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University of São Paulo (USP) Faculty of Economics and Administration (FEA) Department of Economics Food and Agriculture Organization How to design policies and institutions to make small-scale farmers benefit from bioenergy development (Replicable lessons from national and subnational level partnerships between government, industry and civil society in Brazil)
Preparatory Study for the FAO High Level Conference on Climate Change, Bioenergy and Food Security

Uma abordagem político-cultural dos mercados de biocombustíveis no Brasil
Ricardo Abramovay –Professor of the Department of Economics of the Faculty of Economics and Administration at the University of São Paulo, Coordinator of NESA (Nucleus for Social and Environmental Economics) and researcher for the CNPq (National Council for Scientific and Technological Research) – www.econ.fea.usp.br/abramovay/ First Draft Favor não citar nem reproduzir

São Paulo, 30 de março de 2008

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Uma abordagem político-cultural dos mercados de biocombustíveis no Brasil
Ricardo Abramovay*

1. Apresentação: mercados e estruturas sociais
Dois equívocos caracterizam a maior parte das críticas dirigidas ao avanço recente dos biocombustíveis. O primeiro concebe de forma estática os sistemas agrários e as técnicas produtivas atuais, o que leva à conclusão de que os usos energéticos da produção agropecuária fatalmente conduzirão à eliminação de áreas ecologicamente frágeis ou a uma perigosa substituição de culturas, cujos efeitos sobre a segurança alimentar mundial podem ser devastadores. O segundo equívoco subestima a interferência de um conjunto variado de forças sociais na organização dos mercados e no próprio uso que as empresas fazem dos recursos de que dispõem. Um dos mais importantes ensinamentos que se pode extrair da obra de Josué de Castro – cujo centésimo aniversário de nascimento se comemora este ano – está na importância de mapear os fenômenos sociais em sua relação com o meio natural em que se apóiam. Uma Geografia e uma Geopolítica dos biocombustíveis – parodiando os títulos de suas principais obras – exigem não apenas a compreensão das grandes tendências internacionais agregadas quanto à produção e ao uso de energia no mundo, mas, sobretudo, a análise de suas dinâmicas e seus efeitos nacionais, regionais e, sempre que possível, por ecossistemas. Este horizonte pode ser enriquecido de maneira fértil pelo estudo de diferentes modalidades de governança dos mercados (Buskens, Raub e Snijders, 2003) de bioenergia. Parte importante das ciências sociais contemporâneas recusa a idéia de que tecnologias dominantes devem seu lugar de destaque apenas a sua eficiência e ao processo seletivo que as consagrou. O desempenho e os resultados de diferentes sistemas produtivos não podem ser explicados somente por razões econômicas e técnicas, mas exigem que se compreenda de que maneira “atores chave mobilizam recursos por meio de redes setoriais, extra-setoriais, sociais, políticas e financeiras” (Granovetter, 2005:580). As oportunidades abertas por inovações tecnológicas são aproveitadas segundo capitais (Bourdieu, 2005) de que os diferentes atores sociais dispõem e com base nas habilidades (Fligstein, 2001) que lhes permitem construir as coalizões distributivas (Mokyr, 2007) em que vão apoiar e estabilizar os mercados de que dependem. A importância do Brasil no atual cenário mundial dos biocombustíveis torna-o um caso especialmente interessante para uma abordagem socioambiental do tema, aquela onde os determinantes técnico-econômicos são estudados à luz da organização e da reorganização dos sistemas naturais em que se inserem e do conjunto de pressões sociais que interferem decisivamente no uso dos recursos produtivos. Expressão do bi-modalismo que caracteriza de maneira tão forte a estrutura agrária brasileira, as bioenergias desenvolvem-se a partir de dois programas que se materializam em articulações sociais distintas. Por um lado, o mundialmente conhecido
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Professor Titular do Departamento de Economia da FEA/USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental (NESA) e pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CNPq) – www.econ.fea.usp.br/abramovay/

3 pró-álcool, organizado, desde meados dos anos 1970, a partir de uma agricultura patronal em que gigantescas plantações contínuas, apoiadas em trabalho assalariado e, cada vez mais, em mecanização, pertencem a usinas que integram produção agrícola e industrial. Por outro lado, em 2003, tem início a formulação do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), voltado explicitamente a ampliar as oportunidades de geração de renda da agricultura familiar a partir de sua integração contratual com empresas que fornecem às distribuidoras o material que permitirá a mudança na composição do diesel convencional. Em 2007 teve início a adição de biodiesel ao diesel convencional e, a partir de janeiro de 2008, todo o diesel brasileiro já conta com 2% de biodiesel em sua composição. Esta proporção será elevada a 3% em julho de 2008 e é bem provável que os 5% previstos inicialmente para 2013 sejam antecipados para 2010. O objetivo deste trabalho é expor algumas das mais importantes bases institucionais da expansão tanto do etanol e do biodiesel no Brasil. O invejável desempenho técnico e econômico do etanol brasileiro (elogiado, recentemente, até por Jean Ziegler, Relator Especial das Nações Unidas sobre o Direito à Alimentação, que tinha preconizado, em agosto de 2007, moratória na expansão dos biocombustíveis 1 não pode ser compreendido se não se leva em conta suas raízes históricas. Fruto emblemático da formação brasileira em torno da exploração predatória dos recursos naturais, do trabalho escravo, do latifúndio e da monocultura exportadora, os produtos industriais da cana-deaçúcar estão entre os mais dinâmicos da economia nacional, objeto de investimentos estrangeiros de largas proporções, movidos por um processo acelerado de inovações técnicas e sob modalidades de governança em que os grandes problemas sociais e ambientais que provocam começam a ser discutidos de forma aberta e pública por seus representantes. A hipótese central deste trabalho é que o destino desta dupla natureza que caracteriza o etanol brasileiro depende, claro, de elementos técnicos e econômicos – entre eles destaca-se a competitividade do álcool brasileiro diante de outros biocombustíveis de primeira geração e do tempo que levará a adoção de alternativas energéticas menos dependentes e não concorrentes com a produção agropecuária – mas também de um conjunto de pressões sociais voltadas a reduzir os impactos ambientais negativos do setor e a eliminar as formas mais degradantes de trabalho em que, até hoje, em grande parte se apóia. A situação do biodiesel é bem diferente. Contrariamente ao álcool, não se trata de um produto cuja viabilidade técnica e econômica esteja consagrada e não são poucos os que exprimem ceticismo com relação às chances de sua afirmação (Horta Nogueira, 2008 Barbosa, 2007, Buainaim, 2008). Em nenhum lugar do mundo o preço do biodiesel é inferior ao do diesel de petróleo – apesar da experiência alemã, de mais de doze anos, com o produto. Trata-se de um mercado em formação, cujas estruturas básicas estão muito longe da estabilidade que já caracteriza o etanol no País: os agentes da cadeia produtiva enfrentam muitas opções de matérias-primas, as rotas tecnológicas são variadas, os equipamentos de produção possuem diversas escalas, os mercados vivem sob tutela do Governo Federa e as garantias de fornecimento das matérias-primas ainda são precárias. A própria instalação das plantas industriais para a produção de biodiesel não responde a um padrão consolidado. Diferentemente do álcool, em que o Brasil exporta tecnologias, parte importante do parque industrial voltado à produção de biodiesel vem de procedimentos importadas dos EUA ou da Europa. Apesar da intenção
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Boa parte da literatura crítica aos biocombustíveis faz do etanol brasileiro uma exceção, num ambiente em que, para usar a expressão de Doornbosch e Steenblik (2007), se suspeita com freqüência que a cura pode ser pior que a doença. Ver também Ziegler 2007.

4 governamental explícita de que o Programa de Biodiesel seja fonte de geração de renda para centenas de milhares de agricultores familiares, permitindo o uso de suas áreas agrícolas até aqui pouco aproveitadas e, portanto, contribuindo à diversificação das paisagens rurais e à geração de renda, a verdade é que nestes seus dois primeiros anos de existência, o programa se apóia fundamentalmente na soja. Por que razão a soja tem um peso tão importante na oferta de matéria-prima para o biodiesel brasileiro? Os mecanismos governamentais postos em prática para ampliar a oferta de biodiesel sobre a base de um vínculo contratual entre indústrias e agricultores familiares são capazes de estimular a diversificação da oferta de matérias-primas por parte dos segmentos menos favorecidos da agricultura familiar e nas regiões mais pobres do País? O PNPB tem chances de estimular uma rota de aprendizagem capaz de elevar a produtividade das matérias-primas que compõem o óleo e, por aí, compatibilizar sua eficiência econômica e energética com os objetivos sociais que pretende atingir? A hipótese central deste trabalho, no que se refere ao biodiesel é que ele será um elemento decisivo para alterar a organização daquilo que Frank Ellis (1988) chamou de mercados incompletos e imperfeitos, característicos dos produtos típicos dos segmentos mais empobrecidos da agricultura familiar. Ampliar a produção de mamona, por exemplo, exige a formação de novos circuitos de comercialização que estimulem a concorrência e que abram acesso aos agricultores a um conjunto de serviços que lhes permita escapar da dependência em que se encontram com relação a comerciantes tradicionais. Este texto possui mais quatro partes além da introdução. A parte dois expõe, rapidamente, os fundamentos teóricos do trabalho e explica a maneira como estão organizadas suas informações. Em seguida, na parte três, o trabalho procura apresentar as estruturas de mercado do etanol. A parte quatro é dedicada ao biodiesel. As conclusões estão na parte 5 do texto.

2. Os mercados enquanto estruturas sociais
A maior parte da literatura internacional sobre bioenergia concentra-se em discutir a eficiência comparada e as chances de afirmação das alternativas que já estão nos mercados ou que começam a ser desenhadas. Estas comparações servem para apoiar propostas de intervenção pública sobre as modalidades mais eficientes de uso da energia. Este trabalho parte desta contribuição fundamental, mas procura abordar o tema dos biocombustíveis no Brasil sob a ótica de uma sociologia da organização de seus mercados. Há uma vasta literatura voltada ao estudo sociológico dos mercados (Burt, 1992, White, 1981 Granovetter, 1985, Callon, 1998), e que converge para a idéia de que eles podem ser caracterizados como estruturas sociais, muito mais do que como pontos de equilíbrio entre atores autônomos uns dos outros e que só se relacionam de maneira efêmera na compra e venda de seus produtos. O trabalho de Neil Fligstein (2001), bem como os reunidos por Buskens, Raub e Snijders (2003) fornecem os parâmetros a partir dos quais se expõe aqui uma análise sociológica das bases de funcionamento dos mercados de biodiesel no Brasil. Buskens et al. (2003:3) mostram que uma relação de troca econômica passa por quatro etapas básicas: “busca e seleção dos parceiros; negociação e contrato; execução do contrato e desempenho e (possivelmente) regulação de conflitos”. O importante é que os mercados são objeto de governança, “medidas que os atores envolvidos na troca usam ou implementam para mitigar os riscos associados com a troca econômica” (Buskens et al, 2003:2).

5 Já o importante livro de Neil Fligstein (2001) propõe uma abordagem político-cultural dos mercados, caracterizados como campos sociais (Bourdieu, 2005), em que “atores tentam produzir um mundo ‘local’ estável, onde os atores dominantes produzem significados que lhes permitem reproduzir suas vantagens” (Fligstein, 2001:29). O grande problema que os atores de um mercado enfrentam está na necessidade de estabilizarem seus vínculos sociais, de maneira a reduzir os impactos destrutivos que as oscilações de preços e as mudanças tecnológicas exercem sobre suas atividades. Contrariamente à idéia corrente de que os atores econômicos são, basicamente, “maximizadores de interesses”, prontos a mudar de parceiros conforme oscilam os preços e mudam as oportunidades, Fligstein enfatiza, ao contrário, a idéia de que um mercado se forma à medida que seus integrantes conseguem estabilizar suas relações uns com os outros, naquilo que Harrison White (1981) caracterizou como “estruturas de papéis auto-reprodutivas” (self-reproducing role structures). Um mercado só se estabiliza quando consegue definir quatro tipos de regras. É em torno delas que será organizada aqui a exposição das principais características dos mercados de biocombustíveis no Brasil: a) A primeira delas regula os direitos de propriedade de seus integrantes. Como bem mostra a nova economia institucional, mais do que direitos formais, o importante é a capacidade de fazer valer os direitos de obter ganhos a partir da propriedade. Na abordagem político-cultural dos mercados, a constituição dos direitos de propriedade é um processo político contínuo e passível de contestação, envolvendo investidores, trabalhadores, agências governamentais, grupos organizados e políticos. b) A abordagem político-cultural dos mercados estuda sua estrutura de governança, ou seja, as regras que definem o alcance e os limites das relações de concorrência e cooperação e indicam a maneira como as firmas devem organizar-se. Diferentemente de várias vertentes do evolucionismo em economia, na sociologia econômica, a organização empresarial não resulta de um processo semelhante ao da seleção natural em que as formas mais adaptadas sobrevivem. A governança do mercado resulta tanto de leis como de instituições informais. A própria organização interna das firmas responde a influência de instituições e rotinas que a sociologia das organizações estuda de parte. c) Um mercado não pode existir sem que sejam fixadas as suas regras de troca: quem pode comercializar com quem e sob que condições? Além de pesos, medidas, condições de saúde dos produtos, as regras de troca vão determinar se os produtos têm que ser rastreados ou se mercados indiferenciados poderão, por meio da concorrência, responder pela eliminação daqueles que não respondem a regras sociais básicas. d) Por fim, um mercado supõe concepções de controle de seus atores a respeito da maneira como usam os recursos de que dispõem, como organizam a concorrência, a cooperação e a própria organização interna das firmas, bem como as relações de trabalho. É em torno destas quatro dimensões básicas da construção de qualquer mercado que este trabalho pretende contribuir para compreender os benefícios sociais e os riscos contidos no avanço dos biocombustíveis, a partir do exemplo brasileiro. A opção aqui é integrar a discussão econômica e energética ao estudo das forças sociais que lhes dão conteúdo. Cada uma das duas partes do trabalho (Etanol e Biodiesel) apresenta uma

seleção até certo ponto arbitrária: direitos de propriedade.. uma estrutura cuja coerência oferece aos atores os parâmetros a partir dos quais organizam o que fazem. Relações sociais correspondentes àquilo que Max Weber caracterizou como patrimonialismo estão nos fundamentos dos engenhos. possivelmente. Furtado. Moreira. como será visto logo abaixo. das estruturas e das forças sociais que lhes são subjacentes. mas – numa escala cuja magnitude é difícil avaliar com precisão – sobre o cerrado 2 Macedo. na segunda metade do Século XIX e. O contraste entre os traços grosseiramente traçados acima e a pujança econômica atual do etanol brasileiro não poderia ser mais gritante. Prado Jr. mão-de-obra escrava e exportação. Fundação de Desenvolvimento da UNICAMP (2005). O poder dos proprietários extrapolava o domínio puramente econômico e se exprimia em formas personalizadas de dominação. Ao mesmo tempo. Nem é preciso insistir que as fronteiras entre estas quatro dimensões que caracterizam um mercado não podem ser estabelecidas de maneira rígida e contém. governança e concepções de controle formam. Sua expansão representa ameaça não sobre a Amazônia ou a Mata Atlântica. 3 Freyre. As fronteiras entre o empreendimento comercial e a família não são claramente traçadas e a propriedade da terra serve tanto como base do negócio como patrimônio pessoal. historicamente. regras de troca. em seguida. seu balanço energético positivo – fortalecido com a destinação do bagaço e da palha à produção de energia elétrica – sua capacidade de contribuir positivamente para a redução do efeito estufa e a possibilidade de que sua ampliação não comprometa a integridade ambiental nem a segurança alimentar brasileira. no seu conjunto. mas também por um comportamento “rent-seeking” por parte dos proprietários. Estes traços – que Douglass North expôs de maneira estilizada no prefácio a sua obra de 1990. O resultado. Sua base produtiva agrícola é composta por imensas extensões territoriais. 3. como mostra o magistral trabalho de Warren Dean. em suas relações com o Estado. Goldenberg et al (2003). A existência de vastas extensões territoriais contribuiu para que as principais culturas – café. apesar de suas profundas transformações. neste quadro fica seriamente limitada não só pelo acesso relativamente fácil a mão-de-obra barata e de pouca qualificação. três características básicas acompanham o setor. Buarque de Holanda (1936) . Mas a inegável competitividade do etanol brasileiro precisa ser compreendida à luz da maneira como se organizam seus mercados. sobretudo a pecuária – se expandissem sobre a base do uso exaustivo das energias naturais da terra e seu freqüente abandono em benefício do avanço sobre novas áreas. Ele se apóia. fundamentais na formação política dos países de tradição latifundiária e escravista. O etanol É vasta a literatura2 voltada a estudar a competitividade do etanol brasileiro. sobre o tripé que os grandes clássicos das ciências sociais no País3 estudaram como a raiz de sua própria civilização: latifúndio. foi a redução da superfície de Mata Atlântica no Sul e no Sudeste do País a cerca de 7% do que era originalmente. A inovação tecnológica.6 introdução geral ao setor e. utiliza a abordagem proposta por Neil Fligstein para expor as principais características e os principais desafios que os atores de seus mercados encontram. org (2007). estabelecendo o contraste entre os países ao Norte e ao Sul do Rio Grande – são a marca profunda da ocupação espacial brasileira.

que já atinge quase metade da produção no Estado de São 100% . cujos impactos sobre a vida dos pequenos e médios municípios próximos são catastróficos) estão sendo atenuados e devem ser suprimidos pela mecanização. Os ganhos de produtividade na agricultura e na indústria. Isso não significa que a mais importante fonte de alternativa energética ao petróleo no setor de transportes brasileiros seja marcada. aptos ao uso de gasolina e de álcool. a produção de carros flex já ultrapassava 80% da produção brasileira de veículos de passeio novos. o etanol brasileiro ainda se apóia fortemente sobre formas degradantes de trabalho.br/overmedia/home. E. Hoje chega a 7 mil litros por hectare (Graziano. como mostra a Figura 1. A integração entre a produção de etanol e a pesquisa industrial permitiu que o país não apenas reduzisse os níveis de poluição urbana pelo acréscimo de álcool à gasolina. Segundo depoimento do presidente da Empresa de Pesquisa Energética. por aquilo que Fernando Fajnzylber chamou de competitividade espúria.5 mil litros. em 2003 uma grande montadora de veículos levou ao Ministério de Ciência e Tecnologia a informação de que a pesquisa sobre veículo flex já estava avançada. mas que fosse também um dos pioneiros na produção de motores flexíveis. Maurício Tolmasquim (http://iptv. correspondia 1. A cada hectare plantado com cana-de-açúcar.. Esta integração entre a inovação técnica industrial nos motores e o avanço do álcool é importante para compreender o contexto em que ele se dá. Embora em proporção declinante.7 brasileiro. da adoção da tecnologia colocada à disposição do setor pela pesquisa. quando começou o pró-álcool. isto é. O que impressiona é a rapidez do chamado leapfroging. Os piores problemas ambientais provocados pela cana-de-açúcar (a queimada das plantas. em 2006. 2007). para facilitar a colheita manual.usp. hoje. sobretudo a partir de meados dos anos 1970 com o pró-álcol são notáveis.jsp#).

acabar.org/article778. é muito ligado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e foi Secretário da Agricultura de São Paulo. Se por um lado. Da mesma forma existem tentativas de produzir o etanol sobre a base da oferta do produto por parte de agricultores familiares. nem de longe. Suas piores marcas . 2007) capazes de quebrar a monotonia das paisagens em que o etanol predomina. a tendência dominante é que a monocultura de cana-de-açúcar entre até nos assentamentos. têm caráter experimental e não há indicações de que os atores estejam prontos a replicá-las numa escala apreciável. reside na concentração do poder. mostrando o avanço da mecanização e.8 Paulo. Bom seria se o álcool combustível. pois exige mão-de-obra qualificada e importante estrutura de atendimento às máquinas e equipamento industriais. é importante assinalar que ela tem efeitos multiplicadores positivos. O grande defeito da economia sucroalcooleira. onde se encontram dois terços da oferta nacional do produto 4. . como do trabalho extenuante ligado à colheita conclui: “A queimada da cana precisa. A existência de mesas-redondas envolvendo a representação setorial e um conjunto variado de ONG’s aponta nesta direção. atual Secretário do Meio Ambiente de São Paulo e uma das mais importantes lideranças do agronegócio brasileiro6.ligadas ao trabalho degradante e à devastação ambiental – são objeto de contestação pública cada vez mais explícita que se manifesta na própria governança de seus mercados e nas concepções de controle que aí predominam5. por outro. Sparovek e Freitas.1. Vejamos então como estas contradições constitutivas da formação histórica e do funcionamento atual da produção de etanol no Brasil exprimem-se nas características fundamentais de seus mercados. O aumento da produção brasileira de etanol afirma-se sobre esta dupla natureza de sua construção histórica. o latifúndio canavieiro empobrece as paisagens agrícolas. contribuísse para reduzir a desigualdade social. e vai. a perspectiva para o fim tanto da queimada da cana-de-açúcar. que agora ganha o mundo. por suas extensões territoriais contínuas. com ela. Quanto às gigantescas extensões territoriais contínuas em que se apóia a base agrícola da produção de etanol. porém. as formas atuais de industrialização do produto e os avanços agronômicos ligados a seu aumento de produtividade exigem trabalho de melhor qualificação (embora em quantidade muito menor) que aquele que tradicionalmente caracterizou o setor. porém. Etanol verde e justo”. Embora a mecanização vá trazer forte desemprego. o estabelecimento de uma séria certificação socioambiental está entre as condições básicas para que um dos objetivos do setor – a transformação do álcool brasileiro em commodity internacional – seja alcançado. o impacto daqueles movimentos de algumas décadas atrás. Direitos de propriedade: patrimonialismo e concentração Artigo publicado num jornal de grande circulação nacional por Xico Graziano (2008). Ao contrário. Poucas famílias dominam a fortuna dela extraída. por exemplo. 4 5 Em 2006 apenas 30% da área de São Paulo estava mecanizada (Brito.sucre-ethique. As greves noticiadas no segundo semestre de 2007 (http://www. cujos titulares arrendam suas terras para as usinas. há diversos estudos mostrando a possibilidade técnica de integrar a produção de cana-de-açúcar com outras atividades (a pecuária. Deputado federal. Da mesma forma. E muito menos em movimentos sociais de grande envergadura como os que caracterizaram as plantações de cana-de-açúcar no Nordeste e em São Paulo entre o final dos anos 1970 e meados dos anos 1980.778? var_recherche=greve) não têm. renunciando a qualquer atividade agropecuária no próprio lote. 2008). 6 Xico Graziano. 3. Estas iniciativas.

Os biocombustíveis estão entre os setores mais atrativos para novos investimentos na economia brasileira. Tabela 1 Tipos de capital estrangeiro que investem em negócios do setor de etanol 7 Grandes empresas brasileiras vindas de setores não agrícolas também fazem investimentos importantes em biocombustíveis.5 milhão de toneladas em 2007. a Odebrecht tem um orçamento para investimentos no setor de nada menos que US$ 5 bilhões. que era de 1. dos quais U$ 14 bilhões na implantação de novas unidades (e US$ 3 bilhões na expansão de unidades já existentes). envolvendo nada menos que US$ 17 bilhões.7 milhões de toneladas em 2006/07 para 727. O horizonte do setor é de ampliar a produção de cana-de-açúcar de 425.9 Graziano não está se referindo às condições de trabalho dos assalariados e sim ao fato de que a concentração da terra e do capital na agroindústria canavieira traz conseqüências sociais preocupantes. .8 milhões de toneladas em 2012/13. Uma das maiores empresas brasileiras na área de construção. deve passar a 20 milhões em 2011 (Scaramuzo. Wilkinson e Herrera (2008) mostram que o capital estrangeiro (7 pode ser dividido entre consórcios e fundos que não têm tradição operacional no setor e aqueles que já atuam ou pretendem atuar diretamente (tabela 1). mesmo que as piores práticas ambientais e de exploração do trabalho manual venham a ser suprimidas. Em maio de 2007. dados da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (UNICA) mostravam que além das 325 usinas em operação no País. 2008b). A capacidade de sua empresa (ETH Bioenergia). um aumento de 71%. Vejamos a questão mais de perto. neste mesmo processo em que as famílias dos proprietários são afastadas da gestão diretas das usinas. 86 novos projetos estavam em andamento.

. além de 47. arrecadou 300 milhões de dólares exclusivamente para investimentos no setor sucroalcooleiro brasileiro. Infinity Bio-Energy: dona de quatro usinas no país. a Bunge ainda não tinha desistido de fazer um acordo. Na primeira captação que fez no exterior. Ela tem a importante característica de produzir imensa quantidade de energia sobre uma superfície relativamente pequena. Cargill (americana): faturamento de 10. Na corrida para não ficar de fora desse mercado. em 2006. EXEMPLOS George Soros (megainvestidor húngaro): Sócio da Aldecoagro. Vinod Khosla (bilionário indiano): sócio da Brazil Renewable Energy Company (BRENCO).10 TIPOS DE CAPITAL ESTRANGEIRO A . que atua no setor de açúcar na Europa. à ocupada pelos grãos ou. que contratou a consultoria KPMG para coordenar sua expansão no Brasil. Em junho de 2006. não faltam interessados em abrir o cofre.Consórcios de empresários e fundos de investimentos internacionais interessados em aplicar recursos num negócio promissor. além de iniciar a construção de uma quinta unidade em Mato Grosso do Sul. Kidd & Company: detém o controle da usina da COOPERNAVI e participa da empresa Infinity Bio-Energy ao lado de outros nomes. usina localizada em Patrocínio Paulista. A empresa pretende investir 1. por sua vez. a companhia adquiriu por um valor estimado em R$ 75 milhões o controle acionário da Central Energética do Vale do Sapucaí (CEVASA). Apesar da recusa inicial dos controladores em vender a propriedade. Bunge (já opera como exportadora de açúcar e álcool no Brasil): realizou recentemente investidas para comprar a usina Vale do Rosário. Fonte: Tabela copiada de Wilkinson e Herrera (2008). em 2006. e a indiana BHL. no interior de São Paulo. expresidente do Banco Mundial): sócio estrangeiro da Brenco. Cresciumal e São Carlos. ex-presidente da PETROBRAS. Tereos. A procura é tamanha que já ocorre inflação de preços. dona de usinas em seu país. em fevereiro de 2007 comprou quatro usinas do grupo pernambucano Tavares de Melo. como a corretora americana Merryl Linch e os fundos de investimentos internacionais Stark e Och-Zitt Management. em Minas Gerais.6 bilhão de reais para atingir uma capacidade de processamento de 11 milhões de toneladas de cana até 2015. que comprou a Usina Monte Alegre. primeiros a chegar. que planeja investir dois bilhões de dólares na produção de álcool no Brasil. o alemão NordZucker SudZucker. quem quiser adquirir uma usina brasileira deve se dispor a pagar. por exemplo. mais que o dobro do valor médio registrado em 2005. mas sem envolvimento direto na operação. EXEMPLOS Tereos e Louis Dreyfus (franceses. que era de quarenta dólares por tonelada de capacidade de moagem de cana. A cana-de-açúcar não é uma cultura de grande ocupação espacial. James Wolfensohn (australiano.5% na Franco-Brasileira de Açúcar (FBA) e 100% na Açúcar Guarani. até junho de 2007. em Minas Gerais. quando comparada. Pacific Ethanol: tem como sócio o bilionário Bill Gates. em 2000): Louis Dreyfus é controlador das usinas Luciânia.9 bilhões de reais no Brasil em 2006. e está construindo uma nova usina em Mato Grosso do Sul. empresa lançada em março por Henri Philippe Reichstul. Mesmo com a disparada dos valores. B – Empresas que já atuam no setor sucroalcooleiro lá fora e tradings que participam ou querem participar mais ativamente do comércio internacional de álcool.3% de participação na Cosan. em São Paulo. terceira maior produtora de açúcar e álcool do país. hoje. índice que poderá elevar ainda em 2007. tem 6.

o que permitiria. Na verdade. . em que as lavouras correspondiam a 77 milhões de hectares. da mesma forma que a cana-de-açúcar. mas ao cerrado. Tanto mais que – e este é o primeiro ponto relevante sob o ângulo dos direitos de propriedade – a cana é produzida em extensões territoriais gigantescas.2 milhões de estabelecimentos agropecuários ocupavam uma área de 355 milhões de hectares. Em 2006/07. muitas vezes. ampliar a produção de etanol de 18 para 65 bilhões de litros por ano. como será visto mais adiante. apenas 8 Com exceção do óleo de palma que. a independência destes produtores é. Os dados preliminares do Censo Agropecuário do Brasil. como se pode ver pelo mapa 1. realizado no país em 2006 mostram que os 5. Esta restrição técnica junta-se à estrutura latifundiária predominante no País e ajuda a explicar o fato de que dois terços do produto vem de unidades agropecuárias pertencentes às próprias usinas e apenas 1/3 de fornecedores independentes. Um dos temas polêmicos referentes ao avanço dos biocombustíveis está nos impactos desta expansão sobre biomas ecologicamente frágeis. levando-se em conta os aumentos de produtividade.5 milhões hectares. a cana-deaçúcar é um produto altamente perecível e que precisa ser processado imediatamente após a colheita. Dois terços desta capacidade produtiva encontram-se no Estado de São Paulo e apenas 15% no Nordeste. não tolera longa distância entre o local de colheita e a unidade industrial de esmagamento. A previsão é que em 2020 ela ocupe 14 milhões de hectares.11 sobretudo. neste trabalho. Diferentemente do que ocorre com a maior parte dos cereais e oleaginosas8. a cana-de-açúcar ocupou 6. pelas pastagens. A ameaça direta não é sobre a Amazônia (cujas condições de clima e solo não são propícias à cultura). com unidades contínuas de alguns milhares de hectares.

ou seja. entretanto. Não são poucos os casos em que os proprietários das usinas precisam. os próprios assentamentos. importante nos segmentos que se encontram a montante e a jusante da produção agropecuária. que. o predomínio latifundiário no Brasil é quase absoluto. grandes empresas e. com a estimativa de que outros 25 processos desta natureza acontecerão em 2008. Isso significa que. Este predomínio de áreas próprias das usinas em grandes concentrações fundiárias traz três conseqüências importantes para o estudo dos direitos de propriedade em que se baseia a expansão do etanol. Diferentemente da Índia. quase ausentes. sua capacidade de inovação. É impossível compreender a estrutura social de funcionamento destes mercados. vender estas terras – o que se faz às vezes transferindo-as para membros da família – deixando o investidor apenas com a parte industrial das operações. Nem sempre os investidores estrangeiros têm interesse em adquirir as terras das usinas em que investem. a espanhola Abengoa. do plantio à colheita. O número de fusões. Mas agora. seu dinamismo. aquisições e compras de participações em usinas passa de 5 em 2003 a 9 em 2006 e a 25 em 2007. Mas os arrendamentos. A presença do capital estrangeiro é. os asiáticos Noble Group. cada vez mais. Um grupo francês ligados a cooperados na produção de açúcar de beterraba também investiu recentemente no Sul do País. 8. até muito recentemente. A área média das usinas em São Paulo. Nada menos que 70% das transações (compra de participações em unidades ou empresas por fundos de private equity) realizadas na produção de etanol no Brasil em 2007 vieram de grupos e fundos estrangeiros. b) As superfícies agropecuárias de operação das usinas não cessam de se concentrar. em . 2008a). onde a cana-deaçúcar é cultivada em pequenos estabelecimentos. contrariamente ao que ocorre com a produção de grãos e mesmo com parte da pecuária (a de leite. fundos de investimentos passam a participar do capital de usinas de produção de açúcar e álcool. por exemplo. primeiramente. Empresas agropecuárias abrem seu capital e a presença de investimentos estrangeiros altera a fisionomia de um setor em que eles estavam. nos últimos anos. por exemplo) o espaço da agricultura familiar na produção de cana é praticamente nulo. As companhias e fundos internacionais processam no Centro-Sul do Brasil cerca de 35 milhões de toneladas. as francesas Louis Dreyfus Commodities e Tereos adquiriram usinas. A multinacional norteamericana Bunge. seu vínculo com processos de criação de novos produtos derivados da pesquisa brasileira e internacional quando não se leva em conta a internacionalização que os caracteriza. incorpora-as a seus domínios e responde por todas as operações produtivas.3% do total colhido na região no ano 2007/08 (Scaramuzzo. vão muito além das terras dos antigos proprietários das usinas e atingem de maneira significativa. os novos proprietários arrendam as terras em contratos com duração freqüentemente superior a vinte anos. como será visto abaixo.12 formal: a usina arrenda suas terras. há muito tempo. Nestas situações. a) Os grandes investimentos em agroenergia no Brasil fazem com que a natureza patrimonial do capitalismo agrário brasileiro seja enfraquecida em benefício de uma estrutura de capital que tende a adquirir os traços que predominam em outros setores econômicos.

em São Paulo. em grande parte na figura do morador. vêem cair sua área média de 476 para 376 hectares no mesmo período (Veiga Filho e Ramos. A partir dos anos 1970 (e facilitado pelas condições políticas de um regime ditatorial que . É claro que as diferenças entre Brasil e Austrália na maneira como evoluíram as relações entre agricultores e industriais da cana-de-açúcar refletem as opções históricas de longo alcance de cada uma destas sociedades: no caso da Austrália. este padrão produtivo é predominante nas áreas recentemente ocupadas e tudo indica que preside a expansão da cultura na região do Cerrado. até o final dos anos 1960. era de 8 mil hectares. o trabalhador tinha sua morada no interior do engenho ou da fazenda e aí cultivava para sua própria subsistência. 2007). a área média própria cultivada é de 31 mil ha. a agroindústria canavieira “se organiza a partir de uma completa e radical separação entre as atividades industriais e agrícolas de produção do açúcar” (Reydon e Guedes. pela disputa entre proprietários e trabalhadores no acesso à terra. É verdade que os custos de produção daquele país são superiores aos brasileiros. o Estatuto da Lavoura Canavieira tinha como um de seus objetivos regular o acesso aos benefícios do uso da propriedade do solo. Ora. procurava regular as relações entre os participantes do setor. pela redução dos custos de transação envolvidos no poder direto das usinas sobre a terra e seu uso ou resulte de economias de escala derivadas do tamanho das propriedades. por exemplo. Mas nada indica que este melhor desempenho dos produtores brasileiros se explique. de 1995/96. 2007). Não se pode dizer que o controle direto das usinas sobre tão grandes extensões de terra (que pertençam a elas mesmas ou aos fornecedores) seja o puro resultado de necessidade técnica. Para o estrato acima de 20 mil ha. Já os estratos abaixo de mil hectares. O engenho de cana-de-açúcar supria suas necessidades de mão-de-obra. por exemplo. No estrato de área superior a 30 mil hectares. Extinto em 1999 (na onda de liberalização do Governo Collor de Mello). Muitos dos lotes considerados áreas de fornecedores. Esta concentração.5 mil. a média dos estabelecimentos é de 38 mil hectares.13 1970. O Estatuto da Lavoura Canavieira. mas também pelo arrendamento de terras anteriormente exploradas por agricultores independentes. qualquer instrumento legal ou regulação setorial interna que limite a extensão do tamanho das usinas e seu poder – jurídico ou de fato – sobre as terras que controla. que respondem por todas as operações em seu interior. em todas as regiões onde predomina. promulgado em 1941. do preparo do solo e o plantio à colheita (Veiga Filho. 2001). ocupação territorial aberta ao fortalecimento de uma agricultura familiar que afirmou suas capacidades produtivas. Além de trabalhar para na plantação de cana-de-açúcar. são arrendadas pelas usinas. em 20002/03. 2007). com vários deles ocupando áreas entre 40 e 50 mil hectares (Veiga Filho. com base. atinge hoje 12 mil hectares. preservando os interesses de fazendeiros não proprietários de usinas. contrariamente ao Brasil em que. se faz não apenas pela compra. superior em 9% à área de 28. definia o que era o “fornecedor” de cana-de-açúcar e determinava que um cadastro de fornecedores fosse formado pelo Instituto do Açúcar e do Álcool (hoje extinto). desde meados do Século XIX todo o processo de ocupação fundiária se faz no esforço de limitar ao agricultor o acesso direto à propriedade da terra. Na Austrália. c) A história da lavoura canavieira é marcada. Não há. hoje. 40% da cana de usina deveriam originar-se de fornecedores autônomos.

no Estado de São Paulo. Dificilmente outra atividade agrícola seria capaz de lhe trazer ganhos tão elevados. Com base em minucioso trabalho de campo. onde o agricultor deixa de exercer qualquer tipo de atividade no próprio lote. cada vez mais. Além da concentração fundiária e da monotonia da paisagem trazida pela presença massiva da cana-de-açúcar. num contrato de seis anos. em arrendatários. no município de Promissão. Se os direitos de moradia representavam um limite à expansão territorial da lavoura canavieira. onde muitos dos que receberam direitos para o acesso à terra renunciam a seu uso direto e passam a viver da renda que auferem de sua exploração direta pelas usinas. de “trabalhadores de ponta de rua”. vai caracterizar a lavoura canavieira. como se pode ver pelo caso relatado no Box I. O caso é tanto mais interessante que ele rompe com uma tradição bastante consolidada de grandes proprietários evitarem o arrendamento de suas terras. evidentemente. a presença cada vez mais importante da cana-de-açúcar em áreas de assentamento nos dias de hoje no Estado de São Paulo pode ser vista como uma espécie de reforma agrária às avessas. Ramos (2006) mostra que o arrendamento de 15 hectares de um assentado.00 por hectare. amplia as bases da concentração fundiária que. propicia-lhe uma renda de quase R$ 500.previsto pelo Estatuto da Lavoura Canavieira e consagrado em acordos entre trabalhadores e proprietários .é eliminado. o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (parte 4 deste trabalho) acabou abrindo uma surpreendente oportunidade para que agricultores pudessem romper ao menos parcialmente a monotonia da dominação canavieira e instalar atividades em áreas de descanso das grandes plantações.14 havia enfraquecido os sindicatos) começa um processo massivo de expulsão dos trabalhadores de suas residências e de formação de bairros inteiros. que nada pagaram pela terra. Mas. com temor de problemas trabalhistas posteriores. o que contribui a agravar seriamente as condições de vida dos que dependiam do trabalho assalariado na cana-de-açúcar e. . curiosamente. não deixa de ser problemático o fato de ela transformar famílias de assentados. O acesso à moradia e a áreas de produção alimentar . nas periferias das médias cidades das regiões canavieiras.

onde produzem apenas gêneros alimentícios como hortaliças. a empresa Fertibom propôs às usinas que permitissem àqueles agricultores familiares plantarem. para fins comerciais. uma vez que proprietários preferem arrendar suas terras às usinas. Nesse arranjo. e residem na zona rural em pequenas chácaras. Há três anos a Fertibom. os agricultores devolveriam para usina a terra já preparada para o plantio da cana. que tem faturamento anual de 5 milhões de reais. Caso o contrato fosse rompido. a Fertibom arcaria com as despesas equivalentes. cenoura. feijão. de até 2 hectares. São bastante prósperos. cultura que tem alto valor comercial. frutas e porcos para consumo próprio. ampliada agora para 40 milhões. a volta dos agricultores ao interior dos canaviais Fertibom. sobretudo amendoim. amendoim para fornecimento de matéria-prima para produção do Biodiesel. direcionados aos diferentes talhões dentro da mesma fazenda. Tradicionalmente eram arrendatários de glebas de até 40 hectares onde plantavam. o restante advindo de oleaginosas adquiridas da Agricultura Familiar. seus produtos são elaborados atendendo às especificações de cada cliente. mais o equivalente a 8% do faturamento do amendoim para pagar o arrendamento. amendoim. O avanço da cultura de cana-de-açúcar nos últimos 15 anos. atendendo toda a região num raio de 100km. dificultou sua prática cotidiana de arrendamento. o atendimento personalizado e os preços competitivos são o trunfo da empresa. Além disso. batata. com apoio do BNDES. A usina entregaria as terras já preparadas para os agricultores familiares. A customização de seus produtos. montou uma usina de biodiesel com capacidade para 6 milhões de litros/ano. Valendo-se de uma carteira de clientes fidelizados na compra de agroquímicos para os canaviais. entretanto. a empresa Fertibom seria fiadora legal do re-arrendamento das terras (já que a própria usina arrenda de proprietários locais) para os agricultores familiares durante o prazo de 4 meses. o que garante o uso mais eficiente dos insumos dentro da agricultura canavieira de precisão. Como indústria agro-química de manipulação. são terceirizados para providenciar preparo de solo ou recrutamento de trabalhadores. Muitos deles trabalham hoje com empreiteiros das usinas. a matéria-prima básica para produção de biodiesel é o sebo bovino. isto é. e da confiança conquistada. e no final da safra do amendoim. empresa sediada em Catanduva-SP tem como atividade principal a produção e distribuição de agroquímicos para a cultura da cana-de-açúcar. Os agricultores familiares parceiros da empresa são naturais de Catanduva ou municípios vizinhos. entre março e abril.15 BOX I Por meio do amendoim. Para os agricultores significava ótima oportunidade de voltar a plantar amendoim. a mais onerosa. Por estar próxima à região produtora de gado (Noroeste Paulista). (uma pequena empresa para os padrões brasileiros) aproveitando-se da capacidade instalada e dos equipamentos. durante o período de descanso agrícola da cana. o acesso à terra já preparada pela usina evitava que fizessem empréstimos bancários para essa etapa do plantio. sua especialidade. que representa cerca de 65% do total da biomassa utilizada. justamente num momento em que a AF encontra-se .

Agricultores familiares vendem a colheita de amendoim para a Fertibom.00. que cultivou cerca de 59 hectares. A receita obtida por cada agricultor. vendida para a indústria aeronáutica e comprando-se óleo de soja em valor equivalente. na cultura da cana-de-açúcar o pousio ocorre justamente no período das chuvas. interessa o amendoim inteiro. Tampouco serão analisados aqui os aspectos referentes à governança . por isso o arranjo baseado no amendoim. de modo que sempre existe na região de 12 a 17% de área anualmente em descanso. o que significa média de 2. sem a qual não poderia produzir biodiesel dentro das exigências do selo combustível social. a produção de óleo de mamona. pois é um produto para consumo humano de alto valor agregado. aumentando a quantidade de matéria-prima disponível para o biodiesel (1 litro de óleo de amendoim era vendido aos preço de 15 litros de sebo). do álcool e a relação entre eles e as cotações dos combustíveis fósseis. Apesar do pousio da cana ser de 5 a 7 anos. milho. Para as usinas. mas sobretudo o marketing de permitir acesso a agricultores familiares e ser a atividade canavieira compatível com a produção de alimentos. por exemplo. A Fertibom vende o óleo de amendoim para a própria Gued´s. disponível para integração.16 descapitalizada. chamada GUED´s. mas seu estudo não é essencial para que se compreendam os efeitos sociais da expansão do etanol no Brasil.246 hectares de mata e 400 de amendoim (antes do arranjo). O óleo extraído dos grãos quebrados fica com a Fertibom. portanto o grão quebrado não faz diferença. Esse arranjo ocupa 1. Para a Gued´s. e pertencente à Gued´s. Além disso. que recebe o grão de outros agricultores médios e grandes na região.2. A governança de um setor estratégico Não faz parte dos objetivos deste trabalho a descrição da maneira como se formam os preços do açúcar. dos quais 13. entra ainda uma indústria familiar de produtos de amendoim. enquanto para a Fertibom o que interessa é o óleo. foi de R$218. Pelo PNPB era permitido aos industriais de Biodiesel dar qualquer destinação ao óleo adquirido da agricultura familiar. única época em que o plantio pode dispensar irrigação artificial. que leva o produto até a Gued´s.000. É claro que existem processos organizados pelos quais os atores procuram reduzir as incertezas do fato de se exporem às oscilações existentes nestes mercados. apesar de não utilizá-lo na produção.025 hectares de pousio por ano.200 hectares. 3. com área total de 29. em que o pousio é na época da seca. regionalmente há rodízio de pousio. ao contrário do que ocorre com outras culturas como soja. Tem somente 1. o amendoim em casca é beneficiado. Para a empresa Fertibom era a única maneira de poder comprar oleaginosa da AF na região. e compra em valor equivalente o sebo bovino na região. e as duas empresas trocam amendoim que se quebrou no processo por amendoim inteiro (na base de 4Kg do quebrado por 1 kg do inteiro).500 de cana. que tornaria economicamente inviável para a AF Catanduva é um município bem pequeno. aumentando sobremaneira a quantidade de matéria-prima. No arranjo. e a torta (a massa do amendoim sem óleo) é aproveitada para fazer paçoca. A casca é usada para adubo ou geração de energia. por ser um óleo nobre. a vantagem era o rearrendamento. Isso viabilizava. Lá.000 hectares com re-arrendamento para 15 família (este box foi elaborado por Rafael Feltran Barbieri do PROCAM/USP).

Bermann et al (2008:74) estimam que nas duas primeiras décadas de implantação do Pró-Álcool foram realizados investimentos de U$ 11. por um lado. A segunda refere-se ao peso cada vez maior que um número significativo de stakeholders assume nos destinos do setor.1. como ser vendido nas bombas para uso das novas linhas de automóveis então fabricadas. muitos dos quais encontram-se até hoje sob “renegociação”. 2007). mas os altos preços dos combustíveis fósseis e os ganhos em produtividade do etanol não mais exigem que esta subsidie o produto para permitir seu consumo. da incorporação ao Programa de Aceleração do Crescimento da construção de um alcoolduto de 1. Com o fechamento do Instituto do Açúcar e do Álcool.e fez com que a produção brasileira de carros a álcool caísse praticamente a zero. (2008:73) profissionalizam e retiram das mãos das famílias suas estruturas administrativas. entre 1975 e meados dos anos 1980. que o subsidiava para que pudesse tanto incorporar-se à gasolina. O alcoolduto estimulará a construção de nada menos que 40 usinas em sua rota. A proximidade do Porto de São Sebastião permitirá a exportação de 3.17 interna das empresas que.2. 3. Mato Grosso. Hoje. por outro. por exemplo.na elaboração de suas regras básicas. o produto era entregue à PETROBRÁS. dos quais U$ 7. Claro que existe uma integração forte com a Petrobrás. o governo renunciou a monitorar diretamente as relações entre usinas e fornecedores e a ditar as regras dos mercados de açúcar e de álcool. A presença do Estado na organização do setor faz-se hoje. a sociedade civil organizada (sob a forma de movimento sindical. por exemplo . A primeira é a liberalização de seus mercados. nos Estados de Goiás. Mato Grosso do Sul e Paraná (Porto. A queda dos preços dos combustíveis fósseis (após os dois choques dos anos 1970) tornou o programa extremamente oneroso – a Petrobrás tinha que cobrir a diferença entre o preço declinante da gasolina e o do álcool . o álcool brasileiro é um produto que não recebe subsídios governamentais para sua produção. Mesmo o crédito para a produção agrícola origina-se muito mais em fontes privadas do que no Governo. pelos financiamentos que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) oferece e pelo estímulo à implantação de bens públicos propícios a sua expansão. em grande parte sob a forma de créditos subsidiados. a partir de 2011. O que está em jogo aqui é a relação que o setor privado mantém com duas forças essenciais ao seu próprio funcionamento: o Estado.150 km os Estados de Goiás e São Paulo. em sua comercialização e nos subsídios concedidos – para a situação atual em que a intervenção do Governo é bem mais limitada. Mas é interessante observar que o alcance e os limites da ação governamental no crescimento do etanol brasileiro não estão claramente estabelecidos. Esta intervenção foi decisiva para que o setor pudesse percorrer sua curva de aprendizagem e alcançar as conquistas técnicas que hoje o caracterizam. como bem o assinalam Bermann et al. Liberalização: até onde deve ir a intervenção do Governo? O aspecto institucional mais importante da governança do etanol brasileiro está na transição de um sistema em que o Estado tinha presença absoluta . É o caso. São Paulo. fundamentalmente.5 bilhões de litros de álcool por ano. Roberto Rodrigues. em 1999. ONG’s e grupos de pressão). Minas Gerais. Duas dimensões da governança do mercado de etanol serão aqui rapidamente expostas.4 bilhões vindos do Estado.importante líder nacional e ex-ministro da Agricultura no Governo Lula preconiza maior intervenção governamental e até a formação de uma Secretaria .7 bilhões. Na primeira fase do pró-álcool.

2. Não é irrelevante o fato de Rodrigues presidir (juntamente com Jeb Bush. O notável é que se trata de um setor conhecido historicamente por relações sociais tensas e pelo emprego corriqueiro de práticas ilegais e violentas na resolução de seus conflitos. a importância que vem assumindo em diferentes segmentos da agricultura brasileira. Além disso. foi decretada pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais e pela Associação Nacional de Exportadores de Cereais a moratória da soja (Abramovay. O papel dos stakeholders Os especialistas em administração empresarial estão longe de um consenso no que se refere à importância da participação social nas decisões tomadas pelas empresas.desde que. estão aqueles que defendem a idéia de que os únicos controladores legítimos das firmas são seus acionistas ("shareholder theory") e que. como será visto logo abaixo. Enquanto os Estados Unidos gastam U$ 2 bilhões por ano com pesquisa em etanol. à incapacidade de o setor regular a quantidade de álcool de que o mercado precisa e. há. nada menos que onze ministérios envolvidos com a produção de etanol e o País não tem uma estratégia de pesquisa à altura daquilo que o setor representa. o Brasil não chega a desembolsar 10% desta soma 9 É uma voz expressiva que coloca em dúvida a capacidade de o setor monitorar por si só seu crescimento. E há os adeptos da idéia de que as empresas contemporâneas devem contas a um conjunto de atores que vão desde seus funcionários e clientes até as comunidades que recebem seus impactos . número 3. 2006). Levar adiante esta orientação exigiu que as fazendas tornassem disponíveis informações que até então eram de domínio estritamente privado. uma 9 Entrevista à Folha de São Paulo. isso extrapola sua missão . com a missão de dar ao setor um tratamento estratégico de que hoje. ele carece. Um problema que. Rodrigues – com a autoridade de quem já foi ministro e tem imensa audiência no setor – constata uma extraordinária queda nos preços durante o ano de 2007 (em torno de 30%) devido. segundo ele só o Governo pode oferecer – será impossível transformar o álcool numa commodity internacional. em princípio. quando forem examinadas as regras de troca em torno das quais se organiza a produção brasileira. à falta de planejamento.2. Quanto aos efeitos da atividade empresarial sobre a sociedade. Além disso.os "stakeholders". para o bom funcionamento da vida econômica. portanto. ou seja. B9. nada melhor do que reservar a eles o julgamento final (na forma de seus ganhos e de suas opções de compra e venda) sobre o que faz a companhia de que são donos. Sem esta coordenação estratégica do setor – que. Chama a atenção. p. Em 2006. 15. a indústria do petróleo fará todo esforço para bloquear a formação de um mercado mundial de etanol e a articulação dos interesses que podem se opor a este bloqueio é precária. . corresponde a uma externalidade cujo enfrentamento depende basicamente do setor público é assumido abertamente pelo setor privado.18 Nacional de Energia. Tanto é que a medida despertou. uma das maiores aspirações do setor. inicialmente. em sua opinião. Segundo Rodrigues. no Brasil. em sua opinião. 20/01/08. se expor a oscilações cujas conseqüências podem ser graves. evidentemente. ex-governador da Florida) a Comissão Interamericana do etanol. A revista americana "Organization Science" (vol. cumpram a lei. 3. segundo a qual as empresas se comprometiam a não mais comprar o produto oriundo de áreas recentemente desmatadas. a negociação entre as empresas e um leque diversificado de atores. maio/junho de 2004) publicou um importante debate em torno da seguinte pergunta: a quem deve obedecer a empresa contemporânea? Por um lado.

inclusive no que se refere ao aspecto trabalhista. privado e associativo e será o primeiro do País a ter todas as propriedades rurais regularizadas do ponto de vista do Código Florestal. de mobilizações que se originam do início da década de 1960. A diversificação de investidores. um dos mais destacados da imprensa nacional. o sindicato rural (dos fazendeiros) e é animada por The Nature Conservancy.html). É importante sublinhar que Lucas do Rio Verde é hoje um importante produtor de grãos. conforme apontado acima. além de alguns sindicatos de trabalhadores rurais. o WWF Brasil. por exemplo. Petrobras. a Syngenta e a Fiagril. a ADM e a Bunge e. Alcoa. A iniciativa conta com a participação de empresas privadas como a Sadia. A importância estratégica do etanol certamente está na raiz da ampliação do círculo de atores interessados no setor. .br/news/487. O Fórum Amazônia Sustentável. por exemplo. Estas novas modalidades de negociação ocorrem. parte de um programa de repercussão internacional coordenado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (FAPESP).alerta. The Nature Conservancy. Esta oposição é menos surpreendente que a adesão à moratória de empresas como a Cargil. ABN Banco Itaú e Banco da Amazônia para discutir formas de uso da terra. em função dos já citados movimentos sociais grevistas do final dos anos 1970 e. que vão desde a pesquisa no interior das universidades 10 e da EMBRAPA até a própria indústria automobilística. IMAFLORA e 10 Em 1999 teve início o projeto genoma cana-de-açúcar. Imazon e movimentos sociais como o Conselho Nacional dos Seringueiros (de onde saiu a figura emblemática de Chico Mendes) junto com empresas como Vale do Rio Doce. bem como um editorial de crítica de O Estado de São Paulo. Outros segmentos da agropecuária e do extrativismo madeireiro também têm procurado o respaldo de organizações não governamentais para negociar modificações em suas práticas produtivas. geralmente. em setores muito dependentes da exportação. órgãos como a Prefeitura e o Ministério Público. diversas agências públicas e a própria Petrobrás. contribui para ampliar o leque de atores interessados no setor. como bem o mostra o vínculo entre a moratória da soja e a decisão do Mac Donald’s de não comprar óleo que resultasse de soja produzida em áreas devastadas da Amazônia.19 reação furiosa da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (http://www. o município de Lucas do Rio Verde constituiu uma coalizão entre setor público. Existe uma forte tradição de negociações trabalhistas no setor sucroalcooleiro. que inclui também. passando pelas entidades que reúnem os fazendeiros (ORPLANA) e. pelo milho escapando às restrições da moratória. Mas é só recentemente que começa a ser construída a negociação envolvendo organizações como o WWF. que havendo restrições para o plantio de soja. mas também objeto potencial (como tantos outros da região Centro-Oeste brasileira) da expansão da cana-de-açúcar. reuniu. sobretudo de organizações como o Greenpeace. a The Nature Conservancy. A ambição é eliminar os passivos socioambientais. importantes organizações brasileiras como o Instituto Socioambiental. A cana é um dos poucos produtos agropecuários brasileiros em que a contribuição da pesquisa privada – inclusive no domínio polêmico dos produtos geneticamente modificados – é expressiva. evidentemente. Isso quer dizer que a pressão sobre os compradores externos tem impactos consideráveis na própria organização setorial. o Projeto Saúde e Alegria. o produtor poderia optar. em novembro do ano passado. Diante dos limites de uma abordagem puramente setorial dos problemas ambientais e da constatação de.inf. sobretudo pela União das Indústrias de Cana-deAçúcar (ÚNICA) que reúne os industriais. Convervation International. Philips. antes disso.

as organizações não governamentais e os próprios movimentos sociais serão interlocutores com uma influência crescente na organização empresarial do agronegócio brasileiro. Estes stakeholders tendem a assumir importância crescente na organização setorial por uma razão decisiva: a transformação do etanol brasileiro em commodity não depende apenas de sua competitividade em preços e seu balanço energético positivo. da mesma forma que ocorre com a soja.3. as folhas da cana – queimadas para facilitar a colheita manual – passam a ser utilizadas não só nas próprias caldeiras das usinas. a pesquisa avançou em direção a maior produtividade na produção de álcool e também a novas utilizações do produto e de seus derivados. O potencial de produção de energia elétrica é exposto na figura 2. com a mecanização e com o avanço da pesquisa industrial na área. mas. É interessante observar como estas duas dimensões da governança dos mercados ligados à governança da cana-de-açúcar interferem em suas regras de troca. sobretudo por causa da flexibilidade oferecida pelas novas tecnologias dos automóveis. E neste sentido. nos últimos trinta anos. 3. a exploração florestal e o papel e celulose. 11 A OCFAM participou apenas da última reunião. entretanto. de maneira satisfatória: trata-se do aproveitamento de um dos resíduos importantes das usinas. as regras de troca que permitem fluidez e estabilidade ao mercado de derivados de cana-de-açúcar estão claramente definidas. Duas questões. Além do extraordinário aumento na produtividade agrícola da cana. As regras de troca de um desafiante Do ponto de vista nacional. A primeira é enfrentada. mas também para exportar energia. Faz parte do balanço energético da produção de etanol no Brasil o fato de que. com a carne. ao que tudo indica. O etanol pode ser considerado – para usar a terminologia de Neil Fligstein – um challenger diante de um mercado internacional cujos incumbents farão o possível para transformar regras sociais e ambientais em barreiras de entrada. abaixo.20 OXFAM 11. Situações como a de meados dos anos 1980 em que proprietários de automóveis a álcool enfrentavam filas nos postos para abastecer seus veículos saíram do horizonte não só pelo aumento na produção de álcool. . a eletricidade. podem colocar esta estabilidade em questão.

É interessante registrar o alerta do boletim da F&C Investments. Eles incorporam dimensões estratégicas e sociais decisivas para o funcionamento e a estabilização de suas regras de troca 12. A própria F&C relata seu esforço para “catalyse a more sustainable biofuels industry that will be attractive to long-term investors”. É interessante a constatação do boletim da F&C Investors de que o setor encontra-se sob ameaça por instabilidade nos preços das matérias-primas. Isso envolve engajamento em economia de carbono. Os cenários atuais de expansão da cana-de-açúcar (Fundação de Desenvolvimento da UNICAMP. 13 http://www. Os mercados internacionais. 2005. Os contratos para fornecimento de energia são de longa duração. por exemplo) apóiam-se no pressuposto de que o etanol brasileiro será um dos componentes decisivos no processo de descarbonização da matriz energética do setor de transporte.net/fn_filelibrary/file/co_gsi_reo_research_biofuels. Mas há uma segunda dimensão estratégica na organização das regras de troca em que as coisas estão bem menos claras: trata-se do esforço de transformar o álcool numa commodity no mercado internacional. Este mercado passa por leilões públicos e há uma reivindicação importante de que os usineiros vejam incluídos nos preços da energia que vendem o fato de outras fontes de energia serem subsidiadas. entretanto. em 2007/08 o nível de uma hidrelétrica de 2. não respondem mecanicamente a regras de eficiência. eles podem falhar na realização de investimentos”. entre dez e quinze anos. nos próximos cinco anos o total oferecido pela usina Itaipu.21 Figura 2 Produção atual e potencial de energia elétrica a partir do bagaço e da palha da cana-deaçúcar A produção de energia elétrica derivada do aproveitamento do bagaço e da palha da cana. padrões trabalhistas e . a partir de áreas mecanizadas já atinge.fundnets. É importante mencionar esta dupla dimensão. O argumento central subjacente a estes cenários está na eficiência econômica e energética dos produtos brasileiros da cana-de-açúcar.000 MWm e tem potencial para superar. baseado na análise de trinta companhias. más políticas governamentais e ampla contestação social. 12 Referindo à “Sociologia econômica e política dos acordos econômicos internacionais” Neil Fligstein (2005:185) observa: “os atores do mercado precisam de regras para guiar suas interações e trocas e sem estas regras. ainda que rapidamente. sobre o futuro altamente incerto do setor em virtude de riscos políticos 13.pdf Fevereiro de 2008.

durante este período de transição em que os combustíveis fósseis de primeira geração mantém sua relevância. por exemplo). A terceira razão para explicar a estratégia norte-americana – e esta tem um efeito decisivo sobre o que faz o Brasil – é que os EUA não aceitarão tornar-se dependente da importação de uma fonte de energia cujas virtudes produtivas e técnicas estejam excessivamente concentradas em um só país. . os custos representados pelos subsídios ao milho. pertencente ao grupo Bengal Enamel (fabricante de utensílios domésticos) anunciou recentemente. A empresa indiana Tara. como das grandes empresas que investem em gigantescas unidades de produção de etanol nos EUA. grandes empresas de petróleo que tenham projetos na área de biodiesel. em parceria com a chinesa Aucma (fabricante de geladeiras. Quando se juntam estes interesses ao dinamismo que o novo produto imprime a diversas regiões do meio-oeste norteamericano. Novas tecnologias são desenvolvidas com base na interação entre a demanda industrial e a pesquisa. as regras governamentais. 14 Bell (2007) mostra o extraordinário leque não só de energias alternativas ao petróleo (e também à energia nuclear). mas a possibilidade real de redução na quantidade de energia que o setor de transportes hoje demanda. a velocidade de entrada de inovações que podem substituir de maneira vantajosa aquilo que hoje parece expressão máxima da eficiência 14 – são instáveis.p. mas. biodiversidade. 20/03/08. vê-se que os subsídios ao produto – irracional sob o ângulo do livre comércio e da eficiência tecnológica – encontram raízes sólidas para sua manutenção. 15 Esta deficiência é freqüentemente superestimada. já que não é possível transportar a cana-de-açúcar para que seja beneficiada longe de seu local de produção. A segunda razão é que as empresas voltadas à produção de etanol de milho são as mesmas que respondem por parte significativa da pesquisa que poderá conduzir à aparição de combustíveis de segunda geração e. com quatro atores. podendo ser carregado em bateria de 220 volts (O Estado de São Paulo. estão os interesses não só dos agricultores. Isso não significa que as empresas e os investidores ficarão esperando por soluções mais seguras. Ca1). em carta publicada em Science de 7/02/2008. 2008). um automóvel mais barato que o famoso Tata e que deve funcionar com motor elétrico. Entre elas encontram-se exatamente as que dominam os mercados brasileiros de grãos e que também investem no etanol da cana-deaçúcar (ADM e Bunge. A verdade é que os fatores que incidem sobre a rentabilidade dos investimentos – os custos das matérias-primas. como mostra o importante – e infelizmente pouco divulgado – trabalho de Morris (2008) em que critica os artigos publicados na Science em 2008 (Serchinger. basicamente: novos produtores de biodiesel com empresas de capital aberto. à dependência de um produto que só podem importar pronto. Mas é importante registrar também a constatação da F&C sobre a timidez destas iniciativas de concertação e o papel decisivo que as empresas de petróleo devem aí desempenhar. mas. existem três razões estratégicas importantes para que os EUA tenham optado pelo seu fortalecimento. Em primeiro lugar. Por mais que o desempenho energético do milho norte-americano seja deficiente 15. sobretudo o que se apóia no aproveitamento da celulose. Eles certamente preferem. a partir não só de learning by doing. O último livro de Lester Brown (2007) também traz riquíssima exposição a este respeito. Ver também a interessante crítica de Wang e Haq. de “learning by interacting”. freezers e carros elétricos para golfe) a fabricação do Tiny. sobretudo. 2008 e Fargione et al. embora sua abordagem dos biocombustíveis de primeira geração seja de uma superficialidade que contrasta com a riqueza de informações referentes a outras tecnológicas.22 a) Como bem mostram Caesar et al (2007) não é só o aumento dos preços do petróleo que joga os mercados de energia em situação de profunda incerteza. a Roundtable on Sustainable Biofuels e formuladores de políticas públicas. como bem o assinala Charles Sabel.

Mas caso. ao mesmo tempo. então o tema levantado por Xico Graziano e a própria utilidade social da concentração que acompanha o etanol brasileiro encontra-se fortemente em causa no próprio País. Colocar estas imensas extensões como requisito essencial da competitividade significa.a condição da competitividade brasileira? Se a resposta for afirmativa. 2005:139) são . Em outras palavras. Mas este esforço suscita uma questão importante sob o ângulo da difusão internacional da experiência brasileira e da transformação do etanol em commodity internacional. bloquear o avanço do etanol para outros países e sua transformação em commodity. b) O segundo aspecto decisivo nas regras de troca subjacentes à transformação do etanol brasileiro em commodity é a certificação. preparam-se para o fato de que sem ela os planos de expansão e os investimentos realizados recentemente podem ser seriamente ameaçados. de riqueza e de poder que o caracteriza. hoje muito concentrada em um pequeno número de países. tudo indica que serão adotadas normas de certificação próximas às do FSC na exploração florestal. Dentro do objetivo europeu de substituir 10% do consumo de combustíveis fósseis por etanol. O texto de Bartolomeu (2008) mostra que alguns destes processos de certificação contam decisivamente com a participação ativa de vários stakeholders em sua elaboração. mas. como se prevê. mas estruturas sociais tão concentradas como as que já existiam no Brasil e que a expansão canavieira acabou por reforçar. Preços mais baixos não serão nem de longe suficiente para garantir a entrada do produto brasileiro nos mercados internacionais. isso significa que a produção de álcool vai exigir não apenas as inegáveis competências técnicas conquistadas pela organização empresarial brasileira. o extraordinário avanço técnico do Brasil na produção de etanol pode encontrar obstáculo para sua difusão exatamente na concentração de terra. levado adiante a partir uma iniciativa empresarial chamada ARES (Agronegócio Responsável) mostra que. até 2020. até aqui.23 Isso explica o esforço do governo brasileiro e da própria entidade representativa dos industriais do etanol (a UNICA) de promover a expansão da cultura da canade-açúcar. ela exija “a proteção das matas e mananciais. O tema se relaciona diretamente com a segunda dimensão destas regras de troca do etanol. a manutenção de corredores florestais. O trabalho recente de Bartolomeu (2008). a proteção da biodiversidade e os aspectos socialmente responsáveis”. As gigantescas extensões territoriais . Caso a resposta seja negativa. Os representantes do setor tendem a encarar as exigências de certificação como mostra de protecionismo. na prática. as regras de troca que permitirão ao Brasil tornar-se um player estratégico na formação dos mercados que vão acompanhar a descarbonização da matriz energética no .e o nível de concentração industrial em que a eficiência tem início a partir da moagem de um milhão de toneladas por safra colhida em área contínua de 30 mil hectares (Fundação de Desenvolvimento da UNICAMP. não existem definições claras quanto ao que são práticas sustentáveis no setor da cana-de-açúcar. Em suma. O zoneamento agrícola em elaboração pelo Ministério da Agricultura do Brasil vai facilitar esta certificação. A viabilidade de modelos competitivos menos concentrados fora do Brasil é um questionamento prático do sentido social das imensas extensões territoriais em que se apóia a cana. mesmo os segmentos mais modernizados da produção alcooleira terão dificuldade de comprovar o cumprimento destas regras.

No caso da cana-de-açúcar brasileira as concepções de controle a respeito dos recursos em que ela se apóia envolvem três temas decisivos para uma análise dos impactos socioambientais dos biocombustíveis. O segundo tema ambiental é o da ampliação das áreas das usinas para regiões do Cerrado: contrariamente a uma visão muito freqüente. ao setor e. quanto a submissão do álcool a processos de certificação cujos custos podem ser consideráveis. O primeiro é a transição de um segmento que vivia.24 setor de transportes não serão o resultado da competitividade e da eficiência energética de sua produção. 2. os comportamentos de suas firmas. ao menos na região Sudeste do País – mas pela adoção do conceito de biorrefinaria. na região Sudeste é exigido de cada estabelecimento agropecuário. Bonomi et al. Ignacy Sachs sempre criticou o pró-álcool pelo desprezo nele contido ao extraordinário aproveitamento que poderia ser dado ao produto. em direção a um amplo leque de produtos.4. mas promove pesquisa e que hoje atrai parte importante dos investimentos privados e públicos. Mas outros usos do álcool 16 Que tem sido. De certa forma. Elas dependem de negociações que envolvem tanto a ampliação da capacidade produtiva para outros países. Novas tecnologias ou modalidades de organização industrial envolvem projetos. (2006) mostram que o progresso técnico no setor passa não só por aumentos de produtividade agrícola 16– estes já o caracterizam há algumas décadas. A segunda dimensão nas concepções de controle refere-se à relação com o meio ambiente. cada vez mais. o que é aceito como legítimo em suas práticas e as formas acatadas e repudiadas de concorrência e cooperação são produtos históricos e culturais e não resultados mecânicos de condições econômicas objetivas. sobre a base de recursos estatais e cujo ritmo de progresso técnico era precário. Por um lado os energéticos: “a hidrólise do material lignocelulósico. 2006). Concepções de controle A organização de um mercado. para produção de açúcares fermentescíveis (rota química e biológica) e a gaseificação deste material seguida pela síntese de combustíveis líquidos (rota térmica)” (Bonomi et al. o do aproveitamento da biomassa como fonte de alimentação animal e de integração lavoura pecuária. em grande parte. que não apenas utiliza.5% ao ano. propostas que só se impõem por um processo de negociação interno às firmas. para um setor dinâmico. O Brasil deveria ter feito um pró-cana e não um pró-álcool. fundamentalmente. A terceira dimensão das concepções de controle exposta neste texto toca no delicado tema das condições de trabalho dos assalariados da cana-de-açúcar e das conseqüências da mecanização. é errado caracterizar o bioma do Cerrado como uma terra agropecuária esperando para ser ocupada produtivamente e cuja preservação é de baixo interesse.4. O caminho seguido não foi. O primeiro deles refere-se ao conflito entre áreas contínuas de grandes extensões e as exigências da legislação ambiental no que se refere à própria organização das unidades produtivas: mesmo usinas consideradas exemplares caracterizam-se por não possuírem os 20% de matas que. com a sociedade.1. 2. o progresso técnico recente promoveu uma impressionante diversificação no uso do produto. Freqüentemente não respeitam sequer as áreas de matas ciliares necessárias à manutenção dos cursos d’água no interior das fazendas. diz ele. . nos últimos anos de 2. que representa o aproveitamento integral da matéria-prima. Do pró-álcool ao pró-cana O prof. Dois temas aí são fundamentais.

Além disso. No Sudeste do País esta área é de 20% e há fortes indicações de que esta obrigatoriedade não é cumprida. Bermann et al (2008). Existem. É especialmente interessante. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social vai financiar a implantação da fábrica do grupo belga em R$ 153 milhões. o fato de o grupo belga já ter utilizado o álcool no passado e ter abandonado esta rota tecnológica quando foi implantado o pólo petroquímico em área próxima à capital de São Paulo. são bastante conhecidos os estudos sobre as vantagens da cana-de-açúcar na captação de carbono e em seu balanço energético até aqui sem rival. O belga grupo Solvay está investindo US$ 500 milhões para produzir eteno (matéria-prima do PVC) utilizando etanol em substituição à nafta (Scaramuzzo. 2. não se preserva nem a reserva legal. por exemplo. Apesar disso. no caso da cana-de-açúcar. por exemplo.2. cujo proprietário.25 envolvem grandes investimentos. controles biológicos de pragas. nem. na notícia. muitas vezes. É difícil imaginar o que seria a cidade de São Paulo. Mas como é possível que em superfícies contínuas tão extensas não apareçam problemas fitossanitários em larga escala? Na laranja e no algodão. org (2007) para mostrar que se até 1990 o progresso técnico concentrou-se na lavoura e nos processos de moagem (introdução de novas variedades. uso do vinhoto em fertirrigação. apóiam-se no trabalho de Macedo. o mapeamento do genoma da cana e o avanço da pesquisa em transgenia. o surgimento destes problemas acabou sendo um dos fatores para os imensos prejuízos sofridos pelos produtores como resultado do próprio crescimento de suas lavouras. Ao que tudo indica. Agora o grupo volta a esta tecnologia. a área de mata ciliar. fechou contrato com o ABN AMRO Bank de Londres para a venda de futuros créditos de carbono (Barros.4. ao menos entre produtos comercialmente viáveis. novas técnicas de moagem e fermentação. Já conseguiram resolver problemas biológicos que surgiram quando se massificou a colheita mecanizada da cana. como também os motores flex e novos métodos de gerenciamento. A cana-de-açúcar no Estado de São Paulo possui certamente o maior sistema de controle biológico do mundo. mas também a venda do excedente de energia elétrica para as concessionárias. caso seu sistema de transporte seguisse totalmente na dependência da gasolina e do diesel. Outro exemplo de usos diversificados do etanol está numa empresa do Estado do Paraná que utiliza o CO2 liberado na produção de álcool para fabricar bicarbonato de sódio e. entretanto. 2008 b). dois problemas ambientais em torno dos quais as concepções de controle que dominam o setor não estão suficientemente claras. prevista no Código Florestal. É uma forma de . a) O primeiro deles refere-se à obrigatoriedade. Fragilidades dos grandes trunfos ambientais Não é necessário insistir em alguns dos grandes trunfos ambientais da cana-de-açúcar como base para a produção de energia. de que todo estabelecimento agrícola preserve uma área florestal. geração de energia elétrica para as próprias usinas) a partir de então. as técnicas utilizadas vão envolver não apenas a mecanização na colheita e a otimização do corte (com conseqüência muito perversas sobre o ritmo já exaustivo do trabalho). as grandes extensões territoriais não conduzem a problemas agronômicos sérios em função da imensa diversidade nas variedades pesquisadas e plantadas. 27/08/07).

É verdade que a região amazônica não está diretamente ameaçada. É verdade que parte muito importante do Cerrado brasileiro já está desmatada. cujas concepções de controle. . Entrevista ao Autor. Já existem municípios no Centro-Oeste do País procurando meios legais para limitar a presença da cana-de-açúcar em seus territórios. no item 2. boa parte destas superfícies pertencem aos ecossistemas do Cerrado. É importante lembrar que ali onde se concentram as maiores usinas a colheita mecaniza-se cada vez mais (como será visto abaixo. O açúcar é o produto agropecuário orgânico mais exportado pelo Brasil e a fazenda que o produz atende rigorosamente aos requisitos da legislação ambiental.nativealimentos. Mas. É interessante observar que a ÚNICA está solicitando consultorias que lhe permitam reduzir os impactos e os riscos ambientais envolvidos na produção contínua em extensões tão grandes. Trata-se de uma usina que cultiva nada menos que 7. que necessita de um período longo de “stress hídrico” para desenvolver seu potencial energético. diferentemente da Amazônia. Mas ainda não estão claros os efeitos que as compras de terra realizadas para produção de cana-de-açúcar têm sobre a soja e a pecuária. as queimadas continuam representando um problema bastante sério e sem qualquer controle. mantendo. ali onde a produtividade é alta. Embora os investimentos em mecanização sejam compensadores. as queimadas não deverão ser um problema. É no Cerrado que reside o maior risco ambiental da expansão da cana.3) e os representantes setoriais fizeram um acordo com o Governo de São Paulo antecipando o prazo em que as queimadas serão totalmente extintas. Mas no Nordeste. cujo monitoramente de uso é extremamente precário. já que suas condições de solo e clima são pouco adequadas à cana-de-açúcar. pesquisador do ISPN relata18 a migração de rebanhos como conseqüência da venda de terras para a instalação de usinas. sem uso de agrotóxicos e preservando suas áreas de mata. Na expansão destas grandes usinas para o Centro-Oeste do País. A instalação de infra-estruturas como o alcoolduto 17 18 A máquina e a estrutura que a acompanha custa em torno de R$ 2 milhões. porém a sua monotonia. quando se diz que a cana vai ocupar áreas de pastagem degradada. Mas o tema polêmico. é fraca no País (e internacionalmente) a pressão social para proteger o bioma do Cerrado. e cujo produto é certificado (http://www. bem como a cobertura de seus rios. b) O segundo problema ambiental mal equacionado refere-se à expansão do etanol.26 diversificação da paisagem em termos biológicos. Nilo d’Avila.br/cana_verde/colheita. quando não inexistente.com. A pesquisa para máquinas menores e compatíveis com áreas com declividade acentuada ainda não está desenvolvida. já que a mecanização da colheita acompanha o padrão das novas unidades. eles são de um montante fora do alcance da maior parte dos produtores nordestinos 17.4.php).5 mil hectares de canade-açúcar (usina São Francisco). importante para o avanço da mecanização. não estão estabilizadas e são fonte de conflito é a da continuidade das áreas de cultivo. O Cerrado é visto como fronteira agrícola e não como um bioma cuja manutenção é de interesse do País e da humanidade. O problema aí é que.

em média 30 golpes de foice por minutos em jornadas que se estendem a dez e às vezes a doze horas diárias. 1997). nada menos que 93% dos trabalhadores residentes nas sedes dos municípios tinham carteira assinada e recebiam benefícios previdenciários. diz que constantemente tem cãibras na boca do estômago. havia sido medicado. Seu salário é de R$ 700 mensais . São freqüentes as denúncias de maus . O cortador pernambucano Francisco Carlos da Silva. em 1992. Ele iria ficar por lá ainda por cerca de seis horas. em 1985 a 8 toneladas diárias nos dias de hoje abaixo de 10 ou 12 toneladas diárias o desempenho será considerado sofrível e. O corte é feito por jovens oriundos de regiões distantes e muito pobres (Vale do Jequitinhonha. mas voltou para o canavial para esperar o ônibus que o levaria até sua casa. que preferiu não se identificar. O pagamento da colheita que era de R$ 2. facilitando a gestão individualizada da mão-de-obra. 2.6% a proporção de trabalhadores que recebiam mais de um salário mínimo. O trabalhador. portanto. somente 40% deles tinham carteira assinada.73 por tonelada em 1969 passa R$ 0. zonas áridas e semi-áridas do Nordeste). 2006). o emprego ameaçado (Ramos. a Federação dos Empregados Rurais do Estado de São Paulo.6%. que vão desferir. A reportagem. Entre o trabalho degradante e a mecanização O terceiro componente a respeito do qual as concepções de controle dos atores passam por transformações importantes e polêmicas é o mercado de trabalho. 34 anos. em Trindade. 2006. publicada no mais importante jornal de economia e negócios do País (Valor Econômico) é eloqüente: “Em uma das visitas aos canaviais de Naviraí. Os rendimentos do trabalho assalariado cresceram: aumenta de 57. mas não pára. alojamentos precários e maus tratos com mão-de-obra indígena e nordestina. a reportagem conversou com um cortador nordestino que teve seu dedo arrancado pelo podão (facão) naquele mesmo dia. As usinas ao oeste do Mato Grosso do Sul foram alvo de denúncias nos últimos meses por condições insalubres de trabalho. dados deflacionados). Em 1969 um trabalhador colhia 3 toneladas diárias. Mudanças no sistema de corte de 5 para 7 ruas e o uso de sistemas informatizados de controle do ritmo de trabalho. Em 2004.4. segundo a Procuradoria do Trabalho do Estado”. As piores práticas dos anos 1970 e 1980 – falta de registro formal dos trabalhadores e uso recorrente de mão-de-obra infantil – foram praticamente suprimidas na região Sudeste e declinam no restante do País (Balsadi.8% em 2004. Foram essenciais para estas melhorias as lutas levadas adiante por trabalhadores assalariados e a constituição de uma organização específica para representá-los. o trabalho no corte da cana-de-açúcar é extenuante. Ele revela que ganha por volume cortado e que não pode parar. Passa.7% em 1992 cai para 0. O trabalho degradante da cana-de-açúcar chega também às regiões de sua expansão.86 por tonelada em 2005 (Ramos. É importante observar que os trabalhadores residentes fora da sede dos municípios apresentam condições sociais bem piores: em 2004. também contribuem para elevar a quantidade de cana colhida por trabalhador (Graziano. Ao chegarem são submetidos a um teste de produtividade que seleciona apenas os mais fortes e mais aptos. para 69.3. no trabalho da cana-de-açúcar. Apesar destas melhorias. O trabalho infantil que era de 14.27 fortalece a propensão dos atores econômicos a considerar o cerrado como área a ser ocupada com atividades produtivas. envolve jornadas de longa duração e traz um desgaste físico que permitiu à pesquisadora Maria Aparecida Moraes concluir que o tempo de vida útil de um cortador de cana é inferior ao de um escravo. a FERAESP. 2007). em Minas Gerais.boa parte destinado à família.

seria imprudente concentrar aí todo o esforço governamental de emancipar o país da dependência dos combustíveis fósseis. Um dos argumentos importantes de diversos investidores estrangeiros nesta área está exatamente no potencial oferecido pela diversificação 21.24horasnews. 2007). A Brenco. 40% dos 180 mil empregados hoje na colheita regressam a seus Estados após cada safra.500 trabalhadores em situação degradante. . o que incentiva a diversificação das fontes de oferta (Moreira. passível de ser caracterizada como de escravidão 19 A mecanização vai suprimir estas modalidades de uso da mão-de-obra na produção de etanol. O Centro de Pesquisas da Petrobras (CENPES) desenvolveu e patenteou o H-Bio. por um grupo do Ministério do Trabalho empregando 1. 4. 20 A Petrobrás.a partir da iniciativa privada. É claro que este segundo objetivo já coloca um problema sério: as cadeias produtivas de maior maturidade e implantação no mercado tendem a dominá-lo e a entrada de novos atores é problemática: até aqui. por exemplo. reduz emissões de poluentes e se origina em matérias-primas agropecuárias. cujas oportunidades de geração de riqueza e renda – sobretudo para um país com a dotação de terra. por exemplo. sem que esta tenha que se transformar previamente em óleo. O primeiro deles consiste em diversificar as bases a partir das quais se pode fazer a descarbonização da matriz energética na área de transportes. só em São Paulo eliminar o emprego de nada menos que 180 mil cortadores de cana até 2014. em menor proporção no sebo bovino – a esmagadora maioria de sua matéria-prima e as empresas que procuram a diversificação passam por dificuldades 19 http://www. Tudo indica que as novas unidades a serem instaladas no Centro-Oeste do País também serão mecanizadas. O biodiesel O Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel procura atingir três objetivos não necessariamente compatíveis entre si. 2007). James Wolfensohn e Vinod Khosla e que pretende abrir dez usinas de etanol no Brasil. ainda que as ações empresariais da Petrobras sejam relevantes. um produto que dispensa o enxofre. já possui tecnologias de produção de biodiesel a partir do esmagamento direto da semente de mamona. muitas vezes envolvendo grandes empresas no Centro-Oeste. O protocolo ambiental que antecipou o prazo para o fim da queimada e as perspectivas de utilização da palha da cana para o fornecimento de energia elétrica amplia os incentivos para a mecanização que deve atingir praticamente todo o Estado de São Paulo até 2014. cada vez mais necessária para os novos patamares técnicos em que opera.php?mat=247470 – Extraído da internet em 26/03/08.br/index. quando as queimadas serão proibidas no Estado. 21 O grupo espanhol Promobarna está construindo 30 mini usinas no norte de Minas Gerais. Por maior que seja a eficiência do etanol. foi flagrada. apenas 70 mil deverão ser aproveitados em novas tarefas. água e sol do Brasil – são hoje imprevisíveis 20. Mas trata-se de atingir esta diversificação . com um investimento de U$ 200 milhões. A mecanização. Tanto mais que as rotas tecnológicas do biodiesel podem conter potenciais de inovação. Destes. segundo a ÚNICA (Scaramuzzo.28 tratos a trabalhadores na cana-de-açúcar. Quando se procura o site da empresa na internet não há qualquer desmentido ou esclarecimento sobre o assunto. Hoje quase metade da colheita em São Paulo já está mecanizada. A tecnologia permite que a mesma unidade opere com rotatividade de matérias-primas. que abriga investidores como Bill Clinton. Paralelamente a este desemprego as usinas hoje têm dificuldade em encontrar mão-de-obra especializada.com. o PNPB tem na soja – e.segundo objetivo .

A ambição é tanto mais importante que. de uma articulação entre governo. Os principais instrumentos para alcançar este objetivo estão resumidos na Figura 3. 22 Mas mesmo as empresas tradicionais na área de soja fazem pesquisas com outras matérias-primas no horizonte de diversificar sua base produtiva. com o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e nasce com o objetivo explícito de compatibilizar a luta contra o efeito estufa e a mudança nos padrões energéticos do setor de transporte com melhor distribuição de renda. como foi visto no item 3 deste trabalho. . reside aqui a esperança de que o programa seja levado adiante sem comprometer a segurança alimentar do País nem ameaçar suas áreas ecologicamente sensíveis. O PNPB é. Nascido em 2003.29 significativas22. sob este aspecto. um desdobramento de políticas que tiveram início em 1996. Como várias destas matérias-primas não são alimentares e podem ser exploradas em terras de fertilidade relativamente baixa. a eficiência econômica e energética do etanol (traduzida nos custos declinantes do álcool e em seu balanço energético positivo) tem como contrapartida extraordinária concentração da terra e dos recursos produtivos. um dos desafios centrais do PNPB consiste em se ampliar diversificando as ações empresariais em torno de outros produtos além da soja. movimento sindical de trabalhadores rurais e setor privado. O terceiro objetivo do programa está em fazer da expansão do biodiesel um fator estratégico de fortalecimento da agricultura familiar e. sobretudo. o PNPB conseguiu em dois anos de funcionamento atingir a meta de incorporar 2% de produto de origem orgânica ao diesel fóssil. Portanto. de seus segmentos mais fragilizados.

Este selo. Agentes envolvidos no Programa Nacional de Produção de Biodiesel Fonte: Abramovay e Magalhães. sob supervisão do Ministério do Desenvolvimento Agrário. a partir de 2008. a que mais depende de processos vivos e a principal característica deste caminho de descarbonização da matriz energética (contrariamente à energia eólica ou fotovoltaica. sob a supervisão do Conselho Nacional de Políticas Energéticas. que varia de região para região. A aquisição do produto por parte da Petrobras pode ser feita de duas maneiras. em princípio. 2008). a Brasil Ecodiesel 23. para obter o selo social. 50% da matéria-prima processada pela indústria tem que vir da agricultura familiar. A Petrobras faz a mistura. O selo social abre caminho para que a empresa obtenha isenções fiscais e a obriga. Os contratos. de todas as atividades econômicas. Esta proporção vai subir para 3% em julho de 2008 e tudo indica que a meta de 5% (prevista legalmente para 2010) seja antecipada. o diesel brasileiro conteria 2% de produto orgânico. No Nordeste.30 Figura 3. são monitorados pelo movimento sindical e existe mesmo um protocolo entre a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e uma das mais importantes empresas do setor. A primeira é pelo mercado. em contrapartida a fornecer aos agricultores assistência técnica e garantia contratual de aquisição do produto e de pagamento de um preço pré-estabelecido. 2008). Não é convincente a tese central do livro de que o tema estudado aqui deveria ser chamado de agrocombustíveis e não biocombustíveis já que esta última expressão vem do grego. e os agrocombustíveis não são produzidos respeitando a vida (Leroy. representando vida. 2007 O governo garante a compra do produto pela determinação legal de que. a agricultura é. Ver igualmente o livro recentemente pela FASE sobre o tema (Rede Brasileira pela Integração dos Povos. No Centro-Oeste só 10%. 23 Abramovay e Magalhães (2007) descreveram com maior minúcia os mecanismos básicos de funcionamento do PNPB. mostra que a empresa firmou contratos com agricultores familiares que responderão por certa parcela de sua oferta. Ainda que não seja sustentável. por exemplo) é . aqui rapidamente resumidos. Outro são leilões cujos participantes devem obter a concessão de um selo social.

Primeiramente por tornar mais problemática a incorporação do biodiesel ao produto de origem fóssil. No Centro-Oeste. quase irrisória. Além disso. O segundo problema apareceu a partir de 2007. relativamente ao momento em que foi lançado. Os produtos correspondentes aos segmentos de menor renda na agricultura familiar (mamona. em seu início. os que dispõem não só de maior extensão de terra.os custos para a Petrobras em bancar a diferença entre seus preços e os do petróleo tornaram-no economicamente inviável. por exemplo. dendê. num processo que alguns já batizam de agflação (Canuto). ou seja. por exemplo. os compromissos assumidos e as dificuldades de apoiar-se sobre o uso de processos vivos. Até aqui. por duas razões. mesmo que sejam considerados distantes de processos sustentáveis. os que têm acesso a mercados mais dinâmicos e competitivos. sob este ângulo. . sobretudo. O primeiro deles refere-se à agricultura familiar.31 Dois anos de funcionamento não permitem julgar se o programa está atingindo seus objetivos. O PNPB foi elaborado quando os preços agrícolas estavam deprimidos e. por exemplo) têm participação. O pró-álcool. somente seus segmentos mais prósperos conseguiram integrar-se à cadeia produtiva do biodiesel: mais de 90% da matéria-prima de que é feito o óleo vem da soja e o restante quase inteiramente do sebo animal. A elevação dos preços internacionais – e os impactos do aumento nas cotações dos grãos como conseqüência do plantio de milho para etanol nos EUA . O trabalho recente de Ferreira (2008) no Estado de Goiás mostra que as aquisições das empresas junto aos assentados que produziram mamona foram irrisórias diante da importância do fornecimento de soja por parte dos segmentos mais consolidados da agricultura familiar. Ainda não estão claros os mecanismos pelos quais os atores vão concertar-se para estabilizar suas relações sem que estas oscilações nos preços sejam destrutivas para o funcionamento do mercado. pelos possíveis impactos no bolso do consumidor final24. era muito mais dependente de recursos públicos do que é hoje o PNPB e sua capacidade de atender à demanda do mercado mostrou-se bem precária. mas. até aqui. mais de 50% de sua oferta vem de estabelecimentos que não empregam trabalho assalariado. Mas as informações disponíveis nestes dois primeiros anos de funcionamento do Programa já permitem levantar ao menos três problemas de cuja solução depende o futuro do PNPB. os produtores de soja encontram-se nos segmentos mais abastados da agricultura familiar. Esta comparação é citada com imensa freqüência para mostrar que há uma curva de aprendizagem tecnológica e social que tem toda a chance de permitir ao PNPB afirmar-se. quando – menos de 10 anos após seu lançamento . com o aumento sensível nos preços das matérias-primas. em função do contraste entre os investimentos realizados. O terceiro problema é que o próprio entusiasmo do setor privado com o programa parece menor.mudam o cenário. No Rio Grande do Sul. especialmente as de origem agrícola. No entanto. os produtores familiares de soja que se integram ao programa possuem propriedades muitas vezes superiores a 200 hectares. o aumento dos preços das matérias-primas amplia as oportunidades de comercialização dos produtos agrícolas e eleva o custo de oportunidade da produção de biodiesel. poderia funcionar como uma forma de estabilizar as cotações e garantir renda aos agricultores. É verdade que parte significativa da soja vem de unidades familiares de produção. 24 Estes efeitos diretos no bolso do consumidor brasileiro tendem a ser irrisórios.

suas regras de troca (quem são os agricultores que fornecem matéria-prima? óleos vegetais podem ser usados para fabricar biodiesel num mercado que tudo indica estar de maneira firme em alta?) e suas concepções de controle (que tecnologias são empregadas e quais as chances da organização autônoma da agricultura famililar neste mercado?). em última análise de um conflito entre o uso dos produtos agrícolas para energia e para outras finalidades (alimentares.em que as regras de comportamento aceitas socialmente como válidas nas disputas concorrenciais não estão claramente estabelecidas. Mas trata-se também das dificuldades de organização de um setor – de um campo social. é. Isso significa que os sindicatos e a extensão – presentes em 90% dos municípios . A construção política dos direitos de propriedade Os direitos de propriedade são importantes não apenas sob o aspecto jurídico-formal. hoje. Para obter o selo social. 4. ele apoiar-se em matérias-primas cuja viabilidade econômica imediata é baixa e cujo energético é bem menor do que o do etanol significa renunciar à diversificação das alternativas ao petróleo fixando-se exclusivamente no álcool. Trata-se de um mecanismo usado no PRONAF para impedir que segmentos sociais não pertencentes à agricultura familiar se beneficiem com os incentivos postos em prática pelas políticas voltadas a seu fortalecimento. a) Os agricultores familiares que participam do programa são definidos formalmente enquanto tal por meio de uma Declaração de Aptidão do PRONAF.1. Há quatro atores fundamentais na disputa em torno dos ganhos – e eventualmente na distribuição dos prejuízos – da produção de biodiesel: os agricultores (patronais e familiares) as empresas de produção de biodiesel. mas também. mas por sua capacidade de definir quem reivindica os ganhos de uma determinada atividade econômica. Trata-se de um setor incipiente que ainda não estabeleceu com toda a clareza seus direitos de propriedade (quem pode produzir biodiesel e quem se beneficia com sua exploração?). no caso da mamona. as empresas devem estabelecer contratos individualizados (ou por meio de cooperativas) com agricultores que possuem a DAP. a Petrobrás e o próprio Estado (no que se refere aos impostos). sua estrutura de governança (quanto o setor deve investir para não ser vítima de sua própria capacidade ociosa? Como garantir que as firmas estão cumprindo os contratos com os agricultores? É válido comprometer-se a entregar óleo de mamona e entregar óleo de soja? Qual o papel da Petrobras?). no caso do biodiesel. Mas o fato de o biodiesel poder representar um caminho estratégico para o País não significa que o formato atual e os incentivos criados a partir do PNPB não tenham problemas. por exemplo. A aplicação das quatro categorias básicas a partir das quais Neil Fligstein aborda os mercados sob um ângulo político-cultural. bem menos clara que no caso do etanol. Condenar o programa com base no fato de. Quatro temas interessantes podem ser aqui levantados.32 entrega do produto diante de oportunidades mais vantajosas para sua comercialização. mas por ser órgão regulador direto e por exercer – por meio da Petrobras – atividade produtiva empresarial. Trata-se. É o que será visto a seguir. emitida pelo sindicato de trabalhadores rurais ou pela extensão rural. fora da produção de biodiesel. não apenas por definir leis e procedimentos. para usar a linguagem de Pierre Bourdieu . Esta definição é sempre política e mais ainda num mercado em que a presença do Estado é fundamental. para cosméticos ou para a indústria ricinoquímica).

Mais importante foi a notícia empresa vai instalar proximamente. com produção. Outro aspecto relevante. Parte do prejuízo de R$ 38 milhões que uma das mais importantes firmas de setor. amargou em 2006 foi atribuída. a produtores independentes. outras distribuidoras também podem retirar o biodiesel para fazer a mistura. isso significa que o direito de usufruir dos benefícios derivados da produção do biodiesel passa pela relação com a Petrobras. 2007). Isso significa que o exercício dos direitos de propriedade na produção de biodiesel são dificilmente acessíveis a organizações de trabalhadores rurais e suas cooperativas e. alvarás de funcionamento e de aprovação de projeto de prevenção de incêndios do corpo de bombeiros. Cada contrato entre a indústria e o agricultor é assinado pelo presidente do sindicato do município. a Brasil Ecodiesel. E é importante lembrar que a Petrobras. Até mesmo para as iniciativas de cooperativas da agricultura familiar e de auto-consumo para seus cooperados exige-se o cumprimento de regras estritas. c) Uma vez que a Petrobras tem o monopólio na aquisição do diesel.a produção de biodiesel pelos agricultores. para uso próprio ou para comercialização local. usina com capacidade de produzir mais de 800 milhões de litros. Apesar da aparente diversidade de empresas. b) Contrariamente ao que ocorre noutras atividades agroindustriais . Esta exigência pode ser flexibilizada em casos especiais. esta iniciativa se concretize (a Petrobras não desmentiu a notícia). de 57 milhões de litros anuais e num investimento total de R$ 227 milhões. uma força importante na definição dos direitos dos agricultores a participar do programa. com base na já citada tecnologia em que o biodiesel é extraído diretamente do grão. embora. na verdade uma delas tem um domínio imenso sobre o mercado em que existe a maior expectativa quanto aos benefícios sociais do programa. quando se avalia a potencialidade de produção de biodiesel em pequena escala. acompanhadas das licenças ambientais. mesmo que possuam volume para participar do mercado ou garantir seu próprio abastecimento. embora possível. ela abala consideravelmente um dos princípios básicos do programa que era o de apoiar a produção agrícola e industrial fundamentalmente sobre o setor privado.inclusive no álcool .000. d) A estrutura empresarial do biodiesel brasileiro ainda é instável.00. de fato.33 brasileiros – têm. além de ter uma função decisiva na regulação do mercado atua também como empresa produtora de biodiesel. . Caso. construindo três usinas em Candeias (Bahia). por um representante da empresa. sem ser transformado antes em óleo. muito menos. é que os custos de análises laboratoriais de controle de qualidade são relativamente altos e são de responsabilidade exclusiva da indústria de biodiesel. Montes Claros (Minas Gerais) e Quixadá (Ceará). cada uma. a um estrangulamento na capacidade de retirada do combustível pela Petrobras (Bouças. O papel da Petrobras neste mercado é muito mais importante do que no etanol. submete-se a um pesado conjunto de exigências legais que praticamente a inibem. Mesmo que a situação desde então esteja normalizada25. Pelas normas legais a produção (e não apenas a comercialização de biodiesel) supõe a existência de uma empresa formalmente constituída com capital social mínimo de R$500. Mesmo assim é necessária autorização da ANP. a autorização e o controle da operação esteja com a Agência Nacional do Petróleo. isso lhe dá um poder extraordinário. em princípio. no Nordeste. 25 A partir deste ano. Há a necessidade de autorização pela Agência Nacional do Petróleo – ANP e de registro especial na Secretaria da Receita Federal. A comercialização do biodiesel para o auto-consumo de cooperados necessita de autorização especial na ANP ao passo que a comercialização para terceiros somente é permitida para empresas e não para consumidores finais.

TABELA 2 . Será importante. a ANP fixou o preço de abertura no leilão em R$ 1. seja por meio dos leilões. No caso do biodiesel.1. No momento da entrega.76. já que os induzia ou a descumprir os contratos que haviam estabelecido ou a negociar o produto por preço inferior ao pago pelo mercado. 4. no Piauí. Mas o que chama a atenção é que apenas uma empresa (Granol) aproxima o volume produzido do volume negociado em leilão. Isso criou uma desigualdade e um desconforto que comprometeu consideravelmente a cooperação empresarial no setor e a própria confiança do setor privado no programa.2.2. acompanhar a maneira como se faz a implantação e o desenvolvimento das empresas capazes de explorar as vantagens econômicas do biodiesel.30. ficou bem longe de atingir seu compromisso. seja por aquisições no mercado. razão pela qual mostra um volume produzido de 212 milhões de litros. Os 800 milhões de litros leiloados acabaram se traduzindo na entrega de apenas 400 milhões de litros.92 por litro (julho de 2006) e a média do leilão foi de R$ 1. Ora. sua capacidade de traduzir as inovações que conquistam em produção e preços se exprime no fornecimento do produto às distribuidoras. de fazer valer seus direitos de propriedade. o produto teria que ser vendido entre R$ 2. A própria existência dos leilões era colocada em questão pelos industriais do setor. que se comprometeu a entregar mais da metade do volume total arrematado em leilão em 2007. A Brasil Ecodiesel não é uma empresa tradicional na área de esmagamento de óleo. Há três temas polêmicos na maneira como a governança do mercado de biodiesel vem-se organizando. Governança: leilões. implantando sistema próprio de assistência técnica e atuando até como organizadora de um assentamento. tal como levados adiante em seu primeiro ano de funcionamento. 4. segundo um industrial do setor (Bouças e Bueno. Em setembro de 2007. Os leilões: alcance e limites de um mecanismo de estabilização O maior problema dos leilões.34 o Nordeste. neste momento o diesel convencional custava R$ 1. Vem do setor de energia elétrica e apareceu como uma espécie de desafiante (no sentido empregado por Fligstein) inovando em suas práticas empresariais. com o lançamento de capital em bolsa. Ao mesmo tempo é aquela com a qual a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura firmou um convênio de cooperação. 2007).20 e R$ 2. o da Fazenda Santa Clara. investimentos e participação social É em torno das relações de concorrência e cooperação estabelecidas entre os protagonistas de um mercado – a partir de parâmetros formais e informais que são resultados históricos particulares a cada sociedade – que se estabelecem as modalidades de governança dos mercados. por exemplo. A tabela 2 refere-se ao período até julho de 2007. A Brasil Ecodiesel.80. é que os preços de mercado subiram muito além do que foi negociado entre as empresas e a Petrobras. ações com grande projeção internacional. Já a Granol entregou todo o produto conforme seu compromisso. a concorrência entre as empresas. A unidade interna do empresariado – o que ameaça a confiança deste seu segmento decisivo no PNPB . para o futuro do programa.ficou seriamente abalada com as diferenças de conduta entre empresas que cumpriram e as que não cumpriram seus compromissos com o estabelecido no leilão. Esta empresa não faz parte da mais importante associação empresarial do setor. isto é.

a sistemática alterou-se: a entrega torna-se obrigatória. A incorporação do biodiesel ao diesel é paga pelo consumidor e. para 26 Ao que tudo indica estas considerações não foram levadas em conta nas críticas que um dos mais importantes especialistas brasileiros sobre o tema. É importante assinalar que o biodiesel não conta com subsídios governamentais diretos à exceção de uma isenção fiscal cujo montante é muito baixo. Agora. conforme se eleva a proporção de produto orgânico inserido no de origem fóssil. que mesmo quando se chegue aos 5%. O gráfico mostra a incidência no aumento do preço do biodiesel sobre o diesel convencional. 2007. É importante ressaltar que neste momento a não entrega do produto negociado em leilão não implicava em qualquer punição legal. seu impacto é muito reduzido26. junto com o Ministério Público Federal entraram com ação civil pública contra a Agência Nacional de Petróleo e a Petrobras. por força de uma opção pelo transporte rodoviário. o prof. em detrimento das ferrovias. feita desde o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek que estimulou o trânsito de cargas pelas estradas. Horta Nogueira (2008).40 é irrisório.40 e as punições impostas são severas. O impacto deste considerável aumento no preço teto do leilão de R$ 1. dirigiu ao PNPB em artigo recente. como se pode ver pelo gráfico 1. pelo que mostra o gráfico 1.92 para R$ 2. o preço máximo estipulado em leilão subiu para R$ 2. Os efeitos da incorporação situam-se na segunda casa decimal: é uma proporção inferior àquela que corresponde aos descontos que os proprietários de postos de gasolina oferecem aos clientes e. sob o ângulo ambiental e o Estado de São Paulo. . O diesel brasileiro é especialmente nefasto. Não se pode ignorar também o fato de o diesel brasileiro estar entre os mais baratos do mundo. não será sentida pelo consumidor.35 Volume negociado e volume produzido de biodiesel até julho de 2007 Fonte: Bouças e Bueno. exigindo o cumprimento de normas que modifiquem imediatamente a composição do diesel. portanto.

É muito importante. em fevereiro de 2008.3 bilhão de litros. entre outras mudanças.36 que tenha. das 51 usinas de biodiesel autorizadas a operar no país. ainda longe da capacidade instalada. Uma das maiores empresas industriais de produção de equipamentos agrícolas (a Dedini) constata que o ânimo inicial com o programa não se traduziu um demanda firme por novas instalações industriais. A empresa volta-se muito mais à .74 1. O importante é que o baixo preço do diesel brasileiro esconde uma grave externalidade negativa que contribui para a péssima qualidade do ar nas metrópoles brasileiras. O Brasil hoje se aproxima de uma capacidade instalada de 3 bilhões de litros anuais para uma demanda prevista inicialmente para 2008 de 840 milhões de litros.3 2. Os aumentos de preços que marcaram o ano de 2007 não vão se perpetuar e é bem provável que a entrada de novos produtores no mercado possa conduzir – como vem acontecendo com o etanol – a redução nos preços. Impacto do preço do biodiesel sobre B2.76 1. como oferecer um horizonte estável de mercado para as empresas. quando se discute a viabilidade econômica do biodiesel. os leilões representam um salutar esforço do Estado de auxiliar a estabilização de um mercado que ainda se encontra em formação.2 2.72 1. Com a passagem para os 3% a partir de julho esta demanda vai subir a 1.70/l) 1.2.80 Preço do diesel com biodiesel (R$/l) 1. B3 e B5 (diesel a R$1.5 2.6 2.9 3 Preço do biodiesel (R$/l) B2 B3 B5 Apesar de suas imperfeições – entre elas a distância entre o momento do contrato em leilão e o da venda do produto – o leilão parece um mecanismo interessante para garantir tanto a oferta do produto para a Petrobras. Em princípio.78 1. 4.2.70 2. o que pode aproximá-lo do diesel de origem agropecuária. menor teor de enxofre. O controle dos investimentos O segundo aspecto problemático na governança do biodiesel brasileiro é que os investimentos industriais parecem muito além da demanda imediata pelo produto.8 2. Gráfico 1. que se leve este fator em consideração. O resultado é que.4 2. A obediência a esta norma implicará alguma elevação no custo do biodiesel. 30 estavam paradas ou com produção esporádica.7 2.

São iniciativas muito recentes. um diretor da empresa. por exemplo. Este contraste é um indicador forte do interesse do setor privado de estimular o aumento da oferta. duas questões emergem com relação à participação social no PNPB: a primeira consiste em saber por que razão num programa em que a própria relação entre a agricultura familiar e a indústria é monitorada pelo movimento sindical e pelo Governo (por meio dos contratos a que dá lugar o selo social) grupos gestores locais são necessários. especialmente as que se referem a suas relações com os agricultores familiares. no item 4. organizações de agricultores familiares. No entanto. organizações que têm por objetivo animar os arranjos produtivos locais em torno do biodiesel e controlar a aplicação das cláusulas com as quais as empresas se comprometeram.2.3. Seria muito importante. em que o grupo gestor tornasse públicas suas observações. Algumas organizações de cooperação internacional colaboram com estes grupos e acompanham de perto a implantação do programa: é o caso da GTZ. Fazem parte destes grupos. já que se torna parte dos compromissos que estabelecem. com compromisso de divulgação pública 27 O texto de Olivério (2005).37 exportação de equipamentos do que a seu inicialmente promissor27 mercado interno (Cruz e Scaramuzzo). no Nordeste. neste sentido que o selo social fosse ampliado para um selo socioambiental que pudesse compreender a exposição pública e rastreada dos impactos da produção do combustível sobre o meio ambiente. representantes das indústrias. mas ele pode ser seriamente afetado caso o custo de oportunidade da matéria-prima para o biodiesel seja excessivamente elevado. cuja relevância e efeitos sobre a organização do mercado ou sobre o cumprimento dos contratos no que se refere aos compromissos assumidos entre as empresas e os agricultores familiares ainda são desconhecidos. Na verdade. Esta meta aproximaria o impacto e a dimensão do programa aos do pró-álcool e poderia ser atingida até 2020. há um contraste imediato entre o volume de entrega de matéria-prima e a capacidade industrial instalada. suas sugestões. prevista para 201028. Participação social O PNPB prevê a formação de Grupos de Trabalho Gestores. O risco que corre uma estrutura como a dos Grupos de Trabalho Gestores é que tão logo se implante ela tende a perder seu caráter externo com relação ao que fazem os atores. seja para o mercado interno. seja para exportação. Ao que tudo indica – e há declarações de representantes industriais a este respeito – uma das perspectivas do setor privado é suprir o mercado europeu. membros dos escritórios de assistência técnica e extensão rural e (muito raramente) instituições financeiras. Por que razão não atribuir a tarefa de monitoramento do programa a um sistema de avaliação com parâmetros claramente definidos e levados adiante por atores que não estão com ele diretamente envolvidos. De qualquer maneira.3. 4. escrito em 2004. Este tema será discutido abaixo. . Seria importante colocar em prática uma sistemática próxima à de um observatório social. governo. para isso. bem como a constatação das conquistas realizadas pelo programa. suas críticas. entre os produtores de biodiesel a discussão e as medidas neste sentido parecem muito menos amadurecidas do que no etanol. esta dimensão industrial é adequada para os 5% de incorporação do produto orgânico ao diesel. Mas. Resta a saber se a concorrência com outras finalidades no uso das matérias-primas permitirá viabilidade econômica ao biodiesel.4 bilhões de litros (diante dos 840 milhões exigidos pela norma atual de 2%). é claro que as empresas vão submeter-se ao mesmo tipo de exigência de certificação socioambiental que hoje já se anuncia no etanol. Portanto. não hesita em comparar as chances do biodiesel com as do álcool afirmando que a incorporação de 20% do produto ao diesel conduziria a uma demanda de 12. 28 Contém insistir que a meta de 5% estava prevista para 2013 e deve ser antecipada para 2010.

1. alimentos e energia Nenhum mercado se estabiliza sem que seus participantes cheguem a um acordo sobre com quem e sob que condições podem transacionar.3. É imensa a dificuldade para incorporar ao PNPB agricultores que vivem num ambiente social caracterizado por mercados altamente imperfeitos e incompletos. Talvez aí resida a maior diferença entre uma visão puramente “econômica” e a abordagem político-cultural dos mercados: estruturas sociais impõem aos atores uma dimensão coercitiva que limita objetivamente o âmbito de suas escolhas e faz com que selecionem aqueles com quem se relacionam (Dobin. Os diferentes mercados da agricultura familiar O termo agricultura familiar indica uma forma produtiva em que há unidade entre o trabalhador e suas condições de produção.38 de seus processos e resultados? Mas caso. financiam sua própria sobrevivência junto a comerciantes que fornecem os poucos insumos de que necessitam e passam a ter direito sobre suas safras. neste ambiente. Não é só no Brasil que os segmentos mais empobrecidos dos habitantes do meio rural relacionam-se com mercados altamente imperfeitos e incompletos (Ellis. por meio de uma agenda de trabalho que desafie os atores locais com objetivos que vão além daqueles que alcançariam com suas ações usuais e publicando de maneira ampla e acessível os resultados do que fazem. Num país de tradição latifundiária não é trivial que parte importante da oferta agropecuária se afirme sobre a base da iniciativa do trabalhador e sua família. não é de se estranhar que a participação no PNPB dos segmentos de menor renda da agricultura familiar nestes dois primeiros anos de sua existência esteja muito aquém do inicialmente previsto. nem de longe que a agricultura familiar seja homogênea. No caso brasileiro. Mais que isso: a maneira como se organizam os mercados em que os agricultores familiares participam está ainda tumultuada. 2004). por exemplo. O segundo tema importante. Assim. O PRONAF contribuiu de forma importante para melhorar a renda destes agricultores. Diferentemente. 4. então é fundamental que adotem práticas que evitem sua rotinização. junto a estes mercados. Estas restrições são explicadas não só pela exigüidade das terras que possuem e por condições climáticas muitas vezes adversas. os grupos gestores sejam necessários. mas pelo ambiente social em que vivem seus integrantes. Dois temas. a diferenciação interna pode ser imensa. no interior deste segmento social composto por unidades que não recorrem de maneira permanente ao trabalho assalariado. neste sentido. Muitas vezes. Inúmeros estudos no Brasil e na América Latina mostram que. está nos diferentes usos alternativos da matéria-prima do programa. Regras de troca: agricultura familiar. As possibilidades de melhorar as capacidades produtivas. 1988). das situações mais estáveis características de mercados . a maior parte da chamada agricultura familiar – sobretudo no Nordeste – não consegue retirar de suas unidades produtivas o mínimo necessário para sua sobrevivência e reproduz-se a partir de trabalhos levados adiante fora do estabelecimento. O primeiro deles refere-se aos agricultores familiares responsáveis por parte da oferta das matérias-primas. o PNPB desestruturou modalidades tradicionais de comercialização destes produtos. mas ainda não estabilizou suas alternativas. mas não chegou a alterar este ambiente social. são muito reduzidas e dependentes de intervenções estatais. Mas isso não significa. no estudo das regras de troca. de fato. Ao que tudo indica. 4.3. são fundamentais quando se trata de estudar os impactos socioambientais do biodiesel.

È inferior também ao número de contratos assinados entre agricultores e indústria. distanciando-se do que fora negociado nos leilões. Conforme mostram Abramovay e Magalhães (2007). 18 mil no Sudeste.39 como a soja ou daqueles em que há integração contratual entre os produtores. Além disso. O peso da soja na composição da matéria-prima do PNPB esconde. dos quais 85 mil no Nordeste. a entrada de novos atores comerciais na comercialização da mamona tende a desestruturar os circuitos existentes sem que sejam estabelecidos imediatamente mecanismos que forcem o cumprimento dos novos compromissos e dos contratos. divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário em 2007.5 mil contratos. A empresa que mais investiu na mamona. dadas as imperfeições deste mercado – a alta dos preços. segundo informações preliminares do MDA. Os números mostram distância muito grande entre estas metas e os objetivos realmente alcançados. Em 2007 foram firmados 68. a entrada de um comprador do porte da Brasil Ecodiesel e o horizonte de entrada da PETROBRAS desestabilizaram o mercado convencional da mamona e seus protagonistas tradicionais fizeram o possível para não perder seus fornecedores transmitindo-lhes – coisa que habitualmente não faziam. a previsão – pelos contratos que haviam sido assinados – era de que a mamona correspondesse a 61% do total e a soja a 29%. A participação da mamona e do dendê foi irrisória. as cotações internacionais do óleo de mamona elevaram-se consideravelmente. dos quais 13 mil na região Sul do Brasil. porém mudança importante na formação dos mercados locais das outras matérias-primas. como se pode ver pela tabela 4. como tantas outras matérias-primas agrícolas. Tabela 3. Ao mesmo tempo. não hesitou em vender o óleo de mamona ali onde os preços eram mais altos entregando às distribuidoras o óleo de soja comprado no mercado. O PNPB contribuiu para aumentar o plantio de mamona e também para a elevação de seu preço. . 27 mil para a Região Sul (Abramovay e Magalhães. para o final de 2008 era de 225 mil contratos assinados para todo o País. Em 2007. diante desta situação. O número é bem menor que o previsto inicialmente nos planos governamentais. a Brasil Ecodiesel. provocada tanto pela conjuntura internacional como pela entrada de novos compradores. estas informações preliminares mostram igualmente o peso esmagadoramente majoritário da soja na formação da matéria-prima do biodiesel brasileiro em 2007. A previsão. 2007). Ao mesmo tempo. cerca de 30 mil agricultores participaram efetivamente do Programa.

organizados em cooperativas. mas não foi bem sucedida. O box 2 mostra a tentativa da Brasil Ecodiesel de construir relações estáveis com fornecedores de mamona. .40 Área plantada (ha) Regiões Soja Sul Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Total 94% 100% 5% 39% 29% 4% dendê mamona 4% 88% 46% 100% 61% 0% 3% Amendoim girassol 1% 2% 15% Fonte: MDA/Selo Combustível Social. sob forte influência do movimento sindical e. 2007. Uma destas indústrias chegou a tentar um projeto de integração contratual estimulando a produção e o policultivo feijão/mamona. persistindo então na importação e deixando a produção local nas mãos dos chamados “atravessadores”. É importante lembrar que o óleo de mamona é usado na indústria ricinoquímica e as poucas empresas existentes na área não hesitavam em apelar para a importação do produto. Claro que o efeito imediato deste repasse de preços altos aos produtores lhes é benéfico. Mas está colocada em cena uma disputa em torno das regras de troca entre formas de comercialização que pretendem imprimir estabilidade ao mercado em torno de preços capazes de refletir as oscilações brasileiras e internacionais e os atores que sempre dominaram este mercado e que respondem pelo que foi até aqui seu baixo dinamismo. a capacidade dos atores tradicionais em desestabilizar os novos vínculos. o que não fazia parte dos métodos habituais de comercialização destes atores tradicionais. repassando aos agricultores o aumento dos preços. ao mesmo tempo. diante das dificuldades de seu abastecimento por parte dos agricultores locais.

500 t de mamona e R$ 1.48/kg. Nesta safra a Coopaf firmou contrato com a Petrobrás e espera renovar o contrato com a R$ 1. Entretanto houve a intervenção dos atravessadores que fornecem para as indústrias ricinoquímica. o preço médio da mamona em baga seria de R$ 0. Irrigação e Reforma Agrária .000 hectares. A Coopaf contratou 13 técnicos para atender a esta demanda. O preço negociado foi de R$0.000 associados e outros 3. a Coopaf é uma cooperativa de agricultores familiares impulsionada pelo programa de biodiesel e estimulada pela organização sindical do estado da Bahia.41 BOX II Mamona: dificuldades na construção de um novo mercado Criada em 2006.15/kg. A secagem da mamona é feita ao sol pelo agricultor. O agricultor tem um incentivo de R$1.SEAGRI . estimulados pela cooperativa. Em 2006.40 Preço (R$/kg) . Em 2007 a Coopaf estimulou o plantio junto aos agricultores familiares na expectativa de comercializar pelo menos 15.200 agricultores.66/kg. A cooperativa firmou contrato também com a Comanche (empresa com o Selo combustível Social) em 2007.80 por saca para que ele mesmo faça a debulha da mamona.75/kg enquanto os atravessadores chegaram a oferecer R$1. Em alguns casos a maquina de debulha da Coopaf vai até a propriedade para a realização desta operação. R$ 0. de março de 2005 a março de 2008. Para a Petrobrás o preço da mamona será a média do preço na praça de Irecê dos últimos 36 meses. Tem 5.000 t de oleaginosas. com o advento do biodiesel. com orientação do técnico.A cooperativa ampliou rapidamente sua base produtiva a partir da assinatura de um contrato com a Brasil Ecodiesel para o fornecimento de mamona em 2006. envolvendo cerca de 2. Os agricultores no passado já produziam a mamona em consórcio com o caupi e retornaram à atividade. forma cultivados 4. que compraram a produção diretamente dos agricultores familiares associados à Coopaf a preços muito Preço da mamona a cooperativa.80 R$0.BA Ecodiesel era de R$0.40 R$ 0. cujos termos e condições já foram negociados. movidos pela negociação contratual com a Brasil Ecodiesel. O preço negociado com a Brasil acima daqueles pactuados com de 2005 a 2008 Fonte: Secretaria da Agricultura. a cooperativa se comprometeu a organizar a produção.20 R$ 5 5 6 6 5 5 6 6 7 7 7 7 8 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 00 3 /2 6 /2 9 /2 2 /2 /03 /2 6 /2 9 /2 /12 /2 /03 /2 6 /2 9 /2 2 /2 /03 /2 1 /1 1 /0 1 /0 1 /0 1 1 /0 1 /0 1 1 1 /0 1 /0 1 /1 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 R$ 1.60 600 t de girassol quando a sua expectativa era de cerca de 15. Caso isso não ocorra a Coopaf pesa a mamona em casca e faz um desconto de 50% para o pagamento.20 Brasil Ecodiesel. Ela atua na produção e venda de mamona e iniciou em 2006 o plantio de girassol.000 em processo de adesão.42 a R$0.78/kg.60 R$ 0. Em 2007 a Coopaf comercializou para a Brasil Ecodiesel cerca de 6. Com R$ 1. captar a matéria-prima e dar assistência técnica aos agricultores. quando a indústria ricinoquímica pagava de R$0. Irrigação e Reforma Agrária .SEAGRI – BA. A Coopaf busca a matéria-prima na propriedade do agricultor até formar um estoque de 8 toneladas para então realizar a venda.000 t de oleaginosas.00 base nas cotações da Secretaria da Agricultura. Pelo contrato.

mas no âmbito de relações estáveis com as indústrias privadas e a Petrobras. para a safra 2007/8 que 50% da produção deve ir para a cooperativa. O agricultor recebe a assistência técnica e as sementes.75/kg e o de girassol de R$0. Contrariamente ao que ocorre no mercado da soja .dominado por grandes empresas que possuem esquemas estáveis de comercialização e nos quais a inserção dos agricultores não dá margem a grandes surpresas 29. O desafio está em construir novas relações de mercado em que a transmissão da alta de preços para os agricultores não se faça a partir dos atores que até aqui tiveram um comportamento predatório no mercado. A Coopaf. a fim de honrar seu contrato com a Brasil Ecodiesel e que os 50% restantes podem ser negociados no mercado. porém.60. . Não há notícia. A entrada de atores da importância das empresas privadas e da Petrobras vai contribuir a vínculos menos imprevisíveis entre os participantes do mercado. Além disto.as regras de troca do mercado da mamona não estão claramente estabelecidas. desde que a cooperativa tenha a preferência de compra. 29 A maior parte dos produtores de soja não se beneficiou da explosão dos preços nos últimos meses por ter fechado contratos de venda antecipada com a indústria. de quebra do compromisso de entrega do produto por parte dos agricultores.42 Para a Brasil Ecodiesel o preço da mamona será de R$0. a Coopaf tem buscado negociar a venda com a indústria rícinoquímica com vistas a manter a atratividade de preço ao agricultor. na tentativa de se tornar mais atrativa para seus agricultores do que os atravessadores e do que a Petrobrás por meio de outras cooperativas estabeleceu.

o óleo é apenas o menos valorizado de seus produtos. com a vantagem de que o sub-produto do qual o óleo se origina. cuja utilização principal é o farelo e a exportação em grãos. que se mencionava no início do programa refere-se ao imenso volume de glicerina. cujo crédito é concedido aos agricultores sem qualquer dificuldade. aumentando sua composição protéica. a indústria está. Toda a pesquisa agropecuária brasileira dos últimos anos voltou-se a reduzir o teor em óleo da soja. A indústria Big Frango acaba de investir R$ 500 milhões num frigorífico para abate de 500 mil aves e produção de 600 mil litros de biodiesel de sebo animal (Cruz. Interfaces energia. A própria utilização de áreas de repouso de cana-de-açúcar. por exemplo. era lançado no ambiente poluindo os recursos naturais e agora é utilizado de maneira produtiva. não teria destino comercial. ao contrário do que ocorre com a soja. que. que sempre foi de difícil colocação no mercado ou de tratamento para reincorporação na natureza. A glicerina pode dar lugar à . segundo se temia. 4. O complexo soja tem um volume considerável de produção de borra. o que aumenta em muito a sua rentabilidade e diminui os gastos com seu tratamento. No caso do óleo de dendê. alimentos e matérias-primas O mercado de biodiesel não poderá consolidar-se no Brasil caso as indústrias sejam impedidas de fazer arbitragem entre os diferentes óleos que compram. b) A diversificação que se espera na oferta de matérias-primas para o biodiesel não representa ameaça à produção agropecuária atual. Mas isso significa que existe entre as matérias-primas que dão origem ao óleo relações tanto de concorrência como de complementaridade. Isso significa que para cada unidade de óleo consumida na produção de biodiesel. Nos processos de extração e refino de óleos forma-se um subproduto ou resíduo. a Universidade Federal do Rio de Janeiro desenvolveu uma tecnologia de esterificação que permite à Agropalma produzir o biodiesel mais barato do Brasil de maneira complementar (e não concorrente) à função alimentar do dendê. of financiamentos bancários no setor são hoje irrisórios. conforme exposto no box I para a produção de amendoim (neste caso voltado ao consumo humano) exprime bem aquilo que Ignacy Sachs vem chamando de interfaces energia/alimentos e que reduz a competição entre estas duas atividades. Podem-se daí tirar três conclusões no que se refere aos impactos da produção de biodiesel sobre a segurança alimentar.2. até então. No caso da soja. já que se apóia em produtos como a mamona (que não é alimentar) e ao girassol e à canola cujo peso na cesta de consumo da população é irrisório. Este resíduo é empregado para a produção de biodiesel. por exemplo. por exemplo. a borra. O aumento da produção deu lugar a novas oportunidades de comercialização e hoje o País exporta glicerina para a China. 2008). no mínimo. a) Ninguém produz soja com o objetivo imediato e estrito de retirar óleo do produto.43 Reflexo da imaturidade dos vínculos entre os protagonistas no mercado de mamona. c) O programa de biodiesel tem a virtude de dinamizar mercados até aqui pouco valorizados. deve-se levar em consideração que e óleo corresponde a menos de 18% de sua composição o restante sendo destinado ao farelo. No balanço econômico e energético da soja. Outros sub-produtos são freqüentemente aproveitados para a produção de biodiesel. Um dos problemas. em função do custo de oportunidade da entrega do produto às distribuidoras.3. produzindo igual quantidade de farelo para ração e contribuindo assim na ampliação da oferta alimentar.

2. até aqui feito de petróleo. os parceiros com que vão contar para operar em mercados estáveis e as compreensões dos atores a respeito de seu futuro. 4. 4.4. tudo indica que o óleo de dendê é bem mais promissor e apresenta potenciais comparáveis aos do próprio etanol. mas as maneiras como as firmas vão cooperar. no Brasil. que o balanço energético do óleo de soja tem que ser feito tomando-se em consideração não só o óleo. As pesquisas em torno destes produtos não permitem que suas rotas tecnológicas já estejam definidas.4. apóia-se numa planta de baixo rendimento energético.4. aparentemente.a tendência será a de afirmar vocações regionais. Quando se junta estes exemplos ao citado anteriormente da Solvay. O meio de ambiente fora da agenda .devidamente reunido em certos pontos de coleta. tudo isso está em pleno processo de estruturação. É importante mencionar também o interesse empresarial em torno da produção de biodiesel a partir de óleos de cozinhas industriais . Os próprios padrões técnicos a partir dos quais se organiza a indústria não estão consolidados: parte do setor emprega tecnologias vindas de uma empresa italiana que se associou à Dedini (a maior fabricante brasileira de equipamentos para a indústria de álcool e que responde pela primeira usina que integra produção de etanol e de biodiesel). bem como seu sistema de governança são instáveis. mesmo assim. Concepções de controle Num mercado tão recente é esperada a profusão de concepções de controle quanto à maneira de organizar os recursos produtivos e às compreensões dos atores em torno de seu crescimento. Nada indica portanto que o aumento na oferta de biodiesel no Brasil seja uma ameaça a sua segurança alimentar tanto pelo fato de que é feito a partir de sub-produtos (como no caso da soja e do dendê) como por suas perspectivas de ampliação a partir de produtos não alimentares como a mamona.e mesmo de cozinhas domésticas . em torno do qual só recentemente se desenvolvimento uma indústria alcoolquímica. Vimos até aqui que as principais modalidades de organização das regras de troca neste mercado. de pesquisas e experimentos por várias empresas envolvidas no PNPB e pela Petrobras. Uma empresa austríaca e uma espanhola começam a investir nestes mercados e levam adiante pesquisas com babaçu.1. 4. Este uso potencial também pode ser feito a partir da mamona. É verdade. com a qual se fabrica o poliestireno e o poliuretano. vê-se que o uso do óleo pela indústria química se faz. Mas. Diversas alternativas na produção do óleo O mercado de biodiesel ainda não parece ter revelado todo seu potencial. até aqui. Já o pinhão manso na Índia começa a tomar forma como cultura comercial e é objeto. já a Brasil Ecodiesel e a Petrobrás utilizam tanto tecnologia de uma empresa norte-americana como a de uma empresa brasileira. como vimos. As próprias empresas parecem apostar nesta direção. É impossível saber agora se haverá algum produto dominando a matéria-prima do setor ou se – como é mais provável . jacarandá e pinhão manso. mas também a sua produção de farelo e outros sub-produtos utilizados pela indústria. Há três temas importantes quanto às concepções de controle vigentes nos mercados de biodiesel e que serão citados aqui de maneira sintética. uma vez que. em intensidade maior do que foi o caso do etanol.44 formação de polímeros e produtos de plástico biodegradáveis.

José Rainha30 está estimulando os assentados a plantar pinhão-manso numa agroindústria que seria controlada e gerida pelos próprios assentados em acordo com a Petrobras. No interior do Movimento Sindical de Trabalhadores Rurais a posição com relação ao tema reúne duas visões até certo ponto opostas. presidente de uma associação de produtores da Espanha. mas não as condições em que foi elaborada. a CONTAG é a grande fiadora política da articulação que deu lugar ao selo social: os sindicatos nos municípios – e a CONTAG no plano nacional – dão apoio e (ao menos em tese) controlam a integração contratual entre empresas e agricultores. ela sustenta a idéia de que é possível e necessário que unidades industriais pertençam e sejam geridas diretamente pelos trabalhadores. . presidente da Torryana Biodiesel. João Cardoso. ela aposta no fortalecimento do vínculo entre agricultores e empresas privadas. o Ministério do Desenvolvimento Agrário e agências públicas de financiamento. em São Paulo. Já a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF). Estes mercados estão totalmente imersos na vida social e podem ser explicados a partir de 30 Ele não é apoiado pela direção nacional do MST. Neste sentido é importante observar que o Selo Social não contém qualquer cláusula de natureza ambiental. 4. Por outro lado. Ele indica apenas que a matéria-prima de que se originou o produto veio da agricultura familiar. As áreas mecanizadas no interior da Amazônia crescem de maneira preocupante (Ciência Hoja).3. Portanto. Mas caso as empresas brasileiras tenham alguma ambição de entrar em mercados estrangeiros. Um importante líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. no caso do biodiesel ainda não é possível saber qual será o destino destas formas produtivas que apenas começam a aparecer.45 A importância da soja no atual momento do PNPB expõe-no a uma fragilidade adicional importante – além das já citadas no item 3 deste trabalho. mas é alguém de considerável audiência pública e inegável influência nos assentamentos do Estado de São Paulo. Os assentados teriam associação com empresas privadas e não é irrelevante que tenham participado do anúncio da iniciativa dois empresários estrangeiros. A soja é um vetor significativo no processo de desmatamento da Amazônia Vera-Diaz et al. Por um lado. ao mesmo tempo. Alcance e limites da produção coletiva Se na produção de cana-de-açúcar as poucas experiências de controle direto por parte dos agricultores da produção industrial são pouco significativas. que o óleo é apenas um sub-produto da soja. 2007). e Palmiro Soriano.4. as condições ambientais em que foram elaborados os seus produtos serão levadas em conta nos prováveis processos de certificação a que deverão submeter-se. 5. de Portugal. rival da CONTAG na representação da agricultura familiar repudia o caminho adotado pelo PNPB e preconiza que o programa deveria apoiar de maneira exclusiva unidades industriais de propriedade e gestão dos trabalhadores rurais.. É verdade. Conclusões O etanol e o biodiesel são estudados aqui a partir da forças sociais que dão lugar às mais importantes instituições responsáveis pelo funcionamento de seus mercados. como foi visto no item 3.

por exemplo. As principais conclusões do trabalho podem ser assim resumidas. de permitir a diversificação de suas fontes. a evolução dos mercados de biocombustíveis é fortemente determinada pelas pressões sociais que obrigam o setor a apresentar de maneira cada vez mais circunstanciada as bases técnicas e sociais em que apóia sua expansão. mas da maneira como os indivíduos e os grupos sociais se organizam para aproveitar as oportunidades que oferecem. até aqui. nada indica que haja uma articulação entre estes esforços capaz de elevar rapidamente a produtividade agrícola na produção da matéria-prima e. sobretudo. como em novas fontes de energia que. O futuro dos mercados de biodiesel depende de dois fatores básicos. Compreender as bases técnicas e o desempenho econômico de cada um deles supõe não apenas a exposição de seus atributos objetivos e de suas bases técnicas e econômicas. bem como da pesquisa agronômica levada adiante pela EMBRAPA e de experimentos por parte de empresas privadas com pinhão-manso. cuja distância é impossível prever. Existe um contraste entre as mudanças na estrutura empresarial do setor e a timidez relativa do avanço das pesquisas na área. Nenhum outro setor agroindustrial tem hoje maior capacidade de atração de investimentos que os biocombustíveis. apesar do avanço representado pela patente do H-Bio e por novas técnicas de fabricação de óleo de mamona pela Petrobras. reduzirão o emprego de produtos agropecuários como base para a descarbonização da matriz energética na área de transportes. investe U$ 1 bilhão na construção de refinarias experimentais voltadas a transformar matéria vegetal em álcool. 1. O investimento brasileiro em etanol de celulose. O Departamento de Energia (DOE) norte-americano. enfrenta o desafio de consolidar e ampliar suas vantagens competitivas no etanol – e criá-las. 3. comparada com a velocidade de implantação de alternativas energéticas baseadas num uso da agricultura não concorrente com finalidades alimentares ou em produtos não agrícolas. em suma. . Por um lado de sua própria capacidade de inovação. O Brasil.46 dinâmicas que Neil Fligstein chama de político-culturais. é tímido. Quanto ao biodiesel. no caso do biodiesel – ao mesmo tempo em que não pode deixar de desenvolver pesquisas tanto em combustíveis de segunda e terceira geração. por exemplo) e privadas (por meio do Centro Tecnológico Canavieiro – CTC -ou das unidades apoiadas pelo conglomerado Votorantim) não impedem que os especialistas constatem escassez de recursos e falta de coordenação dos esforços necessários a que se alcancem níveis de produtividade superiores aos atuais. As atividades estatais (por meio da EMBRAPA e da FAPESP. 2. O avanço dos biocombustíveis no Brasil apóia-se num importante conjunto de inovações técnicas e organizacionais que altera a própria fisionomia da estrutura empresarial do setor (sobretudo no caso do etanol) com a atração de fundos de internacionais e grandes investidores nacionais vindos de fora da agroindústria. Por outro lado. num futuro. com o anunciado Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol que receberá R$ 150 milhões nos próximos cinco anos (Escobar. 2008). Só agora é que começa a ser criado algo neste sentido. no Brasil. o que envolve o risco de que o País perca muito rapidamente a liderança tecnológica que hoje detém na área de etanol.

Da mesma forma a mecanização crescente da lavoura – elemento positivo que reflete não só evolução técnica. Apesar do imenso progresso técnico na área de combate a pragas. ao contrário o respeito à legislação ambiental amplia a sustentabilidade agronômica da cultura e permite – por meio de corredores que fazem comunicação entre áreas preservadas – a recuperação da vida selvagem em superfícies de exploração de cana-de-açúcar. nem de longe. É com políticas voltadas ao desenvolvimento de suas regiões de origem que o drama social destes trabalhadores poderá ser enfrentado. da fertirrigação. mas também pressão social pelo fim da queimada e pela extinção do trabalho degradante praticado até hoje na colheita – vai desempregar dezenas de milhares de trabalhadores que – apesar dos programas de treinamento postos em prática pelo setor privado – não serão reabsorvidos pelo setor. Por outro lado. Para que o álcool se transforme . Para alguns o problema pode ser resolvido consagrando-se áreas de reflorestamento fora das propriedades para compensar o uso contínuo das áreas. as plantações de cana-de-açúcar não respeitam habitualmente a legislação ambiental. O próprio setor divide-se com relação ao tema. A expansão da cana-de-açúcar é marcada por uma dupla natureza social. a precisão dos registros da região amazônica. 8. já que o monitoramento de queimadas e de novas instalações no Cerrado não tem. É claro que os biocombustíveis – como qualquer mudança tecnológica no mundo contemporâneo – trazem riscos. as inovações tecnológicas embutidas na expansão do etanol têm aumentado oportunidades de trabalho de alta qualificação em quantidade apreciável. Não há sinais claros de que um zoneamento será capaz de impor limites adequados a esta expansão. 5. Para outros. A participação social na avaliação.. Os controles públicos sobre a integridade deste bioma são precários e embora ocupe área proporcionalmente pequena. mesmo nos Estados mais desenvolvidos do País. no caso brasileiro eles se apóiam em ganhos de produtividade e aproveitamento cada vez mais intenso de sub-produtos que abrem caminho para uma utilização capaz de não comprometer a integridade dos biomas em que se localizam nem a segurança alimentar do País. Mas paralisar as atividades nesta área não é certamente a melhor maneira de construir as instituições necessárias a enfrentar estes riscos. com impactos multiplicadores positivos em muitas das regiões em que opera. O mais sério problema ambiental da expansão da cana-de-açúcar está no Cerrado. na gestão e das decisões correspondentes a estes riscos é mais produtiva do que a paralisia decorrente de uma eventual “moratória”. que aproveita produtos oriundos da própria lavoura e da diversificação das variedades de cultivo. a herança histórica latifundiária foi aprofundada e o setor apóia-se sobre gigantescas extensões de áreas contínuas que exprimem extraordinária concentração de renda e de poder. O rastreamento e a conseqüente certificação dos biocombustíveis brasileiros não são apenas formas disfarçadas de protecionismo visando limitar as possibilidades de exportação destes produtos. 6. Por um lado. a cana já é presença ameaçadora. 7. É importante ressaltar a escassez de propostas sociais e de debates públicos em torno da impressionante concentração de terra e de riquezas na produção brasileira de etanol. As propostas de moratória dos biocombustíveis não levam em conta que.47 4.

em certa medida ambientais . num primeiro momento. estruturas sociais de que outros países emergentes estão muito distantes. desestrutura as bases sobre as quais funcionam os mercados dos produtos mais típicos dos agricultores de baixa renda. por exemplo). em benefício de produtos característicos dos segmentos menos abastados da agricultura familiar e que possam vir de áreas relativamente degradadas (mamona. claro – consiga demonstrar que se apóia sobre formas não predatórias de ocupação do espaço e modalidades não degradantes de trabalho. O processo de certificação é um caminho importante. É importante que os agricultores possam receber – nestes mercados mais organizados – os benefícios que a valorização da mamona no Brasil e no exterior tem o potencial de lhes trazer. ao que tudo indica. Um esforço articulado destes segmentos empresariais com a concessão de crédito pode reverter o ambiente atual em que contratos não são cumpridos e em que a estabilização do mercado de mamona parece distante. tenham relevância na oferta de álcool. 10. é claro que as vantagens energéticas e econômicas do produto serão ofuscadas por seus efeitos sociais negativos. Caso o pressuposto da expansão competitiva da produção de etanol seja concentração fundiária como a existente no Brasil. A principal virtude do PNPB está na decisão governamental – acompanhada. de alimentos. A entrada de atores do porte das novas empresas privadas atuando no setor e da Petrobras. Melhorar a qualidade do diesel é uma exigência ambiental básica para a vida das grandes cidades brasileiras e o biodiesel representa um dos caminhos para atingir tal objetivo. muito tímidos. tornando-os mais transparentes. pelo setor privado – de diversificar as fontes de matéria-prima com base nas quais o biodiesel é hoje produzido. 9. A participação social nestes processos de certificação é um elemento que enriquece os mercados de biocombustíveis. É um desafio que nada tem de trivial. a realização de novos investimentos e o início de uma integração contratual entre empresas e agricultores familiares cujos resultados ainda são. O primeiro é que outros países. como a mamona. pois supõe organização empresarial e. 11. A decisão governamental de incorporar o produto de origem orgânica ao diesel e a formulação do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) estimularam a instalação de fábricas. no caso do etanol. para reduzir a distância hoje existente entre sua eficiência econômica e energética e as condições sociais – e. dendê e pinhão manso. O principal problema desta concentração não está tanto no balanço energético supostamente negativo da soja: o óleo é um subproduto até aqui pouco valorizado de um setor que visa fundamentalmente abastecer o mercado de farelo e. portanto. os segmentos de mais alta renda da agricultura familiar e se apóia no produto de maior tradição que é a soja. O segundo desafio é que a produção de etanol – e também de biodiesel. como era de se esperar.48 numa commodity internacionalmente reconhecida dois obstáculos terão que ser vencidos. até aqui.precárias em que se apóia e que se encontram (é importante reconhecer) em rápida transformação. . além do Brasil. reduzindo seus efeitos negativos e aumentando a própria segurança dos investidores. sobretudo. Mas é claro que um dos objetivos básicos do programa é reduzir a participação da soja. Os dois primeiros anos de existência mostram que o mercado beneficia.

São Paulo.fea.br/abramovay/artigos_jornal/2006/A_Caixa_Preta_dos_Merca dos. Seu interesse social não pode justificar uma situação de permanente dependência com relação a recursos públicos sob pena de se encobrir uma pretensa inovação institucional sob o manto opaco do uso patrimonialista e clientelista de subvenções estatais. a viabilidade econômica destas iniciativas. CD-ROM BELL. Extraído da internet em 2/02/08 ____________________ (2006) “A caixa-preta dos mercados” Valor Econômico – 20/09/2006 http://www. Governança socioambiental nos sistemas agroindustriais. 27/08/07 p. Rubens (2007) “Crise no Programa de Biodiesel” O Estado de São Paulo. por meio do aproveitamento do óleo de cozinha e industrial. mas também em localidades urbanas pobres. B14.econ. Estas ações têm que levar em conta. BARTOLOMEU.usp. bem como os custos de transação que envolvem. Ricardo e Reginaldo Magalhães (2007) “The access of family farmers to biodiesel markets: partnerships between big companies and social movements” http://www.pdf Extraído da internet em 10/10/2007 BALSADI. Betina “Empresa aproveita CO2 do álcool e atrai investidor” Valor Econômico. REBRIP/FASE:59-113 . BARBOSA. Unicamp. BARROS. Mimeo.br/abramovay/artigos_cientificos.(2008) “Mapa da certificação nos sistemas agroindustriais” Waack et al.fea. Mariana Soares Domingues e Renato Rosenberg (2008) “Desafios e Perspectivas dos Agrocombustíveis no Brasil: a agricultura familiar face ao etanol da cana-de-açúcar e ao biodiesel da soja. Tese de doutoramento. ainda são poucas as empresas integradas ao PNPB. porém. 11/09/2007. 13. Instituto para o Agronegócio Responsável (ARES). Robert (2007) La bulle verte – La Ruée vers l’Or des Énergies Renouvelables. Esta exígua base empresarial limita as possibilidades competitivas e amplia as chances de condutas oportunistas. Rio de Janeiro. Daniela B. Scali BERMANN Célio. sobretudo no Nordeste. Campinas.usp. Instituto de Economia.49 12. orgs. Referências ABRAMOVAY. Otávio (2007) O Mercado de Trabalho Assalariado na Agricultura Brasileira no Período 1992-2004 e suas Diferenciações Regionais. mamona e dendê” in Rede Brasileira pela Integração dos Povos Agrocombustíveis e agricultura familiar e camponesa: subsídios ao debate.htm. As ações de caráter associativo voltadas a fazer dos agricultores protagonistas da gestão de unidades industriais são importantes e podem representar um caminho promissor não só entre agricultores. Paris.econ. Apesar da importância da participação do setor privado. Luis Macedo Moreno.

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