1

Introdução.............................................................................................................................03 Capítulo 1..............................................................................................................................05 Capítulo 2..............................................................................................................................12 Capítulo 3..............................................................................................................................16 Capítulo 4..............................................................................................................................22 Capítulo 5..............................................................................................................................27 Capítulo 6..............................................................................................................................34 Capítulo 7..............................................................................................................................41 Capítulo 8..............................................................................................................................48 Capítulo 9..............................................................................................................................56 Capítulo 10............................................................................................................................60 Capítulo 11............................................................................................................................65 Capítulo 12............................................................................................................................71 Capítulo 13............................................................................................................................75 Capítulo 14............................................................................................................................86 Capítulo 15............................................................................................................................98 Capítulo 16..........................................................................................................................105 Capítulo 17..........................................................................................................................117 Capítulo 18..........................................................................................................................125 Capítulo 19..........................................................................................................................133 Capítulo 20..........................................................................................................................140 Capítulo 21..........................................................................................................................150 Capítulo 22..........................................................................................................................154 Capítulo 23..........................................................................................................................163 Capítulo 24..........................................................................................................................167 Capítulo 25..........................................................................................................................176 Capítulo 26..........................................................................................................................179 Bibliografia.........................................................................................................................180

2

Fernando é um jovem de 19 anos que nunca havia trabalhado. Devido a seus conflitos familiares, vai em busca de seu primeiro emprego. Com sorte ele consegue, e tudo em sua vida começa a melhorar. Já em seu trabalho novo e recente namoro, o destino encarrega-se de apresenta-lo a Levy, fazendo-o apaixonar-se à primeira vista. Consciente que seria um amor impossível, Nando não cria expectativas, pois o Levy sendo heterossexual jamais teria chance. Seu namorado parecia ser o homem perfeito, até que a vida começa a lhe mostrar a real face, uma verdade escondida sob uma beleza invejável. Tornando-se refém de uma relação violenta, Nando pede ajuda ao seu amigo Levy que arrisca sua vida para ajudá-lo. Violência, aventura, intrigas e amor que envolvem essa história de início ao fim.

3

Sendo visados como pecadores. A marca de batom. quando na verdade eles apenas são diferentes. Explicando das formas mais simples que todo ser humano possui sua identidade própria.br. ele responde. envolvendo também os acontecimentos mundiais e problemas atuais que o país enfrenta. O que olhos não veem. É o autor de @mor. Um estranho dentro de mim.com. Começou a escrever livros aos seus 17 anos. acabam sendo vítimas de preconceitos. marginais. nasceu e foi criado em São Paulo. vontades e sentimentos que os diferenciam do perfil ideal criado pela sociedade. coração também sente. Eles perguntam. Prazer em conhecer. transgressões culturais. 4 .Lu Mounier® Estudante na área de Comunicação Social. trazendo como temas centrais romances. injustamente. discriminações.

tornado os escravos livres. coisa muito difícil em nosso meio cheio de preconceitos e obstáculos.. Tomei um banho bem gostoso e quentinho antes de sair para ir à aula de inglês... Ma. faz mal. a professora entrou na sala exclamando: -Good afternoon! -Hello. Sorrindo. A metodologia da escola era muito boa. -O que você tem? -Sei lá. que ao reparar o quanto eu estava pálido perguntou sussurrando: -Fe... -Você almoçou hoje? -Sim. e em 1934 a mulher conquistou o direito de votar nesse país. Enquanto a professora montava o painel no quadro branco. não fique comendo essas bobagens. pois as aulas eram todas dinâmicas e bem participativas. continuávamos conversando baixo: -Sabe o que é bom? -O quê? -Chá de camomila. mas devido ao enjôo e dor de cabeça não consegui me concentrar na matéria.. ganhar seu próprio dinheiro. você está bem? Com a voz embargada respondi: -Não muito. viver sem ter que ficar dando satisfações pra alguém. Sentada ao meu lado estava a Maria. -Ai Fe.. Foi em uma quinta-feira que tudo começou. De uma hora pra outra o tempo muda e quando isso acontecia. eu sempre acabava ficando doente. -Sério? 5 .... Pão com hambúrguer. Ma. e também não dava tempo de preparar antes de vir pra aula. só sei que minha barriga estava doendo muito. Mas não tinha comida pronta em casa. -Eu sei. poder amar livremente sem ser reprimido.. No dia 13 de maio de 1888 foi abolida a escravatura no Brasil.I NDEPENDÊNCIA gritou Dom Pedro I às margens do Rio Ipiranga em uma viagem de Santos à São Paulo. Viver na cidade de São Paulo é conviver com as quatro estações do ano em um dia só. não sei se foi o sanduíche que eu havia comido... Dentro do metrô já comecei a me sentir mal. Naquele dia eu acordei cedo.. A palavra INDEPENDÊNCIA vem acompanhando a humanidade há séculos.. Todo mundo sonha em ser independente um dia.. estou com enjôo.

achando que iria pegar uma gripe. pois crescer sendo desprezado pelo próprio pai reflete psicologicamente em nosso futuro. Tremendo de frio.. -Vamos ver se passa mesmo. Depois da aula.. pois a impressão que eu tira era de que minha cabeça iria explodir de tanto que latejava.-Sim. Eu poderia contar nos dedos às vezes que meu pai proferiu um elogio a meu respeito. -Frescura. meu pai completou: -Olha o tanto de louça suja e ninguém tem coragem de lavar. Sempre seco e prepotente. Vitor. eu passava de canal o tempo todo..embora eu não estivesse muito bem. Mesmo que seja por um momento de fúria. coloquei as esfihas dentro do microondas para não esfriarem. em janeiro vai trabalhar comigo no bar. Ainda me sentindo um pouco fraco. não vou criar filho vagabundo dentro de casa. Peguei minha toalha e fui pro banheiro tomar um banho pra tirar o sono. está na rua.. sufocando-me pouco a pouco.. Eu nunca havia feito nada que o fizesse se envergonhar de mim. Suas palavras ficaram martelando em minha cabeça. pois sua arrogância insuportável o afastava de todos. Meus olhos lacrimejavam muito e espirros eram um atrás do outro.e modéstia à parte .. antes de sair para procurar um emprego.. a sensação era como se eu caísse dentro de um buraco e um caminhão de terra me cobrisse.. Peguei a caixa e fui direto para casa. inclusive da minha mãe. Meu peito apertou e as lágrimas começaram a descer sem que eu pudesse controlar. Quem sabe depois de comer algo menos gorduroso e calórico. Não entendia o por quê ele me tratava daquele jeito. até que acabei adormecendo com o efeito do remédio. até ser acordado pelos latidos da minha cachorra com a chegada dos meus pais.não me custava . -E o marmanjo do Fernando? Não faz nada o dia todo. era algo que me entristecia demais. Com o controle remoto na mão. Cheguei em casa febril. minha dor passava. No outro dia acordei cedo. pois ele estudava à tarde. Embaixo daquele cobertor quentinho eu dormia bem gostoso. passei em uma lanchonete de comida árabe que havia em frente à escola e comprei algumas esfihas. Tomei um antitérmico para ver se melhorava. porém. A partir daquele diz eu decidi que iria tomar um outro rumo para minha vida. peguei o aspirador de pó e fui passar na sala de casa. Há dias eu já vinha me sentindo mal. Quando você chegar em casa. marca. Enquanto a água caia em minhas costas.. Antes de trocar de roupa fui até a cozinha. Meu irmão já havia ido pra escola. Não quero nem saber.. em seguida liguei o rádio da sala bem alto. Às vezes. não só comigo. -O Fernando não anda bem. Misturado ao som de passos ouvi a voz da minha mãe dizendo: -Ai que canseira. como você pode ver. eu chorava ao relembrar as palavras duras do meu pai na noite anterior.eu era um filho exemplar. se até dezembro ele não arrumar um emprego. -O Thiago. faz um chazinho sem açúcar e toma. Minha febre só aumentava e minha tosse estava contínua. peguei um cobertor e liguei a TV.. Era sempre assim. tirava notas boas na escola . Deixa eu ir tirar essa roupa e depois lavar essa pilha de louça. Não estava em meus planos trabalhar com meu pai. só fica dentro de casa. Quase gritando. pois já que eu estava sem fazer nada . fere.. ouvir aquilo de um pai dói. 6 . Em menos de cinco minutos meu pedido já estava pronto. Deitei um pouco na minha cama depois de tomar o chá de camomila com um analgésico. magoa.

Sentei-me em uma cadeira branca de plástico que ficava enfileirada com várias outras. quase não acreditei quando tive que pegar uma fila enorme para comprar bilhete. Sem contar que as pessoas são muito sem educação.. Depois de quase duas horas tentando chegar à agência de empregos. Como se já não bastasse. Tudo bem que têm pessoas que necessitam chegar logo no trabalho. pão de queijo. Preferi não contar a verdade por enquanto. finalmente consegui. Eu não gostava de pegar metrô na parte da manhã. Sentei-me no canto da calçada enquanto o vento gelado cortava meu rosto. mas eu não tinha nem um centavo no bolso para comprar um pedaço de bolo se quer. pois era o que havia sobrado de troco do dia anterior. tive que pegar uma outra fila pra passar pela catraca. Tranquei a porta e ao pisar na calçada pensei positivo. Ali parado . enquanto passava xampu em meu cabelo e prometendo a mim mesmo que iria provar ao meu pai que eu não era nada daquilo que ele me chamava. bolo.de braços cruzados . No teto havia alguns altos falantes que ficavam informando a todo tempo sobre algumas vagas remanescentes. Minha barriga chegava a doer de tanta fome.eu via os ambulantes passando de um lado para o outro. Estou indo à dermatologista. intercalada com a chamada das senhas. Meus olhos já estavam pesados de sono. De braços e pernas cruzadas. tive que pegar uma fila enorme na porta.. Achei melhor dar a notícia só quando estivesse empregado. Peguei a senha de número 1314. -Ah. que ao me ver saindo de toalha tão cedo perguntou: -Fernando. pois não queria ouvir de ninguém . para completar bem o meu dia. Aonde você vai? Pensando em uma desculpa rápida respondi: -Eu. quando fui ao curso de inglês. Lá se foram mais quinze minutos até chegar à plataforma. A manhã estava um pouco fria. sendo assim.. Saí de casa antes do dia clarear. A caminho do quarto. acabei cochilando enquanto aguardava meu número ser chamado. porque além de ser cheio. 7 ... mas devemos ter a consciência de que vivemos em uma civilização..principalmente do meu pai frases pessimistas que me deixassem pra baixo. cruzei com minha mãe no corredor do quarto. Com o fluxo muito alto de pessoas querendo embarcar para o mesmo sentido ao mesmo tempo. Chegando na estação. sendo assim. Depois de passar quase quarenta minutos na fila pra comprar bilhete. assim como muita gente daquela fila. atrasando ainda mais nossa vida. No caminho até o metrô fui planejando meu futuro. o metrô se torna mais lento. enquanto ouvia um radinho de pilha que eu levava no bolso.Lágrimas se misturavam à água que descia pelo meu corpo.. Empurram a gente na pressa de entrar e acabam nos machucando. No meu bolso só havia meus documentos e o dinheiro contado para ir e vir. é muito desagradável viajar amassado igual sardinha em lata.. cada um deve respeitar o espaço do outro para o bem estar de todos. Caminhei até o final da rua onde começava a fila e fiquei aguardando a distribuição de senha. sem ter que ficar dando satisfações dos meus atos. Minha vontade era de poder morar sozinho e ter minha liberdade. receber quem eu quisesse em casa. No relógio da entrada já passavam dás 09h00. Esfregando os braços entrei no galpão de espera. vendendo chocolate quente.

onde fiquei aguardando por mais um bom tempo antes ser chamado... Ta aqui. minha barriga doía ainda mais. A garota que me atendeu era bem simpática e muito atenciosa. Boa sorte. Junto com outras pessoas. te interessa? Quando ela falou que havia uma vaga de emprego para mim eu fiquei feliz da vida. fui levado até uma outra sala dentro do prédio. passando por cima dos dizeres do meu pai e provando que eu não era nada daquilo que ele havia nomeado. roncando desordenadamente de fome. Respondi algumas perguntas básicas como endereço. Olhei no relógio e já passada dás 12h00. -Vamos ver. Até que enfim eu seria atendido. Nessa outra sala havia TV e ar condicionado. -Eu vou te fazendo algumas perguntas e você vai me respondendo pra eu registrar aqui. ta bom? -Tudo bem. -Então vamos fazer seu cadastro.. -Bom dia! -Bom dia! -É a primeira vez que você vem aqui? -Sim... Geralmente essas pessoas nos atendem muito mal e com estupidez .. Quando vai ser? -Hoje mesmo.. -Sim! -Vou imprimir então a carta de encaminhamento para você ir pro processo seletivo.... De volta ao pátio.ainda bem. entre outras.. RG e CPF? -Deixa eu pegar.. telefone. -Ta bom. Assim permaneci até ouvir chamarem a senha de número 1314. Depois de efetuado o cadastro.Minha barriga doía de fome e meus músculos tremiam de frio. -Ok. diferente do clima onde eu estava anteriormente. tornando o ambiente mais agradável. Subi as escadas feliz da vida. ela me devolveu os documentos e começou a procurar uma vaga no sistema de acordo com meu perfil. Tudo bem pra você? -Sem problemas. -Empresta pra mim sua carteira de trabalho.. Esperei por mais uma hora até ser chamado para fazer o cadastro. hein Fernando. -Valeu. Entregando-me um envelope ela falou: -Então é só você subir lá e entregar esse papel. às 14h00 no 9º andar. sentei-me em uma cadeira esperando dar o horário para passar pela seleção. -Prontinho Fernando. Olha Fernando. tudo bem? -Ok. tem uma vaga de teleoperador pra suporte à internet. A cada minuto que passava. -Uhum. Muito obrigado! -Por nada. pelo menos era o que eu pensava. aqui estão seus documentos.. além de ser educada e paciente. -Obrigado! -Agora eu vou fazer uma busca pra ver se encontro uma vaga no seu perfil. 8 . escolaridade.mas ela foi diferente .

Nunca havia passado por uma situação como aquela... tamanho era o medo que eu estava de fazer algo de errado e não ser selecionado.. uma garota que estava à minha frente começou a puxar assunto comigo. Qual seu nome? -Fernando e o seu? -Eliane. De certa forma me senti humilhado. -E você? -Uma amiga me avisou ai eu vim aqui.... A verdade é que o país tem hoje.. enquanto o IBGE fala em taxa de 12%. a Fundação Seade/Dieese fala em 18% na região metropolitana da Grande São Paulo.. Minha barriga gelava de ansiedade e roncava de fome. que era liberada por um segurança. Tive vontade de chorar ao ver uma criança passando na minha frente mordendo um cachorro quente.Lá fora o clima já havia esquentado. Minha ansiedade era tanta que o tempo parecia não passar.. Ta com medo? -Um pouco. Como você ficou sabendo dessa vaga? -Eu vim aqui hoje de manhã e me encaminharam. Finalmente o horário da seleção chegou. é grande a preocupação dos trabalhadores. em seguida fomos em direção ao elevador que ficava no final de um estreito corredor. -Eu também. passamos pela catraca..até tontura eu já estava começando a sentir. um lixo. Já não ventava mais e o sol tímido às vezes aparecia. À minha frente havia uma lanchonete e o cheiro de pão de queijo que vinha de lá fazia meu estomago roncar. 9 . Perdida. Junto comigo haviam pessoas de vários tipos . (LIBRARY/ REFORMA. Não via a hora de chegar em casa e almoçar . No hall do elevador já havia uma fila aguardando para receber a etiqueta e subir ao 9º andar. 2006: 21) Minha fome só fazia aumentar. -Você está indo pra seleção de banda larga? -Sim e você? -Também. e sendo filho de um pai comerciante com renda acima da média desse país. dos sindicatos. No Brasil. uma forma de disfarçar o nervosismo. Eu já estava suando frio. essa é uma realidade que está muito próxima de cada um dos brasileiros..todas com o mesmo objetivo que era encontrar um emprego. em qualquer família alguém desempregado. Entramos no elevador e subimos calados até o 9º andar. sendo que eu não tinha dinheiro para comprar um pra mim. -Ah. Até que enfim o elevador chegou.. Uma infinidade de sonhos se passava pela minha cabeça. Olhando para o indicador de andar ela disse com o soar da campainha: -Nossa. um ninguém. junto com a esperança de que aquela vaga estava destinada para mim. das autoridades e dos estudiosos de problemas sociais. Depois que o funcionário terminou de entregar as etiquetas.

Agora é só aguardar no seu lugar.. Vou pedir para você ler essas frases aqui pra mim.. Você acha que foi bem? -Não sei. -Lê pra mim as frases 1. Embora a forma correta seja ensinada na escola. ela se saiu muito bem.. acabaria falando "pobrema".... 3... Foi o que aconteceu com uma garota que foi chamada depois de mim.. recolhendo as cartas de encaminhamento. Caminhamos até o final do comprido corredor em direção a sala 3. -Deve ser no final do corredor. 1.. onde aconteceria a seleção.. As frases não eram difíceis. Fernando? -Tudo sim! -Já trabalhou com telemarketing alguma vez? -Nunca. Pelo que observei. Ela tirou uma folha de dentro de uma pasta azul com várias frases em formato de trava-língua e pediu que eu lê-se algumas. Sentei na cadeira ao lado da entrada e ao meu lado se sentou a Eliane. voltei para a cadeira onde eu estava sentado anteriormente. Um frio na espinha corria de cima a baixo por ser o primeiro.. que nervosa não parava de tremer. Logo em seguida a Eliane foi chamada para ler aquelas frases idiotas.. Eram todas separadas por divisórias com números nas portas e painéis de vidro nas paredes.. Deixei a minha sobre sua mesa e voltei para meu lugar.. -Pode sentar aqui. eu e a Eliane arriscávamos alguns palpites: -Eai. A saliva passou rasgando pela minha garganta. Rabiscando minha ficha ela falou: -Muito bem. Não sei por que quedas d’água ela escolheu justo a mim pra começar a entrevista: -Fernando Viana? -Eu. Pouco tempo depois a selecionadora chegou. pois crescem ouvindo os pais falarem dessa forma e acabaram absorvendo o linguajar. Enquanto outras pessoas faziam o teste... pois nessas horas eu sempre metia os pés pelas mãos e acabava me ferrando. 10 . -Certo..Assim que saímos do elevador começamos a procurar a sala 3. mas se eu ficasse nervoso ou falasse muito rápido.... Segurando um papel na mão a Eliane falou: -Ela falou pra procurar a sala 3. acreditando que seja o correto. -Ta certo. denominadas por eles de "teste de dicção".. Confesso que fiquei com medo de gaguejar no começo. -Obrigado. "resistro".. -Tudo bem com você.. tirando o fato de ter derrubado a pasta da selecionadora no chão ao se levantar da cadeira. Ela fez uma cara de indiferença. Conjugar corretamente os verbos e concordar plural com singular já é uma questão de costume. Fernando. 4 e 6? -Ok. grande parte das pessoas têm a cultura de comer palavras.. Apontando com o dedo indicador ela disse: -É ali. -Obrigado! Ainda com as pernas mole. Porque aqui é a 1..Cliente chato é um problema.

Atrás de mim estava a Eliane. Enquanto cada um pegava a sua e passava o restante para trás. falava pelos 11 . parece durar uma eternidade. Esse negócio só serve mesmo pra liberar os candidatos distraídos. até eu senti vergonha por você.. Ficamos os três conversando por um bom tempo.. Meu nome é Roberto. até divulgarem o resultado. correspondente a segunda fase do processo seletivo. por favor. ele comentou: -Com certeza eu fui mal. Estava muito difícil. Eu acho que essa é uma das piores partes de uma seleção. estralando os dedos.. um rapaz que estava ao lado da Eliane entrou na conversa. Assim que terminei minha prova.. -Nossa. Quando ela falou de prova. As épocas de provas eram aquele tumultuo. O pior de tudo é que ninguém utiliza aquele monte de babaquices que eles costumam perguntar nas provas. onde todo mundo escrevia a cola na carteira. Bem mal.. onde você fica esperando pelo resultado por alguns minutos que custam passar. Nem me lembre. Respondam na segunda folha em branco. e juntos começamos a comentar sobre as questões: -Vocês acharam a prova difícil? -Demais.. então me concentrei ao máximo para terminar dentro do prazo e depois poder rever as respostas.. que distraída nem percebeu. O Roberto era um cara alegre. foi bem na prova? -Humpft.. ela continuava a falar: -Não se preocupem que a prova não é difícil.... Quem não atingir os pontos necessários. Às vezes alguém dava uma espiada na prova do lado. não tem problema.Segurando a risada ela comentou: -Pior foi eu que derrubei a pasta dela. Nessa hora. nós indicaremos pro departamento de contas. roendo as unhas. -Eu também achei. Naquele momento eu relembrei dos meus tempos de escola.. mas tudo na maior discrição para não ser pego pela selecionadora. Coçando o olho.. -Eu me chamo Eliane. levantei da cadeira e a coloquei sobre a mesa da Tânia.. Caminhando entre o pessoal a Tânia falou: -Vão passando as provas pro colega da frente. Depois de ficar quase uma hora aguardando todos fazerem o teste. eu gelei.. -Hahaha. Peguei uma folha do questionário e passei o resto para trás. Se não fosse isso. muita gente teria a oportunidade de mostrar seu profissionalismo e potencial desempenhando sua função. O clima dentro da sala era de nervosismo total. prazer! -Meu nome é Fernando. a selecionadora informou que teríamos de fazer outra prova. A Eliane também. tamanho nervosismo.. Voltei para o meu lugar e fiquei aguardando todos terminarem. divertido e bem falante. que ao me entregar as provas comentou: -E ai. que prova difícil era aquela? -Meu. espiava a folha do colega e seguiam o dilema: "Quem não cola. Não tínhamos muito tempo para fazer a prova... É necessário uma nota mínima de 7 pontos para a vaga de "suporte banda larga". não sai da escola". -Eu vou passar essas duas folhas pra vocês.

já. que era uma das selecionadoras. acabei ficando com o papel de expectador.... Pensando alto. -Então pra que a prova? -É porque tem algumas vagas pra suporte que precisam ser preenchidas. a Tânia.. -Mas o salário é o mesmo. Você continua concorrendo à vaga para "contas". 12 . acabei sendo o primeiro a ser chamado: -Fernando Viana? -Eu. fazendo ele engolir tudo que havia falado injustamente a meu respeito. Aqueles que conseguirem atingir a pontuação.. Não se preocupem que têm vagas pra todo mundo. porém. ele continua concorrendo à outra vaga. o que deixou as outras revoltadas.. É só você aguardar mais um pouco. -Então...... -Ah. Eu preciso estar entre esses cem selecionados. você não atingiu a pontuação necessária para as vagas de suporte. e chegar em casa esfregando na cara do meu pai.. foram apenas três pessoas que passaram na prova.. que foi para a qual você foi encaminhado desde o início.. Claro que todos dentro daquela sala queriam ouvir uma resposta positiva.. nós encaminhamos.. Se o candidato não passar. sussurrei: -Nossa. -Tudo bem. Tem cem vagas pra preencher. tirou um peso enorme das minhas costas. começou a chamar um por um para dar o resultado das provas. Como eu fui o primeiro a terminar... e fiquei aguardando por mais um tempo ela avisar quem passou para a dinâmica da semana seguinte. ela comentou: -Fernando. Depois de quase vinte minutos. mas não tem problema. Entregando-me a folha. -Obrigado! Voltei pro lugar onde eu estava. -Por meio ponto? -Pois é.. já aviso quem vai pra dinâmica na semana que vem. eu nem tive chance de interromper..... Pelo menos uma delas eu iria fazer de tudo para preencher.5.cotovelos e quando os dois se juntaram para conversar. Sua média foi 6.. Ouvir que havia mais de cem vagas a serem preenchidas. -Calma pessoal.

... a Tânia pediu atenção: -Pessoal.. Aqueles que eu não chamar. E o seu? -Também não. a Tânia falou sorrindo: -Bom. O treinamento começa na segunda feira às 09h00. Roberto? -Não. vocês irão começar a fazer o treinamento na empresa. -Esse treinamento não é remunerado e pode ser eliminatório.. -Obrigado..Cruzando as pernas. Cutucando meu ombro. Contente foi pouco... a Eliane comentou: -Minha amiga disse que não é difícil.. depois a empresa paga o retroativo até o final do mês.. Curiosa... a Eliane perguntou: -Chamou seu nome. O tempo todo eu mantive a pose. Fernando? -Não. o meu não estava. -A partir de quarta-feira. Senti um frio na espinha e no umbigo. A partir do momento em que vocês forem registrados. Nessa hora comecei a ranger os dentes.. gritando de felicidade. vocês vão bancar o vale transporte de vocês.. para depois iniciarem o treinamento do produto no prédio onde vocês irão trabalhar. aguardem na sala.. Levantando a mão.. ao mesmo tempo em que suava frio... e me segurei para não manifestar a alegria em que me encontrava.. Nos primeiros quinze dias.. Ficaram poucas pessoas na sala junto com a gente. Depois desse treinamento. -Chamou você. e dentre todos que ela chamou.. Encostando a porta. 13 .. vocês irão fazer o exame médico e levar a documentação no RH. parabéns para vocês que ficaram!. uma das meninas que sentava no fundo da sala perguntou: -Por quanto tempo vai ser esse treinamento de produto? -O treinamento do produto é de vinte dias. Os nomes que eu chamar. -Tomara... por favor. Só fiquei em paz quando a Tânia falou o último nome. é que estão dispensados.. anotem o endereço. pois por dentro eu estava pulando.. Todos que ali estavam murmuraram de contentamento. Retornando à sala com uma lista na mão. -Então eu acho que passamos. Fiquei hiper feliz por ter essa oportunidade de trabalhar em uma empresa multinacional. já vão receber como funcionários.. Minha mão ficou gelada.. -Também acho. a Eliane já foi logo perguntando: -São remunerados esses vinte dias? -Sim.

(UOL. Morremos de rir com o Roberto falando de seu último emprego em uma loja de shopping. batendo a cabeça várias vezes na parede e tentando me imaginar desfilando com o crachá pela empresa. Saí da estação do metrô e comecei a procurar pela rua que estava anotada no papel. a Eliane exclamou: -Bom dia. Rolei a noite inteira na cama. Logo atrás dele avistei a Eliane. era só lutar pelos meus sonhos. Não via a hora para que chegasse logo a segunda feira. Procurei não enrolar muito. veio até mim me cumprimentar. Tem alguns com crachá da empresa no pescoço. A ansiedade tomava conta de mim. e dali pra frente. Na noite anterior. Apoiando a mão direita em sua testa.. no total 66% deles precisam trabalhar porque todo o seu ganho. 2006: 01) Os dias que antecederam ao treinamento pareciam não passar. mas estão desempregados atualmente. complementa a renda familiar que não é suficiente para manter toda a família. Depois de perguntar para três pessoas.. e sem precisar ouvir suas palavras de incentivo que mais me deprimiam do que ajudavam. havia muita gente aguardando. 14 . Ao me ver. No Brasil. finalmente achei. Peguei uma toalha e fui direto tomar um banho quente antes de sair. Batucando em seu caderno o Roberto disse: -Bom dia! -Bom dia.. Atravessei o Viaduto do Chá apressado. ficamos conversando sobre algumas experiências anteriores de trabalho.. apenas 36% dos jovens entre 15 e 24 anos têm emprego. -É. -Será que esse pessoal todo é pra treinamento? -Acho que não. Logo depois de mim chegou o Roberto com um caderno na mão. para não ter que ficar respondendo aos questionamentos idiotas do meu pai. pois queria sair antes que meus pais acordassem. Fernando! -Bom dia. com medo de me atrasar. Quando cheguei em frente ao prédio. Perguntei as horas para um garoto que estava sentado em um degrau da escada e me acalmei por saber que ainda era cedo. Por volta de 07h00 levantei a todo vapor.. nem consegui dormir direito. O treinamento começaria às 09h00 e faltavam mais de trinta minutos. Eliane. outros 22% já trabalharam. Enquanto esperávamos. Em média os jovens demoram 15 meses para conseguir o primeiro emprego ou uma nova ocupação nas regiões metropolitanas. ou parte dele. no meio daquele monte de desempregado aglomerado. -Faz tempo que você chegou? -Alguns minutos apenas.Finalmente minha vida estava começando a se arranjar. que parecia estar mais perdia que cego em tiroteio..

Já eram quase 10h00 quando o segurança chamou todos e pediu para que fizéssemos uma fila. Portando uma lista nas mãos, um a um foi sendo chamado pelo nome. Após responder presença, entramos no prédio e seguimos para a sala de treinamento. Fiquei um pouco perdido andando pelos corredores que mais pareciam um labirinto, com curvas e saídas para todos os lados. Ao encontrar a sala, escolhi um lugar bem no meio, para ter visão de todo o ambiente. As cadeiras eram estilo colegial, com braço apoio para escrever do lado esquerdo e assentos de couro preto, bem macio. Tudo naquela sala cheirava novo, inclusive as paredes com a nova pintura. Enquanto esperava, fiquei observando algumas pessoas. Não só eu, mas todos daquela sala estavam ansiosos e apreensivos, afinal, todos tínhamos um objetivo em comum, que era conseguir aquele emprego e aliviar o lado financeiro. Um silêncio mortal brotou dentro daquela sala quando uma moça cheio de pacotes nas mãos cruzou a porta e se apresentou como Cíntia. -Bom dia pessoal! -Bom dia! -Nossa... Mas que "Bom dia" desanimado... -Bom diaaaaaaaaaaaaaaaa... -Opa, começou a melhorar... Sua brincadeira logo de início deixou o pessoal mais descontraído. Enrolando o cabelo, ela começou a falar: -Galera... Meu nome é Cintia, ficarei com vocês por esses 3 dias de treinamento da empresa que também é eliminatório... Procurem não atrasar, não faltar, tudo isso será avaliado nesse período, portanto cuidado. À medida em que ela ia interagindo conosco, foi nos deixando mais à vontade. O seu jeito meigo de menina e divertido, ia nos tirando o medo e tensão. -Galerinha, eu vou passar pra vocês algumas informações a respeito da empresa, tudo bem? -Sim. -Cada prédio da empresa nós chamamos de "site"... O site que vocês irão trabalhar é o Oeste 1, um prédio bem alto, azul, todo espelhado próximo do metrô... Alguém já viu? Sorrindo, uma das meninas levantou a mão. -Eu... -Bonito, né?... Bom, a escala de trabalho de vocês será de seis por um, com quinze minutos de pausa lanche e cinco minutos de pausa particular... Vocês receberão um cartão lanche igual esse aqui... Com ele, vocês vão poder comprar lanche nas máquinas da empresa que ficam dentro do breack de cada andar... O beneficio do cartão pode ser flexibilizado, sendo cinqüenta por cento do valor no cartão lanche e cinqüenta por cento no cartão Vale Alimentação. Levantando a caneta o Roberto perguntou: -Mas isso é opcional? -Sim... No "check-list" que daqui a pouco vou passar pra vocês, tem a opção de flexibilizar o benefício ou deixar tudo no cartão lanche... O salário de vocês será aquele passado na entrevista. Estão todos cientes? -Sim!... E o vale transporte? -O vale transporte, a empresa paga em dinheiro até duas conduções, ou seja, duas ida e duas volta, que será depositado em conta corrente junto com o salário, todo último dia útil do mês... 15

Naquele dia a Cíntia basicamente só falou da empresa e dos benefícios que iríamos receber, nos entregou a lista de documentações necessárias e nos encheu de esperanças.

Embora eu praticamente já fosse funcionário da empresa, só me sentiria seguro quando carimbassem minha carteira com o registro da empresa, deixando de ser mais um jovem desempregado nesse país. Chegou o dia do treinamento de produto no site Oeste 1. Saí de casa duas horas antes com medo de me atrasar. Meu horário de treinamento seria dás 16h30 às 20h30. Claro que eu adorei, pois não teria que acordar cedo. Chegando na recepção do prédio, encontrei o Roberto na fila para pegar o crachá provisório. Logo depois de mim chegou a Eliane, toda perdida como sempre. -Boa tarde! -Oi Eliane, tudo bem? -Tudo e você? -Beleza, Fernando? -Beleza e você, Roberto? -De boa. -Vai ser em qual andar esse treinamento? -Décimo terceiro andar, Ala C. Parei em frente uma web can e tirei uma foto para receber o crachá de visitante, para poder cruzar a catraca e entrar no prédio. Depois de liberarem a "alma", subimos até o décimo terceiro andar, onde seria realizado o treinamento. Entramos por uma porta que ficava de frente à uma copa, cujo aviso na parede dizia ser a Ala A. Perguntamos para uma garota que passava pela operação e ela nos indicou onde ficava a Ala C. Seguimos pelo curto corredor, passando pela Ala B até chegar nas P.As (Posição de Atendimento) reservadas para nós. Colocando o caderno frente a boca, o Roberto comentou: -Nossa... O que é isso, um cemitério? -Hahaha... A Ala C parecia estar inutilizada há algum tempo, pois não eram todas as P.As que haviam computador, e as que tinham, na maior parte estavam quebradas. Algumas máquinas nem ligavam. -Você vai sentar onde, Eliane? -Posso ficar aqui? -Pode. Começou a chegar um monte de gente e ir ocupando as P.As do fundo. Como todas eram bem espaçosas, cada P.A era ocupada por duas pessoas. Pouco tempo depois chegou 16

um rapaz com um projetor de slides e começou a montá-lo em frente uma tela que estava armada à nossa frente. Sorrindo ele saudou: -Boa tarde, pessoal! -Boa tarde! -Meu nome é Douglas e sou eu que vou dar treinamento pra vocês de conexão... Antes de começar, vou passar a lista de presença, vocês devem preencher com o nome completo e assinar na frente... Só assinem na data de hoje, por favor... E procurem não rasurar. Começou a passar a lista de um por um, iniciando pela Karen que estava bem na ponta. Enquanto o pessoal ia assinando a lista, o Douglas falava sobre a entrega de documentos que seria adiada para o meio da semana. Quando chegou na vez da Eliane assinar, logo percebi que algo de errado estava acontecendo. Disfarçadamente estiquei o olho pra folha que estava na mesa dela, que sem graça me olhou. -Já assinou, Eliane? -Sim... -Mas hoje não é dia 06, é dia 05. -Ai... Fala baixo... -E agora? Vão perceber... -Pede outra folha para o Douglas... -Eu não, pede você. Batendo a caneta na P.A o Vinícius falou: -Eu quero assinar a lista, vocês vão demorar? -Calma... A Eliane preencheu a data errada... Nessa hora quase todo mundo ruborizou, chamando a atenção do Douglas que passava o slide na tela: -O que acontece? -A Eliane preencheu a data errada na folha... -Pessoal, tomem cuidado com essa folha, porque elas são controladas... Não temos muitas pra ficar passando. Tivemos que assinar outra folha, e dessa vez quem começou a assinar foi a Eliane, para não corrermos o risco dela errar depois que todo mundo já tivesse assinado e ter que refazer tudo outra vez. Durante aquela semana, aprendemos quase tudo sobre conexão e de como o serviço de banda larga funcionava no computador. Além disso, aprendemos como operavam os cabos de telefonia em São Paulo e também a mexer em alguns sistemas da empresa. Na sexta feira acordei um pouco desanimado e cansado. Parecia que um trator havia passado por cima de mim. Fui direto pro banheiro tomar um banho morno, para ver se relaxava um pouco. Depois, almocei e fui para o treinamento forçado, pois estava sem nenhuma vontade de sair de casa. Logo quando cheguei na empresa, peguei o crachá provisório e subi para o décimo terceiro andar. Chegando na Ala C não havia chegado ninguém e o pessoal do treinamento da tarde já havia ido embora. Sentei na última P.A do corredor e enquanto isso fiquei acessando meus e-mails na internet. Não demorou muito e a Eliane chegou: -O que você está fazendo, Fernando? -Vendo meus e-mails. 17

E com você. pessoal! -Boa tarde! -Vou passar a lista de presença e vocês já vão assinando que hoje tenho bastante coisa pra passar para vocês. deixa eu ir até o breack esquentar o lanche no microondas. E daqui vinte minutos a gente continua. Eliane? -Tudo também. Assim que voltamos da pausa meu celular começou a tocar. Mas antes.. -Você vai ficar aqui? -Vou.. quase nem conseguimos entrar. Abri meu caderno e comecei a anotar tudo que ele falava resumidamente. pois estava lotado.. quer sentar nessa cadeira? -Guarda aí pra mim. -A gente aprende na prática quando entrar na operação. -Sim. falei aliviado: -Até que enfim. vamos fazer uma pausa agora.. -Também quero esquentar o meu.. não agüentava mais. Não via a hora de chegar o horário da pausa para descansar um pouco e comer. Desligando o projetor de slides o Douglas falou: -Galera. tudo bem? -Tudo e você. Assim que esquentamos nosso lanche.. Continuei checando meus e-mails. Onde você está? -Estou no treinamento. -Nem eu. foi tudo tão rápido. -Ta bom.. fui o primeiro. Fomos eu e a Eliane até o breack e ao chegar. Suspirando. -Boa tarde.. até que começou a chegar o pessoal. Fechando seu caderno a Eliane perguntou: -Você anotou tudo? -Sim.... -Quantas folhas deu? -Seis. Você vai descer até o TS? -Vamos? -Vamos. Dando uma mordida no sanduíche a Eliane comentou: -Eu não entendi nada do que ele passou hoje. -Que treinamento? 18 . -Depois você me empresta? -Claro. pois não poderia usar celular no horário de treinamento: -Alô? -Fala viado. Vou beber água e já volto. pois eu estava morrendo de fome. Rafa? -Também.. Meu braço já estava até doendo de tanto escrever. Fechei as janelas da internet e fiquei aguardando o treinamento começar. Só chegou a gente? -Acho que sim..-Tudo bem com você? -Tudo.. descemos até o TS (Térreo Superior) para comer e respirar um pouco de ar. Atendi rapidamente para não chamar atenção.

-Pode parar.-Humpft. Enfim. Sempre tendo idéias malucas e me incluindo nelas. -Pra mim não. -Humpft. eu preciso que você vá comigo.. -Que horas você sai daí? -O treinamento termina às 20h30. -Por isso que eu te amo. Não via a hora daquele treinamento acabar..... 19 . -Você ligou pra me xingar? -Claro. Tudo que o Douglas falou naquele dia. -Tchau.. -Bom. Que não. meu celular começou a tocar. Nos conhecemos por intermédio de um conhecido meu que era namorado dele. -Alô? -Nando. Fernando... Quando deu 20h30. O Rafael era meu melhor amigo. me deixava louco de raiva. ele nem deveria estar ligado no horário do treinamento.. Eu pensei que tinha te contado. -Você sabe que eu não curto balada de sexta feira.. a balada começa a ficar boa lá pelas 00h00. pois já não agüentava mais. acabava deixando no silencioso.. por favor. -Eu já disse que não vou. Eu não te falei que arrumei um trampo? -Mas que viado. eu já. ele tentava me convencer: -Amigo. você viu? -Não recebi.. -Pode parando. Nem me falou nada. aliás.. Deixei o prédio louco para pegar logo o metrô e chegar em casa.. -Mas. O que acontece? -Agora não dá pra explicar. Te encontro 23h30 na catraca do metrô. -Sabia que poderia contar com você. -Humpft. entrou por uma orelha e saiu pela outra. -Caramba Fernando. Hoje.. né? -Ué. Se fazendo de coitado. -Agora eu não posso falar... O namoro deles acabou e nós continuamos amigos.. Te mandei um torpedo no celular.. Desliguei antes que o Douglas visse e me chamasse atenção por estar falando ao celular... Liguei pra saber se você vai comigo na balada hoje.... ok? -Tudo bem. -Hoje? -É... até você chegar na sua casa já vai ser umas 21h00.. Essa mania que ele tinha de me chamar pra sair de última hora.. -Amigos são pra essas coisas..... tchau. me chamando para ir a balada com ele. Nós vamos sim pra balada hoje. fui um dos primeiros a pegar o elevador e ir embora. agora são 19h00. te conto depois. Só poderia ser o Rafael outra vez. Me liga depois pra eu confirmar se irei ou não. mas você anda lesado mesmo. -Rafael. Quando eu estava no meio do caminho. mas como eu usava também para ver horas.

Esse negócio de pegar fila não era comigo. De longe avistei a fila. -Agora sim. Cruzei a catraca com o aviso do alto-falante: “Atenção.... nervoso com meu atraso e bufando de raiva.. antes que eu me arrependa e volte pra casa. -Vai ficar brigando comigo? -Humpft. Morto de fome. informamos que a partir desse momento. Peguei minha toalha e fui para o banheiro tomar um banho bem rapidinho... tive que ir até a cozinha preparar algo pra comer. avistei o Rafael andando de um lado para o outro. -Ta bom. Com certeza eu havia estragado algum plano que ele tinha em mente. Olhei dentro dos armários e não havia muita opção. Chegando em casa. Quando cheguei na estação do metrô. -Pensou que eu não vinha mais? -Eu marquei com o garoto às 23h30. e o céu todo estrelado. Boa noite!” Batendo o pé direito no chão. Desculpa. subi até meu quarto para deixar o caderno e a apostila do treinamento. Já as ruas estavam quase desertas. Subimos a escada rolante correndo e seguimos em direção à balada. -Também acho.. o pendurando na porta da geladeira... escrevi um bilhete para minha mãe dizendo que passaria a noite fora.. que ia da porta da boate e chegava até a esquina. -Você já viu o tamanho da fila para entrar? -Caralho! -Humpft. vamos.. -Pois é. Mandei um torpedo para o Rafael dizendo que iria me atrasar um pouco. -Voltar pra casa sem metrô? -Pra isso existe táxi.-Tchau. Caminhávamos em passos largos para ganhar tempo. A lua estava linda. Depois de jantar e arrumar toda a bagunça que havia feito na cozinha. Era desanimadora. Rafael. Pensei em desistir na mesma hora. -Até daqui a pouco. Embora São Paulo funcione vinte e quatro horas. -Humpft. seu movimento era mínimo. É melhor a gente ir logo. Acabei escolhendo a mais fácil que era macarrão com um molho que havia congelado no freezer. Você tem mesmo certeza que quer entrar aí? 20 .. -Só se você me pedir desculpa. mais de uma hora de atraso. o Rafael falou: -Mas que demora. o molho descongelava no microondas. vamos parar de brigar. Enquanto a água para o macarrão esquentava. todas as nossas operações estão encerradas. olha que horas são? -00h40. Já era quase 23h00 e meus pais ainda não havia chego.

conseguimos entrar. Um desespero começou a bater e uma vontade enorme de chorar me consumia. Se lá dentro não dá sinal. Meia hora depois eu já havia me arrependido de ter saído de casa... O que seria de mim se não fosse você? -Sem exageros.. Se por ventura ele passar em algum lugar que dê sinal. pois não conseguia dar nem um passo a diante. Vê uma água? -Com ou sem gás? -Com gás. Depois de ter esperando por um longo tempo na fila. num descuido que dei acabei perdendo o Rafael de vista. aguardando aquela multidão consegui entrar e chegar nossa vez.. A casa estava lotada.. -Ah ta. próximo aa pista. Entramos no final da fila e ficamos em pé. Espera por mim. poderá receber a mensagem e vai saber que você está à sua procura. Beijo! Sorrindo perguntei: -Aliviou a alma? -Nossa.-Você não vai me deixar na mão agora. o garoto retornou para o Rafael. e me largou sozinho no meio daquele monte de gente... Tudo bem.. 21 . Claro que ele foi ao encontro do garoto com quem ele estava flertando. Transbordando de suor. mesmo estando parado. Mal dava pra andar.. pra aprender a não fazer mais os amigos de palhaço.. Aquela boate não era muito grande. parei no bar para me refrescar: -Por favor. Mas vontade não me falta.. se acalme. Não vejo a hora de encontrar com ele. que desesperado para atender só deixou tocar uma vez: -Alô?. Obrigado! Passei o tempo inteiro ali.. como vou conseguir falar com ele? -Mande um torpedo. pois a fila quase não andava.. A cada dez minutos ele ligava para o moleque. -Logo chega nossa vez. tenha paciência. no qual havia marcado o encontro.. o que a tornava desconfortável. Nervoso. principalmente na questão do ar condicionado.. ou então o garoto deveria ser muito bonito para deixá-lo naquela gastura de dar agonia. -O que foi? -O telefone dele só dá ocupado. Estou na fila esperando pra entrar... Se eu visse o Rafael na minha frente àquela hora.. Te encontro lá.. o que praticamente estava parecendo ser impossível.. vai? -Claro que não.. de tão cheio que o lugar estava. A impressão que dava. seria capaz de dar um soco em seu nariz.. -Boa idéia. Em menos de dez minutos após ter enviado a mensagem. tornando o mezanino uma sauna de tão quente... Bebi três garrafas de água de tanto que suei. era que o Rafael estava na seca total.. O pior era que para ir embora. que parecia não existir naquele ambiente..... seria uma tarefa quase impossível. mas o telefone só dava ocupado.. -Deve estar fora de sinal. O Rafael não se continha de ansiedade para encontrar o garoto. ele resmungou: -Mas que porra.

. bati o braço na mão do garoto que segurava um copo com caipirinha de morango.. pois quando ele bebia. derrubando tudo em sua camisa branca. aproveitei para sentar e descansar minha perna.. Segurando em seu braço eu falei: -Rafael. O que me deixou com mais raiva... -Não foi nada. mais uma vez. Olha só como ficou sua camisa. Encostei a cabeça na parede e borrifei um pouco da água no rosto...Por volta dás três da manhã o lugar começou a esvaziar. foi o Rafael ter me deixado falando sozinho e sair andando na maior naturalidade. Vamos embora antes que eu me arrependa de ter te conhecido. para dar uma refrescada.. -Calma. -Rafael volta aqui. que já estava formigando e "gritando socorro". -Estou vendo. Finalmente um casal desocupou um banco próximo de mim... Eu gostava muito dele quando estava sóbrio. Onde foi que você se enfiou que me deixou aqui sozinho? -Ué... né? -Você é muito careta.. 22 . -Por que vocês estavam brigando? -Porque eu quero ir embora e ele fica enrolando.. Fala. não vai pra pista dançar um pouquinho? -Dançar?. senti alguém batendo em meu ombro: -Eae Nando.. briguei com o Rafael: -Olha o que você fez? Dirigindo-me ao rapaz eu falei: -Desculpa.. Ao cair.. deixava de ser gente... Agora quero dar um beijo naquele ali. Eu ainda quero beijar a boca daquele carinha que eu to a fim.. Morri de vergonha com o vexame que o Rafael estava causando. Beijando na boca e bebendo todas. Fechei os olhos e quando estava quase pegando no sono.. calma. ele me empurrou com tudo em cima de um rapaz que estava sentado no banco atrás de mim. que por sinal também já beijei. -Com esse bafo de cana.. -Que raiva desse maldito. -Você ainda não beijou? Passou a noite inteira querendo ver o moleque.. -Não estou falando desse...... Vamos embora. Filho da puta. No que eu peguei em seu braço para irmos embora. você espanta qualquer um. -Sai pra lá com isso... bebe um pouco. Estava beijando na boca... Nervoso.... sem noção do que havia feito e me deixando na mão.. -Fernando. resmungando...

. -Humpft. -Se você quiser. ficamos esperando pelo Rafael na porta.. Nessa hora o Rafael apareceu outra vez... -Obaaaaaa. me fazendo chorar de nervoso e chamar a atenção das pessoas de uma maneira negativa. -Eu já derrubei a bebida na sua camisa... meu nome é Guilherme. -Que bom. que parecia ter esquecido de sair.. -Seu amigo já aceitou a carona.. -Prazer Fernando... Você pode me dar uma carona também? -Humpft. Tentando amenizar o ocorrido. Você mora onde? -Moro no Ipiranga. Se não for te incomodar. Com a maior cara de pau.Quanto te devo? -Relaxa. -Eu moro na Bela Vista.. não vai ser trabalho nenhum. Deveria ter entrado em coma alcoólico ou ficado sem dinheiro pra pagar as garrafas de bebidas que havia consumido. Subimos até o caixa e pegamos uma enorme fila. Está bem. eu topo... Ele só me faz pagar mico e prejuízos. rapazes.... Pra você não ir sozinho. O Rafael tentou e conseguiu me irritar aquela noite. -Deixa de bobagem. Depois que pagamos a comanda.. -Não fica assim não. -Deixa eu fechar minha comanda então. se intrometeu no assunto como se nada tivesse acontecido.. -Humpft. -É seu namorado? -Bate na madeira. o rapaz perguntou: -Como você se chama? -Fernando. Rafael. Esticando o pescoço em direção à porta o Guilherme perguntou: -Será que ele vai demorar? 23 . trabalho demais para uma noite só. -Hahaha. Seu amigo é uma comédia. -Você fala assim porque não é com você. -Vamos juntos. agora.. -Não esquenta. vai... não começa. Debruçando-se sobre o ombro do Guilherme ele falou: -Vou buscar minha jaqueta na chapelaria e fechar minha comanda.. e sem paciência nenhuma.. Não vão embora sem mim. aqui próximo. o que me deixou mais irritado ainda: -O quê é que não vai ser trabalho nenhum? -Estou oferecendo uma carona para o seu amigo. leve na esportiva. amanhã eu compro outra camisa.. não se preocupe com isso..... -Eu também preciso fechar a minha.. só falta você. -Hahaha.... -Ele me paga. deixamos a boate. -Humpft.. -Imagina.... Meu carro está no estacionamento aqui perto. -Relaxa. eu te dou uma carona. pelo amor de Deus. Sua amizade já me sai caro demais...

deixa que eu o levo até em casa..... Faz o seguinte... -Então vamos lá... moro em Santana...-Não sei. pelo amor de Deus. calados. Esperem aqui que eu vou buscar o carro. -Onde você mora.. Não é fraco não. Sentando-se no banco traseiro. deixo vocês em casa. -É. -Eu escutei... né Fe? -Humpft. -Firmeza. Guilherme.. hein. -Você pode nos deixar no metrô mais próximo.. Abri a porta da frente e levei um susto quando vi o Rafael tropeçar nas pernas de tão “mamado”.. fecha essa boca maldita. por favor. -Hahaha. Seu eu disse que vou levar vocês. E que carrão.. -Hahaha.. hein. cala essa boca. Eu não seria um bom amigo se fizesse isso. -Tudo o quê? -Tudo que eu sonhei ter na vidaaaaaaaaaaaa. Ok. o Guilherme falou: -Fernando. eu e o Rafael ficamos aguardando na calçada. o Rafael resmungou: -Que preconceito é esse? Só porque eu bebi um pouquinho você acha que eu não conheço o caminho? -Não é isso. -Olha lá ele... é porque eu to a fim. É. -Nada disso.. pode ir e obrigado pela intenção. deixa ele. -Nos deixe próximo do museu do Ipiranga então... -Olha o Nando. Fomos em direção ao carro. O carro começou a buzinar... Colocando alguns CDs no porta luva... -Então pega pra você. Arrumou um “corpo” com carro.. -Rafael. -Você mora onde. -Rafael.. -Ignora o quê ele fala. -Não posso.. -Ele já está buzinando. meninos? -Demais. -Pode parando. -Mas quando quiser aparecer em casa. -A fim de quê? -Deixa pra lá. fica no banco da frente para me ensinar o caminho. Enquanto o Guilherme foi buscar o carro no estacionamento... -Já podemos ir se quiserem. abraçando-nos e perguntando: -Demorei. Já falei. Hoje vou ficar na casa do meu amigão aqui. Feliz da vida chegou o Robson... você viu primeiro. -Não demora.. Rafael? -Em Santana. Rafael? -Ele vai ficar na minha casa. Importado.. 24 .. banco de couro e tudo... ao mesmo tempo pagando meus pecados com sua bebedeira..

Depois de tirar o Rafael de dentro do carro. foi divertido. 25 . E por que você não namora... hein? -Pode deixar que eu ligo. ele ia falando o número do seu celular e o Guilherme anotando na sua agenda. -Hahaha. O pior era que o Guilherme estava se divertindo com a situação.. -Fernando. Medo de sofrer. -Então anota aí meu telefone.. adoro um boyzinho com pele lisinha. -Deixa ele comigo.. Por que diz isso? -Porque o Fernando curte caras maduros. Sim.. Obrigado! -Juízo. -Eu sou o contrário do Fernando.Eu não sabia onde por a cara. -Demorou. e você? -Tenho 20. -Humpft.. -Qual sua idade.. Vai defender ele agora? -É o meu trabalho. -Anotado! -Vou esperar você me ligar. -Rafael.. -Não fala assim dele. de tanta vergonha. Fernando? -Humpft. -Você quem sabe.. -Uau.. -Não se preocupe. Guilherme? -Eu tenho 25 anos. -Como assim? -Eu sou advogado. pode me deixar aqui mesmo.. você tem certeza que não quer que eu te deixe em casa? -Não precisa. vamos marcar uma balada pra gente sair outra vez.. -Valeu Guilherme.. -Mas por que essa preferência por homens mais velhos? -Que assunto mais idiota.. -Ui. -Vamos Rafael..... Fernando? -Talvez seja... Passei metade do tempo calado. Por um lado ele tem razão. me aproximei da porta e falei ao Guilherme: -Obrigado pela paciência e desculpa pelo transtorno. Guilherme. -Hahaha.... -E você.. Cuide dele.. novinha. já o Rafael não fechou a boca um minuto se quer.. eu é que agradeço. Fernando? -Eu tenho 19. -O Fernando é um cagão. Enquanto eu ajudava o “pudim de cana” do Rafael descer do carro.. olha o mico que você está me fazendo pagar? -É verdade. -Até que você não é muito velho...

Nos despedimos do Guilherme e seguimos para minha casa. Sem muita paciência, tive que arrastar aquele “carma” até o portão, pois andar era algo quase impossível de se fazer no estado em que ele se encontrava. -Chegamos... Agora você trate de calar sua boca e dormir... -Pode deixar, não vou dar um piu. Dormimos até duas horas da tarde. Ao levantar, notei que em casa já não havia mais ninguém, pois meus pais já tinham saído para trabalhar e meu irmão deveria ter ido com eles. Curado do porre da noite anterior, o Rafael foi tomar um banho para tirar a ressaca. Enquanto isso, entrei na internet para ver se o Douglas já havia mandado a apostila de produto para eu estudar em casa antes do treinamento, mas como já era de se esperar, a caixa de e-mail estava vazia. Desliguei o computador e fui procurar algo para comer. No caminho cruzei com o Rafael, que saía do banho com uma toalha enrolada à cintura e pingando como uma cachoeira em todo o chão por onde passava. Com a mão esquerda na testa ele reclamava: -Nossa... Que dor de cabeça... -Humpft... Imagine a dor de cabeça que vou ter daqui pra frente... -Por quê? -Porque você me fez pagar o maior mico da minha vida essa noite. -Eu? -Você. Caminhando em direção ao quarto ele respondeu: -Não me lembro de nada disso... -Já esqueceu?... Lembra quando você me empurrou em cima de um cara derrubando bebida em sua roupa? -Só me lembro de você brigando comigo e olhando pro gatinho que deu carona pra gente. -Que história é essa de eu ficar olhando pro cara? -Hahaha... -Rafael, pode parando com isso... -Bom, deixa eu me vestir e ir pra casa me recuperar para a balada de hoje á noite. -Você vai sair outra vez? -Mas é claro, a noite é uma criança. -Humpft... Não vai querer comer algo antes? -Não, eu como em casa. No final da tarde, fui até o curso de inglês pegar minhas notas e saber se havia passado. Chegando lá, as listas já estavam expostas em um painel no jardim. Procurei pelo meu nome e respirei aliviado quando vi que minha nota estava acima da média. Só fiquei triste em não poder fazer a rematrícula, pois meu pai havia dito que não pagaria mais o curso, e como eu não tinha certeza ainda se permaneceria fixo no emprego, não arrisquei.

26

Caminhava tranqüilo pela Rua Rodrigues Alves, quando o tempo começou a mudar. Apressei os passos para não ser pego pela chuva. A minha sorte era que a estação do metrô ficava bem próxima da escola de idioma. Ainda descia a escada rolante quando meu celular começou a tocar: -Alô? -Fernando? -Sou eu. -Aqui é o Guilherme... -Que Guilherme? -Aquele que você manchou a camisa... -Nossa! -Atrapalho? -Não... Estou indo pegar o metrô agora... Mas... Como você conseguiu meu telefone? -Liguei para o seu amigo Rafael e ele me passou. Nervoso resmunguei: -Filho da puta. -O que você disse? -Nada não. Conseguiu tirar a mancha da sua camisa? -Nem tentei... Depois mando pra lavanderia, lá eles dão um jeito. -Desculpa qualquer coisa... -Só desculpo se você vier jantar comigo. -Jantar? -É... -Mas... -Ficaria muito contente se você aceitasse meu convite. Parado próximo à catraca, perguntei: -Humpft... Quando? -Hoje. -Mas hoje... -Sem desculpa, vai.... Agora são 17h49, dá tempo de você chegar em casa, se arrumar e vim jantar comigo... -Eu nem sei onde você mora... -Não seja por isso... Posso muito bem te encontrar no metrô aqui próximo... -É que... -Não se preocupe, se você não se sentir à vontade sozinho comigo, pode trazer seu amigo com você... -Por tudo que é mais sagrado, não... Prefiro ir sozinho... Apesar de que nem se eu quisesse leva-lo ele iria, 27

-Por quê? -É que sábado a noite para ele é dia de balada. -Ah... Então quer dizer que você vem? -Humpft... Vou. -Oba! O que você gosta de comer? -Hum... Massas, saladas... -Ótimo. Deixa comigo... Eu vou preparar algo bem gostoso pra jantarmos... -Então ta bom. -Que horas eu te encontro? -Às 20h30, pode ser? -No metrô Brigadeiro? -Isso. -Beleza. Em menos de meia hora cheguei em casa. Tranquei a porta e subi direto para meu quarto pegar uma roupa limpa e tomar um banho para tirar o suor. Em seguida, peguei o telefone e liguei para o Rafael: -Alô? -Fala amigo da onça... -Eu? -Quem mandou você dar meu telefone para o Guilherme? -Ah... Ele me ligou e pediu seu telefone... Fiquei sem jeito de não dar... -Mas eu não te autorizei a passar. -Deixa de ser bobo, Nando... O cara ta mó a fim de você... Só quis te ajudar. -Você me perguntou se eu quero?... -Mas Nando... -Rafael, desista... Você não tem vocação para Santo Antônio. -Humpft... Desculpa... Vou ligar pra ele e... -Agora é tarde. Ele já me ligou e me convidou pra jantar em sua casa... Irritado ele começou a dizer: -Ah... Você me liga pra me encher o saco porque eu passei seu telefone pro cara, e ainda vai sair com ele? Mal tive tempo de responder, pois o Rafael desligou o telefone na minha cara. Até que em certo ponto ele tinha razão, já que eu aceitei jantar com o Guilherme, nem deveria ter ligado para reclamar, mas me senti na obrigação de reparar um acidente que o próprio Rafael havia provocado. Cheguei na estação do metrô e o Guilherme já me esperava. Encostado na parede, mantinha suas mãos no bolso da calça jeans meio caída, deixando parte da cueca à mostra. Ao me ver esboçou um sorriso e caminhou em minha direção. Cruzando a catraca perguntei: -Demorei? -Não, acabei de chegar também. O Rafael tinha razão quando dizia que o Guilherme era um cara muito bonito. Sua altura era proporcional ao corpo, cuidadosamente esculpido, com as medidas perfeitas. A simpatia com que tratava, fazia com que eu ficasse mais a vontade em sua presença. Enquanto caminhávamos em direção à saída ele comentou: -Pensei que você não viria... -Por quê? 28

... O cheiro está ótimo. Relaxa. lembra? -É verdade. -Mas deveria. A estante de mogno escuro destacava-se no branco do ambiente. Abrindo a porta do microondas ele falou: -Eu preparei para nós uma lasanha à bolonhesa.. Amarrando o cordão de sua calça ele falou: -Pronto! Demorei? -Até que não demorou muito. Foi você que fez? -Na verdade não.. Levantei do sofá e o acompanhei até a cozinha.. ou você prefere a sala de jantar? -Aqui está bom.. parecia que eu não comia há dias. Comprei em um restaurante perto da casa da minha mãe.. duas salas. onde já estava quase tudo pronto e arrumado sobre a mesa da copa estilo americana. O apartamento era enorme. Não faz essa cara.. -Fui rapidinho. -Hum. desculpa. -Sem problemas. É que eu gosto de espaço.. Assim não tem graça.... -Põe grande nisso. Eu sei que é grande demais para uma pessoa só... 29 ... -Hahaha. Com o olhar de cachorro abandonado ele respondeu: -Ta bom. Eu não sei cozinhar muito bem. -Humpft. Eu não ia te chamar pra comer um ovo cozido. eu vou arrumando aqui a mesa.. desculpa. acabamos de chegar.. já que mora sozinho. Enquanto ele colocava o sus-plat sobre a bancada.. -Tudo bem. O cheirinho de molho de tomate fazia meu estômago roncar de fome. e uma televisão de plasma enorme ocupava o espaço de três prateleiras.-Achei que não tinha ido muito com a minha cara.. Vem comigo até a cozinha? -Vamos lá... Dois por andar... fazia a cortina creme dançar suavemente. eu não tenho nada contra sua pessoa. Sentei-me ao sofá branco de camurça e fiquei observando aquela sala de estar enorme. -Ah. -Que bonitinho!. -Está longe sua casa? -Não... -Você que manda.. Eu me sentiria perdido morando sozinho dentro de um apartamento tão grande como aquele... é sério.. O que importa não é a sofisticação e sim a intenção. continuávamos conversando: -O que você quer saber? -Há quanto tempo você está sozinho? -Há 19 anos... quatro dormitórios.. Fechando à porta da sala ele falou: -Fique à vontade. nunca namorei.. Eu vou trocar de roupa e já volto. Eu acredito em você. projetando parte de sua sombra na parede texturizada. -Hahaha.. Olhando para o topo do prédio perguntei: -Você mora aqui? -É.. Enquanto a lasanha esquenta. já que é só o que sei fazer.. O vento que entrava por uma das vasculantes da sala. Conte mais sobre você?.

-Aqui... -Humpft.. Segurando uma garrafa nas mãos ele falou com os olhos esbugalhados: -É até um pecado você chamar isso de bebida alcoólica. Uma garrafa dessa custa mais de trezentos reais. -Ah não. Vamos tomar um vinho tinto comigo? -Eu não gosto de bebida alcoólica.. -Nossa! -É puro suco de uva.. Se você não gosta. sofri um pouco. mas me falta coragem. refrigerante..... -Enquanto isso eu vou colocar na mesa. -Saúde! -Saúde! Brindamos a ocasião com o vinho tinto importado que ele me ofereceu.. eu não quis ofendê-lo.. -Suco? -É. -Isso é o mais importante. Arrumando as taças ele perguntou: -Você não pensa em se relacionar com ninguém? Ou não quer? -Humpft.... -Desculpa. Já gostei de alguém e me decepcionei. Abanando as mãos ele disse: -Deixa eu pegar uma espátula pra cortar. O microondas começou a apitar. aquele maior ali. gato... Fazendo careta por causa da caloria ele resmungava: -Ai..... vinho? -Suco. Ai... -Mas isso faz parte da vida. que por sinal estava maravilhosa... -Toma aqui. Espera que eu te ajudo.... Tenho vontade.. não acha? -Eu sei.-Você sente falta de alguém ao seu lado? -Têm dias que me sinto carente. Nada como um dia após o outro.. não foi fácil. -Opa. -Ta cheirando gostoso. -Ta bom.. se não vai cair. -E vamos brindar o quê? -A vida. tudo bem.... -Pega ali o prato..... Vou beber só um pouquinho. Nossa amizade que nasce agora.. depois jantamos a lasanha.. -Pega ai uma taça então.. sozinho. -Relaxa. mas depois passa. mas enquanto eu puder evitar ou adiar esses problemas é melhor.. A companhia também era bastante 30 . -Cuidado.. -Vamos fazer um brinde. O importante é que estou feliz assim.. Você quer beber suco...... por favor? -Esse? -Não. Esse vinho que te ofereci não é qualquer porcaria. Nossa lasanha já está pronta.

tá? -Oba! Vamos ver um filme? -Que filme? -Tem uma lista na TV a cabo que a gente pode escolher juntos. -Entendo. Olhando em meus olhos ele perguntou: -Gostou do jantar? -Adorei! -E do vinho? -Adorei também. Após apagar a luz da cozinha. não quero chegar em casa bêbado.. mas antes vamos arrumar aquela bagunça.. Amanhã a Suellen vem limpar a casa e arruma. -Quer ligar pra ela? Diz que você está na casa de um amigo. Sentei no sofá de frente para a enorme televisão.. Olhando para a dimensão do ambiente perguntei: -Você não se sente mal morando sozinho nesse apartamento tão grande? -Às vezes... Seu sorriso iluminado me encantou com aquela boca bem feita e provocante. -Mas. -Que horas são agora? -Agora. -Não depende mais.. -Eu já levei você e o Rafael hoje.... -Quer mais um pouco? -Chega... -Deixa lá. São 22h26.. -Vamos lá pra sala? -Vamos. enquanto ele foi pegar o outro controle para escolher o filme.. mas. -Mas já? Está cedo. Eu ganhei esse apartamento do meu pai. -Então ta bom. e assim caminhamos até a sala... Olhando para mim ele perguntou: -E tocar na sua mão? -Pode! 31 . lembra? -Sim..agradável e encantadora. ele me deu um abraço.. Já pensei em me desfazer algumas vezes e comprar um menor.. Levantei da bancada e toquei em sua mão que estava estendida pra mim. -Hahaha. Vamos aproveitar o tempo que temos para ficar juntos.. -Vou ficar só mais um pouco. -Nossa.. -Posso me sentar ao seu lado? -Claro... Pode deixar que eu te levo. -Já conheço o caminho... -Minha mãe vai falar um monte.. -Então ta. -Sente aí no sofá. -Eu dependo de transporte público para chegar em casa... Preciso ir..

Só me dei conta quando ele voltou e jogou seu corpo para trás. Tudo em ordem alfabética. alguns eu até já havia visto em casa... -Ta bom... para que eu escolhesse o filme que iríamos assistir no menu de opções. chupado com vontade..... Naquele momento deixei que o clima conduzisse a situação.. Seus olhos queriam dizer algo que não consegui identificar. Aquele clima de romance ia esquentando cada vez mais. -Humpft. -Pode escolher qual você quer ver.. O Guilherme beijava maravilhosamente bem. de forma a nos fazer suar. Sem entender ele perguntou: -O que foi? -Melhor não... -Ai. Ao sentir sua mão deslizar sobre a minha cueca eu me esquivei. Deitado sobre seu braço direito e de olhos fechados.. -Assustou? -Claro. entregando-me com sua outra mão o controle da TV... -Veja a lista de filmes que têm. -Pode dar um "clique" pra começar. já estávamos deitados no sofá. sentia o peso do seu peitoral sobre o meu... Além de ter uma pegada gostosa e forte que me fazia arrepiar.. 32 . -Peraí. Eu ainda não havia percebido. Levantando-se do sofá ele disse: -Vai escolhendo aí que eu vou apagar a luz.. Meu pescoço era beijado. Já escolheu o filme? -Já. embora tivesse outros cujo já tinha ouvido falar muito bem...Seus dedos levemente tocaram os meus... Curioso perguntei: -Por que você está me olhando desse jeito? Tocando levemente em meu rosto e olhando para minha boca ele disse: -Eu vou te beijar. Bastante. Tudo bem. logo já estávamos trocando altos beijos. Nossas mãos se confundiam por dentro das roupas. Quando me dei conta. Pronto! Tirando o controle da minha mão ele perguntou: -Posso te abraçar? -Sim. mas o sofá da sala do Guilherme era reclinável. Pouco a pouco passei a sentir o toque de seus lábios sobre minha face. Fungadas eram intercaladas aos suspiros no auge da respiração.. como se estivéssemos montando um quebra cabeça. tornando o encosto quase uma cama. Olhei no relógio e disse em seguida: -Já está na hora de ir... sem camisa e minha calça aberta. não vamos fazer nada que você não queira. Fechando os olhos completei: -Então beija. Foi difícil escolher um filme em uma lista com mais de cem nomes disponíveis. né? -Desculpa. -Nossa.

-Mas você nem terminou de assistir o filme... -E nem vamos assistir se continuarmos nesse clima. -Humpft... Está bem... Eu vou vestir uma calça e um tênis pra te levar, dá um tempo ae. Abotoando o zíper eu disse: -Não demore. -É rapidinho. Enquanto ele foi tirar a bermuda e vestir uma calça, peguei o celular e liguei pra casa. Provavelmente não havia ninguém em casa, pois o telefone tocou por várias vezes até cair na secretária eletrônica. Colocando um boné na cabeça o Guilherme caminhava em minha direção dizendo: -Estou pronto. Vamos? -Sim. Parando em frente à porta ele me olhou perguntando: -Tem certeza que quer mesmo ir? -Eu preciso... -Humpft... Gostei de você, sabia? -Eu também te achei um cara bacana. Abrindo a porta da sala ele falou: -Obrigado, Fernando! -Pelo quê? -Por ter vindo, pela companhia, pela noite maravilhosa que me proporcionou... -Hahaha... Não foi nada... Eu é que devo agradecer. -Quando poderei vê-lo outra vez? -A partir da próxima semana eu já começo a operar, pois o treinamento só vai até o fim da semana... Minhas folgas serão aos finais de semana alternados... Acariciando meu rosto ele perguntou: -Amanhã você trabalha? -Não. -Podemos nos ver amanhã se você quiser... Andar de bicicleta pelo Parque da Aclimação... Ir ao cinema, teatro... Podemos almoçar no shopping... -Ah... Vamos ver como vai ficar minha situação amanhã... -Eu posso te ligar? -Pode sim. A cada semáforo que o carro parava, era uma carícia que ele fazia no meu rosto. Com aqueles olhinhos de "cachorro abandonado", ele me olhava de uma forma que fazia amolecer meu coração. Estacionando o carro no canteiro ao lado do Monumento da Independência ele lamentou: -Bom... Infelizmente chegamos. -Por quê, "infelizmente"? -Porque você se vai, me deixando sozinho... -Não fale assim... A gente pode repetir outro dia. -Sério? -É. Tirando o cinto ele perguntou sorrindo: -Então quer dizer que você ainda quer me ver? -Eu gostei de você... Te achei um rapaz bacana... 33

-Isso quer dizer quê?... -Que eu ainda pretendo te ver outras vezes. Acariciando meu rosto ele comentou: -Fico feliz em saber disso... -Bom, desculpa, mas agora eu preciso ir mesmo. -Humpft... Se cuide. -Você também. Tirei o cinto de segurança, dei um selinho nele, abri a porta e saí do carro. Acenei um “tchau” e segui em direção à minha casa.

À noite estava muito agradável. O céu estava repleto de estrelas e a lua brilhante iluminava a rua. Ao me aproximar do portão de casa, escuto um carro buzinar atrás de mim. Quando me virei, notei que era o carro dos meus pais que chegavam àquela hora também. Enquanto meu pai manobrava o carro para estacionar, deixei o portão bem aberto e entrei para não ficarem me perguntando onde eu estava até àquela hora, afinal, eu não estava a fim de ficar dando explicações dos meus passos. Na manhã seguinte acordei com o corpo todo dolorido, pois de tanto me revirar na cama, acabei dormindo de mau jeito. Levantei um pouco tonto. Em seguida, desci até a cozinha para beber um copo de suco. O silêncio da casa era quebrado com meus passos pelo carpete de madeira da escada. Bocejando, abri a porta da geladeira e vi um bolo na última prateleira, que aparentemente estava muito bom. O coloquei sobre a mesa e cortei logo uma fatia. Puxei a cadeira e voltei até a geladeira para pegar o suco. Quando abri a porta, escutei meu celular tocando lá no quarto. Coloquei o jarro ao lado do bolo e subi as escadas correndo para atender: -Alô? -Alô... Fernando? -Eu. -É o Guilherme... Está ocupado? -Ah... Não... -Você demorou pra atender... Já ia desligar... -Desculpa, é que eu estava lá embaixo comendo um pedaço de bolo... -Hum... Se eu soubesse que gostava de bolo, teria te convidado para comer junto comigo... -Não faltarão oportunidades. -Humpft... O que vai fazer hoje à tarde? -Ficar em casa, não programei nada para fazer... 34

-Aceita pegar um cinema comigo? -Hoje? -É... Já que o bolo você já comeu... -Ah... Eu topo. -Beleza! Te encontro daqui meia hora em frente ao Parque da Independência... -Mas meia hora é muito pouco tempo. -De quanto tempo você precisa? -Acho que duas horas está bom. -Uma hora é o suficiente. -Tudo bem... Nos vemos daqui uma hora. -Ta bom... Beijos nessa boca gostosa. -Outros. Desliguei o telefone e corri para o banheiro. Precisava tomar um banho para tirar o peso do corpo. A água estava tão gostosa que não dava mais vontade de sair. Procurei não demorar muito para não me atrasar, pois não queria causar uma má impressão. Assim que terminei de me vestir, desci até a cozinha e continuei comendo o bolo e bebendo o suco de goiaba. O dia lá fora estava ensolarado. Vestindo uma regata, um boné e uma bermuda eu já estava pronto pra sair, mas antes, calcei um tênis e fui até o banheiro escovar os dentes. Tranquei a porta de casa com a minha chave e saí com o sol queimando o asfalto. Quando fui atravessando a rua, notei que um carro se aproximava de mim. Não demorou e ouvi uma buzina. Ao olhar para trás, avistei o Guilherme sorrindo de óculos escuro com a cabeça pra fora da janela. -Demorei? -Não, eu acabei de chegar também. -Podemos ir? -Claro! -Entra aí... Qual filme vamos ver? -Hum... Tem tantos... -Nem são tantos assim... Se for filtrar os legais sobram poucos. -É verdade... Que gênero de filme você gosta? -Bom, eu gosto de todos, mas tenho preferência por romance, ficção... -Eca! -Por que, “eca”? -Sei lá, não curto mentira... -E... -Ficção é pura mentira... Eu gosto de participar da história, sei lá... -Então vamos ver um filme baseado em fatos reais. -Hum... Tem algum em cartaz? -Não. -Melhor assistir uma comédia. -Pode ser. Qual? -Um nacional. O quê acha? -Será que o que está em cartaz é bom? -Vamos assistir pra saber... -Então ta.

35

. -Você estava de olhos fechados. -Vamos ver então.. Vou te acompanhar até o metrô então. -Já está ficando tarde. -Humpft. amor.. Como foi lá no jantar com o "bacana"? -Foi legal. pegou na minha mão e disse: -Você é muito lindo.. Seria mentira se eu dissesse que não senti nada pelo Guilherme... Antes do filme começar. eu tinha que me permitir amar alguém e deixar ser amado. Sentamos na fileira do meio. não tinha mesmo como ver. -Nossa.. 36 . Ás vezes eu ficava pensando em algumas asneiras que o Rafael falava e percebia que em partes ele tinha razão. -Ok. Você é lindo. sabia? -Não tenho nada de "lindo". meu irmão sempre tinha a mania de deixar tudo que usava espalhado pela casa..... Dentro da sala havia poucas pessoas.Chegamos em frente o cinema e não havia ninguém. que desânimo... O filme vai começar.. Queria ficar um pouco mais com você. tropecei no pé da cadeira que estava no meio do quarto. -Hahaha. aproximando nossas bocas até que iniciamos um longo beijo que durou até o filme acabar. Separava minha carteirinha de estudante quando vi o Guilherme comprando os dois ingressos. -Hahaha. Sou um garoto comum. o Guilherme olhou pra mim.. -Ah. -Você tem um sorriso lindo. -Pare com isso. especial. -Humpft.. tamanha era a dor imediata que senti. -Nossa. Cambaleando um pouco e esfregando os olhos levantei da cama. Não tinha como não se apaixonar por ele com aquele jeito carinhoso e atencioso no qual me tratava. Alô? -Fala moleque. onde não havia ninguém. Te adoro. -Está gostando do filme? -É meio parado.... Nando! -Vamos? -Já? -É.... -Caralho... Meus olhos que estavam ainda meio fechados por conta da claridade que entrava pela fresta da janela se abriram instantaneamente. -Não é não. -Ou seja. -Então eu pago a pipoca. gato.. sabia? Com a mão direita segurando o meu queixo ele trouxe meu rosto pra perto do seu. você não está gostando. Coloquei o dinheiro e a carteirinha sobre o balcão e tocando em minha mão ele recusou.. Nem vi o tempo passar. Isso são horas de me ligar? -Deixa de ser chato.. -Não precisa. -Oba! Por volta de 10h00 da manhã seguinte acordei com o telefone tocando..

Rolou. -Me dê um motivo então? -Posso te dar vários... o quê você quer saber? -Tudo! -Tudo o quê? -Rolou uns beijinhos? -Hum. também estava apreensivo. -Puta.. é bonito. pois o dia de entregar a documentação no RH parecia nunca chegar. o quê você fez ontem? -Fui ao cinema com ele. depois eu te ligo pra marcar de nos encontrar e você me conta tudo. Não tenho essa intenção.. você já abriu sua conta no banco? -Já.... -Certo.. Ele tem grana. -Mas têm motivos.. deitei no sofá da sala e fiquei assistindo à televisão até dar o horário de sair para o treinamento na empresa. é jovem... -É melhor mesmo. Eliane! -Sexta-feira da semana que vem cai o dinheiro do vale transporte. nunca entendi você. -Beijos! -Outros! Depois disso não consegui mais dormir.. Esqueci que você é cheio de manias esquisitas. Peguei meu cobertor. 37 . -10h15. -Ah.. Não basta. -Você vai desligar na minha cara? -Humpft. Ao mesmo tempo em que eu estava feliz por ter encontrado meu primeiro emprego. -Ninguém me entende.. -Como não sabe? -Não provei. Nem vou falar nada.. depois a gente se fala. -Eu sabia que você não era burro... -Ok..... Fernando! -Boa tarde. -E o quê você está esperando pra namorar? -Rolar um clima maior. ta afim de você. só ficamos sábado e ontem.. -Sinceramente... -Eu estava dormindo. eu não iria sossegar. -Vocês estão namorando? -Claro que não. -Minha mãe está me chamando.. se não deu pra você notar. -Vamos mudar de assunto? -Ta bom.. -Bom. você ligaria de novo pra me encher o saco... Ele é bom de cama? -Não sei. -Reparei pela sua voz roca. Fala logo. Enquanto eles não registrassem a minha carteira. Não adiantaria....-Olha a hora que você me liga.. -Boa tarde.

O. Eu tinha entendido V. Pára Roberto. -Eu adoro esse calor. -Oh Doce. mas todos que estavam por perto caíram na gargalhada.. Abrir conta em banco é a maior burocracia. lá em Natal é o ano todo assim. Saindo do treinamento meu celular começou a tocar. Por mais que a Elaine tentasse parar de rir ela não conseguia.. Tassi? -Por quê.. Os apelidos que o Roberto arrumava eram de chorar de rir. -É melhor parar.. a Renata como “Tassi” e a Eliane como “Doce”. Eliane.. só poderá abrir ressarcimento se ele apresentar o B. Daba.. dormiu com o Bozo? -O que foi. acabou entrando embaixo da mesa e assim permaneceu por uns cinco minutos. -O Douglas já está olhando pra nós... Quando ele falou aquilo não teve como não rir.... -Hahaha... -Mano.. -Eu não agüento mais esse calor.O.. -Ah. No visor apareceu o telefone do Guilherme. Seu sotaque cheio de palavras desconhecidas e fora do cotidiano paulistano denunciava sua origem nordestina.. o que serviu de base para as piadas do Roberto. tanto que no decorrer do treinamento inteiro a Elaine ficou conhecida como a “Daba”. -O que ele falou? "V. -Caso o modem do cliente seja roubado... mas depois pedia para entregar uma cópia do primeiro holerite. Tassi? -TASSIachando. Chegou à hora da pausa para o lanche. -O Roberto é cheio de gracinha. No meu caso foi mais fácil... Meu coração começou a palpitar bem forte de emoção. porque a agência aceitava o check-list da empresa como comprovante. A Eliane acabou abrindo sua conta em outra agência de teimosa que era.. -Falo aê.. -"Voletim de Ocorrência". -Hahaha.. mas não deixava de ser uma pessoa legal. -Hahaha. pegamos sanduíche e refrigerante que eles distribuíam para o pessoal do treinamento e fomos para a copa esquentar no microondas. Para o Douglas não ver que ela estava gargalhando sem parar. -Ah..-Em qual agência você abriu? -Aqui na agência que fica dentro do mercado. -Daba? -DABAhia.. 38 . para a empresa.... despertando a atenção do treinador. Conhece a "Doce"? -Por quê. principalmente quando não se tem como comprovar renda..O .. Eu morro de vontade de conhecer a Bahia. e você? -Eu abri na agência do Centro..O?" -B. "Doce"? -DOCEará. não só eu..

e você? -Acabei de sair do trabalho. -Mas. é a favorita do meu pai e minha também.. -Tudo bem? -Nossa. sabia? -Pare com isso.. -É quê. quer jantar comigo? -É que... -Sim senhor. Não falei nenhuma mentira. -Ta bom.. -Você vai vir de metrô? -Não. -Água? Não acredito nisso. mas como iria fazer isso sem decepcionar o Guilherme? A única alternativa foi sentar à mesa com ele e fingir que não estava com muita fome.. Olha que tímido.. Assim que cheguei avistei seu carro chegando também. -Boa noite. -Humpft.-Alô? -Fernando? -Sim. -O quê deu em você? -Eu não bebo álcool. Você me espera na calçada em frente a entrada principal. gato.... -E o senhor? -Uma água. -Pra onde vamos? -Gosta de carne? -Sim! -Então vamos à uma churrascaria na Marginal. pois o ambiente era um luxo só. onde podemos nos encontrar? -Ebaaaaa! No shopping.. você está lindo. -Em 5 minutos eu to aí. -Tudo bem. lembra? 39 .. -Faço questão de te levar nessa churrascaria.. o quê você está fazendo agora? -Estou acabando de sair do treinamento... o quê os senhores vão querer beber? -Eu quero um Porto.. Então ta bom. -Aceita.. Ao chegar na churrascaria achei que estava fodido. No estacionamento só tinha carrão e os freqüentadores de alto nível. e os preços absurdamente caros. -Ok. Caminhei até o shopping e fiquei esperando pelo Guilherme no local combinado. a comida é ótima.. Tive vontade de sair de fininho e ir embora. -Hahaha. já te falei. -Traga um porto para ele também. -Aqui é o Guilherme. tudo bem? -Tudo e com você? -Também. -Entra aí. vai? Já to com saudade de você.

-Hum... -Com licença. A comida que minha mãe fazia. só um pouquinho não vai fazer mal.. encurralado eu não tinha o quê dizer. mas ainda não tinha certeza se era isso mesmo que eu queria. Depois de jantar esperei passar 1 hora para começar a fazer as abdominais... Com a comida quentinha.. era um sinal de que ele tinha boas intenções comigo e queria algo sério. sinal de que minha mãe havia feito a janta há pouco tempo. Quase morri. Cheguei em casa quase 1h da manhã. modéstia a parte era ótima. mas pense com carinho.. -Eu posso ser o primeiro? -Humpft. 40 . liguei a TV e fui até a cozinha.. Ta bom. porém. Nos tempos de hoje é muito difícil encontrar alguém que esteja afim mesmo de um compromisso.. Namorar. quero que saiba que eu gosto muito de você. o medo bloqueava a vontade de me entregar a alguém. O Guilherme era uma tentação...-Bobinho. Você quer namorar comigo? -Eu nunca namorei. Ascendi à luz e notei que as panelas ainda estavam quentes. -Você quer namorar comigo? Comecei a gaguejar... -Humpft. principalmente seu macarrão com molho vermelho e bastante carne moída. Vontade não me faltava. Eu preciso pensar... -É gatinho. coloquei um pouco de macarrão... -Tudo bem... Peguei um prato no escorredor de louças. Tranquei a porta da sala. como já era de rotina todas as noites. quanto mais eu fugia mais ele vinha me empurrando o que eu não queria. Fiz uma série de cem abdominais.. a não ser aceitar. -Eu também gosto de você! Achei muito legal o pedido dele de namoro. frango ensopado e botei pra esquentar no microondas. namorar. mas eu via a recompensa quando me olhava no espelho reparava na minha barriga toda definida. -Fe. Em seguida fui até o banheiro escovar os dentes e depois dormir. Eu. -Mas. coloquei um pouco de refrigerante no copo e fui jantar na sala vendo um filme na TV. Todos já estavam dormindo.

ocasionando uma bagunça total. Esse pessoal não tem nem um mês ainda.. -É seu primeiro dia de escuta? -Sim. tudo bem? -Beleza cara... pois era muita gente entrando ao mesmo tempo. Comecei a tremer de medo e nervoso. Tive vontade de abandonar tudo e sair chorando daquele lugar. e o seu? -Fernando. 41 . No meio daquela bagunça fiquei assustado ao ver uma das supervisoras gritando pela operação. mas me atrapalho nas telas ainda. qualquer dúvida que você for tendo é só ir me perguntando. -Então eu vou atendendo o cliente e você vai observando. pois ele usava mais de onze janelas diferentes para consultar informações. -Vou fazer escuta com você. -Vem comigo.. Encostei ao lado da porta do breack e fiquei esperando ser chamado. -“Senhor Pedro?. -Mas quem mandou eles fazerem escuta com o pessoal novato? -Não tem mais operadores para eles sentarem. Pela sua cara parecia não estar para muitos amigos. Fernando? -Conheço pelo treinamento. -Tudo bem.A de um garoto... Sentei ao lado de uma garota muito simpática que começou a me explicar tudo sobre a prática dos sistemas que a ilha de contas utilizava. sendo que cada uma servia para um procedimento distinto.” Obrigado por ter aguardado.. onde havia alguns operadores com mais tempo de casa cujo eu poderia fazer escuta sem problemas. -Você está esperando pra fazer escuta? -Sim. -Ta bom.. Enquanto ele ia atendendo o cliente eu me perdia no abre e fecha de telas do computador. Senta aqui com ela que eu já te trago um read.. A operação estava tumultuada.. Tivemos que chegar um pouco mais cedo naquela tarde. causando pânico em nós novatos. Meu nome é Thiago.. Um dos supervisores pediu para que eu o acompanhasse até a Ala B. O acompanhei pelo corredor até chegar à P.Finalmente chegou o dia de fazer escuta na operação. Puxei uma cadeira ao lado e sentei observando o manuseio dos sistemas que a princípio não eram nada fácil. -Você já conhece o sistema. Ficaríamos três horas fazendo escuta no primeiro dia e depois começaríamos a atender as reclamações dos clientes.. -Dê um jeito.

Desliguei o celular e fui correndo tomar um banho. A brisa fresca que batia no meu rosto. Mano. -Fala cara. de tratar as pessoas. -Ta bom. enfim.. -Então se apronte rapidinho que já. vou tomar um banho e daqui a pouco estou saindo. pra mim a menina tinha uma beleza comum. A partir daquele momento eu não consegui mais prestar atenção em nada. eu acordei agora.. mas certeza mesmo de onde iríamos eu não tinha. 42 . -Brigadu. Até mesmo sem gostar tive que concordar com ele. Naquele instante meu mundo parou.... -Nossa. Pensei em vários lugares onde o Gui poderia me levar. Atrás de nós havia outra fileira de P. -Amor da minha vida. Gostosa.. No domingo eu havia combinado de sair com o Guilherme. um holofote acompanhava cada passo que ele dava.. Foi paixão à primeira vista.. mas sim o garoto. assim como o garoto que me chamou atenção. porém.A. pois o Guilherme disse que seria uma surpresa e não quis me revelar. Que isso.. Demais. bele? -Firmeza. onde ele se sentou para dar início ao atendimento. tudo bem? -Tudo fica ótimo quando falo com você.? -Qual? -Essa que está vindo. Logo pela manhã meu celular começou a tocar me acordando. Mesmo assim continuei atento a tudo que ele fazia e a maneira como ele tratava o cliente..... Ele não era um simples garoto. O coração parecia querer sair pela boca.Depois de um tempo a confusão era tanta que a tela do computador parecia girar na minha frente. -Oi Gui.... já estou passando ai pra te buscar. estilo de vida. Depois de três horas de escuta acabaram nos dispensando mais cedo. -Não demore! -Pode deixar. mas no seu caso foi ao ver uma loira passar pela nossa P. -Ae mano. O Thiago também ficou assim como eu.A para a gente se logar e por ser o primeiro dia em atendimento eles nos deram uma trégua...A.. não tinham nada em especial. Nunca fui uma pessoa que se interessava pelas outras por beleza física. quebrava o clima abafado causado pelo calor do asfalto. pois não havia P. Um domingo ensolarado e agradável. Eu nunca fui de acreditar nessas idiotices até surgir aquele anjo sem asas em minha frente. O dia lá fora estava lindo. Minha atenção acabou se perdendo quando se aproximou de nós um garoto. não é? -É. Em pouco menos de trinta minutos eu já estava pronto. me fazendo perder todos os sentidos. Olha aquela loira.. Sempre achei que o mais importante em alguém era seu jeito de ser. -Já está pronto? -Não.

.. -Para onde vamos? -Vou te levar para assistir uma competição de motocross. Seguimos para Rio Claro onde ia acontecer à competição. -Vai ficar esperando ai até que horas? -Até eu me cansar de seu atraso e ir embora.. ouvi o barulho das portas se travando novamente.Pensei que você já soubesse que eu participava. vou pedir pra você um favor. na verdade eu nunca tinha ouvido falar. -Amor. Ao virar as costas para voltar pra casa meu celular tocou. mas confesso que eu adorava seus paparicos. O ruído do ar condicionado era abafado pelo rádio que tocava Kid Abelha. você está me deixando sem graça.. mas me enganei. -Pára.. Eu nem sabia o que era esse tal de motocross. com uma arquibancada enorme e um monte de motos barulhentas correndo pela pista. Enquanto eu admirava as paisagens ao redor da estrada ao som de Marisa Monte o Guilherme ia me fazendo declarações de amor. Segui em direção à sua caminhonete e a porta se destravou. -Agora você já sabe.Por volta de 10h eu já esperava pelo Guilherme que ainda não havia visto chegar. -E cadê o seu carro? -Na sua frente.. -Ta bom.. -Aos poucos vamos descobrindo mais coisas um do outro. -Só vejo uma caminhonete vermelha com uma moto.. -Mas eu cheguei primeiro que você. não quero que nada de mal te aconteça. -Não sabia que você tinha dois carros. repare quem está no volante? -Ah. Cadê o seu carro? -Esse também é meu carro. -Mas esse eu só uso para os finais de semana e para praticar esportes. -Mas... -Motocross? -É. 43 . -Qual? -Fique bem longe da pista de competição. -Você fica tão lindo quando está envergonhado. Ao mesmo tempo. -Entendi. -E cada dia que passa eu me apaixono mais por você... -Pois é. -Chega de bater papo e vem logo pro carro se não vamos nos atrasar.. eu tinha três carros e uma moto. O cumprimentei ao entrar com um beijo na boca. -Nem desconfiava. me desfiz de um deles e fiquei só com esses dois e a moto. Eu pensei que chegando lá teria uma pista de asfalto. Aqueles abraços quentes e seus beijos safados me faziam bem. às vezes chegava até enjoar sua melosidade e zelo comigo... Embaixo daquele sol que começava a esquentar eu já me irritava de tanto esperar. O Guilherme era muito carinhoso. -Pois é..

O ideal do motocross é os treinos constantes que se devem ser feitos. mas eles sabiam que eu não era um deles e isso já era motivo suficiente para me excluírem do grupo. pelo contrário. também estacionados os carros das famílias e competidores que lá estavam para assistir a competição. -Também te adoro. se não todos naquele lugar. Acho que eu era o único sem posses ali no meio de tanta gente rica e importante. batizada de Motorcycle Scrambles. batizando o 1º motociclo fabricado fora da Alemanha. O tempo parecia nunca passar. não que eu estivesse mal vestido. -Gato. assim como o Guilherme. No ano seguinte. Nando. Como em qualquer outro esporte. (MUNDO MOTO. Vários rapazes bonitos com suas motos adaptadas para subir e descer morros. Não que a competição fosse chata. dando inicio às competições de motocicletas e nascendo logo depois o motocross. sempre me vesti muito bem. eram muito bem sucedidos financeiramente e jovens. a prática e os treinos têm muito a ver com os resultados finais. 44 . por isso a importância de treinar antes da competição. A grande maioria. Subi até o morro onde havia algumas pedras e árvores.. Acho que pobre ali só tinha eu. Ali próximo havia um outro campo enorme de terra vermelha. cai e levanta no terreno barrento com suas motos. 2006: 01) Procurei um lugar onde eu tivesse uma boa visão e distância para não me sujar naquele barro vermelho. me olhavam torto. Algumas irmãs. em seus anos mais românticos. mas o que não me agradou mesmo foi o clima que estava muito quente e algumas pessoas que lá estavam.. pedras. criaram a expressão motocyclette. namoradas dos rapazes que foram competir. -Boa sorte. a competição finalmente chegou ao fim. Era o nascimento do motociclismo de competição.Paramos com o carro em um terreno cheio de pedras. Gui. que aconteceu no dia 29 de novembro de 1897 em na cidade de Surrey. despertando o interesse de outros engenheiros e inventores. Em 1897 os Werner. os ingleses entram no novo mercado para valer. irmãos franceses que seguiram os passos dos engenheiros alemães. cujo ficaram me olhando de cima a baixo e fazendo algumas caretas menosprezando minha presença. -Vou ganhar essa competição pra você. desce. em Londres. evitando ficar muito tempo longe das trilhas para não “enferrujar”. -Não fale assim que se não eu começo a chorar. No estacionamento reparei a quantidade de pessoas que lá estavam e aparentemente todos de alto nível social. Os ingleses se apaixonaram pelo motociclo e organizaram a primeira corrida. impulsionando um novo segmento. cheio de obstáculos. Após aquele sobe. Caminhando todo sujo e carregando sua moto. eu vou pegar a moto e treinar antes da competição. A “nova” técnica foi sucesso imediato. -Te adoro. atravessar grandes obstáculos.

Vai haver uma competição em Goiás e essa eu vou ter que ganhar. Ao parar de rolar meu cérebro parecia estar dentro de uma batedeira... o Guilherme apareceu do nada e me jogou novamente no chão.. -Nesse dia vou querer você junto comigo. No início eu relutei ao máximo para ele me largar e não tocar naquela água fria.. Quando consegui me sentar. -Mas não para mim. -Humpft. o importante é competir. ganhar em terceiro lugar está ótimo...... -Sim. Você está me sujando. Altos beijos rolavam entre nós enquanto nos despíamos. mas nada do que eu fizesse adiantou. Fazendo sinal com a cabeça e um sorriso safado ele apontava para a cachoeira.. A cada movimento que eu fazia era acompanhado pelo barulho das folhas secas espalhadas pelo chão. Ainda de olhos fechados eu conseguia ouvir o barulho dos pássaros a minha volta e de água corrente nas proximidades. vem aqui. Bom. -Hahaha.. sim. Deitou seu corpo por cima do meu. -Buuuuu.. Abri os olhos e avistei uma linda cachoeira à minha frente. -Imagina.. tentando escapar daquele “monstro do pântano”. nós vamos em uma sexta à noite e voltamos no domingo no final da tarde. -Humpft.. -Desculpa.. -Gui.... -A corrida já acabou. Estava irreconhecível. parecendo um boneco de argila..... -Ah para com isso. Bati a cabeça várias vezes no chão até ficar tonto....avistei o Guilherme vindo na minha direção. 45 . ele me pegou no colo e entrou dentro do rio junto comigo. Eu vou te agarrar.. por quê? -Tem meu trabalho. -E no trabalho também. pegamos um avião e rapidinho chegamos lá. Não chegue perto de mim. Sai daqui... Não... Sem me dar muito tempo para reagir.. segurou minhas mãos de forma a me imobilizar e olhando face a face ele disse: -Pensou que ia conseguir fugir de mim? -Ai. Guilherme. Guilherme. Eu corria pelo meio das pedras e árvores que lá havia. -Desculpa-lo. -Não chega perto de mim sujo desse jeito. -Eu vou te pegar. Quando ele veio pra cima de mim coberto de lama para me abraçar eu sai correndo pelo meio das árvores. escorreguei em um barranco e desci rolando por uma corredeira de mato e pedras. -Eu? -Sim... amor... Meus pais.. não vou me conformar se não conseguir o primeiro lugar.. -Nem pensar.. As mãos se perdiam junto com os movimentos no vai e vem de nossos corpos... pelo quê? -Porque eu não ganhei a competição pra você. Você está precisando de um banho. Fui me apoiando aos poucos nos braços que estavam ainda meio dormentes e me levantando com cuidado..... -Estou precisando é de um abraço. -Vou ver se arrumo uma desculpa em casa para passar uma semana fora.

. Enrolei por mais uns quinze minutos.. mal consegui fechar a porta por causa da enorme mochila que eu estava carregando. Eu posso ser seu primeiro? Puxei sua cabeça e lhe dei um outro beijo longo e molhado.... Embaixo daquela água quente. amor. cara. Já nos faltava respiração em meio aos amassos que estávamos dando naquele chão coberto de folhas secas e argila. tudo e com você? -Melhor agora falando com você. No começo foi difícil aprender a manusear todos aqueles sistemas ao mesmo tempo.. -Será que isso responde sua pergunta? -Hahaha... deixei a academia exausto. Não. Entrei na academia. Já no amor não tinha nem palavras pra descrever. 46 .. acordei quase 11h. Deitados à margem do rio nos beijávamos sem parar. Em nossa volta a natureza nos assistia em silêncio fazer amor.-Pára. Antes de sair de casa. não dava vontade de sair da cama. Em uma manhã um pouco chuvosa.. Um mês se passou e tudo em minha vida estava dando certo. Após o treino. Por favor. renovei meu guarda-roupa e tinha dinheiro pra sair quando quisesse. No trabalho estava indo tudo bem. Você já pensou se quer namorar comigo? -Namorar? -Sim. -Tudo bem com você. -Deixa de frescura.. Com o corpo todo dolorido. meu gatinho? -Oi Gui. o Guilherme era o namorado perfeito. -Eu estou falando sério.. não era muito. na outra eu segurava o guarda-chuva. pois era dia de ajuste de carga na academia. estou entrando no ônibus pra ir trabalhar.. Tive que me retorcer todo para atender. mas aos poucos fui me adaptando e pegando a prática. Minha caixa estava vazia. -O quê? -Você é demais. mas dava pra me divertir. quebrado apenas pelos nossos sussurros e gemidos nos momentos de orgasmo. Namorar.... Onde você está? -Acabei de sair da academia. embora não fosse longe da empresa. -Nossa. No meio do caminho meu celular começou a tocar.. até criar coragem e levantar. pois em uma mão eu segurava a mochila pesada e abarrotada.... -Deixa de bobagem.. então deixei baixando umas músicas enquanto fui tomar meu banho. Tudo que eu queria em minha vida estava conseguindo. parecia um sonho dividir parte da minha vida com ele. -Alô? -Nando? -Eu. Nando.. Você é demais. Aquelas alturas nossos corpos estavam unidos e completamente nus.. eu tinha vontade de ficar o dia todo. -Humpft. Fui direto checar meus e-mails antes de sair do quarto. está gelada.. preferi pegar um ônibus pra chegar mais rápido e também pra não tomar aquela chuva. Com aquele tempinho gostoso. -Mas você sabe que eu nunca namorei. iria continuar com o curso de idiomas. Fernando.

você dorme comigo na minha cama.. 47 .. preciso desligar agora.. -Também gosto de você. Coloquei a mochila nas costas e fiquei parado na porta aguardando o ônibus parar no ponto em frente ao mercado.. -Ônibus? Por que você não me ligou que eu ia te buscar.. -Não tem problema meu gatinho. -O que foi? -Quase caí do ônibus. o metrô funciona até 00h30... Beijão pra você e bom trabalho. Opa.. pois vou descer do ônibus. -Adoro você.. -Você sabe que eu não posso demorar se não acabo dormindo na rua... Preciso dar uma desculpa em casa. -Não vou ficar te ligando por qualquer bobagem. -Humpft. -Posso te buscar amanhã no serviço? -Pra quê? -Pra te ver. seu beijo. por você vale qualquer sacrifício. -Hum.. -Até parece que eu vou deixar meu bebê dormir na rua. por isso me preocupo. -Tudo bem meu anjinho. Imagine as pessoas te machucando dentro do ônibus.. -Gui... -Vou adorar passar a noite abraçadinho com você. Desliguei o celular e apertei o botão para sinalizar que eu ia descer.-Quando é que a gente vai se ver? -Não sei... -Não precisa exagerar... não sou feito de vidro. -Obrigado e outro pra você.. -Eu fico preocupado com você... matar a saudade do seu cheiro.

Confesso que estava com um pouco de medo. Mas ao vê-lo novamente meu coração disparou.. O elevador parou no térreo. mas aquele dia estava demais. Eu gostava de tempo meio chuvoso. Eu já nem me lembrava mais dele.Assim que desci do ônibus tive que abrir o guarda-chuva rapidamente. Dali mesmo era possível ouvir os fortes travões que sacudiam a cidade lá fora. sendo assim. Após um bip as luzes se apagaram e um foco ascendeu. Ele encostou-se ao espelho perto do painel e eu fiquei tentando ver seu nome no crachá pendurado em seu pescoço. 48 . Ao passar pela porta de vidro levei um susto com o relâmpago seguido de um forte trovão. talvez o seu jeito de ser. Olhei no relógio já era 17h15 e eu tinha que me logar às 17h30. peraê. olhar. em menos de cinco minutos cheguei no prédio. Atravessei a rua correndo. alguma coisa ele tinha. -Valeu. só dava pra ver a parte de trás do crachá. segundo a previsão de tempo. -Opa! Fiquei segurando o botão para que a porta não fechasse e aquele atrasado não ter que ficar esperando outro elevador.. Minha voz travou. estando ali sozinho. apenas com uma placa do meu lado avisando que o piso estava molhado. Fiquei ali no ponto parado aguardando o semáforo fechar para eu poder atravessar. Passei a “alma” na catraca segui até o hall do elevador onde apertei o botão para ele descer. quer dizer.. até ver que o atrasado era aquele mesmo garoto que uma vez me tirou toda atenção no meu primeiro dia de escuta. Quando a porta do elevador se fechou meu coração foi à mil.A eu acabaria me atrasando. mas o nome e a foto estavam virados para o lado de dentro. ainda ouvi um comentário das meninas da recepção que iria chover assim por três dias. Comecei a entrar em pânico. Sentei no canto do elevador e comecei a sentir falta de ar. Quase chegando no décimo primeiro andar o elevador simplesmente pára e fica tudo escuro. achava que ele nem trabalhava mais na empresa. Com as mãos apoiadas nas paredes eu procurava pela câmera. esperei que as três pessoas saíssem e entrei. É incrível que quando a gente tem pressa o mundo parece conspirar contra nós. Com a falta de P. minhas mãos tremiam sem parar. Claro que fiz isso por pura solidariedade. Apertei o botão 11º e quando ele ia fechando a porta alguém grita pra eu segurá-la. Logo na portaria já tinha uns sacos plásticos para colocar o guarda-chuva molhado. pois estava caindo o mundo naquela tarde.. chorar de medo. Não sei o que aquele moleque tinha que me deixava sacudido daquela maneira. Sempre tive pavor de lugares apertados. hein. -Peraê. não sei explicar o que era.

-“Recepção... -Estou começando a ficar preocupado com você.. Fique calmo. Preciso sair daqui.. trazendo os joelhos para próximo do peito. O quê será que aconteceu? -Caramba. o prédio todo está sem energia. Um carinho com o próximo sem igual. O que está acontecendo aqui? -Será que acabou a energia? -Estou sentindo falta de ar. -Eu preciso sair daqui.. Comecei a ficar pálido. Bebe um pouco d'água.. gelado.. Para tentar amenizar.... Agora beba um pouco de água. 49 . Tentando me deixar mais à vontade. Preocupado comigo o garoto interfonou para pedir ajuda.. -Eu quero sair daqui. -Levante a cabeça. ele se sentou ao meu lado. -Eu não estou passando bem. mas me ajudou muito naquele tempo em que ficamos presos dentro do elevador.-Meu Deus!. -Não precisa ter medo.. -"Tudo bem. -"Eu peço que vocês tenham um pouco de paciência que já vamos tira-los daí...... Viu? Eles já estão vindo. -Valeu. tem alguém aí? -“Estou lhe ouvindo.. Notei em seu olhar um sentimento de solidariedade.... mas já estamos trabalhando para tira-los daí".. Respire devagar. estou aqui contigo. Tirando a jaqueta ele se abaixou na minha frente e cara a cara me perguntou: -O que você está sentindo? -Falta de ar. Depois ele abriu sua mochila e tirou um squeezer com água e me deu.. Quantas pessoas têm?" -Duas. -Nossa. Um ato de solidariedade na tentativa de me confortar...... -Por favor... Meu coração acelerou como o motor de uma Ferrari. Sua atitude não tirou meu medo.. O que aconteceu? -Ué.. Encostei minha cabeça em seu ombro quentinho e uma paz nasceu ao receber seu calor humano. ele ligou o ventilador para o ar circular e amenizar a sensação de sufoco que ali estava.” -Eu.. -Obrigado...... perdendo a voz aos poucos. colocou seu braço por trás do meu ombro e me trouxe pra junto de si. -Vou ligar o ventilador pro ar circular. o que acontece?” -Estamos presos dentro do elevador.... -Humpft... Sentado no canto do elevador eu abaixei a cabeça e dobrei as pernas.. deixando o garoto cada vez mais preocupado. -Já vão vir nos tirar.. -Pega.. -Eu to com medo. cara. -Tenha mais um pouco de paciência.

. Enquanto isso vamos ouvir um pouco de música.... Tirando seu braço do meu ombro ele pegou sua mochila e tirou um MP3. Topa? -Por mim. Faz quanto tempo que você trabalha aqui? -Hoje faz três meses. -E você trabalha aqui há quanto tempo? -Fez quatro meses.. -Não fala assim. Mas hoje você é o premiado. -Preste atenção na letra dela... Gosta de Legião Urbana? -Sim. -Eu não deveria ter saído de casa hoje. Fica tranqüilo. pois passou no período de experiência. meu nome é Levy e o seu? -Fernando...-Mano. -Será que vão demorar muito pra nos tirar daqui? -Relaxa. -Escute essa música. -Então vamos comemorar duas vezes. Aquele beijo era mesmo o fim Era o começo E o meu desejo se perdeu de mim E agora é tarde.. -Opa. Muito bonita. -Prazer Fernando. -Isso merece uma comemoração. Deixa eu me apresentar.. iremos sair juntos dessa..... -É “nóis” então. Selecionou uma música e começamos a ouvir. acordo tarde Do meu lado alguém que eu não conhecia Outra criança adulterada 50 .. -Comemoração merece a hora que eu sair daqui.. Depois temos que comemorar.. eu estou aqui com você. tudo bem. A cruz e a espada Havia um tempo em que eu vivia Um sentimento quase infantil Havia o medo e a timidez Todo um lado que você nunca viu Agora eu vejo. -Hahaha. Aquele beijo era mesmo o fim Era o começo E o meu desejo se perdeu de mim E agora eu ando correndo tanto Procurando aquele novo lugar Aquela festa o que me resta Encontrar alguém legal pra ficar Agora eu vejo...

.. -Vai você. Intérprete: Renato Russo e Paulo Ricardo Composição: Renato Russo e Paulo Ricardo -Um pouco triste. Levy. ah era o fim Era o começo E o meu desejo se perdeu de mim E nunca mais.Pelos anos que a pintura escondia Agora eu vejo. nunca mais. Achei que o elevador estava caindo. -Qual a sua idade? -Tenho 19 anos e você? -Também... -Fica calmo. mas logo minha agonia passou quando vi um bombeiro abrindo a porta. foi o motivo que faltava para eu perder todo o controle e entrar em pânico. Quando tudo parecia estar indo bem o elevador começou a tremer... Coloquei as mãos no rosto e comecei a rezar sem parar. Com a metade da porta aberta o bombeiro perguntou: -Está tudo bem com vocês? -Sim.. -Desculpa. Ela fala de solidão.. estamos juntos nessa..... -Ah meu Deus. -Eu vou logo depois. Ela morreu? -Não. O Levy olhou pra mim. né? -É. -Mas você. ela foi embora de casa quando eu era criança.... Socorro. Aquele beijo era o fim. ou.. -Vou tirar um de cada vez daí de dentro. Fernando.... -Ah. O elevador estava parado entre o nono e décimo andar. -Vamos falar de coisas boas? -Demorô.... imediatamente uma vontade de chorar enorme bateu em mim. Me faz lembrar da minha mãe. Estão abrindo a porta. -Obrigado. Como o elevador estava parado entre dois andares.. Um monte de besteiras começaram a se passar pela minha cabeça..... judiava de nós até que um dia ela saiu de casa e nunca mais voltou. Tive que deitar minha 51 .. -Em que sentido? -Ela. confie em mim... deu um sorriso e pediu para eu ir primeiro.. Vá você primeiro. Amor. tivemos um pouco de dificuldade para sair de lá. Pra mim que já havia me acalmado. -Eu não quero morrer.. pois era mais seguro sair pelo nono andar.. dificultando um pouco o trabalho dos bombeiros do prédio para nos tirar dali. -Meu pai bebia muito. -Você não vai morrer. Olha.

Fui levado para o ambulatório no sétimo andar.. subi carregado pelos bombeiros.. -Adivinha onde estou agora? -Hum... Com seu jeito meio maloqueiro de moleque-homem. eu adorei ter conhecido aquele garoto que me enfeitiçou desde a primeira vez que o vi... não se preocupe. Sentado em uma cadeira de plástico. peguei o celular e liguei para o Guilherme contando o ocorrido. Sentia meu corpo mole. Enquanto esperava... só quero seqüestrar você e te proteger. -Fazendo o quê? -Aguardando a supervisão chegar. -Eu não vou voltar enquanto meu amigo não ficar bem. Eu tremia o tempo todo. porque havia um espaço muito pequeno para passar. -Qual o ramal do seu supervisor? -59537.. -Fernando. Embora eu já estivesse sendo levado para a saleta do SESMT em segurança.. Aquele ambiente era frio.. acompanhado pela enfermeira eu aguardava a Habiba chegar. mas os bombeiros e a enfermeira não permitiram que ele permanecesse na sala. Vou ficar aqui fora esperando. Um cheiro forte de álcool impregnava cada canto daquela sala. -Alô? -Gui? -Oi Fe. -Comprando um presente bem bonito pra mim? -Errou. Faltou energia no prédio e fiquei preso no elevador. O vidro da janela entre aberto deixava que uma leve corrente de ar entrasse. -Qual o nome dele? -Vivian.. Não. era uma sensação muito ruim. meio triste. -Você não pode ficar aqui. me arrastando.... -Trabalhando? -Não. volte pra operação.. -Por favor. balando a persiana de um lado pro outro. gelada. Tirando o fato de ter ficado preso dentro daquele local limitado. -Não vou conseguir ficar em paz com essa notícia. a preocupação ainda me atormentava. -O que você está fazendo agora? 52 ... -Coitado do meu bebê. menos de cinqüenta cm pelos meus cálculos.. -Eu não quero entrar ai..barriga no chão e ir saindo de costas.. O Levy queria me acompanhar. -Estou no ambulatório da empresa. Só consegui ficar bem depois de ver o Levy fora do elevador. Caminhando pelas areias de Miami Beach? -Hahaha. Quer que eu vá até você? -Você não pode entrar aqui... -Agora eu já estou bem. -Mas por quê? -São regras do condomínio. -Então desisto..

. Te adoro. clinicamente não sofreu nada. sabia? -Eu também adoro você. ta bom? -Tudo bem. Nando? -Eu prefiro. -Opa. 53 .. a Habiba ama você! -Eu também te amo. -Foi só um susto. -Cuidado filho. -Oi Levy... Ele não apresenta nenhum sintoma que o impeça de andar sozinho. Beijos! -Outro. Levy. -Você quer ir pra casa... uma leve barba por fazer dava um sombreado. se não fosse a Habiba chegar e atrapalhar. com uma cara de preocupação enorme. me dá aqui um abraço. Habiba! Deixei a sala do SESMT e cruzei com o Levy que me aguardava ansioso no hall do elevador. Desliguei o telefone assim que vi a Habiba entrando na sala do SESMT. Quase morri de preocupação quando me contaram.. Como ele está? -Como a senhora pode ver. -Eu sou a enfermeira... -Tadinho do meu bebê. -A senhora que é a supervisora dele? -Isso. não se preocupe.. -Obrigado pelo quê? -Por me dar força. Menos mal. -Valeu mesmo.. Em seu rosto... parecia que a notícia que havia chegado pra ela era das piores. -Ele já pode ser liberado? -Sim... que realçava o formato masculino e angelical. adquirido na criação de rua... -Eu só fiz o que meu coração pediu. -Então eu vou te liberar e desconto no seu banco de horas. caloroso. -Humpft.... -Deixa de ser exagerada.. -Ta tudo bem com você..... vou precisar desligar agora. -Mesmo assim habibinho. -Meu nome é Vivian. Aquele jeito meio bruto. -Meu lindo. quase morri Habiba.. eu quase morri do coração... -Relaxa. Permaneceria abraçado com ele por mais uma vida. -Fernando.-Estou no trânsito voltando do fórum.. humano.. -Ele está em condições de ir sozinho? -Olha. -Obrigado. cara? -Tudo bem. me deixava mais louco ainda. acabei de sair de uma audiência. -Humpft. O que aconteceu com você? -Fiquei preso no elevador. Obrigado Vivian. Só preciso que a senhora assine a ficha dele. Demos um abraço apertado... -Habibo. foi apenas um susto que o deixou perturbado. Habiba.

onde é necessário um respeitar o espaço do outro para se viver em harmonia.. Vai. Melhoras pra você. -Nossa. impedindo nossa passagem. ok? -Ta certo. -Até mais. Habiba. -Queria tanto estar aí do seu lado te fazendo um carinho. -Hoje eu estou precisando.. Fui até a cozinha beber um copo d'água quando escutei meu celular tocar. o Levy precisa logar. você não pode mais ficar aqui. -Humpft. -To brincando. Tudo bem que existem pessoas que necessitam chegar cedo em casa... Saí da empresa e já havia anoitecido... eu sabia que estava na sala mas não lembrava onde havia jogado. -Mas Habiba... Pensei que minha companhia te agradasse. -Eu estava me despedindo do Levy. Olhei no olho mágico e no visor aparecia o telefone do Guilherme. -Falou. Levy. -Onde você está agora? -Acabei de chegar em casa... Cheguei em casa e não havia ninguém.. empurram com brutalidade na pressa de embarcar. mas às vezes elas esquecem que habitam uma civilização. 54 . o céu estava limpo. As pessoas não respeitam as outras. -Então eu te encontro no mesmo local daquele dia. Nando. -Quer vir jantar comigo? -Quando? -Agora.... -Já é tarde. apenas uma fina garoa ainda insistia em lavar os ares da cidade. -Já se despediu? -A gente. Caminhando pela calçada molhada eu fui até o metrô. -Então vamos.. complicado era passar pela porta... eu topo sim jantar com você. vai. -Alô? -Oi bebê. -Não são nem 20h ainda. Você está bem? -Oi Gui..... Comecei a procurar pelos cantos do sofá até achá-lo embaixo da mochila. -Estou com preguiça de sair. Voltei correndo para atender. -Obrigado.. -Não vai dar tempo... já que as pessoas ali se aglomeram.. Quando desci do metrô foi um alívio. -Levy..-Nando.. Ninguém merece pegar metrô em horário de pico.. o que me deixava mais irritado ainda... estou melhor e você? -Melhor agora falando com o garoto mais lindo do mundo. driblando as possas de água que haviam ficado por causa do temporal daquela tarde. A noite estava agradável. -Tchau habibinho. -Obrigado. que horas? -Daqui à quinze minutos.

Enquanto ele ficava lá na cozinha fazendo barulho de pratos e talheres. A sala à meia luz exalava um leve aroma de maçã.. Como sempre. o namorado perfeito. Seus beijos eram muito bons. -Ta bom. -Vale sim.. ele pegou pelo meu braço e me prendeu na parede. talvez por já ter muito mais experiência do que eu. já te falei. -Amor. Avistei seu carro preto de vidro filmado no piscar do farol. Chegando em sua casa notei um clima pré-programado. Já volto. Andei de um lado para o outro. chegou rápido. Fui beber outro copo d’água e logo saí de casa. Começamos a nos beijar. Às vezes ele mordia meu lábio. dá tempo sim. que até então ninguém nunca havia feito. -Vamos pra minha casa que vou fazer um jantarzinho pra você. Desculpa.-Corre gatinho. bonito.. -Ah não vale. -Humpft. curioso para saber o que o Guilherme iria aprontar.. fiquei observando a vista de fora pela sacada da sala. -Hum?. Depois de trancar a porta.. seguido de um leve sopro que me fazia arrepiar até a alma. tomando-me em seus braços. que brilhavam como estrelas no céu. Aquele beijo safado era muito bom.. Sua língua atrevida. carinhoso... O que vai preparar? -Surpresa. Sorrateiramente ele foi se aproximando de mim. 55 . ele já estava lá aguardando minha chegada. -Hum. todo cheirosinho.. hein? -Vim voando pra ver meu baby. provocante.. Demos um abraço gostoso e começamos a nos beijar. Desliguei o telefone. Dava pra ver as torres e antenas da Avenida Paulista ao fundo. -Hum. O Guilherme era uma pessoa apaixonante. -Gato.. Ele tinha uma forma de chupar minha língua. pegando levemente na minha cintura e me puxando pra junto de seu corpo. -Igual aquele primeiro? -Muito melhor. sinal que ele fez para indicar onde estava... uma mescla de molhado e seco na medida certa. Esperei pelo Guilherme no mesmo local de antes. você quer um pouco de vinho? -Eu não bebo. explorava minha boca como se fosse uma mina de diamantes. -Tudo bem. -Espere um pouquinho quê. Seu jeito atrevido me deixava louco. estou indo.. -Caramba. romântico. Tudo que alguém sempre sonhou em ter na vida.

conhecer o Guilherme foi a melhor coisa que já havia me acontecido. Após o banho. ele me jogou em cima de sua cama e deitou seu corpo sobre meu. -Você está suando. a mais pura realidade. Depois de terminarmos. Parecia mais uma crina de cavalo de tanto que o Guilherme puxava no auge do orgasmo. -Hum... um pouco vermelha por conta dos apertões que nos dávamos no bater do corpo a corpo. cara. Pra mim.. O tempo todo eu era o centro das atenções do Gui. -Amor. 56 . Aquelas alturas eu já não tinha mais cabelo nem pudor. -Não consigo mais parar de te beijar. Você é gostoso demais.. eram os prédios iluminados naquela noite quente e os protagonistas apenas nós dois. Não sei se eu merecia tanto. De fundo ouvíamos o som da cidade de São Paulo que funciona 24 horas. Não demorou muito e ele pegou pela minha mão e foi me levando até seu quarto.. elogiar minha performance. sabia? -Já me falaram isso.. Você é muito gostoso. Hum. -Já vai passar.. Quero ficar com você pra vida toda.. Naquela sede de momento... -E reforço.. mas quando acordava via que era realidade.. Beijos e chupadas no pescoço eram intercalados com arranhões e apertões... Imagine um cara tudo de bom na cama como ele era. vamos tomar um banho antes de jantar? -Vamos! Segurando minha mão ele foi me levando até o banheiro. esquentava ainda mais o clima que ali rolava. às vezes eu achava que estava sonhando. Encostado na parede com seu corpo ele me prendia. Entramos no box e continuamos a nos beijar deliciosamente. seguimos até o banheiro pra tomar um banho e lavar os suores. -Ah.. Fui tratado como um rei. é de subir a auto-estima de qualquer um. Ouvir aquilo dele encheu minha bola. vestimos um roupão e fomos jantar. -Nossa. -Também te acho demais. O cenário. Sua pele branquinha já estava suada. você é demais.... Ainda aos beijos ele fechou a porta e ascendeu a luz.. -Está gostando? -Uhum.... não se preocupe. intercalado com uma tremidinha tímida ao sentir as “fisgadas” de tesão. paparicado o tempo todo. me fazendo seu prisioneiro. Em pouco tempo nossos corpos já estavam nus e colados um ao outro. Por mim não pararia mais de beija-lo. Às vezes os movimentos de ir e vir eram tão bruscos que dava pra ouvir seus dentes rangendo.Ficamos ali na varanda da sala nos beijando por um bom tempo. A água quente que caia sobre nós. laçando suas pernas entre as minhas.

. porém.. -Vai sair? -Agora não.. ninguém até então havia me tratado como ele me tratava. Um lindo cartão virtual que ele mandou desejando um ótimo dia.-É simples.. fomos nos vestir. Comecei a achar que era bobagem minha. -Tem bife na geladeira. Levantei do sofá e fui até o banheiro escovar os dentes. salada.. -Beijo. No outro dia acordei com o barulho de copos na cozinha. Minha mãe ainda dormia e meu irmão já havia ido pra escola. -Bom dia.. Fechei a porta e deitei um pouco no sofá. Eu acho que estava começando a me apaixonar pela melhor pessoa do mundo. o Levy não me saia da cabeça. -Mais tarde eu vou. um pouco atrasado. -Bom dia. Já conectado na internet comecei a baixar meus e-mails. mas eu estava começando a gostar do Gui. Pensando nele eu adormeci. -Tudo bem.. mas fiz com todo carinho. Subi para o décimo primeiro andar e logo cruzei com a Doce no hall do elevador.. de seu jeito. é só esquentar no microondas. Depois de jantarmos. Vendo aquela água escorrer pela pia eu senti um frio na barriga. -Aonde você vai? 57 . -Tchau mãe. Humpft. pois às vezes eu tinha uns pensamentos idiotas. estamos indo. Enquanto ele abria o sistema operacional eu fui colocar meu celular para carregar. Acabei esquecendo do tempo e ficando no pc até dar a hora de ir trabalhar. Saí de casa correndo. seu carinho. amor! -Posso te buscar amanhã no serviço? -Pode! -Obaaaaa. pois a bateria já estava no fim. Seu cheiro ainda estava em minha pele. Não sabia o que estava acontecendo comigo. não havia muitos e um deles era do Guilherme.. Meus pensamentos só vinham sua imagem. À noite com o Guilherme havia sido ótima. -Não vai sair de casa sem almoçar..... Por um instante meu olhar ficou paralisado. fechei meus olhos e fiquei relembrando nossos momentos vividos há poucos instantes atrás. era meu pai fazendo café antes de ir trabalhar. Ao chegar em casa todos já estavam dormindo. vou checar meus e-mails e depois vou pra academia. -Pode deixar... o cara perfeito.. comida pronta. Cheguei na empresa 17h15. Fui para meu quarto e liguei o computador.. Então me dá mais um beijo. filho? -É que eu deitei no sofá e acabei pegando no sono. dormiu na sala por quê? -Deitei um pouco no sofá e acabei pegando no sono. -Fernando. pai. -O Fernando já acordou? -Está lá no banheiro. -Vai deitar na sua cama. umas idéias sem pé nem cabeça. -Está ótima. sua atenção comigo. -Estão falando de mim? -O quê aconteceu que você dormiu na sala hoje..

. Ao entrar na Ala C.. o ideal seria mudar para um espaço maior. eu cheguei no meu horário. -Vou descer lá no TS um pouco. já não comporta mais nesses andares e não temos mais para onde crescer. -Beijocas..... o quê acontece? -Aqueles garotos são muito chatos... assim que cheguei fui chamado pela Vivian. Preciso falar com você. No corredor entre o breack e o banheiro masculino. -Depois a gente se fala então..... -Rápido. -Todos vocês estão vendo a dificuldade que estamos enfrentando por falta de P... -Ah. Shirley. vamos? -Não. habibinha. Vou passar um aviso pra vocês.. Shirley. outro dia até passei mal. -Lá vai ter esse problema de P.. -Está faltando a Paty e a Doce... Era um cúmulo que em uma multinacional como essas acontece esse tipo de situação. Se meu saldo de banco de horas diminuísse por falta de P. Se falta espaço na empresa.A. -Esperaí..-Vou procurar uma P. -E quando a gente se muda? -A mudança está programada para o mês que vem. -Não tem. pois o prédio já não tem mais andares disponíveis... -Juliane e Shirley.A.. -Já tava mais que na hora. O andar em que vamos ficar é bem amplo.. Lá dentro do breack está um forno de tão quente.A. -Fala logo habiba. eu iria armar um circo. segui direto para o breack que estava lotado. -Como sempre nunca tem P. nos reunimos para escutar a orientação da supervisão. mal criados. -Habiba. -O ar condicionado daquele lugar parece que fica desligado.. Habibo.. A empresa alugou um prédio no Centro e toda nossa operação vai se mudar pra lá. -Fernando. se não tem P. A supervisora Michele estava passando alguns avisos para seus operadores.. -O quê tem eu? -Agora só falta a Doce..... -Junta aqui.A. -E têm uns que parece não tomar banho. -A empresa não pode descontar da gente algo que não é de nossa responsabilidade.. -Nem eu Habiba. Habiba? -Junta aqui todos vocês.. eu não quero ficar perto do pessoal do suporte.. -Vou ter que ficar perto do pessoal do suporte? -Não começa. -Diga. E ainda descontam do meu banco como se a culpa fosse minha.. vou esperar no breack.A para eu me logar o problema é da empresa. -Fe..A também? -Não.... 58 ....... na operação vão ficar todos juntos. -Nossa operação cresceu muito. Eu nem ligo mais. depois eu falo com a Habiba. Nosso banco de horas vai ficar negativo.

-Fiquei preocupado contigo mano. Já não agüentava mais. Fomos eu e a Juliane para a P. -Mas pra quê? -Porque vai ser tudo alterado. e sim pela falta de estrutura da empresa que parecia cruzar os braços quanto a isso. -Vem dois comigo. -Se eles já se propuseram a mudar de prédio.. -Quem aqui loga às 17h30? -Outra vez? Já falamos que todo mundo aqui loga 17h30.A. -Bom. atendi cerca de quinze ligações..... -Todo mundo aqui é 17h30? -Sim. habibo. e o número do cartão lanche.. -Vamos Ju. depois a gente conversa sobre isso. pois odiava a Ala C. Pra mim foi uma surpresa enorme receber a visita do Levy. é porque vem uma melhora ai. -Habibo. -Vou arrumar P. O que foi. eu quero que depois vocês façam uma lista com o nome de vocês. Nando.... habiba? -Tem alguém procurando por você.. Levy? -Beleza cara. Fernando? -Hahaha. Vocês se logam que horas? -17h30. Por dentro eu estava gritando de felicidade. -Você precisava ver como ele ficou depois daquele episódio. -Tudo bem..A que haviam nos arrumado. Em trinta minutos.. Pessoal. tinha vezes que eu me sentia dentro de um freezer. vocês não terão mais cartão lanche. -Habiba.. Assim que dei "Op Auto" começou a cair ligação. pede um momento pro cliente. -Humpft. Comecei a tremer de nervoso que nem conseguia digitar as informações no sistema. As máquinas de lá estão adaptadas para esse novo cartão. Acabei me logando atrasado como sempre. -Quero sentar perto de você.. -"Aguarde um instante por gentileza". essa empresa só tem piorado.-Ai habibinha. até que senti alguém encostando a mão no meu ombro. login. mas não por culpa minha... parecia que estava com fila no atendimento.. É possível que agora eles tenham acordado. mas fiquem aqui e quietos. pra quando está programada essa mudança? -No feriado de páscoa. vai ser tudo em um cartão refeição que vocês poderão gastar em restaurante. pois era uma ligação atrás da outra. Com aquele ar condicionado frio.. e você? -Indo. -Você acredita em duende. habibo. ficamos conversando sobre a mudança de site e tomando refrigerante em volta da mesa no breack..... 59 . mas foi o único lugar onde nos arrumaram posição. Desde que me provem o contrario. Preferia logar na Ala A.. Enquanto ela saiu. -Espero que la não tenha esse problema de P.. -Quem? -Eu! Mal pude acreditar quando vi quem era.. Eu acho difícil..A pra vocês. -A gente.

Naquele dia trabalhamos um do lado do outro. valeu. -Ah. Mas aos poucos fui ficando mais à vontade. nervoso por ficar ao lado do garoto que conseguia me tirar atenção. mas se você quiser eu posso te dar uma carona até a estação. 60 . No início fiquei com um pouco de receio. Enquanto ele foi buscar suas coisas no décimo terceiro andar. Tudo bem que eu me apaixonei por ele desde a primeira vez que o vi. pois ele curtia mulher e deveria ter namorada. -Então beleza cara. valeu cara... -Será que a garota foi embora? -Parece que sim. Embora eu estivesse namorando e gostasse do meu namorado. -Essa semana uma menina foi assaltada no ponto de ônibus aqui atrás. mas não tinha seu telefone. porém eu tinha a certeza de que com o Levy eu não teria chances. simpático e muito divertido com suas palhaçadas. gostar de duas pessoas ao mesmo tempo não é fácil. -E como você costuma ir até o metrô? -Eu pego van. -Não.. me espera pra irmos juntos até o metrô? -Hoje eu vou de carro com um amigo. -Opa.. Você pega metrô? -Pego sim. -Ah é. pude perceber que ele além de gatinho era meigo. Fernando? -Ipiranga. isso nunca havia acontecido comigo antes. -Voltei.. Meu coração palpitou o tempo todo.. -Antes de ir embora. deslogou mesmo.-Não consegui ficar em paz. -Bele.A pra mim?.A ao lado para ninguém sentar ali. Vê se ela não está em pausa?..A ao lado e saiu. às vezes eu suspirava involuntariamente pelo Levy. ansioso. Vou vim pra cá. e você? -Eu moro em Pirituba. Guarda essa P. tem van aqui que leva até o metrô.. Conversando com o Levy. uma menina pegou uma bolsa que estava na P. -Você mora onde. era algo confuso.. Era estranho. Nessa hora. fiquei guardando a P.. -Sério? -Pois é..... minhas mãos estavam geladas. -Já abri todos os programas pra você. até pensei em te ligar.

Assim que o relógio do monitor marcou 23h30 eu me desloguei. se é seu amigo então é gente boa. -Desculpa a demora. -Não acredito. beijos.. -Alô? -Amor da minha vida. Como uma pessoa dessa pode querer usar internet sem saber o básico? -Sei lá... Comecei a achar que entre nós poderia rolar uma bonita amizade. O Levy ainda estava atendendo um cliente. -Isso é muito ruim mesmo... -Quem disse que não? 61 . Durante o expediente daquele dia conversamos bastante.. -Sabe onde eu estou agora? -Não.. Tirou sua carteira e dela seu cartão lanche. mostrando parte de sua cueca branca. -Tudo bem. vou esperar um colega que vai pro metrô sozinho. Sentei na mesa e fiquei tomando um suco de maracujá enquanto ele não deslogava. e com você? -Só irei ficar bem quando olhar pra você e te der uma beijoca... é que caiu um cliente que não sabia nem o que era um “ícone”. daqui a pouco eu desço. Quando dei a segunda golada meu celular tocou... -Me deu uma vontade de rir. mas logo fui despertado com o barulho da lata de refrigerante descendo pela máquina. tudo bem com você? -Tudo ótimo. -Claro que não. -Na porta da empresa te esperando... hein gatinho. -Quando for tirar.. -Pode deixar. você vai demorar? -Daqui a pouco estou descendo. fiz sinal de que iria espera-lo no breack e saí.-Tem sim. Com aquele jeito de moleque maloqueiro ele levou a mão no bolso de trás de sua calça caída. foi muito legal. -Outro. -Nossa.. -Hahaha. -Já tirou pausa? -Ainda não.. -Foi ele que me ajudou e estava comigo dentro do elevador. Fiquei praticamente hipnotizado admirando aquela visão rara. -Vamos embora? -Vamos. Eu perguntei pra ele qual era a marca do modem e ele me respondeu a marca da geladeira. me avise. Se eu não poderia ter o seu amor. tendo sua amizade já me bastava. Desliguei o telefone e o Levy entrou no breack. -Hum... Eu não trabalho para dar curso de informática pra ninguém. você se importa de dar carona pra ele? -Até o metrô? -Sim. a partir dás 22h. Amor. rimos de algumas experiências com atendimento.. -Sorte que você não riu. Hahaha.. -Não demora.

... -Pelo que to percebendo. Pronto. -Beleza.... -Hahaha. -Será que ele não vai se importar de me dar uma carona? -Claro que não.. Bom.. -Foi o Levy que me ajudou a superar o pânico dentro do elevador.. Falou galera.. -Levy. Seria muito ruim ficar prezo no elevador pela segunda vez... Vamos? -Como abre a porta? -Calma que está travada. Não consegui segurar o sorriso e caí na gargalhada também. -Ah. Abri a porta do carro: -Gui.. Pela sua cara ele não gostou muito da minha amizade com o Levy.. -Relaxa Fernando. olhei para a cara dele que deu risada. Entramos no carro e seguimos em direção ao metrô que não ficava muito longe dali. eu já falei com ele. Seria muito azar.. -É verdade! Só respirei aliviado quando o elevador parou no térreo e a porta se abriu. fique tranqüilo. então foi você que ficou preso com o Nando? -É. -Como assim? -Nada.. pois ficaria pertinho do Levy. Pense pelo lado bom. -Por quê? -Não foi um azar ter acabado a luz naquele dia.. -Falou! Depois que o Levy saiu do carro o Guilherme arrancou em direção ao Centro. Gui. Esse é o Levy. -Não fale assim. Obrigado por cuidar dele por mim... Levy? -Firmeza e você? -Sussa. Passamos pela catraca e já pude ver o carro do Guilherme parado na porta me esperando.. Levy. -Ele também é? -É o quê? 62 . Antes de entrar. a gente ficou amigos. né. Coloquei no mudo antes.. desculpa hoje não te acompanhar. -Beleza. -Ah bom. -Ah... você e esse seu novo amigo não se desgrudam mais. Não esquenta. ciúme bobo de namorado...-Você riu na cara dele? -Aí não. -Não exagera. Apertamos o botão do elevador que logo chegou... -Bacana. O Guilherme é muito brincalhão.. Saímos pela porta da Ala C. pois relembramos o episódio da falta de energia no qual nos conhecemos. vou indo nessa.. Gui. -Espero que não acabe a luz agora. -Meu amigo já está nos esperando. Saímos do elevador e seguimos em direção à portaria. é quê. mas por um lado seria bom..

-Se eu puder ajudar.. -Por quê? -Desde que minha mãe foi embora de casa o clima nunca mais foi o mesmo.. se você não quiser contar tudo bem. deixa que eu pago.. cara? -Humpft. -Pare com isso.... Que horas você se loga? -17h30. me ajudou quando precisei.-Perguntei se ele é gay? -Ah. pode contar comigo.. Ao entrar no breack avistei o Levy cabisbaixo. Não quero te aborrecer com isso. -Sabe Fernando... Fernando. já que eu nunca havia lhe perguntado. Levy.. -Oi Fernando.. -Humpft. -Vou te deixar perto de casa.. Não. Escolhemos uma mesa em frente o elevador panorâmico e sentamos para conversar. -Ah. -Hahaha. mas se fosse com certeza me deixaria muito feliz.. fazendo sentir-me nas nuvens. quer ir até o shopping tomar um suco? -Humpft. Ouvir do cara que mexia com minha imaginação que eu era muito importante pra ele. -Ainda são 16h00. vamos.. me fez um bem enorme. Cheguei na empresa um pouco mais cedo. -Imagina cara... não se sinta forçado a nada. -Você havia contato algo por cima... No outro dia acordei bem disposto. -Obrigado. uma limpeza na alma sem explicação. Somos amigos ou não? -Humpft.. -O quê foi? -Eu falava a mesma coisa. se precisar..... -Pare com isso. pode contar comigo... sentado próximo à janela.. Fiquei com o coração partido ao velo com aquela carinha triste. Na verdade eu to mesmo precisando desabafar. -Se eu puder ajudar. -Aconteceu alguma coisa.. Tudo bem então... -Tudo bem? -Humpft. cabisbaixo. Dizer com propriedade que o Levy não era gay eu não poderia. Deixamos o prédio da empresa e fomos até o shopping que ficava do outro lado da rua. -Fico sem jeito. Preocupado. Estou sem grana.... O Levy sempre se mostrou uma pessoa alegre.. me senti na obrigação de ajudá-lo no que eu pudesse. me aproximei dele e tentei saber o que acontecia: -Levy?. você está sendo muito legal. Meu coração quase saiu pela boca quando ele falou aquilo. pelo menos ele não tinha dado nenhum sinal de que era até então. -Olha. Eu e meu pai não nos damos muito bem.. mano.. ele não é... -Sei.. 63 . Passamos em uma lanchonete e pegamos dois sucos bem grandes.. Problemas e mais problemas.. eu estou te convidando.. tudo bem? -Ta bom..

-Combinado. não pretendo voltar pra casa hoje. de que ele estava a cada dia que passava dominando meus pensamentos de uma tal forma que eu não conseguia controlar.-Ela nos deixou quando eu tinha oito anos. Pare de chorar. chega. acabamos brigando. Toda vez que eu entrava naquele elevador na presença do Levy eu tremia. Não sei.. -É mesmo.. Ficar relembrando é pior.... -Já te trouxe muito aborrecimento... é minha vez de retribuir pelo que você fez por mim. Ele começou a querer quebrar tudo dentro de casa. Você me ajudou na hora que eu mais precisei... eu e minha irmã pequena.. -Você é demais.. Não sei se de medo ou de desejo em estar ao seu lado. antes de sair para trabalhar.. -Pare com isso. Se você quiser ficar na minha casa. -Beleza... agora... por causa do meu pai que quando bebia batia nela e na gente. -Enxugue essas lágrimas e coloque um sorriso no rosto. -Chega.. minha irmãzinha correu pra baixo da cama assustada e chorando de medo. Agora vamos voltar se não vamos nos atrasar. mas de uma coisa eu tinha certeza.... -Hahaha. cara... Tocando em sua mão eu disse: -Pare com isso.. -O quê você pretende fazer agora? -Não sei. Fernando.. Nem que eu durma na rua. -Bom. Fernando. Só sei que pra casa hoje eu não volto. 64 .. Se é assim tudo bem. -Onde pretende ficar? -Sinceramente?... eu topo dormir na sua casa hoje..... -Desculpa estar te trazendo esses problemas. -Jamais vou permitir que isso aconteça.. -Agora ficou melhor. -Que horror. bebe o suco. -Hoje. eu ligo pra minha mãe e aviso que você vai dormir lá.

. do jeito que ela tem pegado no meu pé. Parece um cemitério. Sentado ao meu lado... aqui está tudo quebrado. Levy.. a gente têm que encontrar uma P....A sobrando.. o breack já estava vazio e a operação em silêncio. e sim pela minha irmã.. -Naquela fileira do fundo as máquinas funcionam....A antes que nos vejam.. Vamos para o décimo terceiro andar que tem P. -Levy. To preocupado.. -Não gosto muito desse lugar. Fernando.. tenho que me logar aqui.Quando chegamos no décimo primeiro andar. principalmente por um amigo como o Levy.. que fosse por vontade própria.... seria possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo? 65 .. todo mundo já estava atendendo e se nós ficássemos dando sopa por ali sem ter encontrado uma P..... principalmente a Habiba. -Mas Fernando. se não tem P.A você precisa procurar em outro andar. -Ah. -Calma. preferi poupa-lo de más lembranças..A iriam nos chamar atenção. Isso é verdade.. -Levy. Discretamente deixamos o décimo primeiro andar e subimos correndo e rindo pela escada de emergência até o décimo terceiro andar. -Mais tarde vou ligar para minha mãe e avisar que você vai dormir lá em casa. Um amigo de verdade é capaz de dar a vida pelo outro. cujo estava me incomodando.. -Depois a Habiba vê que você não está logado e vai te encher o saco. Embora eu quisesse ajuda-lo. Então vamos... A cada degrau daquela escada me fazia fantasiar situações.. -Hahaha. imaginar beijando o Levy naqueles degraus da saída de emergência me fizeram arrepiar até o ultimo fio de cabelo. Eu não sei explicar o quê sentia por ele.... -É mesmo. não tinha o direito de invadir sua vida. se ele quisesse me contar algo. Esse era o clima que pairava pelo ar naquele ambiente. Levy.As na Ala C disponíveis. eu percebia no Levy uma preocupação com o mundo lá fora. -Mas eu não sou do suporte.. Loga logo que já vai dar 17h30. onde haviam várias P. -Relaxa. Mas não por causa dele.. -Por quê? -Sei lá. -Sem mais.. -Humpft. cujo mexia comigo como nenhum outro garoto havia mexido até então. Melancolia.. -Humpft... -Você não está muito bem... -Por causa da briga com seu pai? -Também. que vivia pegando no pé.. Meus pensamentos já fugiam do meu controle.

.. mas todo mundo que gosta se torna um pouco egoísta.. Seu jeito de andar todo empinado chamava a atenção de vários homens da operação. -Nossa.. sonhando acordado em um dia poder tocar em seus lábios com os meus e ter a certeza de que ele seria meu por um dia. aproveito para ligar em casa e avisar que você vai dormir lá essa noite..? -Oi.....Por mais que eu gostasse de estar com o Guilherme. Se eu continuasse a me entreter como vinha acontecendo ao ver a figura do Levy perto de mim. Nando? -Daqui a pouco. Dei um sorriso amarelo querendo matar aquela lambisgóia que desviou a atenção do Levy pra ela.. 66 ... Ainda bem. iria acabar dando na cara. mas me entristecia pensar na idéia de rolar algo entre o Levy e outra pessoa. mas não tinha coragem. -Nando. -Vocês não querem ir pra Ala A? Tem P. não conseguia sentir por ele o quê eu sentia pelo Levy. Não sei o quê ele estava fazendo na operação do Help Desk. -Prazer Fernando... "Eu não quero ser apenas um amigo". -Nossa. cara. -Oi Ellen. preferia nem pensar nisso.. Nando. -Vou esperar lá então. igual a mim.. uma noite. -O quê vocês estão fazendo aqui sozinhos? -Não tinha P.. Ellen. Egoísmo da minha parte. Estou viajando aqui. o Guilherme era o homem perfeito.. -Até que enfim te encontrei.. Era isso que eu queria dizer a ele. -Ta bom. Levy.. mas isso não era o suficiente para me fazer despertar um sentimento por ele que fosse além de carinho. mas comecei a sentir ciúme do Levy ao vê-lo olhar para a Ellen com olhos de cobiça.. -Por nada.. Pena que não me dá bola.A no décimo primeiro. Nosso relacionamento ia super bem. Obrigado Levy..A vazia por lá. uma hora ou um minuto que fosse.. -Depois nós vamos. pensei. -Mas o quê você foi fazer no décimo primeiro se seu andar de logar é aqui? -É porque vou fazer companhia ao meu amigo Fernando.. -O quê tem ela? -É boa demais. já que ela era Contas. -Presta atenção ae que caiu ligação... eu precisava aprender a me controlar mais.... Não sei o que deu em mim.. Assim que eu pensava toda vez que olhava para aquela boca bem desenhada. -Que horas você vai tirar sua pausa. Você é um amigão. -Essa Ellen. -Tem certeza que não vai incomodar? -Você nunca incomoda.. tudo bem que eu não teria chances com ele.. -Cadê meu beijo? -Opa. Seu decote ressaltava seu busto... -Olá Ellen..

. me sentia inútil ao vê-lo naquela situação e não poder fazer nada para ajuda-lo. Só de vê-la. -Ok.. -Não vai dar. Põe um sorriso nesse rosto.. Pelo visto a coisa era muito séria.... Por um lado eu estava abraçado com o Levy. fica para a próxima. -Valeu pelo convite. -Por quê? -Porque não. 67 .. mas preferi não aprofundar para não chateá-lo. com sua cabeça deitada em meu ombro. com aquele jeito de puta que ela tinha. Pedi para ela arrumar o colchonete no meu quarto. Você vai ligar na sua casa pra avisar? -Não... Com um olhar perdido ele deu um leve sorriso e veio até mim. -Humpft... A segurei tocando em sua nuca. sem que eu esperasse. Não que eu tivesse algo contra ela. -E ela. mas depois que ela começou a despertar algo no Levy eu passei a odiá-la.. passei na copa pra pegar um refrigerante. ele me deu um abraço e começou a chorar. Fernando? -Aonde vocês vão? -Pra casa. -Bom. se ele quisesse falar algo. o Levy já mudava. com uma sombra cobrindo seus lindos olhos castanhos. -Chegou ao fim mais um dia de trabalho... sem saber o quê fazer ou dizer. também não temos grana. apenas deixei que ele desabafasse seus conflitos internos. Mas em um clima de tristeza total que me partia a alma. veio logo querendo saber o que estava acontecendo.. eu tenho uns VIPs aqui.. Soltei um leve suspiro e olhei nos seus tristes olhos..... Desculpa. -Avisou a sua mãe que vou dormir na sua casa hoje? -Sim senhor. -Ah. -Se o problema for dinheiro deixa comigo..Na hora do breack liguei pra minha mãe e avisei que levaria um amigo para dormir em casa. Antes de ir embora. que fosse por espontânea vontade.. hoje não estamos em clima para balada. Por que você está chorando? -Nada não. Eu queria poder apertar um botão e resolver todos os seus problemas. eu ia chamar vocês pra uma balada hoje. Maldita. -Vamos.? -Falou que tudo bem. de início eu até me simpatizava com sua pessoa. -Levy. assim quando chegássemos não precisaríamos fazer muito barulho nem bagunça... Logo em seguida ele chegou meio cabisbaixo.. Notei que ele não queria mesmo dar notícias à sua família em casa.. -Vocês que sabem. Meu coração palpitava de emoção e tristeza ao mesmo tempo. Levy... que era a minha paixão. nada? -Problemas pessoais. -Ah que pena. -Como. Ficamos assim abraçados até a Ellen entrar no breack para atrapalhar.

Meu humor mudou no mesmo instante. Hoje estou assim.Quando eu percebi que o Levy ia aceitando sair com ela.. onde pegamos a van que nos levara até o metrô.. quero te ajudar no que for possível. Tudo bem que eu não tinha esse direito de interferir na vida do Levy ou da Ellen. -Entendo. -Humpft... o quê você acha da Ellen? -Uma garota sem conteúdo... comecei a falar de outra coisa. Nesse período de tempo o Levy não abriu a boca. Mudando de assunto.. Obrigado...... Nunca ninguém se interessou em saber um pouco mais sobre mim. somos amigos.. A atenção que você me dá. um pouco vulgar... catar as minas.. -Nossa..... certo? -Certo.. Faz tempo que eu não como uma comidinha caseira. Mano. interferi na mesma hora.. tentando me ajudar com os problemas. O mais importante em uma amizade eu não tenho.. mas se tratando da pessoa que ela era. sempre ajudei meus amigos e quando você me ajudou naquele elevador. Até parece que eu ia dar uma brecha para esses dois se aproximarem.. Levy.... -Sabe quando seu corpo está em um lugar e sua cabeça está em outro bem longe? -Sei. -Não fique assim... você não janta na sua casa? -Não... -Eu me interesso porquê. Sei lá. É como levar uma flechada no coração e logo em seguida puxa-la sem dó... Na tentativa de não prolongar o assunto. ela não era uma pessoa muito confiável e tinha uma vida torta.. -Ah. afinal. É porque você é um cara bacana. 68 ... conte comigo para o quê precisar.. Descemos até o térreo e seguimos para o estacionamento... promete quê. Se eu te pedir uma coisa. até entrarmos no metrô.. Por quê? -Porque eu to afim dela. Nando. -O quê você quer pedir? -Promete que não sairá da minha vida? -Como assim? -Nunca tive um amigo assim como você... Não é fácil você ouvir de alguém que você gosta que ela deseja outra pessoa. chorando até esgotar a última lágrima. Os amigos que tenho só servem pra sair na balada. -E sua família? -Já vão estar dormindo. -Ah. -Chegando em casa você vai tomar um banho e jantar na mesa junto comigo... -Hum. cara. -O quê é mais importante em uma amizade pra você? -Esse companheirismo. -Pedir? -É... Bom.. -Pois é.. Minha madrasta é muito ruim.. não liga pra mim nem para a minha irmã e o meu pai vive mais bêbado que sóbrio. além de ser mal falada pelos garotos da operação. Você é muito legal. Porquê. Na mesma hora tive vontade de descer na próxima estação do metrô e sair sem rumo.. eu me sentia na obrigação de livrar o meu amigo dessa armadilha.. Beleza.. -Chegando em casa já terá comida fresquinha esperando a gente...

eu como assim mesmo... -Obrigado.. -Hahaha.. e vê-lo vestido de "Fernando" me fez cair na gargalhada.. Ao entrar. Segui até o banheiro e bati na porta. Foi engraçado vê-lo vestindo minhas roupas. arrumei os copos sobre a mesa. Já pode ir pro banheiro se quiser. Ainda tremendo... -Do que você está rindo? -Você está vestido de Fernando.. -Bom.. Assim que ele abriu... Sobre o fogão haviam panelas com comida fresquinha que minha mãe havia feito.. Você toma banho eu.. talheres e pratos. -É só subir a escada. sirva-se aí que eu esquento pra você... Com cuidado. abri o guarda-roupa e peguei uma toalha de banho... É estranho você ver uma pessoa usando algo que é seu.... forrei uma toalha na mesa e ajeitei tudo para jantarmos. -Hahaha.. tremendo de nervoso. -O cheirinho da comida está ótimo. Aqui está a toalha. te levo lá depois. depois peguei três peças de roupa e saí de fininho para não acordar meu irmão que já estava dormindo. Levy. Pois é. -Então vai ter que por no microondas. eu lhe entreguei as roupas...... Abri a gaveta do armário e peguei os talheres. Todos na casa já dormiam. Deixei-as sobre a cadeira da escrivaninha. tranquei a porta e segui em direção à cozinha. E as roupas pra você dormir. -Nada disso... Nando.. fica no final do corredor.... se mostrando nu na minha frente.. Ao tirar a jarra de suco da geladeira.. porque a comida já está quase fria. -Sem problemas. Vou arrumando a mesa para jantarmos. Peguei minha mochila junto com a do Levy e fui até meu quarto. avistei o Levy parado na porta da cozinha encostado no batente da porta.... -Pode deixar sua mochila lá no sofá. Ali no canto tem xampu. Nando.. Você deve estar exausto. pois não imaginaria que ele iria abrir toda a porta do banheiro. -Não esquenta mano.Ao chegar em casa avistei pelo portão que a luz da sala estava acesa.. -Pode sentar aí. -Enquanto. Voltei para a cozinha suando com a “paisagem” que havia acabado de ver.... sabonete. eu me viro. 69 . -Valeu... -Beleza. -Valeu. -Você vai querer jantar primeiro ou tomar banho? -Se for possível eu queria tomar um banho antes.. -Levy. -A. Esperai que eu vou buscar uma toalha e uma roupa minha pra você vestir. -Não tem problema? -Claro que não.... -Se sente melhor agora? -Bem melhor! -Você gosta de comida morna ou quente? -Quente. -Tudo bem.

. -Quer mais salada? -Quero sim. Você não vai jantar? -Daqui a pouco. -Humpft..... fui eu que fiz hoje. -Eu acho que cada um faz seu destino. -Por que você está me olhando desse jeito? -Nada não. -Valeu. É um pouco estranho ver minhas roupas em outra pessoa. peguei uma roupa e segui 70 . deixa seu prato esquentar que eu me sirvo.. Pra mim. Demos uma leve arrumada na bagunça e subimos para o quarto. -Pode pegar.... Enquanto ele se servia. mas sempre vem o ponta-pé inicial.. Ele deveria sofrer muito com seu pai alcoólatra e sua madrasta sem coração. Eu estava pensando.. não precisa pedir.... nada na vida acontece por acaso. Só de pensar. Só o tempo pra dizer.. -Bom.. isso eu não poderia negar. -Você acredita nessas coisas? -Sim. -Então você acredita que foi um acaso aquele incidente no elevador? -Não. -Então você acredita que nosso primeiro encontro não foi um acaso? -Sim. Sua beleza não tinha nada de extraordinária... -Hahaha. -Pode deixar...... meu coração se partia. A companhia do Levy me fazia muito bem... Não que eu ficasse reparando esses tipos de coisas. -Pode ser... -E como saberemos? -Não sei.... Eu poderia passar horas olhando pra ele sem me cansar. -Tem certeza? -Sim.... -Está boa a comida? -Está ótima.. -Pode pegar aqui.. é só pegar. Parecia estar hipnotizado por aquele moreno de cabelo liso que parecia um índio. Algum propósito. sua mãe cozinha muito bem. Isso é muito relativo. Você quer suco ou refrigerante? -Suco de quê? -De goiaba.. mas que tinha algo encantador que me prendia atenção. Algum motivo deve ter. -Em quê? -Foi o destino que nos colocou um no caminho do outro..-Ta bom.. Depois de jantarmos retiramos toda a louça da mesa. pois era um garoto simples.. -Se você quiser mais suco. Peguei um cobertor e entreguei ao Levy que deitou no colchão que minha mãe havia arrumado entre a minha cama e a do meu irmão. Sentamos à mesa e começamos a jantar. mais comida.. -Também acho. mas o Levy parecia que não comia há dias. Depois disso. sentei à mesa e fiquei o observando.

tocar em sua pele. Eu estava exausto e precisava tomar outro banho. -Bom dia! -Bom dia. mas para minha tristeza o garoto que eu estava amando era heterossexual. causando um tremendo tumulto dentro de mim. Passei a noite inteira olhando o Levy dormir. esperando o Levy acordar. mas pelo Levy meu coração batia em um ritmo composto por uma melodia ao pronunciar seu nome. Não conseguia fechar os olhos. -Te acordei? 71 .. Meu irmão havia ido para a escola e meus pais estavam trabalhando. O nervoso tomou conta de mim. Enquanto isso. as cores se realçam aos nossos olhos. parece que voltamos a ser criança. desci até a cozinha e coloquei uns pães de queijo congelados para irem assando. porém sonhar não me custava nada e era a única coisa que me restava. caminhando na ponta dos pés para não fazer barulho e acordar todos que já dormiam. No lado direito da cabeceira. havia um abat-jour ligado que proporcionava uma meia luz no quarto. Voltei ao quarto e me sentei na beirada da cama. rimos de qualquer coisa... Em casa só estávamos eu e o Levy. Pensei em me levantar e ir até ele. Não existe dia ruim. mas realizar essa vontade não seria possível. Quando a gente gosta de alguém. Uma vontade louca de deitar minha cabeça naquele peitoral moreno me perturbava. Muito bem. Pulei o colchão onde o Levy dormia e deitei na minha cama. pois pouco havia dormido à noite observando o meu amor. Levantei da cama e fui até o banheiro escovar os dentes.. dormiu bem? -Nossa. Ao sair do banho fui para o quarto. admirando o Levy dormir. Amar alguém é muito bom e essa era a primeira vez que eu sentia isso por alguém. Observando cada movimento seu. Ao sair do banheiro. Pode ser que não fosse amor. Sem camisa e com a metade do corpo coberto ele respirava tranqüilamente em um sono profundo. projetando nossas sombras na parede próximo à porta. A espuma do xampu escorria pelo meu olho que fechado relembrava os momentos que passei com o Levy. Puxei o cobertor para cima de mim e encostei a cabeça no travesseiro. encostar meus lábios nos seus. só assim conseguiria dormir bem gostoso. liguei a cafeteira e deixei preparando o café. Cada toque em minha pele era como se uma corrente elétrica percorresse minhas veias. Olhei no relógio do corredor dos quartos e já eram quase 10h. Eu gostaria de poder mandar nos sentimentos. De tanto observar já conseguia cronometrar o ritmo da sua respiração. No dia seguinte acordei cheio de olheiras.para o banheiro. Não demorou muito ele abriu os olhos.

Tem pão francês. prefiro comer salgado pela manhã. -Eu vou descer pra ver se os pães de queijo já assaram e se o café já ficou pronto. deixa só eu escovar os dentes. -Que cheiro de café gostoso....... Você quer ir comigo? -Se você quiser eu vou. Mas antes vamos descer e tomar café. o Levy entrou na cozinha.. Enquanto ele fazia sua higiene pessoal. manteiga. -Hahaha. -Beleza. pode usa-la... tem mussarela aqui. você quer? -Opa... tamanho foi o impacto que recebi ao vê-lo naqueles trajes.. -Não precisa entender.. -Traz também. Você vai querer leite? -Só um pouco. desci até a cozinha e o café já havia ficado pronto. tem uma escova de dente aqui novinha.. Daqui a pouco eu preciso ir. O quê aconteceu com você? -Nada não. -Está quase pronto... Desliguei o forno e comecei a arrumar a mesa para tomarmos café da manhã. na mesma hora desviei o olhar para não fazer uma besteira. Uma leve tontura apenas. -Beleza. Quase derrubei o bule de vidro com café no chão... os pães de queijo também já tinham assado e estavam douradinhos.. Pode.. Você está bem? -Sinceramente? Não.... -Mas já? -Tenho que passar em casa pra ver como estão as coisas por lá.. -Por quê? -Deu vontade.. -Não se preocupe. -Tem salame na geladeira também.. -Humpft. pão de queijo.. eu escovo com o dedo. não posso? -Ah.. -Valeu cara..... requeijão.. -O quê você tem? -Melhor não entramos nesses detalhes. Quer geléia? -Não.. -Vou pegar uma escova pra você... -Cuidado ai. já desço lá também. -Brigadão mano... Quando ele começou a se espreguiçar e se retorcer no colchão quase fiquei louco. -Cuidado cara. -Você fez uma cara de tristeza. Deixa pra lá.. Vendo um pedaço da sua cueca e a entradinha da sua virilha abaixo do umbigo.. 72 . se você quiser tomar um banho fique à vontade. Olha só. -Ta bom...... -Vou pegar então.. pegando um pedacinho do pubs. O que você estava fazendo? -Observando você dormir.. Levantei da cama e fui até a porta do quarto... Aquele garoto me despertava um tesão sem igual..-Não. -Não entendi... -Claro que não. -Hum. Sem problema. Ainda sem camisa e com minha bermuda. Comecei a suar frio.

Nando. Senti um arrepio ao ouvir o barulho dela arrastar pelo chão e ranger. que mina o organismo. tudo que eu queria e sonhava para mim. Depois de tomarmos café fomos até a casa dele para ver como estava sua irmã. Confessa vai. Ao chegar. -O quê você está fazendo aqui.. atencioso. atacando todos os órgãos. provável que seria de sua irmã. -Tudo bem. -Você ainda não almoçou? -Não.. assim era sua casa. mas o quê eu via nele ia além disso.. No quintal havia alguns brinquedos caídos pelo chão.. pois quase soltei uma besteira. Seu pai estava transtornado. A felicidade da sua irmã ao ver o Levy era de impressionar. Vanessa? -Tudo.. -Sua casa? Você não tem mais casa. pena não poder concretizar esse sonho da maneira que eu queria.. -Levy. Seus olhos só faltavam cuspir fogo de tanto ódio.. Pra ele tudo não passava de brincadeira. ta? -Oba! -Hahaha. porém. Praticamente ele ficou calado o caminho inteiro. -Oh Vanessa. Simples e humilde. triste. dava pra notar pelos móveis gastos que sua vida não era fácil. tomar café da manhã em sua companhia foi ótimo. -Levy. O alcoolismo é uma doença crônica. com o olhar perdido. vagabundo? -Como assim? Aqui é minha casa.. No canto do teto da cozinha. incurável e progressiva.. Essa é minha irmã. Parecia possuído e dominado pelo álcool que deveria ter consumido. um ódio sem motivo algum. eu não sou gostoso? Que o Levy era gostoso eu não tinha dúvidas. mostrava que ambos eram muito apegados.. Sobre o fogão um pano cobria as panelas.. -Ah. Por que será que ao vê-lo seu comportamento mudou tão de repente? O quê dava a entender que o clima de brigas era constante no ambiente familiar. havia uma mancha de goteira que escorria pela parede. -Quem é ele? -É um amigo meu. porém. Ele era muito divertido. a alegria durou só até seu pai chegar bêbado.. Os olhos de pânico que a Vanessa fez ao ver seu pai chegando em casa me chamaram atenção.Apesar da tristeza que pairava no olhar do Levy. O carinho que um demonstrava ter pelo outro. Mas responder à sua pergunta me deixou um pouco sem graça. eu to com fome. Muito bonita sua irmã! -Puxou o irmão. percebi o receio do Levy ao abrir o portão de sua casa. -Eu vou fazer alguma coisa pra você comer... Caminhamos em direção a uma porta de madeira que dava acesso à cozinha por onde entramos. 73 . -Convencido. tendo um filho maravilhoso como o Levy e uma criança encantadora que era a Vanessa. O Brasil detém o 1° lugar do mundo no consumo de destilados cachaça.

O impacto me fez cair no chão e bater a cabeça na parede. delírios e alucinações.. por favor.. Assustada com a reação de seu pai. depressões. corri em sua direção para tira-lo do alvo de seu pai. seu filho da puta.. Eu não vou deixar minha irmã com fome. as repercussões sobre o corpo se agravam. releve isso.. Nando. 74 .. Prevendo que uma tragédia poderia acontecer. Levy! Entrei em sua frente e recebi a pancada do prato que se quebrou ao bater no meu ombro. mesmo que os outros não acreditem.. mas estou bem. o Levy me pegou pelos braços e preocupado tentava me reanimar. -Você precisa ir ao pronto socorro agora.. A pessoa que abusa de álcool não é necessariamente alcoólatra. eu paro". perda de memória e comportamento desajustado.O alcoólatra de "primeira viagem" sempre tem a impressão de que pode parar quando quiser e afirma: "quando eu quiser... -Lava sua boca imunda pra falar da minha mãe.. pode-se encontrar quase todas as patologias psiquiátricas: estados de euforia patológica. a Vanessa se escondeu embaixo da mesa e começou a chorar. músculos... -Não fale assim dele. se não for pelo Levy que seja pela sua filha que é uma criança e não tem culpa de nada.. -Senhor. ele próprio acredita na ilusão que criou. se aquele prato atingisse o amor da minha vida acabaria o matando.. -Você não vai fazer porra nenhuma. glândulas hormonais. -Não levanta a voz pra mim. Os órgãos mais atingidos são: o cérebro. o Levy me pegou no colo e foi até a casa do visinho ao lado pedir ajuda para nos levar até o hospital. me dei conta que a situação era mais grave do que eu pensava. Seu animal. Na hora eu nem senti. -Vamos ver o quê eu vou fazer pra minha princesinha. pai.. -Amigo. -Não começa... estados de ansiedade na abstinência.. Inconformado com aquilo. dependente e faz uso continuado.. Essa frase geralmente encobre o alcoolismo incipiente e resistente... mas recorrentemente têm problemas por causa dos exagerados consumos de álcool em curtos períodos de tempo. ou seja. Olha o quê você fez. Nessa hora ele pegou um prato vazio que estava sobre a mesa e mirou bem na cabeça do Levy que estava de costas para ele. À medida que o alcoolismo avança. trato digestivo. -Cuidado. pois o paciente nega qualquer problema relacionado ao álcool. você está bem? -Calma.. Ao ver o sangue sendo absorvido pela minha camiseta. seus gritos chamaram atenção dos vizinhos que chamaram a polícia. Machucou um pouco. sangue. -Nando. coração. -Mas quem é você? -Sou amigo do seu filho.. Preocupado com meu estado.. Nas síndromes alcoólicas. O critério de abuso existe para caracterizar as pessoas que eventualmente.... Você é mais um desses vagabundos com quem ele anda..

-Eu não entendo.. agir por impulso é a pior burrice que o ser humano pode fazer.. -Que problema? -Imagina eu revelar a verdade. Existem coisas em nossas vidas que precisamos pensar muito bem antes de fazer e nas conseqüências em que elas podem trazer.. -Foi um acidente. que vão refletir em sua personalidade no futuro.... -Foi quando o pai dele abriu a porta do armário e um prato que estava apoiado caiu sobre o meu ombro.. sem entender minha justificativa o Levy se aproximou de mim e começou a questionar o por quê eu havia mentido sobre o ocorrido em sua casa. eu já disse que não menti... -Eu.. O Levy permaneceu ao meu lado o tempo todo me dando força... Sentado em uma cadeira de rodas fui levado até uma sala onde uma enfermeira me recebeu. te poupei de um problema. -Ta bom...Chegamos na enfermaria e fui atendido prontamente pela equipe de plantão. -Já chegam as cenas de bebedeira que ela presencia. você já pensou o quê aconteceria? -Meu pai no mínimo seria preso. -Humpft... -Eu vou buscar esparadrapo e já volto. -Agora pense você como ficaria a cabecinha dela. -Certo. um auxiliar ia fazendo algumas perguntas com uma prancheta na mão. -Mentiu sim. -O quê? -O motivo pelo qual você mentiu. -Como foi que você se feriu assim? -Ele estava em casa e meu pai... 75 . Enquanto a higienização era feita na ferida. -Não só isso.... Imagine a sua irmã vendo o pai dela saindo de casa algemado pela polícia.. Enquanto a enfermeira foi buscar mais esparadrapo e o auxiliar levar o relatório... mas sua família seria desestruturada. você disse que foi um acidente quando não foi. -Eu não menti.

Olhando para a cara do Levy e querendo dar risada eu me virei para a enfermeira terminar o curativo. Desculpa? -Não foi nada. pude perceber que toda aquela sua alegria era um disfarce para esconder a tristeza e carência acumulada em seu interior. Abraçados um ao outro trocávamos calor humano. Sem querer ele esbarrou no meu ombro ferido. -Só vou finalizar com um pedacinho de gaze. roubo. quando na verdade ele também era uma vítima. inclusive em testes de QI. As estatísticas mostram que eles estarão mais sujeitos a problemas emocionais e psiquiátricos do que a população desta faixa etária não exposta ao problema. Ele parecia se sentir culpado por tudo que aconteceu. -Pronto. Reparando no Levy. Sempre tive uma mania meio de psicólogo.Emocionado o Levy me deu um forte abraço. (FOB. 59% não desenvolvem nenhum problema... assim como eu. Vamos terminar o curativo nesse ombro? -Eu pensei que já tivesse terminado. Esses adolescentes e crianças tendem quando examinados a subestimarem suas próprias capacidades e qualidades.. -Nando. vadiagem e problemas com o colégio. -Mas eu sei. eu não sei como te agradecer... 76 . Na verdade. levando um susto com o gemido que eu soltei. Milhões de crianças e adolescentes convivem com algum parente alcoólatra no Brasil. Soltei um leve suspiro ao sentir o calor de seu corpo junto ao meu.. -Au! -Caraca!. não foi fácil estampar um sorriso naquele rostinho lindo.. conflitos e brigas com colegas... Em menos de uma semana acho que já estará curado. Adorava ficar observando o comportamento das pessoas e tentar analisar sua personalidade. -Ah. 2006: 01) No qual a irmã do Levy já começava a demonstrar. Por mais que eu tentasse amenizar aquele clima que ficou após o ocorrido. -Quanto tempo vai levar para ele se recuperar? -Vai depender do metabolismo dele. O primeiro problema que pode ser citado é a baixa autoestima e auto-imagem com conseqüentes repercussões negativas sobre o rendimento escolar e demais áreas do funcionamento mental. nunca. o que de forma alguma significa que todos eles serão afetados. Outros problemas comuns em filhos e parentes de alcoólatras são persistência em mentiras.. -Como? -Não se afastando de mim.

. Ta bom. seu cheiro alimentava meu espírito e fortalecia minha alma.. assim nos despedimos.. Fernando. Eu havia acabado de sair do metrô. Você está me machucando.. depois te explico. deixei a mochila. Olha a marca que você deixou no meu braço?.. -Você tem motivos pra isso? 77 . eu estou ótimo. Sentir sua pele junto a minha me fazia muito bem.... Obrigado! -Eu é que tenho de agradecer. Por que esse garoto sempre tem que estar junto quando algo de ruim acontece com você? -Não fale assim dele. Humpft. -Eu quero te ver.-Nando... Gui. peguei 3 dias de atestado por causa de um acidente. -Guilherme..... Demos um forte abraço na esquina da Avenida Paulista com a Consolação... -Me liga amanhã e nós marcamos... -Faz tempo que você chegou? -Não. era como se na rua só existissem nós dois. Quando estava quase chegando em casa meu celular começou a tocar. você apareceu na minha vida no momento perfeito. -Humpft.... Ao chegar em frente o Parque da Independência avistei seu carro encostado ao lado de um trailer. atitude natural de alguém que ama: -Eu estava na casa do Levy quando.. cheguei agora. -Te encontro em meia hora em frente o Parque da Independência. -Mas. eu te amo e quero o seu bem. Sempre o Levy.... fazendo com que ele tivesse uma atitude agressiva e inesperada.. Segurando em meu braço com força e apertando cada vez mais ele dizia: -Escute bem o quê eu vou te falar... -É natural que eu me preocupe com você.. -Eu sei.. -Como isso aconteceu? Segurando minha mão e olhando no meu olho ele falava preocupado. -Amor. troquei de roupa e saí novamente para encontrar o Guilherme. -Você não entendeu. O ciúme tomou conta do Guilherme. me perdoe.. É que eu sinto ciúme de você com aquele moleque. Passei em casa. -Ah o Levy... Tirei o aparelho do bolso e com um pouco de dificuldade atendi. não precisa ficar tão preocupado. posso te buscar na saída do seu serviço hoje? -Não fui trabalhar... eu quero te ver agora. Você está bem? -Já disse que sim. O tempo parecia ter parado. -O que aconteceu com você? Nunca te vi nesse estado. quando eu mais precisava.. -O quê foi agora? Vai defender aquele idiota? -Ele não é nenhum idiota.. -Que história é essa de acidente? Você está bem? -Calma. -Alô? -Amor da minha vida... -Desculpa..

.. -Oi Shirley! -O quê aconteceu com você? -Por quê? -Essa mancha roxa no seu braço.. Vivian.. Ao entrar na operação avistei a Shirley que estava tomando um café no breack.. chorando de medo e decepção ao mesmo tempo. por seu pai sofrer com problemas de dependência química.. sentada em frente o computador e comendo. só fui me dar conta depois do comentário da Shirley.. Fiquei assustado com aquela crise de ciúme do Guilherme comigo.. você sabe disso. -Ah. 78 ... Agora deixa eu procurar a Habiba que preciso falar com ela. -Ok. como ela sempre fazia.. Mas você está melhor? -Estou sim! -É um absurdo esses ônibus. Abri a porta do carro e desci correndo. Aqui está o atestado. Vim te trazer o atestado. -Vou até lá cumprimenta-lo.... acabei machucando o ombro. Eu nem tinha reparado nas marcas que o Guilherme havia deixado no meu braço. -Nando. -Mas Habiba. Fernando. -Ônibus. -Ta bom. Quando cheguei em casa corri para o meu quarto e me tranquei para chorar um pouco. -Acho que ela está na Ala B. -Desculpa Habiba. -Nossa.. Com a cabeça coberta pelo travesseiro eu adormeci.. -Como assim? -Não precisa mentir pra mim. Não.. -Hoje não vou logar. -Hoje o Levy veio até mim e me contou o quê aconteceu com vocês. -Humpft. -Estou decepcionado com você..... né?.. -Que acidente? -No ônibus.... habibo? -Sofri um acidente ontem... -Pois é.. Fale a verdade pra mim.. -Brigadu! Segui até a Ala B e lá estava a Habiba.. Humpft. -Eu achei muito nobre da sua parte querer poupar seu amigo de algum problema.-Humpft.. ta atrasado. eu tenho mais é que sentir orgulho de você. Eu bati no ônibus ontem. No dia seguinte tive que ir até a empresa levar o atestado médico. -Você viu o Levy por ai? -Ele estava logado na Ala A... -Ah.. -Mas o quê aconteceu. -Oi habibinha! -Oi filho. Isso aqui foi. Habibo. Guilherme. -Imagina. jamais esperava tal reação...

-Eu estava te procurando. ela disse que está afim de outro carinha...Fui até a Ala A onde o Levy estava. Ellen? -Oi Nando. -Fala logo.. Fernando? -Na medida do possível..A. Bati em seu ombro e disse: -Pede um momento pro cliente? -"Só um momento... percebendo minha presença ele colocou a ligação no mute e me estendeu a mão. Estou curiosa.. Não se faça de sonsa. -Ok. Ouvir sua resposta negativa soou como música aos meus ouvidos.. Levy. senhor Jonas.. Afim de mim? -Sim. -Ah. Parecia que ela estava adivinhando o motivo.... -Não fica assim.. -Um amigo. pois só de saber que eu estava à sua procura. -Tudo bem.. você topa conversar com ele? -Ah." E aí? -Desencana amigo... Mas que amigo? -Humpft.." Maldita foi a hora que perguntei.. Tem um amigo meu afim de você. -Procurando por mim? Nossa. -Está atendendo. -O quê é isso. Então. -Isso. Era só o que faltava eu intermediar "casos" para o cara que eu estava afim.. -Ah... Estou esperando acabar minha pausa.... -Estou muito afim da Ellen.... Peguei a cadeira de uma P. Senti um alívio tão grande que parecia ter tirado um caminhão das minhas costas. mas fico sem jeito... Ele não faz meu tipo.. -E então. Ao me aproximar de sua P. -Valeu cara. -Bom.. -É... -Sabe que eu queria te pedir uma coisa.. -Agora que me encontrou pode falar... Fui “flutuando” até a Ala A levar a notícia para o Levy.. Deixei a Ala C onde a Ellen estava feliz da vida... -É quê.. cara. eu falo com ela. gato? Puxei uma cadeira e me sentei ao seu lado para não chamar atenção.A vazia e me sentei ao seu lado... "Senhora Sandra? Obrigado por ter aguardado. -Eu estou afim de outro... -Você me pegou de surpresa. -Humpft. Fe. percebi que ele estava atendendo. você quer que eu arrume um esquema.. desculpa qualquer coisa.. 79 .. -Beleza.... O Levy.. Contra minha vontade fui procurar a Ellen e sondar as intenções dela a respeito do meu amor-amigo.. -Sim. pode contar comigo. Já sei. Levy? Nós somos amigos. abriu logo um sorriso em sua face que parecia ter ganho na loteria.

agora preciso ir. Entramos no elevador e descemos até o TS para conversar. odeio cigarro. mas acontece.. Tem sim. Deixei a operação e chamei o elevador. -Entendo.. ele gosta muito de você. Enquanto ele não vinha fiquei olhando o movimento da rua pela janela do hall. -Basta minha consciência saber. só fiz um favor de amigo. Fiquei um pouco curioso para saber o que a Ellen queria tanto comigo. -Eu sei que você não namora coisa nenhuma. O que foi que você falou pra ele? -Nada demais. mas acho que entendeu. pois não saberia o quê fazer se isso acontecesse. qualquer coisa. -Desculpa. acorda. depois eu te ligo... -Eu não tenho culpa que o Levy gosta de mim.. -Você não vai falar nada? -O que você quer que eu diga? -Sei lá.. desde quando te vi entrar na operação eu fiquei afim de você. -Nando. Um arrepio me subiu da cabeça aos pés e minhas mãos pareciam varas de bambu de tanto tremer. Vamos descer até o TS? -Vamos. Ao parar no décimo primeiro andar... -É.. já é motivo suficiente pra não ter nada com você. afinal. apenas disse que você não estava afim porque gostava de outro carinha. -Deixa de bobagem... -Sobre o que você queria falar? -Eu fui perguntar para o Levy se ele estava sabendo sobre a mudança de prédio que nunca acontece e ele foi muito seco comigo. preciso falar com você. 80 . -E a nossa balada? -É só marcar. ouvi o apito e corri até a porta do elevador.. -Ellen. -Mentira. -Mas ele não precisa saber que estamos ficando. -Fernando... -Fala baixo. torcendo para que ela não tivesse mudado de idéia. tem alguma coisa mais forte nisso tudo... -Quer um cigarro? -Não obrigado. Bom. -Sabe? Desde quando eu tenho que lhe dar satisfação da minha vida? -Fernando.-Fiquei mal com essa notícia. Será que você não percebeu que o carinha que eu gosto é você? A saliva passou rasgando pela minha garganta. isso não é coisa que se faça com alguém que se gosta.. -Ah. quando ia entrando a Ellen parou minha frente. Tenho chances com você? -Você é louca? -Por quê? -Porque o Levy é meu amigo e gosta de você. eu sou comprometido. -Ele ficou muito triste. -Falou. Ninguém pede pra gostar de alguém.... -Vai demorar muito? -É rapidinho.. -Nem ele. Prefiro não me intrometer nesse assunto de vocês. simplesmente acontece.

então? -Guilherme. -Você entendeu errado. sou comprometido.. -Eu não tenho culpa que você se deixou apaixonar por mim.. Se você ficar comigo eu te faço virar homem rapidinho... -Você ama esse.. seu silêncio diz tudo. Guilherme? -Não te interessa... -Eu não estou brincando. não sou impotente e nem pretendo ser mulher. mas comigo você não terá chance. Sempre tive vontade de chegar em você. 81 . Que você é. você mal me conhece. -Não deixei de ser homem.. quem manda ser tão bonito? -Eu não posso ficar com você. me sentindo culpado. -Não brinca comigo. Os olhos dela só faltaram saltar pra fora. Fernando..... também não gostei da maneira que você falou comigo.. Eu tenho um pinto no meio das pernas.. Sei que não é fácil sofrer por amor. Ellen.. -Qual o nome dela. Deixei a Ellen chorando no TS e saí do prédio angustiado. -Não precisa responder... -Humpft. -Que eu sou gay? Não. -O Levy sabe? -Do quê? -Que você.. -Mas como.. gay? -Já falei pra você falar baixo. -O. -Desculpa.. gostar de alguém e não ser correspondido é muito difícil. Eu sou gay. Ellen. -Minha vida afetiva só cabe a mim.. -Eu disse que era gay. -Não fala assim. O quê? -Pois é.. tão vulgar quanto você foi ao duvidar da minha masculinidade... tamanho era o espanto. faço uso dele. -Desculpa. eu não quis dizer isso. -Mas disse.?Bom. mas me faltava coragem. -Não delira garota. Eu poderia te fazer muito feliz. não disse que não era homem. Não adianta me olhar com essa cara.. -Tudo que desrespeito a você me interessa... trocamos duas palavras na operação e você já se apaixonou por mim? -Você nunca se apaixonou por alguém de primeira vista? -Eu.. você estava precisando de uma resposta à altura. -Então. -Eu não me conformo com isso... -Humpft..-Você não sai da minha cabeça. conte então a verdade pra mim? -Eu já disse.. -Você tem culpa sim. -Mas quem disse que não sou homem? -Você disse que.

como havíamos premeditado. percebi que haviam cinco ligações não atendidas no meu celular. já que a comemoração era só nossa... -Me perdoa? -Olha Guilherme... Na verdade eu e ela estávamos praticamente no mesmo barco.. Não precisava ter chamado o Help Desk inteiro para ir conosco à balada.. mano. Passei quase meia hora em frente ao espelho pra deixar meu cabelo impecável e quase uma hora pra me vestir. -Com “os caras”? -É. Antes de sair. a curiosidade me fez atender. -Me liga mais tarde.... -Eu sei que errei... Então beleza. Quando cheguei em casa. ele não via a hora de cair na noitada. -Quando? -Sábado. pois eu não queria aparecer de qualquer jeito na frente do meu amor. Empolgado.Fui o caminho inteiro lembrando e pensando no que ela havia me dito. Vai ser demais. coisa que eu odiava quando acontecia. -Já decidiu o dia? -Claro. deixei um 82 . caído sobre minha cama olhei no visor para saber quem estava ligando.. estou muito arrependido.. -Me liga mais tarde... -Falou. A generosidade do Levy. ouvi meu celular tocando. ás vezes chegava a me incomodar. -Por mim. A semana demorou a passar... -O quê houve que você me ligou quatro vezes? -Ah. No sábado à tarde liguei para o Levy confirmando nossa balada. e eu. Pra mim o número aparecia privado. Saindo do banho. Corri até o quarto. -Combinei com os caras aqui.. Na mesma hora retornei para ele preocupado. Queria combinar a balada.. Desliguei o telefone e fui me vestir........ -Alô? -Nando? -Humpft.. amor. -Mas. -O pessoal é gente boa. -Humpft. não via a hora de encontra-lo.. ta bom? -Mas Nando. sendo quatro do Levy e uma do Guilherme.. sonhando com um amor impossível. -Tem algum problema? -Humpft. beleza.. Embora eu não tivesse a mínima vontade. Separei a melhor roupa. -Falou. Nada demais. Pensei que só iria eu e você. -Levy? -Eu. nem que fosse só pra ficar conversando.

Olha como isso está cheio. gata. Ao chegar.. duas garotas “avulsas” ficarem na nossa cola a noite inteira. me acompanha? -Bom. -Vamos até lá então. Que pena. -O quê foi. Perfumado e todo arrumadinho. -Licença. Todo mundo teve a mesma idéia que a gente. -Faz tempo que você chegou? -Nada. a gente ainda estaria lá fora. Nando? -E nossa.. Vamos lá. Deixa pra lá. assim. -É mesmo... vai... próximo a escada rolante.. não teria que dividir sua atenção com ninguém.... não gostaria de fazer companhia pra gente? -Opa. até aparecer uma garota para atrapalhar. Mas é claro.. Qual é o seu nome? 83 . -Olá. -Pois é. -Eu e minha amiga estamos sozinhas. Vamos? -Ué. -Beleza. Eu adorei a idéia de irmos só nós dois para a balada. Caminhamos até o bar que estava próximo de nós. cada história bizarra que ele contava... prazer. Cheguei na estação do metrô e ele já me esperava do lado de fora da catraca. -Ah... perfeita. -Vou tomar uma caipirinha.. -Desculpa pela demora... mas por sorte o Levy conhecia uma garota que trabalhava lá e nos colocou para dentro... Eu morria de rir com as palhaçadas do Levy. Nando?. O quê você costuma beber? -Nada muito pesado. Passamos um bom tempo conversando. Cadê ela? -Está sentada ali na mesa. Vocês estão sozinhos? -Estamos sim. Mas cadê seus amigos? -Não vieram. -Mas Levy.. -Isso ae. -Caraca. Daria um livro de piadas se fosse escrever. Relaxa cara. pois a pressa não me permitiu escrever bilhete.. Quase não deu para entrar. Ah. furaram. diferente daquele Levy que eu estava acostumado a ver no dia a dia. -Oi Fernando! -Humpft....recado para meus pais na secretária eletrônica... então. O meu é Levy e esse é meu amigo Fernando... -Meu nome é Fabiana... -Vamos indo.. está cedo ainda. -Se não fosse a sua amiga. logo na porta reparamos que a balada estava cheia... A noite estava muito agradável. Tudo bem. -Deixa isso pra lá. Oi.. Pedimos duas caipirinhas de abacaxi e ficamos bebendo no balcão. Era só o quê faltava.. -Opa. Cheguei agora também.......

. cara? -Acho que ainda estou. eu sou o Levy. Bom. -Eae Nando. Altamente contagiosa. preso por grilhões amarrados aos pés. -Cof. Eu sei como é. -É verdade........ -Humpft.. mas acabou não dando certo... -Hahaha. E você. Assim que perceberam nossa presença.. -Ah que legal.... que foi logo se afastando com medo de contrair a "minha doença".. mantendo uma certa distância por segurança. Bobo.. Não demorou muito tempo e eu voltei para a mesa. -Prazer Mariana. -Que coisa.. quando está bêbado só faz merda. Fernando? -Não. -Impressão sua.. Cof. -Ah. -Do que você está falando? -Nada. vou voltar para a mesa. -Você namora. Aquelas alturas. Foi horrível. -Estou vendo que seu amigo e a Fabiana estão se entendendo.. -Quer ir um pouco mais pro canto e sair de perto da fumaça de cigarro? -Ah.. -O Levy é assim mesmo. Eu vou com você. Eu também não. pois ela começou a colar seu corpo no meu e falar: -Você é muito bonito.. -Você está bem. por quê? -To achando que você mudou de repente.. Começamos a dançar um de frente para o outro... na qual também não demorou por muito tempo. minha tosse não é por causa de cigarro. quem é? -Elis Regina.. A sensação que senti naquele momento era como se eu tivesse caído dentro de uma piscina profunda e imergisse até o fundo.-Mariana..... -Esse tempo maluco deixa todo mundo gripado. Sentei à mesa ao lado da chata da Mariana. -Prazer.. Dei a desculpa de ir para pista na tentativa de me livrar daquela... Faltava pouco para eu ir embora daquela balada que já tinha se tornado estafante. Curtiu a pista? 84 .. -O quê? -F-E-R-N-A-N-D-O. Mas o meu caso é tuberculose mesmo. Não vai adiantar.. mas foi a única idéia que me veio em mente naquele momento. minha paciência havia se esgotado.. Cruzando aquele labirinto de pessoas eu vi o Levy beijando a Fabiana. -O quê? -Pois é. -Cansei de dançar. sabia? -Minha mãe não se cansa de falar... Confesso que fiquei com um pouco de pena no começo.. vou para a pista dançar um pouco.. os dois pararam de se beijar. Esperei ela sair e caí na gargalhada.

. Tive vontade de enforcar aquele pescoço pelado. Livre das duas... princesa? No guardanapo jogado sobre a mesa. -Mas já? -Sim. -Calmae que to sem bateria no celular.. Com a minha perna entrelaçada à sua... -Ihhhhhhh. Na verdade eu estava era morrendo de inveja da Fabiana. porém. -Boraaaaaaaaaaaaaa. ainda morrendo de ciúme do Levy. Peguei o guardanapo e guardei no bolso junto com a carteira... -Já sei. pra eu não perder. -É o 3592. hein? -Nada. -Demorô. dançávamos em ritmos desordenados. Anota o meu telefone? -Opa. o quê me serviu de pretexto para usar e abusar dele.... O quê foi. Já estava com a cueca molhada.. Nando. princesa? -Pois é. eu é que queria estar beijando aquela boca desenhada com um dos mais perfeitos pincéis da natureza.. Puts.. -Então vamos correr lá pra pista e dançar bastante. umedecido de cerveja.. O quê você acha de. gato. -Valeu. o Levy anotou o telefone da Fabiana. -Vamos logo... -Ah.-Uhum. Precisamos ir. Fabi. mexia com a minha imaginação. preciso ir embora. Que ódio. Aquela perna inocente roçando na minha.. perdi a vontade.. A pista estava lotada. De frente um para o outro. -Nada haver. Maravilhosa. -Beleza.... -Fabi.. Deixamos os copos sobre a mesa após a última golada do Levy na caipirinha. -Mas já. Fala ai. o motivo pelo qual permanecemos por lá. Que tesão. ela tentava fazer a Fabiana entender que deveriam sair dali o quanto antes. -É sim... eu adoro essa música. -Bebe um gole ae.. -Nando. -Dá aqui.. Mari. A lorinha não te quis e por isso você ficou desse jeito.. -Calma.. eu pude ficar mais tranqüilo... A fumaça de cigarro misturada á dos efeitos e a aglomeração das pessoas naquele ambiente contribuíram 85 . eu conseguia acompanhar o movimento circular de sua coreografia. mas não só de suor. -Humpft. O som da pista estava ótimo.. Deixa isso pra lá... Sem sombra de dúvida. Guarda ai no seu bolso o telefone dela que no seu tem ziper.. -Anote nesse guardanapo mesmo. -Pode crer. -Por quê? Fazendo sinal com os olhos. -Antes de ir eu quero mais um beijinho..

"Funcionário do OPS. Suando como uma torneira. -Por alguns minutos só. Entramos na estação do metrô e fomos até a bilheteria comprar o bilhete. -Hahaha. Saímos da balada com o dia quase amanhecendo. Sonolento. Capotei de sono.. brilhando de suor. -Quando a gente chegar em casa você dorme mais.. Não resisti e tirei a camisa também.. -Eu também. Vamos lá pro quarto. Sentamos nos bancos esperando o metrô passar.. prendendo parte dela na calça.. -Vou ficar te devendo. então. dançando coladinho com o Levy.. o quê fazia com que misturassem o suor um do outro.para que a temperatura aumentasse. -Hahaha. minha boca ficou seca. Dançamos a noite toda sem cansar e se pudesse passaria o dia também.. ali encostado sobre meu ombro. o Levy tirou sua camiseta. -Pode deixar que eu compro.. meus pais haviam ido viajar e meu irmão passara o final de semana na casa do meu primo. Isso não era motivo para parar de dançar. minhas mãos ficaram suadas.. o Levy acabou cochilando. Uma vontade louca de acariciar seu cabelo negro escorrido.. -Nando. fomos quase os últimos a deixar o lugar. Meu coração só faltou sair pela boca... Deixa eu contar as moedas. compareça a SSO" Esfregando o olho e se espreguiçando ele disse: -Nossa. sua cabeça aos poucos foi deitando no meu ombro. Eu não conseguia parar de olhar para aquele peitoral depilado. Caminhando pela rua o sol já se mostrava em tímidos raios no alto dos prédios. -Depois a gente acerta. Deitado no meu ombro ele permaneceu até ser acordado pelo auto-falante.. -Vou deitar aqui no tapete. -Humpft. -Assim não vale. O Levy tinha um poder de mexer comigo sem igual.. preciso comprar bilhete. Cada vez que passava alguém por nós nossos corpos se encostavam. Chegamos em casa com o sol radiando. 86 . tem a cama do meu irmão pra você dormir.. Na plataforma não havia ninguém..

. Imediatamente rasguei o papel e joguei fora. -Você veio me perturbar. Guiado pelo corrimão eu fui descendo as escadas... O meu cabelo estava com um cheiro horrível.. apenas sentia um carinho por ele.. Ainda com sono. passei xampu por várias vezes. -Também. hoje acordei cedo. é porque tinha esperanças de me apaixonar e esquecer definitivamente o Levy. me fazendo arrepiar. -Desde ontem? -É. acordei com a campainha tocando. Arrastando o chinelo e coçando o olho espiei pelo olho mágico da porta. mas só deu caixa postal. Cansado de tanto dançar.. isso sim.. bêbados de sono. decidi dormir na cama do meu irmão e deixa-lo na minha... -Caramba... embora naquela ocasião estivéssemos brigados e eu já nem tinha mais certeza se era aquilo mesmo que eu queria. Ao tirar as coisas do bolso. claro que há uma hora daquelas só poderia ser o Rafael. A cada peça de roupa tirada era um suspiro que escapava. mas não saiu totalmente. tirar aquele cheiro horroroso de cigarro que impregnou em minha pele. Isso são horas de encher o saco? Jogando-se no sofá ele disse: -Mas já são 9h45. Naquela manhã. -Eu liguei para o seu celular. Até essa hora? -Sim... Peguei uma toalha limpa e fui para o banheiro tomar um banho. -Você trabalha hoje? -Sim. 87 . Eu não amava o Guilherme.. -Puts.. Se eu continuava namorando. Posso dar uma olhada nos meus e-mails? -Não. Vesti uma camiseta e desci para atender à porta. me atentando da maneira mais inocente. lembrei do telefone da Fabiana que o Levy havia anotado no guardanapo e pediu para que o guardasse em meu bolso. Voltei para o quarto e o Levy já dormia. Vim te chamar pra ir ao cinema. É saudável acordar cedo. -Está desligado. o Levy caiu na minha cama de roupa e tudo. todo esparramado pela cama. se é que você não percebeu. que aparecia nos momentos mais inconvenientes que se pudesse imaginar. Com cuidado para não acorda-lo. Estendi por cima o cobertor que estava dobrado sobre a cama. Seu peitoral alto se destacava na camiseta colada ao corpo. -Bom dia. Foi difícil resistir à tentação de não beijar aquela boca que estava me provocando. fui tirando peça por peça cuidadosamente. subi até o banheiro para passar uma água no rosto e o Rafael foi me acompanhando e enchendo o saco. Depois de ajeita-lo na cama. -Mas nem eu que adoro dormir. Nando! -Humpft. Para não atrapalhar seu sono.. Meus dedos tocaram sua pele morena. vesti uma bermuda e fui dormir pensando nele.. tirei sua calça. com os olhos meio fechados por conta da claridade que entrava pela janela da sala. Não considero isso como uma traição..Subimos até o quarto. -Bom pra você. como ele sempre fazia. -Eu estava dormindo. de roupa e tênis.

-O quê é. Rafael.. não? -Porquê.... Ele abriu a porta do meu quarto e viu o Levy deitado na minha cama. -Eu acho que se você der uma investida. Não sei explicar..... mas se envolver sentimentalmente não. Passa o pão... Ele mexe comigo de uma maneira.. Tentei segura-lo. Eu entro no seu quarto e dou de cara com um garoto dormindo na SUA cama só de cueca. -Nando.-Por quê.. -Humpft.. O quê você quer que eu pense? -Humpft. -Rafael.. Isso não pode acontecer... -Você é muito malicioso. Eu e o Levy fomos à balada e. -Por quê? -Fiquei mal quando vi o Levy beijando a mina. -Do quê? -O Levy é hétero. -Hum.. -Valeu.... Nando.. já esse Levy.... -Humpft.... Descendo a escada em direção à cozinha ele falava: -Não seria nada demais se você não fosse comprometido... Pelo jeito você sente alguma coisa por esse garoto...... -Fernando Viana. -Eu estou apaixonado pelo Levy. -Toma.. -Sério? -É..... Que desperdício.. -E quem é que pode mandar no coração? -Essa coisa de coração é papo de poeta. Morri de ciúme... -Nem precisa terminar.. -Ah ta.. Pense o quê você quiser.... eu posso imaginar o quê vem depois. então? -Sei lá. O Guilherme te quer.. -Se pelo menos ele gostasse. só de cueca. Sentamos à mesa para tomar café.. -Eu? -Sim.. 88 .. -Hahaha. mas não consegui. Estou passado... Fechando à porta do quarto.. O Levy ficou com uma garota na balada. Por isso desligou o telefone. Você está me escondendo alguma coisa.. Rafael. -Por quê? -Se for uma curtição.. Nunca senti isso antes.. Nunca senti isso antes. respondi: -Pode parando de drama. -Caramba.... -Não estou falando de tesão. Porque não... eu te conheço. -E você ficou com quem? -Com ninguém... não aconteceu nada demais. pode ser que ele caia na tentação e você mata seu tesão.. Volte aqui.. tudo bem.

Falou ae Rafael! -Falou.. Que tesão de moleque. boa gente. o Rafael fez uma cada de admiração ao ver o Levy com parte de seu corpo à mostra. -Eu te acompanho até a porta. -Enquanto isso.. Eu gosto do Guilherme.. -Tudo bem.. acho que vou dar uma investida. Começaram a soar passos na escada. Por mais que eu estivesse namorando e o Guilherme fosse o homem quase perfeito.. Nossa.. -Vem vindo alguém... eu não conseguia evoluir o sentimento por ele.. sua voz 89 ... -Humpft. -Bom dia! -Bom dia.. Só o quê estraga é aquele jeito meio desleixado... -Beleza? Sem camisa e vestindo apenas uma calça jeans meia caída. -Mas você já tem dono.... -Hahaha. Calça caída. Hum. -Fique mais um pouco com a gente. Tudo bem então. -Pensando bem.. -Beleza. ele caminhou até a mesa bocejando. -Bom. Já o Levy não saia da minha cabeça.. Da hora ele... -Prazer. -Passe longe dele. Esse é meu amigo Rafael. vou tomar banho e arrumar minhas coisas. -Valeu Rafael... -Valeu. Uma graça.. -O quê é jeito desleixado pra você? -Meio largado. mas preciso mesmo ir.... Fomos interrompidos pelo Levy: -Mano. Voltei para a mesa depois de ter acompanhado o Levy até o portão. -Nossa. -Cara. mas você não deve trocar o Guilherme por esse pé de chinelo.. Ele é demais.. o Levy parece ser um rapaz bonito. Por quê? -Eu vi primeiro.. posso checar meus e-mails? -Pode. mostrando parte de seu pubs... Levy........ Olhando pra mim... Boné. -Como assim? -Humpft. -Põe demais nisso. mas. -Uhum.. -Hahaha.. Vou nessa. mas preciso ir. pois daqui a pouco vou para a academia. Levy. -Vou calçar o tênis e vestir a camisa.-Olha Nando. mostrando a cueca. Que moleque era aquele. -Por enquanto. -Sentae Levy e tome café com a gente..

-Tudo bem.. Assim que desloguei. -É. Entrei no carro e seguimos para sua casa. -Olha Guilherme. Peguei o elevador e desci. fui procurar pelo Levy no 13º andar.. se não eu desligo o telefone. -Ok. era incrível como ele me fazia sentir diferente. Por que você não me conta a verdade? -Qual verdade? -Você saiu com aquele garoto ontem? -Que garoto? -Não se faça de retardado... mas agora estou com cliente na linha... -Boa noite meu amorzinho. viram vocês dois na balada e me contaram.. Desliguei o telefone e logo em seguida ele tocou outra vez: -Alô? -Nando. -Podemos nos ver hoje? -Que horas? -Agora! -Agora não dá.. -Humpft.. você sabe que estou falando do Levy. -Preciso falar com você. -Você ainda é meu namorado.. a hora que você quiser.soava em meus ouvidos nos momentos de silêncio da minha alma... Cheguei na empresa e subi direto para o décimo primeiro andar. -Humpft. vou sair mais cedo do serviço hoje.... mas não o encontrei. mas seu celular deu caixa postal. pode ser umas 20h? -Pode sim. -Dormir.. Ao descer do elevador meu celular começou a tocar. seu perfume parecia perseguir o meu olfato.. -Boa noite! -Vamos até em casa para conversarmos um pouco? 90 . -Te liguei ontem à noite. é claro. era o Levy pelo que mostrava o identificador... Será? -Você ainda está magoado comigo? -Muito. -Quem te falou isso? -Não importa. -Ok. -Nando. -O quê eu tenho que fazer para você me perdoar? -Não sei.. -Sim.... -Oi Guilherme. posso te ligar mais tarde? -Pode.. -Oi. -Você pensa que sou idiota? -Fale mais baixo. pois o Guilherme já havia me enviado um torpedo no celular dizendo que já me esperava na portaria.. Fui dormir mais cedo.. -Te encontro aí na porta.

-Hum. -Você é demais. Chegando em sua casa.. A brasa que ele continha dentro de si parecia nunca apagar.. -Mas não pensou.. Nos beijando sem parar. Foi maravilhoso. encostei no canto próximo à janela. -Tudo bem. Comecei a sentir sua boca descendo cada vez mais até arrancar minha cueca com os dentes. me deixava louco..... me fazendo derreter em seus braços malhados e tatuados. Esse Levy é fogo. sua língua vasculhava todos os cantos da minha boca. -Está tudo bem? -Sim.... -Vamos dar uma acelerada? -Uhum... Ao cair na cama demos um abraço bem forte e logo em seguida a luz se apagou. Meu telefone começou a tocar... -Nossa. O vidro da janela já se encontrava embaçado com o calor do clima que rolava naquele cômodo.. -Sinal de que não gostou. Nando.. Estávamos apenas de cueca nos beijando na sala quando ele me pegou no colo e seguimos para seu quarto. To acabado. Nando... ainda sem roupa corri até a sala pra atender: -Alô? -Nando? -Eu.. só me beija. se aproximando de mim ele veio falando: -Eu gosto demais de você.-Vamos. -Ham. Não fale mais nada.. -Você é uma delícia. -Correndo? -Ou fazendo outra coisa pra te deixar com a respiração ofegante.. Um tesão de moleque. um pouco sem jeito.. eu adorei.. -Deixe de ser curioso. -Hahaha. -Você acha? -Acho. Levy... -Você também. Ham. Gozamos como se nunca tivéssemos feito antes. Colado ao meu corpo só fazia aumentar seu fogo. Fizemos amor gostoso.. Eu não resistia àquela pegada forte que ele tinha.. -Psiu.. até molhamos o lençol de tanto suor.. Amo de verdade. nos falamos depois. -Você disse Levy? -Vai começar com crise de ciúme? -Ciúme? Sempre que estamos numa boa aparece esse moleque pra atrapalhar. Começamos a tirar a roupa ali na sala mesmo.... Gui. 91 .. por quê? -Você parece que estava correndo. -Pelo contrário. Bom.. -O quê você disse? -Nada. pelo visto você está ocupado.

. amor? -Claro. Procura ai no guarda roupa. Comecei a abrir a porta dos armários e procurar algumas coisas.. porém. Ao amanhecer levantei primeiro que o Guilherme. meu coração foi a mil quando vi que o Guilherme era o noivo. já levo sua toalha. Apenas de cueca preta eu me olhava no espelho distraído. -Assustei você.. amor. pois havia um castelo ao fundo e as árvores desfolhadas com tonalidades douradas. O cenário não era brasileiro. né? -Desculpa meu gato. Próximo ao pé da cama estava um álbum de fatos que caiu junto com a caixa... Fui até o banheiro escovar os dentes e lavar o rosto. foliei bem rapidinho acompanhando as fotos do casamento. Nando.. calma. -Tudo bem. -Ok. Fui até seu quarto e comecei a abrir as portas do guarda roupa procurando por uma toalha de banho. 92 . Ao receber um abraço do Guilherme levei um susto: -Que foi? -Você chega assim de mansinho. -Nando.-Acho melhor mudarmos de assunto. pega pra mim? -Claro. onde você costuma guardar? -Quem guarda é a empregada. todos rindo como uma família feliz em férias.. Por curiosidade fui folhear o álbum e fiquei surpreso com as fotos. a que mais me chamou atenção foi uma em que estavam o Guilherme. Por mais que ele tentasse disfarçar o ciúme.... -Fala? -Esqueci de pegar a toalha. Desculpa... Eu já estava me cansando daquela situação toda. quando eu terminava de arrumar a mesa na copa o Guilherme começou a me chamar: -Nando. -Ta bom. Vesti um roupão e fui até a cozinha preparar algo para comer.. Eram recordações de um casamento. não deveria ter mais de cinco anos de idade. Vou tomar um banho pra dar uma acordada legal.. -Nando? -Oi? -Está tudo bem ai? -Sim.. me levantei na ponta dos pés e puxei uma delas que ao cair derrubou uma caixa enorme. Havia muitas fotos de gente elegante. Vamos dormir? -Vamos. cadê a toalha? -Já estou indo. Comecei a recolher aquele monte de papel e juntar tudo dentro da caixa novamente até que uma foto me chamou atenção. vou preparar o nosso café. Com medo que ele desconfiasse. era notória suas crises sem motivos. espalhando vários papéis e fotos pelo chão do quarto. me acompanha? -Não. uma mulher muito bonita e aquela menina da foto. -Humpft. -Ta bom.. Depois de procurar por todas as portas enfim encontrei algumas toalhas dobradas em uma prateleira. Uma menina linda.

comecei a fazer algumas perguntas: -Guilherme. o Guilherme foi se vestir e eu também. se é que esse era seu medo. Fechei a porta da prateleira e fui levar a toalha até o banheiro. você é o primeiro duradouro assim.Juntei tudo dentro da caixa novamente e guardei dentro do guarda roupa. -Antes de mim. Confuso com tudo que estava acontecendo.. -Hum. você não comeu quase nada... E por quanto tempo? -Pouco tempo. -Por quê? -Nada não... Depois do banho.. Encostei a porta e fiquei aguardando o elevador chegar.... -Mas amor. -Fala. amor? -Estou pensando.. -Comigo. Por que será que ele estaria mentindo pra mim? A troco de quê? Eu não me importaria de ficar com alguém que já foi casado um dia. não estava mais suportando passar um minuto se quer naquele apartamento... refletia sobre a situação... Fui até o quarto vestir minha roupa.. pode terminar de tomar seu café. Estava dobrando algumas roupas que caíram quando puxei essa... eu vou com você até... -Por que demorou? -Eu?. eu conheço o caminho. -Humpft. você já namorou sério alguma vez? -Já. -É. Nando? -Não posso... amor. destranquei a porta da sala e ao abrir o Guilherme se levantou da mesa. Rafa? 93 . por quê? -Sei lá. Encostei no batente da porta e tentando entender. -Eu. curiosidade. -Espera.. -Fique mais um pouquinho. Enquanto comia.. -Está aqui a sua toalha.. -Por que você ficou tão calado. -Ah. -Vou me arrumar.. Não vai me dar nem um beijinho? Aproximei-me dele e dei um selinho seco. -Ah. você está meio frio comigo. já terminei de tomar o café. mas namorei mulher. Bom. Sentamos à mesa para tomar café... Ao deixar o condomínio liguei para o Rafael: -Alô. -Não precisa. eu não conseguia pensar em outra coisa.. embaixo das toalhas onde estava antes de cair... -Pensando em quê? -Na vida. -Estou preocupado com você. -Impressão sua.

depois subi até a praça de alimentação e sentei em uma mesa para esperar pela Shirley. -O quê aconteceu agora... -E você não vai contar? -Por enquanto estou pensando em que fazer. -Ai não foi tanto tempo assim. -16h? -Perfeito. -Tudo bem. Com cinco minutos de atraso.. casado? -Achei umas fotos dele casando..... hein.. -Demorou. -Aconteceu alguma coisa? -Sim. -Até aí... Desliguei o telefone e logo em seguida liguei para a Shirley. -Alô? -Alô... É obvio que ele foi casado... -"Anda Rafael". Shirley... -Estou brindando. -Beijos! Cheguei um pouco mais cedo no shopping para ver algumas roupas e pagar a fatura da loja.. vou precisar desligar. E o quê ele disse? -Ele não sabe que eu descobri.. Ta bom. "Já estou indo". -Mas o álbum não era de seus parentes.-Oi Nando! -Queria conversar com você. em família na Europa. -Como assim? -Havia fotos dele com uma mulher muito bonita e uma criança. -Falou. Shirley? -Fala Nando! -To precisando de uma amiga. -Nos encontramos mais tarde então. normal. -Humpft. 94 .. Podemos nos encontrar no shopping? -Claro. mas não quero falar por telefone. Nando? -Estou me sentindo muito mal. -O quê? Como assim.. Nando.. -Eu vou levar minha filha na escola e depois posso te encontrar antes de ir trabalhar. provavelmente havia corrido do metrô ao shopping. -Caraca. -Cheguei. -Por quê? -Hoje pela manhã encontrei um álbum de fotos de família no armário do Guilherme.. e sim de sua própria família.... -Aconteceu alguma coisa? -Sim.. -Minha mãe quer que eu vá no mercado com ela agora. Falou cara. a Shirley chegou com a respiração ofegante... descobri que o Guilherme é casado. mas depois a gente se fala.

... -Mas Nando..... -Imagina. como se não fosse novidade apareceu o número do Guilherme.. Meu celular começou a tocar. -Não é tão velho.. sempre desconfiei que 24 anos era pouca idade para ter tudo o quê ele têm. se eu chegar atrasada a Habiba me mata. Ta atendendo?. amigos são pra essas coisas.. só não entendi em que isso pode atrapalhar no relacionamento de vocês. Desliguei o telefone. -Claro que não. -Não atrapalharia em nada se ele não tivesse escondido de mim desde o começo. -Oi Ju.. Cheguei na empresa para voltar à rotina de trabalho. Cheguei em casa e me tranquei no quarto.A para logar... vou dar uma olhada na intranet depois. quantos anos ele realmente têm? -Verificando as datas e fazendo as contas cheguei nos 32.-Isso eu entendi. 95 . Logo quando entrei na Ala B encontrei uma P.. -Agora eu preciso ir. -Pode falar. -Está melhor? -Digamos que sim. Desculpa.. -Mas. -Oi Nando. Aproveitei esse tempo para pensar e colocar minha cabeça em ordem. -Ta bom. -Não pense assim.. -Afinal. Antes de atender olhei no identificador para ver quem era. quem sabe isso tudo não seja um mal entendido.. eu acho que você deveria conversar com ele.. -Humpft. mas se ele mente dessa maneira pra mim. Ao sair do elevador cruzei com a Juliane no hall.. como eu nunca ganho nada. por mim terminaria o namoro o quanto antes. depois a gente se fala.. Preciso te ver. -Obrigado por me ouvir. Não atendi aos telefonemas e não respondi os e-mails. Fiquei dois dias sem falar com o Guilherme.. -Olha. Durante esse período pude refrescar a mente. Abri todos os programas. Liguei o rádio para ouvir um pouco de música enquanto pensava na vida.. falar com você. -Alô? -Nando.. Pouco tempo depois fui abordado pelo Levy: -Nando. -Você ficou sabendo da nova campanha? -Que nova campanha? -Os melhores operadores vão ganhar uma viagem para Bonito.. Por via das dúvidas. gravei a saudação e dei Op Auto. Pedi um momento para o Levy fazendo sinal com a mão e finalizei o atendimento. -Agora não posso. imagine sua vida como não deve ser. -Olha sim. -Bom. não vou me iludir.. -Agora eu entendo o por quê ele tem aquele patrimônio.. Eu não queria encontra-lo tão cedo.

... -Coloca seu nome ai na lista. -Ai. vai me ouvir sim. tudo me preocupa.. que chamego. -Nossa.. -Eu não tenho nada pra ouvir de você. -Oi gata. -É que. mas não inclua o Levy nas suas armações. amigo.... -Vindo de você. Ellen: não vou permitir que você brinque com o sentimento do meu amigo... -Não. -Guarde bem o quê vou te dizer. Você está machucando meu braço. ta afim? -Eu. Minha vontade era joga-la da janela do décimo primeiro andar. -Cuide da sua vida que da minha cuido eu. -Você não vai embora. depois vai ter um churrasco.. -Se você me desse uma chance.. Quase engasguei quando ela me cumprimentou com a maior cara de pau. fiquei muito feliz por você.. -O quê? -Pois é.. -Pouco me importa o quê você faz da sua vida. eu e a Ellen estamos ficando. Por livre e espontânea pressão. -É com você mesmo que eu quero falar.... Já falo com você. -Nossa. aproveitei que as máquinas de lanches estavam abastecidas e peguei um suco de maracujá. -Vamos vai cara. coloquei meu nome naquela lista. Que preocupação.. Fernando. -Você parece não ter gostado da idéia. O quê aconteceu entre vocês? -Nem te conto.A e ir até a Ellen.. Fomos até o hall do elevador para ninguém escutar ou nos surpreender conversando.. 96 . vai ter umas menininhas da hora. ela me contou que você foi falar com ela e.. Ellen. Subiu um ódio tão grande dentro de mim que eu tive vontade de levantar da minha P. O quê você tem haver com isso? -Tudo... -Olá.. -Não vou ficar aqui discutindo o quê eu faço da minha vida. Por volta de 22h00 eu tirei a pausa de quinze minutos e fui até a copa refletir um pouco. -Que dia vai ser? -No primeiro final de semana do mês. -O quê foi? -Nada.... Ao dar a primeira golada a Ellen entrou no breack. -Vem comigo. pois eu não resistia quando ele fazia aquela carinha de órfão abandonado. mas se eu fizesse isso iria dar muita bandeira. -Oi Levy. -Que história é essa de você e o Levy estarem ficando? -Humpft... -Pelo contrário.-Estou combinando com a galera de jogar uma pelada no mês que vem.... Levantei da cadeira onde estava sentado e a peguei pelo braço. -Obrigado cara. Tudo pelo Levy.

.. Maldito... 97 . -Humpft.... -Do que você está falando? -Eu não sou burra... -Desculpar? Hahaha. -De mim não. -Mas como você é atrevida. -Vai começar com suas ironias? -Ironia dizer que você está com inveja? -Inveja? -É.. -Ai... Eu vou te fazer sofrer... -Você está com inveja. Meu único defeito é gostar de você. Nessa hora acabei perdendo o controle e dei um tapa em sua cara... Já notei que você sente algo muito maior pelo Levy que uma simples amizade... -Desculpa. Como você é cômica. -Você não presta. -Sem comentários.. A partir daquele dia eu tomei um ódio tão grande da Ellen que sua convivência no mesmo ambiente de trabalho estava se tornando cada dia mais difícil.. -Pra mim isso tem outro nome. mas do Levy. queria estar no meu lugar..... de você? Hahaha.. -Ciúme. Fernando. me arrependendo logo em seguida.. cada dia que passa eu tenho mais repugnância a sua pessoa. Ciúme quem sabe.-Chance o cacete.

. que horas são? -12h00... -Quase boa tarde. e você? -Não muito..Um mês se passou. O Guilherme já havia percebido que eu já não era mais o mesmo e que nosso relacionamento já estava balançado. -Olá querida. Ao chegar na empresa fui ao banheiro lavar o rosto. -Então vamos.. tudo bem? -Tudo.. vai? -Não estou com fome. Guilherme. -Nossa. -O quê aconteceu? -Eu preciso muito desabafar com alguém. -Vamos até o breack? -Não.. A Ellen e o Levy já podiam se titular namorados e meu relacionamento com o Guilherme se tornava insuportável a cada dia. Gui. você está me evitando? -Não é isso... -Oi Nando.. -Podemos nos ver. pelo menos? -Acho que hoje não vai dar. -Fernando. -Mas eu acabei de acordar. -Alô? -Oi amor! -Bom dia. -Quer almoçar comigo? -Quando? -Agora. 98 . não precisa falar mais nada. alguém pode nos ouvir. né? -Por quê.. Rapidinho. -Vamos. vou almoçar sozinho... Vamos descer até o TS? -Será que dá tempo? -Claro que dá. Guilherme. podemos marcar durante a semana. suas crises de ciúme constante estavam destruindo o sentimento que restava por ele. Quando sai do banheiro cruzei com a Shirley que havia acabado de chegar.. pois estava muito calor e eu suava de uma tal maneira que parecia que ia derreter. -Tudo bem.

Encostados no parapeito.. -E essa pessoa que você ama. -Você não pensa em terminar? -Sim.No TS havia um hall com uma sala de fumantes e um terraço enorme que dava acesso à uma vista bem ampla da região.... Oi. -Shirley.. mas não consegui. -Rapaz? -O Guilherme. Poder contar para alguém sobre os meus problemas sem precisar e fingir ser o quê não era...... vou colocar um fim nisso tudo..... mas para que ninguém ficasse constrangido ou percebesse algo resolvi engolir a seco e subir com eles. ele não pode saber jamais que eu o amo.. -Eu gosto do Guilherme. Pelo menos até ontem era. O quê eu vou te contar agora fica só entre nós. -Obrigado. O vento fresco batia em nosso rosto e o cheirinho de chuva tomava conta. não tem problema. Ele não é meu amigo. -Nossa. Pegamos um refrigerante na máquina e fomos beber no terraço.. -Se você não quiser comentar. dando a visão do bairro todo.. bom. Sim. Naquela hora minhas pernas amoleceram. fiquei pensando o tempo inteiro em uma maneira de terminar o namoro com o Guilherme.. comecei a suar e pensei em não entrar no elevador. Não agüentava mais guardar isso só pra mim. sabe disso? -Nem desconfia. Nando? -De boa.. do jeito que está não dá pra continuar.. -Conte comigo para o quê precisar. Seguimos até o hall do elevador e ficamos aguardando um subir. Naquele dia não consegui trabalhar direito.. demos de cara com o Levy e a Ellen.. -Humpft.... -Meu relacionamento não está indo muito bem. Nando.. -Beleza. Ellen. -Vamos... Bom. 99 . -Oi Nando. -Você está muito afoito. vamos subir que já está quase na hora. É... -Então era isso? -Humpft.. precisava dividir com alguém. Mas que tortura. -Mas por quê? -Porque ele é hétero.. Quando a porta se abriu.. -Por quê? -Porque eu amo outro. víamos o metrô passar logo abaixo.. -Sinto que algo ainda te aflige.. -Humpft. -Ah meu Deus.. -O quê tem seu amigo? -Essa é a questão. é meu namorado.. o quê te aflige? -Aquele rapaz.. tentei ama-lo. Demos um forte abraço e naquele momento eu senti um alívio enorme dentro de mim.

.. -Não. tamanho foi o susto que ele levou. -Se você me largar eu pulo.. Segurei o brinquedo na mão e fiquei esperando o Guilherme voltar.. Eu me mato.Na sexta-feira logo pela manhã liguei para o Guilherme e marcamos um encontro para conversar sobre nossa situação. -Você mentiu pra mim. espero que um dia você encontre alguém. -Guilherme... peça tudo que você quiser. mas por insistência dele acabamos indo para seu apartamento. -O quê você quer dizer com isso? -Estou colocando um fim no nosso namoro.. me entenda. -Sinto muito. -Guilherme. -Sem você eu não tenho mais razão pra viver. -Um relacionamento que começa com mentiras não pode dar certo.... não faça isso. -Chega de mentiras. não me abandona. -Achou que eu acreditei que você tivesse 20 e poucos? -Eu. Chorando como uma criança ele correu para a janela.. eu ficaria com remorso pra sempre... -Ia? Quando? -Sim.. abre logo o jogo.. -Pára.. um carro. -Eu não quero ninguém. eu não estou à venda. O desespero tomou conta de mim ao vê-lo subindo no parapeito e gritando que iria se jogar...... 100 .. Se ele se matasse por minha causa... só quero você.. amor. -Com licença.. por favor... -Se você me abandonar eu me mato.. Por volta de 14h fui ao seu encontro. Seus olhos pareciam que iam saltar da face. -Filha?. Eu queria ter ido a um lugar público. eu ia te contar.. mas fiquei com medo que você pudesse não gostar mais de mim. Ao tirar a almofada do sofá reparei que havia uma boneca perdida. -Voltei amor! -Toma..... -Quantos anos você têm? -Tenho... -A casa é sua também. Até quando você pretendia esconder isso de mim? -Amor.. Jamais me perdoaria se fosse o responsável pela morte de alguém.. -Ta bom. por que você escondeu de mim por todo esse tempo que foi casado e tem uma filha? -Quem te contou essa. Eu vi um álbum de fotos de casamento e de família.... -Entre. Fiquei entre e cruz e a espada. Senta ai que eu já venho. Eu não consigo mais viver sem você. Não me deixe.. sua idade. Acho que sua filha esqueceu no sofá. por favor? -Mentiu sobre seu passado.. uma moto.. -Amor. -Humpft. pois assim não teríamos contato corporal.. 32. Logo quando te conheci..

por favor. já passou. -Por favor. não faça isso... não quero te perder. -Outro. na mesma hora retornei a ligação. Vai ser melhor pra nós dois.. seus gritos estavam começando a chamar atenção do prédio e o movimento da rua estava começando a aglomerar....Seus olhos pareciam uma cachoeira... né? -E você acha que eu iria estar acordado há uma hora dessas pra ver desenho animado na TV? -Hahaha. -Pelo visto você quem abriu a estação hoje. -ALô. Cada um seguir sua vida.. mas não era nada de importante. 101 . -Hahaha.. -Bom. -Amor eu te amo tanto. eu ajudei o cara apenas. eu vou pular... Saí de casa com o sol ainda se pondo.. Ao sair do banho. comecei a guardar dentro da mochila de forma que coubesse tudo e não esquecesse nada.. Depois de tudo pronto..... O telefone era da casa do Levy... Com sua mochila nas costas e segurando um porta chuteiras. Eu mal conseguia abrir o olho e só de pensar que a tarde eu teria que ir trabalhar me dava vontade de chorar. Peguei em sua mão e o segurei até descer da grade. Fiquei surpreendido com Guilherme ao ver sua reação infantil.. de bermuda tipo surfista meio caída mostrando parte de sua cueca azul.... Não queria ser o causador da desgraça de ninguém e muito menos carregar a consciência pesada pro resto da vida.... As folhas secas caídas com a chegada do outono. olhei as horas no visor do celular e notei que havia duas chamadas não atendidas. -Está falando sério? -Claro.. -Não exagere. -Volte pra mim. o Jurandir. No sábado acordei antes dás 07h00... morrendo de sono e com uma preguiça enorme fui arrastando a toalha até o banheiro.. -Tudo bem. -Eu não tenho vida sem você. Você me ligou? -Sim. -Eae Nando. Deixei o celular sobre a cama e fui preparar algumas coisas.. Não me deixe. -Você vai. O vento fresco batia em meu rosto e o orvalho da madrugada escorria pelos vidros dos carros estacionados nas ruas.. Desce daí. Cadê o "pessu"? -A Ellen já ligou dizendo que encontra a gente lá. me deixava louco só de olhar...... beleza? -Humpft.. -A gente se encontra mais tarde. Abração. Eu nunca tinha visto o Guilherme naquele estado. Eu continuo com você. Levy? -Oi Nando. Cheguei no metrô e o Levy já estava lá esperando pelo pessoal... formavam um tapete dourado sobre a grama da praça próxima de casa... -Humpft... Desce daí. -Beleza. Se você me deixar. -Entenda. Tudo bem..

Só de saber que a Ellen ia também estragou o meu dia... o placar era 2 x 1 e quando o Roberto ia marcar o gol o tempo acabou. O time de Contas iniciou com a bola. -Olha o Roberto vindo ali. Eu nem sabia o quê fazer com ela. -Tudo bom... ao voltar para a quadra o Levy reuniu o time e pediu a colaboração de todos: -Mano. -Esse troféu já é nosso. Fomos até o vestiário lavar o rosto e beber uma água... Levy. -Beleza. -Eae mano. -Sério? -Uhum. a gente encontra lá... -Bom. -O Marco falou que vai direto.. 102 .. Mal coloquei o pé na quadra e ouvi a voz daquela arrogante da Ellen: -Nossa. como o quê sobrou foi eu e o Contas tem um a menos. ela que vai comprar as carnes para o churrasco... já que sempre detestei futebol e nunca havia jogado antes na vida. -Os times já foram divididos em Help Desk e Contas.. Pensei que vocês não iam chegar mais. -Que bom. -Quem vai tirar o par ou impar? -Vai você.. É o seguinte. gata.. bele? -De boa. para a minha alegria... -Mano. Amor. Oferecida do jeito que ela era... Ta faltando a Daba.. -Humpft.. -Ah. A gente vai precisar virar esse jogo.. A Ellen parecia não ter senso de dignidade se prestando aquele papel estúpido e usando o bobo apaixonado do Levy. Que cena ridícula daqueles dois. -Bele.. No primeiro tempo o Help Desk estava ganhando... esse troféu é nosso.. nosso time perderia de lavada. que caiu no golpe barato daquela cretina. Até parece que eu ia me esforçar jogando embaixo daquele sol para ganhar o troféu e entregar pra Ellen. -Fala Betão. Não sei o quê uma garota ia fazer em um lugar aonde só iriam homens. Nando? -Até agora estava.... A Ellen também vai? -Vai sim. -Já está todo mundo aqui? -Falta o juiz. Vou ganhar esse troféu e dar pra você. -Humpft..-O quê.. né Nando? -É.. Então vamos.. -Fala ai Nando. você vai fazer um gol pra mim? -Claro. -A Daba também vem? -Sim. vou ficar com eles.. Se dependesse de mim. não me surpreenderia se ela quisesse entrar no vestiário junto com os caras.

o Help Desk teria poucas chances de empate. Droga! Se ele batesse e acertasse.. ok? 103 . aquele jogo estava cansativo. Respirei fundo. olhei ao meu redor e vi a quadra aberta. Eu poderia ser odiado pelos meus colegas. -Mas isso aqui era uma brincadeira. com uma vontade enorme de abandonar a quadra.. Não acredito. Faltando dois minutos para terminar o jogo o Levy me passou a bola. Meu braço e antebraço estavam cada um de uma cor. Bom. A cara que a Ellen fez ao ver que o time havia perdido o premio não tinha preço. -Calma Levy. vamos esquecer isso. o Help Desk estava lutando com toda garra para fazer o gol e eu fazendo de tudo para ajuda-los.. permanecendo assim até os minutos finais. No segundo tempo o Contas entrou com tudo.. entregando o prêmio para o Help Desk. Olhei para o gol.... pra nos divertir e não causar desavenças entre nós. Deixa que eu bato.... foi assim que permaneceu até o Jurandir marcar um pênalti no Levy. por ter tomado aquele sol escaldante.. Nando.. Pra mim estava ótimo do jeito que estava. Foi mal. me fazendo tremer ao ser quebrado pelo apito do juiz. Preparado para ouvir gritos. Aquele silêncio era uma tortura. isso foi um jogo. mas a Ellen também não seria titulada de 1ª dama. Roberto. Seria cômico se não fosse trágico.. parecendo um frango de padaria.. pois o Levy havia perdido o pênalti chutando pra fora. -Ele tem razão... respirei fundo. Era a chance que eu tinha de acabar com aquela palhaçada. A Ellen quase ficou nua na arquibancada pulando de alegria e o jogo empatou em 2 x 2. -Puta mano. respirei fundo e fechei meus olhos. O primeiro que desempatasse. -O quê aconteceu com você. -Não tem problemas.. pelo menos a gente nem ganhava nem perdia. -Pé torto.. aguardando o Levy marcar o gol e torcendo para que ele errasse. Tive que me segurar para não demonstrar minha alegria.. Levy? -Ninguém aqui tem que ficar pondo a culpa no outro por ter perdido. marcando um gol logo nos primeiros 5 minutos. o quê escutei foram vaias... Nando. -Desculpa galera. dei três passos para trás e marquei um gol contra. sairia como campeão e o Contas tinha tudo para marcar o primeiro gol e levar o prêmio. o jogo terminaria e o Contas seria o campeão. Que ódio que fiquei naquela hora. -Levy.-É isso ae. que durou pouco ao ouvir que o jogo seria prolongado por mais dez minutos.. Se nosso time fizesse um gol. -Humpft.. Jamais que eu perderia aquela oportunidade única. Contendo o nervosismo. Não acredito. Além de chato. -Desculpa? A gente perdeu o jogo por sua culpa. Fiquei arrasado. -Mano. muita garra. A disputa pelo primeiro ponto começou acirrada. acontece. Pode deixar que eu bato.. -Vamos lá galera.. -Humpft. Seria a morte ver a Ellen ganhando do Levy o nosso troféu. -Relaxa..

-Perae.. Viadinho... tive que me controlar para não fazer uma besteira. -Mas já? -Pois é.. a Ellen olhou pra mim e me chamou pra dançar: -Ai eu adoro essa música. me acabando na sede de consumi-lo desde a primeira vez que o vi. Viadinho. molhada e coberta de espuma. preciso ir. mas também indignado com sua ousadia em me chamar para dançar junto com ela. Depois do banho fomos para o deck participar do churrasco. -Eu não vou tomar banho gelado. Nando? -Bom galera.. Cara de pau.. Deixei minha mochila dentro do armário e segui para o box... Nos vemos mais tarde então...-É isso ae... Saí do clube praticamente flutuando de alegria por não ter ganho o jogo e a Ellen ter ficado com a cara de tacho. Ta gelada.. vou passar em casa ainda pra deixar essas coisas antes de ir trabalhar.... dança comigo. Peguei meu xampu e sabonete.. Acabou falando sozinha. Que vontade de prendelo junto comigo dentro daquele box e lamber aquele corpo todo. sua franja cobrindo sua testa e uma parte do olho. De frente para o meu estava o Levy..... -Falou galera. agora vamos tomar um banho e depois aproveitar o churrasco. Ao vê-lo nu em minha frente quase tive um surto.. Empresta um pouco desse xampu? -Pode pegar. -Pára de viadagem. e o pior de tudo é que o Levy estava no meio agitando... -Ae Nando... pois ignorei sua presença. Aquela pele morena.. começou a tocar forró. -Valeu cara. Vamu lá galera. Naquele momento me senti muito mal. -Falou.. No início fiquei com um pouco de receio em tirar a roupa na frente dos moleques. 104 . -Ui. Ao ligar o rádio. Perdi o fôlego ao vê-lo vindo em minha direção sem roupa. -Caralho. Depois de tudo resolvido fomos para o vestiário tomar banho. -Viadinho. Aquele ato de deboche chamando o Jurandir de "viadinho" soou como algo hiper homofóbico. -Ah.

-De que verdade você está falando? -Eu já estou sabendo que você era afim da Ellen. -Olha Levy. -Nando....... Foi ela que te disse essa bobagem? -É. Levy. -Então cara... -Chega de mentir. Nando.Peguei o metrô e fui dar uma volta pelo centro da cidade antes de ir trabalhar. se eu me calei até hoje foi porque eu gosto muito de você e queria preservar nossa amizade. pelo contrario... Ele abaixou a cabeça... até ele se levantar da cadeira. 105 .. -Do que você está falando? -Da Ellen.. Ao entrar o cumprimentei.. não vou ficar com raiva de você por isso. Eu gosto muito de você cara. fechar a porta e me perguntar o quê estava acontecendo entre eu e a Ellen..... -Realmente ela é muito bonita. Pode falar a verdade.... Você tem que concordar comigo que ela é muito gostosa.. Levy. O quê acontece entre vocês dois? -Não está acontecendo mais nada. -A Ellen me contou que você vem a maltratando desde que começamos a namorar. que já estava no breack tomando café. -Boa tarde.. Pra mim estava tudo bem. Qualquer homem se sentiria atraído pela beleza dela. Eu nunca tive interesse nenhum nela. Eu jamais tive interesse nessa garota. onde comprei vários coisas legais pra colocar no meu quarto... Acabei indo parar em uma feira de artesanato na Liberdade. Chegando na empresa encontrei o Levy.. -Seja sincero.... mas agora chegou em um ponto que não da mais. -Você acha que eu iria trocar nossa amizade pela Ellen? -Mano. -Humpft. Nando? -Inventando? Você não acredita em mim? -Humpft. foi ela que me procurou e disse ser afim de mim. O quê está acontecendo? -Humpft. Como? -Hoje eu percebi o jeito que você tratou a Ellen. -Mesmo assim..... Fernando. -O quê? De onde você tirou essa sandice? -Fica tranqüilo cara. -Por que você está fazendo isso? -Eu evitei te contar. -Isso não é verdade. eu vou entender.. -Por que você está inventando isso... Mas eu te entendo..

. cara. -Olha Levy. Seus olhos ficaram a ponto de saltarem de sua face.. mas.. -Aquele dia que eu fui falar com a Ellen que você estava afim dela. Tudo bem. -Eu não estou acreditando.. mas sim ela que ficou interessada em mim.. -Faz tempo que você chegou? -Humpft... -O. O quê. -Humpft.. -E você? -No início eu contornei a situação. -Talvez. Então me dê um bom motivo pra eu acreditar nisso.. -Oi Nando.. Uns quinze minutos. o primeiro e único amor da minha vida deslizou pelos meus dedos sem que eu pudesse evitar. -Eu acho que posso te ajudar. Bom. -Tudo bom... -Como? -Tocando no assunto.. Meu coração parecia ser uma taça de vidro se estilhaçando ao escorregar da mão.... Shirley? -Sim e você? -Indo. -Humpft. -Eu te conheço...-Eu já falei que não tive. nem tenho nenhum interesse nela.. Um silêncio pairou naquele ambiente.... -Mano... mas sua insistência foi tanta que eu tive que contar a verdade. O quê você disse? -Eu acho que não precisava chegar a esse ponto. -Por que vocês se afastaram? -Não nos afastamos.. se você não quiser mais ser meu amigo por isso tudo bem. -O quê você tem? -Nada não.. -Pois é... Deixei o breack arrasado. -Será que está com fila no atendimento hoje? -Parece estar tranqüilo.. Naquele momento eu senti que havia perdido o Levy pra Ellen.. Desde que o Levy voltou a se logar no décimo terceiro andar você está assim.. lembra que a resposta foi que só rolaria amizade? -Lembro. -Ah é?.. foi naquele dia que ela assumiu ser afim de mim e querer ficar comigo. Você está querendo conversar e não sabe como. afastaram a gente. mas queria deixar claro que o fato de eu ser gay não interfere na pessoa que eu sou. -Eu sou gay. 106 . vou me logar se não me atraso. -Eu preciso pensar. Dois meses se passaram. mas você me obrigou.... Minha amizade com o Levy se tornou restritamente a um cumprimento de saudação e a formalidade ao transferir um cliente para o Help Desk quando ele atendia.. Fernando.

As.-Como assim? -Intrigas da Ellen. Ela contar ao Levy que eu o amo..A? -Ainda não. -Nossa. -É o Levy aquele garoto que você curtia e não poderia falar o nome? -Como você sabe? -Eu não sei.... eu tive que contar pra ela sair do meu pé. me responda esse e-mail o mais breve possível... enfrente-os. -Deixa eu ver. -Pois é. Fomos até a Ala C onde encontramos duas P.. -Posso te fazer uma pergunta indiscreta? -Pode.. Tenho medo. uma ao lado da outra. -Esse é o meu medo... -Fique calmo. -Será que a Ellen contou alguma coisa? -Como assim.. ainda faltam quinze minutos pra logar. Já encontrou P. -Eu me referia a outra coisa... podemos marcar de se encontrar ainda hoje? Se você concordar.... Abraços Ass: Levy” -Shirley! -Diga? -Recebi um e-mail do Levy.. se não contei até hoje.. Limpei minha caixa daquelas propagandas que não prestavam pra nada. -Sério?.. -Não fuja dos seus problemas. me despertando atenção ao e-mail do Levy que acabara de chegar: "Blz Nando? Preciso falar com você.. -Gay? Sabe. Acho que ele quer conversar com você. contou?.. -Por favor. Ela sabe que você é.. apenas desconfiei aquele dia que cruzamos com ele e a Ellen no elevador. e os que restavam marquei como não lidos... 107 .. Sentamos nas cadeiras e começamos a abrir os programas antes de logar. -Não sei.. E o quê ele fala? -Lê aí.. -Obrigado.. -Imagina... Não quero que ele fique com raiva de mim.. -Vamos procurar juntos? -Sim. Enquanto ficava aguardando o tempo pra logar fui verificar meus e-mails.. -Mas eu dei tanto na cara assim? -Reparei em seus olhos que te denunciaram.. não fale pra ninguém. tomando cuidado para nenhum supervisor me ver acessando a internet...... Responde ao e-mail dele aceitando conversar.. -Segredinho nosso....

-Tudo bem... em momento nenhum se importou se você estava curtindo ou não... Daqui a pouco estou descendo. -Desculpa. No silêncio da noite cruzei a porta de vidro fui surpreendido pelo Levy. -Nossa. -Outros... vou mandar um e-mail pra ele... -Até que enfim.. -Humpft... Alô? -Oi meu amor. -Mas vocês não tinham se entendido? -Eu desisti de terminar o namoro. mas não consegui voltar a gostar dele. -Beijão meu gato. Eu vou descendo antes que ele ligue outra vez. -Nando. -Tudo bem. Desliguei o telefone puto da vida. estou aqui na porta te esperando... Gui? -Melhor agora... -Por que não termina? -Tenho medo que ele cometa alguma besteira.. Mais um dia de trabalho chega ao fim. Você não deslogou ainda? -Já. -E.. -Não sinto mais nada pelo Guilherme.. -Já deslogou? -Sim.. -Tem algum celular tocando.... -Beijos... É que estou esperando o e-mail do Levy... -Oh... -Você acha que eu deveria terminar com ele? -Não quero te influenciar a nada. -Ele ainda não respondeu? -Não... -O quê foi? -O Guilherme ligou dizendo que está me esperando lá embaixo. Que susto. -Outro. eu vou esperar mais um pouco pra dar o horário da van. -Isso aí. -Eu precisava falar com você.. -Ta bom.. Faça o quê seu coração mandar..? -Não estava afim de encontra-lo hoje. que me esperava para conversar. -É o meu. que barra. Mandei a resposta para o Levy e fiquei aguardando seu contato que até o final do expediente não tinha dado sinal..-Humpft.. Você tem razão.. -Humpft. -Será que ele está pensando em você? -Por quê? -Até agora ele só quis saber dele. -Mas precisa ser agora? 108 .. Desci até o térreo..

tamanha era a tentação ali provocada.. Ainda abraçados ele falou ao meu ouvido: -Você é muito importante pra mim... Meu coração palpitava parecendo que ia saltar pela boca. -Problema é seu. -Não grite comigo. mas fui interrompido pelo Guilherme que buzinou para chamar atenção e avisar que estava ali.. -Do que você está falando? -Eu não quero mais namorar você. A quase 100 Km/h ele corria pela Marginal Tietê como um louco.. -Ah. Eu te amo. pode ter certeza. -Você outra vez com esse garoto? -Já vai começar? -Começar? Você acha que eu sou idiota? -Eu não quero brigar com você. -Foda-se.. suma da minha vida.. Levy. totalmente descontrolado e cortando os carros de maneira altamente arriscada.. Seu coração está batendo tão rápido. -Você não pode fazer isso comigo.. -Eu não vou deixar você me zoar. Tirei o celular da mochila e ameacei chamar ajuda. Se você quiser se matar que seja longe de mim... Não saia da minha vida. -Parece que você faz de propósito. Faz assim. amigo. -Se você não parar esse carro eu vou chamar a polícia. Agora. Demos um aperto de mão e ele me puxou pra junto de si. Você vai bater. -Mas o tempo está quente. -Mentira. -Guilherme.-Você está com pressa? -É que o Guilherme está me esperando.. -Preciso ir. -Você foi matando aos poucos o sentimento que eu tinha por você. Quando entrei no carro percebi que o Guilherme não havia gostado da cena que presenciou do outro lado da rua. -Quer dizer quê... Encostado em seu ombro eu sentia seu cheiro. -Se você me largar eu me mato... -Devo estar com febre. -Jamais sairei se você não quiser. -Te cuida.. que reforçava sua masculinidade.... pare o carro que eu quero descer....... -Você também. cara. -Mas eu não gosto mais de você. Pare o carro. Não caio mais nas suas chantagens. -Chega... eu te ligo amanhã então.. -Quero dizer que nosso namoro chegou ao fim. 109 ... -Nossa. Estava a ponto de fazer uma besteira. Esqueça que eu existo. -Beleza. -É que estou com frio. me dando um forte abraço.. por favor.... perfume amadeirado seco..

.. ele me deu um tapa na mão que fez o celular voar longe. Pessoas caminhando pelas calçadas na madrugada tranqüila. enquanto eu temia pela minha vida. ele estava irreconhecível. Fiquei inconsciente por um tempo. com o Levy? Olhando pelo retrovisor vi que o led estava piscando.. -Cala essa boca. Nunca havia sido tão humilhado em toda minha vida. se o Levy conseguisse entender.. -Já estamos na Marginal Pinheiros. depois era só torcer para alguém me ajudar. eu não tinha como me defender nem pedir ajuda. Guilherme. Um soco no olho me fez ver estrelas. Com a pancada do tapa. eu vou começar a gritar por socorro. Com os olhos fechados eu rezava para que o Levy estivesse ouvindo tudo e entendesse que eu precisava de sua ajuda. mas nem tudo estava perdido. Levei um tapa na cara que chegou a cortar meu lábio. sangrando imediatamente. caso contrário eu estaria perdido. mas não vou sozinho.. Olhei pelo retrovisor e vi meu celular aberto. mas quando consegui falar voltei a dar pistas de onde estávamos. -Se você não parar esse carro. Socorro. Alguém me ajuda. totalmente irado. O impacto foi tão forte que me deixou um pouco tonto. -E alguém vai te ouvir? -Não sei... -Guilherme... pare esse carro... Se você não for meu não será de mais ninguém.. A dor foi tanta que nem consegui gritar. sem você na minha vida eu morro.. já que o flip estava aberto era só eu chamar pelo nome de alguém para ele fazer uma discagem por voz. Com os vidros e portas travados... ao mesmo tempo uma lágrima escorreu no canto do meu olho. o flip acabou se abrindo. O mundo lá fora parecia o paraíso perto do inferno que eu estava vivendo dentro daquele carro. Passando pela USP. era só começar a dar pistas da localização onde estávamos.. Nunca tinha visto o Guilherme daquele jeito. -Guilherme. -Vá mais devagar. -Me deixe ir. Meu objetivo havia se concretizado. Pra onde estamos indo? -Não interessa. um carro importado. -Respeito com quem. -Cala essa boca. vergonha. -Nem pensar. só ouvia o Guilherme dizer barbaridades a meu respeito. 110 .. Encostei a cabeça no vidro e comecei a chorar de medo. -Mais respeito... Já sem ter o quê falar eu me calei. -Parar? Eu vou pará-lo na pilastra do viaduto.. Aquelas alturas eu já havia perdido as esperanças.. caindo no banco de trás do carro.Num ato estúpido. dor. -Foda-se. por favor... -O quê você tem contra a minha amizade com o LEVY? -Amizade? Ele só faltou te comer ali na porta... preto e todo filmado correndo a essa velocidade pode chamar atenção. Guilherme. poderia me ajudar. sinal de que estava com uma chamada em curso. por favor. -Seu maldito..

Você tirou uma vida. -Você não tem sentimento.. mas mal sabia que o pior ainda estava pra acontecer. pelo estado em que eu me encontrava.. Saindo da Marginal o carro quase capotou em uma curva fechada que o Guilherme fez. -Nem fodendo. solicitando que o Guilherme parasse. -Hahaha.. Nessa hora ele acelerou ainda mais o carro.. acelerou ainda mais.. Atrás de nós vinha o carro da polícia correndo na mesma intensidade com a sirene ligada. Ver aquela imagem de um corpo rolar por cima do carro e cair pelo asfalto como um boneco. um morador de rua com um enorme saco nas costas atravessava na faixa... na velocidade em que vínhamos não houve tempo hábil de parar o carro e o Guilherme ao invés de desviar.. Por que você não desviou? -Ninguém mandou cruzar o meu caminho. A pancada foi tão forte que rachou uma parte do pára-brisa e afundou o teto. Comecei a chorar sem parar de alívio e alegria. -Sou capaz de coisas piores. eu tenho à minha. O barulho que fez era semelhante à explosão de uma bomba de pequeno porte. Cuidado comigo. Vai sonhando.. O velocímetro marcava 160 Km/h. não saia da minha cabeça. -Essa porra de carro não vai parar de seguir a gente? Olhando à frente... -Não me culpe pelos seus delitos... -Não acredito. -Que horror. -Estão pedindo pra parar. Um mendigo a menos pra ocupar as nossas calçadas. Pelo amor de Deus. -Buzina pra ela sair da frente. -E você acha que alguém vai sentir falta daquela indigente? Eu fiz um favor pra essa cidade. -Inferno. avistei no cruzamento com a Avenida Paulista que quatro viaturas da policia já nos esperavam e mais duas viaturas vinham atrás... Meu Deus. -Maldição. pare esse carro. Eu vi minha vida passar diante dos meus olhos. Essa sua vocação de bom samaritano me irrita. passando por cima de canteiros e semáforos vermelhos. -Eu tinha até você mata-lo... -Guilherme.Uma esperança nasceu ao ver o carro da polícia atrás do nosso.. Assim que o Guilherme saiu do carro eu destravei o cinto de 111 . Subindo pela Faria Lima à toda velocidade... Calado. -Guilherme. Quando passávamos pelo cruzamento da Rebouças com a Avenida Brasil.. ele atropelou a mulher. -Se você não tem amor à sua vida.... Respirei aliviado achando que estaria salvo.. Seu corpo rolou por cima do capo do carro até cair no asfalto... -Eu não sabia que você era capaz desse tipo de coisa. Quando ouvi o barulho das portas sendo destravadas eu amoleci... -"Não acredito". Desesperado era pouco. ilhando o carro onde estávamos e obrigando o Guilherme a parar. Foi uma cena horrível.. Cuidado. -“Desligue o veículo e saia com as mãos para o alto”...

-Você quer ir até o hospital? -Não precisa. coloquei a conversa em conferência e assim eles foram monitorando o percurso com as dicas que você dava. Onde é que eu estou? -Aqui é a Rua da Consolação.. reconheci a voz do Levy na mesma hora. Fiquei muito feliz ao saber que o Levy estava preocupado comigo e me procurando naquela madrugada pela cidade. -Cara.. Quase morri de preocupação. Na hora em que eu fechei o flip do celular para desligar.. Fiquei ouvindo um som ambiente e quando percebi que algo de errado estava acontecendo chamei a polícia.. -Só um instante.. foi apenas um susto. emocionalmente abalado eu ainda chorava.. Tocando em sua mão.. Quase não conseguia parar em pé. -Alô? -Nando?.. Em seguida. -Levy. -Güenta aí que estou chegando.. ver seus olhos metralharem todos que ali estavam. de nunca mais te ver. Pouco tempo depois avistei o Levy saindo de um carro e correndo em minha direção. -Como não sabe? -Não sei onde estou. desci do carro e respirei fundo. aqui é a Rua da Consolação... -Você está bem? Eu tremia demais. ali fiquei até uma policial se aproximar de mim. Desliguei o telefone e dei um leve suspiro de alívio.. estou te procurando pela Marginal Pinheiros... -Oi Levy. 112 . -Entendo.. -Mano. eu me sentei na guia da calçada e coloquei as mãos no rosto... -Tive medo de morrer.. -Delegacia? -Isso. Você precisa nos acompanhar até a delegacia. -Tive medo. Na mesma hora eu levantei e abri os braços para receber aquele abraço caloroso que só ele sabia dar. eu estou bem. ele começou a tocar.segurança e peguei meu celular no banco de trás. -Eu sei. Onde você está? -Não sei. Antes eu posso ligar para um amigo? -Claro. Eu tremia de nervoso. Ao atender.. a policia está aqui comigo.. -Humpft. Algemado.. Caí de joelhos no chão e comecei a agradecer a Deus por ter me salvado... -Eu preciso te ver e ter a certeza de que está bem. principalmente eu. -Quando eu vi que você havia me ligado eu achei muito estranho você não responder... o Guilherme me olhava de dentro do carro da polícia.. Levy.. -Tudo bem. já está tudo bem..

você salvou minha vida um dia. -Mas o seu pai. fiquei te devendo essa.. No caminho mandei um torpedo no celular da minha mãe para avisar que dormiria fora. Muito obrigado. -Ele vai querer sim.. Está ventando.... como um bom amigo que sempre foi. Abraçado comigo. -Aqui estão seus documentos. -Tudo bem então. Jamais pensei que fosse passar por um episódio como aquele na vida. Deitei minha cabeça em seu ombro e assim permaneci até a policial nos interromper. -Então venha dormir na minha. -Obrigado. -Obrigado! -Podem entrar naquela viatura. -Valeu. -Você vai querer registrar queixa? -Eu.. -Caramba. estou sozinho. -Eu. precisamos que você nos acompanhe até a delegacia..... me vi a um passo da morte. -Fernando Viana. -Fernando. e testemunhei contra ele referente ao atropelamento da moradora de rua.... o Levy foi o caminho inteiro me confortando e apoiando em tudo.. -O meu pai e minha madrasta graças a Deus estão viajando. -Humpft. Deixei à delegacia angustiado. -Vista a minha jaqueta. por isso saí te procurando pela madrugada à fora. na beira de um abismo sem fim. Registrei queixa contra o Guilherme no distrito policial com o apoio do Levy.-Você era o único número que estava configurado para fazer discagem por voz..... Tudo bem. -Qual carro? -O do meu pai. -Vamos pegar o carro. Já era quase 04h00 da manhã e eu nem tinha feito o corpo de delito ainda. -Não tem problema. -Eu vou com você. -Sério? -Claro. prestes a ser empurrado e despencar a qualquer momento. -Você quer ir pra casa ou ir ao IML fazer corpo de delito? -Se eu chegar assim em casa meus pais vão desconfiar.. com certeza ela já deveria ter ligado várias vezes no meu celular preocupada comigo e eu não atendi... Nando. -Chegamos! 113 .. -Mas e você? -Eu não estou com frio.. Ele viajou e não levou. Demos um forte abraço. pode vesti-la... -Não precisa agradecer.. Você está sem blusa.

-Está com fome? -Um pouco. Pouco tempo depois eu adormeci. vamos ter que dividir a cama que eu durmo.. Por mim.. Tudo bem. só preciso de uma roupa emprestada pra dormir. -Nando.... -Não precisa. -Aproveitando que estamos aqui... -Eu durmo nessa ponta e você nessa outra. -Tudo bem. -Levy........ -É verdade.... -Nando.. Adorei a idéia. Pode falar. A preocupação que o Levy tinha comigo ia além de amizade.. -Ah. Um companheirismo de irmão.. eu não estou com fome. -Me solta.... você quer tomar um banho antes de dormir? -Estou bem assim.. -Ok.. sentei na cama de sua irmã e fiquei observando ele vasculhar sua gaveta. eu queria falar com você. Enquanto isso o Levy foi até seu quarto arrumar a cama para dormirmos.. Enquanto ele pegava uma roupa para me emprestar.. acabei acordando no meio da noite assustado.... -Nando. -Deixa pra lá. Puxei o cobertor e me cobri até o pescoço. vê-lo ali de cueca na minha frente e eu nu. -Pronto... -Ninguém vai te pegar... um carinho muito especial. Você está bem? -Tranqüilo. eu estou aqui pra te proteger. enquanto ele desligava o carro. boca com boca. amanhã a gente conversa. Segui até a sala.. Pegae.... Quer que eu feche o olho? -Não precisa.. -Não sei se tem algo pra comer aqui. -Vamos dormir? -Vamos. pele com pele. Fiquei imaginando nossos corpos colados.. onde me sentei no sofá. Entramos pela porta da cozinha. Traumatizado com o episódio daquele dia.. Na verdade o Levy dormia em um colchão que ficava estendido no chão entre a parede e a cama da sua irmã. -Vou pegar pra você. Não deixe ele me pegar. Deitamos em sua "cama". vou preparar algo pra você comer. -Onde fica o banheiro? -Hahaha. -Achei. -Você quem sabe. Troquei de roupa em sua frente mesmo. também assustando o Levy com um grito. Você está cansado e precisa descansar. Você havia falado que estava com fome. Depois fechei o portão. Que tentação.Desci do carro e abri o portão para o Levy guardá-lo na garagem. Acorda... 114 . -Ei.. meu sonho de consumo.

-Estou com medo. deixa que depois eu arrumo isso.. -Valeu. -Eu preciso esclarecer. Enquanto isso eu arrumo aqui o quarto. Se eu soubesse antes que amar fosse tão bom.. Com minha cabeça apoiada em seu peito e segurando sua mão eu adormeci. -Hum. Parecia que eu estava vivendo um sonho. pois é visível que você nem dormiu... -Eu também. -Não precisa ter medo. Eu jamais havia sentido essa sensação antes. -Qualquer coisa... -Nossa. Deixa eu tirar essa roupa então. -Hahaha.. já teria me permitido amar alguém há muito tempo.. onde o Levy preparava o café.. -Humpft... Fiquei aqui cuidando de você... Nem vou perguntar se eu te acordei. -Bom dia. -Eu já estou indo lá. -Ok.. -O quê foi? -Pelo cheiro bom do café. -Outra vez essa garota? -Calma cara. -Vou preparar algo pra comer. -Pare com isso.. eu não quero brigar com você. Preocupado comigo. -Bom dia. -Sabe Nando. Seus olhos estavam pequenos e cheios de oleira.... -Calma cara.. amigo. quero fazer intriga.... Você ouviu ela dizer novamente que eu não presto. -Calma.... -Humpft. 115 . no qual eu queria nunca acordar. -Nada disso. -Aquilo que você me disse sobre a Ellen. -Então pare de falar na Ellen. acabamos brigando? -Mas Nando... Recebi um abraço bem forte.. -Quer ajuda? -Não precisa. confie em mim.. ali tem biscoito e pão. -Calma? Você não percebeu ainda que quando está tudo bem entre nós e a Ellen aparece.. estou lá na cozinha... Assim que troquei de roupa. sua mão tocou a minha fazendo um suave carinho. -Tudo bem... você sabe cozinhar perfeitamente. -Obrigado. Você prefere café puro ou com leite? -Com leite. Pode sentar ai. Dormi no céu e acordei no paraíso.. fui até a cozinha. o Levy mal dormiu direito. te acordei? -Não. dei em cima dela.. -Ta bom. hahaha.

-Por que isso? -Desculpa. -Eu descobri que ela não vale nada. com aquele jeito de menino meio maloqueiro. -Humpft. Levy. ele não se movia... -Não. Explorei canto a canto de sua boca com a minha língua. -Não sei o quê deu em mim..... Toquei levemente em suas mãos. O quê estamos fazendo? -O quê deveríamos ter feito há muito tempo.. -Esse papo que você me ama. -Errado? -Imagina.. Saí de sua casa triste.. eu me aproveitava da situação discretamente. cara. Eu não deveria ter feito isso. O quê está acontecendo comigo?.. Com os braços soltos e olhos fechados. -Não tenho do que desculpar. aquela mentirosa... Toquei algumas vezes no assunto e cada dia ela falava uma coisa.. -Não estou entendendo. -Desde quando isso? -Desde a primeira vez que te vi... Ele se levantou da cadeira e me deu um forte abraço. Apenas de short e sem camisa. Não sei o quê dizer. -Mano..-Depois daquilo que você me falou eu comecei a prestar mais atenção nela.. mas também triste por ter a certeza de que havia perdido a confiança e a amizade do Levy para sempre. A tentação era muita ao sentir sua pele encostada à minha. até que uma hora eu não resisti.. Pouco a pouco nossas bocas foram encostando uma na outra até que começamos a nos beijar. -Até que descobriu tarde demais. é verdade? -Humpft. Desculpa.. deslizando pela sua pele morena e lisa.. -Peço desculpa pra você..... As mãos percorriam suas costas nuas.. estou confuso. -Humpft...... intercalando com leves mordidas eu disse: -Te amo.. -Mano.. lamentando pelo que havia acontecido.. Pare. mas ao mesmo tempo arrumadinho e carinhoso. -Humpft.. Está me enganando. mas ao mesmo tempo feliz por ter realizado meu sonho de tocar em seus lábios ao menos uma vez na vida. -Mano. Isso está errado. ele não esboçou nenhuma reação... Ele sentou na cadeira e cobriu seu rosto com suas mãos.. -Eu não posso. Minha felicidade era tanta que não conseguia sentir minhas pernas.. mas correspondeu o beijo que eu lhe dei... Imóvel. Melhor ir embora. subindo-as pouco a pouco até rolar um abraço..... Eu fui culpado. -Você acha que eu mentiria? -Claro que não. Sim... cara..... Te amo. Meu coração quase saiu pela orelha ao beijar o grande amor da minha vida. -Entrou em contradição... Sussurrando em seu ouvido.... 116 .. Estou muito confuso. arrependido começou a chorar.. por acreditar em você que eu cheguei a esse ponto. Eu beijando homem.

-Habiba.. Mas a Ellen parece estar ótima. Fiquei com a dúvida martelando minha cabeça. depois daquele episódio. amanhã nossa operação vai passar para o site do Centro. -Como ele está? -Não tenho visto ele. -Aconteceu alguma coisa? -Sim.. 117 .. o quê me deixou triste. -Hahaha.. -Filhos. -Boa tarde... depois que quero falar com você. Shirley....A? -Nem fomos procurar. Habiba.. Obrigada habibinhos. -Já encontraram P. Põe pausa extra linha e vem até a minha mesa. -Não era nada de importante. O caminho inteiro eu fui pensando se havia feito a coisa certa.. Vejam o pop up na intranet com os avisos referente as roupas que vocês não poderão usar no prédio.. como eu já suspeitava. peçam um momento para o cliente. Depois daquele dia. só ia perguntar se você estava sabendo que o Levy e a Ellen terminaram. mas de uma coisa eu tinha certeza. -Então fala logo.. -Oi Nando. porém..... nossa amizade nunca mais seria a mesma.. Talvez eu estivesse sendo um pouco egoísta por ter ficado feliz ao receber aquela noticia. não temos segredo. -Pode falar. por favor. porque o mais importante era sua presença ao meu lado O tempo passou como num piscar de olhos. Shirley. -Tem isso também? -Sim.... Já faz um tempinho.. -Queridos. pois ter o Levy como amigo era melhor do que não tê-lo. Gente. -A Juliane também é minha amiga......Fui direto pra minha casa. -É certeza? -Sim. -É que... -Sério? -É. ter a Ellen longe da vida de qualquer um é fazer o bem a humanidade... eu e o Levy pouco nos falamos ao nos encontrar.. -Nando. -To indo. -Nando preciso falar com você. Oi Ju.

logo em seguida a Habiba entrou no breack. Fomos interrompidos por um trovão. Seguimos até o breack. -Ok. Pra qual endereço você enviou? -Para: nando_fe.... durou cerca de uma hora e depois passou.. -Humpft. -Vai logo então. Parabéns habibo. -Me encontre as 23h30 no TS.. Voltei pra operação e comecei a atender. Eu não teria motivos pra isso. Habiba. Um pouco assustado. além de ter ganho uma premiação por bom desempenho. te mandei vários e-mails e você não me respondeu nenhum.. -Nossa. -Nando. Depois a gente se fala. O quê aconteceu? -Estranho. antes que eu mude de idéia.. -Oi Habibo.. Que susto cara.. -Mas Levy.. Já fechei sua avaliação desse mês. -Cheguei.. Estava sumido.. Eu posso dar uma palavra com o Fernando? -Deixa eu ver se está com fila no atendimento.. Quer me encontrar depois do trabalho. -Valeu Vivian.... apenas segui com ele para o breack que ao entrarmos foi logo fechando a porta... -To indo.. coloquei pausa extra linha e fui até a mesa da Vivian ver o quê ela queria. pensei que você não queria mais falar comigo.. Em compensação. -Eu monitorei três ligações suas. Problemas.. Estou muito orgulhosa de você.. Um sorriso estampava meu rosto. a chuva lá fora não dava uma trégua. -É dois palito.. Levy. -Nossa!...Pendurei o read no canto da P. Você foi muito atencioso com o cliente. -Nossa. -Imagina. fez o procedimento corretamente. -Olha que chuva? -Habibo. Ganhei um beijo e um abraço da minha supervisora... Habiba.. querido? -O Levy veio me procurar. -Pra mim? -É. Habiba. -Habibinho.. volta pra operação que deu fila. -Shirley.... Foi uma fila passageira..... registrou no sistema.. é muito importante.. -Fala.. assim permaneceu até que avistei o Levy parado na nossa frente. -Sério? -É. só fazia aumentar. -E qual foi minha nota? -Deixa eu ver.... -Mas faz tempo que eu desativei essa conta. eu não estava entendendo nada..A.... -Pare com isso. -Oi Habiba. O quê será que ele quer? 118 . cem. -Nando.

No que ele levantou a mão para ela. 119 .... -Ah. -Você não presta.. você é um chato.. -Bom... -Olha Ellen.. -Então quer dizer que eu sou chato........ Não deve ser nada grave.. vou encontrar o Levy no TS.. -Eu só fiz isso pra te provocar.. Pelo menos era o que eu achava. As horas pareciam não passar. Olha que chuva está lá fora. impedindo que cometesse uma besteira. Ou você achou que fosse fácil pra mim. querido.. -To ficando preocupada e curiosa. -Pois é.. -Nossa. entrei na frente deles. Ellen. rasteja pelo trilho.. Quer saber. Eu já sabia que você não valia nada.... -Por favor. -Mais um dia de trabalho superado. Foi por amor. -Levy. Nessa hora o Levy apareceu no TS. idiota.. -Vou descendo. -Pra você também... -Humpft.. -Ama? Fazendo eu sofrer como você fez? -Eu? -É. Ta indo pro metrô? -Agora não. -Maldita... -Cala essa boca. Levy? Te usei mesmo. -Humpft. -Então você também ouviu que ele sempre gostou de você. O metrô com essa chuva não anda. se continuar chovendo assim eu vou de van até o metrô. Levy. Te beijando... -Minha sorte é que vou de van até em casa. não sei como agüentei ficar com você todo esse tempo. até que enfim.. ver o Levy te abraçando.. -Deixe de ser cretina.-Não sei.. O mundo desabava em águas lá fora e meus pensamentos se concentravam no assunto que o Levy queria comigo.... -"Amor" a puta que pariu.. Não vire a cara pra mim. -E você acha que pra mim foi fácil? Agüentar aquele chato o tempo inteiro.. -Humpft. Eu amo você. ouvi muito bem a hora que você falou que sempre amou o Fernando.... causando espanto em mim e principalmente na Ellen. -Levy?. não precisa ficar assim. Desci até o TS onde não havia ninguém. não faça isso. até a Ellen aparecer: -Nando.. já que não deixa de ser falsa. Não entendo o por quê você ainda insiste em falar comigo. -Porque eu te amo.. Ficamos conversando até dar o horário de ir embora. Eu também estou. Nando. -Beijinhos.. -Nem me lembre.. disse que me mandou vários e-mails. E vai lotado... -Amor... Mesmo assim dói ouvir isso de você. É verdade. Shirley. -É verdade.. Não amor.....

-Eu não deveria ter feito isso. Levy. ainda bem que você chegou..... -Não vai não. -Não fale assim comigo.. -Você não teve culpa de nada.... -Eu vou embora porque eu quero. você já causou encrenca demais aqui. o Levy chorava deitado no ombro da Shirley.. -Vocês dois nunca me enganaram. sua vagabunda. -Hahaha. se acalme..-O quê você vai fazer.... pra minha sorte a Shirley apareceu. -Já sentiu seu coação acelerado pelo menos 1 vez ao vê-lo? 120 . Segura-lo estava quase impossível. -Até que enfim ela foi embora. se alguém pegasse vocês naquele clima aqui... O Levy se debatia querendo enfiar a mão na cara dela. só para confirmar o quê ele já sabia. -Eu não esperava isso de você. -O quê você quer dizer com isso.. -Eu não acredito. Levy.. -O quê? -Desculpa. Ellen..... e não porque vocês estão pedindo. -Nando.. -Tive sim. -Shirley. me bater? -Calma Levy.. -Será que é só da amizade? -Como assim? -Você sente falta dele quando está sozinho? -Muita. -Do que você está falando? -Pensa que sou idiota? Você e o Levy são amantes. Enquanto eu caminhava na chuva.. Eu achei que vocês dois estando sozinhos.. -E agora. O ambiente se tornou desagradável. Presenciar toda aquela baixaria me fez mal. -Eu preciso da amizade dele. A Ellen estava passando dos limites. -Humpft.. Ellen. -Mas o quê está acontecendo aqui? Eu ouvi os gritos do elevador. Eu marquei com você e com a Ellen aqui. -Sai daqui. Decepcionado com a atitude do Levy em forjar um encontro meu com a safada da Ellen. Saí correndo do TS e desci até o térreo pela escada de serviço.. minha querida? -Que já está na hora de você cair fora antes que acabe se dando mal. -Sente vontade de falar com ele todo dia? -Uhum.. não vale a pena.. O Nando vai ficar com ódio de mim. Shirley. -Conseguiu o que você queria? -Calma Fernando. Logo vai passar.. -Que sorte vocês tiveram. -Levy. além de corrermos o risco até de sermos demitidos se algum dos seguranças nos pegassem armando aquele circo. -Ria enquanto pode...

Sem medo de ser feliz permanecemos ali.... -Humpft. cor. mas isso que está sentindo se chama paixão. -Não diga nada.... Tocar sua pele morena e sentir sua mão tocar a minha. -Mas.. a passos lentos ele falava: -Nando... -O quê? -Humpft..-Já. não quero mais ouvir suas histórias de que você ama a Ellen.. -Corra atrás dele.. Aos poucos ele ia se aproximando de mim. Você também me ama... Praticar a maldade é pecado... -Então vá e sejam felizes! -Obrigado! -Boa sorte! Molhado até a alma. Virei ao ouvir alguém chamar pelo meu nome.. Demos um forte abraço e começamos a nos beijar ali mesmo na rua.. Fiz aquilo por amor.. -Não é da amizade dele que você precisa. -Então cala a boca e me beija logo. ainda dá tempo. Era o Levy que corria em minha direção todo molhado. Eu acho que você tem razão.. faça o quê seu coração pedir. Quero te pedir desculpas. -Psiu. 121 .. -Chega.. -Então. Você quer namorar comigo? -É tudo que eu sempre quis na vida.. Shirley. você está apaixonado pelo Fernando.... O amor não distingue sexo. Não reprima seu amor com medo de opiniões da sociedade. Sua franja molhada cobria seus olhos e escondiam as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. -Nando. recuperando o tempo perdido.. -Humpft.. -Esqueça a Ellen. Fiquei estatuo naquele momento. -Quantas pessoas por ai sentem a mesma coisa que você está sentindo agora.. continue me beijando. -Desde a primeira vez que te vi. -Do que você está falando? -Você pode não ter percebido. Estou falando de nós. achando errado? -E não é? -Você acha que amar alguém é errado? -Mas dizem que é pecado. não tenha medo de ser feliz. Levy.. naquele momento eu fui feliz. Meu coração estava esmagado. -Você está louca? -Querido. Os carros passavam por nós espirrando a água empoçada da rua. eu caminhava chorando pela rua sem destino. esfacelado por um amor impossível que acabara de me decepcionar.... Não consigo mais viver sem você. Não fale mais nada. mas nada era capaz de atrapalhar aquele momento tão sonhado da minha vida.. mas reprime esse sentimento se culpando..... -Nossa. Como eu sonhei com esse momento. Nando.... -Sabe.. misturadas à água da chuva. -Nenhuma forma de amar é pecado. matando a sede e a vontade de ficarmos juntos.

O prédio não era muito bem conservado e "Hotel" era na verdade uma camuflagem de nome. com cama de casal. -Você está tossindo.. O quarto oito. o Levy quis provocar ainda mais. O lugar não era muito agradável.. -Caramba.. Essa espelunca não passa de um motel disfarçado.. Estranho demais esse hotel... Olhei para o Levy assustado.. -Por favor.. amor. -Cof.. -Sim... Pegamos a chave do quarto 08.. -Nossa. -Estou brindando. -Aqui está a chave. ele me abraçou para aquecer meu corpo com o calor do seu. -Período de três horas? -Não. Não tem mais metrô nem ônibus..-Cof. Nando. Entramos no hotel encharcados. -Aqui. quarto número 08. cof. você me conhece. -Um quarto? Percebendo seu espanto. -Vem.. Então você me traz para um motel.. Na recepção não havia ninguém para atender. -Isso não é um hotel.. -Mas no letreiro. Precisamos procurar um lugar pra ficar... -Ah claro. cof.. eu queria um quarto. Caminhando embaixo da garoa. -Pra onde vamos? -Não sei... -Olha como você está molhado.. -O quê foi? -Já é quase 01h00. apenas um rádio de pilha tocando Zezé de Camargo e Luciano. 122 ... -Você sabe que isso não é verdade. Eeeeeeeeei. -Cof... Vem comigo. -Não é nada. Ela olhou pra nossa cara com os óculos meio caídos. Subimos por uma escada de mármore claro... que apertou minha mão com força. Precisamos sair dessa chuva.. -Será que não tem ninguém?. as paredes tinham marcas de umidade.. -Pois não? Do nada apareceu uma senhora de óculos com uma fatia de melão em uma mão e uma faca na outra.. pois o certo seria "Motel". sem medo do que as pessoas poderiam achar ou pensar a respeito.. andamos por um corredor cheio de portas procurando pelo quarto número 08. -Só de estar junto de você eu não me importo mais com nada.. -Ali tem um hotel.. pernoite de doze horas. -Como não é nada? Vai acabar pegando um resfriado. com ar preconceituoso questionou. cof. -Humpft.

xampu e fui direto para o banheiro tomar um banho quente.. Como eu demorei pra descobrir que gostava de você... só não entendia ou não queria entender que sentimento era esse... o lugar era uma espelunca. -Amor. Agora que você já está sequinho e enrolado no cobertor.. Minha tosse só fazia aumentar e junto a preocupação do Levy comigo.. Abraçado ao meu corpo.... -Posso te pedir uma coisa? -Tudo que você quiser.. -Levy. Ao entrar ascendemos a luz e tiramos as toalhas de cima da cama. -Tudo bem. Com todo carinho. descarregando todo seu libido. 123 .... cara. Isso é fácil. -Oba! Fechei o chuveiro. pois como o Levy havia dito.. -Eu também te amo muito. "Bombadas" bruscas eram intercaladas com pequenos gemidos. -Humpft. Não posso te olhar? -Deve. -Humpft. Vamos pra cama que eu te cubro com o cobertor e te esquento com meu corpo. peguei o sabonete. -O quê foi? -Nada. -Quer vir comigo? -Posso? -Claro. Você está tremendo muito. As leves mordidas e baforadas que eu dava em sua orelha o fazia tremer. -Pronto.. Demos as mãos e entramos embaixo da água quente do chuveiro enorme que havia ali. posso me deitar ao seu lado? -DEVE.. Acho que a ducha era a melhor coisa que havia naquele "hotel"..Abrindo a porta do quarto ele piscou pra mim... O movimento sincronizado de ir e vir se tornava intenso na medida em que o tesão ia aumentando. ele enrolou a toalha em meu corpo. Tapei sua boca com um beijo e imediatamente pude sentir sua "barraca" se armar no meio das minhas pernas. -Oba. vou tomar banho. -Não se preocupe.. -Você está tremendo. -E descobriu como? -Na verdade eu acho que já gostava de você há algum tempo. -Humpft. Então só me beija... Te amo. seguidos de leves puxões de cabelo e arranhões nas costas. -Quer um pouco de xampu? -Uhum. Rasguei o pacote.. cruzando em minhas costas e unindo ainda mais nossos corpos molhados e arrepiados. ele me beijava e roçava suas coxas entre as minhas. De beijo também. eu vou ficar bem.. Nando.. Seu braço passou por baixo da minha axila.. -Ah. me secando cuidadosamente..

Machuquei você? -Não.. energias.-Me beija? -Nem precisava pedir. ele passava sua língua sobre o meu peitoral. Foi lindo. -Se você quiser a gente pára. Puxei-o pela sua nuca pra junto de mim e entramos embaixo do cobertor às gargalhadas. -Não fale assim que você me mata de tesão. Quase arranquei seus cabelos de tanto tesão.. Em seus braços eu deitei e fiquei até perder os sentidos e pegar no sono após sentir o melhor orgasmo de toda minha vida.. O Levy era muito mais do que eu pensava. Seu carinho comigo nem se comparava ao do Guilherme.. com seu peitoral por cima do meu... trocamos prazeres. Vem aqui. satisfazemos de ambos as vontades que estavam acumuladas em nossas fantasias. gostoso. vem. deslizava no suor liberado pelos poros de nossa pele. Acariciando seu rosto e de olhos fechados nos beijávamos. senti um pouco de falta de ar apenas. Naquela noite não fizemos simplesmente sexo. Fizemos amor.. -O quê foi. 124 . foi mágico. -Nem pensar. o cobertor já não tinha mais serventia pra nada... Com meu corpo inclinado para trás. foi uma noite inesquecível. Ele se virou e deitou por cima de mim. Num movimento brusco ele me levantou da cama e começou a chupar meu mamilo. o único receio era que ficassem marcas de algumas das chupadas que ele dava nos picos do seu tesão. O clima foi esquentando cada vez mais. Sua pele roçando sobre a minha. suores.. Seu lábio carnudo me tocou levemente.

. Não preciso nem pensar duas vezes em aceitar um pedido de namoro seu.. -Bom dia. Hahaha.. -O quê foi? 125 . amor! -Bom dia... -Você quer mesmo namorar comigo? -Você já me fez essa pergunta. Enquanto o Levy dormia. -Quero viver com você... Hahaha. -Você é a melhor coisa que me aconteceu na vida. -Te amo. te amando. -Hahaha. O coração batia acelerado em um ritmo homogêneo.. -Hum..... -Eu quero ter certeza. O orgasmo avisava que estava á chegar. cara. Levy! -Dormiu bem? -Melhor impossível. Pára. Tudo bem. Sua boca perfeita permanecia intacta desde que a vi antes de dormirmos. Disso eu não tenho dúvidas. Por favor. lubrificando nossos corpos com suor. -Humpft. -Eu também! Selamos nosso compromisso com um molhado beijo na boca.. eu pouco dormi admirando sua rara beleza de moleque safado. Nos braços do meu amado eu me sentia nas nuvens. Se eu disser que você é a melhor coisa que já me aconteceu nessa vida..... você acredita? -Não sei. com os gemidos que o Levy soltava baixinho em meu ouvido. Acariciando minha mão ele disse: -Nando.. -Hum.. -Então diga: Você é a melhor coisa que me aconteceu na vida. Eu acredito.. na medida em que nosso tesão ia aumentando. -Te amo. respeitando pro resto da minha vida.. enquanto o barulho do trovão camuflava nossos gritos. eu acariciava seu lindo rosto que parecia ser esculpido à mão. Abraços e afagos iam se tornando cada vez mais intensos.Dormi no céu e acordei no paraíso. -Quero ficar com você pro resto da vida... aliás..... Levy... Gozamos ao mesmo tempo em que o relâmpago iluminou o quarto pela fresta da janela... Fazendo cócegas em minha barriga ele disse: -Ah é... -Mano..

meu coração só faltou explodir. Amar e ser correspondido é a melhor coisa do mundo. Já nem lembro quantas noites dormi chorando..? Eu também. Enquanto almoçava.. Cof. Vamos ser felizes aproveitando esse tempo. -Alô? -Nando? -Oi Levy! Estava pensando em você agora.. fazendo meu dia se tornar um sonho. cof. amor. Agora é nosso momento. -Eu estou bem. -Cof. Peguei o metrô lotado. andar como namorados na rua ainda o deixava constrangido.... mas eu não estava nem me importando com isso.. eu seria o cara mais feliz do mundo. 126 . -Estou preocupado com você.. -Então já pode se considerar o cara mais feliz do mundo... -Hoje eu quero me logar ao seu lado. pois minha felicidade era muito maior.. Aliás. -Nem precisa pedir. -Então me beija.. -É que um homem sabe como satisfazer o outro sexualmente. -Mano. -Nando.. fiquei pensando no que o Levy estaria fazendo naquele momento. -O tempo de preocupação acabou... Pouco tempo depois o telefone tocou.. Sabia que eu estou com saudade? -É. você parece não ter melhorado. -Nando. cof. pois farei o impossível pra te proporcionar os melhores dias de sua vida sempre que estiver ao meu lado.. logo essa tosse vai passar. ansioso para ouvi sua voz novamente.... pois como tudo aquilo era novo para o Levy. Quando estamos apaixonados. achando que seria um amor impossível. Deixamos o hotel já passava dás 11h00.-Nunca pensei que fosse gostar mais de transar com homem do que com mulher. mas com o tempo isso acabaria mudando. -Você está melhor da tosse? -Estou sim.. mas finalmente a felicidade bateu na minha porta. Os defeitos quase não são notados e qualquer atitude do seu amado para te agradar se multiplica no olhar dos apaixonados.. -Hum... passamos a enxergar o mundo de uma maneira diferente. Estou começando a ficar preocupado contigo. eu já tomei remédio... -Sério? -Sim. -Se todos os meus dias fossem assim. -Não se preocupe.. -Essa sua teoria faz sentido.. não me passava pela cabeça de algum dia transar com homem. Finalmente o meu sonho havia se tornado realidade. poder tocar em seus lábios e sentir o cheiro de sua pele. Corri até o quarto para atender e quando identifiquei o telefone dele no visor. -Está arrependido? -Jamais. porque ele também é homem e sabe os pontos exatos onde o corpo masculino é sensível ao prazer.. Levamos quase quinze minutos nos despedindo antes de deixar o quarto..

que alimentava a minha felicidade... Eu não tinha intenção alguma de entrar naquele carro. -Humpft. mas eu tenho um encontro agora..... estou indo trabalhar.. eu quero falar com você. Meu sorriso ia de orelha a orelha... -Nos vemos mais tarde então. meus olhos se encheram de lágrimas e na mesma hora pedi para ele interromper a ligação.. A gente se vê mais tarde? -Mal posso esperar. -Posso tirar do mute e bater um papo com ela? -Não. -Eu também. Se você não entrar nesse carro agora. 127 . -Desculpa.-Obaaaaaaa....... -Guilherme. -O dinheiro resolve tudo. Você não estava preso? -Preso? Você esqueceu que meu pai é um dos melhores advogados desse país? -Mas os policiais foram testemunha dos crimes.. -Hummmmm. Eu vou ganhar um beijinho? -Muitos. A voz do Levy parecia despertar o bem estar da minha alma.. Prometo não tomar muito seu tempo. onde quase fui atropelado. Eu vou com você. De início eu duvidei.. era como um combustível. nossa operação passaria a funcionar no Centro. Suas palavras de amor. Você deveria estar na cadeia. -Tem certeza? Rindo. sendo fechado por um A3 que ao parar baixou o vidro do lado do passageiro. Alô. ele tirou o celular do porta luva e ligou o viva voz. mas ao ouvir a voz da minha mãe.. -Foda-se esse seu encontro. -Bom menino. O mundo pra mim parecia perfeito naquele tumulto de cidade grande. Te encontro em frente à entrada do shopping? -Pode ser. Que delícia! -Delícia é saber que eu tenho você só pra mim. pelo trauma que havia me deixado desde a ultima vez.... -Você não seria capaz de fazer isso. -Que horas a gente se encontra? -Hum. -Do que você está falando? -Entre no carro. -Oi Nando...... Beijão! -Outro. Saí de casa mais cedo para encontra-lo no shopping.. Então ta bom. Alô. Vou ficar contando os minutos. A partir daquele dia. me fazendo deparar com um pesadelo no qual eu pensava já ter acordado. ainda está cedo. -Ok. É que já estou morrendo de saudade.. -Tem tempo de sobra. meu coração falou mais alto.. mas durou apenas até atravessar a Avenida do Estado. -Agora não dá. -Por mim poderia.. 16h30? -Não pode ser um pouco mais cedo?.. eu ligo para sua mãe e conto que o filhinho dela é viado. -Alô. -Te amo! -Eu também. mas preciso fazer algumas coisas aqui..

. -Eu não acredito. por favor. -Amor..... me aprisionando dentro daquele inferno. Ouvir o barulho das portas travando era como sentir uma faca atravessando meu peito. -Você me enganou. -Nossa história já terminou... me obrigou a continuar por pena... -Já te perdoei.. -Com certeza quem te falou isso era pobre. -Como você me encontrou? -Procurando. será que você entende? -Você está com alguém? -Humpft. -Dinheiro não trás felicidade. -Me perdoou? -Sim..... -Mas você teve culpa. -Ser humano. Lá vem você falar daquela indigente... Por favor. 128 . -O quê? -A gente se ama.. -Mas eu não te amo.. -Fala. Ele não vai tirar você de mim. -Seu dinheiro não tem valor pra mim.. ta bom? -Guilherme. -Mas vai ser... Você sabia muito bem que eu já não gostava mais de você. Fernando? -Sim. mas depois eu vi que meu sentimento por você se tornou carinho de amigo. Guilherme.. -Não terminou porque eu te amo.. -Humpft. Vamos esquecer tudo e recomeçar? -Desculpa. -Aquele maldito... -Ninguém tira de outra pessoa o quê nunca teve. mas não quero mais. -Eu tenho mais condições de te fazer feliz.. me deixe em paz. -Você fala como se eu tivesse culpa de algo. Humpft. nossa história não pode terminar assim... -Não fale assim dele. -Não vou tomar muito seu tempo. não vamos brigar por causa disso. -Eu não enganei ninguém. Nando. -Nando eu te amo. -Nunca fui.. -O quê você quer dizer com isso? Você nunca me amou? -Eu cheguei a gostar de você. Eu não posso demorar.Olhei no relógio e já era 16h05. -O quê aconteceu com aquela mulher que você atropelou? -Ah.. -Você é meu.. O vidro escuro subia lentamente. -Humpft. eu e o Levy estamos namorando. Entrei no carro e ele desligou o telefone. -Mas eu posso te dar tudo que quiser..

... ao ponto de me fazer chorar.. saia da minha vida. Ao chegar.. -Já está na hora. era o mesmo que tocar em uma pedra de gelo.. o Levy já deveria estar me esperando há muito tempo.. -Mas eu quero te.. Entrei no vagão que já estava parado na plataforma e segui sentido Centro. mas não faça nada com ele. Imagine ele sofrendo um acidente. o amor que eu sinto é suficiente para nós dois.. Sua mão tocando meu queixo me causaram uma repugnância tão grande.. Passei pela catraca da estação e observei o relógio que marcava 16h50.. -Pára. sendo levada com o vento. -Mas eu não te amo. A última coisa que eu queria na vida era que o Levy sofresse alguma repressão feita pelo Guilherme.. A proposta que ele fez deixou-me sem opção.. Olhei no relógio e já eram 16h58. A minha vida inteira eu passei acreditando que o amor entre duas pessoas não 129 . -Não tem problema... Porque se você gosta do Levy de verdade.. -Não toque no Levy.... perversa. -Sofrer? -Uhum. -Humpft.. Guilherme. sem sentimento algum.. Humpft...... -Eu estou falando sério.. sensato como você é. Eu volto pra você. -Não.. O relógio já marcava 16h35... -Imagina como o Levy ficaria depois de sofrer um acidente e perder a vida... por favor. Pára. Agora me dê um beijo.. -Então volte pra mim.. Se você não voltar pra mim.. amor.. -Você não seria capaz de fazer mal.. -Eu sabia que você ia concordar.. passei no Mercado Municipal e comprei um suco de soja. -Você não gostaria de ter que consolar sua família no velório. por favor. Nando. Desci do carro com uma vontade louca de chorar.-Tire a mão de mim. Eu via minha vida se desfazer como uma pirâmide de cartas ao vento. -Eu te amo tanto. Receber um beijo seu. Guilherme.. O quê eu não faço por você. apenas uma ânsia de vômito que subia até a garganta. quase impossível de controlar.. Pelo amor de Deus. Por um instante eu vi minha felicidade passar pela janela. -Vou te deixar na porta. -Chega.. Sentei em uma mesa e comecei a chorar desesperado. Meus sonhos acabavam de ser destruídos por uma mente malvada. -Você quer sim. pois sabia muito bem do que ele era capaz. -Guilherme. não vai querer vê-lo sofrer.. mas depois daquele encontro inesperado eu não teria coragem de olhar em seus olhos... Pode me deixar na estação Imigrantes. Eu.. -Por amor eu sou capaz de fazer qualquer coisa. Você promete que não vai tocar no Levy? -Te dou a minha palavra.. -Por favor. Será que você pode respeitar minha vontade? -Tudo bem.. Eu não acreditei quando ouvi aquilo..... -Eu não te quero mais. Tão jovem.. preciso ir.

Chegando na operação... ficariam todos juntos em um único andar. e quando o destino me prova o contrário. Oi Ju.. estou bem. com essa carinha abatida. Saí da operação e segui até a escada de emergência para subir até o breack.. na qual começou a funcionar a nossa central. tive um problema e não consegui chegar a tempo. fazendo meu peito doer.existia. Depois eu conto pra vocês. -Boa tarde! -Oi Shirley! -Oi Nando. -Como foi ontem? -Ah. a Shirley chegou e se juntou a nós. Nando? -Nada.As que iam de uma ponta à outra. -O quê você tem. Por ser tão grande. As janelas vedadas para não vazar barulho externo.A pra você. -Habibinho. Chegando no prédio da empresa..... outro me tirou. fiquei impressionado com o tamanho do espaço. Segui em direção às escadas e peguei o elevador para o 1º andar.É pra esperar aqui? -A Habiba pediu pra esperar aqui. driblando a multidão de pessoas que por ali passavam. -Oi Nando.. -Eu sei. E agora. mas não cheguei nem na metade do caminho e cruzei com o Levy.. -O quê aconteceu? -Nada não. cobertas com persianas para filtrar a claridade. Habiba.. Toda sorridente ela vinha em minha direção. Não tanto quanto eu queria.. Fui caminhando pelas ruas.. Nando? -Desculpa Levy. Mas que lugar grande. -O quê aconteceu.. -Pois é. se tornando um inferno. -Poderia ter me ligado. Várias fileiras de P.. -Humpft. alguém surge para atrapalhar. -Obrigado. A partir de então. minha vida não seria mais a mesma. eu estava comentando isso agora com o Fernando. -Espera alí no canto que daqui a pouco eu encontro uma P. enorme mesmo. ao mesmo tempo que alguém deu a oportunidade de sonhar. -O quê você tem? -Nada. 130 . Quer desabafar? Antes que eu pudesse responder. -Oi Ju! -Estou passada com o tamanho disso aqui.. Não demorou muito e a Juliane chegou.... o quê dizer? Seus olhos cheios de lágrimas demonstravam sua preocupação e tristeza. né? -É verdade. parei na recepção e peguei o novo crachá. o quê fazer.. não teriam mais Alas dividindo as operações. -Ah. -Olá Vivian! -Tudo bem com você? -Humpft. desculpa cara.. por quê? -Você não está bem..

Levy.. Olhando em meus olhos ele falava: -O quê está acontecendo entre a gente? -Nada...-Não tem problema.. -Por favor.... 131 . A gente vai poder se encontrar depois do trampo? -Não sei.. -Como mudaram? Ontem mesmo você disse que me amava. a gente precisa conversar. Confuso. Cruzei a porta de vidro e fui caminhando a passos lentos até o metrô. O quê está acontecendo? -Aqui não dá pra falar. -Por que você está me tratando assim? -Assim como? -Tão frio.. -Boa noite. Levy. Tocando com sua mão direita em meu queixo e olhando em meus olhos.. Nunca gostei de fugir dos problemas. Eu não deveria ter subido até o breack. Te mando um e-mail depois. -Nando. ele me seguiu até a plataforma do metrô. -Nando.. Levy... Com o coração palpitando e as mãos suando encostei no canto da parede. Com a respiração ofegante. nos privando da pouca liberdade que já tínhamos. O prédio.. Olhei no relógio e o ponteiro indicava 23h41. -Como não? Eu pensava que estávamos namorando. ele perguntou: -Você não me ama mais. Ao deixar as dependências do condomínio. Beleza. Você está abatido. -Humpft. apoiando sua mão esquerda na parede ao lado da minha cabeça.. -Calmai. -Mas Nando... em tamanho era bem melhor. mas sim encara-los de frente. -O quê? -Vai ser melhor para nós dois.. o Levy se aproximou bem junto de mim.. mas fugir também não seria uma atitude legal. é isso? Com um aperto no coração desviei o olhar. Evitando me encontrar.. avistei o Levy parado próximo à entrada do metrô. -Esqueça ontem. Olhe fundo nos meus olhos e diga que você não me ama mais. as regras desse novo prédio eram muito estúpidas. A estação estava vazia. Ontem você foi. As horas passaram rapidamente naquele dia. -Humpft.. mas em compensação... com cara de quem chorou. você está me assustando. em comparação com o outro. -Humpft. -Mas como? Eu não acredito nisso. mas não adiantou.. Levy... Levy! Fui descendo as escadas na tentativa de fugir dele. -O quê há com você? -Comigo? -É.. Desci pela escada de emergência até o térreo.. Sim. As coisas mudaram. você está me descartando? -Não é isso. me olhar. Encontrar o Levy só me fez ferir a alma... -Humpft.

-Não podemos. O metrô andava e nossos olhares acompanhavam um ao outro. -Não culpe o destino. -Então diz que vocês não quer mais meus beijos..... só sei que eu não era mais o mesmo...Não foi fácil ter que dizer aquilo. Era como se ele pedisse para eu pular de uma ponte de olhos vendados. Minha vontade era dar um abraço e beijar aquela boca delicada. vinham do coração. Um vazio tomou conta do meu interior. confundindo meus sentidos. -Pare com isso. mas meu corpo pedia o seu.. o destino não quis que ficássemos juntos. contradizendo minhas palavras. e assim nos perdermos.. -Levy.. foi você que não quis. gritando a todos que quisessem ouvir que o Levy era o amor da minha vida. Levy. -Eu sei que você está gostando. Não sabia ao certo o quê acontecia comigo. declarando seu amor verdadeiro por mim. 132 . As lágrimas que escorriam pelos seus olhos eram pura... -Eu não te amo mais. até entrar no túnel. Sentir o cheiro de sua respiração me fez amolecer. Minha boca dizia que não. Os sentimentos se misturavam. Fugi dele e entrei no metrô que acabara de chegar na estação. Comecei a chorar. -Diga que você não me ama mais. Com sua boca perto da minha ele me fazia arrepiar. -Desculpa. -Eu. -Pare de mentir. Não. para sempre..

. Até mais tarde. -Mas Guilherme. Tirei a roupa e entrei embaixo do chuveiro. O quê o Rafael tinha na cabeça para aceitar ir pra balada com o Guilherme..... 133 . O Levy não saia da minha cabeça. Pode ser lá na porta. Do banheiro eu ouvi a campainha soar.. meus pensamentos se perdiam pelo ar. Enquanto a água escorria. ia muito mal. apenas um dia que eu me senti feliz. amor! Desliguei o telefone puto da vida. -Então está combinado. esperando um carrasco soltar a corda.. Nossos encontros eram forçados por ele. -Amor da minha vida.. até ser interrompido. -Não tem problema. Preciso dizer qual é? -Hahaha. minha vida havia se tornado um inferno. Seus olhos ainda mostravam que mágoas ficaram entre nós. às vezes nos cruzávamos no breack e nos cumprimentávamos com um simples "oi". -Que porta? -Na porta da balada. sabendo que eu fugia de qualquer programa que envolvesse sua presença? Cada segundo ao seu lado era como passar horas preso à uma guilhotina. Perdido fiquei. relembrando um dia..... depois a gente descansa dentro de uma banheira cheia de espuma. -Sabia que eu te amo? -Você não me deixa esquecer. realizado por completo... -Beijo. Já liguei para o Rafael e ele topou. -Você nem sabe em qual iremos. motivo pelo qual me fazia sentir pior ainda.Dias se passaram. Subi para o banheiro desanimado. Meu namoro com o Guilherme não andava muito bem. Está vendo como você me conhece? -Humpft. -Tenho uma boa notícia pra você... -Que notícia? -Hoje vamos à balada.. Só assim para matar a saudade daquele rostinho de anjo. -Hoje? -Sim! -Estou muito cansado. -Oi Guilherme. Deveria ser o Rafael chegando para irmos juntos à balada. Guilherme.. -Mas sei qual é a única que você gosta. Onde a gente se encontra? -Humpft. aliás. -Alô.

-Puts. mas ele quer você... -A maioria dos caras só querem sugar a gente. -Eu já pensei e acho que não dá mais. -Fala? -Você marcou de se encontrar com o Guilherme. eu ficaria. -Vamos entrar ou ficar discutindo quem teve culpa de quê? -Humpft. 134 . Desculpa.. aproximando-se das pessoas pelo que elas tinham. Minha felicidade não era ao lado do Guilherme e disso eu tinha certeza.. -Porque você é muito burro. -Na porta? -É.. -Caramba.... Dá tempo de sobra.. -Humpft. então.. Porque não. Já não sinto mais por ele o quê eu sentia antes. O quê me incomodava no Rafael era aquele seu jeito interesseiro de ser. onde? -Lá na porta. -Mas eu não estou interessado no dinheiro dele.. -Engraçadinho. o contrário dele que sempre te dá tudo que você quer. -Bom... te leva para jantar em ótimos restaurantes.... -Onde é que você vai encontrar um cara como ele? -Ele não é o único no mundo. -Calmae que vou passar um perfume.. -Não entendo o por quê dessa pressa toda. -Se ele me quisesse. você já viu que horas são? -23h. carinhoso... -Então vamos. -Já está pronto? -Sim.. -Sério? -Sim. -O metrô vai fechar. Vamos.Saí do banho e fui para o meu quarto. vamos parar com essa discussão que não vai nos levar a lugar nenhum. -Estátua? Sorte que nenhuma pomba passou.. onde o Rafael já me esperava sentado em minha cama. pense bem cara. avistei o Guilherme que já nos esperava aflito.. -Por que você não marcou aqui perto para irmos de carro? -Humpft... atitudes que eu sempre repudiei. deixar um cara bonito.. -Humpft. -Nando. se o metrô fechar nós pegamos ônibus. Chegando na porta da balada. Nosso relacionamento não anda muito bem. rico. por que a demora? -O Nando ficou enrolando pra sair de casa.. -Pega pra mim aquela camisa? Aquela discussão não teria futuro nem fim se eu não interrompesse.. -Fique você com ele. Onde já se viu. -Nando.. -E eu aqui parado igual uma estátua. Como você enrola.

-Que pena.. -Prazer Fernando. Segui até o bar onde pedi uma água. Tem que sair mais.. Nunca te vi por aqui. e o seu? -Fernando. Pare com isso. -Meu nome é Leonardo. -Pois é. Desculpa. Nervoso. sua fúria fez com que ele voasse em cima do cara. -Não bate nele. Pessoas aglomeradas ao redor. -Ah.. Não acreditei naquilo que estava acontecendo. ele virou a mesa e jogou a bebida na cara do rapaz. -Nando... um cara bonito como você não deve ficar preso em casa.. O cara era insistente demais e me abraçou. mas o garoto foi insistente... Tentei separar a briga. -Eu estava falando com o Rafa quê. Ninguém teve coragem de separar.. -Não tem problema... -Por favor. justo na hora que o Guilherme voltava à mesa. -Ta bom. -Calma o caralho. não adiantou... -Podemos mudar de assunto? -Humpft.... até ser interrompido por um rapaz muito bonito que se aproximou de mim dizendo: -Licença. não sou ciumento. Entrei primeiro e deixei os dois para trás... amor? Caminhando até a mesma mais próxima eu respondi: -Você estava ocupado demais discutindo desnecessariamente por uma besteira. Não demorou muito e o Guilherme apareceu. enquanto o Guilherme espancava o rapaz. -Nossa. Ele tocou em minha mão e foi se aproximando na tentativa de me beijar... Guilherme.... afastei na mesma hora para não causar atritos.. -Não insista.. -Venho muito pouco nesse lugar. Eu vou quebrar a sua cara. Por mais que eu pedisse para ele parar. chamando atenção de todos à volta. -Não falei nenhuma mentira. Você costuma ir aonde? -Ultimamente não tenho saído muito. A briga durou até os seguranças chegarem. posso sentar aqui? -Claro. Deixa. mas o Rafael me segurou. -Obrigado pelo "bonito". me tirar do sério àquela noite não seria muito difícil. Eu namoro. fiquei sentado na mesa tomando minha água. Descontrolado. era de dar meia volta e ir embora. Está enchendo de gente esse lugar.A vontade que eu tinha. Eu vou buscar uma caipirinha. já volto. 135 . -Por que você não nos esperou. Enquanto ele foi no bar buscar a caipirinha. A paciência já havia se esgotado. -Ele não falou que já tem namorado? -Calma Guilherme.. amor.. não. socando sua face sem dó. -Humpft. -Você tem uma boca muito gostosa..

Eu já não tinha mais vontade de viver e isso começou a me prejudicar no ambiente de trabalho. As ruas desertas. o Guilherme se mostrava mais agressivo.. -Encontro você em frente a Biblioteca Municipal da Consolação. -É assim que você trata o amor da sua vida? -Você me ligou pra ficar discutindo? -Não amor... Que delícia! -Delícia é saber que eu tenho você só pra mim.. -Oi Fe! -Oi Shirley. vamos nos ver hoje. -Alô? -Oi meu amor. certo? -Eu. 136 . -Humpft.. que poderia ter sido resolvido com uma simples conversa... Minha vida já não era mais a mesma. Está insuportável a convivência com ele. Peguei um táxi e fui direto pra casa. -Nossa.. refletindo tudo que vinha acontecendo em minha vida.Foi horrível. Mas ele aparenta ser tão legal.. tranqüilas para uma cidade tão grande quanto São Paulo... Fala.. -Guilherme. se mostrando totalmente oposto aquele que um dia eu havia conhecido. Eu não agüento mais o Guilherme..... A tristeza havia tomado conta de mim. -Por quê? -Humpft. Nando? -Daqui a pouco.. batia suavemente em meu rosto. Durante esse tempo. deixando o Guilherme e o Rafael para trás. agressiva.. Indo. -Eu amei uma pessoa apenas. Levy” “-Obaaaaaaa. -Não perguntei se você pode..” Semanas se passaram. Tudo bem? -Humpft.. Minha noite mal havia começado e já havia acabado de uma maneira estúpida. você promete guardar segredo? -Claro. Eu vou ganhar um beijinho? -Muitos. somos amigos. A cada dia que passava... Segui até o caixa discretamente... não fiz outra coisa a não ser trabalhar. -Tem certeza que não vai incomodar? -Você nunca incomoda. -Tudo bem com você? -Não muito. -Hummmmm.. -Às 23h estarei te esperando. Fui o caminho todo chorando. A leve brisa da madrugada que entrava pela fresta da janela.. -Tudo bem. Paguei a comanda e saí daquele lugar carregando toda a culpa pelo que havia acontecido. aproveito para ligar em casa e avisar que você vai dormir lá essa noite. Preciso me abrir com alguém. “-Que horas você vai tirar sua pausa.. O Levy. eu disse que nós vamos nos ver.. -Eu não sei se hoje eu posso. Ta bom.

-Você... -Esse amor vem crescendo a cada dia... Todas as noites eu choro quando penso nele... Sinto seu perfume em minha pele... -Mas Nando... Por que você terminou o namoro, se o ama tanto assim? -Promete que não vai contar pra ninguém? -Humpft... Prometo. -O Guilherme me obrigou. -Obrigou? -Sim. -Desculpa Nando, mas eu acho que... -Ele ameaçou matar o Levy. -Matar? -Sim... Eu amo o Levy, não quero que o Guilherme o faça mal... -Então por que você está com ele? -Porque o Guilherme impôs essa condição... Disse que se eu não largasse o Levy e voltasse pra ele... -Tudo bem, já entendi... Humpft... Que situação, amigo. -Não sei mais o quê fazer, eu não agüento mais. Recebi um abraço forte, de amigo. Aquele relacionamento estava acabando comigo, eu já não suportava, meu espírito pedia socorro. Seu abraço me confortou, por um momento eu esqueci dos problemas, até sermos interrompidos pela Habiba: -Habibinhos... Vocês estão atendendo? -Não... -Não está caindo ligação, Habiba. -Vocês já deram uma olhada na intranet? -Ainda não. -Então olhem lá... Vocês viram a Ellen? -Felizmente não. -Tratem de ler as orientações. -Ta bom. -Não sei o quê pode ter de tão interessante nessa intranet... -Deve ser alguma política comercial nova... Caramba... -O quê foi? -Eu não acredito... -Fala logo. -Eu ganhei uma viagem pra Bonito da campanha VAMULAH. -Nossa... Que maravilha... Será que eu também ganhei? -Vamos ver se seu nome está na lista... -Não estou achando.... -É... Da nossa equipe quem ganhou foi eu, a Elaine... -Até a Daba? -Pois é... Acho que da nossa equipe só tem a Ellen, a Daba e eu. -Humpft... Que decepção... Até a Ellen ganhou... -Olha só... O Levy também ganhou. -Sério?... Foi merecido, ele é um ótimo operador. -Olha o quê o amor faz... -Não entendi. 137

-Seus olhos brilham quando você fala nele... -Humpft... Eu queria tanto poder abraça-lo... Sentir o toque de suas mãos em mim novamente... -E o quê te impede de fazer isso? -Tenho medo de que o Guilherme o faça algum mal. -Você tem medo de ser feliz. -O quê você quer dizer com isso? -Que você deve lutar pelo seu amor, jamais desistir, a vida nos dá as oportunidades de conseguir o quê almejamos, ainda dá tempo de você voltar atrás e fazer um novo fim. -Preciso pensar... -Querido, eu adoro você. -Eu também adoro você. -Não deixe que nada interfira nesse amor... Fuja com ele, para bem longe... E vivam esse romance sem medo... Pense no que te falei. -Humpft... Suas palavras me fazem tão bem... O quê a Shirley havia me falado fazia sentido. Ela sempre dizia o quê eu queria e precisava ouvir na hora certa. No final da noite, o Guilherme já me esperava em frente a biblioteca. Toda vez que eu entrava naquele carro, uma angústia apertava meu peito. Era como ser preso no corredor da morte, aguardando a hora do juízo final. -Oi amor... -Oi, Guilherme. -Aconteceu alguma coisa? -Não... -Então coloca um sorriso nesse rosto. -Não to afim. -Eu mandei você colocar um sorriso nessa cara. Com a mão direita ele pressionou meu rosto, apertando minha boca, obrigando a forçar um sorriso. -Assim que eu gosto... -Pra onde você está me levando? -Estamos indo para a minha casa. -Humpft. -Tem um amigo meu lá nos esperando... -Nos esperando? -Sim... -Pra quê? -Surpresaaaaaaaaa... -Não gosto de surpresas. -Mas dessa você vai gostar. -Vindo de você, eu tenho até medo de imaginar. -Hahaha... Por isso que eu te amo. Qualquer coisa que viesse do Guilherme me deixava com um pé atrás, pois eu já não confiava mais nele. Chegando no apartamento meu coração disparou. Ao entrar na sala, nossas sombras se projetavam na parede com a meia luz que saia do lavabo. Uma música tocava bem baixinho, vindo do quarto. -Já volto meu amor. 138

Enquanto ele foi até o quarto, me aproximei da janela e fiquei observando os carros passando bem longe, me perdendo nos pensamentos até o telefone tocar. -Guilherme... O telefone está tocando... Guilherme... Para não deixar o telefone ficar tocando sem parar eu resolvi atender, mas ao mesmo tempo o Guilherme também atendeu na extensão que ficava em seu quarto: -Alô? -Guilherme... This is Lucy... -Hello darling... (Olá querida) Tapei uma parte do telefone e fiquei ouvindo a conversa. Não consegui acompanhar muito o quê eles falavam, pois era em inglês, mas o quê eu compreendi, era que a tal Lucy voltaria ao Brasil. Pela reação do Guilherme, reparei que ele havia detestado a idéia, reforçando assim a minha suspeita de que ele me escondia muito mais do que eu pensava. Em meio à discussão dos dois, eis que ecoa a voz de uma criança: -Hi daddy... (Oi papai) -Hello baby... How are you? (Olá querida, como você está?) -I´m fine. (Estou bem) -Guilherme, we are coming back to Brazil. (Guilherme, nós voltaremos ao Brasil) -When? (Quando?) -In the next days. (Nos próximos dias) Desliguei o telefone perplexo. Cheguei a conclusão de que eu não conhecia o Guilherme, pensava que sabia tudo quando na verdade não sabia nada. Sentado no sofá da sala, esperei ele aparecer, o quê não demorou muito. -Fernando... -Diga. -Vem comigo. Fui acompanhando seus passos até seu quarto. Ao abrir a porta, levei um susto quando vi um rapaz deitado sobre sua cama, sem roupa, nu em pêlos. -Mas o quê é isso? -Tire a roupa. -Eu não vou tirar nada. -Eu estou mandando você tirar... Já despido, ele me agarrou e começou a tirar minha camiseta. Comecei a ficar desesperado, me debatendo na tentativa de escapar daquela violência psicológica que estava sendo cometida. -Me solte... Eu não quero tirar minha roupa... -Você vai gostar, vamos fazer amor bem gostoso... -Pare com isso... Por mais que eu tentasse escapar foi inútil. Já sem forças, fui obrigado a fazer sexo a três com um garoto de programa contratado pelo Guilherme. Nunca me senti tão humilhado, senti nojo de mim mesmo, servi de objeto do prazer para o Guilherme satisfazer suas fantasias. Deitado na cama, ainda sem roupa eu olhava para a janela, contando os minutos para criar coragem e pular, assim acabaria com todo esse sofrimento. Eu não falava, não me movia. Era como se eu estivesse morto por dentro, e de certa forma eu estava. Lágrimas corriam pelo meu rosto, enquanto o Guilherme assinava o cheque. Em alguns momentos, eu percebi que o rapaz sentia pena de mim, pela forma que me olhava, mas nada podia fazer para me ajudar. 139

pude perceber que era recente. sendo que não haveria tempo de se casar e se divorciar antes de me conhecer. enquanto ele morava e trabalhava no Brasil. um a um fui arrumando até achar um bilhete escrito em português. Permaneci jogado como um objeto sobre aquela cama. Pela altura do prédio. Fui até a janela e observei o movimento na rua.. When she will come in visiting them?” I love you... na tentativa de encontrar alguma coisa que me ajudasse a sair dali. -Eu já vou embora também. -O quê? Sem dó nem piedade. Our son asks for you the entire time. no qual estavam todos escritos em inglês. porém. estamos morrendo de saudade suas. Quando virá nos visitar? Amo você. Quase enfartei ao encontrei a certidão de casamento do Guilherme. ele arrancou o telefone da tomada. Abri seu guarda-roupa e comecei a vasculhar tudo. pois ninguém iria me ouvir. mas consegui levantar e correr até a porta. Lucy) Foi aí que eu comecei a entender tudo.. o Guilherme e o mixê já haviam tomado banho juntos e se arrumado. estou indo trabalhar agora. não adiantaria gritar. Sua esposa e filha moravam na Inglaterra. O Guilherme não era divorciado como ele dizia. we are dying of homesickness its. acabei me enganando quando vi que o bilhete era do Rafael. A curiosidade falou mais alto. Comecei a colocar os papéis de volta na caixa. deu um sorriso sarcástico e fechou a porta do quarto. -Não vai não. espalhei todos aqueles papéis pelo carpete e comecei a ver se algo de interessante havia ali. O desespero tomou conta de mim ao ouvir a trava da fechadura. então. Não sei de onde tirei forças. já estava trancada. mas sim casado com uma inglesa.. Nossa filha pergunta por você o tempo inteiro. Muitas roupas e sapatos ocupavam aquelas gavetas. Lucy (Amor. Enquanto eu era consumido pelo arrependimento. Verificando a data do casamento. Procurei em todas as portas até conseguir encontrar uma caixa só continham documentos. Eu volto pra almoçar com você. Acreditando que nada mais me surpreendia.. sem coragem de levantar e encarar o mundo.O dia já havia amanhecido. Diversos cartões postais acumulavam dentro de outra caixa. -Amor. “Love. 140 .

decidi que a hora que ele entrasse naquele quarto. Já não suportando mais tanta humilhação. Safado como ele só. Quando a porta do quarto se abriu eu mirei em sua cabeça e quando fui acertar. Os objetos do quarto pareciam girar de um lado para o outro.. Juntei tudo dentro das caixas e guardei no lugar onde estavam.."Gui.. Eu estava com tanta raiva que nem reparei que não era o Guilherme que entrava no quarto.. Eu ouvia passos que vinham da sala de encontro à porta principal. -Tudo bem. aprisionado por uma pessoa desequilibrada. -O quê? -Mas o alvo não era você. Decepcionado com tudo e todos. só me lembro que quando acordei tive a impressão de ter ouvido um barulho na sala. O que você ia fazer? -Pensei que você fosse o Guilherme. pois sei como ele é e traição de amigo ele não perdoa. Beijos e obrigado pela noite maravilhosa. Se aproveitando da situação. O barulho dos meus dentes rangendo se misturava ao da fechadura sendo destravada. Enquanto eu vestia minha roupa ele andava de um lado para o outro preocupado. no qual eu estava próximo. rápido.. Por favor. O que rolou entre nós ontem não pode chegar aos ouvidos do Nando. não comente nada com ninguém. Assustado. fica só entre nós. Rafa. Caso você queira sair mais vezes. pegue suas roupas. -Por que você está me ajudando? -Agora não é hora para perguntas. Acho melhor você sair daqui rápido. -Calma. antes que ele volte. ele desviou. A rotina seguia lá fora. -Pegou tudo? 141 . em seguida perdi os sentidos. Naquela noite em que o Guilherme brigou com o rapaz por minha causa. me liga e marcamos. Parado ao lado do espelho eu esperava ele abrir a porta para acertar sua cabeça com o abat-jour. Olha.. com medo que o Guilherme fizesse alguma outra maldade comigo. -Se eu não fosse ágil você me matava. desculpa. corri até o criado-mudo e peguei o abat-jour para me defender.. Fiquei caído no carpete do quarto. Pela data do bilhete eu compreendi tudo. mas sim o mixê que havia passado a noite conosco. acabaram indo passar a noite em um motel. um de nós não sairia vivo de lá. eu fui embora." Abismado foi pouco. O tempo parecia não passar. -Pronto. enquanto eu era mantido em cárcere dentro daquele quarto. Meu coração disparou de uma tal maneira que achei que ele fosse sair pela boca. não sei por quanto tempo. ele não perdeu tempo e se atirou pra cima do Guilherme. -Essa era a intenção. deixando o caminho livre para o Rafael. resolvi não mexer em mais nada. Na verdade eu fiquei anestesiado. mas tudo em segredo.. para não encontrar nenhuma outra surpresa e ficar pior do que já estava.

.... -Mas o dinheiro voa. Obrigado por me ajudar.. -Eu falo como uma pessoa que não teve a mesma sorte na vida que você. -Sim. jovem... -Voa? -É.. Essa vida não é fácil.. mas acho que posso te ajudar. Vai embora muito rápido. -Eu é que devo te agradecer por ter me ajudado.. -Acho que estou começando a entender. pode mudar de vida quando quiser. -E deu pra você comprar esse carrão? -Sim.. ele se aproximou de mim e me deu um forte abraço dizendo: -Eu já passei por isso uma vez. -Mas você é bonito. Só respirei aliviado ao cruzar o portão do condomínio.. mas você pode tentar mudar isso. mas tenho medo de algo que o Guilherme possa fazer com ele.... -Espere.. Eu amo outro.. não vale a pena.. Fiquei esperando ele sair.... -Você está de carro? -Sim.. -Entendo. 142 . -Você fala como.-Sim.... -Não é tão fácil como você pensa. -Você vai pra onde... -Fui legal com você. Faz quanto tempo que você está nessa vida? -Há 5 anos.. -Tudo bem.. Como foi que você me tirou do quarto? -Não achei certo o quê ele fez com você. -Então vamos. Ele me ameaça. -Eu te dou carona. -Vamos sair daqui antes que ele chegue. Com os olhos cheios de lágrimas. -Você foi corajoso.. entrei com uma das chaves que tinham ao lado da porta principal. -É verdade. vamos então. agora? -Para o metrô. -Mas por que você se permite a isso? -Humpft. está estacionado ali na rua de trás.. -Obrigado cara. -Você gosta de outra pessoa? -Sim. -O quê ele é seu? -Namorado. -Sei que não é fácil. Peguei minhas coisas e deixamos o apartamento. -Não tenha medo de ser feliz. -Caramba.. lute pelo seu sonho. -Como? -Agora não sei.

. Saí de casa ansioso. já passei por isso uma vez e contrário de você.. e foi nessa ansiedade que eu esperei o telefone chamar até a linha cair... Gustavo. Se cuida. -Tudo bem então. -Como? -Não se afastando de mim. -Você pode me chamar de Gustavo.. gostoso. Obrigado! Você viu o Levy por ai? -Não vi. que te ame de verdade.. nada?” “-Nando. Querido. Cruzei a catraca do metrô com um objetivo único: lutar pela minha felicidade... Fechei a porta do seu carro importado e acenei para ele que respondeu com duas buzinadas. não tive ninguém para me ajudar. -Nossa.. Muito obrigado por me ajudar. mas por covardia deixei escapar. -Prazer. Por que você está chorando? -Nada não... -Como.” Cheguei em casa e fui direto para o meu quarto.. -Mas eu sei. que nunca deixei de amá-lo e queria viver com ele para sempre. Era seu namorado? -Não. A cada toque que o telefone dava era uma expectativa. Fernando.. -Ah. Não via a hora de chegar na empresa e dizer olhando em seus olhos que eu o amava. Felipe é só para os clientes. tenho algo pra te contar. -Oi Shirley! -Guardei essa P.. -Fernando. Quando cheguei na operação avistei a Ellen e a Daba conversando. -Vou guardar com carinho. -Falou cara. precisando é só ligar. Posso te deixar nessa estação? -Pode sim. inteligente. Boa sorte! Demos um forte abraço como despedida. Desliguei o telefone e fui tomar banho antes de ir trabalhar.. -O quê? 143 .. Tudo aconteceu tão rápido que nem perguntei seu nome. -Vou deixar com você o meu cartão. nunca. era um cliente. “-Levy. Eu tinha a felicidade nas mãos.. A cada gota d'água que escorria pelo meu rosto era uma esperança que brotava no meu peito. Você é um cara muito bonito. A cada passo que eu dava era uma lembrança que me vinha à mente. Andei um pouco pela operação até cruzar com a Shirley. não fiquei olhando muito. -Nossa. merece alguém que te dê valor... tem também o meu e-mail.A aqui pra você. Tranquei a porta. Felipe.. -Você também.... como te disse.-Mas fiz isso por mim mesmo. -Larga esse cara. -Obrigado. Peguei o telefone e disquei para o Levy. eu não sei como te agradecer.. -Nando. Posso te dar um conselho? -Sim. pois meu alvo era o Levy.

. pergunte pra ela onde ele está.. -Vou colocar pausa.. -Não pode ser. Naquele momento tive vontade de enforcá-la. -Como calma? Amanhã vocês viajam. -Preciso falar com ele. lutem pela felicidade de vocês.. -Ta bom. -Nem tudo está perdido. -Meu Deus. preciso falar com a Habiba. -Ta bom.. -Já volto. Fui me aproximando da mesa da supervisão com o pensamento longe. -Sim. -Já colocou "Op Auto"? -Ainda não.... -Não demore. Nando.. Vou falar com ele e contar toda a verdade.. Conviver no mesmo ambiente que ela estava se tornando insuportável.. -Habibo... se vocês se amam de verdade.. -A Habiba está vindo.. No trajeto.-Você pensou naquilo que te falei? -Sobre? -O Levy.... Sentei na cadeira e cobri meu rosto. Habiba. dando uma risada irônica.. Faça só o que eu mandei. -Calma Nando. Depois de saber disso perdi a vontade de atender.. -Mas o quê eu posso fazer? -Lute pelo amor da sua vida. A Ellen está espalhando aos quatro ventos que pretende reconquistar o Levy nessa viagem pra Bonito. -Mas o quê aconteceu? -Não questione.. -Oi habibinho...A tocar. cruzei com a Ellen que ao me ver jogou o cabelo. -Põe pausa feedback e vem aqui. -Nando? -Fala. -Humpft.. As lágrimas desciam sem que eu pudesse controlar. que conversava com a Shirley. Pendurei o read na aba do lado direito e fui até a mesa dela..A Uma tristeza bateu no meu peito. -Do que você está falando? -Jamais perca as esperanças.. Se eu fosse você não perderia tempo. -Habiba. -Você viu o Levy por ai? -Hoje ele não veio. cabisbaixo continuei. Coloquei o read na cabeça e debrucei sobre a P.... -Ah. hoje era a chance que eu tinha de falar com ele. até minha P. Puxei uma cadeira e sentei ao lado da Habiba.. Minhas pernas amoleceram.. O quê está acontecendo? -Como assim? 144 .. -Pois é...

. -Mas por que está difícil? -Está tudo dando errado. mas não mudar. -Nossa. e também a milha filha está doentinha.. Não. -Humpft...... -Assine aqui essa folha.. Habiba. -Eu sei.. -Não acredito.. A cara que ela fez me assustou. as pessoas não mudam. -Nossa. está acontecendo alguma coisa? -Não está acontecendo nada. -Pois é. -Eu não acredito que ouvi isso de você..-Eu venho percebendo que você não anda bem. -Você acha? -Humpft.... -Acho melhor você tratar de se ajeitar.. Pode deixar que dessa vez ele não me escapa. estou sem palavras.. -Você fez isso mesmo? -Sim. -E então? -Ah Habiba.. -O quê você pretende fazer agora? -Nada.. -O quê é isso? -Eu estou mandando você assinar. sua amiga Shirley me explicou o caso e pediu para que eu desse a oportunidade de você ir no lugar dela.. se ele não voltar namorando novamente.. -É isso ai Habiba... Tenho que me conformar em ter perdido. Como vocês estão violentas... 145 .. Olha pra mim. Está tudo tão difícil... -Será que não é você que está errando? -Como assim? -Você não faz idéia de como o Levy ficou depois que você terminou com ele? -Humpft. -E você vai se conformar com isso? -Não posso fazer nada.. -Nando.. Acho que você teria mais motivos para ir do que eu... -Como nada? -Hoje o Levy não veio e amanhã ele viaja.. -Humpft.. Logo pensei em algo ruim que eu pudesse ter cometido... -Eu quebro você na pancada.... Eu quero o seu bem. Quem sabe o Guilherme mude e eu consiga me apaixonar por ele e esquecer o Levy. -Hahaha... Habibo. -Habibo. -Agora você não tem mais desculpa... entendeu? -E eu te ajudo..... mas ao ler o papel vi que estava completamente enganado.... Esse não é o Fernando que eu conheço. -Você acha justo o Levy ficar sofrendo por você? -Mas.. elas podem melhorar... -Lute pela sua felicidade.

Com um decote enorme ela conversava com um rapaz. etc. “-Ah meu Deus. -Ele já foi. -Obrigado. -Hahaha.. Voltei para a P. recebi uma folha cheia de informações. meus pensamentos se misturavam à paisagem lá embaixo. Entrei dentro do ônibus e fiquei aguardando todos entrarem para podermos seguir para o aeroporto. Junto com o contrato de aceitação. Em cada nuvem eu depositei um pouco de esperança. -Você está procurando o Levy? -Não é da sua conta.. sai da minha frente.-Pode deixar..A pisando nas nuvens. Aceita uma bebida? -Pode ser uma água... -Agora voltem para o atendimento que está dando fila. -Não se preocupe.. -Isso é o que vamos ver. Ver o Levy estava se tornando tão necessário quanto respirar.. -Foi o quê? -O Levy já foi para o aeroporto. Cheguei no Terminal e avistei a Ellen. Procurei sentar bem longe da Ellen no avião. Uma ansiedade enorme me consumia.. Caminhei até o ônibus coberto com os adesivos da campanha. -Vamos. -Com licença. a Daba está cuidando dele pra mim. Havia muitas pessoas circulando com enormes malas e entre elas meus olhos buscavam o Levy. na qual foi fundamental para que eu resistisse a viagem toda. o Levy foi um deles... Não vou deixar que vocês fiquem juntos. -Aqui está. roteiros. -Olha aqui Nando. Agora.. Deixa eu passar.... -Olha.. -Obrigado! O tempo ia passando e a distância entre nós ia diminuindo cada vez mais. -Humpft. O quê você faz aqui? -Você poderia me dar licença? -Claro.. Antes que eu perguntasse qualquer coisa ao motorista. -Com ou sem gás? -Com gás. para alegrar meu dia.. 146 . Se você está pensando que eu vou desistir do Levy você está enganado. já que não tínhamos lugares demarcados como um vôo comercial comum. Sentado à janela do avião. No outro dia eu tinha que estar no Terminal Tietê às seis horas.. Habibinha. Eu amo você! -Também te amo. a Ellen com a maior cara de pau foi me provocar. -Oi Nando. -Mas o ônibus. Mal podia me conter de tanta alegria... Socorro.. De lá sairia um ônibus que nos levaria até o aeroporto.. -Teve um pessoal que tinha o vôo marcado mais cedo.

. duas vans já nos esperavam com os guias do local.. Os dormitórios eram unificados. Os funcionários ficaram divididos para orientar melhor o pessoal que ia chegando.. estamos juntos nessa. -Você não vai morrer. -Só de estar junto de você eu não me importo mais com nada.” “-Você está tossindo. que insistia em me provocar o tempo inteiro... -Ah. depois de amanhã nós passaremos em outra pousada. a gente só dividiu vocês nas pousadas porque não tem lugar pra todo mundo em uma só. Logo quando desembarcamos fomos recebidos com festa. -Não é nada. -Galera.... -Entendi. -Licença.-Fica calmo.. Estão abrindo a porta... Fomos muito bem recebidos na recepção da pousada. onde todos não viam a hora de desfazer as malas e pular na piscina para s refrescar daquele imenso calor. proporcionando maior conforto no trajeto até a pousada. -Mas os passeios e atividades vocês farão juntos. -Você sabe se vamos ficar separados dos outros por muito tempo? -Fica frio... boné e um cartão de crédito para gastar na cidade. camiseta. -Beleza. Você vê como o destino conspira a nosso favor? -Isso é o quê você pensa.. Ganhamos mochila. -Ai Nando. A van tinha ar condicionado e música ambiente. A recepção e o restaurante eram construções rústicas de troncos de árvores e cobertura de sapé. Como nem tudo é perfeito. -Eu não quero morrer..” Chegando no aeroporto. Olha.. Sem paciência para ficar escutando asneiras da Ellen. -Vamos lá? -Vamos. cheio de redes enfileiradas em um grande galpão. vocês vão passar essa noite aqui. me afastei e fui falar com o guia. -Como não é nada? Vai acabar pegando um resfriado. Seguimos para o dormitório. Onde fica o outro acampamento? -Você quer conhecer? -Uhum. feito de madeira e coberto com palha seca. 147 . confie em mim.. acabei dando azar de ficar no mesmo acampamento que a arrogante da Ellen.. -Opa... -Quando é que você vai parar de me tratar assim? -Enquanto eu tiver o desprazer de te encontrar. Uma mistura de modernidade com hábito local. -Dá um tempo ae que eu já te levo lá. Sentei em uma mesa e esperei por uns 15 minutos.

... -Você sempre mentiu. as lágrimas escorriam a cada piscada de olho. -Valeu.. -Pra quê? Para me enganar outra vez? Me iludir? -Não. 148 .. -Levy. -Chama isso de amor? -Eu tive motivos para isso. capas de coisas que até Deus duvida.... se eu te contasse a verdade você não aceitaria e algo de ruim poderia acontecer.. -Mas. -Nando. Um breve silêncio pairou entre nós....O outro acampamento não ficava muito longe dali. -Entenda meu lado. com a voz engasgada eu chamei pelo seu nome: -Levy. -Eu não tive culpa. -Motivo? Qual motivo nesse mundo justificaria suas mentiras? -A sua vida. não fale assim comigo. -O quê? -Ele é uma pessoa cruel. Meu coração palpitava à todo vapor.. ele se levantou e olhou pra mim. você me fez acreditar que me amava. tirando foto da galera... Do que você está falando? Olhando em seus olhos não pude controlar a emoção.. me iludiu.. achando que você só havia me usado? -Humpft. -Eu não podia te contar a verdade. -Mas... Isso é muito grave. -Foram noites em claro que passei por sua causa. por favor. Desci do carro e entrei no acampamento procurando pelo Levy. O quê você faz aqui? -Vim procurar você. -Mas de qual verdade você está falando? -Humpft.. Caminhando até a mesa da varanda fomos conversando... -Chegamos.. levamos menos de dez minutos de jeep até lá. -Enganou sim. -Você não tinha o direito de destruir um sonho que havíamos construído juntos. -Eu sei.. Eu nunca te enganei... Surpreso. -Procurar por mim? -É. -Você deveria ter me contato a verdade. Haviam muitas pessoas desfazendo suas malas. -Você tem idéia do quanto eu sofri. -Eu menti. Ele é uma pessoa muito violenta. Atravessei o acampamento de uma ponta a outra até encontrar o Levy trocando de camiseta sentado na última rede da fileira. O Guilherme ameaçou matar você se continuássemos namorando. fui me aproximando sorrateiramente. De costas para mim. eu fiz isso por amor.. -Isso não é verdade..

Fernando? -Nada que você não saiba. -Olha aqui você.. me senti aliviado. Cuidado para não ficar cego.” De volta ao acampamento... Agora é nosso momento. Uma grande variedade de saladas. -Olha aqui. “-Ae Nando. Já estavam servindo o almoço e eu estava morrendo de fome. Desci do carro e fui até a bica para lavar as mãos.. A cada folha daquelas árvores. eu seria o cara mais feliz do mundo.. havia bastante suco de frutas da época.... Meu peito estava apertado. Vamos ser felizes aproveitando esse tempo. até carne de jacaré eu comi. Não sei se havia feito a coisa certa. -Aqui venta muito e uma chuva de poeira entrou nos meus olhos.. mas depois daquela conversa. mas em compensação.” “-Estou preocupado com você... era um momento de minha vida que passava diante dos meus olhos. Por quê? -Você está chorando. -Picou você? -Não. -Você me perdoa? -Humpft... Provei quase todos..... Eu preciso ficar sozinho. Levantei da mesa e voltei para o carro. -Hahaha.. -E você acha que ela é louca de picar a Ellen? Quem correu perigo foi a cobra. Eu vou te deixar sozinho. -Já voltou? -Sim. A mesa era farta... Depois voltei para a varanda onde o pessoal devorava o banquete oferecido pela empresa... até me engasgar com o grito da Ellen: -Ahhhh. -Perae. Fernando.. 149 . -Quem está gritando? -A Ellen. Empresta um pouco desse xampu? -Pode pegar.. Só não tinha refrigerante... -O quê aconteceu? -Uma cobra. -O quê aconteceu? -Nada.. com muita comida gostosa.... -O quê você quer dizer com isso. Àquelas alturas eu já não tinha mais certeza de nada. acabando com as mentiras e tirando um peso enorme das minhas costas..... -O tempo de preocupação acabou. -Eu.-Humpft. -Ah. -Se todos os meus dias fossem assim. -Ai meu Deus.

com o cabelo caído sobre a testa. Não demorou muito e nossos corpos já estavam abraçados.. Todos já estavam dormindo. Amanhã nós vamos fazer um mergulho no aquário natural... O céu estava repleto de estrelas. Só me beija. Ficar um ou mais quatro dias naquele lugar não iria fazer diferença alguma. trazendo para junto do seu. Eu. -Nem eu. zumbindo no meu ouvido aquele barulho chato.. -Psiu. os mosquitos não deixavam. O cheiro de sua pele misturado ao oxigênio que eu respirava. A vida no mato é tranqüila. pelo menos ali os mosquitos não iriam me incomodar. balançando de um lado para o outro. vamos para com essa briga? Na verdade. pois a cobra estava a uns três metros de distância dela. Passei o dia depressivo. eu me sentia completo. o quê a Ellen quis foi chamar atenção. Sua mão esquerda tocou levemente o meu rosto. Caminhando em minha direção ele foi abrindo um sorriso. A noite já havia subido.. -Eu também amo você.. A noite estava quente... O toque suave de sua pele. -Levy?. Sentei em volta da fogueira que permanecia acesa. deixando que as coisas fossem conduzidas naturalmente. eu já havia perdido as esperanças mesmo. -Mano.. na medida exata. Embora eu quisesse dormir. Deitei naquela grama geladinha e fiquei olhando o infinito. Virei para o lado e tive a visão do paraíso.. A saudade era tanta que queríamos matar em um minuto. sonhando com algo que para mim estava longe de acontecer. arrepiavam até o último fio de cabelo. eu te amo tanto. -Cara. 150 . pois no outro dia iríamos acordar cedo para o passeio. até ouvir alguém chamar meu nome: -Nando.. Fiquei imóvel. o encaixe era perfeito. Com o Levy. no qual eu nunca tinha visto igual em São Paulo. escondendo o brilho de seus olhos.. Pelo menos era o quê eu achava.. Nunca pensei que fosse gostar tanto de alguém assim como gosto de você. Ficamos em volta da fogueira contando histórias do atendimento.. Não fale nada. Deitei na rede e fiquei esperando o sono chegar.-Por favor. Impaciente eu levantei da rede e saí lá fora.. Começa com o nascer do sol e descansa quando ele se põe. Era o Levy.. Aos poucos nossas bocas foram se tocando. As batidas aceleradas do seu coração se confundia com o ritmo do meu. servia de combustível para os meus pulmões. Deveria ser em torno de 23h00. -Pessoal.

.. Então os olhos dos bichos. se o violeiro toca A viola. -O quê fez você largar tudo e vir atrás de mim? -O amor que sinto por você. -Te amo! -Acho que vai chover. Vamos sofrer as conseqüências quando voltar. -Você promete que nunca mais vai me deixar? -Mas por que isso agora? -Promete pra mim? -Tudo bem... -Hum. vão ficando iluminados Rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado Quando o amor termina.. -Nando. perdido numa esquina. unidos pelas energias do universo. como um caminhão na estrada. A natureza era a única testemunha. Humpft. tudo é paixão. que deveria durar para sempre. uma voz masculina cantava no soar de um violão. e um violeiro toca suas mágoas. sem medo nem dó nem drama Tudo é sertão. eram iluminados pela chama da fogueira e agraciados com o brilho das estrelas.... Misturado ao ruído das cigarras. e um violeiro toca em nossa cama. -Melhor a gente entrar. Nossos corpos já nus. Intérprete: Almir Sater Composição: Almir Sater / Renato Teixeira Aquela foi a melhor noite que já havíamos passado juntos.. em algum lugar não tão longe dali. nossa alegria chama. Fizemos amor. -Hum. vão ficando entristecidos Rebrilham neles lembranças dos amores esquecidos. Criamos um laço eterno. eu amo é você. o violeiro e o amor se tocam. 151 .. Quando um amor começa... no escurão da noite.Nossas mãos percorriam por cada canto do corpo. são os olhos de quem ama Pois a natureza é isso. -Vamos.. eu prometo. Então os olhos dos bichos. -Mas e o Guilherme? -Foda-se o Guilherme. -Nando. -Eu não vou permitir que nada de mal te aconteça. mas ao seu lado crio forças para lutar. e um violeiro toca sua sina.. Um violeiro toca Quando uma estrela cai. Então os olhos dos bichos.

... O Levy e o Fernando dormiram juntos. Lá fora chovia bastante. -Então vamos! Após o café.. que permaneceria acesa para sempre. os treinadores foram nos buscar para o mergulho nas águas cristalinas. -Como você é romântico. Dividimos a mesma rede... -Velhinhos. Para quando ficarmos velhinhos... nos deixe em paz. a ponto de a ignorarem depois daquilo. -Nem tanto. Então você pretende ficar comigo. Essa Ellen já ta tirando. Já estão servindo o café. podermos pegar essas fotos e relembrar dos momentos que passamos juntos. Eu juro que daria uns tapas nessa vagabunda. vai. Vamos guardar essas fotos como lembranças do nosso amor.. -Eu não acredito que você acordou todo mundo por causa de uma besteira dessas. -Humpft. -Pela vida inteira. mas as mãos permaneciam unidas.. -Quero tirar fotos de nós dois embaixo d'água.. Enquanto a água o temporal limpava o ar. -Você viu como ela provoca? -Eu sei... ruim só foi acordar com os gritos da Ellen. ai sim estaremos derrotados. assim como nossas almas.. Ficamos acordados até a hora do café.... inocente.. apagara também a fogueira que havíamos feito. deixou uma revolta enorme no pessoal. -Não faça isso. já estou cansado dessa garota. -Cuide da sua vida.. Chegando lá. Levy.. -Calma o caralho. -Nando... é claro. Sua presença causava uma sensação sem igual.. -Fala.. Mas se a gente cair no jogo dela. recebemos todos os equipamentos para o mergulho. -O quê é que tem demais eles dormirem juntos? -Vocês acham normal dois HOMENS dormirem juntos? -Hei. -Ellen. de uma relação pura. Eu sei. -É tudo que eu mais quero. verdadeira. -E por que não tira da paisagem? -Porque a paisagem servirá de cenário para ilustrar o nosso amor. Vai dormir. Ninguém mais conseguiu dormir.. O Levy alugou uma máquina fotográfica para tirar fotos dentro das águas.Vestimos as roupas e entramos de mãos dadas.... 152 .. -Calma Levy. -Humpft. O fato de ter acordado a todos com um gritou. Jamais pensei que alguém fosse se tornar tão necessário em minha vida como o Levy se tornou. Eu e o Levy sentamos na varanda e ali ficamos por um bom tempo. por favor.... Adormecer ao lado do Levy foi a melhor coisa... -Estou passada... -Mas o quê aconteceu? -Vejam... mas ascendeu a chama do nosso amor. Ficamos cada um em uma ponta. Se não fosse você.. unidas pelo nosso amor. pois não havia mais nenhuma sobrando. Ninguém achou legal aquela atitude da Ellen.. -Ahhhh. se você quiser. mexendo profundamente com meu corpo e pensamento.

.. -Não esquenta. -Que bom. um mundo mágico de cores e beleza se escondia embaixo daquelas límpidas águas. -Olha aqui...... -Ta bom. para registrar a cara que ela fez com a resposta do Levy. evitando que a água turvasse. -E você? -Gostei também. -Com um modelo da hora como você.. -Gostou do mergulho. -Vocês gostaram do passeio? -Humpft. Levy... depois de termos passado o dia inteiro flutuando pelas águas do rio.. -Te amo. Flutuávamos num mundo de belezas sem igual..-Então quando a gente voltar para São Paulo. -Não tenha medo de me amar. só para nos provocar. Durante a flutuação. Não consegui segurar a risada e quando ela ia rebater o guia interviu. que refletiam a luz do sol em tonalidades que variavam do azul ao prata. Depois eu busco pra você.... no qual podíamos sentir ao esbarrar. O Aquário Natural era de impressionar qualquer um pela sua limpidez da água. Os cardumes nos acompanhavam pelo meio das plantas aquáticas ondulantes. Voltamos para o acampamento. -Hahaha.. -Isso. Eu amei. Aquele lugar era o verdadeiro paraíso. Sim.. amor? -Adorei.. esquece o que eu falei. com várias espécies de peixes e uma variedade imensa de vegetação aquática. vamos assumir nosso amor para o mundo inteiro. descemos o rio Baía Bonita com o equipamento necessário para não tocar no fundo e nas plantas.. -É uma pena que não tem mais uma rede aqui no nosso pra você ficar.. A emoção de poder toca-los é inexplicável.. Não demorou muito e a Ellen chegou... As fotos ficaram da hora. fazendo questão de sentar de frente para nós. 153 . Eu queria ter uma câmera fotográfica em mãos naquele momento. Puxei a cadeira ao lado do Levy.. Só vou lembrar do "Te amo". -Hum.. -Ok. Eu vou começar a distribuir as equipes para dividirem o bote no passeio que faremos amanhã.. Sentamos à mesa para comer após o passeio. -Pessoal. que pareciam danças com a sinfonia dos pássaros e no ritmo das águas.. vamos ser felizes juntos. -Hahaha.. onde estão suas coisas? -No outro acampamento.. -E você não vai buscar? -Você está incomodada? -Calma Levy. eu divido uma com o Nando.. Tanto que às vezes até tenho medo.

Cada um ia recebendo uma bandeirinha de cor verde ou amarela. as cores ao seu redor ficam mais ressaltadas. A pele parece que fica mais limpa. só o quê não mudou foi a visão que eu tinha sobre a Ellen. como insistia em dizer. esboçava um contentamento sem igual. que como de costume.. a Ellen fazia questão de me provocar. É uma pena que você e o Levy não irão no mesmo bote... -Não demore que é pra não sentir saudade. Qual é a sua? -Como? -O quê você quer com o Levy? -Por quê? -Se você me ama. O sol parece brilhar mais que antes.. Nossa visão sobre as coisas também mudam. Peguei um copo de suco e levantei da mesa.. Percebi que o Levy não havia se sentido muito à vontade em ficar na mesma equipe que ela. Dei a volta e fui até a varanda tomar meu suco em paz. por que permanece grudando no pé do Levy? -Porque eu sei que se mexer com ele.. fiquei conversando e terminando o almoço com o pessoal. já to de volta. já a Ellen.. -Vem cá.. na maior parte dás vezes ela conseguia. -Humpft.. Após o almoço. -Eu já disse que te amo? -Hoje não. eu vou lá buscar minhas coisas e já. o Levy foi até o outro acampamento buscar suas coisas. Eu prometo que vou cuidar muito bem dele pra você.. -Vou e volto o mais rápido possível. tocará mais em você. O tempo foi passando e o Levy não chegava. -Ai Nando. Enquanto o Levy foi buscar suas coisas. os olhos dão outro ar em nossa face.. pois paz era algo praticamente impossível de se ter quando a Ellen estava envolvida. É engraçado como o nosso organismo se comporta diferente quando estamos apaixonados. -Então eu digo agora: Te amo! -Eu também amo você. 154 . -Amor. assim ficaríamos mais próximos um do outro. -Com licença.. Ai.. Cada cor representava uma equipe diferente. Fechei os olhos e fiquei relembrando os momentos vividos na noite anterior.. Eu já estava começando a sentir saudade daquela voz aguda. Na verdade eu tentei. ai. Eu havia ficado com a cor verde. o olfato fica mais aguçado. apareceu para tirar minha paz. já o Levy e a Ellen ficaram na amarela. mesmo a ignorando.

surpreendendo a nós dois. Sabe o quê eu to pensando agora? -Posso desconfiar... Ofegantes.. a situação pro lado da Elaine não ia ficar nada boa. -Quero beijar essa boca. -Hahaha... Eu e você. -Medo? Da Ellen? -Não da Ellen. Estou com medo. soltando fogo pelas orelhas... -Ah é? -Uhum. Você trocou sua equipe? -Sim... que não cansava de correr. na qual nos despertou um tesão inesperado... -Então vem me pegar.. Cada árvore daquela servia como álibi para driblar o Levy... Quem trocou com você? -A sua amiga.... quem deve ficar com medo agora é a amiga dela. Caímos no chão. Consegui correr por um bom tempo. Corri em volta da pousada...... não vou deixar vocês ficarem juntos. -Pensou que ia conseguir fugir de mim? -Você se aproveitou do meu cansaço.. ganha um beijo. Tentando me pegar. Nunca me exercitei tanto na vida... até cansar e ser pego por ele.. Cadê suas coisas? -Já levei lá pra dentro. -Aproveitador. ela não fará nada demais. amor. Um cartão. -Hahaha. Estou com al pressentimento.. pois ela saiu bufando. -Que susto. -Que bom! -Mas como?. -Hahaha. Enquanto eu puder..-Será que você poderia nos deixar em paz? -Não... -Quem disse isso? Nessa hora o Levy chegou. Quer arriscar um palpite? -Nem precisa. -Se adivinhar. -Olha o quê eu tenho? -Um.. Levy. Pela reação da Ellen.. Coitada. -Onde será que ela foi? -Vai saber. -Ah. agora vamos ficar juntos.. -Hum. Até parece. -Você pode até tentar. -Peguei você. -Maldita. -Humpft. -Não se preocupe. rindo de toda aquela situação infantil. É uma pena que amanhã vocês terão que ir em botes separados. o Levy correu à minha caça.. 155 . -Só um beijo? -Sim. mas nosso amor é mais forte que a sua vontade.. mas de algo que ela possa fazer.. porque o resto você já tem... Daba.

.. Misturados às árvores fizemos amor...... Aparentemente a paz reinava naquele lugar..... -Então qual é? -Esse aqui. -Vem aqui que eu te ajudo. no qual aparentavam nitidamente sua situação.. -Melado? -É.. Acabo como? -Despertando tesão. -Nando... Que susto... língua. Olha como você me deixou? Se afastando levemente ele mostrou o estado de sua calça. e a imaginação. Sussurrando no meu ouvido. Entramos no dormitório e boa parte do pessoal já dormia.. -Ah. alguém pode nos ouvir... Mas não esse pega-pega que você está pensando.. Trocamos suores da maneira mais gostosa e prazerosa. -Quer parar? -Jamais. -Você. -Pois é. eu não ligo. deslizou facilmente no roçar da minha perna. Enquanto nossas bocas se beijavam e nossos braços se enroscavam. a Ellen não estava por perto. Lá fora o sol já havia se posto e a lua começava a tomar seu lugar... Você me mata desse jeito.. -Nossaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. -Você brincava de “pega-pega” quando era criança? -Uhum. Pode me matar desse jeito. ele fazia o movimento de ir e vir. Onde?. dedos... Coincidência ou não. Usamos de todos os recursos que tínhamos. Mas como esse lugar está calmo. A calça de moletom que o Levy vestia. Voltamos para a pousada depois de termos passado boa parte do dia correndo entre as árvores e fazendo amor. -Caralho.. -Posso continuar? -Deve.-Humpft... Estando sem cueca.. O silêncio prevalecia naquele ambiente. -Ah não? -Não. -Nossa. -Está todo melado.. intercalando com umas leves mordidas ele dizia: -Você acaba comigo.. -Geme mais baixo....... Roçando sua perna direita entre as minhas. Foi quando ele tapou minha boca com um beijo molhado e selvagem. -Calma. o processo foi mais rápido.. -Pois é. é de suor que estou falando. Você não pode voltar para a pousada nesse estado. mão. -Ah é?. -Que culpa eu tenho se sou gostoso? -E que culpa eu tenho se você me desperta.. 156 .. as pernas substituíam nossas mãos. -Uau. -Hum.... Lembrei dos meus tempos de infância agora. To acabadaço.

.. Antes que a porta se fechasse o Pedro pediu ao Levy: -Levy. -Boa noite. nossa paz foi interrompida pela chegada da Ellen.. -Vocês estão procurando a Ellen? -Não. -Ah ta. amor..... mas antes de partir. -Boa noite. Quando estávamos chegando no auge do prazer. Ok. Por quê? -Tem como você guardar meu isqueiro aí com você? -Por que você não coloca no seu bolso? -É que está furado. onde entramos na van que nos levaria ao local cujo faríamos a descida de bote pelo Rio Formoso. -Ok. -Por nada.. -Hahaha.. Com a cabeça apoiada sobre o peito nu do Levy. Sua mão direita acariciava meu peito e com a esquerda eu recebia afagos em meu cabelo.. vamos dormir então? -Não tem outro jeito. O clima foi esquentando cada vez mais... -Não me peça o impossível. -Humpft. A curiosidade e ansiedade tomava conta de todos nós. -Vamos aproveitar? -Hum.. Ela ficou fora a tarde toda. Tudo bem. Sua bermuda tem bolso? -Tem.. -Valeu cara. dá ele aqui. Não há repelente que dê jeito nessas pragas. pra que você trouxe esse isqueiro? -Eu preciso ascender um cigarro pra relaxar. Tomamos café na mesa repleta de doces. no qual eu não queria acordar jamais. 157 . recebemos um treinamento em terra de como utilizar os equipamentos e os procedimentos em caso de acidentes e segurança. Os botes já estavam apostos. Chegamos. Deitamos na rede e nos cobrimos com um lençol que eu havia colocado na noite anterior. Bom....-O quê será que aconteceu? -Ah. Já sei.. -Vem cá. Será que eu agüento? -Então a gente não aproveita. Começamos a nos beijar com todo ardor. Obrigado. -Humpft.. No outro dia acordamos cedo. pra tudo damos um jeito.. pois amar e ser amado pelo Levy era a melhor coisa que já me acontecera na vida... eu adormeci.. Pronto. -Quanto mosquito. -Aproveitamos sim.... acabou nossa tranqüilidade. Depois seguimos para a recepção.... -Finja que ela não está aqui. só comentamos.. -Como você sabe? -A rede dela está vazia. Eu estava vivendo um sonho. a Ellen não está aqui.

em um percurso de 8 km até a Ilha do Padre. Vocês estão ouvindo? -De onde vêm esses gritos? -Parecem vir dali. eu queria sair correndo dali. -Meu Deus... porque o resto do pessoal estava adorando. Levy. pessoal. Um de seus remos foi esquecido por alguém no bote. Nas margens do rio avistávamos macacos.... 158 ... -Claro que não. Uhum. esse é o passeio perfeito. cara? -Nada..-Galera. O nível do rio estava alto. o bote vazio foi carregado pela correnteza. pois o bote em que eles estavam estava furado. Daba... o bote foi jogado longe ao descer pela cachoeira.. Após passar da cachoeira.. ele voou em direção ao em que estávamos.. por conta da chuva de ontem a noite. pelo menos pra mim. Enquanto todos se divertiam. -Eu estou com medo. A natureza mostrava seu poder e sua força. o ritmo da água ficou mais lento. -Pessoal. Estou com uma sensação ruim... -Tem certeza que quer ir? -Humpft. Segure firme. -Pessoal. pois o da equipe amarela atrasou por causa do tumulto iniciado pela Ellen. Para quem gosta de adrenalina. -Que da hora. -Vamos lá galera..... Ellen. Olhei para trás e avistei o bote da equipe amarela.. prestem atenção em mim. A sensação de estar dentro daquele bote não era muito boa. -Então ajude a remar. O quê foi. Leve como uma pena. ainda um pouco turbulento. Segurem. -Nando. -Cala essa boca e entra no bote. -Por quê. Uhuuuuuuu. ao virar.. Com a força da água.. pássaros e até sucuris. você está super empolgado para andar no bote. que principalmente no inverno. Segurei em uma corda presa ao bote e comecei a ranger os dentes.. -Ta bom. -Uau. um a um foram descendo do bote e caminhando pela fileira de pedras até a margem do rio.. O passeio era feito em botes de borracha com capacidade para quatorze pessoas. fazendo com que o bote balançasse bastante.. A água corria violentamente seu percurso. Quando avistei a primeira cachoeira... meu coração disparou. porém. amor? -Não sei. Encalhados em uma pedra. claro.. Esse passeio vai ser demais. a gente pode ficar.. Todos estavam em pânico. -Estou com medo... Passaríamos por três cachoeiras e duas corredeiras antes de chegar ao nosso destino final. principalmente hoje que o nível do rio está mais alto. Nosso passeio vai durar a metade do dia... -Vamos lá. saem das águas e se enrolam em troncos de árvores para se aquecerem com os raios do sol. -Se você preferir. O bote da equipe verde saiu primeiro..

Que vai chover.-Cuidado! Todos se seguraram nas cordas presas ao bote. -Ta... Com a respiração ofegante. -Calma.. Também te amo. Ao alcança-lo... -Peguei você. o puxei pela camiseta e lhe dei um abraço.. Vamos sair daqui.. -Já começou a chover.. -Precisamos encontrar um lugar pra ficar.. -Fala. Ao ver o colete salva-vidas se desprender de seu corpo entrei em pânico.... Nade comigo até a margem. O remo foi lançado com tamanha força. Sim. Eu estou me afogando. Muito. Molhados. que começava a cair.. Se preocupe... Segure em mim.. já ele usava uma regata. -Você. -Não... Nando. Vida. Sem você. Amo.. -Eu. Consegue caminhar? -Acho que....... Eu não sei viver mais.... Logo vai passar. -Calma....... A água do rio está. Você... -Então. Começou a ventar forte e o nível do rio começou a subir.... Embaixo da garoa fina caminhamos por quase uma hora floresta adentro. deixei que a correnteza me levasse.. cada vez mais a mata ia se fechando..... Caminhando pela floresta. -Onde a gente está? -Boa pergunta. o lançando na correnteza... -Você está tremendo....... Cruze os braços no peito.... -Obrigado.... -Não acha melhor voltarmos? -Você lembra o caminho de volta? 159 . Abraçados um ao outro.. mantenha a cabeça levantada e tente boiar. alguém ajude ele.. A forte correnteza estava o afastando para longe de nós. Vida. fomos procurando um lugar para ficar protegidos da chuva. Salvou a minha.. corremos o risco de ser atingidos por um raio. Não pensei duas vezes e pulei na água. Salvei a nossa. Porquê. Vamos procurar um lugar seguro. Por favor.. -Eu. que atingiu o Levy que sentava bem no fundo do bote. Prezo ao colete. -Nando. Levy.. Subindo e o céu mostra. -Te. Exaustos de tanto nadar. -Nando. -Já estamos chegando.. pois minha blusa tinha manga cumprida.. tentávamos falar. -Ta louco? -Por quê? -Ficar embaixo de uma árvore. -Vamos ficar embaixo daquela árvore.. fomos nadando até a margem do rio... eu e o Levy tremíamos de frio. deitamos um ao lado do outro. Não entre em pânico.. ele mais que eu. -Levy..

Cof. -Vamos procurar algo para comer... -Você está tossindo. Carinhoso como ele era. vamos parar naquela gruta. Estou com fome. logo vão nos encontrar aqui... Acho que é uma onça. -Sua camisa está úmida. Fomos caminhando por dentro da mata até encontrar uma caverna. -Levy corre.... -Meu pé está doendo.. -Como? Mexendo no bolso da bermuda ele disse: 160 ... -Jamais vou deixar você sozinho. -Agüenta mais um pouco. -Corre Levy.-Não. -A sua também está....... -Mas esse barulho não foi da minha barriga...... Com cuidado. pisei em um tronco de árvore caído pelo chão... O quê é aquilo? -Eu não sei. -Ah meu Deus... Seja forte.. Caí no chão gritando de dor.. foi me colocando com cuidado no chão coberto por folhas secas. Frágil pela deterioração causada por cupim. Ao olhar para trás. Fomos caminhando e olhando para o topo das árvores à procura de algum fruto. quando escutamos um ruído: -Uau... ele se quebrou com o peso do meu corpo. então? O ruído soou mais uma vez.. -Espere... que eram levadas para dentro da gruta pelo vento.. amor. a onça não corre mais atrás de nós. -Não se preocupe. vimos algo ir em nossa direção. -Foi do quê.. ele colocou meu braço por cima do seu ombro e foi me carregando. -Levy. -Mesmo assim. -Nando. é uma bobeirinha que logo vai passar. acho melhor não ficar muito perto daqui. Nunca corri tanto em minha vida como naquele dia.. Estamos perdidos. Não é só eu que estou com fome.... Quase já se fôlego. Levy.. -Calma.. Não precisamos andar muito.... -Humpft. -Estou tentando. -Por quê? -Sua barriga deu a dica.. -Tudo bem. -Ah. -O ruim é que nem temos como fazer uma fogueira. -Eu não estou mais agüentando. Eu acho que temos sim... -Ah meu Deus. -Isso significa que. tire.. fazendo com que eu torcesse o tornozelo esquerdo imediatamente.. -Cof...

mas ele não deixou. mas meu pé doía demais. -Você está todo molhado.. Quando consegui avista-lo. fique deitado que é melhor.. Levy. -Levy. -Que grito foi aquele? -Nada não. Iluminado apenas pelos relâmpagos seguidos. amor. Seu corpo molhado abraçou o meu.... Achei.. Em pouco tempo o céu já havia escurecido... Embaixo de chuva forte o Levy foi buscar o tronco de árvore caído na floresta.. Eu vou por fogo nas folhas secas e conforme o tronco for secando. Sem camisa e vestindo apenas uma bermuda ele levantou o tronco caído.. já a gente estará sequinho. No que ele virou seu braço.. Não vai demorar muito e teremos uma fogueira. -Não está tão longe assim. amor. sendo assim. -Por favor.. ele já estava dentro da gruta.... -Uhum. só consegui ouvir um grito. Esperto como ele só.. Com aquela carinha de menor abandonado. -A gente seca com o fogo. seguido de um suspiro ao meu ouvido ele disse: -Amor...-Antes de entrar no bote o Pedro pediu pra eu guardar seu isqueiro no bolso da bermuda. você está com seu pé machucado... -Eu amo você. ele se aproximou de mim... não conseguia vê-lo muito bem.. -A madeira lá fora está molhada. -Ai... -Levy. -Ótimo. ressaltando seus músculos. Tentei levantar. precisamos agora de combustível. -A madeira não está molhada? -Sim.. mas isso não é problema. -Pronto. Espere aqui que eu já volto. Agora deita aqui comigo e me esquenta com seu corpo. -Nando. -Mas Levy. o quê é isso no seu braço? -Não é nada. -Oh. o fogo vai alastrando. Levy. -Não.. -Humpft. -Pronto. -Nada disso. -Eu vou ascender o fogo e já. juntou um pouco de folhas secas e ascendeu o fogo. Não vá lá fora. -Hum? 161 .. me fazendo deitar em uma cama feita de folhas secas.. A chuva só fazia aumentar. Ali tem um tronco de árvore. tentei levantar para ver o quê havia acontecido.. reparei um vermelhidão. -Oi. -Está molhado.. A minha visão estava um pouco ofuscada por causa da chuva. Está tudo bem? Preocupado..

162 . -Eu e você iremos lutar pela nossa felicidade. ele olhava pra mim com o fundo da alma. no perfume que uso.. Aconteça o quê acontecer.-Quando voltarmos pra São Paulo. apenas seu olhar explicava tudo.. não necessitando dizer com palavras. Nossos corpos nus colados. Rodeados pela natureza intocada pela mão do homem. Em meio às reclamações e promessas. aqueciam um ao outro. Acariciando meu rosto. Você está no ar que respiro. eu sempre vou te amar. Foi lindo.. -Como eu posso gostar tanto de alguém assim? -"Assim" como? -À ponto de você se tornar uma parte do meu corpo.. fizemos amor. -Levy. -"Estamos juntos nessa". Adormecemos abraçados em volta da fogueira. não ter você é como perder um braço.. lembra? -Estamos juntos. -Você sabe que não vai ser fácil. enquanto nossas roupas secavam no calor do fogo... na água que bebo. -Lutaremos juntos! -Nosso amor é maior que qualquer maldade que possam fazer para nos separar.. uma perna... -O quê você quer dizer com isso? -Eu quero dizer que sem você eu não sou completo. vamos oficializar nossa relação e enfrentar tudo e todos que cruzarem nosso caminho.

Ao chegar perto. ele delirava. Nessa hora ouvi o barulho de um helicóptero passando pela floresta. com muitos peixes. Não é nada. -O quê houve. -Levy. Com certeza ele estava à nossa procura. mas não consegui. sendo condenados à exílio eterno.. A água brotada do fundo do lago sacudindo as areias em forma de erupção. Ardendo em febre. Nando? -Eu tentei acenar pra ele. vesti sua bermuda e minha blusa que era de manga cumprida.. Voltei para a gruta triste. com certeza deveria ser mais de 12h00. foi como uma sentença de um crime que não havíamos cometido. Ascendi a fogueira e o levei para próximo do fogo. -O quê você tem? -Nada não. Tentei não me afastar muito da gruta para não me perder. Me perdoa. fui me aproximando. Se não fosse minha perna debilitada. Nossas roupas já estão secas. notei que ele estava muito quente e tremendo... Vesti minha bermuda e chamei o Levy para vestir suas roupas: -Levy. Perto dali havia um lago de água cristalina.. Fiz um esforço para levantar e fui pegar nossas roupas.. No mesmo instante comecei a correr para uma clareira. O quê você está me escondendo? 163 .. o helicóptero voava baixo. ele já estava fazendo o retorno e indo embora.. O sol já estava forte.. As roupas já estavam secas... Amor. fui mancando pouco a pouco. -Calma.. Ao chegar. Pra mim. à tempo de ser visto e salvos pela equipe de resgate. Ai. está inchado. Vendo que ele não respondia.... Comecei a chorar de raiva. avistei o Levy sentado em volta da fogueira cobrindo seu pé com a mão.. Tentei acorda-lo. contando com a própria sorte. -Que machucado é esse? -Não sei.. Sem saber o quê fazer... -Por que você fez essa cara? -Amor. Por que levantou? -Você ouviu um barulho de helicóptero? -Humpft.Dormimos tanto que nem vimos o dia amanhecer.. Peguei uma de nossas meias e saí procurando alguma poça d'água para fazer compressas e baixar sua febre. -Levy. em uma floresta desconhecida. Abaixei na beira da margem para molhar a meia. eu teria conseguido correr mais rápido. Com o pé ainda doendo. Sim. Quando cheguei em um lugar aberto.. pois no lugar onde eu estava haviam muitas árvores que atrapalhavam a visão.. Pela intensidade dos ventos.

. precisávamos sair dali imediatamente... O Levy precisava de um médico urgente. Você consegue andar? -Eu. Que sim... Sem ter como sermos vistos nem pedir socorro.. Que tem alguém? -Não sei. Quando o vi se contorcendo... Alguma coisa picou meu braço ontem. -O quê foi? -Estou com vontade de vomitar. Não deu pra ver... Precisamos sair daqui. -Veja Levy. -Nada que envolva você eu considero como bobagem. -Jamais.... ele suava demais.. Nando. No bolso da minha bermuda. O desespero tomou conta de mim. -Mas Nando. -Não me deixe. ta bom... O abracei como ele havia feito comigo ao torcer meu pé. Meu Deus. -Será. o quê possibilitou de levar água para o Levy. -Humpft. lembra? -Uhum. -Humpft. Deixa eu ver se sua febre baixou. onde fosse possível sermos vistos por algum helicóptero ou avião que passasse por ali. Entramos na cabana e notamos que ela parecia estar 164 ... Acho...... -Vou buscar água pra você. não quero que você fique se preocupando com essas bobagens. -Que coisa? -Não sei. -Você é um cabecinha dura mesmo. Ninguém apareceu. -Eu estou aqui.. -Então vem. -Por favor. Levy. Escute o quê eu vou falar.. amor.. A febre permanecia alta. -Ta bom. -Nando. -Amor... Virei a maçaneta e a porta se abriu.. -Seu braço está muito inchado.. Andamos cerca de quatro horas até encontrarmos uma cabana de madeira abandonada no meio do mato. Nos aproximamos da cabana e batemos na porta. Precisamos sair daqui e procurar ajuda. me preocupei.. não tem como não atender um pedido seu.-Nada. Uma cabana... eu havia guardado a caixa do meu óculos escuro.. O Levy havia sido picado por um escorpião e seu estado piorava rapidamente. -Pare de exagerar... Sua situação era mais grave do que pensávamos. não minta pra mim. Trouxe a sua água.... Deixamos a gruta à procura de um lugar aberto.. você está muito quente.. Estamos juntos nessa... -Amor. Eu to com sede. Caramba. De olhos fechados.. -Por favor? -Tudo bem.. -Nando. não havia meio que a fizesse baixar. -Fique com a cabeça entre as pernas.. você não está bem..... Deite. amor.... Vamos lá ver. Nando....

. estou aqui com você.. -Segura minha mão! -Pronto.. -Nando.. No canto havia uma cama feita de palha.... Não me deixe sozinho. -To aqui. Assim que ele adormeceu eu comecei a juntar as folhas e gravetos para ascender uma fogueira.... Às vezes acontecem coisas em nossas vidas que não sabemos explicar... nós vamos voltar pra casa e rir de tudo isso um dia. -Nando. como se alguém fosse nos ouvir e nos atender..... fale comigo. O teto estava coberto de teia de aranha em alguns pontos e marcas de cupim se mostravam nas extremidades. eu te amo. fique deitado.. Minha vista está escura... eu estou aqui com você. no qual ascendi para iluminar o interior da cabana...... por dentro eu sentia o oposto. Embora eu passasse segurança e confiança... -Eu quero a minha cama. Por favor. Fique deitado.. Meu único motivo para continuar lutando era o Levy. -Nando. -Levy. fale comigo. -Calma.. O medo de perder o Levy era tão grande que comecei a gritar sem saber o quê fazer. -Fique calmo.. Agora respire calmo. tomando cuidado para não assustar aquilo que nos observara. deite um pouco e fique de olhos fechados. Como se já não bastasse. -Você promete? -Prometo. Amor. -Cof... Não precisa ter medo. onde pedi para que o Levy se deitasse... -Nando.... Comecei a ficar preocupado. -Não se preocupe. -Nando. Sobre uma mesa apoiada próxima à janela havia um lampião. avistei alguém nos observando.. Levy. -Que barulho foi esse? -Não foi nada.. cof. Fixei meu olhar entre as folhagens através da janela e tentei identificar quem ou o quê era. Quando eu dei tudo como perdido. Enchi o Levy de esperanças. Discretamente me aproximei da janela... Uma leve corrente de ar entrava por um vidro quebrado da janela... Nós vamos pra casa. Já cheguei. Sentado ao lado do Levy eu segurava sua mão. O Levy estava transpirando e ardendo em febre.. Calma.. -To indo... Fica calmo. por favor.. 165 . atento com seu estado. -Psiu. tente descansar... Minha preocupação começou a aumentar ao ouvir o barulho de algo pisando em folhas secas que vinha lá de fora..... -Eu estou com medo. pouco tempo depois ele ficou inconsciente.abandonada há muito tempo. -Hei. -O tempo lá fora denuncia que vai chover... não deixarei que nada de mal te aconteça... Levy. -Meu Deus... Nando. Levy. Eu quero ir embora pra casa..

Imediatamente corri até a cama e o índio conseguiu pular pela outra janela. Além do mais. Pensou o Criador em matá-lo e se pôs a dialogar com o martim-pescador: -Martim. se tornaram magros. Por isso. Existem algumas lendas a respeito dessa tribo e uma delas conta que quando Deus fez a criação dele na terra. Fez o Criador uma coberta de palha de acuri. outro índio apareceu. a ema resolveu descansar em cima de um formigueiro.. Quando tentei me aproximar mais. -Nando. chegou por último. O veado e a ema comeram pouco sebo e. na mesma faixa de idade. ela deveria ter em média uns 12 anos. o Criador tocou uma buzina e os outros animais começaram a chegar. -Oi. Com seu rosto todo desenhado. como se percebe. não vou te machucar. tem apenas o fígado gorduroso. Então.. vagaroso que é. naquele tempo. foi o porco. O primeiro a aparecer. de certo tinha muito poder. Depois. para receber as fatias de gordura do Alagadiélali. longe que estavam. pois estava gordo. Instantaneamente olhei para trás e avistei um outro índio tocando em seu braço. os índios têm tantas histórias do que ocorreu naquele tempo. -Ah. O Criador distribuía o sebo desse monstro aos outros animais.. -Levy. devorado que fora pelo monstro. morro de frio. pois chegaram atrasados ao chamado. Contase que.Ao mesmo tempo em que fiquei assustado. 166 . -Não toque nele. fugindo junto com os dois que estavam do lado de fora.. antes de chegar ao Criador. Mesmo assim aceitou o empréstimo e desvestiu-se. empreste-me seu capote! -Senhor. do mesmo que o cavalo e a capivara. se explica não ter ele carne alguma. havia um animal dentro de uma lagoa.. chamado Alagadiélali. O cágado.. -Procure não se mexer muito.. para sondar aquele animal que devorava outros animais existentes na região e que eram suas criações. quando está gordo... por isso. se eu o emprestar. Seu olhar era de curiosidade e timidez. pois. porque dele comeu bastante. Naquela região habitavam os índios kadiwéu. Se minhas suspeitas estivessem certas. Assim. também emocionado de ver uma índia na minha frente... nossas chances de encontrar o caminho de volta ao acampamento seria mais fácil. A presença deles ali. Os dois índios permaneciam parados. indicava que havia alguma aldeia pelas proximidades.. o Criador se fantasiou de pássaro e foi matar o Alagadiélali dentro d'água... o que conserva até hoje. -Nando. Não precisa ter medo. Depois apareceu o boi que também engoliu o sebo. Você está sentindo o quê? -Não sei descrever. Ficou sondando a lagoa e viu um veado se aproximar para beber água e ele sumiu. O monstro foi puxado para terra e cortado em pedaços. Achou ele apenas uma brasa engordurada e engoliu.. dessa vez era um menino.. sem esboçar nenhuma reação até ouvir um grito do Levy. razão do porco ter a natureza de gordo. Dormiu e teve suas asas roídas pelos insetos.

... Algumas horas se passaram e a melhora do Levy era visível. Tudo bem. Opa.. -Estou com frio. O dia amanheceu. Seu braço desinchou e voltou ao normal.. -Nunca mais repita uma coisa dessas. apenas a ferida e uma vermelhidão em volta da picada permaneciam. Promete que nunca mais vai dizer isso? -Humpft. Levantei cuidadosamente e o deixei descansando. -Vem um pouco mais perto do fogo.... 167 .. assim deitado em seus braços.. Me abraça? -Claro... se aproximando de nós com algo nas mãos. -Humpft. -Estou aqui..-Oi?. eu morreria feliz. levantei sua cabeça e fui aos poucos fazendo com que ele bebesse... Se eu morresse agora. fiquei velando seu sono e vigiando para que nada de ruim acontecesse com ele...... Melhorou? -Sim. Minha cabeça está doendo ainda. Sabe. através de gestos ela tentava explicar que o Levy deveria beber aquela espécie de xarope. -Levy. -Cadê os índios? -Foram embora... Na cabana.. Segurando uma pasta verde nas mais e tentando me dizer algo a índia foi se aproximando... eu prometo. Adormeci sentado. meu amor. -Amor.. a intenção de nos ajudar era compreendida através dos olhares e gestos que eles expressavam. Nando.. -Nando. Com a cabeça apoiada sobre minha perna. Com o Levy apoiando sua cabeça sobre meu colo. Bebe tudo. Embora eu não estivesse entendendo o quê eles diziam entre si. Ao me entregar um líquido viscoso verde. Adormeci sentado e acordei com uma dor horrível no pescoço. Ao mesmo tempo. Eu já não sabia mais o quê fazer.. Sua febre foi diminuindo gradativamente até desaparecer por completo. Você se sente melhor? -Nossa. Nem precisa pedir..... Apoiei as mãos na cabeça e me entreguei ao destino. -Já anoiteceu? -Sim. na mesma hora os três índios apareceram novamente.. entendeu? -Mas Nando. o Levy parecia ter piorado. um dos índios cobria o braço do Levy com aquela pasta verde feita de ervas..

-Ah meu Deus.. -Você agüenta andar? -Sim. é o cenário de uma história de amor de um casal de garotos.. mas quando cheguei já era tarde. -Humpft. -O quê foi? -A fumaça está vindo da cabana.. com várias espécies de peixes e outros seres aquáticos. Assim ela pára mesmo. na mesma hora me veio a cabana na cabeça. De queimado. caso você caia eu te seguro. -Hum. -Existo sim. só pra te amar. -O quê é estranho? -Não tinha como a fogueira consumir a cabana em tão pouco tempo.... -É estranho... que vivem uma linda história de amor e provam que dois homens podem se amar sim. -Vamos. -Então vamos abraçadinhos... -Então vamos até lá. podemos construir outra. Você não existe. -Tem um lago aqui perto.. Que lugar lindo.. Te amo.. e sabe por quê? -Hum? -Porque eu vim ao mundo pra te fazer feliz.. -Mano. Perto dali havia um lago de águas cristalinas... Uma cachoeira de fundo completava a beleza do lugar. -Cara. -Caramba. 168 .... Ao seu lado eu espero a vida toda. e que não existe pecado quando se ama.. Estou com sede.. -Nossa.. mancando igual um Saci. -Mas devagar. -Você está sentindo esse cheiro? -Cheiro de quê? -Parece... Olhei para o céu e vi uma fumaça preta subindo. Demos um beijo na boca.-Logo vai passar. o fogo já havia destruído quase tudo. -Esse lugar. Um beijo com gosto de amor e aroma de paixão. -Eu também amo você.... -E agora? -Não fique assim meu amor... -Como? Vamos levar meses.. ainda me sinto um pouco tonto... Comecei a chorar de raiva por ter deixado a fogueira acesa. -O quê? Corri feito um louco até lá. -Nando. -Amor. -É mesmo. -Oi.. Ta queimando tudo.. Eu nasci pra te amar. Ver aquelas labaredas expelindo as cinzas da madeira queimada me deixou triste.

interferindo na comunicação.... -Feche os olhos.. -Não precisa. 169 . -Precisamos fazer com que nos vejam. Você está ouvindo? -É um helicóptero.. Quem vai primeiro? -Acho melhor ir você. não fique assim.. calma.. não foi para nos prejudicar... A visão era um pouco prejudicada pela poeira que levantava com o vento. O rapaz se prendeu no mesmo sinto que eu e começamos a ser erguidos juntos. cara. Malditos. eram os três índios que nos observavam. pois naquele momento tínhamos a certeza de que voltaríamos para casa. eu vou logo depois de você. -Nando. A comunicação entre nós era praticamente à base de gestos.. -Você não pode pegar sereno. Eles já sabem onde estamos. Finalmente havíamos sido encontrados.... -Amor. Levantei rapidamente e comecei a acenar para a aeronave.. -Humpft. um rapaz desceu entre as árvores. No que pensei que seria igual ao procedimento para erguer o Levy. Pendurado por uma corda. Ta bom. -Amor.. -A gente se encontra lá. -Mas Nando. Levy.. -Vocês estão bem? -Estamos! -Bom.. -Pura maldade....Nessa hora. mas não consegui.. o Levy me abraçou na tentativa de me confortar.. Quando olhei para trás. -Mas é claro que foram eles. e sim utilizando um velho artifício. Chegou a minha vez. Ágeis. -Como assim? -Quando os índios colocaram fogo na cabana.. Amarrado por uma espécie de cinto preso à um cabo de aço. -Esqueça isso. no qual o cabo de aço travou e acabamos ficando presos. fazendo sinal de fumaça. -Te amo! Demos um forte abraço e um breve beijo molhado.. Vai subir um de cada vez preso à corda. -Eles devem ter um motivo para ter feito isso. pois o barulho das hélices era muito alto. Eu te falei. esse é o motivo. -Estamos salvos! -Viu?. Respiramos aliviados.. que pairou sobre nós. Tudo parecia correr bem até a metade do caminho... ouvimos um barulho de folhas se movendo e risadas. -Mas. Meu coração só faltou sair pela boca... Sentei ao redor da madeira queimada e comecei a chorar de raiva. no meu caso foi diferente... eles sumiram por dentro da floresta numa rapidez incrível..... -Eu sabia. Como fui burro em acreditar que queriam nos ajudar.. acompanhei o Levy ser içado até o helicóptero. amparado por dois soldados que o ajudava a guia-lo até a aeronave. Tentei correr atrás deles. comovido.

. por quê? -Foi picado por algum inseto? -Já entendi. -Pendurados? -Não se preocupe. o assunto era imediatamente interrompido. pois a poeira misturada às folhas ardiam nossos olhos ao subir e descer no bater do vento. Vejamos... estamos seguros.... -Fernando... -Agüenta mais um pouco que já estamos chegando. A sensação de estar pendurado à uma corda com ele em movimento era muito ruim.. a única coisa que me aconteceu foi torcer o tornozelo. Respire novamente. Ver a floresta de cima era encantador..-Mas o quê está acontecendo? -O cabo travou. me fazendo sentir enjôo.. Vá até a varanda da pousada que um médico está te esperando. estou ótimo.. Quando ele disse pra eu fechar os olhos me desesperei.... o helicóptero fez um giro de 90º e seguiu.... Se acalme. Nando. Aquela sensação de liberdade que se sente ao voar é inexplicável. como um pêndulo de relógio. Ao me aproximar do pessoal.. -É mesmo necessário? -Claro.... está tudo bem com você? -Sim.. -O quê?. -Tudo bem. Os pés pareciam que iam bater no topo das grandes árvores.. Agora vou precisar ver como está sua pressão. Por que levaram o Levy? -Ele teve que ser levado para São Paulo urgente. O remédio que os índios haviam dado para ele foi o quê não deixou que sua situação se agravasse mais ainda. -Você é o Fernando Viana? -Sim. O vento forte cortava nosso rosto e fazia a corda balançar de um lado para o outro. O helicóptero fez o retorno e seguiu para o heliporto da pousada... a situação não era nada boa. Só no Instituto Butantã tem o antídoto contra o veneno do escorpião... Era difícil permanecer com os olhos totalmente abertos. o quê reforçava a minha suspeita de que algo de ruim estavam me escondendo. -Humpft. -Humpft. -Mas.... mesmo assim vou prescrever alguns exames que você deve fazer ao voltar pra São Paulo. -Estou tentando... o quê me deixou desesperado. Após nos deixar na pousada... Respire fundo. Alguma coisa de grave estava acontecendo. 170 . mas ao mesmo tempo assustador... -Parece estar tudo em ordem. teremos que ir pendurados. O quê está acontecendo.. Agora solte devagar. fui logo solto da corda. Que nada de mal vai acontecer. Não fui picado por nada. pois o Levy ainda estava lá dentro.. Diga que ele está bem. -Ah Meu Deus. Rapidamente nos afastamos da aeronave para que ela pousasse. Como assim? -A situação em que ele se encontra é grave. Pela expressão que o administrador da pousada fez... Meu coração estava apertado. Chegando na pousada..

Arrume suas coisas que vou mandar te levarem para o aeroporto.. Daba? -É que. já havia um carro me esperando para me levar até o aeroporto. Imagine a sua irmã vendo o pai dela saindo de casa algemado pela polícia.. por favor. -O quê? -Cala a boca Ellen.. o Levy está precisando de mim.. Fernando. -Fernando. “-Humpft.. -Não tente esconder a verdade. Fui o caminho inteiro pensando em como estaria o Levy. Fiz aquilo por amor.. -Se eu não for por liberação sua. -Como nada? -Pela sua cara.. -E a culpa é toda suaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.... Ao voltar. promete quê.. -O quê vocês estão falando do Levy? -Nada... você já pensou o quê aconteceria? -Meu pai no mínimo seria preso.. -Desculpa. -Então é isso que vocês estão escondendo de mim. Chorando ela gritava abraçada à Daba. eu volto pra São Paulo. Tudo bem. Quero te pedir desculpas.. Corri até o organizador da viagem e pedi para que me liberassem para voltar antes da data prevista. -Pedir? -É. -Pára com isso.. antes de voltar escutei alguém sussurrando ali próximo. ela disse que o Levy está morrendo. -Obrigado. 171 . Mano. -Do que você está falando? -Ela não está bem. -Desculpar? Você acha justo esconderem a verdade de mim... a volta está programada para amanhã.. eu preciso voltar para São Paulo.. Corri até o quarto da pousada e peguei minhas malas que já estavam prontas...” “-Nando. com o olhar perdido naquela paisagem fascinante. Por bem ou por mal. -Evandro...Arrumando as malas.. -Humpft. Se eu te pedir uma coisa. vou de carona com alguém. -Eu não posso esperar até amanhã.. algo de errado está acontecendo... Caminhei até a janela e escutei a Ellen e a Daba pronunciarem o nome do Levy. mas sua família seria desestruturada. -O quê você quer pedir? -Promete que não sairá da minha vida?” “-Imagina eu revelar a verdade.. -Preciso voltar pra São Paulo agora. Evandro... -Não só isso. -Por sua culpa o Levy está morrendo.... Ellen. -Mas Fernando. Nando.

Estou falando de nós. O tempo parecia não passar com aquele vai e vem de pessoas circulando pelo local. Olhando a cidade de cima eu ficava tentando adivinhar em qual ponto estaria o meu Levy. Cheguei em casa ofegante.-Chega... Daqui à pouco. pois eles não dão valor aos clientes. eu quero que vocês façam o que eu pedi... Você não ia voltar só amanhã? 172 .. “Atenção passageiros do vôo com destino ao Rio de Janeiro.. Bufando.” Apoiei minha cabeça no encosto do banco e fiquei assistindo uma senhora brigando com uma atendente no balcão da companhia. tente se acalmar. Olha menino. E seu embarque está marcado pra quando? -Para o próximo vôo. Segui direto pra casa para deixar as malas. não quero mais ouvir suas histórias de que você ama a Ellen. por causa do peso das malas... Saí do aeroporto e peguei um táxi até o metrô.. ao menos que houvesse alguma desistência. -A minha está marcada para amanhã e eu preciso embarcar o mais rápido possível. ela deixou a atendente falando sozinha e sentou-se ao meu lado.. A senhora não quer trocar? -Você faria esse favor? -Mas é claro. O telefone tocou por 6 vezes até cair. minha família em São Paulo está pensando que vou chegar lá amanhã. Ao cruzar o portão de desembarque. -Nossa. pois a mulher gesticulava com suas mãos exageradamente. só depois poderia sair procurando por ele. -Pois é. o quê aconteceu? -Imagine que eu quero trocar minha passagem para embarcar amanhã e eles não querem trocar. Um absurdo que eles fazem com nós clientes.. resmungando por causa do atendimento da recepção.... tamanho era o seu nervosismo. Foram os minutos mais longos da minha vida. Que complicado. A sorte estava ao meu lado e deixa-la escapar eu não poderia.. liguei o celular e imediatamente tratei de ligar para sua casa.. -Senhora. -Infelizmente não há como. -Por quê.” Cheguei no aeroporto ansioso para embarcar.. somente isso... -Eu não quero me acalmar. -Eu preciso de uma solução urgente.. Nando. -Ué. -Nossa. Sentei na sala de espera e fiquei aguardando ser chamado. Deveria ser algo grave... Em menos de uma hora depois eu já estava voando com destino à Congonhas. Não consigo mais viver sem você. Fiquei aguardando ser remanejado em algum vôo para São Paulo. -Inferno.. nunca viaje com essa Companhia.. -A senhora tem passagem pra daqui à pouco com destino à São Paulo? -Sim. Tentei por mais de duas vezes seguidas e não obtive sucesso. Não demorou muito e meu irmão atendeu.. Não pensei duas vezes em trocar as passagens.. Embarque no portão 2. -O quê? -Humpft. pois de última hora não havia mais vagas. Toquei a campainha para ver se tinha alguém em casa... -Esqueça a Ellen.

-Ah. mas ninguém atendeu. -De que verdade a senhora está falando? 173 .. mas chegou tarde porque o enterro já foi. vá descansar um pouco. Fernando.. liguei para a Habiba. Naquele instante minhas vistas escureceram. -Por que você está mancando? -É um ritual indígena que eu aprendi... Entendi..... Querido. que o Levy estava me esperando em casa. a gente precisa conversar... -De qual amigo você está falando? -Ah. você está me assustando. -Dona Sandra?.. Eu acho que você precisa saber da verdade. mas antecipei por alguns problemas. -Que enterro? -Daquele seu amigo.... Queria que alguém me ligasse naquele momento e me dissesse que eu estava errado. Sem saber a quem recorrer.. -Habiba. Eu já estava a ponto de enlouquecer.. Peguei o telefone novamente e liguei para o Rafael.. -Ah. Larguei as malas na sala e subi as escadas até meu quarto. Já estou sabendo. Minha preocupação aumentava cada vez mais.. -Sai da minha frente.. Peguei o telefone e tentei novamente ligar na casa do Levy.. -Tudo bem com a senhora? De repente ela começou a chorar. -Mas Vivian. acabei de chegar de viagem.... Aproveitaria também para esclarecer sobre a carta que havia encontrado antes de viajar.. O quê aconteceu? -O Rafael. Não lembro o nome dele. -Caramba! Quando foi isso? -Na madrugada de ontem. -Oi Fernando.. você tem notícias do Levy? -Humpft. -Nando.-Ia.. de banho tomado e sua bermuda vermelha meio caída mostrando parte de sua cueca que eu tanto gostava. -E como ele está? -Humpft. O ar me faltava e as lágrimas começaram a descer.. -Pronto? -Dona Sandra? Aqui é o Fernando.. tome um banho que depois eu te ligo pra conversarmos.... mas não agora. A imagem do Levy não me saía da cabeça. -Tchau habibo. Sofreu um acidente de carro. -Oi habibinho! -Vivian. -Alô? -Habiba. Aconteceu alguma coisa? -A sua mãe não te avisou? -Eu ainda não falei com a minha mãe. às vezes ele me dava uns conselhos que me faziam muito bem. Vá descansar um pouco que depois eu te ligo.. Desliguei o telefone quase que com a certeza de que havia perdido o Levy. o meu amor. Sou eu.

mas o acidente deixou seqüelas graves.” -Olha.... A esposa do Guilherme.... Eu. Dona Sandra. O Rafael sempre teve um diálogo aberto com sua mãe.. dona Sandra. Não sei o quê dizer. Estava namorando um rapaz chamado Guilherme.. cof.... -Humpft. Ele ficou tetraplégico. felizes por estarmos indo para a praia no último feriado prolongado..” “-Hahaha. Fique com Deus. Eu no lugar dela também não suportaria.. Sentado no banco de trás o Rafael assistia os dois brigarem.... -Tudo bem. Fernando..... -Qual o estado dele? -Cof. cof...... -Que horror. -Nossa. assumindo sua homossexualidade desde cedo.. Eu duvido que você consegue tomar duas taças de sorvete em dez minutos. Obrigado..... O Rafael gostava muito de você. -Eu.....-Cof. “-Alô. Ela entrou no carro e os dois continuaram a discutir... -Eu também gosto muito dele.. Ao lado da mesa do computador havia uma foto nossa. O Rafael. Cof. Foi em um momento de distração que o Guilherme perdeu o controle do carro e entrou embaixo de um caminhão.. -Humpft...” “Nando. Obrigado.. -Já arrumou suas malas? -Mas é claro..... -Tchau. -Fechado. Não fala. Passa 24 horas sobre uma cadeira de rodas. cof. -Humpft.... Humpft.. -O quê? -Pois é. A verdadeira causa do acidente ninguém sabe. Desliguei o telefone anestesiado... Fficou dois dias em coma. -Nando? -Eu.... -Quer apostar quanto? -Aposto uma balada. -Meu Deus. Esse Guilherme era casado e sua esposa havia acabado de chegar do estrangeiro com sua filha. Melhor você não duvidar muito...... Foi..... Totalmente dependente das pessoas. mas não resistiu e faleceu..... Meus sentimentos.. Desculpa qualquer coisa.. Foi morte instantânea.. Ele havia me contado na noite anterior ao acidente... ela resolveu segui-lo e acabou flagrando os dois se beijando.. -Não vejo a hora de chegar amanhã.. abraçados e fazendo careta........ triste por ter perdido um amigo. -Tchau. Os dois começaram a discutir... -O quê aconteceu? 174 .... O Guilherme foi o único sobrevivente. E como ele está? -Cof. Socorro. cof. mas a polícia desconfia quê... Não sei o quê dizer....... Não se mexe... Desconfiada do comportamento dele...

-Eu..-Tem um moleque que não larga do meu pé..” Olhando para ele naquela foto tão feliz.. que desânimo.. -Humpft. Isso são horas de me ligar? -Deixa de ser chato... -Oi Habiba! 175 ...... Tomei um banho gostoso.... -Tudo bem.” “-Fala moleque. Acho que o nome era árabe. Fiquei com tanto medo. Rafael.. suas asneiras depois da bebedeira. Corri até o quarto e liguei pra ela. Gosto muito de você.. -Isso. “-O quê é que não vai ser trabalho nenhum? -Estou oferecendo uma carona para o seu amigo.” “-Nando.. -Quem? -Não lembro o nome.. era impossível acreditar que nunca mais ouviria sua voz. quentinho. Você pode me dar uma carona também? -Humpft. pois o cansaço que eu estava era demais. Saindo do banheiro. -Nossa. cara. -O quê? -Desculpa por ontem? -Humpft.. -Foi a Habiba.. cruzei com meu irmão na porta. tirando toda aquela energia negativa acumulada.. Olhei no relógio e já era quase 17h.. Ligaram pra você enquanto você dormia.. É quem estou pensando? -Humpft.. Acordei com o corpo todo dolorido. -Alô.. -Sim. Gosto muito de você... Como foi lá no jantar com o "bacana"? -Foi legal..... -Hahaha. Dormi a tarde inteira. Levantei pouco a pouco e no caminho até o banheiro fui tirando a roupa.. Sim... não dava para acreditar que havia perdido meu amigo para sempre.. -é?. Parecia que um caminhão havia passado por cima de mim. pelo amor de Deus. -Olha a hora que você me liga. -Mas será que você não presta pra nada? Por que não anotou? -Ah...... Logo adormeci. -Obaaaaaa. eu desculpo! -Eu sabia.. -Nando.” Tirei o tênis e deitei um pouco na cama... não começa...

corri o máximo que eu pude. permaneci calado o caminho todo. -Chegamos.. Olhei para a Vivian e sua expressão não era nada boa. interrompido pela sirene da ambulância que chegava no pronto socorro. -Esse tempo que fiquei te esperando eu pensei. 176 .. -Tudo bem... -Desculpa. -Pensei que não vinha mais. -Não demore. com o coração apertado. Em menos de dez minutos eu me arrumei e segui até o metrô... Minhas pernas iam amolecendo pouco a pouco. Prefiro não me antecipar.. -Mas por telefone não. aquele cheiro de álcool me embrulhou o estomago.. Já que o motivo real ela não iria falar. Olhei para o alto do prédio e fiquei imaginando em qual daqueles leitos o Levy estaria. Habiba? -Humpft. -Pare de falar através de metáforas... -Pode falar.-Habibinho. Preciso falar com você. Ao me aproximar a cumprimentei com um beijo no rosto e ela logo já foi me arrastando. já nem sentia mais a dor da torção no tornozelo. -Fazer o quê? -Ver o Levy. -Pra onde? -Para o hospital. Vem pra cá agora. -Humpft. Meu olhar se perdeu na brisa fresca do final da tarde. melhor você.. -Vamos. Fala logo o quê está acontecendo. Ao cruzar a porta da recepção. habibo. Olha Nando. -Quer falar logo? -Não. A cada estação minha ansiedade aumentava. -Como ele está. Um frio na barriga me consumia cada vez mais.... a partir de agora você terá que ser maduro... -Você está me assustando. Habiba. -Beijo.... Cheguei na empresa e a Vivian já me esperava na porta. -Mas..

-Ta bom... Com um frio na espinha e as mãos tremendo. Ao entrar no quarto. Ao entrar.. com um lençol que cobria até seu umbigo e seus braços esticados. -Está aqui. Quando achei que nossa vida iria finalmente dar certo. habibo.. Somos... Nando..... Nando.. parecia um corredor.. -Licença. Eu já não tinha mais o quê roer.. -Mas já? -Sim.. Olhando para um quadro na parede eu aguardei por quase meia hora.... pega um copo d’água pra mim.. Nando.. fui caminhando devagar. mas eu não lembro de você. fique mais um pouco? -Eu volto outra hora. Viver ao lado do Levy era um sonho. Mano. Não contendo a emoção. Vamos pegar o elevador até o 3º andar... Você me conhece de onde? -Como assim?. O elevador já estava parado no térreo..... Que legal!. -Valeu. Agora eu começava a entender o por quê a Habiba fazia tanto mistério para me contar sobre seu estado...... -Valeu pela preocupação. mas isso era o quê eu pensava.. Pode entrar.. O quê você é meu? -Humpft. era horrível.. pois era uma coisa estranha.. -Bom.. muito amigos. você precisa descansar. -Mas.. -Puxa. foram meu único consolo enquanto esperava. Gelada? -Sem gelo... -Eu? -Pode ir lá. Sentei em uma sala de espera que havia naquele enorme corredor cheio de portas. Fui a empurrando pouco a pouco. o Levy me aparece desmemoriado. Que brincadeira é essa.. -Ah Levy. -Nando.. Um choro de bebê oscilava de tempo em tempo. pois as unhas das mãos eu já havia comido tudo. -Vem aqui habibo. -Nando. -Humpft.. Ele parecia estar ótimo. fiquei todo arrepiado.. no qual eu já estava acreditando ser impossível de se realizar. Minha felicidade durou pouco tempo. Espera naquela sala um pouco que eu já volto. -Opa.. -Ah não. -Como não lembra? Sou eu. Levy? -Desculpa. Estou com medo..-Aqui habibo. pois acima do andar onde estava era a maternidade.... 177 .. por favor? -Claro. corri até ele e dei-lhe um abraço.. -Calma.. não tinha espelho. Bati na porta que estava entre aberta antes de entrar.. com um curativo no local da picada do escorpião. avistei o Levy deitado na cama olhando para a janela. Como fiquei preocupado com você.. -Pode ir. Amigos. se recuperando do efeito do veneno.. Vou indo.. Aqueles bancos gelados.

. porra. -Obrigado. eu amo você! -Levy. -Eu também.. quando ouvi aquela frase.... -Eu fiz apenas o quê o meu coração mandou. afinal. 178 . -Mas... como se não nos víssemos há anos.. Naquela mesma semana. Nando. Eu já ia me jogar na frente do primeiro carro que cruzasse a rua....... -Humpft. -Mano. dentro desse hospital estou muito sozinho. pois descobriram que foram as duas que furaram o bote no passeio em Bonito. abraçados um ao outro eu prometi a mim mesmo que nada nem ninguém iria nos separar. sem você eu não conseguiria mais viver.. E sua família? -Não sei. Não diga isso nem de brincadeira. -Hahaha.-Cara. E ele bate por você. Naquele momento. Nando. Eu já havia praticamente cruzado a porta. -Mas eu quero que fique agora. Achando que as cores dos botes influenciariam nas equipes.. “estamos juntos nessa”.. -O quê você disse? -Que “estamos juntos nessa”. mas não contavam que era o bote que elas estavam furando que sua equipe desceria o rio. Você quase me matou de susto. Desculpa.. nunca mais.. Acho que os médicos não vão querer que eu fique. -Pelo quê? -Você salvou minha vida duas vezes. Sinto falta de alguém pra conversar. ocasionando aquela tragédia.... -E você acha que eu consigo sem você? Demos um abraço bem apertado e começamos a nos beijar. a Ellen e a Daba foram demitidas por justa causa. -Exagerado... -Te amo cara. lembra? -Caralho. acabaram furando o bote da cor oposta.. Fica comigo. Que brincadeira é essa? -Não é nenhuma brincadeira.. Fique um pouco mais.

. você está sofrendo as conseqüências agora.. Todo seu orgulho... sua arrogância.. que brincava na sala com a babá bilíngüe. No final. pois a menina só falava em inglês. por mais que tentem. Mesmo depois de descobrir que era ele o causador das brigas do Guilherme comigo. não tem jeito. Semana passada fui visitar o Guilherme. Duas enfermeiras cuidam dele 24 horas por dia. -Oi Guilherme! Sei que você pode me ouvir. Agora você entende o quê eu quis dizer com “dinheiro não traz felicidade”?. pois amo e sou amado. Passa as férias no Brasil e o período escolar na Inglaterra.. principalmente quando envolvia o Levy. com seus avós maternos. Conheci sua filha. Guilherme. é porque não chegou ao fim.. Ao me ver. uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho esquerdo.. mas fiquei com raiva quando descobri que era ele quem informava ao Guilherme sobre cada passo que eu dava. Todo o mal que você fez às pessoas... A menina está sendo criada pelos avós. de uma maneira que jamais pensei que existisse. tudo da certo. lhe transformaram nisso que você é agora. não consigo sentir mágoa. Jamais pensei que um dia fosse te ver nesse estado. Seu dinheiro não foi e nunca será a razão de sua felicidade. Se ainda não deu. ninguém consegue destruir. Quando uma história de amor é verdadeira e sincera. 179 . Humpft. somos nós que definimos nosso destino.Hoje faz um ano que o Rafael faleceu. Hoje eu posso me considerar uma pessoa feliz. não sei se foi por arrependimento ou por ódio. Na vida. pois o amor é mais forte que tudo.

br/provida/alcool3. (On-line).letras. USP. (2006). (On-line).mus.portalbonito.htm .br/aprendiz/guiadeempregos/palavra/jbotelho/ge140202.uol.mundomoto.br/Reforma/Pg021Desemprego.htm . Joaquim. (2006). MOTO. (2006). (15/03/2006). (13/03/2006). Disponível:http://www. Mundo. (On-line).br/home/home.com. (15/02/2006).fob. (30/04/2006).usp. Disponível: http://www. Transtornos relacionados por semelhança ou classificação .com. (2006).LIBRARY.com. http://www. Os jovens e o mercado de trabalho.html . BOTELHO.asp http://www. Disponível: http://www.com.br/ http://www.library.br 180 .br/historias/historia_moto. FOB.com.google. (On-line). O DESEMPREGO NO BRASIL E NO MUNDO. Disponível: http://www2. A história do Motociclismo.htm .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful