O Conquistador de Lumireis

Gustavo Martins

Eu tento me mover, mas meu corpo não responde. Em volta de mim, uma poça de sangue – meu sangue – brilha sob o luar escarlate. Tento respirar e meu líquido vital flui pela minha garganta, avermelhando meus dentes e meus lábios caindo pelas minhas bochechas até o chão. O frio da noite cresce sobre mim. Meus joelhos e braços tremem doentiamente. As imagens que vejo já não são mais definidas e os sons agora não passam de ruídos distantes, confusos. Toda pessoa que conheci, todo inimigo que enfrentei, toda experiência que vivi, tudo pelo que lutei e pelo que sonhei está desaparecendo. No final nada disso importou diante do poder de um Homem-Deus. E pensar que no começo do dia eu ainda era a invencível ―Bruxa de Valarda‖. Tudo começou hoje pela manhã. As árvores ao redor da cidade começavam a mostrar flores. Após um longo inverno os agricultores começavam a plantar e o mercado a se agitar para o verão, época na qual centenas de animais vinham procriar nos arredores. Nessa estação ocorria o festival em homenagem à Brigid, durante o qual se ofertavam alimentos ás chamas pedindo que a colheita fosse farta. Muitos viajantes vinham

prestar honras à Deusa e pedir bênçãos para suas viagens e muitos outros vinham para ter com o senhor feudal. Eu era da guarda pessoal do suserano Eugene de Altarquia e por muitas vezes tinha de recepcionar forasteiros que chegavam à cidade antes que eles entrassem no castelo. Em geral os que tinham intenções sinistras corriam ao me verem, pois histórias sobre meus feitos eram muito conhecidas. Chamavam-me de Bruxa de Valarda devido às diversas batalhas desfavoráveis que venci comandando as hostes da Altarquia. Tais vitórias não possuíam nenhuma ligação com feitiçaria, entretanto o título de Bruxa era sim válido para mim, posto que em Valarda se ensinavam a todas as meninas as artes da magia para que pudessem se tornar sacerdotisas de Clídna. Meus objetivos, contudo, eram outros e assim que pude parti de minha terra natal. Ainda impúbere cheguei às terras de Eugene e graças às minhas artes mágicas ascendi mais alto que qualquer mulher, conquistando a confiança do lorde da província e dos seus mais poderosos guerreiros. Quando me disseram para recepcionar um homem que se dizia um mago poderoso eu não me surpreendi. Muitos já haviam contado tal história e não era difícil desmascará-los e por um fim em suas farsas com uma de minhas flechas. Entretanto

aquele não era um impostor e soube disso assim que vi o sujeito alto e negro, trajado em túnicas velhas, que me aguardava entre soldados. Seus olhos contemplativos

carregavam uma sabedoria impossível para homens comuns e sua longa barba e semblante cansado revelavam que fizera uma longa viagem para chegar à Altarquia. —Qual sua Ordem? – perguntei ao meu aproximar dele. O homem ergueu-se com a ajuda de um cajado e me fitou por longos instantes. Enquanto ele me observava, pude notar que carregava ás costas um volume longo e fino coberto por panos brancos. Não parecia com nenhuma arma que já tivesse visto – era longa demais para uma faca e fina demais para uma espada. O cabo que despontava era de metal branco adornado por pedras azuis que eu nunca vira. Parecia uma arma de rituais e isso confirmava que ele realmente era o que dizia ser. —Maltas da Ordem de Nephtys. – o mago disse, curvando-se num cumprimento. —Áine da Ordem de Clídna. – eu disse ao reproduzir a mesura – O que o traz à Altarquia? —É uma longa história, minha cara. Se importaria se eu a contasse na presença do senhor dessas terras?

Anuí. Já estava certa de que aquele homem não viera à cidade para atentar contra Eugene, pois se o quisesse fazer não haveria soldado que o parasse – exceto, naturalmente, eu mesma. Nenhuma pessoa comum era ameaça para um usuário da magia. Levei-o à presença do lorde que não escondeu sua surpresa ao ouvir meu relato. Certamente ele acreditava que minha atitude fora tola, contudo se acalmou quando garanti que mesmo que ele fosse inimigo não iria ser ameaça. Se Maltas tentasse fazer algo, eu o trucidaria antes que conseguisse. Tranquilizado, Eugene passou alguns minutos analisando o visitante de longe até que dispensou todos que estavam na sala do trono e não faziam parte da guarda real. —O que traz um bruxo das terras de Kal’Ashtar aos meus domínios? – perguntou o senhor feudal. Maltas deu um passo adiante e retirou o volume que carregava das costas. Lentamente o feiticeiro removeu os panos que cobriam o objeto revelando uma estranha lâmina branca adornada por diversos símbolos. Erguendo a arma o bruxo se ajoelhou diante de Eugene da Altarquia.

—Ó, senhor da Altarquia, venho em nome de Sen’Ashtar, imperador de Kal’Ashtar! – proferiu o encantador ele – Meu senhor oferta um de nossos tesouros para pedir à vossa majestade que o ajude a lidar com um mal que assola nossas terras! —Que mal seria esse? – questionou o lorde. —Um homem, meu nobre senhor! Um homem que conquistou as magias dos povos ancestrais e ascendeu acima de todos os outros homens tornando-se um Deus entre eles! Ao som daquelas palavras minha mente fervilhou de pensamentos. Eu não acreditava que existisse magia tão grande a ponto de equiparar mortais e divindades, entretanto o bruxo de Kal’Ashtar falava com temerosa seriedade e isso me

assombrava. Não só eu, mas o senhor de minhas terras também demonstrava preocupação com aquela história. —Um Homem-Deus você diz? – falou Eugene – Como é possível que exista algo assim? Que encantamentos seriam capazes de tal proeza? —Os feitiços da perdida Lumireis! – soturnamente exclamou Maltas.

A menção daquele nome fez tremer cada fibra de meu ser. Lumireis era um conceito comum a todas as Ordens Mágicas. Tratava-se de um reino teórico habitado pelos imortais Ilu, aqueles que em eras ancestrais desafiaram os Deuses Exteriores pelo domínio do mundo e que ao vencerem tornaram-se os Deuses que hoje idolatramos. Embora muitos a tivessem buscado, nenhum homem – feiticeiro ou não – encontrara Lumireis e por isso ela era considerada uma lenda, uma história que tentava explicar o surgimento das Divindades. Agora um mago das terras áridas dizia que alguém encontrara não só a terra esquecida como também conquistara suas magias ascendendo acima de todo homem. Era um absurdo. —Como quer que acredite nisso? – intrometi-me – Que provas trás dessa história? Maltas voltou-se para mim, deitando sua arma mística no chão ao seus pés. —Se não basta minha palavra que aguarde então. – ele disse – O Homem-Deus vem para cá formar um exército para tomar Kal’Ashtar e não hesitará em tomar também essas terras! Se desejar manter seu território mande que seus guerreiros vão para as colinas de Mardarq para que enfrentem o inimigo!

—Tolice! – exclamou o senhor feudal – Tudo isso pode muito bem ser uma armadilha para que desfaça minhas tropas e deixe minhas terras vulneráveis a inimigos! —Garanto que não o é, meu senhor! – retrucou o bruxo – E se ele chegar aqui não haverá diplomacia que o impeça de tomar tudo que é vosso! Se não acredita em minhas palavras que mande um de seus homens para comprovar! Mas que deixe seus soldados armados, pois não poderá hesitar quando ele chegar confirmando o que eu digo! Eugene parou de se mover, aparentemente ponderando sobre o assunto. Não podia negar que, assim como ele, eu desconfiava daquela história. Se fosse verdade teríamos de agir quão rápido pudéssemos, entretanto mandar todos os soldados seria um risco grande demais. Toda aquela narrativa não era apenas de meu interesse como membro da guarda real como também de meu interesse como feiticeira. Se realmente havia um homem que conhecia as artes de Lumireis, encontrá-lo poderia adicionar muito aos meus estudos. Naquele momento tomei a decisão que me colocou em meu estado atual. —Eu gostaria de investigar o caso. – eu disse.

Eugene virou-se para mim, perplexo. Nesse momento Maltas se ergueu e me fitou, analítico. Nossos olhares se cruzaram e pude ler nos olhos do feiticeiro uma ambígua certeza. —Pois bem. – falou o lorde Feudal – Vá ainda hoje até Mardarq e verifique essa história! Se você não retornar até a metade do dia de amanhã irei enviar todas as tropas para lá. —Que assim seja. – eu disse me curvando. Olhei para o bruxo de Kal’Ashtar e tive a impressão de que por um breve segundo ele sorrira ao saber que seria eu a ir atrás do Homem-Deus.

Ao entardecer eu me encontrava cavalgando pelas trilhas pedregosas que levavam às colinas de Mardarq. Apesar de as chamarmos de colinas, aquelas estruturas eram na realidade uma cadeia de montanhas de calcário desgastadas pela ação das águas do rio Amenom que corria sob elas. A região era famosa pelas várias batalhas que lá travamos tentando nos proteger dos bárbaros Elunienses. O local era alvo dos ataques devido à falta de barreiras, pois a presença de animais selvagens sempre tornou a tarefa de trabalhar naquela área perigosa demais para os construtores. Até mesmo os guerreiros tinham problemas em

cruzar as colinas durante a noite, período durante o qual os Labat ficavam mais ativos. De fato, eu também estaria em perigo caso fosse atacada por uma matilha inteira desses vis felinos. Com esse perigo em mente apressei meu cavalo, torcendo para poder atingir as colinas antes do pôr do Sol. Uma vez lá, eu poderia confirmar a história de Maltas e encontrar um lugar para acampar. Infelizmente atingi o fim da trilha quando o céu estava quase totalmente rubro. Apesar do trote rápido em que seguira por mais de uma hora, dificilmente conseguiria chegar à Mardaq antes do anoitecer, posto que daí em diante o caminho seguia por dentro dos bosques de Adalina e a vegetação espessa impediria que meu transporte animal seguisse adiante. Amarrei o cavalo numa árvore, preparei meu arco e adentrei na mata. O cricrilar dos insetos e o piar das árvores acompanhavam cada passo que eu dava dentro do bosque. Apesar da pequena luz que criara para me guiar, meu progresso era lento e descontínuo e guiado em muito pelo instinto. Muitas vezes eu era obrigada a cortar alguma vegetação mais densa que me impedia de avançar, porquanto que as plantas em sua maioria eram grossas e flexíveis, forçando-me a gastar até dez minutos para me livrar de uma quantidade maior delas. Não só isso

impedia uma viagem rápida, mas muitas vezes eu também era obrigada a trocar de rota ao ouvir o uivo de um Tatsar, pois se fosse pega por um deles, seria muito difícil conseguir fugir sem usar magia e isso era algo que não poderia fazer. Se o relato de Maltas era verdadeiro, eu teria de guardar todo meu poder para enfrentar o conhecedor dos segredos de Lumireis, um inimigo que tinha certeza que se existisse seria o maior desafio que enfrentaria em minha vida. Segui nesse ritmo senil por algo em torno de duas horas. Atravessar a floresta após o anoitecer se tornava um desafio devido à sua formação naturalmente labiríntica. Eram comuns os casos de pessoas que adentravam Adalina e jamais eram vistas novamente. Não só isso, mas o territorialismo dos Tatsares impelia-os a atacar qualquer ser vivo que adentrasse em seus domínios. E era exatamente isso que eu estava fazendo. Talvez por saber que poderia ser atacada a qualquer momento foi que não me surpreendi ao ouvir o farfalhar da vegetação ao meu redor. Puxei uma flecha de minha aljava e retesei arco ao máximo. A quantidade de passos diferentes me deu a certeza de se tratarem de três indivíduos – provavelmente eram dois machos e uma fêmea, como de costume nessa espécie – se movendo ao meu

redor num padrão circular, visando impedir qualquer tentativa de fuga. A cada vez que completavam uma volta, podia ver seus pêlos brancos e membros longos atravessarem uma camada de vegetação, fechando cada vez mais o cerco em minha direção. Não tardaria para que o primeiro ataque ocorresse, portanto teria que eliminá-los rapidamente. Mirei num canto entre uma árvore e uma série de arbustos distantes de mim alguns metros, certa de que um deles teria de passar por ali para atingir o nível seguinte. Esperei ver uma pata alva surgir e então soltei a corda. A flecha voou zumbindo como um inseto e logo ouvi um guincho de dor e um baque sobre as plantas. Preparei rapidamente a segunda seta, porquanto que sabia ser do costume desses predadores atacar mais viciosamente quando um do bando caía. Girei meu olhar ao redor da clareira, tentando prever de onde viria a investida seguinte. Prendi a respiração e fechei os olhos, aguçando ao máximo minha audição. Passei então a discernir o movimento separado das duas criaturas e não me foi difícil afundar uma flecha na testa de meu segundo oponente quando este se aproximou de mim pelas costas. Restava apenas um. Um silêncio ameaçador pairou sobre a clareira. O ultimo Tatsar parara de se mover, possivelmente esperando um deslize meu

para avançar e me matar com um único golpe brutal. Se eu disparasse uma flecha e errasse, daria à criatura uma brecha na qual poderia se atirar sobre mim. Não só por isso como também por desconhecer a posição de meu adversário foi que optei por utilizar minha espada. Desembainhei a lâmina de metal polido que reluziu com a luz da esfera de luz que iluminava minha visão e de súbito ouvi o barulho de algo se movendo entre as árvores. Girei para trás formando um arco com minha arma e logo um jorro de sangue voou em mim. O corpo branco do símio carnívoro que me caçava caiu no chão ainda vivo embora agonizante. Aproximei-me dele e cravei a lâmina em seu peito, terminando de uma vez por todas com sua vida. Após o confronto com os Tatsares retomei minha viagem através do Bosque Adalina. Embora continuasse a ouvir o guincho agressivo das criaturas ao meu redor, nenhuma mais surgiu em meu caminho e logo eu me encontrava novamente sob a luz do luar. Eu havia chegado na borda das colinas de Mardarq. A região era coberta por um gigantesco tapete de Campanellas vermelhas. Estranhamente nenhum outro tipo de vegetação crescia lá e isso fez com que diversas histórias surgissem para

tentar explicar a anomalia. Dentre elas a mais difundida dizia que cada uma daquelas flores brotara do corpo de um guerreiro que encontrou seu fim sobre aquele chão. Tal conto era irônico, porquanto que era hábito entre as jovens noivas usarem uma Campanella em suas roupas como símbolo de suas novas vidas. Sempre me perguntava se elas estavam mesmo marcando com o sangue de seus pais e irmãos essa transição de ciclos. Atravessando o campo escarlate eu podia sentir o perfume doce das flores se desprendendo ao meu redor. Era como uma saudação aromática, um convite a permanecer eternamente deitada naquelas colinas de sonhos. Entretanto eu estava lá com um objetivo e pretendia cumpri-lo. Rumei para o ponto mais alto da área, uma elevação de uns trinta metros no topo da qual ficava um posto de observação abandonado. De lá eu poderia enxergar toda a região até a cidade, pois mesmo a base das colinas ficava dezenas de metros acima do nível da urbe. Se qualquer inimigo surgisse, não seria difícil atingi-lo com uma flecha, mesmo com o vento forte que bramia naquela noite. Permaneci em vigília no posto por em torno de três horas, mas salvo por alguns animais pequenos, nenhum ser vivo surgiu em meu campo visual. O silvo do vento e o perfume das flores

criavam uma atmosfera inebriante que, somada ao cansaço da viagem, começou a me deixar sonolenta. Tentei permanecer acordada com toda a força com que contava, entretanto pouco a pouco perdia minha noção de realidade. Meus músculos se relaxaram contra minha vontade e, por mais que eu tentasse, não conseguia puxar firmemente a corda do meu arco. Nesse estado permaneci por mais alguns minutos, porém, vendo que de nada adiantaria manter uma atenção semidesperta, logo decidi que o melhor seria descansar mesmo que um pouco. Conjurei um feitiço de proteção e outro de guarda, assim criando diversos pequenos insetos que iriam alertar-me caso surgisse alguma ameaça. Com essas defesas prontas permiti-me cochilar sobre um pano que trouxera comigo. Algumas horas depois eu fui despertada pelo som de passos vindo em minha direção. Levantei-me de pronto, peguei minha espada e meu arco e me escondi sob um apoio de modo a conseguir observar a direção de onde vinham as passadas. Mesmo com a luz do luar não consegui ver a face de quem se a aproximava, porém sabia se tratar de um homem pelo porte físico robusto. Ele carregava um estranho objeto cilíndrico e caminhava lentamente em direção ao posto onde eu me encontrava. Preparei uma flecha e mirei no estranho sujeito. Foquei toda minha atenção no disparo. Cerrei meus olhos.

Inspirei profundamente para me conectar com o vento. Criei uma imagem mental de onde deveria atirar. Eu estava pronta e então abri os olhos para atirar. Entretanto, para minha surpresa, ele não estava mais lá. Instintivamente me virei, porém também atrás de mim não havia nada. Afrouxei a corda e então senti algo surgir atrás de mim. Olhei para a entrada do posto, porém ninguém além de mim estava dentro da cabana. Corri até o ponto de observação e vi que aquele homem caminhava entre as colinas. Rapidamente disparei uma flecha contra ele, contudo ela encontrou apenas o ar vazio. Logo vi a silhueta em outro ponto, tentei atingi-la e falhei outra vez. Segui disparando nas sombras indefinidas que surgiam em toda parte sem obter sucesso em acertá-las uma vez sequer. Logo eu estava sem munição e tudo que me restava eram minha espada e minha magia. Eu sabia que meu inimigo estava em algum lugar, entretanto algo me impedia de acertálo. Pensei que estivesse sobre efeito de algum encantamento, porém nada detectei quando usei um feitiço de purificação. Eu não conseguia entender o que poderia estar dando a quem quer que fosse tal agilidade. Nenhum encanto de que já ouvira falar poderia dar a alguém a habilidade de mover-se em tamanha velocidade, muito menos de ir de um ponto a outro

sem passar pelo espaço entre eles. Será que a história contada pelo bruxo de Kal’Ashtar era real? Eu poderia mesmo estar enfrentando um oponente digno de ser chamado de ―HomemDeus‖? Se assim o fosse eu não poderia hesitar em acabar com ele quão rápido pudesse. Desci do posto de observação de espada empunhada e conjurei a magia de negação mais poderosa que conhecia. Enquanto recitava o encantamento, um redemoinho se formava ao meu redor criando uma torrente escarlate com as pétalas arrancadas das flores. Quando terminei, o fluxo se rompeu e uma chuva rubra caiu perfumando o ar e revelando um homem alto, negro, de longas barbas e cabelos brancos, trajado numa longa túnica amarela. Ele carregava em suas mãos uma estranha arma metálica alongada e adornada com símbolos que eu não compreendia. Seus traços faciais se assemelhavam aos de Maltas, entretanto havia neles um semblante de sabedoria. —Uma magia capaz de desfazer os encantamentos da antiga Lumireis… – murmurou o homem – Você faz por merecer sua fama, Bruxa de Valarda. —Você é o Homem-Deus? – eu perguntei.

—Não sei nada sobre esse título. Eu sou apenas Salazar, o Mago, aquele que conquistou os encantos esquecidos. —E o que você quer na Altarquia, Mago? Nesse instante Salazar deixou cair o manto que lhe cobria o peito, revelando nele dezenas de símbolos tatuados. —Quando adentrei o Reino Esquecido encontrei coisas que nenhum homem jamais poderia conceber. – ele falou – Coisas cuja simples existência questiona tudo em que o homem acredita. Estudei os segredos contidos naquelas paredes por anos e anos e descobri coisas com que jamais sonhei. Vi imperadores profanos excomungados da história, monstros indescritíveis habitantes das trevas abissais, cidades cujas fundações se ligavam ao núcleo de planetas, lugares onde o próprio funcionamento do universo se dobrava à vontade de seus moradores. Com isso adquiri mais poder do que qualquer outro feiticeiro que já pisou nesse mundo. Entretanto fui também amaldiçoado. Quando abandonei Lumireis essas marcas surgiram em meu peito. Não tardei a descobrir que elas designavam pessoas – membros de ordens ocultas – que eu deveria conquistar caso desejasse viver. Parti em viagem para encontrá-los e desafiá-los, porém nem mesmo os maiores bruxos faziam frente a mim. Agora restam apenas dois para

que eu complete minha missão e fique livre para usar os conhecimentos que adquiri. Maltas da Ordem de Nephtys e você, Áine da Ordem de Clídna. A verdade então ficou clara. Maltas não viera à Altarquia em busca de ajuda para sua terra, mas sim para conseguir ajuda para si mesmo. Ele acreditava que eu poderia derrotar Salazar e isso evitaria que ele mesmo se arriscasse. Meu sangue ferveu de ira pela traição que sofrera. O Feiticeiro de Kal’ Ashtar agora estava em minha cidade e se eu não detivesse o Mago, ele convenceria Eugene a colocar seus homens contra Salazar dizendo que estariam defendendo sua morada e seu rei, quando em realidade apenas estariam protegendo a um covarde. Eu não permitiria que isso ocorresse. Iniciei a conjuração de meu mais poderoso feitiço, pronta para terminar o duelo em um único ataque. Enquanto recitava, o Mago veio em minha direção com sua arma levantada, atingindo-me no lado com uma pancada brutal. Fui jogada ao chão com violência e um enorme volume de sangue veio à minha boca. Uma dor enlouquecedora correu todo meu corpo, entretanto me esforcei para me manter sã. Rolei no chão quando ele tentou golpear-me novamente, ganhando assim tempo o bastante para terminar meu encantamento. Logo ar e

terra tremeram e um rugido feroz ecoou nas nuvens. Arrasteime para longe do meu adversário enquanto ele olhava ao redor, tentando prever a magia que eu convocara. Entretanto, mais rápida que o pensamento, uma gigantesca coluna de chamas irrompeu do chão em direção aos céus, prendendo o corpo de Salazar num inferno de fogo escarlate. As cinzas negras das flores queimadas foram jogadas ao alto e caíam como uma chuva negra enquanto a pilastra ardente subia em espiral aquecendo e distorcendo o ar ao seu redor. Quando a combustão cessou só restava uma cratera carbonizada e uma pilha de cinzas enegrecidas no chão. Salazar, o Mago, o homem que conquistara a magia dos Deuses, estava morto. Levantei-me satisfeita com a vitória. Havia sido ferida, entretanto acertara em minha decisão de acabar com tudo em um único ataque. Preparava-me para ir embora quando ouvi um zunido estridente por trás de mim. Um ardor febril tomou meu ventre e antes que pudesse sequer pensar vi-me caída entre as Campanellas vermelhas. Enquanto eu estava jogada ao chão, pude ver Salazar lentamente se afastando de mim em direção à minha cidade. Não fazia ideia de como, mas ele sobrevivera à

conflagração que eu criara e agora voltara a situação a seu favor. —Se nem mesmo a Bruxa de Valarda pôde me vencer, então não haverá nada que me impeça de me tornar um Deus completo! – gritou ele, voltando-se para mim. Tomada por um impulso desesperado de proteger tanto meu orgulho quanto minha nação, decidi usar meu ultimo recurso para deter o Conquistador de Lumireis. Com o pouco de força que me restava, ergui minha mão e recitei as palavras proibidas que aprendera com os seguidores de Morrigan. A cada sílaba que falava, eu sentia um pedaço de minha alma sendo rasgada pela Deusa da Morte. Fui tomada lentamente por um frio mórbido que contrastava com o calor úmido da poça de sangue em que me encontrava. Quando terminei não conseguia sequer sentir meu corpo, entretanto a visão de mãos brotando do chão e se agarrando ao corpo de Salazar enquanto ele

desesperadamente tentava dispersá-las me bastou. Em seguida, a escuridão. Agora despertei e me vejo à beira da morte. Entreguei minha vida e minha alma em nome da terra que amava. Não sei se consegui matar o Mago e a ideia de ter falhado me assusta profundamente. Entretanto já não há mais nada que eu possa

fazer. Esse meu corpo agora mergulha vagarosamente nas trevas onde me tornarei uma serva eterna da Senhora da Morte. Ainda assim sei que lutei e acredito que venci. Agora só me resta aguardar o esquecimento em meio ao mar vermelho das Campanellas nascidas do sangue, pois eu também hei de me tornar nelas. Que irônico que da morte nasçam as mais belas flores…