JOHN WESLEY

NONO SERMÃO
O ESPÍRITO DA ESCRAVIDÃO E DA ADOÇÃO “Porque não receberam o espírito de escravidão, para outra vez, estardes em temor; mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual chamamos: Aba, Pai”. (Romanos 8:15)
1.

Paulo fala aqui a esses que são os filhos de Deus pela fé. "Vocês", diz ele, que são realmente seus filhos, têm bebido de seu Espírito; “vocês não têm recebido o espírito da escravidão novamente, para sentir medo"; "mas, porque são filhos, Deus tem enviado o Espírito de seu Filho, em seus corações". "Vocês receberam o Espírito de adoção, por meio do que nós chamamos, Abba, Pai". O espírito de escravidão e medo estão, extensamente, distantes desse Espírito amoroso de adoção: Esses que são influenciados apenas pelo medo servil, não podem ser denominados “os filhos de Deus”; contudo alguns podem ser nomeados servos, e não estão “muito longe do reino dos céus”. Mas isto é para ser temido, por todo gênero humano, sim, porque o que é chamado de mundo cristão não atingiu nem mesmo isso; mas está muito longe de conseguir, “nem mesmo é Deus, em todos os seus pensamentos”. Poucos nomes podem ser encontrados naqueles que amam a Deus; um pouco mais há daqueles que o temem; mas a grande maioria não tem nem medo de Deus, diante de seus olhos, nem o amor de Deus em seus corações. Talvez vocês, que, pela clemência de Deus, participam de um espírito melhor agora, possam se lembrar do tempo, quando eram como os outros, quando estavam debaixo da mesma condenação. Mas no princípio, vocês não conheciam isto, entretanto, estavam se espojando diariamente em seus pecados e em seu sangue; até que, em seu devido tempo, vocês "receberam o espírito de medo"; (vocês receberam – pois isso também é um dom de Deus): e, depois disso, o medo desapareceu, e o Espírito do amor preencheu seus corações. Aquele que está no primeiro estágio da mente, sem medo do amor, está designado na Escritura de “um homem natural”: O que está debaixo do espírito de escravidão e teme, às vezes, é dito que está "debaixo da lei": (Embora aquela expressão mais freqüentemente signifique aquele que está debaixo da isenção judaica, ou que pensa que ele é obrigado a observar todos os rito e cerimônias da lei judia): Mas aquele que trocou o espírito de medo pelo Espírito de amor, é dito corretamente que está "debaixo da graça".

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Agora, porque muito nos importa saber qual espírito somos nós, eu devo me esforçar para mostrar distintamente:

I. O estado de um "homem natural”. II. O estado do quem está "debaixo da lei". III. O estado do quem está "debaixo de graça".

IV. O estado do “homem natural”
1.

Esse, a Escritura representa como um estado de sono: A voz de Deus para ele é, "Desperta tu que dormes!" Porque sua alma está em sono profundo, seus sentidos espirituais não estão acordados; eles não discernem, nem o bem espiritual, nem o mal. Os olhos de sua compreensão estão hermeticamente fechados, e nada vêem. Nuvens e escuridão continuamente cobrem seus olhos, porque ele se deita, no vale da sombra de morte. Não tendo, conseqüentemente, nenhuma enseada, para o conhecimento de coisas espirituais, todas as estradas de sua alma estão fechadas. Ele está numa ignorância bruta e estúpida de tudo o que ele lhe é concernente saber; ignorante de Deus; totalmente estranho à Sua lei, tanto quanto da Sua verdade, dentro, de um significado espiritual. Ele tem nenhuma concepção daquela santidade evangélica, sem a qual, nenhum homem verá o Senhor; nem da felicidade, a que somente encontram aqueles cuja (vida está escondida com Cristo, em Deus). Por esta mesma razão, porque está adormecido, ele está, de certa forma, em descanso. Porque é cego, ele também é seguro. Ele diz: "Dente de cavalo, não permita que algum dano aconteça a mim”. A escuridão que cobre seus olhos por todos os lados, o mantém, numa espécie de paz; tanto quanto a paz possa consistir com os trabalhos do diabo, e com uma mente terrestre, diabólica. Ele não vê que está na extremidade da cova, então, não teme isto. Ele não pode tremer do perigo que desconhece, por que não tem compreensão bastante para isso. Nem mesmo teme a Deus, porque é totalmente ignorante Dele, dizendo ao seu coração: “Não há nenhum Deus”; ou, que "Ele se sentou, no círculo dos céus, e humilhou-se”, quando ele mesmo devia observar as coisas que são feitas na terra, e não procurando satisfazer a si mesmo, tanto quanto seus intentos e propósitos sensuais, dizendo: “Deus é misericordioso”; confundindo e tragando, de uma só vez, toda sua santidade e ódio essencial do pecado; toda sua justiça, sabedoria, e verdade, nessa idéia de clemência, de difícil manuseio. Ele não tem medo da vingança denunciada contra aqueles que não obedecem à lei santificada de Deus, porque não entende isto. Ele imagina que o ponto principal é agir dessa maneira, para ser exteriormente inocente; e não vê que isso se estende a todo o seu temperamento, desejo, pensamento, movimento do coração. Ou imagina que a obrigação é cessada até aqui; e que Cristo veio

2.

“destruir a Lei e os Profetas”; para salvar seu povo deles, e não de seus próprios pecados; e levá-los ao céu, sem santidade: — Não obstante, suas próprias palavras, “ninguém que anote ou intitule a lei deve passar, até que todas as coisas sejam cumpridas”. E “Nem todo aquele que diz até mim, Senhor, Senhor!, deve entrar no reino de Deus; mas o que faz a vontade do Pai que está no céu”.
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Ele está seguro, porque é totalmente ignorante de si mesmo. Conseqüentemente, ele fala de "arrepender-se logo". Ele não sabe, realmente, quando, mas em algum momento ou outro, antes que morra; tendo por garantido, que isso está em seu próprio poder decidir. Porque deveria dificultar que ele possa fazer isso, se ele fará? Se ele pode fixar uma resolução, ele não terá o que temer, mas fará isso bom! Mas esta ignorância nunca é tão fortemente clara, como nesses que são designados homens de aprendizado. Se um homem natural for um destes, ele pode falar largamente das suas faculdades racionais, da liberdade de sua vontade, e da absoluta necessidade de tal liberdade, para constituir no homem um agente moral. Ele lê, argumenta, e prova para demonstração, que todo o homem pode fazer, como ele fará; podendo dispor seu próprio coração ao mal ou ao bem, como melhor parecer aos seus olhos. Assim, o deus deste mundo esparrama um véu duplo de cegueira, em seu coração, para que não, por quaisquer meios, "brilhe a luz do evangelho glorioso de Cristo", nisto. Da mesma ignorância de si mesmo e de Deus, há, algumas vezes, no homem natural, um tipo de alegria, congratulando-se com sua própria sabedoria e bondade: O que o mundo chama alegria, ele pode freqüentemente possuir. Ele pode ter prazer de várias maneiras: tanto em gratificar os desejos da carne, ou o desejo dos olhos, ou o orgulho da vida; particularmente, se ele tem grandes posses; se ele goza de abundante fortuna; então, ele pode “vestir” a si mesmo “em púrpura, e fino linho, e viver suntuosamente todos os dias”. E, além disso, como ele faz bem consigo mesmo, os homens irão, sem dúvida, falar bem dele. Eles dirão: “Ele é um homem feliz!” Porque, realmente, essa é a soma da felicidade humana; vestir-se, visitar, falar, comer, beber e levantar-se para jogar. Isto não surpreendendo, se um, em tais circunstâncias, como estas, dosou com o soporífero da lisonja e pecado, deveria imaginar, entre os outros sonhos despertando-se nele, que ele caminha em grande liberdade. Como, facilmente, ele pode persuadir a si mesmo que ele está em liberdade de todos os erros vulgares, e do prejuízo da educação; julgando de maneira correta, e deixando claro todos os extremos: “Eu sou livre”, ele pode dizer, “de todo o entusiasmo das almas fracas e estreitas, da supertição, da doença dos tolos e covardes, sempre íntegros sobre os demais; e fanatismo, continuamente, incidindo naquele que não têm a liberdade e generosidade, no seu modo de pensar”. E também verdade é, que ele é completamente livre da “sabedoria

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que vem do alto”, da santidade, da religião do coração, de toda a mente que está em Cristo!
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Durante todo esse tempo ele é um servo do pecado. Ele comete pecado, mais ou menos, dia a dia. Ainda que não esteja preocupado: Ele "está em nenhuma escravidão", como alguns falam; ele não sente nenhuma condenação. Ele contenta a si mesmo (embora, devesse professar, para acreditar que a Revelação Cristã é de Deus), com: "O homem é delicado. Somos todos fracos. Todo homem tem a sua debilidade". Talvez ele cite a Escritura: "Por que, Salomão não diz: O homem íntegro entra em pecado, sete vezes por dia? E, indubitavelmente, eles são todos hipócritas ou entusiastas que pretendem ser melhores que seus vizinhos” Se, a qualquer hora, um pensamento sério fixa nele, ele o abafa, o mais cedo possível, com: "Porquê eu deveria temer, já que Deus é misericordioso, e Cristo morreu pelos pecadores?” Assim, ele permanece um servo disposto do pecado, contentando-se com a escravidão da corrupção; interiormente e exteriormente profano e satisfazendo-se, com isso, não apenas não conquistando pecado, mas não se esforçando para conquistar; particularmente, aquele pecado o qual o ataca tão facilmente. Tal é o estado de todo homem natural; se ele é um transgressor bruto, escandaloso, ou um pecador mais respeitável e decente, tendo a forma, entretanto, não do poder de devoção. Mas como pode tal criatura ser convencida do pecado? Como ele é trazido ao arrependimento? Estando debaixo da lei? Recebendo o espírito da escravidão e do medo? Esses são os pontos que em seguida serão considerados.

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II. O estado do quem está "debaixo da lei".
1.

Por alguma providência terrível, ou por sua palavra aplicada, com a demonstração de Seu Espírito, Deus toca o coração daquele, que se estende dormindo na escuridão e na sombra da morte. Ele é terrivelmente abalado em seu sono, e desperta na consciência do seu perigo. Talvez, de repente; talvez aos poucos, os olhos de seu entendimento são abertos, e agora primeiro (o véu sendo, em parte, removido), discirna o real estado em que se encontra. Terríveis luzes penetrem sua alma; tal luz, como pode ser concebida para cintilar de sua cova sem fundo, do mais profundo, do lago de fogo queimando com enxofre. Ele, por fim, veja o amado, o misericordioso Deus - que também é “fogo queimando”; que ele é um Deus justo e terrível, retribuindo a todo homem, de acordo com suas palavras, entrando em julgamento com o descrente, por causa de toda palavra inútil; sim, e das imaginações do coração. Ele claramente perceba que o grande e santo Deus é “feito de olhos puros, para perceber iniqüidade”; que ele é um vingador de todo aquele que se rebela contra ele, e restitui ao mau à sua face; e que “é uma coisa temerosa cair nas mãos do Deus vivo”.

2.

A essência espiritual da lei de Deus começa a brilhar nele agora. Ele percebe “que a ordem está se excedendo generosamente”, e que não há “nada o escondendo da luz, dali em diante”, ele está convencido de que toda parte disto relaciona-se, não apenas com o pecado exterior ou obediência, mas ao que se passa, nos intervalos secretos da alma, onde nenhum olho, mas apenas Deus pode penetrar. Se ele agora ouve: “Não matarás”, Deus fala, num estrondo: “Aquele que odeia seu irmão é um assassino”, “ele que diz ao seu irmão, Tu, tolo, és detestável no fogo do inferno”. Se a lei diz: “Não cometas adultério”, a voz do Senhor soa, nos seus ouvidos. “Ele que olha a mulher, para cobiçar depois, terá cometido adultério com ela, ainda que em seu coração”. E, assim, em todo ponto, ele sente a palavra de Deus “rápida e poderosa, cortante como duas lâminas de espada”. Ela “perfura até mesmo o que tem dividido sua alma e espírito, suas articulações e medula, em pedaços”. E ainda mais, porque ele é consciente de si mesmo, tendo negligenciado tão grande salvação; de ter “trilhado debaixo dos pés do filho de Deus”, que o teria salvo de seus pecados, e “contado o sangue da convenção do profano”, uma coisa comum e não santificada.

3.

E, como ele sabe, "todas as coisas estão desnudas e abertas em seus olhos”, então, ele vê a si mesmo nu, despojado de toda folha-de-figo, o qual ele coseu junto com todas as suas pobres pretensões para religião e virtude, e suas miseráveis desculpas por pecar contra Deus. Ele agora coloca a si mesmo, como nos sacrifícios antigos, dividindo-se em dois, como se fosse, do pescoço para baixo, de modo que tudo dentro dele permanece confesso. Seu coração está nu, e ele vê que ele é todo pecado, “enganoso - acima de todas as coisas – e, desesperadamente, mau"; que é completamente corrupto e abominável; mais que isto, que é possível a língua expressar; que, nesse lugar, habitou, apenas, injustiça e impiedade; cada movimento, dali em diante, todo temperamento e pensamento, sendo, continuamente, mau.

4.

E ele não apenas vê, mas sente em si mesmo, por uma emoção da alma, que ele não pode descrever, que, para os pecados do seu coração, estava sua vida sem culpa — (o qual ainda não é, e não pode ser; uma vez que “uma árvore má não pode produzir bons frutos)”, então, ele merece ser lançado no fogo que nunca será extinto. Ele sente que "os salários", a justa recompensa “do pecado”, do seu pecado acima de todos, “é a morte”, mesmo a segunda morte; a morte, que não morre; a destruição do corpo e da alma no inferno.

5.

Aqui termina seu sonho prazeroso, seu ilusório descanso, sua paz falsa, sua vã segurança. Sua alegria agora se desvanece, como uma nuvem - prazeres, uma vez amados, não deleitam mais. Ele perde a graça do gosto: ele abomina o doce nauseante; ele está cansado de suportá-los. As sombras da felicidade fugiram, e afundam em esquecimento: então, ele está despojado de tudo, e vagando de lá para cá, buscando descanso, mas não encontrando nenhum. O fumo desses narcóticos, sendo dispersos, ele sente a angústia de um espírito ferido. Ele acha que o pecado deixado solto na alma (se é orgulho, ira, ou desejo mau; se voluntariedade, malícia, inveja, vingança, ou qualquer outro) é miséria perfeita: Ele sente a tristeza do coração, pelas bênçãos perdidas, e a maldição que vem sobre ele: remorso por ter se destruído assim, e menosprezado suas próprias clemências; teme, da sensação vivaz da ira de Deus, e das conseqüências de Sua ira, do castigo que ele mereceu justamente, e que ele vê pendurado em cima de sua cabeça; • • • medo da morte, como sendo para ele o portão do inferno, a entrada da morte eterna; medo do diabo, o executor da ira, e íntegra vingança de Deus; medo de homens - que, se pudessem matar seu corpo, mergulhariam corpo e alma assim no inferno.

6.

Teme, às vezes, levantar tal peso, que a pobre, pecadora e culpada alma é terrificada com tudo, com nada, com sombras, com uma folha tremida ao vento. Sim, algumas vezes, pode confinar com distração, fazendo um homem “bêbado, mas não com vinho”, suspender o exercício da memória, da compreensão, de todas as faculdades naturais. Algumas vezes, isso pode aproximar da mesma beira do desespero; então, ele que treme ao nome da morte, pode ainda estar pronto para mergulhar nela, em todo momento, “escolhendo estrangulamento à vida”. “Bem, pode tal homem rugir, como um velho, por causa da mesma inquietude de seu coração”. Bem, pode tal homem gritar - “O espírito do homem pode sustentar suas debilidades; mas um espírito ferido, quem pode agüentar?”.
7.

Ele verdadeiramente deseja soltar as amarras do pecado, e começar a lutar contra ele. Mas, embora, lute com todas as suas forças, ele não pode conquistar a vitória. O pecado é mais forte que ele. Ele poderia, de bom grado, escapar; mas ele é tão rápido na prisão, que ele não pode seguir adiante. Ele se resolveu contra o pecado, mas ainda o pecado está sobre ele. Ele vê a armadilha, a detesta e colide contra ela. Tanto faz sua ostentada razão aproveitar; isso só faz aumentar sua culpa, e incrementar sua miséria! Tal é a liberdade de sua vontade; livre apenas para o mau; livre para “beber iniqüidade como água”;

vagar longe e mais longe do Deus vivo, e fazer mais “a despeito do Espírito da graça”.
8.

O mais que ele se esforce, deseje, trabalhe para ser livre, mais ele sente suas cadeias, as lastimáveis cadeias do pecado, com o qual Satanás o amarra e “o conduz cativo à sua vontade”, servo dela que é; embora ele sempre se queixe muito; embora se rebele, ele não pode prevalecer. Ele está ainda em escravidão e medo, por causa do pecado. De um modo geral, de algum pecado externo, para o qual ele está peculiarmente disposto, ou, por natureza, costume, ou circunstância externa; mas sempre, de algum pecado interno, algum temperamento mau, ou afeto profano. E, o mais que ele se aflija contra isto, mais ele predomina; ele pode morder, mas não pode quebrar sua cadeia. Assim, ele labuta, sem fim: arrependendo-se, e pecando - arrependendo-se, e pecando novamente, até que, finalmente, o pobre, pecador, e desamparado infeliz esteja, até mesmo, no fim de sua graça, e possa penas gemer. "Ó, homem miserável que eu sou! Quem poderá me livrar do corpo dessa morte?”. Toda a luta daquele que vive “debaixo da lei”, debaixo do espírito do medo e da escravidão”, é lindamente descrita pelo apóstolo no capítulo precedente, falando na pessoa de um homem acordado: (Romanos 7) – A lei opera em nós a morte. A luta da carne com o espírito. “Eu estava, uma vez, vivo, sem a lei”. (Verso 9). Eu tinha muita vida, sabedoria, força e virtude? Então, eu pensei: “Mas, quando o mandamento chegou, o pecado reviveu, e eu morri”. Quando o mandamento – no seu significado espiritual – veio ao meu coração, pelo poder de Deus, meu pecado congênito foi incitado, irritou-se, inflamou-se, e toda minha virtude morreu. “E o mandamento que foi ordenado para a vida, eu pensei que tinha sido para a morte. Porque o pecado, tendo oportunidade pelo mandamento, enganou-me, e através dele, matou-me”. (Verso 10, 11). Ele veio até mim, inadvertidamente, e matou todas as minhas esperanças; e mostrou claramente que, no meio da vida, eu estava em morte. “Portanto, a lei é santa, o mandamento é santo, e justo, e bom”. (Verso 12). Eu não coloquei a culpa nele, por muito tempo, mas na corrupção do meu próprio coração. Eu reconheci que “a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado”. (Verso 14). Eu agora vejo ambos, a natureza espiritual da lei – e meu próprio carnal e diabólico coração “vendido debaixo do pecado”, totalmente escravizado – (como escravo, comprado a dinheiro, que está à absoluta disposição de seu dono). “Porque o que faço, não o aprovo, pois o que quero, não o faço, mas o que aborreço, isso eu faço”. (Verso 15).

9.

Tal é a escravidão, debaixo do qual eu gemo – tal a tirania do meu dono cruel, “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum, e, com efeito, o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque o que não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço”.(Verso 18,19). “Eu encontro a lei”, um poder interno constrangedor. “Acho, então, esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus”. (Verso 21,22). Em minha “mente”. (então, o apóstolo explica a ele mesmo, nas palavras que imediatamente se seguem : e, então, “o esv anqurvpos”, o homem interno, é entendido em todos os outros escritos gregos). “Mas vejo nos meus membros” – outro poder constrangedor, “outra lei que batalha contra a lei do meu entendimento”, ou homem interno, “e me prende debaixo da lei” ou poder “do pecado que está nos meus membros”.(Verso 23). Arrastando-me, como ele estava, nas rodas da carruagem do meu conquistador, nas mesmas coisas, as quais minha alma detesta. “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?”. Quem poderá me livrar dessa desvalida, moribunda vida, da escravidão do pecado e miséria? Até que isso seja feito, “eu mesmo” ou melhor, aquele que eu “autos egv”, (aquele homem que eu estou agora interpretando), “com a mente”, ou homem interior,“Dou graças a Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor: Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne à lei do pecado”. (Verso 25), sendo retirado, com pressa, à força, eu não posso resistir.
10.

Como um retrato vivo é aquele “debaixo da lei”, aquele que sente o fardo que ele não pode chacoalhar fora; aquele que calça depois da liberdade, poder, e amor, mas está em medo e escravidão ainda! Até o tempo em que Deus responde ao homem miserável que grita: “Quem poderá me livrar” da escravidão do pecado, do corpo dessa morte? – “A graça de Deus, através de Jesus Cristo, teu Senhor”.

III. O estado do quem está "debaixo de graça"
1.

Eles – aqueles essa escravidão miserável termina, e ele não mais está “debaixo da lei”, mas “debaixo da graça”. Nesse estado nós estamos. O terceiro a ser considerado – o estado daquele que encontrou a graça ou favor nas vistas de Deus, até mesmo o Pai, e quem tem a graça e o poder do Espírito Santo, reinando em seu coração – aquele que tem recebido, na linguagem do apóstolo, o “Espírito de adoção”, por meio do que, ele agora clama, “Abba, Pai!”.

2.

“Ele clama ao Senhor em suas dificuldades, e Deus o livra de suas aflições”. Seus olhos estão abertos, de uma maneira totalmente diferente de antes, até para que veja o amoroso, e bondoso Deus. Enquanto ele está chamando: “Eu imploro a Ti, mostra-me a tua glória” –, ele ouviu a voz no íntimo de sua alma. “Eu farei todas as minhas bondades passarem diante de Ti, e eu irei proclamar o nome de nosso Senhor: Eu serei bondoso com aqueles, com os quais serei bondoso; e eu irei mostrar misericórdia àqueles, para os quais irei mostrar misericórdia”. E, isso, não muito tempo antes “do Senhor” descer por entre as nuvens, e proclamar o nome do Senhor. Então, ele verá, mas não com os olhos da carne e sangue.“O Senhor - o Senhor Deus, misericordioso e afável, paciente, e abundante em bondade e verdade; mantendo misericórdia para milhares e perdoando iniqüidades, e as transgressões do pecado”.

3.

A celestial e curadora luz agora invade sua alma. Ele “olha nele, em quem ele tinha penetrado”, e “Deus que, fora da escuridão, comanda a luz para brilhar, brilha em seu coração”. Ele vê a luz do glorioso amor de Deus, na face de Jesus Cristo. Ele tem a divina “evidência das coisas que não são vistas”, pelos sentidos, até mesmo das “coisas profundas de Deus”, mais, particularmente, do amor de Deus, do amor que perdoa aquele que crê em Jesus. Dominada pela luz, toda sua alma clama, “Meu Senhor e meu Deus”. Porque ele vê todas as suas iniqüidades deitarem-se Nele, que “as desnuda em seu próprio corpo na árvore”, ele observa o Cordeiro de Deus tirando fora seus pecados. Quão, claramente, agora, ele discerne, que “Deus está em Cristo, reconciliando o mundo em si mesmo; fazendo pecar por nós, aquele que não conheceu o pecado, para que possamos ser feitos a retidão de Deus, através dele”. – e que ele mesmo é reconciliado para Deus, por esse sangue do pactuado!

4.

Aqui termina tanto a culpa, quanto o poder do pecado. Ele pode dizer, agora: “Eu estou crucificado com Cristo: Não obstante, eu vivo; ainda não eu, mas Cristo vive em mim: e a vida que agora eu vivo na carne”, (mesmo nesse corpo mortal). “Eu vivo pela fé no Filho de Deus, que me ama, e deu a si mesmo por mim”. Aqui, finda o remorso, e tristeza do coração, e a angústia de um espírito ferido. “Deus transformou seu peso em alegria”. Ele tinha chagas, e suas mãos estavam amarradas. Aqui, termina também a escravidão até o medo; porque “seu coração prontamente acreditou no Senhor”. Ele não pode temer a ira de Deus mais; porque ele sabe que agora elas se viraram para longe dele; nem mesmo olha para Deus, como para um juiz ameaçador, mas como para um pai amoroso. Ele não teme o mal, sabendo que ele não tem “nenhum poder, exceto aquele que é dado a ele do alto”. Ele não teme o inferno; sendo um herdeiro no reino dos céus – Conseqüentemente, ele não tem medo da morte; pela razão de ter estado no passado, por muitos anos, “sujeito à escravidão”. Ao contrário,

sabendo que “se a casa terrestre desse tabernáculo for dissolvida, ele terá a casa de Deus, a casa que não foi feita por suas mãos, eterna nos céus” - ele gemeu fervorosamente, desejando ser vestido com essa casa que é dos céus. Ele gemeu para chacoalhar fora essa casa da terra, para que essa “mortalidade” possa ser “tragada fora da vida” - sabendo que Deus “o tem forjado para essa mesma coisa: que tem também dado a ele a garantia do seu Espírito”.
5.

E, “onde o Espírito de Deus está, lá há liberdade” – liberdade, não apenas da culpa e do medo, mas liberdade do pecado, do mais pesado, de todos os jugos, que foi fundamentado em toda escravidão.Seu trabalho não é agora em vão. As armadilhas foram quebradas, e ele está livre. Ele não apenas se esforça, mas igualmente triunfa – Ele não apenas luta, mas também conquista. “Dali em diante, ele não serve mais ao pecado” (Ro 6:6) “sabendo isto: que o nosso velho homem foi com ele crucificado, a fim de que não sirvamos mais ao pecado”. Ele está “morto no pecado, e vivo em Deus” – “o pecado não mais reina”, até mesmo, “em seu corpo mortal”. Nem “obedece a ele nos desejos, daí”. Ele não mais “oferece seus membros como instrumento da iniqüidade, dentro do pecado, mas como instrumento da retidão, dentro de Deus”. Porque “sendo agora feito livre do pecado, ele se torna um servo da retidão”.

6.

Assim, “tendo paz com Deus, através de nosso Senhor Jesus Cristo”, “regozijando-se na esperança da glória de Deus”, e tendo poder sobre o pecado, sobre todos os demais desejos maus, e temperamento, e palavra, e obra, ele é uma testemunha viva da “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”, todos eles, sendo participantes de tal preciosa fé, registram a uma só voz. “Nós recebemos o Espírito de adoção, por meio do qual, nós clamamos, Abba, Pai!” É esse espírito que, continuamente, trabalha neles, tanto para que desejem, como para que façam o que é do bom agrado de Deus. É esse espírito que irradia o amor de Deus, para fora, em seus ouvintes, e para o amor de toda humanidade, purificando, assim, seus corações do amor do mundo, da luxúria da carne, da luxúria dos olhos, e do orgulho da vida. É por ele, que eles são libertos da ira e do orgulho, e de toda vil e irregular afeição. Em conseqüência, eles são libertos das palavras e obras más, de toda conversa impura; não fazendo mal a qualquer descendente do homem, e sendo zeloso de toda boa obra. Para concluir· • O homem natural nem teme, nem ama a Deus. Não tem a luz nas coisas de Deus, e caminha em completa escuridão. Aquele que dorme na morte tem a falsa paz. O pagão, batizado ou não, tem uma liberdade imaginosa, o qual é, entretanto, sem permissão. A adormecida criança

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do mau, peca de boa-vontade. O homem natural não conquista, nem luta. • Aquele, debaixo da lei, teme. Ele vê a dolorosa luz do inferno. O que está acordado, não tem paz, afinal. O judeu, ou o que está sob a dispensação judaica, está numa pesada e lastimável escravidão. O que está acordado peca contra sua vontade. O homem debaixo da lei luta contra o pecado, mas não o vence. O que está, debaixo da graça, o ama! Vê a alegre luz dos céus. Esse que acredita tem a verdadeira paz -, a paz de Deus, preenchendo e regendo seu coração. O cristão alegra-se com a verdadeira e gloriosa liberdade dos filhos de Deus. A criança de Deus “não peca”. “Mas mantem-se firme, e o mau não a toca”. O homem debaixo da graça luta e conquista - Sim, é “mais que vencedor, através Dele que o ama”.

IV. Estado de aceitação com Deus.
1.

Por esse pensamento, com respeito ao homem em seus três estados, (natural, legal e evangelical), parece que não é suficiente dividir a humanidade em sinceros e insinceros. Um homem deve ser sincero, em qualquer um desses estados; não apenas, quando ele tem o “Espírito de adoção”, mas enquanto está sob o “espírito da escravidão e medo” – E enquanto ele não tem nem medo, nem amor. Para que, indubitavelmente, possam ser sinceros: pagãos, tanto quanto judeus, ou cristãos. Nessas circunstancias, o homem está num estado de aceitação com Deus. Examinem a si mesmos, por conseguinte. Não apenas, “se vocês são sinceros” mas, “se vocês estão na fé”. Examinem, cuidadosamente (porque isso importa muito), qual é o princípio que rege sua própria alma! É o do amor de Deus? É o do medo de Deus? Ou não é, nem um, nem o outro? Não é de preferência o amor do mundo? O amor do prazer e do lucro? Da facilidade, ou da fama? Porque, se for assim, você não está muito longe de vir a ser um judeu. Embora, ainda seja um pagão. Tem você o céu, em seu coração? Tem você o “espírito de adoção”, sempre clamando, Abba, Pai? Ou você clama a Deus, como “fora do ventre do inferno?” Subjugado pela tristeza e medo?

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Ou você é um estranho para todas essas questões, e não consegue imaginar o que elas significam? Pagão, tire fora sua máscara! Você nunca colocou Cristo em seu coração! Permaneceu descarado! Olhe para o céu; e reconheça, diante Dele - que vive sempre e sempre -, que tu não tens parte, nem mesmo entre os filhos dos servos de Deus! Quem quer que tu sejas: Cometes pecado, ou não cometes? Se, cometes, é de boa-vontade, ou contra sua vontade? Em qualquer caso, Deus tem dito a ti, o que tu és: “Ele, que cometeu pecado pertence ao diabo” Se tu cometes pecado, de boa-vontade, tu és fiel servo do mal: Ele não falhará em recompensar teu trabalho. Mas, se o fazes contra tua vontade, ainda és um servo, mas Deus te livrará das mãos dele! Tens tu lutado diariamente contra todo pecado? E, diariamente, sendo mais que vencedor? Então, eu te reconheço como um filho de Deus. Ó, tu que te levantastes em tua gloriosa liberdade! Tens tu lutado, e não tens conquistado? Esforçando-te para dominar, mas não sendo capaz de atingires? Então, tu ainda não és um crente em Cristo; mas segue adiante, e tu irás conhecer o Senhor. Tu não tens lutado, afinal, mas conduzido uma fácil, indolente e fascinante vida! Ó, como tu tens ousado nomear o nome de Cristo, apenas para fazer isso repreensivo entre os pagãos? Acorda, tu que dormes! Chama a teu Deus, antes que sejas tragado pelas profundezas.

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2.

Talvez, uma razão porque muitos não discirnam em qual estado estão, é porque esses diversos caminhos da alma estão freqüentemente misturados, e, em alguma medida, é possível encontrar um ou outro, em uma mesma pessoa. Deste modo, a experiência mostra que o estado legal (debaixo da lei), ou estado do medo, é freqüentemente misturado com o natural; porque alguns homens, embora, estejam adormecidos no pecado, às vezes, são, mais ou menos, despertados. Como o Espírito de Deus não “espera pelo chamado do homem”, então, algumas vezes, ele será ouvido. Ele os coloca no medo; pelo menos, os que estão na condição de pagãos, onde “tudo que sabem é que são homens”. Eles sentem o fardo do pecado e, verdadeiramente, desejam fugir da ira que está por vir. Mas, isso não dura muito. Embora, freqüentemente, sofram as flechas da convicção irem fundo, em suas próprias almas, rapidamente, reprimem a graça de Deus, e tornam a chafurdarem-se no lodo.

Do mesmo modo, o estado evangelical, ou estado do amor, é freqüentemente misturado com o legal. Porque poucos desses que têm o espírito da escravidão e do medo permanecem sempre sem esperança. O sábio e bondoso Deus raramente os faz sofrer isso; “porque ele se lembra de que nós somos pó”; e ele não concorda que “a carne deva falhar diante dele, ou o espírito que ele fez”. Então, nessas ocasiões, como Ele vê o bem, Ele faz com que a luz do amanhecer chegue até aqueles que se encontram na escuridão. Ele faz com que parte de sua bondade passe diante deles, e mostre que Ele é um “Deus que ouve aquele que ora”. Eles vêem a promessa, que é pela fé em Jesus Cristo, embora, ela ainda esteja longe, e, por esse motivo, eles são encorajados a “correrem com paciência a corrida o qual é colocada diante deles”.
3.

Uma outra razão, porque muitos enganam a si mesmos, é porque eles não consideram quão longe um homem pode ir, ainda que esteja num estado de homem natural, ou, bem melhor, num estado legal. O homem pode ser de um temperamento compassivo e benevolente; ele pode ser afável, cortês, generoso, amigável; ele pode ter alguns graus de mansidão, paciência, temperança, e muitas outras virtudes morais. Ele pode sentir muitos desejos de chacoalhar para fora todos os vícios, e atingir altos graus de virtude. Ele pode se abster de tudo que é mal; talvez, de tudo que é grosseiramente contra a justiça, misericórdia e verdade. Ele pode fazer o bem, pode alimentar o faminto, vestir o nu, ler muitos livros à viúva e órfão. Ele pode atender aos trabalhos de adoração pública, orar em privativo, ler muitos livros de devoção; e ainda assim, mesmo com tudo isso, ser um mero homem natural, não sabendo nada sobre si mesmo, nem sobre Deus; igualmente, um estranho ao espírito do medo, tanto quanto ao espírito do amor; tendo nem se arrependido, nem acreditado no Evangelho. Mas suponha que seja acrescida, a tudo isso, a profunda convicção do pecado, com muito medo da ira de Deus; veemente desejo de lançar fora todo pecado, e preencher toda retidão; o freqüente regozijar em esperança, e toques de amor, comumente, realçados na alma; ainda nem esses provam que o homem esteja debaixo da graça; e tenha uma fé cristã verdadeira e viva -, a menos que o Espírito de adoção resida em seu coração, a menos que ele continuamente clame, “Abba, Pai!”

4.

Precavenha-se, então, tu que és chamado, em nome de Cristo, e que não alcanças o sinal de teu sublime chamado. Precavenha-se tu que descansa, ou num estado natural, com muitos daqueles que são considerados bons cristãos; ou num estado legal, em que aqueles que são sublimemente estimados dos homens estão geralmente contentes de viver e morrer.

Deus tem preparado coisas melhores para ti, se tu seguires em frente, até que as alcance. Tu não és chamado para temeres e tremeres, como os diabos; mas para regozijar-te e amares, como os anjos de Deus. Deves “amar o Senhor teu Deus de todo teu coração, e toda tua alma, e toda tua mente, e toda tua força”. Deves “regozijar-te sempre mais”. Deves “orar, sem cessar”. Deves “em tudo dar graças”. Deves “fazer a vontade Deus na terra, como é ela é feita nos céus”. Ó, prova, tu “a boa, aceitável, e perfeita vontade de Deus!” Apresenta a ti como “um sacrifício vivo, santo, aceitável a Deus”. “Pelo que tu já tens atingido, segures rapidamente”, por “alcançar aquelas coisas que havia antes”: até que “o Deus da paz te fez perfeito em toda boa obra, trabalhando em ti, com o que é agradável às suas vistas, através de Jesus Cristo: Para quem seja a glória para sempre e sempre. Amém!

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