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Direito Publico e Privado - UVB

Aula 09 O Direito Público e a Intervenção no Domínio Econômico
Objetivos da Aula
Estudar o papel do Direito Público no controle da atividade econômica; Perceber qual o limite de atuação da iniciativa privada e as formas de atuação e legalidade da intervenção do Poder Público na esfera privada; Verificar preceitos constitucionais norteadores da intervenção pública na economia.

Os Estados sociais-liberais, como o nosso, reconhecem e asseguram a atividade da livre empresa. No entanto, este mesmo Estado deve zelar pelo equilíbrio econômico e desenvolvimento de bem estar social. A Constituição Federal, em seu artigo 170, estabelece condições para o exercício das atividades econômicas. Dessa forma, para uso e gozo dos bens e riquezas particulares, o Poder Público impõe normas e limites e, quando o interesse público o exige, intervém na ordem econômica, através de atos de império tendentes a satisfazer as exigências coletivas e a reprimir a conduta anti-social da iniciativa privada.

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também garantidos pela Faculdade On-line UVB 2 . são atos que podem exigir. que é a base do regime democrático e do Direito moderno.Controle dos mercados. . O que legitima o ato de império característico do Poder Público é a preservação dos interesses da coletividade.Repressão ao abuso do poder econômico. . Os interesses coletivos têm supremacia sobre os interesses individuais do mercado. ou para realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social. é instituída pela Constituição e regulada por leis federais que disciplinam as medidas interventivas. A intervenção não se faz arbitrariamente. comportamentos e atuações dos particulares. O objetivo primordial da intervenção é a necessidade de proteção do Estado aos interesses da comunidade. pois o coletivo é a maioria. unilateralmente. pessoas e empresas.Tabelamento de preços. não segue critérios pessoais das autoridades. Objetivo da Intervenção do Poder Público Na ordem econômica.UVB Cabe destacar o significado do que seja “atos de império”: traduz a autoridade que o Poder Público possue. como já estudado. o Estado atua para coibir os excessos da iniciativa privada e evitar que desatenda às suas finalidades. tem o objetivo de promover bem-estar social. nesse aspecto. A intervenção estatal impede o desenvolvimento de um capitalismo desumano. A intervenção se faz através da: . Uma intervenção equilibrada faz-se com perseguição aos interesses coletivos e preservação dos direitos individuais.Direito Publico e Privado . única finalidade que a administração pública ou poder público pode e deve perseguir. opressor dos menos favorecidos.

No domínio econômico. das classes que compões a sociedade. De acordo com o entendimento constitucional. São as necessidades vitais da comunidade. a intervenção do Poder Público no domínio econômico incide sobre a atividade lucrativa. exercida pela empresa. coletivamente. O bem-estar social é o bem comum. cabe a assimilação do que é domínio econômico. considerados. obrigatoriamente. No bem-estar social incluem-se as exigências materiais e espirituais dos indivíduos. a Constituição assegura a liberdade de iniciativa. a harmonia e solidariedade entre as categorias sociais de produção e expansão das oportunidades de emprego produtivo. A Constituição Federal impõe a valorização do trabalho. mas essa liberdade. A Constituição Federal e o Domínio Econômico Primeiramente. Se a atividade da empresa realizar-se com abuso do poder econômico. Faculdade On-line UVB 3 . está legitimada a intervenção pública. dos grupos. como instrumento da iniciativa privada. o que legitima a intervenção pública na esfera privada é: O interesse público e o bem-estar social. expresso sob todas as formas de satisfação das necessidades comunitárias.F.). (artigo 170 da C. o bem do povo em geral.Direito Publico e Privado . deverá ser exercida com o objetivo de promover o desenvolvimento nacional e a justiça social.UVB Constituição Federal. Sempre. Domínio econômico é o conjunto de bens e riquezas a serviço de atividades lucrativas.

A necessidade de propiciar melhores condições de vida aos trabalhadores. independentemente de autorização de órgãos públicos. o Estado do Bem-Estar intervém no domínio econômico. quando utilizado contra o bem comum da coletividade. É enunciada no parágrafo único do art. que se omite ante a conduta individual. os abusos cometidos no uso da liberdade de iniciativa do Estado Liberal e a falácia da harmonia natural dos interesses do Estado Liberal fizeram surgir condicionamentos da iniciativa privada em busca da justiça social. Valores do Estado de Direito Liberdade de Iniciativa Econômica ou Livre Iniciativa A liberdade de iniciativa econômica ou livre iniciativa constitui verdadeiro pilar do sistema capitalista. Modernamente. 170 caput) e fundamento da República Federativa do Brasil (art.UVB O bem-estar social é o escopo da justiça social a que se refere a Constituição Federal (artigo 170) e só pode ser alcançado através do desenvolvimento nacional. envolvendo tanto a liberdade de indústria e comércio (liberdade de empresa) quanto a liberdade de contrato. que suprime a iniciativa particular. o Estado de Direito aprimorou-se no Estado de BemEstar (Welfare State) em busca de melhoria das condições sociais da comunidade. Equilíbrio entre o Estado Liberal. IV). Cuida-se de um dos princípios reitores da ordem econômica brasileira (art. 1º. O Estado assume a posição de orientador e incentivador da conduta individual no sentido do bem-estar social. Faculdade On-line UVB 4 .Direito Publico e Privado . 170. que assegura a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica. com esse objetivo. salvo nos casos previstos em lei. e o Estado Socialista.

permitindo-se. no Estado Democrático de Direito. da CF). limitar a liberdade de iniciativa através das seguintes medidas: a) Imposição da necessidade de autorização para o exercício de determinada atividade econômica.UVB Assim. nos termos de lei. consumo e locação. como os de trabalho. inclusive. O Poder Público pode. b) Intervenção direta na produção e comercialização de certos bens e serviços nos casos de relevante interesse coletivo (art. 173. por exemplo.Direito Publico e Privado . os valores sociais do trabalho. d) Tabelamento de preços nos casos em que a iniciativa privada não tem como mantê-los em condições de mercado. Nos termos do parágrafo único do art. passível de controle estatal. preocupado com a realização da justiça social. c) Controle do abastecimento. No campo da liberdade de contrato. o objetivo de erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades e a funcionalização da propriedade privada acabam por relativizar a livre iniciativa. toda iniciativa econômica exercida com o objetivo de puro lucro e realização pessoal do empresário. Além do mais. o exercício da liberdade de iniciativa há de fazer-se em conformidade com as normas de proteção ambiental e de defesa do consumidor. portanto. a revisão pelo Faculdade On-line UVB 5 . A intervenção do Estado no contrato é realçada. Será ilegítima e. assegurando a prevalência dos princípios da função social do contrato e da boa-fé. na medida em que esta só será legítima enquanto exercida no interesse da justiça social. o Novo Código Civil é rico em limitações à autonomia das partes. 170 da CF esta medida exige a edição de lei. a livre iniciativa limita-se à liberdade de desenvolvimento da empresa no quadro estabelecido pelo Poder Público. caput. e) Edição de normas de ordem pública (inderrogáveis pelas partes) em alguns contratos. O princípio da dignidade da pessoa humana.

A Constituição condena as práticas abusivas. protegendo-a contra a tendência da concentração capitalista – cabe ao Estado intervir somente para coibir o abuso. traduzindo-se em um fator de intervenção do Estado na economia em favor da economia de livre mercado. Ela é uma manifestação da liberdade de iniciativa e para garantila a Constituição estatui que a lei reprimirá o abuso do poder econômico que vise à dominação de mercados. Os dispositivos visam a tutelar a livre concorrência. o abuso fica manifesto.Direito Publico e Privado . por si só. a concentração capitalista. um instrumento para o alcance de outro bem maior. de forma a prejudicar a livre concorrência. Faculdade On-line UVB 6 . mas uma realidade fundamental do novo Estado industrial. entre nós um meio. Assim. conforme os ditames da justiça social. A economia está centralizada nas grandes empresas e seus agrupamentos e isto é uma característica do mercado mundial atual. quando a concentração é exercida de forma anti-social. Quando o poder econômico passa a ser usado com o propósito de impedir a iniciativa de outros ou passa a ser fator concorrente para o aumento arbitrário de lucros. de assegurar a todos existência digna. não é um fenômeno patológico. que não se modificará com mera determinação legal formal. à eliminação de concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros (artigo 173 parágrafo 4º). No entanto.UVB Poder Judiciário de suas cláusulas na busca do equilíbrio e da justiça contratual. A Livre Concorrência A livre concorrência está configurada como um dos princípios da ordem econômica. O texto da CF 88 não deixa dúvidas quanto ao fato da concorrência ser. as práticas de concentração de mercado não devem ser vistas como um mal a ser evitado e os principais instrumentos anti-truste passam a ser pensados em termos de eficiência no caso específico.

.Direito Publico e Privado . a proteção dos consumidores. E como irá aferir-se se gerou benefícios? Verificando se está de acordo com os princípios constitucionais aplicados à ordem econômica: se trouxer melhorias ao consumidor. porquanto são imprescindíveis à própria existência digna das pessoas e não constituem nunca instrumentos de opressão. essencialmente. A função social destes bens consiste na sua aplicação imediata e direta na satisfação das necessidades humanas primárias. A livre concorrência é forma de tutela do consumidor na medida em que a competitividade induz a uma distribuição de recursos a mais baixo preço. vocacionada à apropriação privada.. indiretamente. Faculdade On-line UVB 7 . sendo um modo legítimo de fazer cumprir a função social da apropriação de bens. Disso decorre que sejam predispostos à aquisição de todos com a maior possibilidade possível. pois satisfazem diretamente as necessidades.UVB Uma determinada prática concentracionista poderá ser autorizada se trouxer benefícios ao mercado. Apropriação de Bens de Consumo e de Uso Pessoal A apropriação de bens de consumo e de uso pessoal é. mas abarca também. o que justifica até a intervenção do Estado no domínio de sua distribuição. É importante ressaltar que a defesa da livre concorrência não representa apenas a própria manutenção do mercado. se vai gerar empregos. ao meio-ambiente. ao desenvolvimento tecnológico do país.

são os que se aplicam na produção de outros bens ou rendas. Tanto vale falar em função social dos bens de produção quanto em função social da empresa. O sistema da apropriação privada tende a se organizar em empresas. mas utilizados para a geração de outros. chamados também de capital instrumental. um capitalismo social. Essas considerações são importantes para a compreensão do princípio da necessidade que informa a participação do Estado na economia.UVB Bens de Produção Já os bens de produção. O regime de sua apropriação define a natureza do sistema econômico adotado. Se fosse da apropriação pública ou social o regime seria socialista – os bens de produção não seriam tão suscetíveis de apropriação privada (embora não baste suprimir a propriedade privada para o regime ser socialista). Faculdade On-line UVB 8 . nada mais natural do que afirmar a apropriação privada dos meios de produção. como em função social do poder econômico. sujeitas ao princípio da função social. Como adotamos um regime capitalista. pois a preferência da empresa privada cede sempre à atuação do Poder Público quando não cumpre a função social. Não são consumidos.Direito Publico e Privado . imposta pela CF. o que é uma tentativa da CF em estruturar uma ordem social intensamente preocupada com a dignidade da pessoa humana e a justiça social. Assim. a propriedade privada dos meios de produção e a liberdade de iniciativa só se legitimam quando voltadas à consecução dos fundamentos e finalidades da ordem econômica descritos na CF.

É o fomento. Intervenção Fiscalização A fiscalização pressupõe o poder de regulamentação. abertura de crédito especial para o setor agrícola. os direitos dos destinatários da atuação dos produtores de bens e de serviços e também os direitos difusos e coletivos. associativismo. favorecer e auxiliar... aumento de alíquotas para importação. embasando assim ao surgimento da legislação anti-truste. Hoje. microempresas etc. precisamente. a controlar o cumprimento das determinações daquele e. consumo. Pode dar-se por meio de isenções fiscais. Com a redução da participação direta do Estado como agente econômico. Importante notar que com criação do Mercosul e a crescente inserção Faculdade On-line UVB 9 . investimento. através de um conjunto de medidas legislativas que intentavam restabelecer a livre concorrência.Direito Publico e Privado . a apurar responsabilidades e aplicar penalidades cabíveis. as atividades particulares que satisfaçam necessidades ou conveniências de caráter geral. que consiste em proteger.UVB Intervenção Pública Intervenção Regulamentação A intervenção por via de regulamentação da atividade econômica surgiu com a pressão do Estado sobre a economia para devolvê-la à normalidade. promover. tais como o cooperativismo. estimular.. apoiar. Intervenção Incentivo Já o incentivo traz a idéia do estado promotor da economia. em sendo o caso. torna-se mais relevante sua atuação como fiscalizador para assegurar os princípios básicos da ordem econômica.. poupança.. pois ela visa. há outros objetivos. como a disciplina dos preços. sem empregar meios coativos..

Intervenção Planejamento O planejamento é um processo técnico. “Ressalvos os casos previstos nesta Constituição. No entanto. em um processo de intervenção. regido pelo princípio da livre iniciativa.UVB do Brasil no mercado global. Dessa forma. como há um setor privado na economia. Por fim. O processo de planejamento instrumenta-se mediante a elaboração de planos. a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos de segurança nacional ou o relevante interesse coletivo. deve o Poder Público atuar como fiscalizador incentivador e planejador. cabe frisar que a intervenção ou atuação do Estado na ordem econômica é restringida pela Constituição Federal de 1988. O plano considera-se sempre imperativo para o setor público. entendimento do artigo 173 da C. Preferencialmente. abaixo citado. servindo-se de mecanismos indiretos para atraí-lo ao processo de planejamento. diminui o âmbito de atuação legítima do Brasil nesse campo. O planejamento econômico consiste. instrumentado para transformar a realidade existente no sentido de alcançar objetivos previamente estabelecidos. com o fim de organizar atividades econômicas para obter resultados previamente colimados. o plano em relação a ele é meramente indicativo. conforme definidos em lei”. assim.Direito Publico e Privado .F. está assegurada a iniciativa privada e a preferência por exploração da atividade econômica pelo setor privado. Faculdade On-line UVB 10 .

MARTINS. 1999. 1994. 1998. 1990. Editora Revista dos Tribunais. São Paulo. A interferência pode ir desde repressão ao abuso do poder econômico. O essencial é que as medidas interventivas estejam previstas em lei e sejam executadas pelo poder competente. São Paulo. Miguel. Direito Administrativo Moderno. deve ser prática utilizada como medida de exceção.UVB Intervir significa atuar junto à liberdade individual. Eros Roberto. Os fundamentos do Antitruste. PASSOS. São Paulo. 1986.Direito Publico e Privado . Pioneira. Dicionário de Direito Constitucional. Direito Administrativo Brasileiro. Editora Faculdade On-line UVB 11 . Fernando e colaboradores. Amauri Mascaro. São Paulo. Revista dos Tribunais. Editora Revista dos Tribunais. Celso Ribeiro. portanto. Lições Preliminares de Direito. nos casos permitidos pela Constituição e na forma estipulada em lei. MEIRELLES. FORGIONI. GRAU. A ordem econômica na Constituição. Instituições de Direito Público e Privado. Editora Atlas. 2002. Bibliografia BASTOS. Odete. até medidas mais atenuadas que o Poder público julgar adequadas para o caso em concreto. Malheiros Editores. Hely Lopes. Paula A. Editora Saraiva. São Paulo. São Paulo. São Paulo. REALE. NASCIMENTO. Ives Gandra. 2003. MEDAUAR. São Paulo. Manual de Iniciação ao Direito.

UVB Saraiva. O Direito Antitruste Brasileiro: Comentários à Lei 8. Fábio. Editora Saraiva. São Paulo. ULHOA. ULHOA. 2003. 1995. Fábio. São Paulo. 1981. Curso de Direito Comercial. Editora Saraiva. Faculdade On-line UVB 12 .Direito Publico e Privado . volumes I e II.884/94.