O MODERNISMO BRASILEIRO: SINTESE

PANORAMA DOS ANOS 1900-1920 na Europa
a) Novas invenções (cinema, gramofone, rádio, automóvel, aeroplano etc.): “era da máquina”; b) Efervescência estética: vanguardas artísticas e respectivos manifestos: Futurismo, Cubismo, Dadaísmo, Expressionismo, Surrealismo, todas marcadas pelo experimentalismo, pelo repúdio ao passado e pela quebra das convenções sobre o “belo” artístico; c) Novo pensamento científico: Einstein e a teoria da relatividade, Freud e o inconsciente, declínio da visão positivista da segunda metade do século XIX; d) Transformações políticas: Revolução Russa (1917), I Guerra Mundial (1914-1918).

ANTECEDENTES DA SEMANA DE ARTE MODERNA EM 1922
1912: Oswald de Andrade retorna da Europa com notícias das vanguardas, em especial com o futurismo de Manientti, que apregoava o verso livre, e o culto à velocidade; 1913: Lasar Segall realiza uma exposição expressionista que passa despercebida mas, Mário de Andrade diria mais tarde, era a "primeira exposição não acadêmica em nosso país". 1914: Exposição de Anita Malfatti com influências pós-impressionistas; 1917: Publicação dos livros Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, de Mário de Andrade, e A Cinza das Horas, de Manoel Bandeira; 1917/1918: Segunda exposição de Anita Malfatti apresenta a sua segunda exposição individual, reunindo desenhos, pinturas, gravuras, aquarelas e caricaturas. Com essa exposição criava-se uma grande polêmica: o público e a crítica assustaram-se com homens amarelos e mulheres de cabelos verdes. Monteiro Lobato, julgando ser essa mais uma das manifestações de "arte importada" pública o famoso artigo Paranóia ou Mistificação (20/12/1917), em O Estado de São Paulo, criticando duramente a pintora e sua obra. Esse fato uniu alguns intelectuais brasileiros em torno da defesa de Anita e da defesa de uma arte “moderna”, em consonância com as mais recentes inovações européias; 1921: Di Cavalcanti apresenta em São Paulo desenhos e caricaturas. Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Cândido Mota Filho e Mário de Andrade, através de jornais e revista assinam publicações que divulgam idéias modernistas.

FASES DO MODERNISMO:
a) primeira fase: (1922-1930) fase “heróica”, irreverente, predomínio do verso livre etc. É uma fase rica em manifestos: “Pau-Brasil” e “Antropofágico” de Oswald de Andrade; "Verde-Amarelo" e do "Grupo da Anta", com Plínio Salgado; b) segunda fase: (1930-1945) consolidação das conquistas estéticas e abertura para o social; c) terceira fase: (1945-195...) “geração de 45”, conservadorismo estético-ideológico; d) quarta fase: (195...-1970) vanguardas: Poesia Concreta, Práxis, Poema Processo (vanguarda estética) e poesia de “luta social” (vanguarda ideológica). e) quinta fase: (197.. 198...) geração mimeografo, “poesia marginal”.

CARACTERISTICAS GERAIS
- A Semana foi patrocinada pela elite paulista, agregan4o nomes como os de Paulo Prado, Prado Junior, Armando Penteado, Graça Aranha (membro da Academia Brasileira de Letras), etc. - Apesar de não haver entre os participantes da Semana uma identidade técnica ou estética, há entre eles um mesmo sentimento e ideal de libertar das artes nacionais do academicismo em que estavam mergulhadas e de integrar o país ao que se produzia internacionalmente de mais atual (nas artes em geral). - A primeira fase do modernismo foi tanto uma experiência teórica de investigação estético-filosófica como uma práxis especulativa fortemente influenciada pelas vanguardas européias. - O modernismo brasileiro teve orientação prioritariamente critica, e em 1942, em conferência Casa do Estudante do Rio de Janeiro, Mário de Andrade analise que nosso modernismo teria sido guiado por 3

1

culto do “novo”. Representações do mundo moderno .A chamada ‘fase heróica’ de nosso modernismo teve como principais características: a) o ataque às formas acadêmicas de arte (Parnasianismo/Simbolismo e Realismo/Naturalismo). 2) a atualização da inteligência nacional. PRINCIPAIS AUTORES E OBRAS Manuel Bandeira (1886-1968). neologismo. infrações à norma culta da língua como gírias. com sistemática oposição à arte acadêmica: a poesia parnasiana torna-se o principal alvo da virulenta critica dos primeiros modernistas. Oswald de Andrade (1890-1954). . o cubismo. Linguagem “não-nobre”. 3) a estabilização de uma consciência critica nacional.aceitação de um léxico “vulgar”. TRAÇOS CARACTERÍSTICOS: Arte iconoclasta.”descoberta” crítica do Brasil.sintonia com as vanguardas européias. p. Nacionalismo: . João Cabral de Melo Neto (1920-1999).Entre as décadas de 20 e 30 se inicia um movimento de estudos temas brasileiros.emprego da paródia e exploração da intertextualidade.(Na primeira fase) culto à velocidade. etc. Jorge de Lima (1893-1953). de Paulo Prado (1928). Experimentalismo e vanguardismo: .. euforia pela modernidade.anticolonialismo cultural.princípios norteadores: 1) o direito permanente à pesquisa estética. . erros gramaticais. Casa Grande e senzala. . a técnica de montagem/colagem. ensaio sobre a tristeza brasileira. . surge o “poema piada”. como por exemplo o verso livre e branco. de Gilberto Freyre (1933). Ítalo Moriconi. . Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).incorporação da fala coloquial brasileira.regionalismo(s). c) a valorização da língua falada e apropriação do coloquial e popular pela linguagem literária. Notem-se as publicações das seguintes obras: Retrato de Brasil. Cecília Meireles (1901-1964). a não-linearidade. Raízes do Brasil. . b) Incorporação das noções teóricas e técnicas das vanguardas européias. estrangeirismo.empréstimo de processos como a colagem. . ver artigo citado na bibliografia) preferem a terminologia “pós-moderna” para caracterizar um tipo de prosa e poesia na qual se manifesta um “esgotamento.valorização do fazer literário.02/06). criações espontâneas do povo. crise ou superação de aspectos importantes da modernidade estética como um todo” (Moriconi. Mário de Andrade (1893-1944). as livres associações. as livres associações surrealistas. de Sergio Buarque de Holanda (1936). Menotti del Picchia (1892-). 2 . Absorção de processos extraliterários: .banalização do conteúdo poético. em intensidade e profundidade até então desconhecida. à maquina. do anedótico. a fragmentação do discurso. etc.A partir da década de 70 (na poesia) e 80 (na prosa) alguns críticos (como por exemplo o prof. etc. . Murilo Mendes (1902-1975). Dessacralização da poesia: . Liberdade tanto no plano formal quanto temático . ao automóvel.adoção do verso branco e livre (sem rima e sem métrica) e conseqüente ritmo “psicológico”.incorporação do prosaico. coloquial: . Raul Bopp (1898-1984). . exploração do inconsciente.

que não deveriam resistir às mudanças. 5. supressão dos elementos de comparação: como. 3 . mas que. embaralhando o tempo. 6. o salto mortal. artísticas. a ordem cronológica deve ser eliminada. a obra de arte não deve ser uma representação objetiva da natureza. 2. CUBISMO: representado maximamente por Picasso nas artes plásticas. abolição do adjetivo. criada. que transita entre o consciente e o subconsciente. Alguns preceitos do manifesto de Marinetti (1909) são: 1. remontados pelo espectador. que exaltava acima de tudo o progresso tecnológico e a velocidade. mas uma transformação dela. As sensações e recordações vão e vêm do presente ao passado. que parece correr sobre a metralha. o êxtase. deixassem transparecer uma estrutura superior. essencial. mas deformadas em todos os sentidos. a procura da verdade deve centralizar-se na realidade pensada.PRINCIPAIS VANGUARDAS EUROPÉIAS FUTURISMO. esta aplicada a todas as instâncias (morais. semelhantes a serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor. o emprego do verbo no infinitivo.. vistas como conseqüências do progresso. A coragem. é mais bonito que a Vitória de Samotrácia. substituição dos sinais tradicionais de pontuação por signos matemáticos: X-:+=>< e pelos sinais musicais. o bofetão e o soco. sua remontagem por meio de planos geométricos superpostos. Características do cubismo na literatura: A técnica dos cubistas é a da representação da realidade por meio de estruturas geométricas. 4. assim como. 3. o hábito da energia e da temeridade. o sono. tão ao gosto de Oswald de Andrade: Se Pedro segundo Vier aqui Com história Eu boto ele na cadeia. Os cubistas afirmam que as coisas nunca aparecem como elas são. Na literatura podem ser apontados os seguintes elementos do estilo cubista: 1. a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia. 3. preferência pelo pensamento-associação. abolição de todos os clichês. aplicado à literatura. ao mesmo tempo objetiva e subjetiva. Um automóvel de corrida com o seu cofre enfeitado com tubos grossos. o passo de corrida. 3. parecido com. a supressão da lógica. a abolição da sintaxe e a invenção de palavras. A história caminharia para o futuro. a linguagem caótica. e só o futuro interessa. 7.) Características do futurismo na literatura: 1. caracterizado pela condensação. sociais. impõe o fracionamento da realidade e. desmontando os objetos para que. filosóficas. liderado pelo italiano Marinetti. “que dá à frase uma cansativa unidade de tom”. Nós queremos cantar o amor ao perigo. (. 4. 4.. irreverência e polêmica. a valorização do humor. onde temos um exemplo do poema-piada. 2. a insônia febril. 5. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa. abolição do advérbio. 2. a preocupação gráfica do poema. Nós queremos exaltar o movimento agressivo. para que se adapte elasticamente ao substantivo e possa dar o sentido de continuidade e da intuição que nele se percebe. para que o substantivo guarde sua “cor essencial”. em seguida. Nós afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. a destruição da sintaxe. e não na realidade aparente. Outras características da literatura cubista: a utilização do verso livre e do humor. Observe-se exemplo abaixo. etc). com os substantivos dispostos ao acaso. a fim de afugentar a monotonia da vida nas modernas sociedades industrializadas. a audácia.

que identifica zonas (o subconsciente e o inconsciente) muito importantes para a ação do ser humano. certamente. rabo de vaca santa. morte feliz. Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema. 2. etc. como: anjo torto. Eram propostas dos surrealistas: 1. Apoiados na pesquisas de Sigmund Freud. A valorização da fantasia. Com o propósito de fugir aos lugares-comuns. 3. a abolição da memória. tal como nos ocorrem. Seu líder foi Tristan Tzara. mito. registrando tudo o que lhe vier à mente sem se preocupar com racionalizações lógicas). ainda que posterior à Semana.DADAÍSMO Foi o mais radical movimento vanguardista. sintetiza algumas dos ideais. romeno que vivia na França. para se tornar ação mágica. Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta num saco Copie conscienciosamente na ordem em que as palavras são tiradas do saco. não intelectualizada ou idealmente orientada. A poesia deixa de ser em entendida como canto ou como meio de comunicação de vivências. Faziam parte das propostas dadaístas: 1. Parte da negação total da coerência. numa espécie de protesto contra o absurdo da guerra. da linguagem.Irreverente e iconoclasta é a ‘receita’ dadaísta para a arte: Receita de um poema dadaísta Pegue o jornal. O texto deve ter como preocupação maior captar o funcionamento real do pensamento. Alguns postulados de seu manifesto são: 1. porque a beleza está morta. Nós não reconhecemos nenhuma teoria. Ele afirmava que encontrou a palavra dadá casualmente em um dicionário. mãe. 2. da lógica e da cultura. da arqueologia. 4 . a automatização da escrita (o artista deve levar-se pelo impulso criativo. 2. da loucura e do sonho. abolição da lógica. automatização da escrita. os surrealistas juntam muitas vezes uma palavra logicamente adequada a uma outra absurda. ainda que incompreendido do público. cadáver agradável. 4. possuindo a mesma os múltiplos significados de: rabo de cavalo. E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa. SURREALISMO: o Manifesto do Surrealismo. lançado pelo francês André Breton em 1924. procuram a inspiração nos sonhos. valorização do inconsciente. nome de um cavalo de pau. sem preocupação com o ordenamento lógico. Marcas na literatura: os cortes verbais. a recusa dos valores racionalistas da burguesia. Recorte o artigo. atribuição de um caráter lúdico à arte. Recusavam o racionalismo absoluto que permite apenas captar os fatos relacionados unicamente com a nossa experiência. dos profetas e do futuro. Dadá não significa nada. 5. A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma. a não discursividade. Os pensamentos devem ser exprimidos caoticamente. 3. Pegue a tesoura. ama-de-leite. a desmistificação da arte: “a arte não é coisa séria”. a fragmentação da narrativa. meio de conhecimento: 4. ‘automática’. A expressão do mundo apenas é possível por meio das deformações e contrastes. EXPRESSIONISMO: ruptura entre o homem e o mundo das coisas. a negação da lógica. a associação livre de idéias e a valorização das forças obscuras do inconsciente são alguns dos pressupostos deste movimento. O niilismo da filosofia dadaísta pressupõe uma arte inconsciente. a denúncia das fraquezas por a Europa passava. sem compromissos com academicismos. O poema se parecerá com você. mais pressentidos que explicitados nos discursos e nas obras de nossos primeiros modernistas. 3. presença do humor negro. da arte e da ciência. produzindo imagens insólitas. 5.

lentas pelo ar. Pré-História. Não me falou em amor. São perfeitos os teus alexandrinos! Mas como têm mais graça as asas dessa abelha. o pai fazendo serão. o ready-made (ex. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Equilibrou-se no azul. elegantes. ela falou comigo: "Coitado. etc. Essa palavra de luxo. o poema piada Pronominais. Não é. movendo a tromba. Uma noite abriu as asas Cansada de tanto som. de Oswald de Andrade IRREVERÊNCIA. Marcel Duchamp).. passam. “Sob o vivo clarão dos poentes purpurínos”. o cubismo. Ou essa fúlvida centelha Que turbilhona sem parar! Como são mais interessantes que aqueles negros. ver também Pero Álvares Cabral.. deixou tacho no fogo com água quente. solenes.. Murilo Mendes Mamãe vestida de rendas Tocava piano no caos.. para ninguém! Caiu no álbum de retratos. Oswald de Andrade Dê-me um cigarro Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido Mas o bom negro e o bom branco Da Nação Brasileira Dizem todos os dias Deixa disso camarada Me dá um cigarro Senhor feudal. ARTE ICONOCLASTA Literatura. que lindos são os teus alexandrinos Perfilados. Oswald de Andrade Se Pedro Segundo Vier aqui Com história Eu boto ele na cadeia No meio do caminho.. Passam.. exploração do inconsciente. Ronald de Carvalho Como são lindos os teus alexandrinos.. os tardos elefantes”. elegantes. os tardos elefantes”. APROVEITAMENTO DE PROCESSOS EXTRALITERÁRIOS: A literatura toma de empréstimo processos como a colagem. Adélia Prado Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Poeta.. Aquele dia de noite.CARACTERÍSTICAS DA POESIA MODERNISTA DESSACRALIZAÇÃO DA POESIA: humor. de Sérgio Millet Fui a Nova York Não de avião ou transatlântico Nem com a ajuda de Orfeus hoje impotentes Fui de cinema. esses pares de andorinhas que volteiam em curvas longas. as livres associações surrealistas. LINGUAGEM NÃO-NOBRE Ensinamento.. até essa hora no serviço pesado". Drummond No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. solenes. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. inúteis elefantes. que lindos são. POÉTICA DO COTIDIANO. movendo o tromba. Arrumou pão e café . De tonta não mais olhou Para mim. REPRESENTAÇÕES DO MUNDO MODERNO Nova York. 5 . Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.. “Sob o vivo clarão dos poentes purpurínos.

AVILLA. Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam o verde dos montes interiores. Rolah ia vinha derrapava entrava em túneis. Alfredo. 1975. Alcmeno. de Manuel Bandeira (apostila) e 66. São Paulo: Perspetiva/Secretaria da Cultura.. Historia concisa da literatura brasileira. Poesia brasileira e estilo de época. Afonso. O modernismo. 6 .NACIONALISMO CRITICO Ver poema Descobrimento. Botafogo etc. São Paulo: Cultrix. Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade. BOSI. Barcos. E o passado voltava na brisa de baforadas gostosas. Ciência e Tecnologia. 2006. No outro lado azul da baía a Serra dos Órgãos serrava. de Manuel Bandeira (apostila) Anotações baseadas em: BASTOS. LIBERDADE TANTO NO PLANO FORMAL QUANTO TEMÁTICO Ver poema Poética. Oswald de Andrade (do “romance” Memórias sentimentais de João Miramar) Beiramarávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das avenidas marinhas sem sol. de Mário de Andrade (apostila) DILUIÇÃO DAS FRONTEIRAS ENTRE PROSA E POESIA Ver Poema tirado de uma notícia de jornal.