Notas de Análise Funcional

Jorge Mujica
Sumário
1. Espaços normados e operadores lineares ....................................................................................01
2. Desigualdades de Hölder e Minkowski para somas....................................................................05
3. Espaços normados de sequências................................................................................................08
4. Desigualdades de Hölder e Minkowski para integrais ................................................................12
5. Espaços normados de funções.....................................................................................................14
6. Espaços normados de dimensão finita ........................................................................................20
7. Completamento de espaços normados ........................................................................................23
8. Espaços quociente .......................................................................................................................26
9. Espaços com produto interno......................................................................................................29
10. Projeções ortogonais .................................................................................................................32
11. O teorema de Hahn-Banach ......................................................................................................37
12. Consequências do teorema de Hahn-Banach ............................................................................41
13. O dual de lp ...............................................................................................................................44
14. O dual de Lp(X,_, µ) .................................................................................................................46
15. Bidual de um espaço normado ..................................................................................................51
16. Teorema de Banach-Steinhaus ..................................................................................................54
17. Teorema da aplicação aberta e teorema do gráfico fechado......................................................57
18. Espectro de um operador em um espaço de Banach .................................................................60
19. Operadores compactos entre espaços de Banach ......................................................................63
20. Conjuntos ortonormais em espaços de Hilbert..........................................................................65
21. Conjuntos ortonormais completos em espaços de Hilbert ........................................................68
22. Operadores auto-adjuntos em espaços de Hilbert .....................................................................75
23. Teorema espectral para operadores compactos e auto-adjuntos
em espaços de Hilbert .....................................................................................................................78
24. Espaços localmente convexos ...................................................................................................81
25. O teorema de Hahn-Banach em espaços localmente convexos.................................................85
26. A topologia fraca.......................................................................................................................87
27. A topologia fraca estrela ...........................................................................................................89
1. Espa¸ cos normados e operadores lineares
Sempre consideraremos espa¸cos vetoriais sobre K, onde K ´e R ou C.
1.1. Defini¸c˜ao. Se E ´e um espa¸co vetorial, ent˜ ao uma fun¸ c˜ao x ∈ E →
|x| ∈ R ´e chamada de norma se verifica as seguintes propriedades:
(a) |x| ≥ 0 para todo x ∈ E;
(b) |x| = 0 se e s´o se x = 0;
(c) |λx| = [λ[|x| para todo λ ∈ K e x ∈ E;
(d) |x +y| ≤ |x| +|y| para todo x, y ∈ E.
A desigualdade (d) ´e chamada de desigualdade triangular. O espa¸co vetorial
E, junto com a norma |.|, ´e chamado de espa¸co normado. E ´e chamado de
espa¸co de Banach se for completo com rela¸c˜ao `a m´etrica natural d(x, y) =
|x −y|.
Logo veremos muitos exemplos de espa¸cos normados e espa¸cos de Banach.
De agora em diante, a menos que digamos o contr´ ario, E e F denotar˜ ao espa¸cos
normados.
1.2. Defini¸c˜ao. Sejam a ∈ E e r > 0. A bola aberta de centro a e raio r ´e
o conjunto
B
E
(a; r) = ¦x ∈ E : |x −a| < r¦.
A bola fechada de centro a e raio r ´e o conjunto
B
E
(a; r) = ¦x ∈ E : |x −a| ≤ r¦.
A esfera de centro a e raio r ´e o conjunto
S
E
(a; r) = ¦x ∈ E : |x −a| = r¦.
Se a = 0 e r = 1, escreveremos B
E
, B
E
e S
E
em lugar de B
E
(0; 1), B
E
(0; 1) e
S
E
(0; 1), respectivamente.
1.3. Defini¸c˜ao. Dada uma aplica¸ c˜ao linear T : E → F, seja |T| definido
por
|T| = sup¦|Tx| : x ∈ E, |x| ≤ 1¦.
T ´e dita limitada se |T| < ∞.
1.4. Proposi¸ c˜ao. Dado uma aplica¸ c˜ao linear T : E → F, as seguintes
condi¸c˜oes s˜ao equivalentes:
(a) T ´e limitada.
(b) T ´e uniformemente cont´ınua.
(c) T ´e cont´ınua.
(d) T ´e cont´ınua na origem.
1
Demonstra¸ c˜ao. (a) ⇒ (b): Se T ´e limitada, ent˜ ao
|Tx| ≤ |T| para todo x ∈ E, |x| ≤ 1,
e portanto
|Tx| ≤ |T||x| para todo x ∈ E.
Segue que
|Tx −Ty| ≤ |T||x −y| para todo x, y ∈ E.
Logo T ´e uniformemente cont´ınuo.
As implica¸c˜oes (b) ⇒ (c) e (c) ⇒ (d) s˜ao claras.
(d) ⇒ (a): Se (a) n˜ ao for verdadeiro, ent˜ ao existiria uma sequˆencia (x
n
) em
E tal que |x
n
| ≤ 1 e |Tx
n
| ≥ n para cada n. Seja y
n
= x
n
/|Tx
n
| para cada
n. Ent˜ ao |y
n
| ≤ 1/n e |Ty
n
| = 1 para cada n. Logo T n˜ ao seria cont´ınuo na
origem.
1.5. Corol´ario. Seja T : E → F uma aplica¸ c˜ao linear. Ent˜ao T ´e cont´ınua
se e s´ o se existe uma constante c > 0 tal que
|Tx| ≤ c|x| para todo x ∈ E.
1.6. Defini¸c˜ao. Denotaremos por L
a
(E; F) o espa¸co vetorial de todas as
aplica¸ c˜oes lineares T : E → F. Denotaremos por L(E; F) o subespa¸ co de todas
os T ∈ L
a
(E; F) que s˜ao cont´ınuas. Os elementos de L
a
(E; F) s˜ao usualmente
chamados de operadores lineares.
´
E claro que o valor absoluto define uma norma em K, e que K, munido
dessa norma, ´e completo. O espa¸co L
a
(E, K) ´e denotado por E

, e ´e chamado
de dual alg´ebrico de E. O espa¸co L(E; K) ´e denotado por E

, e ´e chamado de
dual topol´ ogico, ou simplesmente dual de E. Os elementos de E

s˜ao usualmente
chamados de funcionais lineares.
Diremos que T ∈ L(E; F) ´e um isomorfismo topol´ ogico se T ´e bijetivo e seu
inverso ´e cont´ınuo. Diremos que T ∈ L(E; F) ´e um mergulho topol´ ogico se T ´e
um isomorfismo topol´ ogico entre E e o subespa¸co T(E) de F.
Diremos que T ∈ L(E; F) ´e um isomorfismo isom´etrico se T ´e bijetivo, e
|Tx| = |x| para todo x ∈ E. Diremos que T ∈ L(E; F) ´e um mergulho
isom´etrico se T ´e um isomorfismo isom´etrico entre E e o subespa¸co T(E) de F.
Diremos que duas normas |.|
1
e |.|
2
em um espa¸co vetorial E s˜ao equiv-
alentes se a aplica¸c˜ao identidade de (E, |.|
1
) em (E, |.|
2
) ´e um isomorfismo
topol´ ogico.
1.7. Corol´ario. Seja T ∈ L
a
(E; F). Ent˜ao T ´e um mergulho topol´ ogico se
e s´ o se existem constantes b ≥ a > 0 tais que
a|x| ≤ |Tx| ≤ b|x| para todo x ∈ E.
2
1.8. Corol´ario. Seja E um espa¸ co vetorial. Duas normas |.|
1
e |.|
2
em
E s˜ ao equivalentes se e s´ o se existem constantes b ≥ a > 0 tais que
a|x|
1
≤ |x|
2
≤ b|x|
1
para todo x ∈ E.
1.9. Proposi¸c˜ao. A fun¸ c˜ao T → |T| ´e uma norma em L(E; F). Se F ´e
um espa¸ co de Banach, ent˜ao L(E; F) tamb´em ´e um espa¸ co de Banach.
Demonstra¸ c˜ao.
´
E f´ acil verificar que a fun¸ c˜ao T → |T| ´e uma norma em
L(E; F). Provaremos que L(E; F) ´e completo se F ´e completo. Seja (T
n
) uma
sequˆencia de Cauchy em L(E; F). Ent˜ ao, dado > 0, existe n
0
∈ N tal que
|T
n
−T
m
| ≤
para todo n, m ≥ n
0
. Segue que
(1) |T
n
x −T
m
x| ≤ |T
n
−T
m
||x| ≤ |x|
para todo n, m ≥ n
0
e x ∈ E. Segue que (T
n
x) ´e uma sequˆencia de Cauchy em
F para cada x ∈ E. Como por hip´ otese F ´e completo, existe o limite lim
n
T
n
x
para cada x ∈ E. Definamos T : E → F por Tx = lim
n
T
n
x para cada x ∈ E.
´
E facil verificar que T ´e linear. Fazendo m → ∞ em (1) segue que
|T
n
x −Tx| ≤ |x|
para todo n ≥ n
0
e x ∈ E. Logo |T
n
− T| ≤ , e portanto T
n
− T ∈ L(E; F),
para todo n ≥ n
0
. Segue que T = (T −T
n
) +T
n
∈ L(E; F) e |T
n
−T| → 0.
1.10. Corol´ario. O dual de um espa¸ co normado ´e sempre um espa¸ co de
Banach.
Exerc´ıcios
1.A. Prove que
[|x| −|y|[ ≤ |x −y| para todo x, y ∈ E.
Em particular a fun¸ c˜ao x ∈ E → |x| ∈ R ´e uniformemente cont´ınua.
1.B. (a) Se x
n
→ x em E, e y
n
→ y em E, prove que x
n
+ y
n
→ x + y em
E.
(b) Se λ
n
→ λ em K, e x
n
→ x em E, prove que λ
n
x
n
→ λx em E.
Em particular as seguintes aplica¸ c˜oes s˜ao cont´ınuas:
(x, y) ∈ E E → x +y ∈ E,
(λ, x) ∈ KE → λx ∈ E.
3
1.C. (a) Prove que, para cada a ∈ E, a aplica¸ c˜ao x ∈ E → x +a ∈ E ´e um
homeomorfismo.
(b) Prove que, para cada λ ,= 0 em K, a aplica¸ c˜ao x ∈ E → λx ∈ E ´e um
homeomorfismo.
1.D. Prove que cada subespa¸ co fechado de um espa¸co de Banach ´e um espa¸co
de Banach com a norma induzida.
1.E. Se M ´e um subespa¸co vetorial pr´ oprio de E, prove que intE ´e vazio.
1.F. (a) Prove que a fun¸ c˜ao |(x, y)|
1
= |x| + |y| define uma norma em
E F.
(b) Prove que (E F, |.|
1
) ´e completo se e s´o se E e F s˜ao completos.
1.G. (a) Prove que a fun¸ c˜ao |(x, y)|

= max¦|x|, |y|¦ define uma norma
em E F.
(b) Prove que (E F, |.|

´e completo se e s´o se E e F s˜ao completos.
1.H. Prove que a aplica¸ c˜ao identidade I : (E F, |.|
1
) → (E F, |.|

) ´e
um isomorfismo topol´ ogico. Calcule |I| e |I
−1
|.
1.I. Dado T ∈ L(E; F), prove que:
|T| = sup¦|Tx| : x ∈ E, |x| < 1¦
= sup¦|Tx| : x ∈ E, |x| = 1¦
= sup¦
|Tx|
|x|
: x ∈ E, x ,= 0¦
= inf¦c > 0 : |Tx| ≤ c|x| para todo x ∈ E¦.
4
2. Desigualdades de H¨older e Minkowski para somas
2.1. Lema. Sejam a, b, α, β > 0, com α +β = 1. Ent˜ao:
(1) a
α
b
β
≤ αa +βb,
com igualdade se e s´o se a = b.
Demonstra¸ c˜ao. Queremos provar que
a
α
b
1−α
≤ αa + (1 −α)b,
ou seja
(2)
_
a
b
_
α
≤ α
a
b
+ 1 −α.
Consideremos a fun¸ c˜ao
φ(t) = αt + 1 −α −t
α
(t > 0).
Ent˜ ao
φ

(t) = α −αt
α−1
.
Como 0 < α < 1, segue que
φ

(t) < 0 se 0 < t < 1,
φ

(t) > 0 se t > 1.
Logo φ ´e estritamente decrescente em (0, 1], e estritamente crescente em [1, ∞).
Como φ(1) = 0, concluimos que
φ(t) > 0 se t > 0, t ,= 1.
Isto prova (2), e portanto (1), com igualdade se e s´ o se a = b.
2.2. Teorema (desigualdade de H¨older para somas). Sejam 1 <
p, q < ∞, com
1
p
+
1
q
= 1, e sejam (ξ
1
, ..., ξ
n
), (η
1
, ..., η
n
) ∈ K
n
. Ent˜ao:
n

j=1

j
η
j
[ ≤


n

j=1

j
[
p


1/p


n

j=1

j
[
q


1/q
.
Demonstra¸ c˜ao. Aplicando o lema anterior, com
a
j
=

j
[
p

n
j=1

j
[
p
, b
j
=

j
[
q

n
j=1

j
[
q
, α =
1
p
, β =
1
q
,
obtemos

j
η
j
[
_

n
j=1

j
[
p
_
1/p
_

n
j=1

j
[
q
_
1/q

a
j
p
+
b
j
q
5
para j = 1, ..., n. Somando estas desigualdades, segue que

n
j=1

j
η
j
[
_

n
j=1

j
[
p
_
1/p
_

n
j=1

j
[
q
_
1/q

1
p
n

j=1
a
j
+
1
q
n

j=1
b
j
=
1
p
+
1
q
= 1,
completando a demonstra¸c˜ao.
2.3. Corol´ario (desigualdade de Cauchy-Schwarz para somas). Se-
jam (ξ
1
, ..., ξ
n
), (η
1
, ..., η
n
) ∈ K
n
. Ent˜ao:
n

j=1

j
η
j
[ ≤


n

j=1

j
[
2


1/2


n

j=1

j
[
2


1/2
.
2.4. Defini¸c˜ao. Dado 1 ≤ p < ∞, seja
p
o conjunto de todas as sequˆencias

j
) em K tais que


j=1

j
[
p
< ∞.
Temos ent˜ao os corol´arios seguintes.
2.5. Corol´ario (desigualdade de H¨older para s´eries). Sejam 1 <
p, q < ∞, com
1
p
+
1
q
= 1, e sejam (ξ
j
) ∈
p
e (η
j
) ∈
q
. Ent˜ao (ξ
j
η
j
) ∈
1
e

j=1

j
η
j
[ ≤


j=1

j
[
p


1/p


j=1

j
[
q


1/q
.
2.6. Corol´ario (desigualdade de Cauchy-Schwarz para s´eries). Se-
jam (ξ
j
), (η
j
) ∈
2
. Ent˜ao (ξ
j
η
j
) ∈
1
e

j=1

j
η
j
[ ≤


j=1

j
[
2


1/2


j=1

j
[
2


1/2
.
2.7. Teorema (desigualdade de Minkowski para somas). Sejam
1 ≤ p < ∞, e (ξ
1
, ..., ξ
n
), (η
1
, ..., η
n
) ∈ K
n
. Ent˜ao:


n

j=1

j

j
[
p


1/p



n

j=1

j
[
p


1/p
+


n

j=1

p
j


1/p
.
Demonstra¸ c˜ao. A desigualdade ´e clara se p = 1. Se p > 1, temos que:
n

j=1

j

j
[
p
=
n

j=1

j

j
[[ξ
j

j
[
p−1

n

j=1

j
[[ξ
j

j
[
p−1
+
n

j=1

j
[[ξ
j

j
[
p−1
.
6
Como (p −1)q = p, segue da desigualdade de H¨ older que
n

j=1

j
[[ξ
j

j
[
p−1



n

j=1

j
[
p


1/p


n

j=1

j

j
[
p


1/q
e
n

j=1

j
[[ξ
j

j
[
p−1



n

j=1

j
[
p


1/p


n

j=1

j

j
[
p


1/q
.
Logo
n

j=1

j

j
[
p








n

j=1

j
[
p


1/p
+


n

j=1

j
[
p


1/p







n

j=1

j

j
[
p


1/q
.
Como 1 −
1
q
=
1
p
, segue que


n

j=1

j

j
[
p


1/p



n

j=1

j
[
p


1/p
+


n

j=1

j
[
p


1/p
,
completando a demonstra¸c˜ao.
2.8. Corol´ario (desigualdade de Minkowski para s´eries). Seja 1 ≤
p < ∞, e sejam (ξ
j
), (η
j
) ∈
p
. Ent˜ao (ξ
j

j
) ∈
p
e


j=1

j

j
[
p


1/p



j=1

j
[
p


1/p
+


j=1

j
[
p


1/p
.
7
3. Espa¸ cos normados de sequˆencias
3.1. Exemplo. Dado 1 ≤ p < ∞, definamos
|x|
p
=


n

j=1

j
[
p


1/p
para cada x = (ξ
1
, ..., ξ
n
) ∈ K
n
. Segue da desigualdade de Minkowski que a
fun¸ c˜ao |.|
p
´e uma norma em K
n
. Denotaremos por K
n
p
o espa¸co vetorial K
n
,
munido da norma |.|
p
. N˜ ao ´e dif´ıcil provar que K
n
p
´e um espa¸co de Banach.
3.2. Exemplo. Definamos
|x|

= max¦[ξ
1
[, ..., [ξ
n

para cada x = (ξ
1
, ..., ξ
n
) ∈ K
n
.
´
E f´ acil verificar que a fun¸ c˜ao |.|

´e uma
norma em K
n
. Denotaremos por K
n
p
o espa¸co vetorial K
n
, munido da norma
|.|

. N˜ ao ´e dif´ıcil provar que K
n

´e um espa¸co de Banach.
3.3. Exemplo. Dado 1 ≤ p < ∞, lembremos que

p
= ¦x = (ξ
j
)

j=1
⊂ K :

j=1

j
[
p
< ∞¦.
Segue da desigualdade de Minkowski para s´eries que
p
´e um espa¸co vetorial, e
a fun¸ c˜ao
|x|
p
=


j=1

j
[
p


1/p
´e uma norma em
p
. Provaremos que
p
´e de fato um espa¸co de Banach. Seja
(x
n
)

n=1
uma seq¨ uˆencia de Cauchy em
p
. Escrevamos x
n
= (ξ
nj
)

j=1
para cada
n. Ent˜ ao, dado > 0, existe n
0
tal que
(1) |x
n
−x
m
| =


j=1

nj
−ξ
mj
[
p


1/p

para todo n, m ≥ n
0
. Em particular

nj
−ξ
mj
[ ≤ |x
n
−x
m
| ≤
para todo n, m ≥ n
0
e todo j ∈ N. Logo (ξ
nj
)

n=1
´e uma seq¨ uˆencia de Cauchy
em K para cada j ∈ N. Seja ξ
j
= lim
n
ξ
nj
para cada j ∈ N, e seja x = (ξ
j
)

j=1
.
Provaremos que x ∈
p
e que (x
n
)

n=1
converge a x. De fato, segue de (1) que
(2)


k

j=1

nj
−ξ
mj
[
p


1/p

8
para todo n, m ≥ n
0
e todo k ∈ N. Fazendo m → ∞ em (2) segue que


k

j=1

nj
−ξ
j
[
p


1/p

para todo n ≥ n
0
e todo k ∈ N. Logo


j=1

nj
−ξ
j
[
p


1/p

para todo n ≥ n
0
. Assim x
n
−x ∈
p
e |x
n
−x| ≤ para todo n ≥ n
0
. Segue
que x = (x −x
n
) +x
n

p
e |x
n
−x| → 0.
3.4. Exemplo. Seja


= ¦x = (ξ
j
)

j=1
⊂ K : sup
j

j
[ < ∞¦.
´
E f´ acil verificar que

´e um espa¸co vetorial, e a fun¸ c˜ao
|x|

= sup
j

j
[
´e uma norma em

. N˜ ao ´e dif´ıcil provar que

´e um espa¸co de Banach.
3.5. Exemplo. Sejam
c
0
= ¦x = (ξ
j
)

j=1
⊂ K : (ξ
j
) converge a zero¦
e
c = ¦x = (ξ
j
)

j=1
⊂ K : (ξ
j
) ´e convergente¦.
N˜ao ´e dif´ıcil provar que c
0
e c s˜ao subespa¸ cos fechados de

, e s˜ao portanto
espa¸cos de Banach.
Lembremos que um espa¸co m´etrico X ´e dito separ´ avel se existir um sub-
conjunto enumer´ avel D ⊂ X que ´e denso em X, ou seja D = X. N˜ ao ´e dif´ıcil
provar que o espa¸ co K
n
p
´e separ´avel para 1 ≤ p ≤ ∞.
3.5. Proposi¸c˜ao.
p
´e separ´ avel para cada 1 ≤ p < ∞.
Demonstra¸ c˜ao. Seja
c
00
= ¦x = (ξ
j
)

j=1
⊂ K : ξ
j
= 0 para todo j ≥ algum n¦
e seja
D = ¦x = (ξ
j
)

j=1
∈ c
00
: cada ξ
j
´e racional¦.
O conjunto D ´e claramente enumer´avel. Provaremos que D ´e denso em
p
.
Sejam x = (ξ
j
) ∈
p
e > 0 dados. Como


j=1

j
[
p
< ∞, existe n ∈ N tal que

j=n+1

j
[
p
<
p
.
9
Seja
y = (ξ
1
, ..., ξ
n
, 0, 0, 0, ...),
e seja
z = (ζ
1
, ..., ζ
n
, 0, 0, 0, ...),
com ζ
1
, ..., ζ
n
racionais tais que
n

j=1

j
−η
j
[
p
<
p
.
Ent˜ ao y ∈ c
00
, z ∈ D e
|x −z|
p
≤ |x −y|
p
+|y −z|
p
< 2.
Logo D ´e denso em
p
.
3.6. Proposi¸c˜ao.

n˜ao ´e separ´ avel.
Demonstra¸ c˜ao. Seja (x
n
)

n=1
um subconjunto enumer´ avel de

. Seja
x
n
= (ξ
nj
)

j=1
para cada n. Seja x = (ξ
j
)

j=1
definido por
ξ
j
= ξ
jj
+ 1 se [ξ
jj
[ ≤ 1,
ξ
j
= 0 se [ξ
jj
[ > 1.
Claramente x ∈

, mas
|x −x
j
|

≥ [ξ
j
−ξ
jj
[ ≥ 1
para todo j. Logo ¦x
j
: j ∈ N¦ n˜ ao ´e denso em

.
Exerc´ıcios
3.A. Dados x ∈ K
n
e 1 ≤ p ≤ q < ∞, prove que:
(a) |x|
q
≤ |x|
p
.
(b) |x|

≤ |x|
p
≤ n
1/p
|x|

.
(c) |x|

= lim
p→∞
|x|
p
.
Em particular todas as normas |.|
p
, com 1 ≤ p ≤ ∞, s˜ao equivalentes entre
si em K
n
.
3.B. Seja T : K
n
1
→ K
n

o operador identidade. Calcule |T| e |T
−1
|.
3.C. Se 1 ≤ p ≤ ∞, prove que cada aplica¸ c˜ao linear T : K
n
p
→ F ´e cont´ınua.
3.D. Se 1 ≤ p ≤ q < ∞, prove que
p

q
, e a inclus˜ ao ´e cont´ınua.
10
3.E. Se 1 ≤ p < ∞, prove que
p
⊂ c
0
, e a inclus˜ ao ´e cont´ınua.
3.F. Prove que K
n
p
´e separ´avel para 1 ≤ p ≤ ∞.
3.G. Prove que c
0
e c s˜ao separ´aveis.
3.H. Prove que c
0
e c s˜ao isomorfos entre si.
11
4. Desigualdades de H¨older e Minkowski para integrais
Seja (X, Σ, µ) um espa¸co de medida, ou seja X ´e um conjunto n˜ ao vazio, Σ
´e uma σ-´algebra de subconjuntos de X, e µ : Σ → [0, ∞] ´e uma medida. Se
1 ≤ p < ∞, denotaremos por L
p
(X, Σ, µ) o espa¸co vetorial de todas as fun¸ c˜oes
mensur´ aveis f : X → K tais que
_
X
[f[
p
dµ < ∞. Escrevamos
|f|
p
=
__
X
[f[
p

_
1/p
para cada f ∈ L
p
(X, Σ, µ).
4.1. Teorema (desigualdade de H¨older para integrais). Sejam 1 <
p, q < ∞, com
1
p
+
1
q
= 1, e sejam f ∈ L
p
(X, Σ, µ) e g ∈ L
q
(X, Σ, µ). Ent˜ao
fg ∈ L
1
(X, Σ, µ) e
_
X
[fg[dµ ≤
__
X
[f[
p

_
1/p
__
X
[g[
q

_
1/q
.
Demonstra¸ c˜ao. Sem perda de generalidade podemos supor que |f|
p
> 0
e |g|
q
> 0. Aplicando o Lema 2.1 com
a =
[f(x)[
|f|
p
, b =
[g(x)[
|g|
q
, α =
1
p
, β =
1
q
,
segue que
[f(x)g(x)[
|f|
p
|g|
q

[f(x)[
p
p|f|
p
p
+
[g(x)[
q
q|g|
q
q
.
Integrando segue que
_
X
[fg[dµ
|f|
p
|g|
q

1
p
+
1
q
= 1,
completando a demonstra¸c˜ao.
4.2. Corol´ario (desigualdade de Cauchy-Schwarz para integrais).
Sejam f, g ∈ L
2
(X, Σ, µ). Ent˜ao fg ∈ L
1
(X, Σ, µ) e
_
X
[fg[dµ ≤
__
X
[f[
2

_
1/2
__
X
[g[
2

_
1/2
.
Dadas duas fun¸ c˜oes f, g : X → R, as fun¸ c˜oes f ∨g : X → R e f ∧g : X → R
s˜ao definidas por:
(f ∨ g)(x) = max¦f(x), g(x)¦,
(f ∧ g)(x) = min¦f(x), g(x)¦.
12
4.3. Teorema (desigualdade de Minkowski para integrais). Seja
1 ≤ p < ∞, e sejam f, g ∈ L
p
(X, Σ, µ). Ent˜ao f +g ∈ L
p
(X, Σ, µ) e
__
X
[f +g[
p

_
1/p

__
X
[f[
p

_
1/p
+
__
X
[g[
p

_
1/p
.
Demonstra¸ c˜ao. A desigualdade ´e clara se p = 1. Logo vamos supor que
p > 1. Como
[f +g[
p
≤ ([f[ +[g[)
p
≤ 2
p
([f[ ∨ [g[)
p
≤ 2
p
([f[
p
+[g[
p
),
segue que f +g ∈ L
p
(X, Σ, µ). Como
[f +g[
p
= [f +g[[f +g[
p−1
≤ [f[[f +g[
p−1
+[g[[f +g[
p−1
,
segue que
_
X
[f +g[
p
dµ ≤
_
X
[f[[f +g[
p−1
dµ +
_
X
[g[[f +g[
p−1
dµ.
Temos que [f + g[
p−1
∈ L
q
(X, Σ, µ), pois (p − 1)q = p e f + g ∈ L
p
(X, Σ, µ).
Usando a desigualdade de H¨ older, segue que
_
X
[f[[f +g[
p−1
dµ ≤
__
X
[f[
p

_
1/p
__
X
[f +g[
p

_
1/q
.
De maneira an´ aloga
_
X
[g[[f +g[
p−1
dµ ≤
__
X
[g[
p

_
1/p
__
X
[f +g[
p

_
1/q
.
Logo
_
X
[f +g[
p
dµ ≤
_
__
X
[f[
p

_
1/p
+
__
X
[g[
p

_
1/p
_
__
X
[f +g[
p

_
1/q
.
Como 1 −
1
q
=
1
p
, segue que
__
X
[f +g[
p

_
1/p

__
X
[f[
p

_
1/p
+
__
X
[g[
p

_
1/p
,
completando a demonstra¸c˜ao.
13
5. Espa¸ cos normados de fun¸ c˜oes
5.1. Exemplo. Seja X um conjunto n˜ ao vazio, e seja B(X) o espa¸co
vetorial de todas as fun¸ c˜oes limitadas f : X → K. N˜ ao ´e dif´ıcil provar que
B(X) ´e um espa¸co de Banach sob a norma
|f| = sup¦[f(x)[ : x ∈ X¦.
5.2. Exemplo. Seja X um espa¸ co topol´ogico compacto, e seja C(X) o
espa¸co vetorial de todas as fun¸ c˜oes cont´ınuas f : X → K. N˜ ao ´e dif´ıcil verificar
que C(X) ´e um subespa¸co fechado de B(X), e ´e portanto um espa¸ co de Banach.
5.3. Exemplo. Seja X um espa¸ co topol´ ogico arbitr´ ario, e seja C
b
(X) o
espa¸co vetorial de todas as fun¸ c˜oes cont´ınuas e limitadas f : X → K. N˜ ao ´e
dif´ıcil verificar que C
b
(X) ´e um subespa¸co fechado de B(X), e ´e portanto um
espa¸co de Banach.
5.4. Exemplo. Seja (X, Σ, µ) um espa¸co de medida, e seja 1 ≤ p < ∞.
Segue da desigualdade de Minkowski que L
p
(X, Σ, µ) ´e um espa¸co vetorial, e a
fun¸ c˜ao
|f|
p
=
__
X
[f[
p

_
1/p
tem as seguintes propriedades:
(a) |f|
p
≥ 0;
(b) |f|
p
= 0 se e s´o se f(x) = 0 quase sempre;
(c) |λf|
p
= [λ[|f|
p
;
(d) |f +g|
p
≤ |f|
p
+|g|
p
.
Estas propriedades mostram que a fun¸ c˜ao |.|
p
tem quase todas as pro-
priedades de uma norma. S´ o n˜ ao verifica a propriedade (b) da defini¸ c˜ao de
norma. Para obter uma norma, vamos introduzir uma rela¸ c˜ao de equivalˆencia
em L
p
(X, Σ, µ) da maneira seguinte. Dadas f, g ∈ L
p
(X, Σ, µ), definimos f ∼ g
se f(x) = g(x) quase sempre.
´
E claro que esta ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia
em L
p
(X, Σ, µ). Seja L
p
(X, Σ, µ) o conjunto das classes de equivalˆencia. Dadas
[f], [g] ∈ L
p
(X, Σ, µ) e λ ∈ K, definimos
[f] + [g] = [f +g], λ[f] = [λf].
´
E f´ acil verificar que estas opera¸c˜oes est˜ao bem definidas, e que L
p
(X, Σ, µ), com
estas opera¸c˜oes, ´e um espa¸co vetorial. Al´em disso, a aplica¸c˜ao quociente
π : f ∈ L
p
(X, Σ, µ) → [f] ∈ L
p
(X, Σ, µ)
´e linear. Se definimos
|[f]|
p
= |f|
p
14
para cada [f] ∈ L
p
(X, Σ, µ), ´e f´acil verificar que esta fun¸ c˜ao est´a bem definida,
e ´e uma norma em L
p
(X, Σ, µ). Antes de provar que L
p
(X, Σ, µ) ´e completo,
vamos precisar de um resultado auxiliar.
5.5. Defini¸c˜ao. (a) Uma s´erie


n=1
x
n
em E ´e dita convergente se a
sequˆencia de somas parciais s
n
=

n
j=1
x
j
´e convergente em E.
(b) Uma s´erie


n=1
x
n
em E ´e dita absolutamente convergente ou absolu-
tamente som´avel se


n=1
|x
n
| < ∞.
5.6. Proposi¸ c˜ao. Um espa¸co normado E ´e completo se e s´ o se cada s´erie
absolutamente convergente em E ´e convergente.
Demonstra¸ c˜ao. (⇒) Suponhamos E completo e


n=1
|x
n
| < ∞. Se
m < n, ent˜ ao
|s
n
−s
m
| = |
n

j=m+1
x
j
| ≤
n

j=m+1
|x
j
|.
Segue que (s
n
) ´e uma sequˆencia de Cauchy em E, e ´e portanto convergente.
(⇐) Suponhamos que cada s´erie absolutamente convergente em E seja con-
vergente. Para provar que E ´e completo, seja (x
n
) uma sequˆencia de Cauchy
em E. Ent˜ ao existe uma sequˆencia estritamente crescente (n
j
) ⊂ N tal que
|x
n
−x
m
| ≤ 2
−j
para todo n, m ≥ n
j
.
Em particular

j=1
|x
n
j+1
−x
n
j
| ≤

j=1
2
−j
= 1.
Logo a s´erie


j=1
(x
n
j+1
−x
n
j
) ´e convergente em E. Como
x
n
1
+
k

j=1
(x
n
j+1
−x
n
j
) = x
n
k+1
,
concluimos que a sequˆencia (x
n
k
) converge em E. Assim (x
n
) ´e uma sequˆencia
de Cauchy em E, que admite uma subsequˆencia convergente. Segue que (x
n
) ´e
convergente.
5.7. Teorema. L
p
(X, Σ, µ) ´e um espa¸ co de Banach sempre que 1 ≤ p < ∞.
Demonstra¸ c˜ao. Para provar que L
p
(X, Σ, µ) ´e completo, seja


n=1
[f
n
]
uma s´erie absolutamente convergente em L
p
(X, Σ, µ), ou seja

n=1
|[f
n
]| =

n=1
|f
n
| < ∞.
15
Seja g : X → [0, ∞] definida por
g(x) =

n=1
[f
n
(x)[ = lim
n→∞
n

j=1
[f
j
(x)[.
Pelo teorema da convergˆencia monˆotona,
_
X
g
p
dµ = lim
n→∞
_
X


n

j=1
[f
j
[


p
.
Pela desigualdade de Minkowski,
__
X
g
p

_
1/p
= lim
n→∞
|
n

j=1
[f
j
[|
p
≤ lim
n→∞
n

j=1
|f
j
|
p
=

j=1
|f
j
|
p
< ∞.
Assim g ∈ L
p
(X, Σ, µ), e g(x) < ∞ quase sempre. Seja
N = ¦x ∈ X : g(x) = ∞¦,
e seja f : X → K definida por
f(x) =

j=1
f
j
(x) se x ∈ X ¸ N, f(x) = 0 se x ∈ N.
´
E claro que [f(x)[ ≤ g(x) para todo x ∈ X. Como g ∈ L
p
(X, Σ, µ), segue que
f ∈ L
p
(X, Σ, µ). Como
[f(x) −
n

j=1
f
j
(x)[ ≤ 2g(x)
para todo x ∈ X e n ∈ N, o teorema da convergˆencia dominada garante que
lim
n→∞
[f −
n

j=1
f
j
[
p
dµ = 0.
Logo
lim
n→∞
|[f] −
n

j=1
[f
j
]|
p
= 0.
Os elementos do espa¸co L
p
(X, Σ, µ) s˜ao classes de equivalˆencia de fun¸ c˜oes.
Mas na pr´ atica vamos considerar os elementos de L
p
(X, Σ, µ) como fun¸ c˜oes,
mas lembrando de identificar duas fun¸ c˜oes que coincidem quase sempre.
16
5.8. Exemplo. Seja L

(X, Σ, µ) o espa¸co vetorial de todas as fun¸ c˜oes
f : X → K que s˜ao limitadas quase sempre, ou seja, existe c > 0 tal que
[f(x)[ ≤ c quase sempre. Para cada f ∈ L

(X, Σ, µ), definimos
|f|

= inf¦c > 0 : [f(x)[ ≤ c quase sempre¦.
´
E f´ acil verificar que
[f(x)[ ≤ |f|

quase sempre.
´
E f´ acil verificar que a fun¸ c˜ao |.|

tem as seguintes propriedades:
(a) |f|

≤ 0;
(b) |f|

= 0 se e s´o se f(x) = 0 quase sempre;
(c) |λf|

= [λ[|f|

;
(d) |f +g|

≤ |f|

+|g|

.
A fun¸ c˜ao |.|

verifica quase todas as propriedades de uma norma. S´ o
n˜ ao verifica a propriedade (b) da defini¸ c˜ao de norma. Para obter uma norma,
vamos introduzir uma rela¸ c˜ao de equivalˆencia em L

(X, Σ, µ), como no caso de
L
p
(X, Σ, µ). Dadas f, g ∈ L

(X, Σ, µ), definimos f ∼ g se f(x) = g(x) quase
sempre. Esta ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia em L

(X, Σ, µ). Seja L

(X, Σ, µ)
o conjunto das classes de equivalˆencia. Dadas [f], [g] ∈ L

(X, Σ, µ) e λ ∈ K,
definimos
[f] + [g] = [f +g], λ[f] = [λf].
Estas opera¸ c˜oes est˜ao bem definidas. Com estas opera¸c˜oes L

(X, Σ, µ) ´e um
espa¸co vetorial, e a aplica¸ c˜ao quociente
π : f ∈ L

(X, Σ, µ) → [f] ∈ L

(X, Σ, µ)
´e linear. Se definimos
|[f]|

= |f|

para cada [f] ∈ L

(X, Σ, µ), esta fun¸ c˜ao est´a bem definida, e ´e uma norma em
L

(X, Σ, µ).
5.9. Proposi¸c˜ao. L

(X, Σ, µ) ´e um espa¸ co de Banach.
Demonstra¸ c˜ao. Para provar que L

(X, Σ, µ) ´e completo, seja ([f
n
]) uma
sequˆencia de Cauchy em L

(X, Σ, µ).
´
E f´ acil achar N ∈ Σ, com µ(N) = 0, tal
que
[f
n
(x)[ ≤ |f
n
|

para todo x ∈ X ¸ N, n ∈ N;
[f
m
(x) −f
n
(x)[ ≤ |f
m
−f
n
|

para todo x ∈ E ¸ N, m, n ∈ N.
Isto prova que (f
n
) ´e uma sequˆencia de Cauchy em B(X¸ N). Como B(X¸ N)
´e um espa¸co de Banach, segue que (f
n
) converge uniformemente em X ¸ N.
Definamos
f(x) = lim
n→∞
f
n
(x) se x ∈ X ¸ N, f(x) = 0 se x ∈ N.
17
Ent˜ ao f ∈ L

(X, Σ, µ) e
|[f
n
] −[f]|

= |f
n
−f|

→ 0.
Os elementos do espa¸co L

(X, Σ, µ) s˜ao classes de equivalˆencia de fun¸ c˜oes.
Mas na pr´ atica vamos considerar os elementos de L

(X, Σ, µ) como fun¸ c˜oes,
mas lembrando de identificar as fun¸ c˜oes que coincidem quase sempre.
Exerc´ıcios
5.A. Seja (X, Σ, µ) um espa¸co de medida finita, e sejam 1 ≤ p ≤ q < ∞.
(a) Prove que L
q
(X, Σ, µ) ⊂ L
p
(X, Σ, µ), e a inclus˜ ao ´e cont´ınua.
(b) Prove que L

(X, Σ, µ) ⊂ L
q
(X, σ, µ), e a inclus˜ ao ´e cont´ınua.
Sugest˜ ao: Para provar (a), considere uma fun¸ c˜ao f ∈ L
q
(X, Σ, µ), e aplique
a desigualdade de H¨ older ` as fun¸ c˜oes
φ = [f[
p
∈ L
q
p
(X, Σ, µ), ψ = 1 ∈ L
q
q−p
(X, Σ, µ).
5.B. Use o teorema de aproxima¸c˜ao de Weierstrass para provar que o espa¸ co
C[a, b] ´e separ´avel.
5.C. Seja X um espa¸ co topol´ogico. Diremos que uma fun¸ c˜ao f ∈ C(X)
se anula no infinito se para cada > 0 existe um compacto K ⊂ X tal que
[f(x)[ < para todo x ∈ X ¸ K. Seja C
0
(X) o espa¸co vetorial de todas as
f ∈ C(X) que se anulam no infinito. Prove que C
0
(X) ´e um subespa¸co fechado
de C
b
(X), e ´e portanto um espa¸ co de Banach.
5.D. Use o teorema de aproxima¸c˜ao de Weierstrass para provar que o espa¸ co
C
0
(R) ´e separ´avel.
5.E. Use o fato que C[a, b] ´e um subespa¸co denso de L
p
[a, b], para provar
que L
p
[a, b] ´e separ´avel sempre que 1 ≤ p < ∞.
5.F. Seja U um aberto de C, e seja H

(U) o espa¸co vetorial de todas as
fun¸ c˜oes f : U → C que s˜ao holomorfas e limitadas. Prove que H

(U) ´e um
subespa¸ co fechado de C
b
(U), e ´e portanto um espa¸ co de Banach.
5.G. Dada uma fun¸ c˜ao f : [a, b] → K, a varia¸ c˜ao total de f ´e definida por
V (f) = sup
n

j=1
[f(b
j
) −f(a
j
)[,
onde o supremo ´e tomado sobre todos os a
j
, b
j
tais que
a ≤ a
1
≤ b
1
≤ a
2
≤ b
2
≤ ... ≤ a
n
≤ b
n
≤ b.
Diremos que f tem varia¸ c˜ao limitada se V (f) < ∞. Se f for crescente, ou
decrescente, prove que f tem varia¸c˜ao limitada.
18
5.H. Seja BV [a, b] o espa¸co vetorial de todas as fun¸ c˜oes f : [a, b] → K de
varia¸ c˜ao limitada. Prove que BV [a, b] ´e um espa¸co de Banach sob a norma
|f| = V (f) +[f(a)[.
19
6. Espa¸ cos normados de dimens˜ao finita
6.1. Teorema. Todos os espa¸ cos normados de dimens˜ao n sobre K s˜ ao
topologicamente isomorfos entre si.
Demonstra¸ c˜ao. Seja E um espa¸ co normado de dimens˜ ao n sobre K.
Provaremos que E ´e topologicamente isomorfo a K
n
2
.
Seja (e
1
, ..., e
n
) uma base de E. Seja T : K
n
2
→ E definida por
Tx =
n

j=1
ξ
j
e
j
para todo x = (ξ
1
, ..., ξ
n
) ∈ K
n
2
.
´
E claro que T ´e bijetiva. Segue da desigualdade de Cauchy-Schwarz que
|Tx| ≤
n

j=1

j
[|e
j
| ≤


n

j=1
|e
j
|
2


1/2
|x|,
e portanto T ´e cont´ınua. Para provar que T
−1
´e cont´ınuo, consideremos a esfera
unit´ aria S de K
n
2
:
S = ¦x = (ξ
1
, ..., ξ
n
) ∈ K
n
2
:
n

j=1

j
[
2
= 1¦.
Pelo teorema de Bolzano-Weierstrass, S ´e um subconjunto compacto de K
n
2
.
´
E
claro que |Tx| > 0 para todo x ∈ S. Logo existe c > 0 tal que |Tx| ≥ c para
todo x ∈ S, e portanto
|Tx| ≥ c|x| para todo x ∈ K
n
2
.
Logo T : K
n
2
→ E ´e um isomorfismo topol´ ogico.
6.2. Corol´ario. Cada espa¸co normado de dimens˜ ao finita ´e completo.
6.3. Corol´ario. Cada subespa¸ co de dimens˜ao finita de um espa¸co normado
´e fechado.
6.4. Corol´ario. Cada espa¸ co normado de dimens˜ao finita ´e localmente
compacto.
O rec´ıproco deste corol´ ario ´e verdadeiro.
6.5. Teorema de Riesz. Cada espa¸ co normado localmente compacto tem
dimens˜ ao finita.
Para provar este teorema precisamos do lema seguinte.
6.6. Lema de Riesz. Seja E um espa¸ co normado, e seja M um subespa¸ co
fechado pr´ oprio de E. Dado θ, com 0 < θ < 1, existe y ∈ S
E
tal que
|y −x| ≥ θ para todo x ∈ M.
20
Demonstra¸ c˜ao. Seja y
0
∈ E ¸ M, e seja
d = d(y
0
, M) = inf¦|y
0
−x| : x ∈ M¦.
Como M ´e fechado, d > 0. Seja x
0
∈ M tal que
|y
0
−x
0
| ≤
d
θ
.
Seja
y =
y
0
−x
0
|y
0
−x
0
|
.
´
E claro que y ∈ S
E
. Para cada x ∈ M temos:
|y −x| =
|y
0
−x
0
−|y
0
−x
0
|x|
|y
0
−x
0
|

d
|y
0
−x
0
|
≥ θ.
Demonstra¸ c˜ao do teorema de Riesz. Seja E um espa¸co normado de
dimens˜ ao infinita, seja x
1
∈ S
E
, e seja M
1
= [x
1
], o subespa¸ co de E gerado por
x
1
. Pelo lema de Riesz existe x
2
∈ S
E
tal que
|x
2
−x| ≥ 1/2 para todo x ∈ M
1
.
Em particular
|x
2
−x
1
| ≥ 1/2.
Seja M
2
= [x
1
, x
2
], o subespa¸ co de E gerado por x
1
e x
2
. Pelo lema de Riesz
existe x
3
∈ S
E
tal que
|x
3
−x| ≥ 1/2 para todo x ∈ M
2
.
Em particular
|x
3
−x
j
| ≥ 1/2 para j = 1, 2.
Procedendo por indu¸ c˜ao podemos achar uma sequˆencia (x
n
) ⊂ S
E
tal que
|x
m
−x
n
| ≥ 1/2 sempre que m ,= n.
Logo a sequˆencia (x
n
) n˜ ao admite nenhuma subseq¨ uˆencia convergente. Logo
a esfera S
E
n˜ ao ´e compacta. Logo a bola B
E
n˜ ao ´e compacta. Logo a bola
B
E
(0; r) n˜ ao ´e compacta para nenhum r > 0. Logo E n˜ ao ´e localmente com-
pacto.
6.7. Exemplo. A conclus˜ao do lema de Riesz n˜ao ´e verdadeira com θ = 1,
como mostra o exemplo seguinte. Sejam
E = ¦f ∈ C[0, 1] : f(0) = 0¦,
M = ¦f ∈ E :
_
1
0
f(t)dt = 0¦.
21
Suponhamos que exista g ∈ S
E
tal que |g − f| ≥ 1 para todo f ∈ M. Dado
h ∈ E ¸ M, seja
λ =
_
1
0
g(t)dt
_
1
0
h(t)dt
.
Segue que g −λh ∈ M, e portanto
1 ≤ |g −(g −λh)| = [λ[|h|,
ou seja
1 ≤
[
_
1
0
g(t)dt[
[
_
1
0
h(t)dt[
|h|.
Consideremos a sequˆencia de fun¸ c˜oes h
n
(t) = t
1/n
. Ent˜ ao h
n
∈ E¸M, |h
n
| = 1
e
_
1
0
h
n
(t)dt =
1
1
n
+ 1
→ 1.
Segue que
1 ≤ [
_
1
0
g(t)dt[.
Mas como |g| = 1 e g(0) = 0, a continuidade de g em 0 implica que [
_
1
0
g(t)dt[ <
1, contradi¸ c˜ao. Logo n˜ ao existe g ∈ S
E
tal que |g −f| ≥ 1 para todo f ∈ M.
Exerc´ıcios
6.A. Seja E um espa¸co normado de dimens˜ ao finita, e seja M um subespa¸ co
pr´ oprio de E. Prove que existe y ∈ S
E
tal que |y −x| ≥ 1 para todo x ∈ M.
22
7. Completamento de espa¸cos normados
7.1. Proposi¸c˜ao. Sejam E e F espa¸cos normados, seja M um subespa¸ co
denso de E, e seja T ∈ L(M; F). Ent˜ao existe um ´ unico
˜
T ∈ L(E; F) tal que
˜
T[M = T. Tem-se que |
˜
T| = |T|.
Demonstra¸ c˜ao. Dado x ∈ E, seja (x
n
) uma sequˆencia em M que converge
a x. Como
|Tx
m
−Tx
n
| ≤ |T||x
m
−x
n
|,
e F ´e completo, segue que a sequˆencia (Tx
n
) converge em F. Se definimos
˜
Tx = lim
n→∞
Tx
n
,
´e f´acil ver que
˜
Tx est´a bem definido, ou seja, depende apenas de x, e n˜ ao da
sequˆencia (x
n
) escolhida. Al´em disso,
˜
T : E → F ´e linear e
˜
Tx = Tx para todo
x ∈ M.
´
E f´ acil verificar que |
˜
T| = |T|. A unicidade de
˜
T segue da densidade
de M em E.
7.2. Teorema. Dado um espa¸ co normado E, sempre existe um espa¸ co de
Banach F tal que E ´e isometricamente isomorfo a um subespa¸ co denso F
0
de
F. O espa¸ co F ´e ´ unico, a menos de um isomorfismo isom´etrico.
Demonstra¸ c˜ao. Seja C o espa¸co vetorial de todas as sequˆencias de Cauchy
X = (x
n
) em E. Como
[|x
m
| −|x
n
|[ ≤ |x
m
−x
n
| para todo m, n,
segue que (|x
n
|) ´e uma sequˆencia de Cauchy em R para cada X = (x
n
) ∈ C.
´
E f´ acil ver que a fun¸ c˜ao
|X| = lim
n→∞
|x
n
|
tem as propriedades seguintes:
(a) |X| ≥ 0;
(b) |X| = 0 se e s´o se lim
n→∞
|x
n
| = 0;
(c) |λX| = [λ[|X|;
(d) |X +Y | ≤ |X[[ +|Y |.
A fun¸ c˜ao X ∈ C → |X| ∈ R tem quase todas as propriedaes de uma norma.
Para obter uma norma, vamos introduzir uma rela¸ c˜ao de equivalˆencia em C da
maneira seguinte. Dadas X = (x
n
) e Y = (y
n
) em C, definimos
X ∼ Y se lim
n→∞
|x
n
−y
n
[[ = 0.
Seja F o conjunto das classes de equivalˆencia. Se definimos
[X] + [Y ] = [X +Y ], λ[X] = [λX],
23
ent˜ ao ´e f´acil verificar que estas opera¸c˜oes est˜ao bem definidas, e que F, com
estas opera¸c˜oes, ´e um espa¸co vetorial. Al´em disso a aplica¸c˜ao quociente
π : X ∈ C → [X] ∈ F
´e linear.
´
E f´ acil ver que a fun¸ c˜ao |[X]| = |X| est´a bem definida, e ´e uma
norma em F. Seja
F
0
= ¦[X] ∈ F : X = (x, x, x, ...), com x ∈ E¦.
´
E claro que F
0
´e um subespa¸co de F, e que E ´e isometricamente isomorfo a F
0
.
Para provar que F
0
´e denso em F, sejam [X] ∈ F e > 0 dados. Se X = (x
n
),
ent˜ ao existe n
0
∈ N tal que
|x
m
−x
n
| < para todo m, n ≥ n
0
.
Seja Y = (x
n
0
, x
n
0
, x
n
0
, ...). Ent˜ ao [Y ] ∈ F
0
e
|[X] −[Y ]| = |X −Y | = lim
n→∞
|x
n
−x
n
0
| ≤ .
Para provar que F ´e completo, seja ([X
n
]) uma sequˆencia de Cauchy em F.
Como F
0
´e denso em F, para cada n existe [Y
n
] ∈ F
0
tal que
|[X
n
] −[Y
n
]| < 1/n.
Podemos supor que Y
n
= (y
n
, y
n
, y
n
, ...), com y
n
∈ E, para cada n. Como
|y
m
−y
n
| = |[Y
m
] −[Y
n
]|
≤ |[Y
m
] −[X
m
]| +|[X
m
] −[X
n
]| +|[X
n
] −[Y
n
]|

1
m
+|[X
m
] −[X
n
]| +
1
n
,
segue que Y = (y
n
) ´e uma sequˆencia de Cauchy em E. Como
|[X
n
] −[Y ]| ≤ |[X
n
] −[Y
n
]| +|[Y
n
] −[Y ]| ≤
1
n
+ lim
m→∞
|y
n
−y
m
|,
segue que lim
n→∞
|[X
n
] −[Y ]| = 0.
Para provar a unicidade de F, a menos de um isomorfismo isom´etrico, seja
G um outro espa¸ co de Banach tal que E ´e isometricamente isomorfo a um
subespa¸ co denso G
0
de G. Sejam S ∈ L(E; F
0
) e T ∈ L(T; G
0
) isomorfismos
isom´etricos. Ent˜ ao U = T ◦ S
−1
∈ L(F
0
; G
0
) e V = S ◦ T
−1
∈ L(G
0
; F
0
)
s˜ao tamb´em isomorfismos isom´etricos, V ◦ U = I
F
0
, e U ◦ V = I
G
0
. Pela
Proposi¸ c˜ao 7.1 existe
˜
U ∈ L(F; G) tal que
˜
U[F
0
= U, e existe
˜
V ∈ L(G; F) tal
que
˜
V [G
0
= V . Segue que
˜
V ◦
˜
U = I
F
e
˜
U ◦
˜
V = I
G
. Al´em disso
˜
U e
˜
V s˜ao
isomorfismos isom´etricos.
24
Exerc´ıcios
7.A. Seja P(R) o espa¸co vetorial de todos os polinˆ omios P(x) =

n
j=0
a
j
x
j
,
com a
j
∈ K e n ∈ N.
(a) Prove que |P| =

n
j=0
[a
j
[ ´e uma norma em P(R).
(b) Prove que P(R), com esta norma, n˜ao ´e completo.
(c) Prove que o completamento de P(R), com esta norma, ´e isometricamente
isomorfo a
1
.
7.B. (a) Fixados a < b em R, prove que |P| = sup¦[P(x)[ : a ≤ x ≤ b¦ ´e
uma norma em P(R).
(b) Prove que P(R), com esta norma, n˜ao ´e completo.
(c) Prove que o completamento de P(R), com esta norma, ´e isometricamente
isomorfo a C[a, b].
25
8. Espa¸ co quociente
Seja E um espa¸co vetorial, e seja M um subespa¸ co de E. Diremos que x, y ∈
E s˜ao equivalentes m´ odulo M, e escreveremos x = y(mod(M), se x − y ∈ M.
´
E claro que esta ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia em E. Denotaremos por E/M
o conjunto de todas as classes de equivalˆencia m´odulo M. Para cada x ∈ E,
denotaremos por [x] a classe de equivalˆencia que cont´em x. Definamos
[x] + [y] = [x +y], λ[x] = [λx]
para todo [x], [y] ∈ E/M e λ ∈ K.
´
E f´ acil verificar que estas opera¸ c˜oes est˜ao
bem definidas, e que E/M, com estas opera¸c˜oes, ´e um espa¸co vetorial. Al´em
disso, a aplica¸ c˜ao quociente
π : x ∈ E → [x] ∈ E/M
´e linear. O espa¸ co vetorial E/M ´e chamado de espa¸co quociente de E m´ odulo
M.
8.1. Exemplo. Seja (X, Σ, µ) um espa¸co de medida, e sejam
E = L
p
(X, Σ, µ) (1 ≤ p ≤ ∞),
M = ¦f ∈ L
p
(X, Σ, µ) : f(x) = 0 quase sempre¦.
Neste caso o espa¸co quociente L
p
(X, Σ, µ)/M coincide com o espa¸co L
p
(X, Σ, µ)
introduzido na se¸ c˜ao 5.
8.2. Exemplo. Seja E um espa¸co normado, e sejam
C = ¦(x
n
) ⊂ E : (x
n
) ´e sequˆencia de Cauchy¦,
M = ¦(x
n
) ⊂ E : (x
n
) converge a zero¦.
Neste caso o espa¸co quociente C/M coincide com o espa¸co F introduzido na
se¸c˜ao 7.
8.3. Teorema. Seja M um subespa¸ co fechado de E, e seja
|X| = inf¦|x| : x ∈ X¦
para cada X ∈ E/M. Ent˜ao:
(a) [x] = x +M e |[x]| = d(x, M) para cada x ∈ E.
(b) A fun¸ c˜ao X → |X| ´e uma norma em E/M.
(c) π(B
E
) = B
E/M
. Em particular π : E → E/M ´e cont´ınua e aberta.
(d) Se E ´e completo, ent˜ ao E/M ´e completo tamb´em.
Demonstra¸ c˜ao. (a)
´
E claro que
[x] = x +M para cada x ∈ E.
26
Como a aplica¸ c˜ao t ∈ E → x + t ∈ E ´e um homeomorfismo, e M ´e fechado em
E, segue que [x] = x +M ´e fechado em E para cada x ∈ E. Al´em disso
|[x]| = inf¦|x +t| : t ∈ M¦ = d(x, M) para cada x ∈ E.
(b)
´
E claro que |X| ≥ 0 para cada X ∈ E/M. Se |[x]| = 0, ent˜ ao segue
de (a) que x ∈ M, e portanto x + M = M = [0]. Se λ = 0, ent˜ ao ´e claro que
|λX| = [λ[|X| para todo X ∈ E/M. Se λ ,= 0, ent˜ ao
|λX| = inf¦|y| : y ∈ λX¦ = inf¦|λx| : x ∈ X¦
= [λ[ inf¦|x| : x ∈ X¦ = [λ[|X|.
Dados X, Y ∈ E/M e > 0, existem x ∈ X e y ∈ Y tais que
|x| < |X| +, |y| < |Y | +.
Ent˜ ao x +y ∈ X +Y e
|X +Y | ≤ |x +y| ≤ |x| +|y| ≤ |X| +|Y | + 2.
Como > 0 ´e arbitr´ ario, segue que
|X +Y | ≤ |X| +|Y |.
(c) ´e consequˆencia imediata da defini¸ c˜ao da norma em E/M.
(d) Finalmente provaremos que E/M ´e completo quando E ´e completo. Seja


n=1
X
n
uma s´erie absolutamente convergente em E/M. Para cada n existe
x
n
∈ X
n
tal que
|x
n
| < |X
n
| + 2
−n
,
e portanto

n=1
|x
n
| <

n=1
|X
n
| +

n=1
2
−n
< ∞.
Assim a s´erie


n=1
x
n
´e absolutamente convergente, e portanto convergente,
pois E ´e completo. Sejam
s
n
=
n

j=1
x
j
, s = lim
n→∞
s
n
=

j=1
x
j
, S
n
=
n

j=1
X
j
.
Ent˜ ao ´e claro que s
n
∈ S
n
para cada n. Como a aplica¸c˜ao quociente π : E →
E/M ´e cont´ınua, segue que S
n
= [s
n
] → [s]. Logo a s´erie


j=1
X
j
´e convergente
em E/M.
Exerc´ıcios
8.A. Seja E um espa¸ co normado, seja M um subespa¸ co fechado de E, e seja
π : E → E/M a aplica¸ c˜ao quociente.
27
(a) Se X
n
→ 0 em E/M, prove que existe (x
n
) ⊂ E tal que π(x
n
) = X
n
para cada n, e x
n
→ 0 em E.
(b) Se x ∈ E e X
n
→ π(x) em E/M, prove que existe (x
n
) ⊂ E tal que
π(x
n
) = X
n
para cada n, e x
n
→ x em E.
8.B. Seja X um espa¸ co de Hausdorff compacto, e seja A um subconjunto
fechado de X. Usando o teorema de extens˜ao de Tietze prove que C(A) ´e
isometricamente isomorfo a um quociente de C(X).
8.C. Usando o exerc´ıcio anterior prove que c ´e isometricamente isomorfo a
um quociente de C[a, b].
28
9. Espa¸ cos com produto interno
9.1. Defini¸c˜ao. Se E ´e um espa¸co vetorial, ent˜ao uma fun¸ c˜ao (x, y) ∈
E E → (x[y) ∈ K ´e chamado de produto interno se verifica as seguintes
propriedades:
(a) (x
1
+x
2
[y) = (x
1
[y) + (x
2
[y);
(b) (λx[y) = λ(x[y);
(c) (x[y) = (y[x);
(d) (x[x) ≥ 0;
(e) (x[x) = 0 se e s´o se x = 0.
9.2. Observa¸ c˜ao. De (a), (b) e (c) segue que:
(a’) (x[y
1
+y
2
) = (x[y
1
) + (x[y
2
);
(b’) (x[λy) = λ(x[y).
Assim o produto interno ´e linear na primeira vari´ avel, e linear conjugado na
segunda vari´ avel.
9.3. Proposi¸c˜ao (desigualdade de Cauchy-Schwarz). Seja E ´e um
espa¸co com produto interno. Ent˜ao
[(x[y)[ ≤ |x||y|
para todo x, y ∈ E.
Demonstra¸ c˜ao. A desigualdade ´e clara se x = 0 ou y = 0. Logo podemos
supor x ,= 0 e y ,= 0. Para todo α ∈ K temos que
0 ≤ (αx +y[αx +y) = αα(x[x) +α(x[y) +α(y[x) + (y[y)
= [α[
2
(x[x) + 2Re¦α(x[y)¦ + (y[y).
Escrevamos (x[y) = [(x[y)[e

. Tomando α = te
−iθ
, com t ∈ R, segue que
0 ≤ t
2
(x[x) + 2t[(x[y)[ + (y[y)
para todo t ∈ R. Segue que ∆ = b
2
−4ac ≤ 0, ou seja
4[(x[y)[
2
−4(x[x)(y[y) ≤ 0,
completando a demonstra¸ c˜ao.
9.4. Corol´ario. Seja E um espa¸ co com produto interno. Ent˜ao a fun¸ c˜ao
|x| = (x[x)
1/2
´e uma norma em E.
29
Demonstra¸ c˜ao. Usando a desigualdade de Cauchy-Schwarz provaremos a
desigualdade triangular. As outras propriedades da norma s˜ ao de verifica¸ c˜ao
imediata.
|x +y|
2
= (x +y[x +y) = (x[x) + (x[y) + (y[x) + (y[y)
= |x|
2
+ 2Re(x[y) +|y|
2
≤ |x|
2
+ 2|x||y| +|y|
2
= (|x| +|y|)
2
.
9.5. Defini¸c˜ao. Chamaremos de espa¸co de Hilbert a todo espa¸ co com
produto interno que seja completo na norma definida pelo produto interno.
9.6. Exemplo. K
n
2
´e um espa¸co de Hilbert com o produto interno
(x[y) =
n

j=1
ξ
j
η
j
se x = (ξ
1
, ..., ξ
n
) e y = (η
1
, ..., η
n
).
9.7. Exemplo.
2
´e um espa¸co de Hilbert com o produto interno
(x[y) =

j=1
ξ
j
η
j
se x = (ξ
j
) e y = (η
j
).
9.8. Exemplo. L
2
(X, Σ, µ) ´e um espa¸co de Hilbert com o produto interno
(f[g) =
_
X
fgdµ.
9.9. Defini¸c˜ao. Seja E um espa¸co com produto interno. Diremos que
x, y ∈ E s˜ao ortogonais, e escreveremos x⊥y, se (x[y) = 0.
9.10. Proposi¸c˜ao (Teorema de Pit´agoras). Seja E um espa¸ co com
produto interno, e sejam x, y ∈ E, com x⊥y. Ent˜ao
|x +y|
2
= |x|
2
+|y|
2
.
Demonstra¸ c˜ao.
|x +y|
2
= (x +y[x +y) = (x[x) + (x[y) + (y[x) + (y[y) = |x|
2
+|y|
2
.
9.11. Proposi¸c˜ao (Lei do paralelogramo). Seja E um espa¸ co com
produto interno, e sejam x, y ∈ E dois vetores arbitr´ arios. Ent˜ao:
|x +y|
2
+|x −y|
2
= 2|x|
2
+ 2|y|
2
.
30
Demonstra¸ c˜ao. Temos que
|x +y|
2
= (x +y[x +y) = (x[x) + (x[y) + (y[x) + (y[y),
|x −y|
2
= (x −y[x −y) = (x[x) −(x[y) −(y[x) + (y[y).
Somando estas identidades obtemos a identidade desejada.
Exerc´ıcios
9.A. Seja E um espa¸co com produto interno. Se x
n
→ x e y
n
→ y em E,
prove que (x
n
[y
n
) → (x[y) em K. Ou seja a aplica¸ c˜ao (x, y) ∈ EE → (x[y) ∈
K ´e cont´ınua.
9.B. Seja E um espa¸co com produto interno. Sejam x
1
, ..., x
n
vetores n˜ao
nulos, ortogonais entre si, ou seja x
j
⊥x
k
sempre que j ,= k.
(a) Prove que os vetores x
1
, ..., x
n
s˜ao linearmente independentes.
(b) Prove o teorema de Pit´ agoras generalizado: |

n
j=1
x
j
|
2
=

n
j=1
|x
j
|
2
.
9.C. Seja E ´e um espa¸co com produto interno real. Prove a f´ ormula de
polariza¸ c˜ ao
4(x[y) = |x +y|
2
−|x −y|
2
para todo x, y ∈ E.
9.D. Seja E um espa¸ co normado real que verifica a lei do paralelogramo.
Prove que a f´ ormula de polariza¸ c˜ao do exerc´ıcio anterior define um produto
interno em E que induz a norma original.
Sugest˜ ao: Para provar a identidade (x
1
+x
2
[y) = (x
1
[y) + (x
2
[y), estude as
express˜oes
|u +v +w|
2
+|u +v −w|
2
e |u −v +w|
2
+|u −v +w|
2
.
9.E. Seja E um espa¸co com produto interno complexo. Prove a f´ ormula de
polariza¸ c˜ ao
4(x[y) = (|x +y|
2
−|x −y|
2
) +i(|x +iy|
2
−|x −iy|
2
)
para todo x, y ∈ E.
9.F. Seja E um espa¸ co normado complexo que verifica a lei do paralelo-
gramo. Prove que a f´ ormula de polariza¸ c˜ao do exerc´ıcio anterior define um
produto interno em E que induz a norma original.
31
10. Proje¸c˜oes ortogonais
10.1. Teorema. Seja E um espa¸ co de Hilbert, e seja M um subespa¸ co
fechado de E. Ent˜ao para cada x ∈ E existe um ´ unico p ∈ M tal que
|x −p| = d(x, M) = inf¦|x −y| : y ∈ M¦.
Demonstra¸ c˜ao. Para provar existˆencia, seja d = d(x, M), e seja (p
n
) ⊂ M
tal que
(1) |x −p
n
| < d +
1
n
para cada n.
Pela lei do paralelogramo
2|x −p
m
|
2
+ 2|x −p
n
|
2
= |2x −p
m
−p
n
|
2
+|p
n
−p
m
|
2
.
Segue que
|p
n
−p
m
|
2
= 2|x −p
m
|
2
+ 2|x −p
n
|
2
−4|x −
p
m
+ p
n
2
|
2
< 2(d +
1
m
)
2
+ 2(d +
1
n
)
2
−4d
2
<
4d
m
+
2
m
2
+
4d
n
+
2
n
2
.
Logo (p
n
) ´e uma sequˆencia de Cauchy em E. Como E ´e completo, e M ´e fechado
em E, concluimos que (p
n
) converge a um ponto p ∈ M. Fazendo n → ∞ em
(1) obtemos que |x −p| ≤ d, e portanto |x −p| = d, como queriamos.
Para provar unicidade, seja q ∈ M tal que |x −q| = d tamb´em. Pela lei do
paralelogramo
2|x −p|
2
+ 2|x −q|
2
= |2x −p −q|
2
+|q −p|
2
.
Segue que
|q −p|
2
= 2|x −p|
2
+ 2|x −q|
2
−4|x −
p + q
2
|
2
≤ 2d
2
+ 2d
2
−4d
2
= 0,
e portanto q = p.
10.2. Observa¸c˜ao. A conclus˜ao do teorema permanece verdadeira se E ´e
um espa¸ co com produto interno, e M ´e um subconjunto convexo completo de
E.
Dado qualquer subconjunto S de um espa¸co com produto interno E, S

denotar´ a o conjunto
S

= ¦y ∈ E : y⊥x para todo x ∈ S¦.
´
E f´ acil verificar que S

´e sempre um subespa¸co fechado de E.
32
10.3. Teorema. Seja E um espa¸ co de Hilbert, e seja M um subespa¸ co
fechado de E. Ent˜ao:
(a) Cada x ∈ E admite uma ´ unica decomposi¸ c˜ao da forma
x = p +q, com p ∈ M e q ∈ M

.
Tem-se que
|x −p| = d(x, M) e |x −q| = d(x, M

).
(b) Se definimos Px = p e Qx = q para cada x ∈ E, ent˜ao P, Q ∈ L(E; E),
P
2
= P, Q
2
= Q e Q◦ P = P ◦ Q = 0.
Demonstra¸ c˜ao. (a) Dado x ∈ E, seja p o ´ unico elemento de M tal que
|x −p| = d(x, M), e seja q = x −p. Provaremos que q ∈ M

e que |x −q| =
d(x, M

).
Para provar que q ∈ M

, seja y ∈ M. Para cada λ ∈ K temos que
|q| = |x −p| ≤ |x −p −λy| = |q −λy|.
Segue que
|q|
2
≤ |q −λy|
2
= (q −λy[q −λy)
= (q[q) −λ(y[q) −λ(q[y) +λλ(y[y)
= |q|
2
−2Re¦λ(y[q)¦ +[λ[
2
|y|
2
.
Escrevamos (y[q) = [(y[q)[e

. Ent˜ ao, fazendo λ = te
−iθ
, com t ∈ R, segue que
2t[(y[q)[ ≤ t
2
|y|
2
para todo t ∈ R.
Logo
2[(y[q)[ ≤ t|y|
2
para todo t > 0.
Fazendo t → 0, segue que (y[q)[ = 0, e portanto q ∈ M

.
Para provar que |x − q| = d(x, M

), tomemos z ∈ M

. Como x = p + q,
segue que
x −z = p + (q −z), com p ∈ M, q −z ∈ M

.
Pelo teorema de Pit´ goras
|x −z|
2
= |p|
2
+|q −z|
2
≥ |p|
2
= |x −q|
2
.
Segue que
d(x, M

) = inf¦|x −z| : z ∈ M

¦ = |x −q|.
Para provar a unicidade da decomposi¸ c˜ao, suponhamos que
x = p
1
+q
1
, com p
1
∈ M, q
1
∈ M

.
Como x = p +q, segue que
p −p
1
= q
1
−q ∈ M ∩ M

.
33
Mas h ∈ M ∩ M

implica que (h[h) = 0, e portanto h = 0. Segue que p = p
1
e
q = q
1
.
(b) Segue da unicidade da decomposi¸ c˜ao em (a) que as aplica¸c˜oes P : E → E
e Q : E → E s˜ao lineares. Para cada x ∈ E temos que
(2) x = Px +Qx, com Px ∈ M, Qx ∈ M

.
Pelo teorema de Pit´ agoras
|x|
2
= |Px|
2
+|Qx|
2
para todo x ∈ E. Segue que |P| ≤ 1 e |Q| ≤ 1.
Escrevamos
Px = Px + 0 ∈ M +M

.
Segue da unicidade da decomposi¸ c˜ao em (2) que
P(Px) = Px, Q(Px) = 0.
De maneira an´ aloga, escrevendo
Qx = 0 +Qx ∈ M +M

,
segue que
P(Qx) = 0, Q(Qx) = Qx,
completando a demonstra¸c˜ao.
10.4. Observa¸c˜ao. As conclus˜oes do teorema permanecem verdadeiras se
E ´e um espa¸co com produto interno, e M ´e um subespa¸co completo de E.
Seja E um espa¸co com produto interno, e seja y
0
∈ E. Se definimos φ : E →
K por
φ(x) = (x[y
0
) para todo x ∈ E,
ent˜ ao ´e f´acil verificar que φ ´e linear. Al´em disso, pela desigualdade de Cauchy-
Schwarz,
[φ(x)[ = [(x[y
0
)[ ≤ |x||y
0
|,
provando que φ ´e cont´ınuo e que |φ| ≤ |y
0
|. De fato, como
φ(y
0
) = (y
0
[y
0
) = |y
0
|
2
,
segue que |φ| = |y
0
|. O pr´ oximo teorema mostra que, quando E ´e um espa¸co
de Hilbert, ent˜ ao todos os funcionais lineares cont´ınuos em E s˜ao desta forma.
10.5. Teorema de representa¸ c˜ao de Riesz. Seja E um espa¸ co de
Hilbert, e seja φ ∈ E

. Ent˜ao existe um ´ unico y
0
∈ E tal que
(3) φ(x) = (x[y
0
) para todo x ∈ E.
34
Demonstra¸ c˜ao. Primeiro provaremos existˆencia. Se φ = 0, basta tomar
y
0
= 0. Se φ ,= 0, seja
M = φ
−1
(0) = ¦x ∈ E : φ(x) = 0¦.
Ent˜ ao M ´e um subespa¸co fechado pr´ oprio de E, e dai M

,= ¦0¦. Como
M

,= ¦0¦ e M ∩ M

= ¦0¦, existe x
0
∈ M

tal que φ(x
0
) = 1. Ent˜ ao cada
x ∈ E admite uma decomposi¸c˜ao da forma
(4) x = (x −φ(x)x
0
) +φ(x)x
0
, com x −φ(x)x
0
∈ M, φ(x)x
0
∈ M

.
Da unicidade desta decomposi¸ c˜ao segue que dimM

= 1.
Procuramos y
0
∈ E que verifique (3). Escrevamos y
0
= p
0
+q
0
, com p
0
∈ M
e q
0
∈ M

. Em particular devemos ter
0 = φ(p
0
) = (p
0
[y
0
) = (p
0
[p
0
) + (p
0
[q
0
) = (p
0
[p
0
).
Logo p
0
= 0, e portanto y
0
= q
0
∈ M

. Escrevamos y
0
= λx
0
, onde λ ser´a
escolhido de maneira que
φ(x
0
) = (x
0
[y
0
),
ou seja
1 = φ(x
0
) = (x
0
[λx
0
) = λ|x
0
|
2
.
Assim basta tomar λ = |x
0
|
−2
. Da decomposi¸c˜ao (4) segue que
(x[y
0
) = φ(x)(x
0
[y
0
) = φ(x)φ(x
0
) = φ(x),
e y
0
verifica (3).
Para provar unicidade, suponhamos que exista y
1
∈ E tal que
(5) φ(x) = (x[y
1
) para todo x ∈ E.
De (3) e (5) segue que (x[y
0
− y
1
) = 0 para todo x ∈ E. Em particular
(y
0
−y
1
[y
0
−y
1
) = 0 e y
0
= y
1
.
Exerc´ıcios
10.A. Seja E um espa¸ co de Hilbert, e sejam M e N dois subespa¸cos fechados
de E tais que x⊥y sempre que x ∈ M e y ∈ N. Seja
M +N = ¦x +y : x ∈ M, y ∈ N¦.
Prove que M +N ´e um subespa¸co fechado de E.
10.B. Seja E um espa¸ co de Hilbert. Seja M um subespa¸ co fechado de E,
e seja P a proje¸ c˜ao ortogonal de E sobre M. Prove que (Px[y) = (x[Py) para
todo x, y ∈ E.
35
10.C. Seja E um espa¸co de Hilbert, e seja P ∈ L(E; E) tal que P
2
= P e
(Px[y) = (x[Py) para todo x, y ∈ E.
(a) Prove que P(E) ´e um subespa¸co fechado de E.
(b) Prove que P ´e a proje¸ c˜ao ortogonal de E sobre P(E).
10.D. Seja E um espa¸ co de Hilbert. Seja M
0
um subespa¸ co fechado de E,
e seja φ
0
∈ M

0
. Prove que existe φ ∈ E

tal que:
(a) φ(x) = φ
0
(x) para todo x ∈ M
0
;
(b) |φ| = |φ
0
|.
36
11. O teorema de Hahn-Banach
O teorema seguinte generaliza o Exerc´ıcio 10.D.
11.1. Teorema de Hahn-Banach. Seja E um espa¸ co normado, e seja
M
0
um subespa¸ co de E. Ent˜ao, para cada φ
0
∈ M

0
, existe φ ∈ E

tal que:
(a) φ(x) = φ
0
(x) para todo x ∈ M
0
;
(b) |φ| = |φ
0
|.
Para provar este teorema, vamos utilizar o lemma seguinte.
11.2. Lema. Seja E um espa¸ co normado real, seja M um subespa¸ co pr´ oprio
de E, seja y
0
∈ E ¸ M, e seja N = M ⊕[y
0
]. Ent˜ao, para cada φ ∈ M

, existe
ψ ∈ N

tal que:
(a) ψ(x) = φ(x) para todo x ∈ M;
(b) |ψ| = |φ|.
Demonstra¸ c˜ao. Temos que
[φ(x)[ ≤ |φ||x| para todo x ∈ M,
ou seja
(1) −|φ||x| ≤ φ(x) ≤ |φ||x| para todo x ∈ M.
Como y
0
,∈ M, cada z ∈ N pode ser escrito de maneira ´ unica na forma
z = x +λy
0
com x ∈ M, λ ∈ R.
Vamos definir ψ : N → R por
ψ(z) = φ(x) +λη
0
,
onde η
0
´e um n´ umero real independente de z, que ser´a escolhido depois.
´
E claro que ψ ´e linear e verifica (a). Para provar (b), basta provar que
[ψ(z)[ ≤ |φ||z| para todo z ∈ N,
ou seja
−|φ||x +λy
0
| ≤ φ(x) +λη
0
≤ |φ||x +λy
0
| para todo x ∈ M, λ ∈ R,
ou ainda
(2) −φ(x)−|φ||x+λy
0
| ≤ λη
0
≤ −φ(x)+|φ||x+λy
0
| para todo x ∈ M, λ ∈ R.
Fazendo λ = 1 em (2) obtemos
(3) −φ(x) −|φ||x +y
0
| ≤ η
0
≤ −φ(x) +|φ||x +y
0
| para todo x ∈ M,
e portanto (2) implica (3). Vamos provar que de fato (2) e (3) s˜ ao equivalentes.
De fato, se λ = 0, ent˜ ao (2) segue de (1). Se λ > 0, ent˜ ao, aplicando (3) com
37
x/λ em lugar de x, e multiplicando por λ, obtemos (2). Finalmente, se λ < 0,
ent˜ ao, aplicando (3) com x/λ em lugar de x, e multiplicando por λ, obtemos
(2).
Afirmamos que
(4) sup
x∈M
(−φ(x) −|φ||x +y
0
|) ≤ inf
x∈M
(−φ(x) +|φ||x +y
0
|).
Para provar (4) basta provar que
(5) −φ(x
1
) −|φ||x
1
+y
0
| ≤ −φ(x
2
) +|φ||x
2
+y
0
| para todo x
1
, x
2
∈ M.
De fato
φ(x
2
) −φ(x
1
) = φ(x
2
−x
1
) ≤ |φ||x
2
−x
1
|
≤ |φ||(x
2
+y
0
) −(x
1
+y
0
| ≤ |φ||x
2
+y
0
| +|φ||x
1
+y
0
|,
e (5) segue. Seja η
0
∈ R tal que
sup
x∈M
(−φ(x) −|φ||x +y
0
|) ≤ η
0
≤ inf
x∈M
(−φ(x) +|φ||x +y
0
|).
Com esta escolha de η
0
, (3) e portanto (2) s˜ ao verificadas. Logo ψ verifica (b).
Demonstra¸ c˜ao do teorema de Hahn-Banach para espa¸ cos norma-
dos reais. Seja T a fam´ılia de todos os pares (M, φ) tais que:
(i) M ´e um subespa¸co de E contendo M
0
;
(ii) φ ∈ M

, φ[M
0
= φ
0
, |φ| = |φ
0
|.
Dados (M
1
, φ
1
), (M
2
, φ
2
) ∈ T, definimos
(M
1
, φ
1
) ≤ (M
2
, φ
2
) se M
1
⊂ M
2
e φ
1
= φ
2
[M
1
.
´
E f´ acil ver que esta ´e uma rela¸c˜ao de ordem parcial em T.
Seja ¦(M
i
, φ
i
) : i ∈ I¦ uma cad´eia em T. Seja M = ∪
i∈I
M
i
, e seja φ : M →
R definido por φ(x) = φ
i
(x) se x ∈ M
i
.
´
E f´ acil ver que φ est´a bem definido,
que (M, φ) ∈ T e que (M, φ) ´e uma cota superior da cad´eia ¦(M
i
, φ
i
) : i ∈ I¦.
Pelo lema de Zorn T possui um elemento maximal (M, φ). Para completar
a demonstra¸c˜ao basta provar que M = E. Suponhamos que M ,= E, seja
y
0
∈ E ¸ M, e seja N = M ⊕ [y
0
]. Pelo Lema 11.2 existe ψ ∈ N

tal que
ψ[M = φ e |ψ| = |φ|. Ent˜ ao (N, ψ) ∈ T e (M, φ) n˜ ao seria maximal. Isto
prova que M = E, como queriamos.
Para provar o teorema de Hahn-Banach no caso de espa¸cos normados com-
plexos, vamos utilizar o lema seguinte.
11.3. Lema. Seja E um espa¸ co vetorial complexo, e seja E
R
o espa¸co
vetorial real associado.
(a) Cada φ ∈ E

admite uma ´ unica representa¸c˜ao da forma
(6) φ(x) = u(x) −iu(ix) para todo x ∈ E,
38
com u ∈ (E
R
)

.
(b) Dado u ∈ (E
R
)

, a f´ ormula (6) define um φ ∈ E

.
Demonstra¸ c˜ao. (a) Seja φ ∈ E

. Para cada x ∈ E, podemos escrever de
maneira ´ unica
φ(x) = u(x) +iv(x),
com u(x), v(x) ∈ R. Como φ ∈ (E
R
)

, ´e f´acil verificar que u, v ∈ (E
R
)

.
Notemos que
iφ(x) = φ(ix) = u(ix) +iv(ix),
e portanto
φ(x) = −iu(ix) +v(ix).
Segue que
u(x) = v(ix), v(x) = −u(ix),
e portanto
φ(x) = u(x) −iu(ix).
(b) Seja u ∈ (E
R
)

, e seja φ : E → C definida por (6). Como u ∈ (E
R
)

, ´e
f´ acil verificar que
φ(x +y) = φ(x) +φ(y)
e
(7) φ(λx) = λφ(x) para todo x, y ∈ E, λ ∈ R.
Por outro lado
(8) φ(ix) = u(ix) +iu(x) = iφ(x) para todo x ∈ E.
De (7) e (8) segue que
φ(λx) = λφ(x) para todo x ∈ E, λ ∈ C.
Logo φ ∈ E

.
Demonstra¸ c˜ao do teorema de Hahn-Banach para espa¸ cos norma-
dos complexos. Seja φ
0
∈ M

0
. Pelo lema anterior podemos escrever
φ
0
(x) = u
0
(x) −iu
0
(ix) para todo x ∈ M
0
,
com u
0
∈ ((M
0
)
R
)

. Como
[u
0
(x)[ ≤ [φ
0
(x)[ ≤ |φ
0
||x| para todo x ∈ M
0
,
segue que |u
0
| ≤ |φ
0
|. Pelo teorema de Hahn-Banach para espa¸ cos normados
reais, existe u ∈ (E
R
)

tal que
(a) u(x) = u
0
(x) para todo x ∈ M
0
;
(b) |u| = |u
0
|.
Definamos φ : E → C por
φ(x) = u(x) −iu(ix) para todo x ∈ E.
39
Pelo lema anterior φ ∈ E

, e segue de (a) que
(c) φ(x) = φ
0
(x) para todo x ∈ M
0
.
Para provar que |φ| = |φ
0
|, fixemos x ∈ E e escrevamos
φ(x) = re

, com r ≥ 0.
Ent˜ ao
φ(e
−iθ
x) = e
−iθ
φ(x) = r ∈ R,
e portanto
φ(e
−iθ
x) = u(e
−iθ
x).
Logo
[φ(e
−iθ
x)[ = [u(e
−iθ
x)[ ≤ |u||e
−iθ
x|.
Segue que
[φ(x)[ ≤ |u||x| = |u
0
||x| ≤ |φ
0
||x|,
e portanto |φ| ≤ |φ
0
|. Como a desigualdade oposta segue de (c), a demon-
stra¸ c˜ao est´a completa.
Exerc´ıcios
11.A. Seja E um espa¸ co normado, seja M
0
um subespa¸ co de E, e seja
T
0
∈ L(M
0
;

). Prove que existe T ∈ L(E;

) tal que:
(a) Tx = T
0
x para todo x ∈ M
0
;
(b) |T| = |T
0
|.
40
12. Consequˆencias do teorema de Hahn-Banach
12.1. Proposi¸c˜ao. Dado x
0
∈ E, x
0
,= 0, sempre existe φ ∈ E

tal que
|φ| = 1 e φ(x
0
) = |x
0
|.
Demonstra¸ c˜ao. Seja M
0
= [x
0
] o subespa¸ co de E gerado por x
0
, e seja
φ
0
∈ M

0
definido por φ
0
(λx
0
) = λ|x
0
| para todo λ ∈ K.
´
E f´ acil ver que
φ
0
´e linear e que |φ
0
| = 1. Pelo teorema de Hahn-Banach existe φ ∈ E

tal
que |φ| = |φ
0
| e φ(x) = φ
0
(x) para todo x ∈ M
0
. Segue que |φ| = 1 e
φ(x
0
) = |x
0
|.
12.2. Corol´ario. Se E ,= ¦0¦, ent˜ao E

,= ¦0¦.
12.3. Corol´ario. Se E ,= ¦0¦, ent˜ao para cada x ∈ E tem-se que:
|x| = sup¦[φ(x)[ : φ ∈ E

, |φ| = 1¦.
12.4. Proposi¸c˜ao. Seja M um subespa¸ co fechado de E, seja y
0
∈ E ¸ M,
e seja d = d(y
0
, M). Ent˜ao existe φ ∈ E

tal que |φ| = 1, φ(y
0
) = d e φ(x) = 0
para todo x ∈ M.
Primeira demonstra¸c˜ao. Seja N = M +[y
0
]. Ent˜ ao cada z ∈ N pode ser
escrito de maneira ´ unica como
z = x +λy
0
, com x ∈ M, λ ∈ K.
Seja φ
0
∈ N

definido por
φ
0
(x +λy
0
) = λd para todox ∈ M, λ ∈ K.
´
E claro que φ
0
´e linear, φ
0
(x
0
) = d e φ
0
(x) = 0 para todo x ∈ M. Provaremos
que |φ
0
| = 1. Se λ ,= 0, ent˜ ao
|x +λy
0
| = [λ[|
x
λ
+y
0
| ≥ [λ[d.
Como a desigualdade anterior ´e claramente verdadeira se λ = 0, segue que

0
| ≤ 1. Por outro lado, dado > 0, existe x
0
∈ M tal que |y
0
−x
0
| < d +.
Seja
z
0
=
y
0
−x
0
|y
0
−x
0
|
.
Ent˜ ao z
0
∈ N, |z
0
| = 1 e
φ
0
(z
0
) =
d
|y
0
−x
0
|
>
d
d +
.
Como > 0 ´e arbitr´ ario, segue que |φ
0
| = 1, como queriamos. Pelo teorema
de Hahn-Banach existe φ ∈ E

tal que |φ| = |φ
0
| e φ(z) = φ
0
(z) para todo
z ∈ N. Segue que |φ| = 1, φ(y
0
) = d e φ(x) = 0 para todo x ∈ M.
41
Segunda demonstra¸ c˜ao. Seja E/M o espa¸co quociente, e seja π : E →
E/M a aplica¸ c˜ao quociente. Como y
0
/ ∈ M, segue que π(y
0
) ,= 0. Pela
Proposi¸ c˜ao 12.1 existe ψ ∈ (E/M)

tal que |ψ| = 1 e ψ(π(y
0
)) = |π(y
0
)|.
Sabemos que
|π(y
0
)| = d(y
0
, M) = d e π(B
E
) = B
E/M
.
Seja φ = ψ ◦ π.
´
E claro que φ ∈ E

, φ(y
0
) = d e φ(x) = 0 para todo x ∈ M.
Al´em disso
|φ| = sup¦[φ(x)[ : x ∈ B
E
¦ = sup¦[ψ ◦ π(x)[ : x ∈ B
E
¦
= sup¦[ψ(y)[ : y ∈ B
E/M
¦ = |ψ| = 1.
12.5. Proposi¸c˜ao. Se E

´e separ´ avel, ent˜ ao E ´e separ´ avel tamb´em.
Demonstra¸ c˜ao. Como E

´e separ´avel, a esfera unit´ aria S
E
´e separ´avel
tamb´em. Seja ¦φ
n
: n ∈ N¦ um subconjunto denso enumer´ avel de S
E
. Para
cada n existe x
n
∈ S
E
tal que [φ
n
(x
n
)[ ≥
1
2
. Seja M = [x
n
: n ∈ N] o subespa¸ co
de E gerado por ¦x
n
: n ∈ N¦. Para completar a demonstra¸ c˜ao basta provar
que M ´e denso em E.
Suponhamos que M ,= E, e seja y
0
∈ E¸ M. Pela proposi¸ c˜ao anterior existe
φ ∈ S
E
tal que φ(y
0
) ,= 0 e φ(x) = 0 para todo x ∈ M. Segue que
1
2
≤ [φ
n
(x
n
)[ ≤ [φ
n
(x
n
) −φ(x
n
)[ ≤ |φ
n
−φ||x
n
| = |φ
n
−φ|
para todo n. Isto ´e absurdo, pois ¦φ
n
: n ∈ N¦ ´e denso em S
E
.
12.6. Observa¸c˜ao. A rec´ıproca da proposi¸ c˜ao anterior n˜ ao ´e verdadeira.
Logo veremos que

1
´e isometricamente isomorfo a

. E j´ a sabemos que
1
´e
separ´ avel, mas

n˜ ao ´e separ´avel.
12.7. Proposi¸c˜ao. Cada espa¸co normado separ´avel ´e isometricamente
isomorfo a um subespa¸ co de

.
Demonstra¸ c˜ao. Seja E um espa¸ co normado separ´ avel, e seja ¦x
n
: n ∈ N¦
um subconjunto enumer´ avel denso de E. Pelo teorema de Hahn-Banach existe
¦φ
n
: n ∈ N¦ ⊂ S
E
tal que φ
n
(x
n
) = |x
n
| para cada n. Seja T ∈ L(E;

)
definido por Tx = (φ
n
(x))

n=1
para cada x ∈ E. Como |φ
n
| = 1 para cada n,
segue que |Tx| ≤ |x| para cada x ∈ E. E como φ
n
(x
n
) = |x
n
| para cada n,
segue que |Tx
n
| = |x
n
| para cada n. Como ¦x
n
: n ∈ N¦ ´e denso em E, segue
que |Tx| = |x| para cada x ∈ E.
Exerc´ıcios
12.A. Seja E um espa¸co normado, seja M um subespa¸co de E, e seja
M

= ¦φ ∈ E

: φ(x) = 0 para todo x ∈ M¦.
42
(a) Prove que M

´e um subespa¸co fechado de E

.
(b) Prove que M

´e isometricamente isomorfo a E

/M

.
12.B. Seja E um espa¸co normado, e seja M um subespa¸ co fechado de E.
Prove que (E/M)

´e isometricamente isomorfo a M

.
12.C. Seja E um espa¸co normado separ´avel de dimens˜ao infinita.
(a) Prove que existe uma seq¨ uˆencia estritamente crescente (M
n
)

n=1
de sube-
spa¸cos de E de dimens˜ ao finita tal que


n=1
M
n
´e um subespa¸co denso de E.
(b) Prove que existe uma seq¨ uˆencia (φ
n
)

n=1
⊂ E

tal que |φ
n
| = 1 para
cada n ∈ N e lim
n→∞
φ
n
(x) = 0 para cada x ∈ E.
43
13. O dual de
p
13.1. Teorema. Se 1 ≤ p < ∞, ent˜ao o dual de
p
´e isometricamente
isomorfo a
q
, onde 1 < q ≤ ∞,
1
p
+
1
q
= 1.
Demonstra¸ c˜ao. Dado y = (η
j
)

j=1

q
, definamos φ
y
:
p
→ K por
φ
y
(x) =

j=1
ξ
j
η
j
para cada x = (ξ
j
)

j=1

p
.
Pela desigualdade de H¨ older,

y
(x)[ ≤

j=1

j
η
j
[ ≤ |x|
p
|y|
q
.
Segue que φ
y

p
e |φ
y
| ≤ |y|
q
.
Reciprocamente provaremos que, dado φ ∈

p
, existe y ∈
q
tal que φ
y
= φ e
|y| ≤ |φ|. Para cada n ∈ N seja e
n
= (0, ..., 1, 0, 0, ...), com 1 no lugar n-´esimo.
´
E claro que e
n

p
e que |e
n
| = 1 para cada n. Se x = (ξ
j
)

j=1

p
, ent˜ ao
lim
n→∞
|x −
n

j=1
ξ
j
e
j
| = lim
n→∞


j=n+1

j
[
p


1/p
= 0,
e portanto
x =

j=1
ξ
j
e
j
para cada x = (ξ
j
)

j=1

p
.
Segue que
φ(x) =

j=1
ξ
j
φ(e
j
) para cada x = (ξ
j
)

j=1

p
.
Seja y = (φ(e
j
)

j=1
. Provaremos que y ∈
q
e que |y|
q
≤ |φ|.
Se p = 1, ent˜ ao q = ∞ e
[φ(e
j
)[ ≤ |φ||e
j
| = |φ| para cada j.
Segue que y ∈

e |y|

≤ |φ|.
Se p > 1, fixemos n ∈ N, e definamos x = (ξ
j
)

j=1
por:
ξ
j
= [φ(e
j
)[
q−1
sinalφ(e
j
) se j ≤ n, ξ
j
= 0 se j > n.
onde sinalλ ´e definido por:
sinalλ =
λ
[λ[
se λ ,= 0, sinalλ = 0 se λ ,= 0.
44
Ent˜ ao
ξ
j
φ(e
j
) = [φ(e
j
)[
q
= [ξ
j
[
p
para cada j ≤ n.
Como x =

n
j=1
ξ
j
e
j
, segue que
φ(x) =
n

j=1
ξ
j
φ(e
j
) =
n

j=1
[φ(e
j
)[
q
=
n

j=1

j
[
p
= |x|
p
p
.
Logo
n

j=1
[φ(e
j
)[
q
≤ |φ||x|
p
= |φ|


n

j=1
[φ(e
j
)[
q


1/p
.
Como 1 −
1
p
=
1
q
, segue que
(
n

j=1
[φ(e
j
)[
q
)
1/q
≤ |φ|.
Como n ∈ N ´e arbitr´ ario, segue que y ∈
q
e |y|
q
≤ |φ|.
Se definimos
T : y ∈
q
→ φ
y

p
,
ent˜ ao T ´e linear e sobrejetivo, e |Ty| = |y|
q
para cada y ∈
q
.
Exerc´ıcios
13.A. Prove que
x =

j=1
ξ
j
e
j
para cada x = (ξ
j
)

j=1
∈ c
0
.
13.B. Prove que c

0
´e isometricamente isomorfo a
1
.
13.C. Prove que
x = ξe
0
+

j=1

j
−ξ)e
j
para cada x = (ξ
j
)

j=1
∈ c,
onde e
0
= (1, 1, 1, ...) e ξ = lim
j→∞
ξ
j
.
13.D. Prove que c

´e isometricamente isomorfo a
1
.
45
14. O dual de L
p
(X, Σ, µ)
Nesta se¸c˜ao caracterizaremos o dual do espa¸co L
p
(X, Σ, µ). Por simplicidade
consideraremos apenas o espa¸co L
p
(X, Σ, µ) real. Uma vez fixado o espa¸co de
medida (X, Σ, µ), com frequˆencia escreveremos L
p
em lugar de L
p
(X, Σ, µ).
Dada f : X → R, sejam f
+
e f

definidas por:
f
+
= f ∨ 0, f

= (−f) ∨ 0.
Ent˜ ao
f = f
+
−f

, f
+
≥ 0, f

≥ 0.
A seguir provaremos um resultado an´ alogo para funcionais lineares cont´ınuos
em L
p
(X, Σ, µ).
14.1. Defini¸c˜ao. Um funcional linear T : L
p
(X, Σ, µ) → R ´e dito positivo
se Tf ≥ 0 para cada f ∈ L
p
(X, Σ, µ) tal que f ≥ 0.
14.2. Lema. Seja T um funcional linear cont´ınuo em L
p
(X, Σ, µ). Ent˜ao
existem dois funcionais lineares cont´ınuos positivos T
+
e T

em L
p
(X, Σ, µ)
tais que
Tf = T
+
f −T

f para todo f ∈ L
p
(X, Σ, µ).
Demonstra¸ c˜ao. Seja T ∈ L

p
. Para cada f ∈ L
p
, f ≥ 0, seja T
+
f definido
por
T
+
f = sup¦Tφ : φ ∈ L
p
, 0 ≤ φ ≤ f¦.
Para cada φ ∈ L
p
, 0 ≤ φ ≤ f, tem-se que
Tφ ≤ [Tφ[ ≤ |T||φ|
p
≤ |T||f|
p
.
Notando que T0 = 0, segue que
(1) 0 ≤ T
+
f ≤ |T||f|
p
para todo f ∈ L
p
, f ≥ 0.
´
E f´ acil verificar que
(2) T
+
(λf) = λT
+
f para todo f ∈ L
p
, f ≥ 0, λ ≥ 0.
A seguir provaremos que
(3) T
+
(f
1
+f
2
) = T
+
f
1
+T
+
f
2
para todo f
1
, f
2
∈ L
p
, f
1
≥ 0, f
2
≥ 0.
Se φ
j
∈ L
p
e 0 ≤ φ
j
≤ f
j
para j = 1, 2, ent˜ ao 0 ≤ φ
1

2
≤ f
1
+f
2
, e portanto

1
+Tφ
2
= T(φ
1

2
) ≤ T
+
(f
1
+f
2
).
Segue que
T
+
f
1
+T
+
f
2
≤ T
+
(f
1
+f
2
).
46
Por outro lado, dada φ ∈ L
p
, com 0 ≤ φ ≤ f
1
+f
2
, sejam φ
1
e φ
2
definidas por
φ
1
= φ ∧ f
1
, φ
2
= (φ −f
1
) ∨ 0.
Ent˜ ao ´e f´ acil verificar que 0 ≤ φ
j
≤ f
j
para j = 1, 2 e φ
1

2
= φ. Logo
Tφ = Tφ
1
+Tφ
2
≤ T
+
f
1
+T
+
f
2
,
e portanto
T
+
(f
1
+f
2
) ≤ T
+
f
1
+T
+
f
2
.
Isto prova (3).
A seguir definamos
T
+
f = T
+
f
+
−T
+
f

para cada f ∈ L
p
.
Usando (2) e (3) n˜ ao ´e dif´ıcil verificar que T
+
´e linear. Segue de (1) que T ´e
cont´ınuo.
Finalmente definamos
T

f = T
+
f −Tf para cada f ∈ L
p
.
´
E claro que T

´e um funcional cont´ınuo positivo em L
p
, completando a demon-
stra¸ c˜ao.
14.3. Teorema de representa¸ c˜ao de Riesz. Seja (X, Σ, µ) um espa¸ co de
medida finita, e seja 1 ≤ p < ∞. Ent˜ao o dual de L
p
(X, Σ, µ) ´e isometricamente
isomorfo a L
q
(X, Σ, µ), onde 1 < q ≤ ∞,
1
p
+
1
q
= 1.
Demonstra¸ c˜ao. Dada g ∈ L
q
, seja T
g
: L
p
→ R definido por
T
g
f =
_
X
fgdµ para todo f ∈ L
p
.
Pela desigualdade de H¨ older
[T
g
f[ ≤
_
X
[fg[dµ ≤ |f|
p
|g|
q
para toda f ∈ L
p
.
Segue que T
g
∈ L

p
e |T
g
| ≤ |g|
q
.
Reciprocamente provaremos que, dado T ∈ L

p
, existe g ∈ L
q
tal que T
g
= T
e |g|
q
≤ |T|.
(a) Primeiro suponhamos T positivo. Neste caso definamos ν : Σ → R por
ν(A) = T(χ
A
) para todo A ∈ Σ.
Como T ´e positivo, segue que ν(A) ≥ 0 para todo A ∈ Σ. Al´em disso, ν(∅) =
T0 = 0.
47
A seguir provaremos que
(4) ν(

_
n=1
A
n
) =

n=1
ν(A
n
)
para cada sequˆencia (A
n
)

n=1
de membros disjuntos de Σ. Escrevamos
B
n
=
n
_
j=1
A
j
, A =

_
n=1
A
n
=

_
n=1
B
n
.
A sequˆencia (χ
B
n
)

n=1
´e crescente e converge pontualmente a χ
A
. Como µ(X) <
∞, o teorema da convergˆencia dominada garante que χ
B
n
→ χ
A
em L
p
, e
portanto T(χ
B
n
) → T(χ
A
). Como os A
j
s˜ao disjuntos, temos que χ
B
n
=

n
j=1
χ
A
j
, e portanto
ν(A) = T(χ
A
) = lim
n
T(χ
B
n
) = lim
n
n

j=1
T(χ
A
j
) =

j=1
ν(A
j
).
Isto prova (4). Logo ν ´e uma medida em Σ. Como
ν(A) = T(χ
A
) ≤ |T||χ
A
|
p
= |T|µ(A)
1/p
,
vemos que ν(A) = 0 cada vez que µ(A) = 0, ou seja ν ´e absolutamente cont´ınua
com rela¸c˜ao a µ. Pelo teorema de Radon-Nikodym existe g ∈ L
1
(X, Σ, µ), g ≥ 0,
tal que
ν(A) =
_
A
gdµ,
e portanto
T(χ
A
) =
_
X
χ
A
gdµ
para todo A ∈ Σ. Segue que
Tφ =
_
X
φgdµ
para toda fun¸ c˜ao mensur´ avel simples φ.
A seguir provaremos que
(5) Tf =
_
X
fgdµ
para toda f ∈ L
p
. Dada f ∈ L
p
, f ≥ 0, seja (φ
n
) uma sequˆencia crescente de
fun¸ c˜oes mensur´aveis simples positivas que converge pontualmente a f. Como
f ∈ L
p
, segue do teorema da convergˆencia dominada que φ
n
→ f em L
p
, e
portanto Tφ
n
→ Tf. Usando o teorema da convergˆencia monˆotona concluimos
que
Tf = limTφ
n
= lim
_
X
φ
n
gdµ =
_
X
fgdµ.
48
Isto prova (5) para cada f ∈ L
p
, f ≥ 0. Para provar (5) para f ∈ L
p
arbitr´ aria,
basta escrever f = f
+
− f

, com f
+
, f

∈ L
p
, f
+
≥ 0, f

≥ 0, e aplicar o
resultado anterior.
(b) Se T ∈ L

p
´e arbitr´ ario, ent˜ ao, pelo lema anterior podemos escrever
Tf = T
+
f −T

f
para todo f ∈ L
p
, sendo T
+
, T

∈ L

p
funcionais positivos. Por (a) existem
g
+
, g

∈ L
1
, g
+
≥ 0, g

≥ 0, tais que
T
+
f =
_
X
fg
+

e
T

f =
_
X
fg


para toda f ∈ L
p
. Se definimos g = g
+
−g

, segue que
(6) Tf =
_
X
fgdµ
para toda f ∈ L
p
.
A seguir provaremos que g ∈ L
q
e que |g|
q
≤ |T|.
Se p = 1, seja
A = ¦x ∈ X : g(x) > |T|¦.
Ent˜ ao A = ∪

n=1
A
n
, onde
A
n
= ¦x ∈ X : g(x) > |T| +
1
n
¦.
Aplicando (6) com f = χ
A
n
, segue que
(|T| +
1
n
)µ(A
n
) ≤
_
A
n
gdµ = T(χ
A
n
) ≤ |T||χ
A
n
|
1
= |T|µ(A
n
).
Segue que µ(A
n
) = 0 para cada n, e portanto µ(A) = 0. De maneira an´ aloga
podemos provar que µ(B) = 0, onde
B = ¦x ∈ X : g(x) < −|T|¦.
Segue que [g(x)[ ≤ |T| para quase todo x ∈ X. Logo g ∈ L

e |g|

≤ |T|.
Se p > 1, fixemos n ∈ N, e definamos A
n
e f por;
A
n
= ¦x ∈ X : [g(x)[ ≤ n¦,
f(x) = [g(x)[
q−1
sinalg(x) se x ∈ A
n
,
f(x) = 0 se x / ∈ A
n
.
49
Para x ∈ A
n
tem-se que
(7) f(x)g(x) = [g(x)[
q
= [f(x)
p
,
e portanto
_
X
[f[
p
dµ =
_
A
n
[g[
q
dµ ≤ n
q
µ(X) < ∞,
em particular f ∈ L
p
. Usando (6) e (7) segue que
_
A
n
[g[
q
dµ =
_
X
fgdµ = Tf ≤ |T||f|
p
= |T|(
_
A
n
[g[
q
dµ)
1/p
.
Como 1 −
1
p
=
1
q
, segue que
(
_
A
n
[g[
q
dµ)
1/q
≤ |T|.
Como X = ∪

n=1
A
n
, e a sequˆencia (A
n
) ´e crescente, o teorema da convergˆencia
monˆ otona garante que
(
_
X
[g[
q
dµ)
1/q
≤ |T|,
ou seja g ∈ L
q
e |g|
q
≤ |T|.
Se definimos
T : g ∈ L
q
→ T
g
∈ L

p
,
ent˜ ao T ´e linear e sobrejetivo, e |Tg| = |g|
q
para cada g ∈ L
q
. Isto completa
a demonstra¸ c˜ao.
50
15. Bidual de um espa¸co normado
Seja E um espa¸ co normado. Dados x

∈ E

e x ∈ E, com frequˆencia es-
creveremos
¸x

, x) = x

(x).
15.1. Defini¸c˜ao. O dual de E

, denotado por E

, ´e chamado de bidual de
E.
15.2. Proposi¸c˜ao. Seja J : E → E

definido por
¸Jx, x

) = ¸x

, x) para todo x ∈ E, x

∈ E

.
Ent˜ao J ´e um isomorfismo isom´etrico entre E e um subespa¸ co de E

.
Demonstra¸ c˜ao. Se x ∈ E, ´e claro que Jx ∈ E

. Como
[¸Jx, x

)[ = [¸x

, x)[ ≤ |x

||x|,
segue que Jx ∈ E

e |Jx| ≤ |x|. Assim J : E → E

´e linear e cont´ınua. Pelo
teorema de Hahn-Banach, para cada x ∈ E tem-se que:
|Jx| = sup¦[¸Jx, x

)[ : |x

| ≤ 1¦ = sup¦[¸x

, x)[ : |x

| ≤ 1¦ = |x|.
Logo J ´e um isomorfismo isom´etrico entre E e sua imagem em E

.
15.3. Defini¸c˜ao. E ´e dito reflexivo se J(E) = E

.
´
E claro que cada espa¸ co normado reflexivo ´e necessariamente completo.
15.4. Proposi¸c˜ao. Dado T ∈ L(E; F), seja T

: F

→ E

definido por
¸T

y

, x) = ¸y

, Tx) para todo y

∈ F

, x ∈ E.
Ent˜ao T

∈ L(F

, E

) e |T

| = |T|. T

´e chamado de dual de T, ou transposto
de T.
Demonstra¸ c˜ao. Se y

∈ F

, ´e claro que T

y

∈ E

. Como
[¸T

y

, x)[ = [¸y

, Tx)[ ≤ |y

||Tx| ≤ |y

||T||x|,
segue que T

y

∈ E

e |T

y

| ≤ |T||y

|. Assim T

: F

→ E

´e linear e cont´ınua
e |T

| ≤ |T|. Po outro lado, pelo teorema de Hahn-Banach, para cada x ∈ E
temos:
|Tx| = sup¦[¸y

, Tx)[ : |y

| ≤ 1¦ = sup¦[¸T

y

, x)[ : |y

| ≤ 1¦
≤ sup¦|T

y

||x| : |y

≤ 1¦ ≤ |T

||x|.
Logo |T| ≤ |T

|.
15.5. Proposi¸c˜ao.
p
´e reflexivo para cada 1 < p < ∞.
51
Demonstra¸ c˜ao. Seja
1
p
+
1
q
= 1, e sejam S :

p

q
e T :

q

p
os
isomorfismos isom´etricos canˆonicos, os isomorfismos dados pelo Teorema 13.1.
Ent˜ ao ´e claro que S

◦ T
−1
´e um isomorfismo isom´etrico entre
p
e

p
. Para
completar a demonstra¸ c˜ao, basta provar que S

◦T
−1
= J, o mergulho canˆ onico
de
p
em

p
, ou seja, basta provar que
¸S

◦ T
−1
x, x

) = ¸Jx, x

) = ¸x

, x) para todo x ∈
p
, x

p
.
Sejam x = (ξ
j
) ∈
p
e Sx

= (η
j
) ∈
q
. Ent˜ ao:
¸S

◦ T
−1
x, x

) = ¸T
−1
x, Sx

) =

j=1
η
j
ξ
j
=

j=1
ξ
j
η
j
= ¸x

, x),
como queriamos.
De maneira an´ aloga, utilizando o Teorema 14.3, podemos provar o resultado
seguinte.
15.6. Proposi¸c˜ao. Seja (X, Σ, µ) um espa¸ co de medida finita. Ent˜ao
L
p
(X, Σ, µ) ´e reflexivo para cada 1 < p < ∞.
15.7. Proposi¸c˜ao. Se E ´e reflexivo, ent˜ ao E

´e reflexivo tamb´em.
Demonstra¸ c˜ao. Sejam J
0
: E → E

e J
1
: E

→ E

os mergulhos
canˆ onicos. Supondo que J
0
(E) = E

, vamos provar que J
1
(E

) = E

. Dado
x

∈ E

, seja x

= J

0
x

. Provaremos que J
1
x

= x

. Para cada x ∈ E temos:
¸J
1
x

, J
0
x) = ¸J
0
x, x

) = ¸x

, x) = ¸J

0
x

, x) = ¸x

, J
0
x).
Como J
0
(E) = E

, segue que J
1
x

= x

, como queriamos.
15.8. Proposi¸c˜ao. Se E ´e reflexivo, ent˜ ao cada subespa¸co fechado de E ´e
reflexivo tamb´em.
Demonstra¸ c˜ao. Seja M um subespa¸ co fechado de E, e sejam J
0
: E → E

e J
1
: M → M

os mergulhos canˆonicos. Supondo que J
0
(E) = E

, vamos
provar que J
1
(M) = M

.
Seja R : E

→ M

a aplica¸ c˜ao restri¸ c˜ao, e seja R

: M

→ E

o dual de R.
Dado y

∈ M

, seja x

= R

y

∈ E

. Como J
0
(E) = E

, existe x ∈ E tal
que J
0
x = x

.
Afirmamos que x ∈ M. De fato, suponhamos que x / ∈ M. Ent˜ ao, pelo
teorema de Hahn-Banach, existe x

∈ E

tal que Rx

= 0 e ¸x

, x) , = 0. Segue
que
¸x

, x) = ¸J
0
x, x

) = ¸x

, x

) = ¸R

y

, x

) = ¸y

, Rx

) = ¸y

, 0) = 0,
contradi¸ c˜ao. Isto prova que x ∈ M.
Para completar a demonstra¸c˜ao provaremos que J
1
x = y

. De fato para
cada x

∈ E

temos:
¸y

, Rx

) = ¸R

y

, x

) = ¸x

, x

) = ¸J
0
x, x

) = ¸x

, x) = ¸Rx

, x) = ¸J
1
x, Rx

).
52
Pelo teorema de Hahn-Banach R(E

) = M

. Segue que y

= J
1
x, como queri-
amos.
Exerc´ıcios
15.A. Dados S ∈ L(E; F) e T ∈ L(F; G), prove que (T ◦ S)

= S

◦ T

.
15.B. Prove que se T : E → F ´e um isomorfismo topol´ogico (resp. isomor-
fismo isom´etrico), ent˜ao T

: F

→ E

tamb´em ´e um isomorfismo topol´ogico
(resp. isomorfismo isom´etrico).
15.C. Seja T : E → F um isomorfismo topol´ ogico. Prove que se E ´e
reflexivo, ent˜ ao F tamb´em ´e reflexivo.
15.D. Prove que um espa¸ co de Banach E ´e reflexivo se e s´o se seu dual E

´e reflexivo.
15.E. Prove que nemhum dos espa¸cos
1
,

, c
0
ou c ´e reflexivo.
15.F. Seja E um espa¸ co de Banach, e seja M um subespa¸ co fechado de E.
Prove que se E ´e reflexivo, ent˜ ao E/M ´e reflexivo tamb´em.
15.G. Usando o Exerc´ıcio 8.C prove que o espa¸ co C[a, b] n˜ ao ´e reflexivo.
53
16. Teorema de Banach-Steinhaus
16.1. Defini¸c˜ao. Seja X um espa¸co topol´ogico.
(a) Diremos que X ´e um espa¸co de Baire se a interse¸c˜ao de cada seq¨ uˆencia
de subconjuntos abertos e densos de X ´e um subconjunto denso de X.
(b) Diremos que um conjunto A ⊂ X ´e de primeira categoria em X se ´e
poss´ıvel escrever
A =

_
n=1
A
n
, com

A
n
= ∅ para cada n.
Caso contr´ ario diremos que A ´e de segunda categoria em X.
16.2. Proposi¸c˜ao. Cada espa¸ co de Baire n˜ ao vazio ´e de segunda categoria
em si mesmo.
Demonstra¸ c˜ao. Seja X um espa¸co de Baire n˜ao vazio, e suponhamos que
X seja de primeira categoria em si mesmo. Ent˜ao podemos escrever
X =

_
n=1
A
n
,
onde A
n
´e fechado em X, e

A
n
= ∅ para cada n. Segue que
∅ =

n=1
(X ¸ A
n
),
X ¸ A
n
´e aberto, e X ¸ A
n
= X¸

A
n
= X para cada n. Logo X n˜ ao seria um
espa¸co de Baire.
16.3. Teorema de Baire. Cada espa¸ co m´etrico completo ´e um espa¸ co de
Baire.
Demonstra¸ c˜ao. Seja X um espa¸ co m´etrico completo n˜ ao vazio, e seja
(U
n
)

n=1
uma seq¨ uˆencia de subconjuntos abertos e densos em X. Para provar
que


n=1
U
n
´e denso em X, basta provar que (


n=1
U
n
) ∩ B(a; r) ,= ∅ para
cada bola B(a; r) em X. Fixemos uma bola B(a; r) em X. Como U
1
´e denso
em X, existe x
1
∈ U
1
∩ B(a; r). Seja 0 <
1
< 1 tal que
B[x
1
;
1
] ⊂ U
1
∩ B(a; r).
Como U
2
´e denso em X, existe x
2
∈ U
2
∩ B(x
1
;
1
). Seja 0 <
2
< 1/2 tal que
B[x
2
;
2
] ⊂ U
2
∩ B(x
1
;
1
).
Procedendo por indu¸ c˜ao podemos achar sequˆencias (x
n
) ⊂ X e (
n
) ⊂ R tais
que 0 <
n
< 1/n e
B[x
n
;
n
] ⊂ U
n
∩ B(x
n−1
;
n−1
)
54
para cada n ≥ 2. Segue que (x
n
) ´e uma sequˆencia de Cauchy em X, e converge
portanto a um ponto x.
´
E claro que
x ∈

n=1
B[x
n
;
n
] ⊂ (

n=1
U
n
) ∩ B(a; r).
Logo


n=1
U
n
´e denso em X.
16.4. Defini¸c˜ao. Seja A ⊂ E.
(a) A ´e dito sim´etrico se −x ∈ A sempre que x ∈ A.
(b) A ´e dito convexo se (1 −λ)x +λy ∈ A sempre que x, y ∈ A e 0 ≤ λ ≤ 1.
(c) co(A) denota o menor subconjunto convexo de E que cont´em A.
16.5. Teorema de Banach-Steinhaus. Sejam E e F espa¸cos normados,
com E completo. Seja ¦T
i
: i ∈ I¦ ⊂ L(E; F) tal que
(1) sup
i∈I
|T
i
x| < ∞ para cada x ∈ E.
Ent˜ao
(2) sup
i∈I
|T
i
| < ∞.
Demonstra¸ c˜ao. Para cada n ∈ N seja
A
n
= ¦x ∈ E : |T
i
x| ≤ n para cada i ∈ I¦.
Como
A
n
=

i∈I
¦x ∈ E : |T
i
x| ≤ n¦,
vemos que cada A
n
´e fechado. Segue de (1) que
E =

_
n=1
A
n
.
Pelo teorema de Baire E ´e de segunda categoria em si mesmo. Logo algum A
n
tem interior n˜ ao vazio. Logo A
n
cont´em uma bola B(a; r). Como o conjunto A
n
´e sim´etrico, segue que A
n
⊃ B(−a; r). Como o conjunto A
n
´e convexo, segue
que
A
n
⊃ co(B(a; r) ∪ B(−a; r)) ⊃ B(0; r).
Segue que
|T
i
x| ≤ n para todo i ∈ I, x ∈ B(0; r).
Logo
|T
i
x| ≤
n
r
para todo i ∈ I, x ∈ B(0; 1),
e portanto
|T
i
| ≤
n
r
para todo i ∈ I.
55
O teorema de Banach-Steinhaus ´e tamb´em conhecido como princ´ıpio de
limita¸ c˜ao uniforme.
16.6. Corol´ario. Seja E um espa¸ co normado, e seja A um subconjunto de
E tal que φ(A) ´e limitado em K para cada φ ∈ E

. Ent˜ao A ´e limitado em E.
Demonstra¸ c˜ao. Seja J : E → E

o mergulho canˆ onico. Segue da hip´ otese
que J(A) ´e um subconjunto pontualmente limitado de E

. Pelo Teorema 16.5
J(A) ´e limitado em E

. Logo A ´e limitado em E.
16.7. Corol´ario. Sejam E e F espa¸cos normados, com E completo. Seja
(T
n
) uma sequˆencia em L(E; F) tal que (T
n
x) converge em F para cada x ∈ E.
Se definimos Tx = limT
n
x para cada x ∈ E, ent˜ao T ∈ L(E; F).
Demonstra¸ c˜ao.
´
E f´ acil verificar que T ´e linear. Para cada x ∈ E, (T
n
x) ´e
uma sequˆencia convergente em F, e portanto limitada, ou seja
sup
n
|T
n
x| < ∞ para cada x ∈ E.
Pelo Teorema 16.5 existe c > 0 tal que |T
n
| ≤ c para todo n. Segue que
|T| ≤ c, e portanto T ´e cont´ınua.
Exerc´ıcios
16.A. Seja 1 ≤ p < ∞, e seja (η
j
)

j=1
uma seq¨ uˆencia em K tal que a s´erie


j=1
ξ
j
η
j
converge para cada (ξ
j
)

j=1

p
. Prove que (η
j
)

j=1

q
, onde
1
p
+
1
q
= 1.
16.B. Seja (η
j
)

j=1
uma seq¨ uˆencia em K tal que a s´erie


j=1
ξ
j
η
j
converge
para cada (ξ
j
)

j=1
∈ c
0
. Prove que (η
j
)

j=1

1
.
56
17. Teorema da aplica¸c˜ao aberta e teorema do gr´afico fechado
17.1. Teorema da aplica¸c˜ao aberta. Sejam E e F espa¸cos de Banach,
e seja T ∈ L(E; F). Ent˜ao as seguintes condi¸ c˜oes s˜ ao equivalentes:
(a) T ´e sobrejetiva.
(b) T(B
E
) ⊃ B
F
(0; δ) para algum δ > 0.
(c) T(B
E
) ⊃ B
F
(0; δ) para algum δ > 0.
Demonstra¸ c˜ao. (a) ⇒ (b): Como T ´e sobrejetiva,
F = T(E) = T(

_
n=1
B
E
(0; n) =

_
n=1
T(B
E
(0; n)) =

_
n=1
T(B
E
(0; n)).
Pelo teorema de Baire F ´e de segunda categoria em si mesmo. Logo existe n tal
que o conjunto T(B
E
(0; n)) tem interior n˜ ao vazio. Logo o conjunto T(B
E
(0; n))
cont´em uma bola B
F
(b; r). Como o conjunto T(B
E
(0; n)) ´e sim´etrico, segue que
T(B
E
(0; n)) ⊃ B
F
(−b; r). Como o conjunto T(B
E
(0; n)) ´e convexo, segue que
T(B
E
(0; n)) ⊃ co(B
F
(b, r) ∪ B
F
(−b, r)) ⊃ B
F
(0; r).
Logo
T(B
E
(0; 1)) ⊃ B
F
(0;
r
n
),
provando (b).
(b) ⇒ (c): Por hip´ otese
T(B
E
) ⊃ B
F
(0; δ),
e portanto
T(B
E
(0; 1/2
n
)) ⊃ B
F
(0; δ/2
n
) para cada n.
Provaremos que
T(B
E
) ⊃ B
F
(0; δ/2).
Seja
y ∈ B
F
(0; δ/2) ⊂ T(B
E
(0; 1/2)).
Logo existe x
1
∈ B
E
(0; 1/2) tal que
y −Tx
1
∈ B
F
(0; δ/2
2
) ⊂ T(B
E
(0; 1/2
2
)).
Logo existe x
2
∈ B
E
(0; 1/2
2
) tal que
y −Tx
1
−Tx
2
∈ B
F
(0; δ/2
3
) ⊂ T(B
E
(0; 1/2
3
)).
Procedendo por indu¸ c˜ao podemos obter uma sequˆencia (x
n
) em E tal que
x
n
∈ B
E
(0; 1/2
n
) e y −
n

j=1
Tx
j
∈ B
F
(0; δ/2
n+1
) para cada n.
57
Como


n=1
|x
n
| <


n=1
2
−n
= 1, segue que

n=1
x
n
∈ B
E
(0; 1) e T(

n=1
x
n
) = y.
Como a implica¸ c˜ao (c) ⇒ (a) ´e clara, a demonstra¸c˜ao do teorema est´a com-
pleta.
17.2. Corol´ario. Sejam E e F espa¸cos de Banach. Ent˜ ao cada aplica¸ c˜ao
sobrejetiva T ∈ L(E; F) ´e aberta.
17.3. Corol´ario. Sejam E e F espa¸cos de Banach. Ent˜ ao cada aplica¸ c˜ao
bijetiva T ∈ L(E; F) ´e um isomorfismo topol´ ogico.
Lembremos que, se f : X → Y ´e uma aplica¸c˜ao qualquer, ent˜ ao o gr´ afico de
f ´e o conjunto
G
f
= ¦(x, y) ∈ X Y : y = f(x)¦.
17.4. Proposi¸c˜ao. Sejam X e Y espa¸cos topol´ogicos, e seja f : X →
Y uma aplica¸ c˜ao cont´ınua. Se Y ´e um espa¸ co de Hausdorff, ent˜ao G
f
´e um
subconjunto fechado de X Y .
Demonstra¸ c˜ao. Para provar que G
f
´e fechado emXY , seja ((x
i
, f(x
i
)))
i∈I
uma rede em G
f
que converge a um ponto (x, y) ∈ XY . Ent˜ ao x
i
→ x em X
e Tx
i
→ y em Y . Como f ´e cont´ınua, segue que f(x
i
) → f(x) em Y . Como Y
´e Hausddorff, segue que y = f(x). Logo (x, y) ∈ G
f
, e portanto G
f
´e fechado
em X Y .
17.5. Teorema do gr´afico fechado. Sejam E e F espa¸cos de Banach,
e seja T : E → F uma aplica¸ c˜ao linear. Se o gr´ afico G
T
de T ´e fechado em
E F, ent˜ao T ´e cont´ınua.
Demonstra¸ c˜ao. G
T
´e um subespa¸co fechado de E F, e ´e portanto um
espa¸co de Banach. Consideremos as proje¸ c˜oes canˆonicas
π
1
: (x, y) ∈ E F → x ∈ E,
π
2
: (x, y) ∈ E F → y ∈ F.
´
E claro que π
1
∈ L(E F; E) e π
2
∈ L(E F; F). Seja σ
1
= π
1
[G
T
. Ent˜ ao
σ
1
: (x, Tx) ∈ G
T
→ x ∈ E.
´
E claro que σ
1
∈ L(G
T
; E), e σ
1
´e sobrejetiva. Pelo teorema da aplica¸c˜ao aberta
σ
1
´e um homeomorfismo. Notemos que
σ
−1
1
: x ∈ E → (x, Tx) ∈ G
T
.
Segue que π
2
◦ σ
−1
1
= T, e portanto T ´e cont´ınua.
58
Exerc´ıcios
17.A. Sejam E e F espa¸cos de Banach, e seja T ∈ L(E; F) um operador
sobrejetivo.
(a) Dada uma seq¨ uˆencia limitada (y
n
) em F, prove que existe uma seq¨ uˆencia
limitada (x
n
) em E tal que Tx
n
= y
n
para cada n.
(b) Dada uma seq¨ uˆencia (y
n
), que converge a zero em F, prove que existe
uma seq¨ uˆencia (x
n
), que converge a zero em E, tal que Tx
n
= y
n
para cada n.
17.B. Seja (x
j
) uma seq¨ uˆencia em E tal que φ(x
j
) → 0 para cada φ ∈ E

.
Seja T definido por
T : φ ∈ E

→ (φ(x
j
))

j=1
∈ c
0
.
Prove que T ∈ L(E

; c
0
).
17.C. Seja E um espa¸co de Banach, e seja (φ
j
) uma seq¨ uˆencia em E

tal
que


j=1

j
(x)[ < ∞ para cada x ∈ E. Seja T definido por
T : x ∈ E → (φ
j
(x))

j=1

1
.
Prove que T ∈ L(E;
1
).
59
18. Espectro de um operador em um espa¸ co de Banach
18.1. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co de Banach, e seja T ∈ L(E; E). Se
|T| < 1, ent˜ao o operador I −T ´e invert´ıvel e
(I −T)
−1
=

k=0
T
k
.
Demonstra¸ c˜ao. Como |T| < 1, a s´erie


k=0
T
k
´e absolutamente conver-
gente, e portanto convergente. Como
(I −T)
_
n

k=0
T
k
_
=
_

k=0
T
k
_
(I −T) = I −T
n+1
para cada n, segue que
(I −T)
_

k=0
T
k
_
=
_

k=0
T
k
_
(I −T) = I.
18.2. Defini¸c˜ao. Se E ´e um espa¸co de Banach, denotaremos por Iso(E; E)
o subconjunto dos T ∈ L(E; E) que s˜ao invert´ıveis.
18.3. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co de Banach. Ent˜ao:
(a) Iso(E; E) ´e um subconjunto aberto de L(E; E).
(b) A aplica¸ c˜ao T ∈ Iso(E; E) → T
−1
∈ Iso(E; E) ´e cont´ınua.
Demonstra¸ c˜ao. Se S ∈ L(E; E) ´e invert´ıvel, ent˜ ao segue da proposi¸ c˜ao
anterior que S+T = (I +T ◦S
−1
)◦S ´e invert´ıvel tamb´em para cada T ∈ L(E; E)
tal que |T| < 1/|S
−1
|. Nessas condi¸c˜oes
(S +T)
−1
= S
−1
◦ (I +T ◦ S
−1
)
−1
= S
−1

k=0
(−T ◦ S
−1
)
k
,
e portanto
|(S +T)
−1
−S
−1
| ≤

k=1
|T|
k
|S
−1
|
k+1
=
|T||S
−1
|
2
1 −|T||S
−1
|
.
A conclus˜ ao desejada segue.
18.4. Defini¸c˜ao. Seja E um espa¸co de Banach, e seja T ∈ L(E; E).
(a) Diremos que λ ∈ K pertence ao espectro de T se o operador T −λI n˜ ao
´e invert´ıvel. σ(T) denota o espectro de T.
(b) Diremos que λ ∈ K ´e um autovalor de T se o operador T − λI n˜ ao ´e
injetivo. Se λ ´e um autovalor de T, denotaremos por E
λ
o subespa¸ co de todos
os x ∈ E tais que Tx = λx. Cada x ,= 0 em E
λ
´e chamado de autovetor de T
correspondente ao autovalor λ.
60
18.5. Exemplo. Seja E um espa¸ co de Banach, e seja T ∈ L(E; E).
´
E claro
que σ(T) cont´em todos os autovalores de T. Se E tem dimens˜ao finita, ent˜ ao ´e
claro que σ(T) coincide com o conjunto dos autovalores de T.
18.6. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co de Banach complexo, e seja T ∈
L(E; E). Ent˜ao:
(a) O conjunto C¸ σ(T) ´e aberto em C.
(b) Para cada funcional ψ ∈ L(E; E)

, a fun¸ c˜ao f(λ) = ψ[(T − λI)
−1
] ´e
anal´ıtica no aberto C¸ σ(T).
Demonstra¸ c˜ao. (a) A fun¸ c˜ao
φ : λ ∈ C → T −λI ∈ L(E; E)
´e claramente cont´ınua, e
C¸ σ(T) = φ
−1
(Iso(E; E)).
(b) Dados U, V ∈ Iso(E; E), ´e claro que
U(U
−1
−V
−1
)V = V −U,
e portanto
U
−1
−V
−1
= U
−1
(V −U)V
−1
.
Dados λ, λ
0
∈ C¸ σ(T), segue que
(T −λI)
−1
−(T −λ
0
I)
−1
= (T −λI)
−1
(λ −λ
0
)(T −λ
0
I)
−1
.
Aplicando ψ segue que
lim
λ→λ
0
f(λ) −f(λ
0
)
λ −λ
0
= ψ[(T −λ
0
I)
−2
].
Logo f ´e anal´ıtica.
18.7. Teorema. Seja E um espa¸ co de Banach complexo, e seja T ∈
L(E; E). Ent˜ao σ(T) ´e um subconjunto compacto n˜ ao vazio de C.
Demonstra¸ c˜ao. Pela proposi¸ c˜ao anterior σ(T) ´e fechado. Se [λ[ > |T|,
ent˜ ao segue da Proposi¸ c˜ao 18.1 que o operador T −λI = −λ(I −
T
λ
) ´e invert´ıvel.
Isto prova que [λ[ ≤ |T| para cada λ ∈ σ(T), e portanto σ(T) ´e limitado.
Suponhamos que σ(T) seja vazio. Nesse caso, para cada funcional ψ ∈ L(E; E)

,
a fun¸ c˜ao f(λ) = ψ[(T −λI)
−1
] ´e anal´ıtica em todo C. Para λ ,= 0 temos que
(T −λI)
−1
= −
1
λ
_
I −
T
λ
_
−1
= −

k=0
T
k
λ
k+1
,
e portanto
|(T −λI)
−1
| ≤

k=0
|T|
k
[λ[
k+1
=
1
[λ[ −|T|
.
61
Aplicando ψ segue que
lim
|λ|→∞
f(λ) = 0,
e f ´e em particular limitada. Segue do teorema de Liouville que
f(λ) = ψ[(T −λI)
−1
] = 0 para todo λ ∈ C.
Como ψ ´e arbitr´ ario, segue do teorema de Hahn-Banach que
(T −λI)
−1
= 0 para todo λ ∈ C,
absurdo. Logo σ(T) n˜ ao ´e vazio.
62
19. Operadores compactos entre espa¸ cos de Banach
19.1. Defini¸c˜ao. Sejam E e F espa¸cos de Banach, e seja T ∈ L(E; F).
(a) Diremos que T tem posto finito se o subespa¸co T(E) tem dimens˜ao finita.
L
f
(E; F) denota o subespa¸ co dos operadores de posto finito de E em F.
(b) Diremos que T ´e compacto se T(B
E
) ´e relativamente compacto em F.
L
K
(E; F) denota o subespa¸ co dos operadores compactos de E em F.
´
E claro que todo operador de posto finito ´e compacto.
19.2. Proposi¸c˜ao. Sejam E e F espa¸cos de Banach. Ent˜ao L
K
(E; F) ´e
um subespa¸ co fechado de L(E; F).
Demonstra¸ c˜ao. Seja (T
n
) uma sequˆencia em L
K
(E; F) que converge a um
operador T em L(E; F). Para provar que T ´e compacto provaremos que cada
sequˆencia em T(B
E
) admite uma subsequˆencia convergente.
Utilizaremos o processo diagonal de Cantor. Seja (x
j
)

j=1
uma sequˆencia
em B
E
. Como T
1
´e compacto, (x
j
)

j=1
admite uma subsequˆencia (x
1
j
)

j=1
tal
que (T
1
x
1
j
)

j=1
´e convergente. Como T
2
´e compacto, (x
1
j
)

j=1
admite uma sub-
sequˆencia (x
2
j
)

j=1
tal que (T
2
x
2
j
)

j=1
´e convergente. Procedendo de maneira indu-
tiva podemos obter, para cada i ∈ N, uma subsequˆencia (x
i
j
)

j=1
de (x
i−1
j
)

j=1
tal
que (T
i
x
i
j
)

j=1
´e convergente. Seja (z
j
)

j=1
a sequˆencia diagonal (x
j
j
)

j=1
. Ent˜ ao,
para cada i ∈ N, (z
j
)

j=i
´e uma subsequˆencia de (x
i
j
)

j=i
. Segue dai que (T
i
z
j
)

j=1
´e convergente, para cada i ∈ N. Provaremos que (Tz
j
)

j=1
´e convergente.
Dado > 0, existe i tal que |T
i
−T| < . Fixado i, existe j
0
tal que
|T
i
z
j
−T
i
z
k
| < para todo j, k ≥ j
0
.
Segue que
|Tz
j
−Tz
k
| ≤ |Tz
j
−T
i
z
j
| +|T
i
z
j
−T
i
z
k
| +|T
i
z
k
−Tz
k
| < 3
para todo j, k ≥ j
0
. Logo (Tz
j
)

j=1
´e convergente.
19.3. Teorema de Schauder. Sejam E e F espa¸cos de Banach. Ent˜ao
um operador T ∈ L(E; F) ´e compacto se e s´o se seu dual T

∈ L(F

; E

) ´e
compacto.
Demonstra¸ c˜ao. (⇒) Suponhamos que T ∈ L(E; F) seja compacto. Como
cada espa¸ co m´etrico compacto ´e separ´avel, e como T(E) =


n=1
nT(B
E
), segue
que T(E) ´e separ´avel. Seja (y
k
)

k=1
um subconjunto enumer´ avel denso de T(E).
Para provar que T

´e compacto, provaremos que cada seq¨ uˆencia em T

(B
F
)
admite uma subseq¨ uˆencia convergente. Seja (y

n
)

n=1
uma seq¨ uˆencia em B
F
.
Utilizando o processo diagonal de Cantor podemos achar uma subseq¨ uˆencia
(z

n
)

n=1
de (y

n
)

n=1
tal que (z

n
(y
k
))

n=1
converge para cada k. Como (y
k
)

k=1
´e densa em T(E), e (z

n
)

n=1
⊂ B
F
, segue que (z

n
(y))

n=1
converge para cada
y ∈ T(E).
Se definimos z

(y) = lim
n→∞
z

n
(y) para cada y ∈ T(E), segue que z

´e um
funcional linear em T(E), e |z

| ≤ 1. Pelo teorema de Hahn-Banach podemos
supor que z

∈ F

.
63
Como T(B
E
) ´e precompacto, dado > 0, existem x
1
, ..., x
m
∈ B
E
tais que
T(B
E
) ⊂
m
_
j=1
B
F
(Tx
j
, ).
Como z

n
(y) → z

(y) para cada y ∈ T(E), existe n
0
∈ N tal que
[¸z

n
−z

, Tx
j
)[ < sempre que n ≥ n
0
, 1 ≤ j ≤ m.
Dado x ∈ B
E
, seja 1 ≤ j ≤ m tal que x ∈ B
F
(Tx
j
; ). Ent˜ ao, para cada n ≥ n
0
tem-se que
[¸T

z

n
−T

z

, x)[ = [¸z

n
−z

, Tx)[
≤ [¸z

n
−z

, Tx −Tx
j
)[ +[¸z

n
−z

, Tx
j
)[ < 3.
Segue que |T

z

n
−T

z

| ≤ 3 para todo n ≥ n
0
, e portanto (T

z

n
)

n=1
converge
a T

z

em E

.
(⇐) Suponhamos que T

∈ L(F

; E

) seja compacto. Pelo que acabamos de
ver, T

∈ L(E

; F

) ´e compacto. Como o diagrama
E
T
−→ F
J
E
↓ ↓ J
F
E

T

−→ F

´e comutativo, segue que T ´e compacto.
64
20. Conjuntos ortonormais em espa¸cos de Hilbert
20.1. Defini¸c˜ao. Seja E um espa¸ co com produto interno. Um conjunto
S ⊂ E ´e dito ortonormal se dados x, y ∈ S tem-se que (x[y) = 0 se x ,= y
e (x[y) = 1 se x = y. Um conjunto ortonormal S ⊂ E ´e dito completo se
S

= ¦0¦.
´
E f´ acil verificar que todo conjunto ortonormal em E ´e linearmente indepen-
dente.
´
E f´ acil ver que um conjunto ortonormal S ⊂ E ´e completo se e s´o se S ´e
maximal entre os conjuntos ortonormais de E, ou seja S n˜ ao est´a contido em
nenhum outro conjunto ortonormal.
Se S ´e um conjunto ortonormal em E tal que o subespa¸ co [S] gerado por S
´e denso em E, ent˜ ao ´e f´acil ver que S ´e completo.
20.2. Exemplo.
´
E f´ acil verificar que os vetores unit´ arios
e
1
= (1, 0, 0, ..., 0), e
2
= (0, 1, 0, ..., 0), ..., e
n
= (0, 0, 0, ..., 1)
formam um conjunto ortonormal completo em K
n
2
.
20.3. Exemplo.
´
E f´ acil verificar que a sequˆencia de vetores unit´arios
e
1
= (1, 0, 0, ...), e
2
= (0, 1, 0, ...), e
3
= (0, 0, 1, ...), ...
formam um conjunto ortonormal completo em
2
.
20.4. Exemplo. N˜ao ´e dif´ıcil verificar que as fun¸ c˜oes
u
0
(t) =
1


, u
n
(t) =
1

π
cosnt, v
n
(t) =
1

π
sennt (n ∈ N)
formam um conjunto ortonormal no espa¸ co de Hilbert real L
2
([0, 2π]; R). Mais
adiante veremos que este conjunto ortonormal ´e completo.
20.5. Exemplo. N˜ao ´e dif´ıcil verificar que as fun¸ c˜oes
u
n
(t) =
1


e
int
(n ∈ Z)
formam um conjunto ortonormal no espa¸ co de Hilbert complexo L
2
([0, 2π]; C).
Mais adiante veremos que este conjunto ortonormal ´e completo.
20.6. Proposi¸c˜ao (Processo de ortonormaliza¸c˜ao de Gram-Schmidt).
Seja E um espa¸ co com produto interno. Seja (x
n
)
N
n=1
uma sequˆencia finita ou
infinita de vetores linearmente independentes em E. Ent˜ao existe uma sequˆencia
ortonormal (y
n
)
N
n=1
em E tal que
[x
1
, ..., x
n
] = [y
1
, ..., y
n
]
para cada n ≤ N.
65
Demonstra¸ c˜ao. Sejam (u
n
)
N
n=1
e (y
n
)
N
n=1
definidas indutivamente da maneira
seguinte:
u
1
= x
1
, y
1
=
u
1
|u
1
|
;
u
n
= x
n

n−1

j=1
(x
n
[y
j
)y
j
, y
n
=
u
n
|u
n
|
para n ≥ 2.
´
E imediato que
(u
n
[y
j
) = 0 sempre que j < n,
e portanto
(y
n
[y
j
) = 0 sempre que j < n.
Usando indu¸ c˜ao vemos que
[x
1
, ..., x
n
] = [u
1
, ..., u
n
] = [y
1
, ..., y
n
]
para cada n ≤ N, completando a demonstra¸ c˜ao.
20.7. Corol´ario. Seja E um espa¸ co com produto interno de dimens˜ao
finita n. Ent˜ao existe em E um conjunto ortonormal completo formado por n
vetores.
20.8. Corol´ario. Seja E um espa¸ co com produto interno separ´ avel. Ent˜ao
existe em E um conjunto ortonormal completo enumer´ avel.
20.9. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co com produto interno. Ent˜ ao cada
conjunto ortonormal em E est´a contido em algum conjunto ortonormal com-
pleto.
Demonstra¸ c˜ao. Seja S
0
um conjunto ortonormal em E, e seja T a fam´ılia
de todos os conjuntos ortonormais em E que cont´em S
0
. T ´e um conjunto
parcialmente ordenado por inclus˜ ao de conjuntos. Seja (S
i
)
i∈I
uma cad´eia em
T. Ent˜ ao ´e f´ acil ver que ∪
i∈I
S
i
´e um conjunto ortonormal em E, e claramente
cont´em cada S
i
. Isto prova que cada cad´eia em T admite uma cota superior.
Pelo lema de Zorn, existe em T um elemento maximal S. Segue que S ´e um
conjunto ortonormal completo em E, que cont´em S
0
.
Exerc´ıcios
20.A. Seja E um espa¸ co com produto interno. Prove que cada conjunto
ortonormal em E ´e linearmente independente.
20.B. Seja E um espa¸ co com produto interno, e seja S um conjunto ortonor-
mal em E. Prove que S ´e completo se e s´o se S n˜ ao est´a contido em nenhum
outro conjunto ortonormal.
20.C. Seja E um espa¸ co com produto interno, e seja S um conjunto ortonor-
mal em E.
66
(a) Se o subespa¸ co [S] gerado por S ´e denso em E, prove que S ´e completo.
(b) Se E ´e um espa¸co de Hilbert, e S ´e completo, prove que [S] ´e denso em
E.
20.D. Prove que os vetores unit´ arios
e
1
= (1, 0, 0, ...), e
2
= (0, 1, 0, ...), e
3
= (0, 0, 1, ...), ...
formam um conjunto ortonormal completo em
2
.
20.E. Prove que as fun¸ c˜oes
u
0
(t) =
1


, u
n
(t) =
1

π
cosnt, v
n
(t) =
1

π
sennt (n = 1, 2, 3, ...)
formam um conjunto ortonormal no espa¸ co de Hilbert real L
2
([0, 2π], R).
20.F. Prove que as fun¸ c˜oes
u
n
(t) =
1


e
int
(n ∈ Z)
formam um conjunto ortonormal no espa¸ co de Hilbert complexo L
2
([0, 2π], C).
67
21. Conjuntos ortonormais completos em espa¸ cos de Hilbert
21.1. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co com produto interno, seja M um
subespa¸co de dimens˜ao finita n, seja ¦x
1
, ..., x
n
¦ um conjunto ortonormal em
M, e seja x ∈ E. Ent˜ao:
(a) |x −
n

j=1
(x[x
j
)x
j
| = d(x, M),
(b)
n

j=1
[(x[x
j
)[
2
≤ |x|.
Demonstra¸ c˜ao. (a) Pelo Teorema 10.3 (e a Observa¸c˜ao 10.4) podemos
escrever
(1) x = p +q, com p ∈ M, q ∈ M

.
Al´em disso |x − p| = d(x, M). Como (x
1
, ..., x
n
) ´e uma base de M, podemos
escrever p =

n
j=1
α
j
x
j
. Como x −p = q ∈ M

, segue que
0 = (x −p[x
k
) = (x[x
k
) −(p[x
k
) = (x[x
k
) −α
k
para k = 1, 2, ..., n. Logo
(2) p =
n

j=1
(x[x
j
)x
j
,
e (a) segue.
(b) Usando (1) e (2) e o teorema de Pit´ agoras segue que
|x|
2
= |p|
2
+|q|
2
≥ |p|
2
=
n

j=1
[(x[x
j
)[
2
.
21.2. Proposi¸c˜ao (Desigualdade de Bessel). Seja E um espa¸ co com
produto interno, seja (x
i
)
i∈I
um conjunto ortonormal em E, e seja x ∈ E.
Ent˜ao o conjunto
I
x
= ¦i ∈ I : (x[x
i
) ,= 0¦
´e enumer´ avel e

i∈I
x
[(x[x
i
)[
2
≤ |x|
2
.
Demonstra¸ c˜ao. Temos que
I
x
=

_
k=1
J
k
,
onde
J
k
= ¦i ∈ I : [(x[x
i
)[ >
1
k
¦.
68
Segue da proposi¸ c˜ao anterior que cada J
k
´e finito. De fato, se J ´e qualquer
subconjunto finito de J
k
, segue da proposi¸ c˜ao anterior que
|x|
2

j∈J
[(x[x
j
)[
2
>

j∈J
1
k
2
=
[J[
k
2
,
e portanto [J[ < k
2
|x|
2
. Segue que [J
k
[ ≤ k
2
|x|
2
para cada k, e portanto I
x
´e
enumer´avel.
Escrevamos (x
i
)
i∈I
x
como uma sequˆencia y
1
, y
2
, y
3
, ... Pela proposi¸ c˜ao ante-
rior
n

j=1
[(x[y
j
)[
2
≤ |x|
2
para cada n,
e portanto

i∈I
x
[(x[x
i
)[
2
=

j=1
[(x[y
j
)[
2
≤ |x|
2
.
21.3. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co de Hilbert, seja (x
i
)
i∈I
um conjunto
ortonormal em E, e seja x ∈ E. Ent˜ao a s´erie

i∈I
x
(x[x
i
)x
i
´e incondicionalmente convergente, ou seja ´e convergente, e sua soma ´e indepen-
dente da ordem escolhida em I
x
.
Demonstra¸ c˜ao. Pela proposi¸ c˜ao anterior o conjunto I
x
´e enumer´avel. Seja
(y
j
) uma ordena¸ c˜ao de (x
i
)
i∈I
x
, e seja
s
m
=
m

j=1
(x[y
j
)y
j
para cada m. Se n < m, segue do teorema de Pit´agoras que
|s
m
−s
n
|
2
= |
m

j=n+1
|
2
=
m

j=n+1
[(x[y
j
)[
2
.
Como
m

j=1
[(x[y
j
)[
2
≤ |x|
2
para cada m, pela proposi¸ c˜ao anterior, segue que (s
m
) ´e uma sequˆencia de
Cauchy em E, e converge portanto a um vetor s ∈ E.
Para provar que a soma da s´erie ´e independente da ordena¸ c˜ao escolhida, seja
(z
k
) uma outra ordena¸ c˜ao de (x
i
)
i∈I
x
, e seja
t
n
=
n

k=1
(x[z
k
)z
k
69
para cada n. O racioc´ınio anterior mostra que
n

k=1
[(x[z
k
)[
2
≤ |x|
2
para cada n, e a sequˆencia (t
n
) converge a um vetor t ∈ E. Dado > 0, podemos
achar m
0
e n
0
em N tais que

j=m+1
[(x[y
j
)[
2

2
e |s −s
m
| ≤ para todo m ≥ m
0
,

k=n+1
[(x[z
k
)[
2

2
e |t −t
n
| ≤ para todo n ≥ n
0
.
Fixemos m ≥ m
0
, e seja n ≥ n
0
tal que ¦y
1
, ..., y
m
¦ ⊂ ¦z
1
, ..., z
n
¦. Ent˜ ao
t
n
−s
m
=

j∈J
(x[y
j
)y
j
,
onde J ⊂ N¸ ¦1, 2, ..., m¦. Segue que
|t
n
−s
m
|
2
=

j∈J
[(x[y
j
)[
2

j=m+1
[(x[y
j
)[
2

2
.
Logo
|t −s| ≤ |t −t
n
| +|t
n
−s
m
| +|s
m
−s| ≤ 3.
Como > 0 ´e arbitr´ ario, concluimos que t = s.
21.4. Teorema. Seja E um espa¸ co de Hilbert, e seja S = (x
i
)
i∈I
um
conjunto ortonormal em E. Ent˜ao as seguintes condi¸ c˜oes s˜ao equivalentes:
(a) O subespa¸ co [S] ´e denso em E.
(b) S ´e completo.
(c) x =

i∈I
(x[x
i
)x
i
para todo x ∈ E.
(d) (x[y) =

i∈I
(x[x
i
)(y[x
i
) para todo x, y ∈ E.
(e) |x|
2
=

i∈I
[(x[x
i
)[
2
para todo x ∈ E.
A identidade em (e) ´e conhecida como identidade de Parseval.
Demonstra¸ c˜ao. As implica¸c˜oes (a) ⇒ (b), (c) ⇒ (d) e (d) ⇒ (e) s˜ao claras.
Provaremos as implica¸ c˜oes (b) ⇒ (c) e (e) ⇒ (a) ao mesmo tempo.
Dado x ∈ E, sejam
p =

i∈I
(x[x
i
)x
i
, q = x −p.
70
Pela proposi¸ c˜ao anterior p est´a bem definido. Como
(q[x
j
) = (x[x
j
) −(p[x
j
) = 0
para todo j ∈ I, vemos que q ∈ S

.
Suponhamos (b). Ent˜ ao S ´e completo, ou seja S

= ¦0¦. Segue que q = 0,
e portanto x = p =

i∈I
(x[x
i
)x
i
, ou seja (c).
Suponhamos (e), e seja M = [S]. Ent˜ ao p ∈ M e q ∈ M

. Pelo teorema de
Pit´ agoras
|x|
2
= |p|
2
+|q|
2
=

i∈I
[(x[x
i
)[
2
+|q|
2
.
Segue de (e) que |q| = 0, e portanto x = p ∈ M. Logo E = M = [S], ou seja
(a).
Devido ` a condi¸ c˜ao (c) do teorema anterior, os conjuntos ortonormais com-
pletos em espa¸cos de Hilbert s˜ao chamados tamb´em de bases ortonormais.
21.5. Teorema de Riesz-Fischer. Cada espa¸ co de Hilbert separ´ avel de
dimens˜ ao infinita ´e isometricamente isomorfo a
2
.
Demonstra¸ c˜ao. Pelo Corol´ ario 20.8 existe em E uma sequˆencia ortonormal
completa (x
n
)

n=1
. Pelo teorema anterior
(3) |x|
2
=

n=1
[(x[x
n
)[
2
para todo x ∈ E.
Consideremos a aplica¸c˜ao
T : x ∈ E → ((x[x
n
))

n=1

2
.
T ´e claramente linear, e segue de (3) que T ´e uma isometria. Para completar a
demonstra¸ c˜ao provaremos que T ´e sobrejetiva.
Dado (ξ
n
) ∈
2
, seja x =


n=1
ξ
n
x
n
∈ E. Para provar que x est´a bem
definido, seja s
n
=

n
j=1
ξ
j
x
j
para cada n. Ent˜ ao, para m < n temos que
|s
n
−s
m
|
2
= |
n

j=m+1
ξ
j
x
j
|
2
=
n

j=m+1

j
[
2
.
Como


j=1

j
[ < ∞, segue que (s
n
) ´e uma sequˆencia de Cauchy em E. Logo x
est´a bem definido.
´
E claro que (x[x
j
) = ξ
j
para cada j. Logo (ξ
n
) = Tx, como
queriamos.
21.6. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co com produto interno, e sejam S
1
e
S
2
dois conjuntos ortonormais completos em E. Ent˜ao S
1
e S
2
tem a mesma
cardinalidade.
71
Demonstra¸ c˜ao. A conclus˜ao ´e clara se S
1
ou S
2
´e finito. Suponhamos que
S
1
e S
2
s˜ao infinitos. Para cada x ∈ S
1
seja
S
2
(x) = ¦y ∈ S
2
: (x[y) ,= 0¦.
Afirmamos que
S
2
=
_
x∈S
1
S
2
(x).
De fato, seja y ∈ S
2
. Como y ,= 0 e S
1
´e completo, existe x ∈ S
1
tal que
(x[y) ,= 0. Logo y ∈ S
2
(x). Segue da Proposi¸ c˜ao 21.2 que S
2
(x) ´e enumer´avel
para cada x. Logo
[S
2
[ ≤ [S
1
[[N[ = [S
1
[.
De maneira an´ aloga podemos provar que [S
1
[ ≤ [S
2
[.
Na se¸c˜ao anterior vimos exemplos de conjuntos ortonormais completos em
K
n
2
e
2
. Agora veremos exemplos de conjuntos ortonormais completos em
L
2
[0, 2π].
21.7. Teorema. As fun¸ c˜oes
u
0
(t) =
1


, u
n
(t) =
1

π
cosnt, v
n
(t) =
1

π
sennt,
com n ∈ N, formam um conjunto ortonormal completo no espa¸ co de Hilbert
real L
2
([0, 2π]; R).
Demonstra¸ c˜ao. Seja S o conjunto formado pelas fun¸ c˜oes u
n
e v
n
. N˜ ao ´e
dif´ıcil verificar que S ´e um conjunto ortonormal. Para provar que S ´e completo
basta provar que [S] ´e um subespa¸co denso de L
2
([0, 2π]; R).
Seja
B = ¦f ∈ C([0, 2π]; R) : f(0) = f(2π)¦.
´
E f´ acil ver que B ´e um subespa¸co denso de C([0, 2π]; R) na norma de L
2
([0, 2π]; R).
Como C([0, 2π]; R) ´e um subespa¸co denso de L
2
([0, 2π]; R), segue que B ´e um
subespa¸ co denso de L
2
([0, 2π]; R).
´
E claro que [S] ⊂ B. Para completar a demonstra¸ c˜ao do teorema basta
provar que [S] ´e um subespa¸co denso de B na norma de C([0, 2π]; R).
Seja
K = ¦z ∈ C : [z[ = 1¦ = ¦e
it
: 0 ≤ t ≤ 2π¦.
Para cada f ∈ B seja
˜
f ∈ C(K; R) definida por
˜
f(e
it
) = f(t) (0 ≤ t ≤ 2π).
´
E claro que B e C(K; R) s˜ao ´algebras , e a aplica¸ c˜ao
T : f ∈ B →
˜
f ∈ C(K; R)
72
´e um isomorfismo isom´etrico entre a ´ algebra B e sua imagem em C(K; R). Seja
A a sub´ algebra de B gerada pelas fun¸ c˜oes
f
1
(t) = 1, f
2
(t) = cost, f
3
(t) = sent,
e seja
˜
A = T(A).
´
E claro que
˜
A ´e a sub´ algebra de C(K; R) gerada pelas fun¸ c˜oes
˜
f
1
(e
it
) = 1,
˜
f
2
(e
it
) = cost,
˜
f
3
(e
it
) = sent.
´
E claro que:
(a)
˜
A cont´em as fun¸ c˜oes constantes;
(b)
˜
A separa os pontos de K, ou seja, dados Z
1
,= z
2
em K, existe
˜
f ∈
˜
A tal
que
˜
f(z
1
) ,=
˜
f(z
2
).
Segue do teorema de Stone-Weierstrass que
˜
A ´e densa em C(K; R). Como
T ´e uma isometria, segue que A ´e densa em B. N˜ ao ´e dif´ıcil verificar que cada
f ∈ A pode ser escrita na forma
f(t) = a
0
+
n

k=1
(a
k
coskt +b
k
senkt),
ou seja A ⊂ [S]. Segue que [S] ´e denso em B, como queriamos.
De maneira an´ aloga, utilizando a vers˜ ao complexa do teorema de Stone-
Weierstrass, podemos provar o teorema seguinte.
21.8. Teorema. As fun¸ c˜oes u
n
(t) = e
int
, com n ∈ Z, formam um conjunto
ortonormal completo no espa¸ co de Hilbert complexo L
2
([0, 2π]; C).
Exerc´ıcios
21.A. Seja E um espa¸co com produto interno, e seja S = (x
n
)

n=1
uma
seq¨ uˆencia ortonormal em E. Prove que S ´e fechado e limitado, mas n˜ ao ´e
compacto.
21.B. Seja E um espa¸co de Hilbert, seja (x
n
)

n=1
uma seq¨ uˆencia ortonormal
em E, e seja
L = ¦

n=1
λ
n
x
n
: [λ
n
[ ≤ 1/n para todo n¦.
Prove que L ´e compacto.
Sugest˜ ao: Considere o conjunto
K = ¦(λ
n
)

n=1
⊂ K : [λ
n
[ ≤ 1/n para todo n¦,
e a aplica¸ c˜ao
f : (λ
n
)

n=1
∈ K →

n=1
λ
n
x
n
∈ E.
73
21.C. Sejam (a
n
)

n=0
e (b
n
)

n=1
emRtais que


n=0
[a
n
[
2
< ∞e


n=1
[b
n
[
2
<
∞. Prove que existe uma ´ unica f ∈ L
2
([0, 2π]; R) tal que
a
0
=
1


_

0
f(t)dt, a
n
=
1

π
_

0
f(t)cosntdt, b
n
=
1

π
_

0
f(t)senntdt
para todo n ∈ N.
21.D. Seja (c
n
)
+∞
n=−∞
em C tal que

+∞
n=−∞
[c
n
[
2
< ∞. Prove que existe
uma ´ unica f ∈ L
2
([0, 2π]; C) tal que
c
n
=
1

_

0
f(t)e
−int
dt para todo n ∈ Z.
74
22. Operadores auto-adjuntos em espa¸ cos de Hilbert
E e F denotam espa¸cos de Hilbert.
22.1. Proposi¸c˜ao. Dado T ∈ L(E; F), existe um ´ unico T

∈ L(F; E) tal
que
(1) (Tx[y) = (x[T

y) para todo x ∈ E, y ∈ F.
Tem-se que |T

| = |T|. Diremos que T

´e o adjunto de T.
Demonstra¸ c˜ao. Fixemos y ∈ F. Ent˜ ao o funcional x ∈ E → (Tx[y) ∈ K
´e linear e cont´ınuo, com norma ≤ |T||y|. Pelo teorema de representa¸c˜ao de
Riesz existe um ´ unico y

∈ E tal que
(2) (Tx[y) = (x[y

) para todo x ∈ E
e |y

| ≤ |T||y|. Definamos T

: F → E por T

y = y

para cada y ∈ F.
Segue de (2) que T

´e linear e cont´ınuo, e que |T

| ≤ |T|. Isto prova que T

verifica (1), e a unicidade de T

segue de (1).
O mesmo racioc´ınio prova a existˆencia de um ´ unico T
∗∗
∈ L(E; F) tal que
(3) (T

y[x) = (y[T
∗∗
x) para todo y ∈ F, x ∈ E,
com |T
∗∗
| ≤ |T

|. De (1) e (3) segue que T
∗∗
= T, e portanto |T

| = |T|.
22.2. Defini¸c˜ao. Um operador T ∈ L(E; E) ´e dito auto-adjunto se T

= T,
ou seja
(Tx[y) = (x[Ty) para todo x, y ∈ E.
22.3. Proposi¸c˜ao. Seja T ∈ L(E; E) um operador auto-adjunto. Ent˜ ao
|T| = sup¦[(Tx[x)[ : |x| = 1¦.
Demonstra¸ c˜ao. Seja
C = sup¦[(Tx[x)[ : |x| = 1¦.
A desigualdade C ≤ |T| segue de imediato da desigualdade de Cauchy-Schwarz.
Provaremos a desigualdade oposta.
Se Ts = 0 para todo s ∈ S
E
, ent˜ ao T = 0, e a conclus˜ao ´e clara. Seja s ∈ S
E
tal que Ts ,= 0, e sejam
x = |Ts|
1/2
s, y = |Ts|
−1/2
Ts.
Ent˜ ao
|x|
2
= |y|
2
= |Ts|
e
(Tx[y) = (Ty[x) = |Ts|
2
.
75
Sejam
u = x +y, v = x −y.
Ent˜ ao
(Tu[u) = (Tx[x) + (Tx[y) + (Ty[x) + (Ty[y),
(Tv[v) = (Tx[x) −(Tx[y) −(Ty[x) + (Ty[y).
Segue que
(Tu[u) −(Tv[v) = 2(Tx[y) + 2(Ty[x) = 4|Ts|
2
.
Por outro lado, pela defini¸ c˜ao de C, e pela lei do paralelogramo,
(Tu[u) −(Tv[v) ≤ C|u|
2
+C|v|
2
= C(|x +y|
2
+|x −y|
2
)
= 2C(|x|
2
+|y|
2
= 4C|Ts|.
Segue que
4|Ts|
2
≤ 4C|Ts|,
e portanto |T| ≤ C.
Se T ∈ L(E; E) ´e auto-adjunto, ´e claro que (Tx[x) ´e real apara cada x ∈ E.
Sejam
m
T
= inf¦(Tx[x) : |x| = 1¦,
M
T
= sup¦(Tx[x) : |x| = 1¦.
Com esta nota¸c˜ao obtemos o corol´ario seguinte:
22.4. Corol´ario. Seja T ∈ L(E; E) um operador auto-adjunto. Ent˜ ao:
|T| = max¦M
T
, −m
T
¦.
Seja T ∈ L(E; E). Lembremos que, se λ ´e um autovalor de T, ent˜ ao E
λ
denota o subespa¸ co E
λ
= ¦x ∈ E : Tx = λx¦.
22.5. Proposi¸c˜ao. Seja T ∈ L(E; E) um operador auto-adjunto.
(a) Se λ ´e um autovalor de T, ent˜ao λ ´e real e m
T
≤ λ ≤ M
T
.
(b) Se λ e µ s˜ ao autovalores distintos de T, ent˜ao os subespa¸cos E
λ
e E
µ
s˜ ao ortogonais entre si.
Demonstra¸ c˜ao. (a) Suponhamos que Tx = λx, com |x| = 1. Ent˜ ao
(Tx[x) = (λx[x) = λ,
e portanto m
T
≤ λ ≤ M
T
.
(b) Suponhamos Tx = λx e Ty = µy. Ent˜ ao
λ(x[y) = (λx[y) = (Tx[y) = (x[Ty) = (x[µy) = µ(x[y).
Se λ ,= µ, ent˜ ao (x[y) = 0.
76
Exerc´ıcios
22.A. Seja T ∈ L(E; F), e sejam Φ : E → E

e Ψ : F → F

definidos por
¸Φs, x) = (x[s) para todo s, x ∈ E,
¸Ψt, y) = (y[t) para todo t, y ∈ F.
Prove que o seguinte diagrama ´e comutativo:
F
T

−→ E
Ψ ↓ ↓ Φ
F

T

−→ E

22.B. Dados S, T ∈ L(E; F), prove que:
(a) (S +T)

= S

+T

.
(b) (λT)

= λT

.
(c) |T

T| = |TT

| = |T|
2
.
22.C. Dados S, T ∈ L(E; E), prove que (TS)

= S

T

.
22.D. Seja T ∈ L(E; F), e sejam M e N subespa¸cos fechados de E e F,
respectivamente. Prove que T(M) ⊂ N se e s´o se T

(N

) ⊂ M

.
22.E. Seja T ∈ L(E; E) um operador auto-adjunto. Prove que T
n
´e auto-
adjunto para cada n ∈ N.
22.F. Sejam s, T ∈ L(E; E) operadores auto-adjuntos. Prove que que TS ´e
auto-adjunto se e s´ o se TS = ST.
77
23. Teorema espectral para operadores compactos e auto-adjuntos
em espa¸ cos de Hilbert
23.1. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co de Hilbert, e seja T ∈ L(E; E) um
operador compacto e auto-adjunto, com T ,= 0. Ent˜ao |T| ou −|T| ´e um
autovalor de T, e existe um autovetor correspondente x ∈ S
E
tal que [(Tx[x)[ =
|T|.
Demonstra¸ c˜ao. Pelo Corol´ ario 22.4 existe uma sequˆencia (x
n
) ⊂ S
E
tal
que (Tx
n
[x
n
) → λ, onde λ ´e |T| ou −|T|. Notemos que
0 ≤ |Tx
n
−λx
n
|
2
= (Tx
n
−λx
n
[Tx
n
−λx
n
)
= |Tx
n
|
2
−λ(Tx
n
[x
n
) −λ(x
n
[Tx
n
) +λ
2
|x
n
|
2
≤ |T|
2
−2λ(Tx
n
[x
n
) +λ
2
.
Como |T|
2
−2λ(Tx
n
[x
n
) +λ
2
→ 0, segue que Tx
n
−λx
n
→ 0.
Como T ´e compacto, a sequˆencia (Tx
n
) admite uma subsequˆencia conver-
gente. Sem perda de generalidade podemos supor que (Tx
n
) converge a um
vetor y. Como Tx
n
− λx
n
→ 0, segue que λx
n
→ y. Como λ ,= 0, segue que
x
n
→ x, onde x =
y
λ
. Como |x
n
| = 1 para todo n, segue que |x| = 1. Por
um lado Tx
n
→ y = λx. Por outro lado Tx
n
→ Tx. Logo Tx = λx, e λ ´e
um autovalor. Finalmente, como [(Tx
n
[x
n
)[ → |T|, segue que [(Tx[x)[ = |T|,
completando a demonstra¸c˜ao.
23.2. Teorema. Seja E um espa¸ co de Hilbert, e seja T ∈ L(E; E) um
operador compacto e auto-adjunto, com T ,= 0. Ent˜ao:
(a) Existe uma sequˆencia finita ou infinita (λ
n
) de autovalores, e uma sequˆencia
correspondente (x
n
) de autovetores, tal que T admite uma representa¸ c˜ao da
forma
(1) Tx =

λ
n
(x[x
n
)x
n
=

(Tx[x
n
)x
n
para todo x ∈ E. A sequˆencia (x
n
) ´e ortonormal.
(b) Se a sequˆencia (λ
n
) ´e infinita, ent˜ ao λ
n
→ 0.
(c) Cada autovalor λ ,= 0 de T aparece na sequˆencia (λ
n
). O subespa¸ co de
autovetores correspondente E
λ
tem dimens˜ ao finita. A dimens˜ ao de E
λ
coincide
com o n´ umero de vezes que λ aparece na sequˆencia (λ
n
).
Demonstra¸ c˜ao. (a) Aplicando a proposi¸ c˜ao anterior obtemos λ
1
∈ R, e
x
1
∈ E, com |x
1
| = 1, tais que
Tx
1
= λ
1
x
1
, [λ
1
[ = |T|.
Seja E
1
= [x
1
] o subespa¸ co gerado por x
1
. N˜ ao ´e dif´ıcil verificar que o subespa¸ co
E

1
´e invariante sob T, ou seja T(E

1
) ⊂ E

1
. De fato, para cada x ∈ E

1
tem-se
que
(Tx[x
1
) = (x[Tx
1
) = (x[λ
1
x
1
) = λ
1
(x[x
1
) = 0.
78
Se a restri¸ c˜ao T[E

1
´e identicamente zero, ent˜ao o processo termina ai. Caso
contr´ ario, aplicando a proposi¸ c˜ao anteror ` a restri¸ c˜ao T[E

1
, obtemos λ
2
∈ R, e
x
2
∈ E

1
, com |x
2
| = 1, tais que
Tx
2
= λ
2
x
2
, [λ
2
[ = |T[E

1
|.
Procedendo por indu¸ c˜ao obtemos uma sequˆencia (λ
n
) ⊂ R, com λ
n
,= 0, e uma
sequˆencia correspondente (x
n
) ⊂ E, com |x
n
| = 1, tais que
Tx
n
= λ
n
x
n
, x
n
∈ E

n−1
, [λ
n
[ = |T[E

n−1
| para cada n ≥ 2,
onde E
n
= [x
1
, ..., x
n
] para cada n ≥ 1.
´
E claro que a sequˆencia ([λ
n
[) ´e
decrescente, e a sequˆencia (x
n
) ´e ortonormal.
Suponhamos primeiro que a restri¸ c˜ao T[E

n
seja zero para algum n. Cada
x ∈ E pode ser escrito na forma
x = y
n
+z
n
, com y
n
∈ E
n
, z
n
∈ E

n
,
e portanto
x =
n

j=1
(x[x
j
)x
j
+z
n
.
Como T[E

n
= 0, segue que
Tx =
n

j=1
(x[x
j
)Tx
j
=
n

j=1
(x[x
j

j
x
j
=
n

j=1
(x[λ
j
x
j
)x
j
=
n

j=1
(x[Tx
j
)x
j
=
n

j=1
(Tx[x
j
)x
j
.
Isto prova a representa¸ c˜ao (1) quando T[E

n
= 0 para algum n.
(b) Suponhamos que a sequˆencia (λ
n
) seja infinita, mas λ
n
,→ 0. Como ([λ
n
[)
´e decrescente, existe > 0 tal que [λ
n
[ ≥ para todo n. Como T ´e compacto,
a sequˆencia (Tx
n
) admite uma subsequ˜encia convergente. Como Tx
n
= λ
n
x
n
e [λ
n
[ ≥ para todo n, segue que (x
n
) admite uma subsequˆencia convergente.
Mas isto ´e absurdo, pois, sendo (x
n
) ortonormal, segue que |x
n
− x
m
|
2
= 2
sempre que n ,= m.
A seguir provaremos que a representa¸c˜ao (1) ´e v´alida quando a restri¸ c˜ao
T[E

n
´e distinta de zero para cada n. Como no caso anterior escrevamos x =
y
n
+z
n
, com y
n
∈ E
n
, z
n
∈ E
n
. Como [λ
n+1
[ = |T[E

n
|, segue que
|Tz
n
| ≤ |T[E

n
||z
n
| ≤ [λ
n+1
[|x| → 0.
Segue que
Tx = Ty
n
+Tz
n
= lim
n→∞
Ty
n
= lim
n→∞
n

j=1
(x[x
j
)Tx
j
79
=

j=1
(x[x
j

j
x
j
=

j=1
(Tx[x
j
)x
j
.
(c) Suponhamos que exista um autovalor λ ,= 0 de T que n˜ ao apare¸ ca na
sequˆencia (λ
n
). Seja x um autovetor correspondente, x ,= 0. Neste caso (x[x
n
) =
0 para cada n, e segue de (1) que Tx = 0, absurdo, pois Tx = λx, com λ ,= 0,
x ,= 0.
Suponhamos que um autovalor λ ,= 0 apare¸ ca p vezes na sequˆencia (λ
n
).
Neste caso o subespa¸co E
λ
cont´em um subconjunto ortonormal formado por
p vetores x
n
1
, ..., x
n
p
, e dai dimE
λ
≥ p. Se fosse dimE
λ
> p, ent˜ ao existiria
x ∈ E
λ
, com x ,= 0 e (x[x
n
j
) = 0 para j = 1, ..., p. Dai (x[x
n
) = 0 para todo n,
e seguiria de novo de (1) que Tx = 0, absurdo. Logo dimE
λ
= p.
Exerc´ıcios
23.A. Seja S ∈ L(
2
;
2
) definido por
S : (ξ
1
, ξ
2
, ξ
3
, ...) → (0, ξ
1
, ξ
2
, ξ
3
, ...).
(a) S ´e injetivo?
(b) S ´e sobrejetivo?
(c) S ´e compacto?
(d) Determine o adjunto S

de S
23.B. Seja T ∈ L(E; F) um operador de posto finito. Prove que T admite
uma representa¸c˜ao da forma
Tx =
n

k=1
(x[a
k
)b
k
para cada x ∈ E, onde a
k
∈ E e b
k
∈ F.
23.C. Seja T ∈ L(
2
;
2
) o operador definido por
T : (ξ
1
, ξ
2
, ξ
3
, ...) → (ξ
1
,
ξ
2
2
,
ξ
3
3
, ...).
Prove que T ´e um operador compacto e auto-adjunto.
80
24. Espa¸ cos localmente convexos
24.1. Defini¸c˜ao. Diremos que E ´e um espa¸co vetorial topol´ ogico sobre K
se se verificam as seguintes condi¸c˜oes:
(a) E ´e um espa¸co vetorial sobre K.
(b) E ´e um espa¸co topol´ ogico.
(c) As seguintes aplica¸c˜oes s˜ao cont´ınuas:
(x, y) ∈ E E → x +y ∈ E,
(λ, x) ∈ KE → λx ∈ E.
24.2. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co vetorial topol´ ogico. Ent˜ao:
(a) Para cada a ∈ E, a aplica¸ c˜ao x ∈ E → a +x ∈ E ´e um homeomorfismo.
(b) Para cada λ ,= 0 em K, a aplica¸ c˜ao x ∈ E → λx ∈ E ´e um homeomor-
fismo.
Demonstra¸ c˜ao. (a) segue da continuidade da aplica¸ c˜ao (x, y) ∈ E E →
x +y ∈ E. (b) segue da continuidade da aplica¸ c˜ao (λ, x) ∈ KE → λx ∈ E.
24.3. Corol´ario. Seja E um espa¸ co vetorial topol´ ogico. Ent˜ao:
(a) Para cada a ∈ E, U ´e uma vizinhan¸ca de zero se e s´ o se a + U ´e uma
vizinhan¸ca de a.
(b) Para cada λ ,= 0 em K, U ´e uma vizinhan¸ ca de zero se e s´ o se λU ´e
uma vizinhan¸ ca de zero.
24.4. Defini¸c˜ao. Seja E um espa¸co vetorial sobre K.
(a) Um conjunto A ⊂ E ´e dito convexo se (1 − λ)x + λy ∈ A para todo
x, y ∈ A e 0 ≤ λ ≤ 1.
(b) Um conjunto A ⊂ E ´e dito equilibrado se λx ∈ A para todo x ∈ A e
[λ[ ≤ 1.
(c) Um conjunto A ⊂ E ´e dito absorvente se dado x ∈ E, existe δ > 0 tal
que λx ∈ A para todo [λ[ ≤ δ.
24.5. Exemplo. Se E ´e um espa¸co vetorial topol´ ogico, ent˜ ao ´e f´acil ver
que cada vizinhan¸ ca de zero em E ´e um conjunto absorvente. Basta usar a
continuidade da aplica¸ c˜ao λ ∈ K → λx ∈ E em zero para x ∈ E fixo.
24.6. Defini¸c˜ao. Diremos que E ´e um espa¸co localmente convexo se E
´e um espa¸co vetorial topol´ ogico tal que cada vizinhan¸ ca de zero cont´em uma
vizinhan¸ ca convexa de zero.
24.7. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co localmente convexo. Ent˜ao cada
vizinhan¸ca de zero cont´em uma vizinhan¸ ca convexa e equilibrada de zero.
Demonstra¸ c˜ao. Seja U uma vizinhan¸ ca de zero em E. Seja U
1
uma vizin-
han¸ ca convexa de zero em E, U
1
⊂ U. Como a aplica¸c˜ao
(λ, x) ∈ KE → λx ∈ E
81
´e cont´ınua em (0, 0), existem δ > 0 e uma vizinhan¸ ca V de zero em E tais que
λx ∈ U
1
para todo [λ[ ≤ δ e x ∈ V . Seja
V
1
=
_
|λ|≤δ
λV.
Ent˜ ao V
1
´e uma vizinhan¸ ca equilibrada de zero em E, V
1
⊂ U
1
. Seja
W = ¦
n

j=1
λ
j
x
j
: x
j
∈ V
1
, λ
j
≥ 1,
n

j=1
λ
j
= 1¦.
Ent˜ ao W ´e o menor subconjunto convexo de E que cont´em V
1
. Como V
1
´e
equilibrado, segue que W ´e equilibrado. Como V
1
⊂ U
1
, e U
1
´e convexo, segue
que W ⊂ U
1
. Segue que W ´e uma vizinhan¸ ca convexa e equilibrada de zero em
E, W ⊂ U.
24.8. Exemplos. (a)
´
E f´ acil ver que cada espa¸ co normado E ´e um espa¸co
localmente convexo. As bolas B(0; ), com > 0, formam uma base de vizin-
han¸ cas convexas e equilibradas de zero.
(b) Seja E um espa¸ co normado. Dados x
0
∈ E, φ
1
, ..., φ
n
∈ E

e > 0,
consideremos o conjunto
U(x
0
; φ
1
, ..., φ
n
; ) = ¦x ∈ E : sup
1≤j≤n

j
(x −x
0
[ < ¦.
Diremos que um conjunto U ⊂ E ´e aberto para a topologia fraca, que deno-
taremos por σ(E, E

), se para cada x
0
∈ U, U cont´em um conjunto da forma
U(x
0
; φ
1
, ..., φ
n
; ).
´
E f´ acil ver que (E, σ(E, E

)) ´e um espa¸ co localmente con-
vexo. Os conjuntos da forma U(0; φ
1
, ..., φ
n
; ), com φ
1
, ..., φ
n
∈ E

e > 0,
formam uma base de vizinhan¸ cas convexas e equilibradas de zero.
(c) Seja E um espa¸ co normado. Dados φ
0
∈ E

, x
1
, ..., x
n
∈ E e > 0,
consideremos o conjunto
U(φ
0
; x
1
, ..., x
n
; ) = ¦φ ∈ E

: sup
1≤j≤n
[(φ −φ
0
)(x)[ < ¦.
Diremos que um conjunto U ⊂ E

´e aberto para a topologia fraca-estrela, que
denotaremos por σ(E

, E), se para cada φ
0
∈ U, U cont´em um conjunto da
forma U(φ
0
; x
1
, ..., x
n
; ).
´
E f´ acil ver que (E

, σ(E

, E)) ´e um espa¸co localmente
convexo. Os conjuntos da forma U(0; x
1
, ..., x
n
; ), com x
1
, ..., x
n
∈ E e > 0,
formam uma base de vizinhan¸ cas convexas e equilibradas de zero.
(d) Seja X um espa¸ co topol´ ogico, e seja C(X) o espa¸co vetorial de todas as
fun¸ c˜oes cont´ınuas f : X → K. Dados f
0
∈ C(X), K ⊂ X compacto e > 0,
consideremos o conjunto
U(f
0
, K, ) = ¦f ∈ C(X) : sup
x∈K
[f(x) −f
0
(x)[ < ¦.
82
Diremos que um conjunto U ⊂ C(X) ´e aberto para a topologia compacto-aberta,
que denotaremos por τ
0
, se para cada f
0
∈ U, U cont´em um conjunto da forma
U(f
0
, K, ).
´
E f´ acil ver que (C(X), τ
0
) ´e um espa¸co localmente convexo. Os
conjuntos da forma U(0, K, ), com K ⊂ X compacto e > 0, formam uma
base de vizinhan¸cas convexas e equilibradas de zero.
24.9. Defini¸c˜ao. Seja E um espa¸ co vetorial. Uma fun¸ c˜ao p : E → R ´e
chamada de seminorma se verifica as seguintes condi¸c˜oes:
(a) p(x) ≥ 0 para todo x ∈ E.
(b) p(λx) = [λ[p(x) para todo x ∈ E, λ ∈ K.
(c) p(x +y) ≤ p(x) +p(y) para todo x, y ∈ E.
Uma seminorma p ´e uma norma se e s´o se p(x) = 0 implica x = 0.
24.10. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co vetorial, e seja p uma seminorma
em E. Ent˜ao o conjunto
V
p,
= ¦x ∈ E : p(x) < ¦
´e convexo, equilibrado e absorvente, para cada > 0.
A demonstra¸ c˜ao desta proposi¸ c˜ao ´e simples, e ´e deixada como exerc´ıcio.
24.11. Defini¸c˜ao. Seja E um espa¸co vetorial, e seja A um subconjunto
absorvente de E. A fun¸ c˜ao p
A
: E → R definida por
p
A
(x) = inf¦ρ > 0 : x ∈ ρA¦
´e chamada de funcional de Minkowski de A.
24.12. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ coi vetorial, e seja A um subconjunto
convexo, equilibrado e absorvente de E. Ent˜ao:
(a) p
A
´e uma seminorma em E.
(b) ¦x ∈ E : p
A
< 1¦ ⊂ A ⊂ ¦x ∈ E : p
A
(x) ≤ 1¦.
Demonstra¸ c˜ao. (a)
´
E claro que p
A
(x) ≥ 0 para todo x ∈ E. A seguir
provemos que
p
A
(λx) = [λ[p
A
(x) para todo x ∈ E, λ ∈ K.
Isto ´e claro se λ ,= 0. Se λ ,= 0, ent˜ ao, como A ´e equilibrado, temos que
p
A
(λx) = inf¦ρ > 0 : λx ∈ ρA¦ = inf¦ρ > 0 : [λ[x ∈ ρA¦
= inf¦ρ > 0 : x ∈
ρ
[λ[
A¦ = inf¦[λ[σ : σ > 0, x ∈ σA¦ = [λ[p
A
(x).
Finalmente provemos que
p
A
(x +y) ≤ p
A
(x) +p
A
(y) para todo x, y ∈ E.
83
Dado > 0, existem α, β > 0 tais que x ∈ αA, α < p
A
(x) + , x ∈ βA,
β < p
A
(x) +. Como A ´e convexo,
x +y ∈ αA+βA = (α +β)(
α
α +β
A+
β
α +β
A) ⊂ (α +β)A.
Segue que
p
A
(x +y) ≤ α +β ≤ p
A
(x) +p
A
(y) + 2.
Como > 0 ´e arbitr´ ario, a conclus˜ ao desejada segue.
(b) ´e claro.
84
25. O teorema de Hahn-Banach em espa¸cos localmente convexos
Se E ´e um espa¸co vetorial topol´ ogico, denotaremos por E

o espa¸co vetorial
dos funcionais lineares cont´ınuos φ : E → K. Um exame da demonstra¸ c˜ao do
teorema de Hahn-Banach em espa¸cos normados mostra o teorema seguinte.
25.1. Teorema de Hahn-Banach. Seja E um espa¸ co vetorial, e seja M
0
um subespa¸ co de E. Seja p : E → R uma seminorma, e seja φ
0
: M
0
→ K
um funcional linear tal que [φ
0
(x)[ ≤ p(x) para todo x ∈ M
0
. Ent˜ao existe um
funcional linear φ : E →K tal que:
(a) φ(x) = φ
0
(x) para todo x ∈ M
0
;
(b) [φ(x)[ ≤ p(x) para todo x ∈ E.
25.2. Corol´ario. Seja E um espa¸ co localmente convexo, e seja M
0
um
subespa¸co de E. Ent˜ao, dado φ
0
∈ M

0
, sempre existe φ ∈ E

tal que φ(x) =
φ
0
(x) para todo x ∈ M
0
.
Demonstra¸ c˜ao. O conjunto
U = ¦x ∈ M
0
: [φ
0
(x)[ < 1¦
´e uma vizinhan¸ ca aberta de zero em M
0
. Seja V uma vizinhan¸ ca aberta de zero
em E tal que V ∩ M
0
= U. Seja W uma vizinhan¸ ca convexa e equilibrada de
zero em E tal que W ⊂ V . Ent˜ ao W ∩ M
0
⊂ U e
¦x ∈ E : p
W
(x) < 1¦ ⊂ W ⊂ ¦x ∈ E : p
W
(x) ≤ 1¦.
Se x ∈ M
0
e p
W
(x) < 1, segue que [φ
0
(x)[ < 1, e dai segue que [φ
0
(x)[ ≤ p
W
(x)
para todo x ∈ M
0
. Pelo teorema anterior existe um funcional linear φ : E → K
tal que φ(x) = φ
0
(x) para todo x ∈ M
0
e [φ(x)[ ≤ p
W
(x) para todo x ∈ E.
Segue que [φ(x)[ ≤ para todo x ∈ W. Em particular φ ´e cont´ınuo.
25.3. Corol´ario. Seja E um espa¸ co localmente convexo de Hausdorff.
Ent˜ao, dado x ,= 0 em E, sempre existe φ ∈ E

tal que φ(x) ,= 0.
Demonstra¸ c˜ao. Sendo E um espa¸co de Hausdorff, existe uma vizinhan¸ ca
U de zero tal que x / ∈ U. Sem perda de generalidade podemos supor que U ´e
equilibrada. Isto implica que [λ[ < 1 sempre que λx ∈ U, e portanto
(1) [λ[ < sempre que λx ∈ U.
Seja M
0
= [x], e seja φ
0
: M
0
→ K definido por φ
0
(λx) = λ. φ
0
´e claramente
linear, e segue de (1) que φ
0
´e cont´ınuo. Pelo corol´ ario anterior existe φ ∈ E

tal que φ(y) = φ
0
(y) para todo y ∈ M
0
. Em particular φ(x) = 1 ,= 0.
25.4. Corol´ario. Seja E um espa¸ co vetorial topol´ ogico, seja A um subcon-
junto convexo, equilibrado e aberto de E, e seja b ∈ E ¸ A. Ent˜ao existe φ ∈ E

tal que φ(b) ≥ 1 e [φ(a)[ < 1 para todo a ∈ A.
Demonstra¸ c˜ao. Pela Proposi¸ c˜ao 24.12
¦x ∈ E : p
A
(x) < 1¦ ⊂ A ⊂ ¦x ∈ E : p
A
(x) ≤ 1¦.
85
Como A ´e aberto, segue que
A = ¦x ∈ E : p
A
< 1¦,
e portanto p
A
(b) ≥ 1.
Seja M
0
= [b], e seja φ
0
: M
0
→ K definido por φ
0
(λb) = λp
A
(b) para todo
λ. φ
0
´e claramente linear e [φ
0
(λb)[ = p
A
(λb) para todo λ. Pelo Teorema 25.1
existe φ ∈ E

tal que φ(λb) = λp
A
(b) para todo λ e [φ(x)[ ≤ p
A
(x) para todo
x ∈ E. Em particular φ ´e cont´ınuo, φ(b) = p
A
(b) ≥ 1 e [φ(a)[ ≤ p
A
(a) < 1 para
todo a ∈ A.
25.5. Corol´ario. Seja E um espa¸ co localmente convexo, seja A um sub-
conjunto convexo, equilibrado e fechado de E, e seja b ∈ E ¸ A. Ent˜ao existe
φ ∈ E

tal que φ(b) > 1 e [φ(a)[ ≤ 1 para todo a ∈ A.
Demonstra¸ c˜ao. Seja U uma vizinhan¸ ca convexa e equilibrada de zero tal
que (b +2U) ∩A = ∅, e portanto (b +U) ∩(A+U) = ∅. Seja C = A+U. Pela
Proposi¸ c˜ao 24.12
¦x ∈ E : p
C
(x) < 1¦ ⊂ C ⊂ ¦x ∈ E : p
C
(x) ≤ 1¦.
Como C ´e fechado, segue que
C = ¦x ∈ E : p
C
(x) ≤ 1¦,
e portanto p
C
(b) > 1.
Seja M
0
= [b], e seja φ
0
: M
0
→ K definido por φ
0
(λb) = λp
C
(b) para todo
λp
C
(b). φ
0
´e claramente linear e φ
0
(λb) = p
C
(λb) para todo λ. Pelo Teorema
25.1 existe φ ∈ E

tal que φ(λb) = λp
C
(b) para todo λ e [φ(x)[ ≤ p
C
(x) para
todo x ∈ E. Em particular φ ´e cont´ınuo, φ(b) = p
C
(b) > 1 e [φ(a)[ ≤ p
C
(a) ≤ 1
para todo a ∈ A.
86
26. A topologia fraca
Seja E um espa¸co normado. Lembremos que a topologia fraca σ(E, E

), ´e
a topologia que admite como base de vizinhan¸ cas de x
0
∈ E os conjuntos da
forma
U(x
0
; φ
1
, ..., φ
n
; ) = ¦x ∈ E : [φ
j
(x −x
0
)[ < para 1 ≤ j ≤ n¦,
com φ
1
, ..., φ
n
∈ E

e > 0. Denotemos por τ
E
a topologia da norma em
E. Como cada vizinhan¸ ca U(0; φ
1
, ..., φ
n
; ) cont´em uma bola, ´e claro que
σ(E, E

) ≤ τ
E
.
26.1. Observa¸c˜ao. N˜ao ´e dif´ıcil provar que cada vizinhan¸ ca da forma
U(0; φ
1
, ..., φ
n
; ) cont´em uma vizinhan¸ ca da forma U(0; ψ
1
, ..., ψ
m
; δ), comψ
1
, ..., ψ
m
linearmente independentes.
26.2. Proposi¸c˜ao. Se E ´e um espa¸ co normado, ent˜ao (E, σ(E, E

))

= E

.
Demonstra¸ c˜ao. Como σ(E, E

)) ≤ τ
E
, ´e claro que
(E, σ(E, E

))

⊂ E

.
Para provar a inclus˜ ao oposta, seja φ ∈ E

. Como
U(0; φ; ) = ¦x ∈ E : [φ(x)[ < ¦,
´e claro que φ ´e σ(E, E

)-cont´ınua.
O lema seguinte ´e muito ´ util.
26.3. Lema. Seja E um espa¸ co vetorial, e sejam φ
1
, ..., φ
n
, φ ∈ E

tais que
n

j=1
φ
−1
j
(0) ⊂ φ
−1
(0).
Ent˜ao φ ´e combina¸ c˜ao linear de φ
1
, ..., φ
n
.
Demonstra¸ c˜ao. Seja T : E → K
n
definida por
Tx = (φ
1
(x), ..., φ
n
(x)).
Ent˜ ao T ´e linear, e segue da hip´ otese que T
−1
(0) ⊂ φ
−1
(0). Se definimos
ψ : T(E) → K por ψ(Tx) = φ(x), ent˜ ao ψ est´a bem definida e ´e linear. Seja
Ψ : K
n
→ K uma transforma¸ c˜ao linear tal que Ψ[T(E) = ψ. Se (e
1
, ..., e
n
) ´e a
base canˆonica de K
n
, ent˜ ao
φ(x) = ψ(Tx) = Ψ(Tx) = Ψ(φ
1
(x), ..., φ
n
(x))
= Ψ(
n

j=1
φ
j
(x)e
j
) =
n

j=1
φ
j
(x)Ψ(e
j
).
87
26.4. Corol´ario. Seja E um espa¸ co vetorial, e sejam φ
1
, ..., φ
n
∈ E

funcionais lineares linearmente independentes. Ent˜ ao:
(a) Existen vetores x
1
, ..., x
n
∈ E tais que φ
j
(x
k
) = δ
jk
para j, k = 1, ...n.
(b) E = [x
1
, ..., x
n
] ⊕

n
j=1
φ
−1
j
(0) algebricamente.
26.5. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co normado. Ent˜ao σ(E, E

) = τ
E
se
es´ o se E tem dimens˜ ao finita.
Demonstra¸ c˜ao. Suponhamos que E tenha dimens˜ao finita. Seja (e
1
, ..., e
n
)
uma base de E, e seja (φ
1
, ..., φ
n
) a base dual. Seja T : E →
n

o isomorfismo
canˆ onico, ou seja Tx = (φ
1
(x), ..., φ
n
(x)) para cada x ∈ E. Ent˜ ao T ´e um
isomorfismo topol´ ogico, e T transforma a vizinhan¸ ca U(0; φ
1
, ..., φ
n
; ) na bola
B(0; ). Isto prova que as topologias σ(E, E

) e τ
E
coincidem.
Reciporocamente suponhamos que σ(E, E

) = τ
E
. Ent˜ ao a bola B
E
cont´em
uma vizinhan¸ ca da forma U(φ
1
, ...φ
n
; ), com φ
1
, ..., φ
n
linearmente indepen-
dentes. Assim temos que
B
E
⊃ U(0; φ
1
, ..., φ
n
; ) ⊃
n

j=1
φ
−1
j
(0).
Pelo Corol´ ario 26.4 existem vetores x
1
, ..., x
n
∈ E tais que
E = [x
1
, ..., x
n
] ⊕
n

j=1
φ
−1
j
(0).
Como a bola B
E
n˜ ao pode conter um subespa¸ co vetorial n˜ ao trivial, conclu´ımos
que

n
j=1
φ
−1
j
(0) = ¦0¦, e portanto E = [x
1
, ..., x
n
] tem dimens˜ao finita.
88
27. A topologia fraca estrela
Seja E um espa¸ co normado. Lembremos que a topologia fraca estrela σ(E

, E),
´e a topologia que admite como base de vizinhan¸cas de φ
0
∈ E

os conjuntos da
forma
U(φ
0
; x
1
, ..., x
n
; ) = ¦φ ∈ E

: [(φ −φ
0
)(x
j
)[ < para 1 ≤ j ≤ n¦,
com x
1
, ..., x
n
∈ E e > 0.
´
E claro que σ(E

, E) ≤ σ(E

, E

) ≤ τ
E
.
27.1. Observa¸c˜ao. N˜ao ´e dif´ıcil provar que cada vizinhan¸ ca da forma
U(0; x
1
, ..., x
n
; ) cont´em uma vizinhan¸ ca da forma U(0; y
1
, ..., y
m
; δ), comy
1
, ..., y
m
linearmente independentes.
27.2. Proposi¸c˜ao. Se E um espa¸ co normado, ent˜ao (E

, σ(E

, E))

= E.
Demonstra¸ c˜ao. Cada x ∈ E define um funcional linear
ˆ x : φ ∈ E

→ φ(x) ∈ K,
que ´e claramente cont´ınuo para σ(E

, E). Isto prova que
E ⊂ (E

, σ(E

, E))

.
Para provar a inclus˜ ao oposta, seja T ∈ (E

, σ(E

, E))

. Ent˜ ao existemx
1
, ..., x
n

E e > 0 tais que
U(0; x
1
, ..., x
n
; ) ⊂ ¦φ ∈ E

: [T(φ)[ < 1¦.
Segue que
n

j=1
ˆ x
−1
j
(0) ⊂ T
−1
(0).
Pelo Lema 26.3 T ´e combina¸c˜ao linear dos funcionais ˆ x
j
, ou seja
T(φ) =
n

j=1
α
j
φ(x
j
) = φ(
n

j=1
α
j
x
j
)
para cada φ ∈ E

. Assim T = ˆ x, onde x =

n
j=1
α
j
x
j
.
27.3. Proposi¸c˜ao. Seja E um espa¸ co normado. Ent˜ao σ(E

, E) = τ
E
se
e s´ o se E tem dimens˜ ao finita.
Demonstra¸ c˜ao. Suponhamos que E tenha dimens˜ao finita. Seja (e
1
, ..., e
n
)
uma base de E, e seja (φ
1
, ..., φ
n
) a base dual. Seja T : E


n

o isomorfismo
canˆ onico, ou seja Tφ = (φ(e
1
), ..., φ(e
n
)) para cada φ ∈ E

. Ent˜ ao T ´e um
isomorfismo topol´ ogico, e T transforma a vizinhan¸ ca U(0; e
1
, ..., e
n
; ) na bola
B(0; ) . Isto prova que as topologias σ(E

, E) e τ
E
coincidem.
Reciprocamente, suponhamos que σ(E

, E) = τ
E
. Segue que σ(E

, E

) =
τ
E
. Pela Proposi¸ c˜ao 26.5 E

tem dimens˜ao finita. Logo E tem dimens˜ao finita.
89
27.4. Teorema de Goldstine. Seja E um espa¸ co normado. Ent˜ao:
(a) B
E
= B
σ(E

,E

)
E
.
(b) E

= E
σ(E

,E

)
.
Demonstra¸ c˜ao. Basta provar (a), pois (b) ´e conseq¨ uˆencia imediata de (a).
´
E claro que B
E
⊂ B
E
, e que B
E
´e σ(E

, E

)-fechada. Logo
B
σ(E

,E

)
E
⊂ B
E
.
Para provar a inclus˜ ao oposta suponhamos que exista
y

∈ B
E
¸ B
σ(E

,E

)
E
.
Como B
σ(E

,E

)
E
´e convexo, equilibrado e σ(E

, E

)-fechado, o Teorema 25.5
garante a existˆencia de T ∈ (E

, σ(E

, E

))

tal que
[T(y

)[ > sup¦[T(x

)[ : x

∈ B
σ(E

,E

)
E
¦.
Como (E

, σ(E

, E

))

= E

, pela Proposi¸ c˜ao 27.2, existe y

∈ E

tal que
T(y

) = y

(y

) para todo y

∈ E

. Logo
[y

(y

)[ > sup¦[y

(x)[ : x ∈ B
E
¦ = |y

|.
Seja z

= y

/|y

|. Ent˜ ao [y

(z

)[ > 1, absurdo, pois z

∈ B
E
e y

∈ B
E
.
27.5. Teorema de Alaoglu. Se E ´e um espa¸ co normado, ent˜ao a bola
B
E
´e σ(E

, E)-compacta.
Demonstra¸ c˜ao. Seja T : E

→ K
E
definida por
T(φ) = (φ(x))
x∈E
.
Ent˜ ao T ´e um isomorfismo topol´ ogico entre (E

, σ(E

, E)) e sua imagem em K
E
.
Se D(0; r) denota a bola fechada de centro 0 e raio r em K, ent˜ ao ´e claro que
T(B
E
) ⊂

x∈E
D(0; |x|).
Pelo teorema de Tychonoff o produto

x∈E
D(0; |x|) ´e compacto. Para com-
pletar a demonstra¸ c˜ao basta provar que T(B
E
) ´e fechado em

x∈E
D(0; |x|).
Seja (φ
i
) uma rede em B
E
tal que (T(φ
i
)) converge a g em

x∈E
D(0; |x|),
ou seja φ
i
(x) → g(x) para cada x ∈ E. Como cada φ
i
´e linear, ´e f´acil ver que g
´e linear. E como g(x) ∈ D(0; |x[[) para cada x ∈ E, concluimos que g ∈ B
E
.
27.6. Teorema. Um espa¸co normado E ´e reflexivo se e s´ o se a bola B
E
´e
σ(E, E

)-compacta.
Demonstra¸ c˜ao. Suponhamos que E seja reflexivo. Sabemos que a inclus˜ao
canˆ onica E → E

´e uma isometria, e al´em disso a topologia σ(E

, E

) em E

90
induz a topologia σ(E, E

) em E. Assim, se E ´e reflexivo, ent˜ao B
E
= B
E

e as topologias σ(E, E

) e σ(E

, E

) coincidem em B
E
= B
E
. Como B
E

´e σ(E

, E

)-compacto, pelo Teorema de Alaoglu, segue que B
E
´e σ(E, E

)-
compacto.
Reciprocamente suponhamos que a bola B
E
seja σ(E, E

)-compacta. Pelo
Teorema de Goldstine temos que
B
E
= B
σ(E

,E

)
E
.
Assim, dado x

∈ B
E
, existe uma rede (x
i
) ⊂ B
E
tal que
¸x

, x

) = lim¸x

, x
i
)
para todo x

∈ E

. Como a bola B
E
´e σ(E, E

)-compacta, a rede (x
i
) admite
uma subrede (x
θ(j)
) que converge fracamente a um ponto x ∈ B
E
, ou seja
¸x

, x) = lim¸x

, x
θ(j)
).
Segue que
¸x

, x

) = lim¸x

, x
θ(j)
) = ¸x

, x)
para todo x

∈ E

, e portanto x

= x. Logo B
E
= B
E
, e E ´e reflexivo.
91

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