O eu e o outro: esboço de uma semiologia psicossomática da angústia

Rubens Marcelo Volich

Eles vagavam sem rumo. Em meio à poeira, à fumaça, perambulavam, o olhar distante, mirando o vazio. Movimentos automáticos, irrefletidos, silenciosos. Não viam, não demonstravam ser vistos. Vagavam sem destino pelas ruas de Manhattan, sem dar-se conta do caos que os envolvia. Nos primeiros dias, muitos foram dados como desaparecidos, e sequer chegavam a reconhecer-se nas centenas de fotografias espalhadas nos postes por aqueles que os procuravam. Perdidos, siderados, chocados. Rostos sem expressão, em meio a expressões sem rostos. Desaparecidos sem aparência. Mortos-vivos. Zumbis. Hoje já distantes, esmaecidas por horrores de outra guerra – menos surpreendente, também cruel – essas imagens foram as relatadas por Gerald Thomas ao observar as pessoas após o ataque ao World Trade Center há dois anos. Homens e mulheres que, horas antes, haviam se preparado para mais um dinâmico dia de trabalho no coração de uma cidade que se orgulhava de seu vigor e de jamais dormir. Em minutos, não tinham mais o que fazer, para onde ir, com quem conversar. Em instantes, ruíram compromissos, metas, encontros, projetos, futuros. Semanas depois do atentado, milhares de cartas ainda chegavam para endereços e pessoas desaparecidos. Em caixas postais de celulares, vozes familiares continuavam prometendo que aquele que não mais existia “retornaria assim que possível”. Zumbi. Fantasma que vaga pela noite morta. Lugar deserto do sertão. Vulto perdido, alma de certos animais. Assim nos ensina a crença popular. Paragens ermas, almas abandonadas. Imagens do desamparo. Como o do olhar estarrecido dos que testemunhavam o desabamento dos símbolos de suas crenças, de seus valores, de seu mundo. Zumbis. Vultos que perambulam sem rostos, que não reconhecem o semblante do outro, nem o de si mesmos. Espaços vazios da alma, desertificados ou desertos para além ou aquém da angústia. Para mim, a visão daqueles seres empoeirados, estátuas-vivas petrificadas

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pelo horror, representava a expressão mais autêntica de um território que até então apenas tinha imaginado, mas nunca presenciado com tal intensidade. Para muitas pessoas, ainda alguns dias depois da catástrofe, não era o medo, o horror que imperava, mas a indiferença. Milhares entraram em choque, milhões se apavoraram. Como as nuvens de poeira, uma espessa camada de medo e de angústia espalhou-se sobre Nova York, ganhando em seguida todo o país, e daí o Mundo. Entramos, todos, em uma outra era. Em pouco mais de dois anos, justificadas pelo ataque a Nova York, outras cenas de horror nos capturaram. Em um outro cenário, a moderna linha do horizonte de Manhattan foi substituída pelas infinitas dunas do deserto iraquiano, as reluzentes combinações de aço e vidro pelo tom ocre e poeirento de construções precárias, de outros tempos. Apesar de esperado, supostamente cirúrgico, restrito, o ataque ao Iraque provocou cenas parecidas de horror e de destruição. Após cada ataque, outros vultos também emergiam e rondavam entre os escombros, perdidos, desorientados. Outros povos. Outras terras. A mesma violência. O mesmo sofrimento. Humanos... Em tempos que eram outros, Freud mergulhava na alma humana e seus temores. Intrigava-se com um menino Hans que tinha medo de cavalos (Freud, 1909a). Impressionava-se com Ernst Lanzer, mais conhecido por fantasiar, com horror e prazer, uma tortura do exército chinês que envolvia ratos penetrando pelo ânus (Freud, 1909b). Constatava também a “belle indifference” afetiva das histéricas (Freud e Breuer, 1895), as explosões delirantes de um Schreber que transmutava-se em mil corpos (Freud, 1911), e mesmo, sensível à sua época, perguntava-se sobre a natureza da violência, sobre a essência traumática das guerras e das neuroses por elas geradas (Freud, 1919). Didático, ele tentou ensinar-nos a diferença entre o medo, a angústia e o terror, declarando que o primeiro manifestava-se diante de uma ameaça conhecida e identificada, a angústia diante de um perigo não-identificado, sendo o terror a condição extrema, traumática, de uma submersão do aparelho psíquico, e em primeiro lugar do ego, diante de uma experiência de intensidade extrema culminando com um processo de desorganização geral do sujeito (Freud, 1926). Em um movimento curioso, distinto mesmo daquele do conjunto da teoria freudiana, a teorização sobre a angústia gradualmente migrou

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de um primeiro modelo eminentemente econômico, de quantidades de excitação que se tornavam desprazeirosas e assim angustiantes (Freud, 1895), para um outro de primazia tópica, em que, apesar de presente, a dimensão do desprazer é regida pela instância egóica intermediadora dos conflitos com o id, com o superego e com a realidade. Diante do perigo, da ameaça de emergência de um desprazer extremo já experimentado, o desamparo, protótipo da angústia automática, o ego desencadearia um sinal de angústia que mobiliza o aparelho psíquico de forma a evacuar, evitar ou eliminar, por meio de diferentes mecanismos, a situação ameaçadora (Freud, 1926). Eram outros os tempos nos quais Freud desenvolveu essas teorias. Na I Grande Guerra, que horrorizou Freud, levando-o a pensar a noção de traumatismo, a violência e a destrutividade humana, os inimigos passavam meses entrincheirados a poucos metros uns dos outros, conheciam os nomes daqueles contra quem lutavam, e, nas tréguas de Natal, interrompiam sua luta, abandonavam suas trincheiras, para, por uma noite que fosse, confraternizar e juntos celebrar aquela data. Nesses novos tempos em que, não apenas nas guerras, conduzidas a distância, teleguiadas, mas até nas esquinas de nossas cidades, não se conhece o inimigo, em que não se sabe onde procurá-lo, podemos continuar referidos apenas àquelas concepções freudianas sobre a angústia? Apesar de conhecidos e consagrados, os modelos da angústia já não fazem completamente jus à riqueza dos recursos clínicos e teóricos da psicanálise, nem mesmo a muitos daqueles já desenvolvidos pelo próprio Freud. Proponho assim retomar algumas das formulações freudianas e seus desdobramentos posteriores, refletindo sobre o significado da experiência angustiante a partir de três de seus protagonistas, o ego, o objeto e a pulsão. Além disso, penso também ser importante interrogar-se sobre a possibilidade de construirmos, a partir de um referencial psicanalítico, uma verdadeira semiologia psicossomática da angústia, que pode nos permitir compreender o sentido da multiplicação de adjetivos que a ela foram acrescentados: angústia neurótica, psicótica, angústia catastrófica, depressiva, angústia sem nome, e muitas outras, mas também ressaltar o papel da angústia como regulador e sinalizador da economia psicossomática.

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Da pulsão à constituição da angústia
Por mais que o ego seja uma figura central na dinâmica da angústia, não podemos esquecer que a pulsão é uma dimensão constitutiva desta experiência. É a exigência de satisfação e de trabalho que a pulsão impõe ao sujeito que desencadeia no ego a necessidade de intermediar com os demais protagonistas desta experiência, o id, o superego e a realidade, os desfechos possíveis para tais exigências, entre os quais se encontra a angústia (Freud, 1915, 1926). Da natureza pulsional da angústia, devemos reconhecer que estão implicadas nessas experiências dimensões psíquicas e somáticas, como o próprio Freud já apontava, e como podemos experimentar a todo momento. Dessa mesma natureza depreendemos que na angústia estão também implicadas as dinâmicas pulsionais de intricação e desintricação, de fusão e de defusão, das pulsões de vida e de morte, da libido e da destrutividade do sujeito (Freud, 1920). Mais especificamente, é importante considerar a angústia como um sinalizador do movimento de desintrincação pulsional e de desorganização promovido pela pulsão de morte. Considerar a angústia a partir da perspectiva pulsional leva-nos também a compreender que, assim como a pulsão, a angústia não é uma experiência inata, mas, sim, que pode ou não vir a ser constituída, a partir dos avatares da história do sujeito. Por mais que possamos compreender a angústia como herdeira das reações mais primitivas do sujeito em seus primeiros contatos com o mundo, como herdeira do desamparo, essas primeiras experiências não se configuram de imediato como angústia propriamente dita. Tanto quanto a constituição da pulsão, que, descolando-se do instinto, marca a origem da dimensão psíquica da vida do sujeito, também a angústia caracteriza-se como um estado no qual está implicada uma parcela, por menor que seja, do psiquismo desse sujeito. Devemos, portanto, considerar a existência de estados primitivos, no início da vida ou em momentos de profunda desorganização do sujeito, subseqüentes a experiências traumáticas, nos quais, apesar de toda perturbação econômica e, até mesmo, fisiológica, a angústia não se encontra configurada e que, portanto, não podem ser caracterizados como angústia. A angústia é assim uma experiência a ser constituída. É no contexto de uma história, a partir das marcas e dinâmicas vividas como prazer e desprazer

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que se constitui a experiência da angústia, segundo diferentes graus de complexidade e de qualidade. Sabemos a função essencial do outro humano na constituição de tais experiências. Reconhecemos, então, a natureza necessariamente sincrônica da emergência da pulsão, e do núcleo psíquico do que poderá vir a se constituir como o ego e como representação do objeto, componentes indissociáveis da angústia. Como aponta Freud, o ego é uma instância central na dinâmica da angústia, sendo ao mesmo tempo o desencadeador desta dinâmica e o palco no qual ela se manifesta (Freud, 1926). As especificidades da angústia dependem, portanto, das características da instância egóica, das circunstâncias e do grau de desenvolvimento de seus recursos para lidar com as demandas pulsionais, com as demais instâncias psíquicas e com a realidade, e, em particular, com os objetos de satisfação da pulsão. É na dialética entre o sujeito e o outro, entre a pulsão e seus objetos de satisfação ou de frustração que se constituem as diferentes formas de angústia. Desde suas primeiras formulações, Freud apontava para a angústia como sendo essencialmente um recurso antitraumático do aparelho psíquico para tentar evitar o transbordamento do excesso de excitações (Freud, 1895b). Por mais que implique uma dimensão de desprazer, ela mobiliza o sujeito de forma que seja possível evitar ou eliminar a fonte do desprazer. Os mecanismos de defesa do ego são apenas os recursos mais conhecidos para efetuar tais operações. Porém, como todo recurso antitraumático, a angústia pode implicar toda a gama de possibilidades de funcionamento psicossomático. Assim, as características da angústia dependem das mesmas dinâmicas segundo as quais o sujeito reage aos conflitos de sua existência que oscilam entre modos de reação mentais, comportamentais e somáticos, nessa ordem, dos mais aos menos evoluídos, dos mais requintados e consistentes aos mais frágeis e primitivos (Marty, 1990). Como vimos, o outro humano exerce um papel essencial na proteção e no cuidado inicial do sujeito e, conseqüentemente, na promoção, no desenvolvimento e na organização de seus recursos. Dessa forma é também em torno do objeto que se organiza inicialmente a experiência da angústia. Esse objeto pode também se prestar como suporte dessa experiência. Como nos mostra Spitz, a constituição da angústia diante do estranho marca o momento de diferenciação entre o sujeito e o objeto, e o próprio nascimento do sujeito, como tal (Spitz, 1963). A qualquer momento da vida, mas principalmente nos primeiros momentos do desenvolvimento, a existência

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de um objeto que se constitua como suporte da excitação e da angústia é um importante organizador dos recursos antitraumáticos protetores contra a desorganização psicossomática. Uma semiologia psicossomática da angústia deve considerar as diferentes características das dinâmicas implicadas nas manifestações de angústia: a existência ou inexistência de sinais manifestos de angústia, a qualidade desses sinais, as manifestações fisiológicas e corporais, as características da dinâmica psíquica do sujeito, seus modos de funcionamento, sua maneira de lidar com conflitos, as vias de descarga da excitação, mas também suas dinâmicas de relação objetais e narcísicas.

O paradigma das angústias infantis
M. Fain chama a atenção para três modalidades do adormecimento de bebês, que revelam essencialmente três diferentes modos de equilíbrio econômicos entre as atividades motora, representativa e auto-erótica. 1. O bebê adormece sozinho, realizando mais tarde, durante o sono, movimentos de sucção. Esse comportamento é um indício de um bom funcionamento do aparelho mental e de uma boa relação com a atividade representativa, permitindo a regressão necessária ao sono. 2. O bebê só adormece chupando o dedo, indicando a necessidade da sucção de um objeto real para conseguir a regressão necessária ao sono. 3. A criança se agita, berra, chupa freneticamente o dedo e não consegue adormecer. Esse comportamento revela um ciclo ininterrupto de descargas, ineficazes para a promoção da regressão narcísica que conduz ao sono. Esses três modos de auto-erotismo revelam diferenças qualitativas do equilíbrio motricidade-representação, correspondente às diferentes distribuições da libido narcísica e objetal. O primeiro é próximo da representação, uma representação que reforça o sono por uma descarga alucinatória da excitação. O segundo indica a necessidade de uma excitação real bem mais longa, e o terceiro parece lançar-se em um ciclo infernal de descarga sem fim, em detrimento da atividade onírica e representativa. A partir dessas observações, M. Fain aponta para a distinção entre mães calmantes e mães que permitem a satisfação de seu bebê. As mães dos bebês insones foram descritas como calmantes, voltadas para acalmar os

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bebês e não para propiciar a eles a experiência de satisfação. É possível constatar uma falha maciça em seu papel de pára-excitações. O investimento materno existe, mas ele é tão viciado que não permite ao bebê constituir para si mesmo um pára-excitações autônomo. Nesse caso, a mãe se propõe constantemente como única guardiã do sono da criança, função sem nenhuma relação com aquela normalmente exercida pelo sonho. Em função dos conflitos com seus próprios objetos primitivos, essas mães não conseguem propiciar a seus filhos identificações primárias que permitam a eles adormecer prescindindo do contato físico com elas. Elas se revelam incapazes de organizar seu instinto materno, oferecendo à criança mensagens discordantes nas quais a possibilidade de identificação primária com ela coexiste com uma tendência equivalente de rejeição. A possibilidade de renunciar a sua atitude calmante, propiciando experiências de satisfação para seu filho, é acompanhada pela regularização do ciclo sono-sonho da criança. A esses modos de relação objetal corresponde a diversidade das condições de estruturação e manifestação da angústia na criança. L. Kreisler (1992) oferece-nos uma visão clara dessa diversidade a partir das perturbações do desenvolvimento, infantil, apontando para a função da angústia como sinalizadora do grau de integração da economia psicossomática. Assim, a atonia depressiva da criança, freqüente no bebê, mas encontrada mesmo em adolescentes, caracteriza-se, segundo ele, pela “inibição, pela inércia, pela indiferença, ausência de angústia, sem desamparo ou mesmo tristeza” (p.41). Observa-se a monotonia de comportamentos do vazio depressivo, indícios de uma desorganização psicossomática maior. As separações são um fator importante de desencadeamento e manutenção das depressões do bebê, que podem também ocorrer no contato com uma mãe fisicamente presente, mas moralmente ausente ou deprimida. As cólicas e dores abdominais são duas das expressões mais freqüentes da angústia no bebê e na criança. A manifestação mais conhecida dessa dinâmica são as dores de barriga ligadas à fobia escolar, segundo Kreisler, mal nomeada. Trata-se não de um medo de ir à escola, mas do medo e da impossibilidade de separar-se da mãe ou evoluir para a situação edípica, ou seja, constituir e representar a rivalidade edípica e a angústia de castração. No sonambulismo, observamos atividades motoras automáticas durante o sono. A enorme dificuldade em acordar um sonâmbulo denota a insensibilidade e a indiferença deste à realidade exterior, mas principalmente às pessoas da proximidade, durante o sono. A amnésia é característica

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desse funcionamento, e chama a atenção a ausência de terror, de medo ou mesmo de inquietação que distingue o sonambulismo do terror noturno. L. Kreisler (1992) aponta que, na verdade, o sonambulismo não é um sonho agido, mas um “sonho fracassado” (p.139). A tentativa de preservar o sono não ocorre, como habitualmente, pela regressão psíquica, mas pela descarga motora. Trata-se de uma doença de expressão preponderantemente comportamental, caracterizada por uma vida fantasmática pobre, ou de difícil expressão, por um contato verbal pobre, descritivo, pela ausência de sonhos. Essa carência fantasmática e onírica parece ser compensada pela hiperatividade motora noturna. O TAT, Rorschach, CAT apontam para um importante bloqueio afetivo diante de situações potencialmente geradoras de angústia, e para a fuga de situações constrangedoras ou angustiantes. O terror noturno, por sua vez, manifesta-se predominantemente por ocasião das vivências edípicas. Um intenso ataque de angústia surpreende a criança durante o sono, mergulhando-a em estado de grande terror, sem que ela possa reconhecer as pessoas à sua volta, nem lembrar-se da crise de angústia após ela. Trata-se de uma angústia indizível, que se manifesta pelos gritos e pelas gesticulações, e a criança parece defender-se do perigo, algumas vezes com os olhos arregalados, fixos, como se enxergasse um espaço alucinado. A conduta motora de terror é acompanhada de fenômenos neurovegetativos transpiração, taquicardia, taquipnéia e inconsciência da realidade exterior (Kreisler, 1992, p.142). O terror noturno difere do pesadelo. No pesadelo, a criança pode ser acordada por solicitação de uma outra pessoa, acorda, e pode reconhecer tanto a pessoa como o próprio estado de pesadelo. O pesadelo é um sonho no pleno sentido da palavra, marcado pelo afeto de angústia. Entre nós, Wagner Ranña aponta em seus trabalhos o bom prognóstico dos quadros alérgicos, caracterizados pela ausência da angústia diante do estranho, no momento em que os pacientes passam a apresentar manifestações fóbicas. Esse rápido panorama de algumas manifestações psicossomáticas da infância permite-nos reconhecer os diferentes graus de organização psíquica e relacional determinantes de tais manifestações, mas também de diferentes modalidades de expressão da angústia. Podemos observar que nas formas mais primitivas da atonia depressiva da criança, a precariedade do vínculo com os objetos corresponde a uma indiferença e à não-manifestação de qualquer traço de angústia. Tal ausên-

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cia de angústia não é fruto, a meu ver, de um mecanismo eficiente para evacuá-la ou eludi-la, mas simplesmente da não-constituição dessa angústia em função da precariedade da organização psicossomática, em particular das instâncias e recursos psíquicos e representativos do sujeito, bem como de suas relações de objeto. Da mesma forma, as cólicas, o sonambulismo, o terror noturno e os pesadelos infantis revelam-nos manifestações nas quais a progressiva organização psíquica e, conseqüentemente, uma crescente organização do ego e o enriquecimento das relações objetais vão gradativamente permitindo uma melhor configuração e uma manifestação mais nítida da angústia. Assim, é interessante a comparação entre o sonambulismo e o terror noturno, de um lado, e os pesadelos e os sonhos de angústia, de outro. Nos dois primeiros, a descarga motora e o ataque de angústia durante o sono são refratários à presença ou mesmo à intervenção de um objeto exterior, revelando a intensidade de sua dimensão narcísica e a fragilidade vincular. Ao mesmo tempo, a amnésia denota uma ruptura quase completa entre a experiência do sono e de vigília. No pesadelo, no sonho de angústia, o vínculo com o objeto e com a vigília pode ser prontamente restabelecido a partir da intervenção de um objeto exterior, denotando uma maior permissividade entre a dimensão narcísica e objetal dessa experiência e a maior continuidade entre a vivência onírica angustiante e a experiência desperta.

Por uma semiologia da angústia
P. Marty (1990) revelou a importância da compreensão dos movimentos evolutivos e contra-evolutivos para compreender o funcionamento psicossomático e suas perturbações. Ao desenvolver o conceito de depressão essencial, ele já chamava a atenção para a importância das características da angústia para compreender tais dinâmicas (Marty, 1968). Segundo ele, “a depressão psicossomática, [várias vezes chamada] depressão sem objeto, [seria] melhor chamada de depressão essencial, pois ela constitui a essência da depressão, a saber, o rebaixamento do tônus libidinal sem contrapartida econômica qualquer”. A depressão essencial é precedida por angústias difusas, arcaicas e automáticas, que poderiam também ser qualificadas de essenciais no sentido

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que traduzem o desamparo profundo do indivíduo provocado pelo afluxo de movimentos instintivos não controlados porque não elaboráveis. O ego submerso mostra, assim, sua fraqueza defensiva, a insuficiência de seus recursos, sua desorganização. Ele é incapaz de constituir angústias-sinal que alertam para a iminência de um perigo e para a necessidade de mobilizar a economia psíquica para enfrentá-lo, Assim, a depressão essencial é caracterizada por uma “crise sem ruído”, que desencadeia a vida operatória. Observa-se o apagamento em toda a escala da dinâmica mental, o desaparecimento da libido tanto narcísica como objetal, sem qualquer outra compensação econômica a não ser a fragmentação funcional. Ela se constitui assim como “uma das principais manifestações da precedência do instinto de morte”. Apesar de menos espetacular do que a depressão melancólica, a depressão essencial pode evoluir de forma mais determinada e irreversível para a doença grave e mesmo a morte. Podemos assim considerar, a partir do modelo de P. Marty, que na ponta evolutiva do desenvolvimento psicossomático humano, em cujo extremo encontramos a organização genital edipiana, as angústias apresentam um caráter objetal. Na ponta contra-evolutiva, na qual se manifesta a depressão essencial, a vida operatória, e a desorganização progressiva, encontramos as angústias difusas, características de psiquismo desvitalizado que perdeu a maior parte de seus recursos organizadores e defensivos. Como sabemos, as angústias difusas, que apontam para a má mentalização, correspondem a experiências de desamparo, mecanismos de urgência de um ego precário tentando limitar efeitos da desorganização psíquica e somática. Porém, elas ainda são tentativas de reorganização visando à interrupção da desorganização progressiva e a preservação da vida (Volich, 2000). Crises de vida, conflitos, crônicos ou agudos, e traumas perturbadores do funcionamento mental e da continuidade dos investimentos psíquicos perturbam também a organização e a manifestação da angústia como sinal de uma ameaça, não só de desprazer, mas também de uma desorganização pulsional, psicossomática, progressiva grave. Observamos em muitos pacientes a diminuição ou mesmo o desaparecimento de formas de angústia mais elaboradas (objetais) anteriores ou concomitantes à manifestação de doenças somáticas de diferentes graus de gravidade. Esse fato clínico deve alertar-nos para a importância em considerar esses quadros como sinalizadores de processos nos quais a precariedade das condições pulsionais, egóicas, representativas e objetais limitam ou tornam a função antitraumática da angústia inoperante.

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Nos processos traumáticos, nas desorganizações progressivas, é em torno do outro, do objeto e de seus investimentos que é possível estancar os processos de desorganização. A angústia, como sinal, não é apenas um sinal de desprazer ou da iminência de um perigo vivido ou imaginado (Freud, 1926). O sinal de angústia, mesmo em suas modalidades mais difusas, é, sobretudo, um sinal de desinvestimento. Desinvestimento do outro e mesmo de desinvestimento do próprio ego como recurso psíquico, organizador narcísico do funcionamento psicossomático. É um sinal que o tecido psíquico se esgarça a ponto, algumas vezes, de não mais poder ser remendado. P. Marty (1998) aponta para as diferenças evolutivas, dinâmicas e econômicas entre doenças orgânicas “a crises” e as doenças evolutivas. As doenças “a crises” manifestam-se predominantemente como fruto de movimentos regressivos em pessoas que geralmente apresentam uma boa mentalização, perturbada temporariamente por algum episódio de vida ou por um momento depressivo. Elas são funcionalmente localizadas, de natureza reversível e normalmente não colocam em risco a vida do sujeito. Fazem parte desse grupo a asma, o eczema, as úlceras, as raquialgias e as cefaléias. Paralelamente ao tratamento médico, a psicoterapia visa reforçar os recursos mentais buscando diminuir a intensidade e a freqüência das crises. Por sua vez, as doenças evolutivas, mais graves, decorrem geralmente do processo de desorganização progressiva resultante das neuroses de comportamento, das neuroses malmentalizadas e das desorganizações do préconsciente. Elas podem ter como primeiro sinal o aparecimento de doenças “a crise” que, pela repetição, adquirem um caráter evolutivo. Seu tempo de latência e de progressão é variável, podendo colocar em risco a vida do paciente e quase sempre solicitando intervenções médicas mais agressivas (cirurgias, quimioterapias, radioterapias). As doenças cardiovasculares, as auto-imunes e vários tipos de câncer fazem parte desse segundo grupo. Nas doenças a crise, que se manifestam em pessoas com melhores recursos da economia psicossomática que permitem interrupção e a reversão do movimento contra-evolutivo desorganizador, as angústias do paciente encontram-se geralmente associadas a representações mentais. São angústias objetais resultantes da boa qualidade dos recursos regressivos, que sinalizam a existência e a atividade dos recursos de reorganização do sujeito e de eventual reversibilidade da doença. Nas neuroses de comportamento e nas neuroses malmentalizadas podemos observar uma grande oscilação na manifestação dos tipos de angústia,

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dependendo do estágio do movimento de desorganização progressiva. Nos momentos iniciais dessa desorganização, observamos ainda a presença oscilante de manifestação de angústia que podem desaparecer repentinamente, ou ainda manifestar-se de forma brusca, violenta e inesperada (próximas ou semelhantes a estados de pânico) sem associação a representações psíquicas ou a objetos. Essa oscilação é muitas vezes aleatória, e independe de qualquer evento exterior. Nos estágios mais avançados da desorganização progressiva, as angústias adquirem cada vez mais um caráter difuso e automático, próximo da sideração e dos estados de desamparo, apontando para a presença de uma depressão essencial. Podemos então considerar, segundo P. Marty, que as angústias difusas ou o desaparecimento de qualquer manifestação de angústia se constitui como um alarme, um sinal por excelência dos níveis mais graves e desorganizados de funcionamento da economia psicossomática.

Da semiologia à clínica
Para finalizar, é importante considerar as implicações clínicas de nossa construção semiológica referente à angústia. Como aponta Cl. Smadja (1997), na clínica, “a identificação da qualidade da angústia em um paciente que apresenta uma afecção somática regressiva, assim como a avaliação do caráter da angústia ao longo dos movimentos de reorganização espontânea ou sob o efeito de um tratamento psicoterapêutico são de importância capital na prática psicossomática” (p.100). A mudança da qualidade da angústia acompanha a mudança do caráter da desorganização progressiva, e, muitas vezes da reversão do curso evolutivo da doença. “A observação das crises interruptivas do funcionamento mental e as retomadas da continuidade dos investimentos psíquicos com as correspondentes transformações qualitativas do afeto de angústia são dois dos melhores indicadores para a avaliação do estado de funcionamento psicossomático de um paciente em um certo momento, e, em particular, durante o processo psicoterapêutico” (p.102). O terapeuta, o analista, o médico ocupam, como objetos transferenciais, um lugar de demanda e de investimento privilegiado para o paciente. Pela natureza de sua posição eles são inevitavelmente colocados nessa posição de objeto potencialmente estruturante e organizador dos destinos da angústia,

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da mesma forma como cabe à mãe, pela função materna, assegurar o contrainvestimento da excitação traumática de seu bebê, como forma de garantir sua sobrevivência e promover seu desenvolvimento. O lugar do terapeuta, daquele que cuida, é particularmente sensível como observatório das dinâmicas de investimento e de desinvestimento do paciente, e, conseqüentemente, das oscilações da qualidade da angústia. Reconhecendo esse lugar, o que implica, até mesmo, colocar-se na desconfortável posição de objeto da angústia de seu paciente, pode o terapeuta, por seu investimento, contrapor-se aos movimentos desorganizadores e traumáticos sustentando o tecido psíquico prestes a se esgarçar. *** Aos parentes das vítimas do World Trade Center foram oferecidos recipientes com destroços do desmoronamento das torres. Durante dias e meses, sucederam-se na mídia imagens das cenas relacionadas à catástrofe. O “ponto zero” transformou-se em lugar de peregrinação e vigília, passando a ser cultuado e promovido em seus mais ínfimos detalhes como lugar de memória e lembrança. Inicialmente, todo esse interesse pareceu a todos chocante, excessivo, mórbido. Devemos, porém, tentar compreender a função de tais destroços, da repetição incansável das imagens, peregrinações e cultos em torno daquele lugar aniquilado pela catástrofe. Houve um dia em que, depois de fascinar a todos com nosso sorriso, desesperamo-nos ao descobrirmo-nos sozinhos, e acreditamos em uma promessa incerta de que aquela mãe, que sempre cuidou de nós e se afastou, voltaria. Um dia, em meio a um passeio em um dia ensolarado em nossos carinhos de bebê, um rosto desconhecido nos mergulhou no mais profundo desespero. Um dia, acreditamos que uma simples formiga seria capaz de nos devorar. Deveríamos ser gratos àquela mãe que nos abandonou por alguns instantes e àquele desconhecido que nos assustou. Gratos aos bichos-papões, às taturanas, às baratas, aos pequenos animais que em certos momentos nos causam ou causaram tanto medo, ou mesmo terror. Talvez, foram mães, estranhos, analistas, insetos, ou mesmo tantos outros seres insignificantes, pedaços de coisas sem importância que nos momentos cruciais de nossas vidas, sem querer, sem saber, livraram-nos do destino dos zumbis.

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Psicossoma III - Interfaces da psicossomática

Referências bibliográficas
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