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CARROS

DIÁRIO POPULAR SEGUNDA-FEIRA, 5 DE SETEMBRO DE 2011

Ferramentas digitais ajudam a const
Irmãos gêmeos recorrem à modalidade de financiamento coletivo pela internet, criam site para tentar levantar recursos e levar adiante um projeto curioso: recuperar e deixar o mais original possível um Fusca modelo 1960 adquirido por eles
Osiris Reis

Pelotas. Organizar fundos para patrocinar iniciativas culturais e sociais sempre foi comum na sociedade. Entre os maiores exemplos dessa iniciativa estão os mecenas, comerciantes que incentivavam a produção artística e científica no Renascimento, na Idade Moderna. Atualmente a prática multiplica-se de uma nova e inusitada maneira, dessa vez com o auxílio das ferramentas digitais e difundida pela internet. O crowdfunding (em português, pode ser traduzido em financiamento coletivo) é uma maneira fácil encontrada para que as pessoas que não possuem tempo suficiente para encabeçarem projetos possam participar e sentirem-se atuantes em alguma iniciativa. As opções são variadas e é possível encontrar projetos como financiamento de livros, peças culturais e até mesmo exemplos mais peculiares, como a reforma de um Fusca. Isso mesmo, a reforma de um Fusca produzido em 1960. A ideia nasceu quando os irmãos gêmeos pelotenses André e Pedro Fachinello, 29, resolveram adquirir o veículo e reformá-lo, mas esbarraram em um frequente problema: a falta de dinheiro. Foi assim que há três semanas nasceu o site www.restaurameufusca.com.br, com a finalidade de levantar fundos para a reconstrução do veículo. Baseados na história de jovem inglês que lançou um site para arrecadar fundos com a intenção de cursar a universidade, os gêmeos adaptaram a iniciativa às suas necessidades e têm o objetivo de levantar R$ 100 mil para restaurar o carro com itens originais e novos. A ideia é deixá-lo com características originais, como lataria interior e teto solar em lona, com alguns toques europeus, como rodas de aros 17 polegadas e alguns acessórios de Porsche. “Ainda estamos em dúvida sobre a cor que o carro será pintado, mas lançamos uma enquete no site para que os internautas votem e nos ajudem a escolher”, diz o administrador Pedro. Para participar da ideia estão à venda espaços publicitários no site, blocos de cem pixels, cada um ao preço de R$ 10,00. Lá o anunciante poderá colocar um link que remeta ao seu site e ter sua marca divulgada em um espaço público por, no mínimo, cinco anos. Segundo Pedro, a intenção é fazer com que todos os contribuintes sintam-se participantes do processo de reforma, que é divulgado passo a passo no blog http:// restaurameufusca.blogspot.com. “Uma de nossas maiores dificuldades ainda é o receio que as pessoas demonstram depois de serem abordadas. Elas ainda não entendem muito bem a proposta por se tratar de um site novo”, diz o bacharel em Comércio Exterior. André, que mora em Camaquã, afirma que o momento agora é de difundir a ideia e fazer com que as pessoas se apossem do

Qualquer pessoa ou empresa pode participar da ideia lançada pelos irmãos Fachinello; para isso, basta entrar no site e conferir
Fotos Jô Folha - DP

O modelo da Volkswagen com mais de 40 anos precisa de muito reparo

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truir sonhos
Bruno Campelo - DP

Iniciativas que deram certo
Apenas um passeio pelos sites de financiamento coletivo basta para que você sinta-se atraído sobre algum assunto. O valor da contribuição reverte em benefícios para o colaborador e quanto mais você doar, mais irá receber. É fácil contribuir, basta ter um cartão de crédito. Confira abaixo alguns projetos de sucesso na internet. Os dois primeiros estão disponíveis no site Catarse: Democracia em preto e branco: todas as doações arrecadadas com esse projeto serão destinadas à produção de um documentário que fala sobre um dos períodos mais importantes da história brasileira: as eleições diretas para presidente. Também serão abordados aspectos como o surgimento do Rock Brasil e o movimento conhecido como Democracia Corintiana. Até a finalização do projeto foram arrecadados mais de R$ 22 mil. Brasilianas Arte-reciclagem: o grupo Brasilianas é um empreendimento de economia solidária integrado por 13 mulheres da comunidade de Jardim Damasceno, Brasilândia (SP). Elas trabalham para a transformação e reutilização de banners e tecidos considerados resíduos pelas indústrias têxteis de São Paulo, em matéria- prima para a confecção de ecobags, necessaires e pastas. As doações são necessárias pois as artesãs desejam comprar maquinário para fazer cortes em lonas e banners. Até agora já foram arrecadados mais de R$ 2 mil. The Million Dollar Homepage: o site www.milliondollarhomepage.com provavelmente é uma das iniciativas mais rentáveis encontradas na web. Alex Tew, 21, é o estudante inglês que motivou a ideia dos gêmeos pelotenses. O estudante de Administração de Empresas lançou um site de vendas de anúncios em 2005 com a intenção de arrecadar 1 milhão de dólares para custear seus estudos universitários.

em 2003 levantou 15 mil dólares entre os leitores do seu blog Back to Iraq para cobrir suas reportagens durante a guerra no país do Oriente Médio. O que está em evidência agora é a consolidação de uma ferramenta, a internet, que facilita os processos da popular vaquinha. “Antes a pessoa falava com os interessados e recolhia pessoalmente os fundos. Agora, os sites funcionam como intermediários e automatizam o processo. Eles acabam divulgando muito mais as ideias”, comenta o especialista. O professor afirma que o que diferencia a ideia é o fato de as pessoas poderem colaborar diretamente com o que acham importante e assim sentirem-se participantes de uma ação. “Muitas vezes as pessoas colaboram pois gostariam de ter uma ideia, mas não possuem o tempo livre necessário ou habilidade”, explica.

Mecenato. Os mecenas, geralmente reis
e burgueses do início da Idade Moderna, foram figuras extremamente importantes para que áreas como arte e ciência tomassem seu próprio rumo após serem oprimidas na Idade Média. Atualmente foram eles que inspiraram a prática na internet. A professora de História, Érica de Lima, explica que a partir de 1453, início da Idade Moderna, ainda era muito difícil a sobrevivência somente através da arte e da pesquisa, o que motivava os artistas e cientistas a recorrerem aos auxílios destes patrocinadores, que investiam financeiramente em seus trabalhos e projetos.

A futura cor do veículo ainda não foi definida e os internautas podem ajudar a escolher

Curiosidades
No dia 3 de janeiro de 1959 a Volkswagen inaugurou o primeiro Fusca brasileiro, com 54% de nacionalização. No entanto, o automóvel que viria ser uma paixão nacional já circulava pelo país. As primeiras 30 unidades do modelo, importadas da Alemanha, desembarcaram no porto de Santos em 1950. Nesse período a frota nacional de automóveis de passeio era de 280 mil carros. No início da década de 60 o Fusca tornou-se líder de vendas no Brasil, com mais de 30 mil veículos comercializados. Para manter essa posição, a montadora iniciou uma série de melhorias no carro: em 61 ele ganhou um câmbio com a primeira marcha sincronizada e, em 62, recebeu um chassi nacional. Em 1963 a Volkswagen comemorou a produção de cem mil unidades do Fusca Sedan no Brasil, o primeiro país do mundo a alcançar esse número em vendas do modelo. (Fonte: site da Volkswagen)

projeto. “Estamos fazendo contato com agências de publicidade, restauradores e meios de comunicação”, comenta. Até agora já foram adquiridos peças como tampa, capô e o tanque de combustível com uma verba arrecadada de R$ 1 mil.

União em prol de um objetivo em comum
Sites como o Catarse (www.catarse.me), Incentivador (www.incentivador.com.br) e Vakinha (www.vakinha.com.br) são exemplos de sucesso quando trata-se de financiamento coletivo. Não há limites na hora de delimitar o tema. Podem ser encontrados projetos com cunho social, além de ideias que propõem o financiamento de peças teatrais, eventos de música e filmes. De acordo com o coordenador da especialização em Jornalismo Digital da Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Famecos/PUC-RS), Marcelo Träsel, ninguém consegue precisar com exatidão o momento histórico em que o financiamento coletivo, ou micromecenato, surgiu. No entanto, um dos pioneiros em arrecadar fundos na web foi o jornalista americano Chris Allbritton, que
Algumas peças já foram adquiridas com a primeira parte da verba que foi arrecadada

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