Como preparar aulas mediante a metodologia da DCE de Filosofia do Paraná Vanderson Ronaldo Teixeira – UEL - osabiomadruga@gmail.

com Caetano Zaganini Filho – UEL – zaganini@hotmail.com Introdução O presente artigo tem por finalidade defender a possibilidade, ainda que utópica, de que podemos fazer algo em prol da educação, de que temos ainda intenções e com muita criatividade e muito, muito trabalho acreditamos ser viável o ensino que tanto almejamos ver fluir em nossas escolas, principalmente o ensino da disciplina de filosofia que nós não só lecionamos, mas tencionamos vivenciá-la, experimentá-la e que, tanto vivência como experiência possam ser compartilhadas em sala de aula e que os estudantes levem isso para além dos limites escolares. Acreditamos na educação e lutamos por isso. Para tanto, passamos a um breve relato de nossa realidade, uma pequena experiência que julgamos ser vivida por muitos outros professores, que como nós, estão em salas de aulas. Qualquer semelhança, temos certeza, não é mera coincidência. Problemática Sete e meia a sirene rasga-se aos berros, um motim? Um incêndio? Não, apenas mais um dia de atividades, abrem-se as grades e portões, todos se dirigem aos seus respectivos pavilhões, as salas projetadas para comportar o máximo de indivíduos possível, trinta e cinco, quarenta, quarenta e cinco, todos compartilhando um mesmo espaço, dispostos da única forma possível, a saber, um olhando para a nuca do outro. Durante duas horas e meia deverão manter-se em seus lugares, quinze minutos de intervalo para o “banho de sol” e regressam para suas respectivas celas (ops!) salas para mais duas horas de atividades. Quinze para o meio dia todos não veem a hora de sair, fugir, se possível para nunca mais voltar. Até que ao meio dia em ponto a sirene rasga-se novamente e todos correm para a liberdade, sem muitos critérios, aos berros, empurrando uns aos outros, como se estivessem na iminência de uma tragédia. É desta forma que muitos alunos se sentem no ambiente escolar; uma prisão, um cárcere, porém, um mal necessário. O fone no ouvido me faz, por alguns instantes, esquecer que ali estou, o jogo de guerra no celular me leva para outra atmosfera, me entretêm, me remete a tudo o que nega o espaço presente. O bilhetinho, o aviãozinho, o toco de giz, me distancia do tédio, da mesmice, até que o bilhetinho, o aviãozinho e o toco de giz se tornam a mesmice. E agora? Para onde vou? Como livro, se não posso o corpo, ao menos o espírito desta prisão? Gostaria de ser aquele inseto que se move

livremente pelos espaços. das pichações nas paredes das salas de aula. Por que não faltou professor? Por que veio hoje? São perguntas frequentes que qualquer professor da educação básica já teve que encarar em algum momento da carreira. para este aluno é lucro. Seria a metodologia adotada pouco animadora para os alunos? Será que a educação deve pautar-se no viés da animação? Se a escola fosse um circo. como desestrutura familiar. ao mesmo tempo. preferem abrir mão voluntariamente do acesso aos conhecimentos sistematizados. por vista. já que em vez de exigirem o direito de aprender. por alguns instantes. a orientadora a atiradora de facas. tais agressões ao ambiente escolar são consequência do que representa este ambiente para os alunos. porém. bebedouros. pede. o diretor o equilibrista que se mantém na ponta dos pés com as apertadas verbas do Estado para dar conta de manter o circo sem pegar fogo. respiram fundo numa tentativa de recuperarem o fôlego para mais um tempo de tortura. Em vez de me reportar às questões externas que influem nas atividades escolares. sem regras. sem obrigações a não ser se alimentar e reproduzir. É evidente a alegria estampada no rosto dos alunos quando por motivos de saúde. se entristecem. o mágico que faz a felicidade dos alunos espectadores e das estatísticas tirando da cartola um lindo coelho com um canudo amarrado nas patas contendo o resultado de aprovados por conselho de classe. e em cada aula uma atração diferente do espetáculo. da destruição das caixas de descargas. E o conselho. a violência doméstica. são indicativos de que algo não caminha bem. por isso. a origem da desigualdade social entre os homens. das rasuras e extravios dos livros didáticos. O mesmo podemos dizer da depredação das carteiras. Comum também se torna a necessidade do aluno de se ausentar da sala de aula. um professor falta e há a possibilidade de serem liberados mais cedo. não esteja em sala. para ir ao banheiro. a todo o momento. Para começar. não importa! Desde que. porém. quando não. consequentemente. em especial. Lucro? Por que lucro? Que vantagens pode ter um aluno que se nega o direito de aprender? Qual é o problema. torneiras. talvez fosse mais agradável aos alunos manterem-se na escola. temos a res pública nos moldes do que Rousseau (1712-1778) afirma ser a gênese da propriedade privada e. ou que precisa urgentemente conversar com a supervisão ou qualquer outro motivo. o . É desanimador. gostaríamos de refletir sobre o próprio ambiente escolar. O professor poderia ser o palhaço. é a maior causa da evasão escolar atualmente. sua organização física e como esta influi no comportamento dos alunos. jornada excessiva de trabalho para somar à renda familiar que. isto é. enfim. a não ser as da própria natureza.

Mas. dos traficantes. só vê carrascos em todos os agentes da autoridade. sem chave. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. de dentro pra fora. O fato é que lá está “o muro” (The Wall).cerceamento do espaço: O primeiro homem que inventou de cercar uma parcela de terra e dizer "isto é meu". Quanto à origem da violência remonta a questão do sentimento de injustiça e assim escreve: “O sentimento de injustiça que um 'prisioneiro' experimenta é uma das causas que mais podem tornar indomável seu caráter. Da calçada até a sala de aula são quatro grades e uma porta com a maçaneta reforçada e projetada para só se abrir.] . no ambiente escolar é. assassínios. foi o autêntico fundador da sociedade civil. a responsabilidade recai sobre o juízo generalista. [. enquanto agentes da autoridade. Quando se vê assim exposto a sofrimentos que a lei não ordenou nem mesmo previu. dissimulados e sem grande compostura. tais como. desgraças e horrores teria livrado a humanidade se aquele. a violência? Foucault (1926-1984) em sua obra Vigiar e Punir dedica-se à análise da vigilância e da punição. o que cerceia são os muros que “protegem” o colégio. aqui se apresenta como uma das facetas da violência na escola? Injustiçados por quem? Como? O professor. o diretor. não pensa mais ter sido culpado. que se encontram em várias entidades estatais. a agressividade. hospitais. guerras. vez em quando um aluno se machuca na tentativa de saltá-lo. arrancando as cercas. Jean-Jacques. um agente da autoridade. de Lourdes Santos Machado. acusa a própria justiça” (p. Seria este o motivo de tanto vandalismo. a nosso ver. prisões e escolas. 1997. exerce poder sobre os alunos.) No caso das escolas públicas.. impostor! (ROUSSEAU. onde os alunos são tratados como uma massa uniforme e acomodados a um estereótipo de desinteressados. a secretária e a merendeira. p. que. Trad. assim como o zelador. 87. A maçaneta reforçada foi a única alternativa para conter a troca bimestral de maçanetas quebradas no colégio. De quantos crimes. 235). Até que ponto isto deixa de ser .. por que o vandalismo. talvez para inibir a “matança” de aula por parte dos alunos. Do quê e por quê? Se o que mais os jovens desejam é estar longe dali! Talvez para proteger os alunos dos vândalos. tivesse gritado: Não. em uma palavra. seguindo as ideias de Foulcault. São Paulo: Nova Cultural. ele entra num estado habitual de cólera contra tudo o que o cerca.

é mais em conta que punir. adestrados. “Mais uma ocorrência e você está suspenso!”. torna-se uma tarefa até interessante para a maioria. Punir dispende uma energia muito maior que vigiar. leva alguns agentes a classificá-los como animais. em vez de educar. desta forma. muitas vezes. pois frequentar a escola por motivos outros que não o estudo. pois assim exige o processo de ressocialização dispendioso e. O Filósofo inglês Thomas Hobbes disserta. vigiar. visto que. sobre a legitimação do poder absoluto do soberano. pois estou passando mal”. o verbo é violar ou violare no latim que é o mesmo que tratar com violência. Assim. Desta forma. como também.verdadeiro? Qualquer pesquisa que se faça aos alunos mostrará que das atividades que mais adoram. em tal estado o uso da força. todos devem ficar em vigília permanente. da mesma forma que o psicólogo americano John Watson (1878—1958) procedia com seus roedores em laboratório. não está o estudo. “Fulano volte pra sala. da mesma forma que os reforços positivos. se não vai levar advertência!” . palavra de origem latina violentia. Violência. O conhecimento. Para isto. em termos econômicos. A pergunta que não se cala é: Como é possível promover a paz sem justiça? Eis o que possivelmente engendra o . que deveriam ser antes de educados. da astúcia para se persistir na existência é legítimo. que presenteiam com um computador seus filhos quando aprovados. por medo da morte violenta os homens por via de um contrato abrem mão de seu direito natural em troca da garantia da paz e da segurança. entre outras questões. desta maneira. a é por parte dos pais. “preciso ir urgentemente ao banheiro”. constrangimento físico ou moral. talvez das que menos admirem seja frequentar o ambiente escolar com a finalidade de adquirir o conhecimento sistemático. mas incontáveis são as estratégias que lançam mão os alunos para ludibriar os professores e funcionários: “preciso urgentemente beber um pouco de água professor”. A cola talvez seja a primeira imagem que nos assalta a mente quando nos referimos à dissimulação. perde seu valor em si e torna-se um simples meio para não ser repreendido no sentido negativo e presenteado no positivo. “preciso sair da sala tomar um ar. ineficaz. As ameaças tem por objetivo repreender o aluno e conduzi-lo ao comportamento padrão. Nada mais conveniente que o emprego do verbo adestrar. E do que trata a falta de compostura. “Se fizer toda a tarefa tira dez!”. qualquer vacilo pode lhes custar a vida. apresenta em contraponto ao estado civil um estado de natureza onde o homem se apresenta como ameaça para o próprio homem. disciplinar equipara-se a adestrar segundo Foucault. “Ciclano ou guarda o mp3 ou vai para a orientação!”. A barganha é uma prática constante nas atividades escolares.

sem justiça social não se é possível a paz de fato. o que ocorre é a perda da dignidade e da identidade. Neste ponto. esta façanha não é tão simples. e assim o poder do soberano perde sua legitimidade por não garantir. já não importa se física ou moralmente os indivíduos são violados. John Locke (1632-1704). tudo o que pela força de seu trabalho conquistar. dissocia casos de polícia de indisciplina. A sensação de impunidade. a não seriedade do trato com a educação pública. seu direito natural do uso da força. quase sempre. um estado tenso. a paz só poderá ser imposta pelo uso da força. da violência se faz necessário para se conservar. é crime contra a dignidade e o direito inalienável da propriedade. o amparo das demais esferas de ação pública. “esquecem” da complexidade intrínseca a sala de aula. de não cumprimento do que foi estabelecido. de outro. Refletindo sobre a prática nas escolas. Somente uma prática . como firmado no contrato.estado de cólera que toma o prisioneiro do panóptico de Foucault. pela violência. ao caos. o mesmo ocorre com os educadores de gabinete e os escritores de best sellers da educação. Se não pelo viés da justiça. atentar contra esta propriedade pode levar a sociedade à barbárie. posteriormente. já que o soberano não mais o garante. mas francamente. é precário o que torna a atividade em sala de aula um desafio quase intransponível. primeiramente a propriedade de seu corpo e habilidades intrínsecas. da agressividade no ambiente escolar. no chão da escola. tanto em seu aspecto físico como moral. visto que. a permissividade. É admirável como muitos profissionais que se dedicaram anos ao exercício da docência. as posturas oscilam entre os extremos. nem mesmo a segurança. uma boa gestão não é o suficiente para contornar os problemas de violência escolar. de um lado. visto que as carências são muitas e a complexidade da situação é infinitamente maior que o assinalado nos best sellers da educação. quando passam a ocupar cargos da esfera pública administrativa indireta. não mais se veem nas leis e regras estabelecidas. isto é. visto que. à explosão da cólera. Ferir o corpo. e como já foi apontado. Quando o soberano não garante o acordado rompe-se o contrato e o homem embrenha-se no estado de guerra. conduz fatalmente a um clima de injustiça. angustiante e de consequências desastrosas para a saúde física e mental. pela coação. diferentemente de Hobbes. É neste clima de vigília permanente que muitas personagens do ambiente escolar se encontram. a paz e a segurança dos súditos. Até mesmo pela doutrina liberal. Muito didaticamente o educador Celso Antunes em uma de suas palestras sobre indisciplina. posturas autoritárias. Desta forma. assinala a propriedade como direito natural do homem.

conforme todo texto filosófico é. No chão da escola. o recorte que fizemos trata necessariamente da relação desses alunos com sua formação. seja qual for a maneira como ela se manifesta.conjunta. pois. propiciamos o contato inicial com a idéia que iremos investigar. propomos abaixo quatro aulas com conteúdos fundamentais para serem discutidos por nossos alunos. universidades. visto que. quebrar seus preconceitos e dogmas. até a violência doméstica.. os filósofos que apresentamos se preocupam diretamente com a maneira como o sujeito se faz e atua.Assunto: Alienação Mobilização1: Mc Feliz – Caetano Z. a violência. onde vivenciamos a barbárie. possibilitará esboçar soluções para o enfrentamento à violência. sempre densos. pois ainda vemos possibilidades cósmicas nesse caos. segurança pública e equipes de ensino dos NRE.Filho Problematização2: De onde vem a minha felicidade? 1 Nesse procedimento incitamos os estudantes. Sem mais conversas. conselho tutelar. ante esse diagnóstico em que estamos inseridos. fazendo minhas as palavras de Jean-Paul Sartre (1905-1980). onde haja parcerias em uma relação franca e horizontal entre escola. promotoria da vara da infância e da juventude. também podemos vivenciar centelhas de luz e delas acreditamos que podemos tirar o fogo suficiente para clarear toda a treva que se nos apresenta. com sua atuação e interação escolar e ao mesmo tempo serve de móbile para os professores repensarem sua prática ante ao caos. em muitos casos não podemos contar definitivamente com o amparo familiar. no entanto. etc. pensar e repensar estratégias e metodologias que possam começar a mudar a realidade. conteúdos filosóficos que afetam diretamente a maneira como eles agem e são no ambiente escolar e quiçá fora dele. por inúmeras questões que vão desde a ausência total ou parcial das figuras paternas ou maternas. é sempre uma derrota. é o momento de baixar suas defesas. Procedimentos Após compartilhar essa real experiência. passemos então às referidas aulas e aos procedimentos metodológicos que acreditamos serem capazes de tornar as mesmas significativas e nosso trabalho eficiente: Aula 1 . sem. sufocá-lo com os textos. Obter êxito na prática educativa só é possível com o enfrentamento à violência. com sua visão de mundo. Para tanto. . advinda do próprio chão da escola é o que nos colocamos como EDUCADORES.

Andrade: Eu. a etiqueta Criação4 conceitual5: Poema livre: Eu sou. mas John é pra brilhar/ Nas noites de balada. colocamos a seguinte questão: De onde vem minha (sua) felicidade? Queremos com essa questão problematizar sobre a própria ideia 2 Nesse procedimento evidenciamos a ideia e o conteúdo que iremos estudar sempre os destacando de maneira desafiadora e reflexiva. segue a maneira de se trabalhar e os detalhes do que intencionamos. 4 Aqui o conceito é pensado conforme define Deleuze. eu quero ser o funcionário do mês/ A qualidade é total e eu trabalho por três. instaurando a crise. . ou quando vejo o bem vencer o mal/ Na minha novela predileta. noveleiro de plantão/ E me emociono quando vejo o Galvão narrar um gol da nossa seleção/ Me dá vontade de chorar. motorizadamente sedutor.Investigação3: Adorno: massificação/ Carlos D. papagaio da revista mais vendida/ E do jornal que a multinacional pagou pra não. jeitinho brasileiro eu quero a minha nesta mina de prata!!! Estou Mc Feliz/ Estou Mc Feliz futebolisticamente torcedor. do cheque especial/ Pois tem peru gluglu na ceia do natal meu nome é João. que festa!!! Após a apresentação da música. 3 Aqui buscamos/ oferecemos as fontes referenciais e os métodos de pesquisa para aprender o conteúdo estudado. 5 Nesse procedimento verificamos continuamente o quanto o estudante se apropriou do conteúdo (mobilizado. Vejamos a letra da mencionada: MC FELIZ (Caetano Zaganini Filho) Estou Mc Feliz. pra não deixar vazar a água suja com propina/ Negociatas. de balada!!! Estou Mc Feliz/ Estou Mc Feliz bem motivado por Marins e por Godri pra conquistar mais estrelas/ E carregar nas costas largas a empresa. através dos instrumentos de avaliação podemos checar e intervir para que o aprendizado aconteça efetivamente e o conceito seja criado significativamente. problematizado e investigado) estudado. desde a mobilização e a problematização até a criação conceitual. redondamente atrevido/ E quando estouro o limite o mais querido do cartão. colocando-o na posição em que o filósofo se pôs para pensar o assunto. como a intenção clara de levar os alunos a refletirem sobre como eles utilizam seu tempo e quais são os móbiles de suas ações. Começamos mobilizando os alunos mediante a composição Mc Feliz de autoria do professor Caetano.. O problema da aula acima é a “alienação”.. colei uma nota de cem no teto do apê/ Porque o segredo é você crer na grana!!! Estou Mc Feliz/ Estou Mc Feliz/ colonizadamente consumidor. colocando o conhecimento do estudante em conflito.

a mitologia invadiu a esfera profana. Discutindo e utilizando como método o mapa conceitual envolvemos os alunos nas teses dos filósofos. como success or failure. O preço da dominação não é meramente a alienação dos homens com relação aos objectos dominados. Dialética do Esclarecimento: Fragmentos filosóficos) Com essa passagem podemos trabalhar os conceitos básico dos filósofos em questão: alienação. O animismo havia dotado a coisa de uma alma. ampliando a discussão . discutir o conceito.. Seu padrão é a autoconservação. as próprias relações dos homens foram enfeitiçadas. com o fim do livre intercâmbio. servirá-nos de apoio a teoria da massificação elaborada por Theodor Adorno e Max Horkheimer. este se espalhou como uma paralisia sobre a vida da sociedade em todos os seus aspectos. como elemento estatístico. ainda que superficialmente. e ADORNO. inclusive as relações de cada indivíduo consigo mesmo. A partir do momento em que as mercadorias. o industrialismo coisifica as almas. Nesse ponto. a assemelhação bem ou mal sucedida à objetividade da sua função e aos modelos colocados para ela. W. (HORKHEIMER. Sob o título dos fatos brutos. pois nossa intenção aqui é ver o aluno diante de um problema que até então ele não havia se deparado. decentes. racionais. fetichismo e massificação. Ele se reduz a um ponto nodal das reações e funções convencionais que se esperam dele como algo objetivo. experimenta a força da coletividade que tudo vigia. Ideia e criminalidade. já provê espontaneamente as mercadorias dos valores que decidem sobre o comportamento dos homens. antes mesmo do planejamento total. T. ou se havia. da sala de aula ao sindicato. havia absorvido uma ideia irrefletida e acabada. na obra Dialética do esclarecimento. O aparelho econômico. a injustiça social da qual esses provêm é sacramentada hoje em dia como algo eternamente intangível e isso com a mesma segurança com que o curandeiro se fazia sacrossanto sob a proteção de seus deuses. donde extraímos a seguinte passagem: No mundo esclarecido. ele só se determina como coisa. Refletindo a partir da música levamos os alunos a se depararem com o absurdo que a música apresenta e também seus próprios absurdos. De agora em diante. com a coisificação do espírito. As inúmeras agências da produção em massa e da cultura por ela criada servem para inculcar no indivíduo os comportamentos normalizados como os únicos naturais. daí partimos para a Investigação filosófica. M. A existência expurgada dos demônios e de seus descendentes conceituais assume em sua pura naturalidade o caráter numinoso que o mundo de outrora atribuía aos demônios. perderam todas suas qualidades econômicas salvo seu caráter de fetiche.da felicidade “pronta”.. Tudo o mais.

Meu lenço. Com que inocência demito-me de ser/ Eu que antes era e me sabia/ Tão diverso de outros./ Todos os logotipos do mercado. recolocam. minha xícara./ Ordens de uso. Trocá-la por mil. cada olhar/ Cada vinco da roupa/ Sou gravado de forma universal./ Meu isso. Estou. independente.passamos então para a poesia de Carlos Drumond Adrade./ Letras falantes./ Que moda ou suborno algum a compromete.)/ E nisto me comparo./ Gritos visuais. ainda que a moda/ Seja negar minha identidade. que brinca com a alienção de forma peculiar: EU ETIQUETA Em minha calça está grudado um nome/ Que não é meu de batismo ou de cartório/ Um nome. tarifados./ São mensagens. Já não me convém o título de homem.Minhas meias falam de produtos/ Que nunca experimentei/ Mas são comunicados a meus pés./ Tão minhas que no rosto se espelhavam/ E cada gesto. nessa vida./ Minha gravata e cinto e escova e pente. açambarcando/ Todas as marcas registradas. coisamente./ Escravo da matéria anunciada./ Indispensabilidade./ Da vitrine me tiram. Costume. Meu nome novo é Coisa./ Por me ostentar assim. tiro glória/ De minha anulação. a marca de cigarro/ Que não fumo./ E fazem de mim homem-anúncio itinerante. abuso.vê lá . meu chaveiro. Em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer principalmente./ Saio da estamparia. não de casa. Meu tênis é proclama colorido/ De alguma coisa não provada/ Por este provador de longa idade. estou na moda. invencível condição. Eu sou a Coisa./ Minhas idiossincrasias tão pessoais.. pedimos que os alunos evidenciem suas ideias sobre o que está em discussão. Onde terei jogado fora/ Meu gosto e capacidade de escolher./ Ser pensante sentinte e solitário/ Com outros seres diversos e conscientes/ De sua humana. Agora sou anúncio/ Ora vulgar ora bizarro. meu aquilo. Não sou ./ E bem à vista exibo esta etiqueta/ Global no corpo que desiste/ De ser veste e sandália de uma essência/ Tão viva. Eu é que mimosamente pago/ Para anunciar. verificamos isso propondo uma atividade de construção livre de um poema. tão orgulhoso/ De ser não eu. estranho. como eles reagem às assertivas e passamos para a conclusão da aula. tão mim mesmo. até hoje não fumei./ Em minha camiseta../ Peço que meu nome retifiquem./ Meu copo. Nesse momento os alunos recriam sistematicamente os conceitos trabalhados. É duro andar na moda. meu relógio. para vender/ Em bares festas praias pérgulas piscinas.anúncio contratado. hábito. com o ./ Objeto pulsante mas objeto/ Que se oferece como signo dos outros/ Objetos estáticos. mas artigo industrial. Meu blusão traz lembrete de bebida/ Que jamais pus na boca. permência. Partindo dessa poesia. reincidências. Desde a cabeça ao bico dos sapatos./ Minha toalha de banho e sabonete.

Filho Prob: Quem manda em você.. a critério do professor ou dos alunos. o menor abandonado e os bandidos da política/ Lacaio das empresas multinacionais. dizendo que odeia política/ Não sabe o imbecil o que nasce de sua ignorância política/ Nasce a prostituta. analfabeto. para analisar em sua obra os tipos de . por mais que se pensem e queiram ser rebeldes. Começamos a aula apreciando a letra e música Funk Anal de Caetano. analfabeto/ Anal. manda por quê? Inv: Platão: os modelos de governo. manda por quê? Aqui está em jogo a noção básica de poder. E isso os incomoda. Como questão fundamental perguntamos aos alunos: Quem manda em você. Há um limite. os pilantras da política/ Anal.sugestivo título: Eu sou. quem tem poder sobre alguém. não fala nem participa dos acontecimentos políticos/ Não sabe o custo de vida. nem quanto ganha um político/ Nem que o preço do arroz depende das decisões dos políticos/ É tão burro que se orgulha dizendo. pois. anal. Aula 2 . A discussão aqui é sobre a teoria política. Cri: Elaboração de um modelo de governo. tem por que razão? Queremos ver aqui os alunos se deparando com os limites de sua ações. inspirada em Bertold Brecht. anal. mas este se justifica de que maneira? Chegamos assim à República de Platão.Assunto: Política Mob: Funk Anal – Caetano Z. há uma hierarquia da qual nem eles estão isentos (ou não há?).. FUNKANAL O pior analfabeto é o analfabeto político/ Ele não ouve. Aqui temos a intenção de evidenciar aos nossos alunos o problema o afastamento da vida pública. Também essa produção pode ser móbile de discussões posteriores.

os alunos podem ir para o passo seguinte. que o impulsiona a buscar alimento... Como governante eu seria. a alma de cada indivíduo tem três elementos... já que o juízo depende da experiência. O primeiro elemento é aquele pelo qual o homem aprende. tal que não podemos encontrar uma denominação única e adequada.. 33-36) Analisado. novamente mediante a elaboração de um mapa conceitual. Também a retomada para posteriores discussões fica a critério do professor e/ou exigências dos alunos.Eis o que penso.. o ambicioso e o amigo do ganho… Mas.almas que os homens podem ter e como governarão a si próprios e aos outros se tiverem esse direito.Assunto: Menoridade Mob: As flores do meu jardim – Caetano Z. enquanto o mais perverso e injusto é também o mais infeliz. Vejamos as passagens d'A República: (579e) Sócrates:. parece haver também três tipos de prazer específicos para cada uma delas. Filho Prob: Você conhece a realidade em que vive e sabe como viver nela? Inv: Kant: O que é escalrecimento.. 2007. Se há três partes. (580d-583a) Sócrates: Se assim como a cidade. designamos pelo que o caracteriza melhor. o segundo é o que o faz irascível. e o terceiro. . Como atividade de verificação pedimos que elaborem um modelo de governo onde eles seriam o governante.. Platão: alegoria da caverna. podemos caracterizar três classes de indivíduos: o filósofo.. Proclamei agora que o melhor e mais justo é também o mais feliz. compreendido e discutido os conceitos centrais da obra.Portanto. que está dividida em três partes. a construção conceitual. que possui diferentes formas. Assim concluímos que os prazeres da parte inteligível da alma são os melhores dos três e é mais feliz o homem governado por este elemento. da sabedoria e da razão. nossa tese pode ser demonstrada de outro modo. sendo de natureza tirânica e governando a si mesmo e à cidade como um tirano.. é aquele que tem a natureza de um rei. amor e outros prazeres do mesmo tipo. Aqui temos como tese central a discussão sobre a menoridade. Cria: Qual a melhor maneira de ver a verdade? (imagem e descrição).. bebida. (MARCONDES.. governa a si mesmo como tal. Aula 3 . é o desejo.

.Após apreciar a música de Caetano – Flores no meu Jardim. autonomia. Hollywood iludir/ Só me interessa que não arranquem as flores do meu jardim/ Não me interessa o apresentador das tardes de domingo com quem se casou/ Não me interessa o hobby da atriz. a grife que ele veste as drogas que usou/ Não me interessa o jogador. o craque que se perdeu na noite tem milhões no passe/ Não me interessa as passarelas de Paris/ Não me interessa os vídeos-clipe da MTV/ Não me interessa pop stars. lero oco. Utilizamos para essa investigação as seguintes passagens dos autores referidos: Kant: Esclarecimento é a saída do homem da menoridade pela qual é o próprio culpado. o papagaio nato pra ser consumido/ Não me interessa o lero. pedimos para que os alunos façam a leitura da letra em duplas. e que discutam entre si os significados que a letra possa conter e quais suas críticas à letra. Queremos dos alunos sua reflexão sobre o mundo e sobre sua ação particular. o corpo na revista/ Não me interessa o caso do cantor. se teu cartão é Master ou se a forca é Visa/ Não me interessa se chapou o coco é na balada fina ou no barato louco. O passo seguinte começa com a colocação da seguinte questão: Você conhece a realidade em que vive e sabe como viver nela? Em jogo aqui está a capacidade que os alunos tem em perceber e/ou distiguir o que é real do que é ilusório. tendo como referenciais teóricos Kant (O que é esclarecimento) e Platão (alegoria da caverna). passamos para a investigação filosófica. AS FLORES DO MEU JARDIM (Caetano Zaganini Filho) Não me interessa a vida da modelo. Aqui o destaque vai para os conceitos de menoridade. ilusão e verdade. se aplicou botox reparou o nariz/ Não me interessa se é siliconada na comissão de frente ou na retaguarda/ Não me interessa se caiu na net o vídeo obsceno da marionete/ Não me interessa o rapper produzido. bem como seu papel nessa “realidade” e nessa “ilusão” que está presente em seu cotidiano. realidade. Destacado o problema. o converseiro fresco é de me dar enjoo/ Não me interessa a marca da camisa. paparazzi. trabalhado através de leituras analíticas individuais e com o acompanhamento e possíveis esclarecimentos do professor. que seja. seu prato predileto o corte do cabelo/ Não me interessa a casa do artista os carros que ele tem.

não de entendimento. algemados de pernas e pescoços. esses instrumentos mecânicos de um uso. Para este esclarecimento. Preceitos e fórmulas. pois nunca se deixou que ensaiasse fazê-lo. que faz às vezes de minha consciência. para mostrarem as suas habilidades por cima deles. entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente. que de bom grado tomaram para si a direção sobre eles. mesmo depois de a natureza há muito tê-los libertado de uma direção alheia (naturaliter maiorennes).. para isso ocupam-se cada um dos tutores. já em si custoso. assim não preciso eu mesmo dispender nenhum esforço. de bom grado permaneça toda vida na menoridade. quando sua causa reside na falta. também seja considerado muito perigoso. Sapere aude! Ousa fazer uso de teu próprio entendimento! Eis o lema do Esclarecimento. de acordo com a seguinte experiência. por detrás deles. Que... no gênero dos tapumes que os apresentadores de fantoches colocam diante do público. outros se incumbirão por mim desta aborrecida ocupação. se posso apenas pagar. e porque seja tão fácil a outros apresentarem se como seus tutores. serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe. numa eminência. que se estende a todo o comprimento essa gruta. com uma entrada aberta para a luz. É tão cômodo ser menor. são os entraves de uma permanente menoridade. I. (KANT..Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem direção alheia. Não preciso necessariamente pensar. de um mau uso racional de suas aptidões naturais. não é exigido nada mais senão liberdade. junto à grande maioria dos homens (incluindo aí o inteiro belo sexo) o passo rumo à maioridade. ao longo do qual se construiu um pequeno muro. um médico. Possuo um livro que faz as vezes de meu entendimento. Inércia e covardia são as causas de que uma tão grande maioria dos homens. Até afeiçoou-se a ela e por ora permanece realmente incapaz de servir-se de seu próprio entendimento. . de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente. relativamente à educação ou à sua falta. Resposta à pergunta: que é Esclarecimento?) Platão: Alegoria da Caverna Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza. antes. por causa dos grilhões. mas de resolução e coragem de fazer uso dele sem a direção de outra pessoa. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna. são incapazes de voltar a cabeça. O homem é o próprio culpado por esta incapacidade. É portanto difícil para cada homem isoladamente livrar-se da menoridade que nele se tornou quase uma natureza.. que decide por mim a dieta etc. Estão lá dentro desde a infância. um guru espiritual.

doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia. sentiria dor. – Semelhantes a nós – continuei -. a ver se. de pedra e de madeira. – Portanto. a voltar o pescoço. Logo que alguém soltasse um deles. de si mesmo e dos outros. – Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele. as coisas se passavam deste modo. Que julgas tu que ele diria. algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna? – Como não – respondeu ele – se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida? – E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles? – Sem dúvida. mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam. – E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse. e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam? – Seria assim – disse ele. se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs. para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar. como é natural. e não . que sim! – De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos. o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam? – Muito mais – afirmou. que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais. voltado para objetos mais reais? E se ainda. dos que os transportam. homens que transportam toda a espécie de objetos. ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade. eles tenham visto. se eles fossem capazes de conversar uns com os outros. de toda a espécie de lavor. – Então. – Visiona também ao longo deste muro. senão que era a voz da sombra que passava? – Por Zeus. quando designavam o que viam? – É forçoso. se alguém o forçasse a olhar para a própria luz. e o forçasse a endireitarse de repente. e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. uns falam. Em primeiro lugar. pensas que. outros seguem calados.– Estou a ver – disse ele. a andar e a olhar para a luz. – E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme. – Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância. não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais. regressados à sua natureza. ao fazer tudo isso. – É absolutamente forçoso – disse ele. nestas condições. não te parece que eles não julgariam outra coisa.

mas a ele mesmo. ou os que seguiam juntos. no período em que ainda estava ofuscado. – E as honras e elogios. mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia. por último. ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero. seria capaz de contemplar o que há no céu. estragara a vista. – Imagina ainda o seguinte – prossegui eu –. Em primeiro lugar. por ter subido ao mundo superior. – Precisava de se habituar. e seria seu intenso desejo “servir junto de um homem pobre. ao regressar subitamente da luz do Sol? – Com certeza. julgo eu. para os próprios objetos. e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo. – E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros. e do saber que lá possuía. acerca do Sol. olhando para a luz das estrelas e da Lua. ou prêmios para o que distinguisse com mais agudeza os objetos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último. – Pois não! – Finalmente. por ser assim arrastado. pelo menos de repente. de fato. que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível.o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol. durante a noite. como servo da gleba”. e o próprio céu. depois disso. seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar. no seu lugar. não seria natural que ele se doesse e agastasse. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto. não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio. e não diriam dele que. nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos? – Não poderia. depois de chegar à luz. se alguns tinham então entre si. – É evidente que depois chegaria a essas conclusões. refletidas na água. e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles. não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros? – Com certeza. dos seus companheiros de prisão desse tempo. não teria os olhos cheios de trevas. antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso. e. julgo eu. A partir de então. para as imagens dos homens e dos outros objetos. com os olhos deslumbrados. – Depois já compreenderia. e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo? – Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo. e. – Necessariamente. de preferência a viver daquela maneira. e que . – E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação. olharia mais facilmente para as sombras. se quisesse ver o mundo superior.

se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra. no mundo visível. o rap. e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública. no limite do cognoscível é que se avista. A República. e. da qual é senhora. Filho Prob: Por que você é assim? Por que age dessa maneira? O que quer com isso? Inv: Sarte: O existencialismo é humanismo. não iludirás a minha expectativa. Nessa aula. a liberdade é quem tem o papel central de nosso trabalho. Os alunos apreciam a música Cotidiano de Caetano.não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzí-los até cima. a critério do professor e possibilidade de recursos escolares. – Meu caro Gláucon. livro VII) Para ilustrar a alegoria da caverna há uma infinidade de recursos didáticos e paradidáticos que poderiam também estar presentes nas aulas. Pois. se pudessem agarrá-lo e matá-lo. COTIDIANO ESCOLAR Caetano Zaganini Filho . sem dúvida – confirmou ele. O Deus sabe se ela é verdadeira. Cri: Resposta em forma de RAP. não o matariam? – Matariam. na criação conceitual a proposta é que os alunos respondam por imagens e descrições a seguinte questão: -Qual a melhor maneira de encontrar/ver a verdade? Aula -4 Assunto: Liberdade/escolhas Mob: Cotidiano – Caetano Z. e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. segundo entendo. Como encerramento da aula. que. comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão. como hq e filmes. já que é teu desejo conhecê-la. este quadro – prossegui eu – deve agora aplicarse à tudo quanto dissemos anteriormente. a idéia do Bem. (PlATÃO. no mundo inteligível. é ela a senhora da verdade e da inteligência. e que. apresentada em um linguagem muito comum para nossos alunos. foi ela que criou a luz. a custo. compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo. uma vez avistada.

ABC só não perguntaram se ela vai querer/ Retoca a maquiagem no meio da explicação/ Batonzinho na boca. ABC toda criança tem que ler e escrever/ ABC. pra que me aborrecer?/ Então fico de boa eu sei como driblar/ Todo esse sistema que diz vai me educar/ ABC. a gente vai usar/ Tanto conteúdo de tantas disciplinas/ Então o que importa é saber quando vou ter/ Os bens da propaganda que eu vejo na TV. pro corredor se manda!/ Se vier questionário eu faço “copi-cola”/ Se perder a prova invento uma história/ “Migué” tenho de monte nem sei qual vou usar/ Pra enrolar os trouxas sem desconfiar/ ABC. sem perder tempo problematizamos: . pois fico sempre à toa/ Em casa eles só querem que eu não reprove/ Nem que a coordenação ligue. blá./ Zoar com que ta quieto é meu momento de glória/ Risco a carteira. espelhinho na mão/ Catálogo da Avon. revista de fofoca/ Paquerar o broto é tudo que me importa/ Passa atividade pra gente então fazer/ Pergunto vale nota. papo furado.Bola de papel na cara do colega/ Toco de giz branco atira e não sossega/ Fone no ouvido embaixo do cabelo/ Nota dez na moda e zero no conceito/ Pra mim a escola é um fardo pesado/ No celular eu jogo um game disfarçado/ Semana de provão vou ter que estudar/ Que bom que é só de “x”. o que me dá prazer/ No futuro não penso. a parede. de espanto. é fácil de colar/ Hoje eu to no céu faltou um professor/ Vou embora mais cedo TV. pois no estranhamento vemos surgir o filosofar. ABC toda criança tem que ler e escrever/ ABC. ABC toda criança tem que ler e escrever/ ABC. nem amole/ Eu vivo sempre o agora. é só elogiar/ No final do processo eu tiro nota boa/ Mesmo não sabendo. só faço pra causar/ Se alguém me acusa então tem que provar/ Não sei no que na vida. computador/ Escola só é bom pras mina paquerar/ Pra esbarrar os “truta” e idéia trocar/ Não sei porque que fazem a gente freqüentar/ Esta prisão com muros e grades pra barrar/ Quase tudo que eu ouço eu deixo no lugar/ Ninguém que é são agüenta tanto blá. se não pode esquecer/ Tirar nota azul e ser aprovado/ É tudo que me importa. ABC só não perguntaram se ela vai querer/ Se eu levanto a mão o professor se alegra/ Achando que eu vou perguntar algo da matéria/ Não é nada disso eu só quero saber/ Se posso ir ao banheiro ou água beber/ Na sala eu adoro me aparecer/ Acho que eu sou o cara só não sei por quê/ Hoje vai ter filme na aula pode crer/ Vou tirar um cochilo ou ficar no “converse”/ Silêncio por favor. ABC só não perguntaram se ela vai querer/ Do lado de fora espero o professor/ Pergunto por que veio. no mais. assim. mote para nossas discussões. é hora da chamada!/ Mas só vou responder depois de terminada/ Bateu o sinal todo mundo levanta/ Sai da sala logo. Depois da música percebemos sempre um ar de constrangimento. toda escola/ Não tenho motivo. ela vai trabalhar/ E quando ela se irrita. por que não faltou?/ Meu Deus! São cinco aulas chatas pra aturar/ Não vejo a hora disso tudo terminar/ Se for trabalho em grupo é bom pra relaxar/ Tem mula que carrega o grupo sem chiar/ Enquanto eu converso. blá/ ABC.

aliás. A discussão pode continuar em outros momentos. pois temos que encerrar em algum momento e fazemos isso propondo a elaboração de uma Réplica da música em forma de Rap (uma linguagem bastante comum aos nossos estudantes). Antes de alguém viver. não é nada além do conjunto de seus atos. nada mais que sua vida. Sempre há defensores das ações retratadas na música. Temos que encarar as coisas como elas são.. 1987. pois não podemos nunca escolher o mal.) o homem nada mais é do que o seu projeto.. 13) Finalmente. Somos jovens professores e como todo . justificarem ou assumir sua responsabilidade nesse contexto -. (. 1987. essa imagem é válida para todos e para toda a nossa época. em si mesma. Conclusão Um trabalho duro? Sim. A realidade não existe a não ser na ação. o valor do que estamos escolhendo. é quem a vive que deve dar-lhe um sentido. não é nada. p. 21) Fechamos a discussão. 1987. por outro lado. Vejamos as passagens significativas onde encontramoa as ideias para nossa investigação: Escolher ser isto ou aquilo é afirmar. a vida. 6-7) E. o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos. p.Por que você é assim? Por que age dessa maneira? O que quer com isso? Os alunos são convidados a responderem oralmente a essas questões na frente de todos. dizer que nós inventamos os valores não significa outra coisa senão que a vida não tem sentido a priori. Se. a critétio do professor ou dos alunos.pois a liberdade toma conta de todos para se expressarem. concomitantemente. (SARTRE.. a liberdade e a humanidade. só existe na medida em que se realiza. p. (SARTRE. e se nós queremos existir ao mesmo tempo que moldamos nossa imagem. Os conceitos que nos interessam são a responsabilidade. quase inacabável . a existência precede a essência. (SARTRE. podendo ser feita em trios ou quartetos. e o valor nada mais é do que esse sentido escolhido. E. Impossível? Não. Investigamos a ideia de liberdade em Sartre – n'O existencialismo é um humanismo.

html As flores do meu jardim: http://zaganini. Petrópolis. T. tradução de Raquel Ramalhete. 2002. Forma e poder de um Estado eclesiástico e civil.blogspot. criamos a nossa realidade. Thomas. PLATÃO. ROUSSEAU. Coleção os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural. 419 páginas. Editora Vozes. somos sonhadores. Carlos Drummond .blogspot. John – Os Pensadores. SARTRE. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Disponível em http://pensador. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE.jovem. HOBBES. O existencialismo é um humanismo. W. FOUCAULT. Jean-Jacques.br/frase/MjAyODM0/ dia: 15/04/2011. & ADORNO. Martin Claret. s/d LOCKE.com/2010/04/funkanal. 1984. 13ª edição.html Cotidiano: 08%3A00&max-results=1 http://zaganini. I.html Analfabeto: http://zaganini. Dialética do Esclarecimento: Fragmentos filosóficos. Guido Antonio de Almeida. São Paulo..1996. Trad.blogspot. A República. rebeldes como nossos alunos que diante dessa realidade querem o que não lhes dão.blogspot. Leviatã ou matéria. 1987.com/search?updated-min=2009-0101T00%3A00%3A00-08%3A00&updated-max=2010-01-01T00%3A00%3A00- . M. Jean-Paul. 1988. queremos possibilidades educacionais que não nos dão. 1997. Discurso sobre a origem das desigualdades entre os homens. Eu. a etiqueta. Vigiar e punir .com/2010/04/mc-feliz. s/d MÚSICAS: Mc feliz: http://zaganini. Coleção os Pensadores. como réplica.uol. HORKHEIMER.. M.com/2010/04/as-flores-do-meujardim.com. São Paulo: Nova Cultural. assim também somos nós. Editora Abril Cultural. O que é esclarecimento. KANT.