Poema de sete faces Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos!

ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. Infância A Abgar Renault Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, Comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom.

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Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: - Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Casamento do céu e do inferno No azul do céu de metileno a lua irônica diurética é uma gravura de sala de jantar. Anjos da guarda em expedição noturna velam sonos púberes espantando mosquitos de cortinados e grinaldas. Pela escada em espiral diz-que tem virgens tresmalhadas, incorporadas à via-láctea, vaga-lumeando... Por uma frincha O diabo espreita com o olho torto. Diabo tem uma luneta Que varre léguas de sete léguas E tem ouvido fino Que nem violino. São Pedro dorme E o relógio do céu ronca mecânico. Diabo espreita por uma frincha. Lá embaixo Suspiram bocas machucadas. Suspiram rezas? Suspiram manso, de amor. E os corpos enrolados ficam mais enrolados ainda e a carne penetra na carne. Que a vontade de Deus se cumpra! Tirante Laura e talvez Beatriz, o resto vai para o inferno.

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Também já fui brasileiro Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. Ponteei viola, guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam. Eu também já fui poeta. Bastava olhar para mulher, pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes. Mas eram tantas, o céu tamanho, minha poesia perturbou-se. Eu também já tive meu ritmo. Fazia isso, dizia aquilo. E meus amigos me queriam, meus inimigos me odiavam. Eu irônico deslizava satisfeito de ter meu ritmo. Mas acabei confundindo tudo. Hoje não deslizo mais não, não sou irônico mais não, não tenho ritmo mais não. Construção Um grito pula no ar como foguete. Vem da paisagem de barro úmido, caliça e andaimes hirtos. O sol cai sobre as coisas em placa fervendo. O sorveteiro corta a rua. E o vento brinca nos bigodes do construtor. Toada do amor E o amor sempre está nessa toada: Briga perdoa perdoa briga. Não se deve xingar a vida, a gente vive, depois esquece. Só o amor volta para brigar, Para perdoar, Amor cachorro bandido trem. Mas se não fosse ele, também Que graça que a vida tinha? Mariquita, dá cá o pito, No teu pito está o infinito.

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Mas a Rússia tem as cores da vida. E a Suíça cândida se oferece Numa coleção de postais de altitudes altíssimas. Ai terra que tem palmeiras onde canta o sabiá! Lanterna Mágica I/ BELO HORIZONTE Meus olhos têm melancolias. Debaixo de cada árvore faço minha cama. Tarifas bancos fábricas trustes craques.. O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a declanchar. Chega! Meus olhos brasileiros se fecham saudosos. Paris. embigo do mundo. Minha boca tem rugas. O pulo da Mancha num segundo. Hamburgo. Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa. 4 . Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas formam um tapete para [sua Graciosa Majestade Britânica pisar. Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista e no túmulo de [Lênin em Moscou parece que um coração [enorme está batendo.. batendo mas não bate igual ao da gente. Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas. E a lua de Londres como um remorso. Vulcões que nunca estiveram acesos A não ser na cabeça de Mussolini. Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros dentro de alguns [anos. Os cais bolorentos de livros judeus E a água suja do Sena escorrendo sabedoria. Velha cidade! As árvores tão repetidas. A Rússia é vermelha e branca. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo... Não há mais Turquia. Submarinos inúteis retalham mares vencidos. O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados. França e Bahia Meus olhos brasileiros sonhando exotismos. Minha boca procura a “Canção do Exílio”.Europa. A Itália explora conscienciosamente vulcões apagados. Como era mesmo a “Canção do Exílio”? Eu tão esquecido de minha terra.

5 .) Só as igrejas só as torres pontudas das igrejas não brincam de esconder. Não a que corre.em cada ramo dependuro meu paletó. entrevada. Mas tudo tudo é inexoravelmente colonial: bancos janelas fechaduras lampiões. Bem-feito! Eu fico cá embaixo maginando na ponte moderna — moderna por quê? A água que corre já viu o Borba. com vergonha do trem. Ai tempo! Nem é bom pensar nessas coisas mortas. Lirismo.. Na água suja. (Atrás daquele morro. mas a que não pára nunca de correr. casas encardidas onde há velhas nas janelas. cidade teimosa! Nem Siderúrgica nem Central nem roda manhosa de forde sacode a modorra de Sabará-buçu. O Rio das Velhas lambe as casas velhas. a Matriz — que é toda de ouro.. Sabará veste com orgulho os seus andrajos. rebanho dócil pastoreado por igrejas: a do Carmo — que é toda de pedra.. Dona Maria Pimenta morreu. barrenta. muito mortas. II/ SABARÁ A Aníbal M. E o velho fraque na casinha de alpendre com duas janelas dolorosas. Os séculos cheiram a mofo e a história é cheia de teias de aranha. a canoa deixa um sulco logo apagado. Machado A dois passos da cidade importante a cidadezinha está calada. O casario alastra-se na cacunda dos morros. Pelos jardins versailles ingenuidade de velocípedes.. Faz muito bem. Quede os bandeirantes? O Borba sumiu. Ruas em pé pé-de-moleque PENÇÃO DE JUAQUINA AGULHA Quem não subir direito toma vaia.

IV/ITABIRA Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê.Pernas morenas de lavadeiras. palpitam na água cansada. E a longa voz que sobe que sobe do morro que sobe. Os homens olham para o chão.. VI/NOVA FRIBURGO Esqueci um ramo de flores no sobretudo 6 . Almas antigas que nem casas. Sinos começam a dobrar. As ruas cheias de mulas-sem-cabeça correndo para o Rio das Mortes e a cidade paralítica no sol espiando a sombra dos emboabas no encantamento das alfaias. E todo me envolve uma sensação fina e grossa. Os meninos seguem para a escola. Os ingleses compram a mina.. Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável. V/SÃO JOÃO DEL-REI Quem foi que apitou? Deixa dormir o Aleijadinho coitadinho. Casas torcidas. Melancolia das legendas. Só na porta da venda. III/CAETÉ A igreja de costas para o trem. E o trem bufando na ponte preta é um bicho comendo casas velhas. Nuvens que são cabeças de santo. tão musculosas que parece que foi o Aleijadinho que as esculpiu. O presente vem de mansinho de repente dá um salto: cartaz de cinema com fita americana. Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos.

Fútil nas sorveterias. Onde meu vermelho? Virou cinza. A lagoa.. A rua diferente Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas.. Eu vi a lagoa. O mar não me importa. E tantos adultérios também. Não sei se o mar é bonito.VII/RIO DE JANEIRO Fios nervos riscos faíscas. Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas. Minha rua acordou mudada. Mas eu nunca fui lá.) Meu coração vai molemente dentro do táxi. Só minha filha goza o espetáculo e se diverte com os andaimes.. sim. Pedante nas livrarias. (Este povo quer me passar a perna. Passou boa! Peço a palavra! Meus amigos estão todos satisfeitos com a vida dos outros. 7 . Nas praias nu nu nu nu nu nu. Mas tantos assassinatos. Tu tu tu tu tu no meu coração. a luz da solda autógena e o cimento escorrendo nas fôrmas. meu Deus. A lagoa é grande e calma também.. não sei se ele é bravo. Os vizinhos não se conformam. E tantos tantíssimos contos-do-vigário. Lagoa Eu não vi o mar... VIII/BAHIA É preciso fazer um poema sobre a Bahia. As cores nascem e morrem com impudor violento.

As beatas foram ver. Fechou a porta. Política literária A Manuel Bandeira 8 . Não tem neves. O que fizeram no natal Natal. me consolou. acabou. Cantiga de viúvo A noite caiu na minh’alma.. Uma sombra veio vindo. fiquei triste sem querer. não tem gelos. As beatas ajoelharam e adoraram o deus nuzinho mas as filhas das beatas e os namorados das filhas. mas as filhas das beatas foram dançar black-bottom nos clubes sem presépio. Era a sombra de meu bem que morreu há tanto tempo.. Natal.. veio vindo. Natal. O sino longe toca fino. me abraçou.. me disse adeus com a cabeça e saiu. Ouvi seus passos na escada. Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fogo me beijou. Já nasceu o deus menino. Eu vi a lagoa. Depois riu devagarinho.Na chuva de cores da tarde que explode a lagoa brilha a lagoa se pinta de todas as cores. Depois mais nada. Eu não vi o mar. encontraram o coitadinho (Natal) mais o boi mais o burrinho e lá em cima a estrelinha alumiando.

O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal.” No meio do caminho No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. o murmúrio das invocações. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. O canto dos homens trabalhando trabalhando mais perto do céu cada vez mais perto mais — a torre. O padre que fala do inferno sem nunca ter ido lá.. cheia de escamas e debruçados na mesa todos contenmplam esse rom^ntico trabalho. uma letra somente para acabar teu nome! — Está sonhando? Olhe que a sopa esfria! Eu estava sonhando.. 9 . Igreja A Wellington Brandão Tijolo areia andaime água tijolo. No prato. Enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz. E nos domingos a litania dos perdões. Sentimental Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão. a sopa esfria. Ehá em todas as consciências um cartaz amarelo: “Neste país é proibido sonhar. Desgraçadamente falta uma letra.

A mão que escreve este poema não sabe que está escrevendo mas é possível que se soubesse nem ligasse. Política A Mário Cassassanta Vivia jogado em casa. Esperteza Tenho vontade de — ponhamos amar por esporte uma loura o espaço de um dia.Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos. Apanharia. no alto ficou Deus. seria eu mesmo. O jornal governista ridicularizava seus versos. E ela ficaria espantada de ver um homem esperto. Poema que aconteceu Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo. entoam quirieleisão. Entrou a tomar porres 10 . Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida. sorriria mas acabado o jogo não seria mais joguete. no meio. Sentia-se diminuído na sua glória enquanto crescia a dos rivais que apoiavam a Câmara em exercício. Os amigos o abandonaram quando rompeu com o chefe político. Certo me tornaria brinquedo nas suas mãos. Domingo… Bem bão! Bem bão! Os serafins. A manhã pintou-se de azul. os versos que ele sabia bons. No adro ficou o ateu.

A fumaça de meu cachimbo subindo.violentos. Mas surge o imenso chá com torradas. Ora afinal a vida é um bruto romance e nós vivemos folhetins sem o saber. A ulher ensangüentada grita. E teve vontade de se atirar (só vontade). infinitamente livre livre livre que nem uma besta que nem uma coisa. Depois voltou para casa livre. chá de minha burguesia contente. mentiras. A pena escreve. Se só os outros poetas eram imitados. E a desleixar os versos. Teu braço morno me envolvendo. Poema do Jornal O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia. Vem da sala de linotipos a doce música mecânica. diários.. sem correntes muito livre. Ladrões arrombam o cofre. Parou na ponte sobre o rio moroso. Ó gozo de minha poltrona! Ó doçura de folhetim! Ó bocejo de felicidade! 11 . Sweet Home A Ribeiro Couto Quebra-luz. O marido está matando a mulher. Se já não tinha discípulos. aconchego. Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês. Uma ocasião em que não tinha dinheiro para tomar o seu conhaque saiu à toa pelas ruas escuras.. O jornal conta histórias. A polícia dissolve o meeting. o rio que lá embaixo pouco se importava com ele e no entanto o chamava para misteriosos carnavais.

Nota social O poeta chega na estação. O poeta desembarca. O poeta toma um auto. O poeta vai para o hotel. E enquanto ele faz isso como qualquer homem da terra, uma ovação o persegue feito vaia. Bandeirolas abrem alas. Bandas de música. Foguetes. Discursos. Povo de chapéu de palha. Máquinas fotográficas assestadas. Automóveis imóveis. Bravos… O poeta está melancólico. Numa árvore do passeio público (melhoramento da atual administração) árvore gorda, prisioneira de anúncios coloridos, árvore banal, árvore que ninguém vê canta uma cigarra. Canta uma cigarra que ninguém ouve um hino que ninguém aplaude. Canta, no sol danado. O poeta entra no elevador o poeta sobe o poeta fecha-se no quarto. O poeta está melancólico. Coração numeroso Foi no Rio. Eu passava na Avenida quase meia-noite. Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis. Havia a promessa do mar e bondes tilintavam, abafando o calor que soprava no vento e o vento vinha de Minas. Meus paralíticos sonhos desgosto de viver (a vida para mim é vontade de morrer) faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente na Galeria Cruzeiro quente quente e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro, nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso. Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas

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autos abertos correndo caminho do mar voluptosidade errante do calor mil presentes da vida aos homens indiferentes, que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram. O mar batia em meu peito, já não sabia no cais. A rua acabou, quede árvores? a cidade sou eu a cidade sou eu sou eu a cidade meu amor. Poesia Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. Festa no brejo A saparia desesperada coaxa coaxa coaxa. O brejo vibra que nem caixa de guerra. Os sapos estão danados. A lua gorda apareceu e clareou o brejo todo. Até à lua sobe ao coro da sapataria desesperada. A saparia toda de Minas coaxa no brejo humilde. Hoje tem festa no brejo! Jardim da praça da Liberdade A Gustavo Capanema Verdes bulindo. Sonata cariciosa da água fugindo entre rosas geométricas. Ventos elísios. Macio. Jardim tão pouco brasileiro... mas tão lindo. Paisagem sem fundo. A terra não sofreu para dar estas flores. Sem ressonância. O minuto que passa desabrochando em floração inconsciente. Bonito demais. Sem humanidade.

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Literário demais. (Pobres jardins do meu sertão, atrás da Serra do Curral! Nem repuxos frios nem tanques langues, nem bombas nem jardineiros oficiais. Só o mato crescendo indiferente entre sempre-vivas desbotadas e o olhar desditoso da moça desfolhando malmequeres.) Jardim da Praça da Liberdade, Versailles entre bondes. Na moldura das Secretarias compenetradas a graça inteligente da relva compõe o sonho dos verdes. PROIBIDO PISAR NO GRAMADO Talvez fosse melhor dizer: PROIBIDO COMER O GRAMADO A prefeitura vigilante Vela a soneca das ervinhas. E o capote preto do guarda é uma bandeira na noite estrelada de funcionários. De repente uma banda preta vermelha retinta suando bate um dobrado batuta na doçura do jardim. Repuxos espavoridos fugindo. Cidadezinha qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar. Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar... as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus. Fuga As atitudes inefáveis, os inexprimíveis delíquios, êxtases, espasmos, beatitudes não são possíveis no Brasil. O poeta vai enchendo a mala, põe camisas, punhos loções, um exemplar da Imitação e parte para outros rumos.

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moreno. Um silvo longo e breve: Motoristas a postos. Enquanto os bárbaros sem barbas sob o Cruzeiro do Sul se entregam perdidamente sem anatólios nem capitólios aos deboches americanos. o de Thaïs. jóia soberba. não há morfina igual a essa divina papa-fina. Tateando na escuridão torceu o comutador e a eletricidade bateu nas coisas resignadas. entrou cauteloso que nem marido depois da farra.) Papai Noel às avessas A Afonso Arinos (sobrinho) Papai Noel entrou pela porta dos fundo (no Brasil as chaminés não são praticáveis). Sinal de apito Um silvo breve: Atenção. Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna. Dois silvos breves: Pare. Não há cocaína. não respeita meu fraque preto. (A este sinal todos os motoristas tomam lugar nos seus veículos para movimentá-los imediatamente. 15 . achou um queijo e comeu. Povo feio. — Se eu tivesse cinco mil pernas (diz ele) fugia com todas elas. bruto. Vou perder-me nas mil orgias do pensamento greco-latino. Joga-lhe um mico uma banana. Museus! estátuas! catedrais! O Brasil só tem canibais. por um tico não vai ao fundo. Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos. Na Europa reina a geometria e todo mundo anda — como eu — de luto.A vaia amarela dos papagaios rompe o silêncio da despedida. siga. Estou de luto por Anatole France. Um silvo longo: Diminua a marcha. coisas que continuavam coisas no mistério do Natal. Dito isso fechou-se em copas.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos soldados mulheres elefantes navios e um presidente de república de celulóide. Papai Noel voltou de manso para a cozinha. a goiabada na sobremesa de domingo. o turco. Fez a trouxa e deu o nó. Longe um galo comunicou o nascimento de Critsto. a cama. mas apertou tanto que lá dentro mulheres elefantes soldados presidentes brigavam por causa do aperto. A espreguiçadeira. Sendo uma ainda de colo. Na horta. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. Papai entrou compenetrado. o gramofone rouco toda noite e a mulher que trata de tudo. o cigarro. Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças (no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada) e avançou pelo corredor branco de luar. Raimundo morreu de desastre. a gangorra. o médico uma vês por mês. Os pequenos continuavam dormindo. A cozinheira preta. o trabalho. Papai Noel agachou e recolheu aquilo tudo no interminável lenço vermelho de alcobaça. o gato.Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender. João foi pra os Estados Unidos. as galinhas gordas no palmo de horta e a mulher que trata de tudo. Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Aquele quarto é o das crianças. Maria ficou para tia. o cachorro. o leiteiro. a reza. O agiota. o palito nos dentes contentes. Quadrilha João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. 16 . o luar de Natal abençoava os legumes. a copeira mulata. apagou a luz. Teresa para o convento. Família Três meninos e duas meninas. o papagaio. o bilhete todas as semanas branco! Mas a esperança sempre verde. saiu pela porta dos fundos.

A mulher que trata de tudo e a felicidade. O último trovador morreu em 1914.. Moça bonita foi feita para namorar. . Soldado barbudo foi feito para brigar.. Passam soldados. Não precisa estômago para digestão. passam soldados. Meus olhos espiam as pernas que passam. Passam mulheres. para brigar.) Moça e soldado Meus olhos espiam a rua que passa. Mas até lá. felizmente. Tinha um nome de que ninguém se lembra mais. Inabitável. Paletós abotoam-se por eletricidade. o mundo é cada vez mais habitado. estarei morto. Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Meus olhos espiam. 17 . (Desconfio que escrevi o poema. Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Amor se faz pelo sem fio. clarins e pernas que passam. Tambores. Se quer fumar um charuto aperte um botão. Meus olhos espiam espiam espiam soldados que marcham moças bonitas soldados barbudos …para namorar. O sobrevivente A Cyro dos Anjos Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade. Nem todas são grossas… Meus olhos espiam. Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. Impossível escrever um poema — uma linha que seja — de verdadeira poesia. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio. mas todas são pernas. Os percevejos heróicos renascem.

O dia era quente. o mundo afundou. Anedota búlgara Era uma vez um czar naturalista que caçava homens. ficou muito espantado e achou uma barbaridade. girava no espaço verde. Música A Pedro Nava Uma coisa triste no fundo da sala. A rede virou. com duas tetas imensas. o dia era quente. Uma lavadeira.Só eu não brigo. os passos que era preciso dar. me deu as maminhas que erma só minhas. O sol lá em cima. as dificuldades. E como eu não tinha que fazer vivia namorando as pernas morenas da lavadeira. Um dia ela veio para a rede. Enquadrei o Chopim na minha tristeza e na dentadura amarela e preta meus cuidados voaram como borboletas. as folhas no meio. A vida parou ou foi o automóvel? Iniciação amorosa A rede entre duas mangueiras Balançava no mundo profundo. Me disseram que era Chopim. se enroscou nos meus braços.. Eu considerei as contas que preciso pagar.. sem vento. Cota zero Stop. 18 . Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas. me deu um abraço. Depois fui para a cama febre 40 graus de febre. Só eu não namoro. A mulher de braços redondos que nem coxas martelava na dentadura dura sob o lustre complacente.

perseguidor de cristãos. Na porta da catacumba encontrei-te novamente. Mas depois de muitas peripécias. Você é uma loura notável. Depois (tempos mais amenos) fui cortesão de Versailles. Eu era grego. brigamos. Depois fui pirata mouro. boxo. dei um pulo desesperado e o leão comeu nós dois.Balada do amor através das idades Eu te gosto. Me suicidei também. espirituoso e devasso. Mas quando vi você nua caída na areia do circo e o leão que vinha vindo. você fez o sinal-da-cruz e rasgou o peito a punhal. boxa. você me gosta desde tempos imemoriais. Matei. flagelo da Tripolitânia. te abraço. Hoje sou moço moderno. você troiana.. tenho dinheiro no banco. eu. remo. pula. troiana mas não Helena. rema. danço. Pulei muro de convento mas complicações políticas nos levaram à guilhotina. Mas quando ia te pegar e te fazer minha escrava. Saí do cavalo de pau para matar seu irmão. herói da Paramount. Com olhos morenos estou despindo 19 . Toquei fogo na fragata onde você se escondia da fúria de meu bergantim. Seu pai é que não faz gosto.. Você cismou de ser freita. dança. Virei soldado romano. morremos. pulo. Cabaré mineiro A dançarina espanhola de Montes Claros dança e redança na sala mestiça... beijo e casamos.

seu corpo gordo picado de mosquito. Procuro uma noiva loura morena preta ou azul uma noiva verde uma noiva no ar como um passarinho. soltou uma dúzia de foguetes. O amigo enfeitou a casa e quando o homem chegou com a mulher. que o amor não pode esperar! Epigrama para Emílio Moura Tristeza de ver s tarde cair como cai uma folha. Como rebola as nádegas amarelas! Cem olhos brasileiros estão seguindo o balanço doce e mole de suas tetas. Quero me casar Quero me casar na noite na rua no mar ou no céu quero me casar. linda. mas é linda. O homem comeu e bebeu. Os que amam sem amor não terão o reino dos céus. Tem um sinal de bala na coxa direita. 20 . Depressa. Sociedade O homem disse para o amigo: – Breve irei a tua casa e levarei minha mulher. o riso postiço de um dente de ouro. Tristeza de guardar um segredo que todos sabem e não contar a ninguém (que esta vida não presta).) Tristeza de comprar um beijo como quem compra jornal. (No Brasil não há outono mas as folhas caem. gorda e satisfeita... A mulher bebeu e cantou.

No caminho o homem resmunga: – Ora essa. O amigo estava muito satisfeito. E apertou a mão dos dois. a Ásia não deu. decorativo. E a mulher ajunta: – Que idiota. o corpo ficou todo fofo. Seu coração enegreceu de repente. e seu desejo de um filho era maior que a Ásia. o amigo disse para o homem: – Breve irei a tua casa. Quando foi hora de sair. Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida e a alma do rei de Sião fugiu entre os canais. que morreu especialmente para nos comover.Os dois dançaram. para o sol não. Pobre rei de Bangkok educado em Oxford. bebeu um veneno terrível e morreu. Sesta A Martins de Almeida A família mineira está quentando sol sentada no chão calada e feliz. De sua costela rela nasceu uma pequenina siamesa. – Reparaste o bife queimado? O piano ruim e a comida pouca. Ao vê-la. O filho mais moço olha para o céu. adoeceu. era o que faltava. pequenino. Pobre rei de Sião que Camões não cantou. O filho que desejava. Pobre reizinho de Sião. o rei caiu para trás como um europeu. Elegia do rei de Sião Pobre rei de Sião que morreu de desgosto por não ter um filho varão. E todas as quintas-feiras eles voltam à casa do amigo que ainda não pôde retribuir a visita. Amou três mulheres em vez de dez mil e nenhuma lhe deu um filho varão. – A casa é um ninho de pulgas. bonito. 21 .

A família mineira está dormindo ao sol. O filho mais velho canta uma cantiga nem trite nem alegre. pai. Corta ele. recomeçava o tiroteio. O pai corta o cacho e distribui pra todos. Às 3 da madrugada. O ruído igual dos tiros e o silêncio na sala onde os corpos são coisas escuras. A família mineira está comendo banana. Nós descansávamos. A saia não esconde a coxa morena sólida construída. Pensa no amor tornado impossível 22 . uma cantiga apenas mole que adormece. A família mineira olha para dentro. O soldado deitado pensando na morte. Os olhos se perdem na linha ondulada do horizonte próximo (a cerca da horta).para o cacho de bananas. Outubro 1930 Suores misturados no silêncio noturno. A filha mais velha coça uma pereba bem acima do joelho. O funcionário deitado não pensa na morte. O companheiro ronca. comprimida. O filho mais moço ergue o braço rude enxota o importuno. Só um mosquito rápido mostra inquietação. e abríamos para as notícias olhos que não viam. a trepidação dos setores. O radio telegrafista ora triste ora alegre empunhava um papel que era a vitória ou a derrota. jogados sobre poltronas. pontualmente. mas ninguém repara. De 5 em 5 minutos um ciclista trazia ao Estado Maior um feixe de telegramas contendo. olhos que perguntavam.

Itararé. longínquas namoradas. captando rádios. Que todos acharam ótima e reprovaram com indignação cívica. Como resistisse ainda. literatura explosiva de boletins. era o mais doce dos seres. eu fazia. olha a negra. e destilava uma ternura vaporosa em seu costume de usar culotte sem perneiras. Baixo Guandu. cinco mortos e vinte feridos. a água circulou de novo. E fecha os olhos para ver bem o amor com sua espada de fogo sobre a cabeça de todos os homens. O inimigo resistia sempre e foi preciso cortar a água do quartel. olha a bala na negra. Deus vela o sono dos brasileiros. legalistas.” Um novo. homens estão se matando com as necessárias cautelas. com seus bigodes tumultuosos. homens preparando discursos. exercício fácil. Jaguará. Meu Deus. 23 . O canhão fabricado em Minas — suave temperamento local — não disparou. Chiador. Olha a negra. O general. ordens do dia. rebeldes. desta vez azul.. Pelo Brasil inteiro há tiros. “o inimigo (?) retirou-se em fuga precipitada. A esta hora no Recife. a caricatura do seu imenso nariz. A torneira aberta escorre desinfetante. mulheres carinhosas cosendo fardas com bolsos onde estudantes guardarão retratos das respectivas. expostos. solertes. granadas. A um canto do salão atulhado de mapas e em que telefones esticados retiniam trazendo fatos. levando ordens. pedidos de comissionamento por atos de bravura. tomai conta de nós.no minuto guerreiro. a negra fugindo com a trouxa de roupa. claro Brasil surge. Igarapava. olha a negra no chão e o cadáver com os seios enormes. da pólvora. de metileno. em Guaxupé. outros. inúteis. Turvo. outros (são governadores) dando o fora. indeciso.. minando pontes. deixando abundante material bélico.

mas não é para o público. Se meu verso não deu certo. Eu bem me entendo. Aquela casa de nove andares comerciais é muito interessante. Meu verso é minha cachaça.. na roça penso no elevador. mete a língua no governo. Para louvar a Deus como para aliviar o peito. canequinha de folha-de-flandres. queixa-se da vida (a vida está tão cara) e no fim dá certo. A casa colonial da fazenda também era. Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros. a maior é suspirar pela Europa A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente. ninguém perceba que passei a noite inteira chorando. o judeu falam uma língua de farrapos.Anjos alvíssimos espreitam a hora de apagar a luz de teu quarto para abrirem sobre ti as asas que afugentam os maus espíritos e purificam os sonhos. saio desanimado. ser filho de fazendeiro! À beira do São Francisco. lê o seu jornal. do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo. folha de taioba. Mas eles acordam e brigam de novo. é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de. E a gente viajando na pátria sente saudades na pátria. Há dias em que ando na rua de olhos baixos para que ninguém desconfie. Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só. foi seu ouvido que entortou. queixar o desprezo da morena. Sou até muito triste. esta sombra mole. Explicação Meu verso é minha consolação. de todas as burrices.. cantar minha vida e trabalhos é que faço meu verso. Não sou alegre. é para mim mesmo essa cambalhota. Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson.. A culpa é da sombra das bananeiras de meu país. preguiçosa. Para mim. E meu verso me agrada. Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta? 24 .. O francês. Meu verso me agrada sempre. No elevador penso na roça.. Ah.. de repente ouço a voz de uma viola. Todo mundo tem sua cachaça.. pouco importa: tudo serve.. copo de cristal. Quem me fez assim foi minha gente e minha terra e eu gosto bem de ter nascido com essa tara. Para beber. Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota. o italiano.

Jesus Jesus piedade de mim. prendas e rezas. Ladrão eu sou mas não sou ruim não. dai-me dinheiros. Não quero ser preso. mas trazemos flores. Senhor. sobem a ladeira que leva a Deus e vão deixando culpas no caminho. cantam sem parar. baralhos. Os romeiros pedem com olhos. Meu Bom Jesus que tudo podeis. meu amo. há tanta algazarra. No adro da igreja há pinga. Sarai-me. As coxas das romeiras brincam no vento. Jesus já cansado de tanto pedido dorme sonhando com outra humanidade. Nos olhos do santo há sangue que escorre. imagens. chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados. o dia é de festa. e não desta lepra. sino. cigarros e um sol imenso que lambuza de ouro o pó das feridas e o pó das muletas. Por que me perseguem não posso dizer. pedem com a boca. Faz tanto calor. Já estamos puros. Jesus ó meu santo. Poema de purificação 25 . No alto do morro chega a procissão. Jesus me Deus pregado na cruz. Ninguém não percebe. Jesus no lenho expira magoado. Os sinos tocam. pedem com as mãos. obrigados. Senhor. muito dinheiro para eu comprar aquilo que é caro mas é gostoso e na minha terra ninguém não pissui. me dá coragem pra eu matar um que me amola de dia e de noite e diz gracinhas a minha mulher. humildemente te peço uma graça. Um leproso de opa empunha um estandarte.Romaria A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos. cheia de pedras. Os homens cantam. fenômenos. café. do amor que eu tenho e que ninguém me tem.

O dia nascia atrás dos quintais. As casas também iam bêbedas. 26 .Depois de tantos combates o anjo bom matou o anjo mau e jogou seu corpo no rio. que se arruinava. Como é maravilhoso o amor (o amor e outros produtos). O poeta está bêbedo. Últimos pensamentos! últimos telegramas! José. que não dizia nada. Helena. Tudo era irreparável. que o mundo ia acabar às 7 e 45. Sebastião. embarcam para a eternidade. Mas uma luz que ninguém soube dizer de onde tinha vindo apareceu para clarear o mundo. Aurora O poeta ia bêbedo no bonde. e outro anjo pensou a ferida do anjo batalhador. As águas ficaram tintas de um sangue que não descorava e os peixes todos morreram. Artur. As pensões alegres dormiam tristíssimas. que amava os homens. que colocava pronomes. meus irmãos! Embora sem música dançai. Ninguém sabia que o mundo ia acabar (apenas uma criança percebeu mas ficou calada). mas escuta um apelo na aurora: Vamos todos dançar entre o bonde e a árvore? Entre o bonde e a árvore dançai. meus irmãos! Os filhos estão nascendo com tamanha espontaneidade.

Vou subir a ladeira lenta em que os caminhos se fundem. meus irmãos! A morte virá depois como um sacramento.Dançai. Todos eles conduzem ao princípio do drama e da flora. A rua é inútil e nenhum auto passaria sobre meu corpo. Não sei se estou sofrendo ou se é alguém que se diverte por que não? na noite escassa com um insolúvel flautim. Volto pálido para casa. Soneto da perdida esperança Perdi o bonde e a esperança. Entretanto há muito tempo nós gritamos: sim! ao eterno 27 .

. Precisamos louvar o Brasil.. os Amazonas inenarráveis. assimilaremos finas culturas.. alemãs gordas. Nossas revoluções são bem maiores do que quaisquer outras. Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão no pobre coração já cheio de compromissos. Precisamos educar o Brasil.. Não é só um país sem igual. coitado.. abriremos dancings e subvencionaremos as elites. Cada brasileiro terá sua casa com fogão e aquecedor elétricos. o Brasil está dormindo. Precisamos adorar o Brasil. de pele macia. Precisamos colonizar o Brasil. Não convém desprezar as japonesas. os incríveis João-Pessoas. piscina.. russas nostálgicas para garçonnettes dos restaurantes noturnos. com a água dos rios no meio. 28 . nossos erros também. salão para conferências científicas. E virão sírias fidelíssimas.. E cuidaremos do Estado Técnico. O que faremos importando francesas muito louras.. Compraremos professores e livros.Hino nacional Precisamos descobrir o Brasil! Escondido atrás das florestas. E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões.

Precisamos. por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos. bandeirantes e guerreiros sejamos tudo que quiserem. Este não é o Brasil. sobretudo pornográficos. pornográficos). ao condutor do teu bonde. Propõe isso ao teu vizinho. O Brasil não nos quer! Está farto de nós! Nosso Brasil é no outro mundo.se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens. a todas as criaturas que são inúteis e existem. Pensavam que o suicídio fosse a última resolução. Teus amigos estão sorrindo de tua última resolução. precisamos esquecer o Brasil! Tão majestoso. Por que seremos mais castos que o nosso avô português? Oh! sejamos navegantes. Não compreendem. que o melhor é ser pornográfico. Nenhum Brasil existe. coitados. A tarde pode ser triste e as mulheres podem doer como dói um soco no olho (pornográficos. tão sem limites. propõe ao homem de óculos e à mulher da trouxa de roupa. tão despropositado. E acaso existirão os brasileiros? Em face dos últimos acontecimentos Oh! sejamos pornográficos (docemente pornográficos). 29 . ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.

Vísceras imensas.Dize a todos: Meus irmãos... Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados completamente (paixões de primeira e de segunda classe). sem coração. tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. Do meu quarto ouço a fuzilaria. sem amor. tomaram todas as providências para o remorso das amadas. tu ficas. Que grandes corações eles possuíam. escreveram cartas explicativas. Única fortuna. Pum pum pum adeus. Desiludidos mas fotografados. mas os veremos seja no claro céu ou no turvo inferno. Eu vou. Oh quanta matéria para os jornais. enjoada. não quereis ser pornográficos? Necrológio dos desiludidos do amor Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram. sem tripas. Os desiludidos seguem iludidos. As amadas torcem-se de gozo. os seus dentes de ouro 30 .

morto meu desejo. o céu estará morto e saqueado. anterior a fronteiras. violento. Quando me levantar. morto o pântano sem acordes. Sentimento do mundo Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. da viúva e do microscopista que habitavam a barraca 31 . eu mesmo estarei morto. Sinto-me disperso. mas estou cheio de escravos. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. sobre a tumba deles. humildemente vos peço que me perdoeis. minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro. Quando os corpos passarem.

este couro de anta. Itabira é apenas uma fotografia na parede. é doce herança itabirana. Tive ouro. que me paralisa o trabalho. estendido no sofá da sala de visitas. E o hábito de sofrer. de suas noites brancas. Por isso sou triste. Hoje sou funcionário público. sem mulheres e sem horizontes. este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval. esta cabeça baixa.e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite. Principalmente nasci em Itabira. que tanto me diverte. Oitenta por cento de ferro nas almas. tive fazendas. Noventa por cento de ferro nas calçadas. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: esta pedra de ferro. tive gado. Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira. este orgulho.. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. orgulhoso: de ferro. A vontade de amar.. vem de Itabira. futuro aço do Brasil. Mas como dói! 32 .

nosso pai e nosso companheiro. o medo dos soldados. que esteriliza os abraços. Cantaremos o medo. o que é privilégio dos edifícios. Sabemos que cada edifício abriga mil corpos labutando em mil compartimentos iguais. dos mares.Congresso Internacional do Medo Provisoriamente não cantaremos o amor. alguns se inserem fatigados no elevador e vem cá em cima respirar a brisa do oceano. o medo grande dos sertões. bebemos cerveja e olhamos o mar. cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte. o medo dos democratas. Privilégio do mar Neste terraço mediocremente confortável. cantaremos o medo dos ditadores. o medo das igrejas. dos desertos. que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. não cantaremos o ódio porque esse não existe. o medo das mães. Às vezes. Sabemos que nada nos acontecerá. 33 . O edifício é sólido e o mundo também. existe apenas o medo.

Em vão mulheres batem à porta. 34 .O mundo é mesmo de cimento armado. e há um óleo suave que eles passam nas costas. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. fundeado na baía em frente da cidade. mas a areia é quente. definitivamente inocentes. Porque o amor resultou inútil. a luz apagou-se. Ficaste sozinho. Inocentes do Leblon Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Os ombros suportam o mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. não abrirás. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Certamente. Tempo de absoluta depuração. Como a esquadra é cordial! Podemos beber honradamente nossa cerveja. e esquecem. E o coração está seco. Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.. E nada esperas de teus amigos. És todo certeza. se houvesse um cruzador louco... já não sabes sofrer. tudo ignoram. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes. improvável.. E os olhos não choram. a vida seria incerta.

Mãos dadas Não serei o poeta de um mundo caduco. prefeririam (os delicados) morrer. a paisagem vista da janela. não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. A vida apenas. não direi os suspiros ao anoitecer. Nele não cabem nem as minhas dores. a vida presente. sem mistificação. Mundo grande Não. Entre eles. meu coração não é maior que o mundo. 35 . que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. não nos afastemos. Não serei o cantor de uma mulher. Estou preso à vida e olho meus companheiros. É muito menor. vamos de mãos dadas. O presente é tão grande. achando bárbaro o espetáculo. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. de uma história. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. As guerras. o tempo presente. O tempo é a minha matéria. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Também não cantarei o mundo futuro. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. os homens presentes. Alguns. considero a enorme realidade. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossege e nem todos se libertaram ainda. Não nos afastemos muito.Pouco importa venha a velhice. as fomes.

Só agora vejo que nele não cabem os homens. tão calma. Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo. meu coração é muito pequeno. Entretanto escorre nas mãos. Ilhas perdem o homem.. fáceis de habitar. Sim. Nunca escutei voz de gente. Viste as diferentes cores dos homens. 36 . A rua é menor que o mundo. Renascerão as cidades submersas? Os homens submersos – voltarão? Meu coração não sabe. estão na rua. sabes como é difícil sofrer tudo isso. Fecha os olhos e esquece. muito maior do que eu esperava. não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.) Outrora escutei os anjos. os poemas. ilhas sem problemas. Escuta a água nos vidros. por isso me grito. carne e algodão.Por isso gosto tanto de me contar. A rua é enorme. Tu sabes como é grande o mundo. Mas também a rua não cabe todos os homens. por isso freqüento os jornais. O mundo é grande. o grande mundo está crescendo todos os dias. Meus amigos foram às ilhas. as sonatas. entre o fogo e o amor. as confissões patéticas. Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas. Por isso me dispo. Maior. Conheces os navios que levam petróleo e livros.. Em verdade sou muito pobre. não anuncia nada. Estúpido. amontoar tudo isso num só peito de homem. as diferentes dores dos homens.. ridículo e frágil é meu coração. sem que ele estale. Outrora viajei países imaginários. Os homens estão cá fora. tão calma! Vai inundando tudo. me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos.

na carne. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida ao meu lado. 37 . Certo não é vida humana. Estou só. estou sozinho no quarto. recebesse este carinho. no amor.. E sinto a bruxa presa na zona de luz. Precisava de mulher que entrasse neste minuto. desses calados. e a essa hora tardia como procurar amigo? E nem precisava tanto. de dois milhões de habitantes. estou sozinho na América. meu coração cresce dez metros e explode. mas é vida. salvasse do aniquilamento um minuto e um carinho loucos que tenho para oferecer. De dois milhões de habitantes! E nem precisava tanto. entre a vida e o fogo.Então. – Ó vida futura! Nós te criaremos. Entre o amor e o fogo. meu coração também pode crescer. distantes. que lêem verso de Horácio mas secretamente influem na vida. Precisava de um amigo. A bruxa A Emil Farhat Nesta cidade do Rio. não tenho amigo..

José? e agora. viajei. que ama. Companheiros. a noite esfriou. José E agora. que zomba dos outros. afetos. José? A festa acabou. escutai-me! Essa presença agitada querendo romper a noite não é simplesmente a bruxa. e agora. Mas se tento comunicar-me o que há é apenas a noite e uma espantosa solidão. jornal e clama. a luz apagou. José? 38 . quantas mulheres prováveis interrogam-se no espelho medindo o tempo perdido até que venha a manhã trazer leite. você? você que é sem nome. conheço vozes de bichos. procuras. protesta? e agora. aprendi. você que faz versos. Estou cercado de olhos. briguei. Porém a essa hora vazia como descobrir mulher? Esta cidade do Rio! Tenho tanta palavra meiga. o povo sumiu. sei os beijos mais violentos. de mãos.Em dois milhões de habitantes. É antes a confidência exalando-se de um homem.

se você tocasse a valsa vienense. sua incoerência. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. José. você marcha. se você gemesse. o bonde não veio. sua lavra de ouro.Está sem mulher. o riso não veio. já não pode fumar. Mas você não morre. e agora? Se você gritasse. você é duro. sem cavalo preto que fuja a galope. não existe porta. José? Sua doce palavra. se você dormisse. José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato. já não pode beber.. cuspir já não pode. quer morrer no mar. mas o mar secou. a noite esfriou. sem teogonia. e agora. Minas não há mais. o dia não veio. quer ir para Minas. seu instante de febre. para onde? 39 . sua biblioteca. José! José. se você cansasse. seu ódio – e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. está sem discurso. seu terno de vidro.. sua gula e jejum. sem parede nua para se encostar. está sem carinho. José? E agora. se você morresse.

. por fim. poli-a. ou mesmo. O sabão é ruim. duro. A água está podre. E vi que era igual usá-la ou guardá-la.. Preciso cortá-la. que se pode pegar e levar à boca ou prender à nossa num desses momentos em que dois se confessam sem dizer palavra. Cristal ou diamante. quantas noites no fundo da casa lavei essa mão. 40 . O nojo era um só. Ai. Não adianta lavar. suja há muitos anos. por maior contraste. escovei-a. quem o saberia? Gente me chamava na ponta do gesto. Eu seguia. quisera torná-la.A mão suja Minha mão está suja. A mão está suja. A princípio oculta no bolso da calça. Nem ensaboar. A mão escondida no corpo espalhava seu escuro rastro. mão limpa de homem. uma simples mão branca.

Depressa. As palavras não nascem amarradas.A mão incurável abre dedos sujos. E era um sujo vil. largas. Rimarei com a palavra carne ou qualquer outra. Não era sujo preto – o preto tão puro numa coisa branca. elas saltam. suor na camisa de quem trabalhou. Consideração do poema Não rimarei a palavra sono com a incorrespondente palavra outono. fazê-la em pedaços e jogá-la ao mar! Com o tempo. Inútil. reter a ignóbil mão suja posta sobre a mesa. Era um triste sujo feito de doença e de mortal desgosto na pele enfarada. outra mão virá pura – transparente – colar-se a meu braço. sujo de carvão. não sujo de terra. são puras. tardo. no céu livre por vezes um desenho. 41 . pardo. indevassáveis. se dissolvem. que todas me convêm. autênticas. a esperança e seus maquinismos. cortá-la. se beijam. casca de ferida. cardo. Era sujo pardo.

Eis aí meu canto. se ainda as há. mas cristal. Bebo em Murilo.Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro. Me perco em Apollinaire. poucos. Dar tudo pela presença dos longínquos. Que Neruda me dê sua gravata chamejante. Estes poemas são meus. a rua. na grama. boiando em tempos sujos. Furto a Vinicius sua mais límpida elegia. como casa. e aves de bico longo conferindo sua derrota. eu sei que passarão. cantor sem piedade. Na parede infiltrou-se. últimos! esperança do mar negro. sem fronteiras. São todos meus irmãos. Estes poetas são meus. sim. o uniforme de colégio se transformam. não rocha apenas. não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias: é toda a minha vida que joguei. e dois ou três faróis. e cresces como fogo. são ondas de carinho te envolvendo. O bonde. perdido embora. nas principiantes rugas. 42 . E mover-se em meio a milhões e milhões de formas raras. sem frágeis lágrimas. Poeta do finito e da matéria. por que falsa mesquinhez me rasgaria? Que se depositem os beijos na face branca. duras. cartas e remédios. É qualquer homem ao meio-dia em qualquer praça. mas ardor tão casto. Saber que há tudo. O beijo ainda é um sinal. Mas é tão alto que as pedras o absorvem. Essa viagem é mortal. Maiakovski. de toda a precisão se incorporam ao fatal meu lado esquerdo. – Há mortos? há mercados? há doenças? É tudo meu. que repousam. De todo o orgulho. da ausência de comércio. sentir que há ecos. mas tu resistes. Ser explosivo. boca tão seca. secretas. peixes circulando sob o navio que leva esta mensagem. como orvalho entre dedos. Ele é tão baixo que sequer o escuta ouvido rente ao chão. É minha terra e é ainda mais do que ela. Como fugir ao mínimo objeto ou recusar-se ao grande? Os temas passam. não importa. Está na mesa aberta em livros. É a lanterna em qualquer estalagem. Adeus. e começa-la.

os aniversários. que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. 43 . O que pensas e sentes. e te desejo e te perco. me faço tão sublime. Não cantes tua cidade.Já agora te sigo a toda parte. Tal uma lâmina. Tua gota de bile. esse excelente. o povo. me destino. os incidentes pessoais não contam. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem. rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. deixa-a em paz. meu poema. completo e confortável corpo. estou completo. fadiga e esperança nada significam. te atravessa. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade.. Não faças poesia com o corpo. não aquece nem ilumina. Não há criação nem morte perante a poesia. tão infenso à efusão lírica. tão firme. chuva e noite. Diante dela. Para ele. tão natural e cheio de segredos. tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes.. tão fiel. isso ainda não é poesia. As afinidades. Nem me reveles teus sentimentos. Procura da poesia Não faças versos sobre acontecimentos. a vida é um sol estático.

se te provocam. mas não há desespero. Não te aborreças. 44 . Teu iate de marfim. Penetra surdamente no reino das palavras. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. é algo imprestável. não invoques. Não adules o poema. que lhe deres: Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. sem interesse pela resposta. Estão paralisados. Tem paciência se obscuros. teu sapato de diamante. as palavras. não indagues. não era poesia. Não dramatizes.A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. em estado de dicionário. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. Ainda úmidas e impregnadas de sono. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Ei-los sós e mudos. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. vossas mazurcas e abusões. Convive com teus poemas. cristal não era. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. Que se partiu. antes de escrevê-los. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. pobre ou terrível. Que se dissipou. Chega mais perto e contempla as palavras. Calma. Não percas tempo em mentir. há calma e frescura na superfície intata. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.

Passou quando. 45 . gritou. nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas. Era uma dona de longe. me deixou com vosso berço. vosso pai enamorou-se. se devorou. foi para a dona de longe. bebeu. boca presa. E ficou tão transtornado.Caso do vestido Nossa mãe. Chorou no prato de carne. se fechou. me bateu. o que é aquele vestido. naquele prego? Minhas filhas. mas a dona não ligou. Em vão o pai implorou. esse segredo! Minhas filhas. Nossa mãe. se perdeu tanto de nós. se afastou de toda vida. é o vestido de uma dona que passou. escutai palavras de minha boca. esse vestido tanta renda. Vosso pai evém chegando.

E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. Disfarcemos. os olhos dele pediam. Minhas filhas. lamberia seu sapato. que tivesse paciência e fosse dormir com ele.. me pediu que lhe pedisse. Nossa mãe. dava carro. procurei aquela mulher do demo. Olhei para a dona ruim. mais mostrava que escondia as partes da pecadora. dava ouro. fazenda... 46 . de colo mui devassado. O seu vestido de renda. Mas a dona nem ligou. os olhos dela gozavam. Olhei para vosso pai. não por mim.. vosso pai chega ao pátio. irado. beberia seu sobejo. Eu fiz meu pelo-sinal. não quero homem.dava apólice. Eu não amo teu marido. disse que sim. Minhas filhas. a essa dona tão perversa. me curvei. só para lhe satisfazer. não escutamos pisar de pé no degrau. Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto. Então vosso pai. por que chorais? Nosso lenço vos cedemos. me falou ela se rindo. Nossa mãe.

passei ponte. tive uma febre terçã. 47 . Fiquei fora de perigo. fiquei de cabeça branca. Andei pelas cinco ruas.Saí pensando na morte. última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra. Dona. perdi meus dentes. Um dia a dona soberba me aparece já sem nada. Me joguei a suas plantas. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes. meus anéis se dispersaram. O mundo é grande e pequeno. Mas te dou este vestido. minhas mãos se escalavraram. fiz doce. mas a morte não chegava. desfeita. não te dou vosso marido. lavei. visitei vossos parentes. passei rio. Eu não tinha amor por ele. da maior humilhação. me disse baixinho. mas a morte não chegava. meus olhos. com sua trouxa na mão. minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. ao depois amor pegou. não comia. Vosso pai sumiu no mundo. mofina. que não sei onde ele anda. pobre. costurei. não falava.

dona. pus nesse prego da parede. me cortei de canivete. Olhei para a cara dela. Eu fiz.fiz toda sorte de dengo. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. Peguei o vestido. 48 . de nada valeu: vosso marido sumiu. bebi fel e gasolina. Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. põe mais um prato na mesa. quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela. quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso. mal reparou no vestido e disse apenas: Mulher. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. me puxei pelos cabelos. boca não disse palavra. me lancei na correnteza. no chão rocei minha cara. rezei duzentas novenas. me atirei no sumidouro. ele se assentou. Olhou para mim em silêncio.

vestido não há. me acalentava. eis que ouço vosso pai subindo a escada. Então o moço que é leiteiro 49 . que ladrão se mata com tiro. era sempre o mesmo homem.comeu. comia meio de lado e nem estava mais velho. nem nada. é preciso entregá-lo cedo. Há muita sede no país. O barulho da comida na boca. Minhas filhas. me dava uma grande paz. um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho. Morte do leiteiro A Cyro Novaes Há pouco leite no país.. é preciso entregá-lo cedo. limpou o suor.. Há no país uma legenda.

E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo. Meu leiteiro tão sutil de passo maneiro e leve. peguemos o corredor. vaso de flor no caminho. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado. morados na Rua Namur. avancemos por esse beco. Sua lata. Os tiros na madrugada 50 . Sem fazer barulho. empregado no entreposto. com 21 anos de idade. E há sempre um senhor que acorda. O revólver da gaveta saltou para sua mão. Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro). Ladrão? se pega com tiro. E já que tem pressa. cão latindo por princípio. é claro. suas garrafas e seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade. ou um gato quizilento. sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. não quis saber de mais nada.. resmunga e torna a dormir. o corpo vai deixando à beira das casas uma apenas mercadoria. que barulho nada resolve.de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom para gente ruim. Na mão a garrafa branca não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro. depositemos o litro. antes desliza que marcha..

Por entre objetos confusos. perdeu a pressa que tinha. e foge pra rua. Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. A infância está perdida. O primeiro amor passou. ao relento. sangue. A noite geral prossegue. Da garrafa estilhaçada. mas o leiteiro estatelado. não sei. O segundo amor passou. no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite. Quem quiser que chame médico. se era bom.. suavemente se tocam. Mas a vida não se perdeu. não chores. Consolo na praia Vamos. amorosamente se enlaçam. mal redimidos da noite. Mas o coração continua. é tarde para saber. 51 . não sei. a manhã custa a chegar. polícia não bota a mão neste filho de meu pai. se era virgem. Está salva a propriedade.liquidaram meu leiteiro. matei um inocente. A mocidade está perdida. duas cores se procuram. Mas o homem perdeu o sono de todo. Se era noivo. O terceiro amor passou. Meu Deus. se era alegre.. formando um terceiro tom a que chamamos aurora.

Minha vida. em voz mansa. Não tentaste qualquer viagem. Mas tens um cão. Mas virão outros. Estás nu na areia. Não possuis carro.. te golpearam. Caminho por uma rua que passa em muitos países. Nunca. nunca cicatrizam. Se não se vêem. eu vejo e saúdo velhos amigos. nossas vidas formam um só diamante. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. e que fale como dois olhos.. Eu distribuo um segredo como quem anda ou sorri. 52 . nas águas. no vento. No jeito mais natural dois carinhos se procuram. de vez. meu filho Canção amiga Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. Tudo somado.Perdeste o melhor amigo. Algumas palavras duras. devias precipitar-te. e o humour? A injustiça não se resolve. Mas. todas as mães se reconheçam. terra. navio. Dorme.

todo sabor gratuito de oferenda sob a glacialidade de uma estela.Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. 53 . livre de encantos. se destroem no sonho da existência. A madureza sabe o preço exato dos amores. o agudo olhar. a mão. o círculo vazio. raptando-nos. com ela. e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma. a madureza vê. dos quebrantos. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. posto que a venda interrompa a surpresa da janela. O agudo olfato. dos ócios. onde se estenda. e que o mundo converte numa cela. essa terrível prenda que alguém nos dá. A ingaia ciência A madureza.

os mais excelentes. não catei o verme nem curei a sarna. entrega. de concordâncias vegetais. murmúrios de riso. Memória 54 .) E na meia-luz tesouros fanam-se. contudo próximo. Só proferi algumas palavras. Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido – que se esfacelou na asa do avião. melodiosas.Confissão Não amei bastante meu semelhante. Do que restou. ao voltar da festa. tarde. Não amei ninguém. amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo. (Cego é talvez quem esconde os olhos embaixo do catre. Dei sem dar e beijei sem beijo. como compor um homem e tudo que ele implica de suave.

desamar. na brisa marinha. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. muito mais que lindas. amar. ou precisão de amor. sozinho. é sal. senão rodar também. o ser amoroso. essas ficarão. pergunto. e o que ele sepulta. Mas as coisas findas. amar e malamar. amar? Que pode. em rotação universal. amar? amar e esquecer. entre criaturas.Amar o perdido deixa confundido este coração. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. e o que. e até de olhos vidrados. amar? sempre. ou simples ânsia? 55 . Amar Que pode uma criatura senão. e amar? amar o que o mar traz à praia.

e a rua vista em sonho. e o peito inerte. de mais e mais amor. Sempre na minha firma a antiga fúria. paciente. e na secura nossa amar a água implícita. um chão de ferro. um vaso sem flor. e na concha vazia do amor a procura medrosa. É sempre no meu trato o amplo distrato. É sempre no meu peito aquela garra. É sempre no meu tédio aquele aceno. 56 .Amar solenemente as palmas do deserto. É sempre no meu sono aquela guerra. e o beijo tácito. o que é entrega ou adoração expectante. é sempre no presente aquele duplo. É sempre nos meus lábios a estampilha. O enterrado vivo É sempre no passado aquele orgasmo. e a sede infinita. Sempre dentro de mim meu inimigo. o áspero. e uma ave de rapina. é sempre no futuro aquele pânico. Sempre no mesmo engano outro retrato. distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas. e amar o inóspito. doação ilimitada a uma completa ingratidão. É sempre nos meus pulos o limite. Este o nosso destino: amor sem conta. É sempre no meu não aquele trauma. Sempre no meu amor a noite rompe. Amar a nossa falta mesma de amor. E sempre no meu sempre a mesma ausência.

57 . e brincos de palavra. Aquilo que revelo e o mais que segue oculto em vítreos alçapões são notícias humanas. variante de bom-dia. que tudo é o vasto dia em seus compartimentos nem sempre respiráveis e todos habitados enfim.) Não me leias se buscas flamante novidade ou sopro de Camões. Uma orelha ou uma boca sequiosa de palavras? São oito livros velhos e mais um livro novo de um poeta inda mais velho que a vida que viveu e contudo o provoca a viver sempre e nunca. Oito livros que o tempo empurrou para longe de mim mais um livro sem tempo em que o poeta se contempla e se diz boa-tarde (ensaio de boa-noite. simples estar-no-mundo.Poema-orelha Esta é a orelha do livro por onde o poeta escuta se dele falam mal ou se o amam.

o murro. a facada como para uma simples quebra da monotonia universal e tens no rosto antigo uma expressão a que não acho nome certo (das sensações do mundo a mais sutil): volúpia do aborrecimento? ou. com amor Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te. grande lascivo. Conheces a fundo a geologia moral dos Lobo Neves e essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para ciumentos. Nada vivido? Tudo. entre malinas e bruxelas. minuciosa curiosidade de quem saboreia por tabela o prazer de Fortunato.um não-estar-estando. Outros leram da vida um capítulo. mas de tal jeito urdidos o jogo e a confissão que nem distingo eu mesmo o vivido e o inventado. Tudo vivido? Nada. filtrada. do nada? 58 . Daí esse cansaço nos gestos e. A orelha pouco explica de cuidados terrenos: e a poesia mais rica é um sinal de menos. uma luz que não vem de parte alguma pois todos os castiçais estão apagados. A um bruxo. E ficas mirando o ratinho meio cadáver com a polida. Olhas para a guerra. tu leste o livro inteiro. vivisseccionista amador. Contas a meia voz maneiras de amar e de compor os ministérios e deitá-los abaixo. e me recebes na sala trajestada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite.

e os grandes. além da cocaína moral dos bons livros? Que crime cometemos além de viver e porventura o de amar não se sabe a quem. A terra está nua deles. O eflúvio da manhã. a ramagem começa a sussurar alguma coisa que não se estende logo a parece a canção das manhãs novas. e não pousas em nenhum deles. Contudo. ronda clara: É Flora. quem o pede ao crepúsculo da tarde? Uma presença. tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná. a rir com expressão cândida (e outra coisa). de olhos intimativos. vai pé ante pé procurar o remédio. mas onde a dúvida apalpa o mármore da verdade. em longe recanto. igual e seco. bruxo alusivo e zombeteiro. Virgília. quem sabe) o turvo grunhir dos porcos. cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida. onde o diabo joga dama com o destino. com olhos dotados de um mover particular ente mavioso e pensativo. abertos como a vaga do mar lá fora. a descobrir a fenda necessária. Severina e das chinelinhas de alcova de Conceição. Mariana. E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas.. mostra que os homens morreram. 59 . de Capitu. mas haverá remédio para existir senão existir? E. e Sancha. estás sempre aí. que resolves em mim tantos enigmas. e chega ao despistamento de teu pencenê. A todas decifrastes íris e braços e delas disseste a razão última e refolhada moça. flor mulher flor canção de mulher nova. o mar que fala a mesma linguagem obscura e nova de D. troça concentrada e filosófica entre loucos que riem de ser loucos e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram. Bem a distingo. lento. o clarineta.. mas amar? Todos os cemitérios se parecem. e o mesmo som do relógio. que os tem redondos e namorados. Um som remoto e brando rompe em meio a embriões e ruínas. Marcela.O vento que rola do Silvestre leva o diálogo. para os dias mais ásperos. eternas exéquias e aleluias eternas.

O amor das éguas rinchava no azul do pasto. urubus rasantes. Mulher. em liga. e qual novo Ariel. Dás volta à chave. E criação e gente. envolves-te na capa. Destruição 60 . sem mais resposta. O Retiro ficava longe do oceanomundo. Fazenda Vejo o Retiro: suspiro no vale fundo. sais pela janela. Rês morta. Ninguém sabia da Rússia com sua foice. A morte escolhia a forma breve de um coice. tudo era casto. abundavam negras socando milho. logo em concílio.O estribeiro Oblivion bate à porta e chama ao espetáculo promovido para divertir o planeta Saturno. dissolves-te no ar.

refletido. assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho. é tempo sem hora. Amor. Dois amantes que são? Dois inimigos. e como o que era mundo volve a nada. ninguém. Nada. puro fantasma que os passeia de leve. Para sempre Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite.Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. Deixaram de existir mas o existido continua a doer eternamente. E eles quedam mordidos para sempre. Um se beija no outro. luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba. Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se. 61 .

Mãe. O campo – havia. será pequenino feito grão de milho. havia um campo? irremediavelmente murcho em sombra antes de imaginar-se a figura de um campo. puro pensamento.veludo escondido na pele enrugada. O fim no começo A palavra cortada na primeira sílaba. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. A vida não chega a ser breve. ar puro. na sua graça. velho embora. é eternidade. baixava uma lei: Mãe não morre nunca. mãe ficará sempre junto de seu filho e ele. Por que Deus se lembra . 62 .mistério profundo de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo. O que jamais se esqueceria pois nem principiou a ser lembrado. A consoante esvanecida sem que a língua atingisse o alvéolo. água pura.

Como a vida é isto misturado àquilo. Como dói a vida quando tira a veste de prata celeste. Como a vida é vida ainda quando morte esculpida em vida. Como a vida é forte em suas algemas. Como a vida é louca estúpida.Parolagem da vida Como a vida muda. Como a vida é muda. outra não a que é vivida. Como a vida é nada. Como a vida é outra sempre outra. Como a vida é nula. Como a vida é tudo. Tudo que se perde mesmo sem ter ganho. Como a vida é bela sendo uma pantera de garra quebrada. Como a vida é senha de outra vida nova que envelhece antes de romper o novo. Como a vida chora de saber que é vida e nunca nunca nunca 63 . mouca e no entanto chama a torrar-se em chama.

E como se salva a uma só palavra escrita no sangue desde o nascimento: amor. Como a vida joga de paz e de guerra povoando a terra de leis e fantasmas.leva a sério o homem. Como a vida ri a cada manhã de seu próprio absurdo e a cada momento dá de novo a todos uma prenda estranha. vidamor! 64 . esse lobisomem. Como a vida toca seu gasto realejo fazendo da valsa um puro Vivaldi. Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida em flor e formiga em seixo rolado peito desolado coração amante.

o prêmio subterrâneo e coruscante. decifrado. Amor é o que se aprende no limite. roçando. amor: o ganho não previsto. em cada poro. que. nada mais existe valendo a pena e o preço do terrestre. leitura de relâmpago cifrado. É isto. 65 . Amor começa tarde.Amor e seu tempo Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama. que se torna a mais larga e mais relvosa. o céu do corpo. salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo. depois de se arquivar toda a ciência herdada. ouvida. vibrando no crepúsculo.

Quero Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Exijo de ti o perene comunicado. 66 . isto sempre. que sou amado. que nunca me amastes antes. inexoravelmente sei que deixaste de amar-me. isto cada vez mais. amor saltando da língua nacional. No momento em que não me dizes: Eu te amo. amor feito som vibração espacial. a perfeita maneira de saber-se amado: amor na raiz da palavra e na sua emissão. desmentes apagas teu amor por mim. Ouvindo-te dizer: Eu te amo. Não exijo senão isto. creio. Quero ser amado por e em tua palavra nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso. No momento anterior e no seguinte. no momento. Do contrário evapora-se a amação pois ao não dizer: Eu te amo. como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas.

me salvo e me dano: amor. ainda que mal o saibas. ainda que mal te ame. ainda que mal te entenda. ainda que mal te voltes. ainda que mal te furtes. ainda que mal te encare. ainda que mal me mostre. ainda que mal repitas. ainda que mal te agarre. verdade fulminante que acabas de desentranhar. O Deus de cada homem 67 . ainda que mal me julgues. ainda que mal te mates. essa coleção de objetos de não-amor. ainda que mal respondas.Se não me disseres urgente repetido Eu te amoamoamoamoamo. ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio. ainda que mal me exprima. ainda que mal insista. Ainda que mal Ainda que mal pergunte. ainda que mal te siga. ainda que mal me vejas. eu me precipito no caos. ainda que mal desculpes.

Deus não está diante de Deus.Quando digo “meu Deus”. Quando digo “meu Deus”. Há mil deuses pessoais em nichos da cidade. 68 . Quando digo “meu Deus”. grito minha orfandade. Deus triste Deus é triste. Quando digo “meu Deus”. A solidão de Deus é incomparável. afirmo a propriedade. Está sempre em si mesmo e cobre tudo tristinfinitamente. crio cumplicidade. A tristeza de Deus é como Deus: eterna. Não sei que fazer dele na microeternidade. choro minha ansiedade. Mais fraco. O rei que me ofereço rouba-me a liberdade. Domingo descobri que Deus é triste pela semana afora e além do tempo. sou mais forte do que a desirmandade.

Mas quem vai prender homem de tantas qualidades? 69 . explicadinho: Duzentos mil-réis a quem prender crioulo Atanásio. Então foge do Rio Doce. esse Atanásio. grande ferreiro. homem livre. ótimo sempre. Lombilho que ele faz. onde é cozinheiro. exímio seleiro. Meu parente Manuel Chassim não se conforma. nasce escravo.Deus criou triste. seria o mesmo admirável oficial de sapateiro. Bota anúncio no Jequitinhonha. Vai parar. o que não é bom para Atanásio e para ninguém. Cortassem mais dois. Outra fonte não tem a tristeza do homem. Sendo tanta coisa. Homem livre Atanásio nasceu com seis dedos em cada mão. no Seminário de Diamantina. Cortaram-lhe os excedentes. quem mais faria? Tem prática de animais.

Cuidado

A porta cerrada não abras. Pode ser que encontres o que não buscavas nem esperavas. Na escuridão pode ser que esbarres no casal em pé tentando se amar apressadamente. Pode ser que a vela que trazes na mão te revele, trêmula, tua escrava nova, teu dono-marido. Descuidosa, a porta apenas cerrada pode te contar conto que não queres saber.

Boitempo

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Entardece na roça de modo diferente. A sombra vem nos cascos, no mugido da vaca separada da cria. O gado é que anoitece e na luz que a vidraça da casa fazendeira derrama no curral surge multiplicada sua estátua de sal, escultura da noite. Os chifres delimitam o sono privativo de cada rês e tecem de curva em curva a ilha do sono universal. No gado é que dormimos e nele que acordamos. Amanhece na roça de modo diferente. A luz chega no leite, morno esguicho das tetas e o dia é um pasto azul que o gado reconquista.

Certas palavras

Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. Estritamente reservadas para companheiros de confiança, devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança.

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Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos. E tudo é proibido. Então, falamos.

Le voyeur

No úmido porão, terra batida, lar de escorpiões, procura-se a greta entre as tábuas do soalho por onde se surpreenda a florescência do corpo das mulheres na sombra de vestido refolhados que cobrem até os pés a escultura cifrada. Entro rastejante dobro o corpo em dois à procura da greta reveladora de não sei que mistério radioso ou sombrio só a homens ofertado em sigilo de quarto e noite alta. Encontro, mina de ouro? Contenho respiração. Dispara o coração no fim de longa espera

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Onde o ar é vidro ardendo e labaredas torram a língua de quem disser: Eu quero a puta quero a puta quero a puta. Saio rastejante olhos tortos pescoço dolorido. que nunca se devassam por mais que o desejo aguce a vista e o sangue implore uma visão de céu e terra encavalados. A fornecedora. A única. A puta Quero conhecer a puta. chupante boca de mina amanteigada quente. A puta quente. Ela arreganha dentes largos de longe.ao rumor de saias lá em cima ai de mim. Na Rua de Baixo onde é proibido passar. A puta da cidade. Nada nada nada senão a sola negra dos sapatos tapando a greta do soalho. A triste polução foi adiada. É preciso crescer esta noite a noite inteira sem parar de crescer e querer a puta que não sabe o gosto do desejo do menino o gosto menino 73 . Na mata do cabelo se abre toda.

aturdem-me. Figuras de gramática. em que pedia para ir lá fora. A linguagem na superfície estrelada de letras. a língua.que nem o menino sabe. sabe lá o que ela quer dizer? Professor Carlos Góis. em que levava e dava pontapé. e vai desmatando o amazonas de minha ignorância. Aula de português A linguagem na ponta da língua. Já esqueci a língua em que comia. ele é quem sabe. tão fácil de falar e de entender. e quer saber. breve língua entrecortada do namoro com a prima. seqüestram-me. 74 . mistério. equipáticas. querendo a puta. atropelam-me. o outro. O português são dois.

no recreio. O fim das coisas 75 . o canivete é mesmo indesculpável. Só que na volta do passeio verificou-se com surpresa: no matinho ralo da chácara todos os canivetes tinham sumido. Restituam-se pois os canivetes a seus proprietários com obrigação de serem recolhidos na volta do passeio.Somem canivetes Fica proibido o canivete em aula. a nata do Brasil. e tenho dito. Recolham-se pois os canivetes sob a guarda do irmão da Portaria. em qualquer parte pois num país civilizado entre estudantes civilizadíssimos. Fica permitido o canivete nos passeios à chácara para cortar algum cipó descascar laranja e outros fins de rural necessidade.

A impossível (sonhada) bolinação. o miúdo. waldemarpissilândico. Quero é o derrotado Cinema Odeon. tombos. tramas. tiros. mesmo não divina. maior. Hart. Fechado para sempre. A matinê com Buck Jones. Não é possível. por enquanto. A primeira sessão e a segunda sessão da noite. enclausurado 76 . costumeira. sendo de outrem. o Cinema Glória. não te conheço de verdade. minha mocidade fecha com ele um pouco. quando for o caso. William S. Exijo em nome da lei ou fora da lei que se reabram as portas e volte o passado musical. (Amadurecerei um dia?) Não aceito. Antepassado Só te conheço de retrato. A divina orquestra. mas teu sangue bole em meu sangue e sem saber te vivo em mim e sem saber vou copiando tuas imprevistas maneiras. mais do que isso: teu fremente modo de ser.Fechado o Cinema Odeon. pobre sátiro em potencial. sublime agora que para sempre submerge em funeral de sombras neste primeiro lutulento de janeiro de 1928. O jornal da Fox. mais isso-e-aquilo. Não amadureci ainda bastante para aceitar a morte das coisas que minhas coisas são. na Rua da Bahia. As meninas-de-família na platéia. fora-de-moda Cinema Odeon. A espera na sala de espera. e até aplaudi-la. mais americano.

vou te compreendendo. na líquida transmissão de taras e dons.entre ferros de conveniência ou aranhóis de burguesia. paixão insone e mais trevosas intenções que jamais assumiram ato nem mesmo sombra de palavra. impulso primitivo. Todos os best-sellers são iguais. Refaço os gestos que o retrato não pode ter. Todos os filmes norte-americanos são iguais. e furtando-me a iniciativa. e tão meus eles se tornaram. nele implícito e reticente. Acabei descobrindo tudo que teus papéis não confessaram nem a memória de família transmitiu como fato histórico e agora te conheço mais do que a mim próprio me conheço. Todos os filmes de todos os países são iguais. somente de esmerilar em teu retrato o que a pacatez de um retrato ou o seu vago negativo. mas ficaram dentro de ti cozinhadas em lenha surda. meu ladrão. tão aderentes ao meu ser que suponho tu os copiaste de mim antes que eu os fizesse. Igual-desigual Eu desconfiava: todas as histórias em quadrinho são iguais. pois sou teu vaso e transcendência. roubaste-me o espírito. teu duende mal encarnado. aqueles gestos que ficaram em ti à espera de tardia repetição. vou descobrindo o que me deste sem saber que o davas. filtra de um homem. 77 . sua face oculta de si mesmo.

78 . Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Todo ser humano é um estranho ímpar. Iguais todos os rompimentos. Todas as experiências de sexo são iguais. piedosas ou indiferentes. Contudo. são iguais. Todas as fomes são iguais. Todas as criações da natureza são iguais. sextinas e rondós são iguais e todos. bicho ou coisa. Todos os amores. A morte é igualíssima. Todas as ações. Não é igual a nada. todos os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais. gazéis. o homem não é igual a nenhum outro homem. Todos os partidos políticos são iguais. Todas as guerras do mundo são iguais.Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais. cruéis. Que resumiria o mundo e o substituiria. Todos os sonetos. Todas as mulheres que andam na moda são iguais. virelais. iguais iguais iguais. A palavra Já não quero dicionários consultados em vão.

Falta aquele homem no escritório a tirar da máquina elétrica o destino dos seres. 79 . a explicação antiga da terra. A falta de Érico Veríssimo Falta alguma coisa no Brasil depois da noite de sexta-feira. dentro da qual vivêssemos todos em comunhão. óleo a derramar-se lentamente. Falta um boné. saboreando-a. Falta uma tristeza de menino bom caminhando entre adultos na esperança da justiça que tarda – como tarda! a clarear o mundo. aquela ternura contida. Falta o casal passeando no trigal. Falta um solo de clarineta. aquele jeito manso. mudos.Mais sol do que o sol.

mesmo sorrindo. tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia. De Clarice guardamos gestos. providências. ela dona de tudo. o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barata ou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. era Clarice viajando nele. O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou. onde a palavra parece encontrar sua razão de ser. Clarice não saiu. Ou o mistério não era essencial. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo. não se percebe mais. Gestos. carteira de identidade. Clarice não foi um lugar-comum. e retratar o homem.Visão de Clarice Lispector Clarice. partiu para outro. Ficamos sem saber a essência do mistério. cuidados. O que Clarice disse. retrato. são jóias particulares de Clarice que usamos de empréstimo. veio de um mistério. De Chirico a pintou? Pois sim. São coisas. Dentro dela 80 .

Não podíamos reter Clarice em nosso chão salpicado de compromissos. os cumprimentos falavam em agora. o país onde Clarice vivia. longas estepes. Mais tarde. pontes do Recife em bruma envoltas. construindo fábulas. Deixamos para compreendê-la mais tarde. tetos fosforescentes. edições. um dia. Retrato de uma cidade I 81 .o que havia de salões. Levitando acima do abismo Clarice riscava um sulco rubro e cinza no ar e fascinava. zimbórios. Os papéis. escadarias. só e ardente. saberemos amar Clarice. apenas. formava um país. possíveis coquetéis à beira do abismo... Fascinava-nos.

de dez mil. que vem de antes da Grécia (vem do instinto) coroa a sarabanda a beira-mar. a irisação da hora na areia desdobrada até o limite do olhar. Cidade feita de montanha em casamento indissolúvel com o mar. Aqui amanhece como em qualquer parte do mundo mas vibra o sentimento de que as coisas se amaram durante a noite. loucura mansa. E despertam mais jovens. o topázio do sol na folhagem. O Rio toma forma de sambista. risca o asfalto da avenida. luxuosamente flor. Repara. É puro carnaval. a reboar no canto de mil bocas. de cem mil bocas. Outra festa se estende por todo o corpo ardente dos subúrbios até o mármore e o fumé de sofisticados. Formas adolescentes ou maduras recortam-se em escultura de água borrifada.Tem nome de rio esta cidade onde brincam os rios de esconder. burgueses edifícios: uma paixão: a bola o drible o chute o gol no estádio-templo que celebra 82 . II Eis que um frenesi ganha este povo. repara neste corpo que é flor no ato de florir entre barraca e prancha de surf. de trinta mil. E não se esgota o impulso da cidade na festa colorida. com apetite de viver os jogos de luz na espuma. deus veloz que passa e deixa rastro de música no espaço para o resto do ano. As coisas se amaram. fere o ar. gratuitamente flor ofertada à vista de quem passa no ato de ver e não colher. Um riso claro. no ritual de entrega a um deus amigo.

não dos astros. tanto faz) misturar tristeza. A sensualidade esvoaçante em caminhos de sombra e ao dia claro de colinas e angras. Pula do cofre da gíria uma riqueza. Já outros vêm saltando em profusão. plenamente. 83 . e no altar barroco ou no terreiro consagra a mesma vela acesa. pois é lei carioca (ou destino carioca. e se apagam. no ar tropical infunde a essência de redondas volúpias repartidas. III Cada cidade tem sua linguagem nas dobras da linguagem transparente. no perfil do morto e no fluir da água. Diamantes-minuto. do Rio apenas. Na curva dos jardins. e no fundo guardar o religioso terror. palavras cintilam por toda parte. E vai-se definindo a alma do Rio: vê mulher em tudo. Morre na rua a ondulação do signo irônico. mulher mulher mulher mulher mulher. na torre circular. num relâmpago. trabalho. a mesma palma à Divindade longe. Este fingir que nada é sério.. no talhe esbelto do coqueiro. preside ao viver geral. do alto. amor e som. piada. uma estátua? Uma presença. Em torno de mulher o sistema de gesto e de vozes vai-se tecendo. Este Rio. sem muito esforço. bem mais perto da humana contingência. a mesma rosa branca.os nervosos ofícios anuais do Campeonato. de mais nenhum Brasil. sacro fervor que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga.. nada. mas do Corcovado. nada. loteria na mesma concha do momento que é preciso lamber até a última gota de mel e nervos. Cristo.

aberto ao mundo. A noite é luz sonhando. Elegia carioca Nesta cidade vivo há 40 anos há 40 anos vivo esta cidade a cidade me vive há 40 anos Sou testemunha cúmplice objeto triturado confuso agradecido nostálgico Onde está. Anoitece no Rio. vão desatando bandeiras de púrpura e violeta sobre os montes e o mar. Repara. erótico. por que não?). sumarenta de amor. laranja toda em chama. repara nas nuvens. fraterno. minha Avenida Rio Branco espacial verdolenga baunilhada eterna como éramos eternos entre duas guerras próximas? O Café Belas-Artes onde está? E as francesas do bar do Palace Hotel e os olhos de vermute que as despiam no crepúsculo ouro-lilás de 34? Estou rico de passarelas e vivências túneis nos morros e cá dentro multiplicam-se 84 .Este Rio peralta! Rio dengoso. laranja de cinqüenta sabores diferentes (alguns amargos. que fugiu.

em que Galeão Gastão espera o jato da Amazônia? Marco encontros que não se realizam na abolida José Olympio de Ouvidor Ficou. Candinho. 85 . a espelharia da Colombo mas tenho que tomar café em pé e só Ary preserva os ritos da descuidada prosa companheira Padeiros entregam a domicílio o pão quentinho da alegria o bonde leva amizades motorneiras as casas de morar deixam-se morar sem ambição de um dia se tornarem tours d’ivoire entre barracos sórdidos o rádio espalha no ar Carmem Miranda a Câmara discursa os maiôs revelam 50% mas prometem bonificações sucessivas O Brasil será redimido pelo socialismo utópico Getúlio sorri. Eneida. Aníbal e Manuel Otávio. é certo.rumo a barras-além-da tijuca imperscrutáveis Sou todo uma engenharia em movimento já não tenho pernas: motor ligado pifado recalcitrante projeto algarismo sigla perfuração na cidade código Onde estão Rodrigo. baforando o charutão Rio diverso múltiplo desordenado sob tantos planos ordenadores desfigurados geniais ferido nas encostas poluído nas fontes e nas ondas Rio onde viver é uma promissória sempre renovada e o sol da praia paga nossas dívidas de classe média enquanto multidões penduradas nos trens elétricos desfilam interminavelmente na indistinção entre vida e morte futebol e carnaval e vão caindo pelo leito da estrada os morituros Ser um contigo. ó cidade é prêmio ou pena? Já nem sei se te pranteio ou te agradeço por este jantar de luz que me ofereces e a ácida sobremesa de problemas que comigo repartes no incessante fazer-se. desfazer-se que um Rio novo molda a cada instante e a cada instante mata um Rio amantiamado há 40 anos.

Como desencantá-la? É a senha da vida a senha do mundo. e minha procura ficará sendo minha palavra. Procuro sempre. Prece do brasileiro 86 .A palavra mágica Certa palavra dorme na sombra de um livro raro. não desanimo. procuro sempre. se não a encontro. Se tarda o encontro. Vou procurá-la. Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo.

E mudo até o tratamento: por que vós. Comigo é na macia. rogo. o muro. tão vossa excelência? O você comunica muito mais e se agora o trato de você. ao bode. aquela que. e desespero rodando nas estradas entre esqueletos de animais. que é que há? 87 . Tauá (vogais tão fortes não chegam até vós?) vede as espectrais procissões de braços estendidos. mas sou vosso fã omisso. pecador. malcriado. só me lembro de vós para pedir. sobressaltos. ficamos perto. Senhor. ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel: a terra estorricada sempre amada. e já! numa certeira ordem às nuvens. quase que maldito mas amizade é isso mesmo: salta o vale. as revoltosas? Fosse eu Vieira (o padre) e vos diria.. armazéns arrombados e – o que é pior – não tinham nada. Baturité. mas de qualquer modo sempre é uma lembrança. que se veste de humildade e esperança e vos suplica: Olhai para o Nordeste onde há fome. Fazei. puro. Senhor. aquela coisa. tão gravata-e-colarinho. soa qual cantata de Bach em vossa glória e dá vida ao boi.. Senhor. Parambu. florindo e reflorindo. um. Em Iguatu. Ou desobedecem a vosso mando. no veludo/lã e matreiro. o abismo do infinito.Meu Deus. à erva seca. não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre) mas ao Deus que Bandeira. muitas e boas. com carinho botou em verso: “meu Jesus Cristinho”. assaltos. Fazei chover. Desculpai vosso filho. o outro. Meu querido Jesus. bem brasileiro. vamos papeando como dois camaradas bem legais. chover a chuva boa.

a unha de Tostão. Tudo está preparado para a cena dolorosamente repetida no mesmo palco.. No entanto. Dê um jeito. mais sério. em fontes. tá no México batendo pelos músculos de Gérson. meu cronista e meu cristão: essa cantiga é antiga e de tão velha não entoa não. ó irmãozinho. Vamos mudar de assunto. que manda toneladas de pacotes à espera de haver fome. Fiquei calado. 30-5-1970 88 . muito encabulado. Fiquei. confesso. e faça que essa taça sem milagres ou com ele nos pertença para sempre. não acha que já é tempo de aprender e de atender àquela brava gente fugindo à caridade de ocasião e ao vício de esperar tudo da oração? Jesus disse e sorriu. Disfarcei e sorri. meu velho. meu brasileiro. minha primeira pátria (a segunda é a Bahia) desertos se transformam em jardins em pomares. mais urgente. Eu ia lhe falar noutro caso. Meu coração. O mesmo drama. Do contrário ficará a Nação tão malincônica. Pois é. Você. tão roubada em seu sonho e seu ardor que nem sei como feche a minha crônica. E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia. mas pedir. a ronha de Pelé. Escute aqui. Tem a ONU. a cuca de Zagalo. agora. você sabe. vai ao cinema. você lê os jornais. antes fechadas. a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país e uma bola no campo e uma taça de ouro.Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo a mesma eterna pena? E você me responde suavemente: Escute. meu caro. Você tem a Sudene abrindo frentes de trabalho de emergência. pedir sempre ao bom amigo é balda que carrego aqui comigo. toda vida. assim seja. em riquezas. até um livro de vez em quando lê se o Buzaid não criar problema: Em Israel..

Falta um disco

Amor, estou triste porque sou o único brasileiro vivo que nunca viu um disco voador. Na minha rua todos viram e falaram com seus tripulantes na língua misturada de carioca e de sinais verdes luminescentes que qualquer um entende, pois não? Entraram a bordo (convidados) voaram por aí por ali, por além sem necessidade de passaporte e certidão negativa de IR, sem dólares, amor, sem dólares. Voltaram cheio de notícias e de superioridade. Olham-me com desprezo benévolo. Sou o pária, aquele que vê apenas caminhão cartaz de cinema, buraco na rua & outras evidências pedestres. Um amigo que eu tenho todas as semanas vai ver o seu disco na praia de Itaipu. Este não diz nada pra mim, de boca, mas o jeito, os olhos! contam de prodígios tornados simples de tão semanais apenas secretos para quem não é capaz de ouvir e de entender um disco. Por que a mim, somente a mim recusa-se o OVNI? Talvez para que a sigla de todo não se perca, pois enfim nada existe de mais identificado do que um disco voador hoje presente em São Paulo, Bahia Barra da Tijuca e Barra Mansa. (Os pastores desta aldeia já me fazem zombaria

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pois procuro, em vão procuro noite e dia o zumbido, a forma, a cor de um só disco voador.) Bem sei que em toda parte eles circulam: nas praias no infinito céu hoje finito até no sítio de um outro amigo em Teresópolis. Bem sei e sofro com a falta de confiança neste poeta que muita coisa viu extraterrena em sonhos e acordado viu sereias, dragões o Príncipe das Trevas a aurora boreal encarnada em mulher os sete arcanjos de Congonhas da Luz e doces almas do outro mundo em procissão. Mas o disco, o disco? Ele me foge e ri de minha busca. Um passou bem perto (contam) quase a me roçar. Não viu? Não vi. Dele desceu (parece) um sujeitinho furta-cor gentil puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx), talvez...? Isso me garantem meus vizinhos e eu, chamado não chamado insensível e cego sem ouvidos deixei passar a minha vez. Amor, estou tristinho, estou tristonho por ser o só que nunca viu um disco voador hoje comum na Rua do Ouvidor.

Atriz

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A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um dos mitos cênicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

Três presentes de fim de ano

I Querida, mando-te uma tartaruguinha de presente e principalmente de futuro pois viverá uma riqueza de anos e quando eu haja tomado a estígia barca rumo ao país obscuro

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catrapuz! Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora ou tem medo de dizer que é medonho? E aquele quadro (objeto)? Aquela pantalona? Aquela poesia? Hem? O quê? Não ouço a sua voz entre alto-falantes. um perfume. 92 .ela te me lembrará no chão do quarto e te dirá em sua muda língua que o tempo.. III Sempre foi difícil ah como era difícil escolher um par de sapatos. se meu presente é meio louco e bobo e superado: uns lábios em silêncio (a música mental) e uns olhos em recesso (a infinita paisagem). não no fundo amor. amor. Dou-te a senha para o dom imperceptível que não vem do próximo não se guarda em cofre não pesa. Desculpe. é impossível. amor. não distingo nenhuma voz nos sons vociferantes.. O mau gosto e o bom se acasalaram. o tempo é simples ruga na carapaça. não passa nem sequer tem nome. Inventa-o se puderes com fervor e graça. II Nem corbeilles nem letras de câmbio nem rondós nem carrão 69 nem festivais na ilha d’amores não esperes de mim terrestres primores. Agora então.

ninguém a rouba mais de mim. Hoje não a lastimo. tão pegada. aconchegada nos meus braços. porque a ausência.Ausência Por muito tempo achei que a ausência é falta. que rio e danço e invento exclamações alegres. ignorante. Não há falta na ausência. E lastimava. A ausência é um estar em mim. As sem-razões do amor 93 . E sinto-a. branca. essa ausência assimilada. a falta.

Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é primo da morte. Eu te amo porque te amo. no eclipse. não se conjuga nem se ama. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. nossas maneiras de amar. por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor. Amor é dado de graça. Porque amor é amor a nada. e da morte vencedor. e nem sempre sabes sê-lo. Aspiração Tão imperfeitas. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Não precisas ser amante. na cachoeira. Porque amor não se troca.Eu te amo porque te amo. Quando alcançaremos o limite. que é nunca mais morrer. o ápice de perfeição. feliz e forte em si mesmo. é semeado no vento. 94 .

Do sonho de eterno fica esse gozo acre na boca ou na mente. talvez no ar. Começam a esmaecer quando nos cansamos. as pessoas que amamos são eternas até certo ponto. Pensá-las é pensar que não acabam nunca. A hora do cansaço As coisas que amamos. absoluta. sei lá. rebaixamos o amor ao estado de utilidade. revel à condição de carne e alma. por um ou outro itinerário.nunca mais viver duas vidas em uma. de aspirar a resina do eterno. numa outra (maior) realidade. 95 . De outra matéria se tornam. e todos nos cansamos. todo fora de nós mesmos? O absoluto amor. Já não pretendemos que sejam imperecíveis. Duram o infinito variável no limite de nosso poder de respirar a eternidade. dar-lhes moldura de granito. e só o amor governe todo além. Restituímos cada ser e coisa à condição precária.

porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. Arrebentaram a porta.Verdade A porta da verdade estava aberta. mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. E carecia optar. O seu santo nome 96 . Era dividida em metades diferentes uma da outra. Derrubaram a porta. Nenhuma das duas era totalmente bela. Cada um optou conforme seu capricho. sua ilusão. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. Assim não era possível atingir toda a verdade. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. E os meios perfis não coincidiam. sua miopia. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos.

não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez. não experimente. Por quê? 97 . perfeição e exílio na Terra.Não facilite com a palavra amor. Não a jogue no espaço. Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro). Não se inebrie com o seu engalanado som. Não brinque. Não a pronuncie. bolha de sabão.

nos cercam. no teatro.Por que nascemos para amar. Não nos fitam. nossa incômoda sensação de estar vivos e sentir que nos seguem. na biblioteca. imprescritíveis. E não falam. não nos interrogam. morrer? Mortos que andam Meu Deus. 98 . Aparecem no bar. Acompanham. amar. se vamos morrer? Por que morrer. não nos cobram nada. os mortos que andam! Que nos seguem os passos e não falam. se amamos? Por que falta sentido ao sentido de viver. fiscalizam nosso caminho e jeito de caminhar.

À meia distância Claridade infusa na sombra.Como encarar a morte De longe Quatro bem-te-vis levam nos bicos o batel de ouro e lápis-lazúli. pés incertos. O barco lá fica banhado de brisa aveludada. e os bem-te-vis. passos na areia. treva implícita na claridade? Quem ousa dizer o que viu. não a figura. se não viu a não ser em sonho? Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. já esquecidos de perpassar. De lado Sente-se já. dormem no espaço. açúcar. 99 . e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. A superfície jaz tranquila.

Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo. em vaso coberto de resina e lótus e sons. Inscrição tumular 100 . De dentro Agora não se esconde mais. mais sabido. prêmios. mais se ignora. Apresenta-se. como saber que nos procura o viajante sem identidade? Algum ponto em nós se recusa. sentir não sentindo ou sentimento inexpresso de si mesmo. corpo inteiro.avançando e deixando ver um certo cógifo de sandálias. e todo ferrão de desejo. mas eis que falta curiosidade. se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. Promete riquezas. Seu interior mostra-se aberto. só o não saber que afinal se sabe e. Salvo orsto ou contorno explícito. Sem vista Singular.

O instante de corola o instante de vida o instante de sentimento o instante de conclusão o instante de memória e muitos outros instantes sem razão e sem verso. Quem vive é arrastado pela guerra de Deus. 101 . em forma imperceptível. duplo. condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte. misericordioso. Deus é assim: cruel. Deus. como entendê-lo? Ele também não entende suas criaturas. Seus prêmios chegam tarde. Deus e suas criaturas Quem morre vai descansar na paz de Deus.

as coisas deste mundo.Hipótese E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica. O ano passado 102 . talvez.

a vida me ensina esta lição discreta: a ode cristalina é a que se faz sem poeta. Embora sepultos. continua incessantemente. com iguais gestos e falas. Escuto os medos. O céu tem exatamente sabidos tons de amanhecer. E será sempre assim daqui por diante. de sol pleno. mastigo o pão do ano passado. Em vão marco novos encontros. conto as libélulas. 103 . também as mesmas. Não consigo evacuar o ano passado Lição Tarde. e as pessoas. Todos são encontros passados. de descambar como no repetidíssimo ano passado.O ano passado não passou. As ruas. os mortos do ano passado sepultam-se todos os dias. sempre do ano passado.

que. sabendo embora que o que lavra só encontra meia palavra. Além da Terra. além do Céu 104 . tímido. verso.Passatempo O verso não. ou sim o verso? Eis-me perdido no universo do dizer.

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar 105 . na magnólia das nebulosas.Além da Terra. no trampolim do sem-fim das estrelas. Além. muito além do sistema solar. razão de ser e de viver. O mundo é grande O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. o verbo transcendente. no rastro dos astros. acima das gramáticas e do medo e da moeda e da política. até onde alcançam o pensamento e o coração. além do Céu. o verbo sempreamar. o verbo pluriamar. vamos! vamos conjugar o verbo fundamental essencial.

Atirei um limão n’água. ele afundou um barquinho. Os peixes. 106 . rindo. Não se espantaram os peixes: faltava-me o teu carinho. o rio logo amargou. como faço todo ano. Os peixinhos responderam: Quem tem amor tem coragem. como um vidro de perfume.Lira do amor romântico Ou a eterna repetição Atirei um limão n’água e fiquei vendo na margem. Senti que os peixes diziam: Todo amor vive de engano. Os peixinhos repetiram: É dor de quem muito amou. Ouvi um peixe dizer: Melhor é o beijo roubado. Atirei um limão n’água. Atirei um limão n’água e caiu enviesado. Atirei um limão n’água. Em coro os peixes disseram: Joga fora teu ciúme. Atirei um limão n’água mas perdi a direção. notaram: Quanto dói uma paixão! Atirei um limão n’água.

Bem me avisou um peixinho: Fui passado pra trás. Atirei um limão n’água. Atirei um limão n’água. deixa disso. Cada peixinho assustado me lembra o que já sofri. antes não tivesse feito. Até os peixes choraram porque tu me abandonaste. Atirei um limão n’água. o rio ficou vermelho e cada peixinho viu meu coração num espelho. Iria viver com os peixes a minh’alma dolorida. Atirei um limão n’água. Atirei um limão n’água. Os peixinhos me acusaram de amar com falta de jeito. Comenta o peixe mais velho: Infeliz quem não amou. fez-se logo um burburinho. tu me terás esquecido? Atirei um limão n’água. caiu certeiro: zás-trás. de clara ficou escura. 107 .Atirei um limão n’água. Nenhum peixe me avisou da pedra no meu caminho. Atirei um limão n’água. Atirei um limão n’água. Atirei um limão n’água mas depois me arrependi. Atirei um limão n’água. não fez o menor ruído. pedindo à água que o arraste. de tão baixo ele boiou. Se os peixes nada disseram. antes atirasse a vida. Foi tamanho o rebuliço que os peixinhos protestaram: Se é amor.

Mais ardente. tanto mais velho quanto mais amor. o antigo amor. mas do destino vão nega a sentença. não de cultivo alheio ou de presença. Mais triste? Não. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. mais pobre de esperança. que lá estava meu bem. feitas de sofrimento e de beleza. e por estas suplanta a natureza. Por aquelas mergulha no infinito. O amor antigo O amor antigo vive de si mesmo. Ele venceu a dor. porém. Atirei um limão n’água. foi levado na corrente.Até os peixes já sabem: você não ama: tortura. e resplandece no seu canto obscuro. 108 . O amor antigo tem raízes fundas. Atirei um limão n’água e caí n’água também. pois os peixes me avisaram. Nada espera. Senti que os peixes diziam: Hás de amar eternamente. Nada exige nem pede. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante.

mais que honorário. un baiser. Não muito antigo. un baiser. un bacio” A kiss. Assim quis nosso Stefan Baciu saudar o Rio antigo e seu. muito doce. não nos tiram Baciu daqui: carioca ele é.“A kiss. a Poesia: último reduto. Praias e ondas do Havaí.1980 109 . mas trint’anos tecem uma quase eternidade. E as coisas tornam-se presentes.I. Jornal e bonde e mortadela comida à pressa. Contra a sorte cinz’amarela. Entre danos e desenganos. pulsando ao sol e ao vento vário. num minuto. un bacio para a terra que o acolheu. resta porém a claridade (ou a penumbra) de lembrar em surdina dias e gentes. bem devagar. Rio em flor de janeiro 22.

.. os flamboyants que em toda sua pompa se engalanam aqui. de majestade simples. nos jardins dos edifícios. toda se entreflora de etiquetas. Nem a dourada acácia. deixa-se florir no alto. semente. baioneta.) Iúca! Iúca. nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira. Ipanema. Não esqueçamos. Essa gorda baiana me sorri: – Círio de Nossa Senhora. fruto e ninho. ninguém sabe. esse luxo do ipê que nem-te-conto. – Não. eretos lampadários. urnas santas. a gente pára e se extasia. Tijuca. não sabia? E a flor. Em Botafogo. Deixemo-la reinar. no Parque do Flamengo nem se fala: é flor é flor é flor. outra acrescenta. meu amor deste verão que melhor se chamara primavera. coroando folhas pontiagudas e pungentes. Centro. A gente olha. Em toda parte a vejo. e a ela rendo meu tributo apaixonado. Yucca gloriosa. ali. Tão rainha. – Baioneta espanhola. é Léa Távora. que era anônima em sua glória. no Rio flóreo. a gente estaca e logo uma porção de nomes populares brota da ignorância de nós todos. Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia? O Rio de Janeiro virou flor nas praças. uma soberba flor por sobre todas. a ostentar panículas de pérola. – Lanceta é que se chama. (ou de Iemanjá?) – Vela de pureza. Paquetá.A gente passa. a gente olha. (Homem nenhum sabe nomes vegetais. Pergunto o nome. esse adágio lilás do manacá. Sua presença é mel e pão de sonho para os olhos. porém mulher se liga à natureza em raízes. 110 . gente. mexicana dádiva aos canteiros cariocas. Quem responde é Baby Vignoli.

vário. muito acima do ordinário. para quem sabe (e é tão simples) ver? Salário 28.V. Isto é janeiro e é Rio de Janeiro janeiramente flor por todo lado. Não entendo o noticiário. por milagre monetário deu um salto planetário. puro agrado da Terra para os homens e mulheres que faz do mundo obra de arte total universal.mais a vermelha aparição dos brincos-de-princesa nos jardins onde a banida cor volta a imperar. 111 . Você já viu? Você já reparou? Andou mais devagar para curtir essa inefável fonte de prazer: a forma organizada rigorosa esculpintura da natureza em festa. Sou um simples operário.1983 Ó que lance extraordinário: aumentou o meu salário e o custo de vida. escravo de ponto e horário.

e cerzido vestuário. aumentada/ diminuída? A draga. chega-se ao Leblon e já nem rimo. a terra pouca. estranho creme de areia e lama oferta ao velho Leme.sou caxias voluntário de rendimento precário. para não dizer primário. pesadíssima). não festejo aniversário e em meu sufoco diário de emudecido canário. Pobre do ser vivo. Somos hoje mais vastos? mais humanos? Que draga nos vai dar a areia pura. sob o peso tributário. o tamanho natural das coisas estava errado! O mar era excessivo. 112 . sem que aumente a própria dimensão interior. é limpo meu prontuário. pois nessa sinuca superlota-se a Barra da Tijuca (até que alguém se lembre de duplicar a Barra. Não sou nada perdulário. esse dragão. jamais avancei no Erário. Fogem banhistas para o Posto Seis. Mas que lance extraordinário: com o aumento de salário. querida.. Invade-se Ipanema hippie e festiva. Ah. nível de vida sumário. O Posto Vinte. aumentou o meu calvário! Cariocas Como vai ser este verão. me falta vocabulário para um triste comentário.. navegante solitário. com a praia. muito menos salafrário. que aumenta o chão pisável.

onde floriram a Rosa Azul e a Rosa Samba. tudo claro.. gentil. Ai. é um oceano inteiro de (a) mo (r) cidade. A transparência vai além: os ossos. no mais. o Rio? A Roselândia vamos e aspiremos o fino olor de flor em cor e albor. a começar na blusa transparente e a terminar. tu deliras? Até logo. com cheiro e tudo quanto se resume no festival enlevo do perfume? Busco em vão neste Rio um roseiral. a frente é interminável. (Conservo no remorso um sapo antigo assassinado a pedra. as vísceras também ficam à mostra? Meu amor. Regressa ao cotidiano: um professor reclama para os sapos mais amor. Caçá-los e exportá-los prejudica os nossos canaviais. sem paredes as casas e os governos. a rua. Repara como tudo está pra frente. olha aí. que gracinha de esqueleto revelas sob teu vestido preto! Os costureiros são radiologistas? Sou eu que dou uma de futurólogo? Translúcidas pedidas advogo: tudo nu na consciência.. o busto altivo. de seqüestro e bomba? 113 .. a Roselândia. ele. Viram que novidade? Rosas de verdade. olha as esguias pernas. deixa de vãs filosofias. engole ruins aranhas do Brasil.. tem a doçura de uma vaca embutida no verde da paisagem. e flor que zomba desse fero contexto de metralhadora. olha a serena arquitetura feminina em cena pelas ruas do Rio de Janeiro que não é rio. indago. em vez de um verso. e me disperso em quadrada emoção diante da rosa. medonhos escorpiões: o sapo papa paca. pois inda existe flor. Carlos.fundamento de nova criatura? Carlos. uma rosa é um rosal. e me castigo a remoer sua emplastada imagem. Um rosa te dou.) Depressa. olha o broto. pulo muros: qual! A flor é de papel. ou cheira mal o terreno baldio.

por que me visitas como em outros tempos nossos corpos se visitavam? Tua transparência roça-me a pele. Então. Amado ser destruído. e nossa história invenção de livro soletrado sob pestanas sonolentas. puro som. única parte de ti que não se dissolve e continua existindo. convida a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca um beijo recebeu de rosto consumido. por que voltas e és tão real assim tão ilusório? Já nem distingo mais se és sombra ou sombra sempre foste. doçura. ouço teu nome. a perseguir-me. convicto. mesmo timbre. mesma voz. suave? Nunca pensei que os mortos 114 . Aperto. beijo intensamente o nada. Ouço-te a voz. Mas insistes. e nosso final descanso de camurça. e aquele mesmo longo arquejo em que te esvaías de prazer.Aparição amorosa Doce fantasma. querida ausente.. o quê? a massa de ar em que te converteste e beijo. Terei um dia conhecido teu vero corpo como hoje o sei de enlaçar o vapor como se enlaça uma idéia platônica no espaço? O desejo perdura em ti que já não és.. mesmas leves sílabas.

murmura a bunda . que engraçada A bunda.esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. Está sempre sorrindo. A bunda se diverte por conta própria. Tua visita. Tua visita ardente me consola. Montanhas avolumam-se. descem. A bunda é a bunda redunda. A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. nunca é trágica. que engraçada. A bunda basta-se. apenas uma esmola. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. Tua visita ardente me desola. Vai feliz na carícia de ser e balançar Esferas harmoniosas sobre o caos. Lá vai sorrindo a bunda. A bunda. Na cama agita-se. Ondas batendo numa praia infinita. plenamente. Ora . Anda por si na cadência mimosa.o mesmo ardor tivessem de outros dias e no-lo transmitissem com chupadas de fogo aceso e gelo matizados. Existe algo mais? Talvez os seios. no milagre de ser duas em uma. 115 . E ama.

atinge o céu do céu. 116 . balidos e rugidos de leões na floresta. entre gritos. lambilenta. mais ativa. e. lambilonga. E lambe. fizeste-me a graça Sem que eu pedisse. fizeste-me a graça de magnificar meu membro. enfurecidos. quanto mais lambente.A língua lambe A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta. e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. Sem que eu pedisse. a língua lavra certo oculto botão. a licorina gruta cabeluda. entre gemidos.

Sem que eu esperasse. Seios. nádegas (tácito armistício) repousam de guerra. inocência de irmã e copo d’água. na total impossibilidade de gesto ou comunicação. Hoje não estás sem sei onde estarás. O corpo nem sequer é percebido pelo ritmo que o leva. O que passou não é passado morto. Adorando. Transitam curvas em estado de pureza. adorando. É um andar vestida de nudez. ficastes de joelhos em posição devota. Não te vejo não te escuto não te aperto mas tua boca está presente. provocante. Pêlos que fascinavam não perturbam. dando este nome à vida: castidade. Não é nudez datada. Também eu repouso. Nunca pensei ter entre as coxas um deus. 117 . Mulher andando nua pela casa Mulher andando nua pela casa envolve a gente de tamanha paz. Para sempre e um dia o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

ou se..é ainda o que prefiro. Então. iluminando o gozo. no seu giro lento. e respiro a brisa dos planetas. meu mais íntimo suspiro. esse retiro No corpo feminino. sábio papiro. se me firo em unhas protestantes.No corpo feminino. A ela. o sentimento da morte eis que o adquiro: de rola. violento. já me estiro.a mão.. me restauro. esse retiro . dessedentado. qual lampiro. 118 . se ponho e tiro a mão em concha . pois tanto mais a apalpo quanto a miro.a doce bunda . me penso. Que tanto mais a quero. a bunda torna-se vampiro. me confiro.

que seria de mim até o amanhecer?” 119 .No mármore de tua bunda No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio. nem de seus gostos. Fecha-se em copas: “Se você não vem depressa até aqui nem eu posso correr à sua casa. À meia-noite. conta-me que é fulva a mata do seu púbis. Agora que nos separamos. pelo telefone. Outras notícias do corpo não quer dar. minha morte já não me pertence. pelo telefone À meia-noite. Tu a levaste contigo.

intata. 120 . de desejar-te tanto e sem alarde. calo-me. fome que não sofria padecer-te assim pasto de tantos. Se em tempo não ousei. agora é tarde.Concordo. e chegasses. renascida. universal poema. e eu covarde a esperar que limpasses toda a gala que por teu corpo e alma ainda resvala. Não quero ser o último a comer-te Não quero ser o último a comer-te. para travar comigo a luta extrema que fizesse de toda a nossa vida um chamejante. Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde em minha boca seca de querer-te.

Na mansuetude das ovelhas mochas.htm Site oficial http://www. Ah. Era Adão. coito. primeiro gesto nu ante a primeira negritude de corpo feminino. Fonte http://memoriaviva. como se alargava.digi. coito.com. eu não era ninguém e era mil seres em mim ressuscitados. Em minha ardente substância esvaída. morte de tão vida. e tão estreita. sem dizeres.br/ 121 .com. Roupa e tempo jaziam pelo chão. E nem restava mais o mundo. nem destino. sepultura na grama.br/drummond/index2. à beira dessa moita orvalhada.carlosdrummond.A castidade com que abria as coxas A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava.

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