w

w

w

.

m

e

d

i

a

c

i

o

n

e

s

.

n

e

t

Dos meios às mediações
Comunicação, cultura e hegemonia
Jesús Martín-Barbero
Introdução (Tradução Ronald e Polito Sérgio Alcides, Editora UFRJ, 1997)
« Esta é a aposta e o objetivo deste livro: mudar o lugar das perguntas, para tornar investigáveis os processos de constituição do massivo para além da chantagem culturalista que os converte inevitavelmente em processos de degradação cultural. E para isso, investigálos a partir das mediações e dos sujeitos, isto é, a partir das articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais. Daí suas três partes – a situação, os processos, o debate – e sua colocação invertida: pois, sendo o lugar de partida, a situação latino-americana terminará na exposição convertendo-se em lugar de chegada. Embora espere que os marcos deixados ao longo do percurso ativem a cumplicidade do leitor e permitam durante a travessia reconhecê-la. »

2

O que se encontra aqui traz as pegadas de um longo percurso. Vinha eu da filosofia e, pelos caminhos da linguagem, me deparei com a aventura da comunicação. E da heideggeriana morada do ser fui parar com meus ossos na choçafavela dos homens, feita de pau-a-pique mas com transmissores de rádio e antenas de televisão. Desde então trabalho aqui, no campo da mediação de massa, de, seus dispositivos de produção e seus rituais de consumo, seus aparatos tecnológicos e suas encenações espetaculares, seus códigos de montagem, de percepção e reconhecimento. Durante um certo tempo o trabalho consistiu em indagar como nos manipula esse discurso que através dos meios massivos nos faz suportar a impostura, como a ideologia penetra as mensagens impondo-se a partir daí a lógica da dominação à comunicação. Percorri sociolingüísticas e semióticas, levei a cabo leituras ideológicas de textos e de práticas, e dei conta de tudo isso num livro que intitulei, sem ocultar as dúvidas, Comunicação massiva: discurso e poder. Mas já então – estou falando de dez anos atrás – alguns pesquisadores começaram a suspeitar daquela imagem do processo na qual não cabiam mais figuras além das estratégias do dominador, na qual tudo transcorria entre emissores -dominantes e receptores-dominados sem o menor indício de sedução nem resistência, e na qual, pela estrutura da mensagem, não atravessavam os conflitos nem as contradições e muito menos as lutas. Logo por esses anos algo nos estremeceu a realidade – por estas latitudes os terremotos não são infreqüentes – tão fortemente que trouxe à tona e tornou visível o profundo desencontro entre método e situaDos meios as mediações. Introdução

3

ção: tudo aquilo que, do modo como as pessoas produzem o sentido de sua vida e como se comunicam e usam os meios, não cabia no esquema. Dito em outras palavras: os processos políticos e sociais desses anos – regimes autoritários em quase toda América do Sul, diversas lutas de libertação na América Central, amplas migrações de homens da política, da arte e da investigação social – destruindo velhas certezas e abrindo novas brecha, nos confrontaram com a verdade cultural destes países: a mestiçagem, que não é só aquele fato racial do qual viemos, mas a trama hoje de modernidade e descontinuidades culturais, deformações sociais e estruturas do sentimento, de memórias e imaginários que misturam o indígena com o rural, o rural com o urbano, o folclore com o popular e o popular com o de massivo. Assim a comunicação se tornou para nós questão de mediações mais que de meios, questão de cultura e, portanto, não só de conhecimentos mas de re-conhecimento. Um reconhecimento que foi, de início, operação de deslocamento metodológico para re-ver o processo inteiro da comunicação a partir de seu outro lado, o da recepção, o das resistências que aí têm seu lugar, o da apropriação a partir de seus usos. Porém, num segundo momento, tal reconhecimento está se transformando, justamente para que aquele deslocamento não fique em mera reação ou passageira mudança teórica, em reconhecimento da história: reapropriação histórica do tempo da modernidade latino-americana e seu descompasso encontrando uma brecha no embuste lógico com que a homogeneização capitalista parece esgotar a realidade do atual. Pois na América Latina a diferença cultural não significa, como talvez na Europa e nos Estados Unidos, a dissidência contracultural ou o museu, mas a vigência, a densidade e a pluralidade das cultu-ras populares, o espaço de um conflito profundo e uma dinâmica cultural incontornável. E estamos descobrindo nestes
www.mediaciones.net

4 últimos anos que o popular não fala unicamente a partir das culturas indígenas ou camponesas, mas também a partir da trama espessa das mestiçagens e das deformações do urbano, do massivo. Que, ao menos na América Latina, e contrariamente às profecias da implosão do social, as massas ainda contêm, no duplo sentido de controlar mas também de trazer dentro, o povo. Não podemos então pensar hoje o popular atuante à margem do processo histórico de constituição do massivo: o acesso das massas à sua visibilidade e presença social, e da massificação em que historicamente esse processo se materializa. Não podemos continuar construindo uma crítica que separa a massificação da cultura do fato político que gera a emergência histórica das massas e do contraditório movimento que ali produz a nãoexterioridade do massivo ao popular, seu constituir-se em um de seus modos de existência. Atenção, porque o perigo está tanto em confundir o rosto com a máscara – a memória popular com o imaginário de massa – como em crer que possa existir uma memória sem um imaginário, a partir do qual se possa ancorar no presente e alimentar o futuro. Precisamos de tanta lucidez para não confundi-los como para pensar as relações que hoje, aqui, fazem sua mestiçagem. Esta é a aposta e o objetivo deste livro: mudar o lugar das perguntas, para tornar investigáveis os processos de constituição do massivo para além da chantagem culturalista que os converte inevitavelmente em processos de degradação cultural. E para isso, investigá-los a partir das mediações e dos sujeitos, isto é, a partir das articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais. Daí suas três partes – a situação, os processos, o debate – e sua colocação invertida: pois, sendo o lugar de partida, a situação latino-americana terminará na exposição convertendo-se em lugar de chegada. Embora espere que os marcos deixados ao longo do

Dos meios as mediações. Introdução

5

percurso ativem a cumplicidade do leitor e permitam durante a travessia reconhecê-la. Falei no começo das pegadas que deixou o longo percurso que se faz livro aqui, e preciso assinalar algumas. Tais como as dificuldades, na primeira parte, para articular um discurso que, sendo reflexão filosófica e histórica, não se distancie demasiado nem soe exterior à problemática e à experiência que se trata de iluminar. E em certos momentos, a sensação duplamente insatisfatória de ter ficado a meio caminho entre aquela e esta. Além do inegável sabor de ajuste de contas que conservam certas páginas. A aparente semelhança da segunda parte com o traçado de uma arqueologia, que busca no passado, em seus estratos, a feição autêntica de algumas formas e algumas práticas de comunicação hoje desaparecidas e degradadas. Quando na verdade o que buscamos é algo radicalmente diferente: não o que sobrevive de outro tempo, mas o que no hoje faz com que certas matrizes culturais continuem tendo vigência, o que faz com que uma narrativa anacrônica se conecte com a vida das pessoas. E na terceira parte, enganosa impressão de que, ao investigar as formas de presença do povo na massa, estivéssemos abandonando a crítica àquilo que no massivo é mascaramento e desativação da desigualdade social e portanto dispositivo de integração ideológica. Mas é talvez o preço que devemos pagar por nos atrevermos a romper com uma razão dualista e afirmar o entrecruzamento no massivo de lógicas distintas, a presença aí não só dos requisitos do mercado, mas de uma matriz cultural e de um sensorium que enoja as elites enquanto constitui um "lugar" de interpelação e reconhecimento das classes populares. São muitas as pessoas e instituições que prestaram seu apoio à pesquisa em que se baseia este livro. Dentre elas devo um especial reconhecimento à Universidad del Valle, em Cali, que me concedeu uma bolsa de estudos para monwww.mediaciones.net

6 tar o projeto e recolher a documentação necessária, e me facultou tempo durante vários anos para levar adiante a investigação. Aos professores e pesquisadores em comunicação da Universidad de Lima e da Autónoma Metropolitana de Xochimilco, no México, que reconheceram o valor da proposta desde quando era só um esboço e me convidaram várias vezes a discutir e confrontar seu desenvolvimento. Ao IPAL, que tornou possível um percurso por vários centros de investigação para a discussão e reunião atualizada da informação. Meu agradecimento sincero para aquelas pessoas que não só me ajudaram com seu debate intelectual, mas que me apoiaram com seu afeto: Patricia Anzola, Luis Ramiro Beltrán, Héctor Schmucler, Ana María Fadul, Rosa María Alfaro, Néstor García Canclini, Luis Peirano. E para Elvira Maldonado que agüentou e acompanhou dia a dia o trabalho.

Dos meios as mediações. Introdução