Resenha: A construção social da realidade – P. Berger & T.

Luckmann O texto trata do conhecimento que rege a conduta da vida cotidiana; para esclarecer esse conhecimento, o método usado é a análise fenomenológica. Essa realidade social da vida cotidiana é dividida entre um indivíduo e outro, num sistema de relação face a face (este é ‘’o’’ exemplo de interação social). Essa situação é a única que consegue reproduzir os sintomas e as situações que ocorrem no momento da interação entre os indivíduos. Como o outro é plenamente real, não se pode esconder as interpretações, os gestos e as “caretas”, principalmente no momento da conversa. Para essa interação é preciso de um sistema de sinais, na vida cotidiana o sistema de sinal mais importante é a linguagem, e sua compreensão é essencial para entender a realidade. A linguagem simbólica é capaz de transcender a realidade, por isso é um de seus componentes essenciais. O universo simbólico é um nível de legitimação, esses processos simbólicos mostram realidades diferentes das que compõe a experiência da vida cotidiana, eles são produtos sociais e tem uma história. Tudo que é feito pelo homem está sujeito a tornar-se hábito, este fornece a direção e a especialização da atividade humana. Esse processo de formação do hábito precede a institucionalização; esta ocorre sempre que existe uma tipificação recíproca de ações habituais entre tipos de atores (uma tipificação é uma instituição). A instituição, sendo um fato social, é coercitiva, coletiva e exterior ao homem. Então quando se desvia da ordem da instituição, afasta-se da realidade. Resenha II No seu Tratado de Sociologia do Conhecimento intitulado “A Construção Social da Realidade” (op.cit,pp.124/132), Peter Berger e Thomas Luckmann desenvolvem uma análise dos “processos de legitimação pelos universos simbólicos” que toma por base a intersubjetividade e a biografia individual. Abordam o problema da transmissão a uma nova geração das “objetivações da ordem institucional”, assim tornada histórica. Quer dizer, a legitimação é uma questão de tradição teórica, incluindo as explicações e justificações.

O esquema analítico desses autores afirma a precedência do conhecimento sobre os valores, e se aplica a partir da distinção de quatro níveis. Inicialmente, a legitimação “incipiente” acha-se presente “logo que um sistema de objetivações lingüísticas da experiência humana é transmitido”. É o primeiro nível, que inclui “todas as afirmações tradicionais simples do tipo ‘é assim que se faz as coisas”. É o nível pré-teórico e constitui o fundamento do conhecimento evidente “sobre o qual devem repousar todas as ‘teorias

nível ao qual estas devem atingir para serem incorporadas à tradição”. a “integração reflexiva de processos institucionais distintos alcança sua plena realização”. “todos os setores da ordem institucional achamse integrados num quadro de referência global”. pelo que o processo de legitimação começa a atingir “um grau de autonomia em relação às instituições legitimadas”. como “corpos de tradição teórica que (a)-integram diferentes áreas de significação”. “todas as teorias legitimadoras menores são consideradas como perspectivas especiais”. (d)-realizam o grau mais alto de integração “de particulares áreas de significado” e de “processos separados de conduta institucionalizada”. em termos de objetivação. não perde suas raízes no mundo humano de tal sorte que os universos simbólicos se definem como “produtos sociais que têm uma história”. incluindo esquemas explicativos que relacionam “conjuntos de significações objetivas” e que “são altamente pragmáticos”. Para Berger e Luckmann os universos simbólicos são passíveis de cristalização segundo processos de “objetivação. O terceiro nível já compreende “teorias explícitas”: um “corpo diferenciado de conhecimentos” oferecendo um “quadro de referência” amplo para a “conduta institucionalizada”.ademais das lendas e histórias populares. como “os provérbios. “os papéis institucionais tornam-se modos de participação”. (c)-se referem a realidades diferentes das pertencentes à experiência da vida cotidiana”. inversamente. Já se nota a função de “pessoal especializado” para a transmissão desse conhecimento. Quer dizer. Esses processos de cristalização levam a um mundo de produtos teóricos que. (b)-abrangem a ordem institucional em “processo de significação”. Desse modo. podendo gerar “seus próprios procedimentos institucionais”. O segundo nível contém proposições teóricas em forma rudimentar. porém. as máximas morais e os adágios da sabedoria” . isto é. sedimentação e acumulação do conhecimento”. Desse modo.subseqüentes’ e. É somente no quarto nível que se impõem os universos simbólicos como tais. sedimentação e acumulação do conhecimento. se quisermos entender o significado desses produtos temos de entender a história da sua produção. A “função nômica” do universo simbólico é .

o homem continua a produzí-lo . Completando seu esquema analítico. Quer dizer. permitindo ao indivíduo “retornar à realidade da vida cotidiana”. exigência sóciológica esta que “é um acontecimento comparativamente tardio”. a reificação é uma modalidade da consciência. Os significados humanos são tidos. É a reificação como grau extremo do processo de objetivação. Trata-se de saber “se o homem ainda conserva a noção de que. os autores mencionados notam que as instituições podem ser apreendidas em termos reificados quando se lhes outorga “um status ontológico independente da atividade e da significação . embora presumivelmente tenham suas raízes em reificações pré-teóricas” -“a reificação existe na consciência do homem da rua” e não deve ser limitada às construções dos intelectuais. extremo esse no qual “o mundo objetivado perde a inteligibilidade e se fixa como uma faticidade inerte. pode ser refeito por eles”. prosseguem Berger e Luckmann. seria “um engano considerar a reificação como uma perversão de uma apreensão do mundo social originariamente não reificada”: “a apreensão original do mundo social é consideravelmente reificada. surge a questão de saber “até que ponto uma ordem institucional. Em conseqüência a análise visando a integração reflexiva nota que “a reificação é possível no nível pré-teórico e no nível teórico da consciência”: “os sistemas teóricos complexos podem ser descritos como reificações. embora objetivado. Em contrapartida.paradoxalmente. o mundo social foi feito pelos homens e. portanto. então. ou alguma parte dela é apreendida como uma faticidade não humana”. mesmo apreendendo o mundo em termos reificados. e que essa “é a questão da reificação da realidade social”. nas objetivações em que as teorias são observadas. a apreensão da própria reificação como modalidade da consciência “depende de uma desreificação ao menos relativa. o homem é capaz de produzir uma realidade que o nega. A análise dos processos de legitimação por Berger e Luckmann tem em conta que. como “produtos da natureza das coisas”. Da mesma maneira.que “põe cada coisa em seu lugar certo”. de tal sorte que.

Quer dizer.humanas”. de tal sorte que “o setor da autoconsciência que foi objetivado num papel é então também apreendido como uma fatalidade inevitável. E os autores completam: “a distância implicada em toda a objetivação mantem-se. “a reificação dos papéis estreita a distância subjetiva que o indivíduo pode estabelecer entre si e o papel que desempenha”. . Quer dizer. os papéis sociais podem ser reificados. evidentemente. A conclusão é de que a análise da reificação serve de corretivo padrão para as tendências reificadoras do pensamento teórico em geral. Da mesma maneira. através da reificação “o mundo das instituições parece fundir-se com o mundo da natureza”. mas a distância causada pela desidentificação vai se reduzindo até o ponto de desaparecer”. podendo o indivíduo negar qualquer responsabilidade”. e do pensamento sociológico em particular.

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