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A Similaridade Biológica e a Teoria da Evolução
L. James Gibson
Geoscience Research Institute
Tradução: Marcia Oliveira de Paula

A teoria da evolução é construída sobre a premissa de que todos os organismos são descendentes de um único tipo ancestral e que a produção de novos tipos de organismos foi acompanhada por modificações das partes dos tipos ancestrais. À medida em que as espécies divergem uma da outra com o decorrer do tempo, elas se tornam menos semelhantes. Quanto mais diferentes são duas espécies, mais tempo se passou desde que elas compartilharam um ancestral comum. Tais conclusões requerem a identificação e comparação de estruturas equivalentes em diferentes espécies. Este artigo discute alguns dos problemas ao fazer tais comparações. O conceito de homologia As hipóteses de relacionamento entre organismos baseiam-se na identificação de estruturas equivalentes em espécies diferentes e na explicação dessas diferenças através da descendência com modificação. As principais categorias de comparações evolutivas são: morfologia, desenvolvimento embrionário e biomoléculas. As comparações morfológicas e embriológicas foram feitas muitos anos antes de Darwin propor sua teoria da seleção natural, mas o campo da comparação das biomoléculas é muito mais recente. Em cada campo, entretanto, os conceitos chaves continuam sendo a identificação de partes equivalentes que foram modificadas durante a evolução. Este conceito é conhecido como homologia.1 Os membros dos vertebrados são o exemplo clássico de homologia. Por exemplo, os membros dianteiros de uma baleia, morcego, ave, sapo, tartaruga e homem têm o padrão de ossos semelhante. A parte superior tem um único osso (o úmero) enquanto que a parte inferior tem dois ossos paralelos (o rádio e a ulna). Estes são seguidos por um conjunto de pequenos ossos, os carpos. O membro termina tipicamente com cinco séries de ossos paralelas (metacarpos e falanges). O padrão é tão semelhante que os mesmos nomes podem ser usados para os ossos da perna do sapo, da asa da ave e da nadadeira da baleia. Por que o padrão de ossos é tão semelhante? A explicação proposta é a descendência com modificação e as estruturas correspondentes são chamadas de homólogas. Mas a descendência com modificação não é a única maneira de interpretar as semelhanças entre os organismos. De fato, o termo “homologia” foi usado pela primeira vez por Richard Owen, que não aceitava a teoria da evolução de Darwin. Os criacionistas geralmente interpretam as semelhanças nos diferentes tipos de organismos como sendo devidas a um planejamento comum. A idéia de planejamento comum significa que o Criador usou um planejamento semelhante para realizar funções semelhantes em organismos diferentes.2 Problemas com o conceito de homologia Apesar do conceito de homologia ser conhecido há 150 anos, existem dificuldades sérias para tentar identificar estruturas homólogas em diferentes grupos de organismos. Abaixo serão brevemente descritos três problemas que existem na homologia.3

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O problema da convergência Convergência é a origem independente de características semelhantes em espécies diferentes. Em outras palavras, duas espécies podem ter uma ou mais estruturas semelhantes que não são herdadas de um ancestral comum. Um exemplo clássico de convergência morfológica é o olho do polvo e o do peixe. Eles são muito semelhantes, apesar de também existirem importantes diferenças. Ninguém acredita que o polvo e o peixe são descendentes de um ancestral comum com olhos. Conhecem-se muitos outros exemplos de semelhanças morfológicas que não são devidas à descendência com modificação.4 Se as estruturas tiveram origens independentes, talvez seja razoável sugerir que os diferentes tipos de organismos que possuem estas estruturas também tiveram origens separadas, como sugerido pelos criacionistas. Um tipo de convergência também pode acontecer ao nível molecular. Muitos organismos têm seqüências gênicas que se acredita não terem estado presentes em seus supostos ancestrais comuns. Por exemplo, algumas bactérias podem ter genes que não são encontrados em outras espécies de bactérias mas que são encontrados em um grupo diferente conhecido como arqueobactérias.5 É bastante improvável que isso seja o resultado de ancestralidade comum. Considera-se praticamente impossível o surgimento de seqüências moleculares semelhantes independentemente através da evolução 6. A explicação preferida é que os genes foram transferidos de uma espécie para outra, através de um processo denominado transferência gênica lateral. Se genes estão realmente sendo transferidos entre espécies, como podem ser considerados homólogos e serem usados para descobrir a ancestralidade? A transferência gênica lateral debilita as próprias suposições nas quais os relacionamentos evolutivos se baseiam.7 Parece provável que a transferência gênica lateral seja a explicação correta para alguns, mas não todos, os exemplos de convergência molecular. A melhor explicação em alguns casos pode ser a da criação de genes semelhantes pelo mesmo Criador. O problema da homologia no desenvolvimento embrionário A hipótese de que o desenvolvimento embrionário passa por uma série de estágios ancestrais tem sido bastante popular desde os dias de Charles Darwin. Se isso for verdadeiro, deve-se ser capaz de identificar homologias comparando o desenvolvimento embrionário em diferentes espécies. Darwin considerou o desenvolvimento embrionário como uma das áreas de apoio mais fortes para a sua teoria. Ele confiava especialmente no trabalho de Ernest Haeckel, autor dos famosos desenhos de embriões que têm sido reproduzidos em incontáveis livros didáticos. De acordo com Darwin e Haeckel, um embrião humano passa por estágios equivalentes aos de um peixe, de um anfíbio e de um réptil, antes de atingir o estágio de mamífero e finalmente o estágio humano. Entretanto, os desenhos de Haeckel foram alterados para tornar os embriões mais parecidos do que eles realmente são.8 Além disso, se forem seguidos o desenvolvimento dos embriões a partir do ovo fertilizado, existem várias diferenças entre os embriões nos vários estágios de desenvolvimento. Na realidade, os embriões de grupos diferentes são facilmente distinguíveis e não passam pelos estágios de uma linha de ancestrais evolutivos. Em vez disso, cada tipo de embrião se desenvolve de sua própria maneira única.9 Quando se examina com maiores detalhes, surgem mais problemas para identificar as homologias. Estudos embriológicos mostraram que algumas estruturas, que se acreditava serem homólogas, são formadas de maneira bastante diferente durante o desenvolvimento.10 Por exemplo, a notocorda se forma de maneiras diferentes, originando-se de diferentes tecidos em anfíbios, galinhas, tubarões e peixes ósseos. Os segmentos do corpo se originam de formas bastante diferentes nas moscas e nos besouros. Estes exemplos sugerem que os processos de desenvolvimento, em diferentes

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tipos de animais, devem ter sido planejados independentemente e não herdados de um ancestral comum. Os problemas para identificar as homologias persistem mesmo ao nível dos próprios genes. Descobriu-se uma série de genes que ajuda a controlar o desenvolvimento. Eles foram denominados genes homeóticos e se localizam em conjuntos de mais ou menos treze genes. Em todos os animais estão presentes um ou mais conjuntos desses genes. Estes grupos de genes são considerados homólogos. Animais mais simples, como certos vermes, possuem apenas um conjunto de genes homeóticos, enquanto que animais mais complexos, como os mamíferos, têm quatro. Os sapos têm dois conjuntos e as tartarugas três. Poder-se-ia esperar ser capaz de identificar estruturas morfológicas homólogas em grupos diferentes ao se observar os efeitos de seus genes homeóticos correspondentes. Apesar desta proposta ser muito atraente, os genes do desenvolvimento não ajudaram a identificar estruturas homólogas.11 Isso ocorre devido a vários fatores. Em primeiro lugar, um gene do desenvolvimento semelhante pode afetar diferentes órgãos em diferentes espécies. Por exemplo, o gene menos distal afeta o desenvolvimento de manchas semelhantes a olhos que se formam nas asas de certas borboletas adultas. Na estrela do mar, o gene equivalente afeta as células subtrochais dos braços da larva.12 Certamente as manchas das asas da borboleta não são homólogas ao braço da estrela do mar. Em segundo lugar, o desenvolvimento de um órgão ou característica semelhante pode ser controlado por diferentes genes em diferentes espécies.13 Por exemplo, a determinação do sexo é controlada por diferentes conjuntos de genes nas moscas, nematódeos e mamíferos. Mesmo entre insetos ocorrem diferenças: para a determinação do sexo nas moscas das frutas é necessário um gene letal ligado ao sexo, mas alguns outros insetos produzem machos e fêmeas sem ele. Em terceiro lugar, um gene de desenvolvimento semelhante pode controlar o desenvolvimento de estruturas funcionalmente semelhantes que são consideradas não homólogas. Por exemplo, os genes eyeless regulam o desenvolvimento do olho em insetos e vertebrados, mas estes olhos não são considerados homólogos. Ao invés de revelar linhas de descendência evolutiva, os estudos do desenvolvimento parecem indicar que diferentes tipos de embriões se desenvolvem de acordo com diferentes interações gênicas e processos também diferentes. Estruturas que parecem ser homólogas podem ser controladas por diferentes genes e se desenvolver através de processos diferentes. Os diferentes tipos de processos que ocorrem nos diferentes tipos de embriões podem bem ser o resultado de origens independentes ao invés de descendência com modificação. O problema das inovações morfológicas Certos grupos de animais podem possuir uma característica que não está presente em nenhuma outra espécie. As penas das aves são um exemplo familiar. Outros exemplos seriam o sistema vascular ambulacrário dos equinodermas e as glândulas mamárias dos mamíferos. Essas características podem ser chamadas de inovações morfológicas. Em tais casos, pode não haver estruturas equivalentes com as quais comparar e assim fica difícil aplicar o conceito de homologia. A existência de inovações morfológicas não é um problema para os criacionistas. Um Criador seria livre para projetar estruturas morfológicas específicas para certos tipos de organismos, de acordo com suas necessidades no ambiente para o qual foram criados. As semelhanças entre os organismos podem ser o resultado de planejamento comum Muitas semelhanças entre os organismos podem ser devidas a um relacionamento genético, mas certamente isto não é verdadeiro para todas as semelhanças. Já foram

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vistas exceções como a convergência. Muitas semelhanças podem ser o resultado do planejamento comum feito por um Criador. Por exemplo, todos os organismos têm um metabolismo celular semelhante e um código genético também similar. Estas características são o resultado de evolução? Isto requereria ancestralidade comum, mas muitas características sugerem que os organismos vivos tiveram muitas origens independentes. Os criacionistas podem explicar tais semelhanças como o resultado de planejamento comum. Não parece razoável insistir que o Criador deveria ter usado, para cada tipo de organismo criado, um sistema ou processo diferente. O planejamento comum explica porque alguns organismos podem ter diferentes planos corporais e origens separadas, e mesmo assim possuírem sistemas genéticos e metabólicos semelhantes. Conclusão A teoria da evolução está baseada na suposição da ancestralidade comum seguida pela descendência com modificação. Entretanto, não é possível acompanhar as mudanças que teriam ocorrido, segundo a teoria da evolução. A convergência, que consiste na origem independentes de estruturas semelhantes, é comum. Os estudos do desenvolvimento embrionário mostram que estruturas semelhantes podem ser produzidas por processos diferentes e genes diferentes. As inovações morfológicas não apresentam estruturas homólogas em outras espécies para comparação. A teoria da criação fornece uma explicação razoável para os problemas discutidos aqui, incluindo convergência, desenvolvimento embrionário e inovações morfológicas. A convergência pode ser explicada como resultado de planejamento comum. Também podem ser resultado de planejamento criativo as diversas vias do desenvolvimento, controladas por diferentes interações gênicas, que existem em vários grupos de organismos. As inovações morfológicas sugerem origens independentes. A criação também explica as semelhanças entre os organismos, tais como o metabolismo celular e o código genético, como sendo devidas a um planejador comum. Apesar de não podermos provar que a teoria da criação é verdadeira, podemos mostrar que ela fornece uma explicação razoável para os fenômenos descritos aqui. Notas
1. A história da homologia é brevemente revisada em: Hall, B.K. 1995. Homology and embryonic development. Evolutionary Biology 28:1-37. 2. Ver: Brand, L.R. 1976. Homologies. Origins 3:109-111. 3. Ver também: Fitch, W.M. 2000. Homology. A personal view on some of the problems. Trends in Genetics 16: 227-231. 4. As similaridades entre marsupiais e mamíferos placentários fornecem alguns exemplos interessantes. 5. Vários exemplos são conhecidos, tais como Aquifex aeolicus, que é uma bactéria com cerca de 1500 genes. A maioria de seus genes é semelhante aos das eubactérias, porém mais de 200 genes são mais semelhantes aos da archaea. Ver Avarind, L., R.L. Tatusov, Y.I. Wolf, D.R. Walker, E.V. Koonin. 1998. Evidence for massive gene exchange between archaeal and bacterial hyperthermophiles. Trends in Genetics 14:442-444. 6. Koonin, E.V., L. Avarind, A.S. Kondrashov. 2000. The impact of comparative genomics on our understanding of evolution. Cell 101:573-576. 7. Doolittle, W.F. 1999. Phylogenetic classification and the universal tree. Science 284:2124-2128. 8. Pennisi, E. 1997. Haeckel's embryos: Fraud rediscovered. Science 277:1435; Wells, J. 2000. Icons of evolution. Washington: Regnery Publishing. 338 páginas.

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9. Rieppel, O. 1993. The conceptual relationship of ontogeny, phylogeny, and classification: The taxic approach. Evolutionary Biology 27:1-32. 10. Raff, R.A. 1996. The shape of life. Chicago: University of Chicago. 520 páginas. 11. Wells, J. 1998. Unseating naturalism. Pp 51-70 in (W.A. Dembski, ed.) Mere creation: Science, faith, & intelligent design. Downer's Grove, IL:InterVarsity Press. 475 páginas. Ver também Raff, Nota 10. 12. Comentado por Galis, F. 1996. The evolution of insects and vertebrates: homeobox genes and homology. Trends in Ecology and Evolution 11:402-403. Veja também: Davidson, E.H. 1997. Insights from the echinoderms. Nature 389:679-680; Nelson, P.A. 1997. Applying design within biology. Pp 148-174 in (W.A. Dembski, ed) Mere Creation (ver Nota 11). Veja a citação de Nelson da defesa da polifilia dos metazoários em: Willmer, P. 1990. Invertebrate relationships. Cambridge: Cambridge University Press. 400 páginas. 13. Ver referências na Nota 12.