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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL CURSO DE MESTRADO EM SERVIÇO SOCIAL

ANA MARIA MACIEL CORREA

PERMANÊNCIAS E MUDANÇAS SOCIAIS NUMA COMUNIDADE RIBEIRINHA: COLARES

BELÉM-PARÁ 2008

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL CURSO DE MESTRADO EM SERVIÇO SOCIAL

PERMANÊNCIAS E MUDANÇAS SOCIAIS NUMA COMUNIDADE RIBEIRINHA: COLARES

ANA MARIA MACIEL CORREA

Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Serviço Social da UFPA, como requisito para obtenção do Título de Mestre em Serviço Social, orientada pelo Profº. Dr. Ariberto Venturini.

BELÉM-PARÁ 2008

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ANA MARIA MACIEL CORREA

PERMANÊNCIAS E MUDANÇAS SOCIAIS NUMA COMUNIDADE RIBEIRINHA: COLARES

Esta dissertação foi aprovada em ___ / ___ / 2008

Comissão Examinadora _________________________________________ Profº. Dr. Ariberto Venturini - Orientador _________________________________________ Profª Drª Marize Duarte - Avaliador Externo _________________________________________ Profª Drª Nadia Socorro Fialho - Avaliador Interno

BELÉM-PARÁ 2008

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Ao meu pai: Milton Lopes Correa (in memoriam) pela sua constante presença em meu viver, dando forças e incentivos como verdadeiro amigo de todas as horas.

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AGRADECIMENTOS À minha família pelo apoio e compreensão recebidos ao longo dessa trajetória e, em especial, às minhas filhas: Ariany e Alanna que representam o verdadeiro sentido do meu viver. À amiga Izabel Coelho pela amizade fortalecida diante de muitos desafios; Ao Professor, Dr. Ariberto Venturini pela dedicação, competência e profissionalismo demonstrados durante essa caminhada; À Floripes Raiol pela amizade e apoio recebidos durante os momentos mais difíceis. Ao Professor Especialista Heraldo Meirelles pela colaboração durante a revisão e digitação desse trabalho.

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“Parece que toda grande ação histórica alimenta-se de uma referência ao passado; mesmo nas épocas de crise revolucionária, quando algo de novo está aparecendo [...]. Não é o passado real, mas um passado reconstruído”. Michêlle Bertrand

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RESUMO CORREA, Ana Maria Maciel. Permanências e Mudanças Sociais numa Comunidade Ribeirinha: Colares, UFPA, 2008. O estudo discute a temática das permanências e mudanças sociais no contexto das populações tradicionais da Amazônia, em especial, às populações ribeirinhas, caboclas. Em linhas gerais, são populações herdeiras de conhecimentos e práticas mais tradicionais da Região Amazônica vivendo e sobrevivendo do extrativismo das florestas e rios. Descendentes diretos das populações indígenas, no seu aspecto etno-cultural. Na organização atual, caracterizam-se como: “destribalizados”, “desculturados” diante do processo de socialização e reordenação social provocada pelas mudanças trazidas por fatores modernizantes que vêm afetando e levando a uma nova adaptabilidade entre o tradicional e o moderno, enquanto marcas do espaço regional. Nas últimas décadas, a realidade amazônica vem passando por profundas alterações, momento em que o capitalismo adentra e se expande na região, promovendo a exploração em larga escala dos recursos naturais, pela modernização dos transportes, dos meios de comunicação, enquanto condições indispensáveis à expansão capitalista. O processo de modernização alcança diferentes frações do espaço regional que de forma direta, ou indireta, com maior ou menor incursão, todos os espaços são atingidos. São conseqüências desse novo projeto de reorganização e exploração: a pesca predatória, a exploração dos recursos florestais, expulsão do homem do campo, devastação do meio ambiente e ameaça de extinção das atividades tradicionais como a pesca artesanal e atividades extrativistas. São mudanças que alteram o modo de vida das populações amazônicas levando a quebra das raízes, dos valores e da identidade cultural, dando surgimento a um tipo de organização social, num processo de reordenação que altera as práticas tradicionais e o contexto social em que estão inseridas. O estudo visa retratar o entrelaçamento das permanências do tradicionalismo e das mudanças sociais advindas do processo de modernização presente na cidade de Colares. Na verdade, é perceber a historicidade das populações locais, oportunizando a visibilidade de como vem ocorrendo à reordenação sócioeconômica e as formas de enfrentamento de situações postas nesse momento a essa comunidade, mediante mecanismos próprios de adaptação. O presente estudo caracteriza a cidade de Colares através de uma análise social, centrada no reconhecimento que esta comunidade ribeirinha faz de si, diante das mudanças e conseqüentes alterações para a vida social. Para desvelar essa realidade, pautou-se nos estudos de: Boaventura de Souza relacionado às continuidades e descontinuidades presentes na sociedade atual; a quebra dos paradigmas sócioculturais e a emergência de novos paradigmas que retratam a transitoriedade da sociedade com ritmos e tempos sociais diferenciados, que desencadeiam a fragmentação identitária e a diversidade cultural. Na compreensão dos processos de construção e afirmação da identidade cultural das comunidades ribeirinhas, reportou-se a uma reflexão teórica referentes aos conceitos: história, cotidiano e identidade trazidos pelos autores Giddens (2000), Carvalho e J. P. Neto (1994), Cuche (1999), Hall (1994) e Robert Darnton (2002). A partir da coleta de dados junto à população de Colares, essa comunidade expressa de forma clara sua percepção, a respeito do que representa a história e a vida dessa cidade nas últimas décadas. Nos últimos vinte anos, essa comunidade vem vivenciando um processo de

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transitoriedade entre as permanências do tradicionalismo e as mudanças que vêm se operando nesse espaço. Essa transitoriedade lhe imprime uma compreensão de que o tempo mudou, não somente o tempo cronológico, mas o tempo psicológico que muito revela a maneira de ser e viver dessa comunidade. Existe o cultural que demarcado pela urbanização e a modernização das práticas tradicionais que vincula ainda a população de Colares, com um pé na tradição e outro se tentando firmar pelas novas possibilidades às inovações impostas pela modernidade, momento que levará a um processo de destradicionalização.

Palavras-chave: permanências, mudanças, identidade, cotidiano, populações tradicionais, destradicionalização, modernidade.

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ABSTRACT

CORREA, Ana Maciel Maria. Social Permanence and Change in the Marginal Community: Colares, UFPA, 2008.
The study it argues thematic of the permanencies and the social changes in the context of the traditional populations of the Amazônia, in special, to the marginal, native populations. In general lines, they are inheriting populations of more traditional practical knowledge and of the Amazon region living and surviving of the extrativismo of the forests and rivers. Descending right-handers of the aboriginal populations, in its etno-cultural aspect. In the current organization, they are characterized as: “destribalizados”, “desculturados” ahead of the process of socialization and social reordenation provoked by the changes brought for modern factors that come affecting and leading to a new adaptability between traditional and the modern, while marks of the regional space. In the last few decades, the Amazonian reality comes passing for deep alterations, moment where the capitalism it enters and if expands in the region, promoting the exploration on a large scale of the natural resources, for the modernization of the transports, the medias, while indispensable conditions to the capitalist expansion. The modernization process reaches different fractions of the regional space that of form direct, or indirect, with greater or minor incursion, all the spaces are reached. They are consequences of this new project of reorganization and exploration: it fishes it predatory, the exploration of the forest resources, expulsion of the man of the field, devastation of the environment and threat of extinguishing of the traditional activities it fishes as it artisan and extrativistas activities. They are changes that modify the way of life of the Amazonian populations taking the cultural identity and value, root in addition, giving sprouting to a type of social organization, in a process of reordenation that modifies practical the traditional ones and the social context where they are inserted. The study it aims at to portray the interlacement of the permanencies of the traditionalism and the happened social changes of the process of present modernization in the city of Necklaces. In the truth, it is to perceive the historicity of the local populations, oportunization the visibility of as it comes occurring to the partner-economic reordenation and the forms of confrontation of situations ace of fishes at this moment this community, by means of proper mechanisms of adaptation. The present study it characterizes the city of Necklaces through a social analysis, centered in the recognition that this marginal community makes of itself, ahead of the changes and consequences alterations for the social life. To disclose this reality, it was established in the studies of: Boaventura de Souza related to the continuities and discontinuities gifts in the current society; the partner-cultural paradigm in addition and the emergency of new paradigms that portray the differentiated transitorieity of the society with rhythms and social times, that unchain the identitária spalling and the cultural diversity. In the understanding of the processes of construction and affirmation of the cultural identity of the marginal communities, it was referred a theoretical reflection referring to the concepts: history, daily and identity brought by Giddens authors (2000), Oak and J.P. Grandson (1994), Cuche (1999), Hall (1994) and Robert Darnton (2002). From the collection of data next to the population of Necklaces, this express community of clear form its

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perception, regarding what it in the last few decades represents the history and the life of this city. In last the twenty years, this community comes living deeply a I transitprocess enters the permanencies of the traditionalism and the changes that come if operating in this space. This I transit prints it an understanding of that the time moved, not only the chronological time, but the psychological time that much discloses the way to be and to live of this community. The cultural one exists that demarcated for the practical urbanization and the modernization of the traditional ones that the population of Necklaces still ties, with a foot in the tradition and another one if trying to firm for the new possibilities to the innovations imposed for modernity, moment that will lead to a destradicionalization process.

Word-key: permanencies, changes, identity, daily, traditional populations, destradicionalization, modernity.

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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO................................................................................................ 13 CAPÍTULO I - PERMANÊNCIAS E MUDANÇAS NUM CONTEXTO DE MODERNIDADE.................................................................................................. 1.1 Tradição e Modernização: Faces da Agenda Mundial.................................... 1.2 A Amazônia: Do local ao global..................................................................... 1.3 Populações Ribeirinhas: História e Adaptabilidade Sócio-Ambiental............. 1.3.1 O Processo de Reordenação Social........................................................... 1.3.2 Relação Homem-natureza e Sustentabilidade............................................ CAPÍTULO II A MANEIRA DE SER TRABALHO DE UMA 47 49 57 64 70 18 21 27 35 35 39

COMUNIDADE RIBEIRINHA: COLARES........................................................... 2.1 O Trabalho no Cenário de destradicionalização............................................ 2.2 Área de Estudo: Região do Salgado - A Cidade de Colares......................... 2.2.1 A Agricultura Familiar no Município de Colares......................................... 2.2.2 A Pesca Artesanal: atividade referencial do Município de Colares........... CAPITULO III - O COTIDIANO DAS PRÁTICAS TRADICIONAIS NA PRODUÇÃO DA IDENTIDADE RIBEIRINHA...................................................... 3.1 O Cenário Amazônico nas Últimas Décadas................................................. 3.2 História, Cotidianidade e Identidade.............................................................. 3.3 O Processo Identitário em Colares................................................................ 3.3.1 A identidade Ribeirinha: Algumas Perspectivas.......................................... CAPÍTULO IV - POLÍTICA SOCIAL: SEUS REFLEXOS NA MANEIRA DE VIVER DE UMA COMUNIDADE TRADICIONAL................................................ 4.1 Política Social e o Poder Público.................................................................. 4.2 Brasil: Assistencialismo e Proteção Social..................................................... 4.3 As Políticas Sociais sob os ditames Neoliberais............................................ 4.3.1 Política educacional:.................................................................................. 4.3.2 Política de Assistência Social..................................................................... 4.3.2 Política da Saúde....................................................................................... CAPÍTULO V: O SENTIDO E O SIGNIFICADO DAS PERMANÊNCIAS E MUDANÇAS SOCIAIS EXPRESSAS PELA COMUNIDADE DE

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100 100 101 103 107 111 114

COLARES............................................................................................................ 120 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................. 135 REFERÊNCIAS................................................................................................... 145

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APRESENTAÇÃO

O estudo ora apresentado decorre de um dos requisitos do Programa em pósgraduação em Serviço Social do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, da Universidade Federal do Pará, para a obtenção do grau em Mestrado em Serviço Social. A finalidade deste estudo consiste em fazer uma abordagem sobre as populações tradicionais da Amazônia enfatizando o processo de reordenação social

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presente na manutenção das práticas tradicionais e a adoção de práticas modernas numa dada comunidade ribeirinha. As populações tradicionais constituem-se em objeto empírico dessa pesquisa e referem-se às populações típicas da região amazônica, enquadrando-se como tal, as populações ribeirinhas, caboclas, pescadores e pequenos agricultores e herdeiros de saberes e práticas sócio-culturais das primeiras populações da região. Os problemas sócio-ambientais trazido pelo intenso processo de exploração dos recursos naturais que se instalou na região, a partir de 1970, traz à tona a valorização do saber tradicional, como elemento fundamental na reorientação dos modelos produtivos aqui engendrados e nos processos de preservação ambiental, pois tem sua base no contexto das práticas tradicionais, no uso da terra, do território e demais recursos naturais que integram os aspectos econômicos, sociais e culturais. É nesse cenário de persistência do tradicionalismo que as práticas culturais cumulativas estabelecem e mantêm os vínculos entre o homem e os ecossistemas. A relação com a natureza torna-se o eixo estruturador da vida social e cultural, retratando-o, assim, um modo de vida com vinculações que substanciam a vida e a organização social local. Um cotidiano que se expressa por rituais, costumes, sonhos e valores presentes nas práticas materiais e imateriais. Estudos sociológicos têm se voltado para a compreensão do modo de vida das populações tradicionais, em especial os ribeirinhos, caboclos, pescadores da região amazônica, enquanto comunidades originárias de grupos indígenas e do processo de miscigenação com grupos diretamente ligados ao processo de colonização portuguesa. A proposta de estudo se constitui em desafio e, ao mesmo tempo, de singular relevância para a compreensão do modo de vida das populações tradicionais, bem como fazer uma análise de sua historicidade, ao dar ênfase à resistência e a permanência dos padrões e valores tradicionais, como valores e padrões externos que passam a ser considerados como verdadeiros e que por sua influência, passam a dizimar, quebrar os padrões culturais locais, pois são processos que perpassam pela dominação e subjugação dos nativos da região.

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Dessa maneira, o presente trabalho se situa entre as permanências da tradição e a interferência da modernidade que se faz presente na cidade de Colares, localizada no Nordeste Paraense, na região do Salgado. Nesse espaço geográfico, percebe-se o processo de adaptabilidade frente aos recursos naturais, como as novas atividades implementadas no sentido de dinamizar o processo de criação e recriação das práticas tradicionais e da vida social, sob a direção e a interferência dos ideários da modernidade. Assim, identifica-se a conformação de um novo espaço sócio-econômico que vem sendo construído nas últimas décadas, a partir da inter-relação entre os padrões tradicionais e as novas circunstâncias apresentadoras das novas práticas e valores que vêm sendo assimilados por esta comunidade ribeirinha. Todo esse processo de reordenação social é analisado em cinco capítulos assim desenvolvidos: O primeiro Capítulo trata das Permanências e Mudanças num contexto de Modernidade. Neste, procura-se retratar o processo de reestruturação econômica por que passa o capitalismo atual, as repercussões da economia globalizada sobre a formatação da sociedade atual. O capítulo enfatiza que neste processo de reorganização dá-se a quebra dos paradigmas sócio-culturais e o emergir de novos paradigmas, que tem levado ao colapso da modernidade, como período muito próprio da humanidade. Assiste-se um período de transição paradigmática, resguardando-se os ritmos e os tempos sociais das diferentes sociedades. Está-se diante de uma sociedade fragmentada, múltipla e diversa

culturalmente, em que a homogeneidade cede lugar ao pluralismo e a diversidade, e que o imediato dirige e conforma todas as relações e produções humanas, caracterizando-se esse momento como “modernidade reflexiva” pelas rápidas mudanças e conseqüências sociais. Um contexto que anuncia e celebra os impactos, as demandas e a conformação de um novo contexto sócio-cultural ainda que em construção. Daí, se

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fazer presente permanências e mudanças sociais, determinismos e indeterminismos como marcas desse fenômeno, a radicalização da modernidade. Nesse contexto de transição se situa a região amazônica por seus vínculos históricos com o mercado internacional desde a era colonial. Analisam-se os impactos dessa inserção internacional sobre as populações tradicionais, em especial as ribeirinhas, caboclas. O segundo Capítulo enfatiza a maneira de ser trabalho de uma Comunidade Ribeirinha: Colares. Este capítulo trata do papel assumido pelo poder público tendo em vista a dinamização do espaço local e o alcance de uma nova ruralidade que se centraliza na modernização, mediante a potencialização das atividades tradicionais, assim como a proposição de novas atividades que possibilitem maior produtividade e valorização da produção no mercado local / regional. É o empenho para o alcance do desenvolvimento local. Em Colares, a agricultura de subsistência e a pesca artesanal, embora sentidas como bem tradicionais, passam a ser vistas enquanto campo de investimento e potencialização, por meio de políticas públicas. De uma forma bem inicial, esses investimentos vêm apontando a tendência para a destradicionalização dessas atividades primeiras dessa comunidade. A Agricultura de subsistência e a pesca artesanal são atividades que remontam a era colonial e imprimem força e direção à maneira de ser e viver dessa população. Neste capítulo, apresenta-se a trajetória histórica da agricultura e da pesca no Nordeste Paraense, e ao mesmo, tenta sinalizar as tentativas do governo local em sua dinamização mediante projetos e atividades, no sentido de potencializar a produção local. O terceiro Capítulo, referente ao Cotidiano das Práticas Tradicionais na Produção da Identidade Ribeirinha apresenta o objetivo de focalizar o processo de reordenação social na cidade de Colares, diante das práticas sócio-econômicas tradicionais e das práticas e padrões, baseados no estilo de vida moderna. Procurase enfatizar as resistências e as persistências das atividades tradicionais como elemento significativo na afirmação da identidade. Nesse âmbito, perpassar pela

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questão da história local, da cotidianidade e do processo identitário nessa comunidade ribeirinha e, ao mesmo tempo, focalizamos as alterações e o processo de fragmentação e descentramento identitário, e assim, dar conta do processo de adaptabilidade entre o mundo antigo e o mundo moderno. O quarto Capítulo trata da Política Social e seus reflexos na maneira de viver de uma comunidade ribeirinha: Colares. Neste, retrata-se a atuação do Estado junto a sociedade, mediante políticas sociais que garantem a legitimação do Estado frente a movimentos e pressões sociais, ao mesmo tempo em que se reforça seu domínio e poder como unidade de força e hegemonia. É no contexto da desigualdade social e dos processos de miserabilização da população que surgem estratégias oficiais para dar respostas às necessidades reconhecidas enquanto direitos sociais. Nesse campo de atuação do Poder Público, identifica-se a interferência das políticas sociais na área da educação, saúde, assistências social e na área econômica, enquanto políticas implementadas pelo município como estratégias de acesso, ampliação de direitos e propulsores do desenvolvimento local, bem como seus impactos na maneira de ser e viver dessa comunidade cabocla e tradicional. No quinto Capítulo, abordam-se o sentido e o significado das permanências e mudanças sociais expressas pela Comunidade de Colares. Este está pautado na coleta de informações junto a cinco (05) famílias consideradas tradicionais, antigas e junto a dezesseis (16) jovens, mediante aplicação de entrevistas, formulários e observação. A partir da coleta de dados, percebem-se o sentido, a direção e os significados apontados por esses segmentos para a compreensão e expressão da vida cotidiana. O grande objetivo da pesquisa foi captar como essa comunidade se vê e se percebe diante das permanências e mudanças sociais. São posicionamentos, diante de questões, fatos ou aspectos da vida social, considerados tradicionais de comportamentos em contato com os padrões modernos, a partir de mudanças implementadas nas últimas décadas.

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Faz-se uma trajetória do passado / presente para se buscar a compreensão da vida cotidiana, mesclada de sentidos e significações, dando conta de como a vida do dia-a-dia se objetiva, se expressa e também como vem sendo subjetivada pela coletividade, considerando-se seus valores e padrões culturais.

CAPÍTULO

I

-

PERMANÊNCIAS

E

MUDANÇAS

NUM

CONTEXTO

DE

MODERNIDADE

A sociedade envolta na reestruturação econômica por que passa o capitalismo atual vem experimentando um novo processo de transitoriedade, que expressa permanências ou vestígios de uma estruturação sedimentada, a partir da era moderna e pela emergência de uma nova conformação social pautada na racionalidade da economia globalizada. Essa transição engendrada por via da nova ordem social é vista ainda como algo em construção, quase que indecifrável, sem uma perspectiva de definição final.

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No entanto, uma realidade que é a expressão da inquietude e do desassossego que se potencializa pelas contínuas mudanças advindas das rupturas e descontinuidades inerentes a esse processo de reordenação sócio-econômica mundial que faz emergir, nas últimas décadas, uma sociedade que vem se reestruturando sob o enfoque de novos paradigmas, novos ideários e novos aportes de sustentação. Esse contexto híbrido, de transição entre as permanências da tradição e das mudanças advindas do processo de modernização, aponta para o desaparecimento de antigos paradigmas sócio-culturais e faz emergir novos paradigmas. Santos (2005, p.115) afirma que esses paradigmas demarcam temporalidade, pois nascem, desenvolvem-se e morrem num processo quase invisível, imperceptível que demanda longo período de tempo para se identificar o que ficou, o que desapareceu e o que se instaurou em seu lugar exatamente por demandarem continuidades e descontinuidades. Assiste-se ao colapso da modernidade enquanto projeto conformador da sociedade e de todas as suas promessas não cumpridas. Sobretudo, em relação ao processo de regulação e de emancipação social que deixou de se auto-afirmar em face da nova ordem da desregulamentação e reestruturação social, econômica e política, enquanto nova exigência e demanda do capitalismo e da sociedade global. Nesse contexto, Santos (2005, p.116) afirma que se vive um tempo de transição paradigmática e que embora se salvaguardando os ritmos e os tempos sociais, as sociedades e as culturas são intervalares, retrata-se a transição da sociedade patriarcal, a produção capitalista, o consumismo individualista e mercadorizado, o desenvolvimento global desigual e excludente para um paradigma ou conjunto de paradigmas de que, por enquanto, só conhecemos as “vibrações ascendentes”. Por conta da ruptura de antigos pilares sócio-culturais e a produção de uma vida social, resultante de rápidas e profundas alterações se depara com uma sociedade fragmentada, múltipla, diversa culturalmente em que se observa o excesso do presente em relação do passado. Nessa reestruturação social, o passado é totalmente desfocado do futuro. Todas as relações serão estabelecidas e mantidas pelo aqui e o agora que aponta a vida e a sociedade para um futuro

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próximo, imediato. Pois todas as relações e produção humana serão marcadas pelo efêmero e pela imediaticidade. Toda contemplação e a efetivação do futuro serão mediados pela avaliação do risco societário. Uma avaliação que parte das condições e riscos sócio-econômicos de uma dada sociedade e que, a partir de tais riscos, serão inseridas ou excluídas do cenário mercadológico, por apresentarem riscos e ou garantias à expansão e reprodução do capital. Nesse contexto de reordenação social e econômica, vislumbra-se a vida social totalmente relacionada aos riscos individuais e coletivos, sem que haja uma perspectiva de reconhecimento de superação. As mudanças rápidas e conseqüentes estarão relacionadas às determinações e direcionamentos implementados pelo mercado mundial que se move de acordo com as possibilidades e as facilidades para sua expansão e estabilidade. Nessa flutuação de idas e vindas, a ação da economia globalizada se configura pelo porvir de um novo tempo que direciona para a perspectiva de uma ruptura radical dos paradigmas e dos pilares de sustentação, ainda que essa ruptura aponte para a emergência de uma realidade sem forma e sem um real dimensionamento. Como se caracterizasse o início da pintura de um quadro com linhas tênues quase indecifráveis, tamanha é o contexto de instabilidade e indefinições. Qualifica-se o contexto social atual como expressão da “modernidade reflexiva” ou de “pós-modernidade, diante das profundas transformações engendradas, fazendo-se presente tanto as alternativas emancipatórias, progressistas quanto as alternativas reguladoras e conservadoras. No entanto, sendo bem presente as alterações do projeto da modernidade, notadamente pela crise da sociedade do trabalho, da reorientação da produção e da produtividade, desconstruindo-se a centralidade do trabalho e do trabalhador. A globalização econômica traz no seu bojo à reestruturação produtiva acoplada as inovações tecnológicas que qualificam alguns setores e desqualificam outros produtivos, o que tem levado a exclusão de uma imensa faixa de trabalhadores. É o momento marcado por uma nova racionalidade econômica que pressupõe uma nova sociabilidade no mundo produtivo, pois envolve relações e conexões cada vez mais internacionalizadas, em que a lógica da produção de mercadoria subordinada à reprodução do capital.

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Depara-se com a sociedade dos descartáveis, na qual a produção de bens é marcada pela obsolência diante das inovações trazidas pela modernização. Todas as relações estarão postas segundo a lógica do mercado da contínua reestruturação produtiva. Nesse contexto que se anuncia e se celebra os impactos, as demandas e a conformação de um contexto sócio-cultural ainda em construção revelam marcas de vivências pautadas nos excessos de determinismos e indeterminismo, e pelos processos de aceleração da rotina, das continuidades, repetições e pelos métodos de desestabilização de expectativas, pelas rupturas e descontinuidades dos projetos pessoais e sociais. Assim, continuidades e descontinuidades como marcas desse novo tempo. A coexistência desse processo de permanências e mudanças é o que qualifica a transitoriedade, enquanto momento de instabilidade em que persiste a ordem e a desordem, como referências de combinações “turbulentas” e processos que suscitem polarizações que se interconectam, imprimindo rupturas e continuidades que vão se tornando freqüentes até serem rotinizados, demonstrando assim, um processo contraditório de continuidades e descontinuidades. Estabelecer um olhar compreensivo sobre a sociedade atual é penetrar nos processos de percepção desta própria sociedade, percebendo-se a forma como esta se identifica como tal. Uma vez que as “sociedades são a imagem que têm de si vistas nos espelhos que constroem para reproduzir suas identificações dominantes num dado momento histórico. São os espelhos que ao criar sistemas e práticas de semelhança, correspondência e identidade, asseguram as rotinas que sustentam a vida em sociedade”, (SOUSA, 2005. p. 45). Tais espelhos são expressões das instituições, das normas e das ideologias que sedimentam as práticas sociais. A correspondência entre o que é e o que se reconhece ser, substancia o processo identitário. Nesse campo se inserem como elementos fundantes: a ciência, o direito, a educação, a informação e a tradição. Esses espelhos ou construções sociais refletem o que a sociedade é ou como se vê. Quando esses “espelhos” ou constructos se alteram, assumem outra conformação e significação, alcançando certa autonomia e independência. A própria sociedade se

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vê diante de uma realidade em que não há correspondência entre aquilo que é e o que se vê refletida no espelho. Diz-se então, que se instaura a crise social e a necessidade de “reinventar” espelhos ou imagens correspondentes. No contexto social, onde a diversidade cultural é característica marcante, tornase imprescindível compreender o universo das tradições e alternativas marginalizadas, apagadas e até suprimidas pela modernização, no sentido de buscar maior compreensão desse processo de continuidades e descontinuidades e a partir dos fragmentos dessas tradições abrirem espaço de reflexões, de entendimento das lutas e resistências, frente aos paradigmas dominantes.

1.1 Tradição e Modernização: Faces da Agenda Mundial As transformações que demarcam os tempos atuais se impõem em quase todas as sociedades. Alteram a lógica e a estruturação da própria modernidade ao mudar as expectativas e as certezas sobre um mundo presumivelmente mais seguro, ordenado e estável. O estágio atual do capitalismo chamado por Beck (1997, p.12) de modernidade reflexiva, enquanto processo de radicalização da modernidade, caracteriza-se por um novo estágio de progresso e desenvolvimento. Marx, no século XIX vislumbrava as profundas e contínuas mudanças trazidas pelo avanço do capitalismo, apontando as seguintes características:
A revolução constante da produção, a perturbação ininterrupta de todas as relações sociais, a incerteza e agitação permanente (que) distinguem a era burguesa de todas as anteriores [...] (em que) todos os relacionamentos estabelecidos e fixados (tornam-se) vulneráveis e destruídos. Todos os novos tornam-se obsoletos antes de poderem se fixar (MARX, 1982, p.465).

A era da modernidade reflexiva faz emergir uma nova formação social, um novo contexto em que se dá inicialmente a desincorporação das forças tradicionais pelas forças sociais industriais e, num segundo plano, a reincorporação do tradicional que se reveste de novas nuances da modernidade. São alterações que invadem o âmago e os contornos da sociedade, abrindo-se esse espaço para outra modernidade, mediante instauração de um processo de mudanças que se dá de forma quase que “sub-repticiamente” num processo de mudança autônoma quase

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que imperceptível no início, mas com grandes alterações na ordem política e econômica e Impõe uma modernização ampla, solta, desestruturadora. Significando nesse sentido a modernização da modernização. Nesse processo de conformação de uma nova sociedade, a partir de um contínuo processo de mudanças, faz-se presente a transição de uma época a outra em que a “latência”, a “imanência”, a “fluidez, a “imediaticidade” e a “obsolência” das práticas sociais são pontos marcantes dessa transitoriedade. Embora sem muita clareza de direcionamento e alcance de metas préestabelecidas, constitui-se um processo com poder e força para modificar e destruir outros modos de vida organizativos, trazendo à tona a civilização do risco e da incerteza. Nesse âmbito de permanências e mudanças, comunidades inteiras tendem a reorganizar suas práticas sociais e sua estrutura organizacional, moldando sua base de sustentação, agora vinculadas a parâmetros e circunstâncias pautadas nas relações de riscos e incertezas maiores. Diante do avanço científico e tecnológico altera-se a percepção de mundo, o modo de ser e viver, pois o avanço da modernização interfere no estilo de vida de populações inteiras, comunidades marginalizadas e excluídas do circuito das satisfações de necessidades mais elementares. Assim, essa modernização assume o caráter civilizatório pela imposição de novos valores e novas práticas sociais. Na verdade submete tais populações aos avanços por sua incapacidade de transformar suas necessidades em demandas para o mercado. Nessa inserção subalternizada, as marcas da exclusão da natureza econômica e social, que se agrava pelo apelo a liberação dos mercados e pela destruição dos sistemas de produções locais ao retirarem-se as condições essenciais de reprodução social dessas comunidades de camponeses, pescadores, artesãos, na medida em que se assiste a preeminência do consumidor sobre o produtor. As mudanças imprimem alterações significativas na cultura tradicional, isso porque o mundo global via comunicação, coloca as comunidades tradicionais frente a frente a situações e contextos do mundo mais amplo e plural, onde o espaço local encontra-se inserido no mundo global. Impactando a vida e a identidade local e traz

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uma certeza ilusória de que todos os caminhos apontam para a direção de um único mundo, único mercado, ao mesmo tempo em que fragmenta e destrói os ideários e práticas locais. Este conjunto de mudanças garante a centralidade da ideologia global a respeito da superação das fronteiras nacionais e locais, levando a uma reorganização dos espaços e tempos sociais. Defronta-se com uma nova agenda mundial, uma era de transição que vem demarcando uma nova conformação social que não se coloca apenas em oposição a tradição, mas diante de um processo dinâmico de desincorporação / incorporação do tradicionalismo, como resposta de uma nova modernidade em que a persistência e a recriação do tradicional, constituem-se elemento fundante da própria modernidade e da identidade social. Um processo nem sempre harmônico, pois a “diversidade cultural, conseqüente da globalização, faz “atiçar o medo e a rejeição do outro, onde a intolerância e o ódio, os conflitos entre civilizações (denunciam) confrontos que dominam o futuro do mundo”, (HOUTART, 2002. p.47). No decorrer de 1990, observa-se o desconstruir dos frágeis equilíbrios pela potencialização do militarismo, das lutas sociais, culturais e democráticas, que passam a pontuar no cenário internacional. Nessa perspectiva, a globalização e o neoliberalismo passam a ser identificados como produtores do “caos” pela multiplicação de conflitos, em decorrência da inviabilização da mundialização econômica e da democracia, enquanto possibilidades de progresso social. Nos últimos trinta anos não se percebe a construção de uma economia mundializada, mas a construção de um arquipélago capitalista mundial de ilhas grandes e pequenas, em que se concentram o avanço científico e tecnológico, que se efetiva sob forma de uma polarização crescente da economia internacional. São as “ilhas” economicamente fortes que dão origem à nova sociedade da informação e do conhecimento”. Nesse contexto, o grande ideário buscado reforçou sobre os mercados que não conseguem se inserir e serão abandonados e excluídos do futuro do mundo. Assim sendo, é marcante a multiplicação dos fenômenos de expropriação. Expropriação dos direitos fundamentais, do direito de existir em função da sua rentabilidade econômica.

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A sociedade e sua razão de ser serão como sinônimos de sistema organizativo não mais baseado nas interações pessoais, passando a ser direcionados pelas normas do mercado. Sua formação social não se pautará nas formações de identidades e solidariedade social, mas se centralizando no individualismo e na competitividade como elementos garantidores da sobrevivência. A agenda mundial se assenta nas rápidas e profundas transformações e se expressa na interligação das demandas mundiais e suas interferências nas atividades locais que se adaptam e se reorganizam, segundo as necessidades e ingerências do mercado ampliado. A prevalência do mercado atribui condições, situações e riscos pela não garantia de controles e previsão de resultados. Essa nova racionalidade ao avançar e alcançar formas de vidas pautadas na tradição instituirá a dissolução da tradição e da sobrevivência das populações tradicionais. O mundo global vai penetrando no cotidiano da comunidade local perpassando o íntimo e o profundo do “eu” alterando a relação tempo, espaço e identidade. Nessa relação entre tradição e modernização, observa-se ainda que em contraste, o processo de mutação às práticas tradicionais que referenciam as experiências do cotidiano que em meio às mudanças percebe-se a adequação, a reatualização e novas formas de adaptabilidade deste tradicional à vida moderna. Um cotidiano que se ajusta e reajusta-se diante das incursões globalizantes. Nesse sentido, a tradição é concebida como uma orientação do passado com interferências diretas no presente e com perspectivas para o tempo futuro. Assim, nesse contexto de rápidas transformações, as tradições estão envoltas em permanências e continuidades, descontinuidades e resistências frente a essas mutações, e sendo assim, balizadores desse processo, a autenticidade e o processo de reconhecimento que influenciarão a vida local e conseqüentemente servindo de fundamento para a sua permanência. Nas sociedades mais simples, os valores, as práticas e os rituais são elementos pertinentes à coesão e à solidariedade social. A tradição é preservada pela memória coletiva de uma comunidade. No entanto, diante das incursões modernizantes e pelo processo dinâmico de reatualização, o passado é reconstruído, reinventado tanto em nível pessoal, quanto coletivo, no sentido de que se reproduzem de forma contínua a memória de acontecimentos e condutas do

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passado, ainda que acrescida pela experiência do presente. Nesse contexto, a permanência do tradicionalismo não diz respeito somente sobre a persistência das tradições, mas ao processo contínuo de interpretação dessas práticas tradicionais, ao estabelecer laços, relações entre o passado e o presente. Assim, não é simbolizado somente pelos rituais do passado, mas pelo processo de interpretação do sentido da existência e persistência das práticas sociais que dão substâncias a uma dada coletividade. Sua validade será assegurada quando tais práticas sociais possibilitarem a conexão entre as vivências do passado no momento presente, com perspectiva para o futuro. Tal vinculação não se estabelece unicamente "de si para si”, mas é decorrente de um processo que envolve motivação e sentimento de pertencimento que induz reutilização constante da tradição. Nesse contexto, a tradição constitui-se referendo de um dado tempo e lugar e, se impõe na vida cotidiana de uma determinada comunidade, por expressar uma “verdade” que imprime os rituais e delineia um tempo social próprio; constituindo-se em marcos desse contexto social. Os rituais e práticas exprimem-se a autenticidade, como essência verdadeira desse modo de ser e viver. A persistência do tradicional está diretamente relacionada à atuação interpretativa dos guardiões, vistos, então, como depositários e mantenedores dessa “verdade formular”. Uma verdade que expressa a maneira de ser e viver de uma determinada comunidade. Pela deferência de poder e autoridade; os rituais e práticas constroem a identidade tradicional numa relação que envolve rotinização e interpretação de hábitos, costumes e práticas tradicionais. A tradição é contextual e manifesta uma pluralidade sócio-cultural, pois numa realidade social convivem diferentes crenças, rituais e práticas. Nesse cenário diverso, na construção identitária, está presente o "eu” e o “outro”, ou seja, aquelas pessoas que pertencem àquela identificação e os outros que são estranhos a ela. A tradição permeia toda a rede de relações sociais sendo vista como “âncora” que garante sustentabilidade material, cultural e simbólica de uma dada comunidade.

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Num espaço de modernidade é nítido o processo de desincorporação / incorporação da tradição, que altera e substitui essa tradição. Se de um lado a tradição demarca um espaço, a singularidade de uma localidade, por outro lado, a modernidade pauta-se em “sistemas abstratos”, universalistas que dispensam as particularidades da tradição, anula sua verdade e retira sua vinculação com o passado / presente, fragilizando as bases de sustentação da vida cotidiana. O resultado dessa transformação é a alteração das práticas sociais, do estilo de vida e o sentido de pertencimento. A dinâmica presente na globalização nas últimas décadas vem alterando a própria relação tradição / modernidade, sobretudo, pela alteração da noção de tempo / espaço, uma vez que o mundo globalizado tende a desfocar as circunstâncias que caracterizam a vida local, reestruturando o espaço social, impondo “sistemas abstratos” e a conseqüente desorganização da vida social local, pela incorporação de novos padrões organizativos. Se de um lado é certo que as alterações são trazidas pelo avanço da modernização, por outro lado, esse avanço não ocorre de forma homogênea, assim, não alcançando de forma direta todas as áreas do planeta, o que tem garantido a permanência do tradicionalismo em muitas áreas, formando verdadeiros “enclaves”. Embora, nesse contexto invasivo não se pode evitar o contato de tradições com realidades alternativas, constituindo-se em um mundo onde o “outro” ‘não pode mais ser tratado como inerte. “A questão não é somente que o outro responda, mas que a interrogação mútua seja possível”, (GIDDENS, 1997, p.119). Nesse contexto de permanências e mudanças, os costumes locais passam a expressar tanto informações e fundamentos do convívio local quanto do mundo mais amplo. A valorização da tradição no contexto de modernização assume caráter totalmente diferenciado em relação ao tempo / espaço. O passado deixa de ser referência para o presente, passando a referir-se a algo, a fatos distanciados no tempo e no espaço, visto então como “visitas de retorno”, na medida em que se reverte em um ritual esporádico, deixando de ser referência na maneira de ser e viver de uma dada comunidade, configurando-se como “relíquias” de um passado distante e desfocado do presente.

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1.2. A Amazônia: Do local ao global O caráter de mundialidade constitui-se o traço marcante da economia capitalista, por requerer um intenso intercâmbio comercial, e agir sob a lógica da produção e reprodução do capital como gênese e fim deste sistema. Nesse sentido, a história mundial estará intimamente relacionada à vida local, enquanto condição “prática” e “prévia” desse sistema, como condição indispensável ao desenvolvimento das forças produtivas, num intercâmbio internacional que aproxima o local, o global e a dependência de um sobre o outro. Na consolidação de mercado cada vez mais ampliado, a domesticação de várias regiões do planeta, consideradas como áreas coloniais atrasadas, fora da lógica do capital, esse inter-relacionamento do local e do global constitui-se fator que desobstrui os impasses, altera-se a realidade interna e imprime um caráter civilizatório, segundo os ideários da modernidade, quebrando com o isolamento local, e as práticas e vivências sociais pautadas na tradição. A história da Amazônia sempre esteve ligada ao desenvolvimento do capitalismo mundial e a idéia de desenvolvimento está relacionada ao processo de exploração das riquezas naturais ainda na era colonial, momento em que se iniciou a reorganização do espaço amazônico e sua inserção no cenário internacional como exportador de recursos naturais. A partir desse processo histórico, o papel da região vem sendo definido e redefinido como fornecedora de matérias-primas para dar atendimento às demandas de mercado internacional. Por conta dos interesses externos, a região se submete a incursões esporádicas das grandes metrópoles. Dessa forma, a Amazônia se insere no contexto internacional a partir do século XVII, momento em que se especializou em exportar determinados produtos naturais do rio e da floresta na época da colonização portuguesa. Sua integração definitiva ocorreu a partir de 1960, quando se integra efetivamente no mercado nacional e internacional. A vinculação da região ao mercado mais ampliado foi marcada pela ótica da subordinação e subjugação por se constituir em um modelo civilizatório e não de civilização. Nesse sentido, observando-se a prevalência dos interesses

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externos e a total desvinculação aos interesses, potencialidades e padrões sócioculturais locais, por retratar projetos que não se voltam para a sustentabilidade da região e do seu povo. A Amazônia desde a era mercantilista à da globalização econômica verifica-se a permanência do nexo da subalternização e a prevalência das relações desiguais no mercado internacional, uma trajetória histórica que tem registrado o aumento contínuo do volume de exploração e exportação de produtos regionais, embora sem a valorização correspondente dos preços dos produtos exportados. O atrelamento da Amazônia ao mercado internacional vai se dando em momentos específicos, mas com grandes impactos para região e sua população tradicional, sobretudo, pelo volume de exportação dos recursos naturais e pelo envolvimento da população regional nesse processo A Amazônia até meados do século XX apresenta-se distanciada do contexto nacional, posição justificada principalmente pelo seu isolamento geográfico, sua baixa densidade demográfica e caracterizando-se até, então, pouco atrativa economicamente. Seu processo de desenvolvimento foi marcado por momentos cíclicos que geraram períodos de prosperidade, embora em sua maior parte insignificante para a região e seu povo. No início da colonização, a região foi considerada “peça” de pouca expressão e se manteve isolada por século do resto do país. É o momento inicial da dominação da região e das estruturas de subsistências. No entanto, sendo marcante sua vinculação internacional pelo fato das práticas tradicionais estarem atreladas a própria produção mercantil. Nesse momento, firma-se o extrativismo como atividade rentável, através da exportação das “drogas do sertão”, uma produção voltada ao atendimento às demandas da Europa, a custo da escravização de índios, negros, caboclos e o início da exploração predatória dos recursos naturais. A ligação das áreas tradicionais às áreas modernas, nesse momento é caracterizada pela atuação da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão na intermediação comercial e na ampliação da conquista do território numa atuação que alterou o incipiente extrativismo e demais atividades de subsistência.

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O processo de internacionalização da região se intensificou com a exploração da borracha, a partir dos meados do século XIX, tornando-se elemento central da atividade extrativista. Neste momento, a Amazônia assume a posição de exportadora mundial de borracha, para dar atendimento à demanda industrial da Europa e dos Estados Unidos. Em nível regional, apesar do volume de exportação, a ocupação e a exploração de vastíssima área de seringais, observaram-se relativo crescimento econômico e urbano, pois o processo de circulação de capitais, o crescimento econômico e a introdução de novos padrões de consumo não corresponderam ao processo de acumulação real para a região. Um ciclo que durou vinte anos e ao final, o retorno às estruturas tradicionais, uma vez que o volume de capitais aqui gerados era carreado para os países centrais e sem o real desenvolvimento local, já que o volume de capitais aqui gerados não correspondiam aos benefícios econômicos e sociais para a região Até meados do século XX não se observava grandes alterações na região em seu aspecto econômico, ambiental e cultural. Revelando-se um espaço pouco transformado, e apresentando uma imensa área utilizada, principalmente por atividades extrativistas e a pequena lavoura, um tempo social em que o modo de vida regional era profundamente marcado pela influência do rio e da floresta, um estilo de vida com uma organização própria à vida cabocla, ribeirinha marcada pela produção tradicional do extrativismo e das atividades complementares da caça, da pesca, um território bem definido em seus contornos sociais e culturais e, no entanto, totalmente integrado com os centros mais dinâmicos regionais e internacionais. Belém, nesse contexto, se insere como importante papel na absorção e escoamento dos produtos regionais. O contexto local mantinha relação com espaços mais globalizados, onde a família cabocla tinha que contar com uma associação entre a caça, a pesca e o cultivo de mandioca, oferecendo a sobra muito pequena para se trocar por outros bens. “O caboclo, como parte de uma expedição ou por conta própria, podia extrair diversos tipos de material para vender”. (WEINSTEIN, 1993, p.27), no entanto, notase nesse processo uma relação de troca desigual que submete o caboclo aos acordos e os acertos dos comerciantes locais, que numa cadeia de dependência se constitui em elos com o comércio regional e externo, numa cadeia ampliada de

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dependência, onde é reafirmado um sistema clientelista que explora e vulnerabiliza as populações tradicionais. A partir das décadas 1960/1970 verifica-se uma nova inserção da Amazônia no mercado mundial, momento de implementação de uma política de aliança entre o Estado Brasileiro e o grande capital, tendo em vista a modernização e desenvolvimento industrial do país e da região. O Estado passa a implantar planos, metas e programas com a pretensão de superar os entraves, as atitudes e mentalidades obstacularizadoras ao processo de modernização. Consolida-se uma nova relação entre países centrais e periféricos.
Através da vinculação das economias periféricas ao mercado internacional pelo estabelecimento de laços entre o centro e a periferia que não se limitam apenas como antes, ao sistema de importações-exportações, agora as ligações se dão também através de investimentos industriais, diretos pelas economias centrais nos novos mercados nacionais, (LOUREIRO, 1992, p.22).

Convive-se na região amazônica com a conformação de um novo-velho conceito de desenvolvimento dependente que promove a aceleração e modernização econômica à base de empréstimos externos, por conta de um altíssimo volume de endividamento interno Dessa forma, a partir da década de 1960, a realidade amazônica começou a ser significativamente alterada em seus diversos aspectos, pois a expansão capitalista promoveu maior ocupação do território e exploração em larga escala dos recursos naturais. Um planejamento estatal sob a égide dos pilares de “segurança nacional, integração e capitalismo avançado”, abriu os portais da Amazônia ao capitalismo quando o Estado facilitou a integração da região à economia nacional e internacional. A Nova inserção econômica possibilitou um processo de reordenação social entre o tradicional e a modernização, diante da emergência de um novo tempo, uma nova história que impôs um novo ideário de verdade que levou a concentração de renda e o enriquecimento de alguns grupos e o não repasse dos benefícios dessa modernização a população regional.

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Nas últimas décadas, observou-se uma nova inserção das populações tradicionais, agora numa perspectiva mais ampliada mediante ao avanço do capitalismo industrial-financeiro, momento em que as transformações aqui engendradas atingiram com mais intensidade o espaço regional. Concebe-se a região como uma das últimas fronteiras de recursos à expansão capitalista, para tal o Estado implementou o projeto desenvolvimentista a custa da aplicação de recursos públicos, da apropriação do território, expropriação dos recursos naturais e a desorganização da economia local, sem o alcance do tão almejado desenvolvimento. Na verdade, esse processo de ocupação e exploração da região, possibilitou o surgimento de “ilhas” de crescimento no país e na região, pela presença de áreas periféricas dentro da própria periferia. Observando-se a coexistência de áreas modernas e dinâmicas, e áreas tradicionais com um lento processo de crescimento ou estágio de estagnação. Essa nova etapa de exploração é marcada pela implantação de grandes empreendimentos econômicos, no entanto, é momento em que as populações tradicionais serão trazidas a esse cenário de mudanças se vinculando a essa onda modernizante em vários sentidos, ainda que de forma indireta com suas práticas e produções tradicionais, num contexto, em que os setores modernizantes tornam-se obstacularizadores às atividades auto-sustentáveis. Na verdade um novo cenário que privilegia a exportação em larga escala de recursos naturais, prestação de serviços e produção industrial, reduzindo, no entanto, a setor primário. Dessa forma, uma política econômica que aposta nos grandes projetos econômicos suprimindo paulatinamente as práticas tradicionais. Nesse sentido, amplia-se a ocupação do território amazônico e intensifica-se o processo de latifundiarização. O Estado disponibiliza terras aos novos investidores, às grandes empresas, o que vai provocar conflitos e lutas pela posse da terra. Ser proprietário em terra de “posseiro” vai se constituir questão central dos conflitos agrários, em virtude do estabelecimento do processo de concentração de terra pelos novos investidores do centro-sul do país ou estrangeiros, um processo que expropria e expulsa o homem do campo.

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Nesse contexto de expansão capitalista, os produtos agrícolas de subsistência são avaliados como uma produção “fraca” no mercado comercial e se inserem nesse mercado global de forma ocasional por conta da produção de diferentes produtos voltados para o mercado interno, regional. Isto demonstra que mesmo em momento de expansão e modernização da região, observa-se a renovação contínua das estruturas de subsistência, enquanto traço marcante da realidade econômica regional, embora seja presente uma inter-relação desigual entre o local e o global que reforça a condição de pauperrização dos produtores tradicionais. A racionalidade econômica trazida pelos grandes empreendimentos contribuiu para desorganizar a produção local, no momento em que marginalizou tal produção, ao mesmo tempo em que a nova produção econômica pautadas em bases técnicas e cientificas vão se apropriando do espaço regional, suprimindo as condições de sobrevivência das práticas tradicionais e das condições de reprodução das populações primeiras da região. Essa nova racionalidade se deu de forma focalizada sem alcançar o espaço regional de forma homogênea, demarcando pontos dispersos e diferenciais, retratando duas realidades distintas, de um lado verdadeiras “ilhas”, manchas caracterizadas pelo alto grau de racionalidade e modernidade, caracterizando-se como espaços globalizados e, do outro lado, “espaços vazios” ou “zonas opacas”, espaços organizados pela racionalidade não hegemônica ou tradicional, áreas com um lento processo de crescimento econômico, onde se faz presente a permanência dos padrões tradicionais. Nos últimos anos, por conta do atrelamento contínuo das atividades extrativistas e agrícolas ao mercado internacional, produtos anteriormente explorados como espécies nativas passaram a ser exploradas como cultivos racionais, como por exemplo: o cacau, a borracha, a castanha-do-pará e outros produtos não originários da região, que passam a contar com o apoio e incentivo dos governos locais e grupos externos. Emergindo políticas de fomento à pesquisa e adoção de novas tecnologias de manejo de produção e à própria preparação técnica dos produtores. Uma política que se aliou aos conhecimentos e práticas já existentes. Destaca-se nesse contexto o crédito rural, como importante instrumento da política agrícola e de incentivo ao desenvolvimento da área rural. Apesar de que, inicialmente, a Política Agrícola se voltava aos grandes produtores, mas a partir dos

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anos 90, os pequenos agricultores, mediante organização e lutas conquistaram o acesso ao crédito rural através do Fundo Nacional do Norte (FNO-Urgente) e posteriormente o FNO-Especial.
Numa conformação econômica que valoriza mercados, mercadorias e exclui áreas e contingentes populacionais, os “bárbaros” fora dos padrões globais se observa certo desconforto com esgarçamento das experiências de vida, de tal sorte que os movimentos sociais têm instalado esse repensar de contestação sobre a mundialização, (NEVES, 2001, p.336).

E sobre a própria questão do desenvolvimento internacional, nacional e local, pois diante dos processos de modernização, desigualdade, exclusão, violência e a incapacidade do Estado em adotar medidas eficazes frente aos problemas amazônicos, grupos, entidades e movimentos sociais passam a denunciar a “crise do progresso” e apontam para uma nova perspectiva de desenvolvimento que subsiste na valorização da sustentabilidade da região e sua população, ao fazer uma crítica acirrada sobre o desenvolvimento regional e seus impactos nas áreas do social, economia, da cultura e do meio ambiente. Centrando-se um novo olhar para um modelo pautado numa gestão participativa, no fortalecimento das comunidades locais, no sentido de se tornarem capazes de superar suas necessidades imediatas. Advogando-se assim um desenvolvimento local, integral e sustentado formulador de políticas em atendimento às demandas locais. As atenções se voltam para a questão do desenvolvimento regional, pelo fato do modelo em voga centrar todo esforço no alcance do crescimento econômico que valoriza atividades de grande porte com a racionalidade capitalista para dar atendimento às demandas do mercado internacional secundarizando e ou eliminando práticas e modelos produtivos tradicionais. Nesse contexto onde faz presente as permanências das práticas tradicionais e práticas e modelos produtivos modernos, busca-se uma saída pela consolidação de uma gestão capaz de estabelecer nexo entre a ordem global e políticas que dêem conta das complexidades das questões sociais dessa realidade contraditória pela efetivação de empreendimentos e projetos segundo as potencialidades do espaço regional e local. Levando-se em consideração questões relacionadas ao controle do território, potencialização dos recursos e a conservação ambiental.

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Associando-se a esse, projeta-se um novo olhar sobre a valorização do saber e das experiências das populações tradicionais, tendo em vista a manutenção da biodiversidade como legado de uma relação positiva que mantém com a natureza. Ao considerar que os lugares mais preservados são espaços das populações indígenas e caboclas, áreas onde está concentrada a biodiversidade regional. Por outro lado, o emergente bio-mercado, traz à tona o saber, as práticas de manejo dos recursos naturais, que aliadas às pesquisas podem apontar métodos mais adequados em relação ao uso do solo, técnicas agrícolas e a efetividade de práticas extrativistas. Uma questão que traz o enfoque de um novo processo de desenvolvimento para a região, compromissado com uma produtividade que assegure sustentabilidade econômica da região, a renovabilidade dos recursos e que garanta os direitos das populações tradicionais tratadas ao longo da história sob o olhar preconceituoso da modernidade.

1.3. Populações Ribeirinhas: História e Adaptabilidade Sócio-Ambiental.

1.3.1 O Processo de Reordenação Social Nas últimas décadas, estudos na área histórico-sociológica tem se direcionado para a compreensão das populações tradicionais da Amazônia, notadamente as populações ribeirinhas, os caboclos, uma população originária dos grupos indígenas e do processo de miscigenação com diferentes grupos chegados na região durante a colonização portuguesa. São estudos que se voltam para a análise da persistência das práticas tradicionais em meio ao processo de modernização implantado na região. Essas populações constituem-se em uma camada social típica da região amazônica, referindo-se às populações ribeirinhas, caboclas, pescadores, coletores

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e pequenos agricultores. Como tal, vivendo numa estruturação social pautada em atividades primárias tradicionais, cuja marca principal é a produção voltada para a subsistência. Nesse sentido, uma população que vem desenvolvendo um processo de inter relação entre a herança cultural, a diversidade dos recursos naturais que antecede a própria colonização regional. Em linhas gerais são populações herdeiras de conhecimentos e práticas mais tradicionais da Amazônia. Vivendo e sobrevivendo das práticas extrativistas dos rios e florestas são descendentes diretos dos índios, dos tapuios no aspecto etnocultural, no entanto, na organização atual são considerados como “distribalizados”, ”desculturados” diante do processo de socialização e reordenação social provocado pelas mudanças trazidas pelos fatores modernizantes, que vem afetando, transformando e levando a uma nova adaptabilidade entre o contexto tradicional e moderno tão marcante no espaço regional. O presente estudo se volta para a compreensão do modo de vida das populações tradicionais e sua historicidade, ao dar ênfase à resistência ou permanência dos padrões tradicionais frente à imposição violenta de padrões e valores externos que passam a ser considerados nesse processo de transição, como “verdadeiros”, ”superiores” e ao mesmo tempo “dizimadores” dos padrões locais, e assim, a conformação de “uma realidade social decorrente da colonização portuguesa, que alterou sua cultura de origem com a incorporação de novos valores, novos padrões culturais nos aldeamentos jesuítas, quebrando-se assim com a cultura e com a identidade própria, original desses nativos”, (CONCEIÇÃO, 2001, p.144). Ao longo da história da região, essa realidade social vem definindo e redefinindo as condições de desigualdade e exclusão social das primeiras comunidades que, embora seja marcante sua presença no cenário regional, vem sendo tratadas como “invisíveis”, ”inexistentes para as decisões governamentais e setores produtivos, que impõem seus interesses, sem levar em consideração os anseios e as necessidades dessas populações tradicionais anteriores às formas atuais de ocupação e exploração da região.

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Para a percepção desta realidade é necessária a efetivação de uma análise que se reporte ao dinamismo presente na adaptabilidade dessa população local, aos recursos naturais e ao processo de criação e recriação social, ou seja, na construção do espaço sócio-econômico regional, mediante a inter-relação direta entre padrões e práticas tradicionais e às novas circunstâncias que se fazem presente no momento atual, que vem sendo assimilados e ou incorporados pelas populações tradicionais. Moran (1991) parte da compreensão do processo de adaptabilidade humana das populações amazônicas, enquanto processo de plasticidade das respostas humanas, mediante ajustamentos fisiológicos, sociais e culturais. As populações amazônicas diante de uma diversidade ambiental e cultural adaptam-se, criam situações, engendram circunstâncias que de alguma forma demonstram uma interação sócio-ambiental do espaço em que estão inseridos. E que embora o homem da região não esteja sob as amarras, às limitações naturis, a cultura local é reflexo dos ritmos, do tempo e do lugar. A preocupação em retomar a questão da adaptabilidade das populações ribeirinhas é dar conta de como vem ocorrendo o entrelaçamento entre as permanências do tradicionalismo e as mudanças sociais advindas do processo de modernização por que passa a região amazônica. É uma questão que não diz respeito apenas as populações locais, mas a todos nós preocupados com os destinos da Amazônia e de seu povo. Na verdade, ao se compreender o entrelaçamento entre o tradicional e o moderno é se dar conta da historicidade das populações locais, no sentido de oportunizar à visibilidade da maneira como vem ocorrendo o processo de reordenação sócio-econômica e as formas de enfrentamento de situações postas nesse momento a essas comunidades, mediante mecanismos próprios de adaptação. Dessa maneira, perceber a relevância das populações tradicionais, fazendo o reconhecimento da importância de suas práticas e atividades como garantia da sustentabilidade e organização da vida social. Consequentemente a garantia da soberania das populações caboclas.

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Na história regional se reconhecem as contribuições dessas populações, sobretudo, nos momentos de crise econômica, momentos em que se reorganizam as estruturas tradicionais. A economia regional por ser marcada por “ciclos econômicos” caracteriza-se por períodos de expansão e apogeu, seguindo-se de decadência e crise econômica, pelo fato da região se constituir historicamente como “colônias de exploração” ficando, portanto à mercê dos interesses econômicos colonialistas e assim submetidos às ingerências e as necessidades do capital. Nessa realidade sócio-econômica, as marcas das renovações contínuas das estruturas de subsistências, embora sempre atreladas às práticas mercantis numa interação constante entre práticas tradicionais e as estruturas modernizantes devido à vinculação internacional da região, e assim, o estabelecimento de uma cadeia de relação cada vez mais abrangente, onde as atividades extrativistas sejam o ponto inicial desse relacionamento, ou seja, são populações que embora dispersas pelas rotas do extrativismo subsistem graças a pesca artesanal, a coleta e a pequena agricultura, ao mesmo tempo em que mantém relações de toda ordem, que vão além das fronteiras do lugar em que vivem com espaços mais dinâmicos e modernos. Um processo, todavia, marcado pela exploração e conseqüente subalternização dessas populações, pois nesse processo se redefinem a pauperização e a expropriação de seus recursos, uma vez que a comercialização dos recursos naturais não tem beneficiado ou garantido melhorias nas condições obtidas nessa produção. Essa realidade vulnerabiliza e submete tais populações às atividades assalariadas, tornando-as reservas de mão-de-obra barata em outras áreas, sobretudo em cidades maiores e mais dinâmicas, processo que se intensifica pelo contexto de urbanização que demarca as cidades de médio e grande porte na região. O processo de urbanização caracterizado pela modernização e crescimento das cidades da região é reflexo das formas atuais de ocupação e exploração econômica da Amazônia, que se dá a partir da década de 1960, momento em que o Estado e grandes grupos econômicos se aliam e abrem os portais da Amazônia para a exploração em larga escala de seus recursos naturais, através de grandes empreendimentos econômicos. Esse processo contínuo de exploração tem contribuído para a ocupação do espaço regional, seja pela colonização dirigida pelo

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Estado que passa ocupar os “vazios” da região, seja de forma espontânea de ocupação através da migração de grupos para as novas áreas na luta pela sobrevivência por melhores condições de vida. Esse processo de ocupação do espaço regional coloca os grupos tradicionais frente à outra realidade que em geral não prioriza a cultura cabocla, por expressar os interesses de outra organização, outra mentalidade e modo de vida. Outro fator que vem adentrando nas mais isoladas comunidades e com um poder de persuasão e transformação é a mídia eletrônica, a Tevê, o rádio, a grande imprensa que tem levado a vida aos padrões do mundo global e, com ele, o contato com a diversidade cultural mais ampla, que de certa forma fragiliza o ideário que dá sustentação ao mundo caboclo e que, a partir de então, passam a se reajustar aos ideários e as necessidades capitalista, secundarizando ou até abandonando a identidade cultural local, com a adoção de atitudes de negação e ou desconsideração do valor, da beleza e importância da cultura local, assimilando um novo estilo de vida, de organização, o que gera uma dicotomia entre o mundo dos “mais velhos” e o mundo dos “mais jovens”. Os Jovens nesse contexto de transição passam a se identificar com o “novo”, com os padrões dos grandes centros, deixando no passado a herança cabocla, sendo identificada como coisa de “velho”, pois assimilam o que vem de “fora”, do mundo urbano, pluralista e global, esquecendo-se que a cultural original não revela somente a tradição, mas é resultante de uma história socialmente construída por aquele povo, mediante relações entre seus membros e o meio natural em que vivem. 1.3.2 Relação Homem-natureza e Sustentabilidade. O processo de ocupação da região é marcado por um “modelo histórico de uso e aproveitamento dos recursos naturais da Amazônia, voltado essencialmente para o mercado internacional (que) condicionou um padrão bem definido de ocupação da região, como também a especificidade do tipo de relações sociais lato sensu, embora se registrasse alguns surtos esporádicos de prosperidade da atividade agrícola, apresentando por causas fortuitas, fases alternativas de euforia e

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depressão, onde o extrativismo preponderou como atividade basilar da economia regional, (COSTA, 1979, p.39). Nessa realidade a atividade extrativista, a agricultura e a pesca na Amazônia apresentaram um total “imobilismo social”. Por décadas a região representou o modelo produtivo como herança do modelo herdado do século XIX. Até o final dos anos de 1950, a região amazônica se retratava por extensas áreas de terras rurais, em geral terras públicas, devolutas. A vida regional era eminentemente rural e nesse cenário as populações locais se inseriam de forma “livre” e “mansa”, no sentido de que dispunham das terras amazônicas sem disputas e conflitos. O acesso à terra nesse momento estava relacionado diretamente a própria existências dessas populações tradicionais. A ocupação da região era retratada pela presença de propriedades tituladas e por milhares de posses “mansas” e “pacíficas”, que em geral, localizavam-se próximas às florestas, lagos e rios, onde eram feitas pequenas roças de mandioca, arroz, milho e feijão. Estas práticas estavam associadas ao circuito das práticas do extrativismo vegetal e animal. Nessas terras habitavam índios, pescadores artesanais, pequenos agricultores, coletores e caçadores. Um contexto muito peculiar, onde a ocupação do território estava entre 0,7% das terras existentes na região e ainda disponibilizadas as atividades dispersas. E dentre essas terras ocupadas, a quase totalidade não era titulada e poderiam se enquadrar como “terras de ninguém” justificada pela mentalidade regional de que vivendo numa região historicamente separada do resto do país, com um ritmo marcado por atividades fundamentalmente pré-capitalistas, esses habitantes tradicionais jamais imaginariam a necessidade de um título de propriedade de terras. Entre as propriedades tituladas, a presença de vastas áreas cobertas por florestas naturais, o que demonstra a alteração insignificante da natureza e da vida do homem regional. O homem amazônico vivia subordinado à natureza pela preponderância das atividades extrativistas que garantia a subsistência, a produção e a reprodução das populações locais. A vida e o trabalho estavam vinculados à exploração da terra e dos bens da natureza, como meios de sobrevivência.

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Uma relação “nucleada” pela natureza caracteriza a vida dos moradores às margens dos rios, igarapés, ainda que vivendo em vilarejos ou cidades. A vida transcorria à beira do rio. A água, a floresta, como definidores do modo de vida dessas populações. Sua sobrevivência vinha da roça, de pequenas criações, das plantas do quintal, das essências aromáticas e oleaginosas, da caça de animais e da pesca artesanal. As relações de trabalho desenvolvidos pelos habitantes da região são menos estruturadas e, do ponto de vista capitalista, pouco “monetarizadas”.
O homem, enquanto trabalhador desprovido dos recursos mínimos capazes de potencializar sua força física individual desenvolvia uma economia condicionada às imposições desse meio natural, a um só tempo superabundante e indomado, (LOUREIRO, 1992, p. 25).

Segundo estudos realizados por Loureiro (1992) a economia regional, até 1950, apresentava-se da seguinte forma: a preponderância do setor primário com 57%, onde a população vivia da pequena agricultura; 11,6% dedicavam-se à pesca artesanal e À criação de gado e 30,5% estava ligado às atividades extrativistas. O que confirma o censo em relação à localização espacial dessa população ser predominantemente no campo. Em 1950 apenas 31,5% da população viviam em centros urbanos. Em l960 essa situação se altera para 37,7% e em 1970 para 48,5% da população passam a viver em cidades. O que demonstra a alteração do foco de ocupação em decorrências dos processos de colonização, ocupação e exploração da região, entretanto, aparecem nesse período como grandes cidades, apenas Belém e Manaus, que apresentavam papel de entreposto comercial do espaço ruralurbano. No geral, as terras amazônicas eram ocupadas por habitantes naturais que viviam em pequenas cidades ou espalhados pelas rotas do extrativismo. Somente a partir de 1960 a agricultura ganha certo destaque na zona bragantina e região do Salgado, pela presença marcante de imigrantes nordestinos que se dedicam mais às lavouras. No entanto, a presença do rio, seja como estrada natural de penetração, seja como fonte de trabalho e subsistência é marca central do cenário regional. Nesse contexto, observam-se linhas regulares de embarcações de transporte de pessoas e produtos. O que coloca a população local em contato com as diferentes áreas da região e com os mercados regionais. Além dos barcos

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de médio porte, a presença das canoas a vela, a motor, as montarias destinadas às pequenas distâncias, todas fundamentais, pois unem pontos e fazem interligação com as rotas extrativistas, num cenário em que o rio comanda a vida social e a econômica. A pesca artesanal estava difundida por toda a região e juntamente com a pecuária extensiva que abastecia o mercado paraense e regional. Assim, o caboclo trabalhador de múltiplas funções, pescava o ano todo para sobreviver e o excedente da produção voltava-se para o mercado local. O trabalho da pesca caracterizava-se pela herança de um saber mais tradicional. Dos índios vinha o conhecimento da confecção dos seus instrumentos de trabalho, que vão, desde a construção dos barcos pesqueiros, a confecção do instrumental de trabalho, os “petrechos” indispensáveis à pesca artesanal, como as bóias feitas de cuias e cipós, paneiros, montagens de currais e puçás. O que transparece um saber e uma produção “artísticos” nitidamente regionais para a tarefa de navegar e pescar. Uma ação e uma produção que está intimamente atrelada ao conhecimento da natureza de onde retiram madeira para os barcos, cipós e tintas. De onde vão buscar todos os recursos naturais necessários para a construção dos meios de produção. É essa relação direta que envolve trabalho e conhecimento da natureza que transforma o homem da região em pescador-agricultor-extrator ao mesmo tempo. Uma relação marcada pela intimidade que mantém com a mata e o rio. Esse saber acumulado vem diminuindo consideravelmente nas últimas décadas, alterando o saber-fazer dessas populações pelo uso de instrumentos industriais que vão sendo incorporados com vistas à maior produtividade para o atendimento de mercados cada vez mais ampliados. Até esse momento, a presença de extensas terras e outros bens naturais possibilitou a sobrevivência e a reprodução de pescadores, agricultores e extrativistas por gerações seguidas, pois essas condições naturais lhes conferiam certa autonomia e persistências dessas populações locais. Considera-se papel importante dessas populações nos diferentes momentos tidos como “ciclos” econômicos que marcaram a história da região. Pelo fato de serem marcados por períodos de crescimento, apogeu e decadência. Observando-

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se que diante de diferentes incursões modernizantes a continuidade de atividades tradicionais ligadas diretamente à produção extrativista. Mesmo na era da borracha, momento em que a Amazônia se tornou maior centro produtor, prevalece as demais atividades, ainda que em menor escala, mas fundamental para a subsistência das populações tradicionais. Segundo informações de LOUREIRO (1992). Em 1980 fazse a estimativa de cerca de um milhão e meio de pessoas envolvidas diretamente em atividades extrativistas. Com essa referência, conclui-se que não se trata de um sistema de produção já superado, mas que vem se adequando conforme as novas exigências e necessidades do mercado nacional e internacional. Nesse contexto sócio-econômico, a atividade extrativista se define como sistema dominante na região e conformador da estrutura social local. Um sistema que vem sendo produzido e reproduzido ao longo do tempo. E que tem contribuído, na verdade, para uma conformação social de “extremos”. No ápice dessa sociedade “poucos ricos” e na base societal “muitos pobres”, sendo a estrutura social atual reflexo dessa estrutura anterior, onde a posse da terra passa a ser o divisor social e econômico. Nessa realidade desigual a “renda se forma pelo trabalho de muitos, mas se concentra nas mãos de poucos, disso decorre na sociedade amazônica a formação de classes sociais concentradas nos extremos. Despontam num pólo uma oligarquia restrita aos setores do grande comércio e aos servidos relativos à produção, como o crédito e o financiamento, e noutro, os segmentos fragmentados das classes subordinadas, representadas pelos seringueiros, trabalhadores de estivas, embarcadiços, comerciários e outros agentes também engajados às principais atividades econômicas”. (idem, 1992, p.41). O cenário regional era marcado pela grande maioria da população vista como “posseiros” abandonados e, fora dos planos de desenvolvimento e da ação do Estado. Observando-se a ausência da atuação do Estado enquanto elemento mediador e integrador da vida cotidiana de uma população que não usufrui da prestação de serviços básicos na área de saúde, educação, no provimento de construção de estradas e até de órgãos administrativos. Nesse estado de abandono, essa população vive e sobrevive com certa autonomia em relação à produção de sua subsistência, na apropriação da terra e na estruturação das relações sócioculturais locais. No entanto, a ação do Estado se faz presente junto aos grupos

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dominantes no provimento de toda ordem. Seja no favorecimento de financiamento e créditos bancários, seja na apropriação de terras. Somente a partir da década de 1960, com a nova inserção da região ao mercado nacional e internacional, agora um processo marcado pela maior diversificação das atividades produtivas, uma vez que aliadas aos interesses externos à região, a burguesia local institui a super exploração dos trabalhadores e dos recursos naturais Imprimiram-se mudanças estruturais na vida do homem amazônico e sobre a natureza. De um lado se dá a apropriação privada da natureza, tornando-se menos livre e acessível e, do outro lado, as transformações no mundo da produção e do traballho. Engajam-se mais trabalhadores que passam a produzir “bens” ainda que naturais para o mercado externo. Implanta-se uma nova racionalidade que vai alterar ao reduzir o tempo para o trabalho e a produção para o auto-consumo. As relações “salariais” passam a se fazer mais presente no mundo do trabalho. Nesse processo de mudança, o trabalho e os bens da natureza passam a ser vistos como mercadorias. Muda-se o foco da produção, antes para o sustenta familiar, agora para atendimento do mercado. Sob a racionalidade do capital, desvaloriza-se a produção e os produtores extrativistas diretos, que numa cadeia mais ampliada de comercialização, os lucros são concentrados fora da área da produção direta. Fato registrado na produção da castanha e da seringa, onde os lucros se concentram no beneficiamento e comercialização posterior no mercado internacional. A miserabilização e a subalternização como marcas do processo de exploração das populações tradicionais. Condição que tem levado essa população a continuidade das práticas de subsistências, da pequena roça, da coleta de frutos e da pesca artesanal. Nesse contexto de grandes mudanças, a força do capital começa a engendrar na região novas formas de acumulação, mediante a apropriação privada da natureza. Uma exploração em larga escala da natureza e das populações locais. Um contexto onde a terra deixa de ser considerada um bem “livre” e disponível passando a constituir uma das mercadorias mais valorativas. Em que os recursos

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naturais, tornam-se bens de troca e de inserção da Amazônia no mercado nacional e internacional. Ao lado da apropriação privativa da terra, a instauração de violentos confrontos e conflitos, pois Estado e grandes grupos econômicos não reconhecem a presença das populações tradicionais, enquanto moradores anteriores a essa forma atual de ocupação, que sem proteção política do Estado passam a ser expropriados excluídos. A nova lógica da ocupação regional disponibiliza terras pautadas agora na verdade jurídica, na lei que garante o direito da posse da terra aos “aventureiros” que chegam à região. As terras dos grupos naturais são vendidas, leiloadas, licitadas ou transferidas por aforamento ou vendas, através de editais de jornais que circulavam apenas nas capitais, sem que os colonos, extrativistas, pescadores, índios, garimpeiros etc., enfim, os representantes do “vazio demográfico” tivessem conhecimento dessas vendas das terras em que habitavam”, (ibidem, 1992 p. 115). Diante da nova ordem, os moradores locais passam a ser vistos como “posseiros” sem nenhum aparato institucional que lhes garantisse a legitimação de suas posses. Instaurando-se conflitos violentos entre os novos personagens da questão agrária na região: posseiros, empresários, trabalhadores rurais, governo, população indígena, garimpeiros, imigrantes, representantes da igreja, líderes sindicais e outros. Além da perda da terra dos grupos locais são arrancadas as relações diretas com a floresta, com o rio e as condições de sobrevivência. E, diante da apropriação e concentração da terra, destruição da floresta, a exploração desordenada dos recursos naturais e que pelo isolamento em que viviam. A sociedade local fragmenta-se frente à tantas transformações, e o capitalismo avança sobre o território regional e seu povo. Aos olhos do homem ribeirinho, caboclo, a Amazônia e seus recursos naturais seriam imutáveis pela abundância e diversidade natural, mas a nova racionalidade trouxe consigo a exploração predatória. Uma modernidade que “fissura”, quebra com a unidade e que demarca esse micro-mundo, representado pelas práticas tradicionais, manifestações culturais e religiosas, ou seja, a mentalidade cabocla. O que paulatinamente vai levando a adoção de novas formas de organização e de

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produção, que, por conseguinte aterão às práticas sociais, suas tradições, a memória social e sua vinculação com a natureza, e, com efeito, a negação ao direito de autodeterminação. As últimas décadas na região serão vivenciadas a modernidade tardia, onde se inscreve novas formas de organização social. É a instauração da era da “economização do mundo”, em que diferentes formas de vida social estarão sob os ditames da racionalidade do mercado. Nesse cenário de modernidade os diferentes grupos sociais só ganham legitimidade se atrelados aos projetos de dinamização e modernização econômica. Quando marginalizados ou excluídos desse processo tendem a silenciar sua performance ou identidade. No contexto de adaptabilidade, a adoção de diferentes estratégias com a racionalidade moderna tende a “desterritorizar” as práticas tradicionais, pela incorporação que envolve novos procedimentos culturais e novas tecnologias. Um novo contexto que altera o saber-fazer de grupos tradicionais, como os dos pescadores artesanais, coletores e pequenos agricultores, pela imposição de novas relações que vêm sendo implantadas de forma crescente, onde o conhecimento tradicional associa-se as novas tecnologias e saberes. Sob as injunções da modernidade, práticas tradicionais se adéquam às novas práticas, aos novos saberes revestidos por projetos ditos de sustentabilidade que se implementam sobre localidades, onde persiste o “atraso”, a tradição. Tais projetos se revestem da valorização e mobilização da faceta contemporânea do progresso, na qual vultosos recursos são colocados a serviço da desqualificação das formas arcaicas de apropriação e reprodução da cultura local, quanto da indução à mercantilização dos referentes do mundo biofísico, social e emocional de tais grupos, provocando-se violências simbólicas sem precedentes, (VALÊNCIO 2006, p.7). Nesse contexto de profundas transformações, GIDDENS (1997) situa a modernidade como um delineador de um processo de “destradicionalização”, entendido como mudança estrutural de ordem sócio-cultural das comunidades locais, na medida em que as práticas, as rotinas tradicionais passam a ser subordinadas ao ideário da sociedade global, onde concepções de mundo se alteram em relação a um novo padrão de valorização da natureza e seus recursos, agora disponibilizados para o mercado envolvente. Sujeitando-se o homem e a

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natureza a transformações, destruição via processos de acumulação pela prevalência de técnicas e práticas conformadoras do capitalismo globalizado e como resultado a paulatina dissolução da tradição. A adesão das comunidades locais se verifica, quando se adéquam aos ideários da sociedade global, que não se reveste apenas de um processo “plenos de ardis”, mas escamoteiam suas reais intenções, quando garantem benefícios a essas comunidades, desfocando suas contradições e o real alcance dessa modernização, cujo resultado certo é a sua “desterritorização”.

CAPÍTULO

II

-

A

MANEIRA

DE

SER

TRABALHO

DE

UMA

COMUNIDADE RIBEIRINHA: COLARES Nas últimas décadas se faz o reconhecimento de que o espaço local é precípuo para o processo do desenvolvimento, a Constituição brasileira de 1988 passa a referendar o município, enquanto lócus do cotidiano, espaço importante na prestação de serviços básicos à população, pois é no município que se expressam as indignações, as necessidades básicas e as reivindicações. Constituindo-se dessa forma, espaço de resposta às demandas de sobremodo econômicas e sociais. A partir desse reconhecimento, a ação descentralizadora do Estado, que por via da Municipalização efetiva a descentralização político-administrativa do espaço

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local, havendo um processo de partilha de poder pelo redirecionamento das competências para a auto-gestão. Considera-se, dessa maneira, que o município representa o nível de governo mais imediato da população e o espaço local sendo visto como espaço privilegiado às ações públicas. Nesse sentido, privilegia-se o fortalecimento do poder local, que passa então a programar a retomada da construção da cidadania, da democracia via processo de desenvolvimento local Na tarefa de alcançar o desenvolvimento local, o papel direcionador do município na mobilização de grupos e entidades locais para o estabelecimento de prioridades e metas a serem alcançadas. Nesse contexto empreendedor ganham destaque discussões acerca das potencialidades do espaço local, com vista em sua dinamização como sinônimo de modernização. São apontadas idéias, caminhos e projetos para o alcance do desenvolvimento local. De maneira geral, alguns segmentos acreditam que a sociedade tradicional deve buscar sua modernização para tornar-se uma sociedade “moderna”, ”desenvolvida” e “próspera”. Outros segmentos, em especial os pensadores preocupados com essa questão ao longo dos anos de 1980, defendem a idéia de que cada sociedade use sua autonomia para fazer suas escolhas, traçar seu próprio caminho, levando em consideração os interesses locais. Ainda que em meio às mudanças que afetam o mundo e assim, oportunizar um processo que gere uma contínua reavaliação das ações e proposições em busca do desenvolvimento. Engendra-se um processo de desenvolvimento que se dá num contexto que mantém íntima relação com as atividades tradicionais pela adoção do enfoque que venha garantir a sustentabilidade econômica do meio rural, com a emergência de novas atividades produtivas e de uma nova ruralidade. Nesse contexto em que tradicionalismo e modernidade aparecem como fatores desencadeadores do desenvolvimento local, o processo de desenvolvimento que deve se qualificar como integrado e sustentável deve requerer uma a ação imprescindível da gestão local, enquanto instância responsável para o estabelecimento de um processo de articulação e mobilização local, no sentido de tornar a comunidade local mais sustentável, capaz de superar suas necessidades

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imediatas. Tornando-a mais dinâmica e com capacidade de atrair investimentos que possibilite sua sustentabilidade econômica. Percebe-se no mundo rural a relação imbricada entre as práticas locais tradicionais e as atividades mais dinâmicas, como elementos demarcadores do desenvolvimento local. Uma relação que vai além da simples convivência ou coexistência, pois pressupõem um processo de interpenetração, um inter relacionamento entre produção tradicional e novas atividades que passam a imprimir um novo ritmo e uma nova racionalidade nas comunidades tradicionais. Em muitas comunidades rurais, o investimento tanto nas atividades tradicionais, quanto nas atividades modernas, traz à tona a necessidade da compreensão a respeito de como vem se dando a produção, a produtividade, o trabalho e o alcance da sustentabilidade. Assim como a percepção de uma nova racionalidade na vida produtiva vem interferindo em uma nova conformação social e cultural. Se de um lado, torna-se evidente a tendência atual à modernização e a instalação de novas ruralidades, do outro lado, a busca da produtividade econômica tem originado sérios problemas sócio-ambientais na região, nas últimas décadas. Um processo que se caracteriza pela intensa exploração dos recursos naturais. Por conta dos problemas ambientais vem à tona a valorização do saber tradicional como elemento fundamental na reorientação dos modelos produtivos aqui engendrados e nos processos de preservação ambiental, pois no âmbito das práticas tradicionais, a relevância do uso da terra, do território e dos recursos naturais como elementos integradores do mesmo espaço que refletem a interligação do econômico, do social e do cultural. Um cenário onde a persistência é retratada por práticas culturais cumulativas e informais, vinculadas e harmonizadas com os ecossistemas naturais, constituindo-se eixo estruturador da vida social e cultural, ou seja, revela um modo de vida diretamente vinculado ao ritmo da natureza e a dinâmica de outro tempo social que prioriza fatos e vivências que dão sentido à vida e a organização social local. Um cotidiano retratado por rituais, costumes, sonhos e valores expressos nas práticas materiais e imateriais.

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Entretanto as “ondas modernizantes” na região são marcas das últimas décadas e apontam para a emergência de novos tempos. O avanço da fronteira econômica como passa a ser concebida a Amazônia vai alterar profundamente a maneira de ser o trabalho das populações tradicionais, seu modo de ser e ver o mundo, que se amplia e se altera pelas novas formas de comunicação e de produção. As práticas tradicionais se alteram pela inserção de novas atividades produtivas que chegam nessas áreas tradicionais pela urbanização e modernização do espaço. A chegada do “novo” e do “moderno” tende a secundarizar ou negar a cultura tradicional, alterando conseqüentemente a própria organização local ao impor um processo de reordenação social que refletirá a transição entre o antigo e o moderno nesse espaço social. 2.1 O Trabalho no Cenário de destradicionalização: A categoria trabalho constitui-se em aporte para a identificação e compreensão do processo de transição entre o tradicional / moderno, práticas tradicionais e novas práticas no âmbito da produção. Neste contexto, constituindo-se referência para se avaliar os impactos trazidos pela urbanização e modernização dos espaços rurais, pois são transformações que têm apontado tanto para uma nova lógica territorial quanto para novas funções econômicas da área rural. Nesse contexto, compreender o mundo do trabalho é buscar entendimento a respeito de como os seres humanos em diferentes momentos e espaços produzem as condições de sua existência, tanto material quanto simbólica, pois a partir dos processos de produção, os homens projetam e alteram seu modo de vida e o seu contexto social em que estão inseridos. Pela ação consciente do trabalho, os homens criam e recriam a sua materialidade. Ao longo da trajetória histórica, o processo de criação e recriação pelo trabalho faz-se presente nas sociedades humanas, ainda que seja atribuída ou não o seu caráter de centralidade. De acordo com cada momento histórico, se exalta o ócio ou o trabalho. Atribui-se valor ou desvalor. É concebido como castigo, penitência ou como fator de criação e libertação.

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Pautando-se na teoria marxiana, a categoria trabalho assume caráter central, entendida enquanto prática social, fundadora do ser social, enquanto concepção ontológica do ser social. O trabalho sendo concebido para dar atendimento às necessidades existenciais, como prática vital para efetivar e objetivar o homem. Nesse contexto de criação, o trabalho, enquanto elemento possibilitador de transformações da natureza e do próprio homem, configura-se como criador de valores de uso, o trabalho útil, como indispensável à existência humana em qualquer sociedade. Revestindo-se assim pela necessidade natural, pelo intercâmbio entre homem e natureza. Uma ação que efetiva e diferencia o homem dos demais animais.
No fim do processo de trabalho, emerge um resultado que estava presente desde o início na idéia do trabalhador que, portanto, já estava presente de modo ideal. Ele efetiva apenas uma mudança de forma no elemento natural, ao mesmo tempo, realiza no elemento natural, sua própria finalidade, que ele conhece bastante bem, que determina como lei, o modo pelo qual opera e à qual tem de subordinar sua vontade, (MARX, 1989, p. 16).

Embora o trabalho seja elemento fundamental do mundo dos homens, o mundo por ele criado não se restringe ao mundo do trabalho, pois se constitui um processo que remete para além do trabalho, uma vez que a vida constitui-se uma totalidade social pautada em diferentes categorias e relações distintas do processo do trabalho, ainda que por ele fundado. A essência humana enquanto totalidade histórica vai além das determinações do trabalho, embora esta esteja imbricada nas relações do trabalho. Assim o trabalho, embora fundante do ser social, sua essência não se limita unicamente a categoria trabalho. Nessa concepção, o trabalho é afirmado como expressão do homem conformador da natureza e da realidade social. Marx se apóia na concepção de homem pautado nas categorias de generalidade e universalidade. O homem é genérico, porque contém em si as características do ser humano, da espécie humana. Constitui-se um ser universal, que além da natureza material, é manifesto o aporte espiritual, afetivo, intelectual que lhe dá essencialidade. A “universalidade do homem aparece praticamente na

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universalidade que faz da natureza o seu corpo inorgânico”, (MARX, 1989, p.163/164). Essa concepção se revela na relação em que o homem estabelece com a natureza, ao realizar sua existência material e imaterial. Enquanto meio imediato de vida, como atividade vital a sua reprodução e sua forma de ser. Ao mesmo tempo , essa atividade vital ao se confrontar com o homem, este lhe apresenta novas formas, melhorias de alternativas, novos horizontes para a sua atividade. Estabelecendo, dessa forma condições internas aos nexos causais da natureza e ao próprio processo social, no contexto de um movimento que o modifica a cada prática, (SILVA JUNIOR, 2001, p. 18) Concebe-se o trabalho enquanto produção universal por constituir-se em ação conseqüente e social para além das necessidades imediatas. Para além das condições de sobrevivência. O homem ao pautar-se na liberdade, ao utilizar o potencial criador, inovador e transformador da natureza e de si próprio. Nesse contexto, o homem é resultante da “relação entre sua singularidade e sua generacidade, mediada pela sua atividade vital que põe como objeto a natureza e todas as espécies, incluindo a espécie humana”, (idem, 2001, p.18). Assim há uma relação indivisível entre necessidade e liberdade. Segundo Silva Junior (2001) o homem é singular e genérico, simultaneamente, em potência e em ato mediatizado pelo trabalho. Para Lukács (1979), é no trabalho que se desenvolve o processo de socialização do ser humano, constituindo-se um processo que media a reprodução particular e social, tornando-se elemento fundamental. Nas sociedades contemporâneas, quando o trabalho se torna assalariado, ele torna-se alienado, pois todo processo de humanização e socialização transforma-se e se converte em meio de subsistência e força de trabalho. Ao mesmo tempo em que a economia política afirma o homem como sujeito de sua história e o alheia do entendimento das condições objetivas da propriedade privada e da riqueza, ou seja, na construção social, a racionalidade capitalista é obscurecida antes do que revelada, (ibidem, 2001, p. 70).

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Nesse contexto, o homem é firmado como sujeito através de um processo contraditório que em nível da consciência é negado à compreensão da produção objetiva de sua existência. Uma realidade dialética, em que é o processo do trabalho se faz presente a riqueza e a miséria, a acumulação e a privação. É o processo do trabalho resultante da “desrealização do ser social”, porque o produto do trabalho “aparece junto aos trabalhadores como um ser alheio e estranho a seu produtor. Tem-se então, que essa realização que efetiva o trabalho aparece como desefetivação do trabalhador”, (ANTUNES, 2005, p.70). Ainda, segundo Antunes (2005), no modo de produção capitalista, o trabalhador não se satisfaz, se degrada, não se reconhece, se nega. Pelo processo de alienação construído pela propriedade privada dos meios de produção, esta se expressa como algo abstrato, estranho ao ser social. Uma alienação que levou o homem a “perder-se a si mesmo” ao desumanizar-se pela produção fragmentada e isolada na produção capitalista. Em lugar da liberdade e da emancipação, o homem se coisificou ao tornar-se objeto no processo de produção, sujeitando-se aos ditames do capital. Uma nova racionalidade que impõem o trabalho parcelado e a ruptura entre quem produz e o produto desse trabalho. No cenário contemporâneo em que a acumulação de capitais assume força sobre o trabalho, faz-se presente o debate e a busca acerca do entendimento sobre as condições de vida da classe que-vive-do-trabalho, levando-se em consideração a re-configuração do mundo do trabalho, sobretudo as condições de sobrevivência humana e sua objetividade social. Sua fragmentação, mutações e aparente vulnerabilidade contemporâneo. A questão de fundo nos debates atuais volta-se para a nova centralidade dos processos sociais pautados no trabalho, enquanto prática social e sua interferência na formatação do homem e da sociedade. No contexto dito, pós-moderno ou pós-fordista, surge uma nova configuração do trabalho, determinante na maneira de ser e viver do novo trabalhador. Dessa forma, ainda que o trabalho venha se metamorfoseando pelas novas atividades e funções do trabalhador, a categoria trabalho mantém-se como elemento fundamental no contexto da reestruturação produtiva do capitalismo

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do ser social, ainda que sob a aparência de novas práticas produtivas, sob novos paradigmas que fazem emergir uma nova configuração dos processos produtivos e reprodutivos da riqueza, do homem e da própria sociedade. Nas últimas décadas o alcance de áreas mais isoladas pelo capitalismo fez emergir novas formas de sociabilidade que tende a imprimir instituições, padrões, valores e idéias do mundo urbanizado. A racionalidade urbana tem-se intensificado pelos mecanismos da globalização econômica, embora nessas áreas consideradas mais afastadas e ainda distanciadas da racionalidade capitalista, observa-se a manutenção das características do mundo rural. Entretanto, com o advento das transformações e o surgimento de formas alternativas de produção e reprodução do capital, as raízes das práticas tradicionais ainda funcionam nesse cenário como ancoradouro da população rural, num contexto de transição do tradicional-moderno, onde o tradicionalismo não se mostrará incompatível com a modernização do espaço rural, pois avançará para uma nova fase, caracterizada pela reinvenção do tradicional, que se expressa sob nova conformatação e significado para a população local. No contexto das políticas de desenvolvimento, as marcas da diversificação de atividades agrícolas ou de práticas tradicionais, como também pela inserção de novas atividades produtivas são mudanças no campo da produção que vão engendrar novas relações sociais e de trabalho, e que alteram a própria noção de urbano e rural. Mediante o processo de reorientação da capacidade de produzir, o campo passa a desenvolver novas atividades retratadas pela “pluriatividade”. Um processo resultante da urbanização do campo retratado pelo transbordar da cidade e mercado de trabalho para as áreas rurais, onde a grande novidade, segundo Graziano da Silva (1999) consiste na idéia de que o meio rural não pode mais ser associado apenas à produção agrícola ou a pecuária. O aparecimento de novas atividades nesse espaço estaria introduzindo um conjunto de novas funções, especialmente aquelas ligadas às ocupações não agrícolas da população rural, o que traz para essa área tipos diferenciados de inserção profissional com alterações significativas para o mundo do trabalho.

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São atividades que pouco ou nada são relacionadas à produção agrícola ou demais atividades tradicionais estando diretamente relacionadas às novas funções atribuídas ao campo. Uma vez que passa a ser concebido como espaço de lazer, lugar de moradia, espaço de produção e espaço de preservação, através do ecoturismo. Uma diversificação produtiva, principalmente na área de prestação de serviços, fazendo expandir o mercado de trabalho para jardineiros, pedreiros, caseiros e outros prestadores de serviços. A dinamização dos espaços rurais pelo aumento da produtividade e de trabalho faz surgir o “novo rural”. A emergência de novas atividades estará diretamente relacionada à adoção de novas tecnologias e saberes que passam a integrar os processos produtivos, alterando o perfil dos produtores e trabalhadores rurais, mudando desta forma a configuração do mundo rural. A busca de uma produção mais moderna e dinâmica é hoje uma tendência presente nos espaços rurais pela adoção de novos saberes e tecnologias, no entanto, essa adoção é nitidamente marcada pelo caráter seletivo e assim, beneficiando uma pequena parcela dos trabalhadores rurais da Amazônia, o que ainda contribui para o abandono do meio rural, ou a submissão das populações tradicionais a atividades parciais com baixa remuneração, o que tem possibilitado a persistência da pobreza no campo. Na cidade de Colares se faz presente o processo de reordenação social em virtude da inter-relação entre práticas tradicionais retratadas pela pesca artesanal, a pequena agricultura, atividades extrativistas e as oportunidades de ocupações fora do contexto das atividades tradicionais que são oferecidas pela prefeitura local, nas várias Secretarias Municipais, em nível estadual no campo da educação e saúde, na área do comércio e prestação de serviços, relacionadas às demandas trazidas pelo aumento populacional, dos visitantes que chegam ao município nos fins de semana, feriados e férias, que dinamiza o mercado local. Por conta da efetivação de algumas ações políticas da gestão local, inicia-se um processo de formação para os agricultores e pescadores, tendo como fim, a dinamização da produção tradicional no sentido de ampliar esta produção para o mercado regional, no qual o campo produtivo vem gerando algumas alterações das

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práticas com repercussões na identidade ribeirinha, apesar de haver uma preocupação em reforçar a continuidade das práticas tradicionais e os processos identitários de pertencimento. Observa-se que este processo vem provocando resistências e mudanças, seja pela abrangência das relações, seja pelos conhecimentos que coloca essa comunidade ribeirinha diante de um mundo mais amplo e diverso. Esse cotidiano revela um processo de transitoriedade, em que a unidade cede lugar à diversidade e a originalidade vai dando lugar a pluralidade cultural. Em síntese, altera a maneira de ser e viver. São vivências que mudam pelo estabelecimento de trocas produtivas e culturais cada vez mais ampliadas, gerando mudanças que se revelam no modo de produzir, de trabalhar e na convivência social pela adoção de novas práticas, de novos saberes que imprimem um novo fazer. Uma realidade que tem gerado conflitos e tensões, que quebra, fragmenta a identidade pautada no tradicionalismo e que coloca frente a frente uma relação de alteridade entre o “eu” representado pela identidade local e o “outro” representado pelos novos estilos de vida, novas práticas produtivas a cultura moderna. O Brasil se insere na globalização, num contexto da “modernidade tardia”, em que novas formas de organização, de relação e de produção demarcam o espaço econômico. Sob a lógica da “economização do mundo” todas as dimensões da vida e da sociedade são postas diante do mercado mundializado. No contexto das transformações, alteram-se o saber-fazer de grupos tradicionais, em que pescadores artesanais, pequenos agricultores e coletores passam a ser alcançados por essa racionalidade econômica. Passando a se submeter às novas relações que exigem novos conhecimentos e práticas que perpassam por uma nova visão de mundo, de produção, de assimilação de novas tecnologias; além de relações sociais pautadas no associativismo. Assim, a lógica da modernidade envolve as comunidades tradicionais sob o rótulo da sustentabilidade que mobiliza, envolve essas comunidades no sentido de desqualificar as formas arcaicas de produção e reprodução da cultura local em prol da mercantilização desse espaço produtivo. Com isso, altera-se o mundo “biológico”, ”social” e “emocional” dessa população, que funciona como referencial simbólico que cimenta as relações sociais e a dimensão identitária.

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A modernidade, tardia, promove, por sua vez, um processo de “criação de constância através do tempo, uma espécie de união do passado com o futuro antecipado”, (VALÊNCIO, 2006, p. 28). Um processo que em geral vem desqualificar e deslegitimar as identidades tradicionais, pois ao alterar o contexto das práticas sociais quebra com a unidade dos processos de preservação. Nas comunidades tradicionais, as práticas produtivas do processo de trabalho na pesca artesanal e na agricultura familiar não apenas estão associadas às dimensões extra-econômicas da vida social, como as relações familiares, religiosidade e festas, mas são balizadas pela oralidade e pelas técnicas corporais, necessitando se reproduzir e revitalizar desde a interação com tal espaço, cuja singularidade define as particularidades de saber-fazer uma interação sócioambiental. A emergência da modernidade tardia em áreas periféricas vem configurando um processo de “destradicionalização” pelas mudanças sociais, espaciais e econômicas, pela instalação de novas rotinas e técnicas de trabalho e uma mudança profunda na relação homem e natureza. A natureza deixa de ser elemento harmonizador e complementador do homem e passa a ser submetida à lógica do mercado, como espaço de exploração, fornecedora de recursos naturais, segundo as necessidades desse mercado, em lugar de uma prática que afirme significados e técnicas do passado, cedendo lugar aos propósitos da modernidade, do lucro e da exploração, tornando tais práticas tradicionais mais “desacreditadas”, ”anacrônicas” e “injustificáveis” diante da temporalidade e racionalidade da sociedade e do mercado global. E ao silenciar o “outro”, converte-o a um novo projeto existencial, descartando-se o valor do passado, da organização do tempo e da produção do lugar. Diante dos argumentos de possíveis benefícios da modernidade esse novo processo oculta contradições e os processos de subalternização dos grupos tradicionais. Estes afrouxam, negam, renunciam a conservação dos laços que os ligam ao tradicionalismo, pois aos olhos da modernidade, o padrão tradicional constitui-se um “arcabouço inútil” incapaz de manter e projetar a continuidade

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dessas comunidades, tornando-se o ideário da inserção a esse novo contexto como caminho inevitável.

2.2. Área de Estudo: Região do Salgado - A Cidade de Colares. A cidade de Colares caracteriza-se por ser uma ilha localizada no nordeste do Estado do Pará, na Costa Oriental, na micro-região do Salgado, com uma área territorial de 290 km2. Separa-se do continente pelo furo da Laura e pelo rio Guajará Mirim, limitando-se ao norte pela baía de Marajó, ao sul pelo município de Santo Antônio do Tauá e a leste pelo município da Vigia Este município apresenta uma cobertura vegetal característica da floresta amazônica, com predominância de matas de terra firme. Por se constituir uma ilha, apresenta significativas áreas de várzeas e mangues. A alteração da cobertura vegetal inicia-se a partir de 1970, momento marcado pelo processo de ocupação intensa do espaço local. As alterações significativas das florestas estarão associadas à derrubada e queima, enquanto práticas da agricultura tradicional, como também pela extração predatória de madeira, com a instalação de serrarias no município. Mais recentemente, a ocupação e a redução das matas estão associadas à formação de pastos para criação de gado, através da implantação de pequenas fazendolas e pela formação de sítios. Outro fator que vem contribuindo para essa redução da paisagem natural é o crescimento urbano de Colares, que vem promovendo a ocupação humana, sobretudo, na área urbana, através do surgimento de novos bairros como o “Maranhense”, “Jangolândia” e outras áreas em virtude da procura de terrenos para as instalações dos visitantes de Colares, como Casa de veraneio ou de pessoas que buscam o campo, como lugar de moradia. Assim em decorrência da ocupação humana, observam-se mudanças na ordenação e ocupação territorial. A população de Colares é estimada pelo censo do IBGE, de 2001 em 10.899 habitantes, sendo 3.316 na área urbana e 7.583 na área rural. A população economicamente ativa se dedica ao trabalho da pesca artesanal, sendo áreas de concentração da atividade pesqueira as localidades de Mocajatuba, Juçarateua, Piquiatuba, Guajará, Ariri e Jenipaúba da Laura.

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O surgimento dessa comunidade está ligado à atuação missionária na região amazônica pelo trabalho de cunho espiritual e material. Uma atuação através da catequese dos índios e pela exploração de atividades econômicas. Trabalho esse que contribuiu para o processo de ocupação e exploração da região. Colares surge assim no contexto de ocupação e exploração da zona do Salgado ainda no período colonial. Uma região que se revestia de um papel de “posto avançado, a partir do qual, os portugueses afastaram da bacia amazônica holandeses, franceses e ingleses”, (VALVERDE& DIAS, 1967, p.11). Segundo Furtado (1987, p.351) a região do Salgado deu origem a vários municípios que estiveram vinculados a relação índio-missionário. A presença indígena foi elemento fundamental no processo de colonização, presença esta que fornece pistas para a compreensão do mundo, da cultura e das práticas caboclas na região. A partir das missões e dos aldeamentos surgiram diversos povoados que com o passar do tempo tornaram-se vilas e cidades. A fundação oficial de Colares ocorre em 1751, quando o aldeamento dos Tupinambás dá origem à freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Colares. Em 1757, eleva-se a categoria de vila, com vinculação administrativa à cidade de Vigia, considerada então cidade mais dinâmica da área do Salgado. A povoação de Nossa Senhora de Nazaré da Vigia é fundada em 06 de Janeiro de 1616 e sua colonização está diretamente relacionada ao processo de aldeamento promovido pelas missões religiosas. Eleva-se a categoria de vila em 1693. Os demais aglomerados populacionais surgem em decorrência das fortificações ao longo do rio Amazonas e pela atuação das missões através da catequização e colonização, retratando-se assim o processo de ocupação da região amazônica. Na era colonial, a Costa Oriental do Pará representava ponto estratégico para a atuação portuguesa, pois geograficamente proporcionava a defesa militar e a ocupação do norte do país. Nessa região, Vigia passa a desempenhar papel fiscalizador e protetor da via fluvial ao possibilitar segurança para condução das embarcações, além de inibir o contrabando num raio de alcance, que cobria uma rota que ia da ilha do Marajó, Belém e Terras do Cabo Norte, área fronteiriça com a

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Guiana Francesa, tornando-se assim ponto de referência para a navegação e defesa do território. Por conta do papel estratégico tanto militar quanto econômico, Vigia entre 1716 e 1778 apresentava um rápido crescimento populacional retratado por 1761 habitantes. Num processo de contínuo crescimento, pois em 1816 apresenta um aumento para 3.271 habitantes, considerando-se nessa somatória as populações de Vigia, Cintra, Vila Nova de El Rei e Colares. No século XVIII, a economia da região do Salgado era retratado pela agricultura do café, mandioca e açúcar. Uma produção agrícola que se completava com a pesca, a extração do sal, de pedras e a cata de caranguejo Todo esse processo de exploração econômica estava estritamente vinculado a atuação dos jesuítas, que contavam com a autorização do Estado para fundar missões O projeto missionário religioso estava associado à apropriação e o controle de vastas extensões de terras, que se combinava com a atividade comercial dos sítios dos moradores desta região. A Carta Régia de 1731 autorizava o estabelecimento de missões em Vigia e pela proximidade geográfica se estendia até a ilha do Marajó.
A missão organizava o sistema de trabalho e de exploração de recursos com eficiência, o que foi reconhecido pela acumulação de riquezas, autonomia de decisões e o trânsito na política metropolitana e local, até a metade do século XVIII, (ACEVEDO MARIM, 2004, p. 32).

Embora cada missão apresentasse suas especificidades, havia certa aproximação entre as missões de Vigia e ilha do Marajó, onde o processo de colonização caminhava de forma integrada com a atuação das ordens religiosas. Na missão de Vigia, os jesuítas implantaram fazendas e aldeamentos indígenas, tendo em vista a formação profissional e o processo de exploração econômica. As fazendas correspondiam vastas extensões de terras, o que proporcionava um intenso processo de exploração. Vigia e Ilha do Marajó garantiam um significativo processo de acumulação de riquezas às ordens religiosas. Nestas fazendas havia a criação de gado, plantio de café, algodão, cacau, além da exploração de cal e fábrica de sabão.

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Dessa forma, na região do Salgado, as missões religiosas apresentavam uma atuação abrangente, retratada pela administração temporal e espiritual dos índios. Uma atuação embasada na política de aldeamento e pela exploração intensa dos recursos naturais. No período que se estende entre 1710 a 1740, a região do Salgado, por seu dinamismo econômico, passou a ser mais ocupada, mediante a concessão de sesmarias. Entretanto, a atuação eficiente dos missionários era plenamente reconhecida. O “poder dos religiosos ofuscava a hierarquia e a fortuna de um pequeno número de colonos que vinha aumentando seu patrimônio”, (idem, 2004, p. 39). É esse dinamismo na região do Salgado entre 1722 a 1806, que vai justificar a distribuição de terras às margens de rios, igarapés e lagos. Com o avanço da colonização percebeu-se a instalação dos “senhores de roça” e “senhores de engenho”, que passaram a desapropriar terras dos antigos índios em decorrência da implantação do cultivo de cana- de-açúcar, cacau e café; mediante a efetivação do regime sesmarial que fundamentava a aquisição de terras. O regime de sesmarias instalou no país e na região uma estrutura agrária predominantemente baseada no latifúndio e o poder de uma elite agrária sobre os trabalhadores rurais. Entre os séculos XVIII e XIX foi marcante a prática da agricultura e do extrativismo na região do Salgado, com o surgimento de grandes proprietários de terras, que se fortaleceram criando bloqueios ao acesso á terra e a exploração dos recursos naturais. O que transformou a população local em trabalhadores assoldados e com essa nova forma de exploração, a presença de uma maioria da população pobre nas vilas e lugares da costa oriental, caracterizados como “senhores de roça", lavradores pobres que cultivavam principalmente mandioca e arroz para sua sobrevivência e de sua família. Em complementação ao cultivo da terra, em Vigia, Colares, Porto Salvo, Penhalonga e Odivelas desenvolveu-se o trabalho da pesca e da carpintaria de canoas. Nesse período ficava bem claro o avanço da colonização e da hierarquização da riqueza na região do Salgado.

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A Lei de Terras de 1850 gerou grande impacto sobre os pequenos posseiros, pois restringiu o acesso a terra. Os posseiros passaram a ter menor liberdade para ocupar as terras devolutas. Embora não tenha criado bloqueios a continua apropriação de terras por parte dos grandes proprietários. Os efeitos da lei tornaram a terra inacessível aos pequenos colonos, transformando-os em trabalhadores baratos nesse processo de exploração da região. Nas últimas décadas do século XIX, a região do Salgado se destacou pela formação de centros pesqueiros, ao lado da produção da farinha. São atividades tradicionais que atravessaram séculos e ganharam impulso com a abertura do sistema rodoviário que passou a interligar a produção do Salgado à economia paraense. Em relação à cidade de Colares, em 1751, o aldeamento dos Tupinambás, conhecida como fazenda de Cabu passa a se chamar Colares Em Colares, como em toda região do Salgado esteve diretamente vinculada à relação índio-missionário. Uma relação que vai originar os traços cultura caboclos dessa região. A origem de sua colonização inicia-se com a construção da igreja de Nossa senhora do Rosário de Colares. Nesse momento, faz-se referência a presença de índios habilidosos com a flecha e assim hábeis caçadores e pescadores. Na era colonial sua economia baseava-se na pesca e no cultivo da mandioca: uma realidade econômica que ainda se mantém como fundamentais na atualidade. Continuam sendo essenciais na subsistência dessa comunidade. Segundo informações de Acevedo (2004) os índios desse lugar eram considerados livres em relação à pesca, recebiam pagamento do Colégio dos Jesuítas pela produção do pescado. Na região do Salgado, a pesca se constituía em atividade central que estabelecia vínculos com os mercados das vilas e da capital. Se destacando, a pesca da tainha, peixe–boi, tartarugas e caranguejos. A Agricultura era retratada pelas pequenas roças e parte da produção era encaminhada a Tesouraria Geral, o que restringia o volume da produção para a subsistência.

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As condições geográficas e ambientais deste município pela proximidade com a baía do Marajó, o Oceano Atlântico e a presença de um ecossistema aquático diversificado por praias, igarapés, manguezais e vastas áreas florestais tem possibilitado a essa população desde os primeiros tempos a sobrevivência através da prática do extrativismo, a pesca e a agricultura de subsistência. Entre as atividades de subsistência, o destaque para a pesca artesanal, enquanto fonte de trabalho, renda e alimentação de uma parcela significativa da população, que se complementa com as demais atividades tradicionais, garantindose a sustentabilidade desta comunidade ribeirinha. Em decorrência dos aspectos geográficos do município, esta comunidade por séculos se manteve num certo “isolamento” devido às condições de transporte e comunicação, possível somente por navegação fluvial. O que levou os moradores a viverem em torno de um “micro-mundo”, considerando-se que a vida se reportava a pequenos grupos. Um período marcado por um lento processo de crescimento, o que garantiu a manutenção de padrões culturais eminentemente caboclos. O contato com um mundo mais amplo só ocorre com a expansão rodoviária no nordeste paraense que possibilitou a ligação de Colares com o continente na década de 1970. A estrada possibilitou o turismo com a chegada de veranistas a esse paraíso natural e com isso o confronto de realidades distintas, díspares. Uma realidade pautada no tradicionalismo e outra, que leva a modificação dos costumes tradicionais, o estilo moderno, a vida urbana. A década de 1970 traz profundas transformações para a região nordeste do Pará com a implantação de projetos agropecuários, pesqueiros e extrativistas. São projetos que dinamizam a economia e a reordenação do espaço. Embora na maioria das cidades e lugares dessa região sejam mantidas as chamadas atividades tradicionais. A cidade de Vigia no início do século XX apresentou uma estrutura produtiva voltada pra o consumo local, notando-se que apenas o excedente da produção agrícola e do pescado era comercializado na cidade de Belém. O que demonstra o caráter de subsistência da produção desta referida região.

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A partir de 1960, com a ligação da região da Amazônia ao Centro-Sul do país, observa-se uma desarticulação da produção local pela concorrência dos produtos que chegavam à capital; uma vez que a capital passa a ser abastecida por produtos hortigranjeiros de melhor qualidade e menor preço, se comparado com os produtos locais. Essa concorrência provocou a desestabilização da produção local, o que vai contribuir para a queda da renda familiar dos pequenos agricultores, como a redução de capital nas localidades rurais. Uma realidade econômica que vai interferir em muito na estrutura agrária da região com a predominância de pequenas propriedades. Loureiro (2001) apresenta a seguinte estimativa em relação às propriedades da região do Salgado: Propriedades com mais de 100 hectares, correspondiam a 20% dos proprietários com uma área de 59,26%; e 98% dos proprietários partilhavam entre si 40,74% da totalidade das terras. A partir desse retrato, o nordeste paraense caracterizou-se por uma estrutura agrária baseada em minifúndios. A produtividade e a rentabilidade dessas propriedades nas últimas décadas levaram os pequenos proprietários a se converterem em minifúndios, tornando-os inviáveis, social e economicamente. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE demonstram os efeitos do parcelamento das terras na região contribuiu para o processo migratório para a cidade de Vigia e assim o aumento considerável de sua população nas últimas décadas, como demonstra o quadro a seguir: Quadro 1: Crescimento da População Rural e Urbana de Colares e Vigia (1980/2001).
1980 Município Urbano Colares Vigia 1.809 16.687
Tabela 1. Fonte IBGE

1999

1996

2000

2001

Rural
5.287 8.130

Urbano
2.655 25.116

Rural
5.683 12.252

Urbano
2.654 26.121

Rural
6.286 10.892

Urbano
3.238 28.006

Rural
7.394 12.170

Urbano
3.316 28.289

Rural
7.583 13.438

Apesar do crescimento populacional, sobretudo urbano em Vigia, esse crescimento corresponde a 59% no período de l980 a 2001. E uma população rural com um crescimento de 32%. Em Colares, a população rural mostra-se superior a

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população urbana, o que demonstra que o modo de vida tradicional mantém-se de forma dominante nessa fração do espaço. Nas últimas décadas, embora sejam notórios os traços da modernidade que chegam, se instauram e imprimem suas marcas e poder de persuasão junto à comunidade de Colares, as atividades tradicionais da pesca artesanal, da pequena agricultura e do extrativismo continuam desempenhando papel referencial, que dá substância a essa comunidade. Assim, para compreender como se apresenta a realidade social, econômica e cultural desta cidade torna-se necessário compreender que, apesar do processo de urbanização por que passa este município nas últimas décadas, como e em que condições subsistem as atividades tradicionais, enquanto referencial de uma comunidade ribeirinha, cabocla e tradicional 2.2.1 A Agricultura Familiar no Município de Colares: A agricultura na região amazônica sempre esteve ligada ao processo de ocupação e sobrevivência das populações tradicionais. Seu caráter de subsistência tem sido aspecto vital para a ocupação humana na Amazônia e que por ser muito antiga revela-se como elemento integrador entre a cultura e o meio ambiente, por apresentar aspectos ecológicos e socioculturais no seu processo de produção. No processo de ocupação e produção da terra, as populações tradicionais desenvolvem sistemas de exploração de recursos naturais, onde se revela um processo de manejo, de manipulação do espaço e seus recursos, que combina diferentes atividades de subsistência como agricultura, pesca, caça e coleta. No cenário das populações ribeirinhas e não fugindo a regra na cidade de Colares, o modo de produção de subsistência, em que a agricultura tradicional é a pequena roça, centrada principalmente na produção da mandioca para a produção da farinha, um saber-fazer que vem sendo repassado de gerações anteriores das populações indígenas populações primeiras que continuam a dar sentido às práticas tradicionais locais no contexto presente.

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As discussões acerca da agricultura familiar vêm ganhando legitimidade a partir de 1990, junto aos movimentos sociais e órgãos governamentais, como reconhecimento de sua importância, enquanto meio de trabalho, alimentação e renda do homem do campo. Nesse período, nota-se a efervescência dos movimentos em torno do “Grito da Terra”, como forma de denunciar as condições de trabalho, produtividade e vida do homem do campo. Levantam-se questões relacionadas à abertura comercial, a falta de crédito, a queda dos preços e dos produtos agrícolas. Um movimento que reúne os interesses de todos os segmentos relacionados à agricultura como: os agricultores familiares, assentados, arrendatários e posseiros. É no decorrer da década de 1990 que emergem pesquisas e discussões a respeito do rural ou da ruralidade no Brasil. São estudos que passam a avaliar as condições e as alterações da produção agrícola, das condições da pesca artesanal e a realidade do espaço rural. Novos conceitos passam a ser utilizados para o entendimento da dinâmica apresentado pelo espaço rural. Emergindo questões relacionadas ao meio ambiente, a sustentabilidade econômica. Questões que passam a referenciar diferentes atividades econômicas no campo, e conseqüentemente a conformatação de uma nova ruralidade. Em muitas áreas rurais, as atividades tradicionais vêm sendo modificadas ou tais atividades passam a compor o campo da produção local, mas relacionando-se a outras atividades chamadas de “pluriatividades” que são desempenhadas pela família rural. Em geral são atividades não-agrícolas e relacionam-se a um conjunto variado de atividades econômicas e produtivas, não necessariamente ligada a agricultura e ao uso da terra. Em Colares, a atividade agrícola é retratada pela pequena roça, nitidamente familiar e segundo informações do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, existem no município cerca de 1500 a 2000 pequenos agricultores, dos quais 300 agricultores são sindicalizados. Neste município, a pequena agricultura é fator imprescindível a subsistência e renda da população local. Em geral, os agricultores ocupam terras da União por

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décadas. E seu uso e benfeitorias são passadas de gerações anteriores. Somente as propriedades mais recentes são as que possuem títulos de propriedade. Assim, a roça é retratada por pequenas áreas de cultivo de 7 a 14 hectares de terra, onde se planta basicamente a mandioca para a produção da farinha, fonte básica na alimentação local acompanhada pelo peixe. Produz-se em menor escala o milho e o arroz, o que sobra da produção é colocado à venda no comércio local. Embora a produção agrícola em Colares não seja suficiente para atender a demanda local, o município importa de outras áreas, como de Santo Antônio do Tauá, a farinha e produtos hortigranjeiros. A produção agrícola familiar continua sendo realizada de maneira tradicional, sem inovações tecnológicas e com uma baixa produtividade. Uma prática que remonta ao conhecimento herdado das populações indígenas. O trabalho na roça continua tão rudimentar como na era colonial. Uma prática primitiva na construção do roçado e no fabrico da farinha.
O trabalho na roça é muito desgastante, exige muito sacrifício do trabalhador rural e de toda a sua família, sem contar com a demora da colheita da produção, pois a colheita de uma roça varia em torno de quatro meses a um ano, dependendo do tipo de cultura e as etapas dos serviços necessários para esse fim, (PINTO, 2004, p.116).

O trabalho inicial da feitura do roçado inicia-se com a derrubada da mata. Os matos menores, menos resistentes e leves são cortados com facões e terçados. Após essa fase, inicia-se a derrubada de árvores maiores e os instrumentos para isso são variados, sendo de acordo com a característica da floresta. A derrubada em geral é realizada em período de estiagem, sem chuva. Espera-se secar e queima-se. É o processo da coivara que se mantém, ultrapassando o tempo. Após a queimada e a coivara inicia-se a fase do plantio. Um momento que conta com a participação de homens e mulheres. Em geral, o corte da maniva é feita pelos homens, e o plantio das hastes é realizado pelas mulheres. Estas são parceiras importantes no trabalho que se segue o plantio, que é a retirada das ervas daninhas e todo o acompanhamento da roça para que ocorra o desenvolvimento das mudas.

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Consolidado o plantio da mandioca parte-se para o plantio das demais culturas, em geral do milho, melancia e outros produtos. O tempo da colheita varia, segundo os tipos de mandiocas plantadas e demais culturas que são consorciadas. A produção de farinha é outro momento que conta com importante participação de todos os membros da família, considerando as diferentes etapas para a sua produção e outros derivados da mandioca, como: a goma, o tucupi, e a farinha de tapioca. Em Colares, a Secretaria Municipal de Agricultura e Pesca diante do tradicionalismo tão presente vem implantando projetos de cunho “agro-florestal” no sentido de dinamizar a cultura agrícola, até então de subsistência, através do cultivo consorciado de produtos com sementes melhoradas geneticamente. Em uma mesma área plantam-se produtos diferenciados com vistas à maior produtividade. Esta secretaria Municipal vem fazendo a distribuição anual de 10 mil mudas de feijão calpi, açaí, cupuaçu e banana. Além do fornecimento de adubo, transporte e acompanhamento dos agricultores. Um processo que mesmo de forma incipiente vem colocando o produtor local frente a outros saberes, mediante a realização de cursos de capacitação que vem sendo realizados junto aos produtores rurais. Cursos que se realizam em parceria com governo local e outros órgãos ligados a agricultura, como a Secretaria de Estado de Agricultura (SAGRI). Segundo o Secretário de Agricultura, a primeira grande preocupação é abolir a queima do solo. Afirma ainda que embora o fazer do trabalhador esteja ligado ao tradicionalismo, vem se observando a redução dessa prática. Para este secretário, a grande preocupação desta secretaria é promover a preservação do solo e do ambiente florestal e a chegada da mecanização agrícola vem trazer ganhos para a produtividade e para a preservação ambiental. No município, está em fase de implantação o projeto de folheosas e legumes, baseado em processos orgânicos, sem o uso de fertilizantes e adubos químicos. Segundo avaliação desse secretário, há por parte dos agricultores pouca aceitação desses projetos, que é retratado pelo baixo envolvimento da população. Para o secretário, o grande fator que emperra esse envolvimento maior é a

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vinculação muito forte ao modo de produção tradicional. A população de Colares é extremamente extrativista, principalmente em relação ao cultivo do açaí. Segundo o Secretário de Agricultura:
É mais fácil ir até a várzea e retirar o açaí nativo do que se engajar no cultivo do açaí de áreas seca, de terra firme. Não percebem que o açaí de várzea tende a se exaurir seja pelo tempo de exploração, seja pela derrubada do açaizal para a extração do palmito, sendo visível a rejeição às novas propostas de incorporar às vantagens trazidas pelas novas técnicas e saberes.

Em relação à dinamização do cultivo da mandioca e produção de farinha, a prefeitura local construiu três casas de farinha mecanizada no sentido de tornar essa produção mais ágil. O Secretario Municipal de Agricultura avalia o papel importante da agricultura e da ação do governo para o alcance do desenvolvimento local ao afirmar que: “a agricultura depende de boa vontade política e recursos do governo local para incentivar e programar as ações projetadas para o setor”. Seu posicionamento está diretamente relacionado à ausência de recursos e investimentos que garantam a plena efetivação dos projetos agrícolas e com isso, dificuldades para a dinamização desse setor produtivo. Preocupação que é reafirmada pelo presidente do Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Colares quando diz: que “a tecnologia não chegou a Colares, daí a pequena produtividade e renda vinda da agricultura”. Comenta ainda que os recursos do Estado do Pará para o setor agrícola é de 77 milhões, o que é insuficiente para atender as demandas da agricultura e em especial a agricultura familiar. Em relação aos projetos agrícolas que vem sendo implementados no município, o presidente deste sindicato afirma que são de pequeno alcance por não possibilitar o acesso à maioria das famílias agrícolas. Vem alcançando apenas um pequeno grupo de produtores. “A produção do município é considerada insuficiente para dar atendimento às necessidades locais”. “Continuamos a importar hortaliças e até farinha de mandioca de outras áreas”. O problema de maior envergadura e que vem limitando a expansão agrícola é que os produtores locais não têm acesso às políticas públicas do setor. Uma vez que os trabalhadores rurais não são beneficiados pela linha de crédito, pelo Programa

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Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF e pelo Fundo Nacional do Norte – FNO. O município não mantém convênio com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural - EMATER e, conseqüentemente não proporciona uma assistência técnica contínua aos produtores rurais. Os agricultores rurais apenas vêm participando de cursos esporádicos, que sem financiamento não podem ser concretizados na prática. Nesse processo inicial de transitoriedade, as propostas de novas frentes de produção, trabalho e renda são vislumbradas a partir do processo de capacitação. São projetados novos empreendimentos a serem efetivados de fato e que venham provocar impactos produtivos e econômicos que carecem de financiamento. A capacitação e os novos saberes que chegam ao Município com o fim de torná-lo mais sustentável economicamente apresentam efeitos que são retardados por não serem prioritários no orçamento e receitas do governo local. O orçamento participativo para o ano de 2008 não priorizou a agricultura como setor prioritário. Sendo votado como primeira prioridade a construção da ponte que liga Colares ao Município de Penhalonga, o que vai tornar o transporte e a comunicação mais ágeis com outros municípios e Belém. Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais a adoção de novas tecnologias para dinamizar a produção local é algo que precisa ser bem mais trabalhado junto ao produtor local, uma vez que as casas de farinha mecanizadas instaladas no município não têm sido devidamente utilizadas. Segundo o presidente, algumas casas de farinhas já foram até depredadas, e o trabalhador continua a usar as antigas técnicas de “fazer farinha”, utilizando-se de instrumentos e objetos construídos por eles mesmos através do saber e do legado deixado pelas gerações anteriores. Entre os projetos implantados, o projeto de Apicultura é o que mais tem trazido resultados para o Município de Colares. Vem apresentando uma produção de 100 toneladas de mel por ano. Os demais projetos se reportam a áreas isoladas, dispersas. Assim a produção agrícola tradicional continua perpassando pelas “veredas da sobrevivência”.

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2.2.2

A Pesca Artesanal: atividade referencial do Município de Colares Desde os tempos imemoriais a pesca referencia a vida material, social e

cultural das populações indígenas, ribeirinhas, caboclas na região amazônica. É a vida às margens dos rios que vem garantindo a sustentabilidade da vida local. É a biodiversidade existente que coloca o homem amazônico frente a frente à presença exuberante dos recursos dos rios, lagos, igarapés e mangues. São recursos naturais do rio e da floresta imprescindíveis ao processo de produção e reprodução dessas comunidades ribeirinhas. É mediante a atuação de grupos de pescadores, marítimos, estuários, coletores e extratores no trabalhar e transformar da natureza que os “povos das águas” constroem sua materialidade. Esse processo de construção se dá pela intensa relação que se estabelece entre o homem, o rio e o mar. Uma relação concreta e ao mesmo tempo simbólica, a partir do estabelecimento de relações sociais que demarcam todo um processo de reprodução social das populações ribeirinhas. O mar e o rio apresentam-se como natureza e como espaço produtivo ao mesmo tempo, tornando-se um fator que imprime sentido à vida social, como também fator que exige uma racionalidade no manejo, na apropriação e no gerenciamento dos recursos naturais, hídricos e florestais. É esse relacionamento homem-natureza que segundo Maneschy (1995, p.11) será determinante na “forma de existência de uma sociedade (que) depende fundamentalmente do modo como os homens produzem e reproduzem as bases materiais de sua existência”. Uma produção social que se organiza pelas relações determinadas, correspondentes as condições materiais e simbólicas específicas. Um processo referendado pela produção e reprodução dos elementos estruturadores da vida local, como as forças produtivas e relação social dela advindas. Expressando uma interrelação entre produção, distribuição, troca, consumo inerentes àquela comunidade. “Todos esses elementos são vistos historicamente afim de que se possam detectar as mudanças em curso, avaliarem seus efeitos no sentido da permanência, da reestruturação ou da desestruturação da comunidade”, (idem).

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Desde o início da ocupação portuguesa na Amazônia, a pesca apresentou papel de destaque enquanto fonte de alimento, trabalho e comércio. O peixe desde os primórdios da ocupação constituiu-se fonte principal de alimentação da população regional, seja pela abundância, seja pela habilidade de como as populações indígenas realizavam sua captura. A pesca também sempre se constituiu numa das mais importantes atividades econômicas, embora nas comunidades tipicamente indígenas não tenha havido a profissionalização do pescador, por estar associada à prática da agricultura e da caça. Durante a colonização européia incentivou-se o extrativismo como atividade rentável, no entanto, sempre se fez presente a figura do pescador-lavrador. O homem da região que se apropria dos recursos naturais disponíveis para o seu sustento e de sua família. Assim, nunca sendo especialista de alguma atividade exclusiva. Na região do Salgado, Hurley (1933, p.14 e 15) faz à seguinte colocação:
A pesca é mais amena e menos arriscada e o pescador não é propriamente dito um profissional: reúne ele o tipo misto de agricultor-pescador sem ser na expressão legal desses vocábulos, nem uma coisa nem outra, porque não está aparelhado para exercer essas profissões. Como lavrador, raros são os que possuem terra e seus instrumentos agrários (como) a enxada, a taceira, o machado e o terçado (que) roçam as terras devolutas do Estado, ou nas terras de patrimônio da mãe-velha (Intendência). Como pescadores povoam as safras (inverno) dos peixes dos rios, canaes, mupéuas, restingas (coroas) e igarapés, formados e banhados pelo mar e pelo fluxo das marés, mal agasalhados em pequenas curiácas, montarias e simples “cascos” sem falca e sem pavez com rodelas de proa e popa de Tijuco, talude e de espinhel (Tiradeira), tarrafa ou linha de mão, utensílios quase sempre emprestados a troco de quinhão de peixe. Colhem o saboroso pescado no grosso das piracemas... Passado a safra, mais de 60% dos pescadores paraoáras do salgado deixam as águas e se destinam a outros mesteres: Uns vão desmanchar roçados, outros vão abruir as roças do verão.

Apesar do tradicionalismo, o crescimento populacional da região do Salgado, em especial a cidade de Vigia estará relacionado à importância assumida pela atividade pesqueira desde a era colonial. Uma região que assume papel estratégico entre Belém e São Luis. Na era colonial, o governo português passa a efetivar maior controle sobre a produção pesqueira. Para tal, implanta os “Pesqueiros Reais”, momento em que as pescarias eram realizadas por particulares e toda a produção era direcionada para o interesse português. Implanta-se o trabalho servil da pesca em que os “pescadores

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que trabalhavam nos pesqueiros eram índios reduzidos, que ganhavam, além da alimentação que eles mesmos mariscavam os ricos salários de duas varas de pano d’ algodão”, (HURLEY, 1953, p. 68 e 69). Os dízimos dos pesqueiros geravam rendimentos significativos, entretanto, foram extintos no final do século XVIII, em decorrência da escassez da mão de obra indígena.
Falta de índios que o mal da catequese, as repetidas epidemias de bexiga e sarampos, os maus tratos, perseguições e colossais morticínios rareavam e que a bem aventurada Lei de 1775 libertou finalmente, determinando a extinção dos pesqueiros, que somente a sua habilidade de pescadores tinha por mais de um século mantido, (VERISSIMO, 1970, p.111 e 112).

Na era colonial havia a grande pesca de valor comercial e a pequena pesca voltada para obtenção da alimentação das populações locais. A grande pesca volta-se para a pesca do pirarucu, tartaruga, o peixe-boi a gurijuba, a tainha e a produção do grude de peixe. A pequena pesca inclui toda a espécie de peixes, anfíbios e crustáceos, mas com importante papel para o mercado local e de Belém. N a época das safras, os pescadores buscavam diferentes lugares de pesca, as zonas de maior concentração. Passada a safra, verificava-se o retorno ao seu local de origem, onde passavam a se dedicar a pequena pesca, a agricultura e o extrativismo. Durante o ciclo da borracha, com as transformações econômicas,

populacionais e dos mercados consumidores, inicia-se a introdução de técnicas de base capitalista trazendo repercussões sobre a pesca artesanal. Nesse momento considerava-se insuficiente a produção dos pescadores artesanais para dar atendimento às demandas de Belém e outras localidades. Assim, ao longo do século XIX são aprovadas leis que propunham a criação de companhias de pesca, tendo em vista a produção de pescado em larga escala O Estado passa a disponibilizar empréstimos para aquisição de barcos e redes. São inovações que começaram a altear o mundo da pesca, ameaçando o trabalho dos pescadores artesanais, pois a produção agora em larga escala levou a escassez do pescado se reduzindo o abastecimento de localidades que dependiam da pequena pesca.

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Outra inovação do setor pesqueiro foi à utilização de gelo que transformou as canoas em geleiras. Uma inovação que alterou o processo de trabalho na “medida em que os pescadores ficaram em parte liberados de salgar e secar os peixes. Por isso, era possível ampliar seu ritmo, já que não era necessário interromper as pescarias para proceder ao beneficiamento, de modo poder esperar o momento da venda”, (MANESCHY, 1995, p.38). Até esse momento, essas inovações não alteram o ritmo e as formas de produção então predominante na pesca artesanal, entretanto, observa-se que nas “condições de troca beneficiavam principalmente os intermediários que impunham os preços de compra aos pequenos pescadores.” (Ibidem). Essa realidade só vai se alterar nas últimas décadas, momento em que ocorre em várias áreas a especialização da atividade pesqueira. Historicamente, muitas comunidades pesqueiras se originam a partir da atividade agrícola, quando da formação das fazendas ou aldeamentos missionários, entretanto, Mello (1985, p.37) afirma que na Zona do Salgado, a agricultura e a pecuária se apresentavam pouco desenvolvidas, o que levou o caboclo a se dedicar mais a pesca. Assim, a pesca a pesar de ser caracterizada como atividade complementar, foi atividade importante, fundamental nessa região. No entanto, a profissionalização do pescador, enquanto atividade especializada, será observada na segunda metade do século XX, como resultante da penetração capitalista no setor pesqueiro. A lógica da economia de mercado adentra nas mais longínquas localidades ribeirinhas, embora na região amazônica seja dominante a pesca artesanal, a pesca de subsistência pela permanência de suas práticas produtivas que continuam operando da mesma forma rudimentar. As dificuldades de transportes e de acondicionamento do pescado têm sido apontadas como fatores limitadores da expansão da atividade pesqueira. Somente a chegada das geleiras vai possibilitar maior tempo de conservação e comercialização do pescado em áreas consideradas distantes dos locais de captura.

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Nesse cenário de tradição e modernização, a pesca artesanal vem persistindo apesar das condições sócio-econômicas, funcionando muito mais como oportunidade de emprego do que renda. Nesse campo de produção o aumento do preço do pescado está muito mais relacionado aos custos operacionais ligados a manutenção das embarcações, aos insumos e a intensificação da demanda em certos momentos do que a valorização da produção em si. A introdução das novas tecnologias no campo pesqueiro tem levado a um decréscimo do volume da produção e oferta em virtude da redução da produtividade de locais antes piscosos, ocasionados pela sobrepesca de algumas espécies que de forma predatória tendem a desaparecer. A escassez do pescado tem provocado a evasão de pescadores artesanais para outros campos de trabalho. Em Colares a pesca artesanal se mantém desde os primeiros tempos. Usa-se a canoa ou o pequeno barco, o caniço e outros petrechos rudimentares para a captura do peixe. Como afirma Furtado (1981, p.76) “o passado se refaz no presente. O passado é lembrado na prática do espinhel e o presente representado pela rede malhadeira que de certa forma vem trazer inovações na organização social do trabalho da pesca.” A pesca artesanal revela uma simbiose entre o homem e a natureza, distinguindo-se da narrativa da modernidade, onde o processo de trabalho tende a ser alienador das condições objetivas, onde se dá uma construção identitária. Entretanto, a realidade de modernização revela-se pela crescente homogeneização das práticas, ao mesmo tempo em que se processa um controle sobre a natureza. O saber fazer do pescador não se faz de uma hora para outra, mas é resultante do acúmulo de experiências e de saberes inerentes a essa atividade que é tão antiga como o homem da região. Para o pescador que detém esses conhecimentos, considera-os de fácil aprendizagem. Sua formação se inicia desde pequeno, escutando, observando e expericiando o fazer dos pais, parentes ou amigos. Um conhecimento que vai se incorporando no exercício do dia a dia. São vivências a partir da relação direta com o rio, que se transforma no grande espelho da vida. O homem e o rio se transformam numa linguagem inseparável. O “homem e o rio (como) os dois mais ativos agentes da geografia humana da Amazônia. O rio

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enchendo a vida do homem de motivos psicológicos, o rio imprimindo à sociedade rumos e tendências, criando tipos característicos da vida regional”, (TOCANTINS, 1961, p.306). Nessa realidade marcada pela dualidade homem-rio, o pescador é resultante da somatória da herança cultural e da experiência dedicada ao trabalho da pesca, transparecendo o domínio do saber teórico-psicológico e dos segredos do ofício que lhe capacita como experiente homem do mar numa relação do fazer-aprender que lhe atribui um arsenal de conhecimentos e práticas da arte de pescar. Um saber acumulado de inúmeras gerações, que é colocado em prática nas várias viagens, expressos no exercício de lançar e puxar a rede, no momento da captura. Uma tarefa teórica e prática que exige dedicação, amor, empenho e destreza física. Segundo Mello (1985, p.107 e 108):
Conhecer a pesca significa dominar uma arte de muitas facetas. “A vida do pescador não se reduz às tarefas do mar. Muitas vezes ele também é o artesão dos instrumentos por meio dos quais trabalha. Preparar, por exemplo, um espinhel implica em dominar alguns segredos; é preciso primeiro fabricar ou adquirir uma linha comprida, medindo dois mil metros; nesta linha, a cada duas braças é atracada uma corda fina – o estruvo – onde na ponta fica “nodado” o anzol; junto com o anzol é amarrado o “ancorete”- pequeno peso para puxar para o fundo o espinhel a cada 28, 30 ou 40 braças dependendo do tamanho da linha; junta tudo isso a corda de bóias, entrelaçadas com linha para mantê-la suspensa.

Nesse âmbito produtivo, o saber-fazer da pesca se enquadra no campo da ciência, pois além dos conhecimentos práticos exigem-se conhecimentos de astronomia, meteorologia, biologia marinha e outros saberes científicos para a eficácia da arte de pescar. A atividade pesqueira envolve também planejamento e organização de tarefas que vão desde a aquisição de mantimentos, objetos pessoais, os instrumentos ou petrechos propriamente ditos da pesca e, toda uma preparação das embarcações em que todos os pontos são checados. No mar, à medida que a canoa ou o barco se afasta e começa a se deparar com as correntes marítimas e maresias fazem-se necessária perícia para navegar com certa tranqüilidade. Uma das saídas é navegar pelos canais, na tentativa de não encalhar em alto mar. O conhecimento do ciclo das cheias e vazantes é fundamental para que ocorra uma pescaria eficiente e eficaz. Constitui-se fator que vai determinar a hora da saída

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e da chegada, assim como à hora da captura do pescado. Compreender as fases da lua é outro elemento indispensável para determinar o tipo de maré. O que pode trazer mais ou menor dificuldade no apanho do pescado. É importante compreender que toda essa argumentação sobre o “domínio teórico e prático de todo o processo de produção pesqueira é realizada em padrão tradicional e de posse do trabalhador”, (MELLO, 1985, p.127). Se de um lado o saber objetivo, o domínio de técnicas e instrumentos são indispensáveis à atividade pesqueira, seu manejo e eficácia também estarão relacionados às técnicas corporais.
São técnicas que dizem respeito aos modos pelos quais os homens, de maneira tradicional, sabem servir-se de seus corpos como razão prática, coletiva e individual. Os mais velhos, ao carregarem os mais jovens como ajudantes de pesca, são os que colocam o prestígio de sua experiência como modelo de destreza física e no equilíbrio do balanço da embarcação, na dignidade em partir para o mundo das águas e dele retornarem como uma aventura sempre necessária, na resistência em perseverar horas, às vezes, noites a fio, até alcançar o momento certo, na agilidade, precisão e força para jogar a tarrafa etc., a ser imitado não apenas como um “balé” sobre as águas, mas como um ato quase mágico, na medida em que o êxito logrado na captura é de fazer o corpo instrumento em consonância com os movimentos dos cardumes, (VALÊNCIO, 2006, p. 29).

Na região amazônica, a pesca artesanal, tradicional se constituiu um marco, uma referência. Nas últimas décadas, vem sendo marcada pela implementação a modernização no setor pesqueiro. Essa modernização emerge como fenômeno que vai alterar a pesca regional. Uma vez que passa a ser submetida pelas injunções capitalista. A pesca inicialmente exercida por comunidades ribeirinhas se altera e passa alcançar algumas especificidades. Passa a engendrar outro processo, marcado pela modernização tecnológica trazendo como conseqüência; a proletarização do pescador, antes livre e proprietário de seus instrumentos, de seu trabalho e do produto de sua jornada de trabalho. Agora passa ser submetido pelo controle empresarial. As novas relações de produção e trabalho fazem emergir um mundo contraditório e conflitante. O mundo tradicional se altera pelas mudanças na maneira de produzir e comercializar o fruto do trabalho. Num cenário em que as novas tecnologias aparecem como instrumento de transformação social, pela priorização dos objetivos do capital.

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Com a chegada da modernização, o pescador artesanal passa a ser visto como produtor “desqualificado” perante a grande indústria. O capital avança e passa a dominar espaços considerados “vazios”. A ação empresarial passa a subsumir as comunidades ribeirinhas pela alteração de suas condições materiais e ao mesmo tempo lhe retirar o direito de continuar se reproduzindo como tal. Nos finais dos anos 50 do século XX, inicia-se na região transformações estruturais na economia pesqueira. É o momento em que, em alguns pólos pesqueiros os trabalhadores do mar são “obrigados” a vender sua força de trabalho diante da instalação da pesca capitalista. Observam-se investimentos de grupos estrangeiros e a atuação política do próprio Estado nesse setor produtivo. A partir de 1960 estudos são realizados no setor pesqueiro com o intuito de oferecer subsídios à atuação do Estado. São estudos que questionam a produção da pesca artesanal e apontam saídas para a dinamização e maior produtividade do setor pesqueiro. É o momento em que se dá a inserção plena e definitiva da Amazônia no capitalismo monopolista. Questiona-se o rudimentarismo das técnicas nativas considerando-as como “irracionais” e “atrasadas”:
Um modelo produtivo que se caracteriza apenas como valor de uso e não de troca. Revestindo-se pelo olhar capitalista como sistema “antieconômico” pela baixa produtividade. A melhoria da conjuntura econômica da atividade pesqueira na Amazônia só poderia ser obtida, pela racionalização do trabalho, ou seja, pelas mudanças no modo de produzir a pesca, seus métodos e técnicas, (ALMEIDA & ALBUQUERQUE, 1961, p.9).

Nessa visão de modernização, as técnicas nativas seculares de produção de peixe, coerente com o modo de produção, onde é a subsistência da população produtora é o objetivo central do trabalhador, torna-se objeto de crítica, a partir da perspectiva da visão oficial dominante, que se reivindica a neutralidade cientifica do julgar o que é “certo” ou “errado”, “bom” ou “mau” para o caboclo da região”, (MENDES, 1938, p. 11). A grande preocupação dos pesquisadores é confrontar a baixa produtividade da pesca artesanal e o interesse em expandir a produção do pescado, através das técnicas de “arrasto”, para tal a necessidade de formação e treinamento dos pescadores regionais para a utilização de novos instrumentos com maior eficiência.

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Somando-se aos novos saberes e fazeres, a adoção de novas técnicas e a utilização de barcos a motor no sentido de vencer a “incapacidade do homem regional em virtude do “atraso e acomodação” das comunidades tradicionais. Trabalha-se com o estereótipo do homem amazônico, que segundo Mendes (1959, p. 20) caracteriza-se como sedentário, lavrador à beira do rio, “onde encontra sempre furtando ao trabalho diário, sem ardor, nem pressa, o tempo, “um instantinho”, como ele diz, de em qualquer água, ali perto: como “um de nós vai à cozinha” pegar peixe ou “mariscar’, na sua expressão típica. A facilidade de “marisco” será visto como causa do comodismo do nativo que por esse motivo, não tem necessidade de dispensar o esforço que outros povos e o incitamento ao trabalho. Nasce assim a ideologia preconceituosa do trabalhador “preguiçoso”, incapaz de desenvolver por iniciativa própria a produção de bens, antes se contentando com que a natureza dá. O resultado dessa visão estereotipada será o discurso em defesa de uma urgente e sistemática educação do pescador, considerado como único meio capaz de dotar-lhe de preparo à utilização daqueles métodos e técnicas de pesca consideradas como racionais. Nessa percepção, deixa-se de lado a compreensão da maneira de ser e viver das populações ribeirinhas. Acredita-se e busca-se uma educação pesqueira voltada para a geração de pescadores profissionais, no sentido de se adequar ao trabalho e a técnicas mais modernas de manejo e produção do pescado. Pela aquisição de novos conhecimentos “libertarem” os pescadores regionais, deixando-se de lado o conhecimento nativo, visto como supérfluo e sem valor para a lógica capitalista. Na cidade de Colares a pesca artesanal é característica marcante da atividade pesqueira, Utilizam-se instrumentos tradicionais da pesca como o espinhel, a linha, a tarrafa e mais recentemente a pesca de rede. Os barcos são de pequeno porte e a vela, poucos são motorizados. Apesar da rusticidade dos instrumentos de trabalho até nas últimas três décadas, a produção do pescado era considerado muito boa pela existência da grande quantidade de peixes. A área em estudo era muito piscosa, apresentando também uma diversidade de espécies. A quantidade do pescado possibilitou nesse período a pesca de curral e a pesca de camboa. A produção das pescarias era

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suficiente para abastecer a população local e o excedente era comercializado em áreas próximas. Os pescadores artesanais atribuem a redução da produção da pesca às mudanças importantes trazidas pela utilização das redes malhadeiras e a concorrência da pesca industrial. São fatores que trouxeram sérias conseqüências para a pesca tradicional e para a vida das comunidades ribeirinhas. As formas predatórias de captura e as novas relações de produção são efeitos da expansão capitalista no setor pesqueiro regional, sobretudo a partir da década de 70 do século XX. A modernização da pesca regional vem atrelada a uma ação governamental, mediante a implementação de uma política de incentivos fiscais. Os resultados dessa política atraíram investimentos por parte de grupos empresariais do centro sul e nordeste do país, o que estabeleceu uma forte concorrência com os pescadores artesanais Configura-se a pesca regional moderna industrial voltada para a grande produção com destino a exportação. Altera-se o sistema de pesca com a chegada de tecnologias sofisticadas e a implantação do trabalho assalariado. O parque industrial pesqueiro passa a apresentar uma produção intensa de pescado no nordeste paraense. As empresas de pesca se apropriam de áreas que anteriormente eram praticadas pela pesca artesanal. Segundo Cristina Maneschy (1995, p. 42), desde a implantação do parque industrial pesqueiro, vários conflitos se estabelecem entre pescadores artesanais e empresas de pesca. Os conflitos são decorrentes das superposições de áreas de pesca e pela atuação depredatória que vem reduzindo os estoques de peixe. Para Loureiro (1985, p. 146) a tecnologia industrial é baseada em rede de arrasto que tem se mostrado altamente predatória, provocando grande matança de peixes, além dos danos ao equilíbrio ecológico. Em relação a Colares, a expansão da pesca industrial trouxe conseqüências alarmantes. Na década de 1980, cerca de 60% dos pescadores locais estavam com

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suas canoas encostadas em virtude da super exploração das empresas de pesca com atuação próxima ao litoral do Marajó.
A frota artesanal não tinha as mínimas condições de competir com a frota empresarial, estabelecendo-se uma luta desigual, eliminando-se da pesca artesanal a autonomia e promovendo a proletarização de uma grande massa de pescadores que tinha na pesca seu único meio de subsistência, (PENNER, 1984, p. 96,97).

A percepção dos problemas e a reação a atuação das grandes empresas é bem clara no depoimento de um pescador artesanal de Colares, quando afirma:
Essas barcas já pescaram nessa área. Teve um ano eles pescaram aqui. Nós denunciamos pra Capitania dos Portos, tava prejudicando muito. A gente ia uma hora dessas, era muito peixe morto em cima da água, piabas pequenas eles jogavam tudo fora. Eles só pegam as graúdas, exatamente agora está fazendo falta, tanto para eles como para nós,(idem).

A proximidade com o rio e o mar contribuiu para um conhecimento acumulado sobre a natureza, seu manejo e controle. São saberes que advêm das práticas indígenas retratadas por uma variedade de técnicas de captura, o que reflete uma relação de adaptabilidade entre o homem e seu ambiente natural. Nesse tempo se desenvolvia a pesca utilizando-se o “cacuri”, o “matapi”, a “Camboa” de pedras, a tarrafa, a linha, a rede de tapagem, anzóis e currais. Algumas dessas técnicas estão em desuso pela população local. Hoje, os instrumentos mais usados pelos pescadores são a linha ou o espinhel e a malhadeira de nylon. Levando-se em consideração os instrumentos utilizados e o tamanho das embarcações, os pescadores de Colares são divididos em pequenos pescadores e médios pescadores artesanais, onde os pequenos pescadores constituem a maioria dos pescadores do Município. Segundo Azevedo (1998, p.35) esses pescadores trabalham em embarcação de pequeno porte denominadas de montarias ou reboques, movidas a vela. Antigamente os materiais de construção dessas embarcações eram extraídos no próprio município, hoje com a degradação florestal, parte das embarcações é fabricada com madeiras provenientes das estâncias locais. Seus instrumentos de captura são a linha e o espinhel, utilizando-se em média de 200 a 800 anzóis. As viagens nesse tipo de pescaria duram em torno de 12 horas, dependendo do fluxo das marés e dos ventos. Guiam-se pelas estrelas, o vento e a maré. Todo o trabalho é realizado em média por dois tripulantes.

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Há o pescador que trabalha com linha. Um tipo de pescaria que exige um preparo anterior para a consecução das iscas. O pescador de rede, em geral, trabalha em embarcações pequenas movidas à vela. Todo o trabalho da pescaria envolve de dois a três tripulantes e o comando cabe ao encarregado ou ao próprio dono da embarcação que orienta o trabalha da pesca. Na verdade, todos os tripulantes colaboram de forma coletiva para a realização das tarefas da pescaria. O médio pescador artesanal constitui-se um tipo de pescador mais recente no município. Essa modalidade está relacionada às transformações recentes no setor de pesca na região do Salgado, em Colares. São pescadores que dispõem de melhores condições financeiras e utilizam embarcações maiores e mais equipadas com instrumentos mais modernos. As viagens são do ritmo do “chega e vira”, mais curtas. Se o peixe estiver longe, as viagens são mais duradouras (barra fora), podem durar de oito a dez horas diariamente ou durarem 07 dias pescando em outras áreas mais distantes. A produção do pescado destina-se ao abastecimento do mercado local e de outras áreas adjacentes, geralmente vendem a produção na cidade de Vigia, mais próxima de Colares, (AZEVEDO, 1998, p.39). No momento presente, cada vez mais os pescadores tendem a se deslocar para áreas mais distantes em busca do pescado. Dirigem-se para o Cabo Norte, alcançando o Amapá e as Guianas. Segundo informações de um pescador do município, o mar não tem limites, pois “assim como os nossos pescadores vão para outras áreas, vem pescadores para cá de Cachoeira do Arari, Macapá, Salinas, Vigia e outras regiões. Recentemente chegou a Colares um grupo de coreanos no farol”. Uma das principais dificuldades relatadas pelos pescadores e pela Colônia de Colares é a sobrevivência na época do “defeso”. O benefício do defeso não vem sendo assegurado aos pescadores locais. Em outras áreas esse direito é assegurado aos pescadores no momento da desova de peixes, camarão e caranguejo. Esse fato tem levado os pescadores infligirem à proibição da pesca nesse período de reprodução e continuarem a pescar e a catar caranguejo como única garantia de sua sobrevivência e de sua família.

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Diante da proletarização do pescador artesanal há uma saída, a sua disponibilização para outras frentes de trabalho. Uns retornam a pequena agricultura e outros passam a se engajar no comércio ou na prestação de pequenos serviços. Na Colônia dos pescadores chegam às reivindicações da camada dos pescadores artesanais. É onde denunciam a invasão das áreas de pesca da Z-23 por outros pescadores, em geral com embarcações motorizadas e como instrumentos mais modernos. A concorrência torna-se acirrada e prejudica a atuação dos pescadores artesanais e as condições de sua permanência. Outra reivindicação é a garantia da segurança no mar. Os pescadores vêm sendo constantemente ameaçados pela presença dos piratas do mar que lhes assaltam levando a produção e seus instrumentos de pesca. Fato que vem inibindo o trabalho e a chegada de novos pescadores nesse ramo de trabalho. A Colônia é o órgão representativo da categoria dos pescadores é vinculada ao Departamento Regional do Trabalho (DRT) e a Confederação Nacional da Pesca. A Z-23 conta com 600 pescadores associados, estando distribuídos na sede de Colares e nas localidades de Mocajuba, Genipaúba da Laura e Ariri. Na sede de Colares há cerca de 300 associados. O trabalho da Colônia é feito no atendimento diário dos associados e na realização de reuniões, onde esclarecem os direitos dos pescadores. É o órgão responsável pelo encaminhamento burocrático das solicitações de aposentadoria e dos benefícios de saúde. Outra situação que vem preocupando os pescadores e a Colônia é a invasão e a depredação da praia de Nossa senhora do Carmo, considerada praia de procriação de peixes pelos pescadores locais. A grande preocupação é com a destruição desse espaço tão importante para a preservação de muitas espécies e assim propiciadora das condições naturais, ambientais necessárias para a continuidade da própria atividade pesqueira. Além dessa situação preocupante, os pescadores denunciam a intensa pesca de arraias abundantes no município e o processo da cata do caranguejo, em que se prioriza apenas a retirada da pata maior e que segundo relato de um pescador, os caranguejos ficam fracos e morrem. São situações que aos olhos dos desavisados podem passar despercebidos ou vistas como acontecimentos isolados, mas fazem

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parte do uso e do manejo irresponsável dos recursos naturais que ainda existem no município e que necessitam serem preservados para a própria continuidade das espécies naturais e do modo de vida tradicional dessa comunidade ribeirinha e cabocla. No contexto de mudanças situamos a persistência da pesca artesanal fragilizada e ameaçada de extinção na medida em que são alteradas as condições naturais e conseqüentemente as condições de produção e reprodução do modo de vida tradicional. Em lugar do tradicionalismo, a emergência de um processo de reordenação social que coloca a modernização à vida urbana, diante de um modo de ser e viver considerado arcaico e tradicional e que tende a ser suplantado; substituído pela incorporação do estio de vida moderno, urbano e global.

CAPITULO III - O COTIDIANO DAS PRÁTICAS TRADICIONAIS NA PRODUÇÃO DA IDENTIDADE RIBEIRINHA 3.1 O Cenário Amazônico nas Últimas Décadas A realidade amazônica no seu aspecto social, econômico e cultural passa por profundas alterações, a partir da década de 1960, momento em que o capitalismo adentra e se expande na região, promovendo a exploração em larga escala das reservas florestais, minerais e hídricas.

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A expansão capitalista se efetiva mediante a implantação de grandes empreendimentos econômicos pela atuação do Estado que se empenha na estruturação e controle da região, criando condições necessárias à penetração do capital e a atuação das grandes empresas nacionais e internacionais. O primeiro grande passo foi à quebra do isolamento geográfico da região que passa a se integrar com o resto do país, através da implantação da rodovia Belém-Brasília. Nesse momento, a política desenvolvimentista volta-se para a industrialização e urbanização do país e da região; vistas então como parâmetros de modernização, cuja referência era o padrão norte-americano. Como resultados dessa inserção da região, a modernização dos transportes e dos meios de comunicação. O planejamento estatal para o desenvolvimento regional privilegiou algumas áreas, que se tornaram alvos de políticas de investimentos por se constituírem em áreas de concentração de reservas naturais em detrimento de outras áreas, onde se verifica um lento processo de desenvolvimento e/ou estagnação econômica. No entanto, diante do processo de modernização da região, todos são afetados de forma direta ou indireta, com maior ou menor incursão da nova ordem, pois todos serão atingidos pelos efeitos da modernização trazidos pelos grandes empreendimentos, como a pesca predatória, a expulsão do homem do campo, a desestruturação das populações indígenas, caboclas, camponesas, a devastação do meio ambiente e o intenso processo migratório intra e extra-regional. São transformações que alteram o modo de vida das populações amazônicas levando a quebra de suas raízes, seus valores e sua identidade cultural, dando surgimento a um novo tipo de organização social que se diferencia do passado, através de um processo de reordenação social. Uma vez que as práticas culturais se alteram quando se modifica o contexto social em que se está inserido. Nessa ordenação, o antigo e o moderno como faces do processo de transição que vem sendo implantado. Sendo nítido a secundarização da cultura popular, enquanto saber tradicional das populações amazônicas. Os grupos subalternos se inserem no processo de modernização de forma desigual e sob o olhar discriminatório de suas práticas, mentalidades e estilo de vida.

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Um processo de reordenação do espaço, do tempo social e o conseqüente deslocamento e fragmentação do processo identitário das comunidades ribeirinhas. Nesse processo de construção de identidade / alteridade que se insere o presente trabalho com o objetivo de compreender o modo de ser e de viver das populações ribeirinhas, em especial a cidade de Colares, enquanto comunidade predominantemente formada por pescadores, extrativistas e pequenos agricultores. Um estudo que de forma preliminar focalizará as resistências e permanências das atividades tradicionais como elementos significativos na afirmação identitária desta comunidade, ainda que em meio às mudanças sociais que se operam nesse espaço nas últimas décadas. 3.2 História, Cotidianidade e Identidade Para a compreensão dos processos de construção e afirmação de identidade no cotidiano atual das comunidades tradicionais reporta-se a uma reflexão teórica com importantes contribuições de Giddens (2000), Carvalho e J.P. Neto (1994), Cuche (1999), Hall (1997) e Robert Darnton (2002). As questões do mundo e da existência humana estão profundamente marcadas não só por uma relação que aponta numa mesma direção, mas por se constituir uma relação imbricada que vai além das aparências. Onde a essencialidade emerge sob o tom da complexidade, da contraditoriedade e da ambivalência da realidade social. O homem ao se localizar no mundo e com o mundo estabelece uma “relação dialética que possibilita ao homem ser construtor do mundo e si mesmo“, (FREITAS, 2002, p.58). Entretanto nessa relação homem / mundo surgem algumas questões como: até que ponto é harmonioso ou não a convivência entre os homens e o mundo que os insere? E, como se revela o campo da intimidade, da subjetividade em relação ao campo objetivo da produção social, cultural e econômico, mesmo considerando que são campos que interagem na formatação do indivíduo e da sociedade? Nessa relação com o mundo, o homem se constitui em um vir a ser, considerando-se o emaranhado de possibilidades, diante da diversidade social e

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cultural. Um contexto que reproduz fatos, valores e costumes, dessa forma introduzindo ou inovando os cotidianos. O cotidiano é aqui concebido como referência a vida de todos os dias e de todos os homens de um determinado tempo / lugar, referindo-se às atividades rotineiras, banais que expressam e fundamentam um modo de existência. Assim, a vida cotidiana é como “aquela vida dos mesmos gestos, ritos e ritmos de todos os dias (inclusive) os sonhos, desejos, insatisfações, angústias, opressão, mas também segurança”, (CARVALHO, 1994, p.23). Nesse ambiente de construção, Agnes Heller afirma que não há vida humana sem cotidiano e cotidianidade. O cotidiano está presente em todas as esferas de vida do indivíduo, seja no trabalho, na vida familiar, nas relações sociais, no lazer etc. (in CARVALHO, 1994. p24). Assim o cotidiano persiste e penetra eternamente todas as esferas da vida do homem, obedecendo-se os critérios tempo, espaço e classe social. O cotidiano nesse sentido constitui-se referência de um homem real numa sociedade real, pois, segundo Heller (1972.p.18) afirma que “o homem nasce já inserido em sua cotidianidade, o amadurecimento do homem significa, em qualquer sociedade, que o indivíduo adquire todas as habilidades imprescindíveis para a vida cotidiana da sociedade em questão”. Neste contexto, o cotidiano é produzido por um conjunto de ações e relações heterogêneas que, ao mesmo tempo se alteram, em função de valores e interesses. O homem ao fabricar um produto cultural se constrói subjetivamente, ao estabelecer uma vinculação entre o mundo interior e o mundo exterior, ou seja, o “eu” e o “mundo”. Isto transparece a produção de um modo de existência social como parte do mesmo processo que envolve as dimensões do abstrato / concreto, do heterogêneo / homogêneo e uma realidade hierarquizada face às possibilidades ilimitadas da renovabilidade social. O estudo da vida cotidiana se volta para a captação do real e da realidade, do sensível, do prático, do vivido e do subjetivo, fornecendo elementos para a compreensão dos “diferentes fatos da vida social (enquanto elementos do devir

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histórico) numa totalidade, se torna possível o conhecimento dos fatos como conhecimento da realidade”, (LUKÁCS, 1974, p. 23 e 24), numa compreensão de uma totalidade em constante movimento de estruturação e desestruturação. Entretanto, permite a percepção do homem “concreto”, ”real” e a objetivação que esse homem faz de sua realidade imediata. Na cotidianidade à produção de sua sobrevivência, o homem estabelece relações que vão além do seu cotidiano. O trabalho nesse processo se constitui fator fundamental do homem e da sociedade, pois o trabalho enquanto prática social é importante para dar atendimento às necessidades humanas e sociais, implicando numa ação coletiva, conseqüente, ao construir uma realidade social dinâmica e flexível a novas transformações. A inserção do homem num contexto social cada vez mais ampliado altera a ação do homem que não se volta somente para a sobrevivência e a produção de sua subjetividade. “O homem é ao mesmo tempo singular e genérico, apenas na vida este ser genérico co-participante do coletivo, da humanidade se encontra em potência, nem sempre realizável”, (CARVALHO, 1994, p.260). Uma vez que a vida cotidiana possibilita a emancipação do indivíduo, ao avançar do singular ao genérico humano, embora se observe que a maioria dos homens não vivencia essa experiência, mantendo-se “mudo” à relação entre “particularidade” e genericidade.
É esse caráter dinâmico da vida cotidiana que permite o “ocaso” o “inesperado” as “resistências” e as possibilidades do transformar, provocar alterações e rupturas que possam subverter a “ordem” e a “lógica da regulação social”, como processo que “eleva os homens dessa cotidianidade, retornando a esta de forma modificada, (CARVALHO, 1994, p.14).

Para Heller, o trabalho, a arte, a ciência e a moral são elementos elevadores do homem e de sua generacidade. O homem se constitui como tal, num contexto histórico, uma vez que a “vida cotidiana não esta fora da história, mas no centro do acontecer histórico: é a verdadeira "essência” da substancia da sociedade”, (HELLER, 1972, p. 20). Na contemporaneidade, o mundo não está passando simplesmente por incessantes mudanças trazidas pela globalização e a revolução tecnológica, mas está atravessando uma “transição” histórica que impõe uma nova racionalidade em quase todas as partes do mundo. Fazendo ruir o que, até então, era visto como

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“estável”, “seguro” e “ordenado” e emergir como afirma Giddens “um mundo em descontrole” pelas “mudanças e riscos que alteram as condições de existência, afetando onde quer que vivamos, não importa quão privilegiados ou carentes sejamos”, (GIDDENS, 2000, p.15). No cenário em que as tradições, costumes e culturas milenares como: danças, ritos, cerimônias e vivências religiosas de algumas comunidades estão sendo “apagadas” ou “suprimidas” pelo ímpeto das mudanças globais. Um contexto que requer uma nova abordagem, uma nova percepção desse processo de transitoriedade. O viéis histórico centrado no aspecto cultural ao aliar-se a outros campos como a antropologia vem referendar a compreensão do “real social”, valorizando a história do presente. Uma vez que a “força do presente” questiona constantemente e impõe uma nova compreensão da história, nesse presente contexto, o papel da História e do pesquisador são o de possibilitar a compreensão dos “imensos vazios culturais deixados pela avalanche das transformações, se não com o resgate das vivências e tradições, pelo menos na compreensão crítica dos processos ocorridos”, (COUCEIRO, 2002, p. 13). Robert Darnton desenvolve estudos com estreita ligação com o antropólogo Clifford Geertz, ao valorizar os elementos subjetivos e valorativos, para desvendar a realidade social. Enfatiza a compreensão da “condição humana” e do “sentido da vida”, procura traduzir o conteúdo simbólico das ações humanas e ler a realidade social, a partir dos significados, como condição para captar o caráter simbólico dos fatos, ou o que está por trás dos acontecimentos. Seu estudo volta-se para a compreensão de “como as pessoas comuns entendem o mundo”, (COUCEIRO, 2002, p. 27). Essa concepção acima mencionada percebe a subjetividade constituída por meio de mediações sociais que implicam necessariamente na relação com o outro. A subjetividade é resultante da ação significativa que expressa e produz um jeito se ser e que adquire sentido numa “rede relacional” num contexto de proximidade ou oposição, numa dada realidade social.

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A identidade de um grupo específico se dá numa construção social e histórica, envolvendo diferentes dimensões: “material / simbólica, objetiva / subjetiva, individual / coletiva, da realidade social. Num dado contexto, constrói-se o significado cultural que norteia o processo de identificação / distinção sócio-cultural”, (CRUZ, 2004, p 01). A identidade se afirma pela linguagem, pelo imaginário e pelo consenso de se reconhecer como tal, embora sua identificação se afirme diante da diferença do “outro”. Assim, processo de construção de identificação de um determinado grupo passa pelo reconhecimento e internacionalização de valores que dão substância à vida social. 3.3 O Processo Identitário em Colares O estudo se reporta a realidade da Cidade de Colares, onde se faz presente práticas sócio-econômicas tradicionais e práticas e padrões baseados no estilo de vida moderna, como conseqüência das transformações econômicas, sociais e culturais que têm marcado o espaço regional. Um espaço que vem possibilitando uma reordenação social, no qual a herança do mundo antigo e as novas circunstâncias sociais do mundo moderno coexistem, gerando novas adaptações, novos estilos de vidas, instaurando-se novas identidades. A Cidade de Colares constitui-se em uma ilha, situada a nordeste do Estado do Pará, às margens da baía do Marajó, na região do Salgado separando-se do continente pelo furo da Laura e o Rio Guajará-Mirim, estando a 100 km de Belém por via rodoviária. Historicamente, a cidade surge pela atuação das missões religiosas, voltadas para a catequese das populações indígenas, os Tupinambás e posterior colonização, mediante o estabelecimento de aldeamentos, destinados à ocupação e exploração econômica nos meados do século XVIII. Observando-se o poderio econômico dos Jesuítas que “ofuscava a hierarquia e a fortuna dos colonos”, (ACEVEDO, 2004, p.39). A fundação oficial de Colares data de l751, quando da criação da freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Colares. Em l757, eleva-se a categoria de vila com vinculação administrativa ao município de Vigia com uma população de 175 índios,

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segundo informações de Baena. Desde 1775, encontram-se registros sobre a existência de comunidades pesqueiras na zona do Salgado, na Costa Oriental do Marajó. Além da população indígena, a ocupação de Colares foi marcada pela diferenciação étnica pela presença de mamelucos, cafuzos, mulatos e brancos. Essa diferenciação decorrente do processo de mestiçagem é importante na produção de mão-de-obra barata para o dinamismo da colonização da região do Salgado pelo importante papel econômico na era colonial. Essa fusão étnica vai contribuiu para um “entrelaçamento” dos diferentes grupos promovendo uma vinculação cultural própria, que localiza esses indivíduos nesse espaço social, atribuindo-lhe uma singularidade no modo de ser e de viver. A pesca e a pequena roça foram atividades centrais na ordenação dessa comunidade, que se manteve de maneira estável por séculos. Um tempo demarcado por rituais e repetições de ações, práticas e costumes, que garantiu o tradicionalismo como força da identidade ribeirinha, cabocla. A identidade ribeirinha se construiu no momento em que a comunidade internalizou valores e significados, construindo sentimentos subjetivos de “pertencimento” ao lugar e a vida social e cultural. As condições geográficas e ambientais desse município, sua proximidade com a baía do Marajó, o Oceano Atlântico e a presença de um ecossistema aquático diversificado por praias, igarapés, manguezais e vastas áreas florestais tem possibilitado a essa população desde os primeiros tempos, a sobrevivência, através de práticas tradicionais em que o extrativismo e a agricultura garantiam a subsistência da população local. Entre as atividades tradicionais, o destaque a pesca artesanal, como fonte de trabalho, renda e alimentação de uma parcela significativa da população que, embora prevalente, se complementa com as demais atividades tradicionais como a cata do caranguejo, a extração de frutos e madeiras; o que tem garantido a sustentação econômica, social e cultural desta comunidade. A partir dessas práticas, os habitantes de Colares vêm desenvolvendo um processo social, mediante a adaptabilidade aos recursos naturais, uma historicidade própria na relação baseada no trinômio: homem, trabalho e natureza, que se traduz por um estilo de vida própria.

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Observa-se um lento processo de crescimento e a garantia dos padrões culturais eminentemente caboclos, numa comunidade que por décadas se manteve num certo “isolamento” devido às condições de transporte e comunicação, possível somente por navegação fluvial, o que levou os moradores a viverem em torno de um “micro-mundo”, considerando-se que a vida se reportava a pequenos grupos. A partir da década de 1970, Colares passa a vivenciar os efeitos de incursões modernizantes na região amazônica com repercussão direta no nordeste paraense. A pesca artesanal desde os tempos coloniais era elemento de sustentação da vida material e social, mas a partir desse período sua sobrevivência passa a ser ameaçada. Embora os pescadores continuem tendo livre acesso ao mar, altera-se o contexto em que se dá a pesca pela introdução das redes malhadeiras de nylon elevando a produção pesqueira, antes realizada somente com instrumentos tradicionais. O pescador se depara com novos instrumentos, novas práticas e, sobretudo, uma nova lógica trazida pela penetração do capital. A implantação da pesca industrial com utilização dos barcos de grande porte que invadem as áreas tradicionais de pesca artesanal, aumentando o ritmo de captura do peixe que se voltava agora para a indústria pesqueira. A pesca de “arrasto” que altera os “estoques pesqueiros e cadeias tróficas são comprometidas em seu ciclo biológico”, (FURTADO, 1994, p.11). Um novo contexto que altera as “condições de permanência dessa comunidade com sua organização social, pois se elimina as condições objetivas, destruindo-se as possibilidades de reproduzir-se” (MANESCHY, 1995, p.58). A chegada dos caminhões frigoríficos provocou alterações significativas no município de Colares, pois a demanda de uma produção maior exigia um investimento maior nessa produção. Um momento no qual se amplia o comércio com intermediários. A partir desse novo contexto, os pescadores passam a enfrentar uma série de problemas com a concorrência com a pesca industrial, tais como: a escassez do pescado; a necessidade de migração para outras áreas de pesca; deixam de serem pescadores autônomos para se tornarem trabalhadores assalariados da pesca, ou

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são forçadas a abandonar tudo e buscar os centros mais dinâmicos na busca de emprego e melhores condições de sobrevivência. Entretanto, os que continuam como pescadores artesanais em Colares almejam uma política pública que lhes garanta melhores condições de trabalho, de sobrevivência e de segurança contra a pirataria do alto mar. Preocupação essa expressa, quando da inauguração da nova sede da Colônia dos Pescadores. Retirando-se os “discursos políticos” a presença massiva dos pescadores de Colares nesse evento, aponta para o auto reconhecimento dessa categoria de trabalhadores do mar. Naquele momento, a sede significando um espaço para uma melhor organização e reivindicação do direito para continuarem existindo como tal. Na cidade de Colares é rotineira e comum a presença dos pescadores e da comunidade na “Beira-mar” ou no “mercado” em pequenos grupos em momentos de prosa de conversa. Um momento só deles, onde compartilham experiências e se reconhecem como iguais. Como se estivessem com os pés na terra, mas com os olhos voltados para o mar. Observando-se a força do “rio” na vida dessa comunidade. Uma interferência não só física, mas simbólica na construção desse homem ribeirinho. A esse respeito Loureiro (1995, p.121) esclarece:
Os rios na Amazônia consistem em uma realidade labiríntica e assumem uma importância fisiográfica e humana, conferindo um ethos e um ritmo à vida regional. Dele depende a vida e a morte, a fertilidade e a carência, a formação e a destruição de terras, a inundação e a seca, a circulação humana e de bens simbólicos, a política e a economia, o comércio e a sociabilidade. O rio está em tudo.

Este contexto de mudanças na década de 1970, com a expansão rodoviária no nordeste paraense, possibilitaram a ligação de Colares ao continente e melhoraram a comunicação com outras áreas, facilitando o acesso a bens e serviços, em outros espaços considerados dinâmicos, entrechocando-se duas realidades distintas: uma pautada no tradicionalismo e a outra que leva a modificação dos costumes tradicionais, ao estilo mais moderno, à vida urbana presente nas cidades maiores. A articulação rural-urbana reforçada pelo processo migratório aos centros urbanos pela busca de trabalho e melhores condições de vida. A estrada também possibilitou a chegada dos veranistas, turistas que adentram o município nos finais de semana, feriados, férias, tornando-se, uma cidade balneária, possibilitando o confronto com um mundo maior, com outros valores e

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estilos de vida, a vida moderna, a vida urbana, que se contrapõem aos padrões locais. É marcante a diferenciação dos “nativos” e do povo que vem de “fora”. No entanto, é forte a identidade sócio-cultural da comunidade de colares, pois repousava no sentimento de “pertencimento” e a vida transcorria em torno dos interesses e necessidades da população local. Nas últimas décadas, com o maior fluxo de turistas e da interferência maior da mídia eletrônica, a tevê, o rádio, e a grande imprensa pela persuasão dos padrões do mundo global e com ele a diversidade cultural mais ampla, fragilizou o ideário que dava sustentação ao mundo caboclo e que a partir de então, essa população passa a se reajustar aos ideários e às necessidades capitalistas, secundarizando, ou até abandonando a identidade cultural local, com a adoção de atitudes de negação ou desconsideração da cultura local. Assimila-se um novo estilo de vida, de organização, passando haver uma dicotomia entre o mundo dos mais velhos e o mundo dos mais jovens. Os jovens passam a se identificar com o “novo”, com os padrões dos grandes centros, deixando no passado a herança cabocla, identificada como coisa de “velho”. Neste processo de mudanças significativas se percebe novas formas de adaptabilidade entre o mundo antigo e o mundo moderno e um deslocamento da identidade ribeirinha, que se fragmenta diante de tantas situações impactantes, sobretudo, porque a formação e afirmação do “eu” se dá a partir do olhar do outro. As populações tradicionais passam a ser vistas sob o olhar preconceituoso de suas práticas e modo de vida. Vistos aos olhos da modernidade como uma cultura “antiga”, “tradicional”, “inculta” e “rude”. Em nível do saber, há o saber tradicional e o saber mais sistematizado e todos os povos possuem dois tipos de conhecimento: um oficial, regular, sistematizado, ensinado na escola, na igreja e o não oficial, o tradicional, anônimo, independente do ensino sistematizado, trazido nas vozes das mães, nos cantos da caça e da pesca, estando presente na memória coletiva, nas manifestações culturais e repassado as gerações presentes pela oralidade, sobretudo no meio rural. Neste espaço, em que o moderno tenta suplantar o tradicional, muitos traços da cultura ribeirinha que se expressam com muita força, como as práticas e

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atividades eminentemente tradicionais como a pesca, a agricultura de subsistência, o extrativismo, as manifestações religiosas, como as festas dos santos padroeiros e ladainhas e no campo místico lendas e histórias que justificam a mentalidade cabocla. O tradicionalismo se faz presente ainda que sem brilho, quase “apagado” pelos impactos das mudanças. O modo tradicional emerge em muitas situações, como o jeito de falar e valores que marcam a convivência social. Em conversas com um jovem dessa comunidade ele afirmou:
Tiro da floresta, dos manguezais a minha sobrevivência. Conheço o mato, conheço muitas plantas medicinais, aprendi com minha avó, mas sou letrado, tenho o magistério. Mas quando eu estou no mato com o povo de lá, falo que nem eles. Se falar diferente eles não vão entender, lá sou que nem eles.

Esse jovem se vê diferente do povo que vive próximo da mata, do extrativismo. No entanto, sobrevive dessa atividade tradicional, na relação com os “outros” termina se tornando um deles. Na verdade apresenta uma identidade híbrida. Concilia o “velho e o “novo”. Embora “não são e nunca serão unificadas no velho sentido, são produtos de várias histórias e culturas interconectadas pertencem a uma, e ao mesmo tempo, a várias “casas”, (HALL, 1997, p.89). Num contexto de mudanças, as identidades se tornam “móveis”, na medida em que se localizam, segundo as exigências de cada contexto situacional. São identidades “posicionais” que se constroem num “contexto relacional”. Alguns segmentos da comunidade de Colares se posicionam de forma bem definida em relação à manutenção do tradicionalismo ou em defesa de uma modernização e maior dinamismo para a cidade. Um “fato” ou um possível fato, a construção da Ponte que ligará Colares a Penhalonga, substituindo a morosa travessia de balsa, tem arregimentado forças, posições contrárias e favoráveis. O senhor Antônio, 68 anos, “filho de Colares” diz ser contrário a construção da ponte. “A ponte vai trazer tudo o que não presta para a cidade e acabar com a nossa paz”. Transparece nessa posição a necessidade da manutenção da vida

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pacata tradicional e o “mundo’ que ainda é deles. Sua oposição reflete o desejo de retardar as possíveis mudanças trazidas pelo fácil acesso à ilha de Colares. Seu Antônio se insere no grupo que vive no presente, mas se atrelando ao estilo da vida do passado. Nesse sentido, a tradição continuou a ser apoiada enquanto puderem ser justificadas, como referencial de uma identidade particular, (GIDDENS, 2000, p. 55). O senhor Saraiva, comerciante local, assim como parte da sua família, se posiciona a favor da construção da ponte. Segundo ele “a ponte vai trazer um grande desenvolvimento. Colares vai progredir, mas muita gente é contra, acham que a ponte vai trazer muita gente que não presta. Mas sem a ponte já existe muito aqui”. O Senhor Saraiva, embora “filho de Colares” demonstra a sua desvinculação ou desatrelamento ao estilo de vida local. A ponte se reveste de outro sentido ou significação. Para esse comerciante, a ponte vai facilitar a chegada de mais pessoas e maior dinamização do comércio. Defende uma articulação maior de Colares, com espaços mais dinâmicos, o que demonstra o desejo a uma vinculação de valores diferenciados dos padrões daquela comunidade. A professora Tereza apresenta outra perspectiva para o município com a construção da ponte. Para ela “a ponte só vai ser importante se viver junto com um projeto de ecoturismo para o município e que venha gerar emprego para a região”. Embora, aposentada, a professora Tereza é muito envolvida nas atividades de educação, da igreja e de atividades culturais. Emite uma posição que passa pela mudança, mas sob a ótica da organização política e econômica. Percebe a chegada da ponte como um empreendimento para a cidade que venha beneficiar a população do município. A professora sob o olhar da modernidade defende um desenvolvimento local que venha garantir a sustentabilidade dessa comunidade tradicional. 3.3.1 A identidade Ribeirinha: Algumas Perspectivas

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A expansão da economia "capitalista vem alcançando as mais remotas regiões do planeta, transformando-as em verdadeiras "aldeias globais" mesmo em áreas que não são afetadas diretamente as ondas modernizantes chegam e alteram as economias de subsistência, é um processo que comprime e submete a cultura local aos ideários da mundialização, que amplia as desigualdades entre "centro" e "periferia" reforçando de um lado, um mundo de "prosperidade" e de "vencedores" e do outro, um mundo de "miséria" e de "perdedores". Entretanto, a tendência que aponta para certa "homogeneização global" que altera a vida local, traz também para o centro dessa globalização, o ressurgimento de culturais tradicionais, pois a inserção desigual nesse cenário faz emergir resistências e conflitos que se contrapõem a essa tendência. Fazendo ressurgir a valorização do "étnico-cultural" como elemento diferenciador nessa inserção global. Em Colares a vinculação ao rio, a mata e a roça desde os tempos coloniais vem se constituindo em elemento precípuo na história de vida dessa comunidade tradicional. No entanto, nas últimas décadas a reestruturação sócio-econômica da Amazônia trouxe repercussões para a Zona do Salgado. Vem promovendo mudanças e suprimindo as condições objetivas, onde se efetivam as atividades tradicionais como: a concorrência da pesca industrial que ameaça a sobrevivência da pesca artesanal; a expansão da ocupação do município, através de loteamentos urbanos e a implantação de pequenas e médias propriedades com repercussões diretas no meio ambiente, com a devastação de áreas verdes tão necessárias às atividades extrativistas. A agricultura familiar caracterizada pela pequena roça com baixa

produtividade e rentabilidade volta-se prioritariamente para a produção da farinha de mandioca, complemento básico da alimentação da população local. Diante da frágil consistência das atividades tradicionais, a prefeitura local no biênio 2005/2007 implementou projetos em parceria com diversos órgãos públicos, com o objetivo de dinamizar a agricultura, com a introdução da mecanização e uma produção consorciada. Nos roçados de mandioca foi se introduzindo o plantio de melancia, feijão, mudas ornamentais para reflorestamento, plantação de açaí, cupuaçu, banana e pupunha para a extração de palmito. Outro projeto implantado que já vem

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dando resultado é o projeto de apicultura em quatro localidades rurais. São projetos em parceria com os governos estadual e federal. Na área da pesca, o projeto de produção de filé de peixe em fase inicial de implantação visa valorizar a pesca e a comercialização do pescado. São projetos que colocam os grupos envolvidos diante de novos conhecimentos e práticas e que segundo o prefeito da cidade de Colares vai mudar a mentalidade cultural do município. Em nível cultural, a Secretaria de Cultura vem incentivando grupos e pessoas que detêm o conhecimento de danças folclóricas e tradições do município para revitalizá-las, a fim de que não se torne esquecidas. Observando-se o ressurgimento de grupos de carimbó e quadrilhas juninas. Essas ações, embora iniciais, esboçam uma espécie de valorização das coisas e das potencialidades do lugar. Traduz-se por um "certo" resgate do passado, da tradição, ainda que sob a perspectiva inovadora, modernizadora que atuará diretamente no processo de transformação da identidade local, pois provocará um processo de reordenação tanto sócio-econômica quanto cultural, na medida em que esta comunidade começa a se abrir a "novidades", a inovação social e a modernização de suas práticas, tornando-a mais flexível aos fenômenos de "fusão" cultural ao reunir aspectos da cultura tradicional e aspectos da cultura moderna. Observa-se neste contexto atual um processo de "reencontro de identidades” diante de tantas mudanças postas ao município e a sua população tradicional e que, por conseguinte gerará novos processos identitários. Transparece que a permanência do tradicionalismo como se fosse uma "casca" que permanece, mas o seu interior se reveste das mudanças impressas ao longo do tempo. A presença do antigo se inserindo e se adaptando ao "novo" num processo dialético entre "identidade" e "alteridade". No contexto relacional entre o tradicional e o moderno, refletirá a relação de força e poderá atribuir maior legitimidade a "auto-identidade" ou a "heteroidentidade, pois é o poder de "afirmação "que determinará maior poder, maior força na imposição e definição de "si mesmo".

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Na cidade de Colares, em meio a tantas circunstâncias que imprimem mudanças, observam-se sinais visíveis de alterações da vida pacata e tradicional. Torna-se necessário um acompanhamento dos efeitos ou dos impactos desse processo de "reinvenção do tradicional" em um contexto completamente "novo" distanciado das condições do passado e um questionar sobre os interesses que estão por trás desse processo e para quem se dirige. A população eminentemente tradicional ou a "outros grupos interessados em se engajar nesse novo processo, são questões essenciais para uma compreensão do sentido e do significado de que vem se instaurando junto à população desse município. Embora não exista uma identidade cultural "em si mesma", "estável" e "definida, pois o reconhecimento de pertencimento só se constrói na relação com o "outro", na cidade de Colares há o estabelecimento de uma nítida diferenciação entre o "colarense" e os "outros" que chegam e se estabelecem nesse território. Há, no entanto, uma realidade social contraditória, se de um lado existe o reconhecimento social que se destaca e que ainda dá sustentabilidade e referência a essa comunidade, que é ser "pescador”, "agricultor ou dono de roça" e extrativista, por outro lado, a exposição dessa comunidade a contatos freqüentes com outras áreas mais dinâmicas, com levas de visitantes que chegam ao município nas últimas décadas e, sobretudo, diante do poder de persuasão da mídia eletrônica que tem colocado essa localidade frente aos padrões de vida do mundo moderno, global, e assim frente à diversidade cultural que, de certa forma, vem fragilizando o ideário que dá sustentação a vida tradicional. Outro aspecto que se insere no contexto tradicional / moderno é a dicotomia entre o mundo dos mais "velhos" e o mundo dos mais "jovens". Os jovens passam a se identificar com o "novo", com os padrões dos grandes centros. E nesse contexto de modernização a herança cabocla vem sendo vista como coisa de "velho", do "passado". Há uma adaptabilidade aos ideários e necessidades do capital que, ao mesmo tempo, leva a secundarização ou abandono da cultura local. Esquecendo-se que a cultura cabocla não revela somente a tradição, mas sendo resultante de uma história socialmente construída por essa comunidade.

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CAPÍTULO IV - POLÍTICA SOCIAL: SEUS REFLEXOS NA MANEIRA DE VIVER DE UMA COMUNIDADE TRADICIONAL 4.1 Política Social e o Poder Público O Estado ao se concretizar na relação com a sociedade assume conseqüentemente alianças com os diversos segmentos sociais que expressam naturezas e interesses conflitantes.

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A adoção de políticas públicas está relacionada diretamente ao espaço de luta pela hegemonia do Estado, num contexto onde se dá um processo de dominação e busca de consenso, um espaço contraditório funcionando como mecanismo de consenso e relacionamento junto à população dos programas e ações do Estado, assim como forma de regulação de conflitos advindos da relação capital-trabalho e demais confrontos sociais. O Estado busca através de suas políticas sociais sua legitimação frente aos movimentos e pressões sociais, ao mesmo tempo em que reforça seu domínio e poder como unidade de força e hegemonia. Nos países centrais, a sociedade é organizada e estruturada como mecanismo de pressão que reconhecido ao longo do processo histórico tornam-se fundamentais para a defesa de seus interesses e torna a sociedade menos vulnerável às intempéries da economia capitalista, embora seja marcada por contradições e lutas de classes. Tem-se observado que nos momentos de crise, o Estado assume liderança frente aos interesses econômicos, como elemento fundamental para a reprodução do capital e a manutenção das contradições inerentes a esse processo. As políticas sociais adotadas pelo Estado capitalista tendem a representar tanto as demandas de acumulação, a manutenção dos setores hegemônicos, quanto ao atendimento das demandas sociais dos setores populares da sociedade dado a realidade antagônica entre capital-trabalho e que determinam pelas lutas, sobretudo trabalhistas. O contexto social é assim marcado por um “campo por excelência dessa luta de articulação / desarticulação, de discussão e prática, como a busca de participação de igualdade, de justiça e de direito”, (VASCONCELOS, 1998, p.13). No âmbito dos países periféricos, as políticas sociais mesmo assumindo formas diferenciadas procuram seguir o modelo adotado nos países centrais, sobretudo no que diz respeito às políticas do bem-estar, mesmo sem que dispusesse de uma estrutura adequada, um aparato fiscal para tal proposição. Uma prática que vem impedindo que sejam elaboradas propostas regionais e locais.

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Diante de um quadro de desigualdade social e econômica aguda, as políticas sociais ao se esbarrar numa estrutura fiscal deficiente tendem a ser focalizada e descontínua, a que vem reforçando a irresponsabilidade do Estado frente à questão Social. No entanto, os países periféricos pela sua dependência econômica têm assumido o papel de destaque na modernização econômica e na hegemonia política revestindo-se de um papel de interventor “aos primeiros sinais de emergência da chamada questão social. O Estado é chamado a intervir antecipando as políticas sociais e impedindo que essas sejam resultantes de um processo de mobilização e participação da sociedade. Dessa forma assume o papel de mediador de conflito principalmente aqueles que venham colocar em risco a dominação burguesa. A cidadania, nesse contexto de antecipação, não é assegurada enquanto direito econômico, político e social. 4.2 Brasil: Assistencialismo e Proteção Social. No Brasil, a questão da assistência está inserida nas políticas públicas. Assim o caráter assistencial se revela como marca das políticas sociais enquanto área de investimento do Estado. As políticas sociais brasileiras revelam-se a partir das relações estabelecidas pelo Estado, sociedade e a economia e, sobretudo, pelo contexto de desigualdade social e dos processos de pauperização da população fazem emergir estratégias oficiais para dar respostas às necessidades da população. E sob outro enfoque, as políticas sociais se caracterizam como meios que oportunizam o acesso dos setores populares para o enfrentamento da miséria. A política social passa a ser inserida nas Constituições Federais nos anos de 1920 e se tornaram mais expressas no governo de Vargas. São políticas que se inserem no processo da reprodução da força de trabalho, da acumulação e no âmbito dos direitos sociais. É a partir de 1930, no governo Getulista, a questão social é reconhecida e assumida pelo Estado mediante a implantação de políticas públicas.

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No período de l930 a 1960, dentro de um contexto populista e nacionalista, o Estado passa a adotar medidas protecionistas em relação à economia e a questão social. São medidas visando à reestruturação econômica via desenvolvimento industrial e medidas sociais pela concessão de direitos, sobretudo dentro da política trabalhista. Nessa década (1960) o governo brasileiro organiza um arcabouço institucional para a execução de políticas sociais, na verdade, as políticas sociais apresentam-se fragmentárias, setoriais e apresentam como finalidades a legitimação dos governos do que atender as reivindicações da sociedade, num sentido de estabelecer e consolidar as bases sociais de quem estar no poder. No período da ditadura militar (1964 – 1982), adota-se o modelo de uma política de controle do que de garantias de direitos. É o momento em que a nação está sob o poder burguês-militar, cuja finalidade é modernizar o país e implantar o capitalismo avançado. O Estado adota políticas assistenciais, industriais tecnocráticas e militares voltadas para o atendimento de setores considerados influentes e estratégicos. A partir de 1988, o momento político é marcado pela abertura política e pela crescente participação social e política da sociedade em prol da garantia de direitos sob a responsabilidade do Estado. A constituição de 1988 surge como instrumento legal de ampliação e legitimação de direito social, político e trabalhista entre outros. Embora as políticas públicas beneficiassem apenas alguns seguimentos. Após esse momento de mobilização da sociedade, no plano político inicia-se o desmonte do Estado e o corte de verbas aos programas sociais. Minimiza-se a responsabilidade do Estado, descentralizando suas ações, ao transferir responsabilidades públicas para setores privados, através dos órgãos da sociedade civil que passam a executar programas e serviços sociais. A ampliação dos direitos passa a ser atacado pela classe dirigente e conseqüentemente suprimidos vias reformas constitucionais e medidas provisórias do governo e direitos conquistados há décadas pelos movimentos sociais.

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A década de 1990 é marcada pela atual crise econômica e a incorporação da chamada política neoliberal nos países periféricos, ao se deparar com a inserção da economia nacional ao mercado mundializado sujeitando a economia brasileira aos interesses desse mercado, o que tem provocado desestruturação econômica pela redução das exportações, a instalação de níveis nunca vistos de desemprego, a redução da ação do Estado nas questões econômicas e sociais, ao mesmo tempo em que se privilegiam os grandes grupos que lideram a economia nacional e internacional. No plano social, a garantia dos “mínimos sociais” a setores específicos, a garantia dos direitos aos diferentes, aos vulnerabilizados representados pelos novos atores sociais, o que deixa claro a supressão da universalização dos direitos sociais. 4.3 As Políticas Sociais sob os ditames Neoliberais. O ideário neoliberal traz um novo / velho olhar sobre o Estado, a sociedade, a economia e a questões relativas à ordem social, mercado, justiça e direitos sociais, ao reportar-se aos princípios do liberalismo, caracterizando-se como volta ao conservadorismo, ao quebrar com a função do Estado com a redução dos gastos públicos com programas e projetos sociais, ao mesmo tempo em que determina a liberação de qualquer regulação por parte do Estado, da economia e do mercado. A atuação do Estado na ordem social será em casos em que esta ordem esteja ameaçada. Entendendo-se a ordem social como resultante do equilíbrio do mercado econômico. Sua meta principal é a preservação da sociedade capitalista, o que tem secundarizado aos interesses das camadas populares. A própria concepção de “Estado mínimo” se organiza segundo a lógica do mercado, que passa a permear todas as relações sociais numa nova realidade em que as políticas sociais passam a ser determinadas pelos interesses estratégicos do mercado, na qual, as políticas sociais estão dentro dessas orientações e dos ajustes econômicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) ou do Banco Mundial que impõem as regras na condução econômica e social dos países credores.

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Nesse sentido, os direitos sociais e justiça social são percebidos dentro da visão de que o acesso a bens produzidos pela sociedade é determinado pela habilitação e sorte individual. O Bem-estar nesse contexto individualista está diretamente relacionado pelas possibilidades de cada individuo tem de adquirir bens pelo seu próprio esforço. As ações do Estado em relação à efetivação de políticas sociais em busca do equilíbrio e da justiça social são arbitrárias e sem precisão de planejamento ficando sujeito ao poder de pressão dos diferentes grupos sociais. Segundo Bianchetti (1997), para os neoliberais as “políticas sociais do Estado vêm aumentando seus gastos e como conseqüências produzem um aumento da pressão fiscal sobre os setores possuidor de capital (e) que não são beneficiados diretamente com essas políticas”. Logo de nenhum interesse da classe majoritária política e economicamente. Entretanto, se de um lado o cenário das políticas seguem as restrições neoliberais, por outro, a participação de segmentos da sociedade civil que organizadamente vem exercendo papel fundamental na formulação, gestão e controle social dessas políticas neste momento de reorganização econômica e a adequação da sociedade. A participação da sociedade através de organizações sociais nos diferentes âmbitos e setores engajadas na construção da democracia e na defesa e ampliação de direitos sociais. Entre essas organizações destacam-se os conselhos de gestão setorial das políticas sociais, considerados inovadores rumo à democratização da sociedade por sua composição paritária entre os representantes da sociedade civil e do governo que assumem o caráter deliberativo e de controle social ao inserir a sociedade civil na gestão pública. Embora a conjuntura atual venha sofrendo as incursões da reforma neoliberal, que passa a delegar os esforços de representação coletiva, como os conselhos e conseqüentemente o controle do estado pela ação de grupos organizados por setores majoritários passam a pressionar e controlar as decisões políticas em direção a seus próprios interesses.

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Embora essa contracorrente seja uma nova prática não reduz ou anula a importância dos conselhos e suas funções mediadoras entre o Estado e a sociedade. Uma vez que garante a participação e os interesses populares através das discussões, questionamentos e diálogos que se estabelecem na esfera estatal, que na realidade promovem a publicização da “coisa pública”. Na adequação do estado e sociedade frente à nova ordem, outra prática se instala no país e que a partir da constituição de 1988 passa a ser institucionalizada, é o processo de democratização via descentralização das políticas sociais e que mesmo significando processos distintos vem sendo implantadas nas diversas esferas do governo. É freqüentemente relacionada à descentralização, a transferência de responsabilidade e recursos da área federal, a municipalização em relação à implantação e gestão de políticas mediante programas e serviços sociais. Nesse contexto assume relevância a municipalização, enquanto processo de descentralização, ajustes do sistema de proteção social, como estratégia que vem possibilitando o alcance de maior eficiência e equidade dos serviços prestados. Daí, a importância e o papel dos conselhos como controladores de direitos e de execução de política na área da saúde, educação, criança, adolescência e assistência enquanto espaço de representação dos interesses da sociedade e de sobremaneira dos grupos subalternos. Como força de pressão diante do Estado, sociedade e do avanço das imposições neoliberais como verdade suprema e irrefutável que vem suprimindo direitos, conquistas e naturalizando a miséria, a exclusão social e a violência. Nas últimas décadas, o programa de transferência de renda constitui-se marca da política social. É retratado, sobretudo, pela assistência financeira ao trabalhador como abono salarial, seguro-desemprego e os benefícios de prestação continuada. Em 1991, o projeto de Lei N. 80/91 instituiu o programa de garantia de renda mínima e os Estados e Municípios passaram a implantar programas de transferência às famílias pobres. Em 2001, o Programa Bolsa-Escola vinculada à Educação é considerado o maior programa de transferência de renda no país.

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O Seguro-desemprego, o Benefício de Prestações Continuadas - BPC e outras transferências monetárias do Sistema Brasileiro de Proteção Social enquanto benefícios de caráter assistencial eventual, pontual e emergencial destinam-se ao atendimento de populações pobres em situação de vulnerabilização. No início do século XXI, o programa de transferência de renda constitui-se estratégia principal da política de assistência social, que tem como foco a inclusão, a promoção da equidade dos usuários e grupos específicos ao proporcionar o acesso a bens e serviços, mediante a implementação de programas, projetos e benefícios de proteção social básica e especial. No espaço rural, as políticas de desenvolvimento são as marcas da diversificação de atividades agrícolas ou das práticas tradicionais. Como também pela inserção de novas atividades produtivas. Na cidade de Colares se observa entre os processos de mudanças a atuação do poder público local, mediante a efetivação de políticas públicas econômicas e sociais diretamente vinculadas ao processo de expansão capitalista e como mecanismo de desenvolvimento local, um cenário no qual emergem problemas sociais advindos da relação capital-trabalho e por sua magnitude traz para o poder local demandas de toda ordem. O caráter descentralizador e municipalizador das políticas públicas possibilitam a autonomia da administração local ao conceber o espaço local como “lócus” onde emergem problemas e soluções, constituindo-se espaço privilegiado à prestação de serviços básicos. Na cidade de Colares se indentificam os impactos dessas políticas na maneira de ser e viver dessa comunidade tradicional. 4.3.1 Política educacional A política educacional correspondente à atuação do Estado frente aos problemas e dilemas presentes no campo educacional está no contexto das políticas sociais que vem sendo implementadas pela esfera estatal. É um processo que envolve sistematização, conceitos, posturas ideológicas e metodológicas que se revelam a cada momento histórico, a cada realidade social.

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As políticas educacionais passam a ser efetivadas, a partir do momento em que o sistema educacional é organizado sob a responsabilidade do Estado, embora a educação nem sempre seja formal ou sistematizada. A política educacional se configura como tal, a partir de uma diretriz formal que direciona, imprime a organização, a ideologia e os procedimentos metodológicos na construção do saber. Na realidade, a formulação de uma política educacional e sua execução pressupõe uma práxis social com intenções e proposições. Assim, não está desvinculada das relações de poder e seu processo de reprodução, pois ao emergir das contradições presentes na sociedade, representam respostas para conter ou diminuir problemas sociais e assim resultam em ações políticas a cada momento, diante de situações emergenciais. Transparecem nessas políticas seu atrelamento a questão do desenvolvimento ou a situação diretamente relacionada a esse processo, sejam voltadas para a expansão econômica, sejam para a correção de distorções frente às novas necessidades de mercado. Assim, as verdades, as metas, as finalidades se adequam a um determinado momento e se desfazem diante de novas necessidades ou situações que precisam ser enfrentadas, embora sempre atreladas à dinamização da economia e assumindo ao mesmo tempo o papel mediador entre os interesses econômicos e os interesses da sociedade. A educação brasileira, nas últimas décadas vem passando por profundas mudanças diretamente relacionadas à reorganização da economia capitalista e os ditames neoliberais. Nesse campo de atuação do Estado as imperiosas orientações de organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional - FMI e Banco Mundial que passam a avaliar, redirecionar o sistema de ensino brasileiro e a propor projetos reformadores. A educação passa a ser vista sob outro prisma, um novo olhar, deixando de ser vista como direito, mas como campo de prestação de serviços e que na ótica da nova ordem, transforma-se num bem que se tem acesso pela aquisição e compra, onde a atuação do Estado se dá de forma assistencialista para os segmentos sociais sem poder aquisitivo, reforçando o ideal privatista da educação.

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Se de um lado incorpora-se a dimensão do público não estatal para referendar a importância pública dos empreendimentos privados e assim justificar a ampliação da educação no setor privado, observa-se também o descaso com que o governo promove o ensino público sem qualidade, reforçando o reconhecimento da eficácia do setor privado; por outro lado, tem-se a obrigatoriedade do Estado na condução da Política Educacional Brasileira, seja na esfera federal, estadual, municipal e em regime de colaboração com setores do ensino privado. Nesse sentido, cabe ao Estado assegurar a garantia da universalização do ensino, através da adoção do princípio de descentralização como caminho para modernizar e tornar eficiente a gestão educacional, ao transferir funções e ações do Estado para os segmentos estaduais, municipais e o setor privado. Sendo esse principio de descentralização concebida como processo democrático para o atendimento das prioridades educacionais. Segundo a visão atual, concebe-se uma educação que possibilita a modernidade e o alcance de metas básicas em busca de qualidade de ensino, acesso e permanência dos alunos. E, segundo o modelo de expansão capitalista, a construção de um novo saber que capacite o aluno para o mundo do trabalho, para as novas formas de organização e gerenciamento da produção e a incorporação de uma nova racionalidade, novos conceitos, novas verdades, como por exemplo: o reforço à “empregabilidade” em substituição ao “pleno emprego”, trazida pelas novas formas de produzir e trabalhar. No Pará, a educação segue os caminhos e os descaminhos percorridos pela educação nacional, salvaguardando-se algumas especificações da realidade regional. A realidade amazônica decorrente do contexto de ocupação e exploração capitalista retrata uma história social e econômica marcada pela violenta expropriação dos recursos naturais, constituindo-se uma realidade dinâmica e contraditória em que emergem problemas sociais de toda ordem O crescimento exagerado das cidades, o alto nível de desemprego, concentração urbana, marginalização de grande parte da população, tensões sociais no campo e na

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cidade e o descaso das populações ribeirinhas, uma realidade social que vem sendo desfocada dos processos de construção do conhecimento. Na cidade de Colares, a educação é efetivada sob a direção do governo estadual e municipal trabalhando os níveis de ensino do Infantil ao Ensino Médio. Na sede do município há uma escola de Ensino Infantil, uma de nível Fundamental e outra que conjuga os níveis de ensino Fundamental e Médio, local onde foram feitas as coletas de dados relativas à área educacional. Segundo informações obtidas junto à escola de ensino Fundamental e Médio “Norma Guilhon”, esta, apesar de voltar-se para a construção de conhecimentos mais amplos, ainda prioriza no processo da construção do conhecimento a realidade local. Segundo opinião do professor entrevistado, “a educação e a escola têm o papel fundamental para resgatar, valorizar os aspectos tradicionais da cultura e da história local.” Para esse educador a realidade local deve constituir-se ponto de partida para a efetivação do Projeto Político Pedagógico da escola. Entretanto, são visíveis as mudanças que vêm se operando nas últimas décadas no município, alterando a forma de vida tradicional, sobretudo, pelos meios de comunicação que imprimem a ideologia da modernidade com grande interferência no âmbito do trabalho junto à população jovem. A escola vem atuando diante do tradicionalismo como agente de resgate da memória histórica com projetos pedagógicos que enfatizam o processo de colonização do município e sua história tradicional, como também mediante atividades culturais por intermédio das artes e desportos, pelas danças folclóricas, histórias e lendas do município de forma esporádica e focalizada se rememoram o tradicionalismo de Colares. Assim, a escola se vê diante de uma prática pedagógica que dá conta de um saber mais totalizante, com informações atualizadas sobre o avanço das inovações tecnológicas, o avanço e a interferência da globalização, porém, se reportando a sua realidade específica, seu contexto social próprio. Rememorando lendas, costumes e tradições, como herança do tradicionalismo. Segundo a coordenadora pedagógica desta unidade escolar, a educação e o trabalho da escola são imprescindíveis na sociedade (no sentido) de tratar as

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permanências das tradições culturais de seu povo, para que o mesmo mantenha sempre viva as suas raízes de forma a não perder sua identidade cultural. Ao mesmo tempo em que identifica como papel da educação, o acompanhamento das mudanças sociais, no sentido de repassar informações sobre as transformações sócio-econômicas por que passa a sociedade e o mundo, inserindo-se dessa forma nesse contexto, também de transitoriedade, com o pé no tradicionalismo e o olhar focado na modernidade por que passa o mundo globalizado. Segundo as informações dos educadores, a criança e o jovem da ilha de Colares não são diferentes de outros centros urbanos. Absorvem a moda, os costumes e os hábitos que são repassados pelos meios de comunicação, pela mídia, pela própria escola, assim como continua recebendo influência do seu meio social. Os jovens se vêem muitas vezes desorientados, indecisos em se posicionar quanto a um projeto de vida futura. Vivenciam um período de vida em que ficam a mercê de rotulações e até estigmas pelo fato de se posicionarem, ora segundo a interferência da cultura global, da sociedade plural, ora se deixam levar pelas imposições dos familiares, adequando-se às práticas, costumes e hábitos locais e dessa forma, identificam-se como “perdidos” diante de tantas exigências das permanências e mudanças sociais presentes no meio social em que vivem. Embora seja apontada como prioritário o resgate do tradicionalismo pela escola, essa prática se dá de forma esporádica e focalizada, em momentos isolados no decorrer do ano letivo, em geral, através de atividades de culminância, nas festas juninas, no folclore e atividades eventuais. O que não vem garantindo a tão mencionada rememorização do tradicionalismo. Na verdade são momentos que traz do passado muitas práticas que vem sendo esquecidas ou que estão fora do contexto da população mais jovem 4.3.2. Política de Assistência Social No âmbito das políticas sociais, a assistência, a partir dos anos 1980 / 1990 constituiu-se uma política de proteção social se revestindo de garantias a todas que dela necessitam sem contribuição prévia a provisão dessa proteção.

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A Constituição de 1988 e a Lei Orgânica de Assistência Social - LOAS de 1993 propõem para esse campo de atuação do Estado a inclusão dos “invisíveis”, dos “diferentes”, no sentido de embater com as situações de disparidades e de desigualdades, que vem ocasionando condições de vulnerabilidades sociais. Uma política que traz no seu bojo uma visão social mais ampla sobre as circunstâncias sociais que geram ou estabelecem as diferenças sociais, enquanto delimitadores tanto para a proteção, quanto para a busca de autonomia. Uma visão que passa pelo atendimento das necessidades, como também oferece possibilidades a serem desenvolvidas, tendo em vista a superação de situações de vulnerabilidades. A Assistência Social, enquanto política de proteção social é voltada para o atendimento e fortalecimento da família. A política Nacional de Assistência Social apresenta a dimensão sócio-territorial, em que o indivíduo e as famílias recebem proteção social no próprio município em que vivem. Assim é uma política que se referencia no próprio cotidiano das populações atendidas, pois no âmbito local, são considerados sujeitos de direitos dessa política: as populações em situação de rua, adolescente em situação de risco social ou em conflitos com a justiça, indígenas, quilombolas, pessoas idosas, pessoas com deficiência e todas aquelas pessoas que dela necessitem, independente de seu poder aquisitivo ou condição social. vulnerabilidade social. A Assistência Social, segundo a LOAS é direito do cidadão e dever do Estado. É uma política de seguridade social não contributiva que prevê os mínimos sociais. Insere-se no campo de direitos, da universalização dos acessos e da responsabilidade estatal. Compondo o sistema de bem-estar social, transitando pela seguridade social, juntamente com a Saúde e a Previdência Social, ao voltar-se para a garantia de direitos e de condições dignas de vida. Seu caráter de proteção se configura diante das circunstâncias do desamparo à velhice, doenças, infortúnios e privações. Seu objetivo volta-se para a garantia de segurança de sobrevivência, de acolhida, de convívio e convivência familiar. O grande embate dessa política é o enfrentamento de situações de riscos e de

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Suas Metas são estabelecidas segundo os princípios instituídos pela LOAS e dizem respeito a: a. Supremacia do atendimento às necessidades sociais sobre as exigências de rentabilidade econômica; b. Universalização dos direitos sociais, a fim de tornar o destinatário da ação assistencial alcançável pelas demais políticas públicas; c. Respeito à dignidade do cidadão, à sua autonomia e ao seu direito a benefícios e serviços de qualidade, bem como à convivência familiar e comunitária, vedando-se qualquer comprovação vexatória de necessidade; d. Igualdade de direitos no acesso ao atendimento, sem discriminação de qualquer natureza, garantindo-se equivalência às populações urbanas e rurais; e. Divulgação ampla dos benefícios, serviços, programas e projetos

assistenciais, bem como dos recursos oferecidos pelo Poder Público e dos critérios para sua concessão. A organização e estruturação dessa política se pautaram nas diretrizes da descentralização político-administrativa, cabendo a esfera federal a coordenação e a implementação das normas gerais. A coordenação e execução de programas e projetos são de responsabilidade das esferas estadual, municipal e entidades beneficentes e de assistência social. O controle das ações ocorre pela atuação da população através de organizações representativas. A condução da política de Assistência é de responsabilidade do Estado em cada esfera de governo e centraliza seus benefícios, serviços, programas e projetos no fortalecimento da família. Para o maior impacto das ações propostas, a política de Assistência Social é efetivada de forma integrada às políticas setoriais tendo em vista o enfrentamento, a garantia dos mínimos sociais, ao provimento de condições para atender contingências sociais e a universalização dos direitos sociais. No município de Colares, a política de Assistência Social se volta para a prestação de serviços e benefícios sociais. Entre eles a concessão do Benefício de

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Prestações Continuadas (BPC), Bolsa Família, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) e benefícios eventuais. Entre esses serviços, o BPC atende em torno de 33 beneficiários e a Bolsa Família em torno de 1.174 famílias em condições de pobreza e vulnerabilidade social. O PETI atende em torno de 714 crianças e adolescentes, sendo 113 na área urbana e 601 na zona rural deste município. São benefícios que alteram, de alguma forma, a vida dos beneficiários, o BPC pelo valor econômico, ao oferecer as garantias mínimas de subsistência dos usuários e suas famílias. A Bolsa família embora repasse uma renda menor, garante um acesso mais ampliado de famílias, ao mesmo tempo em que permite a inserção dessas famílias em oficinas de capacitação para a geração de trabalho e renda. Nesse aspecto, a Bolsa Família é o programa que gera maior impacto, pois apesar do valor do benefício ser menor, reúne um número maior de beneficiários, ao colocar os membros das famílias diante de possibilidades de emprego e renda. São possibilidades que nem sempre estão relacionadas às práticas tradicionais do município como a pesca e a pequena agricultura. Nesse aspecto são oferecidas oficinas de artesanato, confecção de flores, de papel reciclado, além de palestras sócio-educativas para o fortalecimento familiar. Em relação aos jovens, através do PETI são realizadas oficinas e palestras sobre sexualidade, meio ambiente, higiene corporal e outras temáticas que levam a prevenção e a promoção de uma vida saudável da juventude. Com relação aos idosos, vem se realizando ações em conjunto com a Secretaria de Cultura Esporte e Lazer. São ações de interação dos idosos com diversas modalidades de jogos: dama, salão, natação, vôlei, no sentido de valorizar o idoso e permitir maior participação nos eventos programados. São ações que possibilitam mudanças de hábitos e posturas referentes ao espaço em que vivem à prevenção e à promoção da saúde, à qualificação de mão-de-obra como alternativa de trabalho e renda. São ações que se centralizam no aproveitamento das potencialidades do lugar e não estão diretamente relacionadas às atividades tradicionais do município. Uma das ações que chama atenção é a produção de bijuterias, dado a grande quantidade de recursos naturais como folhagens e

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sementes que servem de matéria prima para a confecção de brincos, pulseiras e outros adereços Outro fator de promoção de geração de trabalho e renda é o envolvimento de jovens e adultos na confecção de cestaria Embora se reconheça a permanência das atividades tradicionais da pesca e da agricultura, os serviços sócio-assistenciais se voltam para a valorização de novos saberes que passam a ser incorporados pelos usuários dos serviços, programas e projetos assistenciais, ampliando-se no município possibilidades de novas frentes de trabalho totalmente desfocadas das práticas tradicionais e assim, certo desatrelamento ou mesmo a não valorização das atividades tradicionais enquanto meio de trabalho e renda.

4.3.3 Política da Saúde A partir da década de 1930, as alterações ocorridas na sociedade brasileira, em decorrência do processo de industrialização redefine o papel do Estado frente à questão social. A conjuntura econômica e política desse período fez emergir as políticas sociais em respostas às demandas da sociedade. Esse campo de atuação necessitava de uma ação modernizadora do Estado que viesse contemplar os assalariados urbanos, considerados sujeitos importantes no cenário político nacional, uma vez que o processo industrial contribuiu para a urbanização e ampliação da classe operária em condições precárias de higiene, saúde e habitação. A política de saúde se caracterizou pelo caráter nacional e se subdividia em Saúde Pública e Medicina Previdenciária. A Saúde Pública foi predominante e se voltava para a criação de condições sanitárias mínimas para as populações urbanas que enfatizava a realização de campanhas sanitárias para o combate da uma série de epidemias presentes nas áreas urbanas e rurais. A Medicina Previdenciária se efetivou com a criação dos Institutos de Aposentadorias e Pensões, os IAPS. Além da questão previdenciária como garantia de uma assistência médico-hospitalar a um maior número de assalariados urbanos.

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No período de 1930 / 1945, reduz-se a abrangência dos atendimentos da Medicina Previdenciária pela redução dos gastos, ao mesmo tempo em que aumentava a massa de assegurados. Adotava-se nesse período uma orientação contencionalista. No período de 1945 / 1950 consolida-se a Política Nacional de Saúde com a criação do Serviço Especial de Saúde Pública – SESP. Nas décadas seguintes, observam-se gastos favoráveis com a saúde pública. Embora não se tenha conseguido eliminar o quadro das doenças infecciosas, parasitárias e os altos índice de mortalidade. Em nível particular, o atendimento hospitalar por empresas já se fazia presente, embora os atendimentos assistenciais: médico e previdenciários eram feitos prioritariamente pelos IAPS. Os serviços terceirizados eram minoritários e de pouca expressão. No período pós 1964, o Estado utilizou na área da saúde o binômio: repressãoassistência. Sendo a “política assistencial ampliada, burocratizada e modernizada pela máquina estatal com a finalidade de aumentar o poder de regulação sobre a sociedade, suavizar as tensões sociais e conseguir legitimidade para o regime”, (BRAVO, 1991, p. 107). Em 1966, um fato novo se dá no âmbito da saúde, a unificação previdenciária, cujas marcas eram o papel interventivo do estado e o alijamento dos trabalhadores no processo de gestão. A tendência desse período é o privilegio do setor privado e a medicalização da vida social, tanto na Saúde Pública quanto na Previdenciária. O setor saúde se moderniza com a adoção de novas tecnologias, acompanhando os avanços capitalistas. É o momento em que a quase totalidade da população urbana tem acesso aos sistemas de saúde. Os anos de 1980 serão marcantes para a Política Nacional de Saúde. Abre-se uma discussão sobre saúde e possibilita-se a participação de novos sujeitos em relação ao debate, referente às condições de vida e saúde da população brasileira Um processo participativo que avança do âmbito técnico e ganha a dimensão política. O foco das discussões transita pela melhoria da situação da saúde e o fortalecimento do setor público.

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Enfatiza-se nesse momento a universalização do acesso à saúde e a concepção de Saúde como direito social e dever do Estado. Reestrutura-se o setor com a implantação do Sistema Unificado de Saúde- SUS, visando uma reordenação setorial via descentralização e processo de discussão e reorientação de competências nas esferas federal, estadual e municipal, além da implementação de um efetivo processo de democratização e participação do poder local através dos Conselhos de Saúde. A VIII Conferência Nacional de Saúde em 1986 foi o marco articulador para os novos rumos da saúde no país. As discussões foram sendo ampliadas com a participação das entidades representativas da população e a questão da saúde passou a ser uma questão da sociedade como um todo, alcançando-se assim a politização da saúde no país. A grande conseqüência da adoção do Sistema Único de Saúde (SUS) foi o estabelecimento da saúde enquanto direito do cidadão e dever do Estado. O que acabou com a discriminação da condição de ser segurado / não-segurado, o atendimento rural/urbano. A criação do Sistema único de Saúde passou a integrar todos os serviços prestados em uma só rede de atendimento, mediante regularização e descentralização dos atendimentos à comunidade. Adotando-se como complementar o setor privado. Mudou-se então o arcabouço e as práticas institucionalizadas na área da saúde ao se fortalecer o setor público, o atendimento universalizado e a descentralização política na gestão desse sistema. Nos anos 1990, assiste-se o redirecionamento do papel do Estado, em que os avanços propostos e direcionamentos do sistema único passam a ser confrontados pelo interesse do grande capital. São direcionamentos adotados a partir da Reforma Constitucional expressos na Previdência Social e nas regras que regulamentam a relação de trabalho e a efetivação das políticas públicas. Pela Reforma Constitucional, desviam-se as funções do Estado provedor de bens, serviços e benefícios sócio-assistenciais e amplia-se a presença do setor privado de saúde. O Estado deixa de ser responsável direto pelo desenvolvimento

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econômico e social, passando a ser promotor e regulador, transferindo-se, assim, para o setor privado ações e atividades que antes eram de sua alçada Mediante as alterações verificadas ao longo dos anos 1980, a política de Saúde vai sendo descentralizada e o conceito de saúde passa a ser vinculada ao mercado no momento em que são enfatizadas as parcerias com entidades privadas e com a sociedade civil. Verifica-se um desrespeito com o princípio de equidade na alocação de recursos na esfera federal, estadual e municipal. Essa não equidade afetando por sua vez o princípio de integralidade na prestação de serviços, ao se priorizar a assistência médico-hospitalar em detrimento aos aspectos da promoção e proteção à saúde, tornando visível o atrelamento atual da política de ajustes que aponta a tendência, a contenção de gastos e desresponsabilização do poder central. Nesse momento, a “tarefa do Estado, nesse projeto, consiste em garantir o mínimo aos que não podem pagar, ficando para o setor privado o atendimento dos que têm acesso ao mercado”. Caracterizando-se como focalizada e não universalista. Nesse sentido, incentiva-se a privatização, a descentralização dos serviços locais sem uma vinculação direta com as fontes de financiamento. Ampliando-se a prestação de serviços privatizados à comunidade, descaracterizando a saúde enquanto direito, ao reforçar a noção de aquisição de um bem, de um serviço disponibilizado via mercado. No município de Colares a Política de Saúde é efetivada pelo Sistema Básico de atendimento, mediante a prestação de clínica médica, atendimento às gestantes, à criança e a prestação de serviços de imunização e ambulatorial. Segundo a coordenadora da Unidade de Saúde, o serviço prestado por essa Unidade atende às necessidades da população local, mas por se constituir uma ilha, o município deveria funcionar com outros tipos de serviços, como por exemplo: a existência de um hospital, no sentido de garantir um atendimento pleno à população que nas circunstâncias atuais, mediante situações de emergências e urgências, se deslocam para outras localidades da região ou até mesmo Belém, em busca de serviços ou especialidades médicas. Embora a unidade básica de saúde seja bastante procurada pela população da zona urbana, quanto da zona rural do município, a população local ainda faz uso de

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recursos naturais para a cura e promoção da saúde. Ainda é comum o uso de folhagens, raízes sementes, oleaginosos para o preparo de remédios naturais, caseiros e a atuação de parteiras, experientes, curandeiros e benzedeiras que detêm o conhecimento de porções mágicas originadas de casca de pau, folhas e raízes que curam enfermidades. Tais práticas representam um saber herdado da sabedoria popular de uma “farmacopéia natural” extraídas das matas, margens dos rios e quintais São chás, sucos, garrafadas, vinhos e ungüentos utilizados para evitar filhos, interromper gravidez, garantir fertilidade, apressar o parto, como o uso de plantas nas rezas contra os aborrecimentos, quebrantos nas crianças. No município de Colares há pessoas que têm conhecimento das propriedades medicinais das plantas das florestas e que vem repassando esses saberes para as gerações mais jovens. Na zona rural é mais freqüente a presença de parteiras, benzedeiras e curandeiros e muitas pessoas acreditam que durante as benzeções e sessões de curas e pajelanças (que são) aliviadas as fraquezas do espírito.
“Os experientes que em muitos casos também são parteiras, sempre receitam chás, banhos, defumações e garrafadas para curar o mal da carne, do corpo. Com massagens regulares na barriga da mulher grávida consertam a posição certa da criança para ficar no ventre materno”, (PINTO, 2004, p. 213).

Assim, no município de Colares, o uso de recursos naturais pela população local constitui-se uma prática antiga que remete a gerações anteriores. Uma prática ainda presente, sobretudo, nos interiores; na zona rural. Um saber que vem sendo desprestigiado dado à presença da prática científica da medicina. Quando muito, são práticas que convivem lado a lado com as técnicas modernas. Segundo informação de um professor: “Em casa está presente um saco de produtos naturais e do outro um saco de remédios farmacológicos passado pelos médicos”. Embora não seja negada a presença e a importância das práticas tradicionais na preservação da saúde e da cura, a Unidade Básica de Saúde não estabelece nenhum tipo de relação com tais práticas. Muitas das vezes, convive lado a lado a prática científica e a prática natural. Sendo comum a chegada de pessoas na Unidade já medicadas por remédios naturais. Nesse convívio “calado apenas se

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respeita, mas não se reforça tais práticas naturalistas”, como afirma a diretora da Unidade de Saúde. Observa-se que há certa dicotomia entre as práticas científicas e as práticas populares, uma vez que não é valorizado o saber popular dessa comunidade. Um saber que vem se perdendo ao longo do tempo, e que algumas pessoas ainda são referências desse saber tão antigo quanto à população de Colares.

CAPÍTULO V: O SENTIDO E O SIGNIFICADO DAS PERMANÊNCIAS E MUDANÇAS SOCIAIS EXPRESSAS PELA COMUNIDADE DE COLARES.

A realidade é construída socialmente e constitui-se fenômeno que se reconhece como tal, pois são fenômenos reais, algo conhecido, sendo que é, através do conhecimento que se percebe e se compreende essa realidade social. A percepção de uma dada realidade pode ser vista de maneira diferenciada, segundo os ângulos que são vistos ou se percebe essa realidade. O foco direcionador deste estudo é fator determinante para o enquadramento do mundo em que se está analisando.

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É pelo conhecimento que se tem da realidade, do processo que ocorre da transmissão, manutenção ou alterações de situações sociais inerentes a um determinado contexto social. A realidade da vida cotidiana é que dirige as condutas e as posturas em relação à vida diária. A “vida cotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles, na medida em que forma um mundo coerente”, (BERGER, 2007, p.35). Nessa compreensão, o mundo da vida cotidiana corresponde a uma conduta certa pelos membros da comunidade, com poder de lhes imprimir sentidos e significações para as suas vidas, estando presente no pensamento e nas ações dos homens comuns, ao mesmo tempo em que se objetiva, se expressa de forma subjetiva na vida da coletividade. A realidade da vida diária se apresenta de forma ordenada e ao objetivar-se demonstra ordem, significações que atribuem aos objetos ou fenômenos sociais. É essa ordem que atribui sentido à vida social. Essa realidade dinâmica envolve-se numa organização em que o tempo presente representa a percepção que temos dessa realidade, embora focalize o aqui e o agora dessa realidade relacionada a outros espaços e temporalidades. É nesse tempo que os indivíduos se situam em relação ao que estão fazendo, o que fez e o que poderia ser feito. Assim, apesar de real, esse mundo caracterizase como um mundo intersubjetivo pelas diferentes interações que se fazem presente no processo de construção. Uma interação que se dá por meio da comunicação que se estabelecem com os outros indivíduos. No sentido de estabelecer a correspondência entre os significados num mundo onde se partilham ações, condutas, comportamentos, atividades, valores, sentimentos e até contraposições, a realidade apresenta-se como uma facticidade evidente por si mesma a partir de práticas rotineiras que sem interrupção são apreendidas sem nenhum problema, mantendo-se, enquanto práticas consideradas como certas e plausíveis para aquela coletividade. A estruturação da vida cotidiana é especialmente temporal. Essa dimensão é fundamental para o desvelar da consciência.

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Todo indivíduo tem consciência de fluxo interior do tempo que por sua vez se funda em ritmos fisiológicos do organismo, embora não se identifique com estes. O tempo pode ser compreendido como a intersecção entre o tempo cósmico e seu calendário socialmente estabelecido, baseado nas seqüências temporais da natureza por um lado e o tempo interior por outro lado, (BERGER, 2007, p. 44/45).

Os indivíduos estando face a face com os outros nesse processo de construção dessa realidade, envolvem-se numa interação, um processo não só de partilha de vivências, mas também a um passado não muito distante que vem se estruturando de forma plenamente conectada com o tempo presente. Segundo Berger (2007, p.74), nesse processo de construção, o caráter do eu emerge como produto social (que) não se limita à configuração particular que o indivíduo identifica como sendo ele mesmo, mas como um homem de maneira particular em que esta identidade é definida e formada na cultura em questão, pelo equipamento psicológico amplo que serve de complemento a essa particular configuração. Assim, é preciso dizer que o organismo e, ainda mais, o eu não podem ser devidamente compreendidos fora do contexto social em que foram formados. A ordem social é um produto humano e se estrutura a partir do momento em que o homem transforma suas ações em hábitos e costumes pautados em valores e princípios que dão sustentação a essa ordem. São as ações habituais que atribuem o caráter e as significações aos indivíduos e seus grupos. A institucionalização da vida cotidiana ocorre sempre quando há uma significação recíproca de ações habituais, acessíveis e partilhadas por todos os membros, revelando sempre uma história compartilhada. São instituições que exercem controle sobre as condutas humanas, ao estabelecer padrões previamente definidores de condutas e práticas sociais. Ao mesmo tempo em que as ações habituais tornam-se necessárias a tomadas de decisões e a resolução de situações abrem espaço para os novos acontecimentos e as novas situações que possibilitam nesse espaço social às inovações e as mudanças. A transmissão do mundo cotidiano às gerações mais jovens torna-se o papel dos pais e dos mais velhos. Um mundo que nem sempre é vivenciado, por não ser

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completamente transparente, pelo fato da geração mais jovem não participar de maneira direta na formação desse mundo mais tradicional. Este mundo aparece-lhe como uma realidade dada, retratando-se de forma opaca e sem grandes significações. Essa realidade transmitida pelos pais denota o caráter histórico e objetivo funcionando como reforço do sentido atribuído por essa realidade social. A incorporação dessa realidade será considerada eficiente quando se dá o processo de legitimação ao envolver receptividade e incorporação das informações. Essa legitimação se dá junto às novas gerações no momento em que ocorre a socialização das informações e da ordem institucional expressa. As experiências humanas ao serem retidas na consciência se sedimentam, se consolidam e dão sentido à vida pessoal e social numa dada coletividade pelo processo intersubjetivo em que os vários indivíduos participam de uma vida em comum. A objetivação da vida cotidiana abre espaço para a incorporação de novas experiências que vão formando um conjunto de hábitos, costumes e tradições. São experiências que vão sendo reimpressas e rememorizadas num processo contínuo de interpretação e reincorporação, até se tornarem rotinizadas tornando-se assim práticas institucionalizadas. O estabelecimento da ordem institucional leva a tipificação de papéis a serem desempenhados pelos diferentes indivíduos que convivem numa dada realidade. São na verdade executantes de ações objetivas, conhecidas, recorrentes e repetíveis, daí a sua rotinização e institucionalização, onde os “atores corporificam papéis e efetivam o drama ao representá-lo em um determinado palco. Nem o drama nem a instituição existem empiricamente separados desta realização repetida”, (BERGER, 2007, p. 104). Nesse contexto, os desempenhos dos papéis sociais funcionam como mediadores do acervo comum do conhecimento socialmente objetivo e em relação também ao conhecimento de novos valores e até de emoções e condutas adequadas que se fazem presente na realidade social do cotidiano.

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São fatores que legitimam os significados que subjazem nas práticas realizadas e que imprimem ordem e sentido à vida cotidiana, pois por trás das práticas sociais estão presentes os motivos dos indivíduos que dão significação a seus atos e condutas vistos socialmente como corretos frente à realidade social vivenciada. O processo de legitimação explica a ordem institucional e lhe dá fundamento, justificando sua organização, ao mesmo tempo em que outorga validade cognitiva apresenta uma dimensão normativa como imperativos práticos que interferem tanto na objetivação quanto na intersubjetivação dessa realidade social; pois lhe atribui uma dimensão simbólica, enquanto processo de significação, que se referem às diferentes realidades que compõe as experiências da vida cotidiana, ordenando os diferentes momentos da vida social, mediante a presença de ritos, dos mitos valores e condutas enquanto produtos sociais que imprimem simbolismos a realidade vivencial. A realidade social se expressa como objetiva e subjetiva, o que pressupõem um movimento dialético, enquanto processo de construção. Envolve três momentos importantes: a exteriorização, a objetivação e a interiorização. O Ponto inicial é a interiorização, que envolve a apreensão, interpretação imediata dos acontecimentos, seus sentidos e significações. Uma apreensão da manifestação dos processos subjetivos, no sentido de interpretar os significados do mundo particular e pessoal. É o processo de interiorização que possibilita ao indivíduo tornar-se parte, membro de uma sociedade. Um processo que se faz presente a partir da socialização que coloca o homem frente a frente a sua realidade social. A rotinização das práticas que promove as condições de conservação da realidade social, salvaguardando, de certa forma uma simetria entre a realidade objetiva e subjetiva. A realidade da vida cotidiana corporifica-se pelas rotinas, que é a essência da institucionalização. No entanto, essa realidade necessita ser reafirmada continuamente pelos indivíduos, que ao exteriorizá-la, torna-se uma realidade socialmente definida.

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Essa realidade social da vida cotidiana não é imutável, sofrem influências, interferências que geram alterações que levam a transformações na maneira de ser viver de uma dada coletividade A construção da vida social se dá num encontro face a face pela luta e pela dignidade de si e de outras pessoas. É no ambiente comum que a vida cotidiana se mantém onde as lutas sociais ganham expressões, onde se buscam soluções, redirecionamentos. É onde as relações interpessoais e o ambiente social constroem novos projetos; é nesse nível microssocial que se estabelecem novos estilos de vida, uma nova organização social, embora sem esquecer que na contemporaneidade o mundo econômico e informacional afeta de forma direta a vida pessoal e social. É no convívio e inter-relação do microssocial e do macrossocial que se apontam as saídas, as mudanças, as alterações que em muito afetam as relações de convivência e o modo de vida nas comunidades, consideradas como microssociais, pois, esse novo nível de relacionamento de coisas, de práticas de relações, de costumes, de hábitos que funcionavam bem no nível anterior, não funcionam da mesma forma ou até deixam de existir. Nesse trânsito do mundo microssocial para o macrossocial situa-se a realidade social e cotidiana da cidade de Colares. Nesse processo de reconhecimento da realidade local reportar-se ao papel exercido pelas famílias mais antigas consideradas enquanto depositárias e mantenedoras de saberes, conhecimentos, valores e estilo de vida próprio, ou seja, guardiãs dos pilares culturais que ainda atribuem sentido, significado a essa comunidade tradicional, garantindo-lhe uma relativa estabilidade. Nesse contexto social, a família é concebida como “base social”, núcleo natural e fundamental da sociedade, como mantenedora da cultura, dos valores e princípios que sedimentam as relações sociais. Entretanto, diante de profundas mudanças por que passa essa comunidade, a família também vem se fragilizando e se fragmentando.

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Nesse contexto desestabilizador se busca a recuperação da função da família, reforçando-se o papel de “âncora” das relações sociais, ao promover cuidados, proteção, repasses de conhecimentos, valores, vínculos de pertencimentos, socialização e inclusão social. Dessa forma, servindo de fundamento para a construção identitária. É no cotidiano familiar que se percebe as resistências e ou a adoção de novos padrões culturais e estilos de vida. Um processo contínuo de luta, de negação e de fragmentação da identidade familiar. O homem, enquanto ser de comunicação, e mediante ao uso dos recursos da linguagem simbólica que revela sonhos, conquistas, crenças, paixões, alegrias, enfim, as experiências vividas, que muita das vezes escondem e expressam dores sofridas, guardadas, enquanto segredos da alma, “expressões do espírito” que traduzem vivências do passado e do presente, situações que apontam sentido e direção para a vida pessoal e social. A coleta de dados referente à pesquisa de campo traz embasamento para a presente reflexão centrada no uso dos recursos da linguagem, da fala, do discurso de famílias e jovens naturais da cidade de Colares. As entrevistas e aplicação de formulários se efetivaram no sentido de captar o sentimento, o sentido e o significado atribuído às permanências e as mudanças verificadas nesta comunidade. O objetivo central desta pesquisa de campo voltou-se para a percepção de como a comunidade local se vê, se percebe diante das interferências tanto das permanências do tradicionalismo, quanto das mudanças que vem se instaurando nas últimas décadas nesse município ribeirinho e tradicional. A linguagem nesta reflexão tornou-se instrumento de expressão do mundo simbólico, do mundo de significações. Uma vez que se refere a um campo em que podem ocorrer situações problemas que interferem no desenvolvimento da vida das pessoas e, sobretudo, servindo de referência para a compreensão da comunidade pesquisada. Nesse sentido, a linguagem por apresentar uma função simbólica dos relatos, torna-se reveladora do simbolismo da vida social, possibilitando o entendimento do que aconteceu ou acontece nesta realidade social, revelando dessa maneira aspectos profundos e amplos do ser humano e da vida societal, ao mesmo tempo em que, a linguagem nos dar conta dos registros históricos e

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vivenciais possibilitando também captar emoções traduzidas por sentimentos carregados de significações. A linguagem traduz as relações que os homens estabelecem entre si, pois é o discurso que nomeia, descreve o mundo em que estão inseridos. Uma linguagem simbólica cheia de sentidos e significados muito próprios que imprimem direção aos atos e comportamentos dos atores numa dada realidade social, como também os significados e direção trazidos pelo simbolismo que se reportam para além do mundo material e concreto, localizando-se no campo das emoções e dos sentimentos que embasam os sentidos e consistência da vida social. Em relação à coleta de informações junto à comunidade de Colares, uma das questões expressas pelas famílias e jovens é o reconhecimento das manifestações culturais consideradas próprias de Colares. São famílias com vinculações a pesca e a agricultura de subsistência, consideradas tradicionais. São identificados como manifestações culturais de Colares, os festejos de Círio e dos Santos padroeiros que remontam a era colonial e a participação missionária na região do Salgado; as festas juninas, consideradas ponto alto das tradições em Colares eram representadas pelo boi-bumbá, cordões de pássaros como o Guará, além do Boto, o Carneiro e a Dourada. Os entrevistados reconhecem que o Círio e os festejos de Santos são bem presentes. Já o boi-bumbá, os cordões de pássaros e danças folclóricas até em 1980 eram bem freqüentes na sede do município. A partir dos anos 1990 foram desaparecendo e ficando mais restrito na zona rural. Hoje, até no interior, o tempo vem passando e essas manifestações vão ficando no passado. É com certo saudosismo que os habitantes de Colares falam desse passado e dessas manifestações que ainda envolve e mantém um elo de ligação entre todos. Eram momentos de envolvimento, de participação de toda a população local, além de divertimento, lazer e tradição, pois as manifestações culturais expressavam a vida, os sonhos e o dia- a- dia da população local. Hoje, essas manifestações são rememoradas nas festas juninas realizadas pelas escolas locais. De maneira geral, se faz certo resgate das danças folclóricas e

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das quadrilhas. O boi-bumbá e os cordões de pássaros começam a reaparecer em algumas localidades do interior, onde ainda é de conhecimento de algumas pessoas, que funcionam como guardiões dessa cultura tradicional. que o tempo passou e que muita coisa se perdeu. Lamenta-se que os cordões de pássaros e as pastorinhas já não são apresentados como antes. Estando distanciados do cotidiano dos jovens. Para os jovens essas manifestações são vistas como algo que aconteceu, são fatos do passado, dos quais se tem notícias. Daí a preocupação desse saber ser preservado e rememorizado. Para alguns entrevistados, “as manifestações culturais que tem reaparecido “aqui e acolá” são bem diferentes do que acontecia antes. “As danças voltaram, mas são renovadas. Reaparecem, mas não são como as do passado. Muitas desapareceram e surgiram outras danças e, quando acontecem, não são feitas com o mesmo respeito com que eram feitas antes”. Fica claro nesses fragmentos de discursos da população entrevistada a transitoriedade do antigo e do novo. Assim como traduzem certa resistência a perda de um passado até bem pouco tempo considerado estável e previsível. Revelandose também certo esquecimento no contexto contemporâneo. No âmbito religioso, as festas, as comemorações continuam bem presentes. O círio de Nossa Senhora do Rosário e festas de santos padroeiros envolvem a população local e pessoas de fora do município. Assim como se reconhece a atuação das igrejas evangélicas, embora com menor grau de envolvimento e repercussão junto à comunidade. Em relação ao convívio familiar, ainda é presente, pelo menos na maioria das famílias alguns comportamentos tradicionais como tomar a bênção dos pais e o respeito aos mais velhos. Apesar também de se observar o afrouxamento desses comportamentos em algumas famílias Os entrevistados afirmam que os padrões culturais se mantêm em suas famílias, embora reconheçam que tais padrões vêm se perdendo, ou diminuindo de Os guardiões vão repassando essa cultura para as gerações mais jovens, entretanto, há o lamento de

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importância, pois afirmam que outros comportamentos “desrespeitosos” vêm se instalando, sobretudo, no meio dos jovens. Segundo os mais velhos, os jovens precisam de maior controle e de repressão por parte dos pais e responsáveis, pois no geral, a autoridade dos pais ainda é reconhecida nesta comunidade. Há um confronto entre os padrões que vem sendo transmitido pelos pais, pelos mais velhos, considerados como verdadeiros e as informações trazidas pelo mundo moderno, mais amplo e global pela televisão e outros meios de comunicação que introduzem novos valores e comportamentos, principalmente junto à juventude, como o uso de novos estilos de roupas, uso de bebidas alcoólicas, drogas e seu afastamento do padrão cultural local, secundarizando o ideário que dá sustentação a essa comunidade ribeirinha. Outros entrevistados são mais enfáticos ao afirmar que os comportamentos, segundo os padrões locais, fazem-se presente em momentos específicos como nos dias de festas do Círio, o dia dos pais, o Natal. Segundo o Sr. R. de 80 anos, as famílias se reúnem no dia-a-dia, mas não seguem os padrões tradicionais. “Os filhos deixam de se preocupar com as famílias e as mudanças ocorrem em todos os sentidos, onde a falta de respeito é a maior mudança”. Um fato mencionado pela maioria dos entrevistados retrata a participação de um grupo de jovens que após embebedarem-se adentraram no cemitério local e profanaram vários túmulos. O que deixou muitos moradores, principalmente, os mais velhos abalados e perplexos diante do ocorrido. A princípio, para os jovens, o ato foi efeito do uso de bebida e de não terem o que fazer, pela quebra da rotina; fazer algo diferente, chamar a atenção. Para a população em geral foi motivo de escândalo, pois foi um fato que ganhou destaque na mídia local / regional. Além das repercussões negativas, o fato mexeu com os sentimentos da população local, uma vez que o cemitério, além de lugar santo, representa o passado daquela localidade. Ele faz referência à história de muitas pessoas, são vivências que trazem sedimentação à história local.

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Em relação aos jovens que praticaram esse ato, são vistos como vândalos desordeiros e desrespeitadores dos sentimentos e do valor atribuído a este lugar considerado santo. O episódio demonstra que de certa forma há uma quebra da ponte que liga o passado e o presente, embora a população mais velha ainda se ache referenciada por esse passado, pelas recordações de familiares e de vivências que dão sentido a vida social local. Constitui-se um fato rico em simbolismo e significação, retratando um processo de transitoriedade do passado para o presente e traz uma reflexão acerca de que ao “destruir os símbolos de um homem ou de um povo, nega-se a sua história, os seus projetos e sonhos, ou seja, sua capacidade de transcender”, (NASSER, 2003, p.10). Os símbolos têm a função de trazer para perto o que falta, o que está distanciado pelo tempo ou pelas práticas sociais. Tem a capacidade de moldurar uma situação, um contexto, uma cultura. Ao mesmo tempo em que para alguns, sua quebra ou morte traz o sentido de emancipação dos símbolos e do simbolismo, oportuniza a busca de novas respostas para perguntas antigas e atuais, a busca de novos sentidos e significações para preocupações e emoções mais presentes. Em relação às alterações por que vêm passando a cidade de Colares, as pessoas mais idosas identificam que algumas mudanças melhoraram a cidade, como por exemplo: a chegada do transporte, da estrada. Segundo o posicionamento do senhor R. 68 anos “Tínhamos que ir de canoas, uma viagem mais demorada e desconfortável”. Mas também apontam como a pior das mudanças foi a “desorganização” provocada pelo “desrespeito” que chegou junto com as outras pessoas, junto com as novidades. Identifica-se como falta de respeito às atitudes e comportamentos agressivos dos jovens como falar alto, pronunciar pornofonias em público e não respeitar a presença dos mais velhos. Apesar dessas observações, a chegada de pessoas de fora traz para a cidade contribuições positivas para o desenvolvimento da localidade, ao melhorar o

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consumo e o comércio local. Quando essas pessoas constroem casas, curtem as coisas belas de Colares, apesar de que outros se excedem na bebida e fazem o que não devem. Assim, quando essas pessoas ajudam a construir a nova Colares são bem vindas, mas quando vêm fazer vandalismo, bagunça não são bem recebidas pela comunidade local. Para outros entrevistados, as pessoas de fora compram terras, constroem casas e vão embora, só aparecendo nos feriados, nos finais de semana e férias, quando torna a cidade mais alegre, festiva e movimentada. De forma clara e bem enfática, os entrevistados jovens e adultos, apontam o papel determinante do governo municipal no processo de desenvolvimento local, na promoção da cultura tradicional de Colares, mediante incentivos e investimentos na área econômica e cultural, resguardando-se a memória e as coisas de Colares, pois são aspectos importantes que imprimem sentido e significado para a história dessa comunidade. Ações mediante a realização de cursos, encontros culturais que podem contribuir para a preservação da cultura e o modo de vida tradicional. Reconhece-se o papel transformador do homem e da vida social. Ele é o construtor de si mesmo e do mundo em que está inserido. A construção do “Eu” e da identidade não está desvinculada da realidade totalizante, numa relação dialética com a natureza e com o mundo. É nessa relação de totalidade social que o homem constrói sua história. Uma história de transformações, de passagem de uma ordem natural para uma ordem social e cultural. É no estabelecimento de um diálogo com o cotidiano que se constrói as referências que sedimentam a nossa existência. O resguardar da memória social e cultural de um povo é o que possibilita o processo de identificação social de um determinado grupo ou comunidade. Uma história sedimentada, ainda que sob influências diversas. É a memória histórica que conecta passado e presente dos grupos sociais e aponta esse relacionamento para o futuro. O passado, ainda que distanciado, que tenha ido embora com o tempo, sua reconstrução pode ocorrer em nível simbólico, ao estabelecer ligação com emoções e sentimentos que imprimem sentido ao preencher lacunas, buracos, provocados pelo tempo, pelas mudanças instauradas.

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Em relação à realidade concreta e das necessidades mais imediatas da população local, espera-se uma atuação mais eficaz do poder local na geração de emprego e renda, na criação de oportunidade de trabalho com o objetivo de ocupar e fixar os jovens no município. Investir na juventude é uma preocupação dos mais velhos, quanto dos jovens que se vêm sem um futuro, sem possibilidades de continuar vivendo em Colares, uma vez que os jovens não se vêem atraídos pelas atividades tradicionais da pesca e da pequena agricultura Segundo J. M., 25 anos, os jovens de Colares não se inserem nas atividades tradicionais. Para ele, estas práticas continuam bem tradicionais sem modernização e vêm até retrocedendo. “Na pesca, antes já havia embarcação motorizada, hoje predominam os barcos a vela. A agricultura não vem recebendo os devidos incentivos do poder local, o agricultor não tem mais terra e os que têm, de tanta queimada já prejudicou o solo para plantar”. Os cursos na área de geração de trabalho e renda acontecem, mas não são colocados em práticas, são apenas projetos a serem efetivados. De maneira geral, o jovem se volta para o mundo que não é o local, o mundo de outras culturas, que trazem outro modo de vida, outros comportamentos, como por exemplo, o uso de roupas de marca. Ou quando muito se vêem na ociosidade, não se inserem de fato, nem no novo e nem nas atividades tradicionais. Ainda segundo esse jovem, os investimentos do poder local deveriam se voltar para a arte, para o artesanato e o aproveitamento dos recursos naturais, como folhagens, raízes, sementes tão abundantes na localidade. É presente em sua memória quando saía para pescar com seu pai, quando iam fazer farinha. Seu pai era pescador de filhote, espécie hoje rara. “A pesca de arrastão tem diminuído bastante a quantidade de peixe no município”. Este jovem ainda rememora o tempo em que havia o "escambo”, não havia muita circulação de dinheiro, mas se trocava produto por produto, peixe por farinha: farinha por fruta. Era um tempo em que havia fartura na alimentação para o povo do município. Hoje se tem dinheiro, mas não se tem muito que comprar”.

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Assim, a história conta e é contada por homens envolvidos por situação do passado / presente, de maneira conectada com o imaginário, mas; sempre se reportando a realidades vividas. O real para esse jovem é “tudo aquilo que se mostra a consciência, tanto natural quanto imaginária (que expressam) os sentimentos e os desejos”, (TEVES, 2002, p.57), nesse contexto social que pode ser revivido a custa de lembranças e percepções do passado, o mundo histórico pode ser revivido com amor ou ódio num jogo extremamente afetivo. Os jovens entrevistados encontram-se numa faixa etária de 16 a 25 anos. Todos estudantes, ou que já terminaram o Ensino Médio. A entrevista junto aos jovens aponta o seguinte quadro: Os jovens demonstram estarem satisfeito com a cidade de Colares, por reconhecerem as belezas e os encantos naturais desta cidade. Apontam como característica principal da cidade ser tranqüila, pacata, sem violência, com qualidade de vida muito boa. Se sentem integrados ao estilo e as condições de vida oferecida pela comunidade em que vivem, chegando a caracterizá-la como uma cidade agradável de viver. Dos dezesseis jovens entrevistados, 50% mantêm vinculações com as atividades tradicionais. De alguma forma participam em algum momento das atividades da pesca ou da agricultura. Outros se vinculam as tarefas domésticas e outros se dedicam apenas aos estudos. Em relação à formação educacional, terminar os estudos é preocupação dos jovens e de seus familiares. Estão voltados para a continuidade dos estudos e a inserção no mercado de trabalho. Em decorrência de seus projetos futuros, alguns jovens afirmam a sua provável saída do município. Dos jovens entrevistados, 70% pensam em cursar faculdade ou se empregar. Um dos sérios problemas no município de Colares é a falta de perspectiva de continuidade dos estudos e o reduzido mercado de trabalho. Segundo J.M., o jovem no município ou vai ser pescador ou professor. Daí, ao final do Ensino Médio, muitos jovens abandonam a cidade em busca de seus projetos de vida. Os jovens não se mostram interessados em se engajar, pelo menos como profissional na pesca ou na agricultura. Assim projetam sair da cidade em busca de

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Independência e se fixar em grandes cidades, que segundo eles, proporciona-lhes maior acesso aos estudos e ao trabalho. Entretanto diante desse quadro, alguns jovens lamentam em ter que sair para outras cidades, como Belém, por exemplo, e terem que se adaptar a uma vida mais agitada, diferente da que eles levam em Colares. Em relação à interferência da mídia e dos meios de comunicação sobre a vida pacata da cidade, os jovens afirmam que algumas notícias interferem, mas ajudam também a conhecer outras realidades, outras cidades, outros países, outros mundos. Para alguns jovens a novidade vem, mas, passa. Após as notícias a vida volta à rotina e tudo continua como antes pelo isolamento em que vive Colares. No entanto, algumas pessoas se deixam influenciar pelos novos conhecimentos, se atualizam e mudam comportamentos e posturas. Assim como as pessoas mais velhas, os jovens esperam da administração local mais investimentos na cidade. Apesar de morarem num “paraíso” são necessárias políticas que gere emprego e o desenvolvimento da localidade. A partir desses posicionamentos fica claro para o investigador da questão das permanências e mudanças sociais nesta área, a importância e o poder da sociedade, ainda que observadas por lentes diferenciadas. A Sociedade local representa o mundo onde se estabelece a relação homem / sociedade, a convivência, as interações que direcionam o jogo afetivo entre os diferentes segmentos desta coletividade. Num jogo de interesses que envolvem vivos e mortos, passado e presente num emaranhado de laços, com articulações e interações reais e imaginárias que cimentam a vida social. Pode-se afirmar que se trata de um processo em construção e que só o tempo e os acontecimentos irão apontar o direcionamento da vida e da história dessa comunidade, que embora apresente traços marcantes do tradicionalismo, este ao longo das últimas décadas vem se tornando pálido, sem brilho e sem poder de se reafirmar diante de tantas influências e mudanças que vem se operando nessa realidade social.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS A Consolidação do modo de produção capitalista decorre do processo de domesticação de várias áreas coloniais, que desempenham o papel de depositária de investimentos e como elemento propulsor a crescente interligação e dependência de economias centrais e coloniais. Embora seja desigual a inserção no mercado ampliado das áreas periféricas ou coloniais, uma vez que se inserem com atividades primárias, com desvantagens frente aos obstáculos impostos pelo mercado externo. No entanto, essa inserção traz mudanças significativas, pois de certa forma a modernização imposta faz emergir rápidas modificações nos hábitos e costumes

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pela adoção de novos padrões de consumo, sem, entretanto, corresponder a um real desenvolvimento local. O que coloca em xeque o alcance de um desenvolvimento, segundo os patamares dos grandes centros detentores de uma economia moderna, a capacidade de investimento local, o domínio da tecnologia e a capacidade de investimento no mercado mundial. A reestruturação e a reordenação da economia capitalista trazida pela globalização nas últimas décadas vêm avançando nas mais remotas regiões do planeta, consideradas como fronteiras atrativas a produção e a exploração e reprodução do capital. A região amazônica sempre esteve ligada ao desenvolvimento do capitalismo mundial. Desde a era colonial o extrativismo tornou-se atividade rentável, via exploração dos recursos da floresta e dos rios, que disponibilizados ao mercado externo para dar atendimento aos interesses de grupos internacionais. Ao longo de sua história a região vem definindo e redefinindo seu papel de fornecedora de produtos primários e de recursos naturais. Seu processo de exploração ou de desenvolvimento foi marcado por incursões esporádicas das grandes metrópoles. Daí o ciclo das “Drogas do Sertão” da “borracha” e mais recentemente a exploração econômica através dos grandes empreendimentos, momento em que a região se insere de forma plena e definitiva no capitalismo avançado. O centro dos interesses está na exploração em larga escala das riquezas naturais. O que tem colocado a Amazônia sob a ótica da submissão e subordinação dada à prevalência dos interesses externos e a desvinculação dos interesses, potencialidades e padrões sociais locais. Na verdade, esse processo de ocupação levou nas últimas décadas, o surgimento de “ilhas” de crescimento no país e na região pela presença de áreas periféricas dentro da própria periferia. É nesse cenário de inserção de realidades tão díspares que se localizam o fenômeno das Permanências e Mudanças Sociais tão presentes na realidade atual, onde a transição é marca desse processo. Tradição e modernidade como faces da

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conformação atual. Assim, a realidade atual se reveste de uma nova transitoriedade que expressam permanências ou vestígios de uma estruturação anterior e a emergência de uma nova conformação social pautada na racionalidade da modernidade. Nessa transitoriedade, o poder determinador de novos padrões sócioculturais, que impõem e rompem os antigos pilares sócio-culturais. A vida social sendo resultante das rápidas e profundas alterações, em que se observa o excesso de presente em relação ao passado, que por sua vez é totalmente desfocado do futuro. É o fenômeno da modernidade tardia que alcança e insere as comunidades tradicionais em uma nova racionalidade econômica e social, ao mesmo tempo em que anuncia os impactos e as demandas de uma realidade ainda em construção. O que referencia o trânsito entre os padrões tradicionais e modernos, entre continuidades e descontinuidades, como marcas desse novo tempo social. É o emergir da era da modernidade reflexiva como um novo contexto que faz num primeiro momento a desincorporação das forças tradicionais pelas forças sociais industriais e num segundo momento a reincorporação do tradicionalismo que se reveste das mudanças trazidas pela modernidade. A Região do Salgado, no Nordeste Paraense configura-se como uma região de exploração econômica que remete a era colonial, quando da atuação das missões religiosas, que por meio dos aldeamentos, estabelecia estratégias de ocupação e exploração. Uma atuação baseada nas atividades extrativistas, a agricultura e a pesca artesanal, enquanto modelo primitivo. Até a década de 1950, as populações locais se inseriam de forma livre, sem grandes disputa e conflitos. O acesso à terra e aos recursos naturais estavam relacionados à própria sobrevivência dessas populações tradicionais. A Partir de 1960, a agricultura ganha certo dinamismo, entretanto, a presença marcante do rio torna a pesca fator de trabalho, renda e alimentação, tornando-se atividade central no âmbito regional.

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Nas últimas décadas, diante da modernização se inscreveram novas formas de organização social, agora impelidas pela racionalidade do capital. Diante das atividades tradicionais, sobretudo da pesca são disponibilizados às populações tradicionais projetos de dinamização e modernização econômica. As novas formas de adaptação se verificam diante das diferentes estratégias atreladas à modernidade. São formas de organização e produção que levam a “destradicionalização” das práticas tradicionais pela incorporação de novos procedimentos, novas tecnologias em seu modo de produzir sua subsistência No âmbito da modernização se reconhece o papel do governo local no processo de desenvolvimento, pois é mediante a descentralização das ações políticas que referenda o município como lócus do cotidiano. É o espaço onde são expressas as indignações e as demandas sociais e econômicas da comunidade. Em prol do desenvolvimento, o município direciona e dinamiza as ações de grupos e projetos tendo em vista a modernização das atividades que valorizam e potencializam o espaço local. A meta a ser alcançada é tornar a sociedade tradicional moderna, desenvolvida e próspera. Concebe-se um desenvolvimento que mantém íntima relação entre as atividades tradicionais e modernas, tendo em vista a sustentabilidade do meio rural. Essa transição faz emergir novas atividades produtivas que levam a conformatação de uma nova ruralidade. Assim, tradicionalismo e modernidade como fatores desencadeadores do desenvolvimento local de forma integrada e sustentável. Nesse cenário de mudanças o trabalho é concebido como elemento norteador do processo de criação e recriação. E hoje, apesar das mudanças societárias e do mundo da produção, o trabalho ainda revela-se como elemento fundante, apresentando caráter central, por oportunizar pistas para a compreensão do homem e do mundo por ele criado. A categoria trabalho assume centralidade e passa a ser concebido enquanto prática fundadora do ser social. É o elemento possibilitador da construção e da transformação da natureza, do homem e da sociedade. Nas comunidades tradicionais, o trabalho e as práticas tradicionais funcionam como ancouradoros das populações rurais, no entanto, diante da modernização, o

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tradicionalismo passa a se visto como incompatível e como tal passa a se metamorfosear para outra forma posterior, a reinvenção do tradicionalismo, que passa acoplar as necessidades da modernidade. Em Colares, a pequena agricultura e a pesca artesanal continuam a dar sustentação a vida, a economia e a sociedade local. Mantém-se e asseguram a subsistência, enquanto fonte de alimentação trabalho e renda. A Agricultura continua de forma combinada com a pesca, a caça e a coleta, pois o peixe e a farinha sendo as bases da alimentação local. São atividades primeiras que se reportam a um saber fazer repassados por gerações anteriores. A agricultura ocupa as terras públicas e suas benfeitorias vêm sendo repassadas ao longo do tempo pelas famílias usuárias. Toda a produção está centrada principalmente na produção da mandioca e seus derivados. Em menor quantidade a produção do milho, do arroz e outros produtos. São práticas realizadas de maneira tradicional, sem inovação tecnológica, daí a baixa produtividade. O roçado ainda é precedido pela queimada e a coivara. No entanto, políticas públicas se voltam para a modernização dessa atividade tradicional através da introdução da produção consorciada que reúne a mandioca, a produção de banana, melancia, pupunha, feijão e milho. Uma inovação que vem sendo implantada pela capacitação dos colonos, mediante cursos e introdução de novas técnicas de plantio. Nessa perspectiva, incentiva-se também o plantio do açaí, do cupuaçu e o projeto de folheosas e legumes sem agrotóxico, com práticas bem naturais, aliandose o saber fazer tradicional e novos saberes trazidos pelos cursos de capacitação. Adotam-se novos métodos naturais sem grande impacto para o solo e o meio ambiente. Entretanto, em relação às inovações, observa-se certa rejeição a esses projetos, pois a população local está mais acostumada às práticas tradicionais. Preferindo, por exemplo, ser extrativista do açaí das várzeas do que plantar nas áreas secas, pois ainda não perceberam os riscos de exaustão dessas práticas.

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Todo esse comportamento está relacionado ao baixo alcance desses projetos que envolvem um número reduzido de famílias agrícolas que se voltam para áreas isoladas e dispersas. Somente a produção do mel trouxe resultados significativos para a população e para o município. Em relação à pesca, esta se constitui ainda como atividade tradicional que referencia o município como comunidade pesqueira. Desde a era colonial, a atividade pesqueira é fundamental para a produção material e simbólica dessa comunidade. A partir dos anos 1950, a atividade da pesca recebeu financiamento com vistas a sua modernização. Liberam-se recursos para a compra de barcos maiores e mais equipados e com o uso de novas tecnologias. A meta a ser alcançada é a grande produção para o mercado externo. Em Colares, a pesca ainda se pauta no uso de canoas e pequenos barcos. É comum o uso de rede de nylon e de um conhecimento acumulado de experiências e saberes tão antigos quanto essa localidade. Uma prática que se fundamenta na relação homem-rio e toda uma herança cultural que envolve um saber-fazer e os segredos da arte de pescar. Com a chegada das novas tecnologias, o pescador artesanal passa a ser visto como “desqualificado” perante a industrialização, momento que se observa o avanço do capital na Zona do Salgado. Com essas inovações, observam-se alterações na vida dessa comunidade ribeirinha, pois alteram-se as condições materiais e o direito de continuarem se reproduzindo como tal. Uma vez que os pólos pesqueiros industriais se impõem e transformam os trabalhadores da pesca antes livres agora em trabalhadores assalariados. É o momento que se quebram as técnicas nativas, vistas então como “irracionais”, “atrasadas” pela baixa produtividade e reforçam as práticas inovadoras pela aquisição de novos conhecimentos libertários do pescador artesanal, das práticas tradicionais, agora submetidas à lógica do capital. Um dos efeitos da modernização da pesca, sobretudo, pelo uso das malhadeiras e da concorrência industrial, foi à implementação de formas predatórias de captura e a conseqüente redução de espécies de peixe. Passa a ser comum a

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luta pela sobrevivência. Estabelecem-se conflitos entre pescadores artesanais e industriais devido à superposição de áreas de pesca, captura predatória e a redução dos estoques de peixes. Outro fato decorrente dessa nova forma de atuação é o deslocamento de pescadores artesanais para áreas mais distantes de pesca ou buscar seu sustento em outras frentes de trabalho. A intensificação da pesca nessa região vem alcançando espaços

considerados sagrados pelos pescadores artesanais. São lugares de reprodução, berçários como as praias de Nossa Senhora do Carmo que vem sendo invadida por pescadores, tornando uma ameaça a reprodução dos peixes e a própria sobrevivência da comunidade pesqueira. São mudanças que alteram ao modo de vida da população ribeirinha, levando a quebra de suas raízes tradicionais, dado o processo de reordenação do espaço, do tempo social e conseqüentemente do processo identitário. O homem se localiza no mundo e com o mundo estabelece uma relação que possibilita a construção de si mesmo e da sociedade em que vive. Constituindo-se num processo de vir-a-ser com um emaranhado de possibilidades, diante da diversidade social e cultural. É o cotidiano das práticas sociais, o grande referenciador da construção identitária, que dá fundamento a existência. O homem ao fabricar um produto cultural se constrói, se subjetiva ao estabelecer uma relação com o mundo interior e exterior numa relação entre o “eu” e o “mundo”. Na produção de sua sobrevivência, o homem estabelece uma relação que vai além do seu próprio cotidiano. O Trabalho constitui-se fator fundamental, enquanto prática social importante para dar atendimento às necessidades humanas e sociais. Entretanto, e no cotidiano, enquanto contexto dinâmico, que possibilita o “ocaso” o “inesperado” que revelam as possibilidades de transformação, mediante alterações e rupturas da ordem estabelecida. A identidade de um grupo social se dá num processo de construção social simbólica que envolve dimensões objetivas / subjetivas, Individuais/ coletivas, como

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fatores que apontam o significado e o sentido cultural dos acontecimentos. São norteadores do processo de identificação e distinção sócio-cultural. Em Colares, uma comunidade que se organiza desde o século XVIII, quando da atuação dos missionários na região do Salgado. Uma região ocupada por índios, mamelucos, cafuzos, mulatos e brancos. Uma fusão étnica cultural própria, estabelecendo-se e fortalecendo-se os laços de pertencimento ao lugar no aspecto social e cultural. Essa comunidade até a década de 1970 vivia certo isolamento, em que a vida transcorria num micro mundo, retratada pela atuação de pequenos grupos. O que lhe conferia padrões eminentemente caboclos. A partir desse período, a industrialização da pesca e seu rebate sobre a pesca artesanal altera as condições materiais dos pescadores locais, ao se depararem com novos instrumentos, a modernização da pesca, o manejo e o ritmo da captura do pescado. Uma nova realidade que altera as condições de permanência das comunidades tradicionais. Outro fator marcante foi à chegada da estrada que trouxe os caminhões frigoríficos pesqueiros e a demanda por uma produção maior. A estrada também possibilitou a ligação de Colares com outros centros mais dinâmicos pela busca de bens e serviços. Assim como também a chegada de levas de pessoas nos finais de semana, feriados e férias, transformando essa comunidade em cidade balneária. São postas frente a frente duas realidades distintas, uma pautada no tradicionalismo e outra no estilo de vida moderna, com poder de persuasão sobre a cultura tradicional. Apesar da interferência, ainda é bem nítida a diferença entre os “nativos” e os que vêm de “fora”. É ainda forte sua vinculação com o passado tradicional e os sentimentos de pertencimento em que se priorizam os interesses, os sentimentos e as necessidades dessa população ribeirinha. Com o passar do tempo, a interferência dos padrões mais global e a diversidade cultural vem fragilizando o ideário que dá sustentação ao mundo

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caboclo. A população local passa a se ajustar às necessidades capitalistas, secundarizando a identidade cultural local, com atitude de negação ou desconsideração da cultura local, sobretudo a população jovem que passa a se identificar com o “novo” com os padrões dos grandes centros deixando no passado a cultura cabocla. Com esse processo de reordenação, novas forças, nova adaptabilidade se dá entre o mundo antigo e o mundo moderno. Havendo um deslocamento da identidade ribeirinha e um processo de fragmentação do “eu” que se altera, segundo o olhar do “outro”. Aos olhos da modernidade, a população tradicional é vista como uma cultura antiga, tradicional, inculta e rude. Na verdade, o que se verifica é a formação de uma identidade hibrida que tenta conciliar o "velho” e o “novo”. Sem, no entanto, serem unificados. Em geral são processos que se manifestam como posicionais. Alteram seu pertencimento de acordo com a realidade envolvente, ora se aproximam da tradição, ora se sentem mais atraídos pela modernidade, De maneira geral, há posicionamentos diversos em relação a várias situações presentes nessa realidade, a população mais antiga é favorável a manutenção de uma vida pacata sem grandes alterações. Em relação à construção da ponte que ligará Colares a Penhalonga, alguns moradores são terminantemente contrários, pois vai expor a cidade a muitas situações, pois possibilitará a vinda de mais pessoas e isso vai tirar a paz, a tranqüilidade que ainda existe em Colares. Para outros, a ponte vai dinamizar Colares, pois o comércio e a cidade vão crescer e progredir. Outros ainda esperam que a chegada da ponte venha junto com outros projetos para dinamizar a cidade e possibilitar o aquecimento da frente de trabalho, principalmente para a população jovem. Apesar dos sentimentos e sentidos atribuídos às mudanças, já são visíveis as alterações na vida tradicional de Colares. No entanto, é nítida a diferença entre o “colarense” seu modo de ser, de falar e de trabalhar e os “outros" que chegam, estabelecem-se nessa cidade, demonstrando assim uma realidade contraditória.

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Percebe-se de um lado, que há o reconhecimento social que direciona e ainda confere sustentabilidade, por outro lado, a interligação dessa comunidade com outras áreas trouxe para essa comunidade novos comportamentos, novos padrões culturais, novos sentidos que alteram a relação e a diversidade. É uma comunidade que pouco a pouco vai se submetendo aos interesses do capital, ao mesmo tempo em que lhe possibilita a secundarização e ou abolição dos padrões locais. Assim, Colares, sua cultura tradicional vem se fragilizando frente a tantas mudanças que alteram seu modo de ser e de fazer e, contribuindo para a construção identitária hibrida que reúne o antigo e o novo. Um processo que se dá pela reinvenção do tradicional em um contexto totalmente distanciado das condições do passado, o que revela uma reordenação social e cultural bem presentes; uma adaptabilidade diante de uma nova realidade social. Embora não exista uma identidade cultural definida em si mesma na cidade de Colares, ser colarense é algo bem visível e concreto, ainda que se considere aos contatos mais amplos estabelecidos por essa comunidade e o confronto com uma realidade mais diversa que aos poucos vem fragilizando o ideário local. As mudanças e as novidades afetam principalmente a população jovem que vislumbra seus projetos de vida para as áreas mais amplas e dinâmicas, uma vez que não se sentem atraídos palas práticas e o modo de ser e viver da população local. Os sonhos de ampliar os estudos, a busca de emprego e de independência econômica coloca a população jovem vulnerável a saída do município. O futuro nunca aparece ligado ao tradicionalismo, mas ao mundo moderno e mais amplo. A saída dos jovens do município tem gerado a permanência da população mais antiga e dos mais jovens e crianças, e com isso, a não renovação da mão-de-obra na agricultura e na pesca, que, embora sejam atividades de sustentação do município. Sua continuidade está ameaçada num futuro próximo, caso os fatores imobilzantes não sejam removidos ou redirecionados

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