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Valores como objetos culturais1
ZNANIECKI, Florian. A noção de valor cultural. In: CARDOSO, Fernando Henrique e IANNI, Octávio. Homem e sociedade: Leituras básicas de sociologia geral. São Paulo : Nacional, 1983, p. 88-91 Florian Witold Znaniecki (1882 – 1958)

O coeficiente2 humanístico relaciona-se tanto com a composição quanto com a estrutura dos sistemas culturais. Cada elemento que entra na composição de um sistema cultural tem o significado que lhe atribuem aqueles que o estão usando efetivamente, e o estudioso não pode captar este significado a menos que consiga aperceber-se da forma assumida pelo elemento na experiência dos que dele se servem. As palavras usadas na composição de um poema francês têm o significado que lhes atribuem o próprio poeta, seus ouvintes, seus leitores e imitadores. Os mitos, as fórmulas verbais, os instrumentos sagrados e os gestos rituais que compõem uma cerimônia pública islâmica3 existem como realidades religiosas pelo significado que adquirem para os fiéis que participam desta cerimônia. As moedas, notas, certificados, letras de câmbio, cheques etc., que constituem o crédito e o débito de um banco, enquanto sistema econômico, possuem o significado que lhes é atribuído pelos acionistas, trabalhadores e clientes do banco. O cientista que pretende estudar poemas e cerimônias, bancos etc., não pode analisar qualquer um de seus elementos da mesma maneira pela qual analisa uma pedra ou uma árvore, isto é, como simples objetos que se supõe existirem independentemente de qualquer ser humano, e que todos os seres podem ver desde que possuam órgãos sensitivos semelhantes. Caso procurasse agir desta forma, a realidade dos elementos lhe escaparia completamente e ele falharia ao tentar compreender o papel real exercido por cada elemento no respectivo sistema. Este papel não é determinado meramente pelas características destes elementos enquanto objetos naturais, mas principalmente pelas características que adquiriram através da experiência das pessoas durante sua existência como objetos culturais. Nenhuma análise natural pode captar estas características. O estudioso das culturas pode percebê-las de duas maneiras: seja interpretando o que as pessoas cujo sistema cultural ele está estudando comunicam, direta ou indiretamente, sobre suas experiências através destes objetos culturais; seja observando seu comportamento manifesto com relação aos mesmos. Estes dois métodos se completam, e ambos devem ser usados para que se possa obter um conhecimento fidedigno. Portanto (com relação aos exemplos dados), a qualidade musical e particularmente a significação das palavras de um poema, a realidade imaterial de um mito religioso aceito pelos fiéis, a força mística das fórmulas e gestos, o caráter sagrado dos instrumentos de uma cerimônia religiosa, a força econômica contida em pequenas porções de ouro ou no papel impresso, são caracteres tão essenciais destes objetos, quanto as suas propriedades físicas ou químicas; capazes de influenciar tanto quanto estas últimas não só os desejos e pensamentos das pessoas, como o seu comportamento manifesto. Freqüentemente, sua influência é maior do que a dos caracteres materiais. A destruição parcial de um templo não impede que as cerimônias religiosas continuem a se realizar nele, mas, se o recinto é maculado por algum ato iníquo, ainda que as suas qualidades materiais não sejam alteradas, a adoração pública se torna impossível. Para um banco, o montante da força econômica inerente a uma “soma” puramente ideal de dinheiro é na realidade muito mais
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Florian Znaniecki

O título original em português era: “A noção de valor cultural”, mas a tradução correta de “Values as cultural objects” é a apresentada no texto. 2 Coeficiente aqui deve ser entendido na acepção figurativa: “condição ou circunstância que coopera para um determinado fim” 3 No texto original: “maometana”.
Sociologia da comunicação Prof. Artur Araujo – site: http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/ e-mail: artur.araujo@puc-campinas.edu.br Página 1 de 2

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS CENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO FACULDADE DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA importante do que a diferença óbvia e fisicamente determinada entre moedas de ouro e letras de câmbio. Assim, é bom exprimir esta distinção essencial entre objetos naturais, elementos de sistemas naturais, e objetos culturais, elementos de sistemas culturais, por uma diferença terminológica. Chamamos os objetos naturais de coisas, e os objetos culturais de valores, em virtude da sua determinação essencialmente prática com relação à atividade humana. Um valor se distingue de uma coisa porque possui um conteúdo e um significado, enquanto a coisa possui apenas conteúdo. Pelo conteúdo, o valor se distingue como objeto empírico de outros objetos; pelo significado, o valor sugere outros objetos com os quais foi associado no passado. Por exemplo, uma palavra de qualquer língua possui um conteúdo sensível composto de elementos auditivos, musculares e (nas línguas que conhecem a escrita) visuais; mas possui também um significado, isto é, sugere aqueles objetos que foi feita para designar. Um vaso "sagrado", enquanto instrumento de culto, possui para determinada religião, além do seu conteúdo (visual, táctil etc.), um significado decorrente do fato de ele ter sido relacionado com certas palavras, mitos, gestos rituais, corpos humanos venerados etc., os quais sugere quando visto ou imaginado pelos fiéis. Uma moeda, por conter uma porção de metal, possui um significado bem conhecido chamado de "poder aquisitivo". Por outro lado, uma pedra ou uma gota de água, enquanto coisas, não possuem significado, ou pelo menos são tratadas pelo físico que as estuda como se não possuíssem e não sugerissem nada além de si mesmas. Esta distinção nada tem a ver com a oposição entre dados "subjetivos" e "objetivos". Só do ponto de vista de uma metafísica materialista ingênua (infelizmente tão popular agora em certos círculos das ciências sociais e na psicologia) é que a objetividade aparece ligada à experiência sensível. Um valor é tão objetivo quanto uma coisa, pois a experiência de uma significação, assim como a de um conteúdo, pode ser repetida indefinidamente por qualquer número de pessoas e portanto “testada”. Entretanto, a compreensão de um significado exige um certo preparo ou "aprendizado". O indivíduo deve ser posto em condições definidas e ensinado no uso de um dado valor. Mas isto também acontece com relação aos conteúdos: a reprodução de uma percepção sensorial somente é possível sob condições definidas do organismo do indivíduo e do ambiente, exigindo um treino prévio. Em outros termos, poderíamos afirmar que as coisas são tão subjetivas quanto os valores, pois o teste empírico decisivo da realidade de ambos é a experiência efetiva do indivíduo que, por sua vez, como é demonstrado pelas ilusões e alucinações, não é uma garantia de objetividade e em ambos os casos deve ser controlada pela reflexão. Ademais, psicogeneticamente, os valores parecem ser anteriores e mais fundamentais do que as coisas: começamos nossa vida adaptando-nos a um mundo cheio de significados, e somente muito mais tarde, sob a influência de certas considerações práticas e teóricas, alguns de nós aprendem a tratar certos objetos e em certos momentos como se eles fossem destituídos de significado. Quando um valor é considerado com relação a um sistema particular, ele pode parecer “desejável” ou "indesejável", "útil" ou "prejudicial" ete., segundo os outros valores envolvidos no mesmo sistema e do ponto de vista da sua realização. A esta característica do valor nós chamamos de significação axiológica positiva ou negativa. Assim, para o poeta que usa uma certa palavra num soneto, ela possuirá um significado axiológico4 positivo ou negativo, de acordo com a sua função estética. Um instrumento empregado numa cerimônia religiosa cristã é axiologicamente positivo em relação à religião cristã, mas axiológicanente negativo do ponto de vista do islamismo5. Uma quantidade de "dinheiro" terá um significado positivo para uma nação, se figurar no seu crédito; um significado negativo se for parte do seu débito.
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Axiologia: qualquer uma das teorias formuladas a partir do início do sXX concernentes à questão dos valores. No texto original: “maometanismo”.
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