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A MORTE NAS CULTURAS TRADICIONAIS

O objectivo deste foco é reflectir sobre a morte; um dos problemas mais difíceis de ser enfrentado, pois a morte foi sempre vista como mistério, superstição e fascinação dentro das culturas tradicionais. Por esta razão procuremos delinear a problemática desde o ponto de vista de algumas culturas de maior realce, mormente a cultura africana, quiçá angolana. Como já nos referimos, o termo morte vem do lat. mortem – que significa cessação da vida e a mesma se manifesta pela extinção das actividades vitais: crescimento, assimilação e reprodução no domínio vegetativo; apetites sensoriais no domínio sensitivo.

Na Cultura Tradicional Ocidental: Os poemas de Homero e Hesiodo, constituiem de certa maneira o ponto de partida para se compreender tal problema. Embora hoje, depois da revolução industrial e com o desenvolvimento do consumismo, vemos que a morte começa ser interdita ou seja proibida. Apesar disto, importa mesmo salientar que no passado mais longínquo o ocidente admitiu uma vida depois da morte e não a ressurreição, mas uma continuação da vida de um modo diferente numa sociedade dos mortos com possibilidade de se comunicarem com os vivos. Por isso, a morte não deve, como dirá Epicuro, abalar os espíritos dos homens porque a morte não existe para nós enquanto vivemos, assim como não existimos para ele quando surge, uma vez que já não existe a capacidade de sofrimento. A morte aparece como realidade co-natural ao homem. Mas numa era de baixas expectativas verifica-se uma perda generalizada de fé no futuro. Como resultado, o sentido da vida no ocidente reduz-se ao número de anos da sua duração. A morte surge assim com algo percebido como anti-natural. Isto é, um desastre para a condição humana. Em suma o ocidente vê a morte como o lado negativo da vida. Na Cultura Oriental: a Morte é uma figura orgânica que representa a transformação e a mudança. Nas Religiões: a) Para os hinduistas, na morte a alma (atman) do indivíduo é eterna. Como tal, não é atingida pelas várias alterações no estado de existência com o qual passa o fenomenal (ser existente) eu ou ego (jiva) em cada período de vida. b) Para o Budistas, a vida depois da morte é um problema sobre o qual nada pode ser dito. Não nega nem afirma a vida após a morte. Deixa essa questão em aberto.

Na cultura africana. tal como no rito de iniciação o é. o morrer com idade avançada e ter um funeral digno (com muita festa) são sinónimos de uma boa morte. Dependendo de seus actos. Na Cultura Tradicional Africana: Diz o provérbio africano: a esteira da morte está estendida na frente de todos os mortais. daqui onde emana o respeito pelos mortos. Pois a morte constitui uma passagem para uma sociedade secreta. a ressurreição da morte. dará ordens. em seguida. a morte é sagrada. Será ele que. a alma se dirige para cada um desses lugares circunscritos. mas envolve todos os aldeões. Para tal a única preparação verdadeiramente útil para uma boa morte é uma vida bem aplicada a comunidade. e nela se aprende os ritos. É por esta razão que a morte na cultura angolana não é consumação da vida. Por isso. . 2010). guardando dinheiro e encarregando pessoas para se ocuparem da cerimónia fúnebre e até mesmo escolhe o lugar a ser sepultado. a família não pode publicar a sua morte ou manifestar seu sentimento de desconsolo antes que a notícia seja comunicada ao chefe da aldeia. de temor. a vida depois da morte está inserida na crença de um Céu.c) Para o Catolicistas. Possível delineamento vitalista existencialista angolano. Mwenhologia. para ser memorável no mundo dos antepassados. No contexto angolano. O que se tem passado é que o homem no contacto como desconhecido embate-se com uma potência misteriosa cheia de maravilhas. o juízo final. Trata-se neste caso de uma dimensão escatológica que engloba a segunda vinda de Cristo ou parusia. Em vista disso. pelo o facto do homem se encontrar na presença de uma força diversa da sua natureza e das forças ordinárias. a imortalidade da alma. Ela implica um ritual sagrado que garante a benevolência dos antepassados. quando morre um membro na aldeia. mas um retornar a vida dos antepassados permanecendo vivo de outra maneira"(ver Guisafe. a ideia de céu e do inferno e a instauração definitiva do reino de Deus. de um Inferno e de um Purgatório. muitas pessoas preparam de antemão o seu próprio funeral. Por esta razão se designa a morte como kalunga=realidade insondável e habitat dos mistérios fascinantes. quiçá angolana. “Kalunga concebido como morte se traduz num prolongamento da vida no Mundo do Além. Isto de certo modo elucida até que ponto a morte não é um problema nesta cultura. A morte de um membro da tribo não interessa somente à sua família ou ao grupo de parentes e amigos. mitos e linguagem secreta.