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A Evolução na Biologia
Marcia Oliveira de Paula
Centro Universitário Adventista de São Paulo

Introdução Atualmente a teoria da evolução ocupa um papel central na Biologia. Isso pode ser visto nas Diretrizes Curriculares para o Curso de Ciências Biológicas do MEC. Na Justificativa/Histórico, pode-se ler: “O estudo da Biologia deve possibilitar a compreensão de que a vida se organizou através do tempo, sob a ação de processos evolutivos, tendo resultado numa diversidade de formas sobre as quais continuam atuando as pressões seletivas”. Nos Tópicos de Estudo, em Conteúdos Básicos, lê-se: “Os conteúdos básicos deverão englobar os conhecimentos biológicos e das áreas das ciências exatas, da terra e humanas, tendo a evolução como eixo integrador” (ênfase acrescentada). Para Stebbins, “A biologia moderna tem dois conceitos unificadores. Um deles é o conceito de organização.... O outro conceito unificador da biologia é o da continuidade de vida através da hereditariedade e da evolução. Segundo este conceito, há semelhança entre organismos porque estes receberam de algum ancestral comum elementos hereditários, fundamentalmente os cromossomos de seus núcleos.... Quando organismos aparentados diferem uns dos outros, isso significa que, em linhagens distintas da sua descendência de um ancestral comum, ocorreram mudanças nos elementos hereditários e essas mudanças se fixaram em populações inteiras”. Também, segundo Dobzansky, “nada em Biologia faz sentido exceto à luz da Evolução”. Infelizmente, essa é a perspectiva atual e provavelmente nós, como criacionistas, dificilmente iremos reverter essa situação. O que podemos fazer então? Os professores de Biologia criacionistas devem se esforçar no sentido de compreenderem, da melhor forma possível a teoria da evolução. Em primeiro lugar, porque é necessário que se tenha uma ampla compreensão do assunto antes que se tome uma posição favorável ou contrária. Em segundo lugar, porque eles devem estar preparados para ensiná-la a seus alunos. Não adianta enterrar a cabeça na areia como faz a avestruz. Os nossos alunos precisam conhecer a teoria da evolução, e nada melhor do que um professor criacionista bem preparado para ensiná-la. Logicamente o professor deve não só ensinar a visão evolucionista, mas também, ao mesmo tempo, a visão criacionista sobre o assunto. Eu tinha uma amiga que estudava em Belo Horizonte, em uma escola adventista. Quando ela foi para a 5a série, em um dos primeiros dias de aula, a professora de Geografia disse que o primeiro capítulo do livro era sobre um assunto que não interessava aos alunos, por ser algum tipo de heresia e que por isso eles não deveriam lê-lo. A primeira coisa que a minha amiga fez ao chegar em casa foi ler o capítulo proibido. Vocês já podem imaginar sobre o que era: evolução da terra. Assim, minha amiga aprendeu sobre o assunto sem ter o apoio de um professor criacionista, que lhe mostrasse também uma outra visão das origens: a visão criacionista. O meu objetivo nesta palestra não é defender o ponto de vista criacionista ou evolucionista das origens (isto será feito em outras palestras durante este evento), mas sim apresentar uma visão geral sobre a evolução e as principais teorias evolutivas. No final apresentarei uma teoria criacionista das origens para que possam ser vistos os contrastes.

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O que é Evolução? Segundo Moody, evolução orgânica seria a subdivisão da evolução que trata das mudanças sofridas pelos seres vivos – plantas e animais. Evolução orgânica é a teoria de que as plantas e os animais são descendentes modificados de plantas e animais um tanto diferentes que viveram em tempos passados. Esses ancestrais, por sua vez, são considerados como os descendentes de predecessores diferentes deles e, assim por diante, passo a passo, de volta a um início oculto e misterioso. Para Futuyama, a evolução biológica (ou evolução orgânica) é a mudança nas propriedades das populações dos organismos que transcendem o período de vida de um único indivíduo. A evolução biológica pode ser pequena ou substancial; ela abrange tudo, desde pequenas mudanças na proporção de diferentes alelos dentro de uma população, às alterações sucessivas que levaram os primeiros proto-organismos a se transformarem em caramujos, abelhas, girafas e dentes-de-leão. Histórico das Teorias Evolutivas Muitas pessoas pensam que as idéias evolutivas começaram com Darwin. No entanto, as idéias evolutivas antecederam bastante a Darwin. Os filósofos gregos antigos fizeram as primeiras tentativas de dar uma explicação para a origem da terra e de seus habitantes. Anaximandro, que viveu no século VI a.C., pensava que os homens foram formados primeiramente como peixes; com o tempo perderam a pele de peixe e iniciaram a vida em terra firme. Xenófanes viveu no século V a.C. e a ele foi atribuído o mérito a ser a primeira pessoa que reconheceu que os fósseis representam restos de animais que existiram algum dia. Também no século V a.C. viveu Empédocles, que foi chamado por alguns o “pai da idéia da evolução”. De acordo com este filósofo, as plantas surgiram da terra e, subseqüentemente, os animais. Os animais surgiram com órgãos e partes separados, que se juntavam ao acaso. A maioria desses conglomerados eram aberrações e monstros incapazes de viver, mas ocasionalmente aparecia uma combinação de órgãos que podia funcionar como um organismo vivo bem sucedido. Tais combinações bem sucedidas sobreviveram e povoaram a terra, enquanto as que não o eram morreram. Aristóteles, que viveu no século IV a.C., afirmou que existe uma gradação completa na natureza. O estágio mais inferior é o inorgânico. O orgânico surgiu do inorgânico por metamorfose direta. Aristóteles concebia o mundo orgânico como consistindo de três estágios: (1) vegetais; (2) vegetais-animais e (3) animais. Dentro do grupo animal, ele construiu uma série genética que ia desde as formas inferiores até o homem, colocado no ápice. Conseqüentemente, pode-se considerar Aristóteles como pai das “árvores genealógicas” que são usadas nos livros de evolução. De acordo com Moody, o pensamento evolucionista estacionou durante mais de dois mil anos, os que separam Aristóteles de Lamarck. Realmente, nesse período acreditava-se que o planeta terra era muito jovem, tendo sido criado por Deus há poucos milhares de anos e que os seres vivos, igualmente, eram criações divinas. Lamarckismo Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829) propôs, em sua obra intitulada Philosophie Zoologique (Filosofia Zoológica, 1809) que as formas de vida progridem, por transformação gradual, em direção a uma maior complexidade e perfeição. Lamarck não afirmou que os seres vivos tinham descendido de ancestrais comuns, mas sim que as formas de vida inferiores surgem continuamente a partir de matéria viva inanimada por geração espontânea e progridem inevitavelmente em direção a uma maior complexidade e perfeição, através de “poderes conferidos pelo supremo autor de todas as coisas”. Ele sustentou que o caminho da progressão é determinado por uma “força interna” influenciada por “circunstâncias externas”, ou seja, mudanças no ambiente trazem a

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necessidade de alterações no organismo. Dessa forma, o organismo responde usando alguns órgãos mais do que outros. Segundo ele, o “uso e o desuso dos órgãos” alteram a morfologia destes, a qual é transmitida para as gerações subseqüentes. Um exemplo clássico, segundo o próprio Lamarck, seria a evolução do pescoço da girafa. De acordo com sua teoria, os ancestrais da girafa poderiam ter sido animais de pescoço curto, que, na tentativa de alcançarem as folhas mais altas das árvores para se alimentarem, esticavam seus pescoços. Este comportamento intencional e repetitivo fez com que, geração após geração, os pescoços fossem se tornando gradativamente mais compridos, devido ao esforço. Assim foi atingido o estágio de desenvolvimento do pescoço das atuais girafas. Lamarck, deste modo, enfatizou a adaptabilidade e a transmissão de caracteres adquiridos. Vários experimentos realizados posteriormente demonstraram que características adquiridas ao longo da vida não são hereditárias. O biólogo alemão August Weismann (1834-1914), por exemplo, ao cortar a cauda de camundongos por várias gerações sucessivas, constatou que os camundongos desprovidos de cauda sempre davam origem a descendentes com cauda. Atualmente, a teoria de Lamarck não é aceita, pois foi comprovado que as características adquiridas durante a vida não são hereditárias. Apenas mudanças ao nível genético podem ser herdadas pelos descendentes. Darwinismo A história sobre a concepção do Darwinismo iniciou-se com a viagem de Charles Darwin, entre 1831 e 1836, a bordo do navio inglês Beagle, na qualidade de naturalista. A partir de suas observações acerca da diversidade da fauna e da flora, constatadas durante essa viagem, Darwin voltou à Inglaterra com a idéia de que os seres vivos se modificam com o tempo. Em 1838, Darwin leu o ensaio sobre população escrito por Malthus. Este propunha que a população cresce geometricamente (por multiplicação), enquanto os alimentos para a população crescem aritmeticamente (por adição), um processo bem mais lento. Obviamente, nessa situação haveria afinal uma escassez de alimentos. Darwin notou que, na natureza, as populações de seres vivos se mantêm num nível mais ou menos constante. Por outro lado, ele observou que os indivíduos dessas populações apresentam variabilidade, inclusive em características essenciais à sua adaptação ao meio ambiente. Ele constatou também que, devido a esta variabilidade, muitos indivíduos morriam precocemente, outros não eram bem sucedidos reprodutivamente e alguns eram longevos e capazes de produzir muitos descendentes férteis. Desta forma, concluiu que deveria existir uma luta pela sobrevivência (i.e. competição), onde apenas os mais aptos seriam selecionados ao longo do tempo, transmitindo suas características vantajosas aos seus descendentes. A esse processo ele denominou seleção natural, em contraponto à “seleção artificial”. Em 1859, Darwin publicou o seu famoso livro, A Origem das Espécies, no qual explicou sua teoria. É importante ressaltar que Wallace (1823-1913) desenvolveu, independentemente, a idéia da seleção natural, embora seja bem menos conhecido que Darwin. Como exemplo de seleção natural, citado na maioria dos livros didáticos, está o melanismo industrial em populações de mariposas. Na mariposa Biston betularia, até a primeira metade do século XIX, a única forma conhecida era branco acinzentada, salpicada de pontos pretos. Exemplares escuros eram encontrados muito raramente. Em Manchester, Inglaterra, a primeira referência de um exemplar escuro data de 1848. Entretanto, em 1895, aproximadamente 98% dos exemplares coletados eram escuros. O que aconteceu para ocasionar essa mudança? Com a industrialização crescente de várias regiões inglesas, a fuligem produzida pelas fábricas enegreceu lentamente muros e troncos de árvores. Num ambiente sem fuligem, as mariposas claras confundem-se melhor com os troncos das árvores, que são cobertos por liquens. Ao contrário, as de cor

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escura são enxergadas pelos pássaros, predadas mais facilmente e têm menores chances de transmitirem seus genes a seus descendentes. Quando, porém, o ambiente fica enegrecido pela fuligem, a situação se inverte: as mariposas escuras se escondem melhor dos predadores, sobrevivem e se reproduzem com maior freqüência do que as claras. A cor escura, neste caso, acaba por predominar na população. Hoje já se sabe que a cor da mariposa é hereditária e depende de um par de genes, sendo a variedade escura condicionada por um gene dominante. É muito importante se enfatizar que os evolucionistas atuais aceitam somente parte do pensamento de Darwin, ou seja, o Darwinismo não é a teoria da evolução aceita atualmente. Alguns criacionistas fazem críticas ferozes a partes do livro “A Origem das Espécies” que não representam o pensamento da ciência moderna. A Evolução a partir de Darwin Darwin, em sua teoria, não conseguiu explicar a natureza da herança das características nos organismos, ou seja, porque os organismos vivos de uma mesma espécie são diferentes. Na sua época, a observação de que os descendentes eram geralmente intermediários entre seus pais (em características tais como tamanho) era a base da crença defendida na “herança por mistura”. Mas uma hereditariedade desse tipo levaria a uma rápida redução da variabilidade das características nos organismos. Além do mais, a crença de que as variações induzidas pelo ambiente pudessem ser herdadas era amplamente difundida. Por isso Darwin incorporou, nas últimas edições de seu livro “A Origem das Espécies”, o conceito da herança dos caracteres adquiridos, defendido por Lamarck. Nenhuma solução satisfatória foi encontrada até 1900, quando houve a divulgação do trabalho de Gregor Mendel, apresentado em 1865, que demonstrou a existência de fatores hereditários, os genes que, reunidos num indivíduo, devido à fertilização, separarse-ão novamente nas células reprodutivas (gametas) do indivíduo. Mendel, através de experiências com o cruzamento de ervilhas, constatou que a variação genética pode ser mantida indefinidamente numa população com reprodução sexuada. No princípio do século XX, De Vries estudou as flores de primavera e descobriu que nelas novos tipos podem surgir em uma única descendência. Ele chamou estas mudanças de mutações. Verificou-se mais tarde que as mutações que De Vries encontrou na primavera não eram resultado de nova variação genética, mas eram meramente um tipo peculiar de segregação. Mais tarde, Morgan e seus associados encontraram verdadeiras mutações nas moscas das frutas, Drosophila, que se perpetuavam. Graças ao trabalho de Morgan, o conceito de mutações como novas informações hereditárias foi sendo aceito. A princípio, as descobertas das leis da hereditariedade e das mutações foram interpretadas como um golpe mortal para a teoria de Darwin. Hugo De Vries, Bateson e outros mendelistas pioneiros alegavam que, se a espécie pudesse surgir puramente através da mutação, sua origem não necessitaria de seleção natural. Deste modo, os princípios-chave de Darwin, a seleção natural e a mudança gradual, foram descartados. Neodarwinismo ou Teoria Sintética Após um período de divergência entre os geneticistas (mutacionistas) e darwinistas, o darwinismo ressurgiu, conjugado com os fundamentos da genética mendeliana. A partir de 1940, os trabalhos de Ronald Fisher, John Haldane, Sewall Wright, Theodosius Dobzansky, Ernest Mayr, Julian Huxley, George Simpson e G. Ledyard Stebbins reinterpretaram, à luz de novos dados provindos da genética e outras áreas do conhecimento biológico (botânica, zoologia, paleontologia e ecologia), os conceitos obtidos a partir do Darwinismo. Assim nasceu uma nova teoria evolutiva denominada

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Teoria Sintética da Evolução ou Teoria Neodarwinista. A teoria Darwinista, quanto à seleção natural, não sofreu alteração em nenhum aspecto essencial em virtude da teoria genética, mas sim foi enriquecida por uma teoria da hereditariedade que permitiu dar uma maior precisão ao conhecimento da evolução. Os princípios fundamentais da síntese evolutiva são: • • A unidade de evolução é a população, que são um grupo de indivíduos entrecruzantes da mesma espécie. A matéria prima da evolução é a variabilidade genética observada entre os indivíduos. Esta variabilidade surge através da mutação ao acaso e é preservada pela reprodução sexual e pela recombinação. As populações evoluem por mudanças nas freqüências gênicas, que são trazidas pela deriva genética aleatória, fluxo gênico e, especialmente, seleção natural. A maior parte das variações genéticas adaptativas apresentam pequenos efeitos fenotípicos individuais, de modo que as mudanças fenotípicas são graduais.

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A teoria sintética reconhece como causas da evolução os seguintes fatores evolutivos: mutação, recombinação gênica, deriva genética, seleção natural, migração e endogamia. Mutação: mutações são mudanças hereditárias no material genético (DNA). A mutação é a fonte básica de toda a variação hereditária. Por isso, as mutações têm sido chamadas de “matéria prima da evolução”. A mutação pode ser gênica (alteração de um gene) ou cromossômica (alteração do número ou estrutura dos cromossomos) Recombinação gênica: é o processo que reorganiza os genes já existentes nos cromossomos. O mecanismo primário de recombinação gênica é a reprodução sexuada. Na hora da formação dos gametas, os cromossomos do mesmo par (cromossomos homólogos) trocam pedaços entre si (crossing-over). Além disso, a recombinação envolve também a segregação (separação) independente dos cromossomos homólogos nas células reprodutivas, durante a meiose. Ambos mecanismos possibilitam um grande número de combinações gênicas, dando origem a vários tipos de gametas que irão se unir na fecundação. Através da recombinação gênica, uma população pode ter sua variabilidade genética aumentada, sem adição de novos genes. Seleção natural: é o principal fator evolutivo que atua na alteração da variabilidade genética de uma população. Qualquer condição ambiental que afete a capacidade reprodutiva de um indivíduo é um fator seletivo. Os fatores seletivos podem ser de dois tipos: abióticos (clima, alimento, espaço) e bióticos (efeitos causados pela presença de outros organismos no ambiente). Deriva genética: é um caso especial de mudança na freqüência de alelos que ocorre em populações pequenas através do tempo, devido ao acaso e não à seleção natural. Nas populações pequenas as freqüências dos genes flutuam ao acaso, independentemente de sua contribuição para a adaptação. Pode haver a fixação de genes prejudiciais na população com eliminação de outros favoráveis. Migração: à entrada e saída de genes numa população, devido à migração, dá-se o nome de fluxo gênico. A migração pode alterar as freqüências gênicas de uma população. Os imigrantes podem introduzir genes novos e assim contribuir para o aumento da variabilidade genética da população. Endogamia: é a tendência, que se encontra em certas populações, dos acasalamentos entre indivíduos estreitamente aparentados ocorrerem com maior freqüência do que a esperada pelo acaso. A endogamia tende a diminuir a heterozigose de uma população. A recombinação e a migração são fatores que aumentam a variabilidade genética, enquanto que a deriva genética, seleção natural e migração são fatores de redução da variabilidade genética.

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Especiação, Microevolução e Macroevolução Entende-se por especiação os processos que estão envolvidos no surgimento de novas espécies. Pode-se definir microevolução como o conjunto de pequenas mudanças evolutivas que ocorrem dentro das populações e que podem levar até sua diferenciação em espécies. Os criacionistas empregam mal este termo, para se referir a qualquer mudança nas espécies que eles consideram plausível. Atualmente, tanto evolucionistas como criacionistas reconhecem que ocorrem mudanças microevolutivas. A macroevolução envolve processos que conduzem a formação de novos gêneros ou categorias superiores (famílias, ordens, classes e filos). A macroevolução também é conhecida como “evolução acima do nível das espécies”. Os criacionistas empregam mal este termo, com o significado de qualquer mudança nas espécies que parece grande demais para ser plausível. Isso é muito impreciso e não é o significado costumeiro. Os criacionistas geralmente aceitam a especiação, a macroevolução (geralmente até o nível de gênero ou família). Equilíbrio Pontuado Como visto acima, a evolução, para os darwinistas e neodarwinistas, é relativamente lenta e gradual. Por isso, a especiação segundo o modelo neodarwinista foi denominada de gradualismo filético.Segundo Elredge & Gould (1972) os principais postulados do gradualismo filético são: • • • • A especiação se dá pela transformação de uma população ancestral; caráter dessa transformação é lento e uniforme; essa transformação abrange um elevado número de indivíduos (em geral, uma população inteira); a transformação ocorre em toda a área geográfica ocupada pela espécie ancestral ou numa grande porção da mesma. microevolução e certa

Se esses pressupostos fossem corretos, o registro fóssil apresentaria as formas que documentariam a passagem gradual de uma espécie para outra. O que se observa, entretanto, no registro fóssil é uma ausência quase total de fósseis de transição. Para explicar estas descontinuidades, Elredege e Gould propuseram uma nova teoria, denominada Equilíbrio Pontuado. Segundo esta teoria, a evolução se dá por alternância de dois tipos de eventos. O primeiro tipo seria a especiação, caracterizado por mudanças rápidas e marcantes em pequenas populações. O segundo tipo de evento seria o período de equilíbrio ou estase, que seria um longo período de tempo em que não ocorrem mudanças significativas. Os autores estimam que a duração das fases de especiação seriam em torno de 1% do período de estase. A especiação seria um processo rápido, durando poucos milhares de anos, e o período de estase se estenderia geralmente por vários milhões de anos. Neste modelo a especiação ocorreria em pequenas populações, periféricas às populações principais. Graças a esse processo de especiação, há possibilidade de uma das novas espécies migrar, posteriormente, para a área previamente ocupada pela espécie ancestral e ali se expandir com rapidez. Assim explica-se o fato de, nas seqüências de rochas sedimentares verticalmente contínuas, observarem-se mudanças bruscas morfológicas, em vez de passagens gradativas. Essas mudanças marcam a migração da espécie descendente vinda da área perifericamente isolada onde se desenvolveu, para a área da espécie ancestral.

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Se a especiação ocorrer rapidamente em pequenas áreas, distante do centro em que a espécie ancestral é mais abundante, muito raramente se encontrará uma evidência real desse evento no registro fossilífero. Os criacionistas, de maneira geral, acreditam que o Equilíbrio Pontuado pode explicar bem a microevolução. O problema é explicar a falta de fósseis intermediários nos eventos de macroevolução. Existem descontinuidades muito maiores no registro fóssil (por exemplo, a origem de plantas com flores, as angiospermas, a partir de plantas sem flores) nas quais milhares de formas intermediárias deveriam estar presentes e elas não estão. Após vermos os modelos que tentam explicar a evolução, é importante enfatizar que a maioria dos cientistas não questiona que a evolução tenha ocorrido. Alguns cientistas realmente consideram a evolução um fato. O que é discutido é por quais processos ou mecanismos naturalistas ela teria ocorrido. A Evolução e os Criacionistas Brand (1997) apresenta uma teoria criacionista (denominada intervencionismo informado) para explicar a seleção natural mudança biológica limitada. Considero essa teoria bastante interessante e vou citar alguns trechos que resumem os seus principais pontos, que podem ser vistos na Figura 1. Figura 1. Comparação das implicações das duas teorias das origens. A árvore genética inferior mostra um aumento de complexidade com o passar do tempo. A árvore superior (para os mesmos organismos) mostra a origem independente dos grupos principais, seguida por especiação e certa diminuição da complexidade com o passar do tempo (segundo Brand, 1997).

De acordo com a teoria intervencionista, no momento da criação da vida na terra, estavam presentes representantes de todos os principais grupos de plantas e animais existentes e extintos. Dentro de cada nível taxonômico, as formas iniciais eram pelo

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menos tão complexas, embora não necessariamente tão especializadas, quanto os representantes atuais daqueles grupos, em sua aparência externa, anatomia, fisiologia, comportamento e adaptação ecológica. Nestas primeiras populações, a quantidade de informação genética e o potencial para diversidade genética por espécie deveriam estar no nível mais elevado que se pode atingir. O ponto alto da complexidade da vida sobre a terra foi no princípio. A complexidade em plantas e animais foi o resultado de planejamento inteligente. Dentro de cada grupo de organismos, a origem de novas variações morfológicas ou comportamentais envolve dois componentes básicos. O primeiro é a adaptação a mudanças de condições pela produção de novos alelos de genes existentes e seleção daqueles alelos melhor adaptados ao ambiente, pelo processo geralmente aceito de microevolução. Um segundo componente de variação é a tendência de perda de informação genética nos organismos desde a sua origem. Como exemplo podemos citar a perda do vôo em algumas aves e insetos e a perda da visão em organismos de cavernas. Defendemos que os organismos hoje são, no todo, menos complexos e menos adaptáveis, e as interações entre os organismos nos ecossistemas são menos harmônicas do que no início da vida na terra. Na maioria dos casos, a seleção natural tende a reduzir a perda de informação através da eliminação dos indivíduos defeituosos, a menos que o ambiente permita ou favoreça a perda genética. Com relação às mutações e seleção natural, tanto a evolução naturalista como o intervencionismo informado reconhece a seleção natural como um importante fator no processo microevolutivo, mas o papel específico da seleção natural difere nas duas teorias. O intervencionismo sugere que as mutações e a seleção natural não são capazes de produzir um aumento de complexidade pela geração de novos genes e órgãos. Elas são capazes somente de mudar os animais dentro dos limites do seu potencial genético original e diminuir a marcha para a destruição que poderia ocorrer se o acúmulo de mutações deletérias não fosse detido. A seleção natural é quase capaz de contrabalançar a maioria dos efeitos deletérios da mutação, mas a mudança evolutiva resultante é direcionada levemente para baixo. A seleção natural age como um freio para eliminar muitos indivíduos enfraquecidos pelas mutações e assim reduzir a marcha das forças destrutivas que vêm da mutação. A diferença mais importante entre esta teoria intervencionista e a teoria da evolução é a fonte básica do potencial genético presente nos organismos. É realmente possível que complexos de genes estruturais e reguladores se originem através de mutação, recombinação e seleção natural? Isto requer que o DNA duplicado gradualmente acumule mudanças benéficas que possam ser selecionadas e que este processo possa produzir um novo gene com uma nova função. É possível que isto ocorra sem “investimento” inteligente, produzindo não somente um novo gene estrutural mas também um complexo de genes reguladores que o reconheça e o controle? Predigo que a resposta é não. Outra diferença importante entre a teoria intervencionista e a teoria da evolução seria o tempo. Para os criacionistas, a vida na terra foi criada há poucos milhares de anos atrás. Para os evolucionistas, a evolução vem acontecendo há bilhões de anos. Nós propomos que as mudanças evolutivas têm ocorrido somente dentro de limites definidos, mas os limites não são ao nível de espécie. Por causa da subjetividade envolvida em definir categorias superiores em diferentes grupos de animais, não é possível definir os limites dos grupos originais de animais e plantas em termos de um nível taxonômico específico, tais como família ou gênero. A análise preliminar sugere que quase todas as espécies modernas, provavelmente a maioria dos gêneros modernos e talvez algumas famílias resultaram de modificações das espécies originalmente criadas.

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Bibliografia:
BRAND, L. Faith, reason and earth history. Berrien Springs, Andrews University Press, 1997. 330 p. CARVALHO, H.C. Fundamentos de Genética e Evolução. 3a ed. Rio de Janeiro, Livraria Atheneu, 1987. 556 p. CARVALHO, I. S. Paleontologia. Editora Interciência, 2000. Diretrizes curriculares para o curso de Ciências Biológicas – MEC http://www.mec.gov.br/sesu/ftp/curdiretriz/biologicas/bio_diret1.rtf ELREDGE, N. & GOULD, S. J. Punctuated equilibria: an alternative to phyletic gradualism. In: SCHOPE, T. J. M. (ed) , Models in paleobiology. Freeman, Cooper e Co, San Francisco, p. 82-115. FUTUYMA, D. J. Biologia evolutiva. 2a ed. Ribeirão Preto, Sociedade Brasileira de Genética, 1993. 631 p. GIBSON, J. Problemas biológicos na evolução. Anais do III Encontro Nacional de Criacionistas. São Paulo, Instituto Adventista de Ensino, 1999. MENDES, J. C. Paleontologia básica. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1988. 347 p. MOODY, P. A. Introdução à evolução. Rio de Janeiro, Editora Universidade de Brasília, 1975. 426 p. ROTH, A. Origens. Relacionando a Ciência com a Bíblia. Tatuí, Casa Publicadora Brasileira, 2001. 384 p. STEBBINS, G. L. Processos de evolução orgânica. São Paulo, Editora Polígono, 1970. 255 p.