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Violência e mídia: uma análise à luz da ética

José Francisco Sampaio Souza 1

O presente trabalho é resultado da reflexão sobre o seguinte problema: qual a interferência da violência, como é difundida pela mídia, na vida e no modo de pensar das pessoas? Realiza uma breve análise sobre a questão da violência, suas causas e onde sua cultura se desenvolve na sociedade. Estabelece uma relação entre a ética e a violência nos meios de comunicação, contextualizando o papel da mídia frente à sociedade. Palavras-chave: Violência. Ética. Meios de comunicação.

Introdução Vivemos em um mundo onde a violência, em todas as suas formas e estágios tomam conta dos debates, dos meios de comunicação, da conversa informal com um vizinho. Até onde a violência do mundo atual interfere na vida de cada um? Como a cultura da violência influencia a forma de pensar das pessoas? Este trabalho pretende lançar luz sobre a questão da ética e da violência nos meios de comunicação e como a violência é apresentada pela mídia à população. I. Conceituando ética e violência A ética pode ser considerada como o estudo e a análise de conceitos envolvidos no pensamento e no agir do homem, como o bem e o mal, aquilo que é correto ou não, o dever, a obrigação, as virtudes e dons a liberdade ou a falta dela; enfim, a ética é apontada como a ciência da conduta (CHAUÍ, 2001), o meio pelo qual a conduta visa seu direcionamento e disciplina. A palavra ética, do grego “ethos”, abrange o caráter ou as características individuais que devem ser disciplinadas para os valores e condutas humanas, buscando seu sentido, origem, fundamentos e finalidades. A ética não é apenas um conjunto de normas e leis, mas como as pessoas se comportam diante dessas leis; mesmo quando não se segue o instituído
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Acadêmico do curso de Engenharia Industrial Elétrica – Ênfase em Automação da UTFPR - Universidade Tecnológica Federal do Paraná. E-mail: francisco.utf@gmail.com.

na contestação de valores dominantes. de empregar força física (contra alguém ou algo) ou intimidação moral contra (alguém). crueldade. Conceituada por JAPIASSU & MARCONDES (2006) como a “parte da filosofia prática que tem por objetivo elaborar uma reflexão sobre os problemas fundamentais da moral” a ética se preocupa com os princípios da vida. pelo menos como um dos eixos sobre o qual podemos racionalizar a violência e enxergá-la como fenômeno político. Já para ARENDT (1985. 186) existe violência quando alguém. A violência constitui assim num mecanismo da manifestação do poder por parte das classes dominantes e. como por exemplo. também se especializem nas artes do crime. segundo o Dicionário Houaiss. usa a força para impor sua vontade sobre outra pessoa ou grupo. para o desenvolvimento da cultura de violência. Segundo ARANHA & MARTINS (1998. impedindo-os de agir segundo o seu próprio querer. A cultura da violência é revelada também quando são cometidos atos em que a “justiça é feita com as próprias mãos”.elas normas e leis a ética se faz presente. livre e espontaneamente. p. na acepção aristoteliana do termo. II. ou quando priva alguém de algo. ato violento. a violência sempre está à procura de orientação e justificativas para o fim que busca (p. A violência é definida. 2 . força”. faz com que além de serem submetidas a maus tratos. por outro lado. O número elevado de crianças abandonadas que se tornam infratoras e são levadas às instituições reformatórias. ela se torna um meio de sobrevivência das classes dominadas.29). refletindo sobre as razões pelas quais se deseja a justiça e os meios para alcançá-la. tendo inclusive. o que contribui de certa forma. visto que seus instrumentos são concebidos e utilizados com o intuito de fortalecer o vigor natural. como a “ação ou efeito de violentar. p.32). Incluir a ética significa reconhecer a violência como fenômeno patológico e sociocultural inter-relacionados. Roberto Numeriano (2011) refletindo sobre a ética e a violência conclui: É urgente incluir a ética no debate da violência – senão como contra-face a este malestar na civilização. A cultura da violência e suas causas Temos visto o desprezo pelos direitos humanos mais fundamentais. já feito inúmeras vítimas. ou quando a população aceita passivamente a formação de grupos e facções em comunidades carentes que impõem sua vontade sobre os demais. a violência se aproxima do vigor.

. é impossível negar que se vive num período de exaltação da violência. 3 .LUNA (2006) em seu artigo coloca. ARENDT (1985. não têm sequer a esperança de dias melhores. vivendo relações superficiais. que estimula e ratifica atos violentos como algo ‘natural’. da mesma maneira que o podem ser todas as demais paixões humanas. Convém saber se nos dias de hoje não se perdeu o desejo de sonhar ou se muitos se encontram embrutecidos por trabalhos insignificantes. Nessas situações e. onde os indivíduos são pouco criativos ou perderam o sentido da existência ou ainda.. ninguém reage com o sentimento de ódio a uma doença incurável ou a um terremoto ou a condições sociais que parecem imutáveis. criaram um padrão de relacionamento entre as pessoas que coloca em xeque. A cultura da violência só diminuirá. ou se o acesso à cultura não constitui privilégio de poucos. seja ela qual for. Apesar desta ser uma das causas do aumento da violência. Embora a violência seja considerada um fenômeno de todos os tempos e lugares. alimentação.] O ódio não é de forma alguma uma reação automática à miséria e ao sofrimento como tais.. conforme ARANHA (1998).39) expõe: Dizer que a violência origina-se do ódio é usar um lugar-comum. [. que: A disseminação da violência na sociedade está ligada diretamente a uma cultura própria. Elementos como individualismo. educação. de forma bastante significativa. p.. e consequentemente sua origem só se extinguirá. [.] A violência é um recurso enormemente tentador quando se enfrenta acontecimentos ou condições ultrajantes. Sobre a origem da violência. acesso à justiça. consumismo e competição exacerbada. Também.. é preciso constatar se há pluralismo (coexistência de opiniões divergentes). ao abordar o tema. Resgatar a utopia. Somente onde houver razão para suspeitar que as condições poderiam ser mudadas e não o são é que surgirá o ódio. já dizia LUNA (2006). A agressividade deixou de ser um ‘defeito’ para se tornar ‘traço comum’ entre os habitantes das grandes cidades. é que a violência tende a aumentar. são indicados os índices elevados de pobreza como a principal causa da criminalidade. em razão de sua proximidade e rapidez. Uma sociedade que conseguir pensar o coletivo e agir em prol do bem estar de todos dará um primeiro passo de modo a reduzir a violência e minimizar os problemas por ela causados. e o ódio pode certamente ser irracional e patológico. tolerância (não discriminação dos diferentes). por exemplo. se faz necessário verificar na sociedade se as pessoas têm as mesmas condições de saúde. se não há censura e se as informações são amplamente divulgadas. é importante nesse processo.. Todos estão prontos para atacar antes que o ‘inimigo’ o faça. características como a cordialidade e a solidariedade. Geralmente. quando acontecerem mudanças profundas na sociedade. também. ente outros.

intransitivos. a internet e também o teatro. mas uma correlação pessoal entre um e outro no intercâmbio. podendo influenciar na formação de opiniões. Assim. 2011). se servem de interpretações deformadas de pesquisas científicas. podemos observar que. o abuso da autoridade sem se utilizar da lei. que fabricam a não comunicação. conforme SUCCI (2011): Os argumentos que acabam ocultando os interesses em jogo são variados. os meios usados para difundir uma mensagem ao máximo de pessoas possível. afirma que: O que caracteriza os meios de comunicação de massa. não raro. em especial a televisão. liberando a violência contida pelos mecanismos sociais. Desta forma. Assim se posicionam muitos dos porta-vozes das empresas de comunicação. apenas a reproduz inteiramente. e não uma responsabilidade psicológica ou moral. Em sentido contrário. em muitos casos. O que acontece na esfera dos media. não se está produzindo violência. “banaliza a violência”. portanto de uma responsabilidade. Assim. é possível perceber que a maioria dos receptores são condicionados a aceitar as informações sem questionar seu conteúdo e sem ter a certeza se elas são verídicas ou não. a violência apresentada é apenas um reflexo do meio social em que a mídia se encontra. ou seja. o cinema e a televisão. com relação às pessoas. Portanto. como um dos mais importantes meios de transmissão de mensagens. Ainda segundo a autora. grupos ou organizações. mas sim. BAUDRILLARD. portanto. A violência nos meios de comunicação Meios de comunicação ou simplesmente mídia são os canais. sustentam outros que a seleção de temas operada pelos produtores da mídia informativa e ficcional. que num futuro poderão influenciar seu modo de pensar e agir frente às situações do seu cotidiano. revistas. eles se resumem numa contradição aparente: de um lado. A mídia tem sido responsabilizada pelo fluxo de informações em nossa sociedade. os meios de comunicação atuam no seu estado psicoemocional. atualmente. favoráveis ou não. os meios de comunicação. os meios de comunicação não escondem que a sociedade seja violenta. para conseguir a atenção e credibilidade dos indivíduos. é que são antimediadores. Na tentativa de reproduzir a sociedade. facilitando o recebimento de mensagens e propagandas. ou seja.III. como o espaço recíproco de uma palavra e de uma resposta. quando isso acontece. através do valor que é dado ao sofrimento e a confirmação de práticas mais radicais legitima uma ação punitiva extralegal (SUCCI. para alguns. os meios de comunicação. deixando-os de forma passiva e submissa. é que se fala de tal maneira que nunca se pode responder. se aceita definir comunicação como um intercâmbio. A rigor. e. citam-se como exemplos o jornal. citado por MOREIRA (1979). legitima a violência física 4 . devem ser um espelho da realidade e.

através de relações de troca e convivência? A mídia deveria preocupar-se com a construção de uma sociedade mais consciente e democrática. produz uma sociedade ainda mais violenta. seria necessário o resgate do conceito de ética universal. Constata-se também que parte da imprensa. não promove uma conclusão. deixando os expectadores cada vez mais insensíveis e a buscar detalhes. jornais ou revistas. os modelos econômicos e a mídia desempenham. ainda.como forma de solução de conflitos e. por ser um esboço sobre a violência. o extrapola. na exclusividade dos furos seguintes (CHEGURY. mas busca respostas e reflexões acerca deste assunto. com o papel que o poder do Estado. Este trabalho. à busca pela liberdade e à autonomia do indivíduo ao invés de sua alienação. valores advindos de aristocracias. quer seja através da televisão. Conforme o mesmo autor. É evidente a influência negativa que os meios de comunicação exercem sobre um indivíduo e a sociedade em geral. tão presente em nosso cotidiano. portanto. que deveria se conter ao papel constitucional de noticiar e informar. elites e leis? Ou escolher um agir ético pode levar a uma ética sem autonomia e liberdade individual onde se referencie um “bem comum”. 2011). transformando a tragédia em fenômeno de entretenimento. Os processos comunicativos deveriam induzir à reflexão crítica da realidade. torna a cobertura pseudojornalística um ambiente onde paixões. a mídia e a ética nesse contexto. contribuindo com uma função educativa. ódios e rancores são retroalimentados de forma impiedosa”. Algumas considerações Diante da crise ética da sociedade brasileira atual e sua relação com outras civilizações e culturas e. “a carência de fatos novos. 5 . quando veicula repetidamente episódios de violência e crimes. cada vez mais mórbidos. emanado das classes sociais.

2011. São Paulo: Martins Fontes. Brasília: Editora Universidade de Brasília. Disponível em <http://www.A. Temas de Filosofia. MARTINS. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2011. Dicionário básico de filosofia.com. Hannah. Maria Adalgisa A. Roberto C.br/site/hotsites/publicacoes/download/adalgiza. Marilena. LUNA. Acesso em 17 jun. São Paulo: Moderna. SUCCI. Marlucio.com/artigo_eticaeviolencia.R.. 2006. Disponível em< http://portalmultirio. A violência nos meios de comunicação. Douglas R. 1979.S. 2001. Acesso em 13 jun. CHAUÍ. Danilo. Disponível em <http://www. CHEGURY... Vozes. MARCONDES.gov.br/site/index. 1998. Acesso em 13 jun. 2011. Maria L.asp?cod_artigo=77>. H. As pequenas violências de cada dia. 1985. NUMERIANO.juridico. In: Teoria da Comunicação: ideologia e utopia.htm>. La Crítica de Economia Política Del Signo. 6 . A polícia como protagonista midiática. MOREIRA. Da violência.rio. Acesso em: 15 jun.rj.robertonumeriano. Jean. Filosofia.. Petrópolis.faculdadeguararapes.ambito. JAPIASSU. Roberto. BAUDRILLARD..php? n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9587>. Hilton. 2011.br/sec21/chave_artigo. pdf >. Ética e violência.edu.Referências ARANHA. ARENDT.M. M. Disponível em <http://www.