PAZ GUERREIRA
O CAMINHO DAS DEZESSEIS PÉTALAS

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exemplo de cavalheiro. do mais grandioso ao aparentemente mais insignificante.DEDICATÓRIA PÓSTUMA ada palavra desta obra está imbuída do espírito. Não poderia dedicar esta obra a outra pessoa que não a meu professor. que soube praticar cada uma das virtudes que sempre se dedicou a ensinar a seus discípulos. Verdadeiro guerreiro da paz. exemplo de vida e Mestre no mais profundo sentido do termo. da marcante presença. C . e dos profundos ensinamentos de um grande homem. mesmo na ausência. Michel Echenique Isasa. em profunda elegância e generosa altivez. pautando cada um de seus atos. pai espiritual. que dedicou sua vida às pessoas.

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Agradeço especialmente a minhas mestras. A Luzia Helena Echenique. A minha querida esposa. A . A Roberto Pompeo. discípulo. tendo contado com a colaboração de muitas pessoas. por seu apoio incondicional. compreensão e inspiração com que me brindou nas muitas horas de trabalho dedicadas a esta obra. que esteve presente em todas as horas deste livro. pela dedicação.AGRADECIMENTOS conclusão desta obra marcou o final de um importante trabalho e o início de um novo ciclo. Beatriz Díez Canseco e Delia Steinberg Guzmán. tendo cada uma de suas linhas passado por seu crivo e lapidação. Giovanna Husseini. que não posso deixar de mencionar.

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Um guerreiro enfrenta todos eles. por amor ao seu Mestre. a irresponsabilidade e a ilusão. quanto no decurso da história. se transformou em um artista e Mestre das artes marciais. Encontram-se com homens e mulheres que também têm uma espécie de facilidade para os enfrentamentos e as lutas. domina. a falsidade. Um sonho comum a homens e mulheres que na verdade guarda um conceito da marcialidade profundamente penetrado de conteúdo filosófico e humanista. O que um guerreiro faz? Luta. conquista. Fundamentalmente. No sonho habita algo dos deuses e algo dos homens. Um dos maiores sonhos desses especiais guerreiros é “vencer sem lutar”. avança. E . os homens são agraciados pela capacidade de seguir sonhando. eles não estão sozinhos. Mas no mundo. inteligência e superioridade humana suficientes para lhes permitir abrir um acesso a uma porta interior. com o entusiasmo próprio de um guerreiro que. protege os demais. principalmente das artes marciais filosóficas. os deuses através dos sonhos delegam seu poder. que não têm em conta esta especial forma de encarar a vida e seus inúmeros desafios.PREFÁCIO ste livro foi escrito com um sentimento de profunda devoção. a corrupção. embora nem sempre disponham de valor. realizando e conquistando”. Você sabe o que é sonho? Pois Talal Husseini fala do sonho como “uma esfera onde homens e deuses se encontram. para justamente desenvolver todo o seu potencial guerreiro com vistas a essa superioridade humana que leva à paz e à concórdia. E este é o sonho de Talal e de seu Mestre Michel: a Paz Guerreira. é um eterno inconformado com a injustiça. tanto nas sociedades atuais.

vigor e amor pelas artes marciais. então prepara-te para lutar por ela. can14 . Michel Echenique. Devemos então nos armar. seja pela nossa segurança. ou pela Verdade. das sociedades e de cada ser vivo. dos valores do Estado. se realmente nos dispomos como homens e mulheres idealistas e valentes protetores dos Valores da Humanidade. Não é possível construir uma civilização onde reine a ordem e a justiça sem dedicar muito respeito aos valores e à Convivência.O autor deste livro é hoje um Mestre das Artes Marciais Filosóficas. Prof. Eu o conheci há muitos anos. encontramos muitas e verdadeiras armas. Nesta obra. Talal Husseini fala de Paz Guerreira e de Vencer sem lutar não apenas tratando de usar frases de impacto. Muitas vezes. Agora. com total entrega. por meio dessa relação profunda entre Mestre e discípulo. sem o devido reconhecimento e aceitação das tradições. como forma de retribuição por tudo que recebeu e aprendeu com seu Mestre. Se queres a paz. nos sentimos abater. cremos ser necessário possuir armas para velar ou lutar. cheio de entusiasmo. mas sim trazendo conceitos filosóficos profundos que lhe foram ensinados e que ele levou como prática de vida. às vezes. Assim. pela Justiça. A Paz Guerreira é um livro sobre a necessária disposição e uso das virtudes guerreiras para todo aquele que se propõe a seguir por este caminho. 11ª Pétala – Respeito: “o Respeito é a virtude Cidadã. Quando ocupamos muito tempo da nossa vida diária na luta pelos Ideais de Justiça e de Humanidade. reuniu esses ensinamentos neste romance e nos presenteou. que o formou desde então para uma trilha intensa de desenvolvimento marcial semeada através da filosofia à maneira clássica. dos valores morais e dos conselhos dos sábios”. Foi o que o levou a conhecer o seu Mestre. ensinaram os mais sábios. como por exemplo: a virtude do Respeito. ainda um adolescente.

dominá-lo. E. “Não há poder sobre quem não teme” – este é outro conceito maravilhoso encontrado nesta obra. Aprender a lidar com o medo. Também não devemos permitir que a esperança de um mundo novo e melhor se dilua ou se esconda dos seres humanos. que além de filósofo foi um grande guerreiro ateniense. conviver com ele. Também um dos grandes filósofos de todos os tempos – Sócrates – dá-nos o seu ensinamento sobre a imortalidade da alma no diálogo Fédon. e aprender a fazê-lo com honra e dignidade. Devemos aprender a enfrentar a morte.sados. A tradição guerreira filosófica revela à nossa consciência algo fundamental que em geral tem sido esquecido. O autor nesta obra também nos enriquece com a alusão a mitos atemporais – velhos contos de velhos Mestres guerreiros – como aquele sobre a corda que comunica o céu com a terra. Mas recordamos que nas lutas e batalhas (tanto interiores quanto exteriores) devemos observar constantemente a nossa própria capacidade de autorrenovação durante a luta. 15 . pois a esperança é outra das grandes forças que necessitamos proteger como guerreiros. como guerreiros e filósofos. de quantas e diversas maneiras essa luta não se apresenta diariamente nas nossas vidas? Toda a vida consiste em aprender a morrer. na medida em que ampliamos a busca teremos que recorrer a tudo que apontaram e ensinaram Mestres e Sábios de todos os tempos. dizia o filósofo. apagado da memória humana: que tudo ao nosso redor guarda uma Ordem. e não deixar que o fogo que ilumina e arde dentro de nós se apague. sem esperança. dizia Sócrates. assimilá-lo. que nada vem do acaso. é um dos grandes aprendizados que a trilha das artes marciais filosóficas nos lega insistentemente. Quando buscamos o melhor e o mais justo não podemos nos contentar apenas com uma busca horizontal. e eles sempre apontaram para o alto. para o espírito que está detrás do Sol e que é a causa ultérrima de tudo.

E isso é união. mental e espiritual. Considero-me sua Irmã de Armas nesta vida. Com uma trama estimulante. psicológica. psíquicas e mentais. reativa nossa ação de potencial inteligente: física. E isso é tremendamente estratégico. pois educar os seres humanos na mentalidade de sermos Um promove uma ação unificadora em que todos os movimentos serão de um só corpo. morais e pedagógicas. mas recheado com batalhas físicas. tanto individual quanto coletivamente.A Paz Guerreira é um livro de profundos ensinamentos filosóficos. isso é eficiência. esta saga! Luzia Helena de Oliveira Matos Echenique Diretora Nacional da Associação Cultural Nova Acrópole 16 . por conceder-me a honra de apresentar este livro. armas filosóficas. E aquele velho orgulho guerreiro me preenche o coração. Nós lutamos por um Ideal de Sabedoria. em que a exigência é manter-se atento e concentrado.

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......................................................................................................................................... 477 12ª Pétala: Regulamento ................................................................................................................................................................................................... 141 4ª Pétala: Liderança.................. 403 10ª Pétala: Coragem ............................................................. 185 Eixo da Realeza 5ª Pétala: Obediência ................................. 79 3ª Pétala: Força................................................................................................................. 547 14ª Pétala: Valor....................................................................................................... 277 7ª Pétala: Honra............................................................ 437 11ª Pétala: Respeito........................ 669  ....................................................... 361 Eixo do Senado 9ª Pétala: Retidão ........................................................................................................................................................................................................................................................................... 583 15ª Pétala: Determinação ..... 321 8ª Pétala: Cavalaria . 513 Eixo do Império 13ª Pétala: Paciência ..........SUMÁRIO Eixo do Poder 1ª Pétala: Humildade .................................. 239 6ª Pétala: Nobreza ............................................... 23 2ª Pétala: Admiração ........................................... 621 16ª Pétala: Destino ..........................

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lanças em punho. O Rei branco levantou sua lança. ecoavam por todo o espaço. À frente dos seus. qualquer pequeno erro poderia ser fatal. Talvez por isso a demora na tomada de alguma iniciativa. ao contrário. reparou que nada ouvia do galope e dos gritos dos soldados. Esse momento de expectativa gerava uma tensão crescente no campo de batalha. Sokárin não enxergava em cores. A batalha seria decidida nos detalhes. de guerra e de dor. já que usava a lança na mão esquerda. Os exércitos se equivaliam em número e força. Tudo lhe parecia num ritmo lento. buscando o Rei branco no campo de batalha. gritos. Imediatamente Sokárin o imitou. Agora Sokárin sentia-se no fragor da batalha. Todos os soldados. No exército de Sokárin. da cabeça aos pés. perfilados. somente em branco e preto. s dois exércitos distavam cerca de mil metros um do outro. pois não é a todos que o vermelho do sangue faz bem. um completo silêncio. Sokárin. Podia distingui-lo dos demais de uniforme branco pelo estandarte que o acompanhava.1. o Rei negro. Esse transe foi quebrado pelo estrondo produzido pelo encontro dos exércitos. só esperavam um gesto do seu líder para arremeter contra o oponente. O Rei negro manejava sua espada com destreza. Ajudava não enxergar cores. dos dois lados. Sokárin observava o rei adversário. todos trajavam negro. As tropas adversárias reluziam sob o Sol em suas armaduras completamente brancas. O choque das armaduras se fez ouvir a quilômetros de distância. membros decepados. Praticamente juntos baixaram as lanças. em sinal de ataque. imóveis. que também permanecia imóvel. O estandarte também o proTALAL HUSSEINI O 25 . sangue jorrando por todos os lados. como num espelho.

Saiu do seu quarto para o terraço de onde dominava toda a capital. O velho Rei sentia o cansaço da batalha e as dores da sua idade avançada. manchar o chão. Abriu-se um círculo em torno dos monarcas.. tão vívido.. Foi bem menos do que um segundo de desatenção. Finalmente. A cena era pitoresca. mas o suficiente para que a espada do Rei branco lhe trespassasse o ventre. pois parecia uma dança diante de um espelho. até a respiração se normalizar. fixava o seu algoz. Ambos pisavam os cadáveres: mais de metade de cada um dos exércitos já sucumbira. Estava envolto naquele tipo de solidão que só os monarcas conhecem. com a espada cravada no ventre. que retirava o elmo. Sokárin acordou ofegante. Órgãos vitais foram atingidos.. O golpe era fatal. Ele olhou o céu na direção de um guincho que parecia ser de falcão. Prostrado na terra. O duelo seguia ferrenho. vermelho. saindo nas costas junto à coluna vertebral. A luta arrefeceu. vinha em sua direção. E agora. provavelmente esperando que se lhe esvaísse o último sopro de vida para soltar seu brado de vitória. Nada. via uma cor... procurava um sentido para aquele sonho. Ainda teve tempo de olhar ao redor e ver o exército negro recuar atônito e frágil. os dois reis se encontraram frente a frente. nenhum lograva atingir o outro de forma definitiva... A última imagem que Sokárin viu foi seu próprio rosto no lugar daquele que o vencera. Seu rosto.curava. ante a morte de seu líder. mas um sonho apenas. Vivia sozinho entre os homens. Um pesadelo. Real.. quando algo chamou a atenção de Sokárin. Seu coração palpitava dentro do peito. Ficou alguns minutos sentado em sua cama. Estava confuso. como que numa trégua tácita. imediatamente levando as mãos ao ventre. Sokárin teve certeza quando viu seu sangue. onde a espada entrara. Pela primeira vez em sua vida. com mais de oitenta anos. tão real. Os soldados de branco guardavam silêncio. 26 PAZ GUERREIRA .HUMILDADE .

Mas ainda havia tempo para mudar. o sonho de outra pessoa. O vento estava gelado... esse sonho. Sim. que só seria aberto quando TALAL HUSSEINI 27 . A transição devia ser pacífica. A noite estava escura como o breu.. Pode alguém governar afastado dessas diretrizes? Devia ter deixado o trono quando não teve mais energia para fazer valer sua vontade. Essa placa ficava coberta com um lacre de metal. aquele sonho o fizera entender: estava do lado errado e por isso vinha matando a si mesmo. Os sentimentos que se lhe amalgamavam na alma eram intensos. não podia permitir que em sua morte elas tomassem definitivamente conta de tudo e subvertessem a ordem... Pode ser a consagração e reafirmação das instituições ou sua degradação. pior. Silêncio demais.. Era como se acordasse de um sonho dentro de outro sonho. Sim. Cogitava... Se na sua vida levara o País em direção às trevas. e aquela noite em especial era ainda mais lúgubre.aproximava-se sozinho da morte. Os anos maravilhosos do início desse período não passavam de memórias distantes.. Entretanto. Da sua sucessão dependia o futuro do reino. Quase meio século de reinado. traíra sua própria natureza e se deixara manipular por interesses que não levavam em conta os anseios do povo e. o impressionara de tal forma que tudo lhe parecia parte de uma estranha realidade. A placa de pedra com o nome do sucessor gravado pessoalmente pelo Rei devia ser postada na estela em que figuravam os nomes de todos os soberanos que o antecederam e o seu. O Rei já não se lembrava em que momento perdera o rumo. Estranhas energias estavam à solta no reino naqueles tempos. Mas não era tão simples assim. dos deuses. Um calafrio percorreu a espinha do velho Monarca. Num País. e o próximo rei um homem moral. é um momento crítico. ele não podia mais comandar um exército negro.. Uma paz ameaçadora. A transferência do poder é sempre um momento delicado em qualquer organização. Tudo mudava em seu coração. esse pesadelo. Já havia algumas noites que não conseguia dormir pensando na sua sucessão. Lua nova. O júbilo ou o padecimento do povo nos anos subsequentes.

O Rei sentia que estava próximo o momento em que o nome ali depositado seria revelado. Como sombrio era Ofis. homem acima de qualquer suspeita. espécie de encarregado geral. o destino de todo o País estava em jogo.HUMILDADE O . Só havia um nome possível para devolver o reino aos seus tempos de ouro.. mas precisava agir rápido. A experiência fora traumática para todos. inclusive serviços duvidosos. Uma era o sinete do Rei. a quem se atribuíam as funções mais variadas. A abertura se operava somente com duas chaves codificadas.. Poucas pessoas no reino sabiam desse procedimento. assistente do palácio.. feito na peça antes de gravada e repetido depois de aberta a sucessão. O chefe do Conselho dos Anciãos era um nobre dos mais considerados de todo o reino. todos os dias. levando a uma guerra civil que durara quase dez anos. Entrou nos seus aposentos para ali passar as horas restantes de sua insônia. Perto de todos. Sokárin já o observava havia algum tempo. mas fora do alcance. A outra ficava com o chefe do Conselho dos Anciãos. O sistema de indicação do sucessor fora mudado quando problemas ocorreram – uma única vez na história do País – muitos séculos antes.. sua vida já não importava. Urgia que a placa com o nome do sucessor fosse trocada. o que tornava impossível que a substituição não fosse detectada. Vigilância o dia todo. que por sinal eram 28 PAZ GUERREIRA . sempre correram normalmente. O vento da noite esfriou ainda mais.da sua morte. A placa era infalsificável. apesar da tensão natural desses momentos. pois havia um teste alquímico.. trazendo Sokárin de volta de seus pensamentos à realidade de seu corpo alquebrado. O sonho lhe dava a coragem necessária para a mudança. e desde então as sucessões.. dia amanheceu sombrio. 2.

Não comungava desse temor Adaran. havia um preenchimento sólido como madeira que lhe outorgava um aspecto de indestrutibilidade. mas isso jamais era questionado ou comentado. Ao chegar ao Conselho dos Anciãos. Inspirava temor. o Primeiro-Ministro. Circulava o boato de que era violento. mesmo depois que Sokárin se for.. sempre em absoluto controle de seus pensamentos e emoções. Homem de poucas palavras. Transmitia a todos respeitabilidade e segurança. Exímio espadachim e lutador. comenta-se que o estado de saúde do Rei se deteriora rapidamente. talvez por reconhecer o seu poder dentro do reino. Adaran. fazia questão de deixar evidente seu repúdio pela violência. ninguém no palácio se lembrava de alguma vez tê-lo visto sorrir. demonstrando de forma clara que refutava completamente a ideia de substituir Sokárin. Mas cumpria suas tarefas com empenho e eficiência. transitava pelas mais altas cúpulas da política internacional com grande naturalidade. braço direito do Rei. Melhor não se envolver com ele. Ofis parecia composto apenas de pele e ossos. Mas mesmo assim evitava o assunto da sucessão. TALAL HUSSEINI 29 . preferindo sempre que possível as soluções diplomáticas para os impasses. bem como sua origem étnica. Não se sabia no palácio qual era exatamente a sua função ou cargo.. Ofis é que parecia temê-lo. apenas não se furtando de dar sua contribuição às questões públicas se necessário. Saiba que tem todo o meu apoio para a melhor condução dos assuntos do interesse do nosso reino. Conduzia os assuntos do Estado com mão de ferro. mas nunca foi visto envolvido em qualquer altercação.os que mais lhe davam prazer.. Ao contrário. Dominando vários idiomas. Adaran era um homem de educação refinada. e todos sabiam que era praticamente ele quem governava desde que a saúde do Rei se deteriorara. foi abordado por um dos senadores: – Sr.. mas não que fosse absolutamente magro. Seria difícil precisar sua idade. Adaran estava sempre vestido de maneira impecável.

não compensa gastar seus elogios com alguém que já está mais próximo do outro lado da existência do que deste.– Senador. Inari? – Bem. Anunciou: 30 PAZ GUERREIRA . O Senador Rohel brandiu um antigo martelo de madeira maciça. No Conselho dos Anciãos. lançando-o por três vezes sobre um apoio de madeira com uma energia tal. assim como várias outras instituições de Estado. Como vai a Sra. mas cumprido meu papel neste governo pretendo dedicar-me às minhas empresas. afinal não estavam os mais velhos sempre a pensar que as coisas e os jovens de agora eram piores do que os de antes? Iludindo-se dessa forma em seus pensamentos para ocultar de si mesmo as evidências. O Chefe do Conselho dos Anciãos era o Senador Rohel.. que tinha a atribuição de Custódio das Tradições. Vossa Excelência pode estar tranquilo.. obrigado. o ancião viu aproximar-se Adaran: – Saudações. a quem o peso da idade avançada – era contemporâneo do Rei – não havia atingido ainda. assim como Vossa Excelência. Mas vamos aos trabalhos? – É claro. – Sua esposa conserva o vigor e a energia da juventude. pois Sokárin governa com muito pulso e ainda vai nos enterrar a todos. agradeço seu interesse pelos assuntos de Estado. que serviam como um órgão consultivo para o Rei.. Ademais.. Senhor Primeiro-Ministro. se me permite. Educado nas antigas tradições. Adaran. Senador Rohel.. mas firme. Talvez fosse um saudosismo injustificado.HUMILDADE . de que se custaria a crer ele fosse capaz. Era um homem de olhar sereno. dentro do que se permite aos velhos. Senador. que estão negligenciadas desde que apoio o Rei. – concluiu já se retirando em direção à mesa da chefia.. aportando com sua experiência e conhecimentos nas mais diversas áreas. – Saudações. reuniam-se os quarenta e nove senadores. o Senador Rohel não aceitava com facilidade a decadência que o sistema educacional experimentava. Agora. – Poupe sua diplomacia para quem acredita nela.

é. Subindo ao púlpito. de cumprir com o meu dever de cidadão. Não havia dúvida de que ele era a pessoa indicada para conduzir o reino a uma nova era de prosperidade e pujança. Adaran agradeceu meneando a cabeça: – Senhor Chefe do Conselho. destinando-se esta jornada à manifestação do Senhor Primeiro-Ministro. O Senador Rohel estava entre a minoria que não se manifestou diante das palavras de Adaran. – Todos sabem que não tenho qualquer interesse nesse pesado encargo. a quem passo desde logo a palavra. para dedicar-me aos meus assuntos pessoais. O ancião não gostava do Primeiro-Ministro. não há deliberações. Prefiro. se for esse o caso. portanto. senhores Senadores. TALAL HUSSEINI 31 . o estado de saúde debilitado de Sua Majestade. Se lhe perguntassem que razões objetivas tinha para isso não saberia responder. Pelo menos dois terços dos presentes aplaudiam fervorosamente o cativante Primeiro-Ministro. pois não me reservo o direito de abandonar minhas obrigações em função de minha felicidade pessoal. do fundo da assistência. está aberta a sessão! Como previamente anunciado. como todos sabemos. ver-me livre das funções estatais. pois. e não podemos nos utilizar de meias palavras neste foro. tendo em vista que a sua escolha foi amparada pela decisão sábia de nosso Monarca. mas ao longo dos anos aprendera a ler as pessoas por algo além de seus atos e palavras. a pedido do Rei. Algo em Adaran não lhe agradava. não há qualquer dúvida de que você será o sucessor – gritou um dos senadores. a causa que me traz a esta plenária. Entretanto. que todos envidemos esforços para apoiar integralmente o escolhido. nesta etapa de minha vida.– Senhores Senadores. pois estou envolvido na política em razão do acaso e do senso de dever cívico que não me permitiu declinar do pedido de auxílio que me foi dirigido. Apupos avolumaram-se por todo o ambiente. crendo ele mesmo que este ano será o último do seu reinado. como todos sabem. – Adaran. não poderei me furtar. É importante.

O Primeiro-Ministro entrou na carruagem que o aguardava. O lugar ficava num antigo castelo. mas era impossível zangar-se com ele. tal o seu carisma. mais uma vez. Competente. O mesmo nível mediano que tinha com as espadas se refletia em sua vida. Era um jogador. No entanto. sentavam-se na adega para conversar sobre os rumos da política mundial e tomar um vinho. filho mais velho do Rei Sokárin. Era frequentador da Real Sociedade e das rodas de conversa. Ocultava muito bem seus pensamentos e emoções. nunca se podia saber se falava a verdade. Seria uma humilhação para ele e um aborrecimento para os outros. mas nunca lutava contra Adaran ou Haggi por ser de nível muito inferior. Ruim era encarar o sorriso irônico e desdenhoso de Haggi. em 32 PAZ GUERREIRA . depois de um duelo equilibrado com espadas. que era um local onde a elite da Capital se encontrava para a prática de esportes. em que questões importantes do poder e assuntos intelectuais eram tratados. Daí o seu sucesso na carreira diplomática. rápidos e precisos. Adaran tinha direito a uma revanche contra Haggi Eitan. partindo rapidamente. que o vencera dois dias antes. Perder a luta não era tão ruim. Ainda assim. pois isso incentivava Adaran a melhorar ainda mais sua técnica. com muitos jardins e bosques. Oferecia também banhos a vapor e ambientes de reunião e conversa. Tinha um estilo mais clássico. Kadriel ainda o fazia suar um pouco.HUMILDADE . mas não o vencia. Hoje estava motivado. é verdade. Depois do duelo. Adaran saiu do Senado e foi à Real Sociedade. Boa defesa. Não havia quem não gostasse dele. Uniu-se a eles Golan. Seria uma boa luta. conduzido por Ofis. de movimentos suaves. Por isso gostava de lutar com Haggi: os outros membros da Sociedade não eram páreo para ele. Era médio em tudo. era difícil de ser atingido. Haggi era diferente. Haggi Eitan venceu.

Golan.qualquer atribuição que lhe fosse designada. Muitos achavam que seria o sucessor natural do Rei...? TALAL HUSSEINI 33 . Adaran. – E é mesmo. foi apenas uma brincadeira. – E você um grande Primeiro-Ministro. de forma alguma… Só estou contente em ver os amigos… – Não precisa ficar sem graça. – Eu já sou o Primeiro-Ministro. já está dando seu pai como morto? Ou sabe alguma coisa que nós não sabemos? – ironizou Haggi – Golan ficou sem graça: – Não. Haggi Eitan. que sou capaz de reinar. não é? – completou Haggi. Ademais. todos sabem que a saúde do Rei já não é das melhores. Haggi. já sentando-se à mesa. – Então. sempre me passou toda a sua experiência e ensinamentos necessários para reinar. sem falsa modéstia. senhores – disse. Golan. Sei. – Sim e quer continuar a sê-lo… Ou quem sabe uma promoção. Golan. com ar satisfeito – como foi o combate? – Por que tanta alegria. Terá de mim todo o apoio que necessitar. – Haggi assumiu novamente seu ar provocativo: – Mas o que o faz ter tanta certeza de que será o sucessor de Sokárin. são sempre muito importantes para qualquer governante ter por perto. mas meu pai me preparou para isso. sem convicção – nunca se pode ter certeza. mas sem iniciativa para ir além. – Se os deuses assim desejarem – intercedeu o Primeiro-Ministro – você deverá suceder seu pai com sabedoria. – Homens como você. – Não diga isso. Ele tinha certeza. Você será um grande soberano – aquiesceu Adaran. Golan? – Não tenho certeza – disse. meu pai ainda viverá muitos anos. e é muito provável que ele realmente não passe deste ano.

Ele era um pequeno inseto sobre a superfície gigantesca da rocha. – Mas o poder… – Inclusive tenho certeza de que Golan precisará de um Ministro do Exterior competente como você. O Sol redondo o fustigava naquele dia em que o céu estava de um azul quase branco. Em alguns pontos a inclinação chegava a ser ligeiramente negativa. 3. O filho do Rei assentiu com a cabeça: – Vocês sabem que podem contar com a minha ajuda. tal era a claridade. o calor atrapalhava seus pensamentos. sirvo ao Estado. O suor que escorria da testa para dentro dos olhos atrapalhava sua visão. as palmas de suas mãos estavam lanhadas pelas pedras pontiagudas. Haggi. certo Haggi? Até logo.HUMILDADE A . Haggi e Golan conversaram mais um pouco sobre as questões que envolviam a sucessão e depois se foram. Creio que nosso próximo duelo ficou para a semana que vem. Mas sempre é bom deixar as portas abertas. – Até logo. A parede fazia um ângulo exato de noventa graus com o solo. Por isso preferi a carreira diplomática aos cargos de administração. – É claro. cada um pensando como os outros lhe poderiam ser úteis. que 34 PAZ GUERREIRA . Golan. A temperatura ambiente.– Os cargos e títulos não me interessam. s têmporas de Mulil latejavam. – Bem – disse o Primeiro-Ministro – estou na minha hora. Até lá. mas nunca se esqueçam de uma coisa: eu não sirvo a governos.

rumo às pontas escarpadas das rochas lá embaixo. sem maiores explicações. a energia que pulsava em seu peito era difícil de controlar. Assim lhe havia dito Montuhotep. Cada movimento tinha de ser muito bem estudado.beirava os cinquenta graus.. Disse que no momento certo ele entenderia. cada reentrância. eram as palavras de seu Mestre. que o observava ao longe. sob pena de funesto destino. TALAL HUSSEINI 35 . vinham as da mente. Seus braços já não aguentavam. cada saliência. E prosseguia sua lenta escalada em direção ao ninho. rocha. era ainda mais alta na pedra. pois já pensara mil vezes em desistir. Seu coração estava acelerado pelo esforço e pelo medo da altura. porém não era mais um garoto frágil. Mas ao se imaginar fracassando perante seu Mestre Montuhotep. dizia Montuhotep. Ele queria conquistar o mundo. As palavras ecoavam em sua cabeça. o que não tornava sua missão nem um pouco confortável... não tinham mais força alguma. pensava mil e uma vezes em continuar. Já havia duas horas que a única coisa que olhava era a rocha. mas dominar o falcão. Seus pensamentos não paravam. Procurava concentrar-se em não perdê-la. Sua presença era o que mantinha Mulil naquele momento. Acompanhando as mudanças por que passava seu corpo. mas muito cedo aprendera uma coisa: a confiar no seu Mestre. e um objetivo: não era dominar o cume... Mulil não tinha tanta certeza de sua capacidade de entendimento. sem qualquer proteção senão o aprendizado que tivera até então. eram velas queimadas. rocha e mais rocha. Seja corajoso e mostre-se valente.. cada pequena fresta ou vão onde se agarrar. e ela se exterioriza pelo valor. A coragem está dentro de você. a mais de setenta metros do chão duro. Só a vontade o sustinha. Mas antes precisava conquistar a si mesmo. Aos catorze anos de idade. Mulil ainda não tinha a força de um homem feito. caso contrário não estaria ali.

um olhar capaz de descortinar o Universo. as garras cravadas em seu braço.O guincho às suas costas lhe fez gelar o sangue. que de imediato mudou sua postura. os olhos cravados nos seus. e a ave ainda vinha em sua direção. vestindo uma túnica branca que parecia imune ao pó e à areia.HUMILDADE . mas Mulil sabia. pensou Mulil. Olhou mais uma vez na direção dos guinchos que se aproximavam rapidamente junto com seu emissor. que distava dele cerca de duzentos metros em linha reta pela hipotenusa que fecharia o triângulo com a parede e o chão. como se daquilo dependesse sua vida. Mas o olhar de Mulil já não era o mesmo. era um olhar de guerreiro. Agora a ave arremetia contra Mulil. Conseguiu. deixando o antebraço em posição horizontal. Sua reação foi procurar pelo Mestre. acreditava que algo havia mudado. Aparentemente nada mudara. Coragem. A figura esguia. que pa- 36 PAZ GUERREIRA . Esse olhar encontrou as pupilas alongadas do falcão. O primeiro guincho fora emitido num voo de reconhecimento. Foi como se numa fração de segundo tivesse ficado cara a cara com o Mestre.. seu coração bateu descompassado. firmemente. a cabeça ornada com uma espécie de coroa com uma pedra amarela na frente. o turbilhão de pensamentos que povoava sua mente cessou como num passe de mágica. superando o medo que sentia e suportando a dor aguda. o encarou de tal forma que Mulil imediatamente preferiu o falcão. Ergueu seu braço esquerdo. Ver o que antes ouvira não lhe aumentou em nada a segurança. Desejou nunca se ter virado e apenas ter esperado a morte sem ter que a encarar.. para dar lugar a um único pensamento: procurar um apoio na parede que lhe permitisse olhar para o seu oponente. de elevada estatura. em torno do pescoço um colar de contas do qual pendia um escaravelho de lápis-lazúli. O falcão parou com seu bico curvo a poucos centímetros do rosto de Mulil. pois os guinchos continuavam a ser emitidos.

. O falcão soltou seu braço e alçou voo. mas Kadriel confiava nas pessoas que o cercavam. Uma paz que dependia da sua postura para se manter. Os primeiros raios da aurora transpassavam a neblina que cobria as casas e parte dos edifícios. poderia ser o fim.. olhou com ternura para o falcão e soube. para desaparecer sobre o deserto. tal sua intensidade. lavou o rosto com água gelada. descrevendo um oito perfeito no céu branco. ele seria seu aliado. atingir seus objetivos. qualquer demonstração de debilidade. Ele era um político promissor.. depois o Estado e ainda o País.. A vista era privilegiada: dominava toda a cidade até as colinas do lado oposto.. o que lhe conferia crédito para. e elas confiavam nele. A política era difícil. para sempre. Qualquer deslize... O cheiro férreo do sangue chegou às suas narinas. A ave facilmente o despregaria da rocha.. Ele retinha seus pensamentos quando estes queriam por vontade própria ir além do País. bem assessorado. lançando-o no vazio. K TALAL HUSSEINI 37 . Mas era determinado e honesto. mas delicada. adriel acordou suado. 4. pela agitação e pelo calor do deserto do seu sonho.. aguardando que a coroa solar apontasse no horizonte e pensando que se aproximava o dia em que governaria a cidade. Entretanto. a sensação que tomou conta do discípulo foi de paz. às vezes até um pouco inocente. foi até a janela. tingindo-a de amarelo-ouro.. bom caráter. Levantou-se. Kadriel divagou por longos minutos. Mas Mulil sabia que isso não aconteceria. uma paz profunda.recia irradiar-se em choques elétricos ao longo de seu corpo.

Ela o seguiu. aqui há um caminho na rocha… Kadriel a reteve: – Não. afagando as cicatrizes que obtivera havia muito tempo. Estava com seus amigos inseparáveis Bakar. pode ser perigoso. como sempre fazia. trazendo à mente de Kadriel lembranças de sua infância. ultrapassou-a em direção ao ninho.Um dos primeiros pássaros da manhã riscou o céu. Chegaram até o topo num local que dava para um penhasco. é claro. é um ninho de falcões. pois qualquer deslize poderia ser 38 PAZ GUERREIRA . sendo dois alinhados e o do centro mais avançado. caso resolvam vir. afastaram-se da atividade indo em direção às montanhas. E sem deixar muita margem à argumentação. Ali permaneceram olhando os detalhes da parede escarpada. Ele tinha dez anos de idade. Kadriel e Bakar discutiam sobre os prós e contras de prosseguir ou retornar. quando Dhara viu um ninho a aproximadamente dez metros abaixo de onde estavam. Haggi permaneceu no topo. Bakar a secundou. estudando cada movimento. Haggi não queria continuar. Dhara tomou a dianteira e prosseguiu dizendo sem se voltar: – Espero vocês lá em cima. Desobedecendo as determinações dos professores. De modo involuntário. Kadriel lembrou-se de uma tarde na escola. aguardando qualquer contratempo. apenas com a cabeça para além da beirada. Os quatro se deitaram de barriga para baixo. Em certa altura pararam.HUMILDADE . em dúvida sobre a continuidade da expedição. paralelos. Prosseguiam pela encosta lentamente. Cada um pensava em suas coisas. levou a mão direto ao antebraço esquerdo. Haggi e Dhara. que devia contar uns oitenta metros de altura. Três pequenos riscos de aproximadamente dois centímetros cada um. deixe que eu sigo à frente. Propôs: – Vejam. Enquanto se perdiam em dúvidas. Os garotos se entreolharam e sem dizer mais nada a seguiram. Completando a marca um quarto risco quase idêntico aos outros do lado exatamente oposto do antebraço.

Bakar bateu em retirada pelo mesmo caminho por onde tinha descido. ficando preso em uma delicada árvore. O falcão voou em direção a Kadriel. Foi só então que Kadriel pôde ouvir de novo os sons do mundo e dentre eles os gritos de Bakar. juntos. que Kadriel jamais esquecerá. mas quando estava próximo do rapaz seus olhares se cruzaram. Somente Kadriel permaneceu estático. foi tomado de intensa serenidade. E cravou seus olhos nos dele. mas ao ver que o esforço dos dois amigos não era suficiente. conseguirem resgatar o prisioneiro do abismo. ao contrário. mas ele teve o impulso de enrolar sua blusa no braço para se proteger. Ambos tiveram um instante de união. A concentração era total. Foi um momento único. O infinito os envolveu naquele pequeno espaço de tempo… O falcão soltou então suas garras e alçou voo. descrevendo no céu um oito deitado e desaparecendo no horizonte. entretanto não entrou em pânico. Haggi gritou. mas não de medo. Haggi estava paralisado de medo. não sabia bem por que mas estava tranquilo. A inquietação tomou conta de todos. Foi quando um guincho agudo cortou o silêncio. O falcão que defendia seus filhotes arremeteu contra os improvisados escaladores. TALAL HUSSEINI 39 . Todo o som do universo desapareceu. Kadriel aproximou-se.fatal. para unir forças com Dhara. mas não tinha força para alçar seu corpanzil. somou-se a eles para. então. ele estava tranquilo. Da mesma forma que suas garras afiadas trespassavam o tecido da blusa para se cravarem em sua pele. e antes que ele tivesse a chance de qualquer reação a ave pousou em seu braço. fixamente. Dhara procurava ajudá-lo. Dhara o seguiu. Todos gritaram. Sustentou o olhar do falcão. O tempo pareceu parar naquele instante. que escorregara pela encosta em sua fuga. Kadriel sentiu o calor do sangue que encharcava o tecido que envolvia seu braço. que se soltava na medida em que ele se debatia. O pássaro continuou sua arremetida.

Todos, já em segurança, seguiram em direção à escola. O silêncio que os envolvia era sepulcral. Ninguém pronunciou palavra em toda a descida, mas aqueles momentos permaneceriam indeléveis na memória de todos eles. O silêncio os unia mais do que quaisquer palavras que pudessem pronunciar. Entretanto, era indisfarçável que todos olhavam para Kadriel com estranheza. A mesma estranheza que pautava vários episódios de sua vida: certa vez, antes de começar a praticar artes marciais, foi cercado por oito garotos na escola, que queriam roubar seu lanche. Kadriel atravessou essa barreira humana sem que nenhum dos garotos pudesse tocá-lo. De outra feita, foi surpreendido por um grande cachorro que escapou de uma casa, quando estava prestes a ser atacado fixou seu olhar no do cão, que desistiu do seu intento. Quem quebrou o silêncio foi Dhara: – Deixe-me ver como está seu braço. Ele, como que em transe, estendeu seu braço para a menina. Ela desenrolou a blusa que recobria o ferimento, empapada de sangue já meio seco. Eram três cortes de um lado do antebraço e mais um do lado oposto, não muito profundos, mas o suficiente para algum sangramento. – Dói? Ele respondeu negativamente com um gesto de cabeça. – Mas ainda assim é melhor lavarmos o ferimento para evitar uma infecção. Kadriel assentiu, deixando-se conduzir pela suavidade de Dhara.

O Sol que aparecera em sua plenitude por sobre o horizonte retirou Kadriel de suas memórias. Ele ainda afagava o braço onde o falcão pousara naquela tarde da sua adolescência e ainda sentia o perfume suave de Dhara, no lenço que guardara desde então e que lhe trazia doces lembranças. Nunca chegou a lhe dizer o quanto ela era importante para ele. Naquele mesmo ano do episódio com o falcão, ela se mudara com sua família para o exterior. Lembrava-se da última vez que a viu, acenando
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um adeus. Seus olhares se cruzaram e tiveram a certeza de que voltariam a se encontrar. Talvez por isto até hoje não tivesse encontrado uma companheira definitiva: nutria esperanças de um dia rever Dhara... Mas esse dia demorava a chegar. Aos vinte e oito anos, Kadriel já era conhecedor de diversas técnicas de combate e uso de armas. Seu interesse pelo assunto se devia à vontade de dominar seus medos e entender aqueles fatos estranhos que o acompanhavam desde a infância. Conseguiu com isso controlar seus impulsos, muitas vezes açodados e até violentos, mas não lograra dominar seus medos e tampouco entender-se a si mesmo. Quanto a seus outros companheiros de infância, Haggi Eitan ficara afastado por alguns anos em que estudava no exterior para a carreira diplomática, que agora seguia com bastante sucesso. Apesar da pouca idade, Haggi já fora adjunto de diversas embaixadas em países importantes, bem como já participara de missões diplomáticas de suma relevância para a economia do País. Desde que voltara, mantinham contato constante até mesmo porque, como Kadriel, Haggi estava estreitamente ligado à administração atual, sobretudo ao Primeiro-Ministro. Bateram na porta. Kadriel era chamado por seu amigo inseparável Bakar, com quem jamais perdeu o contato e que ainda era seu fiel companheiro de tantas batalhas. Eles eram aguardados no Ministério. Partiriam em seguida para o interior.

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adriel estava ansioso, pois à tarde teria uma audiência com o Rei. Não fazia a menor ideia de por que fora convocado, o que o deixava ainda mais nervoso. Teria cometido algum erro grave no exercício de suas funções no Ministério? O Ministro Doran, sob cujo
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comando se encontrava não gostava do trabalho. Em verdade, pouco aparecia no Ministério e quando o fazia era para dar entrevistas ou receber os louros por algum projeto bem sucedido no qual ele naturalmente não tivera qualquer participação. Kadriel, apesar de ser apenas o segundo homem no Ministério, era quem realmente conduzia as ações. Mas ele não buscava méritos nem reconhecimento, acreditava no que fazia e na importância dos trabalhos desenvolvidos sob a sua orientação. Quando o encarregaram da tarefa provavelmente esperavam o seu fracasso. Seria uma pá de cal em suas pretensões de ascensão política. Um retumbante fracasso já no início de sua vida pública. O Rei insistira em sua indicação, mesmo contra a vontade do Primeiro-Ministro, que por nutrir grande simpatia por Kadriel, achava que era muito cedo para ele exercer um cargo de tal magnitude que poderia prejudicá-lo se não tivesse êxito em sua execução. Mas como o Rei fora irredutível nesse ponto, Adaran lhe prestou apoio decisivo para que Kadriel conseguisse superar os obstáculos, sem o qual, com certeza, teria realmente fracassado. Mas agora o Ministério era um sucesso. O povo conhecia Kadriel e lhe dedicava muito apreço, mas não tanto quanto ao Ministro, que sem dúvida era a cabeça pensante que concebia e viabilizava todos aqueles trabalhos sensacionais, que tantos benefícios traziam à população mais pobre do Reino. O edifício do Ministério era da antiga dinastia. Tinha mais de cinco séculos de idade. A entrada portentosa apoiada sobre grandes colunas de mármore. No exterior da parede frontal, estátuas de mármore dos governantes da época do Império, em tamanho natural. O último deles, que antecedera o pai de Sokárin na direção do País, era o que mais chamava a atenção de Kadriel, que todos os dias não se furtava de parar à frente da estátua durante uns cinco minutos, permanecendo estático diante dela, como se esperasse que o Imperador Gur Medhavin lhe falasse. E

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de fato o artista que concebera aquela estátua o fizera em momento de grande inspiração, parecendo faltar apenas um sopro para que a obra deixasse seu pedestal e fosse retomar seu lugar no trono, trazendo de volta os anos de ouro do Império. O rosto da estátua era impressionante: tinha feições serenas, boca reta de lábios finos, nariz adunco que não podia ser classificado como pequeno, orelhas pequenas coladas ao crânio e os olhos... pareciam os de uma águia, com as sobrancelhas ligeiramente franzidas sobre o nariz, fitavam o infinito... Kadriel sentia ao mesmo tempo admiração e opressão diante de tamanho poder. Naqueles minutos diários, sonhava com o dia em que os homens-águia retornariam para conduzir as gentes, mais uma vez, em direção ao Sol... Bakar também permanecia estático dois passos atrás de Kadriel, todos os dias. Não pensava as mesmas coisas, nem via os mesmos homens, pois eram muito grandes para ele. Mas sabia que iria aonde seu amigo fosse e esmagaria qualquer um que tentasse feri-lo. Não era difícil crer nisso ao ver Bakar. Era ao menos vinte centímetros mais alto que Kadriel, que não era baixo. Sua cabeça quadrada ligava-se ao corpo através de um cilindro mais largo do que ela. Isso que poderia ser chamado de pescoço alargava-se ainda mais na base para soldar-se aos ombros, largos o suficiente para que quem o visse de longe não pensasse que ele tinha mais de dois metros de altura. Como sua cabeça, a visão geral de Bakar era a de um quadrado. Uma cabeça quadrada sobre um tronco quadrado do qual pendiam braços roliços. Não era musculoso, seus braços, como suas pernas, eram cilindros de grande diâmetro. Ao vislumbrar tal estrutura física não seria possível imaginar que se movesse com tamanha agilidade e rapidez, desafiando a física e a lógica. A inteligência não era a principal arma de Bakar, mas gostava de demonstrar sua força física, brandindo o punho cerrado, que era quase do tamanho de uma cabeça de uma criança.

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Aquela con44 PAZ GUERREIRA . – respondeu o amigo. aguardando que o arauto o anunciasse ao Rei. Só interessa que o trabalho esteja sendo feito de maneira correta e trazendo bem-estar para o povo. dirigiu-se ao interior do edifício. Ele pode estar velho.. Não que a audiência estivesse atrasada. um único golpe daquele gigante certamente privaria um desavisado da existência. sobretudo a Kadriel. – Não. Provavelmente ele mesmo não sabia que era possuidor de uma virtude encontrada em poucos seres humanos: pureza.. Bakar tinha sempre essas respostas curtas e diretas. – Você está errado Kadriel. você pode ter razão. Ele vê mais do que nós. Quem sabe um ministério só para você. Depois que Kadriel saiu de sua contemplação. Não haveria cão mais fiel ao seu dono do que o gigante era aos seus amigos. pela sua simplicidade.De fato. Bakar era um grande coração. Kadriel afundou-se no trabalho para que o final da tarde chegasse logo. E lealdade. Mas ainda assim não consigo imaginar que assunto terá comigo.. Bakar o acompanhou em silêncio. ou até lhe dar uma promoção. de uma lógica irrefutável. apesar dessas dimensões colossais e do aspecto rústico. que Kadriel quebrou como que pensando em voz alta: – O que o Rei quererá comigo? – Por certo parabenizá-lo por seus feitos no Ministério. e por isso é o Rei. Pensa. ele é que havia chegado bem adiantado. e ter cometido erros na condução do País. o Rei nem sabe o que faço por aqui.. foi o Rei quem insistiu em colocá-lo nesta posição. – Aguarde e saberá. que o Ministro é o autor de todos os sucessos. Kadriel estava havia vinte minutos sentado no corredor do palácio real. mas não é tolo.HUMILDADE . E isso de fato não me importa. E. – É. como todos.

sempre em cerimônias. por mais que procurasse manter sua respiração tranquila. O Rei fez sinal para que Kadriel se aproximasse. O Rei levantou-se com alguma dificuldade e dirigiu-se lentamente TALAL HUSSEINI 45 . O tempo tem dessas coisas.. Kadriel empertigou-se. mas que continham harmonia perfeita. O jovem desistiu de prestar atenção ao tempo e levantou-se para assistir ao pôr-do-Sol de uma das janelas.. que estava dois degraus acima do chão. cara a cara. que naquele momento e quase sempre estava à sua direita. escolhidos um a um pelo Capitão da Guarda. sempre estavam no mínimo em dois. passa mais rápido quando nos esquecemos dele. Mas estava com sua melhor roupa de gala. Mais uma pequena tropa de cinquenta homens estava estrategicamente distribuída pelo palácio. O visitante aproximou-se do trono em que estava sentado o Monarca. ajoelhando-se a dez passos de distância. Usavam couraças peitorais negras. Eram todos homens de elevada estatura. Kadriel prostrou-se novamente.vocação repentina o surpreendera e por mais que se esforçasse não conseguia sequer vislumbrar qual seria o assunto tratado. Alguém dera pinceladas horizontais de amarelo-dourado sobre o azul intenso. Só estivera perto do Rei três vezes. O arauto anunciou seu nome. Ao chegar próximo do trono. respirou fundo e dirigiu-se para a porta do salão real. da obra de Deus. como também eram negros os mantos que levavam sobre os ombros. as calças e as botas. Constituíam uma força de elite temível. Eram os soldados mais bem treinados do Reino. beijando o sinete real. junto com muitas outras pessoas. A sós. Dois soldados da Guarda Real ladeavam o trono e outros dois ficavam à porta. Eram faixas irregulares. de uma perfeição que jamais poderia ser traduzida pela mão humana. nunca. Os guardas permaneceram impassíveis. Por isso era normal que seu coração palpitasse meio descompassado. por melhor que fosse o artista. que era homem da mais absoluta confiança do Rei. O arremedo de natureza nunca chegaria aos pés da obra original.

Assim permaneceram alguns minutos. O Rei fez sinal para o Capitão sair com seus homens. é o Imperador Gur Medhavin. Kadriel sentiu-se aliviado quando o Rei prosseguiu antes que respondesse. até que no céu só restavam tons rosados do astro maior. 46 PAZ GUERREIRA . mesmo porque não sabia o que dizer: – Enxergamos com os olhos. sobre um fundo azul. que não foi mais do que alguns minutos. até que o Monarca quebrou o silêncio: – Você vê este pôr-do-Sol? – Sim. O Capitão da Guarda fez o mesmo. O Soberano parou então diante de um dos muitos quadros que cobriam todo o entorno das paredes do salão real. – Não pergunto se você o enxerga. Kadriel? – Sim. continuou olhando o ocaso. Qualquer pessoa que não é cega faz isso. neste mundo ou em outros. instando o rapaz a olhar. fez sinal para que Kadriel o seguisse. Mas ver é para poucos. Não. Kadriel não chegou a notar nada no semblante do soldado. coloridas pelos reflexos do Sol que se esconde por detrás do horizonte. O Rei apontou para fora da janela. O quadro pintado nesta janela não é simplesmente composto por nuvens dispostas de determinado modo pelo vento. É a obra de Deus.HUMILDADE . Sabia que ele obedeceria essa ordem a contragosto pois não gostava de deixar Sokárin sozinho com quem quer que fosse.a uma das janelas do salão. Este pôr-do-Sol a que assistimos juntos neste momento jamais se repetirá em todo o Universo infinito. é claro. Mas Sokárin não se moveu. Majestade. que é o céu que vemos todos os dias. Pergunto se o vê.. – Você sabe quem é este. que retratava um homem de olhar aquilino. Isso é feito com a consciência. Kadriel ficou estático todo esse tempo. mas os outros três guardas restaram imóveis. Majestade. Os dois ficaram sozinhos.. mas curiosamente sua tensão e sua ansiedade desapareceram.

em desculpas. O assunto que o traz aqui é o mais importante que poderia haver: o futuro do País. mudando repentinamente de assunto – não imagina o que eu teria para discutir com você. Já pensou nisso? – Na verdade não. Não importa o que você diga. O que poderia ele opinar numa questão capital como essa? Mas o tom do Rei não era de brincadeiras. Seus antecessores foram ainda maiores. As pernas amoleceram.– O último governante do Império. A mensagem demorou muito entre os ouvidos e o cérebro de Kadriel. Kadriel – cortou o Rei. Mas ainda que suas pernas o obedecessem. meus dias estão no final. Eu sei. nem entre os homens pequenos conseguimos ver muitos grandes homens. – Eu sempre admiro sua estátua na entrada do Ministério. pois o Rei o segurou firme pelos dois ombros e cravou os olhos reais dentro dos seus: TALAL HUSSEINI 47 .. que é a transição de governo. mas já escapam à dimensão que podemos conceber. Quando o sentido foi percebido. apenas para a dele. Hoje. pensou até em lançar-se porta afora em desabalada carreira. e apesar de não ter dúvidas quanto ao que havia escutado ainda assim não acreditava. a sucessão. Por isso você sequer consegue olhar suas estátuas. era grave. Pensou em mil frases. ao contrário. O nome que gravarei na placa extraída da “Pedra dos Mil Reis” e depositarei na estela será o do novo soberano: Kadriel Vahan. não poderia fazê-lo. Parece ter sido um grande homem.. Kadriel empalideceu. mas de fato nunca olho para as estátuas dos outros imperadores. Kadriel aguardou.. – E foi. A sensação era de que se tratava de outra pessoa. Um grande homem numa época de grandes homens. – Você está cogitando o porquê desta convocação. em respostas. eu sei. – Nós temos um momento muito difícil à frente. o coração enfraqueceu sua batida quase a ponto de parar. em negativas.. Kadriel estremeceu. sentiu seu ser esvaindo-se pela planta dos pés.

Você é o meu sucessor – decretou. Kadriel. – E é precisamente isso que o faz adequado. adotando um semblante mais sério: – Mas não pense que governar é uma benesse! Ao contrário. Golan já não é mais um jovem. No entanto. sei muito bem o que estou fazendo. e será preciso tempo e energia que só um jovem tem.HUMILDADE . com voz fraca e hesitante. e seu filho Golan? Muitos julgam que ele seria o seu sucessor natural. O dirigente deve reunir as virtudes necessárias para a condução do povo. e. obviamente jamais argumentaria contra as suas decisões. nem tenho pretensões dessa natureza.– Kadriel. apesar das oposições de muita gente. mas serei a pessoa mais indicada? Nunca tive. correrá riscos.. mas eu sei que o Ministro Doran só faz aparecer em público e colher as glórias pelo trabalho que você realiza. Portanto. Depois de alguns segundos Kadriel pôde responder. Majestade. não terá mais amigos. O povo pode não saber. 48 PAZ GUERREIRA . é um sacrifício. já o tenho observado há muito tempo. mais importante. Além disso. um sacerdócio. Não se esqueça de que fui eu que o nomeei para o cargo em que está.. Você está fora da luta pelo poder. ainda sem estar completamente recuperado do impacto daquelas palavras: – Majestade. – Mas. – Sim. terá de compor com os interesses dos mais diversos grupos. terá de identificar o mal quando ele se aproximar de você por todos os lados. Realiza um excelente trabalho no Ministério. isso nunca o impediu de continuar trabalhando. mas a sucessão num reino não é questão hereditária e sim de um código interno. suponho. E continuou. Você não terá mais vida pessoal. terá de fazer o que eu em muitos momentos não consegui: resistir-lhe. para enfrentar o porvir de nosso País. inclusive ele mesmo.

Aproveite o tempo que ainda me resta para se preparar para as duras provas que o aguardam. Não se trata de poder ou de querer fazer. Majestade. okárin dirigiu-se ao Templo Maior. Se o tivesse feito. Estou articulando para que a transição se passe sem grandes transtornos. quando terminava o TALAL HUSSEINI S 49 . pois há forças que se irão insurgir contra a alteração que farei na estela. O nome ficava velado até sessenta dias depois da morte do Rei.– A tarefa que Vossa Majestade me anuncia está além das minhas forças. – Sim. São do nosso exato tamanho. E não esqueça. você deve governar para o povo e para os deuses. sem olhar para trás. Kadriel ajoelhou-se. lute. 6. deu três passos atrás. – Não preciso dizer que este assunto deve ser mantido no mais absoluto sigilo até o momento adequado. Disso depende o futuro da nação. virouse para a porta e caminhou com passos firmes. da qual eram extraídas as placas em que cada governante gravava. mas se isso ocorrer. deve ser a ponte entre o céu e a terra. trata-se de um dever. você deverá estar preparado. pode ir. – As tarefas que se nos deparam nunca estão além das nossas forças. veria um olhar de satisfação no rosto do Rei. Kadriel. com a escrita ensinada nas tradições. cujos sacerdotes eram os encarregados de guardar a Pedra dos Mil Reis. beijou o sinete real. para ser agregada à estela que continha os nomes de todos. Agora. Você deverá enfrentar quaisquer desafios que se interponham entre sua chegada ao trono e esse futuro. o nome do seu sucessor. desde o início do Império.

em uma cerimônia que era do conhecimento de todos. dentro do Templo. Somente um observador muito atento. houve um pequeno sussurro na câmara. como era o Senador Rohel. Depois. que gravava pessoalmente o nome do seu sucessor. a placa de pedra passava por um tratamento alquímico. o filho do Rei. Golan. Muito rapidamente suas feições voltaram ao normal. este era um teste final que decretava com absoluta certeza a autenticidade deste objeto cerimonial. Era então entregue ao Rei. certificando que era a mesma gravada pelo Monarca. mas que o Rei realizava sozinho. a placa com o nome anterior seria destruída por completo alquimicamente. O Conselho dos Anciãos.HUMILDADE . A placa só seria aberta após a sua morte. em uma cerimônia secreta. mas todos se resignaram. à qual somente os sacerdotes do Templo Maior tinham acesso. Todo o procedimento de troca do nome do sucessor se passava de forma reservada. os Ministros e a população eram informados. e por conseguinte da sucessão. Teria ele somente agora adquirido a confiança do pai. ou por ele próprio caso resolvesse alterar o nome do sucessor. Quando Sokárin anunciou a solicitação da pedra ao Templo Maior. ninguém mais percebeu sua contrariedade. teria notado a sombra que perpassou o olhar do PrimeiroMinistro.período de luto com a cerimônia de abertura da placa e coroação do novo Monarca. Era um período de solidão do monarca. impossíveis de ser copiadas. como faria agora. mas não participavam de nada. Depois de revelado o sucessor. fixando-a na estela e cobrindo-a. os sacerdotes faziam um teste na placa de pedra. Apesar da grande segurança de que gozava a estela. não sabia se ficava feliz ou preocupado com a notícia. de portas fechadas. Neste caso. que lhe conferia características peculiares. Todas as placas eram retiradas dessa mesma pedra. que resolvera gravar seu nome na placa? Ou estaria retirando seu nome para inserir outro? 50 PAZ GUERREIRA .

. outros que era antro de marginais e desocupados. segundo todos presumiam. O assunto da sucessão novamente tomaria conta do reino. Nenhum possível sucessor havia morrido. Apesar da idade avançada do Rei e do fato de que a qualquer momento uma sucessão seria necessária. como era de praxe. pelo mesmo motivo. com a cabeça coberta. A situação era emergencial. 7. cinco anos depois. A terceira mais dez anos depois. Seria a quarta placa gravada por Sokárin em seu reinado. por motivos que só o Rei conhecia.Sokárin retirou-se escoltado pela Guarda Real. pois causava uma certa apreensão. Um homem de capa preta. Os mais cotados eram Golan e Adaran. mas os nomes mais fortes eram de fato esses dois. notícia da troca de sucessor era inequívoca. O homem certificou-se de que ninguém o observava e entrou na velha casa em ruínas. Uns diziam que era mal-assombrada. TALAL HUSSEINI A 51 . que nunca o abandonava. cruzou rapidamente a cidade. A primeira logo que assumiu o trono. de forma que seu rosto não podia ser visto. As pessoas preferiam acreditar que o Rei viveria para sempre. o tema não era muito debatido. Mas uma troca da placa.. E agora a quarta. A segunda somente trinta anos depois. devido. no quadragésimo quinto ano de reinado. ao provável sucessor ter antecedido a Sokárin na morte. Ninguém nas redondezas se aventurava por ali. apenas cinco anos depois da última troca. Outros nomes também eram cogitados nos corredores do poder e nas ruas do País.

formando vários desenhos de estranhas mandalas. Uma voz potente tomou conta do ambiente. todo pintado com afrescos. que o vestiu e com um gesto de braço determinou às figuras que saís52 PAZ GUERREIRA . determinando algum tipo de mapa. de cor púrpura. portando um terceiro manto. sobre o qual estava um recipiente côncavo. Era arriscado transitar naquele fantasma de casa. era distorcida: Surgiram do nada duas figuras encapuzadas. sendo torturadas. O chão era de pedra polida. seis colunas regularmente dispostas. bem como das vigas da casa e do assoalho. O pé-direito teria uns cinco metros. Abriu um alçapão obscuro. círculos e linhas. como as cortinas e estofados.A grossa camada de poeira sobre o chão e alguns restos de antigos móveis indicavam que nenhuma alma viva passava por ali havia muito tempo. uma vez que o cômodo não tinha janelas ou qualquer outra abertura para o exterior. não havia qualquer resquício de pó naquele recinto. seres monstruosos e toda sorte de figuras bizarras. E de fato o ar era pesado ali dentro. que jamais seria encontrado por quem não o conhecesse. feridas. havia sido roído pelos ratos. cabeças decepadas. Os cupins tomavam conta do que foram sólidos móveis. havia uma espécie de altar. outras já mortas e desmembradas. como se soubesse de cada tábua confiável e de cada armadilha. Numa das extremidades da sala. O ser da noite prosseguiu. em mantos brancos. Diferentemente do resto da casa. três de cada lado sustentavam o teto. Estenderam-no para o homem. Mas o vulto avançava a passos seguros. chegando a uma sala ampla. Eram imagens terríveis. A ventilação era um mistério. de pessoas em grande dor. A iluminação era provida por várias tochas que não soltavam fumaça. dava acesso a uma escada íngreme que desaparecia na profundeza de sombra. Tudo que era feito de tecidos. de forma retangular.HUMILDADE . fazendo até mesmo a pedra vibrar. Não era uma voz humana. já que não se via nenhum duto de ar ou abertura que pudesse servir para esse fim.

Aqueles olhos eram. Subiu ao altar e conferiu o conteúdo do recipiente. Ora mexia o líquido com um instrumento longo....sem. o homem entrou numa espécie de transe. – Sim. curvando-se. espécie de colher. pronunciando algumas palavras numa língua ininteligível..... mas antes que dissesse qualquer coisa a voz prosseguiu: – A sucessão. TALAL HUSSEINI 53 . O rosto de um homem.. e a única maneira de fazê-lo você sabe muito bem qual é. O ar se tornou ainda mais pesado... outros. Teremos de tomar algumas providências imediatas.. em invocações negras. Abriu uma caixa que estava colocada sobre o altar e começou a retirar alguns objetos e colocá-los um a um dentro do líquido quente. – Sempre poderíamos tentar dominar o sucessor e fazer dele um joguete em nossas mãos. E caso não concorde. alguns pareciam de animais. – Você precisa vir até aqui e me ouvir para saber que Sokárin deve morrer?! O vulto pareceu surpreso.. E os olhos. cada vez em voz mais alta.. que começava a exalar um odor férreo. O odor insuportável parecia não incomodá-lo... Uma figura começou a formar-se na superfície de sangue. – Por que me chama?! Ainda não é hora. e não quis fazer nada sem ouvir seus conselhos sábios. tocando o dedo indicador no líquido e levando-o aos lábios. O nome que estará na estela que o Rei pretende gravar não é do nosso interesse. ele pode morrer. de barba e cabelos compridos e desgrenhados.. Tudo certo. ora levantava os braços. respeitosamente – mas é que alguns fatos novos precipitaram os acontecimentos. Uma vibração caótica pareceu tomar conta do lugar. O vulto acendeu uma chama sob o recipiente que continha o sangue.. negros como o mais profundo dos abismos. o nada. Precisamos evitar que a troca aconteça. Eram ossos.. Mestre – respondeu o homem. A imagem se desfez. Continuou a proferir fórmulas mágicas naquele idioma obscuro.

Nós o dominamos por muito tempo. Ele não é tolo. Os contatos com seu Mestre eram sempre assim. Se o nome inscrito naquela placa chegar ao trono.HUMILDADE .. – O senhor se refere a. 54 PAZ GUERREIRA . o ajudaram a se levantar. retiraram sua túnica púrpura e desapareceram. prostrado. todas as providências serão tomadas. – Sim. O Rei nunca entregará a placa. – O Senhor já sabe qual é o nome. Nós sabemos o nome que lá está. Ele virá certificar-se de que a sucessão correrá como ele quer. arfando. A voz assumiu um tom aterrorizador: – Sim! Nunca ouse pronunciar seu nome na minha presença. Já um rei idoso. Você tem pouco tempo...? – Não seja tolo! Isso despertaria muitas suspeitas e investigações.. mas a proximidade da morte parece ter causado alguns efeitos inesperados. e um rei jovem que morre repentinamente gera muitas suspeitas e investigações. O vulto caiu sobre os joelhos. Concentre-se nas minhas ordens e procure não pensar por você mesmo. Mestre. e é este que deve permanecer..? – O nome não importa. se a placa nunca chegar à estela. Agora vá! A vibração caótica se acentuou até parar repentinamente. Sentia-se um fantoche nas mãos daquele ser malévolo. não levanta tantos questionamentos. Ele vai nomear um jovem. Os auxiliares de branco entraram. o novo indicado terá apoios sólidos. Se houver a troca... O lugar todo tremeu. E se matarmos os possíveis candidatos a estar na placa. poderá tornar-se muito perigoso.. Aquele ritual sugara suas energias. e outro ainda mais importante está chegando.. O homem deixou a casa rapidamente.. dando a impressão de que iria ruir. assim como ele não pronuncia o meu.– Não subestime a capacidade de Sokárin.

Fora ampliado e reformado várias vezes. Em frente a cada uma das paredes mais longas havia uma fileira de colunas com um metro e meio de diâmetro cada uma e faces de leão nos capitéis. O pé-direito contava por volta de dez metros. A construção original datava de antes do período do Império. Templo Maior era um dos edifícios mais antigos do País. A entrada do salão era por uma das extremidades. que era parte da construção original. sob a nave numa parte mais alta. Os quatro colossos erguiam a abóbada nos braços estendidos acima da cabeça. estava a estela que continha as placas com os nomes de todos os monarcas. historiadores e outros estudiosos de todo o reino gastavam anos a estudá-las e milhares de páginas a tentar explicá-las. A nave central. O TALAL HUSSEINI 55 . Desembocava na abóbada o salão principal. que tinha aproximadamente cento e cinquenta metros de comprimento por oitenta de largura.8. de formas já desgastadas pelo tempo. o que tornava impossível ver em detalhe suas feições. Já ninguém podia precisar a época. Arquitetos. Com mais de quarenta metros de altura. O teto era pintado com belos afrescos do tempo do Império. A sua abóbada era sustentada por quatro estátuas gigantes. sendo dois deles rendidos a cada duas horas. o que não era possível sem as chaves adequadas. e a placa velada com o nome do sucessor. desde o primeiro Imperador. com dimensões colossais. cada uma delas era esculpida em um único bloco de pedra. arqueólogos. durante as quais permaneciam absolutamente imóveis. Trazia a magnitude das antigas civilizações. enquanto na outra. mas tão sólidas quanto nas priscas eras em que foram concebidas. Quatro soldados montavam guarda em torno da estela. em turnos de quatro horas.

prosseguindo com seus dirigentes em direção à porta. Alguns bedéis entravam no salão e. e depois pelos funcionários mais importantes de cada ministério. formando um corredor com as trombetas das quais pendiam os estandartes reais em versão menor. dos mais antigos para os mais recentes. e o arauto anunciava o Chefe do Conselho dos Anciãos. As luzes do recinto se apagavam. a começar pelos deuses patronos do País no fundo do recinto. dez de cada lado. que o antecedera no trono. postando-se já na segunda metade do salão. Conforme iam entrando. na abóbada. as portas se abriam em duas folhas. porém novo e limpo. o que dava um ar de antiguidade e tradição ao 56 PAZ GUERREIRA . grandes estandartes com os símbolos do Reino pendiam do teto. entravam os convidados. as pessoas permaneciam cada vez mais distantes do altar. As trombetas soavam novamente. com uma agilidade que só podia ser fruto de muita prática. vinte arautos postavam-se ao longo do tapete logo na entrada. As trombetas soavam um toque marcial. Ao fundo. enrolavam e recolhiam o tapete vermelho que todos os quinhentos presentes tinham pisado e ato contínuo estendiam outro igual. sobre o silêncio. restando apenas a iluminação proveniente de tochas presas às colunas.Nos espaços entre as colunas havia estátuas. marchavam até o altar e ladeavam a estela. que era o traje apropriado para essas cerimônias. Todos vestiam longas túnicas claras. Novo toque. Em dias de cerimônia.HUMILDADE . rendendo os que ali estavam. seguidos dos ministros de estado. e todos os demais senadores. Por fim. Kadriel entrava junto com os funcionários dos ministérios. ou brancas ou beges. na sua maioria de famílias ilustres do Reino. Um toque curto das trombetas fazia cessar os alaridos do salão. Um tapete vermelho ia da porta ao altar. quatro soldados de negro entravam em formação de dois por dois. O espaço reservado a Sokárin estava de frente para a estátua de seu pai.

só não se lembram. Kadriel perdia-se em suas lembranças e pensamentos. a ponto de esquecer por completo que seria o seu nome o encoberto na estela. Kadriel estranhamente sentia-se mais vivo durante aqueles momentos cerimoniais do que na sua vida quotidiana. mas para Kadriel era o que havia de mais real na vida. salvo pelos imóveis guardas da estela. Os tempos de grandeza e glória dos antepassados deviam ser restaurados... até sua chegada ao altar. Então. para muitos. que. orando. Pensava que já era hora de muitas coisas mudarem no País. Uma música suave de coral soava entoando um refrão que se repetia em idioma antigo. Era transportado a um estado de espírito que não conseguia reproduzir fora dali. Ao olhar para o lado. sozinho. De repente. com um sorriso sincero. ou um evento social. Kadriel estava imbuído de um forte espírito de humanidade. fora dali é que estava a ilusão..local.. Todos se postavam com o joelho direito em terra durante toda a lenta passagem do Rei pelo tapete vermelho. seguido por todos os presentes. TALAL HUSSEINI 57 . Ficava revigorado. – respondeu o homem. viu que não se tratava exatamente do Imperador: – Eu conheço o senhor…? – Todos conhecem a todos. Kadriel deparou-se com a imagem do Imperador Gur Medhavin. Ao olhar com mais atenção. beijava o sinete real e recebia um sinal para se levantar. O Chefe do Conselho dos Anciãos o aguardava. era apenas forma. disposto a dar sua vida pela civilização que estava e pela civilização que ainda estava para ser. O toque das trombetas anunciava então a entrada do Rei. observando as estátuas. o Monarca voltava-se para o público e abria a cerimônia. Todos sentiam forte comoção. Kadriel sentiu-se desfalecer pela epifania daquele momento e certamente cairia se não tivesse sido sustentado com firmeza por alguém que surgiu ao seu lado. Sempre que podia ia até o Templo Maior e lá permanecia meditando.

– E... Ravi – fez uma pausa – Medhavin. – Foi um grande guerreiro. Essa frase gerou um estranho efeito em Kadriel: ao mesmo tempo em que sentia seu peito vibrar pela força do heroísmo guerreiro. meu nome é Kadriel Vahan. Até mesmo os grilos e os sapos haviam aderido ao pacto tácito de não produzir ruído. Há momentos em que a vida parece maior do que podemos suportar. ajudá-las a se levantar. Kadriel sentiu com aquele homem de olhar austero. – Medhavin. 9. Gur Medhavin. Nem os gatos davam suas voltas habituais. eu sei. m vulto se esgueirava pelas vielas escuras da cidade. uma conexão que excedia os limites do tempo. Aquela noite era de um silêncio absurdo.. 58 PAZ GUERREIRA . – Sim. O vulto prosseguia apressado.HUMILDADE U . como todo grande guerreiro. conquistou a paz. sentia uma paz aquietadora em seu coração. muito prazer. Não sabia explicar. É sempre bom poder ajudar. mas queria continuar aquela conversa: – Bem.. Obrigado. O senhor me entende? – Sim. mas ao mesmo tempo suave.. Não fosse isso teria desmaiado. como o Imperador? – Sim. meu avô.? O senhor quer dizer. sem entender muito o que ele quis dizer. Porque os animais sabem quando a noite pertence a outras criaturas e permanecem então em suas alcovas.Kadriel assentiu.. E se caíram. e meu trabalho é de certa forma ajudar as pessoas a não caírem. entendo. Parecia antever alguma coisa. Mudou de assunto: – Foi o senhor quem me escorou.

em tom seco.. Estendeu-lhe um frasco contendo um líquido transparente.. O outro deu-lhe as costas passando por uma porta induzindo o vulto a segui-lo. o suficiente para ver o rosto sob o capuz. Tirou um pequeno pacote de pano e colocou sobre a mesa. morrido de frio. de qualquer modo. O vulto chegou a uma porta discreta batendo de maneira ritmada como fosse um código pré-avençado. A porta se abriu deixando-o passar a uma sala de pé-direito baixo e iluminação fraca: – Minha encomenda – disse o visitante inusitado. O vulto buscou algo no bolso de seu casaco. sendo sepultado como indigente. de fome. Mais um ser que não faria falta alguma ao mundo e que teria. Ousava quebrar o pacto de silêncio daquela noite de lua nova. que não pedia licença aos demônios da noite para transitar no submundo.Surgiu sabe-se lá de que entranhas da terra um bêbado a trançar as pernas em direção ao vulto resmungando no seu linguajar truncado pelo álcool o que devia ser um pedido de dinheiro ou ajuda. um homem. O vulto debruçou-se sobre o corpo inerte cuja existência já havia abandonado por conta de uma estocada muito precisa de lâmina finíssima que mal deixava um ponto de sangue nos trapos sujos.. ávido. Mostrava nas ruas a sua presença ultrajante. mas aproximava-se de um ser ainda mais baixo do que ele. Seus olhos brilharam arregalados sobre as moedas de ouro. Foi a última imagem gravada na retina do pobre homem.. ou por alguma doença ocasionada pela própria sujeira. O outro o apanhou. A fina TALAL HUSSEINI 59 . seus andrajos imundos. O ato bárbaro não aplacou o ódio que corroía aquele corpo. O bêbado aproximou-se demais. mas somente por alguns segundos. – Vai funcionar? – Alguma vez já falhei? – e acrescentou – E meu pagamento? Tive alguns gastos extras. O olhar metálico do visitante não transparecia qualquer traço de humor. seu hálito fétido. sim. mas descarregou ainda que momentaneamente a sua tensão.

jamais paz. 10. pois sempre associara guerreiros à idéia de soldados. ver o Sol e as estrelas são sempre atos especiais. Um guerreiro sabe disso e luta todos os dias para sacar o véu da ignorância que corrompe o homem. cogitar. Perguntou: – Mas um guerreiro suportaria todas as tensões que o poder impõe? – Um guerreiro flutuaria nas caldas do poder.HUMILDADE K . o poder liberta e ilumina. Para um guerreiro. Seria o canal puro do poder universal. desaparecendo porta afora. onde homens comuns se corrompem. adriel ainda não se recuperara daquelas palavras. diga-me o que vê. o guerreiro resiste – girou o olhar em torno do salão: – você pensava neste salão cheio. – As pessoas comuns veem tudo de forma comum e não sabem como conquistar algo diferente porque estão sempre com a mente no passado ou no futuro. O guerreiro vê tudo de forma especial porque vive o presente. sentar-se.. ao observar todas essas pessoas. armas. batalhas. Quando o homem se corrompe é porque perde o canal do poder e da sabedoria. – Mas não seria facilmente corrompido por ele? – Não é o poder que corrompe. Portanto. num dia de cerimônia. O vulto guardou o frasco com o líquido e apanhou o embrulho com as moedas.lâmina o privou da sua triste existência. porque vive cada momento como 60 PAZ GUERREIRA . caminhar. – Vejo pessoas comuns querendo algo não comum. que o atingiam de maneira inesperada. tomar banho.. Faziam-no pensar. Nunca lhe havia ocorrido de entender os imperadores ou governantes em geral como guerreiros.

Surpreso com a resposta. a personalidade deve sacrificar-se por inteiro. Não se vence no aspecto pessoal. Só quem conhece essa realidade tem o verdadeiro poder para governar. tão profundo e tão poderoso? Porque decidiu ficar pelo menos um pouco abaixo de todos os rios do mundo. verdade e justiça. baixa elevação. e poder ante seus iguais. qual seria o primeiro ensinamento que o poder universal me apresentaria? – A humildade. A força do desejo e do personalismo nos impulsiona à vaidade. Um guerreiro é humilde ante os Mestres. O homem de poder é aquele que serve aos deuses. A consciência posicionada no momento presente abre as portas da realidade. bondade. a cujos pés faz seu juramento de servir para além de suas forças com senso de dever e com alegria no coração. Isto é o guerreiro: humildade e entrega aos Mestres. é importante saber em primeiro lugar que o poder não é do homem. Ademais. aos Mestres de sabedoria. o que deve primar é o dever. – Digamos que eu pudesse ver o presente. O sacrifício consiste em morrer coTALAL HUSSEINI 61 . determinado e destemido. serve com honra. e ante eles se prostra com baixa elevação. Toda obra deve ter em vista os valores da alma: nobreza.se fosse o último. e a realidade se apresentasse. fraqueza? – Ocorre que esse sentido foi retirado de contexto com o passar do tempo. Kadriel perguntou: – Mas a humildade não é expressão de caráter servil. é forte. – Então posso tornar-me rapidamente poderoso e invencível por meio da humildade? – Querer as coisas com rapidez denota vaidade. ciente de sua fraqueza ante a força que está naqueles. Por que o mar é tão grandioso. pois tudo tem seu tempo e seu ritmo. Perante seus iguais. não o querer. Para isso. e em segundo lugar que vencer não significa exatamente o que você está pensando.

mas um guerreiro. Não pense que é um sentimento negativo. em parte por se lembrar do compromisso que havia tido com o Rei. mesmo com esse sentimento de abismo. discernimento e poder profundo de reflexão. Kadriel. que Ravi lhe desvelava. Se falhasse. em parte pelo que Ravi dizia. Seja humilde e sirva aos Mestres e aos deuses. aliados importantes nesta dura jornada. a vitória está em sua alma.mo pessoa. nem da dor nem do medo. Kadriel sentia-se estranho. Baixou os olhos e teve vontade de chorar. uma pessoa comum não. É preciso aceitar o plano dos Mestres e dos deuses e esquecer de nós mesmos. mas na verdade tão antigas quanto o homem. Sentiu uma espécie de tristeza. pois a personalidade quer seu trono. Sentiu-se fraco: – Como poderei superar os desafios que me esperam? 62 PAZ GUERREIRA . não fugir nem da vida nem da morte. Kadriel já não procurava disfarçar que tudo que era dito perpassavalhe o corpo e a alma. conversava com Ravi como se conhecessem um ao outro há muito tempo. para que a luz triunfasse com sabedoria. e a humildade era o seu primeiro código como um governante guerreiro. Um guerreiro é humilde e aceita a morte. amabilidade. Lutar contra tudo que seja falso e ilusório. assume seu lugar. Sentia uma forte pressão no peito. já não poderia ter vida pessoal. Compreendia que para governar teria que primeiramente se tornar um guerreiro. Ele traz consigo humanidade. Sentia-se despido diante daquelas realidades novas para ele. pois neste mundo não existe garantia de vitória. sobriedade. Compreendia que milhões de pessoas dependeriam de suas decisões. Ravi toca no ombro de Kadriel: – Sei em que você está pensando e compreendo seus sentimentos. A morte da personalidade faz brilhar a alma. Sendo ele o sucessor.HUMILDADE . muitos sofreriam. para humildemente renascer no Eu superior. Aceitar o destino e não fugir dos combates que a vida impõe.

no entanto. na mais abissal das profundezas marinhas. não pude encontrar o que desejava". Os sábios. Os sábios. leva virtudes para combater os defeitos. Sendo guerreiro e estando ligado à hierarquia branca. nem nos oceanos. A humildade fará brilhar o mais TALAL HUSSEINI 63 . pois. pois como és o Sol. já decepcionado. carregas a luz contigo para onde quer que seja e iluminas tudo ao teu passo. Depois da sua busca em vão. A luz de cada um é do seu exato tamanho. Kadriel. procurei no mais profundo dos oceanos e fui aonde ninguém jamais fora. O Sol partiu em sua busca e. Um guerreiro é luminoso e não dá espaço à escuridão. não pude conhecer a escuridão. encontrando a caverna mais profunda. nunca conhecerás a escuridão. mas. depois de algum tempo. para minha infelicidade. responderam: "vai. mas é a mesma luz que banha todo o universo. quando se aproximarem de você. Para isso. nem nas cavernas. iniciados. basta você descobrir e assumir o guerreiro que existe dentro de você. Estes respondem: "vai até o íntimo da caverna mais profunda e lá seguramente encontrarás a escuridão". e toda a hierarquia de deuses. até encontrar o Sol maior do Deus único e infinito. Seu coração é um Sol que ilumina as trevas. seu coração de guerreiro os iluminará com uma luz tão intensa que eles não resistirão. ao qual todos se unirão um dia. não se preocupe com os que gostam da escuridão. assim também deve ser o guerreiro. pois nos mares ela não se encontrava". sem dúvida encontrarás a mais poderosa escuridão". procurou a escuridão com entusiasmo. Depois de algum tempo. nem em lugar algum no mundo. já preocupados. voltou ao encontro dos sábios e disse: "procurei intensamente.– Vou lhe contar uma estória: o Sol. trouxeram uma resposta para o Sol: "caro Sol. você é um elo da corrente de guerreiros e Mestres. até o oceano das esperanças e lá. o Sol voltou aos sábios e disse: "procurei com toda a força da minha alma. então. pergunta aos sábios da montanha onde poderia encontrá-la. leva solução para os problemas. Por isso. jamais conhecerás a escuridão". querendo conhecer a escuridão. Portanto.

a esposa do Capitão tratava de seus afazeres na cozinha. Tinha a fisionomia rígida. sem qualquer razão aparente. vilipendiados. Fazia o mal pelo mal. ultrapassa as barreiras da mortalidade. os atos rígidos. Após um segundo de 64 PAZ GUERREIRA . sua reação reflexa foi procurar com os olhos a filha. Foi com esse espírito que adentrou à casa no subúrbio da Capital. um coração que você ainda desconhece. torturados e. balestras em punho. Mas no fundo vingava-se dos deuses. já mortos. o coração rígido. Khena passara por essa barreira e deixara que suas tendências maléficas a dominassem por completo. Os dois invasores entraram furtivamente na cozinha. Assim sendo. Sabia bem que os filhos eram o ponto mais fraco de qualquer pessoa. O homem se aproximou colocando o dedo indicador sobre os lábios.HUMILDADE K . A criança brincava no quintal. Quem sobrevive a ver seus filhos sendo destroçados. Não tinha família mais. Atinge a liberdade. nada poderia atingi-la. Estavam pesadamente armados. pois nada nem ninguém poderá mais coagi-lo. sob o argumento de que já suportara tudo que seria possível uma pessoa suportar. pois não se ia desprevenido à casa de um guarda real. 11. apontando para a dona da casa. mas que está lá. Ao perceber a presença hostil. onde vivia o Capitão da Guarda Real com sua esposa e filha.puro coração. Julgava-se invulnerável. O caos lhe agradava. que lhe tinham sido tão cruéis. luminoso e radiante. Foram entrando com cautela. hena seria uma mulher bonita se não tivesse os traços tão endurecidos pela vida. Khena e seu companheiro vestiam máscaras e roupas inteiramente negras. Na sala não havia ninguém.

Não era fácil suportar o ritmo que o Capitão imprimia. O homem vociferou: – Veja o que ela fez no meu braço – mostrando o corte fundo no antebraço. partiam para o treinamento diário. O homem obedeceu contrariado. por favor – disse em tom irônico. – Deixe-me ver isso – disse Khena. teremos que levá-las conosco. pois foi atingida por um golpe que lhe extraiu a luz dos olhos. logrando fazer-lhe um corte no braço. que jazia desmaiada. rasgando uma tira do vestido da mulher.hesitação. – Que homem fraco. largando-a no chão. pois em um segundo Khena já estava sobre ela. a dona da casa atacou o invasor com uma faca que tinha à mão para a preparação do almoço. o que dizer ou reclamar. AliTALAL HUSSEINI 65 . Executava todo o treinamento junto com seus homens. portanto. e sempre terminava os exercícios antes de todos. já com ar sério: – Trate de limpar essa bagunça. Limparam a sujeira e se foram. Em seguida a levou para dentro da casa. Enrolou no membro ferido a apertou com força. Só não vá chorar. Não admitia qualquer falha nos uniformes e principalmente no equipamento. Depois de verificar um a um. O Capitão passava em revista seus homens. Olhar foi o único gesto que teve tempo de realizar. sua filha já não viu a mãe. o qual sangrava muito. desmaiadas. carregados. Jogaram mãe e filha na carruagem. Não havia. Quando olhou do quintal para o interior da casa. através da porta entreaberta. mas ele era um homem moral. – Cuidado! Isso dói. ao mesmo tempo em que gritava para sua filha: – Fuja!!! Não disse mais. E completou. Todos tremiam nessas ocasiões. Borrifou sobre seu rosto um líquido que a fez perder os sentidos. não aguenta um arranhão. Era um tipo exigente.

A força de uma corrente se mede por seu elo mais fraco. antes da alvorada. ninguém podia falhar ou fraquejar. como ele. puniria os responsáveis. 12. Depois. Era a maior honra possível para um soldado servir diretamente ao Rei.HUMILDADE . o Capitão retornou à sua casa. Seu instinto de soldado imediatamente o colocou em alerta. ansioso por rever sua esposa e sua filha. Cumprimentava as pessoas que encontrava na rua. O Capitão sentiu um misto de raiva e apreensão. e do que lhes aconteceria se não seguisse algumas instruções bastante específicas. que àquela hora não eram muitas. Ninguém. Quem não tivesse capacidade física ou psíquica para suportar esse peso que pedisse baixa ou transferência para outras unidades que aceitavam pessoas mais delicadas. foi vasculhando silenciosa e cautelosamente a casa toda. reclamação era uma palavra que não existia naquele lugar. A Guarda Real era uma corrente forte. P 66 eckus fizera o mesmo caminho de todos os dias de sua casa até o palácio real. Depois de um dia de trabalho intenso. Estranhou encontrar a porta aberta.ás. com um cacho de cabelo de sua filha. ninguém respondeu. Chamou. Dentro uma carta anônima. Em sua mesa de trabalho viu um envelope cor púrpura. a pé. pois a falha seria de todos. Sempre as mesmas que. dando conta de que ela fora sequestrada junto com sua mãe. Sua família era o que havia de mais valioso para ele. Parou de chamar. Todos dependiam de um. custasse o que custasse. Era um homem PAZ GUERREIRA . Tinha de fazer o que fosse necessário para preservá-la. composta apenas por homens duros. madrugavam para trabalhar.

Dirigiu-se ao balcão para o qual dava a sua janela. Tinha de estar preparado antes de o Sol raiar. O Monarca teve um sono tranquilo como havia algum tempo não tinha. tivera sorte até o momento.feliz. Bem cedo o rei tomava o seu desjejum. Sentia-se bem disposto naquela manhã. apesar de morar sozinho – não era casado – e ter de cuidar de si mesmo sem uma boa mulher para ajudar. Ótimo. para aguardar o nascer do Sol. Entretanto. e lá estava Peckus para certificar-se de que a comida não estava envenenada. Seu antecessor teve um mal súbito e não sobreviveu. Provou o desjejum do Rei e continuou vivo. O frescor dos úl- TALAL HUSSEINI 67 . A bandeja podia ser levada. A construção dos primeiros tempos do império possuía um sistema de ventilação discreto e eficiente que permitia um frescor arejado em dias quentes e mantinha uma temperatura amena em dias frios. comia do bom e do melhor e ainda não morrera pela boca. mas nos aposentos do Rei não fazia tanto calor quanto no restante da cidade. como sempre. Era uma noite de verão. mas o atual provador oficial tinha lá suas dúvidas. acordando sempre mais e mais cedo. Estava no emprego havia dois anos. Não havia do que reclamar. Gorducho por força da profissão. pois o Rei com o passar dos anos dormia cada vez menos. logo antes da Aurora com dedos de rosa surgir matutina. não deixava de ter uma certa agilidade. Era passada por uma portinhola para dentro dos aposentos do Monarca pois ele não gostava de ser incomodado durante as refeições. Nunca se disse que tivesse sido à custa da comida do Rei e nunca veio a público qualquer atentado contra a pessoa real. Acordou cedo. Ganhava razoavelmente bem. Aquela manhã não era diferente das outras. com o canto dos primeiros pássaros.

Após seu desjejum. foi à escrivaninha do Rei. começou a procurar freneticamente por algo: a placa com o nome do sucessor. O Capitão o advertiu: – Seja rápido. Do lado de fora. enquanto um ali permaneceu. Abriu a porta: – Não há mais tempo. pois o visitante já devia ter saído. mas agora você precisa ir. – Ainda não encontrei o que procuro. O Rei absorveu seus raios e voltou para dentro do quarto. A bandeja com seu desjejum já havia sido deixada pela abertura na parte inferior da porta. fiz minha parte trazendo-o até aqui. o Rei deve estar voltando com os guardas. como todos os dias. Você precisa ir.HUMILDADE . Em seguida. O homem assentiu com a cabeça e desapareceu no interior do aposento. lançando uma névoa amarelada sobre os telhados. 68 PAZ GUERREIRA . Minutos depois. o Rei dirigiu-se ao escritório para os despachos de expediente e assuntos corriqueiros da administração. Mas não podia deixar vestígios de que ali estivera. Lá. sob o argumento de que sua presença era solicitada no pátio. temos pouco tempo. O indivíduo entrou no quarto. cuja ponta embebeu num líquido transparente contido num frasco que trazia consigo. o Capitão estava impaciente. – Isso não é problema meu. Três dos guardas que ali estavam o acompanhavam. o Capitão apareceu rendendo o guarda que ficara em frente ao quarto real. Surgiu em seguida o astro-rei imponente como só um ser que é o centro de um sistema pode ser.timos instantes de madrugada o fez experimentar grande vitalidade. Finalmente o Sol se fez anunciar por um manto dourado que cobriu a Capital. então procedia com muito cuidado. apanhando sua pena. Esperou que o guarda desaparecesse e fez um sinal para alguém que se ocultava atrás de uma cortina.

mas seu rigoroso treinamento não permitiu que nenhum deles perdesse o controle. Adormeceu. Primeiro entraram dois guardas. após alguma deliberação. sensação inabitual naquele horário. de vazio. TALAL HUSSEINI 69 .. Os guardas se entreolharam. até começar a sentir-se muito cansado.O homem sabia que o Capitão estava certo. Ninguém! Todos foram tomados de uma estranha sensação. tinham que entrar. Apanhou sua pena e passou a escrever num pergaminho. As explicações que teria de dar pelo seu fracasso não seriam das mais agradáveis. Sokárin sentou-se à escrivaninha para algumas horas de escrita. Afastaram as cortinas. mas ainda assim saiu contrariado. Retornando aos seus aposentos. O Capitão fez um gesto de cabeça para que um deles abrisse a porta. que lhe pesava mais a cada dia. Foram em direção ao leito do Rei. Como a bandeja do almoço demorava a ser devolvida. Foram apenas algumas linhas. Não havia alternativa. Sentia-se como se a espécie de divã que ali havia o abraçasse. O arrombamento da porta levou alguns minutos. Finalmente conseguiram.. Mais um momento de dúvida e tensão. dada a sua solidez. reconhecendo a área e verificando se não havia nenhum intruso. como costumava fazer todos os dias. Guardou o escrito cuidadosamente numa caixa sobre a mesa. Foi necessário um pequeno aríete. mas que o Rei reputou à sua idade. Continuou a escrever. os guardas da porta decidiram comunicar o fato ao Capitão da Guarda Real. Este bateu à porta. Deitou-se no terraço para aproveitar o ar puro. Trancada. Tudo limpo. Nada. chamando: – Majestade! Repetiu o gesto depois de alguns segundos.

dois homens da Guarda Real desejam vê-lo. O terraço. Realmente não havia ninguém. onde os soldados esperavam em pé. Não era homem de arroubos nem de gestos muito amplos. os guardas pediram a uma serviçal que chamasse seu patrão. Senhor Primeiro-Ministro. O Capitão pede sua presença no Palácio Real.. o Capitão só nos mandou dizer que é um caso de urgência… Agora sim o observador mais atento poderia ter notado um ligeiro e rápido brilho nos olhos de Adaran. Terminou lentamente o que estava fazendo e dirigiu-se ao saguão de entrada de sua casa. O Capitão. Adaran permaneceu impassível. – Vamos até lá! 70 PAZ GUERREIRA . A bandeja do almoço não fora tocada. dizem que é um assunto de vida ou morte. É um caso de urgência! Chegando à suntuosa mansão do Primeiro-Ministro. deu a ordem: – Vocês dois – disse ele.. Um deles tomou a iniciativa: – Boa tarde.Vasculharam o aposento. Os guardas encontraram Sokárin deitado com aparência tranquila. apontando os voluntários – vão até a residência do Primeiro-Ministro e do Chefe do Conselho dos Anciãos e peçam que venham até aqui. Adaran não demonstrou nenhuma surpresa. em pleno controle de suas emoções: – Do que se trata. Os guardas não perceberam. Senhor Adaran. que examinava cuidadosamente o local com os olhos. o Rei manda me chamar? – Senhor. apesar de lhes ter sido oferecido assento. A moça foi até o jardim preferido de Adaran: – Com licença.HUMILDADE .

quis começar a balbuciar alguma explicação quando uma voz vinda do fundo da sala. Senhor Primeiro-Ministro. sua casa fica no caminho para o palácio. a questão é urgente. A moça hesitou. Inari. Aquela tranquilidade da Sra. mas conseguiu controlarse. O Primeiro-Ministro ordenou: – Diga ao Senador Rohel que estou aqui! Rápido. – Muito bem. fazendo pouco caso da alegada urgência. interveio: – O Senador não está em casa. suave e ao mesmo tempo firme. Rohel o irritava. A casa do Senador Rohel não deixava muito a desejar à de Adaran. Sra. já visivelmente contrariado. Adaran esteve perto de perder a paciência. eu os acompanho. mas posso ajudá-lo? O ânimo do Primeiro-Ministro arrefeceu instantaneamente: – Desculpe incomodá-la em sua residência.– Nossas ordens são para chamar também o Chefe do Conselho dos Anciãos. Mas ele não era homem de perder facilmente o controle e respondeu com polidez: TALAL HUSSEINI 71 . A moça uniformizada que atendeu a porta não deixou de se assustar com a presença imponente do Primeiro-Ministro. pois não gostava de ter de repetir ordens: – Algum problema? Por que você ainda não foi? A moça. assustada. – Vocês aceitam um chá? – disse a esposa do Senador Rohel. Adaran reforçou a ordem. ladeado pelos soldados da Guarda Real. todos estavam com pressa para saber o porquê do chamado urgente do Capitão da Guarda e a mulher lhes oferecia chá. mas temos um assunto de Estado urgente para tratar com o Senador.

Terá havido tempo para que ele devolvesse a placa com o novo sucessor? Ou ao menos para gravá-la? 72 PAZ GUERREIRA . Adaran começou a falar: – O Capitão pediu nossa presença no palácio. querido. mas parece que estavam com muita pressa de encontrá-lo. Não restou senão seguir o velho senador ao jardim. até o próprio Sokárin. Desta vez o Primeiro-Ministro não conseguiu esconder sua surpresa do olhar arguto do Senador Rohel. quando o Chefe do Conselho dos Anciãos entrou na sala sorridente como se viesse de um passeio no bosque: – Bom dia. e afinal onde se podia encontrar isso nos dias atuais. não é Senhor PrimeiroMinistro? – antes que Adaran pudesse esboçar qualquer resposta prosseguiu: – Todos nós esperávamos e. Irritava um pouco a Adaran a cortesia com que aquele casal se tratava e com que tratavam os filhos e os empregados.– Nós agradecemos sua hospitalidade. Sra. de certa forma. já que essa cortesia era verdadeira. A Senhora saberia nos dizer onde podemos encontrar o Senador Rohel? – Não sei lhe dizer onde ele está. A que devo a honra desta visita? Aceitam um chá? – Já lhes ofereci. mas creio que estará de volta antes de vocês terminarem o chá. Quem sabe agora que já o encontraram possam aceitar… – disse a Sra. Não deixava de ser um pouco de inveja. Não disse ser um chamado de Sokárin. minha querida. Inari. – É claro.HUMILDADE . com um sorriso sincero nos lábios. Temo que este tenha… – …falecido – completou o ancião. poderia servir-nos no jardim? Está um lindo dia e ali podemos conversar com mais reserva – respondeu antes que o Primeiro-Ministro pudesse ter qualquer reação. senhores. dado o seu estado de saúde. que prosseguiu: – Creio que o senhor já esperava por isso. Inari Rohel. mas os assuntos de Estado são prioritários. Adaran desta vez ia mesmo perder sua paciência.

O Rei seguiu até a biblioteca do palácio. mas já havia algumas pessoas no interior do aposento real. Senador. O Rei acorreu também ao local. num jogo de gato e rato entre dois gatos criados. Dirigiu-se para lá tão rapidamente quanto permitia sua idade. Primeiro-Ministro. Resolveu ir à biblioteca... mas nada podia fazer. o Rei se consternou ao verificar que os cortesãos se acumulavam à porta do seu quarto. As pessoas pareciam desorientadas. – Sim. Ao chegar ao corredor em que ficava seu quarto. já é tempo. Estava leve. O tumulto era tanto que suas ordens de dispersão não eram atendidas. Quando ia retirar um livro da estante. Resignou-se.. Tudo estava como sempre. Imaginou-se estrangulando-o naquele mesmo instante. como se não o vissem. Os dois guardas do lado de fora permaneceram imóveis ante sua passagem. bem disposto.. – O Capitão não mencionou nada sobre isso. TALAL HUSSEINI 73 . buscando alguma reação estranha. Quando o Rei despertou. Pessoas surgiram de todos os lados indo em direção ao tumulto. ouviu um burburinho que provinha da ala em que se situavam seus aposentos. para lhe franquearem passagem ou mesmo auxiliá-lo no deslocamento. Qualquer indício suspeito na sua morte apontaria imediatamente para o nome que está atualmente na estela.Seria curioso que o Rei morresse logo antes de poder indicar seu novo sucessor. não é PrimeiroMinistro? – ao utilizar a mesma construção inquisitiva pela segunda vez. O Primeiro-Ministro não gostava do ancião. – Mas creio que é tempo de nos dirigirmos ao palácio real. Saíram para o palácio. O Rei conseguiu entrar. Ambos sabiam mais do que falavam e falavam mais do que diziam. Este era o dever deles. Não cruzou com ninguém. mas desta feita o semblante de Adaran nada transpareceu. Os guardas continham os curiosos. sentiu como se tivesse dormido muitas horas.. o Senador fixou os olhos em Adaran. a ponto de não verem que o próprio Soberano estava ao seu lado.

Sokárin entendeu. Adaran. na direção do seu quarto. Lentamente sua visão adaptou-se à intensa luminosidade. daquela vida. para voltar a dormir desta vez sem sonhar. O Sol nunca estivera tão forte. estava em pé ao lado da cama. Os médicos acenaram negativamente com a cabeça para os dois políticos. na direção dessa luz. sem injustiça. sem desavenças. O pensamento mais imediato do Rei foi voltar ao seu leito e deitar-se. Foi em direção à janela-porta que dava para o balcão.. Ficaria ali para sempre. a indicação se mostraria acertada.HUMILDADE O . dois médicos do reino debruçavam-se sobre o corpo do Rei. O mesmo ocorria em todas as cidades do Reino. Quando olhou para trás. até que pôde enxergar seu Reino. Se ele passasse pelas provas que o aguardavam. juntamente com o Senador Rohel. muitos dispuseram panos negros 74 PAZ GUERREIRA .Sentiu um calafrio atravessar-lhe cada célula do corpo quando pôde vislumbrar a razão do tumulto. queria o Sol e seus raios dourados. para em seguida acordar e retomar seu quotidiano. Ao se ver. Sokárin sentiu uma alegria intensa em seu coração. sem miséria. Era o reino que Sokárin vinha sonhando. 13. nada pôde ver pois estava escuro lá dentro. sem dor. sem pobreza. Logo em seguida não queria mais se aproximar daquele corpo. Preferiu seu reino de luz e não olhou mais para trás. Mulheres choravam. s arautos percorriam a Capital anunciando a morte do Rei e o luto oficial de sessenta dias. o Primeiro-Ministro.. Uma luz intensa o cobriu e ofuscou sua visão. de paz e harmonia. Sokárin saiu para o balcão. Mas foi apenas um pensamento rápido. Sobre o leito. aquele que ele acreditava possível quando gravou o nome de Kadriel Vahan na placa.

A comoção foi geral. Muitas coisas podiam acontecer. em demonstração de luto. acima de qualquer crítica. o pior conhecido é preferível. Ravi lhe transmitia a segurança de um pai. raciocínios que aparentavam uma lógica irrefutável e o conhecimento de causa de quem estava ao lado do Rei quando ele gravou a placa. como um filho. as pessoas estavam acostumadas com ele. Kadriel sentiu por ele grande empatia. de modo algum. Ainda que a opção possa ser melhor. filho do Rei. muito idoso. até a alta cúpula do governo. era preciso alguém mais jovem. Não. que mediam o desempenho de um governante pela quantidade de comida que chegava à mesa. como se o conhecesse há séculos. Mudanças nunca são muito bem vindas. Ele era uma pessoa interessante. e com que frequência. e os exercícios de adivinhação eram uma delas. de vasta cultura e grande magnetismo. em que as conversas eram preenchidas com palavras mais bonitas. Quem seria o sucessor? Obviamente o substituto natural seria Golan. nos últimos dias. Mesmo aqueles alijados de oportunidades durante o seu reinado lamentavam. E assim as conjecturas percorriam o reino em todas as esferas. o Primeiro-Ministro era quem governava de fato. com Ravi Medhavin. portanto daria continuidade ao trabalho. A verdade é que todos temiam ainda que inconscientemente os períodos de sucessão. já se sentia como um velho amigo. Em poucos dias. ou para retratar melhor. Kadriel passara a maior parte do tempo. Sokárin havia reinado muitos anos. Cada um buscava suas maneiras de aliviar a ansiedade.nas janelas. TALAL HUSSEINI 75 . que nada entendiam de governo ou de política. Não. pois era um homem sério. desde os estratos mais pobres da população. frases mais bem elaboradas. Os prognósticos começavam. Rohel era o nome mais indicado.

mas não antes.HUMILDADE . que passava de governante em governante desde tempos imemoriais. e palavras cerimoniais no idioma antigo sendo pronunciadas pelos sacerdotes. as ruas estavam intransitáveis. – Não vá desmaiar – cochichou Ravi ao seu ouvido – não ficaria bem para um rei. O sinete real. Fazia calor. podendo observar daí o que se passava. Os dois foram juntos para a cerimônia de cremação do Rei.Ravi era o único que sabia o conteúdo da conversa de Kadriel com o Rei. mas quem tentava cruzar a linha limite era detido com veemência. fora retirado e estava com o Capitão da Guarda Real. Como o acesso era livre ao público. Alguns poucos mais empolgados tentaram fazê-lo. com cânticos entoados pelas sacerdotisas. no momento oportuno. que havia sido cuidadosamente preparado. a placa com o nome do novo rei. – Mas não sei se houve tempo para ele efetuar a troca das placas. – Ainda custo a acreditar que Sokárin falava sério – cochichou de volta. mas lhe deu alguns conselhos que poderiam ser valiosos no futuro. A cremação foi emocionante. Somente assim Kadriel e Ravi puderam chegar até as proximidades da cerimônia. da sucessão. a fim de manter sua palavra. que o entregaria ao Custódio das Tradições. 76 PAZ GUERREIRA . Kadriel o revelara no mesmo dia em que Sokárin morrera. por duas horas. Ravi não transparecera nenhuma surpresa. A população era mantida a certa distância. Todos se esqueceram. Os membros de governo e convidados especiais tinham o acesso facilitado pela polícia e pela Guarda Real. Milhares de pessoas se apinhavam para dar seu último adeus a Sokárin. mas foram todos impedidos. só voltando o assunto à memória coletiva quando começaram a decair as chamas que consumiam o corpo físico de Sokárin. – Há certas coisas com que não se brinca. para abrir.

senado. como que para se recompor. Diz a mensagem: “Estão aqui presentes todos aqueles de quem dependerá o sucesso do próximo dirigente. O que importa é o que você sabe e o que o Rei lhe pediu: para lutar por sua posição. com a consciência. uma guerra fratricida de mais de dez anos nos atrasou e fez derramar nosso sangue por sangue idêntico. fez brotar o ódio onde havia cordialidade. em total harmonia e tranquilidade. O Senador Rohel tomou a palavra. ao final prevalecerá. que apoiem a pessoa indicada e lhe prestem todo o suporte necessário ao bom desenvolvimento do Estado. militares. ainda antes do tempo do Império. povo. pois dela emana a luz. abrindo um pequeno envelope: – Senhoras e Senhores aqui presentes. Por isso. clero. fez prevalecer a ignorância à razão. tendo custado muito trabalho. de suas honras fúnebres. como tem decorrido das últimas vezes. e retomou a palavra: TALAL HUSSEINI 77 . Fez uma pausa. Vejam. sob pena de se repetirem os dias terríveis de guerra civil que conhecemos somente pelos livros de história. A verdade. fez soçobrar os valores mais básicos de nossa sociedade no lodo das paixões. Para aqueles que veem com o coração não há escuridão. rogo a todos. A sucessão deve decorrer. que vieram de todo o Reino prestar suas últimas homenagens ao Rei Sokárin: ele próprio confioume esta mensagem para ser lida nesta ocasião. Na única vez em que isso ocorreu na história conhecida de nosso País. por mais que pareça obscura. cujo nome será conhecido dentro de algumas semanas. muita vontade e muitas vidas para que enfim as grandes águias que guardaram em seus ninhos nas montanhas mais altas as sementes da Sabedoria pudessem restaurar a chama da civilização. Vida longa e próspera ao Rei!” O Senador Rohel estava visivelmente emocionado ao terminar de ler aquelas palavras de seu soberano e amigo.– Isso não importa. meu sucessor. pois. Fez trazer a barbárie aonde havia civilização.

– Outro ponto – esperou até que os rumores na assistência silenciassem – encontramos nos aposentos do Rei um escrito. e. Estavam num papiro escrito de próprio punho por Sokárin. como são um tanto enigmáticas. Portanto. A placa não estava lá. que possivelmente são suas últimas palavras. sobre a sua escrivaninha. cada um deverá entendê-las como o seu coração mandar. 78 PAZ GUERREIRA . Mas entendo que essas palavras devem ser conhecidas por todos os aqui presentes. Sokárin escreveu: “PARA O FALCÃO PODER POUSAR É PRECISO QUE O NINHO ESTEJA PREPARADO”. não temos como saber se Sokárin já a havia colocado na estela ou se a guardou em outro lugar. guardado na caixa que conteve a nova placa com o nome do sucessor.HUMILDADE .

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mas preferiu poupar suas forças para o que estava por vir. Quando Mulil pensava em entregar-se ao cansaço físico e jogar-se ao chão. Mulil o reconhecia. uns goles d’água e nenhuma palavra. Sete anos antes ali estivera. mais para os ventos do que para Mulil: – Aqui estamos! Era um local plano e alto. dura – último estágio de desidratação antes do piso propriamente desértico – e algumas pedras. O ancião não deixava muitos espaços para a personalidade de seus discípulos. a quem. TALAL HUSSEINI O s dois homens caminhavam havia algumas horas. mas havia percorrido outro caminho. Foram apenas alguns minutos. fazia ideia de onde estava. sem transpirar uma gota sequer. respirou fundo e disse. principalmente Mulil. fosse o que fosse. apesar da aparente tranquilidade. mas o solo ainda não era de areia solta.. pareciam andar em círculos. era evidente que buscava preparar o mais rápido possível para algo. Mulil já não 81 . Mulil se perguntava como o velho homem aguentava a caminhada sob aquele Sol escaldante.. não havia vegetação. A curiosidade corroía o jovem. Montuhotep sabia exatamente o que fazia. Montuhotep parou. olhou ao redor com satisfação. aquele rochedo que tivera de escalar até o ninho do falcão que lhe deixara marcas indeléveis no braço e no espírito. sem demonstrar qualquer traço de cansaço. salvo algumas touças rasteiras. e sim de terra seca. Aquele lugar ficava nos limites do deserto. seu Mestre disse que descansariam um pouco. Foi seu último pensamento antes de retomarem a marcha. morrendo ali mesmo. Ao cabo de mais quatro horas. Desta vez estavam no alto do penhasco. Mas evidentemente não andavam. Haviam chegado pela parte inferior do rochedo. Estavam sobre um penhasco. durante horas. Sim.14.

Seu senso de direção não mais existia quando se lembrou de que estava próximo de um penhasco e seu próximo passo poderia ser no nada. baixou os braços. Apenas retirou da sua sacola dois lenços. in82 PAZ GUERREIRA . exceto que não havia árvores em que se apoiar. Cada um trazia pouco peso: uma manta. Ausência de medo: morte. os braços estendidos à frente do corpo fazendo movimentos laterais como para evitar o choque com as árvores inexistentes ou talvez para encontrá-las. Lembrou-se do que havia aprendido sobre o medo. ao menos em sua avaliação.Era final de tarde.. essa reação natural que muitas vezes podia significar a diferença entre a vida e a morte. Montuhotep proclamou que deviam se preparar para descansar. o braço de seu Mestre lhe escapou. O jovem agarrava-se ao braço de Montuhotep como um náufrago a uma tábua de salvação. O ancião ainda carregava consigo uma pequena sacola que segundo ele continha alguns produtos úteis. A vida residia no estreito caminho do controle do medo. decidiu que a melhor estratégia era ficar parado. de modo a ser o menos atingido possível pela areia. pão e água. a areia lhe enchia os olhos. mas que deixava uma trilha delgada. Mulil estava nervoso. Mulil restou como um cego numa floresta. Tentava falar mas o vento levava suas palavras como fossem folhas secas. mas a temperatura começou a baixar drasticamente. Subitamente. entregou um a Mulil e envolveu seu rosto no outro. Sentou-se no chão. A estratégia funcionou por algum tempo. Mulil tranquilizou então sua respiração. Já se haviam passado horas. Os últimos raios do Sol do ocaso permitiram a Mulil uma visão assustadora: uma parede de areia se aproximava.ADMIRAÇÃO . até fazê-lo entender que ficavam melhor fechados. Parou. já que não serviriam para detectar o vazio. Seu Mestre continuava impassível. entocando-se em sua manta. exortando-o com os olhos a fazer o mesmo. pois teriam muito trabalho à noite.. Andou por alguns minutos a esmo. Finalmente. Excesso de medo: morte.

que repetia estranhos mantras numa língua desconhecida para Mulil. a dor se transformou em amortecimento.dicando que já caíra a noite no deserto. até que ele se tornasse gigante à sua frente. diante de quem não queria falhar. em meio aos quais orientava o jovem: TALAL HUSSEINI 83 . fundindo-se nele. Desse modo. mas conseguiu manter-se em razão da presença de seu Mestre. Por fim. Montuhotep continuava a entoar a sequência de mantras. Recuperou lentamente a consciência e. Ele devia permanecer ereto e repetir alguns exercícios respiratórios. O ancião ordenou que Mulil se sentasse à moda dos escribas. Aos poucos. Tinha de encontrar seu Mestre. o mal-estar tornou-se conforto. Levantou-se e começou a andar com dificuldade. Mulil sentiu-se desfalecer em meio ao turbilhão de areia. embora se sentisse bastante tonto. Então. e sim uma polarização que permitia ao jovem ignorar seu corpo físico. mas não um amortecimento físico. nem seus braços e por fim nenhuma parte de seu corpo. sem ele não havia esperança de sobrevivência naquele ambiente hostil. Em seguida. Em certos momentos. Estavam dentro de algum tipo de caverna em que mal se podia ficar em pé. até Mulil não sentir mais suas pernas. ao que obedeceu de imediato. Mulil pela primeira vez entendeu o que seu Mestre sempre lhe dizia sobre a vida e a morte: que eram as duas faces da mesma moeda. era seu único pensamento. tateando o chão antes de completar cada passo. Mulil chegou a pensar que iria desmaiar. pelo frio. Continuaram esses exercícios por algumas horas. pôde ver o rosto sulcado de Montuhotep. Mulil devia projetar-se em direção ao falcão dourado e entrar nele. Mulil devia imaginar-se cada vez menor ante esse pássaro. o velho Mestre ordenou que fechasse os olhos e visualizasse um falcão dourado. O discípulo o fez sem dificuldade. A inércia que por algum tempo significou sobrevivência agora significava morte. quando conseguiu focalizar sua visão embaçada.

refletindo-se na terra distante.ADMIRAÇÃO . Estava livre… Mesmo ao longe continuava a ouvir a voz de seu Mestre como se estivesse ao seu lado. Mergulhou em direção a ele. 84 PAZ GUERREIRA . Sentia um misto de alegria pelo sentimento que experimentava e de tristeza por ter de abandoná-lo. tornando-o seguro. Mulil obedeceu. não queria emoções. sinta-as. não queria pensamentos humanos. queria permanecer falcão. Não queria palavras. não queria mais ser um homem. Sentia agora o peso de sua coluna vertebral. você é o falcão! Abra suas asas. O jovem voltava sua cabeça de falcão para os lados e via suas asas dominando o vento. ganhando-o rapidamente. Dava graças por seu Mestre ser o único ser humano ali presente. sentiase parte do espaço absoluto. Subiu até as arestas do mundo terrestre se desfazerem. Bateu mais forte suas asas e de repente ganhou o firmamento. Mulil não queria voltar. que já se dissipava. Busque a saída da caverna e voe em direção ao céu. Mulil sentia-se humano novamente. Sobrevoou a tempestade. Ouvia com o coração. que se transformava numa pequena nuvem de areia na medida em que o falcão ganhava altura. de onde saíra. Nunca vira tantas estrelas.– Agora. queria permanecer livre. Voou para a saída da caverna e viu-se novamente em meio à tempestade de areia. e as cores se esfumarem na noite profunda. Mas desta feita ela não o assustava. Seus olhos de falcão viram através da areia. Abriu lentamente os olhos. Voava em direção ao ser essencial. Ela o chamava. Mas devia obedecer. queria ganhar o espaço infinito e as estrelas suas irmãs. o pequeno buraco no chão. As palavras de seu Mestre norteavam seu retorno. A luz dourada que emanava de Mulil iluminava tudo ao seu redor. Sentia-se uma delas.

uma ave. um falcão voando distante da terra dos homens mas sem perdê-la de vista. misturando-se com as imagens do seu sonho. Era curioso que a única pessoa com quem imaginava poder conversar naquele momento era Ravi. Não queria contato com pessoas.”. Kadriel passou o dia sem sair de casa. O Rei estivera escrevendo. 15.. figura renitente no seu sonho e na sua vida? O jovem sentou-se no chão. que ele mesmo permitira. Novamente um sonho com aqueles personagens longínquos no tempo. ainda ecoavam na mente de Kadriel: “Para o falcão poder pousar. TALAL HUSSEINI N 85 . resolveu tomar uma atitude: dirigiu-se à casa de Ravi. As palavras do Rei.Kadriel despertou daquele sonho com uma sensação de distanciamento. cogitando. preferia estar consigo mesmo. Aquele ingresso indevido nos aposentos. um tanto aéreo. lidas pelo Senador Rohel. Por que o Rei deixara aquelas palavras? Seriam fruto do delírio de um moribundo? Ou guardariam algum segredo impenetrável? Por que o falcão. o dia da morte do Rei. Já perto das cinco horas da tarde. voando sob as estrelas mas sem poder tocá-las. Sentia-se. apesar de tê-lo conhecido há tão pouco tempo. e o subsequente óbito eram coincidência demais para uma mente treinada como a sua. Nenhum resultado.. fechou os olhos e procurou reproduzir a concentração que o discípulo fizera no seu sonho. comera sua refeição e deitara-se no terraço para dali não mais sair vivo. à moda dos antigos escribas. como Mulil. Ele observara atentamente cada detalhe do quarto. o Capitão ficara extremamente desconfiado.

e era seu dia de folga. Tudo indicava que a resposta mais direta era a correta: morte natural. Disse haver um traço de uma substância que poderia ser venenosa. Resolveu não sair de casa na esperança de que os sequestradores fizessem contato. Entendeu que indicava aonde devia se dirigir e lá foi. ele descobriria. As cozinheiras e Peckus haviam sido detalhadamente questionados. nada mais encontrou. não sabia bem o que era. Mandara fazer seus próprios testes. poderia ser-lhe de alguma utilidade no futuro. havia recolhido a pena e algumas das folhas que o Rei utilizava para escrever nos seus últimos momentos deste lado da existência. Mas os instintos de guarda do Capitão dificilmente falhavam e ele ainda estranhava algo. profanação. Ademais a refeição não estava lá quando da invasão. Por via das dúvidas. Pedir um exame do corpo do Rei. Sua expectativa foi atendida. mas descobriria. sendo que nada indicava qualquer crime. pois havia o provador oficial Peckus.ADMIRAÇÃO . 86 PAZ GUERREIRA . seria loucura. Se havia algum indício no corpo do Rei de que sua morte não tinha sido natural seria cremado junto com o Soberano. De qualquer maneira. o soldado não ousou cogitar tal hipótese. o Capitão guardou consigo esse material. Só lhe restava aguardar e concentrar suas preocupações em outro assunto relevante: sua família. Nada indicava alguma participação na morte de Sokárin. Continha apenas um local. Quando os repetiu para confirmação. mas não tinha como afirmar com certeza por ser altamente volátil e já estar terminando de se dissipar quando ele fez os testes. A pessoa que os realizou era da sua confiança e além disso não sabia do que se tratava.A comida não era uma hipótese. Uma batida na porta e um envelope sob ela. Era o dia seguinte à cerimônia fúnebre real. Faltou pouco para as mãos firmes do Capitão tremerem ao abrir o envelope. Se houvesse alguma irregularidade no caso.

O Sol o cobre com essa névoa amarelada. os vulcões são como as pessoas.– Nesse local. que domina nossa cidade. e não a manifestação. nos fundos da residência. no sétimo envelope. Esse compromisso o Capitão não iria perder. havia causado grandes estragos à cidade. estava tranquilo. Meditando neste lugar perante o Sol que vai. – Realmente. Indicoulhe o caminho do jardim. que se renova todos os dias... três horas depois de o Sol se pôr. que se localizava no extremo da cidade com vista direta para o vulcão Anthar. Ao chegar à casa de Ravi. havia um endereço e um horário. Desde então.. seu lento movimento de contração e expansão. Ravi foi rápido em deixar Kadriel bastante à vontade: – Você vê este bosque? – indagou apontando as árvores que ficavam no fundo do seu quintal. até esconder-se atrás do grande vulcão. pode-se sentir a respiração do Universo. – Não estou certo de que entendo isso muito bem. Kadriel assentiu com a cabeça – gosto de olhar para ele todas as tardes.. permitindo que nunca nos esqueçamos dos ciclos que a compõem. mil anos antes. pois diz-se que não existem vulcões inativos e sim adormecidos. ela tem a intensidade da vida. A velha olaria desativada... que em sua última erupção. – Mais do que bonita.. não o Existir. TALAL HUSSEINI 87 . Tudo em nossa existência é assim: expande-se até um ponto extremo. outro envelope idêntico ao primeiro continha outra indicação geográfica. Não inativo. com seu grande poder latente esperando o momento certo para eclodir. aqui o senhor tem uma paisagem muito bonita. para depois novamente contrair-se até um único ponto. Nesse sentido.. como se ele estivesse sendo esperado. Quando o Universo se contrai num ponto há apenas o Ser. Finalmente. Kadriel foi recebido por uma moça que não fez nenhuma pergunta.

E as últimas palavras do Rei mencionavam o falcão – foi o único comentário de Ravi – prossiga. É que esta noite tive um sonho estranho.. – Depois que acordei. para 88 PAZ GUERREIRA . gostaria de falar sobre isso também... após muita contemplação. Começava a achar que aqueles sonhos teriam algum significado. – De fato. para conversar sobre isso. E a única pessoa em quem conseguia pensar.ADMIRAÇÃO . como também o primeiro sonho com esses mesmos personagens. Conhecemo-nos tão pouco e o senhor já sabe certas coisas sobre mim que eu não disse a mais ninguém. Ravi não fez qualquer comentário. Ravi reparou na sua ansiedade: – Kadriel. Certas coisas só podem ser intuídas.. Kadriel prosseguiu: – O mais estranho é que quando acordei sentia-me como que fora deste mundo. – Conte-me seu sonho. então. mas não sabia qual. parecendo-lhe estes mais realidade do que sua realidade vigílica. Kadriel. sim.. Relatou-o. sentia-me como se ainda estivesse sonhando. Kadriel não respondeu..– É porque nem tudo se pode entender racionalmente. pois não tenho certeza se saberei cuidar sozinho do que me espera. Procurava uma brecha para abordar o assunto que o levara até ali.... mas é que na verdade nem sei bem porque estou aqui. – Você quer falar da sucessão? – Não. só permaneceu com a atitude de quem está aberto ao discurso do seu interlocutor. na prova do penhasco. Na verdade. era o senhor. não sabia o que dizer. você obviamente veio até aqui porque quer contar-me alguma coisa.. tentei fazer a concentração que Mulil fez no sonho. Quer dizer. Mas não foi isso que me trouxe aqui desta vez. – O falcão aparece nos dois sonhos. Falou das impressões que tivera durante estes momentos oníricos.

um pouco encabulado. A humanidade havia desaprendido como ter obediência por respeito e por admiração. Ravi continuou: – Você já subiu no vulcão Anthar? – Nunca. ainda que não saibamos de momento qual seja. Aquelas palavras ao contrário de infundir temor em Kadriel o encheram com um sentimento novo. que a água é perigosa porque afoga. As pessoas viviam com medo e morriam com medo. demonstrando entusiasmo pela ideia. não fará muita diferença estarmos dentro da sua cratera ou estarmos bem aqui neste quintal olhando para esse bosque. pois ele pode entrar em atividade. O instrumento natural de proteção e sobrevivência era transformado em aparelho de letargia e inconsciência. Ravi sorriu. começava a ser utilizada na infância e continuava até a morte. posso ensiná-lo. para a qual – agora percebia – sequer olhava detidamenTALAL HUSSEINI 89 . e que tudo deve ser temido porque é perigoso de alguma maneira. Teremos apenas alguns minutos a mais para olhar de frente a nossa própria morte. que os animais são perigosos porque mordem. muitas vezes. mesmo pelas crianças. mas não obtive sucesso – confessou Kadriel. quando não morriam. do próprio medo. o maior de todos os medos. O medo era a ferramenta mais fácil. – A meditação tem uma forma correta para ser feita. uma vontade de escalar as costas da velha montanha. diante da incapacidade humana em se fazer entender de forma construtiva. Não é proibido? Dizem que é perigoso. mas era um riso de condescendência e ao mesmo tempo de tristeza. Kadriel concordou. A educação pautada no medo fazia rir a Ravi. – Se ele entrar em atividade. como quem se dirige a uma criança a quem disseram que o fogo é perigoso porque queima.tentar reproduzir suas experiências. Se quiser.

logrará ver o que está por trás desse ponto. Quando Kadriel se deu conta. que vai lhe permitir contem- 90 PAZ GUERREIRA . Então. é necessário concentrar-se. Explicou-lhe também que ele devia manter a conversa enquanto fazia esforços. como que percebendo seus pensamentos. tingindo de escarlate o ocaso e a planície. sobre o qual foi construído todo o Universo. Ravi explicou a Kadriel como ele devia andar sem fazer força com os músculos. Entre um assunto e outro. Aí cessa a mente e começa a meditação. apenas fazendo um ligeiro movimento de sobrancelha em direção ao vulcão.. pinceladas de azul e amarelo terminavam de tecer aquele final de tarde. pois só assim você conseguirá ver a unidade por trás das coisas. – Você queria fazer a meditação. estava diante da cratera. o Sol se punha. Quando começaram a parte mais íngreme da subida. para descondicionar a respiração.. com passos rápidos. sem qualquer cansaço. A mente livre de pensamentos atingirá uma vibração que lhe permitirá chegar ao silêncio. Ravi não deixou transparecer sua consternação com o prenúncio que o vermelho trazia: sangue seria derramado. apenas utilizando as articulações. deixe-me explicar-lhe algumas questões..ADMIRAÇÃO . ou nos intervalos entre os sons. Concentrando-se com firmeza num único ponto. será necessário desacelerar os pensamentos. para aumentar a velocidade da mente. silêncio este que pode ser vislumbrado entre as palavras. Intuindo a pergunta que ardia na garganta de Kadriel. Ravi respondeu sem responder. Primeiro. Ravi. Sentia vontade de aproximar-se do céu e dos deuses. ou entre as letras de uma palavra. caminharam horas. Enquanto caminhavam lado a lado.te. em silêncio.. Para meditar é necessário se concentrar e contemplar. e depois o que está por trás desse outro e assim sucessivamente até chegar à unidade das coisas. Cruzaram todo o bosque até ganhar um descampado. lhe fez sinal que o seguisse e adentrou no bosque.

. Pulso. É nesse ponto de recordação que todas as coisas do universo se encontram. quando sentissem os músculos enfraquecer. que aprendi com o meu Mestre – disse. se lembrassem de que um dia estiveram lado a lado com seus irmãos. O Centro é algo que não pode ser ensinado. Agora vou mostrar-lhe a prática do que lhe ensinei. E a contemplação vai lhe permitir descobrir que esse todo é a Unidade. É na recordação que nos encontramos. É no Centro que todas as coisas nascem. Um velho sábio disse aos seus discípulos que quando saíssem em busca do seu Ideal e no caminho sentissem as primeiras dificuldades. onde as galáxias flutuam.. desenvolvem-se. tampouco aprendido. Na medida em que Kadriel ia realizando os passos. Para o Centro todas as coisas marcham. deixe-se guiar por ela. Onde os mares deságuam. os olhos titubear e o coração sentir o hálito do fracasso. Onde o silêncio é o corpo de Deus. em torno de uma fogueira. pois o maior mal da humanidade é o esquecimento. e o movimento deixa de existir. ouvia ao fundo a voz de Ravi. Essa lembrança lhes traria a força às veias e certeza às almas. TALAL HUSSEINI 91 . que em tom suave parecia integrar-se à natureza: Circulação. indicando que se sentasse sobre os joelhos. a palidez tomar conta dos lábios. O Centro é algo que somente pode ser recordado.plar. Lá é o Centro. Fluxo. Tudo passa a ser uma coisa só. Meditar é silenciar-se em Deus. com a coluna reta – ouça apenas a minha voz. cantando os hinos de glória e de vitória desse Ideal Superior. onde a rotação da terra gira. onde os pássaros encontram seu destino. Quem contempla não tem a visão do observador e de Deus como coisas distintas. e são novamente consumidas.

O cérebro é o ministro. A imagem que se formara era semelhante à do seu sonho: nuvens em torno da cratera e claridade apenas no centro. A cada palavra que dizia. Onde a eternidade é engolida pela duração. o poder interno. Tudo tornou-se escuro. Esse ser é o infinito.. Lá estava seu corpo. tinha uma certeza: sentira o Centro no coração. Abriu os olhos. Lá é o Centro. Por ser infinito. Não sabia como. intuía. Seus pensamentos. enquanto falcão. vira formar-se na tempestade de areia. Sentiu algo puxá-lo. sentimentos. Sentiu-se cair. Melhor.. Kadriel visualizou um círculo branco dentro de um círculo dourado.ADMIRAÇÃO .Irradiação. Selo. e o Uno do infinito é absorvido pelo Absoluto. Ravi parado à sua frente lhe falava. apenas sentia. sentia uma força compeli-lo para baixo. Nada parecia fixar-se. Esse rei segue os impulsos da vontade do ser. Onde o mortal transmuta-se em imortal. 92 PAZ GUERREIRA . Focalização. seu corpo. Seu corpo estava gelado. Olhou para baixo. Abriu os olhos. O Centro é o ponto onde todo o universo se une. É infinito o potencial latente que reside dentro do coração do discípulo. O discípulo é o único que pode conceber o Centro. Polarização. tudo estava confuso. Ele enxergava toda a montanha. o Centro que habita o coração de cada discípulo. sentado sobre os joelhos. não nasce. Lembrou-se da imagem que. Voava. não morre. Aquela pequena experiência o fizera ver as coisas com um pouco mais de realidade. Iluminação. Em meio à confusão mental que experimentava. Onde o coração do cisne celeste se transforma em diamante e suas asas de luz se projetam tocando o cosmos. Onde a magia é a única realidade ponderável. agora de verdade. O coração é o rei.

está o brilho do Sol! Kadriel sentiu vontade de chorar. o discípulo pode renovar-se e brilhar como nunca. Sentia apenas seu coração pulsando. 16. Nenhum morador por perto. para além da tormenta. no bom sentido. a tempestade. abrem suas asas poderosas e velozes e enfrentam a tormenta. Sabe por quê? E prosseguiu. Como estava abandonada havia anos. Ravi. como que lendo seus pensamentos. Certas aves. Um falcão cortou o céu sobre a cratera. Kadriel pensou que tinha sido aquele falcão. os choques elétricos provenientes dos raios. nenhum dono. Nos momentos em que tudo parece perdido. superam as nuvens negras. como os falcões e as águias. não se escondem. disse: – Os seres da natureza têm muito a nos ensinar. havia o boato de que aquele lugar era mal-assombrado. e o patrimônio se deteriorava. muitos donos. O velho proprietário falecido não conseguira deixar o local e atormentava qualquer um que se aventurasse naquelas paragens. vão diretamente de encontro a ela.O universo parecia-lhe parado. Seu grito ecoava pela montanha. Era objeto de um litígio entre herdeiros. olaria era num lugar ermo. não havia sequer um guardião. TALAL HUSSEINI A 93 . Invejou-o. têm características muito especiais. Ademais. sem esperar a resposta: – Porque sabem que acima. ao menos por alguns momentos. Ao contrário de outras aves. sempre foram mencionadas nas tradições como símbolo de poder e sapiência. quando veem uma tormenta. nem ficam agitadas.

andando rapidamente em direção ao Capitão. Era um arqueiro que tinha a mira fixada bem na sua nuca. Ela não tinha peso.Exceto algumas turmas de jovens que. Os sequestradores não seriam tão imprudentes. Vestia o uniforme negro da guarda real acrescido de uma espécie de capuz que não permitia ver seu rosto. Uma delas posicionou-se dentro do prédio. Observou tudo ao seu redor. O Capitão gritou para ver se alguém respondia. Quando o arqueiro se deu conta. Manteve o controle. Se caísse um simples alfinete. por vez ou outra lá iam para instigar a adrenalina. duas sombras se moviam em silêncio. sentiu o magnetismo pesado. para ver se alguém fazia contato. Sentiu uma pontada nas costas que paralisou completamente seus músculos. Um arrepio lhe percorreu a espinha. que o privou da existência. em ruínas. Percorreu o lugar rapidamente. que poderiam transformar-se em armas. quase nem sentiu outra pontada. e até os cabelos se eriçaram. Nada. Só aguardava o sinal. Este foi também na sua direção para esta94 PAZ GUERREIRA . saciando as necessidades do velho fantasma. Nos bastidores desse cenário. Não estava ciente da outra sombra. sua mulher e sua filha não estavam ali. O silêncio era perturbador. bastava retesar o arco e disparar. salvo de muito perto. animados pelo álcool. De repente. atrás do Capitão. não pertencia a este mundo. Sem poder se mover. ferramentas. Finalmente parou onde podia ver a entrada e ali permaneceu. Prosseguiu caminhando em campo aberto. à espera. pedras. qual um espectro. não emitia nenhum som. a reverberação da queda soaria como uma bomba. canos. que flutuava em sua direção. ninguém ousava passar por ali. tentando encontrar um possível cativeiro. a sombra já estava sobre ele. Verificou as possíveis saídas e procurou se inteirar dos materiais deixados no local. Quando o Capitão abriu o portão. Não. Nenhum sinal de vida. dois homens entraram na velha olaria. Por certo.ADMIRAÇÃO . Havia uma enorme construção. no pescoço.

A sombra que desabilitara o arqueiro havia tomado para si o arco. o agressor ferido fez um olhar de pavor quando pôde ver de perto o vulto que o atingira... – Não tenho tempo a perder com mentiras inúteis! – respondeu o Capitão – você vai morrer mesmo. juro! – Quem deu essas ordens? – inquiriu. pensava.. Ele tentou fugir. O Capitão sacou uma faca. Logo. não sei onde elas estão. olhando para o corpo que jazia mais adiante. recebemos apenas ordens escritas. mas tem a possibilidade de escolher se vai ser com pouca dor ou com muita dor! – Eu recebi ordens apenas para matá-lo. Sua morte foi lamentável.. que atingiu o Capitão no pescoço. Outra seta partiu da sombra atingindo o agressor na perna. Mas choraria a morte do companheiro de armas depois: – Onde está a minha família? – Eu não sei. Sem anunciar seu movimento. logo acima do joelho. que soltou um grito pavoroso. Na verdade. pois quando já estavam bem próximos os homens sacaram espadas. TALAL HUSSEINI 95 . mas só teve tempo de disparar uma flecha. que devemos queimar em seguida. Já desarmado. que atingiu no peito um dos homens. – sua frase foi interrompida por um duro golpe. acabara de matá-lo. amarrando os pulsos do homem em torno de uma pilastra. inerte. mas o ferimento não permitia um deslocamento eficiente. Mas não teve tempo de pronunciar nenhuma palavra. O Capitão não esperava uma ação tão rápida e direta de seus inimigos. aquele era um amigo do Capitão que propositalmente se fizera passar por ele para evitar a emboscada.belecer contato.. O outro desferiu um corte rápido e preciso. – Nós nunca fazemos contato direto. A morte foi instantânea. a sombra estava sobre ele... O Capitão…! Mas não podia ser. Seu corpo tombou de lado. cortou na metade o dedo indicador da mão direita do interrogado.

O Capitão assentiu com a cabeça. como quem está no limite da sua paciência.– Estou apenas começando com você. Onde estão minha mulher e minha filha? – O senhor precisa acreditar em mim. – Não tenho as informações que quer! Mate-me logo! – Muito fácil... O Capitão começou a bater com o fio de sua faca contra uma pedra. Agora você quer morrer. Não pode estar muito afiada. Quando eu terminar. – Quem? – Já disse. aguardando a próxima pergunta e já cogitando até respondê-la. Se quer me fazer perder tempo.. não é? Com a vida da minha família? Pois você vai gostar das brincadeiras que ainda tenho reservadas para você. ao tempo em que se dirigia ao seu prisioneiro: – Você sabe por que estou fazendo isto? Porque esta é a faca que vai decapitá-lo. Resolveu falar: – Senhor. soltando o ar dos pulmões. Não temos essa informação. – Não tenho por que mentir. conforme você demore em responder o que quero. Já estou morto. O senhor foi usado e deveria estar morto agora.ADMIRAÇÃO . Veio a faca e arrancou seu olho da órbita. Aproximou a faca do olho do rapaz. O homem resolveu falar e antes de ter sua vida e seu martírio 96 PAZ GUERREIRA . A vítima esqueceu a dor do dedo. E vai estar cada vez menos. Elas estão mortas! – Mentira! Mentira! Seu cão! – socou-o algumas vezes na cara. Mas a pergunta não veio. – Você pensa que eu estou brincando. Um calafrio trespassou-lhe a espinha. Sentiu que era sério.. A intenção nunca foi devolvê-las.. terei prazer em gastar esse tempo com você. Este assumiu uma expressão de pavor. jamais as vi. desejará nem ter nascido.. Quem? O Capitão pensava em sua filhinha enquanto começava a cumprir sua promessa. não sei.

O som do metal com metal marcava a cadência. não gostava de perder.abreviados pela misericórdia de seu algoz. O combate já estava em frequência real quando Adaran obteve um êxito. Adaran não resistiu: – Sinto-me bem hoje. ao desferir o que seria um corte no rosto de Haggi. Adaran atingiu Haggi com outro golpe fictício. com diplomacia. Os últimos dias tinham sido conturbados. Não lhe darei qualquer chance. pois.. O ritmo do combate foi aumentando gradativamente. Logrou outro golpe: TALAL HUSSEINI 97 . pronunciou um quase que chiado apenas: – Ofis. – Para o reino. Adaran riscou-lhe o braço com a espada. Mas. – Em quem você aposta? – Você sabe que sempre aposto em mim. finalmente.. – Aposto no nome que está escrito na placa – respondeu Haggi. ambos haviam conseguido algum tempo em suas agendas cheias. Começaram de forma lenta. O combate continuava acirrado. – Aposto em mim – tripudiou Adaran. com a morte do Rei e toda a tensão que precede a sucessão. como o seu oponente. sem trocar palavra. Adaran e Haggi se encontraram na Real Sociedade para um duelo com espadas como sempre que possível faziam. que apenas deu seu sorriso irônico. sempre em nome de uma boa luta. para aquecimento. Haggi fingiu ignorar a observação e concentrou-se ainda mais na luta. Adaran.. e quem sabe uma conversa interessante. Riu de novo...? Adaran riu e não respondeu. – Para o reino. desta vez um corte horizontal no abdômen..

Imagine 98 PAZ GUERREIRA . Alguma razão específica? – Vou a pedido do Senador Rohel. – Não sabemos se ele chegou a gravar a nova placa. – Você quer dizer os privilégios. Os interesses deles seriam preservados. Portanto. estar perto das mais belas mulheres.. Quer vir junto. não tenho interesse em assumir o trono. mas estavam mais concentrados do que nunca. E ao que parece nunca saberemos.– Para o combate é uma aposta ganha. Haggi. Adaran.. Seria muito útil que os chefes locais estivessem fechados em torno do meu nome caso eu fosse o escolhido. É missão oficial solicitada na qualidade de Chefe do Conselho dos Anciãos. não há como saber se foi gravada. Adaran? Você parece ter bastante interesse nesse assunto.ADMIRAÇÃO . que é quem responde pelo Reino neste período de vacância.. Os dois contendores conversavam enquanto combatiam. – Quem não os tem? Veja você.. Haggi. Haggi. Algo o preocupa? – Creio que é você que está inspirado. seja quem for o escolhido. Adaran prosseguiu: – Soube que você vai ao interior.. Mais nenhum golpe aterrou. Mas sei que tenho chances e se for esse o caso.. Mas o fato de ele ter solicitado uma placa para troca no final. – Para você não preciso fingir. – Qual o objetivo? – Apenas estar em contato com os chefes locais e assegurar que estão tranquilos quanto à sucessão e que irão apoiá-la. você é pago pelo Estado para viajar. Não sei. Algo o anima? – O futuro do reino depende do nome que está escrito na placa. Uma transição segura é melhor para todos.. precisarei de todo apoio possível. Você me parece um pouco lento hoje.. pois é um desgaste muito grande... Espero que Sokárin tenha sabido escolher. Não apareceram vestígios da placa entre os pertences do Rei. comer e beber bem.

que tinha lugar nos dias de saturno. encarou-o e continuou: – um rei detém o poder. As alianças evitam conflitos. Caso tivesse se voltado teria visto em Adaran um olhar ameaçador. parando a espada junto ao seu pescoço – muitos golpes fracos não são tão efetivos quanto um bem aplicado. – De fato. num caos aparente.. olhando o movimento de pessoas e de mercadorias. – ao concluir a frase. TALAL HUSSEINI B 99 . vou me lembrar das suas palavras quando estiver no interior do País. 17.. por hoje. A feira era pitoresca: barracas amontoavam-se lado a lado.. não é Haggi? – acertou-o pela sexta vez – principalmente quando vamos perder. akar passeava tranquilo na feira da praça central. guardando certas regras de organização que podiam parecer muitas vezes misteriosas para um visitante. O pouco espaço que restava para o trânsito era plenamente ocupado por centenas de transeuntes que buscavam comprar algum utensílio ou simplesmente passeavam. principalmente quando pode perder. como fazia todas as semanas. eram cinco contra zero. atinge sem ser atingido. Qualquer rei não prescindiria dos serviços de um diplomata hábil. Haggi baixou a espada e deu as costas para seu oponente: – Creio que basta. acertou o golpe fatal em Adaran. mas que faziam todo sentido para quem estava habituado a elas.se isso acabasse de uma hora para outra! – ao terminar a frase atingiu novamente Haggi.. Isso é diplomacia. Você sabe que a diplomacia sempre traz saídas menos onerosas do que os conflitos. E todos queremos evitar os conflitos. como Bakar.

à qual agarrou-se fortemente. Abriu-se uma roda de pessoas em torno da situação. sem perceber.A compleição física de Bakar o fazia destacar-se do restante da multidão. Bakar analisava uma ferradura. sem que alguém os pudes100 PAZ GUERREIRA . e sobre um outro que parecia ser o líder. como que esperando um ato de coragem. sem muita convicção. Faca para um lado e mais um agressor jazendo inerte do outro. ao ver que no calor da luta. O gigante estava detido numa das barracas que comercializava artigos de cavalaria. eis que seus ombros e cabeça ficavam acima do mar de cabeças que enchia as ruas dos arredores do centro da Capital. esmagando-as e ficando coberto daquela gosma alaranjada. interrompendo o grito e o ataque. Bakar simplesmente amassara a ferradura que ainda estava na sua mão esquerda. que se entreolharam compartilhando o medo. apenas desferiu um chute que imprimiu a sola da sua bota na cara do seu oponente. Bakar brandia seu enorme punho. Escutou alguns gritos de mulher e observou que cinco homens cercavam uma moça. que sem esboçar nenhuma reação no semblante. Um dos homens preparava-se para chutar a moça caída. quando seu gesto foi interrompido por um soco no seu plexo que literalmente o arremessou por sobre uma barraca de frutas. arremeteu gritando na direção de Bakar.ADMIRAÇÃO . este parecendo mais gravemente ferido que o primeiro. como selas. o suposto líder sacou uma faca e. depois de passar pelo companheiro desfalecido entre as abóboras. tentando roubar sua bolsa de couro. O sólido cavalheiro voltou-se para os três restantes. ferragens e outros materiais. mas ninguém movia uma palha para ajudar a vítima do ataque. Coagido moralmente. cujo jogo pensava comprar para seu cavalo. O homem caiu sobre algumas abóboras. ainda fechado. que saíram em disparada por entre a população. quando uma altercação a alguns metros de onde se achava chamou a sua atenção. em direção aos demais agressores. Os assaltantes desapareceram. a ponto de cair quando um dos assaltantes tentou puxá-la.

pois já conheciam o ritmo da multidão.. Já em pé. graças a você. Os olhos de Bakar brilharam. – Mesmo assim é melhor você vir comigo dar uma olhada nesse corte. Olhos ligeiramente puxados e brilhantes. O gigante voltou-se para a moça. Não sabia muito bem como lidar com aquele tipo de situação. incrivelmente. minha casa não fica longe daqui – disse com inocência – só preciso pagar por esta ferradura antes. Dentes perfeitos.. o senhor é um herói. Era esguia. Você é muito forte. – Você poderia. Morena. Cílios longos. estendendo a mão para que o distraído Bakar a ajudasse a se levantar.. Talvez fosse a dama que ele esperava há tanto tempo. assistindo àquele confronto inusitado. – Não é nada. de porte elegante. tão bonita. – Mas de todas as pessoas que estavam aqui.. não precisa pagar. TALAL HUSSEINI 101 .. que ainda estava caída.. apenas um arranhão. – O que você fez foi realmente impressionante. ninguém fez. o dono se recusou a receber o pagamento e disse: – Não... – Claro – alçou-a como se fosse de papel. não esbarrar em ninguém. Nariz fino. a moça limpou sua roupa batendo o pó com a mão. Cadenciavam sua corrida de modo a. Havia cortado o braço na queda. uma mulher. Na barraca de onde retirara a ferradura agora imprestável. – Não precisa agradecer. qualquer um teria feito o mesmo. admirada com seu defensor inesperado: – Você está bem? – Sim. Bakar intercedeu: – Você está ferida. Cabelos negros lisos e compridos. Precisamos ver esse corte.. Bakar enrubesceu. Nunca tinha visto uma mulher tão linda.? – disse a moça.se seguir.. Fico agradecida.

. e teto sustentado por seis colunas três de cada lado. Não continha nada.Bakar deixou as moedas correspondentes ao valor da ferradura sobre o balcão e voltou-se para a sua protegida sob os protestos do vendedor que insistia em não receber. Cuidou que ninguém o visse entrar na velha casa. Entregou o envelope a dois guardas encapuzados. Desculpe mesmo. Eu me chamo Mirta. já para entrar na sua casa?! Estúpido. – Não se preocupe. vestiu uma túnica negra e prosseguiu até ganhar um grande salão retangular. Acho melhor que você faça um curativo no seu braço em outro lugar. Mas posso ao menos saber o nome do meu salvador? – Bakar. que acabara de conhecer.. Bakar caiu em si. me desculpe! Que falta de educação a minha convidar alguém que acabei de conhecer. – Vamos? A moça o acompanhou. Ofis abriu um alçapão oculto e desceu escadas íngremes. No horário previsto. Ofis não era homem de grandes alternâncias de humor. de alto pé direito. Tomou posição e ali permaneceu. para entrar na minha casa. – Bakar parecia sinceramente constrangido. obedeceu. imóvel. antes de entrar. uma moça. que lhe franquearam a passagem. O chão de granito polido formava desenhos de estranhas mandalas. eu sei que suas intenções são as melhores possíveis. Ao chegar na sua casa. Desculpou-se: – Puxa. Você me parece alguém confiável. Como convidava uma moça solteira. 102 PAZ GUERREIRA . – Combina com você. Numa antessala. você não precisa se desculpar. mas aquela mensagem velada o deixava irrequieto. Ofis recebeu um envelope cor púrpura. Depois de passar por entre móveis velhos e empoeirados.ADMIRAÇÃO . Ele sabia que devia dirigir-se a um local previamente designado num horário já estabelecido... Vamos entrar.

Lutaremos até o fim. Se a nova placa tivesse sido encontrada e destruída. Os quatro. voltaram-se para uma espécie de altar que ficava numa das extremidades da sala e se ajoelharam. que tinham posições preestabelecidas. as garantias seriam maiores. adotando o mesmo procedimento de Ofis. Uma grande batalha se aproxima. vale o nome que lá está agora. não podemos abrir mão do que é nosso por direito. Derramou sobre o fogo um líquido vermelho que estava num pequeno recipiente de vidro. que acorreram ao mesmo local.Também receberam o envelope de cor púrpura outras três pessoas. Mas mesmo que isso venha a acontecer. A lei do reino determina que a alteração somente se perfaz com a cerimônia de troca. isso não importa mais. Ele é um funcionário sem expressão. Entrou uma pessoa numa túnica de cor púrpura e acendeu o fogo no altar. Todos só se encontraram no salão. mas Ayamarusa deve ter suas razões para nos dar essas ordens. e pretender com isso justificar uma luta pelo poder. de segundo escalão. Como não foi. e levaremos a morte aos nossos inimigos e a todos aqueles que se interpuserem em nosso caminho rumo ao poder. Nosso Mestre nos determinou que estejamos atentos a uma pessoa em especial. e ao grupo que o cerca: Kadriel. o que significa que o nome que lá está é o meu. Sokárin fugiu ao controle nos seus últimos momentos de vida. Entretanto. O reino passa por um período de transição e ao que tudo indica isso não acontecerá da forma tranquila que esperávamos. e não nos cabe questioTALAL HUSSEINI 103 . o que indicava que os envelopes tinham uma significação de horário diferente para cada uma daquelas pessoas. Portanto. Sua voz reverberou naquele espaço: – Meus caros! Chamei-os aqui porque vocês são os meus colaboradores mais próximos. há possibilidade de já ter sido gravada e alguém a encontrar. Um cheiro férreo espalhou-se pelo ar. A cerimônia da colocação da nova placa na estela não ocorreu. já com suas túnicas e capuzes. tocando a cabeça no chão à sua frente.

Mas temos de estar preparados para enfrentar qualquer batalha. Ele continuou seu discurso: – Nós que aqui estamos somos o centro de tudo o que vai acontecer neste país daqui por diante. Os quatro obedeceram. apenas se viam olhos brilhantes. – Sei que todos estão cientes de suas tarefas. milhões de aliados.ADMIRAÇÃO . e sim segui-las. do condutor da reunião. Tenho estabelecido contatos com pessoas importantes que apoiarão nossa causa. mas que detêm poderes que nos levarão ao domínio. Cada um já tem suas instruções com relação a isso. Nossa missão imediata é encontrar a placa gravada por Sokárin antes de morrer. Ofis desconfiava de algumas pessoas. Nenhum deles sabia quem eram os demais. sem identificá-lo perante os demais: – Você. Podem levantar-se agora. pois tenho mais um assunto a tratar. metálicos. Abaixo de nós há um exército pronto para a batalha. estão forças que mal podemos compreender.ná-las. Acima de nós. Somos os pilares onde se sustentam milhares. Ainda não era o momento de se conhecerem. mas não tinha certeza. Depois que os outros se retiraram. o homem de púrpura dirigiu-se a Ofis vociferando: 104 PAZ GUERREIRA . bastava agarrá-lo. a sugerir argúcia e determinação. permaneça. Depois conversarei com cada um em particular para verificar o andamento dos planos e revisar os detalhes. Seus olhos brilhavam. Ele já sentia o poder próximo de suas mãos. Alguma dúvida? Que bom! As comunicações continuarão sendo efetuadas pelas cores dos envelopes e pelos sinais nos cumprimentos. Ofis ouvia atentamente. Sob o capuz da túnica púrpura. Agora vão! A vitória se aproxima! – e dirigindo-se a Ofis. Talvez depois que estivessem assegurados no poder.

mas eu pensei… – Faça-me uma gentileza: não pense! Limite-se a cumprir as minhas ordens! Eu tenho planos para o Capitão.. Você agiu por conta própria e ainda falhou.. pois não acredita que sua mulher e sua filha estão mortas. porém desacreditado. não – respondeu com tranquilidade. mas não terá a chance de abandonar tão facilmente seu purgatório. novamente em tom calmo: – O primeiro passo para conseguir o que desejamos é assumir nossos erros.. que estava de cabeça baixa – VOCÊ falhou! – gritou a plenos pulmões.. ele voltará para buscar a família.. – Daqui em diante guarde para si suas opiniões estúpidas. que parece TALAL HUSSEINI 105 .. Nesse sentido foi bom você ter falhado. – Não. Quem lhe deu a ordem para matar o Capitão? – Ninguém. Caminhou em torno de Ofis e prosseguiu. é um elemento perigoso. e tenho certeza de que você a cometerá! Mas agora os planos em relação ao Capitão.. Penso que devíamos eliminar logo o Capitão... Nunca mais desobedeça a uma ordem minha nem tome iniciativas que podem prejudicar todos os nossos planos.. Sua próxima falha será a última. deveria ter feito isso você mesmo... vamos destruir a sua essência – olhou novamente para Ofis. O Capitão fugiu ao nosso controle... mas isso não justifica nem a desobediência e nem a incompetência.– Soube que você realizou uma ação contra o Capitão… – Ofis assentiu com a cabeça – Mas ele ainda caminha entre os vivos… – Meus homens falharam. senhor. senhor. – Talvez seja um erro. e terá uma grande surpresa! Viverá. mas morto não nos serve. Ficará destruído. mas em desgraça. Erros não são mais aceitáveis a partir de agora. acabado. será mais útil vivo. Se você não tinha pessoas habilitadas. aproximando-se do seu interlocutor. Mas essa foi sua penúltima falha. Ele serve melhor aos nossos propósitos vivo.

Sonho em ser digno de tal honra e pretendo servir-lhes inexoravelmente. numa espécie de cerimônia. de contato direto com a natureza.. E que possam os deuses saber que já não estou só.. aquele que margeava o rio que cortava a Capital. antes de lançá-la. pensou: “Vai. Kadriel aproveitava para colocar em ordem seus pensamentos. de alguma maneira toque o que de melhor vive nesse rio. Kadriel sentia ter descoberto seu Mestre. Parou defronte à água corrente e permaneceu a olhá-la durante vários minutos. Era um passeio muito bonito. Na beira do rio. queria expandir-se. o que o enchia com um sentimento muito bom.ADMIRAÇÃO K . 18. Como símbolo daquilo que de melhor vive em mim. explodir de alegria. Escolheu o caminho mais longo para voltar para a sua casa. adriel ficara muito impressionado com a experiência que Ravi lhe proporcionara. seu coração parecia muito grande para caber no peito.ter-se animado ao lembrar sua missão e prosseguiu explicando com detalhes como ele deveria proceder dali em diante. para absorver as novas situações que se desencadeavam rapidamente ao seu redor. com carinho. Colheu uma rosa e lançou-a ao rio.” Deixou a bela rosa vermelha cair ao rio e lentamente começar a deslizar em sua suave e delicada correnteza. 106 PAZ GUERREIRA . como gesto de agradecimento por tudo que a vida lhe havia dado e fundamentalmente por ter encontrado um Mestre que pudesse guiá-lo nesta grande vida. segurava a rosa e. muito íntima. rosa... Tenho Mestre e sei que através dele todos os Mestres vivem.

estava mergulhado no rio e tudo se movia devagar. Para a rosa não interessa o mistério do seu destino. observando a rosa. – O que queres de mim? – Não posso pedir algo que ainda não possuis.. – O que pretendes? – Que entendas. e irei. Olhava ao seu redor e via o mundo passar. Não ficou desesperado... Tentou nadar. – Desculpe-me a impertinência... mas a jornada no rio. é a jornada que modifica. – Chegar não é tão importante quanto é caminhar. Percebeu que ele era a rosa. De repente.. – Diz-me aonde devo chegar. Era reconfortante a maciez do rio. – O que queres que eu entenda? – O teu destino. mas era impossível.. – A rosa se transforma no rio.. Kadriel viu uma luz se aproximando e pergunta: – Quem és? A luz respondeu: – Sou a consciência unificadora. – Mas não se descobre o mistério quando se chega a ele? Não devemos chegar a algum lugar para chegar a esse mistério? – O mistério que se encontra no final é o mesmo mistério que se encontra no início e no meio. que o acolhia perfeitamente em sua fluidez. mas diz-me por quê. É a trilha que conta. e o rio na rosa. consciência unificadora. Quando se deu conta.Ajoelhado. na medida em que segue sua jornada. apenas não compreendia o que estava acontecendo. algo estranho aconteceu: Kadriel sentiu que por alguns instantes tudo começou a ficar vermelho e sentia um frio estranho percorrer seu corpo. pois a rosa que saiu de algum ponto não é a mesma de TALAL HUSSEINI 107 .

sem qualquer incidente. uma estrela.. ele também deixou de ser o que era e a cada instante se torna um novo rio.. – Esse grande rio que vês nasceu de um pequeno córrego.. Essa força é a vida que unifica todas as coisas.. Tanto rosa quanto rio compartilham da mesma força invisível da natureza: a vida. A jornada é evolução. aquela luz. que por sua vez nasceu da união de pequenas gotas. e o mistério da evolução transfere-se para a rosa e para o rio a cada instante. a consciência unificadora. Essa força invisível faz crescer e viver os cabelos.hoje. O importante não é a rosa no rio. mas a rosa se transformar em rio. que por sua vez veio da terra. Mais do que isso: sentia-se outra 108 PAZ GUERREIRA . O caminho de volta à cidade transcorreu tranquilamente. que por sua vez foi alimentada por uma força invisível. a grama.. já não era mais o mesmo. Mas isso não era importante.ADMIRAÇÃO . que a cada instante já não é a mesma. Sim. Evolução. que por sua vez nasceram da força invisível da natureza. Kadriel sentia-se leve. A rosa que és nasceu de um agregado de energia. Talvez até tivesse saído do lugar de uma forma mágica. as unhas. transformando-o numa rosa. e o rio se adapta à forma da rosa. nem será a mesma amanhã. e em alguns segundos depois abriu os olhos e viu que nunca havia saído da posição em que estava e do ponto em que se encontrava. A rosa segue o fluxo do rio. que dá sentido a todas elas. Kadriel sentiu-se confuso. um vento. sempre estivera dentro dele. – Porque rosa e rio são um só. Embora nunca tivesse saído do lugar. Por um instante. Quando a rosa começou a fazer parte do rio. Teve a nítida impressão que de alguma forma conhecia aquela luz que vira no rio e que o transportara para dentro d'água. vida e jornada são uma mesma coisa. na beira do rio. um feto.. – E como posso unir coisas que parecem tão distintas? – Através da consciência unificadora.

interesses. separação esta que afastava a possibilidade de a humanidade retomar a trilha divina. Enxergava toda a energia que ele emanava. Ele tinha dificuldade em compreender a separação entre os homens. Ele sabia tantas coisas. enviando a seu cérebro com rapidez um relatório completo e detalhado de tudo: os objetos e a sua disposição. para qualquer desafio. As emoções e pensamentos pairando à volta. preocupações. Seus olhos percorriam constantemente todo o ambiente em que se encontrava. era bastante caloroso e sempre pronto a ajudar a quem quer que fosse. Mas o que mais impressionava Kadriel era a mente de Ravi. seus problemas. liberando uma energia tal que mudasse os rumos da humanidade como era então TALAL HUSSEINI 109 . Sentia o oxigênio espalhar-se por todas as células do seu corpo. Nunca se sentira tão bem. sentia-o encher seus pulmões. A mente de Kadriel trabalhava sem cessar. já via Ravi de modo muito diferente do que quando o conhecera. ao contrário. como no seu sonho com Mulil e o falcão. Não que tudo isso o afetasse. as pessoas presentes.pessoa. Precisava ser restaurada a união mágica. sentia-se preparado para qualquer situação. Agora. que parecia impossível para um ser humano aprendê-las todas em uma única vida. mas para sua surpresa. as cores mais nítidas. ainda que passasse o tempo todo a estudar. De certa forma. Kadriel chegou a pensar que estranharia o ambiente urbano depois do tempo que passou em meio à natureza. ao contrário. através da corrente sanguínea. estar consciente do que ocorria ao seu redor lhe permitia estar mais centrado. o ar mais puro. o caminho da hierarquia branca. era isto que tinha acontecido: Kadriel tivera um nascimento espiritual. Essa energia o fazia parecer mais alto e mais forte do que ele era fisicamente. como se tivesse morrido e nascido de novo. As paisagens lhe pareciam mais belas. ao revés. Suas emoções também pareciam sempre sob o mais perfeito controle. mas isso não o tornava frio.

que pretendem corromper a ordem do universo. Não importavam os porquês. mas sim seu afastamento cada vez maior do que é espiritual e divino. que ao mesmo tempo eram muito belas. ia a pé.. 110 PAZ GUERREIRA . mesmo durante o dia..conhecida. Como sempre.. o que a levará à inafastável destruição. ligados ao raio de luz divina. 19. nas quais poucas pessoas de bem ousariam passar. Sim. belo e justo. Mas por que alguém quereria impedir essa evolução? Por que há na terra seres que não desejam a evolução da humanidade. Este o tratava como a um empregado qualquer.ADMIRAÇÃO O . Seguia um caminho que atravessava certas ruelas obscuras da cidade. Permanecia realizando suas funções – que ninguém sabia dizer ao certo quais eram – junto ao Primeiro Ministro. permitindo que a verdadeira sabedoria voltasse a ser transmitida aos homens. não denotando de modo algum que pudessem ter outras ligações que não as estritamente ligadas ao ministério. mas sim o fato de que há tais seres. ele lutaria até o último fio de suas forças para que isso não acontecesse. para que essas forças obscuras não triunfassem sobre o que é bom.. rompendo o fio que une a humanidade à sua verdadeira essência divina. que ilumina desde o menor dos seres até chegar ao Sol fulgurante e sublime do Deus único e infinito. Kadriel assustava-se com seus próprios pensamentos e com a grandeza dessas ideias. deixando não mais do que cascas vazias. fis deixou o palácio no mesmo horário de todos os dias.

Quando Ofis finalmente pôde ver seu rosto. Qualquer outro teria caído. TALAL HUSSEINI 111 . Tenho provas de que não foi uma morte natural. antes de morrer. tornou-se irônico: – Capitão?! Por que não estou surpreso? – Onde está minha família. que não foi rápido o suficiente para impedir que um soco lhe atingisse a boca. Ofis teve mais sucesso e conseguiu. pressentiu um ataque vindo de um canto escuro. O homem de preto – pela força dos golpes. Seu antebraço foi ferido.. mas respondeu com sarcasmo: – Ninguém acreditará nessa sua absurda teoria da conspiração. logrando derrubar seu oponente. Sentiu seu lábio inferior latejar. e ainda que tivesse facilmente seria desmentida. que era o alvo. Um deles. que seguiu atacando. sem ser atingido. Mas o embate prosseguiu.. Era um golpe duro. seu canalha? Elas estão vivas? – Eu não sei do que você está falando.. já havia agarrado Ofis novamente – Você vai me dizer onde elas estão. Teve tempo apenas de se esquivar parcialmente. Recuou.Quando passava por um beco. cínico. sem dúvida era um homem – arrojou-se novamente contra Ofis. Sentiu sua consciência desvanecer por uma fração de segundo. mas seu peito. – Eu matei os homens que você enviou para me emboscar. – É o que veremos! – ao mesmo tempo em que terminava a frase. que rapidamente colocouse em pé mais uma vez. procurando divisar seu adversário. Sua voz será um eco solitário. Sei que você é responsável pelo desaparecimento de minha mulher e minha filha e imagino que está por trás também da morte do Rei. Desta vez. A adaga veio ao seu encontro num forte golpe desferido de cima para baixo. Você não tem prova alguma de nada. Um traço de sombra passou pelos olhos de Ofis ao ouvir essa frase. – sorriu. foi poupado.. disse seu nome. fazer com que seu oponente largasse a arma. Reagiu.

A menina assistindo. mas este não parecia acusá-los. O segundo golpe veio agudo direto no seu baço. Parecia ter sido com a ponta dos dedos. Aproximou seus lábios do ouvido do Capitão e sussurrou: – Você quer saber como elas morreram? O Capitão tentou desvencilhar-se em vão.ADMIRAÇÃO . A mão dura de Ofis o atingiu no fígado. Sua alma me pertence. parecia feito de madeira. Você é um morto-vivo..Ofis desvencilhou-se do Capitão e o atingiu com um violento soco na ponta do queixo. Pensou ter ouvido Ofis rir enquanto virava as costas. O Capitão dobrou-se. Mas o coração o mantinha no combate. aparar um chute que vinha em direção ao seu rosto. perdido.. ao contrário... Somente o ódio e a adrenalina o mantinham acordado. Este caiu sobre as próprias pernas. O Capitão estava caído de cara na terra vermelha. O Capitão. fruto de muitos anos de treinamento. Sua visão embaçou. Conseguiu. Depois a criança. Uma testada em seu nariz terminou de escurecê-la. ainda conseguia manter um fio de consciência de seus movimentos. Não vou perder mais tempo com você. Atingiu Ofis com alguns socos. Um último chute ainda lhe extraiu alguns dentes. Extraímos qualquer coisa que você pudesse ter de bom em seu coração.. Ofis o segurava forte.. Apenas fazia debater-se. Tente viver sem esperança. Não caiu porque uma tenaz o agarrou pelo pescoço. vagando pelo mundo. Seu algoz continuava: – Primeiro foi sua mulher. mesmo grogue. O Capitão cambaleou quando outros dois golpes bem ajustados o levaram ao chão. 112 PAZ GUERREIRA . Mesmo combalido. Elas estão esperando por você em casa! Ao terminar a frase desferiu outro soco no fígado do Capitão. Derrubou seu oponente e lançouse sobre ele. pressionando sua traqueia. Também não conseguia falar pois sua respiração era obstruída pelos dedos firmes de Ofis. já se ressentia das pancadas. soltando ao mesmo tempo seu pescoço.

. principalmente aquele de onde retirara a faca. em atitude desesperada fechar com as mãos os ferimentos que sangravam sem parar. já não opunha tanta resistência. caída no chão. Sua esposa estava sentada no chão. Ofis parecia ter finalmente se cansado e esmorecia. largando-a ao lado. O Capitão o perseguiu pelas ruas. O Capitão sentia que a situação virava a seu favor. eram as últimas convulsões. Somente então percebeu que era a sua própria casa. Sim. O Capitão sorriu por trás do semblante desfigurado. e uma grande faca enterrada no peito sobre o coração. seus pensamentos confusos. A pobre mulher ainda estava viva.. Saudade. e se movimentar o suficiente para segui-lo de longe.. recuperou-se acertando alguns golpes sobre o outro. reacenderam suas expectativas de encontrá-las.. coberta de sangue.. mas somente lograva enxergar o suficiente para ver sua silhueta. mas sua vista ficou um tanto embaçada.. Ofis conseguiu espetá-lo com algo pontiagudo. Levantou-se e arrojou-se sobre Ofis. derrubando-o. Queria ver sua esposa e filha. Lá estava a sua filha. seu corpo mais mole. Ofis tratou de fugir. Precisava reunir suas últimas forças.O curioso era que aquelas últimas palavras de Ofis ao contrário de o devastar. com as costas apoiadas sobre a parede. Não era um ferimento grave. Viu. A luta recrudesceu. Tentava. que parecia batido.. Quando dominava o combate. à distância. elas o estavam esperando em casa. Nada falou. O Capitão. mas apenas por alguns segundos.. com as emoções absolutamente fora de controle pela situação que o envolvia. Ofis entrar numa casa. Tinha vários cortes sobre todo o tórax.. mas ainda pôde voltar seus olhos para o marido e em seguida dirigi-los para o outro canto da sala.. O Capitão. apaTALAL HUSSEINI 113 . Alguns minutos depois chegou à porta e entrou atabalhoadamente. com a mente obnubilada pela substância que a picada certamente lhe injetara. O Capitão jogou-se de joelhos ao seu lado e num impulso reflexo retirou a faca.

Era apenas um sopro de vida. sabia que não havia mais auxílio possível. Foi até lá e evadiu-se. Por que não o haviam matado? O oficial responsável pelo cerco o reconhecera de sua aparição na janela e gritou: – Capitão! Sabemos que o senhor está aí dentro. E elas não estavam mais com ele. O Capitão sabia que seria suspeito. Seus olhos de criança. encostando o ouvido em seu peito. As lágrimas verteram novamente. contra o peito e soluçava. como exigia a sua profissão.ADMIRAÇÃO . Houve um chamado da vizinhança devido ao grande barulho proveniente de sua casa. mas ele as reteve. chorando copiosamente. Sua casa possuía uma saída subterrânea que ele mesmo escavara até uma rua paralela. Na sua percepção de infante. Muitos soldados de infantaria e arqueiros estavam de prontidão. Precisava se controlar. mas ainda vivia. fechou os olhos e expirou. inerte. 114 PAZ GUERREIRA . caíra estupidamente numa armadilha. E sua família fora vítima desse pesadelo cruel. Ela fora vítima da mesma arma que sua mãe.nhou-a nos braços. precisava escapar. Foi até a janela e verificou que não era um blefe. O Capitão ainda estava confuso. Sim. do modo que lhe permitiam as dores do corpo e da alma. A entrada ficava atrás de um armário no porão. pensar em como contornar aquela situação.. O Capitão sempre fora precavido. Foi quando ouviu os chamados dos soldados do lado de fora. Só havia uma maneira: fugir. como que mais a procurar tranquilizá-lo do que a pedir auxílio. pensariam que ele era o responsável pelas mortes. não teria como provar sua inocência.... Se fosse preso. avisando que a casa estava cercada e que iriam entrar. Está tudo bem? Foi relatada situação de violência. marejados. Conseguiu sorrir. O pai a abraçava.. olhavam com ternura para o pai..

Quando os soldados adentraram à casa, ele já estava fora de alcance. Todos ficaram horrorizados com a chacina. O Capitão enlouquecera... e assassinara sua família. A notícia correu rápido. Em poucas horas, era o homem mais procurado da Cidade. O Conselho dos Anciãos, ao qual cabiam as responsabilidades do reino até a abertura da sucessão, declarou imediatamente sua exoneração da Guarda Real. De soldado real, o Capitão passava a foragido da justiça.

20.
adriel foi almoçar com Haggi. Sabia da viagem que este faria ao interior do País e não queria deixar de lhe desejar boa sorte. Haggi ficara muito tempo fora, mas Kadriel o considerava um bom amigo e excelente cavalheiro. O encontro foi numa discreta tasca no bairro antigo da Capital. Esse local consistia num emaranhado de ruelas e becos que formavam um labirinto impossível de decifrar para quem não o conhecesse. Mas os dois jovens se haviam praticamente criado naquele local. Guiavam-se ali melhor do que a grande maioria das pessoas. O local a que se dirigiram ficava numa dessas ruas. A entrada era abaixo do nível da rua – era necessário descer uns quatro degraus para ganhar o interior. O proprietário era um velho conhecido dos dois, chamado Ragatis. Era um tipo rosado, possuidor de uma enorme barriga, cultivada à base de muito vinho e muita comida. Desde que conheciam aquele local, o que fazia muitos anos, aparentava ter a mesma idade. Sempre usava um avental surrado e camisa de mangas curtas, não importava o quão rigoroso fosse o inverno. Careca, com grandes orelhas, nariz de batata, olhos pequenos e perspicazes, sorriso franco e mãos gordas, quando viu Kadriel chegar, deu apenas um sorriso e indicou
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com um rápido movimento de olhos a mesa em que Haggi o esperava. Quando Kadriel sentou-se, o taverneiro perguntou-lhes: – O de sempre? Diante do assentimento, trouxe uma jarra de vinho da casa e um prato de petiscos. – E, então, meu amigo, soube que está de viagem marcada para o interior? – Sim, o Chefe do Conselho dos Anciãos me envia para assegurar a colaboração das lideranças regionais para com o sucessor. O equilíbrio conseguido pelo Imperador Gur Medhavin deve ser mantido. – Concordo que isso seria muito bom, mas tenho minhas dúvidas quanto à tranquilidade desta sucessão – lançou Kadriel. – Sim, também percebo certas tensões no ar. – O que pensa o Primeiro-Ministro? – Adaran é um homem difícil de decifrar... – Mas vocês são companheiros de espada na Real Sociedade... E para um homem observador como você não deve ser difícil detectar suas intenções. – Adaran sabe perseguir seus objetivos, é tenaz e determinado para conseguir o que quer. – Ele quer o reino? – Por mais que seu discurso seja desinteressado, creio que ele não desgostaria de assumir o trono, já que gosta do poder. Diria que ele pensa nessa possibilidade, e não hesitaria em comprar os apoios necessários para isso com privilégios, mordomias e presentes. Os chefes do interior são terreno propício para esse tipo de ação, pois querem manter seus domínios a qualquer preço. – E se a sucessão não transcorresse de forma pacífica? – O que poderia suceder? O nome de sucessor está na placa e ponto final, não há o que discutir.
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– Todos sabem que Sokárin solicitou uma nova placa, o que indica que pretendia trocar o nome do sucessor. – Mas não trocou, não houve cerimônia de substituição da placa... – Em contrapartida, a nova placa não foi encontrada, o que significa que poderia já estar gravada. Isso indicaria que o nome que lá está não reflete a vontade de Sokárin. A troca, a cerimônia, é apenas uma formalidade. – Kadriel, nós nos conhecemos há muito tempo. Você está querendo me dizer alguma coisa? – Sim, Haggi, na verdade estou. Mas isso não pode sair desta mesa... O outro concordou com a cabeça. – O nome que estaria ou que está na nova placa é o meu. Haggi não conseguiu esconder sua surpresa. Os dois amigos se olharam, em silêncio, por alguns momentos. Kadriel esperou que Haggi falasse: – Como você pode saber disso? – O próprio Sokárin me falou, antes de morrer. Disse-lhe que não estava preparado para tal encargo, mas ele me pediu que aceitasse pois sabia melhor do que eu quem estava ou não preparado... – Mas por que ele não trocou a placa? – Ao que parece, não teve tempo. Ou a idade o traiu ou sua morte foi antecipada... Não duvido disso. – Mas, quem...? – Muitas pessoas poderiam ter interesse em abreviar a vida do Rei, mas o maior suspeito está com seu nome gravado na placa atual... Só saberemos no dia da abertura. – Sempre intuí que você seria um grande governante um dia, só não imaginei que pudesse ser tão cedo. Você é jovem, haveria muitas resistências... Mas de qualquer modo parece que isso não importa mais, a lei estabelece que vale o nome da estela.
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– Mas nós sabemos que esse não é o nome que Sokárin desejava. E ao menos uma pessoa neste mundo sabe que sua vontade era que eu assumisse o governo, mesmo contra a minha vontade: eu. – Confesso que agora seu tom de voz deixou-me preocupado, Kadriel. Você não pensa em questionar o sucessor? O silêncio de Kadriel foi bastante eloquente. Haggi passou a mão esquerda sobre o olho, descendo até o queixo e soltando a respiração, num gesto que lhe era peculiar em momentos de grande preocupação. Conhecia o amigo e sabia que ele falava sério. Fazendo um sinal positivo com a cabeça, como se tivesse entendido, e, franzindo o cenho, prosseguiu: – E o que pretende fazer? – Primeiramente, encontrar a placa que estava em poder de Sokárin. Ele mesmo me disse que eu deveria lutar se fosse preciso. A placa com meu nome justificaria de alguma maneira essa luta. Ainda que não perante a lei, mas ao menos perante o povo. Tenho a convicção de que Sokárin a gravou, caso contrário não a teria escondido. – Na sua linha de raciocínio, o que garante que as mesmas pessoas que assassinaram o Rei não teriam destruído a placa? – Garantir...? Nada. Mas a justiça não tem garantias entre os homens. Não passa de um ridículo arremedo da justiça dos deuses. Mas isso não nos afasta do dever de buscá-la... – e mudando de direção a conversa, emendou: – preciso saber de uma coisa, Haggi. O diplomata permaneceu a fitá-lo com olhar inquisidor. Kadriel prosseguiu: – Se você está comigo nesta jornada, até o fim, custe o que custar. Haggi não hesitou nenhum instante em responder, sustentando com firmeza o olhar forte de Kadriel: – Sim, meu amigo, pode contar comigo. Até o fim. Custe o que custar.
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queria mostrar sua nova amiga: – Olá Kadriel.. – Claro. quero lhe apresentar uma pessoa. e até então único. Bakar fez festa com seu amigo – na verdade. eu adoraria passar mais tempo com você. pele lisa. encontro. ele não era desajeitado. TALAL HUSSEINI 119 .. onde encontrariam Kadriel.. Bakar foi em sua direção. claro. Bakar? – No ministério. Após o chá. Aliás. sentou-se. Lá chegando. Só não derrubou pessoas pelo caminho porque. foram até a sala em que Bakar trabalhava. se quiser vir comigo. com meu amigo Kadriel. os dois caminharam pelo parque. Você precisa conhecê-lo. qual fosse um rinoceronte de verdade. Apesar do tamanho. Estava linda! Cabelos soltos sobre os ombros. Mirta continuou: – Um chá? – Sim. Bakar! Não quer se sentar um pouco? Ruborizado com o inesperado elogio. Estava encantado desde o primeiro. em direção ao escritório do ministério. Bakar não via a hora de seu encontro com Mirta.. é muito boa pessoa. Avistou-a no local onde haviam combinado. Sonhara com ela nas três noites que se haviam passado desde então. Finalmente chegou perto de Mirta. Mas desta vez a emoção o fazia parecer um rinoceronte solto num parque. – Onde você trabalha. que sorria discretamente e o recebeu com afeto: – Como você está elegante. vou encontrá-lo daqui a pouco.Os dois se cumprimentaram de modo fraterno e deixaram o local separadamente. todos se afastavam à medida que ele se aproximava.

mas não com desdém. Ao contrário. Tivemos uma simpatia mútua e imediata. Sua primeira impressão foi de que havia bondade naquele olhar. Conhecia seu amigo e já notara que ele estava completamente apaixonado pela 120 PAZ GUERREIRA .. – Não.? – fez uma expressão facial..ADMIRAÇÃO . claro.. Acho Bakar bondoso e engraçado. – Vocês estão namorando? Ela deu uma gargalhada. A moça era realmente muito bonita. você ia dizendo como o conheceu. Ao vislumbrar a bela morena. só isso. Então ele insistiu: – você sabe. teve de disfarçar sua surpresa ao ver tão formosa dama em companhia de Bakar. Acabamos de nos conhecer. como querendo que ela completasse a frase. com extrema espontaneidade: – Não..Kadriel voltou-se.. Kadriel não pôde deixar de reparar nos seus olhos negros... acabamos de nos conhecer.. devido à sua timidez. Kadriel teve uma sensação estranha diante daquelas palavras. deixe que ele lhe conte.. mas Mirta se manteve em silêncio.. acabamos de tomar um chá.. basta perguntar. continue. – Sim. – Se você quiser saber alguma coisa.. mas não era comum vê-lo acompanhado. que notando seu desconforto procurou deixá-la à vontade: – Você quer beber alguma coisa? – Não. Não que ele não merecesse. em circunstâncias engraçadas. mas pretendo ser apenas sua amiga.. A moça foi discreta. – ela interrompeu a frase... – Sim. Bakar se entreteve com algumas pessoas que o chamaram. obrigada.. – Mas vocês dois estão. deixando Mirta a sós com Kadriel. – e tentando manter a conversa – faz tempo que você conhece Bakar? – Para dizer a verdade. como se não quisesse perder o tempo de seu interlocutor com assuntos pessoais.

Era um homem de certa idade. Haggi observava todo o ambiente. Ela era realmente muito bonita.. apesar de parecer bem mais jovem do que realmente era. cabelos grisalhos. o que só um observador mais atento poderia ver. Tarin cuidara de seu pai e agora cuidava de Haggi. trazendo as soluções antes que Haggi sequer pensasse que tinha um desejo. e sua disposição nas mesas.moça. pararam numa estalagem. conversavam em voz alta e gargalhavam. junto com Tarin. Discretamente. cujas palavras traçavam o mais fiel retrato do país e dos anseios da população. pois já se fazia noite. A meio caminho da cidade que ficava sob o domínio de Nakan. Daquela posição. se instalaram numa mesa no fundo do salão. Estava lotada.. de costas para a parede e de frente para a porta de entrada. Já havia providenciado tudo o que seria necessário para a viagem por terra. Mas algo dentro de Kadriel gostara daquelas palavras. mas profundo. líder da Aliança dos Doze. Antecipava suas necessidades. seu empregado e braço direito. que preferia a possibilidade de durante o trajeto encontrar-se com pessoas do povo. Não lhe deixava faltar nada. sem nenhuma ruga. foram até a taverna que funcionava no mesmo local. Viajavam a cavalo. Pele parda. Os barcos não agradavam a Haggi. mas com vestimentas comuns. Rapidamente havia contado quantas pessoas havia. quais TALAL HUSSEINI H 121 . 21. olhar discreto. Muitas pessoas bebiam. o que podia não ser muito bom. aggi partira cedo. que não denotavam a origem nobre de Haggi. Ela não parecia ter os mesmos sentimentos em relação a ele. Depois de instalados. Não era vantajoso chamar muito a atenção naquelas estradas.

Usava uma camisa sem mangas. Eram. Reparou que o estalajadeiro também notou a presença dos homens.ADMIRAÇÃO . o que é bom para a venda. Ambos. Imediatamente sabia que causariam algum tipo de problema. Haggi tomava sossegado uma sopa acompanhada de vinho e percebeu a entrada de três homens de feição sisuda. pois portavam arcos e aljavas. 122 PAZ GUERREIRA . prendendo-a pela pata. Haggi observava o estalajadeiro. que os homens que chegaram não viam. por estar procurando atender a todos. onde estava sentado um jovem corpulento. A presa não morre e nem tem sua pele danificada. que Haggi identificou como sendo um ferreiro ou algo do gênero. e todas as informações que lhe pudessem ser úteis. perscrutava a tudo e a todos. quais poderiam ser perigosos. pelas roupas e tipo físico. como ele. Foram em direção a uma das mesas. caçadores. Tal habilidade. de ferro. que era para ele um hábito. sem dúvida. nos pulsos largos braceletes de couro. automaticamente. Do lado esquerdo da cinta. para uma eventualidade. um homem de meia idade que não estava bebendo álcool e que.estavam já alterados pelo vinho. Haggi. fora fruto de muito treinamento. geralmente pela pisada do animal – a armadilha está escondida sob folhas – se fecha fortemente sobre a presa. O homem estava suado e com aspecto cansado. As deduções do diplomata foram confirmadas quando aquele que parecia ser o líder dos caçadores jogou sobre a mesa uma dessas armadilhas de caça que consistem numa boca dentada. Os braços queimados denotavam exposição constante ao calor. que é forçada a ficar na posição aberta e quando acionado um dispositivo de molas no seu centro. entretanto. que imediatamente se quebra com o impacto. bem como traziam os ombros guarnecidos por peles de animais abatidos. mas feliz por ver seus lucros indo de vento em popa. levava uma adaga rústica. permaneceram impassíveis. avaliou que objetos naquele local poderiam transformar-se em armas. eis que a mesa a ocultava.

Foi o que um dos acompanhantes do caçador pretendeu fazer. – ao proferir essa ofensa já se levantou. O ferreiro respondeu com tranquilidade: – Estou dizendo que jamais coloquei minhas mãos nessa peça. Suas amigas aí atrás é que poderiam responder melhor. – Como não consertou? Você trocou o sistema de molas há duas semanas e já não está funcionando. – Penso que não estou sendo bem claro.– Este conserto que você fez está uma porcaria! A mola não tem pressão. – Vai ser preciso bem mais do que vocês três para colocar o meu pescoço aí. O ferreiro permaneceu impassível. – Já disse que. limitando-se a analisar o objeto com os olhos. mas não foi esta. não foi por mim. todos já haviam percebido a altercação e voltavam suas atenções para aquela mesa. se isso foi consertado por alguém. TALAL HUSSEINI 123 . – Não queremos problemas. Se você não quiser consertar esta armadilha vai terminar com o seu pescoço no meio dela. – De fato você me pagou pelo conserto de uma armadilha.. os animais escapam. apenas quero que seja realizado o serviço pelo qual paguei. Se você é ou não mentiroso não posso afirmar pois não o conheço bem. – Você está me chamando de mentiroso?! A essa altura. Muitos se levantaram.. mas este o conteve. inclusive nem se utiliza nesta região. aproximando a mão da faca. que em seguida se voltaram novamente para a sua comida: – Eu não consertei essa armadilha – respondeu secamente. Veja: este sistema de molas não é o que eu utilizo. esperando uma reação mais dura.

Várias opiniões começaram a surgir por entre os frequentadores. a ponto de logo se iniciarem as vias de fato.. Entrementes. mas dificilmente se percebia o autor de cada intervenção: – Se fez um serviço mal feito. penso em como podemos todos ganhar com isso. – Esses caçadores são muito arrogantes. não pude deixar de ouvir sua interessante discussão. – interveio outro. as partes envolvidas já estavam na iminência do confronto físico. tem de arrumar! – disse alguém.ADMIRAÇÃO . Mas os contendores não compartilhavam dessa aprovação.O clima estava bem quente. – enquanto os dois homens pensavam em suas pala124 PAZ GUERREIRA . – Esse ferreiro faz tudo mal feito. fazendo alguns segundos de silêncio para então retomar as discussões. provavelmente estão mentindo. O que importa é que a discussão já se vai acalorando. Deve ter estragado a armadilha. – Senhores. mas não penso simplesmente em resolver problemas.. Todos o olharam.. Foi quando Haggi resolveu interferir. – E posso saber quem é o senhor – interveio o caçador.. É melhor o senhor voltar para a sua mesa e continuar sua refeição se não quiser arrumar problemas para si mesmo.. o que seria desagradável para o meu jantar e para o estabelecimento. – Quem com ferro fere. Desta vez foi o ferreiro que intercedeu: – Creio que podemos resolver muito bem nossos problemas.. Haggi não se abalou com a ameaça e prosseguiu em tom sereno: – É claro que vocês podem resolver seus problemas. Um dia é da caça e outro do caçador – proferiu um homem que já estava embriagado.. O proprietário aprovava suas palavras com a cabeça. – Quem eu sou é o que menos importa neste momento.. a respeito de armadilhas de caça. Haggi percebeu a apreensão do proprietário do estabelecimento. com ferro será ferido.

foi esta que ele consertou. mas Haggi se antecipou: – Também conheço de armadilhas. Neste ponto o caçador nada dizia.. – E o senhor faz essa substituição. Sustentou seu ponto de vista. que tem muitas peças para consertar. Por que não as traz todas para nosso amigo ferreiro consertar? – Espere um momento. Na minha opinião deveria ser substituído por outro mais eficiente. já sem tanta convicção: – Conheço cada uma das minhas armadilhas.. eu não trabalho de graça..vras. Cobrarei cada conserto e para esse indivíduo – olhou com desdém para o caçador – o preço é mais alto.. amigo. porque ele será um excelente cliente. eis que venho de uma família de caçadores. – o ferreiro assentiu. voltando-se para o ferreiro: – o senhor é capaz de consertar este tipo de armadilha? – Evidente que sim. Mas entendo que quem tem tantas armadilhas semelhantes possa cometer um engano inocente em relação a isso.. Este sistema de molas é antiquado. e que a armadilha deixada para conserto seja outra? O homem pareceu apanhado de surpresa por aquela pergunta. Haggi o interpelou: – o senhor utiliza muitas armadilhas como esta? O homem não hesitou em responder. – Então. suponho que muitas já estejam precisando de reparos e manutenção. Havia caído na armadilha de Haggi. – Você vai cobrar o preço justo. Não só consertar como melhorá-la. é possível que o senhor tenha-se enganado. E as terá sempre. e de fato este tipo de mola não é utilizado nesta região.. com certo ar de gabação: – É claro! Nosso grupo caça muito. Mais vale ganhar menos e sempre do que ganhar muito apenas uma vez – decretou Haggi TALAL HUSSEINI 125 . Haggi continuou.. Temos algumas dezenas destas. De todas essas armadilhas.. O ferreiro já ia responder alguma coisa. perde muito rapidamente a força.

Mas depois de conseguir caça. Quando você voltar para pagar pelo primeiro conserto. Desta vez foi o caçador a ponderar. você trará mais cinco armadilhas para consertar. já as primeiras precisarão de novos reparos. não é? Eis o que vamos fazer. com ares de quem tinha razão. 126 PAZ GUERREIRA . sem cobrar nada – o ferreiro se retesou. – Viu só? – disse o ferreiro. mas paga bem mais do que nestas redondezas. Estas sempre precisarão de reparos. deixando seus respectivos amigos de lado: – Primeiramente. você pagará por esse serviço. e a partir daí o pagamento será no preço normal. O ferreiro lhe cobrará um décimo a menos no valor dos serviços. Você consertará cinco armadilhas dele. são vários trabalhos de conserto a menos. Mostre-lhe isto – estendeu um pequeno pedaço de pergaminho com um símbolo desenhado – e a partir daí os negócios com ele ficam por sua conta. É um ciclo que não termina. mas manteve sua palavra de não interromper – agora. em face do adiantamento. Haggi chamou os dois homens num canto e lhes pediu que viessem apenas os dois. se não quiserem segui-la. As peles conseguidas você vai negociar com um amigo meu. me prometam que escutarão minha proposta até o final. Você caçará mais com armadilhas boas.com autoridade. já em tom mais moderado: – Mas o problema é que eu não tenho como pagar por todos esses consertos. sendo metade ao deixar as armadilhas e a outra metade ao retirá-las. Na próxima vez. – Com armadilhas ruins você caça bem menos.. certo? Se ele não caça e não tem dinheiro. acrescendo um décimo ao seu valor em retribuição à confiança e ao crédito que o ferreiro lhe deu. Todos ganham.ADMIRAÇÃO . deixará mais cinco armadilhas para consertar.. Já aviso que ele só trabalha com material de primeira. pagando adiantado desta vez. sem interrupções – os dois homens concordaram – depois. tomo meu rumo e o problema será de vocês. pois quando as últimas estiverem consertadas.

da política. Como sei que vocês não são idiotas. não esperando dela soluções. Haggi conquistara. Os três homens ainda permaneceram algumas horas conversando. mas para ter uma correta leitura dos problemas. dois aliados. que já contabilizava os prejuízos que a briga poderia causar. TALAL HUSSEINI 127 . Foi o ferreiro que tentou. brindaram e continuaram conversando. Por mais que tentassem pensar em alguma falha naquele plano. não conseguiam. ao menos um homem reconhecia: o dono do estabelecimento. Todos que conheciam sua fama de sovina estranharam quando ele ofereceu uma rodada por conta da casa. que olhavam à distância. conquistara três aliados.Os dois homens se olharam. Na verdade. como velhos amigos. mas tinham lealdade. Aproveitava essas oportunidades para perquirir sobre o que o povo pensava dos governantes. mas eu ficarei sabendo e ele não mais conseguirá vender sua caça para o meu contato. Não eram nobres. Os caçadores e os amigos do ferreiro. a ponto de lhe confiar seus mais recônditos segredos. exceto Haggi. naquela noite. não tinham exércitos. olharam para Haggi. já esperando por uma resposta: – Mas e se ele não aparecer mais para me pagar o primeiro conserto? – Então você terá o prejuízo desse serviço. creio que o plano funcionará – os dois concordaram – então vamos selar este acordo com um brinde? Os três se cumprimentaram. Homens leais são sempre importantes nos momentos difíceis. das necessidades. Todos. Estavam desejosos de uma boa briga. Para um governante é importante ouvir a população. não entendiam o que se passava. pois ainda que ninguém mais reconhecesse o valor daquela intervenção. dois amigos. Não restava senão continuar a se divertir. Então. todo o ciclo que descrevi ficaria corrompido e ninguém sairia ganhando. mas suas expectativas foram frustradas pelo estranho. Haggi tinha este dom: fazer com que pessoas que acabara de conhecer se sentissem à vontade com ele. Só idiotas fariam isso.

que resta de difícil entendimento para os homens. Ao contrário. observou-a durante longos minutos. um soberano procura preparar para sucedê-lo seus filhos de sangue. apesar de ser descendente direto de um dos maiores dirigentes da história recente. Não poderá. Mas muitas vezes o Destino intervém para subverter isso que em nossa visão limitada parece ser ordem. Mas mesmo em um governo de filósofos. capacidade e solidez moral. conseguiu compartilhar a admiração que Ravi demonstrava 128 PAZ GUERREIRA . ora com chibatadas. pois já nos esquecemos o que é isso. então. a sucessão não se dá por linhagem sanguínea e sim por retidão.ADMIRAÇÃO K . Ravi respondeu com a mesma naturalidade de sempre. Às vezes. Se força essa situação. Os meandros do poder não exerciam sobre ele nenhum apelo. resolveu perguntar por que seu pai não sucedera Gur Medhavin e depois o próprio Ravi. Ravi parou diante de uma flor. que seria então Rei a esta altura. como já experimentamos em nosso País. a despeito de esmerada educação. aos quais poderá dar exemplos próximos e práticos de como governar. e como ganhavam intimidade a cada dia. adriel tinha uma curiosidade histórica sobre Ravi.22. lança o caos. Mas pobre do cavaleiro que se deixa conduzir pelo cavalo ao invés de conduzi-lo. suceder. Perder-se-á do caminho ou será jogado ao chão onde perecerá. Tratava o assunto sem qualquer exaltação. Kadriel não ousou interromper aquele momento de contemplação. não falemos num governo de sábios. ora com carícias. em prol de uma ordem superior. Normalmente. aquele que deveria suceder se deixa dominar por sua personalidade e fica suscetível a vícios inaceitáveis num governante. A personalidade é como um cavalo que deve ser domado. Foi nesse tom que Ravi respondeu: – Kadriel.

aquele menino de apenas dezenove anos não teria resistido às pressões. ele sabia que devia liderar e todos sabiam que ele devia ser o líder. Por coincidência. como se não quisesse perder nem um detalhe. De uma situação de inferioridade. Inicialmente Gur Medhavin relutou. numa batalha decisiva. lhe mostrou que esse era o caminho e o demoveu das suas resistências. Num período de um ano. sabe ver. Gur assumiu a liderança dos soldados. com a visão que só os grandes dirigentes têm. E Kadriel também os vivenciava naquele relato: – Foi então que o Imperador surpreendeu ainda mais a todos. De forma natural. o que àquela altura parecia impossível. Quase pôde vislumbrar a perfeição que pode conter uma pétala. mas o Imperador. inclusive ao próprio Gur: nomeou-o seu sucessor e afastou-se do trono ainda em vida. Mesmo aqueles que por convicção ou por inveja haviam se manifestado contrariamente à sua nomeação tiveram de reconhecer sua capacidade. Não fosse a firmeza de caráter e o prestígio com que contava o Imperador. Era um militar nato. por destino ou por arranjos do Universo – escolha o que preferir –.. Mas até a sua morte o Imperador se manteve ao lado TALAL HUSSEINI 129 .. Kadriel ouvia atentamente. ao olhar. Ravi retomou suas palavras como se não as tivesse largado: – Meu avô foi um homem precoce na vida e na morte. O Imperador o nomeou General de Campo. todos os oficiais superiores de sua unidade sucumbiram. Ravi relatava como se tivesse presenciado os fatos. se dizia um soldado e não um governante. Ninguém precisou dizer nenhuma palavra. Foi um soldado no período das guerras incessantes que assolaram nosso País. ele obteve uma vitória estrondosa. Foi um daqueles instantes que só acontecem em combate. tornou favorável nossa situação na guerra. Quando isso ocorreu. Como uma flor transcende os sentidos para despertar percepções naquele que. Esta é uma característica dos grandes homens: conquistar o impossível.por uma simples flor. tinha apenas dezoito anos de idade.

Deixar o trono para um menino. Mais do que isso. fundou templos. que dependeria de um tutor. onde se poderiam preparar aqueles que fossem exercer cargos públicos. como disse. No futuro. no domínio do medo. Os olhos de Kadriel brilhavam ao pensar que tudo aquilo era possível. como seu Mestre e conselheiro. se já havia existido. o Império ressurgiria. Gur pacificou os inimigos já sem. E a paz foi conquistada da maneira mais inusitada possível. Kadriel conseguia ver a admiração com que Ravi se referia ao Imperador Gur Medhavin e partilhava dessa admiração. Deu suporte à cultura e à ciência. na vivência moral. Mas Gur decretou que a partir de então não haveria mais Império e sim um Reino. Morreu aos trinta e três anos. precisar sequer lutar. quando meu pai tinha apenas oito e não poderia sucedê-lo. por menor que fosse. ciente de que a maior curiosidade de Kadriel não havia sido respondida. 130 PAZ GUERREIRA . permitindo a liberdade de religiões.do jovem. da maneira guerreira. Durante esse período de paz. no final. promoveu a educação. Gur era consciente. Teve muitas realizações. quando as condições se apresentassem novamente. No período de guerra. Nomeou como seu sucessor um homem de sua extrema confiança: o pai de Sokárin. Sim. Gur Medhavin não perdeu uma única batalha. deu acesso a alimentos a todos com uma agricultura eficiente. Gur Medhavin não foi prematuro somente na vida. mas também na morte. calcada no senso de justiça. Ravi continuou. Consolidou o apoio das lideranças regionais. criando bibliotecas e universidades. Gur Medhavin ainda enfrentaria mais sete anos de guerra em seu governo e depois mais sete anos de paz. poderia voltar a existir. Fundou uma escola de dirigentes.ADMIRAÇÃO . exceto a feitiçaria. criando a Aliança dos Doze. que eram os dirigentes das doze maiores cidades do Império. na importância de falar a verdade. pois. ainda que ele não se lembrasse: – Tudo isso foi elaborado num período curto. seria inconcebível e jogaria por terra todas as conquistas.

o que denunciava um bom soco. com o mesmo entusiasmo de seu anfitrião – eu é que fico honrado em ser recebido na sua corte. Ivis irá acompanhá-lo – concluiu. indicando uma bela moça que aguardava em silêncio o fim da conversa. – Nakan – respondeu Haggi. Você sabe. fora da Capital. A mensagem. Como estão as coisas na principal cidade da aliança? Vejo que seu bom gosto para as coisas belas da vida não se perdeu – acrescentou. Sempre passamos momentos agradáveis quando nos encontramos. cabelos grisalhos nas têmporas. Absorvido por aquelas palavras. Nakan era um homem de seus cinquenta e tantos anos. Fiquei feliz quando chegou o mensageiro anunciando sua visita. Estava pronto para a batalha. é difícil encontrar conversas refinadas. mãos largas. mas deixemos para tratar disso após o jantar. não incluía o motivo da visita.partilhava do sonho de reconquistar aquelas épocas gloriosas. e era exatamente isso que o legitimava. entretanto. Ao chegar no palácio de Nakan. Haggi pôde sentir sua força quando o cumprimentou com um aperto de mãos. assumia definitivamente o seu destino. olhos negros despertos. fazendo referência a TALAL HUSSEINI 131 . Enquanto alguns empregados. como Gur. Kadriel. juntamente com Tarin. não queria o poder. aspecto militar. reforçado pela outra mão agarrando com vigor o pulso de Haggi. Somente quem não deseja o poder para si saberá usá-lo em benefício da justiça. Entendia por que Sokárin o havia escolhido e por que lhe ordenara lutar pelo poder. Haggi foi recebido com todas as honras de um grande líder. o próprio Nakan veio ao seu encontro para dar as boas vindas. tomavam conta de seus pertences. Estava em boa forma física. – Haggi Eitan! Há quanto tempo não nos vemos. Há um bom banho quente preparado para você nos seus aposentos.

ADMIRAÇÃO . pois a viagem para cá não é das mais confortáveis. Vejo também que ele não poderia ter escolhido melhor. Disparou. – Até mais tarde. deixando atrás de si um rastro inebriante de perfume de flores. sabendo ler com precisão o corpo e a psiquê femininos. Então poderemos conversar melhor. além de bela. Mas teremos tempo para isso nos próximos dias. lépida. Ivis não possuía qualquer traço de vulgaridade ou lascívia. Sei que ele quer agradar-me e sou grato por isso. respondeu como um cavalheiro: – Ivis. com um sorriso.Ivis – vejo também que você mantém sua boa forma. pois você é. – É sempre uma honra combater com alguém hábil. apesar do encantamento que o tomou. descanse da viagem. já dissipava o cansaço do diplomata. Espero termos tempo para um combate com sabres. era linda e discreta. Ivis. preparada com ervas aromáticas. Aquele aroma. Vou aceitar de bom grado a oferta do banho. mesmo oferecendo entregar-se ao visitante. que era um emérito apreciador do sexo oposto. – Agradeço-lhe desde logo a hospitalidade. Olhou para Haggi com seus lindos olhos cor de mel. que lhe indicou seu quarto. principalmente nas mulheres: sorrir com os olhos. pelos corredores. junto ao qual havia uma casa de banho com uma banheira esfumaçante. então. pediu a Haggi que a acompanhasse. desde que fosse por sua própria vontade e não por ordens de Nakan. cabelos ruivos cacheados. Ivis fechou a porta atrás de si. Esta é uma característica admirável nas pessoas. Mandarei chamá-lo para o jantar. tez branca. Ela sorria com os olhos. por si só. o que é 132 PAZ GUERREIRA . e declarou com naturalidade: – Nakan me ordenou que cuidasse muito bem do senhor – disse aproximando-se de Haggi. Por aqui já não tenho adversários. discreta. Por hora. Deixou-se conduzir pela moça. Haggi. você é belíssima! Muito me agradaria sua companhia.

. Ivis retirou-se. Apenas lhe peço uma coisa: me chame de Haggi. Nakan pode providenciar outra companhia. fechando atrás de si a porta. – Com licença. perfume de rosas. sentando-se na cama. ganhara pontos no seu coração. Normalmente teria aceitado de imediato a proposta de uma mulher como ela. – Sim. Haggi soltou a respiração de uma só vez. ao lado do qual havia um lugar que lhe estava reservado. apesar de estar acostumado a muitas cortes. Haggi. E ao não usurpar seu corpo. – Não. Haggi consentiu com a cabeça. Mais alguns segundos e não teria resistido. não de senhor. senhor. Aproximou-se sorridente do governador. Ao deparar-se com o número de cortesãos. de vários países. Sentia-se confortável no palácio de Nakan. por favor – interrompeu Haggi – espero que você me dê a honra de sentar-se ao meu lado no jantar. Ela deveria ser uma conquista plena. então? Se não o agrado. Os serviçais haviam deixado sobre a cama uma túnica para ser usada durante o jantar. Tem os mais lindos olhos em que um homem poderia querer mergulhar. mas aquela moça era especial... Quando você estiver ao meu lado sem falar em Nakan e sem pensar nas ordens que ele lhe deu. Desceu para o salão em que seria servido o jantar.uma qualidade adorável.. ele reconhecera isso desde quando a vira no saguão. Quer que o deixe. Haggi a vestiu. TALAL HUSSEINI 133 . sim. O diplomata afundou-se na banheira para apaziguar seu ânimo. Agora estou de fato muito cansado e vou aproveitar estes momentos para me recompor. Ivis era simplesmente maravilhosa. quer dizer.. silhueta digna das princesas. percebeu que não seria fácil ter os momentos de privacidade com Nakan de que precisaria para tratar dos assuntos de estado.. tenho a certeza de que nos entenderemos muito bem.

Dançou conforme a música: – Isso é um desafio? Alguma vez você já me venceu com o sabre. A visita é oficial. Nakan alçou sua taça em direção a ela. Quem sabe mais de uma. você sabe que não estou aqui somente para me divertir e passear. Ele me pediu que verificasse como as doze cidades estão vivendo a expectativa da sucessão e que assegurasse seu apoio e união em torno do novo rei. Haggi aproveitou o assunto de lutas. Nakan? – Não me lembro é de você alguma vez ter me vencido. Sabe que gosto de realizar sozinho minhas conquistas amorosas. Haggi entendeu de imediato que o governador não queria tratar de assuntos de estado naquele momento. sei que você está ansioso para resolver as questões políticas que o trouxeram até aqui.. Veja – disse.? Como bom diplomata. determinada pelo Senador Rohel.– Ivis não lhe agradou. mas você é um general de um exército de brinquedo. Nakan.. mas agora há muitos ouvidos atentos por perto. Haggi devolveu o sorriso. querendo sondar as possibilidades bélicas da Aliança: – Meu nobre Nakan. – Nakan.? – Ivis me agrada muito. você sabe que lhe guardo muito respeito.ADMIRAÇÃO . dentre as quais se encontrava Ivis. – Haggi. Deixemos essas conversas para outro momento. olhando em direção a um grupo de moças. Ela olhou na direção dos observadores e sorriu. – Quem falou em amor? Estou falando de companhia e diversão. – Se sua luta estiver tão ruim quanto sua memória não terei muita dificuldade. é 134 PAZ GUERREIRA ... Mas você me conhece. pensando consigo mesmo o quão encantadora ela era. quem sabe durante uma luta de sabres amanhã. meu caro Haggi? Posso providenciar outra moça para cuidar de você em sua estada. Muito bem treinado.

Mas Haggi entendera a mensagem: um guerreiro seria sempre um guerreiro. puxando para perto de si um pequeno gato que estava ao seu lado. Mas como saber se no fragor da luta real se irão portar como verdadeiros guerreiros? Nakan. respondeu na linguagem do jovem – com diplomacia –.verdade.. com um levantar de sobrancelhas. atado por uma coleira: – Haggi. Os dois riram. que não demorou: – Você acha que por ter sido criado entre ovelhas. pelo contrário. é adulado pelas cortesãs e criado junto aos gatos domésticos e animais de companhia. você vê este filhote de leão? Foi retirado da selva recém-nascido. mordendo e arranhando. compreendendo de imediato aonde Haggi queria chegar. nervoso. pronto para a batalha. TALAL HUSSEINI 135 . acariciando a cabeça do gatinho. De mulheres e de lutas. Sem ela. Resta saber de quem será a mão que ele irá morder. procurava livrar-se da contenção. Aqui no palácio. brincando com as ovelhas – parou de falar.. Pensava consigo mesmo que ter aquele leão do seu lado seria muito melhor do que tê-lo contra si. sem a força necessária. não se ofendeu. Falaram dos lugares em comum que tinham visitado. perderá sua natureza de leão? – nesse momento o pequeno felídeo conseguiu finalmente encaixar uma boa mordida na mão de Nakan. por caçadores que abateram sua mãe e mo deram de presente. Falaram de história e de filosofia. que. mostrando a Haggi o pequeno corte. bastando que ela se apresentasse.. não teria qualquer chance de sobrevivência lá fora. enfim. – Você tem razão: um leão será sempre um leão.. que o soltou. Haggi aguardou a conclusão. e passaram a conversar amenidades. de todos os assuntos possíveis para desviar da sucessão. para quebrar o rumo sério que a conversa tomara. meu caro. as mãos que o retinham.

A multidão tomava todas as ruas dos arredores. A população permanecia do lado de fora. na grande praça em frente ao palácio.ADMIRAÇÃO .. 23. na qualidade de Chefe do Conselho dos Anciãos. Em alguns momentos. Aqueles cujas possibilidades eram reais experimentavam verdadeira tensão. o Primeiro-Ministro Adaran. os nobres e algumas pessoas convidadas. não conseguia disfarçar a impaciência. Golan. a cerimônia era presidida pelo Senador Rohel. na parte mais elevada do salão. filho de Sokárin. com os olhos. A ansiedade incontida teria fim. Golan. onde ficava a Pedra. era o mais nervoso. Próximos a ele. que lhe sorriu. Dentro do salão real..Pediu licença ao governador e foi em direção a Ivis. na Pedra dos Mil Reis. imóveis em seus trajes negros que impunham sóbrio respeito. e de planejamento e conluio para outros. os ministros de estado e funcionários de alto escalão. os demais senadores e alguns guardas reais estrategicamente espalhados. que finalmente era chegado. Era um momento ímpar. Mas logo era retomado o silêncio da expectativa. a fim de que se fizesse silêncio: 136 PAZ GUERREIRA . o nome do sucessor de Sokárin. O Senador Rohel tomou a palavra. O burburinho era grande. Seria exposto. acenando para o público ali presente. Só adentravam ao salão real os senadores. T odo o Reino vivia a agitação do dia da abertura da placa. O País passara por um período de luto e reflexão para alguns. Acompanhado por seus acólitos. pequenos grupos ensaiavam um coro com nome de sua preferência.

e aproximar-se de si mesmo. TALAL HUSSEINI 137 . Mas o simples fato de ter ele solicitado outra placa significa de forma muito clara uma coisa: o nome que aí está não era o do seu desejo – dando um passo atrás o ancião voltou à sua posição original. população que preenche as ruas fora deste palácio a aguardar o nome de seu novo soberano. Como disse. somente o silêncio respeitoso.– Autoridades aqui presentes. que é a visão direta das coisas. O apoio incondicional de todos será imprescindível para o futuro deste país. o pesado encargo de governar. de um verdadeiro rei. servidores do Estado. Exige intuição. despida da intermediação dos sentidos. Passaram-se alguns segundos. abnegação. Fez uma pausa e prosseguiu: – Governar com sabedoria é tarefa das mais difíceis. o nome não importa tanto quanto a confiança em que o escolhido assumirá as vestes de um verdadeiro estadista. damas e cavalheiros. Afastarse da personalidade traiçoeira e aproximar-se do espírito clarividente. cidadãos das mais respeitadas famílias do reino. Como é de praxe. antes da abertura. nem gravada e nem destruída. fica aberta a palavra aos ministros de estado e aos senadores que dela queiram fazer uso. Dedicar-se ao Estado e ao povo demanda afastar-se de si mesmo. até que um velho senador deu um passo adiante e educadamente aguardou que o presidente da cerimônia lhe outorgasse a palavra: – Ainda não foi encontrada a placa solicitada por Sokárin. Depois da abertura. mas um encargo. Exige denodo. é chegado o momento por que todos tanto esperamos: a revelação da placa de pedra que guarda o nome daquele que irá dirigir este Reino daqui por diante. Confiamos em nosso monarca Sokárin para ter sabido escolher aquele que reunirá essas condições. renúncia à vida pessoal. Qual é o nome que ali está é o que menos importa agora! Porque a partir do instante em que for revelado assumirá não apenas um título.

Sokárin requereu outra placa. Do lado de fora. nem placa alguma foi encontrada. O vozerio tomava conta do ambiente. pois era certo o que todos haviam dito até aquele momento. já sem praticamente pedir licença ao presidente da cerimônia. que já dava mostras de impaciência – no nosso sistema sucessório. Outro senador pediu a palavra. não sabemos qual seria o nome da sua vontade. a situação que se apresentara lhe dava forças. Kadriel. mas era o único de que dispunham. devemos esquecer que Sokárin a solicitou. mas já circulavam rumores sobre o debate que se travava no interior do palácio. Entendo que sua manifestação foi intempestiva. – Discordo – intercedeu outro.ADMIRAÇÃO . As opiniões formavam duas facções de mesmo peso numérico. De fato. a discussão se acirrara. como esta não foi encontrada. sua vontade é determinante. Assim sendo. tendo por único fim lançar a dúvida e a discórdia em torno do nosso novo soberano. devemos prestar nosso integral apoio ao novo Rei. O futuro próximo não seria pa138 PAZ GUERREIRA . e iniciou sua intervenção mal esperando a licença do Senador Rohel: – O nobre colega deverá desculpar-me. mas sabemos que por certo não é o nome que aí está! Estava criado o debate. pensava Rohel. Dentro. mantinha-se sereno. devemos esquecer que ela um dia existiu. pois não ficava completamente desprovido de argumentos na luta que pretendia entabular. mas não comungo da sua opinião. o Rei é quem escolhe quem deverá substituí-lo. possivelmente o nome que ali estava não era o dos desejos de Sokárin. Já se fazia difícil conter a audiência. o qual se reproduzia nas ruas. De algum modo. seja ele quem for. com as devidas proporções retóricas. o povo não entendia o porquê de ainda não ser conhecido o nome do novo Rei. Não havia como voltar atrás.Um burburinho se fez sentir no salão. Nenhum outro nome foi cogitado. que assistia à cerimônia ao lado de Ravi. Tinha de pensar numa forma de apaziguar os ânimos.

discernimento e conhecimentos profundos de oratória.cífico. prosseguimos com a abertura. conseguiu recompor o silêncio e pôde se manifestar com tranquilidade: – Senhores. com o intuito de pôr fim à pendenga. por favor. o branco do negro. Mas nada disso importa mais. uma vez que antes disso muita coisa poderia acontecer: poderia voltar atrás em sua opinião. essa vontade só se consolidaria com a efetiva substituição da placa.. Por outro lado. Mas não o fez. Assim sendo.. E mais. naquele momento. mas justificaria o porvir. quanto no mérito dessas expressões. Na mente e no coração de Kadriel não havia lugar para o cinza. Nossas leis são muito claras ao dizer que eventual alteração somente será convalidada com a cerimônia de substituição da placa conduzida pessoal e privativamente pelo Rei. Talvez lhe tenha faltado tempo para isso. É fato que ter o Rei Sokárin solicitado outra placa poderia indicar a vontade de alterar o nome que aí está. Tal cerimônia não teve lugar. O mais sábio que podemos fazer neste momento é prosseguir com esta cerimônia. por exemplo. senhores. não se sabe se chegou mesmo a ser gravada. todos que aqui se manifestaram o fizeram com muita propriedade. Quem tomou novamente a palavra. prestando nosso suporte ao novo monarca. nem outra. Respeitabilíssimo. se ninguém mais tiver nenhum pronunciamento relevante. demonstrando cultura. Nem uma coisa. tanto na forma de se expressar. sacou um anel da sua mão esquerda e outro da direita. O único nome que temos para a condução do nosso reino é o que está velado por essa chapa de metal. Como ninguém se manifestasse. Sei que alguém poderia argumentar que nesse caso o Rei deveria devolver a placa aos sacerdotes para que fosse destruída. não há sequer sinal dessa nova placa. foi o Senador Rohel. assim como esse mesmo tempo pode lhe ter faltado para fazer a substituição da placa. Rohel aproximou-se da estela. ele conseguia distinguir perfeitamente. este último era o anel de TALAL HUSSEINI 139 .

. Os anéis eram as chaves que reunidas serviriam para remover a placa de metal que recobria a placa de pedra com o nome gravado. Foi trazido um pé-de-cabra. Nas ruas. O vulcão. mas o velho Anthar vivia. De fato. havia uma resistência. que guardava silêncio mortal – revelou a todos em voz alta: Adaran. com o qual se forçou a retirada da chapa de metal. viam-se muitos braços apontando na direção de Anthar. quase negra. Rohel inseriu os dois anéis nas posições corretas. e usurpava o momento de glória de Adaran. dera um sinal de vida. Era uma situação inusitada e um tanto desconfortável. e voltou a tremer por mais alguns segundos. Os anéis finalmente giraram..Sokárin que ficara sob sua custódia até aquele dia e que logo passaria às mãos do Rei. Os mais supersticiosos se apressavam em imaginar que o fantasma de Sokárin segurava a placa por não desejar aquele nome. Foi nesse instante que todos tiveram um sobressalto. Todos acorreram às janelas do salão. fazendo-se ouvir um forte estrondo. 140 PAZ GUERREIRA . A agitação entre os presentes e nas ruas foi grande. Talvez o tempo que a placa ali estivera tivesse gerado uma oxidação do metal que agora o prendia. parou. Uma coluna de fumaça cinza escura. se elevava aos céus. mas com o esforço algo desagradável ocorreu: a placa de pedra com o nome rachou ao meio. A chapa finalmente cedeu. Para desfazer a tensão criada. Rohel prosseguiu como se nada tivesse acontecido – o que era difícil. Não era uma erupção. O chão tremeu por alguns segundos. pois o estalo da pedra quebrando foi ouvido em todo o salão.ADMIRAÇÃO . mas eles não giraram como deveriam. Dois guardas reais se aproximaram a um sinal do Senador. mas a chapa continuava presa. inerte havia muito tempo.

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até mesmo porque não havia quem saquear. – fez uma pausa e prosseguiu – quero que você saia da cidade pelo lado oeste. para um discípulo. em direção ao deserto. va no deserto.24. nem sequer em pensamento. com os víveres que ele pudesse carregar. não questionou. sugiro que você comece os preparativos para a viagem. Não tenho mais ninguém a quem possa confiá-la. Seu laço de confiança com Montuhotep era absoluto. Por isso. Apenas lembre-se de tudo que já aprendeu. perder a trilha é o pior dos castigos. Uma missão de um homem só. nem mesmo os bandos de saqueadores nômades. senão para descansar. Agora. durante sete dias. só conseguiria caminhar três dias. Quatro dias viajando não deixariam margem para o retorno. preciso que você realize uma tarefa de extrema importância. Mulil obedeceu sem pestanejar. E. TALAL HUSSEINI M ulil tinha-se desenvolvido muito como discípulo desde a pro- 143 . Mas Mulil não pôs isso em questão. Todos sabiam que o deserto era imenso e voraz naquela direção. sempre perseguindo o Sol poente. quando o velho Mestre lhe deu uma missão que parecia impossível: – Mulil. Ninguém se aventurava naquele sítio inóspito. um passo fora da trilha e você poderá nunca mais reencontrá-la. na qual enfrentara a tempestade de areia como um falcão. o deserto lhe dirá. – Mais alguma coisa que devo saber? – Se você estiver à altura do desafio. Simplesmente assentiu com a cabeça e perguntou: – Quando parto? – Amanhã. ao raiar do dia. considerando outros três para voltar. E não pare. exceto você. E mais uma coisa: o deserto é caprichoso.

Aparentemente não lhe faz estrago. ao nada. na manhã seguinte devia começar o percurso de volta. Lançou-se ao deserto. Caminhou sem maiores problemas durante os três primeiros dias. A dúvida assolou Mulil. Se quisesse sobreviver. Mulil não teve nenhuma dúvida. Lançou-se sem hesitação ao desafio.FORÇA .. Mulil repetia para si mesmo sempre uma máxima: confiar nos Mestres até a morte. pois não considerava justo arrastar consigo mais nenhuma pessoa ou animal. Outro talvez tivesse medo. De qualquer modo. mas as incertezas eram muitas. O que Montuhotep pedia levaria certamente à morte.Outra pessoa talvez tivesse feito mais perguntas. Na terceira noite. A única forma de impedir a queda do rochedo é evitar que a água o atinja. ao deserto profundo. Mulil partiu só e a pé. Era uma jornada ao desconhecido.. Agora lhe era dada a oportunidade de praticar esse ensinamento. Mulil lutava para isto: evitar que a dúvida o atingisse. Outro discípulo talvez tivesse dúvidas. Dali em diante seria impossível completar o caminho de retorno. Mulil estava ciente desse processo. Em contrapartida. mas cria frinchas na pedra. seguir adiante significava ultrapassar o ponto sem volta. A tarefa era sua. qual a vaga atinge o rochedo. Mas era o seu Mestre quem pedia. Dúvida. Do que já aprendera. foi tomado por uma certa agitação. Tinha então a dura tarefa de silenciar seus pensamentos e dormir. Sentia-se mais desgastado pelas 144 PAZ GUERREIRA . a fraqueza da mente. Sua mente de desejos começou a questioná-lo. Mulil não teve medo. Resolveu deixar a decisão para o dia seguinte ao acordar. precisava descansar. enfraquece paulatinamente a estrutura do sólido para em algum momento derrubá-lo. O castigo que duas noites e três dias no deserto já lhe haviam imposto até então era uma simples amostra do que estaria por vir. Mulil nada perguntou.

na sua maioria pesadelos. precisava decidir: prosseguir para a morte certa ou retornar e encarar a decepção de seu Mestre. Mulil estava à mercê de sua mente inferior. O ar gélido o despertou.. que se dava em poucos minutos. À noite. Sem perceber. mas naquela noite não conseguia aplicálas. Tornou ainda mais rígido o racionamento dos seus víveres e principalmente da água. deixando às suas costas o Sol que nascia. Mulil já havia aprendido algumas técnicas básicas do estado onírico.. Quantas vezes crescera quando se lançara ao abismo? Este era o maior dos abismos com que já se deparara. Ficava encurralado num pesadelo. enquanto com o Sol a pino. a temperatura caía quase ao ponto de congelamento da água. apanhou seus apetrechos e marchou sobre o deserto. Foi uma noite de muitos sonhos. Sem mais cogitar. conseguia trocar de sonho e momentos depois se encontrava novamente na mesma situação. Saiu debaixo das suas mantas para o frio da noite desértica. mas parou de comê-lo para evitar que a sede o castigasse mais ainda.últimas horas de pensamentos do que por toda a sua caminhada. mas sim a mudança brusca. Foi então que retomando os ensinamentos de seu Mestre parou de pensar. O extremo calor e o extremo frio não eram o pior. deixou a decisão para o coração. Ainda tinha pão. situações confusas que não permitiam saída. o calor era muito maior do que o do sangue humano enquanto circula nas veias. Não se voltou para ver o céu de azul claro sobre o horizonte dourado. Partiu em direção à noite. Mais se arrastava do que caminhava em direção ao TALAL HUSSEINI 145 . E seu grande coração lhe respondeu com uma única palavra que ficou ecoando em sua cabeça: abismo. como voluntariamente trocar de sonho ou fazer o sonho parar. Acordou exausto antes do Sol. que acabou por completo no quinto dia de jornada. como se andando para oeste rápido o bastante pudesse fazer o tempo parar.

pois a noite caíra.Sol que se punha. umas de frente para as outras. estava na sua mente. ele falhara. Depois da prova do falcão na tempestade de areia. prostrado. Ali passara por provas que lhe permitiriam um elevado grau de 146 PAZ GUERREIRA . para meditar. durante longos minutos. pois não chegava nunca. mais para a sua direita. a salvação. que estava mais longe do que lhe parecera inicialmente. fez um corte no antebraço e bebeu seu próprio sangue. Seus lábios pareciam ter escamas. Mulil vislumbrara algumas palmeiras.. De repente. Suas últimas forças eram consumidas rapidamente. Ou seriam horas? Já não sabia. Sobrevivera extraindo água do estômago do camelo. Miragem. Foi quando se deu conta de que estava mais perto do que calculara. Era o fim. basta afastar-se alguns passos da trilha para perdê-la para sempre. Adiava um pouco a desidratação completa. O deserto pregava peças e pregou-lhe a maior de todas. No deserto.FORÇA . Lembrou-se então de algo que um beduíno certa vez lhe ensinara para sobreviver – ao menos um pouco mais – no deserto. Mulil não tinha camelo. Montuhotep o levara a um templo em que passaria por uma primeira grande sala com várias esfinges enfileiradas dos dois lados. bebendo seu sangue e utilizando a gordura de suas corcovas. Juntou o ânimo que lhe restava e correu como pôde em direção àquele oásis. Deixou-se cair de joelhos sobre a areia macia e ali permaneceu. para morrer com dignidade e não chorando em desespero como aqueles sem trilha. Mulil se afastara bastante. O homem lhe relatara uma situação parecida com esta em que ora se encontrava. devido à agrura da ausência de líquido.. o oásis evaporou diante dos seus olhos. Sua pele estava toda rachada pelo Sol. Subitamente. que sangravam ao menor movimento. Vegetação significava água. Tirou sua faca. Colocou-se sentado sobre os joelhos. como lhe tinha indicado seu Mestre. e Mulil saíra da trilha. nem guia. Seu corpo chegava ao limite. Ele já tentava apenas manter-se sob controle.

Sentiu-se melhor polarizando e vendo as reais condições que aquele corpo ainda tinha para levá-lo mais adiante naquela missão. escolha o mais difícil. Ele era novamente um falcão.domínio do seu corpo físico. Alçou voo para a noite infinita. à terceira sala. viu um caminho dourado. passava por um gigantesco portal. Sim. mas sua missão naquele momento era na terra. era possível prosseguir. Essa meditação recompôs Mulil. formado por dois obeliscos encimados por bandeiras flamejantes. TALAL HUSSEINI 147 . Foi com essa confiança que Mulil caiu no sono. e ensinavam a controlar as emoções – o que lhes permitia também dominar os animais –. o céu ainda tinha a luz das estrelas. Viu também seu corpo ajoelhado na areia ao longe e soube então como retomar a trilha. Conseguiu então infundir uma nova carga de vitalidade no seu corpo alquebrado. Era curioso como sempre que ficava entre o céu e a terra preferia o céu. O chão parecia um imenso oceano negro. Resgatou então aquele conhecimento para relevar as dores que seu corpo ora lhe impunha. que lhe permitiam administrar com eficiência a energia que o animava. que era na verdade um pátio aberto. evitando que elas o fizessem se sentir destruído antes de a destruição de fato chegar. muito nítido. onde os sacerdotes faziam as curas. Mas ainda restava um problema grave: saíra da trilha e não sabia como reencontrá-la. Era uma oportunidade a poucos dada no deserto. Ademais. Após a sala com as esfinges. apenas acreditava que o levaria a algum lugar com base na confiança que depositava em Montuhotep. Passou-lhe a ideia de não mais voltar. O repouso da noite completaria a recuperação. Em meio ao negrume da areia do deserto. nem mesmo sabia para onde essa trilha o levaria. Passava. Bastava seguir os ensinamentos da tradição: sempre que estiver em dúvida sobre que caminho seguir. inclusive pelo sonho. ainda em posição de meditação. então. Mesmo na escuridão.

pois seus recursos de simples discípulo haviam chegado ao fim. Continuou caminhando o quanto pôde. mas num dado momento suas forças o abandonaram por completo. Sem nenhuma dúvida. Caiu com o rosto sobre a areia escaldante. Tais locais eram muito perigosos. exceto de um. E conseguiu encontrar a trilha. Pensou que seu ritmo de viagem não fora intenso o bastante. Mulil prosseguiu por ali. humilde.Quando amanheceu o dia. Mulil analisou o local em que estava. Usou suas últimas forças para agradecer pela feliz encarnação que tivera. ali era um habitat profícuo para milhares de escorpiões. Montuhotep lhe dissera para prosseguir durante sete dias. Havia então algumas áreas em que esse mar salgado ficava petrificado. Areia de todos os lados. ali representada pelo fogo do deserto. Enfrentara com bravura os limites humanos e a força da natureza. além do calor insuportável e do perigo de rompimento da superfície salgada – o que poderia tragar uma pessoa ou animal de forma muito mais rápida e fatal do que areia movediça –. pois. Era o sétimo dia. Curvou-se. mas agora não restava mais nada. Todos sabiam que o deserto fora mar em outras épocas. aquele era o caminho mais difícil. Talvez por se ter perdido teve seu itinerário atrasado.FORÇA . pois refletia de forma intensa a luz do Sol. Pediu que alguém pudesse ter êxito nesta empreitada em que falhara. formando uma crosta de sal que tornava ainda mais forte o calor. 148 PAZ GUERREIRA . As meditações para concentrar as energias também não podiam mais ajudá-lo. O expediente de beber o sangue era um paliativo que só o enfraqueceria naquela altura. Sem mais digressões. E pediu para novamente nascer discípulo na sua próxima encarnação. e reconheceu a soberania dos deuses. com a oportunidade de ter tido um Mestre. E pela primeira vez em suas orações pediu. mas ele não via absolutamente nada nem ninguém.

que se desfez logo TALAL HUSSEINI K 149 . só podia significar o fim de seu reinado que não foi. perguntando de maneira seca. Precisava falar com Ravi. Ela trajava uma roupa provocante. não poderemos conversar agora. nada mais. pois a consternação foi geral. povo ou nobreza. Não havia placa. adriel acordou com o coração disparado. Aqueles sonhos tinham de ter algum significado. que chegava à sua casa naquele momento. alguma relação com sua vida. O Chefe do Conselho dos Anciãos passou então o cetro real a Adaran e pronto. para abandonar a cidade e escapar à cólera do vulcão. Kadriel começou desanimado esse dia.. Hoje era o dia seguinte. Como aqui é meu caminho. Kadriel mal reparou.25. pois estou de saída. Todos aguardavam os primeiros decretos do novo monarca. Até um certo pânico se iniciou com pessoas deixando suas casas com o que podiam. encontrando-o já de saída do lado de fora. O País tem novo rei. Adaran era o novo rei. Sokárin não fizera a troca. Não foi possível reunir novamente a assistência para o encerramento oficial da coroação.. Nem conversou direito com Mirta. Mas foi bom que você veio – Mirta abriu um sorriso. Aprontou-se rapidamente e saiu. É certo que a atividade de Anthar diluíra a atenção de todos. o que não lhe era peculiar: – O que faz aqui. O que Mulil estava buscando? Por que seu Mestre o mandara para a morte? Que presságio lúgubre era aquele? Sim. – Infelizmente. Mirta? – Bakar convidou-me para a reunião de logo mais. aclamado em cerimônia pública após a abertura da placa. que salientava as formas de seu corpo. resolvi passar um pouco antes. para podermos conversar em particular. como de hábito.

é claro. O homem caído estava pálido. condição típica da baixa de pressão sanguínea causada pelo rompimento de tendões. Ela falava mansamente com o ferido. o ginete deste despencou. ouviu-se o estalido seco de algo se deslocando ou quebrando. tranquilizando-o e dizendo que não era nada de grave. O homem gritava de dor. 150 PAZ GUERREIRA . que tinha os olhos fixos nos longos cachos da médica. Kadriel já havia chegado ao local mas só fez observar. mal conseguindo esconder seu ar de desapontamento.FORÇA . no qual Kadriel nem sequer reparou. Kadriel ouviu gritos que eram de um homem cujo cavalo havia disparado. – respondeu Mirta. a moça desmontou e aproximou-se para verificar o estado do caído e ajudá-lo se possível. As pessoas que estavam à volta nada faziam. O ombro estava deslocado. Quando se dirigia à casa de Ravi.. Quando ela já estava bem próxima do cavalo disparado. o que projetava todo o braço para frente. Sua voz era suave e. mas a amazona era bastante hábil e a distância não encurtava.. por favor.que Kadriel completou sua frase: – preciso que você avise Bakar de que a reunião deverá ser adiada para o período da tarde. Imediatamente. Nesse momento. Ao tocar o solo. diminuiu o ritmo e parou mais adiante. Quando Kadriel tomou um cavalo para perseguir o conjunto descontrolado e tentar pará-lo. Peça a ele que avise aos demais. aliviado do peso que o atormentava. de fato. Kadriel apertou o passo de sua cavalgadura. explicava que era médica e que iria verificar as condições da lesão. saindo e deixando a moça plantada no meio da rua. uma mulher já havia tomado a dianteira com o mesmo intuito. O cavalo responsável pela queda. uma vez que a situação estava totalmente controlada pela mulher. – Sim. tranquilizou não só a vítima da queda como também Kadriel.

e o homem agradecido. Nesse período deve evitar grandes esforços com esse braço... Movia o braço para um lado e outro. sorriso luminoso de dentes perfeitos. Após certificar-se de que seu paciente inesperado estava mesmo bem. e de como tivera a certeza de que a reencontraria. a menina se tornara uma bela mulher. Balbuciou: – Mas você é. que já estava bem mais tranquilo.. entornado por cabelos negros. Depois disso. Logo. se estendia a mão. recolocou o braço no lugar. seus arranjos mentais começaram a fornecerlhe uma identidade. enquanto com a outra segurava o pulso do homem. – Dhara – ela completou – e você é Kadriel! Kadriel estava obtendo relativo êxito em não fazer cara de parvo. O impasse não deve ter durado TALAL HUSSEINI 151 . pensava reconhecê-los. que ficou mudo ao cruzarem olhares..Ao mesmo tempo em que conversava com o paciente. Kadriel pensou estar diante da mulher de sua vida. Aqueles olhos verdes. estará novo.. preciso e suave. como que para se convencer de que estava realmente consertado. Lembrou-se do dia em que se despediram. de pele clara. voltando-se para Kadriel. Não sabia como reagir. Sem ver seu rosto. quebrou a hipnose em que o haviam induzido e pôde ver todo o seu rosto. A médica entregou ao homem algumas ervas e lhe recomendou: – Faça com isto uma infusão e aplique no local durante três dias. Ao menos seus cabelos o eram. o que dizer. já a achava linda. ainda crianças. mas finalmente ali estava Dhara. Finalmente. diante dele. Kadriel observara tudo atentamente. embasbacado com a desenvoltura daquela moça. levantou-se. Esse dia demorou a chegar. mas estava obviamente desajeitado. e sua voz.. se a abraçava. Num movimento rápido. a moça tocou de leve o ombro deslocado com a ponta dos dedos de uma mão. Kadriel estava deveras impressionado.

dado o seu acesso difícil e as suas condições hostis. percebendo a situação. onde se banhava. vivera toda uma vida ao lado dela naquele instante.. A baixa temperatura lhe fazia doer até os ossos. Foi Dhara quem. numa união terna. quebrou o gelo: – Será que uma velha amiga não merece ao menos um abraço? Não foi necessário repetir a pergunta.FORÇA C . Ainda que realmente não houvesse trânsito de pessoas. Suas feridas psíquicas eram graves. ustara-lhe muito chegar até lá.. Ele mantinha por lá uma cabana de caça com suprimentos e materiais necessários para passar ali um bom tempo. Tinha agora certeza do que antes apenas ousara supor: estava diante da mulher da sua vida. Gostava da energia da água. Sentia ódio dos assassinos. Havia o inconveniente de não poder se aquecer com o fogo. Aquela área montanhosa não recebia visitantes. Quanto durou aquele abraço? Provavelmente nenhum dos dois saberia dizer. Sentia culpa por ter envolvido sua família em questões de estado. o que resultara na sua morte. 26. Nas proximidades havia um grande lago de água gelada. o Capitão não queria correr nenhum risco de ser encontrado antes de estar completamente recuperado. para não chamar a atenção de ninguém com a fumaça. Alimentava sua sanidade com a vingança. Mas o Capitão de certa maneira queria impor a si mesmo aquele sofrimento. mas agora o Capitão se recuperava das suas mazelas físicas. mas ele.mais do que alguns segundos. Mas estava no 152 PAZ GUERREIRA . Sentia raiva de si mesmo por ter cedido à coação. Kadriel tampouco sabia o que Dhara pensava naquele momento. Kadriel estreitou-a nos braços.. Sua mente e seu corpo reagiam.. que lhe pareceram séculos.

Apenas a certeza de que acabaria com todos que tiveram alguma relação com a morte de sua esposa e filha o mantinha lúcido.. que provavelmente seria o seu último. Foi então em direção a Ivis. uma das mulheres do grupo se antecipou: G TALAL HUSSEINI 153 . acompanhados de risinhos e cochichos. do qual acordaria a qualquer momento. 27.limiar da loucura. o que a tornou ainda mais atraente para o diplomata. no seu lugar. Ele mesmo sabia que só poderia partir para a ação quando conseguisse aquietar seus pensamentos. Antes que ela respondesse. tivesse optado por interromper sua vida. Às vezes.. Mas seu sono era tão agitado quanto seus dias. depois os mudava. entilmente. mas dizendo que tinha agora outros assuntos para tratar. ele mesmo não tinha absoluta certeza se não enlouquecera. voltava aos anteriores. não. traçava roteiros. um lobo que caça solitário sob a luz errante da noite. criava outros.. Contava os dias para esse momento de glória. que lhe estendeu a mão dizendo: – Você prometeu sentar-se comigo durante o jantar. sob os olhares marotos das suas companheiras. Haggi voltou-se para o líder da Aliança das Doze Cidades.. Mas o Capitão. agradecendo sua hospitalidade e os ensinamentos sobre o espírito guerreiro dos leões. Ivis enrubesceu. Planejava. percebia que ainda estava naquele purgatório psicológico. se não estava vivendo um pesadelo tenebroso. Talvez alguma outra pessoa. Sempre que acordava. Sua mente era um turbilhão. E isso ocorreria quando também seu corpo estivesse forte o bastante para a batalha que esperava por ele.

Ele aproximou seus lábios dos dela. onde podiam respirar o ar fresco da noite e ficar mais distantes dos olhares e da música. pois elas queriam devorá-lo vivo – disse sorrindo. Beberam algumas taças de vinho. A companhia de Ivis realmente agradava a Haggi e a recíproca era verdadeira. restam os olhares e sorrisos inibidos. que discretamente observava seus movimentos. não o suficiente para inebriar-se. o que me deixará pouco tempo para conversas agradáveis como a que preciso ter com Ivis. das quais por sinal você foi objeto. com uma agenda oficial muito cheia. veio aquele momento de silêncio. Esse último tre- 154 PAZ GUERREIRA . Não é sempre que temos a honra da companhia de homens refinados. em que toda a animada conversa cessa. de fato. – É claro que muito me agradaria estar entre tão formosas damas. parou quando faltavam aproximadamente dez por cento do percurso. Os dois saíram para um balcão. Havia uma empatia entre eles. pois riam e pareciam ter uma intimidade de fazer inveja a muitos casais.FORÇA . sob o olhar atento de Nakan. – Obrigada por me salvar – sussurrou-lhe a moça quando já se afastavam – não aguentava mais as conversas banais. que já lhe pegara a mão estendida. – Devo ficar preocupado? – Creio que eu deveria. Agora. Haggi sentia que Ivis. por ela mesma e não por determinação de Nakan ou de quem quer que fosse. mas minha estada na cidade será de apenas algumas semanas. sei que entenderão – concluiu alçando para fora do grupo Ivis. estava com ele. É o momento do beijo. Portanto. De repente.– Sente-se você aqui conosco. O jovem casal sentou-se a uma mesa mais no canto da sala. Quem os visse poderia pensar se tratar de um casal unido há muito tempo. mas o bastante para perder um pouco a inibição.

Haggi encontrou-se com Nakan para um combate com sabres. pensam que por ele podem descobrir muitas coisas sobre um homem. Tinha de esperar o tempo que fosse necessário até sua definição. Haggi. talvez porque já conhecesse melhor seu jogo. Os dois homens eram bastante hábeis com a espada. esperando o momento ideal para o ataque fulminante. bem como por sua cadência constante. Nakan se destacava pela força e intensidade dos golpes. Mas o fato é que confiava em vencer qualquer um a qualquer momento. Ivis sorriu e disse: – Acho que já está tarde. se afastaria. de movimentos leves e rápidos. As mulheres costumam depositar muita confiança no primeiro beijo. Era a oportunidade ideal para tratar de assuntos importantes sem ouvintes indesejáveis por perto. como bom cavalheiro. completando: – amanhã nos vemos.. Vou me retirar – beijou Haggi na face e partiu. TALAL HUSSEINI 155 . caso contrário. No dia seguinte pela manhã. Resolveu ir para os seus aposentos. e se aproximou. O duelo seguia acirrado. que obrigava o oponente a movimentar-se todo o tempo. Boa noite. – Boa noite. inclusive se será um companheiro ideal. No jogo da sedução. Haggi sentia mais dificuldade em lutar com Nakan do que com Adaran. Era fato que com esse movimento Ivis se tornara ainda mais atraente para ele. Haggi tinha um estilo mais sutil. Pensou que a paciência necessária no amor era ainda maior do que a necessária na diplomacia. como haviam combinado. Finalmente Haggi fora surpreendido. Fazia o jogo do adversário.cho cabia à mulher. fora colocado em cheque. os olhos cravados nos de Ivis. esperou. seu adversário principal na Capital. se ela quisesse de verdade o beijo ela o percorreria.. boas esquivas e contraataques. Ela sorriu com os olhos. mas o sono não se apresentava.

Nakan. sei que fazer esta observação é a sua atribuição. talvez só o exército da Capital nos supere em número e força. Haggi tomou a iniciativa: – E então. Haggi. porém não devemos colocar problemas onde eles ainda não existem.. – Como está Egas. somente Gur Medhavin foi capaz de consegui-lo. Se ele resolvesse unir forças com outras cidades. sem que se pudesse apontar um vencedor. mas não confiamos um no outro. todas as cidades estariam unidas nessa dissidência? – Você me faz uma pergunta difícil de responder. – Mas. Depois de muitos séculos. se houvesse tal discordância. luta o exército mais poderoso da Aliança. Então. Quando finalmente os dois concordaram em fazer um intervalo. Qualquer inconsistência poderia reacender o espírito separatista do povo. até porque sob a bandeira dos gêmeos. – Esta região é muito rica. Você sabe o quanto foi difícil unificá-la e mantê-la fiel ao País. – Se ele tivesse essa pretensão. como estão os chefes das cidades que compõem a aliança em relação ao processo sucessório? – A Aliança dos Doze está unida. é uma liderança com lastro – sorriu Nakan. símbolo que representa a minha cidade. Haggi. Isoladamente. 156 PAZ GUERREIRA . Mantemos boas relações diplomáticas. É evidente que ele não ficaria triste se eu quebrasse o pescoço numa caçada. Eu diria que sim. para fazermos um exercício de raciocínio. já o teria feito. meu amigo. mas em questões políticas é difícil ter absoluta certeza. o velho Leão? Todos sabem que ele esperava ter sido nomeado no seu lugar para essa liderança.FORÇA . poderia contestá-lo. – Você tem dúvidas quanto à sua liderança? – É claro que não.. Ninguém manifestou nenhuma insurgência contra a sucessão.Não havia espaço para conversa.

– Entendo. sorrindo – são assuntos de Estado. O diplomata.. pois normalmente perdia. você me toma por um cafajeste – respondeu Haggi.– Não creio nisso. Você foi cortês com seu anfitrião não o derrotando em sua própria casa. Bem. – Nakan. Ivis... para a cerimônia de abertura da placa. Creio que ainda teremos muito que conversar depois da posse do novo rei. – Nakan. você sabe que eu jamais amoleço num combate. sem responder. Haggi provavelmente já conheceria o nome do sucessor antes do retorno de Nakan. Você virá comigo? – Não. Lutaram por mais duas horas. entretanto. Amanhã bem cedo sigo viagem para a Capital. um empate. minha missão ainda não terminou por aqui. pois mantinha uma eficiente rede de inteligência por todo o País e inclusive fora dele. não parecia abalado. Mas da próxima vez. ou se só estava tentando fazer com que Haggi se traísse. Nakan parecia mais feliz do que Haggi. – Aguenta mais um combate? Haggi. – Concordo. espero mais do que isso. TALAL HUSSEINI 157 . é claro. Não que a técnica de Nakan tivesse melhorado muito. – É claro. mas ele lutava com uma garra impressionante. Jamais pôde ter certeza se ele realmente sabia. pegou seu sabre e tomou posição de guarda. com semblante impassível.. – Foi um bom combate – concluiu Haggi. mas vou ficar atento. Sim. Ainda estará aqui quando eu voltar? – Sem nenhuma dúvida. você terá alguns dias para tratar desses assuntos sem a minha presença. Você é que lutou bem mesmo – respondeu Haggi. para ao final não se definir um vencedor. Haggi. levantou-se. mas pensando consigo mesmo o quão astuto era o líder da Aliança.

. É muito capaz. – Você não o aprova? – Não devia comentar estes assuntos particulares. e não tenho mais ninguém com quem possa me abrir com relação a isso. Se o tolhermos mais ainda. Nakan se despediu: – Ainda nos veremos esta noite. não é mesmo? Não me lembro dela. mas sei que posso confiar em você. Foi um amor de infância que ela reencontrou na sua volta. 158 PAZ GUERREIRA . Eu o considero um fraco. – Por que você simplesmente não impede o casamento? – Em primeiro lugar. nada restará. O mesmo não se pode dizer do homem que ela escolheu. apesar de ser de uma das famílias mais ricas da região. pois darei um jantar para anunciar o noivado de minha filha.O jogo de cena também terminou empatado. porque em minha casa sempre tratamos com liberdade as questões eminentemente pessoais.. pois os dois se mantiveram indiferentes. Na vida pública. Ela tem me auxiliado muito no governo desde que retornou. ela me obedeceria de modo absoluto. Vemo-nos à noite. mas ela ainda o vê com os olhos de adolescente. – Neste caso. não sei o que dizer. você tem uma filha que estudava fora do País. sim.FORÇA . Mas na sua vida pessoal não gosta de imposições e é muito determinada. não está agindo de forma madura neste caso. – Tenho certeza de que se lembrará quando a vir. – Só me resta contar com que ela veja a realidade por si mesma. – Até lá. Apesar de ser muito lúcida para certas coisas. Fosse um assunto de Estado. Creio que só lhe resta esperar pelo inesperado. – Ah. E depois porque a minha oposição seria o suficiente para a decisão final dela a favor desse casamento. já não temos muito espaço para nós mesmos.

Ivis estava linda! O ébrio noivo foi em sua direção. Isso poderia se explicar pela ocasião mas. a reação de surpresa de Haggi. e nada de avistar Ivis. mas todos o olhavam com estranheza e não respondiam. sem deixar de procurar com os olhos. Os arautos anunciaram: – Damas e cavalheiros. tenho certeza de que logo ela aparecerá – respondeu Nakan. A última esperança era o jantar. Ficou em pé. mas relevou. até que todos se aquietassem. tal impressão fez com que Haggi sentisse imediata antipatia pelo sujeito. Aguardou TALAL HUSSEINI 159 . Haggi vasculhava com os olhos todo o salão. Os arautos anunciaram a presença do futuro noivo. – Estou bem – respondeu. com um sorriso abobado estampado na face. Haggi se propôs uma missão para aquela tarde: encontrar Ivis. A música já tocava e o vinho já era servido. meu amigo. Haggi pensou ter sentido um tom de ironia na voz do líder. e a tomou pelo braço. somado às preocupações que o pai da futura noiva lhe manifestara. O governador se levantou para fazer o anúncio. a filha do governador Nakan: Ivis! Apenas Nakan percebeu. A filha de Nakan surgiu. onde estava Haggi. em silêncio por alguns segundos.Após descansar em seus aposentos. mas o diplomata prontamente se restabeleceu. Vasculhou todo o palácio sem sucesso. – Não está encontrando o que procura? – Aquela moça que estava presente no dia da minha chegada. Perguntava aos serviçais. Ivis. Todos os convivas começavam a soltar-se e desinibir-se. Haggi ficou lívido. que já dava sinais claros de embriaguez. – Não se aflija. ao lado da de Nakan. Quando a viu. porque o observava. Mas ela havia desaparecido. Nakan fez sinal para que se aproximasse: – Noto que você está inquieto. dirigindo-se à mesa que lhes estava reservada. não a vejo por aqui.

pois qual é o pai que gosta de entregar sua filha? Mas. senhor Governador. Ivis sabe que não aprovo este noivado e quero que isso fique muito claro também para Garat. Os convidados afluíam para cumprimentar os noivos. Garat ainda fez menção de continuar falando. Não posso dizer que eu esteja feliz. Nakan o interrompeu abruptamente. então. Os noivos sinalizaram um brinde para Nakan com suas taças. mas foi em vão – quero dizer que a data do casamento. Também eu gostaria de fazer um anúncio – Ivis pegou no seu braço para tentar contê-lo. toquem! Senhores convidados.mais alguns segundos para se certificar de que todos lhe davam a devida atenção e então proclamou: – Senhoras e senhores aqui presentes.. Ivis. se ela está feliz. mas com um sorriso: – Meu caro Garat. Senhores músicos. poderão marcar a data. Não criemos expectativas cedo demais. especialmente para minha filha.FORÇA . Garat ficou com a palavra: – Agradeço as palavras. sim. mas Nakan finalizou qualquer possibilidade disso: – Insisto! Não falaremos de datas esta noite. 160 PAZ GUERREIRA . em tom cínico: – Que demonstração de alegria. creio que é muito cedo para falarmos em datas. Quando a audiência silenciou.. tenho que aceitar os fatos. Aproveitem esse momento de noivado e mais tarde. a noite de hoje é muito especial para todos. e lhe digo que farei sua filha muito feliz. enfim. Pode estar tranquilo. Todos aplaudiram. Haggi voltou-se para o governador. Nakan! – Não sou homem de dissimular minhas opiniões. que estava longe de ser a primeira da noite e mais longe ainda de ser a última. Oficializo perante todos o noivado de Ivis e Garat – completou secamente. aproveitem a noite! Não restou ao alegre noivo senão voltar-se para sua taça de vinho.

que podem estar presentes mesmo nas pequenas coisas. Ivis sorriu francamente: – É uma bela maçã. A uma mulher complexa e misteriosa forçosamente devem agradar os mistérios. Dizendo isso. – Para mim ou para ela? – Para ambos.. – Mas que mistério pode residir numa maçã? TALAL HUSSEINI 161 . cumprimentou-a com uma mão e estendeu-lhe a maçã com a outra. Mesmo assim. tomando nas mãos uma maçã.. Vejo que todos vieram preparados com belos presentes. Haggi entendeu que não conseguiria extrair mais do que isso de Nakan. – Ela é muito mais do que parece. se sabia que ela ficaria noiva? – Era um teste. O que me trouxe a Rubatis foram outros propósitos. é a mais bela dama deste lugar. mas não desviava os olhos de Ivis: – Meus parabéns.– Não creio que ele tenha compreendido. considerando seu estado.. mas confesso que é o presente mais inusitado que recebi. não gostaria de me furtar a presentear a noiva.. com a sua licença. acho que está na hora de cumprimentar os noivos – deixou a mesa. no dia em que aqui cheguei. você mandou Ivis acompanhar-me. mas infelizmente eu não sabia da razão deste jantar. Mudou de assunto: – Bem. Nakan. se me permite dizer. posso lhe fazer uma pergunta? – Faça! – Por que. Garat! Você é um homem de muita sorte. Sua noiva. estendeu a mão para Garat. Aproximou-se da mesa dos noivos.

Ele respondeu. pensou consigo: “cai sozinha. Sabia que ele já articulava em sua mente toda uma estratégia para conquistá-la. Dizendo isso. Ivis perguntou: – Mas quando uma maçã podre cai.FORÇA . como todos lá dentro puderam notar. não seria conveniente deixar a festa. surge outra em seu lugar? – Sempre. mas um vento sempre pode ajudar. quando está podre.. Haggi se retirou. Vou apenas tomar um pouco de ar e retornarei em seguida.. Nunca o vira falhar nesse intento. mas ela não lhe fazia atenção. creio que após tão demorada e tão intensa conversa com a noiva. 162 PAZ GUERREIRA . você tem razão. Garat se sentia incomodado com aquela conversa da qual nada entendia. Também as pessoas que vinham depois de Haggi para cumprimentar a noiva se impacientavam. Haggi respirou. que um pouco afastado de seu Mestre ainda assim ouvia toda a conversa. olhando no fundo dos olhos de Ivis: – Só há uma maneira de saber quantas sementes há numa maçã: provando-a. Tarin surgiu ao seu lado: – Senhor. se me permite dizer. Conhecia seu patrão.. Tarin. cai sozinha.”. – Sim. e emendou: – O primeiro deles é que uma maçã.Ao responder. Tarin. para ficar mais alguns momentos. – E como saber se essa nova maçã também já não está podre? Haggi ainda segurava a mão da noiva durante todo esse diálogo. de forma que só Ivis o percebesse. mas isso não incomodava em nada o visitante.. Quando ganhou o exterior. Haggi olhou rapidamente para Garat.. Mas mesmo assim. Ela fez o mesmo. Não desviou seus olhos dela até deixar a sala.. Ele notou que Garat falava com Ivis um pouco exaltado. não se pode saber quantas maçãs há numa semente. percebendo que extraíra ainda um último sorriso de Ivis. e tampouco à noiva.

TALAL HUSSEINI 163 . O salão todo fez silêncio. No lugar de Haggi. desafiou: – Você não pertence a esta cidade. apanhou uma faca sobre uma das mesas e se lançou sobre Haggi. e vem aqui me desrespeitar. Haggi virou as costas para deixar o local. mantendo uma conversa muito longa com sua noiva. já teria usado aquela faca. A lei permite que o mate. tomando-lhe a faca e colocando-a sobre o seu pescoço. sem dizer palavra. para ser um simples cumprimento. e saiu. ela parecia ter gostado dessa conversa. não se conformando. E que. Já embriagado. Apesar de que no estado em que se encontra não merece mesmo respeito e muito menos merece que eu lute com você – ao dizer isso. Alguém murmurou: – Você foi atacado. haviam enchido sua cabeça com ideias de que Haggi o desrespeitara. Haggi sentiu uma aproximação pelas costas. pior. Estatelou-se de forma humilhante. Haggi terminou de lançar Garat ao chão. mas sua investida foi fracassada. Ao se levantar. Garat chorava. deixando passar e cair atabalhoadamente Garat. que ali permaneceu em prantos. diante da possibilidade real e da proximidade da morte. que num movimento muito rápido derrubou o oponente. Todos perceberam a alteração. Alguns amigos de Garat. Garat. – Sim – completaram outras vozes – você deve matá-lo! O coro cresceu. Garat se inflamou e atacou Haggi. Garat. tão fúteis quanto ele. e não o desrespeitei. Eu o desafio para lutar! – Não tenho porque lutar com você. ele nem teria esperado tanto tempo. Com um leve movimento deslocou-se para o lado. ao mesmo tempo em que com a outra mão segurava seu pulso numa torção. jogou a faca longe.Quando entrava novamente no salão.

28. depois da posse do novo rei. sem tocar no assunto do que acabara de ocorrer: – Haggi.FORÇA A . com os Ministros e com o Senado. de costas ou inferior na luta. pois tinha várias reuniões pela manhã. mas espero ainda encontrá-lo na minha volta. amanhã parto cedo para a Capital. “não o matou.. O mais novo de todos era Nakan. – Sim. Pretendia dirigir-se ao povo à tarde. formado por nove generais de estrela dourada. “sem honra”. este o recebeu com um leve tapa nas costas e um sorriso. Este vira compaixão. mas sobre Garat e maçãs. Haggi estava convicto de que agiu de acordo com a sua regra de cavalheiro: jamais poderia atacar ou matar alguém caído. Ele pretendia fazer história. daran acordou não cabendo em si no primeiro dia do seu reinado. Com os militares. demonstrou que não tem valor”. estarei aqui. Ivis talvez também tivesse entendido alguma coisa naquela situação. para a posse do novo rei. não sobre Haggi.Pôde ouvir os vários comentários dos presentes que estavam sedentos de sangue. Quando passou pela mesa de Nakan. dentro de alguns dias. Agora vou me retirar. e por aí afora. A primeira reunião foi com o Conselho de Guerra. Garat se enquadrava em pelo menos duas dessas situações.. Creio que não nos veremos antes de minha partida. Todos esperavam o anúncio das primeiras medidas do novo soberano. com seus 164 PAZ GUERREIRA . e gostara disso. Mas ao menos uma pessoa naquele salão não vira fraqueza naquele ato: Nakan. inclusive alguns amigos de Garat: “fraco”. Ainda teremos muito a conversar. creio que já tive ação o bastante por hoje. como era de praxe. é claro Nakan.

Entretanto. Adaran saboreou seu momento. fizeram reverência. que ficou visivelmente contrariado com a observação ofensiva. apesar do longo período de paz por que passava o Reino. Tomou a palavra: – Senhores Generais. E vinha de uma elite nacional. fazendo um gesto altivo para que os generais o imitassem. Pretendo passar em revista nossas tropas. sentou-se à ponta da mesa. Via-se em seus rostos que eram homens duros. o que pode ter amolecido nossas tropas – o ataque fora direto. vocês são a elite do nosso exército! O saudoso rei Sokárin ficou muitos anos no poder. Era a primeira reverência que Adaran recebia afora a da cerimônia de posse. se conteve e nada disse. Pedindo licença para falar.cinquenta e tantos anos. até receber a ordem para descansar. um dos generais perguntou: – Vossa Majestade pretende ir à guerra?! Adaran riu: – Para que serve um exército senão para estar preparado para a guerra? Mas isso não significa que precisemos ir à guerra. Os demais contavam todos mais de sessenta mas em boa forma. teve vida longa. Foi um período de paz. Não será tolerado qualquer desvio de disciplina! Temos de estar muito bem preparados para os novos tempos. prontos a defender o País com suas vidas contra qualquer ameaça. que acabou prejudicada pelo maldito vulcão. mas todos permaneceram impassíveis. exceto um dos mais velhos. Estejam preparados. Apenas não quero TALAL HUSSEINI 165 . a começar dentro de três dias. esperou um pouco mais do que o necessário para dar o comando de descansar. Quando Adaran entrou. Finalmente. Adaran prosseguiu: – Começamos agora uma nova fase. capazes no seu mister. Estavam em torno de uma mesa longa.

Novas armas.. pois o povo nem sempre entende as medidas do governante. e também suas vantagens. Apoiarão incondicionalmente o novo Rei? Aguardavam em silêncio para ouvir as medidas que Adaran anunciaria: – Não teremos mais um Ministro da Guerra. É imprescindível evitar qualquer estremecimento nas relações internas. mais cavalos. apesar de nenhum deles demonstrá-lo: – Este Conselho de Guerra passa a exercer as atribuições até agora exercidas pelo Conselho dos Anciãos! 166 PAZ GUERREIRA . alguns até sorriram. conto com a pronta ação dos senhores e de seus comandados. mas também estou certo de que outros não o farão. Pois bem.. até mesmo pela força se for necessário. Vou dirigir mais investimentos do Reino para as tropas. Quero que estejamos preparados para suplantar rapidamente qualquer indício de revolta. mais treinamento.. obviamente para melhor. De outros ainda não conseguira fazer a leitura. mas logo saberia a posição de todos. Continuou: – Pretendo implementar muitas mudanças. Todos assentiram com a cabeça.surpresas. qual o doente que se nega a tomar o remédio por amargo. O fato de estar realizando a primeira reunião oficial de meu reinado com este Conselho demonstra o prestígio que lhe quero outorgar. Tenho certeza de que os senhores compreenderão a medida que estou prestes a anunciar. Este Conselho se reportará diretamente a mim! Em contrapartida. Para fazer entender a todos. terá suas atribuições aumentadas. deixando todos ansiosos para ouvir o restante. Estamos todos de acordo? Os senhores são os defensores da lei e da ordem. de melhor qualidade. para que não enfraqueçamos perante nossos vizinhos em virtude de conflitos e desavenças intestinas.. mas que podem encontrar resistência. Fez uma longa pausa. Com aquelas promessas Adaran parecia ter conquistado o apoio de alguns.FORÇA .

Mais do que rápido. Os mesmos três que antes sorriram ao ouvir as notícias sobre suas novas vantagens exultaram. pediu a palavra e quase sem esperar a autorização do Rei vociferou: – Isto é um ultraje! Senhores Generais. levou a mão à espada para retirá-la da cintura e entregá-la. Vossa Majestade está conspurcando as instituições de nosso país. para espanto dos demais. são testemunhas. Não temos a pretensão nem a capacidade de usurpar suas atribuições! Pretende Vossa Majestade corromper-nos com vantagens e poder? Jamais aceitaremos! Vamos a público desmascará-lo perante o Conselho dos Anciãos e perante o povo. Ele tombou sobre a mesa. que antes já demonstrara impaciência. O guarda cumpriu sua obrigação de defender o Rei. e depois em TALAL HUSSEINI 167 . É tão tênue a linha que separa os aliados dos inimigos. num gesto de renúncia ao cargo. Antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa. a um sinal imperceptível de Adaran.. o Rei emendou: – Todos os senhores viram. prefiro resignar-me de minhas funções – ao dizer isso. vocês não percebem o que está acontecendo aqui?! Isto é um golpe de Estado! Com todo respeito. Claramente aprovavam as medidas do Rei e lhe expressaram total e incondicional apoio. O exército jamais aceitará este disparate! Se assim for. Desta feita. Este Conselho tem atribuições bem distintas das do Conselho dos Anciãos. à exceção do velho General.Novamente Adaran esperou. de que o general estava desequilibrado e num gesto impensado ia sacar da sua espada para atentar contra a pessoa real. não se conteve. perscrutando no olhar de cada um as reações que pudessem denotar apoio ou contrariedade. como se falasse consigo mesmo. O tiro certeiro calou o general.. um dos vários guardas reais que faziam a segurança da reunião atingiu o velho general com uma seta disparada da sua balestra. – comentou em tom mais baixo. Os seis demais permaneceram impassíveis. antes que ele pudesse terminar de retirar sua espada. meus companheiros de armas.

como disse nosso amigo falecido. será dissolvido. seus membros devem ser presos? – É claro que não. Conto com o apoio dos senhores? – perguntou ignorando o cadáver sobre a mesa. Aqueles que não compreenderem essa situação e essa intenção deverão ser detidos. Não podemos extirpar instituições com as quais o povo está acostumado. para evitar que contaminem os demais e o povo. apesar de acostumados ao rigor nas atitudes.FORÇA . Procuravam dissimular sua consternação. não há espaço para a dúvida. outros concordaram com o seu silêncio. Aparecerão interna e externamente como um órgão de honra. meu caro general! O Conselho dos Anciãos ganhará novas atribuições. Não se trata de um golpe de estado. Ninguém se manifestou – se Vossa Majestade me permite perguntar. mas não terão sobre seus ombros o peso do trabalho duro de Estado. devem ser eliminados. que visa a proteger a integridade de nossos senadores.tom normal. Os generais estavam chocados. o que será feito do Conselho dos Anciãos. a quem espero que todos recebam como a um irmão: General Ofis! 168 PAZ GUERREIRA . pediu a palavra e se levantou: – Vossa Majestade conta com o apoio dos generais! E acho que falo por todos nós – olhou ao redor indagando os outros com o olhar. Adaran continuou: – Por fim. como tal. nomeio agora mais um general de estrela dourada. encarando seus interlocutores com firmeza: – nestes tempos em que vivemos. mas pela primeira vez sentiram o peso da autoridade do novo Rei. Aqueles que questionam o progresso são inimigos do Reino e. Os membros do Conselho dos Anciãos são muito idosos para carregar o peso que hoje carregam. Alguns assentiram com um gesto de cabeça. Um dos que havia sorrido antes. mas sim de uma medida humanitária. precisamos recompor o número de nove neste Conselho. Então. Eles manterão seus proventos e ficarão responsáveis por todos os eventos cívicos e festividades nacionais.

A educação seria promovida com vistas ao futuro e não mais ao passado. o covarde igual ao valente. O Rei Adaran deixou a reunião e foi a público fazer seus anúncios oficiais. já em trajes de general de estrela dourada. Quebrando a tradição. fazendo mais um anúncio: – O Conselho de Guerra precisará de um líder. Era certo que a comenda era privativa do Rei. Ao ver a cena. que só faziam perder tempo precioso de estudo e frear a ciênTALAL HUSSEINI 169 . Igualdade e liberdade seriam então realidades para todos. eu nomeio Presidente do Conselho de Guerra o General Tybur! O General agradeceu e dissipou qualquer constrangimento que ainda tivesse em seu semblante em relação a Ofis.. Tais distinções incabíveis não mais teriam lugar neste Reino. e não havia lei que dissesse que só poderia ser dada a militares. era algo inusitado. Um sujeito que nem era militar. pensando na reação e no fim que teve o velho general. como se não esperasse outra coisa daquele encontro. Adaran estava bem a par da lei e amenizou a situação. O pobre seria igual ao rico. Assim sendo. que será a ponte direta entre o que se passa aqui dentro e os ouvidos reais. ao menos com seu mais novo aliado. que era o mais prestativo para com o novo soberano. até mesmo o General Tybur. pois era importante vislumbrar a evolução e o desenvolvimento. resolveu dirigir-se primeiro à população e somente depois ao Conselho dos Anciãos. Anunciou como em seu reinado promoveria a igualdade entre todas as pessoas. O mesmo não se podia dizer dos demais. não conseguiu disfarçar seu constrangimento. cujo corpo finalmente era retirado pela Guarda Real. indistintamente.Ao ouvir sua deixa. mas a tradição. em lugar de ficar atrelados às tradições e à história. que aguardava do lado de fora da sala. pois somente sendo iguais poderiam ser livres. o estudioso igual ao ignorante. nomeado general de estrela dourada. adentrou.. Ofis. que disfarçavam o melhor que conseguiam seus pensamentos e emoções.

Adaran tinha por objetivo neutralizar boa parte das eventuais reações adversas no Senado. mas quando relatou as modificações nas atribuições do Senado que implementava. que cuidavam do irreal. apenas fazendo observar quais eram as posições de cada um. mas estava visivelmente abatido. Vários soldados da Guarda Real permaneceram no Senado após o Rei se ter retirado. assim. que esta sim traçava os rumos de um conhecimento sólido e palpável. já nomeados pelos outros como oposicionistas. Anunciou com sucesso os benefícios que dava aos senadores.FORÇA . de coisas ilusórias que só serviam para atrapalhar o verdadeiro desenvolvimento individual e social do povo. O Rei concluiu agradecendo os serviços prestados até então pelo Senado e principalmente por tudo que ainda teriam de fazer nas suas novas funções e se retirou rapidamente. os planos de Adaran que almejava trazê-los para o seu lado. os que não lhe eram simpáticos reagiram com violência. O povo finalmente tinha a sensação de que um verdadeiro líder chegara para lançar o país numa nova era. conclamavam o Senador Rohel. deixando as discussões e divergências para os que subiam ao púlpito. pretendia anunciar. Este aceitou. restava dirigir-se ao Conselho dos Anciãos. Todos aplaudiam com vigor. do metafísico. como também aqueles que se posicionavam de maneira neutra. A realidade saiu um pouco diferente do que esperava. Aqueles cujo apoio já tinha o mantiveram. Apenas deixou claro seu repúdio às 170 PAZ GUERREIRA . desatrelada do passado. dificultando.cia. que era uma espécie de baluarte dessa corrente. Agora. portanto. mas não interferiram nas disputas. Com as vantagens de ganhos que. ao contrário da filosofia e das religiões. a subir à tribuna e dirigir-se à plenária. a reação foi forte. Não era naquele dia o orador inflamado de outros tempos. O tumulto chegou à exaltação e. O apoio da população fora facilmente conquistado. teriam ido às vias de fato. antes de mais nada. não fossem os senadores todos de certa idade. A praça pública estava lotada. Aqueles que não apoiavam as iniciativas do Rei.

Ele estava aéreo.. – De qualquer modo.. – Sim.. que conhecia seu marido..medidas anunciadas por Adaran em relação ao Senado. Desceu da tribuna entre aplausos e apupos dos dois grupos que dividiam o Senado. de forma a extirpá-la da vida pública do País. Kadriel estava ansioso para lhe relatar seu sonho e para conversar sobre o reino.. o chegar à casa de Ravi. Tudo parece tão real. – Cada vez mais eu acho que esses sonhos têm relação com a minha vida. – Você acha? – É. Sabia que os dias de paz e tranquilidade se aproximavam do fim. Esperava você um pouco mais ansioso neste primeiro dia de reinado de Adaran. a sucessão e tudo mais. Saiu da tribuna direto para a sua casa. Rohel já vislumbrava o porvir. respondeu: – Vamos nos preparar para o pior. minha querida! 29. segundo ele. o que. O que o traz aqui? – É que esta noite tive um sonho. TALAL HUSSEINI A 171 . Falou pouco. convidou-o a sentar-se: – Olá. Cada vez mais me identifico com Mulil. que examinava tranquilamente alguns escritos. Entendendo a pergunta que ela não lhe fizera. Inari.. ao vê-lo chegar. Inari. caracterizava um isolamento daquela Casa. E acho que ele morreu. não tenho certeza.. Kadriel.. – Novamente com Mulil. Ravi. não se esqueça de que é apenas um sonho. mas vejo que está bem tranquilo. apenas franziu o sobrolho. porém sua ansiedade tinha sido dissipada pelo encontro com Dhara.

O dono da casa mandou que o fizessem entrar.– Os sonhos são reais. General Aldhar. Aldhar – os dois se cumprimentaram com um gesto de cabeça – ele é da minha mais absoluta confiança. Disse-lhe que quando sonhasse devia se lembrar de guardar as memórias do sonho dentro do coração. Ravi! Você já soube das primeiras declarações do novo Rei? – Não. Quase inconscientemente. Como estão as coisas? O General não respondeu. Os dois conversavam acerca do sonho. Ravi o tranquilizou: – Este é Kadriel. Sentiu um calor aconchegante no coração. Esse sentimento o fez perceber o quão importante a opinião de Ravi se tornara para ele. Kadriel sentiu-se orgulhoso das palavras de Ravi. pois já reparava que os sonhos pareciam seguir uma sequência. 172 PAZ GUERREIRA . que poderia fazê-las suas. na sua esfera. Também era uma prática interessante tomar notas logo ao acordar. quando chegou à casa um militar. O que nos parece etéreo e fantasioso pode ser a realidade em uma outra perspectiva. vamos ver qual é a sua realidade onírica. poderia ser esquecido algum tempo depois de acordar. Ravi respondeu-lhe que poderia aprender muito com esses sonhos. O General Aldhar continuou: – Estou preocupado. ainda não tive notícias. Kadriel assim faria. E o que vivemos como realidade pode não passar de ilusão.FORÇA . dirigindo o olhar para Kadriel. O homem tinha um ar circunspecto e aparentava estar preocupado: – Bom dia. pois por mais real e vívido que fosse. Kadriel contou em detalhes o que sonhara e disse que estava curioso para saber o que aconteceria em seguida com Mulil.. Já pensou nisso? Mas conteme seu sonho. fazendo-se anunciar e chamando por Ravi. Podemos conversar.. a partir das experiências vividas por Mulil. Entendendo suas dúvidas.

como tinha o hábito de fazer sempre que discursava de maneira mais inflamada. que foi nomeado general para compor o Conselho no lugar de Margut. independente de quem a usasse. Pediu nosso apoio para tornar o Conselho dos Anciãos um ente inoperante. Ele disse que não quer fazer a guerra. mas a regra diz que a nomeação do Conselho de Guerra TALAL HUSSEINI 173 . Um dos guardas reais o abateu com uma seta. Nem sequer é militar. que permaneceu calado. Ao menos Tybur. meramente decorativo. como aguardando alguma intervenção de Ravi.. está morto! Ravi não conseguiu esconder sua surpresa. ranzinza por natureza? – Margut. assumindo uma feição séria..? – É um lacaio de Adaran desde os tempos em que era ministro. – Ofis. O terceiro é Ofis. nunca saberemos ao certo. Aldhar continuou sua narrativa: – O General não se conformou com as medidas. juntamente com os outros oito generais de estrela de ouro. que não terá mais qualquer atribuição prática.. – E os generais apoiaram tal medida? E o velho General Margut. Adaran afirmou que o general iria atacá-lo. Então prosseguiu: – o Rei vai destinar muitos investimentos ao exército.– Seu primeiro ato foi uma reunião com o Conselho de Guerra. Em todo caso. mas se trata de uma preparação para isso. – E como você acha que os outros vão se posicionar? – Difícil dizer. Adaran continuou sua prolação com o cadáver ali estendido sobre a mesa. e mais um parecem apoiá-lo incondicionalmente. Ele ampliou as vantagens e as atribuições do Conselho de Guerra – fez uma pausa. mas Margut tinha muito senso de dever e respeito à coroa.. em um tom de certa forma de ameaça contra quem não o apoiasse integralmente. A mim me pareceu mais que ele ia entregar sua espada. Levou a mão à sua espada. que foi nomeado presidente do Conselho. da qual participei. se manifestou de forma exaltada.

então o que é a força? – A força é a virtude que compartilham todos os guerreiros de um clã. mandando-o quebrá-lo.. não pude fazer uma leitura de ninguém. – Sim. Ravi dirigiu-se então a Kadriel: – Você vê. – Força? Não.. quando desliza pelo aroma do mistério da união. então não parece haver muita opção. por mais força que empregasse. Os outros. ficaremos em contato. dentre aqueles que ele entender capacitados. ainda que compre apoios e companhia. A força e o espírito que emanam da companhia vêm da união dos cavalheiros diante de um ideal superior. e ao investir no exército está aumentando e confirmando sua força. Ele é vaidoso.. pois carece de força para lutar como um guerreiro. Ravi apanhou no chão um graveto e o entregou a Kadriel. e o vaidoso não tem força porque está sempre sozinho. para depois se posicionar.é privativa do Rei. é como uma linha luminosa que se manifesta quando as partes descobrem que na realidade são unas em essência. – Mas se isso não é força. e também eu mesmo. e através 174 PAZ GUERREIRA . Todos pareciam estudar a nova situação. Aldhar. o ser humano.FORÇA . mas sim um poder coletivo. mantenha-se discreto. Tudo no universo está interligado e interconectado. Ravi juntou vários gravetos num feixe e mandou que Kadriel os quebrasse. – Por trás de cada graveto existe uma linha de força que os une e justifica. Kadriel o fez com facilidade. é verdade. encontra a força que vem do ideal. Mas o Rei é Adaran.. saíram em silêncio. O que Adaran tem não é força. Ele não conseguia. não é uma questão pessoal. está consolidando sua posição. meu jovem? Adaran agiu rápido. Os antigos diziam que um homem sem cidade não é nada. Dizendo isso. Ravi parecia pensativo: – Sim. visivelmente consternado. apesar de não senti-la realmente ameaçada. O General despediu-se de Ravi com um abraço e saiu marchando. Então.

Seus olhos brilhavam novamente ao falar de Dhara: – Você nunca poderá dizer que o primeiro dia de reinado de Adaran foi ruim para você. Espírito.? – Ora. Era um ensinamento que não podia ser digerido de uma só vez. – ironizou Ravi – você encontrou uma dama muito especial. Estava dentro de um edifício. Alguém o havia limpado. força e técnica compõem as três armas do verdadeiro guerreiro.. indo em direção à rua. exigia reflexão.. 30. O aposento era confortável. Desde que você chegou aqui hoje. notei que está diferente. apesar M TALAL HUSSEINI 175 . mais tranquilo. Kadriel queria entender melhor tudo aquilo. que ao que parece tem alma nobre. Quando já estava do lado de fora da porta. pois não imaginava que cada célula de seu corpo transparecia seus sentimentos. O coração tem sabedoria para encontrar seus próprios caminhos. Ravi lhe perguntou: – E como é ela? Kadriel voltou-se. Voltou até a porta e contou a Ravi então o que se passara quando vinha de sua casa. Perguntou. ulil acordou sem saber onde estava. um pouco disperso. Dessas observações. a mulher que colocou esse brilho nos seus olhos. ficou claro que só pode ser uma moça. com ar confuso: – Ela quem.da técnica o guerreiro é capaz de explorar com eficácia tudo o que a força do ideal lhe oferece. Tinha dormido sobre uma esteira. Kadriel despediuse de Ravi. colocado roupas novas. com a intenção de voltar para a sua casa e pensar no assunto. Kadriel surpreendeu-se com a percepção demonstrada por Ravi. sem entender direito a que seu Mestre queria referir-se.

Quando caiu ao solo. É o lugar a que você tinha de chegar para cumprir a missão que seu Mestre lhe designou. Caminhara o que pudera.de simples. nos acolheu e nos protege contra visitantes indesejados. mas não tínhamos certeza de que conseguiria. Usava uma túnica típica dos antigos sacerdotes. – Que lugar é este? – É o templo de Zohar. – E o que o deserto tem a me dizer? 176 PAZ GUERREIRA . com os sinais vitais muito fracos. sorrindo: – Nós o encontramos deitado na areia do deserto. – Mas eu nunca ouvi falar de nenhum templo nesta parte do deserto.FORÇA . O corpo ficava inerte. – Você passou o umbral – disse uma voz suave às suas costas. Já o esperávamos. Você é um bom discípulo. pacificar as emoções e esvaziar a mente. Perdera-se da trilha por perseguir uma miragem. Mulil teve tempo somente de induzir esse estado. que costuma expulsar ou engolir aqueles que nele se aventuram. cumpriu à risca a missão que seu Mestre lhe outorgou. para além do ponto sem volta. Assim foi encontrado. cuja aproximação Mulil não percebera. lembrou-se de uma prática que havia aprendido. mas a conseguira reencontrar graças ao ensinamento de seu Mestre. Era como um estado de hibernação. Era um homem esguio. retirando-o de seus pensamentos. – Somente os sacerdotes e alguns sábios o conhecem. O homem prosseguiu. de modo que o corpo passava a ter um gasto mínimo de energia. O deserto. Sua última lembrança era de estar sucumbindo ao deserto. à sede e à fome. quase como uma pedra. possibilitando a sobrevivência. mesmo que ela o fosse levar à morte. que consistia em reduzir a respiração.

. Estou velando o fogo.. perdendo por um instante a consciência da realidade que o cercava. – Vim por ordens de meu Mestre. Após algumas horas.. Você agora precisa se alimentar. No início da noite. Estendeu a mão sobre Mulil. de fonte invisível mas extremamente poderosa. ela lhe será dada numa pequena cerimônia logo mais. o que dava um ar etéreo ao ambiente. Seu rosto era excessivamente alongado. capaz de gerar tempestades. Foi quando alguém tocou-lhe suavemente o ombro. Os sacerdotes explicaram a Mulil que ele devia guardar aquele altar durante toda a noite... sentado sobre os joelhos. Mulil foi conduzido a um salão cerimonial. sobre o qual ficava uma pia cheia d’água. Ele despertou. já não sentia mais as pernas. subverter cidades. – O que você veio fazer aqui? – insistiu. Quando você conseguir TALAL HUSSEINI 177 . Era iluminado com várias tochas de fogo azul. que usava uma espécie de turbante. Também havia um recipiente em que se queimavam incenso e mirra. O cheiro da mirra e do incenso. Mulil procurava resistir. Depois polarizou. – O que você veio fazer aqui? – perguntou a mulher. – Vim saber o que o deserto tem para me dizer.– Se houver resposta para essa pergunta. destruir civilizações. Havia apenas quatro sacerdotes no local. grandes e profundos olhos negros. e a luz diáfana azul causavam-lhe tontura.. tudo por uma força silenciosa. mas sentia que iria desmaiar a qualquer momento. Fechou os olhos. que aguardavam Mulil em torno de um altar. pois passou por privações na sua viagem e precisa se recuperar. procurando esquecer até mesmo que tinha um corpo. deparando-se com uma mulher esguia. não permitindo que se lhe vissem os cabelos. – Sobre o deserto marcha o vento. após um repasto frugal. de pele muito clara.

Ela fez uma pausa e prosseguiu. vai aprender a dominar a si mesmo e a vencer sem lutar. escultura. onde alguns homens trabalhavam em tarefas manuais. que não desviou o olhar nem a atenção do seu trabalho. dizendo: – Este é Sigés. Mulil dirigiu-se a ele: – Chamo-me Mulil. Disse aos sacerdotes: – Gostaria de falar novamente com a sacerdotisa que veio ter comigo durante a meditação.. Sentia-se muito diferente do que quando chegara ao templo. Espero que possamos fazer uma viagem rápida e tranquila até a cidade. Mulil queria perguntar mais.FORÇA . Demorou vários minutos até conseguir mover suas pernas. Mulil não escondeu sua perplexidade. sua vista ficou enevoada. marcenaria. Você deve levá-lo até Montuhotep. mas um forte odor penetrou suas narinas. que tem um trabalho específico para ele realizar.. a mulher não estava mais na sua frente. 178 PAZ GUERREIRA . respondendo a pergunta que Mulil não fez: – A chave está nas dezesseis partes do Deus. O sacerdote indicou-o a Mulil. o qual não pode ser executado por outro – o artesão fez uma ligeira mesura com a cabeça. Ele é a razão concreta de sua vinda ao nosso templo. Tudo fora tão real. nas dezesseis pétalas. como pintura. e mais ainda do que antes de partir naquela jornada inusitada no deserto. Quando o ardor se dissipou. Aproximaram-se de um dos artesãos. sentir esse vento marchar sobre sua alma. até que os sacerdotes vieram rendê-lo. apenas sacerdotes. nas dezesseis virtudes. sem perder o foco da sua obra. Ele prosseguiu sua velatura.ouvir essa força silenciosa. O sacerdote levou-o até uma área externa. – Não temos nenhuma sacerdotisa em nosso templo.

O sacerdote explicou: – Ele não pode lhe responder. Na viagem de volta de Mulil e Sigés. Também sentia-se disposto a iniciar sua missão. Havia perguntado a Ravi o que ele achava. Primeiro. infundir-lhe a energia que lhe dá vida. Essa era a vontade de Sokárin.Sigés nada respondeu. pois aprendeu com seus Mestres a dominar os números mágicos. Cruzaram o deserto sem maiores problemas. mas este lhe respondera que esta era uma batalha que Kadriel precisava lutar sozinho.. Seu mundo são as suas obras. O início da sua luta dependia de um fator que o justificasse. Tinha de cumprir o que prometera a Sokárin: lutar pelo poder. para ser encontrada no momento oportuno. Isso não ocorrera. Esse momento era agora. Ele conhece as proporções mágicas. Confiava em que muitas pessoas entenderiam a verdade e o apoiariam. Ia reunir-se com Bakar para traçarem uma estratégia de busca. Tinha a certeza no seu íntimo de que ela existia e de que o Rei falecido a escondera. O trono era de Adaran. Fez um voto de silêncio. É certo que perante a lei pouco importava. Consegue com isso dar movimento à pedra. pois a cerimônia de troca das placas e a inserção da nova placa na estela é que determinavam o nome do sucessor.. Já há cinco anos nada fala. adriel sentia-se feliz por Mulil não ter morrido no seu sonho. tudo correu tranquilamente. mas não sabiam o que os aguardava na chegada… 31. que não lhe permite pronunciar palavra. Mas perante a Justiça. precisava encontrar a placa. o trono era seu. Diz-se que suas estátuas podem locomover-se sozinhas. Era importante que TALAL HUSSEINI K 179 .

desde a sua conversa com Sokárin. uma vez que seu forte não era o intelecto. e o que estamos esperando? Vamos logo buscar essa placa. Kadriel. aí pensamos em mais alguma coisa.. Kadriel esperava sua ajuda mais para as questões operacionais. vamos agir. podia ficar com dor nas costelas por alguns dias.assim fosse. O enigma falava de falcão. Bakar. mas não lhe ocorria nada. ele disse.FORÇA . Bakar chegou.. pois essa prova fazia parte de algo maior. pois não tinha muita esperança de que ele pudesse ajudar com o enigma. ao receber o abraço amistoso de Bakar. para que me chamou aqui? Aonde vamos? Kadriel relatou para o amigo toda a história. 180 PAZ GUERREIRA . você tem alguma ideia melhor para começar a procurar? Em vez de ficarmos aqui perdendo tempo com pensamentos inúteis. Como já o conhecia. O único lugar que conheço com falcões aqui por perto é aquela montanha em que nos perdemos quando éramos crianças. – Quem foi que disse isso?! Se o Rei falou sobre ninhos e falcões é por que queria dizer isso mesmo. O outro ouvia estupefato. é apenas uma metáfora. Kadriel já tentara detectar algum indício do possível esconderijo da placa através da frase que Sokárin deixara. também seus sonhos tinham a presença renitente dessa ave. O gigante deu-lhe um forte abraço. – O problema é que não sabemos onde ela está. significava que Kadriel não merecia nem cogitar a coroa. e se não pudesse ser vencida. Vamos logo! Se não estiver lá. Um desavisado. – Então. Além do mais. é simbólico. Kadriel preparou-se para o aperto. Via-se em seu olhar um misto de admiração e incredulidade. com firmeza: – Ora. – Como não sabemos? Você mesmo não acabou de dizer na sua estória que ela está no ninho do falcão? É só ir buscá-la! – concluiu Bakar. Quando Kadriel terminou seu relato. – O enigma não é literal. achando incompreensível por que ainda não estavam a caminho.

tomaram o cuidado de amarrar uma corda na sua cintura. até que suas mãos se depararam com algo sólido. Desta vez. Lá estava o ninho. Kadriel chegou rapidamente ao ninho. Não viram alguns vultos que se locomoviam às suas costas. As lágrimas rolaram sobre a sua face ao se deparar com o nome escrito na pedra real: KADRIEL VAHAN. mas ao mesmo tempo sentiu uma estranha satisfação. Não devia ser o mesmo ninho da sua infância. junto com Dhara e Haggi. sentou-se no chão para abrir o invólucro. Os dois amigos chegaram à beira do abismo em que anos antes haviam estado. cuja outra ponta foi atada a uma árvore. Era a deixa que esperavam os vultos. era o primeiro cumprimento que recebia como rei. Deitaram-se na borda e olharam para baixo. Ela parecia menor do que da última vez em que ali estiveram. mas Kadriel conseguiu escapar.Kadriel pensou consigo que de fato seu amigo de grandes proporções tinha toda a razão. mas estava no mesmo lugar. Na oportunidade. já estavam subindo a montanha. Kadriel começou a descer pela encosta para se aproximar. Surgiram rápidos de seu esconderijo e lançaram sobre os dois amigos uma rede. Bakar colocou-se imediatamente sobre o joelho direito. Kadriel reconheceu o brasão de Sokárin. Não por muito tempo. pois os quatro homens se lançaram sobre ele. Seu coração palpitou. Sem demora. Apanhou o embrulho e iniciou o caminho de subida. Kadriel ganhara as cicatrizes no seu antebraço. Bakar ficou retido. Tudo isso se TALAL HUSSEINI 181 . inclinando-se em reverência. Kadriel fez sinal para que não fizesse aquilo. Chegando ao plano. O objeto estava envolto em um pedaço de tecido. Remexeu a palha do ninho. Não pôde conter a emoção quando viu que era o mesmo tipo de rocha da pedra dos mil reis. cabeça abaixada. A energia e a disposição que Bakar demonstrava infundiram-lhes ânimo para partirem logo. Nenhuma ave por perto.

Kadriel surpreendeu-o com um golpe rápido que lançou a arma nas trevas. 182 PAZ GUERREIRA . que estava um turbilhão. Surpresos com a reação inesperada. o que indicava a profundidade. o que o fez lembrar de onde estava: na beira de um precipício. Não se ouviu nenhum baque. seus braços pareciam prestes a quebrar. numa substância mais densa que o ar e menos densa que a água.FORÇA . Kadriel movimentava-se como o fogo. pressionando os ombros para baixo. arremessando-os com facilidade nas quatro direções. Os pensamentos de Kadriel retomaram o rumo de uma possível reação. um dos homens aproximou uma balestra da cabeça de Kadriel e disse: – Não tente nada. Tinha a sensação de estar flutuando no ar. Abriu o peito. mas rápidos e irresistíveis. Não conseguia mais se movimentar. Seus gritos foram diminuindo até desaparecer. Sua respiração foi baixando e se tornando consciente.passou no mais absoluto silêncio. Kadriel lutava com vontade. O primeiro e o segundo foram projetados com facilidade. que lhe dizia para relaxar. Abriu as fossas nasais. mas logo estava com um dos homens torcendo cada um de seus braços para trás. Kadriel relaxava. Fez-se silêncio. Mal acabara a frase. voltaram à carga desordenados. faltava-lhe o ar. um terceiro segurando-o pela cintura e o primeiro segurando-lhe o pescoço. respirando como um touro furioso. Enquanto tentava se soltar. Aos poucos. esquecer a dor. Quando estava a ponto de desistir. outros dois o apanharam. Kadriel livrouse dos seus oponentes. A única agitação se dava dentro da cabeça de Kadriel. Kadriel transportou-se. Seu olhar tornou-se duro como o da águia que fixa sua presa. facilitando a respiração. No ar não. Quando se preparava para atacar seu oponente. Ele inflou o ventre e abriu as costelas para os lados e para cima. outro dos homens pulou sobre suas costas. apertando-lhe o pescoço com o antebraço. Como lesse seus pensamentos. Com movimentos suaves.

Bakar virou-se para Kadriel. Bakar. que não podia partir de outro senão de Bakar. O estalido do pescoço soou claro no silêncio da montanha. que havia finalmente conseguido rasgar a rede. e este sorriu para o amigo. já estava sem vida. A morte fora instantânea. Quando o corpo rolou pelo precipício. lançou um pedregulho certeiro em direção ao fugitivo. Bakar. Quando Kadriel pensou em começar a persegui-lo.O terceiro homem foi barrado com um chute na garganta. Kadriel voltou sua atenção para o quarto elemento. que o atingiu na nuca. fez dissipar a tensão que envolvia Kadriel. levando-o à morte instantânea. TALAL HUSSEINI 183 . olhou para a placa e respondeu: – Não se preocupe. nossa luta está apenas começando! Hoje é o primeiro dia de um futuro que acaba de chegar. que fugia correndo em direção à floresta. com ar de total indignação: – Ao menos um você deixou para mim! O comentário. A montanha seria o seu sepulcro. junto com seus dois companheiros.

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jamais deixava uma autoridade esperando. O governador mandou chamar Haggi para encontrá-lo a sós na biblioteca do palácio. – As primeiras ações de Adaran como novo Rei não me agradaram nem um pouco! – completou Nakan. que o Rei não terá o apoio do interior.. sob o risco de deixá-lo ainda mais irritado.!! – Perdão. Mas de qualquer modo não podia se furtar a encontrar seu hóspede Haggi.. Haggi já o aguardava. com passos marciais. O velho Sokárin devia estar certo em alterar o sucessor. algo na viagem à Capital o havia desagradado. O General completou: – Não vou esconder meu descontentamento. É lamentável que não tenha tido tempo para trocar a placa. que havia permanecido na cidade até a sua volta atendendo a um pedido seu. Nakan. não compreendi. quase marchando. Quando o governador chegou ao local designado. sem falar com ninguém. – Mas Adaran é um homem inteligente e capaz. – Posso entender... O governador vociferou: – Adaran. Só não tenho certeza sobre o seu caráter.. Não acho que ele seja a pessoa mais indicada para conduzir o reino. akan entrou casmurro no seu palácio. então. como bom diplomata. Aparentemente. Será que não pode fazer um bom reinado? – Não duvido da capacidade nem da inteligência de Adaran. Haggi fingiu surpresa.. Será que uma revolta se aproxima? TALAL HUSSEINI N 187 . Os serviçais que o conheciam há mais tempo sabiam que nessas ocasiões não se devia dirigir a palavra ao governador nem para desejar um bom dia.32. pois.

Nakan despediu-se de Haggi. Desse fato Haggi não sabia.. A Aliança das Doze Cidades procurará manter sua autonomia.LIDERANÇA . Entre nós. o que não era tão comum entre aqueles dois homens treinados nas artes diplomáticas. por enquanto.. tornando contido o ritmo da conversa – penso que relatórios não devem conter juízos de valor muito específicos. sem entrar em atrito com o poder central. Relatórios são tanto mais precisos quanto menos informações trouxerem. – Nakan. e que ao deixar sua posição de insurgência tão exposta corria sérios riscos. pois sua rede de informações não contava com ninguém dentro do Conselho de Guerra. Assim dito. – Entendo. – E se o governo central não permitir? – Prefiro não pensar nessa hipótese. que culminou com a morte de um velho general. minha conclusão é que vou procurar cuidar da melhor forma possível dos interesses da minha cidade e das demais cidades da Aliança. Esse era mais um teste que impunha ao rapaz. pois sabia que ele representava o Estado. Mas por certo não aceitaremos nenhuma imposição que venha a restringir de qualquer forma nossas posições. podemos pensar em algo mais conclusivo? – Haggi. A conversa decorria num tom bastante franco. você sabe que minha missão aqui é verificar as condições em que a Aliança das Doze Cidades vai encarar a sucessão. Pressinto tempos difíceis. mas não iremos nos submeter. Se 188 PAZ GUERREIRA .– Não. mas também não terei grande prazer em apoiá-lo em suas empreitadas. Nakan relatou então o episódio ocorrido na reunião com os generais. Posso dizer em meu relatório que o apoio da Aliança ao novo Rei é absoluto? – Meu caro amigo – retrucou Nakan. e agora o novo Rei. de forma alguma vou me rebelar ou conspirar contra o Rei.

ou contra Nakan. Ivis havia sido discreta. Uma demonstração dessa natureza arruinaria sua estratégia de conquista. Ao se recompor internamente. Garat é um covarde... O choque não seria fácil... Haggi não era homem de ser surpreendido e muito menos de se assustar. mas este estava preparado. Quatro eram duvidosas e as outras três por certo estariam com o Rei. Não tive a oportunidade de me desculpar por Garat.. e sim um sentimento verdadeiro. falta-lhe o valor de um cavalheiro. nem de ninguém. seria mesmo uma aliança? Nakan estava absolutamente certo com relação à fidelidade de duas cidades. Haggi teve trabalho para ocultar a alegria que sentiu com tal notícia. – Ivis. TALAL HUSSEINI 189 . O próprio fato de sentir aquela alegria foi estranho para Haggi.. um vulto surgido do nada o surpreendeu. pois nada fez. Já a Aliança.! Que surpresa! – Precisava vê-lo. Haggi estivera ocupado com seus afazeres oficiais e algumas viagens curtas até outras cidades da Aliança. pois não sou mais noiva. – Creio que essa culpa já expiei.. nem dele.. certamente ele tomaria medidas contra a Aliança.. cuja origem ele não conseguia identificar. acreditava em outras duas. mas não colocaria sua mão no fogo. Haggi despediu-se do governador e foi em direção aos seus aposentos..relatasse a Adaran o que ouvira. Não se tinham visto desde o episódio no jantar. Se alguma culpa lhe assiste é a de estar noiva daquele imbecil. Quando já estava perto. O susto mesclou-se à satisfação em vê-la. – Você não tem do que se desculpar. Era Ivis. pois não era a satisfação de um movimento bem sucedido no tabuleiro da conquista. Haggi indagou: – Não é mais noiva? Mas e Garat? E as famílias? E tudo que envolve esse tipo de situação? – Não posso me importar com tudo isso se minha felicidade estiver em jogo. Depois daquilo.

– O senhor não entendeu. figura que comandava a reunião era tenebrosa. com o senhor. Suas malas já foram arrumadas e estarão na carruagem. 33.. – Entendo. desesperado e resfolegado: – Senhor. Pele acinzentada. Não fique noiva de novo sem me consultar. o senhor precisa ir imediatamente à Capital! – Pois bem. com firmes ordens para seguir imediatamente para a Capital. Haggi afastou-se de Ivis. para partir imediatamente. Sua voz não parecia humana. não há necessidade para tamanho desespero. amanhã preparar-me-ei para a viagem. pois há guardas reais para a sua escolta. uma convocação do Rei. não fosse um serviçal do palácio têlos abordado correndo.LIDERANÇA A . Vou esperá-la na Capital. Ivis sorriu e acenou um adeus tímido. O rapaz fez uma pausa e prosseguiu: – Creio que não exista a opção de não ir agora. longos cabelos desgrenhados.. mas por certo nos encontraremos novamente. negros como breu. Haggi aproximou seu rosto do de Ivis e por um instante estiveram verdadeiramente perto de se beijar. de quem não conseguiu obter o que queria. com um olhar resignado: – O dever me chama. a convocação é para agora! Há uma carruagem real a aguardá-lo no pátio. olhos fundos.– E o que a traz aqui? Posso ajudar de alguma maneira? – dizendo isso. soava algum tanto metálica e ao 190 PAZ GUERREIRA .

Quem ousou responder à pergunta de Ayamarusa de por que havia sido permitido a Mulil chegar ao seu destino foi um homem com idade entre os trinta e cinco e os quarenta e cinco anos. antes. causando uma sensação incômoda. A notícia era que Mulil estava percorrendo o caminho de volta. Ele redarguiu ao seu Mestre que lhes pareceu mais conveniente deixar que o deserto destruísse Mulil.mesmo tempo grave. encarregado de cumprir não se sabe qual missão de Montuhotep. mas mais folgados. Os ombros largos e braços secos terminados por grandes mãos denotavam grande força física. pois devem TALAL HUSSEINI 191 . Conhecia muito bem todas as técnicas de combate manual e armado. ou. rosto largo e quadrado. e agora corremos sério risco. O artesão não pode chegar à presença de Montuhotep. esta acompanhada da sua figura faria qualquer um desmaiar. Knef era um assassino profissional. mais precisamente o estômago. que eram os seus discípulos. via-se que era militar de alta patente do exército egípcio. cabelos curtos. pois haviam permitido que Mulil completasse sua missão no deserto. desde as mais violentas até as mais sutis. Todas essas habilidades somadas a uma mente extremamente metódica o tornavam um homem muito perigoso. Pelos trajes. de estatura bastante elevada. Vestia apenas uns trapos em torno da cintura. para extrair dele as informações sobre a missão que lhe foi confiada. fazia vibrar as entranhas de quem o ouvia. Ele começou imprecando-os de palavrões. – Mas não destruiu! – esbravejou Ayamarusa – Vocês o subestimaram. Se apenas sua voz já causava náuseas. O momento ideal é agora. seus servos. lembrando o estilo utilizado pelos povos de além do Indo. Ayamarusa admoestava seus interlocutores. Devemos capturá-lo com vida. Nenhum dos presentes ousava sequer olhá-lo diretamente. trazendo com ele um artesão sagrado. Reúnam todas as forças para realizar essa tarefa. pois era realmente uma visão desagradável. Conhecia todas as formas de matar.

Além de Knef. Sethini dominava o sonho. Seu semblante nem sequer se alterou. Em seguida. perpetrado pelo restante do grupo para chantageá-lo. mas o que possuía era o suficiente para provocar grandes estragos em pessoas desprotegidas. não era questão de coação. Foi cooptado por meio do sequestro de sua família. quando procuravam forçá-lo a um trabalho ameaçando de morte seus familiares cativos. Depois que estiverem entre os seus. Gostava. por onde sabiam que Mulil chegaria. Aparentava pouco mais de trinta anos de idade. havia um sujeito magro e alto. conseguia induzir as pessoas a fazer o que ela quisesse e. pois em verdade tinha idade bem mais avançada.estar chegando à cidade. pálido. Dentro do meio da magia e da feitiçaria não tinha grande poder. de boa aparência física. esposa e três filhos. todos sabiam que ele era mau-caráter. ele mesmo se adiantou e os matou. utilizado para fazer todos os trabalhos mais sujos que eram necessários. Era um homem de instintos violentos. salvo pelo olho esquerdo esbranquiçado. chamado Agap. seguindo em direção à entrada oeste da cidade. realizou o trabalho que lhe ordenavam. fazia parte do grupo uma mulher. será muito mais difícil nos aproximarmos. Era um grupo bizarro. de idade indefinida e de raça também indefinida. Certo dia. poderia causar-lhes danos psíquicos levando-as até mesmo à loucura ou à morte. se fosse o caso. Nos círculos que frequentava. com ares sensuais. O último componente do estranho grupo se chamava Ripu. Vão! E desta vez não falhem! Todos obedeceram imediatamente. assim como realizou todos os que lhe solicitaram depois disso. Também na linha da feitiçaria.LIDERANÇA . mas ninguém conseguia prová-lo. Ja192 PAZ GUERREIRA . formado por assassinos e vilões de todos os tipos. devido a certos rituais de magia negra que costumava realizar. Ele era um mago. Interferindo nesse ambiente. perito nas artes da sabotagem e da intriga.

mais mencionou palavra sobre sua família, seguiu trabalhando para Ayamarusa como se nada tivesse acontecido. Com isso ganhou sua confiança. Os quatro começaram a fazer os preparativos para cumprir sua missão. Desta vez, não podiam falhar. O erro de cálculo sobre o deserto fora grave. Jamais imaginariam que Mulil pudesse conseguir. Poucas pessoas haviam sobrevivido àquelas areias, ainda mais sem conhecêlas previamente. Mas agora não falhariam. O plano era perfeito. O artesão capturado e Mulil morto, isso lhes bastava...

Mulil e Sigés haviam feito uma tranquila viagem de volta. É mais fácil traçar planos de viagem quando se conhece o itinerário e as distâncias a percorrer. Entretanto, por mais que no início Mulil tivesse tentado encetar alguma conversa, não obteve qualquer resultado além de alguns sinais. Além de silencioso, Sigés era bastante compenetrado. Parecia fazer cálculos e planos mentais durante toda a viagem, apesar de ainda não conhecer sua próxima tarefa. Já se aproximavam da cidade, o denotavam algumas palmeiras que surgiam ao longo do caminho e aquela névoa que, ao longe, formava uma espécie de redoma em torno do povoado, que distorcia as imagens naquela área. Sigés carregava seus instrumentos com cuidado. Traziaos num grande saco de lona que parecia bastante pesado, mas em momento algum permitiu que Mulil o ajudasse a levá-lo. Ambos estavam exaustos. Surgiram no horizonte, vindo em sua direção, duas silhuetas. Mulil ficou desconfiado, mas daquela distância ainda não se divisava seus rostos. De qualquer modo, alertou Sigés, que já estava com uma marreta, que era uma das suas ferramentas, nas mãos. Mulil tinha um longo bastão que, aprendera com seu Mestre, era um importante instrumento para longas caminhadas.
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Talvez fossem seus amigos que viessem recebê-los. Sentia saudades de sua amada Sekhmetis. Uma das silhuetas podia ser de seu amigo Zimbro, pelas grandes proporções. Zimbro era um grande guerreiro, dotado de extrema força física e domínio sobre os animais. Parecia comunicar-se com eles, nunca estava desacompanhado de Onix, sua pantera negra. Não, não podia ser ele, pois não havia nenhum animal ao seu lado. A preocupação de Mulil cresceu. Os dois vultos que, agora se via, eram de homens, começaram a correr em sua direção. Não havia onde se esconder, pois estavam em campo aberto. Fugir também era inútil, pois com o cansaço da viagem fatalmente seriam alcançados. Restava lutar. Esperaram parados. Knef lançou-se sobre Mulil, que conseguiu se esquivar do primeiro assalto. O combate tornou-se feroz entre os dois homens. Evidentemente, Knef o superava em força física e técnicas de combate, mas Mulil aprendera com seu Mestre muito sobre tática e estratégia, o que lhe permitia equilibrar as ações. Enquanto isso, Sigés surpreendeu contra o violento Ripu, logrando desviar do seu ataque e contra-atacá-lo com uma forte marretada nas costelas, que o retirou de combate com duas ou três quebradas. Sigés passou a ajudar Mulil contra Knef, que intensificava seus ataques. Mas não viu chegar Agap, que lhe soprou um pó no rosto, paralisando os seus músculos e deixando-o consciente, mas sem qualquer possibilidade de reação. Juntou-se a ele Sethini, colocando um capuz negro sobre a cabeça de Sigés e ajudando Agap a colocá-lo sobre um cavalo. Mulil viu que levavam o artesão, mas nada podia fazer, pois já estava em grande dificuldade na sua luta contra Knef. Os rigores do deserto minavam sua resistência. Knef conseguiu derrubá-lo, sacou uma espada curta e foi em sua direção, pronto para liquidá-lo. Foi quando uma flecha passou zunindo por ele, riscando-lhe o ombro. A espada caiu. Mulil lançou-se sobre ela, mas Knef a chutou para longe. Voltou-se
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para o vulto que disparara contra ele. Estava muito longe para que pudesse identificar. Fora um excelente tiro para aquela distância. Era uma pessoa pequena, mas estava acompanhada de outra, bem maior, com um animal ao lado. Vinham rápido na sua direção. Knef pensou por um momento em qual seria a melhor atitude. Terminar de acabar com Mulil..., mas ficaria exposto a outro disparo. Enfrentar os inimigos desconhecidos... seriam três contra um, pois seus companheiros já haviam fugido com o prisioneiro, acompanhara-os Ripu, ferido. Resolveu fazer uma retirada estratégica, mas ainda teve tempo de se dirigir a Mulil: – Ainda vamos nos encontrar de novo! E você não terá tanta sorte! Chamo-me Knef, guarde bem este nome, pois será o último que ouvirá antes da sua morte – ao dizer isso, saltou sobre um cavalo que seus companheiros lhe haviam deixado, e partiu em disparada. O primeiro vulto a chegar perto de Mulil foi Onix, a pantera negra de Zimbro. Ela poderia ter alcançado o fugitivo, mas permaneceu com Mulil, atendendo a um assobio de seu companheiro. Os outros dois chegaram em seguida. O gigante Zimbro sorria, como sempre, feliz em rever o amigo. A pessoa menor era Sekhmetis, que ajoelhou-se ao lado do prostrado Mulil, abraçando-o carinhosamente. Ver aqueles olhos verdes fazia com que se esquecesse de todas as agruras do deserto. Enquanto o casal se perdia num abraço sem fim, quem disse as primeiras palavras foi Zimbro: – Mulil, você está horrível, o deserto acabou mesmo com você... De fato, o discípulo de Montuhotep estava mais magro, com a pele queimada pelo Sol e ressecada pelo sal, barba de semanas, sujeira de dias. Mas ainda teve energia para responder com humor: – Quase acabou, meu amigo, quase... não fosse o tiro preciso, como sempre, de Sekhmetis. A jovem sorriu. Mas Mulil prosseguiu em tom mais grave: – Ocorre que conseguiram levar Sigés!
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– Quem é Sigés? – perguntaram quase em uníssono. – É um artesão. Foi o motivo de minha viagem pelo deserto. Devia trazê-lo à presença de Montuhotep, que tinha para ele uma tarefa. Mas eu pus tudo a perder... Graças à minha falha, intuo que ele está nas mãos de Ayamarusa. – Montuhotep saberá o que fazer, precisamos ir até ele sem perda de tempo – respondeu Sekhmetis. Os dois homens concordaram. O grupo partiu apressado para ter com o Mestre.

34.
adriel parecia ter dormido vários dias. A busca da placa fora desgastante. Sua vontade era ir direto a Ravi para lhe relatar as novas, mas o cansaço e a hora tardia em que retornaram o fizeram ir diretamente para a sua casa. Bakar, que o acompanhara, roncava sonoramente sobre uma manta no chão da sala. Como nenhum dos homens que os haviam atacado na montanha sobrevivera, acharam seguro ir para casa, uma vez que a notícia da placa ainda não teria chegado aos ouvidos de ninguém, principalmente de Adaran, que não permitiria que seu trono fosse ameaçado por nada. Kadriel não via a hora de falar com Ravi, ele saberia como esconder a placa e como utilizá-la da maneira mais adequada e no momento oportuno. Resolveu, entretanto, fazer a prática de concentração que aprendera com Ravi, enquanto esperava que Bakar acordasse. Sentou-se sobre os joelhos, na posição que lhe havia sido indicada como a mais adequada para concentrar-se, e iniciou os passos. Ao chegar perante o senhor das portas, algo inusitado aconteceu: surgiu um

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Sua pele era de uma cor estranha: um misto de escura acinzentada com um tom avermelhado. Os cabelos e a barba longos estavam desalinhados. como se tivesse apanhado muito Sol. parando bruscamente. em velocidade espantosa. o que pareceu não convencer ao seu amigo. foi arrebatado de volta pelo mesmo caminho até a sua casa. como os escribas. em frente à entrada de uma caverna. Kadriel sangrava pelas narinas. como que hipnotizada. até as altas montanhas do topo do mundo. que Kadriel não conseguira recuperar de imediato a consciência. mas ela não saiu de seus lábios. Kadriel viu seu nome. que jamais ousaria pronunciar: Ayamarusa.? Kadriel pensou na resposta.ruído agudo que quase estourava seus ouvidos. Bakar gaguejou: – Você está bem. passando sobre mares e cidades. Kadriel sentia que aquela vibração fazia com que tudo à sua volta tendesse ao caos. Duas esferas negras. como se o mundo fosse desintegrar-se a qualquer momento. A vibração ensurdecedora continuava. Fez um gesto afirmativo lento com a cabeça.. de uma profundidade insuportável. deparou-se com Bakar. Quando abriu os olhos. Kadriel viu uma multidão vibrando daquela forma. praticamente não tinham esclerótica. frente a frente com um indivíduo magro. De repente. Seus olhos eram negros como o abismo. Kadriel como que se transportou. Quando olhou para trás. sentado com as pernas cruzadas. sentia náuseas e tonturas. que insistiu: TALAL HUSSEINI 197 . vestido apenas com um tipo de calção indiano curto. folgado. de tecido. Voltou-se novamente para aquela figura bizarra e deparou-se com uma imagem que nunca mais esqueceria: os olhos. Kadriel flutuava em frente a esse indivíduo. justo apenas na cintura e em torno das coxas. No exato momento em que soube seu nome.. que o retinha em seus braços com uma expressão de pavor na face. a ponto de deixar aparecer as costelas sob a pele. O impacto do retorno foi tanto.

– concluiu tocando seu próprio nariz. Percebendo que Kadriel não estava muito bem. mas o sangramento estancara. Kadriel ficou curioso. Ravi não demonstrou qualquer surpresa ao se deparar com a placa. Um médico não será necessário.LIDERANÇA . para indicar onde era o sangramento. acho melhor irmos a um médico. Procurou respirar com calma. saboreando com o tato cada uma das letras que formavam o nome de Kadriel. com um ar solene. e sangrando. Ravi fez sinal a uma serviçal para que lhe trouxesse algo de beber. Bakar o ajudou a se levantar. Bakar. fazendo-os entrar no jardim que ficava na parte posterior da casa. colocou sobre a mesa um embrulho e o foi desvelando vagarosamente. mas deixou as perguntas para uma outra oportunidade. Os dois partiram rapidamente rumo à casa de Ravi. aquele que possuía vista para Anthar.. Ravi indagou: 198 PAZ GUERREIRA . desconhecidos tanto para Kadriel quanto para Bakar.. para constatar o que já sabia ser verdade. fazendo ares ainda mais cerimoniais. Kadriel levou as costas da mão ao nariz. ela sabia que devia trazer vinho. buscando forças para pronunciar algumas palavras que pudessem tranquilizar Bakar: – Estou melhor. pois não pareciam humanos.– Pois você não me parece nada bem. já que havia muitos assuntos importantes para tratar. este os recebeu pessoalmente. Chegando à casa de Ravi. Você está tremendo.. apenas pousou a mão sobre ela. Sem pronunciar palavra. Serviu as taças a partir de uma ânfora decorada com estranhos símbolos.. Apenas pelo sinal. depois a olhou. Kadriel fez sinal a Bakar para que mostrasse a Ravi o fruto de seus esforços. Precisamos ir até a casa de Ravi. Havia muito que conversar. Kadriel ainda estava visivelmente trêmulo.

Quer dizer. – neste momento da narrativa. senhor. quero dizer. como tinha por hábito fazer. Tome um pouco deste vinho envelhecido. voltamos para casa.– Vocês tiveram algum problema para consegui-la? Você não me parece nada bem. Ravi fez uma expressão interrogativa. trêmulo. Kadriel. mas este permaneceu em silêncio. – Não foi um problema com a placa. com o nariz sangrando muito. três deles estavam mortos e o último fugia em disparada em direção à floresta. Tive de abatê-lo com uma pedrada. Depois preparou um chá e fez Kadriel bebê-lo. quando acordei. ajude-me a colocá-lo neste catre. ontem quando retornamos ele estava bem. Colocou uma mão sobre o coração de Kadriel e a outra sobre a cabeça e. no mesmo local em que certa vez. esperando alguma pergunta de Ravi. aguardando a continuação. me acertaram na cabeça.. apareceram alguns homens. Ravi o interrompeu: – Trêmulo e sangrando?! Rápido. o encontrei ajoelhado no chão. fechando os olhos.. Hoje pela manhã. Não foram eles que me deixaram assim – Kadriel ainda estava visivelmente perturbado... Este logo pe- TALAL HUSSEINI 199 . Quando me recuperei.. Então Bakar prosseguiu: – eram quatro. e então os quatro partiram para cima de Kadriel.. nós encontramos a placa num ninho de falcão nas montanhas. – Então por que Kadriel está atônito? Chegou a ser golpeado? – Não. Como era muito tarde e estávamos cansados.. Nós a pegamos sem maiores problemas. Mas.. mas quando estávamos de saída.. pronunciou algumas palavras impossíveis de se entender. havíamos sido atacados por um falcão. na verdade tivemos sim alguns problemas. lhe fará bem.. na nossa infância. colocando-me fora de combate. – fez uma pausa. – Senhor. ele não havia deixado quase nada para mim. e foi Bakar quem tomou a palavra para tentar explicar. nos pegaram de surpresa.

Ravi o velava: – O que aconteceu. Assim que Adaran souber da placa. pior ficará a situação da população. então? – Sim. parecia impressionado.gou no sono. Mas não se preocupe... – O senhor o conhece. não poupará esforços para 200 PAZ GUERREIRA . já criei algumas barreiras que o impedirão de chegar novamente até você. Mas você não deve se preocupar com ele agora. Temos que traçar alianças fortes em torno de um núcleo formado pelos guerreiros mais fiéis. que também ouvia.. Bakar. isso eu já sei. Quando despertou. Agora já o conhece. não acontecerá de novo. Ele era o líder de um grupo que atacou Mulil. mas algo muito estranho aconteceu. como lutar pelo trono e fazer deste País um lugar belo e justo. – Mas quem é esse? É uma figura real. Bakar me contou tudo. ou uma fantasia tenebrosa dos meus pesadelos? Pois o vi também no meu sonho. Você fez uma prática de concentração? – Sim.LIDERANÇA . Quanto mais tempo Adaran ficar no poder. – Vamos levar a placa a público.. Suas atenções devem estar focadas em como cumprir o seu destino. – Ele é ambos. o conheço há muito tempo. Só esperava um novo momento histórico para buscar realizar seus intentos malignos. O mal que ele pode fazer é bem real. dormindo por aproximadamente meia hora. Kadriel? – Nós recuperamos a placa. mas o momento agora é para uma estratégia mais elaborada. Ravi limitou-se a dizer: – Ayamarusa quis vê-lo de perto. rapazes. tenho certeza de que muitos nos apoiarão! – Sim – concordou Bakar – vamos lutar pelo direito de Kadriel à sucessão. aquela que o senhor me ensinou. – Entendo o seu açodamento. ele é fruto da juventude. – Sim. – Kadriel relatou então sua experiência.

era melhor obedecer. mas evitando peso demais. para retornar quando estivermos preparados. o que se passara. trabalhava num consultório de atendimento médico ao público mantido pelo governo. Devemos aproveitar para partir enquanto não somos procurados. – O senhor sugere fugir? – perguntou Kadriel. apenas uma nota dando conta do fechamento por determinação do Rei Adaran. Para isso. Como estamos agora. nos seus sonhos. mas de se retirar para uma posição estrategicamente melhor. algumas em estado grave. Kadriel lembrou-se da placa: – Pode deixá-la comigo. e em relação a ele mesmo. Kadriel perguntaria sobre isso a Ravi. A maioria dos médicos colegas de Dhara havia ido embora ao se deparar com a notícia do fechamento. com certa indignação. no início da noite. Depois disso. Na porta. Já na saída. eu a esconderei onde jamais poderão encontrá-la. 35. Preparem o básico para uma longa viagem. Encontrem-me aqui amanhã. Formava-se uma fila de pessoas do lado de fora. para serem atendidas. Desde que voltara do exterior. nas suas meditações? E na montanha. Por agora.destruí-la e também àqueles que a viram. como conseguira força para arremessar os quatro oponentes como fossem bonecos de palha? No momento oportuno. Kadriel ainda tinha muitos questionamentos: o que Ayamarusa representava em relação a Mulil. nossa vida ficará bem mais difícil. pouco antes da morte do Rei Sokárin. As portas estavam fechadas. Agora vão! Os dois obedeceram. seremos facilmente destruídos. hara se surpreendeu quando chegou ao seu local de trabalho. precisaremos partir. Dhara ia TALAL HUSSEINI D 201 . – Não se trata de fugir.

Dhara dirigiu-se às outras pessoas que ali estavam: – Todos os casos mais graves já receberam tratamento inicial.fazer o mesmo. O vozerio se elevava. Mais dois médicos que estavam por ali começaram a ajudá-la. não temos solução. Peço que retornem amanhã. Terminando de atender ao último paciente realmente grave. tenham calma! Tudo será resolvido! Ninguém a ouvia. ou que se dirijam a outro centro de atendimento. pois do lado de fora não temos as condições para isso. Agora só o que peço é que voltem às suas casas. talvez por se sentirem mal com o exemplo. logo que terminava de atender a um paciente. outro lhe pedia ajuda. que passaram a ajudar. quando este malentendido já deverá ter sido solucionado. antes comporta-se como um grande e perigoso animal. mas uma mulher de certa idade lhe implorou por ajuda. Os médicos conseguiram sair do local. observando o juramento que fizera para poder exercer a medicina. sob o comando de Dhara. – Este é o terceiro centro a que venho – gritou um homem do meio da multidão – todos estavam fechados! – Não temos mais informações do que vocês. graças a uma ou outra voz de bom senso que 202 PAZ GUERREIRA . e a situação já estava ficando crítica. em vão. a multidão. Sua vontade era ir até o palácio real tirar satisfações sobre aquele absurdo: deixar a população sem atendimento de saúde. e a médica não pôde deixar de lhe prestar atendimento. revolta e indignação: – Por favor. Não poderemos atender a mais ninguém. Mas a massa humana não tem um comportamento racional. Havia também alguns auxiliares. Esse juramento não era muito praticado na época. No entanto. Dhara divisava as expressões de ódio e desespero. Dhara tentava conter. talvez por consciência. alguns objetos começavam a ser atirados nos médicos. Desculpem! A população começava a se tornar hostil. pronto para devastar tudo à sua frente quando seus desejos não são atendidos.LIDERANÇA . mas Dhara o levava a sério. Por ora.

ela é muito mais grave do que parece.. e perigoso. Entretanto. Dhara decidiu ir imediatamente até o palácio real.. correu até ela. já estou fazendo. ao Ministro. Houve tempo apenas para que Dhara e os outros saíssem dali. Kadriel a avistou... Se você quer ir ao palácio. Mas confie em mim. estou indo até o Palácio Real. falando consigo mesma. Ela andava rápido. Ele a chamou. Esteja lá. sem falta. pois Adaran está se mostrando um tanto autoritário. interceptando o seu passo: – Dhara! Tudo bem? Vejo que está com pressa como eu. – Sim. não vou tentar dissuadi-la. escute com atenção – disse Kadriel em tom sério. – E o que você pretende fazer? – Pretendo não. – Não quero desiludi-la. certo? Você promete? TALAL HUSSEINI 203 .. mas depois me encontre em minha casa. ao Secretário. – Creio que você tem razão. segurando-a nos dois ombros – preciso que você confie em mim. – Mas por quê? – Simplesmente esteja lá. e que não eram os culpados pelo ocorrido. o rei mandou fechar os centros de saúde. Como não ouvisse. mas quero ouvi-lo da boca de alguma autoridade governamental.. para ser recebida por alguém que lhe desse uma explicação plausível para aquela situação absurda. A população está perecendo nas ruas. No caminho para o Palácio Real. ela ainda não tinha sequer a informação do nome do novo ministro da saúde. aí lhe explico melhor a situação. para obter mais informações. apesar de eu não poder lhe explicar muito agora. mas isso me parece inútil.reconheceu que os que ali estavam ao menos atenderam algumas pessoas. – Dhara. Mas mesmo essas vozes logo foram caladas pela multidão em fúria. muita. até o cair da noite. enfim a quem a recebesse. a ensaiar o que diria ao Rei.

mãos finas e longas em relação à sua estatura.– Sim. o momento é realmente muito delicado. – concordou Dhara. afinal ali era apenas o primeiro ponto de checagem. 204 PAZ GUERREIRA . com autoridade. Subiu com passo firme as escadarias do palácio. O homem não demonstrou qualquer perturbação. juntas dos dedos salientes. – Outra coisa: não se exponha.. senhora? – Pode levar-me imediatamente para ver o Ministro da Saúde! – retrucou Dhara. nem confronte as autoridades.LIDERANÇA . Gostaria de ver imediatamente o responsável pela saúde! Os guardas cochicharam. mais por ter ficado impressionada com a forma como Kadriel colocou a situação do que propriamente com as circunstâncias. Os guardas que estavam à porta barraram sua entrada. Observou que a segurança havia sido redobrada. – Alto! Identifique-se! – Sou médica do reino! Os guardas se entreolharam e resolveram deixá-la passar. Ela assentiu e continuou seu caminho. deu um sorriso igual ao primeiro e respondeu: – Temo que isso não seja possível. O primeiro guarda voltou acompanhado de um indivíduo de baixa estatura. nova parada. O pequeno homem se aproximou de Dhara com um sorriso pouco convincente: – Em que posso ajudá-la. Desta vez ela não esperou ser inquirida e foi logo se adiantando: – Sou médica do reino.. e que mal poderia oferecer uma moça? Tendo entrado mais vinte metros. o outro permaneceu em silêncio perante Dhara. nariz longo. Um deles saiu. franzino. tudo bem. olhos pequenos. tronco ligeiramente curvado para a frente. você poderá se colocar em risco.

Desta vez.Dhara o fuzilou com os olhos. sua fisionomia assumir traços que pouco lembravam a beleza que despertou o amor de Kadriel. fazendo-o voltar-se para ela. O Rei não concede audiências a qualquer pessoa que bate às portas do palácio. Sugiro que a senhora tente marcar um apontamento com a assessoria do Rei e quem sabe em dois ou três anos será atendida. neste caso. Ela o puxou com vigor. Ela avançou sobre o homenzinho e agarrou-o pela gola do casaco antes que qualquer dos guardas tivesse tempo para esboçar uma reação. O que ele não viu. como direi? Impossível. Portanto. acabo de vir do centro de saúde no qual trabalho como médica. ele completou: – Sua Majestade. sua arrogância tinha desaparecido.. Via-se que era um desses funcionários medíocres a quem fazia gosto abusar do pequeno poder que lhe fora dado. mas diria que isso é um tanto. Talvez eles não tivessem a vontade para isso. quando voltou as costas para Dhara.. mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. ainda não nomeou seu ministério.. como eu. deram com a cara na porta. Posso entender que o Rei não queira me atender. pois aquele homem era do tipo irritante para todos e não apenas para o povo que acorria ao Rei. acabo de atender a várias pessoas em estado grave que. a pessoa que a senhora deseja ver – fez uma pausa estalando os dedos das mãos – não existe. Agora que estava à sua mercê. mas não suportarei o cinismo de um subalterno qualquer. – deu novamente o seu sorriso sarcástico e voltou-se para deixar a sala. foi Dhara quem não se abalou e emendou com firmeza: – Bem. o Rei ainda é responsável por cada um dos ministérios! Exijo uma audiência imediatamente! – Não quero ser pessimista. meu senhor. O senhor vai terminar de me atender e vai me explicar exata- TALAL HUSSEINI 205 . foi seu olho esquerdo escurecer. se transformando em medo: – Escute aqui. o Rei Adaran..

Gosto de pessoas determinadas. Você é médica. por isso lhe concedo esta audiência.. preferiu fingir que não ouviu. que pensou ter retomado o controle da situação. tapetes tecidos a mão..mente o que eu preciso fazer para agendar uma audiência com o Rei. para uma médica. Se Dhara tivesse conhecido aquela sala nos tempos de Sokárin. Adaran prosseguiu: 206 PAZ GUERREIRA . Dhara retomou a fisionomia tranquila e acompanhou os guardas. o que me traz à sua presença é o fechamento dos centros de saúde. Dhara ajoelhou-se em sinal de respeito. Depois de alguns segundos. ainda que leve dez anos. Por favor nos acompanhe. mobília clássica. até mesmo por que se quisessem fazê-lo não precisariam de subterfúgios. O Rei estava próximo a uma grande lareira acesa. intercedeu: – Já basta. senhora. teria percebido que o novo Rei fora bastante ágil em redecorá-la. mas o oficial completou: – o Rei vai vê-la imediatamente. – Você é muito bonita. Não lhe ocorreu que poderia ser um subterfúgio para prendê-la. com grandes cortinas de veludo. andava em torno dela. O sorriso se desvaneceu da face do homenzinho.! O homem estava visivelmente intimidado. Dhara ousou tomar a palavra: – Majestade. Adaran parecia estudá-la. pois não? Dhara assentiu. – antes que ela pudesse concluir o raciocínio. mas ainda não tivera tempo de responder quando um oficial da Guarda Real.LIDERANÇA . Adaran fez sinal para que ela se levantasse: – Eu a estava observando em sua conversa com o meu funcionário. Fizeram-na entrar numa grande sala. senhora! – o sorriso voltou aos lábios do homenzinho. Dhara não entendeu se aquilo era um elogio. acompanhado de dois soldados.. que era o ofício de despachos do Monarca... Outra pessoa teria começado a se sentir desconfortável. medindo-a dos pés à cabeça..

– O que você acha de ficar para o jantar? Poderíamos discutir isso com mais... privacidade. – Majestade, seu convite realmente é uma honra, mas não vejo o assunto como de ordem privada e sim de ordem pública. Gostaria de saber apenas se o fechamento é temporário ou definitivo. E se os médicos dos centros podem considerar-se à disposição ou se ainda estão vinculados ao governo. – O fechamento é por tempo indeterminado, pois estamos redirecionando as prioridades. Os médicos continuam vinculados ao governo, pois serão muito úteis nos próximos tempos. Algo mais? – Nada mais Majestade – disse Dhara, ajoelhando-se novamente como para se despedir da entrevista. – Por que tanta pressa? Afinal você ainda não me respondeu sobre o jantar... – Infelizmente ainda tenho muitos doentes para atender hoje... – mentiu Dhara. – Eles podem esperar. Os que têm chance de sobreviver vão aguentar até amanhã. Os outros, bem..., morrerão de qualquer jeito... – Sim, Majestade, pode ser, mas minha obrigação é ao menos tentar evitá-lo. Agora, peço permissão para me retirar. O Rei demorou a responder, deixando Dhara mais alguns segundos ajoelhada. Então a dispensou. Quando ela já saía pela porta do aposento, o Rei lançou: – Também sou como você, – Dhara voltou-se – determinado. Sempre consigo o que quero… refiro-me ao jantar. Você ainda não me disse seu nome... – Dhara, Majestade – e deixou o salão. Ela manteve a compostura até deixar o Palácio Real. Já nas ruas, respirou fundo. O novo Rei era uma figura no mínimo bizarra. Dhara não

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estava se sentindo muito bem. Havia algo no ar do Palácio que não lhe fez bem. Seguiu para a sua casa o mais rápido que pôde.

36.
arauto do rei anunciou a presença de Haggi no Palácio Real, atendendo à convocação que lhe fora feita. O diplomata teve de aguardar alguns minutos antes de ser recebido, o que preferiu fazer de pé. Ficou imóvel, pernas separadas, mãos para trás, em posição de descanso, diante do funcionário franzino, de sorriso sarcástico, o mesmo que havia atendido Dhara. Depois de cinco minutos com Haggi a encará-lo, seu sorriso já havia desaparecido da face, após dez minutos já se sentia desconfortável. Vinte minutos de espera e o homenzinho já rezava para que o Rei atendesse logo aquele visitante. Suas preces foram atendidas: Haggi foi chamado. Entrando na suntuosa sala de despachos do novo rei, Haggi logo percebeu as profundas alterações na decoração. Na verdade, estava bem mais aconchegante do que a sala austera que Sokárin utilizava, salvo pela presença de Adaran, que não era nem de perto tão agradável quanto a do antigo monarca. Haggi ajoelhou-se diante de seu parceiro de combates com sabre, cumprindo o protocolo real. Adaran demorou-se um pouco até lhe dar a ordem para se levantar, saboreando o momento. Finalmente, dirigiu-se ao diplomata: – Meu caro Haggi, há quanto tempo! Levante-se. Soube que você estava quase gostando da vida do interior – ironizou Adaran. – Majestade...! – terminou Haggi a mesura – sim a vida no interior não é das mais desagradáveis. Sabem receber bem seus hóspedes.
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O

– Diga-me: como se posiciona Nakan em relação à sucessão? – fuzilou o Rei, de forma bem mais direta do que as conversas que costumavam ter. – Pareceu-me tranquilo, em princípio, disse que fosse quem fosse o sucessor, apoiaria a decisão de Sokárin. – E depois que soube quem de fato era o sucessor...? – O tom do seu discurso não mudou, mas não sei... – O que você não sabe? – Não sei se ele ficou feliz. Procurou não demonstrar nada abertamente, mas o percebi um pouco reticente. Não sei se foi alguma coisa que ele ouviu na reunião do Conselho de Guerra... Bem, poderia ser só uma impressão minha. – Ele mencionou algo do que foi conversado no Conselho de Guerra? – Não, Majestade, mas sou treinado para perceber a intenção das pessoas, e por mais que Nakan saiba dissimular muito bem seus pensamentos, pude notar algo diferente. – Haggi, como rei, não tenho tempo para conversas muito prolongadas. O que preciso saber é se posso ou não confiar em Nakan e qual sua posição em relação à Aliança. Haggi mirou fixamente nos olhos o Rei, antes de responder: – Majestade, na sua posição, eu não confiaria em Nakan. Quanto à segunda pergunta, creio que se ele tivesse de tomar uma posição aberta, haveria divisão dentro da aliança. E como sabemos, tudo que está dividido fica mais fraco. – Está certo. Era só o que eu precisava saber. Permaneça na cidade, Haggi, pois em breve terei outra designação para você. Como sempre dizíamos, um diplomata hábil é útil para qualquer governo. Haggi fez um sinal com a cabeça e preparou-se para sair. Quando já deixava o aposento, o Rei lhe falou: – Ah, e tão logo meus compromissos me permitam não vamos abrir mão de um bom combate com sabres.
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Saindo, Haggi respondeu: – Sim, Majestade, quando quiser. A diferença é que agora não creio que possa vencê-lo... Depois que Haggi se havia afastado do recinto, uma figura que estava oculta numa sala contígua apareceu diante do Rei. – Então, General Ofis, nosso diplomata passou no teste. Confirmou o que nossos informantes já haviam dito: Nakan não é confiável. Creio que agora poderemos designar-lhe a próxima missão. – Creio que sim, Majestade... – respondeu o sombrio Ofis, roçando a mão no cavanhaque, com ares de quem não estava plenamente convencido da confiabilidade de Haggi. O Rei não se importou muito com isso, pois afinal de contas, Ofis não confiava em ninguém mesmo.

37.

Q

uando Bakar chegava perto de sua casa para fazer seus preparativos, conforme Ravi determinara, alguém o chamou: – Bakar, tudo bem? O que você faz por aqui? Bakar voltou-se surpreso e deparou-se com Mirta. – Mirta...! – Então, o que faz por estes lados? – É que... bem... eu moro aqui perto. – E por que tanta pressa? – É que tenho umas coisas para arrumar em casa. – É uma pena... Pois tinha pensado em darmos um passeio. – Infelizmente, hoje não vai ser possível.

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mas não tenho tantos amigos. Se não se importar.. E. certo? – Certo. akan passava em revista suas tropas. estão bem. – Uma viagem surpresa! Adoro surpresas! Será que seus amigos não se importariam? – Creio que não. Que ótimo! Gostaria de fazer algo assim. Partiremos amanhã. posso ao menos acompanhá-lo até a sua casa. sentindo que falou demais.. O gigante arrumou rapidamente suas coisas e ficou o resto do tempo pensando em Mirta. Agregue-se a isso o fato de Bakar estar apaixonado por Mirta. Após ter presen- N TALAL HUSSEINI 211 . mas acho que você poderia vir conosco. Bakar. 38. O governador acreditava nessa fama e fazia questão de incentivá-la. – Como estão os seus amigos? – Bem. saindo em disparada. – É claro que não. A fama era de que seus homens eram os mais bem treinados do reino. poucas coisas. Para onde vão? – Ainda não sei. Jamais passaria por uma mente ingênua como a de Bakar achar algo de estranho em alguém que ele conhecia há tão pouco tempo. preparando a viagem – Bakar interrompeu a frase. – Vocês vão fazer uma viagem entre amigos. haviam-se encontrado por coincidência. Arrume suas coisas. estou indo para a mesma direção. aceitar acompanhá-lo numa viagem de destino desconhecido. e me encontre aqui na minha casa no final da tarde. ademais. até depois – respondeu Mirta. e quem mencionou a viagem e a convidou foi ele.– Bem.

Sua cidade era uma das poucas fortificadas no Reino.ciado o ocorrido na reunião do Conselho de Guerra com o Rei. para marchar com suas forças rumo à Capital. ao Norte e a Leste. mas ao engrossar outras fileiras podiam fazer a diferença. O General negava a hipótese. ao menos por enquanto. o acesso à cidade ficava muito difícil. Ele governava a menor cidade da Aliança. Já se havia reunido com alguns dos governadores das outras cidades da Aliança. A ganância. uma garantia da paz. pois mesmo a força das doze cidades reunida não era bastante para superar o exército real e principalmente a unidade de elite da Guarda Real. todos os queriam como aliados. Também havia muita gente que dizia que ele se preparava para um golpe de estado. mas nada podia fazer. A unidade desta já não era a mesma de tempos passados. Nenhum oficial sabia de nada nesse sentido. o General Nakan havia acirrado ainda mais os exercícios. só sendo possível por dois grandes portões. sem pensar na coalizão. a sede de poder. O arauto anunciou o visitante: o Rei Escorpião. O Rei sempre acompanhava seus soldados nas campanhas. Seu exército era menos numeroso do que os demais. mas essa limitação era compensada com um treinamento rigoroso e soldados muito fortes e valorosos. era absurda. Os homens já se perguntavam se o País se preparava para alguma guerra. cada vez mais. Seu pequeno número não permitia que sustentassem sozinhos uma longa campanha. Tal hipótese. muitas vezes. este na direção da Capital. Nakan sabia que isso os enfraquecia. limitando-se a dizer que estar bem preparado para a guerra pode ser.LIDERANÇA . Mas Nakan de fato estava pensativo naqueles dias. Dessa forma. no entanto. Nakan determinara a restauração e o reforço de todos os pontos falhos na muralha. A verdade é que Nakan estava inquieto. levava cada um a buscar seus próprios interesses. deixando um substituto para gerir a cidade na sua ausência e na hipótese de 212 PAZ GUERREIRA . Em suma. o orgulho dos líderes locais.

Suas atitudes no Conselho de Guerra e em relação ao Conselho dos Anciãos o haviam deixado extremamente preocupado. Quatro governadores de outras cidades nem sequer atenderam ao seu convite. vamos ser francos e diretos nesta conversa. Podia contar com aquele apoio incondicional.não retornar com vida. ou ainda de neutralidade. o que demonstrava que haviam tecido sua união antes de qualquer outra coisa. o que dava no mesmo. para mim também parece a única coisa clara nesta sala – esbravejou o Leão. Nakan passou a se dirigir somente ao líder. Por ora. Nakan gostou da conversa. Quer realizar um levante contra o governo central? TALAL HUSSEINI 213 . com sua voz tonitroante – você ainda não disse por que conversa com os governadores da Aliança. a única coisa que fica clara para mim é que vocês quatro se posicionarão em conjunto – disparou Nakan. As quatro outras cidades anunciaram que viriam conversar em bloco. não pelo Rei mas por suas condutas. Entraram lado a lado na sala. Outras duas cidades lhe prestaram apoio integral. seria realizada também em bloco. Sua manifestação de apoio ou de repúdio. Mas na conversa Nakan rapidamente confirmou suas suspeitas: o Velho Leão os tinha em suas mãos. pretendendo demonstrar igualdade. a ponto de manifestar publicamente sua repulsa. qualquer que fosse a posição por ele adotada. Os governadores foram anunciados. por que testa seus apoios. Os que não atenderam ao seu chamado queriam deixar clara sua postura de total alinhamento com o governo da Capital. Nakan não havia em momento algum dissimulado seus sentimentos em relação ao governo central de Adaran. Uma coisa preocupava Nakan: seu líder. A certa altura da conversa. deixando os outros governadores em segundo plano: – Egas. o que deixava claras suas intenções de romper a Aliança. – Creio que em um ponto concordamos. ou seriam garras.

Todos os soldados de Nakan estavam em alerta. Egas. Não quero levantar-me contra ele. Não sei se podemos confiar no novo Rei. mas podem lutar juntos para ter sobre o que reinar. – Nós lhe deixaremos saber nossa posição no momento oportuno. Nakan – declarou Egas já se levantando. acompanhado de uma força considerável. desde os tempos do Imperador Medhavin. 214 PAZ GUERREIRA . Disse pausadamente: – Dois leões não reinam juntos.. que dirigiu-se pessoalmente ao portão. Egas. de aproximadamente mil soldados.. meu caro. no que o acompanharam os demais governadores. bem como todos os portões da cidade eram mantidos fechados. depois continuou seu discurso: – evidentemente não quero guerra contra o Rei. Nakan também se levantou.. pode fazer crescer os olhos de um Rei ganancioso – Nakan relatou-lhes o que presenciara no Conselho de Guerra. O Velho Leão coçou a barba. a situação ainda não está definida. em sinal de educação e quando já estavam na porta de saída. E exatamente nestas condições ela se apresentava quando surgiu diante da cidade um emissário do Rei.– Egas. Nossa região é rica. O Leão sorriu e deixou a sala. nem levar o País a uma guerra civil. lançou: – Só espero que esse momento não seja no campo de batalha. Apenas quero manter a autonomia que sempre tivemos. Apenas quero resguardar os interesses das cidades da Aliança. mas gostaria de me mostrar forte o suficiente para que ele também não queira guerra comigo. Um sentinela foi de imediato avisar ao governador.. – Entendo. E isso só é possível com a Aliança sólida. como sempre fazia quando estava pensando seriamente sobre alguma coisa.LIDERANÇA .

Todos à sua volta guardavam um silêncio ansioso. eles seriam rechaçados com facilidade. Nakan sabia que se respondesse a verdade. O emissário. e beijo o selo da Divindade. não posso segui-lo. pois causariam tumulto na cidade. Tinha um dia para juntar seus pertences pessoais e deixar a cidade. acompanhado do capitão que comandava aquela divisão. Nakan limitou-se a responder: TALAL HUSSEINI 215 . Seus bens estavam confiscados. e ele estava exilado.O emissário dava claros sinais de irritação quando o governador ordenou que se abrisse o portão. Nakan por fim respondeu: – Eu juro – o emissário respirou aliviado. mas lhes solicitou que os soldados permanecessem do lado de fora. Essa era a sua formação. suava frio. Se o General Nakan resolvesse resistir. que não juraria absolutamente nada por Adaran. O Rei Adaran não representa para mim nenhum desses valores. que sabia do conteúdo da carta. Nakan abriu lentamente o envelope: ele estava destituído do posto de general do reino e também de governador da cidade. Tinha que entregá-la. seria destituído do governo e provavelmente preso. esperando pela jura. E uma semana para deixar o País. a beleza e a bondade. Mas um guerreiro não pode deixar de dizer a verdade. Provavelmente sua cabeça seria enviada à Capital cravada numa lança. jura fidelidade e obediência ao novo Rei? O senhor deve responder e beijar o selo real que aqui trago. que deveria entregar a Nakan dependendo da resposta que este desse a uma pergunta que devia fazer: – Senhor Governador Nakan. Portanto. Juro defender a justiça. juro obediência aos meus Mestres. isto é. O emissário portava um escrito com o selo real. mas seu alívio durou pouco – fidelidade ao povo da minha cidade. Permitiu que entrasse o emissário.

– Mas nós podemos exterminar os soldados do Rei. meus fiéis camaradas. mas quem lhe teria dito? Haggi? Outros informantes? Impossível saber. – Esses sim. Se resistirmos seremos nós os exterminados. 216 PAZ GUERREIRA . mas a população sofreria. A notícia se espalhou rapidamente pela cidade. E já nem podemos dizer que há uma Aliança. nos sentiríamos felizes com tal morte. Passou a noite pensando na medida mais certa a tomar. O Rei o surpreendera.– Os senhores são meus convidados no palácio para esta noite. nossa cidade seria maltratada. Nakan sorriu: – Agradeço-lhes. Já decidi: podem comunicar aos homens que me retirarei da cidade amanhã ao meio-dia. que temos o espírito guerreiro.LIDERANÇA . vamos morrer combatendo. fora rápido em suas ações. O burburinho era inevitável. É certo que ele não escondera uma certa animosidade contra o Rei. o capitão disse que preferia ficar acampado do lado de fora com seus homens. mas o mais acertado a se fazer é aceitar as ordens do Rei. A maior parte da população se revoltava contra o Rei e apostava que Nakan não entregaria a cidade sem luta. viemos prestar-lhe nossa solidariedade e dizer que estamos ao seu lado. senhor. – Então. A Aurora ainda não anunciara seus róseos cabelos sobre a curva do horizonte quando um grupo formado por todos os capitães do exército de Nakan lhe pediu audiência: – Senhor. Mas e os outros que virão? O exército do Rei é mais forte do que todo o exército da Aliança. Mas os soldados continuam do lado de fora das muralhas. Eu me retiro e nossa cidade será poupada. O governador parecia o menos preocupado. seja em que circunstâncias for. O importante era resolver o momento. O emissário aceitou de pronto o convite. – Nós.

que não sabiam da decisão do governador. Levava consigo uma carroça carregada com mantimentos para a viagem e alguns gêneros úteis. senhor. sob as ordens dos seus capitães. quando escutou a frase dirigida a um dos capitães: – Permissão para sair de forma.Próximo do meio-dia. preparados para segui-lo. os soldados do Rei. montou em seu cavalo e já se preparava para partir. senhor – disse outro. mas sabiam que seriam massacrados. Ninguém de toda a corte se propusera a acompanhá-lo. do lado de dentro. Ele não conseguira demovê-la desse propósito. Estavam preparados para entrar em combate. ordenando que não reagissem contra os soldados do Rei e que acatassem as ordens dos seus novos superiores que viriam. – Permissão concedida! – repetiu o capitão. Ele terminou sua peroração. Esses soldados já tinham deixado preparados seus sacos de viagem. Ao escutar no meio da tropa gritos sugerindo a batalha. TALAL HUSSEINI 217 . Primeiro. vários cavaleiros fizeram o mesmo. Além da infantaria. estavam tensos. todos os soldados de Nakan se perfilaram no pátio em frente ao portão. Depois desmontou e foi conversando com os homens como se cada um deles fosse seu filho. Sua preocupação aumentou quando começaram a escutar as formações de soldados e os gritos de guerra do lado de dentro dos muros. e acompanhar o meu general – disse um soldado dando um passo à frente. E assim vários soldados. formandose atrás de Nakan. Nakan passou em revista seus soldados. – Permissão concedida! – Permissão para sair de forma. para saudar o general que se despedia. imediatamente os dissuadiu. Ivis o acompanhava. percorreu toda a linha de frente a cavalo. pois sabiam que sua vida dali em diante seria difícil. quase metade do total o fizeram. Do lado de fora.

são homens livres! E. Pretendemos sair em paz. você precisaria muito mais do que esses mil homens para pedir que deixemos as armas. esses não são soldados do reino. O capitão entendeu a mensagem. tentei demovê-los dessa ideia. Nakan respondeu com seu velho sorriso. em segundo lugar. e as armas e equipamentos que portam pertencem ao governo. para ver diminuir as muralhas de sua amada cidade. mas este se dirigiu ao comandante: – Eu poderia ter resistido a essa ordem de usurpação do meu governo e da minha cidade. mas esses são soldados do Reino. Os portões se abriram. mas não o fiz para evitar derramamento de sangue.LIDERANÇA . Não posso permitir que os levem. e ordenou a seus homens que não interferissem na saída. com a segurança de quem não olhou para trás. – Senhor. tentando conter a deserção: – Parem! Todos vocês! Apenas Nakan foi exilado! Quem o acompanhar será considerado um fora da lei! Ninguém lhe dava ouvidos. pelo contrário.O emissário corria desesperado de um lado para o outro. entraram na cidade para mantê-la sob controle e noticiar à população algumas medidas do novo Rei. Não conclamei ninguém a me acompanhar. terá de vir pegá-las. mas se vocês tentarem nos impedir. de quem já sabia perfeitamente para onde ir. Dirigiu seus homens em direção à região das montanhas. – Em primeiro lugar. Se você realmente as quer. impressionado com a imponência de Nakan. Depois que Nakan estava longe. Questionado por um dos oficiais sobre para onde pretendia rumar ao deixar o País. não hesitaremos em entrar em combate. Os soldados do Rei fizeram menção de tentar conter a saída dos soldados de Nakan. nem uma vez sequer. Mas eles me acompanham mesmo assim. 218 PAZ GUERREIRA .

já que essas populações se consideravam esquecidas pelo governo e tinham em seu sangue uma certa rebeldia contra O TALAL HUSSEINI 219 . Capitão só pensava em sua vingança contra Ofis. agora Sua Majestade Adaran. os nomes de todos os que haviam deixado a Guarda Real após a ascensão de Adaran ao trono faziam parte da lista de procurados. conhecia-se o grupo e nutria-se por ele certa simpatia. sob a acusação de assassinato de sua família. Alguns desses de fato acreditaram e reuniram-se a ele. o Capitão ainda tinha bem claras em sua memória as imagens finais de sua família. agora General Ofis. depois que se recuperara no lago. Nos povoados das montanhas. mas isso não importava. e isso o alimentava em seu sonho revanchista. Além do Capitão. Também não podia esquecer que. os de maior confiança. O Capitão se tornara uma espécie de guia daqueles jovens – praticamente todos os que o seguiram eram aqueles que não tinham família e procuravam uma bandeira por que lutar –. antes de se tornar relevante. Seus inimigos haviam crescido. apesar de sempre fazer questão de deixar claras suas intenções de vingança. Não era um grupo grande. No reino. formando uma milícia que se ocultava nas montanhas. não se propagavam entre o povo quaisquer notícias a respeito desse grupo. que acreditariam na sua estória. apesar de até aquele momento não terem realizado nenhuma ação contra o poder constituído. o Capitão conseguira fazer contato com alguns de seus homens. mas na corte sabia-se da sua existência e. na sua maioria formado por ex-componentes da Guarda Real. essa existência devia terminar. e contra Adaran. além de procurar Justiça.39. era um homem procurado pela Justiça. Mesmo assim. mas era bem preparado.

enquanto pelo outro lado os arqueiros entrariam em ação. Foi bastante golpeado pelos Guardas e imediatamente arrastado à presença do General Ofis. O segundo tentou fazer o mesmo. ao contrário dos demais. Nesse instante. Adaran já estava em segurança dentro do Palácio. Quando o tumulto premeditado começou. Alguns Guardas Reais misturaram-se ao povo na tentativa de perseguição dos agressores. O homem foi amarrado num palanque. mas foi impedido. mas as outras foram barradas pelo escudo de Ofis. que vinha cercado por vários homens da Guarda Real. Uma das setas passou raspando pelo ombro do Rei. como que pressentindo algum perigo. Um deles conseguiu sacar sua faca e auto-infligir-se um golpe fatal. o Capitão e mais quatro de seus homens. todos carregavam uma pequena adaga que serviria para o suicídio em caso de captura. atiraram simultaneamente. em disfarces. O lado oposto ficou menos protegido. intercaladas com perguntas 220 PAZ GUERREIRA . os melhores arqueiros. Levou várias chibatadas. Agradava-lhes a ideia de alguém que confrontasse as autoridades. Não obtiveram sucesso com os arqueiros. O grupo do Capitão preparava uma ação ousada: assassinar o Rei.qualquer um que estivesse no poder. que.LIDERANÇA . Não se percebeu o discreto sorriso de escárnio no rosto de alguns Guardas Reais ante a reação desesperada e quase histérica do Rei diante do perigo. Misturar-se-iam à população. para desviar a atenção. sob os apupos da população sedenta de sangue. Ninguém poderia ser capturado. mas os dois causadores da distração foram presos. A população aclamava a passagem do Rei. Foram incontinenti ligados ao ataque contra a pessoa real. não havia se deslocado para o lado do tumulto. instintivamente a maioria dos Guardas colocou-se à frente do Rei voltada para o lado da algazarra. alguns membros do grupo provocariam um tumulto ante a passagem do Rei. A essa altura.

com pequenos anzóis. Não se sabia se aquele termo visava a denominar o grupo de atiradores ou suas pretensas vítimas. que inspiravam em muitos o temor e em muitos outros curiosidade e simpatia. a história do atentado era aumentada. Ofis aproximou-se do ouvido do prisioneiro e sussurrou: – Você já está morto. O Capitão falou aos homens sobre o ocorrido e pôde perceber nos seus olhos a confiança que lhe dedicavam. espero que você não fale logo. as quais não respondia.sobre quem era o autor daquele atentado. disparada não se sabia de onde. a ponto de os “assassinos” se tornarem figuras quase míticas.. uma flecha precisa. que consistia em arrancar lentamente as vísceras do prisioneiro. Deveriam redobrar os cuidados com segurança. tornou impossível para as autoridades esconder a existência de uma oposição hostil e agressiva contra o reinado de Adaran. Quando começava essa sessão. Alguns Guardas tentaram em vão encontrar o atirador. Resta saber se será de forma rápida ou lenta. atingiu o cativo no olho esquerdo. O General percebeu então na seta cravada no prisioneiro uma gravação: “assassinos”. a partir daquele momento. O incidente. os “assassinos” lamentavam o fracasso de sua ação e a perda de dois homens. ainda vivo. Particularmente.. pois agora os esforços para prendê-los seriam maiores.. com muita dor ou com pouca dor. privando-o instantaneamente da existência. o grupo do Capitão ficou conhecido em todo o reino como os “assassinos”. Ao passar de boca em boca. Havia gravações idênticas nas flechas que atingiram o escudo de Ofis. ainda que frustrado. o que era mais provável. Escondidos novamente nas montanhas. Em todo caso. Diga quem o mandou e morrerá rapidamente. Ofis não escondia seu desapontamento. Iniciou-se então uma tortura. mas sentiam-se orgulhosos e excitados com a tentativa e com a repercussão que esta teria.. Fez TALAL HUSSEINI 221 .

. em razão disso tudo. Sinceramente. É difícil assimilar as voltas que a vida nos dá. sabia que podia confiar em Dhara. 40.. não sei o que fazer. Quanto mais tempo ele permanecer no poder. assimilando todas aquelas informações.. a partida abrupta. – Entendo sua hesitação. descubro que o Rei é um tirano. assim. calmamente Kadriel começou a lhe relatar tudo o que se vinha passando no reino desde a sua conversa com Sokárin. Kadriel se antecipou: – Dhara. Por isso. e sim de um grupo que legitimamente quer reclamar o trono. pois essa era a vontade de 222 PAZ GUERREIRA . será possível traçar uma estratégia mais eficaz. Quando ia dizer alguma coisa. Até ontem minha vida estava tranquila..LIDERANÇA D . deixaremos a cidade amanhã. Fora da Capital e do alcance do Rei. Depois que ela terminou de falar e desabafar sua inquietação. Mas você não está no meio de uma rebelião.questão de ressaltar mais uma vez que sua missão terminaria com a morte do General Ofis e do Rei. nós sabemos de outras situações que corroboram seu autoritarismo. pior se tornará a situação do povo – fez uma pausa e emendou: – você vem conosco? – É difícil saber que posição tomar. Esta ficou em silêncio durante vários segundos. e me encontro em meio a uma rebelião. De alguma maneira. hara chegou à casa de Kadriel ainda irritada com o descaso demonstrado pelo Rei pela situação da saúde. repentinamente. Se Adaran desconfiar das intenções do nosso grupo estaremos perdidos. E também pelo assédio do Monarca que parecia exceder à questão pública. Você já teve uma amostra do caráter do Rei. hoje não tenho mais trabalho.

de onde partiremos. Kadriel dirigiu-se então aos guardas: TALAL HUSSEINI 223 . ademais. esteja aqui antes do final da tarde. e o caminho adiante seja duro. ainda atônita com as palavras de Kadriel. pois eu nunca quis estar nesta posição. tenho um compromisso. Se não lutarmos. E você também..Sokárin. Não se trata de buscar o poder a qualquer preço. não ficaram vacantes todos os cargos? – Sim. Ele lhe fez um sinal muito discreto para que seguisse caminho e não parasse ali. Kadriel viu que Dhara chegava. Kadriel não pôde conter sua felicidade. A noite seria longa para ela. Kadriel. já olhando com estranheza para os soldados. Dhara saiu. mas sim de ter de assumir o destino que me foi reservado. Vou esperar por você. trabalho. não é? Kadriel até havia esquecido que trabalhava no ministério. Se quiser vir conosco. quando alguém bateu na porta. Teria muito em que pensar.. O senhor trabalha lá.. estaremos condenando o povo. à definitiva miséria da desesperança. para irmos até a casa de Ravi. Dhara. aguardava apenas a chegada de Dhara. não posso dar as costas a esse destino.. Mas neste momento não posso acompanhá-los. Felizmente ela o entendeu e passou direto por sua casa. – Nossas ordens são para escoltá-lo até lá. Nesse momento. tem de tomar uma posição. Agora é o momento. já pronto para sair. desconfiado – em que posso ajudá-los? – O senhor deve nos acompanhar até o ministério. Por mais que o preço seja alto. com a mudança de rei. que foi tão grande quanto sua decepção ao abrir a porta e se deparar com dois soldados da Guarda Real: – Senhor Kadriel? – Sim – confirmou Kadriel. já miserável. e infelizmente tem de ser agora. Perto do final da tarde do dia seguinte.

Ficaram aliviados quando viram Kadriel chegando esbaforido. não teriam enviado a Guarda Real.– Bem. Kadriel. Só restava fugir. Mas a minha fuga deve têlos colocado em alerta. para revezar e outros dois em que Bakar e Kadriel iam montados. você está bem? O que os guardas queriam com você? – Não sei. A caravana partiu com duas carruagens puxadas por quatro cavalos cada uma. dirigiu-se para dentro de sua casa para apanhar o material de escrita. Como os guardas concordaram com o seu pedido. enquanto o Senado existisse. Dhara já estava lá relatando o ocorrido a Ravi. agitado. Todos já estavam reunidos. nesse caso. O Senador continuaria lutando à sua maneira. bastaria uma convocação. Por decisão de Ravi. Mas e se fosse um assunto banal? Não. olhando para todos os lados e pensando na melhor opção. que vai ficar preocupada se não me encontrar aqui. foram em direção à região das montanhas. Precisamos partir imediatamente! Ravi concordou. 224 PAZ GUERREIRA . porque não fiquei lá para ver. ele já estava próximo à casa de Ravi. Permitam ao menos que eu deixe uma mensagem. mas apenas para se despedir. Assim. apanhou parte de suas coisas e saiu por uma janela nos fundos da casa. Dhara se antecipou: – Kadriel. Enfrentar os dois guardas sozinho seria suicídio. Levavam mais dois cavalos. Bakar e Mirta. Também estavam presentes o Senador Rohel e sua esposa Inari. Retornando ao Palácio. os guardas que haviam ido à casa de Kadriel reportaram-se diretamente ao General Ofis. Entrou no seu quarto. e não ao ministro Doran. já que suas atribuições haviam sido drasticamente reduzidas. Eles não tinham mais idade para enfrentar uma viagem daquelas. Quando os guardas estranharam a demora e resolveram entrar para verificar o que tinha acontecido.LIDERANÇA . eu estava aguardando uma pessoa. podiam seguir viagem: Ravi. Dhara.

Vocês não disseram que era um chamado do ministro? – Sim. Como se aquele lacaio de Adaran tivesse feito alguma coisa que lhe pudesse valer essa patente. para onde vão levá-lo? TALAL HUSSEINI 225 .. – os guardas fingiram não ouvir. o Senador Rohel se deparou com Guardas Reais. Agora desapareçam da minha frente. O Rei não estava muito preocupado com Kadriel e seu bando. – Posso saber aonde? – Ao quartel da Guarda Real.. O General Ofis deseja vê-lo. que é só para isso que vocês servem... senhor.como deram a entender no que disseram a Kadriel. nos enganou.. – Precisamos que o senhor nos acompanhe. logo estarei de volta.. Mas talvez o Rei tivesse razão. Senador. A prioridade do momento era o grupo dos assassinos. senhor. – Como os enganou? Ele nem sabia que se tratava de uma prisão. – Idiotas! Uma semana na limpeza das latrinas. e não houvesse com que se preocupar. mas ele sabia que o rapaz ainda lhes causaria problemas. e no momento oportuno os interceptaria. Queria evitá-los enquanto isso ainda era fácil. fique em casa e não se preocupe. mas acho que ele desconfiou.. – “General” Ofis! Hum.. Rohel dirigiu-se a sua esposa: – Inari. muitos não discordariam dessa frase. que o esperavam junto ao portão principal. Ofis pensou consigo que teria de aguardar um comunicado de seu informante. ele. Em outro momento pensaria nisso. o semblante de Ofis se transtornou: – Onde está ele?! – Bem. O Senador foi em sua direção e os interpelou sobre o que queriam.. – Mas. Ao retornar à sua casa. Ao vê-los de mãos vazias. querido..

seu verme! Você não vale absolutamente nada! Vou estar na primeira fila no dia que terminar essa pantomima a que vocês chamam de reinado! – Já basta! Saia daqui. Senador. – Se o senhor estiver se referindo a Sua Majestade posso mandar prendê-lo por desacato à coroa. ironicamente. foi levado imediatamente à presença de Ofis: – Vou ser bem direto. nós pensaremos em algum.. velho! Antes que eu mande mesmo prendê-lo! 226 PAZ GUERREIRA .. – Rapaz. mas foi detido pelos guardas: – Não ouse ameaçar minha esposa.. cometeu que crime para ser procurado pela justiça? – Nós pensaremos em algum.. Senador..– Ao quartel da Guarda Real. mas sua esposa Inari. você acha que eu tenho idade para temer esse tipo de ameaça? Ainda mais vinda de um lacaio desqualificado como você? Pois me prenda! Como se precisasse de motivo para isso. Ela assentiu e entrou. olhe bem para mim.. Chegando ao quartel. O senhor esteve com Kadriel? – Posso saber a que título estou aqui? Estou preso? – É claro que não.. O senhor é nosso convidado. O ancião arremeteu contra Ofis. bem ao seu feitio e do seu patrão. – Sim. limitou-se a provocar: – O senhor pode não se importar com nossas prisões. Caso eu não volte hoje contate.LIDERANÇA . Ofis não se alterou com as ofensas. – Não estive com nenhum fugitivo da lei! – De onde o senhor veio quando chegou à sua casa? – Da casa de meu amigo Ravi.. – Que também é amigo de Kadriel. – Sim. apenas para esclarecer se esteve com um fugitivo da lei recentemente. – respondeu o General. não há crime algum nisso... Senador. E Kadriel.. enquanto o Senador acompanhou os soldados. e de muitas outras pessoas. – e cochichou um nome junto ao seu ouvido. é claro..

se traduziram num silêncio indescritível. Estupefato. uma palavra sobre o que aconteceu aqui. Tratou de pacificar as emoções e pouco a pouco sentiu sua mente se aquietar. O poder é a ponte entre o Ser e a existência. por perderem o canal do poder. é puro. e do silêncio. cale a sua mente e observe. muito sutil. Ofis lhes disse: – E vocês. Por ser uno com o Ser. o poder nunca pode corromper. que após alguns eternos segundos. Para um TALAL HUSSEINI 227 . é que se corrompem. Os guardas nem piscavam. e vão passar o resto das suas vidas miseráveis limpando as cocheiras! Dispensados! No caminho para as montanhas. desapareceu ante os olhos de Kadriel.O Senador não esperou que ele repetisse a ordem e saiu rapidamente. É o que abre as portas para a magia e para a vida. Por isso. surge o poder. se é que deveria ver alguma coisa. sem saber ao certo o que deveria ver. sentado numa pedra frente ao rio. Aproximou-se e. Ravi aproveitou um momento de parada para descanso e. idiotas. magistralmente. Ravi ordenou que Kadriel levasse todos os sons para o seu coração. – Da solidão do guerreiro nasce o silêncio. irrompeu a voz quase metalizada de Ravi: – Sente. Kadriel começou a admirar toda a paisagem. como num passe de mágica. qual véus que se abrem aos mistérios. de um silêncio pleno. Sentiu que por trás de todos os sons havia uma espécie de segundo som. este começou a se embrenhar na floresta com a esperança de encontrar o Mestre. Os homens. a figura de Ravi contemplando a natureza com a pureza própria de uma criança. Depois de alguns minutos. avistou ao longe. como se escoassem por um funil e se envolvessem em uníssono no seu centro solar.

sabe que a realidade do poder está dentro de seu círculo interno. Cada um nasce para algo neste mundo. pois tem consciência de sua unidade interior e de sua própria imortalidade.LIDERANÇA . A isso chamamos liderança. Sua mente por momentos vislumbrava o que significava o poder para aquele que reina e ao mesmo tempo via que o poder era interior. nada está para além dele. ao mesmo tempo em que algo quente descia. não tema o poder. – Chegou o momento de você realmente aceitar seu destino Kadriel. o caos e as sombras abrem espaço para a sua passagem. Um líder é um canal do poder. pois não só as pessoas que estão com você o necessitam. O líder é como o Sol: quando surge. motivadas e valorizadas. como você também necessita delas. pois quando nos encontramos com ele descobrimos que sempre fomos o poder. Enquanto ouvia atentamente o Mestre. Não tema liderar. faz com que todos que estão ao seu redor voltem a sonhar e a ter esperanças. Lutava para se concentrar e manter viva aquela experiência. Só encontramos nossa identidade quando efetivamente agimos em conformidade com o nosso destino. Kadriel sentia um misto de muitas coisas. Sentia algo frio subir a coluna. Um líder sempre toma a iniciativa e sabe que rumo seguir. Quatro são as virtudes que o guerreiro deve desenvolver para abrir passo a esse poder: a humildade entra como forma de energia espiritual e sai como admiração. Um líder encontra as respostas para todas as perguntas em sua própria alma.homem de poder. entra a força. Como numa espécie de “aura mágica”. Sempre utiliza o elemento surpresa e com carisma garante o êxito. que se exterioriza como liderança. O guerreiro que canaliza o poder se torna representante desse atributo divino na terra. O eixo do poder é o canal pelo qual Deus se manifesta. não existe o impossível. Esse quadrante de 228 PAZ GUERREIRA . se vejam capazes de romper as limitações e de rasgar a mediocridade. sintam que suas vidas podem tocar o incomum. Faz que as pessoas se sintam seguras e protegidas.

Kadriel compreendia cada ensinamento como se fosse único. o dragão TALAL HUSSEINI 229 . Voltaram em silêncio. O que precisava era formar seu caráter. Kadriel sentia o pulso da natureza em sua manifestação.. Liderarei com todas as minhas forças e trarei paz e justiça para o nosso reino. Cada dragão representa um obstáculo a essa busca dura e complicada: o dragão mental é o desejo. mas agora conseguia fazer as relações.. Ravi a explicou detalhadamente a Kadriel. quase sem fazer esforço. Na ocasião ele não tinha essa consciência.virtudes conforma as quatro primeiras pétalas necessárias para o guerreiro trilhar a conquista da sua guerra interior. A cada pulso do coração. que conseguia vislumbrar em tudo aquilo que havia sentido no penhasco os aspectos que lhe eram objetivamente transmitidos agora. Ravi forjava o rapaz com muito amor. Intuitivamente. Sentia um aperto forte na garganta. Ravi aproveitou o momento de parada para retomar com Kadriel o assunto daquilo que ocorrera no penhasco. – Serei digno de honrar o poder. Kadriel havia utilizado uma técnica de Nei Kung – A Arte Guerreira da Ação Inteligente –: a técnica dos quatro dragões. Sabia que na realidade não lhe ensinava nada novo. Só quem tem o poder de vencer dentro poderá vencer fora. livrando-se de todos eles. de alguma forma intuía que a decisão se localizava fisicamente na garganta. Também intuía que o ser humano se compromete com o universo no momento em que as palavras lhe saem da garganta e se liberam pela boca. só fazia-lhe lembrar aquilo que de alguma forma sua alma já conhecia. quando foram apanhar a placa. esse lugar mágico onde se encontra o poder e se pode controlar e dominar os quatro elementos. Ravi frisava: – Lembre-se que o objetivo da técnica dos quatro dragões é buscar o centro. De como ele enfrentara quatro oponentes. Quando chegaram ao vilarejo.

. or ser um grupo reduzido. principalmente da Capital. que teria de fazer de tudo para que as pessoas pudessem ter uma vida tranquila. um camponês. Durkan. Logo agradeceu a acolhida e foi ter com os seus. ao saber das intenções de Ravi de não permanecer muito tempo ali. Ravi pareceu reflexivo por um momento. 41.. de um guerreiro. pensou em ser alguém comum. Para alguns neste mundo. Kadriel era um desses. Chamou de 230 PAZ GUERREIRA . sem grandes preocupações. uma vida simples. e sim rumar com seu grupo para regiões mais altas nas montanhas. recebendo todo o apoio de que necessitassem. pois Ravi conhecia seu líder. não sendo afeito às questões da política. Por um segundo. Este era um homem austero. os povoados que se encontravam eram menos hospitaleiros. Entretanto. ter sossego. pois os víveres eram mais escassos. Não se confiava muito nas pessoas dos vales. Era. boa e justa. Ravi conversou com ele em particular. como todos os homens da aldeia. de governos ou de guerra. a felicidade está na proporção do sacrifício. Mas seu destino era o de um dirigente.emocional é a ansiedade.LIDERANÇA P . conseguiram instalar-se no pequeno vilarejo sem maiores problemas. Kadriel passou o resto do tempo no vilarejo ao pé da montanha pensando sobre tudo aquilo. Conforme se subia nas montanhas. Também viu que não poderia ser feliz tendo uma vida comum. o dragão vital é a agitação e o dragão éterofísico é a rigidez corporal. sobre o poder e a liderança. Sobre os quatro dragões. como a vida rígida das montanhas determinava. alertou-os de que aquela era uma região de domínio dos “assassinos” e que seria perigoso ir mais adiante.

Os caminhantes tinham a sensação de que estavam sendo observados o tempo todo. mas veio outra paulada na testa. mas apanhou apenas Kadriel. Um deles acertou uma paulada em Bakar. fato com o qual Bakar não se conformava. que lhe atingiu as costas. Os dois saíram em seguida em direção ao alto da montanha. apesar de nada ter dito. Bakar lançou-se de costas contra um tronco. a vegetação ainda era cerrada. que imediatamente deteve o passo. bastava que se embrenhassem por aquelas paragens. Tinham que encontrar o chefe dos “assassinos”. Até aquela altitude. Parecia darlhes instruções minuciosas sobre alguma coisa. apesar de não derrubá-lo. falando-lhes durante alguns minutos. Restava um agarrado às suas costas. levou um soco apontado ao nariz. Ele gritou para as árvores: – Quem está aí? Nenhuma resposta. Outro agressor que. Era evidente que a intenção não fora atingi-lo. Caminharam cerca de duas horas. foram logo arremessados. Ou melhor. caso contrário estaria morto. incauto. uma flecha veio cravar-se no chão bem à frente de Kadriel. e a consciência o abandonou de imediato. Quando a luz voltou-lhe aos olhos. Mas nesse momento outros homens surgiram. Uma rede foi lançada da copa das árvores. Bakar conseguiu esquivar-se. que o agarram cada um dos braços. dadas as dimensões da mão de Bakar. como sua expressão deixava saber. juntamente com os dois que haviam sido arremessados no início. ficou parado na sua frente. De repente. Não levavam consigo nenhuma arma.lado Kadriel e Bakar. que eles seriam encontrados. Vários homens lançaram-se sobre ele. não causando aparentemente nenhum efeito. Dois. amassando o passageiro indesejado. contando que seus braços estivessem imobilizados. Seu nariz desapareceu dentro do rosto. com uma agilidade inesperada para o seu corpanzil. segundo Ravi. TALAL HUSSEINI 231 . que escureceu um pouco a visão do gigante. mas que atingia o rosto inteiro.

lendo as intenções de Bakar nos seus olhos gritou: – Bakar! Não faça isso! Não reaja! Ao ouvir a voz do amigo. prontos para disparar. era ele. desarmado. principalmente o olhar. pararam e tiveram os capuzes retirados. se eu estiver enganado. E. mas não obteve qualquer resposta. Depois de cerca de uma hora de caminhada. relaxou os braços ao lado do corpo.. mas por outro lado fiquei pensando que quem fosse louco o bastante para entrar nestas matas.. Portanto. Kadriel pensou conhecer o líder do bando. eu ganho de todas as maneiras – fez um pequeno trejeito com o canto da boca. Bakar cedeu. Kadriel. Kadriel permaneceu em silêncio. é por que você quis assim. o Capitão da Guarda Real! – O que vocês querem aqui?! Não sabem que estes são domínios dos “assassinos”? Têm sorte de estar vivos! – Se estamos vivos. Estavam numa espécie de acampamento. Bakar tentou fazer algumas perguntas no início – quem são vocês? Para onde estão nos levando? –. o que denotava que não deviam estar a grande altitude. Ele estava bastante mudado. os arcos tensionados. De dentro da rede. para que não soubessem aonde estavam indo. que completou: – então. Por que não nos matou? – Tive vontade quando meus homens me relataram o estrago que seu amigo mastodonte fez.LIDERANÇA . que ficava numa clareira aberta propositalmente para esse fim.mais de meia dúzia de flechas estavam apontadas para ele. ademais. Aquele que parecia ser o líder falou: – Esse é um bom conselho – e dirigindo-se aos outros: – amarrem-no! Os dois foram amarrados e encapuzados. devia ter alguma coisa interessante para dizer. que devia representar o máximo de um sorriso para aquele homem. mas sim. que estava vazio. A vegetação ainda era espessa no entorno. ainda posso matá-los a qualquer momento. me enganei? 232 PAZ GUERREIRA .

. e pretendo lutar contra Adaran. sem cidade e. que fez sinal a seus homens para se afastar. cada um a seu tempo. Imediatamente várias lanças foram encostadas contra seu peito. – Mas ela existe. levou a mão dentro das roupas para pegar alguma coisa. O que isso prova? – Essa é uma pedra dos mil reis. Meu nome é Kadriel Vahan.. Por que pretende lutar contra o Rei? – Porque a coroa é minha! Todos os homens riram da frase. mas está claro que temos um inimigo em comum e. no momento oportuno. Quantas vezes montou guarda diante da estela? Além disso. Todos os itens que você mencionou. Kadriel não se intimidou e prosseguiu. este sentiu um calafrio. sem exército. Procurou não demonstrá-lo e desdenhar do que estava diante dos seus olhos. Suponhamos que eu acredite que esta pedra é verdadeira. Kadriel retirou então um embrulho e o entregou ao Capitão. Você sabe disso. imperadores ou o que quer que seja. O Capitão ficou pensativo. – Sei quem você é. ela poderá. Ele olhou para o Capitão. menos o Capitão. E nós a encontramos – ao dizer isso. os terei. Sokárin a escondeu... “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. – Certo. Isto é uma pedra com seu nome gravado. sem trono. como diz o ditado guerreiro. depois respondeu: – Minha única motivação é a vingança! Não me interesso por reis.. seguindo à risca o que Ravi lhe dissera para fazer: – Você sabe que Sokárin havia gravado outra placa de sucessão antes de morrer..– Não – respondeu Kadriel – creio que nós temos interesses em comum. Ao abri-lo. certo? – Muitos dizem que essa placa não existe. TALAL HUSSEINI 233 . mas não teve tempo de colocá-la na estela. pior. o que você espera? Que eu me ajoelhe aos seus pés e lhe jure obediência? Você é um rei sem coroa. – Não espero que você me reconheça como seu rei. – Sim. príncipes. passar pelo teste alquímico.

com seu tom de voz tranquilo: – Fui eu quem disse a eles que estaríamos aqui! – e continuou antes que alguém tivesse tempo de fazer qualquer colocação – eu disse isso há muitos anos. que não são muitos. o Capitão perguntou: – Eu tenho homens. Sua sabedoria nos será muito valiosa. A culpa era de Kadriel. O Capitão mandou dois homens à cidade para escoltar o resto do grupo de Kadriel até o acampamento..LIDERANÇA . Ravi encantou a todos com relatos de suas viagens pelo mundo. Como descobriram aquele lugar. Quando todos chegaram já era noite.. Seriam dizimados. A agitação tomou conta do acampamento. o que tem? – Além da legitimidade à coroa. A menção a alguém daquela linhagem o agradou. Era uma superioridade numérica muito grande. após ter descansado um pouco da carreira. alguns que nem mesmo Kadriel tinha ouvido. O Capitão admirava muito o imperador Medhavin. pois seria perigoso ficar na cidade. ainda que com a sobriedade e a austeridade de quem está em guerra e não pode se dar ao luxo do desperdício. mas são na sua maioria exsoldados da Guarda Real. Ele estendeu a mão para Kadriel: – Temos um pacto! Kadriel e Bakar sorriram. tenho um Mestre! Ravi Medhavin encabeça o nosso grupo. combatentes de elite. disse que uma enorme formação de soldados se aproximava. E você. Uma comemoração foi feita. Quem interrompeu a confusão foi Ravi. que viera da parte mais baixa da montanha: – O exército marcha para cá! Depois de indagado com mais calma. alguém os havia seguido. Mas todos se reuniram em torno de uma fogueira e contaram estórias. 234 PAZ GUERREIRA .– Entendo isso. A alegria foi interrompida por um dos sentinelas. As forças do Rei poderiam aparecer. Mas podemos reunir esforços? Ainda numa última hesitação.

. – As outras. o Capitão. esses não são exércitos do Rei. ao que me pareceu. que nada sabia a respeito do que acabara de proferir. As outras devem ser seus aliados. Ravi continuava tranquilo e disse que tudo teria seu tempo certo. Onde estão as outras? – perguntou alguém. Kadriel. de velhos amigos. Bakar. Isso não seria suficiente nem para fazer cócegas nas forças do Rei. O momento não era agora. muitos preparativos ainda teriam de ser feitos TALAL HUSSEINI 235 . o Rei não os considerou confiáveis e eles agora aqui estão. são os nossos exércitos! – anunciou – são exércitos da Aliança das Doze Cidades. ainda mais com o reforço das outras cidades da Aliança. Ravi e Nakan se estreitaram num abraço fraterno. mas eram poucos no total.. a do caranguejo e a de peixes. representando constelações. A constelação de gêmeos representa a cidade de meu amigo Nakan. inclusive de Kadriel. – Mas são apenas três estandartes e a Aliança tem doze cidades. as outras duas cidades também tinham vindo com menos de metade do seu contingente. – Senhores. Provavelmente. estava preocupado com quais seriam os próximos passos daquele grupo. meu amigo. As apresentações foram feitas.Ravi se divertia com os olhares de confusão de todos. Ravi dirigiu-se ao mensageiro: – Como eram os estandartes que portavam? Tinham as cores do rei Adaran? – Havia três estandartes na linha de frente. apesar do seu bom humor. na cidade do escorpião todos haviam acompanhado seu general. Ele tinha metade dos seus homens. quando for o momento você as encontrará no campo de batalha. e todos os outros. Quando se encontraram. Havia a de gêmeos. Nakan.

as plantações das cidades montesinas estariam completamente perdidas. quatro formações de vento. Era uma luta que os homens não podiam vencer. trazendo seu cinza ainda mais escuro na direção das aldeias. no horizonte. mas ninguém perguntou. na forma de ciclones. Todos pensaram que Kadriel enlouquecera quando ele foi na direção de que vinha o temporal. certamente seria aquela. pareciam debochar dos pobres humanos que os aguardavam atônitos. da mesma forma que Kadriel a havia exposto ao Capitão. que por sinal não era seu pior inimigo.. logo que o dia raiou. Os dias se passaram e o clima não cooperava com a situação precária de um acampamento. À sua frente. a água que insistente amolecia as consciências. Ninguém entendeu muito bem o sentido daquelas últimas palavras que Ravi parecia ter dito mais para si mesmo. Ravi relatou aos governadores das cidades a história da sucessão. haviam chegado as legiões dos ventos. saindo do céu. com as palmas das mãos 236 PAZ GUERREIRA . Kadriel estava imóvel ao seu lado. Restava-lhes esperar. Sua postura estava diferente. no meio das nuvens. Os prognósticos dos anciãos das cidades encarregados de fazer a leitura do tempo não eram boas: em meio à tempestade. Eles se contorciam num balé assustador. Os líderes no entanto ainda não pareciam conformados em segui-lo como Rei. levantou os braços. Perto do meio-dia.LIDERANÇA . no dia seguinte. em redemoinho que ia fincar sua ponta no chão. um paredão. que agora a escutava novamente. Se isso continuasse. A chuva já durava mais de trinta dias. viria o vendaval. tudo escureceu. se é que se podia chamar assim. De fato. Aproximavase rápido. parecia ter assumido seu destino.antes de poderem confrontar Adaran. uma vez que ainda parecia noite. a artilharia dos raios que retumbavam seus tambores ao fulminar árvores gigantes apenas para demonstrar seu poder. Se alguém um dia tivesse uma visão do fim do mundo. qual cavaleiros de escolta.. unindo o céu cinza à terra escura.

terminando de dissipar a tempestade. abriu-se um círculo de claridade exatamente sobre a montanha. pois voava em forma circular... Em meio ao céu cinzento. Sim. ele jamais seguiria alguém novamente. era digno dos reis. Bastou que um o fizesse. ninguém falava. descrevendo uma espiral para baixo. Ele vinha de onde não havia tempestade. Fez-se o mais absoluto silêncio. Mas a estupefação foi geral quando tudo pareceu parar: a chuva. em sinal de reverência.abertas. os raios. e começou a recitar palavras incompreensíveis. O presságio do falcão afastava qualquer dúvida que porventura ainda persistisse. aquele era amarelo. Demorou mais de dois minutos na sua descida. Todos ficaram olhando fixamente para o homem e a ave. TALAL HUSSEINI 237 . sua vida poderia acabar quando cumprisse sua vingança. não fosse a situação desesperadora. este seria seu nome: Destino. mas resistiu ao enorme peso que lhe pressionava os ombros. O poder que ele demonstrara não era dos homens comuns. para que todos em sequência o imitassem: um a um todos ajoelhavam-se sobre o joelho direito. ninguém sequer respirava. Normalmente tinham a plumagem de cor marrom. O céu se abriu por completo. o próprio tempo. em direção a Kadriel. O destino pousara nos ombros de Kadriel. O efeito brilhante que as aves têm nas suas penas o fazia parecer dourado ao Sol. deixando entrar toda a luz e todo o calor do Sol do meio-dia. Ouviu-se então um guincho. Até mesmo o Capitão sentiu vontade de fazer reverência. sobre o lugar onde estavam. e o vento. de onde o céu era claro e o Sol brilhava pleno. nenhum animal da floresta emitia qualquer som. baixando a cabeça. Era um falcão diferente dos demais. Alguns até sentiriam vontade de rir. até pousar sobre o ombro de Kadriel. nenhum pássaro cantava. era um falcão que descia através daquela espécie de portal que se abrira entre as nuvens. não.

238 PAZ GUERREIRA . Podia-se sentir o seu magnetismo. Um brado espontâneo elevou-se da soldadesca para exultá-lo.Kadriel fez sinal a todos para que se levantassem. Estava reunida a companhia de heróis.LIDERANÇA . Agora tinham uma bandeira por que lutar. os demais também. Os generais se aproximaram. todos queriam estar perto do Príncipe.