLF, 2002; TRAQUINA, 2005).

A construção de uma notícia veiculada na mídia interfere na formação de opinião, conceitos, atitudes e expectativas da sociedade, fatores estes que acarretam na mudança de como a população encara a questão. Nesse sentido, os estudos de newsmaking perceberam que existe uma forma de manipulação da notícia, denominada “distorção inconsciente”, na qual as notícias são distorcidas na redação para manter a linha editorial-política de um jornal, ao invés
TUCHMAN, G. The Exception Proves the Rule: the study of routine news practice, in Hirsch P.-Miller P.-Kline F. (eds), Strategies for Communication research, vol. 6, Sage, Beverly Hills, 1977, pp. 43-62. 2 Teoria aplicada ao Jornalismo por David Manning White. Essa teoria define o jornalista como um aplicador de filtros para selecionar notícias, ele é o “porteiro”, que só permite que entre algumas notícias. 3 Termo em inglês: news = notícia + making = fazendo. A teoria pode ser traduzida como teoria da produção da notícia ou feitura da notícia.
1

13

de divulgá-las explicitamente, sem alterações do fato ocorrido. Os principais fatores que contribuem para que esse mecanismo de produção seja automático, são as limitações de tempo e espaço para as publicações das notícias (ARBEX Jr., 2001; WOLF, 2002, 2003). Essas variáveis de rapidez e produtividade excessiva não contribuem para o bom desenvolvimento do repórter, uma vez que ele não sai mais das redações em busca de notícias, elas podem nascer dentro da redação ou virem prontas das agências de informação (NOBLAT, 2003). Deste modo, o que é definido pelos jornalistas como notícias, faz parte de um processo feito para que essas atraiam a atenção do público (ARBEX Jr., 2001; NOBLAT, 2003; WOLF, 2002, 2003).

1.2 Critérios de seleção de notícia: os valores-notícia

Acerca do tema seleção de notícias, Wolf (2002) afirma que os gatekeepers são os jornalistas responsáveis por selecionar as notícias que entrarão no jornal. Estes profissionais, geralmente, são cercados de interesses próprios e recebem influência de seus superiores para dar preferência a um assunto em detrimento de outro.

De acordo com Wolf (2002), o trabalho do jornalista, no que se refere aos critérios de noticiabilidade, perpassa três principais premissas: a) deve tornar um fato desconhecido acessível ao grande público, notável. b) a forma de elaborar a notícia, a linguagem escolhida, deve ser compreensível para todos e não para certos grupos. c) deve-se planejar o texto atenciosamente de forma que possa ser entendido pelo público, de forma simples. O autor define valores-notícia como critérios utilizados pelos profissionais jornalistas ao selecionarem notícias. Para Wolf, estes critérios devem ser de fácil compreensão pelo jornalista, já que o tempo para decidir se um assunto vira notícia ou não é curto. Os critérios têm de ser claros também, pois, qualquer ambigüidade existente, pode levar a compreensões equivocadas por parte do público leitor. O principal fim dos valores-notícia é ajudar o jornalista a definir se um fato é puro, ou seja, se ainda sem interferência do jornalista, pode vir a virar notícia. Entendese, pois, por notícia, segundo afirmação de Wolf (2002), um fato que possui posição de respeito em relação ao público leitor. Pode ser uma notícia relacionada a um país importante, fatos que envolvem o interesse nacional ou acontecimentos ocorridos na região geográfica de distribuição do jornal, por exemplo. É importante ressaltar que os valores-notícia são relacionados aos critérios de noticiabilidade definidos em conjunto pelo jornalista e pela empresa em que trabalha. Outros valores-notícia importantes dizem respeito ao caráter

14

negativo dos acontecimentos, pois o público se impressiona com eles muito mais do que quando está diante de uma notícia considerada positiva. A atualidade do fato é outro critério de noticiabilidade utilizado pelos profissionais que, inclusive, criam essa atualidade, “esquentando” aquilo que já é “frio” (WOLF, 2002; TRAQUINA, 2005).

Os jornalistas devem empreender uma boa relação com o público, que é quem, afinal, aprecia o que escrevem. Para tal, o profissional deve adequar a linguagem aos leitores, a fim de que este compreenda de forma adequada o que o jornalista está informando. Não se deve esquecer, no entanto, do papel da concorrência na seleção de notícias. Os jornais quase sempre optam pelas mesmas notícias, o que se pode confirmar ao analisar as capas das publicações. Uma das causas é o fato de as empresas jornalísticas trabalharem com as mesmas agências de notícias que, de certa forma, padronizam a linguagem e a abordagem dos textos. Raramente uma empresa procura sair da mesmice e propor algo diferente, pois isso significa dinheiro, tempo e resultados comerciais imprevisíveis (WOLF, 2002, 2003).

Outro valor-notícia importante para a credibilidade do texto do jornalista perante seu público leitor é a escolha das fontes. Por esta razão, fontes estáveis, ou seja, que já são conhecidas pelo jornalista, são escolhidas em detrimento daquela que ele não conhece, pela credibilidade necessária à fala da fonte. Um dos riscos na escolha das fontes são interesses por trás do depoimento. O jornalista deve tomar cuidado para não se tornar porta-voz destes interesses. Fontes com algum tipo de poder, econômico ou social, têm mais acesso aos jornalistas do que fontes comuns. Wolf (2002) afirma que não há critérios de noticiabilidade definidos de forma geral para selecionar uma notícia. Cada assunto requer um critério específico. Cabe ao jornalista identificá-los de forma exitosa (WOLF, 2002).

1.3 A estrutura da notícia

Os gatekeepers foram criados nos Estados Unidos a fim de superar o sensacionalismo e a parcialidade que contaminam, geralmente, as notícias de histórias sentimentais e de crimes, que provocam angústias e sentimentalismo na grande massa. Sua função primordial é definir o que vai ou não ser publicado a partir do que foi feito pelo repórter, que apura e processa as informações. É esse gatekeeper que estrutura a notícia, relatando uma série de fatos, partindo do mais importante para o menos importante. Diferentemente da narrativa, que tem sua “organização dos eventos em sequências, de modo que o primeiro antecede o segundo, o

15

segundo o terceiro, e assim por diante, são registrados na mesma ordem em que teriam ocorrido no tempo” (LAGE, 1999, p.16), a notícia é exposta em ordem diferente (pirâmide invertida) e não por ordem cronológica do acontecimento. Ela é estruturada de acordo com a importância do fato, seguindo três fases: seleção dos eventos, ordenação dos eventos e a nomeação (LAGE, 1999).

O repórter deve saber se a informação tem importância ou se é de interesse do leitor para ser publicada e como mostrá-la sem distorcer os fatos. “Qualquer reportagem que expressa subjetividade é excluída. Nada que alguém acha, pensa, sonha, imagina é notícia, mas, sim o que alguém disse, propôs, ou confessou” (LAGE, 1999, p.25). A notícia tem que ser trabalhada com precisão. O autor esclarece que o detalhamento é importante para que não acrescente dúvidas ao leitor:
O que será um edifício alto para o leitor? O que ele acha que um edifício alto é para o redator? Quando se escreve que o edifício tem tantos andares, elimina-se a perplexidade contida nessas perguntas. Em outras palavras, os adjetivos cuja referência varia de pessoa para pessoa são evitados. E, quando se tem que lidar com grandezas para as quais não há referencial de consenso (por exemplo, a capacidade elétrica de uma usina, considerando-se que o veículo não é dirigido a técnicos), torna-se conveniente utilizar comparações (por exemplo, “a usina é capaz de abastecer uma cidade de 50 mil habitantes”). (LAGE, 1999, p.26)

No lead, que é o primeiro parágrafo da notícia impressa, geralmente são respondidas as seis perguntas básicas para o entendimento da matéria: quem? o quê? Como? Quando? Onde? Porque?. O parágrafo de complementação do lead, conhecido com sublead, é acrescido de informações e detalhes no decorrer do texto. O lead clássico não deve ser iniciado com verbo, mas, sim, pela circunstância mais importante: o sujeito (LAGE, 1999).

Lage (1999) observa que a organização da notícia em jornalismo impresso pode ser estruturada de diversos modos. Há, na maioria das vezes, o lead, o sublead, os entretítulos e a retranca. Diferentemente do impresso, a notícia no rádio e na televisão não pode ser tão extensa, porque o espectador absorve a informação diferentemente de quando se lê, por exemplo: “o ouvinte não tem possibilidade de recuperar a informação já transmitida e só pode contar com sua memória auditiva” (LAGE, 1999, p.41). No rádio e TV os textos devem ser curtos, diretos e concisos. Há, também, diferenças entre notícia e reportagem, a partir da pauta, do projeto de texto.
[…] as pautas são apenas indicações de fatos programados, da continuação (suíte) de eventos já ocorridos e dos quais se espera desdobramento. […] Reportagens supõem outro nível de planejamento. Os assuntos estão sempre disponíveis e podem ou não ser atualizados por um acontecimento. Faz-se reportagem sobre a situação da classe operária a

16

propósito de uma onda de greves ou sem qualquer motivo especial. A pauta deve indicar de que maneira o assunto será abordado, que tipo e quantas ilustrações, o tempo de apuração, os deslocamentos da equipe, o tamanho e até o estilo da matéria; para tudo isso, é preciso dispor de dados. (LAGE, 1999, p.47)

1.4 As funções sociais da mídia e do jornalismo

De acordo com Ferreira (1999) mídia é qualquer suporte de transmissão de informações, que inclui diferentes veículos (incluindo os que decorrem de tecnologias recentes, como internet e os satélites de comunicações), recursos e técnicas selecionadas para que constituam, ao mesmo tempo, um meio de expressão e um intermediário capaz de transmitir uma mensagem a um grupo. É definida, também, como meios de comunicação e comunicação de massa. Desta forma, o termo mídia é bastante complexo por incluir os meios e os processos de divulgação de uma mensagem. Com essa definição, inúmeras funções são atribuídas a ela como contribuição de formação de opinião da massa e divulgação de propagandas publicitárias. Nesse sentido, o jornalismo destaca-se com a função de divulgar notícias, de forma imparcial, a fim de proporcionar ao público informação e reflexão do tema discutido (FERREIRA, 1999). Atualmente, a mídia em geral e o jornalismo especificamente são dos mais importantes equipamentos sociais no sentido de produzir esquemas influentes de significação e interpretação do mundo. Os meios de comunicação falam, portanto, para e pelos os indivíduos, não só os orienta a pensar e sentir, como os coloca diante de problemas que exigem um posicionamento (COIMBRA, 2001).

Com o crescimento e expansão dos meios de comunicação, eles se centralizaram e passaram a ser controlados por poucas pessoas, a partir da segunda metade do século XX (COIMBRA, 2001). Hoje, a imprensa escrita e a radiodifusão são setores extremamente “nepotizados” e/ou monopolizados no país, pois "(...) nove clãs controlam mais de 90% de toda a comunicação social brasileira. Trata-se de jornais, revistas, rádios, redes de televisão, com mais de 90% de circulação, audiência e produção de informações (...) controlados pelo estamento dominante" (SODRÉ, 1992, p.43). Portanto, na medida em que os jornais exercem um papel no controle de acesso do público às informações, às coberturas noticiosas e, até mesmo, às fontes, podem, sim, influenciar no julgamento dos leitores, com formações de crenças, opiniões e atitudes em relação a um tema (ARBEX Jr., 2001).

Os impressos, especificamente os jornais diários, mesmo não tendo mais a intensa circulação

17

como antigamente, devido à convergência de mídias, são veículos de comunicação importantes, por direcionar a agenda aos leitores para o que será transmitido mais tarde na televisão ou no rádio. Portanto, independentemente do veículo, o jornalismo tem um importante papel de divulgar e fixar as notícias, programas, debates e, principalmente, fatos espetaculosos e sensacionalistas (ARBEX Jr., 2001; TRAQUINA, 2005).

A história do jornalismo, de acordo com Traquina (2005), caminha nos mesmos passos e ao lado da democracia, uma vez que a imprensa teve um papel fundamental na luta pela liberdade. Segundo o autor, os jornais eram vistos como um meio de externar as revoltas e queixas da sociedade, principalmente no que se refere às injustiças sociais. Ao mesmo tempo, eles asseguravam a proteção contra ao governo autoritário de seus líderes, sendo condição indispensável para que a democracia fosse exercida.

Mesmo que a imprensa vigie, oriente e equilibre os outros poderes, ela também exerce o seu próprio poder, denominado o “quarto poder”, o que é visível no jornalismo quanto à sua capacidade de influenciar a opinião das pessoas, chegando ao ponto de tentar ditar regras de comportamento e interferir nas escolhas do indivíduo. A partir do século XIX o jornalismo se torna mais independente dos laços políticos e transforma as redações em empresas, fazendo da notícia seu principal produto e do lucro o seu objetivo. Nesse momento o jornalismo deixa de ser opinativo para ser informativo, com os repórteres buscando incansavelmente fatos que pudessem ser noticiáveis. A partir daí, o jornalismo mostra uma realidade que é construída através da interação entre os profissionais do campo jornalístico com as fontes confiáveis, que podem ser utilizáveis em muitas matérias; com outros jornalistas, buscando compartilhar e trocar ideias; e, também, com a sociedade, os leitores e consumidores das notícias, podendo apresentar temas que sejam de interesse geral da sociedade (TRAQUINA, 2005).

18

2. DROGAS, MÍDIA E A SOCIEDADE

2.1 O uso de drogas e a sociedade

O uso de drogas pela sociedade não é um fenômeno recente. Há tempos esse comportamento faz parte da vida social e a história revela a possibilidade de uma convivência equilibrada da sociedade com o uso de diversos tipos de drogas. Com finalidades terapêuticas, culturais, religiosas ou até mesmo recreativas, é difícil encontrar uma civilização que não tenha se envolvido com uma ou mais drogas, diferindo apenas o tipo, os costumes, modos e rituais e significados de seu consumo (ANDI, 2005). Até o final do século XIX os próprios usuários de drogas tinham capacidade de controlar suas práticas de consumo, e as pressões informais de familiares, vizinhos, amigos, funcionavam como controle social, sem necessidade da criação e uso de leis específicas para esse fim (MACRAE, 2001).

Atualmente, drogas ainda são usadas individual e coletivamente para diversas funções, muitas vezes a fim de reforçar valores e laços sociais, como em comemorações e entretenimento. Seu uso é constatado também nos esportes e tratamentos psicoterapêuticos. Há também as drogas aceitas socialmente. Na cultura brasileira, por exemplo, o hábito de tomar um “cafezinho” faz parte do cotidiano de grande parte da população, como forma de manter-se acordada para mais eficácia em atividades produtivas. E, apesar de poucos terem conhecimento, substâncias como café, pó de guaraná, anabolizantes e muitas outras comumente consumidas pela população, são consideradas drogas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), por serem capazes de causar alterações no Sistema Nervoso Central (SNC) de quem as utiliza. No contexto terapêutico, o ópio é usado para amortecer a dor, assim como na realização de “curas espirituais” (ANDI, 2005; TOSCANO Jr., 2001).

Embora o uso dessas substâncias psicotrópicas esteja ligado a diversas funções e fatores sociais, sempre houve críticas e repressões em relação ao assunto. Nesse sentido, ao longo da trajetória histórica, diferentes drogas foram tornadas lícitas e ilícitas pela sociedade, de acordo com critérios, mais de ordem político-econômica, do que relacionados à saúde pública. Os efeitos e riscos da utilização de qualquer droga estão relacionados a uma série de fatores, como qual tipo de substância, quantidade usada, dentre outros. Entretanto, quando se fala das substâncias consideradas ilícitas, as discussões abordam casos extremistas como alta dependência, suicídio e violência (ANDI, 2005; TOSCANO Jr., 2001).

19

A ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância – pontua que o esgotamento do modelo atual da sociedade tem reflexo na questão das drogas. A série de frustrações dos anseios e metas de indivíduos que estão inseridos em um processo de massificação indistinta leva as pessoas a reações diversas que podem, em certos casos, extrapolar para a violência, a autodestruição e o uso de drogas. Porém, há os que vêem na estigmatização das drogas ilícitas e de seus usuários um meio fácil para disfarçar problemas estruturais e diminuir a importância de sua discussão. Cria-se assim um imaginário social e um bordão moralista expresso pela ideia de “luta contra as drogas” (ANDI, 2005).

Nesse contexto, os usuários de drogas são vistos e tratados como perigo para a sociedade e, portanto, hostilizados e reprimidos. Esse imaginário social não enxerga o uso de drogas como uma opção do indivíduo, mas entende que se há uso existe uma doença a ser tratada e ignora que nem todas as pessoas que usam drogas precisam de tratamento, já que nem todo uso significa obsessão com a droga ou algum tipo de doença. As implicações disso levam a pensar em como e quanto essa mesma sociedade interfere na vida dos usuários. Fato é que ainda falta nos cidadãos um olhar realista e sensato sobre o assunto, que evite cair nos preconceitos mais comuns das visões romantizadas ou associadas à violência. Devido a esses estereótipos, a sociedade acaba demandando uma política de repressão e não de saúde pública (ANDI, 2005).

O preconceito, exclusão e discriminação são fatores que levam um número cada vez maior de pessoas que fazem uso de drogas a tornarem-se dependentes. Quando alguém começa a fazer uso de psicotrópicos, sua tendência comportamental é aproximar-se de quem tem os mesmos hábitos. Desta forma, aos poucos, vai rompendo os laços com um grupo e juntando-se a outros. No entanto, se no grupo inicial esse alguém continua sendo bem tratado, tendo uma relação afetiva confortante, que lhe traga boas sensações, o rompimento desses laços pode ser demorado ou, até mesmo, nem acontecer. Caso contrário, quanto mais excluída a pessoa se sentir, mais procurará alívio nas drogas e aceitação no novo grupo (ANDI, 2005; ZALUAR, 1994a).

Vasconcelos (2004) observa que em determinadas situações, experiências recentes têm mostrado que é possível a redução da descriminalização, através de uma “proceduralização” da criminalização. Com esse método, o indivíduo passa a ser punido criminalmente não por consumir, plantar, vender, fumar ou aplicar a droga, mas, sim, por fazê-lo sem receita médica

20

ou sem autorização do órgão sanitário e de controle de qualidade competente (VASCONCELOS, 2004).
Esta solução aponta no caminho de respeitar a opção individual, ao mesmo tempo em que o estado e a sociedade emitem uma clara mensagem de que existe o risco do abuso das drogas, pelo que se dispõem a ajudar o dependente a se livrar do vício, reconhecendo ser este um problema de saúde pública, que não tolerarão, a exemplo do álcool, a ingestão de drogas em situações que criem perigos para terceiros, como no trânsito e, por fim, reprimirão, com todos os instrumentos do estado de Direito, a produção, a distribuição e o consumo fora dos mecanismos de prevenção e controle (VASCONCELOS, 2004, p.11).

Segundo o Drug Enforcement Administration ou Força Administrativa de Narcóticos, o Brasil é um dos países com a principal rota de tráfico de cocaína na América Latina, o que acarreta em sérios problemas sociais para o país, fato que merece a atenção das políticas públicas da área. É importante ressaltar que o álcool e o tabaco (drogas lícitas) continuam sendo as drogas mais consumidas e que trazem maiores danos à população brasileira, embora não sejam considerados tão perigosos quanto a cocaína que, por ser ilícita, está presente nas principais manchetes policiais. No entanto, com as poucas divulgações de ações voltadas para a prevenção do álcool e do tabaco, as agências publicitárias tomam esse espaço, com propagandas milionárias que disfarçam os inúmeros problemas decorrentes de seus usos, além de serem amplamente comercializados (NOTO & GALDURÓZ, 1999).

Gorgulho (2006) argumenta que o uso da maconha, por exemplo, gera uma relação de dependência apenas numa pequena parcela de seus usuários e, ainda assim, esse número é relativamente menor que o dos usuários das drogas lícitas, como o tabaco e o álcool. Segundo a autora, é uma grande hipocrisia cultural termos o álcool tão liberado como é em nossa sociedade e, em contrapartida, tratar injustamente o usuário de maconha. “A maconha é diabolizada, mas tomar o primeiro porre é sinônimo de iniciação” (GORGULHO, 2006).

O fato é que a real dimensão de drogas no Brasil ainda é pouco conhecida, bem como os problemas decorrentes de seu uso, por haver carência de estudos nessa área. O conhecimento do assunto é essencial para auxiliar as políticas públicas. E num país como o nosso, em que a sociedade tem a mídia como principal fonte de informação, o que é divulgado pelos meios de comunicação de massa torna-se verdade. Como exemplo, a carência de dados abriu espaço para que se instalasse um verdadeiro “pânico” na população no que dizia respeito ao envolvimento de estudantes com drogas ilícitas na década de 1970, conforme era noticiado na mídia (NOTO & GALDURÓZ, 1999). No entanto, somente em 1980 foram realizados os primeiros estudos epidemiológicos no Brasil, e os resultados diferiram do que era apresentado

21

pela imprensa escrita: até o final da década de 1980 a utilização de drogas ilícitas entre os jovens era pequena e estável. Somente na década de 1990 a utilização da maconha e cocaína começou a aumentar consideravelmente, justificando então a posição alarmista da imprensa. Portanto, fato de a mídia ter divulgado anos antes o aumento do uso de psicotrópicos, poderia ser analisado de vários modos.
a mídia como indutora do uso (incentivando o uso pelo excesso de informações); a mídia como indicador epidemiológico (teria sido capaz de detectar um fenômeno antes que este fosse mensurado pela epidemiologia); e poderia se tratar de um mero acaso, com fatos relativamente independentes (sem relação direta de causa-efeito), entre outras possibilidades. (NOTO et al, 2003, pág 70).

2.2 As drogas, os usuários e os meios de comunicação

O assunto em questão é um tema polêmico para toda sociedade mundial e gera discussões em todos os setores sociais. As questões relativas às drogas estão sempre em manchetes dos meios de comunicação. Contudo, além de despertar o interesse da mídia por tratar-se de um comércio ilegal que movimenta um valor considerável na economia mundial (GORGULHO, 2006), a discussão sobre drogas deveria ser maior e mais profunda no que se refere ao perfil do uso e do usuário de substâncias psicoativas. Para isso, é fundamental abrir mão de preconceitos e colocar em prática o papel da mídia de buscar e publicar as diversas versões existentes sobre a questão. Isso ajudaria a encarar o usuário como um sujeito de direitos e deveres (ANDI, 2005).

Ao lado de outras forças sociais, como igreja, família, partido político, a influência que a mídia exerce sobre o público não pode ser desprezada. Os meios de comunicação são mais um instrumento de persuasão na vida dos indivíduos, que contribuem para formação de opinião das pessoas; são veículos de divulgação de informação, as quais são consideradas por grande parte da sociedade como verdade absoluta (WOLF, 2002).

Acontecimentos relacionados ao consumo e ao tráfico de psicotrópicos, tais como campanhas antidrogas, apreensão de entorpecentes, casos de dependência e violência em decorrência do uso de drogas, têm espaço considerável no jornalismo brasileiro (GORGULHO, 2006). O tema das drogas como assunto da mídia é realmente muito complexo e amplo. Essa complexidade é demonstrada por estudo da ANDI (2005) relativo às representações da mídia sobre o uso de drogas: em 32,2% dos textos jornalísticos analisados os usuários são mostrados

22

como pessoas violentas e, em 25,5% como pessoas com problemas de saúde. Em ambos os casos, a maioria das matérias são publicadas em editorias policiais.

A explicação para o fato se dá, em parte, pelas dificuldades que o jornalista enfrenta, desde a falta de fontes confiáveis sobre a questão até o fato de fazer parte de uma sociedade hostilizadora.
O problema do jornalista se agrava, entretanto, pelo fato da sociedade brasileira não contar com referenciais múltiplos sobre a questão. Os profissionais que trabalham em acordo com a política de combate às drogas são normalmente os mais conhecidos e consultados como fontes. Aqueles que procuraram trazer novas perspectivas sobre o assunto, por não estarem em consonância com o imaginário social, quase não encontram espaço nos meios de comunicação, prejudicando a construção de matérias que contribuam para o debate público e retratem a pluralidade de idéias (ANDI, 2005, p. 09)

O fato de publicar o que se encaixa no imaginário social acaba aumentando o problema. Para haver uma mudança, a imprensa deveria se posicionar de forma mais crítica, que colaborasse para a desconstrução das ideias que pouco contribuem para o avanço da discussão sobre drogas. Como exemplo dessa desconstrução, podemos citar o fato de que usar droga não transforma, necessariamente, a pessoa em dependente; a ideia deve ser de que o usuário de drogas também é um cidadão com direitos e deveres e, portanto, as políticas públicas necessitam avançar, partindo da constatação de que os preconceitos existentes são frutos de uma produção cultural. O ponto de maior discussão deveria ser, na verdade, o descaso e a inaptidão da sociedade no tratamento desta questão (ANDI, 2005), uma vez que as medidas comumente tomadas pouco têm contribuído para amenizar os efeitos nocivos do tráfico e uso de drogas.

A maioria das matérias jornalísticas sobre drogas são baseadas em fontes policiais. A Lei de Entorpecentes (Lei nº 6.368/76)4, em seu artigo 17, criminaliza a violação do sigilo, que, segundo o art. 26, deve ser absoluto durante o inquérito policial, exceto para o juiz, ministério público, polícia e advogado. Portanto, quando um policial informa ao jornalista sobre os processos criminais, ele está cometendo uma quebra de sigilo. O enunciado do art. 12, dessa mesma lei, decreta pena de 3 a 15 anos de reclusão contra qualquer pessoa que se proponha a discutir publicamente o problema das drogas, classificando seu ato de “instigação”, “incentivo” ou “difusão”. Essa pena é a mesma para quem comete o crime de tráfico. O resultado que temos disso é que o sistema penal dá um claro sinal à sociedade de que é proibido discutir o assunto drogas, uma vez que parte do pressuposto de que a mera discussão

23

já desperta desejo. No entanto, é permitida a cobertura sensacionalista da imprensa, mesmo quando há quebra de sigilo das fontes. (VASCONCELOS, 2004).

No estudo realizado pela ANDI (2005) sobre a relação entre mídia e drogas em 17,3% das matérias analisadas há menção explícita a usuários e estes foram tratados como vítimas de violência. Porém, em 49%, foram tratados como agressores. Some-se a isso o fato de que em apenas 5,9% das matérias que enfocam centralmente casos individualizados de usuários não há relatos de violência, roubo, vício compulsivo com drogas etc (ANDI, 2005).

Pelo fato da imprensa ter credibilidade na sociedade, em geral se tem como verdade absoluta a maioria as matérias que são publicadas sobre drogas. Noto et al. (2003) mostram um descompasso da mídia com os estudos epidemiológicos realizados em 1998, analisando os artigos publicados na imprensa nacional no que se refere às “drogas ilícitas” (maconha, cocaína, entre outras) em comparação às “lícitas” (álcool e tabaco). De um lado, a população recebe uma gama de informações sobre violência relacionada ao tráfico e sobre os perigos das drogas. De outro, é alvo de sofisticadas propagandas que estimulam a venda de bebidas alcoólicas. Nesse contexto, esses grupos de “drogas”, que são vistos semelhantemente de acordo com os aspectos farmacológicos, passam a ser encarados distintamente pela sociedade, gerando atitudes incoerentes, pela ótica da saúde (NOTO et al., 2003). Ademais, os temas relacionados ao tráfico superam os temas referentes à saúde na imprensa brasileira (NOTO & MASTROIANNI, 2003).

Carlini-Cotrim & Duarte (2000), analisaram os homicídios ocorridos entre 1990 e 1995 e julgados entre 1995 e 1998, nos Tribunais do Júri de Curitiba. A pesquisa objetivou saber com que freqüência esses crimes foram causados por e/ou vitimaram indivíduos que estavam sob o efeito de bebidas alcoólicas. O resultado surpreendeu as pesquisadoras: há um equilíbrio entre os papéis de autores, com 58,9%, e vítimas, com 53,6%. No entanto, no que se refere à cobertura jornalística, a preocupação predominante era identificar os usuários de drogas como autores do crime (o que correspondeu a 32,3% das matérias analisadas), desconsiderando que eles também, frequentemente, estão sujeitos ao papel de vítimas. (CARLINI-COTRIM & DUARTE, 2000). Uma contribuição dos jornalistas para esse fato seria relatar os casos em
4

Site www.jurisway.org.br, acesso em 20/05/2011.

24

que os usuários de drogas foram vítimas de violência, informando à população que a vulnerabilidade acontece nos dois casos (ANDI, 2005).

Ainda de acordo com os estudos da ANDI (2005), algumas palavras utilizadas nas matérias jornalísticas sobre drogas, como “vício”, “drogado”, “bêbado”, “alcoólatra”, dão a entender que o usuário permanece o tempo todo sob a ação de psicotrópicos e com isso só auxiliam na diminuição da autoestima das pessoas e na estigmatização do usuário. Além deste fator, há a tendência de relacionar a condição do usuário como dependente, sem falar das muitas matérias que o retratam como criminoso (ANDI, 2005).

Este estudo demonstrou que o jornalismo assume um discurso moralista, preconceituoso e alarmista, fórmula esta que não funciona para esclarecer à população sobre um tema tão relevante. Os autores reiteram a importância de intensificar e qualificar as discussões sobre o tema (ANDI, 2005).

Para que os jornalistas melhorem a cobertura sobre o tema, além de recorrer a fontes diversificadas e qualificadas, precisam estar atentos para o fato de que existem diferenças entre uma reportagem fria e outra factual, ligada, na maior parte das vezes, a fenômenos da violência urbana. As primeiras dedicam maior espaço e cuidado às informações do que as segundas. Já as matérias factuais geralmente possuem uma visão policial e são as que mais ignoram os vários contextos que envolvem o fato, focando de maneira simplista no “uso de drogas”, toda responsabilidade pela violência. E, infelizmente, são as factuais que despertam maior interesse e repercussão na sociedade, pela quantidade de vezes em que elas são remetidas à população. Ter consciência desses tipos de matérias pode ser um passo importante para que os profissionais da comunicação tenham mais cautela ao publicá-las. Os leitores também deveriam contribuir para isso, cobrando um texto mais objetivo e que possa trazer dados para uma discussão racional e objetiva sobre a questão (ANDI, 2005).

2.3 A problemática do crack na sociedade brasileira

A produção do crack é proliferada nos laboratórios clandestinos que compram a pasta base, o sulfato de cocaína, e dela extraem a cocaína em pó e a cocaína em pedra, que é o crack. (SAPORI, 2010; NAPPO et al., 2004).

25

Quando queimado no cachimbo à temperatura aproximada de 95ºC, o crack passa do estado sólido para o gasoso e as fumaças são absorvidas pelos pulmões de quem o utiliza, atingindo rapidamente o cérebro. Em cerca de 8 segundos o crack alcança o centro do prazer e produz efeitos colaterais muito mais rápidos que pelos outros modos de utilização da cocaína, injetável e nasal, que demoram em média de 3 a 5 minutos e de 10 a 15 minutos, respectivamente, para produzir efeitos (Schwartz et al., 19915, citado por Nappo et al, 2004). Esse tempo curto entre o uso e a aparição dos efeitos, faz do crack uma droga muito “atraente” para o usuário (NAPPO et al, 2004).

Os efeitos iniciais são euforia extrema (êxtase) e sensação de onipotência e grande autoconfiança. Entretanto, o término desses efeitos é acompanhado de disforia, compulsão e fissura para a readministração da cocaína (Pollack et al., 19896 citado por Nappo et al, 2004). A fissura, definida como vontade irresistível de usar a droga, acompanha o usuário para o resto da vida, mesmo muito tempo após interromper o uso da droga. Para isso, basta algum contato com algo ou situação que lembre o uso do psicotrópico. Essa fase torna o usuário extremamente agressivo e o faz utilizar qualquer técnica para a obtenção da pedra, como roubo de pertences pessoais e familiares, violência e, até mesmo, prostituição (Inciardi, 19937 citado por Nappo et al.,, 2004).

O consumo repetitivo da droga pode durar vários dias. Durante esse período, o usuário não se importa com sua aparência física, não se alimenta, não dorme, não tem cuidados básicos com sua higiene. Essa fase só acaba quando o efeito da droga passa ou quando o usuário está totalmente esgotado, cansado (Pollack et al., 1989; Inciardi, 1993 citados por Nappo et al, 2004).

Além da fissura, diversos outros efeitos podem surgir, que intensificam o uso compulsivo: agitação, mudança repentina de comportamento, paranóia, delírio e alucinações. A paranóia é um dos efeitos mais intensos no usuário. Caracteriza-se pelo medo terrível de ser descoberto, seja pela polícia ou por parentes, tendo pavor de ser visto fazendo o uso da droga. Além disso,
Schawartz, R.H.; Luxenberg, M.G.; Hoffmann, N.G. Crack use by American middle-class adolescent polidrug busers. The Journal of Pediatrics, 1: 150-155, 1991. 6 Pollack, M.H.; Brotman A.W.; Rosenbaum, J.F. Cocaine abuse and treatment. Comprehensive Psychiatry, 30: 31-44, 1989. 7 Inciardi, J.A. Crack cocaine in the Americas, 63-75 pp. In: Monteiro M.G.; Inciardi J.A. Brazil-United States Binational Research. São Paulo: CEBRID, 1993.
5

26

torna-se desconfiado e muitas vezes age violentamente quando suspeita das intenções de alguém (NAPPO et al, 2004).

Com o passar do tempo, os efeitos diminuem e o usuário aumenta a dosagem do psicotrópico, para voltar a ter as mesmas sensações iniciais. Com esse aumento, todos os efeitos se intensificam e essa mistura de “sentimentos” deixa a pessoa profundamente angustiada. A intensidade e a rápida euforia em consonância com a forte compulsão do uso fazem do crack uma droga com alto potencial de dependência (NAPPO et al., 2004).

Por ser bem mais barato que o cloridato, o crack sempre teve uma entrada muito grande nas populações de baixa renda. Porém, essa ideia de ser mais barata é ilusória. Considerando que o efeito da droga dura, em média, 5 minutos e que o uso repetitivo se estabelece muito rapidamente e, nessa fase, o usuário consome o crack até a exaustão, comparado com a cocaína injetável ou nasal, o usuário de crack usa muito mais droga e necessita de mais recursos financeiros para obtê-la. Por isso o alto índice de roubos e prostituição em troca de dinheiro para conseguir comprar a droga (Nappo, 19968 citado por NAPPO et al., 2004).

No Brasil, a entrada do crack deu-se na década de 1990 em São Paulo. Os traficantes criaram uma estratégia de atrair e fidelizar usuários: só vendiam o crack. Os que procuravam cocaína ou maconha, não as encontravam e, como dependentes químicos, levavam o crack. Os traficantes, sabedores do poder dos efeitos eufóricos da nova droga e de sua curta duração, estavam seguros do retorno dos usuários em busca do crack. O uso compulsivo e a consequente e rápida dependência, fazia do usuário “cliente por toda a vida”. Portanto, era uma estratégia com vantagem econômica e lucro certo (NAPPO et al, 2004).

Sapori (2010) entrevistou alguns traficantes de Belo Horizonte e ficou comprovado que atualmente esta estratégia ainda é usada. “’Maconha todo mundo tem e todo mundo ganha, agora o plantão da pedra é melhor’ (traficante entrevistado)”. “Eles não se interessam em vender maconha que é barato, interessa (sic) vender o crack. Porque o crack é uma droga pequena, de consumo muito rápido, a pessoa vai voltar toda hora, é muito viciante’ (traficante entrevistado)” (SAPORI, 2010, p. 08).

Nappo, S.A.; Galduróz, J.C.; Noto, A.R. Crack use in São Paulo. Substance Use & Misuse, 31(5): 565-579, 1996.

8

27

Ainda que não exista um perfil definido do usuário de crack, o fato de usar essa droga é o suficiente para designar o sujeito como transgressor ou marginal, portanto, fora de acesso aos direitos civis e sociais. Um entrevistado de Sapori (2010) explica:

uma paciente do sexo feminino, de 42 anos de idade, classe média, casada com dois filhos, organizadora de festa infantil, usava crack há 14 anos. Explica que saía uma ou duas vezes ao mês para comprar crack, armazenava-o na própria casa e fazia uso rotineiro, sem que ninguém na sua casa tivesse conhecimento, nem seu marido. O fato de usar crack não a impedia de ser mãe, esposa e trabalhadora. Cumpria seus papeis com cuidado e administrava seu uso sem compulsão. Um certo dia seu marido descobriu e ainda que ela tenha explicado a forma de uso e o tempo - 14 anos - ele entrou com processo, conseguiu sua internação e a guarda dos filhos. Além disso, denunciou seu uso para a rede familiar e em seu local de trabalho. A partir desse momento a paciente perdeu seu direito como cidadã, até mesmo de mãe (SAPORI, 2010, p. 17).

Sapori (2004) observa que existe uma resistência do Poder Público em definir algumas estratégias para um estudo e atenção especial ao contexto em que o usuário de crack está inserido e sua rede social, no sentido de estimular o dependente a resistir e renovar os laços interrompidos com o uso compulsivo da substância. Percebe-se, ainda, a necessidade de elaboração de uma política governamental dos serviços de atenção e a ampliação na qualidade da equipe de clínicas de tratamento, com a participação de sociólogos, antropólogos e outros profissionais, para atuar de forma variada nas áreas de conhecimento, em outros campos da vida do sujeito e em suas redes interpessoais (SAPORI, 2010).

Ainda que o uso de crack esteja disseminado, dificultando a definição de um perfil de usuário, predomina ainda a imagem negativa e o discurso popular discriminatório. Esse lugar pode ter um caráter ambivalente, pois pode dar ao sujeito um status de perigoso, doente e valente, contribuindo para um ganho secundário, seja como doente, louco, bandido, entre outros. Dessa forma retroalimenta as narrativas articuladas em torno do craqueiro (...) É necessária a promoção de mais debates políticos, norteados por uma racionalidade razoável, que tenham o foco no sujeito usuário de drogas e que os atores envolvidos com a questão tenham, independentemente de sua posição, um objetivo comum, que é a promoção da qualidade de vida a esse público que, no atual contexto, se encontra socialmente marginalizado e se tornou vítima de um sistema político atrasado e pouco articulado (SAPORI, 2010, p. 17 e 20).

2.4 A entrada do crack em Belo Horizonte e a disseminação da violência

De acordo com Sapori (2010), a entrada do crack em Belo Horizonte deu-se em 1995 seguida de uma epidemia de homicídios que atingiu a capital, em 1997. Segundo seus estudos, os resultados obtidos pela pesquisa evidenciam o crescimento dos homicídios, fato que pode ser explicado pela intensificação de conflitos relacionados ao tráfico de drogas. 18,48% dos

28

homicídios analisados foram motivados por conflitos relacionados ao comércio de substâncias ilícitas, perfazendo um total 124 inquéritos policiais dos 671 analisados no período de 1990 a 2009. Esse período da consolidação e disseminação do crack na cidade coincidiu com o crescimento das vítimas na faixa etária de 15 a 24 anos de idade. A taxa de homicídios entre esses jovens tornou-se 2,5 vezes maior que a taxa dos adultos acima de 25 anos.

O senso comum idealiza a violência como resultado de uma atividade criminosa organizada. O tráfico nas favelas é visto como uma organização bastante fechada, com regras e posições hierárquicas definidas com muita rigidez na qual, uma vez inserido, não há possibilidade de desligamento. Os conflitos, que geram o aumento da violência e de homicídios, são explicados por essa rigidez. No entanto, a análise dos dados de pesquisas feitas por Sapori (2010) é diferente: foi observado que os conflitos gerados pelo tráfico de drogas não estão relacionados a uma estrutura rígida de papeis dentro da favela, mas, sim, pela estrutura aberta de redes. Apesar de serem classificadas como organizações criminosas, elas são estruturadas como redes de relacionamento, o que é bastante singular. Uma rede é alicerçada por seus contatos e o meio dessa integração é planejado conjuntamente. Uma determinada ordem é resultado de um processo, que depende das relações de seus componentes. É desta forma que funciona o tráfico de drogas ilícitas, em especial o crack, em Belo Horizonte (SAPORI, 2010).

A redução da taxa de homicídios na capital mineira se iniciou em 2005 e se manteve até 2009. O fato é explicado pela ação repressiva que fora adotada pela Secretaria de Defesa Social, que objetivou a prisão de homicidas que se recusavam a comparecer em juízo. A presença intensa da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) nas regiões de maior violência também colaborou na redução da mortalidade dos conflitos provenientes do crack (SAPORI, 2010).

A rede que comercializa o crack, sendo criminosa, é conhecida como “Rede de Bocas” e pode ser dividida de duas formas: uma é tratada como “firma reconhecida”, na qual há centralização hierárquica de comercialização. Existem patrão e divisão das atividades de trabalho. A outra é uma rede iniciada por um grupo ou por apenas um indivíduo, que assume o papel autoritário de vender em determinado ponto, mas não possui estrutura hierárquica. A formação dessas redes é implantada em locais estratégicos como pontos de venda. A população que habita essa região, no entanto, aceita (ou tolera) essa prática ilícita (SAPORI, 2010), uma vez que ela tem grande parte de culpa nesse contexto, sendo direta ou

29

indiretamente, cúmplice dos traficantes de drogas. Isso ocorre devido à “[...] utilização costumeira da expressão ‘vou falar na boca de fumo’. Boca de fumo é o local onde se vende drogas” (MAGALHÃES, 2007, p.59). Essa expressão é utilizada quando alguém vai pedir interferência dos traficantes para a solução de determinado problema que aconteça na favela (MAGALHÃES, 2007).

Os traficantes de drogas são denominados por Magalhães (2007) como empreendedores do crime, para melhor traduzir sua função. Segundo o autor, eles gostam de atuar nas favelas não apenas para o tráfico: é lá, certamente, seu mais importante e lucrativo negócio. Diversos empreendimentos que ficam sob o controle do tráfico de drogas também são disputados pelos policias, por meio das chamadas milícias.

O serviço de distribuição de butijão de gás; serviço de Kombi e vans para transporte coletivo; serviço mototáxi; distribuição de canais de TV a cabo clandestina; poço e propriedade de casas e barracos comprados, alugados ou expropriados; propriedade de bares e/ou biroscas, principalmente próximas á boca de fumo – já que o local tende a tornar-se centro de referência comercial. (MAGALHÃES, 2007, p.59).

Essa disputa trata-se de um amplo negócio que desperta interesse na população, criando vínculos e causando grandes danos na vida de muita gente. Isso é explicado pela insuficiente qualidade de ação do Estado ou dos parceiros do Estado nas favelas. Os investimentos em escolas, ONG´s, postos de saúde e até mesmo postos policiais é de baixa categoria. Logo, esses não modificam a vida dos que habitam em aglomerados ou favelas. Nesse contexto, qualquer problema ou dificuldade não atendida pelo Estado faz com que a população recorra ao traficante: “vou falar na boca de fumo”. Assim, os traficantes impõem as regras e a população deve segui-las prontamente. Caso contrário, todos estão sujeitos a punições. Entretanto, os traficantes também se mobilizam em função do povo. Cotidianamente, eles distribuem eletrodomésticos, que são roubados ou conseguidos por meio de troca de favores. Em épocas de comemorações, como Natal, as crianças ganham presentes. Em situações de aflição e dor, são as pessoas da boca de fumo que auxiliam os moradores. Uma vez que essas práticas são incorporadas na favela, tornam-se práticas habituais de quem ali reside. “Somente políticas repressivas não apontam para a solução do problema” (MAGALHÃES, 2007, p.61).

Alexandre (2007) argumenta que a repressão ao tráfico e ao consumo de drogas agrava o problema da violência o que, às vezes, chega a ser mais prejudicial que a própria droga. O

30

autor explica que tratar o consumo de drogas e seu comércio como crime, estereotipando os usuários e traficantes como quase “demoníacos”, não contribui em nada para reduzir esse consumo, nem para criar um mundo livre das drogas, como pretende a ONU (Organização das Nações Unidas).

[...] a repressão aos usuários, embora mais coerente com a atual diretriz de guerra às drogas, apenas agravaria a desestabilização do estado de direito. Imagine uma lei marcial que condenasse à morte todo aquele contra quem fosse provado ser usuário de maconha e cocaína. Ou, para sermos teoricamente mais humanistas, uma pena de cinco anos de reclusão em regime fechado para todo e qualquer usuário. Onde caberia tanta gente? E quem pagaria tantos presídios e penitenciárias? (ALEXANDRE, 2007, p.205)

Para parte da população, o traficante é visto como inimigo, enquanto o usuário é rotulado como “pobre coitado”, vítima indefesa que não sabe o que fazer na hora da fraqueza. A sociedade tem que aprender a conviver com a drogadição, caso não queira que o exército interfira no combate ao tráfico, para que não se repita em nenhum lugar do nosso país a tragédia de Canudos (ALEXANDRE, 2007).

O conflito do crack nas Bocas é relacionado ao fator mercadológico, devido ao processo de endividamento que envolve tanto os usuários quanto os próprios “funcionários da Boca”, que exercem o papel de responsáveis pela comercialização da droga. No caso do endividamento do usuário, ele não está tendente a ser vítima de homicídios ou qualquer tipo de violência devido à sua dívida, exceto quando é quebrada a metodologia dos débitos, que é considerada traição e não endividamento. É o caso de um usuário que deve uma determinada Boca e, por estar endividado e impossibilitado de comprar nessa Boca, compra de outra. Isso significa o rompimento de um “código local” que, inclusive, é denunciado entre as Bocas concorrentes (SAPORI, 2010).

“O traficante não mata o usuário porque ele tá devendo. Ele mata porque ele é um sem vergonha e tá devendo e foi comprar na outra Boca. É nessa situação que ele mata o usuário. Se ele comprou num pagou, mas num tá devendo, não tá usando, o traficante segura mais a onda. Mas se vê que ele tá chapado, tá tirando mercado dele, ‘cê tá achando que eu sou otário?”( traficante entrevistado). (SAPORI, 2010, p.11).

Na medida em que as redes de contatos se ampliam, os conflitos também aumentam. É muito recorrente a incorporação de usuários à rede de comercialização. Isso ocasiona mais um problema quando este é designado a vender o crack, chamado de “cadeia de repasse”. O traficante passa o crack para esse vendedor que remete a droga para o usuário e,

31

posteriormente, tem que acertar as contas com o traficante. No entanto, devido à fissura ocasionada pelo uso excessivo, o vendedor consome uma parte do que era pra ser vendido, sendo esta, mais uma variável de violência relacionada ao crack.

“Eles ficam ali ajudando os traficantes, os distribuidores a distribuir, vigiando, ou até mesmo entregando pedrinha em troca de pedrinha, porque não pode ser mais, porque se você dá pra ele 5 pedrinhas e pede pra entregar em algum local, antes de chegar lá eles já fumaram as pedrinhas...” (traficante entrevistado) (...) “Agora tem nego que não fuma a pedra é a pedra que fuma o cara. Bandido que é bandido não é viciado. Cê tá vendendo 50 bolinho, cê vai queimar 10? Aí cê queimou o lucro todo!” (traficante entrevistado). (SAPORI, 2010, p.12)

Outro aspecto que vale ser ressaltado e que gera conflitos é o fato de algumas Bocas terem domínio, lucro e rentabilidade muito grande. Isso atrai outras bocas que atuam no mesmo local, fenômeno este chamado de “olho grande”. Essa situação, dependendo da força dos controladores de uma Boca, pode ocasionar a tomada da Boca ou ao desmoronamento da mesma. Esses conflitos são denominados “guerra do tráfico” (SAPORI, 2010).

Sapori (2010) explica que quanto mais organizada e forte em contatos for uma rede, menor será a possibilidade de haver conflitos internos àquela rede. Os conflitos não são interessantes para os patrões das redes, uma vez que atraem as atenções e criam exposição indesejada, podendo levar a uma total desestruturação da dinâmica construída.

32

3 O CRACK COMO NOTÍCIA

O estímulo da discussão sobre o papel da mídia na divulgação de temas relacionados às drogas, especificamente o crack, se faz necessário para um melhor entendimento da sociedade. A partir da cobertura dos jornais, a população em geral poderá ser pautada pela temática, já que os meios de comunicação exercem o papel de meios fundamentais para o debate de temas sociais. No entanto, não basta somente pautar assuntos ligados as drogas. É preciso aprofundar na análise desses temas, problematizando as possíveis soluções e alertando a população para o debate sobre a questão.

A história de um jornal se escreve misturada à história de outros jornais e ao desenvolvimento da imprensa em uma sociedade. No entanto, cada jornal é único, dotado de uma existência e configuração particulares, destilando uma lógica própria. Um jornal adquire sua identidade – sua fisionomia conhecida – através da materialidade de suas páginas, do seu recorte temático e tratamento da informação. O jornal é produto e instância de produção, e a palavra jornalística, elemento fundamental nas relações de identificação entre o jornal e seu público, constrói-se em íntima relação com a palavra social (FRANÇA, 1998, p.101)

3.1 Estado de Minas: um jornal tradicional

O Estado de Minas é um dos mais importantes jornais do País, fundado em 07 de março de 1928 e, desde então, editado pelos Diários Associados. Conhecido, também como o grande jornal dos mineiros, o impresso consolida os principais fatos de Minas Gerais e do Brasil, retratando, comentando e noticiando acontecimentos que impactam na vida dos leitores. De acordo com o discurso no site dos Diários Associados9, a publicação é referência para a formação da opinião pública no Estado e seu diferencial é a credibilidade de seu conteúdo com manchete concisa, bem elaborada e rica em detalhes (quesito importante para aguçar o interesse do leitor na matéria).

O Estado de Minas pratica um jornalismo institucional, de comunicados e de colaboração com as fontes, podendo assim ser classificado devido a diversidades de assuntos e à abundância de temas. No entanto, não possui uma linha editorial que o defina e não há uniformidade entre os cadernos.

9

Site http://www.diariosassociados.com.br/, acesso em 22/05/2011.

33

Editado em formato standard, o jornal tem circulação diária com cadernos fixos: Classificados, Política, Ciência, Opinião, Nacional, Internacional, Esportes, Gerais, EM Cultura e Economia, e conteúdo diferenciado na internet, podendo ser visto, somente pelos assinantes, em versão digital. Como suplementos, que não são veiculados em todas as edições diárias, possui os cadernos: Agropecuário, Bem viver, Divirta-se, Ragga Drops, Direito & Justiça, Emprego, Feminino & Masculino, Guia de negócios, Gurilândia, Hora Livre, Imóveis, Informática, Pensar, Prazer EM ajudar, Turismo, TV e Veículos. Voltado mais para as classes B e C, o perfil de seus eleitores são em 53% homens e em 47% mulheres, com idade, em geral, acima de 20 anos.

Entre os principais jornais que circulam na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o Estado de Minas é o que apresenta o maior número de leitores que ocupam cargos em nível superior em suas atividades profissionais, graduados, pós-graduados ou que pretendem fazer cursos de pós-graduação; possuem renda familiar a partir de 10 salários mínimos (tem aplicações financeiras); pretendem viajar para o exterior e costumam frequentar exposições, museus, e peças de teatro. 10

Aos domingos, a circulação é de, aproximadamente, 102.034 exemplares, sendo 74% em assinaturas e 24% em vendas avulsas; nos dias úteis é de 71.926 exemplares, com 90% de assinaturas e 10% de vendas avulsas. 11

O caderno Gerais, um dos mais importantes do jornal, publicado diariamente, é uma editoria que apresenta assuntos diversos, como educação, saúde, segurança pública, meio ambiente, lazer, cultura e outros, além de colunas e seções de grande audiência dos leitores. Nesta pesquisa, a maioria das matérias relacionadas ao crack foi encontrada nesta editoria.

Segundo França (1998), o Estado de Minas possui compromissos com os interesses do Estado, que está acima de posições partidárias e questões pessoais. Já Carrato (1988) diz que
“O Estado de Minas apenas ‘noticia’ o fato, silenciado sobre suas implicações. Em nome dos ‘interesses dos mineiros ele passa a defender os seus interesses, selecionando para publicar apenas os fatos que não colidam com esses interesses. Agindo assim, o Estado de Minas, na prática, inaugura a censura em sua redação antes mesmo dela ser implantada no País” (CARRATO, 1988, p. 90).

10 11

Site Diários Associados www.diariosassociados.com.br, acesso em 25/05/2011. Instituto de Verificação de Circulação (IVC), de setembro de 2009.

34

3.2 Hoje Em Dia: consolidação rápida no mercado

Fundado em 11 de novembro de 1988 por um grupo de empresários ligados ao então governador Newton Cardoso, o jornal Hoje Em Dia foi formado a partir de um conflito estabelecido entre o governador e o jornal Estado de Minas. Minas Gerais, um dos estados mais importantes do país, contava apenas com um grande jornal, o que gerava uma limitação de fonte de notícias para o leitor e uma estagnação em termos editoriais e gráficos. O novo jornal, o Hoje em Dia, surgiu desde a sua primeira edição, com a marca da inovação e com a proposta de integrar Minas através de suas páginas. No dia 24 de fevereiro desse ano, os mineiros se depararam com um nova opção nas bancas, um jornal que trazia cores em suas páginas, novidades gráficas, conteúdo editorial em sintonia com o leitor mineiro e profissionais de qualidade dispostos a fazer história no mercado de comunicação impressa, muitos que inclusive fazem parte até hoje da equipe profissional. Com um projeto editorial arrojado e cobertura em grande parcela do Estado, através de repórteres correspondentes, inicialmente surpreendeu a todos, instituindo uma política de assinaturas e de circulação às cidades interioranas, que eram tradicionalmente ignoradas pelo Estado de Minas, como as regiões Norte e Vale do Jequitinhonha do Estado (FRANÇA, 1998; CARRATO, 2002).
Em termos de planejamento visual e do uso de policromia nas capas e contracapas de seus cadernos, o Hoje em Dia revolucionou a imprensa mineira, acostumada a preto e branco e à diagramação conservadora do Estado de Minas. O Hoje em Dia passou a fazer oposição aberta ao Estado de Minas. Seu slogan – “Um jornal de verdade” – deixava isso patente (CARRATO, 2002, p. 476)

Tudo isso rendeu ao Hoje em Dia o prêmio de Veículo do Ano, concedido pela Associação Mineira de Propaganda (AMP). No seu segundo ano, o jornal seguia conquistando cada vez mais leitores e o reconhecimento no mercado mineiro. A prova disso veio com mais um prêmio de Veículo do Ano pela AMP. O jornal se destacou pelo uso de cores, a impressão, os gráficos e ilustrações utilizadas, textos objetivos e claros, maquinário moderno e o investimento que realizava na interiorização. Sua primeira sucursal foi inaugurada em Governador Valadares, e iniciou-se o processo de implantação das sucursais em Montes Claros e Varginha.

Dentre diversas inovações, o Hoje em Dia, em 1990, ganhou uma das premiações de jornalismo mais cobiçadas: o Prêmio Esso de Jornalismo, pela série de reportagens “Operação

35

Arrastão”, uma denúncia sobre a operação das polícias que prenderam ilegalmente mais de 500 crianças e adolescentes em Belo Horizonte. 12

Assim que Newton Cardoso saiu do governo de Minas, sua tiragem sofreu uma redução drástica, sendo vendido, logo após, à Igreja Universal do Reino de Deus e deixando de circular aos domingos (FRANÇA, 1998).

1995 foi um ano de grandes novidades e o jornal voltou a circular aos domingos. O projeto gráfico e editorial foi atualizado, assim como o setor de pré-impressão. Com tudo isso, o faturamento comercial e a circulação cresceram, e o Hoje em Dia consolidou-se, como o segundo veículo de mídia impressa do estado.

Dois grandes prêmios marcaram o ano de 1997. A reportagem sobre a dura vida dos trabalhadores do Vale do Jequitinhonha e sobre os sobreviventes do Massacre de Eldorado dos Carajás renderam ao Hoje em Dia o Prêmio Esso de Jornalismo. Com a comemoração do centenário de Belo Horizonte, o jornal publicou um caderno especial, com uma edição 100% em cores, sendo o primeiro jornal brasileiro a realizar esse feito. No Fórum das Américas, realizado em Belo Horizonte, o HD publicou caderno especial trilingüe, com edições em português, inglês e espanhol.

Em 1999, o jornal é auditado pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC), e se consolida como o segundo veículo impresso em circulação diária em Minas. Em 2000, o Hoje em Dia comemora o lançamento do caderno Domingo, publicado semanalmente com um resumo dos principais acontecimentos sociais do Estado e colunas especializadas. O caderno Minas cresce, garantindo uma cobertura mais completa. O projeto gráfico se moderniza. Lança o Clube Mirim, voltado para o público infantil. E ganha prêmios, como o Fiat Allis de Jornalismo Econômico.

A empresa tem um faturamento médio de seis milhões de reais mês dentre venda de jornais (assinatura e avulso), publicidade e parque industrial (impressão de jornais de terceiros). Seus clientes são leitores formadores de opinião, pertencentes às Classes ABC, sendo 51% homens
Informações da Gerente de Marketing do jornal Hoje em Dia, Cristina da Silva Bonatti, enviadas via e-mail em 08/05/2011. cbonatti@hojeemdia.com.br
12

36

e 49% Mulheres. Circula em mais de 300 municípios mineiros, Brasília e comercialmente em São Paulo e Rio de Janeiro.

O Hoje em Dia abraçou duas causas importantes nos últimos seis anos: uma ambiental e outra social. Anualmente realiza um seminário com o tema Meio Ambiente e Cidadania, promovendo a discussão de assuntos importantes para a preservação ambiental; publica semanalmente uma página de meio ambiente com a cobertura pontual sobre o tema; apóia e desenvolve várias campanhas de conscientização, bem como campanhas e ações internas com o mesmo objetivo. Na área social criou o selo “Eu Acredito no Conhecimento” e desenvolve várias atividades que promovem o estímulo à leitura e à formação da cidadania entre jovens em situação de risco social. Doa, também, jornais para projetos de leitura e possui um caderno e um prêmio na área do terceiro setor, onde divulga e homenageia projetos sociais que fazem a diferença na vida das pessoas.

3.3 O Tempo: do standard ao tabloide

O O Tempo foi lançado em 21 de novembro de 1996. Com sede em Contagem (MG) e circulação diária, adotou, em 24 de março de 2008, o formato tabloide, seguindo a nova tendência dos jornais, em especial ao jornal Super Notícia (veículo do mesmo grupo do O Tempo), que teve altos índices de vendagem com seu formato de acesso maleável e publicações de notícias espetaculosas e sensacionalistas. De propriedade da Sempre Editora, integrante do grupo SADA (transportes e armazenagens), o jornal tem como presidente Vittorio Medioli, um dos colunistas do caderno de Política. Entre as novidades que trouxe com o novo formato, O Tempo passou a circular com novos cadernos voltados para os segmentos de turismo, automóveis e imobiliários e um completo caderno de classificados aos domingos. Com circulação em Minas em 344 cidades e nas praças de Brasília, São Paulo, Vitória e Guarapari, o jornal traz outros cadernos e suplementos variados.

Possui como cadernos fixos: • Política: Colunas de Elio Gaspari, Dora Kramer, Vittorio Medioli, Raquel Faria, Carla Kreefft, Luiz Carlos Bernardese Teodomiro Braga. • Economia: Destaque para as atividades econômicas de Minas, a coluna de Miriam Leitão de terça-feira a domingo e de George Vidor às segundas-feiras.

37

• Esportes: Conta com os colunistas esportivos: Tostão, Chico Maia, Mário Marra e Marcos Guiotti. • Cidades: Cobertura do cotidiano da cidade: trânsito, urbanismo, segurança pública. • Magazine: Tem entre seus colunistas Paulo Navarro, Sebastião Nunes, Xico Sá e Laura Medioli. • Opinião: Coluna de Arnaldo Jabor às terças-feiras e Trigueirinho aos domingos. • Pandora: Caderno Feminino com circulação aos domingos.

Os cadernos suplementares são: • Imóveis & Construção: Tendências, mudanças e inovações do mercado imobiliário mineiro. Circula todas as quintas-feiras, com os anúncios classificados do segmento. • Fim de Semana: Guia cultural da cidade com as principais atrações do fim de semana, programação de cinema, teatro, TV, música e roteiro gastronômico. Circula todas as sextasfeiras. • O Tempinho: O jornal feito para crianças, com informações, dicas escolares, quadrinhos e diversão. Circulação aos sábados. • TV Tudo: O que acontece na TV e no mundo das celebridades. Todos os domingos. • Viagens: Dicas de viagens e turismo, alternativas de passeios. Circula às terças-feiras. • Carro & Cia: Sobre veículos, lançamentos e novidades do setor automobilístico. Às quartasfeiras, com os anúncios classificados do segmento. • Guia do Assinante: Um guia com descontos exclusivos para os assinantes. Circula todo primeiro sábado do mês. • Classificados: Um caderno de Classificados que circula aos domingos com ofertas de imóveis, veículos, empregos e outros segmentos.

Sua circulação média diária, de acordo com dados do IVC, em maio/2011, é de 42.784 exemplares. O perfil de seus leitores é de 52% masculino e 48% feminino, com público predominante das classes sociais B e C, com idades de 30 a 39 anos que, na grande maioria, são casados. A escolaridade de seus seguidores é de 2º grau completo, com grande parte em curso superior, fazendo parte da População Economicamente Ativa (PEA). Os assuntos que lhes trazem mais interesse são as “atualidades/notícias do momento”, seguido de “saúde e bem estar”. As que menos surtem interesses nos leitores são as matérias de “Culinária” e “Medicina/Descobertas Científicas”.

38

3.4 Metodologia de análise

A metodologia definida e aplicada neste estudo foi a análise quantitativa e qualitativa das matérias escolhidas, aquelas que tratavam do crack. A primeira buscou quantificar a presença do tema em questão e dos subtemas a ele relacionados e a segunda direcionou-se para o conteúdo das matérias. Verificou-se o perfil do uso e do usuário desta droga traçado nos três impressos de maior importância no Estado de Minas Gerais: o Estado de Minas, o Hoje em Dia e O Tempo. Além dessas análises, observou-se quais as fontes mais ouvidas pelos jornais estudados, porque, como disse Traquina (2005), verificar como é estabelecida a relação entre fontes e jornalistas e como esse diálogo interfere nas notícias é tão importante, no que se refere a um tema de cunho social, quanto a observação de fotos, títulos, qualidade textual, tema e abordagem, linguagem, elaboração dos leads, dentre outros aspectos.

Os jornais o Estado de Minas, O Tempo e Hoje em Dia foram analisados no meio impresso, e as matérias selecionadas foram publicadas entre os meses de outubro/2010 a dezembro/2010. Para a análise, foram recolhidas 133 matérias (sendo reportagens, notas, editoriais, artigos). Entretanto, serão analisadas somente 14 matérias, fazendo mais um recorte, analisando as principais reportagens de cada jornal, devido ao grande volume de material encontrado e ao tempo estabelecido para execução dessa monografia. A pesquisa bibliográfica envolveu livros, artigos especializados sobre o tema em questão e também sobre o jornal impresso, teorias de comunicação, critérios de noticiabilidade e técnicas de reportagem. A pesquisa documental envolveu estudos da ANDI, da Pontifícia Universidade Católica (PUC/MG), além de livros e outros relatórios.

39

3.4.1 Análise Quantitativa

Dados quantitativos sobre as publicações analisadas (artigos, editoriais, reportagens, notas etc).

QUADRO I JORNAIS ESTADO DE MINAS HOJE EM DIA O TEMPO TOTAL POR JORNAL NO PERÍODO OUTUBRO NOVEMBRO DEZEMBRO ANALISADO 9 20 12 12 15 18 22 13 15 43 48 45 MESES

TOTAL GERAL ANALISADO

136

Pela análise quantitativa, percebemos claramente que ambos os jornais tiveram um equilíbrio na quantidade de matérias publicadas sobre o crack, ficando entre 43 e 48. No entanto, o jornal Hoje em Dia, analisando o total final, foi o veículo que mais teve matérias publicadas no período analisado.

Os números supracitados não são reportagens exclusivas sobre o crack. Muitas delas, inclusive no jornal Estado de Minas, eram sobre outras drogas que, na ocasião, mencionavam o entorpecente e por isso foram incluídas. O jornal Hoje em Dia teve 3 capas sobre o tema em questão, enquanto o EM teve 4 e o O Tempo, 5. Não houve coincidência dos temas apresentados nas capas dos jornais.

3.4.2 Análise Qualitativa

A análise qualitativa foi feita dia a dia, separando as notícias que tiveram mais destaque nos jornais. Os conteúdos das matérias foram descritos brevemente abaixo e, em seguida, tem-se a análise de cada critério mencionado anteriormente.

40

3.4.2.1 O crack no Estado de Minas

Em 17 de novembro, no caderno Gerais, o jornal Estado de Minas noticiou o vício do advogado do goleiro Bruno, um dos acusados pela morte de Eliza Samúdio, Érico Quaresma, em crack. O advogado foi flagrado numa boca de fumo supostamente localizada no bairro Carlos Prates, em Belo Horizonte, compartilhando o cachimbo da droga com outros usuários.

A matéria teve valor notícia por se tratar de um personagem que estava com diversas aparições na mídia, ser advogado de defesa de um famoso acusado por assassinato e que se envolveu com drogas ilegais. Isso atende aos critérios de noticiabilidade, uma vez que diz respeito a um profissional que tem em seu código de ética trabalhar em busca da legalidade e da verdade, mas que fere as normas que deveria acatar.

Em relação ao texto, é de fácil entendimento, objetivo e escrito com clareza para o leitor. No entanto, a linguagem referenciada aos usuários que acompanhavam Érico Quaresma, é de “viciados alvoroçados com a presença de um ‘famoso’”. A reportagem também se refere ao advogado, em alguns momentos, como viciado.

A foto da matéria é um “pause” do vídeo divulgado na imprensa, com Quaresma acendendo o cachimbo de crack. Traz como legenda: “Imagem de outubro mostra o advogado do goleiro Bruno, na favela Ventosa, consumindo droga”. O título é simples, curto e objetivo, trazendo o assunto da reportagem nele: “Quaresma revela vício no crack”.

O lead respeita as seis perguntas básicas para ser bem construído: Quem fez? O que? Quando? Onde? Como? Porque?.

Outra notícia interessante no Estado de Minas, capa da edição de 01 de dezembro de 2010, que tem como título em caixa alta “TRAFICANTES PERDEM R$ 100 MILHÕES”, traz um pequeno resumo do que o leitor vai encontrar na íntegra da matéria, além de duas fotos: uma exibindo armas de grosso calibre e outra mostrando a quantidade de droga apreendida (33 toneladas de maconha, 235 quilos de cocaína, 27 quilos de crack e 405 frascos de lança perfume). Na matéria, que fora veiculada no caderno Nacional, na página 11, há o tema da reportagem no cabeçalho superior (“COMBATE AO TRÁFICO”), seguida se um chapéu (“Comandante da PM afirma que o impacto financeiro para as facções criminosas é muito

41

grande. Secretário ameniza fuga dos traficantes e diz que o importante, no momento, é a tomada territorial”) e, após, o título (Prejuízo do tráfico passa de R$ 100 milhões). O lead respeita as seis perguntas básicas, respondendo: Quem fez? O que? Quando? Onde? Como? Porque?.

A reportagem fala que a apreensão de 135 armas de grande porte e da significativa quantidade de drogas, é um prejuízo aos traficantes do Complexo Alemão, no Rio de Janeiro. A notícia foi veiculada na época dos conflitos entre policias e traficantes da Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão. Esse é o principal motivo por ter valor de notícia: uma matéria factual, quente, que valoriza a ação da polícia e ameniza a situação de fuga dos traficantes. “O mais importante é a conquista de território. Esses traficantes que fugiram serão buscados pela polícia. Não houve falha no cerco. Se olhar o que cada preso significa é um resultado positivo. O objetivo principal é devolver território às pessoas. Se prendermos pessoas e armas, melhor ainda”, afirmou o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, em entrevista ao jornal, minimizando a fuga dos traficantes do cerco da polícia no local. Ele ainda acrescentou que essa apreensão enfraquece significativamente o Comando Vermelho, facção que controlava o Complexo do Alemão.

A reportagem mostra, ainda, que o secretário disse que as denúncias feitas por moradores em relação ao abuso dos policiais contra os mesmos, precisam ser comprovadas e que o resultado da operação no Alemão tem mais relevância que essas denúncias. “Mesmo que essas coisas tenham acontecido pontualmente, repito: o que está aqui em nossas costas é muito maior do que qualquer outra coisa”, afirmou, se referindo às drogas e fuzis que se encontravam no local da entrevista

Uma afirmação como esta pode soar como desconsideração da ação de policiais que abusaram da população, já que “pouco importa o que os policias fizeram à população. O importante é que apreendemos as drogas e as armas”.

O texto é bem escrito, de fácil entendimento para o leitor e não há nenhuma menção pejorativa em relação aos envolvidos na notícia. O lead também é bem construído, contendo o resumo da matéria inteira nele.

42

Na edição do dia 14 de dezembro, a capa do jornal teve o resumo das principais editorias, constando a pesquisa que revelou o aumento de crack no país, capa do caderno Nacional. Com o título “Uso de crack se alastra pelo país” e o chapéu “Pesquisa em 71% das cidades brasileiras mostra que a presença da droga chega a 98% delas e faltam centros de tratamento”, (ambos fazendo, corretamente, o resumo do lead), a matéria diz que, segundo pesquisa feita pela Confederação Nacional dos Municípios (CMN), o crack já atinge 98% das cidades brasileiras e que apenas 8,5% têm programas próprios de prevenção e apoio a viciados. Aqui em Minas Gerais, onde o entorpecente também avança a longos passos, apenas 6,7% do total de prefeituras que possuem programas próprios de combate ao crack.

A construção de uma notícia veiculada na mídia interfere na formação de opinião, conceitos, atitudes e expectativas da sociedade, fatores estes que acarretam na mudança de como a população encara a questão (WOLF, 2002, 2003; ARBEX Jr., 2001). Nesse sentido, o critério de valor-notícia, analisados a partir do profissional newsmaking, parte do fato de que trata-se de um fato público, que atinge toda a comunidade.

A fotografia é de um usuário acendendo o crack em um cachimbo, dando ênfase à chama do fogo e às mãos de quem acende. Não é mostrado rosto e nenhuma outra parte do corpo da pessoa. Traz como legenda: “Apenas 14,7% dos municípios afirmaram ter locais para atender os viciados. Desses, apenas 24,6% contam com dinheiro do governo federal”.

O texto também é bem escrito, com objetividade e clareza ao expor a situação para o leitor, sem termos pejorativos, exceto na legenda, que usa a palavra ‘viciados’, a qual poderia ser trocada por usuário, visto que o termo ‘viciados’, segundo Zaluar (1994ab), é inadequado na abordagem do assunto, criando uma imagem deturpada dos envolvidos e repassando aos cidadãos informações que dificultam o combate ao problema.

Nesta matéria, além da pesquisa realizada pela CNM, foi ouvida apenas uma fonte, que foi o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski. O lead também resume todo o conteúdo da matéria e passa ao leitor as principais informações da mesma.

Na mesma edição do Estado de Minas, o editorial do jornal é relacionado à matéria supracitada, destacando que mais de 70% dos municípios brasileiros já convivem com a droga. Com o título “Avanços do crack”, o editorialista contextualiza a história do

43

entorpecente e comenta os seus malefícios à saúde, e fala do rápido avanço da droga no país, segundo a pesquisa da CNM. Em sua conclusão, ele diz que as dificuldades burocráticas para ter acesso ao programa de prevenção e a atitude do governo federal de excluir as cidades com menos de 20 mil habitantes, tornam-se inviáveis, uma vez que se o entorpecente diminui em um determinado município por causa das precauções tomadas pelo governo, a tendência é crescer nas cidades que estão de fora do atendimento

O editorialista faz um protesto contra as políticas públicas, dizendo que
Não dá mais para deixar o futuro de boa parte da juventude à mercê dessa praga e dos que enriquecem com sua venda. Aos próximos governantes cabe entender a gravidade do problema, romper com a inércia e com a burocracia, para buscar, com inteligência e celeridade, estancar essa perigosa hemorragia, antes que seja tarde demais (Jornal ESTADO DE MINAS, Caderno Opinião, Editorial, pág. 10 – Edição de 14 de dezembro de 2010).

A edição do dia 19 de dezembro, domingo, no caderno Nacional, trouxe um título interessante, em caixa alta: “DE PEDRA EM PEDRA, A VIDA VIRA FUMAÇA”. No próprio título, que tem como chapéu explicativo “Usuários, ex-viciados e parentes de dependentes de crack relatam como a substância corrompe o comportamento e destrói parâmetros, independente da classe social”, enxergamos nas entrelinhas que a matéria vai falar dos malefícios e dificuldades de quem convive com o entorpecente. Títulos devem ser bem feitos e trazerem de forma resumida, sem espetacularização e repressão, o que há de mais importante na matéria, com o intuito de captar os leitores. Ele deve sintetizar a ideia principal e facilitar a leitura do texto, informando, no menor número possível de palavras, o que será encontrado pelo leitor. É a primeira coisa a ser lida pelo leitor e a última a ser escrita pelo repórter. Muitas vezes vêm com chapéus e bigodes, complementado a informação do título e trazendo, muito sinteticamente, o que será visto no lead.

Essa notícia no Estado de Minas teve como fontes psicólogos, que dizem que a internação não é o suficiente.
Ter uma interação saudável com a família facilita o reconhecimento precoce da dependência. É não é apenas a internação e está curado. É um tratamento contínuo para o resto da vida, mesmo que a pessoa nunca mais faça o uso da substância. E depois da desintoxicação e de trabalhar a autoestima e o planejamento de vida do paciente, deve ser feita a ressocialização com acompanhamento da família e do terapeuta (Juliana Peroni, psicóloga do grupo de encaminhamento e tratamento psicossocial de Brasília. – Entrevista para o EM, edição de 19/12/2010, caderno Nacional, pág. 16).

Muito bem construída, tanto na qualidade textual como na linguagem utilizada, a notícia trouxe três retrancas, dividas pro temas. A primeira fala dos sintomas agressivos e rápidos que

44

a droga traz; a segunda fala da inclusão do crack na classe média e a terceira fala da falta de limites que alguns usuários têm. Nesta, o repórter tem exemplo um ex-usuário que chegou a vender 5 carros e consumir R$ 30 mil de suas economias. A matéria também foi mencionada na capa do jornal, no resumo das principais editorias.

As fotos são de dois ex-usuários, que foram utilizados como fonte na matéria, contando o drama que viveram com o entorpecente.

Vejamos, agora, o início desta matéria, na mesma edição do Estado de Minas, onde o caderno Nacional fez um especial sobre drogas.

O rapaz não conseguia dormir há dois dias. As dores no corpo são insuportáveis. Ele passa o tempo inteiro deitado no chão do quarto, com todas as janelas fechadas, se contorcendo, como se tivesse acabado de sair de uma sessão de tortura. As luzes permanecem desligadas porque a fotofobia é outro tormento para esse usuário de crack, que está sem usar a droga há uma semana. O jovem implora, aos prantos, “só por mais uma pedra” (Jornal Estado de Minas, edição de 19 de dezembro de 2010, caderno Nacional, p. 17).

De acordo com Angrimani (1995) o sensacionalismo vincula-se à linguagem nas notícias e esses mecanismos que seduzem o leitor pela informação quente, circunstancial, bizarra. No entanto, a situação supracitada é fictícia, criada a partir de declarações de especialistas no tratamento do crack e de depoimentos de dependentes da droga. Isso impressiona o leitor e o deixa preso a matéria.

Apesar do início sensacionalista, no desenrolar da reportagem a problemática levada ao leitor é o que acontece na realidade. Além disso, chama atenção para os parcos investimentos no combate ao crack: em maio de 2010 foi lançado o Plano de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas, que previa um investimento de R$ 140 milhões. No entanto, até a data da notícia, 19 de dezembro de 2010, somente 60% desses recursos foram aplicados. A política de tratamento do governo é ruim e mostra a irresponsabilidade do Ministério da Saúde quando afirma que o problema da droga não é só saúde. Em entrevista ao Estado de Minas, nesta mesma matéria, o coordenador geral da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ronaldo Laranjeira, alerta que, atualmente, já se sabe como tratar um dependente de crack, mas o Ministério da Saúde não divulga como deve ser o tratamentopadrão, como se não existisse um.
O ideal é levar o usuário a um profissional com experiência na dependência química daquela substância para que seja feita uma boa avaliação. Não precisa, necessariamente, ser

45

uma consulta com um psiquiatra, mas pode ser com um psicólogo, desde que ele seja especialista no assunto. É preciso ressaltar que, mesmo quando já há possibilidade de internação em clínica, é importante estar certo de que a estrutura e a equipe estejam preparadas para o caso apresentado (Ronaldo Laranjeira, coordenador geral da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em entrevista ao EM, caderno Nacional, p. 17).

Essa notícia, que tem como título em caixa alta “QUANDO O DRAMA BATE À SUA PORTA”, e com chapéu explicativo de “Lidar com a situação é tão complicado quanto parece, até porque a política de tratamento dos usuários está longe de ser unânime. Boa avaliação do problema é a chave do sucesso”, explicita aos leitores que o problema está nas políticas públicas, e que abandono, repressão e hostilidade aos usuários, só aumenta seu consumo, assim como disse Zaluar (1994ab), Velho (1994), Sapori (2010) e muitos outros autores, presentes como referências neste estudo.

3.4.2.1 O crack como notícia no Hoje em Dia

Com o título “Criada rede de combate ao crack”, seguido de um bigode “Acordo entre o Ministério da Justiça e oito estados vai integrar departamentos de narcóticos das polícias civis”, a notícia do jornal Hoje em Dia, do dia 23 de outubro de 2010, na página 18 do caderno Minas, explica ao leitor como será a rede de comunicação, “segura e confiável”, entre as delegacias de Polícias Civil especializadas no combate ao narcotráfico, para a identificação e mapeamento das rotas do tráfico de crack no país. Utilizando duas fontes, a assessora de imprensa do Ministério da Justiça e a delegada da Divisão de Investigação de Antidrogas de Belo Horizonte, em nenhum momento a notícia aborda a questão de ressocialização do usuário e medidas sociais para explicação de malefícios à saúde que o entorpecente causa. O valor investido para essa rede, que será de mais de R$ 400 milhões, tem destino para aquisição de micro-câmeras, gravadores, binóculos com visão noturna e, eventualmente, em viaturas.

Desta forma, a matéria não chama atenção para o fato de que não há no projeto anunciado atitudes e medidas diretamente a favor dos usuários. A foto, ocupando quase ¼ de página, é de um usuário de crack em Belo Horizonte, acendendo o cachimbo, levando ao leitor, mais uma vez, a ideia de que a resolução é somente acabar com o tráfico, sem pensar nas outras problemáticas em envolvem o entorpecente.

46

A linguagem, no entanto, não emprega termos pejorativos em relação a qualquer envolvido e o texto é bem construído, sem sensacionalismo ou espetacularização do fato. O texto também é bem estruturado, com lead, sublead e desenvolvimento do fato, sem subjetividade.

Já a notícia veiculada na edição do dia 20 de outubro, na página 20 do caderno Minas, com título “Sete Lagoas enfrenta uso de crack”, traz a explicação do projeto de lei da Câmara Municipal, encaminhado à prefeitura, com proposta de profissionalizar o atendimento dos dependentes de crack. A medida foi tomada após o alerta dos moradores de Sete Lagoas sobre a situação de moradores de rua e flanelinhas viciados na droga. O autor do projeto é o vereador Milton Saraiva, que também pensa em criar um Comitê Gestor do Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack, com a participação da família para estruturar e articular as ações voltadas à prevenção do uso e abuso da droga, reinserindo social e ocupacionalmente os dependentes químicos ou usuários. Diferentemente do exemplo supracitado, esta noticia traz aos leitores um modo diferente de enxergar o problema, trazendo soluções que podem ser eficazes para os usuários. Uma ação depende da outra. Este projeto de lei, casado com a criação da rede de combate ao crack, formam uma ação que beneficia a população, os usuários e dificulta a movimentação dos traficantes.

A qualidade textual da reportagem é excelente, com lead bem estruturado e parágrafos concisos e lógicos, criando contextualização do fato e o porquê da criação deste projeto, com a ajuda de duas fontes: o vereador Milton Saraiva, criador do projeto, e a secretária de Assistência Social do município, Maria Aparecida França Canabrava.

Somente neste ano, 60 viciados foram identificados e levados para um abrigo municipal. No entanto, apenas 22 foram atendidos, quando receberam um lugar para dormir, alimentação, higienização e encaminhamento para um ofício. “A abordagem está sendo feita, assim como o encaminhamento para os locais de referência. No caso dos moradores de rua da cidade e flanelinhas, ele são acolhidos na rua Leopoldina. O migrante recebe higienização, alimentação e uma passagem para retornar à sua cidade de origem”, finaliza Aparecida França (Jornal Hoje em Dia, caderno Minas, p. 20, edição de 20 de outubro de 2010).

Capa da edição de 13 de outubro de 2010, com título “Avanço do crack aumenta a criminalidade no interior”, a notícia traz resumo do que o leitor vai encontrar na reportagem na íntegra, presente na página 13 do caderno Minas. A reportagem faz um comparativo do avanço do crack com o aumento da criminalidade no interior do Estado, sem mostrar dados que comprovem o fato.

47

É interessante vermos nessa notícia a subjetividade do repórter ao dizer que "NA OPINIÃO" do advogado criminalista consultado, o aumento da criminalidade no interior e nas áreas rurais se dá em consequência do avanço do crack. Como disse Lage (1999), repórter deve saber se a informação tem importância ou se é de interesse do leitor para ser publicada e como mostrá-la sem distorcer os fatos. “Qualquer reportagem que expressa subjetividade é excluída. Nada que alguém acha, pensa, sonha, imagina é notícia, mas, sim o que alguém disse, propôs, ou confessou” (LAGE, 1999, p.25). No entanto, o diretor jurídico do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil, delegado Cristiano Xavier, dá uma explicação plausível para o aumento da criminalidade: “a carência de efetivo da polícia no interior contribui para o aumento da violência. Dos 853 municípios de Minas Gerais, mais da metade (430) não possui delegado”.

Junto à notícia há um infográfico que mostra a quantidade de presos no Brasil, evidenciando as variações entre os anos de 2009 e 2010. A ilustração composta na imagem é de três pessoas com capuz da cabeça, apontando fuzis, como se fossem atirar.

Portanto, o título de capa não deveria ser escrito do jeito que foi, pois não há dados concretos que comprovem as informações mostradas. Trata-se de um título sensacionalista, que instiga o leitor a querer saber sobre o desenrolar da reportagem. A matéria dá informações devido ao crescimento de denúncias no “Disque Denúncia”.

“Mãe abandona bebê no bairro Aparecida”. Esse é o título da notícia da edição de 17 de outubro de 2010, na página 19 do caderno Minas. Lendo o tema da notícia, acima do título, “USUÁRIA DE CRACK”, a matéria já leva o leitor a pensar que o bebê foi abandonado devido ao fato da mãe ser usuária da droga em questão. No entanto, isso não é nem comprovado, visto que a informação do envolvimento dela com drogas foi dada segundo relato de testemunhas. Enquadra-se nos critérios de noticiabilidade, uma vez que o abandono de uma criança na porta da casa de outra gera comoção e revolta da população. Inserindo o crack no meio da reportagem, a figura de marginal, sem coração se associa à mãe e faz com que os leitores possam ter uma imagem deturpada da mesma, visto que até o fechamento da matéria a polícia ainda não tinha pistas dela.

48

3.4.2.3 O crack no jornal O Tempo

O jornal o tempo publicou, em 07 de outubro de 2010, a notícia com o respectivo título: “Mãe amarra filha em cama por causa de vício no crack”, seguida de um bigode: “mulher é usuária de drogas há oito anos e já foi hospitalizada outras duas vezes”. A reportagem mostra que, sem alternativa, a mãe resolveu amarrar a filha na cama, onde ficou por dois dias, depois de ter procurado a Secretaria Municipal de Saúde de Careaçu, no Sul de Minas, e nada ter se resolvido. A filha é usuária de crack e álcool há oito anos e as internações em hospitais públicos acontecem somente por 45 dias. Caso ultrapasse esse tempo, a família tem que pagar pela internação, o que, em alguns casos, não é possível para uma família pobre. Se compararmos esta notícia à citada no item 4.4.2.1, veiculada no Estado de Minas em 19 de dezembro de 2010, no qual a psicóloga afirma que “não é apenas a internação e está curado. É um tratamento contínuo para o resto da vida, mesmo que a pessoa nunca mais faça o uso da substância” (Juliana Peroni, psicóloga do grupo de encaminhamento e tratamento psicossocial de Brasília) temos o exemplo, mais uma vez, de que medidas públicas e sociais devem ser tomadas para a resolução da problemática. Essa notícia do crack no O Tempo é dada bem resumidamente, sem consultar nenhuma fonte especializada e sem aprofundar, portanto, sobre a questão. Analisando todo o contexto da notícia, incluindo o título e o bigode, há uma dramatização para relatar o fato e impressionar o leitor, usando, como fonte, falas da irmã da usuária. “Minha irmã estava falando em se matar. Não tem como a família ficar de braços cruzados, aguardando a prefeitura arrumar uma vaga na clínica enquanto minha irmã chegava ao fundo do poço”.

A foto da reportagem mostra uma mão amarrada à cabeceira da cama, apenas. Como legenda, traz: “viciada em crack passou dois dias presa na cama de casa”.

No dia 14 de outubro, O Tempo, assim como o Estado de Minas, publicou uma notícia sobre a pesquisa feita pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) referente ao alastramento do crack pelo país. Neste jornal, a reportagem foi mais completa que no EM, ocupando mais de meia página, com duas retrancas, uma sobre o tratamento e outra sobre o enfrentamento da problemática, e um subtítulo. Além disso, O Tempo propõe soluções alternativas (subtítulo) para o problema, como a fiscalização nas fronteiras, uma vez que o Brasil tem 580 municípios nessa faixa. Outra estratégia proposta seria o controle da indústria química para que o manuseio de elementos considerados essenciais para a produção de drogas diminua. Paulo

49

Ziulkoski, presidente da CNM, descartou a possibilidade de legalização do consumo de drogas no país como solução para o problema e questionou a quantidade de jovens que morrem por ano no país em conseqüência do uso do crack: 300 mil, e que o país pode chegar a 10 milhões de dependentes.

Junto à notícia consta um infográfico, destacando os números: a. cidade enfrentam problemas devido ao crack

1,2 milhão de pessoas consomem crack no Brasil 14,7% das cidades têm Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) 300 mil jovens devem morrer vítimas do crack no país

A foto publicada é uma junção de PVC (Cotovelo PVC), substituindo o cachimbo, com uma pedra de crack dentro. Traz como legenda: “Interior – crack deixou de ser problema apenas das grandes cidades, aponta levantamento nacional”. Assim como no EM, a única fonte utilizada foi o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski.

Em 26 de novembro de 2010, O Tempo publicou uma notícia com título: “Criança luta contra vício em crack”, seguido do bigode: “garoto terá uma nova chance; ele será adotado depois que acabar o tratamento”. Com um lead dramático, relatando que enquanto os colegas de escola brincavam de bola, o garoto, de apenas oito anos, andava com os traficantes e fumava crack. Hoje, aos 09 anos, um ano após iniciar o vício, ele luta para deixar a dependência, internado na ONG Projeto de Vida. O valor-notícia desta reportagem é o fato de ser uma criança viciada em drogas.

A matéria conta ainda com duas retrancas: uma falando sobre a má influência para o garoto, que tinha a mãe como usuária do entorpecente; e outra falando do início do tratamento e do recomeço de vida, com a notícia de uma família que decidiu adotá-lo.

Além disso, há um subtítulo, que fala sobre o tratamento: “Desafio é provar que viciado não é criminoso”. Este parágrafo é interessante, porque mostra ao leitor a importância de políticas sociais para a solução da problemática.

O maior desafio no tratamento de jovens viciados em crack, segundo o coordenador da ONG projeto de Vida, Giovanni Silva, é convencer a sociedade de que eles não são marginais. “A responsabilidade não é só do governo, da polícia, da instituição. É preciso

50

lembrar que esses adolescente foi privado de educação, saúde, família estruturada e lazer. Temos que construir um novo conceito de vida para que esses meninos possam seguir uma nova caminhada”, afirmou (Jornal O Tempo, p. 17, edição de 26 de novembro de 2010).

A reportagem traz uma linguagem sem termos pejorativos ou que influenciem o leitor a um entendimento distorcido do fato. A qualidade textual é excelente, mostrando a conseqüência do problema, levando números ao leitor e dando opções de solução para o mesmo.

A foto mostra a sombra do garoto (por ser menor não é revelada sua identidade) e tem como legenda: “Esperança. Menino conta que traficantes o ajudavam e davam comida enquanto sua mãe se drogava”.

O critério de noticiabilidade utilizado para publicar a matéria, deve-se ao fato de ser algo que foge do comum e que interessa à sociedade, uma vez que se trata de uma criança que se envolve e vicia em drogas ilícitas e é internada em uma ONG, onde tem garantia de adoção após o tratamento. Fatos assim comovem a população.

Em 19 de outubro de 2010, a notícia “Governo vai investir R$ 4 mi em pesquisa sobre consumo de crack”, foi postada na página 08, do caderno Cidades, dizendo que o governo federal vai investir R$ 4 milhões em estudos para orientar políticas públicas e promover o desenvolvimento de ações eficazes de prevenção e de combate ao crack, além de estimular novas abordagens terapêuticas.

A matéria tem linguagem e qualidade textual boa, sem sensacionalismo ou expressões pejorativas. Além disso, mostra ao leitor formas de prevenção, através de estudos sobre a droga, o perfil do usuário, os padrões de consumo, as vulnerabilidades e os modelos de intervenção, lembrando que o vício é uma doença e necessita de tratamento. O título traz o resumo do lead, falando exatamente sobre o que a reportagem vai abordar e há apenas uma fonte utilizada, que é o gestor do projeto, Marcos Vinício Borges Mota.

51

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os acontecimentos que recebem caráter de notícia partem da ação profissional do gatekeeper, que avalia o que deve ou não ser notícia, sendo, em seguida, aperfeiçoada pelo newsmaking. A construção de uma notícia veiculada na mídia interfere na formação de opinião, conceitos, atitudes e expectativas da sociedade, fatores estes que acarretam em mudança no modo de encarar a questão. Nesse sentido, os estudos de newsmaking perceberam que existe uma forma de manipulação da notícia, denominada “distorção inconsciente”, na qual as notícias são distorcidas na redação para manter a linha editorial-política de um jornal, ao invés de divulgá-las explicitamente, sem alterações do fato ocorrido. Os principais fatores que contribuem para que esse mecanismo de produção seja automático, são as limitações de tempo e espaço para as publicações das notícias (ARBEX Jr., 2001, WOLF, 2002, 2003).

De acordo com Rodrigues (1999), deve-se apresentar determinadas características que justifiquem a publicação daquele fato como notícia. Quanto menos previsível o fato, mais provável a condição para se tornar notícia. Diante das várias reportagens publicadas por esses três jornais no período de três meses, nas matérias analisadas ficam claras as previsibilidades dos fatos que deram origem aos textos: pesquisa de combate ao crack; vício de criança com o crack; problemática da droga na sociedade e aumento da criminalidade. Todas essas ações causam impacto numa sociedade e consideram os critérios de noticiabilidade de um jornal.

O texto de uma notícia deve ser sempre bem escrito e de fácil entendimento, com explicações e clareza dos fatos abordados, levando objetividade e imparcialidade ao leitor. A abordagem deve ser contextualizada e perpassar por vários aspectos, como: socioeconômico, cultural, educação etc. O repórter deve, sempre, colocar-se no lugar do leitor. Para Kotscho (2000), deve-se descrever o que é encontrado pela frente, com o objetivo de fazer o leitor “viajar” junto à matéria e ter o mesmo entendimento do repórter, já que quem lê não estava presente.
É como se escrevêssemos uma carta a um amigo. O final da matéria: “As cenas vão se repetindo monotonamente até a ponte do limão, quando o rebocador encalha de vez. ‘Daqui não dá pra passar’, explica o capitão Ezequiel, depois de topar numa pedra que quase derruba o Gil na água. ‘O rio não tem calado, está muito baixo’. A pé, às margens do Tietê, só nos resta subir o barranco até a Marginal, em frente ao Play Center. O motorista de táxi que nos recolheu deve ter levado um susto, quem sabe achando que se tratava de quatro marcianos de coletes amarelos perdidos na metrópole paulistana (Folha de São Paulo, 27 de julho, p.10)” (KOTSCHO, 2000, p.16).

52

A notícia deve, também, ser recente, verdadeira, inédita, objetiva e de interesse público. Honestidade e imparcialidade são deveres do repórter. A linguagem deve ser fácil e correta, evitando a utilização de termos pejorativos ou, até mesmo, qualitativos, a fim de evitar que a notícia persuada o leitor. Deve-se trabalhar as informações respeitando a realidade. Só assim o jornalista aproximará o seu relato ao verdadeiro acontecimento dos fatos, procurando a exatidão e não a exclusão de informações essenciais (KOTSCHO, 2000).

No jornalismo, a fotografia também é essencial. Exerce função de chamar atenção do leitor para o texto e, em alguns casos, determinadas fotografias trazem aspectos que são impossíveis de descrever. As fotos têm a mesma importância que a própria reportagem dentro do jornal (BUCCI, 2000; KOTSCHO, 2000).

Ao fim deste trabalho de pesquisa, a conclusão a que se chega é que em todos os jornais analisados, o modo como é tratado o tema em questão não é padronizado como os autores acima dizem que deve ser. Isso pode ser explicado pela relativa autonomia dos veículos.

Tanto no jornal Estado de Minas, quanto no Hoje em Dia e no O Tempo, houve notícias que trataram os envolvidos com termos pejorativos como, também, matérias que incentivam a conscientização da sociedade de que o usuário de crack não é um marginal e que faltam ações na saúde pública para a solução do problema. No entanto, o jornal O Tempo, apesar da gama de reportagens encontrada, é mais sucinto ao abordar o tema do crack e mais sensacionalista, tendo, principalmente, como fontes, a polícia e parentes de envolvidos, como forma de dramatizar o fato.

A questão é bastante discutida em ambos os veículos e, muitas vezes, com abordagens distintas de uma notícia para a outra no mesmo jornal. Devemos ressaltar, no entanto, que o confronto de ideias tem papel de destaque na construção da legitimidade democrática e a mídia, por sua vez, representa a figura que estabelece o debate criando o poder comunicativo que influenciará a esfera pública.

A verdade é que precisamos entender qual é realmente a função do jornalista que pretende trabalhar com notícias que envolvem, ao mesmo tempo, questões governamentais e sociais, como é o caso do crack; de que maneira esse profissional se preparou para relatar um fato, se fez julgamento de valor ou não; de que maneira os profissionais se prepararam para encarar

53

fontes como traficantes, usuários de drogas, políticas, policiais – que, claro, nem sempre dizem a verdade. É necessária a existência de mais estudos sobre o tema, cujas conseqüências têm sido danosas para nossa sociedade.

54

5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALEXANDRE, Francisco. Racionalidade e legitimidade da política de repressão ao tráfico de drogas: uma provocação necessária. Estudos Avançados, São Paulo, v.21, n.61, p.193-209, set./dez.2007. ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância. Mídia e Drogas: O perfil do uso e do usuário na imprensa brasileira, 2005, 80 p. ANGRIMANI, Danilo. Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus, 1995. ARBEX Jr., José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo, Casa Amarela, 2001. 292 p. BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. Companhia das Letras: São Paulo, 2000. BUCHELE, Fátima; COELHO, Elza Berger Salema & LINDNER, Sheila Rubia. A promoção da saúde enquanto estratégia de prevenção ao uso das drogas. Ciência e saúde coletiva [online]. 2009, vol.14, n.1, pp. 267-273. ISSN 1413-8123. CARLINI-COTRIM, B. & DUARTE, P.C.A.V. Álcool e violência: estudo dos processos de homicídios julgados nos Tribunais de Júri de Curitiba, PR, entre 1995 e 1998. Jornal Brasileiro de Dependências Químicas, 2000, p. 17-25. CARRATO, Ângela. Imprensa Mineira, um monopólio próximo ao fim. In: MOUILLAUD, Maurício & DAYREL, Sérgio (Org.). O jornal: da forma ao sentido. Editora UnB, Brasília, 2002, p. 469-481 COIMBRA, Cecília Maria Bouças. Mídia e produção de modos de existência. Psic.: Teor. e Pesq. [online]. 2001, vol.17, n.1, pp. 1-4. ISSN 0102-3772. FERREIRA, Aurélio. Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3ª ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999. 1164 p. FRANÇA, Vera Veiga. Jornalismo e Vida Social. Belo Horizonte, UFMG, 1998, 259 p. GORGULHO, Mônica. A Influência da Mídia na Realidade Brasileira do Fenômeno das Substâncias Psicoativas. In: MOREIRA, Fernanda Gonçalves & SILVEIRA, Dartiu Xavier. Panorama atual de drogas e dependências. São Paulo, Editora Atheneu, 2006. 493 p. HENMAN, Anthony. A guerra às drogas é uma guerra etnocida. In: ZALUAR, Alba (Org.). Drogas e cidadania: repressão ou redução de riscos. São Paulo: Brasiliense, 1994. KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem. São Paulo: Ática, 2000. MACRAE, Edward. Antropologia: Aspectos sociais, Culturais e Ritualísticos. In: SEIBEL, Sérgio Dario & TOSCANO Jr, Alfredo. Dependência de Drogas. São Paulo, Editora Atheneu, pp25-34.

55

MAGALHÃES, Paulo. Fragmentos sobre o poder do tráfico de drogas nas favelas cariocas. Democracia Viva, Rio de Janeiro, n.35, 9.59-61, jun.2007. NAPPO, Solange Aparecida et al. Comportamento de risco de mulheres usuárias de crack em relação às DST/AIDS. Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID. São Paulo, 2004. NOBLAT, Ricardo. A arte de fazer um jornal diário. São Paulo, Contexto, 2003. 173 p. NOTO, Ana Regina et al. Drogas e saúde na imprensa brasileira: uma análise de artigos publicados em jornais e revistas. Caderno Saúde Pública: Rio de Janeiro, jan-fev, 2003, pág 69-79. NOTO, Ana Regina & GALDURÓZ, José Carlos F. O uso de drogas psicotrópicas e a prevenção no Brasil. Ciência e Saúde Coletiva, vol. 4, Núm. 1, 1999, p. 145-151. NOTO, Ana Regina & MASTROIANNI, Fábio C. “O retrato das drogas na imprensa brasileira do ano 2000: análise de conteúdo dos artigos publicados em jornais e revistas” XV congresso da ABEAD, São Paulo, 2003. RAMOS, Paulo Roberto. A imagem, o som e a fúria: a representação da violência no documentário brasileiro. Estudos Avançados, São Paulo, v.21, n.61, p.221-239, set/dez.2007. RODRIGUES, Adriano Duarte. Estratégias da Comunicação. Lisboa: Editorial Presença, 1990. SAPORI, Luis Flávio. A Problemática do Crack na Sociedade Brasileira: o impacto na saúde pública e na segurança pública. Belo Horizonte, 2010. SODRÉ, M. O social irradiado! Violência urbana, neogrotesco e mídia. São Paulo: Cortez, 1992 TOSCANO Jr, Alfredo. Um Breve Histórico Sobre o Uso de Drogas. In: SEIBEL, Sérgio Dario & TOSCANO Jr, Alfredo. Dependência de Drogas. São Paulo, Editora Atheneu, 2001. 560 p. TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo. 2ª ed., Florianópolis, Insular, 2005. 224 p. UCHÔA, Marco Antônio. Crack: o caminho das pedras. São Paulo: Ática, 1996. VASCONCELOS, Carlos Eduardo. Possibilidades de um tratamento mais humano e solidário do problema das drogas. Boletim IBCCrim, ano 12, nº 145, dez. 2004, ISSN 1676-3661, p. 1011. VELHO, Gilberto. A dimensão cultural e política dos mundos das drogas. In: ZALUAR, Alba (Org.). Drogas e cidadania: repressão ou redução de riscos. São Paulo: Brasiliense, 1994. WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. 7.ed. Lisboa: Presença, 2002.

56

WOLF, Mauro. Teoria das Comunicações de Massa. São Paulo, Martins Fontes, 2003. ZALUAR, Alba. Drogas e cidadania. In: ZALUAR, Alba (Org.). Drogas e cidadania: repressão ou redução de riscos. São Paulo: Brasiliense, 1994a. ZALUAR, Alba. A criminalização das drogas e o reencantamento do mal. In: ZALUAR, Alba (Org.). Drogas e cidadania: repressão ou redução de riscos. São Paulo: Brasiliense, 1994b.

57

6 ANEXOS

58

59

60

61

62

63

64

65

66

67

68

CAPA JORNAL HOJE EM DIA, DE 13/10/2010

REPORTAGEM