CIÊNCIA POLÍTICA

Série Bibliográfica Unit

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CIÊNCIA POLÍTICA

Augusto César Feitosa

Ciência Política

Jouberto Uchôa de Mendonça Reitor Amélia Maria Cerqueira Uchôa Vice-Reitora Jouberto Uchôa de Mendonça Junior Pró-Reitoria Administrativa - PROAD Ihanmarck Damasceno dos Santos Pró-Reitoria Acadêmica - PROAC Domingos Sávio Alcântara Machado Pró-Reitoria Adjunta de Graduação - PAGR Temisson José dos Santos Pró-Reitoria Adjunta de Pós-Graduação e Pesquisa - PAPGP Gilton Kennedy Sousa Fraga Pró-Reitoria Adjunta de Assuntos Comunitários e Extensão - PAACE Jane Luci Ornelas Freire Gerente do Núcleo de Educação a Distância - Nead Andrea Karla Ferreira Nunes Coordenadora Pedagógica de Projetos - Nead Lucas Cerqueira do Vale Coordenador de Tecnologias Educacionais - Nead Equipe de Elaboração e Produção de Conteúdos Midiáticos: Alexandre Meneses Chagas - Supervisor Ancéjo Santana Resende - Corretor Andira Maltas dos Santos – Diagramadora Bruno Costa Pinheiro - Webdesigner Claudivan da Silva Santana - Diagramador Edilberto Marcelino da Gama Neto – Diagramador Edivan Santos Guimarães - Diagramador Fábio de Rezende Cardoso - Webdesigner Geová da Silva Borges Junior - Ilustrador Márcia Maria da Silva Santos - Corretora Matheus Oliveira dos Santos - Ilustrador Monique Lara Farias Alves - Webdesigner Pedro Antonio Dantas P. Nou - Webdesigner Rebecca Wanderley N. Agra Silva - Designer Rodrigo Otávio Sales Pereira Guedes - Webdesigner Rodrigo Sangiovanni Lima - Assessor Walmir Oliveira Santos Júnior - Ilustrador Redação: Núcleo de Educação a Distância - Nead Av. Murilo Dantas, 300 - Farolândia Prédio da Reitoria - Sala 40 CEP: 49.032-490 - Aracaju / SE Tel.: (79) 3218-2186 E-mail: infonead@unit.br Site: www.ead.unit.br Impressão: Gráfica Gutemberg Telefone: (79) 3218-2154 E-mail: grafica@unit.br Site: www.unit.br Banco de Imagens: Shutterstock

F311c

Feitosa, Augusto Cesar. Ciência política. / Augusto Cesar Feitosa. – Aracaju : UNIT, 2010. 152 p.: il. : 22 cm. Inclui bibliografia 1. Política. I. Universidade Tiradentes – Educação à Distância II. Titulo.

CDU : 32
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podcasts. sobretudo. Fóruns on-line. a nossa preocupação em garantir o seu acesso ao conhecimento.Apresentação Prezado(a) estudante. Escrita por nossos professores. que possibilitam a você estudar com o maior conforto e comodidade possível. MSN. sem perder a qualidade do conteúdo. tudo é válido para o seu aprendizado. vídeos. a obra contém todo o conteúdo da disciplina que você está cursando na modalidade EAD e representa. e a educação não pode ficar para trás. Mesmo com tantas opções. A modernidade anda cada vez mais atrelada ao tempo. onde quer que você esteja. a Universidade Tiradentes optou por criar a coleção de livros Série Bibliográfica Unit como mais uma opção de acesso ao conhecimento. Por meio do nosso programa de disciplinas online você pode ter acesso ao conhecimento de forma rápida. como deve ser a sua forma de comunicação e interação com o mundo na modernidade. livespace. Prova disso são as nossas disciplinas on-line. Desejo a você bom aprendizado e muito sucesso! Professor Jouberto Uchôa de Mendonça Reitor da Universidade Tiradentes . prática e eficiente. chats.

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .2 O Estado: Função e Origem . . . . . . . . . . . . . . . . . .Sumário Parte 1: A Gênese da Política .135 4. . . . . . . . . . . . . . . . .3 Locke: A Propriedade . . . . . . . . . .34 1.1 A Construção do Espaço Público .1 A Política e a Academia . . . . . 142 Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3 Liberdade e Opinião Pública . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3 Movimentos Sociais e a Construção do Discurso Político . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48 Tema 2: A Ciência Política Enquanto Ciência Social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52 2. . . . . . . . 102 3. 111 Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82 Parte 2: Temas e Pensadores da Política . . . . . . . . 121 4. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .129 4. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 Tema 1: Desmistificando a Política . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .2 Hobbes: O Leviatã . . . .87 3. . . . . . . . . . . . 119 Tema 4: Temas de Política. . . . . . . . . . . 94 3. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85 Tema 3: Pensadores da Política . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51 2. . .122 4. . . . . . . . . . . .4 A Guerra . . 151 . .2 A Sociedade e o Estabelecimento das Relações . . . . . . . . . . .4 O Poder Político . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .4 O Sistema Representativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1 A Democracia e a Participação Popular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3 As Formas de Governo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67 2. . 40 Resumo . . . . . . .2 A Ideologia e as Palavras de Ordem . . . . . . . . . . . .4 Rousseau: A Igualdade . . . . . 13 1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1 Maquiavel: A Política Moderna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 1. . . . 14 1. . 88 3. . . . . . . . . . . 149 Referências . . . . . . . . 75 Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Pensadores da Política: Maquiavel: A Política Moderna. As Formas de Governo. Movimentos Sociais e a Construção do Discurso Político. A Liberdade. A Ciência Política enquanto Ciência Social: A Política e a Academia. A Ideologia e as Palavras de Ordem. Temas de Política: A Democracia e a Participação Popular. autores e temas. A Sociedade e o Estabelecimento das Relações. O Sistema Representativo. • • .Concepção da Disciplina Ementa Desmistificando a Política: A Construção do Espaço Público. Objetivos Geral Analisar os elementos que compõem o pensamento político identificando a aplicabilidade da disciplina na sua formação. Rousseau: A Igualdade. Apreender a traçar um olhar crítico sobre a história. As ciências sociais visam estimular o senso crítico e ampliar as ferramentas de análise social do educando. O Poder Político. O Estado: Origem e função. Entender a dinâmica das relações de poder inerentes à tessitura social. Locke: A Propriedade. Traçando um perfil histórico dos principais fatos. Hobbes: O Leviatã. A guerra. Específicos • Conhecer as principais correntes ideológicas do pensamento político.

Compreender o papel das instituições e do Estado. Organize-se de tal forma para que você possa dedicar tempo suficiente para leitura e reflexão. • • Orientação para Estudo A disciplina propõe orientá-lo em seus procedimentos de estudo e na produção de trabalhos científicos.• Conhecer os principais pensadores do Pensamento Político. o rigor metodológico e o espírito crítico necessários ao estudo. Propiciar a reflexão teórico-crítica para a intervenção nas expressões da questão social. Utilize-se dos recursos técnicos e humanos que estão ao seu dispor para buscar esclarecimentos e para aprofundar as suas reflexões. Estamos nos referindo ao contato • • . Tendo em vista que a experiência de estudar a distância é algo novo. é importante que você observe algumas orientações: • Cuide do seu tempo de estudo! Defina um horário regular para acessar todo o conteúdo da sua disciplina disponível neste material impresso e no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). possibilitando que você desenvolva em seus trabalhos pesquisas. Esforce-se para alcançar os objetivos propostos na disciplina.

Por isso. responsabilidade. você contará com o apoio das equipes pedagógica e técnica envolvidas na operacionalização do curso.permanente com o professor e com os colegas a partir dos fóruns. o que requer uma nova postura do aluno e uma nova forma de concepção de educação. . além de acessar o AVA. além dos recursos disponíveis no Ambiente Virtual de Aprendizagem – AVA. além dos recursos tecnológicos que contribuirão na mediação entre você e o professor. você deve realizar as atividades propostas e estar sempre em contato com o professor. chats e encontros presenciais. Para se estudar num curso a distância deve-se ter a clareza de que a área da Educação a Distância pauta-se na autonomia. Para que sua trajetória no curso ocorra de forma tranquila. cooperação e colaboração por parte dos envolvidos.

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A GÊNESE DA POLÍTICA Parte 1 .

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Chamamos a este processo de desmistificação da política. É responsável pelo que de mais importante existe nas nossas percepções da realidade. Mas para tal iniciaremos com a dissociação da política do aspecto partidário para encontrá-la no nosso cotidiano. em promoverem propagandas acerca dos seus projetos. .1 Desmistificando a Política Quando falamos em política não estamos falando apenas de um fenômeno social responsável pelo processo de escolha dos nossos governantes. a saber. Daí a necessidade dos políticos em organizarem comícios. identificando o cotidiano da ação política nas coisas mais comuns com as quais lidamos. a tomada de consciência. A Política é um fenômeno social que nos acompanha integrando-se de tal maneira à forma como nós percebemos e lidamos com a realidade ao nosso redor. Já que a política está no nosso cotidiano ela possui um espaço muito característico. este é o espaço público. Nestas relações a tensão entre governo e grupos sociais que reivindicam novas políticas. que podemos arriscar a constatação de que não teríamos mais como viver sem ela. Por fim. Compreendendo este espaço percebemos que ele aponta o tempo todo para as relações estabelecidas na sociedade de um modo geral. Falamos de uma ciência que possui aspectos muito peculiares. conforme vamos identificar no decorrer do nosso estudo. analisamos o poder que é um dos problemas centrais do estudo da nossa disciplina.

E embora se fale apenas de um indivíduo. temos aí a política.14 Ciência Política A consciência que professamos expressa de forma direta a nossa postura política. ou seja. Constitui um fato estritamente humano. Nelas expressa-se uma consciência da realidade. ou de uma mudança de postura diante dos fenômenos que nos cercam. de pensamento. Exemplo disso são as biografias que lemos daqueles que nos mostram a vida por uma ótica muito própria. ela lhes é estranha. Desmistificar a compreensão de política restrita àqueles que fazem parte de um partido político implica percebermos como ela está presente no cotidiano. no olhar que lançamos . A dimensão pública de debates e discussões acerca de algo. E neste espaço se afirmam os diversos movimentos sociais. Convida-nos a repensar os nossos modos de ser e a mobilizarmo-nos em prol de uma mudança social. sempre nos joga na esfera política. uma política disseminada nas coisas mais sutis. O q u e j á p e r c e b e m o s l e n d o as obras dos pensadores e dos poetas. de ponderação. os animais não possuem política.1 A Construção do Espaço Público Quando se trata do interesse comum. Pois a política é um exercício de racionalidade. Ela é algo ligado ao cotidiano das pessoas e está inevitavelmente presente nas atividades mais simples. por mais organizados que alguns sejam. percebemos na sua história a repercussão social desta vida. mais elementares. de estratégia. Construir o próprio modo de viver expressa uma condição política de extrema importância para a humanidade. 1.

tão comuns ou. porque corresponde a um sentimento de unicidade e familiaridade inerente a todos os que correspondem a essa função.O clássico: o adjetivo “politikós”. de participantes da cidade. que em grego significa “cidade”.br/teoriaecritica/ pgs/bens_simbolicos. política é algo que aponta para a nossa condição de cidadãos. Teoria Política Grega. sem os outros e sem as relações que nos enlaçam. por vezes. em especial Aristóteles. vida pública. civilidade.com. parte do mesmo sentimento de política. escravos e estrangeiros estariam aparte do sistema. Ernest. Em Bobbio (2004) a ideia de Política possui dois sentidos: . Os antigos pensadores. Tal noção é muito importante para os antigos gregos que constituíram as bases do pensamento ocidental. Somos seres políticos e exercitamos tal função quando nos relacionamos com as pessoas e seus bens simbólicos1. Fonte: BARKER. A origem da ideia de política remonta aos gregos da antiguidade. Paradoxalmente. Crianças. mulheres. Fonte: http://www. sendo consagrado pelas leis do mercado ao status de mercadoria. Brasilia: Editora da UNB. se configura quando a um objeto artístico ou cultural é atribuído valor mercantil. diferenciando-nos. Etimologicamente. A vida em coletividade é uma característica humana tão ampla que arriscamos a afirmação de que só somos seres-com-os-outros. tornando-nos. a de cidadão2. segundo o pensador político Bourdieu. . De seres que exercem a cidadania em seus desdobramentos e possibilidades. implica naquilo que se refere à cidade. ou aquilo que nos impulsiona a viver de forma alternativa. sociabilidade.fmemoria. ética. . não concebiam a ideia de um ser humano só. Implica nas ideias de urbanidade. a palavra “política” é um desdobramento da palavra “polis”. 1978. ao contrário.htm 2 Embora se fale de cidadania é importante frisar que entre os gregos antigos “O Cidadão” é apenas o homem maior de idade. O hífen é proposital 1 Um bem simbólico. Não gozariam dos privilégios ofertados pelo Estado. o que nos faz envolver com os outros e vivermos em uma sociedade de massa.O moderno: o ordenamento ou a proibição de alguma coisa em função dos arranjos sociais. Neste sentido.Tema 1 | Desmistificando a política 15 sobre a realidade.

sempre vai dizer respeito a estas cobranças. como o cuidado com as questões da coletividade e posteriormente como a política partidária. quando estas questões são identificadas e absorvidas. tornando-o mundialmente conhecido a partir das apresentações de sua companhia o Berliner Ensemble realizadas em Paris durante os anos 1954 e 1955. 10 de Fevereiro de 1898 — Berlim. Seus trabalhos artísticos e teóricos influenciaram profundamente o teatro contemporâneo. Como habitualmente estamos fazendo isso. Fonte: http://pt. a política apresenta-se.16 Ciência Política 3 Eugen Berthold Friedrich Brecht (Augsburg. da farinha. Tomá-la como algo que não nos pertence. chama-se a este indivíduo de analfabeto político. Se assim o for. poeta e encenador alemão do século XX. Fazendo-nos lembrar que para uma vida coletiva necessitamos estabelecer regras. Somos cobrados habitualmente e o grau de adequação ou inadequação a um determinado sistema. Essa percepção arrastase por toda e qualquer compreensão da política. num sentido primeiro. Exercitamos a política. num sentido simples. a ponto de que não há como negá-la. Conforme podemos visualizar no célebre poema do dramaturgo Bertold Brecht3 que fala dessa percepção arraigada de política impregnada ao modo de ser de qualquer indivíduo. o preço do feijão. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo . 14 de Agosto de 1956) foi um destacado dramaturgo. instituições e representantes que as observem e as exponham para todos os membros do corpo social. Se as regras existem. Ele não sabe que o custo de vida. nem participa dos acontecimentos políticos. precisamos de órgãos. Ele não ouve. org/wiki/Bertolt_Brecht para mostrar como a presença do outro é uma marca inapagável da humanidade. recusá-la. do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. a política está em nosso cotidiano. diretrizes. Assim. não fala.wikipedia. do aluguel. Vejamos o que nos diz Brecht: O Analfabeto Político O pior analfabeto É o analfabeto político. do peixe. normas.

que assume a condição de representante do povo. somos povo. deixamos de pensar que política é coisa de político e assumimos a condição de políticos porque somos parte dela. o exercício dessa representatividade se constitui como a expressão por excelência da política. Participamos e vivenciamos essa participação seja na escola. da sua ignorância política nasce a prostituta. Não sabe o imbecil que. pelos eleitores. Página 17 . seja na igreja. corrupto e o lacaio das empresas nacionais e multinacionais. A partir de tais noções chamamos a política de arte de governar. por isso. AVA: Links 4 Leitura Complementar. A política está em nosso cotidiano. e o pior de todos os bandidos. quando a coletividade é atingida. somos parte. pelo seu caráter institucional. (Berthold Brecht4) Percebemos que. cada governante estará aliado a um grupo de ideologias ou práticas que são avaliadas por todos. É necessária a presença do governante. somos atingidos também. Nele são depositadas as expectativas e os interesses gerais e. seja na feira. que é o político vigarista. ela manifesta-se como a atividade dos cidadãos “pré-ocupados” com os assuntos públicos. Afinal. o povo por si só não se ordena. Todavia. Desse modo.Tema 1 | Desmistificando a política 17 que odeia a política. pilantra. manifestando seu interesse com o voto e com sua militância. o menor abandonado. Nos regimes democráticos.

responsabilizando-se por identificar e empreender o status da concordância. tornando ordenado o que seria por natureza caótico. estabelecendo a organização. Fernando Henrique Cardoso(1931). entre outros. A história nos enche de heróis e vilões que se envolveram nas “teias” da política.18 Ciência Política O governante é aquele que atende às virtudes e preferências de uma dada comunidade. por nomearmos esse conglomerado humano por um único termo. A sociedade nos lança em âmbitos diversos pelos quais a ação política institui-se gerando a conviência dos diferentes. Getúlio Vargas (1882-1954). Janio Quadros (1917-1992). a política deve conduzir a formas de direcionar e ajustar a sociedade. ou seja. A palavra sociedade nos dá a sensação de um fenômeno coeso. Che Guevara (1928-1967). Uma conjugação de ações e interesses. Política como a arte de governar implica no uso de recursos de manutenção do poder para defender os direitos e os interesses dos cidadãos. Caraterística que nos lança numa enorme complexidade porque habitualmente falamos dos nossos interesses. Fidel Castro (1926). Tanto pela dimensão cotidiana. Esta é a política que advém das estratégias daquele que governa. as condições com as quais vai se estabelecer o bem comum. quando se consegue fazer com que os interesses se tornem convergentes e as diretrizes do ordenamento atinjam o mesmo fim comum. Estes povoam até hoje o nosso imaginário: Nelson Mandela (1918). Mahatma Ghandi (1869-1948). quanto pela dimensão institucional. mas é efeito apenas da nomenclatura. das . Diversos exemplos podem ilustrar as definições aqui apresentadas.

interagir. São Paulo: Brasiliense. ou políticas. tornando –os padrão a ser seguido. Não podemos considerar as individualidades um fardo para a gerência da vida social. inevitavelmente nos envolvemos em conflitos. A este nos acomodamos e construímos as formas de sociabilidade. por exemplo. ou que sente o mesmo que nós. Everardo. para minúsculos microcosmos. classes sociais. Mas os conflitos também são expressos pelas diferenças da individualidade de cada pessoa. Para que novas tendências. Da mesma forma como assustamos aos mais idosos pelos diversos arranjos socias que são constituídos na atualidade. O que é etnocentrismo. dividir constituem-se dentro de certas relações de interação. 1984 (Primeiros passos) . E que são mais comuns quando tratamos de política. 1984 (Primeiros passos) 6 Falamos em alteridade como exercício de aceitação do outro. nossa individualidade é reivindicada sempre que a sociedade se renove em seus parâmetros. Everardo. atingir o outro. Um dos pontos mais interessantes da vivência política pelo desafio que é gerado. novos estilos sejam trazidos para o enlace social. Falamos do “outro”. percebemos que exercício político é antes de qualquer coisa um exercício de alteridade6. em especial. ilustrados pelos diversos grupos sociais e em última instância pela individualidade de cada indivíduo. A vida social é um grande embate de visões etnocêntricas da realidade Fonte: ROCHA. Basta olharmos para a história e sermos surpreendidos pelo modo com que certos costumes gozavam de normalidade num dado momento. Saindo dessa condição etnocêntrica5. O que é etnocentrismo. Ora. Ao contrário. Fonte: ROCHA.Tema 1 | Desmistificando a política 19 nossas necessidades e pensamos sempre no “outro” como aquele que sabe o que sentimos. E neste sentido a política apresenta um dos seus aspectos mais importantes. As formas de habitar. São Paulo: Brasiliense. É como se o universo da Política e a ação do governante tivesse que transitar de um macrocosmo. que chamamos de sociedade. A individualidade 5 Tomamos um termo da antropologia que representa um olhar sobre as pessoas levando em consideração os nossos valores. Expressos tanto pelas questões de grupos. se dividimos o mesmo espaço. porque tratamos do fato de que temos de dividir o mesmo espaço.

Sem política ninguém sobe nas empresas Exame 07. a saída recomendada é tentar. a política vai ser fundamental Observe o ambiente. Se for ao topo.20 Ciência Política é um bem que enriquece o espaço social e por isso não pode ser perdida de vista pela ação política.10. Nas organizações modernas a individualidade promove possibilidades de reorganizar as ações e construir uma nova ordem. ninguém fará Ao reconhecer um rato. Desse modo. Daí as engraçadas tipificações criadas pra identificar comportamentos gerais: Aprenda a ser político Atitudes para melhorar sua chance de crescer na empresa Entenda que a política não é sinônimo de politicagem. Seus contatos ajudarão a evitar a ação dos ratos Não tenha vergonha de divulgar seus sucessos e exaltar sua equipe. não pode sucumbir às formas de intolerância. a diversidade é o termo que melhor abrangeria nossa condição. conforme a ilustração abaixo que pretende pensar a política na ação de cada indivíduo dentro das empresas. de preferência com cópia para alguém Se o rato for seu chefe. sutilmente. preconceito. conseguir uma transferência Fonte: Por Tiago Lethbridge. o espaço público é o lugar da diversidade. perceba quais são os grupos de poder e como pode trafegar entre eles Construa uma rede de relacionamentos. embora o termo venha carregado com as reivindicações dos grupos que lutam pela questão sexual. Só fale com ele por e-mail. e que fazer política não o tornará mau-caráter Pense no seu sonho de carreira e em como pretende chegar lá. tome alguns cuidados. discriminação. Se você não fizer isso. .2005 Consequentemente. Somos diversificados e o espaço público é o espaço da diversidade. É um espaço tão peculiar que mesmo aqueles que não se dispõem a participar são utilizados pelos grupos mais atentos ao ordenamento social.

ou ao contrário. A vivência política nos ensina que nunca se pode subestimar a força do grupo. É que aqueles que geralmente não se interessam pela política. a cumplicidade. A atividade política revela quem nós somos. quando através das pesquisas eleitorais constatam o número de votos brancos ou indecisos.Tema 1 | Desmistificando a política 21 É notório o interesse dos políticos. A participação implica numa busca pelo melhor. . A omissão diante das situações sugere a conivência. p. Mesmo os grupos mais disprivilegiados possuem condições de pressionar a sociedade organizada para que seus interesses sejam visualizados e posteriormente atendidos. Nesta perspectiva.34) Por uma questão moral. Alienam-se diante das suas possibilidades. (DALLARI. 2004. sua falta. pelo caminho a ser desbravado e a ser deixado para as gerações vindouras. pelas melhorias. É que em política. como pensamos e o que esperamos. o silêncio refletese como a concordância passiva diante de uma voz que clama. de identificação dos deveres e das obrigações. para reforçar a integridade da natureza humana. a participação política ajusta-se à necessidade de cumprimento moral. É uma forma de deixar claro e evidente os princípios que nos regem e nos formam. esquecem-se que já estão desde o princípio previstos e formam um grupo seleto aos olhos dos “políticos profissionais”. Tal constatação aponta para a consciência que possuímos. pensando que sua manifestação única é a institucional. O egoísmo e a inconsciência misturamse formando uma mesma massa de indivíduos que não desejam a participação. não podemos nos alienar das questões sociais que advém da ação política.

Percebam todas as manchetes que são noticiadas pelos telejornais. E só existe violência se a palavra não mais vigora. Porque fora dos seus limites só nos resta o recurso à força bruta. esquecendo das possibilidades de elaboração de prâmetros que norteiem os conflitos e ajustem suas resoluções. desfaz-se a política. expressamos essa vocação política. de diálogo. Levando a sério essa afirmação. Supõe-se que o fim da política seria o próprio fim da humanidade. É que a política tem a capacidade de nos unir ainda que pela oposição. Estamos ligados a agremiações. Quando cessa a política se instala a guerra. É um caminho que não busca as ações guerreiras como modo de resolver os problemas e conflitos estabelecidos. times. ele não suporta a violência. Quando o discurso não mais é demonstrado. ao debate e à discordância.22 Ciência Política O contrário da política poderia ser a barbárie. O fim dos bens mais valiosos que reunimos até os dias atuais. parte-se para a violência. O filósofo André Comte-Sponville vai problematizar a questão que estamos a analisar com as seguintes considerações: . Ainda que o espaço público da política se estenda ao conflito. da ausência de possibilidades de se assumir as contraposições como legítimas. a palavra perde o seu valor. consideramos que fazer política é não aceitar a violência. Agir politicamente faz evidenciar formas de tolerância. Revela-se esse caráter quando fazemos parte deste ou daquele grupo. Por agirmos corriqueiramente assim. sindicatos. quando argumentos não são mais avaliados. Nelas a violência é sempre expressão da falta de diálogo. comunidades que nos fortalecem e nos protegem de supostas ameaças.

dos confrontos comuns é uma tarefa essencial. na verdade. do destino comum. Seria um erro considerar a política uma atividade unicamente subalterna ou desprezível. claro: ocupar-se da vida comum. sempre que falarmos em política levemos em consideração que ela está no nosso dia a dia. de conservar e de utilizar o poder. passa a representar grupos e comunidades que reivindicam algo acerca da sua realidade. o poder. Desse modo. p. não há outra maneira de tomá-lo. sob o domínio do Estado e por seu controle. 2004. os demagogos? Vai deixar uns burocratas decidirem por você? (COMTESPONVILLE. os fascistas. Somos até responsáveis por cada ato de omissão e de indiferença. em órgãos que a institucionalizam. É também a arte de compartilhá-lo. Daí necessitarmos de um governante para ordenar a sociedade que é pura diversificação. embora também se manifeste em setores específicos. e ninguém poderia esquivar-se dela.30) Portanto. dirigir grupos e dirigir individualidades é uma atividade que acompanha a ação política. também por cada ação negativa que estendemos às pessoas em geral.Tema 1 | Desmistificando a política 23 O que é política? É a vida comum e conflituosa. Através dos seus desdobramentos lidamos com o poder. De forma que passamos a ser politicamente responsáveis por cada ação positiva. para todo ser humano. O contrário é que é verdade. é a arte de tomar. Ao institucionalizar-se. Você vai deixar o caminho livre para os racistas. A apatia política também revela uma condição política: . mas porque.

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o descaso e a falta de compromisso com o outro. É por tais fatores que assentamos a ideia de que política é algo que vivenciamos cotidianamente e não apenas dentro das instituições, dos partidos. Assim a desmistificamos para lidar com a política frente a frente.

INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR
DALLARI, Dalmo de Abreu. O que é participação política. São Paulo: Brasiliense, 2004. (Primeiros Passos n.104) COMTE-SPONVILLE, André. Política. In: Apresentação da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002. Ambas as obras buscam discutir o problema da política por uma perspectiva ampla, buscando elementos na cotidianidade e nos exemplos comuns da nossa vivência. São leituras fáceis, embora mantenham critérios acadêmicos bem definidos e que oferecem as primeiras ideias para o pesquisador iniciante.

PARA REFLETIR
Participe de uma reunião da Câmara de Vereadores do seu município e descreva as ocorrências presentes na pauta daquele dia. Identifique como as pessoas se comportam e as ideias que elas defendem. Exponha suas percepções no AVA para que se identifique as diversas opiniões construídas através desta experiência.

Tema 1

| Desmistificando a política

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1.2 A Sociedade e o Estabelecimento das Relações
Enquanto seres políticos levaremos em consideração um pressuposto importantíssimo para efetivação das noções que estamos a construir. O fato é que nascemos iguais, não há como medir o grau de importância ou de qualidade de duas pessoas que acabaram de nascer, mas inevitavelmente, a sociedade o fará. Dentro das instâncias sociais, passamos a assumir papéis e valores que nos distinguem. Um grande artifício ao qual nos submetemos e, por vezes, chegamos a acreditar na sua naturalidade. A sociedade atual é marcada por características muito peculiares: individualismo crescente, economia flexível, predomínio da cultura de massa, etc. É uma organização de origem burguesa7, bem diferente da compreensão que os medievais tinham do que constituiria sua estrutura, por exemplo. Desse modo, prevalecem comportamentos individualistas8 e utilitaristas9 que se desdobraram durante os últimos séculos, conduzindo-nos aos moldes sociais que encontramos espalhados pelo mundo. A origem burguesa da sociedade moderna é responsável por alguns feitos que merecem destaque: • • • a formulação dos fundamentos da sociedade; a construção de um Estado autônomo, o que chamamos de “Estado Moderno”; as diversas formas de promoção do ethos10 capitalista.

7 A sociedade burguesa é responsável pela transição do antigo regime de caráter medieval. A burguesia inova ao desconstruir os antigos valores aristocráticos e trazer a livre iniciativa como valor deste novo contexto.
Fonte: SALDANHA, Nelson. Pequeno dicionário de teoria do direito e filosofia política. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editora, 1987.

8 Individualismo é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade e ao Estado .
Fonte: http://pt.wikipedia. org/wiki/Individualismo

9 Utilitarismo é uma forma de consequencialismo, ou seja, ele avalia uma ação (ou regra) unicamente em função de suas consequências.
Fonte: http://pt.wikipedia. org/wiki/Utilitarismo

10 A palavra ethos vem do grego e significa costume, hábito, modo de ser. Desta palavra vai surgir a expressão ética, que significa modo de conduzir a vida.

Ao tratarmos dos fundamentos da sociedade percebemos nuances e aspectos singulares. Ainda que a vida em sociedade seja uma necessidade da

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Ciência Política

nossa natureza: natureza humana. A construção da vida social e as formas de sociabilidade, que nos impulsionam ao estabelecimento de certos determinismos sociais são muito sutis e complexos porque estão constantemente a se renovar, mas ao mesmo tempo, aspirando por permanência. A política, na positividade da sua ação, é o que irá romper com as diversas imposições e as diversas classificações que se pretendem permanentes. O ser humano é o ponto central da trama social, pois ela só existe em prol dela, ao tempo em que a sociedade está no centro das ações deste ser. Ou seja, toda a sociedade é voltada para valorar o humano, mas a sociedade não é apenas o que está fora, mas também o que está dentro de cada um. Carregamos a sociedade que habitamos. Há uma co-pertinência característica que acompanha essa relação. “Nós” somos a sociedade, ainda que estejamos a viver a precariedade de sermos apenas uma parte dela. Abstração que acompanha a formalização do nosso ser social nas instância de poder, enquanto atores sociais que estão cumprindo um papel. As relações, as vivências, as interposições, os sentimentos, as ideias advêm dessa condição comum, existem em vista das interações; dos processos de sociabilidade: relações de apoio mútuo, atividades filantrópicas, adesão à comoção do grupo, entre outros . Como já foi tratado no capítulo anterior, há um espectro que nos acompanha na vida social, “o outro”. “Eu” e o “Outro” somos a sociedade. Pressentimos sempre um âmbito mais vasto, uma dimensão mais abrangente que nos compartimenta e nos acolhe. O “outro social” representa o motivo pelo qual as leis e as instituições foram criadas. Este outro é uma presença que se impõe através

As pessoas que exercem suas funções sociais e demonstram pelo exercício destas a autoridade. com o risco de sofrermos o incômodo da sanção. uma sociedade só obtém sua saúde e perfeição com o cumprimento fiel aos preceitos normativos acordados mutuamente. aquelas funções exercidas em prol da imposição do grupo. p. A sociedade encontra nele sua expressão mais excelente. torcedores de um certo time de futebol. e sim porque eram autoridades. ou seja. Darcy Azambuja (2008. são os atores sociais. síndicos de um prédio. Isto porque não nos esgotamos num só papel.45) fala que “refletindo um pouco. apontam para a complexidade desse sistema. Tudo isso. às diretrizes. ao qual chamamos sociedade. . ou da satisfação em fazer parte de um certo círculo. percebendo-se refletida no Estado. membros de um partido. ou seja. em alguma atividade. ao contrário disto repercutir como negativo. A institucionalização da sociedade em Estado entrega-nos às regras. chegaria à conclusão de que não obedecia propriamente a essas pessoas como homens. às ordens.” Enquanto atores sociais tornamo-nos autoridades em algo. Dentro das relações sociais somos profissionais.Tema 1 | Desmistificando a política 27 de um papel social. A instância última com a qual o indivíduo se depara em vista desse arranjo social é o Estado. ao mesmo tempo. pais. Engraçado é que. composto de diversas peças.

intelectuais. ainda que assim se assuma.” A finalidade comum é a tônica. alguém que recebe uma bolsa de estudos e tem a garantia de permanência no curso que está matriculado. Há uma condição política subjazendo ao seu estilo. Comunidades. formas de cooperação. Não existe uma sociedade isolada. que pelo vínculo em comum são compreendidos todos como sociais. E em contrapartida. como. p. através das políticas. Inspirando a execução de projetos. sejam elas: físicas.2) que a sociedade “é a união moral de seres racionais e livres. Em relação à frase em destaque. organizados de maneira estável e eficaz para realizar um fim comum e conhecido por todos. parece estarmos falando de um casal. remetem-nos a este órgão maior no seu sentido mais exemplar. entre outras. motiva cada indivíduo e gera a expectativa de permanência. Diz Azambuja (2008. por exemplo. Revelando-nos um plano interior que conduz o indivíduo como se a forma estabelecida de agir dentro de seus parâmetros fosse a mais natural. associações. morais. ou de ideais imaginados por um pai para com seu filho. ou até mesmo de ocorrências da vida de alguém em relação a alguma instância institucional.28 Ciência Política O Estado é a concretização da “sociedade política”. todas as regulamentações do Estado buscam assegurar o exercício das aptidões do cidadão. ao falarmos da sociedade compreendemos que cada instância social movimenta-se de modo muito similar. . Compartimenta-se o conjunto dos diversos grupos. Quando paramos para pensar no que estamos a teorizar. Esse fenômeno ressalta como toda forma de sociedade é política.

. No fundo o Estado é a própria resposta pelas vias da razão às carências da nossa condição natural. as instâncias organizacionais.Tema 1 | Desmistificando a política 29 O bem individual está ligado ao bem público de tal modo que um reforça no outro os mesmos votos. Sociedade implica sempre na unificação de pessoas para formar um conjunto coeso e distinto. Através destas. enquanto órgãos nos quais se fazem presentes as relações entre membros de um grupo. o Estado expressa o tempo todo um desenvolvimento e ajuste dessas necessidades. Artifício da nossa engenhosidade para instituir a convivência social através do sentimento de cidadania. O modo como o bem particular é ultrapassado pelo bem público passa a repercutir na maneira de se forjar necessidades. Excedendo e ultrapassando a instância particular. de partícipe. instauramos: • o direito positivo. ou mesmo entre grupos. que vai indicar as regras e os princípios que norteiam a vida social num dado espaço e num tempo específico. A condição de sujeição às normas intensifica o sentimento de pertencimento característico do grupo social. Intermediando estes indivíduos e suas relações. como autoridade de uma unidade política. fonte das aspirações comuns. A sua coesão só é ajustada pelas relações normativas específicas e sistemáticas expressas pelas leis. o governo. se entende que as ações de qualquer dos integrantes repercute em respostas de repúdio ou motivação por parte dos demais membros. • • Todos primando e dedicando-se ao bem público.

O fenômeno da comunicação generalizada tem encurtado . Pois. mais transparente. A moral.19) As reivindicações políticas apontam para conquistas sociais que nos tornaram mais livres. precisamos compreender esse acontecimento. 2002. Tudo o que exigimos de nós mesmos está na esfera da moral. E assim. p. pelo bem que cumpro e pelo mal que não me permito exercer. não é aquilo que nos prende. Toda sociedade constrói uma estrutura moral que lhe dá suporte. Desse modo tornamo-nos livres. Todavia. essa condição. ao contrário do que pensamos. A moral implica sempre na relação que estendo ao outro e. ao procedermos. nos resguarda da adversidade.30 Ciência Política As normas sociais não servem para condicionar o indivíduo. A moral é erigida para levarmos em consideração os direitos do outro. Tais preceitos materializam-se como a moral vigente. consequentemente. (COMTE-SPONVILLE. como foi dito. A liberdade de expressão figura como uma dessas últimas conquistas em prol de uma sociedade mais esclarecida. nunca nos podarmos na vida social. As possibilidades de interação e trocas tornam-se de grande valia para as pessoas. e para os grupos sociais de um modo geral. individualmente. A compreensão do bem e do mal e o modo como. mas o que nos liberta. Comunidades passam a interagir ainda que estejam muito distantes. como algo que é requerido e esperado pelos membros do corpo social. Sabemos o que esperar e como agir. de vivência integrada às estruturas. associamos nossas ações a estas bases. ou seja. para obrigá-lo a algo porque sua vontade seria outra.

Responsabilizando-se por novos comportamentos culturais e valores que passam a repercutir entre a juventude. O que instiga a comparação. A complexidade com a qual fomos envolvidos através da difusão dos meios de comunicação nos coloca em paradoxos (VATTIMO. Por exemplo. a análise e a busca por novas perspectivas que ainda não tenham sido empreendidas pelas lideranças locais. é responsável por inovações surpreendentes nas novas estruturas. porque se interpreta esta como a mais verdadeira. O espaço de interação no seio do corpo social caracteriza essa liberdade política.Tema 1 | Desmistificando a política 31 distâncias e possibilitado o contato com práticas e modelos sociais nunca visualizados anteriormente. A sociedade de comunicação generalizada. 1992). Assim. a sociedade de hoje sendo mais livre e lúcida. ao tempo em que possuímos mais meios de comunicação que nos apresentam versões dos acontecimentos correntes. primeiramente. ela não consegue fazer com que este modelo social seja verdadeiramente transparente. programas e relatos procuram estender a todos a “realidade” na sua mais bruta manifestação. Embora a sociedade atual se arrogue de ter desfraldado as ideologias que nos acompanharam durante muitos anos. não se tornou mais transparente. a proliferação da notícia é tão imediata e vasta que sempre estamos condenados à desinformação. A difusão e divulgação de imagens. . chamada de mass media. disseminando-se pelas classes.

São Paulo: Globo. A sociedade transparente. Gianni. A sociedade transparente. 2008. Introdução à ciência política. A primeira obra indicada é um manual de ciência Política. representa uma mudança cultural que fecha os ideais modernos e inaugura outros. 2005. Os grandes ideais que antes eram legitimados como fundamentais foram levados à condição de parcialidade como todo e qualquer ideal que procure assumir hegemonia. Percebe-se que a lógica do consumo busca criar um clima de naturalidade e pacificidade que não corresponde com as verdadeiras conquistas sociais. Desfaz-se a expectativa de construção de uma teoria política universal. Lisboa: Edições 70. 2005. Por isto. percebendo como ele está aliado a outros muitos e ao mesmo tempo identificamos nas conquistas vigentes novas possibilidades de sermos mais conscientes da nossa condição. E isso só acontece por percebermos as muitas conquistas que ainda temos que promover dentro desse conflituoso centro social. Lisboa: Edições 70. mass media na qual prevalece esse tipo de comunicação. dentro de uma nova perspectiva que o autor citado chamará de perspectiva pós-moderna. Assim. Darcy. VATTIMO.32 Ciência Política 11 A idéia de sociedade de massa. ao pensarmos a sociedade e suas relações no espaço contemporâneo identificamos os mecanismos de poder que estruturam nosso comportamento. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR AZAMBUJA. que possui uma estruturação bem didática . Gianni. Fonte: VATTIMO. nesta mesma sociedade germinam questionamentos em torno dos ideais capitalistas de vida e de felicidade. A partir desse modelo de sociedade os meios de comunicação de massa11 exercem função primordial para a quebra de preconceitos e noções equivocadas que foram guardadas por muito tempo pelo desconhecimento ou por força da acomodação.

Desenvolva perguntas gerais. O autor identifica que a sociedade em lugar de tornar-se mais transparente. A segunda Obra trata da análise da sociedade contemporânea através do processo de comunicação generalizada. quanto pela diversidade dos grupos que a compõem. complexifica-se e assume outras estruturas ideológicas de manutenção do poder. Procure tabular os dados. Entreviste três pessoas de classes sociais diferentes e faça as mesmas perguntas. explorando a questão da presença das mídias em nosso cotidiano. Observe as diferentes percepções da realidade e das relações sociais motivadas pelas condições materiais de existência de cada indivíduo. Tanto pela inconstância dos seus arranjos. ou seja.Tema 1 | Desmistificando a política 33 e inicia todo discurso acerca da questão da política através de uma identificação das instâncias sociais e da forma como a sociedade se revela como um fenômeno a ser analisado. bem abertas. . PARA REFLETIR Estruture um roteiro de entrevista com o tema “cidadania”. ter um quadro estatístico das respostas encontradas e compare com a dos seus colegas no dia do encontro presencial.

Nos Estados Unidos reivindicando por direitos civis.34 Ciência Política 1. mais cultural que política. que se enfocou no idealismo dialético mais que no materialismo dialético. preferindo enfocarse em uma revolução psicológica. 2006. Tais iniciativas concretizam-se de fato no século XIX e XX e representam a principal reação ao tipo de mudança social provocada pela era industrial. Neste momento surgem as teorias dos movimentos sociais para dar conta desse fenômeno (SELL. os movimentos irão eleger seus interesses e propor mudanças para a sociedade capitalista. Tendências de pensamento e escolas. o movimento pacifista. os negros entre 12 O neo-marxismo foi uma escola do século XX que se remonta aos primeiros escritos de Karl Marx dantes da influência de Engels. estrutural e funcional. o movimento ecológico. entre outros. Desse modo. as mulheres. Mas só na década de 60 do século passado é que os movimentos sociais começam a ser objeto de estudo da ciência social. com/es/Neomarxismo • . recusando assim o determinismo econômico percebido em Marx mais adiante.3 Movimentos Sociais e a Construção do Discurso Político Os primeiros escritos acerca da questão dos movimentos sociais surgem com Lorens Von Stein (1815 . dentre as quais podemos citar: • a Teoria da Mobilização de Recursos (TMR) que prima por uma compreensão racional. Na Europa o movimento estudantil de maio de 68.1890) em 1840 ao tratar do movimento operário. o movimento de mulheres.wikilingue. Privilegia os novos atores sociais emergentes: os pacifistas. Considera os movimentos sociais como grupos de pressão que são organizados pela comunidade para que as necessidades vigentes sejam atendidas. os ecologistas. Fonte: http://pt. p.118). a Teoria dos Novos Movimentos Sociais (TNMS) que prima por uma compreensão neomarxista12. Historicamente são identificadas mobilizações que se proliferaram por todo o mundo.

Tema 1 | Desmistificando a política 35 outros. e transformada. Crítica da modernidade. Os movimentos sociais devem lutar por uma sociedade renovada. Para ele. Dentre os principais estudiosos da temática dos movimentos sociais. lutando por novas relações sociais. política e cultural. Direciona-se ao caráter anti-intitucional destes atores pelo fato de buscarem resultados através de uma autoreinvidicaçao baseada em suas identidades. mas aquele que modifica o meio ambiente material e social. Petrópolis: Vozes. as relações de dominação e orientação culturais. modificando também a relação de trabalho. o ator social não é apenas o indivíduo na sociedade sofrendo as suas pressões. as formas de decisão. Os movimentos sociais para Touraine devem modificar. . O que deve existir num movimento para que minimamente ele possa se autoafirmar? São destacados três elementos basilares: 13 TORAINE. pois devem ser distinguidos os interesses em obter benefícios do Estado. Alan. destaca-se o pensamento do sociólogo francês Alain Touraine. transformar a sociedade e suas formas de organização econômica. p15-25. 2005. Touraine13 destaca a grandeza do movimento dos operários da era industrial. pois foi capaz de transformar aquelas pessoas em sujeitos. Desta forma não é qualquer ação coletiva que pode ser considerada um movimento social. ou mesmo reivindicar seus direitos. que estuda acerca destes atores e sujeitos sociais que por sua ação conseguem repensar e alterar a sociedade. questionando e agindo contra a lógica do lucro e da exploração.

Um dos grandes teóricos que lança diretrizes para compreensão das novas condições é Jürgen Habermas14. apontando para uma nova ordem não mais sistêmica. dando menos ênfase a mobilização. esse esforço de transformação social tem como objetivo o melhor compartilhamento da informação e dos recursos tecnológicos. quando se identifica o inimigo político. Pensa os movimentos sociais como formas de minar o sistema vigente. como o caso dos operários. Adversário. 14 Célebre pensador da Escola de Frankfurt. e mais ênfase nas políticas públicas. mas voltam-se regularmente para a relação entre cultura e sociedade. desde as velhas formas de manifestação.36 Ciência Política • • • Identidade. quando o mesmo se autodefine por certos fatores. pois na era pós-industrial que vivemos. os movimentos sociais mudaram suas práticas de atuação política. quando se estabelece a visão cabível acerca da ordem ou organização. Os novos movimentos sociais não limitam sua luta ao salário ou a bradar contra o capitalismo como o movimento operário atuou. pois logo após a restauração da democracia. mas também nas novas arrumações de movimentos. após uma ditadura severa. O ápice da reflexão teórica no Brasil vem do final da década de 70 e ganha intensificação nos anos 90. . empreendidos pela sociedade da comunicação generalizada. Objetivo. floresce uma pluralidade de atores sociais e promessas de consolidação da democracia. Durante a transição democrática no Brasil o tema movimentos sociais ganha destaque. Na atualidade os atores sociais deslocam sua luta da economia para a esfera cultural. Ampliando seu elo de mobilização.

O cotidiano é destacado como elemento em constante transformação. mostrando a diversidade de sujeitos plurais. Através da teoria marxista compreende que o Estado está a serviço de uma classe dominante e capitalista. o que repercute numa nova cultura política. Segundo Sell (2006) as teorias que mais se destacaram foram: • a teoria sociológica que identifica a emergência dos movimentos sociais de forma específica no Brasil. Questiona o sistema autoritário vigente. • • . A teoria da mobilização de recursos que se interessa por grupos de pressão que lutam por interesses e não por grandes transformações.Tema 1 | Desmistificando a política 37 Neste começo de séc. a teoria dos novos movimentos sociais que sofre a influência de Touraine. Eles tratam das contribuições dos movimentos sociais para a implantação de políticas públicas. E refletem acerca das nossas condições a partir de estudos de caso e teorizações de variadas matizes. Buscam objetivos muitas vezes fragmentados. e que a população operária e trabalhista luta e reage pelas suas necessidades sociais. sem que isso constitua uma lacuna. e um horizonte maior que apenas a luta por um poder. tem destaque aqui no Brasil por privilegiar os movimentos sociais rompendo com a ênfase nas classes sociais. XXI. surge uma série de estudos associativos com a teoria do capital.

Envolvendo o trânsito por setores distintos.38 Ciência Política Da história dos movimentos sociais e dos diversos diálogos que se abrem entre os grupos constituídos. mas não apenas compondo uma outra hierarquia de poder. O Mercado. assumindo uma política mediadora. As ONGs que auxiliam os movimentos de base na localidade de onde surgem lidam com os processos de empoderamento de grupos. O Estado. Ainda que as decisões mais significativas mantenham-se nos conselhos setoriais. seja na discussão das políticas de base. seja nas ações solidárias. há um preparo para que os indivíduos tornem-se e vejam-se como atores sociais. Requisitos previstos nas configurações da gestão da organização da rede. Promovendo um ativismo crescente. O que chamamos de participação cidadã advém dessas redes organizadas que ilustram a nova face da sociedade civil. Identificando os grupos excluídos e discriminados para propor uma democracia na diversidade. . As formas de atuação nestes trâmites se ampliam. em função de que o diálogo político seja inovado pelas inter-relações dos diferentes grupos e instituições. Elas configuram relações sociais que concretizam possibilidades de solidariedade. Engajamento em prol das causas sociais. reciprocidade e de compartilhamento. passamos a precisar as redes sociais. Neste sentido. são estes: • • • A Sociedade civil. Constituem-se com o reconhecimento da diversidade que quebra qualquer tipo de relação verticalizada e passa a atuar com o processo de empoderamento através da horizontalidade das reivindicações e ações empreendidas.

Um novo modo de fazer política através de discursos que privilegiam as camadas desprivilegiadas do corpo social. TOURRAINE. Crítica da modernidade.Tema 1 | Desmistificando a política 39 Consequentemente tais iniciativas geraram na população de um modo geral uma “afirmação positiva” que se mostra emblemática e exemplar em relação a políticas institucionais. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR SELL. Introdução à sociologia política: política e sociedade na modernidade tardia. os movimentos sociais atingem sua função primordial atingindo as diferentes camadas pela diferença que lhes é inerente. Desfaz-se o discurso da igualdade. A descentralização funciona como primordial para o acomodamento dos grupos. 2002. Petrópolis: Vozes. Assim. O reconhecimento de tais diferenças alarga as concepções de direitos humanos e amplia as bases de mobilização das comunidades. 2006. desfraldando-se todo o recurso retórico e de dominação que prevaleceu durante décadas em vista da tão esperada igualdade. Propondo a mudança social pela margem e não mais em função de mudanças estruturais no centro do poder. Carlos E. Petrópolis: Vozes. no máximo ousamos falar em igualdade de possibilidades. Ligadas ao dia a dia estendendo um caminho que interliga militância política e cotidiano pela riqueza de experiências emergentes. a reorganização dos espaços e das narrativas discursivas presentes na assistência política. Alain. As atividades empreendidas são geralmente apresentadas através de uma certa transparência porque são ligadas à ação coletiva. .

PARA REFLETIR Identifique que grupos sociais assumem a condição de movimento social presentes na sua localidade ou na localidade mais próxima. abrangendo as circunstâncias e os principais elementos de transformação que estiveram presentes durante esse período da história. mas também por quem é liderado. O poder é requisitado por quem lidera. até as pressões feitas por certo grupo. A segunda visa dar conta do fenômeno da modernidade. . O fato de agir sobre os interesses comuns faz com que a ação política expresse um poder muito peculiar que se desdobra desde as assertivas e imposições expostas por uma liderança. Essa plasticidade faz com que a política torne-se sinônimo de poder. Expressa ideias atuais e desenvolve suas análise por temas que envolvem o mundo contemporâneo. 1.4 O Poder Político Tratamos agora de uma das questões principais quando o assunto é política. Converse com seus líderes para saber como foi o processo de organização e o porquê de esse grupo estar presente neste lugar. Sabemos que diversas pessoas se encantam com a política em tendo em vista que ela oferece oportunidades de controle e manipulação. o poder.40 Ciência Política A primeira Obra revela um contexto bem amplo em que duas ciências passam a ter um ponto de encontro: a sociologia e a política.

Os ritos. as premiações. Os processos de estratificação social. Ele sugere sempre: • • Uma relação bipolar e desigualitária. O estabelecimento das estruturas hierárquicas em função do trabalho. O que gera uma dimensão epistemológica e filosófica. de difícil definição. Através dele percebemos o homem como sujeito e ao mesmo tempo objeto da sociedade. Mesmo nas comunidades mais simples em que a divisão social do trabalho não representava uma hierarquização. Sua importância para a ciência política corresponde a uma substância que vivifica as relações sociais. Carlos Eduardo Sell (2006) explica que para compreendermos essa relação devemos nos questionar acerca da abrangência da ideia de poder. Chegando a determinar o próprio comportamento do outro. o poder esteve presente. A segunda é identificar quem é o agente do poder. a energia vital que se depreende destas relações implica na capacidade de agir e produzir efeitos sobre um grupo humano. • . apontam o tempo todo para a questão do poder. Tratá-lo como legítimo e como fenômeno. Sem ele. característica de qualquer corpo social.Tema 1 | Desmistificando a política 41 É um conceito fundamental. Este exige um tratamento contextual para se compreender os trâmites. Desse modo. Este questionamento sugere uma análise que passa por três instâncias de identificação: • A primeira delas implica em saber o que é o poder. as mudanças de fases de um membro da comunidade. quem o exerce. não existe política.

pois possui como função o estabelecimento da organicidade necessária ao grupo. Duas destas. • Dentro do nosso sistema de governo pouco a pouco o poder deixa o caráter de força para ser referendado na aprovação do grupo. ou seja. pela procura do seu sentido. ou seja. O poder promove coesão ao grupo. várias instâncias se desdobram paralelamente. possuindo capacidade de . Remete-nos à dimensão ética. é uma organização de poder que se constitui através de uma coerção específica. são a força e a competência. poder de direito – relativo à competência. aspirando ao Estado. buscar compreender o seu exercício. Para sua consolidação. Já vimos que o Estado também é uma forma de sociedade. Desse modo. desenrola-se do consentimento do governante em função da visão que se possui de uma realidade e das possibilidades de atuação. como o poder é vivenciado. cada qual inspirando aspectos do poder. trazendo como consequência o caráter coercitivo. aspirando à dimensão institucional. reforçando os laços de solidariedade necessários à manutenção de uma organicidade social. conforme se pode identificar: • poder de fato – relativo à predominância da força. destacadas por Paulo Bonavides (2010).42 Ciência Política • Por último.

ao certo. ou seja. mesmo em meio à complexidade das instituições. Deste modo. ao aceitável. O poder que emerge da legalidade expressa a sintonia com os princípios jurídicos. Conforme Bobbio (2000.Tema 1 | Desmistificando a política 43 auto-organização. Esta relação de poder é expressa de mil maneiras. Esta diz respeito aos vínculos que unem os indivíduos às várias formas de estratificação 15. ao que está dentro da norma. p. apontando para uma nova ordem não mais sistêmica. Compreendemos que a Legalidade advém de um sentido normativo. Implicando numa ordem que possui desembaraço e consonância com as regras. está à margem. não à do poder do homem sobre a natureza.935): O poder político pertence à categoria do poder do homem sobre outro homem. ajustando o poder ao direito. foi identificado e tipificado como tal. motivos que emanam do ordenamento que incitam à vida em coletividade. A legalidade e a legitimidade são critérios fundamentais do poder do Estado para o estabelecimento dessa ambiência social. A harmonia da ordem social do Estado depende deste inteiro ajuste. O ilegal é marginal. a legalidade é o oposto da ilegalidade. Vivemos habitualmente em meio às normas. Há uma ambiência coletiva. Diversos casos são noticiados pelos telejornais de comportamentos que expressam a marginalidade e . 15 Célebre pensador da Escola de Frankfurt. “O legal” se apresenta como algo correspondente ao devido. mantido na função de regulador. onde se reconhecem fórmulas típicas da linguagem política. Pensa os movimentos sociais como formas de minar o sistema vigente. • O princípio da legalidade faz com que o poder do Estado busque integrar-se a regras jurídicas estabelecidas.

é constituído para promover a generalização e garantia da validade dos atos de cada cidadão. cocaína entre outras. Ligam-se a este caráter o direito costumeiro e a criação da constituição. Em sentido amplo o termo legal implica o constitucional. Ambas complementam-se. como maconha. embora em alguns momentos sejam confundidas. A legalidade possui uma relação direta com a legitimidade. mas a condição na qual uma se ampara diferencia-se radicalmente da outra. Toda essa racionalidade que pretende ordenar as relações através do Estado desemboca num normativismo que persiste no percurso: da legalidade à normatização.44 Ciência Política outros que reforçam a necessidade de normatização. Ora. Sabemos que a complexidade dessa condição nos toca sempre que nos deparamos com situações de renovação da estrutura social. No caso do Brasil. percebemos essa discussão quando somos questionados acerca de temas muito polêmicos como a legalização de drogas. a lei expressa o que de mais nobre foi produzido pelo direito. implicando na norma jurídica. na base formal da lei. • O princípio da legitimidade evade esse aspecto formal da legalidade e aponta para uma outra experiência caraterística da nossa estrutura social. A legitimidade . A legalização é o momento máximo pelo qual somos conduzidos à normatização. Quando somos questionados acerca da legalização da pena de morte para crimes hediondos e diversos outros exemplos podem nos ilustrar a responsabilidade que a sociedade carrega ao legalizar algo. Este amparo na validade da norma.

Diz Bobbio: . provém da lei. pp. Em vista das diversas alterações que circundam o cenário contemporâneo. Desse modo. Noberto Bobbio (2002. Legitimar significa justificar. A condição de ser legítimo oferece ao poder autoridade. por isso. acresce sua importânciam. pois quanto mais oculto. o poder oculto é de uma potência e amplitude que surpreende completamente o pensamento político. mas se desdobra por elementos não formais. mas. da condição pela qual os grandes líderes sempre buscaram se tornar mais célebres. as questões relacionadas ao poder assumem sentidos e aspectos distintos. por exemplo.Tema 1 | Desmistificando a política 45 constitui-se pela própria legalidade expressa na intencionalidade que habita o Estado legalista de direito. através de valores. estender fundamento a algo. mais se potencializa sua autoridade. abrange um plano normativo. Existe nessa condição uma completude que satisfaz a ascenção do governante. ou melhor.105-116) quando analisa o poder na sociedade atual conduz-nos a uma característica peculiar. habitando os recantos mais despretenciosos. Isso lhe confere um caráter qualitativo inovador. ou melhor. verdadeiro. mistifica-se sua personalidade. que é a condição deste ocultarse. Tal qual a legalidade. mitifica-se. Indica-nos um nível mais profundo e. porque se constitui com um número sempre menor de contestações. como diz Foucault. Diversas são as formas de legitimação. Trata-se. endeusa-se. cabe-nos perceber que o poder estende-se a todas as esferas sociais. na verdade. O ocultamento do poder. originário. Não nos cabe apenas saber identificar o inimigo. mas ultrapassando-o.

(BOBBIO. Grandes líderes são aqueles capazes de grandes feitos. O poder é tanto mais potente quanto menos se deixa ver. Deus é tanto mais potente quanto mais invisível for. no momento certo. A sedução é apresentada habitualmente através da pompa e o fausto. que no decorrer da história foi ensaiada pelos líderes. de Bentham.46 Ciência Política O poder tende a esconderse. na idéia de um edifício. • Sedução – Característica fundamental de um líder. Ainda que pareça paradoxal. é o espaço do ocultamento. Há um caráter heróico que o . são as decisões secretas que virão à luz num outro momento. A ordem por mais que pareça absurda. A forma mais perfeita. É aquele que vê e não é visto. Esta idéia de poder ver sem ser visto é certamente o emblema do poder de Deus. Esta condição pode seguir duas condições: • Temor – Dizemos que os comportamentos atemorizados estão à volta do poder. ou seja. que vê a todos e ninguém o vê Pense no Panopticon. mas ao mesmo tempo precisa manifestar-se. p. O gabinete seria o lugar por excelência no qual as tomadas de decisão se efetivariam. O poder se esconde. executada. no qual o guarda que está no centro tudo via e não podia ser visto.105) Esta compreensão relaciona a invisibilidade do poder oculto a um atributo que apenas os deuses possuem. o sujeito do poder não se revista das características do déspota. e contraponto necessário para o temor.2002. Mas é preciso ter cautela quanto ao temor para que o líder. deve ser cumprida. Temor e sedução conduzem o poder a um ponto de equilíbrio.

São duas obras bem distintas. A dimensão oculta do poder também é exercida para a ampliação dos interesses privados e com isso gera-se a corrupção. aquele que possui o caráter de exceção. O que encanta simplesmente pela sua presença. A simulação e a mentira quando caracterizam esse ocultamento desvirtuam a interação política e o seu sentido maior que é o bem público. um dos mais célebres pensadores da política da atualidade toma especificamente o caso da Itália e discute com seu interlocutor Viroli os últimos acontecimentos. Possui um rigor peculiar de pesquisa e desdobramento de ideias. A de Norberto Bobbio visa a fazer uma análise da implantação da república e suas implicações para a sociedade atual. 2010. Paulo. o ilustríssimo. 2002. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR BOBBIO. Noberto. BONAVIDES. .Tema 1 | Desmistificando a política 47 acompanha porque ele é justamente aquele que foge à ordem comum. A segunda obra é um manual de política que vem acompanhando gerações de pensadores e estudiosos do tema. Ciência política. Diálogos em torno da república: os grandes temas da política e da cidadania. O autor. São Paulo: Malheiros. Rio de Janeiro. A figura ilustre. É uma boa obra para aprofundar conceitos e ideias.

Neste sentido.48 Ciência Política PARA REFLETIR Faça uma pesquisa na Câmara de Vereadores e converse com os políticos ali presentes para saber que decisões são necessárias para melhorar as condições de vida da sua localidade. Quem pensa que política não lhe diz respeito aliena-se diante das suas possibilidades. ela está ligada às coisas mais cotidianas. de participantes da cidade. RESUMO No decorrer das nossas leituras conseguimos estabelecer algumas convicções acerca do problema da política. E quais as medidas que eles planejaram para fazer valer tais interesses. esquecem-se que já estão desde o princípio previstos e formam um grupo seleto aos olhos dos “políticos profissionais”. É algo que aponta para a nossa condição de cidadãos. pensando que sua manifestação única é a institucional. Através da política compomos os movimentos sociais que representam a principal reação . Aqueles que geralmente não se interessam pela política. Identificamos que para falar desse assunto precisamos ampliar nossa percepção identificando que este fenômeno social representa algo muito maior que a participação neste ou naquele partido. Exponha os resultados nos fórum do AVA. A origem da ideia de política remonta aos gregos da antiguidade. A política é um exercício de sociabilidade. O interesse comum revela sempre a política. Leva-nos a assumir papéis e valores que nos distinguem.

Por mais que se trate da política no seu sentido corriqueiro. propondo a mudança social pela margem e não mais em função de mudanças estruturais no centro do poder. Desse modo. Duas formas de poder se destacam: o poder de fato. e o da legitimidade. a política torna-se sinônimo de poder. A descentralização é elemento primordial para construção de novas políticas. ressaltamos a Teoria da Mobilização de Recursos (TMR) e a Teoria dos Novos Movimentos Sociais (TNMS). O poder político é fonte de assédio e disputa. em certos momentos. os movimentos elegem seus interesses e propõem mudanças para a sociedade. . Buscamos através dos movimentos sociais um novo modo de fazer política. reforçando os laços de solidariedade necessários à manutenção de uma organicidade social. que diz respeito à força e o poder de direito. Tais teorias visam atingir o “outro social”. Também o poder aponta para dois princípios fundamentais: o da legalidade que revela o aspecto formal e o vínculo que o poder possui com as leis. O fato de agir sobre os interesses comuns faz com que a ação política expresse um poder muito peculiar que se desdobra de diversos modos. que diz respeito à competência.Tema 1 | Desmistificando a política 49 ao tipo de mudança social provocada pela era industrial. No século XX temos uma multiplicação dos movimentos sociais que eclodem por todo o mundo. Diríamos até que. Por ela oferecer a condição de singularidade para o líder. sabemos que diversas pessoas se encantam com a política em vista de ela oferecer oportunidades de controle e manipulação. que representa o motivo pelo qual as leis e as instituições foram criadas. Dentre as teorias dos movimentos sociais. Este promove a coesão do grupo.

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Mantendo um objeto de análise específico acerca do qual só ela se debruça. teorizando acerca deste e apresentando algumas consequências para o sistema de governo. etc. a filosofia. Fechamos a unidade apresentando o caráter da representatividade com o qual somos contemplados pela política partidária e pelos políticos eleitos. apresentamos o que constitui a política enquanto um certo modo de olhar para a realidade. Desse modo. acadêmico. conceitos e perspectivas de análise que enriquecem o cenário contemporâneo. . E assim. O Estado é o objeto peculiar pelo qual nasce esta ciência com métodos. acentuamos esse espelhamento que nos conforta e enriquece nas possibilidades abertas pela trama da estrutura social.2 A Ciência Política Enquanto Ciência Social O interesse dos capítulos que se seguem é apresentar a Política enquanto uma ciência de cunho social. Fazendo-se preocupada com as relações de poder e com a condução do Estado. A política em seu sentido científico. através das diretrizes de estudo dessa área de conhecimento. que se interrelaciona com diversas áreas do saber: o direito. às formas de soberania e às suas possibilidades dentro do regime democrático. A ciência política estuda as formas de governo e sua adequação às expectativas populares.

Cientistas políticos se dividem em considerações e análises para fundamentar suas posturas a partir de um ponto de origem. envolvem o entusiasta pela política. processos políticos e nos sistemas que são gerados dentro das relações de poder. Enquanto uma ciência social. ainda que estes possam apenas posteriormente servir de base para reflexões. diversas formas de pesquisa participante. A ciência Política detém-se no estudo de fenômenos sociais como organizações. As três caracterizam as Ciências Sociais em vista de abranger tanto a integralidade do fenômeno social.52 Ciência Política 2.1 A Política e a Academia O nascimento da Ciência Política é compartilhado com mais duas outras ciências: a sociologia e a antropologia. muito estudo de caso. Estes fenômenos caracterizam o que geralmente chamamos de Política. Possui um caráter prático que a acompanha e que conduz o pesquisador a desdobrar-se em meio a metodologias variadas. quanto pelas especificidades que acompanham cada setor desse conhecimento que busca atender às microestruturas e suas especificidades. . Dois elementos são destacados para assentar as bases da sua pesquisa. Não raras vezes as funções de assessoria de partidos e candidatos. O pesquisador social procura vivenciar os fatos ao sabor da sua imediaticidade. a política visa uma intervenção direta na realidade. Mas toda e qualquer instituição pode ser objeto de análise desta ciência. como também a própria candidatura. desdobrando diversas reflexões. o Estado e o poder.

A parcialidade de percepção gera obstáculos que nos remete às possibilidades de neutralização que um cientista possui em relação ao seu objeto. a ciência política possui algumas dificuldades terminológicas que precisam ser visualizadas para construirmos mais certezas em torno da sua constituição e aplicação. 16 Representa as múltiplas vozes que fazem parte da visão da realidade contemporânea. podendo. as várias acepções de democracia. Destas dificuldades destacam-se: • o caráter móvel e oscilante do vocabulário político. Mas a complexidade vai estar em vivenciar e ao mesmo tempo descrever tais fatos e acontecimentos. mas de todos os atores sociais. • • . validar suas conclusões e afastar-se das concepções préconcebidas. por exemplo. assim. Apresentar os limites antes de afirmar qualquer ideia. em vista das consequências que sua análise possa apontar. que gera um caos aos esforços de fixação conceitual. os casos distintos. Não mais voltada para o discurso apenas das classes dominantes. Pois suas teorias são a base para reflexão e articulação de outros setores ou profissionais que não lidam com esse fenômeno de forma direta.38). Daí a importância de uma metodologia bem estabelecida e dos processos interpretativos voltados para a plurivocidade16 dos discursos. O envolvimento e a torcida pelo desfecho faz com que o cientista político se avalie sempre. as variações semânticas dos termos de que se serve o cientista social de um país para outro. pode parecer algo bem enriquecedor dentro desta atividade. Segundo Bonavides (2010.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 53 O processo político e suas implicações tornam-se ponto de questionamento e análise. p.

III a. Traçando um percurso de definições significativas que vão de Aristóteles a Comte. mesmo com dificuldades. Ainda mais em se tratando de uma ciência relativamente jovem em vista das demais. apresentado pelo hábito de demonstrar assertivas e inferências. Wolff (1679 . Assim. Todavia.C até o séc. Bonavides (2010. se problematizarmos a própria ideia de ciência teremos nuances tão distintas que parece ser essa complexidade inerente ao próprio tipo de exploração que se tenta esboçar. pp. 26-27) faz uma abordagem histórica encontrando em diferentes autores diretrizes variadas para compreendermos o que seja ciência. XIX. democracia.1754) compreendeu como aquilo que se liga a princípios certos e imutáveis.54 Ciência Política Parece que lhe falta uma nomenclatura que permita às pessoas de um modo geral inteirar-se.C.C) considera ciência a análise que detinha os princípios e as causas por objeto. como quando se fala de governo. com o positivismo. os autores e suas definições são esboçados do seguinte modo: • Aristóteles (384 a. – 322 a. que não se fixam numa única terminologia. em relação a certas definições conceituais inerentes. definições que se sucederam desde o séc. • • . Fato que agrava uma compreensão mais usual para que as questões não recaiam apenas no academicismo. Santo Tomás de Aquino (1225 – 1274) definiu-a como a assimilação da mente direcionada ao conhecimento do mundo. nação. ou seja. liberdade.

quando se detém no exercício de análise e normativas. segundo inumeráveis autores. “A caracterização da ciência implica. há três variantes do conhecimento: empírico – não unificado. ou seja. Medir o grau de sucesso de . a generalização da ciência. e a filosofia. Spencer (1820 – 1903) recorre à simplicidade. Separando a ciência da filosofia. investigando-se o processo evolutivo. Age sistematizando conhecimentos a partir de princípios. bem-vindo. as causas. e filosófico – totalmente unificado. Littré (1801 – 1881) a ciência é a generalização da experiência. as circunstâncias. necessário e demonstrável. Segundo ele. Estas últimas consideradas como ciências fundamentais.filoinfo. a tomada de determinada ordem de fenômenos. p. científico – parcialmente unificado. 2010. em cuja pluralidade se busca um princípio de unidade. Comte (1798 – 1857) as ciências podem ser abstratas e concretas. 26). as regularidades observadas no campo fenomenológico” (BONAVIDES. Fonte: http://www.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 55 • Kant (1724 – 1804) diz que a ciência é tudo que possa ser objeto de certeza apodítica17. a segunda é caracterizada como conhecimento unificado dos fenômenos que servem de objeto a toda atividade cognoscitiva. • 17 Kant emprega-a no sentido dos juízos que estão acima de qualquer contradição. que são necessariamente verdadeiros. quando alça previsões acerca de situações determinadas.net/filosofia/ modules/lexico/print. php?entryID=494 • • Através da análise das políticas a ciência política apresenta teses que são caracterizadas como positivas.

Pela pesquisa descritiva. bem-estar social. São tarefas que requisitam ferramentas metodológicas e pesquisas bem incisivas sobre a realidade estudada. A pesquisa. • • Bonavides (2001. Identificam-se elementos generalizáveis e os singulares. elementos como justiça. . Pela pesquisa comparada. 40-45) nos convida a compreender essa ciência por prismas diferenciados. configurando-se através da identificação de certos fenômenos que são explicados em função dos elementos teóricos que norteiam a percepção do pesquisador. entre outros. entrevistas no próprio sistema. para entendermos. dentro desta área pode ser desdobrada pelas seguintes perspectivas: • Pela via teórica da política. das políticas implementadas. de caráter apenas empírico tomando o fenômeno da política através dos acontecimentos. assumindo-a como o seu ponto mais forte para aproximar-se o máximo possível da realidade. consequentemente procede de maneira bem mais detida a coleta de dados. o grau de estabilidade. pp. Identificando sentidos multidisciplinares que a envolvem. Elencam-se os elementos e as realidades sócio-históricas são mediadas para que os dados empíricos sejam verdadeiramente compreendidos dentro das suas possibilidades. que possui como elemento positivo a delimitação necessária para o procedimento de análises comparativas.56 Ciência Política um governo. para sua origem e sua abrangência. paz. enquanto opção de pesquisa de uma dada realidade.

Partindo de conceitos polêmicos no que diz respeito ao método e à extensão de seus limites. expõe o caráter classista do Estado e da sociedade. Tanto em sentido teórico como em sentido prático. O segundo. A filosofia quando lança seu olhar sobre a ciência política traz a discussão de suas proposições. destacando a racionalização do poder e a legitimação das bases sociais. Este autor desenvolve uma tendência exclusivamente jurídica para o fenômeno da . e os movimentos reformistas característicos do século XX. Max Weber. Além do que. XVII. Polemiza sua origem. por iniciar estudos concernentes à política científica. instituições e ideias. pois sua investigação não se restringe apenas a um tempo específico. os filósofos da política que criaram as bases para o surgimento da ciência. sua essência. Diversos filósofos se destacam na reflexão acerca da política desde os gregos antigos até os pensadores do sec. Sob o prisma sociológico: dois autores são destacados pela iniciativa de sua análise. Abrangendo períodos históricos distintos. O primeiro.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 57 Sob o prisma filosófico: o seu estudo detém-se nos acontecimentos. suas técnicas de combate e liderança. as lutas pelo poder na sociedade moderna. Vierkandt. Weber descreve o interior dos partidos e sua organização. As formas de autoridade e a administração pública. Max Weber (1864 – 1920) e Vierkandt (1867 – 1953). Identificando as nossas relações com os aparelhos burocráticos do Estado. das afirmativas que lhe garantem um fundamento epistemológico. Sob o prisma jurídico: destaca-se Kelsen pelos estudos que realiza acerca da teoria do Estado. entre outros procedimentos. que gozam de grande privilégio na literatura sociológica. Explicita os parâmetros nos quais se baseiam os partidos como representação de interesses.

I São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. METEUCCI.58 Ciência Política política. Nela está presente o interesse em construir uma visão unificada destes elementos que no decorrer da história pareciam não se ajustar nas suas tendências epistemológicas. METEUCCI. 2000. PASQUIRO. Gianfranco. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR BOBBIO. Vol. Contemporaneamente uma das tendências que mais tem repercutido entre os teóricos da ciência política tem sido a perspectiva do tridimensionalismo. Convertendo a problemática para o âmbito espacial e o âmbito pessoal de validade do ordenamento jurídico. Mantendo-se a possibilidade de uma mesma quetão mantenha emfoques distintos que não se anulam pela força do outro. Gianfranco. Nicola. Dicionário de política. Reflete sobre o Território e a população pelos elementos materiais que os compõe. Vol. em lugar de se falar de filosofia política ou sociologia política busca-se manter como parâmetro a teoria social jurídica e a teoria filosófica dos fatos. Nicola. Norberto. das instituições e das ideias. 2000. o normativismo jurídico e o escalonamento das leis dentro do sistema tornam-se o foco principal para o estabelecimento das relações de poder. BOBBIO. PASQUIRO. Expostas numa ordem enciclopédica. Através da sua teoria. II São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Norberto. . Assim. o Estado se traduz como organização do poder e por isso o seu estudo deve se desfazer de toda a substantividade. Para ele. Dicionário de política.

que fazem parte da ciência política. lança-o na lógica da pesquisa científica. além de ilustrar as situações para o aluno. indicações de aprofundamento. Busque seus significados a partir de autores diferentes e perceba como cada autor se apropria de forma diferente para falar do mesmo assunto. Ou mesmo para identificar as definições e os autores mais procurados. termos.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 59 Uma mesma obra dividida em dois volumes com verbetes. A consulta a dicionários específicos deve ser uma prática implementada na graduação para que o aluno enriqueça seu vocabulário e perceba a teia de relações que um conceito pode dispor. . Extremamente rica em casos e exemplificações que. Exponha no fórum do AVA para que seus colegas possam comparar com as definições encontradas por eles. PARA REFLETIR Identifique os conceitos principais. reúna uns cinco conceitos.

construção de estabilidades. resolução de litígios. O sentido moderno no qual nos movemos abandona essa dimensão privada e cunha a ideia de Estado na esfera pública Com Bodin (1530-1596). Max Weber pensa o Estado como uma instituição social que possui a peculiaridade de manter o monopólio sobre o uso da força. . está organizado em torno de um conjunto de funções: ordenamentos. que se estabelece sobre um território e é dirigida por um governo soberano.2 O Estado: Função e Origem Agora que já compreendemos o que é a ciência da política enquanto uma ciência social. leis. Por ser mais uma dentre tantas instituições sociais. implementação de medidas. A ação precípua do Estado se expressa na autoridade para gerar e aplicar o poder coletivo. vem da palavra status. A expressão “estado civil” que até hoje utilizamos advém dessa compreensão. no período da renascença. que significa a condição que o indivíduo possuía ou não enquanto participante de uma unidade política. nos deteremos num dos principais pontos da sua análise. a palavra República designa o Estado. entre várias outras funções. mas logo depois vai representar uma forma de governo. O sentido etimológico da palavra Estado remonta à Grécia e à Roma antigas. E a palavra Estado se firma como a unidade política por excelência.60 Ciência Política 2. o Estado e suas teias de laços indissolúveis com o corpo social. O Estado é de maneira geral a sociedade política.

para esclarecer e instituir como várias funções devem ser desempenhadas. É daí que usamos a expressão. A tomada de decisões é uma característica do Estado que o liga à política. a perspectiva filosófica e a sua origem histórica. Por isso afirmamos habitualmente que quando um mecanismo social está comprometido. fazendo desta a própria ciência do Estado. Assim também quando somos impedidos do usufruto de um serviço público. que num determinado tempo ocupam posição política de autoridade dentro do próprio Estado. a culpa é do estado. Diversas teorias com as limitações do seu . “o papel do Estado”. O Estado também pode ser o conjunto dos serviços gerais de uma nação.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 61 Comumente se confunde Estado e governo. mas faz-se necessário situar cada qual: • Estado é uma instituição social e consiste na implementação de uma forma. Quando se trata da sua origem dois percursos de entendimento são ressaltados. Expressão maior do espaço público em contraposição ao privado. Ele se distingue em relação às outras sociedades análogas com as quais está frequentemente relacionado. • Pensa-se o Estado como uma sociedade organizada com governo autônomo que representa o papel de uma pessoa moral. ou um plano social. Governo se entende um conjunto muito particular de pessoas.

no decorrer da história. Puffendorf (1632-1694).C. A origem familiar – fundamenta o desenvolvimento do Estado a partir da ampliação da família. Hobbes (1588-1679). O primeiro é que a sociedade humana e a Sociedade política não podem ser confundidos porque não são sinônimos. por isso. que arriscaram conceber esta como sua origem. Locke (1632-1704). A segunda é que a autoridade política não pode ser comparada com a autoridade do chefe de família.62 Ciência Política tempo são lançadas para se entender esta instituição. não é suscetível de generalização. . considerando que a sociedade em geral adveio deste núcleo específico. Destacamos algumas elencadas por Darcy Azambuja (2010. Ou seja. Seria incompatível com a condição moderna do Estado. Os críticos desta teoria destacam dois fatores que devem ser levados em consideração. Grotius (15831645). Começa com Aristóteles e Epicuro (341-271 a. 118-132) que auxiliam uma compreensão mais abrangente. Ainda que apresente coerência nas suas premissas. A origem contratual – O contratualismo parece repercutir sempre que se pergunta pela origem do Estado. Espinoza (1632-1677). Tais motivos fazem com que se conceba a família como a célula-mãe da sociedade. o Estado teria sido gerado pela convenção dos grupos sociais que acordaram as formas e as diretrizes que passariam a ser adotadas por todos. O contrato ou a convenção é um princípio que encantou vários autores. esta teoria não é confirmada pela observação histórica e. pp.) estendendo-se ao período dos pensadores jusnaturalistas.

A Formação natural – Construída a partir de algumas inferências lógicas em relação à própria composição do Estado. Diversos autores adotam tal perspectiva. defendendo sua autoridade contra revoltas internas e externas. pode-se afirmar então que a guerra. onde um grupo se permitia dominar por outro. pois um Estado só existe realmente quando uma população se fixa em um território determinado. sua natureza e organização. Na estrutura jurídica dos Estados. Assim. por exemplo. mas um ajuste natural destes requisitos. derivado de ações naturais. como teoriza Élie Reclus (18271904). admite uma origem a partir da violência dos mais fortes. Outro teórico é Oppenheimer para o qual o Estado em sua totalidade.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 63 A origem violenta – Considera-se que o surgimento da instituição estatal adveio da violência e da força. a dominação de povos vencidos. Conjuntamente à Darwin (1809-1882). da soberania e da gestão política. é um dos modos de formação de novos Estados. Outros tantos pensadores centralizaram a importância da força como diretriz determinante de estabelecimento da autoridade. era imposto por um grupo de vencedores a um grupo vencido. . o objetivo do primeiro é organizar sua dominação. E nos governantes. leva-se em consideração que a formação do Estado não é somente a formação de um poder. A perspectiva Darwiniana reflete na sociedade política a luta pela vida. Bodin. a sobrevivência dos mais aptos. população e governo. Se este é formado por três elementos: território. Gumplowicz (1838-1909) dizia que o Estado era um fenômeno social. Alguns tomando o Estado como doutrina da força. a organização da concorrência. diante dos fatos acima citados.

ou que algum se divide para que tal inovação aconteça. Os modos derivados. Tampouco importa o modo como o poder se formou ou como as pessoas que o aplicam foram designadas. Ele nasce e permanece através de todas as mudanças. Os modos secundários. existem três modos que fundamentam a formação dos Estados: • Os modos originários. nascendo diretamente de uma população e de um país. o Estado surge. pregando que há união entre vários Estados.64 Ciência Política A Formação histórica – Procura-se na história as condições e circunstâncias que levaram ao seu nascimento. sem derivar de outro estado antes existente. alegando que a formação é integralmente nova. dizendo que a formação se faz por influências externas de Estados preexistentes. parte-se da Constituição escrita ser uma necessidade para formalizar outras formas primárias. . • • A Formação jurídica – Considera que o Estado deve antes de tudo sua existência ao fato de possuir uma Constituição. Tal perspectiva não se fragiliza por não haver como precisar o momento exato em que um Estado obteve sua primeira constituição. pois desde o momento em que a coletividade estadual se organizou e constituiu órgãos para a regência dos mesmos. formando um novo. Historicamente.

quanto restringindo sua competência. Neste sentido. e esse objetivo é invariável e indiscutível: o bem público. que se desdobrará de forma distinta conforme a época e o lugar. ou delega para que os setores particulares os executem. é um sistema para adquirir a paz e a prosperidade. Outros sustentam ideias contraditórias a esta: o Estado é o meio pelo qual o homem realiza a sua felicidade social. não é propriamente um fim. perguntamo-nos qual o objetivo do Estado em nossa existência social.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 65 Expostas as teorias acerca da sua origem. Ele é um meio ou um fim para realização da vida social? Afirma-se que o Estado é o fim do ser humano. como um fim. ressaltamos a importância de compreensão do Estado para se teorizar em torno do fenômeno da política. o Estado é a instância máxima de realização das ações e das mobilizações. . é o interlocutor para o qual lançamos nossas propostas e desafios de transformação. Darcy Azambuja fala que alguns pensadores da política consideram o Estado em si mesmo. o Estado visa a alcançar o bem público. Em todos os casos. e este é um meio de que serve para realização das suas ações. O que vai sofrer variação é a competência do Estado. o Estado assume certos serviços. O fim do Estado é o objetivo que ele visa a atingir quando exerce o poder. Embora possua fins. Mas tanto ampliando. Desta forma. observa-se sua competência para não perder de vista o seu grande objetivo. como o ideal e a síntese de todas as aspirações do homem e das forças sociais. Como já falamos.

Rio de Janeiro: Elsevier. um patrimônio comum. coordenação de atividades particulares e públicas tendo em vista a satisfação harmoniosa dos membros da comunidade.66 Ciência Política O tão idealizado bem público pode ser entendido como um conjunto de meios de aperfeiçoamento que a sociedade politicamente organizada tem por fim oferecer aos homens. Teoria do Estado. consolidação e proteção dos quadros naturais que regem o esforço do individuo. o progresso. Rio de Janeiro: Globo. moralidade e segurança. Darcy. . um reservatório da comunidade. BOBBIO. o bem-estar social. Norberto. É um trabalho rigoroso extremamente ilustrativo. enfim. 2000. Atingindo seu sentido último. como a família. tais como: ambiente de paz. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR AZAMBUJA. Teoria Geral da Política. Desse modo o Estado exerce suas verdadeiras potencialidades. 1985. A obra do professor Darcy Azambuja detém aspectos muito específicos ao Estado. Dois grandes manuais para compreensão da política. a corporação profissional.

A lista de Schindler19 e Caçada ao Outubro Vermelho20. O intuito diz respeito ao exercício do poder. A regulação dos membros da . Chamamos de governo o sistema político adotado em prol da organização do Estado. Nesta ele reúne temas abordados e discutidos. Alguns até bem mais amadurecidos desde a época em que os discutiu durante suas aulas e conferências.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 67 A segunda Obra do pensador Norberto Bobbio é mais sistemática e com conceitos que são identificados em outras obras. Como sugestão assista aos filmes A Outra18. 18 Título original: The Other Boleyn Girl Direção: Justin Chadwick Ano: 2008 Gênero: Drama Duração: 115 min 19 Título original: Schindler´s List Direção: Steven Spielberg Ano: 1993 Gênero: Drama / Guerra Duração: 197 min 20 Título original: The Hunt For Red October Direção: John McTiernan Ano: 1990 Gênero: Aventura Duração: 135 min 2. PARA REFLETIR Aprofunde a pesquisa acerca das distinções entre Estado e Governo. explorando sua teoria e suas teses acerca da verdadeira origem dessa instituição moderna deteremo-nos agora numa visualização das formas de governo. Discuta as principais questões no encontro de tutoria e associe as ideias despertadas pelos filmes à teoria estudada. mas que fazem parte dos seus elementos de análise.3 As Formas de Governo A partir das compreensões que acumulamos ao tratar da questão do Estado. Procure filmes que ilustrem formas de governo e formas de Estado. No capítulo anterior fizemos uma breve distinção acerca da diferença que torna específica a ideia de Estado em relação à de governo.

conforme uma base de cunho moral. por isso não devemos confundir também forma de governo com sistema de governo. pois alguns estariam mais propensos à perfeição e outros. oligarquia e • . Neste sentido sempre se mantém uma certa cautela para com o assunto. centrais e insulares. quanto à situação do território. eles podem ser divididos em marítimos. aristocracia e democracia. A mais antiga definição das formas de governo é a de Aristóteles que as classifica duplamente. Por exemplo. As formas de governo revelam nuances e interesses sociais que se transformam e transmutam. Estados negros. Cada sociedade é única e as formas de governo acompanham essa raridade. as impuras: demagogia. Podemos falar em Estados brancos. Desse fato se depreende a dificuldade de estabelecer categorizações e definições conceituais definitivas. A partir dessas peculiaridades é que atentamos para as formas de governo. ou ainda. que possui arestas objetivas. Estados latinos. Esta possui um caráter subjetivo que individualiza uma administração.68 Ciência Política sociedade e daqueles que observam a execução das diretrizes revela as preocupações inerentes às formas de governo. a tirania. há tantas formas de governo quanto distintas sociedades. Afinal. explicitamente postas na sua representação. As classificações os agrupam pela peculiaridade dos caracteres. mais distantes: • as puras: monarquia. são classificados em populosos e de pouca população. Quanto à população. Como existem vários aspectos com os quais o Estado se apresenta. Estados amarelos. etc.

a monarquia limitada é a parlamentar modernamente tomada como parâmetro para a ideia de monarquia constitucional. A monarquia que figura como a forma mais tradicional de governo é aquela em que o poder está nas mãos de um indivíduo. indicando nisto um virtuosismo. Nesta. de uma pessoa física e que não possui qualquer dependência a outra vontade a não ser desta. As monarquias absolutas. No decorrer da história vimos monarquias absolutas sendo substituídas por monarquias parlamentares em que o rei convive com um executivo organizado. manifesta-se como uma experiência fundamental. chineses. Tais formas de governo cumprem funções limitadas. Apenas na Renascença com Maquiavel é que vamos ter os primeiros brotos para uma análise da monarquia por um novo olhar. Caracteriza em especial a experiência dos antigos que assumiam sua existência e permanência como natural aos grupos humanos.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 69 Desde a antiguidade se discute qual seria a melhor forma de governo. entre outros. os súditos são tratados como escravos. existiu em povos da antiguidade oriental. org/wiki/Despotismo . Em relação à República podemos ressaltar que desde que foi constituída institucionalmente pelos romanos. hereditária e responsável. No caso inglês. pelas quais se pretende associar a vontade do monarca com a vontade da população. Existindo em Roma com os Cezares. persas.wikipedia. É o Estado dirigido por uma vontade física. A monarquia predomina até os dias atuais porque sempre inspirou a imagem de uma unidade. Fonte: http://pt. que se faz também vitalícia. O monarca é alguém preparado desde cedo para as funções de mando. cada vez mais raras nos tempos atuais. não dependendo de acordos ou partidos. Modernamente observamos a predominância de estruturas monárquicas e republicanas mantidas como expressão de poder e como parâmetro para a construção do Estado. Consideradas pelos gregos como despóticas21. Estabelece as dimensões da “coisa 21 O Despotismo é uma forma de governo em que o poder se encontra nas mãos de apenas um governante.

Monarquias eletivas e hereditárias. prevalece a eleição que se estende a todos os cidadãos. as instâncias de poder são mantidas por uma classe nobre ou privilegiada. Tais requisitos a tornam uma forma de governo moldada ao ser humano moderno. para tratar da ordem política. Não nasce de uma alegação partidária. pela variedade de formas e condições nas quais se estabelecem essas formas de governo diversos autores citam que não há uma definição acabada cuja compreensão e extensão revelem de forma completa tais perspectivas. Executivo e Judiciário. naturalmente. mas de algo que se consolida na consciência do mundo ocidental. define a república a partir dos três poderes constitucionais: Legislativo. Ainda que tantas características possam ser ressaltadas. conforme destacam alguns autores. Nas repúblicas democráticas. por exemplo. A função do governo não é visualizada de forma vitalícia. sem exclusão de classes. refletida e ajustada. secularizando a vida política e direcionando-a ao estabelecimento de um governo limitado.70 Ciência Política pública”. dentre eles Montesquieu. na política atual a tendência natural dos governos de se tornarem governos de direito. mas como um cargo eletivo e temporário. Dentro da variedade são destacadas algumas espécies de monarquia e de república. levando-se em consideração exigências legais. Rui Barbosa (1849-1923). consolidando-se pela ordem e normalidade na vida jurídica e política. Embora seja usada como um conceito genérico. Estabelece-se a partir de uma sociedade que se vê de forma laica. sofrendo a inspiração dos constitucionalistas americanos. Acentuando um forte sentimento de vida coletiva objetivamente estabelecida. monarquias absolutas e constitucionais. Nas repúblicas aristocráticas. Observa-se. pela busca de um governo popular. As repúblicas sofrem a variação em ser aristocráticas ou democráticas. .

e o Judiciário. e é independe dos demais Estados. o Estado e o governo. a soberania que as formas de governo inspiram. A tese principal é que . pensando o verdadeiro direito como o direito divino. como os Estados-membros de um Estado federal. à peculiaridade do poder. A ideia de soberania refere-se não somente ao poder. Assim. Na era cristã esse poder só poderia espelhar senão a condição de proximidade à divindade. As teorias do direito se constituíram nesse período.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 71 A república é uma forma de governo. O poder de um Estado possui um caráter forte e supremo sobre as pessoas e as sociedades às quais está ligado. de caráter representativo. O Legislativo e o Executivo são eleitos pelo povo. A soberania repercute principalmente na construção de um poder que distingue alguns indivíduos dos outros. que varia no tempo e no espaço em vista dos elementos que foram apresentados. Tal noção possui um conceito amplo. Quando pensamos em sabedoria lembramos do caráter divino que este termo ainda resguarda. ou seja. mas a uma qualidade deste. O soberano parece ter um poder que o eleva perante os demais. como um semi-deus. que se encontra manifesto num Estado a partir de uma forma de governo chamamos Soberania. Todavia. Tais definições nos conduzem a pensar a questão do poder e a autoridade exercida pelo governante. A soberania inspira uma autonomia absoluta. Analisaremos aqui sua extensão pelo fato de ser a característica essencial do poder de Estado. alguns Estados podem não ser soberanos. por parlamentares ou nomeado pelo presidente da república.

Assim. Distingue a soberania nacional da soberania do Estado. o poder político advém de Deus. as teorias do direito divino sobrenatural e teorias do direito divino providencial. a consciência e a opinião pública. gerando abstrações acerca das relações políticas. ao se valer da consciência nacional. A soberania se constitui pelo uso desse poder para promoção da vontade do criador. . do que uma efetividade prática. Na modernidade. advinda das formas de governo. algumas considerações contrárias são apresentadas para demonstrar como este conceito tem muito mais uma função teórica. Sendo o criador do Estado. deve ser entendida enquanto uma vontade que se determina por si mesma. das facilidades buscadas pelos indivíduos. a soberania das formas de governo está expressa em dois âmbitos distintos. determinando através desse recurso a vontade. A soberania. Embora se pense a soberania como algo inerente a estes dois setores. habitualmente. O principal autor citado por Azambuja é Duguit (1859-1928).72 Ciência Política todo o poder vem de Deus. Revela que a soberania nacional que é a vontade superior que a nação retém diferencia-se da vontade dos indivíduos que a formam. Dois grupos dividem espaço para defesa da tese divina. sem depender de força exterior a ela. enquanto corpo político e o Estado. Pois os governantes ao buscarem se manter no poder se valem do comodismo. Tais teses se assemelham na consideração de que Deus é a primeira causa e que a ordem divina deve servir de modelo para a ordem natural e social. valem-se de processos de manipulação para que interesses outros prevaleçam. enquanto instância de poder. vontade nacional ou opinião nacional. a nação. que aprofundou esse problema desenvolvendo análises e estudos mais complexos.

mexendo com a personalidade humana. Exemplo disso é a Igreja Católica quando trata dos assuntos espirituais. O Estado alcança soberania por estar ligado às outras associações. também toda a sociedade através dos seus domínios próprios. Começa com a distinção entre soberania e poder do Estado. A negação da personalidade da nação se estende ao Estado. não se restringe a uma posse específica. Conclui-se então. com o destino da sociedade. As diversas reivindicações apontam para essa condição. Duguit nega a soberania através da negação à personalidade da nação e do Estado. Enquanto qualidade do poder. Ela não tem vontade. que a nação não pode ser a dona da soberania. não soluciona. pouco vive os problemas da realidade e os que vive. Constitui uma qualidade definida pelo Estado a partir de um determinado domínio. Pensa-se que a força representa o elemento essencial pelo qual . Além do que a teoria é necessária para que reconheçam os limites. Os pensamentos se distinguem sempre e as exceções só se desfazem por força da ideologia. A crítica à perspectiva teórica com a qual a soberania é concebida não diminui em nenhum momento o esforço de cientistas políticos e pensadores da teoria do Estado. Por essa razão. Para este autor a soberania não é propriamente um poder. Assim como o Estado a possui.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 73 Dugit enfatiza que por não atingirem uma ideia em comum não é possível criar uma vontade nacional. direitos e deveres de cada um. Azambuja (1985) considera que mesmo que as teorias construam certos ideais abstratos. Bigne Villeneuve constrói uma concepção realista da soberania ao procurar identificar os elementos fundamentais do Estado. apenas as pessoas na concretude do seu cotidiano possuem vontade. Este também não é soberano. o Estado e o poder permanecem. e porque os seus objetivos são os interesses gerais dessas associações e dos indivíduos.

uma afirmação não pode deixar de ser pronunciada. Enriquecido por diversas referências que faz a pensadores e escolas de pensamento. em função da sua representatividade. A condição política pós-moderna. Agnes. 1998. . O que intensifica mais o seu texto. Nelson. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR SALDANHA. 1987. O Estado faz a união destes elementos e se concretiza na pessoa do governante. FEHER. Pequeno dicionário de teoria do direito e filosofia política. Essa condição lhe dá realidade e concretude para realização do bem púlico. O professor Nelson Saldanha seleciona conceitos bem significativos para o estudo da política e do direito e os reúne para realçar os traços que identificam tais disciplinas. Agnes Heller é uma pensadora atenta e minuciosa que escreve acerca da contemporaneidade destacando o fenômeno da Pós-modernidade. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editora. Sendo a nação o elemento humano do Estado o poder político é conjugado ajustando seu exercício entre o povo e a nação. São Paulo: Civilização Brasileira.74 Ciência Política se estabelece a tutela da sociedade. a de que o Estado é o órgão jurídico da nação. A partir da reflexão acerca das formas de governo e das condições do exercício da soberania. Possui uma escrita de fácil entendimento sem desmerecer em nenhum momento a complexidade das questões que trata. Ferenc. HELLER.

Os estudos acerca do fenômeno da representação mapeiam as diversas mudanças ocorridas nos últimos tempos e que nos levam a um questionamento mais profundo acerca da forma de governo que temos adotado para estruturação do Estado. Distribua a pesquisa por cinco países de cada continente e fale acerca das suas peculiaridades de governo.4 O Sistema Representativo Depois de estudar as formas de governo e o caráter da sua soberania nos deteremos na questão da representatividade para compreendermos como alguém ou alguma instituição pode adquirir legitimidade e decidir em nosso nome. E também do indivíduo para com o Estado. Quando falamos em representação diversas ideias se apresentam à nossa imaginação. . Polemiza-se até o fim da representação pela inserção cada vez mais intensificada dos diversos estratos sociais no processo de construção da política. Tratar da representação implica buscar elementos de cunho teórico e prático.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 75 PARA REFLETIR Pesquise na Internet buscando países distantes e identificando sua forma de governo. 2. Mas nos deteremos na representação política e suas implicações para estruturação das relações sociais do indivíduo para com seus políticos. Perceber nas relações entre as pessoas e seus candidatos o elemento chave para construção de uma identificação. Compartilhe seus achados com seus colegas através do Ava.

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A representação, no sentido de representação política inerente ao Estado moderno, é reivindicada especialmente com a universalização do sufrágio. Representar é uma ação que se aplica a um universo vasto e variado. Invoca-se uma multiplicidade de significados que se estendem desde a esfera do direito até a esfera da política. Compreende substituir, agir em nome de alguém, evocar alguém ou alguma coisa. Representar é possuir algumas características que reportam aos indivíduos representados, promovendo uma espécie de espelhamento. É uma ação reveladora daquilo que há de próprio e característico a um determinado grupo. O sentido desta ação está na possibilidade de controlar o poder atribuído a quem não pode exercê-lo. Através da representação pode ser satisfeita essa exigência fundamental do indivíduo para com o poder. Norberto Bobbio (2000, p. 1102) considera que ela se estabelece como um mecanismo político particular para identificação, de controle entre governados e governantes. Quando este autor trata do regime representativo em seu Dicionário de Política, apela para três modelos interpretativos, conforme podemos observar no seguinte esquema. • A representação como relação da delegação Considera o representante como o executor privado, exercendo seu papel com autonomia em vista dos seus representados. É como um embaixador. Condição encontrada nas organizações ou comunidades internacionais. • A representação como relação de confiança Atribui ao representante autonomia, mas levando em maior conta o interesse dos representados. Burke fala desse modelo descrevendo

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o representante como alguém que trabalha com razão e juízo. Este se eleva a alguém que não age a partir do querer, ou dos preconceitos. Entende e empreende a conquista do bem comum. • A representação como “espelho” ou representatividade sociológica É centrada no efeito do conjunto muito mais que sobre o papel de cada representante, diferentemente dos dois primeiros modelos já citados. O organismo representativo ilustra-se como um microcosmo, refletindo o resto do corpo político.

Tradicionalmente pensamos a representação encarnada pelo modelo do fiduciário, ou seja, presa à transmissão de algo esperado, advindo da confiança depositada. Daí perceber o vínculo do representante ao colégio eleitoral, e ao interesse geral, manifesto pela sua função.

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Cabe-lhe superar a fragmentação dos interesses particulares que brotam das diversas expectativas e assumir a nação como indicativo maior, ponto nuclear da representação. Pois a não correspondência às expectativas molda-se como problema que o conduz à perda de sentido da sua própria condição. Por isso deve-se estabelecer com clareza, em meio à variedade dos interesses, os critérios da representação. Não podemos perder de vista que a representação política também é uma representação de interesses, prevalecendo os interesses gerais. Mas pode ser também a representação dos interesses de um grupo. No fundo, a representação política sempre se volta para interesses distintos e que configuram os ideais dos grupos participantes do corpo social. Assim a representação desdobra-se entre os interesses gerais e parciais. Dentro desta lógica encontra-se a problemática da representação quando o representante percebe a distinção que o comporta na esfera do partido e na esfera do eleitorado. Critica-se que o mandato livre perdeu sua eficácia pelos interesses particulares cada vez mais contundentes, preocupado com o maior ou o menor número de votos. Conduzindo-nos a rever as condições nas quais os dois, representantes e partidos, encontram-se na trama da representação. Dizemos que representantes são os mandatários livres dos eleitores. Enquanto partidos são os mandantes imperativos que distribuem instruções acerca de uma determinada política a ser encabeçada. Neste universo os partidos assumem a condição pejorativa enquanto representação dos interesses. O que alguns autores chamam de lógica da Partidocracia. Fazendo emergir a soberania dos partidos sobre a realidade dos fatos. Dentro desta perspectiva, as massas representam apenas o sufrágio universal. Diluindo-se nos

Para Burke.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 79 interesses particulares manifestos com o verniz de gerais. retido no seu voto. o partido é conjunto de pessoas para a promoção. pois estão condicionados pelas escolhas dos eleitores. O poder deste deve encontrar lugar maior de agregação para que prevaleça o poder de decisão em relação a eleitores e a eleitos. do que a significação positiva ou a aceitação da palavra partido político. Sell ressalta que somente a partir de Edmund Burke (1729-1797) que partido político se torna uma palavra com a conotação positiva e diferente da palavra facção. os autores descrevem que o proletariado passa por diferentes fases do desenvolvimento: negação do capitalismo. defesa de seus salários mais justos. Neste momento para Marx e Engels surge a . e assim surgem os partidos. mas este sentido ainda não lhe dá respaldo. A massa não possuiria verdadeira atuação para eleição da representatividade. No manifesto comunista de Karl Marx e Friedrich Engels. e finalmente a luta social centralizada no mesmo caráter político. interesses se tornam mais importantes em nível cultural. esforço conjunto e interesse nacional com base num princípio de comum acordo A sua função é representar o pluralismo dos diversos grupos. e o surgimento da sindicalização. se torna essencial para uma democracia e seu funcionamento. Mas mesmo com essa lógica perversa. os partidos não alçam a condição de soberanos absolutos. Em última instância o soberano é o cidadão ainda que com um poder fracionado. E na medida em que esta diversidade passa a ser normal. Vistos num dado momento como facções. as decisões seriam a sobreposição dos interesses dos grupos mais organizados. ideias. os partidos políticos se derivam em interesses e paixões.

passa a constituir um todo monolítico. Abstraindo a identidade que prevalece entre governantes e governados através de uma só vontade. Objeto analisado de forma recorrente pelos cientistas políticos através da doutrina da “identidade”. Desfaz-se a contradição e o contraste como expressão de rivalidade. e o nível de representatividade que advém dessa relação. fora de quaisquer condicionantes tradicionais. tanto na titularidade como no exercício. e sua principal função era a hegemonia do seu conjunto de ideias pensadas para uma sociedade. seu moderno príncipe poderia ser um indivíduo concreto. um organismo ou partido político. Desse modo a soberania popular.80 Ciência Política principal função do partido político que é a unificação de operários de diversas subclasses sociais e que constantemente concorrem entre si. Tais pressupostos levam em consideração o descrédito da doutrina da soberania nacional. canalizada e comunicada oficialmente à . Revela um ideário novo da participação aberta de todos. pois pulverização e diluição da vontade popular. Adaptar estas ideias para a realidade ocidental foi trabalho do teórico italiano Antonio Gramsci que em seus “Cadernos do cárcere” compara o partido político a uma nova visão maquiavélica. que buscaram manter ao máximo os princípios democráticos. Preservando os interesses comuns como elemento de superação entre sujeitos distintos. Mantém-se a clareza de que todas as variações do sistema representativo resumem-se num apanhado de doutrinas. A tarefa do partido político para Lênin (1870-1924) era a de despertar a consciência de classes e liderar a revolução socialista. Desta forma. Estas teorias servem para compreender os vínculos entre partidos e grupos sociais. Problemas diversos se agregam a esta perspectiva.

A primeira obra é uma introdução ao pensamento de Hannah Arendt. Erigindo poderes de representatividade para seus proclamadores. importante pensadora do século XX. Max. Darcy Azambuja assume a problemática observando que embora a doutrina da identidade não se concilie com a doutrina da soberania nacional. Harmoniza-se de modo admirável com a doutrina da soberania popular. a unificação das aposicionalidades. e estes. 2004. O que nos conduz a rever os elementos históricos que fazem do cenário contemporâneo um lugar em que a aspiração pela representatividade nos lança a buscar uma vontade una e soberana do povo. São Pulo: Cultrix. . INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR WAGNER.Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 81 sociedade através de grupos de pressão. 2007 WEBER. a condição dos regimes totalitários na sociedade atual. se alienando na lógica das instituições. Desvirtuando o verdadeiro sentido que cabe ao processo de manifestação da política. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo: Atelie Editorial . Fonte das ideais de representação e representatividade. Hannah Arendt: ética e política. Eugenia Sales. Com índole e inspiração totalmente popular e que não se decomponha na vontade antagônica e disputante de partidos políticos e grupos de pressão. a partir dessa experiência. que vivenciou a intolerância do nazismo e que discute.

PARA REFLETIR Procurar dados biográficos de um político e procurar seus projetos para identificar o quanto ele conseguiu desenvolver suas propostas e ideias. Esta ciência detém-se no estudo de fenômenos sociais como organizações. Possuindo especificidades que acompanham o conhecimento ao buscar entender as microestruturas e a formação dos partidos políticos. Dois elementos são destacados para assentar as bases da sua pesquisa. no AVA. RESUMO A Ciência Política é inseparável de mais duas outras ciências: a sociologia e a antropologia. demonstrando os limites e os pontos em comum que norteiam tais áreas. Mas toda e qualquer instituição pode ser objeto de análise desta ciência. nos processos políticos e nos sistemas que são gerados dentro das relações de poder. Os termos com os quais lida sempre tentam dar conta dessa realidade . Apresentá-lo como exemplar. o fenômeno do Estado e o fenômeno do poder. As três caracterizam as Ciências Sociais em vista de abranger a integralidade do fenômeno social. se for o caso.82 Ciência Política A segunda obra é um precioso escrito de Max Weber em que discute caraterísticas do pensamento ciêntífico em contraposição ao pensamento político.

Tema 2 | A ciência política enquanto ciência social 83 tão inconstante. Apenas ao Estado é atribuída essa condição. e o Judiciário. Por isso é sempre importante. A primeira figura como a forma mais tradicional de governo é aquela em que o poder está nas mãos de um indivíduo. tratamos da soberania nacional que é a vontade superior que a nação retém distinguindo-se da vontade dos indivíduos que a formam. . Mas todas apontam para a necessidade de se estabelecer. Caracteriza em especial a experiência dos antigos que assumiam sua existência e permanência como natural aos grupos humanos. soberania e uso da força violenta. no estudo da política. assim como de repúblicas. Tal estudo dirige-se também ao governo e suas possibilidades. a soberania. Daí o interesse em desdobrarmos as formas de governo. O Legislativo e o Executivo são eleitos pelo povo. A república é uma forma de governo. compreender a abrangência das suas definições conceituais. Várias formas de monarquia se desdobraram durante a história. Sendo o Estado um dos pontos principais para o qual se volta a política. Ainda que interligue-se a outras ciências como o direito e a filosofia. este se firma como a unidade política por excelência. dentro das preocupações com a melhor e eficaz forma de se conduzir a ordem comum. Implicando em questões como territórialidade. através da sua particularidade. E este como um conjunto muito particular de pessoas. Desse modo. de caráter representativo. por parlamentares ou nomeado pelo presidente da república. O governo dirige-se ao modo como o Estado está organizado. Dentre estas destacam-se especialmente a monarquia e a república. que em num determinado tempo ocupam posição política de autoridade dentro do Estado.

o partido é conjunto de pessoas para a promoção. Perceber nas relações entre as pessoas e seus candidatos o elemento chave para construção de uma identificação. por confiança. Neste sentido.84 Ciência Política A Democracia representativa na qual estamos envolvidos revela uma peculiaridade quanto à forma com a qual nos deixamos governar. ideias. que pode ser oferecida por delegação. Mas a representação política possui algumas implicações que não podemos deixar de levar em consideração para entender as relações sociais do indivíduo para com seus políticos. esforço conjunto e interesse nacional com base num princípio de comum acordo. Para Burke. E na medida em que esta diversidade passa a ser normal. . ou por espelhamento. se torna essencial para uma democracia e seu funcionamento. sua função é representar o pluralismo dos diversos grupos. e também do indivíduo para com o Estado. interesses.

TEMAS E PENSADORES DA POLÍTICA Parte 2 .

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Locke e Rousseau. Não envelhecem. Chamamos de clássicos aquelas leituras de formação pelas quais um conhecedor de determinada área. Hobbes. irá fazer referência. “clássicos da modernidade”: Maquiavel. E a cada nova descoberta um novo aprofundamento. tocando em temas e questões que repercutem até os dias atuais. diz que toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira. não são esquecidos. . Ítalo Calvino (1923-1985).3 Pensadores da Política A leitura dos clássicos da política se impõe como uma forma de abranger as bases nas quais se consolidou o pensamento moderno. refeitos através dos sentidos expostos nas interpretações que se sucederam até o momento atual. Somos remetidos a uma árvore genealógica. ao deter-se sobre o tema. não caducam em vista das necessidades dos nossos dias. Cujas teorias permanecem como fundamentais para a compreensão do tema da política. inevitavelmente. Atribuímos a estes uma riqueza muito peculiar porque compõem a base da nossa tradição. Com os clássicos da política identificaremos os principais pensadores. A partir deles encontramos as análises que precederam a nossa e os vestígios de uma cultura.

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3.1 Maquiavel: A Política Moderna
Aspectos biográficos Nicolau Maquiavel (1469 - 1527) é um dos principais escritores do pensamento moderno. Nasceu em Florença, na Itália. Desde pequeno conviveu com os livros e, aos treze anos, dizem os biógrafos, já redigia em latim. Na idade adulta exerceu funções ligadas à diplomacia durante sua carreira pública, manifestando verdadeira vocação. Mas foi também preso e torturado quando seus contrapositores estiveram no poder. Por muito tempo ficou num exílio, esquecido por todos que leram suas obras. Pela afinidade com o regime republicano deposto naquela época, foi desprezado pelos Medici, grupo familiar majoritário politicamente, destacando-se apenas pela sua atividade literária. Elaborou uma nova compreensão da questão política, tornando-se um divisor de águas entre o pensamento medieval e este, inaugurado a partir das suas considerações. Desvincula completamente as ações políticas das imposições religiosas, reinterpretando o verdadeiro significado do “bem” e do “mal” em vista da especificidade desta área. Ao despertar esta nova percepção contribui significativamente para a posteridade, tornando-se marco para a história do pensamento moderno. Foi um grande pesquisador do comportamento e das estruturas de poder, possuindo uma capacidade singular de associar situações da sua época a acontecimentos históricos, prevendo certas consequências necessárias através da sua vivência nos bastidores das instituições governamentais. O que lhe ofereceu a possibilidade de observar de forma clara e privilegiada as dicotomias com as quais sua época escolhia algo como elogiável, ou ao contrário, desprezava certas iniciativas.

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Contexto Histórico Encontra-se no período renascentista num momento de transição em que um governo de caráter medieval não consegue dar conta das expectativas da população em geral. No início do século XVI a Itália estava dividida em pequenos principados, que tentam superar a fragmentação do poder. Os governantes eram na sua maioria déspotas que não advinham de uma tradição, mas da usurpação do poder pela força e pelas armas. Grupos mercenários se articulavam, sendo imprescindíveis para aqueles em ascensão. Dessa forma, tanto a conquista quanto a manutenção do poder são reflexos de uma condição instável. Promovia-se a rivalidade que repercutia na instauração de um caos na população. Maquiavel constata que o vazio que se instalava e crescia era fruto da ausência de um poder central. O caminho mais ajustado para resolução desta condição era a reunificação do Estado. Mas, as articulações políticas ensejadas para reaver a unificação não estavam repercutindo. O renascimento é caracterizado por um movimento cultural, mas também um período da história europeia. E enquanto marco da transição do medieval para o moderno, desbrava percepções e posturas que não eram assumidas costumeiramente. Atinge seu esplendor na Itália, instigando pensadores, poetas, pessoas que almejavam a liberdade de pensamento. Há uma gama de transformações que apontam para rupturas. Centralizam-se os ideais humanos, ligados a um fundamento antropocêntrico, moral. Há um retorno ao passado para resgatar um ideal de racionalidade e associálo à capacidade e às conquistas históricas realizadas até o momento. Dessa forma, diversos preceitos religiosos, a própria visão da política ligada à religião e à moral religiosa vai ser abandonada. Maquiavel é verdadeiramente um de porta-voz dessa condição.

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Teoria Geral Maquiavel inaugura uma espécie de realismo político, pelo qual justiça e moral não constituem fatores de restrição à ação política. Suas teses são acompanhadas de uma compreensão de verdade efetiva, que se distingue da verdade metafísica. Através da verdade efetiva é que a busca do pesquisador se orienta pelo que está posto e não pelo que deveria ser. Nela encontra-se um certo pragmatismo que sempre acompanha as análises do autor. Há uma percepção muito bem marcada de que a bondade pode levar um governante à ruína, do mesmo modo que a maldade e a crueldade podem ser fatores definitivos para se ascender ao poder. Deste modo, as conquistas na esfera política devem ser decididas numa dimensão muito específica. Esse tipo de postura legitima as condições modernas de constituição do estudo da política. A antiguidade clássica serve de amparo às reflexões acerca do ser humano, acerca da sua natureza. Lendo os antigos percebe-se que, qualquer que seja a época, os seres humanos mantém os mesmos traços: a covardia, o interesse pelo lucro, a dissimulação, a ingratidão, entre outros. Através do estudo da história se identificam as coincidências e pela similaridade dos fatos algumas soluções são passíveis de aplicação. Principal Obra O Príncipe, que é uma obra publicada postumamente, é destacada na literatura política porque inova quanto ao olhar acerca da realidade política. Esboça diversas situações que nos levam a entender como “os fins justificam os meios”. Seu autor apresenta de forma peculiar os conhecimentos que possuía da política, uma sutil conciliação entre a sabedoria dos antigos e as posturas dos estadistas do seu tempo.

podendo transferi-las ao seu benefício. Ele não espera que a sorte. Embora a obra não tenha gozado de grande reconhecimento durante o período de vida do autor. reflexões e ponderações acerca de situações e ações que envolvem as tramas do poder. porque é aquele que possui a virtú. Todavia a virtude é mais do que simples interesse. a virtude. torna-se posteriormente fonte de elogios ou controvérsias. Por isso analisa os principados com aprofundamento e afinco. destacando aqueles que são mais ou menos passíveis de dominação. Não se prende ao acaso. identificando suas características. . E. lhe agracie.Tema 3 | Pensadores da política 91 Destaca que o objetivo do governo é perpetuar-se no poder. Segundo os comentadores e estudiosos do pensamento de Maquiavel. Ser virtuoso significa direcionar a vontade para um objetivo definido e não se dispersar em possibilidades vagas. mas se este ocorre deve saber usar seu intuito. No decorrer da história os nomes que estiveram ligados a regimes absolutistas e totalitários sempre foram associados às ideias e previsões já lançadas nas suas páginas. por isso. não restringindo os meios necessários para tal feito. Propõe formas de controle e enfatiza as possibilidades de fortalecimento das leis. O livro traz conselhos. Principais Conceitos O príncipe deve ser o sujeito principal no encaminhamento da ação política. conhece as situações. é uma espécie de energia que impulsiona e motiva. a fortuna. ao favor dos seus interesses. o interesse maior da sua obra é a reunificação da Itália. o líder e os seus subordinados. ou seja.

mesmo alcançada uma vitória. Maquiavel afirma que. Ele percebe que. o desafio do governante virtuoso é estabelecer a ordem diante de uma dada realidade. que é sinônimo de sorte e acaso. para simplesmente ajustar as coisas no seu devido lugar. mais vale ser temido. dentre as qualidades inerentes a um governante. porque sempre se calcula o prejuízo ou o benefício que certa fama pode causar. mas tão somente na sua manutenção. atingindo sua estabilidade. para que as condições de manutenção do poder não sejam abaladas. pois a ação política não se esgota na obtenção de um feito. Reivindica aquele Estado capaz de impor a ordem e por isso analisa minuciosamente a realidade corrente. Desse modo.92 Ciência Política A fortuna. ainda que não se fie na sorte. uma delas deve ser a generosidade. Mas com certa ponderação. procurando ver as coisas como são e não como gostaríamos que fossem. O amor oscila conforme as circunstâncias. termina sendo o verdadeiro momento em que a virtude se revela. mas o temor mantém-se. esta não será definitiva. o direcionamento. pela sua aplicabilidade. O interesse do autor é o Estado. ou melhor. ou seja. Entre o amor e o temor dos súditos. mas não como uma idealização que possa prover as condições perfeitas de existência. mas para evitar a barbárie. O momento de êxito só pode ser garantido pela perspicácia do príncipe que se renova a cada novo momento. O governante. destaca-se no mais das vezes o seu interesse pela manutenção do poder enquanto ponto crucial do seu pensamento político. usa-a em favor da sua causa. . Esta é reivindicada não por uma questão de moralidade. o encaminhamento para a obtenção dos objetivos.

) Os Clássicos da política. Nicolau. 1978. fatalidade. Desse modo deve-se ver os seres humanos como sujeitos da história. a partir da virtude de cada um. 2006. Os clássicos da política trazem análises de comentadores de destaque no cenário nacional e revela através destes um novo olhar sobre a obra dos pensadores clássicos.Tema 3 | Pensadores da política 93 Maquiavel revoluciona sua época presa a dogmas que diziam respeito a crenças como predestinação. E que liberdade não corresponde a ter que fazer o bem. Sua contraposição o fez abarcar a ideia de política para demonstrar como esta é um espaço da liberdade. MAQUIAVEL. I . mas sim. O príncipe. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR WEFFORT. (Org. Vol. Direcionamos duas obras que se complementam no seguinte aspecto. o livro de Maquiavel é uma leitura imprescindível com a qual o discente identifica a genialidade e a acuidade de pensamento de um autor preocupado com a política como algo de extrema importância para seu tempo. São Paulo: Abril Cultural. Os artigos escritos possuem uma leveza de linguagem que se associa ao rigor da leitura interpretativa de forma harmônica. o que for necessário. Francisco. São Paulo: Ática. afastando-se das ideias que pregavam um destino. .

Procure frases de entrevistas. sendo a primeira os Devonshire. o que repercutiu na publicação de suas obras políticas.1679). Morou por um bom tempo em Paris aproximando-se de um intelectual que sempre exerceu .2 Hobbes: O Leviatã Aspectos Biográficos Thomas Hobbes (1588 . com os quais manteve relações de forte amizade e companheirismo. conheceu o pensador Galileu. Esteve em várias rodas de intelectuais de sua época. formou-se na Universidade de Oxford. E os Cavendish. Embora tenha tido uma educação presa aos princípios da Escolástica: metafísica e lógica. Inglaterra. Qual foi a ideia que prevaleceu na referência feita a este autor? 3. com os quais também manteve laços duradouros. entre outros. Filho de um vigário anglicano. Também ensinou ao princípe de Gales.94 Ciência Política PARA REFLETIR Pesquise na internet a opinião dos políticos sobre a doutrina de pensamento de Maquiavel. discursos em que a referência a este autor seja feita e busque entender o que se pretendeu atingir ao usar Maquiavel como referência. futuro rei Carlos II da Inglaterra. Tornou-se preceptor de famílias de prestígio. interessou-se sempre por questões de ordem social. nasceu em Westport. chegando a viajar com seu aluno para a França e Itália. René Descartes. pronunciamentos. Viveu uma época de grandes guerras e conflitos. Francis Bacon. acompanhando o governo dos Stuart.

Conforme as mudanças políticas. publicando traduções de “A IIíada” e a “Odisseia”. Para ele o Estado não é criação da vontade de Deus. que serviram de suporte . dedicando-se. Vivenciou grande parte da revolução puritana e da república dos Cromwell. resistindo considerações em torno da submissão do Estado à autoridade da Igreja. Manteve politicamente convicções de cunho monarquistas e as imprimiu na elaboração das suas obras. Morreu em Hardwick. entre outros conhecimentos.o padre Mersenne. é um artifício e deve ser tratado como tal. que o instigou para a matemática e seus desdobramentos. Contexto Histórico No século XVII consolidam-se algumas percepções e posturas em relação à ciência e sua permanência na vida das pessoas de um modo geral. Mas ainda repercutem fortes exigências religiosas. ao estudo do direito e à inserção deste na vida social do cidadão. Inusitadamente seus últimos anos de vida foram marcados por um retorno aos clássicos da sua tenra juventude.Tema 3 | Pensadores da política 95 forte influência sobre suas reflexões. Esteve sob o olhar severo das autoridades que o acompanhavam ao longe por suspeitas dos seus ataques sobre o poder do papado. que consideravam ultrapassado. É um dos pensadores do século XVII ligado ao jus-naturalismo. Enfrentou as críticas da Universidade de Oxford ao seu pensamento. em vista do impacto que sua principal obra “Leviatã” resguardou durante toda uma história. Hobbes pensa o contrário e não mede esforços para demonstrar a verdade na qual amparava seu pensamento. foi obrigado a nunca mais escrever acerca da condição humana.

Apenas em 1660. em função do surgimento do Estado. mandando assassinar o rei Carlos I. é que se reivindica a necessidade de um contrato entre todos os indivíduos. dos sentimentos. que pretende perceber a sociedade através do mecanicismo. Daí o caráter do seu racionalismo. Detém-se por diversas vezes em considerações acerca da fisiologia e da ação de certos órgãos para explicar a origem do conhecimento. o que resultou numa guerra civil que durou seis anos. através das leis mecânicas da natureza.96 Ciência Política para construção das suas reflexões e análises da realidade. Hobbes elabora uma filosofia materialista e mecanicista. Buscando compreender a realidade social e política através da natureza humana e das possibilidades de construção de um direito que possa dar conta das verdadeiras necessidades sociais. Em 1649 Oliver Cromwell dá um golpe de Estado e desfaz o parlamento. Partindo do pressuposto de que os seres humanos não possuem um instinto de sociabilidade. . senão por acidente. Acompanhou os embates do parlamento inglês na disputa com o rei. Sendo adepto do Empirismo. seu discípulo. Teoria Geral Sua teoria procura centrar-se numa visão realista da vida. que também são reveladoras das peculiaridades da natureza do ser humano. a monarquia é restaurada com Carlos II. de que não somos sociáveis por natureza. O seu realismo lhe rende a fama de ateu e diversas interpretações distorcidas dos seus verdadeiros interesses. insistindo em pensar o ser humano sem as ilusões habituais que lhe agregam. por artifício. ou seja.

Eis o Leviatã. não parte de uma situação real concreta. ou seja. E o segundo momento que se estabelece com o Estado Político. estabelecendo a melhor forma com a qual o Estado pode se manter absoluto e firme diante das adversidades. as leis e a concórdia são a saúde. na qual lança as bases de compreensão da formação da sociedade civil. A ideia principal é de que a humanidade estaria dividida em dois momentos. E nela identifica-se uma preocupação em analisar a essência do Estado civil. intuindo metáforas para que a mesma realidade possa ser compreensível. a morte. A obra está dividida em três capítulos: a natureza. a sedição é a doença e a guerra civil. A metáfora do corpo serve-lhe de auxílio para identificar funções e características inerentes aos órgãos. os magistrados são os nervos. os indivíduos prósperos são a força. o que garante a todos as mesmas condições de conservação e manutenção dos interesses pessoais. os conselheiros são a memória. A soberania é a alma. . sua natureza. o Estado. um primeiro que seria o estado natural. Principal Obra Sua obra principal é o Leviatã. o grande monstro anunciado no livro da bíblia que serve de metáfora para se entender a sociedade organizada através do contrato social. o homem. influenciando posteriormente diversos outros autores. em que o poder real de cada indivíduo demarca seu espaço e suas possibilidades. às instituições que compõem a estrutura do Estado. Hobbes é o teórico que através da suas considerações engendra a teoria segundo a qual o Estado originou-se do contrato. mas de uma apurada racionalização acerca da realidade.Tema 3 | Pensadores da política 97 A tese que defende é uma construção hipotética. em que cada qual passa a gozar da mesma medida de poder e de força.

A igualdade é que faz a nossa infelicidade porque repercute como igualdade para a guerra. A força é saudada como necessária à autoconservação de cada um dentro das suas necessidades. Neles há uma lógica pura e corretamente racional. onde tudo seria de todos e por isso não existiria a propriedade. De um modo geral as pessoas estariam procurando a sujeição do outro e em última instância. o que pareceria positivo. o autor não se pouca em caracterizações de termos e definições minuciosas. pois as pessoas conviveriam sem a autoridade. Para que dessa forma se compreenda também o fim para o qual o Estado foi criado. No caso da política. nas predisposições egoístas que mantemos em função da nossa própria preservação. Somos iguais na nossa capacidade de ultrapassar o outro.98 Ciência Política Todo o texto lança a exigência de se conhecer de forma direta o gênero humano. conforme foi exposto na compreensão do Estado como um corpo em funcionamento. Principais Conceitos A constatação mais definitiva que este autor possui é a de que em Estado de Natureza todos os seres humanos são inimigos. Mas nesta esfera não vale apenas ter maior força física. as alianças e os conchavos fazem com que um indivíduo fraco . Assim. Frase célebre que nos impulsiona para sua teoria imediatamente. repercute de outro modo a partir dessa compreensão de natureza humana. pois a astúcia tem grande valia para as situações de risco. Assim. “o homem é o lobo do próprio homem”. Essa condição tem como consequência a infelicidade generalizada. Os seres humanos em estado natural são iguais. A guerra de todos contra todos. sua morte.

Ainda que a soberania constitua uma forma de poder absoluto suas diretrizes apontam para uma origem natural e não sobrenatural como se justificou durante toda a idade média o privilégio do poder dos reis. Hobbes pensa a soberania como um elemento primordial para a construção do Estado. A segurança e a paz só são estabelecidas diante da renúncia do direito que todos possuem sobre todas as coisas. O que obriga as pessoas a compactuarem e a legitimar a autoridade política do contrato social é. Através dos seus escritos o pensador irá identificar o devido lugar para cada coisa. O pacto é a alienação de poderes. afastando-nos daquilo que contraria essa condição. Um termo significativo para ele é o de Conatus. presente nas ações que nos impulsionam à segurança. cada qual deixando de ser um obstáculo para o outro para que todos possam manter intacta a sua autopreservação. que significa uma espécie de instinto de conservação. Neste sentido. o conflito e até as dissonâncias. Por isso o direito também implica na força para exercício do ordenamento. o medo. Tal renúncia é em favor da constituição de um Estado e da liderança soberana de um governo. Há um desdobramento em que a análise do Estado de Natureza nos conduz à compreensão da Natureza do Estado. Diante destas constatações cabe a renúncia mútua da sua condição natural e o encaminhamento para o contrato que se inicia com a promessa do cumprimento por parte de todos. pois apenas um poder soberano seria necessário para evitar a guerra. senão. Para Hobbes. condena a divisão dos poderes. o pacto de renúncia às liberdades individuais é o anúncio da ação que irá compor o contrato social.Tema 3 | Pensadores da política 99 fisicamente possa tornar-se muito forte. . pelo qual o indivíduo delega ao Estado suas predisposições.

prossegue em suas análises decompondo o todo e as partes para identificar a sincronia que os comporta. mantém como objeto de suas pesquisas o Estado. É a concretização de algo que excede a vontade e o poder dos homens de um modo geral e. monopolizando-a por ser o próprio Estado. obrigando-os a tal condição. Ele é um artifício e nesta artificialidade se concentra o grau da sua monstruosidade. um monstro bíblico que pela imponência e força. O Estado surge para afastar o medo e assegurar a autopreservação. por isso. A velocidade e os movimentos inerentes a esta composição. O soberano não tem qualquer compromisso em relação aos seus súditos que o elegeram. E como o homem é este que forma o Estado. encaminha todos para a paz. Tenta conhecer as estruturas e as articulações. Embora Hobbes tenha iniciado a análise da sociedade pelo ser humano. ao contrário.100 Ciência Política Mesmo utilizando metáforas bíblicas na escrita de suas obras. não lhes devendo em absolutamente nada. o que se constrói é um discurso fora da dimensão religiosa. Pois o soberano é absoluto. estando acima dos interesses de cada cidadão e por isso podendo garantir a paz. os súditos é que dependem deste para manter-se preservados. . O Estado é o Leviatã. O seu direito corresponde à sua força. Seu direito é proporcional em extensão ao seu poder e à sua vontade. submeteria todos ao seu controle.

RUSSELL. Leviatã. São Paulo: Companhia Editora Nacional. 1978. mas em sua obra as considerações acerca da natureza e do ser humano possuem um brilho notável. Ainda que tenhamos exposto algumas considerações acerca da obra. o Leviatã. Procure fotos dos seus líderes e dos seus símbolos nacionais. São Paulo: Abril Cultural. Mapeie quantos Estados ainda encontram-se sob esse regime e descreva as peculiaridades inerentes aos mesmos. Possui a peculiaridade de ser escrito por um renomado filósofo que ilustra a apresentação dos autores com reflexões muito próprias e de extrema importância. 1997. Apresente os resultados no AVA para que os seus colegas possam ter conhecimento e comparar com os seus achados. História da Filosofia Ocidental. . a leitura é fundamental para a compreensão da origem da sociedade civil.Tema 3 | Pensadores da política 101 INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR HOBBES. Bertrand. A primeira obra é fundamental para o entendimento da teoria de Hobbes. PARA REFLETIR Faça uma pesquisa na Internet sobre Estados Absolutistas. Thomas. Hobbes é um autor da política. A segunda obra é um manual de filosofia escrito por um dos grandes historiadores do pensamento.

Guilherme de Orange. Embora não tenha expressado grande interesse pelas matemáticas e pela ciência de Galileu. mas às ciências naturais. à medicina e à anatomia. Tornou-se deputado no parlamento. com quem dividiu muitas das suas ideias políticas. tornou-se médico de um nobre chamado Ashley Cooper. Por cultivar uma postura política contrária ao governo de Carlos II precisou afastar-se da Inglaterra por um tempo. pesquisador e participou do círculo de intelectuais da sua época. contrapondo-se ao ensino que se praticava ali em torno da filosofia e do privilégio que se estendia a determinados autores. Período de grande produtividade intelectual dedicado . Morou um bom tempo na Holanda participando ativamente de questões políticas que envolviam preparativos para a expedição do rei da Holanda. Membro da Royal Society de Londres.3 Locke: A Propriedade Aspectos Biográficos John Locke (1632-1704) é outro pensador do século XVII. à teologia. nos quais amadureceu suas posturas intelectuais. Inglaterra em uma família de comerciantes. conde de Shaffesbury. Estudou em Oxford e lá permaneceu por mais de trinta anos.102 Ciência Política 3. Nasceu na cidade de Wrington. o que repercutiu na originalidade de suas ideias. Foi secretário de governo. foi premiado com o título de Master of Arts. Viajou pela França e teve oportunidade de entrar em contato com vários outros autores e correntes de pensamento. que lança as bases para o empirismo inglês e procura compreender o problema do surgimento do Estado. vivenciando os dramas e as articulações para obtenção do poder. Dedicou-se não apenas à filosofia. Aliás um século bem expressivo em número de pensadores e teorias.

uma defesa explícita da liberdade individual em diversos setores da vida humana. Abandona-se a figura excêntrica do sábio medieval e instaura-se o cientista e suas metodologias de aproximação da realidade. que procurou a derrubada do governo absolutista que havia sido implantado. assim. Embates entre empiristas e racionalistas fazem inaugurar o método e sua aplicabilidade nas esferas comuns do cotidiano. Outro grande fato presente neste período diz respeito à revolução gloriosa em 1688. colocando em ascensão a política parlamentar. Por muito tempo foi perseguido e vigiado pelas posturas políticas que assumia. Os autores. de um modo geral. assumindo o partidarismo liberal. como a revolução puritana. Tais transformações são acompanhadas de revoluções. Foi a tomada de poder por Guilherme de Orange.Tema 3 | Pensadores da política 103 também aos estudos e aos escritos. Passou seus últimos dias de vida como hóspede no Castelo de Essex. Contexto Histórico A modernidade se autoafirma no século XVII. O liberalismo predominante implantava. Algumas descobertas científicas e o predomínio da racionalidade adentrando as esferas sociais marcam este período. que fez com que o parlamento promulgasse a Carta de Direitos. A burguesia em ascensão liderava as campanhas pela mudança do regime. anunciando uma mudança definitiva na esfera política da Inglaterra. dizem que é lá que se inicia propriamente a filosofia moderna. É o advento da livre iniciativa que se estenderá até os nossos dias desdobrando-se através da lógica do capital. tornando este o órgão máximo da administração do Estado. pela qual as atitudes do monarca são postas em cheque pelo parlamento. .

Um dos grandes influenciadores do pensamento de Locke foi Francis Bacon. A partir dessas experiências formulamos ideias e percepções distintas da realidade. Seus pensamentos vão ter permanência nos ideais iluministas do século posterior. da política e da pedagogia. as representações são obtidas via percepção. etc. repercutindo nas questões da moral. Enquanto empirista busca aprofundar a sua compreensão acerca do conhecimento humano nas mais amplas possibilidades. O problema gnosiológico é recorrente na sua filosofia. Diz o pensador que antes da experiência somos como uma folha em branco. o movimento. Assim. Desenvolve uma teoria para melhorar o uso do intelecto.104 Ciência Política Teoria Geral Locke é um pesquisador atento. No fundo. ele aprendeu a relevância que deve se estender à investigação experimental. e desvendar o tipo de compreensão que se estende a Deus. As primeiras dizem respeito à reflexão e às articulações do entendimento. o entendimento do mundo e sua interpretação. interessando-se pela condição humana. As segundas dirigem-se à identificação de elementos: cores. Há experiências que são internas e externas. nossas ideias originam-se daquilo que nos oferece os sentidos. . sabores. pois ela imprime nossas percepções da realidade. uma tábula rasa. Deste. aquilo que o espírito alcança é objeto imediato da percepção e nesta se pauta o pensamento. sons. Afirma que todo conhecimento deriva da prática e que a experiência constitui fonte e limite para o intelecto. por desbravar os mistérios da natureza e do mundo. mas vinculadas em última instância à experiência.

Ele é passivo diante das ideias simples. Através do seu empirismo a teoria do conhecimento e teoria política desfrutam do mesmo princípio. num sentido moral oferecendo as regras racionais para a vida e a condução das ações. Suas ideias expressam a teoria do constitucionalismo liberal inglês. É uma tomada de decisão que advém da experiência. que é o direito natural. Argumenta que é impossível existir algo inato sem que o indivíduo seja consciente disso. ou ativo com as complexas. O conhecimento diz respeito a uma aplicabilidade prática que nos remete à experiência. O inatismo é fonte de preconceito conduzindo ao dogmatismo individual. da lida racional que os indivíduos mantém entre eles mesmos. O que se diferencia é a postura do engenho.Tema 3 | Pensadores da política 105 As ideias advindas da experiência podem ser simples. . elas se constituem no contato com o mundo. produzindo sínteses. Para este autor o Estado nasce de um acordo no seio da sociedade civil. Locke aborda a questão do surgimento do Estado por uma via bem específica. Para ele tudo advém da experiência. ou seja. Percebe a filosofia com um fim prático. complexas e algumas que são combinações destas duas. do contato e da consciência constituída pelos seres humanos no decorrer do tempo. inspirando relações. Assim. Locke não admite que a origem das ideias seja algo inato ao ser humano. não nascemos com certas orientações. desenvolvendo análises. O autor destaca que nem mesmo a moral tem uma origem permanente nas pessoas. Ela advém do conhecimento. Mesmo as ideias mais abstratas possuem uma validade no sentido de orientar as pessoas a se conduzirem na sua vida. que as ideias permaneçam nos indivíduos desde o seu nascimento.

das leis bem regidas e fundamentadas no direito natural.106 Ciência Política Principal Obra Destacam-se entre seus escritos os dois Tratados sobre o Governo. Caso não se assuma tal meta. dissociando-os profundamente. . fazendo com que o indivíduo se situe verdadeiramente enquanto cidadão. Ao mesmo tempo distingue e delimita o que lhes cabe e o que cabe ao Estado. em sua perspectiva racionalista. Toda sua teoria política visa a conciliação da liberdade com a manutenção da ordem. o povo pode derrubar o governo para substituí-lo por outro mais competente. Este caráter dos seus escritos sempre foi motivo e inspiração para os líderes revolucionários no decorrer da história. a tolerância como elemento limítrofe entre as particularidades inerentes à dimensão da fé e o tipo de intervenção que estas devem exercer sobre os indivíduos na sua vida social. Ao situar a religião no seu devido lugar estabelece. Desse modo busca configurar as leis e os Estados em função de garantir o respeito aos direitos naturais. Tais norteadores o fazem repudiar qualquer forma de monarquia ou qualquer estabelecimento de um poder absoluto. Há neste sentido uma crítica à tradição dos reis e à condição na qual se preservava a política medieval. E tal obra só é possível através do direito. nos quais critica a relação entre política e religião. pensando assim estar garantindo a própria vida e a possibilidade da própria vida social. tornando-se este fato um único motivo de ser de um governo. Para este autor a política é verdadeiramente uma invenção humana e não possui relação com elementos divinos. Os ideais de Locke recaem na fundamentação da teoria do Estado liberal e na necessidade da propriedade privada.

mas também a liberdade. A relação do indivíduo para com esta é mediada pelo trabalho. Tal condição está até hoje como princípio básico do capitalismo liberal. E o direito ao fruto do trabalho é algo que nos deve ser assegurado. a saúde. Mas bens tanto materiais como imateriais: a vida. porque estamos em posse da nossa propriedade. Locke percebe que as leis da natureza apresentam o modelo para elaboração e estabelecimento de preceitos para a vida social. a riqueza. a felicidade são alguns dos exemplos da propriedade. A natureza é sempre exemplar. demonstra leis que possuem retidão e sentido. ela apresenta o sentido privilegiado para ilustrar o que deve ser a sociedade. A nossa relação direta com estes bens não apenas garante a autopreservação.Tema 3 | Pensadores da política 107 Principais Conceitos O Estado natural é caracterizado antes de tudo pela abundância revelada na natureza. diz Locke. A dedicação ao trabalho repercute na propriedade. Apresenta uma lógica calcada em causas e consequências e que podem ser apreendidas através da experiência do indivíduo. Observando a própria racionalidade percebemos que na natureza já se encontra a experiência da qual necessitamos para a construção da vida social. Ou melhor. constata o autor. sendo a propriedade muito mais que a simples posse de algo. tão necessárias à vida. a igualdade e a independência. os frutos e tudo o mais supre e garante a sobrevivência de todos os seres humanos. A terra. . As leis da razão condizem com as leis da natureza. Em estado de natureza somos bons e vivemos em paz. Desse modo.

Com o pacto social e a instauração da sociedade política. Aqueles que se desviariam das diretrizes da razão estariam sujeitos à toda sorte de ação. enquanto expressão de comportamentos depravados e ações criminosas. No estado natural inexiste a certeza do comprometimento. renuncia-se a fazer justiça com as próprias mãos para que um corpo político o faça. as leis da natureza podem ser desprezadas. Locke identifica um aspecto que reivindica a presença da ação política. Os direitos que constituem a própria natureza humana: a vida. Diante desta constatação a política promove uma continuidade daquilo que já se possuiria de forma originária. ou ao menos o estabelecimento de regularidades das ações. Não há a punição como consequência da transgressão. a partir do momento que alguém se desvia deste sentido. sem qualquer compromisso com os limites das regras sociais. a liberdade e os bens não podem ser alienados dos indivíduos sem prejuízo da sua própria condição. A renúncia à razão gera. . Consequência inevitável dessa situação é a agressão. a licenciosidade. de imediato temos o conflito. a necessidade de institucionalização da defesa em prol do direito mútuo. não havendo como se ter expectativas quanto aos seus procedimentos. não havendo como prevenir o erro ou a desrazão. que surge como o abandono dos princípios que regem a natureza humana. Embora evidente. Se tivéssemos a garantia de que todos apenas se moveriam guiados pela reta razão.108 Ciência Política Contudo. segundo Locke. Embora seja extremamente otimista com o estado de natureza. nossos direitos não sofreriam qualquer risco. Daí. Mas. neste estado natural não possuímos a garantia de que todos os indivíduos vão se pautar por tais princípios.

ou seja. Três poderes se constituem: o legislativo. Evidenciar para todos os cidadãos as consequências da transgressão e do crime através dos castigos e da punição. ou melhor. mas principalmente regulativo no sentido disciplinador. Há um caráter punitivo. para fazer valer a lei da natureza. o Estado retira do indivíduo a prestação do cumprimento das leis naturais. O Estado se constitui. o Estado institui nos indivíduos as diretrizes legais nas quais estes devem ser amparados. as pessoas deixam de executar o direito natural por sua iniciativa própria e o fazem enquanto uma obrigação. em especial. Ao surgir. É preciso prender os criminosos. . Mas o primeiro seria o que mais importância concentraria pela derivação às leis naturais. Constitui-se um corpo político que pactua em prol da defesa da propriedade.Tema 3 | Pensadores da política 109 Dessa condição surge a necessidade das leis. o executivo e o federativo. Desse modo. Num único órgão passa a se concentrar o direito de julgar e de castigar. reparar os danos causados. Esta centralidade torna o governo o mantenedor das regras pertinentes aos direitos fundamentais do cidadão. primando para que o direito de propriedade seja inalienável. da efetividade de um órgão mantenedor dos regulamentos e das decisões postas para limitar os excessos da transgressão.

Apresenta a interligação dos poderes e o tipo de importância que deve se estender ao poder legislativo. Carta acerca da tolerância. É interessante atentar para as diferentes interpretações. A segunda obra é de fundamental importância para se compreender as bases do liberalismo político e se perceber o encaminhamento político apresentado por Locke e que ficará marcado no decorrer da história. Fundamental para entender as pressões das quais este autor busca se desfazer para escrever suas teorias. Segundo tratado sobre o governo civil. LOCKE. 1978. É notável a delimitação que Locke estende a estes dois setores de uma forma muito sutil e abrangente. John.110 Ciência Política INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR LOCKE. É mais uma leitura de formação. São Paulo: Abril Cultural. PARA REFLETIR Procure a constituição dos Estados Unidos e identifique os princípios do liberalismo ali presentes através de uma comparação com as ideias de Locke. indispensável. A primeira obra é uma discussão direcionada à igreja e aos limites do poder religioso em face da organização do Estado. . 1978. John. Identifique os pontos de semelhança entre ambas. Divida estas informações com seus colegas no encontro de tutoria. São Paulo: Abril Cultural.

As considerações que Voltaire faz à ideia de bom selvagem são motivo de risos e sarcasmos. que assume publicamente considerações negativas a respeito da sua vida e da sua obra. que mantém o lamento pela perda da esposa como uma constância. morre quando Rousseau ainda tinha dez anos. em especial Voltaire. na Suíça. período em que se dedica à filosofia e à música. Morou em diferentes lugares e logo cedo experimentou a amargura de ser judiado. já que fora educado por algum tempo pelo severo Pastor Lambercier.Tema 3 | Pensadores da política 111 3. um relojoeiro de religião calvinista. começando a trabalhar muito cedo. Ganha um concurso aos 37 anos na academia de Dijon tratando do tema “o reestabelecimento das ciências e das artes favorecendo os costumes”. Propõe . Sua mãe morre logo após o parto. É criado por um bom tempo pelo pai. considerando esta a fonte das misérias na qual se prende a sociedade. Mantém em suas obras uma forte crítica à propriedade privada. Possuiu dentro do processo de formação uma disciplina rígida com matizes de moralidade bem acentuadas. além de um sentido religioso muito presente. Contudo. Na adolescência torna-se amante de uma rica senhora que passa a custear seus estudos. Desde então a inconstância passou a prevalecer por toda sua juventude e boa parte da vida adulta. Lê com o filho seus livros e divide a dimensão intelectual que a acompanhava. Ao tornar-se um grande intelectual é criticado e ridicularizado por alguns contemporâneos.4 Rousseau: A Igualdade Aspectos Biográficos Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em genebra. Farras e orgias fazem parte desta época em que o mundo é apresentado como fonte de surpresas e sedução.

Contexto Histórico Encontra-se num período da história marcado pelo otimismo intelectual. Foge das rodas sociais e da hipocrisia característica dos salões de festa da sua época. As injustiças e os sistemas de opressão são desfraldados para que as pessoas possam ter . Chega a ter obras queimadas por rejeitar a religião revelada em prol de uma religião natural. de uma vida pautada na elegância da corte. A França é um dos principais centros no qual tais ideais ajustam-se a uma condição revolucionária que pretendia desfazer-se do antigo regime para implantar uma nova ordem. Tais inovações configuram a visão de mundo da sociedade burguesa com seus lemas de Liberdade. que proferia a razão como fonte de todos os benefícios da humanidade. Ao perder a esposa entrega seus cinco filhos para um orfanato em vista de dar sequência à produção de sua obra e à vida errante. o iluminismo. O Século XVIII é um período de exuberância. Tais considerações conseguem despertar a ira tanto de católicos como também dos protestantes. Morre no castelo de Ermenonville. de grandes intelectuais. na natureza e na simplicidade da vida.112 Ciência Política uma vida simples em detrimento da complexidade da vida social. consequentemente de vaidade e interesse pela posição social. O deísmo prevalece como uma forma de resistência à religião oficial. Grandes transformações tecnológicas estão a motivar comportamentos de transição. igualdade e fraternidade. Difunde-se a ideia de que Deus está em todas as coisas. Foi perseguido politicamente e viveu em grandes aventuras. considerando que Deus está antes de tudo em nosso coração.

Porque deve existir um ajuste bem delineado ao transformar os direitos naturais em direitos civis. para que seja garantido ao indivíduo alcançar a felicidade Teoria Geral Em alguns momentos a obra de Rousseau pode ser identificada como um diálogo com os pensadores contratualistas do século XVII. ajustada à vida feliz e harmônica. Através do contrato social procura um Estado social legítimo que favoreça as potencialidades humanas. A saída que esboça diz respeito à união como possibilidade de juntar forças.Tema 3 | Pensadores da política 113 livre exercício da razão e dos benefícios que esta pode oferecer. gerando muito mais o ataque como forma de defesa do que a possibilidade de convivência. A constatação de Rousseau é que o homem nasce bom e é corrompido pelos enlaces sociais. visto ser a força e a liberdade os instrumentos primordiais para valorização de cada indivíduo. em especial Hobbes. A degeneração da sociedade fez com que a segurança de cada um seja ameaçada pela do outro. O diagnóstico de Rousseau é que os homens teriam chegado a um ponto em que os obstáculos à sua conservação excedem as forças que cada indivíduo dispõe para manter-se em estado de preservação. De um modo geral os diversos movimentos revolucionários no decorrer da história buscam inspiração no caráter da discussão promovida por Rousseau. O marxismo identifica uma compreensão significativa de vida comunitária através do tema da igualdade. Nesta nova ordem instauram-se as vias para recuperar aquela liberdade natural. As revoluções liberais atentam para o sentido de liberdade que o autor esboça. Busca-se transformar a sociedade em prol da liberdade de expressão. E até o anarquismo encontra pertinência quanto à resistência .

com a perda da igualdade. Ele propõe uma democracia direta e não uma democracia representativa como a que vivenciamos hoje em dia. elevando a condição de igualdade à liberdade e à fraternidade. Rousseau é um iluminista que se mantém na contracorrente e anuncia a prepotência da razão. Principal Obra A obra fundamental que traduz o seu pensamento é o Discurso sobre a Origem e o Fundamento da Desigualdade entre os homens. esse processo se constitui com as perdas das condições fundamentais. à vida degenerada. Como o ser humano. a exemplo de Tolstoi (1828-1910). desenvolveu seus germens submetendo-se às suas exigência e formalizações. ainda que não seja inclinável à sociedade. Influencia diversos nomes da literatura. E a adequação ao artifício. Mas é a revolução francesa que coroa suas ideias. como é o caso da democracia. Ele privilegia a importância e o caráter fundamental que o homem simples conserva. . Através da predominância da razão sobre os sentimentos o ser humano é colocado inevitavelmente em situação de desconforto.114 Ciência Política ao sistema social vigente. Pois a felicidade se apresenta quando a natureza interior corresponde ao exterior. Rousseau é leitor dos antigos gregos e quando apura a ideia de contrato social imprime nas suas observações certas conquistas que foram operadas por esta cultura e que degeneraram-se no decorrer da história. Nela se apresenta a definição da natureza humana. uma compreensão acerca dos desejos e das diversas nuances da imaginação. agindo sobre nossa condição. Mas é ela que adapta o indivíduo na condição humana vigente e no meio social e jurídico. sobrecarregando nossas verdadeiras funções. à complexidade.

Associa esta condição às experiências infantis. não sente qualquer disposição ou interesse em atacar o outro. quanto pelo contato mesmo com a vida campesina e os benefícios que esta oferece às pessoas em seus diversos momentos da vida. O instinto o adapta à natureza. Ele não prevê futuro. A humanidade se resume àqueles que lhe rodeiam.Tema 3 | Pensadores da política 115 Principais Conceitos Para Rousseau o estado de natureza constituía-se por uma condição de liberdade que motivava o indivíduo a uma existência natural e equilibrada. A natureza é uma de suas paixões. Convive bem com a solidão. outro modo de conhecer diferente daquele que é colocado como padrão e métrica. A análise de Rousseau recai sobre o estabelecimento da vida social que degenerou toda essa ordem primeva. mas a ausência desta não constitui algo negativo. não está preso e açoitado por um passado. pelo contrário. e o descanso. Os desejos que o acompanham são os desejos do corpo. lhe permite lidar com as coisas na sua espontaneidade. Há uma compaixão natural que o acompanha. regida pelo contato direto com as coisas e com o mundo. O “bom selvagem” é aquele que. para a verdadeira vida. Para este autor a sociedade surge . Como consequência dessa condição de plenitude. característica peculiar que o define. um par. pueris e felizes. Experiências que possuem outra lógica. por possuir a bondade como inerente à sua condição. Ao homem natural falta a abstração. Em alguns momentos o autor chega a afirmar que neste estado nos basta a alimentação. Há uma bondade inerente à vida natural que é destruída com a sociedade. temos a bondade. Está inteiro e completo nas suas predisposições. tanto no que diz respeito ao interesse pela vida simples deste selvagem. sem lamentar seu estado.

Deve dar . Ele reconhece que a soberania do povo é indivisível. A ideia de contrato social implica num consenso que deve ser articulado entre os diversos setores. Tal desigualdade. sórdidos. É a propriedade a origem das desigualdades e da decomposição moral inerente aos dias atuais. pergunta o pensador. O contrato social é saudado como a forma com a qual se pode contrapor essa lógica instituída pela sociedade civil. Os indivíduos tornam-se traiçoeiros. O governante é visto como um funcionário a serviço do povo. O ponto nodal de sua crítica à sociedade é revelado pela sua aversão à hipocrisia. estendendo soberania ao governante e às diretrizes do novo Estado. A partir dele a convenção do pacto é a saída possível para barrar o mal. um Estado social legítimo que se aproxima cada vez mais da vontade geral e também se afasta. O modo como as pessoas se revestem de artifícios para estar neste ou naquele lugar.116 Ciência Política com o estabelecimento da propriedade privada. é autorizada pela lei natural? A constatação a que chega revela que o homem nasce livre. muito característica do seu tempo. Prevalece. e pelas condições que se constituem no âmbito social passa a ser aprisionado. O governo constituído é caracterizado como um corpo intermediário que possui como função a vinculação entre súditos e soberano. consequentemente. o que também revela uma deficiência que se inicia desde o processo inicial de educação. desonestos e transgressores em vista deste modelo de sociedade. da corrupção em vista desta condição. um empregado que executa e desempenha sua função sob os olhos daqueles que o empregam. presente nos salões e lugares de sociabilidade. a partir do contrato social.

devem-se escolher representantes e a melhor forma de governo. sua vontade possui um caráter primordial para o ordenamento do Estado. seja corrupto. A liberdade concretiza-se como uma aquisição para a vida feliz e verdadeiramente ajustada sem os grilhões que antes açoitavam as pessoas. mas também pode retirar do poder daquele que não corresponde a ela que. submete-se à vontade geral. Este é o corpo político dos cidadãos e deve ser o núcleo central para o qual se voltam todas as atenções. Tal governo deve resguardar a soberania que lhe foi entregue pela vontade do povo. sendo o povo quem cria. Com o predomínio da vontade geral sobre as ações do Estado demarca-se o limite entre o poder que é legítimo ao governante no exercício do seu cargo e aquele que emana do povo. também o povo é submisso às leis que expressam o geral e não os condicionantes de grupos ou partidos. . reivindicada para que os indivíduos possam tornar-se autônomos. Rousseau reforça que. Assim. Dessa forma. Soberano é o povo. fiscalizar a conservação da liberdade e implementar a igualdade entre os grupos da sociedade. De início a tarefa primordial à qual o governante precisa se dedicar diz respeito à transição em que as pessoas passam a adquirir a liberdade moral. por exemplo. Se a vontade geral é o limite. vontade geral sempre beneficia a sociedade. A lei tornase o fundamento essencial para a associação civil. O povo elege.Tema 3 | Pensadores da política 117 conta da execução das leis.

Jean-Jacques. PARA REFLETIR Aprofunde a ideia de igualdade na constituição federal do Brasil. Apresente seus resultados no AVA para que seus colegas possam ter acesso ao resultado da sua pesquisa . Os filósofos através dos textos: de Platão a Sartre. Trata das definições básicas inerentes ao contrato social e apresenta caracterizações acerca de um governo feito pelo povo que são de grande contribuição para a compreensão da ideia de democracia. É interessante perceber o olhar atento e os recortes que são apresentados de forma sutil e ao mesmo tempo rigorosa.AA. 1997. escrito por vários professores e que analisa textos.118 Ciência Política INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR ROUSSEAU. VV. Identifique os momentos em que tal termo é utilizado e como se pode interpretar tais usos. São Paulo: Abril Cultural. Do contrato social. São Paulo: Paulus. O primeiro texto é primordial para a compreensão do filósofo de Genebra. A segunda obra é um manual comentado. 1978.

Tema 3

| Pensadores da política

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RESUMO
Para compreendermos a política a partir de suas bases modernas necessitamos recorrer aos pensadores que inauguram este período histórico tão rico em teorias acerca da sociedade. Tudo se inicia com o pensamento renascentista de Maquiavel, que procura configurar um realismo político, pelo qual justiça e moral não constituem fatores de restrição à ação política. Dedica-se à compreensão de verdade efetiva, que reflete o pragmatismo com que assume o tema da política. Há uma percepção de que a bondade pode levar um governante à ruína, do mesmo modo que a maldade e a crueldade podem ser fatores definitivos para se ascender ao poder. Hobbes centra-se numa visão realista da vida, insistindo em pensar o ser humano sem as ilusões habituais que lhe agregam. Assume o surgimento do Estado pela necessidade que os seres humanos possuem de sair do estado de natureza no qual a guerra é generalizada entre todos. A construção do Estado é um recurso racional que liberta o homem de si mesmo. Locke é um pesquisador atento interessando-se pela condição humana, por desbravar os mistérios da natureza e do mundo. Ao dedicar-se em questões políticas assume a teoria contratualista como aquela que pode explicar o surgimento da sociedade civil e atenta principalmente para a importância das leis na efetivação do Estado. Tem uma visão positiva do estado de natureza, mas identifica que nesta condição não se pode impedir o crime e a violência.

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Ciência Política

Para Rousseau o contrato social procura um Estado social legítimo que favoreça as potencialidades humanas. O diagnóstico deste pensador é que os homens teriam chegado a um ponto em que os obstáculos à sua conservação excedem as forças que cada indivíduo dispõe para manter-se em estado de preservação. A degeneração da sociedade fez com que a segurança de cada qual seja ameaçada pela do outro, gerando muito mais o ataque como forma de defesa do que a possibilidade de convivência.

4

Temas de Política

A preferência em discutir temas de política ao final do nosso livro revela a necessidade de aplicarmos todo o conhecimento adquirido no decorrer dessas leituras em questões que norteiam o nosso cotidiano. Dividimos o conteúdo, então, com a democracia, a ideologia, a liberdade e a guerra. Temas tão presentes e que reivindicam uma resposta, um posicionamento nosso a cada situação vivenciada. Temas que se complementam para traçar um quadro da sociedade contemporânea e de seus aspectos multifacetados. Com a Democracia visualizamos as possibilidades de participação popular, as nuances características da cidadania e nos remetemos aos seus primórdios com os gregos da antiguidade. O tema da ideologia nos conduz a perceber as sutilezas com que as palavras de ordem se estabelecem no imaginário social, especialmente nos nossos dias, em que somos atingidos pela lógica do consumo e pela ditadura da aparência, conduzindo-nos a questionar acerca da liberdade que nos é cabível, à liberdade de opinião e à própria opinião pública para identificar suas condições e possibilidades. Por fim, tocamos no tema da guerra, que parece ser algo pouco discutido, mas que exige reflexões diversas para que nunca configure uma saída para a resolução de questões.

Os gregos a inventaram. assim como reconhece no indivíduo alguém capaz de se organizar e fundar suas estruturas de reivindicação. . Geralmente falamos de Governo democrático como o governo feito pelo povo e para o povo. Ela aponta sempre para a maioria sem desprezar as minorias. Já falamos sobre representatividade e como esta faz o vínculo entre nação e povo através do Estado.122 Ciência Política 4. Não havia democracia por que não existia o espaço público. lugar onde. Ainda que ela tenha sido redimensionada e não mais permaneça no modelo de democracia direta dos gregos da antiguidade. não existia essa forma de governo. o que existia era o despotismo.1 A Democracia e a Participação Popular Neste capítulo vamos requerer alguns conhecimentos adquiridos no decorrer da leitura deste livro. Dizemos que a Democracia requisita de cada membro do seu corpo estrutural a responsabilidade cívica. Até então. com a proteção das minorias e das oposições. Expressa tanto no voto através das eleições. E neste momento nos deteremos especificamente na democracia. a tirania. pela primeira vez na história. o exercício democrático se fez presente. alguns traços permanecem na sua compreensão. O princípio de governo da maioria em momento algum se estabelece como um elitismo ou mero partidarismo. como também através da participação popular. A origem da democracia nos vincula à cultura grega. pois tem como principal função a proteção aos direitos humanos. A Democracia é a institucionalização da liberdade. aqueles governos em que a vontade do governante era o indicativo havia da vontade geral. assegurando a mesma proteção legal para todos. ou pior. vinculada à opinião pública em função de valorizar as liberdades pessoais como valores superiores e prévios ao próprio direito positivo. Falamos de uma democracia liberal fundada sobre o ideal deliberativo e pluripartidário.

A cidadania é um valor absoluto com o qual o indivíduo defende com a própria vida. que por força das suas convicções democráticas entrega-se ao decreto dos juízes. cumpre as leis por considerá-las primordiais à saúde do Estado. sendo levado à morte em função dos crimes que lhe acusaram. . Há um clima de debates e análises em vista da coisa pública. e a esta condição é agregada uma serie de valores.Tema 4 | Temas de Política 123 Na compreensão da própria palavra já identificamos seu sentido demo (povo). a educação e a formulação de leis que impeça o estabelecimento da desordem. É o caso do filósofo Sócrates. para o povo. ou seja governo do povo. centro político no qual os gregos decidiam grandes feitos O cidadão é chamado à participação nas assembleias. o indivíduo torna-se cidadão. O corpo politico. a cidade (a polis) são tomadas como um bem comum. é um centro político que revela uma preocupação com a guerra. Assim. A “polis” não é apenas um lugar de convivência. Ainda que inocente. Partenon em Athenas. em vista das leis e das diretrizes nas quais ruma a cidade. Este povo é o responsável pela manutenção do espaço público e pela ideia de civismo. cracia (governo). Lá se cultiva pela primeira vez no mundo o hábito dos cidadãos elegerem o governante para o exercício da liderança.

Ainda que falemos da sua origem provinda da Grécia antiga. Modelo. a fonte inspiradora de líderes e pensadores no decorrer de todos estes tempos. A democracia grega vai ser representada em especial pelo grande governante Péricles (495/492 a. Temos entre os gregos uma democracia direta em que os cidadãos participam de todas as decisões e das atividades públicas obrigatoriamente.).429 a. a democracia moderna se distingue em diversos aspectos daquela primeira. responsável por valiosas conquistas culturais e políticas do período no classicismo. a democracia através da qual um governo se fez guiado pela virtude. . Este pensador vai distinguir três tipos de governo com características respectivas: • o despotismo pelo qual se depreende o temor. a monarquia pela qual prevalece a honra. Tal democracia torna-se possível devido às condições características daquele momento.124 Ciência Política O amor dos gregos pela sua pátria revela uma busca por atingir a perfeição. A Grécia fica na história como o berço da democracia. • • . sendo em alguns momentos até convocados para atender aos interesses do governo ocupando uma função num dos órgãos públicos. Em especial com uma obra chamada Espírito das Leis de Montesquieu marco para uma nova política na modernidade. Somente a partir do século XVII e XVIII iremos assistir ao surgimento da democracia representativa. Um ideal que se institui e fica de parâmentro para toda humanidade.C.C. contingente populacional que era relativamente pequeno e condições de vida distantes dos tempos atuais. pouco válido para a conjuntura de agora.

ao mesmo tempo. a democracia está subordinada à vontade geral. tem todos iguais direitos no que diz respeito à prática do poder. defendendo os ideais de liberdade. Dentre os argumentos acerca do caráter problemático da Democracia algumas críticas se dirigem à constituição da própria soberania. No decorrer da história os pensadores associavam essa condição como repercutindo em confusão ou impotência de ação por parte do governante. Desse modo há uma relação estreita entre Democracia e liberalismo. aos interesses da maioria expressos pelo voto. Inspirando os outros países americanos na formulação das suas constituições. ou a um grupo. não conquistaríamos uma ordem. . a soberania não pode pertencer a um.Tema 4 | Temas de Política 125 Os princípios formulados por Montesquieu vão ser o fundamento da democracia moderna e vão ser desdobrados por diversas teorias políticas. sendo os homens iguais. e as condições necessárias para tal feito. Com os Estados Unidos da América temos a criação de um sistema democrático moderno. Por isso. o poder é distribuído pela massa de indivíduos. Neste sentido. Se fossem todos. Mas o exercício da soberania deve-se manter entre os melhores. Bobbio cita a doutrina de Bigne Villeneuve. que operam e dão sentido à democracia. Denominam-se doutrinas democráticas aquelas que atribuem à nação o poder político. segundo esta. Sendo todos iguais. A resolução para esse embate está no seu caráter representativo. cidadãos. o lugar da soberania deve ser entre a multidão e esta seria sua origem. só governa quem a sociedade julga possuir a experiência. ainda que possuem distinções bem pontuais. Embora se estenda o poder a “todos”. Dessa forma.

Até os seus momentos de crise repercutem muito mais como momentos de transformação e transição. ao trabalho. entre outros. no sentido moderno. abarcando vários aspectos como o econômico.126 Ciência Política Enquanto um moderno sistema de governo a Democracia não se dilui como representativa de uma ideologia. o povo. Possivelmente pelas metamorfoses do seu objeto. mas ao mesmo tempo estabelecendo a dificuldade de compreensão do seu conceito. o jurídico. O aspecto decisivo a ser ressaltado é o caráter de impessoalidade que o poder nela assume. Este entendido como aquele que possui e expressa legalmente a sua capacidade de votar e de ser votado. E quando se fala na distribuição do poder entre todos. a tal ponto que é compatível com diversas ideologias sem criar qualquer embaraço. Na democracia nenhum homem é necessário. é que percebemos como evade a dimensão da política. do provimento de direitos como à saúde. Desse modo. É mais do que isso. Há uma plasticidade que a acompanha a ideia de democracia e a faz muito ligada às expectativas dos dias atuais. pois a intervenção do Estado é de fundamental importância para o estabelecimento da segurança. falamos do direito subjetivo de escolha e de veiculação das ideologias. É uma visão do mundo. não é apenas político. entre outras. Ela deve assegurar direitos individuais. Sustenta-se um liberalismo democrático do mesmo modo que um socialismo democrático. . entre outros. A democracia sempre se volta para a garantia dos direitos dos cidadãos. mas também direitos sociais. mas global. Um modo de viver e encarar a vida. Alguns pensadores políticos chegam a dizer que a democracia.

Em alguns momentos o conceito de povo se mistura com o de nação. . À ideia de população caberá o conjunto de todas as pessoas presentes no território de um Estado. Modernamente. Essa distinção serve para entendermos a complexidade do processo democrático quando o vinculamos diretamente à noção de povo. com a democracia ele se transformou em sujeito e em objeto da ciência política. num dado momento. Cícero fala de povo como a reunião da multidão associada pelo consenso do direito e pela comunhão da utilidade e não simplesmente todo conjunto de homens congregados de qualquer maneira.Tema 4 | Temas de Política 127 Segundo Bonavides (2010). Em toda a sua complexidade. se compreende em especial pelas ideias decorrentes da Revolução Francesa. Mas na modernidade. contendo aspirações comuns. o direito passa a expor a compreensão de povo. Na antiguidade. Os indivíduos que pertencem a um Estado e comungam relações de cidadania por esta condição e assumindo como legítimo o ordenamento jurídico. o conceito de povo pode ser estabelecido de três pontos de vista: político. Representa uma continuidade dos valores humanos transmitidos de geração para geração. Interpreta-se como o conjunto de pessoas que estão vinculadas de forma institucional e estável a um determinado ordenamento jurídico. quando se fala em “povo” ressalta-se o vínculo do indivíduo com o Estado através de sua nacionalidade ou cidadania. por exemplo. Reforça Bonavides (2010) que no absolutismo o povo fora objeto. Representa um dado quantitativo e tem um caráter demográfico. jurídico e sociológico.

PARA REFLETIR Procure na internet as cenas do período em que o Brasil luta pelas eleições diretas. A segunda obra é um manual de política com o debate acerca de diversos temas. a cultura popular. analisando as formas e manifestações com que a democracia vigora enquanto sistema de governo. A pensadora brasileira Marilena Chauí detém-se em aspectos inerentes à cultura de um modo geral: a cultura de massa. São Paulo: Cortez. 2006.br e descreva os elementos presentes neste grandioso período da democracia para os brasileiros. Possui uma clareza e uma simplicidade que tornam sua obra um agradável passeio pelas questões políticas. a cultura erudita. análises e exemplificações expõe um quadro muito característico dos nossos tempos.128 Ciência Política INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR CHAUÍ. Para uma compreensão mais apurada da cultura a autora estende-se à política. Compartilhe o resultado de sua pesquisa com seus colegas no AVA. . Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. Teoria geral da política. das virtudes cívicas e do amor à pátria. Norberto. inclusive a democracia.youtube. Rio de Janeiro: Elsevier. Bobbio é um destacado pensador da democracia. E através das definições. 2000. Reúna as imagens através do site www. BOBBIO.com.

o atraso com fins de desviar-nos das nossas próprias questões.2 A Ideologia e as Palavras de Ordem Chamamos de ideologia as diversas formas de pensar. O engano. Como um binóculo que delimita o campo de visão e a percepção gerando. social e político que oculta a realidade. está sempre existindo em função das práticas estabelecidas. que não correspondem aos fatos reais. uma falsa consciência. Embora nos sugira um conjunto de ideias. Expressão de acontecimentos sociais. quando nem mesmo percebemos o que determina tal condição. que nos cooptam a consciência. fatos econômicos. ideologia é algo que está presente inevitavelmente na política de um partido.Tema 4 | Temas de Política 129 4. assim. Ela representa a diretriz pela qual um governo assume certas orientações. A ideologia também pode ser vista de forma pejorativa. e que esse ocultamento é uma forma de assegurar e manter a exploração. Desse modo. Marilena Chauí (2006) diz que a ideologia é um ideário histórico. quando se manifesta como uma maneira pronta e acabada de se olhar para a realidade. um escopo que fixa e distorce a visão do indivíduo. Desse modo. É também o sistema que envolve o indivíduo lançando-o numa condição outra. a ideologia implica no estabelecimento de ideias e conceitos que servem como palavra de ordem para a realização da vivência cotidiana. Nesta perspectiva se somam as discussões vazias de ideias abstratas. de conceber a realidade e de comportar-se enquanto servem de fundamento para projetos e ações políticas. a mentira. pela qual apenas passivamente consegue se movimentar. até a forma de governar advém de uma . a ponto de confundir-se com estas últimas. Neste sentido.

ela nos faz tomar por natural aquilo que só mantém sua origem enquanto artifício. Do mesmo modo a ideologia estaria agindo no centro das nossas decisões. Pois nesta ilustração se concentra o binômio luz e sombras. O pensamento marxista discute esta questão.130 Ciência Política certa ideologia que ao contrário de pretender dominar. Ele percebe que as ideias e a consciência que construímos sofrem a determinação das condições materiais de elaboração da existência. Assim como a camara escura possui no seu interior a imagem invertida. sendo um dos primeiros parâmetros nos quais nos detemos para compreensão devida deste fenômeno. invertendo o que nos caracterizaria. O estudo da ideologia conduz à análise das estruturas sociais para identificar as verdadeiras necessidades que caracterizam um determinado grupo. Percebemos. Desse modo. Marx destaca-a para fundamentar de forma mais abrangente o processo histórico que envolve as relações de dominação existentes entre os grupos e as classes sociais. certos sentimentos e ideias comuns são gerados por interesses específicos que em alguns momentos nem mesmo são observados ou percebidos. aspira por transformações sociais e mudanças efetivas nas estruturas. então. verdade e ilusão chamando à reflexão nossa condição enquanto sujeitos sociais que abandonam suas verdadeiras questões para habitar um mundo espectral. fantasmático. que falamos de ideologia através de diversos significados. A grande ilustração da qual lança mão Marx é a da câmara escura da máquina de fotografar. O que leva vários críticos a compararem sua metáfora ao mito da caverna de Platão. Neste processo. .

A história das Américas. Daí se depreende que o mundo é sempre uma construção da imagem que assume para representá-lo. De certo modo toda a representação ideológica se encaminha para essa constatação. Com tal constatação somos encaminhados ao fim do colonialismo. instituíam um discurso universalizante. mas somente que não pode pretender assumir o valor de verdadeira essência do homem. trans-histórico e manifesto desde sempre na história da humanidade. do imperialismo e das formas de dominação que. Isso não significa que ele seja o pior. A intervenção humana no modo de sua compreensão é definitiva para dizê-lo como é. pelo controle do poder político. Ela é a compreensão no sentido da codificação do mundo que faz com que os indivíduos tomem consciência dos seus atos. através de uma condição violenta. Na atualidade a ideologia foi deflagrada através da constatação de que o ideal europeu de humanidade não passa de mais um ideal entre outros. como o modo deste dominador se relacionar com os outros povos. estabelecendo e fiscalizando as relações. Assim. ou a promoção das tarefas.Tema 4 | Temas de Política 131 Um dos grandes leitores de Marx que irá contribuir de forma significativa para a ampliação do conceito de ideologia é Althusser (1918-1990). A história nos revela diversas passagens em que se fez presente esta situação. revela a extorsão e o repúdio às suas características específicas. de marginalização. por exemplo. . constrangendo a diversidade à condição de margem. inevitavelmente ela dá coesão social aos grupos. que considera a ideologia o próprio processo de cognição do mundo. pois não existe efetivamente. O autor propõe a ideologia como um elemento onipresente. senão. nativas.

. E. incide diretamente sobre a realidade nos seus mais variados aspectos. Condição que nos lança numa possibilidade de liberdade completamente nova. pelo acesso à informação que os indivíduos passam a ter. se transforma numa nova problemática para ser resolvida. de um modo geral . Os críticos deste modelo de ideologia predominante identificam no advento de sistemas com “aparência humana” a promoção massiva do prazer e do bem-estar.uma desvitalização das formas de relacionamento. como também de índices de dessindicalização. Substitui-se o ideal de felicidade pelas horas de lazer como se ambos correspondessem.132 Ciência Política O advento de um novo modelo de sociedade que se configura a partir da década de cinquenta do século vinte passa a recriar possibilidades e expressões que se frutificam numa ordem marcada pela comunicação generalizada. Paradoxalmente o que representaria o fim da ideologia. Entre a juventude reflexos de uma despolitização crescente. através de uma explosão e multiplicação de visões de mundo. Faz com que se torne cada vez menos concebível o próprio estabelecimento do real. E para compensar esse excesso de possibilidades. Perceber a parcialidade dos antigos discursos instituidores de verdades incita aos grupos sociais que nunca tiveram sua história escrita por eles mesmos a buscar recursos para a realização desta. identificamos no cenário contemporâneo a predominância de visões estereotipadas da realidade que servem de base para uma ideologia de caráter globalizador. Um mundo narcísico em que a personificação estimulada pelo mercado de serviços gera uma deserção generalizada dos valores e das finalidades sociais. É que a intensificação destas possibilidades de informação.

Daí existir um número significativo de pessoas que não se encontram em tal condição. senão pela lógica do capital. Milton Santos (2009) é um destes pensadores que se inquieta em compreender o contexto atual e o lugar da ideologia neste contexto. Segundo este autor esse mundo contemporâneo é confuso e confusamente percebido. Milton Santos diz que este é o mundo como ele é. . O que nos estimula a aldeia global? Pergunta Santos. Novas enfermidades surgindo e velhas enfermidades retornando. A fábula é revelada pela sensação de pertencimento à “aldeia global”. promovendo cada vez mais a insuficiência do sistema de saúde. o que ele nomeia de fábula. a uniformidade maciça através das incitações ao consumo. Parece ser a competitividade que caracteriza os comportamentos hegemônicos. Esta é revelada através de símbolos importantes para a padronização das consciências.Tema 4 | Temas de Política 133 Há uma ordem que precisa ser racionalizada e devidamente refletida. A segunda compreensão que se pode lançar do mundo é aquela em que ele se desdobra como perversidade. O aumento da pobreza também é um outro fator de pressão. Aproveita-se do alargamento desses contextos para simular uma participação. pelo caráter deste fenômeno e no trato que estende aos seus desdobramentos. pelo menos em três mundos dentro deste que nós identificamos. marcado pelos comportamentos extremistas e fúteis. Neste sentido. em especial a sociologia. para compreender esse mundo seria importante levar em consideração que se poder falar. Esta percepção motiva as ciências sociais. Neste cenário cada vez mais o desemprego assusta e condiciona as pessoas às suas funções habituais. que só é regida. A primeira manifestação do mundo é aquela que nos querem fazer ver.

Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 13) SANTOS.134 Ciência Política Por último destaca-se o mundo como possibilidade. Marilena. A subordinação da lógica às necessidades estritamente humanas pode operar esta transformação aclamada pelos teóricos da atualidade. que começa analisando sua presença e permanência nas situações mais corriqueiras até a ideologia no seu sentido forte. Que característica é implantada dentro desta perspectiva? Apenas a necessidade de uma globalização mais humana e em que os elementos ideológicos podem ser orientados para o verdadeiro sentido da nossa presença no planeta. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR CHAUÍ. Milton Santos. 2009. Daí a reformulação de fundamentos sociais e políticos. a ideologia dos partidos políticos. Milton Santos reconhece neste cenário aquilo que chama de uma sociodiversidade. Milton. 2003. primando por uma linguagem de fácil acesso e um texto instigante. A discussão acerca da Ideologia é muito bem encaminhada por Marilena Chauí. A segunda obra é de um dos grandes pensadores brasileiros. O que é ideologia. falecido recentemente. São Paulo: Brasiliense. São Paulo: Record. Este autor discute a globalização e os processos . A Coleção primeiros passos é especialista em introduzir temas polêmicos através de autores consagrados e jovens escritores. (Primeiros Passos.

quais são os princípios dos quais o partido dessa pessoa defende e como constrói políticas para promovê-los. Ou melhor. Aquele que nos querem fazer acreditar. . É célebre a frase de que para conhecer este mundo. pautado nas ideias do sociólogo Josué de Castro. devemos levar em consideração que existe pelo menos três mundos. É um autor maduro. 4. ou seja. tomando-a frequentemente como seu pressuposto. parece que toda democracia conserva a liberdade como valor universal para o qual devem ser direcionados todos os princípios. PARA REFLETIR Converse com alguém que milita em algum partido político e peça que te explique quais são as bases ideológicas do seu partido. Através da história da humanidade a liberdade é o núcleo a partir do qual se movem todas as ações.3 Liberdade e Opinião Pública Vimos na discussão acerca da Democracia que em alguns momentos ela se confunde com a própria liberdade. o mundo como perversidade e a sócio-diversidade. Extremamente recomendado para compreendermos o mundo atual. a própria natureza da política faz exigências quanto à ação livre.Tema 4 | Temas de Política 135 ideológicos de construção da sociedade contemporânea. práticas e teorias. Desse modo.

Ela permanece como um dado essencial.Pois a ideia de progresso sempre busca equacionar a liberdade do indivíduo às leis e sua vigência. é necessário que se estabeleça um aspecto normativo jurídico. E. Para os atos jurídicos em geral. em si e no ordenamento positivo.136 Ciência Política Em toda a história a liberdade é uma ideia privilegiada sempre pelo pensamento humano. Desde o início da revolução industrial se discutem aspectos relativos à sua presença. por isso. inerente à essência da natureza humana. no interior do contexto social. Assim pensaram os teóricos do jusnaturalismo. pressupõe. um dos focos principais para se pensar tal questão é a liberdade. ou da sua impossibilidade. funções ou condições sociais. O problema é regulamentar as liberdades no sentido de projeções ou versões de uma liberdade oficial no ente humano. O constitucionalismo liberal volta-se para os direitos e garantias. as estruturas institucionais e os seus mecanismo de monitoramento são expressão de um sistema que privilegia a segunrança não levando em consideração a condição de liberdade do individuo. comumente usada como critério para julgar instituições. O capitalismo e a lógica do consumo. assumida como um direito humano. Mas esta não é uma notícia nova. no direito constitucional. O direito privado contratos e garantias. Pela condição subjetiva com que frequentemente se fala da liberdade. por ser a liberdade um Direito natural. ou não. A problemática que fica para ser resolvida pela sociedade moderna é a equação entre os limites da liberdade e direitos dos . Se falamos hoje numa crise contemporânea. Mesmo que a condição apresentada seja adversa e o discurso seja em torno da sua falta.

às relações de interação. A liberdade em sentido valorativo – é usada mais como exortação. independente dos pontos de vista normativos. ou mesmo pela democracia. Possui diferentes significações conforme os modelos éticos. Norberto Bobbio ressalta o problema da liberdade social através de dois sentidos: A liberdade em sentido descritivo – refere-se às situações identificáveis empiricamente. de contato interpessoal ou social em que um ator deixa o outro livre para a sua ação. Em Diálogos em torno da República (2002). Bobbio retoma a discussão e mantém uma preocupação atenta para uma terceira compreensão de liberdade que ultrapassa os modelos democrático e liberal. No Dicionário de Política (2000). como palavra de ordem em situações de euforia.Tema 4 | Temas de Política 137 indivíduos em relação ao conflito com os interesses da maioria conforme a liberdade política. ou a social. Apresenta-nos a liberdade a partir de uma compreensão republicana. A resolução dada por este modelo aprofunda uma problemática não desfeita nem pelo liberalismo. Parece haver um embate entre estes dois sentidos de liberdade. . Quando falamos em liberdade nos referimos com maior frequência à liberdade social. Dessa forma. expõe suas ideias dentro das seguintes definições. revelando as nossas possibilidades essenciais. Liberdade política x direitos individuais A liberdade é vista sob várias perspectivas como a religiosa. Visando esta principalmente reduzir os poderes daqueles que mantém os outros sob dependência. entre outras. Atenta-se para os limites das liberdades e os direitos individuais.

concepção republicana – significa não depender da vontade arbitrária de algum indivíduo. pois qualquer lei é restritiva da liberdade. A liberdade política concretiza-se através da opinião pública. a opinião pública torna-se o fator de representatividade da percepção da visão de mundo e das revimdicações para obtenção da liberdade social. o escopo a partir do qual se sugerem as mudanças sociais. que privilegia a autonomia. em alguns momentos. enquanto capacidade de dar leis a si mesmo. Sob esta perspectiva. pois esta enquanto um constrangimento da vontade torna-se a própria violação da liberdade. Opor-se à dependência. propondo assim a independência. para realizar a vontade política é preciso opor-se à interferência e à coerção em sentido próprio. depois da quebra do poder das grandes ideologias. Sustenta-se que. A opinião pública constitui um dos temas mais contemporâneos da Ciência Política. encontra-se como princípio do pensamento político liberal. Esta compõe um dos elementos que mais tem recebido atenção nos últimos tempos para uma compreensão da democracia. alçando. lançada à força. A liberdade manifesta-se nas possibilidade de expressão.138 Ciência Política concepção democrática – é uma liberdade positiva. Revela nosso poder de decidir as normas que regulam a vida social. implicando em questões de complexas abordagens e com implicações que se estendem às interferências do senso comum e da ética. Ser livre é não ser submetido à interferência. Esta. aceita voluntariamente distintamente de uma lei heterônoma. . mas por uma lei autônoma. a liberdade é algo que se opõe à lei. concepção liberal – é uma liberdade negativa porque pressupõe a ausência de interferência. É uma ação que vai de conformidade com a lei.

Jellinek afirma que a opinião pública não passa do ponto de vista da sociedade sobre assuntos de natureza política e social. Schaeffle diz ser uma reação. Trata-se de um pensamento formado em coletivo. destacadamente o Estado Liberal-Burguês. Schimoller destaca-a enquanto resposta manifesta pela parte passiva da sociedade. mas dilui-se na opinião vaga e generalizada acerca daquilo que veicula. a mera opinião. Bonavides cita algumas dessas considerações: • Os publicistas de língua inglesa que falam acerca da impossibilidade de sua definição. É destacado o modo como esta manifestação política deveria ter um sentido de representatividade. o que para alguns seria algo impossível de se definir. e que demanda a execução de normas que tenham validez geral. o povo dirigindo-se ao modo como age a parte ativa que é o Estado. percebendo que tão pouco algo pode ser denominado usualmente como opinião pública. juridicamente informe. das massas ou de camadas individuais da sociedade contra a autoridade. Toennies a considera uma forma que expõe a vontade social. • • • • .Tema 4 | Temas de Política 139 Foi a partir do século XVIII que o seu estudo passou a ser associado às questões do Estado. Mas no decorrer da história várias considerações se interpuseram para analisar esse fenômeno.

preso às limitações de visão daquele que professa. Necker. o verdadeiro conteúdo e justiça. nos salões. Algo que se lançasse muito mais desconfiança que crédito. preconceituoso. em algumas ocasiões. já expressava uma preocupação característica porque percebia nas atitudes corriqueiras da sociedade a necessidade de promover uma ideia generalizada acerca da sua condição e status. Lauro. Hegel (1770-1831). Filosofia Política e Liberdade. . ministros chegavam ao máximo da passividade em certas situações para não comprometer suas posições em rodas sociais. vinculando a esta a constituição. Bakunin (1814-1876). possivelmente um dos primeiros a se interessar com a opinião pública na sua dimensão política. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR CORBISIER. BARRETTO. durante a revolução russa. acaba por reter o verdadeiro poder. Sauvy (1898-1990). São Paulo: Paz e Terra. entre outros. Pesquisas de opinião pública no processo eleitoral. Assim. Eles proferiram de maneira unânime que a sua discreta influência.140 Ciência Política Tais considerações tem povoado o pensamento político quando o assunto é opinião pública. onde se apresentavam as funções mais destacadas para a elaboração da opinião pública. Grande parte dos pensadores a proclamam pelo poder que emana da sua condição. fortuito. 1978. Embora se pense a opinião pública como algo leviano. Roland. a legislação e a vida coletiva em geral. Rio de Janeiro: Lumen Juris. É o caso de filósofos como Marx (1181-1990). 1997. Bryce.

Há toda uma cultura filosófica que se desdobra com as observações de Corbisier. para tratar de tal questão. PARA REFLETIR Assista a três filmes que tenham como temática a questão da liberdade. Lauro Barreto. Trata da relação dialética do senhor e do escravo a partir do pensamento de Hegel. Identifique as formas distintas com que a ideia de liberdade é trabalhada e fale qual delas vc considera mais verdadeira.Tema 4 | Temas de Política 141 A questão principal é a liberdade e suas relações com a igualdade e a responsabilidade. explora as metamorfoses da opinião pública e as estratégias que os meios de comunicação usam para implantação de tal fenômeno político. A segunda obra trata de uma questão corriqueiramente presente na construção do imaginário coletivo. . mas que é sempre tomada com uma certa naturalidade. Exponha sua opinião no AVA. desenvolvendo uma análise primorosa e faz diversas analogias com o problema atual da liberdade com diversos fenômenos históricos. Situa casos específicos para que o leitor possua uma melhor ilustração e desvenda aspectos do jornalismo moderno.

não passa de um duelo. Essa diferenciação se dá. a guerra é a expressão mais extrema na qual o interesse de um estado.142 Ciência Política 4. A coragem e a impiedade precisam estar unidas. o adversário seja abatido e torne-se incapaz de qualquer reação. Segundo Clausewitz o conflito existente entre os homens depende de dois elementos diferentes: • o sentimento de antipatia. ao enxergar o derramamento de sangue. disputado num patamar mais elevado. ou grupo se faz manifesto. O uso da força física deve estar somado à inteligência. A guerra. Realizada com o objetivo de que. não pela • . recebe vantagem frente ao seu oponente. Por essa perspectiva não passa de ato de violência. sentimento de ódio é algo tão vivo na situação de guerra que se torna uma intenção apaixonada atingindo. Também podemos falar em intenções hostis sem quaisquer antipatias para com o adversário. em seu sentido fundamental. Em condições de guerra a piedade e os bons sentimentos não são lucro.4 A Guerra Enquanto representativa da ação política. O indivíduo que se munir sem piedade dessa força e não vacilar. a selvageria. a intenção agressiva diferencia os agressivos selvagens dos civilizados através da prevalência da inteligência neste último e da agressividade inspirada pela sensibilidade nos selvagens. E isso para ambos os lados. dentre outros fatores. por vezes. por meio da força física. ainda que possa nascer sem intenções de agressividade. que busca submeter o inimigo a fazer a vontade de seu adversário.

Cada um dos adversários executa a lei do outro. Ela deixa de ser algo ligado ao sentimento à consciência nacional para ser relacionada estritamente à estratégia. Interessante perceber que a utilização desse sentimento deve delimitar-se.10). p. sendo necessário apenas o uso da teoria para a resolução dos confrontos. Desse modo.Tema 4 | Temas de Política 143 diferença da natureza de ambos. mas pelas circunstâncias sociais vivenciadas nas instituições existentes. Mesmo as nações mais civilizadas podem ser tomadas pelo ódio. Em tese. ainda que não provenha da violência. explorando a lógica da guerra. O que nos faz perceber que se as guerras das civilizações fossem transpostas da forma que os governantes desejavam. A guerra não prové necessariamente da violência. quando as guerras começaram a caminhar para essa via. Tal é a primeira ação recíproca e o primeiro extremo que se nos deparam. não dependendo do grau de civilização. Clausewitz identifica que. Seria tal a manipulação governamental que a força dos exércitos seria algo dispensável. e sim do grau de importância dos interesses inimigos. elas perderiam toda a paixão. (CLAUSEWITZ. enquanto conceito. deve ir aos extremos. algumas mudanças na sua compreensão reordenaram a teoria acerca da guerra. identificamos que o verdadeiro objetivo é desarmar o . esta última é o timbre característico da guerra A guerra é um ato de violência e não há nenhum limite para a manifestação dessa violência. de onde resulta uma ação recíproca que.

Enquanto não se derrotar o adversário. • A natureza do combate é que determina a estrutura para que a guerra vá ser preparada. Mas é importante que o indivíduo que detém a situação em seu controle cuide para não perder o domínio desta. o que não permite falhas. A guerra é uma ação sobre duas forças vivas. . O que determinou a existência de armas na guerra e de equipamentos foi o combate.144 Ciência Política inimigo. mesmo que sem perfeita exatidão. Precisa-se usufruir da inteligência e gozar de cautela para atacar no momento mais vulnerável de seu adversário. o risco de se tornar o perdedor é real. ele se submete ao seu oponente. basta existir disponibilidade de duas forças vivas. o que a modificou. só é possível ter uma pequena noção do seu tamanho. Uma vez que o indivíduo se vê em situação de risco. para que um combate exista. em que algo de sua importância encontra-se ameaçado. para não se virar contra ele próprio. e ele ocorrerá corpo-a-corpo. Com isso temos dois fatores inseparáveis: • a extensão de meios de que dispõe o adversário: a intensidade dos meios de força que ele dispõe é possível de ser calculada em números. Baseando-se no fato de que. Para se vencer o inimigo é preciso calcular o grau de resistência proposta pelo oponente. a vontade que ele tem de vencer a guerra: já no que diz respeito à força de vontade. É importante ressaltar que o que vai constituir o objetivo dessa ação é o manifesto da própria ação e não o potencial do armamento e do equipamento que cada força vai utilizar. para que dessa forma ele se torne vulnerável. e isso a depender do que motiva seu oponente a entrar nesse conflito.

1780. . Clausewitz comenta que: O domínio da criação e da produção é o domínio da arte. colocá-las em tais condições que se tornem incapazes de seguir o combate. apenas aparentemente são termos simples de se definir ou escolher. decidindo assinar o acordo de paz. na guerra.126). pois é preciso compreender que toda teoria da arte inclui também ciências específicas. quando se visam à investigação ou ao saber. e que englobam tudo o mais que nela exista. Encontram-se. São: • as forças militares: é preciso em primeira ação destruir as forças armadas. a vontade do inimigo: Entretanto o sucesso dessas duas ações não irá determinar o fim da guerra. até que o inimigo entregue seu governo e aliados. E na estratégia o objetivo deve ser coordenar as forças para saber como serão os novos ataques.é a ciência que é soberana. • • A ciência da guerra ou arte da guerra. Na tática o adversário deve cuidar em ordenar e dirigir os próximos lugares de ataque do inimigo. (CLAUSEWITZ.Tema 4 | Temas de Política 145 A arte de guerrear está centrada na tática e na estratégia. o território: a conquista do território é o que permite ganhar espaço e construir uma nova força militar. mas. três coisas essenciais ao seu funcionamento. p. De tudo isso se deduz que é mais justo dizer arte da guerra que ciência da guerra.

Os contornos são formados de forma simples. em quase todos os exércitos. regulamentos e métodos são ações indispensáveis para a teoria da condução da guerra. às regras e ao método. O conceito de lei dentro da guerra pode ser dispensado. nem mesmo por parte dos chefes de guerra. compará-los entre si. uma vez que os fenômenos originários da guerra não são regulares suficientemente para que se alcance vantagens satisfatórias. às ordens. de um modo que consiga se esconder dos olhos da massa populacional. Deve existir nele paixão e entusiasmo pela vida guerreira. Os principais atributos morais de um combate são os seguintes: • • • os talentos do chefe de guerra. as virtudes guerreiras do exército. o sentimento nacional. A virtude guerreira do exército vai além da simples valentia e do entusiasmo que ele deve reter em favor da causa da guerra.146 Ciência Política A política é o centro para o qual toda a guerra se desenvolve. Sabendo-se que a tática é a parte em que a teoria consegue formar da melhor maneira uma doutrina positiva. É preferível que sejam fornecidos dados históricos capazes de estabelecer a incontestável eficácia destes três valores. que é melhor não contar com estes artifícios. Não permite que . Ele deve se submeter às exigências de poderes superiores. A guerra é uma corrida precisa. O guerreiro deve dispor de uma valentia diferente da dos civis. Não é possível dizer qual desses é o maior. A melhor forma de se provar o exército é o seu sentimento nacional. desenvolveu-se de forma tão natural. regras. Em contrapartida. ou mesmo. A condição da guerra tornou-se tão comum. princípios.

pois todo ou qualquer erro pode ser fatal. A guerra pouco se preocupa com os meios utilizados por ela para conseguir seus objetivos. Ela vai exigir dele frieza e precisão. e se a guerra diz respeito à política. já existentes por si só no habitar político. O que realmente interessa são os fins imediatos que ela irá promover. uma brincadeira de vida ou morte. Ela a torna uma arma. De maneira alguma a guerra é uma atitude independente. Para a política a guerra não passa de um simples instrumento. desde que se conquiste o ouro desejado é o real objetivo político na guerra. É uma espécie de jogo. ela não passa de uma parte das relações políticas. a política utiliza-se da guerra para alcançar seus objetivos desejados.Tema 4 | Temas de Política 147 o guerreiro desfrute de todas as habilidades adquiridas durante seu treinamento. e que o melhor vença. Em qualquer Estado a política toma posição de grandeza e poder. Para evitar frisar os problemas e conclusões. seria necessário que as lutas não passassem de pura hostilidade. Para que a política fosse totalmente abolida das guerras. que para manuseio precisa-se erguê-la com ambas as mãos e usar de toda a força. naturalmente ela adotará o seu caráter. Mas a realidade é que as guerras não . E pode ainda atingir o auge e alcançar sua forma absoluta. Nesse contexto é possível explicar o motivo pelo qual a guerra é tão grandiosa. Fingir que não se enxerga vidas em risco e mortes inocentes. Só não se pode esquecer que todos os competidores se acham aptos para ganhar. em uma simples espada que usa golpes alternativos.

A elegância com a qual escreve e as diversas ilustrações históricas nos fazem encantar pela harmonia com que a obra está composta. A política é a faculdade intelectual. A segunda obra. A pensadora Hannah Arendt brinda-nos com uma análise muito sóbria acerca da violência e sua permanência no mundo contemporâneo. . Da guerra. Hannah. mas muito pouco discutido nos cursos de política em geral. São Paulo: Martins Fontes. CLAUSEWITZ. é um exemplo de pesquisa analítica e exegética. 2009. Carl Von. Não deixando brechas para uma inversão de papéis. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR ARENDT. PARA REFLETIR Assista ao Filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos” do diretor Marcelo Massagão e descreva as imagens da guerra que o diretor apresenta no filme. 1996. na qual o autor elenca. “Da guerra”. classifica e reflete acerca de um fenômeno tão comum à humanidade. a guerra. identificando características dos órgãos promotores da violência e sua repercussão na sociedade civil. e a guerra apenas o instrumento dessa faculdade. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.148 Ciência Política passam de uma manifestação da própria política.

Tema 4 | Temas de Política 149 RESUMO A origem da Democracia remonta aos antigos gregos que criaram a política e planejaram a existência de um governo feito pelo povo e para o povo. A democracia sempre se volta para a garantia dos direitos dos cidadãos. A ideologia é um fenômeno que possui diversos significados conforme o entendimento que é lançado. manifestas em momentos distintos. De um modo geral ela representa as diversas formas de pensar. E quando se fala na distribuição do poder entre todos. conforme cada tempo. de conceber a realidade e de comportar-se. falamos do direito subjetivo de escolha e de veiculação das ideologias. como também através da participação popular. mas se faz necessário analisar essas condições e as características expressas no . Expressa tanto no voto através das eleições. A liberdade é um dos valores maiores do sistema de governo democrático. a ideologia implica numa forma acabada de ideias e conceitos que servem como palavra de ordem para a realização da vivência cotidiana. Desse modo. compreender a origem das relações sóciais e as peculiaridades destas relações. percebendo-a como uma questão central para compreensão do mundo moderno e das relações que norteiam a consciência de classe. O pensamento marxista detém-se sobre a questão da ideologia. Mas também pode ser vista de forma pejorativa quando se manifesta como uma forma pronta e acabada de se olhar para a realidade. Nesta perspectiva amontoase um conjunto de princípios e práticas resguardados na constituição enquanto lei maior. Procura através dos seus estudos. Daí considerar a Democracia como a institucionalização da liberdade. Dizemos que a Democracia requisita de cada membro do seu corpo estrutural a responsabilidade cívica.

. Nela encontramos um diagnóstico do nosso tempo. tomando-a frequentemente como seu pressuposto.150 Ciência Política decorrer da história. A resolução dada por este modelo aprofunda uma problemática não desfeita nem pelo liberalismo. fortuito. Segundo Clausewitz. que busca submeter o inimigo a fazer a vontade de seu adversário. Deve existir nele paixão e entusiasmo pela vida guerreira. em alguns momentos. o conflito existente entre os homens depende de dois elementos diferentes: o sentimento de antipatia e a intenção agressiva. habitualmente aplicado à compreensão do fenômeno. ou a social. A guerra é antes de qualquer outra definição um duelo. O guerreiro deve dispor de uma valentia diferente da dos civis. Por essa perspectiva não passa de ato de violência. Bobbio mantém uma preocupação atenta para uma terceira compreensão de liberdade que ultrapassa os modelos democrático e liberal. O intuito é de que o adversário seja abatido e torne-se incapaz de qualquer reação. preconceituoso. preso às limitações de visão daquele que professa. A liberdade é vista sob várias perspectivas como a religiosa. Apresenta-nos a liberdade a partir de uma compreensão republicana. às regras e ao método. às ordens. Ele deve se submeter às exigências de poderes superiores. mas disputado num patamar mais elevado. Grande parte dos pensadores a proclamam pelo poder que emana da sua condição. A virtude guerreira do exército vai além da simples valentia e do entusiasmo que ele deve reter em favor da causa da guerra. entre outras. embora. ou mesmo pela democracia. mas ao mesmo tempo os anseios que permanecem quanto a um modelo ideal de sociedade. A própria natureza da política faz exigências quanto à ação livre. revelando as nossas possibilidades essenciais. Um dos maiores símbolos de liberdade que encontramos no cenário contemporâneo é o da opinião pública. se pense a opinião pública como algo leviano.

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