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CARTA AO ATOR

(Esta carta foi escrita por Eugênio Barba a um dos seus atores em 1967. É publicada frequentemente em livros e revistas, para ilustrar a visão teatral de seu autor e sua atitude para com um "novo ator". Foi publicada pela primeira vez no livro Synspunkter om Kunst - Pontos de vista sobre a arte, Copenhaque:1968). "Frequentemente me surpreende a ausência de seriedade em seu trabalho. Não é devido à falta de concentração ou de boa vontade. É a expressão de duas atitudes. Antes de tudo, tem-se a impressão de que suas ações não são ditadas por uma convicção interior ou por uma necessidade que deixa sua marca no exercício, na improvisação, na cena que você executa. Você pode estar concentrado no seu trabalho, não estar se poupando, seus gestos podem, tecnicamente, ser precisos e, no entanto, suas ações continuam sendo vazias. Não acredito no que você está fazendo. O seu corpo só diz uma coisa: obedeço a uma ordem dada de fora. Seus nervos, seu cérebro, sua coluna não estão comprometidos, e, com uma atitude epidérmica, quer me fazer crer que cada ação é vital para você. Você mesmo não percebe a importância do que quer fazer partícipe os espectadores. Então, como pode esperar que o espectador fique preso por suas ações?Como você poderia, assim, afirmar e fazer compreender que o teatro é o lugar onde as convenções e os obstáculos sociais devem desaparecer, para deixar lugar a uma comunicação sincera e absoluta? Você neste lugar representa a coletividade, com as humilhações que passou, com seu cinismo que é autodefesa, e seu otimismo, que é a própria irresponsabilidade, com seu sentimento de culpa e sua necessidade de amar, a saudade do paraíso perdido, escondido no passado, na infância, no calor de um ser que lhe fazia esquecer a angústia.

Este é o laço que o une aos outros. Não era só o homem Dullin que morria. sem inquietudes. é tomado por um fanático e por um ingênuo. o tesouro sepultado no mais profundo do nosso ser. Suas ações. Tem medo de que tudo aquilo que faz seja sinônimo de fanatismo. aquele que procura "sua" verdade é tomado por hipócrita. pertence à vida e merece respeito e proteção. Volpone. poderão fermentar conseqüências imprevisíveis. a sua necessidade de vida espiritual. num mundo em que os homens que nos rodeiam já não acreditam em mais nada ou pretendem acreditar para ficarem tranqüilos. da consciência de estar no limite do que é permitido. no que você dá liberdade e forma no seu trabalho. ou na voz da sarça ardente. inerente à sua profissão. durante a representação. que o confronte socialmente com os outros. porque dói ao tocá-lo. Sejam quais foram as motivações pessoais que o trouxeram ao teatro. a este terreno comum da experiência individual. A segunda tendência que vejo em você é o temor de levar em consideração a seriedade deste trabalho: sente uma espécie de necessidade de rir. aquele que se afunda em si mesmo para enfrentar a sua condição. de comentar humoristicamente o que você e seus companheiros fazem. me responderá: para expressar-me e realizarme. você deve encontrar um sentido que vá além de sua pessoa. a sua falta de certezas. jamais descoberto. terminou sua existência na miséria e nas privações de uma pobre aldeia polinésia. Você tem medo da seriedade deste trabalho. NoaNoa. de distrair-se. depois de romper com as normas sociais. Ricardo III. . seu rosto se retorcia assumindo as máscaras dos grandes papéis que viveu: Smerdiakov. na presença da coletividade dos espectadores. de isolamento profissional. Somente então. agora que você exerce esta profissão. Se lhe pergunto por que escolheu ser ator. Porém. um retorno a estas fontes. devem estar carregadas da mesma força que a chama oculta na tenaz incandescente. É como se quisesse fugir da responsabilidade que sente.Todas as pessoas presentes nesta sala ficariam sacudidas se você efetuasse. nos falta a medida para julgar o êxito ou o fracasso de nossa vida. mas também o ator e todas as etapas de sua vida. Mas que significa realizar-se? Quem se realiza? O gerente Hansen que vive uma existência respeitável. onde acreditava ter encontrado a liberdade perdida? Numa época em que a fé religiosa é considerada como neurose. porque é nosso conforto. de aborrecimento. Num mundo. e que consiste em estabelecer uma relação e em assumir a responsabilidade do que revela. a esta pátria que se esconde. cuja norma é o enganar. Enquanto Dullin jazia em seu leito de morte. nunca atormentado por estas perguntas que ficam sem respostas? Ou o romântico Gauguim que. suas ações poderão continuar a viver no espírito e na memória do espectador. Deve aceitar que tudo no que você acredita.

Cada representação neste teatro precário. Isto pressupõe coragem: a maioria das pessoas não tem necessidade de nós. uma outra tradição. em nossa época." . dirigindo aos outros a prestação de contas de seus atos.Somente nas catacumbas pode-se preparar uma vida nova. procura um compromisso espiritual se arriscando com as eternas perguntas sem respostas. pode ser a última. Esse é o lugar de quem. que se choca contra o pragmatismo cotidiano. Se o fato de ser ator significa tudo isto para você. Uma nova relação se estabelecerá entre você e os espectadores que à noite vêm vê-lo. Seu trabalho é uma forma de meditação sobre si mesmo. como sua possibilidade de reencontrar-se. sobre sua condição humana numa sociedade e sobre os acontecimentos de nosso tempo que tocam o mais profundo de si mesmo. E você deve considerá-la como tal. então surgirá um outro teatro. uma outra técnica. porque necessitam de você. seu testamento.