FICAR OU NÃO FICAR

TOM WOLFE

FICAR OU NÃO FICAR
Tradução de PAULO REIS

Rio de Janeiro — 2001

Título Original HOOKING UP Copyright © 2000 by Tom Wolfe Todos os direitos reservados, incluindo os de reprodução no todo ou em parte sob qualquer forma. Direitos para a língua portuguesa reservados com exclusividade para o Brasil à EDITORA ROCCO LTDA, Rua Rodrigo Silva, 26 — 55 andar 20011 -040 — Rio de Janeiro, RJ Tel.: 2507-2000 — Fax: 2507-2244 e-mail: rocco@rocco.com.br www.rocco.com.br Printed in Brazil / Impresso no Brasil preparação de originais MAIRA PARULA CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

W837f Wolfe, Tom, 1932Ficar ou não ficar / Tom Wolfe; tradução de Paulo Reis. — Rio de Janeiro: Rocco, 2001. Tradução de: Hooking up ISBN 85-325-1321-2 1. Ficção americana. I. Reis, Paulo. II. Título. 01-1342 CDD-813 CDU-820(73)-3

SUMÁRIO

FICAR OU NÃO FICAR Ficar: Como era a vida na virada do segundo milênio: O mundo de um americano / 10 A FERA HUMANA Dois rapazes a caminho do Oeste / 25 Digibesteiras, pó de pirlimpimpim e o formigueiro humano / 84 Lamento, mas sua alma acaba de morrer / 112 VITA ROBUSTA, ARS ANOREXICA No país dos marxistas rococós / 140 O artista invisível / 161 O grande reaprendizado / 172 Meus três patetas / 178 O CASO NEW YORKER Prefácio: Jornalismo marrom assassino / 213 Pequenas múmias! A verdadeira história do rei da terra dos mortos-vivos da rua 43 / 220 Perdidos no matagal dos quês: The New York / 236 POSFÁCIO No alto da sela / 261

FICAR OU NÃO FICAR

Ficar: Como era a vida na virada do segundo milênio: O mundo de um americano*

N

o ano 2000 o termo "classe trabalhadora" já caíra em desuso nos Estados Unidos, e "proletariado" era algo tão obsoleto que só era empregado por poucos acadêmicos marxistas, velhos, amargurados e de orelha peluda. Qualquer eletricista, técnico de arcondicionado ou especialista em sistemas antifurto vivia, em geral, uma vida que deixaria o Rei-Sol espantado. Passava as férias em Puerto Vallarta, em Barbados, ou em St. Kitts. Antes do jantar, ia com sua terceira esposa para a varanda de um hotel de luxo, vestido com a camisa de cortador de cana aberta até quase até o umbigo — no estilo de Ricky Martin — para exibir melhor as correntes de ouro que lhe cintilavam sobre o peito cabeludo. Os dois pediriam água mineral Quibel, da Virgínia, porque no ano 2000 as águas minerais européias, Perrier e San Pellegrino, outrora tão requisitadas, já pareciam de muito mau gosto.

* Meus cumprimentos para Robert Lacey, Danny Danziger e seu encantador livro O ano 1000: como era a vida na virada do primeiro milênio: o mundo de um inglês (Londres: Little, Brown and Company, 1999)

__ As marcas européias já não gozavam do menor prestígio ou status, a não ser para aqueles conhecidos como "intelectuais", os quais visitaremos em instantes. Nosso mecânico ou comerciante típico presumia naturalmente que tudo que fosse europeu era de segunda categoria. Com exceção de seus três automóveis de luxo alemães — o Mercedes, o BMW e o Audi —, ele considerava mediocres ou falsificados todos os bens fabricados na Europa. Em suas viagens ao exterior, nosso eletricista, como qualquer empresário americano, fazia esforços sobre-humanos para evitar ser tratado nos hospitais europeus, que lhe pareciam pouco melhores do que os existentes no Terceiro Mundo. Ele considerava a higiene européia tão primitiva, que seria pura loucura receber por vontade própria uma injeção numa clínica européia. Indiretamente, no subconsciente, talvez essa visão se devesse ao fato de seu próprio país, os Estados Unidos, haver se tornado a maior potência da Terra: onipotente como a Macedonia de Alexandre o Grande, Roma de Julio Cesar, a Mongolia de Gengis Khan, a Turquia de Maomé II, ou a Grã-Bretanha da rainha Vitória. Seu país era tão poderoso que começara a invadir ou a lançar chuvas de misseis sobre pequenas nações da Europa, da África, da Asia e do Caribe, pela simples razão de estarem os líderes dessas nações oprimindo seus súditos domésticos. Nosso técnico de ar-condicionado provavelmente jamais ouvira falar de Saint-Simon, mas estava tornando realidade os sonhos de Saint-Simon e de outros socialistas utópicos do século XIX que sonhavam com uma época em que o trabalhador comum teria a liberdade política e pessoal, o tempo livre e os recursos financeiros para se expressar da maneira que achasse melhor, e para liberar todo o seu potencial. Além disso, tratava-se de uma época em que qualquer grupo étnico ou racial — qualquer um, até refugiados recém-chegados de um país latino — podia assumir o governo de qualquer cidade

americana, se tivesse votos e um mínimo de organização. Os americanos podiam gabar-se de uma liberdade, bem como de um poder, sem paralelo na história mundial. No entanto, nosso típico especialista em sistemas antifurto não exibia um só erg de gabolice chauvinista. Fora anestesiado pelos já mencionados "intelectuais", os quais haviam passado os oitenta anos anteriores indignados com o "puritanismo", a "repressão", o "preconceito", o "capitalismo" e o "fascismo" ocultos sob a fachada democrática da nação americana. Aquilo deixara-o com dor de cabeça. Além disso, ele estava ocupado demais enfrentando o que era conhecido como a "revolução sexual". A expressão "revolução sexual" era simplesmente um termo bastante pudico para o carnaval lascivo que, na realidade, andava ocorrendo no mais poderoso país da Terra por volta do ano 2000. Cada banca de jornal exibia um festival de gente nua, mamilos avermelhados, fendas umedecidas e miudos endurecidos: homens com mulheres, homens com homens, mulheres com mulheres, mulheres fisiculturistas com os peitos de fora, os chamados meninos com seios, totalmente nuas exceto por tapa-sexos e capacetes Panzer, sentadas atrás de brutamontes com os músculos inchados de esteróides sobre imensas motocicletas Honda ou Harley-Davidson cromadas. As revistas, porém, não eram nada comparadas com o que se oferecia numa invenção da década de 1990, a Internet. No ano 2000, estimava-se que 50 por cento dos acessos ou logons à rede eram a sites que exibiam o que era conhecido como "temática adulta". A palavra "pornografia" sumira pelo ralo da memória junto com "proletariado". Cresciam os casos de casamentos desfeitos por causa de gente viciada em sexo na Web. O marido, um técnico de aparelhos de ressonância magnética ou um analista de sistemas, com 52 anos de idade, ficava diante do computador por vinte e quatro horas de uma só sentada. Nada do que a esposa pudesse oferecer-lhe,

como prazeres sexuais ou iguarias, podia se comparar à atividade manual em que ele se envolvia dia e noite, sentado diante do computador e conectado a imagens de uma jovem de corpete de couro negro, com os seios desnudos, brandindo um chicote com o pé sobre as costas de um rapaz nu. Em 1999, o ano anterior, esta tara sexual específica — o sadomasoquismo — achara não só respeitabilidade como era altamente chique, e a palavra "perversão" tornara-se tão obsoleta quanto "pornografia" e "proletariado". As páginas de moda apresentavam o couro negro e a parafernália de borracha como uma revolução no estilo. Uma atriz chamada Rene Russo confessou tranquilamente a um dos maiores jornais americanos, que havia consultado uma ex-dominatrix chamada Eva Norvind, a qual mantinha uma masmorra repleta de chicotes, correntes e intrigantes mordaças, algemas e máscaras de couro, a fim de se preparar para o papel de uma agente provocadora, agressiva e obcecada em Crown, o magnífico, seu último filme. A palavra "sexy" começava a substituir "chique" como o adjetivo que indica o que é elegante e está na última moda. No ano 2000, era normal que um alto executivo bem-sucedido chutasse a esposa e acabasse um casamento de duas ou três décadas, simplesmente porque o revestimento sub-cutâneo dela estava se deteriorando e os ombros e as costas estavam se avolumando como os de um arremessador de peso — em suma: porque ela já não era sexy. Depois de instalar a antiga esposa num armarinho onde ela pudesse vender lã e ficar de conversa fiada com as amigas, ele estava livre para arranjar uma nova esposa, de preferência uma esposa-troféu, ou seja, uma mulher de vinte e poucos anos, e preferívelmente loura, como indicava uma expressão da época: "uma loura gelada". Qual o lado ruim disso? O novo casal era considerado socialmente explosivo? As pessoas ficavam cochichando quando o par maculado aparecia? De jeito algum. A única coisa

que acontecia era que todos pegavam seus celulares ou entravam na Internet, e telefonavam ou mandavam e-mails uns para os outros a fim de descobrir como se escrevia o nome da tal esposa nova, porque eram sempre nomes como Serena, e ninguém sabia direito como se escrevia isso. Depois que o nome era escrito nos caderninhos de endereços vermelhos da Scully & Scully, tão populares entre os descolados, a loura gelada e o peixão executivo eram convidados para todas as festas, como se nada houvesse acontecido. Enquanto isso, os estímulos sexuais bombardeavam os jovens tão incessantemente, e com tanta intensidade, que eles se inflamavam de tesão muito antes da puberdade. E quando finalmente entravam na puberdade, as represas — se é que havia alguma — estouravam. No século XIX, havia prateleiras inteiras cheias de romances que giravam em torno da necessidade que as mulheres, como Anna Karenina ou Madame Bovary, tinham de permanecer castas ou ao menos manter uma fachada de castidade. No ano 2000, Tolstoi e Flaubert não teriam tido a menor chance nos Estados Unidos. Desde os treze anos de idade, as meninas americanas viviam pressionadas a ostentar uma fachada de vivência e sofisticação sexual. Entre as meninas, "virgem" era um termo usado com desdém. A velha expressão "sair com" — referência ao costume de um rapaz convidar uma moça para sair à noite e levá-la a um cinema ou restaurante — estava mais morta do que "proletariado", "pornografia" ou "perversão". Na escola secundária e na faculdade, tanto as moças quanto os rapazes saíam à noite em bandos, na esperança de se encontrarem fortuitamente. Caso se encontrassem e uma moça gostasse da aparência de algum rapaz, fazia-lhe um meneio de cabeça; ou então ele meneava a cabeça para ela, e ai os dois se afastavam para um cantinho meio isolado, e "ficavam".

No ano 2000 "ficar" era uma gíria conhecida por quase toda criança com mais de nove anos de idade. O numero de pais e mães que o conheciam, porém, era relativamente pequeno; e mesmo que já houvessem ouvido aquilo, achavam que a expressão era usada no antigo sentido de "encontrar" alguém. Entre as crianças, ficar era sempre uma experiência sexual, mas a natureza e a extensão do que faziam podia variar amplamente. No século XX, as meninas americanas usavam a terminologia do beisebol. "Primeira base" significava abraçar e beijar; "segunda base" significava agarrar, apalpar e beijar de língua, ou como se fala comumente, "partir para a sacanagem"; "terceira base" significava felação, ato que nas conversas bem-educadas é descrito pelo termo ambíguo "sexo oral"; e por fim "quarta base", que significava ter uma relação sexual com penetração, ou seja, aquilo que normalmente se conhece como "ir até o fim". No ano 2000, na era do ficar, "primeira base" já era dar um beijo de língua ("hóquei de amígdala"); "segunda base" representava sexo oral; "terceira base" representava ir até o fim; e "quarta base", saber os nomes um do outro. No entanto, partir para a "quarta base" era uma coisa relativamente rara. No ano 2000, o comentário típico no diário de uma adolescente que houvesse ficado na noite anterior seria: "Garoto de camiseta Wu-Tang preta e calças cargo: O, A, 6". Ou então: "Caralho turbinado imbecil [giria relativa a rapazes musculosos], que só ficava dizendo 'Que maneiro': ACX, 3". As letras se referiam aos atos sexuais realizados (i.e., ACX simbolizava "aquela coisa com a xícara"), e o algarismo arábico indicava o grau de satisfação numa escala de 1 a 10. No ano 2000, as meninas usavam "comer" como um verbo ativo que indicava uma conquista sexual, tal como na frase: "O negócio todo foi tipo muito superficial, mas eu comi aquele bombado que disse que ia para casa entrar na cafeína [beber café a fim de permanecer acordado] e estudar para o

psicotécnico." No século XX, só os meninos usavam "comer" dessa forma, como na frase: "Finalmente comi a Susan ontem à noite." O uso da mesma expressão por meninas realça uma das ironias nas relações entre os sexos no ano 2000. A voga continua do feminismo tornara a vida mais fácil, e até despreocupada, para os homens. As mulheres haviam sido convencidas de que deveriam se igualar aos homens em termos de iniciativa sexual. Os homens concordaram alegremente com a nova ordem das coisas, pois isso os dispensava de qualquer senso de responsabilidade, que dirá cavalheirismo. E começaram a adotar atitudes anteriormente femininas quando o tema do casamento vinha à baila, alegando fraqueza ou indecisão, tal como nas frases: "Não sei; ainda não estou pronto, só isso", ou "É claro que eu amo você, mas sabe, eu começo a pirar quando tento pensar nisso". Depois que entravam na puberdade, os rapazes conseguiam se satisfazer sexualmente com tanta facilidade e tranquilidade que um novo problema disciplinar começou a ser relatado pelas escolas de Segundo Grau. Eram escolas tão distantes entre si, em termos geográficos e sociais, quanto as favelas do sul do Bronx e os elegantes subúrbios washingtonianos de Arlington e Talbot, na Virgínia. Durante os intervalos de dois minutos entre as aulas, meninas de treze e catorze anos ajoelhavam-se pelos corredores e escadarias e praticavam felação nos meninos. Em Nova York, quando a professora lhe perguntou como ela podia fazer aquilo, uma adolescente de treze anos retrucou: "É feio, mas eu preciso satisfazer o meu homem." Feio era uma avaliação estética, e não moral ou higiênica. No ano 2000, os meninos e meninas não consideravam a felação um ato verdadeiramente sexual, ou mais forte do que o hóquei de amígdala. Não passava de "sacanagem". A época, o presidente dos Estados Unidos costumava chamar ao seu gabinete uma estagiária de vinte e dois anos que trabalhava sem

remuneração no palácio presidencial, a Casa Branca, para que ela praticasse felação nele. Mais tarde, ele testemunharia sob juramento que jamais fizera "sexo" com ela. Os americanos mais velhos tenderam a ficar chocados; mas os secundaristas e universitários entenderam perfeitamente o que ele estava dizendo, e até tentaram imaginar o porquê de tanta confusão. Os dois haviam feito apenas a "segunda base", haviam ficado. As adolescentes falavam de sua vida sexual para completos desconhecidos sem a menor vergonha ou malicia. Um jornal nova-iorquino enviou um repórter às ruas com a seguinte pergunta: "Como você perdeu sua virgindade?" Tanto meninas quanto meninos responderam sem hesitação, posaram para fotografias e divulgaram nome, idade e bairro onde moravam. No campo sexual, os tabus e estigmas de todos os tipos estavam desaparecendo. No começo do século XX, o termo "coabitação" descrevia a prática proibida de um homem e uma mulher morarem juntos antes de se casarem. No ano 2000, ninguém com menos de quarenta anos já ouvira falar nessa palavra, pois coabitação era agora a forma costumeira de se fazer a corte entre os americanos. Para os pais com mais de quarenta anos, uma das questões de etiqueta mais espinhosas era a alocação doméstica das camas. Quando um filho ou uma filha vinha passar o fim de semana com seu consorte, punham-se os dois num só quarto, indicando assim aprovação implícita do desconfortável fait acompli? Ou separava-se o casal em dois quartos e passava-se a noite em claro, em rigidez insone, no temor de ouvir passadas abafadas no corredor de madrugada? Colocar o casal em quartos separados era decididamente uma coisa antiquada; e no ano 2000, graças à ênfase febril no sexo e na aparência sexy, ninguém queria parecer velho, que dirá antiquado. Dizia-se que na cidade de Baltimore já havia avós que furavam as sobrancelhas, línguas e bocas com argolas de ouro a fim de parecerem mais jovens, pois

o piercing era um modismo entre os rapazes e moças dos treze aos vinte e poucos anos. Futuras mães perfuravam os umbigos com argolas de ouro, a fim de que a deformação da gravidez não fizesse com que se sentissem velhas. Um senhor idoso, exsenador e candidato a presidente, emergiu de um estado confesso de incapacidade e foi à televisão incentivar outros senhores idosos a tomar uma droga chamada Viagra. Assim todos se libertariam do que ele dizia ser uma das pragas dos tempos modernos, a doença que não ousava dizer seu nome: impotência. Ele também não ousava dizê-lo, Chamava a coisa de "D.E.", ou seja, disfunção erétil. As seguradoras viram-se pressionadas a classificar a impotência em homens idosos como doença, e a custear o tratamento. Por volta da virada do século XIX para o XX, os velhos americanos rezavam assim: "Por favor, Deus, não me deixe parecer pobre." No ano 2000 eles rezavam: "Por favor, Deus, não me deixe parecer velho." A aparência sexy era equacionada com a juventude, e a juventude reinava. A doença relacionada à idade mais disseminada não era a senilidade, e sim a juvenilidade. O ideal social era você parecer ter vinte e três anos, e vestir-se como se tivesse treze. Por todo o país, idosos e idosas aproveitavam todas as oportunidades para vestir-se informalmente, usando calças jeans, tênis espaventosamente listrados, shorts, camisetas, camisas pólo, jaquetas e suéteres, pouco importando que tais roupas revelassem todas as tristes dobras, curvas, corcundas e veias inchadas de seus corpos batidos pela idade. Neste aspecto, no ano 2000 a sociedade americana estava invertendo normas de vestuário que haviam durado séculos, se não milênios. A majestade da onipotência global americana se refletia nos trajes dos ricos e proeminentes? Ao contrário. No ano 2000, a maioria dos bilionários americanos — e a imprensa já não dava atenção a gente que tivesse meros 500 ou 750 milhões de dólares — morava nos condados de San Jose e Santa Clara, na Califórnia, uma area conhecida

nacionalmente, com reverência mítica, como o Vale do Silício, o centro incandescente da indústria dos computadores e da Internet. Em 1999, só a indústria da Internet produzira catorze novos bilionários. A mitologia do Vale estava cheia das sagas de jovens que haviam criado negócios independentes. Haviam aberto empresas próprias logo depois de sair da faculdade, ou melhor ainda, haviam largado a faculdade para lançar suas "start-ups'", como eram conhecidos esses novos empreendimentos da era digital. Eram os novos "Mestres do Universo", expressão cunhada na década de 1980 para descrever os (meros) megamilionários paridos por Wall Street durante um ciclo de alta no mercado de ações. Em comparação com os jovens bilionários do Vale, o mundo do pessoal de Wall Street parecia lento e entediante, ainda que a Bolsa estivesse em alta no ano 2000. A trajetória típica deles era a seguinte: formavam-se na faculdade, passavam três anos ruminando números feito asnos numa grande corretora financeira, ficavam dois anos numa escola de administração para conseguir um MBA, e depois voltavam para alguma corretora financeira na esperança de ganharem dinheiro de verdade antes de completarem trinta anos. A falta de imaginação desse tipo de carreira era simbolizada pela falta de imaginação de suas vestimentas. Até os mais jovens vestiam-se como velhos: ternos escuros desenxabidos, camisas claras desenxabidas, gravatas Hermès desesperançadamente "interessantes"... Muitos deles usavam até suspensórios de seda. Os novos Mestres do Universo inverteram tudo isso. Em Palo Alto, na Califórnia, os fundadores bilionários dos novos conglomerados maravilhosos adentravam as portas do restaurante Il Fornaio — onde se reuniam durante o café da manhã para trocar relatos de guerra e cartões de visita — parecendo ratos de praia bem passados e barbeados, mas mesmo assim ratos de praia. Usavam calças leves, mocassins de iatismo (sem meias) e camisas de algodão comuns, com os punhos enrolados e a frente aberta até o

umbigo. E só. Via-se de cara que um bilionário do Vale do Silício não carregava telefone celular, Palm Pilot, calculadora HP-19B ou pager, pois tinha quem fizesse isso para ele. Tomando o café da manhã com ele ali, no II Fornaio, estaria um vice-presidente que valia uns 100 ou 200 milhões de dólares líquidos. Ele estaria vestido exatamente como o fundador, mas também portaria um paletó esporte. Por quê? Para poder carregar... o telefone celular, o Palm Pilot, a calculadora HP-19B e o pager, que recebia mensagens por correio eletrônico e parecia grande feito um tijolo. Mas por que não uma pasta? Porque isso era o que os empresários antiquados lá da costa leste carregavam. Nem morto alguém seria pego no Il Fornaio carregando uma pasta de executivo. A pasta da costa leste era conhecida desdenhosamente como "marmita de couro". Se alguém entrasse no Il Fornaio usando terno e gravata, provavelmente seria confundido com o maitre. No ano 2000, tal como em épocas anteriores, esperava-se que o pessoal do ramo de serviços — como porteiros, motoristas, garçons e maitres — usasse os anacrônicos trajes elegantes dos tempos de antanho. No Vale do Silício, usar gravata era um estigma que indicava que você era tudo que um Mestre do Universo não era. E gradualmente, você percebia a coisa. O pobre-diabo de terno e gravata detinha um daqueles cargos executivos baixos, porém necessários, de relações públicas ou de investimento, nos quais era impossível não se deparar com velhos saidos do Plioceno e vindos da... costa leste atrasada. Enquanto isso, lá na costa leste, os filhos das famílias ricas tradicionais também estimulavam intensamente essa inversão de modas. Uma das cenas novaiorquinas mais notáveis no ano 2000 foi protagonizada por um adolescente — rebento de uma família proprietária de uma corretora financeira — que saia de um dos quarenta e dois Prédios Bons, como se dizia na época. Esses quarenta e dois

prédios no lado leste de Manhattan continham os maiores, mais grandiosos e mais imponentes apartamentos já construídos nos Estados Unidos. A maioria ficava em duas avenidas, a Quinta ou a Park. Na cena em questão, um porteiro vestido feito um coronel do Exército austríaco de 1870 abriu a porta do prédio para o tal adolescente, um garoto branco e pálido, sair. O garoto trazia um boné de beisebol virado ao contrário; uma camiseta vários números maior, com as mangas passando dos cotovelos e as fraldas batendo nos quadris; e calças largonas, com bolsos descendo pelas pernas, o gancho pendendo entre os joelhos e metros de tecido enrolados em torno dos tornozelos, quase tapando os tênis Lugz. O traje fora deliberadamente copiado do "pessoal do movimento", ou jovens negros das ruas de seis bairros pobres novaiorquinos: Harlem, South Bronx, Bedford-Stuyvesant, Fort Greene, South Ozone Park e East New York. Depois de passar pelo porteiro, que roçou os dedos na viseira do quepe de oficial e disse "Bom dia", o garoto caminhou seis metros até um sedã que o esperava, onde um chofer — com um quepe de ofícial também com viseira — segurava a porta já aberta. O que se devia concluir de tal cena? Aquele figurino já dizia tudo. No ano 2000 os filhos dos ricos, que haveriam de herdar as riquezas do país mais poderoso do mundo, estavam consumidos pelo medo de serem invejados. Um sociólogo alemão da época, Helmut Schoeck, disse que o "medo de ser invejado" era a definição de culpa. Mas se era assim, tratava-se de culpa de quê? De tantas riquezas, de tanto poder, de tamanha gama de privilégios? A superioridade americana em todos os ramos da ciência, da economia, da indústria, da política, dos negócios, da medicina, da engenharia, da vida social, da justiça social, e, é claro, das forças armadas era total e indiscutível. Até os europeus, que sofriam as dores do chauvinismo ferido, viam com reverência o exemplo brilhante que os Estados Unidos davam

para o mundo no começo do terceiro milênio. Ainda assim, havia uma nuvem no horizonte milenar. O país mostrara o caminho ao mundo em todas as areas, exceto uma. Em questões intelectuais e artísticas, continuávamos sendo uma colônia obediente da Europa. A arquitetura americana jamais se recuperara da influência letal da escola de Bauhaus alemã na década de 1920. A pintura e a escultura americanas jamais haviam se recuperado da influência letal de diversos movimentos teóricos franceses, a começar pelo cubismo no começo do século XX. Na música, as inovações de George Gershwin, Aaron Copland, Duke Ellington e Ferde Grofé no inicio do século XX haviam sido varridas pelas formulas abstratas e matemáticas do compositor austriaco Arnold Schoenberg. A influência de Schoenberg amortecera na década de 1990, mas o mal já estava feito. O teatro americano jamais se recuperara do absurdismo de Samuel Beckett, Bertolt Brecht e Luigi Pirandello. Acima de tudo, porém, havia o caso curioso da filosofia americana — que já não existia. Era como se Emerson, Charles Peirce, William James e John Dewey jamais houvessem nascido. A doutrina reinante era a desconstrução, cujos hierofantes eram dois Franceses, Michel Foucault e Jacques Derrida. Começaram eles com uma hiperdilação de um enunciado de Nietzsche, segundo o qual não pode haver uma verdade absoluta, mas apenas muitas "verdades", as quais são os instrumentos de diversos grupos, classes ou forças. A partir dai, os desconstrucionistas passaram à doutrina de que a linguagem é o instrumento mais insidioso de todos. O dever do filósofo é desconstruir a linguagem, expor suas intenções ocultas e ajudar a salvar as vítimas do Establishment americano: as mulheres, os pobres, os não-brancos, os homossexuais e as árvores de madeira-de-lei. Estranhamente os desconstrucionistas, quando precisavam de operações de apêndice, cirurgias

cardíacas ou até tratamentos de canais dentários, jamais desconstruíam a "verdade" médica ou dentária; concordavam com qualquer coisa que seus cirurgiões, diplomados pelo sistema e orientados pelo lucro, proclamavam ser a última palavra. Confusos e entediados, nosso eletricista, nosso técnico de ar-condicionado e nosso especialista em sistemas anti-furto sentavam-se à noite e assistiam a seu programa de tevê favorito (Os Simpsons), jogavam seu jogo de computador favorito {Tony Hawk's Pro Skater) com os filhos, conectavam-se à Internet, ficavam acordados até duas da madrugada planejando uma viagem a um hotel perto de Bangcoc que parecia fabuloso, e depois "desabavam" (iam para a cama exaustos), adormecendo num piscar de olhos. Tinham total certeza de que o sol voltaria a brilhar abençoadamente sobre eles pela manhã. Era o ano 2000.

A FERA HUMANA

Dois rapazes a caminho do Oeste

E

m 1948 havia sete mil pessoas em Grinnell, Iowa, e nenhuma delas ousava tomar um trago em sua própria casa sem antes abaixar as persianas. Era contra a lei vender bebida em Grinnell, mas perfeitamente legal beber em casa. Portanto, o problema não era esse. Não era nem que alguém podia espiar pela janela e desaprovar. Deus sabia que Grinnell tinha mais do que sua cota de abstêmios, mas em 1948 o álcool já não era a marca de Caim que fora outrora. Não. Ao passar os dedos pelas argolas das persianas dentro das alvas casas de madeira na rua Principal e na rua Park, aquelas almas timidas estavam pensando em algo totalmente diferente. Acontece que elas moravam em terras originalmente pertencentes a Josiah Grinnell, o pastor congregacionista que fundara a cidade em 1854. Josiah Grinnell vendera lotes através de contratos irrevogáveis em caráter vitalício, declarando que quern permitisse o consumo de álcool em sua propriedade renunciava à posse dela. De caráter vitalício! Vitalício era para sempre, e 1948 não chegava a ser nem cem anos depois. Em 1948 ainda havia gente em Grinnell que conhecera Josiah Grinnell pessoalmente. Era gente que estava envelhecendo, pois Grinnell morreu em 1891, mas ainda estava por lá. Portanto... para que arriscar?

A verdade nua e crua era que Grinnell tinha todas as características do Meio-Oeste. Ficava bem no centro do cinturão de milho que passa pelo meio de Iowa, onde os fazendeiros ainda diziam "pitu" em vez de lagostim, e "quintar" em vez de pátio do celeiro. Grinnell fora uma das muitas comunidades protestantes fundadas em meados do século XIX, depois que Iowa se tornou um estado e os colonizadores do Leste partiram para as terras das fazendas. As ruas eram margeadas por olmos e casas de tábuas brancas, feito as vilas da Nova Inglaterra. E em 1948 aquele cheiro do protestantismo do século XIX, de sabão Octagon esfregado com força, ainda permeava as casas e a rua Principal. Isso era uma parte considerável daquilo em que o pessoal do Leste pensava quando ouvia o termo "Meio-Oeste". Autores como Sherwood Anderson, Sinclair Lewis e Carl Van Vechten vinham provocando, havia trinta anos, as risadinhas mais deliciosas com seus retratos da mentalidade estreita e carola do Meio-Oeste. Grant Wood, um pintor de Iowa, pensava em fazendas como as que cercavam Grinnell quando pintou seu famoso quadro, Gótico Americano. O pessoal do Leste reconhecia imediatamente o casal austero e sem graça do quadro de Wood. Lá estava a retidão de Calvino e John Knox reinando naquele cafundó. No outono de 1948, Harry Truman escolheu Grinnell como uma das paradas em sua famosa campanha pelo interior do país a bordo de um trem. Era uma das aldeias em que ele podia entrar em contato com o povo humilde, o americano médio do interior, as pessoas intocadas pelos sofisticados formadores de opinião de Nova York e Washington. Discursando na plataforma traseira do vagão, 26 Truman disse que jamais esqueceria Grinnell, porque fora Grinnell College, a pequena faculdade congregacionista lá na rua Park, que lhe dera seu primeiro diploma honorário. A terna lembrança do presidente não fez muito sucesso, como se viu depois. A cidade votara majoritariamente nos republicanos em todas as

eleições presidenciais desde a primeira campanha de Abraham Lincoln, e não mudou de idéia por causa de Harry Truman. À primeira vista, em 1948 tal era a cidade de Grinnell, em Iowa: um pedaço da história americana do meio do século XIX solidamente congelado no meio do século XX. Seria uma das últimas cidades americanas que o pessoal lá do Leste apontaria como berço de um salto para o futuro, salto esse que criaria a própria subestrutura, a grade eletrônica da vida a partir do ano 2000. Por outro lado, isso não surpreenderia Josiah Grinnell nem um pouco. Foi no verão de 1948 que Grant Gale, um professor de física de Grinnell College de 45 anos de idade, esbarrou no jornal com uma matéria sobre John Bardeen, um ex-colega seu na Universidade de Wisconsin. O pai de Bardeen fora decano de medicina na universidade e o pai de Harriet, a mulher de Gale, fora decano da faculdade de engenharia, de modo que os dois — crias da academia, como se dizia na época — haviam crescido juntos. Tanto um quanto o outro haviam se formado em engenharia elétrica. Bardeen fora ensinar física na Universidade de Minnesota, e depois largara o mundo acadêmico para trabalhar nos Laboratórios Bell, principal centro de pesquisa da companhia telefônica, em Murray Hill, Nova Jersey. E segundo a tal matéria no jornal, ele e outro engenheiro da Bell, Walter Brattain, haviam inventado um novo artefato que chamavam de transistor. No entanto, a matéria era pequena; a invenção do transistor não ganhou as manchetes em 1948. Aparentemente, o transistor desempenhava a mesma função da válvula eletrônica, que era um componente essencial dos sistemas de transmissão e dos rádios. Tal como a válvula, o transistor isolava um sinal elétrico específico, como uma onda de rádio, e o amplificava. Mas o transistor não exigia um tubo de

vidro, um vácuo, uma placa, ou um catódio. Não passava de dois delicados fios de ouro que levavam a um minúsculo bloco de germânio processado, com menos de um milímetro e meio de comprimento. O germânio, um elemento que se encontra no carvão, era um isolador, e não um condutor. Mas se o germânio fosse contaminado por impurezas, tornavase um "semicondutor". A válvula eletrônica também era uma semicondutora; o vácuo em seu interior, tal como o germânio, era um isolador. Como sabiam todos os proprietários de rádios portáteis, porém, as válvulas eletrônicas puxavam muita corrente, exigiam um periodo de aquecimento antes de funcionar, e depois esquentavam muito. O transistor eliminava todos esses problemas, e ainda por cima era cerca de cinquenta vezes menor do que a válvula. Até então, no entanto, era impossível produzir transistores em massa, em parte porque os fios de ouro tinham que ser feitos à mão e conectados também à mão, separados por apenas cinco centésimos de milímetro. Esse problema, porém, era da companhia telefônica. Grant Gale não estava interessado em qualquer utilização, presente ou futura, do transistor como um produto. Tinha esperança de que o transistor oferecesse um meio de estudar o fluxo de elétrons através de um sólido (o germânio), um tema sobre o qual os físicos vinham especulando havia décadas. Achou que seria ótimo ter alguns transistores no departamento de física da faculdade. E portanto escreveu para Bardeen nos Laboratórios Bell. Só para garantir que seu pedido não se perdesse no meio da burocracia, escreveu também para Oliver Buckley, o presidente dos Laboratórios Bell. Buckley era de Sloane, em Iowa, e por acaso se formara em Grinnell College. E por isso, no outono de 1948 Gale já recebera dois dos primeiros transistores fabricados, e deu as primeiras 28 palestras acadêmicas sobre eletrônica em sólidos feitas no mundo, em beneficio dos dezoito alunos que estavam se formando em física na faculdade de Grinnell.

Um dos formandos em física mais adiantados de Grant Gale era um rapaz da região chamado Robert Noyce, que Gale conhecia havia anos. Bob e seus irmãos, Donald, Gaylord e Ralph, moravam na rua Park e costumavam juntar folhas caidas, aparar a grama, cuidar de bebês e fazer outros serviços para o casal Gale. Últimamente Gale andara bastante agoniado por causa de Bob Noyce. Como seus irmãos, Bob era um aluno brilhante, mas acabara de ser suspenso da escola por um semestre, e havia sido necessário todo o prestigio de Gale no banco de favores local, não só no meio do corpo docente como junto ao xerife, para impedir que o rapaz fosse expulso de vez e estigmatizado com uma condenação criminal. O pai de Bob Noyce, Ralph Sr., era pastor congregacionista. Além disso, era neto de dois pastores congregacionistas. Mas isso de nada adiantara. Estranhamente, depois que a coisa aconteceu, a linhagem clerical do rapaz voltou-se contra ele. O pessoal dizia, "Bom, o que se pode esperar do filho de um pregador?" Era como se o povo de Grinnell concordasse com Sherwood Anderson: sob o moralismo que os pregadores protestantes do Meio-Oeste exigiam do povo, e pelo qual eles próprios afirmavam se pautar, viviam demônios de fraqueza, perversão e hipocrisia que cedo ou tarde punham-se à solta. Ninguém negava que os rapazes da família Noyce eram bem-educados e respeitáveis em todas as aparências exteriores. Eles eram escoteiros. Frequentavam as aulas de catecismo aos domingos e a missa principal na Primeira Igreja Congregacionista, e participavam ativamente dos grupos de jovens da igreja. Tanto congregacionismo fora injetado naqueles rapazes que eles já estavam a ponto de transbordar. O pai, embora pastor, não era pastor da Primeira Igreja Congregacionista. Era superintendente associado da Conferência das

Igrejas Congregacionistas de Iowa, cuja sede ficava na faculdade. A intenção original da faculdade era fornecer uma boa educação acadêmica congregacionista, e muitos dos formandos se tornavam professores. A Conferência era um conselho coordenador, e não um corpo governante, pois um mandamento básico da Igreja Congregacionista, enraizado no seu nome, era que cada congregação era autônoma. Os congregacionistas rejeitavam a própria ideia de uma hierarquia religiosa. Um sacerdote congregacionista não devia ser um pai, e nem mesmo um pastor, e sim um professor. Cada membro da congregação devia internalizar os preceitos morais da igreja e ser seu próprio padre ao lidar com Deus. Portanto, o cargo de secretário da Conferência de Igrejas Congregacionistas de Iowa era tudo, menos uma posição de poder. E o salário também não era alto. A família Noyce não tinha casa própria. Eles moravam numa casa de tábuas brancas, de dois andares, que pertencia à igreja e ficava na esquina da rua Park e a Décima Avenida, na faculdade. A falta de casa própria não tinha, em Grinnell, o mesmo ônus social que tinha no Leste. Não havia casta superior na cidade. Não havia gente no topo que ficasse de olho nessas coisas. Os congregacionistas rejeitavam a idéia de uma hierarquia social com a mesma ferocidade com que rejeitavam a idéia de uma hierarquia religiosa. Tal como os presbiterianos, metodistas, batistas e os Irmãos em Cristo, eles eram protestantes dissidentes. Eram filhos diretos dos Separatistas, que haviam abandonado a igreja da Inglaterra nos séculos XVI e XVII e colonizado a Nova Inglaterra. No fundo, a doutrina de congregação autônoma era derivada do ódio que eles devotavam ao sistema britânico de classes, que com suas inumeráveis gradações era encimado pela Corte e pela aristocracia. Mesmo em 1948 nada havia, nas típicas cidadezinhas do MeioOeste semelhantes a Grinnell, que se aproximasse de uma panelinha de country club. Havia sutis diferenças de posição social na cidade, como em qualquer outro lugar. E era melhor ser rico do que pobre, mas só

havia duas classes sociais óbvias: os que eram devotos, educados e laboriosos, e os que não eram. Em Grinnell a pobreza digna não condenava ninguém socialmente. Já a ostentação condenava. Os rapazes da família Noyce faziam biscates para ganhar trocados. Isso era socialmente correto. além de útil. Em Grinnell, devotar essa mesma quantidade de horas a aulas de tênis ou de equitação teria sido uma gafe. Donald, o mais velho dos quatro rapazes, tivera uma passagem brilhante pela faculdade, acabara de fazer doutorado em química na Universidade de Columbia e estava prestes a se tornar professor na Universidade da Califórnia em Berkeley. Gaylord, o segundo mais velho, era professor de uma escola em Turkey. Bob, que era um ano mais novo do que Gaylord, fora um aluno de ciências muito bom na escola secundária de Grinnell; tão bom que Grant Gale o convidara a fazer o curso de fisica para calouros da faculdade já durante seu ultimo ano como secundarista. Dai em diante, ele se tornara um dos melhores alunos de Gale e um dos mais incansáveis pesquisadores no laboratório. Apesar de sua aparente paixão pela rotina cientifica, Bob Noyce revelou-se aquela criatura tão apregoada e buscada, o aluno bem equilibrado. Era um rapaz compacto e musculoso, com um metro e setenta de altura, espesso cabelo castanho-escuro, queixo bem definido e um nariz comprido e largo que lhe dava uma aparência vigorosa. Era o melhor mergulhador da equipe de natação da faculdade, e em 1947 foi campeão da Conferência do Meio-Oeste. Cantava em corais, tocava oboé e era um dos atores do grupo de teatro da escola. Também atuava na oficina de drama radiofônico da faculdade, junto com seu amigo Peter Hackes e outros que estavam interessados em transmissão, e foi o galã de uma novela transmitida pela estação WOI da cidade de Ames, em Iowa. Talvez Bob Noyce fosse equilibrado demais para o gosto local. Havia quem ainda se lembrasse do negócio da pipa em 1941, quando ele tinha treze

anos. Fora uma coisa inofensiva, mas podia ter sido uma catástrofe. Na Popular Science, Bob descobrira pianos para a construção de uma pipa em forma de caixa que podia carregar uma pessoa. Ele e Gaylor haviam feito uma estrutura de sarrafos de pinho e forrado a armação com uma peça de musselina. Depois tentaram pôr a coisa no ar correndo por um descampado e puxando-a com uma corda, mas isso não funcionou. Aí içaram-na para o telhado de um celeiro; Bob sentou-se no assento e Gaylor saiu correndo pelo telhado, puxando a pipa. Bob teve sorte de não quebrar o pescoço quando ele e a traquitanda chegaram ao chão. Depois eles a amarraram ao para-choque traseiro do carro de um vizinho. Com o vizinho ao volante, Bob empinou a pipa. Conseguiu chegar a cerca de quatro metros de altura e deslizar por mais ou menos trinta segundos, pousando sem se acidentar ou destruir a casa, ou os animais de criação de qualquer cidadão. Animais de criação... sim. Os animais de criação eram um dos principais bens de capital em Grinnell, e um animal de criação foi o epicentro do que aconteceu em 1948. Em maio, um grupo de amigos de um dos dormitórios da faculdade resolveu fazer um luau, e Bob Noyce participou do planejamento do evento. A Segunda Guerra Mundial popularizara os costumes exóticos do Pacífico, e em 1948 o luau era a última moda em termos de inovação social. O prato principal do luau era um leitão assado inteiro, com uma maçã ou um abacaxi na boca. Por ser forte e ágil, Bob Noyce foi um dos dois rapazes encarregados de arranjar o leitão. À noite eles entraram sorrateiramente numa fazenda nas cercanias de Grinnell, arrastaram à força um leitão de quase doze quilos para fora do chiqueiro e voltaram para o luau debaixo de grandes aplausos. Em poucas horas o leitão estalava ao fogo com uma maçã na boca; parecia tão bom que todos se serviram por duas ou três vezes, sob mais aplausos. Na manhã seguinte, sobreveio a ressaca moral. Os dois rapazes resolveram ir ao fazendeiro, confessar tudo e pagar pelo leitão. Não tinham a menor noção de como um

luau estrelado por um leitão roubado seria medido pelo risômetro de um fazendeiro do interior de Iowa. Naquele estado, onde a vasta maioria das pessoas dependia da agricultura para viver e se orientava pelos critérios protestantes, provavelmente nem o roubo de uma melancia que valesse trinta e cinco centavos seria ignorado como uma travessura juvenil. Roubar um leitão, então, era apropriação indébita. O fazendeiro chamou o xerífe e fez questão de apresentar queixa-crime. Ralph Noyce, o pregador com o filho do pregador, pouco podia fazer a respeito. Grant Gale, por outro lado, portou-se como um terceiro interessado, calmo e respeitado. Viu-se diante de duas tarefas difíceis: impedir que Bob fosse preso e impedir que a diretoria da faculdade o expulsasse. Não havia qualquer esperança de uma mera advertência. O acordo que Grant Gale ajudou a costurar — a suspensão por um semestre — era o melhor negócio que Bob podia esperar em termos realistas. A Noite do Luau do Leitão foi um terremoto bastante escandaloso no sismógrafo de Grinnell. Portanto, Gale ficou impressionado pela reação de Bob Noyce. Os olhares mortíferos do pessoal da cidade não abalaram a autoconfiança do rapaz. Todos os rapazes da família Noyce tinham uma autoconfiança profunda, e para dizer a verdade, intrigante. Bob tinha um jeito especial de escutar e olhar. Baixava levemente a cabeça e erguia um olhar que parecia ter cem amperes. Quando olhava para você, ele jamais piscava ou engolia em seco. Absorvia tudo que você dizia e depois respondia com tranquilidade numa suave voz de barítono, frequentemente com um sorriso que exibia seus dentes maravilhosos. O olhar, a voz e o sorriso — tudo lembrava um pouco a persona cinematográfica do mais famoso aluno da faculdade de Grinnell, Gary Cooper. Com sua fisionomia forte, sua compleição atlética e seu jeito de Gary Cooper, Bob Noyce projetava o que os psicólogos chamam de efeito auréola. As pessoas dotadas de aureola parecem saber exatamente o que

estão fazendo, e, além disso, fazem com que você as admire por isso. Fazem com que você veja as auréolas acima de suas cabeças. Anos mais tarde, as pessoas naturalmente se indagariam de onde Bob Noyce tirava sua autoconfiança. Muitas chegaram à conclusão de que era tanto de sua mãe, Harriet Norton Noyce, quanto de sou pai. Ela era uma versão atualizada daquele tipo de mulheres da Nova Inglaterra, voluntariosas e inteligentes, que haviam feito tanta diferença durante a colonização de Iowa cem anos antes. A mãe e o pai, com a ajuda de Rowland Cross, que ensinava matemática na faculdade, arranjaram para Bob um emprego no departamento atuarial da Equitable Life em Nova York durante o verão. Ele continuou no emprego durante o outono, e quando o segundo semestre começou, no Natal, voltou a Grinnell e reuniu-se à turma do último ano da faculdade. Gale ficou impressionado com a segurança com que o filho pródigo retornou. Bob acumulara tantos créditos durante os três primeiros anos, que só precisaria daquele semestre final para se formar. Ele retomou sua vida na faculdade, inclusive as atividades extracurriculares, sem a menor indecisão. Mas, além disso, Gale sentiu-se gratificado pelo envolvimento de Bob no novo artefato experimental que andava absorvendo tanto o seu próprio tempo: o transistor. Bob não era o único formando de física interessado no transistor, mas parecia o mais curioso acerca das consequências daquele novo mecanismo. No outono, ele partiu para o MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cambridge, a fim de fazer pósgraduação. Quando mencionava o assunto do transistor lá, mesmo que fosse para membros do corpo docente, as pessoas ficavam simplesmente olhando para ele. Até quem já ouvira falar daquilo considerava o transistor apenas uma novidade fabricada pela companhia telefônica. Não havia qualquer trabalho acadêmico que envolvesse os transistores ou a teoria da eletrônica em sólidos. A

dissertação de Bob foi "Um Estudo Fotoelétrico de Estados de Superfície em Isoladores", que no máximo era um pano de fundo para a eletrônica em sólidos. Nessa area o MIT estava muito atrás de Grinnell College. Grant Gale continuava a ser uma das poucas pessoas com quem Bob Noyce podia trocar idéias nesse novo campo. Bom, fora por pouco! E se Grant Gale não houvesse sido colega de John Bardeen? E se Oliver Buckley não fosse ex-aluno da faculdade? E se Gale não houvesse se dado ao trabalho de entrar em contato com os dois, ao ler a pequena matéria sobre o transistor no jornal? E se ele não houvesse entrado em campo em favor de Bob Noyce, o rapaz houvesse sido expulso da faculdade, e a coisa houvesse ficado por isso mesmo? Afinal, se Bob não houvesse conseguido terminar o curso em Grinnell, provavelmente jamais teria sido apresentado ao transistor. Pois certamente não teria ouvido falar daquilo no MIT em 1948. Diante do que Bob Noyce fez nos vinte anos seguintes, é preciso pensar nessa cadeia fortuita de acontecimentos. Fortuita... Como Josiah Grinnell, lá nas planícies do Céu, deve ter rido disso! *** Grant Gale foi o primeiro físico de importância na carreira de Bob Noyce. O segundo foi William Shockley. Depois que suas ambições colidiram pela última vez e eles se separaram, Noyce concluiu que ele e Shockley eram pessoas muito diferentes. Sob muitos aspectos, porém, eles eram parecidos. Para começar, ambos amavam o palco, mesmo como canastrões. No MIT, Noyce cantara em corais. No começo do verão de 1953, depois de receber seu diploma de doutorado, ele foi à faculdade de Tufts para cantar e atuar num programa de musicais apresentado pela faculdade. A figurinista era uma moça chamada Elizabeth Bottomley, de Barrington,

Rhode Island, que acabara de se formar em inglês pela Tufts. Os dois gostavam de teatro. Cantar, atuar e esquiar haviam se tornado os passatempos de que Noyce mais gostava. No esqui ele se tornara quase tão hábil quanto fora no mergulho. Noyce e Betty, como ele a chamava, casaram-se naquele outono. Em 1953, os membros do MIT ainda estavam começando a compreender as implicações do transistor. Mas as empresas de eletrônica já estavam ávidas por engenheiros eletrônicos formados, capazes de fazer pesquisas e desenvolver projetos no novo campo. Noyce recebeu propostas de trabalho dos Laboratórios Bell, da IBM, da RCA e da Philco. Foi trabalhar para a Philco na Filadélfia, porque a Philco estava começando quase do zero na pesquisa de semicondutores, e as chances de progresso rápido pareciam boas. Mas ele sabia muito bem que o trabalho mais importante ainda estava sendo feito nos Laboratórios Bell, em grande parte graças a William Shockley. Shockley elaborara a primeira estrutura teórica para a pesquisa sobre semicondutores sólidos já em 1939, e era o chefe da equipe dos Laboratories Bell, equipe essa que incluia John Bardeen e Walter Brattain. Ele também dera origem ao "transistor de junção", que fazia o transistor deixar de ser um instrumento exótico de laboratório e o transformava em algo sobre o qual se podia trabalhar. Em 1955, Shockley — que fora criado perto da Universidade de Stanford, na California — já largara a Bell e voltara a Palo Alto para abrir uma empresa própria, o Laboratório de Semicondutores Shockley, com capital inicial fornecido por Arnold Beckman, da Beckman Instruments. Instalou-se num barracão reformado na estrada de South San Antonio, em Mountain View, que ficava logo ao sul de Palo Alto. O prédio era feito de blocos de concreto, e tinha as vigas aparentes. Com exceção do pessoal da burocracia e da manutenção, praticamente todos os funcionários eram engenheiros elétricos com doutorado. Num

campo tão experimental, não valia a pena contratar mais ninguém. Shockley começou a falar em "minha linha de montagem composta por doutores". Enquanto isso, Noyce percebia que a Philco não era a oportunidade dourada que ele achara que seria. A Philco queria transistores bons o suficiente para competir com a GE e a RCA, mas não estava interessada em aplicar dinheiro no tipo de pesquisa de vanguarda que Noyce tinha em mente. Em 1956, ele pediu demissão da Philco, e mudou-se da Pensilvânia para a Califórnia a fim de juntar-se a Shockley. A maneira com que fez isso foi um exemplo clássico do tipo de autoconfiança da familia Noyce. A essa altura ele e a mulher, Betty, tinham dois filhos; Bill, com dois anos de idade, e Penny, com seis meses. Depois de um par de conversas telefônicas com Shockley, Noyce embarcou com Betty num vôo noturno da Filadélfla a San Francisco. Os dois chegaram a Palo Alto às seis da manhã. Ao meio-dia Noyce já assinara um contrato para comprar uma casa. À tarde ele foi a Mountain View falar com Shockley e pedir-lhe um emprego; projetou a famosa auréola, e conseguiu. Seus primeiros meses na linha de montagem de doutores de Shockley foram empolgantes. Aquilo na verdade não era uma linha de montagem. Todo dia uma dúzia de jovens doutores chegavam ao barracão às oito da manhã e começavam a aquecer germânio e silício, outro elemento comum, em fornos, atingindo temperaturas que iam de 800 a 1.400 graus Celsius. Usavam jalecos brancos, óculos de proteção e luvas de trabalho. Quando abriam a porta do forno, recebiam estranhas faixas de luz branca e alaranjada sobre o rosto, e punham lá dentro o germânio e o silício, junto com pedaços diminutos de alumínio, fósforo, bório e arsênico. A contaminação do germânio ou do silício com o alumínio, o fósforo, o bório e o arsênico se chamava dopagem. Ai eles baixavam uma pequena coluna mecânica dentro da gosma, a fim de que cristais se formassem na base da

coluna. Puxavam os cristais para fora e tentavam agarrá-los com pinças. Depois examinavam aquilo no microscópio, cortando-o com cortadores de diamante, entre outras coisas, e fazendo diminutas fatias, lâminas ou chips — não havia nomes na eletrônica para aquelas formas minúsculas. Os fornos ardiam e borbulhavam, as portas se abriam, a pálida luz cor-de-damasco projetava-se sobre os óculos de proteção, as pinças e os cortadores de diamante rebrilhavam, os jalecos brancos se agitavam, os doutores espiavam pelos microscópios, e Shockley passeava entre as bancadas regendo aquela misteriosa sinfonia. Em momentos de reflexão Shockley dava toda a impressão de ser um erudito, com seu rosto arredondado, óculos arredondados e calvície incipiente — mas ele não era um escravo da reflexão. Era um entusiasta, um bom contador de piadas, e um exibicionista. No início, sua própria personalidade já bastara para empolgar todos naquela grande aventura. Quando dava palestras, como fazia frequentemente em faculdades e perante grupos de profissionais, ele ia até o púpito e agradecia ao mestre-de-cerimônias. Ai dizia que a única apresentação mais lisonjeira do que aquela já recebida por ele fora a que dera a si mesmo certa vez, quando o mestre-de-cerimônias não aparecera. Nesse instante — bum! — um buquê de rosas vermelhas surgia na sua mão. Ou então ele ia até o púlpito e dizia que o assunto da noite era quente. Nesse instante abria um livro e — puft! — uma baforada de fumaça erguia-se das páginas. Shockley era famoso por seus exemplos prosaicos, mas astutos. Certo dia um aluno confessou sentir-se confuso diante do conceito de amplificação, que era uma das funções primordiais do transistor. Shockley lhe disse: "Se você pegar um fardo de feno, amarrar esse fardo ao rabo de uma mula, riscar um fósforo, incendiar o fardo e comparar a energia gasta pela mula logo depois com a energia gasta por você

mesmo ao riscar o fósforo, compreenderá o conceito de amplificação." Em 1º de novembro de 1956, Shockley chegou ao barracão de South San Antonio sorrindo de alegria. De manhã cedo ele recebera um telefonema com a informação de que ganhara o prêmio Nobel de Física pela invenção do transistor; ou melhor, de que ele era um dos ganhadores, com John Bardeen e Walter Brattain. Shockley fechou o laboratório e levou todos a um restaurante chamado Dinah's Shack, que ficava em El Camino Real, a estrada para San Francisco que se tornara o centro comercial de Palo Alto. Ofereceu aos doutores da linha de montagem e a todos os outros funcionários um café da manhã regado a champanhe. Aparentemente, seu pai fora um engenheiro de mineração que vivia trabalhando em regiões remotas, em Nevada, na Mandchuria — pelo mundo todo. Sua mãe parecia-se com a de Noyce. Era uma mulher inteligente, de temperamento dominador. A família era unitarista, sendo a Igreja Unitarista um ramo oriundo da congregacionista. O pai de Shockley era vinte anos mais velho do que a mulher, e morreu quando o filho tinha apenas dezessete anos. A mãe de Shockley resolveu que o filho um dia "incendiaria o mundo", como declarou certa vez. Pois ele o fizera. Shockley ergueu uma taça de champanhe no Dinah's Shack, como se estivesse fazendo um brinde à memória do pai e à determinação da mãe, ao longo de muitos anos de trabalho duro, ralando nos cafundós-do-judas, usando sabão Octagon, bebendo licor de artemisa e seguindo as regras do protestantismo dissidente. Foi um grande dia no Laboratório de Semicondutores Shockley. Houve poucos outros, no entanto. Shockley era carismático, era um gênio e era um grande diretor de pesquisa — o melhor, na realidade. Seu forte era chegar aos princípios básicos dos problemas. Com poucas palavras e poucas linhas numa folha de papel, ele apontava qualquer experiência na direção certa. Mas não compreendia

muito bem os jovens doutores em engenharia de sua linha de montagem. Jamais lhe ocorreu que aqueles doze elfos altamente instruidos talvez se vissem exatamente como ele sempre se vira, ou seja: como jovens gênios capazes do tipo de invenções que conquistavam prêmios Nobel. Certo dia Noyce foi procurá-lo para mostrar os novos resultados que obtivera no laboratório. Shockley pegou o telefone e ligou para uns excolegas dos Laboratórios Bell, a fim de ver se aquilo lhes parecia certo. Nem percebeu que Noyce se afastara de sua mesa ardendo de raiva. E também havia a questão das novas técnicas de administração. Ao se tornar empresário, Shockley começara a inventar novas formas de administrar a empresa. Cada uma parecia irritar os elfos mais do que a anterior. Para começar, ele divulgava os salários de todos. Colocava-os num quadro de avisos. Assim não haveria segredos. Depois começou a fazer os funcionários se avaliarem mutuamente com regularidade. Havia as chamadas avaliações pelos pares, uma prática às vezes adotada nas forças armadas, e mesmo lá pouco apreciada. Todos consideravam as avaliações pelos pares pouco mais do que concursos de popularidade. Mas a verdadeira gota d'água foi o detector de mentiras. Shockley convencera-se de que alguém ali no barracão estava sabotando o projeto. O trabalho andava sofrendo atrasos inexplicáveis, embora o dinheiro estivesse sendo gasto conforme o cronograma. Por isso, Shockley exigiu que cada funcionário enrolasse as mangas, desnudasse o peito, permitisse que os eletrodos fossem ligados e se submetesse ao teste do polígrafo. Nenhum sabotador foi descoberto. Havia também algumas diferenças de opinião em questões técnicas. Shockley estava interessado em desenvolver o chamado diodo de quatro camadas. Noyce e outros dois elfos, Gordon Moore e Jean Hoerni, favoreciam os transistores. No fundo, porém, foram a insatisfação com o chefe e o desejo de se

tornarem empresários aconteceu a seguir.

que

levaram

ao

que

No verão de 1957, Moore, Hoerni e cinco outros engenheiros — sem Noyce — reuniram-se e chegaram ao que se tornou um dos primordiais conceitos comerciais da jovem indústria de semicondutores. Perceberam que naquele ramo os bens de capital — nos termos tradicionais de fábricas, equipamentos e insumos básicos — quase não tinham importância. A única fábrica necessária era um barracão onde coubessem as bancadas de trabalho. Os únicos equipamentos necessários eram alguns fornos, óculos de proteção, microscópios, pinças e cortadores de diamante. Os insumos, silício e germânio, vinham de terra e carvão. Só os cérebros envolvidos na coisa tinham valor real. Se os sete achavam que podiam fazer o serviço melhor do que Shockley, nada podia impedi-los de abrir uma empresa própria. Naquele dia nascia o conceito que tornaria a indústria de semicondutores tão selvagem quanto a indústria do entretenimento: o capital dissidente. Os sete dissidentes procuraram uma empresa de Wall Street, a Hayden Stone, em busca de capital inicial. Foi a essa altura que perceberam que precisavam de alguém para atuar como administrador. E voltaram-se para Noyce, que continuava com Shockley. Nenhum deles, inclusive Noyce, tinha qualquer experiência administrativa, mas todos pensaram nele quando o assunto surgiu. Eles não sabiam exatamente o que estavam procurando... mas Noyce era o que tinha a auréola. Ele concordou em juntar-se a eles. Continuaria a usar o jaleco branco e os óculos de proteção, e a fazer pesquisa. Mas também seria o coordenador. Dos oito, ele seria o único homem que acompanharia todos os aspectos da operação com regularidade. Tinha vinte e nove anos. Arthur Rock, da Hayden Stone, abordou vinte e duas empresas antes de finalmente conectar os dissidentes à Fairchild Camera and Instrument

Corporation, de Nova York. Essa empresa pertencia a Sherman Fairchild, um bon vivant solteirão que morava numa casa futurística na rua Sessenta e Cinco, do lado leste de Manhattan. A casa tinha duas seções ligadas por rampas. Em alguns casos as rampas tinham mais de quinze metros, e eram envidraçadas, de modo que você podia subir e descêlas em quaisquer condições de tempo, vendo o pátio de mármore lá embaixo. O lugar parecia ter saido do Palácio de Cristal de Ming em Flash Gordon. As rampas eram para uma tia, May, que morava com Sherman, estava confinada a uma cadeira de rodas e detinha ainda mais dinheiro da família Fairchild do que ele. O principal executivo da empresa era John Carter, que acabara de largar a Corning Glass Company. Ele fora o vice-presidente mais jovem na história dessa empresa conservadora e familiar. Tinha trinta e seis anos. A Fairchild deu aos dissidentes o dinheiro para abrir uma nova companhia, a Fairchild Semiconductor, mediante o entendimento de que poderia comprar a empresa por três milhões de dólares a qualquer momento nos oito anos seguintes. Shockley ficou muito abalado pela dissidência. Parecia tão magoado quanto irritado, e certamente ficara bastante irritado. Um amigo dele disse para Betty, a mulher de Noyce: "Você já devia saber disso há muito tempo. Corno pôde não me contar nada?" Tratava-se de um comentário intrigante, a não ser que o tal amigo considerasse Shockley como o pai do transistor e os dissidentes como os filhos que ele abrigara sob o manto de sua grandeza. Caso fosse isso, o argumento tinha certo peso. Anos mais tarde, se alguém traçasse a árvore genealógica da indústria de semicondutores, praticamente todos os ramos importantes se originariam diretamente do barracão de Shockley em South San Antonio. Por outro lado, Noyce fora apresentado ao transistor não por Shockley, mas por John Bardeen, através de Grant Gale, e não na Califórnia, mas em sua própria cidade natal, Grinnell, em Iowa.

Nesse aspecto, Josiah Grinnell também fora um dissidente em sua época, e não constava que houvesse perdido o sono de uma única noite por causa disso. *** Noyce, Gordon Moore, Jean Hoerni e os outros cinco dissidentes instalaram a Fairchild Semiconductor num galpão de dois andares que um especulador construira com placas de concreto na avenida Charleston, em Mountain View, a cerca de doze quarteirões do laboratório de Shockley. Mountain View ficava na extremidade norte de Santa Clara Valley. No mundo dos negócios, o vale era conhecido principalmente por seus pomares de damascos, peras e ameixas. Mas os especuladores já começavam a erigir no vale seus galpões, e podiam-se avistar de lá os pequeninos e esparsos pés de damasco que os tratores nem se davam ao trabalho de arrancar depois que as terras eram compradas. Algumas empresas de eletrônica famosas já haviam se instalado no vale: a General Electric e a IBM, bem como uma companhia que surgira ali mesmo, a Hewlett-Packard. A Universidade de Stanford encorajava as empresas de engenharia a se instalarem perto de Palo Alto e usarem suas instalações de pesquisa, O homem que gerenciava esse programa era um amigo de Shockley, Frederick E. Terman, cujo pai criara a primeira medição científica da inteligência humana, o teste de QI Stanford-Binet. A IBM tinha no vale uma instalação devotada especificamente à pesquisa, e não à produção. Tanto a IBM quanto a Hewlett-Packard estavam tentando desenvolver um novo artefato, altamente esotérico e de custo colossal, o computador eletrônico. Shockley fora o primeiro empresário a vir para aquela area a fim de fabricar semicondutores. Mas depois da dissidência sua empresa jamais se recuperou. Isso deixou o campo aberto em Santa Clara Valley para Noyce e os outros da Fairchild.

A fundação da empresa não podia ter ocorrido em melhor época. Por volta de 1957 já havia demanda suficiente — por parte de fabricantes que simplesmente queriam transistores em vez de válvulas para utilização em radios e outros aparelhos — que justificasse o novo empreendimento. Mas foi também em 1957 que a União Soviética lançou o Sputnik I. Na indústria eletrônica, a corrida espacial que se seguiu teve o efeito de conjugar duas invenções novas — o transistor e o computador — e de amplificar a importância de ambas. O primeiro computador eletrônico americano, conhecido como ENIAC, fora desenvolvido pelo Exército durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente como um meio de calcular trajetórias de artilharia e bombardeio. A máquina era um monstro. Tinha mais de trinta metros de comprimento e três de altura; exigia dezoito mil válvulas eletrônicas. As válvulas geravam tanto calor que às vezes a temperatura da sala chegava a quase 50 graus Celsius. O governo precisava de computadores pequenos que pudessem ser instalados em foguetes para que eles pudessem ser guiados automaticamente. Uma maneira óbvia de diminuir o tamanho dos computadores era substituir as válvulas por transistores. Depois do Sputnik 1, as palavras mais badaladas do ramo de semicondutores passaram a ser “computadores’’ e “miniaturização”. Além da empresa de Shockley, a Fairchild era a única fabricante de semicondutores em Santa Clara Valley, mas a Texas Instruments entrara no mercado em Dallas, assim como a Motorola em Phoenix e a Transitron e a Raytheon na area de Boston, onde já surgia uma nova indústria eletrônica, à medida que o MIT finalmente começava a compreender a nova tecnologia. Todas essas empresas estavam correndo para aperfeiçoar a produção de transistores, a fim de poder dominar o mercado. Até então esse aperfeiçoamento não fora o objetivo a longo prazo de ninguém. Se um turista visitasse a Fairchild, a Texas Instruments, a Motorola ou a Transitron, não

teria a menor idéia de que estava vendo a ponta mais avançada de todas as industrias, a eletrônica. Os galpões onde os transistores eram produzidos pareciam versões levemente mais ensolaradas das abafadas oficinas têxteis na zona chinesa de San Francisco. Viam-se fileiras de mulheres curvadas sobre bancadas e espiando por microscópios, num tipo de labuta entediante e frustrante. Elas separavam as camadas de silício com cortadores de diamante, pegavam os pequenos retângulos com pinças e tentavam ligar os fios a eles; frequentemente, porém, deixavam-nos cair. Aí procuravam no chão até encontrá-los, sempre praguejando e resmungando; subiam de volta às cadeiras, esfregando os olhos, e espiavam de novo pelos microscópios, cada vez enlouquecendo mais um pouco. Mesmo depois de tudo isso, de 50 a 90 por cento dos transistores — dependendo do grau de cozimento do germânio ou do Silício — apresentavam defeito, e às vezes os bons eram os que caiam no chão e se estragavam. Mesmo num aparelho simples como o radio os transistores tinham que ser conectados juntos, à mão, até ser produzida uma placa pequena que parecia um mapa rodoviário da parte oeste da Virgínia. Quanto ao computador — bom, os fios dentro de um computador eram espaguete puro. Noyce inventara uma solução para isso. Mas fabricá-la era outra questão. Havia algo de primitivo naquele sistema de cortar os transistores individuais a partir de placas de silício e depois conectá-los juntos em diversas series. Por que não colocá-los todos num único pedaço de silício, sem fios? O problema era que você também teria que esculpir, desenhar e revestir o silício — ou seja, fabricá-lo — de forma que este desempenhasse as funções elétricas que normalmente eram desempenhadas pelos isoladores, retificadores, resistências e condensadores. Você teria que criar um sistema elétrico inteiro, um circuito inteiro, numa pequena lamina ou chip.

Noyce sabia que não era o único engenheiro a raciocinar nessa linha, mas jamais ouvira falar de Jack Kilby, que era um engenheiro de 36 anos que trabalhava na Texas Instruments, em Dallas. Em Janeiro de 1959, Noyce fez suas primeiras anotações detalhadas sobre um possível circuito eletrônico sólido completo. Um mês depois a Texas Instruments anunciou que Jack Kilby inventara exatamente a mesma coisa. O circuito integrado de Kilby, como a invenção foi batizada, era feito de germânio. Seis meses mais tarde, Noyce criou um circuito integrado semelhante, feito de silício e que usava um novo processo de isolamento desenvolvido por Jean Hoerni. O dispositivo de silício de Noyce revelou-se mais eficiente e prático — do ponto de vista da produção — do que o circuito de Kilby, e estabeleceu o padrão para o ramo todo. Por isso, Noyce ficou conhecido como o co-inventor do circuito integrado. Mas Kilby fora o primeiro, inquestionavelmente. Havia um irônico eco da história de Shockley no caso. Em termos estritos, o transistor fora inventado por Bardeen e Brattain, e não por Shockley, mas Shockley não tinha pejo de ser conhecido como co-inventor. E onze anos depois, Noyce também não apresentou pejo algum. Ele sabia exatamente o que tinha no circuito integrado, ou microchip, como dizia a imprensa. Sabia que descobrira o caminho para o Eldorado. O Eldorado era o vasto e ainda virgem campo da eletricidade. A eletricidade já era uma parte tão familiar da vida cotidiana, que só poucos engenheiros de pesquisa entendiam como o campo era jovem e inexplorado, na realidade. Edison só inventara a lâmpada incandescente oitenta anos antes, em 1879. Lee De Forest, um inventor de Council Bluffs, em Iowa, só inventara a válvula eletrônica menos de cinquenta anos antes. A válvula baseava-se na lâmpada, mas abria campos que a lâmpada nem sequer sugeria: a comunicação radiofônica e telefônica a longa distância. Em apenas dez anos, desde que Bardeen e Brattain o haviam inventado em

1948, o transistor se tornara o substituto moderno da válvula eletrônica. E agora surgia o circuito integrado de Kilby e Noyce. O circuito integrado baseava-se no transistor, mas abria campos que o transistor nem sequer sugeria. O circuito integrado possibilitava a criação de computadores miniaturizados, colocando todas as funções do poderoso ENIAC numa placa do tamanho de uma carta de baralho. Assim, o circuito integrado abria todos os campos da engenharia imagináveis, de viagens à Lua a robôs, além de outros campos que sequer haviam sido imaginados, como o aconselhamento psicológico eletrônico. Abria tantos campos que ninguém conseguia sugerir um nome único para abarcá-los. "A segunda revolução industrial", "a era do computador", "o universo do microchip", a "grade eletrônica" — nenhum desses, nem o útil neologismo "high tech", conseguia abranger todas as implicações daquilo. A importância do circuito integrado certamente não passou despercebida a John Carter e à Fairchild Camera em Nova York. Em 1959, eles exerceram sua opção de comprar a Fairchild Semiconductor por três milhões de dólares. No dia seguinte Noyce, Moore, Hoerni e os outros cinco ex-elfos de Shockley acordaram ricos, ou mais ricos do que jamais haviam sonhado ser. Cada um recebeu 250 mil dólares em ações da Fairchild. Josiah Grinnell ficava lívido quando ouvia falar em álcool. Mas nada tinha contra o dinheiro. Ele teria aprovado a transação. Noyce não sabia o que fazer com sua nova fortuna. Ele tinha 31 anos de idade. Passara os últimos quatro anos, desde que fora trabalhar com Shockley, pensando no ramo de semicondutores não como um negócio, mas como um jogo esotérico, no qual jovens engenheiros elétricos competiam em busca de elogios verbais e ocasionais salvas de palmas quando faziam uma palestra escrita para o IEEE, o Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos. Era um jogo super-realçado pelo fato de ser jogado no

mundo real, para usar uma expressão que irritava os cientistas das universidades. Alguém — Arnold Beckman, Sherman Fairchild, quern quer que fosse — estava apostando dinheiro de verdade naquilo, e outros bandos de jovens elfos, na Texas Instruments, na RCA e na Bell, estavam lá competindo com você segundo as regras do mundo real, que exigiam pragmatismo além de brilhantismo. Noyce começara a trabalhar na Fairchild Semiconductor em 1957, a doze mil dólares por ano. Em relação a dinheiro, ele presumira que sempre estaria na folha de pagamento de alguém, como seu pai. Mas em 1959, ao falar com o pai, disse: "O dinheiro não parece ser de verdade. É só uma maneira de marcar o placar." Noyce levava a família para visitar seus pais com bastante frequência. Ele e Betty já tinham três filhos: Bill, Penny e Polly, que tinha um ano de vida. Quando visitavam seus pais, eles iam juntos à igreja aos domingos, como se isso fosse uma parte habitual de suas vidas. Mas na realidade, Noyce começara a se afastar do congregacionismo e a deixar de frequentar a igreja logo depois de se matricular no MIT. Não fora uma questão de rejeição. Ele jamais rejeitara qualquer elemento de sua educação em Grinnell. Simplesmente ele estava partindo para outros lugares, numa estrada diferente. Nesse aspecto Noyce era parecido com muitos rapazes e moças brilhantes, oriundos de famílias protestantes dissidentes do Meio-Oeste depois da Segunda Guerra Mundial. Eles haviam sido criados como batistas, metodistas, congregacionistas, presbiterianos, Irmãos em Cristo, fosse lá o que fosse. Haviam sido conduzidos pela porta da igreja e instigados a abraçar a religião, mas esta jamais se tornara uma coisa viva para eles. Os domingos lhes davam a sensação de que seus crânios eram meras cascas ressecadas. Portanto, eles se afastavam lentamente da igreja, sem sequer um rosnado de rebeldia, parabenizavam-se por sua independência de espírito e assumiam outros estilos de vida. Na maioria dos casos só descobriam décadas mais tarde que —

de forma distraída e inexplicável — haviam deixado que os velhos costumes os acompanhassem naquela Jornada, apesar de tudo. Era como se... por algum equivoco extraordinário... esses costumes houvessem sido costurados no forro de seus casacos! Com sua nova fortuna, Bob Noyce comprou uma casa maior. Seu quarto filho com Betty, Margaret, nasceu em 1960, e eles queriam que cada criança tivesse um quarto próprio. Mas a idéia de se mudar para um dos bairros "melhores" na area de Palo Alto jamais lhe passou pela cabeça. Os bairros melhores ficavam em Atherton, em Burlingame, que era conhecido como um bairro chique, ou nas partes antigas e bonitas de Palo Alto, perto da Universidade de Stanford. Em vez disso, Noyce comprou uma versão californiana de uma casa de campo francesa em Los Altos: uma casa de estuque branca com um telhado fortemente inclinado. A vista lá de cima das colinas era bonita, e no verão era mais fresco do que na baixada perto da baia. A casa era bastante espaçosa, e ele e Betty levariam uma vida melhor do que a da maioria dos casais naquela faixa de idade; mas Los Altos não tinha prestígio social algum, e a casa não faria com que a revista House & Garden viesse correndo bater à porta deles. Ninguém poderia acusá-los de ostentação. John Carter nomeou Noyce gerente-geral de toda a divisão, a Fairchild Semiconductor, que subitamente passara a ser uma das empresas novas mais quentes de todo o mundo dos negócios. A NASA escolheu o circuito integrado dele para os primeiros computadores que os astronautas usariam a bordo de suas espaçonaves (no programa Gemini). Depois disso, choveram encomendas. Em dez anos as vendas da empresa cresceram de poucos milhares de dólares ao ano para 130 milhões, e o número de funcionários passou do bando original de elfos para doze mil. Como gerente-geral, Noyce passou a ter que lidar com um assunto que Shockley tratara de forma canhestra e prematura, ou seja: as novas técnicas gerenciais para aquela nova indústria.

Certo dia John Carter foi a Mountain View inspecionar de perto o negócio de semicondutores de Noyce. O escritório de Carter em Syosset, Long Island, pôs uma limusine e um chofer à disposição dele durante toda a estada na Califórnia. E por isso Carter chegou ao prédio de placas de concreto em Mountain View sentado no banco traseiro de uma limusine Cadillac preta, tendo no banco da frente um motorista de uniforme completo: terno preto, camisa branca, gravata preta e quepe com viseira preta. Isso já bastaria para chamar a atenção na Fairchild Semiconductor. Ninguém jamais vira uma limusine e um chofer lá. Mas não foi isso que fixou aquele dia na lembrança de todos. Foi o fato de que o motorista ficou lá quase oito horas, sem fazer nada. Ficou lá de uniforme, com o quepe de viseira na cabeça, no banco dianteiro da limusine, o dia todo, sem fazer nada, exceto esperar um sujeito que estava lá dentro. Era John Carter que estava lá dentro, aproveitando ao máximo aquele periodo como executivo-chefe. Deu uma volta pelas instalações, convocou reuniões, examinou cifras, balançou a cabeça de satisfação, e exibiu todo o seu charme urbano, de executivo figurão da rua Cinquenta e Sete. Enquanto isso, o motorista continuava sentado lá fora, envolvido na tarefa de sustentar um quepe de viseira com a própria cabeça. As pessoas começaram a largar suas bancadas de trabalho e ir até as janelas da frente, só para dar uma olhada naquele fenômeno. Aquilo parecia tão bizarro. Ali estava um serviçal que passava o dia todo sem fazer nada; ficava só esperando à porta para juntar-se instantaneamente às ancas de seu amo, assim que as ancas, a pança e a papada decidissem reaparecer. Esta espiadela no estilo de vida dos altos executivos de Nova York nâo era comum nas colinas amarronzadas de Santa Clara Valley. Tudo aquilo parecia terrívelmente errado. Uma certa intuição que Noyce tinha, a respeito daquela nova indústria e das pessoas que nela trabalhavam, começou a assumir a forma de um conceito. Sem perceber, as corporações do Leste adotavam uma organização à moda feudal. Havia os

reis e lordes, e havia os vassalos, soldados, pequenos aristocratas e servos, com camadas de etiqueta e prérequisitos, tais como o carro e o motorista, para simbolizar os níveis hierárquicos e estabelecer as linhas divisórias. No Leste os diretores-executivos tinham escritórios revestidos em madeira trabalhada, lareiras falsas, escrivaninhas, poltronas fundas, livros encadernados em couro e alcovas para trocar de roupa, feito uma suite numa mansão feudal. A Fairchild Semiconductor precisava de uma estrutura operacional rígida, principalmente naquele periodo de crescimento rápido, mas não precisava de uma estrutura social. Na realidade, nada poderia ser pior do que isso. Noyce percebeu o quanto detestava o sistema corporativo do Leste, com suas inumeráveis gradações de classe e posição, encimado por diretores-executivos e vice-presidentes que no cotidiano viviam como se pertencessem a uma corte e uma aristocracia corporativa. Ele rejeitava a idéia de uma hierarquia social na Fairchild. Não apenas não haveria limusines e motoristas, como não haveria vagas de estacionamento reservadas. O trabalho começava às oito da manhã para todos, e o estacionamento daria preferência aos primeiros a chegar, inclusive Noyce, Gordon Moore, Jean Hoerni e todos os demais. Noyce gostava de dizer: "Se você chegar atrasado, vai ter que estacionar nas quarenta vagas lá do fundo." E não haveria suites feudais nos escritórios. O galpão reformado na Charleston Road foi dividido em bancadas e em duas fileiras de acanhados cubículos administrativos. Os cubículos jamais sofreram melhorias. A decoração permaneceu no estilo Galpão Reformado, e as portas estavam sempre abertas. De qualquer forma Noyce, o administrador-chefe, passava metade do tempo no laboratório, sempre de jaleco branco. Noyce chegava para trabalhar de paletó e gravata, mas logo tirava aquilo, e todo mundo lá podia fazer a mesma coisa. Não havia regra de vestimenta alguma, exceto as que não estavam escritas. Os trajes deviam ser modestos, tanto no

sentido social quanto moral. Ninguém da empresa usava jaquetões risca-de-giz de lã penteada com gravatas xadrez. Era uma verdadeira gafe se trajar de forma elegante, chamativa, sedutora ou na moda. O desleixo não era um pecado. Já a ostentação era. Durante a fase de implantação da Fairchild Semiconductor não houve qualquer sensação de existirem patrões e empregados ali. Havia apenas a sensação comum de uma luta na fronteira. Todos haviam internalizado as metas da empreitada. Não precisavam de exortações por parte de superiores. Além disso, todos eram muito jovens! Noyce, o administrador, coordenador-chefe ou fosse lá o que fosse, mal completara trinta anos: era apenas por pouco o mais velho no local. E em 1960, graças à sua compleição atlética e cabelo castanho-escuro com corte de universitário, ainda parecia bem jovem. À medida que a empresa se expandira, ele nem se preocupara em achar "pessoal com experiência em administração". Ali na Califórnia, na indústria de semicondutores, isso não existia. Em vez disso, ele recrutava engenheiros diretamente nas faculdades e escolas de pós-graduação, dando-lhes de cara grandes responsabilidades. Não havia "funcionalismo", nem "escalão superior", a não ser os oito sócios propriamente ditos. As decisões importantes não eram repassadas para os níveis superiores da cadeia de comando. Noyce fazia reuniões semanais com gente de todas as partes da empresa, e o que tinha que ser endireitado era endireitado ali mesmo, na hora. Ele queria que todos continuassem a internalizar as metas da companhia e a se automotivar, como acontecera durante a fase de implantação. Se todos fizessem isso, teriam a capacidade de tomar suas próprias decisões. Os jovens engenheiros que iam trabalhar na Fairchild mal podiam acreditar quando recebiam de chofre toda aquela responsabilidade. Um rapaz de 24 anos, mal saido da escola de pós-graduação, subitamente via-se encarregado de um projeto importante, sem supervisão alguma. Quando não conseguia resolver

um problema que surgia, ele procurava Noyce, começava a ofegar nervosamente e perguntava o que fazer. Noyce baixava a cabeça, ligava o tal olhar de cem amperes, escutava e dizia: "Olhe, aqui estão as diretrizes. Você tem que pesar A, você tem que pesar B, e você tem que pesar C." Ai ligava o sorriso de Gary Cooper: "Mas se você acha que eu vou tomar a decisão por você, está enganado. Ora... o rabo é seu." Lá no Leste, nas empresas convencionais, qualquer funcionário que desejasse fazer uma compra de tamanho incomum precisava ter a aprovação de um superior, de dois ou três superiores ou até de uma comissão; esse procedimento consumia dias ou semanas de papelada. Noyce transformou tudo isso. Na Fairchild qualquer engenheiro — até um novato recém-saído do Caltech — podia fazer qualquer compra que quisesse no volume que quisesse, a não ser que alguém se opusesse tanto que tentasse impedir a compra. Noyce chamava isso de Curto Circuito da Rota do Papel. Só havia uma folha de papel envolvida no processo: a folha de papel que o engenheiro entregava a alguém no departamento de compras. O espírito da fase de implantação! Meu Deus! Que, poderia esquecer a euforia daqueles últimos anos? Ser jovem e livre ali, na fronteira do silício! Noyce estava decidido a manter esse espírito durante a fase de expansão. E ao menos no inicio, nos primeiros anos da década de 1960, a noção de uma empresa em permanente fase de implantação não parecia absurda demais. A Fairchild Semiconductor não podia sentar-se sobre os louros da tremenda vantagem fornecida pela invenção de Noyce, o circuito integrado. Os concorrentes já se instalavam em Santa Clara Valley feito garimpeiros durante a corrida do ouro. E de onde eles vinham? Ora, da própria Fairchild! Como assim? Simples... era o capital dissidente!

Os dissidentes (ou redissidentes) saidos da Fairchild abriram mais de cinqiienta empresas, todas fabricantes ou fornecedoras de microchips. A Raytheon Semiconductor, a Signetics, a General Microelectronics, a Intersil, a Advanced Micro Devices, a Qualidyne — elas surgiam em série, cada uma batizada com um engenheirologismo pseudotécnico mais bobo que o da anterior. Dissidentes! Aquilo era um jogo fantástico. Jean Hoerni e três dos oito dissidentes originais de Shockley largaram a Fairchild para formar o que em breve tornar-se-ia conhecido como a Teledyne Semiconductor, e esse foi apenas o primeiro round. Afinal, por que não ficar com todo o dinheiro para eles mesmos? A vontade de usar capital dissidente era tão irresistível que a palavra "dissidente", com sua conotação de traição, feneceu. Os dissidentes não passavam de "Fairchildren" (filhos da Fairchild), como os apelidou Adam Smith. Ocasionalmente, dissidentes de outras companhias — como a Texas Instruments e a Westinghouse, que deu origem à Siliconix — vinham para o vale Santa Clara e entravam na peleja. Mas foram os filhos da Fairchild que transformaram o Santa Clara Valley no Vale do Silicic Hectare após hectare, as árvores frutíferas foram arrancadas, e fábricas e prédios de escritórios de dois andares, no estilo Silício Moderno, foram erguidos. O estado da Califórnia abriu uma nova autoestrada passando pela area, a Route 280. As crianças ouviam a expressão "Vale do Silício" com tanta frequência que cresciam achando que aquilo era um nome no mapa. Para onde quer que os filhos da Fairchild migrassem, levavam o enfoque de Noyce. Não bastava fundar uma empresa; você tinha que fundar uma comunidade, comunidade essa na qual não houvesse diferenças sociais. O estacionamento funcionava por ordem de chegada, e você tinha que internalizar as metas comuns. O clima nas novas empresas era tão democrático que chocava os empresários do Leste. Quando algum figurão da GE ou da RCA — de 55 anos, com a papada lisa e inchada erguendo-se sobre

o colarinho branco F.R.Tripler ajustado sob medida e a gravata de seda padrão Jacquard francês — ligava e dizia: "Aqui é Harold B. Thatchwaite", do outro lado da linha, lá no Vale do Silício, uma secretária de 23 anos, loura, de olhos azuis e ensolarado sotaque californiano, respondia: "Só um instante, Hal, o Jack já vai te atender." E quando ele chegava à Califórnia e se encontrava com o tal Jack pela primeira vez, descobria que lá estava ele, o diretor executivo em pessoa, de 33 anos, sem paletó ou gravata, usando uma simples camisa xadrez, calças de algodão e um par de mocassins com costuras aparentes da grossura de cabos náuticos. Naturalmente, os primeiros sons a sairem da boca de Jack eram: "Oi, Hal." Era a década de 1960, e as pessoas da Costa Leste ouviam falar muito dos surfistas, dos motociclistas, das corridas de automóvel, de carros envenenados, dos hippies e dos ativistas políticos da Califórnia; visualizavam um quadro de jovens de calças jeans e camisetas que eram relaxados, emotivos, impulsivos, sensuais, indisciplinados, e revoltantemente orgulhosos de tudo isso. Portanto, aquelas empresas de semicondutores no Vale do Silício, com seus executivos vestidos como monitores de acampamento, pareciam ser a versão empresarial da mesma coisa. Essas pessoas não podiam estar mais equivocadas. A nova estirpe do Vale do Silício vivia para o trabalho. Sua disciplina chegava a provocar dores nas costas. Todos trabalhavam muitas horas, e continuavam a trabalhar nos fins de semana. Envolviam-se com as empresas como se fazia outrora, nos florescentes dias da indústria automobilística. No Vale do Silício, um jovem engenheiro chegava ao trabalho às oito da manhã, trabalhava até a hora do almoço, ia embora às seis e meia ou sete, dirigia o carro até chegar em casa, brincava com o bebê durante meia hora, jantava com a mulher, ia para a cama com ela, dava-lhe um rápido 54 trato, depois levantava, largava-a lá no escuro e

trabalhava à sua escrivaninha por duas ou três horas em umas coisas que tive que trazer para casa". Ou então ele saia do trabalho e resolvia dar um pulo no Wagon Wheel a fim de tomar um drinque antes de ir para casa. Todo ano havia algum lugar — o Wagon Wheel Chez Yvonne, Rickey's, ou o Roundhouse — para onde os membros dessa fraternidade esotérica, os rapazes e moças da indústria de semicondutores, partiam depois do trabalho a fim de tomar um trago, fofocar, gabar-se e trocar experiências sobre flutuações fásicas, circuitos-fantasmas, memórias de bolhas, trens de pulso, contatos sem reflexão, modos burst, testes da carniça, junções pn, modos de repouso, episódios de morte lenta, RAMs, NAKs, MOSes, PCMs, PROMs, queimadores de PROM e teramagnitudes, representando múltiplos de um milhão de milhão. Portanto, o engenheiro só chegava em casa às nove; aí o bebê já estava dormindo, o jantar estava frio e a mulher estava distante. Ele ficava ali parado, com as mãos em concha como se estivesse fazendo uma bola de neve imaginária, e tentava explicar a ela... enquanto sua mente fugia para outros assuntos, LSIs, VLSIs, fluxo alfa, de-rezzing, bias de avanço, sinais parasitas e aquela gatinha terassexy da Signetics que ele conhecera no Wagon Wheel, e que entendia dessas coisas. Não era um estilo de vida que favorecesse o casamento. No final da década de 1960 a taxa de divórcios parecia, ao pessoal do ramo, estar tão alta quanto as das cidades de crescimento acelerado da NASA — Cocoa Beach, na Florida, e Clear Lake, no Texas — onde outros jovens engenheiros estavam se entregando à nova tecnologia como se aquilo fosse uma missão religiosa. Quando casavam pela segunda vez, eles tendiam a se casar com moças que trabalhassem nas empresas do Vale do Silício, e que pudessem compreender e até aprender a viver com suas obsessões sufocantes. No Vale do Silício um engenheiro era pressionado a reinventar o circuito integrado a cada seis meses. Em 1959 a invenção de

Noyce tornara possível colocar um circuito elétrico inteiro num chip de silício do tamanho de uma unha. Em 1964 você precisava saber colocar dez circuitos num único chip desse tamanho só para entrar no jogo, e as apostas continuavam subindo. Seis anos mais tarde o número era de mil circuitos num único chip; seis anos depois disso seria de trinta e dois mil — e todos já estavam falando que o verdadeiro limiar seria sessenta e quatro mil. O próprio Noyce liderava a corrida; em 1968 ele já patenteara uma dúzia de novos circuitos integrados e transistores. E que coisas espantosas a miniaturização tornava possíveis! Em dezembro de 1968, a NASA enviou a primeira expedição tripulada à Lua, a Apollo 8. Três astronautas, Frank Borman, James Lovell e William Anders, entraram em órbita em torno da Terra; no momento preciso, dispararam um foguete a fim de se libertarem do campo gravitacional do planeta e atravessar a diminuta "janela" espacial que os poria numa trajetória para a Lua, e não em órbita em torno do Sol, de onde não poderia haver retorno. Foram até a Lua, entraram em órbita em torno do satélite e viram o lado oculto, que ninguém vira até então, nem mesmo com um telescópio; no momento preciso, dispararam um foguete para se libertarem da atração gravitacional da Lua e entrar na trajetória adequada para o retorno à Terra. Nada disso teria sido possível sem computadores a bordo. As pessoas já falavam de tudo que o programa espacial estava fazendo pela ciência da computação. Noyce sabia que era justamente o contrário. Somente a existência de um computador miniaturizado — com sessenta centímetros de comprimento, trinta de largura e quinze de espessura, ou seja, exatamente três mil vezes menor do que o velho ENIAC e muito mais rápido e confiável — tornara possível o vôo da Apollo 8. E não haveria computadores miniaturizados sem os circuitos integrados inventados por Noyce e Kilby, e depois aperfeiçoados por Noyce e os jovens fanáticos por semicondutores do Vale do Silício, a nova estirpe que estava construindo o caminho para o Eldorado.

Em 1968, Noyce ardia de irritação sempre que os jornais, as revistas e as redes de televisão tocavam no assunto da juventude. A juventude era um tema em voga em 1968. À medida que o movimento contra a guerra chegava ao auge, em seguida à ofensiva norte-vietnamita de fim de ano, tumultos estouravam nas universidades. Jovens negros se rebelavam nas cidades. Os yippies, supostamente uma coalizão de hippies e ativistas universitários, conseguiram sabotar a convenção nacional do Partido Democrata ao provocar alguns tumultos de rua amplamente televisionados. A imprensa parecia gostar de apresentar aqueles jovens como a vanguarda que estava varrendo a política e a moral do passado e traçando o futuro do país. O escritor francês Jean-Francois Revel excursionava pelas universidades americanas chamando o jovem radical de Homo novus, "o Novo Homem", como se aquele fosse o mais recente e avançado produto da própria evolução humana, à maneira das supercrianças em O fim da infância, de Arthur C. Clarke. Homo novus? Na visão de Noyce, os chamados movimentos jovens radicais eram perpassados pela nostalgia de uma Arcadia pré-industrial. Eles queriam, ou achavam que queriam, retornar à terra, viver de verduras orgânicas e tocar canções folclóricas dos séculos XVI e XVII. Eram contra a tecnologia. Viam a ciência como um instrumento monopolizado pelo complexo industrial-militar. Usavam essa expressão, "o complexo industrial-militar", o tempo todo. Se as indústrias ou as forças armadas financiavam a pesquisa cientifica nas universidades — e financiavam grande parte dela — então essa pesquisa era maligna. As universidades deveriam ser puras e estar acima da exploração, exceto, é claro, por ideólogos da Esquerda. O Homo novus forjara uma cadeia lógica que dizia o seguinte: como a ciência é igual ao complexo industrial-militar, o complexo industrial-militar é igual ao capitalismo, e o capitalismo é igual ao fascismo, a ciência é igual ao

fascismo. E, portanto, aqueles endeusados jovens radicais, aqueles formadores do futuro, atacavam as posições de vanguarda da tecnologia americana, inclusive o programa espacial e a própria idéia do computador. E portanto, aqueles criadores do futuro eram o quê? Eram luditas, Eles queriam destruir as novas máquinas. Eram os reacionários da nova era. Eram a vanguarda do atraso. Queriam cancelar o future Eram natimortos, ossificados e prematuramente senis. Se você quisesse falar dos verdadeiros criadores do futuro — bom, eles estavam no Vale do Silício! Pouco antes de a Apollo & circundar a Lua, Bob Noyce fez quarenta e um anos. Aos quarenta e um ele já se tornara um esquiador tão bom que as pessoas queriam que ele participasse de campeonatos. Quando sua filha Penny estava prestes a fazer catorze anos, ele perguntou o que ela queria de aniversário, e ela disse que queria saltar de paraquedas. Ele conseguiu convencê-la a ficar com aulas de planador. Mas como se enervava ao ficar parado no campo de pouso e vê-la pairando no ar lá em cima, ele resolveu ter aulas de vôo. Comprou um avião e começou a levar a família pelos desfiladeiros montanhosos de Aspen, no Colorado, para passarem os fins de semana esquiando. Ainda tinha o mesmo físico esbelto e forte de vinte anos antes, quando integrava a equipe de natação da Grinnell College. Ainda tinha o mesmo cabelo castanho-escuro e grosso, e nenhum sinal de calvície. A impressão que dava era que cada cabelo de sua cabeça estava pregado no lugar. Ele parecia capaz de sair pela porta a hora que quisesse e ganhar outro campeonato de mergulho da Conferência do Meio-Oeste. E era um dos mais velhos diretores executivos no setor de semicondutores! Ele era o Edison da turma! Era o pai do Vale do Silício! Os demais pequenos gênios eram mais jovens. O ramo inteiro era dominado por gente de vinte ou trinta e poucos anos. No Vale do Silício havia um fenômeno conhecido como cuca fundida. Depois de

passar cinco ou dez anos correndo obsessivamente atrás dos grandes prêmios do setor de semicondutores, cinco ou dez anos trabalhando no laboratório, tendo almoços de trabalho, falando de trabalho ao beber no Wagon Wheel, e massacrando mulher e filhos com tanto trabalho, um engenheiro chegava aos trinta e cinco anos, acordava um belo dia e... estava acabado. O jogo terminara. Aquilo chamava-se fundir a cuca, sugerindo o esgotamento mental e físico provocado por trabalho excessivo. Mas Noyce estava convencido de que era uma coisa totalmente diferente. Era a... idade, ou a idade e o status. No ramo de semicondutores, a engenharia de pesquisa era como o lançamento no beisebol: 60 por cento do jogo. A pesquisa de semicondutores era uma daquelas ciências altamente matemáticas, como a microbiologia, nas quais, por razões que só podiam ser supostas, os grandes clarões, os momentos cruciais de inspiração, só vinham a quem fosse jovem: geralmente homens de vinte e poucos anos. Na visão de Noyce, aqueles caras de cuca fundida aos trinta e cinco anos não estavam sofrendo de esgotamento. Estavam sendo esmagados e passados para trás pelos talentos mais jovens que surgiam depois deles. Não era o sistema nervoso central deles que entrava em colapso, era o ego. Ali você via a juventude na vanguarda, na liderança! Ali você via os jovens que estavam, de fato, formando o futuro! Ali você via, caso insistisse no termo, o Homo novus! Mas para que insistir nisso? Pois eles eram da mesma estirpe pioneira de Josiah Grinnell, que fundara Grinnell, em Iowa, aos trinta e três anos de idade. Em 1968, Noyce provocou a maior redissidência de todas as redissidências. A Fairchild Semiconductor gerara lucros tremendos para a sede lá no Leste. Noyce começou a achar que John Carter e Sherman Fairchild vinham desviando dinheiro demais para novos empreendimentos fora do campo dos semicondutores. Para dizer a verdade, Noyce não gostava de muitas coisas "lá do Leste". Não gostava

das viagens periódicas a Nova York, para as quais vestia ternos cinzentos, camisas brancas e gravatas; aí fazia relatórios para os membros da real corte empresarial e desperdiçava dias inteiros tentando atualizá-los quanto ao que andava acontecendo na Califórnia. A Fairchild era uma empresa bastante esclarecida, comparada a outras corporações do Leste; mas a verdade era que, na segunda metade do século XX, não havia ninguém no Leste que soubesse administrar uma corporação. O pessoal do Leste jamais passara de 1940. Consequentemente, tudo era prejudicado pelas idiotices primitivas do burocratismo e das batalhas entre a mão-de-obra e a gerência. Ninguém compreendia a concepção de comunidade corporativa vigente no Vale do Silício. Os jovens empresários mais brilhantes do Leste eram treinados — principalmente na Escola de Administração de Harvard — para ser pequenos príncipes maquiavélicos. A cobiça e a estratégia eram tudo que importava. Eram treinados para fracassar. Noyce e Gordon Moore, dois dos três elfos de Shockley — entre os oito originais — que ainda estavam na Fairchild, resolveram criar uma empresa própria. Procuraram Arthur Rock, que ajudara a arranjar o capital inicial para a Fairchild Semiconductor quando estava na Hayden Stone. A essa altura Rock já tinha uma empresa de investimentos própria. Noyce adorou não ter que passar por nenhuma das etapas de formação de empresas de que as escolas de administração falavam. Ele e Moore nem chegaram a redigir uma proposta. Simplesmente disseram a Rock o que queriam fazer e adiantaram 500 mil dólares de fundos próprios, 250 mil cada um. Isso pareceu impressionar Rock mais do que qualquer coisa que eles pudessem ter escrito, e ele arranjou mais 2,5 milhões de dólares para o capital inicial. Poucos meses depois entraram mais 300 mil dólares, dessa vez de Grinnell College. Noyce participava do conselho de administração da faculdade desde 1962, e um dos membros pedira-lhe que desse à faculdade a chance de investir, caso um dia ele viesse a abrir

uma empresa própria. Portanto, Grinnell College passou a apostar em Noyce e na Intel — o engenheirologismo pseudotécnico que ele e Moore haviam inventado como o nome da companhia. Josiah Grinnell teria adorado essa aposta. A saida de Noyce e Moore da Fairchild foi um terremoto, mesmo numa indústria já acostumada a dissidências. No Vale do Silício todos viam a Fairchild como a empresa de Noyce. Ele era o ímã que unia o lugar. Sem ele, era óbvio que todo o corpo de funcionários se sentiria livre e disponível. Como disse um gaiato: "O pessoal praticamente saía de lá com caminhões cheios de empregados." A Fairchild reagiu com um dos contra-ataques mais grosseiros da história empresarial. Um dia, os peões que ainda restavam lá ergueram o olhar por cima das divisórias e viram um pelotão de rapazes, todos com bronzeados maravilhosos, entrando nos cubículos executivos. Jamais esqueceriam daqueles bronzeados maravilhosos. Pois eles eram C. Lester Hogan, o diretor-executivo da divisão de semicondutores da Motorola em Phoenix, e seu escalão superior de engenheiros e administradores. Ou melhor: eles haviam sido da Motorola até o dia anterior. A Fairchild contratara o bando inteiro, tirando-os de lá e instalando-os no lugar de Noyce & Cia., feito um conjunto complete O Santa Clara Valley era bastante ensolarado, mas ninguém ali tinha bronzeados como os daquele bando de Phoenix. A Fairchild atraira o líder daqueles jovens deuses do sol para longe do deserto do Arizona da maneira mais simples possível, oferecendo-lhe uma absoluta fortuna em dinheiro e ações. Hogan recebera tanto dinheiro, dizia a turma do Wagon Wheel, que no Vale do Silício a riqueza seria medida, dali em diante, em unidades chamadas hogans. Enquanto isso, Noyce e Moore instalavam a Intel em Santa Clara, que ficava perto de Mountain View, num prédio de placas de concreto que Jean Hoerni e seu grupo haviam construido, mas não usavam mais. O eco da história de Shockley fazia-se ouvir mais uma

vez. Eles abriram a empresa com uma dúzia de jovens engenheiros elétricos brilhantes, além de uns poucos funcionários de administração e manutenção, e apostaram tudo em pesquisa e desenvolvimento de produtos. Noyce e Moore, tal como Shockley, vestiram jalecos brancos e foram trabalhar nas bancadas dos laboratórios. Não estariam competindo com a Fairchild, ou mais ninguém, no mercado já estabilizado de semicondutores. Haviam decidido passar para a area mais atrasada da tecnologia de computadores, que era armazenamento de dados, ou "memória". A memória de um computador ficava armazenada em pequenos anéis de cerâmica chamados núcleos. Cada pequeno anel continha um "bit" de informação, um "sim" ou um "não", na lógica do sistema binário de matemática que os computadores empregam. Em dois anos Noyce e Moore desenvolveram o chip de memória 1103, que era um chip de silício e polissilício do tamanho de duas letras datilografadas. Cada chip continha quatro mil transistores; além disso, fazia o trabalho de mil anéis de cerâmica, e com mais rapidez. A linha de montagem ainda era composta por filas de mulheres sentadas diante de bancadas, como nos velhos tempos de barracões e vigas aparentes, mas as divisórias já pareciam algo saido de um filme de aventuras intergalático. As mulheres gravavam os circuitos no Silício fotograficamente, usando trajes, touca e luvas antissépticas que lembravam uma viagem a Marte, pois um único cisco de poeira podia arruinar aqueles circuitos miniaturizados. Os circuitos eram tão pequenos que a palavra "miniatura" já não parecia pequena o suficiente. O novo termo era "microminiatura". Tudo agora ocorria dentro de um cubo de gelo com ar-condicionado, feito com ladrilhos de vinil, aço inoxidável, iluminação fluorescente e plástico iluminado por trás. O chip de memória 1103 abriu um campo tão lucrativo que outras empresas, inclusive a Fairchild, começaram a lutar desesperadamente só para ocupar a segunda posição, fornecendo as encomendas que a Intel não podia aceitar. No fim do

primeiro ano de funcionamento da Intel, ano esse devotado quase inteiramente à pesquisa, o faturamento totalizava menos de três mil dólares, e a força de trabalho chegava a quarenta e duas pessoas. Em 1972, graças em grande parte ao chip 1103, o faturamento foi de 23,4 milhões de dólares e o quadro de funcionários chegou a 1.002 pessoas. No ano seguinte o faturamento quase triplicou, chegando a 66 milhões, e a forca de trabalho aumentou duas vezes e meia, atingindo 2.528 pessoas. Portanto, Noyce teve oportunidade de administrar uma empresa nova — da fase de implantação até atingir plena produção — exatamente do jeito que ele achava que Shockley deveria ter feito em Palo Alto, no fim da década de 1950. Desde o começo, ele deu opções de compra de ações a todos os engenheiros e à maioria dos funcionários administrativos. Aprendera na Fairchild que, num ramo tão dependente da pesquisa, as opções de compra de ações eram um incentivo muito mais poderoso do que a participação nos lucros. No sistema de participação nos lucros, as pessoas naturalmente querem se concentrar em produtos que já são lucrativos, em vez de mergulhar na pesquisa de vanguarda, a qual não dará retorno a curto prazo, ainda que bem-sucedida. Mas quem tem opções de compra de ações vive em busca de novas descobertas na pesquisa, pois uma noticia dessas eleva imediatamente o valor das ações de uma empresa de semicondutores, independentemente dos lucros. A idéia de Noyce era dar a todos os funcionários a sensação de que poderiam progredir no setor na medida em que seus talentos permitissem. Ele não queria que um funcionário olhasse para a estrutura da Intel e visse um complexo percurso de obstáculos. Desnecessário dizer que na Intel não haveria hierarquia social, suites executivas, turma do terno risca-de-giz, vagas de estacionamento reservadas e outros símbolos da hierarquia. Mas Noyce queria ir

além disso. Ele jamais gostara daqueles cubículos para escritórios da Fairchild. Ainda que fossem feios, a mera posse de um deles já simbolizava um cargo superior. Na Intel os executivos não ficariam emparedados em escritórios. Todos ficariam juntos num único salão. Haveria apenas divisórias baixas para separar Noyce, ou qualquer outra pessoa, do mais insignificante assistente de almoxarifado que estivesse empurrando o carrinho com papel sanfonado das impressoras. O local tornou-se um grande barracão. Quando eles se mudaram para o prédio, Noyce trabalhava numa escrivaninha metálica de segunda mão, velha e arranhada. E manteve a escrivaninha enquanto a empresa se expandia; já as estenógrafas novas, recém-contratadas, recebiam escrevaninhas não apenas mais novas, como maiores e melhores do que a dele. Todos notavam a surrada escrivaninha, pois nada havia que os impedisse de examinar cada centímetro do escritório de Noyce. Ele gostava dessa subversão da etiqueta empresarial do Leste, a qual preconizava pequenas escrivaninhas metálicas para os subalternos e grandes escrivaninhas de madeira para os barões. Na Intel, Noyce resolveu eliminar completamente o conceito de níveis gerenciais. Ele e Moore dirigiam o espetáculo; isso estava claro para todos. Mas abaixo deles havia apenas os segmentos estratégicos do negócio, como eles diziam. Esses segmentos eram comparáveis aos departamentos principais numa empresa ortodoxa, mas tinham muito mais autonomia. Cada um deles era administrado como uma empresa independente. Os gerentes de nível médio da Intel tinham muito mais responsabilidades do que a maioria dos vice-presidentes lá do Leste. Além disso, eram muito mais jovens, e as dores nas costas e as enxaquecas surgiam mais cedo neles. Na Intel, se uma depisão importante da divisão de marketing fosse afetar a divisão de engenharia, o problema não era hierarquicamente levado à camada de executivos que supervisionava as duas divisões. Em vez disso, eram formados "conselhos" compostos pelo pessoal que já estava trabalhando

naquela linha nas duas divisões afetadas; as pessoas se reuniam e descobriam a solução ali mesmo. Os conselhos moviam-se horizontalmente, de problema para problema. Não tinham autoridade por direito. Não eram corpos governantes, e sim conselhos de coordenação. Noyce era um grande entusiasta de reuniões. As pessoas de cada departamento ou unidade de trabalho eram incentivadas a convocar reuniões sempre que se sentissem motivadas a isso. Na Intel havia salas destinadas a reuniões, disponíveis para os primeiros que chegassem, tal como as 64 vagas de estacionamento. As reuniões eram frequentemente realizadas na hora do almoço. Isso não era uma política da empresa, meramente um exemplo estabelecido por Noyce. Na Intel não havia almoços executivos. Lá no Leste, em Nova York, os executivos tratavam os almoços como um banquete cotidiano da nobreza — uma celebração suntuosa da sua proeminência — nos luculianos restaurantes de Manhattan onde suas empresas tinham conta. Os restaurantes das ruas Cinquenta a Sessenta, tanto do lado leste quanto oeste de Manhattan, pareciam saidos de um sonho. Recrutavam mestres-cucas de toda a Europa e do Oriente. Havia pasta-primavera, salsichão, musse de azedinha, lagosta cardeal, terrine de legumes Montesquieu, paillard de pombo, medalhões de file à Gordon chinês, vitela à Valdostana, peru assado à Verbena com batata-doce Hayman — vindos de avião do literal leste da Virgínia —, suflê de framboesa, Alasca assado, zabaglione, torta de pêra e creme brúlée. E os vinhos! Os conhaques! O porto! O Sambucca! Os charutos! E a decoração? Paredes revestidas de madeira laqueada, espelhos cintilantes, e candelabros de parede com pequenos anteparos pregueados cor de pêssego, tudo projetado por decoradores que acompanhavam duquesas a festas em Eaton Square! E os maitres e garçons que falavam aquele francos de cinema, desdobrando-se em rapapés para você e seus

clientes, amigos e colegas barões? Aquilo era o Monte Olimpo em Manhattan toda tarde, de 12:30 às 15:00.E quando você emergia na luz cinza-aperolada da cidade, era tanta a ambrosia que pulsava nas suas veias, que até as ruas engarrafadas pelos lixeiros — dando ré nos caminhões-caçambas e berrando, "Mbora, mbora, mbora, mbora", como se falassem um estranho dialeto urbano — tornavam-se parte do paraiso que era ter proeminência no mundo empresarial! Muitos diretores-executivos mantinham a sede de suas empresas em Nova York — mesmo depois que o ultimo motivo racional para isso já desaparecera — só por causa da inefável experiência que era ser CEO de uma empresa e almoçar cinco dias por semana em Manhattan! Na Intel o almoço tinha um aspecto diferente. Lá você percebia quando era meio-dia, porque ao meiodia surgiam homens de avental branco na entrada, arquejando sob o peso das bandejas que carregavam. As bandejas estavam repletas de sanduiches de delicatessen e de copos encerados cheios de bebidas tampados por plástico transparente, com glóbulos de Sprite ou outro refrigerante, como o Diet Shasta, deslizando lá dentro em torno dos tampos. O seu almoço era isso. Vocè comia uns sanduiches de rosbife ou frango, fatiados em retângulos translúcidos por uma máquina numa unidade de processamento e depois remontados sobre o pão em camadas que exalavam um bafo úmido e desagradável de hormônios e substâncias químicas; lavava tudo isso com Sprite ou Diet Shasta; sentava-se entre as divisórias de compensado e as escrivaninhas metálicas; e mantinha-se concentrado na reunião da sua comissão. Era isso que Noyce fazia, e era isso que todos os demais faziam. Se Noyce convocava uma reunião, era ele que estabelecia a pauta. Mas depois disso, todos eram iguais. Se você fosse um jovem engenheiro e tivesse uma idéia a transmitir, devia erguer a voz e desafiar Noyce ou qualquer outro que não entendesse a coisa

imediatamente. Aquilo era um pedacinho do céu. Você estava cara a cara com o inventor, ou coinventor, do próprio caminho para o Eldorado; ele só tinha 41 anos, e estava dando ouvidos a você. Noyce baixava a cabeça, erguia o olhar para você e absorvia tudo. Ele não era o seu patrão. Era Gary Cooper! Estava ali para ajudar você a se tornar independente e fazer o máximo que pudesse sozinho. Aquilo não era uma empresa... era uma congregação. Nessa mesma linha, havia sermões e homilias. Na Intel esperava-se que todo mundo — inclusive Noyce — frequentasse as sessões sobre "a Cultura Intel". Nessas sessões eram esclarecidos e discutidos os princípios pelos quais a companhia era administrada. Algumas das discussões eram especificamente sobre questões de marketing ou produção. Outras abrangiam os mais amplos princípios filosóficos da Intel, que eram explicados pelo método socrático em seminários gerenciais pelo número três da empresa, Andrew Grove. Grove dizia: "Como você resumiria a abordagem da Intel?" Muitas mãos se erguiam; Grove escolhia uma, e o entusiasmado participante dizia: "Na Intel você não espera que alguém faça. Você mesmo pega a bola e sai correndo com ela." Em Grove dizia: "Errado. Na Intel você mesmo pega a bola, tira o ar dela e a coloca no bolso. Aí você pega outra bola e sai correndo. Depois de marcar o gol, você tira a primeira bola do bolso, enche de ar e marca dois pontos em vez de um." Grove era a figura mais espalhafatosa da Intel. Era um homem magro, de trinta e poucos anos, com uma negra cabeleira encaracolada. Os cachos desciam até formar duas suíças que pareciam unir-se feito goulash ao bigode. Todo dia ele usava ou uma camisa de malha, com gola rolê, ou uma camisa aberta no peito, com um cordão pendurado no pescoço. Aos

desconhecidos, ele parecia resumir um estilo do inicio dos anos 70, conhecido como modernoso californiano. Na realidade, Grove era um resumo do principio religioso que reza que quanto maior a liberdade — por exemplo, a liberdade de se vestir à vontade — maior a necessidade de disciplina. Por mais modernosos que fossem, seus trajes eram arrumados e limpos. A verdade era que ele era bastante exigente em termos de arrumação e limpeza. Organizava o que chamava de "Inspeções do Mr. Limpeza": aparecia em diversas areas de trabalho — com suas suíças, seu amplo bigode, sua camisa ao estilo Harry Belafonte e seu cordão reluzente — e inspecionava os escritórios em busca de pilhas de livros altas demais e papéis largados sobre as mesas. Só faltava passar uma luva branca sobre as prateleiras, como se aquilo fosse uma versão californiana e comunitária de Parris Island. E também instituía coisas como as avaliações de desempenho e a Tabela de Atrasos. Periodicamente, cada funcionário recebia um boletim com uma nota baseada em critérios presumívelmente objetivos. As notas eram nível superior, excede as exigências, preenche as exigências, mal preenche as exigências e não preenche as exigências. Isso equivalia a A, B, C, D e F na escola. Noyce adorava aquilo. "Se você é ambicioso e trabalhador", dizia ele, "quer saber como está indo." Na visão dele, a maioria dos jovens gênios que vinham trabalhar na Intel jamais contara com notas honestas na vida. No fim da década de 1960 e no inicio da de 1970, as faculdades haviam sido pressionadas a deixar todos os alunos passarem para que eles não fossem enviados ao Vietnã, e haviam cedido às pressões a tal ponto que o sistema de notas nada mais significava. Na Intel eles aprenderiam o que era fazer frente a exigências. A Tabela de Atrasos também parecia algo tirado de uma escola severa. Esperava-se que todos chegassem ao trabalho às oito da manhã. Registravase quantos funcionários chegavam depois de 8:10. Se mais de 7 por cento chegassem atrasados por três meses, todos na seção eram obrigados a passar a

assinar o ponto. No entanto, não havia uma penalidade inevitável por chegar atrasado. Cada chefe de departamento podia usar a Tabela de Atrasos como achasse melhor. Se o chefe sabia que alguém estava trabalhando até tarde, todas as noites, num determinado projeto, aquela presença na Tabela de Atrasos seria considerada uma linha num papel, nada mais. No fundo — e isso era parte da cultura da Intel — Noyce e Grove sabiam que as penalidades eram quase sempre inúteis. Coisas como boletins e Tabelas de Atrasos só funcionavam quando estimulavam a autodisciplina. A pior forma de castigo na Intel era ser convocado perante o próprio Noyce sobre o tapete Antron II. Noyce exigia uma conduta ética em todos os negócios dentro da empresa e com outras companhias. Esta era a palavra que as pessoas usavam para descrever a postura dele: "ética". Essa, e "moral". Ele era conhecido como um empresário bastante agressivo, mas incapaz de passar por cima de alguém — e jamais falava em vingança. Mas não tolerava pecadilhos como pequenos "empréstimos" pessoais feitos à caixa de 68 pequenas despesas, sob o argumento de vou-reembolsar-isso-na-segundafeira. Aquele olhar Forte e Silencioso e o jeito de Gary Cooper que Noyce tinha podiam ser mortificantes, além de inspiradores. Mas quando ele se irritava, jamais elevava a voz de barítono. Parecia uma criatura poderosa que estava exercendo ao máximo seu autocontrole para não atacar. Sabe-se lá como, ele dava a impressão de que partiria para a briga à menor provocação. Como conseqúência, raramente precisava fazer isso. Ninguém brincava com Bob Noyce. Ele acabou conseguindo criar um universo ético dentro de um cenário intrinsecamente amoral: a empresa americana na segunda metade do século XX. Na Intel havia o bem e havia o mal; havia liberdade e havia disciplina. E os funcionários internalizavam estas questões num grau extraordinário, como os membros do exército de Cromwell. Enquanto o

numero de funcionários da Intel crescia e os lucros aumentavam, os sindicatos — principalmente a Associação Internacional de Mecânicos e Trabalhadores Aeroespaciais, o Teamsters, e o Sindicato de Engenheiros de Motores Fixos — fizeram várias tentativas de organizar a Intel. Ainda que discretamente, Noyce divulgou que considerava a sindicalização uma ameaça mortal à Intel e à indústria de semicondutores em geral. As batalhas sindicais faziam parte do antigo terreno do Leste. Se a Intel fosse dividida entre patrões e empregados, com a implicação de que cada lado deveria arrancar o couro do outro para obter mais dinheiro, a empresa estaria acabada. A motivação deixaria de ser interna e passaria a ser objetivada na forma mortal de normas de trabalho, queixas e indenizações. A questão só chegou a ser votada uma única vez, e o sindicato perdeu pela margem considerável de quatro a um. Os funcionários da Intel concordavam com Noyce. Os sindicatos faziam parte da mão morta do passado... Noyce e a Intel estavam a caminho do Eldorado. Nos primeiros anos da década de 1970, o chip de memória 1103 de Noyce e Moore já dera à nova companhia uma fatia inteira do mercado de semicondutores. Mas aquilo fora apenas o começo, pois nessa época Ted Hoff. um engenheiro da Intel de trinta e dois anos, apareceu com uma invenção tão importante quanto fora o circuito integrado de Noyce uma década antes: o microprocessador. Conhecido como "o computador num chip", o microprocessador punha todas as funções aritméticas e lógicas do computador num chip do tamanho da cabeça de uma tachinha. As possibilidades de criação e utilização de computadores pequenos passavam a superar a imaginação da maioria das pessoas, mesmo que fossem do ramo. Uma das possibilidades mais óbvias era colocar, nos mecanismos de direção e frenagem dos carros, um computador pequeno que assumisse o controle do veiculo em caso de derrapagem ou velocidade excessiva numa curva.

Em Ted Hoff, Noyce via uma prova cabal de sua hipótese de que ali, na fronteira elétrica, eram os jovens que tinham os grandes insights. Hoff tinha mais ou menos a mesma idade que Noyce tinha ao inventar o circuito integrado. Agora, a gloria era de Hoff. Mas Noyce considerou o triunfo de Hoff como prova de uma segunda hipótese: quando você criava o tipo certo de comunidade empresarial, o tipo certo de congregação autônoma, o gênio florescia. Certamente os números corporativos estavam florescendo. A notícia do microprocessador e o sucesso do chip de memória 1103 quase triplicaram o valor das ações da Intel entre 1971 e 1973. As ações do próprio Noyce passaram a valer 18,5 milhões de dólares. Ele estava mais ou menos na mesma posição que Josiah Grinnell cem anos antes, quando Grinnell trouxera a ferrovia Rock Island a Iowa. *** Noyce continuava morando na mesma casa nas colinas de Los Altos que comprara em 1960. Não tinha relutância a gastar dinheiro; apenas relutava em exibilo. Gastou uma fortuna em jardinagem, mas pode-se fazer isso sem ninguém saber. Gradualmente, a casa desapareceu de vista atrás de uma muralha de árvores, arbustos tropicais e flores ornamentais. Noyce mandou fazer um pequeno lago no quintal e uma paisagem lacustre sofisticada o suficiente para virar atração turística, mas apenas os convidados e hóspedes viam aquilo. O gramado se estendia por vários hectares, e continha uma quadra de tênis, uma piscina e outras muralhas de plantas e flores em tom pastel vivido, mas o mundo também não via nada disso. Noyce tinha um Porsche esporte, e gostava de correr com ele pelas estradas. Lá no Leste os homens, quando ganhavam muito dinheiro, tendiam a dar um valor cada vez maior às suas próprias peles. Noyce, ao contrário, parecia gostar de descobrir novas maneiras de arriscar a sua. Começou a voar de asa-delta numa asa Rogolla nas encostas de esquiagem em Aspen. Montou uma asa Quicksilver e decolava de

penhascos, até que um amigo seu fraturou a pelve voando nesse tipo de asa. Também começou a fazer mergulho, e já tinha o Porsche. O carro esporte importado de alto desempenho tornou-se uma das marcas registradas dos empresários bem-sucedidos do Vale do Silício, pois ele era perfeito para isso. Seu poder de atração vinha de algo pequeno, denso e oculto: a engenharia sob a carroceria. Não só isso, quem dirigia um carro-esporte era sempre o próprio dono. Um carro-esporte não sugeria uma vida cheia de criados. Os Porsche e os Ferrari tornaram-se os favoritos. Em 1975, a concessionária da Ferrari em Los Gatos já era a segunda maior concessionária da Ferrari na Costa Oeste. Além disso, Noyce comprou um avião anfíbio Republic Seabee de 1947, para passar fins de semana com a família nos lagos ao norte da Califórnia. Passou a ter dois aviões, mas ele mesmo os pilotava. Ele era um dos indivíduos mais ricos da Península de San Francisco, bem como a figura mais importante do Vale do Silício, mas seu nome raramente aparecia nos jornais de San Francisco. Sempre que isso acontecia, era na seção de negócios, e não nas colunas sociais. E isso também tornou-se a norma para os novos-ricos do Vale do Silício. San Francisco ficava a pouco mais de quarenta e cinco minutos de Los Altos pela auto-estrada Bay shore, mas psicogicamente ficava a um continente inteiro de distáncia. Era uma cidade cujas figuras ilustres viviam olhando para o Leste, para Nova York, a fim de ver se estavam fazendo as coisas corretamente. Em 1974, Noyce viu-se numa situação que, para alguns, parecia uma história por demais tipica da meia-idade no Vale do Silicic Ele e Betty, que estavam casados havia vinte e um anos, divorciaram-se, e no ano seguinte ele se casou novamente. Noyce tinha 47 anos e casou-se com a diretora de pessoal da Intel, Ann Bowers, que tinha trinta e sete. O divórcio foi mencionado no San Francisco Chronicle, mas não sob a forma de uma nota social, e sim como uma grande matéria sobre negócios. Devido às leis da California,

Betty receberia metade dos bens da familia. Quando saiu o boato de que ela ia vender 6 milhões de dólares de suas ações da Intel a fim de diversificar seus investimentos, todo o mercado de ações da Intel entrou temporariamente em frenesi. Ela deixou a Califórnia e foi morar numa vila no litoral do Maine. Noyce manteve a casa em Los Altos. A essa altura, em meados da década de 1970, o Vale do Silício já se tornara a versão californiana do final do século vinte de uma cidade nova, e Noyce e outros empresários começaram a ficar mais introspectivos. Nos dez anos anteriores — graças a hostilidades raciais e à política esquerdista do movimento pacifista — a imprensa nacional dera bastante atenção à questão das etnias. Por si só, isso já tendia a deixar os engenheiros e empresários do Vale do Silicio mais conscientes de suas similaridades. A maioria dos vultos principais, como o próprio Noyce, fora criada e fizera faculdade em cidadezinhas do Meio-Oeste e do Oeste. John Bardeen fora criado e cursara faculdade em Madison, Wisconsin. Walter Brattain fora criado e fizera faculdade em Washington. Shockley fora criado em Palo Alto, que na época era uma cidadezinha universitária, e se formara no Instituto de Tecnologia da California. Jack Kilby nascera em Jefferson City, Missouri, e fizera faculdade na Universidade de Illinois. William Hewlett nascera em Ann Arbor e fizera faculdade em Stanford. David Packard fora criado em Pueblo, Colorado, e se formara em Stanford. Oliver Buckley fora criado em Sloane, Iowa, e fizera faculdade em Grinnell. Lee De Forest nasceu em Council Bluffs, Iowa (e se formara em Yale). E Thomas Edison fora criado em Port Huron, Michigan, e nem cursara faculdade. Alguns deles, como Noyce e Shockley, haviam ido para o Leste a fim de cursar pós-graduação no MIT, que era a escola de engenharia mais prestigiosa do país. Mas o MIT revelara uma mentalidade muito atrasada... caipira... no campo da forma mais avançada de engenharia, a eletrônica em sólidos.

Grinnell College, com seus mil alunos, estava dez anos à frente do MIT. O quadro se revelara o mesmo na outra grande fronteira da tecnologia na segunda metade do século vinte, ou seja, o programa espacial. Os engenheiros que haviam realizado urn dos sonhos mais antigos do homem — viajar à Lua — tinham as mesmas origens: as cidadezinhas do Meio-Oeste e do Oeste. Depois do triunfo da Apollo 11, quando Neil Armstrong e "Buzz" Aldrin tornaram-se os primeiros mortais a pisar na Lua, o diretor da NASA, Tom Paine, comentou numa conversa: "Foi o triunfo dos quadrados." Um repórter escutou a frase — e como a imprensa se divertiu com aquilo! Mas Paine exibira uma visão penetrante. Como diz o Evangelho de Mateus, os últimos serão os primeiros, pois haviam sido os engenheiros oriundos das supostamente atrasadas e preconceituosas "roças" que — não só com genialidade, mas também com paixão e ousadia — haviam vencido a corrida espacial e obedecido à exortação feita por John Kennedy em 1961: "Colocar um homem na Lua antes do fim da década." A paixão e a ousadia desses engenheiros eram tão notáveis quanto o seu talento. Vezes sem conta, eles tiveram que afastar as mãos intrometidas do pessoal medroso do Leste. A contribuição do MIT ao Projeto Mercury fora a seguinte: menos um. Esse menos um fora Jerome Wiesner, da equipe de pesquisa eletrônica do MIT, que fora nomeado por Kennedy para dar jeito no programa espacial, o qual parecia estar emperrado por volta de 1961. Wiesner ficara apavorado quando vira o que os matutos estavam se preparando para fazer. Tentara convencer Kennedy a deixar a vitória na corrida espacial tripulada para os russos, e a concentrar-se nas expedições científicas não-tripuladas. Os matutos do Projeto Mercury — a começar pelo diretor do projeto, Bob Gilruth, um engenheiro aeronáutico de Nashwauk, Minnesota — haviam fugido de Wiesner meses a fio, feito contrabandistas esquivando-se de barreiras na estrada, até conseguir lançar a primeira expedição Mercury com o astronauta Alan Shepard a bordo. Quem tinha tempo a perder com parceiros

antiquados feito Jerome Wiesner e o MIT... lá na fronteira de vanguarda da tecnologia? Por que razão os garotos oriundos das cidadezinhas do Meio-Oeste dominavam as fronteiras da engenharia? Noyce concluiu que era porque numa cidade pequena você se tornava um técnico, um homem-de-sete-instrumentos, um engenheiro e um inventor, por necessidade. "Numa cidade pequena", ele gostava de dizer, "quando uma coisa quebra, você não fíca esperando uma peça nova, porque ela não vai chegar. Você mesmo faz a peça nova." Em Grinnell, porém, a necessidade fora a menos im-portante das mães da invenção. Havia uma outra coisa em Grinnell, uma coisa que as pessoas da idade de Noyce conseguiam sentir, mas não sabiam identificar. Essa coisa estava relacionada ao fato de que Grinnell fora outrora uma comunidade religiosa; não apenas uma cidade com uma igreja, mas uma cidade que era inseparável da igreja. No tempo de Josiah Grinnell, os cidadãos eram majoritariamente congregacionistas devotos, e os demais eram espertos o suficiente para agir como se fossem. Em Grinnell, qualquer pessoa que aspirasse a ser vendedor na loja de ração, ou coisa melhor do que isso, tinha antes que entrar para a Primeira Igreja Congregacionista. No fim da Segunda Guerra Mundial, porém, as pessoas instruidas de Grinnell — e de todas as cidades como Grinnell no Meio-Oeste — começaram a lançar essa parte de seu passado num lago de amnésia. Cederam ao impulso moderno de serem urbanas. Elas mesmas passaram a gostar de rir do Gótico americano de Grant Wood e dos retratos do Meio-Oeste feitos em prosa por Sherwood Anderson e Sinclair Lewis. Depois que a amnésia se instalou, dos velhos tempos as pessoas só se lembravam dos austeros códigos morais, que em alguns casos ainda perduravam. Os contratos vitalicios de propriedade de Josiah Grinnell proibindo a bebida, por exemplo... Imagine! Como era absurdo

ver esses ossos desenterrados de algo que já fora vivo e forte. Esse algo era o próprio protestantismo dissidente... que outrora fora muito vivo e forte! É que ninguém mais conseguia recordar a paixão — e a euforia — daqueles primeiros tempos. Ser um protestante crente — numa cidade como Grinnell no meio do século XIX — era vivenciar um êxtase espiritual maior do que qualquer um que os leitores de Main Street ou os apreciadores de Gótico americano pudessem vir a conhecer na vida. Josiah Grinnell partira para Iowa em 1854 a fim de criar nada menos do que uma Cidade de Luz. Natural da Nova Inglaterra, ele simplesmente desistira do Leste. Fundara a primeira igreja congregacionista na capital, Washington, e depois se afastara dela quando a congregação, majoritariamente sulista, fizera objeção a seus pontos de vista contra a escravidão. Fora para Nova York e conhecera o famoso editor do New York Herald, Horace Greely. Enquanto conversava com Josiah Grinnell, que na época tinha 32 anos e não sabia o que fazer da vida, Greely pronunciara as palavras pelas quais seria lembrado eternamente: "Vá para o Oeste, meu jovem, vá para o Oeste." Grinnell fora para Iowa, e com três amigos comprara pouco mais de dois mil hectares de terra a fim de fundar uma comunidade congregacionista da maneira que achava certo. Uma Cidade de Luz! A primeira coisa que organizara fora a Congregação. A segunda fora a faculdade. Oxford e Cambridge haviam começado a banir os protestantes dissidentes já no século XVII; e os dissidentes haviam começado a fundar suas próprias escolas e faculdades. Grinnell tornou-se um paladino das "escolas livres", e em grande parte foi graças a ele que Iowa teve um dos primeiros e melhores sistemas de ensino público do Oeste. Por volta de 1940, um jovem inteligente cujos pais não fossem ricos — tal como Bob Noyce ou seu irmão Donald — tinha muito mais chance de receber educação de nível superior em Iowa do que em Massachusetts.

E se ele fosse extremamente inteligente — se aparentasse ter o atributo conhecido como gênio — era infinitamente mais provável que ele abraçasse a engenharia em Iowa, Illinois ou Wisconsin do que no Leste. No Leste a engenharia era um campo fora de moda. O Leste olhava para a Europa em termos de moda intelectual, e na Europa ainda sobrevivia o antigo preconceito aristocratico contra o trabalho manual. A engenharia era considerada nada mais do que um trabalho manual erguido ao nível da ciência. Havia a ciência "pura", e havia a engenharia, que era raramente prática. No Leste o prestígio social dos engenheiros era menor do que o dos advogados, medicos, coronéis do Exército, comandantes da Marinha, executivos de empresas e professores de inglês, história, biologia, química e física. Esse esnobismo europeu, no entanto, jamais chegara a Grinnell, em Iowa. Tampouco chegara o corolário esnobe que rezava que um cientista se rebaixava ao entrar para o comércio. Os protestantes dissidentes viam-se como santos seculares, ou homens e mulheres de Deus que faziam o trabalho divino; não como monges e freiras na penuria, mas como trabalhadores bem-sucedidos no mundo cotidiano. Ninguém era menos virtuoso por ser rico e bem-sucedido. Um dos principals projetos de Josiah Grinnell foi trazer a ferrovia Rock Island até Iowa. Muitos membros de sua congregação cultivaram com sucesso o solo esplendorosamente fértil em torno da cidade. Mas não havia qualquer sensação de divisão entre ricos e pobres. Ali na fronteira, toda a congregação semeava a terra virgem nuraa luta comunitária. Eles haviam renunciado aos confortos do Leste... a fim de criar uma Cidade de Luz em nome do Senhor. Todo sacrificio, toda privação e toda negação dos prazeres da carne aproximava-os daquele estado abençoado em que a luz de Deus ilumina o ápice da alma. O que eram os confortos momentâneos e as poses aristocráticas do Leste... em comparação a isso? Onde estaria a vida de luxo do Leste no dia em que os céus se abrissem, uma luz jorrasse em torno deles e

uma voz dissesse lá no alto: "Por que escarneces de mim?" A luz! A luz! Quem — se já tivesse visto aquela luz gloriosa ou se já tivesse deixado sua alma banharse naquela luz — poderia escarnecer-se daqueles homens, frutos da semente divina, com um Main Street ou urn Gótico americanol Ali em Grinnell ainda reinava a paixão que impulsionara homens e mulheres a colonizar o Oeste no século XIX, contra as probabilidades mais espantosas em face de sofrimentos impressionantes. Pelos padrões de São Francisco de Assis ou São Jerônimo, que nada possuíam além da capa da virtude, Josiah Grinnell foi realmente um santo bastante secular. Ele morreu rico. E a vida de Robert Noyce foi bem mais secular do que a de Josiah Grinnell. Numa só década, entre 1973 e 1983, o faturamento da Intel passou de 64 milhões de dólares por ano a quase um bilhão. As ações do próprio Noyce eram avaliadas em quatro bilhões de dólares. Ele já se afastara da igreja em si. Fumava. Fumava muito. Bebia quando sentia vontade. Já se divorciara. Apesar disso, quando Noyce viera para o Oeste, trouxera Grinnell consigo... inexplicavelmente costurada no forro do casaco! No ultimo estágio de sua carreira, Josiah Grinnell afastara-se da construção de sua comunidade e voltara-se para questões mais amplas que afetavam Iowa e o Meio-Oeste. Em 1863, ele se elegera deputado federal pelo interior de Iowa. Da mesma forma, em 1974 Noyce entregou a gerência cotidiana da Intel para Gordon Moore e Andrew Grove e foi para o andar de cima, tornando-se presidente do conselho. Seu papel principal passou a ser o de portavoz do Vale do Silício e da fronteira eletrônica como um todo. Ele tornou-se presidente da Associação das Indústrias de Semicondutores. Liderou a campanha do setor para lidar com a crescente concorrência japonesa. Recebeu a Medalha Nacional de Ciência numa cerimônia na Casa Branca em 1980. Foi nomeado para o Quadro de Regentes da Universidade da California; e introduzido no Corredor

da Fama de Inventores Nacionais e na Academia Americana de Artes e Ciências. Em 1988, ele se mudou para Austin, no Texas, para assumir um papel nacional, assim como Josiah Grinnell fora para Washington. Noyce foi chefiar a Sematech, um consórcio de catorze fabricantes de semicondutores que trabalharia com o governo federal para dar um poderio esmagador e impregnável aos Estados Unidos na era dos computadores — e colocar os japoneses no seu devido lugar. Somente Noyce tinha a estatura — e o olhar de comando de Gary Cooper — para fazer tantos figurões se enquadrarem na Sematech. No entanto, ele não chegava a ser um homem famoso no sentido comum. Era praticamente desconhecido do público em geral. Mas entre aqueles que acompanhavam a indústria de semicondutores, era uma figura lendária. Certamente era famoso em Wall Street, lá no Leste. Quando um repórter perguntou sobre Noyce a James Magid, da empresa de seguros L. F. Rothschild, Unterberg e Towbin, ele disse: "Noyce é um tesouro nacional." Ah, sim! Pois que tesouro era realmente o capital moral do XIX! Por acaso, Noyce foi criado numa familia em que a luz do protestantismo dissidente, há muito esquecida, ainda brilhava com força. A luz! — a luz no ápice de toda alma humana! Ironicamente, fora aquela luz há muito esquecida... saida dos caipiras carolas e puritanos... que conduzira o mundo ao século XXI, cruzando a grade eletrônica e adentrando o espaço. Seguramente o capital moral do século XIX já foi, a esta altura, quase que completamente gasto. A geração de Robert Noyce foi a última a ser criada em familias onde a luz do protestantismo dissidente existia num estado de alguma pureza. Noyce tinha um inefável carisma de protestante dissidente — e carisma significa, literalmente, uma dádiva de Deus —, mas, como Josiah Grinnell, também era mortal, embora não parecesse. Ao ir para Austin em 1988, ele já tinha sessenta anos, mas ainda conservava o fisico que sempre tivera, de nadador universitário pela

faculdade de Grinnell. Transformara os quintais das casas onde morou em centros de natação onde se exercitava regularmente. Ainda tinha todos os cabelos e nenhum deles ousara embranquecer. Ainda tinha quadras de tênis nas duas casas. Além disso, ainda fumava. Muito. Num sábado à noite, 2 de junho de 1990, em sua casa de Austin, ele jogou uma movimentada partida de tênis, como sempre costumava fazer. Na manhã de domingo acordou e foi dar um mergulho na piscina. A principal artéria esquerda de seu coração fechou-se para sempre, e ele morreu em menos de uma hora. Não houve funeral ou cerimônia religiosa; seu corpo foi cremado. Devido ao sentimentalismo secular em voga na época, imensas "celebrações em memória de sua vida", de intenção não-religiosa, foram realizadas em Austin e em San Jose, na Califórnia, mas inexplicavelmente as duas cerimônias acabaram assumindo um tom religioso. Quando a "celebração" de San Jose terminou, um piloto — no jato Cessna Citation, do próprio Noyce, com uma licença especial da Agência Federal de Aviação — fez um vôo rasante sobre a multidão. Esse momento lembrou a todos o funeral de algum aviador militar heróico. Trabalhadores soltaram milhares de balões de gás vermelhos, brancos e azuis, os quais subiram da terra ao — o quê? — Céu? A multidão dispersou-se com a sensação melancólica de que uma espécie de força profunda — seria possível dizer a palavra "espiritual"? — ausentara-se da vida no Vale do Silício. Durante os dez anos seguintes, à medida que o Vale inchava com mais gente e mais riquezas, o nome de Noyce foi caindo no esquecimento. As pessoas que podiam dissertar sobre algoritmos e tracoma online jamais haviam ouvido falar nos congregacionistas. Todavia, um certo tipo de luz ainda brilha lá no Vale do Silicic O pessoal que administra as empresas mais novas do Vale repete os noycismos com convicção e prazer, mesmo sem a menor idéia da origem desses conceitos. Todos os jovens diretores-executivos dizem: "A Datadyne não é uma empresa, é uma

cultura", ou: "A iLinx não é uma empresa, é uma sociedade", ou: "os ativos da ursomel.com" — pois estão em voga os nomes roceiros e não-tecnológicos — "os ativos da ursomel.com não são os seus equipamentos, e sim a programação mental das trezentas almas que trabalham aqui." Falam de alma e visão espiritual como se isso fosse o assunto mais natural do mundo, e central para a boa administração de uma companhia. No dia em que a Eagle Computer, Inc. — uma das novas empresas do Vale — fez seu lançamento inicial em bolsa, os investidores a receberam como a resposta a um sonho. Quando o mercado de ações fechou ao final do dia, Dennis Barnhart, o diretorexecutivo da empresa, subitamente passara a deter 9 milhões de dólares, aos quarenta anos de idade. Quatro horas e meia mais tarde, ele e um amigo foram dar uma esticada na sua Ferrari. Arriscaram demais a pele, perderam o controle numa curva em Los Gatos, arrebentaram um guard-rail, e Barnhart morreu. Naturalmente, à noite o pessoal do ramo não falava em outra coisa. Um dos diretoresexecutivos mais conhecidos do Vale disse: "É o lado negro da Força." Disse isso sem o menor traço de ironia, e seus amigos assentiram pensativamente. Não tinham uma palavra para expressar aquilo, mas sabiam perfeitamente a que Força ele se referia.

Digibesteiras, pó de pirlimpimpim e o formigueiro humano

O

cenário era o Museu Suntory de Osaka, no Japão: um auditório tão pós-moderno que chegava a ser chocante. Na platéia havia centenas de estudantes de arte japoneses. Tratava-se da abertura de uma exposição com obras de quatro dos maiores ilustradores americanos do século XX: Seymour Chwast, Paul Davis, Milton Glaser e James McMullan, o núcleo central do afamado Ateliê Pushpin de Nova York. A exposição intitulava-se Pushpin e Além: O Famoso Ateliê que Transformou o Design Gráfico. Em cima do palco, cintilando com a fama global, os americanos tinham todas as razões para se sentirem maravilhosos. Sentado diante deles havia um intérprete. O diretor do museu começou sua apresentação em japonês, e fez uma pausa para a tradução do intérprete: — Nossos convidados de hoje são um grupo de artistas americanos oriundo da Era Manual. O diretor começou a falar de novo, mas os convidados americanos já não estavam ouvindo. Estavam concentrados em processar aquela frase de abertura. A Era Manual... a Era Manual... A frase ricocheteava dentro dos seus crânios... quicando nas pirâmides de Betz, zunindo pelos corpora callosa, e alojando-se nas areas de Broca e Wernicke de sens cérebros. De repente todos sacaram. Aquelas centenas de jovens japoneses, olhando para eles das cadeiras do auditório, viam-nos não como visionários na fronteira do future, mas como velhos mamutes lanudos que, sabe-se lá como, haviam escapado das névoas de um passado pliocênico e caido ali no Museu Suntory... Eles formavam um time de relíquias que inexplicavelmente ainda viviam, ainda respiravam... Eram sobras... da Era Manual!

Que maravilha. Quisera eu saber japonês e poder conversar com aqueles estudantes, que examinavam o espetáculo primevo que tinham ali. Eram todos filhos da aurora da — é preciso dizê-lo? — Era Digital. Ilustrações manuais, "à mão livre"? Fora muita coragem daqueles velhotes perseverar quando dispunham de tão poucos recursos. Atualmente, na Era Digital, os ilustradores utilizavam — o que mais? — o computador digital. Criar imagens a partir do zero? Que expressão mais pitoresca e antiga, "do zero", e que conceito pitoresco e antigo... Na Era Digital, os ilustradores "formatavam" imagens já existentes em formas alteradas na tela digital. O próprio conceito de pós-modernidade baseava-se na utilização universal do computador digital... quer a pessoa estivesse formatando ilustrações, sintetizando música, enviando sondas ao espaço ou conseguindo, pela Internet, comunicação e informação instantâneas entre pessoas ao redor do mundo. O planeta encolhera, envolto numa membrana eletrônica. Ninguém na Terra estava a mais de seis cliques de computador de qualquer outra pessoa. A Era Digital estava rapidamente tornando obsoletas as fronteiras nacionais, os limites municipais e todos os outros antigos conceitos geográficos. E o mesmo acontecia com os mercados regionais, os pools de mão-de-obra e as indústrias. O mundo se unificara... online. Só havia agora uma "região", que se chamava o Universo Digital. Dessa crença simpática surgiu o conceito de convergência. Ou talvez eu deva dizer dessa fé, já que a origem do conceito é religiosa; católica, para ser específico. O próprio termo "convergência", tal como usado na Era Digital, foi cunhado por um padre jesuita, Pierre Teilhard de Chardin. Outro ardoroso católico, Marshall McLuhan, propagou essa mensagem por todo o mundo intelectual e deu ao Universo Digital seu primeiro e memorável nome: "a aldeia global". Milhares de sonhadores ponto.com dedicam-se hoje

a amplificar essa mensagem, sem ter a menor idéia de sua origem. Teilhard de Chardin — que geralmente é chamado pela última parte de seu sobrenome, Teilhard, que se pronuncia "teiár" — era um daqueles gênios que, na frase de Nietzsche, estão condenados a só serem compreendidos após sua morte. Teilhard morreu em 1955. Foi preciso haver a atual Webmania, quase meio século mais tarde, para que as teorias dessa figura romântica pegassem fogo. Nascido em 1881, ele era o segundo filho de um dos mais ricos proprietários de terras na região francesa de Auvergne. Como rapaz, vivenciou três chamados passionais: o sacerdócio, a ciência e Paris. Era o tipo do padre católico sofisticado que as anfitriãs européias da virada do século adoravam: alto, moreno, bonito, e ainda por cima aristocrático, com ternos clericais negros muito bem cortados e masculinidade para dar e vender. Seu corpo atlético e tez avermelhada eram obtidos honestamente, devido à vida ao ar livre que levava como paleontólogo em sítios arqueológicos ao redor do mundo. E o jeito com que seu rosto forte, enxuto e bem delineado se abria num sorriso confidencial quando ele encontrava uma mulher bonita? Todos os relatos dizem que metade das mulheres em le monde juravam ser a que conseguiria separar o glamouroso jesuita de seus votos. Pois Teilhard também tinha glamour para dar e vender: três tipos de glamour. Aos trinta e dois anos de idade ele fora o astro francês de uma equipe chefiada pelo inglês Charles Dawson, e que fizera o achado arqueológico mais sensacional de todos os tempos num sitio perto de Lewes, na Inglaterra: o homem de Piltdown, o chamado elo perdido na evolução do macaco ao homem. Um ano mais tarde, quando estourou a Primeira Guerra Mundial, Teilhard recusou a chance de servir como capelão, preferindo ir para a frente de batalha como padioleiro e salvar os feridos no meio dos combates. Foi condecorado por bravura nas batalhas mais sangrentas dessa que foi a pior guerra de infantaria já vista: Ypres, Artois,

Verdun, Villers-Cotterêts e Marne. Enquanto isso, nos intervalos entre as batalhas, ele começara a escrever o tratado com que esperava unificar toda a ciência e toda a religião, toda a matéria e todo o espirito, trombeteando o piano de Deus para transformar o mundo todo, das rochas inertes à humanidade, num único e sublime Espírito Santo. "Com a evolução do Homem", escreveu ele, "uma nova lei da natureza entrou em vigor — a da convergência." A evolução biológica dera o primeiro passo, a "convergência expansiva". E agora, no século XX, por meio da tecnologia, Deus estava criando a "convergência compressiva". Graças à tecnologia, a espécie "até então espalhada" do Homo sapiens estava sendo unida por um único "sistema nervoso para a humanidade", uma "membrana viva", uma única "máquina de pensar estupenda", uma consciência unificada que cobriria a Terra como "uma pele mental", ou uma "noosfera", para usar o neologismo favorito de Teilhard. E qual tecnologia, exatamente, provocaria esta convergência, esta "noosfera"? Quanto a isso Teilhard foi, em seus últimos anos, bastante específico: o rádio, a televisão, o telefone, e "aqueles espantosos computadores eletrônicos, pulsando com centenas de milhares de sinais por segundo". Pode-se pensar o que se quiser acerca da teologia de Teilhard, mas ninguém pode negar sua presciência espantosa. Quando ele morreu, em 1955, a televisão estava na infância e não havia como comprar um computador pré-fabricado. Os computadores eram máquinas imensas, infernalmente caras e feitas por encomenda; eram do tamanho de uma sala de estar suburbana e eriçados de válvulas eletrônicas que emitiam um calor insuportável. Como o microchip e o microprocessador ainda não haviam sido inventados, ninguém sonhava sequer com a instalação de um computador pessoal em cada lar, muito menos com a junção do computador pessoal ao telefone para criar uma forma de comunicação inteiramente nova. Há

meio século, só Teilhard já previa o que hoje conhecemos como a Internet. Na década de 1920, porém, os superiores de Teilhard na Sociedade de Jesus e na hierarquia da igreja não viam nada disso com bons olhos. O fato nu e cru era que Teilhard aceitava a teoria da evolução darwiniana. Ele argumentava que a evolução biológica fora apenas o primeiro passo de Deus num projeto infinitamente mais grandiose Apesar disso, aceitava a teoria. O primeiro chamado que sentira ao sacerdócio fora durante o papado intelectualmente liberal de Leão XIII. Mas por volta de 1920 o pêndulo já oscilara para o outro lado dentro da Igreja, e o evolucionismo tornara-se inaceitável sob qualquer aspecto. Foi a essa altura que começou o dilema central, a grande tristeza — a tragédia, fico tentado a dizer — da vida deste homem notável. Os padres não tinham permissão para publicar nenhuma obra impressa sem a aprovação de seus superiores. O dilema de Teilhard era justamente o fato de que a ciência e a religião não eram unificadas. Como cientista, ele não podia deixar de levar em conta a verdade científica; e em sua opinião, como homem que devotara décadas à palenteologia, a teoria da evolução era indiscutívelmente correta. Ao mesmo tempo, ele não conseguia visualizar uma vida vivida fora da Igreja. Deus sabia que havia muitas mulheres visualizando essa vida para ele. O relacionamento mais longo, mais íntimo e mais terno de Teilhard foi com uma escultora americana chamada Lucile Swan. A adorável e mimosa sra. Swan tinha trinta e tantos anos quando chegou a Pequim, em 1929, na parte chinesa de uma viagem ao redor do mundo cujo objetivo era diluir a amargura resultante de sua recente separação do marido. Oficialmente, Teilhard estava na cidade para visitar os principais sítios arqueológicos chineses, e pouco antes disso ajudara a descobrir o segundo grande "elo perdido", o homem de Pequim. Na realidade a Igreja o exilara da Europa, com medo de que ele espalhasse o

evolucionismo entre os padres e outros intelectuais. Lucile Swan caiu de quatro por ele, que tinha a idade certa, quarenta e oito anos, era um cientista célebre, um herói de guerra, e o homem branco mais bonito de Pequim. O toque final de glamour era a corajosa, porém condenada, relação dele com a Igreja. Ela o convidava diariamente à sua casa para "tomar chá". Além de seus encantos, que eram muitos, ela parece ter lhe oferecido argumentos com a intenção de provocá-lo a sair da concha do celibato. Com efeito, a Igreja estava abandonando Teilhard porque ele fundara uma religião própria. Correto? Como essa religião era dele, Teilhard não poderia permitir que seus padres fizessem tudo que ele quisesse? Quando ela estava fora da cidade, ele escrevia-lhe cartas cheias de grande ternura e saudade. "Exatamente porque você é para mim um grande tesouro, querida Lucile", escreveu ele a certa altura, "peço-lhe que não deixe sua vida depender tanto de mim... Lembre-se, seja qual for a doçura que eu me force a não lhe dar, faço-o apenas para ser digno de você." As três décadas finais da vida de Teilhard desenrolaram-se com a mesma e invariável frustração. Ele terminou meia dúzia de livros, inclusive sua maior obra, The Phenomenon of Man (O fenômeno humano). A Igreja não permitiu que ele a publicasse, e manteve-o perpetuamente exilado da Europa e de sua amada Paris. Seus poucos prazeres e confortos vinham da generosidade de mulheres, que permaneceram atraidas por ele até na velhice. Em 1953, dois anos antes de morrer, ele sofreu um golpe especialmente cruel. Descobriu-se que o homem de Piltdown fora, na realidade, um embuste colossal perpetrado por Charles Dawson, que ocultara diversos ossos retocados de macacos e homens, feito ovos da Páscoa, para Teilhard e os outros acharem. Ele se encontrava agudamente deprimido quando morreu de uma hemorragia cerebral aos setenta e quatro anos de idade, ainda exilado. Seu abrigo final foi um quartinho escuro no hotel Fourteen no lado leste da rua Sessenta em Manhattan, com uma única janela dando vista para uma area de ventilação

imunda, limitada em parte pela parede exterior vazia da boate Copacabana. *** Nem uma palavra de sua grande obra-prima fora jamais publicada, e ainda assim Teilhard gozara de uma certa eminência obscura durante anos. Alguns de seus manuscritos haviam circulado entre seus colegas jesuitas, sub rosa, sotto voce, num samizdat jesuita. Ele era um tema frequente de conversas em St. Michael's, a faculdade católico-romana da Universidade de Toronto, no Canadá. Imediatamente após sua morte, sua secretária parisiense, Jeanne Mortier, a quern ele legara seus documentos, começou a publicar seus escritos, inclusive Ofenômeno humano, em ritmo constante. Ninguém prestou mais atenção a esse jorro de obras de Teilhard do que um professor de literatura de St. Michael's chamado Marshall McLuhan. McLuhan já era uma espécie de astro na Universidade de Toronto quando Teilhard morreu. Inventara um seminário extracurricular sobre cultura popular, e atraía multidões ao pontificar sobre tópicos como o uso do sexo na propaganda; fora esse discurso que levara ao seu primeiro livro, The Mechanical Bride (A noiva mecânica), em 1951. Era um homem alto, magro, e bonito à moda dos rapazes escoceses, que desempenhava com perfeição o papel do reitor espirituoso, soltando secas tiradas de três linhas — não de uma linha, mas de três — que as pessoas não conseguiam esquecer. Certa vez perguntei a ele de que forma Pierre Trudeau conseguia manter-se no poder como primeiro-ministro em meio a todo o tumulto da politica canadense. Sem qualquer sombra de sorriso, McLuhan respondeu: "É simples. Ele tem um noine francês, pensa feito um inglês e parece um índio. Todos nós nos sentimos muito culpados em relação aos índios aqui no Canadá." De outra vez eu estava em San Francisco, fazendo matérias tanto sobre McLuhan quanto

sobre os restaurantes topless, já que ambos eram fenômenos novos. Tive a brilhante idéia de levar o grande teórico das comunicações a um restaurante topless chamado Off Broadway. Nenhum de nós já vira aquele tipo de coisa. Havia dezenas de empresários de ternos surrados esgueirando-se pelas mesas no escuro, enquanto refletores seguiam as garçonetes. Todas tinham seios espantosamente aumentados com silicone; e usavam apenas saltos altos, um tapa-sexo e ruge nos mamilos. Francamente, eu fiquei chocado e sem fala. McLuhan não. — Muito interessante — disse ele. — O quê, Marshall? Ele meneou a cabeça em direção à garçonete. — Elas estão vestidas... de nós. — Como assim, Marshall? Ele falou bem devagar, para garantir que eu entendesse: — Estão... nos... provando. Mas as tiradas de três linhas e o seminário sobre cultura pop nada eram comparados ao que veio a seguir, no rastro da morte de Teilhard, ou seja: o macluhanismo. O macluhanismo era a síntese que Marshall fazia das idéias de dois homens. Um era um compatriota seu, o historiador econômico canadense Harold Innis, que escrevera dois livros argumentando que as novas tecnologias eram as forças primordiais e fundamentais que guiavam a história humana. O outro era Teilhard. McLuhan sempre citava de forma muito escrupulosa quem o influenciava; tanto assim que descreveu seu primeiro livro sobre a teoria da comunicação, A galáxia de Gutenberg, como "uma nota de rodapé à obra de Harold Innis". No caso de

Teilhard, porém, ele viu-se em apuros. Sua "aldeia global" nada mais 88 era do que a "noosfera" de Teilhard, mas a Igreja declarara que a obra de Teilhard era heterodoxa, e McLuhan não era meramente católico; ele se convertera ao catolicismo. Fora criado como batista, mas se convertera enquanto estudava em Cambridge, na Inglaterra, na década de 1930. Era a época florescente dos grandes intelectuais literários católicos, G. K. Chesterton e Hilaire Belloc. Como a maioria dos convertidos, McLuhan era altamente devoto. E por isso, em seus próprios escritos ele não mencionava Teilhard, nem a teoria da evolução em duas etapas que era o alicerce da visão de mundo de Teilhard. Uma única referenda, um mero obiter dictum, atribuía alguma significação religiosa à aldeia global. "O conceito cristão do corpo mistico — todos os homens como membros do corpo de Cristo — torna-se tecnologicamente um fato sob condições eletrônicas." Não tenho a menor dúvida de que seu fascínio pela televisão vinha da possibilidade que o veiculo tinha de tornar realidade o sonho de Teilhard: a unidade cristã de todas as almas na Terra. Ao mesmo tempo, McLuhan sabia bem que estava publicando suas obras principals, A galáxia de Gutenberg (1962) e Meios de comunicação como extensão do homem (1964), num momento em que até o menor laivo de religiosidade era tabu, se ele quisesse comandar o palco na comunidade intelectual. E isso, asseguro a todos, ele queria fazer. Seu pai era um obscuro corretor de imóveis e de seguros, mas sua mãe, Elsie, era uma atriz que excursionava pelo Canada fazendo leituras dramatizadas, e ele herdara o amor dela pela ribalta. Por isso apresentou sua teoria em termos estritamente leigos, argumentando que um veiculo novo e dominante como a televisão alterava a consciência humana ao mudar literalmente o que ele chamava de "equilibrio sensorial" do sistema nervoso central. Por razões que jamais ficaram claras para mim — embora eu o houvesse questionado sobre o assunto — McLuhan considerava a televisão um

veiculo não visual, mas "auditivo e tátil", que estava impelindo a nova geração televisiva de volta ao que ele descrevia como uma mentalidade "tribal". São assuntos que hoje pertencem ao reino da neurociência, que é o estudo do cérebro e do sistema nervoso central. A neurociência fez um progresso espetacular ao longo dos úlíimos vinte e cinco anos; hoje é o campo mais quente na ciência e, por que não dizer, em todo o mundo acadêmico. Mas os neurocientistas não estão sequer remotamente próximos de conseguir determinar algo como o efeito da televisão sobre um indivíduo, que dirá sobre uma geração inteira. Isso não deteve McLuhan, nem a propagação do Macluhanismo, por um segundo sequer. Ele conseguiu estabelecer o conceito de que veiculos novos como a televisão têm o poder de alterar a mente humana, e portanto a própria história. Morreu após uma série de derrames em 1980, aos sessenta e nove anos de idade, mais de uma década antes da criação da Internet. Meu Deus — ah, se ele estivesse vivo hoje! Que paraiso o momento atual seria para ele! Como ele teria adorado a Web! Em que Oz cintilante ele teria transformado a sua aldeia global! Mas em 1980 ele já dera origem a enxames de seguidores prontos para prosseguir do ponto onde ele parou. São eles, almas inteiramente leigas, que inventam esses conceitos fin-de-siècle de convergência para a Era Digital, sem sequer perceber que suas idéias se alicerçam na fé que Teilhard e McLuhan tinham no poder da tecnologia eletrônica de alterar a mente humana e unir todas as almas numa rede cristã indivisível, a Todos-em-Um. Hoje podemos pegar qualquer órgão da imprensa digital — revistas para viciados ponto.com que vêm proliferando a três por dois desde 1993 — fechar os olhos, folhear as páginas, cravar o dedão e bater num trecho de prosa evangélica que parece um aleluia! para as ideias de Teilhard, de McLuhan ou de ambos.

Fiz exatamente isso, e na revista Wired meu dedo pousou no nome de Danny Hillis, o homem a quern se atribui o pioneirismo na conceituação de computadores com processamento maciçamente paralelo, e que escreveu: "A telefonia, os computadores e os CD-ROMs são mecanismos 90 especializado. que construimos para nos unir. A evolução agora ocorn m microssegundos... Estamos decolando. Estamos num ponto análogo àquele em que os organismos unicelulares se transformaram em multicelulares. Somos amebas, e não conseguimos entender que diabo é essa coisa que estamos criando... Não somos o produto final da evolução. Algo vem aí depois de nós, e imagino que seja algo maravilhoso. Mas talvez jamais consigamos compreender isso, assim como uma lagarta não compreende sua metamorfose em borboleta." Teilhard parecia pensar que a segunda fase da evolução tecnológica do hotnem levaria um século ou mais. Nota-se, entretanto, que Hillis reduziu isso a microssegundos. Comparado a Hillis, Bill Gates, da Microsoft, parece claramente hesitante e cauteloso ao devanear em A estrada do futuro: "Estamos vendo algo de histórico acontecer, algo que afetará o mundo sismologicamente." Ele fica “empolgado ao espiar o futuro e entrever a primeira insinuação reveladora de possibilidades revolucionárias”. Sentese "incrívelmente sortudo" por desempenhar um papel "no começo de algo que marcará época...." A moderação de Gates fica mais patente quando apontamos o dedo para a edição de setembro de 1998 da revista Upside e vemos seu editor-chefe, Richard L. Brandt, revelar como a Microsoft de Gates é realmente revolucionária: "Espero ver a derrubada do governo americano ainda em vida. Mas isso não ocorrerá por obra de revolucionários ou de um conflito armado. Não será um golpe rápido e sangrento; será uma tomada de poder gradual... Pois gradualmente, a Microsoft vem tomando conta de tudo. Mas não estou sugerindo que a Microsoft seja o novo-rico arrogante que gradualmente tornará o

governo americano obsolete. O culpado é mais óbvio do que isso. É a Internet, diabos. A Internet é um fenômeno global numa escala que jamais testemunhamos antes." Em mãos menos capazes, tais especulações rapidamente degeneram, transformando-se naquilo que todos que acompanham a imprensa digital já se acostumaram a ler: a Digibesteira. Todos os nossos digifuturistas, até os melhores, sofrem do que o filósofo Joseph Levine batizou de "lacuna explanatória". Jamais vemos uma explicação quanto a por que ou como ocorrerão essas vastas mudanças, esses grandes saltos evolucionários e revolucionários à frente. McLuhan, ao menos, reconhecia o problema e deu-se ao trabalho de oferecer uma hipótese neurocientífica: sua teoria de como veiculos diversos alteram o sistema nervoso humano ao mudar o "equilibrio sensorial". Todos depois dele sucumbiram ao que é conhecido como "falácia da mente em rede", ou seja: a pressuposição puramente mágica de que à medida que a Web, ou Internet, alastra-se pelo globo, a mente humana expande-se junto. As crenças mágicas são saltos de lógica baseados na proximidade ou semelhança. Muitas tribos primitivas associam a ondulação das plantações ou do capinzal à chuva que a isso se segue. Durante as secas os homens da tribo juntam-se e criam ondas harmonicas com seus corpos, na crença de que é essa oscila-ção que traz a chuva. Alguns antropólogos já aventaram a hipótese de que essas danças tribais foram a origem da dança. O mesmo ocorre com a atual euforia da Web. Um computador é um computador, e o cérebro humano é um computador. Portanto, os computadores também são cérebros, e se tivermos um numero suficiente deles — milhões, bilhões — funcionando por todo o planeta, numa unica rede indivisível, teremos um supercérebro que convergirá num piano muito acima de preocupações antiquadas como o nacionalismo e a competição étnica e racial. Detesto ter que dar esta notícia à tribo do digireino mágico, mas a verdade nua e crua é que a Web, a

Internet, faz apenas uma coisa. Acelera a obtenção e a disseminação de informações, eliminando parcialmente tarefas como ir até a caixa postal, visitar uma livraria para adultos, telefonar para corretores de investimentos ou reunir amigos para jogar conversa fora. Isso a Internet faz, e só isso. Todo o resto é digibesteira. Posso acessar o passado por um instante? Desde 1830 as pessoas do hemisfério ocidental ouvem dizer que a tecnologia está tornando o mundo menor, e pressupomos que esse encolhimento só pode ser bom. Quando surgiu a locomotiva, por volta de 1830, as pessoas ficaram maravilhadas, e disseram que aquilo tornava o mundo menor ao unir populações distantes umas das outras. Quando foi inventado o telefone — e o cabo transoceânico, o telégrafo, o radio, o automóvel, o avião, a televisão e o fax —, as pessoas também ficaram maravilhadas e disseram a mesma coisa, várias vezes. Mas se estas invenções, ainda que certamente notáveis, melhoraram a mente humana ou reduziram o gosto da fera humana por juntar-se a seus irmãos de sangue contra outras feras humanas, isso escapou à minha percepção. Cento e setenta anos depois do surgimento da locomotiva, os Bálcãs ainda são um aglomerado de esporos virulentos mais sanguinolentos do que nunca. A exUnião Soviética estilhaçou-se em quinze nações divididas ao longo de linhas de sangue étnicas. O próprio Zeitgeist do século XXI pode ser resumido no brado "De volta ao sangue!" A fina crosta de nações que os ingleses estabeleceram na Asia e na Africa durante o zênite de seu poderio imperial desapareceu, e são as antigas tribos que governam. O que tornou as fronteiras nacionais obsoletas numa parte tão grande da Europa Oriental, da Asia e da Africa? Não a Internet, mas as tribos. O que os avanços surpreendentes na tecnologia das comunicações fizeram pela mente humana? Sei lá. Entre os dez por cento dos secundaristas americanos com melhor desempenho escolar, e que são os principais candidatos a receber educação de nível superior em qualquer periodo, as notas nos testes de

avaliação escolar são mais baixas hoje do que no começo da década de 1960. Se quiserem, vocês podem continuar acreditando que a presença de computadores e da Internet na sala de aula mudarão esse panorama, mas eu asseguro que isso é digibesteira pura. *** Como muitas teorias de convergência eram pressupostos mágicos sobre a mente humana na Era Digital — conceitos que não tinham a menor base neurocientífica —, eu me perguntei o que haveria de novo na neurociência que pudesse jogar alguma luz sobre o assunto. Isso me levou rapidamente ao vulto mais extraordinário da neurociência, Edward O. Wilson. A vida do próprio Wilson constitui um bom argumento em favor de sua tese, que é a de que entre os seres humanos, da mesma forma que entre os cavalos de corrida, características natas sempre se imporão à educação e ao meio ambiente. Em linhas amplas, sua biografia infantil parece o caso clássico desses garotos que hoje acabam nas manchetes dos tablóides: C.D.F. REJEITADO FUZILA ATLETAS. Ele nasceu no Alabama, fruto da união entre a filha de um fazendeiro e o filho de um maquinista, que depois se tornou contador e alcoólatra. Seus pais se separaram quando Wilson tinha sete anos, e ele foi mandado para a Academia Militar da Costa do Golfo do Mexico. Seguiu-se uma infância caótica. O pai trabalhava na administração de Eletrificação Rural e vivia sendo enviado a localidades diversas, desde o Sul longínquo até a capital Washington; em onze anos Wilson freqiientou catorze escolas públicas diferentes. Ele tornou-se tímido e introvertido, e só gostava da companhia de outros solitários, preferívelmente aqueles que compartilhavam seu entusiasmo por colecionar insetos. Passou anos como um baixote magrelo, e depois mais anos ainda como varapau magricela. Mas pouco importavam a forma ectomórfica que Wilson assumia e a escola que

ele frequentava, pois sua vida tinha um centro de gravidade: ele podia estar enfiado em qualquer canto desta terra de Deus, mas sempre era a pessoa mais inteligente da turma. Isso continuou a acontecer quando ele se formou na faculdade em biologia, fez mestrado na Universidade do Alabama, candidatouse a um doutorado e depois virou catedrático de Harvard, onde passou cinquenta anos. Durante todo esse tempo, ele sempre foi o melhor da turma. Numerosos sábios enfurecidos de Harvard, inclusive o ganhador 94 de um prêmio Nobel, viram suas reputações eclipsadas por Edward O. Wilson, este nativo do Alabama terrívelmente reservado e educado. Dentro da biologia, o campo de Wilson era a zoologia; dentro da zoologia, a entomologia, o estudo dos insetos; e dentro da entomologia, a mirmecologia, o estudo das formigas. Ele passou ano após ano estudando as formigas em tudo que é local, de Massachusetts às selvas do Suriname. Fez descobertas importantes sobre o sistema de comunicação das formigas, que se baseia no aroma de substâncias químicas grudentas conhecidas como feromônios. Sempre recebeu grandes aplausos no mundo da mirmecologia, aplausos consideráveis no mundo da entomologia, aplausos razoáveis no mundo da zoologia, e aplausos educados no mundo da biologia em geral. O consenso era de que o discreto Edward O. Wilson fazia exatamente o que o discreto Edward O. Wilson nascera para fazer, ou seja, estudar as formigas, e que Deus o abençoasse. Aparentemente, ninguém percebia que Wilson vivenciara aquele momento de revelação fulgurante com que sonha todo cientista: o fenômeno do "Aha!". Em 1971, Wilson começou a publicar sua hoje famosa trilogia de sociobiologia. O Volume I, As sociedades dos insetos, era um retrato grandioso da complexa estrutura social das colônias de insetos em geral, estrelado pelas formigas, é claro. O aplauso foi quase universal, até entre os professores de Harvard, que

mantiveram engatilhados seu rancor e sua inveja. Mas até então Wilson não mostrara todas as suas cartas. As sociedades dos insetos demonstravam detalhadamente como eram extraordinariamente diversos e refinadamente calibrados o tipo de trabalho e a hierarquia social dos insetos. Entre as formigas, uma única rainha paria milhões de filhotes de tamanhos variados, e cada formiga estava fadada a ter uma carreira específica. As forrageiras saiam para achar e trazer comida. As grandes formigassoldado saiam para pilhar e saquear, pois eram "os hunos e tártaros do mundo dos insetos"; dizimavam outras colônias de formigas, comiam as vítimas mortas, e até traziam larvas capturadas para alimentar a colônia. Outros tipos de formigas saíam como pastoras: subiam em troncos de árvores, capturavam joaninhas e lagartas, ordenhavam a gosma viscosa produzida por elas (mais comida), e à noite enfiavam-nas na colônia subterrânea, ou seja, nos estábulos. Como gado! Mas o que impelia os insetos a essas vocações diversas e altamente especializadas? Ninguém os treinava, e eles não aprendiam por observação. Nasciam, e iam trabalhar. A resposta, como todo entomologista sabia, estava na genética, nos códigos impressos (ou pré-programados, para usarmos outra metáfora) quando do nascimento. Mas o que tudo isso tinha a ver com seres humanos, que nas sociedades avançadas normalmente passavam doze ou treze anos, e frequentemente muito mais, indo à escola, fazendo testes de aptidão e conversando com conselheiros vocacionais antes de escolher uma carreira? Wilson sabia que a resposta seria encontrada nas selvas de uma ilha no Caribe. Quinze anos antes, em 1956, ele fora a Cayo Santiago, que entre os zoólogos é conhecida como a "ilha dos macacos", perto do litoral de Porto Rico. Fora para lá como um professor de biologia de Harvard recém-formado,

acompanhando seu primeiro aluno de pósgraduação, Stuart Altmann, o qual estava estudando o macaco reso em seu próprio habitat. Isto acontecera quatro anos antes de Jane Goodall começar a estudar chimpanzés na selva da Africa Oriental. Como afirmou mais tarde em sua autobiografia, Wilson ficou embasbacado com "as sofisticadas e frequentemente brutais ordens de domínio social, alianças, laços de parentesco, disputas territoriais, ameaças, exibicionismo e intrigas enervantes" do mundo dos macacos. À noite professor e aluno, ambos com menos de trinta anos, falavam da possibilidade de encontrar caracteristicas comuns entre os animais sociais, até mesmo entre aqueles exteriormente tão diferentes quanto a formiga e o macaco reso. Concluiram que teriam que ignorar as comparações superficiais fáceis e descobrir princípios profundos, princípios estatisticamente demonstráveis. Altmann já tinha um nome para essa disciplina: "sociobiologia", que abrangeria todos os animais que viviam dentro de ordens sociais, dos insetos aos primatas. Wilson ficou pensando sobre isso, e... A-ha! ... os seres humanos também eram primatas. Wilson levou dezenove anos estudando disciplinas esotéricas e altamente estatísticas como a biologia de populações e a alometria ("crescimento relativo de uma parte em relação ao organismo inteiro") para transformar aquilo tudo numa sintese convincente, baseada em observações detalhadas na selva e no laboratório, e colocada em termos de medições precisas. As sociedades dos insetos fora apenas o alicerce disso. Em 1975, ele publicou a tese central propriamente dita: Sociobiologia: A nova síntese. No mundo da biologia, todos notaram que não se tratava de uma nova síntese, e sim de A nova síntese. Com A maiúsculo. No capitulo final do livro, o hoje famoso capítulo 27, ele anunciava que o homem e todas as obras do

homem eram produtos de padrões profundos que percorriam toda a história da evolução, desde as formigas milimétricas à espécie do Homo sapiens. No Homo sapiens, a divisão de papéis e atribuições de trabalho entre homens e mulheres e a divisão da labuta entre governantes e governados — ou entre os grandes pioneiros e os eternos medíocres — não podiam ser explicadas por abordagens superficiais e externas como a história, a economia, a sociologia ou a antropologia. Somente a sociobiologia, firmemente ancorada na genética e na teoria darwiniana da evolução, podia realizar essa tarefa. Durante uma entrevista em meio ao furor que se seguiu, Wilson comprimiu sua teoria numa só frase. Todo cérebro humano, disse ele, nasce não como uma lousa em branco à espera de ser preenchida pela experiência, mas como "urn negativo exposto à espera de ser mergulhado no fluido de revelação". O negativo poderia ser bem ou mal revelado, mas só se conseguiria ver o que já estava no negativo ao nascimento. Numa das mais notáveis exibições de chauvinismo marxista ferido da história acadêmica americana (e houve muitas), dois afamados colegas de Wilson no Museu de Zoologia Comparada de Harvard, o paleontólogo Stephen Jay Gould e o geneticista Richard Lewontin, juntaram-se a um grupo de ativistas radicais chamado Ciência pelo Povo para formar o que só pode ser chamado de um "esquadrão anti-séptico". A meta, a julgar por suas declarações públicas, era demonizar Wilson como um eugenista reacionário, um nazista embrionário, e exterminar a sociobiologia como abordagem ao comportamento humano. Depois de três meses de organização, a turma abriu a campanha com uma carta, assinada por quinze professores e alunos da area de Boston, enviada ao principal órgão de etiqueta intelectual e patrulhamento de desvios dos Estados Unidos, a New York Review of Books. Teorias como as de Wilson, afirmavam eles, "tendem a fornecer uma justifícativa genética do status quo e

dos privilégios existentes para certos grupos, segundo a classe, a raça ou o sexo". No passado, repugnantes venenos intelectuais como o de Wilson "haviam fornecido uma importante base para a promulgação de leis esterilizadoras... e também para a politica de eugenia que haviam levado ao estabelecimento de câmaras de gás na Alemanha nazista". A campanha prosseguiu durante anos. Manifestantes faziam piquetes nas aulas de sociobiologia de Wilson em Harvard (enquanto a universidade e o corpo docente calavam-se e nada faziam). Membros do Comitê Internacional Contra o Racismo, um grupo conhecido por confrontos violentos, invadiram a reunião anual da Associação Americana pelo Progresso da Ciência em Washington e ocuparam a tribuna pouco antes de Wilson falar. Um dos patetas apossou-se do microfone e fez uma diatribe contra Wilson, enquanto os outros vaiavam e erguiam cartazes com suásticas. Nesse instante uma mulher posicionada atrás de Wilson despejou um jarro de água, com cubos de gelo e tudo, na cabeça dele; ai o esquadrão anti-séptico inteiro uniuse em coro: "Você é um babão! Você é um babão! Você é um babão!" A longa campanha de calúnias contra Edward O. Wilson foi um dos episódios mais nojentos da história acadêmica americana — e não podia ter saido mais pela culatra. Como disse Freud certa vez: "Quanto mais inimigos, maior a honra." Da noite para o dia, Ed Wilson tornou-se o biólogo mais famoso dos Estados Unidos. Logo passou a receber os galardões costumeiros da celebridade: aparições nos programas Today Show, Dick Cavett Show e Good Morning America, e as capas da Time e da New York Times Magazine... Enquanto isso, Gould e Lewontin ardiam e ardiam de ódio... contemplando seu provável lugar na história da ciência no século XX: uma ou duas notas de rodapé nas incontáveis biografias de Edward Osborne Wilson. Em 1977, Wilson ganhou a Medalha Nacional de Ciências. Em 1979, ganhou o prêmio Pulitzer de não-

ficção pelo terceiro volume de sua trilogia sociobiológica, Da natureza humana. Onze anos mais tarde ele e seu colega mirmecologista, Bert Hölldobler, publicaram uma obra altamente técnica e volumosa (quase quatro quilos), As formigas, que pretendia ser a última palavra sobre essas diligentes criaturas, as quais haviam desempenhado tamanho papel na carreira de Wilson. Com o livro, os autores ganharam o prêmio Pulitzer. Para Wilson, era a segunda vez. Esse sucesso estonteante reviveu o darwinismo com força total. A sociobiologia apresentara a evolução como a teoria básica, a convergência de todo o conhecimento. Sempre houve darwinistas entre nós, é claro, desde a época do grande homem propriamente dito. Mas no século XX a versão darwinista da vida humana — seleção natural, seleção sexual, sobrevivência dos mais aptos, e todo o resto — fora eclipsada pelas versões marxista e freudiana. Marx dizia que a classe social determinava o destino do ser humano; Freud dizia que isso era determinado pelo drama edipiano dentro da família. As duas coisas eram forças externas à criança recémnascida. Os darwinistas, com Wilson à proa, invertiam tudo isso e proclamavam que o destino da criança era determinado pelos genes com que ela nascia. Um campo chamado psicologia da evolução entrou em voga, atraindo muitos biólogos e fllósofos jovens que adoravam a sensação maliciosa e deliciosa de serem fundamentalistas darwinianos. A influência dos genes era absoluta. O livre-arbítrio entre seres humanos era uma ilusão, tanto quanto entre as formigas. A "alma" e a "mente" também eram ilusões, assim como a própria noção de "ego". As aspas começaram a se espalhar feito uma dermatite por todas as crenças sobre a natureza humana que se baseavam no senso comum. A nova geração de fundamentalistas hesitava em usar o termo de Wilson, "sociobiologia", porque temia ser atacada pelos esquadrões anti-sépticos — os Goulds, os

Lewontins e os patetas e as patetas do Comitê International contra o Racismo. Apesar disso, todos os brilhantes novos fundamentalistas descendiam de Ed Wilson. Logo esbarraram num problema que Wilson evitara habilmente, abordando-o apenas em seus aspectos mais amplos. A teoria de Darwin fornecia uma explicação maravilhosamente elegante para a evolução da fera humana, que a partir de uma única célula no caldo primordial se transformara no animal mais apto da Terra, mas oferecia parcas explicações para o que o homem criara depois que atingira o nível da roda, do sapato e da escova de dentes. Sabe-se lá como, a história da evolução humana a partir do macaco não formara o cenário para o que viera depois. Religiões, ideologias, disciplinas eruditas, experiências estéticas como a arte, a música, a literatura e o cinema, maravilhas tecnológicas como a ponte do Brooklyn e a quebra dos grilhões gravitacionais da Terra com espaçonaves, para não falar na capacidade de criar palavras e gramáticas e de registrar essas proezas extraordinárias — nada havia de remotamente parecido com isso a ser encontrado entre os gorilas, chimpanzés e quaisquer outros animais. Portanto, seria tudo apenas produto da evolução darwiniana? Os antropólogos sempre haviam atribuido isso à cultura. Mas tinha que ser produto da evolução darwiniana! A genética tinha que ser a resposta! Caso contrário, o fundamentalismo não significava grande coisa. Em 1976, um ano depois de Wilson iluminar o céu com Sociobiologia: A nova síntese, Richard Dawkins, zoólogo inglês e fundamentalista darwiniano, publicou um livro chamado O gene egoista, no qual anunciava a descoberta dos memes. Os memes eram vírus sob a forma de ideias, bordões, melodias, estilos, imagens, doutrinas, qualquer coisa que fosse atraente o suficiente para infectar o cérebro — e "infectar", como "vírus", tornou-se parte da terminologia séria e pseudocientífica do assunto. Depois disso, os memes começavam a agir como

genes, transmitindo o que até então pensava-se, ingenuamente, serem criações culturais. Em todo caso, os memes de Dawkins decididamente infestaram os fundamentalistas. Começou a surgir toda uma literatura sobre a Memelândia: A perigosa ideia de Darwin, de Daniel C. Dennett, Como o cérebro pensa, de William H. Calvin, How the mind works, de Steven Pinker, O animal moral, de Robert Wright, The Meme Machine, de Susan Blackmore (com prefácio de Richard Dawkins), e por ai afora. Dawkins tern muitos seguidores devotos justamente porque seus memes são vistos como o elo perdido no darwinismo como teoria, uma descoberta teórica tão importante quanto o crânio do Homem de Pequim. Um dos epígonos de Bill Gates na Microsoft, Charles Simonyi, ficou tão impressionado com o lugar histórico dos memes na fronteira científica que financiou na Universidade de Oxford a criação da Cátedra Charles Simonyi de Divulgação Científica, e lá instalou Richard Dawkins. Isto faz de Dawkins o equivalente pós-moderno do Arcebispo de Canterbury. Dawkins é hoje Arcebispo do Fundamentalismo Darwiniano e Hierofante dos Memes. No entanto, há um problema sério com os memes. Eles não existem. Os neurofisiologistas já usaram as técnicas de exame do cérebro mais poderosas e sofisticadas atualmente disponíveis, e ainda assim não viram traço deles. Mas os fundamentalistas darwinianos — como os fundamentalistas de qualquer area — estão preparados para uma objeção tão óbvia. Explicam que os memes funcionam de modo análogo ao dos genes, ou seja, por meio de seleção natural e sobrevivência dos memes mais aptos. Só que na ciência, infelizmente, "análogo ao" simplesmente não serve. A dança tribal também é análoga à ondulação ao vento de um campo de trigo antes da chuva. Aqui a lacuna explanatória se torna enorme. Embora alguns dos fundamentalistas tenham credenciais científicas, nenhum arrisca sequer adivinhar como, em termos fisiológicos e

neurais, a "infecção" dos memes supostamente ocorre. Embora não fosse um cientista, McLuhan ao menos oferecia uma hipótese neurocientífica para o mcluhanismo. Portanto, nossos fundamentalistas se vêem na posição incômoda daqueles ingleses do ano 1000, que literalmente acreditavam em fadas, gnomos e elfos. Para eles, Jack Geada não era uma mera personificação diminuta do tempo de inverno. Jack Geada fazia parte do povo miudo; era um elfo que enregelava nossos dedos, congelava a ponta do nosso nariz feito um pingente de gelo, e tornava o solo duro demais para ser arado. Não conseguíamos vê-lo, mas ele estava lá. O mesmo acontece com os memes, que são o povo miúdo que polvilha pó de pirlimpimpim nos genes, tornando-os capazes de transmitir as chamadas informações culturais a sucessivas gerações de uma maneira darwinianamente correta. Wilson, que tem bastante culpa no cartório, transmitiu mais do que pó de pirlimpimpim a seus descendentes, no entanto. Deu-lhes a necessidade de serem populares. Afinal, ele era um cientista sério que se tornara uma celebridade. Não só isso: também alcançara as listas de bestsellers. Como se diz nos círculos eruditos, grande parte de sua obra era realmente bastante acessível. Só que existe o acessível... e existe o bonitinho. Os fundamentalistas desenvolveram o hábito de vender suas ideias ao leitor ou, como é provável que eles mesmos digam, "vender a ideia", Quando estão cortejando o público que compra livros, usam aspas como piscadelas amistosas. Empregam à larga a segunda pessoa do singular para fazer você ("você") se sentir totalmente à vontade ("totalmente à vontade"); palavras em itálico para garantir que você saque tudo; e muitas contrações coloquiais para que você num se sinta intimidado por palavras grandes como "algoritmos", que provavelmente cê não vai tolerar, a não ser que esse seu sábio amigo, o autor, dê um jeito pra se aproximar de você por meio de uma

abordagem aqui-pra-nós. Acho quié simples! Certo livro fundamentalista começa com a declaração de que a "inteligência é o que você usa quando não sabe o que fazer (uma boa descrição da minha situação atual, em que tento escrever sobre a inteligência). Se você é capaz de encontrar as respostas certas às questões de múltipla escolha da vida, você é esperto. Mas ser inteligente é mais do que isso: é ter um lado criativo, com que você inventa coisas novas 'de improviso' ". {Como o cérebro pensa, de William H. Calvin, que também inventou um sinônimo maravilhosamente aloprado para pó de pirlimpimpim: "programação darwiniana".) *** Enquanto isso, o próprio Darwin II tem coisas boas a dizer sobre Dawkins e sua cria neuropop, e desejalhes boa sorte no estudo do povo miúdo, os memes, mas é esperto demais para comprar a idéia. Ele teoriza sobre algo chamado "culturgenes", que têm uma semelhança suspeita com os memes, mas depois passa a falar da possibilidade de uma "co-evolução genocultural". Estou convencido de que no fundo Edward O. Wilson tem tanta fé no fundamentalismo darwiniano quanto Dawkins. Tenho certeza de que ele acredita igualmente na idéia de que os seres humanos, apesar de suas obras extraordinárias, são compostos inteiramente de água e matéria, de fileiras de moléculas contendo DNA que estão ligadas a um computador quimico de tipo analógico chamado cérebro, mecanismo este que cria ilusões tais como "livre-arbítrio" e... "ego". Mas Darwin II é paciente, e é um cientista. Ele não vai se meter em histórias de fícção científica como a teoria dos memes. Para testar a teoria dos memes, seria necessário primeiro preencher dois vastos Saaras no campo da pesquisa cerebral: a memória e a consciência propriamente dita. A memória vem desafiando amplamente qualquer análise neural detalhada. E a consciência revelou-se totalmente misteriosa. Ninguém consegue sequer defíni-la. Os anestesistas que ministram drogas e gases para desligar a consciência de seus pacientes antes de

cirurgias não fazem idéia de como a coisa funciona. Até que a memória e a consciência sejam compreendidas, a teoria dos memes continuará sendo o que é hoje: uma proposta amadora. Mas Wilson está convencido de que com o tempo toda a composição física e química e toda a neurobiologia do cérebro e do sistema nervoso central serão conhecidas, assim como os cerca de cem mil genes estão atualmente sendo identificados e localizados, um a um, no Projeto Genoma Humano. Quando o processo terminar, acredita ele, todo o conhecimento dos seres vivos convergirá... sob o guarda-chuva da biologia. Toda atividade mental, do uso da alometria ao gozo da música, será compreendida em termos biológicos. Ele chegou a dizer o equivalente disso há um quarto de século, no parágrafo de abertura do incendiário capítulo 27 de Sociobiologia. As ciências humanas e sociais, disse ele, "seriam reduzidas a ramos especializados da biologia". Gêneros veneráveis como o histórico, o biográfico e o romanesco se tornariam "os protocolos de pesquisa", ou seja, os relatórios preliminares do estudo da evolução humana. A antropologia e a sociologia desapareceriam como disciplinas independentes, e seriam incluidas na "sociobiologia de uma única espécie de primata", o Homo sapiens. Havia tanta coisa no capítulo 27 para escandalizar a sabedoria convencional dos Goulds e Lewontins do mundo acadêmico que eles não prestaram muita atenção a esta convergência de todas as disciplinas humanas e atividades literárias. Mas em 1998, Wilson disse a mesma coisa com todas as letras, e com tanta clareza, que ninguém, dentro ou fora do mundo acadêmico, pôde deixar de entender. Ele publicou um livro inteiro sobre o assunto, Consiliência, que imediatamente tornou-se um best-seller apesar da natureza teórica do assunto. O termo "consiliência" era uma palavra obsoleta

relativa à junção, ou confluência, de diferentes ramos do conhecirnento. A polêmica criada por Consiliência ultrapassou de muito os campos da biologia e do evolucionismo. Consiliência tornou-se uma farpa no olho de todo romancista, todo historiador, todo biógrafo, todo cientista social — todo intelectual de qualquer estirpe, por falar nisso. Todos eles estavam prestes a ser reduzidos, quando não exterminados, numa vasta fusão intelectual. Teve início o contra-ataque. Jeremy Bernstein, escrevendo em Commentary, foi o primeiro a tirar sangue com uma resenha intitulada "A Teoria de Tudo de Edward 0. Wilson". A coisa começava assim: "Em geral as pessoas que beiram a meia-idade ficam ligeiramente alopradas". Ah, meu Deus, outra teoria de tudo do professor aloprado. Este tornou-se o refrão — "só mais uma teoria de tudo" — e Wilson viu-se julgado e enforcado por acusação de hubris. Quanto a mim, apesar da perspectiva de me tornar um mero burocrata de protocolos de pesquisa do evolucionismo, estou disposto a esperar pelas provas. Sou um cético, mas, assim como Wilson, estou disposto a esperar. Se ele estiver certo, não me interessa tanto o que acontecerá quando todo o conhecimento convergir, e sim o que as pessoas farão com isso, depois que todo nanômetro, toda ação e toda reação do cérebro humano houver sido calibrada e puder ser descoberta por fórmulas estatísticas previsíveis. Não posso deixar de pensar nos nossos filhos da aurora, os estudantes de arte que vimos pela última vez no Museu Suntory, em Osaka, no Japão. Eles não só poderão formatar ilustrações no computador digital, como poderão prever, com uma precisão de tirar o fôlego, o efeito que certos tipos de ilustrações terão em certos tipos de cérebros. É claro, porém, que o alvo dos ilustradores será acionar as mesmas fórmulas e diagnosticar os mesmos efeitos que qualquer ilustração, qualquer comercial, qualquer discurso, qualquer flerte, qualquer conta e qualquer cantada

amorosa já foi projetada para produzir. A vida se tornará uma rodada colossal e incessante de um jogo: palitinho, pôquer de mentirosos, par-ou-impar ou pedra-papel-tesoura. Algo me diz, embora eu possa ser um mero burocrata de protocolos de pesquisa, que eu vou adorar essa época; vou me deliciar com ela, embalando-a junto ao peito. Pois já tenho um titulo de trabalho para isso, A comédia humana, e prometo que voces vão rir até a cabeça de vocês cair... a cabeça e esse maldito computador químico do tipo analógico, tão insondável, que vocês tem dentro dela.

Lamento, mas sua alma acaba de morrer

P

or estar um pouco desatualizado, eu acabara de ouvir falar pela primeira vez na revolução digital quando Louis Rossetto, um dos fundadores da revista Wired, fez um discurso no Instituto Cato anunciando a aurora da civilização digital do século XXI. Ele ostentava uma camisa sem colarinho, uma cabeleira igual à de Felix Mendelssohn, e dava toda a impressão de ser um jovem visionário da Califórnia. Para seu texto, escolheu a previsão que Teilhard de Chardin fez há cinquenta anos: a de que o radio, a televisão e os computadores criariam uma "noosfera", uma membrana eletrônica abarcando a Terra e ligando toda a humanidade num só sistema nervoso. Todas as localizações geográficas, fronteiras nacionais, antigos conceitos de mercados e processos políticos se tornariam irrelevantes. Com a Internet espalhando-se pelo globo num ritmo alucinante, disse Rossetto, esse maravilhoso momento movido a cliques de computador já está quase à mão. Pode ser. Mas algo me diz que daqui a dez anos, em 2010, todo o universo digital parecerá um troço bastante prosaico diante da nova tecnologia que atualmente começa a brilhar num pequeno número de hospitais e laboratórios americanos e cubanos (sim, cubanos). Trata-se das técnicas para a obtenção de imagens cerebrais, e quern quiser acordar cedo e ver a realmente deslumbrante aurora do século XXI deve ficar de olho nisso. Técnicas para a obtenção de imagens cerebrais é a expressão que abrange as técnicas utilizadas para ver o cérebro humano funcionando em tempo real. Atualmente, as formas mais avançadas são: a eletroencefalografía tridimensional, que usa modelos matemáticos; a tomografia por emissão de positrons,

mais familiar; uma nova técnica de obtenção de imagens por ressonância magnética funcional, que mostra os padrões de fluxo sanguineo cerebral; a espectroscopia por ressonância magnética, que mede alterações bioquímicas no cérebro; e a mais nova de todas, a sonda de acompanhamento genético por tomografia de emissão de positrons, que na realidade é tão nova que seu nome precisa de mais de uma linha para ser escrito. Usada até agora apenas em animais e crianças em estado desesperador, a sonda de acompanhamento genético por tomografia de emissão de positrons destaca e segue a atividade de genes específicos. Na tela de um monitor, você vê realmente os genes se iluminarem dentro do cérebro. Pelos padrões do ano 2000, esses artefatos são sofisticados. Daqui a dez anos, porém, talvez pareçam até primitivos se comparados às estonteantes janelas para o cérebro que terão surgido. As técnicas de obtenção de imagens cerebrais foram inventadas para facilitar o diagnóstico medico. Mas podem ter uma importância muito maior, pois talvez confirmem de forma incontestável as atuais teorias neurocientificas sobre "a mente", "o ego'", "a alma" e "o livre-arbítrio". É claro que todas essas aspas céticas já bastam para criar imediatamente uma mentalidade de quem viver verá, mas o Ceticismo Total faz parte do brilho da aurora que prometi. A neurociência, ou ciência do cérebro e do sistema nervoso central, está no limiar de uma teoria unificada que terá um impacto tão forte quanto o darwinismo teve há cem anos. Já há um novo Darwin, ou talvez eu devesse dizer um Darwin atualizado, já que ninguém acredita mais religiosamente em Darwin Primeiro do que ele: Edward O. Wilson. Como já vimos, Wilson criou e batizou o novo campo da sociobiologia, e resumiu sua premissa básica numa

só frase. Todo cérebro humano, diz ele, nasce não como uma tábua em branco (uma tabula rasa) à espera de ser preenchida pela experiência, e sim como "um negativo exposto à espera de ser mergulhado no fluido de revelação". O negativo pode ser bem ou mal revelado, mas de qualquer maneira pouco se obterá que já não esteja impresso no filme. O que está impresso ali é o histórico genético do indivíduo ao longo de milhares de anos de evolução, e não há muito que se possa fazer a respeito. Além disso, diz Wilson, a genética determina não apenas coisas como temperamento, papéis preferidos, respostas emocionais e níveis de agressão, como também muitas de nossas mais respeitadas escolhas morais, as quais não são escolhas no sentido do livrearbítrio, e sim tendências impressas no hipotálamo e nas regiões límbicas do cérebro. Esse conceito foi ampliado em 1993 num livro bastante falado, The Moral Sense, de James Q. Wilson (que não é parente de Edward O.). *** Essa visão neurocientífica da vida tornou-se um terreno estratégico no mundo acadêmico, e a batalha aí travada já ultrapassou as disciplinas científlcas, chegando até ao público em geral. Tanto liberais quanto conservadores pouco afeitos à ciência estão tentando tomar o terreno. O movimento pelos direitos dos gays, por exemplo, agarrou-se a um estudo publicado em julho de 1993 pelo altamente respeitado Dean Hamer, do Instituto Nacional de Saude, anunciando a descoberta do "gene gay". Obviamente, se a homossexualidade é uma característica geneticamente determinada, como o canhotismo ou olhos castanhos, então leis e sanções contra ela são tentativas de legislar contra a natureza. Por outro lado, os conservadores agarraram-se a estudos que indicam que os cérebros de homens e mulheres são pré-programados de modos tão diferentes, graças à longa contribuição da evolução, que as tentativas feministas de abrir os papéis tradicionalmente masculinos às mulheres são a mesma coisa: uma malfadada violação da Natureza.

Quanto a este aspecto, o próprio Wilson já tomou uma ducha de água fria, ou um jarro de água gélida, melhor dizendo. Na sua vida pessoal, Wilson é um liberal convencional — ou politicamente correto, como reza a expressão, pois, afinal, ele é membro do corpo docente de Harvard — preocupado com questões ambientais e outras que tais, mas já declarou que "forçar homens e mulheres a assumir papéis similares vai contra a demonstração de uma forte tendência à divisão sexual do trabalho dada por todos os mamíferos há milhares de anos. Como essa divisão do trabalho persistiu desde as sociedades de caçadores-coletores até as sociedades agrícolas e industrials, aparenta ter origem genética. Não sabemos quando esta característica surgiu na evolução humana, nem quão resistente é às contínuas e justificadas pressões por direitos humanos". "Resistente" era Darwin II, o neurocientista, falando. "Justificadas" era o liberal politicamente correto de Harvard. Pois ele não foi nem politicamente correto nem liberal o suficiente. Como já vimos, manifestantes invadiram a reunião anual da Academia Americana pelo Progresso da Ciência, onde Wilson fazia uma aparição, despejaram um jarro de água na cabeça dele, com cubos de gelo e tudo, e começaram a cantar em coro: "Você é um babão! Você é um babão!" A feminista mais proeminente do país, Gloria Steinem, foi à televisão exigir, numa entrevista com John Stossel da ABC, que os estudos sobre diferenças genéticas entre os sistemas nervosos masculino e feminino fossem interrompidos. Mas isso revelou-se até pouco no atual pânico político, em torno da neurociência, Em fevereiro de 1992, Frederick K. Goodwin — um renomado psiquiatra que chefia a Administração Federal de Saude Mental e Abuso de Álcool e Drogas, e que é um caipira diplomado no campo das relações públicas — cometeu o erro de descrever, numa reunião pública em Washington, a Iniciativa Contra a

Violência do Instituto Nacional de Saude Mental, iniciativa essa que já existia havia dez anos. Tratavase de um programa experimental que pressupunha que — tal como entre os macacos na selva, pois Goodwin era famoso por seus estudos sobre os macacos — grande parte do caos criminal nos Estados Unidos era causado por relativamente poucos rapazes que tinham predisposição genética para isso; em resumo, que eram pré-programados para cometer crimes violentos. Lá na selva, entre os chimpanzés — os parentes mais próximos da humanidade — era aparentemente um punhado de jovens machos com desvios genéticos que cometiam praticamente todos os assassinatos gratuitos de outros machos, e que abusavam fisicamente das fêmeas. E se o mesmo fosse verdade entre os seres humanos? E se, numa dada comunidade, descobrissemos que era apenas um punhado de rapazes com DNA tóxico que estava engordando tanto as estatísticas de crimes violentos? A Iniciativa Contra a Violência almejava identificar — de alguma forma, de algum jeito, algum dia — tais indivíduos ainda na infância e tratá-los terapeuticamente com drogas. A idéia de que os Estados Unidos urbano e cheio de crimes era uma "selva", disse Goodwin, talvez fosse mais do que uma metáfora velha e desgastada. Foi o que bastou. Talvez essa tenha sido a palavra isolada mais estúpida pronunciada por um funcionário do governo americano no ano de 1992. O clamor foi imediato. O senador por Massachusetts Edward Kennedy e o deputado por Michigan John Dingell (o qual, como ficou óbvio mais tarde, sofria de hidrofobia em relação a projetos científicos) não só tacharam os comentários de Goodwin de racistas, como também deram seu próprio veredicto científico: a pesquisa entre primatas "é uma base ridícula" para a análise de algo tão complexo como "o crime e a violência que assolam nosso país hoje em dia". (Isto foi uma noticia surpreendente para os cientistas da NASA, que primeiro haviam treinado e enviado um chimpanzé chamado Ham num vôo

espacial suborbital a bordo de um foguete Redstone, e depois treinado e colocado um outro chamado Enos — que em grego significa "homem" — em órbita terrestre a bordo de um foguete Atlas, prevendo, assim, completa e precisamente as reações físicas, psicológicas e motoras dos astronautas humanos Alan Shepard e John Glenn, que repetiram os vôos e as tarefas dos chimpanzés meses mais tarde.) A Iniciativa Contra a Violência foi comparada às propostas nazistas de eugenia para o extermínio dos indesejáveis. Um colega de Dingell por Michigan, o deputado John Conyers, à época presidente da Comissão de Operações Governamentais e membro renomado da bancada negra do Congresso, exigiu a demissão de Goodwin e conseguiu-a dois dias depois, quando o governo, por meio do Departamento de Saude e Serviços Humanos, passou a negar que a Iniciativa Contra a Violência houvesse sequer existido. A coisa desapareceu pelo ralo da memória, para usar a expressão de Orwell. O simpósio de criminologistas e outros acadêmicos interessados nos estudos feitos até então para a Iniciativa Contra a Violência — uma reunião financiada parcialmente por uma verba do Instituto Nacional de Saude — fora marcado para maio de 1993 na Universidade de Maryland. O simpósio foi cancelado também; o Instituto afogou-o como um gatinho. Um estudioso de direito da Universidade de Maryland, David Wasserman, tentou reunir as tropas na moita — digamos assim — num salão totalmente oculto dos olhos humanos, localizado numa aldeia chamada Queenstown nos enevoados e pantanosos cafundós de Queen Annes, município situado no litoral leste de Maryland. (Antes que os federais entregassem Elian Gonzalez a Fidel Castro, o governo Clinton escondeu o menino nesse mesmo municipio enquanto esperava que o eleitorado cubanoamericano se acalmasse.) O Instituto, provando que não aprendera a lição, forneceu discretamente 133 mil dólares para o evento, mas só fez isso depois que Wasserman prometeu equilibrar os trabalhos,

convidando intelectuais que rejeitavam a ideia de uma possível gênese genética do crime e marcando uma sessão "ducha de água fria", que mostrasse os males do movimento pela eugenia no começo do século XX. Não adiantou, rapaziada! Um exército de manifestantes descobriu onde estavam os pobresdiabos apavorados e invadiu o auditório entoando: "Simpósio de Maryland, não dá para esconder — é genocídio o que vocês querem fazer!" Os manifestantes só se cansaram e foram embora duas horas depois, e o simpósio terminou numa confusão completa, com a facção politicamente correta — recrutada especialmente para garantir o equilíbrio dos trabalhos — emitindo uma declaração que dizia: "Os cientistas, assim como os historiadores e sociólogos, não podem outorgar respeitabilidade acadêmica à pseudociência racista." Hoje em dia a expressão Iniciativa Contra a Violência é sinônimo de tabu no Instituto. O momento atual assemelha-se ao momento da Idade Media em que a Igreja Católica proibiu a dissecação de corpos humanos, com medo de que algo descoberto lá dentro lançasse dúvidas sobre a doutrina cristã, a qual dizia que Deus criara o homem à sua própria imagem. Ainda mais explosiva é a questao da inteligência, tal como medida pelos testes de QI. Em particular — pois poucos ousam falar claro — a vasta maioria dos neurocientistas acredita que o componente genético da inteligência de um indivíduo é notavelmente alto. Nossa inteligência pode ser melhorada por mentores habilidosos e devotados, ou pode ser prejudicada por uma educação ruim — ou seja, o negativo pode ser bem ou mal revelado —, mas são nossos genes que realmente fazem a diferença. A polêmica recente sobre A curva do sino de Charles Murray e Richard Herrnstein é provavelmente apenas o começo do azedume que o assunto criará. Há pouco tempo, segundo dois neurocientistas que entrevistei, uma empresa chamada Neurometrics procurou investidores e tentou colocar no mercado

uma invenção espantosa, porém simples, conhecida como o Capacete de QI (IQ Cap). A idéia era oferecer uma maneira de testar a inteligência que fosse livre de qualquer "bias cultural", isto é, que não forçasse ninguém a lidar com palavras ou conceitos que pudessem ser familiares a pessoas de uma determinada cultura, mas não a pessoas de outra. O Capacete de QI registrava apenas ondas cerebrais; e um computador, não um aplicador de testes humanos e potencialmente tendencioso, analisava os resultados. O aparelho baseava-se no trabalho de neurocientistas como E. Roy John,1 que atualmente é um dos maiores pioneiros na técnica de obtenção de imagens do cérebro por meio da eletroencefalografia; Duilio Giannitrapani, autor de A eletrofisiologia das funções intelectuais; e David Robinson, autor de A escala wechsler de inteligência adulta e a avaliação da personalidade: por uma teoria da inteligência e da cognição com base na biologia, e muitas outras monografias famosas entre os neurocientistas. Falei com um pesquisador que projetara ele mesmo um capacete de QI, reproduzindo uma experiência descrita por Giannitrapani em A eletrofisiologia das funções intelectuais. Não era um processo complicado. Você ligava dezesseis eletrodos ao couro cabeludo da pessoa que queria testar. Tinha que despentear o cabelo dela um pouco, mas não precisava cortá-lo, e muito menos raspá-lo. Em seguida fazia a pessoa olhar fixamente para um marcador numa parede em branco. Esse pesquisador específico usava uma tachinha vermelho-cereja. Depois acionava uma chave. Em dezesseis segundos o computador do capacete fornecia uma previsão precisa (dentro de metade de um desvio-padrão) das notas que o paciente receberia em todos os onze subtestes da Escala Wechsler de Inteligência Adulta ou, no caso de crianças, da Escala Wechsler de Inteligência Infantil — tudo a partir de dezesseis segundos de ondas cerebrais. O teste não tinha nada de culturalmente tendencioso. Que aspecto cultural poderia haver no ato de olhar fixamente para uma tachinha numa

parede? A economia de tempo e dinheiro era impressionante. O teste de QI convencional levava duas horas para ser completado; e o custo final, em termos de pagamento aos aplicadores, conferentes e preparadores do teste, além do aluguel, era de no mínimo cem dólares a hora. O Capacete de QI exigia cerca de quinze minutos e dezesseis segundos, pois eram necessários cerca de quinze minutos para colocar os eletrodos no couro cabeludo, e cerca de urn décimo de centavo em custos elétricos. Os investidores da Neurometrics já estavam esfregando as mãos e lambendo os beiços. Iam arrebentar a boca do balão. ¹ O termo "neurométrico" é fortemente identificado com John, que elaborou tanto a Bateria Neurométrica, um sistema abrangente para análise das funções cerebrais, quanto o Analisador Neurométrico, um instrumento patenteado para fazer uso da Bateria; mas John nada tern a ver com a Neurometrics, Inc. Ele descreve a Bateria em Avaliação neurométrica dafunção cerebral em crianças normais e com deficiência de aprendizado (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1989).

Na realidade — ninguém quis o maldito Capacete de QI deles! Não foi simplesmente porque ninguém acreditou que se pudessem obter resultados de QI a partir de ondas cerebrais — foi que ninguém quis acreditar que isso pudesse ser feito. Ninguém quis acreditar que a capacidade cerebral humana fosse... tão préprogramada assim. Ninguém queria descobrir de repente que... existe uma determinação genética. Ninguém queria saber que era uma... mediocridade genética pré-programada... e que o melhor que poderia almejar neste Vale de Erros Mortais era viver uma vida mediocre como um bobalhão livre de estresse. Barry Sterman, da UCLA, é o cientista-chefe de uma empresa chamada Cognitive Neurometrics, e

projetou uma tecnologia própria, baseada em ondas cerebrais, para pesquisas de mercado e grupos de foco. Ele considera possível fazer testes de QI a partir das ondas cerebrais — mas no clima atual "você não teria a menor chance de obter financiamento para isso". Aqui começamos a sentir a friagem que emana do campo mais quente no mundo acadêmico. A premissa — muda e largamente inconsciente — da batalha por posições estratégicas na neurociência é a seguinte: vivemos numa época em que a ciência é um tribunal que não aceita apelações. E a questão agora, no início do século XXI, não é a evolução da espécie, que pode parecer um negócio remoto, mas a natureza de nossos próprios e preciosos eus interiores. Os pioneiros neste campo, como Wilson, tern total consciência de tudo isso e são cautelosos, ou ao menos cautelosos quando comparados à nova geração. Wilson ainda acena com a possibilidade — acho que duvida disso, mas ainda acena com a possibilidade — de que em algum momento da história da evolução a cultura tenha começado a influenciar o desenvolvimento do cérebro humano de formas que não podem ser explicadas estritamente pela teoria darwinianista. Mas a nova geração de neurocientistas não tern a menor cautela. Nas conversas particulares — ou reuniões para discussão de assuntos triviais — que criam o clima mental de qualquer ciência nova — e eu adoro conversar com essa gente — todos expressam um determinismo radical. Começam com a segunda mais famosa declaração de toda a filosofia moderna, a "Cogito ergo sum", "Penso, logo existo", de Descartes, que consideram a essência do "dualismo", ou o conceito antiquado de que a mente é algo distinto de seus mecanismos, que são o cérebro e o corpo. (Chegarei à declaração mais famosa de todas num instante.) Isto também é conhecido como a falácia do

"fantasma na máquina", ou a crença pitoresca de que há um "eu" fantasmagórico em algum lugar no interior do cérebro, interpretando e dirigindo suas operações. Os neurocientistas envolvidos com a eletroencefalografia tridimensional podem assegurar que não existe um só ponto do cérebro em que a consciência ou a autoconsciência (Cogito ergo sum) se localizem. Trata-se de mera ilusão causada por um punhado de sistemas neurológicos agindo em concerto. A nova geração leva isto além. Como a consciência e o pensamento são produtos inteiramente fisicos do seu cérebro e do seu sistema nervoso — e como seu cérebro já nasceu plenamente pré-programado —, por que você pensa que tem livre-arbítrio? De onde sairá esse livre-arbítrio? Que "fantasma", que "mente", que "eu", que "alma" — que coisa que não seja imediatamente agarrada por essas aspas desdenhosas — subirá borbulhando pelo seu tronco cerebral a fim de dar esse livre-arbítrio a você? Já ouvi neurocientistas argumentarem que, com computadores suficientemente sofisticados e poderosos, seria possível prever o curso da vida de qualquer ser humano momento a momento, inclusive aquele em que o pobre-diabo estivesse prestes a balançar a cabeça diante dessa mesma ideia. Duvido que qualquer calvinista do século XVI acreditasse tão completamente na predestinação quanto esse pessoal, composto pelos jovens cientistas mais quentes e intensamente racionais dos Estados Unidos no século XXI. Os universitários vêm adentrando o campo da neurociência aos borbotões desde o fim da década de 1970, na Era de Wilson. A Sociedade de Neurociência foi fundada em 1970 com 1.100 membros. Hoje, uma geração mais tarde, seus associados passam de 26 mil. A última convenção da sociedade, em Miami, atraiu mais de 20 mil almas, tornando-se uma das maiores convenções profissionais do país. No venerável campo da filosofia acadêmica, jovens professores vêm abandonando o navio em quantidade constrangedora e aderindo à neurociência. Estão partindo para os laboratórios.

Para que lutar contra o Deus de Kant, a Liberdade e a Imortalidade? A neurociência, provavelmente por meio das técnicas para a obtenção de imagens cerebrais, acabará revelando o real mecanismo físico que fabrica essas construções mentais, essas ilusões; é apenas uma questão de tempo. E isso nos leva à mais famosa declaração de toda a filosofia moderna, feita no ano de 1882 no livro Die Fròhliche Wissenschaft {A gaia ciência), de Nietzsche: "Deus está morto." Nietzsche disse que isto não era uma afirmação de ateismo, embora ele fosse de fato ateu, mas simplesmente a notícia de um acontecimento. Chamou a morte de Deus de "urn acontecimento tremendo", o maior acontecimento da história moderna. A notícia era que as pessoas instruidas já não acreditavam em Deus, como resultado da ascensão do racionalismo e do pensamento científico, inclusive o darwinismo, ao longo dos 250 anos anteriores. Mas antes que os ateus entre vocês ergam as bandeiras em triunfo, disse ele, pensem nas implicações disso. "A história que tenho para contar", escreveu Nietzsche, "é a história dos próximos dois séculos." Ele previu (em Ecce Homo) que o século XX seria um século de "guerras como jamais houve na Terra", guerras tão catastróficas que desafiariam a imaginação. E por quê? Porque os seres humanos já não teriam um deus a quem recorrer para serem absolvidos de suas culpas; mas continuariam perpassados de culpa, pois a culpa é um impulso instilado nas crianças desde a mais tenra infância, antes da idade da razão. Como resultado disso, as pessoas teriam desprezo não só pelos outros, como por si mesmas. A fé cega e reconfortante que outrora despejavam em sua crença em Deus, disse Nietzsche, seria agora despejada numa crença em irmandades nacionalistas bárbaras. "Se as doutrinas... da falta de qualquer distinção importante entre os homens e os animais, doutrinas que considero verdadeiras mas fatais" — diz ele aludindo ao darwinismo em Untimely Meditations — forem disseminadas entre o povo por mais uma geração... ninguém deve se surpreender

quando... irmandades com o objetivo de roubar e explorar os não-irmãos... aparecerem na arena do futuro." Essa visão que Nietzsche tinha da culpa, incidentalmente, é também a dos neurocientistas um século depois. Consideram eles que a culpa é uma das tendências já impressas no cérebro ao nascimento. Em algumas pessoas a obra genética não está completa, e elas se engajam em condutas criminosas sem um pingo de remorso — intrigando assim os criminologistas, que ai querem criar a Iniciativa Contra a Violência e realizar simpósios sobre o assunto. Nietzsche disse que a humanidade atravessaria o século XX mancando sob "a mera ninharia" da decadência dos antigos códigos morais baseados em Deus. Mais tarde, no entanto, já no século XXI, viria um periodo ainda mais pavoroso do que o das grandes guerras, uma época de "eclipse total de todos os valores" (em A vontade de potência). Seria também um periodo de reavaliação, no qual as pessoas tentariam encontrar novos sistemas de valores para substituir os esqueletos osteoporóticos do antigo. Mas vocês fracassarão, avisou ele, porque não podem acreditar em códigos morais sem simultaneamente acreditar num deus que lhes aponte o dedo temível e diga: "Tu deverás" ou "Tu não deverás". Por que deveríamos nos incomodar com uma previsão sinistra e que parece delirante como "o eclipse total de todos os valores"? Por causa da folha corrida da humanidade, acho eu. Afinal, durante a pacífica década de 1880 a 1890 na Europa, a previsão das guerras mundiais e das irmandades bárbaras do nazismo e do comunismo no século XX deve ter parecido uma coisa ainda mais delirante. Ecce vates! Ecce vates! Eis o profeta! Que outra prova podemos exigir dos poderes de previsão de um homem? Há cem anos, aqueles que se preocupavam com a morte de Deus podiam se consolar mutuamente com o fato de que ainda tinham seus próprios eus

brilhantes e suas próprias almas invioláveis como lastro moral, e as maravilhas da ciência moderna como o mapa do caminho. Mas o que acontecera se — como parece provável — a maior maravilha da ciência moderna acabar sendo a técnica para a obtenção de imagens cerebrais? E o que acontecera se daqui a dez anos essa técnica provar, sem sombra de dúvida, que não só Edward O. Wilson como também a nova geração estão, de fato, corretos? Os pioneiros, como o próprio Wilson, Daniel C. Dennett — o autor de A perigosa idéia de Darwin: a evolução e osentido da vida — e Richard Dawkins — autor de O gene egoista e The Blind Watchmaker (O relojoeiro cego) — insistem que nada temos a temer da verdade, da extensão última da ideia perigosa de Darwin. Apresentam argumentos elegantes no sentido de que a neurociência não deve, de forma alguma, diminuir a riqueza da vida, a mágica da arte, ou a virtude de causas políticas; e isso inclui, para fins de precisão, a correção política em Harvard e em Tufts, onde Dennett é Diretor do Centro de Estudos Cognitivos, ou em Oxford, onde Dawkins é algo chamado Catedrático de Divulgação Científica. (Dennett e Dawkins, assim como Wilson, são politicamente corretos de forma radical e até febril.) Apesar de todos os seus esforços, porém, a neurociência não está se espalhando pelo público em ondas de tranquilidade erudita. Mas está se espalhando rapidamente. A conclusão tirada pelo povo do lado de fora dos laboratórios é: Existe uma armação! Somos todos pré-programadosl Isso, e: A culpa não é minha! Minha pré-programação está erradal *** Essa súbita passagem de uma crença na Educação, sob a forma de condicionamento social, para uma crença na Natureza, sob a forma da genética e fisiologia cerebrais, é o maior acontecimento intelectual, para pegar emprestada a expressão de Nietzsche, do falecido século XX. Até agora as duas ideias mais influentes do século eram o marxismo e o

freudianismo. Ambas alicerçavam-se na premissa de que os seres humanos e seus "ideais" — Marx e Freud também dominavam o uso das aspas — são completamente moldados pelo meio ambiente. Para Marx, o ambiente crucial era a classe social da pessoa; os "ideais" e as "crenças" eram conceitos transmitidos pelos estratos superiores aos inferiores como instrumentos de controle social. Para Freud, o ambiente crucial era o drama edipiano, o inconsciente enredo sexual que era encenado na famíia no inicio da existência da criança. Esses "ideais" e "crenças" que você tanto valorizam são meramente os móveis do salão que você ostentam quando recebem seus convidados, disse Freud; eu mostrarei a você o porão, a fornalha, os canos, e o vapor sexual que na realidade governa a casa. Por volta de 1955 até os antimarxistas e antifreudianos já haviam aceitado a centralidade da dominação de classe e dos impulsos sexuais edipianamente condicionados. Em cima disto veio Pavlov, com seus "estíulo e resposta", e B. F. Skinner, com seu "condicionamento operante", transformando a supremacia do condicionamento em algo que se assemelhava a uma forma precisa de engenharia. Portanto, como este brilhante modismo intelectual chegou a um fím tão brusco e ignominioso? O fim do freudianismo pode ser resumido numa só palavra: líio. Em 1949 um psiquiatra australiano, John Cade, receitou cinco dias de terapia à base de líio — por razões inteiramente equivocadas — a um doente mental de cinquenta e um anos que era tão maníacodepressivo, hiperativo, ininteligível e incontrolável que fora mantido trancado em sanatórios por vinte anos. No sexto dia, graças ao aumento de lítio no seu sangue, ele já era um ser humano. Três meses depois recebeu alta e a partir dai viveu feliz para sempre em sua própria casa. Tratava-se de um homem que fora trancafiado e sujeitado a duas décadas de logorréia freudiana sem melhora alguma. Ao longo dos vinte anos seguintes, drogas tranquilizantes e antidepressivas substituiram completamente o

falatório freudiano como tratamento para distúrbios mentais severos. Por volta de 1985, os neurocientistas já consideravam a psiquiatria freudiana uma pitoresca relíquia baseada em grande parte em superstições (como a análise de sonhos — análise de sonhos), feito a frenologia ou o mesmerismo. Na realidade, entre os neurocientistas a frenologia goza hoje de reputação melhor do que a psiquiatria freudiana, pois a frenologia foi, de certa forma, uma precursora grosseira da eletroencefalografia. Os psiquiatras freudianos são atualmente vistos como charlatães com diplomas medicos de araque, ou como orelhas que as pessoas com mais dinheiro do que bom senso podem alugar para serem ouvidas. O marxismo foi exterminado de forma ainda mais repentina — num único ano, 1973 — com o contrabando para fora da União Soviética e a publicação na França do primeiro dos três volumes do Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenitzyn. Outros autores, notadamcnte o historiador inglês Robert Conquest, já haviam exposto a vasta rede de campos de concentração da União Soviética, mas seu trabalho baseava-se em grande parte no testemunho de refugiados, e os refugiados eram rotineiramente considerados observadores amargurados e tendenciosos. Soljenitzyn, por outro lado, era um cidadão soviético, que ainda vivia em solo soviético, e fora por onze anos um zek, que é a gíria russa para prisioneiro de campos de concentração. Sua credibilidade fora atestada por ninguém menos do que Nikita Khruchov, que em 1962 permitira a publicação da novela que Soljenitzyn escrevera sobre o gulag, Um dia na vida de Ivan Denisovich, como meio de reduzir a importância da sombra de seu antecessor, Stalin. "Sim", dissera com efeito Khruchov, "o que esse homem, Soljenitzyn, tem a dizer é verdade. Foram esses os crimes de Stalin." Essa breve descrição ficcional que Soljenitzyn fizera do sistema de trabalho escravo dos soviéticos já fora, por si só, bastante prejudicial. Mas o Arquipélago Gulag, um relato não-ficcional de duas mil páginas,

densamente detalhado, da sistemática política de extermínio perpetrada pelo Partido Comunista Soviético contra seus inimigos, reais e imaginários, e contra dezenas de milhões de seus próprios compatriotas, por meio de um enorme, metódico e burocraticamente controlado "sistema de esgoto humano", como dizia Soljenitzyn — o Arquipélago Gulag foi devastador. Afinal, estava-se num século em que já não era possível qualquer rodeio ideológico em torno do campo de concentração. Entre os intelectuais europeus, e até entre os intelectuais franceses, o marxismo desmoronou instantaneamente como força espiritual. Ironicamente, sobreviveu mais tempo nos Estados Unidos, antes de sofrer um coup de grace e final no dia 9 de novembro de 1989, com a queda do Muro de Berlim, que sinalizou de forma inequivoca a debacle que fora a experiência de setenta e dois anos dos soviéticos com o socialismo. (O marxismo ainda se segura, acrobaticamente, nas universidades americanas sob um formato maneirista conhecido como desconstrucionismo, que é uma doutrina literária que retrata a própria linguagem como um instrumento insidioso usado pelos poderes estabelecidos para enganar os camponeses e operários.) O freudianismo e o marxismo — e junto com eles toda a crença no condicionamento social — foram demolidos tão velozmente, tão repentinamente, que a neurociência surgiu como que num vácuo intelectual. E nem é preciso ser cientista para detectar tal impeto. Qualquer um que tenha um filho na escola conhece os sinais muito bem. Fico intrigado diante da fé professada pelos pais de hoje — essa loucura começou por volta de 1990 — em diagnósticos de psicólogos que indicam que seus filhos sofrem de um problema conhecido como distúrbio de déficit de atenção. E claro que não tenho como saber se este tal "distúrbio" é ou não um estado real, fisico e neurológico, mas no estágio atual da neurociência

ninguém tem. Os sintomas desta suposta moléstia são sempre os mesmos. A criança, ou melhor, o menino — quarenta e nove em cada cinqúenta casos são meninos — enerva-se na sala de aula, escorrega da cadeira, não presta atenção, perturba os colegas de turma, e tem um desempenho escolar fraco. Antigamente o menino seria pressionado a pres-tar atenção, esforçar-se mais e demonstrar autodisciplina. Mas para os pais formados no novo clima intelectual da década de 1990, esta abordagem parece cruel, porque o problema do menininho é que... sua pré-programação está erradal Coitadinho dele... armaram para cima dele desde o nascimento! Invariavelmente, os pais reclamam: "'Ele só quer ficar sentado diante da televisão, vendo desenhos e jogando Sega Genesis." Por quanto tempo? "Quanto tempo? Horas de cada vez." Horas de cada vez; como qualquer neurocientista, até entre os mais jovens, poderá atestar, o tal menino pode até ter algum problema, mas não déficit de atenção. Apesar disso, por todo o país temos o espetáculo de uma geração inteira de menininhos, dezenas de milhares deles, recebendo doses da cura mágica para o disturbio de déficit de atenção: Ritalin, a marca de fantasia que a CIBA-Geneva Corporation inventou para o metilfenidato, um estimulante. Deparei-me com o Ritalin pela primeira vez em 1966, quando fui a San Francisco fazer pesquisa para um livro sobre o movimento psicodélico, ou hippie. Uma certa espécie do gênero hippie era conhecida como Doidão de Bolinha, e uma certa cepa dos Doidões de Bolinha era conhecida como Cuca de Ritalin. Os Cucas de Ritalin adoravam Ritalin. Você os via presos no êxtase absoluto provocado pelo Ritalin... Nem um pio, nem um tremelique... Eles ficavam sentados, absortos em qualquer coisa... uma manilha de esgoto, as linhas em suas próprias palmas... indefinidamente... dispensando refeição após refeição... numa insônia permanente... Era o nirvana puro, à base de metilfenidato... De 1990 até 1995, a vendagem de Ritalin por parte da CIBA-Geneva aumentou 600 por cento;

isso não aconteceu por causa do apetite dos subconjuntos da espécie Doidão de Bolinha em San Francisco, e sim porque uma geração inteira de meninos americanos — tanto das melhores escolas particulares do Nordeste quanto das mais repugnantes escolas públicas de Los Angeles e San Diego — ficou viciada em metilfenidato, que diligentemente lhe era fornecido todos os dias por seus "aviões", as enfermeiras escolares. Os Estados Unidos são um país maravilhoso! Estou falando sério! Nenhum escritor honesto pode contestar essa afirmação! A comédia humana nunca fica sem material! Aqui você nunca se decepciona! Enquanto isso, o conceito de ser — um ser que exerça a autodisciplina, que adie a própria gratificação, que contenha seu apetite sexual, que evite a agressão e a conduta criminosa — um ser que possa se tornar mais inteligente e se erguer aos pincaros da vida pelos cordões das próprias botas, estudando, praticando, perseverando e recusandose a desistir ainda que diante de grandes adversidades — esse conceito antiquado (o que é um cordão de bota, pelo amor de Deus?) de sucesso por meio de iniciativa e pura gana já está esmaecendo, esmaecendo... esmaecendo... A fé, peculiarmente americana, no poder que o indivíduo tern de deixar de ser um zero à esquerda e virar um gigante entre os homens, fé essa que vem desde Emerson ("Self-reliance") até O maior vendedor do mundo de Og Mandino, passando pelas histórias de Luck and Pluck de Horatio Alger, Como conquistar amigos e influenciar pessoas de Dale Carnegie e O poder do pensamento positivo de Norman Vincent — essa fé está hoje moribunda como o deus para quern Nietzsche escreveu um obituário em 1882. Sobrevive atualmente apenas sob a forma decrépita da "palestra de motivação", como dizem os agentes de tais eventos, dada por astros futebolísticos aposentados como Fran Tarkenton a platéias de empresários, a maioria dos quais atletas frustrados (como o autor deste artigo), sobre a semelhança entre a vida e um jogo de futebol americano. "O final

da partida se aproxima, você está perdendo por treze pontos, os Cowboys encurralaram o seu time na linha de uraa jarda, é a terceira investida e você tem que percorrer vinte e três jardas; o que você faz?..." Desculpe, Fran, é a terceira investida e temos que percorrer vinte e três jardas, mas existe uma armação genética; essa nova mensagem vem sendo trombeteada na imprensa popular e na televisão num ritmo estonteante. Quern são seus arautos? São membros de uma nova raça, e intitulam-se "psicólogos da evolução". Podemos ter certeza de que vinte anos atrás essas mesmas pessoas estariam se dizendo freudianas; mas hoje são deterministas genéticos, e a imprensa demonstra apetite voraz por qualquer coisa que inventem. O mais popular estudo atual — pois ainda está sendo anunciado nos noticiários televisivos — é a pesquisa que David Lykken e Auke Tellegen realizaram na Universidade de Minnesota sobre dois mil gêmeos, e que segundo estes dois psicólogos da evolução mostra que a felicidade de urn indivíduo deve-se em grande parte à genética. Algumas pessoas são préprogramadas para serem felizes, e outras não. O sucesso (ou o fracasso) em assuntos de amor, dinheiro, reputação ou poder é um troço transitório; logo descemos (ou subimos) ao nível de felicidade com que nascemos geneticamente. A revista Fortune dedicou uma longa matéria, em forma de encarte e elaboradamente ilustrada, a um estudo feito pelos psicólogos da evolução da Universidade de Saint Andrews, na Grã-Bretanha; o estudo mostrava que julgamos a beleza facial das pessoas que conhecemos não pelos padrões sociais da época em que vivemos, e sim por critérios pré-programados no nosso cérebro desde o momento do nascimento. Ou, para colocar a coisa de outra forma: a beleza não está nos olhos, e sim nos genes, dos outros. Na realidade, hoje, no ano 2000, se a sua ânsia por jornais, revistas e programas de televisão for grande o suficiente, você logo ganhará a impressão de que nada existe na

sua vida, inclusive o percentual de gordura corporal, que não seja geneticamente predeterminado. Quero mencionar, se possível, apenas algumas das coisas que os psicólogos da evolução esclareceram para mim ultimamente: Um estudo amplamente alardeado descobriu que as mulheres são atraidas por homens ricos ou poderosos por serem geneticamente préprogramadas para sentir que os machos-alfa poderão cuidar melhor de sua prole. Portanto, caso um marido pegue a esposa com um sujeito melhor do que ele, ela poderá dizer com toda a sinceridade: "Estou pensando apenas na melhoria genética geral, benzinho." Pessoalmente, acho isso reconfortante. Antes eu era um cínico. Achava que essas mulheres lindas casavam-se com homens feios e ricos por serem calculistas, indulgentes e adeptas do golpe do bau. Outro estudo descobriu que o macho da espécie humana é geneticamente pré-programado para ser poligamo, ou seja, infiel à parceira legítima, a fim de poder lançar sua semente tão amplamente quanto for humanamente possível. Bom... os homens também sabem ler! "A culpa não é minha, benzinho. Foram quatrocentos mil anos de evolução que me levaram a fazer isso." Outro estudo mostrou que a maioria dos assassinatos é resultado de compulsões geneticamente pré-programadas. Bom... os presos também sabem ler, e na esperança de obter liberdade condicional, podem relatar ao psiquiatra da prisão: "Algo tomou conta de mim... e ai a faca entrou."2 ² Caso relatado pelo psiquiatra penitenciário inglês Theodore
Dalrymple na revista City Journal.

Outro estudo demonstrou que as adolescentes, por estarem no auge de sua fecundidade, são geneticamente pré-programadas para serem promíscuas, e tem tanto controle sobre si mesmas quanto visons ou coelhas. Pois alguns sistemas de escolas públicas não precisaram ouvir isso duas vezes. Já fornecem não apenas camisinhas, como escolas especiais de primeiro e segundo grau onde as

mães adolescentes podem deixar sua prole em creches enquanto aprendem a ler e somar. Onde isso deixa o "autocontrole"? Entre aspas, como tantos conceitos antiquados — depois que as pessoas pas-sam a acreditar que este fantasma na máquina, "o eu", não existe, e que as técnicas para a obtenção de imagens cerebrais já provaram isso de uma vez por todas. Até agora a teoria neurocientífica baseou-se em grande parte em indicios indiretos, a partir de estudos sobre animais ou sobre as mudanças que um cérebro normal sofre ao ser invadido (por acidentes, doenças, cirurgias radi-cais ou agulhas experimentais). O próprio Darwin II, Edward O. Wilson, tern um limitado conhecimento direto do cérebro humano. Ele é zoólogo, e não neurologista, e suas teorias são extrapolações feitas a partir do trabalho exaustivo que realizou em sua especialidade, o estudo de insetos. O cirurgião francês Paul Broca só descobriu a area de Broca, um dos dois centros da fala no hemisfério esquerdo do cérebro, depois que um de seus pacientes sofreu um derrame. Até a tomografia computadorizada e a sonda de acompanhamento genético por tomografia de emissão de positrons são, tecnicamente, invasões médicas, pois exigem a injeção de substâncias químicas ou virus no interior do corpo. Mas já deixam entrever o que serão, provavelmente, as técnicas não-invasivas de obtenção de imagens no future Os neurorradiologistas poderão ler uma lista de tópicos, em voz alta, a uma pessoa que esteja passando por uma tomografia computadorizada. Os tópicos serão relativos a esportes, músicas, negócios, história, seja lá o que for; quando ele finalmente tocar em algo que interesse àquela pessoa, uma area especifica do cortex cerebral dela se iluminará na tela. A medida que as técnicas para a obtenção de imagens cerebrais se refinarem, o quadro pode ficar tão claro e completo quanto aqueles desenhos transparentes que mostram os mecanismos ocultos do motor de combustão interna nos salões de automóvel. A essa

altura pode ficar óbvio para todos que estamos vendo apenas uma simples máquina — um computador quimico do tipo analógico — que processa informações a partir do meio ambiente. "Apenas", porque poderemos nos cansar de procurar e não encontrar lá dentro nada parecido com um eu, uma mente ou uma alma fantasmagóricos. Portanto, lá pelo ano 2010 ou 2030, um novo Nietzsche surgirá para anunciar: "O eu está morto." Sendo inclinado à poesia, porém — como Nietzsche I — ele provavelmente dirá: "A alma está morta." Dirá que está meramente dando a notícia, a notícia do maior acontecimento do milênio: "A alma, esse último refúgio dos valores, está morta, porque as pessoas instruídas já não acreditam que ela exista." A não ser que as garantias dadas pela turma de Wilson, Dennett e Dawkins também comecem a ser alardeadas, o manicômio em que o mundo se transformará a seguir talvez faça a expressão "eclipse total de todos os valores" parecer até suave. *** Se eu fosse um universitário hoje em dia, acho que não resistiria ao chamado da neurociência, pois neste campo temos as duas charadas mais fascinantes do século XXI: a charada da mente humana e a charada do que acontece à mente humana que chega a se conhecer completamente. Em todo caso, vivemos numa época em que é impossível — e não faz sentido — desviar nossos olhos da verdade. Nietzsche disse que este olhar franco em direção à verdade, este zelo pelo ceticismo, é ironicamente o legado da cristandade (por razões complicadas nas quais não vale a pena entrar aqui). Depois acrescentou a isso uma dose de ironia final — e talvez radical — num pequeno trecho escrito num caderno pouco antes de perder a razão (devido à grande praga venérea do fim do século XIX, a sifilis). Previu que a ciência moderna acabaria por voltar sua invencível bateria de ceticismo sobre si mesma, questionando a validade de suas próprias fundações,

desmoronando e se autodestruindo. Pensei nisso no verão de 1994, quando um grupo de matemáticos e especialistas em computadores realizaram um congresso no Instituto Santa Fé sobre "Limites ao Saber Científico". O consenso foi o de que a mente humana — por ser, afinal de contas, um aparato inteiramente físico, uma espécie de computador, o produto de um histórico genético específico — é finita em suas capacidades. Por ser finita é préprogramada, provavelmente jamais terá o poder de compreender a existência humana de forma completa. E como se um grupo de cães convocasse um conclave para tentar entender O Cão. Por mais que tentassem, não chegariam muito longe. Os cães só conseguem comunicar cerca de quarenta conceitos, todos primitivos, e não são capazes de registrar nada. O projeto estaria condenado de antemão. O cérebro humane é muito superior ao canino, mas mesmo assim é limitado. Portanto, também está condenada qualquer esperança de que os seres humanos cheguem a uma teoria da existência humana que seja final, completa e autocontida. Isto, o Ceticismo Absoluto da ciência, vem se espalhando desde essa época. Nos últimos dois anos até n darwinismo, um dogma sagrado entre os cientistas americanos há setenta anos, foi acossado pela... dúvida. Alguns cientistas — e não religiosos — como o matemático David Berlinski ("The Deniable Darwin", Commentary, junho de 1996) e o bioquímico Michael Behe (A caixa preta de Darwin, 1996) começaram a dizer que o darwinismo não era uma descoberta científica, e sim uma mera teoria, teoria essa pouquíssimo validada pelas evidências fósseis, e que no seu núcleo lógico demonstrava uma consistência de gosma. (Dennett e Dawkins, para quern Darwin é o Ungido, o Messias, já estão berrando em protesto. Estão fora de si, completamente apopléticos. Wilson, o gigante, mantendo a tranquilidade, permanece acima da batalha.) Noam Chomsky piorou tudo ao salientar que nada existe nos macacos mais adiantados que

seja remotamente comparável à fala humana, que por sua vez é a base da memória registrada, e portanto, de tudo, desde os arranha-céus até as expedições à Lua, passando pelo Islã e questiúnculas como a teoria da evolução. Ele diz que o problema não é haver um elo perdido, e sim que não há onde encadear esse elo. Por volta de 1990 o físico Petr Beckmann, da Universidade do Colorado, já começara a atacar Einstein. Ele tinha grande admiração por Einstein devido à famosa equação da matéria com a energia, E=mc2, mas dizia que sua teoria da relatividade era na maior parte absurda e grotescamente inverificável. Beckmann morreu em 1993. Seu cajado de Matador de Tolos foi assumido por Howard Hayden, da Universidade de Connecticut, o qual tern muitos admiradores na nova raça de jovens físicos Absolutamente Céticos. O desdém que a nova estirpe vota à mecânica quântica ("não tem aplicação prática no mundo real"... "depende inteiramente de equações amalucadas"), à Teoria do Campo Unificado ("isca para o prêmio Nobel"), e à Teoria do Big Bang ("criacionismo para nerds") j á assumiu proporções chocantes. All, se Nietzsche estivesse vivo! Ele teria adorado cada minuto disso! Recentemente vi-me conversando com uma proeminente geóloga californiana, que me disse: "Quando comecei na geologia, todos nós pensávamos que na ciência você cria uma sólida camada de achados, por meio de experiências e investigação cuidadosa, e depois acrescenta uma segunda camada, feito uma segunda camada de tijolos, tudo com muito cuidado, e assim por diante. De vez em quando um cientista aventureiro empilha os tijolos em torres; mas essas torres acabam se revelando pouco substanciais e são demolidas, e você avança novamente com as camadas cuidadosas. Mas agora percebemos que as primeiras camadas básicas não estão nem apoiadas em terreno sólido. Estão equilibradas sobre bolhas, sobre conceitos que são cheios de ar, e hoje essas bolhas estão sendo estouradas, uma a uma."

Subitamente, visualizei o espantoso edifício desmoronando inteiramente, e o homem moderno sendo lançado de ponta-cabeça de volta ao caldo primordial. Ele se debate, tentando manter-se à tona, arquejando em busca de ar, espadanando o caldo freneticamente; ai sente algo enorme e liso passar nadando lá embaixo e depois erguê-lo, feito um golfinho todo-poderoso. Não consegue ver o que aquilo é, mas fica muito impressionado. Dá-lhe o nome de Deus.

VITA ROBUSTA, ARS ANOREXICA

No país dos marxistas rococós

nde eu estava? Na página errada? No canal errado? Fora de sintonia? Às onze e meia da noite de 31 de dezembro de 1999, os síndicos dos prédios

O

aqui em Nova York desligaram os elevadores para que ninguém ficasse preso entre os andares por causa de defeitos causados pelo bug do milênio, e fogueteiros fiscalizados pela EPA lançaram fogos de artifício de "areas" especialmente isoladas no Central Park, marcando assim a chegada do século XXI e do terceiro milênio. Mas será que nenhum sábio solitário notou que o Primeiro Século Americano recémterminara e que o Segundo Século Americano começara? E que talvez ainda houvesse uns cinco, seis, sete ou oito mais por vir? Que isso resultaria numa Pax Americana que duraria mil anos? Será que eu perdera alguma coisa? Algum historiador mencionou que os Estados Unidos dominam hoje o mundo num grau que faria Julio Cesar se roer de inveja? Que faria Alexandre, o Grande — o qual pensava que não havia mais mundos a conquistar — pôr-se de quatro e socar o chão de desespero? Pois ele era apenas um guerreiro e jamais ouvira falar em fusões e aquisições internacionais, no rock e no rap, em filmes de sucesso meteórico, na teievisão, na NBA, na Internet e no jogo da '"globalização"... Será que algum bardo foi convocado para compor um hino grandioso — na linha de "Reina, Inglaterra! Reina a Inglaterra nos mares encapelados! Os ingleses jamais serão escravizados!" — em homenagem aos Estados Unidos? Pois no século recém-concluído essa nação derrotou duas fraternidades nacionalistas de inclinação bárbara, os nazistas alemães e os comunistas russos, duas hordas de metódicos predadores caçadores de escravos que faziam os hunos e os magiares parecerem moças por comparação. Será que a bateria do meu Discman acabara? Será que alguém, nos altos ou baixos escalões, estava procurando Frédéric-Auguste Bartholdi a fim de criar um tributo semelhante à Estátua da Liberdade para a nação que no século XX, mais ainda do que no XIX, abrira seus bra-cos a pessoas de todas

as partes do globo — Vietnã, Tailândia, Camboja, Laos, Hmong, Etiópia, Albania, Senegal, Guiana, Eritréia, Cuba e o resto — e garantira que elas gozassem de plenos direitos civis, inclusive os meios de assumir o poder politico numa cidade do tamanho de Miami se conseguissem arranjar os votos para isso? Será que alguém visualizava, nostalgicamente que fosse, um monumento desses dedicado aos Estados Unidos, Santuário Internacional da Democracia? Ou minha assinatura da Flash Art já expirara? Algum dos especiais televisivos das redes americanas ao final do século fez soar a nota exuberante que o Jubileu de Diamantes da Rainha Vitória fez soar em 1897? Só me lembro de vozes em off, dizendo que bem ou mal... hum, hum... o macarthismo, oracismo, o Vietnã, asmilicias direitistas, o atentado de Oklahoma, a seita Portal do Paraíso, o Doutor Morte... pesando tudo, hum, não temos muita certeza... bem ou mal, os Estados Unidos haviam ganho a Guerra Fria... hum, hum, hum... Minha impressão foi de que o primeiro Século Americano transformou-se no segundo com toda a pompa e circunstância de um daqueles mouse pads de computador. O maior triunfo dos Estados Unidos inspirou todo o patriotismo e orgulho (ou, se prefirirem, o chauvinismo), toda a ânsia por gloria imperial (ou. caso voces prefiram, o espírito de Destino Manifesto) e todo o fragor comemorativo de um simples clique. Tal foi a minha impressão, mas se tratava apenas de uma impressão. E por isso recorri aos lendários recursos da Universidade de Michigan em termos de pesquisas de opinião pública. Eles me enviaram os resultados de quatro estudos; cada um abordava o tema sob um ângulo diferente. Chauvinismo? O espírito de Destino Manifesto? Segundo uma das pesquisas, 74 por cento dos americanos não querem que os Estados Unidos intervenham no exterior, a não ser em colaboração com outras nações,

presumivelmente para que não fiquemos com toda a culpa. Empolgação? Os americanos não se emocionam muito, nem a favor nem contra, com a supremacia de seu país. Estão carentes de afeto, como dizem os psicólogos clínicos. *** Alguns videntes previram isto já em 1897, no despudoradamente pomposo auge (22 de junho) do Jubileu da Inglaterra. Um deles foi Rudyard Kipling, o poeta oficial do império, que escreveu um poema para o Jubileu, "Recessional , avisando: "Eis que toda a nossa pompa de outrora / jaz agora com Ninive e Tiro!" Ele e muitos outros tinham a sensação desconfortável de que os alicerces da civilização européia já estavam se movendo sob seus pés, sensação essa indicada pela muito usada locução adjetiva fin-de-siècle. É claro que literalmente isso significava apenas "fim de século", mas na Europa tinha uma conotação moderna, intrigante e perturbadora. Tanto Nietzsche quanto Marx criaram suas maiores obras tentando explicar esse mistério. Ambos usaram o termo "decadência". Mas se havia decadência, o que estava decaindo? A fé religiosa e os códigos morais que vigoravam desde o começo dos tempos, disse Nietzsche, que em 1882 fez a declaração mais famosa da filosofia moderna — "Deus está morto" — e três previsões chocantemente precisas em relação ao século XX. Chegou até a estimar quando começariam a se tornar realidade: por volta de 1915. (1) A fé que anteriormente os homens colocavam em Deus passaria a ser colocada em "fraternidades bárbaras com a finalidade de roubar e explorar os não-irmãos". Em seu devido tempo, essas fraternidades se revelaram ser o nazismo alemão e o comunismo russo. (2) Haveria "guerras como jamais foram travadas na Terra". Estas se revelaram ser a primeira e a segunda guerras mundiais. (3) Já não haveria mais a Verdade; em seu lugar teríamos a "verdade", entre aspas, dependendo da mistura de

veracidades eternas que o bárbaro moderno achasse mais útil num dado momento. O resultado seria o ceticismo, o cinismo, a ironia e o desdém universais. A Primeira Guerra Mundial começou em 1914 e terminou em 1918. Seguindo a deixa, como se Nietzsche ainda estivesse vivo para dirigir o drama, surgiu na Europa uma figura inteiramente nova, com um nome inteiramente novo: o intelectual, corporificação de todo esse ceticismo, cinismo, ironia e desdém. A palavra "intelectual", usada como substantivo em referência ao "trabalhador intelectual" que assume uma posição política, não existia até 1898, quando Georges Clemenceau usou-a durante o caso Dreyfus para parabenizar os "intelectuais" como Marcel Proust e Anatole France que haviam se juntado a Emile Zola, o grande paladino de Dreyfus. Zola era uma forma inteiramente nova de eminência política, um romancista popular. Seu famoso J'accuse foi publicado na primeira página de um jornal diário, L 'Aurore, que nesse dia imprimiu uma tiragem de 300 mil exemplares e contratou centenas de novos jornaleiros, os quais venderam virtualmente todos os exemplares até o meio da tarde. Zola e Clemenceau deram uma ajuda totalmente inesperada às formiguinhas do "trabalho puramente intelectual" (a expressão é de Clemenceau): a vocês ficcionistas, dramaturgos, poetas e professores de história e literatura que trabalham em casa e vivem escrevinhando, escrevinhando, escrevinhando. Zola era um repórter extraordinário (ou "documentarista", como ele se intitulava) que devorara os detalhes do caso Dreyfus a um ponto tal que sabia tanto sobre o assunto quanto qualquer juiz, promotor ou escrivão. Mas esse detalhe inconveniente da biografia de Zola foi logo esquecido. O novo herói, o intelectual, não precisava carregar o fardo irritante de fazer reportagens ou pesquisas. E também não precisava ter qualquer educação específica, formação erudita, base filosófica, estrutura conceitual e conhecimento de progressos científicos e acadêmicos além do que

se pode adquirir nos cadernos de cultura dos jornais de domingo. Só precisava mostrar-se indignado com os poderes estabelecidos e com os idiotas burgueses a eles submissos. Pronto! O sujeito virava um intelectual. Desde o começo, a proeminência do intelectual — esta nova criatura que viria a desempenhar um papel tão importante na história do século XX — foi inseparável de sua necessária indignação. Era a indignação que o elevava a um platô de superioridade moral. Uma vez lá em cima, ele podia olhar o resto da humanidade com desdém. E isso não lhe custara o menor esforço, fosse de cunho intelectual ou não. Como diria Marshall McLuhan anos mais tarde: "A indignação moral é uma técnica utilizada para dotar os idiotas de dignidade." É uma questão discutível dizer precisamente quais intelectuais do século XX eram idiotas ou não, mas é difícil argumentar contra a definição que ouvi um diplomata francês oferecer durante um jantar: "O intelectual é uma pessoa que domina um certo campo do saber, mas que só opina publicamente sobre outros." Depois da Primeira Guerra Mundial, os escritores e eruditos americanos tiveram pela primeira vez a chance de ir à Europa em grandes números. Deram uma boa olhada de perto no Intelectual. Aquele sorriso de desdém, aquele alheamento arrogante da plebe, aqueles longos dedos de alabastro imaculado com que ele apontava as ruinas de uma civilização semidestruída — foi irresistível. Só houve um problema: quando nossos intelectuais neófitos voltaram para os Estados Unidos e assumiram a mesma pose, não havia ruinas a serem apontadas. Longe de ser uma civilização arruinada, nosso pais emergira da guerra como a nova es-trela que ocupava o centro do palco mundial. Longe de exalar um aroma decadente, o pais tinha o brilho de um jovem gigante: corajoso, robusto, inocente e pouco sofisticado.

Mas os jovens escrevinhadores, completamente bêbados (como previra Nietzsche) de ceticismo, cinismo, ironia e desdém, não estavam dispostos a ser detidos por tais... circunstâncias... Desde o começo foi comovente — como só a luta de um súdito colonial pode ser — a tentativa deste primo caipira, o intelectual americano, de imitar seu modelo urbano europeu. 0 quadro não mudaria ao longo de todo o século XX (e hoje, cem anos depois, o suado e pequeno nativo ainda trota atrás dos calcanhares do seu... buana). A primeira tarefa, entre 1920 e 1930, foi conseguir imitar o jeito com que os intelectuais europeus debochavam da bourgeoisie, coisa que começara quarenta anos antes. H. L. Mencken, provavelmente o mais brilhante ensaista americano do século XX, deu início ao processo apelidando a versão americana de "burguesia" como booboisie. Na ficção a solução foi arrancar as roupas deste nosso país — de faces rosadas e nutrido com a comida da mamãe — e dizer: "Pronto! Deem uma boa olhada no que tem ai embaixo! Sintam só o fedor que tem ai embaixo!" Foi isso que Sinclair Lewis fez em Main Street, Babbitt, Elmer Gantry e Arrowsmith, obra pela qual tornou-se o primeiro americano a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, e foi isso que Sherwood Anderson fez em Winesburg, Ohio, A especialidade de Anderson era expor a hipocrisia do americano médio, como os rigidamente contidos e sexualmente perversos pregadores tarados do Meio-Oeste. Ele criou um personagem padrão e um enredo padrão que outros vêm laboriosamente repetindo desde então em livros, na televisão e no cinema, da Caldeira do diabo a Beleza americana. A Grande Depressão deu à nossa versão desta nova raça, o intelectual, bastante material para nutrir sua indignação. Para variar, o país realmente parecia estar numa situação pavorosa. Mesmo nessa época, porém, as coisas não estavam tão paradisiacamente ruins quanto na Europa, o berço do intelectual. Afinal, a Europa tinha, além da Depressão, o fascismo. A solução foi criar o que acabou se tornando a especialidade do nosso intelectual

colonial: a equivalência adjetiva. A Europa tinha o fascismo real? Bom, nós tínhamos o "fascismo social". E o que era isso? Era o nome que os intelectuais da Esquerda davam ao New Deal de Roosevelt. As "reformas" de Roosevelt apenas mascaravam o fascismo, cuja noite escura logo se abateria sobre os Estados Unidos. Esse "fascismo" era, na realidade, de cunho marxista. Os marxistas haviam pego o partido italiano de Mussolini, o Fascisti, e aplicado seu nome aos nazistas de Hitler, encobrindo habilmente o fato de que os nazistas, tal como os arautos do marxismo, os comunistas soviéticos, eram socialistas revolucionários. Na realidade, "Nazi" era (incomodamente) a abreviatura de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Os marxistas europeus venderam com êxito a idéia de que o nazismo era o ultimo arquejo, brutal e decadente, do "capitalismo". Poucos dos seus primos coloniais nos Estados Unidos tornaram-se marxistas doutrinários treinados na catequese, mas a maioria foi logo envolta num espesso nevoeiro marxista. Essa fábula marxista, que dizia que os "capitalistas" e a "burguesia" oprimiam "as massas" — "o proletariado" —, enraizou-se até entre os intelectuais antimarxistas. Antes do pacto nazi-soviético de 1939, o Partido Comunista americano sempre conseguia mobilizar os nativos da colônia em prol de causas "antifascistas", como a batalha dos legalistas contra o "fascista" Franco na Guerra Civil Espanhola. O "antifascismo" tornou-se uma arma universal que servia para abater qualquer pessoa em qualquer lugar a partir de uma posição privilegiada... o Everest de Indignação dos intelectuais. Depois da Segunda Guerra Mundial, essa mentalidade levou a uma anomalia curiosa. Por critérios objetivos, os Estados Unidos tornaram-se rapidamente a mais poderosa, próspera e popular nação de todos os tempos. Militarmen-te, desenvolvemos a capacidade de mandar o planeta pelos ares simplesmente apertando umas teclas num

depósito de misseis; mas também desenvolvemos a capacidade de escapar — caso tudo explodisse — rompendo os laços da gravidade terrestre e voando até a Lua, no que foi a mais espantosa proeza de engenharia da história. E aconteceu algo ainda mais espantoso. O país transformou-se naquilo com que sonhavam os socialistas utópicos como Saint-Simon e Fourier no século XIX: um El Dorado onde o trabalhador médio teria a liberdade politica, a liberdade pessoal, o dinheiro e o tempo livre para realizar seu potencial da maneira que achasse melhor. A coisa chegou a um ponto em que você não conseguia achar o ladrilheiro ou o sujeito que limpava a sua piscina, porque ele estava fazendo um cruzeiro de luxo pelo Caribe com a terceira esposa. E quando as restrições americanas à imigração foram abrandadas na década de 1960, gente de todos os paises, de todas as cores, de todas as religiões, gente da África, da Asia, da América do Sul e do Caribe começou a vir em massa para os Estados Unidos. Nossos intelectuais, porém, revelaram-se tenazes como mulas empacadas. Tal como haviam feito após a Primeira Guerra Mundial, eles se recusaram a ceder às... circunstâncias. Perceberam o que estava por trás do tal El Dorado e produziram os adjetivos equivalentes mais inspirados do século XX. O fascismo e o genocídio reais haviam sido liquidados na Segunda Guerra Mundial, mas os intelectuais 142 usaram o caso Rosenberg, o caso Hiss, o macarthismo — toda a Caça às Bruxas Comunistas — e, acima de tudo, a guerra do Vietnã para inventar... "o fascismo incipiente" (Herbert Marcuse, muito valorizado como um marxista europeu legítimo, da "Escola de Frankfurt", que viera dar às nossas praias), "o fascismo preventive)" (Marcuse novamente), "o fascismo local" (Walter Lippmann), "o fascismo iminente" (Charles Reich), "o fascismo informal" (Philip Green) e "o fascismo latente" (Dotson Rader). Isso para não falar do equivalente mais inspirado de todos: "o genocídio cultural". O genocídio cultural referia-se à recusa, por parte das universidades americanas, a abrir mão de suas políticas de admissão

para que qualquer candidato das minorias pudesse se matricular nelas, independentemente de suas notas nos testes de avaliação escolar e outros instrumentos de repressão fascista latente, incipiente e iminente. O "genocídio cultural" foi uma grande inspiração, mas em toda esta ópera bufa de fascismo, racismo e genocídio fascista-racista, a nota realmente suprema foi dada por uma tal de Susan Sontag. Num artigo da Partisan Review em 1967, intitulado "O Que Está Acontecendo nos Estados Uni-dos?", ela escreveu: "A raça branca é o câncer da história humana; é a raça branca, e somente ela — com suas ideologias e invenções — que erradica populações autônomas por onde quer que se espalhe, que perturba o equilibrio ecológico do planeta, e que agora ameaça a existência da própria vida." A raça branca é o câncer da história humana? Quem era esta mulher? Quem é o quê? Uma epidemiologista antropológica? Uma renomada autoridade na história das culturas mundiais, uma sintetizadora da magnitude de Max Weber, Joachim Wach, Sir James Frazer ou Arnold Toynbee? Na realidade, ela era apenas mais uma escrevinhadora que passava a vida participando de manifestações de protesto e subindo ao palanque sob o fardo do estilo de sua prosa, e que tinlia uma vaga cativa no estacionamento da Partisan Review. Talvez até tivesse a obsessão de provar verdadeira a tirada de McLuhan sobre a dignidade conferida aos idiotas pela indignação, mas fora isso, era apenas uma tipica intelectual americana do periodo posterior à Segunda Guerra Mundial. Afinal, era irrelevante ter alguma — por menor que fosse — noção do assunto sobre o qual você estava falan-do. Um erudito ou cientista que simplesmente possuisse conhecimento profundo de seu próprio campo não se qualificava como intelectual. O principal exemplo disso é Noam Chomsky, um linguista brilhante que descobriu sozinho que a linguagem é uma estrutura embutida no cerne do sistema nervoso central do Homo sapiens, teoria essa

que os neurocientistas só recentemente começaram a comprovar, por carecerem de instrumentos para fazê-lo antes. Mas Chomsky só passou a ser reconhecido como intelectual depois de protestar contra a guerra do Vietnã, um assunto que desconhecia por completo — credenciando-se, assim, à sua nova proeminência. *** Os intelectuais americanos da fase do fascismo adjetivo tiveram um ano terrivel em 1989. Em junho, os estudantes chineses de Pequim se rebelaram contra o ancien regime maoista, desafiaram os tanques e arrastaram até a Praça da Paz Celestial uma estátua de gesso, a Deusa da Democracia. A estátua tinha os braços erguidos para os céus e mostrava uma suspeita semelhança com a Estátua da Liberdade do porto de Nova York. Quern, entre os intelectuais americanos, teria desconfiado que os dissidentes chineses vinham há tempos olhando para os Estados Unidos como um modelo de liberdade? Depois, em 9 de novembro, o Muro de Berlim desmoronou; em pouco tempo a União Soviética entrou em colapso e seu império no Leste Europeu se desintegrou. Foi realmente uma grande confusão — não há como fugir disso. Ficou muito difícil exprimir ceticismo, cinismo e desdém em termos marxistas. "Capitalismo", "proletariado", "as massas", "os meios de produção", "esquerdismo infantil", "a sombria noite do fascismo" ou até "o antifascismo" — todas essas coisas subitamente passaram a parecer, bom, não exatamente erradas... mas velhas... Tudo isso passou a ser apelidado de "marxismo vulgar"; vulgar no sentido de... pouco sofisticado. O mais importante era não admitir que se estava errado sob qualquer aspecto fundamental. Você não podia deixar as pessoas terem a impressão de que só porque os Esta-dos Unidos haviam triunfado, e que só porque certas coisas infelizes haviam sido descobertas depois da abertura dos arquivos

soviéticos — quer dizer, que merda! — parece que Hiss e os Rosenberg realmente eram agentes soviéticos — e até a Caça às Bruxas, que era um dos alicerces das nossas crenças — merda dupla! — esses livros escritos por Klehr e Haynes, na série de Yale sobre o comunismo americano, e por Radosh e Weinstein, deixam bem claro que, embora Joe McCarthy fosse o mentiroso desprezivel que sempre soubemos que ele era, o Partido Comunista americano realmente se dedicava primordialmente à propaganda e à espionagem soviéticas, e seus espiões realmente se infiltraram nos altos escalões do governo dos Estados Unidos. Yale! — tão respeitável! — como a universidade podia dar seu aval a eruditos direitistas renegados que faziam esse tipo de coisa? Para não falar nos arquivos da Guerra Civil Espanhola! Descobriu-se que os legalistas pediram ajuda, secretamente, aos soviéticos logo no começo das hostilidades; se eles houvessem vencido, portanto, a Espanha teria se tornado o primeiro estado-fantoche soviético! E agora o Vietnã, nosso outro alicerce, a mais sagrada de nossas causas — aqueles malditos arquivos novamente! Como as pessoas podem ter a perfidia de abrir registros secretos? Aqueles arquivos fazem parecer que os soviéticos e chineses, em conluio com os comunistas norte-vietnamitas, estavam manipulando os vietcongues o tempo todo! Fazem parecer que a intervenção americana no Vietnã foi uma espécie de cruzada idealista, travada somente para deter o avanço das hordas comunistas bárbaras, caçadoras de escravos, no Sudeste Asiático! O principal é garantir que eles não consigam usar esses troços para invalidar o modo com que vimos nos mantendo nos píncaros olímpicos do distanciamento há sete décadas, desde 11 de novembro de 1918, quando terminou a Primeira Guerra Mundial, até 9 de novembro de 1989, quando o Muro caiu. A vitória americana na Guerra Fria não lava as manchas que os Estados Unidos deixaram durante a Guerra Fria, lava? Ainda temos o diabo em pessoa, o brutal Joe

McCarthy; temos Richard Nixon, a Comissão da Câmara de Deputados sobre Atividades Antiamericanas e toda aquela turma, que deixaram um monte de gente em Hollywood e nos meios acadêmicos sem poder trabalhar, não temos? E o racismo? O mero fato de os poderes estabelecidos terem estendido a todo mundo os chamados direitos civis e o direito de voto não significa que essa doença virulenta e peculiarmente americana foi eliminada, significa? De jeito nenhum! *** Essa premência de expor a falácia do "triunfalismo americano" trouxe-nos ao momento pungente de agora, no ano 2000. O pessoal do antigo império soviético vem — há onze anos, desde os acontecimentos na Praça da Paz Celestial e a queda do Muro — procurando copiar dos Estados Unidos os princípios básicos para se viver em liberdade. Os estudantes do Leste Europeu nos espantam com o conhecimento que demonstram ter da luta dos americanos por liberdade há dois séculos e meio. Em 1993, por acaso conheci em Nova York um estudante húngaro que sabia de cor vários discursos do grande orador da Revolução Americana, Patrick Henry, e não apenas o famoso discurso de 1775 em que ele dissera: "Dêem-me a liberdade, ou dêem-me a morte." Sabia também o discurso de 1765 sobre a Lei do Selo, que ele fizera no Congresso da Virginia. Sabia recitá-lo na integra: "Cesar teve o seu Brutus; Carlos I, o seu Cromwell; e Jorge III..." "Traição!", exclamou o presidente da Casa. "Traição!" "... pode lucrar com o exemplo deles", disse Patrick Henry. "Se isto é traição... bom proveito!" Outros jovens oriundos do Leste Europeu, onde escritores como Soljenitzyn e Vaclav Havel foram os próprios guardiães da chama da liberdade, naturalmente procuram vultos literários americanos para conhecer os grandes princípios democráticos da nação mais livre do planeta. Quase que sem exceção,

porém, os escritores americanos são... intelectuais. Se o nosso jovem hungaro se aproximasse de um intelectual americano e recitasse o discurso de Patrick Henry sobre a Lei do Selo, receberia como resposta apenas (na expressão de Thomas Mann) um silêncio oco. Para onde mais poderiam voltar-se os milhões de exoprimidos pela falecida tirania soviética? Para os clérigos americanos? Infelizmente, com exceção de poucos padres católicos corajosos, os clérigos americanos tornaram-se irrelevantes para a opinião pública, a não ser nos casos em que cederam à tentação — o que muitos fizeram — e viraram eles próprios intelectuais. Sobram apenas os filósofos acadêmicos, nossas versões atuais de Immanuel Kant, John Stuart Mill e David Hume. Aqui chegamos a um dos capitulos mais deliciosos da comédia humana. Hoje em dia nem Kant — com todas as suas arengas sobre Deus, liberdade e imortalidade — nem Hume conseguiria sequer passar de ano num curso de pós-graduação de qualquer das principals universidades americanas, que dirá ser contratado como professor. Os departamentos de filosofia, história, inglês e literatura comparada — e em muitas universidades também os de antropologia, sociologia e até psicologia — estão divididos, na deliciosa terminologia de John L'Heureux (The Handmaid of Desire), em duas facções: os Jovens Turcos e os Tolos. Os Tolos são majoritariamente velhos, tendo de cinquenta e poucos a sessenta e poucos anos, mas um Tolo pode ter qualquer idade, de vinte e oito a cinquenta e oito; basta que ele faça parte da minoria do corpo docente que ainda acredita na antiga escola germânica do século XIX, ou o chamado estudo objetivo. Hoje as faculdades de humanidades são vespeiros de doutrinas obscuras como o estruturalismo, o pós-estruturalismo, o pósmodernismo, o desconstrucionismo, as teorias reader-respons. Os nomes variam, mas o subtexto é sempre o mesmo: o marxismo talvez esteja morto, e o proletariado revelou-se um caso perdido. Todos os

proletários fizeram-se ao mar com suas terceiras esposas. Mas podemos encontrar novos proletários e virarmos seus benfeitores ideológicos: as mulheres, os não-brancos, as minorias brancas oprimidas, os homossexuais, os transexuais, os perversos polimorfos, os pornógrafos, as prostitutas (trabalhadoras do sexo), e as árvores de madeira-delei. Podemos usá-los para exprimir toda a nossa indignação para com os poderes estabelecidos e nosso distanciamento em relação a seus testas-deferro burgueses, mantendo, assim, acesa a chama do ceticismo, do cinismo, da ironia e do desdém. Isso não será Marxismo Vulgar; será... o Marxismo Rococó, elegante como um Fragonard, malicioso como um Watteau. Não nos prenderemos muito a questões políticas, que nunca parecem ser resolvidas, de qualquer forma. Em vez disso, denunciare-mos as chamadas verdades dos testas-de-ferro, que os Tolos cultuam de maneira ignorante, e desconstruiremos suas auto-ilusórias poções de verdades eternas. Mostraremos como os poderes estabelecidos manipulam com eficiência vene-nosa a própria língua que falamos, a fim de nos aprisionar num "panóptico invisível", para usar a expressão do falecido "pósestruturalista" francês Michel Foucault. Foucault e outro francês, Jacques Derrida, são os grandes ídolos do Marxismo Rococó nos Estados Unidos. Mas poderia ser de outra forma? Nossos intelectuais ainda são hoje — tal como foram ao longo de todo o século XX — pequenos nativos suados, trotando desesperadamente a fim de imitar a maneira de agir de seus ídolos franceses, que é por meio de Teoria, Teoria e mais Teoria. Nessa busca, é inevitável que alguns nativos corram mais depressa que outros, e dois acadêmicos — Stanley Fish e Judith Butler — lideram a matilha no momento. Antes da queda do Muro, o intelectual americano arquetípico era um mero escrevinhador que jubilosamente içava-se à posição de intelectual. Depois da queda do Muro, o intelectual americano arquetipico passou a ser o erudito que jubilosamente rebaixa-se à posição de mero intelectual. Se os já

fabulosos poderes proféticos de Nietzsche houvessem sido específicos o suficiente para visualizar um par de personagens que dramatizasse a desconstrução da Verdade com V maiusculo por ele antevista, ele teria visualizado Fish e Butler, colocando-os em Assim falou Zaratustra. Fish é um estudioso da obra de Milton, com sessenta e um anos de idade, que fez doutorado em Yale. Ou melhor: um estudioso da obra de Milton relapso, pois ele atingiu o estrelato como o chefe rococo do Departamento de Inglês da Universidade de Duke, e agora foi contratado pela Universidade de Illinois — a 230 mil dólares por ano, além dos benefícios (uma soma grande no mundo acadêmico) — para montar um curral de estrelas rococós em estudos paraproletários, sem excluir, como ele próprio afirma, "o estudo de partes corporais, funções excretórias, o comércio sexual, os vibradores, a bissexualidade, os travestis, e a pornografia lésbica". Fish diz essas coisas com um prazer swiftiano, deliciando-se com o inevitável alarme que se segue. Entre os nativos rococós, ele destaca-se por sua elegância, pois dirige um Jaguar de luxo, com uma longa echarpe ao redor do pescoço, no estilo Théophile Gaultier. Com sua pinta de conquistador e olhar malicioso, ele difere marcadamente das turmas de desconstrucionistas amalucados que o seguem. Mas também usa suéteres sem uma camisa visível por baixo, pois quase todos os Jovens Turcos, sejam homens ou mulheres, adotam algum tipo de vestimenta à moda da Geração X — suéteres de malha, camisetas, tênis, trajes completamente negros no estilo de Jovem Artista — a fim de frisar que tem mais bossa e juventude do que os Tolos, que ainda se prendem ao estilo do catedrático de tweed.

No nivel conceitual, Fish é mais conhecido por sua "teoria reader-response"'. a qual assegura que os textos literários nada significam por si sós, sendo o significado um mero construto mental elaborado pelo leitor. A partir dessa premissa, é fácil concluir

que os poderes estabelecidos vivem enfiando na linguagem uma terminologia calculada para nos levar a elaborar os construtos mentais que eles querem que elaboremos a fim de manipular nossa mente. Posso oferecer um exemplo malicioso e talvez familiar, ainda que claro, desse tipo de coisa? Numa de nossas principais universidades, conheci recentemente uma mulher que ministrava um curso de Teoria Feminista e que reprovava os alunos que escrevessem o plural da fêmea de nossa espécie como "women" (mulheres) numa prova ou numa redação. Ela insistia em "womyn", pois os poderes estabelecidos, num momento há muito perdido no nevoeiro da história, haviam enfiado a primazia masculina na própria linguagem, ao tornarem "women" (as mulheres) sessenta por cento "men" (homens). Como as alunas reagiam? Davam de ombros. Já descobriram há muito tempo a inutilidade de se fazer objeção ao Marxismo Rococo. Simplesmente escrevem "womyn" e vão em frente, tentando ser aprovadas no tal curso. Uma das alunas me contou que o unico problema era a confusão criada pelo processador de textos quando ela usava o verificador de ortografia. "A tela fica toda cheia daque-las linhazinhas, vermelhas e onduladas, embaixo de 'womyn'. O computador não tern 'womyn'", disse ela. Depois deu de ombros. "Pelo menos o meu não tern." A rainha da teoria feminista é, indiscutivelmente, Judith Butler, uma estudiosa de Hegel que (como Fish) fez douto-rado em Yale e é conhecida como a diva de estudos sobre homossexualismo. Ela é baixinha e não causa grande impressão, mas alunos de pós-graduação por todo o país dizem "diva" à simples menção do nome dela. Um grupo deles edita um fanzine chamado Judy!, dedicado a cobrir o alarde que ela faz de sua teoria da "performatividade" da fala e do comportamento sexual como formas de anarquia.

"Todos os papéis sexuais são uma imitação para a qual não há original", reza o seu mais famoso paradoxo. Mas ela é mais famosa ainda pela enrolação do seu teorês. Em 1998, o periódico Philosophy and Literature deu-lhe o prêmio principal no Concurso de Pior Redação por uma frase que começava assim: "A passagem de um relato estruturalista em que o capital é entendido como estruturador de rela-ções sociais de formas relativamente homólogas a uma vi-são de hegemonia em que as relações de poder sujeitam-se à repetição, convergência e rearticulação..." O trecho continha mais cinquenta e nove palavras. Os fãs de sua revista adoram a forma despreocupada, porém erudita, com que ela repele esses ataques. "A pomposidade", diz ela em referenda a Hegel, "faz parte do desafio fenomenológico do seu texto." A batalha dos Tolos contra os Jovens Turcos, porém, já ultrapassou o âmbito das palavras. Em 1987 os tradicionalistas formaram uma organização de autodefesa chamada National Association of Scholars; mil membros se filiaram. Numa declaração pública feita na Universidade de Duke, Fish lançou sobre eles a pecha de três palavrões começados por R, S e H — racistas, sexistas e homófobos — e enviou um memorando ao reitor recomendando que nenhum membro daquela organização maldita pudesse ter assento em comissões da universidade. O reitor se negou a isso. Os membros acusaram Fish de tentar colocá-los numa Lista Negra. Mais de uma universidade importante foi vasculha-da pelos Jovens Turcos — com suas roupas da Geração X e canetas esferográficas vermelhas em punho — a farejar desviacionistas... sexistas... classistas (sic)... homófobos... etnófobos... As histórias sobre as articulações secretas dos Jovens Turcos para afastar os alunos de pós-graduação dos cursos dos Tolos — a ponto de alguns Tolos acabarem sem nenhum aluno no ano todo — dariam um capítulo bastante repulsivo num livro. ***

Diante de tanta confiança e agressividade por parte dos Jovens Turcos, e de tanta devoção por parte dos alunos de pós-graduação que os seguem, quem sobra para ajudar alunos com dúvidas em relação a 'womyn" ou qualquer outra manifestação de Marxismo Rococó? Os outros professores? Algum decano? O reitor da universidade? O mais improvável de todos, acreditem, é o reitor. Recentemente conheci um aluno que me contou que estava fazendo um curso transdisciplinar intitulado "Civilizações da América do Norte". "Transdisciplinar" é um termo em voga no mundo acadêmico atualmente, e não deve ser confundido com o antigo (e Tolo) termo "interdisciplinar", que se refere ao uso de conceitos de duas ou mais disciplinas eruditas convencionais no estudo de um assunto específico, tal como na utilização de conceitos da sociologia e da economia para se escrever sobre história. Não, "transdisciplinar" se refere a atravessar todas as disciplinas — de forma semelhante à maneira com que um 747 atravessa o pólo Norte a 13 mil metros de altura, por cima de uma impenetrável camada de nuvens — a caminho de um unico destino: o Marxismo Rococó. Assim, o professor informa à turma que os americanos, embora talvez tenham mais dinheiro, posses, vantagens tecnológicas e conforto do que os mexicanos ou canadenses, são primitivos quanto às "divisões sociais", em termos de raças, gêneros sexuais, classes, etnias e desequilibrios regionais. Neste assunto — os fundamentos da vida — precisamos receber lições básicas dos mexicanos e canadenses. Os canadenses? Os mexicanos? Sem brincadeira?... Mas e os franceses da província de Quebec? Não se sentiam tão amargurados com a maioria britânica que quase se separaram do Canada há apenas cinco anos? E os índios de Chiapas, a provincia mais ao sul do México? Não se ergueram em revolta armada há apenas seis anos? E quanto aos gêneros sexuais... caramba... não é um segredo de Polichinelo que as empresas estrangeiras gostam de empregar

mulheres nas suas linhas de montagem no México porque as mulheres mexicanas são ensinadas a vida toda a se submeter à autoridade masculina? Ou eu estou sonhando? Dando de ombros: "Ei, eu não sei. Foi isso que ele nos disse." A esta altura, no ano 2000, é isso o que a maioria faz... dá de ombros e vai cuidar da própria vida. Exatamente como Nietzsche previu, os intelectuais dos Estados Unidos vêm exprimindo, há oitenta e dois anos, seu ceticismo em relação à vida americana. E como dizem os franceses: "O ceticismo logo se transforma em desdém." Como qualquer sociólogo Tolo poderia nos dizer, nos Estados Unidos só há duas classes sociais discerníveis objetivamente: as pessoas acima da linha do bacharelato, ou seja, que passaram ao menos quatro anos numa faculdade, e as pessoas abaixo dessa linha, que não passaram. A esta altura as pessoas acima dessa linha já aprenderam a dar de ombros e a concordar com o "politicamente correto", ou o Marxismo Rococó, porque sabem que é de mau gosto opor-se a isso em voz alta. Trata-se de uma... quebra da etiqueta que você tern que observar para ser visto como uma pessoa instruida. Mas nas fileiras das pessoas abaixo da linha divisória do bacharelato — todos aqueles motoristas de limusines e técnicos de tevê a cabo que andam fazendo cruzeiros marítimos — há muita gente se opondo a isso em voz alta, enquanto fuma urn cigarro à noite no Palais Doré, o bar do navio... Essas pessoas resmungam, reclamam, reclamam e resmungam... mas o tempo todo duvidam de seu bom senso. Não é surpresa, portanto, que pesquisa após pesquisa mostre os americanos entrando no Segundo Século Americano, a Pax Americana, num estado de... seja lá o que for... Sobra por fim uma única pergunta. O que esses intelectuais querem, exatamente, com as acrobacias mentais do Marxismo Rococó? Será que querem mudanças para todos os paraproletários dos quais se

proclamam benfeitores ideológicos? É claro que não. Uma mudança real exigiria um trabalho incômodo. Então o que querem eles? No fundo é um negócio simples. Tudo que o intelectual quer, no fundo do coração, é reter o que lhe foi magicamente dado num momento cintilante um século atrás. Ele pede apenas para permanecer alheio, afastado, como disse Revel certa vez, da plebe, dos filisteus... da "classe média". Pensem em como Nietzsche teria se divertido, se pelo menos Deus não estivesse morto! Pensem no prazer que ele teria tido se pudesse ter passado os ultimos cem anos — ele morreu em 1900 — deitado numa nuvem gigantesca no Paraiso, com quartetos de anjos tocando Richard Strauss (ele já desistira de Wagner) em harpas, olhando para as criaturas cujo futuro ele tivera o brilhantismo de prever... as confrarias bárbaras... os guerreiros mundiais... as equipes de demolição da Verdade perambulando por ai vestidas de crianças... Eu presumo que os profetas gostem de ver suas profecias serem realizadas, mas tenho a sensação de que Nietzsche teria ficado entediado com esses cem anos de... "intelectualismo"... Quase consigo ouvir sua voz exortatória e apostrófica: Como podem vocês, escritores e acadêmicos, estar há tanto tempo acomodados num papel tão fácil e indolente! Como podem ter escolhido o esnobismo fácil em detrimento do trabalho duro, do trabalho infindável, do trabalho hercúleo de adquirir conhecimento? Acho que ele teria balançado a cabeça diante dessas pomposas teorias amadoristicas sobre a cognição e a sexualidade. Acho que teria se cansado desse ceticismo, cinismo, ironia e desdém obstinados, e teria dito: Admitam logo para mim (ninguém precisa saber — afinal, eu estou morto) que, em termos de avaliação de nações, no momento esse "maldito" pais de voces é o metro pelo qual todos os outros devem ser medidos. E ele teria razão.

Os marxistas do império soviético no Leste Europeu tiveram Havel; os marxistas da própria União Soviética, Soljenitzyn; e os Marxistas Rococós dos Estados Unidos... "Chauvinismo!", gritam os intelectuais. "Patriotismo!" ... podem lucrar com o seu exemplo. Se isto é patriotismo... bom proveito!

O artista invisível

F

rederick Hart morreu aos cinquenta e cinco anos, em 13 de agosto de 1999, dois dias depois que uma equipe de medicos do Hospital Johns Hopkins descobriu que ele estava com cancer no pulmão, concluindo abruptamente uma das histórias mais bizarras da história da arte no século XX. Hart, conscientemente, interessou-se pela escultura tradicional, realizou-a de uma só tacada, e depois tornou-se invisível. Tão invisível quanto Ralph Ellison, um homem que ficou invisivel "simplesmente porque as pessoas se recusavam a ver-me".

Por volta de 1280, Giotto era um pastorzinho que, aos doze anos de idade, foi certo dia para o prado com o reba-nho e usou um pedaço de silex para desenhar uma ovelha na face de um rochedo; foi quando o artista florentino Cimabue, de férias, por acaso passou perto e descobriu seu gênio infantil. Pois nem a história de Giotto pode se igua-lar à forma com que Frederick Hart saiu da obscuridade, que mais parece um conto de fadas. Hart nasceu em Atlanta, filho de uma atriz fracassada e um repórter de jornal impaciente. Tinha apenas três anos quando a mãe morreu e foi prontamente despachado para uma tia que morava na cidade de Conway, numa parte rural da Carolina do Sul onde as pessoas comiam amendoins fervidos em água salgada. Tornou-se um delinquente juvenil incorrigível, foi reprovado na nona série na primeira tentativa, e expulso da escola na segunda. Ainda assim, com a idade de dezesseis anos, depois de ter largado o segundo grau pelo meio, ele conseguiu — para espanto universal, ou pelo menos de toda a cidade de Conway — matricular-se na Universidade da Carolina do Sul ao atingir boa pontuação nas provas. Só durou seis meses lá. Foi o único aluno branco a juntar-se a 250 estudantes negros numa manifestação por direitos civis, foi preso e depois expulso da universidade. Informado de que estava sendo procurado pela Ku Klux Klan, fugiu para Washington. Lá ele conseguiu arrumar emprego como auxiliar na Catedral Nacional, urna estupenda estrutura construida no estilo gótico inglês da Idade Média. A catedral empregava uma equipe de pedreiros italianos em tempo integral, e Hart ficou intrigado com o talento deles no trabalho em pedra. Pediu várias vezes ao entalhador-chefe, um italiano chamado Roger Morigi, para aceitá-lo como aprendiz, sem resultado. Somente italianos experimentados eram contratados. Mas pouco a pouco, Hart foi

conhecendo a equipe; deu para pegar emprestadas as ferramentas e tentar trabalhar em pedaços de pedra descartados. Morigi ficou tão agradavelmente surpreso com a aptidão dele que acabou transformando-o em aprendiz, e logo começou a estimulá-lo a se tornar escultor. Hart revelou ter o mesmo gênio de Giotto — aparentemente uma dádiva divina, pois Giotto era escultor além de pintor — para formar figuras humanas perfeitas a partir de pedra e argila, a qualquer momento e com rapidez. Em 1971, Hart soube que a catedral iarealizar um concurso internacional a fim de escolher um escultor pora adomar a fachada oeste do prédio com um vasto e elaborado conjunto de baixos-relevos profundos e estátuas sobre o tema da Criação. Morigi estimulou-o a participar. Ele se inscreveu e ganhou. Um garoto da classe trabalhadora, de quem ninguém ouvira falar antes, ganhara o que se revelaria a maior e mais prestigiosa encomenda no campo da escultura religiosa nos Estados Unidos no século XX. O projeto trouxe-lhe dividendos inimagináveis. O exdelinquente juvenil da cidade de Conway era uma criatura de paixões ardentes: um rapaz magro e bonito, com uma longa cabeleira castanho-clara ondulada. Era um artista noturno com um penteado rebelde e uma atitude rebelde que fazia muito sucesso entre as moças. Em Washington, ele dera para ir nos fins de tarde até Dupont Circle, que se tornara uma espécie de bairro boêmio. Tarde após tarde ele via a mesma jovem deslumbrante indo a pé para casa pela Connecticut Avenue após o trabalho. Com o ardente coração aceso, Hart apresentou-se e perguntou se ela gostaria de posar para sua versão da Criação, um conjunto de rapazes e moças idealizados erguendo-se nus do redemoinho caótico da aurora da Criação. Ela posou. Eles se casaram. Grandes artistas e as modelos por quem eles se apaixonaram já compunham a maior parte da história da arte. Mas provavelmente jamais houve, em toda essa narrativa longa — para não dizer lubrica —, modelo tão estonteantemente bela quanto Lindy Lain Hart. Seu

rosto e silhueta voltariam a figurar na obra de Hart ao longo de toda a carreira dele. A paixão ardente do rapaz, à medida que ele desenvolvia sua visão da Criação, não podia ser saciada apenas pela Mulher. Hart apaixonou-se por Deus. O processo começou com uma pesquisa puramente pragmática sobre a história bíblica da Criação no Livro do Gênese. Hart fora batizado na Igreja Presbiteriana, e na Catedral Nacional de Washington trabalhava para a Igreja Episcopal. Mas na década de 1970, nenhuma destas crenças protestantes, virtuosas, urbanas e tradicionais oferecia o vinho forte que um rapaz apaixonado por Deus procurava. Ele se converteu ao catolicismo e começou a ver seu talento como um carisma, uma dádiva de Deus. Dedicou sua obra à idealização das possibilidades que Deus oferecia ao homem. O trabalho todo levou onze anos, desde a concepção de Ex Nihilo, como ele chamava a peça central de seu imenso projeto para a Criação (literalmente, "a partir do nada"; figuradamente, a partir do caos anterior à Criação), até o primeiro esboço de argila em escala reduzida, e depois ao talhamento final da pedra. Ex Nihilo foi inaugurada com uma cerimônia em 1982. No dia seguinte, Hart esquadrinhou os jornais em busca das resenhas... The Washington Post... The New York Times... nada... nada no dia seguinte, também... nem na outra semana, e nem na seguinte. A única menção de qualquer tipo foi um obiter dictum na seção de Estilo (leia-se Mulheres) do Post, indicando que a fachada oeste da catedral agora ostentava uma decoração nova, mas solenemente tradicional (leia-se antiquada). Ai Hart começou a monitorar as revistas de arte. Meses se passaram... nada. A coisa chegou a tal ponto que ele começou a ansiar por um único parágrafo escrito por qualquer crítico que dissesse o quanto ele detestara Ex Nihilo... qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, por superficial ou rude que fosse... para provar que havia alguém no

mundo artístico que de alguma forma se importava com aquilo. Mas a verdade era que ninguém se importava, nem um pouco. Ex Nihilo jamais obteve ex nihilo, simplesmente porque o mundo artístico se recusou a ver a obra. Hart ficara tão absorto por seu "triunfo" que não tinha compreensão alguma do mundo artístico americano que existia na década de 1980. Na realidade, o mundo artístico reduzia-se estritamente ao mundo de Nova York, e nem se podia dizer que era um mundo, no sentido que essa palavra tem de muita gente. O autor de certo estudo sociológico sobre o assunto, The Painted Word (A palavra pintado), estimava que todo o "mundo" artístico era composto por cerca de três mil curadores, negociantes, colecionadores, estudiosos, críticos e artistas em Nova York. Os críticos de arte, até nos mais remotos rincões: do interior, estavam perfeitamente acomodados ao papel de mensageiros obedientes da lei recebida de Nova York. E a lei dizia que a escultura da Escola do Renascimento — como a de Hart — não era arte. O mundo artístico simplesmente não devia ver aquilo. As revistas de arte abriram os olhos de Hart a ponto de deixá-los injetados de perplexidade. As estátuas clássicas eram "quadros suspensos no ar". Usavam um meio tortuoso — a habilidade — para enganar o olho, fazendo-o crer que o bronze ou a pedra haviam se transformado em carne humana. E eram portanto artificiais, falsas e meretricias. Por volta de 1982, nenhum artista ambicioso queria demonstrar habilidade, mesmo que a tivesse. Os grandes escultores da época faziam coisas como: levar elfos sindicalizados para expor arranjos de pedras ou tijolos colocados sobre o chão, objetos nos quais eles, os artistas, não haviam posto um dedo sequer (Carl Andre); ou placas de aço Cor-Ten tiradas direto da fundição (Richard Serra); pegar lâmpadas fluorescentes da GE, tiradas direto da caixa da loja

de ferragens, e arrumá-las desta ou daquela maneira (Dan Flavin); ou soldar vigas e fragmentos de metal (Anthony Caro). Isto expressava a verdadeira natureza do material, sua "gravidade" (nada de quadros de pedra flutuando no ar), sua "materialidade". No campo da escultura, a grandeza estava nisto. Como disse Tom Stoppard em sua peça Artist Descending Staircase (Artista descendo uma escadaria): "A imaginação sem habilidade nos dá a arte contemporânea." Hart passou da perplexidade ao estado de choque, e depois à sensação de ultraje. Resolveu forçar o mundo artístico a ver o que era uma grande escultura. Em 1982, ele já estava envolvido em outro concurso para uma enorme peça de escultura publica em Washington. Um grupo de veteranos de guerra acabara de conseguir aprovação do Congresso para um memorial que prestaria um tributo há muito devido àqueles que haviam lutado no Vietnã com honra e bravura numa causa perdida e altamente impopular. Haviam escolhido um júri de arquitetos e membros do mundo artístico para fazer uma seleção cega em concurso aberto; ou seja, qualquer um podia se inscrever, e ninguém podia colocar seu nome na inscrição. Toda proposta tinha que incluir alguma coisa — um muro, um plinto, uma coluna — onde um entalhador contratado pudesse inscrever os nomes de todos os mais de 57 mil membros das forças armadas americanas que haviam morrido no Vietnã. Nove das dez escolhas principais eram desenhos abstratos que podiam ser executados sem recorrer àquele maldito e tortuoso truque: a habilidade. Somente a proposta número três era figurativa. Em cima da ponta de uma muralha semicircular — a qual ostentava os 57 mil nomes — havia um soldado de infantaria ajoelhado ao lado de um colega caido, olhando em torno à procura de ajuda. Na outra ponta, um terceiro soldado de infantaria começa-va a

correr ao longo do topo da muralha na direção deles. O escultor era Frederick Hart. A proposta vencedora foi feita por uma jovem estudante de arquitetura de Yale, chamada Maya Lin. Seu desenho mostrava uma parede em forma de V; era uma parede de granito negro polido, apenas com os nomes gravados; não havia menção de honra, coragem ou gratidão, nem mesmo uma bandeira. Era absolutamente à prova de habilidade. *** Muitos veteranos ficaram furiosos. Acharam que a parede dela era uma gigantesca e impiedosa lápide sepulcral que dizia: "O trabalho de vocês foi um desastre absolutamente sem sentido." Fizeram tanto barulho que se chegou a um acordo. Uma bandeira e uma estátua americanas seriam acrescentados ao sítio. Hart foi escolhido para esculpir a estátua. Criou um grupo de três soldados — com detalhes tão realistas que se via o desgaste dos cordões das botas — que pareciam ter acabado de chegar a uma clareira na selva, onde ficavam espantados ao ver a parede negra em forma de V de Maya Lin ostentando os nomes de seus colegas mortos. Naturalmente, Maya Lin ficou chateada com a intrusão, de modo que uma reunião de apaziguamento foi combinada em Plainview, no estado de Nova York, onde a fundição acabara de fazer os soldados. Esforçando-se para cumprir seu papel, Maya Lin perguntou a Hart — segundo ele próprio — se os rapazes usados como modelos para os três soldados haviam reclamado quando o gesso fora removido de seus rostos e braços. De início, Hart não entendeu do quê ela estava falando. Mas depois percebeu tudo. Ela presumira que ele seguira o exemplo do engenhoso membro do mundo artístico George Segal, o qual inventara um meio de esculpir sem precisar ter a minima habilidade, cobrindo o corpo do modelo com gesso molhado e removendo a cobertura quando esta começava a endurecer. Nenhum artista da geração de Maya (ela tinha vinte e

um anos) conseguia conceber que um escultor partisse apenas de uma imagem na sua cabeça, um estilete, um bloco de argila úmida e um pouco de arame. Nenhum artista da sua geração con-seguia sequer especular sobre... domínio técnico. Em 1984, no Dia dos Veteranos de Guerra, o presidente Ronald Reagan compareceu à cerimônia em que a escultura de Hart, Três soldados, foi inaugurada. No dia seguinte Hart procurou as resenhas de arte... em The Washington Post... The New York Times... e, à medida que o tempo passava..., nas revistas. Mais uma vez, nada... nem mesmo aquele tributo pelo avesso conhecido como pichação. Três soldados teve apenas as chamadas resenhas cívicas, ou seja, o tipo de noticia, nota ou legenda fotográfica que na realidade dizia: "Esse negócio é grande, fica ao ar livre, e talvez seja visto por vocês a caminho do trabalho, de modo que é melhor nós avisarmos o que é." As resenhas cívicas de esculturas figurativas ao ar livre geralmente nem mencionam o nome do escultor. Por que mencionar o artista, se por definição a coisa não é arte? Hart não foi, de jeito algum, o único. Em 1980, um escultor chamado Eric Parks concluiu uma estátua de Elvis Presley para o centro de Memphis. A obra foi inaugurada diante de uma multidão de milhares de mulheres soluçantes; tornou-se — e continua sendo até hoje — uma tremenda atração turística; mas só obteve resenhas cívicas. E quem se lembra do nome de Eric Parks? Em 1985, um escultor chamado Raymond J. Kaskey terminou a segunda maior escultura de cobre dos Estados Unidos — a Estátua da Liberdade é a maior. Era uma imensa figura clássica de uma deusa de toga, com a mão direita estendida às multidões. Chamava-se Portlandia. Dezenas de milhares de cidadãos de Portland, em Oregon, foram num domingo vê-la chegar numa barcaça pelo rio Willamette e ser rebocada até o centro. Os pais erguiam os filhos para que as crianças pudessem tocar na estátua com as pontas dos dedos, enquanto a obra era içada até seu lugar, em

cima da entrada do novo prédio dos Serviços Públicos de Portland; mais uma vez, houve apenas resenhas cívicas. Em 1982, Audrey Flack terminou Civitas, obra composta por quatro deusas clássicas, uma para cada canto de um cruzamento rodoviário nos arredores de uma cidade fabril moribunda, Rock Hill, na Carolina do Sul. Desde então, o conjunto tornou-se uma grande atração turística: à noite chegam carros de todas as direções para ver as deusas iluminadas; ali perto, um algodoal abandonado que se proclamava um "parque industrial" valorizou-se subitamente; e toda a cidade de Rock Hill ganhou movimentação. Houve apenas resenhas cívicas, no entanto. Ao longo dos últimos quinze anos de sua vida Hart fez algo que, nos termos do mundo artístico, estava ainda mais na contramão do que Ex Nihilo e Três soldados: tornou-se o mais popular escultor vivo dos Estados Unidos. Desenvolveu uma técnica para moldar esculturas em resina acrilica. O resultado assemelhava-se a vidro Lalique. Muitas de suas peças menores eram nus que usavam Lindy como modelo; eram tão líricas e sensuais que o classicismo de Hart começou a assumir contornos Art Nouveau. A vendagem bruta de suas peças em acrílico já passara dos 100 milhões de dólares. Nenhuma delas teve uma resenha sequer. O mundo artístico considerava a popularidade como uma amante vagabunda da arte. A popularidade significava superficialidade. A rejeição pelo publico significava profundidade. E a rejeição verdadeiramente hostil tinha grande probabilidade de significar grandeza. O Titled Arc de Richard Serra — uma parede inclinada de aço enferrujado bem no meio de Federal Plaza em Nova York — era tão detestado pelos funcionários do prédio que 1.300 deles, inclusive muitos juizes federais, assinaram uma petição para a remoção daquilo. Estavam irritados e determinados, e a parede acabou sendo cortada ao meio e carregada embora. Foi assim que Serra

conquistou uma proeminência de pureza imaculada: suas obras não envolviam habilidade artística alguma, e eram desprezadas por todos — fora do mundo artístico — que as vissem. Mas hoje muitos do mundo artístico o consideram o maior escultor americano. Em 1987, Hart se mudou para uma propriedade de 55 hectares no interior da Virgínia, a 120 quilômetros de Washington, e construiu uma mansão em estilo grego, com varandas de dois andares com doze colunas cada uma; comprou cavalos para si mesmo, para Lindy e para os dois filhos do casal, Lain e Alexander; estocou o lugar com roupas de tweed e de sarja, arreios e botas feitas à mão; dei-xou crescer uma barba feito a do Rei de Ouros; e começou a caçar a cavalo com perdigueiros — o tempo todo produzindo obras novas em ritmo prolifico. Em seus últimos anos ele começou a reunir em sua propriedade uma turma de almas congêneres: um punhado de artistas, poetas e filósofos que formavam uma dedicada derrièregarde (pegando emprestada uma expressão da compositora Stefania de Kenessey), em preparação para a batalha de tomar a arte de volta das mãos dos Modernistas. Eles se intitulavam os Centristas. Não ia ser fácil fazer com que uma nova geração de artistas mergulhasse na liça bradando, "Avante! Para o Centro!" Apesar disso, Hart perseverou. Depois de sua morte certos... sinais... começaram a surgir: a súbita reavaliação, por parte do próprio mundo artístico, de Norman Rockwell como um artista clássico que trabalha com a mitologia americana... o "tititi", para usar uma expressão dos anos 90, causado pela venda total dos quadros de uma exposição de seis jovens pintores figurativos — conhecidos como o "Paint Group", cinco deles formados pela única escola de arte classicamente derrière-garde dos Estados Unidos, a Academia de

Arte de Nova York — na Galeria Hirsch & Adler... a tendência de uma geração de jovens colecionadores sérios, forrados com dinheiro ganho em Wall Street, a descartar o gosto de seus pais e a colecionar arte "agradável" e frequentemente figurativa em vez da arte abstrata, distorcida ou "ferida" da tradição moderna... o crescente interesse de seus pais na obra dos outrora ridicularizados artistas "acadêmicos" franceses Bougereau, Meissonier e Gérôme, além do pintor "fashion" francos Tissot. O historiador de arte Gregory Hedberg, diretor de arte européia da Galeria Hirsch & Adler, diz que a aurora de cada século vê, com regularidade metronômica, o colapso do gosto reinante e o estabelecimento de novos padrões. Nos primeiros anos do século XVII os gigantes maneiristas (El Greco, por exemplo) foram tirados das paredes elegantes e o Barroco surgiu com furor; no começo do século XVEI, os gigantes barrocos (Rembrandt) desceram e surgiu o Rococó; no começo do século XIX, os gigantes rococós (Watteau) desceram e foram substituidos pelos neoclássicos; e no começo do século XX, o movimento moderno transformou os gigantes acadêmicos neoclássicos Bougereau, Meissonier e Gérôme em alvo de piadas em menos de vinte e cinco anos. E na aurora do século XXI? No verão de 1985, o autor de The Painted Word deu no Museu Parrish de Southampton, Nova York, uma palestra intitulada "Picasso: o Bougereau do ano 2020". Se isso se confirmar, Frederick Hart não terá sido o primeiro grande artista a ter morrido dez minutos antes de ser absolvido e reconhecido pela história.

O grande reaprendizado

m 1968, em San Francisco, deparei-me com uma curiosa nota de rodapé ao movimento hippie. Na Free Clinic de Haight-Ashbury havia médicos tratando de certas doenças que nenhum médico vivo encontrara antes, e que haviam desaparecido há tanto tempo que nem haviam recebido nomes latinos, tais como a sarna, o prurido, o estremeção, o sapinho, a escrofulose e o panariço. Como essas doenças haviam voltado a aparecer, então? A causa estava no fato de que milhares de rapazes e moças haviam migrado para San Francisco a fim de viver comunitariamente no que acho que a história registrará como uma das mais extraordinárias febres religiosas de todos os tempos.

E

Os hippies buscavam nada menos do que eliminar todos os códigos e restrições do passado e recomeçar do zero. A certa altura o romancista Ken Kesey, líder de uma comunidade chamada os Merry Pranksters (Alegres Brincalhões), organizou uma peregrinação a Stonehenge com a idéia de voltar ao ponto inicial da civilização anglo-saxã, que ele julgava ser Stonehenge, e de lá partir novamente para fazer tudo melhor. Entre os códigos e restrições que as comunidades deliberadamente eliminaram estavam os que diziam que você não devia usar a escova de dentes dos outros, e nem dormir no colchão dos outros sem trocar os lençóis — ou, como era mais provável, sem usar lençol algum —, nem beber com mais cinco pessoas da mesma garrafa de Shasta, nem dar tragadas no mesmo cigarro. Em 1968, portanto, essas comunidades estavam reaprendendo... as regras de higiene... pegando sarna, prurido, estremeção, sapinho, escrofulose e panariço. Este processo, chamado de reaprendizado — que se seguiu a um recomeço a partir do zero sem precedentes, à moda de Prometeu —, me parece ser o leitmotif do século XX nos Estados Unidos. "Começar do zero" era o lema da Escola de Bauhaus. Todos já conhecem a história de como o Bauhaus, um diminuto movimento de artistas alemães entre 1920 e 1930, derrubou os estilos arquitetônicos do passado e criou o rosto de caixote envidraçado da cidade moderna americana durante o século XX; não vou contar essa história novamente. Mas preciso mencionar a elevada exuberância espiritual com que o movimento começou, e a passional convicção do lider do Bauhaus, Walter Gropius, de que ao começar do zero, na arquitetura e no design, o homem poderia se libertar do peso morto do passado. No fim da década de 1970, porém, os próprios arquitetos já estavam começando a reclamar do peso morto do Bauhaus; dos telhados pianos, que deixavam vazar a chuva e desabavam com a pressão da neve; dos diminutos cubículos em tom bege nos escritórios,

que faziam os funcionários se sentirem como peças de uma engrenagem; das paredes de vidro, que deixavam entrar calor demasiado, frio demasiado, luminosidade demasiada, e absolutamente ar nenhum. Hoje esse reaprendizado 166 está em pleno andamento. Os arquitetos só fazem vasculhar o que o artista Richard Merkin chama de Grande Armário, Dentro do Big Closet (Grande Armário), em pilhas promíscuas, estão os estilos abandonados do passado. As atuais redescobertas favoritas são: o Clássico, o Georgiano, o da Secessão e o Moderne (Art Déco). Nas asas do reaprendizado, os arquitetos estão tomando um porre de ecletismo comparável ao do período vitoriano há 125 anos. Na política, o grande exemplo de começo a partir do zero visto no século XX foi o socialismo unipartidário, também conhecido conio comunismo ou marxismoLêninismo. Diante da má reputação desse sistema no Ocidente hoje em dia, é instrutivo ler Os dez dias que abalaram o mundo, de John Reed — antes de abrir o Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenitzyn. O velho cartaz de um operário de camisa azul — arrebentando as correntes em torno do peito poderoso feito Prometeu — era, na verdade, a visão de liberdade humana absoluta em que o movimento acreditava no começo. Para os intelectuais ocidentais, a dolorosa tomada de consciência começou com a publicação do Ar-quipélago Gulag em 1973. Soljenitzyn insistia que o vilão por trás da rede de campos de concentração soviéticos não era Stalin nem Lênin (que inventou a expressão "campo de concentração"), e nem mesmo o marxismo. Era simples-mente o conceito soviético, peculiar ao século XX, de que era possível eliminar não só a antiga ordem social como também sua ética religiosa, que levara milênios para se formar ("a decência comum", como dizia Orwell), e reinventar a moralidade... aqui... e agora... "sob a mira de um fuzil", na famosa expressão dos maoistas. Muito antes da súbita queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989, o reaprendizado já chegara a um ponto em que até os círculos governamentais na

União Soviética e na China haviam começado a se perguntar qual seria a melhor maneira de converter o comunismo em algo melhor do que — na expressão memorável de Bernard Henri-Levy — "o barbarismo com rosto humano". A grande contribuição americana a esse começo a partir do zero visto no século XX deu-se na area de costumes e tabus, principalmente naquilo que era chamado, com bastante pudor, de "revolução sexual". Em todas as nossas aldeias, até no antigo Cinturão da Biblia, pode-se encontrar o bordel da vila, hoje nâo mais oculto nuraa casa de luzes azuis ou vermelhas, ou atrás de uma porta verde, mas anunciado abertamente ao lado da estrada por uma placa de plástico iluminada por trás com mil watts: aqui dentro garotas TOTALMENTE NUAS SAUNA MASSAGEM E MARATONAS DE ENCONTROS. Até 1985 os cinemas pornográfícos eram tão onipresentes quanto as lanchonetes 7-Eleven; isso incluia cinemas ao ar livre com telas de seis, sete, ou oito andares de altura, para melhor exibir todas as dobras úmidas, protuberâncias relu-zentes e miudos intumescidos aos arquejantes caipiras americanos. Em 1985 o cinema pornográfíco começou a ser substituído pelo videocassete pornográfico, que podia ser introduzido em qualquer lar. Nas prateleiras dos escritórios domésticos, ao lado de enciclopédias e dos Clássicos da Biblioteca Moderna, você hoje encontra as fltas: So-nhos Molhados; Vestidapara Excitar; Eil Rambette!; Pro-fessora de Latim: Ela Chupou, Chupe, Chupará. No outo-no de 1987, Jessica Hahn — uma secretária clerical de Long Island com vinte e cinco anos de idade — provocou manchetes escandalosas nos tablóides com a notícia de que posara nua para a revista Playboy. Seu castigo? Uma passagem triunfal pelos programas televisivos de entrevistas e de variedades nacionais. Na minha opinião, o ponto alto foi quando uma menina de dez anos — aluna de uma escola particular, usando blusa de botões dourados, suéter de cardigã e a saia do uniforme escolar — aproximou-

se dela à porta de um estúdio de televisão com uma pilha de exemplares da Playboy — os quais mostravam a tal secretária com os seios desnudos e as coxas abertas — e pediu que ela os autografasse. Com a bênção da escola. a menina tencionava levar os exemplares assinados de volta à turma e fazer um leilão público. Os lucros seriam doados aos pobres. Mas também na revolução sexual a dolorosa tomada de consciência ocorreu na década de 1980, quando o reaprendizado, sob a forma de profilaxia, teve inicio. Tudo pode ser resumido num único termo que não requer qualquer amplificação: AIDS. *** O Grande Reaprendizado — se é que algo tão prosaico quanto a educação corretiva pode ser chamado de grande — deve ser visto não como o ponto final do século XX, e sim como o tema do século XXI. Não há lei da história que diga que um século novo deve começar dez ou vinte antes, mas por duas vezes seguidas a coisa funcionou assim. O século XIX começou com as revoluções americana e francesa no fim do XVIII. O século XX começou com a formulação do marxismo, do freudianismo e do modernismo no fim do XIX. E o século XXI começou com o Grande Reaprendizado — sob a forma da destruição do Muro de Berlim num único dia, dramatizando o total fracasso do mais portentoso começo-a-partir-do-zero de todos. Eu prevejo que o século XXI negará o conceito — típico do século XX — do Futuro como algo excitante, novo, inesperado e radiante; ou como o Progresso, para usar uma palavra antiquada. Já está claro que as grandes cidades, graças ao Reaprendizado, nem parecerão novas. Ao contrário: as cidades do ano 2000 já estão ficando mais parecidas com as cidades de 1900 do que com as cidades de 1980. Tanto na parte sul do Bronx novaiorquino quanto na parte sudeste de Atlanta, as casas financiadas pelo poder público ("os conjuntos residenciais") já não são construídas no estilo dos

espigões comerciais. Sua nova aparência é a das pequenas vilas suburbanas, ajardinadas e baixas, de Hampstead Heath em Londres. O século XXI terá um ar retrógrado e uma mentalidade retrógrada. As pessoas do nosso novo mundo covarde, confortavelmente instaladas em seus condomínios neogeorgianos, olharão com certo medo para o século recém-terminado. Verão o século XX como o século em que as guerras ganharam uma escala tal que foram batizadas de guerras mundiais, e como o século em que a tecnologia deu tamanho salto à frente que o homem desenvolveu a capacidade de destruir o próprio planeta — mas também a capacidade de escapar para as estrelas a bordo de espaçonaves, caso o planeta fosse pelos ares — e de brincar com os próprios genes. Mas acima de tudo, verão o século XX como o século em que seus antepassados tinham uma confíança espantosa e uma ousadia de Prometeu, a ponto de desafiar os deuses e tentar ampliar o poder e a liberdade do homem a extremos sem limites, seme-lhantes aos divinos. Olharão para trás com certo medo... mas sem a menor vontade de imitar a audácia daqueles que eliminaram todas as regras e tentaram recomeçar do zero. Em vez disso, afundarão cada vez mais em suas bergères neo-Luís, trocando ociosamente informações na Internet, matando o tempo feito matronas vitorianas fazendo crochê, costurando, remendando, tricotando e cosendo, satisfeitas por viverem no que será conhecido como o Século Sonolento, ou a Ressaca do Século XX.

Meus três patetas

P

osso garantir a vocês que levar onze anos para escrever um livro é de matar, em termos financeiros, uma cutelada na base do crânio no sentido físico e mental, um inferno para a sua família, e a imposição de um ambiente desmazelado para todos os envolvidos — em resumo, um desempenho injustifícável, que beira o vergonhoso. Ainda assim, foi o tempo que eu levei para escrever um livro, um romance chamado Um homem por inteiro. Onze anos. Meus filhos cresceram pensando que eu só fazia isso: escrever, sem jamais terminar, um livro chamado Um homem por inteiro. Por que levei tanto tempo? Como não tenho acesso ao número de emergência noturna do Dr. Freud, não tentarei entrar em questões que não compreendo. Mencionarei apenas uma coisa que sei que me custou anos. Cometi o pecado da hubris. Eu queria enfiar o mundo naquele romance, o mundo todo.

Lá fui eu para o Japão, na viagem mais cara da minha vida, porque o livro abraçaria o globo inteiro. Voltei com apenas duas pequenas informações que acho que poderia acrescentar ao conhecimento que meus compatriotas tem do Extreme Oriente. Primeira: morar numa casa com biombos shojis no lugar de paredes é mais bonito ainda do que vê-la retratada num livro de mesinha de centro, mas você escuta tudo à sua volta. Tudo. Segunda: nunca tente convidar dois empresários japoneses para passar três horas tomando uisque e jogando conversa fora num Rostess bar de Tóquio — a versão atualizada da casa de gueixas — com apenas 900 dólares no bolso. Quando a conta chegar você ficará, pelos padrões americanos, horrivelmente constrangido, e pelos padrões japoneses, fatalmente humilhado. Fatal. O livro também revelaria tudo que vocês poderiam querer saber sobre o mundo artístico americano, desde o topo do ainda valorizado (eu comecei em 1988) mercado de arte até a desgraça, a luta, a batalha e o desespero das vidas de todos os artistas desconhecidos que vivem lá embaixo. Passei meses — meses! — nessas profundezas. Aparentemente todas as escolas de arte — desde a Escola de Design de Rhode Island, na Costa Leste, até o Instituto de Artes da Califórnia, na Costa Oeste — dizem aos alunos, com bastante acuidade, que primeiro eles tem que se associar a alguma galeria nova-iorquina. Depois disso, poderão ser artistas onde quiserem; mas se não carimbarem seus passaportes em Nova York primeiro, jamais chegarão a lugar algum na carreira. E por isso eles vêm para as areas mais degradadas da metrópole, em massa, às dezenas de milhares; conseguem apenas aumentar os aluguéis uns dos outros em velhos bairros onde campeia a Jornada de trabalho excessiva e salários de fome, lugares decadentes, sujos, sem ar, sem árvores e sem grama, chamados SoHo, NoHo, Dumbo, TriBeCa e Wevar, que são as únicas favelas do mundo habitadas majoritariamente por jovens brancos com mestrado em belas-artes. Isso é interessante... e

completamente irrelevante para a história de Um homem por inteiro. O livro também desvendaria os bastidores da televisão e exporia o mundo dos noticiários televisivos; aos poucos fui desenvolvendo um enredo no qual um programa de reportagens empreendia uma elaborada operação de infiltração a fim de flagrar três soldados do Forte Bragg, na Carolina do Norte, que eram suspeitos num caso de assassinato. E por isso passei mais uma eternidade de tempo pesquisando. tanto as práticas dos noticiários das redes em Nova York quanto a vida militar no Forte Bragg e na alegre avenida adjacente, o Bulevar Bragg. Mas o que tudo isso tinha a ver com Um homem por inteiro, cuja ação se passa na Geórgia e na Califórnia? Nada. Deus sabe que levei bastante tempo pesquisando os assuntos que, de fato, acabaram tendo a ver diretamente com Um homem por inteiro: a vida nas plantações sulistas hoje em dia, a incorporação imobiliária comercial, os sistemas bancário e falimentar, a classe trabalhadora moderna, a vida nas prisões, os imigrantes asiáticos, a vida profissional e politica dos negros em Atlanta, a estrutura social, os costumes e os tabus de Atlanta, além daqueles relativos ao País das Lanchonetes que fica a leste de Oakland, na Califórnia. Lá fui eu visitar a cadeia de Santa Rita no condado de Alameda; os apartamentos geminados em Pittsburg; os sikhs e eritreus em Oakland; e os vietnamitas em Oakland e em Chamblee, na Georgia, que é uma cidadezinha antiga — e até bem pouco tempo rural — a leste de Atlanta, e que hoje está inchada de imigrantes asiáticos e mexicanos. Meus vietnamitas até se deram bem, mas meus sikhs só apareceram em quatro parágrafos do livro todo; meus eritreus, somente em um. Além de tentar explicar por que o romance me consumiu tanto tempo, enfatizo esses arroubos de repórter por outra razão. Em 1973 — catorze anos antes de publicar meu primeiro romance, ou seja,

quando eu ainda não era ficcionista — escrevi um ensaio sobre o que, na época, era conhecido como o "Novo Jornalismo". Nele eu dizia que o romance americano andava definhando devido a um preciosismo sobrenatural, mas que havia "um tremendo futuro para um tipo de romance que será chamado de romance jornalístico, ou talvez documental"; um romance de "intenso realismo social, baseado nas mesmas reportagens meticulosas que compõem o Novo Jornalismo". Em 1987 publiquei meu primeiro romance, A fogueira das vaidades, na esperança de provar minha tese. Consegui? Outros devem responder a essa pergunta. Só posso dizer que, diante da recepção obtida pelo romance, senti-me encorajado a escrever um ensaio para a Harper's Bazaar intitulado "Perseguindo a Fera de um Bilhão de Patas". Ali eu argumentava que àquela altura o romance americano se deteriorara, chegando a um estado tão "fraco, pálido e desvalido" que sua sobrevivência dependia de se espalhar, fosse como fosse, "um batalhão ou uma brigada de Zolas por este nosso país selvagem, bizarro, imprevisível e incrivelmente barroco, a fim de recuperá-lo como propriedade literária". Pois eu já identificara Zola como o gigante do romance jornalístico ou documental. Como isso era justamente o que eu fizera ao "documentar" (na expressão de Zola) e depois escrever A fogueira das vaidades, não deveria ter ficado surpreso quando algumas pessoas acharam que eu estava advogando em causa própria. Apesar de tudo, era nisso que eu acreditava, e em todo caso já estava profundamente envolvido nas reportagens para um livro que esperava que fosse outro romance de realismo zolaesco, Um homem por inteiro. À medida que os anos foram passando — dois, quatro, cinco, oito, dez, e finalmente onze — o suspense se intensificou. Não, apresso-me a acrescentar, no mundo lá fora, que parece capaz de conter com êxito sua própria empolgação — caso exista alguma — por estes assuntos, mas em mim; o

suspense no meu plexo solar era, asseguro a vocês, terrível. Os anos vinham se acumulando, tal como os riscos envolvidos, diante da minha pregação sobre o realismo ou o "naturalismo" (outra expressão de Zola). Minha editora, a Farrar, Straus & Giroux, aumentou ainda mais a aposta ao anunciar uma primeira edição de 1,2 milhão de exemplares para novembro de 1998, quando meu novo livro seria finalmente lançado. Tive a primeira pista sobre a recepção que Um homem por inteiro obteria por parte da crítica quando a Vanity Fair pediu que o escritor David Kamp fizesse uma matéria sobre O Homem Que Passou Onze Anos Escrevendo Um Livro e obteve uma cópia xerocada da maior parte do manuscrito de 2.300 páginas. Kamp abria a matéria assim: "Ele atravessa o vestíbulo: um vulto esbelto e elegante, resplandecente num... "Não, não, não! Nada de armar o cenário. Ao ponto: o livro é bom? "Relaxem, é. Foi preocupante essa espera de onze anos desde A fogueira das vaidades, mas o livro novo, que se chama Um homem por inteiro, contribui para aplacar rapidamente os temores de que Tom Wolfe só tivesse um romance decente na cabeça... É maravilhoso tê-lo de volta, senhor." E portanto eu relaxei, pela primeira vez em semanas. O que se seguiu foi tudo que um homem que acabara de passar onze anos escrevendo um livro podia almejar. Antes de continuar esta história — e é uma história com enredo, enredo esse que logo se adensa —, por favor deixem-me garantir uma coisa: sei, tanto quanto qualquer outro, que é deselegante um escritor demonstrar qualquer coisa que não seja displicência em relação a resenhas, publicidade e vendagem. Rimbaud provavelmente estabeleceu o

recorde de displicência quando, aos trinta e poucos anos de idade, viu-se saudado pelos críticos como o mais importante poeta francês e retrucou: "Merde pour lapoésie" Mas Arnold Bennett, o romancista inglês e autor de um livro que foi um sucesso fabuloso, The Old Wives Tale (1908), também não fez feio quando disse: "Eu não leio minhas resenhas; meço seu tamanho." Portanto, por favor acreditem em mim quando digo que só vou entrar nesses assuntos grosseiros — resenhas, publicidade e vendagem — por que eles são essenciais ao entendimento de nossa história. Primeiro, as resenhas. Todas as publicações que as pessoas consultam imediatamente para avaliar o sucesso ou o fracasso de um livro novo foram pródigas em elogios; mais pródigas até, para dizer a verdade, do que eu poderia jamais esperar, a começar pelo avaliador mais importante de todos, o New York Times Book Review. Ao longo dos anos, já me sai bem no Times algumas vezes, e também já levei minhas bordoadas, mas tenho que dizer que este round foi a meu favor. O resenhista, Michael Lewis, escreveu: "O romance contém alguns dos trechos mais poderosos e belos já escritos — não apenas por urn romancista americano contemporâneo, mas por qualquer romancista americano." Depois acrescentou: "O livro é tão engraçado quanto os outros que Wolfe já escreveu; e ao mesmo tempo é estranho e profundamente tocante." No Wall Street Journal, Andrew Ferguson disse que o livro era "uma obra-prima" e "uma realização superior à de 'Fogueira': mais rica, mais profunda, mais tocante e mais humana". Na Newsweek, Malcolm Jones disse: "No momento, não há escritor — repórter ou romancista — que esteja colocando a coisa (o Zeitgeist) no papel melhor do que Tom Wolfe." No New York Times diário, Michiko Kakutani disse que não gostou do final do livro, mas à luz do que ela tinha a dizer sobre o resto de Um homem por inteiro, eu certamente não podia reclamar. A piece de resistance, no entanto, foi uma longa resenha com perfil feita pelo altamente

respeitado Paul Gray na Time; isto para não falar do meu retrato, que saiu na capa da revista. "Nenhum resumo de Um homem por inteiro", escreveu Gray, "pode fazer justiça ao que esse romance apresenta em termos de nuanças éticas e ritmo infernal, alcance social e intrincado entrelaçamento de responsabilidades públicas e privadas, sensação de urgência ao relatar acontecimentos atuais e profundidade ao retratar pessoas em ação no trabalho. Quem, além de Wolfe, teria pensado que o funcionamento bancário e as transações imobiliárias poderiam dar material para uma obra de ficção arrebatadora?" Pensando melhor, preciso realmente mencionar aquela capa da Time. Sinceramente, eu coro com facilidade, e juro a vocês que só relato o que se segue por ser essencial para a compreensão do que outras pessoas estavam prestes a fazer. Nos Estados Unidos, a noticia de que Fulano de Tal "ganhou a capa da Time" sempre teve uma ressonância especial, fosse qual fosse o campo de ação da pessoa, e ao longo das duas ultimas décadas foi bem raro ver-se o retrato de um romancista na capa da revista. Mas lá estava eu, não só na capa, mas na capa e de jaquetão branco, colete branco e chapéu de feltro branco, com sulco no meio e abas ligeiramente recurvadas, segurando um par de luvas de pelica brancas numa das mãos e uma bengala branca na outra. A manchete dizia em letras grandes: Tom Wolfe escreve novamente. Embaixo disso, em letras menores, lia-se: "O romancista do barato branco está de volta com Um homem por inteiro. Mais de um milhão de exemplares, antes de alguém ler uma só palavra!" Não foi só isso: pela primeira vez em sua história, a Time imprimiu sua logomarca, a famosa TIME, em branco sobre um fundo branco, com apenas um sombreamento cinzento para que o leitor visse que as letras estavam ali. A capa inteira, inclusive a parte gráfica, era um tributo ao "romancista do branco". Não percebi isso na época, mas tratava-se de uma música premonitória, como se

diz nos círculos cinematográficos, do que estava prestes a ocorrer. E a vendagem? Para mim, de todos os assuntos este é o mais constrangedor a abordar, e realmente peço desculpas, mas não tenho escolha; como estamos prestes a ver, outros insistiram em tocar nisso. A vendagem de Um homem por inteiro foi às alturas assim que o livro chegou às livrarias. O Wall Street Journal fez uma matéria sobre o retrato de Atlanta traçado no livro, com a manchete "Tom Wolfe Arrasa Atlanta"; aí o ex-prefeito da cidade, Sam Massell, anunciou que estava retirando o convite para que eu falasse perante um grupo de empresários, O Grupo Buckhead. Portanto, quando cheguei a Atlanta na semana seguinte, durante a excursão promocional do livro, eu não sabia o que esperar. Pois eles estavam esperando por mim — em filas nas livrarias. Na primeira noite que passei na cidade, na livraria Borders, em Buckhead, assinei os exemplares de 2.300 pessoas em quatro horas. A Borders é uma loja grande, mas a fila estendia-se pela calçada de Lenox Road. O livro se vendeu de forma tão rápida que não teve que ir galgando posições na lista de mais vendidos do New York Times. Entrou logo no primeiro lugar e ficou dez semanas em primeiro, por toda a temporada natalina e até bem depois. Os exemplares de capa dura foram vendidos no ritmo das edições de bolso de sucesso, três ou quatro vezes mais depressa do que o costumeiro capa-dura campeão. Não só se esgotou a primeira edição, já enorme, como também se esgotaram sete edições subsequentes de 25 mil exemplares cada uma. É constrangedor ser compelido a resumir as coisas com tanta franqueza, mas com a maior brevidade possível, eis o que temos aqui: um romance aclamado pela crítica, vendido num ritmo estonteante e cercado pela glória da publicidade. E assim, temos o cenário armado para o que aconteceu a seguir, e que foi uma coisa extraordinária. Já pesquisei e não encontrei nada parecido nos anais da literatura americana. Três romancistas americanos de grande

renome, com longos anos e muito prestígio nas costas — John Updike, Norman Mailer e John Irving — ergueram-se para atacar Um homem por inteiro. Três velhos romancistas famosos sairam de seus nichos na história literária para lançar um anátema sobre um romance novo específico. Se algo comparável — ainda que remotamente — a isso já aconteceu antes, certamente escapou à minha atenção. John Updike, que na época tinha sessenta e seis anos, gastou quatro páginas na The New Yorker antes de concluir, com considerável solenidade, que Um homem por inteiro não deveria ser considerado literatura, e sim "entretenimento", e nem mesmo — continuava ele, como que para garantir que os leitores entendessem a crucial distinção entre uma experiência agradável e as coisas mais elevadas — "literatura numa modesta forma aspirante". Além disso, dizia ele, o autor não era um romancista, e sim um "jornalista". Henry James, dizia Updike, ensinou-nos que a literatura tem de ser "sofisticada", e esse jornalista, Wolfe, "não conseguia ser sofisticado". Norman Mailer, aos setenta e cinco anos de idade, gastou seis páginas da New York Review of Books — seis páginas num periódico do tamanho de um jornal, coberto de texto — para decretar que Um homem por inteiro não deveria ser tornado como literatura, e sim como um "Megabestseller". Além disso, o autor não era um romancista, e sim um "jornalista que já não pertence a nós (se é que um dia pertenceu!), mas se afastou e agora vive no Reino King Kong dos Megabestsellers". Lembro-me de ter dito para mim mesmo: "Nós? Ele disse nós? Nós, quem?" Francamente, eu fiquei estupefato; não que eles dois não aprovassem meu livro, mas que a esta altura da vida ainda se dessem ao trabalho de fazer este tipo de coisa. "Meu Deus, aqueles dois velhos encarquilhados!", disse eu aos repórteres que já

começavam a clamar por entrevistas. "Eles tem a minha idade!" Eu tinha sessenta e oito anos. Sabia o esforço que aquilo devia ter sido para eles. Como eles podiam ter gasto horas incontáveis desfiando milhares e milhares de palavras — os dois velhotes amalucados haviam escrito páginas e mais páginasl — para resenhar um romance? Como aqueles dois cidadãos já idosos haviam conseguido encontrar tanta energia em suas carcaças exaustas? Updike já vivia reclamando de sua bexiga velha em entrevistas. E notei que Mailer aparecia nas fotografias dos jornais apoiando-se em duas bengalas, uma para cada quadril enferrujado. A maneira que John Irving, que tinha cinquenta e sete anos, escolheu para juntar-se a seus pares mais velhos nessa obsessão por Um homem por inteiro não exigiu uma labuta tão debilitante, mas seu custo emocional pode ter sido ainda maior. Irving teve um acesso de raiva na televisão. Ele estava em Toronto, fazendo uma aparição no programa Hot Type a fim de promover um livro sobre a adaptação cinematográfica de seu romance The Cider House Rules; o apresentador do programa, um rapaz competente e provocador chamado Evan Solomon, mencionou Um homem por inteiro, já sabendo da reação que o livro provocara em Updike e Mailer. Mais tarde assisti ao programa gravado, e achei fascinante os cinco minutos que se seguiram a essa menção. O rosto de Irving se avermelhou. Suas mandíbulas sexagenárias estremeceram. Ele começou a xingar. Os técnicos do programa mal conseguiam acompanhar nos botões do bipe o ritmo dos palavrões dele. "O problema do Wolfe é que ele não sabe escrever, bipe! Ele não é um escritorl E só abrir uma bipe de um livro dele! Tente ler a bipe de uma frase! Você vai vomitar antes de terminar! O que ele escreve nem é literatura, é... baboseiral Ele não escreve romances, escreve hipérboles jornalísticas! Você não conseguiria ensinar aquela bipe nem para

uma bipe de um calouro de universidade numa bipe de uma turma de inglês!", e assim por diante, no mesmo estilo. Foi estarrecedor. Não tenho a pretensão de dominar a leitura labial, mas não era preciso ser um grande perito para decodificar aqueles bipes, que começavam com m e p e eram pronunciados por um lábio inferior mordido com amargura. Evan Solomon ficou cobrindo o rosto com a mão e sorrindo ao mesmo tempo, como quem diz: "Como esse bobalhão pode se expor dessa maneira? Mas, oba, para o programa é maravilhoso!" Evan gostou tanto daquilo que me ligou e perguntou se eu gostaria de ir ao programa para responder. Eu disse que ficaria encantado, se ele tivesse a bondade de vir a Nova York para a gravação. Ele fez isso, e quando a fita começou a rolar, perguntou: — Um dos mais importantes romancistas dos Estados Unidos, John Irving, diz que você simplesmente não sabe escrever. Que você não é um escritor. Você se sente mal por isso? — Mal? — ouvi-me dizendo. — Por que eu deveria me sentir mal? Agora já tenho todos os três. Todos os três? — Larry, Curly e Moe. Updike, Mailer e Irving. Os meus três patetas. Patetas? A palavra me parecia adequada. Literalmente, nas comédias de língua inglesa, um pateta é um sujeito sério que dá as deixas para o ator principal de uma peça. Meus três patetas estavam tão irritados com Um homem por inteiro que estavam me dando deixas que eu não teria conseguido inventar nem se eles tivessem me pedido para escrever o roteiro para eles. — Você está dizendo que eles tem inveja do seu sucesso? É isso?

De jeito algum. E claro que os agentes alérgenos do ciume estavam presentes. Tanto Updike quanto Mailer haviam lançado livros na mesma época de Um homem por inteiro, e os dois haviam afundado sem sequer criar bolhas. Já com Irving havia o fator Dickens. "Irving é um grande admirador de Dickens", eu disse a Evan. "Acho que ele gostaria de ser comparado a Dickens. Mas que escritor ele vê, hoje, durante o ultimo ano, constantemente comparado a Dickens? John Irving? Não, Tom Wolfe. Ele deve ficar terrivelmente incomodado com isso." E quern "ganhara a capa da Time"! Só isso já teria sido suficiente para fazer meus três patetas subirem pelas paredes, pelo que conheço deles. "Eles devem estar meio chateados por ver todo mundo — inclusive eles — falando de mim, e ninguém andar falando deles'". Mas não, eu não achava que era inveja no sentido simples de desprazer diante do sucesso de um rival. Será que eu achava que havia no ar alguma animosidade pessoal devido a velhas disputas não resolvidas? Ah, as pessoas já haviam sugerido isso, mas eu não concordava. Anos atrás, quando eu era repórter do Herald Tribune de Nova York, muito antes de escrever meu primeiro livro, resenhei um romance de Mailer, Um sonho americano, e disse que o livro era um pastiche mecânico e desajeitado de Crime e castigo, de Dostoievski. (Coisa que era, ou então o conceito de sincronicidade de Jung é mais verdadeiro do que ele mesmo achava.) Na mesma época, debochei de Updike nuns dois artigos de jornal. (Urn deles, por acaso, está disponível no fim deste livro: chama-se O Caso New Yorker.) Mas tudo isso foi há décadas. E com Irving o placar estava absolutamente zerado. Não tínhamos velhas disputas, resolvidas ou não. Então o que era? Algo muito mais óbvio, disse eu a Evan. Um homem por inteiro os assustara. Eles estavam abalados. Era só isso. Um homem por inteiro era um exemplo — um

exemplo alarmantemente visível — do rumo possível e na verdade provável da literatura ao final do século XX e começo do XXI: o romance intensamente realista, baseado em reportagens, que mergulha de peito aberto na realidade social dos Estados Unidos hoje, neste instante. Tratava-se de uma revolução de conteudo — e não de forma — que estava prestes a varrer as artes americanas; uma revolução que logo faria muitos artistas de prestigio, como esses três velhos romancistas, parecerem estéreis e irrelevantes. Os três haviam se erguido como um só homem para fazer não só uma acusação, mas um pedido. O pedido era que Um homem por inteiro fosse visto como algo... proibido. Os três gritos eram iguais. Nossos três anciãos haviam gritado: "Anátema!" Updike dissera: "Não estamos lidando com literatura neste caso", nem mesmo com "literatura numa modesta forma aspirante", e sim com "entretenimento". Irving dissera: "Não estamos nem lidando com um romance neste caso, e muito menos com literatura; estamos lidando com uma 'hipérbole jornalística', com baboseira, com bipe." Mailer dissera: "Não estamos lidando com uma criatura legítima neste caso, e sim com um bastardo, um 'mega-best-seller', cujo criador dissoluto "já não pertence a nós (se é que um dia já pertenceu!)." Nós. Nós, quern? Esse nós referia-se a quem pertencia ao "mundo literário", na terminologia de Mailer. Um homem por inteiro e seu autor habitavam um lugar inteiramente diferente, "o Reino King Kong dos Megabestsellers". Em outras palavras, Wolfe e seu maldito livro estavam... do outro lado do tapume, sendo um tapume (originalmente sinédoque de cerca) uma area de conduta permissivel com limites definidos. Tudo que esíá do outro lado do tapume não conta... e nós, membros do mundo literário, não temos que ser medidos por isso.

Shakespeare, Balzac, Dickens, Dostoievski, Tolstoi, Gogol, Zola, Ibsen e Shaw, para não falar de Mark Twain, foram imensamente populares em sua própria época. Dickens, Dostoievski, Tolstoi e Zola publicavam seus romances sob a forma de folhetins; Ibsen e Shaw vangloriavam-se de seu sucesso nas bilheterias. Todos teriam se divertido muito com essa tentativa de colocar a literatura do lado de cá da cerca, e o entretenimento e a popularidade do lado de lá. Como meus três patetas haviam conseguido se colocar em posição tão ridícula? Não era difícil explicar. Bastava pen-sar no tipo de romance que eles vinham escrevendo. O romance que Mailer pusera no mercado à época da publicação de Um homem por inteiro era uma autobiografia de Jesus — sim, uma autobiografia de Jesus — chamada O evangelho segundo o filho. O livro que Updike acabara de publicar, Bech at Bay, era composto por histórias sobre a irritação de um escritor chamado Bech, de setenta e tantos anos de idade, com o status decadente do homem de letras nos Estados Unidos. O romance anterior de Updike, tal como a autobiografia de Jesus feita por Mailer, era uma fantasia, Toward the End of Time (Rumo ao final do tempo), e retratava uma cidadezinha ao norte de Boston no ano 2020, depois de uma guerra entre os Estados Unidos e a China. O último romance de Irving, Viúva por um ano (1996), era sobre dois escritores neuróticos que pareciam incapazes de sair de uma casa em Bridgehampton, Long Island. Fiquei esperando, enquanto as páginas se alongavam, que eles tivessem a gentileza de ir até a cidade, ao menos uma vez, embora a cidade — já estive lá — seja apenas um trecho de dois quarteirões ao longo de uma rodovia de duas pistas. A certa altura os dois... saem de casa! Entram num carro! Passam por uma vilazinha próxima chamada Sagaponack, um adorável retirozinho no estilo rural-chique da região —já estive lá também. A essa altura eu já estava implorando que eles parassem, estacionassem perto dos jipões offroads e sedãs alemães, e tomassem um refrigerante numa loja de conveniência que flea na rua Principal.

Depois podiam dar uma olhada, só uma olhada, no pasto da Escola de Equitação Topping e ver um pônei de caça que faz espetáculos de exibição lá e custa 125 mil dólares. Podiam fazer alguma coisa — qualquer coisa — para mostrar que estavam ligados ao aqui e agora, que realmente existiam onde o autor afirma que eles existiam: Long Island, nos Estados Unidos! Mas eles não me escutaram... simplesmente foram em frente, encasulados em sua neurastenia... e desapareceram atrás das paredes de outra casa abstrata e intemporal. Com isso eu queria dizer que John Irving não tinha talento, exatamente como ele disse que eu não tinha talento? "De jeito algum", disse eu a Evan. "John Irving é um escritor talentoso. Norman Mailer é um escritor talentoso. John Updike é um escritor talentoso. Só estou dizendo que eles desperdiçaram suas carreiras ao não se ligarem na vida ao seu redor", dando as costas ao rico material de um país incrível num momento fabuloso da história. Em vez de sair para o mundo, em vez de mergulhar no (para mim) irresistivelmente lúrido carnaval da vida americana hoje, no aqui e agora, em vez de partir com brados dionisiacos de aceitação — como diria Nietzsche — para a confusão ardente, ruidosa e encharcada de luxúria que pulsa com amplificados tambores octofônicos ao seu redor, nossos velhos leões recuaram e bateram em retirada, protegendo os olhos contra a luz e voltando-se interiormente para questões tais como seu próprio umbigo, ou seja, "o mundo literário", ou então coisas totalmente fantasmagóricas como os pensamentos presumidos de Jesus. Mas como eu podia dizer isso de Mailer?, perguntou Evan. E A canção do carrasco, o romance que Mailer escreveu em 1979 sobre o caso de Gary Gilmore (no qual um assassino condenado insistia, para desgosto dos ativistas contrários à pena de morte, em tornar-

se o primeiro americano executado pelo Estado em mais de dez anos)? Eu não diria isso sobre A canção do carrasco, disse eu a ele. "Norman deveria ter aprendido uma lição com aquele livro, mas obviamente não aprendeu." A carreira de Mailer já vinha mal das pernas havia mais de cinco anos, mas um dia surgira um notável Papai Noel chamado Lawrence Schiller. Ele trazia caixotes cheios de transcrições das entrevistas que fizera, tanto com Gary Gilmore quanto com os familiares e outras pessoas envolvidas na vida e na morte de Gilmore, a qual tivera repercussão internacional. Visitara Gilmore na cadeia várias vezes, e testemunhara a execução. Schiller era fotógrafo, mas virara um repórter com uma especialidade incomum. Ele reunia material para livros sobre assuntos polêmicos e depois procurava autores para escrevê-los em parceria. Mailer pegou a mina de ouro jornalística de Schiller e escreveu o que acabou sendo o unico romance bom que ele escreveria depois do primeiro, Os nus e os mortos, ainda em 1948. Mais tarde, Schiller declarou que entrevistara "quase cem pessoas no periodo de um ano e meio, preparando todo aquele material... Mailer não entrevistou ninguém, e não esteve presente a nenhum dos acontecimentos". Não consigo imaginar por que Mailer não tirou a conclusão óbvia, partindo pessoalmente país afora como repórter antes de escrever seu próximo romance. Podia pelo menos ter feito isso antes de assinar outro contrato com Schiller, ou de escrever os romances fantasmagóricos que se seguiram. Por falar nisso, não sei o que pode ter levado John Irving a passar mais de quatro anos escrevendo Um filho do circo — um romance de 633 páginas ambientado na India — e a publicá-lo com um prefácio que diz: "Isto não é um romance sobre a India. Não conheço a India. Só estive lá uma vez, por menos de um mês. Nessa ocasião, fiquei espantado com o exotismo do país, que permanece

teimosamente exótico para mim." Não conheço a India. Era verdade, e isso só torna a coisa ainda mais estranha. Um filho do circo, com suas 633 páginas, não é um romance sobre a India, nem sobre qualquer outro lugar deste mundo. O livro afundou sem deixar traço. Depois de minha entrevista a Evan Solomon, John Updike publicou um novo romance, Gertrude e Claudio; é mais uma história sobrenatural, desta vez sobre o que ocorreu na familia de Hamlet antes dos acontecimentos retratados na peça de Shakespeare. O livro foi recebido com simpatia, respeito e coleguismo por... nós... do mundo literário, e depois, de forma decepcionante, desapareceu da tela do radar. Nós pertencíamos a um mundo; eles, os leitores em geral, a outro. Eles perderam o interesse tão completa e rapidamente que o New York Times fez uma matéria sobre o assunto, onde também eram mencionados outros escritores altamente "literários" cujos romances à época, similar e devidamente elogiados por nós, haviam sofrido o mesmo destino. Como os outros (Saul Bellow era um deles) tinham mais ou menos a idade de Updike, o Times perguntava se aquilo não poderia ser um problema de toda uma geração de autores mais velhos, cujo trabalho já não repercutia no meio de uma platéia mais jovem. Mas Updike tinha uma análise própria: a culpa era dos leitores. "O gosto geral ficou mais grosseiro", disse ele numa entrevista. "As pessoas hoje lêem menos, têm dificuldade com a palavra escrita. Tern dificuldade com os romances. Não têm uma estrutura de referenda anterior para poderem apreciar coisas como ironias e alusões. É triste." As livrarias de aeroportos não estocavam nada que pudesse ser classificado de literatura, disse ele, e quando você subia no avião via que as pessoas estavam lendo apenas o lixo vendido naquelas livrarias. Com uma resignação digna do Crepúsculo dos Deuses, ele descrevia como as coisas eram antigamente, antes de os leitores haverem se tornado o que eram hoje, ou

seja: grosseiros, burros e mais burros. "Quando eu era garoto, os livros mais vendidos geralmente eram os livros que você via na prateleira do seu professor de piano. Um sujeito como Steinbeck era um campeão de vendas, assim como um autor de altas pretensões, ganhador do prêmio Nobel. Você não sente isso hoje em dia. Eu não sinto que a gente tenha a fusão do sério com o pop — isso se foi, se dissolveu... Está desaparecendo o tipo de leitor que fazia com que valesse a pena publicar as obras de um escritor literário." Será que meus olhos estavam me enganando? Será que aquele homem estava realmente dizendo que a falta de interesse no romance "literário" no ano 2000 era culpa dos leitores? Que ele, John Updike, era vítima de uma nova doença cultural, a Deficiência dos Leitores? E para isso ele invocava o nome de John Steinbeck, que escrevera numa época mais feliz, quando o professor de piano de Updike lia grandes autores? Como ele podia se arriscar até a mencionar Steinbeck? Só posso achar que ele de fato se considera, consciente e deliberadamente, o meu pateta: um sujeito sério cujo papel é me dar deixas desse tipo... O maior triunfo da carreira de Steinbeck foi As vinhas da ira, romance que ele escreveu sobre a Grande Depressão da década de 1930, publicado em 1939. Ele já escrevera Tortilla Flat (1935), um best-seller cujos direitos vendera para o cinema, e o altamente elogiado In Dubions Battle (1936), que vendera razoavelmente bem. Estava terminando Ratos e homens — que se tornou um sucesso maior ainda em 1937, e foi posteriormente transformado em peça e filme de sucesso — quando aceitou uma encomenda do San Francisco News: escrever uma série de artigos jornalísticos sobre os migrantes do estado de Oklahoma, que andavam fugindo da seca no Sudoeste e indo em massa para a Califórnia, à cata de trabalho nos enormes empreendimentos agrícolas de lá. Steinbeck não estava interessado no dinheiro ou no jornalismo, e sim em reunir material para o que ele

visualizava como um "'livro grande", um romance numa escala maior do que a dos livros relativamente econômicos que escrevera até então. Comprou um velho caminhão de entregas, como dizia, encheu-o de comida e cobertores, e preparou-se para fazer o trabalho de campo, a sua documentação: estudar os migrantes, que viviam em acampamentos improvisados e trabalhavam por apenas 12,5 centavos de dólar por dia. Na época, a opinião pública não tinha conhecimento da existência desses campos, e muito menos das condições chocantes em que aquelas pessoas trabalhavam. Steinbeck era fascinado pela teoria "organicista" de um amigo biólogo, William Emerson Ritter, que acreditava que o ser humano individual vivia — inevitavelmente, e sem saber disso — como parte de um organismo social maior, à maneira dos "superorganismos" multiunitários conhecidos pela biologia marinha, e que o todo era, inevitavelmente, maior do que a soma de suas partes. Pela mesma razão, nenhum organismo isolado poderia ser compreendido sem que a colônia inteira fosse observada e compreendida. (Ou seja, Ritter tinha meio século de dianteira no que atualmente é um dos campos mais quentes da ciência, a "sociobiologia".) Steinbeck partiu para o campo com seu caminhão de entregas e começou a percorrer os acampamentos, dia após dia, documentando todo aquele complexo "organicista" e procurando "organismos" individuais que dessem vida ao todo em forma de história. Em um acampamento improvisado em San Joaquin Valley, ele esbarrou com um homem que morava com a esposa e três filhos num barraco feito de galhos de salgueiro e latas achatadas, dormindo embaixo de um pedaço de carpete. A mulher acabara de parir uma criança morta, a segunda natimorta em um ano. Foi a degradação deles que forneceu a Steinbeck a idéia da tragédia da família Joad. Ele concebeu os Joad como tipos, como espécimes, como um grupo de gente que representava toda 18a a experiência dos refugiados da seca; ainda assim, Ma Joad e seu

filho rebelde, Tom, assomam nas páginas de As vinhas da ira como dois dos indivíduos mais carismáticos da flcção americana. Sem se afastar do naturalismo zolaesco de sua abordagem, Steinbeck consegue, no fim do livro, fazer de Tom a corporificação da vontade, por parte dos migrantes de Oklahoma, não só de viver como resistir. Ma Joad e Tom tornam-se a alma, na terminologia de Ritter, do todo que é maior que a soma de suas partes. As vinhas da ira é um clássico exemplo americano do método que Zola inventou para escrever um romance: sair do gabinete, partir mundo afora, documentar a sociedade, ligar a psicologia individual ao contexto social, e dar-se combustível suficiente para exercitar ao máximo seus poderes como escritor — fazendo o leitor se absorver totalmente. E Steinbeck é o nome que Updike invoca para explicar o fracasso de três romances, dois de fantasia e um terceiro ambientado naquilo que é uma fenda entre os dedos do pé da vida contemporânea, "o mundo literário"? Duvido que muita gente — mesmo nessa fenda — negue que a estatura do romance americano vem declinando constantemente desde seus dias de glória, antes da Segun-da Guerra Mundial. O grande periodo ocorreu entre a publicação de Sister Carrie, de Theodore Dreiser, em 1900, e As vinhas da ira, de Steinbeck, em 1939. Foi a época de John Dos Passos, Edith Wharton, Sinclair Lewis, Ellen Glasgow, Sherwood Anderson, Willa Cather, Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Zora Neale Hurston, Thomas Wolfe, James T. Farrell, Richard Wright, James M. Cain, John O'Hara e William Faulkner. Foi o periodo em que a ficção americana não apenas começou a ser levada a sério na Europa pela primeira vez, como também começou a influenciar os escritores europeus. Sartre ficou tão impressionado com John Dos Passos que escreveu sua trilogia sobre a Segunda Guerra Mundial — A idade da razão, Sursis e Com a morte na alma — emulando

desavergonhadamente a trilogia de Dos Passos, U.S.A. Qual é o veio que corre de Dreiser a Steinbeck? Em 1942, Alfred Kazin, ao escrever sua história literária crítica do periodo, On Native Grounds, identificou pela primeira vez "o maior fato isolado acerca da moderna literatura americana: a absorção de nossos escritores em cada detalhe do mundo americano, junto com uma sutil e profunda alienação desse mesmo mundo". Essa "absorção em eada detalhe do mundo americano" jamais variava, pouco importando qual era o humor do autor. Steinbeck talvez estivesse com raiva quando escreveu As vinhas da ira; Dreiser talvez estivesse desiludido quando escreveu Sister Carrie; e Sinclair Lewis talvez tivesse uma visão menckeniana do absurdo do espetáculo ao seu redor quando escreveu Rua principal, Babbitt, Elmer Gantry e Arrowsmith, pelos quais tornou-se o primeiro americano a ganhar o prêmio Nobel de Literatura. Mas todos mergulharam de peito aberto naquele espetáculo, deliciando-se com "cada detalhe" daquilo, e reconheceram a importância de sair dos limites de sua própria experiência pessoal a fim de obter material para seus romances... Dreiser baseou o enredo de Sister Carrie nas ligações sexuais de uma de suas irmãs, mas o rico tecido do livro foi fornecido por seu trabalho como reporter jornalistico em Chicago, St. Louis, Pittsburgh e Nova York. Tal como Zola e Steinbeck, Lewis partiu como um reporter, usando fichas de tamanho 5X8 a fim de reunir material não só para Babbitt e Elmer Gantry, mas também para Rua principal, que era sobre a cidade onde ele fora criado, Sauk Centre, em Minnesota. Tal como Balzac, Dickens, Zola e Mark Twain, eles debochavam, atacavam e desnudavam a sociedade ao seu redor, mas sempre como membros dessa sociedade. Desmascaravam e chocavam a burguesia, mas nunca do ponto de vista de "artistas" chegando

de um mundo diferente. Como disse Kazin: "Eles eram participantes de uma experiência comum, que deu ao romance americano a maior amplidão democrática possível em termos de assunto e tema. e tinha um interesse avassalador no povo americano em toda a sua variedade." No discurso com que aceitou o prêmio Nobel em Estocolmo, em 1930, Sinclair Lewis exortou seus compatriotas romancistas a "dar aos Estados Unidos uma literatura digna de sua grandeza". Alguém consegue imaginar os meus três patetas exprimindo tal sentimento? Alguém consegue imaginá-los ao menos pensando se os escritores devem algo aos Estados Unidos? E que história é essa de "grandeza"? A literatura virou geografia? A não ser que estejam mantendo segredo, meus três patetas não fazem idéia da causa do declínio do seu "mundo literário", e nem sabem por que eles próprios se tornaram tão isolados, estéreis e irrelevantes. E aqui chegamos à suprema ironia da história literária americana até agora. No século XX nosso país superou a Europa em todos os aspectos, menos um. Nos assuntos "intelectuais", como já mencionei neste livro em "O país dos marxistas rococós", continuamos a ser pequenos caipiras suados, eternamente tentando imitar a Europa, e acima de tudo a Franca. Entre 1830 e 1840, Balzac, Stendhal e Dickens criaram o romance de intenso naturalismo cotidiano — de petits faits vrais, na expressão de Stendhal, e de "naturalismo", na de Zola — a fim de dar vida em forma narrativa à nova situação européia após as revoluções francesa e industrial. Isto tornou-se a abordagem "moderna" à arte, a tal ponto que em 1863 até Baudelaire, cuja influência acabaria sendo algo bastante diferente, tecia loas (em seu ensaio O pintor da vida moderna) a um pintor chamado Constantine Guys, o qual gostava de sair do ateliê e observar o burburinho promíscuo nas ruas de Paris, nos campos esportivos e nas frentes de batalha. Ele registrava meticulosamente os trajes, os uniformes, as carruagens, os cavalos, as

armas, os penteados, as expressões e os gestos de sua época. Baudelaire dizia que na arte já não bastava a abordagem imemorial, clássica e espiritualmente elevada. Para captar a beleza da vida moderna, o artista tinha que saber combinar o sublime com o intensamente real, com os petits faits vrais do aqui e agora de Stendhal. Essa abordagem eleva a literatura a um platô do qual é impossível descer sem sacrificar a força integral desse meio de expressão — e sem perder grande parte da platéia. A moda intelectual, no entanto, é outro assunto. O naturalismo mal durou cinqiienta anos como o modismo intelectual remante da Europa. O historiador intelectual Arnold Hauser narra que em 1891 um jornalista francos, Jules Huret, perguntou a sessenta e quatro proeminentes autores franceses se eles achavam que o naturalismo ainda era uma tradição literária vital. Caso já não fosse, perguntava ainda Huret, o que tomaria o seu lugar? A maioria esmagadora caracterizou o naturalismo como morto e acabado, exprimindo entusiasmo pela nova poesia simbolista, as obras de Mallarmé, de Rimbaud, de Verlaine e, acima de tudo, do pai do simbolismo, o velho fa de Constantine Guys: Baudelaire. Foi a essa altura que a poesia que queria ser considerada séria começou a se tornar difícil. Os poetas sérios começaram a tornar seu trabalho dificil de compreender, a fim de mostrar que pairavam acima da ralé, já então conhecida como a burguesia. Eles escreviam para o que o crítico francês Catulle Mendès chamava de "uma aristocracia encantadora, uma elite nesta época de democracia". Havia algo de vulgar e ordinário em se bater na tecla do "significado". A poesia existia para produzir sopros de sensibilidade no estilo de Mallarmé. Eram sopros requintados; e "requintado" tornou-se uma palavra muito importante. Esse modismo ja-mais enfraqueceu; foi se tornando cada vez mais forte e espalhou-se pelo Ocidente. Atualmente é difícil para o leitor — qualquer leitor — entender qualquer poeta "sério", embora alguns sejam mais "acessíveis" do que outros. Eu adoro a palavra "acessível". É

como se os poetas sérios morassem em cavernas. Você pode chegar a alguns deles em seu jipão offroad 4x4. Mas só consegue chegar a centenas de metros de alguns outros com o veiculo; tern que percorrer o resto do caminho pendurado em cipós, palmo a palmo. E simplesmente não consegue chegar a outros mais; tem que admirá-los à distância. Hoje em dia Edgar Allan Poe, longe de ser publicado por qualquer periódico universitário quadrimestral que se respeite, estaria trabalhando na Thompson Creative, empresa especializada em comeciais radiofônicos. E assim, também, que o "mundo literário" é criado, para ser habitado exclusivamente por nós, escritores "literários", que somos diferentes dos escritores lidos por leitores comuns, que, como já sabemos, são grosseiros e surdos à requintada música da alusão e da ironia. Portanto, o que havia na França na época de Mallarmé era um modismo entre os presumidamente literatos, e que, tal como os modismos de vestuário, existia apenas para outorgar um status especial a quem o exibisse. Os leitores, porém, nada tinham com isso. Em 1891, quando Huret publicou os resultados de sua pesquisa, viu-se que o gosto dos leitores não sofrera a menor mudança. Zola ainda era o escritor mais popular da França (e provavelmente do mundo), e Maupassant era o segundo. Nos Estados Unidos, na década de 1890, escritores como Dreiser e Frank Norris foram influenciados pelo naturalismo francês, não porque este fosse francês e estivesse na moda, mas porque exercia tamanho poder sobre os leitores. Os únicos romancistas americanos imediatamente influenciados pelo esteticismo francos foram os emigrados como Henry James. Ele — tal como Procuste, Joyce e George Meredith — afastou-se tanto desse negócio vulgar de personagens dickensianos e enredos melodramáticos que, como diz Hauser, seus personagens "parecem mover-se num vácuo, comparados ao mundo de Stendhal, Balzac, Flaubert, Tolstoi e Dostoievski". Henry James nem se importava com as atenções da plebe, isto é, dos leitores comuns. Tornou-se o primeiro grande

escritor a espalhar um sopro de sensibilidade na literatura americana. Só depois da Primeira Guerra Mundial é que nasceu o tal colono suado, o "intelectual" americano, que viria dar mais valor a um Henry James do que a um Dreiser, um Dos Passos ou um Sinclair Lewis. Foram nossos intelectuais coloniais que, no começo dos anos 50, finalmente conseguiram transplantar o "aristocrático e encantador" desprezo francês pelo naturalismo para os círculos literários americanos, levando à suprema — e supremamente estrábica — ironia que mencionei no início. Isso me faz lembrar do maravilhoso — em outro contexto — conceito de Malcolm Muggeridge, em que um exército conquista uma grande vitória e aí, no momento triunfal, inexplicavelmente ergue a bandeira branca e se rende ao inimigo. Assim que a versão americana do romance naturalista surgiu triunfante no palco mundial, os intelectuais americanos começaram a declarála morta, acabada, exaurida e impraticável. Lionel Trilling, um professor de inglês da Universidade de Columbia, escreveu em 1948 um ensaio altamente influente, no qual dizia que o romance realista já não era uma abordagem plausível, e que era a vez do romance de idéias. Por acaso ele tinha na gaveta de sua escrivaninha um romance desses, que foi devidamente publicado e elogiado, afundando depois feito uma pedra num lago e desaparecendo. Apesar disso, a idéia fincou raizes nas universidades e prosperou. Somados, os anos de faculdade de Dreiser, Hemingway, Steinbeck e Faulkner provavelmente não chegavam a quatro, mas a partir de 1950 a grande maioria de romancistas passou a sair dos cursos de literatura universitários. Os romancistas que haviam engrenado carreira antes de 1960 ainda tendiam ao realismo, embora até entre eles já fossem raros os escritores que, como Lewis ou Steinbeck, partissem como repórteres ou documentaristas rumo a terrenos desconhecidos. Para o realista do pós-guerra, a única experiência válida era a sua própria.

Depois de 1960 veio a era dos jovens escritores universitários versados nos ismos literários, todos os quais eram variantes do esteticismo francês, produtos da noção de que a única arte pura é a arte que não trata da vida, e sim da própria arte. O absurdismo, o fabulismo, o minimalismo, o realismo mágico — todos compartilhavam a mesma atitude. De uma maneira ou de outra, o romancista piscava para o leitor, como quern diz: "Você e eu sabemos que isto não é real. E algo mais sublime: o jogo da arte." Ocasionalmente, o autor parava no meio da história a fim de se identificar para o leitor: ele era um artista que ficava sentado sozinho numa sala, sem fazer nada além de demonstrar que artista ele era. Por volta de 1980 a decadência do romance como forma já podia ser notada. Não que a ficção realista forte houvesse desaparecido completamente. Ao examinar o ultimo quarto de século, lembro-me de inúmeros livros maravilhosos: Fielding of fire, de James Webb, na minha opinião o melhor romance sobre o Vietnã; dockers, de Richard Price, produto de uma excursão jornalística às entranhas do comércio de drogas em Union City, Nova Jersey; StripTease, de Carl Hiaasen, as travessuras de um repórter de jornal pela Florida do final do século; The Great Santini, de Pat Conroy; Os bezerros de ouro, de Louis Auchincloss; Waiting to exhale, de Terry McMillan; Table money, de Jimmy Breslin; Ruby Red, de William Price Fox; The Chorboys, de Joseph Wambaugh; e Bombardiers, de Po Bronson. Mas os jovens talentos que meio século antes estariam interessados no romance naturalista estavam sendo orientados para outros rumos. Novos fabulistas, minimalistas, realistas-mágicos e seus semelhantes surgiam e eram devidamente elogiados, mas nunca empolgavam os leitores como os naturalistas faziam. O romance em si perdeu o apelo que já

tivera na imaginação dos universitários e jovens em geral. Seguramente pode-se dizer que, em termos de interesse pelas artes, muitos deles deixaram o romance de lado e voltaram-se para o cinema. O critico Terry Teachout gerou polêmica quando, em 1999, escreveu um artigo para o Wall Street Journal intitulado "Como Entendemos A História", com o subtitulo: "Ler um romance ou ver um filme? A batalha acabou. O cinema ganhou." Ele falava de "amplas mudanças no outrora privilegiado lugar do romance na cultura americana". "Para muitos americanos com menos de trinta anos", escreveu ele, "o cinema substituiu o romance como forma dominante de expressão artística no campo da narrativa séria. Talvez os filmes tenham substituido os romances não porque os americanos tenham ficado mais burros, mas porque o romance envolve uma tecnologia artística obsoleta." Saul Bellow, o romancista ganhador do prêmio Nobel, ficou tão irritado que escreveu uma matéria para o New York Times, respondendo ao artigo de Teachout ponto por ponto. Adotava ali o que já se tornou uma posição defensiva familiar entre os romancistas atuais, sempre que estes se reunem em congressos de escritores e vem à baila o assunto — como inevitavelmente acontece — da irrelevância como narradores de histórias a que são relegados pela popularidade do cinema e da televisão. Essa tese diz que os grandes romances sempre tiveram públicos pequenos e especiais (leia-se "encantadoramente aristocráticos"). Bellow citava A letra escarlate, de Hawthorne, Moby Dick, de Melville, e — também assumindo o clima de O crepúsculo dos deuses — os romances de Proust e Joyce, que "foram escritos durante um crepúsculo cultural e não tinham a intenção de ser lidos sob o fulgor e o brilho da popularidade". Argumentava que já no século XIX o que impressionava "o grande público" eram romances menores como A cabana do Pai Tomás. Mas se A cabana do Pai Tomás era uma realização literária menor (proposição discutível para qualquer um que

realmente tenha lido o livro, como Tolstoi ou Edmund Wilson), nossos romancistas Gòtterdàmmerungisch têm que reconhecer que esse mesmo "grande público" também adorava Tolstoi, Balzac, Dickens, Dostoievski e Zola. Senti-me lisonjeado — pelo menos até certo ponto — quando Teachout destacou Afogueira das vaidades e Um homem por inteiro e disse que nem romances assim poderiam deter a maré vitoriosa do cinema. Como mencionei no início, são os outros — e não eu — que insistem em falar das minhas cifras de vendagem, e Terry Teachout é um deles. A fim de provar sua tese, ele sentiu-se obrigado (com a melhor das intenções, tenho certeza) a embaralhar os números e sugerir que Um homem por inteiro não fora tão bem no mercado quanto A fogueira das vaidades, quando na realidade o livro vendera quase 50% mais, atingindo um lugar bastante alto — não pude deixar de notar, e mais uma vez enrubesço — na lista de romances americanos mais vendidos do século XX, junto com A fogueira das vaidades. Ainda assim, nem por um segundo questiono a tese central de Teachout: "Para muitos americanos com menos de trinta anos, o cinema substituiu o romance como forma dominante de expressão artística." Passei os últimos dez meses excursionando pelas universidades americanas à cata de material para um romance que estou escrevendo, e posso dizer a vocês: os universitários, pelo menos, não se empolgam com novos romancistas, e sim com novos diretores cinematográficos. Mas acho que Teachout não compreende por quê. Hoje são os diretores e produtores cinematográfícos, e não os romancistas, que se empolgam com o lúrido carnaval da vida americana no momento, no aqui e agora, em todas as suas variedades. São os diretores e produtores cinematográficos, e não os romancistas, que anseiam para meter-se no tumulto ruidoso — feito Dreiser, Lewis e Steinbeck na primeira metade do século XX — e ver tudo com os próprios olhos. São os diretores e produtores cinematográficos, e não os romancistas, que hoje têm o instinto de repórteres; a curiosidade, a

vitalidade, a joie de vivre, o impulso e a energia para abordar qualquer assunto e entrar em qualquer terreno, pouco importando quão longe esses assuntos e terrenos estejam de sua própria experiência — e com frequência é exatamente porque esses assuntos e terrenos estão muito longe de sua própria experiência, e eles mal podem esperar para ver tudo com os próprios olhos. Como resultado, o filme, e não o romance, tornou-se o grande meio de contar histórias no final do século XX. Os filmes podem ser outras coisas, mas são intrinsecamente naturalistas — e acho que é justamente isso que o publico mais adora neles: seu intenso realismo. Os filmes são empreitadas de equipe: obra de grupos inteiros de criadores de histórias, cenógrafos e figurinistas, técnicos e atores. A maioria deles — até os atores — fica imbuida de um zelo jornalístico, um impulso de fazer as coisas direito; e ninguém se deixa intimidar — isto é totalmente mérito deles — pela própria ignorância acerca daquilo em que está se metendo. Um produtor da United Artists, que nada sabia do panorama da música country em Nashville, ficou instigando um diretor chamado Robert Altman a fa-zer um filme sobre o assunto. Altman nada sabia do tema, também, e a princípio não estava interessado, mas em todo caso aceitou o projeto, reuniu uma equipe e acabou se interessando. Aparentemente, os membros da equipe começaram com fontes escritas como Ruby Red de William Price Fox, partiram para Nashville, deram uma olhada no panorama, conversaram com Deus e o mundo e produziram Nashville. O filme Platoon, sobre a guerra do Vietnã, ba-seava-se na experiência própria do diretor Oliver Stone; depois disso, porém, Stone mergulhou em inúmeros assuntos sobre os quais nada sabia — inclusive, recentemente, o mundo do futebol americano profissional, de onde tirou o extraordinário Any Given Sunday. O diretor Francis Ford Coppola nada conhecia da guerra, que dirá da guerra do Vietnã, mas apesar disso estava determinado a fazer o que

veio a ser Apocalypse Now. Contratou John Milius, um roteirista que conhecia a guerra, e reuniu uma equipe que passou um ano fazendo pesquisas e relatos até entender a coisa direito. O resultado foi uma obra-prima. O diretor Spike Lee, famoso por seus filmes sobre a vida dos negros americanos, recorreu a Jimmy Breslin e outras fontes para documentar um mundo majoritariamente branco a fim de fazer Verão de Sam, um brilhante filme naturalista sobre o sufocante Zeitgeist de medo e excitação pornoviolenta em Nova York durante o verão de 1977, quando um assassino louco por publicidade, conhecido por "Filho de Sam", cometeu vários assassinatos em série. Terry Teachout argumentava que o cinema ganhara a batalha por um publico jovem e sedento de histórias "porque o romance é uma tecnologia artística obsoleta". Bellow criticava Teachout por "essa ênfase em técnicas que atraem os jovens de inclinação científica", pois encarar a experiência de ler um grande romance em termos tecnológicos era não entender o principal. Pessoalmente, porém, acho altamente instrutivo encarar o romance naturalista como um artefato tecnológico. Afinal, trata-se de uma invenção — e uma invenção bem recente, por falar nisso. Quatro artifícios específlcos dão ao romance naturalista sua característica "empolgante" e "absorvente": (1) construção cena-a-cena, ou seja, a história é contada cena por cena, sem se recorrer à pura narrativa histórica; (2) uso livre de diálogos realistas, que revelam os personagens de modo imediato e ecoam mais profundamente dentro do leitor do que qualquer outra forma de descrição; (3) ponto de vista interior, ou seja, o leitor é posto dentro da cabeça de um personagem e pode ver a cena através dos olhos deste; e (4) a apresentação de detalhes de status, ou dicas que dizem como as pessoas se posicionam na ordem da hierarquia social humana, e se estão conseguindo manter ou melhorar sua posição na vida ou numa situação imediata. Isto inclui desde vestimentas e móveis até sotaques; mas também passa pela maneira de tratar superiores ou

inferiores, e por gestos sutis que mostram respeito ou desrespeito. Em suma, todo o complexo de sinais que indicam à fera humana seu sucesso ou seu fracasso, e a que distância encontra-se a humilhação, essa inimiga da felicidade que é ainda mais poderosa do que a morte. Na utilização dos dois primeiros desses artifícios, a construção cena-a-cena e o diálogo, o cinema tem uma vantagem óbvia; nós realmente vemos as cenas e ouvimos os diálogos. Mas na questão de pôr o leitor dentro da cabeça do personagem ou dar-lhe consciência da vasta gama de detalhes que a vida oferece em termos de status, o cinema se frustra. Para criar o ponto de vista interior, já se tentou de tudo: uma voz em off que narra os pensamentos do personagem, legendas escritas e apartes em que o personagem volta-se para a câmara no meio de uma cena e simplesmente diz o que está pensando. Já se tentou pôr a câmara 199 no ombro do ator (Ray Milland em Farrapo humano), para que o público só o visse quando ele se olhasse no espelho, e fazê-lo falar seus pensamentos numa voz em off. Nada funciona, porém; nas artes cinematográficas, nada conse-gue nos pôr dentro da cabeça, da pele, ou do sistema nervoso central de outro ser humano do jeito que o romance naturalista consegue. Em relação aos detalhes de status social, o cinema também não se sai muito bem. Na hora de lidar com gradações sociais, os filmes são imediatamente reduzidos a efeitos grosseiros que tendem a cair na caricatura a qualquer momento: a casa que é luxuosa demais ou pavorosa demais, o sotaque que é esnobe demais ou caipira demais. E isso nos traz a outra grande deficiência do cinema como tecnologia: é difícil para um filme explicar... qualquer coisa. Os filmes são veículos regidos pelo tempo, e por sua própria natureza são compelidos a produzir um fluxo constante de imagens. Três filmes já foram produzidos a partir de coisas que escrevi, e nos três casos fiquei espantado com a impotência de gente perfeitamente talentosa na hora de explicar...

qualquer coisa... no meio daquele fluxo vital, fossem a mecânica e a aerodinâmica de um avião com foguetes auxiliares, ou os meandros da politica racial no Bronx. Quando um espectador sai dizendo: "Não é tão bom quanto o livro", quase sempre é porque o filme fracassou nestas três areas: fracassou na tentativa de fazer o espectador sentir-se na cabeça dos personagens, fracassou na tentativa de fazê-lo compreender e sentir as pressões sociais abordadas pelo livro, e fracassou na tentativa de explicar este e outros assuntos complexos que o livro conseguira iluminar sem sacrificar por um instante sequer a ação e o suspense. Por que será que as versões cinematográficas de Anna Karenina são invariavelmente decepcionantes? Afinal, Tolstoi pôs no livro uma dose de ação, suspense e melodrama — é só pensarmos na desastrosa e melodramaticamente simbólica cavalgada de Vronsky com a égua Frou-200 Frou — suficiente para dez filmes. Mas o que inevitavelmente falta é o jogo de pensamentos e sentimentos dentro do sistema nervoso central dos seis personagens principais do romance, além da incomparável sinfonia de Tolstoi sobre as preocupações com o status, a competição por status, e a culpa das classes superiores russas. Sem estas coisas, que até um escritor muito menos talentoso que Tolstoi pode introduzir utilizando a tecnologia impressa de um romance naturalista, Anna Karenina não passa de um novelão. A realidade é que os jovens — e isso inclui os universitários — também eram inveterados espectadores cinematográficos durante a primeira metade do século XX, que foi o periodo de ouro do romance americano. Sei disso porque eu era um deles. Provavelmente passávamos mais tempo no cinema do que os universitários atuais, porque não tínhamos as opções da televisão e da Internet. E os novos diretores cinematográficos? Nós também acompanhávamos o trabalho deles, ardentemente. Lembro-me da empolgação que tomou conta da Universidade Washington and Lee — em Lexington, na Virginia, onde eu estudava — quando um filme

chamado Fear and Desire, dirigido por um jovem chamado Stanley Kubrick (e produzido por um homem que na época ainda atendia pelo nome de S. P. Eagle, em vez de Sam Spiegel), chegou ao State Theater. Mas os Steinbeck, os Hemingway, os Farrell e os Faulkner eram ainda mais empolgantes. Eles tinham tudo. O romance americano está morrendo, não de obsolescência, mas de anorexia. Precisa de... alimento. Precisa de romancistas com grandes apetites, e com uma sede poderosa e insaciável que faça-os sorver os Estados Unidos... tal como o país se encontra hoje. Precisa de romancistas com a energia e a verve para abordar os Estados Unidos como fazem os diretores cinematográficos, ou seja, com uma certa curiosidade voraz e o impulso de se enfiar entre suas 270 milhões de almas, falando com elas e encarando-as nos olhos. Se as fileiras desses romancistas aumentarem, o mundo — até aquele canto estéril que se intitula o mundo literário — ficará espantado diante da rapidez com que o romance americano ressuscitará. Comer! Comer! Quero comida! é o brado do século XXI na literatura e em todas as chamadas artes sérias nos Estados Unidos. A segunda metade do século XX foi o periodo em que, numa revolução patética, o formalismo europeu conquistou as artes — ou pelo menos as artes não-eletrônicas — americanas. Se essas artes quiserem sobreviver, a revolução do século XXI precisará de algo a que nenhum ismo possa ser facilmente aplicável. Esse algo é conteúdo. É vida, realidade, o pulso da fera humana.

O CASO NEW YORKER

Prefácio: Jornalismo marrom assassino

A

qui no final, posso lhes oferecer algo parecido com aquelas duas moedas de menta cobertas por chocolate — embrulhadas em papel dourado e do tamanho de dólares de prata — que os grandes hotéis colocam nos travesseiros ao preparar as camas à noite? Só pelo sabor da coisa, voltem comigo à década de 1960, época em que as guerras entre os jornais ainda campeavam na cidade de Nova York; a 1963, quando o cambaleante Herald Tribune transformou completamen-te seu suplemento dominical, trocando o nome de Today's Living para New York. Em pouco tempo New York ganhou um novo editor, um rapaz chamado Clay Felke, que chegara ao Trib vindo da revista Esquire. Como editor do New York, Clay tinha um assistente em tempo integral, Walt Stovall, e dois redatores em meio-expediente: Jimmy Breslin, cuja principal tarefa era produzir uma coluna para o Trib cinco vezes por semana, coluna essa baseada inteiramente em reportagens (e provavelmente a maior coluna da história jornalística de Nova York), e eu. Cinco dias por semana, eu ficava à disposição da editoria da cidade como repórter de assuntos gerais. Nas nossas chamadas horas vagas, Jimmy e eu deveríamos produzir, cada um, uma matéria para o novo suplemento dominical, o New York. Eu já ouvira

falar de equipes reduzidas antes, mas aquilo ali era um deserto. Apesar disso, certo dia Clay, Walt, Jimmy e eu estávamos apertados no cubículo diminuto que funcionava como redação do New York quando Clay disse: "Escutem... nosso suplemento sai uma vez por semana, certo? E o do New Yorker também sai uma vez por semana. E nós começamos a semana do mesmo jeito que eles, com papel em branco e um estoque de tinta. Há algum motivo para não sermos tão bons quanto o pessoal da New Yorker? Ou melhores? Eles são chatos pra cacete." Naquele momento, devo confessar que aquilo me pareceu conversa fiada. Chata ou não, a New Yorker era seguramente uma das duas ou três mais prestigiosas revistas semanais do país. Mas Clay estava falando sério, e graças aos seus tempos na Esquire conseguiu convencer alguns grandes colaboradores a juntarem-se à nossa empreitada quixotesca: escritores como Peter Maas, Richard Condon, Robert Benton e David Newman, além dos notáveis críticos do próprio Trib, como Walter Kerr, Judith Crist e Walter Terry. E dito e feito: lá pelo meio de 1964 nosso pequeno suplemento dominical, o New York, já começara a ganhar a atenção da cidade. Vocês conhecem a expressão atual "bochicho"? Bom, lá pelo fim de 1964 o bochicho já não era a revista deles, e sim o nosso suplemento. Tanto assim que a New Yorker começou a nos homenagear às avessas: primeiro debochando do suplemento em notas na coluna Talk of the Town, e depois numa paródia completa que tinha como alvo específico os redatores — Jimmy e eu. Acontece que o ano de 1965 era o quadragésimo aniversário da New Yorker. A revista era, de fato, tão proeminente que os costumeiros e previsíveis tributos às suas ilustres tradições — e outros istos e aquilos — logo começaram a borbulhar na imprensa, feito balões inflados de gás. Mas a verdade nua e crua era que Clay tinha razão. A New Yorker tornara-

se chata, chata, chata — chata e pomposa — sob a direção de William Shawn, que substituira Harold Ross, o fundador da revista, como editor. Portanto... haveria hora melhor para estourar o balão? Nossa idéia era copiar a New Yorker em seus primeiros tempos — época em que Ross dirigia o espetáculo e a revista era cheia de vida — e fazer uma paródia deles sob a forma de um perfil de Shawn. Uma das maiores proezas da New Yorker, sob a direção de Ross, fora uma paródia da revista Time em 1936, sob a forma de um perfil de Henry Luce, o fundador e editor da Time, feito por Wolcott Gibbs. A cidade — ou pelo menos a parte da cidade que presta atenção aos bochichos — se divertira a valer com aquilo durante um ano. Gibbs fizera uma paródia maravilhosa do estilo quase sem pausas da Time ("Para trás corriam as frases até fraquejar a mente"... "Onde terminará tudo sabe Deus!"), mas além disso os detalhes pessoais da matéria haviam irritado Luce... Em Yale ele adotara a pose cafajeste de não fazer a barba e andar sem suspensórios, mas na realidade era um "conformista" puritano... falava aos arrancos, gaguejava, e evitava o olhar das pessoas... usava roupas demasiadamente folgadas... odiava secretamente os asiáticos em visita que iam procurálo em Nova York só porque ele nasceu na China, onde seus pais haviam servido como missionários... Ross enviara a Luce, com antecedência, uma cópia da matéria de Gibbs, e Luce ficara com tanta raiva que foi ao apartamento de Ross tomar satisfações; correra à boca pequena que ele ameaçara jogar Ross pela janela. Portanto, faríamos uma paródia de Shawn. A pró-pria forma, "o perfil", e até o termo em si, eram invenções da New Yorker. E naquele caso havia um gancho jornalístico que ia além do quadragésimo aniversário da revista: jamais fora publicado um perfil de Shawn em qualquer lugar. Apesar de ser um dos vultos mais proeminentes do jornalismo americano, ele jamais mostrava o rosto para jornalistas de fora. Ao que parecia, para ele "intensamente reservado" era um

eufemismo. So havia umafotografia conhecida do sujeito, o retrato oficial da New Yorker, que ele encomendara, pagara e controlava. A primeira coisa que fiz foi ligar para o escritório de Shawn para pedir uma entrevista. Depois de algum tempo ele acabou pegando o telefone e dizendo em tom baixo: — Aqui na revista, quando dizemos a uma pessoa que queremos fazer o perfil dela e a pessoa não quer colaborar, nós não fazemos o perfil. Esperamos a mesma crtesia por parte de voces. — Mas, Sr. Shawn — disse eu —, nós somos um jornal, e consideramos o senhor e o quadragésimo aniversário da revista como noticias. Não adiantou argumentar. Obviamente, eu teria que obter meu material com funcionários e exfuncionários da New Yorker, além de outras pessoas que conheciam Shawn e a revista. Naquela mesma noite, ou pouco depois, fui jantar com um grupo no Greenwich Village; à mesa havia uma jovem chamada Renata Adler. Foi ela, e não eu — eu não sabia quern ela era —, que mencionou ser redatora contratada da New Yorker. Admito, porém, que incentivei Renata a estender-se sobre o assunto. Não me lembro de nada fascinante ou revelador que ela te-nha divulgado, mas Renata jamais esqueceu nossa con-versa, como se viu mais tarde. Em todo caso, isso deve ter sido pouco depois de meu telefonema para Shawn, pois em breve toda a redação da New Yorker sabia que não deveria falar com ninguém do Herald Tribune. Apesar disso, encontrei minhas fontes e consegui observar — dos bastidores, digamos assim — a comemoração do quadragésimo aniversário da revista no ho-208 tel St. Regis. Depois comecei a escrever a paródia, e esbarrei em algo com o qual não contara. A paródia da Time feita por Wolcott Gibbs em 1936 fora hilariante justamente porque caricaturava uma proposta radical, viva e original

para a redação jornalística: o já famoso estilo da Time. Mas a paródia de um estilo chato como o da New Yorker só poderia ser engraçada por meia página, ou seja, até a piada ser entendida. Depois disso, devido à lei da hipertrofia da paródia, a coisa se tornaria literalmente mais chata do que chata. A revista adotava um estilo de discurso vago e carregado de eufemismos, utilizando-se de gracejos para dar o tom de humor, e tautológico e litótico para dar o tom de seriedade; tudo constantemente amplificado, moderado, sombreado, nuançado e renuançado, até que as páginas da revista — em tom cinza-pálido — tornavam-se verdadeiros triunfos barrocos da oração relativa e do aposto. A única solução, ao que me parecia, era virar tudo aquilo de cabeça para baixo, dar uma boa sacudida, tirar a poeira e produzir uma contraparódia, num estilo que fosse tudo que o da New Yorker não era: urgente, insistente, exclamatório, exagerado — e divertido. Quando terminei, a matéria ficou tão longa que teria que ser publicada em duas partes. Clay mostrou as duas a Jim Bellows, o editor do Herald Tribune. Embora fosse jovem, Bellows era um jornalista da escola antiga. Para ele, um mês que passasse sem uma boa briga era um mês chato. Nosso suplemento dominical, New York, era impresso às quartas-feiras e inserido no Trib de domingo quatro dias depois. Na quarta-feira, portanto, assim que a primeira parte da minha matéria saiu do prelo, Bellows mandou um portador entregar duas cópias a Shawn na redação da New Yorker, que ficava na rua 43 lado oeste, a cerca de quatro quarteirões do Trib. A matéria intitulava-se "Pequenas Múmias! A Verdadeira História do Rei da Terra dos Mortos-Vivos da Rua 43". Bellows juntou às duas cópias um cartão em que escrevera: "Com meus cumprimentos". A reação de Shawn foi boa demais para ser verdade. A sua maneira minimomaníaca — Malcolm Muggeridge escreveu certa vez que o mundo estava cheio de megalomaníacos, mas que William Shawn era o único minimomaníaco que ele já conhecera —

Shawn superou o feito de Henry Luce três décadas antes, em termos de reação exagerada a um perfil. Bum! Logo mandou um portador percorrer os mesmos quatro quarteirões com uma carta para o Trib. A carta não era endereçada a Bellows, no entanto, e muito menos a Clay Felker ou a mim. Era endereçada ao proprietário do Trib, Jock Whitney, que não só era um homem muito rico como um cavalheiro muito distinto, tendo sido pouco antes embaixador americano na Inglaterra. Era ao distinto cavalheiro que morava em Jock Whitney que a carta de Shawn parecia visar. Ele dizia que "Pequenas Múmias" era uma expressão caluniosa, claro, mas até pior do que caluniosa. Era uma expressão "assassina". E não só isso: aquele caso isolado, temerário, desmedido e desnecessário de falta de julgamento — a publicação daquele artigo sem sentido — lançaria para sempre o Herald Tribune e seu longo e honrado legado, que datava da época do grande Horace Greely, na "sarjeta", junto com o pior jornalismo marrom da década de 1920. Ele solicitava que Whitney impedisse a publicação daquilo, e tirasse o periódico do Herald Tribune de domingo. Aturdido, Jock Whitney levou a carta a Bellows, cujo escritório ficava vizinho ao seu, e disse: — O que nós vamos fazer, Jim? Bellows leu a carta, deu uma risadinha e disse: — Vou lhe mostrar o que nós vamos fazer, Jock. Dito isto, sob o olhar de Whitney, Bellows pegou o telefone, ligou para a Time e leu a carta para eles. Depois ligou para a Newsweek e também leu a carta para eles. "Pequenas Múmias" foi publicada, como programado, no domingo. Na segunda-feira relatos sobre a matéria e sobre a carta de Shawn saíram na seção de Imprensa da Time e da Newsweek, desencadeando uma verdadeira tempestade que chegou até a Casa Branca de Lyndon Johnson.

Pequenas múmias! A verdadeira história do rei da terra dos mortos-vivos da rua 43

L

ábios selados! Lábios selados, senhoras e senhores! Coisa Nossa! Estamos publicando a revista The New Yorker, a revista de Harold Ross. Não estamos administrando uma prisão. Não! Os editores da New Yorker vêm, há semanas, avisando seus funcionários que alguém anda querendo fazer uma matéria sobre a revista. O aviso diz: Lembrem-se da omertà. Do seu juramento de silêncio. Só que os funcionários da New Yorker não são as únicas pessoas no mundo que tern que fazer este juramento. Os funcionários da Casa Branca também têm — nada de calúnias gratuitas, meus belos do G-6, dizendo que "Eu Vi O Copo Que Lyndon Usa Para Jantar". Os funcionários do Palácio de Buckingham também têm — inclusive aqueles mordomos mudos e desajeitados. Todo mundo da Mafia também tern. Além do pessoal da G. & C. Merriam Co., de Springfield, Massachusetts. Ou seja: um monte de gen-te. A G. & C. Merriam publica o Webster 's Dictionary, e não quer ficar lendo um monte de piadas sobre, por exemplo, como eles se sentam para decidir se certas palavras populares — mas... crepusculares — vão ou não entrar na edição deste ano. Certo? Ninguém ficaria sabendo do aviso que anda circulando na New Yorker, caso eles não houvessem feito a coisa por escrito, em forma de memorandos. Lá na redação da revista, que fica no numero 25 da rua 43, lado oeste, eles têm uma compulsão: fazem tudo por escrito. Tern boys no décimo nono e vigésimo andares, onde fi-cam as editorias, que

vivem esbarrando uns nos outros — batendo as velhas cabeças de bisão! — nos cantos dos corredores por causa do fantástico tráfego de memorandos. Eles são apenas chamados de boys. "Boy, por favor leve isto..." Na realidade, muitos deles são velhos com colarinhos engomados e as pontas um pouco enro-ladas, gravatas "guardanapo", suéteres abotoados e casacos pretos com padronagens que imitam o trançado de cestas. Vivem se arrastando para lá e para cá com aque-le passo pausado de bisões idosos e bondosos, transportando milhares de mensagens. Eram meninos quando entraram na empresa, mas o negócio é que a revista já tem quarenta anos — quatro décadas, já, da New Yorkerl — e eles agora têm estabilidade no emprego, como os condutores da ferrovia Pennsylvania. O papel usado para essas milhares de mensagens é um papel fabricado com farrapos de tecido, maravilhoso. Vem em blocos com cola no topo, mas é papel da melhor qualidade possível. O problema é parecido com o das cédulas que se gastam com o uso. Como há um tráfego fantástico de memorandos e outras coisas o dia todo, é preci-so ter papel que aguente o franco. Há cores diferentes para as diversas "tarefas especificas". Os manuscritos são datilografados em amarelo-milho, verde-broto é para blablablá, fúcsia-pudico é para blablablá, azuljornaleiro é para blablablá, e um maravilhoso tom cerise, uma espécie de vermelho-cereja suave, é para as mensagens urgentes, exigindo atenção imediata e tudo o mais. E assim, 212 lá vão os velhos mensageiros-bisões se esbarrando pelos corredores e carregando memorandos em tom cerise sobre uma matéria qualquer que alguém está fazendo. Bom — só posso dizer que eles têm um sistema bárbaro lá, mas... apesar disso... o pessoal/a/ow. Aquelas pessoas... falaram. Falaram de coisas como William Shawn; como o caso Leopold e Loeb — quando Shawn já era o editor da revista; e como autolobotomia. Coisas fascinantes.

Mas! Aquelas pessoas estavam... pensando em voz alta. Lá na New Yorker as pessoas fazem muito isso, e depois se perguntam o que anda acontecendo com elas. Ficam assim, por exemplo, porque um dia um sujeito é contratado e um velhote sussurrante, que usa um velho terno de lã grossa, mostra-lhe um cubículo; o sujeito senta-se à uma escrivaninha que há lá dentro e passa dois meses sem conhecer ninguém. Todos estão em outros cubículos com as portas fechadas. Dias inteiros se passam. Ele fica lá sentado, e de vez em quando um Velho Mensageiro entra e entrega-lhe um comunicado, em amarelo-milho, fúcsia-pudico, verde-broto, bege-alô-pessoal, amarelo-canário-socorro-socorro-socorro, cemealguém-me-beija-por-favor, ceme-eu-amo-vocêqualquer-um. Aí o sujeito fica totalmente maluco e sai percorrendo os corredores; abre uma porta e vê... mulheres com as costas curvadas sobre as mesas num... lugar incomum, a Sala de Transferência. Ou então chega a uma zona esquisita no canto dos fundos do décimo nono andar, a Zona do Sussurro, cheia de ruidos sibilantes. O sujeito acaba descobrindo que todas essas coisas — a Zona dos Sussurros, a Sala de Revisão, os memorandos, o Sistema, omertà, tudo — têm origem num só homem: Shawn, William Shawn. O editor de umas das revistas mais poderosas dos Estados Unidos. O Homem. Que Ninguém Conhece. *** É por isso que as pessoas mencionam coisas como esse o negócio de Shawn e o caso Leopold e Loeb. Elas próprias querem uma... explicação. Numa das histórias contadas várias vezes para esta matéria, o dia é 21 de maio de 1924; Richard Loeb está agachado no matagal com Nathan Leopold, e diz: "Escuta, Nathan! E o William Shawn?..." William Shawn é um menino muito quieto e inteligente, muito arrumadinho, entendem? Ele não dá problema, e é monitor de turma na Escola para Rapazes de Harvard. Voces conhecem o gênero

monitor de turma. Seu pai é o "Ben Canivete". Eles moram numa mansão na rua Vincennes, 4355. Resgate fácil! Só que as pessoas não contam a história direito. Em primeiro lugar, Loeb não chamava Leopold de "Nathan". Chamava-o de "Babe", ou algo assim. E eles jamais se agachariam no capinzal. Eles se vestiam muito bem, eram elegantes; deu para entender? Os registros do Tribunal Criminal do Condado de Cook (Chicago) e da Escola de Harvard, que hoje é a Escola Harvard-St. George, mostram o seguinte: Shawn — que na época se chamava Chon — e Bobby Franks eram colegas na Escola para Rapazes de Harvard naquele ano. Shawn estava na terceira série; tinha dezesseis anos e era um dos alunos mais inteligentes da escola. Bobby Franks tinha catorze anos e estava dois anos atrás dele. Leopold e Loeb eram muito metódicos. Tinham um conjunto completo de especificações. Queriam um garoto adolescente pequeno, e por conseguinte dominável, da Escola de Harvard, com pais ricos que pagassem o resgate com rapidez. Examinaram seis nomes, o primeiro dos quais era "William". Os registros do tribunal não fornecem o sobrenome. O pai de Shawn, Benjamin W. "Ben Canivete" Chon, ganhara muito dinheiro ao abrir em 1889 uma loja de canivetes na avenida Exchange, 838, nos aromáticos e encorpados Union Stock Yards, no lado sul de Chicago; a loja vendia 150 tipos diferentes de canivetes. Terra dos Canivetes! Pais Ricos! E a julgar pelo anuário da Escola de Harvard em 1924, William Chon era um adolescente pequeno e quieto. Na realidade, mesmo em 1940, ano do septuagésimo quinto aniversário da escola, todos na escola ainda tinham essa lembrança dele. William Chon era o presidente da quarta série, e o anuário de 1925, The Review, dissera: "William certamente terá êxito na vida, e continuará sendo o orgulho da Turma de 1925" — mas ainda assim a lembrança que as pessoas retinham dele, no anuário do septuagésimo quinto aniversário, era "Quern teria

imaginado que o pequeno William Chon se tornaria urn figurão na equipe editorial da revista The New Yorker?" Mas e daí? Não só William Chon, mas todos os garotos pequenos e quietos da Escola de Harvard naquele ano — quern poderia culpá-los! — devem a certa altura ter se sentido alvos do olhar clínico de Leopold e Loeb, os assassinos intelectuais. Os dois só abandonaram a idéia de "William" porque tinham uma rixa pessoal com ele, e talvez alguém se lembrasse disso. Desistiram de três ou quatro outros porque os conheciam bem demais, ou então porque os pais eram sovinas e talvez se recusassem a pagar um resgate alto. Crime intelectual! Como alguém neste mundo de Deus podia se sentir seguro, se havia gente como Leopold e Loeb matando ou-tras pessoas pela simples... estética do crime perfeito? Essa e outras histórias sobre Shawn supostamente ajudam a explicar por que ele é tão... reservado, por que não concede entrevistas, por que não se deixa fotografar, por que sofre ao viajar em elevadores, atravessar túneis e se sentir confinado — por que ele permanece anônimo, como se diz, e produz as edições semanais da revista por trás de uma barricada de... estofamento de crina de cavalo, típico das salas de visitas fin de siècle. Incrível! Shawn frequentou a Universidade de Michigan entre 1925 e 1927, casou-se com Cecille Lyon em 1928, e trabalhou em dois jornais; em 1933, juntou-se à revista como repórter da coluna Talk of the City. A certa altura ele trocou o Chon por Shawn, e em 1951, quando Harold Ross morreu, assumiu como editor. Foi assim que se tornou um dos mais poderosos e proeminentes editores do país. Na época da Segunda Guerra Mundial, a New Yorker já era a mais prestigiosa revista de "qualidade literária" dos Estados Unidos. E desde a Segunda Guerra Mundial tornou-se — novas honrarias! — a mais bemsucedida revista feminina suburbana do pais. Montanhas de prestígio. Ainda assim, em todo esse tempo o mundo exterior nada descobriu, praticamente, sobre William Shawn. Ninguém na New

Yorker — exceto alguns amigos íntimos, como Lillian Ross — parece conhecê-lo. Pimpinela fugidio! As lendas sobre Shawn! Uma delas diz que toda manhã ele tenta acertar o horário de sua chegada de modo a subir sozinho no elevador até o escritório no décimo nono andar, e que carrega uma machadinha na pasta para escapar a machadadas caso fique preso entre um andar e outro... e há outras histórias malucas como essa! Shawn é um homem muito discreto. Tern uma voz suave, um tanto aguda. Parece sussurrar o tempo todo. Toda a... zona em torno de sua sala — uma espécie de atmosfera de estofamento de crina de cavalo formada por carpetes velhos, capas da New Yorker emolduradas, cubículos silenciosos, e gentileza do tipo sou-pobre-mas-sou-feliz — compõe uma Zona do Sussurro. A pessoa chega a doze metros de distância de lá e vê que todo mundo, inclusive as secretárias, está sussurrando. É o sussurro Shawn, pois a Zona do Sussurro irradia-se a partir do próprio Shawn. Ele vem andando pelo corredor, da forma mais silenciosa que é humanamente possível, e... shshshsh... encontra alguém. O meneio das cabeças! O sussurro das vozes! Shawn tem cinquenta e sete anos, mas ainda exibe um rosto juvenil. E baixo e gorducho, com bochechas rechonchudas. Sempre aparenta estar usando cerca de vinte camadas de roupas: três suéteres abotoados, quatro coletes, um par de camisas e duas gravatas, ao que parece. O conjunto todo é coberto por um terno escuro amorfo, com meias brancas de algodão. Ali no corredor, ele baixa a cabeça e estende a mão. — Olá... Sr.... Taylor — começa ele, meneando a cabeça — como... vai — diz, meneando a cabeça cada vez mais baixo, baixo, baixo, baixo. — É... um... prazer — continua, com a cabeça já lá embaixo e os olhos revirados sob a própria testa — vê-lo... aqui. — Ai recua com a mão estendida e os olhos revirados, meneando a cabeça, com o pé de trás recuando cada vez mais, mais, mais, mais. — E... muito... bom... vê-

lo... aqui — diz, continuando a menear a cabeça e a sorrir. A coisa é infecciosa! Pega a pessoa! Aí você faz a mesma coisa: sussurra, assente, baixa a cabeça, vai meneando a cabeça cada vez mais baixo, baixo, baixo, sorri, recua, revira os olhos pelo precipício da testa. Você fica quieto, gentil, gentilmente, magnificamente, insensivelmente, e ai... Tudo bem. Na New Yorker, vamos tratar das coisas por bilhetes, memorandos ou telefonemas. Mas ai — que constrangimento! Shawn telefona para Lillian Ross, e embora telefone para Lillian o tempo todo, até a secretária do lugar onde Lillian Ross se encontra comete o mesmo erro: — Alô, posso falar com a srta. Ross? — Quem está falando, por favor? Hum, uma pausa dramática e gramática — um sussurro: — O sr. Shawn. Pronto! É o sr. Shawn! Ela fez besteira de novo! Ele se esgueirou sob a membrana do seu tímpano com o sussurro. Um dos quatro ou cinco homens mais proeminentes na area da comunicação! Passando despercebido em seu próprio escritório. Mas será que ele próprio, Shawn, se importa? Ele não se importa; tern paixão pelo anonimato. Sempre teve essa paixão. A não ser quando algum escritor ou um jovem romancista vai a uma festa no seu apartamento na Quinta Avenida. O apartamento fica no primeiro andar e dá para o Central Park. É uma vista muito ampla. Dá para ver quem está vindo de todas as direções. Do outro lado da rua há apenas árvores; nada de janelas indiscretas, elevadores, nada disso. Philip Hamburger está na festa. Philip escreveu uma coluna na New Yorker intitulada "Notes for a Gazetter" cinquenta e duas vezes. Ele e muitos outros da revista estão lá. É uma festa "muito

agradável". Shawn põe para tocar al-guns discos de sua coleção de jazz: Jelly Roll, Bix, Bunny Berrigan, Willie the Lion, Fats, Art. Como éramos felizes no Mississippi . E no dia seguinte, o Jovem Romancista escreve um bilhete de agradecimento para ele, endereçando-o ao "Senhor Ted Shawn". Quer dizer, todo mundo sabe que Shawn é editor da The New Yorker e tudo o mais, mas ele é... tão discreto, tão passionalmente anônimo, que o sujeito confunde os nomes. Ted Shawn é um dançarino famoso. No dia seguinte, portanto, a sra. Shawn dá um telefonema para o romancista, e diz: — Muito obrigada pelo seu simpático bilhete, e por falar nisso... o nome do meu marido é William, e não... Ted. Meu marido prefere ser anônimo, mas não... tão anônimo assim. Tanto faz! Ele é o Shawn da New Yorker. E adorado por muitos redatores da revista. Eles já dedicaram pelo menos seis livros a ele. Shawn é um homem discreto, bondoso, calmo, diligente, eficiente, cortês, refinado, atencioso e humilde. Usa sua discrição feito um maestro. Tem a coragem discreta de sair andando pela neve às três da madrugada e ir o apartamento de alguém que lhe deve uma matéria, pois a revista aproxima-se do prazo final, e o tal redator está revisando, revisando e não entrega a matéria. Mas Shawn aparece na casa do sujeito com suas camadas de roupas e as botas de fechos metálicos cobertas de neve. Bate na porta. A mulher do pobre sujeito, que dormia no sofá da sala, levanta e atende. — Olá... sra.... Taylor — diz ele, meneando a cabeça e sorrindo — seu... marido... está? — Aí continua a menear a cabeça e a sorrir, revirando os olhos para cima e para baixo na testa, avançando lentamente. — Ah... infelizmente... eu... vou... ter... que... Ela diz: — Boa noite, sr. Shawn — ou algo parecido. — Está, mas está no quarto, trabalhando...

— ...pegar... um... manuscrito... com... ele... como... tem... passado... sra.... Taylor? — continua ele, avançando, meneando a cabeça, deslizando os velhos pés botinudos, sempre assentindo, meneando a cabeça e sorrindo. — E... as... suas... lindas... filhas? — acrescenta, enquanto avança, avança, revira os olhos, chega ao quarto, abre a porta, entra, meneia a cabeça, sorri e dá uma espiadela. — Ah... boa... noite... sr.... Taylor... sim... vou... ter... que... levar... isso... agora... muito... obrigado... como... vai... — diz ele, tirando o manuscrito da máquina de escrever e da mesa, enquanto Taylor cai para trás na cadeira de madeira feito um filtro de cigarro apagado — ...a sra. Taylor?... é muita bondade sua... sim... muito... obrigado. — Ai vai recuando para a porta, meneando a cabeça cada vez mais baixo, baixo, baixo, baixo, sorrindo, revirando os olhos sob a testa, recuando com os fechos das botas chacoalhando, e diz: — Adeus... sra.... Taylor... muito... obrigado... como... está... Pronto. A porta se fecha. Silêncio! Shawn vence. Sim! E subitamente, após quarenta anos, tudo se esclarece. Essa perfeição sussurrante, inconspícua, formal e eficiente, mas cortês e simpática... o que é isso senão a qualificação perfeita para o zelador de um museu, urn agente funerário, um cientista mortuário? Mas é claro! Há treze anos, com a morte de Harold Ross, foi justamente essa tarefa que coube a William Shawn: tornar-se o curador do museu, o mumificador, o preservador-em-âmbar, o embalsamador sorridente... da New Yorker de Harold Ross. *** Harold Ross! Praticamente ninguém, a não ser na New Yorker, lembra-se da figura... carismática que era o fundador e editor da revista. Em seu livro The Years with Ross, porém, James Thurber conta uma história que demonstra isso bem. Cerca de um ano após a morte de Ross, a New Yorker deu uma recepção para os editores da Punch. Duas semanas mais tarde

Thurber conversou sobre a festa com Rowland Emmett, da Punch, e disse que era uma pena que ele jamais houvesse conhecido Ross. — Conheci, sim — disse Emmett. — Ele estava lá, por toda a parte. Ninguém falava de outra coisa. Ross era de Aspen, Colorado; conheceu um pessoal literário em Paris depois da Primeira Guerra Mundial, e ao voltar a Nova York adentrou o mundo literário com uma postura à moda das Montanhas Rochosas, rude e "antiintelectual". Ele era temperamental, explosivo, ingênuo em relação a muitas coisas, e ignorava diversos aspectos da literatura e das artes — mas tudo isso disfarçava apenas parcialmente a real natureza da sua sofisticação, que na realidade tinha um refinado matiz inglês, ou anglo-saxão. Para ele, ser sofisticado era não só compreender a cultura e a moda como evitar os excessos, inclusive os excessos literários e artísticos. Ele não queria na revista nada que fosse por demais cerebral, kantiano, exuberante, raivoso, deslumbrado, "artístico", "pretensioso" ou "sério". Usava muito estas três pala-vras: "artístico", "pretensioso" e "sério". Não queria que parecesse que alguém da revista estava queimando os neurônios, exibindo-se, desnudando o coração ou lavando a alma em cima dos leitores. Esta idéia era muito especial, muito inglesa. Que maravilha! Ross fundou a New Yorker em 1925, e apesar da depressão a revista foi um tremendo sucesso. Sofisticação nos Estados Unidos! O negócio era que nos anos 20 os intelectuais nova-iorquinos ainda se sentiam muito... colonizados. Eles pareciam aqueles pobres magnatas da indústria madeireira russa, os quais viviam sentados em seus salões rococós de São Petersburgo, obrigando as filhas a só falar francês às quintas-feiras e a conversar com os convidados sobre "l'Opera", como se aquele grande bolo confeitado ficasse logo ali na esquina, na avenida Nevsky. Eram totalmente dependentes da cultura francesa. Em Nova York o modelo era a Cultura Inglesa. Ross podia ser cheio daquelas

excentricidades litóides do Colorado, mas a New Yorker nunca passou de uma cópia fiel da Punch. Apesar disso, os meios literários americanos sorviam o conteúdo da revista como se estivessem morrendo de sede. A carência era tão grande que a New Yorker foi primeiro elogiada, e depois praticamente canonizada. Na década de 1950 começaram a acontecer coisas até engraçadas. Alguns dos autores fixos da New Yorker, como E. B. White, começaram a receber honrarias solenes, tais como diplomas honorários em Yale. Nenhuma revista americana jamais recebera tamanha aclamação literária. É claro que era difícil resenhar o trabalho daqueles autores da revista — Thurber, E. B. White, Robert Benchley, Wolcott Gibbs, Dorothy Parker, A. J. Liebling — e apontar qualquer... obra fundamental. O que algum deles fizera que pudesse igualar-se ao trabalho de, digamos, Hemingway, Fitzgerald, Dos Passos, Steinbeck ou Nathanael West? As pessoas de visão curta só vêem os autores da New Yorker desperdiçando seus talentos dentro dos velhos moldes de Ross ano após ano, década após década, até alguém finalmente escrever-lhes um obituário afetuoso. Mas que história é essa de obra fundamental! É melhor deixar isso para lá! O próprio Ross sempre deixava. Eles haviam atingido plenamente a meta — talvez reduzida, mas ainda assim especial — que ele lhes impusera: conseguir uma sofisticação anglo-saxã. Ecce homines! Pequenos gigantes! A atmosfera na própria revista, no entanto, era um caso diferente. William Shawn chegara a Nova York em 1933, aos vinte e seis anos de idade, com a idéia de escrever um livro sobre a New Yorker. Em vez disso, juntara-se à equipe da revista como repórter da seção "Talk of the Town". A seção nada mais era do que a versão nova-iorquina da "Charivari", da Punch, mas — vá lá! — nos Estados Unidos, pelo menos, a New Yorker não tinha rival. Você ia trabalhar lá, e — como se explica isso? — começava a desenvolver uma espécie de... sentimento religioso

em relação ao lugar. Já havia muitas... tradições estabelecidas. Segundo seus velhos amigos lá, desde o começo Shawn sentira-se como que entrando para o sacerdócio. Hierofantes! Pequenos gigantes por toda a parte! Shawn olhava para fora do cubículo e lá estavam eles: aqueles homens andando silenciosamente pelo corredor eram James Thurber, Wolcott Gibbs e Robert Benchley em pessoa. Aquele sujeito desengonçado e de bigode, ali; ele era James Thurber. Você não estava lendo algo sobre ele; era ele mesmo, e agora você fazia parte, fisicamente, realmente, do universo dele. Podia estudar os menores detalhes sobre o sujeito: a trama do suéter de botões amarelo-ocre, a própria costura do tecido, e o jeito com que os fios de lã se entrelaçavam. Era o suéter que James Thurber estava usando, não era uma fotogra-fia da coisa; era o suéter que ele vestira e tinha no corpo. Na realidade! Aquilo era o paraiso! Harold Ross sempre procurara um gerente editorial que conseguisse, de alguma forma, transformar sua concepção da New Yorker em uma operação sistemática e permanente; Shawn, o hierofante fiel, foi o gerente editorial mais bem-sucedido que ele nomeou. Tinha uma... entrega total. Havia muita especulação sobre o que aconteceria com a New Yorker "depois de Ross". Um dos redatores da revista, A. J. Liebling, disse: "A mesma coisa aconteceu com a psicanálise depois de Freud." Ele estava mais certo do que podia supor. Shawn jamais pensou em estabelecer uma nova política. O velho Curador do Museu simplesmente pôs-se a trabalhar com todo o entusiasmo. Pequenas Múmias! *** Parte do trabalho de Shawn como embalsamador é cuidar da própria preservação física do lugar. Exemplo disso é a Sala Thurber, o cubículo que James Thurber ocupou em seus últimos dias na New Yorker. Sua visão já estava fraquejando, e ele esboçava idéias para desenhos na parede, com um grande lapis de cera; jogadores de futebol amalucados, um grupo de

freiras, uns animais silvestres esquisitos, como a Mentira Descarada e a Mentira Branca, coisas assim. James Thurber! A sala fica bem ao lado do banheiro masculino, porque já era difícil para Thurber atravessar os corredores. A sala é mantida como o Santuário Poe em Richmond, na Virginia: puro Poe, puro Thurber. O substituto, o redator que agora ocupa o cubículo, compreende. Ninguém toca naquelas paredes; nenhum quadro, de qualquer tipo, é colocado naquelas paredes. No fim do dia, os zeladores se reunem para decidir a melhor maneira de preservar aqueles... bom, quer dizer, aquelas coisas não são rabiscos, pouco importa o que Thurber teria dito. Aquelas coisas são verdadeiros... murais. Museu! Santuário! Um dia, talvez, todos os escritórios dos gigantes como Robert Benchley, James Thurber, Wolcott Gibbs — todo mundo — possam ser restaurados feito a cidade colonial de Williamsburg, com todos os objetos e curiosidades: os pequenos hussardos de porcelana de Benchley, a morsa de âmbar de Gibbs, os animais e as coisas. Por enquanto, porém, só as pessoas que trabalhavam ali na época em que Ross estava vivo podem ter esse tipo de tralha intelectual — todas essas coisas nas paredes e que tais — em seus escritórios. Os senhores veteranos, como Brendan Gill, o crítico cinematográfico, que está lá há vinte e cinco anos ou algo assim, podem ter os escritórios cobertos de trepadeiras — que pitoresca a tralha intelectual! — mas são mantidos todos no mesmo andar até se aposentarem ou falecerem... E a regra é que ninguém mais pode fazer isso com os escritórios. Ninguém mais pode colocar curiosidades — como todos aqueles mapas de Hartford, anteriores à construção da auto-estrada — nas paredes. Só podem colocar lá as capas da New Yorker. Está entendido? Quer dizer, não se trata de uma regra escrita ou algo assim, mas você logo percebe a coisa como, por exemplo, aquela história de todo mundo usar camisas brancas nos escritórios da IBM. Ninguém bate no seu crânio com o livro de regras, mas um belo dia um babaca desligado chega ao trabalho com uma camisa azul-

clara — tão clara que o tom é praticamente de gelofino; por vol-ta das três da tarde um superior o chama a um escritório onde se ouve o zumbido da luminária fluorescente no teto, e diz: "Quero perguntar uma coisa, você por acaso já viu algum dos nossos executivos usando uma camisa... em tom pastel como a sua?" Bom, é claro que todos ficaram muito tristes, e até chocados, com a morte de A. J. Liebling, o "Joe", em 1963; mas, ora, o sujeito realmente tinha uma tralha inacreditável no seu cubículo, paredes cobertas de retratos de boxeadores peso-galo — em quinto lugar na categoria — com o cabelo cheio de brilhantina, fotografados contra fundos escuros, em papel brilhante, e com inscrições em tinta branca, "Boa Sorte" numa caligrafia retardada, bolinhas em cima dos is. O sujeito realmente passava dos limites do ortodoxo no quesito tralha intelectual. Isso já era ruim o suficiente, mas o estilo dele, o estilo literário; sim, Liebling realmente escrevia para Ross, e realmente tinha seu lugar ali, ninguém nega isso por um instante sequer... mas dá para pensar que ele era... barroco, e às vezes até vibrante... será que ele realmente se encaixava ali? Tom! Sim! A maior tarefa de Shawn, é claro, não era preservar essas salas-santuários, e sim preservar o estilo, o tom da revista. O tom, a atmosfera, é importan-te. Os recém-chegados recebem aulas sobre isso imediatamente. Para começar, na New Yorker ser contratado não tem nada a ver com coisas técnicas ou de departamento de pessoal. Parece mais uma cerimônia de iniciação. A atitude da pessoa é importante. Todo mundo quer saber se o candidato vai se encaixar, se ele tem dentro de si um verdadeiro... hierofante; não um monte de entusiasmo de araque e coisa e tal, mas uma atitude de... bom, humildade, acerca da revista e sua história A humildade assumiu um lugar muito importante ali, e ultimamente a New Yorker tem escolhido pessoas pequenas, isto é, pequenas fisicamente, que possam preservar ao longo de muitos anos o estilo de vestimentas de tweed, simples e humilde, que tinham

na faculdade. Depois de fazer quarenta e um anos você é encorajado, por exemplos tácitos, a passar a usar ternos de lã grossa. Conquiste os seus ternos de lã também! Várias tradições recebem atenção especial. Uma é que o salão do bar do hotel Algonquin e o Rose Room formam um clube particular que é praticamente propriedade da New Yorker. O hotel Algonquin fica do outro lado da rua 44, onde fica a entrada do prédio da revista, indo em direção à Sexta Avenida. O outro bar que existe lá, o Blue Room, ou seja lá que nome tenha, e o outro restaurante — não o Rose Room, mas o outro tipo de restaurante revestido de madeira vibrante perto do saguão — não fazem parte da New Yorker, e tudo que é tipo de gente carnívora vibrante aparece lá, empresários e coisas assim. Mas o salão do bar — bom, não é realmente, mas é praticamente um clube da revista, sabiam? Pelo menos é o que parece, se você trabalha na New Yorker. Até parece um clube, um daqueles clubes elegantes feito o Century Club. Você senta em poltronas de couro junto a mesinhas com luminárias, mesinhas de centro e tal, e não em mesas ordinárias feitas de formica; há muita madeira escura em volta, e você chama o garçom tocan-do uma pequena campainha que fica sobre a mesa — exatamente como num clube, entendem? Quer dizer, o local é público, mas se você trabalha na revista, não pode simplesmente aparecer lá — pois é lá que Ross, Thurber e todos os outros costumavam ir, e agora Shawn às vezes vai por volta das seis horas, mas até ele se controla. Muitas vezes ele nem almoça no Rose Room; por exemplo, ele e Lillian Ross vão até uma delicatessen perto da Rockefeller Plaza e comem dois despretensiosos e discretos sanduiches de mortadela. Portanto, você espera até ser convidado a ir ao Algonquin por um membro importante da equipe. É como se fosse a segunda rodada da sua iniciação, como se agora você fosse realmente ser aceito. Meses se passam, mas finalmente chega o dia em que Brendan Gill ou outro membro da cúpula diz,

do jeito mais displicente possível, como se realmente aquilo não significasse nada: — Sr. Toddy, quer almoçar comigo hoje no Algonquin? — Pronto! É o paraiso!

Perdidos no matagal dos quês: The New Yorker

W

illiam Shawn, editor da revista The New Yorker — bom, ele é uma pessoa muito, como se diz, caseira. Esse é um dos seus lados. Ele é um homem pequeno e discreto, e fala com sussurros hesitantes. Parece usar diversas camadas de roupas: tudo que é tipo de suéter, coletes e casacos. Ele sorri, meneia a cabeça, meneia a cabeça e meneia a cabeça; faz comentários agradáveis e polidos, do tipo bem caseiro. E se — talvez agora já haja um cinzeiro na sua mesa — mas se não houvesse cinzeiro, ele próprio sairia — o Sr. Shawn da New Yorker — e traria uma garrafa de Coca-Cola para você usar como cinzeiro. Tranquilo! — Ah... olá... Sr.... Cage... hum... sim... como... vai... deixe... que... eu... como... vai... sua... esposa... hum... pegue... o seu... casaco... oh... eu... não... quis... hum... pronto... se... eu... conseguir... soltar... aqui... hum... aqui... sente... — Muito obrigado... — ...nessa... cadeira... aqui... bom... ela... hum... sempre... faz... isso... ha-ha... bom... então... ah... vejo... que... está... fumando... deixe... que... eu... — Ah, desculpe, eu não quero... — Não, não, não, não, não, não, por favor... não... há... problema... algum... por favor... fique... sentado... eu... volto... já... E aí ele sai do escritório, sorrindo, e volta num instante com uma garrafa de Coca-Cola vazia na mão. Põe a garrafa de Coca-Cola em cima da mesa, para ser usada como cinzeiro por Cage.

Podemos imaginar Cage dizendo que tem muitas idéias viáveis sobre uma matéria qualquer, ou algo assim; mas o engraçado é que ele ouve a própria voz enquanto fala. As palavras saem direito — "várias abordagens bastante viáveis, eu acho" — mas parecem ocas, como que numa câmara de eco, porque dentro do seu cérebro ele só consegue se concentrar no cigarro e na garrafa de Coca-Cola. O vidro grosso daquelas garrafas, e Jesus, aquele buraquinho ali em cima — parece grande o suficiente, mas se você tentar bater a cinza do cigarro ali dentro da garrafa de Coca-Cola, vê que o vidro é grosso e que o buraco não é grande o suficiente. Cage já está praticamente acabando o cigarro — "Bom, não tenho certeza absoluta de que a idéia etnocêntrica funcione num caso como este, mas..." — e ai o que ele vai fazer? Não há onde apagar o cigarro. Ele simplesmente terá que jogar o cigarro dentro do buraco da garrafa de Coca-Cola; o cigarro vai bater no fundo da garrafa e vai continuar queimando, entenderam? E aquele fiapinho de fumaça fedorenta vai ficar saindo da garrafa, feito numa lamparina, com aquele cigarro imundo jogado no fundo, bem em cima da mesa de Shawn. Obviamente, Shawn não é chegado a cigarros, para começar, e o pobre Cage ainda nem vendeu para ele a idéia da matéria... *** Mas! Aí é que está o charme do sujeito! Por fora ele é discreto e caseiro, tranquilo. Por dentro, no entanto, William Shawn não cochila um instante sequer. Como da vez em que o pessoal do departamento de pesquisa começou a fazer esquetes semanais, meio que gozando alguns dos veteranos — alguém quer saber quanto tempo aquele tipo de coisa durou? Essa é uma... pergunta retórica. Shawn não cochila. William Shawn não vacila por um instante sequer na tarefa à qual se dedicou após a morte de Harold Ross. Preservar a New Yorker exatamente tal como Ross a deixou... por toda a eternidade.

Sim! E para fazer isso, William Shawn não mediu esforços. Ele inventou um sistema de editorias que tern mais aspectos de jornalismo de grupo — ou orgedit, como isso se chama na Novy Mir — que qualquer coisa que a revista Time tenha sequer contemplado. Para começar, pode-se ter total certeza de que nenhum... engraçadinho do departamento de pesquisa vai ficar de onda lá, fazendo esquetes sobre os veteranos — muitos deles homens que trabalhavam com Ross. Esses homens tem papel importante no esquema de Shawn. A parte física da preservação — como a preservação da Sala Thurber — era fácil. A tarefa mais dificil de Shawn era preservar o estilo literário da New Yorker de Ross. A melhor coisa a fazer, é claro, era adotar como modelos os estilos dos homens que já vinham trabalhando com Ross na revista — os chamados Pequenos Gigantes: E. B. White, Joseph Mitchell, Wolcott Gibbs, James Thurber, A. J. Liebling, gente assim. *** Bom, o primeiro passo de Shawn foi brilhantemente simples. Na realidade, ele concedeu estabilidade vitalícia — que pureza! — a quase todos que trabalharam com Ross. Antiguidade no cargo! Os colunistas e afins da New Yorker tern estabilidade vitalicia; lá, qualquer garoto ambicioso com aspirações tern que esperar sua vez, tem que conquistar seu primeiro par de ternos de lã grossa trabalhando e esperando por eles, entendem? Isto já provocou certos problemas. As seções de cinema, teatro e arte da revista atualmente ostentam uma irrelevância excêntrica. Tem um certo charme do tipo suéter-tricotado-atiçando-as-brasas-da-lareira, mas... vivem cheias de besteiras pomposas como: "Havia a evidente intenção de fazer um relato cômico de uma família londrina de classe média baixa cheia de excêntricos adoráveis, mas quando — após trinta minutos — eu vi que nada de cômico acontecera e que minha animação costumeira estava sendo reduzida a graves lamentos audíveis, levantei-me e

sai do teatro, o qual, no que diz respeito a risos, estivera — e suspeito que assim tenha permanecido — silencioso como um túmulo." Evidente intenção; graves lamentos audiveis; silencioso como um túmulo: que delicia! Mamãe já está com água na boca! As seções "Letter from London" e "Letter from Paris", escritas por dois veteranos, apresentam o mesmo problema. Foram iniciadas na década de 1930, quando poucos americanos viajavam a Londres ou Paris; a idéia era apresentar os leitores ao que era atual em termos de Cultura e modes na Europa. Hoje em dia tudo que é tipo de gente voa para Londres e Paris o tempo todo, e essas "Cartas" do exterior assumiram o tom de cenas aleatórias vistas da janela de um hotel de segunda. Shawn, é claro, tem perfeita consciência disso. Só que ele tem uma... missão mais específica: ser Curador de Museu! Aparentemente, ele queria um molde permanente para os ensaios, perfis e outras atrações da New Yorker, e realizou a coisa com gosto certeiro. Lillian Ross! A ultima coisa realmente impressionante que a revista publicou sob a direção de Harold Ross foi o perfil que Lillian Ross fez de Ernest Hemingway em 1950. Por falar nisso, Lillian não é parente de Harold. Sua matéria era maravilhosa, e a técnica empregada influenciou muitos dos melhores jornalistas do país. Ela abandonou totalmente o habitual formato histórico do perfil, e em vez disso escreveu um diário de bordo dos dois dias que passou seguindo Hemingway por Nova York. Incluiu todos os pequenos apartes dele, diálogos fantásticos, tudo. A matéria fornecia um retrato maravilhoso do grande egomaníaco tagarelando pela cidade, golpeando todo mundo na cabeça com seu ego como se este fosse uma bexiga de porco. O artigo impressionou Ross, e Lillian ganhou o prestígio necessário dentro da revista desde o começo. Uma moça baixa, discreta, inconspícua e simpática, natural de Syracuse, onde o

pai administrava um posto de gasolina e tinha muitos bichos em casa, ela demonstrava uma queda bem feminina pelos azarões. Além disso, seu estilo de prosa era direto, sem apresentar nenhuma das filigranas do sujeito no extremo oposto, Liebling, o qual vivia à beira do que Ross apontava como o pecado anglo-saxão do "excesso", ou seja, forçar o próprio cérebro. Em todo caso, o estilo de Lillian Ross tornou-se o modelo para os ensaios da New Yorker. Isso não seria problema, mas a maioria da rapaziada não chegou realmente a pescar a coisa. Limitaram-se a imitar alguns dos maneirismos descartáveis dela. Lillian sempre acumula detalhes e diálogos, principalmente diá-logos; mas sempre acumula tudo com muito cuidado para chegar a um objetivo final, tal como: Ernest Hemingway é um garoto mimado e um babaca presunçoso. Todos os discípulos dela parecem pensar que — misteriosamente — conseguirão criar um retrato mordaz, caso enfiem em suas páginas um numero suficiente de detalhes e fatos aleatórios. Ignoram os pontos fortes de Lillian — ou seja, seu ouvido para o diálogo e seu ponto de vista — e simplesmente usam à exaustão alguns artifícios esportivos dela. Um deles é a frase recheada de fatos. Outro ensaio que também teve muito impacto foi o que Lillian escreveu sobre a realização de um filme. The Red Badge of Courage (A glória de um covarde); a frase de abertura da matéria causou a ruína de pelo menos cinquenta "Cartas" e "Perfis" de autoria dos soldados de infantaria da New Yorker que seguiram o caminho aberto por ela. A frase era a seguinte: A realização do filme The Red Badge of Courage, da Metro-Goldwyn-Mayer, baseado no romance de Stephen Crane sobre a Guerra Civil, foi precedida por revelações rotineiras sobre os planos da produção feitas pela colunista Louella Parsons ("John Houston está roteirizando para o cinema o clássico The Red Badge of Courage, de Stephen Crane, como um

possível filme da MGM"), pela colunista Hedda Hopper ("A Metro comprou os direitos de The Red Badge of Courage, e John Houston está fechando o orçamento da produção. Mas ainda não há sinal ver-de"), e pela Variety ("Começa na Metro o trabalho de pré-produção para The Red Badge of Courage com testes para os principais papéis do drama"), e também foi precedida, na primavera de 1950, por uma visita rotineira de John Houston, que é ao mesmo tempo roteirista e diretor, a Nova York, onde fica a sede da Loew's, Inc., a empresa que produz e distribui os filmes da MGM. Lillian Ross estava apenas de curtição com essa frase, mas as equipes da New Yorker começaram a escrever matérias inteiras nesse estilo. Inacreditável! Todas aquelas orações, apostos, amplificações, qualificações, apar-tes, sabe Deus o que mais, penduradas dentro do pobre esqueleto de uma só frase feito uma espécie de erva-de-passarinho. Isso continua sendo feito. Um exemplo recente é um ensaio da edição de 13 de março, que começava com o que já se tornou uma formula consagrada na revista: Certa tarde, pouco depois do inicio do semestre primaveril na Universidade da Califórnia, pus-me a caminho do campus de Berkeley e passei pelas mesas de jogo que foram colocadas nesse dia pelas organizações políticas estudantis na alameda Bancroft — uma larga calçada de lajotas, em frente à entrada principal do campus, que fora o campo de batalha original na polêmica sobre liberdade de expressão que tumultuara e ameaçara a universidade durante todo o semestre outonal. Isto, porém, era apenas o aquecimento. A coisa logo passava a um estilo especial da revista conhecido como o "matagal dos quês":

Ao contrário dos trabalhadores da COFO, porém, que ainda não sabem ao certo se sua campanha por direitos civis provocou alguma mudança no Mississippi, os trabalhadores da F.S.M. só precisam andar um ou dois quarteirões para testemunhar uma atividade politica irrestrita no campus, atividade essa que era a meta do movimento, e para quem tenha passado algum tempo escutando suas reminiscências, a sede da F.S.M., que é uma aquisição relativamente recente, parece um eco improvisado do passado, quando a F.S.M. tinha uma série de postos de comando, com nomes como Central da Greve e Central da Imprensa — um sistema de walkie-talkies para a comunicação entre seus observadores no campus — e um número de telefone de emergência, chamado Nexus, para ser usado quando o número normal estivesse ocupado. Qu-qu-qu-qu-qu-quaaaaalllllééééé! — Essas pilhas de palavras — que, qual, quais, quem, quando — formando um verdadeiro matagal de quês. Tudo isso estava numa matéria chamada "Letter from Berkeley", de Calvin Trillin; mas não se trata de um caso raro, e nem é culpa de Trillin, que sabe escrever com muita clareza, em tom bastante direto, quando o deixam em paz. Mas hoje em dia ninguém está em paz na New Yorker. Shawn tem... um Sistema. O sistema é um refinamento criado por ele a partir da teoria da interrogação de Ross, e funciona mais ou menos assim: depois de aceito um artigo, ele é redatilo-grafado por alguma garota em papel amarelo-milho e mais umas duas cores, e enviado por Shawn a um editor-chefe. As outras duas cópias vão para o departamento de pesquisa e o departamento de estilo de redação. A tarefa do departamento de

estilo da redação é ajustar a gramática, a pontuação, a ortografia e a semântica do artigo segundo as regras da revista sobre o assunto. As frases formuladas como perguntas, por exemplo, tem que terminar com um ponto de interrogação; não importa se lá pelo final da frase a idéia já não é mais fazer uma pergunta. Eis um exemplo tirado de "Talk of Town" (Casos da Cidade), também em 13 de março: "Seriam os espantosos italianos a reverter as coisas, no entanto, pois quem chegaria a Nova York num vôo de Milão na outra manhã, para uma estada de cinco dias, senão cento e trinta e seis dos mais proeminentes — para não dizer animados e falantes — pintores e escultores da Itália, cada um trazendo cinco ou mais obras, a serem vendidas aqui numa série de leilões beneficentes em favor de dois hospitais nova-iorquinos: o Hospital Italiano, na rua 110 lado oeste, e o Hospital-Escola de Nova York, na rua 50, lado oeste?" *** O editor-chefe pode — e espera-se que o faça — reescrever o artigo do jeito que achar melhor. Quase sempre o autor não é consultado; o editor pode fazer as alterações sem ele, algo que na Time, por exemplo, só acontece raramente. Na Time o próprio autor faz as alterações, sempre que possível. Praticamente todos os colaboradores da New Yorker, sejam fixos ou eventuais, passam por esta rotina, com exceção de algumas pessoas, como Lillian Ross, que são editadas pelo próprio Shawn. Enquanto isso, os funcionários do departamento de pesquisa vão fazendo outras alterações. Geralmente os pesquisadores acrescentam coisas preenchendo as lacunas que o autor deixou na matéria. O sujeito escreve algo assim: "A srta. Hall participou de (t.k.) de Sean O'Casey em 19(00)...", esperando que o pesquisador preencha as lacunas, sendo que t.k. significa "acrescentar palavras" e (00) significa "acrescentar números". É exatamente assim que as revistas de notícia funcionam. O pesquisador ai produz: "A srta. Hall participou de Tambores sob a janela, uma peça de Paul Shyre baseada num livro

autobiográfico de Sean O'Casey com o mesmo título, em 1961." Depois disso, as alterações feitas pelo editor de redação, pelo revisor de estilo e pelos pesquisadores são reunidas e o negócio todo é composto numa máquina Vari-Typer. A máquina compõe a matéria com margens uniformes em cada lado da página, aproximando-se da largura de uma coluna real da revista. São feitas muitas cópias dessa versão Vari-Typer, e aí começa realmente a papelada. Sabe-se lá como, a essa altura as frases da matéria começam a ficar... mais e mais compridas. Uma cópia Vari-Typer volta para o editor-chefe, duas outras voltam para os pesquisadores e revisores de estilo, uma terceira sobe para o escritório de Shawn, e a quarta vai para um editor de "interrogações", ou às vezes para dois editores de "interrogações". Os editores de interrogações participam de um jogo interne Isso foi criação de Ross. A meta é abrir um buraco em cada ponto fraco que se puder encontrar na matéria, ou seja, realmente dar uma geral na coisa. Segundo as regras, as objeções têm que assumir a forma de perguntas — "interrogações". Os editores competem para ver quantas perguntas mordazes, insultuosas e devastadoramente irônicas conseguem postular acerca de cada matéria. O atual campeão de "interrogações" da New Yorker é Rogers Whitaker, um veterano da era Ross. Os jogadores podem acusar a matéria de artificialismo, pretensão, exuberância excessiva, ênfase excessiva, qualquercoisa-excessiva, ou simplesmente de erros de raciocínio, duplos sentidos involuntários e outras ingenuidades. Se não houver outros pontos vulneráveis, podem acusar a materia de ser vaga demais. Neste aspecto, especificamente, sempre há muitas interrogações. A interrogação assume formas como "Devemos realmente presumir que há mais de dezoito pessoas vivas que se lembram de uma peça de Paul Shyre, baseada num livro de Sean O'Casey intitulado Tambores sob a janelal Temos certeza de

que não era Tambores sob o algodãozinho do campo, ou Algodãozinho nos tambores do campo sob a janela? Onde foi encenada — na Feira Mundial da Cidade de Trujillo em 1955?" Essa interrogação volta ao editor-chefe, que imediatamente a envia para o pesquisador. A essa altura já há provas voando por toda a revista, e os velhos boys, os mensageiros de terceira idade da New Yorker, aumentam o passo arrastado pelos corredores. A interrogação acaba produzindo a seguinte frase: "A srta. Hall participou de Tambores sob a janela, uma peça de Paul Shyre baseada num livro autobiográfico de Sean O'Casey, e que teve (00) representações no (t.k.), um teatro off-Broadway, em 1961." O autor pode ou não participar dessas edições, conferências e alterações. Tantas provas estão circulando por toda a parte que só resta uma esperança de se conseguir colocar alguma versão da matéria na revista: a... Sala de Revisão! *** Nesta sala há um pequeno grupo de pessoas curvadas sobre mesas, juntando toda a papelada e repassando as correções e interrogações de todo mundo para um conjunto de provas finais. Os velhos boys vêm carregando esse material dos pesquisadores, dos revisores de estilo, dos editoreschefes, dos editores de interrogações, de tudo que é lugar, e as provas finais são enviadas de volta para o editor-chefe, para Shawn, e para os pesquisadores. Todos conferem as provas pela última vez. A essa altura o autor pode entrever que... mutação... interessante... a sua matéria sofreu, caso alguém lhe peça para resolver as interrogações sobre certos fatos e reescrever os trechos necessários. E por fim, como culminação desta grande... evolução, o produto homogeneizado é despejado na gráfica — em Chicago, via impulsos eletrônicos — e conseguese atingir o Estilo da New Yorker. Era de se pensar que os jovens autores sensíveis se irritassem com isso; que eles dessem uma olhada no

matagal de talvezes, provavelmentes, devodizeres e no cipoal de orações relativas que brota na sua prosa e... bom, se irritassem com isso. Mas! Não é isso que acontece. Os autores se acostumam muito rapidamente, assim que aplicam em si mesmos o que um detrator chama de "autolobotomia". É o paraíso! O Sistema! Nós! Org-lit ambrosíaca! De vez em quando, porém, esse bucho-org vomita alguns artigos únicos e até importantes, como por exemplo "Hiroshima", de John Hersey. Foi uma inspiração de Shawn. Ele convenceu Harold Ross a dedicar uma edição praticamente inteira da revista ao relato que Hersey fizera do bombardeio de Hiroshima. Pode ter sido um daqueles memoráveis e alentados documentos sobre nossa época que ninguém lê, tais como as edições do New York Times que publicam os necrológios de gente como Stalin e Churchill, ou as mensagens presidenciais sobre o Estado da União. Todos nós compramos esses tijolaços; mas nem lemos a notícia, nem jogamos fora o jornal. Enfiamos o troço na prateleira de um armário e preservamos aquilo ali feito uma cápsula do tempo, de mudança em mudança, da urbe para o subúrbio, agarrados àquele documento sobre a nossa época. Mas até aí tudo bem. "Hiroshima" foi um caso isolado. O livro de Rachel Carson, The Silent Spring, foi publicado pela primeira vez na New Yorker, assim como a "Carta de uma Região de Minha Mente", de James Baldwin, que posteriormente ampliou o artigo e transformou-o no livro Na próximo vez, fogo. Artigos como esses tiveram um grande impacto no país. O de James Baldwin, por exemplo, tornou-se o chicote favorito dos liberais masoquistas brancos por todo o país. Açoite-nos, açoite-nos, James; pobres de nós, burgueses brancos culpados, açoite-nos com sua elegante retórica de pregador. Que maravilha! Portanto, a New Yorker tem uma reputação literária maior do que qualquer outra revista do país, seja na area de ficção ou de não-ficção. Ainda assim,

curiosamente não foi a The New Yorker que lançou James Baldwin no âmbito das revistas. Foi a Esquire. James Baldwin, Sherwood Anderson, Saul Bellow, Albert Camus, Joyce Carey, John Dos Passos, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Sinclair Lewis, Aldous Huxley, James Jones, Thomas Mann, Arthur Miller, Ezra Pound, Philip Roth, Joseph Heller, William Saroyan, Irwin Shaw, John Steinbeck, Nelson Algren, Bruce Jay Friedman, Norman Mailer, Stanley Elkin, Terry Southern, Edward Albee, Jack Gelber, J. D. Salinger — este não é o plantel de autores da New Yorker, e sim dos autores da Esquire. "As neves do Kilimanjaro" e "A breve vida feliz de Francis Macomber", de Hemingway, sairam primeiro na Esquire. Crack-Up, de Fitzgerald, saiu primeiro na Esquire. Hemingway, Fitzgerald, Dos Passos, Lewis, Arthur Miller, Baldwin — todos foram colaboradores habituais da Esquire, numa ou noutra época. Salinger foi publicado pela Esquire muito antes de ser publicado pela New Yorker. Damon Runyon, Stephen Vincent Benét, James Gould Cozzens, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald, John Marquand, Thomas Wolfe, Philip Wylie, Frank O'Connor, Robert Penn Warren, William Humphrey, James Jones, Thomas Pynchon, Saul Bellow, William Saroyan, Louis Auchincloss, Bernard Malamud, Graham Greene, Alberto Moravia, Herbert Gold, Nelson Algren, Isaac Bashevis Singer — esta não é a lista de autores da New Yorker, e sim dos autores do Saturday Evening Post. Nos últimos quinze anos a revista esteve praticamente fora da competição literária. Somente Salinger, Mary McCarthy, John O'Hara e John Updike mantiveram a New Yorker no jogo. As histórias de Updike parecem cada vez mais com rótulos, deixando a revista com apenas um jovem escritor promissor, Donald Barthelme. *** A New Yorker sai uma vez por semana, tem um prestígio cultural esmagador, e paga aos seus redatores os maiores salários do mercado — mas mantém há quarenta anos um nível de realização

literária marcantemente baixo. A Esquire sai somente uma vez por mês, e ainda assim sempre superou a New Yorker em termos de contribuição literária, mesmo nos tempos em que priorizava as pernas femininas. De vez em quando alguém senta e escreve um resumo afetuoso do histórico da New Yorker, na expectativa de que a bibliografia da revista pareça uma espécie de quadro de honra das letras americanas. Em vez disso, surgem John O'Hara, John McNulty, Nancy Hale, Sally Benson, J. D. Salinger, Mary McCarthy, S. J. Perelman, James Thurber, Dorothy Parker, John Cheever, John Collier, John Updike — um bom elenco, mas que não é exatamente o Olimpo da língua-mãe. Os contos da New Yorker vêm sendo motivo de chacota na comunidade literária nova-iorquina há anos, mas somente porque pouquíssimos acadêmicos compreenderam realmente o propósito de Shawn. A revista já publicou uma quantidade incrível de contos sobre mulheres em curiosos cenários rural-burgueses. Geralmente esses contos são escritos por mulheres, recordando a infância ou os animais domésticos que tiveram, Frequentemente são escritos por homens, no entanto, meditando sobre sua esposa e seus filhinhos, e cheios do que se costumava chamar de "anseios obscuros" por algo mais. O cenário é algum exúrbio, local campestre ou balneário de verão — algo do tipo — e a atmosfera mental é a do aconchego do chá, chales franjados, cadeiras Morris, brasas ardentes, varandas de madeira, geada no cabo da bomba d'água, papai lá no alpendre de lenha dos fundos, folhas caindo, brotos se abrindo, pássaros do tipo observado por observadores de pássaros, gralhas-de-penacho e coisas assim, cantorias, corações que se elevam e caem, mas não muito longe — em suma, uma grande tina florida e transbordante do que Lênin chamava de "sentimentalismo burguês". Há dez anos, apareceram dois contos na edição do Dia de São Patrício: um de Sally Benson, e outro de Sylvia Townsend Warner. O de Sally Benson era sobre

um velho casal em algum ponto turístico do campo burguês, perto da estrada velha na pousada "Cantinho do Aconchego". Havia um pouco de filosofia de botequim a respeito de como o tempo passa sobre a construção de uma nova autoestrada por lá, ã-hã, ã-hã. O de Sylvia Townsend Warner intitulava-se "Meu Pai, Minha Mãe, os Bentleys, o Poodle, Lorde Kitchener, e um Camundongo". Lorde Kitchener era um gato. O conto começava com uma mulher, o "eu" da história, descrevendo em detalhes a cama em que nasceu. A cama tinha um dossel branco engomado, estampado com patas de cachorro. O conto regredia ao passado, falando até das recordações que a mãe da mulher tinha da sua infância na Índia. Dez anos depois, na edição do Dia de São Patrício em 1965, aparecem dois contos: um de Linda Grace Hoyer, e o outro de John Updike. O de Linda Grace Hoyer tem as reminiscências de uma avó sobre sua infância — ao estilo Hansel e Gretel, com caminhadas no crepúsculo — passada numa mansão burguesa com jardins em alguma localidade rural. O de John Updike é sobre um flerte não correspondido, durante o chá, entre um romancista americano e uma poetisa búlgara, ambos possuídos por... anseios obscuros. *** Mas Shawn sabe exatamente como são estes contos. Sabe exatamente o que os literati pensam deles, e não se importa com isso. Ele tem um propósito mais sério. Está preservando o conceito de Harold Ross sobre "o informal". Ross sempre chamava os contos da revista de "informais", porque supostamente era isso que eles deveriam ser, informais. Ele não queria um monte de contos cheios de esforços literários, veias saltando, sofrimentos de corações ávidos, desmaios freudianos de pieguices sexuais; esse tipo de conto "sério" não se encaixava no seu conceito inglês de sofisticação. Já as farsas de Thurber eram perfeitas. Reminiscências suaves, do tipo que alguém poderia contar nas mesas de jogo de um clube, cabiam muito bem. As reminiscências de Clarence Day

em Life with Father (Minha vida com papai) foram publicadas pela primeira vez na New Yorker, e eram informais; depois foram transformadas numa peça de sucesso. Infelizmente, depois da guerra surgiram muito poucos escritores bons que não pertencessem a alguma linha "arteira" tradicional, como Ross teria visto a coisa. Mas Shawn — sempre o zelador perfeito! — permanece fiel à formula de Ross. Encontra autores que sabem escrever textos informais. E claro que não há muitos Thurbers por ai, de modo que ele tem de fazer de Clarence Day seu modelo de trabalho. Muitos dos autores que ele descobre são mulheres, e o resultado é Minha vida com mamãe, mas até ai tudo bem. De vez em quando, e felizmente, são autores talentôsos como John Updike, que, sabe-se lá como, tem um dom para essa fórmula.

Além disso, a coisa pode ser a mais xaroposa banheira de sentimentalismo burguês do mundo, mas... funciona. Até Lênin perceberia e reconheceria isso. Todos esses contos — Minha vida com mamãe, vovó sentimental, jovens casais com anseios obscuros, flertes não correspondidos — pertencem, afinal de contas, ao tipo de ficção mais adequado a revistas para mulheres suburbanas. Não para todas as mulheres, e sim mulheres suburbanas. As outras revistas femininas, como a Ladies' Home Journal, Redbook, McCall's e Good Housekeeping, já fazem exigências mais elaboradas aos escritores de ficção. Os contos que elas publicam tendem a levar as moças para a cama, e com frequência os heróis tem uma rotatividade consideravelmente mais acelerada do que na New Yorker. Os contos da New Yorker são mais parecidos com os contos que as outras revistas costumavam publicar há trinta anos. Mas isso é perfeito, já que depois da Segunda Guerra Mundial nosso país... produziu... um tipo de mulher para quem os contos antigos das revistas femininas são

bastante adequados, principalmente na New Yorker. As mulheres suburbanas! *** Depois da guerra, os subúrbios das grandes cidades americanas começaram a se encher de mulheres instruídas com casas grandes, maridinhos sérios e gosto para... comprar coisas caras. A New Yorker era a revista — mais ou menos a única revista geral — que elas ouviam seus professores mencionarem de uma... maneira cultural boa. E de repente elas descobriram — no verdejante mundo de Larchmont, Dedham, Grosse Point, Bryn Mawr e Chevy Chase — que essa revista, uma revista cultural, estava falando diretamente para elas — sobre cultura e tudo mais — , estava comunicando na língua delas, mulheres suburbanas. Que histórias maravilhosas! Bom, em primeiro lugar, a New Yorker virou um ícone para essas mulheres. Para elas, ter a revista em casa já é... um símbolo, uma espécie de distintivo. Mas além disso, a New Yorker não é como as outras revistas emblemáticas, a Realties ou a London Illustrated, pois as pessoas mal folheiam as páginas dessas revistas; a New Yorker alcança o cantinho do coração da mulher suburbana burguesa. E é nesse cantinho que ficam mamãe, amplas casas de campo suburbanas sem hipotecas, dosséis de linho branco, e o Amor que chega com Henry Fonda, sozinho, montado num cavalo branco. Contos perfeitos! Afinal, a tal jovem senhora não está sentada lá naquele subúrbio esperando que Stanley Kowalski apareça com sua camiseta esculhambada e arranque a roupa da sua babá. Os subúrbios não são nem um pouco assim. A jovem senhora — bom, a jovem senhora quer Cultura e tudo mais, mas quer ter em casa uma revista que também comunique, entendem? E não quer ter que lavar a alma com detergente depois. Além disso, havia os anúncios gloriosos! Para milhares de mulheres suburbanas, a New Yorker é um guia nacional de compras. Todas as edições da revista

são maravilhosas galerias fotográficas, editadas não por Shawn, mas pelos publicitários mais talentosos de Nova York. Vêem-se os castelos de Berchtesgaden (cortesia da Air France), figurões de calvície incipiente abraçados a garotas douradas junto à balaustrada do navio durante o pôr-do-sol (cortesia dos navios de cruzeiro da Matson Line), motoristas com botas de couro e culotes carregando caixas de bebida para Rolls-Royces sob as vidraças cintilantes da esquina da Park Avenue com a rua 53 (cortesia da Imperial Whiskey), mulheres de luxuosa languidez recostadas em cabeceiras de camas Luis XVI, com diamantes do tamanho de um joelho de porco nos dedos, gatos persas brancos e pequenas mesinhas para escrever no colo (cortesia dos papéis de carta Crane) — todos esses troços lindos e maravilhosos. Em 1964, o faturamento bruto da New Yorker com anúncios foi de 20.087.952 dólares. As ações da revista estavam cotadas entre 132 e 139 dólares nesse mesmo ano. Valiam apenas de 20 a 29 dólares dez anos antes. A revista teve uma media de 115 páginas com anúncios por edição no ano passado. Há trinta anos o exemplar inteiro, com os anúncios e editoriais, só tinha de 96 a 112 páginas. O departamento comercial da New Yorker tem autonomia para rejeitar anúncios. Em 1963, a revista eliminou todos os anúncios com retratos de roupas íntimas femininas, argumentando que muitos dos que as agendas apresentavam tinham uma conotação "desagradável", e que o departamento estava cansado de discutir cada caso individualmente. A New Yorker — na realidade, o "Departamento de Pesquisa de Mercado" da revista — até publicou um folheto para os anunciantes. Maravilhoso! Muito parecido com a Good Housekeeping. O folheto intitula-se "O Principal Mercado para a Mercadoria de Qualidade". À primeira vista, o folheto é apenas um serviço para as empresas, mostrando onde se concentram os compradores "de qualidade" no país. A verdadeira idéia, aparentemente, é mostrar aos anunciantes que a circulação da revista se concentra nos mesmos lugares — as grandes e belas áreas

metropolitanas dos Estados Unidos no pós-guerra. Que sofisticação! Isso mostra que a circulação da New Yorker acompanha a curva de compras de Cadillacs e Lincolns, jóias e talheres de luxo nos mais abastados subúrbios americanos. Que sofisticação! Vê-se que a revista acompanha a curva de beleza dos Cadillacs, Lincolns, vasos filigranados, conjuntos de mesa Winslow, e até dos campos elísios criados pela comissão de zoneamento em Stamford e Newton Square. A edição de 13 de março da New Yorker tinha 204 páginas, e correndo pelo meio da floresta tropical de anúncios havia uma única coluna fina de texto cinzento, que era a matéria editorial. O padrão hoje, geralmente, é o de páginas inteiras de matéria editorial, fotografias e caricaturas apenas no primeiro quarto da revista. Depois disso, em geral — e praticamente até o fim da revista — há anúncios de página inteira de um lado e duas colunas 244 de anúncios e uma coluna de texto do outro. Este fino tecido de ligação — a coluna de texto — parece estar ficando cada vez mais pálido, em termos de real aparência física. E é exatamente isso que vem acontecendo. Sim! Vários anos atrás a New Yorker transferiu sua impressão da Condé Nast, em Nova York, para a Donnelly Press, em Chicago. Nessa ocasião eles fizeram o tecido de ligação, o texto, ficar mais pálido. Aumentara a entrelinha uma fração de centímetro, colocando mais espaço branco entre elas. Isso fazia com que os anúncios — lindos anúncios luxuriantes! — se destacassem mais, principalmente nos casos em que, por razões técnicas, o tom negro dos anúncios não podia ser tão intensificado quanto o tom negro produzido pelas impressoras da própria revista. O texto mais pálido possível! Feito um modesto engaste banhado em prata para... as joias. Um dos ex-editores da New Yorker disse — não conseguiu evitar — certa vez: "Sempre que vejo aquelas tiras magricelas de texto serpenteando entre aqueles anúncios maravilhosos, grandes e gordos, eu

chego a ter vontade de chorar, e só consigo pensar naqueles baixinhos malvestidos, trabalhando feito escravos a semana inteira em coluninhas albinas que ninguém vai ler." Baixinhos malvestidos? Do quê ele está falando? É impossível que aqueles homens dedicados que produzem a New Yorker, que... que... bom, é impossível, geneticamente impossível, que eles pareçam... malvestidos, ou qualquer coisa que se aproxime disso. Sim! Pois parece que Shawn tem em funcionamento um completo programa genético para garantir que a New Yorker de Harold Ross seja preservada... perpetuamente. *** No entanto, como se pode entender o sistema de eugenia da New Yorker sem testemunhar algo como a festa pelo quadragésimo aniversário da revista no salão de baile da cobertura do hotel St. Regis? É um evento fechado. As pessoas que pensaram em convidar gente de fora foram gentil e firmemente avisadas para não fazê-lo. Coisa Nossa! Todos aqueles homens e mulheres dos departamentos editorial e comercial estão lá em cima, no vigésimo andar do St. Regis, em meio a uma enorme... efervescência, em meio a uma decoração querúbica e muitas janelas fechadas no lado da rua 53, olhando para as Luzes da Cidade lá embaixo. Em cima do palco, uma banda toca um monte de músicas... atuais... como se diz por aí, música pop, no ritmo do twist ou do frug, ou seja lá que nome tenha isso. No entanto... que maravilha! Eles tem o dom de reduzir tudo a um sensacional sopro sincopado semelhante ao... bom, swing da década de 1930. Há mesas com toalhas brancas por toda a volta da pista de dança, e todos estão bebendo, dançando ou comendo o bufê, que tem ótimos presuntos, perus, aspic e pãezinhos crocantes. Alguns dos mais jovens estão até dançando esses ritmos jovens, como o twist e o frug — mas o principal é que todos estão juntos aqui em cima — todos, tanto do departamento editorial quanto do comercial. Tanto os chamados baixinhos

malvestidos que produzem as cha-madas colunas albinas de texto na revista quanto o pes-soal animado que administra um dos grandes impérios publicitários do jornalismo — gente muito elegante como Hoyt (Pete) Spelman, um executivo publicitário — estão aqui no salão de baile da cobertura do St. Regis comemorando — feliz foxtrote! — o quadragésimo aniversário da The New Yorker. Sim! A música para, o líder da banda interrompe os músicos, vira-se, dá seu sorriso de lua cheia profissional e depois vira-se de novo para os músicos, que começam a tocar "Parabéns pra Você" naquele tom sensacional de sopro sincopado da banda. Ai, na lateral surge — sim, é ele, o Sr. Fleischmann, trazendo o bolo. O Sr. Fleischmann, daquela família que fez fortuna com produtos de panificação, fundou a New Yorker, com Harold Ross. Ele entrou com o dinheiro, e Ross produziu a revista. O Sr. Fleischmann tem setenta e nove anos, e traz ao seu lado, junto ao cotovelo, o filho Peter Francis Fleischmann, de quarenta e três anos, enquanto o mordomo silencioso empurra o bolo. Peter é... um modelo de correção. Usa um terno azul mais claro, de boa lã, pois já tem mais de quarenta anos; o tom é conhecido como azul-diretor-de-escola. Os sopros estão sincopando "Parabéns pra Você" e todos vão se levantando entre os dosséis cenográficos e as mesas brancas, e a primeira emoção é muito sentimental. Mas a seguir sente-se, subitamente... sim, confiança! É a eugenia da New Yorker! Lá está Raoul Fleischmann, ao lado de seu descendente, Peter, o qual não está lá apenas para acompanhar Papai; ele também é tesoureiro da revista... "Parabéns pra Você". Os músicos da banda podem já estar envelhecendo e pertencer à década de 1930, mas sopram sincopadamente aquele... swing feito um jato industrial supersônico, banhando não só os pequenos gigantes — velhos, porém grandiosos — da Cultura Americana, como também seus filhos e filhas. Brendan Gill, Mollie Panter-Downes, Janet Flanner, Winthrop Sargeant, Robert Coates; eles

trabalharam com o próprio Ross, e ainda estão aqui — Shawn tem fé neles. E não só eles, mas também — herança! — gente como Susan Lardner, sobrinha de Ring Lardner e filha do antigo colunista de televisão da New Yorker, John Lardner. E Donald Ogden Stewart Jr., filho de Donald Ogden Stewart, um humorista americano dos anos 20 e 30; Tony Hiss, filho de Alger Hiss; Michael Arlen, Jr., filho de Michael Arlen, autor de The Green Hat e um dos escritores mais sofisticados dos anos 20, com um dos mais sofisticados estilos de vida — até durante os breves e tenebrosos dias da Depressão, Michael Arlen manteve o seu estilo. Para ele ainda havia coisas, ou modes, como usar trajes formais à noite; ele tinha estilo, e essa era... bom, a atmosfera que se pode preservar. Sim! O jato industrial supersônico com o sopro sincopado banha todo mundo — vibrando! — nas alturas eugênicas da cobertura do St. Regis, com as luzes da cidade espalhadas feito uma caixa de balas Loft aberta lá embaixo. Mas por que usar símiles simples para tal noite? As convoluções genéticas vão se acumulando, acumulando, feito os desenhos que Leonardo da Vinci fez de ondas e marolas quebrando, quebrando, recuando na praia, juntando-se em novas convoluções, acumulando-se mais uma vez, com peso, e tornando-se... uma força da natureza. John Updike não está presente aqui na sala, e nem Linda Grace Hoyer. Lembram-se? Eles escreveram os dois contos publicados na edição de 13 de março passado e — que gracinha! — Linda Grace Hoyer é a Sra. Wesley A. Updike, a mãe de John Updike. Seu nome de solteira era Hoyer, e o nome do meio de John é Hoyer. Eles são modestos, pois se quisessem poderiam figurar na revista como Linda Hoyer Updike e John Hoyer Updike. Isso significaria tanto para certas mulheres que vivem dizendo querer se aproximar de seus filhos — pois ali estariam mãe e filho escrevendo... juntos. Uma vantagem eugênica esmagadora! E o tempo todo vem rolando, rolando, o bolo... bom, o bolo tem o formato de um exemplar da revista; é um exemplar grosso, e em baixo-relevo a cobertura

mostra o rosto de Eustace Tilley, o dândi que examina uma borboleta através de um monóculo, o símbolo da New Yorker. Uma vela arde em cima do bolo. A banda vai crescendo até atingir um clímax com a bateria e os sopros sincopados. Um velho musico da banda, em trajes formais, faz soar um rufo nos tambores, parecendo inimitavelmente tranquilo. Peter Fleischmann diz algumas palavras com a voz da combinação genética, nada emocionante, mas é A Voz. E ai o próprio Raoul Fleischmann apaga a vela do bolo: todos estão de pé aplaudindo, e as palmas vão se acumulando feito... genes! Clap clap clap clapat pat pat pat pat pat pat. Dá para visualizar William Shawn batendo no braço de uma das lindamente estofadas cadeiras de seu apartamento na Quinta Avenida, pat pat pat pat pat pat. Ele consegue até acompanhar o ritmo de um daqueles 248 discos de Dixieland... maravilhosos!... que tem ali na vitrola. Ele podia se afundar no estofamento. Podia se levantar, ir até o piano e tocar junto com o disco, como faz às vezes — e ele faz isso muito bem! Mas hoje ele vai apenas relaxar. Quarenta anos. William Shawn não comparece a essas comemorações. A comemoração, como o sangue bom, deve estar no... coração. E o foco verdadeiro da comemoração é de que o futuro é certo. Bunny Berrigan está bem no meio ali, bem no meio de "I Can't Get Started", fazendo sair do trompete aquele seu maravilhoso som de encanamento de zinco leve. Os outros trompetistas, feito Harry James, jamais tocaram a verdadeira "I Can't Get Started". Não... desculpe... Sr.... James... mas... infelizmente... acho... que... o... senhor... não... é... material... para... a... rua... 43... como... vai... a... sua... esposa... Refrão, refrão, uma transição, e a New Yorker jamais será pega de surpresa, jamais ficará de calças na mão. Diz-se que Shawn já escolheu seu sucessor, tal como Ross teria desejado. E — como tijolo final na estrutura indestrutível! (podemos nos permitir um ponto de exclamação na privacidade da certeza!) — diz-se que seu sucessor é Roger Angell. Herança! Genes! Harmonia! Ross! Roger Angell é o gerente editorial de Shawn, tal como Shawn era o

gerente editorial de Ross. Ele acaba de fazer quarenta anos, conquistou assim seus ternos de lã grossa, e parece... à vontade. E o cacife rossiano que o sujeito tem?! Angell é filho de Katherine Angell e enteado de E. B. White. Katherine Angell fazia parte da equipe original da New Yorker; começou ainda em 1925 como assistente do editor literário. No ano seguinte, 1926, ela contratou um dos maiores dos pequenos gigantes, E. B. White, ou "Andy" White, como ele era chamado. Na redação da revista, os dois se tornaram íntimos. Roger, filho do primeiro casamento de Katherine, era muito jovem na época, e cresceu na casa, na atmosfera, de Katherine Angell e Andy White, os quais sempre foram, desde o começo, vocês sabem, assim com Harold Ross. Todo o futuro se encaixa tranquilamente, e pat pat pat pat pat pat pat pat patclap clap clap clap clap clap clap, Raoul Fleischmann vê uma coluna fina de fumaça erguer-se da vela que acabou de apagar, pairando acima do mordomo silencioso, os sopros sincopados, as Luzes da Cidade, pat pat pat Bunny Berrigan! Berrigan atinge aquela nota incrivelmente alta, a nota que o matou ao estourar um vaso na sua fossa temporal, fazendo-o sangrar até afogar-se no palco feito Caruso. Essa era a música da época de Harold Ross, os dias de gloria, o embalo da vida. Não me fale de calor, de música quente, do calor da alma; foi a época de Harold Ross, e ali, naquela vitrola, aqueles tempos são preservados. Berrigan! Fats! Willie, o Leão! Art! Satchmo! Count Basie! Harold Ross! Pat pat pat pat pat pat pat pat, quatro por quatro, como éramos felizes no Mississippi. Feito e feito! Preservado! Shawn, Deus te abençoe! Pat pat pat pat pat pat pat.

POSFÁCIO

No alto da sela

A

tempestade teve início imediatamente após a publicação da primeira parte, "Pequenas

Múmias", e prosseguiu por meses a fio. Houve muitos momentos bizarros e toques estranhos, mas um deles até hoje destaca-se vividamente na minha cabeça: J. D. Salinger apareceu, Salinger foi o mais afamado ficcionista da New Yorker durante a época de Shawn; era famoso pela angústia que fazia surgir nas entrelinhas de uma prosa aparentemente leve e informal. Aquela altura ele também já era um recluso famoso, não tanto quanto Howard Hughes, mas quase. Entocara-se numa fazenda em algum ponto da Nova Inglaterra, e vivia totalmente incomunicável no que dizia respeito à imprensa. Mas ai, pela primeira vez desde a publicação do romance que fizera sua reputação, O apanhador no campo de centeio, ele se comunicou com a imprensa. Enviou um telegrama a Jock Whitney, e não deixou nada nas entrelinhas. Foi o texto de prosa mais clara e direta que ele escreveu para publicação em toda a sua carreira. "Com a publicação desse artigo impreciso, subcolegial, jubiloso e desavergonhadamente venenoso sobre William Shawn, o nome do Herald Tribune e certamente o seu próprio provavelmente jamais voltarão a significar algo de respeitável ou honrado." Daquele dia até hoje, ele jamais se manifestaria novamente. Quatro outros colaboradores regulares da revista também enviaram cartas a Whitney imediatamente: E. B. White, Richard Rovere, Ved Mehta e Muriel Spark. Muriel dizia que "o estilo de ataque pessoal de Wolfe é nitidamente derivado do senador McCarthy". Eu gemi; na New Yorker até os epítetos tinham marcas de cirrose. E. B. White me comparava a "um cavaleiro... montado no alto da sela", arrastando pelo chão um baixinho indefeso "na ponta de uma corda". Primeiro fiquei empolgado pelo meu crescimento à base de esteróides. Poucos meses antes, em "Talk of the Town", eu era apenas uma criança brincando

num monte de areia. Agora já era Stark Wilson, o pistoleiro de aluguel em Shane. Depois percebi que a coisa era simplesmente ridícula. O tal baixinho indefeso no chão era uma das figuras mais poderosas no âmbito das revistas americanas. O fortão lá em cima da sela era um repórter jornalístico de atribuições gerais que fazia entrevistas no meio da rua ("Na sua opinião, como o divórcio do governador Rockefeller afetará o futuro político dele?"), cobria os crimes ocorridos ("A senhora Tony Bender: 'Meu Marido Não É Um Gangster!'") e escrevia para um suplemento dominical nas horas vagas. Outros, graças a Deus, escreveram dizendo que a New Yorker recebeu o que merecia e acrescentando uma nota de mordaz humor bíblico do tipo olho-porolho. William Styron escreveu: "Diverti-me bastante ao ler na Newsweek que William Shawn acha que o brilhante estudo que Tom Wolfe fez de sua pessoa e da New Yorker lança o Herald Tribune na sarjeta'... Ao longo dos anos desenvolvi razoável resistência à crítica, mas como só senti verdadeiramente o odor da sarjeta numa resenha de um dos meus livros feita nas páginas da New Yorker, achei as acusações de Shawn lastimavelmente carentes de pathos. 'Recebo do Senhor aquilo que antes dei' (Coríntios 1:11, 23)." Barton Kane escreveu: "Há um velho adágio popular que diz que quem com ferro fere, com ferro será ferido". Ele citava o massacre de Henry Luce e da Time por parte da New Yorker, além do da Seleções, e concluía com: "Atire a primeira pedra quem não tiver telhado de vidro." Na minha visão, isso colocava as coisas em perspectiva, mas ao longo das duas semanas seguintes os protestos começaram a ultrapassar o círculo interno da New Yorker. Murray Kempton, um colunista jornalístico muito admirado pelos literatos por seus maneirismos de ensaísta britânico, lançoume junto com o Trib na supracitada sarjeta com um floreio de tropos efigurae sententiae. Bom, mas... e dai? Kempton usava tantas negativas duplas e triplas, no seu elegante estilo britânico, que metade do

tempo você não conseguia entender o que ele estava dizendo. Mas ai Joe Alsop, um colunista político de penetração nacional, fez a mesma coisa numa carta ao Trib, e isso causou um certo choque. Alsop escrevia em Washington, e sua coluna era publicada em centenas de jornais, mas sua base — a maioria dos colunistas tinha uma base — era o próprio Trib. Depois Walter Lippmann entrou na parada. Ele consentiu que fosse publicada uma carta que enviara a Ved Mehta sobre meus artigos a respeito da New Yorker, onde dizia que eu era um "babaca incompetente". Walter Lippmann! Atualmente não há um colunista que se equivalha a Walter Lippmann. Ele era o decano — esta era a palavra que todo mundo usava, "decano" — dos pânditas políticos americanos. "Pândita" era outra palavra que todo mundo usava quando o nome de Lippmann vinha à baila. Na realidade, eu tinha a impressão de que fora expressamente por causa de Walter Lippmann que a palavra "pândita" fora importada do sânscrito para o inglês. Tentei então ver as coisas com uma visão mais ampla. Na época, 1965, o Muro de Berlim estava de pé, os soviéticos tinham a bomba de hidrogênio e os misseis para lançar as ogivas, o Oriente Médio já começava a ferver, e a China era um gigante inquieto — mas Walter Lippmann tinha tempo de ser entrevistado sobre um suplemento dominical e a minha pessoa. Se isso acontecia, o mundo não poderia estar tão mal assim, não é mesmo? Mas para dizer a verdade, essa linha de raciocínio não me trouxe muita tranquilidade. A base do grande Walter Lippmann também era... o Trib! J. D. Salinger, E. B. White, Murray Kempton, Joseph Alsop, Walter Lippmann — embora tentássemos manter uma fachada de coragem, por cerca de dez dias Clay Felker e eu achamos que o céu estava desabando. Mas Jock Whitney, após o choque inicial, manteve a firmeza; e eu nunca vi nosso editor-chefe, Jim Bellows, mais feliz na vida. Ele adorou cada

minuto daquilo. Comia aquilo no café da manhã, e punha um pouco nos seus expressos duplos à noite. Depois de duas semanas Clay e eu percebemos que a única coisa que realmente mudara em nossas vidas era que estávamos começando a ser convidados a festas dadas por gente rica e famosa em que jamais tínhamos posto os olhos. Isso não tinha a ver conosco pessoalmente, e sim com a definição novaiorquina de "uma festa". Em Nova York, uma festa era algo a que você convidava gente que não conhecia, mas achava que devia conhecer. Portanto, Clay e eu já havíamos desenvolvido uma couraça razoável quando a sombra da Casa Branca de Lyndon Johnson abateu-se sobre nossas cabeças, poucos dias depois. Clay estava sentado no pequeno cercado que lhe servia de escritório no Trib, quando o telefone tocou; uma voz anunciou que o telefonema era da Casa Branca, e que ele deveria aguardar. Depois de cerca de cinco minutos de espera reverente, outra voz surgiu na linha e disse: — Aqui é Richard Goodwin. Estou ligando da Casa Branca. Richard Goodwin fora assessor e autor dos discursos de John F. Kennedy, e agora era assistente de Lyndon Johnson. Pôs-se a dizer a Clay que nossos artigos sobre a New Yorker eram uns troços venenosos, repelentes e desprezíveis. A essa altura o rol de adjetivos já era nosso velho conhecido. A única coisa que diferenciava o de Goodwin era que ele não conseguia falar mais de vinte e cinco palavras sem enfiar no meio a expressão "Aqui na Casa Branca". O que nós podíamos concluir, caramba? Johnson já estava mandando meio milhão de soldados americanos para o Vietnã por causa de um incidente mixuruca com uma canhoneira no golfo de Tonkin. Que chance nós teríamos? Mas a essa altura os instintos de Clay já eram os mesmos de Jim Bellows.

— Com licença, não quero interromper — disse Clay — mas você pode me fazer um favor? Escreva tudo que acabou de dizer em papel timbrado da Casa Branca, e mande para cá; eu prometo que nós publicaremos. Nunca mais ouvimos uma só palavra de Richard Goodwin ali na Casa Branca. No entanto, a New Yorker estava longe de ser liquidada. Dwight MacDonald — um pretenso "homem de letras", conhecido em 1965 principalmente por ter escrito um longo artigo na New Yorker denunciando o Dicionário Webster por permitir que um número demasiado de palavras novas passasse pelos portais do uso consagrado e se abrigasse em sua recente terceira edição — escreveu um ataque dividido em duas partes ao Trib, ao New York, a Clay e a mim, ataque esse que foi publicado no New York Review of Books, o comando central dos "intelectuais" americanos. A essa altura a New Yorker decidira copiar um mestre, Aristóteles, que aconselhava que se o argumento estivesse lhe causando problemas — no caso, o argumento era que a New Yorker era uma revista chata, editada por um minimomaníaco — era melhor ir atrás dos fatos e tentar invalidar o argumento dessa forma. MacDonald foi secundado nesta tarefa por dois pésde-boi da casa, um redator contratado chamado Gerald Jonas e minha nova conhecida, a srta. Adler. Num artigo publicado na Columbia Journalism Review, eles arrolavam uma vasta lista de "erros", lista essa notável por dois aspectos. Primeiro: metade dos itens — tais como a preservação museológica dos desenhos na parede de Thurber — foram no devido tempo confirmados pelos próprios autores da revista, ao começarem a escrever suas memórias. Segundo: a outra metade era de coisas que o próprio Shawn poderia ter confirmado ou negado, mas a dupla Adler & Jonas escrevia como se não houvesse jeito de perguntar a ele. Criticavam o fato de eu ter

mencionado algo que na realidade era constantemente comentado na própria revista: que Shawn crescera pensando que facilmente poderia ter sido ele, em vez de Bobby Franks, o escolhido para ser raptado por Leopold e Loeb. Tentando provar que eu estava errado, Adler & Jonas haviam ido a Chicago visitar um velho advogado chamado Elmer Gertz, que aparentemente ficara com as transcrições do julgamento de Leopold e Loeb. E não haviam encontrado qualquer registro de que os dois assassinos houvessem em algum momento pensado num garoto chamado “William”. Sério, não era tão difícil assim. Eu achei esse registro a três quarteirões do Herald Tribune e a um quarteirão da New Yorker, na Biblioteca Pública de Nova York, na rua 42, lado oeste. Mas a questão maior é: por que eles não perguntaram a Shawn? Ele sabia se crescera ou não pensando que poderia facilmente ter sido o alvo. O que ele tinha a dizer sobre o assunto? Ele não queria falar comigo, mas sabemos que teria falado com a srta. Adler. Em suas próprias memórias da New Yorker (em 1999), ela narrou que foi falar com Shawn nesse mesmo ano, 1965, para tentar impedir a publicação da maior obra literária que já passou pela mesa dele: A sangue-frio, o folhetim em quatro partes de Truman Capote. Depois ainda conseguiu que o coitado do Jonas se juntasse a ela num protesto por escrito enviado a Shawn. A srta. Adler achava A sangue-frio "lurido", "sensacionalista" e "lascivo". Ao republicar "Pequenas Múmias" e "Perdidos no Matagal dos Quês", o que mais me preocupou foi que os leitores do ano 2000 ficassem se perguntando o porquê de tanta confusão. O que poderia ter atraído gente da estirpe de Joseph Alshop, Walter Lippmann e Richard Goodwin para essa briga? Mais tarde eu soube que Alsop, depois de renunciar ao ente diário, imaginava aposentar-se escrevendo longas térias reflexivas para a New Yorker. E Goodwin? Haveria algo mais ali, além do costumeiro cortesão inebriado de poder mostrando a alguém que podia fazer-lhe um favor? É bem possível. Goodwin tinha aspirações literárias. A revista

publicara alguns poemas solenes de sua lavra no ano anterior, e ao longo dos três anos seguintes publicou um conto, a resenha de um livro e três solenes artigos reflexivos de sua autoria. E o Decano Lippmann? Desisto. Quem consegue ler a mente de um pândita? É claro que o maior quebra-cabeça era o próprio Shawn. O que podia tê-lo levado ao ponto de tentar impedir a publicação de um outro periódico? Outro dia alguém me sugeriu que ele achou que meus dois artigos revelavam ao mundo a intimidade que ele tinha com Lillian Ross, assunto esse que Madame Ross, por razões só por ela conhecidas, recentemente (1998) resolveu divulgar com detalhes constrangedores em suas memórias da época Shawn na New Yorker, intituladas Aqui, mas não aqui. Eu sabia que Shawn tinha mais intimidade com ela do que com qualquer outra pessoa na revista, e disse isto. Mas na época, se alguém tivesse chegado para mim e dito com todas as letras que eles tinham um "caso" — não teria acreditado. Lamento, mas eles não eram material para um caso. A propósito, Renata Adler intitulou seu livro Adeus: os últimos dias da New Yorker e iniciou-o com a frase portentosa: "No momento em que escrevo isto, a New Yorker está morta." Tentei dizer isso a ela há trinta e cinco anos. Tentei impedir que ela mantivesse sua carreira num beco sem saída durante décadas. O que ela achava que significavam "pequenas múmias" e "a terra dos mortos-vivos"?

Este livro foi composto na Editora Rocco Ltda. e impresso na Editora JPA Ltda. Av. Brasil, 10 600 - Rio de Janeiro - RJ em novembro de 2001 para a Editora Kocco Ltda.

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