FERVOR DE BUENOS AIRES

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Jorge Luis Borges
– 1923 -

Este livro: Fervor de Buenos Aires é parte integrante da coleção:

JORGE LUIS BORGES – OBRAS COMPLETAS VOLUME 1
1923-1949 Título do original em espanhol: Jorge Luis Borges – Obras Completas 98-3272 Copyright ©1998 by Maria Kodama Copyright ©1998 das traduções by Editora Globo S.A.

1ª Reimpressão-9/98 2ª Reimpressão-1/99 3ª Reimpressão – 12/99
Edição baseada em: Jorge Luis Borges – Obras Completas, publicada por Emecé Editores S.A., 1989, Barcelona – Espanha. Coordenação editorial: Carlos V. Frías Capa: Joseph Llbach / Emecé Editores Ilustração: Alberto Ciupiak Coordenação editorial da edição brasileira: Eliana Sá Assessoria editorial: Jorge Schwartz Preparação de textos: Maria Carolina de Araújo Revisão de textos: Flávio Martins, Levon Yacubian, Luciana Vieira Alves e Márcia Menin Projeto gráfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: GraphBox Agradecimentos a Antonio Fernández Ferrer, Maite Celada, Ana Cecilia Olmos, Blas Matamoro, Fernando Paixão, Daniel Samoilovich e Michel Sleiman Agradecimentos especiais a Élida Lois Direitos mundiais em língua portuguesa, para o Brasil, cedidos à EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguaré, 1485

CEP O5346-9O2 – Tel.: 3767-7OOO, São Paulo, SP E-mail: atendimento@edglobo.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida – em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. – nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora. Impressão e acabamento: Gráfica Círculo CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte – Câmara Brasileira do Livro, SP Borges, Jorge Luis, 1899-1986. Obras completas de Jorge Luis Borges_ volume 1 / Jorge Luis Borges. – São Paulo : Globo, 1999. Título original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vários tradutores. V. 1. 1923-1949 / v. 2. 1952-1972 / v. 3. 1975-1985 / v. 4. 1975-1988 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) / ISBN 85-25O2878-9 (v. 2) ISBN 85-25O-2879-7 (v. 3) / ISBN 85-25O-288O-O (v. 4.) 1. Ficção argentina 1. Título. Índices para catálogo sistemático 1. Ficção : Século 2O : Literatura argentina ar863.4 2. Século 2O : Ficção : Literatura argentina ar863.4 CDD-ar863.4

FERVOR DE BUENOS AIRES Fervor de Buenos Aires Tradução de Glauco Mattoso e Jorge Schwartz

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1923 - .F ER V O R D E BU EN O S AI RE S .

ser um escritor espanhol do século XVII. tratavam como agora de escamoteá-la sob inocentes novidades ruidosas. Somos o mesmo. Eu. pelo que prometia de algum modo. os jovens de 1923 eram tímidos. cantar uma Buenos Aires de casas baixas e. de Stevenson e de Whitman.– PRÓLOGO - Não reescrevi o livro. os dois descremos do fracasso e do sucesso. Fervor de Buenos Aires prefigura tudo o que faria depois. Como os de 1969. senti que aquele rapaz que em 1923 o escreveu já era essencialmente – que significa essencialmente? – o senhor que agora se resigna ou corrige. Buenos Aires. o centro e a serenidade. . Pelo que deixava entrever. limei asperezas. J. descobrir as metáforas que Lugones já havia descoberto. as manhãs. os arrabaldes e a desdita. agora. risquei sentimentalismos e imprecisões e. de chácaras gradeadas. no decurso desse labor às vezes grato e outras vezes incômodo. Para mim. Temerosos de uma íntima pobreza. aprovaram-no generosamente Enrique Díez-Canedo e Alfonso Reyes. Mitiguei seus excessos barrocos. os dois somos devotos de Schopenhauer. 18 de agosto de 1969. B. para o poente ou para o sul. me propus demasiados fins: arremedar certas fealdades (que me agradavam) de Miguel de Unamuno. L. ser Macedonio Fernández. procurava os entardeceres. Naquele tempo. das escolas literárias e de seus dogmas. por exemplo.

. Nossos nadas pouco diferem. e eu seu redator. previamente. perdoe-me o leitor a descortesia de tê-lo usurpado eu.A QUEM LER Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz. é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios.

Não as ávidas ruas.AS RUAS As ruas de Buenos Aires já são minhas entranhas. a perder-se na profunda visão de céu e de planura. únicas ante Deus e no tempo e sem dúvida preciosas. oxalá nos versos que traço estejam essas bandeiras. enternecidas de penumbra e de ocaso e aquelas mais longínquas privadas de árvores piedosas onde austeras casinhas apenas se aventuram. incômodas de turba e de agitação. abrumadas por imortais distâncias. quase invisíveis de tão habituais. Para o Oeste. mas as ruas entediadas do bairro. o Norte e o Sul se desfraldaram – e são também a pátria – as ruas. São para o solitário uma promessa porque milhares de almas singulares as povoam. .

são instrumentos mágicos da alma. embora sua imaginária repetição . o desnudo latim e as petrificadas datas fatais. milagre incompreensível. vento com pássaros que sobre as ramas ondeia. a conjunção do mármore e da flor e as pracinhas com frescor de pátio e os muitos ontens da história hoje detida e única. Sombra benigna das árvores. alma que se dispersa em outras almas. O espaço e o tempo são formas suas.se apagarão com ela o espaço. Belos são os sepulcros. demoramos e baixamos a voz entre as lentas filas de panteões. cuja retórica de sombra e de mármore promete ou prefigura a desejável dignidade de ter morrido. o tempo e a morte. Confundimos essa paz com a morte e cremos anelar nosso fim e anelamos o sonho e a indiferença. como ao cessar a luz caduca o simulacro dos espelhos que a tarde já foi apagando. fora um milagre que alguma vez deixaram de ser.LA RECOLETA Convencidos de caducidade por tantas nobres certezas do pó. Vibrante nas espadas e na paixão e adormecida na hera. e quando esta se apague. só a vida existe.

O SUL De um dos teus pátios ter olhado as antigas estrelas. talvez. a umidade – essas coisas são. O odor do jasmim e da madressilva. . Estas coisas pensei em La Recoleta. o arco do saguão. no lugar de minha cinza. o silêncio do pássaro adormecido. do banco da sombra ter olhado essas luzes dispersas que minha ignorância não aprendeu a nomear nem a ordenar em constelações. ter sentido o círculo da água na secreta cisterna.infame com horror nossos dias. o poema.

fazendo-a tão real como um verso esquecido e recuperado. talvez uma esperança de menina rias sacadas entrou no meu vazio coração com limpidez de lágrima. Quiçá essa hora da tarde de prata desse sua ternura à rua. Nessa hora em que a luz tem uma finura de areia. dei com uma rua ignorada. as modestas balaustradas e aldravas. como um grato declive. que todo imediato passo nosso caminha sobre Gólgotas. . Tudo – a mediania das casas. Só depois refleti que aquela rua da tarde era alheia. que toda casa é um candelabro onde as vidas dos homens ardem como velas isoladas. cujas cornijas e paredes mostrava cores brandas como o próprio céu que comovia o fundo. aberta em nobre largura de terraço.RUA DESCONHECIDA Penumbra da pomba chamaram os hebreus à iniciação da tarde quando a sombra não entorpece os passos e a vinda da noite se adverte como música esperada e antiga.

como o sonho. .A PRAÇA SAN MARTÍN A Macedonio Fernández Em busca da tarde fui esquadrinhando em vão as ruas. grave como gesto de homem enlutado. benfeitora e sutil como uma lâmpada. Como se vê bem a tarde do fácil sossego dos bancos! Abaixo o porto anela latitudes longínquas e a profunda praça igualadora de almas se abre como a morte. serena e sazonada. Todo sentir se aquieta sob a absolvição das árvores – jacarandás. clara como uma fronte. acácias – cujas piedosas curvas atenuam a rigidez da impossível estátua e em cuja rede se exalta a glória das luzes eqüidistantes do leve azul e da terra avermelhada. Já estavam os alpendres entorpecidos de sombra. Com fino brunimento de mogno a tarde inteira tinha-se remansado na praça.

a autoridade do ás de espadas. Dentro há um estranho país: as aventuras do truco e do aceito. Nos lindes da mesa a vida dos outros se detém. onipotente.O TRUCO Quarenta naipes deslocaram a vida. as gerações dos antepassados que legaram ao tempo de Buenos Aires os mesmos versos e as mesmas diabruras. os jogadores desta noite copiam antigas vazas: fato que ressuscita um pouco. Pintados talismãs de papelão nos fazem olvidar nossos destinos e uma criação risonha vai povoando o tempo roubado com as floridas travessuras de uma mitologia caseira. Uma lentidão preguiçosa vai demorando as palavras e como as alternativas do jogo se repetem e se repetem. e o sete de ouros tilintando esperança. muito pouco. . como dom Juan Manuel.

Esta noite. Pátio. a lua. céu canalizado. O pátio é o declive pelo qual se derrama o céu na casa. Grato é viver na amizade escura de um saguão. não domina seu espaço. . a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.UM PÁTIO Com a tarde cansaram as duas ou três cores do pátio. o claro círculo. Serena. de uma parreira e de uma cisterna.

A audácia foi costume de sua espada. Impôs na planura de Junín término venturoso à batalha e às lanças do Peru deu sangue espanhol.INSCRIÇÃO SEPULCRAL Para meu bisavô. Seu censo de façanhas escreveu em prosa rígida como os clarins belíssonos. . Agora é um pouco de cinza e de glória. o coronel Isidoro Suárez Dilatou seu valor sobre os Andes. Elegeu o honroso desterro. Afrontou montanhas e exércitos.

a de qualquer jardim e qualquer tarde. . a ardente e cega rosa que não canto. a que sempre é a rosa das rosas. a do negro jardim na alta noite.A ROSA A rosa. a que sempre está só. a rosa que ressurge da tênue cinza pela arte da alquimia. a imarcescível rosa que não canto. a rosa dos persas e de Ariosto. a rosa inalcançável. a jovem flor platônica. a que é peso e fragrância.

mas quando um arco bendisse com as cores do perdão a tarde. nos pusemos a andar pelas ruas como por uma recuperada herdade. e nas vidraças houve generosidades de sol e nas folhas luzentes gravou sua trêmula imortalidade o estio. e um odor de terra molhada alentou os jardins. .BAIRRO RECONQUISTADO Ninguém viu a formosura das ruas até que em pavoroso clamor o céu esverdeado desabou em abatimento de água e de sombra. O temporal foi unânime e aborrecível aos olhares foi o mundo.

SALA VAZIA Os móveis de mogno perpetuam entre a indecisão do brocado sua tertúlia de sempre. E faz muito tempo suas angustiadas vozes nos buscam e agora estão apenas nas manhãs iniciais de nossa infância. Os daguerreótipos mentem sua falsa cercania de tempo detido num espelho e ante nosso exame se perdem como datas inúteis de embaçados aniversários. . A luz do dia de hoje exalta os vidros da janela vinda da rua de clamor e de vertigem e encurrala e apaga a voz macia dos antepassados.

A imagem do tirano abarrotou o instante. idolátrico amor na gauchagem e horror do talho na garganta. cabe todo o sangue derramado. mas grande e umbrosa como a sombra de uma montanha remota e conjecturas e memórias sucederam-se à menção eventual como um eco insondável. como repreensão carinhosa. não clara como um mármore na tarde. Não sei se Rosas foi só um ávido punhal como os avós diziam. Hoje o olvido apaga seu censo de mortes. essa imortalidade infatigável que aniquila com silenciosa culpa as raças e em cuja ferida sempre aberta que o último deus haverá de estancar no último dia. pronunciou o nome familiar e temido. alguém. Famosamente infame seu nome foi desolação nas casas.ROSAS Na sala tranqüila cujo relógio austero derrama um tempo já sem aventuras nem assombro sobre a decente brancura que amortalha a paixão vermelha do mogno. creio que foi como tu e eu um fato entre os fatos . porque são venais as mortes se as pensamos como parte do Tempo.

pode pisar seu nada e sua noite. Já Deus o terá esquecido e é menos uma injúria que uma piedade demorar sua infinita dissolução com esmolas de ódio.que viveu na soçobra cotidiana e dirigiu para exaltações e penas a incerteza dos outros. Já toda vida. por humilde que seja. . Agora o mar é uma longa separação entre a cinza e a pátria.

perdure algo em nós: imóvel. A causa verdadeira é a suspeita geral e embaçada do enigma do Tempo.FINAL DE ANO Nem o pormenor simbólico de substituir um três por um dois nem essa metáfora baldia que convoca um lapso que morre e outro que surge nem o cumprimento de um processo astronômico aturdem e solapam o altiplano desta noite e nos obrigam a esperar as doze irreparáveis badaladas. é o assombro ante o milagre de que a despeito de infinitos acasos. de que a despeito de que somos as gotas do rio de Heráclito. .

.AÇOUGUE Mais vil que um lupanar o açougue rubrica como uma afronta a rua. Sobre o dintel uma cega cabeça de vaca reside a algazarra de carne charra e mármores finais com a remota majestade de um ídolo.

meu presente. salpicava as pedras da rua e divisei na profundeza os naipes de cores do poente e senti Buenos Aires. Meus passos claudicaram quando iam pisar o horizonte e fiquei entre as casas. quadriculadas em quarteirões diferentes e iguais como se fossem todas elas monótonas recordações repetidas de um só quarteirão. . eu estava sempre (e estarei) em Buenos Aires. O matinho precário. desesperadamente esperançado.ARRABALDE A Guillermo de Torre O arrabalde é o reflexo de nosso tédio. os anos que vivi na Europa são ilusórios. Esta cidade que acreditei ser meu passado é meu porvir.

REMORSO POR QUALQUER MORTE Livre da memória e da esperança. repartimos como ladrões o caudal das noites e dos dias. Como o Deus dos místicos. o morto ubiquamente alheio não é senão a perdição e ausência do mundo. de Quem devem negar-se todos os predicados. Até o que pensamos poderia estar pensando ele também. ali a calçada onde sua esperança espreitava. abstrato. o morto não é um morto: é a morte. . quase futuro. ilimitado. não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba: aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos. Tudo dele roubamos.

Todo o jardim é uma luz aprazível que ilumina a tarde. dunas.JARDIM Valetas. Cada arvorezinha é uma selva de folhas. serras ásperas. Yacimientos del Chubut 1922. Assediada em vão pelos estéreis morros silenciosos que apressam a noite com sua sombra e o triste mar de inúteis verdores. O jardinzinho é como um dia de festa na pobreza da terra. Num declive está o jardim. sitiadas por ofegantes singraduras e pelas léguas de temporal e de areia que do fundo do deserto se aglomeram. .

INSCRIÇÃO EM QUALQUER SEPULCRO Não arrisque o mármore temerário gárrulas transgressões à onipotência do esquecimento. Tanto avelório bem atribuído está às trevas o mármore não fale o que calam os homens. a pátria. os acontecimentos. a opinião. Cegamente reclama duração a alma arbitrária quando a tem assegurada em vidas alheias. O essencial da vida fenecida –a trêmula esperança. o milagre implacável da dor e o assombro do gozo– sempre perdurará. quando tu mesmo és o espelho e a réplica daqueles que não alcançaram teu tempo e outros serão (e são) tua imortalidade na terra. enumerando com meticulosidade o nome. .

Minhas mãos tocaram as árvores como quem acaricia alguém que dorme e repeti antigos caminhos como se recobrasse um verso esquecido e vi ao espalhar da tarde a frágil lua nova que se achegou ao amparo sombrio da palmeira de folhas altas. quantos heróicos poentes militarão na profundeza da rua e quantas quebradiças luas novas infundirão ao jardim sua ternura. como ao seu ninho o pássaro. antes que volte a reconhecer-me a casa e de novo seja um hábito! . Que caterva de céus abarcará entre suas paredes o pátio.A VOLTA Ao cabo dos anos de desterro voltei à casa de minha infância e ainda me é alheio o seu âmbito.

. essa alucinação que impõe ao espaço o unânime medo da sombra e que cessa de repente quando notamos sua falsidade. Nos dói suster essa luz intensa e distinta. como cessam os sonhos quando sabemos que sonhamos.AFTERGLOW Sempre é comovedor o ocaso por indigente ou charro que seja porém mais comovedor ainda é aquele brilho desesperado e final que enferruja a planície quando o sol último afundou.

Curioso pela sombra e acovardado pela ameaça da aurora revivi a tremenda conjectura de Schopenhauer e de Berkeley que declara que o mundo é uma atividade da mente. a doutrina anterior assumiu outra forma na aurora e a superstição dessa hora quando a luz como uma trepadeira vai implicar as paredes da sombra. persuadiu minha razão e traçou o capricho seguinte: Se estão alheias de substância as coisas e se esta numerosa Buenos Aires não é mais que um sonho que erigem em compartilhada magia as almas. sem base nem propósito nem volume.AMANHECER Na profunda noite universal que apenas contradizem os postes de luz uma ventura perdida ofendera as ruas taciturnas como pressentimento trêmulo do amanhecer horrível que ronda os arrabaldes desmantelados do mundo. há um instante . E já que as idéias não são eternas como o mármore mas imortais como um bosque ou um rio. um sonho das almas.

a imagem das ruas que definirão depois com os outros. hora em que seria fácil a Deus matar de todo Sua obra! Porém de novo o mundo se salvou. solicito minha casa. cinzenta e apenas esboçada. permaneceu nos olhos dos cegos. atônita e glacial Anã luz branca.em que periga desmedidamente seu ser e é o instante estremecido da aurora. quando são poucos os que sonham o mundo e só alguns notívagos conservam. . Hora em que o sonho pertinaz da vida corre perigo de quebranto. A luz discorre inventando sujas cores e com algum remorso de cumplicidade no ressurgimento do dia. enquanto um pássaro detém o silêncio e a noite gasta.

muladares. povoada como um sonho. a imaginada urbe que não viram nunca meus olhos entretece distâncias e repete suas casas inalcançáveis. Juntamente amanhece em todas as persianas que olham para o oriente e a voz de um muezim aflige de sua alta torre o ar deste dia e anuncia à cidade dos muitos deuses a solidão de Deus. O brusco sol desgarra a complexa escuridão de templos. cárceres. a cidade que canto persiste num lugar predestinado do mundo. (E pensar que enquanto brinco com duvidosas imagens. pátios e escalará os muros e resplandecerá num rio sagrado. Ofegante. com hospitais e quartéis e lentas alamedas .BENARES Falsa e densa como um jardim calcado num espelho. a cidade que oprimiu uma folhagem de estrelas transborda o horizonte e na manhã cheia de passos e de sonho a luz vai abrindo como ramas as ruas. com sua topografia precisa.

.e homens de lábios podres que sentem frio nos dentes. iguais a luzes no dia. Desde que te afastaste. Em que ribanceira esconderei minha alma para que não veja tua ausência que como um sol terrível. sem ocaso. eu terei que quebrá-las com minhas mãos. palavras daquele tempo. O mar no qual se afunda. brilha definitiva e desapiedada? Tua ausência me rodeia como a corda à garganta. músicas em que sempre me aguardavas. quantos lugares se tornaram vãos e sem sentido. Tardes que foram nicho de tua imagem.) AUSÊNCIA Hei de levantar a vasta vida que ainda agora é teu espelho: cada manhã hei de reconstituí-la.

Não necessito falar nem mentir privilégios. bem me conhecem aqueles que aqui me rodeiam. como as pedras e as árvores. bem sabem minhas penas e minha fraqueza. . o que talvez nos dará o Céu: não admirações nem vitórias mas simplesmente ser admitidos como parte de uma Realidade inegável.SINGELEZA A Haydée Lange Abre-se a cancela do jardim com a docilidade da página que uma freqüente devoção interroga e dentro os olhares não precisam deter-se nos objetos que já estão cabalmente na memória. Isso é alcançar o mais alto. Conheço os costumes e as almas e esse dialeto de alusões que todo agrupamento humano vai urdindo.

Também está o silêncio nos vestíbulos. (Advirto um longo paredão eriçado de uma agressão de arestas e um farol amarelo que aventura sua indecisão de luz.) Grandiosa e viva como a plumagem escura de um Anjo . memórias dos álamos. feitas de vago medo e de longas linhas. Eu sou o único espectador desta rua. Em vão a furtiva noite felina inquieta as sacadas fechadas que na tarde mostraram a notória esperança das meninas. Na côncava sombra vertem um tempo vasto e generoso os relógios da meia-noite magnífica. se a deixasse de ver. A brisa traz presságios de campo. um tempo caudaloso onde todo o sonhar encontra acolhida. Também advirto estrelas vacilantes. ela morreria. doçura das quintas. tempo de largueza d’alma. diferente dos avaros termos que medem as tarefas do dia.CAMINHADA Cheirosa como um mate curado a noite aproxima agrestes lonjuras e desanuvia as ruas que acompanham minha solidão. que farão tremer sob rigidez de asfalto a detida terra viva que oprime o peso das casas.

Suave como um salgueiral está a noite. Vermelhos faíscam os redemoinhos das bruscas fogueiras. lenha sacrificada que se dessangra em altas labaredas.cujas asas tapam o dia. A NOITE DE SÃO JOÃO O poente implacável em esplendores quebrou a fio de espada as distâncias. bandeira viva e cega travessura. Toda a santa noite a solidão rezando seu rosário de estrelas esparramadas. a noite perde as medíocres ruas. A sombra é aprazível como uma lonjura. . hoje as ruas lembram que foram campo um dia.

As alcovas profundas onde arde em quieta chama o mogno e o espelho de tênues resplendores é como um remanso na sombra. . Nomeei os lugares onde se esparrama a ternura e estou só e comigo. os pátios alicerçados na terra e no céu.CERCANIAS Os pátios e sua antiga certeza. As encruzilhadas escuras que lanceiam quatro infinitas distâncias em arrabaldes de silêncio. As janelas com grade da qual a rua se torna familiar como uma lâmpada.

Alguém descrucifica as aspirações cravadas no piano. *** Agravando a grade está a noite. Sempre. Na sala severa se buscam como cegos nossas duas solidões. Já quase não sou ninguém. e uma profunda cidade cega de homens que não te viram. sou tão-somente essa aspiração que se perde na tarde. G. Sobrevive à tarde a brancura gloriosa de tua carne. Em ti está a delícia como está a crueldade nas espadas. A tarde cala ou canta. jóia escura engastada no tempo. Está em ti a ventura como a primavera na folha nova. a multidão de tua formosura. *** Tu que ontem eras só toda a formosura . Em nosso amor há uma pena que se parece com a alma. *** A despeito de teu desamor tua formosura esbanja seu milagre pelo tempo.SÁBADOS A C. Fora há um ocaso.

alvissarado de luz e pródigo espaço. agora. . pensando que de tão nobre profusão de memórias perdurariam escassamente uma ou duas para ser decoro da alma na imortalidade de sua andança.és também todo o amor. TROFÉU Como quem percorre uma costa maravilhado com a multidão do mar. escureceu minha ventura. Nos despedimos ao anoitecer e em gradual solidão ao voltar pela rua cujos rostos ainda te conhecem. eu fui o espectador de tua formosura durante um longo dia.

A mão esfarrapada de um mendigo agrava a tristeza da tarde. O silêncio que habita os espelhos forçou seu cárcere. a rua aberta como um vasto sonho para qualquer acaso. No incerto ocaso a tarde mutilada foi umas pobres cores. o ouro último.ENTARDECERES A clara multidão de um poente exaltou a rua. . O límpido arvoredo perde o último pássaro. A escureza é o sangue das coisas feridas.

CAMPOS ENTARDECIDOS O poente de pé como um Arcanjo tiranizou o caminho. A lua nova é uma vozinha do céu. Os cincerros recolhem a tristeza dispersa da tarde. À medida que vai anoitecendo volta a ser campo o vilarejo. . A solidão povoada como um sonho se remansou ao redor do vilarejo. No dormitório vazio a noite fechará os espelhos. O poente que não se cicatriza ainda lhe dói a tarde. As trêmulas cores se resguardam nas entranhas das coisas.

campos de meu caminho.. Não haverá senão recordações. . firmamento que estou vendo e perdendo. Ó tardes merecidas pela pena. noites esperançadas de olhar-te.DESPEDIDA Entre meu amor e eu hão de levantar-se trezentas noites como trezentas paredes e o mar será magia entre nós. Definitiva como um mármore entristecerá tua ausência outras tardes..

negros jardins da chuva. Silenciosas batalhas do ocaso em arrabaldes últimos. Walt Whitman. a corrupção e o eco que seremos. a espada valorosa de um rei no silencioso leito de um rio. os saxões.. me engendraram. albas ruinosas que nos chegam do fundo deserto do espaço como do fundo do tempo. os árabes e os godos que. a mútua noite e a esperada tarde. cujo nome é o universo. sem o saber.LINHAS QUE POSSO TER ESCRITO E PERDIDO POR VOLTA DE 1922. uma esfinge de um livro que eu tinha medo de abrir e cuja imagem volta nos sonhos. árvores que se elevam e perduram como divindades tranqüilas. sou eu essas coisas e as outras ou são chaves secretas e árduas álgebras do que não saberemos nunca? .. a lua sobre o mármore. sempre antigas derrotas de uma guerra no céu.

já denunciado por Parmênides e Zenão de Eléia. Sua declaração mais cabal está em "Sentir-se en muerte" (El Idioma de los Argentinos. a do entardecer. não para indagar a verdade mas para chegar a uma conclusão de antemão resolvida: a justificativa de Rosas ou de qualquer outro déspota disponível. como se percebe. que é possível separá-los uns dos outros. terceiro volume. segundo a nomenclatura judaica. Continuo sendo. do corvo. O fato nada tem de singular. é postular que o tempo está feito de instantes individuais. Ao escrever este poema. 1928) e em “Nueva refutación del tiempo” (Otras Inquisiciones. Nesta página de duvidoso valor assoma pela primeira vez uma idéia que sempre me inquietou. se considerar-mos a escassez da população e o caráter quase incestuoso de nossa história. ROSAS. Por volta de 1922 ninguém pressentia o revisionismo.1952). É inexata a notícia dos primeiros versos. assim como o espaço de pontos. eu não ignorava que um avô de meus avós era antepassado de Rosas. Este passatempo consiste em "revisar" a história argentina. a penumbra da aurora tem o nome de penumbra da pomba. página 293) anota que. Seu erro. O TRUCO.NOTAS RUA DESCONHECIDA. De Quincey (Writings. um selvagem unitário. .

ÍNDICE FERVOR DE BUENOS AIRES (1923) Prólogo A quem ler As ruas La Recoleta O Sul Rua desconhecida A Praça San Martín O truco Um pátio Inscrição sepulcral A rosa Bairro reconquistado Sala vazia Rosas Final de ano Açougue Arrabalde Remorso por qualquer morte Jardim Inscrição em qualquer sepulcro A volta Afterglow Amanhecer Benares Ausência Singeleza Caminhada A noite de São João Cercanias Sábados Troféu Entardeceres Campos entardecidos Despedida .

google.com/group/Viciados_em_Livros http://groups..Linhas que posso ter perdido por volta de 1922..com/group/digitalsource . Notas escrito e http://groups.google.

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